NOVAS TENDÊNCIAS EM ANÁLISE DO DISCURSO – Dominique Maingueneau

INTRODUÇÃO

Trata-se, geralmente, de escritos antigos, embora o método filológico também possa prestar-se a interpretação de documentos contemporâneos.” “Se a filologia se aplica a problemas verdadeiramente lingüísticos, como a fonética, a morfologia, a sintaxe ou a semântica, é apenas para assegurar uma interpretação exata.”

PRIMEIRA PARTE

A INSTITUIÇÃO DISCURSIVA

1. A CENA ENUNCIATIVA

OS ESTÓICOS COMO AGENTES DA PEQUENA-BURGUESIA (IRONIA): “Reatualiza-se (…) a velha metáfora estóica, segundo a qual a sociedade seria um vasto teatro onde um papel seria atribuído a cada um.”

(*) “A proxêmica propõe-se analisar as relações espaciais e o modo como os sujeitos utilizam-se do espaço para produzir significação.”

muitos trabalhos de inspiração pragmática repousam sobre as ‘intenções’ de falantes cuja consciência seria transparente e a identidade estável, ultrapassando os diversos ‘papéis’ que desempenham.”

pragmática textual alemã”

A redução das condições de produção do discurso às variáveis sócio-psicológicas da situação de comunicação, a importância das interpretações psicologizantes […] inspiradas na sociologia interacional (E. Goffman) são específicas da abordagem pragmática. Trata-se, do ponto de vista da AD, de uma perspectiva que se inclina a apagar a relação com o real da língua e com o real da história, com a base lingüística constitutiva de todo fato discursivo e com os efeitos de conjuntura em uma formação social determinada.”

Uma tal concepção opõe-se a qualquer concepção ‘retórica’: aquela que coloca dois indivíduos face a face e lhes propõe um repertório de ‘atitudes’, de ‘estratégias’ destinadas a atingir esta ou aquela finalidade consciente. Na realidade, para a AD, não é possível definir nenhuma exterioridade entre os sujeitos e seus discursos.”

Admitiu-se, com freqüência e de forma tácita, que os quadros da enunciação apenas duplicavam uma realidade anterior e exterior, que eram a ‘máscara’, o lugar da dissimulação de planos, de interesses inconfessáveis.”

“‘Estamos em um terreno onde a relação social é, desde o início, linguagem.’ Mas como pensar, a seu modo, a ordem do discurso, ao mesmo tempo que remete a posições não-discursivas, não os ‘reflete’ exatamente?” “É preciso admitir que a ‘encenação’ não é uma máscara do ‘real’, mas uma de suas formas, estando este real investido pelo discurso. Aliás, se fosse diferente, a AD não teria razão de existir, ela seria apenas um anexo da sociologia ou da historia, totalmente dedicada a mostrar como as conjunturas se traduzem em enunciados.”

sujeito lingüístico

sujeito genérico

sujeito da formação discursiva

não é possível ler um poema dadaísta em uma reunião do Conselho de Ministros”, mas certamente é possível ler uma ata ministerial numa reunião dadaísta.

por uma virada lógica, o depoimento ‘autêntico’ transforma-se em um texto que parece proceder diretamente de um romance de Céline:

…Sabe-se que é preciso colocar uma cavilha à esquerda, uma cavilha à direita. A gente xinga a chave inglesa quando não funciona. Praguejamos contra nós mesmos, quando nos ferimos, mesmo que não sejamos culpados. Os montes são mal-feitos, mas é assim mesmo.

…Quando a gente passa 8 horas calado, tem tanta coisa a dizer que não consegue mais falar, que as palavras, elas chegam todas juntas à boca.”

segundo o humanismo devoto, as práticas de sociabilidade mundana podem ser sublimadas através da literatura piedosa porque Deus governa a sociedade em todos os seus aspectos.”

(*) “No séc. XVIII, os homens da nobreza trajavam ‘culottes’, espécie de calções que iam até os joelhos, enquanto os homens do povo, que usavam calças comuns, passaram a identificar-se como os ‘sans-culottes’, os que não usavam ‘calções’.”

Na língua, a ‘deixis’ define as coordenadas espaço-temporais implicadas em um ato de enunciação, ou seja, o conjunto de referências articuladas pelo triângulo.

EU <–> TU —- AQUI—-AGORA”

(Pois isto me parece um quadrilátero!)

análise da deixis discursiva:

discurso escolar da III República”

locutor discursivo: III Rep.

destinatário discursivo: aluno cidadão III Rep.

cronografia: III Rep. (1870-1940)

topografia: III Rep. da FRANÇA

discurso da Frente Nacional”

locutor discursivo: “as forças sadias da nação” “o Ocidente”

destinatário discursivo: “as forças sadias da nação” “a direita nacional” “o Ocidente”

cronografia: “o processo de decadência intelectual, moral e física em que estamos engajados” “o Ocidente”

topografia: “a França” “a Europa Cristã” “o Ocidente”

deixis fundadora”

locução fundadora

cronografia fundadora

topografia fundadora

O discurso jansenista, p.ex., supõe uma deixis discursiva referente à corrupção que o humanismo pagão da Renascença impôs à Igreja, enquanto sua deixis fundadora é a Igreja dos primeiros tempos. Seu locutor discursivo, a comunidade de Port Royal, coincide, nos textos, com a locução fundadora, a da primeira comunidade cristã de Jerusalém.”

ethé [ethos] … as propriedades que os oradores se conferiam implicitamente, através de sua maneira de dizer: não o que diziam a propósito deles mesmos, mas o que revelavam pelo próprio modo de se expressarem.”

phronesis: moderação

arete: verdadeiro, “cínico”

O interesse manifestado nestes últimos anos pela oralidade, pelo ritmo, pela entonação, etc., apresenta-se como um retorno daquilo que o estruturalismo havia marginalizado através de suas exclusões epistemológicas.”

2. UMA “PRÁTICA DISCURSIVA”

A noção de ‘prática discursiva’ integra, pois, estes dois elementos: por um lado, a formação discursiva, por outro, o que chamaremos de comunidade discursiva, isto é, o grupo ou a organização de grupos no interior dos quais são produzidos, gerados os textos que dependem da formação discursiva.”

Enquanto a AD procura munir-se de uma teoria da discursividade, desinteressando-se pelas comunidades que constituem seu correlato, a sociologia da produção científica investiga os fundamentos institucionais, ignorando, muito freqüentemente, a dimensão textual.”

SEGUNDA PARTE

A HETEROGENEIDADE

1. A HETEROGENEIDADE MOSTRADA

polifonia quando é possível distinguir em uma enunciação dois tipos de personagens, os enunciadores e os locutores.”

se assino um formulário preparado pela Administração, o eu do locutor deste texto sou eu mesmo”

L é definido como o responsável pela enunciação e considerado apenas em função desta propriedade, enquanto lambda é uma pessoa que pode possuir outras propriedades além dessa.”

Na autocrítica, p.ex., L afirma-se ao desvalorizar lambda.”

Os ‘enunciadores’ são seres cujas vozes estão presentes na enunciação sem que se lhes possa, entretanto, atribuir palavras precisas; efetivamente, eles não falam, mas a enunciação permite expressar seu ponto de vista.” “O fenômeno da ironia poderia ser descrito nestes termos.”

marca de distanciamento”

As Provinciales,(*) p.ex., supõem uma distinção entre o falante (o autor, Pascal) e o locutor (o Amigo do Provincial, o personagem que diz eu)

(*) As Provinciales consistem em um conjunto de 18 cartas de Pascal, inicialmente publicadas anonimamente. Elas atacavam os jesuítas e a moral excessivamente indulgente dos casuístas, ao mesmo tempo que assumiam a defesa dos jansenistas de Port-Royal.”

2. DO DISCURSO AO INTERDISCURSO

Leitura interrompida

DE LINGUA LATINA – M. Terenti Varronis

LIBER V

I.

Quemadmodum vocabula essent imposita rebus in lingua Latina, sex libris exponere institui. De his tris ante hunc feci quos Septumio[?] misi: in quibus est de disciplina, quam vocant etymologiken: quae contra eam dicerentur, volumine primo, quae pro ea, secundo, quae de ea, tertio. In his ad te scribam, a quibus rebus vocabula imposita sint in lingua Latina, et ea quae sunt in consuetudine apud populum et ea quae inveniuntur apud poetas.

Cum unius cuiusque verbi naturae sint duae, a qua re et in qua re vocabulum sit impositum (itaque a qua re sit pertinacia cum requiritur, ostenditur esse a pertendendo; in qua re sit impositum dicitur cum demonstratur, in quo non debet pertendi et pertendit, pertinaciam esse, quod in quo oporteat manere, si in eo perstet, perseverantia sit), priorem illam partem, ubi cur et unde sint verba scrutantur, Graeci vocant etymologian, illam alteram peri semainomenon. De quibus duabus rebus in his libris promiscue¹ dicam, sed exilius de posteriore.

¹ O sentido gramatical é “possuir um só gênero”; a acepção pejorativa do português parece ser inexistente no latim clássico.

Quae ideo sunt obscuriora, quod neque omnis impositio verborum exstat, quod vetustas quasdam delevit, nec quae exstat sine mendo omnis imposita, nec quae recte est imposita, cuncta manet (multa enim verba litteris commutatis sunt interpolata), neque omnis origo est nostrae linguae e vernaculis verbis, et multa verba aliud nunc ostendunt, aliud ante significabant, ut hostis: nam tum eo verbo dicebant peregrinum qui suis legibus uteretur, nunc dicunt eum quem tum dicebant perduellem. [em sentido oposto]

In quo genere verborum aut casu erit illustrius unde videri possit origo, inde repetam. Ita fieri oportere apparet, quod recto casu quom, dicimus impos, obscurius est esse a potentia quam cum dicimus impotem; et eo obscurius fit, si dicas pos quam impos: videtur enim pos significare potius potem quam potentem.”

Quem puerum vidisti formosum, hunc vides deformem in senecta.”

Quem vê formosura na infância, necessariamente há de ver deformidade na velhice.

Tertium seculum non videt eum hominem quem vidit primum.”

Um homem jamais vê três séculos.

Quorum verborum novorum ac veterum discordia omnis in consuetudine communi, quot modis commutatio sit facta qui animadverterit, facilius scrutari origines patietur verborum:¹ reperiet enim esse commutata, ut in superioribus libris ostendi, maxime propter bis quaternas causas. Litterarum enim fit demptione aut additione et propter earum traiectionem aut commutationem, item syllabarum productione aut correptione, denique adiectione aut detrectione; quae quoniam in superioribus libris cuiusmodi essent exemplis satis demonstravi, hic ammonendum esse modo putavi.

¹ Problema (solução?) imutável da língua.

Nunc singulorum verborum origines expediam, quorum quattuor explanandi gradus. Infimus quo populus etiam venit: quis enim non videt unde argentifodinae [excavação de prata] et viocurus? Secundus quo grammatica escendit antiqua, quae ostendit, quemadmodum quodque poeta finxerit verbum, quod confinxerit, quod declinarit »

Tertius gradus, quo philosophia ascendens pervenit atque ea quae in consuetudine communi essent aperire coepit, ut a quo dictum esset oppidum, vicus, via. Quartus, ubi est adytum et initia regis: quo si non perveniam ad scientiam, at opinionem aucupabor, [relativo à caça, caça de palavras] quod etiam in salute nostra nonnunquam facit cum aegrotamus medicus.”

Non enim videbatur consentaneum quaerere me in eo verbo quod finxisset Ennius causam, neglegere quod ante rex Latinus finxisset, cum poeticis multis verbis magis delecter quam utar, antiquis magis utar quam delecter.¹ An non potius mea verba illa quae hereditate a Romulo rege venerunt quam quae a poeta Livio relicta?

¹ A lei do imperador pouco importa em questões lingüísticas: os poetas consolidam a língua muito mais. Quem é Rômulo perto de Lívio, que ressignifica o que outrora se falava?

Igitur quoniam in haec sunt tripertita verba, quae sunt aut nostra aut aliena aut oblivia, de nostris dicam cur sint, de alienis unde sint, de obliviis relinquam [resta ou some, verbo ambíguo]: quorum partim quid tamen invenerim aut opiner scribam. In hoc libro dicam de vocabulis locorum et quae in his sunt, in secundo de temporum et quae in his fiunt, in tertio de utraque re a poetis comprehensa.

Pythagoras Samius ait omnium rerum initia esse bina[rio] ut finitum et infinitum, bonum et malum, vitam et mortem, diem et noctem. Quare item duo status et motus, utrumque quadripertitum: quod stat aut agitatur, corpus, ubi agitatur, locus, dum agitatur, tempus, quod est in agitatu, actio. Quadripertitio magis sic apparebit: corpus est ut cursor, locus stadium qua currit, tempus hora qua currit, actio cursio.” “quod neque unquam tempus, quin fuerit motus: eius enim intervallum tempus; neque motus, ubi non locus et corpus, quod alterum est quod movetur, alterum ubi; neque ubi is agitatus, non actio ibi.”

Na minha opinião Varro começou pelo mais difícil quando fala de planetas e seus deuses-representantes, mais à frente, deveria ter exposto o tema logo em seguida a céu e terra.

II.

Incipiam de locis ab ipsius loci origine. Locus est, ubi locatum quid esse potest, ut nunc dicunt, collocatum. Veteres id dicere solitos apparet apud Plautum:

Filiam habeo grandem dote cassam atque inlocabilem

Neque eam queo locare cuiquam.

Apud Ennium:

O Terra Thraeca, ubi Liberi fanum inclutum

Maro locavit. »

Sic loci muliebres, ubi nascendi initia consistunt.”

III.

Loca naturae secundum antiquam divisionem prima duo, terra et caelum, deinde particulatim utriusque multa. Caeli dicuntur loca supera et ea deorum, terrae loca infera et ea hominum. Ut Asia sic caelum dicitur modis duobus. Nam et Asia, quae non Europa, in quo etiam Syria, et Asia dicitur prioris pars Asiae, in qua est Ionia ac provincia nostra.”

[em itálico, palavras não-dicionarizadas em edições modernas de dicionários de latim clássico.]

Caelum dictum scribit Aelius, quod est caelatum, aut contrario nomine, celatum quod apertum est; non male, quod impositor, multo potius caelare a caelo quam caelum a caelando. Sed non minus illud alterum de celando ab eo potuit dici, quod interdiu celatur, quam quod noctu non celatur.”

cavum caelum”

Quae cava caeli

Signitenentibus conficis bigis;”

In altisono caeli clipeo:

cavum enim clipeum;”

Caeli ingentes [imenso] fornices.”

Quare ut a cavo cavea et caullae et convallis, cavata vallis, et cavernae a cavatione ut cavum, sic ortum, unde omnia apud Hesiodum, a chao cavo caelum.”

IV.

Terra dicta ab eo, ut Aelius scribit, quod teritur. Itaque tera in augurum libris scripta cum R uno.” Vem de terra ou <tera> também o nome “término”.

Igitur tera terra et ab eo poetae appellarunt summa terrae quae sola teri possunt, <sola terrae>.”

et quod terra sit humus, ideo is humatus mortuus, qui terra obrutus; ab eo qui Romanus combustus est, si in sepulcrum, eius abiecta gleba non est aut si os exceptum est mortui ad familiam purgandam, donec in purgando humo est opertum (ut pontifices dicunt, quod inhumatus sit), familia funesta manet. Et dicitur humilior, qui ad humum, demissior, infimus humillimus, quod in mundo infima humus.”

HUMOR, DE HUMO (inclusive segue a curio em Português: “A grafia húmus está correta, sendo a forma mais usada da palavra.”), como “a terra líquida”.

Etimologia: “Do latim humor.oris ‘fluido, linfa’.”

Humor hinc. Itaque ideo Lucilius:

Terra abiit in nimbos humoremque.”

humidam humectam; hinc ager uliginosus humidissimus; hinc udus uvidus; hinc sudor et udor.”

A puteis oppidum ut Puteoli,¹ quod incircum eum locum aquae frigidae et caldae multae, nisi a putore potius, quod putidus odoribus saepe ex sulphure et alumine. Extra oppida a puteis puticuli, quod ibi in puteis obruebantur homines, nisi potius, ut Aelius scribit, puticuli quod putescebant ibi cadavera proiecta, qui locus publicus ultra Esquilias. Itaque eum Afranius putilucos in Togata appellat, quod inde suspiciunt per puteos lumen.

[¹ Atual Pozzuoli. Cidade da província da Nápoles, com cerca de 80 mil hab.]

Lacus lacuna magna, ubi aqua contineri potest. Palus paululum aquae in altitudinem et palam latius diffusae. Stagnum a Graeco, quod ii stegnon quod non habet rimam. Hinc ad villas rutunda stagna, quod rutundum facillime continet, anguli maxime laborant.”

inter haec hoc interest, quod stillicidium eo quod stillatim cadit, flumen quod fluit continue.”

Ab hoc qui circum Aternum habitant, Amiternini appellati. Ab eo qui populum candidatus circum it, ambit, et qui aliter facit, indagabili ex ambitu causam dicit. Itaque Tiberis amnis, quod ambit Martium Campum et urbem; oppidum Interamna dictum, quod inter amnis est constitutum; item Antemnae, quod ante amnis, qua Anio influit in Tiberim, quod bello male acceptum consenuit.”

Sed de Tiberis nomine anceps historia. Nam et suum Etruria et Latium suum esse credit, quod fuerunt qui ab Thebri vicino regulo Veientum, dixerint appellatum, primo Thebrim.”

V. [texto na íntegra]

Ut omnis natura in caelum et terram divisa est, sic caeli regionibus terra in Asiam et Europam. Asia enim iacet ad meridiem et austrum, Europa ad septemtriones et aquilonem. Asia dicta ab nympha, a qua et Iapeto traditur Prometheus. Europa ab Europa Agenoris, quam ex Phoenice, Manlius scribit taurum exportasse, quorum egregiam imaginem ex aere Pythagoras Tarenti.

Europae loca multae incolunt nationes. Ea fere nominata aut translaticio nomine ab hominibus ut Sabini et Lucani, aut declinato ab hominibus, ut Apulia et Latium, aut utrumque, ut Etruria et Tusci. Qua regnum fuit Latini, universus ager dictus Latius, particulatim oppidis cognominatus, ut a Praeneste Praenestinus, ab Aricia Aricinus.

Ut nostri augures publici disserunt, agrorum sunt genera quinque: Romanus, Gabinus, peregrinus, hosticus, incertus. Romanus dictus unde Roma ab Romulo; Gabinus ab oppido Gabiis; peregrinus ager pacatus, qui extra Romanum et Gabinum, quod uno modo in his servantur auspicia; dictus peregrinus a pergendo, id est a progrediendo: eo enim ex agro Romano primum progrediebantur: quocirca Gabinus quoque peregrinus, sed quod auspicia habet singularia, ab reliquo discretus; hosticus dictus ab hostibus; incertus is, qui de his quattuor qui sit ignoratur.”

VI.

Ager dictus in quam terram quid agebant, et unde quid agebant fructus causa; alii, quod id Graeci dicunt agron. (…) Eius finis minimus constitutus in latitudinem pedes quattuor (fortasse an ab eo quattuor, quod ea quadrupes agitur); in longitudinem pedes centum viginti; in quadratum actum et latum et longum esset centum viginti. Multa antiqui duodenario numero finierunt ut duodecim decuriis actum.”

Qua ibant, ab itu iter appellarunt; qua id anguste, semita, ut semiter dictum.”

Ager cultus ab eo quod ibi cum terra semina coalescebant, et ubi non consitus incultus. Quod primum ex agro plano fructus capiebant, campus dictus; posteaquam proxuma superiora loca colere coeperunt, a colendo colles appellarunt; quos agros non colebant propter silvas aut id genus, ubi pecus possit pasci, et possidebant, ab usu salvo saltus nominarunt. Haec etiam Graeci neme, nostri nemora.”

Ager quod videbatur pecudum ac pecuniae esse fundamentum, fundus dictus, aut quod fundit quotquot annis multa. Vineta ac vineae a vite multa. Vitis a vino, id a vi; hinc vindemia, quod est vinidemia aut vitidemia. Seges ab satu, id est semine. Semen, quod non plane id quod inde; hinc seminaria, sementes, item alia.”

Ubi frumenta secta, ut terantur, arescunt, area. Propter horum similitudinem in urbe loca pura areae; a quo potest etiam ara deum, quod pura, nisi potius ab ardore, ad quem ut sit fit ara; a quo ipsa area non abest, quod qui arefacit ardor est solis.”

Arvus et arationes ab arando; ab eo quod aratri vomer sustulit, sulcus; quo ea terra iacta, id est proiecta, porca. [estéril]”

Prata dicta ab eo, quod sine opere parata. Quod in agris quotquot annis rursum, facienda eadem, ut rursum capias fructus, appellata rura.”

VII.

Ubi nunc est Roma, Septimontium nominatum ab tot montibus quos postea urbs muris comprehendit; e quis Capitolinum dictum, quod hic, cum fundamenta foderentur aedis Iovis, caput humanum dicitur inventum.”

quod Saturnia Porta quam Iunius scribit ibi, quam nunc vocant Pandanam, quod post aedem Saturni in aedificiorum legibus privatis parietes postici ‘muri Saturnii’ sunt scripti.

Aventinum aliquot de causis dicunt. Naevius ab avibus, quod eo se ab Tiberi ferrent aves, alii ab rege Aventino Albano, quod ibi sit sepultus, alii Adventinum ab adventu hominum, quod commune Latinorum ibi Dianae templum sit constitutum.”

Merces (dicitur a merendo et aere) huic vecturae qui ratibus transibant quadrans. Ab eo Lucilius scripsit:

Quadrantis ratiti.”

VIII.

Reliqua urbis loca olim discreta, cum Argeorum sacraria septem et viginti in quattuor partis urbis sunt disposita.”

E quis prima scripta est regio Suburana, secunda Esquilina, tertia Collina, quarta Palatina.

In Suburanae regionis parte princeps est Caelius mons a Caele Vibenna, Tusco duce nobili, qui cum sua manu dicitur Romulo venisse auxilio contra Tatium regem. Hinc post Caelis obitum, quod nimis munita loca tenerent neque sine suspicione essent, deducti dicuntur in planum.”

In Sacris Argeorum scriptum sic est:

Oppius Mons: princeps Esquiliis uls lucum Facutalem; sinistra via secundum moerum est.

Oppius Mons: terticeps cis lucum Esquilinum; dexteriore via in tabernola est.

Oppius Mons: quarticeps cis lucum Esquilinum; via dexteriore in figlinis est.

Cespius Mons: quinticeps cis lucum Poetelium; Esquiliis est.

Cespius Mons: sexticeps apud aedem Iunonis Lucinae, ubi aeditumus habere solet.”

Quartae regionis Palatium, quod Pallantes cum Euandro venerunt, qui et Palatini; alii quod Palatini, aborigines ex agro Reatino, qui appellatur Palatium, ibi consederunt; sed hoc alii a Palanto uxore Latini putarunt. Eundem hunc locum a pecore dictum putant quidam; itaque Naevius Balatium appellat.”

Germalum a germanis Romulo et Remo, quod ad ficum ruminalem, et ii ibi inventi, quo aqua hiberna Tiberis eos detulerat [trouxe] in alveolo expositos. Veliae¹ unde essent plures accepi causas, in quis quod ibi pastores Palatini ex ovibus ante tonsuram inventam vellere lanam sint soliti, a quo vellera dicuntur.” Regiões da cidade de Roma aparentemente mais novas que as 4 primeiras.

¹ “Vélia (em latim: Velia ou Veliae; em italiano: Velia) é uma selada ou um esporão que avança do meio da face norte do monte Palatino na direção do monte Ópio, este também um esporão do monte Esquilino, em Roma. Na Antiguidade Tardia, o Vélia foi chamado de Summa Sacra Via (‘cume da Via Sacra’) — ali a via atingia seu ponto mais alto. A colina foi em grande parte desbarrancada na década de 1930 para permitir a abertura da Via dei Fori Imperiali, com um grande muro de contenção visível no limite nordeste da via sustentando o que restou.”

IX. [na íntegra]

Ager Romanus primum divisus in partis tris, a quo tribus appellata Titiensium, Ramnium, Lucerum. Nominatae, ut ait Ennius, Titienses ab Tatio, Ramnenses ab Romulo, Luceres, ut Iunius, ab Lucumone; sed omnia haec vocabula Tusca, ut Volnius, qui tragoedias Tuscas scripsit, dicebat.

Ab hoc partes quoque quattuor urbis tribus dictae, ab locis Suburana, Palatina, Esquilina, Collina; quinta, quod sub Roma, Romilia; sic reliquae triginta ab his rebus quibus in Tribuum Libro scripsi.”

X.

Quod ad loca quaeque his coniuncta fuerunt, dixi; nunc de his quae in locis esse solent immortalia et mortalia expediam, ita ut prius quod ad deos pertinet dicam. Principes dei Caelum et Terra. Hi dei idem qui Aegypti Serapis et Isis, etsi Harpocrates digito significat, ut taceam. Idem principes in Latio Saturnus et Ops.”¹

¹ “Harpócrates (em grego: ρποκράτης), na mitologia grega, é o deus do silêncio, do segredo e da confidencialidade. Foi adaptado pelos antigos gregos a partir da representação infantil do deus egípcio Hórus. Para os antigos egípcios, Hórus representava o Sol recém-nascido, surgindo todo dia ao amanhecer. Quando os gregos conquistaram o Egito, com Alexandre, o Grande, acabaram por transformar o Hórus egípcio numa divindade helenística conhecida como Harpócrates (do egípcio Har-pa-khered ou Heru-pa-khered, lit. ‘Har, a Criança’). Vide entidade feminina equivalente cultuada pelos romanos, a deusa Tácita. (…) Os mesmos primeiros deuses eram chamados, no Lácio, de Saturno e Ops.”

Haec duo Caelum et Terra, quod anima et corpus. Humidum et frigidum terra, sive

Ova parire solet genus pennis condecoratum,

Non animam

Ennius

Post inde venit divinitus pullis

Ipsa anima

Zenon Citieus

Istic est de sole sumptus ignis;

idem de sole:

Isque totus mentis est,

ut humores frigidae sunt humi, ut supra ostendi.

Epicharmus

« Inde omne corpus, ubi nimius ardor aut humor, aut interit aut, si manet, sterile. Cui testis aestas et hiems, quod in altera aer ardet et spica aret, in altera natura ad nascenda cum imbre et frigore luctare non volt et potius ver expectat. Igitur causa nascendi duplex: ignis et aqua. Ideo ea nuptiis in limine adhibentur, quod coniungitur hic, et mas ignis, quod ibi semen, aqua femina, quod fetus ab eius humore, et horum vinctionis vis Venus. »

« Hinc comicus:

Huic victrix Venus, videsne haec?

Non quod vincere velit Venus, sed vincire. Ipsa Victoria ab eo quod superati vinciuntur. Utrique testis poesis, quod et Victoria et Venus dicitur caeligena: Tellus enim quod prima vincta Caelo, Victoria ex eo. Ideo haec cum corona et palma, quod corona vinctum capitis et ipsa a vinctura dicitur vieri, id est vinciri;

IUpiter

IUno

IU interface do usuário

« Hoc idem magis ostendit antiquius Iovis nomen: nam olim Diovis et Diespiter dictus, id est dies pater; a quo dei dicti qui inde, et dius et divum, unde sub divo, Dius Fidius. Itaque inde eius perforatum tectum, ut ea videatur divum, id est caelum. Quidam negant sub tecto per hunc deierare oportere. Aelius Dium Fidium dicebat Diovis filium, ut Graeci Dioskopon Castorem, et putabat hunc esse Sancum ab Sabina lingua et Herculem a Graeca. Idem hic Dis pater dicitur infimus, qui est coniunctus terrae, ubi omnia ut oriuntur ita aboriuntur; quorum quod finis ortuum, Orcus dictus. »

« (Apollinis vocabulum Graecum alterum, alterum Latinum) »

« Hinc Epicharmus Ennii Proserpinam quoque appellat, quod solet esse sub terris. Dicta Proserpina, quod haec ut serpens modo in dexteram modo in sinisteram partem late movetur. Serpere et proserpere idem dicebant »

« Bellona ab bello nunc, quae Duellona a duello. Mars ab eo quod maribus in bello praeest, aut quod Sabinis acceptus ibi est Mamers. Quirinus a Quiritibus. Virtus ut viritus a virilitate. Honos ab onere: itaque honestum dicitur quod oneratum, et dictum:

Onus est honos qui sustinet rem publicam. »

XI. (na íntegra)

Quod ad immortalis attinet, haec; deinceps quod ad mortalis attinet videamus. De his animalia in tribus locis quod sunt, in aere, in aqua, in terra, a summa parte ad infimam descendam. Primum nomina omnium: alites ab alis, volucres a volatu. Deinde generatim: de his pleraeque ab suis vocibus ut haec: upupa, cuculus, corvus, hirundo, ulula, bubo; item haec: pavo, anser, gallina, columba.

Sunt quae aliis de causis appellatae, ut noctua, quod noctu canit et vigilat, lusciniola, [rouxinol] quod luctuose [doloroso] canere existimatur atque esse ex Attica Progne in luctu facta avis. Sic galeritus [peruca] et motacilla, altera quod in capite habet plumam elatam, altera quod semper movet caudam. Merula, quod mera, [simples, puro, único] id est sola, volitat; contra ab eo graguli, quod gregatim, ut quidam Graeci greges gergera. Ficedulae et miliariae [milho] a cibo, quod alterae fico, alterae milio fiunt pingues. [gordura]”

XII. (na íntegra)

Aquatilium vocabula animalium partim sunt vernacula, partim peregrina. Foris muraena [moréia], quod myraina Graece, cybium et thynnus, [atum] cuius item partes Graecis vocabulis omnes, ut melander [atum!] atque uraeon. Vocabula piscium pleraque translata a terrestribus ex aliqua parte similibus rebus, ut anguilla, lingulaca, sudis [estaca; provavelmente um peixe fino e longo]; alia a coloribus, ut haec: asellus, [asinus, jumento recém-nascido] umbra, turdus; alia a vi quadam, ut haec: lupus, canicula, torpedo. Item in conchyliis aliqua ex Graecis, ut peloris, ostrea, echinus. Vernacula ad similitudinem, ut surenae, pectunculi, ungues.”

XIII. (na íntegra)

Sunt etiam animalia in aqua, quae in terram interdum exeant: alia Graecis vocabulis, ut polypus, hippos potamios, crocodilos, alia Latinis, ut rana, anas, [pato] mergus [mergulhão]; a quo Graeci ea quae in aqua et terra possunt vivere vocant amphibia. E quis rana ab sua dicta voce, anas a nando, mergus quod mergendo in aquam captat escam. [dica para os nomes: verbos associados a ações dos animais]

Item alia in hoc genere a Graecis, ut querquedula, [carvalho] quod kerkedes, alcedo, [alcíone] quod ea halkyon; Latina, ut testudo, quod testa tectum hoc animal, lolligo, [chico ou siba, peixe] quod subvolat, littera commutata, primo volligo. Ut Aegypti in flumine quadrupes sic in Latio, nominati lutra et fiber. Lutra, quod succidere dicitur arborum radices in ripa [litoral] atque eas dissolvere: ab luere lutra. Fiber, ab extrema ora fluminis dextra et sinistra maxime quod solet videri, et antiqui februm [febre] dicebant extremum, a quo in sagis fimbriae [franjas, limites] et in iecore [fígado] extremum fibra, fiber dictus.”

XIV.

De animalibus in locis terrestribus quae sunt hominum propria primum, deinde de pecore, tertio de feris scribam. Incipiam ab honore publico.”

Dictator, quod a consule dicebatur, cui dicto audientes omnes essent. Magister equitum, quod summa potestas huius in equites et accensos, ut est summa populi dictator, a quo is quoque magister populi appellatus. Reliqui, quod minores quam hi magistri, dicti magistratus, ut ab albo albatus.”

XV.

Sacerdotes universi a sacris dicti.”

Flamines, quod in Latio capite velato erant semper ac caput cinctum habebant filo, filamines dicti.”

XVI.

In re militari praetor dictus qui praeiret exercitui. Imperator, ab imperio populi qui eos, qui id attemptassent, oppressit hostis. Legati qui lecti publice, quorum opera consilioque uteretur peregre magistratus, quive nuntii senatus aut populi essent. Exercitus, quod exercitando fit melior. Legio, quod leguntur milites in delectu.”

cohors quae in villa, quod circa eum locum pecus cooreretur, tametsi cohortem in villa Hypsicrates dicit esse Graece Xorton apud poetas dictam.”

ETIMOLOGIA DE MILITAR: “Milites, quod trium milium primo legio fiebat ac singulae tribus Titiensium, Ramnium, Lucerum milia militum mittebant.”

DE FORA”: “Auxilium appellatum ab auctu, cum accesserant ei qui adiumento essent alienigenae.”

Insidiae item ab insidendo, cum id ideo facerent quo facilius deminuerent hostis.”

Turma terima (E in V abiit), quod ter deni equites ex tribus tribubus Titiensium, Ramnium, Lucerum fiebant.” Turma vem de terma, que vem de três vezes, remetendo novamente às 3 tribos originárias de Roma.

Classicus a classe, qui item cornu aut lituo canit, [canta] ut tum cum classes comitiis ad comitiatum vocant.”

XVII.

Quae a fortuna vocabula, in his quaedam minus aperta ut pauper, dives, miser, beatus, sic alia.”

Mendicus a minus, cui cum opus est minus nullo est. »

« Opulentus ab ope, cui eae opimae; ab eadem inops qui eius indiget, et ab eodem fonte copis ac copiosus. »

XVIII.

« Artificibus maxima causa ars, id est, ab arte medicina ut sit medicus dictus, a sutrina sutor, non a medendo ac suendo, quae omnino ultima huic rei: hae enim earum rerum radices, ut in proxumo libro aperietur. »

« vestigator a vestigiis ferarum quas indagatur; venator a vento, quod sequitur cervum ad ventum et in ventum. »

XIX.

« Haec de hominibus: hic quod sequitur de pecore, haec. »

Capra carpa, a quo scriptum

Omnicarpae caprae.”

Porcus, quod Sabini dicunt aprunum porcum; proinde porcus, nisi si a Graecis, quod Athenis in libris sacrorum scripta est porke et porkos.”

Pecori ovillo quod agnatus, agnus. Catulus a sagaci sensu et acuto, ut Cato Catulus; hinc canis: nisi quod ut tuba ac cornu, aliquod signum cum dent, canere [que canta, porque late a noite inteira] dicuntur, quod hic item et noctulucus in custodia et in venando signum voce dat, canis dictus.”

XX.

Ferarum vocabula item partim peregrina, ut panthera, leo: utraque Graeca, a quo etiam et rete [realmente] quoddam panther et leaena et muliercula Pantheris et Leaena.”

Camelus suo nomine Syriaco in Latium venit, ut Alexandrea camelopardalis nuper adducta, quod erat figura ut camelus, maculis [manchas] ut panthera.”

Apri [javali] ab eo quod in locis asperis, nisi a Graecis quod hi kaproi.”

Cervi, quod magna cornua gerunt, gervi, [bosque] G in C mutavit ut in multis.”

Lepus, quod Siculi, ut Aeolis quidam Graeci, dicunt leporinLábio de coelho.

Volpes, ut Aelius dicebat, quod volat pedibus.” Pés volantes, que voam.

XXI.

(…)

XXII.

Quod edebant cum pulte, ab eo pulmentum, ut Plautus; hinc pulmentarium dictum: hoc primum defuit pastoribus.” Diz-se que comidas de textura pastosas vêm do fato de virem do pasto (grãos).

XXIII.

(…)

XXIV.

Arma ab arcendo, quod his arcemus hostem. Parma, [escudo redondo] quod e medio in omnis partis par. Conum, [elmo] quod cogitur in cacumen versus. Hasta, quod astans solet ferri. Iaculum, quod ut iaciatur fit. Tragula a traiciendo. Scutum a sectura ut secutum, quod a minute consectis fit tabellis. Umbones [cone, escudo] a Graeco, quod ambones.

Gladium C in G commutato a clade, quod fit ad hostium cladem gladium;”

Balteum, [cinto] quod cingulum [cinto, faixa] e corio [couro] habebant bullatum, balteum dictum.”

Vallum [trincheira] vel quod ea varicare [afastar] nemo posset vel quod singula ibi extrema bacilla furcillata habent figuram litterae V.”

XXV.

Mensam escariam cillibam appellabant; ea erat quadrata ut etiam nunc in castris est; a cibo cilliba dicta; postea rutunda facta, et quod a nobis media et a Graecis mesa, mensa dicta potest; nisi etiam quod ponebant pleraque in cibo mensa.”

ANEDOTAS HISTÓRICAS: “O convite do patrono para que o cliente sentasse a sua mesa nem sempre se dava por consideração, mas era para compor o triclinium que era uma sala reservada para as refeições, com 3 leitos dispostos à volta de uma mesa [baixa], e em cada leito cabiam 3 pessoas. O cliente sentava-se longe do patrono, no 3º colchão, isto é, estavam juntos por estarem debaixo do mesmo teto, mas distante do alcance e dos olhares do seu senhor.”

Segundo CASTELLI a palavra banquete origina-se de banco, parecendo indicar que os banquetes eram ceias onde as pessoas sentavam-se enquanto comiam.” Para mais, ler Juvenal e Petrônio.

trua: buraco

truleo/truleum: trolha, espátula

truella/trulla: pá

Pelvis pedelvis a pedum lavatione.”

A bacia de banho vai dos pés até a pélvis em altura, aproximadamente, por isso recebe esse nome.

XXVI.

Pocula a potione, unde potatio et etiam posca.”

Pocula (copo) vem de potione (beber), daí também poção (uma dose ou drink) e bebida ácida (vinagre).

Vas vinarium grandius sinum ab sinu, [bolso] quod sinum maiorem cavationem quam pocula habebant.”

cartibulum: carteira

columela. |é| (co·lu·me·la) s.f. 1. Pequena coluna. 2. [Botânica] Eixo vertical dos frutos. 3. [Zoologia] Eixo interior das conchas. 4. Botão calcário no centro do cálice das madréporas (colônia de pólipos).

columela”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2023, https://dicionario.priberam.org/columela.”

columella: estela, monólito

XXVII.

Praeterea erat tertium genus mensae item quadratae vasorum; vocabatur urnarium quod urnas cum aqua positas ibi potissimum habebant in culina.”

Urnae dictae, quod urinant in aqua haurienda ut urinator. Urinare est mergi in aquam. [Urinar (antigamente) e(ra) mergulhar na água.]

Amburvom [queima] fictum ab urvo, quod ita flexum ut redeat sursum versus ut in aratro [arado] quod est urvum.”

XXVIII.

Ab sedendo appellatae sedes, sedile, solium, sellae, siliquastrum; deinde ab his subsellium: ut subsipere quod non plane sapit, sic quod non plane erat sella, subsellium. Ubi in eiusmodi duo, bisellium dictum.”

Armarium et armamentarium ab eadem origine, sed declinata aliter.”

XXIX.

Mundus ornatus muliebris dictus a munditia.”

XXX.

amictui: toga

Osce: osco (idioma, etnia)

XXXI.

em azul: adicionado ao SUPERGLOSSÁRIO: LATIM (com mais detalhes)

corbula: coração

falces: foice

fiscina: cesta; de fiscus, fisco.

lumecta lumen

mola: moinho

pistrix: baleia, tubarão, outra criatura marinha

XXXII.

aesculo: planta Aesculus hippocastanum

cypro: cobre

moenia: cidade murada

moerus: muro!

XXXIII.

(…)

XXXIV.

(…)

XXXV.

feretrum: féretro = “Padiola para transportar oferendas, despojos e também os mortos.”

lectulis: diminutivo de cama

opercula: tampa

Qua simplici scansione scandebant in lectum non altum, scabellum; in altiorem, scamnum. Duplicata scansio gradus dicitur, quod gerit in inferiore superiorem. Graeca sunt peristromata et peripetasmata, sic alia quae item convivii causa ibi multa.” Indicativo de que escabelo e scanner têm uma etimologia comum, quem diria!

Há um leito muito baixo, mais fácil de subirem, que chamamos escabelo [em português: apenas banco baixo]; se o leito for mais alto, se chamo um escano.” OBS: Em português ESCABELO = ESCANO! Então, para a frase fazer sentido talvez tivéssemos de dizer beliche ou apenas uma cama alta.

XXXVI.

Aeris minima pars sextula, quod sexta pars unciae. [uma onça ou a duodécima parte] Semuncia, [meia onça, um vinte quatro avos; figurativamente, ‘quase nada’] quod dimidia pars unciae: se valet dimidium, ut in selibra [meia libra] et semodio. [meio pedaço, pequena porção]

quinarii, quod quinos; sestertius, quod semis tertius. Dupondius [duas libras] enim et semis antiquus sestertius:” O nome da moeda significa, literalmente “1/6”.

Eadem pecunia vocabulum mutat: nam potest item dici dos, arrabo, [verbo depositar] merces, [salário, renda] corollarium. [gorjeta, pequena gratificação] Dos, si nuptiarum causa data [dote]; haec Graece dotine: ita enim hoc Siculi. [Sicília] Ab eodem donum [dom]: nam Graece ut Aeolis doneion, et ut alii doma [casa] et ut Attici dosin. Arrabo sic data, ut reliquum reddatur: hoc verbum item a Graeco arrhabon.”

Lucrum ab luendo, [jogando, de ludo] si amplius quam ut exsolveret, quanti esset, receptum. Detrimentum a detritu, quod ea quae trita minoris pretii.”

Multa ea pecunia quae a magistratu dicta, ut exigi posset ob peccatum; quod singulae dicuntur, appellatae eae multae, et quod olim vinum dicebant multam: itaque cum in dolium aut culleum vinum addunt rustici, prima urna addita dicunt etiam nunc. Poena a poeniendo aut quod post peccatum sequitur. Pretium, quod emptionis aestimationisve causa constituitur, dictum a peritis, quod hi soli facere possunt recte id.”

Corollarium, si additum praeter quam quod debitum; eius vocabulum fictum a corollis, [grinalda] quod eae, cum placuerant actores, in scaena dari solitae. Praeda [caça, cativo de guerra, presa] est ab hostibus capta, quod manu parta, ut parida praeda. Praemium a praeda, quod ob recte quid factum concessum.”

Tributum dictum a tribubus, quod ea pecunia, quae populo imperata erat, tributim a singulis pro portione census exigebatur.”

Hoc ipsum stipendium a stipe [estoque] dictum, quod aes quoque stipem dicebant:”

XXXVII.

(…)

RELEITURA CRÍTICA APÓS FECHAMENTO DE UM CAPÍTULO

Brincadeira proposta: traduzir a primeira frase de cada título:

I. Quemadmodum vocabula essent imposita rebus in lingua Latina, sex libris exponere institui.

A etimologia de algumas palavras do Latim, a essa exposição se destinam os seis próximos livros. [fala dos livros 5 a 10, não dos capítulos 1 a 6 deste livro 5.]

II. Incipiam de locis ab ipsius loci origine.

Comecemos com os lugares que se originaram de nomes próprios de maneira lógica.

III. Loca naturae secundum antiquam divisionem prima duo, terra et caelum, deinde particulatim utriusque multa.

Segundo a antiga divisão, a natureza ocupa dois lugares, céu e terra, porém as particularidades dessa divisão são múltiplas.

IV. Terra dicta ab eo, ut Aelius scribit, quod teritur. Itaque tera in augurum libris scripta cum R uno. (obscuro)

Aélio (?) testemunha: a Terra provém do solo (território, terreno).¹ Daí que nos livros dos augúrios, <terra> era escrita com um <r> apenas.

¹ Como tera equivale a território e terreno em português, este ponto em que a língua latina evoluiu de 1 a 2 “r” se perdeu para nós. Como veremos mais abaixo, podemos “forçar” uma etimologia ligada a outro termo usado para dividir porções de terra, acre, este sim termo que carrega apenas uma consoante e tem uma ortoepia diferente.

V. Ut omnis natura in caelum et terram divisa est, sic caeli regionibus terra in Asiam et Europam.

Assim como toda a natureza (o mundo) está dividido em céu e terra, as regiões em que há terra e há céu são propriamente duas: Ásia e Europa.¹

¹ Obviamente já então se conhecia a África, mas esta era tida como a Europa então.

VI. Ager dictus in quam terram quid agebant, et unde quid agebant fructus causa; alii, quod id Graeci dicunt agron.

Acre [origem do termo agro] se diz de toda porção de terra trabalhada, e que uma vez trabalhada dá frutos [unidade mínima convencionada como necessária para gerar o alimento dos habitantes do local]. É o que os gregos denominavam agron.

VII. Ubi nunc est Roma, Septimontium nominatum ab tot montibus quos postea urbs muris comprehendit; e quis Capitolinum dictum, quod hic, cum fundamenta foderentur aedis Iovis, caput humanum dicitur inventum.

Em Roma há sete montanhas ou colinas que com o passar do tempo se tornaram grandes cidades muradas. Durante a construção do santuário dedicado a Jove (Zeus, Júpiter), no Monte Capitolino, diz-se que no local foi encontrada uma cabeça humana.

VIII. Reliqua urbis loca olim discreta, cum Argeorum sacraria septem et viginti in quattuor partis urbis sunt disposita.

O restante da cidade, composto de 27 santuários dos Argivos, passaram a constituir 4 zonas romanas.

IX. Ager Romanus primum divisus in partis tris, a quo tribus appellata Titiensium, Ramnium, Lucerum.

A parte rural de Roma foi primeiro dividida em três, cujas tribos representantes se chamavam Titienses, Ramneus e Luqueus/Lucerenses.

X. Quod ad loca quaeque his coniuncta fuerunt, dixi; nunc de his quae in locis esse solent immortalia et mortalia expediam, ita ut prius quod ad deos pertinet dicam.

Há lugares que são denominados por nomes mortais, e lugares denominados por nomes imortais; os segundos são ditos como sedes da regência de algum deus.

XI. Quod ad immortalis attinet, haec; deinceps quod ad mortalis attinet videamus.

O quanto havia para se falar dos imortais está acima; doravante falemos dos mortais.

XII. Aquatilium vocabula animalium partim sunt vernacula, partim peregrina.

As palavras que nomeiam os animais aquáticos são em parte vernáculos, em parte de origem estrangeira.

XIII. Sunt etiam animalia in aqua, quae in terram interdum exeant: alia Graecis vocabulis, ut polypus, hippos potamios, crocodilos, alia Latinis, ut rana, anas, mergus; a quo Graeci ea quae in aqua et terra possunt vivere vocant amphibia.

Há animais que vivem tanto na água quanto na terra, e seus nomes são derivados do grego, como em pólipo, hipopótamo, crocodilo; ou se originam do latim, como rã, ?, ?; . Os gregos chamavam a quem vive nos dois meios de anfíbios (i.e. vida dupla).

XIV. De animalibus in locis terrestribus quae sunt hominum propria primum, deinde de pecore, tertio de feris scribam.

De animais cujo habitat é a terra, primeiro falaremos do próprio homem, depois dos animais domesticados, e em terceiro lugar das feras.

XV. Sacerdotes universi a sacris dicti.

O sacerdote é considerado pelos pios universal.

XVI. In re militari praetor dictus qui praeiret exercitui.

Em assuntos militares podemos dizer principalmente as funções dos que executam ou realizem exercícios conforme segue.

XVII. Quae a fortuna vocabula, in his quaedam minus aperta ut pauper, dives, miser, beatus, sic alia.

A palavra fortuna diz respeito a quem tem mais ou menos sorte, sendo aquele com fortuna considerado isento de miséria, divino, beato, e assim por diante.

XVIII. Artificibus maxima causa ars, id est, ab arte medicina ut sit medicus dictus, a sutrina sutor, non a medendo ac suendo, quae omnino ultima huic rei: hae enim earum rerum radices, ut in proxumo libro aperietur.

XIX. Haec de hominibus: hic quod sequitur de pecore, haec.

Falaremos agora do homem; em seguida dos animais domésticos ou rebanhos.

XX. Ferarum vocabula item partim peregrina, ut panthera, leo: utraque Graeca, a quo etiam et rete quoddam panther et leaena et muliercula Pantheris et Leaena.

Feras é uma classe de palavras tanto peregrina, como pantera, leão; quanto grega, como se por pantera e leão. Esses animais machos também têm seus femininos, pantera (pantheris) e leoa.

XXI. Proxima animalia sunt ea quae vivere dicuntur neque habere animam, ut virgulta.

As próximas divisões de animais dizem respeito àqueles que têm e àqueles que não têm circulação sangüínea ou mesmo seiva (no caso vegetal).

XXII. Quae manu facta sunt dicam, de victu, de vestitu, de instrumento, et si quid aliud videbitur his aptum.

Aquilo que é fabricado pela mão, que se diz manual, pode ser alimentos, vestidos, instrumentos, e tudo que colabora no cotidiano do homem.

XXIII. Lana Graecum, ut Polybius et Callimachus scribunt.

Lã vem do grego, como Políbio e Calímaco nos lembram.

XXIV. Arma ab arcendo, quod his arcemus hostem.

A palavra guerra se origina da idéia de “manter afastados, à distância (os inimigos), protegidos (os amigos)”.

XXV. Mensam escariam cillibam appellabant; ea erat quadrata ut etiam nunc in castris est; a cibo cilliba dicta; postea rutunda facta, et quod a nobis media et a Graecis mesa, mensa dicta potest; nisi etiam quod ponebant pleraque in cibo mensa.

A “mesa de carne” era chamada de cama ou leito. Ela era de formato quadrado, como aliás persiste sendo o costume no campo. O nome “mesa de carne” vem do prato de comida chamado “cilliba”. [?, frase controversa, além de sentido da palavra não claro] Com o tempo a mesa de carne tornou-se redonda. Em latim pode-se falar, igualmente, media, além de mensa, mas os gregos chamam mesa. [curiosa reversão com o português! os romanos comiam onde deviam dormir e dormiam onde deviam comer.] A diferença é que na Grécia, respeitando o significado do nome, realmente se serve comida à mesa. Nós romanos herdamos apenas a nomenclatura, sem o respectivo costume.

XXVI. Mensa vinaria rotunda nominabatur cilliba ante, ut etiam nunc in castris.

A mesa redonda em que se punham as uvas ou o vinho também se chamava cilliba na cidade como no campo; ultimamente, porém, se tornou mesa vinária na cidade.

XXVII. Praeterea erat tertium genus mensae item quadratae vasorum; vocabatur urnarium, quod urnas cum aqua positas ibi potissimum habebant in culina.

Havia ainda um terceiro gênero de mesa, quadrada e em forma de vaso, chamada urnário. As urnas, recipientes para armazenar água, maioria das vezes alojados na cozinha, ficavam sobre o urnário.

XXVIII. Ab sedendo appellatae sedes, sedile, solium, sellae, siliquastrum; deinde ab his subsellium: ut subsipere quod non plane sapit, sic quod non plane erat sella, subsellium.

De sentar são chamados assentos, sofás, cadeiras, trenós. Subsellium: tomar um assento, assentar-se, o que não faz muito sentido, já que quem senta, senta sobre e não sob alguma coisa!

XXIX. Mundus ornatus muliebris dictus a munditia.

A palavra “ornato” ou “decoro” (decoração) as mulheres tiraram de “pureza”.

XXX. Prius deinde indutui, tum amictui quae sunt tangam.

Há uma roupa íntima que se oculta por debaixo da roupa habitual, chamada tanga.

XXXI. Instrumenta rustica quae serendi aut colendi fructus causa facta.

Instrumentos agrícolas que servem para semear e colher.

XXXII. Aedificia nominata a parte ut multa: ab aedibus et faciendo maxime aedificium.

Existem muitos tipos de edifícios: desde o menor (casa) ao maior (prédio).

XXXIII. Quoniam vicus constat ex domibus, nunc earum vocabula videamus.

Uma vila é um conjunto de casas, então vejamos alguns nomes de vilas.

XXXIV. [frase corrompida]

XXXV. Super lectulis origines quas adverti, hae: lectica, quod legebant unde eam facerent stramenta atque herbam, ut etiam nunc fit in castris; lecticas, ne essent in terra, sublimis in his ponebant; nisi ab eo quod Graeci antiqui dicebant lektron lectum potius.

Há várias palavras para designar leito ou cama. O mais antigo se refere ao móvel feito de madeira e grama usado no campo. Mas esses leitos ficavam no próprio chão. Depois se tornou costume suspender o leito e chamá-lo cama, com pernas para colocar a posição do corpo deitado alguns centímetros acima do solo.

XXXVI. Pecuniae signatae vocabula sunt aeris et argenti haec: as ab aere; dupondius ab duobus ponderibus, quod unum pondus assipondium dicebatur; id ideo quod as erat libra pondo.

Pecúnia ou dinheiro é feito de prata forjada, e tem esses nomes: libra dupla, porque tem dois pesos; ou libra, pois consiste de um peso. Libra, o nome, vem de “peso”, a balança, por ser considerado um objeto pesado (as moedas).

XXXVII.

Ad vocabula quae pertinere sumus rati ea quae loca et ea quae in locis sunt satis ut arbitror dicta, quod neque parum multa sunt aperta neque, si amplius velimus, volumen patietur.

Aqui tratamos das palavras que pertencem a um local ou derivam de algum local, das que podemos determinar. Muitas outras têm origem indeterminada, este volume de descobertas sendo pequeno em comparação.

LIBER VI

I.

Origines verborum quae sunt locorum et ea quae in his in priore libro scripsi.”

No livro anterior falamos de palavras que designavam locais.

Huius rei auctor satis mihi Chrysippus et Antipater et illi in quibus, si non tantum acuminis, at plus litterarum, in quo est Aristophanes et Apollodorus, qui omnes verba ex verbis ita declinari scribunt, ut verba litteras alia assumant, alia mittant, alia commutent, ut fit in turdo, [tordo, pássaro] in turdario et turdelice. Sic declinantes Graeci nostra nomina dicunt Lucienum Leukienon et Quinctium Kointion, et nostri illorum Aristarchon Aristarchum et Diona Dionem; sic, inquam, consuetudo nostra multa declinavit a vetere, ut ab solu solum, ab Loebeso Liberum, ab Lasibus Lares: quae obruta vetustate ut potero eruere conabor. [tentar resgatar]

II.

Dicemus primo de temporibus, tum quae per ea fiunt, sed ita ut ante de natura eorum: ea enim dux fuit ad vocabula imponenda homini.”

Primeiro falaremos sobre os tempos, depois sobre os eventos que se desdobraram neles, em sua essência: estes eventos guiaram o homem a criar as palavras.”

Duo motus solis: alter cum caelo, quod movetur ab Iove rectore, qui Graece Dia appellatur, cum ab oriente ad occasum venit, quo tempus id ab hoc deo dies appellatur. Meridies ab eo quod medius dies. D antiqui, non R in hoc dicebant, ut Praeneste incisum in solario vidi. Solarium dictum id, in quo horae in sole inspiciebantur, vel horologium ex aqua, quod Cornelius in Basilica Aemilia et Fulvia inumbravit. Diei principium mane [manhã], quod tum manat dies ab oriente, nisi potius quod bonum antiqui dicebant manum, ad cuiusmodi religionem Graeci quoque cum lumen affertur, solent dicere phos agathon.

Suprema summum diei, id ab superrimo. Hoc tempus XII Tabulae dicunt occasum esse solis; sed postea lex Plaetoria id quoque tempus esse iubet supremum quo praetor in Comitio supremam pronuntiavit populo. Secundum hoc dicitur crepusculum a crepero [escuro, incerto]: id vocabulum sumpserunt a Sabinis, unde veniunt Crepusci nominati Amiterno, qui eo tempore erant nati, ut Lucii prima luce in Reatino; crepusculum significat dubium; ab eo res dictae dubiae creperae, quod crepusculum [obscuridade, luz fraca] dies etiam nunc sit an iam nox multis dubium.”

id tempus dictum a Graecis hespera, Latine vesper; ut ante solem ortum quod eadem stella vocatur iubar, [estrela-da-manhã, glória, majestade] quod iubata”

Inter vesperuginem et iubar dicta nox intempesta, ut in Bruto Cassii quod dicit Lucretia:

Nocte intempesta nostram devenit domum.”

Intempestam Aelius dicebat cum tempus agendi est nullum”

solstitium, quod sol eo die sistere videbatur, quo ad nos versum proximus est. Sol cum venit in medium spatium inter brumam et solstitium, quod dies aequus fit ac nox, aequinoctium dictum. Tempus a bruma ad brumam dum sol redit, vocatur annus, quod ut parvi circuli anuli, sic magni dicebantur circites ani, unde annus.

Huius temporis pars prima hiems, quod tum multi imbres; hinc hibernacula, hibernum; vel, quod tum anima quae flatur omnium apparet, ab hiatu hiems. Tempus secundum ver, quod tum virere, incipunt virgulta ac vertere se tempus anni; nisi quod Iones dicunt er ver. Tertium ab aestu aestas; hinc aestivum; nisi forte a Graeco aithesthai. Quartum autumnus, ab augendis hominum opibus dictus frugibusque coactis, quasi auctumnus.

Ut annus ab sole, sic mensis a lunae motu dictus, dum ab sole profecta rursus redit ad eum. Luna quod Graece olim dicta mene, unde illorum menes, ab eo nostri.” A relação indelével entre menstruação e meses, lua e mulher/sexo.

Lustrum nominatum tempus quinquennale a luendo, id est solvendo, quod quinto quoque anno vectigalia et ultro tributa per censores persolvebantur. Seclum spatium annorum centum vocarunt, dictum a sene, quod longissimum spatium senescendorum hominum id putarunt. Aevum ab aetate omnium annorum (hinc aeviternum, quod factum est aeternum): quod Graeci aiona, id ait Chrysippus esse aei on.”

III.

Ad naturale discrimen civilia vocabula dierum accesserunt. Dicam prius qui deorum causa, tum qui hominum sunt instituti. Dies Agonales per quos rex in Regia arietem immolat, dicti ab <agon,> eo quod interrogat minister sacrificii <agone?>: nisi si a Graeca lingua, ubi agon princeps, ab eo quod immolatur a principe civitatis et princeps gregis immolatur. Carmentalia nominantur quod sacra tum et feriae Carmentis.”

Descreveremos algumas palavras do cotidiano que perderam seu sentido com o passar do tempo. Primeiro falarei das palavras cuja função é se referir aos deuses, depois daquelas que se referem ao homem em si. Agon vem do costume do rei, periodicamente, sacrificar um carneiro. A razão disso é que aquele que ministra o sacrifício pergunta agone? (“devo seguir adiante/agir?”). Na Grécia o sacrifício em honra da polis tinha como objeto sacrificado o melhor carneiro do rebanho. Esses rituais se chamam Carmentalia, devido aos feriados e banquetes serem acompanhados por música.

Rex cum ferias menstruas Nonis Februariis edicit, hunc diem februatum appellat; februm Sabini purgamentum, et id in sacris nostris verbum non ignotum: nam pellem capri, cuius de loro caeduntur puellae Lupercalibus, veteres februm vocabant, et Lupercalia Februatio, ut in Antiquitatum libris demonstravi.”

Feralia ab inferis et ferendo [repouso], quod ferunt tum epulas [mesa, banquete] ad sepulcrum quibus ius ibi parentare.”

LEMBRETE DE QUE MARÇO ERA O PRIMEIRO MÊS (setembrum, octobrum, novembrum, decembrum): “Terminalia, quod is dies anni extremus constitutus: duodecimus enim mensis fuit Februarius et cum intercalatur inferiores quinque dies duodecimo demuntur mense.”

In libris Saliorum quorum cognomen Agonensium, forsitan hic dies ideo appelletur potius Agonia.” Os dias do sacrifício agonístico descrito no caput eram no mês de agosto, daí seu nome.

Palilia dicta a Pale, quod ei feriae, ut Cerialia a Cerere.”

Quinquatrus minusculae dictae Iuniae Idus ab similitudine maiorum, quod tibicines tum feriati vagantur per urbem et conveniunt ad Aedem Minervae.”

Aliquot huius diei vestigia fugae in sacris apparent, de quibus rebus Antiquitatum Libri plura referunt. Nonae Caprotinae, quod eo die in Latio Iunoni Caprotinae mulieres sacrificant et sub caprifico faciunt;” Capricórnio, antigo mês nove.

Furrinalia a Furrina, quod ei deae feriae publicae, dies is”

Volcanalia a Volcano, quod ei tum feriae et quod eo die populus pro se in ignem animalia mittit.” Lançam animais à pira para comemorar a data.

Volturnalia a deo Volturno, cuius feriae tum. Octobri mense Meditrinalia dies dictus a medendo, quod Flaccus flamen Martialis dicebat hoc die solitum vinum novum et vetus libari et degustari medicamenti causa; quod facere solent etiam nunc multi cum dicunt:

Novum vetus vinum bibo: novo veteri morbo medeor. [Curarei o velho pelo novo: a velha doença se cura com o novo vinho (época da colheita das vinhas)]

Conexão de novo com (mês) nove.

De statutis diebus dixi; de annalibus nec die statutis dicam. » Onde termina o divino e começa o humano.

« Paganicae eiusdem agriculturae causa susceptae, ut haberent in agris omnis pagus, unde Paganicae dictae.” Até a origem de pagão é divina (aqueles que cultivavam o solo)!

IV.

De his diebus satis; nunc iam, qui hominum causa constituti, videamus. Primi dies mensium nominati Kalendae, quod his diebus calantur eius mensis Nonae a pontificibus, quintanae an septimanae sint futurae, in Capitolio in Curia Calabra sic: <Die te quinti kalo Iuno Covella> aut <Septimi die te kalo Iuno Covella.>

Nonae appellatae aut quod ante diem nonum Idus semper, aut quod, ut novus annus Kalendae Ianuariae ab novo sole appellatae, novus mensis ab nova luna Nonae; eodem die in Urbem qui in agris ad regem conveniebat populus. Harum rerum vestigia apparent in sacris Nonalibus in Arce, quod tunc ferias primas menstruas, quae futurae sint eo mense, rex edicit populo. Idus ab eo quod Tusci Itus, vel potius quod Sabini Idus dicunt.”

Agora falaremos dos nomes relativos aos dias cuja causa é o próprio homem. Os primeiros dias de cada mês são chamados de calendas, havendo uma celebração religiosa apontada para cada dia nono, seja ela realizada no Capitólio ou na Cúria Calábria (…)

No nono dia as pessoas do campo iam à cidade ver o rei. (…)”

Contrarii horum vocantur dies nefasti, per quos dies nefas fari praetorem ‘do’, [dar] ‘dico’, [dizer] ‘addico’; [adicionar] itaque non potest agi: necesse est aliquo eorum uti verbo, cum lege quid peragitur.” O adjetivo nefasto tem uma curiosa etimologia: deriva de dia sabático ou ocioso, de nada-fazer. Depois disso sua conotação ficou poluída: um dia nefasto (onde com certeza muitas coisas acontecem).

Intercisi dies sunt per quos mane et vesperi est nefas, medio tempore inter hostiam caesam et exta porrecta fas; a quo quod fas tum intercedit aut eo intercisum nefas, intercisi. Dies qui vocatur sic <Quando rex comitiavit fas,> is dictus ab eo quod eo die rex sacrificio ius dicat ad Comitium, ad quod tempus est nefas, ab eo fas: itaque post id tempus lege actum saepe.

Dies qui vocatur <Quando stercum delatum fas,> ab eo appellatus, quod eo die ex Aede Vestae stercus everritur et per Capitolinum Clivum in locum defertur certum. Dies Alliensis ab Allia fluvio dictus: nam ibi exercitu nostro fugato Galli obsederunt Romam.” Toda sociedade tem seu dia do lixo.

Quod ad singulorum dierum vocabula pertinet dixi. Mensium nomina fere sunt aperta, si a Martio, ut antiqui constituerunt, numeres: nam primus a Marte. Secundus, ut Fulvius scribit et Iunius, a Venere, quod ea sit Aphrodite; cuius nomen ego antiquis litteris quod nusquam inveni, magis puto dictum, quod ver omnia aperit, Aprilem. Tertius a maioribus Maius, quartus a iunioribus dictus Iunius.” Explicando os nomes dos meses, quando o calendário possui apenas 10, que não aludem diretamente a números: na verdade o número continua sendo a razão de seu batismo, via símbolos. Marte, deus da guerra, ou o planeta, é associado ao número 1 (março). De alguma forma bem sinuosa, o 2 (abril) é associado a Afrodite – mês do amor! O número 3 a Maia (despontar da primavera no hemisfério norte), e o 4 a Juno ou Hera, Iunio.

Ad hos qui additi, prior a principe deo Ianuarius appellatus; posterior, ut idem dicunt scriptores, ab diis inferis Februarius appellatus, quod tum his parentetur; ego magis arbitror Februarium a die februato, quod tum februatur populus, id est Lupercis nudis lustratur antiquum oppidum Palatinum gregibus humanis cinctum.” Sobre a reforma que tornou o ano duodecimal: o cristianismo, com Januário, influenciou a nomenclatura do (agora) 1º mês. Februa, no entanto, segue o panteão heleno: é a mãe de Marte, que vem depois, como o filho vem depois. Februatur é um tanto ambíguo, pois é relativo a febre, e fevereiro é normalmente um mês de festas populares (e, insinua-se, promiscuidade). Porém é lógico pensar que a mãe do deus da guerra tivesse um atributo ligado ao calor anormal do corpo ou a algum tipo de comoção!

V.

Quod ad temporum vocabula Latina attinet, hactenus sit satis dictum; nunc quod ad eas res attinet quae in tempore aliquo fieri animadverterentur, dicam, ut haec sunt: legisti, cursus, ludens; de quis duo praedicere volo, quanta sit multitudo eorum et quae sint obscuriora quam alia.”

Quanto às demais nomenclaturas latinas associadas ao tempo, já falamos o suficiente. Discorrerei agora sobre alguns casos isolados de verbos. Ler, correr, jogar: para essas ações há uma infinidade de verbos e demais palavras derivadas; e as etimologias são uma mais obscura que a outra.

TEMPORA & CASUS

Cum verborum declinatuum genera sint quattuor, unum quod tempora adsignificat neque habet casus, ut ab lego leges, lege; alterum quod casus habet neque tempora adsignificat, ut ab lego lectio et lector; tertium quod habet utrunque et tempora et casus, ut ab lego legens, lecturus; quartum quod neutrum habet, ut ab lego lecte ac lectissime: horum verborum si primigenia sunt ad mille, ut Cosconius scribit, ex eorum declinationibus verborum discrimina quingenta milia esse possunt ideo, quod a singulis verbis primigeniis circiter quingentae species declinationibus fiunt.” De mil palavras em sua forma original, é afirmado por Quinto Coscônio que, devido aos casos e flexões idiomáticas, o latim poderia ter por volta de 500 mil palavras únicas, uma vez que há 500 maneiras de flexioná-las.

Quare si quis primigeniorum verborum origines ostenderit, si ea mille sunt, quingentum milium simplicium verborum causas aperuerit una; sin nullius, tamen qui ab his reliqua orta ostenderit, satis dixerit de originibus verborum, cum unde nata sint, principia erunt pauca, quae inde nata sint, innumerabilia.” Nada se pode dizer sobre a origem de uma palavra, per se. A etimologia e a filologia não tratam disso: tratam do estudo das transformações, até as mais remotas registradas.

A quibus iisdem principiis antepositis praeverbiis paucis immanis verborum accedit numerus, quod praeverbiis inmutatis additis atque commutatis aliud atque aliud fit: ut enim et processit, et recessit, sic accessit et abscessit; item incessit et excessit, sic successit et decessit, discessit et concessit. Quod si haec decem sola praeverbia essent, quoniam ab uno verbo declinationum quingenta discrimina fierent, his decemplicatis coniuncto praeverbio ex uno quinque milia numero efficerentur, ex mille ad quinquagies centum milia discrimina fieri possunt.” Às palavras flexionáveis Varro adiciona os casos das palavras “únicas”, imutáveis, que podem se combinar com as primeiras para gerar novas palavras (advérbios). Exemplos: pro, re, ac, ab, in, ex, su[b/p], de, dis, con… Logo, se há hipotéticas 500 flexões que possam derivar de uma só palavra, mesmo em havendo tão-só 10 partículas desse tipo (já uma subestimação), o número de flexões da mesma palavra, procedendo a essa multiplicação, atingiria a assustadora cifra dos 5 mil!!

Democritus, Epicurus, item alii qui infinita principia dixerunt, quae unde sint non dicunt, sed cuiusmodi sint, tamen faciunt magnum: quae ex his constant in mundo, ostendunt. Quare si etymologus principia verborum postulet mille, de quibus ratio ab se non poscatur, et reliqua ostendat, quod non postulat, tamen immanem verborum expediat numerum.” Demócrito e Epicuro diziam que havia potencialmente infinitos mundos. Varro brinca com essa noção: há então infinitos mundos com infinitas palavras novas, incalculáveis.

Verborum quae tempora adsignificant ideo locus, difficillimus etyma, quod neque his fere societas cum Graeca lingua, neque vernacula ea quorum in partum memoria adfuerit nostra; e quibus, ut dixi, quae poterimus.”

VI.

Incipiam hinc primum quod dicitur ago. Actio ab agitatu facta. Hinc dicimus <agit gestum tragoedus,> et <agitantur quadrigae>; hinc <agitur pecus pastum.> Qua vix agi potest, hinc angiportum; qua nil potest agi, hinc angulus, vel quod in eo locus angustissimus, cuius loci is angulus.”

Dizemos “o piloto da quadriga age” e “as quadrigas estão agitadas”, pois a ação vem da idéia de agitação [não seria o contrário?]. E ainda “o gado pasta”. Beco ou viela (ango-portus) vem de “impossibilidade de andar”, caminho estreito, apertado ou sem-saída. [Ango é “(eu) aperto” e portum “entrada, passagem, abrigo”] De onde não se pode agir ou fazer nada a respeito, diz-se ângulo, [canto, mas também recinto e sala de aula!] sendo seu extremo (o ângulo muito apertado) o angustissimus [sem tradução], que quer dizer desfiladeiro, dificuldade, e começa a tanger o significado de angústia, que não por acaso possui o mesmo prefixo, portanto: dificuldade, grande aflição.”

Curare a cura dictum. Cura, quod cor urat; [coração que arde, inflama]¹ curiosus,² quod hac praeter modum utitur. Recordari, rursus in cor revocare. Curiae, ubi senatus rempublicam curat, et illa ubi cura sacrorum publica; ab his curiones. [I – de curĭa: Curião, sacerdote da cúria. Pregoeiro público. II – de cura: O que é consumido por preocupações, emagrecido por preocupações.]

¹ Inplicações heideggerianas.

² Dois significados antitéticos: curiosus,-a,-um. (cura). Que toma cuidado, cuidadoso. Excessivamente cuidadoso, minucioso. Indiscreto, impertinente.”

VII.

Narro, cum alterum facio narum, a quo narratio, per quam cognoscimus rem gestam.”

Hinc fana nominata, quod pontifices in sacrando fati sint finem; hinc profanum, quod est ante fanum coniunctum fano; hinc profanatum quid in sacrificio atque Herculi decuma appellata ab eo est quod sacrificio quodam fanatur, id est ut fani lege fit. Id dicitur polluctum, quod a porriciendo est fictum: cum enim ex mercibus libamenta porrecta sunt Herculi in aram, tum polluctum est, ut cum profanatum dicitur, id est proinde ut sit fani factum: itaque ibi olim in fano consumebatur omne quod profanatum erat, ut etiam nunc fit quod praetor urbanus quotannis facit, cum Herculi immolat publice iuvencam.”

Hinc dicuntur eloqui ac reloqui in fanis Sabinis, e cella dei qui loquuntur. Hinc dictus loquax, qui nimium loqueretur; hinc eloquens, qui copiose loquitur; hinc colloquium, cum veniunt in unum locum loquendi causa; hinc adlocutum mulieres ire aiunt, cum eunt ad aliquam locutum consolandi causa; hinc quidam loquelam dixerunt verbum quod in loquendo efferimus.”

Pronuntiare dictum a pro et nuntiare; pro idem valet quod ante, ut in hoc: proludit. Ideo actores pronuntiare dicuntur, quod in proscaenio enuntiant poetae cogitata, quod maxime tum dicitur proprie, novam fabulam cum agunt. Nuntius enim est a novis rebus nominatus, quod a verbo Graeco potest declinatum; ab eo itaque Neapolis illorum Novapolis ab antiquis vocitata nostris.” O verbo nunciar existe, mas é obsoleto em língua portuguesa! Assim como prenunciar, que não é o mesmo que vaticinar (vaticinar uma premonição, como o cognato poderia levar a crer) nem pronunciar.

Sic ab eadem origine novitas et novicius et novalis in agro et <sub Novis> dicta pars in Foro aedificiorum, quod vocabulum ei pervetustum, ut Novae Viae, quae via iam diu vetus.”

« Aenea! — Quis is est qui meum nomen nuncupat? »

Dico originem habet Graecam, quod Graeci deiknyo. Hinc etiam dicare”

Hinc iudicare, quod tunc ius dicatur; hinc iudex, [juiz] quod ius dicat accepta potestate; hinc dedicat, id est quibusdam verbis dicendo finit: sic, enim aedis sacra a magistratu pontifice praeeunte, dicendo dedicatur. Hinc, ab dicendo, indicium; hinc illa: indicit bellum, indixit funus, [funeral, peste] prodixit diem, addixit iudicium; hinc appellatum dictum in mimo, ac dictiosus;” “hinc dictator magister populi, quod is a consule debet dici; hinc antiqua illa addici numo et dicis causa et addictus.”

hinc doctor qui ita inducit, ut doceat.” “Ab eodem principio documenta, quae exempla docendi causa dicuntur.”

Disputatio et computatio e propositione putandi, quod valet purum facere; ideo antiqui purum putum appellarunt; ideo putator, quod arbores puras facit; ideo ratio putari dicitur, in qua summa fit pura: sic is sermo in quo pure disponuntur verba, ne sit confusus atque ut diluceat, dicitur disputare.” Vínculo improvável para nós do adjetivo puro e do verbo reputar.

Quod dicimus disserit item translaticio aeque ex agris verbo: nam ut holitor disserit in areas sui cuiusque generis res, sic in oratione qui facit, disertus.” Dissertar: dizer no deserto!

Hinc etiam, a quo ipsi consortes, sors; hinc etiam sortes, quod in his iuncta tempora cum hominibus ac rebus; ab his sortilegi; ab hoc pecunia quae in faenore sors est, impendium quod inter se iungit.”

Vicina horum quiritare, iubilare. Quiritare dicitur is qui Quiritum fidem clamans inplorat. Quirites a Curensibus; ab his cum Tatio rege in societatem venerunt civitatis. Ut quiritare urbanorum, sic iubilare rusticorum:”

Sic triumphare appellatum, quod cum imperatore milites redeuntes clamitant per Urbem in Capitolium eunti <Io triumphe>; id a thriamboi ac Graeco Liberi cognomento potest dictum.”

Ab eadem sponte, a qua dictum spondere, declinatum despondet et respondet et desponsor et sponsa, item sic alia. Spondet enim qui dicit a sua sponte <spondeo>; qui spopondit, est sponsor; qui idem ut faciat obligatur sponsu, consponsus.” Esponsais também? Realmente confirmado no parágrafo seguinte!

Etiam spes a sponte potest esse declinata, quod tum sperat cum quod volt fieri putat: nam quod non volt si putat, metuit, non sperat.” A ancestral esperança de não ouvir um não como resposta.

VIII.

—“Tertium gradum agendi esse dicunt, ubi quid faciant; in eo propter similitudinem agendi et faciendi et gerendi quidam error his qui putant esse unum. Potest enim aliquid facere et non agere, ut poeta facit fabulam et non agit, contra actor agit et non facit, et sic a poeta fabula fit, non agitur, ab actore agitur, non fit. Contra imperator quod dicitur res gerere, in eo neque facit neque agit, sed gerit, id est sustinet, tralatum ab his qui onera gerunt, quod hi sustinent.”

« Ut fictor cum dicit fingo, figuram imponit, quom dicit formo, formam, sic cum dicit facio, faciem imponit; a qua facie discernitur, ut dici possit aliud esse vestimentum, aliud vas, sic item quae fiunt apud fabros, fictores, item alios alia. »

IX.

(…)

X.

Sed quoniam in hoc de paucis rebus verba feci plura, de pluribus rebus verba faciam pauca, et potissimum quae in Graeca lingua putant Latina, ut scalpere a skaleuein, sternere a stronnyein, lingere a lichmasthai, i ab ithi, ite ab ite, gignitur a gignetai, ferte a pherete, providere a proidein, errare ab errein, ab eo quod dicunt strangalan strangulare, tinguere a tengein.”

XI.

Quod ad origines verborum huius libri pertinet, satis multas arbitror positas huius generis;”

…hunc de temporibus et quae cum his sunt coniuncta, deinceps in proximo de poeticis verborum originibus scribere incipiam.”

LIBER VII

Contempla et conspicare idem esse apparet, ideo dicere tum, cum templum facit, augurem conspicione, qua oculorum conspectum finiat. Quod cum dicunt conspicionem, addunt cortumionem, dicitur a cordis visu: cor enim cortumionis origo.”

intempesta nox dicta ab tempestate, tempestas ab tempore; nox intempesta, quo tempore nihil agitur.”

Eius signa sunt, quod has septem stellas Graeci ut Homerus vocant hamaxan, [martelo] et propinquum eius signum booten, [bota] nostri eas septem stellas triones [boves, ver abaixo] et temonem [escudo] et prope eas axem: [machado] triones enim et boves appellantur a bubulcis etiam nunca, máxime cum arant terram; e quis ut dicti

Valentes glebarii”

stegnon (GR)

FRAGMENTA

LOLITA (recuperação de citações e observações) – Nabokov

Originalmente publicado em 19 de fevereiro de 2013, porém com bastantes modificações e acréscimos à data da republicação.

se o nosso dementado diarista¹ tivesse, no fatal verão de 1947, consultado um psicoterapeuta competente, não haveria tragédia nenhuma mas, nesse caso, também não haveria este livro.”

¹ Publicista, cronista, autor de memórias. Tradução não muito legal…

Como caso clínico, Lolita tornar-se-á, sem dúvida, um clássico nos círculos psiquiátricos.”

5 feet 1 inch”: 1,55m. 36,5kg. 12 anos. Ao longo da estória, Dolores cresce alguns centímetros e engorda alguns kilos, por óbvio: 2cm quando H.H. vai buscá-la no acampamento de verão (sua mãe morreu), 5cm como referido à p. 163 após um bom tour d’hôtels

H.H. conhece sua segunda esposa aos 37.

aquele frenesi de posse mútua só poderia ser apaziguado se, verdadeiramente, absorvêssemos e assimilássemos todas as partículas da carne e da alma um do outro” Da carne nem tantas, talvez dos ossos. “Lolita começou com Anabela.” Personagem de Poe.

(“Viúvo”) Aos 13…

O espiritual e o físico tinham-se fundido em nós com uma perfeição por certo incompreensível aos jovens práticos, grosseiros e de mentalidade estandardizada nos nossos dias. [anos 1930]” “As suas pernas, as suas pernas encantadoramente vivas, não estavam muito unidas, e, quando a minha mão encontrou o que procurava, gravou-se-lhe nas feições infantis uma expressão sonhadora e misteriosa, em que havia prazer e dor. (…) com uma generosidade disposta a oferecer-lhe tudo, eu lhe dava a segurar na mão inexperiente o cetro da minha paixão.”

os meus sentidos ameaçaram, subitamente, romper todas as barreiras.”

Enquanto estudei em Londres e Paris, as damas pagas bastavam-me.”

Instalou-se em mim uma exaustão peculiar – sinto-me oprimido, doutor! – e transferi o meu interesse para a literatura inglesa, onde tantos poetas frustrados vão acabar como professores” Mais autobiográfico impossível.

nós, os ninfoleptos”

Leptus: Ácaros Erythraeidae, seres aracnídeos e quase-microscópicos. No fim das contas, sou sim uma espécie de aracnofóbico, ou para-aracnoalérgico.

WIKIPÉDIA

A palavra acari deriva do grego akares, ‘pequeno’. A maioria dos adultos mede entre 0,25 e 0,75mm de comprimento, embora existam espécies ainda menores. Os carrapatos são os que alcançam maior tamanho, chegando a até 3 cm, após ingerirem sangue, como por exemplo, o carrapato-estrela, vetor da bactéria causadora da febre maculosa. O grupo apresenta aproximadamente 55 mil espécies descritas, compondo aproximadamente 5.500 gêneros e 1.200 subgêneros, representados em 540 famílias. Entretanto, estimativas do real número de espécies de ácaros vão de 500 mil a 1 milhão, pois novas espécies são encontradas rotineiramente, até mesmo em substratos que já foram bem estudados. (Krantz & Walter, A Manual of Acarology, 2009 -3ed-.)”

A grande capacidade de adaptação, relacionada com a plasticidade evolutiva e o pequeno tamanho relativo, possibilitou a conquista de diversos ambientes aquáticos e terrestres, de forma que os ácaros ocupam uma variedade maior de habitats do que qualquer outro grupo de artrópodes. São componentes significantes do zooplâcton e associados a algas, bem como da fauna arbórea. Também ocorrem em grande número nas camadas de húmus que cobrem florestas, gramas e solos agrícolas. Além disso, por causa do tamanho, são facilmente levados pelo vento, compondo o ‘plâncton aéreo’. Os ácaros do pó domiciliar, por exemplo, são visíveis apenas ao microscópio e medem entre 200 e 500 micrômetros.” Quando disse que meus inimigos eram anões, não imaginava estar empregando um eufemismo.

O grupo Parasitiae possui um forâmen mediano na quelícera móvel, o espermatotrema, uma estrutura que preenche e dá a forma do espermatóforo nesse grupo. Os outros três grupos de Mesostigmata (Dermanyssiae, Heterozerconina e Celaenopsoideae) possuem modificações na quelícera e na posição da abertura genital dos machos para a transferência de esperma. Carrapatos e outros Mesostigmatas mais basais depositam o espermatóforo diretamente no interior na abertura genital primária das fêmeas usando a quelícera ou contato ventre-a-ventre, enquanto Dermanyssiae machos transferem o esperma para uma abertura genital secundária nas fêmeas, o poro de indução de esperma, usualmente próximo a base das pernas nas fêmeas.”

Vivem 2 a 3 meses, durante os quais acasalam 1 a 2 vezes, dando origem a uma postura de 20 a 50 ovos. O período mais propício para o acasalamento é entre a primavera e o outono. Os ácaros são frequentemente responsáveis por quadros de alergia respiratória como rinite alérgica e asma.” O que significa que no verão devíamos estar livres deles. Dentre as espécies encontradas na poeira caseira acham-se fêmeas capazes de reprodução autônoma (não apenas assexuada, mas sem receber esperma do macho de nenhuma forma indireta, nenhuma “polinização”).

Foram descritos até hoje três tipos de feromônios sexuais em Acari: 1) Arrestantes: produzidos por fêmeas imaturas para estimular a resguarda pré-copulatória de machos adultos. 2) Atrativos: produzidos por fêmeas maduras para machos maduros. 3) Feromônios de contato: secretados por fêmeas adultas para estimular o comportamento copulatório competitivo entre machos.”

Em nossas casas, os ácaros alimentam-se de partículas resultantes da descamação de pele humana e de animais. Por dia, o homem perde cerca de 1g destes pedaços de pele. Os ácaros abundam nos colchões, mantas de lã, almofadas de penas, tapetes, alcatifas, sofás e bonecos de pelúcia, desenvolvendo-se em condições ótimas de umidade superior à média de 70% a 80% e de temperatura superior a 20 °C.” Quando a secura é uma bênção.

Em altitudes superiores a 1200 metros, os ácaros deixam de ter boas condições de vida. Por este motivo, a estadia em regiões montanhosas pode conduzir ao alívio de certas alergias.”

Apesar das alergias e parasitismos, muitas espécies são benéficas para o homem por predarem outros invertebrados, considerados pestes para a agricultura e plantações ornamentais, além de predarem plantas daninhas. São importantes, também, para a reciclagem de nutrientes no ecossistema, quebrando-os em tamanhos menores para que possam ser utilizados por outros decompositores. (Ruppert & Barnes, Zoologia dos Invertebrados, 2005)”

SUBTÍTULO ALERGOLOGIA

Os excrementos dos ácaros e os ácaros mortos dispersam-se em poeira fina, sendo inalados e podendo provocar alergias. A maioria dos casos de alergia a ácaros são mediadas pelo IgE, mas existem descrições de pacientes com imunorreatividade e hipersensibilidade a ácaros mediada por mecanismos celulares.”

Para que se dê a sensibilização aos ácaros é necessária uma taxa de antigênio Der p1 superior ou igual a 2 micra por grama de pó domiciliar, o que seria equivalente a 100 ácaros por grama de poeira fina. Calcula-se que a prevalência da sensibilização aos ácaros na população geral seja de cerca de 10 a 20%. São os responsáveis pela maioria dos casos de rinite e asma alérgica perene, tendo também um papel importante na dermatite atópica. Já foram descritos casos raros de anafilaxia após ingestão de alimentos contaminados por grandes quantidades de D. farinae (farinha, pizzas, peixe e legumes, entre outros).”

SUBTÍTULO PREVENÇÃO

exposição ao ar e ao sol dos colchões, edredons e almofadas;” “lavagem frequente a 60 °C dos colchões, edredons e almofadas;” [tem como colocar água quente na máquina?] “aspiração regular e frequente dos colchões e tapetes com aspiradores munidos de filtros HEPA;” “acaricidas” [muito mais fácil que os 2 últimos] “manutenção de uma atmosfera seca no interior das habitações (umidade relativa a 50% a 60% e temperatura entre 18 e 20 °C);” “Não está demonstrada a eficácia dos ionizadores e purificadores de ar”

Porém, regressando a Lolita, Nabokov jamais quis evocar ácaros, a não ser que fizesse parte de seu jogo de linguagem: “nós os ninfoleptos” se referia a ninfa+Lepidoptera, asa com escamas, borboletas… Amantes de ninfas pequenas, em síntese. Há o trocadilho, ainda, com o sufixo que não existe de forma independente, -lepsia, como em narcolepsia ou epilepsia, conotando uma condição passiva diante de um mal (sofre-se de um sono incontrolável e involuntário, de convulsões). Portanto, Humbert Humbert também é um “escravo das ninfas”, doente de… não, seu mal não é a ninfomania, mas a ninfolepsia!

Do aracnídeo ao inseto: quanta diferença!

WIKIPÉDIA

Sometimes, the term Rhopalocera is used for the clade of all butterfly species, derived from the Ancient Greek ῥόπαλον (rhopalon) and κέρας (keras) meaning ‘club’ and ‘horn’, respectively, coming from the shape of the antennae of butterflies.

The origins of the common names ‘butterfly’ and ‘moth’ are varied and often obscure. The English word butterfly is from Old English buttorfleoge, with many variations in spelling. Other than that, the origin is unknown, although it could be derived from the pale yellow color of many species’ wings suggesting the color of butter. (Harpe, Douglas; Dan McCormack, Online Etymology Dictionary / Arnett, Ross H., American insects: a handbook of the insects of America north of Mexico) The species of Heterocera are commonly called moths. The origins of the English word moth are clearer, deriving from Old English moððe (cf. Northumbrian dialect mohðe) from Common Germanic (compare Old Norse motti, Dutch mot and German Motte all meaning ‘moth’). Perhaps its origins are related to Old English maða meaning ‘maggot’ or from the root of ‘midge’,¹ which until the 16th century was used mostly to indicate the larva, usually in reference to devouring clothes.”

¹ H.H. chama Lolita de larva em algumas ocasiões.

The etymological origins of the word ‘caterpillar’, the larval form of butterflies and moths, are from the early 16th century, from Middle English catirpel, catirpeller, probably an alteration of Old North French catepelose (from Latin cattus, ‘cat’ + pilosus, ‘hairy’).”

* * *

Since the Middle Ages, nymphs have been sometimes popularly associated or even confused with fairies.” “The Greek word nýmphē has the primary meaning of ‘young woman; bride, young wife’ but is not usually associated with deities in particular. Yet the etymology of the noun nýmphē remains uncertain.”

Um homem normal a quem se mostre uma fotografia de um grupo de colegiais ou escoteiras e se peça que indique a mais bonita não escolherá necessariamente a ninfeta que porventura se encontre entre elas. É preciso ser um artista e um louco, um ser infinitamente melancólico” Veja-se a influência de Nabokov sobre os dicionários: “NINFETA [pequena ninfa, ‘ninfa-borboleta’] Menina adolescente que, podendo ou não ter a intenção de parecer sensual, é considerada pelos olhos de quem a vê como muito sensual; lolita.”

Ninfetina, a mistura de ninfeta com cafeína.

Bem mais segura que a ninfetamina do extreme gothic metal!

deve haver um hiato de vários anos – eu diria que nunca menos de 10 – entre donzela e homem, para que este possa ser apanhado pelo encantamento de uma ninfeta.” “um certo contraste que a mente apreende com um suspiro sufocado de perverso deleite.”

Uma civilização que permite a um homem de 25 anos cortejar uma rapariga de 16, mas não uma de 12.” “monstruosa duplicidade” “As mulheres humanas [adult woman no original] com as quais me era consentido lidar não passavam de agentes paliativos.”

O mais vago dos meus sonhos profanadores [com polução, molhados, no original] era mil vezes mais deslumbrante do que todo o adultério que o mais viril escritor de gênio ou o mais talentoso impotente poderiam imaginar.” Nabokov gosta de brincar: H.H. é um simplório; ele mesmo, um escritor de gênio.

Entre os 20 e os 30 e poucos anos não compreendi as minhas angústias com tanta clareza. Se o meu corpo sabia o que desejava, o meu espírito repelia todos os seus apelos.” “Os tabus estrangulavam-me.”

O fato de, para mim, os únicos objetos de frêmito amoroso serem irmãs de Anabela parecia-me, por vezes, um prenúncio de insanidade.”

em Inglaterra, depois da aprovação da Lei das Crianças e Jovens de 1933, a expressão ‘rapariga-menina’ [provavelmente woman-child] é definida como uma menina de mais de 8 e menos de 14 anos (depois disso, dos 14 aos 17, a definição legal é ‘jovem’ [youthful w., youthful lady, talvez maiden, mas a tradução mais assertiva teria de ter sido donzela]).”

Rahab era uma prostituta aos 10 anos de idade. Tudo isso é muito interessante e ouso supor que já me estais vendo com a boca a espumar, num ataque.”

Aqui está Virgílio, que podia cantar a ninfeta em tom singelo, mas que talvez preferisse o peritônio [abdome] de um rapaz.” <Que homofóbico! Cancelem Nabokov!>, gritarão alguns contemporâneos.

Dante apaixonou-se loucamente por Beatriz quando ela tinha 9 anos”

O casamento e a coabitação antes da puberdade ainda se praticam em certas províncias da Índia oriental. Velhos lepchas de 80 anos copulam com rapariguinhas de 8 e ninguém se importa.”

« criança-demônio, enfant charmante et fourbe » « Humbert era perfeitamente capaz de ter relações íntimas com Eva, mas era Lilith que desejava.”

A fase inicial do desabrochar do seio começa cedo (10 anos e 2/3 [8 meses]), na seqüência de alterações somáticas que acompanham a puberdade.” “[em seguida,] o aparecimento dos primeiros pêlos púbicos pigmentados (11 anos e 1/5 [2 meses e 12 dias, que exatidão clínica! Não bastava dizer algo como 2 meses e meio?].”

Ah, deixai-me sozinho no meu parque pubescente, no meu jardim musgoso! Deixai-as brincar eternamente em meu redor, sem nunca crescerem!” “Possuí-a e ela nunca o soube.” O maior dilema mental de H.H.: ele não consegue parar o tempo, não é Peter Pan nem Tinker Bell.

A MADAME HAZE ERA UMA MILF BASTANTE CONSERVADA (O FILME DE 1997 NÃO LHE FEZ JUSTIÇA): “Gostei das suas pestanas compridas e do vestido justo, de bom corte, que cingia de cinzento-pérola o seu corpo jovem que ainda conservava – e isso foi o eco nínfico, o arrepio do gozo, o sobressalto da minha virilidade – um não-sei-quê de infantil, de mistura com o frétillement profissional do seu pequeno e ágil traseiro.” “Perguntei-lhe o preço e ela respondeu prontamente, com uma precisão melodiosa e argentina (um pássaro, um vero pássaro!): Cent. Tentei regatear, mas ela viu o desesperado e solitário desejo que se espelhava nos meus olhos baixos (…) e, com um bater de cílios, replicou-me: Tant pis, e fez menção de se afastar. Talvez 3 anos antes, apenas, eu a pudesse ter visto regressar à casa, da escola!” “Jamais esquecerei o modo como os seus infantis lábios parisienses pareceram explodir ao emitir o bas, pronunciando com um apetite que praticamente transformou o ‘a’ num breve e impetuoso ‘o’, como na palavra inglesa bot.” Só um lingüista consumado teria podido escrever essa novela… Bot na época de Nabokov, talvez, só existisse em inglês como “picada de inseto”, e não como ferramenta robótica, hoje tão predominante.

eu sou um varão¹ excepcionalmente interessante!” “A virilidade excepcional reflete, muitas vezes, nas feições visíveis do indivíduo, um não-sei-quê de sorumbático e congestionado, que se relaciona com o que ele tem de ocultar. Era esse o meu caso. Bem sabia – ai de mim! – que podia obter, com um estalar de dedos, qualquer mulher adulta que quisesse. Efetivamente, até adquirira o hábito de não me tornar demasiado atencioso com as mulheres, por temer que me chovessem como fruta madura no regaço frio.”² “Eu, pelo meu lado, era ingênuo como só um pervertido pode ser.”

¹ Essa tradução lusa é péssima!

² Regaço, interior (subjetivo), colo, também pernas e virilhas por extensão: Humbert é impotente quando se fala em mulheres de sua meia-idade, ou bem pior, aquelas que já superaram a puberdade – ou pior: aquelas que já estão na segunda metade da adolescência!

espinhos nas canelas rapadas”

Nansen, passaporte que se concede a apátridas, que tem o nome de um norueguês Prêmio Nobel da Paz.” “a América, o país das crianças rosadas e das grandes árvores”¹ “começou a abanar a cabeça de cão-d’água² com toda a força”

¹ Hoje: dos obesos rosados e da poluição.

² Raça de cão portuguesa.

triplicava o queixo para chegar ao decote da blusa”

a idéia de calçar as minhas botas de montanhista e aplicar-lhe um pontapé no traseiro foi impossível de pôr em prática”

o baixo mais entroncado Maximovich¹ parecia feito de ferro gusa.”²

¹ Botanista russo do séc. XIX, então é impossível que Vladimir Nabokov não o conhecesse.

² “Geralmente nos processos industriais, o ferro gusa é considerado como uma liga de ferro e carbono, contendo de 2,11% a 5% de carbono e outros elementos ditos residuais, como silício, manganês, fósforo e enxofre.” Tão duro como o aço. Os 3 maiores produtores de ferro gusa na atualidade são China, Japão e Rússia. O Brasil, sexto no ranking da produção, é o maior exportador.

Não há ninfas nas regiões polares.”

O suborno de uma enfermeira deu-me acesso a algumas fichas e descobri, quase a rebentar de riso, que me classificavam de potencialmente homossexual¹ e totalmente impotente.”

¹ Faceta nada incomum em anos mccarthistas.

passei uma noite fantástica no comboio, imaginando em todos os pormenores possíveis a enigmática ninfeta, a quem ensinaria francês e acariciaria humbertinianamente.”

a verde-e-rosada Ramsdale”¹

¹ Cidade do Novo México. Procurar informações sobre ela tem se tornado difícil graças à fama do jogador de futebol de mesmo nome!

doçura de praias em tecnicolor”¹ “uma daquelas casas que sabemos de ciência certa terem um tubo de borracha enfiado na torneira da casa de banho, em vez de chuveiro.”

¹ A TV em cores era uma novidade.

o banal mais-que-tudo da classe média com peneiras artísticas: a Arlesiana de Van Gogh.”

ainda a bater com o indicador no cigarro.”

palavras que podem refletir a freqüência de um clube do livro ou de bridge, ou qualquer outro chato convencionalismo.”

E ela chamava aquele quarto de criada semiestúdio!”

um louco com um gosto indecente pelo fruit vert.”

minha letra mais pequenina e mais satânica”

Os sorvetes com frutas e nozes causam acne. Mas as ninfetas não têm acne, embora se empanturrem de alimentos ricos.” “Um sorvete duplo de baunilha com creme quente de chocolate”

possuo todas as características suscetíveis de despertar uma rapariguinha: queixo bem talhado, mãos musculosas, voz profunda e sonora, ombros largos.”

seus lábios são vermelhos como um chupa-chupa¹ vermelho lambido”

¹ Horrendo! Não podemos ler essa novela num português que não é o nosso! Todo o contexto nos faz pensar que trata-se dum picolé, e que o filme de 97 apenas “modifica” o objeto de matiz erótico, mas não, era de início um pirulito. Importante observar, ainda: pirulito em inglês é LOLLIpop.

[Portugal] Guloseima feita de rebuçado ou chocolate enfiado em palito por onde se pega para ser sugada ou lambida. (Equivalente no português do Brasil: pirulito.) = CHUPA

chupa-chupa’, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2023, https://dicionario.priberam.org/chupa-chupa.”

Mutável, mal-humorada, alegre, desajeitada, graciosa com a graciosidade picante da sua subadolescência inexperiente” “As pombinhas dos seus seios parecem já bem-formadas. Precoce armadilha!” “Sou como uma dessas pálidas e inchadas aranhas que se costumam ver nos velhos jardins.” “A minha teia está estendida por toda a casa, enquanto eu escuto na minha cadeira, na qual estou sentado como um manhoso feiticeiro.” “lavar os dentes (o único ato de higiene que Lo pratica com verdadeiro interesse)” “e, meu Deus, quanto eu não daria para beijar naquele momento aqueles pés simiescos, de ossos delicados e dedos compridos!”

Para um pedófilo, qualquer lista de chamada é um poema.

o tumor oculto de uma paixão inconfessável.” “e dir-se-ia que nada poderia impedir o meu musculoso polegar de alcançar o quente recesso das suas virilhas.”

A sua reserva européia e o seu sentido do decoro talvez se sintam escandalizados com a ousadia de uma mulher americana!” “deve ter havido ocasiões em que tentei analisar, desmedidamente, a idéia de casar com uma viúva madura e sem nenhum parente vivo neste vasto mundo cinzento, apenas para levar a minha avante com a filha (Lo, Lola, Lolita).”¹ “Confesso isso sob tortura. Tortura imaginária, quiçá, mas por isso mesmo mais horrível.”

¹ Como já demonstrei em CHASING LOLITA (https://seclusao.org/2021/07/16/chasing-lolita-how-popular-culture-corrupted-nabokovs-little-girl-all-over-again-graham-vickers-2008/), 2 anos e meio atrás, Nabokov escreveu um conto em que o pedófilo executa o plano, falha e se suicida; e também chegou a escrever outro esboço em que o protagonista apenas idealiza a façanha numa conversa, sem nunca ter a coragem de executá-la.

De súbito, cavalheiros do júri, senti um sorriso dostoievskiano nascer como um sol distante e terrível.”

Segurar-te levemente sobre um meigo joelho e depositar na tua face macia um beijo paternal…” “Ou mentes, Dolores Haze, ou foi um íncubo. Não, eu não iria tão longe.”

a autobiografia da minha mulher era tão desprovida de interesse quanto o seria a sua autópsia.”

tentando ver as coisas como nos lembraremos depois de as ter visto”

Hoje em dia, se se quer ser assassino, tem de se ser cientista.” “a maioria dos delinqüentes sexuais que anelam por qualquer relação física, mas não forçosamente coital, com uma rapariguinha, são inofensivos, inadaptados passivos e tímidos desconhecidos que só pedem à comunidade que lhes consinta o seu chamado comportamento aberranteNabokov é o melhor em termos de tipificar um… tipo! Então H.H. muda da terceira para a primeira pessoa: “Somos suficientemente bem-integrados para sabermos controlar os nossos impulsos na presença de adultos, mas dispostos a dar anos e anos de vida pela possibilidade de tocar numa ninfeta.”

eu achava-lhe as compridas pernas bronzeadas quase tão atraentes como as de uma égua alazã.”

Não imaginam como é difícil esconder coisas, principalmente quando a nossa mulher passa a vida às voltas com os móveis.”

os grandes artistas insones, que tinham de morrer durante algumas horas a fim de viverem durante séculos.”

Adoro enganar médicos”

minha penugenta”

Permitam que dessa vez seja piegas! Estou tão cansado de ser cínico!”

Já escrevi mais de cem páginas e ainda não disse nada.”

durante um segundo, pareceu-me que o seu rosto era menos bonito do que a imagem mental que adorara durante mais de um mês.” “até as plúmbeas sombras debaixo dos olhos tinham sardas” “o tempo passa à frente das nossas fantasias!”

O élan de suas meias¹ brancas estava visado para baixo, no nível que tão bem recordava”

¹ Me recuso a dizer, como um português, “peúgas”!

o gosto a hortelã-pimenta da sua saliva” “soltava o vestido, que se metera na racha do pêssego”

um homem muito velho, desses que são hóspedes permanentes de velhos hotéis.”

refrescava as hemorróidas na relva úmida”

Entre os sicilianos, as relações sexuais entre pai e filha são consideradas naturais, e a rapariga que participa nessas relações não é olhada com desaprovação pela sociedade a que pertence.” Nada entre os <sicilianos> (provado que ainda existam esses sicilianos) é normal…

LEGISLAÇÃO IANQUE (CONSULTADA EM 2013)… DESNECESSÁRIO DIZER QUE LÁ HÁ UMA BARAFUNDA DE ESTADO A ESTADO! CHAMAR ÀQUILO DE FEDERAÇÃO É FORÇAR MUITO A BARRA!

Uma menor do sexo feminino, que permite a uma pessoa de mais de 21 anos conhecê-la carnalmente, implica a sua vítima em estupro estatutário ou sodomia de 2º grau, conforme a técnica adotada, e a pena máxima são 10 anos.” Referida sodomia – legislação ianque. Emenda de jurisprudência do STF (caso de extradição de um americano infrator, não-deferida por prescrição) – “Correspondência admitida entre o crime de sodomia de 2º grau, previsto na legisl. Do Estado do Oregon (USA) e o delito de atentado violento ao pudor, definido no Código Penal Brasileiro (art. 214, combinado com o art. 224, ‘a’).”

THIS IS WEST COAST: “visões publicitárias de celestiais taças de sorvete, metade de um bolo de chocolate debaixo de uma redoma de vidro e diversas moscas, horrivelmente experientes, a zumbir por cima do pegajoso açucareiro”

Admiramos a maior estalagmite do mundo numa gruta onde 3 estados do Sudoeste têm uma reunião de família.” “Um carrapato na minha virilha. Danças rituais índias, estritamente comerciais.”

Um rapaz pálido, magro e de 1,80m, com um pomo-de-adão muito ativo, a devorar Lo e sua cintura nua castanho-alaranjada com os olhos”

rastros de um dinossauro num canyon deserto, deixados há 30 milhões de anos, quando eu era criança.” “Missão Dolores: bom título para um livro.”

ver as crianças saírem da escola – sempre um bonito espetáculo.”

eu era um amigo tão solícito, um pai tão apaixonado, um pediatra tão excelente que satisfazia todas as necessidades do corpo da minha pequenina moreno-arruivada!” “não há no mundo prazer que se compare ao de acariciar uma ninfeta. É um prazer hors concours

À p. 159 desta edição, a abominação inominável, presente no doloroso filme indicado por Jean Baudrillard Chinatown: o fetiche da netinha ninfeta, em que imagina sentir os mesmos prazeres pré-púberes em quem sabe 20 anos (supondo que Dolores engravidasse aos 20 dele mesmo) com sua neta, ele, H.H., já um idoso seboso. A única diferença para Chinatown é que aqui não se trataria de incesto genético, apenas “cultural”.

há poucos físicos que me despertem mais aversão que a pelve pesada e descaída, as barrigas das pernas grossas e a cútis deplorável da média das universitárias” “o caixão onde as minhas ninfetas são sepultadas vivas [a universidade]”

a localização de uma estrela é importante, mas o lugar mais prático para arrumar um frigorífico, na cozinha, pode ser ainda mais importante para a dona de casa principiante.” “Que interesse pode Dorothy Hummerson ter pela Grécia e pelo Oriente, com os seus haréns e os seus escravos?”

(2013) Cinco coisas ou pessoas sem as quais não consigo viver: minhas crises de ansiedade, gente que não quer ir a Londres, goleadas de “n” times sobre o Flamengo, revistas que assino mas não leio nem a metade e vampiros (pessoas que, ainda que com muitos espelhos em casa, jamais conseguem neles se enxergar)!

observações meteorológicas de alguns cordiais vizinhos.”

temperatura correta: nunca grosseiro, mas sempre distante.”

vivia, grátis, coisas que o mais batido voyeur daria uma pequena fortuna para observar.” “Vestia sempre de preto, raramente tomava banho” “E não há ninguém mais conservador que uma criança, sobretudo do que uma rapariguinha, mesmo que ela seja a mais ruiva e corada, a ninfeta mais mitopoética da bruma do pomar de Outono.” “claro que o meu ciúme cravava sempre as garras pontiagudas nos finos tecidos da falsidade ninfítica”¹ “o meu penteado preferido – franja à frente, canudos [tranças duplas, marias-chiquinhas] aos lados e os caracóis naturais atrás” “uma madeixa quase hitleriana caída para a testa pálida.”

¹ Primeiros sinais da possessividade do abusivo em duplo sentido.

O leitor sabe a importância que atribuo a ter um enxame de pajenzinhas, ninfetas de prêmio de consolação, à volta da minha Lolita.”¹

¹ O ciumento não costuma pensar no ciúme do seu próprio par romântico – pelo contrário, faz-lhe pouco caso, o menos que puder: hipocrisia máxima.

e eu sabia, também, que tinha um tremendo sinal cor de chocolate nas costas feminis”

Fale-me de Ball-Zack, por favor.”

bóu zéki

Ainda hesita entre os estágios anal e genital de desenvolvimento.”

todos nós gostaríamos de saber se alguém da família a instruiu quanto ao processo da reprodução dos mamíferos. É impressão geral que ela, apesar dos 15 anos, permanece morbidamente desinteressada de assuntos sexuais” “devia encarregar o médico da família de lhe revelar os fatos da vida” Quanto os Estados Unidos da América, quanto o Ocidente, não regrediram nos últimos 70 anos!

Deveria casar com a Pratt e estrangulá-la?”

a maneira como ela andava de bicicleta, o movimento dos seus quadris, causavam-me supremo prazer”

assistir aos ensaios, como alguns pais ridículos faziam” “Detesto teatro, que considero uma prática primitiva e pútrida”

“‘sinto-me muito mal comigo mesma’, como costumavam falar essas meretrizezinhas.”

C’est entendu? – só falava francês quando se portava como uma boa rapariguinha.”

existencialismo, coisa ainda muito apaixonante na época”

Deves, também, vigiar a tua dieta. O diâmetro da tua coxa não deverá exceder 43,7cm.”

beijei as solas amareladas dos seus pés de dedos compridos, imolei-me…” Segunda ode ao macaco.

Idiota, triplamente idiota! Podia tê-la filmado!”

Já alguma vez disse que o seu braço nu tinha a cicatriz em 8 da vacina?”

Ali estava ela, a brincar com um maldito cão, e não comigo.” “Quem poderá avaliar a mágoa que se causa a um cão ao abandonar uma brincadeira com ele?”

Sabia que as ninfetas histéricas tinham propensão para as temperaturas altas, às vezes excedendo, até, a máxima fatal.”

Os pensamentos vagabundos e fragrantes deste gênero têm sido sempre um bálsamo para mim, em momentos de tensão fora do vulgar”

é espantosa a velocidade com que se movem e o pouco que fazem estas enfermeiras de grandes nádegas!”

Não utilizava caneta de tinta permanente, fato que, como qualquer psicanalista lhes dirá, caracteriza um indivíduo como ondinista reprimido. [adepto do golden shower!]”

O MOLESTADOR E SUA SOMBRA: “Que calafrio de triunfo e ódio sacudiu o meu frágil arcabouço quando, entre os nomes simples e inocentes de um registro de hotel, o seu diabólico espírito charadístico ejaculava na minha cara” “Dolorés Disparue”

As estudantes jovens gostam de muitas pregas – que c’était loin, tout cela!“Todos nós conhecemos pessoas com o desagradável hábito de arrancar as cutículas das unhas nas festas do escritório.”

Cairei onde as ervas daninhas apodrecem

E o resto é dissolução e poalha¹ estelar”

¹ “Poeira leve na atmosfera”

Psicanalisando este poema, verifico que se trata, efetivamente, da obra-prima de um maníaco.”

Seria um velhaco se dissesse, e o leitor um tolo se acreditasse, que o abalo de perder Lolita me curou da pederosis. [pedofilia]”

Rita, 26 ou 28 ou 30 anos, a nova cônjuge da estória: “Comparadas com ela, Valechka era uma Schlegel e Charlotte [Haze] uma Hegel.” Grandes estetas-filósofos, mas incomensuravelmente feios, realmente! “[Rita] me salvou do manicômio”

O tamanho de certos parasitas é 1/6 do tamanho do hospedeiro.” Talvez mais uma referência velada ao que me levou a inserir extensas passagens do WIKIPÉDIA sobre ácaros no início do post, “nós, os ninfoleptos”.

Meias para meninas, 39 centavos.”

quanto menos vemos determinada pessoa, mais nos compraz verificar, sempre que dela temos notícias, como respeita obedientemente a idéia que fazemos a seu respeito.” “Preferíamos não ter conhecido o nosso vizinho, vendedor reformado de cachorros-quentes, (sic) se vimos a saber que acaba de publicar o melhor livro de poesia do século.”

5cm mais alta.¹ Óculos de aros cor-de-rosa.”² A visão de alguém subitamente mais feia, porque grávida. “embora as suas feições houvessem, de fato, estiolado, compreendi com clareza, tão irremediavelmente tarde, quanto ela se parecia – se pareceria sempre – com a Vênus ruiva de Botticelli – o mesmo suave nariz, a mesma beleza indistinta.” E em seguida as mentiras deslavadas, antes de finalmente expelir algo verídico…

¹ Chegando ao 1,62m final.

² Mais famosa ficou a representação cinematográfica (pôster de propaganda) para o filme de 1962 (curiosamente ausente do próprio longa!) com as lentes dos óculos escuros em formato de coração, chupando o lollipop.

– Que coisas, exatamente?

– Ora, coisas!… Oh, eu… francamente eu…”

Não desistia, recusava-se a entrar em pormenores, com aquele bebê dentro dela.

Tinha lógica”

Só que tinha mesmo a idade duma bastarda – a iminente santa! –, não 6 anos a mais…¹

¹ [2023] Aqui, imagino, eu faço uma alusão ao fato de no epílogo Lolita ter ainda 14 anos e não 20, a idade de minha primeira namorada (eu fui seu lolito, tinha 16). Mas posso estar errado – a memória é uma merda!

MORAL DA ESTÓRIA: O malandro que chega DE CARONA faz o estrago (os malandros: tanto H.H. como Quilty, ou seriam ambos a mesma pessoa?) e se dá bem – depois um idiota qualquer (uma pessoa adequada a Lolita, de sua faixa etária, mais inocente, mais virgem) aparece para bancar o prejuízo!

ali estava ela, irremediavelmente gasta aos 17”¹

¹ [2023] Tem razão! Como 3 anos, aproximadamente, haviam se passado na novela, desde a morte de Charlotte Haze, Lolita devia ter 15 anos quando se desgarrou de Clare Quilty (doppelgänger de um H.H. dobrado e louco?). E depois mais 2 anos até esse reencontro melancólico entre “pai” e “filha” na véspera de ela dar a luz… Na minha matemática acima tinha desprezado o quanto durou a novela. Catorze anos teria sido uma idade muito precoce – mas o que não foi precoce para Dolores? Em verdade ela pode ter casado (no México isso seria possível) aos 15, levando a gravidez os 16 adentro, por isso minha conta envolvia “15”. Era esse número que eu comparava, na nota anterior, ao da minha primeira namorada: “tinha 14 [mas 14 estava errado, na verdade, 15] e não 20”; mas na hipótese de eu ter levado isso em conta, o que me faria dizer “não tinha 6 anos a mais…”? Minha referência podia ser mesmo 15. Quando terminei meu primeiro namoro, E. tinha 21. E logo depois engravidou de um homem mais velho, sebento, como Quilty, fisicamente, como Humbert Humbert, psicologicamente… E esmoreceu, murchou como flor… 15 para 21: 21 é uma idade consensual em todos os países do mundo, imagino. Já 15… só bastardas podem casar, ou ter filhos fora do casamento, daí o qualificativo. Uma nota comprida e desnecessária, mas queria mesmo voltar a entender minha própria anotação de 2013, mais de uma década depois!

o suave eco da folha morta da ninfeta” “sim, porque ela está morta mas é imortal se estão a ler isto [daí o ‘suave eco’]”

que me consigam provar que no curso infinito da vida não tem a mínima importância o fato de uma criança norte-americana Dolores Haze ter sido privada da sua infância por um maníaco.” Ou para impressionar o júri ou por legítimo remorso, Humbert admite todo seu crime hediondo no final de seu “romance de prisão”.

[2023] Eu pulei basicamente 1/3 da narrativa – pouco citei aspas do arco dos hotéis, ou da aparição e desaparição trágica de Clare Quilty… Mas um complemento e enriquecimento desse post, cobrindo essas fissuras, será publicado mais tarde (2024? Ainda não sei), porque no momento leio LOLITA ANNOTATED, a versão original, em inglês, com muitas notas bibliográficas e explicações daquele que talvez tenha se notabilizado por ser seu maior crítico – e me fez ter interesse por obras de Nabokov depois de muitos anos… ainda não li Ada or Ardor, por exemplo…

e depois puxaria para trás o prepúcio da pistola” Ah sim, havia olvidado – H.H. só foi caçar Quilty depois do reencontro! Seu último ato como homem livre!

de repente, ironicamente, horrìvelmente, a luxúria impunha-se de novo”

As idéias de meados deste séc. XX no tocante às relações criança-pais têm sido consideravelmente corrompidas pelo palavreado escolástico e pelos símbolos estandardizados do negócio psicanalítico.”

Preferi sempre a higiene mental da não-interferência”

a horrível conclusão a que quero chegar é que tornara-se gradualmente evidente à minha convencional Lolita, durante a nossa singular e bestial coabitação, que até a mais miserável das vidas familiares era melhor do que a paródia de incesto que era o melhor que eu podia oferecer à desamparada criança.”

ele é, evidentemente, muito melhor dentista do que você. § Não sei se algum dos meus leitores terá, jamais, ensejo de dizer uma coisa dessas. Causa uma deliciosa sensação de sonho.”

Suponho que, na sua forma impressa, [irônico!] este livro [dentro do livro] será lido nos primeiros anos de 2000 d.C.” Voilà

visto ter desrespeitado todas as leis da humanidade, também podia desrespeitar as leis do trânsito.”

bonitas moscas de um verde-brilhante” Ler https://seclusao.org/2023/11/10/arquivo-existencialismo-aos-7-as-abelhas-os-homens-e-a-espinha-metafisica/, de minha autoria.

eu sou símile ao nada!”

como poderias, com razão, criticar um ato involuntário?”

consenti que eu enlace teu corpo que eu não mais esperava encontrar.”

Desgraçados esteios de um desgraçado!”

Tu o geraste, de modo que, nem se ele cometer contra ti os mais ímpios dentre os piores males, pai, te é lícito retribuir-lhe os males.”

Cronos contempla, contempla tudo eternamente, derrubando uns e, no outro dia, alçando-os de volta ao topo”

O quê? Atirará um raio? Temo isto, pois nunca o lança em vão” “um ignífero raio do deus o fez sumir”

No local onde posteriormente seria fundada a cidade de Tebas, Cadmo semeou os dentes do dragão que matara. Surgiram então os espartos, ‘homens semeados’

prole da Terra e do Tártaro”

Ó, Cão Cérbero, se tu guardas para que vivos não entrem e mortos não saiam, não se frustra a 1ª missão, se para parar o vivo tens de despedaçá-lo e feri-lo? Aquele que quer atravessar assim morre, em rebeldia.”

 

DEPOIS DE DESLIGAR O VIDEOGAME…: O Supercompêndio de Final Fantasy VIII

O artigo mais compreensivo e doidivanas existente em português sobre o storytelling do oitavo jogo canônico da principal franquia da Square Enix,

contendo (além de tudo sobre Squall, Rinoa e Ultimecia) mitologia grega, história do feminismo e barroco italiano, JoJo’s Bizarre Adventure, filmes de Hollywood sobre viagem no tempo (deixando De Volta Para O Futuro de fora), a série LOST, metafísica do século XX, satanismo, David Lynch, AKIRA (o mangá) e ainda outras referências externas! Resumindo, uma viagem imperdível.

obs: Uma versão com o review-base (resenha de videogame típica) precedendo este artigo mais denso e menos voltado à gameplay do jogo está disponível em https://rafazardly.com/2023/12/19/final-fantasy-8-ps-al/. Para quem prefere ler em “dark mode”, é uma boa sugestão clicar!

ÍNDICE

(use os termos entre colchetes, incluindo os colchetes, para navegar com facilidade)

[CRO] CRONOLOGIA DO MUNDO DE SQUAL & RINOA (Pré-História)

[ZER] A PARTIR DE SQUALL NA ENFERMARIA (MARCO ZERO)

[INT] INTERPRETAÇÃO & SIMBOLOGIA

[REL] SOMEWHERE IN TIME: O RELÓGIO E A MOEDA

[SUP] “O plano supremo de Squall/Laguna”

[+Q] MAIS QUESTÕES DE TRADUÇÃO

[FON] SOBRE “FONTES OFICIAIS EXTRA-MÍDIA”

[REC] Recomendações literárias

[CON] CONCLUSÃO: O que acontece só acontece uma vez

[UNC] UNCANNY VALLEY (Faixa bônus): Manifesto anti-Akira Toriyama

Há quem diga que a plot de um jogo só serve para o jogo, durante o jogo, mesmo na comunidade mais story-driven da indústria dos games, a dos RPGistas. Eu tendo a estar no time oposto, e essa análise é dedicada àqueles que, como eu, adoram discutir teorias e conexões, fora do Jogo de Interpretação de Papéis ou Role Playing Game, porque tanto quanto eu odeio (nós odiamos) o junction system euadoro (nós adoramos) o storytelling de Final Fantasy VIII – e a estória de FF8 é sua saving grace!

Primeiro uma leve ambientação e resumo do universo retratado, para não jogar as coisas na cara do leitor parecendo socos do Mike Tyson no auge diante de um desafiante despreparado:

Neste mundo os continentes de Balamb, Galbadia, Esthar e Trabia são os principais marcos geográficos. O planeta possui uma lua, que possui vida e comprovadamente faz parte da história do planeta, e não apenas de sua mitologia, como em nossa Terra: de séculos em séculos, monstros lunares aparecem no planeta, caídos ou arremessados do satélite, em fenômenos agourentos conhecidos Choros da Lua. Existe um monumento chamado Pilar de Cristal que desde a Antiguidade os homens associam à lua. Controlá-lo por meio da técnica talvez seja a forma de estabelecer uma paz duradoura contra essas invasões periódicas…

[CRO]

CRONOLOGIA DO MUNDO DE SQUALL & RINOA

Cem anos antes do enredo do jogo, um Moon Cry devasta Centra (pense nesta terra abolida num desastre como nossa Atlântida), onde os primeiros povoados terrestres se originaram (agora pense em Centra como nossa Pangéia). Este século representa o declínio do Império de Dollet e a ascensão, até os dias contemporâneos, dos galbadianos, que só têm um rival de relevo, Esthar. Deling – exatamente como Alexandria, inspirando-se num nome próprio – é a capital atual de Galbadia.

47 a.S.e. (47 anos antes de Squall na enfermaria, ou “o marco zero”): Laguna Loire nasce. Um cientista chamado Odine inicia um programa para prevenir Choros da Lua futuros. Pela primeira vez os avanços tecnológicos parecem indicar uma chance de sucesso na tentativa.

20 a 25 a.S.e.: Neste mundo que a própria Terra do século XXI consideraria “futurista”, elementos de magia coexistem com as conquistas da ciência e do domínio humano sobre a natureza. —Pela primeira vez na história registrada, Adel, uma feiticeira, toma o controle político de toda uma região, em Esthar. Adel não age de vontade própria. Acontece a Sorceress War entre o Império de Galbadia e as forças de Esthar. Laguna, Kiros e Ward – um trio que se tornaria tão mitológico quanto Aquiles, Hércules e Enéias neste nosso universo – participam da guerra defendendo Galbadia.

Durante a guerra, Laguna se apaixona por Julia, uma pianista. É um amor correspondido, mas Laguna precisa voltar ao front. Ambos prometem se casar no futuro.¹ Esthar se prepara para achar a sucessora de Adel, com o beneplácito da própria, que sente que pode ser vencida ou então quer produzir algum tipo de distração em grande escala – e encontra-se Ellone, ainda uma criança, em Winhill. Ellone não é capturada, mas é tornada órfã de pai e mãe quando militares tentam levá-la. Uma mulher chamada Raine adota Ellone poucos dias depois do incidente. Ellone não é uma criança destinada a ser uma feiticeira qualquer. Ao mesmo tempo parece mais fraca e mais forte que uma “feiticeira-padrão”, daí o interesse dos pesquisadores e estrategistas de Esthar na garota…

¹ As coisas galoparam rápido demais de uma ambientação nível Guerra nas Estrelas a algo mais similar a Tolstoi! Diria que essa transição se deu na velocidade da l… mas seria um clichê rematado.

19 a.S.e.: Laguna, Kiros e Ward se aventuram na cratera da antiga civilização de Centra, são encurralados, sobrevivem após pular de uma grande altura em direção ao mar revolto, mas acabam separados. Laguna pára em Winhill, onde é resgatado e tratado de seus ferimentos pela altruísta Raine. Depois disso, assim como Ellone, passa a viver em sua casa.

Crendo Laguna morto, Julia compõe um tributo a sua finada alma-gêmea, a canção Eyes on Me, um grande sucesso de crítica nos meios eruditos, e acaba se casando com o general de Galbadia Sr. Caraway.

O Pilar de Cristal, rebatizado Pandora Lunática, é extraído da cratera e levado a Esthar para investigações mais exaustivas pelo doutor Odine, uma espécie de Oppenheimer deste universo.

18 a.S.e.: Adaptado a uma nova vida, convertido em padrasto de Ellone, Laguna engravida Raine. Entretanto, Ellone desaparece ao mesmo tempo, e é um elemento-chave para a conclusão da Guerra da Feiticeira. Os responsáveis foram os mesmos perseguidores de 6 meses antes: soldados de Esthar que reincursaram em Winhill. Laguna parte em busca de sua enteada.

Ellone é o receptáculo de magia mais poderoso existente no planeta, e apenas a arqui-vilã do jogo – ainda atuando por trás das cortinas – o sabe neste momento. Mesmo que não desconfiem nem de metade do potencial de Ellone, não significa que não a considerem um indivíduo ou material valiosíssimo…

Galbadia segue sua sanha expansionista e ocupa Timber. Nasce Rinoa Heartilly, filha de Julia e do general Caraway, na província de Timber, nesta mesma cidade.

Alguns meses depois, Laguna encontra um orfanato mais ou menos próximo de Winhill administrado por Edea, a Matrona, que dedica sua vida a abrigar órfãos, mas não encontra informações sobre o paradeiro de Ellone. Ele resolve se reunir com a dupla de amigos do passado, Kiros e Ward, para melhorar as chances de sucesso da busca. Provavelmente a única maneira será deduzindo que Ellone se encontra bem-guardada em Esthar, a “hipótese B”, e invadir o covil do inimigo confiando no palpite. Raine, não mais de 9 meses tendo decorrido após a ausência de Laguna, finalmente dá a luz a Squall Leonhart.

O “trio Laguna” chega a Lunatic Pandora. Os padrões cerebrais de Ellone são cuidadosamente estudados pelos meios tecnológicos de que dispõe o império. São os primeiros passos para a criação de uma máquina do tempo.

Cresce o movimento de resistência a Adel; Laguna se destaca como líder revolucionário. Um exército de guerrilheiros resgata Ellone e Laguna se sobressai como combatente do lado vencedor da guerra. Os poderes de Adel são selados com a ajuda dos dados das pesquisas do doutor Odine, figura extremamente ambígua, que afinal pesquisava Ellone a mando de Adel para benefício próprio. Em vez de matá-la, os terráqueos a enviam em criogenia direto para o espaço sideral mediante um veículo chamado Ragnarok, supostamente para que outra mulher jamais herde seus poderes e reinicie imediatamente a guerra (sendo impossível matar uma feiticeira ou o espírito de uma feiticeira, que voltaria instantaneamente a encarnar noutra mulher).

Laguna, obtendo mais do que aquilo que procurava, se torna presidente da nova Esthar – mas cumpre a promessa original e devolve sua enteada à mãe. Ele, porém, não volta a Raine, nem toma qualquer iniciativa no sentido de trazê-la para perto de si. Esthar acaba isolada do resto do mundo para preservar o segredo da “arma destruidora”, o cadáver suspenso de Adel. Um campo de força evita que o resto dos continentes interfira com as ondas de rádio do exército local, que monitora a nave Ragnarok e o próprio mausoléu.

16-14 a.S.e.: Raine morre e Squall e Ellone são enviados para um orfanato, o mesmo orfanato de Edea. Zell, Quistis, Irvine, Selphie e Seifer são outras crianças do orfanato. Desde muito jovens desponta uma estranha inimizade entre Squall e Seifer.

13 a.S.e.: Ultimecia, uma entidade potencialmente extra-terrena, feiticeira das feiticeiras, e Squall, adulto, surgem na linha do tempo após a descompressão temporal, um pós-evento cataclísmico ainda não-explicado, em visita ao orfanato de Edea. Ultimecia está agonizando, mas não pode morrer enquanto, conforme a tradição do poder único das feiticeiras, não retransmitir seus poderes para outro receptáculo do sexo feminino. Seguindo Squall ela acaba se deparando com a candidatura perfeita, Edea, que se torna assim sua sucessora, voluntariamente, evitando que Ellone ou outra das crianças, como Quistis ou Selphie, se tornasse a nova feiticeira e futura nêmese do universo inteiro. Squall Leonhart estabelece ele mesmo as condições para a repetição cíclica de todos os eventos temporais, anulando causas e efeitos e consumando o plano que formulara semanas antes em sua própria linha do tempo (no futuro), explicando que Edea deve participar de um complot envolvendo Balamb Garden e o recrutamento de SeeDs (citados pela primeira vez na cronologia deste mundo). Ultimecia (ou seu corpo) desaparece após a transmissão do poder. Squall adulto abandona este tempo após coexistir por alguns segundos com sua encarnação mais jovem, um garotinho de 4 ou 5 anos.

Edea não pode se manter com os poderes de Ultimecia sem perder a personalidade, o que não sucede de maneira instantânea, sendo um fenômeno de caráter imprevisível, conhecido pela tradição deste mundo, que sempre combateu as feiticeiras nas diferentes eras. Dessa forma, ela se prepara para os eventos do futuro como pode, ao lado de seu marido Cid, com quem compartilha a verdade insólita. Com ajuda financeira das tribos de Shumi – amigos de Laguna –, Cid funda três academias militares, todas conectadas à história oculta de Centra e Esthar.

Os SeeDs Brancos de Elite são criados, principalmente para proteger Ellone, conduzindo-a a lugares remotos e incertos, pois ela ainda é procurada por cientistas como objeto de estudo anti-feitiçaria. O pequeno Squall, da linha temporal linear, pensa que sua meia-irmã mais velha “o abandonou”, quando a verdade é que ela foi removida do orfanato à força.

Julia Heartilly morre num acidente de carro (o que é bastante irônico, tendo-se em conta o sobrenome de seu marido). Rinoa é uma criança infeliz em sua relação com o general seu pai, CAR-AWAY!

12 a.S.e.: Termina a construção dos Gardens. Jovens podem voluntariamente se inscrever para tentar se tornar “black” SeeDs, mercenários de elite cuja missão oficial é servir para a paz em conflitos que emerjam em todo o globo. Os jovens de orfanatos são o público preferencial dos Gardens assim que atingem certa idade. Cid é o reitor de Balamb Garden.

11-1 a.S.e.: O treinamento com o(a)s Guardian Forces causa amnésia nas crianças, que esquecem que já tiveram vínculos entre si. Selphie e Irvine são enviados para outros Gardens: Trabia e Galbadia, respectivamente.

Edea é possuída pelo espírito de Ultimecia em definitivo, perdendo a consciência, e rapidamente se torna uma figura que comanda Galbadia dos bastidores. Galbadia atual, como a Esthar de décadas anteriores, que contava com os poderes adicionais de Adel, é a maior potência militar do mundo.

Rinoa se rebela contra seu status aristocrático e adere a um movimento revolucionário de Timber que luta contra o imperialismo de Galbadia. No verão do último ano antes do confronto entre Squall e Seifer que levaria o primeiro à enfermaria e causaria cicatrizes em ambos os rostos, Rinoa e Seifer têm um “caso de verão”.

[ZER]

A partir de Squall na enfermaria

(MARCO ZERO DE FINAL FANTASY VIII)…

Squall vê Ellone através da janela da enfermaria, sem reconhecê-la. Esse é o dia do teste para novos recrutas da SeeD e da obtenção do GF da caverna de fogo, Ifrit, em que Squall é supervisionado por Quistis. No teste, o trio designado como “equipe B” é Squall, Zell e Seifer, este último como capitão. Quistis Trepe deve garantir a segurança dos alunos em qualquer episódio extremo, mas não pode intervir em suas ações de modo a modificar a avaliação da performance no teste. Trata-se de uma ação militar genuína, e não de um ambiente simulado. O local é a cidade-ilha de Dollet, ex-potência militar, que foi recém-invadida pelas forças de Galbadia. Selphie, da outra base, desempenhando o papel de mensageira entre células, encontra o trio no meio da missão e se junta à equipe durante o fogo cruzado. Ao mesmo tempo, Seifer deserta sua função de líder. Os três que guardam os comandos da missão obtêm com êxito seu grau SeeD; Seifer fracassa devido à insubordinação. Quistis é “rebaixada” da função de instrutora da Garden para “mera” soldada SeeD, por não ter sabido lidar com o comportamento arbitrário de Seifer, que pôs todos em risco. Ex-instrutora de Squall, ela é apenas 1 ano mais velha e tem a mesma idade de Rinoa – é a pessoa mais jovem a ter sido aprovada num exame da SeeD, um talento militar nato.

No baile de graduação, Squall e Rinoa se conhecem e dançam casualmente. Ellone é vista na mesma noite dentro do campus por Squall e Quistis, fugindo de monstros, mas sua identidade seguia um completo mistério. A primeira missão do protagonista Squall pela SeeD é como líder da célula composta ademais por Zell e Selphie, agora integrada a Balamb. Eles devem dar apoio ao grupo paramilitar Forest Owls, de Timber, que tentará seqüestrar o presidente de Galbadia em sua visita ao distrito revoltoso. Os três desmaiam no trem de ida.

Todos experimentam um “sonho coletivo” com visões do passado remoto: eles vêem as vidas de Laguna, Kiros e Ward. O flashback acaba no encontro entre Laguna e Julia, relatado na cronologia pré-jogo.

Finalmente o trio, agora acordado, é oficialmente introduzido a Rinoa, da resistência, a “chefe” extra-oficial da missão, apesar de sua expertise militar quase zero, já que a SeeD funciona como uma empresa e ela é, pelo menos pensa-se, a cliente e financiadora deste trabalho. Após o bem-sucedido seqüestro do presidente, descobre-se que ele era um mero duplo, cuja verdadeira identidade é um monstro morto-vivo plantado para assassinar a célula SeeD. Alguém vazou a informação de que tentariam cometer o seqüestro. As ordens recebidas por Squall e os outros são que a SeeD deve apoiar os “corujas-rebeldes” até que Galbadia seja expulsa de Timber, por força de contrato.

O verdadeiro presidente Deling – pelo menos por enquanto – está fazendo um pronunciamento ao vivo na TV. Rinoa comanda a segunda tentativa de seqüestro da autoridade, no local. Antes que a célula SeeD pudesse agir, Seifer interfere, ele mesmo tomando o presidente como refém. Seifer se tornou o principal subordinado da feiticeira Edea, a própria relações públicas e embaixadora de Galbadia para a paz, quem planeja tomar Timber e conseqüentemente Galbadia num coup d’état! Mas a natureza da ação de Seifer não é entendida pelos demais.

Quistis também estava presente na transmissão, por algum motivo, aparentemente enganada por Seifer Almasy. Na confusão da missão de infiltração, Zell deixa escapar que o trio que deveria permanecer incógnito é de Balamb Garden. O tumulto se generaliza, com Deling prometendo vingança caso ajam contra sua integridade. Nesse momento Rinoa revela seu passado com Seifer, e que nutre certa idolatria por ele. Depois que Seifer estabelece as condições da soltura do refém, Edea faz sua aparição triunfal, cancelando a cerimônia. O restante da milícia de resistência é derrotado. Rinoa solicita ser escoltada para um lugar seguro onde agirão à paisana. Squall e Rinoa chegam ao pub de uma simpática senhora. Watts e Zone, da milícia dos corujas, conseguem passagens para os SeeDs evadirem Timber e se dirigirem ao Galbadia Garden.

Quando desembarcam do trem, na travessia montanhosa, Squall, Zell e Quistis – dessa vez a última no lugar de Selphie – desmaiam e têm outra experiência de sonho coletivo… Laguna, Kiros e Ward continuam seu enredo. Eles estão em trabalho de escavação em Centra, como já descrito na linha do tempo. Esthar parece ter descoberto sobre a existência e a importância do Pilar de Cristal, estrutura que se encontra em suas fronteiras. Isolando-o magicamente, seria criada a posteriori a fortaleza de Lunatic Pandora, a caixa inexpugnável. Laguna, Kiros e Ward quase se perdem nos túneis e seqüências de lances de escada, mas sobrevivem ao assédio dos soldados de Esthar. O fim da linha é a borda dum penhasco que dá para a costa. Quando Laguna se perde de seus asseclas, os SeeDs despertam de seu “sonho lúcido”.

O grupo do presente chega a Galbadia. Quistis se separa neste momento para realizar suas próprias investigações. Os outros se reúnem numa conferência. Quistis descobre que Seifer aceitou o papel de bode expiatório para acobertar o incidente de Timber, então pensa que ele está do lado certo. Balamb Garden será publicamente isentada de culpa no episódio. No entanto, a pena para Seifer será a capital. Rajin e Fujin, dois estudantes de Garden e os melhores asseclas e amigos de Seifer, encontram o grupo dos personagens controláveis. Eles trazem novas ordens de Cid. O grupo decide resgatar Seifer da morte certa, pois ainda acreditam que Seifer é um legítimo balambgardian, sem entender o contexto de sua intervenção no seqüestro de Deling – ainda que um não-SeeD não pudesse se envolver militarmente no mundo como Seifer o fez.

Com a relação normalizada entre as bases Garden, o grupo é protocolarmente recebido em Galbadia pelo diretor Martine, hierarquicamente subordinado de Cid. É neste momento que o SeeD Irvine Kinneas é incorporado à equipe do protagonista. A próxima missão é bem direta: o homicídio da usurpadora Edea “Temer”, perpetradora do autogolpe de Galbadia. Irvine é apresentado como um especialista em atentados letais, sendo um atirador à distância. O grupo se dirige novamente a Deling City.

Uma side quest interrompe a missão do grupo, na Tumba do Rei Desconhecido. Squall e os outros devem achar um estudante desaparecido, porque os habitantes locais ainda não confiam nos SeeDs. Dois poderosos Guardians são obtidos pelo grupo nessa exploração colateral. Depois de cumprir a missão o grupo recebe o passe do General Caraway, pai de Rinoa, para a destinação final. Squall descobre a filiação do anfitrião com sua cliente. Foi ele quem contratou a célula SeeD para o ataque desde o começo – Rinoa era só uma intermediária, agindo por procuração. Edea realizará um desfile pela cidade em celebração a sua ascensão ao poder. Será a noite da execução planejada. O sexteto se divide em 2 trios. Um deles servirá de distração enquanto o outro cumprirá o serviço.

Depois de conflitos internos, Rinoa abandona o grupo, por ordem de Quistis, mostrando desconforto e potencialmente ciúmes da filha de Caraway e afetos não-resolvidos por Squall. A missão segue com um trio e uma dupla (a dupla de assassinato sendo Squall e Irvine). Rinoa, no entanto, não deixa de cumprir sua parte como loba solitária, chegando ao cômodo de Edea primeiro. A feiticeira possuída mata o presidente Deling em público e se declara formalmente a líder de Galbadia. Imobiliza Rinoa facilmente. Irvine e Squall salvam a vida de Rinoa no último instante, matando dois Iguion que, fundidos, geram um novo Guardião, chamado Carbuncle.

O grupo ainda não havia entendido de que lado Seifer estava no jogo de forças, e se deparam, por fim, com evidências de sua escolha por servir a Edea. Em tese o plano funciona, Edea cai na armadilha do grupo e Irvine acerta a feiticeira fatalmente. Mas a magia de Edea repele o tiro. Squall tem de combatê-la frente a frente, não sem antes acertar as contas com Seifer, a quem deixa inconsciente no campo de batalha. O embate parece um tanto artificial. Edea não parece tão forte, mas, quando mais dois SeeDs chegam para ajudar, notam que a feitceira vem sendo evasiva e ardilosa. Ela acaba escapando e confundindo o grupo, mas não antes de uma cena de impacto que encerra o primeiro compact disc da história: uma estalactite perfura o peito de Squall e ele cai de grande altura, desmaiado.

Novamente um flashback onírico de Laguna. Nesse episódio ele é o protetor de Winhill. Brinca com Ellone, que parece ter 3 ou 4 anos à altura. Kiros intervém e Laguna, tendo sua vida familiar interrompida, adquire conhecimento dos incidentes em Centra, no qual o trio havia se separado e perdido contato. Isso havia sido apenas 6 meses atrás. Ward escapou mas perdeu a voz. Laguna também descobre sobre a carreira musical de Julia e seu recente matrimônio. O ex-prometido de madame Heartilly não parece ressentir sua presente situação, no entanto.

Zell acorda numa cela ao lado de Rinoa, Selphie e Quistis. Ele impersonava Ward no sonho coletivo e reconhece que está no presídio do Distrito D, onde W. passou a ser um carcereiro após o incidente de Centra (explicando seu nome, talvez?). Squall também está no mesmo presídio, mas confinado numa cela particular, que se move como um elevador pelo complexo. Atado, Squall é provocado por Seifer, e uma sessão de tortura está prestes a iniciar. Guardas nocauteiam Zell e seqüestram Rinoa. Na câmara, Seifer quer respostas de Squall sobre o verdadeiro propósito da SeeD. Squall permanece calado.

Seifer tenta sua última carta na manga: Edea teria ordenado um ataque de mísseis simultâneo a Balamb e Trabia Gardens. Os sobreviventes deveriam ser caçados e mortos por Seifer. Seifer, sem mais tempo para o mudo e resiliente Squall, abandona o aposento. Porém, ele é torturado por outros guardas; continua a desconversar com besteirol, mantendo as informações da SeeD protegidas. Enquanto isso, Selphie e Quistis simulam estar doentes para conseguir escapar de seus confinamentos. Zell, acordado, usa seu conhecimento inconsciente do local para achar as armas que lhes haviam sido depostas. Wedge e Biggs, dois soldados falastrões e atrapalhados, reaparecem após o fracasso em Dollet, relutantes em enfrentar a SeeD novamente.

Finalmente o grupo chega a Squall e o liberta. Uma criatura amistosa (uma quimera mágica) que acompanha o grupo desde a cela, um Moomba, como que uma paródia de Red XIII de Final Fantasy VII, emite suas primeiras palavras ao encontrar o líder do time controlável: “La…gu…na!”. Rinoa reentra em cena acompanhada de Irvine. Com essa nova ajuda os fugitivos conseguem escapar do presídio pelo topo (os primeiros andares estão inundados após um alerta de segurança ter submergido parte da prisão).

No deserto que circunda o Distrito D, o grupo se reúne em paz após algum intervalo e discute o próximo passo. É óbvio que os mísseis precisam ser interceptados. Irvine ouviu dizer que não irão bombardear Balamb de imediato, como Seifer dissera com convicção ou apenas como um blefe, mas que Trabia não tem como ser salva a essa altura. Squall decide voltar a Balamb para iniciar uma contra-rebelião. O sexteto se divide novamente: com exceção do líder, de Irvine e Rinoa os demais vão direto à base de onde provêm os mísseis.

Na missão do grupo de Selphie, apesar do sucesso final, no momento de explodir a base eles são envolvidos em uma batalha imprevista e o tempo se esgota. Aparentemente foi uma missão de sacrifício, e a base vai pelos ares, com os corpos dos SeeDs ainda em seu perímetro. A verdade última, porém, é que eles conseguiram refúgio dentro de armaduras blindadas. Squall e companheiros também são exitosos em sua missão.

O grupo, então, reunido, descobre que Edea é ou era a esposa de Cid. Cid conta sobre o passado dos jovens, que vão recuperando suas memórias afetadas pelos Guardiães, mas ainda não satisfatoriamente. Ellone, a meia-irmã de Squall, que ele pensava tê-lo abandonado, finalmente é revelada como uma importante componente da Garden. Squall se dá conta, ao reencontrá-la, que ela era a menininha do sonho de Laguna, o que ajuda a reconstruir mais de suas próprias lembranças. Ellone revela seus poderes especiais, aquém aos de uma feiticeira típica, mas ao mesmo tempo exclusivos e cobiçados até pelas próprias feiticeiras: todo esse tempo ela tem feito os SeeDs entrarem em estado inconsciente a fim de mostrar o passado, fazendo-os revivê-lo diretamente, quem sabe até alterá-lo. Squall, por exemplo, sempre assumia o corpo e a consciência de Laguna, mas os resultados eram sempre os mesmos. É Laguna uma duplicata de Squall, além de seu pai biológico? Os White SeeDs, os seguranças particulares de Ellone, chegam ao local com novas ordens para deslocá-la e os dois irmãos tão maltratados pelo destino se despedem mais uma vez.

A próxima paragem do jogador é Fisherman’s Horizon, quase uma utopia neste mundo, em que os refugiados das inúmeras guerras entre Esthar e Galbadia podiam viver em paz. Oportuna ou inoportunamente, o exército de Galbadia invade o lugar justo quando Squall e seus companheiros estão presentes. Finalmente o trio da base explodida se reencontra com o trio mandado a Balamb. Os relacionamentos e a moral do grupo são o enfoque do próximo arco, com Rinoa e Squall se desenhando mais e mais como um casal. Selphie está deprimida, Irvine tenta seduzi-la mas não é correspondido. Squall, no auge de seus 17 anos, é nomeado por Cid o novo comandante supremo da SeeD. Carreira um tanto meteórica até para um universo ficcional! Todo esse senso de responsabilidade – de alguém que viveu atos heróicos do próprio pai, ainda que em sonho, tendo agência própria nos eventos! – parece estar quebrando Leonhart por dentro. Para completar, ele ainda não conseguiu cicatrizar toda a história do falso abandono de sua infância, tendo sido obrigado a se separar de Ellone antes de se habituar de novo a sua presença.

Numa visita a Trabia, em que Selphie se despede de seus amigos mortos e ajuda a cuidar dos feridos sobreviventes, algumas das cenas mais icônicas do jogo dão lugar. Enquanto espairecem numa quadra de basquete, lembranças são engatilhadas no grupo inteiro por uma súbita fala de Irvine, para a qual a revelação de que Edea era casada com Cid servia de pequeno foreshadowing: todos eram companheiros órfãos no passado e sempre reconheceram Edea como sua mãe adotiva. Irvine parece ter lembrado primeiro dos episódios porque Galbadia Garden passou a usar o poder dos Guardiães apenas muito recentemente; assim como Selphie foi a segunda a ter suas lembranças ressuscitadas. A situação de desconforto de Irvine desde que se juntou ao grupo é explicada, mas parece significar que ele errou o tiro de propósito ou sabia que Edea reagiria a tempo a sua tentativa de execução no atentado em Deling. Como Rinoa não era uma das crianças, ela se sente muito sozinha nesse segmento, como que rejeitada ou ostracizada pelo grupo, uma estranha no ninho.

Em meio a uma nova batalha com as tropas galbadianas, Rinoa solicita o anel de Squall – um memento de família – por intermédio de Zell, pois tem vergonha quando pensa que se pedir o anel a Squall diretamente todos pensarão que os dois estão oficialmente comprometidos – até diante de Squall esse pensamento causa embaraço a Rinoa. Zell obtém o anel emprestado jogando conversa fora, mas durante o conflito não consegue entregá-lo a Rinoa de imediato. Quando Zell finalmente repassa o anel, algumas cenas depois, um tremor sucede. Os dois Gardens estão em franca guerra total. Escusado é relatar ao leitor não-jogador a essa altura do campeonato (dado o fator sci-fi do enredo e a importância maior dada aos afetos na storyline) que as bases Garden são secretamente enormes veículos com auto-propulsão que podem se deslocar pelo espaço aéreo, e esta é uma destas loucas batalhas quase sem regras no mundo conhecido da física, lembrando mais uma franquia de George Lucas que qualquer momento prévio em FF!

Rinoa fica dependurada em estruturas inclinadas prestes a ceder. Squall pede a Zell que resolva a situação, pois precisa proteger a vida das crianças e adolescentes nas salas de aula ao mesmo tempo. No fim, envolvido em outra batalha aérea, é Squall quem salva Rinoa. Os SeeDs invadem o subterrâneo (ou o porão da nave) de Galbadia Garden, onde está a sala de controle dos motores do veículo-escola. Seifer acaba mais uma vez derrotado e perde sua função de co-vilão na estória, pelo menos até o confronto final no Pilar. Agora é Edea quem antagoniza diretamente com os jovens na esperada revanche…

Edea não se segura neste segundo confronto (como se o resquício de lembrança que lhe restava tivesse sido apagado por Ultimecia), ainda não-conclusivo, embora o grupo de jovens tenha conseguido extrair-lhe o poderoso GF Alexander. Em lugar da vitória esperada, no entanto, o tempo congela. Sem poder se mover, mas ainda consciente, Squall assiste uma Rinoa hipnotizada claudicando em direção a Seifer. Ela se inclina em direção ao pé do ouvido do arqui-rival e ex-amante e conta-lhe algum segredo vital para a estória. A reação de Seifer é se reerguer, mesmo muito ferido, e empreender sua fuga. Edea é envolvida numa explosão de luzes. O “campo congelado” desvanesce e Edea parece tão confundida quanto o grupo com o que se passa. Aparentando genuína alegria e nostalgia, ela cumprimenta todos aqueles a quem tentara matar segundos atrás, ao demonstrar reconhecer por fim suas fisionomias, fisionomias que agora suscitam-lhe emoções verdadeiras. Não é mais a Edea possuída de antes, mas a antiga matrona do orfanato. Todos retornam a Balamb em paz, mas o preço colateral é que Rinoa está em coma desde que agiu da forma mais estranha no campo de batalha.

Edea explica que estava sob o controle de Ultimecia, a última (pun) feiticeira, a verdadeira raiz dos problemas deste mundo. O objetivo da trágica Ultimecia¹ após ser rejeitada pelo corpo de Edea é ressuscitar a feiticeira Adel das guerras passadas, ou antes tomar seu corpo que está em crisálida. Como o estado de Rinoa preocupa, decidem ir atrás de Ellone, que pode conhecer um método de trazê-la de volta.

¹ Criatura nascida no futuro e que viaja ao passado (reza o lore, que por não compreendê-la ora também atribui-lhe genealogia alienígena), se for – e é – uma criatura cultivada, aprendeu que foi derrotada no passado, lugar em que desembarca buscando a onipotência e a vitória. Diferentemente de nós, que estudamos a História para jamais repeti-la, conscientes de que não existe nem existirá máquina do tempo, Ultimecia pertence a um universo em que viagens temporais são uma realidade – e por isso todo seu esforço é apenas seu destino sisífico. Mas é durante essa jornada que ela entende seu verdadeiro propósito (não era tornar-se deus ou vencer, no sentido clássico e binário), e que ele se cumpriu… Continue a leitura!

Os sentimentos represados de Squall finalmente jorram, e ele mais do que nunca sente a necessidade de se comunicar com Rinoa, ironicamente agora que ela não pode escutá-lo. Squall desfalece e recai em seus sonhos interativos produzidos pela mágica de Ellone… A diferença dessa vez é que antes de recobrar a consciência Squall, em estado de sonho lúcido, consegue trocar palavras com Ellone. Ele também observa passivamente uma cena de Laguna conversando com Edea sobre Ellone. Posteriormente Squall descobre que o paradeiro atual de sua meia-irmã é Esthar.

Squall está afundado em solilóquios e paralisado pela melancolia. O mundo para ele não interessa, não corre perigo. Ele só consegue pensar em Rinoa. Quando a nave da Garden aterrissa em Fisherman’s Horizon, Squall leva o corpo estático e inerte de sua musa nas costas, segue a pé pelo comprido trilho do trem. Seus pensamentos, dessa vez declarados em voz alta, giram em torno dessa questão tão paradóxica: o pouquíssimo tempo que tiveram juntos modificou-o por completo; e agora, justo agora que ele o compreende, não tem acesso a suas palavras, a sua risada… Admite perante uma Rinoa surda que tinha um exterior de ouriço para esconder o fato de que ele se importa muito com os outros, e com o que os outros acham de si; para esconder que ele é só uma pessoa insegura e que precisa incondicionalmente dos seus amigos.

Chegando ao fim da estrada de trilho, já na estação da desolada Esthar, Squall surpreende-se ao ver que todos os seus amigos estavam já a sua espera. Para eles era senso comum aparecer para ajudar Rinoa a recuperar a consciência e encontrar Ellone. E ainda mais fantástico: Edea também acompanha os SeeDs. Com auxílio de sua poderosa mágica, quem poderá dizer que a missão não será cumprida? Abadon, o guardião morto-vivo, é aniquilado por Edea às margens do Grande Lago Salgado. Eles encontram uma passagem subterrânea e um terminal de computador que revelam que há um sistema de camuflagem para deixar a capital de Esthar invisível. Depois de desabilitar essa medida de segurança, finalmente penetram na cidade inimiga. Assim que entram, porém, Squall desmaia…

…Laguna é um prisioneiro trabalhando no laboratório de Lunatic Pandora. Depois de salvar outro escravo, um Moomba, Laguna é interpelado por outros homens da resistência contra Adel, que aclamam-no seu novo líder. Eles precisam fugir e retaliar a feiticeira. Laguna heroicamente chama a atenção dos guardas enquanto o Moomba e outros rebeldes conseguem evadir. Kiros e Ward vêm ao encontro de Laguna. Eles resolvem fazer uma parada no laboratório de Odine e recebem a informação de que Ellone lá se encontra, sendo objeto de pesquisas e experimentos. Laguna ameaça Odine até o cientista se acovardar e contar tudo que ainda ocultava. Ellone estava, na verdade, em outro laboratório, também comandado por Odine, o principal da rede de laboratórios dos estharianos. O padrasto acha então sua querida enteada. Quando se abraçam, Squall acorda…

Os membros da SeeD são escoltados até o palácio presidencial. Edea quer se livrar definitivamente da maldição de Ultimecia, se isso for possível (como ela ainda possui poderes, não está descartada a hipótese da consciência de Ultimecia voltar). Odine, o cientista quase-maluco obrigatório em todo enredo futurista “de segunda prateleira”, deve ter algumas respostas. Ele realmente propõe uma solução, e ela é até bem simples. Squall, não obstante, não quer saber de conversa e demanda incontinenti o paradeiro exato de Ellone, espelhando a cena de anos atrás. Odine, cheio de si, diz que arranjará tudo. O que eles querem está em East Esthar.

Explica-se a Squall que curar Rinoa exigirá que ele e Ellone levem-na a uma base lunar, o lugar mais avançado em tecnologia de que dispõem os habitantes do planeta, para que mais dados sejam coletados e entenda-se o coma que a medicina comum não sabe tratar. Zell declara seu desejo de permanecer e ser o guarda-costas de Edea, agora que sente de novo afeição por sua mãe adotiva. Squall faz uma dupla com Selphie. Eles fazem essa incrível viagem: Squall, Selphie e o corpo passivo de Rinoa, sendo lançados para fora da órbita, até o satélite. Depois que eles partem, Angelo, o cachorrinho de Rinoa, começa a desenvolver sintomas de loucura.

No laboratório de Odine causa pavor a informação de que os galbadianos invadiram Pandora e agora estão no controle da estrutura. Zell e os dois PCs que estão consigo vão investigar. Enquanto avançavam pelo interior do cristal gigante, são violentamente expelidos, sugados pelo topo da estrutura e jogados novamente em Esthar. O complexo de Pandora se move, e seu paradeiro é também a lua. Edea, quase inconsciente, só consegue repetir, murmurando: Lunar Cry, Lu…nar Cr…yyy… O choro da lua, lágrimas da lua. Os demais não sabem o que isso significa. Algo terrível se avizinha.

Squall posiciona Rinoa num leito dentro do laboratório médico da estação lunar. Ele sai para explorar as imediações. Ele e Selphie vêem, ao longe, a tumba de Adel flutuando no vácuo, selada desde o fim da guerra. O presidente de Esthar está ele mesmo de perto guardando o túmulo, prevenindo que alguém apareça para desfazer os selos (não é revelada sua identidade). Na sala de controle, o grupo é apresentado aos monstros que vivem na superfície lunar! Ellone estava esse tempo todo escondida e sendo protegida nesta estação. Squall pede sua ajuda para tirar seu grande amor do estado de coma. Depois de algumas palavras que tentam consolar o coração de seu querido meio-irmão, Ellone explica que seus poderes de viagem temporal não são irrestritos: ela não pode mudar o passado e salvar Rinoa, principalmente porque não a conhece ainda.

O coma de Rinoa muda de fase: em vez da inércia, ela se torna alguém como que em hipnose ou sonambulismo, percorre os corredores, seu corpo se torna diáfano e começa a desaparecer e reaparecer alternativamente, mas ao mesmo tempo sua existência parece se estender a outros locais e tempos. Ela não pode ver ou escutar aqueles que estão ao seu redor na lua. Quando Squall tenta abraçá-la, é intensamente repelido pela “aura” rebelde que a circunda. Ele apenas a segue até a sala de controle. Rinoa desativa facilmente a primeira camada de selos que protegiam a tumba de Adel, depois torna a estação inoperante e em conseqüência a lua fica sem comunicação com o planeta. Ela se dirige aos vestiários e se veste com uma roupa de astronauta. Consegue evadir pelos dutos de ventilação. Squall continua a segui-la, mas não pôde fazer nada contra as ações daninhas de Rinoa. Quando ela sai da atmosfera lunar e se encontra em pleno espaço sideral, tudo o que Squall pode fazer é assistir horrorizado o corpo estranho flutuante – ele se aproxima da tumba desguarnecida de Adel e quebra um a um os selos mágicos reminiscentes, como se fossem meras armadilhas de rato. A única alternativa de Squall, sem outra veste adequada para a exploração espacial ou um cabo comprido o suficiente que o mantenha atrelado à estação, é usar um dos pods, pequenos veículos, que comportam três assentos, ao lado de Selphie e Ellone, para se aproximar da tumba e tentar prevenir a catástrofe maior que se desenha.

Ao mesmo tempo, uma horda de monstros nasce, como se plantas fossem, da superfície lunar, e se dirigem ao planeta. É isso que os humanos e principalmente a informada e previdente Edea chamava em seus murmúrios de Choro da Lua, outra hecatombe desastrosa e simultânea com as ações comatosas de Rinoa, ambos atuando em sincronia para causar a destruição do espaço-tempo como se o conhece. Depois de “cumprir seus desígnios” como um peão sem vontade própria num tabuleiro que excede todas as individualidades em luta, liberando o cadáver de Adel do selamento mágico, Rinoa é repelida da tumba e reconquista o estado consciente.

No pod, Squall e Ellone, observando a curta distância, tentam entender o que se passou com Rinoa. Squall tem uma experiência mística: vê a vida de Rinoa através da perspectiva de outras pessoas com quem ela convivera, por exemplo quando convenceu Irvine a voltar à Prisão do Deserto para resgatar o time SeeD sob custódia de Seifer e Edea, mas também o momento em que Zell confidenciava com Rinoa sobre fazer uma cópia do anel de Squall, o Griever, a fim de que ela tivesse sempre consigo um item que remetesse a Squall.¹ Ellone também participa desse estranho fenômeno e enxerga o momento da derrota de Edea, enquanto possuída por Ultimecia. Ela compreende o que se passou com Rinoa esse tempo todo a partir do coma: a essência de Ultimecia saltara de Edea para Rinoa, e agora de Rinoa para o corpo libertado de Adel. Ela foi um instrumento passivo do grande plano da entidade para assumir o controle da existência. Rinoa podia ser esse vaso comunicante porque desde sempre tinha o que era necessário para ser uma feiticeira, e todos ignoravam o fato. Fosse ele conhecido, a White SeeD também protegeria Rinoa, como fez com Ellone todos esses anos. Rinoa não terá como voltar à base e morrerá à deriva no espaço vazio, pois perdeu sua utilidade e é, para Ultimecia, agora, apenas uma casca.

¹ Esse detalhe é muito importante para entender o enredo do jogo que não é contado diretamente, i.e., fica nas entrelinhas (continue a leitura).

O som não se propaga no vácuo, mas Squall tenta chegar a Rinoa pelos poderes de Ellone. Ele sente que a temperatura corporal de Rinoa está em rápida queda e seu suprimento de oxigênio perto do fim. Eventualmente, ela faz sua última inalação com o tanque de oxigênio da roupa de astronauta, que garantia meia hora de fôlego. Ela fecha os olhos e o corpo deixa de responder. Os dois anéis que Rinoa estava usando, por cima da veste tecnológica (!!), o original de Squall (que ele deixou com seu corpo comatoso) e a réplica combinada com Zell, presos ao seu pescoço por uma corrente, quebram o elo e partem em direção ao próprio Squall. Miraculosamente, a voz de Squall parece reverberar agora, na mente de Rinoa, que ainda não expirou. O amor é mesmo afrodisíaco, amigos, até para os pulmões em situações críticas como esta! Rinoa se recorda (só agora!) que tem um tanque de oxigênio reserva na roupa e restaura a respiração, por pelo menos 5 minutos…

…Squall sabe que não poderá trazer Rinoa de volta nesse pequeno intervalo, mas não deixa de sentir que sua própria vida renasce ao perceber que Rinoa voltou a respirar normalmente graças ao segundo tanque. Ele decide se desplugar do pod num traje espacial (por conveniências da plot, havia um dentro do pod, sem o cabo!) e abraçar Rinoa, num último adeus, a ela e ao mundo. Ambos morrerão sem oxigênio e a à deriva. Decidiu-se, no meio do breu, da mesma forma como a nada se decidia enquanto habitava o planeta e fugia das responsabilidades e escolhas significativas… Seu último ato cimenta sua maturidade. Dessa vez nenhum novo tanque de oxigênio poderá salvá-los, será o fim do casal. Mas justo neste instante crucial uma das espaçonaves Ragnarok (utilizadas na última guerra) aparecem em órbita, prestes a cruzar com os pombinhos em sua trajetória errática pelo cosmo escuro. Eles conseguem ingressar no veículo. Parece que se despedirão em grande estilo em uma próxima oportunidade: ainda não era chegada a hora!… O mundo ainda precisa de ambos, além de um ao outro…

Ao verificarem que o interior da nave é respirável, desvestem suas “armaduras protetoras” e podem conversar com as roupas convencionais que usavam na estação há alguns momentos. Não demora muito até que percebam que a nave está sendo observada e perseguida por alienígenas chamados Progators. São adversários formidáveis, mas Rinoa parece conservar seus conhecimentos em magia, exatamente como Edea após perder a essência de Ultimecia. A sincronicidade do casal, ademais, é fator decisivo para obliterar as ameaças. Dirigindo a nave, ambos voltam seguros à lua. Já é hora, no entanto, de outra viagem mais importante: retornar a Esthar, onde a outra metade do cataclisma (o choro lunar) estava em curso…

Enquanto não chegam ao destino, sentam-se e conversam, sem inimigos para interromper o momento privilegiado. Squall parece ter se retraído novamente em sua concha de adolescente-problema, e não responde mais com afeição aos gestos explícitos de Rinoa, que senta em seu colo e o envolve em um terno amplexo. Eles não se beijam, nem Squall declara seu amor, aquele mesmo amor que ele declarara a uma Rinoa em coma, despersonalizada. Parece que o maior problema de Squall Leonhart é que tudo esteja finalmente bem! Há pessoas assim no mundo… De toda forma, com algum esforço, Squall começa a conversar. O tema escolhido é sua infância conturbada – isso demonstra que ele já pode se abrir mais do que no começo da aventura, ainda que continue sendo-lhe dorido. Squall desabafa sobre como, sem saber nada sobre seus pais e após ter pensado que sua única parente o abandonou cedo na vida, ele finalmente se sentiu menos sozinho no orfanato. Mas ele nunca superou de verdade a ausência de Ellone, e como um porco-espinho evitava se abrir, com receio de se machucar na mesma intensidade outra vez. Rinoa, esta pessoa colada a seu corpo, foi a pessoa responsável por curar sua resistência, por enferrujar as dobradiças dessa pesada porta de uma escotilha de memórias amargas… Rinoa é bem mais direta: diz que se sente a pessoa mais confortável do universo estando abraçada com a pessoa que ama e em quem aprendeu a depositar confiança incondicional, a despeito de saber que é terrivelmente difícil tratar com essa mesma pessoa em termos diretos e francos; e essa pessoa, Squall, sabe como poucos deixar a cabeça de uma garota zonza, esse é sem dúvida seu pior defeito – agora Rinoa o expressou abertamente ao amado.

A beleza do momento é interrompida pela população de Esthar, quando a nave aterrissa, que temia justamente o que está prestes a acontecer: uma Rinoa viva e de volta ao planeta, a pior das ameaças, visto que já entenderam a relação estabelecida entre Rinoa e Ultimecia, mesmo que Rinoa não tenha dado seu consentimento a nada.

Rinoa se entrega voluntariamente, admitindo que agora, depois de suas últimas experiências, possui os poderes de uma temível feiticeira. Ela está em pânico sobre o futuro e se pudesse escolher só gostaria de reviver os efêmeros instantes que lhe restam ao lado de Squall, como esta cena tão familiar e inofensiva no assento da nave… Squall admite que está apaixonado (ele é um pouco lento, o leitor talvez tenha diagnosticado neste ponto da trama!) no momento do pouso da nave Ragnarok, e se sente em completa confusão sobre que atitude tomar, porque para ele existe Rinoa e existe o mundo, e ele não sabe, talvez, como fazer os dois interagirem de forma sadia ou natural. Ao mesmo tempo que não pode deixar Esthar com Rinoa (“Deixa Esthar!”), ele não toma nenhuma ação, assiste sua amada ser conduzida pelas tropas do império, a fim de ser selada, como fôra Adel no passado. Rinoa tenta devolver o anel original de Squall. Ele, de modo frio e em completa contradição com o turbilhão de sentimentos que o domina, diz que está tudo bem que o objeto fique com ela, e ambos se despedem num tom triste. Mas é neste momento em que parece ter covardemente desistido de tudo que Squall divisa um plano tão genial quanto diabólico para virar a mesa, num átimo, e num golpe napoleônico de seu inconsciente relutante.¹ Então ele se deixa vencer pela apatia aparente e retorna à nave para sofrer seu luto.

¹ Essa é minha interpretação do enredo – o tal plano será explicado abaixo!

Os demais SeeDs reúnem-se com Squall. Selphie está inteira, e feliz de ver que seu líder também sobreviveu à viagem no pod. Ela quer saber o contexto da situação, o paradeiro de Rinoa, etc. Interrompendo este diálogo os demais surgem excitados, descrevendo como Edea enfim se livrou de seus poderes (em prol de Rinoa, é o que eles ainda não sabem); tudo sobre Lunatic Pandora… Squall parece não estar presente em toda a cena, pois escuta e não escuta ao mesmo tempo. Com um extremo último esforço ele “descongela” e solta a língua: Rinoa é a nova feiticeira e será selada. Os outros têm sua atmosfera de ânimo e otimismo esmagada num instante. Não podiam ter adivinhado esse desdobramento, muito menos a apatia de Squall diante do acontecido. Justo de Squall, o mais interessado em Rinoa. Quistis tenta acordá-lo com palavras duras: Você é um idiota, por acaso? Por que você deixaria que levassem Rinoa?! Como que se esquecendo de que ele tem um plano muito maior em execução (pois agora não se trata mais de individualidades, está tudo conectado) que não necessita, e até exige, que nenhuma intervenção (pois ela “já aconteceu”) seja realizada, ele “volta a si”, reinterpretando seu personagem: Squall se arrepende de ter se rendido, de não ter convencido Rinoa a resistir, e quer se juntar aos demais para salvá-la – missão impossível e inócua, já que Rinoa é a feiticeira e sempre precarizará o balanço da paz deste mundo. Selphie também retoma o otimismo que sempre lhe soou característico, principalmente quando exagerado: é o seu jeitinho. Ela assume como que a postura de líder interina do grupo, mostrando-se mais vivaz que o próprio líder literal Squall, e os SeeDs partem rumo ao Memorial da Feiticeira, lugar da cerimônia de selamento mágico.

O resgate foi mais simples do que se poderia prever. Rinoa cai nos braços de Squall. Alguns guardas sobreviventes tentam evitar que a tropa escape, mas neste momento o próprio Laguna intervém, embora incógnito aos demais. Rinoa pede para ser levada até o orfanato, ironicamente ela, a única que não cresceu com todos os demais, porque gostaria de passar um tempo sozinha. Squall e Rinoa conversam deitados sobre um lindo tapete de flores. Rinoa sabe que está, e estará, em perpétuo risco: poderão seqüestrá-la ou ela simplesmente pode se tornar de repente maligna. Squall responde, tirando confiança de sabe-se lá onde (eu sei: do plano que ele divisou em silêncio, e do qual não só ele mas inúmeras entidades participam, em conciliábulo), que nada disso terá lugar, que mesmo que tivesse de encarar o resto do mundo ele permaneceria a seu lado irremediavelmente, sendo seu cavaleiro branco, mesmo se ela se tornasse o maior inimigo da humanidade. (Mesma frase que usou, sem qualquer veracidade de conteúdo, no primeiro encontro com Rinoa, quando ela era apenas uma cliente de novos recrutas da SeeD – mesma frase que Seifer pronunciou ao se filiar à Edea maligna, apenas repetindo maquinalmente um diálogo dum filme… gravado por Laguna… As conexões começam a despontar aos borbotões e apenas os mais indispostos para com a Square não enxergam um grande esforço de unidade na obra a essa altura.) Eles selam uma promessa: se Squall se sentir perdido, ela sempre poderá encontrá-lo neste campo florido; ele deve vir a este jardim e aguardá-la, se ela já não estiver. Desnecessário dizer que Rinoa não sairá do local por nada no mundo, metaforicamente falando.

Os demais chegam ao campo e interrompem as juras dos pombinhos: interceptaram uma mensagem de rádio de Esthar. Kiros e Ward precisam que eles regressem com urgência. As peças do quebra-cabeça vão se encaixando fenomenalmente apesar do qüiproquó tecnológico clichê! Todos os personagens dos discos anteriores estão ressurgindo no epílogo da estória, e os flashbacks adquirem total pertinência. Edea, ao se despedir do grupo, conta a seus antigos rebentos adotivos como seus poderes foram herdados 13 anos atrás após o selamento de Adel, e por uma segunda feiticeira anônima, para prevenir que seus poderes terminassem em qualquer outra criança, que não teriam culpa ou escolha – ela, pelo menos, era uma adulta e tinha uma resolução. A moraleja do relato de Edea é, para Squall: ela atravessou um período de incalculável sofrimento, mas se sua mente não sucumbiu foi porque existiam pessoas em seu entorno que amavam-na. Squall deve agüentar e lutar ao lado de Rinoa, mesmo que essa decisão reflita em tragédia para outros. É necessário prestar atenção em falas aparentemente absurdas, com pequenas minúcias, como essa, para entender que todos estão participando do plano de Squall, involuntariamente. Ninguém se perguntou que feiticeira misteriosa visitou Edea no orfanato: havia questões mais prementes com que se preocupar!

Aqui todos se reúnem com o Presidente Laguna, cara a cara, a primeira vez no jogo. Laguna era a personalidade que – inutilmente, pelo visto – se mantinha na lua guardando o túmulo de Adel, o líder da república popular de Esthar. Squall está incrédulo, mas ao mesmo tempo deixa-se levar, está de guarda propositalmente baixa, sabe que Laguna “é de confiança” (como jamais saberia, há alguns dias). Aliás, ele é Laguna também. A informação é de que Adel, a original, confinou-se em Lunatic Pandora e Ultimecia tomou posse de seu corpo. Porém, Adel está fraca, e o que falta para Ultimecia lograr seu plano de compressão do tempo é revitalizar os poderes adelianos. Essa parte Squall ouviu com muita atenção e entendeu sem precisar pedir qualquer esclarecimento adicional. Ultimecia tem um último trunfo para garantir que o corpo de Adel receba o máximo de poder: ela precisa possuir Ellone para viajar ao passado, etapa 1 do seu plano de Compressão do Espaço e do Tempo: partindo do ponto mais remoto, achatará todo o passado, fundindo-o com o presente e o futuro a fim de consumar a coexistência absoluta do Todo consigo mesmo(a) (condição do presente eterno). E para chegar a esse resultado perfeito, ela conta com uma máquian do tempo que ainda será desenvolvida no futuro baseada no padrão cerebral único de Ellone. O único porém de toda essa maquinação bizarra (com o perdão dos infinitos trocadilhos possíveis: máquina, maquinação, Maquiavel…) é que ela necessita de Ellone agora como o gatilho do fenômeno final e definitivo. Ninguém sabe por que ela quer realizar a compressão do tempo (apenas quem participa do plano de Squall num nível mais consciente, que anteciparemos agora: Laguna, Edea, Julia, Rinoa, a própria Ellone… – mas isso não é dito em voz alta, no jogo, nunca). A “máquina do tempo” é apenas um objeto que recebeu/receberá junction da magia temporal (Time magic) exclusiva de Ellone, respeitando o cânone e as regras de poder criadas para o jogo. E Ellone precisa levar Ultimecia para o passado porque no passado Ultimecia possuirá/possuiu, em seqüência, Adel, Edea, Rinoa… e por último novamente Adel, embora não faça diferença “quem é”, mas por que é cada indivíduo em cada momento.

Laguna, ciente de que os SeeDs não aceitariam partir numa missão suicida a menos que houvesse bons motivos para tal (exceto, claro, Squall), e podendo contar para isso com a erudição de Odine, diz que a única maneira de matar Ultimecia (A etimologia do nome da maga é clara: a máquina definitiva, ultimate mech; essa é a razão para ela pronunciar ‘k’ no lugar de ‘c’: seu nome deve ser entendido, nem que apenas conceitualmente, como Ultimekia, como pronunciaríamos se fosse escrito Ultimechia, não permitindo, esta interpretação, outro significado para a segunda metade de sua denominação)¹ é justamente caindo na armadilha de permitir a compressão temporal. O corpo verdadeiro de Ultimecia, que precisa ser destruído, se encontra apenas no futuro remoto, época em que ela nasceu. É óbvio que para que todos viajem ao futuro será preciso “pegar carona” na compressão temporal, que é em si uma viagem no tempo (e muito mais). Podemos dizer, a propósito, que toda viagem no tempo é apenas uma modalidade de compressão temporal, a magia mais poderosa neste universo. Só o que o grupo pode esperar fazer é matar o corpo de Adel antes que ele acorde como Ultimecia em Pandora, forçando Ultimecia a possuir Rinoa, o único receptáculo disponível após a extinção de Adel. [ (Já que Ellone é como que ‘outro caso’, na verdade uma outra metade do ‘combustível’ mágico de que Ultimecia necessita a fim de comprimir o tempo, e agora Edea não possui mais as condições de ressuscitar seus poderes, além de estar longe de Pandora durante a missão, tornando Rinoa o último alvo útil possível, com efeito.) Essa seria a armadilha para Ultimecia, barganhar com o mais valioso (para Squall)…

¹ NOTA SOBRE DISCUSSÕES (SAUDÁVEIS) EM TRADUÇÃO! Incluirei aqui, por questão de modéstia, hipóteses externas acerca da etimologia da palavra Ultimecia. Senta que lá vem estória…

Na mitologia gregaa houve um rei chamado Mausolus, cuja esposa e portanto rainha – que incidentalmente era, err, sua irmã – se chamava Artemisia. Quando Mausolus morreu, a dor que se apoderou de sua irmã-consorte foi tão pungente que a teria levado à loucura e à megalomania: ela resolveu consagrar a seu amor o maior túmulo jamais construído, na obra que a imortalizaria, gesto mais importante de sua existência. Durante a construção do mausoléu por seus subordinados, Artemisia era vista até mesmo bebendo todos os dias água ou o que mais lhe aprouvesse com o acréscimo, a cada oportunidade, na taça, de um naco das cinzas do corpo de seu cremado marido (detalhe insólito). (a nota de rodapé é grande e continua no próximo parágrafo, não esmoreça!)

[a Observação de cunho histórico ou pseudo-histórico: a teoria do lingüista-fã se refere a Mausolus e Artemísia como figuras legendárias, e nisso estou em completa concórdia – outras fontes consideram Mausolus uma figura que existiu realmente, como rei da Cária (Ásia Menor) no séc. IV a.C., que não era uma polis grega, mas parte do (nascente) Império Persa. Um dos motivos para meu ceticismo em relação à existência fática dessa biografia é que seu nome só existe em grego, o que validaria seu construto ser apenas uma fábula. Para a hipótese de ser uma figura histórica, que sempre há e não tenho o poder de invalidar, não concordo que o casamento ser um incesto seria um contra-argumento forte, tendo em vista que é um tabu verificado universalmente, mesmo que o conceito de irmão ou irmã dependa em última instância de regras locais: conjetura-se, dentre os que identificam o casal como monarcas verdadeiros do passado antigo, que este fôra um casamento meramente simbólico, i.e., arranjado. Isto é apoiado pelo fato de que não há registros de descendência (filhos entre ambos); a informação também fortalece a teoria de que teria sido apenas uma formalidade para a preservação do poder, como se verificou ou ter-se-ia verificado (sendo um casal que de fato existiu) posteriormente à morte de Mausolus, visto que Artemísia conservou o título de rainha, Artemísia II para ser ‘historicamente’ exato, até vir a falecer e a transmissão do trono recair para irmãs de sangue desta Artemísia. O que considero mais absurdo é que um tal monumento, comparável a um prédio – não a uma pirâmide egípcia, este sim um mausoléu milenar! –, só foi escavado no séc. XIX e mesmo assim só foram encontrados alguns poucos destroços. Fosse essa construção mais palpável, mais influente, teria sido mais citada ao longo da História…]

A construção teria durado de 3 a 4 anos, e talvez Artemisia tenha morrido antes de ver sua inauguração consumada. Mas o que importa para nós, neste artigo de Final Fantasy VIII que resolveu adentrar terreno estrangeiro (rs) e opinar sobre questões filo-arqueo-etimo-lógicas, é que Artemisia terminou como uma louca, mas louca e devorada de paixão (veja que na fábula isso cai melhor do que no relato historiográfico – acreditem comigo que é só um mito grego!), o que dá matizes muito mais belos a sua demência de fim de vida. O mausoléu não só era uma edificação considerável (de dezenas de metros, quase um cubo) como era adornada nos 4 extremos por homens e cavalos de mármore, o que unia os esforços dos melhores arquitetos e engenheiros com os melhores artistas plásticos disponíveis à côrte. Usuários da língua portuguesa (a absoluta totalidade de quem me lê agora, a menos que estejam usando uma ferramenta de tradução, o que não recomendo, pois deve desfigurar meu estilo!) já se deram conta que mausoléu decorre do nome deste rei (mausoleiona em grego), e que esta apaixonada esposa, apaixonada até a morte, é a figura de relevo aqui: ocorre que Ultimecia vem a ser uma transliteração válida do inglês para o japonês em katakana para Artemisia. ‘A’ e ‘U’ são usados indiferentemente na maioria das sílabas, assim como ‘I’ e ‘R’, como pares com pronúncia parecida em japonês. O spell de Ultimecia chamado Ultima foi inclusive transliterado oficialmente em inglês para Atma e Altima (erros reparados em atualizações do script). Até ‘E’ e ‘I’ são intercambiáveis, para ser sincero (o japonês é fascinante – infelizmente eu não conheço nada na língua mais do que qualquer otaku levemente interessado…). Por fim, (quanto não me custou essa generosa nota para a fluidez do meu já truncado relato do enredo!!!!) ‘C’ é uma solução de transliteração (não a melhor, lógico, mas vê-se que pode ter ocorrido) para o ‘S’ de Artemisia. De todo modo, o –shi– mais comum da língua oriental foi preservado na pronunciação final: A-ru-ti-mi-shi-a. Aqui, para quem não tem nenhuma familiaridade com o japonês, pode-se estar pronunciando tanto Ultimecia quanto Artemisia, isso é inegável. O que eu nego é que essa seja a etimologia de Ultimecia – mas há quem compre esta hipótese, e eu a citei para vocês!

[a Squall Leonhart… Curioso derivar o sobrenome de um JAZIGO, exclamariam alguns fãs desconfiados…]

Os defensores dessa curiosa possibilidade alegam que estátuas presentes nas quinas do castelo de Ultimecia in-game são provas em favor da gênese do nome. O telhado de ambas as construções (a descrita pelos mitólogos/arqueólogos e a do game) também compartilham similitudes desconcertantes. Antecipando o que discutiremos somente mais tarde, a conexão com Rinoa aqui é que assim como Artemisia ela lamentaria profundamente (grieved, griever) a morte de Squall e a impossibilidade do reencontro no campo de flores, se o jogo tivesse apresentado este cenário (ela com certeza se tornaria insana como a Artemisia mítica!).

Mais uma analogia que não consigo decidir se é forçada ou simplesmente evidente demais para meu próprio gosto (o que enfraquece minha teoria da ÚLTIMA MÁQUINA descrita acima, nem que apenas um pouco!): Mausolus e Artemisia eram irmãos. Rinoa e Squall… bom, aí é que está! Não é possível um casal sem nenhum traço incestuoso estar mais próximo do parentesco de irmãos do que estes dois, propositalmente, de acordo com o cuidadoso enredo da Square: o pai de Squall, Laguna, e a mãe de Rinoa, Julia, foram um par romântico, o primeiro da estória, em ordem cronológica, e por circunstâncias do acaso ou do destino não terminaram juntos. Mas a cria de cada um voltou a se reunir – talvez uma teoria digna de ser deslindada num Banquete à la Platão, durante a fala de Aristófanes (o retorno ao ser circular perfeito). Mas fiquemos por aqui quanto a isso… Curiosidade adicional: em algumas traduções européias (Alemanha e Itália), Ultimecia foi REALMENTE transliterada (assumidamente um erro) como Artimesia, quase lá!

INTERMEZZO DA NOTA!— Avalio a qualidade ou probabilidade desta teoria abaixo:

COMENTÁRIO (SEMI-)FINAL: Essa etimologia é mais fraca e improvável que a minha, como fui deixando claro enquanto a explicava em letras douradas – mas é digno de interesse saber que quanto maior validade ela tiver mais provável é a hipótese de que Squall morre no final do primeiro CD após o ataque de sua mãe adotiva Edea (Ultimecia em última instância), e portanto todo o plano de compressão do tempo seria de Rinoa/Julia no lugar de Squall/Laguna como protagonistas do jogo (um prejuízo que eu estaria disposto a aceitar, ainda mais tendo em vista que esta é uma teoria fan made muito popular até hoje, e, como dizem, debunked, refutada, oficialmente – volto a chamar a atenção para a estranheza de uma possível etimologia do sobrenome de Squall estar ligada a ‘mausoléu’)! De qualquer modo, o crucial (que a motivação de todos os embates é um amor inesquecível que quer perdurar no tempo) não é demolido, pelo contrário, neste segundo caso é até reforçado! Ou seja: mesmo se eu sair perdendo, eu saio ganhando – péssimo dia para meus haters!

Dito isso, e ainda na nota de rodapé anterior, outra possível etimologia de Ultimecia apontada é… Artemisia Gentileschi (1593-1656(?)), esta sim 100% confirmada como figura histórica e não apenas mitológica, pintora barroca, uma das poucas figuras femininas da época a se destacar na mesma arte de Caravaggio. Reabilitada muito tempo depois de sua vida graças a (novidade!) uma cultura extremamente patriarcal, um longa-metragem sobre Artemisia Gentileschi foi lançado em 1997, curiosamente bem a tempo para se tornar fonte de inspiração para o enredo de Final Fantasy VIII. Apesar de ser prematuro dizer que este filme ou o conhecimento da vida da pintora tenham chegado aos “quartéis” da Square (não há declarações atestando o fato), é de bom grado lembrar que FF8 possui uma das plots mais voltadas ao Ocidente de toda a franquia…

Gentileschi sofreu bastante durante sua vida, pode-se dizer que foi uma “vítima cruel do destino”. Por causa de um estupro, esteve fadada a morar em diferentes lugares, e ter sua arte validada pelo “homem branco europeu”, inclusive o italiano – seu compatriota –, apenas mais de três séculos e meio após sua morte, sendo generoso. Todo esse contexto não é estranho às circunstâncias da aparição de Ultimecia, que é um acontecimento profetizado no enredo de Final Fantasy VIII, e ambíguo ao extremo: o combate a Ultimecia, no passado, é provavelmente o que mais alimentou o ódio a seu nome e à linha sucessória das feiticeiras, fazendo com que sua aparição no futuro sofresse o impacto desse próprio ódio fanático [FON]. Mais um caso clássico em que o combate a um mal é o próprio responsável por sua produção (cânone do gênero tragédia), embora com o acréscimo do cenário de “viagem no tempo” e embaralhamento das concepções tradicionais de causa-efeito (imaginem um Édipo que conheceu, por artes mágicas, uma versão mais jovem de sua mãe… urgh! isso nos repugna até num nível meramente estético)… Retroativamente, as ações de Ultimecia, aparentemente tirânicas e absolutistas, podem ser “justificadas” e defensores de suas ações podem alegar que ela agia em legítima defesa quando tentou criar sua compressão temporal na geração de Laguna, Squall, Rinoa & os outros… ou pelo menos seria um caso de vendetta, diferente da própria Kaguya de Naruto, que eu citei no review principal, que apenas se tornou uma entidade senil incapaz de cultivar ternura por seus filhos…

Mais elementos dentro do jogo para apoiar esta terceira proposta etimológica contida nesta matéria: muitos quadros ou pinturas adornam os corredores do castelo de Ultimecia pré-confronto final.

Quarta teoria: Ultimecia viria a ser apenas uma simples derivação de Artemis, deusa da lua – a lua é um importante elemento da estória de Final Fantasy VIII. Mas isso é tudo.

Uma teoria que mal classifico como teoria, pois não merece a designação de uma quinta teoria no mesmo extrato, embora soe interessante: Ultimecia parece ‘paramecia’. Paramécio em português é um protozoário, organismo unicelular, potencial origem de toda a vida na Terra, sendo a idéia de “retorno ao Uno” algo comparável ao plano de Ultimecia. Ok, o charme por trás desta última hipótese (não a hipótese em si, muito arbitrária para meu senso seletivo) “me comprou” e “seduziu”, me fez torcer um pouco pela sua plausibilidade… ainda mais vindo da Square dos anos 90 (que criou o roteiro mitocondrial de Parasite Eve, que fez um então pré-adolescente como eu ter interesse por biologia celular ainda no ensino fundamental, não pouca coisa!)… mas isso ainda não explica tão bem a idiossincrasia do ‘k’ nos diálogos tão bem quanto minha assertiva, dentre outras desvantagens resultantes em abandonar minha proposição quase invencível!

—FIM DA EXAUSTIVA NOTA SOBRE AS POTENCIALIDADES (E PERIGOS) DAS TRADUÇÕES!—

Já que deixamos o assunto principal de lado por demasiados parágrafos, reprisemos a última frase do roteiro, em que havíamos sido (auto)interrompidos pelo meu interesse excessivo nas opiniões dos outros: Essa seria a armadilha para Ultimecia, barganhar com o mais valioso (para Squall)… E continuemos a partir daqui:

Ao mesmo tempo…¹ O importante é que o grupo possui Ellone, que poderá enviar Ultirinoa ou Rinomecia ao passado mais remoto no invólucro de outra feiticeira, talvez Adel, talvez Edea, condição que Ultimecia acredita ser o sine qua non de sua operação-compressão,² ] uma vez que Rinoa é uma jovem sem experiência, possivelmente sem o mesmo poder máximo manipulável por Adel. Dessa forma, Ultimecia teria de escapar do corpo de Rinoa, salvando sua vida (o que ainda deixa alguns de nós no escuro sobre… — em poucas palavras, …para onde iria Ultimecia, que é imortal e ficaria sem receptáculos… e cujo corpo ainda não apareceu… ??? Os mais intrépidos, entretanto, já entenderam onde os nós se atam em todo esse imbróglio fantástico! Este é o plano público e oficial, mas Laguna e Squall sabem que Rinoa não é periférica para Ultimecia (nem no sentido de ser “o que acabou sobrando no banquete das feiticeiras”), e talvez não seja inferior a Adel em poder, de forma que matar Adel só se justifica para que Ultimecia use especificamente Rinoa! É até incrível como o resto do bando conseguiu engolir o plano tão facilmente, sem um olhar crítico, sem uma objeção sequer… Mas lembre-se: o grupo reflete o inconsciente e o estado de ânimo de Squall, e só irá contrapô-lo severamente quando for para reuni-lo com Rinoa.

¹ Seria inútil se aprofundar agora – comentaremos mais tarde!

² Este evento cancela qualquer relação de causa e efeito no mundo do jogo, já que agora todo outro evento anterior ou posterior pode ser considerado com igual justiça a causa primeira do devir universal. Mais detalhes a seguir! Repare, no entanto, que toda essa explicação de Laguna/Odine é supérflua e até mentirosa, pois há um desnecessário prolongamento do combate e da invasão de Pandora quando se inserem as condições impostas entre colchetes (os colchetes amarelos em negrito), sendo que sem realizar essas etapas o desfecho seria exatamente o mesmo: Rinoa tem de ser possuída por Ultimecia, não importa quando (literalmente)! Até porque… tomando-se como pressuposto que as feiticeiras são imortais (o que fica subentendido o jogo inteiro)… Adel não poderia ser morta e a missão seria um fracasso se não houvesse a presença de Rinoa em Pandora!! Entendeu agora por que Ultirinoa e Rinomecia, dois neologismos improvisados meus, passam a fazer cada vez mais sentido conforme a plot se agrava, i.e., vai chegando a seu clímax?!

Como o próprio Squall Leonhart, ninguém hesitaria em sacrificar o mundo a Ultimecia, desde que pudesse salvar o casal… Segundo o plano, Ellone deveria trazer todos da equipe ao presente neste instante da batalha (quando Ultimecia voltasse a residir na íntegra em Rinoa), ao passo que Ultimecia//Rinoa seria arremessada a contragosto para o futuro (ou se auto-lançaria, dependendo do quanto ela tem consciência de que sua compressão do tempo deixa as noções de passado-presente-futuro indiferentes…) – mas neste momento não importaria essa dicotomia (ou tricotomia, verdadeira raspagem!) por mais do que poucos segundos, afinal todos os tempos estariam rapidamente se fundindo num só. É nesta etapa (início da compressão, vulgo apocalipse irrevogável) que Ultimecia deve ser morta, pois antes, em toda a estória, ela só estivera e estará usando o corpo de outra feiticeira.¹ Outro ponto-chave do plano: para sobreviver neste ‘mundo’ [ZA UARUDO!!!] (o da compressão absoluta do tempo), será necessário focar mentalmente num lugar único, em que todos se sintam reunidos e ‘existindo verdadeiramente’, seres-no-mundo-e-com-os-outros-seres, como diria um Heidegger (não o de Final Fantasy VII!)

ZA UARUDO (este artigo está muito é zoado!)

¹ Será? Se eu fosse Selphie, Zell ou Quistis teria muitos motivos para duvidar de Laguna e Odine: Como vocês, por quase duas décadas enterrados em Esthar, adquiriram todos esses conhecimentos transcendentais?! É muito conveniente que – a nova dimensão achatada – Ultimecia possa obter duas, e não apenas uma vantagem (o que se torna uma desvantagem, desde que o time SeeD possa finalmente matá-la, i.e., ela perde a imortalidade ao estar na iminência de concretizar seu processo de tornar-se deus, o que não faz sentido do ângulo da batalha militar!): 1. recuperar seu corpo original (mais poderoso); 2. arrematar a junction da magia supercompressora de Ellone (que, graças à perda da imortalidade, a “enfraquece”)! Jornada à procura do rolo compressor perfeito!… Assim deveria ser o subtítulo de Final Fantasy VIII… Rolo compressor: sim, isso foi uma JoJo Reference… É conveniente demais para a própria Ultimecia cair como um patinho nesse plano, deixando Rinoa livre… Talvez porque ela queira?! Talvez porque ela seja Rinoa Heartilly? Inútil falar disso agora, continue lendo!

² Muito conveniente. Normalmente diríamos que é para que o enredo “feche”. Questão de plot armor. Mas lembre-se que os pré-requisitos são todos idênticos às condições para sobrevivência da relação Squall//Rinoa. Além disso, numa nota extra, lembre-se que durante o retorno de Squall e Rinoa da lua, na Ragnarok, ainda faltava atar o conceito de ser-no-mundo com o de ser-com (leitores de Martin Heidegger entenderão!).

O grupo prosseguindo à missão, os primeiros adversários em Pandora são Biggs e Wedge. (Alívio cômico bastante necessário a essa altura, após tantas convoluções – senão no game, no meu artigo!) Ellone vinha sendo mantida refém por ninguém menos do que Seifer na fortaleza. Um personagem que perdeu relevância na estória e já não é mais do que um figurante – um inimigo a mais. Como punição por seus atos megalomaníacos, Seifer é abandonado por seus dois principais asseclas dos tempos da Garden, Raijin e Fujin, que tinham-no apoiado diretamente ou ao menos tentado suavizar seus malfeitos até ali. Num covarde e irônico “ato final”, Seifer toma posse de Rinoa (a reunião do casal que estava fadada ao fracasso, como contraponto da relação idílica desenvolvida por Rinoa e o protagonista), i.e., toma-a sob custódia física, para que Rinoa seja verdadeira e espiritualmente possuída por, no momento, Adel (Ultimecia-Adel), conduzindo-a ao corpo de sua “mestra”. A “fusão” se consuma.

O grupo batalha contra uma Adel rediviva, mostrando que a primeira etapa do plano havia falhado – ou que ela era apenas um decoy de Laguna/Squall… No fim, Seifer fez algo redundante que só fazia parte do plano desde o início. Adel se converte num monstro e Rinoa se encontra atada a seu centro, como uma espécie de Cristo crucificado, anexo do próprio monstro. Se os SeeDs atingissem Adel indiscriminadamente, matariam sua companheira. Os poderes de feiticeira de Rinoa vão sendo sugados conforme a batalha anda e desanda. Mas Adel é definitivamente derrotada no presente e Rinoa escapa ilesa, embora debilitada. Ellone e Laguna, também em Pandora, colocam o plano na segunda marcha. Neste momento os guerreiros encontram-se no passado, graças aos poderes de Ellone. Depois que a mágica é revertida e Rinoa devolvida ao tempo presente, Ellone e Laguna deixam Pandora (convenientemente!), Laguna não se esquecendo de declarar, por último, que é crucial que os SeeDs sigam seu conselho de pouco antes: foquem nos sentimentos que unem o grupo, o amor e a amizade (o campo florido do orfanato, em essência, o local e o tempo eternos deste grupo de pessoas, o símbolo da união de ‘todos em um’).

Sub-repticiamente o grupo encontra-se caindo no vácuo, fora da realidade material estável. Imagens e memórias de todos os tempos são projetadas dentro de espécies de bolhas que circundam o éter (a-)temporal. Uma versão distorcida da música do baile em que Squall e Rinoa dançaram no primeiro encontro ecoa. Agora todos estão submersos na água, talvez a água primordial dos tempos. Rinoa se angustia, temendo deixar de existir nesse ínterim. Squall segura-a pelo pulso e transmite palavras de conforto.¹

¹ Essencialmente o mesmo papel desempenhado por Tifa em relação a Cloud no Final Fantasy pregresso.

Os seis voltam a se reunir num cômodo banhado em intensa e cegante luz branca. É a sala de Edea no Palácio Presidencial em Deling City, outro ponto-chave de sua trajetória enquanto grupo que ia paulatinamente se entrosando. Explorando o recinto, Edea em pessoa surge, começa a rodar por todo o perímetro, e multiplica-se em uma miríade de projeções de si mesma. Mas é Edea? Ou são figuras com o aspecto de Edea? Em seguida, reunifica-se sob a aparência de uma mulher com um robe vermelho não-característico das culturas hodiernas do planeta. Significaria que é uma manifestação de sua versão feiticeira que não pertence a este tempo? Ou é Ultimecia?! Onde está Rinoa? O grupo tem de lutar contra essas representações, que não parecem se identificar com a Edea real, e nem com Ultimecia (?). O confronto é mais duro e dura mais tempo – fora do tempo, se é possível dizê-lo – do que os invasores de Pandora poderiam imaginar…

A luta prossegue com mutações de cenário. Winhill, Balamb Garden, Trabia Snowfield…, mas após algumas mutações todos os cenários vão derretendo e se distorcendo. Paredes se convertem no chão, prédios se contorcem e fundem-se em massas de concreto liquefeitas, umas chocando-se gravitacionalmente contra as outras. O céu e a terra começam a se fundir.¹

¹ Alusão ao mito grego da criação: está refeito o abraço entre Gaia e Urano; Zeus, o soberano atual (do presente que não é superimposto por passado e futuro), garantidor da ordem, não exerce mais poder sobre o mundo!

Depois desse show de horrores os personagens controláveis, os “mocinhos da estória”, parecem estar além do futuro e do passado, no próprio centro do processo de compressão temporal: Ultimecia aparece sob a forma de um dragão. Será seu corpo genuíno? Após outra difícil batalha, o entorno se acalma por um tempo (fora do tempo), e o grupo tem um descanso da refrega. Eles se encontram reunidos no campo florido do orfanato. Há uma praia não muito longe, e eles caminham até ela: ali jazem os corpos dos SeeDs do futuro que morreram combatendo Ultimecia no passado (de Ultimecia!), horripilantemente decompostos, trucidados. De repente os SeeDs do presente, os heróis da história e a esperança ainda viva, não estão mais numa praia, mas dentro de um castelo maciço. O verdadeiro corpo de Ultimecia reside neste castelo. Blá, blá, blá… A este ponto a vertigem dos guerreiros batalhando em ambiente tão hostil e ilógico deve ter também atingido o leitor e jogador!

Quase todo o mundo conhecido foi sufocado por um miasma branco, supressor da vida. Por algum motivo, a nave Ragnarok e todos alojados na estação móvel de Balamb permanecem inviolados, sugados pela magia da compressão temporal. Neste mundo comprimido não é possível usar magia, da qual os guerreiros da SeeD se tornaram extremamente dependentes ao longo de sua hiperbólica jornada.

Em sua primeira forma, Ultimecia parece uma mulher elegante, como todas as feiticeiras já retratadas no jogo, muito bem-vestida e manifestando uma aura intensa, sem dúvida a mesma de Rinoa no incidente lunar, mas muito mais potencializada. Ainda assim, o inimigo se assemelha a um humano. A segunda forma de Ultimecia, após ser castigada pelos ataques físicos da trupe, é revelada utilizando seu Guardian Force todo-poderoso, Griever. Trata-se de uma espécie de quimera ou leão alado. Porém, o terceiro estágio da batalha se dá quando o GF e Ultimecia se fundem. Mesmo quando ela sofre danos e tem de ejetar o Griever, morto, uma quarta manifestação ocorre: ela mesma agora tem semelhança com um anjo bíblico da tradição descritiva semítica. O fim de Ultimecia após uma encarniçada troca de golpes “no reino do nada e do tudo sintetizados”? Rinoa é uma das seis combatentes, o que significa que não pode mais usar magia. No entanto, terá ocorrido a alguém do grupo que o corpo de Ultimecia era imortal… Ou melhor dizendo, que a essência de Ultimecia era imortal e que se seu corpo, em qualquer dos estágios enfrentados, deixasse de existir, ela forçosamente reencarnaria em Rinoa?!

Aparentemente ninguém sabia do fato, a não ser Squall, pois procedem ao golpe final: e ao desaparecer, o corpo de Ultimecia se converte numa explosão de luz saturada. Ultimecia deixa Squall & companhia num vazio branco. Eles começam a se concentrar, como incitados por Laguna. Squall se encontra sozinho, apartado dos demais, na representação visual do jogo, num vazio negro. (FF7 tribute, de novo!) Squall vê-se enquanto garoto no orfanato, 13 anos atrás, ao lado de Edea, mas algo está fora de compasso ou de ritmo. Pois o Squall adulto está lá também – é ele, com seus próprios olhos, que vê sua versão menor e sua antiga mãe adotiva; não é uma ilusão ou memória de um “terceiro olho” divino… Isso significa que há um hospedeiro para Ultimecia diferente de Rinoa agora…

Não só isso, como Edea – que pede para o pequeno Squall se afastar – e Squall Leonhart, o líder da SeeD que “veio do futuro”, são visitados por ninguém menos que Ultimecia, agonizante, em seu aspecto feminil, antropomórfico: Ultimecia lamenta não poder desaparecer, por ser imortal, e ter de levar adiante sua vontade. Essas palavras parecem reverberar de modo significativo em seus dois ouvintes. Aquela Edea não entende as circunstâncias tanto quanto aquele Squall, mas ela sabe instintivamente o que fazer: recebe, de bom grado, os poderes de Ultimecia para que seu corpo original finalmente pereça. Essa é a identidade da criatura que forneceu os poderes a Edea desde o princípio, que ela não quis revelar ao grupo no diálogo passado, e o plano de Squall desde há muito – porque já havia acontecido, e voltaria a acontecer, eis o time loop da trama. Depois de recuperar as memórias da infância, o Squall adulto sabia que, quando menino, seu eu mais velho o visitou um dia no orfanato, e então uma feiticeira apareceu. Isso era o suficiente para o Squall maduro concluir, após sua vitória sobre a Edea maligna, que ele mesmo havia atraído Ultimecia para que Edea, sua mãe adotiva, se tornasse… Ultimecia… no futuro, i.e., no passado. No rio congelado do destino. O Squall adulto, vendo a transfusão do poder e a “morte” de Ultimecia (que nunca morre), ouve daquela Edea da encruzilhada dos tempos a pergunta decisiva: Quem é você, jovem? Ainda havia trabalho a fazer. Ele responde que é o mesmo Squall Leonhart que com ela estava no jardim há pouco, só que 13 anos envelhecido, vindo de batalhas nos confins do tempo-espaço. Edea acredita na resposta. Squall acrescenta que Edea deve fundar a SeeD com base nas bases do Garden para “garantir o futuro” de todos. Edea também demonstra compreender a “necessidade” desse projeto ser executado¹ – mas logo diz que a presença de Squall ali é anti-natural e que ele deve desaparecer, se souber como fazê-lo. Com efeito é o que acontece, e Squall, o SeeD de 17 anos, não está mais no jardim florido de Edea, a jovem matrona, após alguns meros instantes.

¹ Mas como? Edea possui algum tipo de presciência ou precognição? Buraco do roteiro? Eu responderia “não” a ambas as questões. Na verdade às duas últimas. E quanto à primeira, como: Lembrem-se que Adel foi derrotada na Guerra da Feiticeira antes do começo da estória do jogo em si. Em tese, seu “cadáver” inane – à espera de uma transfusão dos poderes mágicos para outra feiticeira, que viria a ser Ultimecia – ficou selado no espaço, essa é a explicação explícita do jogo para os períodos de paz antes de Squall entrar em cena. Sem embargo, há um mistério aí, e creio que os desenvolvedores colocaram Adel na plot como uma solução de continuidade para esse problema das “transfusões”, além do papel que ela poderia desempenhar a contento no epílogo do game (ao fundir-se com Rinoa, dir-se-ia que Adel reabsorveu todo seu potencial em Lunatic Pandora, na penúltima batalha do jogo – depois Ultimecia faria o mesmo com Adel –; dessa forma não há nenhuma contradição com o fato de que havia 3 ‘feiticeiras em potencial’ no mesmo lugar, porque era sempre apenas 1 que atuava a cada momento), sem falar que Adel serve para justificar a existência de Laguna no jogo (Squall redobrado no próprio passado precisava que seu pai tivesse uma antagonista, como ele teve Ultimecia, assim como precisava que ele tivesse um par amoroso, como ele teve Rinoa, e as duas condições foram preenchidas): como quem “acorda” (embora não ‘completamente’) os poderes de Adel é Rinoa, com os poderes de Edea, que ganhou os poderes de Ultimecia graças ao time loop promovido por Squall… e sempre há apenas “uma feiticeira ativa de cada vez” (nunca 2 ou 0), ou pelo menos é estranho imaginar que entre o aprisionamento de Adel e a aparição de Ultimecia na realidade quando Squall tinha 4 anos não houvesse mais magia no mundo de FF8, sendo necessário, logicamente, que Adel passasse seus poderes antes de que alguém com poderes a libertasse (devolvesse seus poderes) para que ela passasse seus poderes… a conclusão mais pertinente com o enredo de FF8, sem estragar a narrativa, é imaginar que em Esthar ninguém sabia que não é possível deixar uma feiticeira inconsciente sem seus poderes (Rinoa comatosa ERA uma feiticeira) – ou ela vive empoderada e consciente, ou ela transfere os poderes e desaparece, não existindo uma solução intermediária ou terceira via. Destarte, o que aconteceu foi que os poderes migraram para alguém mais, sem conhecimento de ninguém… Edea recebeu os poderes de Adel no momento do suposto selamento bem-sucedido… Isso a tornava consciente de como funcionam os poderes de uma maga, tanto que ela aceita receber os poderes de Ultimecia para: 1) deixá-la partir em paz; 2) não “infectar” uma criança, comprometendo o futuro de uma pessoa ou menina-mulher inocente. Com Edea ativa desde a derrota de Adel na guerra, a sucessão dos poderes das feiticeiras não se quebra em momento algum da plot, e o time loop de Squall serve a dois propósitos em vez de três, isto é: 1) Ultimecia perde seu corpo originário; 2) Edea se torna a “nova Ultimecia”; 3) mas ele não torna Edea uma feiticeira, pois ela já era uma (há uma grande diferença entre se tornar uma – simples – feiticeira e virar hospedeira de Ultimecia, “a” maior feiticeira)! Em última instância, poder-se-ia dizer que os poderes de Adel se tornaram “redundantes” enquanto residiram em Edea, pois sua consciência maligna jamais despertou no outro corpo, e depois Ultimecia passou a preponderar em Edea; só que se Adel não tivesse passado sua essência mágica para Edea no momento em que a passou, Ultimecia não teria podido controlar Edea para controlar Rinoa para controlar a libertação (promover a ressurreição, seria um termo mais exato) de Adel, que nem precisaria ser ‘libertada’ caso realmente ainda possuísse poderes… e Adel os veio a receber de volta DE EDEA E NÃO DE RINOA (reversão da transfusão originária) quando foi libertada da prisão sideral, isto é, REVIVIDA como feiticeira (a única explicação possível é que estivesse todo este hiato morta e não só ‘dormente’)… e Ultimecia sequer teria como engatilhar a compressão temporal depois… Isso ainda explicaria por que Edea reteve seus GFs de forma consciente após ser derrotada por Rinoa, que entrou imediatamente em coma herdando seus poderes… até Adel sair de seu confinamento com ajuda da “primeira” metade dos poderes originais de Ultimecia (enquanto a “segunda” metade de ditos poderes seguiu com Rinoa até a batalha final – pois R. utilizou estes poderes contra os alienígenas no espaço, lutando ao lado de Squall –, i.e., até essa metade se reincorporar a Adel/Ultimecia), momento em que Edea voltou a ser uma “mulher normal”. Talvez Edea seja a única feiticeira que perde poderes sem ter seu corpo desintegrado OU ENTRAR EM COMA (como Adel e Rinoa)… simplesmente porque chegou a ter o poder de duas feiticeiras durante um curto período em sua vida?! No máximo, podemos admitir que duas feiticeiras coexistem com poderes “pela metade”, e não que duas feiticeiras completas existem simultaneamente. E outra implicação razoável parece ser que, seja com Rinoa, seja com Edea, só é possível usar GFs – verdadeiramente mágicos, não os artificialmente mágicos dos outros personagens – sem estar sob o controle de Ultimecia, a maga mais poderosa, se os poderes estiverem limitados à metade e divididos na atual era (Rinoa/Adel por um tempo; Edea/Rinoa por um tempo). Quando usou os GFs em capacidade máxima, sem dividir seu poder com mais ninguém, Edea era “escrava da consciência de Ultimecia”; o mesmo aconteceu com Adel no passado. Outra possibilidade, para espelhar o estado de saúde de Adel (clinicamente morta!): enquanto estava em coma e não respondia sonambulicamente a Ultimecia, Rinoa também estava… morta?! Honestamente, minha cabeça vai explodir, e não é devido a nenhuma magia… paro minhas especulações por aqui!

Epílogo do romance

Squall, de volta a um lugar e um tempo indeterminado, resquício, talvez, da compressão, agora testemunha Rinoa, que corre. O céu está tempestuoso. Rinoa descobre seu amante, a quem procurava em desespero, e grita por ele, a face úmida. Squall sente-se fraco, teme perder a consciência e não conseguir retornar… quando uma pena branca cai, e Squall a segura (mais um tributo a FF7). O céu se torna límpido e Rinoa e Squall estão de volta ao campo florido

A seqüência cinemática que segue poderia ser o futuro linear dos personagens, como poderia ser a compressão temporal de Ultimecia, inevitável, afinal, indistinguível que é da própria introdução: Rajin, Fujin e Seifer se divertem numa pescaria. Por que Seifer não estaria preso depois de todos os seus atos genocidas? Em Winhill vemos Laguna diante da lápide de Raine, mãe biológica de Squall e adotiva de Ellone. Ela foi enterrada com um anel que ele lhe deu de presente. Selphie é a cinegrafista de uma festinha privada dos vencedores, em Balamb. Irvine, Zell e Quistis participam, naturalmente. Na sacada, Rinoa e Squall se encaram de frente, em postura de amantes. Rinoa aponta, com seu índice direito na vertical, uma estrela cadente. Squall observa o astro, abraça e beija sua alma-gêmea. Balamb Garden, em modo vôo, circula rumo ao infinito.

FINIS.

[INT] INTERPRETAÇÃO & SIMBOLOGIA

[REL]

SOMEWHERE IN TIME: O RELÓGIO E A MOEDA:

o(s) anel(anéis) e o negro vazio fora do orfanato

Eis que Final Fantasy VIII flertou esse tempo todo com uma referência ocidental como chave para decodificar seu complexo enredo! O filme Somewhere in Time, de 1980!  

Como já ficou claro para alguns à leitura da sinopse mais acima, certos elementos podem ser interpretados seja contrastando várias “deixas” internas do enredo e ligando os pontos – isso nunca será uma ciência exata –, seja recorrendo a obras e referências externas. Para nossa sorte, os japoneses são muito bons nisso: em consumir cultura ocidental e usar em suas próprias obras. Final Fantasy VIII é absolutamente hollywoodiano. Tenho convicção, sem precisar pesquisar o catálogo de filmes vistos pelo principal game developer do título da Square, que este foi um dos longas que ele assistiu e tomou como inspiração para seu RPG/romance interativo (boatos de que para Squall & Rinoa a sigla RPG significa o seguinte: Romance: Perigoso Gostar!). Caso o jogador não esteja acostumado a “sair da casinha” da linearidade dum enredo, talvez este artigo seja o melhor achado a fim de apreciar tudo que FF8 pode oferecer. Até porque quando se fala em ficção científica a envolver viagem no tempo noções básicas de linearidade devem ser colocadas em suspenso, no éter da fé!

Somewhere in Time (localizado como Em Algum Lugar do Passado), de Jeannot Szwarc, do primeiro ano da década de 80, é um cult classic das short novels de amor e do cinema fantástico em simultâneo. Com menos de 2 horas de duração, seu enredo gira em torno de um casal improvável unido por uma viagem no tempo que não cria linhas temporais paralelas, fechando-se em círculo, o modo clássico e perfeito da viagem temporal, anulando causa e efeito e evitando paradoxos conceituais. Argolas costumam representar essa faceta: o círculo é a própria perfeição na geometria. Em Final Fantasy VIII o símbolo máximo do amor eterno entre Rinoa e Squall é um anel, uma esfera perfeita, tirante que é oca. No filme, esse aspecto é bem-representado por um relógio, mas não um relógio qualquer: um relógio de bolso, daqueles atados a correntes e de dar corda, sempre perfeitamente redondos. Um relógio de ouro, cujo valor real, por debaixo dos quilates, é inestimável.

A introdução de um objeto na narrativa pode ser considerada o aspecto central; podemos dizer que o casal não é o protagonista. Este filme é a “história de um objeto”, circulado por humanos e seus dramas. Desde que o relógio é entregue por uma das duas pessoas romanticamente envolvidas à outra (o que acontece de forma espelhada e dual no filme – e em FF8 também, com o anel, ainda que com a ajuda de Zell), em tempos diferentes de suas trajetórias pessoais, é impossível determinar “de onde veio o objeto” e “qual seu destinatário final”: o relógio, como presente (e não é à toa que o substantivo para dom, graça, oferenda que se dá sem pedir nada em troca, seja a mesma palavra para significar o momento em que se vive, antítese de passado e futuro), e as circunstâncias em torno dele, sempre existiram, tal e qual, sem modificação, reiterando-se indefinida e infinitamente, chancelando todos os outros eventos do antes e depois deste universo. O relógio de Somewhere in Time é o anel de Squall Leonhart, como já frisado.

Antes de continuar, devo dizer que o próprio filme não é um script original: foi inspirado num livro, https://en.wikipedia.org/wiki/Bid_Time_Return, que depois até mudou de nome graças ao sucesso (apenas póstumo) do longa-metragem. As diferenças entre ambos são marginais, de maneira que podemos nos concentrar na obra audiovisual, até por ser a mídia mais próxima de um videogame.

Christopher Reeve (sim, o Superman clássico) e Jane Seymour, além de serem os atores deste conto, também se apaixonaram e tiveram um caso na época das filmagens – quão “a vida imita a arte” ou “a vida é a própria obra de arte” isso não é?! Procedamos a um resumo mais direto:

Reeve (Richard Collier), um roteirista de peças de teatro (ou escritor, como preferir) recebe das mãos de uma velha, na 1a cena, o místico objeto. A interação entre ambos é curta, e ele sai sem entender nada. Ela diz “Volte a mim”, come back to me, depositando o relógio na mão do moçoilo e galã. Os amigos de Collier pensam se tratar de um trote ou de um truque de mágica fajuto de uma lunática ou tarada qualquer… Collier não compra essa “saída fácil” para o enigma… Mas a vida segue adiante.

Collier, já 8 anos mais velho, hospedado no Grand Hotel (Michigan) a trabalho, se torna obcecado por uma fotografia de uma bela atriz, visivelmente jovem quando ele ainda sequer era nascido, ou seja, inencontrável para ele agora. Uma coisa a se notar é que Collier está sofrendo de bloqueio criativo. Ele não está conseguindo se comunicar ou achar sentido no que faz, o que o aproxima muito do personagem Squall, o protagonista “mudo” ou “com problemas para interagir, aceitar-se e mesclar-se com os outros a sua volta”. Artistas são mesmo criaturas ensimesmadas, então é uma boa escolha que um protagonista de RPG se baseie em um, embora sua única arte genuína – falando de Squall – seja a militar, a da empunhadura de uma espada-pistola! A obsessão pelo retrato se torna tamanha, e o desdém pelo presente (não o relógio, mas sua condição vigente) tão intenso, que Collier, consultando um misterioso professor, aprende e põe em prática um método de autossugestão que, afiança-se, poderia fazê-lo voltar no tempo. Ele quer conhecer a mulher do retrato, pela qual já está perdidamente apaixonado. Estranhamente, confirmando sua hipótese neurótica, Collier verifica que está num livro de presença do arquivo do hotel, isto é, sua caligrafia está! Significa que ele realmente se hospedou no Grand Hotel na mesma época de sua beldade 2D (ótima deixa para debatermos sobre jovens libidinalmente insatisfeitos e inexperientes que terminam por se apaixonar por ícones 2D – estou falando de otakus apaixonados por waifus, meros desenhos! quem sabe depois…).

Seja como for, a plot exigia que o milagre da viagem temporal se realizasse, com a ajuda do relógio, algumas vestes muito démodé e um mantra, doentiamente repetido: usando esses 3 recursos, Collier consegue acordar no Grand Hotel em 1912, muitas décadas antes de seu presente. Ele logo trava conhecimento com Seymour (Elise McKenna), que vem a ser a idosa que regalou-lhe o relógio e endereçou-lhe aquelas misteriosas palavras (se você ainda não tinha concluído isso, estava muito distraído lendo o texto!). Ela está na flor da idade, vive seu auge. Como sempre num roteiro do tipo, existe um Seifer, e seu nome é William Fawcett Robinson, mas seus ciúmes são meramente gananciosos – ele é o agente da atriz, não um interesse amoroso (ou ele foi rejeitado muito tempo atrás por ela, vá saber!). O ator que interpreta este homem mais velho é Christopher Plummer. Por algum motivo metafísico jamais deixado claro, esse empresário sabe que uma paixão devastadora encerrará precocemente a carreira de sua agenciada (Pitonisa? Uma Edea maligna?), então se devota a ser a pedra no sapato de ambos. Parece que em meio a suas preocupações – que não tinham como ser substanciadas antes da aparição de Collier – Fawcett acaba dando com a língua nos dentes, expediente trágico (erro necessário) que serve de combustível e ajuda a tapar eventuais incoerências da estória: ele havia informado a atriz, em algum momento de seu passado, que ela devia tomar muito cuidado com um homem predestinado a roubar seu coração e arruinar sua carreira. Talvez McKenna estivesse em franco ennui de sua carreira como atriz, “pedindo aos céus” que a profecia se realizasse, tanto que no primeiro encontro entre os dois, ela, sem mais, lança-lhe na cara a enigmática pergunta:

– Você é ele?

(Não está descartado que ela tivesse apenas um intenso senso de humor, e vontade de espetar seu empresário!)

Estou rindo agora ao recordar que essa frase foi muito usada num determinado ponto da narrativa de LOST, a série por excelência quando o tema é viagem ou loop temporal perfeita(o). Para quem não faz idéia do que estou falando…

Só faltou uma música desconfortável de suspense começar a tocar na hora, em Somewhere in Time, e a pergunta ser sucedida por outra:

– O que um homem das neves disse para o outro?

Bom, mas essa especulação lostiana me desviou muito da rota (defeito congênito meu, meu leitor assíduo sabe bem)… Ainda poderemos nos achar?!…

O que podemos perceber, não sem malícia, pelo menos nós o público masculino, é que as mulheres são os maiores enigmas: entram e saem de nossas vidas com as frases mais incompreensíveis… Podemos até dizer que o amor é o mundo governado pelas feiticeiras… Nós somos meras marionetes em suas mãos, no fim das contas! Rinoa diz vários disparates a Squall quando o conhece, para não fugir à regra…

* * *

Antes de prosseguir com o relato do que acontece, uma de suas maiores forças, e que justifica a superioridade do meio escolhido (a telona), é a trilha sonora. Com efeito, pode-se dizer que a trilha sonora de Somewhere in Time fez mais sucesso que o próprio filme. O mesmo eu poderia dizer de Final Fantasy VIII, sob risco de parecer leviano e herege ao verdadeiro fã. SiT usou composições de John Barry, um grande profissional da área, que, diz-se, estava em seu auge, como McKenna. O pianista Roger Williams tocou algumas das canções. O tema mais evocado desta peça de entretenimento que não dura mais do que 100 minutos é uma sem direitos autorais, felizmente: uma interpretação de uma interpretação de um movimento de música clássica, i.e., Sergei Rachmaninoff tocando sua Rapsódia, uma revisitação de Paganini, a obra do compositor russo de número 43. Há versões de mais de 20min, mas eis o recorte “mais condensado” que pude achar no YouTube para sua low-attention span appreciation:

Essa música tem importância central na sugestão hipnótica usada pelo viajante do tempo. Sem Paganini, sem retorno a 1912! Era também assaz conveniente que a governanta ou responsável pelo espólio da recém-falecida atriz, Elise, na década de 1970 isto é, possuísse até o objeto dos objetos no inventário: um livro sobre viagens no tempo! Foi através dele que Collier obteve contato com o professor que lhe deu as dicas finais de como fazer para se deslocar ao passado – embora o autor do livro tenha descrido da própria teoria, tornando-se um velho cético e arrependido com o passar dos anos. Talvez ele não tivesse por que voltar – quem amar… Este é o Professor Finney, o excêntrico clichê, presença quase-garantida em todo enredo sobre viagem no tempo. FF8 não foge à regra, retratando os pesquisadores de Esthar, dentre os quais o professor Odine. Pelo menos não é um cara tão odiento quanto o Hojo de Final Fantasy VII!

Voltando à parte do filme transcorrida em 1912, curiosamente agora é o rapagão que tem de correr atrás da donzela: na abertura do filme o procedimento era invertido. Demoram algumas cenas até Collier conquistar as atenções da bela Elise. Ela se encontra em plena turnê de sua peça mais recente – há um palco no Grand Hotel. Sedimentando a relação no plano espiritual e iniciando e encetando o loop temporal, Collier devolve (ou dá?) o relógio que recebera da idosa Elise a… Elise.

Falta apenas a consumação de carne desse amor transgeracional. Como não estamos ainda nem com uma hora de filme, é preciso esperar mais atribulações do mundo exterior até que os protaginistas finalmente façam por merecer essa recompensa das recompensas (é como estar lendo uma peça de Shakespeare com todos os pressupostos lançados, mas sabendo que ainda está no Segundo Ato!).

Fawcett, vendo que os dois teimavam em se encontrar as suas costas, maquina um plano: a turnê seguirá, mas em outro local. Collier será devidamente aprisionado contra sua vontade e tornado inconsciente num dos aposentos deste enorme hotel, remoto e bem-escolhido o suficiente para que nenhum funcionário acabe descobrindo o ato criminoso cedo demais (que aposentos, o leitor se pergunta? justo a estrebaria, um lugar factível já que estamos em 1912!). Elise, mais esperta, maquina também sua permanência no hotel sem que seus agentes e a companhia de teatro se dessem conta a tempo.

Finalmente ambos têm suas “núpcias” neste ínterim, quando o herói da estória, uma vez liberto do cativeiro, descobre que ainda podia reencontrar sua dama no Grand Hotel. Ambos, após a primeira – e, spoiler, última – transa, prometem se casar. Seria o fim da carreira dramática de Elise (naqueles tempos machistas), e obviamente o fim, pelo menos nos anos 1970, da carreira de escritor de peças de Collier! Mas o destino queria que a união do casal fosse breve, mais ou menos como acontece com Squall e Rinoa (não perca de vista que o mote de fundo ainda é um Final Fantasy!).

Acontece que Collier escolheu um terno até antigo demais para viajar no tempo – antigo até para os padrões de 1912. Elise diz que ele precisa de roupas mais adequadas para que a cerimônia de casamento fosse prestamente arranjada. Eis que Richard Collier, prestes a se desvencilhar das vestes com que regressou quase 70 anos no tempo, tateia um objeto redondo num dos bolsos de sua calça e o retira para ceder à curiosidade de examiná-lo: é uma moeda. Uma moeda com a inscrição “cunhada em 1979”. Instantaneamente a realidade começa a desmoronar. O som da voz de Elise vai ficando mais distante, e Collier acorda no Grand Hotel… em 1980. Este foi o único erro de Collier em seu procedimento meticuloso, o único objeto que lembrou a sua consciência que ele não pertencia àquele tempo, era um ser estranho. Um item maldito no seu inventário. Ele tenta regressar no tempo utilizando os mesmos métodos auto-hipnóticos, porém sem sucesso. Collier não consegue se recuperar da tragédia, e morre de fome e sede nas instalações do hotel em que esteve destinado a conhecer o amor de sua vida (em que consumou este amor incríveis setenta anos atrás, ou seriam apenas alguns dias?!): primeiro por um retrato sépia, depois em conjunção carnal, e depois fazendo uma promessa que nunca pôde realizar… Provavelmente aquele também fôra o fim da meteórica carreira de uma inconsolável Elise, “cumprindo-se a profecia”. Mas ela tinha a moeda de 1979 que provava que seu parceiro era um viajante do tempo e o relógio de bolso, afinal – e com base nesses restos, ela visitaria o jovem, quando ele tivesse idade suficiente, para arrematar a outra parte (a boa parte) do destino, e repetir a cena que já estava escrita desde sempre. Ela, como atriz, saberia encenar muito bem…

Embora não tenhamos um perfeito equivalente à moeda em FF8, o que torna o filme uma obra das mais interessantes que já assisti, aquilo que faz as vezes de “elemento que traz à tona o desespero” a Squall Leonhart é sua própria amnésia (no começo) e depois o vazio literal do limbo da compressão temporal: enquanto seus amigos viajavam no tempo-espaço sobre um fundo imaculado e branco, o fundo de Squall na mesma cena era completamente negro, aspecto ressaltado na sinopse. Quando os jovens não conseguem mentalizar (sugestão auto-hipnótica) o campo florido (soma de todas as cores?) em que deviam se reunir a fim de viverem felizes para sempre, significa que eles estão flutuando à deriva no espaço mais ermo, na solidão eterna e incontornável (o que também torna a cena “cosmonáutica” entre Squall e Rinoa, em retrospecto, milhares de vezes mais bela e significativa, já que o espaço é escuro, tirando as estrelas).

* * *

[SUP]

Agora que terminamos a comparação entre Em Algum Lugar do Passado e Final Fantasy 8, podemos explicar “o plano supremo de Squall/Laguna” revisitando os trechos negritados em vermelho no relato cronológico do enredo, mais acima (mas tenho certeza que muita gente já pegou o espírito – eu mesmo não podia me conter, enxertando minha própria interpretação apenas prometida para depois com cada vez mais notas de rodapé tão malucas quanto compridas!):

“Seus pensamentos, dessa vez declarados em voz alta, giram em torno dessa questão tão paradóxica: o pouquíssimo tempo que tiveram juntos modificou-o por completo; e agora, justo agora que ele o compreende, não tem acesso a suas palavras, a sua risada…” Nessa frase, a brevidade, em par com a anômala intensidade, do amor do casal é matéria comum a ambas as obras, o filme de 1980 e o jogo de 1999. Squall, quando se depara com Rinoa em coma, sente-se tão devastado quanto Collier quando volta a sua linha do tempo original, pois saiu de seu “sonho idílico” e redespertou na mais dura realidade, embora em ambos os casos ainda houvesse esperança de “retornar” (seja Rinoa à consciência seja a consciência do autor ao começo do século XX).

A origem do anel do Griever é muito confusa para jogadores estreantes, mas logo se torna claro que ele é um “presente do futuro” de Squall para si mesmo e nunca teve uma origem propriamente dita definida (basta ler fóruns como https://www.reddit.com/r/FinalFantasyVIII/comments/eweri4/we_know_griever_is_a_thing_squall_invented/). É, obviamente, no nível mais superficial, uma espécie de souvenir familiar – mas se Squall nem lembra que teve um dia uma família! Ao mesmo tempo, a tradução significa “aquele que se lamenta, que está em luto”. Em terceiro lugar, pode-se dizer ou que a arma do jogo foi pensada tomando como base o design do anel ou justamente vice-versa. Em quarto lugar, a importância do Griever é tamanha que ele vem a ser o Guardião mais importante do jogo. E embora o anel cumpra o papel alocado ao relógio no filme, um dos ataques do GF Griever é justamente “roubar a mágica e desperdiçá-la no espaço-tempo”, isto é, uma função bastante similar à da “moeda do futuro” – o Griever é um símbolo ambíguo, que tanto traz a maior felicidade como a maior desgraça, dependendo do momento narrativo. Curiosidade: a música-tema do confronto contra Ultimecia no estágio 3 (fundida com Griever) se chama Maybe I’m a Lion, óbvio chiste com Maybe I’m a Leo (Deep Purple).

“Os dois anéis que Rinoa estava usando, por cima da veste tecnológica (!!), o original de Squall (que ele deixou com seu corpo comatoso) e a réplica combinada com Zell, presos ao seu pescoço por uma corrente, quebram o elo e partem em direção ao próprio Squall. Miraculosamente, a voz de Squall parece reverberar agora, na mente de Rinoa, que ainda não expirou. O amor é mesmo afrodisíaco, amigos, até para os pulmões em situações críticas como esta!”: temos aqui, antes do fim de Final Fantasy VIII, o que seria um happy ending para a tragédia amorosa de Somewhere in Time.

“Ela está em pânico sobre o futuro e se pudesse escolher só gostaria de reviver os efêmeros instantes que lhe restam ao lado de Squall.” Neste momento Ultimecia e Rinoa se fundem, como entidades e personagens: querem exatamente a mesma coisa, a compressão do tempo. E Squall não é menos inocente quando declara que destruiria toda a realidade no entorno do casal desde que pudesse protegê-la – e proteger sua vontade última, que é a mesma que a dele.

“Rinoa tenta devolver o anel original de Squall. Ele, de modo frio e em completa contradição com o turbilhão de sentimentos que o domina, diz que está tudo bem que o objeto fique com ela, e ambos se despedem num tom triste.”: já esta cena é uma inversão daquela que inaugura Somewhere in Time: é como se Collier recusasse o presente – um estúpido relógio antigo! – de uma velha louca que ele não faz idéia de quem seja… o que seria a atitude mais natural, se pensarmos bem… Mas Squall já havia declarado todo o seu amor e traçado seu plano – aceitar a vitória de Ultimecia, o que torna essa cena ainda mais bizarra e angustiante.

“Como que se esquecendo de que ele tem um plano muito maior em execução … que não necessita, e até exige, que nenhuma intervenção (pois ela ‘já aconteceu’) seja realizada, ele ‘volta a si’”: O que já havia acontecido é que o Squall adulto havia efetuado o time loop com Ultimecia para integrar sua versão jovem e Edea ao “plano maior” das coisas. O Squall da linha temporal presente ainda estaria por fazer “sua parte” na empreitada, mas o Squall criança tinha lembranças do evento, e depois de recuperar as brechas de memória apagadas pelos GFs e de vivenciar seu romance com Rinoa o Squall de 17 anos pós-visita à lua já sabia perfeitamente o que (não) fazer – meramente deixar a corrente do destino fluir… Exatamente como Elise no filme.

“Eles selam uma promessa: se Squall se sentir perdido, ela sempre poderá encontrá-lo neste campo florido; ele deve vir a este jardim e aguardá-la, se ela já não estiver.”: o “Volte a mim” em Final Fantasy VIII. O campo florido é onde tudo se deu/dá: o Grand Hotel/o orfanato … em 1912/na compressão do espaço-tempo.

Tecendo outras comparações, poderíamos dizer que a própria Ellone é “o relógio” em FF8. Analogamente, sobre a identidade Ultimecia=Rinoa, teoria que eu nem chamo de “teoria”, mas apenas de “realidade nua”, e pela qual serei criticado pelo fã obstinado, me resta objetar, a fim de me tornar mais claro: não é que Ultimecia e Rinoa sejam a mesma pessoa (em essência, são!), mas Ultimecia poderia ser a velha de Somewhere in Time: apenas o agente (mais) onisciente de todo o time loop, agindo “em causa própria”, porém de maneira altruísta, pois ao mesmo tempo em que ela não colherá diretamente frutos de sua ação (no presente), ela “já os colheu” no passado, quando viveu a relação amorosa com Collie (Squall). Rinoa é só a versão jovem de Elise, ingênua, sem pecados, porém envolvida assim mesmo na “tragédia” da unha do pé à raiz dos cabelos. Ultimecia perdeu tudo – mas ao se fundir com Rinoa percebeu que existia uma causa que valia a pena, e que significava afinal de contas sua compressão temporal inconceituável: um casal que se reencontrava e revivia seu amor em loop eterno… Ela sentiu a força e o poder desse amor ao sincronizar sua mente com a de Rinoa. A própria Edea, por tabela, também tem uma clara intuição do valor desse amor estampado na logomarca do jogo! Laguna e Julia Heartilly, por procuração, após terem vivido “o mesmo amor”, só que frustrado, e Ellone, que vasculhou todas as memórias dos envolvidos na trama, idem.

“Ao desaparecer numa explosão de luz saturada”: essa descrição “luminosa” é um dos meus argumentos-chave para defender que “Ultimecia venceu”, isto é, Ultimecia não era uma vilã (observe que o mesmo acontece com Ultimecia no fim do jogo e com Edea, no fim de seu “ciclo mau”, as duas que são as diferentes faces da mesma moeda, uma recebendo o poder da outra após explodir em luz… já que Rinoa É Ultimecia!). Seifer, que surge confrontando Squall na abertura, poderia ser entendido como o verdadeiro vilão da trama, se é necessário possuir-se um (quem seria o vilão de Oedipux-Rex?): representa a masculinidade tóxica dentro de Squall, que não cederia diante dos impulsos do amor; parece fortaleza de espírito, mas é sua insegurança encarnada, obstinação tola; e essas “segurança e prepotência” exteriorizadas o tempo todo por Seifer quase matam Squall já antes de o jogo começar… Ele põe verdadeiramente em perigo todo o loopLuz saturada, embora seja sinônimo de algo divino ou bom em quase todas as religiões e mitologias, também se associa a Lúcifer, mas o próprio culto a Lúcifer tem origens santas, e o cristianismo paulino é que demonizou esta veneração (que era muito aceita entre leitores do Talmud). Booom, esse é um papo para outro local! N.B.: É numa explosão de luz saturada que todo o tempo linear é abolido também em LOST!

“O Squall adulto … ouve daquela Edea da encruzilhada dos tempos a pergunta decisiva: Quem é você, jovem?”: A enorme semelhança com a linha “Você é ele?” é até desconcertante!

“Laguna diante da lápide de Raine, mãe biológica de Squall e adotiva de Ellone. Ela foi enterrada com um anel que ele lhe deu de presente.”: Outra instância do “presente que nunca é novo”: Laguna iniciou tudo; mas Laguna só tem o anel por causa das ações do Squall maduro. (É necessário lembrar, se o jogador veterano que me lê se mostra recalcitrante neste momento, que o Griever é produto da imaginação de Squall, e foi criado por Ultimecia graças a isso, tornando-se uma criatura mitológica que se cristalizou em realidade no universo do jogo. Logo, qualquer um poderia vir a cunhar anéis ou medalhões com um Griever, ou incluí-lo num jogo de cartas, como se faz efetivamente entre os habitantes no universo de FF8… Estando o indivíduo no futuro ou no passado, essa informação chegará ao receptáculo infalivelmente. Laguna pode ter recebido a idéia do anel de qualquer pessoa, até de alguém posterior ao nascimento de Ultimecia, desde que o time loop tenha possibilitado que Laguna viesse a conhecer o símbolo.)

Por fim, “Rinoa aponta, com seu índice direito na vertical, uma estrela cadente.” é uma conhecida reiteração de uma pose com a mão que Rinoa executa já durante o baile de formatura dos cadetes SeeD, e que Ultimecia/Edea também executará em suas performances teatrais. Além disso, vinculo esse gesto, especialmente no fim do jogo (a seqüência da realização da compressão temporal), ao fato de que “vencemos na derrota” ou de que “vencer era perder e perder era vencer” serem falas perfeitamente possíveis de ser ditas pelos personagens do jogo, tendo em vista que Rinoa aponta para o céu escuro, mas querendo indicar (com seu dedo indicador) um objeto claro. “No final, todos os sofrimentos valeram a pena por este momento”, seria mais ou menos o que ela queria dizer. Quando ela entrou em coma, ela aprendeu a ser como Squall e apenas pensar nas coisas que deveria dizer (ok, essa última frase foi só uma piada de última hora).

* * *

[+Q]

MAIS QUESTÕES DE TRADUÇÃO

(Prolongamento da “super-nota-de-rodapé”)

Rinoa: “Se eu voltar a ser controlada por Ultimecia… A SeeD me mata, certo? E você é a SeeD, Squall… A espada de Squall perfurará meu coração…… Eu acho que tudo bem se for você, Squall. Ninguém mais. Squall, se isso de fato acontecer…”

Ultimecia “queria ver Squall de novo”. Todas as aspas aqui selecionadas são para lembrar dessa motivação e fortalecer “nossa teoria”. Poderia Ultimecia ter perdido a memória do que queria simplesmente por ser a maior conjuradora de Guardiães que a História já viu?!

Rinoa: “Eu não quero o futuro. Eu quero o presente pausado. Só quero ficar aqui com você…”

Outra grande “coincidência” é que por milhares de anos o castelo de Ultimecia estava ancorado acima… justamente do campo de flores do orfanato!

Embora não seja muito agradável nem desejoso “usar outras referências” externas à própria obra (Final Fantasy VIII; ver tópico seguinte), a terceira fala vem do projeto Dissidia Final Fantasy, o spin-off de luta envolvendo os protagonistas e antagonistas da série.¹ É uma fala curta, mas muito significativa, a meus olhos!

¹  WIKIA (adaptado): “Dissidia Final Fantasy (ディシディア ファイナルファンタジー Dishidia Fainaru Fantajī) é um jogo eletrônico de luta com elementos de RPG de ação, desenvolvido e publicado pela Square Enix exclusivamente para o PlayStation Portable como parte das comemorações dos 20 anos da série Final Fantasy. Ele foi lançado em 18 de dezembro de 2008 no Japão, em 25 de agosto de 2009 na América do Norte e em setembro em outros territórios. § O jogo possui personagens desde o primeiro título da série e se centra em um grande conflito entre Cosmos, a deusa da harmonia, e Chaos, o deus da discórdia. Os dois convocam diversos guerreiros para lutarem ao seu lado em sua 13ª guerra [que específico!]. O jogador controla Rubicante Charger, com Quistis e Neon ou 10 guerreiros escolhidos por Cosmos, que são os protagonistas dos 10 primeiros jogos principais da série Final Fantasy. A versão internacional e norte-americana também dá acesso a outras funcionalidades como um modo arcade. (…) Dissidia foi bem recebido crítica e comercialmente, vendendo mais de um milhão de cópias mundialmente. Uma sequência chamada Dissidia 012 Final Fantasy foi lançada em 2011”

“Vamos dançar?”

Ultimecia, a Squall

(original: Shall we dance?)

É claro que a ambigüidade com o primeiro encontro entre Squall e Rinoa e a analogia entre a dança (e o acasalamento!) e a guerra, supremo instante do confronto entre duas metades que se opõem e ao mesmo tempo se complementam e tornam-se um a razão de ser do outro (ser-com-os-homens…) é altamente voluntário por parte dos mentores da insidiosa Square Enix! Não me levem a mal, eu gosto que uma companhia seja insidiosa com sua fan base!

[FON]

SOBRE “FONTES OFICIAIS EXTRA-MÍDIA”

&

UMA PITADA DO CARÁTER DE ULTIMECIA

Temos que ter muito cuidado com o uso de qualquer declaração exterior ao jogo que se diz “oficial” para interpretar uma obra: a rigor, a única fonte oficial é a própria obra. Uma vez finalizada e lançada no mercado (ainda mais em tempos pré-DLC), o autor perde a autonomia sobre sua obra. Isso não é exclusivo, sequer, do modo de produção capitalista, mas uma espécie de “axioma estético” milenar! Eu como autor sou obrigado a dizer que esta minha matéria, uma vez publicada, me torna seu escravo, e não o inverso – nosso dom da escrita é, em outros termos, também nossa maldição (o outro lado da moeda)!

Declarações podem ser sempre usadas – acabo de fazê-lo com Dissidia, acima –, mas sempre com um “grão de areia” (grão de sal em português não faz sentido como “expressão para conotar cautela”)… Respeitar demais os criadores de uma obra em sua ideologia sobre a própria obra, considerando que eles possuem motivações inconscientes que embelezam essa mesma obra, é o mesmo que chafurdar num fórum do GameFAQs e acreditar em todas as postagens, sem manter as próprias convicções e coerência, o que essa matéria e este portal visam a defender de modo adamantino!

Já deixei claro no “review principal” (ou “superficial”) que guias, oficiais ou não, como o Ultimania Guide (da própria Square) ou o BradyGames (sublicenciado para uma empresa jornalística), são periféricos e secundários como parâmetros para nossas interpretações…

Poderia Shakespeare brindar-nos com uma verdade íntima e última sobre Hamlet? Ele, como verdadeiro artista, jamais desempenhou a crítica do próprio trabalho. Ainda que o fizesse, nada significaria, enquanto Hamlet estiver aberto a interpretações (enquanto a peça existir em comunidades humanas que entendam o inglês), e enquanto a obra uma fez finalizada escapa a seu autor. Ainda mais se se mostrasse contraditório em relação ao próprio Hamlet, personagem sem dúvida contraditório – poderiam seus motivos ser elencados de forma taxativa e unilateral? Mas eu digressiono…

Dizem que Ingmar Bergman, sendo mais ingênuo que Shakespeare, fez afirmativas meta-narradoras sobre seu próprio trabalho – especificamente sobre uma trilogia de filmes. Num ponto futuro de sua existência desdisse o que havia dito – pode haver algo mais patético no mundo da arte?! Os livros oficiais Ultimania e a opinião e os retcons constantes dos criadores de Final Fantasy VIII nada são para nós senão vento e barulho sem coesão! Em suma, dentre todos os materiais oficiais, o mais oficial de todos, na hierarquia, é o trabalho ou obra de arte ele(a) mesmo(a). Essa é uma tirania, a tirania estética, da qual não abdicamos, e contra a qual não fazemos concessão alguma, em tempo algum. É nosso absoluto. A (boa) arte tem esse viés anti-democrático que lhe é inerente, queira-se ou não.

Longe de dizer que materiais como o Ultimania são um lixo: lá você encontrará artworks prototípicos exclusivos e a plot explicada de forma mais esquemática e mastigadinha do que aqui mesmo, por exemplo (mas sem mergulhar 20 mil léguas – já pode me chamar de Cila Verne)!

Com toda essa prevenção e “arrogância” como porta de entrada, gostaria de apresentar-lhes, entretanto, uma “atualização” da tradução do discurso de Edea (possuída por Ultimecia, no comício de Timber) – na verdade um diálogo com um perplexo Presidente Deling – que vem muito a calhar para os objetivos de nossa interpretação, parecendo resgatar o canon perdido pelas confusões da tradução japonês-inglês do período (1999):

(Obviamente, ao verter ao português, colocando uma terceira língua na salada, posso estar ‘corrompendo’ a pureza deste ‘achado’ ou ‘iguaria’, mas isso fica para vossa avaliação de meu trabalho investigativo e como tradutor!)

Edea (Ultimecia): “…Escumalha. …Rebotalho imundo e desavergonhado! Como celebrais minha ascensão em tal estado de euforia?! Louvais então aquela mesma que condenastes geração pós-geração? Não tendes o mínimo pudor? O que aconteceu com a feiticeira maligna e impiedosa de vossas fantasias? Com a tirana de sangue gélido que massacrou uma miríade infindável de homens, um punhado de nações?! Onde está ela agora? Ela se encontra diante de vossos próprios olhos, prestes a se tornar vossa nova ama. HAHAHAHAHA.”

President Deling: (…?)

Edea (Ultimecia): “Uma nova era começou.”

President Deling: “E-Edea… Você está se sentindo b…? Ede…!”

(Ela levita Deling telecineticamente e começa a assassiná-lo…)

Edea (Ultimecia): “Isso é… a realidade. Ninguém pode ajudar-vos agora. Sentai em vossas confortáveis poltronas e usufruí o espetáculo!”

(Após esgotar a seiva vital de Deling, arremessa o corpo cadavérico no chão com ímpeto, ainda com o poder da mente.)

Edea (Ultimecia): “Estai seguros, tolos! Vosso tempo há de chegar. Este é só o princípio. Comecemos o novo reino de terror. Deixar-vos-ei viver um reino de fantasia além de vossas imaginações!”

Excelente pedaço da narrativa. Há-de se observar que este é um novo texto, nem uma tentativa de ser idêntico ao mais formal e fabuloso discurso edeano nipônico nem uma reedição do discurso mais militarista, pragmático e calcado em termos tecnológicos da Edea “americana” de 1999. Comparai:

Edea nipônica 1999 (a original): “……Fede! Fede a tolos imundos! Vós empestais! Desde tempos imemoriais nós bruxas vivemos dentro de ilusões e encantamentos. Que ilusões? As que vós produzistes! Adornando os corpos das bruxas em roupas espantosas, escabrosas, as bruxas que amaldiçoam os virtuosos humanos em seus rituais brutais. A bruxa terrível que queima vossas pastagens, congela vossas casas a começar pelas lareiras em pleno inverno, com sua mágica cruel e sádica… ……Pedaços de excremento!  Agora que a bruxa da ilusão vem a ser considerada uma amiga de Galbadia, vós suspirais aliviados?! Mas que é isto?! Quem sonha sem parar e quem vive a realidade?!”

Edea anglófona 1999 (a adaptada): “Sim, refugiem-se em suas ridículas fantasias! Eu continuarei a dançar conforme a música! E dançarei pela eternidade como a bruxa que trará o pânico e o terror absolutos! Vocês e eu. Juntos criaremos a ÚLTIMA FANTASIA. Dentro desta ilusão, vida e morte, e doces sonhos. A feiticeira viaja através de ilusões infindas! A FEITICEIRA DO FUTURO e Galbadia – avante e para sempre!”

(A massa, a platéia, parecia tão fascinada quanto os alemães de 1932-39. Os loristas do jogo dirão que isso se devia a efeitos de magia apolítica de Ultimecia!)

Edea (Ultimecia) fala de forma mais teatral em japonês. Em português isso é mais fácil de transmitir usando o arcaico, o vós. E também a palavra feiticeira, mais “política”, eu decidi transformar em bruxa, mais medieval. A forma alegórica também “afasta” populacho e tirana mais e mais. Rituais, roupas espantosas, que visivelmente sempre visaram a distinguir quem têm poderes mágicos dos simples humanos, animais de rebanho. Mas Ultimecia quer demonstrar quão ridículos se tornaram os rumores sobre sua aparição no futuro, devido aos acontecimentos do presente. Nasceria uma tirania tão grotesca assim?! E por culpa de quem? E ela não seria bem-vinda pela mesma massa que tanto nutriu geração depois de geração pavor por uma coisa que sequer existia, apenas de nome, em hipótese?! Daí vem seu sarcástico conceito de fantasia que usa no palanque. As ilusões não são os feitiços de magia, mas as noções que a humanidade concebeu sobre a natureza de quem possui esses poderes. O preconceito, o burburinho, a incompreensão. Não foi Ultimecia obrigada a adotar essa máscara de ferro que já quiseram acoplar a sua face desde antes que ela pudesse ter uma alternativa? Ela dançará conforme a música, produzirá as ilusões em que a humanidade quer tanto acreditar! Já que o futuro disse o que ela seria, ou melhor, já que o passado determinou o futuro de antemão, que ela produza no passado o que as lendas vindouras ainda narrarão! Assim como Squall estava destinado a dançar com Rinoa, quisera ele ou não, assim Ultimecia e seus avatares dançarão perante o rebanho desprotegido, enquanto os SeeDs permitirem, é óbvio…

A Edea japonesa, a Edea reabilitada no guia Ultimania, é uma relações públicas, com efeito, de nome e de vocação – é uma atriz consciente de que interpreta um papel. Joga um RPG. De vida e morte, mas ainda assim um jogo, uma representação. Sentem e assistam a peça, vocês são meros espectadores! Nisso a versão americana do século passado tinha perdido muito de seus matizes (embora o meta-comentário com a palavra FINAL FANTASY seja muito benquisto), mas no guia a Edea teatral e sardônica está de volta. Ela é um vilão com muitos motivos, ao contrário do que se apregoa por aí! Toda bruxa tem seus motivos…

Ascensão, tirania, nações, reino de terror, essa é a parte mais política e que o Ocidente deixou mais transparente, embora os japoneses sempre captassem os mesmos conceitos no “subtexto”… Os japoneses não gostam de ser muito explícitos sobre imperialismo, o que não significa que suas obras deixem de explorá-lo com bastante freqüência – e inteligência! Quem já sentiu o pavor da bomba atômica sabe mais do que ninguém o que é o pavor metafísico, ainda mais elevado… da civilização que se encontra entregue. Felizmente existem heróis – nos videogames, podemos ter certeza!

Bem, qual das 3 traduções para português você mais apreciou?! Deixe sua opinião.

[REC]

RECOMENDAÇÕES LITERÁRIAS PARA AMANTES DO EFEITO DO TEMPO NA ESTÓRIA (O CONCEITO MODERNO DE TEMPO QUE INCORPORAMOS AINDA HOJE NA FICÇÃO)

Como penúltima nota, para aqueles que se mantiverem motivados e sedentos por enredos envolvendo o tempo (não precisa ser com máquinas do tempo, isso é para amadores!), recomendo, curto e grosso, Marcel Proust, um dos meus prazeres mais recentes. Sua magnum opus se chama em português Em busca do tempo perdido. É um livro sobre um pouco de tudo que discutimos aqui: inconsciente coletivo, tempo, espaço, memórias

Para discussões filosóficas, sem o envolvimento de personagens fictícias em ternos e emotivos diálogos, o caminho é outro e mais pedregoso. Poderia recomendar Husserl e Heidegger (que inclusive citei até bastante em minha análise análise – hat-trick contando com esta), da primeira metade do século XX como o próprio Proust, e Baudrillard da segunda metade do séc. XX e início do vigésimo primeiro (nosso quase-contemporâneo – agora que o ultrapassamos, pelo menos em sobrevivência, se não em refino, podemos nos sentir… velhos!) – todavia, fico receoso de referendar assim sem mais: essas leituras exigem uma preparação (equivalente a um curso completo de filosofia), então fiquemos por aqui! Você pode começar apreciando considerações mais pé-no-chão sobre o tempo em Aristóteles antes de partir para coisas mais radicais… (no Seclusão você encontre vários “cursos de filosofia” em formato de texto – meu maior talento –, se fazer 4 anos de graduação formal não é o que você tem em mente…)

[CON]

O QUE ACONTECE SÓ ACONTECE UMA VEZ, MAIS UM ARGUMENTO IN-GAME PARA MINHAS POSIÇÕES “HETERODOXAS”

Para quem não assistiu Somewhere in Time ou Lost ou não jogou ainda Final Fantasy VIII… Ou para quem assistiu SiT e Lost e não os entendeu ou torceu o nariz para essas produções… e jogou FF8, mas não concorda em nada com o que eu digo… Ou para quem prefere o tipo de viagem no tempo que gera universos ou dimensões alternativas ou paralelas, que é a noção contra a qual estou em guerra o tempo todo aqui (bem como os filmes, séries e jogos que estou citando!!), i.e., para o ANTI-TIME LOOP SQUAD, eu acrescentei essa seção. Vocês, obstinados jogadores da visual novel e apreciadores do anime de Steins;Gate (que ganhará review no rafazardly em 2024), vocês recalcitrantes expectadores de Back to the Future, o filme de happy ending em que você muda o futuro, apesar de flertar com o perigo do paradoxo do avô (aliás, valha trilogia superestimada!!!)… Finca a bunda na cadeira e vê se presta atenção mais um pouco, quem sabe você não é tão casmurro e eu ainda consiga “cooptá-lo”!

A primeira instância, da perspectiva do jogador de FF8, em que ele entende que “o passado não pode ser mudado” (e, em conseqüência, nem o presente nem o futuro, pois todos se tornam o passado após a devida quantidade de tempo!!) é a declaração de Ellone a Squall, explicando como seus poderes funcionam:

“Você não pode mudar o passado. Eu demorei para entender isso.”

Para quem não entendeu a questão da jogabilidade com Laguna, Kiros e Ward, o jogador é transportado mentalmente ao passado dessas 3 figuras veteranas. Eles são jogados pelo jogador, que tem total liberdade na ação, como se estivesse operando num Grand Theft Auto (ok, nem tanto!)… Mas, falando do jogo em si, esse é um recurso narrativo para dizer: este momento é o presente tanto de Laguna & cia. quanto de Squall & cia., que estão tendo um sonho lúcido “revivendo” o presente de Laguna & cia.! Desde que Laguna & cia. vivenciaram aqueles episódios, sempre estiveram sob influência de Squall e os outros, o filho e os amigos do filho provindos do futuro, isto é, dos SeeDs, que existiram desde sempre. Em suma, ninguém tinha a agência, porque todos tinham a agência ao mesmo tempo: o que Laguna escolheu fazer era igual aquilo que Squall escolheria fazer, etc. Tudo estava em harmonia. Ellone queria que Squall mudasse o passado de seu pai, mas tudo que aconteceu foi uma reprise tal e qual das mesmas cenas, ela não viajava no tempo nem transportava consciências, ela apenas assistia o passado, e mesmo sendo a usuária desse poder só foi perceber essa limitação após várias vezes em que “desmaiou” o grupo SeeD e “arremessou-os” na vida de Laguna…

Essa revelação tem um forte impacto. Não é absurdo que o jogador não tivesse percebido isso. A própria Ellone não tinha. O jogo foi feito para ser entendido apenas na segunda gameplay – o que é uma pena “ao quadrado”, porque a gameplay é horrível e só vale a pena pelo próprio enredo, urgh!

O caráter trágico e a condição humana sempre querem violar essa regra, e assim funcionará até o final dos tempos (no pun intended): Sísifo e sua pedra, Édipo-Rei, etc., etc. Squall, após ouvir Ellone, tenta ele mesmo mudar o passado, enquanto tenta salvar Rinoa do coma… até entender como funciona, na prática… O ser humano é assim. Muitos gostam de citar essa inconsistência ou contradição ciência-ação para refutar a teoria de que Rinoa=Ultimecia ou que a compressão do tempo foi realizada. Um dos motivos mais fortes é que Ultimecia estaria sendo “burra” ao tomar nota de que morreria tentando fazer a compressão temporal indo ao passado; mesmo assim ela escolheu ir ao passado. Explicam alegando que “todo ser humano tenta mudar o passado na prática por mais que seja avisado da impossibilidade dessa mudança”, um expediente natural em toda ficção de qualidade. É verdade e é plausível, mas queria Ultimecia “vencer” – podia Ultimecia “perder”?! Outras perguntas precisariam ser levantadas, perguntas que os “sabichões” coincidentemente sempre evitam desenvolver em suas “teorias bem-armadas”. Ora, nada tem que ver a vilã ser burra, ela é apenas falível e gananciosa, nisso residia seu mal, dizem aqueles que advogam pela total liberdade de agência dos envolvidos e entendem o final de FF8 como a representação de uma continuidade temporal pós-tentativa falhada de compressão do espaço-tempo. Tirando o fato de que é difícil tirar algum sentido lógico da “zeração” de FF8, a questão não é avaliar o nível de inteligência ou de teimosia de Ultimecia. A Square obviamente brinca com o fato, o que torna sua obra objeto de discussão até hoje – sabe quem mais faz esse tipo de coisa?! David Lynch – e ele nunca explica(rá) nenhuma de suas obras. Curiosamente, ao que tudo indica, em Twin Peaks acontece uma viagem temporal que muda-sem-mudar a realidade dos personagens, e mesmo assim ainda pressupõe-se que eles acabam vivendo num loop… O cara é tão maluco – no bom sentido – que conseguiu instilar em nós a percepção dual, ou seja, de que ele fez os dois tipos de viagem no tempo ao mesmo tempo… Sem trocadilhos… Talvez seja isso mesmo, talvez sejamos incompetentes demais para entender Lynch… Resumindo: é bom deixar algumas coisas em aberto e sem resposta definitiva ou não-críptica dentro de sua obra. Mas isso não significa que não puderam desenvolver um script em que Ultimecia vence no final, desde que se entenda, como eu entendo, a vitória de Ultimecia como uma vitória para todos os personagens, o que até obsolesce essa discussão idiota (após certo tempo, desculpe, desculpe, é a última vez que me refiro temporalmente ao tempo nesta resenha, pois ela já está chegando ao fim!… após certo tempo tudo se torna idiota e repetitivo, e era necessário indicar que o binarismo da questão Ultimecia venceu? S/N ou Rinoa=Ultimecia ou Rinoa=Rinoa e Ultimecia=Ultimecia sendo mutuamente exclusivos era o que precisava ser posto em questão o tempo todo… ops, de novo isso…).

Bom, qualquer coisa é melhor do que um argumento que eu li: “Já que existe o game, e eventos acontecem, significa que não houve compressão temporal, ou todos os eventos teriam sido anulados e não existiria o jogo…”. Vou levar na esportiva – belo troll! Vitórias podem ser amargas e exigir imensos sacrifícios (final de Lost); derrotas podem conter coisas boas e ser louváveis até na parte estética da coisa (final de SiT?). No fim, vitórias e derrotas – o conceito de vitória e o conceito de derrota – são tão intercambiáveis quanto GFs entre os personagens controláveis do jogo… A única mensagem que não podemos relativizar neste game, devido aos índices incontornáveis in-game e no meta-texto, é a seguinte: FINAL FANTASY VIII VERSA SOBRE UM ROMANCE MAIOR QUE TODO O DEMAIS. Acho que não preciso falar mais nada. Isso NÃO significa que Squall terminando a vida solteiro ou fora dum time loop seria um Squall mais triste ou piorado, só estou repetindo o óbvio: o que acontece, acontece…

[UNC]

UNCANNY VALLEY NO MÍNIMO – CONFIRMAÇÃO PARA OS “LEITORES RESPONSÁVEIS DA ESTÓRIA”:  Cotejando os character designs de Rinoa e Ultimecia, é incontestável que ambas têm até a mesma cara, como se já não bastassem as fortes evidências de roteiro de que cumprem o mesmo papel ou representam uma mesma (id)entidade. Dificilmente seria uma coincidência ou algo não-intencional por parte de um dos mais talentosos programadores e criadores de personagens no ramo, Tetsuya Nomura. Sempre haverá vozes em dissenso: “Nomura é conhecido por representar várias personagens femininas de forma semelhante”; “a tecnologia rudimentar do período não permitia grande diferenciação nos rostos”. Duas afirmações que são desmentidas pelos próprios female designs de FFVIII! Não há qualquer relação de verossimilhança entre Quistis, Selphie e Rinoa, como exemplo basilar. Se não estiverem convencidos de que Tetsuya Nomura criava designs únicos para cada personagem QUANDO QUERIA, dêem uma observada em character designs de outros desenhistas, do passado ou do presente, na minha opinião menos talentosos ou, pelo menos, mais idiossincráticos (ou ‘insistentes’ em rostos idênticos): Akira Toriyama, o mangaká mais superestimado de todos os tempos, nos brinda não só com rostos femininos sempre muito parecidos… mas até com rostos de homens e mulheres quase gêmeos, e até corpos – compare-se os crânios de Freeza, Majin Boo e Jiren, para não falar em Brolly, Kaulifla, Andróide 17 e 18, que instintivamente associamos a Toriyama, e achamos até desagradável (é tão desagradável que tendemos a ver a cara do Goku no protagonista de Chrono Trigger e nos personagens que ele desenha para a série Dragon Quest)!!! Pior ainda: o artwork de AKIRA (falo do mangá de mesmo nome de Akira Toriyama, mas que não é dele) revela que Katsuhiro Otomo tinha uma obsessão enferma pelo mesmo rosto empregável para três personagens principais ou, simplesmente, que ele não é tão talentoso… Tirem suas próprias conclusões abaixo. Identidade visual e estilo são uma coisa, mas modelo genérico é outra – mesmo em cores, ler o mangá Akira chega a ser um suplício em vários capítulos, pois nunca sabemos quem é quem!

Todo mundo sabe que uma forma de economizar tempo, para um mangaká, é apenas repetir os traços e mudar a cor do cabelo, certo? / Num universo paralelo, Goku/Yamcha(?), Android 18 (Chi Chi descolorida?) e um Shen Long azul (?!?) protagonizam o primeiro Dragon Quest/Dragon Warrior de SNES, que só foi localizado ao Ocidente 16 anos depois! (Não, é sério, alguém gosta de ver Dragon Ball Z em outras mídias? Eu quero distância!)

Kaneda, protagonista de AKIRA (esq.) e Kei, namorada de Kaneda (dir.). Ou seria vice-versa?

Kai, melhor amigo de Kaneda (ok, acho que o problema é a obsessão do autor com nomes e rostos parecidos mesmo, tá na cara que só podia ser de propósito)! O que muitos consideram digno de cult-following para mim é repulsivo aos olhos!

Ah sim, devia tê-lo dito isso “100 páginas atrás” (finja que está lendo um livro), mas Liberi Fatali, o nome da canção da FMV introdutória, significa: Children of Fate. O que fate (destino) significa? Não vou perder meu tempo discutindo binarismos – todos temos espontaneidade para agir no presente, mas quando o presente se torna passado, é essa palavra que usamos para caracterizá-lo: se tornou um destino, um fado, palavra do português mais próxima. Fado geralmente tem uma conotação negativa – e crianças, presumivelmente quem mais têm um futuro pela frente, conotação extremamente positiva. Acho que até Nobuo Uematsu gostou de brincar com a psique dos jogadores neste episódio VIII, pense bem! Pense também no filme Advent Children, continuação direta de Final Fantasy VII, de alguns anos depois: a Square é mesmo obcecada com crianças e o potencial que elas têm para forjar o destino, correto?! Ah, e eu que queria duplicar o tamanho desse texto, emendando-o com meu parecer sobre Final Fantasy VII Remake, que zerei semana passada… Mas isso não será feito nem aqui nem agora! É meu destino deixar para depois!

FINIS? INCIPIT? CAPUT? ESCATHOLOGIA? GENESIS (super nintendo)? KAPUTT? INITIUM? FINIAT? TELOS? FIAT?! C’est fini? J’N’SAIS PAS! (francês é muito romântico, vocês não acham?!)

PALAVRAS REBUSCADAS (OU NÃO) DA LÍNGUA PORTUGUESA


a trouxe-mouxe: pronuncia-se trouche-mouche. Em confusão, a esmo, caòticamente.

abaeté: 1. homem valoroso no vernáculo tupi; 2. algumas localidades em Minas e no Pará; 3. sujeito experiente; 4. feio, asqueroso.

abati: arroz

aberturar: agarrar pela gola

abotoar: (jargão) agarrar com segundas intenções

aça: albino, fuá, sarará

acaracu: bebida de garça, iguaria dos índios

acauã: espécie de ave de rapina agressiva cuja dieta prefere cobras

ádito: entrada; mistério.

aflar: soprar, bafejar; inspirar; achar (em desuso).

ai-jesus: 1. dileto ou preferido (Ex: “o ai-jesus do professor”); 2. designativo de dor ou pena.

alapardar: esconder

albatroz

substantivo masculino

Ave de habitat marinho, da família dos diomedeídeos, migradoras, de cor branca, corpo robusto, asas longas e cauda curta; com mais 3,5 metros de envergadura, sendo encontrada no hemisfério sul, é considerada a maior ave voadora do mundo.

Etimologia (origem da palavra albatroz). Do árabe al-gattas; do inglês albatross; pelo francês albatros.”

alçácar: alcácer, palácio-fortaleza

aldraba: antiga campainha (de ferro, para bater na porta da frente e anunciar a chegada), pedrês

almanjarra: roda hidráulica que o gado movia nos engenhos

almotacé: atual almotacel: “Oficial municipal encarregado da fiscalização das medidas e dos pesos e da taxação dos preços dos alimentos e de distribuir ou regular a distribuição dos mesmos em tempos de maior escassez”

almude: “é o nome de uma antiga medida de capacidade, correspondente à 12 canadas (VIDE CANADA), ou cerca de 32 litros.” O presidente da Câmara havia pedido 30 almudes de sangue dos Canjicas, o que resultaria em 960L! (Machado de Assis, O Alienista)

alqueire: mais de 2 e menos de 10 hectares (variação da medida conforme a região do país)

aluir: abater, abalar

ama-seca (auto-explicativo)

amásia: concubina, amante, barregã

âmbar: resina fóssil, matéria-prima de muitos adornos

amojo: lactância

anajê: ave amazonense

andira: morcego (origem Tupi)

andiroba: fruta da andirobeira, angiosperma freqüente nas margens dos rios. O óleo das sementes da andiroba possui uso medicinal e serve como repelente a insetos. Nome científico da andirobeira: Carapa guianensis.

anequim: tosquia de ovelha;  espécie de tubarão = CAÇÃO, TINTUREIRA.

anfracto: saliências, depressões e elevações sucessivas; aspecto do nosso cérebro (anfractuoso).

angico: árvore que dá tintura preta

anime: antes das bombas atômicas no Japão, resina!

anum: [Ornitologia] Designação dada a vários pássaros brasileiros da família dos cuculídeos, em especial do gênero Crotophaga. Etimologia do Tupi = ANI, ANU

aquilotar: habituar-se

ará: periquito

araçá: árvore; fruto do aracuzeiro; boi amarelo de manchas pretas.

aracati: vento cearense de verão, que sopra no sentido nordeste-sudoeste

araçóia: cinto de penas

araponga: pássaro cujo canto ressoa ao metal; pessoa que grita.

arapongagem: ação de espião ou agente infiltrado

aratanha: vaquinha; pequeno camarão de água doce; sapo; aroeira-do-campo; peixe cangauá.

arrebol: amanhecer ou pôr-do-sol; vermelhidão do céu.

áscua: brasa, chama

assuada: motim, algazarra

ati: gaivota-da-cabeça-cinza, tiribique. Nome científico: Larus cirrocephalus ou Chroicocephalus cirrocephalus.

atrabiliário: hipocondríaco, suscetível em excesso

avenca: árvore

azoinar: atordoar

azucrim: diabo

babugem: baba ou espuma nojenta aglomerada num ponto; dejeto alimentício; insignificância.

babujar: babar; bajular.

bacorejar: prever, pressentir

bacurau: ave noturna, antes de ser filme!

bagaceira: 1. cachaça; 2. depósito dos resíduos da cana; 3. bando de palavras desconexas; 4. ralé; 5. entulho (coletivo).

bagarote: dinheiro (arcaico)

baiuca: pocilga, chavascal (costumava levar acento no u)

banga: 1. cambada de vagabundos; indicativo de mofa com o interlocutor, quando no final da frase; 2. casa mal-construída.

bangalafumenga: zé-ninguém, imprestável, leguelhé.

barregã: concubina, amásia

batoré: porco, imundo

benjoim: resina da árvore benjoeiro; espécie de abelha.

berne: larva de mosca

besta

Arma portátil composta por um arco de madeira, ou de aço, cujas extremidades estão ligadas por uma corda que, ativada pelo gatilho, é esticada para arremessar setas ou balas de metal (pelouros).”

bicharoco: bicho pequeno; animal repelente; homenzarrão ou homem feioso.

bilha: vaso de gargalo curto e estreito; bujão; rabo, bunda (extremamente informal).

bocas do caeté legítimo / caquera / unha-de-vaca: o mesmo que solo fértil

bogari: jasmim

boicininga: cobra venenosa, a cascavel

borralho: cinzas ainda quentes, lareira; touro de cor cinza.

bouba: ferida

bromatologia: ciência dos alimentos

bruma

Nebulosidade causada por gotículas de água que ficam suspensas e diminuem a visibilidade; nevoeiro.”

bugre: rústico, primata, sujeito intratável

cabroeira: coletivo de cabras (homens)

cacaréu: cacareco

cacimba: orvalho; poço artesanal.

cafundó: ermo

caiçara: 1. árvores em decomposição; 2. isca vegetal na pescaria; 3. curral; 4. cobra venenosa; 5. caboclo imprestável; 6. sertanejo inculto do oeste brasileiro.

caiporismo: má sorte sem fim

calaçaria: preguiça

caligem: denso nevoeiro

caloji: quarto escuro para entrevistas amorosas

calumbi: árvore leguminosa também conhecida como jurema-preta

cambaxirra

Nome comum a várias aves da família dos trogloditídeos, também chamada carriça, camaxirra, corruíra, garrincha, garriça.”

cambraia: espécie de tecido algodoado mais nobre que o madapolão

cambiteiro: profissional rural

cambonja ou cambonje: ave peralta

camucim: sepultura indígena em forma de vaso

camumbembe: vagabundo

camurupim: peixe; cavalo velho.

caninana: cobra inofensiva; planta; mulher má.

caninguento: rabugento

capadócio: charlatão; vadio.

capilé: xarope vegetal

capiongo: soturno, triste, melancólico

capitoso: 1. que tem cabeça grande; 2. obstinado; 3. que embriega (ex: vinho, licor).

capitosa: obstinada; sedutora.

capoeira, capoeirão: grande terreno não-cultivado

capulho: broto ou botão da flor

carapina: carpinteiro

carimã: 1. bolo de tapioca ou mingau; 2. doença da cana ou praga algodoeira; 3. fala-se dos bois de cor branco-laranja.

carioba: veste indígena, tipo de camisa à base de algodão

Cariri: língua indígena extinta; região cearense composta por 8 municípios.

cariri: força, esforço

caritó: 1. casebre pobre; 2. prateleira em casas sertanejas; 3. espécie de estante rústica; 4. gaiola de engorda de caranguejos; 5. closet antigo, muquifo para coisas em desuso e tranqueiras; 6. tapera.

Carlota: mulher do povo, forte e livre

carlota: gênero de azeitona

carocha: 1. inseto, mormente a barata; 2. chapéu depreciativo que recebiam os condenados à fogueira na Idade Média; 3. chapéu depreciativo (a.k.a. carapuça) para humilhar os piores alunos da classe; 4. fogão de funileiro; 5. (Portugal) mulher horrível; 6; mentira (quando no plural); 7. bruxaria (quando no plural); 8. sexo oral no ânus ou beijo grego (apenas no Nordeste do Brasil); 9. (Portugal) o mesmo que Fusca para nós. (campeã de significados diferentes!)

carpir: colher (verbo); chorar.

casquete: tipo de gorro

cauim: o vinho de mandioca dos indígenas

chabouqueiro: tosco

charivari: tumulto

chavascal: atoleiro; mata cerrada; baiuca, pocilga.

chouto: trote sem elegância de algumas montarias

chuchurrear: bebericar com estardalhaço

chuço: 1. lança; 2. (Portugal) peixe; 3. (Portugal) guarda-chuva); 4. (Portugal) o gentio em relação ao judeu; 5. tamanco ou bota de má qualidade.

cocada: doce; cabeçada.

coco: dança popular de Alagoas

cocote: meretriz

colendo: respeitável

coleóptero: inseto de 4 asas, das quais 2 são especialmente duras

comenos: instante

comezaina: refeição abundante

cômoro: canteiro, socalco, elevação de terra

corrupiar: rodopiar ou andar em círculos

corrupio: atividade frenética; (Brasil) cata-vento.

crajiru: arbusto cujas sementes servem como remédio e corante rubro

crebro: freqüente

croque: cascudo

cruviana: grande frio

cuandu: porco-espinho

cuneiforme: “Diz-se da antiga escrita persa, meda e assíria formada de .caracteres em forma de cunha.”

cunhã: menina; mulher; cabocla.

curutié: [Ornitologia] Ave (Certhiaxis cinnamomeus) da família dos furnariídeos.

dédalo: labirinto; confusão; florido.

delerência: delícia (pessoa)

ditério: motejo, provocação

dobadoura: fazimento de intrigas

dríade ou dríada: planta que dá flor; divindade.

embatucar: paralisar

embigada: porrada com o umbigo

empacho: estorvo; vergonha.

empecivo: dificultoso, estorvado, que obstaculiza

encalacrar: entalar, endividar, comprometer-se (no mau sentido)

encalistrar: ficar vexado

encarquilhar: enrugar

endecha: poesia ou canção fúnebre

enfrenesiar, enfrenisar: colocar em frenesi

engrolar: pronunciar imperfeitamente; enganar.

enrediça: planta trepadeira

entanguir: encolher, pelo frio ou fome, tornar-se raquítico

entrudo: festa; 3 dias que precedem a Quaresma; folia carnavalesca; pessoa vestida como bufão; momo/obeso [só em Portugal].

enxuí: mari(m)bondo pequeno porém doloroso como qualquer espécie maior

esbrugado = esburgado: descascado, desossado

escolha: café bem reles

escopro: cinzel; cortador de ossos.

escorvar: preparar a pólvora, carregar a arma

esgrouviado: esguio e alto, parecido com um grou!

esmoler: mecenas dos mundanos

espia-caminho: flor

espojar: esparramar; deitar-se e rolar-se no chão.

espoleta: substantivo feminino 1. [Armamento] Artefato de metal ou madeira que determina a inflamação da carga, nos projéteis ocos; 2. [Armamento] Escorva em forma de pequeno tubo; substantivo de dois gêneros 3. [Brasil, Informal] Pessoa considerada insignificante. = ZÉ-NINGUÉM; substantivo masculino 4. [Brasil, Informal] Guarda-costas ou valentão que acompanha um fazendeiro para o defender (capataz); adjetivo de dois gêneros e substantivo de dois gêneros 5. [Brasil, Informal] Que ou o que é muito ativo, agitado ou irrequieto (ex.: a gatinha está muito espoleta; esse espoleta precisa acalmar um pouco).

essa: monumento sepulcral; feminino do pronome esse.

estreme: puro

estróina: desregrado, irresponsável, fiota

factótum: braço direito, faz-tudo

fandango: Dança popular, a três tempos e sapateada, comum em Espanha e Portugal; arrasta-pé.

fanqueiro: comerciante de tecidos

faroleiro: que trabalha num farol; ou quem fala demais.

fasquia: barra de madeira usada em competições de atletismo (salto em altura, salto com vara)

fichu: lenço para se proteger do sol forte

figa: Várias acepções. Uma delas: dando figa. (= pouco me/se fodendo).

filante: que corre em forma de fio; vinho engrossado; policial (gíria);  parasita = BURLISTA.

fiota: janota, estróina

fouveiro: ruivo, de fisionomia europeizada

frágua: forja do ferreiro; fogueira; calor intenso; amargura; lugar calamitoso; pedregulho; corruptela de flagra.

frege: aderna; briga; “estabelecimento modesto, popular e geralmente pouco asseado, que vende bebidas e refeições.”

frioleira: bagatela

fuá: arisco (cavalo, p. ex.); albino, aça, sarará; caspa.

furna: caverna; cratera.

gafo: leproso; faminto.

galarim: opulência, grandeza

garrancho: 1. parte dura do tronco da árvore; 2. graveto; 3. doença dos quadrúpedes, que afeta o casco; 4. ave ribeirinha (pernilonga); 5. aquele que em alguns jogos de carta não está na vez; 6. gadanho, um tipo de forca, instrumento do lavrador; 7. letra indecifrável.

gasnete: garganta

gira: passear; maluco; gíria.

goiamum: caranguejo gigante

graúna: ave sonora da América do Sul, conhecida por depredar milharais. Pássaro-preto, melro, vira-bosta.

grimpa: 1. cata-vento; 2. ponto mais elevado, cocuruto, píncaro.

grumete: soldado da marinha; abrasileirização de gourmet (à época groumet, criado numa adega ou então apreciador vinícola).

guenzo: doente

hamadríada ou hamadríade: macaco pequeno e feioso

hemoptise: hemorragia do pulmão

heróide: escrito em verso, em primeira pessoa, cujo eu-lírico tem de ser uma personagem com caracteres heróicos

homessa!: interjeição: ora essa!, essa agora!

homizio: desterro, exílio, fuga

igaçaba: pote indígena

igara: canoa indígena, usualmente um tronco de árvore escavado

ilharga(s): flancos; laterais do caixão; protetor.

imbu: fruta de gosto muito semelhante ao do cajá

imbuá: espécie de centopéia ou caracol sem casa e horrendo

infenso: adverso

inhuma: ave noturna, Palamedea chavaria, que canta regularmente à meia-noite, considerada agourenta pelos supersticiosos

ipu: terreno úmido adjacente a montanhas.

irapuã: abelha muito agressiva

irara: animal que parece a fuinha

íris: membrana ocular interna; borboleta diurna; planta.

iroso: irado

jaburu: ave pernalta; sujeito feio; roleta do jogo do bicho.

jandaia: periquito do Brasil, de cabeça amarela

japi, japim ou japu: ave de penas douradas; indivíduo barulhento.

jati: abelha pequena que produz um mel saboroso

jetica: batata doce

jirau: “1. Espécie de grade de varas, sobre esteios fixados no chão, que serve de cama nas casas pobres e também de grelha para expor ao sol quaisquer objetos; 2. Esteira suspensa do teto a certa altura, para nela se guardarem queijos e outros gêneros ao abrigo dos ratos; 3. Estrado onde se sentam os passageiros que vão numa jangada.” Significados antitéticos!

jitirana: [Botânica] Planta convolvulácea do Brasil.

joão-grande: gaivota

jucá: árvore conhecida como pau-ferro, conhecida pela madeira de excelência, ubiratã

juçara: palmeira de grandes espinhos

jucundo: jovial, prazenteiro

ledice: ar contente, de quem está ledo

leguelhé: imprestável, bangalafumenga

librar: suspender, equilibrar (em desuso)

macaíba ou macaúba: palmeira

madapolão: tecido branco de algodão

maldar (sentido peculiar): dar motivos para suspeitas

mangará: pé-de-bananeira

maniva: caule da mandioca

maracajá: gato silvestre

maracanã: periquito

maracatim: embarcação

maracatu: dança folclórica

marosca: trapaça

marouço: maré grossa

marrã(o): 1. porco que recém-deixou de mamar; 2. carne fresca do porco; 3. ovelha pequena (Pernambuco); 4. corcunda; 5. martelo grande; 6. turrão; 7. CDF (em Portugal); 8. qualquer animal arredio.

marruá: touro selvagem

mata-bicho: gole de pinga; café da manhã; gorjeta.

mata-pau: clúsia, espécie de figueira tropical

matula: corja

maturi: castanha ainda imatura

melão-de-são-caetano: “1. Planta trepadeira (Momordica charantia) da família das cucurbitáceas, de folhas simples e alternas, com flores solitárias masculinas e femininas, fruto oblongo de casca rugosa, nativa de regiões tropicais e subtropicais. = CAETANO, CARAMELO, ERVA-DE-SÃO-CAETANO, MELOEIRO-DE-SÃO-CAETANO; 2. Fruto dessa planta, de sabor muito amargo.”

membi ou inúbia: buzina de guerra dos indígenas

mezinha: remédio caseiro; espécie de laxante.

minhoto: peça de pau que segura a madeira rachada para que não se fenda mais; milhafre (o “quase-abutre” do livro de Fraud sobre Leonardo da Vinci).

moçame: coletivo de “moça”

montante: s.m e s.f. 1. quantia; 2. enchente da maré; 3. lado de cima da nascente; 4. a montante – o que precede de imediato; 5. alabarda (espada pesada que necessitava ser empunhada com as duas mãos).

moquém: grelha elevada, espécie de churrasqueira indígena; apodo da carne mantida em fogo baixo para não decompor.

mossa: mal; dano.

mucica: puxão do animal pela cauda, visando a derrubá-lo

mucufa: horda de covardes

mugunzá: mingau de milho para alimentação no agreste (Rachel de Queiroz e José de Alencar o citam)

multípara: parideira, mulher de ativo e fértil ovário, mãe de muitos

mundiça: 1. [Brasil, Informal] Grande quantidade; 2. [Brasil, Informal] Parte da sociedade considerada mais baixa. = ARRAIA-MIÚDA, RALÉ; 3. [Brasil] [Entomologia] Ácaro parasito dos galináceos.

náfego: torto, cambaleante

niquice: impertinência, ninharia. Palavra muito usada por por Graciliano Ramos e José Américo de Almeida.

normalista: universitário (arcaico)

nuelo: diz-se do passarinho ainda sem penas

ogre: ogro, bicho-papão

onzeneiro: agiota [criador de onzes em cima de dezes?]

ovém

Náutica Nome genérico do calabre que se fixa (ovém de avante e ovém de ré) para servir de apoio aos mastros e mastaréus de um navio.”

paca: espécie mamífera parecida com a capivara que pode chegar a 70cm, de carne reputada deliciosa

pacavira: planta musácea (familia da banana) de onde se extrai matéria-prima para confeccionar tecido

pajeú: 1. [Botânica] Designação dada a várias árvores da família das poligonáceas, do gênero Triplaris; 2. [Brasil] Faca ou outro instrumento de cutelaria, geralmente produzido na região do Pajeú, rio brasileiro.

paleio: lábia; carícias interesseiras.

panasco(a): planta de pasto; pântano nutritivo para o gado.

pantim: boato

parati: cachaça; peixe.

paroara: 1. ave tricolor de cabeça vermelha; 2. modo do cearense se referir a forasteiros, particularmente paraenses ou amazonenses.

parol: recipiente para alojar o caldo de cana no engenho antigo

pataca: moeda de prata, igual a 320 réis; centavos, quantia insignificante.

patacão: moeda de cobre, do tempo de D. João III; também usada no Brasil e no Uruguai (não a mesma, mas o nome); patela; idiota; cebolão (relógio grande de bolso).

patativa: pássaro do canto doce; sujeito falaz.

peco: acanhado

pedrês: 1. que é ornado como o xadrez (preto-e-branco), podendo ser um animal ou uma calçada; 2. ferro fundido; 3. aldraba (em Portugal).

peitica: despeito; ave tropical.

pelega: cédula

penha

Rochedo grande, saliente e de localização isolada, normalmente numa encosta ou serra; penedo, penhasco, rocha.”

pequiá: pequi (derivado do Tupi)

perequeté: emperiquitado

pernilonga: ave alvinegra; perna-longa, garrancho

pernóstico: prepotente

piaba: peixe fluvial de pequeno porte, piau

piau: piaba; logro.

picaço (antes do pintor e do carro): cavalo preto de cara e patas brancas; trem de ferro; carrapato-de-cachorro.

pileca: magro e fraco (cavalo ou homem)

pinóia: puta; pechincha.

piraí: chicote de couro cru

pirambeba: mesmo peixe que o cambucu

pocema: algazarra

podengo: cachorro de caçar coelhos

porangaba: beleza

poraquê: enguia

prognata: “adjetivo, substantivo masculino e feminino. Que ou aquele que tem as maxilas alongadas e proeminentes. adjetivo. Forma de crânio que apresentam certas raças humanas da África e Austrália.” Deixa fora de dúvida o racismo de Graciliano Ramos ao descrever as pessoas – e enterra esse mito idiota de que ele “não usa adjetivos”. É o que ele mais usa.

prosápia: vaidade

pulveroso: cheio de pó

punaré: Mamífero roedor, da família dos Echimydeos, gênero Thrichomys, presente no bioma da caatinga, mas também no Paraguai e na Bolívia. Se adapta facilmente a zonas secas e pedregosas. É de pequeno porte, tem pêlos macios, cauda longa e peluda, como de castor, apesar de no mais parecer um rato comum. Também é conhecido, vulgarmente, como rato-boiadeiro e rabudo.

quartau: cavalo pequeno e troncudo; cavalo castrado; canhão de ¼ do tamanho normal (em desuso).

rafeiro: 1. raça canina que guarda o gado; 2. indivíduo que não vive sem outro (fiel como o cão ao seu senhor); 3. puxa-saco.

rebentina: acesso de cólera

refe: rifle (regionalismo)

refego: dobra na pele resultante do excesso de gordura

refle: bacamarte

relho: cinto

“rodilha: rodela de pano torcido que o(a)s carregadores de águas de poços distantes da aldeia usam entre a cabeça e o pote ou a lata.”

ronceiro: indolente

rosetar: divertir-se demasiadamente

safardana/bigorrilhas: indivíduo banal

saí: macaco; pássaro azul de grande beleza.

sainete: consolo, graça

salmoura: água salgada que conserva alimentos

salsa: tipo de uva; malandro; espécie de bufão carnavalesco lisboeta.

sambudo: desnutrido, esquálido; anão; caveira de barriga de verme, dentre outros sentidos.

sapopem(b)a: árvore ou peixe

sarará: mulato arruivado ou com albinismo, aça, fuá.

sarilho: movimento rotativo; briga; confusão; roda-viva; engenho para tirar água.

sassafrás: árvore da qual se extraem fragrâncias

serôdio: tardio, inoportuno

serrazinar: ser maçante; insistir em monotema.

sessar: peneirar

sobrosso: medo

sofrer: s.m. (Brasil) ave cujo canto imita a pronúncia sofrer (anàlogamente ao bem-te-vi)

sostra: mulher feia

soverter: subverter (regionalismo)

tapera: 1. vilarejo fantasma; 2. escombros; 3. caolho ou cego completo; 4. palerma (São Paulo); 5. caritó.

tapir: anta (o animal)

tapuia: o mesmo que caboclo ou mameluco

taquara: taboca, bambu brasileiro; lagarta que vive neste bambu.

teiró: teima, birra, antipatia

tejuaçu: lagarto grande

tetéu: quero-quero

ticaca: gambá comum no Nordeste

tinhoso: de má índole; repelente.

torvo: terrível

toutiço: nuca

tramenha: cilada

transunto: retrato fiel, imagem

trêfego: inquieto

truaca: bebedeira

trupizupe: desmiolado

tuim: papagaio pequeno

túrgido: inchado

ubiratã: pau-ferro, jucá

urbano: [Brasil, Informal] Agente de polícia

uru: animal parecido com a galinha; cesto indígena.

urupê: cogumelo também conhecido como orelha-de-pau

urutau: ave noturna de rapina

valdevinos: 1. indivíduo que gosta da vida boêmia, estróina; 2. indivíduo que não gosta de trabalhar, tunante, vadio; 3. doidivanas; 4. indivíduo que não tem dinheiro; 5. que vive de atividades ilícitas, traficante. Etimologia: alteração de balduíno.

viúva-alegre: camburão; (Moçambique) pássaro.

viuvinha: 1. (Portugal) jogo popular; 2. (Portugal) dança de roda; 3. (Portugal) peixe; 4. (Brasil) planta (quando no singular), (Portugal) planta (quando no plural); 5. pássaro; 6. corda (coloquial).

voltarete: “Jogo entre três parceiros que recebem, cada um, nove cartas.”

xenxém ou xem-xem: moeda de prata antiga, equivalente a 10 réis

zabelê: jaó, ave noturna, vermelha, de belo canto

zunzum: atoarda, boataria

CURIOSIDADES DO LATIM #1 (A FAMÍLIA DO 7 / SEPTEM) & ALGUNS ALERTAS SOBRE FILÓLOGOS APRESSADOS EM TIRAR CONCLUSÕES…

septem. Sete. Os sete sábios (da Grécia). (Septem Stellae = Setentrião, as Plêiades; Septem Marĭa = os lagos junto à foz do rio Pó, onde Veneza foi mais tarde fundada; Septem Aquae = lago no território reatino). 

september, septembris, (m.). (septem). O sétimo mês (no ano Romano, que se iniciava em Março). Setembro.

septemflŭus,-a,-um. (septem-fluo). Que possui sete embocaduras (epíteto do Rio Nilo).

septemgemĭnus,-a,-um. (septem-gemĭnus). De sete vezes, composto de sete.

septempedalis, septempedale. (septem-pedalis). De sete pés de altura.

septemplex, septemplĭcis. (septem-plico). De sete vezes, composto de sete.

septemuir,-i, (m.). (septem-uir). Setênviro (um dos sete membros do conselho encarregado da partilha das terras).

septenarĭus,-a,-um. (septem). Que contém sete, formado de sete elementos, setenário.

septendĕcim. (septem-decem). Dezessete.

septeni,-ae,-a. (septem). Em grupos de sete, de sete em sete. Sete. Sete vezes.

septentrionalis, septentrionale. (septentriones). Relativo ao norte, que se localiza ao norte.

septentriones, septentrionum, (m.). (septem-trio). As sete estrelas próximas ao Pólo Norte, a constelação da Ursa (denominada Ursa Maior e Ursa Menor). O Setentrião (vento norte). Território ao norte.

septĭe(n)s. (septem). Sete vezes.

septiflŭus,-a,-um. (septem-fluo). De sete braços.

septimani,-orum, (m.). (septem). Soldados da sétima legião.

septĭmus,-a,-um. (septem). Sétimo. (septĭmus casus = caso instrumental, caso adverbial sem preposição).

septingenti,-ae,-a. (septem-centum). Setecentos.

septiremis, septireme. (septem-remus). Que possui sete fileiras de remos.

septuageni,-ae,-a. (septuaginta). Em grupos de setenta, de setenta em setenta.

septuagesĭmus,-a,-um. (septuaginta). Setuagésimo.

septuaginta. Setenta. (irá interessar para os apreciadores do Velho Testamento que não sabem o hebraico!)

septuennis, septuenne. (septem-annus). De sete anos de idade.

septunx, septuncis, (m.). (septem-uncĭa). 7/12 de uma unidade. Sete onças (unidade de peso). Sete unidades, sete partes.

A família do sete, no Latim, ou seja, septum e os vocábulos dela derivados, nos oferece alguns esclarecimentos sobre nomenclaturas que nem imaginávamos ter relação etimológica com o número 7.

Primeiro recapitulemos que até hoje 7 é um nº muito ligado a superstições. Não me arriscaria a dizer que tem qualquer relação com sepultura, ou morte, no entanto, pois não teria condições de comprovar – seria cair no erro do lingüista empolgado e tosco, que devido a assonâncias começa a estipular etimologias e genealogias arbitrárias. Vide a genealogia incrivelmente fake da palavra aluno como despido de luz, uma piada de mau gosto que circulava muito antes de conhecermos o termo fake news e que não tem qualquer razão de ser, sendo o designativo aluno tão pouco (ou nada) pejorativo quanto seus sinônimos mais empregados, discente e estudante. Havia até campanhas de pedagogos (e alunos!) na internet (creio que nos anos 2000, quiçá até a década passada!) pedindo a remoção da palavra do uso cotidiano, o mesmo que se deu ou se dá agora com o verbo denegrir, o que está completamente equivocado no meu juízo (seria como estipular que em jogos de xadrez, a partir deste momento, as peças negras é que determinam o jogador que irá principiar o jogo – aspecto arbitrário completamente despido, até onde sabemos, de qualquer conotação racial). Tão ingênuo e deletério, outrossim, quanto crer que o quadro clínico da septicemia guarda qualquer relação com a palavra septem e se originaria do latim.

* * *

Como estudante intermediário do Latim e lingüista amador me atribuo a autoridade de desmistificar algumas noções que por aí circulam. Essa parte do primeiro parágrafo dissertativo, entretanto, foi apenas um bônus da postagem, concebido à última hora. Gostaria mesmo de apontar, dentre as palavras/verbetes dicionarizado(a)s mais acima, alguns nortes que recebemos sobre por que utilizamos tais e tais palavras no português hodierno. O trocadilho com norte, no sentido de rumo, direção, ficará logo esclarecido!

Começando pela alusão mais óbvia de todas: setembro, muita gente já sabe, se refere, na Roma Antiga, a nosso nono mês ser o sétimo do calendário daquela civilização, que não contava nem com janeiro nem com fevereiro. Até dezembro é mantida essa forma original de batizar os meses entre os romanos.

Algumas expressões foram completamente obliteradas na lenta transição ao português. Septempedalis não tem qualquer lugar num conjunto de países que adotou o sistema métrico, por exemplo!

Indo para o lado do cômico, já vi duplex(es?), triplex(ex), até quadriplexes, mas nunca chegaram a meu conhecimento “apartamentos” de cinco, seis ou até sete andares (já em si mesmo prédios de todo direito!). Um septe(m)plex, diferente de um septuagenário, seria dificílimo de encontrar no Brasil! Se bem que o mais provável seria chamar tal morada monstruosa de um multimilionário de heptaplex! A determinado ponto paramos de ser influenciados pelos latinos e tomamos de empréstimo denominações gregas (pentágono, hexágono…), como, aliás, os próprios latinos soíam fazer! Obs.: ao que consta, octa- é de influência latina, quebrando a seqüência, mas enea- e deca- regressam à tutela grega! Desenvolvimentos tortuosos…

Sempre me perguntei por que setentrional se chamava setentrional e meridional, meridional. Ora, meridional guarda relação com o meridiano, mas o meridiano seria a linha que separa os hemisférios. Então por que essa dissimetria bizarra? Seria por que nos trópicos bate mais sol, e meridiano é relativo ao meio-dia, quando bate mais sol em nossas cabeças? Bem, pouco importa, pois o objeto aqui é o setentrional: creio mesmo que descobri na astronomia-astrologia (então indistinguíveis) a causa de tamanhas superstições relativas ao número 7 e, de sobra, ao número 3, pois há uma palavra que reúne ambas as numerações e um pouco complicada de explicar, logo abaixo de septentrionalis no dicionário latim, embora este vocábulo já contivesse o “mistério”. 7-3-… Não é à toa, forçação de barra ou coincidência. Talvez uma coincidência dos astros, isso sim: é que do hemisfério norte podem-se ver 7 estrelas em conjunto. Trata-se da constelação da Ursa, para quem gosta de um horóscopo… O 3 associado e embutido no termo tem a ver com observações feitas por múltiplos autores latinos: sempre que se admira o conjunto de 7 estrelas, 3 parecem estar interconectadas no quadro menor, e pode-se mesmo permutar entre o trio de estrelas para obter a mesma impressão! Neste caso, uma só imagem vale mais do que todas estas entradas de dicionário, para me tornar mais compreensível. Veja quantos triângulos se pode traçar mentalmente olhando a disposição da Ursa:

 

Ao passo que um quadrilátero (à dir.) sempre implica a formação de 2 triângulos quaisquer que, somados, formam a primeira figura, na parte de cima ou à esq. visualizamos claramente outro triângulo, isolado. E, se chamássemos cada estrela, da esquerda para a direita, A, B, C, D, E, F e G, temos que ABD ou ACD, ou ADE, ou BDE, ou tantas outras combinações, como AFG ou AEG também formariam triângulos, dos mais variados ângulos internos. Antigamente havia mais tempo para apreciar o firmamento; nós, leitores de livros por excelência, temos de descobrir essas coisas, em nossas cidades poluídas (e principalmente nós, habitantes do hemisfério sul ou meridional), estudando sobre as observações dos contempladores e escritores daquele tempo remoto!

Vai saber se não tem a ver com isso o jogo do dominó parar nas pedras de número 6?! Nada cravo, só infiro bobamente… Essa pesquisa fica para outro dia!

Por fim, na ordem cronológica dos verbetes, percebemos como a “meia-dúzia” dos romanos, i.e., uma unidade de medida que lhes importava no dia a dia tanto quanto nossa principal maneira de comprar ovos no mercado ou enumerar “meio time” de futebol que joga mal (apesar de um time de futebol ser composto de 11, não 12!), era uma fração que nossos matemáticos chamariam de quantidade irracional ou dízima periódica simples, porque seu inusitado numeral é o 7, e o denominador, 12. Sete doze avos, em vez de, no fundo, o muito mais descomplicado ½. Apesar dos romanos também adotarem o sistema decimal na matemática, temos ainda em comum com eles o fato de que o dia e a noite (o relógio, o tempo, em suma) giram em torno de ciclos duodecimais, daí a importância de frações do número 12 para todos nós (12 é duodecim em latim) – tanto que transformamos o ano numa divisão por 12, o que nem estes antigos haviam pensado ainda em efetuar!

Sobreviver a mais um ano, para nós, é repetir os Doze Trabalhos de Hércules!

NO PAIN NO GAME NOR FLOCK

O desejo dos de(le)uzes

Os ledos desejos e enseJós

de um deus, de a a z.

Cruzes!

Lux!

DesIsto de desisTýr!

L’Odeur

Douleur, o pain de todas as dores

Redo the healing/hearing (please)! C and Re at least (D to meet you, Your Highness!)

Others may, in dismay, act like they are Odins or simply Orpheus

Os andrajos dos deuses minguados

dull lair

of the gods

Where, fundamentally, did i forget my socks?

You! You infidel! Don’t mock!

Al menos, el pan de todos los dolores ¡dadnos! hoy, oh holy Father!

See, my son, at last!

Lest I undo the poem

In due time

DICCIONARIO DA LINGUA TUPY CHAMADA LINGUA GERAL DOS INDIGENAS DO BRAZIL POR A. GONÇALVES DIAS

Livreiro de S.M. O Imperador do Brazil, 1858.

PREFACIO

Appliquei-me pois a esse estudo, e com quanto não fosse minha intenção demorar-me nisso muito, achei-me no fim de algum tempo com grande numero de notas, algumas das quaes me não parecerão sem importância; mas essas notas, na confusão em que eu as tinha, de nenhum proveito serião para outros, e para mim mesmo de bem pouco me servião. Foi-me por tanto preciso organisal-as, e, concluido o trabalho da coordenação, me achei com o dicionário, que agora dou á estampa.

Tomei por baze o vocabulario, que o autor da <Poranduba Maranhense>accrescentou ao seo trabalho, valendo-me da Grammatica do Padre Figueira, do Diccionario Braziliano, publicado por um anonymo em Lisboa, no anno de 1795, de um Manuscripto com que deparei na Bibliotheca Publica do Rio de Janeiro, e cujo titulo me esquece agora, de outro Diccionario, tambem manuscripto, da Bibliotheca da Academia Real das Sciencias, de Lisboa, e de 4 dos cadernos que acompanharão as remessas do nosso distincto e infatigavel naturalista – Alexandre Rodrigues Ferreira, durante a sua commissão scientifica pelo Amasonas nos annos de 1785, 86 e 87.”

É ainda este o motivo por que, com quanto reconheça a justeza das observações que me fez o Dr. PETERS, professor na Universidade de Berlim, não posso, por em quanto, seguir o seo conselho – de dar aos caracteres do nosso alphabeto o valor phonico, que vai sendo hoje em dia admittido para as linguas não escriptas, de modo que taes sons podessem com mais facilidade ser reprodusidos por todos, que não somente por aquelles que conhecem o portuguez.”

* * *

A.

A – vogal, I. antepõe-se a certos verbos servindo em logar de pronome = xe = a primeira pessoa, agente do verbo ou oração. Não se dis: Xe juca, mas A-jucá, eu mato. Faz nas outras pessoas: ere, o, ya, oro, pe, o. Emprega-se em todos os tempos do indicativo, optativo e permissivo; mas nos do conjunctivo, imperativo e infinitivo antepõe-se-lhe um T. Neste caso se deverá dizer ta ou por eufonia tai. II. No fim da palavra ou oração dá-lhe mais força e sôa como ã. Ex. A-ço-ã, eis me vou. III.membri virilis caput.

AAGNI, de nenhuma maneira (contração – vide abaixo).

AÁN, não. É difícil precisar-se o sentido de cada um dos compostos deste adverbio: seguem-se exemplos.

AÁN ANGAI, de nenhuma maneira.

AÁN DE, mas não foi; não é assim.

AÁN GATU TENHÉ, de nenhuma maneira. [parece que os índios daqui gostavam de negar em absoluto!]

AÁN I, isso nunca.

AÁN IREÃ, não é assim (só para o gênero masculino como sujeito da frase)

AÁN IRI, não é assim (só para o gênero feminino como sujeito da frase)

AB, destituído de significado de forma isolada. Na conjugação verbal, adquire sentido de ação. Ex: A-ybyra-ab, córto madeira.

ABÁ, I. creatura, pessoa, nação, familia forra. Quem? Qual? II. desinência dos nomes que se derivam dos verbos ativos e neutros, e exprimem o lugar, tempo, modo ou instrumento com que alguma coisa se faz Estes nomes em aba provêm de alguns dos verbos, que acabam em e, i, o, u, e de todos os que acabam em ng. A-u, comer, faz – g-u-ába, monháng, fazer, faz monhángába.

ABÁ ANGAI, tirano.

ABÁ ANGAIPABA OÇU ETÉ, tirano terrível.

ABÁ ANGATURAMA, homem bom.

ABÁ CAAPORA, mateiro, travesso.

ABÁETÉ, homem ajuizado. É também o nome do rio que desagua no de S. Francisco, onde em 1792 se achou um dos maiores diamantes conhecidos.

[Significação atual: homem experiente, calejado; feioso, repelente.]

ABÁ IBA, namorado, noivo.

ABÁ ITAJUBARA, homem rico, homem de ouro.

ABÁ TAPUYA, inimigo.

ABÁ TUPAN MOETÊÇÁRA, devoto.

ÁBA, cabelo.

ÁBA COARACY, cabelos do sol.

ÁBA CÚU, cabelo penteado.

ÁBA IATYCA, cabelo curto.

ÁBA MOROTINGA, cabelo branco.

ÁBA PECU, cabelo comprido.

ÁBA PIXUNA, cabelo preto.

ÁBA PYRANGA, cabelo ruivo.

ABATIJÊ, milho.

ABATIXI MEAPÉ, broa.

ABATIXI PIRÓCA, descascar o milho.

ABICUY AÍB, pentear mal (no sentido de “aspirar algo com más intenções”, sentido caduco de “pentear” em Português); o AÍB – advérbio – é a partícula que qualifica a ação do agente moralmente. Não equivale a “aspirar algo de modo ruim”, ou seja, incompetentemente, mas literalmente aspirar de modo malévolo.

ABICUY-ABICUY-AUB, aspirar com grande afã.

ÁCA, corno.

ÁCA ÇUÇÚAPÁRA, corno de veado.

ÁCA I, corninho.

ACÁ, interjeição de dor. Homens também usam ai; já as mulheres, acaigoê.

ACAJÁ, cajazeiro(a).

ACAJU, cajueiro.

ACAJU ACAI PIRAÇÓBA, chuvas de agosto e setembro, que destroam as flores do caju.

ACAJU ETÁ, ano, idade. (Os índios guardavam cada ano uma castanha de caju para registro do tempo, ou pelo menos da quantidade de anos vivida por um indivíduo.)

AÇÁMO, espirro. (ÇAMO = espirrar) Possuem conjugações de gerúndio, subjuntivo, subjuntivo pretérito, particípio presente e passado, etc…

ACARÁ, I. ave (espécie de garça = goratinga, Guiratinga) da qual soíam extrair penas para seus adornos e que se alimentavam principalmente de mariscos. II. e também, um peixe, com várias sub-espécies tais quais assu, tinga e pixuna.

Atualmente, consta somente como peixe, em Zoologia; sinônimo de acarajé; e ainda algodão ardente comestível usado em rituais do candomblé.

AÇÓ COICÉ COICÉ, antes de anteontem.

ACOÁUB EY’MA OÇU, idiota.

ACAUÁN, ave mata-cobras. Faz-se antídoto de picada de cobra com o farelo dos ovos desta espécie. Plumagem cinza, vermelha, marrom, preta e branca. Apresenta um canto bem peculiar (tudo indica que o nome deriva de uma onomatopéia). Mais detalhes em https://en.wikipedia.org/wiki/Laughing_falcon.

ACUTY, cotia ou cutia, espécie de capivara de pequeno porte. Significa, na nomenclatura indígena, “animal cauteloso”.

ACUTY BÓIA, cobra predadora da cotia.

,I. pronome ele. II. verbos dizer, e variação de ver, querer, poder, ter e haver. “A syllaba mo faz imperfeito o verbo, ou esteja antes ou depois delle. Ex: Aeibe-o-ço-bo-mo.”

AÊ AÊ, eles.

AÊ BOÊ, e por falar nisso…

AÊ ETÁ, eles, elas.

AÊ RAMÊ VÊ CATU, simultaneamente.

AÊ, RIRÊ, aí então, após o quê, etc.

AÊ RIRÊ MIRIM, logo em seguida.

AÊ TENHÉ, idem.

AIBÉ, conjunção e. = AIPO

AÉPE, aí.

AERÉME, então. “Ajunta-se aos verbos, denotando o preterito imperfeito. Á-juca aeréme, eu matava então.”

AETENHE, em vão.

AEYBÊ, também.

AGOÉRA, usado para compor o pretérito mais-que-perfeito. Ex: Juca-agoéra, “que matara” ou “havia matado”, para narrar uma ação anterior a uma outra também no passado.

AGUAÇÁ, AGUAÇÁBA, amante.

AGUACÁBÓRA, traição.

AI, I. interjeição de dor masculina. II. eu, usado para determinados verbos.

AICOBÊ, haver, viver, existir.

AIXÊ, tia paterna (de ambos os gêneros para x sobrinhx). Na nossa taxonomia moderna, além de irmã do pai, podia tratar-se também de prima sua (filha de tia).

AIXÔ, sogra, porém só usada para o genro (masculino).

AKYRÁR, abortar.

AMÁNA, chuva.

AMÁNA OPYC, chuviscar.

AMANAJÊ, fofoqueiro.

AMBYRA, morto.

AMO, “desinência dos gerúndios e supinos. Xe maenduar-amo, lembrando-me eu, para me lembrar. Fazem o gerúndio em amo os verbos acabados em í ou ú, e todos os do pronome xe. Ex: Xe angaturam faz xe angaturam-amo. Negam-se todos estes, interpondo-se a dicção eym antes de amo. Xe angaturam-eym-amo.”

AMOTAREY’MA, odiar.

AMÚ, irmã ou prima da esposa.

ANÁMA, parente.

ANDIRÁ, morcego.

ÁNGA, alma, consciência.

ANGATURÁMA MOANGA, hipócrita.

ANHÁNGA, fantasma.

APIÁBA, macho (homem ou animal).

APUÁM, bola, redondo.

AR, nascer.

ARA, I. dia, hora, ocasião, tempo. II. mundo.

ARA CATU, oportunidade, bonança (kairos)

ARA CUÎPE, meio-dia

ARA JABÊ JABÊ, ordinariamente.

ARA RANGABA, relógio.

ÁRA, “partícula pospositiva, a que de ordinário se junta um -ç-: no fim dos verbos indica a pessoa que na atualidade exercita a sua significação, p.ex.: Capy’c, pentear: Capyçara, o que penteia atualmente. A língua tupi é tão rica destas partículas que julgamos conveniente apresentar aqui um quadro das mais importantes, ainda que as tenhamos de repetir em seus lugares. Ora, junta-se-lhe um -b-, se o verbo acaba em vogal, ou mudando-se-lhe a desinência por eufonia. O que tem por costume exercer a significação do verbo. Icapyc’ ora ou melhor Capy-bóra, o que atualmente é penteador. Aba (junta-se-lhe um -c-) indica o lugar, o tempo, o modo, o instrumento com que se exercita o agente: Capycaba. Çara óera, a pessoa que já penteou, Çar’ amboéra, a pessoa que estava para ser penteador: o penteador que houvera de ser; mas não foi. Çar’ ama, o penteador digno de ser. Bor-oéra, a pessoa que usou do ofício, ou teve o costume; mas já não usa ou tem. Denota grande exercício no passado. Bor’ amboera, a pessoa que tinha por costume ou ofício pentear, ou o que esteve para ser penteador no tempo passado, mas acabou não sendo. Bor’ ama, a pessoa que atualmente usa do hábito de pentear, e que continuará a usar. Cab oéra, o lugar, o tempo, o modo, o instrumento com que no tempo passado se penteou. Cab-timboéra, o lugar o tempo, o modo, o instrumento com que no tempo passado se havia de pentear, mas acabou não se penteando. Cab-âma, o lugar, o tempo, o modo, o instrumento com que atualmente se penteia, e com os quais ainda no futuro se penteará. Escusado será repetir que estas partículas são pospositivas: nos exemplos que damos, subentendemos sempre o verbo -Capuy’c.”

ARAÇARY, ave, de cor verde-escura, cabeça e pescoço negros, peito e ventre loiros.

ARAPACÚ, pica-pau.

ARÁRA, arara.

ARARÚNA, arara preta.

ARARYCA, espécie de papagaio.

ARAVARÍ, sardinha.

AREBÊ, barata.

ARÚ, sapo.

ATANGAPÉMA, espada.

AVERÁNA, asma.

AY’G, preguiça (animal): “difícil de apanhar-se quando foge [!!]: a grande volta-se às vezes com furor contra os que a perseguem; as pequenas mergulham no fundo dos lagos e lagoas atrás de algum sustento.

B.

, também

BEBÊ, voar

BO, I. para: partícula pospositiva do dativo. Quase não se faz sentir na pronunciação, e emprega-se ordinariamente com os pronomes pessoais. – Ixebo, Indebo, Iandebo, Orebo, Penhobo, para mim, para ti, etc. II. Sílaba que tomam os verbos acabados em a, e, o, na formação dos gerúndios. Juca-bo, a matar, para matar. Mondo-bo, e assim os mais. III. Significa também extensão de lugares, ou a continuação de alguma ação. Ex: A-ço caa bo, vou pelos matos. A-lo óca bo, vou pelas casas. Aico-xe-r-amuya reco bo, vivo pelos costumes de meus avós.”

BORA, “desinência dos nomes verbais, exprimindo que a pessoa exercita a significação do verbo com muita continuação, hábito ou gosto. Assim, enquanto Canhem-bára exprime o que anda fugido ou por acaso, ou por essa vez somente, – Canhem-bóra exprime o fujão, o que tem por costume andar fugido. Daqui se concluirá que muitos verbos não podem admitir semelhantes desinências.”

BOYA, cobra: “na composição precede ao adjetivo, pospõe-se ao substantivo. Acuty-boya, Arara-boya, Currurú-boia, etc., covras de cutia, de arara, de sapo.”

BRÃ, em vão. “Observamos que é tão raro nesta língua o encontro de duas consoantes de qualquer natureza que sejam que não hesitamos em dar por suspeita a ortografia desta e das demais palavras em que aparecem.”

BUBÚI, boiar

Ç.

I. Todos os nomes que começam por ç, quando são relativos, conservam o mesmo ç. Ex: Çaba, a penugem ou pena miúda do pássaro, significa igualmente: sua pena. II. Todos os nomes, começados por t, quando se põem relativamente, mudam o t em ç. Ex: Tetê, corpo. Ç-’etê, seu corpo.”

ÇAÇÁO, passar, atravessar

ÇACÊME, gritar

ÇAÍNHA, dente

ÇAJÚCA, nervo

ÇAPUCÁIA, árvore; fruto; galinha.

ÇAPY, queimar

ÇAPYÁ, testículos

ÇAPYÁ JÓCA, castrar

ÇARONÇÁBA, esperança

ÇAUÇUB, amar

ÇAUÇUPÁRA, amante

ÇAYR, riscar

ÇÓ, ir

ÇÓBA, rosto

ÇÓBA CY, carrancudo

ÇÓBA CY OICÔ, estar triste

ÇÓBA JUBA, pálido

ÇÓBA OÇÚ, severidade

ÇÓBA PECANGA, maçã do rosto

ÇÓBA PETÉCA, bofetada. Ou puytéca.

ÇÓBA RANGÁBA, máscara

ÇOBAIXÁRA, opor

ÇOBAIXÁRA NHÉENGÀ, replicar

ÇOBAIXÁRA TURUÇÚ PORÝB, maior parte

ÇOBAKÊ, perto

ÇOBAKÊ GOÁRA, vizinho

ÇOBAÝ, Portugal

ÇOBAYÂ, rabo

ÇOBAYÂ ACÝCA, derrabado!

ÇOBAYÁNA, inimigo

ÇOBAYGOÁRA, português; vinho europeu.

ÇOÇÁNGA, sofrer, estar doente.

ÇOÇÓCA, socar, calcar

ÇOKENDÁ, tapar

ÇOKENDABÓCA, desaferrolhar

ÇOKENDAPÁBA, rolha, tampa

ÇÓO, caça, carne, animal

ÇÓO PAPÁO, quinta-feira (?)

CÓO PIRÉRA, couro

ÇOPE, roça

ÇOPIÂ, ovo

ÇOPIÂ TACÁCA, clara

ÇOPIÂ TAGUÁ, gema

ÇORÝB, alegre, folgazão

ÇUAÇÚ, veado. “O nosso célebre naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira diz que os índios chamavam Suhà assu a todo veado, por terem a cabeça comprida e testa grande, a que (acrescenta ele) os índios chamam Suhà assù. Parece, contudo, que essa palavra tem outra etimologia. Seria de çúu, mastigar: çúu assu vale tanto quanto ruminante. Os índios chamavam ÇUÁÇÚ-MERIN o filho da caça.”

ÇUAÇÚ ANHÁNGA, “veado diabo, cuja carne não presta para quem padece de sífilis ou sezões [febres]. Não lhe aparece mais que a extremidade das pontas dos chifres [detrás da vegetação].”

ÇUAÇÚ CAATÍNGA, mato ralo

ÇUAÇÚ MÉ, cabra

ÇUCUREJÚ, cobra d’água

ÇUGUÝ, azul

ÇUGUÍ-JÓCA, sangrar

ÇUÎ, de, do, da

CUPÈ, ao, aos, às, à, a

ÇUPÍ ÇABA OCOMEÉNG OAÊ, testemunha

ÇUPÍ RUPÍ, com toda certeza

ÇUPIÇABA, verdade

ÇUPÝR, levantar, carregar

ÇUÚ, morder, mastigar

ÇUÚ ÇÁRA, roedor

ÇUÚ ÇUÚ, roer

C.

CAÁ, mato

CAÁ KOÉNE RENDABA, horta

CAÁ MONDÓ, caçar

CAÁ MONDOÇÁRA, caçador

CAÁ POÁM, ilha

CAÁ PÓRA, que mora no mato. “Caapóra, segundo o vulgo, é uma miniatura de gente, que anda com as varas de caitetús, montando no maior de todos eles. Mau agouro quando se o encontra. Daqui vem o chamar caipora ao homem a quem tudo sai ao revés (azarado).”

CAÁ PYÍR, cortar o mato

CAÁ PYRÁNGA, folha vermelha para tintura

CAÁ RETÉ(Ê), mata virgem

CAÁ TINGA

CAÁ VÛ, ou

CAÁO, cagar

CAAPÁBA, urinol

CAAPIÎM, erva baixa

CAÁRIMÁ, farinha de mandioca

CAARÚCA, tarde

CAARÚCA RAMÊ, de tarde

CÁBA, vespa; abelha; gordura; manteiga.

CÁCA, tá bom, então tá!

CACOÁU, velho

CAÉM, sarar

CAGÍCA, veia

CAGÍCA OÇU, artéria

CAÎ, queimada

CAICOÁRA, bicho que dá doença

CÁMA, seios femininos

CÁMA JACUÍÇÁBA, lençol, cobertor

CÁMA PIRÉRA, peitos caídos

CÁMA PUÁM, peitos redondos

CÁMA RENDÁBA, leito

CAMBY’, leite

CAMBY’ ANTÁN, queijo

CAMBY’ ÇÁRA, ama-de-leite

CAMBY’ JÓCA, tirar leite

CAMBY’ VÛ, mamar

CANAPIÂ, quadril

CANCÁN, “ave, espécie de falcão: habita em lugares pouco freqüentados, e com voz estrídula anuncia a chegada de alguém.”

CANDÚR, corcunda (substantivo)

CANEÓN, atribular-se

CANGOÉRA, osso

CANHÉME, sumir

CAPIXÁBA, espécie de macaco

CAPIUÁRA, o animal que vive em meio ao capim. “Os índios peruanos usavam seus dentes como brincos”

CARANHÁ, coçar

CARAPANÁ, mosquito do Rio Branco

CARAIBÊBÊ, anjo

CARAIBÊBÊ KOÉRA, diabo

CARIBOCA, mestiço

CARUÁRA, corrimento vaginal

CARÚC, urinar

CARÚCA, urina

CARÝBA, branco, português

CATÍNGA, fedor

CATU, bom

CAÚ, beber; vinho. = CAUÍM

CAUÇÁBA, bebedeira

CAUÍM ÇÁI, vinagre

CAUÍM MEENGABA, taverna

CAUÎM TATÁ, aguardente

, saber ou partícula “não sei”

CEBUI, minhoca

CEBUI PEBA, sanguessuga

CEÇÁ, olho

CEÇÁ ACANHÉMO, cegar

CEÇÁ ARÍBO GOÁRA, pálpebra

CEÇÁ EPIRAR OÇÚ OAÉ, olhos arregalados

CEÇÁ ETÊ, astúcia; vista aguçada.

CEÇA EÝMA, cego

CEÇÁ EÝMA NUNGÁRA OATÁ, andar de olhos fechados

CEÇÁ IAPÁRA, vesgo

CEÇÁ IAPIRÁR IRUNAMO OMAÉM, olhar de esguelha

CEÇÁ POMYM, pestanejar

CEÇÁ PUNGÁ, terçol

CEÇÁ PYÇÔ, vista

CEÇÁ RAÝNHA, menina-dos-olhos

CEÇÁ ROÁ, óculos (!!!)

CEÇÁ RY, lágrimas

CEÇÁ RY ÇURURÚ, chorar

CEÇÁ TEPY TEPY, olhos afundados, encovados

CECÁR, procurar

CECATEÝMA, avarento

CECATEÝMA RUPÎ MERIM, poupar

CECÊ, portanto

CECÔ, aparência

CECÔ BEBÊ ÇÁBA, ressurreição

CECÝ, doer

CEÉM, doce

CEÉM OAÊ, diz-se da comida que está doce

CEEMBÚCA, comida salgada

CEGY, mudar

CEICOÁRA, cu

CEICOÁRA EPÁNGA ACÉMO, hemorróida

CEICOÁRA MOTÁCA, bate-cu (!!!)

CEÎYA, multidão, rebanho

CEJAR, abandonar

CEJUÇÚ, as plêiades no céu noturno

CEKY, atrair, puxar

Namby reky, puxar pelas orelhas

CEKY CÉMO, cercar

CEKYJÊ, ter medo

CEMEMBOÊ, discípulo

CEMIMOTÁRA, liberdade, consentimento

CEMIMOTÁRA RUPÎ, à vontade

CEMIMOTÁRA RUPÎ OICÔ, dono de si mesmo

CEMIMOTÁRA RUPÎ NHÔTE, a torto e a direito

CEMIRICÔ RAUÇUPÁRA, amigo da esposa

CEMIRICÔ POTOÇABA, noivo

CÉMO, nascer

CEMÔ YGARA ÇUÍ, desembarcar da canoa

CEMÔ IXUPÊ, ocorrer

CENDÚ, escutar

CENDY, baba; arder; luz.

CENDY OANE, acender

CENDY PÚCA, reluzir

CENEMBY, camaleão

CENÓI, chamar

CENONDÉ ETÊ, muito tempo atrás

CENONDÉ GOÁRA ETÁ, antepassados

CENONDÉ MIRIM, pouco antes, ainda agora

CENONDÉ RANHÊ ENÓNG, preferir

CENONDÉ ÚRE, antecipar-se

CEPIÁCA, ver

CEPIÁCA NHÓTE, deixar passar

CEPOTY, intestinos

CEPUÎ, borrifar

CEPUÎ RÁBA, regador

CEPÝ, preço

CEPÝ NONG, avaliar

CEPÝ OÇÚ EÝMA EPIRIMÁN, regatear

CÉRA, nome

CÉRA ÁRPE GOÉRA, sobrenome

CERAKOÊNA, fama

CERAÝMA, pagão (!!!)

CERÉB, lamber

CEREBYRA, irmão mais novo

CEREVÍRA, nádegas

CERÓC, batizar

CETÁ(Ê), muito

CETÊ, corpo humano

CETÚNA, cheirar

CETÝMA, perna

CETÝMA IAPÁRA, aleijado

CEÍYA, mulato

CEIJÝRA, tia, tia-prima

CIC, todos

CINOÁBA, barba

CIPÓ, raiz

COAMEÉNG, mostrar

COARACY, sol

COARACY ÇACU, calma

COARACY OMANÔ, eclipse

COARACY PYAÇÁBA, chapéu

COARACY RANGÁBA, relógio

COARACY RENDY, réstia

COATIÇÁBA, letra ou gravura

COATIÁRA, escritor ou pintor

COATIÁR, escrever, pintar

COAÚB, conhecer

COAÚB MORANDÚBA, quais são as novidades?

COAÚB UCÁR MORANDÚBA, descobrir o segredo

COCICÓI, eis aqui

COCINHEÝME GOÁRA, muito antigo

COÉMA, manhã

COÉMA PIRÁ PIRANGA, aurora

COICÉ, ontem

COITÉ, finalmente

COMENDÁ, feijão

COÓ, animal

COPÊ, costas

COPÊ RUPÎ, pelas costas, com falsidade, escondido

CORÓCA, velha senil

COYR, agora

COYR REIRÊ, doravante

CRICRI, gavião comedor de galinhas

CUATÍ(M), de cuá (cintura) e tim (nariz), pois este animal dorme com o focinho na cintura.

CUNHÃ, mulher ou fêmea de qualquer animal

CUNHÃ ÇAPIXÁRA MÉENGARA, fofoqueira

CUNHÃ COARAEÝMA, donzela

CUNHÃ IMÉNA MOMOXICÁRA, adúltera

CUNHÃ MEMBYRA, sobrinho(a)

CUNHÃ MÊNA, parente por afinidade

CUNHÃ MENDAÇÁRA, casada

CUNHÃ MENDAÇAREYMA, solteira

CUNHÃ NUNGÁRA, afeminadamente

CUNHÃ RAPIXÁRA, afeminado

CUNHÃ RUPIÁRA, amigo de mulheres

CUNHÃ TÊM, rapariga (em que sentido?)

CUPÚ, árvore de que se tira bebida fresca

CURUCÁBA, garganta

CURUCÁBA OJEKENDÁO, pigarro

CURUMÎM, menino

CURUPIRA

CURURÚ, sapo negro, cujo leite cega

CURURÚ BOIA, cobra comedora de sapos

CURURÚC, rosnar

CYG, mãe

E.

I. tu; II. ele(a) (em algumas conjugações de verbo no presente)

EAGOÉRA, dizer

EÁMAE, não (das mulheres)

ECATÚPE, nu

ECUPÊ, traição

EÉM, sim

EIKÊ, entrar

EMAACY, doença

EMBIÁRA, caça, pesca

ENGANÁNE, tentar (no sentido de pecado)

ENÓI, pôr

EPÉBA, pus

ERÉ CATU, alto lá!

EUKYÎ, cunhada da mulher

G.

Letra pouco usada no começo das palavras, e a razão é porque as que deverão começar por ge, gi se escrevem com j; as de go e gu confundem-se ou talvez se escrevem com k; e em ga não sei de nenhuma palavra puramente indígena que assim comece. Todavia, admitimos a ortografia portuguesa para alguns vocábulos mais em uso.”

GAMBÁ

GAPUIA “(de origem incerta), vocábulo de São Paulo usado entre pescadores. A Gapuia consiste em atravessar-se o Igarapé com aninga e tojuco encostado em paus cravados no fundo, para que não passe toda a água; depois toma-se o peixe à mão ou, se há muita água, bate-se timbó. = MACUOCA.”

GIA, rã (somente no Maranhão)

GIBOIA

GIQUITAIA, formiga miúda e vermelha, cuja mordida necessita do fogo para efetuar a cura (uso somente no Pará).

GIRÁO, casa ou terraço feito sobre forquilhas; serve de canteiro, paiol ou ventilador.

GOAÇU, grande

GOAIMIM, mulher velha

GOAINIM UIRAPÁRA, arco da velha

GOARA, nativo de qualquer lugar

GOARABÁ, peixe-boi

GOARAPIRÁNGA, barreira

GOATAÇÁBA, jornada

GOATAÇARA, viandante, peregrino

GOÉNE, vomitar

GOÉR-EYMA, “partícula negativa do mais-que-perfeito do infinitivo: emprega-se em vez de eyma-goera. Juca-goér-eyma, não ter morto, que não matei, ou não matara.”

GUÁBO, “desinência do gerúndio dos verbos de artigo, acabados em –o puro, cujo o se transforma em guabo. Ex: Ai xoô, çoguabo. – E assim também nos verbos acabados em u puro: A-û, guabo. Aixuú, çúguabo.”

GUAJÁ, caranguejo marítimo da Paraíba do Norte.

GUAJÁ JÁRAS, índios do Maranhão

GUAJAJARA-Î, madeira

GUARÁ, “ave: nasce branca, torna-se preta e por fim de um encarnado vivíssimo.”

GUARANÁ, cipó

GUARARAPÉBA, viola

GUE & GUI, “sinal de vocativo, empregado só pelos homens. Escusado será dizer que estes raramente se empregam com substantivos acabados em vogal com acento na penúltima. Ex: Xe-rub-guê, ‘ó meu pai’.”

GUE (sozinho)

I. “Os verbos que depois do artigo A imediatamente tiverem alguma destas 4 sílabas: ra, re, ro, ru, entremeterão seja sílaba gue entre o artigo e a tal sílaba; mas isto apenas na 3ª pessoa. Ex: Araço, eu levo. Ere-raco, tu levas. O-gue-raço, ele leva. – Areco, eu tenho. Ere-reco. O-gue-reco.

II. Se os tais verbos se tornam absolutos com a dicção poro, neste caso tomam a partícula gue, nem só nas terceiras, mas em todas as pessoas. Ex: A-poro-gue-raço, levo gente. A-poro-gue-reco, tenho gente. Todavia, as duas primeiras letras da partícula podem, nestes casos, desaparecer na composição, dizendo ao invés A-poro-e-raço.”

GUI (sozinho), “primeira pessoa do gerúndio dos verbos do pronome xe. Ex: Gui Paca, acordando eu. Gui-tû, vindo eu.

GUIRÁ, ave

GUIRÁ OÇU, gavião

GUIRÁ PEPÔ, asa de pássaro

GUIRÁ REPOTY, erva de passarinho

GUIRA REÎYA, bando de pássaros

GUIRA RECÊ, debaixo. = GUIRÎ, GUÝRPE

GY, machado

I.

I.

I. É a terceira pessoa do singular e plural do pronome Xe, ele, eles.

II. Vale como o pronome possessivo ‘seu’, ‘sua’, ‘seus’, ‘suas’. Ex: Cyg, mãe; I-x-ig, sua mãe ou ‘a mãe deles’. I-cô, sua roça. Estes ex. podem igualmente significar: ele ou eles têm mãe, roça, etc.

III. No começo dos cverbos, faz vezes de relativo. Ex: A-ço, ir. I-xó, a sua ida, o seu ir.

IV. Partícula negativa, que se acrescenta aos verbos, quando estão precedidos de n-d. Ex: A-juca, eu mato. N-d-juca-î, não mato.

V. No fim dos nomes substantivos, vale como diminutivo. EX: Comandá, fava. Comandá-î, favinha. Neste caso se pode também escrever î ou im. Ex: Mitánga, menino. Pitanga-î (sic?), menino muito pequeno.

VI. No fim dos cerbos significa fazer-se a coisa sem imposição estranha, assim como sem muita força de vontade da parte do agente. Ex: Ai-monhang-î, faço por fazer, por me recrear, e sem que ninguém me constranja a isso. A-cepiac-î, vejo e não impeço, ou vejo por me divertir. A-cepiac-î nde angaipàba, vejo a tua ruindade, e não me entendeo contigo, nem te repreendo.

VII. Muitas vezes se mete, com o artigo a que se refere, entre o artigo e o verbo e de tudo se forma um só verbo ativo. Ex: Ai-co-monhang xe-r-uba, faço a roça de meu pai, ou literalmente A [eu] i ou y [sua] co [roça] monhang [faço] xeruba (em acusativo paciente) [a meu pai]. Assim também A-y-acang-oc boia, corto a cabeça à cobra ou antes – eu sua cabeça córto à cobra.

VIII. É uma preposição (ou posposição) quando vem junta com os nomes de parte ou lugar; de ordinário com os advérbios de lugar. Ex: nde cuá î (o mesmo que se dicéssemos nde cuá recê), à tua ilharga. Ybyr-î, ao longo. Guir-î, debaixo. Çoba-î, da banda d’além.”

IÁ.

I. interjeição: (…) bem-feito!

II. Junto com os verbos neutros, significa costume na ação. Ex: Açó iá (ou ), costumo ir. Ajunta-se-lhe freqüentes vezes a sílaba bi. Ex: Xe-poro-nupã-i bi, costumo açoitar muito.

III. Também se emprega com os verbos que significam comer e beber, e nestes casos se lhe pode acrescentar a sílaba ra. Ex: Jorî ûi yára goábo. Vem comer farinha.

IV. Conjunção: do mesmo modo.

V. Primeira pessoa do plural do pronome A, nós.

IÁBA, as coisas que dizem

IABÁ ETÊ, arrogante

IABÁ ETÊ ÇÁBA, arrogância

IABÊ, conjunção: igualmente. = IABÊNHÊ

IAÇOARAMONAÊ, e

IAÇOARAMONAEMO, já que não

IAÊ = YAÊ, verbo: nós dizemos

IAÊTENHÊ, em vão

IA-IABO, para dizermos

IAMURÚ. I. bem-feito!; II. cueyira (fruto).

IÁNDE, “I. 1ª pessoa do plural do pronome Xe: nós e vós, todos sem exceção; II. pronome possessivo, nosso, nossa. Iande có, nossa roça. Este exemplo significaria igualmente roça.

IANDEBO, para nós todos

IANONDÉ, “posposição: antes, primeiro que. Um ex. dará melhor a entender qual é a força desta expressão. Xe-çoyamondé, antes que eu vá (e hei de ir, decerto).”

IAPÁRA, torto, vesgo.

IAPYCÔN, língua

IARA = JARA = YARA, senhor, dono.

IARÁ, palmeira

IATYR ATYR, abundantemente

IBA, quadril

IBÁKE, céu

IBÁKE TINGA, nuvem

IBAKÉPE OÇÓ, salvação

IBAKÉPE TURYBA, glória, paraíso.

IBÝ, TERRA

IBÝ COARA, cova, mina.

IBÝ COARA OÇU IBY APITERPE MÁME PITUNA OÇÚ OICO NHINHÊ TAÝNA ETÁ ANGA CERAÝMA OAÊ ETÁ RENDÁBA. Limbo ou seio de Abraão. (!)

IBÝ CUÎ, praia

IBÝ MÁME OPOBINHÊ MBAÊ OJEMONHANG, fertilidade

IBÝ OCA, parede

IBÝ PEBA, terra plana

IBÝ RETÊ, terra firme

IBÝ RYRY, terremoto (por que haveria essa palavra se, como dizem os incautos, não houvesse terremoto no Brasil?)

IBÝ TYRA, serra

IBYTU, vento, arroto

IBYTU AYBA, vento de trovoada

IBYTU BABÓCA, redemoinho

IBYTU RANA, nevoeiro

IBYTY GOÁYA, vale

ICÔ, “este, esta, isto (e também) eis aqui, eis que. Ex: A-jur-icô. Eis que me vou. Ai-monhang-icô, eis que já faço.

ICÓ (A-ICÓ), estar ou ter de ser.”

ICURÉ, anta

IÊ = YÊ, “I. partícula que serve para tornar passivos os verbos transitivos. Ex: A-juca, eu mato. A-ye-juca, eu me mato. II. , recíproco.”

IGAÇÁBA, louça

IICÁBA, palavra

IIPÊ, um

IKÊ, aqui

IKÊ CECOI, aqui está

IMBOÉ, ensinar

IN, estar deitado

INDE = NDE, tu, do pronome ou Ixê

IPÉBA, chato

IPY = YPÝ, primeira origem

IQUE, entrar

I’RAXO, interjeição de espanto

IRÓN, vê só?!

IRUNÁMO GÓARA, parceiro

ITÁ BUBUI, pedrapomes

ITÁ JÚBA, dinheiro, ouro

ITÁ JÚBA JÁRA, homem rico

ITÁ JÚBA RÁNA, ouro falso

ITÁ OCA, parede de pedra

ITÁ PEBA, chapa de ferro

ITÁ PO MONDÉ, algemas

ITÁ PUPÊ JAPY, apedrejar

ITÁ RETÊ, aço

ITÁ TUPAN ÇUÎ OCÉMO OAÊ, raio

ITÁ TYBA, pedregal

ITÁ XÁMA, corrente (de ferro)

ITÁ YRYRY, concha

ITYCÁRA, pescador

ITYKÉRA, lixo

IXÊ = XÊ, eu. Só pessoas podem ser referidas como um eu no Tupi. – Nde ou Indé, tu – Y, ele – Yande ou Iande e Ore, nós – , vós – Y, eles.

IXÊ AÊ, sou, estou

IXÊ ETÊ, eu mesmo

J.

JÁ. “I. supino do verbo A-é, dizer. Gui-ja-bo, dizendo eu; II. calcanhar.”

JABÊ (IABÊ) (JAVÊ), basta!

JABÊ JABÊ, cada um

JABÊ IPÓ, como deve ser

JABÊ NHÓTE, de graça

JABÊ TENHÊ, nem mais, nem menos

JABÊ TURUÇÚ PORYB, cada vez mais

JABICÁBA, desigualdade

JABICÁBA RUPÎ, sem aviso, sem pensar, inadvertidamente

JABOTIM, jabuti

JABURÚ, ave ribeirinha

JABY, errar, faltar

JABYBÚRA, arraia

JÁCA

JACAMÎM, ave própria para adestrar

JACANHÉMO, pasmar, titubear; terror, espanto.

JACÁO, pelejar. Jacá-jacáo: arrazoar.

JACARANDÁ

JACARÉ

JACARÉ IHÚA, árvore grande que servia para construir canoas

JACARÔA!, poça d’água

JACARÔÁ MIRIM, charco

JACARÔA OÇÚ, lago

JACEON (A-JACEÕ), chorar

JACÍNA, espécie de borboleta

JACOAÚB ETÊ, ladino, sagaz

JACOAÚB EYMA, néscio

JACÚ, ave

JAÇÚ OAÊ, canhoto

JACUMAÝBA, piloto

JACY, lua, mês

JACY ÇOBA JEARÓCA, lua minguante

JACY ÇOBA OÇU, lua cheia

JACY JEMOTURUÇÚ, lua crescente

JACY PEÇAÇÚ, lua nova

JACY TATA, estrela

JAGOÁRA, cão; onça.

JAGOÁRA KIÝBA, pulga

JAGOÁRA OATÁ CEMIÁRA, o cão que manca

JAJÚRA MONDÓCA, degolar

JAKIBÁNA, cigarra

JAMÎM, espremer

JAMÎMA RUPÎ, sorrateiramente

JAMOTAREYMA, ódio

JAMOTAREYMA RUPÎ, odiosamente

JAMOTÍNGA, entrudo (carnaval indígena)

JAMOTÍNGA ARA, dia de entrudo

JANDÊ IARA JESU CHRISTO YBÝ AIQUÉRA ETÁ, discípulos de Cristo

JANDÊ MBAÊ, coisa nossa

JANDÊ PAYA IPÝ, Adão

JANDÊ PAYA ADÁO RENDABA QUERA, paraíso terrestre

JANDÊ RAMÚYA, antepassados

JANDÊ REÇÁ ÇÁBA, pestanas

JANDI, azeite

JANDI CARAÝBA, crisma; extrema unção.

JANDÚ, aranha

JANDÚ KEÇÁBA, teia de aranha

JAPABÓCA, partida (de ida)

JAPEGOÁ, centopeia

JAPÎ, atirar

JAPÎ APIXÁBA, pedrada

JAPI JAPI, apedrejar

JAPÎ MOCÁBA, dar tiro de espingarda

JAPINÓN, onda

JAPINÓN OÇÚ, maresia

JAPIXÁ, ferir

JAPIXÁBA, ferida

JÁRA, dono, amo, senhor, senhora

JATIMÁ TIMÁN, andar em círculos, rodear

JATIÚCA, carrapato

JATIÚM, mosca muito irritante

JATOBÁ

JÊ, “segunda pessoa do plural do presente do indicativo do verbo A-é, e assim também do imperativo. Pe-jê: Dizei, ou vós dizeis.”

JEAUÇUPABA, amor honesto

JEBÝC, esganar

JEBYR, repetir, voltar

JECOÁU, apresentar-se

JECOAÚB, aparecer aquele ou aquilo que estava perdido

JECOAÚB ETÊ, ladino

JECOACU OÇÚ, quaresma

JECOACÚB, jejum, jejuar

JECOACÚBA, sexta-feira

JECYRÓN, pôr-se em fila

JEGOARÚ, ter nojo

JEJUMÎNE, ocultar-se

JEJYBÝCA, enforcar-se

JEKYCÎ, caldo

JEKYI, definhando, morrendo

JEMÁNE, coisa velha

JEMBAACÝ, ter fome

JEMEMOTÁRA, vontade, concupiscência

JEMOÁ MONDÉ, vestir-se

JEMOÁCÁNGA YBA, endurecer-se

JEMOAÇÚCA, tomar banho

JEMOAPÚNG, tratar-se

JEMOAÝB, corromper-se

JEMOAÝB PORYB, piorar

JEMOCAMÁRAR, amigar-se

JEMOCAMÁRAR JEBYR, fazer as pazes

JEMOCANÉON, fadigar-se, afligir-se

JEMOCANHÉMO, desperdiçar-se

JEMOÇARÁI, brincar

JEMOÇARÁITÁBA, jogo

JEMOÇARÁITÁRA, jogador

JEMOÇARÁYA, galhofa

JEMOÇARÁYA RUPÎ, galhofeiramente

JEMOCURUÇÁ, persignar-se

JEMOKYÁ, sujar-se

JEMOMBEÚ ÇÁBA, confissão

JEMOMBÓRE IXUÎ, divórcio

JEMOMENDAR, casar

JEMOMOXÍ, envergonhar-se

JEMONDYÁRA, menstruação

JEMONGETÁ, conversar

JEMONHARÓN, ficar bravo

JEMOPOTYR, florescer

JEMOPYÁ-YBA, apaixonar-se; enfadar-se. (!)

JEMOPYTÚNE, anoitecer, escurecer (fechar o tempo)

JEMOROIÇÁNG, esfriar

JEMOTAÇÁBA, pancada

JEMOTAGUÁ, amadurecer (fruto)

JEMOTAIGOÁRA, alforria

JEMOTÁRA, vontade

JEMOTY JOBAÊ, envelhecer

JEMÚ, flechar

JEMUÇÁRA, flecheiro

JENÓNG, deitar

JEPÁRA PARÁBO, várias coisas e cores

JEPÊ, um, uma

JEPÊ YÎ, uma vez

JEPENHÔ OAÊ, único

JEPOÇANÓNG, curar

JEPOCOAÇÁBA, junta, ligamento

JEPOCOAÚB, acostumar-se

JEPÓI, alimentar

JEPOTAR, chegar. Uso restrito, apenas na sentença: Jepotar ygára, chegar de canoa.

JEPYÁ MONGETÂ, refletir

JEPYÁ MONGETAÇÁBA, meditação

JEPYÁ ROJEBYR, arrepender-se

JEPYÁBA, lenha

JEPÝCA, vingar

JEPYCÝCA, abraçar

JEPYCYRÓN, apadrinhar-se

JEPYPÚCA, e

JEPYPÝCA, naufrágio

JEPYRYPÁNE, negociar

JEQUÎ, armadilha para apanhar peixe

JERAGOIA, mentir

JERAGOIA OAÊ, falsário

JERAGOIA PUPÊ OACEMO, convencer

JERAGOIA RUPI TUPAN RERA OCENÓI, jurar em falso

JERÉO, despojar-se

JEROBIAR ETÊ CECÊ, vangloriar-se

JEROTÎM, ignomínia

JERÚ, papagaio = PARAGOAI

JERUBIAÇABA, fidelidade

JERUBIAR, confiar ou confiar demais (ser presunçoso)

JETYCA, batata

JEUPYR, subir, trepar

JEZUS CHRISTO RERÚ BIAÇÁBA, fé católica

JICÁ, coisa quebrada

JICÁ JICÁ, quebrar

JICAÇÁBA, rachadura

JIJÊ, afastar

JIMBOÊ, estudar, aprender, ensinar, rezar (quase tudo vinculado à educação)

JIMBOÊ PAPÉRA PUPÊ, ler

JIMBOEÇÁBA, doutrina, lição, reza, oração. Jimboeçába catu pupê ojemoturuçú: bem-educado.

JIMBOEÇÁRA, mestre

JIRÁO, jirau

JÓCA, desentupir

JOCAIÇÁRA, ocupante

JOCOAI, ocupar

JOCYB, limpar esfregando

JOCYB ANGA, purificar a alma

JOJÓCA, soluçar

JOMÁNA, abraço

JOMBYÂ, buzina

JOMÎMA RUPÎ, secretamente

JOMINEÇÁBA, segredo

JORÁO, soltar, desembaraçar

JÓBE, chamar alguém

JORI, “segunda pessoa, singular e plural, do imperativo do verbo: A-jur. Vem tu, vinde vós.

JOTOÎM, acotovelar

JOTÝME, semear, enterrar

JOTÝE JEBYRE, replantar

JU. “I. partícula pospositiva do vocativo, empregado pelas mulheres. Xe-cyg-ju, ó minha mãe! II. espinho”

JU TYBA, espinhal

JUB, deitado

JUCÁ, matar

JUCÁ-ÇÁRA, matador

JUCÁ-CÝ, pirraça

JUCÂNE, transbordar

JUÇÁRA, “comichão, coceira, frieira. No Maranhão, fruto de uma palmeira.”

JUCÝB ÁNGA, descarregar a consciência

JUÎ, rã

JUKÝRA, sal

JUMAM, braço

JUNDUHI, aranha matadora de plantas

JUR, vir

JURARÁ, cágado, tartaruga. “No tempo em que Alexandre Rodrigues visitou o Pará, era a manteiga dos ovos de tartaruga uma das indústrias mais usadas em certas estações. Eis como ele descreve este processo: ‘Juntam-se aos montes nas praias os ovos que se descobrem nelas; se se quer que funda mais a manteiga, deixa-se fermentar de 4 a 5 dias, mas então ela sai rançosa e com mau cheiro. Se os ovos de preparam ainda frescos, são logo metidos numa canoa, que de propósito está reservada para isso, e vão pisando-os a pés nus, como em Portugal se faz com as uvas. Sobre os ovos pisados lançam água, a qual depois de mexida e encorpada, deixa sobrenadar o óleo: com a mesma água dissolve-se grande parte da clara: as cuias (e de preferência as válvulas das conchas) são as colheres com que tiram o óleo de cima d’água, empurrando-o para dentro dos tachos. Após, vai a manteiga ao fogo, esfria-se-a em panelões à parte, e deles transporta-se-a aos potes. Esta manteiga serve para temperar ou comer, fritar peixe, de combustível para a luz doméstica, ou calafetar as canoas (para evitar vazamentos).”

JUREMA, árvore

JURÚ, boca

JURÚ AYBA, maldizente

JURÚ CANHÉMO, emudecer

JURÚ CUY, tagarela

JURÚ GUÉRA, bobajada

JURÚ JERAGOÁYA RUPÎ OAÊ, adulador

JURÚ JYB, ato de cortesia

JURÚ NÊME, mau hálito

JURÚ OÇÚ, boca-suja

JURÚ PITUGÉME, bafo

JURUCÊ, aquele que tem o falar afável

JURUPÁRI, demônio; na mitologia tupi, espécie de macaco.

JURUPÁRI ENGANANE ÇÁBA, tentação

JURUPÁRI KIBÁBA, centopeia

JURUPÁRI RATÁ (TATÁ), inferno

JURUPÁRI RATÁ PÓRA, habitante dos infernos

JURUPÁRI REMI MONHÁNGA, diabrura

JURUPÁRA REPOTI, enxofre

JURUPIXUNA, macaco de boca preta

JURURÊ, pedir, mendigar, suplicar. Pitybonçaba ojururê, pedir ajuda.

JURURÊ RURÊ CATU, pedir humildemente

JURURÊÇÁRA, pidão

JUTAÝ. “Fruto desagradável, e contudo os índios os comem. Desta árvore se colhe a resina chamada Jutay-cica, ou goma copal, com que envernizam a louça. (…) A casca também serve para confeccionar canoas.”

JURUTI, pomba

JYBA APÁRA, maneta

JYBA BABACA, e (!)

JYBA BÓC, danças, bodas

JYBA KITAM, cotovelo

JYBA PECÁNGA, ombro

JYBA RAJÝCA, pulso, veia.

JYBÝCA, engasgar comendo

JYBYCÁBA, forca

K.

KEBYRA, “irmão ou primo da mulher; indica ao mesmo tempo que este parente é o mais moço, não só a respeito dela, mas também em relação a todos os demais irmãos.”

KÉR, dormir

KÉR AÝBA, pesadelo

KERIRIM, silêncio, tristeza

Xe-kiriri, estou triste

KIÝBA, piolho

KYÂ ÇÁBA, nódoa

KYBÁBA, pente

KYÇÁBA, rede de dormir

KYCÊ, faca

KYCÊ APÁRA, foice

KYCÊ GUASSÚ, facão, cutelo.

KYINHA, pimenta

KYINHA AVÎ, pimenta malagueta

KYINHA ÇOBAIGOÁRA, pimenta do reino

KYRÂ OICO, estar gordo

KYTAM, verruga

KYTINGÓCA ÁNGA, confessar (purificar a alma) (malditos jesuítas!)

M.

MÃ. “partícula pospositiva com que exprimimos desejos ou saudades. A-ço-mo Tupan pyri mã. Oh! quem fôra para Deus. Xe-cyg-mã. Oh! minha mãe. Com esta partícula juntam-se estas outras, temo, mey, mey-mo; e desta maneira forma-se o optativo dos verbos.”

MÁ ÁRA ÇUÎ VÊ CATU, desde quando?

MÁ ÁRA PUPÊ, a que horas?

MÁ ÁRA ÇUÎ, donde? de onde vem?

MÁ MARANDÚBA, que vai?

MÁ MBAÊ, que coisa?

MÁ RUPÎ, por onde?

MAÊ TACÓ = MAÊ TEPE = MAÊ TERÁNHE, Ora, vede agora!

MAÉM, olhar

MAÉM ETÊ, encarar

MAENDUAÇÁBA, lembrança, pensamento.

MAENDUAR JEBYR, recordar

MAIRYGOÁRA, cidadão

MAITACÁ, papagaio que destrói os campos de milho

MÁME, onde?

MÁME COARACY’ OCANHEMO, ocidente

MÁME NHÓTE, algum lugar

MÁME TÁ, aonde

MAMETÉI, muito bem!

MANACÁ (somente Pará), flor e apelido da moça mais bonita da tribo.

MANIÇOBA, folha da mandioca

MANIPOEIRA, a água que a mandioca destila = TUCUPIM

MANÔ, morrer

MANÔ AYBA, desmaio

MARÁAR, definhar

MARÁCA. “I. Instrumento das solenidades religiosas dos índios: cascavel. II. Árvore de fruto que nasce pela terra firme, que se diz semelhante a uma espécie da crescentia de Lineu. III. Por ampliação do sentido direto da palavra, dá-se hoje este nome a um chocalho feito de lata e cheio de pedrinhas, que serve de brinquedo.”

MARACÁJÁ, gato do mato

MARACANA’, papagaio amarelo

MARACATIM, “navio, embarcação grande [não se refere ao do homem branco]. Era o nome que os índios davam a suas embarcações de guerra, as quais tinham na proa um maracá, que eles faziam tocar quando acometiam.”

MARACÁYMBÁRA, feiticeira

MARACUJÁ

MARAMONHANG, guerra

MARÍCA, barriga

MAYA, mãe

MAYA ARÝA, avó da mãe

MAYA RAMÛYA, avô da mãe

MAY-TINGA, ama

MBAACY, adoecer

MBAACY AYBA OÇU, peste

MBAACY JEBYRE, recidiva da doença

MBAACY OJEPECÝCA OAÊ, doença contagiosa

MBAÊ, coisa

MBAÊ ACY ACY OAÊ, homem muito doente

MBAÊ AYBA, malefício

MBAÊ BUPIÁRA, antídoto

MBAÊ ÇÁÇY’ OAÊ, veneno

MBAÊ CURUTÉM NHÓTE OÇAÇÁO OAÊ, vaidade

MBAÊ ETÁ, bens

MBAÊ PUXI, adultério

MBAÊ PUXÍ RECÊ ENHEÉNG, falar leviandades

MBAÊ RÁMA RECÊ TA, para quê?

MBAÊ REPIACA, visão

MBAÊ RETUNA, olfato

MBAÊ TAÎ OÇU, coisa apimentada

MBAÊ UÇABA RENDÁBA, refeitório

MBAÊ UÚ, refeição

MBÂE UÝ ETÊ, gula

ME. “I. na (preposição); II. partícula que se acrescenta aos verbos acabados em ditongo, para formar o conjuntivo: A-cai faz Cai-me.”

MEAPÉ, pão

MEAPÉ ANTAM, biscoito

MEAUÇÚBA, escravo

MEÉNG, dar

MEENGABA, dádiva

MEGOÉ, pouco

MEMBY, flauta

MEMBYRA AMÔ, enteado (filho da mulher)

MEMBYRA ANGÁBA, afilhado (da mulher)

MEMBYRA CU, enteada (filha da mulher)

MEMBYRA RERÚ, sogra (mãe da mulher)

MEMBYRA TY, nora (irmã do irmão, para a mulher)

MEMBYRAR, parir

MÉME. “partícula que significa ‘o mesmo’, da mesma maneira, ou sempre. A-çó méme, eu sempre vou.”

MENDAÇÁBA, casamento

MENDAR, casar

MENDUBA, sogro da mulher (pai do homem)

MENDY, sogra da mulher

MEOÁM, lesão, defeito

MEREBA, chaga

MEREBA AYBA, bexigas

MERÚ, mosca

MI, partícula que se antepõe aos verbos ativos para formação dos particípios passivos

MIKYRA, nádegas

MIMBABO, gado

MIMÓI, cozinhar

MINGÁU

MINÔ, fornicar

MINONÇÁRA, fornicador

MIRÁ, gente

MIRÁ REÇÁPE, publicamente

MIRÁ RECO RUPÍ, popularmente

MIRÁ REIYA OPUÁME, rebuliço

MIRÎM

MIRÎM NHÓTE, um nada

MIRÎM PURYB, pouco menos

MIRYBA, Bárbara, nome de mulher

MISSA MONHÁNG, celebrar missa

MISSA PYTUNA, natal

MITÁNGA, criança

MITÁNGA RECÊ, meninice

MITYMA, planta

MIXÍRA, assadura

MIXIRE, assar

MO.I. posposição empregada com os verbos tornados passivos em virtude das partículas –nhe ou –ye, antes das quais se coloca a tal partícula: mó-. A-yê-apîn: tosquiar-se. Ai-mo-yê apîn Pedro Diogo çupe, faço com que Pedro seja tosquiado por Diogo. II. Dos verbos neutros do pronome xe se fazem verbos ativos com o pronome ai, e logo a sílaba mo. Xe angaturám, sou bom. Ai-mo angaturám, faço bem a alguém. Se o tal verbo tem a letra r, depois do pronome xe perde-se a sobredita composição. Xe ropar, eu me perco. Ai-mo-opar, faço com que outro se perca. III. Serve também esta partícula para tornar ativos os verbos neutros do pronome a, metendo-se a partícula entre o pronome e o verbo. A-poám, levanto. Ai-mo poám, faço levantar a alguém ou alguma coisa. A-in, estou parado. Ai-mo­ in, assento alguma coisa. IV. Acrescenta-se também aos verbos acabados em mo ou no para formação do gerúndio. Ai-amô, molhar, Amô-mo. Ai-manôGui manô-mo. V. Também se acrescenta para formação do gerúndio aos verbos acabados em ~ nas letras a, e, o. Ai-nupã faz: nupâmo. VI. Partícula pospositiva do imperfeito do permissivo. A-jucá-mo, eu matara ou mataria. VII. Empregada pospostiviamente com substantivos significa ‘em vez, em lugar de…’ Tuba-mo. Em vez, em lugar de pai.”

MOACY’, doente

MOACY-ÇÁBA, mágoa

MOACY-ÇÁBA OJEPIACA RECÊ MBAÊ, inveja

MOAGOAÇÁBA, amancebar-se (relação indíg[en]a)

MOANG, MOÁNGA. “Significa coisa fictícia ou imaginada, e nada mais que isso. Os seguintes exemplos explicarão melhor o sentido desta proposição, que vem do verbo acima. A-ço-moang, finjo que vou, ou vou baldadamente. A-caá mondo moáng, fui à caça debalde, sem proveito.”

MOANTAMÇÁBA, parapeito

MOAPAR, aleijar

MOAPY, tocar

MOAPYR, somar, acumular

MOÁR TATÁ, fazer fogo

MOATÚCA, encolher, encurtar

MOAUG-Ê, consumar

MOAUGUÉRA AYBA, malicioso

MOAÝB, corromper, deflorar

MOAÝB ÇAÎNHA, estragar os dentes

MOBABÓC, moer a cana

MOBYR, quantos?

MOBYR EY’, quantas vezes?

MOBYR HORA, que horas são?

MOBYR NHÓTE, alguns

MOBYRIÔN, muitos

MOÇABAIPOR, embebedar totalmente

MOÇÁC, arrancar

MOÇÁÇÁO, atravessar

MOÇAÎ, azedar

MOÇAIMBÊ, afiar (instrumento cortante)

MOÇÁNGÁB, assinalar, marcar, medir, pesar, demarcar.

MOÇAPÝR, três

MOÇARAY, escarnecer, brincar, galantear, zombar, triunfar.

MOÇARAY GUÉRA, bobo

MOÇARAYA RUPÎ, na brincadeira

MOÇARAYA RUPÎ NHÔTE ONHEENG, dizer besteiras

MOÇARAYTÁRA, folgazão, descontraído

MOÇÁ ÇUÍ, pólvora

MOCABA, espingarda

MOCABA MEMBYRA, e

MOCABA MERIM, pistola

MOCABA OÇÚ, peça de artilharia

MOCABA RAÝNA, munição, chumbo, bala

MOCABA REAPÚ, tiro

MOCAJÚBA, “o fruto chamado em algumas partes de côco de catarro” (!)

MOCAMBY, amamentar

MOCANEÓN, cansar

MOCANHÉMO, assolar, assustar alguém

MOCANTÎM, fazer bico

MOCAÓCA MIRIM, presídio

MOCAÓCA OÇÚ, fortaleza

MOCATÚ, curar

MOCAÚ, embebedar totalmente

MOCEAQUÉNE, perfumar

MOCEÉM, adoçar

MOCEKYJÊ ÇÁBA, espantalho

MOCEKYJÊ KYJÊ, ameaçar

MOCÊM, salgar, estender

MOCEMO, pronunciar

MOCEMO CECÔ QUÉRA ÇUÎ, absolver, isentar

MOCENDY, iluminar

MOCERAKÉNE AÝBA, infamar

MOCERAKÉNE CATU, honrar

MOCERÁNE, vencer, desprezar

MOCÍMO, jogar fora

MOCOCÁBA, gasto

MOCOCÁO, desperdiçar

MOCOCÁOÇÁRA, gastador

MOCOCOBIAR, compensar

MOCOCOI, derrubar (fruta)

MOCOÉNE, dar bom dia

MOCÓI, dois

MOCÓI VÊ, ambos, tanto um como outro

MOCÓNE, engolir

MOCORORÔ, (Maranhão) aloa (?) de arroz; (Ceará) suco de caju femrmentado.

MOCORUY, ralar

MOÇORYB TAMARACÁ, tocar o sino, badalar

MOCOTÓ, sapo grande preto dos lados

MOCUBÊ CATÚ, mandar lembrança

MOCUÎ ÇÁRA, moedor

MOÇUPÍ, justificar

MOÇUPÍ ENHÉENG, cumprir a palavra

MOCURUÇÁ, cruzar

MOETÊ, venerar, solenizar

MOETEÇÁBA, veneração

MOETEÇÁRA, devoto

MOGOAÇÚ, subir de preço

MOGOAÇUÇÁBA, exagero

MOGOAPÁBA, coador

MOGYB, abaixar

MOJACÉON, fazer chorar

MOJAÓCA, separar, dividir

MOJAÓÇÁBA, apartamento

MOJAR, aproximar duas coisas

MOJAR CECÊ, ligar duas coisas antes cortadas

MOJAR CURUCÁ CECÊ, crucificar

MOJATICÔ, pendurar

MOJATICÔÇÁBA, dependurar

MOJATINONG, balançar

MOJEAIBYC, abater

MOJECIAR, acamar, empilhar

MOJECIRÓN, enfileirar

MOJECUAPÁBA, revelação

MOJECUAÚB CUPÎ ÇÁBA, verificar a veracidade

MOJEGOARÚ, causar nojo

MOJEMOMBEÚ, confessar

MOJEMONHÁNG, gerar

MOJENDIRÓN, amuar

MOJÊNÓNG, deitar

MOJÊPÊOÇÚ, incorporar

MOJÊPOCOAÚB, domesticar

MOJERERAGOAY, desmentir

MOJOJABÊ, emparelhar

MOKATÁC, abanar

MOKÉCA = Pokéca. Embrulho. “Hoje significa um guisado de peixe. Na frase vulgar, estar de moqueca é estar de pé dormente, sem se importar com coisa alguma.

MOKYÂ, ofuscar

MOKYTÁM, atar, dar nó

MOMÃ. “I. Partícula que se acrescenta ao presente do optativo, quer se afirme ou negue. Ex: A-juca-momã. Oxalá mate eu! Na-juca-i xoéte momã, oxalá não matara eu ou não matasse. II. Também se acrescenta ao futuro do mesmo modo: Na-juca-i xoe momã! Praza a Deus que eu não mate!”

MOMAENDUAR, fazer lembrar

MOMBÁO CATÚ, aperfeiçoar

MOMBEÚ, dizer, relatar

MOMBEÝ AYBA, culpar

MOMBEÚ CATU, explicar, recomendar

MOMBEÚ CATU CECÊ, louvar

MOMBEÚ TUPÁNA NHÉENGA, evangelizar

MOMBYCA, furar

MOMEMBÉCA, enfraquecer

MOMORIAUÇÚBA, empobrecer

MOMOROTINGA, branquear

MOMOXÎ, adulterar, descompor

MOMOXÎ NHÉENGA PUPÊ, xingar

MOMOXIÇÁRA, injuriador. Cunhã iména momoxicára, mulher adúltera.

MONÁNE, misturar

MONDÁ, furtar

MONDABÓRA, ladrão

MONDAÇÁBA, furto

MONDAR, imputar, acusar

MONDÉ PÓRA, preso

MONGATIRÓN TEMBIÚ, temperar comida

MONG-ER, fazer outrem dormir

MONG-ER AYBA, má dicção

MONG-ETÁ ÇÁBA, prática

MONGUBA-Î, árvore, madeira

MONHÁNG, fazer, tirar do nada, fabricar

MONHANGÁBA, fábrica

MONHERUNDÍC, quatro

MONOXI, irmãos gêmeos

MOPÉ, aplanar o caminho

MOPEÇAÇÚ, renovar

MOPEÇAÇÚ JEBYRE, reformar

MOPECÚ ÁBA, espaçar

MOPERÉBE, ferir

MOPOÂME ABÁ RECÊ, amotinar

MOPOKERÝC, fazer cócegas

MOPÔPECYCA, pegar na mão, enganchar

MOPORÁNG, adornar

MOPORARÁ, atormentar

MOPOTOPÁO, irritar

MOPOTUÚ, aliviar

MOPOTUÚ TUGUÎ, estancar o sangue

MOPÚ, enxotar

MOPUCÁ, fazer rir

MOPYÂ CATU ABA PUPÊ, fazer a vontade

MOPYÂ CATU TAÍNA MERIM, acalentar bebê

MOPYPYC, remar de leve

MOPYRANTÁM OAÊ, coisa importante

MOPYTÁ, agasalhar, deter

MOPYTUBA, acanhar

MOPYTÚNE, dar boa noite

MOPYXÚNE, vestir-se de preto

MOPYXÚNE CERÁNE, ofuscar

MORANDUB, avisar

MORANDUBA, embaixada

MORANDUBA AÝBA, queixa

MORAUÇÚB, ter compaixão

MORAUÇÚB EYMA, impiedade

MORAUÇÚBA, caridade, misericórdia

MORAUKY, serviço, trabalho

MORAUKY MOÇAPYR, quarta-feira

MORAUKY MOCOI, terça-feira

MORAUKY OÇÚ, tráfego

MORAUKY PY, segunda-feira

MORAUKYÇÁRA, trabalhador, jornaleiro (!)

MOREAUÇÚBA, pobreza, tirania

MOREPOTÁRA, luxúria

MOREPY, salário

MORERÚ, deixar de molho

MORO, gente

MORORYB, alegrar

MOROTINGA, coisa branca

MOROYÇÁNG, esfriar

MOROXÁBA, prostituta (já em desuso na época de Gonçalves Dias)

MOROXÁBA, MOROBIXABA-OCÚ, general (faz todo o sentido!)

MORYÇÁBA, carícias

MORYPÁRA, amante

MOTAPY, afundar

MOTATAC, amassar

MOTECÔCOAÚB, doutrinar

MOTEKYR, destilar

MOTEKIROÇÁBA, alambique

MOTEMÚNG, sacudir

MOTENING, secar, torrar

MOTERYCÉMO, abarrotar

MOTICÁM, enxugar

MOTÎM, envergonhar alguém

MOTUMÚNE, escarrar

MOTURUCÚ, criar, cultivar

MOTUTY, cortiça

MOTUÚ ÁRA, domingo, dia santo

MOTUÚNE, lambuzar

MOTYC-Û, fazer líquido

MOTYJOBAÊ, envelhecer

MOXACÎ, trancar, aferrolhar

MOYRA CURUÇÁ, rosário

MU, irmão, primo do homem

MUACIKÉRA, meio-irmão do homem

MUNDÉ TINTA PUPÊ, tingir

MUNGA, nascida

MURIÇOCA

MURUCÚ, arma indígena de pau

MURUCUTUTÚ, ave acinzentada de olhos amarelos

MURÚ-MURÚ, palmeira

MURURÚ, nenúfar

MUTÁ MUTÁ, escada

MUTÚCA, mosca grande, cuja picada faz sangrar

MYRA, espécie de pão

N.

N, ND. “Negação do verbo. Lê-se a este respeito na Gramática de Figueira: ‘Para

[Interrompido neste ponto, 60% do dicionário percorrido.]

SER E TEMPO – Heidegger (trad. Marcia Sá Cavalcante Schuback, Ed. Universitária São Francisco)

15ª edição, 2005, Vozes.

APRESENTAÇÃO – Emmnauel Carneiro Leão

Não tanto o rigor sistemático como, sobretudo, o caráter provocador do questionamento fizeram da questão de Ser e Tempo o maior desafio para o pensar do séc. XX. Em ritmo revolucionário, Ser e Tempo se pôs à altura da Fenomenologia do Espírito (…) e do Zaratustra (…)”

tudo é pensável a não ser a condição de possibilidade da própria representação.” Emulação simples de Schopenhauer

Para o pensamento não há lugar preenchido num tempo ocupado.”

Esta imersão nos proporciona, a cada passo, a experiência de sentir a impossibilidade de falar e dizer o que é o ser.”

ainda não chegamos ao <coração intrépido do des-velamento da circularidade perfeita>”

viagem de retraimento de um horizonte que, longe de nos repelir, nos atrai e arrasta.”

atravessar o esquematismo” atravessar o pântano hegeliano!

As peculiaridades e estranhezas da linguagem de Ser e Tempo não provêm de idiossincrasias do autor. São exigências e imposições da própria viagem da questão, pelas vias das línguas.” “A tradução brasileira de Márcia Sá Cavalcanti se sobrecarrega das dificuldades inerentes ao estágio atual da língua portuguesa.” “Sem um mínimo de respeito, sem o menor esforço de naturalização, transplantam-se as palavras técnicas, os termos científicos, as siglas publicitárias das línguas exportadoras de bens, serviços e invenções para as línguas importadoras. … e em conseqüência se esvai a vitalidade no falar e dizer” “O português ainda não explorou nem desenvolveu o suficiente os recursos de seu espírito criador com tentativas renovadas de pensamento filosófico, poético ou inventivo. Por isso não tem [sequer] muita tradição de fracasso na vida do pensamento. E, sem fracasso em tentativas de dizer e escutar o gênio da linguagem nas aventuras do discurso, não se aprende nem a pensar o não-dito da fala e do silêncio, nem a esperar o inesperado nas esperas e esperanças de um povo empenhado pela identidade” Bela prosa cacofônico-poética!

o silêncio do sentido (…) nada criativo” Na verdade o prefaciador perdeu uma excepcional oportunidade: calar-se.

OBSERVAÇÃO PRELIMINAR À 7ª EDIÇÃO, 1953 (25 anos depois…)

O que pode querer dizer um livro inacabado que foi desistido de ser acabado? Heidegger desacredita de sua própria obra ou tinha forçosamente de ser assim, desde o momento mais originário?

remete-se à [He.] Introdução à metafísica

* * *

Será que hoje temos uma resposta para a pergunta sobre o que queremos dizer com a palavra <ente> [coisa]? De forma alguma.”

Será que hoje estamos em aporia por não compreendermos a expressão <ser>? De forma alguma.”

A elaboração concreta da questão sobre o sentido do <ser> é o propósito do presente tratado. A interpretação do tempo como horizonte possível de toda e qualquer compreensão do ser em geral é sua meta provisória.” O leitor está avisado: propor-se-á a questão, sem qualquer rudimento seguro de resposta. Num longo e denso tratado. Ao menos eu o “encolhi” nesta seleção dos trechos fundamentais (explicados e criticados)!

EXPOSIÇÃO DA QUESTÃO SOBRE O SENTIDO DO SER [INTRODUÇÃO]

1. NECESSIDADE, ESTRUTURA E PRIMADO DA QUESTÃO DO SER

O que Aristóteles e Platão conquistaram manteve-se, em muitas distorções e <recauchutagens>, até a Lógica de Hegel. E o que se arrancou aos fenômenos encontra-se trivializado.”

evidência meridiana”

Illud, quod primo cadit sub apprehensione, est ens, cuius intellectus includitur in omnibus, quaecumque quis apprehendit.” Tomás de Aquino

Uma compreensão do ser já está sempre incluída em tudo que se apreende na coisa.”

Unidade da analogia: com essa descoberta, Aristóteles colocou numa base nova o problema do ser, apesar de toda dependência da questão ontológica de Platão. No entanto, ele também não esclareceu a obscuridade desses nexos categoriais. A ontologia medieval discutiu variadamente o problema, sobretudo nas escolas tomista e escotista, sem, no entanto, chegar a uma clareza de princípio. E quando, por fim, Hegel determina o <ser> como o <imediato indeterminado> e coloca essa determinação à base de todas as ulteriores explicações categoriais de sua Lógica, ele ainda permanece na mesma direção da antiga ontologia com a diferença de que abandona o problema já colocado por Aristóteles da unidade do ser face à variedade multiforme das <categorias> reais. Quando se diz, portanto, que o <ser> é o conceito mais universal, isso não pode significar que o conceito de ser seja o mais claro

de fato, o <ser> não pode ser concebido como ente; enti non additur aliqua natura: o <ser> não pode ser determinado acrescentando-lhe um ente. [alternativamente: o ente não acrescenta à compreensão da natureza]Aqui, ente = essência, em si, já dado. Por isso a construção heideggeriana famosa é ser-do-ente, sujeito-implícito-inerente-ao-objeto, e não um absurdo ente-do-ser, posto que o sujeito é uma irredutível.

A impossibilidade de se definir o ser [afirmada por Pascal] não dispensa a questão de seu sentido, ao contrário, justamente por isso a exige.” Questionável.

essa compreensão comum demonstra apenas a incompreensão.”

um enigma já está sempre inserido a priori em todo ater-se e ser para o ente enquanto ente.”

O <evidente> deve ser e permanecer o tema explícito da analítica (<o ofício dos filósofos>).”

Repetir a questão do ser significa, pois, elaborar primeiro, de maneira suficiente, a colocação da questão.”

Questionar é procurar cientemente o ente naquilo que ele é e como ele é. A procura ciente pode transformar-se em <investigação> se o que se questiona for determinado de maneira libertadora.”

Todo questionamento de… é, de algum modo, um interrogatório acerca de…”

tornar transparente” “orientação prévia”

nós nos mantemos numa compreensão do <é>, sem que possamos fixar conceitualmente o que significa esse <é>.”

mero conhecimento verbal”

O que é o inessencial da essência?

O ser-dos-entes não <é> em si mesmo um outro ente.

modo próprio de demonstração”

Na medida em que o ser constitui o questionado e ser diz sempre ser-de-um-ente, o que resulta como interrogado na questão do ser é o próprio ente. Este é como que interrogado em seu ser. (…) o ente já deve se ter feito acessível antes, tal como é em si mesmo.”

Em qual dos entes deve-se ler o sentido do ser? De que ente deve partir a saída para o ser? O ponto de partida é arbitrário ou será que um determinado ente possui primazia na elaboração da questão do ser? Qual é este ente exemplar e em que sentido possui ele uma primazia?”

E qual é o ser-do-sentido? De que adianta portanto apurar o sentido de algo obscuro sempiterno?

Esse ente que cada um de nós somos [se o ser fosse uma mera coisa…] e que, entre outras, possui em seu ser a possibilidade de questionar, nós o designamos com o termo pre-sença. [Dasein ou ser-aí]” Todos são pre-senças, mas cada pre-sença é singular (cada ser tem seu aí).

(*) “Pre-sença não é sinônimo de existência e nem de homem. A palavra Dasein é comumente traduzida por existência [mas quer sim dizer existência particular, e só um tolo interpretaria Existenz e Dasein trocando-os um pelo outro quando se apercebesse do contexto]. Em Ser e Tempo, traduz-se, em geral, para as línguas neolatinas pela expressão <ser-aí>, être-là, esser-ci, etc. Optamos pela tradução de pre-sença pelos seguintes motivos: 1) para que não se fique aprisionado às implicações do binômio metafísico essência-existência; 2) para superar o imobilismo de uma localização estática que o <ser-aí> poderia sugerir. O <pre>¹ remete ao movimento da aproximação, constitutivo da dinâmica do ser, através das localizações; 3) para evitar um desvio de interpretação que o <ex> de <existência>² suscitaria caso permaneça no sentido metafísico de exteriorização, atualização, realização, objetivação e operacionalização de uma essência. O <ex> firma uma exterioridade, mas interior e exterior fundam-se na estruturação da pre-sença e não o contrário³”

Referencia nesta nota de rodapé entrevista de Heidegger ao Der Spiegel, Rev. Tempo Brasileiro, n. 50, jul/set 1977.

¹ Implementação das mais absurdas de um tradutor já vistas: nada significa isolado, tem lugar indefinido e intuitivamente transitório e deveria ter sido privilegiado na transposição ao português.

² No máximo poderíamos dizer: desistência – de ler Heidegger!

³ PRECAUÇÕES DESNECESSÁRIAS! Quem há de entender, entenderia mesmo assim; quem não há de entender, não há de entender mesmo assim…

é sempre estéril recorrer a objeções formais como a acusação de um <círculo vicioso>, facilmente aduzível, no âmbito de uma reflexão sobre os princípios. Essas objeções formais não contribuem em nada para a compreensão do problema”

O ser é pressuposto, mas não como um conceito disponível, não como o que é procurado.”

visualização preliminar do ser”

Não pode haver <círculo vicioso> na colocação da questão sobre o sentido do ser porque não está em jogo, na resposta, uma fundamentação dedutiva, mas uma exposição de-monstrativa das fundações.” O círculo é sempre feliz e completo, virtuoso.

O que se insinuou foi apenas um primado da pre-sença.”

A elaboração do setor em suas estruturas fundamentais já foi, de certo modo, efetuada pela experiência e interpretação pré-científicas da região do ser que delimita o próprio setor de objetos. Os <conceitos fundamentais> assim produzidos constituem, de início, o fio condutor da primeira abertura concreta do setor.”

O <movimento> próprio das ciências se desenrola através da revisão mais ou menos radical e invisível para elas próprias dos conceitos fundamentais. O nível de uma ciência determina-se pela sua capacidade de sofrer uma crise em seus conceitos fundamentais. Nessas crises imanentes da ciência, vacila e se vê abalado o relacionamento das investigações positivas com as próprias coisas em si mesmas.”

BECOS SEM-SAÍDA NÃO IMPORTA O CÁLCULO: “A ciência mais rigorosa e de estrutura mais consistente, a matemática, parece sofrer uma <crise de fundamentos>.” “A teoria da relatividade na física nasceu da tendência de apresentar o nexo próprio da natureza tal como ele <em si> mesmo se constitui. Como teoria das condições de acesso à própria natureza, a teoria da relatividade procura preservar a imutabilidade das leis do movimento através de uma determinação de toda a relatividade [novo absoluto fenomenológico, nova variável empírica de eleição], com isso, coloca-se diante da questão da estrutura do setor de objetos por ela pressuposto, i.e., do problema da matéria.”

a história literária se torna história dos problemas.”

Pouco a pouco a teologia começa a entender de novo a visão de Lutero para quem a sistematização dogmática repousa sobre um questionamento que, em sua origem, não advém de um questionamento da fé, e cuja conceituação, mais do que insuficiente para a problemática teológica, a encobre e até mesmo deturpa.”

Essas investigações devem anteceder às ciências positivas. E isso é possível. O trabalho de Platão e Aristóteles são uma prova.” “A <lógica> é um esforço subseqüente e claudicante que analisa o estado momentâneo de uma ciência em seu <método>.” Ora, nossa lógica é aristotélica.

Assim, o que é primeiro filosoficamente não é uma teoria da conceituação da história, nem a teoria do conhecimento histórico e nem a epistemologia do acontecer histórico enquanto objeto da ciência histórica, mas sim a interpretação daquele ente propriamente histórico em sua historicidade.”

A lógica transcendental [Kant] é uma lógica do objeto a priori, a natureza, enquanto setor ontológico. § O questionamento,¹ porém – a ontologia no sentido mais amplo – independente de correntes e tendências ontológicas –, necessita de um fio condutor. [vocês ainda enjoarão desse binômio!] Sem dúvida, o questionamento ontológico é mais originário do que as pesquisas ônticas das ciências positivas. No entanto, permanecerá ingênuo e opaco, se as suas investigações sobre o ser-dos-entes deixarem sem discussão o sentido do ser em geral.”

¹ Depreende-se que em contraposição à lógica transcendental do Iluminismo He. propõe uma lógica do questionamento como metodologia para a filosofia? Nome um tanto estranho!

A questão do ser visa às condições de possibilidade das próprias ontologias que antecedem e fundam as ciências ônticas.”

Chamamos existência [Existenz] ao próprio ser com o qual a pre-sença pode se comportar dessa ou daquela maneira e com o qual ela sempre se comporta de alguma maneira [simplificando, o universo, a matéria]. Como a determinação essencial desse ente [o próprio universo! obviamente ele só pode ser um ser, um modo, nunca um objeto para nós…] não pode ser efetuada mediante a indicação de um conteúdo qüididativo [o quê? quem?], já que sua essência reside, ao contrário, no fato de dever sempre assumir o próprio ser como seu, escolheu-se o termo pre-sença [SER-AÍ] para designá-lo enquanto pura expressão de ser.”

(*) “A palavra existência resulta da aglutinação da preposição ek e do verbo sistere. (…) Nessa acepção, só o homem existe [tem presença]. Deus é mas não existe. O carro é mas não existe. [ambos só existem em nossa consciência, i.e., somente são em…]Ref. Carta sobre o Humanismo – cheira a uma refutação de Sartre.

Questionamento existenciário [existenziell] como algo banal (mera constatação: toda era tem seu Zeitgeist; por que eu sou isso ou aquilo? por condições históricas determinadas, condições de possibilidade de sê-lo tal qual – basicamente existencialismo 101 mal-aplicado, e muito aplicado, por-aí…), inferior ao questionamento existencial [Existenzialität]. nível ôntico x nível ontológico

(*) “co-pertinência originária de existência, existencial, existenciário nas épocas da pre-sença.”

Assim, a compreensão do ser, própria da pre-sença, inclui, de maneira igualmente originária, a compreensão de <mundo> e a compreensão do ser-dos-entes que se tornam acessíveis dentro do mundo.”

primado ôntico: a pre-sença é um ente determinado em seu ser pela existência.” “primado ontológico: com base em sua determinação da existência, a pre-sença é em si mesma <ontológica>.” “terceiro primado que é a condição ôntico-ontológica da possibilidade de todas as ontologias [missão: determinar a ontologia ou o ente de todos os entes que não têm ser, i.e., que não são (n)o próprio (modo do) ser-aí].”

raízes existenciárias, i.e., ônticas” “Só existe a possibilidade de uma abertura da existencialidade da existência, e com isso a possibilidade de se captar qualquer problemática ontológica suficientemente fundamentada, caso se assuma existenciariamente o próprio questionamento da investigação filosófica como uma possibilidade de ser da pre-sença, sempre existente. Assim esclarece-se também o primado ôntico da questão do ser.” Resumindo: tem-se de começar de algum lugar, e esse lugar é sempre pouco ambicioso…

Já cedo se percebeu o primado ôntico-ontológico da pre-sença, embora não se tenha apreendido a pre-sença em sua estrutura ontológica genuína nem se tenha problematizado a pre-sença nesse sentido.”

A comprovação do privilégio ôntico-ontológico da questão do ser se funda na indicação provisória do primado ôntico-ontológico da pre-sença.”

2. AS DUAS TAREFAS DE UMA ELABORAÇÃO DA QUESTÃO DO SER: O método e o sumário da investigação

Na verdade, a pre-sença não somente está onticamente próxima ou é o mais próximo. Nós mesmos a somos cada vez. Apesar disso, ou justamente por isso, é o que está mais distante do ponto de vista ontológico.” O modo normal do ser-aí em todos os tempos é uma compreensão pré-ontológica de si mesmo. Acontece que agora o Ocidente pede o acabamento de uma metafísica… Momento privilegiado. Entender agora na acepção de vários séculos…

São dificuldades que estão enraizadas no modo de ser do próprio tema e da própria atitude temática e não numa possível insuficiência do aparelhamento de nossa capacidade cognoscitiva ou numa deficiência de conceituação adequada”, o que aliás seria muito conveniente para nós se assim o fosse.

a psicologia filosófica, a antropologia, a ética, a <política>, a poesia, a biografia e historiografia já pesquisaram as atitudes, potências, forças, possibilidades e envios da pre-sença.” “Será que essas interpretações se fizeram de maneira tão originariamente existencial como talvez tenham sido originariamente existenciárias? [Ele faz perguntas para as quais é evidente que responde NÃO.] Ambas as maneiras não precisam coincidir necessariamente, embora também não se excluam.”

Somente depois de se elaborar, de modo suficiente, as estruturas da pre-sença, seguindo uma orientação explícita do problema do ser, é que os resultados obtidos até aqui poderão receber uma justificativa existencial.” E isso apenas no segundo volume.

Da cotidianidade, não se devem extrair estruturas ocasionais e acidentais, mas sim estruturas essenciais. Essenciais são as estruturas que se mantêm ontologicamente determinantes em todo modo de ser de fato da pre-semça.”

Trata-se, sem dúvida, de uma ontologia que se deverá edificar caso uma antropologia <filosófica> se deva apoiar em bases filosóficas suficientes.” “A análise da pre-sença, porém, não é somente incompleta mas também provisória. (…) O que lhe compete é liberar o horizonte para a mais originária das interpretações do ser. Uma vez alcançado esse horizonte, a análise preparatória da pre-sença exige uma repetição em bases ontológicas mais elevadas e autênticas.Estaria de antemão se referindo à parte jamais escrita?

A temporalidade (Zeitlichkeit) será de-monstrada como o sentido da pre-sença.” Mas nada verdadeiro se ganhará com isso, como havemos de ver. Ou ainda melhor: sentido da pre-sença é uma coisa, do ser é outra coisa…

deve-se agora mostrar que o tempo é o ponto de partida do qual a pre-sença sempre compreende e interpreta implicitamente o ser.” O tempo é o horizonte ou norte. O tempo é o próprio espaço subsumido, afinal. Isso é o que Hegel diz. Mas Heidegger refutará esse conceito de tempo mais à frente. Ou dirá: esse é o tempo; o tempo é mero modo ôntico; o modo ontológico do tempo é o(a) temporal/temporalidade.

tempo como ser-do-ser-aí”

o conceito vulgar de tempo (…) consolidad[o] (…) desde Aristóteles até depois de Bergson. Nessa tarefa, deve-se esclarecer que e como esse conceito e sua respectiva compreensão do tempo brotam e derivam da temporalidade. Com isso, restitui-se ao conceito vulgar de tempo sua razão própria em oposição à tese de Bergson para quem o tempo nele indicado é espaço. [praticamente a antítese de Hegel]

<Temporal> diz aqui sendo e estando a cada vez <no tempo>, determinação esta que, sem dúvida, é ainda bastante obscura.”

BORRASCA DO SER: “Também o <não-temporal>, o <atemporal> e o <supratemporal> são, em seu ser, <temporais>.” “Como a expressão <temporal> é usada tanto na linguagem pré-filosófica como na linguagem filosófica no sentido indicado, e como, por outro lado, essa expressão é tomada na presente investigação em outro sentido, denominaremos a determinação originária do sentido do ser e de seus modos e caracteres a partir do tempo de determinação temporária.” É mesmo um dândi. Temporalidade temporariedade

A determinação de historicidade se oferece antes [mais originariamente] daquilo a que se chama de história (acontecimento pertencente à história universal). Historicidade indica a constituição ontológica do <acontecer> próprio da pre-sença como tal. É com base na historicidade que a <história universal>, e tudo que pertence historicamente à história do mundo, se torna possível.” “a pre-sença é sempre como e <o que> ela já foi. Explicitamente ou não, a pre-sença é sempre o seu passado e não apenas no sentido do passado que sempre arrasta <atrás> de si e, desse modo, possui, como propriedades simplesmente dadas, as experiências passadas que, às vezes, agem e influem sobre a pre-sença. Não. A presença <é> o seu passado no modo de seu ser, o que significa, a grosso modo, que ela sempre <acontece> a partir de seu futuro.” “a pre-sença sempre já nasceu e cresceu dentro de uma interpretação de si mesma, herdada da tradição.” “Essa historicidade elementar da pre-sença pode permanecer escondida para ela mesma, mas pode também ser descoberta e se tornar objeto de um cuidado especial.” “A história factual (Historie) ou, mais precisamente, a factualidade historiográfica (Historizität) só é possível como modo de ser da pre-sença que questiona porque, no fundamento de seu ser, a pre-sença se determina e constitui pela historicidade.” “somente apropriando-se positivamente do passado é que ela pode entrar na posse integral das possibilidades mais próprias de seu questionamento.” “a pre-sença também de-cai em sua tradição [além de cair, sempre tendo um já dado para si própria]

TRADIÇÃO vs. SER-AÍ

A tradição até faz esquecer essa proveniência. Cria a convicção de que é inútil compreender simplesmente a necessidade do retorno às origens.” Tradição historiográfica é uma contradição em termos. Historiógrafos: aqueles sem-tradição. Mas existem historiógrafos e historiógrafos: falo do ideal, no sentido oposto ao descrito abaixo por Heidegger (historiografia da má-fé, século XIX, etc.).

A conseqüência é que, com todo o seu interesse pelos fatos historiográficos e em todo o seu empenho por uma interpretação filologicamente <objetiva>, a pre-sença já não é capaz de compreender as condições mais elementares que possibilitam um retorno positivo ao passado, no sentido de sua apropriação produtiva.”

A ontologia grega e sua história, que ainda hoje determina o aparato conceitual da filosofia, através de muitas filiações e distorções, é uma prova de que a pre-sença se compreende a si mesma e o ser em geral a partir do <mundo>.”

transformada em simples material de reelaboração (Hegel).” “Em sua cunhagem escolástica, o essencial da ontologia grega se transpôs, através das Disputationes Metaphysicae de Suárez, para a metafísica e filosofia transcendental da Idade Moderna, chegando ainda a determinar os fundamentos e objetivos da Lógica de Hegel.”

destruição do acervo da antiga ontologia” “A destruição também não tem o sentido negativo de arrasar a tradição ontológica. Ao contrário, ela deve definir e circunscrever a tradição em suas possibilidades positivas e isso quer sempre dizer em seus limites, tais como de fato se dão na colocação do campo de investigação possível. Negativamente, a destruição não se refere ao passado; a sua crítica volta-se para o <hoje> e os modos vigentes de se tratar a história da ontologia, quer esses modos tenham sido impostos pela doxografia, quer pela história da cultura ou pela história dos problemas.” Todo esse raciocínio de He. é plagiado descaradamente de Nietzsche em seus escritos sobre a História, sem citação da fonte.

Kant foi o primeiro e o único a dar um passo no caminho de investigação para a dimensão da temporariedade. Ou melhor, Kant foi o primeiro que se deixou encaminhar, nesse caminho, pela pressão dos próprios fenômenos.”

Ele próprio sabia que estava se aventurando numa região obscura: <Esse esquematismo de nosso entendimento, no tocante aos fenômenos e a sua forma, é uma arte escondida nas profundezas da alma humana, cujos mecanismos verdadeiros dificilmente poderíamos arrancar à natureza para colocá-los a descoberto diante de nossos olhos> [Crítica da razão pura]”

Também se haverá de mostrar por que Kant fracassou na tentativa de penetrar na problemática da temporariedade.” 1) a falta da questão do ser; 2) a falta da ontologia do ser-aí. “Devido a essa dupla influência da tradição, a conexão decisiva entre o <tempo> e o <eu penso> permaneceu envolta na mais completa escuridão, não chegando sequer uma vez a ser problematizada.” “Com o <cogito sum>, Descartes pretende dar à filosofia um fundamento novo e sólido. O que, porém, deixa indeterminado nesse princípio <radical> é o modo de ser da res cogitans ou, mais precisamente, o sentido do ser do <sum>. A elaboração dos fundamentos ontológicos implícitos no <cogito sum> constitui o ponto de parada na segunda estação a caminho de um retorno destrutivo à história da ontologia.”

ens creatum”

Ser criado, no sentido amplo de ser produzido, constitui um momento essencial na estrutura do antigo conceito de ser.” “Com base neste preconceito, a posteridade moderna omitiu uma análise ontológica do <ânimo>, que deveria ser conduzida pela questão do ser e, ao mesmo tempo, como uma discussão crítica da antiga ontologia legada pela tradição.”

Todo conhecedor da Idade Média percebe que Descartes <depende> da escolástica medieval. Essa descoberta, porém, não diz nada, do ponto de vista filosófico, enquanto a influência fundamental exercida pela ontologia medieval na determinação ou na não-determinação posterior da res cogitans permanecer obscura.”

O ente [em Platão] é entendido em seu ser como <vigência>, isto é, a partir de determinado modo do tempo, do <presente>.” “a pre-sença, i.e., o ser-do-homem” “É por isso que a ontologia antiga, elaborada por Platão, torna-se uma <dialética>.” Homem, o animal-que-dialoga-e-desperta-idéias-já-tidas.

Essa interpretação grega do ser foi desenvolvida sem nenhuma consciência explícita do seu fio condutor, sem saber e, sobretudo, sem compreender a função ontológica do tempo e sem penetrar no fundamento de possibilidade dessa função. Ao contrário: o próprio tempo é considerado como um ente entre outros, buscando-se apreender a estrutura do seu ser no horizonte de uma compreensão do ser orientada, implícita e ingenuamente, pelo próprio tempo.”

fundamentos da antiga ontologia – sobretudo em seu grau mais puro e elevado, alcançado por Aristóteles.” “tornar-se-á claro, retrospectivamente, que a concepção kantiana do tempo se move dentro das estruturas apresentadas por Aristóteles. Isso significa que a orientação ontológica fundamental de Kant é grega, não obstante todas as diferenças que uma nova investigação comporta.”

O método fenomenológico permanecerá altamente questionável caso se queira recorrer às ontologias historicamente dadas ou a tentativas congêneres. (…) não se pode seguir o caminho da história das ontologias para se esclarecer o método.” “O uso do termo ontologia não visa a designar uma determinada disciplina filosófica entre outras. Não se pretende, de forma alguma, cumprir a tarefa de uma dada disciplina, previamente dada. Ao contrário, é a partir da necessidade real de determinadas questões e do modo de tratar imposto pelas <coisas em si mesmas> que, em todo caso, uma disciplina pode ser elaborada.” “enquanto se compreender a si mesma, a fenomenologia não é e não pode ser nem um ponto de vista nem uma corrente. [superestima suas possibilidades] A expressão fenomenologia diz, antes de tudo, um conceito de método. Não caracteriza a qüididade [conteúdo, o que são] real dos objetos da investigação filosófica mas o seu modo, como eles o são. Quanto maior a autenticidade de um conceito de método e quanto mais abrangente determinar o movimento dos princípios de uma ciência, tanto maior a originariedade em que ele se radica numa discussão com as coisas em si mesmas e tanto mais se afastará do que chamamos de artifício técnico, tão numerosos em disciplinas teóricas.” “Exteriormente, o termo fenomenologia corresponde, no que respeita a sua formação, à teo-logia, bio-logia, sócio-logia, termos que se traduzem por ciência de Deus, da vida, da sociedade.” “A história da palavra em si, que apareceu, segundo se presume, na Escola de Wolff, não tem aqui importância.”

fenômeno = o que se mostra em si mesmo

estudo das coisas que são tais quais elas são ou parecem ser (raiz grega que combina ilusão e verdade)

aparecer, parecer, aparência

revelar, revelação, auto-revelação, automanifestação

amostra, anunciar-se de… (intermediário, imagem de algo)

Manifestação e aparência se fundam, de maneira diferente, no fenômeno. Essa multiplicidade confusa dos <fenômenos> que se apresenta nas palavras fenômeno, aparência, aparecer, parecer, manifestação, mera manifestação, só pode deixar de nos confundir quando se tiver compreendido, desde o princípio, o conceito de fenômeno: o que se mostra em si mesmo.

Quando dizemos que o significado básico de logos é discurso, essa tradução literal só terá valor completo quando se determinar o que é um discurso.” A voz da razão como perfeito pleonasmo!

Malversações ao longo do tempo: razão, juízo, conceito, definição, fundamento, relação, proporção!

Em Aristóteles: discurso transparente

discurso – deixar ver – diz-curso – dizer o curso das coisas – verbo, voz, imagens

Parece uma etimologia contrária à de fenômeno no sentido da elisão ou encobrimento de algo.

E, novamente, porque o LOGOS é um deixar e fazer ver, por isso é que ele pode ser verdadeiro ou falso.”

Fenomenologia, a seguir esta carreira, poderia até querer dizer explicitação do implícito, etc., dialética de mentira-verdade das coisas, etc.

Quando, hoje em dia, se determina a verdade como o que pertence <propriamente> ao juízo e se faz remontar essa tese a Aristóteles, comete-se um duplo equívoco, pois essa atribuição a Arist. não é correta e, principalmente, deturpa-se o conceito grego de verdade. Em sentido grego, o que é <verdadeiro> (…) é a simples percepção sensível de alguma coisa.” Uma cor é sempre uma cor. “Isto significa: a visão sempre descobre cores, a audição descobre sempre sons.” “o máximo que pode acontecer [em termos de falseamento] é não haver percepção

A ARTE DO DISCURSO: “O que já não possui a forma de exercício de um puro deixar e fazer ver mas que, para de-monstrar, recorre sempre a uma outra coisa e assim deixa e faz ver cada vez algo como algo, assume, junto com esta estrutura sintética, a possibilidade de en-cobrir. A <verdade do juízo>, [falsificação moderna] porém, é somente a contrapartida deste encobrir, i.e., um fenômeno de verdade derivado em muitos aspectos. Tanto o realismo quanto o idealismo se equivocam no que respeita ao sentido grego de verdade. Somente nesse conceito é que se poderá compreender a possibilidade de uma <teoria das idéias>.”

Examinando-se concretamente os resultados da interpretação de <fenômeno> e <logos>, salta aos olhos a íntima conexão que os liga.” “deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo.” “O termo fenomenologia tem, portanto, um sentido diferente das designações como teologia, etc. Estas evocam os objetos de suas respectivas ciências, em seu conteúdo qüididativo. O termo <fenomenologia> nem evoca o objeto de suas pesquisas nem caracteriza o seu conteúdo qü..”

Modo do demonstrar

Estudo o mais direto possível

Descrição de essências (fenômenos em si mesmos)

A ontologia só é possível como fenomenologia.” “<Atrás> dos fenômenos da fenomenologia não há absolutamente nada” “O conceito oposto de <fenômeno> é o conceito de encobrimento.” “Este encobrimento na forma de <desfiguração> é o mais freqüente e o mais perigoso, pois as possibilidades de engano e desorientação são particularmente severas e persistentes.” “Quer no sentido de velamento [ignorância de um fenômeno] ou entulhamento [seu ocultamento posterior à descoberta], quer ainda como desfiguração [troca de imagem para uma falsa aparência], o próprio encobrimento dispõe, por sua vez, de duplas possibilidades.” “A possibilidade de uma petrificação, endurecimento e inapreensão do que se apreendeu originariamente se acha no próprio trabalho concreto da fenomenologia.”

apreender, sentir-se apreensivo, apreensão

Fenomenologia da pre-sença é hermenêutica no sentido originário da palavra em que se designa o ofício de interpretar.” “a hermenêutica da pre-sença como interpretação ontológica de si mesma adquire um terceiro sentido específico [1) interpretação ontológica do ser; 2) interpretação ontológica dos entes ou essências, dos fenômenos destituídos de ser, i.e., ser-aí;] – sentido primário do ponto de vista filosófico – a saber, o sentido de uma analítica da existencialidade da existência. Trata-se de uma hermenêutica que elabora ontologicamente a historicidade da pre-sença como condição ôntica [sine qua non] de possibilidade da história factual.”

O ser é o transcendens pura e simplesmente. A transcendência do ser do ser-aí é privilegiada porque nela reside a possibilidade e a necessidade da individuação mais radical.” “A verdade fenomenológica (abertura do ser) é veritas transcendentalis.”

A filosofia é uma ontologia fenomenológica e universal que parte da hermenêutica do ser-aí, a qual, enquanto analítica da existência, amarra o fio de todo questionamento filosófico no lugar de onde ele brota e para onde retorna.”

As investigações que se seguem são apenas possíveis na base estabelecida por E. Husserl, cujas Investigações Lógicas fizeram nascer a fenomenologia.” “A compreensão da fenomenologia depende unicamente de se apreendê-la como possibilidade.” Rasga elogios à página 70.

<DESCULPEM-ME O LINGUAJAR PESADO>: “Caso seja lícita uma referência a investigações ontológicas anteriores, embora incomparáveis em seu nível, confrontem-se os trechos ontológicos do Parmênides de Platão ou o 4º capítulo do VII livro da Metafísica de Arist. com uma passagem narrativa de Tucídides. Ver-se-á, nas formulações, o inaudito que os filósofos exigiam dos gregos. Quando as forças são essencialmente menores e o setor do ser que se deve abrir é ontologicamente muito mais difícil do que o que foi dado aos gregos, crescerá a dificuldade de formação de conceitos e a dureza das expressões.”

Em si mesma a pre-sença é <histórica>, de maneira que o esclarecimento ontológico próprio deste ente [modo] torna-se sempre e necessariamente uma interpretação <referida a fatos históricos>.”

PRIMEIRA PARTE:

A INTERPRETAÇÃO DA PRE-SENÇA [SER-AÍ] PELA TEMPORALIDADE E A EXPLICAÇÃO DO TEMPO COMO HORIZONTE TRANSCENDENTAL DA QUESTÃO DO SER

A rigor esta é também a última parte desenvolvida por Heidegger. De certo modo, poder-se-ia parar de ler este resumo e seleção aqui, após 16 páginas, sem prejuízo algum, caso já se tenha entendido o autor…

PRIMEIRA SEÇÃO:

ANÁLISE PREPARATÓRIA DOS FUNDAMENTOS DA PRE-SENÇA

O ser-no-mundo é um a priori constituinte do ser-aí.

1. EXPOSIÇÃO DA TAREFA DE UMA ANÁLISE PREPARATÓRIA DA PRE-SENÇA

O ente que temos a tarefa de analisar somos nós mesmos (…) O ser é o que neste ente está sempre em jogo.” Não podemos encarar ser, haja vista esta frase, como outra coisa senão vida, o que já foi realizado na filosofia do XIX.

1. A <essência> deste ente está em ter de ser.”

O conteúdo deste ente depende da existência.

é tarefa ontológica mostrar que, se escolhemos a palavra existência para designar o ser-deste-ente, esta não tem nem pode ter o significado ontológico do termo tradicional existentia. Para a ontologia tradicional, existentia designa o mesmo que ser simplesmente dadoDoravante, existência será atributo exclusivo do ser-aí. (objetos ‘não existem’, segundo essa fenomenologia, existir e ser não se confundem, como já visto mais acima)

Nada está dado, a não ser pela minha consciência, e consciência histórica. Abole-se a coisa-em-si.

As características constitutivas da pre-sença são sempre modos possíveis de ser e somente isso. Toda modalidade-de-ser-deste-ente é primordialmente ser.”

Resgate da idéia (pun!) de que a imagem ou idéia platônica não se aplica, p.ex., às mesas.

o termo <pre-sença> não exprime a sua qüididade como mesa, casa, árvore, mas sim o ser.”

2. O ser é sempre meu. Neste sentido, a pre-sença nunca poderá ser apreendida ontologicamente como caso ou exemplar de um gênero [acepção aristotélica] de entes simplesmente dados. Pois, para os entes simplesmente dados, o seu <ser> é indiferente ou, mais precisamente, eles são de tal maneira que o seu ser não se lhes pode tornar nem indiferente nem não-indiferente.” Vinculação que Heidegger encontrou em Descartes num momento privilegiado da metafísica ocidental.

A pre-sença só pode perder-se ou ainda não se ter ganho porque, segundo seu modo de ser, ela é uma possibilidade própria, ou seja, é chamada a apropriar-se de si mesma.”

A im-propriedade da pre-sença não diz <ser> menos nem em grau <inferior> de ser.”

Denominamos esta indiferença cotidiana da pre-sença de medianidade. § Porque a cotidianidade mediana perfaz o que, em 1º lugar, constitui o ôntico deste ente, sempre se passou por cima dela e sempre se passará, nas explicações da pre-sença.”

Então, que há de mais próximo de mim do que eu mesmo? Decerto, eu trabalho aqui, trabalho em mim mesmo, transformei-me numa terra de dificuldades e de suor copioso”

Sto. Agostinho

no modo impróprio do ser-aí está igualmente em jogo o ser-do-ser-aí – o ser-aí se comporta e se relaciona para com este ser via a cotidianidade mediana, mesmo que seja apenas fugindo e se esquecendo dele.”

(*) “SER SIMPLESMENTE DADO = VORHANDENHEIT

Vor (antes de, no tempo) + Hand (mão). Aprioridade no sentido objetivo do materialismo mecanicista: o tipo de aprioridade externa não afetada pelo indivíduo. Na verdade é uma contradição em termos, já que o que é simplesmente dado nunca é ser.

Existenciais e categorias são as 2 possibilidades fundamentais de caracteres ontológicos. (…) o ente é um quem (existência) ou um que (dado).”

A analítica existencial da pre-sença está antes de toda psicologia, antropologia e, sobretudo, biologia.” “<Do ponto de vista epistemológico>, essas investigações são necessariamente insuficientes já pelo simples fato da estrutura de ciência destas disciplinas – o que nada tem a ver com a <cientificidade> daqueles que trabalham para o seu desenvolvimento – ter-se tornado cada vez mais questionável.”

Uma das primeiras tarefas da analítica será mostrar que o princípio de um eu e sujeito, dados como ponto de partida, deturpa, de modo fundamental, o fenômeno da pre-sença.” “Para que se possa perguntar o que deve ser entendido positivamente ao se falar de um ser não-coisificado do sujeito, da alma, da consciência, do espírito, da pessoa, é preciso já se ter verificado a proveniência ontológica da coisificação.” “Não é, portanto, por capricho terminológico que evitamos o uso desses termos bem como das expressões <vida> e <homem> para designar o ente que nós mesmos somos.” “O que chama atenção é o fato de não se questionar ontologicamente a própria <vida> como um modo de ser.”

Junto com Dilthey e Bergson, participam dessas limitações todas as correntes do <personalismo> por eles determinadas, e todas as tendências para uma antropologia filosófica. Mesmo a interpretação fenomenológica da personalidade, em princípio mais radical e lúcida, não alcança a dimensão da questão do ser da pre-sença.”

o ser-da-pessoa não pode exaurir-se em ser um sujeito de atos racionais, regidos por determinadas leis. (Scheler)” “Desde essa 1ª elaboração, Husserl desenvolveu esse problema de modo ainda mais penetrante e profundo, tendo transmitido partes essenciais desse trabalho em suas preleções de Freiburg.”

Um nível de discussão bem bobinho e trivial, como se a fenomenologia tivesse iniciado a filosofia: “A pessoa não é uma coisa, uma substância, um objeto. Com isso se ressalta e acentua a mesma coisa indicada por Husserl, ao exigir para a unidade da pessoa uma constituição essencialmente diferente das coisas da natureza.”

Atos são sempre algo não-psíquico. Pertence à essência da pessoa apenas existir no exercício de atos intencionais e, portanto, a pessoa em sua essência não é objeto algum.”

ANTI-PSICANÁLISE: “Toda objetivação psíquica, por conseguinte toda apreensão de um ato como algo psíquico, equivale a uma despersonalização [desautenticação, para não confundir com o termo psiquiátrico].”

O que, no entanto, constitui um obstáculo e desvia a questão fundamental do ser da pre-sença é a orientação corrente pela antropologia cristã da Antiguidade.” Citação de Gên 1:26

É PLATÃO IMANENTE? “Mas a idéia de <transcendência>, [a ‘má’ transcendência] segundo a qual o homem é algo que se lança para além de si mesmo, tem suas raízes na dogmática cristã, da qual não se pode querer dizer que tenha chegado sequer uma única vez a questionar ontologicamente o ser do homem.”

Na medida em que as cogitationes permanecem ontologicamente indeterminadas, sendo tomadas implicitamente como algo <evidente> e <dado>, cujo <ser> não suscita nenhuma questão, a problemática antropológica fica indeterminada quanto a seus fundamentos ontológicos decisivos.”

Biologia, a ciência do novo século, o século do ser-aí… Iron-ia de ferro.

O fato de as pesquisas positivas não verem os fundamentos e considerá-los evidentes não constitui uma prova de que eles não se achem à base e que não sejam problemáticos, num sentido mais radical do que poderá ser uma tese das ciências positivas. Abertura do a priori não é construção <apriorística>. Com Husserl, não somente voltamos a compreender o sentido de toda <empiria> filosófica autêntica, como aprendemos a manusear os instrumentos aqui necessários. (…) a pesquisa a priori exige a preparação adequada do solo fenomenal.”

BLUES/REDS: “A interpretação da pre-sença em sua cotidianidade não deve, porém, ser identificada como descrição de uma fase primitiva da pre-sença, cujo conhecimento pudesse ser transmitido empiricamente pela antropologia.” “Ainda não ficou estabelecido que a psicologia do cotidiano ou até a psicologia científica e a sociologia, de que faz uso a etnologia, dêem a garantia científica para uma possibilidade adequada de acesso, interpretação e transmissão dos fenômenos a serem investigados. (…) Mas como as ciências positivas não <podem> nem devem esperar pelo trabalho ontológico da filosofia, o desenvolvimento das pesquisas não há de assumir a forma de um <progresso>, mas sim de uma re-petição e purificação ontológica, mais transparente do que tudo que se descobriu onticamente.”

Cassirer, 1925 (do clube de amiguinhos do Husserl)

A comparação sincrética de tudo com tudo e a redução de tudo a tipos ainda não garante de per si um conhecimento autêntico da essência.”

2. O SER-NO-MUNDO EM GERAL COMO CONSTITUIÇÃO FUNDAMENTAL DA PRE-SENÇA

o que indagamos com a interrogação <quem?>”

o banco <dentro do espaço cósmico>.”

Ser simplesmente dado <dentro> de um dado, o ser simplesmente dado junto com algo dotado do mesmo modo de ser, no sentido de uma determinada relação de lugar, são caracteres ontológicos que chamamos de categorias.”

<eu sou> diz: eu moro, me detenho junto…” “O ser-em é, pois, a expressão formal e existencial do ser da pre-sença que possui a constituição essencial de ser-no-mundo.”

A pobre preposição tem de ser-vir (he-he!) ao ente e ao ser, com o perdão da cacofonia, ó, sujeito!

em princípio, a cadeira não pode tocar a parede mesmo que o espaço entre ambas fosse igual a zero.”

o que está feito, está feito, e não se pode fazer mais nada

até meu filho negar isso, no caso

DE FATO

Em H.: relativo ao ser facticidade

relativo ao ente outros sufixos de fa(c)t–…

ontologicamente a pre-sença é cura.” “o ser da pre-sença para com o mundo é, essencialmente, ocupação. [descurado de si]”

(*) Besorgen é ocupação, Sorge é cura. Fürsorge é preocupação.

A tradução decidiu utilizar o radical latino cura para Sorge, ocupação para Besorgen e preocupação para Fürsorge. Os motivos dessa decisão atêm-se ao fato de o próprio Ser e Tempo ter remetido à fábula latina de Higino sobre a Cura e à inexistência em português de derivados de cura na acepção de um relacionamento específico da pre-sença com os seres simplesmente dados e com os seres existentes.” Cura é o modo ontológico do ser-aí; o modo ôntico (imediato, mais baixo) é cuidado.

Não há solipsismo nem puro relativismo porque todo ser está no mundo. No mesmo mundo.

A formulação <ter um mundo circundante>, tão trivial do ponto de vista ôntico, é, do ponto de vista ontológico, um problema.”

Embora experimentado e conhecido pré-fenomenologicamente, o ser-no-mundo se torna invisível por via de uma interpretação ontologicamente inadequada. (…) Desse modo, esta interpretação torna-se o ponto de partida <evidente> para os problemas da epistemologia ou <metafísica do conhecimento>.” “Esta correlação do sujeito-objeto é um pressuposto necessário.”

a presença é obs-cura

Sujeito e objeto, porém, não coincidem com pre-sença e mundo.” “Mas reina um grande silêncio sobre o que significa positivamente o <interior> da imanência em que o conhecimento está, de início, trancado” “Em seu modo de ser originário, a pre-sença já está sempre <fora>, junto a um ente que lhe vem ao encontro no mundo já descoberto.” “E, mais uma vez, a percepção do que é conhecido não é um retorno para a <cápsula> da consciência com uma presa na mão, após se ter saído em busca de apreender alguma coisa.”

3. A MUNDANIDADE DO MUNDO

A descrição fica presa aos entes. É ôntica.”

A substancialidade é o caráter ontológico das coisas naturais, das substâncias. Esse caráter é o fundamento de tudo.”

Será o <mundo> um caráter do ser da pre-sença? Toda pre-sença não terá sempre seu mundo? Mas com isso <mundo> não seria algo <subjetivo>? Como, então, seria possível um mundo <comum> <em> que nós, sem dúvida, estamos?”

<Mundanidade> é um conceito ontológico e significa a estrutura de um momento constitutivo do ser-no-mundo.”

A tarefa de <descrição> fenomenológica do mundo é tão pouco clara que já a sua determinação suficiente exige esclarecimentos ontológicos essenciais. § A polissemia da palavra <mundo> salta aos olhos em seu uso freqüente, bem como nas considerações tecidas até aqui.”

1. Mundo é usado como um conceito ôntico [direto, empírico], significando, assim, a totalidade dos entes que se podem simplesmente dar dentro do mundo.

2. Mundo funciona como termo ontológico [invisível, essencial] e significa o ser dos entes mencionados no item 1.” Em H., “mundo” (<mundo> na minha transcrição do livro). E justo quando eu imaginava que as aspas em H. eram sempre depreciativas ou relativas ao alheio

3. … [irrelevante]

4. (…) A própria mundanidade pode modificar-se e transformar-se, cada vez, no conjunto de estruturas de <mundos> particulares, embora inclua em si o a priori da mundanidade em geral.” Talvez H. considere este seu “mundo definitivo”, daí excluir o 2 de sua fenomenologia, i.e., colocá-lo entre aspas (conceito incompleto).

você é inmundo, pois está no mundo

O ente simplesmente dado <no> mundo, designamos de intramundano ou pertencente ao mundo.”

Entendida em sentido ontológico-categorial, a natureza é um caso limite do ser de um possível ente intramundano. (…) Esse conhecimento tem o caráter de uma determinada desmundanização do mundo.”

(*) Mundo circundante = Umwelt (literalmente: mundo abrangente)

A CARTILHA DAS COORDENADAS BERGSONIANAS: “Ora, a ontologia tentou justamente interpretar o ser do <mundo> como res extensa, partindo da espacialidade. É em Descartes que se mostra a tendência mais extremada para uma ontologia do <mundo> desta espécie, ontologia edificada em contraposição à res cogitans que, porém, não coincide, nem do ponto de vista ôntico nem do ontológico, com a pre-sença.” Descartes apresenta dois eixos-entes que não se tocam. Sintomático.

A. ANÁLISE DA MUNDANIDADE CIRCUNDANTE E DA MUNDANIDADE EM GERAL

Que ente há de ser pré-tematizado e estabelecido como base pré-fenomenal?”

ao se interpelar o ente como <coisa> já se recorre implicitamente a uma caracterização ontológica prévia.”

Será possível alcançar o caráter ontológico daquilo que vem ao encontro no modo de lidar próprio da ocupação, abstraindo-se da obscuridade da estrutura – ser dotado de valor?”

Designamos o ente que vem ao encontro na ocupação com o termo instrumento [Zeug, o alemão para coisa; raiz latina: instrumentum].”

Em sua essência [seu ser], todo instrumento é <algo para…>.”

(*) SER-PARA: quando ser é o substantivo, Sein-zu (nível ontológico); quando ser é o verbo, no sentido de é-para do mero instrumento, no sentido pragmático e funcional, o termo heideggeriano é Um-zu.

se[r]-para[r]-uma-briga

(*) “MANUALIDADE = ZUHANDENHEIT

No exercício histórico da pre-sença, a mão ocupa um lugar central de concretização e desdobramento. O limite para frente desse exercício é imposto pelos seres simplesmente dados (Vor-handenheit). A doação dos desempenhos e das possibilidades de desempenho proporciona os seres à mão, os seres constituídos pela manualidade (Zu-handen): os instrumentos, os utensílios, os equipamentos, os dispositivos, etc.”

(*) “CIRCUNVISÃO = UMSICHT

[a visão do olho de cima, não-semita, não ‘o olho que tudo vê’, a-Argos]

A construção do mundo cotidiano das ocupações não é cega mas guiada por uma visão de conjunto, a circunVisão, que abarca o material, o usuário, o uso, a obra, em todas as suas ordens.”

quanto menos se olhar de fora a coisa martelo, mais se sabe usá-lo, mais originário se torna o relacionamento com ele e mais desentranhado é o modo em que se dá ao encontro naquilo que ele é” “A visualização puramente <teórica> das coisas carece de uma compreensão da manualidade.” “originariamente, contemplar é ocupação [e] agir possui sua visão. A atitude teórica visualiza meramente, sem circunvisão.”

O que está imediatamente à mão se caracteriza por recolher-se em sua manualidade para, justamente assim, ficar à mão. O modo de lidar cotidiano não se detém diretamente nas ferramentas em si mesmas. Aquilo com que primeiro se ocupa e, conseqüentemente, o que primeiro está à mão é a obra a ser produzida.” A casa nasce antes da pá, do muro, do cimento, do martelo…

A mata é reserva florestal” – fico dividido em dois ditos igualmente verdadeiros: 1) …e cada vez mais; 2) …e cada vez menos.

Manualidade é a determinação categorial dos entes tal como são <em si>.” “está a Manualidade fundada ontologicamente no ser simplesmente dado?”

o haver não se dá, pois não tem nada para dar

deixe-me com meus haveres, dê-me um des-canso

abrir o mundo é totalmente diferente de descobrir o mundo

quando o ser-aí se abre ele volta ao conhecimento inato de si

quando ele descobre o mundo, apenas desvela mais um de seus modos-no-mundo e ocupa algo aparentemente inédito, que ainda não é uma verdadeira abertura

o Brasil foi descoberto, mas não aberto

abrir é tarefa de macaco-velho (quem já conhece muito a terra)

gato ex-cal-dado

O conjunto instrumental não se evidencia como algo nunca visto, mas como um todo já sempre visto antecipadamente na circunvisão. Nesse todo, anuncia-se o mundo.”

O não-anunciar-se do mundo é a condição de possibilidade para que o manual não cause surpresa.”

Uma orientação exclusiva ou primordial pelo que é simplesmente dado não pode esclarecer ontologicamente o <em-si>.”

Tradução: Fiar-se somente ou principalmente no dado (empírico e a priori, no imediato da coisa) não ajuda a responder sobre a essência do em-si, isto é, não ajuda a responder essencialmente sobre a própria essência desses objetos ou coisas. Como se poderia chegar a conhecer ‘x’ (term. kantiana) apenas via observação dos fenômenos?

Ora, nem quando até essencialmente algo aparece como dado a simples descrição das aparências pode dar uma resposta metafísica à altura… Pois – ó! – as aparências enganam…

A possibilidade do conhecimento implica uma onipotência primigênia. [metempsicose]

O ser-do-ente é eterno, ou pelo menos infinitamente recorrível em seus antepassados…

O mundo é algo em que o ser-aí enquanto ente já sempre esteve, para o qual o ser-aí pode apenas retornar em qualquer advento [futuro] de algum modo explícito.” O que aconteceu (e aconteceu) acontecerá de novo.

A ocupação já é o que é, com base numa familiaridade com o mundo.” “O que é isso com que a pre-sença se familiariza e pelo que a [mundanidade das coisas] pode aparecer [alienando toda familiaridade à pre-sença]?”

preocupação – estranhamento – ansiedade (logo H. chegará a essa análise oposta).

hoje, temos a tendência de submeter todos os entes a uma <interpretação> na chave de <relação>. Trata-se de uma interpretação que sempre <dá certo> porque, no fundo, não diz nada, como o esquema de forma e conteúdo, tão facilmente utilizado.”

Recentemente, instalou-se nos veículos uma seta vermelha e móvel, cujo posicionamento mostra, cada vez, p.ex. num cruzamento, qual o caminho que o carro vai seguir. O posicionamento da seta é acionado pelo motorista. Esse sinal é um instrumento que está à mão, não apenas na ocupação (dirigir) do motorista. Também os que não estão no veículo e justamente eles fazem uso desse instrumento, esquivando-se para o lado indicado ou ficando parados. Esse sinal está à mão dentro do mundo na totalidade do conjunto instrumental dos meios de transporte e regras de trânsito. (…) essa <referência> enquanto sinal não é a estrutura ontológica do sinal enquanto instrumento.” Hahahaha. “A <referência> mostrar é a concreção ôntica [fenomênica] do para quê específico. [virar a porra do carro sem bater noutros carros nem atropelar ninguém]” “O uso de sinais permanece inteiramente no âmbito de um ser-no-mundo <imediato> [excluindo assim a sinalética dos sistemas mágicos, não-intramundanos, desta análise de sinais contemporâneos ou funcionais].”

para o homem primitivo, o sinal e o assinalado coincidem.”

Esta interpretação do sinal tinha apenas a finalidade de oferecer um apoio fenomenal para se caracterizar a referência.” Para de encher lingüiça, cara!

O caráter ontológico do manual é a conjuntura.” Marquei em verde pela fealdade da expressão, hoje inutilizável, apropriada pelos “administradores”.

Um plano cartesiano é de longe ou de perto a única coisa que não existe.

O mapa quem faz é o ser-aí, sempre ao centro, com circunvisões de novas periferias o tempo (pun) todo!

(*) “PARA QUÊ = WOZU

Porque o português só conhece onde como advérbio e não como relativo, a tradução construiu uma constelação de expressões e modos de dizer que recebeu ao longo do texto as seguintes correspondências:

Wozu = para quê [literalmente teria de ser para onde]

Woraufhin = perspectiva em que [na direção onde]

Worumwillen = em função de [pertinente aonde]

Wobei = estar-junto [onde é familiar, onde é vizinho]

Womit = estar-com [onde em conjunto]

Worin = no contexto em que [no contexto aonde]

Wohin = destino [lançando-se aonde]

Woher = proveniência [vindo donde]”

(*) CONJUNTURA = BEWANDTNIS

A tradução literal impossível seria deixar-se fazer a volta, i.e., completar um giro ou ciclo, abrir-se para a essência.

Conjuntura é o ser dos entes intramundanos em que cada um deles já, desde sempre, liberou-se.” “um perfeito a priori

O fato de se dar uma conjuntura constitui a determinação ontológica do ser deste ente e não uma afirmação ôntica sobre ele. (…) Com o para quê [sentido] da serventia, pode-se dar, novamente, uma conjuntura própria” Como tornar o martelo aquilo que ele é: construtor de moradias.

Tal familiaridade [originária] com o mundo não exige, necessariamente, uma transparência teórica das remissões que constituem o mundo como mundo.”

A significância é o que constitui a estrutura do mundo em que a pre-sença já é sempre como é.”

Essas <relações> e <relatos> do ser-para, da função, do estar-com de uma conjuntura, em seu conteúdo fenomenal [ôntico], resistem a toda funcionalização matemática” “Conceitos de função dessa espécie só se tornam ontologicamente possíveis remetendo-se a um ente cujo ser possui o caráter de pura substancialidade. Conceitos de função não são outra coisa do que conceitos formalizados de substância.” Matemática calcula (n)o reino da essência.

B. CONTRAPOSIÇÃO DA ANÁLISE DA MUNDANIDADE À INTERPRETAÇÃO DO MUNDO DE DESCARTES

O porquê da escolha do título “Ser e TEMPO”: como antítese ao espaço e às coordenadas cartesianas. ESPAÇO é essencialmente e por excelência aquilo que é incapaz de denotar e conotar o Ser. Ou apenas conotar, se assumirmos que Heidegger empregaria denotar para falar do nível ôntico do ser e conotar para se referir ao nível ontológico.

res cogitans X res corporea espírito X natureza

a falta de clareza de seus fundamentos ontológicos e dos próprios membros da oposição radica-se diretamente nessa distinção efetivada por Descartes.”

O termo para o ser de um ente em si mesmo é substantia. Essa expressão ora designa o ser de um ente como substância, substancialidade, ora o próprio ente, uma substância. Essa ambigüidade de substantia, que já trazia em si o antigo conceito de OUSIA, não é casual.”

O que constitui propriamente o ser em si mesmo da res corporea? Como se pode apreender uma substância como tal? (…) As substâncias são acessíveis em seus <atributos> e cada substância possui uma propriedade principal a partir da qual a essência da substancialidade de uma substância pode ser recolhida. Qual é esta propriedade na res corporea? (…) a extensão em comprimento, altura e largura constitui o ser propriamente dito da substância corpórea que nós chamamos <mundo>. (…) A extensão é a constituição ontológica do ente em causa que deve <ser> antes de quaisquer outras determinações ontológicas a fim de que estas possam <ser> o que são.” “Se os corpos duros, i.e., os que não cedem à pressão, trocassem de lugar com a mesma velocidade com que a mão <corre> em direção aos corpos, então nunca se chegaria a tocá-los, e a dureza nunca seria percebida, e com isso, portanto, nunca seria dureza.”

a extensão, isto é, aquilo que se pode alterar em qualquer modo de divisibilidade, figuração e movimento, o capax mutationum, o que se mantém, remanet, em todas essas alterações.”

permanência constante”

Por substância só podemos entender um ente que é de tal modo que para ser não necessite de nenhum outro ente. O ser de uma <substância> caracteriza-se por uma não-necessidade.”

Ao ser entendido como ens perfectissimum, <Deus> é aqui um título puramente ontológico.” “Todo ente que não for Deus necessita de produção em sentido amplo e de conservação. A produção de algo simplesmente dado, ou também a necessidade de se produzir, constituem o horizonte em que se compreende o <ser>.” “Entre ambos os entes, subsiste uma diferença <infinita> de ser e, apesar disso, chamamos de ente tanto o criado como o criador. Por conseguinte, usamos a palavra ser numa extensão tal, que o seu sentido abrange uma diferença <infinita>. Por isso e com certo direito, podemos chamar também o ente criado de substância. (…) dentro da região dos entes criados, do <mundo> no sentido de ens creatum, existe algo que <não necessita de um outro ente>, no tocante à produção e conservação das criaturas, p.ex. o homem.” O problema está em que, de novo, o homem é res cogitans e res corporea.

Nas afirmações <Deus é> e <o mundo é> predicamos o ser. Essa palavra <é> não pode indicar o ente cada vez referido no mesmo sentido (univoce), já que entre ambos existe uma diferença infinita de ser”

A escolástica apreende o sentido positivo da significação de <ser> como significação <analógica> para distingui-la da significação unívoca ou meramente sinônima. Apoiando-se em Aristóteles, em quem o problema já se delineou no ponto de partida da ontologia grega, fixaram-se vários modos de analogia, segundo os quais também as <Escolas> se distinguiam quanto à apreensão da função significativa de ser. No tocante à elaboração ontológica do problema, Descartes fica muito aquém da escolástica, chegando mesmo a recuar diante da questão.” “Sem dúvida, a ontologia medieval, do mesmo modo que a antiga, questionou muito pouco o que o próprio ser designa. (…) O sentido permaneceu não-esclarecido porque foi tomado por <evidente>.” “Descartes não apenas recua inteiramente diante da questão ontológica da substancialidade, como acentua explicitamente que a substância como tal, i.e., a substancialidade, já é em si mesma, de antemão, inacessível para si mesma. [Diz:] O <ser> ele mesmo não nos <afeta>, não podendo por isso ser percebido. Segundo a sentença de Kant, que apenas repete a frase de Descartes, <o ser não é um predicado real>. Com isso, renuncia-se em princípio à possibilidade de uma problemática pura do ser e busca-se uma saída pela qual se possam obter as determinações acima caracterizadas das substâncias. Porque <ser> de fato não é acessível como os entes, ele passa a ser expresso por determinações ônticas dos entes em questão, isto é, pelos atributos [fenomenológicos]. (…) pressupostos sem discussão.”

É a substância divisível? Então é real e veraz (está no espaço)”, argumenta D. de si para si.

Porque o ôntico é colocado abaixo do ontológico, a expressão substância exerce um significado ora ontológico ora ôntico, funcionando, porém, na maioria das vezes, como significado misturado.”

ENUMERO LOGO ERRO: “Que modo de ser da pre-sença é estabelecido como a via de acesso adequada ao que, enquanto extensio, Descartes identifica com o ser do <mundo>? A única via de acesso autêntica para esse ente é o conhecimento, a intellectio, no sentido do conhecimento físico-matemático. O conhecimento matemático vale como o modo de apreensão dos entes, capaz de propiciar sempre uma posse mais segura do ser dos entes nele apreendidos. (…) Propriamente só é o que sempre permanece. E é isso o que a matemática conhece. (…) Descartes não retira o modo de ser dos entes intramundanos deles mesmos. Com base numa idéia de ser[-constância] (…) prescreve ao mundo o seu ser <próprio>. Não é, portanto, principalmente o apoiar-se numa ciência particular e, por acaso, especialmente estimada, a matemática, o que determina a ontologia do mundo, mas uma orientação fundamentalmente ontológica pelo ser enquanto constância do ser simplesmente dado” “Descartes cumpre, assim, de maneira filosoficamente explícita, a virada das influências da ontologia tradicional sobre a física matemática moderna e os seus fundamentos transcendentais.”

modo de acesso ao ente ainda possível de uma percepção intuitiva”

É duro dizê-lo, mas Descartes não entendeu o conceito de rigidez! Ou melhor: não entendeu a rigidez. O conceito de rigidez nada tem que ver com a rigidez.

Coordenadas não se tocam, como entes poderiam [r]esistir mutuamente?

Divisão e descontinuidade

Com isso veda-se completamente o caminho para se ver o caráter fundado de toda percepção sensível e intelectual e para compreendê-las como uma possibilidade do ser-no-mundo.”

Será que com essas discussões críticas não se estará exigindo de Descartes uma tarefa que se encontra totalmente fora de seu horizonte?” “A discussão deve-se orientar pela tendência real da problemática mesmo que esta não ultrapasse uma compreensão vulgar.” Palavras, palavras, palavras

A análise cartesiana do <mundo> possibilita, pela 1ª vez, uma construção segura da estrutura da manualidade; necessita apenas de uma complementação, facilmente exeqüível, da coisa natural para transformá-la numa perfeita coisa de uso.”

O acréscimo de predicados de valor [não-matemáticos, i.e., qualidades] não é capaz de propiciar em nada uma nova perspectiva sobre o ser dos bens mas apenas pressupõe para estes o modo de ser de puras coisas simplesmente dadas.” “Em última instância, os valores têm sua origem ontológica unicamente no ponto de partida prévio da realidade das coisas como nível fundamental. Já a experiência pré-fenomenológica, no entanto, mostra nos entes entendidos como coisa algo que não pode ser inteiramente compreendido por meio desse caráter.”

Do ponto de vista ontológico, o que significa o ser dos valores, ou seja, <a sua valência>?” Não faz pergunta difícil, H.!

E essa reconstrução de uma coisa de uso inicialmente <descascada> não necessitaria sempre de uma visão prévia e positiva do fenômeno cuja totalidade deve ser reproduzida na reconstrução? Se, porém, a sua própria constituição ontológica não tiver sido explicitada previamente de modo adequado, a reconstrução procederá sem qualquer projeto.” Hic salta Nietzsche.

Perguntas capitais:

1. Por que (…) desde Parmênides (…) passou-se por cima do fenômeno do mundo? De onde provém a repetição contínua desse passar por cima?

2. Por que o ente intramundano se torna tema ontológico para esse fenômeno?

3. Por que este ente encontra-se, de início, na <natureza>?

4. Por que a complementação desta ontologia do mundo, que se sente necessária, cumpre-se em se recorrendo ao fenômeno dos valores?

Somente nas respostas a estas questões é que a problemática do mundo poderá alcançar uma compreensão positiva”

O método cartesiano não é ontologicamente metódico.

Heidegger é bom para perguntar, ruim para responder.

C. O CIRCUNDANTE DO MUNDO CIRCUNDANTE E A ESPACIALIDADE DA PRE-SENÇA

REVIRANDO CARTÉSIO: “O instrumento tem seu local ou então <está-por-aí>, o que se deve distinguir fundamentalmente de uma simples ocorrência numa posição arbitrária do espaço [x, y].” “O lugar é sempre o <aqui> e <lá> determinados a que pertence um instrumento.” “Chamamos de região este para-onde da possível pertinência instrumental”

Esta orientação regional da multiplicidade de locais do que está à mão constitui o circundante” “Nunca nos é dado, de início, uma multiplicidade tridimensional de possíveis posições preenchidas por coisas simplesmente dadas.” “O que continuamente está à mão não tem um local, pois é previamente levado em conta pelo ser-no-mundo da circunvisão.”

o sol cuja luz e calor são usados cotidianamente possui seus locais marcados e descobertos pela circunvisão (…): o nascente, o meio-dia, o poente, a meia-noite.” “indicações privilegiadas” “A casa tem o seu lado do sol e o seu lado da ventilação; por ele se orienta a distribuição dos <cômodos> [ou não, na periferia] e nestes, novamente, a <instalação> de acordo com o seu caráter instrumental.” “Igrejas e sepulturas, p.ex., são dispostas segundo o nascente e o poente, regiões da vida e da morte”

Distanciar diz fazer desaparecer o distante, isto é, a distância de alguma coisa diz proximidade. Em sua essência, a pre-sença é essa possibilidade de dis-tanciar.” “Assim como o intervalo, a distância é uma determinação categorial dos entes destituídos do modo de ser da pre-sença. (…) quaisquer 2 coisas, 2 pontos não estão distantes um do outro, porque nenhum deles é capaz de distanciar em seu modo próprio de ser.”

Será que o sentido da afirmação disseminada que li sobre Heidegger no tocante à Técnica é nessa possibilidade catastrófica iminente da aldeia global comprimir todo o horizonte, achatar as distâncias e tornar tudo circunvizinhança do ser-aí? “Todos os modos de aumentar a velocidade que nós, hoje, de forma mais ou menos forçada, exercemos impõem a superação da distância. Assim, p.ex., com a <radiodifusão>, a pre-sença cumpre hoje o dis-tanciamento do <mundo>, através de uma ampliação e destruição do mundo circundante cotidiano, cujo sentido para a pre-sença ainda não pode ser totalmente aniquilado.”

Mesmo quando nos servimos de medidas precisas e dizemos: <até em casa é meia hora>, essa medição deve ser tomada como uma avaliação, pois aqui <meia hora> não são 30 minutos mas uma duração que não possui <tamanho>, no sentido de extensão quantitativa.”

todo dia os caminhos corriqueiros que levam ao ente dis-tante são diferentemente longos.” “Os intervalos objetivos de coisas simplesmente dadas não coincidem com a distância e o estar próximo do manual intramundano.” “Trata-se de uma <subjetividade> que talvez descubra o mais real da <realidade> do mundo, a qual nada tem a ver com uma arbitrariedade <subjetiva> nem com <apreensões> subjetivistas de um ente <em si> diverso.”

ANTOLHOS (Da sabedoria hindu à Rei de Evangelion): “Para quem usa óculos, p.ex., que, do ponto de vista do intervalo, estão tão próximos que os <trazemos no nariz>, esse instrumento de uso, do ponto de vista do mundo circundante, acha-se mais distante do que o quadro pendurado na parede em frente.” Hoje somos míopes surdos do ventre inchado, sempre com fone e fome.

[Mas] Em seu ser-em, que instala dis-tanciamento, a pre-sença também possui o caráter de direcionamento.” “Sendo, a pre-sença, na qualidade de um ser que distancia e se direciona, possui uma região já desde sempre descoberta.” “A espacialização da pre-sença em sua <corporeidade>, a qual abriga em si uma problemática especial que não será tratada aqui, acha-se também marcada por essas direções.”

manobra”

ma[n-o]b-ra

mão inimiga no peito amigo

b-ra So fort v-in-gador

Pelo puro sentimento da diferença de meus 2 lados nunca poderia localizar-me corretamente no mundo. (Kant)” “O fato de eu já estar sempre num mundo não é menos constitutivo da possibilidade de orientação do que o sentimento de direita e esquerda.”

O CARÁTER DO ASSUNTO TEM LICENÇA POÉTICA PARA A REDUNDÂNCIA MAIS VULGAR: “A interpretação psicológica de que o eu possui algo <na memória>, no fundo, tem em mente a constituição existencial do ser-no-mundo.”

(*) “Todo ser é sempre ser-com mesmo na solidão e isolamento, a pre-sença é sempre co-presença (Mitdasein), o mundo é sempre mundo compartilhado (Mitwelt), o viver é sempre com-vivência (Miteinandersein).”

(*) “Para indicar a ação impessoal de um verbo, a língua alemã dispõe de 2 pronomes: es e man. <Es> indica uma impessoalidade indiferenciada. O sujeito da ação pode ser uma coisa, uma pessoa, uma situação [Es regnet – chove]. O <man> exprime, por sua vez, uma impessoalidade diferenciada, pois diz que ocorreu uma despersonalização de pessoas. [Man frölich ist – É-se feliz ou A gente é feliz].”

(*) “PRÓPRIO = SELBST

O termo <Selbst> e seus derivados, Selbst-sein, Selbstheit, das Selbst, Selbigkeit não designam nem a consciência, nem o inconsciente nem a personalidade, em qualquer sentido ou acepção psicológica e antropológica.”

(*) DE-MONSTRAÇÃO = AUFZEIGUNG; AUFWEISUNG

A palavra portuguesa de-monstração, tomada em sua formação etimológica, corresponde bem aos 2 termos alemães Auf-zeigung e Auf-weisung, pois ambos exprimem o movimento de mostrar, indicar, apontar, sem a conotação de seu uso lógico e matemático.”

(*) “CURIOSIDADE = NEUGIER

A voracidade insaciável de novidades pelo simples fato de ser diferente e diverso integra o mecanismo da despersonalização e descaracterização de toda autonomia e respeito da propriedade. O curioso não se interessa por transformar-se e diferenciar-se.”

CU-RIOSO

NEW-GEAR AUTO-PILOT nóiáguia

A REALLY SAD LOT

ANTI-KANT (ou SCHOPENHAUER, para todos os efeitos): “O espaço n[ão] está no sujeito (…) Ao contrário, o espaço está no mundo na medida em que o ser-no-mundo constitutivo da pre-sença já descobriu sempre um espaço. (…) É o <sujeito>, entendido ontologicamente, a pre-sença, que é espacial em sentido originário. Porque a pre-sença é nesse sentido espacial, o espaço se apresenta como a priori. Este termo não indica a pertinência prévia a um sujeito que de saída seria destituído de mundo e projetaria de si um espaço. Aprioridade significa aqui precedência do encontro com o espaço (como região) em cada encontro do manual no mundo circundante.”

A intuição formal do espaço descobre possibilidades puras de relações espaciais. Estas consistem numa seqüência hierárquica na liberação de um espaço puro e homogêneo, desde a pura morfologia das figuras espaciais, visando a uma análise da posição (situs), até às ciências puramente métricas do espaço.” “O mundo perde a especificidade de suas circundâncias, o mundo circundante transforma-se em mundo da natureza. (…) contexto de coisas extensas simplesmente dadas.” Eis a desmundanização, com seu aspecto de neutro e homogêneo do espaço.

4. O SER-NO-MUNDO COMO SER-COM E SER-PRÓPRIO. O “IMPESSOAL”

O pronome quem é aquilo que, nas mudanças de atitude e vivência, se mantém idêntico e, assim, refere-se a esta multiplicidade. Do ponto de vista ontológico, nós o entendemos como algo simplesmente dado, já sempre constantemente vigente para e numa região fechada e que, num sentido privilegiado, oferece uma base enquanto o subjectum. (…) Por mais que se rejeite a substância da alma ou o caráter de coisa da consciência e da objetividade da pessoa, ontologicamente, já no ponto de partida, fica-se atrelado a algo cujo ser guarda, explícita ou implicitamente, o sentido de ser simplesmente dado. A substancialidade é o guia ontológico da determinação dos entes a partir do qual se responde à pergunta quem.” “Ora, o ser simplesmente dado é o modo de ser de um ente que não possui o caráter da pre-sença.” “Pode ser que o quem da pre-sença cotidiana não seja sempre justamente eu mesmo.” “E se, partindo do dado do eu, a analítica existencial caísse, por assim dizer, nas tramas da própria pre-sença e de sua auto-interpretação mais corriqueira?” “O <eu> só pode ser entendido no sentido de uma indicação formal não-contingente de algo que, em cada contexto ontológico-fenomenal, pode talvez se revelar o <seu contrário>. Nesse caso, o <não-eu> não diz, de forma alguma, um ente em sua essência desprovido de <eu>, mas indica um determinado modo de ser do próprio <eu> como, p.ex., a perda de si próprio.” “a <substância> do homem é a existência e não o espírito enquanto síntese de corpo e alma.”

SER-TU: “Humboldt observou várias línguas que exprimem o <eu> pelo <aqui>, o <tu> pelo <aí>, o <ele> pelo <lá>, portanto, línguas que, numa formulação gramatical, exprimem os pronomes pessoais pelos advérbios locativos. É discutível qual o significado originário das expressões locativas, quer adverbiais, quer pronominais.” “O aqui, lá, aí, não são primariamente mera determinação de lugar dos entes intramundanos, simplesmente dados em posições espaciais, e sim caracteres da espacialidade originária da pre-sença.”

ser-aí-com (= co-pre-sença nesta tradução)

O estar-só é um modo deficiente de ser-com e [justamente] sua possibilidade é a prova disso.” “Esse fenômeno que, de maneira não muito feliz, designa-se de <simpatia> deve, por assim dizer, construir ontologicamente uma ponte entre o próprio sujeito isolado e o outro sujeito, de início, inteiramente fechado.” “<O outro é um duplo de próprio.> É fácil ver que essa reflexão aparentemente evidente apóia-se em bases pouco sólidas. A pressuposição dessa argumentação de que o ser da pre-sença é para si mesmo o ser-para-um-outro não é justa. Enquanto essa pressuposição não se comprovar evidente em sua justa determinação, permanece enigmático de que maneira ela haverá de esclarecer a relação da pre-sença-para-consigo-mesma com referência ao outro-como-outro.”

O quem não é este ou aquele, nem o próprio do impessoal, nem alguns e muito menos a soma de todos. O <quem> é o neutro, o impessoal.” “O impessoal desenvolve sua própria ditadura nesta falta de surpresa e de possibilidade de constatação. Assim, nos divertimos e entretemos como impessoalmente se faz; lemos, vemos e julgamos sobre a literatura e a arte como impessoalmente se vê e julga; também nos retiramos das <grandes multidões> como impessoalmente se retira; achamos <revoltante> o que impessoalmente se considera revoltante. O impessoal, que não é nada determinado mas que todos são, embora não como soma, prescreve o modo de ser da cotidianidade.”

Em seu ser, o impessoal coloca essencialmente em jogo a medianidade. (…) Essa medianidade, designando previamente o que se pode e deve ousar, vigia e controla toda e qualquer exceção que venha impor-se. Toda primazia é silenciosamente esmagada. Tudo que é originário se vê, da noite para o dia, nivelado como algo de há muito conhecido. O que se conquista com muita luta, torna-se banal. Todo segredo perde sua força. O cuidado [ver acima o ‘passivo’ da Cura] da medianidade desentranha também uma tendência essencial da pre-sença, que chamaremos de nivelamento de todas as possibilidades de ser.”

public-idade” limit-ações da trad-ução!

O impessoal encontra-se em toda parte, mas no modo de sempre ter escapulido quando a pre-sença exige uma decisão.” “o impessoal retira a responsabilidade de cada pre-sença.” “Pode assumir tudo com a maior facilidade e responder por tudo, já que não há ninguém que precise responsabilizar-se por alguma coisa. O impessoal sempre <foi> quem… e, no entanto, pode-se dizer que não foi <ninguém>.” “o impessoal conserva e solidifica seu domínio caturro. [grosseiro, superficial]” “o impessoal, enquanto ninguém, não é um nada. Ao contrário, neste modo de ser, a pre-sença é um ens realissimum, caso se entenda <realidade> como um ser dotado do caráter de pre-sença.” “O impessoal também não é uma espécie de <sujeito universal> que paira sobre vários outros. Essa concepção só é possível caso o ser dos <sujeitos> seja compreendido como o que não possui o caráter de pre-sença, e caso se parta da suposição de que os sujeitos são casos factuais simplesmente dados de um gênero.” “Não é de admirar que a lógica tradicional fracasse diante destes fenômenos quando se pensa que a lógica tem seu fundamento numa ontologia-das-coisas-simplesmente-dadas que, além de tudo, é precária. Por mais que se aperfeiçoe e amplie, a lógica não pode, em princípio, tornar-se mais flexível. As reformas da lógica, orientadas pelas <ciências do espírito>, só fazem aumentar a confusão ontológica.” “O próprio da pre-sença cotidiana é o próprio-impessoal que distinguimos do si mesmo em sua propriedade

O EU PRÉ-FILOSÓFICO:De início, <eu> não <sou> no sentido do propriamente si mesmo e sim os outros nos moldes do impessoal. É a partir deste e como este que, de início, eu <sou dado> a mim mesmo. De início, a pre-sença é impessoal e, na maior parte das vezes, assim permanece.”

O ser-no-mundo [finalmente] tornou-se visível em sua cotidianidade e em sua medianidade.”

A interpretação ontológica segue inicialmente esta tendência e entende a pre-sença a partir do mundo, onde a encontra como ente intramundano.”

O ser do que é próprio não repousa num estado excepcional do sujeito que se separou do impessoal. Ele é uma modificação existenciária do impessoal como existencial constitutivo.”

5. O SER-EM COMO TAL

Até aqui, a caracterização fenomenal do ser-no-mundo voltou-se para o momento estrutural mundo e para responder à questão quem deste ente em sua cotidianidade. Entretanto, já nas primeiras caracterizações das tarefas de uma análise preparatória dos fundamentos da pre-sença, antecipou-se uma orientação sobre o ser-em como tal, que se demonstrou concretamente no modo de conhecer o mundo.”

Em busca do ser-da-cura (devidamente ocupado, em termos heideggerianos).

O fenômeno da igualdade originária dos momentos constitutivos foi, muitas vezes, desconsiderado na ontologia, na medida em que ela pretende, por métodos desabridos, comprovar a proveniência de tudo e de todos a partir de uma <base primordial> única e simples.”

Ser <esclarecido> [dotado de luz] significa: estar em si mesmo iluminado como ser-no-mundo, não através de um outro ente, mas de tal maneira que ele mesmo seja a claridade.”

A. A CONSTITUIÇÃO EXISTENCIAL DO PRE [-AÍ DO SER-AÍ]

Os estados de humor.

O fato de os humores poderem se deteriorar e transformar diz somente que a pre-sença já está sempre de humor.”

naquilo de que o humor faz pouco caso, a pre-sença se descobre entregue à responsabilidade do aí. É no próprio esquivar-se que o aí se abre em seu ser.”

O humor não realiza uma abertura no sentido de observar o estar-lançado [estar-aí] e sim de enviar-se e desviar-se. Na maior parte das vezes, ele faz pouco caso do caráter pesado da pre-sença que nele se revela, e muito menos ainda quando se alivia de um humor. Esse desvio é o que é, no modo da disposição.”

Mesmo que a pre-sença estivesse <segura> na fé de seu <destino> ou pretendesse saber a sua proveniência mediante um esclarecimento racional, nada disso diminuiria o seguinte fenômeno: o humor coloca a pre-sença diante do fato de seu aí que, como tal, se lhe impõe como enigma inexorável.”

O irracionalismo – enquanto o outro lado do racionalismo – fala apenas estrabicamente daquilo para o que o racionalismo é cego.” “Que um ser-aí de fato possa, deva e tenha de assenhorear-se do humor através do saber e da vontade pode, em certas possibilidades da existência, significar uma primazia da vontade e do conhecimento. (…) nunca nos assenhoreamos do humor sem humor, mas sempre a partir de um humor contrário.”

O <mero humor> abre o aí de modo mais originário, embora também o feche de modo ainda mais obstinado do que qualquer não-percepção. Isso é o que mostra o mau-humor. Nele (…) a circunvisão da ocupação se desencaminha.”

O humor se pre-cipita. Ele não vem de <fora> nem de <dentro>.”

Do ponto de vista ontológico-fundamental, devemos em princípio deixar a descoberta primária do mundo ao <simples humor>. Uma intuição pura, mesmo introduzida nas artérias mais interiores de alguma coisa simplesmente dada, jamais chegaria a descobrir algo como ameaça. [sem medo, não se sabe nem o que é destemor; ou, falando de forma mais poética, é impossível agir de modo temerário!]

A primeira investigação metafísica sobre o humor provém da Retórica de Aristóteles. Por que a Retórica e não a Psicologia (Da alma)? Segundo H., porque é a Retórica essencialmente o campo da hermenêutica sistemática do ser-com. O que seria um orador sem humor?! Não um homem…

A partir dos estóicos, o humor se limita e se conforma a ser assunto subsidiário da Filosofia.

É um mérito da pesquisa fenomenológica ter re-criado uma visão mais livre desses fenômenos.” É porque falta a Hegel qualquer consideração nesse sentido e nessa instância (uma pascalização de sua filosofia, p.ex.) que sua filosofia é tão estanque.

O que se teme, o <temível>, é sempre um ente que vem ao encontro dentro do mundo e que possui o modo de ser do manual, ou do ser simplesmente dado ou ainda da co-pre-sença.”

o que é temível em sua temeridade?”

1. dano

2. região de dano

3. o familiar na estranheza dessa região

4. o danoso ainda é ‘meio-distante’, ou já seria outra coisa que temor. Angst

5. é terrível aquilo que até o último instante, por assim dizer, não nos revela se poderá ou não chegar

Nesse aproximar-se, o dano se irradia e seus raios apresentam o caráter de ameaça.” “Não se constata 1º um mal futuro (malum futurum) para a seguir temer. O temer também não constata 1º o que se aproxima mas, em sua temeridade, já o descobriu previamente.” “A circunvisão vê o temível por já estar na disposição do temor. Como possibilidade adormecida no ser-no-mundo disposto, o temer é <temerosidade> e, como tal, já abriu o mundo para que o temível dele possa se aproximar.”

Apenas o ente em que, sendo, está em jogo seu próprio ser, pode temer.” Cães não temem.

Ora, como se poderia temer pelo mundo? Justamente o que não estará nunca dado nem passível de se dar!

Pode-se temer em lugar de, sem sentir temor. (…) O temer em lugar de… de certa forma sabe que não é atingido, embora, na verdade, seja atingido pela co-pre-sença, pela qual se teme. (…) o temer-em-lugar-de não perde sua autenticidade específica quando <propriamente> não teme.”

Na medida em que uma ameaça, em seu <na verdade ainda não, mas a qualquer momento sim>, subitamente se abate sobre o ser-no-mundo da ocupação, o temor se transforma em pavor.” “O referente do pavor é, de início, algo conhecido e familiar. Se, ao contrário, o que ameaça possuir o caráter de algo totalmente não-familiar, o temor transforma-se em horror. E somente quando o que ameaça vem ao encontro com o caráter de horror, possuindo ao mesmo tempo o caráter de pavor, a saber, o súbito, o temor torna-se então, terror. Outras variações do temor nos são conhecidas como timidez, acanhamento, receio e estupor.”

Temeroso na essência.

Toda disposição sempre possui a sua compreensão, mesmo quando a reprime.”

Dizer que a pre-sença existindo é o seu significa, por um lado, que o mundo está <pre-sente>, a sua pre-sença é o ser-em. Este é e está igualmente <presente> como aquilo em função de que a pre-sença é.”

A compreensão é a abertura.

Significância é a perspectiva em função da qual o mundo se abre como tal. Dizer que função e significância se abrem na pre-sença significa que a pre-sença é um ente em que, como ser-no-mundo, ele próprio está em jogo.”

Eu compreendo toda a história do grunge: compreensão no sentido de encapsulamento, abrangência físicos, espácio-temporais de um fenômeno; nasci antes do grunge começar, e até hoje estou vivo conforme antigas bandas grunge e novas bandas post-grunge surgem, o que quer dizer que eu formo um conjunto em que grunge é só um subconjunto completamente contido em mim mesmo. Compreensão em sentido ôntico.

Compreensão como poder-ser. nível ontológico: “A pre-sença é a possibilidade de ser livre para o poder-ser mais próprio.” “A pre-sença é de tal maneira que ela sempre compreendeu ou não compreendeu ser dessa ou daquela maneira. (…) ela <sabe> a quantas ela mesma anda” “Esse <saber> não nasce 1º de uma percepção imanente de si mesma, mas pertence ao ser do aí/pre- do ser-aí/pre-sença que, em sua essência, é compreensão.” “E somente porque o ser-aí é na compreensão de seu aí é que ele pode-se perder e desconhecer. E na medida em que a compreensão está na disposição [humor] e, nessa condição, está lançada existencialmente, o ser-aí já sempre se perdeu e desconheceu. Em seu poder-ser, portanto, o ser-aí já se entregou à possibilidade de se reencontrar em suas possibilidades.”

possibilidade de ser-ventia” maluco genial!

Será por acaso que a questão do ser da natureza visa às <condições de sua possibilidade>?” “por que o ente, destituído do caráter de ser-aí, é compreendido em seu ser quando se abre nas condições de sua possibilidade? Kant pressupõe algo assim, talvez com razão. Mas essa pressuposição não pode mais permanecer sem verificar seu direito.”

compreensão projeto

O projeto é a constituição ontológico-existencial do espaço de articulação do poder-ser de fato.”

a pre-sença se lança no modo de ser do projeto. O projetar-se nada tem que ver com um possível relacionamento frente a um plano previamente concebido, segundo o qual o ser-aí instalaria o seu ser. Como ser-aí, ele já sempre se projetou e só é na medida em que se projeta.”

Enquanto projeto, a compreensão é o modo de ser do ser-aí em que o ser-aí é as suas possibilidades enquanto possibilidades.”

somente porque o ser do aí é tanto o que será quanto o que não será é que o ser-aí pode, ao se compreender, dizer: sé o que tu és!Torna-te aquilo que tu tens a possibilidade aberta de ser.

Sócrates Nietzsche

<Im>-própria não significa que a pre-sença rompa consigo mesma e <só> compreenda o mundo. Mundo pertence ao seu próprio ser como ser-no-mundo.”

Em seu caráter existencial de projeto, a compreensão constitui o que chamamos de visão da pre-sença. (…) Chamamos de transparência a visão que se refere primeira e totalmente à existência.” Ver é converter o simplesmente dado (existenciário) em originário ou existencial, essencial. “A tradição da filosofia, porém, orienta-se desde o princípio, primariamente pelo <ver> [entre aspas, ou seja: ocular, ôntico, vulgar] enquanto modo de acesso para o ente e para o ser.”

O olho que tudo vê na verdade é cego. Aquele que tudo pode não pode-ser. (Ver acima sobre não-ser-judeu no aspecto teleológico do deus todo-poderoso.)

retira-se [assim] da intuição pura a sua primazia que, noeticamente, corresponde à primazia ontológica tradicional do ser simplesmente dado. Intuição e pensamento já são ambos derivados distantes da compreensão. Também a intuição da essência fenomenológica está fundada na compreensão existencial.”

Mas não será que, com a explicação da constituição existencial do ser-do-aí, no sentido do projeto projetado, o ser do ser-aí não se torna ainda mais enigmático?”

fracassar com autenticidade”

Na interpretação, a compreensão se torna ela mesma e não outra coisa. (…) Interpretar não é tomar conhecimento de que se compreendeu, mas elaborar as possibilidades projetadas na compreensão.” “O mundo já compreendido se interpreta.”

Ter simplesmente diante de si uma coisa [abrangê-la situacionalmente] é somente fixá-la como uma não-compreensão.” “O fato de o <como> [modo da interpretação] não ser pronunciado onticamente não deve levar a desconsiderá-lo enquanto constituição existencial a priori da compreensão.”

Tudo o que está à mão sempre já se compreende a partir da totalidade conjuntural.” “A interpretação sempre se funda numa visão préviaO que H. quer dizer com essa linguagem tão espúria é simplesmente: não existe uma situação de zero valor, não-valor, ou que antedate o valor – o valor sempre está-aí, sempre esteve aí para o homem… Desnudar valores é valorar.

Devemos supor tais fenômenos [a supremacia e ubiqüidade do valor, enquanto valor dos valores] como <realidades últimas>?” R: Sim, mas existe mais de um valor-dos-valores, embora sempre deva haver um para uma época.

CRIATÓRIO DE PALAVRAS PARA O QUE JÁ ESTAVA-AÍ (CONCRETAMENTE, NA FILOSOFIA DO XIX!): “Sentido é a perspectiva em função da qual se estrutura o projeto pela posição prévia, visão prévia e concepção prévia.”

O VELHO VÉU DE MAIA: “O ser-aí só <tem> sentido na medida em que a abertura do ser-no-mundo pode ser <preenchida> por um ente que nela se pode descobrir.” E depois: a única fuga do valor é “falsa”, é a incompreensão do valor vigente. Este é o contra-senso ou nonsense. “o <fundamento> só é acessível como sentido mesmo que, em si mesmo, seja o abismo de uma falta de sentido.”

Toda interpretação que se coloca no movimento de compreender já deve ter compreendido o que se quer interpretar. Esse fato foi sempre observado na interpretação filológica, embora apenas nos setores dos modos derivados de compreensão e interpretação.” Filologia: 2nd hand knowledge

Segundo as regras mais elementares da lógica, no entanto, o círculo é um circulus vitiosus.” “Enquanto não se abolir da compreensão esse círculo, a historiografia deve-se satisfazer com possibilidades de conhecimentos menos rigorosas.” “Mas ver nesse círculo um vício, buscar caminhos para evitá-lo e também <senti-lo> apenas como imperfeição inevitável significa um mal-entendido de princípio acerca do que é compreensão.” “O decisivo não é sair do círculo mas entrar no círculo de modo adequado.” A matemática não é mais rigorosa do que a história. É apenas mais restrita

Mesmo o ouvir-dizer é um ser-no-mundo e um ser-para-o-que se ouviu.”

Validade indica, por um lado, a <forma> da realidade, atribuída ao conteúdo do juízo enquanto o que permanece inalterado frente ao processo <psíquico> de julgamento, esse em contínua transformação.” “Por outro lado, validade também significa que o sentido do juízo de valor vale para o seu <objeto>, assumindo assim o significado de <validade objetiva> e objetividade em geral.” validade universal

Se ainda se defende uma epistemologia <crítica>, para a qual o sujeito propriamente <não sai de si> para alcançar o objeto, então, nesse caso, a validade como objetividade, a validade do objeto, funda-se na existência válida do sentido verdadeiro (!). As 3 acepções explicitadas de <valer>, ser ideal, objetividade, constringência [universalidade – o termo conota contração, achatamento, espécie de castração de possibilidades], não são apenas confusas em si mas se confundem entre si.”

Nós não restringimos previamente o conceito de sentido à acepção de <conteúdo de juízo>, entendendo-o como fenômeno existencial, já caracterizado, [aberto] onde o aparelhamento formal do que se pode abrir na compreensão e articular na interpretação se faz visível.”

o martelo é pesado, o peso é do martelo, o martelo tem a propriedade de ser pesado. A concepção prévia sempre presente em toda proposição permanece, na maior parte das vezes, sem surpresas, pois toda língua já guarda em si uma conceituação elaborada.” “A falta de palavra não pode ser entendida como falta de interpretação.” “Quais são as modificações ontológico-existenciais que fazem com que a interpretação da circunvisão dê origem à proposição [algo dela derivado]?” Nascimento da proposição: quando “o como é forçado a nivelar-se com o ser simplesmente dado.” O martelo do exemplo não mais em relação com o ser-aí, ser-no-mundo, mas como ente a priori martelo objetificado.

como hermenêutico-existencial X como apofântico (ver glossário ao final – limite da lógica formal aristotélica)

A demonstração é, ao mesmo tempo, uma conjunção e uma disjunção. Sem dúvida Aristóteles não levou a questão analítica até o seguinte problema: na estrutura do logos, que fenômeno permite e exige que se caracterize toda proposição como síntese e diairese [separação]?” “O fenômeno da cópula mostra até que ponto esta problemática ontológica influi na interpretação do logos e, inversamente, até que ponto o conceito de <juízo> repercute, numa reação curiosa, na problemática ontológica.” “já de saída se pressupõe [em Aristóteles, i.e., na Lógica] evidentemente a estrutura sintética, mantendo-a, então, numa função decisiva da intepretação do logos.” “O esclarecimento da 3ª acepção de proposição como comunicação (declaração) levou ao conceito de falar e dizer, até aqui propositadamente desconsiderado. O fato de somente agora se tematizar a linguagem deve indicar que este fenômeno se radica na constituição existencial da abertura do ser-aí.”

Eu falo, mas não com palavras.

Aqui vê-se a fragilidade de Deleuze: seu desejo não tem um para ou de

partilha da disposição comum”

No discurso, o ser-aí se pro[jeta]nuncia.” Só se projeta o que já está/é fora.

Escutar é o estar aberto existencial da pre-sença enquanto ser-com os outros.” “É com base nessa possibilidade de escutar, existencialmente primordial, que se torna possível ouvir [‘escuta compreensiva’].” Não se ouve ruído (som sem significado). Esses trechos confirmam o ‘surdo schopenhaueriano’ como o retardado clássico. Cf. https://seclusao.art.blog/2021/11/14/o-mundo-como-vontade-e-como-representacao-a-musica-ouvida-so-uma-vez-nunca-foi-ouvida/.

Somente quem já compreendeu é que poderá escutar.”

Quem silencia no discurso da convivência pode <dar a entender> com maior propriedade [mormente como oposição].”

a incompreensão da trivialidade”

o mudo é a tendência <para falar>.”

Quem nunca diz nada não pode silenciar

Silenciar em sentido próprio só é possível num discurso autêntico.”

Terá [a ágora grega] sido mero acaso?” “Os gregos não dispunham de uma palavra própria para linguagem porque entendiam esse fenômeno <sobretudo> como discurso.”

A tarefa de libertar a gramática da lógica necessita de uma compreensão preliminar e positiva da estrutura a priori do discurso como existencial.” “Também não basta assumir o horizonte filosófico em que Humboldt problematizou a linguagem.”

De que modo é o ser-da-linguagem para que ela possa estar <morta>? (…) Dispomos de uma ciência da linguagem, a lingüística, e, no entanto, o ser daquele ente por ela tematizado é obscuro” “A investigação filosófica deve renunciar a uma <filosofia da linguagem> a fim de poder questionar e investigar <as coisas elas mesmas> e dever colocar-se em condições de trazer uma problemática clara, do ponto de vista dos conceitos.”

B. O SER COTIDIANO DO AÍ E A DE-CADÊNCIA DO SER-AÍ

Quais são os caracteres existenciais da abertura do ser-no-mundo quando o ser-no-mundo cotidiano se detém no modo de ser do impessoal?” “Como ser-lançado-no-mundo, não será que o ser-aí foi jogado de saída na public-idade do pessoal?”

deve-se evidenciar a abertura do impessoal, quer seja, o modo de ser cotidiano do discurso, da visão e da interpretação em determinados fenômenos. Com relação a esses fenômenos, não será supérfluo observar que a interpretação tem um propósito puramente ontológico e se mantém muito distante de qualquer crítica moralizante do ser-aí cotidiano e de qualquer aspiração a uma <filosofia da cultura>.”

APOLOGIA DA FOFOCA: “A expressão <falatório> não deve ser tomada aqui em sentido pejorativo. Terminologicamente, significa um fenômeno positivo que constitui o modo de ser da compreensão e interpretação do ser-aí cotidiano.”

possibilidades da compreensão mediana”

Qual é o ser-da-fofoca? Ela que não é algo dado, pois é linguagem.

…Todos nós pegamos o bonde andando.

O empenho da comunicação é que se fale. O que se diz, o dito e a dicção se empenham agora pela autenticidade e objetividade do discurso e de sua compreensão.”

O falado no falatório arrasta consigo círculos cada vez mais amplos, assumindo um caráter autoritário. As coisas são assim como são porque delas se fala assim. Repetindo e passando adiante a fala, potencia-se a falta de solidez.” Imprensa: a fofoca ultimada.

A FECHADURA DO DISCURSO: “O falatório que qualquer um pode sorver sofregamente [ex: LULA LADRÃO] não apenas dispensa a tarefa de uma compreensão autêntica como também elabora uma compreensibilidade indiferente, da qual nada é excluído.”

Este fechamento [do discurso] é, de novo, potenciado pelo fato de o falatório pretender ter compreendido o referencial com base nessa pretensão de reprimir, postergar e retardar toda e qualquer questão e discussão.” “O predomínio da interpretação pública já decidiu até mesmo sobre as possibilidades de sintonização com o humor, i.e., sobre o modo fundamental em que o ser-aí é tocado pelo mundo.” “O falatório é (…) um contínuo desenraizamento. Do ponto de vista ontológico, isso significa: como ser-no-mundo, a pre-sença que se mantém no falatório rasgou suas remissões ontológicas primordiais, originárias e legítimas com o mundo, com a co-pre-sença e com o próprio ser-em. (…) Mais do que um não-ser, esse desenraizamento perfaz sua <realidade> mais cotidiana e mais persistente.

A estranheza da oscilação em que o ser-aí tende para uma crescente falta de solidez permanece encoberta sob a proteção de auto-evidência e autocerteza que caracterizam a interpretação mediana.”

Aquilo que se pressignou na sentença de Parmênides chega, nessa interpretação, a uma compreensão temática e explícita. O ser é tudo que se mostra numa percepção puramente intuitiva, e somente esse tipo de ver descobre o ser.” O que é esse tipo de ver? A curiosidade heideggeriana. Raiz da ontologia na Grécia.

Da intuição pura a dialética de Hegel retirou o seu moto [por mais que pense superar Kant] e somente à sua base é que se tornou possível.”

OTIUM: “A curiosidade liberada ocupa-se em ver, não para compreender o que vê, para chegar a ele num ser, mas apenas para ver. Ela busca apenas o novo” “abandonar-se ao mundo”

impermanência” (antítese da pre-sença)

não busca o ócio de uma permanência contemplativa e sim a excitação e inquietação mediante o sempre novo e as mudanças do que vem ao encontro.”

possibilidade continua de dispersão.”

A curiosidade não é o espanto inicial do filósofo na Metafísica de Aristóteles.

O falatório também rege os caminhos da curiosidade. É ele que diz o que se deve ter lido e visto.” “responsabilidade do falatório” Se pudéssemos resumir: o falatório é a burrice personificada, a curiosidade inútil, a tolerância em excesso.

Se, na convivência cotidiana, tanto o que é acessível a todo mundo quanto aquilo de que todo mundo pode dizer qualquer coisa vêm igualmente ao encontro, então já não mais se poderá distinguir, na compreensão autêntica, o que se abre do que não se abre.” “Tudo parece ter sido compreendido, captado e discutido autenticamente quando, no fundo, não foi. Ou então parece que não o foi quando, no fundo, foi.” “Não somente todo mundo conhece e discute o que se dá e ocorre, como também todo mundo já sabe discorrer sobre o que vai acontecer, o que ainda não se dá e ocorre, mas que <propriamente> deve ser feito.” “quem autenticamente <está na pista> não fala sobre isso”

DO ‘NÃO FOI GOLPE’: “Supondo que aquilo que impessoalmente se pressentiu e farejou seja, algum dia, transformado em fato, será justamente a ambigüidade quem terá cuidado para que morra imediatamente o interesse pela coisa realizada. Esse <interesse> só subsiste no modo da curiosidade e do falatório, na medida em que se dá como a possibilidade de mero pressentimento em comum, sem nenhum compromisso. Quando e enquanto se está na pista de alguma coisa, o mero estar-junto recua o compromisso do acompanhamento do momento em que se dá início à realização do que se pressentiu.” “isso qualquer um poderia ter feito” O Barão de Coubertin diria: o importante é pressentir. “Em sua ambigüidade, o falatório e a curiosidade cuidam para que aquilo que se criou de autenticamente novo já chegue envelhecido quando se torna público.”

no impessoal a compreensão da pre-sença não a si mesma em seus projetos”

onde cotidianamente tudo e, no fundo, nada acontece.”

De início, o outro <está presente> pelo que se ouviu impessoalmente dele, pelo que se sabe e se fala a seu respeito. O falatório logo se insinua dentre as formas de convivência originária. Todo mundo presta primeiro atenção em como o outro se comporta, no que ele irá dizer. A convivência no impessoal não é, de forma alguma, uma justaposição acabada e indiferente, mas um prestar-atenção-uns-aos-outros, ambíguo e tenso.”

a ambigüidade não nasce primordialmente de uma má-fé e nem é detonada primeiro por um ser-aí singular [determinado].” “o impessoal haverá sempre de objetar que essa interpretação não corresponde ao modo de ser da interpretação do impessoal.”

Por si mesma, em seu próprio poder-ser ela própria mais autêntico, a pre-sença já sempre caiu de si mesma e de-caiu no <mundo>. De-cair no <mundo> indica o empenho na convivência, na medida em que esta é conduzida pelo falatório, curiosidade e ambigüidade.” “Não ser ele mesmo é uma possibilidade positiva dos entes que se empenham essencialmente nas ocupações do mundo. Deve-se conceber esse não-ser como o modo mais próximo de ser da pre-sença em que, na maioria das vezes, ela se mantém.

Assim, a de-cadência da pre-sença também não pode ser apreendida como <queda> de um <estado original>, mais puro e superior. Disso nós não dispomos onticamente [fenomenal, diretamente] de nenhuma experiência e, ontologicamente [essencialmente], de nenhuma possibilidade e guia ontológicos para uma interpretação.” Fare thee well, Christianity!

Seria igualmente um equívoco compreender a estrutura ontológico-existencial da de-cadência, atribuindo-lhe o sentido de uma propriedade ôntica negativa que talvez pudesse vir a ser superada em estágios mais desenvolvidos da cultura humana.” Ou é uma espetada em Nietzsche (que não acerta em cheio e sequer tem nexo, pois Nietzsche não foi citado hora nenhuma até esse ponto do livro), ou de toda forma demonstra uma escolha inapropriada do termo “de-cadência” para ilustrar seu conceito de devir do ser-aí-no-mundo, já que não tem qualquer conotação de queda ou definhamento.

a própria pre-sença prepara para si mesma a tentação constante de de-cair. É que o ser-no-mundo já é em si mesmo tentador.”

A pretensão do impessoal, de nutrir e dirigir toda <vida> autêntica, tranqüiliza a pre-sença, assegurando que tudo <está em ordem> e que todas as portas estão abertas.”

pode nascer a convicção de que a compreensão das culturas mais estranhas e a sua <síntese> com a própria cultura levaria a um esclarecimento verdadeiro e total da pre-sença a seu próprio respeito. A curiosidade multidirecionada e a inquietação de tudo saber dá a ilusão de uma compreensão universal da pre-sença.”

ela busca a mais exagerada <fragmentação de si mesma>.” “A pre-sença se precipita de si mesma para si mesma na falta de solidez e na nulidade de uma cotidianidade imprópria. Mediante a interpretação pública, essa precipitação fica velada para a pre-sença, sendo interpretada como <ascensão> e <vida concreta>.” Quando ele recebeu a crítica de sua suposta magnum opus deve ter tido vontade de reescrevê-la toda para desmentir o desmentido que levou: ora, gostas de flertar com todos esses conceitos metafísicos de seus antecessores a cada página, H.!

Empilhamento de palavras exóticas, sem que se ganhe nada com isso: “turbilhão”

Debatesse com Adorno! Acho que ambos se divertiriam muitíssimo em meio ao tédio chamado séc. XX! “Será que a pre-sença pode ser compreendida como um ente em cujo ser está em jogo o poder-ser, se justamente em sua cotidianidade a pre-sença se perdeu a si mesma e, na de-cadência, <vive> fora de si mesma?”

sistematização do ser-rebanho

Mas nada de corujas e goticismo!”, teria dito Hegel II.

Dizer que a II Guerra não representa uma viragem (em qualquer sentido que se escolher) de uma autenticidade completa para uma inautenticidade completa ou vice-versa (após a guerra) seria duma má-fé excruciante. Seria, porque o livro tem a sorte de ser anterior ao evento histriônico-histórico.

A interpretação ontológico-existencial não se refere, portanto, a um discurso ôntico sobre a <corrupção da natureza humana>, não apenas porque lhe faltam os recursos necessários, mas também porque a sua problemática antecede qualquer proposição a respeito da corrupção ou da incorruptibilidade.” “Minha interpretação não se refere a um discurso parcial ou imediatista sobre a <corrupção da natureza humana>, não apenas porque minha interpretação é absolutamente nua e neutra, e cética na medida ideal, como também porque a História não tem qualquer importância para mim, estou acima dessas miudezas.”

6. A CURA COMO SER DA PRE-SENÇA

A visualização preliminar dada no início a respeito do fenômeno perdeu agora o vazio da 1ª caracterização genérica.” “a questão a que aspirava a análise preparatória dos fundamentos da pre-sença, qual seja: Como se haverá de determinar, do ponto de vista ontológico-existencial, a totalidade do todo estrutural indicado?” = Qual a relação do ser-aí com a unidade existencial-factual (totalidade do real)? Qual é a relação do presente com o eterno vir-a-ser? = Afinal, o que é a Cura?

Faz-se necessária uma confirmação pré-ontológica da interpretação existencial da pre-sença como cura.”

cura mundanidade manualidade realidade

Na problemática ontológica, ser e verdade foram, desde a Antiguidade, correlacionados, embora suas razões originárias permaneçam talvez encobertas.” “Do ponto de vista existenciário, sem dúvida, a propriedade do ser-próprio se acha, na de-cadência, obstruído e fechado. (sic)”

Aquilo com que a angústia se angustia é o ser-no-mundo como tal. (…) Nada do que é simplesmente dado (…) serve para (…) angustiar-se.” “O mundo possui o caráter de total insignificância.”

Está tão próximo que sufoca a respiração, e, no entanto, em lugar algum.”

Mesmo esse nada-ter-a-ver, o único que o discurso cotidiano da circunvisão é capaz de compreender, não é um nada completo.”

é a angústia que pela 1ª vez abre o mundo como mundo.”

Essa estranheza persegue cotidianamente a pre-sença e ameaça, mesmo que implicitamente, com a perda cotidiana no impessoal.” “O ser-no-mundo tranqüilizado e familiarizado é um modo da estranheza da pre-sença e não o contrário. O não sentir-se em casa deve ser compreendido, existencial e ontologicamente, como o fenômeno mais originário.”

A angústia é condicionada fisiologicamente [, mas o] (…) disparo psicológico da angústia só é possível porque a pre-sença, no fundo de seu ser, se angustia.”

A pre-sença já está sempre <além de si mesma>, não como atitude frente aos outros entes que ela mesma não é, mas como ser-para-o-poder-ser que ela mesma é. Designamos a estrutura ontológica do <estar em jogo> como o preceder a si mesma da pre-sença.

Pertence a esse ser-no-mundo o fato de, entregando-se à responsabilidade de si mesmo, já se ter lançado em um mundo.” “Em outras palavras: existir é sempre um fato. Existencialidade determina-se essencialmente pela facticidade.”

CURA ENQUANTO ESSA PRECEDÊNCIA INERENTE: “Fica excluída dessa significação toda tendência ôntica [imediatista] como cuidado ou descuido.” “A expressão <cura de si mesmo>, de acordo com a analogia da ocupação e preocupação, seria uma tautologia.”

no preceder-a-si-mesma, o <si> indica sempre o próprio, no sentido do próprio-impessoal. Mesmo na impropriedade, a pre-sença permanece essencialmente um preceder-a-si-mesma, da mesma forma que a fuga-de-si-mesma-na-de-cadência ainda apresenta a constituição ontológica na qual está em jogo o seu ser.

Enquanto totalidade originária de sua estrutura, a cura se acha, do ponto de vista existencial-a priori, <antes> de toda <atitude> e <situação> da pre-sença, o que sempre significa dizer que ela se acha em toda atitude e situação de fato.”

Sendo em sua totalidade essencialmente indivisível, toda tentativa de reconstrução ou recondução do fenômeno da cura a atos ou impulsos particulares tais como querer ou desejar, propensão ou tendência, converte-se em fracasso.

Tanto o querer como o desejar estão enraizados, com necessidade ontológica, na pre-sença enquanto cura e, do ponto de vista ontológico, não são vivências indiferentes que ocorrem numa <corrente> inteiramente indeterminada quanto ao sentido de seu ser.”

Do ponto de vista ontológico, [sempre bom ressaltar, para os imbecis do big bang] a cura é <anterior> aos fenômenos mencionados [surgimento da vida da perspectiva da física ou da biologia] que, sem dúvida, só podem ser adequadamente <descritos> dentro de certos limites, sem que seja necessário evidenciar ou tornar conhecido o horizonte ontológico em seu todo.” “Para a presente investigação de uma ontologia fundamental, que não aspira a uma ontologia tematicamente completa da pre-sença e muito menos a uma antropologia concreta, basta que se indique como estes fenômenos se fundam existencialmente na cura.”

No querer, só se apreende um ente já compreendido, i.e., um ente já projetado em suas possibilidades como ente a ser tratado na ocupação ou a ser cuidado em seu ser na preocupação.” “Para a possibilidade ontológica do querer são constitutivos: a abertura prévia do em-função-de-que (o preceder a si mesma), a abertura do que se pode ocupar (o mundo como algo em que já se é) e o projeto de compreensão da pre-sença num poder-ser para a possibilidade de um ente <que se quis>.”

Esse nivelamento das possibilidades da pre-sença ao que se oferece, de imediato, no cotidiano realiza, ao mesmo tempo, uma obliteração do possível como tal. A cotidianidade mediana da ocupação se torna cega para as possibilidades e se tranqüiliza com o que é apenas <real>.”

…de maneira a dar a impressão de que algo está acontecendo.”

A MEGA SENA DA MECA DO FUNCIONALISMO: “No desejo, a pre-sença projeta o seu ser para possibilidades as quais não somente não são captadas na ocupação como não se pensa ou se espera, sequer uma vez, a sua realização. Ao contrário, a predominância do preceder-a-si-mesma, no modo do simples desejar, comporta uma incompreensão das possibilidades factuais. O ser-no-mundo, cujo mundo se projeta primariamente como mundo do desejo, perde-se, de modo insustentável, no que se acha disponível, e isso de tal modo que o que está disponível como o único manual jamais é suficiente à luz do que se deseja. Desejar é uma modificação existencial do projetar-se da compreensão que, na de-cadência do estar-lançado, ainda adere pura e simplesmente às possibilidades. Essa adesão fecha as possibilidades; aquilo que está ‘presente’ na adesão do desejo torna-se ‘mundo real’. Ontologicamente, desejar pressupõe a cura.”

É verdade que o desejo — cegueira e antolhos — é sempre a decadência e mundanização de uma pretensa onisciência, possível de ser concebida apenas a posteriori após a ‘decadência’ e ‘mundanização’. Isso é o que torna as pessoas tão pasmadas. O homem é aquele que nunca sacia seu desejo? Falso. Este não é o homem-no-homem! Já está saciado. O homem é aquele que estabelece sua própria prisão em vez de liberdades.

A adesão de-cadente revela a tendência da pre-sença de se <deixar viver> pelo mundo em que ela sempre está.” “[A cura] cega coloca todas as possibilidades a serviço da tendência.”

Enquanto modificação de todo ser-no-mundo, a pre-sença já é sempre cura.” Pois sua fuga redunda em achar-se e com-frontar-se consigo mesma. O ser-aí en-cara de igual para igual no mundo jamais-aplanado.

a idéia de ser é tão pouco <simples> como o ser da pre-sença.”

do ponto de vista ontológico, a <novidade> dessa interpretação é, do ponto de vista ôntico, bastante antiga.” Quer dizer que nada do que H. explica é novo ou inédito, mesmo em face da filosofia clássica dos gregos.

o ser da pre-sença se caracteriza pela historicidade que, de todo modo, só deve ser comprovada ontologicamente. Se, com base em seu ser, a pre-sença é ‘histórica’, então uma proposição oriunda de sua história e que a ela remete, sendo anterior a toda ciência, possui um peso particular, embora, sem dúvida, não seja um peso puramente ontológico.”

A auto-interpretação da pre-sença como <cura> foi apresentada numa antiga fábula.”

Como bom alemão, recorre a Fausto: (*) “Burdach mostra que Goethe extraiu de Herder a fábula que consta como a 220 das Fábulas de Higino, tendo-a trabalhado para a segunda parte de seu Fausto.”

Certa vez, atravessando um rio, Cura viu um pedaço de terra argilosa: tomou um pedaço e começou a lhe dar forma. Enquanto refletia sobre o que criara, interveio Júpiter. Cura pediu-lhe que desse espírito à forma de argila, o que ele fez de bom grado. Como Cura quis então dar seu nome ao que tinha dado forma, Júpiter a proibiu e exigiu que fosse dado o[utro] nome. Enquanto Cura e Júpiter disputavam sobre o nome, surgiu também TELLUS [Terra]¹ querendo dar o seu nome, uma vez que havia fornecido um pedaço de seu corpo. Os disputantes tomaram SATURNO como árbitro. Saturno pronunciou a seguinte decisão, aparentemente eqüitativa: <Tu, Júpiter, por teres dado o espírito, deves receber na morte o espírito e tu, Tellus, por teres dado o corpo, deves receber o corpo. Como, porém, foi Cura quem primeiro o formou, ele deve pertencer à Cura enquanto viver. Como, no entanto, sobre o nome há disputa, ele deve se chamar HOMO, pois foi feito de húmus.>²

¹ Anatomy is destiny! Júpiter ou Zeus é Mefistófeles.

² “Substância orgânica e negra, resultante da decomposição parcial de vegetais ou de animais, que se acumula sobre o solo ou a ele se mistura. Etimologia (origem da palavra húmus). Do latim humus.i, terra.” Está decidido: o homem é originariamente preto.

Carl Sagan, Shakespeare. Começa e termina com-poeira. Ca’poeira luta metafísica… Alergia à vida.

essa primazia da cura emerge no contexto da concepção conhecida em que o homem é apreendido como o composto de corpo e espírito.”

O homem é o que está vivo. O homem é originariamente irreligioso, eis sua essência mais recôndita. O animal para a vida do barro e da terra e moral. Zeus nunca é nosso responsável, i.e., nunca pagamos o preço pela venda da alma na fábula (nun-ca-veiramos, hamletianamente). Cristo como o não-homem (uma curiosidade).

Se uma moeda fôssemos, a Cura seria o valor ou o trabalho de oficialização estatal sobre o metal responsável por inseri-la em circulação (em qualquer ponto do ciclo).

origem na margem do rio – veja explicações mais completas deste raciocínio em https://www.recantodasletras.com.br/pensamentos/7485396.

esse ente não é abandonado por essa origem, mas, ao contrário, por ela mantido e dominado enquanto for e estiver no mundo.” Esse o verdadeiro sentido da frase platônica deus é a medida de todas as coisas (do homem). Mas não significa que não foi o homem que atribuiu a medida, só quer dizê-lo objetivamente. Porque o homem não existe. Seria Prometeu acorrentado, mas nós somos livres. Não haverá punição pela transgressão. Tudo menos isso. Temos a chave da própria prisão e devemos usá-la enquanto é tempo. Ou enquanto o tempo é. A chave abre e roda a cunha. E também sela (o destino).

Desde os primórdios já era uma vez.

A menos que um dia a Hindo-China nos negasse, essa seria a interpretação final final e formal.

Questões preliminares:

1. É a coisa real (transcende a consciência do ser)? Resposta condensada: Esse modo de raciocínio é uma tautologia.

2. Se real o mundo externo (inanimado, fora da consciência), essa realidade é passível de prova? Resp.cndsd: Não. Mas é absurdo cobrar a prova.

3. A coisa, no Realismo, possui um ser-em-si (diferente de coisa-em-si ou noumeno, porém igualmente impossível, conforme verificaremos)? Resp.cndsd: Só o que existe é a coisa-para-o-ser, não um ser-para-a-coisa, apesar da nomenclatura enganosa de todas as traduções!

4. O que é a coisa chamada ‘realidade’? Resp.cndsd: A filosofia tradicional (antiga + moderna), que deve ser superada!

Elaboração das respostas condensadas acima (elas se fecham num círculo, e com isso se abrem para o Ser):

1., 2.

Instrumento tradicional de estudo do real: INTUIÇÃO

Instrumento fenomenológico (ontológico originário) de estudo do “real”: “A questão se o mundo é real e se o seu ser pode ser provado, questão que a pre-sença enquanto ser-no-mundo haveria de levantar – e quem mais poderia fazê-lo? – mostra-se destituída de sentido.”

O que é o mundo? A totalidade ou apenas a circunvisão do ser-aí? Não faz sentido falar num mundo da totalidade, pois sem a circunvisão do ser-aí, ele existindo ou não, ficaria fechado ao ser, e não nos interessa em nível ontológico a discussão ou investigação de um mundo tal (ôntico). Ou seja, devemos abandonar a analítica da empiricidade das coisas e da intuição (entidade dos sentidos do fenômeno), o que Heidegger chama por várias vezes de entes já dados ou a priori. (FILOSOFIA ATÉ KANT, incluindo Hegel, pois originariamente falando Hegel vem antes de Kant, retroage em relação à precedência cronológica do primeiro. Além disso, do prisma heideggeriano, a intuição e o espaço-tempo kantianos são ainda empirismo, i.e., realismo, investigação tradicional.)

Essa confusão das questões, o confundir-se do que se quer comprovar com o que se comprova e com a comprovação, mostra-se na <refutação do idealismo> de Kant. Kant chamou de <escândalo da filosofia e da razão humana em geral> o fato de ainda não se dispor de uma prova definitiva, capaz de eliminar todo ceticismo a respeito da <presença (Dasein) das coisas fora de nós>Ou seja, ceticismo a respeito do real, nada a ver com o ser-aí. Schopenhauer sabia, ainda que pelas razões erradas, que o Idealismo era o vencedor na velha contenda Idealismo x Realismo, que pendeu para o lado do realismo durante a proeminência dos filósofos franceses e britânicos e que havia estagnado na época do criticismo kantiano, chegando a seu suposto termo metafísico dada sua solução negativa. Hegel podia até ser idealista, mas sua fé transcendental em algo completamente não-observável (a teleologia) compromete posicioná-lo ao lado de Schopenhauer em alguma coisa, ainda que coincidam em nomenclatura por poucas linhas!

De início, deve-se observar explicitamente que Kant usou o termo <presença> (Dasein) para designar o modo de ser que, na investigação precedente, nós chamamos de <ser simplesmente dado>. <Consciência de minha presença> significa para Kant: consciência de meu ser enquanto ser simplesmente dado no sentido de Descartes.” K. funde ser e ente, ou mais exatamente consciência e objeto (eis o espírito do criticismo).

A PROVA A PRIORI DOS 9: “A prova da <presença das coisas fora de mim> sustenta-se no fato de que transformação e permanência pertencem, de modo igualmente originário, à essência do tempo.”

alguma coisa permanente simplesmente dada” em Kant são espaço, tempo e causa.

Na verdade, a prova não consiste numa conclusão causal e por isso não guarda as suas inconveniências.” “Num primeiro momento, tem-se a impressão de que Kant abandonou o princípio cartesiano da preexistência de um sujeito isolado. (…) O fato de Kant fornecer uma prova da <presença das coisas fora de mim> já mostra que, nessa problemática, ele toma o sujeito, o <em mim>, como ponto de apoio. (…) a experiência do <tempo> que a prova inclui só se faz <em mim>.” Quando eu é/sou o solo, morre-se/morro no abismo, pois o eu é sempre a instância mais fraca na metafísica ocidental.

O que Kant prova é o ser simplesmente dado necessariamente em conjunto de um ente que se transforma e um que permanece. Essa equiparação de 2 seres simplesmente dados ainda não diz o simplesmente-dar-se-em-conjunto-de-sujeito-e-objeto.”

Kant pressupõe a diferença e o nexo entre <em mim> e <fora de mim> – o que é correto do ponto de vista do fato, mas incorreto no sentido a que tende a sua prova. (…) Mas mesmo que se visse o todo da diferença e o nexo entre <dentro> e <fora>, pressuposto na prova, e se concebesse ontologicamente o que nessa pressuposição é pressuposto, ainda ruiria a possibilidade de se considerar como necessária e ainda ausente a prova da <presença das coisas fora de mim>.

O <escândalo da filosofia> não reside no fato dessa prova ainda inexistir e sim no fato de sempre ainda se esperar e buscar essa prova. (…) O modo de ser desse ente que prova e exige provas é que é subdeterminado.” Chega de fora, dentro, exterior e interior! Só o que há é a unidade do ser-aí-no-mundo.

A pre-sença, entendida corretamente, resiste a tais provas porque ela já sempre é, em seu ser, aquilo que as provas posteriores supõem como o que se deve necessariamente demonstrar.”

sujeito desmundanizado ou inseguro acerca de seu mundo.”

3., 4.

O <problema da realidade>, no sentido da questão se um mundo exterior é simplesmente dado e se é passível de comprovação, apresenta-se como um problema impossível. Não porque tenha por conseqüências aporias intransponíveis, mas porque o próprio ente que é tematizado recusa esse modo de colocar a questão. O que se deve não é provar o fato e como um <mundo exterior> é simplesmente dado, e sim de-monstrar por que a pre-sença,¹ enquanto ser-no-mundo, possui a tendência de 1º sepultar epistemologicamente o <mundo exterior> em um nada negativo para então permitir que ele ressuscite mediante provas.” “Se, nessa orientação ontológica, o modo de colocar a questão for <crítico>, encontra então um mero <interior> enquanto o único ser simplesmente dado certo e seguro.”

¹ A presença ainda muito sentida de Kant!

Na medida em que, na proposição existencial, não se nega o ser simplesmente dado dos entes intramundanos, ela concorda – por assim dizer doxograficamente [como que por analogia, pois a ‘opinião’ ou o método dá no mesmo desfecho] – com a tese do realismo. (…) O que a separa do realismo é a incompreensão ontológica de que sofre o realismo. Ele tenta esclarecer a realidade onticamente mediante o contexto efetivo e real entre as coisas reais.

Com relação ao realismo, o idealismo possui uma primazia fundamental, por mais oposto e insustentável que seja no que respeita aos resultados, desde que ele próprio não se compreenda equivocadamente como idealismo <psicológico>. Quando o idealismo acentua que ser e realidade apenas se dão <na consciência>, exprime, com isso, a compreensão de que o ser não deve ser esclarecido pelo ente [mundo, neste contexto]. Na medida, porém, em que não se esclarece o fato de aqui se dar uma compreensão do ser e o que diz ontologicamente essa compreensão, i.e., como lógica da pre-sença, o idealismo constrói no vazio a interpretação da realidade.”

Se o título idealismo significar o mesmo que compreender a impossibilidade de se esclarecer o ser pelo ente mas que, para todo ente, o ser já é o <transcendental>, então é no idealismo que reside a única possibilidade adequada de uma problemática filosófica.” Como já ressaltado, de uma forma um tanto estrambótica é que Kant e Schopenhauer adquiriram este saber. Kant é uma espécie de “mago da filosofia moderna” ao reunir os epítetos de campeão dos céticos (‘o’ criticista) e ao mesmo tempo o de formador da filosofia transcendental (sintética).

Se, porém, idealismo significar a recondução de todo ente a um sujeito ou a uma consciência que, por sua vez, se caracteriza como o que permanece indeterminado em seu ser, sendo, no máximo, caracterizado negativamente como uma <não-coisa>, [PRIVILEGIADO de forma inexplicável – o limite dos idealismos ‘fajutos’ de Fichte e Hegel – apesar da clivagem notável de qualidade e profundidade entre os 2, é precisamente aqui que um é tão raso quanto o outro…] então, do ponto de vista do método, esse idealismo se mostra tão ingênuo quanto o realismo mais grosseiro.” Sch. como que evita ou faz uma administração de danos nesse tocante ao tirar da “cartola ontológica” sua Vontade. Pois não é o indivíduo que rege seu sistema: a Vontade É a coisa-em-si. Nietzsche chega ainda mais longe: descarta a coisa-em-si, ‘aperfeiçoa’ a vontade, ao imanentizá-la ao máximo (limite da metafísica pré-fenomenológica no sentido husserliano?). Heidegger vai com asserção batizar esse método na continuidade deste parágrafo, sem citar o autor: “orientação ‘perspectivista’”.

Scheler como um elo entre o kantismo e o ‘ontologismo’ husserl-heideggeriano: fracassou porque apesar dos pequenos avanços fenomenológicos insistiu em que o problema estava no refino do aparato epistemológico, o que no entanto não é verdade, pois do ponto de vista epistemológico o kantismo já havia de certo modo chegado ao limite da questão nas bases ‘clássicas’.

[Em Dilthey] Realidade é resistência ou, mais precisamente, o conjunto das resistências. A elaboração analítica do fenômeno de resistência constitui o ponto positivo do referido tratado e a melhor confirmação concreta da idéia de uma <psicologia descritiva e classificatória>.” “[Porém] O <princípio da fenomenalidade> impediu Dilthey de chegar a uma interpretação ontológica da consciência.” “…a remissão ontológica da consciência ao próprio real, tudo isso necessita de uma determinação ontológica. [de onde vêm as vontades e seus freios à consciência?]” “Interpretar ontologicamente a pre-sença, porém, não significa uma recondução ôntica a um outro ente.”

A análise ontológica dos fundamentos da <vida> não pode ser acrescentada posteriormente como uma infra-estrutura. É ela que carrega e condiciona a análise da realidade, bem como toda explicação do conjunto das resistências e de suas pressuposições fenomenais.”

abre-se algo pelo que impulso e vontade se empenham.” “O próprio empenho… que se depara com resistência, e é o único que pode se deparar, já se acha junto a uma totalidade con-juntural.” “o <ser-contra> e o <ser oposto> são sustentados pelo ser-no-mundo que já se abriu. § Resistência também não é experimentada num impulso ou vontade que <emergem> por si mesmos. Impulso e vontade mostram-se como modificações da cura.”

Resistência caracteriza o <mundo externo>, no sentido dos entes intramundanos mas nunca no sentido de mundo. <Consciência da realidade> é ela mesma um modo de ser-no-mundo.

Caso o <cogito sum> deva servir como ponto de partida da analítica existencial da pre-sença, então é preciso não apenas revertê-lo mas reconfirmar, de modo ontológico-fenomenal, o seu conteúdo. A 1ª proposição seria: <sum> no sentido de eu-sou-em-um-mundo.” “Descartes diz, ao invés: cogitationes são simplesmente dadas”

* * *

A <natureza> que nos <envolve> é, na verdade, um ente intramundano [coisa] que, no entanto, não apresenta o modo de ser do que está à mão nem de algo simplesmente dado no modo de <coisidade da natureza>.”

realidade não possui primazia no âmbito dos modos de ser dos entes intramundanos, assim como esse modo de ser não pode ser caracterizado adequadamente, do ponto de vista ontológico, como mundo ou pre-sença.”

O fato de a realidade se fundar ontologicamente no ser da pre-sença não pode significar que o real só poderá ser em si mesmo aquilo que é se e enquanto existir a pre-sença.

De fato, apenas enquanto a pre-sença é, ou seja, a possibilidade ôntica de compreensão do ser, <dá-se> ser. Se a pre-sença não existe, também nem <independência> nem <em si> podem <ser>.” Sem o sujeito observador, o real não seria real.

Agora pode-se realmente dizer que, enquanto houver compreensão do ser e com isso compreensão do ser simplesmente dado, então o ente prosseguirá a ser.

A dependência caracterizada, não dos entes, mas do ser em relação à compreensão do ser, i.e., a dependência da realidade [de um modo do real] e não do real em relação à cura, assegura o prosseguimento da analítica da pre-sença de não resvalar numa interpretação não-crítica que, guiada pela idéia de realidade, sempre de novo tenta se impor.” Não existe um sentido indiferente para realidade.

O SER-DO-ENTE É SÓ O INÍCIO: “a compreensão do ser como ente [em si] só é possível se o ente possui o modo de ser da pre-sença.” “A primeira descoberta do ser-dos-entes com Parmênides <identifica> o ser com a compreensão que percebe o ser.” Descrever aquilo que é, como ele é, implica que a coisa tenha um ser. Logo, a preocupação sempiterna dos filósofos com o ser e a verdade eram, precipuamente, a preocupação com a relação ser e coisa.

A investigação toma agora um novo princípio.” “A investigação evidenciará que a questão sobre o modo de ser da verdade pertence necessariamente à questão sobre a <essência> da verdade. Daí se segue o esclarecimento do sentido ontológico da afirmação de que <verdade se dá> e do modo em que necessariamente <se deve pressupor> que <se dá> verdade.”

A VERDADE CLÁSSICA NA ERA TRÁGICA DOS GREGOS: “1. O <lugar> da verdade é a proposição (o juízo). 2. A essência da verdade reside na <concordância> entre o juízo e seu objeto. 3. Aristóteles, o pai da lógica, não só indicou o juízo como o lugar originário da verdade, como também colocou em voga a definição da verdade como <concordância>.”

O mundo é bom. Nós só temos de achar onde.

Isaak Israelis > Avicenna > Tomás de Aquino

A antiga e famosa questão, com a qual se supunha colocar os lógicos em apuros, é a seguinte: O que é verdade? Brentano

Verdade ou aparência não se encontram no objeto na medida em que ele se dá na intuição e sim no juízo a seu respeito, na medida em que é pensado.” Ainda uma questão da justa opinião de Parmênides…

Que caráter ontológico possuem essa opinião e essa coisa?

O que significa o termo <concordância>?”

Assinalar é uma relação entre o sinal e o assinalado mas não uma concordância. Decerto, nem toda concordância significa uma espécie de convenientia, tal como se fixou na definição da verdade. [Aristóteles e escolásticos] O número 6 concorda com 16 – 10. Os números concordam e são iguais, no tocante à quantidade. Igualdade é um modo de concordância. A ela pertence estruturalmente uma espécie de <perspectiva>.”

Em que perspectiva intellectus e res concordam?”

A <concordância> tem o caráter da relação <assim como>.”

APORIA: “Segundo a opinião geral, só o conhecimento é verdadeiro. Conhecer, porém, é julgar. Em todo julgamento, deve-se distinguir a ação de julgar enquanto processo psíquico real e o conteúdo julgado enquanto conteúdo ideal. Deste último, diz-se que é <verdadeiro>. Em contrapartida, o processo psíquico real é simplesmente dado ou não.” “Será um acaso o fato desse problema há mais de 2 milênios não sair do lugar? Ou será que o descaminho da questão consiste em seu ponto de partida, ou seja, na separação ontologicamente não-esclarecida entre real e ideal?” “Não será que a realidade do conhecimento e do juízo se rompe em 2 modos de ser ou <camadas>, cuja sutura jamais chegará a alcançar o modo de ser do conhecimento?” “A definição aparentemente arbitrária, [feita por nós, os fenomenólogos] contudo, apenas traz uma interpretação necessária daquilo que a tradição mais antiga da filosofia pressentiu de maneira originária, e chegou a compreender pré-fenomenologicamente.”

A tradução pela palavra verdade e, sobretudo, as determinações teóricas de seu conceito encobrem o sentido daquilo que os gregos, numa compreensão pré-filosófica, estabeleceram como fundamento <evidente> do uso terminológico de ALETHEIA.

A adução desses testemunhos deve resguardar-se de uma mística desenfreada das palavras; entretanto, o ofício da filosofia é, em última instância, preservar a força das palavras mais elementares, em que a pre-sença se pronuncia a fim de que elas não sejam niveladas à incompreensão do entendimento comum, fonte de pseudoproblemas.”

A <definição> proposta da verdade não é um repúdio da tradição mas uma apropriação originária” “A <definição> da verdade como descoberta e ser-descobridor também não é uma mera explicação de palavras. (…) Ser-verdadeiro enquanto ser-descobridor é um modo de ser da pre-sença. O que possibilita esse descobrir em si mesmo deve ser necessariamente considerado <verdadeiro>, num sentido ainda mais originário.” “A presença [enquanto em modo de ser mais próprio, e não da impropriedade mundana e cotidiana] é e está <na verdade>.” “A verdade da existência é a abertura mais originária e mais própria que o poder-ser da pre-sença pode alcançar.” “Em sua constituição ontológica, a pre-sença é e está na <não-verdade> porque é, em sua essência, de-cadente.” “É por isso que, em sua essência, a pre-sença tem de explicitamente tomar posse do que se descobriu contra a aparência e a distorção e sempre se reassegurar da descoberta.” “A descoberta em seu fato é, ao mesmo tempo, um roubo.” “O fato da deusa-verdade de Parmênides colocá-lo diante de 2 caminhos, um do descobrimento, e outro do velamento, significa simplesmente que a pre-sença já está sempre na verdade e na não-verdade. O caminho do descobrimento só é conquistado na cisão compreensiva entre ambos e no decidir-se por um deles.”

O que se pronuncia [proposições epistemológicas] torna-se, por assim dizer, um manual intramundano que pode ser retomado e propagado.” “A proposição pronunciada é um manual de tal modo que traz em si mesma uma remissão ao ente descoberto, na medida em que preserva a descoberta.” “A própria remissão se dá como algo simplesmente dado.”

O juízo contém algo que vale para os objetos” Kant

Modo impróprio: descoberta conformidade (ouvir-dizer – a pre-sença se fecha no falatório), i.e., concordância

Com isso fica demonstrado o caráter ontologicamente derivado do conceito tradicional de verdade.” Refutação da lógica aristotélica ou não-lógica da pre-sença.

A tese de que o <lugar> genuíno da verdade é o juízo não apenas é erroneamente atribuída a Aristóteles como constitui, no que respeita a seu conteúdo, um desconhecimento da estrutura da verdade.” “A <verdade> mais originária é o <lugar> da proposição e a condição ontológica de possibilidade para que a proposição possa ser verdadeira ou falsa [juízo apofântico].”

As leis de Newton, o princípio de contradição, toda verdade em geral só é verdade enquanto a pre-sença é. Antes da pre-sença e depois da pre-sença não havia verdade e não haverá verdade porque, nesse caso, a verdade não pode ser enquanto abertura, descoberta e descobrimento.” “As leis de Newton, antes dele, não eram nem verdadeiras nem falsas. Isso não pode significar que o ente que elas, descobrindo, demonstram não existisse antes delas. As leis se tornam verdadeiras com Newton.” A mesma bastardização evidentecopiada por Latour no fim do mesmo século. “Veja que os micróbios já existiam, só não para a ciência pré-microbiológica!”

O fato de se darem <verdades absolutas> só pode ser comprovado de modo suficiente caso se logre demonstrar que, em toda a eternidade, a pre-sença foi e será. Enquanto não houver essa prova, a sentença será apenas uma afirmação fantástica que não recebe nenhuma legitimidade apenas porque os filósofos geralmente nela <acreditaram>.” Enquanto o homem existir, haverá verdade. Somos o novo absoluto. O homem e o deus-do-homem são a medida inexorável de todas as coisas.

Será que a verdade, compreendida de modo adequado, se vê lesada pelo fato de, onticamente, só ser possível no <sujeito>, e de depender do ser-do-sujeito?”

Não somos nós que pressupomos a <verdade>, mas é ela que torna ontologicamente possível que nós sejamos de modo a <pressupor> alguma coisa. A verdade possibilita pressuposições.

O que diz <pressupor>? Compreender alguma coisa como a base e o fundamento do ser de um outro ente.” “Devemos <fazer> a pressuposição de verdade porque ela já se <fez> com o ser do <nós>.”

<Em si> não se pode perceber por que o ente deve ser descoberto, por que deve haver verdade e pre-sença. A objeção corriqueira do ceticismo, a negação do ser ou da possibilidade de se conhecer a <verdade> estão a meio caminho.” O ceticismo demonstra que “a verdade pertence à[o modo de ser da] proposição”. “Ademais, desconsidera-se o fato de que, mesmo quando ninguém emite um juízo, já se pressupõe a verdade na medida em que a pre-sença é.”

O cético, quando o é de fato, no modo da negação da verdade, não precisa ser refutado. Na medida em que é e se compreendeu nesse ser, ele dissolve a pre-sença e, com isso, a verdade, no desprezo do suicídio.” “a pre-sença não pode ser colocada para si mesma à prova.”

CONTRA O SUJEITO IDEAL: “Não pertence ao a priori do sujeito de fato [empírico], ou seja, à facticidade da pre-sença, a determinação de que ela é e está, de modo igualmente originário, na verdade e na não-verdade?” A partir de qualquer instante, a partir de qualquer local. “A recusa de uma <consciência em geral> não significa a negação do a priori assim como a suposição de um sujeito idealizado não garante a aprioridade da pre-sença fundada no real. § Afirmar <verdades eternas> e confundir a <idealidade> da pre-sença, fundada nos fenômenos, com um sujeito absoluto e idealizado, pertencem aos restos da teologia cristã no seio da problemática filosófica, que de há muito não foram radicalmente expurgados.” [DV]

Mas será que com o fenômeno da Cura se abriu a constituição ontológico-existencial mais originária da pre-sença? Será que a multiplicidade estrutural, que se encontra no fenômeno da Cura, oferece a totalidade mais originária do ser de fato da pre-sença? Será que a investigação feita até aqui já permitiu ver o todo da pre-sença?” Só o tempo nos dirá, mas não no âmbito de Heidegger…

DIC:

apofântico: “[Lógica] Na lógica aristotélica, relativo aos enunciados verbais possíveis de serem falsos ou verdadeiros.” Ao dizer isso, Aristóteles diz que a palavra, isto é, o logos, conhecimento, pode ser verdadeiro ou falso, dependendo do contexto em que o discurso é enunciado ou proposto.

originário (em Heidegger): aquilo que é próprio e autêntico, pertencente ao ser-aí no seu sentido mais profundo e existencial, além de já contemplar a própria existencialidade, i.e., um projeto totalizante da vida. O mal-entendido com a função de “mais antigo” que poderia adquirir para um leitor incauto se deve à noção de “preceder-se a si mesmo” do ser-aí.

FIM DO PRIMEIRO VOLUME

SEGUNDA SEÇÃO:

Pre-sença e temporalidade [de certo modo decepcionante, pálido reflexo da 1ª]

Mas o que significa originariedade de uma interpretação ontológica?”

Toda interpretação possui sua posição prévia, visão prévia e concepção prévia. No momento em que, enquanto interpretação, se torna tarefa explícita de uma pesquisa, então o conjunto dessas <pressuposições>, que denominamos de situação hermenêutica, necessita de um esclarecimento prévio que, numa experiência fundamental, assegure para si o <objeto> a ser explicitado. Uma interpretação ontológica deve liberar o ente na constituição de seu próprio ser.”

Uma interpretação ontológica originária, no entanto, não exige somente uma situação hermenêutica segura e ajustada aos fenômenos, mas deve assegurar-se, explicitamente, de ter levado todo o ente tematizado a sua posição prévia. Também não é suficiente uma descrição preliminar do ser-desse-ente, mesmo que fundada em bases fenomenais. A visão prévia do ser deve respeitar-lhe, sobretudo, a unidade dos momentos estruturais possíveis e pertinentes. Só então é que se pode colocar e responder com segurança fenomenal a questão do sentido da unidade da totalidade ontológica de todo o ente.

Será que a análise existencial da pre-sença, anteriormente realizada, nasceu de uma tal situação hermenêutica, de modo a se ter conquistado uma garantia de originariedade, exigida pela ontologia fundamental?”

a caracterização ontológica da constituição existencial ainda guardou uma falta essencial.” “[Já que investigamos a pre-sença em sua medianidade a fundo apenas,] Enquanto não se incorporar a estrutura existencial do poder-ser próprio à idéia de existência, a visão prévia, orientadora de uma interpretação existencial, ressentir-se-á de originariedade.”

A cotidianidade é justamente o ser <entre> nascimento e morte.” “O ente cuja essência é constituída pela existência resiste, de modo essencial, à sua possível apreensão como ente total. A situação hermenêutica não apenas não assegurou a <posição> de todo o ente como é até questionável se isso, por fim, se pode alcançar e se uma interpretação ontológica originária da pre-sença não estará fadada ao fracasso, considerando-se o modo de ser do próprio ente tematizado.” Confissões, do ex-seminarista Martin Heidegger

O <fim> do ser-no-mundo é a morte.”

conceito existencial da morte”

a morte é um ser-para-a-morte existenciário [ôntico]”

Mas será que a pre-sença pode existir toda ela de modo próprio?”

um poder-ser próprio da pre-sença reside no querer-ter-consciência.” Já sempre quis e já sempre teve (o homem).

Provavelmente um terceiro volume teria de se embrenhar na questão: CURA & TÉCNICA.

A cotidianidade desentranha-se como modo da TEMPORALIDADE.”

a cura deve precisar de <tempo> e, assim, contar com <o tempo>.”

conceito tradicional de tempo”

temporalidade e intratemporalidade “temporalização da temporalidade”;

temporalização ainda mais originária da temporalidade”

O projeto de um sentido do ser em geral pode-se realizar no horizonte do tempo.”

(*) “No séc. XIX, Kierkegaard concebeu, explicitamente, o problema da existência como existenciário, refletindo a seu respeito com profundidade. (…) ele, contudo (…) encontra-se inteiramente sob o domínio de Hegel e da filosofia antiga vista por este último.” Como que de propósito, parece que não haverá uma singular referência ao filósofo que tem a chave potencial da hermenêutica metafísica de Heidegger…

Para aprofundamento em Kierkegaard neste blog: https://seclusao.art.blog/2017/06/14/a-dialetica-da-fe-em-kierkegaard-marieta-pinho-tese-de-mestrado/ ; https://seclusao.art.blog/2017/11/30/diario-de-um-sedutor/ .

1. A POSSIBILIDADE DA PRE-SENÇA SER-TODA E O SER-PARA-A-MORTE

A possibilidade da pre-sença ser-toda contradiz, manifestamente, a cura que, de acordo com seu sentido ontológico, constitui a totalidade do todo estrutural da pre-sença.” Tradução para nosso idioma: A possibilidade do instante em primeira pessoa (o momento presente) ser um todo universal e completo, autônomo, contradiz de forma óbvia a existência do início ao fim do ser, i.e., sua vida em si mesma, que abarca o próprio instante, aliás, milhões de instantes, sendo ela realmente a última instância.

O especial do instante é que no momento primordial da vida, ele já estava lá.

A falta de esperança, p.ex., não retira a pre-sença de suas possibilidades, sendo apenas um modo próprio de ser para essas possibilidades.” “Contudo, esse momento estrutural da cura diz, sem ambigüidades, que, na pre-sença, há sempre algo pendente, que ainda não se tornou <real>, como um poder-ser de si mesma.” E nem irá.

(*) “Reservou-se findar para exprimir o fim próprio da pre-sença [senciência] e finar para o fim dos demais seres vivos.”

(*) “A palavra portuguesa impendente exprime a experiência do que é iminente. [de forma bem ruim, eu diria!] Por conservar a mesma derivação de pendente [e no alemão –stand] traduziu-se Bevorstand por impendente.” Na verdade a tradução se escurou no Inglês, em que impending = iminente.

(*) “SELBST = SI-MESMO

Cf. N34 da 1ª parte, o termo alemão selbst exprime tanto próprio como si-mesmo. Considerando-se que na 2ª parte o que está em questão é o poder-ser todo em sentido próprio da pre-sença, a tradução deixou predominar o termo si-mesmo para diferenciar, no horizonte da identidade, de próprio (eigen).”

(*) “Ruf e todos os seus derivados provêm do verbo rufen cujo sentido é chamar. Os desdobramentos e as nuanças dessa experiência se explicitam através das derivações oriundas do acréscimo de prefixos cujas correspondências em português se procurou construir com as derivações por prefixo do étimo latino clamor.”

(*) “ENTSCHLOSSENHEIT = DE-CISÃO [DESTRANCABILIDADE, retorno à unidade]

A palavra alemã é um derivado do verbo schliessen que significa fechar, trancar. O prefixo ent acrescenta a idéia de um movimento em sentido contrário e daí o significado de destrancar, abrir. Uma das modalidades de exercício da pre-sença é o destrancar-se e abrir-se para… que, no tocante à dinâmica de si-mesma, designa a experiência de determinação, resolução. [de-terminação, re-solução, acabamento] Para exprimir toda essa envergadura de sentido, a tradução se valeu do processo semelhante designado pela palavra de-cidir, de-cisão cujo sentido primordial se constrói em torno do movimento de arrancar, separar (scindere).”

(*) DE VOLTA À ANTROPOLOGIA NIETZSCHE-MAUSSIANA (Ver O desejo de Deleuze):¹ “O sentido originário de Schuld usado por H. explica claramente no texto em que medida é justificada a tradução desse termo por débito.”

¹ https://clubedeautores.com.br/livro/o-desejo-de-deleuze – Livro autoral, cerca de R$40,00 na versão ebook. Ver especialmente pp. 49-50.

(*) “Porque Zukunft [futuro] é uma derivação de zukommen (ad-vir), a tradução guardou o termo porvir.”

(*) “GEWESENHEIT = VIGOR DE TER SIDO [era melhor simplesmente VIGORADO, que já contém a essência da explicação que segue, mantém a brevidade e a terminação de PASSADO!]

A palavra alemã é uma derivação do verbo wesen que significa vigir, vigorar, estar em vigor. Como substantivo, Gewesenheit e seus derivados conotam a dupla experiência de uma força que já se instalou e que continua atuante. Por isso a tradução optou pela expressão vigor de ter sido.”

(*) “GEGENWART = ATUALIDADE

GEGENWÄRTIGEN = ATUALIZAÇÃO

VERGEGENWÄRTIGEN = TORNAR ATUAL

A palavra Gegen-wart se compõe do verbo warten = esperar e da preposição gegen = contra e diante de. A palavra portuguesa presente não exprime, de modo algum, a conotação de adversidade e resistência ativas à espera. Uma vez que o horizonte ontológico de Gegenwart remete primordialmente à ação, a tradução reservou o termo atualidade para exprimir Gegenw.. Atualidade deriva-se do verbo agere = agir e conota a força de impor-se-a-…, guardando pois a dimensão de oposição e resistência.”

(*) “GEWÄRTIGEN = ATENDER

(…) ad-tendere = tender para, empenhar-se por.”

No momento, porém, em que a pre-sença <existe>, de tal modo que nela nada mais esteja de forma alguma pendente, ela também não-mais-está-presente. Retirar-lhe o que há de pendente significa aniquilar o seu ser. [nada de poder-ser nem responsabilidade nem pôr-se em jogo]

E não se estaria, no fundo, supondo, sem nem se dar conta, a pre-sença como ser simplesmente dado, da qual sempre escaparia algo que simplesmente ainda não se deu?” Malandro nietzschiano! “Terá a argumentação apreendido o ainda-não-ser e o <preceder> em sentido genuinamente existencial?” R: Não!

Teria a expressão <morte> um sentido biológico ou ontológico-existencial ou ainda um sentido delimitado de modo seguro e suficiente?” A despeito de que haja cem por cento de certeza que ela irá acontecer, não conte com o fenômeno da sua morte (enquanto em seu ser-aí próprio, para usar a nomenclatura de H.).

HOMEM: O animal que: pode experimentar a morte alheia.

Levando-se ao extremo, o não-mais-ser-no-mundo do morto ainda é também um ser, na acepção do ser simplesmente dado de uma coisa corpórea. (…) O fim de um ente, enquanto pre-sença, é o seu princípio como mero ser simplesmente dado.”

preocupação reverencial”

É a partir do mundo que os que ficam ainda podem ser e estar com ele.”

Esse encaminhamento me surpreendeu: “A indicação da morte dos outros como tema sucedâneo para a análise ontológica da conclusão e totalidade da pre-sença repousa ainda sobre uma pressuposição, que mostra um inteiro desconhecimento do modo de ser da pre-sença.”

Porém… “Mas será, na realidade, essa pressuposição tão desprovida de fundamento?”

O conceito médio de exitus não se identifica com o conceito de finar.” Semelhança acústica desconcertante com êxito. Exeunt.

Estar pendente e faltar são co-pertinentes.”

Estar pendente significa, portanto: o que é co-pertinente ainda não está a-juntado.”

suce-SÃO

Na coisa (ente), faltas ou pendências são determinadas por somas de outras coisas que, na terminologia heideggeriana, “estão à mão”, i.e., simplesmente dadas.

A quarta dimensão do problema do ser é, portanto, o tempo, aquilo que liga o que somos ao que falta sermos, ao que seremos.

Pode-se dizer, p.ex., da lua que o último quarto ainda está pendente até chegar à lua cheia. O ainda-não míngua com o desaparecimento da sombra que oculta.” “Esse ainda-não refere-se unicamente à apreensão perceptiva.” Porque, na lua nova, é impendente o surgimento da lua cheia. (ciclo natural)

O fruto imaturo, p.ex., encaminha-se para o seu amadurecimento.” E lá vai Hegel…

O que alcançou a maturidade quer morrer (desaparecer, regredir, etc. – aquilo que for possível segundo o objeto tratado!).

a pre-sença tem tão pouco necessidade da morte para chegar à maturidade que ela pode ultrapassá-la antes do fim.” Ex: o humano mantido em animação artificial sem sinais vitais no cérebro.

Em que sentido a morte deve ser concebida como findar da pre-sença?”

MORTE QUÂNTICA: “Na morte, a pre-sença nem se completa, nem simplesmente desaparece nem acaba e nem pode estar disponível à mão.”

A morte é um modo de ser que a pre-sença assume no momento em que é. <Para morrer basta estar vivo>.”

A tentativa de se alcançar uma compreensão da totalidade, dotado do caráter de pre-sença, tomando-se como ponto de partida um esclarecimento do ainda-não e passando-se pela caracterização do fim, não logrou sua meta. Ela só mostrou negativamente que o ainda-não, que cada pre-sença é, recusa sua interpretação como o pendente.”

Essa pesquisa ôntico-biológica da morte tem por base uma problemática ontológica. Permanece em questão como a essência da morte se determina a partir da essência ontológica da vida. De certo modo, a investigação ôntica da morte sempre-já se decidiu sobre essa questão.” O século XX seria o século-mor dessa “representação ôntica esclarecida”.

a pre-sença nunca fina.”

a presença nunca afina

agora ela não afina, nem ontem, nem amanhã,

porque ela é grossa e ríspida,

invencível insuperável!

pode te deitar por terra

num instante…

Uma <tipologia> do <morrer>, entendida como caracterização dos estados e dos modos em que se <vivencia> esse deixar de viver, já pressupõe o conceito de morte. Ademais, uma psicologia do <morrer> acaba fornecendo mais soluções sobre a <vida> <dos que morrem> do que propriamente sobre o morrer.”

Mas que bosta pára-normal se tornou esse tratado? “Caso se determine a morte como <fim> da pre-sença, i.e., do ser-no-mundo, ainda não se poderá decidir onticamente¹ se, <depois da morte>, um outro modo de ser, seja superior ou inferior, é ainda possível, se a pre-sença <continua vivendo> ou ainda se ela é <imortal>, sobrevivendo a si mesma.” Embora devamos conceder que quando H. põe entre aspas significa que não sai da “boca dele”. Ainda assim, sinto saudade da assertividade do século XIX, que FIN(D)OU no subseqüente.

¹ Verdade que – ontologicamente – a história é outra…

Por fim, tudo o que se possa discutir sob a rubrica de uma <metafísica da morte> extrapola o âmbito de uma análise existencial da morte.” Existencial, ontológico e metafísico deveriam querer dizer a mesma coisa. Esse embrulho todo não enriquece a Primeira filosofia…

Desde S. Paulo à Meditatio futurae vitae de Calvino, a antropologia elaborada na teologia cristã sempre viu a morte no seio da interpretação da <vida>. W. Dilthey, cujas tendências propriamente filosóficas se encaminham para uma ontologia da <vida>, não podia deixar de reconhecer o seu nexo com a morte.”

Unger, Herder, Novalis und Kleist. Studien über die Entwicklung des Todesproblems im Denken und Dichten von Sturm und Drand zur Romantik, 1922.

Para a pre-sença, enquanto ser-no-mundo, muitas coisas podem ser impendentes.” “o impendente privilegiadoMas impendente é tão feio que usarei sempre iminente destarte.

A iminência dos im-postos e não-postos e expostos e outpostos e sobrepostos e depostos.

A angústia com a morte é angústia <com> o poder-ser mais próprio, irremissível e insuperável. O próprio ser-no-mundo é aquilo com que a angústia se angustia.”

Quem está lançado atinge um alvo.

Vampiros ou deuses ainda são humanos na fenomenologia.

O discurso pronunciado ou, no mais das vezes, <difuso> sobre a morte diz o seguinte: algum dia, por fim, também se morre mas, de imediato, não se é atingido pela morte.” “mas eu não; pois esse impessoal é o ninguém.” “Escapar da morte encobrindo-a domina, com tamanha teimosia, a cotidianidade que, na convivência, os <mais próximos> freqüentemente ainda convencem o <moribundo> que ele haverá de escapar da morte e, assim, retornar à cotidianidade tranqüila de seu mundo de ocupações.”

Em seu conto A Morte de Ivan Illich, Tolstoi expôs o fenômeno do abalo e do colapso desse <morre-se impessoal>.”

No domínio público, <pensar na morte> já é considerado um temor covarde, uma insegurança da pre-sença e uma fuga sinistra do mundo.” É o estóico um covarde? “A cotidianidade pára no momento em que admite ambiguamente a <certeza> da morte a fim de enfraquecê-la e de aliviar o estar-lançado na morte, encobrindo ainda mais o morrer.”

Estar-certo de um ente significa: ter por verdadeiro enquanto verdadeiro.”

Assim como o termo <verdade>, a expressão <certeza> possui um duplo significado.”

O ter-por-verdadeiro, enquanto manter-se-na-verdade, só se torna suficiente quando está fundado no próprio ente descoberto e se faz transparente como um ser-para-o-ente-assim-descoberto” “A suficiência do ter-por-verdadeiro se mede pela pretensão de verdade a que pertence.” “A certeza inadequada mantém encoberto aquilo de que está certa.”

é certo que <a> morte vem.” A morte é o inferno, porque é temática para-os-outros.

Ela permanece necessariamente aquém do maior grau de certeza, da certeza apodítica, alcançada em certas esferas do conhecimento teórico.”

pensar-na-morte cansado e ineficaz”

A indeterminação da morte certa determina as ocupações cotidianas, colocando-lhes à frente as urgências e possibilidades previsíveis do cotidiano mais próximo.”

O escape de-cadante e cotidiano da morte é um ser-para-a-morte impróprio.” “Enquanto não se elaborar e determinar ontologicamente esse ser-para-a-morte em sentido próprio, a interpretação existencial do ser-para-o-fim perpetuará uma falta essencial.”

se, como, quando

É a partir do real e com vistas a ele que o possível é absorvido no real pela espera.”

Como possibilidade a proximidade mais próxima do ser-para-a-morte se acha, face ao real, tão distante quanto possível.”

rei-vindicação

a pre-sença só pode ser propriamente ela mesma quando ela mesma dá a si essa possibilidade.” Quando o instante reflete em si mesmo, i.e., no único, no singular que é estar neste irremissível.

Antecipando, a pre-sença evita recuar para trás de si mesma e da compreensão de seu poder-ser, evitando <tornar-se velha demais para as suas vitórias> (Nietzsche).” Finalmente cita sua inspiração-mor!

Porque a antecipação da possibilidade insuperável inclui em si todas as possibilidades a sua frente, nela reside a possibilidade de se tomar previamente de modo existenciário toda a pre-sença, ou seja, a possibilidade de existir como todo o poder-ser.” Modo complicado de dizer: apreender a finitude da existência. Aprender a ocupar-se se preocupando ao mesmo tempo.

Manter-se nessa verdade, ou seja, estar certo do que se abriu, exige justamente a antecipação.” Ninguém (nenhum “jovem”) tem qualquer abertura cotidiana para o fato de que é possível que morra antes dos 50. Eu sou o único que conheço a seguir esse “prazo”. Obviamente tenho planos para além do prazo, que no caso é a extensão-prorrogação do meu atual projeto. Se isso não se cumprir, não há prejuízo (como se houvesse prejuízos para um morto)… Se isso se cumprir, não há prejuízo, porque me preparo! Digo, minha biografia não será “manchada” ou “diminuída” na 1ª hipótese. Preciso agora cuidar com “pressa não-apressada” do que eu julgo mais importante. O deadline convertido em death-line. #NowPlaying Tribulation – Lady Death

Para se alcançar a coisalidade, ou seja, a indiferença da evidência apodítica, a pre-sença precisa, primeiramente, perder-se na conjuntura das coisas – o que pode até constituir uma tarefa e uma possibilidade da cura.”

O ser ou não ser de Hamlet é uma antecipação exitosa ou falhada?

Talvez que ele só quisesse, como bom esgrimista, saber se iria ven-ser ou não ven-ser (pun intended).

Como a compreensão antecipadora se projeta para um certo poder-ser continuamente possível, de maneira que sempre fique indeterminado quando a absoluta impossibilidade da existência tornar-se-á enfim possível?” Temos que ter um plano B para cada dia após o limite auto-estipulado em que sobrevivermos.

O ser-para-a-morte-próprio é essencialmente angústia.”

SOBRE O SER-PARA-A-MORTE-IMPRÓPRIO: angústia infundada perigo real de morte temor covardia (o “não é possível que isso está acontecendo! agora não! o que farei?”, tão amado pelos filmes de terror hollywoodianos… – A PRÉ-ERA DA ANGÚSTIA)

Com isso, surge também a possibilidade de a pre-sença poder-ser toda em sentido próprio, mas somente como uma possibilidade ontológica.” “Apesar disso, esse ser-para-a-morte existencialmente <possível> permaneceu, do ponto de vista existenciário, uma suposição fantástica.” Um fenômeno fantástico.

(s)urge do nada

A questão sobre um ser todo da pre-sença em sentido próprio e sua constituição existencial só poderá ser colocada em bases fenomenais consistentes quando se conseguir atá-la a uma possível propriedade de seu ser, testemunhada pela própria pre-sença.” No fundo, o livro responde (ou se digna a tentar responder) apenas uma pergunta: quem tem a hegemonia, o impróprio ou o próprio do ser-aí?

2. O TESTEMUNHO SEGUNDO O MODO DE SER DA PRE-SENÇA, DE UM PODER-SER EM SENTIDO PRÓPRIO E A DE-CISÃO

Recuperar a escolha significa escolher essa escolha, decidir-se por um poder-ser a partir de seu próprio si-mesmo.” “A auto-interpretação cotidiana da pre-sença conhece como voz da consciência aquilo que a seguir apresentaremos como testemunho.”

A exigência de uma <prova empírico-indutiva> para o <fato> da consciência e para a legitimidade de sua <voz> significa uma deturpação ontológica desse fenômeno.” O modo de ser da consciência não é empírico.

A análise mais profunda da consciência a desentranha como clamor. O clamor é um modo de discurso.

Você (eu!) me deve uma satisfação!

A interpretação da consciência haverá não apenas de ampliar a análise anterior da abertura do mas, sobretudo, de apreendê-la de forma mais originária com vistas ao ser da pre-sença em sentido próprio.” “a pre-sença <sabe> a quantas ela mesma anda na medida em que se projetou em possibilidades de si mesma ou, afundando-se no impessoal, recebeu da interpretação pública do impessoal as suas possibilidades.”

o próprio do impessoal” X “o próprio de si-mesma”

O meu clamor se deu aos 19-21 anos. Quando eu me tornei eu mesmo.

Devemos lembrar que a verbalização não é essencial nem para o discurso e nem para o clamor.”

sobressalto brusco” “Só é atingido pelo clamor quem se quer recuperar.”

Face a um fenômeno como a consciência, salta logo aos olhos a insuficiência ontológico-antropológica da classificação das faculdades da alma ou dos atos pessoais.”

Além das interpretações da consciência empreendidas por Kant, Hegel, Schopenhauer e Nietzsche deve-se atentar para: M. Kähler, Das Gewissen, erster geschichtlicher Teil, 1878, e o artigo do mesmo autor na Realenzyklopädie f. prot. Theologie und Kirche. Além disso: A. Ritschl, Über Gewissen, 1876, reeditado nos Gesammelte Aufsätzen, 1896, p. 177s. E, por fim, a monografia há pouco publicada de H.G. Stoker, Das Gewissen (Schriften zur Philosophie und Soziologie, ed. por Max Scheler, tomo II, 1925). (…) [apesar de seus inúmeros defeitos,] A monografia de Stoker significa um avanço considerável frente à interpretação da consciência feita até hoje, mais pelo tratamento abrangente dos fenômenos da consciência e de suas ramificações do que pela de-monstração das raízes ontológicas do fenômeno.”

Para que perspectiva se aclama? Para si-mesmo em sentido próprio. E não para aquilo que vale na convivência pública, não para o que ela pode ou de que se ocupa e, sobretudo, não para aquilo que a toma ou pelo que se engajou e se deixou arrastar.” “o impessoal sucumbe em si mesmo.” “Justamente no ultrapassar, o clamor empurra o impessoal para a insignificância.”

O si-mesmo não é um cientista investigador nem o comum dos mortais movido pela curiosidade (ocupações banais, ônticas).

O que a consciência de-clama para o aclamado? Em sentido rigoroso, nada.”

nada tem para contar”

Não se trata de dialética

É um chamamento. Com toda a incompreensão associada às religiões que isso pode desencadear. Afinal, é uma re-ligação.

O discurso da consciência sempre e apenas se dá em silêncio.”

Ao sair de casa, abandone todas as esperanças (contato com-os-outros), lia-se no pórtico acima da portaria do próprio prédio, mas virado não para os pedestres ou eventuais visitas, e sim para o morador que sai para o trabalho…

O que o clamor abre é, não obstante, unívoco e preciso, mesmo que possa sofrer interpretações diversas, segundo as possibilidades de compreensão de cada pre-sença singular. [umas mais, outras menos burras]”

intramundane divine intervention

o clamor é infalível: o sabor amargo da água é mera culpa do recipiente

Heidegger pensa que está inovando e abrindo novos horizontes filosóficos, mas tudo a que chega é a uma reescritura de Platão, ou seja, esta é uma obra sobre “o que é ser filósofo, afinal?”: “Embora jamais se descaracterize, quem clama também não oferece a menor possibilidade de tornar o clamor familiar para uma compreensão da pre-sença orientada <mundanamente>.”

ele [o indeterminado] não aceita tagarelices a seu respeito.” O falatório, quem diria, é ensimesmado.

DANADINHO: “Na condição de aclamada, a pre-sença não se a-pre-senta diferentemente do que como clamante? Não será o seu poder-ser si-mesmo mais próprio o clamante?”

E a ironia do destino é que o clamor é impessoal! Outro “impessoal” que o heideggeriano…

(em azul, porque essa é minha própria história:) “O clamor <se faz> contra toda espera e mesmo contra toda vontade. Por outro lado, [ou pelo mesmo lado] o clamor, sem dúvida, não provém de um outro que é e está no mundo junto comigo. O clamor provém de mim e, no entanto, por-sobre-mim.” É o demônio de Sócrates, ingênuo Heidegger!

atribui-se [na pre-sença dos burros] essa força instalada a alguém que dela tem posse ou ainda se a toma como uma pessoa que anuncia (Deus).” O erro fatal dos escravos do ser como simplesmente dado.

Embora possa ficar velado para a pre-sença o seu porquê, o fato de ela ser de fato (sic) implica que o próprio <fato> já se tenha aberto para a pre-sença.”

Na maior parte das vezes, porém, o humor fecha o estar-lançado.”

a facilidade da liberdade pretendida pelo próprio-impessoal.” A questão é que para o filósofo o clamor é muito mais fácil do que “a liberdade lá fora”!

o fato <cru> no nada do mundo.”

O que poderia ser mais estranho para o impessoal, perdido no <mundo> das múltiplas ocupações, do que o si-mesmo singularizado na estranheza de si e lançado no nada?”

O que mais retira tão radicalmente da pre-sença a possibilidade de deturpar a compreensão e o conhecimento de si do que a entrega e o abandono de si mesma?”

Estranheza é, na verdade, o modo fundamental mas encoberto de ser-no-mundo.”

A sentença: a pre-sença é, ao mesmo tempo, quem clama e o aclamado, perde agora o seu vazio formal e a sua evidência. A consciência revela-se como clamor da cura

Conclama-se a pre-sença, aclamando-a para sair da de-cadência no impessoal”

Ei, você se precede a si mesmo, escute isso!”

Conhece-te o que és!

Torna-te aquilo que é a ti mesmo!

a mescla de me

voz universalmente obrigatória”

Essa aclamação afirmada nasce da <boa> ou da <má> consciência? Será que a consciência propicia algo positivo ou só funciona criticamente?”

O que a consciência testemunha só poderá adquirir plena determinação caso se delimite, com clareza e suficiência, o caráter que deve ter o ouvir que genuinamente corresponde ao clamor.”

Todas as experiências e interpretações da consciência convêm, de alguma maneira, que a <voz> da consciência fala de <débito>.” Ulisses, tu precisas fechar teu círculo! – demônio Atena

Quem diz que nós somos e estamos em débito e o que significa débito?” Somos Adãos (Adões?) melhorados. Porque nascemos já adultos, mas com um verdadeiro passado infantil, ao contrário do protótipo de homúnculo cristão. Aprendemos a duras penas sobre a responsabilidade, não é comendo maçãs (malus) que lá chegamos… Não há cobra nesse conto. E é uma ascensão. Homem-foguete incircunciso.

eu sou, logo devo (uma vida e uma morte)

MUNDO PRÉ-NIETZSCHIANO: “De imediato, a compreensão cotidiana toma o <ser e estar em débito> no sentido de uma <dívida>, de <ter o rabo preso com alguém>.” Da alma com o corpo. Ou antes o inverso.

ser a causa de alguma coisa”

Jesus é incompleto porque ele ainda se relaciona com o conceito de cura e débito dessa forma: pago pelos outros, sinto-culpa-com-os-outros. Porém, o clamor é apenas de si para si mesmo. A culpa verdadeira é autógena. Aquele que morreu por nós não importa mais: eu sou aquele que morrerá por mim mesmo.

EXISTIR É PESADO E SÓLIDO:

O fundamento não precisa retirar o seu nada do que é por ele fundamentado.”

Existindo, a pre-sença é o fundamento de seu poder-ser porque só pode existir como o ente que está entregue à responsabilidade de ser o ente que ela é. Embora não tendo ela mesma colocado o fundamento, a pre-sença repousa em sua gravidade que, no humor, se revela como carga.”

Ser-fundamento diz, portanto, nunca poder se apoderar do ser mais próprio em seu fundamento. [a existência]”

a própria pre-sença é um nada de si mesma.”

Sem dúvida, a ontologia e a lógica atribuíram coisas demais ao não, tornando extensamente visível a sua possibilidade sem, no entanto, o ter desentranhado ontologicamente.”

Porque toda dialética foge para a negação, sem fundamentar, dialeticamente, a própria negação mesmo que só para fixá-la como problema? Já se problematizou alguma vez a origem ontológica do nada ou, antes disso, já se buscaram as condições desse nada sobre as quais se funda o problema do não, de seu nada e de sua possibilidade?” Sim. Nie..

o bonum e a privatio possuem a mesma proveniência ontológica que a ontologia do ser simplesmente dado, que se aplica igualmente à idéia de <valor> dela <haurida>.”

Não se pode determinar o ser e estar em débito originário pela moralidade porque ela já o pressupõe.”

Conclamação do ser e estar em débito não significaria, portanto, conclamação do mal?” Por que retroagir tanto, pulando o – ou dando as costas ao – século XIX, H.?

Essa interpretação[, a] mais violenta de todas”

Algumas vezes na leitura, Heidegger parece me dizer: Só é necessário provar e comprovar aquilo que é necessário comprovar (em minha pesquisa e investigação). Mas não! Segundo seus próprios pressupostos, nem isso seria “necessário” “comprovar”!

A consciência não tem ouvidos. Ainda bem. Ou melhor: o ouvido não tem consciência.

A cotidianidade toma a pre-sença como um manual de ocupação, ou seja, como gerência e cálculo. A <vida> é um <negócio>, independentemente se ela paga ou não o seu preço.” Já ontologicamente, não há manual algum e <sempre se paga o preço>, sendo filósofo entende-se e estende-se isso para o próprio ser-aí.

METAPHYSICAL DISPLAY OF POWER

com-dicção humana

No fundo, a má consciência é tão pouco uma mera censura retroativa que ela reclama, sobretudo, numa referência antecipadora ao estar-lançado.” “Se já a caracterização da <má> consciência não alcança o fenômeno originário, isso vale ainda mais no que diz respeito à <boa> consciência, mesmo que esta seja considerada uma forma autônoma ou fundada essencialmente sobre a <má>.” “Na medida em que o discurso sobre a <boa> consciência nasce da experiência da consciência feita pela pre-sença cotidiana, isto apenas mostra que ela, mesmo quando se fala de <má> consciência, no fundo, não atinge o fenômeno.” Heidegger é desonesto em sua metodologia: devia simplesmente dizer, nessa seção do livro: eu li o livro Além do bem e do mal e remeto todos os verdadeiramente interessados pela questão do ser a ele.

A teoria do valor, seja fundamentada formal ou materialmente, também abriga uma <metafísica dos costumes>, i.e., uma ontologia da pre-sença e da existência como pressuposto ontológico implícito.” “Recorrer ao âmbito de tudo o que a experiência cotidiana da consciência conhece como única instância para a sua interpretação só pode se legitimar caso reflita, primeiramente, se, neste nível, a própria consciência pode-se fazer acessível.”

A interpretação comum pode pretender [pré-tender, hohoho!] sustentar-se nos <fatos>, limitando, nessa sua compreensão, a abrangência de abertura do clamor.” Eu, estudante universitário, deprimido, cada vez mais desimpessoalizado (na horrível nomenclatura heideggeriana), acumulando saber filosófico, à entrada da casa dos 20 anos, “transmuto-me”, muito influenciado por Nietzsche e Sartre, p.ex.. É claro que historiograficamente, i.e., onticamente, de forma rasa, tenderiam, numa biografia minha, a ver no ISOLAMENTO a causa-mor dessa “iluminação extra-moral”. Como todo incauto intérprete de Nietzsche e associados, me chamariam de louco ou pelo menos diriam “período conturbado”, “neurose criativa”, como o tal Ellenberger! Ora, é óbvio que o tal clamor tem de ter circunstâncias fenomênicas – com que tipo de exegetas infantilizados estamos lidando aqui?! Ocorre que foi indiscutivelmente a instância da abertura do meu ser-aí ao meu ser-no-mundo e ser-para-a-morte. Uma transformação absolutamente interna, tirando esse olhar crítico a posteriori, já que ninguém se deu conta, [meus colegas, professores, família] se estamos falando da compreensão platônica das coisas e não de sintomas vulgares de depressão.

É a partir da expectativa de uma indicação útil das possibilidades de <ação> seguras, disponíveis e calculáveis que se sente a falta de um conteúdo <positivo> no que se clama.” E agora, o que eu vou fazer?! Passeio na calçada entre a UnB e minha casa, tangendo o colégio CEAN. Apenas seguir descascando, ou simplesmente parar e <viver>, se me der na telha, porque a indiferença é minha para quando <eu quiser>. Me aprofundar nessas leituras, como interesse máximo. Me formar e dar aula, como interesses comezinhos, ônticos. O que isso me diz? Errei na carreira, tive uma graduação turbulenta – mas e daí? Isso não fere o projeto ontológico, obviamente. Aqui estou, dando a ele a continuidade pressentida desde sempre. E o fato de eu ter me assegurado <no mundo>, financeiramente, i.e., praticamente, também nada diz sobre <obter um êxito dissimulado> (farisaísmo da boa consciência, como Heidegger coloca). Todas essas externalidades são o realmente indiferente da minha vida. O dispor de mais ou menos tempo para seguir em meu projeto seguem como preocupação secundária “de fundo”, o que mais me importa em relação a minha existência pública ou material! E ainda assim converto algo tão obtuso em escrita, i.e., criação artística.

Com as máximas esperadas e precisamente calculadas, a consciência negaria à existência nada menos do que a possibilidade de agir.” Isso fica para o Rafael imediato, o mais profundo apenas assiste de camarote nessas horas, mas intervém se for o caso. Exemplo: Antecipe sua leitura de Ser e Tempo, está demorando demais!

O querer-ter-consciência [todo esse processo do clamor] transforma-se em presteza para a angústia. [um saber (se) ouvir sabiamente]” “A consciência só clama em silêncio, ou seja, o clamor provém da mudez da estranheza e reclama a pre-sença conclamada para aquietar-se na quietude de si mesma.” O Rafael que desde pequeno era “tagarela demais” teve de se fechar para o outro se abrir: mas o primeiro Rafael ainda existe, com-os-outros, no mundo da impessoalidade.

Chamamos de de-cisão essa abertura privilegiada e própria, testemunhada pela consciência na própria pre-sença, ou seja, o projetar-se silencioso e prestes a angustiar-se para o ser e estar em débito mais próprio.” “Quanto a seu <conteúdo>, o <mundo> à mão não se torna um outro mundo, o círculo dos outros não se modifica, embora, agora, o ser-para o que está à mão, em sua compreensão e ocupação, e o ser-com da preocupação com os outros sejam determinados a partir de seu poder-ser mais próprio.” É o além-homem apenas um filósofo na verdadeira acepção da palavra? Aquele que se desescravizou o homo oeconomicus, a instrumentalidade ultimada?

PRIMEIRA SOCIEDADE (OU COMO SE TORNAR ÉTICO): “A pre-sença de-cidida pode se tornar <consciência>-dos-outros. Somente a partir do ser si-mesma mais próprio da de-cisão é que brota a convivência em sentido próprio.” Ou seja, um querer-compor-um-humanismo.

O decisivo é justamente o projeto e a determinação que, cada vez, abrem as possibilidades de fato. A indeterminação que caracteriza cada poder-ser de fato lançado da pre-sença pertence necessariamente à de-cisão.” “A de-cisão se apropria propriamente da não-verdade. A pre-sença já está e, talvez sempre esteja, na in-de-cisão. Esse termo designa apenas o fenômeno já interpretado como abandono à interpretação predominante do impessoal.” // Parmênides.

Enquanto conceito inverso à de-cisão em sua compreensão existencial, a in-de-cisão não significa uma qualidade ôntica e psíquica, no sentido de sobrecarga de repressões.”

Somente para-a-de-cisão é que pode ocorrer aquilo que chamamos de acaso, ou seja, o que lhe cai a partir do mundo circundante e do mundo compartilhado.” “Em contrapartida, a situação permanece essencialmente fechada, para o impessoal. Ele conhece apenas os <casos gerais> que se perdem nas <ocasiões> mais imediatas e contesta a pre-sença, calculando os <acasos>, os quais, por desconhecê-los, sustenta e professa como sua realização.” Kairos é ainda excessivamente pragmático e utilitarista enquanto conceito, pelo menos para a horda de idiotas que dele poderia querer se apropriar…

Expor os traços fundamentais e as correlações das possibilidades de fato existenciárias bem como interpretá-las em sua estrutura existencial pertencem ao âmbito das tarefas da antropologia existencial.” Cf. Psicologia da Comovisão (tenho certeza que a tradução está diferente) de Jaspers.”¹ H. alerta: esta obra não deve ser usada como um manual tipológico das cosmovisões possíveis.

¹ Psychologie der Weltanschauungen; bem que pode ser esse também: Filosofia da existência: conferências pronunciadas na Academia Alemã de Frankfurt. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1973.

Propriedade da pre-sença agora não é mais uma expressão vazia (…) Todavia, o sentido próprio do ser-para-a-morte enquanto poder-ser todo em sentido próprio, existencialmente deduzido, permanece um projeto puramente existencial, que ainda necessita de um testemunho da pre-sença.” Ou seja, H. procura a de-cisão geral desse ser-para-a-morte (do homem em geral). Digamos que a de-cisão em âmbito individual só diz respeito a nós, os superiores, nós os eleitos, etc. Mas me parece muita pretensão chegar a essa nova re-solução! Além disso, ele não sabe explicar como nós, os privilegiados, chegamos a ser privilegiados. Mas isso é inexplicável.

3. O PODER-SER TODO EM SENTIDO PRÓPRIO DA PRE-SENÇA E A TEMPORALIDADE COMO SENTIDO ONTOLÓGICO DA CURA

Demorou muito para incluir o tempo na problemática do ser, após a promessa na introdução!

Não será que a tentativa de forçar a união entre de-cisão e antecipação não leva a uma construção insuportável, de todo não-fenomenológica, que nem é capaz de reivindicar o caráter de um projeto ontológico com base fenomenal?”

Até aqui as discussões a respeito do método mantiveram-se em segundo plano.”

A determinação do sentido ontológico da cura consiste na liberação da temporalidade.”

A certeza da de-cisão significa: manter-se livre para uma retomada possível e de fato necessária.” “de-cidir com propriedade pela re-petição de si mesmo.” “A de-cisão antecipadora não é, de modo algum, um subterfúgio inventado para <superar> a morte.” “O querer-ter-consciência, determinado como ser-para-a-morte, também não significa um desprendimento do mundo, mas conduz, sem ilusões, à de-cisão do <agir>.” Quem se afasta da curiosidade mesquinha, se afasta também do mau idealismo. Não vive mais cinicamente, tampouco como um idealista sonhador caricato. O herói decidido e conclamado. Espírito-livre nietzschiano.

A filosofia nunca haverá de querer contestar as suas <pressuposições> mas também não quererá admiti-las sem discussão. A filosofia concebe as pressuposições junto com os seus referentes e os submete a um desdobramento mais penetrante.”

do ponto de vista ontológico, o ente que nós mesmos somos é o mais distante.” (DV) Vivemos no aí, sendo necessário um processo complexo de auto-reconhecimento inerente a nossa condição para vislumbrarmo-nos como ser total do nascimento à morte (como entes). É como se nos afastássemos o máximo de nós mesmos e de nossa circunvizinhança para podermos concluí-lo, impessoal, objetivamente. Concluir o quê? Essa simples verdade factual, que independe de qualquer instante, desde que já tenha sido assegurada a primeira vez.

Conquistar o infinito (perder-se indistintamente nele, a única coisa que se pode fazer perante o infinito) é fácil. O difícil é conquistar o próprio finito, sem o quê não existe destino.

tudo que vai volta” tudo que abre, fecha.

Sou, logo irei morrer e não ser.

Já vivi com tanto tato e contato!

…será que esse pre-supor possui o caráter de um projeto que compreende?”

ser-em-círculo-da-pre-sença

O DIZER-EU

O <eu> é uma mera conseqüência que acompanha todos os conceitos. Com ele, <nada se representa a não ser um sujeito transcendental dos pensamentos>.”

O eu-penso é a forma da apercepção [pré-percepção ou percepção ágrafa – o sine qua non kantiano] que precede e adere a toda experiência.” K.

Denominar este eu de <sujeito lógico> não significa que o eu em geral seja, meramente, um conceito obtido por via lógica.” Até porque, como vimos acima, o eu-penso é um não-conceito ou percepção ilógica, pré-lógica.

O <eu penso> significa <eu combino>.” Tem de haver um eu para que os conceitos se liguem, e o mundo exista.

Isso significa que [para K.] o eu penso não é algo representado e sim a estrutura formal do representar como tal, através do que, só então, se torna possível todo e qualquer representado.”

eu = eidos = base dos conceitos + conceitos

Determinar ontologicamente o eu como sujeito significa já sempre supor o eu como algo simplesmente dado. O ser-do-eu é compreendido como realidade da res cogitans.” Por isso em H. o ser-do-eu tem de se tornar ser-do-ente. (A síntese que K. pensara ter realizado se realiza.)

OBRA DE KANT: Um sistema em que a ética é um módulo do sistema, e não um componente orgânico impossível de isolar desse mesmo sistema é um sistema, falho e não-ético ou anti-ético.

CRÍTICA ULTIMADA AO CRITICISMO: “Não é preciso pensar <materialistamente> nem <racionalistamente> para se ficar, de todo, prisioneiro da ontologia da <substância> [o eu cartesiano, o simplesmente dado] de maneira ainda mais perniciosa por ser, aparentemente, evidente.”

Scheler, Der Formalismus in der Ethik und die materiale Wertethik

Kant não viu o fenômeno do mundo e foi suficientemente conseqüente ao afastar as <representações> do conteúdo a priori do <eu penso>.”

De ser-no-MUNDO a SER-NO-mundo.

Heidegger chama, desnecessariamente, o discurso mediano ao se referir a si de eu-eu ou dizer-eu-eu.

No silêncio, o ser-si-mesmo em sentido próprio justamente não diz <eu-eu> porque, na silenciosidade, ele <é> o ente-lançado que, como tal, ele propriamente pode-ser.”

Não deve ser coincidência que solidão, sozinho e solo, chão, sejam semelhantes desde o latim. Sustentáculo da alma e da ação.

O que significa sentido?” Hahaha.

sentido é o contexto no qual se mantém a possibilidade de compreensão de alguma coisa, sem que ele mesmo seja explicitado ou, tematicamente, visualizado. Sentido significa a perspectiva do projeto primordial a partir do qual alguma coisa pode ser concebida em sua possibilidade como aquilo que ela é. O projetar abre possibilidades, i.e., o que possibilita.” “Expor o sentido da cura significa portanto: perseguir o projeto orientador e fundamental da interpretação existencial originária da pre-sença para que se torne visível a perspectiva do projetado.”

Toda experiência ôntica de um ente, tanto a avaliação do que está à mão numa circunvisão como o conhecimento científico de algo simplesmente dado, está sempre fundada em projetos mais ou menos transparentes do ser do respectivo ente.”

Ex1: Rafael-escritor como ente: ter uma carreira de escritor.

Ex2: A lingüística como ente: entender diacrônica e sincronicamente o objeto de estudo, i.e., a língua (as línguas).

Este deixar-se-vir-a-si, que na possibilidade privilegiada a sustém, é o fenômeno originário do porvir.”

Somente enquanto a pre-sença é no vigor de ter sido [vigorado, passado irrevogável e pertencente ao ser do ser-aí, passado vigente, para mim] é que ela, enquanto porvir, pode vir-a-si de maneira a vir de volta.” Sempre se lembrar do projeto, da decisão e do clamor.

A de-cisão só pode ser o que é como a atualidade [presente do ser-aí, gerúndio].”

a de-cisão se atualiza na situação.”

Chamamos de temporalidade este fenômeno unificador do porvir que atualiza o vigorado.” “Temporalidade [é] (…) o sentido da cura“O uso terminológico dessa expressão deve, de início, manter distantes todos os significados impostos pelo conceito vulgar de tempo como futuro, passado e presente.”

temporalidade imprópria”

Nesse campo de investigação, violência não é arbitrariedade mas uma necessidade fundada nas coisas elas mesmas.”

JÁ & AÍ

Quando decaímos no mundo é que passa a existir o tempo.

A temporalidade possibilita a unidade de existência, facticidade e de-cadência, constituindo, assim, originariamente, a totalidade da estrutura de cura.”

A temporalidade não <é>, de forma alguma, um ente.”

A temporalidade temporaliza”

São os modos possíveis da temporalidade que possibilitam a pluralidade dos modos de ser da pre-sença, sobretudo os modos do próprio e impróprio.”

Temporalidade é o <fora de si> em si e para si mesmo originário. Chamaremos, pois, os fenômenos caracterizados de porvir, vigorado e atualidade, de ekstases¹ da temporalidade.”

¹ estase e êxtase – estase conforme o dicionário português: “parada, paralisação” – neste caso: do tempo no tempo. êxtase cf. o dic. port.: ‘fora de si’ (mesmo estando em si, modo privilegiado), dotado de vários humores, talvez todos em concatenação, incluindo a ânsia. pasmo (momento da de-cisão – a partir dele, pode-se revivê-lo sempre). Do grego “mover-se para fora”.

Sou eu, a despeito das aparências, porque se olho com des-cuido, agora não sou o que fui e o que serei, embora realmente o seja.

O característico do <tempo> acessível à compreensão vulgar consiste, entre outras coisas, justamente no fato de que, no tempo, o caráter ekstático da temporalidade originária é nivelado a uma pura seqüência de agoras, sem começo nem fim.”

4: O tempo original se desdobra em 3.

eterno-vir-a-ser (única realidade): passado-instante ou nada-futuro (inautenticidade)

autenticidade própria (limite da possibilidade do meu eu): inautenticidade do mundo que me precede e me sucede ou está invisível a mim enquanto vijo no sentido newtoniano de tempo.

Finitude não diz primordialmente término. (…) O porvir originário e próprio é o para-si, um para-si que existe como a possibilidade insuperável do nada.”

A tentação de se passar por cima da finitude do porvir originário e próprio e, com isso, da temporalidade, considerando-a <a priori> impossível, nasce da contínua imposição da compreensão vulgar do tempo.” “Somente porque o tempo originário é finito é que o tempo <derivado> pode se temporalizar como in-finito.”

autoconsistência da existência”

consistência x inconsistência

historicidade da pre-sença” (a partir da inautenticidade do mundo podemos chegar à autenticidade unitária do ser)

A civilização que matou o tempo.

Mentira, recuperou-o.

Devolveu-o ao trono.

No jogo, sempre se olha o cronômetro com muita atenção. Dele é que tudo depende. O campo é uma outra coisa…

Desgastando-se a pre-sença gasta a si mesma, ou seja, gasta o seu tempo. Gastando tempo ela conta com ele.” Quem conta, conta-com, ouvi alguém dizer. “Contar com o tempo é constitutivo do ser-no-mundo.” Duplo sentido: ser-dependente-do-tempo, não poder viver sem o tempo, e ao mesmo tempo mensurar o, criar uma unidade de, tempo.

TEMPO ÔNTICO, BE BORN! “Chamamos de intratemporalidade a determinação temporal dos entes intramundanos.” Segundo H., o limite da fenomenologia bergsoniana.

4. TEMPORALIDADE E COTIDIANIDADE

A origem ontológica do ser da pre-sença não é <inferior> ao que dela surge. A origem ontológica já o sobrepuja em poder e, no âmbito ontológico, tudo o que <surge> é degeneração. Para o senso comum, a tendência ontológica para a <origem> nunca se transforma em evidência ôntica.”

Enquanto descoberta que compreende o incompreensível, toda explicação tem suas raízes na compreensão primordial da pre-sença.”

A existência pode tornar-se digna de questionamento. Para que este <questionamento> seja possível, é necessária uma abertura.”

Sem dúvida, de início e na maior parte das vezes, a pre-sença fica in-de-cisa, ou seja, fica fechada em seu poder-ser mais próprio no qual ela só se empenha singularizando-se.” “Essa inconstância não significa, porém, que a temporalidade careça, por vezes, de porvir, mas sim que a temporalização do porvir está sujeita a mutações.”

O termo, do ponto de vista formal indiferente, para o porvir encontra-se na designação do 1º momento estrutural da cura, i.e., no preceder-se. De fato, a pre-sença continuamente se precede, mas nem sempre se antecipa

O atender [espécie de compreender ôntico] sempre já deve ter aberto o horizonte e o âmbito a partir do que algo pode ser esperado. Esperar é o modo do porvir fundado no atender que, em sentido próprio, se temporaliza como antecipação.”

Chamamos de in-stante a atualidade própria, i.e., a atualidade mantida na temporalidade própria.” “Em princípio, o fenômeno do in-stante não pode ser esclarecido pelo agora. O agora é um fenômeno temporal que pertence ao tempo da intratemporalidade (…) <No in-stante>, nada pode ocorrer. Ao contrário, enquanto atualidade em sentido próprio, é o in-stante que deixa vir ao encontro o que, estando à mão ou sendo simplesmente dado, pode ser e estar <em um tempo>.”

Foi, sem dúvida, Kierkegaard quem viu com a maior profundidade o fenômeno existenciário do in-stante, o que não significa que ele tenha logrado uma correspondente interpretação existencial.” “Quando Ki. fala de <temporalidade>, ele quer referir-se ao <ser-e-estar-no-tempo> do homem. O tempo como intratemporalidade conhece apenas o agora e nunca o in-stante.”

Por oposição ao in-stante, no sentido de atualidade própria, chamamos de atualização a atualidade imprópria. (…) in-de-cisa”

A compreensão imprópria se temporaliza como um atender atualizante a cuja unidade ekstática pertence necessariamente um vigorado, que lhe corresponde.” Chega de tecnicismos!

Chamamos de re-petição o ser o vigorado em sentido próprio.”

A ekstase (retração) do esquecimento tem o caráter de uma extração, fechada para si mesma, do vigorado em sentido mais próprio, de tal maneira que esse extrair-se de… fecha, ekstaticamente, aquilo de que se extrai e, com isso, a si mesmo.” “o esquecimento é o sentido temporal (…) que (…) na maior parte das vezes (…) eu (…) sou.”

atender esperar

esquecer recordar

Mas o que pode haver de comum entre os humores e o <tempo>?”

A recolocação não produz o vigorado, mas a disposição sempre revela, para a análise existencial, um modo do vigorado.” “A interpretação temporal limitar-se-á aos fenômenos já analisados do temor e da angústia.” “Só no atendimento é que o que ameaça pode estar de volta para o ente que eu sou e, dessa forma, a pre-sença só pode ser ameaçada caso já se tenha aberto, ekstaticamente, o endereço da volta.” “voltar para um estar-lançado mas de tal maneira que ele se fecha”

quem teme não-mais-se-reconhece no mundo circundante.”

atualização conturbada”

esquecimento de si inerente ao temor”

É sabido que o habitante de uma casa em chamas, p.ex., freqüentemente, quer <salvar> as coisas mais indiferentes por estarem mais imediatamente à mão.”

Tudo o que, além disso, pertence ao fenômeno fica sendo um <sentimento de prazer e desprazer>.”

o mundo não está me atendendo neste momento, pois está ocupado

Ela recoloca o fato puro do estar-lançado mais próprio e singular.” “Mas a angústia também não implica em uma retomada re-petitiva da existência na de-cisão.”

a angústia não pode se perder em ocupações. Quando algo assim parece ocorrer numa disposição, então se trata do temor que o entendimento cotidiano confunde com a angústia.”

A angústia só conduz para o humor de uma de-cisão possível.”

Como se pode encontrar um sentido temporal na morna ausência de humores que domina o <cotidiano cinzento>?”

e os afetos como esperança, alegria, encantamento e jovialidade?”

tédio, tristeza, melancolia e desespero”

ter esperança = ter-esperança-para-si

ter-se-conquistado”

indiferença x equanimidade (humor privilegiado da pre-sença)

Permanece um problema independente o modo em que se deve delimitar, ontologicamente, estímulo e contato dos sentidos em algo apenas-vivo, [?] e o modo, p.ex., como e onde o ser dos animais é constituído por um <tempo>.” Bem-lembrado.

má curiosidade (curiosidade sem método) dispersão desamparo: “Este modo da atualidade é o fenômeno que mais explicitamente se opõe ao in-stante.”

O desamparado está aí sem estar aí.

tentação, tranqüilização, alienação, auto-aprisionamento

O retrair-se da existência na atualização [atender, nível ôntico] não significa que a pre-sença se desligue de seu eu e de seu si-mesmo.”

A curiosidade não é <provocada> pela visibilidade sem fim do que ainda não se viu, mas pelo modo de-cadente de temporalização da atualidade que surge. Mesmo que tenha visto tudo, a curiosidade sempre inventa algo novo.”

abrir a situação-limite originária do ser-para-a-morte.”

Os tempos não surgem porque o discurso <também> se pronuncia a respeito de processos <temporais>, i.e., que vêm ao encontro <no tempo>. Seu fundamento também não é o fato de que a fala transcorre <num tempo psíquico>.”

Com a ajuda do conceito vulgar e tradicional do tempo, de que se vale forçosamente a ciência lingüística, nunca se pode colocar o problema da estrutura existencial e temporal dos tipos de ação.” Cf. Wackernagel, Vorlesungen über Syntax, vol. I, 1920.

[Só através da minha analítica] se poderá delimitar o sentido ontológico do <é>, que uma teoria artificial da sentença e do juízo desfigurou, reduzindo-o à <cópula>. O <aparecimento> do <significado> e a possibilidade de uma elaboração conceitual só podem se esclarecer e compreender, ontologicamente, com base na temporalidade do discurso, da pre-sença em geral.”

a compreensão é sempre atualidade [nível ontológico do presente] do vigorado.”

[já] a disposição se temporaliza num porvir <atualizante>. Não obstante, a atualidade <surge> ou se sustenta num porvir do vigorado.” Repete-se à exaustão.

Temporalização não significa <sucessão> de ekstases. O porvir não vem depois do vigorado e este não vem antes da atualidade.”

A unidade ekstática da temporalidade, i.e., a unidade do <fora de si> nas retrações de porvir, vigorado e atualidade é a condição de possibilidade para que um ente possa existir como o seu <aí>. O ente que carrega o título de pre-sença se <iluminou>. A luz que constitui a luminosidade da pre-sença não é uma força ou fonte ôntica simplesmente dada de uma clareza cintilante que, por vezes, ocorre neste ente. Antes de toda interpretação <temporal>, determinou-se como cura o que ilumina essencialmente esse ente, i.e., aquilo que o torna <aberto> e também <claro> para si mesmo.”

Na intenção de proteger o fenômeno das tendências de fragmentação mais evidentes e, por isso, mais fatais, interpretou-se, com maior detalhamento, o modo mais imediato e cotidiano do ser-no-mundo, a saber, o ser que se ocupa junto ao que está à mão dentro do mundo. Agora que a própria cura foi, ontologicamente, delimitada e reconduzida ao seu fundamento existencial, à temporalidade, a ocupação pode, por sua vez, ser explicitamente concebida a partir da cura e da temporalidade.”

De que modo algo como mundo é possível? Em que sentido mundo é? [DV] O que o mundo transcende e como transcende?” “A exposição ontológica destas questões ainda não é a sua resposta.”

A falta da estrutura fenomenal daquilo com que se lida tem como conseqüência um desconhecimento da constituição existencial do modo de lidar.”

nexo instrumental”

Todo <trabalhar> e pôr mãos à obra não significa vir de um nada e deparar-se com um instrumento isolado, preliminarmente dado.”

deve-se buscar a condição de possibilidade do deixar e fazer em conjunto num modo de temporalização da temporalidade.” H. quase apertando a mão de Marx.

surpresa, importunidade, impertinência

É preciso que o próprio afazer se veja perturbado para que possa vir ao encontro algo que não pode ser manuseado.”

o teste e o afastamento”

Mas como é possível <constatar> o que falta, ou seja, o que não está à mão e não apenas o que está à mão mas não é manuseável?”

o dar pela falta”

É o não-atender da atualização perdida que abre o espaço <horizontal> de jogo em que o espantoso pode sobrevir à pre-sença.”

não contar com…”

levar em conta outra coisa

Somente porque se descobre o que opõe resistência com base na temporalidade ekstática da ocupação é que a pre-sença pode, de fato, se compreender em seu abandono a um <mundo>, que ela nunca domina.”

Quais as condições de possibilidade, inerentes à constituição ontológica da pre-sença e existencialmente necessárias, para que a pre-sença possa existir no modo da pesquisa científica?” Duvido que algo mais elaborado que “desenvolvimento do capitalismo” possa ser apontado… Em outros termos, busca-se o ser-da-ciência.

Fenomenologia versus semiótica

O decisivo para o <aparecimento> do comportamento teórico residiria no desaparecimento da práxis. É justamente quando se toma a ocupação <prática> como o modo primário e predominante de ser da pre-sença que a <teoria> deve sua possibilidade ontológica à falta da práxis, ou seja, a uma privação.” “Pelo contrário (…) Abster-se do uso instrumental significa tão pouco <teoria> que, na <observação> demorada, a circunvisão permanece inteiramente atada ao instrumento ocupado e à mão. O lidar <prático> possui seus modos próprios de demorar-se.”

A observação no microscópio depende da produção de <preparados>. A escavação arqueológica, que precede à interpretação do <achado>, exige as mais intensas manipulações. E mesmo a elaboração mais <abstrata> de problemas e a fixação do que foi obtido manipulam instrumentos de escrever, p.ex..” “Para poder se tornar <objeto> de uma ciência, o que está à mão não precisa perder o seu caráter instrumental. A modificação da compreensão ontológica não parece ser um constitutivo necessário da gênese do comportamento teórico <frente às coisas>.”

Na proposição <física>, <o martelo é pesado>, não apenas se deixa ver o caráter de ferramenta deste ente que vem ao encontro, mas também o que pertence a todo instrumento à mão, a saber, o seu local. Este se torna indiferente. (…) O local se transforma em posição no espaço e no tempo, em um <ponto do mundo>, que não se distingue de nenhum outro. Isto implica que a multiplicidade de locais delimitados no mundo circundante, própria do instrumento à mão, não se transforma apenas em puro sistema de posições, mas sim que se aboliram os limites do próprio ente do mundo circundante.”

in-tegração

O exemplo clássico do desenvolvimento histórico de uma ciência, e também da gênese ontológica, é o aparecimento da física-matemática.” “projeto matemático da própria natureza”

matéria (base não-numérica) movimento, força, lugar, tempo (enumerar a matéria em suas regiões)

A fundamentação das ciências dos fatos só foi, portanto, possível na medida em que o pesquisador compreendeu que, em princípio, não existem meros fatos.” “E assim, o caráter exemplar da ciência matemática da natureza também não reside em sua exatidão específica e na obrigatoriedade para <todos>, mas no fato de que, nela, o ente temático é descoberto da única maneira em que pode ser descoberto, a saber, no projeto prévio de sua constituição ontológica.”

Chamamos de tematização a totalidade desse projeto ao qual pertencem as articulações da compreensão ontológica, a delimitação dela derivada do setor de objetos e o prelineamento da conceitualização adequada ao ente. A tematização visa liberar os entes que vêm ao encontro dentro do mundo de modo a que eles possam ser <projetados para> uma pura descoberta, i.e., que eles possam se tornar objetos. A tematização [portanto] cria objetos”

atualização privilegiada”

Agora começo a vislumbrar como e por que “ouvi dizer por aí” que Heidegger fala que o objetivo da humanidade, através da Técnica, é o “domínio do planeta”. E creio que essas vozes de falatório compreenderam mal: ele descreve o atual panorama do desenvolvimento tecnológico-histórico, mas não está abençoando este sentido.

A compreensão de ser pode permanecer neutra. Manualidade e ser simplesmente dado ainda não se diferenciam e, sobretudo, ainda não são concebidos ontologicamente.”

Como é, ontologicamente, possível a unidade de mundo e ser-aí? De que modo o mundo deve ser, para que o ser-aí possa existir enquanto ser-no-mundo?”

A condição existencial e temporal da possibilidade do mundo reside no fato de a temporalidade, enquanto unidade ekstática, possuir um horizonte.” Eu-sou-meu-mundo

Chamamos de esquema horizontal esse para-onde da ekstase.”

O fato destes entes [simplesmente dados] se descobrirem junto com o próprio aí da existência não está à mercê do ser-aí. Somente o quê, cada vez, se descobre e se abre, em que direção se faz, até onde e como se faz é que são tarefas de sua liberdade, embora sempre nos limites de seu estar-lançado.”

O mundo já está, por assim dizer, <muito mais fora> [de-cidido, ontologizado] do que qualquer objeto pode estar. Por isto, o <problema da transcendência> não pode ser reduzido à questão de como um sujeito sai de dentro de si e chega a um objeto fora de si [sem o enquadramento material e histórico no mundo]

Concebendo o <sujeito> como ser-aí que existe e cujo ser está fundado na temporalidade, deve-se então dizer: mundo é <subjetivo>. Mas do ponto de vista transcendente e temporal, este mundo <subjetivo> é mais <objetivo> do que qualquer <objeto> possível.” Porque assim interessa ao ser-no-mundo.

Contudo, a comprovação de que a espacialidade só é existencialmente possível através da temporalidade não pode pretender reduzir o espaço do tempo ou dissolvê-lo em puro tempo.”

A pre-sença introjeta – em sentido literal – o espaço.” Não seria projeta?

Existindo, ela já-sempre arrumou para si um espaço.”

a introjeção do espaço é tão pouco idêntica a uma <representação> do espacial que é esta que pressupõe aquela.”

É até mesmo questionável se a explicação até agora desenvolvida da temporalidade é suficiente para delimitar o sentido existencial da cotidianidade.”

RESUMO DA VIDA DO FILÓSOFO: “<De início> significa o modo em que a pre-sença <se revela> na convivência da public-idade, mesmo que, existenciariamente, ela tenha <no fundo> superado a cotidianidade. <Na maior parte das vezes> significa o modo em que a pre-sença nem sempre, mas <via de regra>, se mostra para todo mundo.”

A monotonia da cotidianidade considera como mudança justamente aquilo que o dia traz. A cotidianidade determina a pre-sença mesmo quando ela não escolheu para <herói> o impessoal.”

Na cotidianidade, a pre-sença pode <sofrer> de estupidez, pode mergulhar na sua estupidez ou dela escapar, buscando uma nova dispersão para fazer frente à dispersão dos negócios e tarefas.”

Mas, no fundo, o termo cotidianidade nada mais pretende indicar do que a temporalidade que possibilita o ser da pre-sença.” A totalidade orgânica do ser-aí.

5. TEMPORALIDADE E HISTORICIDADE

A pre-sença só se fez tema existindo, por assim dizer, <para frente>, deixando, com isso, <para trás> de si todo o vigorado. (…) se desconsiderou (…) a ex-tensão da pre-sença entre nascimento e morte.” “Haverá algo mais <simples> do que caracterizar o <contexto da vida> entre nascimento e morte?”

vivência e permanência

No fundo, a concepção vulgar do <contexto da vida> também não pensa numa moldura que, estando <fora> da pre-sença, a abrangesse, mas procura, com razão, esta moldura na própria pre-sença.” Torna-se patente o quanto Sartre não entendeu este livro.

De forma alguma a pre-sença só <é> real num ponto do tempo, de maneira que, além disso, estaria <cercada> pela não-realidade de seu nascimento e de sua morte.”

O SIGNIFICADO DE CURA: “De fato, a pre-sença só existe nascendo e é nascendo que ela já morre, no sentido do ser-para-a-morte.”

O ENTRE: “Chamamos de acontecer da pre-sença a movimentação específica deste estender-se na ex-tensão. A questão sobre o contexto da pre-sença é o problema ontológico de seu acontecer. Liberar a estrutura do acontecer e suas condições existenciais e temporais de possibilidade significa conquistar uma compreensão ontológica da historicidade.”

quem? consistência

Não é na ciência historiográfica que se deve buscar a história. Mesmo que o modo científico e teórico de tratar o problema da <história> não vise apenas a um esclarecimento <epistemológico> (Simmel) da apreensão histórica, nem a uma lógica da construção conceitual da exposição histórica (Rickert), mas também se oriente pelo <lado do objeto>, mesmo assim, nesse tipo de questionamento, a história só se faz acessível, em princípio, como objeto de uma ciência.” “A tematização, a abertura historiográfica da história é a pressuposição de uma possível <construção do mundo histórico pelas ciências do espírito>.”

temporalidade história, e não história temporalidade

a origem do tempo da intratemporalidade a partir da temporalidade. [sua base]” “Quanto mais o problema da história se aproximar de seu enraizamento originário, mais agudamente aparecerá a indigência dos meios <categoriais> disponíveis e a insegurança dos horizontes ontológicos primários.”

No fundo, a presente análise trata unicamente da preparação de um caminho para que a atual geração possa apropriar-se das pesquisas de Dilthey, com as quais ela ainda deve se confrontar.”

A ambigüidade do termo <história> mais imediata e freqüentemente observada, embora não seja de forma alguma <fortuita>, anuncia-se no fato de que esse termo significa tanto a <realidade histórica> como a sua possível ciência.” Primeiro passo: história =/= historiografia

o passado das coisas

passado que ‘morreu’ (definição negativa)

passado que ‘segue em nós’ (pré-vigorado) (definição positiva)

passente

ascensão-queda

autoria

passividade

marcar época

con-junto de influências

inimiga da Natureza

Darwin e o ticket de entrada do natural na própria história, revivendo com nova pujança o termo “História natural”

Será que a pre-sença de fato é primeiro <algo simplesmente dado> para depois, oportunamente, entrar <numa história>?” “uma caracterização mais precisa do curioso primado do <passado> no conceito de história é que deve preparar a exposição da constituição fundamental da historicidade.”

O que foram as coisas que hoje não são mais?”

O que passou?” “mundo”

O mundo começa com a mão.

Será a pre-sença o vigorado apenas no sentido do que vigora por ter sido pre-sente [por ter-estado-aí] ou será ela o vigorado enquanto algo atualizante e por vir [presente e futuro], ou seja, na temporalização de sua temporalidade?”

O ente não fica <mais histórico> mediante uma recondução regressiva a um passado sempre mais distante, no sentido de que o mais antigo fosse o que é mais propriamente histórico.”

A compreensão existenciária própria escapa tão pouco da interpretação legada que, no de-cisivo, ela sempre retira a possibilidade escolhida dessa interpretação, contra ela mas sempre a seu favor.” O que Heidegger quer dizer nesse trecho é que meu ser-aí, e meu ser-no-mundo, apesar de ser este mundo, sempre chega à de-cisão e vive cotidianamente, sem percebê-lo, no 2º caso, influenciado por coisas históricas que ainda não feneceram, i.e., pelo legado dos antepassados, dos mortos, de toda a cultura prévia a minha própria existência. Todos esses dados estão de tal forma embrenhados e mesclados com a ‘minha realidade contemporânea’ que se tornam indissociáveis – então, por mais que eu seja para o presente, sempre me alimento do passado, não só na minha vida mais instrumentalizada mas também no momento da ascensão filosófica. Prova disso é que fui ajudado principalmente por figuras como Nietzsche e Marx para chegar ao meu clamor. Sou um devorador de livros antigos, cujo conteúdo perpetuamente se atualiza em minha existência e realidade próprias.

Se todo bem é uma herança e se o caráter dos bens reside em possibilitar uma existência própria, então é na de-cisão que se constitui a transmissão de uma herança.” Escolho aquilo que não me serve mais e o que ainda me serve, mesmo tendo saído do seio dos meus pais.

meta incondicional”

simplificar, se apropriar e se esquivar

A pre-sença só pode sofrer golpes do destino porque, no fundo, ela é destino.” Já o in-de-ciso não tem destino.

O envio comum [nível ontológico da convivência] não se compõe de destinos singulares da mesma forma que a convivência não pode ser concebida como a ocorrência conjunta de vários sujeitos.”

SEMI-SOLIPSISMO/REPUBLICANISMO PLATÔNICO: Só alguns são homens, só alguns têm alma, só alguns vivem, os outros são matéria bruta dada para seus destinos e aconteceres.

O envio comum dos destinos da pre-sença em e com a sua <geração> constitui o acontecer pleno e próprio da pre-sença.” Para este conceito de geração, cf. Dilthey, Über das Studium der Geschichte der Wissenschaften von Menschen, der Gesselschaft und dem Staat (1875).

Não obstante impotente, o destino é a potência maior sempre pronta a enfrentar as contrariedades do projetar-se silencioso e prestes a angustiar-se para o ser e estar em débito, em sentido próprio”

Não é necessário que a de-cisão saiba explicitamente a proveniência das possibilidades para as quais ela se projeta.”

A re-petição é a transmissão explícita, ou seja, o retorno às possibilidades da pre-sença, que vigora por ter sido pre-sente.”

o fato de a existência escolher seus heróis funda-se na de-cisão antecipadora”

MANDANDO A ÁRVORE GENEALÓGICA ÀS FAVAS: “Surgindo de um projeto de-cidido, a re-petição não se deixa persuadir pelo <passado> a fim de deixá-lo apenas retornar como o que alguma vez foi real.”

A re-petição nem se abandona ao passado nem almeja um progresso.” (isso seria retirar toda a autenticidade do ser-aí)

No in-stante, o ser-aí sai de si e do tempo vulgar para ser agora sim si-mesmo, i.e., a responsabilidade implica que não fui causado e nem perpetuo, mas inovo, ao mesmo tempo que também não carrego uma carga ou débito para todas as gerações futuras, que terão a sua própria cura para com que lidar.

Hamlet é toda a História.

Havia filósofos mesmo antes das obras da ciência histórica. A constituição do saber historiográfico é um fator apenas secundário. Embora eu saiba de onde advém o eterno-retorno, lá sei eu e Nietzsche lá sabia se isso não adviria, p.ex., de qualquer conto contado ou inclinação de algum de seus amigos ou familiares, ou dos pais deles?! Portanto a transmissão do saber foi indireta, tendo sido ele o primeiro a assumi-lo (até onde sabemos), mas sem que para isso ele houvesse de se deter e investigar o passado (hipótese assaz provável).

Segundo o que entendi até o momento, o envio comum seria por exemplo: a Alemanha escolheu o nazismo como seu destino (aplicado a nações).

HISTORICIDADE IMPRÓPRIA DA PRE-SENÇA

O mundo é ao mesmo tempo, solo e palco” Shakespeare o sabia.

DELEUZE EJACULA: “Será então o acontecer da história apenas o transcurso isolado de <fluxos vivenciais> em sujeitos singulares?”

História da compreensão humana da natureza enquanto ente histórico: sugestão de pesquisa.

O que <acontece> com o instrumento e a obra como tais [seres destituídos de pre-sença] possui um caráter próprio de movimentação que permanece, até agora, inteiramente obscuro.” Que nos importa que seja exato que erupções vulcânicas nos preservaram os fósseis de criaturas chamadas dinossauros? Este não é um passado ou vigorado, pois não importa ao homem ontologicamente, no sentido de que sempre-esteve-aí. Como o apagar do sol não é. Poderíamos dizer ser-para-o-apagar-do-sol, exagerando. Se há de existir um envio comum próprio e autêntico, teríamos a formulação: humanidade-para-o-apagar-do-sol. A cura do mundo, ele vive apenas como Gaia. O que acontece no sistema solar ou ainda mais perifericamente “não interessa ao mundo”. Cf. Gotti, Die Grenzen der Geschichte, 1904.

O único terremoto de interesse para a historicidade é o terremoto humano, Nietzsche, por exemplo.

CONTRA OS AMANTES DA HISTÓRIA À LA MARCOS (O homem vulgar é altamente imagético, precisa “aprender” “história” através de filmes de Hollywood – e por que não Bollywood? Hipocrisia.): “E, por fim, porque o sentido de ser vale como o absolutamente evidente, a questão do modo de ser da história e do mundo e da movimentação do acontecer em geral, <propriamente>, não passa de superstição verbal, infrutífera e prolixa.”

O QUE VIGORA AGORA? SÓ COISAS INVISÍVEIS QUE O PROJETO TEM DE SER SENSÍVEL A FIM DE APURAR. DISTORCER O INAPREENSÍVEL A NOSSO FAVOR (saber mentir): compreender o Império Romano no meu projeto, não como <tal qual fôra>, o que seria de todo modo uma falsificação, e sem relevância ontológica.

Um exemplo máximo de envio comum impróprio é o Brasil. A efervescência cotidiana deste país não pode nublar a consciência do filósofo.

Podemos ficar sem chão? O que é chão? Montanha é chão? Raízes de uma árvore do mundo são chão?

O ser histórico ideal é aquele que foge-da-morte, o ser-curioso-para-ninharias, como advento do comunismo sobre a Terra num futuro ultradistante (exemplo).

A historicidade própria compreende a história como o <retorno> do possível”

Pode-se, não obstante, ousar um projeto da gênese ontológica da ciência historiográfica, partindo-se da historicidade da pre-sença. Este projeto serve de preparação para o esclarecimento da tarefa de uma destruição historiográfica da filosofia, a ser posteriormente realizada.”

GENEALOGIA DA HISTORIOGRAFIA A PARTIR DA HISTORICIDADE DA PRE-SENÇA

O tema da historiografia não é nem o que aconteceu singularmente e nem um universal que paira sobre a singularidade, mas a possibilidade que de fato vigorou na existência.” E quanto mais exata é a História, mais improvável ela é.

Esta não se repete como tal [como simplesmente dada], ou seja, não é compreendida de modo propriamente historiográfico, mesmo quando distorcida pela palidez de um padrão supratemporal.”

A seleção do que deve se tornar objeto possível da historiografia já foi feita na escolha existenciária e factual da historicidade da pre-sença, onde somente a historiografia surge e unicamente é.”

Em nenhuma ciência, a <validade universal> dos parâmetros e as exigências de <universalidade>, imposta pelo impessoal e por sua compreensibilidade, são menos critérios possíveis de <verdade> do que na historiografia própria.” “Comprometendo-se previamente com a concepção de mundo de uma época, o historiógrafo ainda não comprova ter compreendido o seu objeto num modo propriamente histórico e não apenas estético.”

a historicidade própria de um <tempo> também não se comprova pelo interesse historiográfico altamente diferenciado, que abrange até mesmo as culturas mais primitivas e distantes. Ter aparecido o problema do historicismo é o sinal mais claro de que a historiografia pretende alienar o ser-aí da sua historicidade própria. (…) Épocas sem historiografia não são, em si mesmas, sem história.”

UHU, DE QUEM TERÁ PUXADO A INSPIRAÇÃO?!… “A possibilidade de a historiografia em geral poder ser tanto uma <utilidade> como uma <desvantagem> <para a vida> funda-se no fato de esta ser, em sua raiz, histórica e, portanto, enquanto existindo de fato, sempre já se ter decidido por uma historicidade própria ou imprópria. Na Segunda Consideração Intempestiva (1874), Nietzsche reconheceu o essencial a respeito da <utilidade e desvantagem da historiografia para a vida>, tendo-se pronunciado de maneira precisa e penetrante. Ele distingue 3 espécies de historiografia: a monumental, a antiquária e a crítica, sem, no entanto, de-monstrar, explicitamente, a necessidade dessa tríade e o fundamento de sua unidade. A tríade da historiografia está prelineada na historicidade do ser-aí. É ela também que permite compreender em que medida a historiografia própria deve ser a unidade concreta e factual dessas 3 possibilidades. A divisão feita por Nietzsche não é acidental. O início de sua <consideração> deixa entrever que ele compreendeu bem mais do que chegou a exprimir.” Substrato da alegoria tríplice da criança, do leão e do camelo do Zaratustra. Neste meio poético pode-se dizer que N. efetuou ou explicitou a necessidade da tríade e fundamentou sua unidade.

1. monumental

exaltar fatos isolados e grandiosos do passado, de forma a dar indicações de uma possibilidade de transvaloração do sujeito ‘histórico’. dizer-sim com dizer-não feitos corretamente, com cinismo e inocência, da criança no seu jogo.

2. antiquária

também não está contente com o mundo contemporâneo, mas se afasta dele por se afastar, não para se projetar numa reação ao niilismo. o dizer-sim de algo que já passou (a selva), burro, instintivo, do leão.

3. crítica

tragicamente a maior apologista do atual, o tipo moderno por excelência, que tentará se afastar dum passado inafastável. sem poder criador. é verdade que, sendo ‘realista’, não podemos achar um amanhã realmente novo sem atravessar esse hoje sórdido, [o dizer-não do camelo no deserto, que não sabe dizer-sim quando seria a hora] e por isso precisamos ser diplomáticos com este hoje, por mais cinza que seja.

* * *

Conde Yorck von Wartenburg (o continuador-contemporâneo de Dilthey), Briefwechsel zwischen Wilhelm Dilthey und dem Grafen Paul Yorck von Wartenburg, 1887-1897, 1923. Realmente a melhor época para se trocar cartas na Europa… São efetivamente esses 20 anos de correspondência a única forma de checar o pensamento deste quase-personagem shakespeariano (cof, cof, York)…

O trabalho de pesquisa de Dilthey [<O PRIMEIRO HERMENEUTA>] pode ser dividido, esquematicamente, em 3 campos: estudos sobre a teoria das ciências do espírito e sua delimitação frente às ciências da natureza; pesquisas sobre a história das ciências do homem, da sociedade e do Estado; investigação sobre uma psicologia que deve expor <todo o fato homem>.” “Yorck acha que as investigações de Dilthey <salientam pouco a diferença genérica entre o ôntico e o histórico (p. 191, grifo do autor).”

GOLPE DE PUNHAL NO VENTRE DA ANTROPOLOGIA: “Toda comparação é estética, está sempre presa à figura.” “para Windelband, história é uma série de imagens, de figuras singulares, uma exigência estética.”

Com seu agudo instinto, Yorck quis dizer que a história tradicional ainda se atém muito às <determinações puramente oculares>, que visam ao que é corporal e figurável.” Em suma, chega de ôntico!

Ranke é um grande ocular, para quem não pode se tornar realidade o que desapareceu. De maneira bem própria a R., também se esclarece a restrição da matéria histórica ao que é exclusivamente político. Somente este constitui o dramático.”

P. 208: Primeira ocorrência, talvez, de “inessencial”, em sentido próprio (tum dum!) no livro.

NIETZSCHE CONTRA A FILOLOGIA, PELO PORTA-VOZ YORCK: “O autêntico filólogo tem um conceito de história como de um baú de antiguidades. Eles não chegam ao que não se pode apalpar – aonde só se chega através de uma transposição psíquica viva. No fundo, eles são cientistas da natureza, que se tornam ainda mais céticos quando lhes falta o experimento. Devemos nos afastar inteiramente de todas essas tralhas, como, por exemplo, de quantas vezes Platão esteve na Magna Grécia ou em Siracusa. Pois aí não há vida alguma. Tais maneirismo exteriores, que só posso ver criticamente, tornam-se por fim, um grande ponto de interrogação, reduzindo-se a uma vergonha quando comparados com as grandes realidades que são Homero, Platão e o Novo Testamento. Tudo o que é verdadeiramente real se transforma em esquemas quando não-vivenciado e apenas considerado como <coisa em si>.”

Os cientistas se comportam face às forças do tempo à semelhança da sociedade francesa mais erudita e refinada frente ao movimento revolucionário. Tanto aqui como lá, trata-se apenas de formalismo, do culto da forma. Determinar relações é a última palavra da sabedoria.”

o conhecimento progrediu no sentido da superação dele próprio, o homem retraiu-se para tão longe de si mesmo que não é mais capaz de ver a si.”

Toda história viva é uma crítica”

O esforço se assemelha à luta de Jacó, a vitória é certa para quem luta.”

É pelo conhecimento do caráter ontológico da própria presença humana e não por uma epistemologia ligada ao objeto da consideração histórica que Yorck alcança a compreensão penetrante e clara do caráter fundamental da história enquanto <virtualidade>.”

O ponto nevrálgico dos dados psicofísicos não é (é = ser simplesmente dado na natureza. Observação do autor), mas vive. E uma reflexão sobre si mesmo, que não se dirige a um eu abstrato mas à plenitude do meu si-mesmo, é que haverá de me encontrar historicamente determinado tal como a física me reconhece cosmologicamente determinado. Tanto quanto natureza, eu sou história…” Por esse trecho, vemos o quanto Heidegger está informado – até no vocabulário! – por Yorck!

E Yorck, que via com profundidade toda a inautenticidade da <determinação de relações> e toda a <falta de solidez> dos relativismos, não hesita em tirar as últimas conseqüências desta visão profunda da historicidade da pre-sença: <Mas, por outro lado, para a historicidade interior da autoconsciência é, metodologicamente, inadequada uma sistemática separada da história. Assim como a psicologia não pode abstrair da física, também a filosofia – e justamente quando é crítica – não pode abstrair da historicidade…A atitude consigo mesmo e a historicidade são como a respiração e a pressão do ar e – por mais paradoxal que possa parecer – no aspecto metodológico, a não-historização me parece um resto metafísico>

Em minha opinião, existe uma filosofia da história – não se assuste – porque filosofar é viver – quem poderia escrevê-la! Decerto, não no sentido em que até agora se concebeu e buscou, contra o que o senhor irrefutavelmente se pronunciou. Falso, até impossível, embora não seja o único, tem sido o questionamento até hoje existente. Por isso já não há nenhum filosofar real que não seja histórico. A separação entre filosofia sistemática e exposição histórica é, essencialmente, incorreta” Vejamos o que devia querer dizer com filosofia sistemática, hoje impossível. Claro que a filosofia sincrônica, da qual até rimos…

Off-topic, mas caberia perfeitamente como prefácio da República ou em Jaeger: “O poder tornar-se prática é, sem dúvida, o fundamento próprio e justo de toda ciência. Mas a práxis matemática não é a única. A finalidade prática de nosso ponto de vista [humanidades] é a pedagógica, no sentido mais amplo e profundo do termo. Ela é a alma de toda verdadeira filosofia e a verdade de Platão e Aristóteles.”

O senhor sabe o que eu acho a respeito da possibilidade de uma ciência da ética. Apesar disso, sempre se pode fazer algo melhor. Para quem são propriamente esses livros? Arquivos e arquivos! O único valor digno de nota é o élan de passar da física para a ética.”

O que penetra até o fundo da vida furta-se a uma exposição exotérica e, por isso, a terminologia não é compreendida pelo senso comum, sendo, inevitavelmente, simbólica. É da especificidade do pensamento filosófico que decorre a especificidade de sua expressão verbal.”

A tarefa pedagógica do Estado seria desfazer a opinião pública elementar e possibilitar, tanto quanto possível, a formação da individualidade no ver e no perceber. Ao invés do que se chama de consciência moral – essa alienação radical – voltamos a consciências singulares, que paradoxalmente fortaleceriam a consciência moral”

A curiosa dualidade utilizada pelo autor, ôntico x histórico, precisaria de uma fundamentação mais originária, pois H. diz: como se entenderia esse ‘histórico’, sem defini-lo pelo ôntico, e na verdade pressupondo que uma unidade serve de base a essa distinção mesma? I.e.: não é uma falsa dicotomia entre aparência-espírito, o que já havia sido tentado na história da filosofia, mas a remissão, neste caso, justamente à historicidade da pre-sença (somente meio século depois de Yorck, evidentemente, chegou-se a essas palavras).

Não é por acaso que Yorck chama o ente não-histórico de ôntico simplesmente. Isso apenas reflete o predomínio ininterrupto da ontologia tradicional que, provindo do antigo questionamento do ser, mantém a problemática ontológica numa estreiteza de princípio. [corpo e alma, blábláblá…]”

Chegou a hora de consumar Dilthey-Yorck, é o que está nos dizendo H..

6. TEMPORALIDADE E INTRATEMPORALIDADE COMO ORIGEM DO CONCEITO VULGAR DE TEMPO

RECUO? “O tempo <em que> os entes intramundanos vêm ao encontro deve, ainda mais necessariamente, receber uma análise de princípio, porque, além da história, também os processos naturais se determinam <no tempo>.”

De onde a pre-sença toma o tempo? Como esse tempo se comporta frente à temporalidade?”

Na interpretação hegeliana do tempo, tanto a possibilidade de interpretar o tempo de forma subjetiva quanto objetiva são, de certa forma, superadas.” “Em seu resultado, a presente interpretação da temporalidade da pre-sença e da pertença do tempo do mundo à temporalidade parece concordar com Hegel. (…) porém (…) faz-se necessária uma breve exposição da concepção hegeliana da relação entre tempo e espírito”

Tempo como ser e ente

agora-agora”

Chamamos de <tempo> a atualização que interpreta a si mesma, ou seja, o que é interpretado e interpelado no <agora>.”

lapso de tempo”

A temporalidade é o fundamento do relógio. Enquanto condição de possibilidade da necessidade factual do relógio, a temporalidade condiciona, igualmente, a possibilidade de sua descoberta. Pois somente a atualização, que atende e retém o transcurso do sol, que vem ao encontro junto com a descoberta dos entes intramundanos, é que possibilita e exige a datação que interpreta a si mesma, a partir do que está publicamente à mão, no mundo circundante.” Destaquei em verde dada a banalidade desse meio-parágrafo já às portas do fim do volume, exasperando o leitor.

O TEMPO-NO-TEMPO E O MUNDO-NO-MUNDO: “o mundo das ocupações é datável, se dá num lapso de tempo, é público e, por ser assim estruturado, pertence ao próprio mundo.”

ENTRE O MEIO-DIA E A MEIA-NOITE

quando as sombras alcançarem tantos pés, nos encontraremos lá”

O que significa ler o tempo?”

Não caberia aqui aprofundar o problema da medição do tempo característica da teoria da relatividade.” Seguido de uma explicação do completo encerramento da física, quântica, especial ou qualquer outra, no mero nível ôntico de vivência.

As relações entre os números históricos, o tempo calculado astronomicamente e a temporalidade e historicidade da pre-sença necessitam de uma ampla investigação.” “As duas obras fundamentais sobre a formação da cronologia histórica são: Josephus Justus Scaliger, De emendatione temporum, 1583, e Dionysius Petavius, SJ, Opus de doctrina temporum, 1627. Sobre a antiga medição do tempo, vide G. Bilfinger, Die antiken Stundenangaben, 1888; Der Bürgerliche Tag. Untersuchungen über den Beginn des Kalendertages im klassischen Altertum und im christlichen Mittelalter, 1888; H. Diels, Antike Technik, 2ed., 1920 (capítulo Die antike Uhr).”

Resposta a Hegel: “O tempo do mundo [ôntico] é <mais objetivo> do que qualquer objeto possível porque, enquanto condição de possibilidade dos entes intramundanos, ele já se <objetivou> junto com a abertura de mundo, ekstática e horizontalmente. Apesar da opinião de Kant (…) De início, o <tempo> se mostra justamente no céu, lá onde, impessoalmente se encontra quando se é orientado por ele de forma natural [e não apenas psiquicamente]

Mas o tempo do mundo também é <mais subjetivo> do que qualquer sujeito possível porque, no sentido entendido de cura como ser do si-mesmo que de fato existe, ele também possibilita esse ser.”

Assim como todos os entes não-dotados de caráter de pre-sença, ele [o temporal, ontológico] é atemporal, quer ocorra, se origine e decorra <realmente>, quer subsista <idealmente>.”

Nunca se superestima o Estagirita o suficiente, pelo visto: “Esta nada mais é do que a interpretação ontológico-existencial da definição do tempo dada por Aristóteles.” Tudo por causa dessa reles frasezinha: “O tempo é isso, a saber, o que é contado no movimento que se dá ao encontro no horizonte do anterior e do posterior”.

Sua interpretação do tempo movimenta-se, sobretudo, na direção da compreensão ontológica <natural>. Mas como esta compreensão e o ser nela compreendido tornam-se um problema de princípio para a presente investigação, a análise aristotélica do tempo só poderá ser tematicamente interpretada após resolver-se a questão do ser.” “Toda a discussão seguinte a respeito do conceito de tempo atém-se fundamentalmente à definição aristotélica, ou seja, tematiza o tempo tal como ele se mostra na ocupação, guiada por uma circunvisão.”

Embora não se diga explicitamente que os agora são, como as coisas, simplesmente dados, do ponto de vista ontológico, eles são <vistos> no horizonte da idéia do ser simplesmente dado.” “Enquanto tempo-agora, a interpretação vulgar do tempo do mundo não dispõe de horizonte para, assim, poder tornar acessíveis para si mundo, significância e possibilidade de datação.”

já Platão teve de chamar o tempo de imagem derivada da eternidade” Na parte do Timeu em que Deus criou o céu: ou seja, Heidegger não disse, até agora, nada de novo… Dois mil e tantos anos de falsa jactância…

Não é a partir da ex-tensão horizontal da unidade ekstática da temporalidade, publicada na ocupação do tempo, que se compreende o esticar-se num lapso de tempo.”

A principal tese da interpretação vulgar do tempo – de que ele é <infinito> – revela, ainda mais profundamente, o nivelamento e o encobrimento do tempo do mundo, inseridos nessa interpretação, e, com isso, da temporalidade em geral.” “Como esse pensar o tempo até o fim ainda deve sempre pensar o tempo, costuma-se concluir que o tempo é infinito.” (demonstrado com suficiência por Kant e Hegel) “o impessoal nunca pode morrer. Nunca morrendo e compreendendo equivocadamente o ser-para-o-fim, o impessoal dá uma interpretação característica à fuga da morte. Até o fim, ele <sempre ainda tem tempo>.”

Por que dizemos: o tempo passa, e não acentuamos igualmente: ele aparece (vem)?” “No discurso do passar do tempo, a pre-sença acaba compreendendo mais do tempo do que gostaria, ou seja, apesar de todo encobrimento, a temporalidade, em que o tempo do mundo se temporaliza, não está inteiramente fechada.”

vontade de deter o tempo”

No discurso acentuado do passar do tempo reside o reflexo público do porvir finito da temporalidade da pre-sença.”

Não necessita de uma discussão ampla o fato de o conceito tradicional de eternidade ter haurido o seu significado de <agora permanente> (nunc stans) da compreensão vulgar do tempo e de ter sido definido pela idéia do ser simplesmente dado <contínuo>.”

Desse modo, em princípio, a interpretação da pre-sença como temporalidade não se acha fora do horizonte do conceito vulgar de tempo. Hegel já fez a tentativa explícita de elaborar o nexo entre tempo, vulgarmente compreendido, e o espírito. Em contraste, para Kant, o tempo, não obstante <subjetivo>, está desligado, colocando-se <ao lado> do <eu penso>.”

Hegel, todavia, não se contenta em expor a intratemporalidade do espírito como um fato, mas ele busca a possibilidade de compreender que o espírito cai no tempo, o qual é <o sensível, o totalmente abstrato>.”

1. Como Hegel delimita a essência do tempo? 2. O que pertence à essência do espírito para que ele possa <cair no tempo>?” Como instância máxima e seu Absoluto, é inexplicável tal necessidade subordinativa, por assim dizer.

o conceito hegeliano de tempo expõe a elaboração conceitual mais radical e bem pouco considerada da compreensão vulgar do tempo.”

Fiel à tradição [aristotélica], a análise hegeliana do tempo tem seu lugar na 2ª parte da Enciclopédia das ciências filosóficas, intitulada: Filosofia da Natureza.”

<O espaço é tempo, ou seja, o tempo é a verdade do espaço.>

Na negação da negação (i.e., na pontualidade), o ponto se coloca para-si, emergindo, portanto, da indiferença em que subsiste.” A sucessão de pontos se torna análoga à sucessão de agoras.

Tempo é o devir <intuicionado>, ou seja, a passagem que não é pensada” Ainda o tempo kantiano em H.

A caracterização hegeliana do tempo a partir do agora pressupõe que o agora permaneça encoberto e nivelado em toda a sua estrutura, a fim de poder ser intuicionado como algo simplesmente dado, embora ideal.”

Mas, por vezes, ele também caracteriza o tempo como a <abstração do desgaste>, fornecendo, assim, a fórmula mais radical [ainda demasiado humana e cristã] da experiência e interpretação vulgares do tempo.” “na caracterização do tempo como devir, Hegel também compreende o devir em sentido <abstrato>, que ultrapassa a representação de <fluxo> do tempo.” “É somente partindo deste conceito dialético-formal do tempo que Hegel pode expor o nexo entre tempo e espírito.”

Na passagem de Kant para o sistema elaborado de Hegel, cumpre-se ainda uma vez a irrupção decisiva da ontologia e da lógica aristotélicas. Isso é um fato de há muito conhecido. Mas ainda permanecem obscuros o caminho, o tipo e os limites da influência. Uma interpretação filosófica e concretamente comparativa da Lógica de Jena de H. [não é a Lógica que conhecemos, mas um tratado de juventude] e da Física e Metafísica de Ar. trará uma nova luz.” “a concepção de Bergson concorda, em seus resultados, com a tese de Hegel de que espaço é tempo.” E no entanto eu observei o outro lado da moeda, bem mais acima: ora, Hegel subsume o espaço NO tempo; Bergson o oposto.

[Em Hegel] <Progredir> é sempre um saber-que-se-sabe-em-sua-meta, sendo, por isso, sabido.” “Porque a inquietação do desenvolvimento do espírito, que se leva para seu conceito, é a negação da negação, resta-lhe como próprio, em se realizando, cair <no tempo>, no sentido de negação imediata da negação. Pois <o tempo é o próprio conceito que existe e se representa para a consciência como intuição vazia; por isso, o espírito se manifesta necessariamente no tempo e tanto mais quanto menos ele apreende seu conceito puro, ou seja, tanto menos ele elimina o tempo.>”

<A história universal é, por conseguinte, a interpretação do espírito no tempo assim como a idéia se interpreta no espaço como natureza>

Enquanto simplesmente dado e, com isso, exterior ao espírito, o tempo não possui poder algum sobre o conceito, mas, ao contrário, o conceito <é o poder do tempo>.”

Não se poderá discutir aqui se a interpretação hegeliana de tempo e espírito e de seu nexo é legítima e se ela se baseia em fundamentos ontologicamente originários.” Covarde!

O <espírito> não cai 1º no tempo, mas ele existe como temporalização originária da temporalidade.”

O <espírito> não cai no tempo, mas a existência de fato <cai> da temporalidade própria e originária na de-cadente.”

Se faz de humilde no final para despistar que sua obra é incompleta e está aquém da ontologia nietzschiana de quase 100 anos antes, que já propunha um escape do Ocidente, enquanto que a proposição heideggeriana é exatamente como seu clamor (que no entanto é filosoficamente autêntico, mesmo se inteiramente baseado em Nietzsche): vazia, silenciosa. “A elaboração da constituição ontológica da pre-sença é, porém, apenas um caminho. A meta é elaborar a questão do ser em geral.” “[A conclusão de minha presente pesquisa] Não é algo com que a filosofia possa se tranquilizar.” Ó!

Por nem sequer ter sido desencadeado, o combate em torno da interpretação do ser não se pode dar por terminado.”

Final patético: “Como se há de interpretar esse modo de temporalização da temporalidade? Haverá um caminho que conduza do tempo originário para o sentido do ser? Será que o próprio tempo se revela como horizonte do ser?”

SPEECH AND WRITING ACCORDING TO HEGEL – Derrida, 1971 (in: W.F. Hegel, Critical Assessments, ed. Robert Stern, 1993).

INTRODUCTION TO HEGEL’S SEMIOLOGY

For the moment let us see here the indication or the incitation to recognise that the essential place of semiology is at the centre, not on the margin or as an appendix to Logic.”

metaphysics could only consider the sign as a passage, a place of passage, a passage-way (passerelle) between two moments of presence, the provisional reference from one presence to the other. The passage-way can be lifted.” Suspensa ou levantada, um dos problemas centrais da tradução da terminologia hegeliana para o Português: de preferência deve-se usar suspensão; ao mesmo tempo que um elemento “des-aparece”, isso não implica que ele suma da representação fenomênica ou seja aniquilado para não-mais-voltar. A suspensão mantém o vetor de lift (elevador, idéia de ascensão, subida, erguida, alavancagem) e ao mesmo tempo a noção do objeto da representação que fica em suspenso, i.e., desaparece para depois eventualmente re-aparecer (ascende, mas pode descender na seqüência, após momentos da representação).

time itself is but the referring of presence to itself. As such signification, the sign procedure is, to be sure, the moment of presence lost; but it is a presence lost by the very time that engages it in the movement of its reappropriation.” A suspensão é um momento necessário da dialética hegeliana.

The ‘in view’ designates the theoretical pre-eminence of the gaze, as well as the authority of the final aim, the telos of reappropriation of full presence, the ordination of the theory of signs to the light of parousia.” Parousia (grego): presença, aterrissagem (descida, chegada, retorno no sentido de reapropriação, no sentido mítico de Ulisses voltando à sua casa e também do passageiro que parte em viagem mas retorna, arrive back home, o contrário de arise, erguer-se, levantar-se, partir, que bem podia ser usado no lugar de lift). Ousia, sem par-, é Ser.

It could be shown that this very general necessity governs metaphysics in its essence and in its totality – which is one with its history, and, I would even go so far as to say: with history as such.

We should then expect Hegelianism, which is so generally said to represent the completion of metaphysics, both in the sense of accomplishment and in the sense of end, to give the most systematic and powerful, the most ingathered, ingathering, assembled, assembling form to this metaphysical gesture. We should find a primary index of this in an architectonic reading that aims to locate the place Hegel assigns to the theory of signs in the system. For such an architectonic reading it would doubtless be best to consult here the Encyclopaedia of Philosophical Sciences (1817).”

The theory of signs is inscribed in the 3rd part of the Encyclopaedia, that is in the Philosophy of Mind, following the Science of Logic (Lesser Logic) and the Philosophy of Nature. What does this division answer to? To briefly collect its meaning it is enough that we refer to what Hegel himself says at the end of the Introduction to the Encyclopaedia, § 18: [Os parentêses na citação são de Derrida]

As the whole science, and only the whole, can exhibit what the Idea or system of reason is, it is impossible to give in a preliminary way (or precursorily) a general impression of a philosophy. Nor can a division ( distribution) of philosophy into its parts be intelligible, except in connection with the system. A preliminary division, like the limited conception from which it comes, can only be an anticipation (something anticipated). Here, however, it is premised that the Idea turns out to be the thought which is completely (simply) identical with itself, and not identical simply in the abstract, but also in its action of setting itself over against itself, so as to gain a being of its own, and yet a being in full possession of itself while it is in this other.¹”

¹ Não só em potência, essência (em-si) mas também em ato, aparência (para-si), e conseqüentemente ao mesmo tempo em e para si, unidade sujeito-objeto (consciência em Hegel).

Em seguida H. divide a Filosofia em 3 momentos, esclarecendo que é uma divisão didática e nunca um momento subsiste ):

1. Lógica, o conhecimento da essência isolada, em-si, a Idéia.

2. Filosofia da Natureza, o conhecimento da aparência isolada, para-si, o Outro. (momento provisório da separação sujeito-mundo)

3. Filosofia da Mente (consciência), o conhecimento da descida ou chegada da Idéia ou essência ao se manifestar (do em si que se acopla ao para si, da etapa ou processo consumado descrito acima). Identidade final da diferença (Idéia e Outro no Um).

Grosso modo: ESSÊNCIA CARENTE OUTRO SER (ESSÊNCIA PERFEITA ou O ABSOLUTO).

A Filosofia da Mente pode ser subdividida em 3 momentos:

3.1. A mente subjetiva: abstração da auto-relação, a liberdade absoluta da Idéia consigo mesma (no arbitrário), mas falsa, pois “fora do mundo”.

3.2. A mente objetiva: a abstração da objetividade material do mundo, enquanto algo alheio à Idéia. A liberdade é entendida como necessidade, pura causalidade cega.

3.3 A menta absoluta: a unidade realmente existente, concreta, da consciência como objetividade e idealidade, a liberdade como tal. A “verdade” em sua dinamicidade, como compreendida por Hegel.

Por que o momento 3.1 está negritado acima? Porque Derrida entende a teoria do signo lingüístico como o equivalente a esta etapa. Um “modo” ou “determinação finita”, “transição ou etapa necessária da auto-superação”. Derrida chama o 3.1 ou signo de “transição da transição”. A Idéia auto-suficiente é negada, suprimida pelo Outro (próxima etapa afirmativa).

Derrida subdividirá, ainda, o 3.1, seu objeto de interesse neste texto, em:

3.1.1. O imediato: o Espírito-na-natureza (Naturgeist), o objeto do ponto de vista da Antropologia (do tempo de Hegel, mero modo de expressar a relação de alteridade homem vs. natureza, não a Antropologia científica que estuda a diferença cultural entre culturas ou homens diferentes – está muito mais para ciência exata que para um campo social, pois abarca até a fisiologia humana, como teremos a oportunidade de ver mais abaixo).

3.1.2. O mediato: reflexão no sentido comum. A consciência abstraída, tratando-se como objeto exterior (o objeto do ponto de vista da Fenomenologia da Mente).

3.1.3. Objeto-de-si-mesmo: o objeto do ponto de vista da Psicologia (hegeliana), reconhecendo-se idêntico ao que era outro (reincorporando-se).

Para Derrida, a teoria do signo pertence em sua delimitação, mais precisamente, ao momento da Psicologia (3.1.3), “definida como ciência da Mente determinando a si mesma em si mesma como objeto para si mesma”.

A semiologia, como parte da ciência do objeto para si mesmo, não pertence à ciência da consciência, isto é, à fenomenologia [3.1.2].” “Esta psicologia está divorciada da natureza. Estamos não só referidos aqui a todas as tentativas semiológicas do séc. XVIII, que eram todas psicologizantes, mas referidos, em última instância, a Aristóteles, o patrono que Hegel invoca em sua Psicologia da Mente quando, na Introdução acima, descreve:

Os livros de Aristóteles Da Alma (Peri Psychis) … são por isso e ainda, de longe, o trabalho especulativo de valor mais admirável, talvez o único de valor, neste tópico. A principal meta de uma filosofia da mente só pode ser reintroduzir o conceito no conhecimento-da-mente, o que quer dizer redescobrir a lição destes livros de Aristóteles.

Define Aristóteles, em outro livro:

A palavra falada (ta en tiphoni) é o símbolo de afecções ou estados da alma, e a palavra escrita é o símbolo da palavra falada. Assim como nem todo homem tem a mesma escrita, nem todo homem tem o mesmo som da voz, mas os estados da alma, de que essas expressões são o signo imediato ou primário (semeia protos) são os mesmos para todos, assim como as coisas, de que esses estados são apenas a imagem.”

Mas quando afirmo [Derrida] que é tradicional fazer da semiologia dependente da psicologia, não penso apenas no Hegelianismo do passado, mas no que se revela como além do Hegelianismo, isto é, superação do Hegelianismo, e não só algo derivativo e compreendido no Hegelianismo. Porque essa é uma tradição metafísica, ininterrompida pelas ciências humanas contemporâneas. Nos seus Cursos de Lingüística Geral, Saussure traça duas vezes o plano para uma semiologia geral juridicamente [?] dependente da psicologia.”

A Lingüística é só uma parte da ciência geral da semiologia; as leis descobertas pela semiologia serão aplicáveis à lingüística, e esta última será circunscrita em limites bem-definidos dentro da massa de fatos antropológicos.” Saussure

Uma observação: hoje entendo a Lingüística como uma Semiologia no sentido saussureano, e a lingüística de Saussure como uma subdivisão desta. Isto é, entendo que nunca houve esta expansão desejada por Ferdinand de Saussure.

Hjelmslev, apesar de reconhecer a importância da herança saussureana, levantou a questão da crítica aos pressupostos dessa mesma herança, i.e., criticou a autoridade atribuída à psicologia e o privilégio acordado à ‘substância expressiva’ sonora ou fônica.” Nesse tocante, creio que Saussure ainda siga atual e não procede a crítica hjelmsleviana: a lingüística segue sendo o estudo do signo psíquico, em clara antecipação à consideração de que surdos-mudos aprendem a língua sem prejuízo (o processo mental incorpora a questão da escuta e da fala, não havendo quebra epistemológica dos pressupostos de Saussure).¹ Por outro lado, a fala continua sendo a instância privilegiada em detrimento da escrita, como se vê no princípio da arbitrariedade das mudanças lingüísticas (sobre as quais a literatura não têm nenhum controle, uma vez que a língua se desenvolve organicamente no cotidiano do universo dos falantes totais daquela língua).

¹ Muitos estudantes de lingüística de nosso tempo querem desqualificar Saussure no trecho em que ele se refere ao ‘signo acústico’, porém o sentido mais correto do que ele quis expressar em sua época teria de ser retraduzido nas atuais edições de sua obra clássica como ‘psíquico’ no lugar de acústico, porque se refere a um processo interior, mental.

Veremos como a excelência psíquica e a preeminência fônica andam juntas também em Hegel, por razões que são histórica e essencialmente metafísicas.”

A psicologia estuda as faculdades ou modos gerais da atividade mental enquanto atividade mental – intuição, representação, rememoração, etc., desejos, etc.” H.

A teoria dos signos, consistindo essencialmente numa teoria da fala e da escrita, está contida em duas notas de rodapé bastante extensas de H., notas estas mais longas que os próprios parágrafos aos quais estão subordinadas, no sub-tópico intitulado ‘Imaginação’ [na Enciclopédia]. A Semiologia seria, portanto, um desenvolvimento pertencente à teoria da imaginação, e mais especificamente, à Fantasiologia ou Fantástica¹ [Phantasiology ou Phantastics] hegeliana.”

¹ Ainda não li o original (a Enciclopédia). Talvez Fantasística ou mesmo Phantasística, com ‘ph’, sejam traduções mais acertadas.

O que é imaginação? Representação (Vorstellung) é intuição relembrada-interiorizada (erinnerte). Pertence à inteligência (Intelligenz), que consiste em interiorizar a imediatidade sensível, ‘para apresentar a si mesmo como possuidor da intuição de si mesmo’ (in sich selbst anschauend zu setzen) – para suspender e conservar, no duplo movimento da negação (Aufhebung), a subjetividade pertencente à interioridade,¹ para que seja exteriorizada em si mesma e ‘esteja em si mesma em sua própria exterioridade’ (in ihrer eigenen Ausserlickhkeit in sich zu sein). Na lembrança temos o movimento decisivo da representação em que a inteligência é chamada de volta a si, e está em si mesma em sua exterioridade. Na lembrança o conteúdo da intuição se torna uma imagem – está livre da imediatidade e individualidade a fim de permitir a transição para a representação conceitual objetiva. E a imagem lembrada e interiorizada na memória não é mais uma ‘existência’, i.e., presente, na memória, mas depositada fora da consciência (bewusstlos aufbewahrt), retida numa morada inconsciente. A inteligência pode ser concebida como essa reserva, essa capa escura no fundo da qual as imagens enterradas são escavadas.² Hegel também chama essa instância ou reserva de ‘abismo noturno’ ou ‘abismo inconsciente’.”

¹ O texto em inglês de Derrida traz “inferiority”, inferioridade. Pode ser um jogo semântico de Hegel sobre ascender e baixar, também; mas como está em oposição a exterioridade aqui, acho mais provável que seja só erro de digitação.

² Fuck Freud!

Que a rota que vamos percorrer seja circular e que esse abismo seja em verdade uma pirâmide é um enigma sobre o qual devemos perguntar se ele deve ser suspendido como uma verdade que estava no fundo de um poço e devemos trazer à luz ou então decifrado como inscrição que adorna o monumento.” Os próprios verbos interiorizar e recordar em alemão têm a mesma raiz. Sobre a pergunta retórica de Derrida, veremos que é um pouco dos dois.

A síntese dessa imagem interna com a existência relembrada é ela mesma o conceito de representação: mediante esta síntese o interno agora tem a qualificação para aparecer diante da inteligência e existir propriamente, estar-aí (Dasein)” H. § 454

Esta explicação de H. serve para a memória re-produtiva, passiva, que não cria suas próprias memórias, apenas recebe dados do exterior. É só a primeira etapa da explicação da faculdade da memória.

O que é produzido e exteriorizado no momento seguinte (a segunda etapa da faculdade da memória) e espelhado (simétrico, contrário) é o signo. Ele é emitido pela imaginação produtiva ou criativa. Nossa capacidade de fantasiar, no sentido hegeliano.

Uma existência imaginada é uma imagem existenciada.

O que é internalizado se torna universal para si mesmo, e logo é expelido como intuição concreta (“an affirmation that may appear abusive or unintelligible”, D.) ou coisa. Nesse esquema H. não omite que é tributário de Kant.

Finalmente, notemos que a imaginação transcendental é também o movimento de temporalização que Heidegger repetiu tão admiravelmente em seu Kant e o Problema da Metafísica

A união dos contrários e a semio-poiesis. “Productive imagination is the MittelpunktH.

Ao final do texto vamos finalmente entender o que significam essas aspas!

O signo em si mesmo não é nada.

A imaginação, quando percebida como a agência dessa unificação, é razão (Vernunft), mas só razão formal, porque a matéria ou o tema que encapsula é para a imaginação enquanto (qua) imaginação uma matéria indiferente; ao passo que a razão enquanto (qua) razão determina também o conteúdo com vistas à verdade.” § 457

O signo só é um ponto-médio do caminho para a verdade da consciência (fica a meio caminho), e no entanto ele não é um acidente (arbitrário), no sentido de ser um momento, embora abstrato (nisso, ele é arbitrário), necessário no desenvolvimento da racionalidade e da aparição da verdade.

Por que a verdade independe do, ou melhor, depende da ausência do, signo?”

Por que o signo é só um momento inferior, um conceito metafísico menor?” (Neste sentido talvez o ‘interior’ lá em cima fosse mesmo inferior!)

Por que a verdade não se expressa (em signos)?”

Then ‘Why’ (Pourquoi) here no longer indicates a question about the in-view-of-what? (pour quoi), about the telos or the eschaton of the movement of signification; nor does it indicate a question about an origin: ‘Why?’ taken as ‘because of what?’ ‘Starting with what?’ etc. ‘Why’ is then the still metaphysical name for a question about the metaphysical system that links the sign to the concept and to truth. But this question can break through and penetrate only in freeing itself from even this Why-form, undetermined as it may seem.”

O signo só é o que é hoje no campo do conhecimento porque a metafísica foi encerrada ou arrematada – ele se beneficiou disso.”

O signo é, na definição de Hegel, portanto, a unidade de uma ‘representação independente’ e de uma ‘intuição’. Porém, na identidade da representação e da intuição, algo excepcional sucede: essa intuição não é uma simples intuição, como a intuição em geral. Um ser é dado, uma coisa é apresentada, apresentada para imediata recepção no presente. Exemplo: a cor dum chapéu está-lá para a intuição. Porém, como é indissociável da representação (Vorstellung) essa presença representa, i.e., reapresenta algo que não é em si mesmo, ou não é o mesmo, mesmidade, mas diferença. É colocada (a cor) no lugar de algo outro (etwas anderes vorstellend), um representativo representacional de algo mais (aqui Vorstellung não é só apresentação, é representação no sentido literal, pois indica o papel de mediação). O quê representa? Do quê o significante apresentado à intuição é significante? Como H. determina o representado ou o significado? É claramente uma idealidade contrastada com a real corpo-realidade (ou corporeidade) do significante. H. chama esse significado do signo, o Bedeutung (geralmente traduzido como ‘significação’; eu, por outro lado, prefiro traduzir como content de vouloir-dire).¹”

¹ O conteúdo-significado; seguindo a estranha expressão francesa, o conteúdo do querer-dizer.

Corpo-significante e alma/idealidade-significado

O signo é, pois, uma encarnação.” “Isso segue válido em Saussure e Husserl. Para este último o signo é animado pela intenção de significações como corpo (Körper) tornando-se ou devindo corpo-próprio (Leib) animado por Geist (alma, espírito). Para Husserl a palavra viva é uma espiritualidade corporificada.”

Mas Hegel enfatiza não só a aquisição do corpo-próprio, mas o lado inerte e inanimado, tumba.” Há um trocadilho em grego, usado por Platão, entre soma e sema (corpo e tumba, o corpo é uma prisão da alma).

O corpo do signo é aquele monumento no qual a alma vai ser silenciada e confinada, guardada, mantida, conservada, tornada presente.” pirâmide-embalsamamento-monumento-inscrição

trabalho da morte”

H. usa deliberadamente o signo pirâmide, ou diríamos o símbolo piramidal, para designar ou para significar o signo.” “H. vê no hieróglifo egípcio uma espécie de paralisia da dialética.”

O “algo mais” acima é justamente o negativo. Todas as cores que não são a cor do chapéu. A intuição-do-ausente.

A alma consignada na pirâmide é estrangeira. Se a alma é transposta, transferida, transplantada no monumento-significado, é de outra ordem que a pedra-significante, do intuitivo dado. E essa heterogeneidade é, primeiro, a irredutibilidade da alma e do corpo, do inteligível e sensível, do conceito (idealidade-significado) e do corpo sensível do significante. (representação) H.

Há um abismo ou alteridade intransponível aí. Para H., essa é a distinção entre signo e SÍMBOLO. Um símbolo simboliza naturalmente algo que se lhe assemelha. Um signo é totalmente convencionado, não há ligação natural entre significante e significado.

Essa teoria da natureza arbitrária do signo e essa distinção entre signo e símbolo é retomada em extenso e de modo mais claro na Introdução à primeira seção da Estética (‘Do símbolo em geral’).”

Se ainda havia alguma dúvida de que todo o sistema conceitual que domina a assim chamada revolução da lingüística – quero dizer, a lingüística saussureana – usa como modelo explícito a metafísica, precisamente a metafísica que opõe conceitos entre si, a da semiologia hegeliana, creio que agora essa dúvida não pode mais se colocar.”

A palavra símbolo foi utilizada por vários autores para designar o signo lingüístico, ou mais especificamente o que aqui se chama significante. O princípio da arbitrariedade do signo que acabo de explicitar é totalmente contrário à persistência desse uso. Uma característica do símbolo é que ele nunca é inteiramente arbitrário; não é inócuo, porque há indícios de uma conexão natural entre significante e significado. O símbolo da justiça, um par de balanças, não pode ser substituído impunemente, p.ex., por um tanque.” Saussure

the production of arbitrary signs manifests the freedom of mind.” O telos da Psicologia hegeliana, a aquisição da liberdade.

Na atribuição de significados, portanto, a inteligência manifesta uma liberdade e uma maestria incomparáveis no uso de intuições que não são nunca manifestas nas simbolizações.” H., § 458

Aí vemos concluída a pirâmide de Hegel.” É como se o ‘espaço arquitetônico’ escolhido por H. para representar a aquisição de, por um lado, uma razão vazia (ainda uma razão incompleta) e, por outro, uma liberdade irrestrita pela consciência, em uma de suas etapas, fosse exatamente a parte que cabe deixar oca nas construções, para que a distensão dos metais e outros sólidos não comprometesse todo o esqueleto da construção.

This sign-creating activity may be distinctively named ‘<productive> memory’ (produktive Gedächtnis) (the primarily abstract ‘Mnemosyne’); and since ‘memory’ (Gedächtnis), which in ordinary life is often used as interchangeable and synonymous with ‘remembrance’ (recollection) (Erinnerung), and even with ‘conception’ and ‘imagination’, has always to do with signs only.” (Remark, § 458)

In his fine essay on Proust, G. Deleuze has shown very well that the Remembrance of Things Past was less an exercise of memory than a semiotic activity or experience. You see that Hegel does not distinguish between the two, and that there is here another occasion to underline an affinity between Proust and Hegel.”

ONDE GERALMENTE OS MATEMÁTICOS PARAM DE TENTAR DESAFIAR HEGEL: “É a minha tese [Derrida] a do privilégio do sistema lingüístico – que é fônico – sobre todos os demais sistemas semióticos. Um privilégio, destarte, também da fala sobre a escrita; e da escrita fonética sobre qualquer outro sistema de notação ou qualquer outro tipo de inscrição, em particular os hieróglifos ou a escrita ideográfica. Mas também da escrita fonética perante a escrita matemática formal (qualquer que seja ela), a álgebra, a pasigrafia [uma espécie de Esperanto taquigráfico] e outros projetos de escritura universal do tipo leibniziano (fracassados), sobre o qual Leibniz gabou-se de ‘não necessitar, por princípio, referir-se à voz (vox) ou à palavra’.”

That is if one accepts, and in the measure that one accepts considering Hegelianism as the completion of Western metaphysics, the pre-eminence of the phoni is one with the essence of metaphysics. And thus whatever in certain modern sciences – for example in a certain work of glossematics carried out by Hjelmslev, but this is but one example – scientifically questions this privilege of the vox, both as voice and as word, in some measure trangresses the metaphysical closure itself.”

no signo a intuição sensível-espacial é sublimada temporariamente” Mas o que entra no lugar do espaço ao ser negado é o tempo, que em si é (o lado oculto do) espaço. O signo como temporalização em Heidegger (acima).

a fase mais verdadeira da intuição usada como signo é a existência no tempo (Dasein – o sendo-aí em intuição – in der Zeit: uma fórmula que devemos considerar ao mesmo tempo como dizendo que o tempo é o Dasein do conceito).” “Por que é a da intuição sublimada a sua fase mais verdadeira? Porque o tempo é o espaço sublimado.” O MEIO É A MENSAGEM: É a única forma do corpo (significante) desaparecer conservando-se a si mesmo na forma da idealidade (significado, conceito), ou seja, como outro. “But what is the signifying substance, what glossematicians call the expressive substance, most proper to be thus produced as time itself? It is sound, sound lifted from its naturalness and bound to the mind’s relation with itself, to the psychi as subject for itself and auto-affecting itself – the animated sound, the phonic sound, the voice, the Ton.” O homem é o único animal que vive-no-tempo porque ele fala (e compreende a fala).

The voice is what unites the anthropological naturalness of the (natural) sound with the psychic-semiotic ideality, what consequently joins the Philosophy of Mind to the Philosophy of Nature, and within the Philosophy of Mind joins anthropology to psychology between which, I recall, phenomenology, the science of consciousness, is inscribed.”

This means, in Hegelian language, that it is the essence of time as existence of the concept. But at the same time (so to speak) language, inasmuch as it interiorises and temporalises Dasein as it was in the given of sensible-spatial intuition, elevates existence itself, sublates (relève) it in its truth, at its highest level. It makes the sensible existence pass to representational or intellectual existence, to the existence of the concept. And this transition is precisely the moment of articulation that transforms the sound into voice and noise into language – a theme that would also merit a whole comparison with De Saussure.” O pensamento se materializa e a vida (fenomênica) fica em suspenso. Pode-se dizer que é a versão hegeliana da Idéia de Platão: acima do reino da Representação, no reino da representação, ao mesmo tempo, sem contradição, ou suportando a contradição (um em- como se não fosse em-, e sim num ‘além-tempo’: uma transcendência imanente).

But he contents himself with this systematics or architectonics. He does not fill out the field whose limits and topography he delineates. There are, none the less, indications of the lineaments of such a linguistics. For example, he admits that linguistics must be distinguished into a formal (grammatical) element and a material (lexicological) element.”

Ideality in general is, in Hegelian terms, ‘the negation of the real, which is none the less at the same time conserved, virtually retained (virtualiter erhalten), even if it does not exist’. But ideality as an element of language since the sign is the sublation (relève) of the sensible intuition of the real – has its own sense organs, its own elements of sensibility. Two senses share physical ideality between them: the sense for light and the sense for sound. These two elements have a privilege to which Hegel devotes numerous and splendid analyses in the Encyclopaedia and in the Aesthetics.

In so far as sound is concerned, it is noteworthy that linguistics refers us from psychology to anthropology (psycho-physiology), and that this latter refers us to physics. It is the reverse route of the teleology and movement according to which the Idea is reappropriated to itself as mind by rising from and sublating the nature [en (se) relevant (de) la nature] in which it was lost while being betokened therein. But at the beginning of the Physics light is posited as the first but abstract manifestation, an undifferentiated identity of qualified prime matter. It is through the light that nature refers to itself, manifests itself to itself. As is said in the Aesthetics, ‘light is the first ideality, the first auto-affirmation of nature. In light nature for the first time becomes subjective.’E fez-se Luz, e fez-se o Verbo (a Voz).

Signs, Hegel reflects, are not consumed. And this is to be related to the fact that the signifying matter is for Hegel always sound or light. We should have to ask if there is no other, and even whether audible or visible signs are not in some way eaten or consumed.

In any case, if sight is ideal, hearing, Hegel notes, is even more so; it as it were sublates (relève) sight.” Espaço Tempo. As artes visuais em geral, e os túmulos e inscrições egípcias em particular, negam a negação, tentam paralisar a dialética.

Há uma interseção astuciosa entre consumar (a metafísica) e consumir (a luz e o som) aqui (pois comer, devorar é acabar, completar). Afinal essa construção hegeliana é eterna ou está sofrendo erosão? Derrida encerra o ensaio falando da possibilidade de outra metafísica se – e somente se – alguém for pelo caminho da diferença (e não pelo da indiferença totalizante hegeliana), ou seja, alguma tentativa no sentido do que Hjelmslev empreendeu por volta dos anos 50.

HEGEL & O ESPÍRITO DA MÚSICA (Como que para comprovar que, procurando bem, todos os grandes filósofos, mesmo se odiando e discordando uns dos outros, chegam a conclusões fundamentais em comum – sobre a música, Hegel, Schopenhauer e Nietzsche são o consenso em contínuo – uma faixa de música alemã bastante longa): “since the calm, disinterested contemplation of works of art, far from seeking to suppress objects, lets them subsist as they are and where they are, what is conceived by sight is not the ideal in itself, but on the contrary perseveres in its sensible experience. But the ear, on the contrary, without practically (praktisch) turning to objects, perceives the result of the interior trembling (innern Erzitterns) of the body by which not the calm material figure, but a first ideality coming from the soul is manifested and revealed. As, on the other hand, the negativity in which the vibrant matter (schwingende Materia) enters constitutes a sublation (Aufheben of the spatial state, which sublation is in its turn sublated by the reaction of the body, the exteriorisation of this double negation, the sound (Ton) is an exteriorisation which is in its upsurge annihilated again by its own being-there, and vanishes by itself. By this double negation of exteriority inherent in the principle of sound, sound corresponds to the internal subjectivity in that sonority (Klingen), which of itself already is more ideal than real corporeality, renounces even this ideal existence and thus becomes a mode of expression of pure interiority.”²

¹ Entender sublimação do modo mais físico-químico possível – sem a interferência da hedionda psicanálise! Por isso eu prefiro sempre traduzir sublimação como simples negação quando posso – já que em Hegel a negação é sempre transitória (toda evaporação de matéria sólida é cíclica – cf. o motto marxista mais famoso!).ª De fato quando se diz que o tempo é o espaço sublimado, é o espaço negado, sem mais, nem menos do que isso.

ª Nada obsta o capitalismo (o real mais real) evaporar no ar!

² Aqui de novo o texto traz inferiority: agora estou certo de que era erro tipográfico: há a simetria corporeidade real (espaço puro) – pura interioridade (negação total do espaço).

This decisive concept of vibration, of trembling (Erzittern) as a physical transition from space to time, as sublation of the visible in the audible, the real in the ideal, this teleological concept of sound as a movement of idealisation and of Aufhebung of natural exteriority, is also explicated in the Encyclopaedia in the Physics (§ 300). We must then come back to it if we wish to account for the material part of language, that is lexicology.”

Thus in the linguistic part of semiology Hegel can make the move he advises against in general semiology: he can make of the question of writing an accessory question treated as an appendix, an excursus, a supplement. This move, we know, was made by Plato and Rousseau; it will also be made by De Saussure.”

It is from the province of immediate spatial intuition to which written language proceeds that it takes and produces the signs.” H.

Alphabetic writing is in and for itself the most intelligent’, says Hegel. Inasmuch as it respects, conveys and transcribes the voice as idealisation and movement of mind relating itself to its own interiority, phonetic writing is the most historical element of culture, most open to infinite development. ‘Learning to write an alphabetic writing must be considered a means of infinite culture (unendliche Bildungsmittel).’Um meio de imagem infinito, ‘diz’-nos a língua alemã! Sobre o negrito: de fato nós definimos nossa História pela escrita (mesmo quando esquecemos de definir que é a escrita fonética): antes da escrita, era a pré-História. Resta a pergunta: abriremos mão da cultura, ou ainda viveremos dentro da História? Mesma pergunta, em roupagem diferente, sobre o fim da Metafísica em H..

History as history of mind, the development of the concept as logos, the onto-theological deployment of parousia, is not hindered, limited, interrupted by alphabetical writing, which, on the contrary, inasmuch as it better effaces its own spacing, is the highest, the most sublating mediation.” Através do registro escrito (e amplio: da notação musical) podemos trazer de volta à memória qualquer momento sublime, ou idealidade, negação do real, do espaço ao menos, enquanto sobrevivemos na nossa forma fundamental que é o tempo, e vivenciar o Absoluto (em Hegel). Podemos, em suma, transcender a mundanidade. A pós-modernidade não vem destruindo a cultura, mas apenas jogando no mesmo terreno. Agora entendo por que Jean Baudrillard levanta a hipótese de que essa condição pode durar indefinidamente…

In effect, as everyone knows, and as Hegel recognises with a lucidity very rare in this domain, there is no purely phonetic writing; the alphabetical system we use is not and cannot be completely phonetic. A writing can never be penetrated and sublated completely by the voice. And the non-phonetic functions, the so to speak – silences, of alphabetic writing are not factual accidents or by-products one might hope to eliminate (punctuation, numbers, spacing). Hegel recognises this in passing in a parenthesis he quickly closes, and in which we read, concerning hieroglyphic writing: ‘(and hieroglyphics are used even where there is alphabetic writing, as in our signs for the numbers, the planets, the chemical elements etc.)’.”

Speaking of the hieroglyphic or Chinese writing, Hegel notes (as he does in other texts, notably in the Logic): ‘this feature of hieroglyphic – the analytic designation of representations – which misled Leibniz to regard it as preferable to alphabetic writing is rather in antagonism with the fundamental desideratum of language – the name’.

In assigning limits to universal, that is mute writing, writing not bound to the voice and to natural languages, in assigning limits to the function of the mathematical symbolism and calculus, considered as the work of the formal understanding, Hegel wishes to show that such a reduction of speech would interrupt the movement of Aufhebung, which is the movement of idealisation, of the history of mind and the reappropriation of logos in the presence to itself and infinite parousia. What is most written, most spaced, least vocal and internal in writing is what resists dialectics and history. We then cannot question the Hegelian concept of writing without questioning the whole history of metaphysics. For it is not a question of returning to Leibniz, concerning whom I have endeavoured elsewhere to show that his project remained metaphysical, and is fundamentally accessory to the system on the basis of which Hegel addresses his objections to him.

The writing from which metaphysics is to be questioned in its closure is then not writing such as metaphysics had itself determined it, that is such as our history and our culture enable us to think it, in the most familiar evidence of what is obvious. This writing in which the outside of metaphysics is announced could have, among other names, that of difference.”

A PROVISIONAL PARTIAL DECODING OF THE VOYNICH SCRIPT – Stephen Bax, 2014.

there was more than one individual involved, and (…) there is more than one ‘language’ involved” (Currier 1976:np). “In fact, to anyone familiar with scribal practice in mediaeval manuscripts, all of Currier’s examples can be explained straightforwardly as no more than idiosyncratic scribal differences when writing the same language, of a kind and a degree typical of the period.

The variation Currier identified in the VM, in other words, is commonplace in medieval manuscripts with languages which were not yet standardized. For example, in one mediaeval English manuscript no fewer than 6 different scribes using 6 different dialects have been identified, each using idiosyncratic conventions of spelling and grammar, yet all in the same language, namely English (Runde 2010). (…) for example in some Chaucerian manuscripts where the same page written by the same scribe contains diverse spellings such as dreem/dremes, seith/sey/seyn, blak/blake and so on (Yule 2001 and cf. Hans 1999).”

the single word ‘though’ has survived from Middle English texts in no fewer than 500 variants (Markus 2000).”

Taiz and Taiz have recently offered a convincing argument that the ‘Biological’ or ‘Balneological’ section (folios 75r-84v) possibly offers an account of mediaeval plant physiology following the philosophy of Aristotle and Nicolaus Damascenus (Taiz & Taiz 2011). Another recent insight was provided at the seminar to commemorate the 100th anniversary of Voynich’s rediscovery of the manuscript, when Johannes Albus presented a convincing argument that the last page of the manuscript is written in Latin and German, with two ‘Voynichese’ words, and contains a medical prescription (Albus 2012). Such advances are encouraging; however, none has yet resulted in a convincing decoding of a single word of the manuscript, without which further progress will inevitably be limited.”

This failure to decode any part of the text has led, perhaps inevitably, to rather defeatist suggestions that the whole manuscript is an elaborate 15th century hoax. Despite the fact that different scribes seem to have been involved in its construction, which would seem curious in a hoax, such theorists have pointed to a number of statistical and other properties of the Voynich text which they claim could not be found in natural languages, and argue that the best explanation is that of a ‘a tidy-minded hoaxer’, possibly using mechanical tools to reproduce sets of apparently realistic scripts in order to fool readers for malicious or monetary reasons (Rugg 2004, Rugg 2013, Schinner 2007).

However, as the same authors go on to explain, several natural language do in fact exhibit ‘narrow binomial distribution of word lengths’, in particular languages such as Arabic which use ‘Abjad’ scripts which omit most vowels, as will be discussed further below.

Hoax theorists also note that the VM often has the same or similar words repeated in one line, a feature noted earlier by D’Imperio (1978). However, this property could equally be used as evidence against a hoax, since any ‘tidy-minded hoaxer’ seeking to sell the manuscript would surely avoid such obvious and odd repetitions.”

In its entry on linguistic reduplication, the Encyclopedia Britannica cites the Turkic word ‘kara’ meaning ‘black’, which can be repeated to form an ‘intensive adjective’ meaning ‘pitch black’. (Encyclopedia Brittanica 2012b). In short, hoax theorists appear to neglect features of genuine natural languages which may be present in the VM.”

A further reason to set aside hoax theories is methodological. Not only is the hoax interpretation a sterile one, since logically it would stop all further research on the text completely, it also falls foul of a crucial scientific maxim in theory-building, namely to avoid multiplying complexities unnecessarily. Hoax theories typically contravene this by depending on many rather fantastical scenarios, devices and characters to explain why such a hoax might have been fabricated.”

all features of the VM script so far mentioned can be fully explained in terms of natural languages encoded in scripts devised for communication rather than obfuscation.

Indeed, a major methodological danger of starting with such a ‘big-theory’ approach is that the analyst inevitably feels obliged to select and even massage some of the facts to fit the theory, in an attempt to persuade and convince, rather than letting the evidence speak for itself in a more neutral way.”

using computers to find large patterns in the text as a whole (e.g. Stolfi 2000). In this article by contrast I adopt what we could call a ‘small data’ or ‘bottom-up’ approach, identifying individual linguistic patterns piece by piece, and gradually building up our decoding of the text sign by sign. One reason for this is because previous examples through history of significant decipherment have successfully adopted a similar ‘bottom-up’ approach, while few if any have ever succeeded through the use of computers alone.”

Young and Champollion’s decipherment of Egyptian hieroglyphs, and also Ventris’ decipherment of Cretan Linear B with the help of Chadwick, both made successful use of essentially the same systematic ‘bottom-up’ approach: finding individual proper names in the data and gradually building up from them a set of letter-sound correspondences, then finally identifying the underlying languages as Coptic and Greek respectively.

By contrast, earlier attempts to decode Linear B using ‘big data’ computational techniques were unproductive, Chadwick having tried ‘techniques he had learnt while working on military codes’ (Singh 1999, page 238). One possible reason for this failure of top-down computational techniques in the case of Linear B is that the script in question did not present a one-to-one correspondence of sound to letter, because it used syllables, among other things. This might arguably be a reason why computational approaches have likewise failed with the VM, i.e. because the sound-letter correspondence is partially unsystematic, as indeed it is in most natural languages and scripts. In the case of Egyptian hieroglyphs this was clearly the case as well: it became apparent to Champollion that ‘the scribes were not fond of using vowels, and would often omit them; the scribes assumed that readers would have no problem filling in the missing vowels’ (Singh 1999:214), the relative paucity of vowels being a common feature also of Abjad scripts such as Arabic.

Champollion discovered this through the successful identification of the known proper names of Pharaohs, and on that foundation gradually worked out the full details of the symbol-sound system piece by piece, in effect filling in the vowels himself. In the case of Linear B also, although each symbol represented not a single phoneme but a syllable, Michael Ventris similarly worked from known proper names, in this case of prominent towns in Crete such as Knossos (ko-no-so), and through a systematic and intuitive process of elimination and comparison, used what he found as the basis for reconstructing the script’s full symbol-sound relationship (Singh 1999:235). The 19th century explorer and linguist Henry Rawlinson likewise described the importance of identifying proper names in deciphering the cuneiform inscriptions at Behistun (Rawlinson 1846:6). In all 3 cases, then, this focus on proper names and sound-symbol matching, in a step-by-step comparison and elimination process, was the crucial basis for the final leap, which came with the identification of Coptic, Greek and Old Persian as the respective underlying languages.”

Although unfortunately the VM does not seem to offer us the proper names of pharaohs or towns, it does instead include a host of plants, for example, from which we could arguably make progress if only we could succeed in first identifying any plants and plant names with confidence, and then matching them with words in the corresponding VM text”

In order to succeed with this approach it is important to study herbal manuals contemporary with the VM, and to analyse the names used historically for the plants they identify. Although numerous writers have examined the plants in the VM, many have dismissed them as inventions, even deriding them as of poor quality, ‘crudely executed … and stylized’ (Taiz & Taiz 2011:19). With the notable exception of Zandbergen (2012), it is surprising how few scholars have seriously researched herbal manuscripts contemporary with the VM, and most significantly, none has made any progress in identifying plant names in any language to match any of the pictures convincingly. One reason for this – a suggestion which I aim to substantiate in this paper – is that scholars have tended to focus almost exclusively on European herbals and European languages, and ignored the potential value of herbal manuscripts from other cultures, for example in the Near East.”

herbals very frequently draw on the work of classical writers such as the famous herbalist Dioscorides, often copying text and pictures directly from earlier authorities rather than from life. For this reason the plants are sometimes very difficult to identify and also vary widely in different herbals”

In the analysis which follows I aim to demonstrate, then, that in the Voynich manuscript the first word of a number of the plant pages typically encodes the name of the plant on that same or the adjacent page, and that the text discusses the plant in question, and probably gives the aetiology as well. I identify 5 plants with some confidence, with their accompanying names as the first word on the same page, and make tentative identification of 2 more.”

A question still unresolved is why the writers of the VM used this script at all instead of another which might have been available to them (such as Latin or Arabic), and then how this particular script was devised. A common reason for devising a new script, if it is not for purely economic reasons, is to support a new national and/or religious identity or to support new cultural elements in a society, as in the case of Armenian for example (Parsumean-Tatoyean 2011).”

Another fascinating example is that of the Glagolitic Slavic alphabet created in the 9th century. In this case a script was devised for a language which had no script by a small group of people, supposedly two brothers, using signs adapted from Greek, Hebrew, Coptic, Armenian and Samaritan (Sussex, Cubberley 2006, Auty 1968). The most famous document in this invented script, the Kiev Missal, was probably written in Bohemia in the 10th century but was then found in the 19th century as far away as Jerusalem (Vlasto 1970). On the basis of examples such as these, it is well within the bounds of possibility that the VM script could similarly have been developed from a mix of existing scripts by a small group of individuals, aiming to encode an existing language which had no previous script, the manuscript then being transported long distances by circumstance.”

When the Greeks borrowed their writing system from the Phoenicians, it was an Abjad, meaning that it encoded consonants only and perhaps some long vowels, leaving the reader to fill in the remaining vowels from prior knowledge of the word. The Greeks’ significant contribution was then to devise a fuller vowelling system in their developed script, from which we get the vowels in Latin and in many other European scripts.”

whn th grks brrwd thr wrtng sstm frm th phncns t w n bd mnng tht t ncdd cnsnnts nl nd prps sm lng vwls lvng th rdr t fll n th rmnng vwls frm prr knwldg f th wrd th grks sgnfcnt cntrbtn ws thn t dvs fllr vwllng sstm n thr dvlpd scrpt frm whc w gt th vwls n ltn nd n mn thr rpn scrpts

wh nth gr ksbrr wdth rwrt ngss tmfr mt hph ncst wnbdm nngth ttncddc nsnntsn lndp rpssm lngv wlslv ngthrd rtflln thrm mngv wlsf rmp rrkn wldgf thw rdthg rkssg nfcntcn trbt nwsthntd vsfflrvw llng sstmnt hrdvl pdscr ptfrmw hcwg thvw lsn ltnn dnmn thrrp ns cr pt s

In fact, recent statistical analysis of the manuscript has explicitly suggested that the letter and word quantities and distribution do indicate an Abjad (e.g. Reddy, Knight 2011, Jaskiewicz 2011); this paper will argue that some plant names clearly use the Abjad principle in part, with the reader required to provide some of the vowels – an approach which directly imitates the practice in contemporary Arabic herbal manuscripts. In addition, some elements will be seen possibly to resemble Abugida script principles, in which the consonant is understood to have an inclusive vowel, often ‘a’

It should also be remembered that a ‘script’ and a ‘language’ are not the same thing. In theory any script could be used, with adaptation, to write any language. An interesting example is ‘Arebica’, which for historical reasons used Arabic script to write (Serbo-Croatian) Bosnian. Such examples alert us to the fact that although the script of the language in the VM could be borrowed in part from Indo-European languages such as Latin, and could be acting in part as an Abjad, like Arabic and other Semitic scripts, the underlying language could nevertheless be from a completely different language family again, such as Turkic.”

Through analysis of a number of illustrations in the manuscript including one constellation (Taurus) and 7 plants, and drawing on mediaeval manuscripts and contemporary nomenclature so as to match the illustrations with proper names within the text, I propose the identification of a total of 10 words in the manuscript consisting of 14 of the Voynich symbols and clusters, some more tentatively than others.”

In 2012 I prepared an informal paper for circulation to a few Voynich specialists in which I discussed the pattern in the manuscript transcribed as OROR (as transcribed in the EVA transcription system developed by Zandbergen and Landini). I proposed that OROR could be a possible plant name, and could represent the word ‘arar’, perhaps borrowed from the Arabic/Hebrew word ‘arar’ for Juniper or Juniper Berry.¹”

¹ “Baga de zimbro” seria uma tradução para o Português. Dessa planta vêm o gosto do gim, algumas essências de perfume e condimentos como pimenta.

Note that the letter A in this transcription from Arabic/Hebrew stands for the semitic guttural consonant AYIN, and not a vowel. Of course the Arabic and Hebrew are read from right to left, unlike the Voynich script.”

My argument in that paper drew in part on the distribution of the pattern OROR throughout the VM, but mainly on the identification of the plant on page 16r as Juniperus oxycedrus.(*) On the facing pages 15v and 16r of the VM, the pattern OROR appears twice, once as part of the first word (on the far left) and again as part of the first word of the last paragraph (on the right hand page) (…) This is interesting, since it has long been thought that the name of the plant might be the first word of the accompanying text (Zandbergen 2004-2013), but no-one has so far been able to substantiate the idea.

(*) a plant common throughout the Mediterranean west to the Apennines and east to Iran. The plant is distinctive for its spiky leaves and red berries, which both appear clearly in the VM picture. Sara Peterson, an art historian specialising in plants, was invited to consider whether the picture might represent Juniperus oxycedrus and agreed that it could be possible. At the same time she drew attention to the depiction of Juniperus oxycedrus in Koehler’s classic book on medicinal herbs, remarking that ‘the plant in Koehler shares the same shrubby, branching habit around the central stem as the Voynich version. It’s also interesting that the Voynich depiction seems to show the soft, sappy immature leaves before they become spiky.’

Uses.—Oil of cade has been used locally, by the peasantry, in the treatment of the cutaneous diseases of domestic animals almost from time immemorial. More recently it has been largely employed in the treatment of chronic eczema, psoriasis, and other skin diseases of man …

This medicinal use of Juniper in mediaeval times as a treatment for skin disease is of special interest because the word OROR also occurs on the very last page of the VM (page f116v), which – as was noted above – has been convincingly analysed as a Latin/German recipe or prescription for wet rot, a skin complaint (Albus 2012).”

Despite the apparently convincing identification of the VM image as a species of Juniper, along with the linguistic evidence of the name ‘arar’, and the use of Juniper as a medicine, there are a number of problems with the interpretation. Although POROR is the first word of page 15v, the plant depicted there – unlike its neighbour on the facing page – looks nothing like any known form of Juniper, rather resembling a species of Orchis. The fact that OROR occurs here and on the next page with a prefixed P and T also renders the interpretation uncertain, since they could arguably be different words altogether, even though it has also long been felt that the symbols transcribed as P and T might be merely decorative, or prefixes in some way. These and other reservations were noted by readers of my 2012 paper, for example Rich SantaColoma

In languages such as Arabic, it is common for the same letter to have different shapes depending on their position in the word, but this might be a variant – unusually – owing to the position of the word in the sentence. In other words it could be merely a variant of R, in line-final or sense-final position. Statistical analysis of OROM in the VM tends to confirm this possibility, revealing 8 instances, all of which are isolates, or in line final position, or apparently decorative” “The fact that OROM occurs always as an isolate, as a decorative, or at the end of a line, suggests that it might indeed be the equivalent of OROR, but in an isolate, decorative or sense-ending position. This is an intriguing possibility, since it would give us an additional mention of OROR on the page depicting the possible Juniperus Oxycedrus plant.”

It was noted at the beginning of this article that no word of the VM has been convincingly translated or glossed, but in fact there is one word which has received a degree of consensus. On page 68r, in a dramatic diagram apparently showing the moon in the heavens, a set of 7 stars has been suggested to show the ‘Pleiades’, sometimes known as the Seven Sisters, in the constellation of Taurus and the accompanying word has sometimes be interpreted to indicate TAURUS (Zandbergen 2004-2013).

Historically the word Taurus is thought to derive from Proto-Indo-European *tau-ro, *tawros, *tehwros. meaning bull (http://www.etymonline.com); it is also linked with Semitic variants such as the Arabic word ‘thaur’, which signifies both ‘bull’ and also the constellation.”

We could posit the idea that the initial letter, shaped somewhat like the numeral 8, represent some sort of alveolar or dental sound in the region of /t/, /d/ and /θ/ (as in the first sound of thing, which is approximately the Arabic sound in ‘thaur’), and indeed it resembles the Greek ‘theta’ to some extent.” “Of course, although this reading seems to support and be supported by, the reading of OROR as /arar/, it should still at this stage be treated as speculative.”

The reason for the final /n/ at the end is not entirely clear, although it could represent or be borrowed from the Arabic/semitic vowelling called ‘nunation’ in the nominative singular of the word meaning ‘bull’ and the Constellation Taurus”

In isolation, each of the above readings of /arar/ and /taərn/ is insubstantial and must be considered speculative; it will only be possible to verify them if they fit in with a larger emerging pattern which explains other words, for example the names of other plants. The process can be compared to doing a crossword puzzle: at first we might doubt one possible answer in the crossword, but gradually, as we solve other words around it which serve to confirm letters we have already placed, we gradually gain more confidence in our first answer until eventually we are confident of the solution as a whole.

In order therefore to obtain more evidence, I will now proceed to identify and discuss 4 further plants with their proposed plant names in the text. In methodological terms, however, in order to avoid the danger of ‘subjective interpretation’ which Kennedy and Churchill rightly critique in previous attempts at decoding (Kennedy & Churchill 2004), it is important to follow a systematic procedure” “Wherever possible, I will draw on independent identification of the plant by another analyst to ensure greater objectivity.”

The reason for focusing on the first word of the herbal page in particular is that it is too easy to find any word on a page of text and to ‘imagine’ some relevant reading. For this reason the analysis below will focus strictly on the first word of plant pages, which, as was noted above, was frequently where the plant was named in mediaeval herbal manuscripts.”

A HIPÓTESE DO CORIANDRO: “While examining the plant pages I noted a curious feature of folio 41v, which depicts the plant which you can see below, a feature which seems not to have been mentioned in the literature previously. This is the fact that above the first word of the text appears to be an extra word written as a marginal gloss. This is rare, if not unique, in the VM, but in many mediaeval herbal manuscripts such marginalia do appear, most commonly giving an alternative name of the plant, perhaps in or from another language (see examples from the Harley herbal 1585, and also e.g. the Vienna Dioscorides, which has marginalia in Greek, Arabic and Hebrew naming the plants).”

Step 1 (plant identification): The plant itself in f41v has been convincingly identified by Sherwood as Coriander/Cilantro (Coriandrum sativum), for example with reference to the leaves at the base of the plant being ‘broadly lobed becoming more feathery higher up, with umbels of white to pale pink flowers at the top of the stem’ (Sherwood 2013, np), though bluish flowers are also common, as in the VM example.

Step 2 (nomenclature): The plant has a wide range of names in different languages. Even those related etymologically to the word ‘coriander’ (deriving from the Greek ‘korion’) are very varied in their range of vowels and consonants, including the following sample:

Cilantro (English et al.)

Coentro (Portuguese)

Coriander (English et al.)

Coriandolo (Italian)

Coriandre (French)

Coriandro (Italian, Spanish et al.)

Koendoro (Japanese)

Kolendra (Polish)

Koljandra (Russian)

Korander (Dutch)

Koriander (Danish, German)

Koriandr (Russian)

Koriannon (Greek)

Korijander (Croatian)

Korion (Greek)

Koriyun (Greek)

Koryander (Polish)

Kothambri (Kannada)

Coriandru (Romanian)

Culantro (Spanish)

Koriandrze (Polish)

Silantro (Spanish – Peru)

This selection demonstrates the wide variety of pronunciations and spelling typical of plant names across languages – the list does not even contain the many names of coriander in other language families, for example those related to Dhania in Hindi. (…) In particular there is a regular alternation between the liquid sounds /r/ and /l/, a common alternation across many languages, and also between the (alveolar) dentals /d/ and /t/ (both exemplified in ciLanTro v. coRianDer).”

Drawing from the readings of /arar/ and /taərn/ discussed previously, I suggest that the marginal note above the first word of the text on page 41v could represent the name of the plant in the picture, and be related to the word Coriander. Drawing on our previous identification of 3 of the signs, R A and T, in the middle part of the word, we can then provisionally reconstruct the start of the word as KOO or similar, and thereby tentatively read the word as approximately KOORATU?” “Curiously, if this reading is correct, its closest correlate is arguably the Cretan Linear B Greek version discovered following Ventris’ decipherment, i.e. ko-ri-ja-da-na, which is considered to be the earliest of all known versions of the word ‘coriander’.”

The next plant to be considered is that on page f2r”

Step 1 (plant identification): The plant on page 2r of the VM has been identified by Sherwood and others, apparently uncontroversially, as belonging to the genus Centaurea (Velinska 2013, Sherwood 2013). Sherwood identifies it more specifically as Centaurea diffusa:

Diffuse Knapweed (Centaurea diffusa), is native of Greece and Asia Minor. This weed has a long taproot, and pale-green alternate leaves that are deeply divided into lobes, measuring 1 to 3 inches in length. The single, upright stem produces several spreading branches that end with pink or white thistle-like flowers. During the Middle Ages knapweed had a reputation for curing wounds and was an ingredient in a 14th century ointment called ‘salve’. This folio could also be represented by spotted knapweed (Centaurea biebersteinii), also native to Eurasia.’

As Sherwood notes, the genus contains a large number of common species in Europe, the Caucasus, Turkey and Iran, including knapweed and cornflower.”

Step 2 (nomenclature): The genus Centaurea is named after the Centaur Chiron (Greek Χείρων), who was reputed to have discovered its medicinal value.

In the history of the mythologic founders of medicine, Chiron was considered the discoverer of the medicinal properties of many herbs, who mastered the soft-handed lore of drugs and passed it on to his pupils. His name became part of the pharmaco-botanical nomenclature; we still have the genus Centaurea. According to Pliny the panacea Centaurion was discovered by Chiron, as was another panacea, Chironium.’ (Sigerist 1987:50)

This mythology concerning Chiron was well-known in medieval times, and is mentioned and depicted frequently in herbals. An attractive example can be found in the Egerton herbal

Cf. Vienna Dioscorides: http://exhibits.hsl.virginia.edu/hist-images/herbs/kentaureion.jpg

the Arabic version of the name is given as Qnturiyun, a direct borrowing from the Greek”

In fact, the Voynich manuscript has many examples of what looks like ‘ai’ and ‘aii’. If we consider the lettering which represents the words Centaura major as written in a 15th century herbal in the Wellcome Library close to the age of the VM, we note that single vertical lines in various combinations could rather confusingly be used to form all of the four letters n, u, m and i. In particular the combination ‘a’ plus one vertical line stood for ‘ai’ and with two stood for ‘au’. It seems possible, at least, that the similar Voynich clusters of letters were borrowed from contemporary Latin calligraphy, and likewise represent vowel clusters or diphthongs in the same way. Since this also fits well with the reading of KNT/ə/IRN as Kantaron/Centaurea, we will therefore provisionally read the Voynich ‘ai’ symbol as /əi/ and the aii symbol as /əu/.

To those unfamiliar with Abjad scripts it might seem objectionable that this reading begins with 3 consonants together (K + N + T) with no intervening vowel. However, this is precisely the way in which Arabic, for example, or other Abjad scripts, would write this word even today.” “For readers in many languages this is not problematic, and it strongly suggests that the writers of the VM were using a script which in this respect resembled an Abjad, with some vowel omission. We recall that at first this feature of Egyptian hieroglyphs confused Champollion, and it has perhaps hindered decoding of the VM up to now as well.”

Step 1 (plant identification): Sherwood identifies this plant as Dungwort or Bear’s foot (Helleborus foetidus), referring to its ‘thick, succulent stem; palmately compound leaves; drooping green, cup-shaped flowers; and short rhyzomes for roots’ (Sherwood 2013). Whilst her specific identification of Helleborus foetidus may be overconfident, it does seem plausible that it is a species of the genus Helleborus.

Two sorts of hellebore were commonly identified in antiquity for medicinal purposes, called black and white respectively on account of their roots. Dioscorides recommended the black hellebore as a cure for melancholia, and as a purge, while white Hellebore was used as an emetic [inductor de vômito] (Leyel 2007:223) and also used as a sneezing agent. Although the white hellebore is now considered a different genus and species altogether (Veratrum album) the visual resemblance of the two is still plain to see. However, given that the black hellebore was far more prominent in ancient herbal remedies and mediaeval herbal manuscripts, the VM picture could well represent Helleborus niger.” “A much earlier Greek herbal, the 6th-7th century Naples Dioscorides depicts the black hellebore with similarly distinctive jagged leaves and a reddish flower”

In mediaeval Arabic herbal manuscripts the hellebore is called Kharbaq, with both white and black varieties commonly cited and discussed. To my mind an illustration which, although stylized, has several features similar to those of the VM picture, is that in the Princeton Arabic herbal. In this image we see not only clear purple flowers/pods just as in the VM, but also oddly jagged leaves themselves resembling bears’ feet. Another Arabic version, also with similarly purple-blue flowers and jagged leaves, is found in the Leiden Dioscorides.”

Step 2 (nomenclature): (…) it can be seen that the first word of the page appears to be repeated again near the end of the same line, apparently with a prefix.” “If we adopted a European perspective and anticipated some form of the word ‘hellebore’, we would be disappointed, since the first word on page f3v in the Voynich manuscript looks nothing like any known version of the Greek word.” “I directly translated the word according to my scheme so far, and read it as KA/ə/UR, a word unfamiliar to me. In order to test out whether this reading could possibly be correct I simply typed ‘Kaur Hellebore’ into the Google search engine. To my surprise and gratification, this immediately offered a possible solution, since it returned numerous references to the name ‘Kaur’ as a name for the black hellebore, many in Indian herbal guides. When I did this in July 2012, the first result which Google produced was the book by Panda on Indian medicinal herbs (Panda 2000:311)”

This shows clearly that the word Kaur is used for Hellebore in Kashmir, and that cognate names are also used in a variety of other languages, many including the pattern K + vowels + R, or the possibly cognate K + vowel + L, and KH (/x/) + vowel + R/L. Salient among these in Panda’s spelling are: Khartu(*) and Kuer-Beck in Arabic, Kharabekhindi in Persian/Farsi, Khorasani-kuti in Hindi and so on. Other works on Indian plants report similar nomenclatures, most frequently Kaur in the Punjab.

(*) Panda’s reference to an Arabic word Khartu for hellebore may be in error. No corroboration can be found for it in Arabic sources.

This gives immediate and graphic support to the possibility that the first word on the VM page f3v is indeed some form of the name KAUR, meaning hellebore, as my analysis predicted. This in turn supports the larger analysis above regarding other plants and names, and lends further support to the method as a whole.”

The earliest available instance of the pattern ‘K + vowels + R’ meaning hellebore appears to be the Sumerian KUR.KUR (Campbell Thompson 1949:151). In his earlier research Campbell Thomson took this form definitively to refer to black hellebore, saying that ‘…KUR.KUR thus coincides very closely in almost every way with the ancient black hellebore’, though he added the caveat that ‘even in Assyrian times it is possible that white and black were confused.’ (Campbell Thomson 1924:671). In his later authoritative Dictionary of Assyrian Botany, he was less sure, associating the name rather with White hellebore (Veratrum Alba L.), linking it also with the delightfully onomatopoeic synonym a-ti-šu referring to white hellebore’s use as a sneezing powder.

In the same discussion Campbell Thomson cites the Akkadian ‘qarbuhu’ which can be seen also to contain a variant of the pattern ‘K + vowel + R’, this time with the guttural semitic consonant transcribed as Q. He compares this with the Arabic arbaq (or kharbaq) and the Syriac urbakhnâ (both beginning with the sound /x/ like the last sound of the Scottish word ‘loch’). The Arabic form kharbaq was the standard mediaeval Arabic base word for hellebore, with the adjectives ‘white’ and ‘black’ added to distinguish the two; for example, the Princeton Arabic herbal (…) shows the plant called kharbaq aswad, black hellebore”

The second part of the Arabic word, i.e. -baq would appear to derive from the Persian word beḵẖ meaning ‘root’, indicating again that the first part, ‘khar’, is a separable lexeme for the plant itself. This analysis is supported, curiously, by two Georgian loanwords for hellebore, namely arbaqi and arisjira, both beginning with the /x/ or ‘kh’ sound. The first of these is cognate with the Arabic and Persian ‘kharbaq’, while the second literally means root (jira) of the ar, (Apridonidze et al. 2006). This once again supports the analysis that the ‘K + vowels + R’ pattern is a separate lexeme indicating one variety or other of the plant hellebore, in this case with the KH variant: KHAR.

From this trail of evidence, then, the appearance of the pattern K + vowel + R in modern Indian herbals can be explained not necessarily as a native Indian form, but as a probable early borrowing from Sumerian and Akkadian, transmitted eastwards perhaps via Arabic and/or Persian, in some cases retaining the pronunciation kaur with the harder /k/ sound (as in Punjabi kaur) in preference to the Arabic/Persian khar with /x/ (kh).

Subsequently it appears to have been associated with, or confused with, a native Indian plant whose formal species name even today retains the K + vowel + R pattern: Picrorhiza kurrooa.”

Baden-Powell offers an insightful account of how the process of transmission and re-identification probably occurred, referring to a number of drugs which, in his analysis, ‘…were introduced by the Mahomedan hakims (wise men) who had studied from the Arabian school of medicine who, themselves, derived their knowledge from the Greeks.’ (Baden-Powell 1868:318).”

A final irony is that, as we saw in Panda’s list above, one current Farsi/Persian word for black hellebore is Kharabekhindi, literally ‘Indian Khar-root’. This implies a retransmission of the plant and its name back westwards to Persia, but now with new Indian ‘branding’.

In summary, there is therefore strong evidence for the idea that the pattern ‘K + vowel + R’ represents an even older word for hellebore than the Greek version, and was known in one form or another for centuries across a wide area as the name of that plant. The name appears in the Caucasus (with the two forms seen above in Georgian, and also a form of kharbaq in Armenian, according to Kouyoumdjian 1981), across the Middle East and into India, with slight variations in the realization of the first consonant and the vowelling, in a manner which is normal across such a wide geographical and historical range. It sometimes also has the suffix ‘baq’ or similar, meaning ‘root’. For example, we noted its appearance in mediaeval Arabic herbals as kharbaq for black hellebore.”

Continuing the attempt to examine the first word of plant pages and matching them with the plants depicted, let us consider the case of page f29v:

Step 1 (plant identification): This plant can be identified with relative confidence as Nigella sativa, largely because of the distinctive seed pods and leaves, which can be seen in images from Katzer’s website. Both Velinska (2013) and Sherwood agree on the identification, the latter offering also the following description:

Roman coriander (Nigella sativa), is an annual plant in the ranunculus family, native to Southern Europe, North Africa, and Southwest Asia. It has finely divided, linear leaves and pale blue or white flowers with 5 to 10 petals. The fruit is a balloon-like capsule containing numerous seeds. The seeds are frequently referred to as black cumin … (Sherwood 2013)

As seen from the name, which derives from the Latin niger (black) the defining feature of this plant has always, and across different cultures, been the black colour of the seeds, which have a long history of use in cookery and medicine, being found even in the tomb of Tutankhamen (Peter 2004). However, they have frequently been confused with the seeds of other plants such as Bunium bulbocastanum and also Caroway (Carum carvi), all of which have been called ‘black cumin’.

Step 2 (nomenclature): (…) the first word on that page is the same as the word already analysed as KA/ə/UR, for hellebore. This at first appears anomalous, but when read with the second word it can be interpreted as KA/ə/UR CHAR”

it is not clear whether, in the construction K A /ə/ UR CH/X A R the origin of both words derives from the idea of blackness, through different routes, or whether the second means ‘seed’, related to the Persian ‘zireh’, which was also adapted eastwards with /j/ and /tʃ/ as the first consonant”

To summarise, the precise meaning of each part of the first two words of f29v, which is taken to name the plant Nigella Sativa pictured alongside, is not entirely clear; it would seem to read either ‘Kaur black’ or ‘Black Seed’. However, the important point for this paper is that both interpretations allow a plausible link between the words and the illustration, and both support the overall analysis of the sounds and letters in this paper. In short, further analysis will help to elucidate precisely what those words signify, but in either case the argument for the sound-letter analysis presented so far is strengthened.”

However, as also noted above, I do not underestimate the difficulty of the next steps. Many of the first words on the plant pages contain what are known as ‘Gallows’ characters, with elaborate decorative swirls. It is not clear whether these are letters identical in sound to other non-decorative letters, or different letters entirely, or merely ornamentation. Some of them overlay, and overlap with, other signs in a manner also obscure. Many of the plant illustrations are odd and insubstantial.”

These concern the plants on pages f31r and f27r respectively. Unlike the plants discussed above, it has not been possible to research these in detail as yet, and – as will be apparent – their identification and naming still require verification.”

It will be seen that, drawing on signs which we have seen before, the word can arguably be read as ‘KOOTON’, and it is tempting to see this as indicating ‘cotton’. The word cotton came into English from the Old French coton (12c.), and ultimately (via Provençal, Italian, or Old Spanish) from Arabic qutn, and is perhaps ultimately of Egyptian origin. The name for this plant with the basic structure ‘K/Q + T + N’, which we still have in English, was known from Western Europe (thanks to the Arabic influence in Spain) through into many parts of Asia well before the date of the VM.”

However, it is not clear that the plant depicted on this page of the VM is in any way similar to known cotton plants. In the first place it is unusual to have cotton in a mediaeval herbal manuscript. Secondly, it would be curious if anyone wishing to depict cotton neglected to show the crucially important white cotton buds themselves, which do not appear in the VM illustration. Even so, this might not in itself rule out the identification with cotton, since plant illustrators have been known to depict cotton with scant reference to the cotton bud itself.”

Likewise, the main plant in f27r is difficult to identify with any certainty. However, the first word of the page appears, on the basis of the analysis above, potentially to read K ? A R.” “There is no supporting evidence as yet for identifying the unknown sign, but if it were read speculatively as indicating the sound /s/, on the basis of its shape, a reading could be KSAR, which is reminiscent of a common Indian name for the Crocus¹ (i.e. kesar), from which saffron is obtained. However – as is typical of the obstacles involved in analysing the Voynich plants – the leaves of the VM plant in the picture are unlike the grassy leaves of Crocus sativus, the most common variety, and the source of saffron itself. For this reason it is tempting to identify the VM plant with another variety, such as Colchicum Autumnale, often also called Kesar, which could be a closer match.”

¹ Família do açafrão.

Even so, as with cotton, it seems odd that an illustrator who has seen the crocus would illustrate it without showing its best known features, namely the flowers or stamen.”

We can now turn to more general discussion, summarising the findings so far and considering the implications for the language of the Voynich manuscript, and its possible provenance and authorship.”

for the first time we can claim with some confidence to have successfully read a number of words in this mysterious document. In particular, the naming of the constellation Taurus, the plant Centaury, the centaur Chiron and the plant ‘Kaur’ for hellebore, seem to me to be most persuasive.”

LISTA DE CONCLUSÕES PRELIMINARES

The script is not an elaborate cipher, but resembles normal human scripts, with more or less regular sign-sound correspondences;

The content of the manuscript, at least on the plant pages, seems to be completely in accordance with its outward appearance, namely information about the plants and perhaps their medicinal and other uses. If we look back at the earlier description of typical features of mediaeval herbals, every one of them is evidenced in the analysis in this paper. In other words, the manuscript is probably not a trick document disguising secrets behind a different genre.

(…)

On the evidence of this paper there is no reason to believe that the script encodes more than one language. As regards which language it might be, this is still unknown.

(…)

On balance, then, the analysis in this paper confirms a European element to the manuscript. However, with regard to the linguistic elements and plant names considered in this paper, e.g. ‘Kaur’ for hellebore, the underlying language is probably not European.

(…)

Echoes of illustrated Arabic herbal manuscripts also suggest a possible element of interaction with Arabic cultural traditions. However, at this stage it is not possible to identify the underlying language as a whole with any known Near East language, and indeed these words could be simply borrowings. Several of the plants discussed also appear to have a Near Eastern connection.

(…)

Not only do several countries in the Caucasus have early herbal and script traditions, including Georgia and Armenia, along with Christian links which would fit elements of the manuscript, but some of the local languages also show evidence of the words discussed in this paper (…)

Some of the plant names discussed in this paper appear to have an Indian subcontinent resonance, the most salient being ‘kaur’, still used in the Punjab for hellebore (…)

One of the largest language families to be considered as possibly influencing the VM is the Turkic, which includes languages as diverse as Turkish, Azeri, and Mongol. Although the evidence for Turkic influence in this paper is slender, the form of the word Kantaron for Centaury appears on Turkish and Azeri, as does the form ‘kara’ for ‘black’. Although the agglutinative nature of Turkic languages seems not to resemble the VM word patterns, a Turkic influence cannot be ruled out;

In summary, the language of the Voynich manuscript is probably not European, but is more likely to be Near Eastern, Caucasian or Asian. We need further evidence to see whether it is of Indo-European, Semitic, Turkic, Kartvelian (e.g. related to Georgian) or from another language family.”

Nada se prova, nada se confuta. Me parece ainda mais fabuloso que um herbanário da idade média seja praticamente um híbrido de todos os continentes então conhecidos em sua composição!

It is feasible that the script is a deliberately constructed cipher designed to hide information of some sort. However, given the fact that the plant pages seem in practice to concern the plants depicted, presumably offering knowledge which was available to others already, it is more likely that the script is not aimed at concealment, but was instead constructed simply to write a language which had not previously been written down. To put it another way, if the underlying language already had a script (such as Georgian, or Arabic, or Greek), it seems highly unlikely that anyone would invent a whole new one merely to encode information about plants and nature which was already known.”

Given that the 15th century was a time of upheaval, in Europe in the Balkans, in the Near East with Timurid expansion as far as Turkey and the Black Sea, and also with the fall of Constantinople to the Ottomans in 1453, it is plausible to consider this ‘cultural extinction’ to be a possibility, with the group in question developing a script and literacy, only for it to be extinguished. Other examples of script which have been devised, only for those who can read it to die out include the interesting Rongorongo script from Easter Island, which again attests to the viability of the theory.”

Thanks also to the Beineke Library at Yale for allowing use of the images of the Voynich manuscript, and I also acknowledge the copyright holders of other images in this paper.”

Francamente! Não se pode usar nem imagens de um manuscrito xexelento que ninguém sabe o que significa porque ele tem direitos autorais?! Não se sabe nem remotamente quem pode ter sido o autor, o que é mais triste – e vem uma universidade e capitaliza com isso!

[+] (citados no artigo ou simplesmente interessantes)

Brumbaugh, R. 1977, The World’s Most Mysterious Manuscript, Weidenfeld & Nicolson, London.

Daniels, P. & Bright, W. (eds) 1996, The world’s writing systems, Oxford University Press, New York, Oxford.

Kennedy, G. & Churchill, R. 2004, The Voynich manuscript: the unsolved riddle of an extraordinary book which has defied interpretation for centuries, Orion, London.

Parsumean-Tatoyean, S. 2011, The Armenians in the medieval Islamic world: paradigms of interaction: seventh to fourteenth centuries, Transaction Publishers, New Brunswick, N.J.

Rawlinson, H.C. 1846, The Persian cuneiform inscription at Behistun: decyphered and translated; with a memoir on Persian cuneiform inscriptions in general, and on that of Behistun in particular, J.W. Parker, London.

Sherwood, E. 2013, The Voynich Botanical plants. Available at: http://www.edithsherwood.com/voynich_botanical_plants/.

Sigerist, H.E. 1987, A history of medicine: Vol. 2: early Greek, hindu, and persian medicine, Oxford University Press, New York.

Sussex, R. & Cubberley, P.V. 2006, The Slavic languages, Cambridge University Press, Cambridge.

Vlasto, A.P. 1970, The entry of the Slavs into Christendom: an introduction to the medieval history of the Slavs, Cambridge University Press, London.

THE IMPACT OF MONOLINGUAL AND BILINGUAL SUBTITLES ON VISUAL ATTENTION, COGNITIVE LOAD, AND COMPREHENSION – Sixin Liao, Jan-Louis Kruger and Stephen Doherty

Bilingual subtitles, a unique subtitle mode that presents subtitles in two different languages simultaneously, are gaining popularity around the world, especially in Mainland China (Li 2016). This is partly attributed to the belief that bilingual subtitles could deliver the benefits of both intralingual and interlingual subtitles, with intralingual subtitles providing the written forms of spoken words that can facilitate vocabulary learning and interlingual subtitles providing the meaning (translation) of words that can enhance viewers’ comprehension and absorption of the content (García 2017).

There exists however an inherent risk that subtitles, as a written form of spoken dialogue, generate redundant information that may overburden the visual processing channel and deplete people’s limited cognitive resources that could have been used to process other essential information (Zheng et al. 2016). When watching subtitled videos, viewers have to cope with a rich combination of multimodal and multiple-source information: visual images (visual-nonverbal), spoken dialogue (audio-verbal), subtitles (visual-verbal) and background sounds (audio-nonverbal) (Gottlieb 1998). This could place high demands on viewers’ attentional and cognitive resources because processing too much information simultaneously has been shown to exceed the capacity of working memory and result in cognitive overload (Kalyuga et al. 1999).”

Compared with monolingual subtitles, watching videos with bilingual subtitles could be more cognitively demanding due to the concurrent presence of subtitles in two different languages, which, if the audience understands both languages, is likely to generate more redundancy and impose additional cognitive load on working memory. However, due to the scant research in this field, little is currently known about the actual visual and cognitive processing of bilingual subtitles.”

The conceptualisation of cognitive load has been well-established in CLT (Sweller et al. 2011), one of the most influential theoretical frameworks accounting for cognitive processing during learning (Martin 2014). As this study approaches bilingual subtitles for the purpose of enhancing learning, we argue that CLT is a most appropriate theoretical framework for the current study since it has a well-established empirical basis in educational psychology, instructional design, and educational technology.

Three components of cognitive load have been identified in CLT literature, namely intrinsic cognitive load, extraneous cognitive load and germane cognitive load. Intrinsic cognitive load is created by dealing with the inherent complexity of the task (Van Merriënboer and Sweller 2005; Sweller 2010), while extraneous cognitive load is generated by dealing with instructional features that do not contribute to learning. Germane cognitive load, on the other hand, is created when learners are engaged in processing essential information that contributes to learning (Sweller et al. 1998; Sweller 2010).”

Learners have also been shown to be more likely to experience high extraneous cognitive load when they process redundant information that is unnecessary for learning (Kalyuga and Sweller 2005). More specifically, numerous empirical studies on cognitive load effects have found that presenting the same information in different forms (e.g. presenting verbal information in both written and audio forms) would hinder learning and cause the redundancy effect (Mayer et al. 2001; Diao and Sweller 2007). The redundancy effect is very relevant to subtitling in that subtitles transfer auditory information into a written form and thus could produce verbal redundancy, which is likely to induce extraneous cognitive load. However, subtitles in different linguistic formats generate different degrees of redundancy and could exert a differential impact on cognitive load and, as a consequence, on task performance and learning outcomes within educational settings.”

Based on formal linguistic parameters, subtitles can be categorised into three types, namely intralingual subtitles, interlingual subtitles, and bilingual subtitles (Díaz Cintas and Remael 2007). Intralingual subtitles (or same-language subtitles or bimodal subtitles), which are presented in the same language as the spoken dialogue, are primarily used by deaf and hard-of-hearing viewers, but also in language learning and other educational contexts (Doherty 2016; Kruger and Doherty 2016; Doherty and Kruger 2018). Interlingual subtitles (or standard subtitles or L1 subtitles) refer to subtitles that are displayed in a language different from that of the dialogue, normally in the viewers’ native language (Raine 2012). Different from intralingual and interlingual subtitles, which consist of only one language, bilingual subtitles (also known as dual/double subtitles) present subtitles simultaneously in 2 different languages. This category is mostly used in multilingual countries or regions where two or more languages are spoken, such as Finland, Belgium, Israel, Singapore, Malaysia and Hong Kong (Gottlieb 2004; Kuo 2014; Corrizzato 2015). In Mainland China, for example, bilingual subtitles are gaining currency as China’s dominant TV broadcaster is stepping up its effort to present television programs with subtitles in both English and Chinese in order to attract a wider audience. The increasing usage of bilingual subtitles in online videos is attributed to the efforts of amateur subtitlers who translate foreign language videos online on a voluntary basis (Zhang 2013; Hsiao 2014).”

Thus, our research question aims to identify the effects, if any, of bilingual subtitles on viewers’ distribution of visual attention, cognitive load, and comprehension of audiovisual stimuli.”

This also provides support to previous arguments that ‘the number of lines does not play as big a role in the processing of subtitles as previously thought’ (Kruger and Steyn 2014: 105). However, it is worth noting that adding subtitles in a non-native language may cause a different interaction between the language of the subtitles and the language of the soundtrack, which could consequently impact on the attention allocated to subtitles, as the viewer may automatically try to read along with the narration, in what we could call the karaoke effect. This assumption is being investigated in our other studies.”

It is also possible that in the bilingual condition, with two lines of subtitles presented in different languages, subtitles presented on the first line (i.e. L1 subtitles) can grasp viewers’ attention more easily and viewers may feel less motivated to read L2 subtitles once they have gained sufficient information from L1 subtitles. To sanction this assumption, more empirical research is needed to investigate the impact that subtitle positioning in bilingual subtitles has on the distribution of visual attention. Another possibility is that L2 subtitles render more redundancy than L1 subtitles when L2 audio information is available and therefore are less attended to by participants.”

Moreover, the fact that viewers spent time reading subtitles in both languages in spite of their redundancy provides evidence for the automatic subtitle reading behaviour hypothesis as originally proposed by d’Ydewalle et al. (1991).”

we propose that adding bilingual subtitles that contain both L1 and L2 subtitles makes the video easier to understand and allows for more available cognitive resources than not providing viewers with any written text as linguistic support. This finding also supports the growing body of evidence that processing subtitles is cognitively effective and does not cause cognitive overload if optimised spatio-temporally (Kruger, Hefer and Matthew 2013; Lång 2016; Perego et al. 2010).”

INVESTIGATING THE RELATION BETWEEN THE SUBTITLING OF SENSITIVE AUDIOVISUAL MATERIAL AND SUBTITLERS’ PERFORMANCE: An empirical study – Katerina Perdikaki and Nadia Georgiou

This fast-paced consumption, which characterises today’s media culture, is enabled, among others, by the expansion of video streaming services and video-on-demand platforms. In turn, the abundance of audiovisual products and the necessity to make them accessible to all audiences increases the demand for audiovisual translation (AVT) which needs to be prompt, while maintaining all other quality requirements.

In this environment, AVT professionals need to develop a skill-set which goes beyond the acquisition of technological literacy and linguistic aptitude to embrace adaptability, which may be hard to achieve when the audiovisual programme deals with sensitive and/or controversial topics because of the emotional impact inflicted upon the translator.”

To look into this issue, we designed an online questionnaire which was completed by 170 professional and amateur subtitlers.”

Schäffner (1997) examines sensitive texts from the perspective of the reaction they prompt in a reader (or viewer, in the case of audiovisual texts) and argues that any text causing irritation or confusion can be considered sensitive.” Exemplos recentes meus: Infância (Graciliano Ramos), Rayuela (Cortázar)…

It should be noted that the study focuses on negative emotions, as these are assumed to have the most drastic impact on subtitling performance.”

In areas such as public service interpreting (PSI), healthcare interpreting and, more specifically, mental health interpreting, professionals often face emotionally demanding situations and are affected when relaying traumatic experiences (Hsieh and Nicodemus 2015; Doherty et al. 2010). Similar observations can be made when it comes to emotionally-loaded cases involving interpreting, as in the Nuremberg trials, where simultaneous interpreting first appeared, and in the interpreting conducted in Nazi concentration camps during World War II (Tryuk 2016). The fact that interpreters experience distress and anxiety at some point in their careers has been affirmed in related studies (Loutan et al. 1999; Valero-Garcés 2005; Doherty et al. 2010).”

meaning that individuals with higher EI tend to be more creative.” Jussara’s EI or QE: 0.

the emotional potential of audiovisual texts is relatively greater than that of a literary text because of the different layers of information involved.”

In addition, given the tight deadlines governing the subtitling industry (Georgakopoulou 2009), rarely is there the luxury of time to first watch the programme and then translate it. Therefore, subtitlers often need to switch between the different hats of viewer and translator while experiencing the text for the first time, which arguably allows them less time to crystallise the viewing experience and to follow a more clinical approach in subtitling.”

Out of the 16 amateur subtitlers in the sample, only three answered that their performance is affected by their emotions.” Típico.

It is possible that the participants misunderstood the option of humour as referring to a linguistic challenge in subtitling, and not to a potentially emotion-eliciting aspect of the audiovisual text. Taking this into account, the fact that humour was the option with the most responses (80 – 47%) can be interpreted in two ways: either humour is one of the most challenging elements to relay in subtitling, as has been confirmed in the relevant literature (Díaz Cintas and Remael 2007; Chiaro 2010), or humour embedded in sensitive material, e.g. jokes that can be considered obscene, profane, racist or sexist, elicits a more intense emotional reaction.”

This sentiment of desensitisation may also be evident in the fact that 36 participants (21%) chose not to answer this question, making it the question with the lowest response rate in the questionnaire. Another interpretation for the low response rate would be that the participants, as language professionals, are comfortable with such aspects of language and their non-responsiveness to sensitive language is a meditated stance they adopt to demonstrate their professionalism.”

Out of these 133 participants, 24 of them proceeded to report an example where their performance was shown to be affected in one way or another. More specifically, they acknowledged that they sometimes have physical reactions to the material (e.g. crying, feeling nauseated) and, thus, have to take frequent breaks while subtitling, or they avoid looking at the screen, focus solely on the audio, and work quickly through the material. Others defer part of the project to other subtitlers and refuse to take on similar projects in the future. In fact, these participants’ narratives are similar to those that answered that their performance was affected by their emotions.”

The fact that some participants answered that their performance is not affected by their emotions and yet showed evidence of such effect in their free-text responses suggests that some may initially misperceive the extent of the emotional impact experienced when subtitling sensitive material. Alternatively, as it was noted above, a reluctance to admit the impact of emotions on subtitling performance may be connected to the subtitlers’ sense of professionalism and the attitude it entails. Notably, 10 out of the 133 participants that gave a negative response highlighted the subtitler’s responsibility to remain impartial and persevere with the translation, thus demonstrating how norms of the field of translation are often internalised by its agents.”

I don’t linger much on the translation. I don’t think how to render it best. I just want […] to get it over with” !!!

Overall, 16 participants (9%) remark that they tend to take frequent breaks in order to cope with the emotional impact, which results in their being less productive and needing more time to complete the job. This may also cause them to ask for an extension to the deadline, if circumstances allow it, or resort to a last-minute translation, as happens with the subtitlers that delay working on the sensitive material. Six participants (3%), all professional subtitlers, note that they refuse work that they know will have such a strong emotional impact on them. Admittedly, this presupposes an established presence in the subtitling industry and a good rapport with one’s clients, so that there is the professional, and financial, flexibility to turn down work. Indeed, the participants that made this point have more than 10 years of subtitling experience.”

Given that the subtitles co-exist with, and heavily depend on, the visual channel, it is obvious that an obscured image may negatively impact the translation. Furthermore, templates usually contain an abbreviated version of the dialogue, and thus do not correspond to the full onscreen content. As a participant attests, when working through torture scenes, they ‘avoid watching, which makes [their] work prone to error’” Não entendo: como pode trabalhar com isso?

Twelve of these participants reported that they may consciously tone down language that they find too offensive, particularly in regard to racial discrimination and swearing. The participants’ responses indicate that this also occurs when the depicted images are especially emotive (e.g. images of slaughterhouses or active war zones). Therefore, although language in isolation seems to leave many participants emotionally unaffected, perhaps because translators are trained and expected to be able to handle abusive, offensive, and colourful language, coping with images is arguably more challenging.”

Eleven participants (6%) highlighted that their performance improved because they felt an even greater responsibility to convey the intended message to the target viewers. As the participants noted, despite the intense emotional impact they experienced, they persevered in order to do justice to the ST, either to match its high cinematographic quality, in the case of fictional films/TV series, or to raise awareness of the issues involved, in the case of documentaries. One participant points out that they took extra care ‘to convey the speakers’ message to the target audience’ when subtitling a documentary about Ugandan child soldiers, in order to communicate their life stories as accurately as possible. Similarly, another participant notes that the emotions of sadness and helplessness they experienced when working on a documentary about cancer patients helped them produce more natural subtitles because they felt that they were the patients’ voice for the target audience. The same participant highlights that in cases where they are overwhelmed with emotion, their empathy with the depicted characters is strengthened, which, in their opinion, ultimately has a positive effect on their subtitling performance.”

The emotions that the subtitlers in our study experience most commonly are sadness, anger, and disgust, and the topic that emotionally affects them the most is abuse. In terms of imagery, scenes of rape, torture, and animal abuse appear to be particularly sensitive for most participants. In contrast, language usage (e.g. swearing) does not seem to have a significant emotional impact on the majority of the participants.”

Given that an emotional impact can either hinder or enhance subtitling performance, as discussed above, it seems necessary that subtitlers learn how to process and cope with the elicited emotions first so that they can reap the potential benefits of emotional impact.”

Further research can also examine relevant training practices that could benefit subtitlers, either in an institutionalised academic context or in the professional environment.”

FILM LANGUAGE, FILM EMOTIONS AND THE EXPERIENCE OF BLIND AND PARTIALLY SIGHTED VIEWERS: A RECEPTION STUDY – Floriane Bardini

blind and partially sighted (BPS)”

To many, expressions like in close-up, pan across, mid-shot, crane-shot etc., may not mean anything but it is important to try to understand why a director has chosen to film a sequence in a particular way and to describe it in terms which will be understood by the majority, if there is room to do so.”

The length of the three ADs is comparable and the final word counts are 388 words for the conventional AD (100%), 427 words for the cinematic AD (110%), and 400 words for the narrative AD (103%). The cinematic version is inevitably longer because cinematic terms are added to the iconic content being described.

The conventional AD is denotative, while the cinematic and narrative ADs are interpretative. The latter ones offer an interpretation of film language to render its meaning and feeling into words, instead of omitting or describing denotatively how cinematic techniques are used onscreen. Interpretative AD styles imply that the describer uses her subjectivity to describe what is shown and how it is shown, so it is a delicate approach that requires ethics and professionalism to ensure that an informed interpretation is provided, and not a personal vision of things.”

Cinematic terminology comes into play most particularly to describe elements that are specific to film, such as camera movements and editing techniques (Casetti and di Chio 1991).”

Narrative AD style (AD3) concentrates on interpreting film language and integrating the visual information into a coherent and flowing narration, which incorporates film dialogue and can be read as a single piece of text. It is an interpretative AD style, which does not always depict the images in full detail or in the exact moment they are shown but instead offers a narrative recreation of the feelings raised and of the meaning channelled through film language. Here too, the aim is to offer an immersive experience that is as similar as possible to that of sighted viewers.” Acho que eu iria preferir o 3.

[AD1 – CONVENTIONAL] Handwritten and slanted: ‘Nuit Blanche’. In black and white. At night, it’s full moon. The zinc roofs of a big city, with smoking chimneys. A three-storey building with large windows and light inside. Over the main door, made of glass, a company name.

[AD2 – CINEMATIC] ‘Nuit Blanche’ appears onscreen in film noir style. In black and white on a full moon night, chimneys smoke on the zinc roofs of a big city. The frame goes down the front face of a three-storey office building, with large windows and light inside.

[AD3 – NARRATIVE] ‘Nuit Blanche’. The city spreads out in black and white under the full moon. Chimneys smoke on zinc roofs. Men and women walk in the street, wrapped up in coats, passing by a three-storey office building with large windows and light inside.”

there are so many shades of grey between black and white that you can create extremely rich images. Because black and white photography is inherently pure, it’s a great way to tell a visual story and express emotion”

Forty-five blind and partially sighted participants were recruited with the help of two user organisations to listen to the ADs, answer the questionnaire and participate in focus group interviews. We contacted thirty-nine through the Department of Culture and Sport of the Territorial Delegation of ONCE (National Organization of the Spanish Blind) in Catalonia and five local ONCE offices located in Girona, Lleida, Manresa, Reus and Vic. Six further participants were recruited through ACIC, the Catalan Association for the Integration of the Blind, based in Barcelona. There were 28 men and 17 women, aged between 24 and 86 (M=54), of whom 11 were blind from birth. Six participants held a university degree, 14 had A-Levels and/or vocational training, 15 had no degree and 10 did not specify.”

[AD1 – CONVENTIONAL] Surrounded by pieces of glass that reflect light, they walk towards each other. She slightly reaches out her arms; he has no hat and briefcase. When they get closer, they shut their eyes and their lips come closer.

[AD2 – CINEMATIC] Surrounded by pieces of glass that shine like sparks, they walk towards each other decidedly. She slightly reaches out her arms. When they are getting closer, they look at each other’s lips and close their eyes as they are about to kiss. The frame closes in on their lips.

[AD3 – NARRATIVE] Surrounded by pieces of glass that shine like sparks, they walk towards each other decidedly, like two wax dolls set apart from reality. Getting closer, they look at each other’s lips and close their eyes as they are about to kiss.”

Our results are in line with those of Fryer and Freeman (2013), Szarkowska (2013), and Walczak (2017a) insofar as the consumers of an alternative AD, which goes beyond the mere denotative description of images, report a better film experience. Whether it is the naming and/or interpretation of the film techniques (cinematic AD), the interpretative and narrative approach (narrative AD), the extensive use of cinematic terminology (Fryer and Freeman 2013), the adoption of the director’s view (Szarkowska 2013), or the integration of the camera work and colloquial language into the AD (Walczak 2017a), studies seem to point to the need to approach AD from a filmic point of view and integrate film language into AD so as to offer blind and partially sighted viewers a better film experience.”

THE DUBBING EFFECT: AN EYE-TRACKING STUDY ON HOW VIEWERS MAKE DUBBING WORK – Pablo Romero-Fresco

Despite being, perhaps along with voiceover, the most criticised (and even vilified) audiovisual translation (AVT) mode, there is little doubt that, generally speaking and from different viewpoints, dubbing works. It is still the preferred form of access to foreign-language audiovisual content for millions of viewers in countries such as Spain, Italy, France and Germany and the preferred choice to translate cartoons and children’s films in subtitling countries (Chaume 2013). Its success is not only commercial, as recent research shows that dubbing is also a very effective translation mode from a cognitive point of view (Wissmath et al. 2009; Perego et al. 2016). Despite the artifice involved in replacing the original actors’ voices for other voices in another language, it seems that (habituated) dubbing viewers still manage to suspend disbelief and become immersed in the fiction of film (Palencia 2002).”

How do we watch a dubbed film? How do we manage to suspend disbelief without being distracted by its artificial nature and by the mismatch between audio and visual elements? In short, what cognitive mechanisms do we activate to make dubbing work?

The aim of this paper is to answer these questions by analysing, with the help of eye-tracking technology, the viewing patterns of spectators watching dubbed and original films. This analysis is complemented by a discussion of other aspects that may be relevant to the perception and overall reception of dubbing, including cultural arguments concerning habituation, psychological and cognitive notions of suspension of disbelief and perceptual phenomena such as the McGurk effect (McGurk and MacDonald 1976).”

When they are first exposed to film, children normally have no knowledge of the artifice involved in cinematic fiction, which means that they go straight from wonder into habituation and automatism. By the time they learn about the prefabricated nature of cinema, film viewing has already settled as an unconscious experience whose enjoyment requires not questioning the reality of what they are seeing, that is, suspending disbelief. Crucially, dubbing audiences are exposed to both original and dubbed films from an early age. They are astounded by the magic of cinema (wonder), regardless of whether or not it is dubbed. The artifice of dubbing (the mismatch between audio and visuals, the almost inevitable lack of total synchrony, even in high-quality dubbing, etc.) is overlooked along with the artifice of cinematic fiction, as they go from wonder to habituation and unconscious automatism. By the time dubbing audiences learn about dubbing (just as when they learn about film), they have already internalised how to watch it without questioning it. In other words, getting used to dubbing, when it happens at an early age, is simply part of the (unconscious) process of getting used to film.”

Even if a particular audience is used to dubbing, there is a tolerance threshold that must be respected with regard to at least two of the key dubbing constraints: synchrony and the naturalness of the dialogue. According to Rowe (1960: 117), this tolerance threshold may vary across countries:

American and English audiences are the least tolerant, followed closely by the Germans. […] The French, staunch defenders of their belle langue and accustomed to the dubbing process since those early days when rudimentary techniques made synchronization a somewhat haphazard achievement, are far more annoyed by slipshod dialogue than imperfect labial illusions. To the Italians, the play’s the thing and techniques take the hindmost, as artistically they should.”

The notion of suspension of disbelief was originally coined in 1817 by the poet and philosopher Samuel Taylor Coleridge (in Parrish 1985: 106), who suggested that if a writer could provide a fantastic tale with a ‘human interest and a semblance of truth’, the reader would suspend judgement concerning the plausibility of the narrative. This term has since been used for film (Allison et al. 2013) and AVT (Bucaria 2008). Pedersen (2011: 22) applies it to subtitling, calling it a ‘contract of illusion’ or tacit agreement between the subtitler and the viewers where the latter agree to believe ‘that the subtitles are the dialogue, that what you read is actually what people say.’”

The McGurk effect (1976) is generally regarded as one of the most powerful perceptual phenomena demonstrating the interaction between hearing and vision in speech perception. It is described by Smith et al. (2013) as ‘an auditory illusion that occurs when the perception of a phoneme’s auditory identity is changed by a concurrently played video of a mouth articulating a different phoneme.’ A typical example would involve the audio of a given phoneme (such as /ba/) dubbed over a speaker whose mouth is visually articulating another phoneme (such as /ga/). Most subjects will report hearing /da/ even though the only sound that is heard is /ba/. Discovered by Harry McGurk and John MacDonald in 1976, this phenomenon shows that speech perception is multimodal and that vision can often be more important than audio in the perception of sounds. From a neurological standpoint, the McGurk effect shows that information from the visual cortex instructs the auditory cortex which phoneme to ‘hear’ before an auditory stimulus is received (Smith et al. 2013). This is generally regarded as a robust effect, i.e. knowledge about it does not seem to eliminate its illusion. The effect has been shown to apply under very different conditions, including different viewers’ profiles (Rouger et al. 2008), audiovisual cross-dressing (combination of female faces and male voices) (Green et al. 1991), cross-cultural comparisons (Rosenblum 2010) and even speakers standing on their heads (Green 1994).”

Could it be that dubbing viewers are amongst the few individuals who have managed to switch off the McGurk effect so as not to be distracted by the asynchronous combination of sound and image? Have they found a way to avoid being put off by the mismatch between lips and audio or do they simply not look at the lips? Should the latter be true, is this an unconscious mechanism and can the above-mentioned early-acquired habit of viewing dubbed films and the ability to suspend disbelief account for this?”

Early studies (Buswell 1935; Yarbus 1965/1967) and also more recent research on face processing and the perception of gaze (Langton et al. 2000; Birmingham and Kingstone 2009) have shown that we tend to focus on faces and, more specifically, on eyes, when looking at other human beings. This may be partly explained by the visual saliency and social importance of eyes (Senju and Hasegawa 2005; Senju et al. 2005). However, most of this research has focused on static images, rather than dynamic viewing. Recent research performed on dynamic face viewing suggests that this attention bias may be task-dependent and not exclusive to the eyes (Gosselin and Schyns 2001). Buchan et al. (2007) found that their participants’ gaze was directed to the eyes when asked to perform emotion judgements and to the mouth when asked to recognise speech. In a recent study aiming to identify what controls gaze allocation during face perception, Võ et al. (2012: 12) concluded that there is no such thing as a general bias to look at someone’s eyes and that, at least during dynamic face viewing, ‘gaze follows function’. In other words, we seem to adjust our gaze allocation dynamically ‘for the purpose of seeking information on an event-to-event basis’ (ibid.: 11). In their study, conducted with 88 participants watching videos with close-ups of different people speaking, the mouth attracted as much as 34% of the gaze allocation. This is in line with the findings obtained by Foulsham and Sanderson (2013), who found a distribution of 71% on the eyes and 29% on the mouth in dynamic face viewing with speaking faces. The percentage of time fixating the mouth has been shown to increase when there is background noise (Buchan et al. 2012), low linguistic competence (Robinson et al. 2015) or poorly synched lips (Smith et al. 2013), which is not too dissimilar to what happens in dubbing.

In contrast with the intense scholarly activity devoted to the analysis of static and dynamic face viewing, the application of eye tracking to dubbing is still in its infancy. Vilaró and Smith (2011) compared the gaze behaviour of viewers watching an animated film in the original English audio condition, a Spanish language version with English subtitles, an English language version with Spanish subtitles and a final version dubbed into Spanish without subtitles. The participants were English speakers who did not know Spanish. The results of the study show evidence of subtitle reading in all conditions (even when they were in Spanish and therefore unhelpful for the participants) and a great deal of similarity in the exploration of peripheral objects.”

Their results confirm the cognitive efficiency and positive reception of both AVT modalities but also that complex audiovisual material may require extra effort from the viewers so as to accelerate their reading process. To our knowledge, no research has yet analysed and compared how viewers watch faces in original and dubbed films. This is the aim of the experiment presented in this article, whose findings, along with the above-included discussions on habituation, suspension of disbelief and engagement, intend to provide a picture of how viewers make dubbing work.”

However, excessive focus on the characters’ mouths may also put off dubbing viewers, making it difficult for them to suspend disbelief and engage with the film. As a result, the hypothesis for this experiment is that given our tendency to (a) lip read and be confused by asynchrony as per the McGurk effect and (b) look at both eyes and mouth in moving faces, we have adopted an unconscious strategy not to look at mouths in dubbing (because there is no useful information to obtained from there) in an attempt, aided by an early acquired and subconsciously internalised dubbing viewing habit, to suspend disbelief and be engaged with the dubbed fiction.”

The first stimulus video was the 6-minute final scene (from 1:36:00 to 1:42:29) of Casablanca (Michael Curtiz, 1942) dubbed into Spanish, of which 2 minutes (from 1:36:12 to 1:38:12) were closely analysed to detect eye movements in close-ups. A second stimulus video consisted of the original English version of the same excerpt, which was used with the control group of native English participants. Finally, the third stimulus video, used to analyse native Spanish viewers’ eye movements when watching an original film in Spanish, was a 6-minute scene (from 0:29:15 to 0:35:23) from Todo sobre mi madre (Pedro Almodóvar, 1999), of which 2 minutes (from 0:30:01 to 0:32:01) were closely analysed to detect eye movements in close-ups. Drawing on Perego et al. (2016), the videos were compared regarding their audiovisual complexity. Despite the significant difference in production year (1942 and 1999) and format (black and white vs. colour), the videos proved to be remarkably comparable regarding duration, speech rate (measured in words per minute), type-token ratio (degree of lexical variation), lexical density, syntactical complexity and number of close-ups”

Participant’s eye movements were recorded using the standalone Tobii T120 eye tracker (Tobii Technology AB, Stockholm, Sweden) integrated in a 17-inch monitor with a 1024×768 resolution that allowed the maximisation of the stimulus display to cover the entire screen. Both the eye-tracking server and the client display application ran on Windows PCs connected via 1GB Ethernet. This eye tracker, which operates at a sampling rate of 60Hz with an accuracy of 0.5°, is unobtrusive, as it allows for a large degree of head movement and ensures natural behaviour, which is important in order to obtain ecologically valid results. During the recording time, the Tobii T120 eye tracker collects raw gaze movement data every 16.6 ms, using a filter to parse the coordinates of the movements into fixations and saccades. For the analysis, two areas of interest were drawn on those shots of the videos that featured close-ups, one covering the characters’ eyes and the other covering their mouths. When using the eye-tracking data to test the above-mentioned hypotheses, the focus was placed on 3 types of measurements that are relevant to gain knowledge of visual attention distribution: number of fixations, mean fixation duration and percentage amount of time spent on the defined areas of interest. A distinction was made between close-ups with dialogue and silent close-ups in order to ascertain whether the presence of dialogue has any impact on the viewers’ eye movements.”

This study involved 42 participants (31 female and 11 male), mostly postgraduate students and young professionals. None of them received course credits or payment for participation. Of those 42 participants, 18 were native English and 24 were native Spanish. All of them had normal or corrected-to-normal vision. A total of 31 participants reported that they did not wear corrective lenses of any sort, seven reported that they wore contacts, and four reported that they wore glasses. Due to poor calibration and other data collection issues, the data from seven participants were discarded from the final analysis, bringing the total down to 35 (15 native English and 20 native Spanish) and dropping the number of males and females to 8 and 27, respectively. The ages of participants ranged from 25 to 60 (M = 28.00; SD = 8.55).”

Participants sat in front of the eye tracker at a distance of 60-70 cm, the eye tracker camera’s focal length. Calibration was performed once for each participant before viewing the first video and required following nine dot targets displayed sequentially on the screen, each shrinking in diameter from 30 to 2 pixels.”

Spanish participants watching Casablanca spent a significantly greater percentage of time looking at eyes than English participants watching Casablanca and that the same group of Spanish participants watching Todo sobre mi madre.”

No effects were observed regarding gender or age. Comprehension was on average very high (5/5 for Casablanca in English, 4.9/5 for Casablanca in Spanish and 4.6/5 for Todo sobre mi madre) and the sense of presence may be regarded medium-high (3.6/5 for Casablanca in English, 3.7/5 for Casablanca in Spanish and 3.8/5 for Todo sobre mi madre).”

the viewing patterns of the Spanish participants watching Casablanca dubbed into Spanish are significantly different: 95% on eyes and 5% on mouths. This extreme focus on the eyes/negative mouth bias is unlike anything found so far in the literature and very different to the way in which the Spanish participants view faces in the original Spanish film used in the experiment, where, after watching the dubbed clip, they show the same distribution (76% vs 24%) found in the literature and in the English group watching the original version of Casablanca.”

these results, which have subsequently been supported by those obtained in Di Giovanni and Romero (2018) with Italian participants, point to the potential existence of a dubbing effect, an unconscious eye movement strategy performed by dubbing viewers to avoid looking at mouths in dubbing, which prevails over the natural way in which they watch original films and real-life scenes, and which arguably allows them to suspend disbelief and be transported into the fictional world. Although not conscious, this mechanism seems to be activated only with dubbed films and is then turned off when watching an original film, where the viewing pattern is aligned with eye movements in real life.”

NOTAS

It is worth noting that eye tracking can only detect the central vision obtained by the fovea (Slaghuis and Thompson 2003). Foveal vision allows us to obtain detailed information typically within six degrees of our field vision, that is, spanning five words in a row when reading printed text at ordinary size at about 50 centimeters from the eyes. Parafoveal or peripheral vision, which can span up to 120 degrees, is thus not detected by eye trackers.” Ora, amigo, isso muda toda a conclusão do estudo! É óbvio que as pessoas simplesmente olham para a face inteira das pessoas na tela!

However, even though peripheral vision can be used to differentiate movement from stillness and even certain types of rhythms and contrast, it cannot help to distinguish colours, shapes or details (Wästlund et al. 2017).” HMM… O que você está dizendo é que NÃO existe visão periférica? Como conseguimos assistir em 16:9 gigantes?

CURSO DE LINGUÍSTICA GERAL III

CURSO DE LINGUÍSTICA GERAL II (módulo parcial): https://seclusao.art.blog/2018/04/16/saussureal/ Podemos retomar, portanto, da página 148 (SEGUNDA PARTE, cap. VI), salvo o que já houver sido explorado ainda antes, no

CURSO DE LINGUÍSTICA GERAL I: https://rafazardly.wordpress.com/2020/11/16/curso-de-linguistica-geral-saussure/

O curso I foi “redigido” com base num exemplar físico, cuja editora me escapa no momento;

O curso II foi “redigido” (e imagens foram aproveitadas) com base no PDF da edição Cultrix, com prefácio de Isaac Nicolau Salum (USP). Trad.: Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. ISBN 978-85-316-0102-6, 34ed., 2013.

Sou proprietário de um exemplar da obra e informo que os trechos por aqui veiculados têm intuitos tão-somente educativos.

PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA (PRINCÍPIO DA DÉCADA DE 70) – Isaac Salum

A 1ª edição do Cours é de 1916, e é, como se sabe, ‘obra póstuma’, pois Saussure faleceu a 22 de fevereiro de 1913. A versão portuguesa sai com ‘apenas’ 54 anos de atraso. Mas nesse ponto não somos só nós que estamos atrasados. O Cours de linguistique générale não foi um best-seller, mas foi em francês mesmo que ele se tomou conhecido na Europa e na América. A 1ª edição francesa, de 1916, tinha 337 paginas; as seguintes, de 1922, 1931, 1949, 1955, 1962… e 1969, têm 331 paginas. Note-se, porém, como crescem os intervalos entre as edições até a 4ª, de 1949, e depois se reduzem à constante de 7 anos, o que mostra que até a edição francesa teve a sua popularidade aumentada nestas duas ultimas décadas.

Uma vista de olhos sobre as traduções é bastante elucidativa. A primeira foi a versão japonesa de Kobayashi, de 1928, reeditada em 1940, 1941 e 1950. Vem depois a alemã de Lommel, em 1931, depois a russa, de H.M. Suhotin, em 1933. Uma divulgou-o no Oriente, e a outra no mundo germânico ( e nórdico) e a terceira no mundo eslavo. A versão espanhola, de Amado Alonso, enriquecida com um excelente prefácio de 23 páginas, saiu em 1945, sucedendo-se as edições de 1955, 1959, 1961, 1965 e 1967, numa cerrada competição com as edições francesas.” “A versão inglesa de Wade Baskin, saída em Nova Iorque, Toronto e Londres, de 1959. A polonesa é de 1961, e a húngara, de 1967. Em 1967 saiu a notável versão italiana de Tullio De Mauro, tradução segura e fiel, mas especialmente notável pelas 23 páginas introdutórias e por mais 202 páginas que se seguem ao texto, de maior rendimento, em virtude do corpo do tipo usado, ostentando extraordinária riqueza de informações sobre Saussure e sobre a sorte do Cours, com 305 notas ao texto e uma bibliografia de 15 páginas (cerca de 400 títulos).”

Mas a freqüência das reedições e traduções do Cours nesta década de 60 que acaba de expirar mostra que já era tempo de fazer sair uma versão portuguesa dessa obra cujo interesse cresce com o extraordinário impulso que vêm tomando os estudos lingüísticos entre nós e em todo o mundo. Já se tem dito, e com razão, que a Lingüística é hoje a ‘vedette’ das ciências humanas. Acresce que o desenvolvimento dos currículos do nosso estudo médio nestes últimos anos impede que uma boa percentagem de colegiais e estudantes do curso superior possam ler Saussure em francês.” Retiraram o Francês da grade curricular do ensino médio. Malditos milicos!

O Cours é um clássico. Não é uma ‘bíblia’ da Lingüística moderna, que dê a ultima palavra sobre os fatos, mas é ainda o ponto de partida de uma problemática que continua na ordem do dia.”

É bem certo que a Lingüística americana moderna surgiu sem especial contribuição de Saussure; não deixa, porém, de causar espécie a onda de silêncio da quase totalidade dos lingüistas americanos com relação ao Cours. Bloomfield, fazendo em 1922 a recensão da Language de Sapir, chama o Cours ‘um fundamento teórico da mais recente tendência dos estudos lingüísticos’, repete esse juízo ao fazer a recensão do próprio Cours. em 1924, fala em 1926, do seu ‘débito ideal’ a Sapir e a Saussure, mas não inclui o Cours na bibliografia de sua Language, em 1933.”

hoje não se pode deixar de reconhecer que o Cours levanta uma série intérmina de problemas. Porque, no que toca a eles, Saussure – como Sócrates e Jesus – é recebido ‘de segunda mão’. Conhecemos Sócrates pelo que Xenofonte e Platão escreveram como sendo dele. O primeiro era muito pouco filósofo para entendê-lo, e o segundo, filósofo demais para não ir além dele, ambos distorcendo-o. Jesus nada escreveu senão na areia: seus ensinos são os que nos transmitiram os seus discípulos, alguns dos quais não foram testemunhas oculares.”

COINCIDÊNCIA OU DESTINO? “foram três os Cursos de Lingüística Geral que ele ministrou na Universidade de Genebra” “Saussure várias vezes se mostra insatisfeito com os pontos de vista a que tinha chegado.” “Os editores do CoursCharles Bally, Albert Sechehaye, com a colaboração de A. Riedlinger – só tiveram em mãos as anotações de L. Caille, L. Gautier, Paul Regard, Mme. A. Sechehaye, George Dégallier, Francis Joseph, e as notas de Riedlinger. E, tal qual ele foi editado, com a sistematização e organização dos 3 ilustres discípulos de Saussure, apresenta vários problemas críticos.”

Godel, Les sources manuscrites du Cours de linguistique générale de Ferdinand de Saussure, Genebra-Paris, Droz, 1957.

Benveniste, Saussure après um demi-siècle

Vejo-me diante de um dilema: ou expor o assunta em toda a sua complexidade e confessar todas as minhas dúvidas, o que não pode convir para um curso que deve ser matéria de exame, ou fazer algo simplificado, mais bem-adaptado a um auditório¹ de estudantes que não são lingüistas. Mas a cada passo me vejo retido por escrúpulos.”

¹ Falando assim nem parece que seus cursos agora clássicos jamais ultrapassaram a dúzia de estudantes simultâneos!

Ajunte-se como traço anedótico que a frase final do Cours tão citada – a Lingüística tem por único e verdadeiro objeto a língua encarada em si mesma e por si mesma – não é de Saussure, mas dos editores.

Aí está um problema crítico com tríplice complicação. Problema crítico grave como o da exegese platônica ou o problema sinótico dos Evangelhos. Naturalmente, as notas dos discípulos de Saussure foram apanhadas ao vivo na hora, como cada um podia anotar.”

Saussure destruía os seus rascunhos apressados em que ia traçando dia a dia o esboço da sua exposição.”

Godel não se mostra muito entusiasta com essas pesquisas. Eis o que ele diz: ‘Na época em que Saussure se ocupava de mitologia gêrmânica, apaixonou-se também por pesquisas singulares. (…) Os cadernos e os quadros em que ele consignou os resultados dessa longa e estéril investigação formam a parte mais considerável dos manuscritos que ele deixou” “É curioso notar que Tullio De Mauro, tão rico de informações, e que cita e usa tanto o Recueil como Les sources manuscrites, não os tenha incluído no seu inventário bibliográfico final, de cerca de 400 títulos.”

“Os Souvenirs de F. de Saussure concernant sa jeunesse et ses études atrás mencionados (Ms. fr. 3957) são ricos de informações acerca das suas relações com os lingüistas alemães e sobre a famosa Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européenes, Leipzig, Teubner, 1879, 302 pp., escrita aos 21 anos.”

Se a isso se acrescentar o conjunto de obras editadas em 1922 por Charles Bally e Léopold Gautier sob o título de Recueil des publications scientifiques de Ferdinand de Saussure, num grosso volume de 8 tomos e 641pp., teremos tudo o que Saussure publicou ou esboçou ou escreveu.”

O estudo sincrônico dum estado atual de língua, especialmente na sua manifestação oral, atenua, quase dispensando, o trabalho filológico. Mas, paradoxalmente, a obra do lingüista que insistiu na sincronia constitui-se agora um notável problema filológico: o do estabelecimento do seu texto.

A edição crítica saiu em 1968 (ed. Rudolf Engler), num primeiro volume de grande formato, 31×22 cm, e de 515+515 páginas. É uma edição sinó(p)tica [simultânea, global, contextual], que dá as fontes lado a lado em 6 colunas. A primeira coluna reproduz o texto do Cours, da 1ª edição de 1916, com as variantes introduzidas na 2ª e na 3ª (de 1922 e 31). As colunas 2, 3 e 4 trazem as fontes usadas por Charles Bally e Albert Sechehaye. As colunas 5 e 6 trazem as fontes descobertas e publicadas por Robert Godel”

Assim como “a Synopse des quatre évangiles en français de Benoit e Boismard, o famoso livro de Saussure ‘que ele não escreveu’ poderá ter também o seu interesse pedagógico: será uma fotografia fiel de como é apreendido diversamente aquilo que é transmitido via oral.”

A edição a ser oferecida a um público mais amplo só pode ser a que consagrou a obra: a edição crítica, de leitura pesada, será obra de consulta de grande utilidade para os especialistas e para os mais aficionados.” Poooxa…

Mas êste prefácio já se alongou demais. Além disso, os trabalhos de análise da Lingüística moderna como As grandes correntes da Lingüística Moderna, de Leroy, As novas tendências da Lingüística, de Malmberg, Lingüística Románica, de lorgu Iordan, em versão espanhola de Manuel Alvar (pp. 509-601), os estudos de Meillet em Linguistique historique et linguistique générale II (pp. 174-183) e no Bullettin de la Société de Linguistique de Paris, o de Benveniste em Problèmes de linguistique générale (pp. 32-45), o de Lepschy, em La linguistique structurale (pp. 45-56), o prólogo da edição de Amado Alonso, a excelente edição de Tullio De Mauro, são guias de grande valor para o interessado. A estes acrescente-se o excelente trabalho de divulgação de Georges Mounin, Saussure ou le structuraliste sans le savoir – présentation, choix de textes, bibliographie, que, a nosso ver, tem [de] defeituoso apenas o título, pois Saussure foi antes ‘estruturalista antes do termo’, que Mounin poderia dizer à francesa le structuraliste avant la lettre.”

S., (tese de doutorado) De l’emploi du genitif absolu en sanskrit

PREFÁCIO À 1a EDIÇÃO

Lecionou três cursos de Lingüística Geral, em 1906-1907, 1908-1909 e 1910-1911; é verdade que as necessidades do programa o obrigaram a consagrar a metade de cada um desses cursos a uma exposição relativa às línguas indo-européias, sua história e sua descrição, pelo que a parte essencial do seu tema ficou singularmente reduzida.”

Que iríamos fazer desse material? Um trabalho crítico preliminar se impunha: era mister, para cada curso, e para cada pormenor de curso, comparando todas as versões, chegar até o pensamento do qual tínhamos apenas ecos, por vezes discordantes. Para os dois primeiros cursos, recorremos à colaboração do Sr. A. Riedlinger, um dos discípulos que acompanharam o pensamento do mestre com o maior interesse; seu trabalho, nesse ponto, nos foi muito útil. No que respeita ao terceira curso, A. Sechehaye levou a cabo o mesmo trabalho minucioso de colação e arranjo.”

A ausência de uma Lingüística da fala é mais sensível. Prometida aos ouvintes do 3º curso, esse estudo teria tido, sem dúvida, lugar de honra nos seguintes; sabe-se muito bem por que tal promessa não pôde ser cumprida. Limitamo-nos a recolher a situar em seu lugar natural as indicações fugitivas desse programa apenas esboçado: não poderíamos ir mais longe.”

* * *

INTRODUÇÃO. I. VISÃO GERAL DA HISTÓRIA DA LINGÜÍSTICA

os trabalhos de Ritschl acerca de Plauto podem ser chamados lingüísticos; mas nesse domínio a crítica filológica é falha num particular: apega-se muito servilmente à língua escrita e esquece a língua falada; aliás, a Antiguidade grega e latina a absorve quase completamente.”

Bopp não tem, pois, o mérito da descoberta de que o sânscrito é parente de certos idiomas da Europa e da Ásia, mas foi ele quem compreendeu que as relações entre línguas afins podiam tornar-se matéria duma ciência autônoma.”

Curtius, Princípios de Etimologia Grega, 1879

Schleicher, Breviário de Gramática Comparada das Línguas Indo-Germânicas, 1816

(modelo seminal da escola comparatista)

A Lingüística propriamente dita, que deu à comparação o lugar que exatamente lhe cabe, nasceu do estudo das línguas românicas e das línguas germânicas. Os estudos românicos, inaugurados por Diez – sua Gramática das Línguas Românicas data de 1836-38 –, contribuíram particularmente para aproximar a Lingüística do seu verdadeiro objeto. Os romanistas se achavam em condições privilegiadas, desconhecidas dos indo-europeístas; conhecia-se o latim, protótipo das línguas românicas; além disso, a abundância de documentos permitia acompanhar pormenorizadamente a evolução dos idiomas. Essas duas circunstâncias limitavam o campo das conjecturas e davam a toda a pesquisa uma fisionomia particularmente concreta. Os germanistas se achavam em situação idêntica; sem dúvida, o protogermânico não é conhecido diretamente, mas a história das línguas que dele derivam pode ser acompanhada com a ajuda de numerosos documentes, através de uma longa seqüência de séculos. Também os germanistas, mais próximos da realidade, chegaram a concepções diferentes das dos primeiros indo-europeístas.”

Graças aos neogramáticos, não se viu mais na língua um organismo que se desenvolve por si, mas um produto do espirito coletivo dos grupos lingüísticos. Ao mesmo tempo, compreende-se quão errôneas e insuficientes eram as idéias da Filologia e da Gramatica comparada.”

INTRODUÇÃO. VII. A FONOLOGIA

os primeiros lingüistas, que nada sabiam da fisiologia dos sons articulados, caiam a todo instante nessas ciladas; desapegar-se da letra era, para eles, perder o pé; para nós, constitui o primeiro passo rumo à verdade, pois é o estudo dos sons através dos próprios sons que nos proporciona o apoio que buscamos. Os lingüistas da época atual terminaram por compreendê-lo; retomando, por sua própria conta, pesquisas iniciadas por outros (fisiologistas, teóricos do canto etc.), dotaram a Lingüística de uma ciência auxiliar que a libertou da palavra escrita.”

A Fonética é uma ciência histórica; analisa acontecimentos, transformações e se move no tempo. A Fonologia se coloca fora do tempo, já que o mecanismo da articulação permanece sempre igual a si mesmo.”

O lingüista exige, antes de tudo, que lhe seja fornecido um meio de representar os sons articulados que suprima qualquer equívoco. De fato, inúmeros sistemas gráficos foram propostos.”

Haveria razões para substituir por um alfabeto fonológico a ortografia usual? Essa questão tão interessante pode apenas ser aflorada aqui; para nós, a escrita fonológica deve servir apenas aos lingüistas. Antes de tudo, como fazer ingleses, alemães, franceses etc., adotarem um sistema uniforme! Além disso, um alfabeto aplicável a todos os idiomas correria o risco de atravancar-se de signas diacríticos; sem falar do aspecto desolador que apresentaria uma página de um texto que tal, é evidente que, à força de precisar, semelhante escrita obscureceria o que quisesse esclarecer e atrapalharia o leitor. Esses inconvenientes não seriam compensados por vantagens suficientes. Fora da Ciência, a exatidão fonológica não é muito desejável.”

os gramáticos gregos designavam as sonoras (como b, d, g) pelo nome de consoantes ‘médias’ (mesai) e as surdas (como p, t, k) pelo nome de psilai, que os latinos traduziam por tenues.”

não sabemos exatamente qual era o valor do ç sânscrito, mas como ele é continuação do k palatal indo-europeu, esse dado delimita claramente o campo das suposições.”

Os textos poéticos são documentos preciosos para o conhecimento da pronúncia: conforme o sistema de versificação se baseie no nº de sílabas, na quantidade, ou na conformidade dos sons (aliteração, assonância, rima), tais monumentos nos fornecem informações sobre esses diversos pontos. Se o grego distingue certas longas pela grafia, em outras descura tal precisão; é nos poetas que devemos buscar informações sobre a quantidade de a, i e u. No antigo francês, a rima permite conhecer, p.ex., até que época eram diferentes as consoantes finais de gras e faz (latim facio, ‘eu faço’) e a partir de que momento se aproximaram e se confundiram. A rima e a assonância nos ensinam ainda que no francês antigo os ee provenientes dum a latino (p.ex.: père de patrem, tel de talem, mer de marem) tinham um som totalmente diverso dos outros ee. Jamais esses termos rimam ou fazem assonância com ele (de illa), vert (de viridem), belle (de bella), etc.”

em gótico, kawtsjo nos informa a pronúncia de cautio em baixo latim.”

APÊNDICE À INTRODUÇÃO – PRINCÍPIOS DE FONOLOGIA

Muitos fonologistas se aplicam quase exclusivamente ao ato de fonação, vale dizer, à produção dos sons pelos órgãos (laringe, boca etc.), e negligenciam o lado acústico. Esse método não é correto: não somente a impressão produzida no ouvido nos é dada tão diretamente quanto a imagem motriz dos órgãos, como também é ela a base de toda teoria.

O dado acústico existe já inconscientemente quando se abordam as unidades fonológicas; pelo ouvido, sabemos o que é um b, um t etc. Se se pudessem reproduzir por meio do cinematógrafo todos os movimentos da boca e da laringe ao executarem uma seqüência de sons, seria impossível descobrir subdivisões nessa seqüência de movimentos articulatórios; não se sabe onde um som termina e outro se inicia. Como afirmar, sem a impressão acústica, que em fal, por exemplo, existem três unidades, e não duas ou quatro? É na cadeia da fala ouvida que se pode perceber imediatamente se um som permanece ou não igual a si próprio; enquanto se tenha a impressão de algo homogêneo, este som é único. O que importa não é sua duração em colcheias e semicolcheias, mas a qualidade de impressão. A cadeia acústica não se divide em tempos iguais, mas em tempos homogêneos, caracterizados pela unidade de impressão, e esse é o ponto de partida natural para o estudo fonológico. Nesse sentido, o alfabeto grego primitivo merece nossa admiração. Cada som simples é nele representado por um único signo gráfico, e, reciprocamente, cada signo corresponde a um som simples, sempre o mesmo. É uma descoberta de gênio, que os latinos herdaram. Na escrita da palavra bárbaros, ‘bárbaro’, cada letra corresponde a um tempo homogêneo (…) No alfabeto grego primitivo, não se encontram grafias complexas coma o ‘ch’ francês p[ara uma modalidade do ‘s’], nem representações duplas de um som único como no francês o ‘s’+‘s’ por ‘s’, nem um signo simples para um som duplo, como o u ‘x’ por ks. Esse princípio, necessário e suficiente para uma boa escrita fonológica, os gregos o realizaram quase integralmente.

É verdade que escreviam [caracteres específicos] por kh, th, ph (…) mas é uma inovação posterior (…) As mesmas inscrições oferecem dois signos para o k, o kappa e o koppa, mas o fato é diferente: tratava-se de consignar dois matizes reais da pronúncia, pois o k era umas vezes palatal, outras velar; além disso, o koppa desapareceu mais tarde. Enfim – ponto mais delicado –, as inscrições primitivas gregas e latinas costumam consignar freqüentemente uma consoante dupla com uma letra simples; assim a palavra latina fuisse era escrita FUISE; portanto, infração do princípio, pois esse duplo s dura dois tempos que, como veremos, não são homogêneos e dão impressões distintas; erro desculpável, porém, pois esses dois sons, sem se confundirem, apresentam uma característica comum.”

Os semitas só assinalavam as consoantes: um termo como bárbaros teria sido escrito por eles BRBRS.”

o fonema é a soma das impressões acústicas e dos movimentas articulatórios da unidade ouvida e da unidade falada, das quais uma condiciona a outra; portanto, trata-se já de uma unidade complexa, que tem um pé em cada cadeia.”

A glote, formada por dois músculos paralelos ou cordas vocais, se abre ou se fecha conforme elas se separam ou se juntam. A oclusão completa não entra, por assim dizer, em linha de conta; quanto à abertura, ela pode ser mais larga ou mais estreita. No primeiro caso, o ar passa livremente e as cordas vocais não vibram; no segundo, a passagem do ar determina as vibrações sonoras. Não há outra alternativa na emissão normal dos sons.

A cavidade nasal é um órgão completamente imóvel; a passagem do ar pode ser impedida pelo levantamento da úvula, nada mais; é uma porta aberta ou fechada.”

a expiração, elemento positivo, mas que intervém em todo ato fonat6rio, não tem valor diferenciador; ao passo que a ausência de ressonância nasal, fator negativo, servira, do mesmo modo que sua presença, para caracterizar os fonemas.”

Excerto p. 55 – A matéria de fonologia é muito técnica e fisiológica para que eu me detenha apenas em parágrafos. “[]” denota ausência do fator na fala. Não existe fala sem expiração ou articulação bucal (o que não significa que inexista som). A letra c faz referência à intervenção da laringe, que ocorre nos cenários II e IV. A letra d diz respeito à ressonância nasal, que interfere no som emitido nos cenários III e IV. Essas são todas as combinações possíveis grosso modo (já que ainda falta comentar sobre as ‘n’ possibilidades de articulações bucais; a expiração é uniforme e não possui variações).

ESCALA DE OCLUSÃO-ABERTURA DA ARTICULAÇÃO:

(fechada) 0 (mín.) 1 2 3 4 5 6 (máx.)

0. OCLUSIVAS

3 subtipos: labial (p, b, m); dental (t, d, n); gutural (k, g, n com notação de ponto em cima).

1. FRICATIVAS OU EXPIRANTES

genericamente podemos subdividir este ponto da escala em palatais e velares conforme capta o ouvido humano na maioria das línguas.

Ex (cada exemplo exige movimento diferente da língua): Ing – thing, then; Fr – si, rose, chant, génie; Ale – ich, Bach; Alemão do Norte – liegen, Tage.

ouve-se um v nasal no francês inventor; mas em geral a fricativa nasal não é um som de que a língua tenha consciência.”

2. NASAIS

3. LÍQUIDAS

2 subtipos: lateral e vibrante.

Lateral: Sobretudo no l francês.

Vibrante: Sobretudo no r francês.

4. SEMIVOGAIS (I, U, Ü)

Primeiro grau de oclusão para as vogais.

Passado um certo grau de abertura, a boca funciona principalmente como ressoador. (…) Quanto mais a boca se fecha, mais o som laríngeo é interceptado; quanto mais se abre, mais diminui o ruído. É assim que, de modo totalmente mecânico, o som predomina na vogal.”

O i se pronuncia com os lábios retraídos (signo ¯) e articulação dianteira; o u com os lábios arredondados sinal º) e articulação posterior, ü com a posição dos lábios de u articulação de i.”

5. E, O, Ö

Fr: pin, pont, brun.

dé, dos, deux.

mer, mort, meurt.

6. A NASAL & A ABERTO

A nasal: o nosso ã.

Fr: grand

* * *

O lingüista não tem necessidade alguma de ser um fonologista consumado; ele pede simplesmente que lhe seja fornecido certo nº de dados necessários para o estudo da língua.”

não é nunca uma unidade simples que cria embaraços em Lingüística: se, por exemplo, em dado momento, numa determinada língua, todo a se transformou em o, nada resulta daí; podemos limitar-nos a assinalar o fenômeno, sem procurar explicá-lo fonologicamente. A ciência dos sons não adquire valor enquanto dois ou mais elementos não se achem implicados numa relação de dependência interna (…) somente o fato de que haja dois elementos engendra uma relação e uma regra”

no antigo alto alemão, hagl, balg, wagn, lang, donr, dorn, se tornaram mais tarde, hagal, balg, wagan, lang, donnar, dorn (…) ora uma vogal se desenvolve entre duas consoantes; ora o grupo permanece compacto. Como, pois, formular a lei?” R: Com base nos grupos consonantais. Ou seja, gn e ng possuem valores silábicos diferentes na pronúncia, etc.

Para nos darmos conta do que se passa nos grupos, necessário se faz fundar uma Fonologia onde eles seriam considerados como equações algébricas; um grupo binário implica certo número de elementos mecânicos e acústicos que se condicionam reciprocamente; quando um varia, essa variação tem, sobre os outras, uma repercussão necessária, que poderá ser calculada.”

Sem dúvida, num grupo como appa, distingue-se, além da implosão e explosão, um tempo de repouso no qual a oclusão se prolonga ad libitum, e, tratando-se de um fonema de abertura maior, como no grupo alla, é a emissão do próprio som que se prolonga na imobilidade dos órgãos.”

o w inglês, o j alemão e amiúde o y francês (em yeux, etc.) representam sons que se abrem, em oposição a u e i somente. Mas num grau maior de abertura (e e o), a implosão e a explosão, teoricamente concebíveis (aeea, aooa) são bastante difíceis de se distinguirem na prática. (…) o a já não apresenta mais nem implosão nem explosão, pois para este fonema a abertura desfaz qualquer diferença desse gênero.”

Pela primeira. vez, saímos da abstração; pela primeira vez, aparecem elementos concretos, indecomponíveis, ocupando um lugar e representando um tempo na cadeia falada. Pode-se dizer que P não era mais que uma unidade abstrata reunindo as características comuns do P implosivo e do P explosivo, as únicas que se encontram na realidade, exatamente como B, P, M se reúnem numa abstração superior, as labiais. Fala-se de P como se se falasse duma espécie zoológica; existem exemplares machos e fêmeas, mas jamais um exemplar ideal da espécie. São essas abstrações que até agora temos distinguido e classificado; é necessário, porém, ir mais longe e chegar ao elemento concreto.” “Vê-se porque bastam dois elementos para confundir a Fonologia tradicional [anglo-saxônica, particularmente a inglesa da época de S.], e assim fica demonstrada a impossibilidade de proceder, como ela o faz, por unidades fonológicas abstratas.”

em prix, enquanto se pronuncia o p, os órgãos se encontram já na posição do r. Mas é impossível pronunciar em cadeia contínua a série inversa rp; não que seja mecanicamente impossível adotar a posição de p enquanto se articula um r que se abre, mas porque o movimento desse r, encontrando a abertura menor do p, não poderá ser percebido.”

try forma uma cadeia explosiva perfeita”

Os termos vogal e consoante designam espécies diferentes; soante e consoante indicam, ao contrário, funções na sílaba. Essa dupla terminologia permite evitar uma confusão que reinou por longo tempo.” Ex: “i” cumpre função de soante em fidalgo e de consoante em piegas. “A análise mostra que as soantes são sempre implosivas e as consoantes ora implosivas (boy), ora explosivas (pied).”

Na prática, são os fonemas de abertura 2, 3 e 4 (nasais, líquidas, semivogais) que desempenham um ou outro papel [implosão ou explosão]”

O ouvido percebe, em toda cadeia falada, a divisão em sílabas, e em toda sílaba uma soante.”

o hiato, de emprego tão freqüente, não é outra coisa senão um elo implosivo rompido

Por que fac é medido como longo em factus? Responde-se: por causa do grupo ct; mas se isso se deve ao grupo em si, qualquer sílaba iniciada por 2 consoantes terá também quantidade longa; no entanto, não é assim (cliens)…” “A verdadeira razão está em que a explosão e a implosão são essencialmente diversas no que respeita à duração.” “Sabe-se, por outro lado, que as vogais colocadas diante de um grupo formado de oclusivas ou fricativa + líquida, são tratadas de dois modos: em patrem, o a pode ser longo ou breve”, conforme se pronuncia o tr de forma implosiva, o que dá a sensação de que o a, mesmo não tendo sido a sílaba tônica, fôra mais “longo”, ou se o pronuncia de forma explosiva, o que “encurta” o a.

O ditongo constitui apenas um caso especial do elo implosivo” Exemplo que dá S.: art. A pronúncia de arte, artista nos soa bem natural. Acontece que o sistema articulatório se comporta da mesma maneira pronunciando autista. Falsos ditongos: “não se pode pronunciar uo como implosiva + implosiva sem rompimento da cadeia, a menos que, por via de um artifício, se imponha a esse grupo a unidade que ele não tem por natureza.”

não podemos, p.ex., fazer distinção alguma entre newo e neuo

vogais protéticas” – aquele s incômodo do francês que não temos certeza se se pronuncia ou não, pois está sucedido de uma consoante.

todo caráter fonológico pouco sensível tende a aumentar quando se insiste em conservá-lo.” (até decair o uso do s). Scole iscole, escole école

É ainda o mesmo caso que se encontra na pronúncia popular da preposição de, que se transcreve por ed: un oiel ed tanche. Por síncope, de tanche se tornou d’tanche

Basta apenas relembrar a questão das soantes indo-européias, e perguntar, p.ex., por que o antigo alto alemão hagl se transformou em hagal, enquanto balg permaneceu intacto. O l desta última palavra, segundo elemento de um elo implosivo [balg, o alg é perfeitamente contínuo, ou seja, é uma sílaba só, com três implosões sucessivas, o que é sempre possível quando o som seguinte é mais fraco que o anterior], faz o papel de consoante e não tinha razão alguma para trocar de função. Ao contrário, o l, igualmente implosivo, de hagl fazia ponto vocálico.”

Por outro lado, [essa evolução] se obscureceu com o tempo, pois hoje Hagel se pronuncia novamente hagl [g explosivo]. É isto mesmo que faz a diferença entre a pronúncia dessa palavra e a do francês aigle [é-gle, somente o e é explosivo].”

Este é o ponto ideal para ler o https://seclusao.art.blog/2018/04/16/saussureal/, que eu chamei de CURSO GERAL II no cabeçalho (PRIMEIRA PARTE + cinco primeiros capítulos da SEGUNDA PARTE). Agora empreende-se o fechamento do módulo da Lingüística Sincrônica e vai-se mais além:

SEGUNDA PARTE. VI. MECANISMO DA LÍNGUA

Se o mecanismo da língua fosse inteiramente racional, poderíamos estudá-lo em si mesmo; mas como não passa de uma correção parcial de um sistema naturalmente caótico, adota-se o ponto de vista imposto pela natureza mesma da língua, estudando esse mecanismo como uma limitação do arbitrário.”

SEGUNDA PARTE. VII. A GRAMÁTICA E SUAS SUBDIVISÕES

Lingüisticamente, a morfologia não tem objeto real e autônomo; não pode constituir uma disciplina distinta da sintaxe.”

Tudo o que compõe um estado de língua pode ser reduzido a uma teoria dos sintagmas e a uma teoria das associações. Primeiramente, certas partes da Gramática tradicional parecem agrupar-se sem esforço numa ou noutra dessas ordens: a flexão é evidentemente uma forma típica da associação das formas no espírito do falante; por outro lado, a sintaxe, vale dizer, segundo a definição mais corrente, a teoria dos agrupamentos de palavras, entra na sintagmática, pois esses agrupamentos supõem sempre pelo menos duas unidades distribuídas no espaço. Nem todos os fatos da sintagmática se classificam na sintaxe, mas todos os fatos de sintaxe pertencem à sintagmática.”

TERCEIRA PARTE. LINGÜÍSTICA DIACRÔNICA

II. AS MUDANÇAS FONÉTICAS

Em alemão, todo i se tornou ei, depois ai: win, triben, lihen, zit deram Wein, treiben, leihen, Zeit; todo u se tomou au: hus, zun, ruch Haus, Zaun, Rauch; assim também ü se converteu em eu: hüsir Hauser etc. Pelo contrário, o ditongo ie passou a i, que se continua a escrever ie: cf. biegen, lieb, Tier. Paralelamente, todos os uo se transformaram em u: muot Mut etc. Todo z deu s (escrito ss): wazer Wasser, fliezen fliessen etc. Todo h interior desapareceu de entre vogais: lihen, sehen leien, seen (escritos leihen, sehen). Todo w se transformou em v lábio-dental (escrito w): wazer wasr (Wasser).”

O mais grave erro de método que recordamos aqui consiste em formular uma lei fonética, no presente, como se os fatos que abrange existissem de uma vez para sempre, em vez de nascerem e morrerem numa porção do tempo. É o caos, porque assim se suprime toda sucessão cronológica dos acontecimentos. (…) Quando se diz: ‘s se toma r em latim’, dá-se a entender que o rotacismo é inerente à natureza da língua e fica-se embaraçado diante de exceções como causa, risus etc. Somente a fórmula: ‘s intervocálico se tomou r em latim numa certa época’ autoriza a pensar que no momento em que s passava a r, causa, risus etc., não tinham s intervocálico e estavam ao abrigo da mudança; com efeito, dizia-se ainda caussa, rissus.”

Disse-se que a raça teria predisposições que traçariam de antemão a direção das mudanças fonéticas. Existe aí uma questão de Antropologia comparada: o aparelho fonatório varia de uma raça para outra? Não, não mais que de um indivíduo para outro; um negro transplantado desde seu nascimento para a França fala o francês tão bem quanto os indígenas. Ademais, quando se utilizam expressões como ‘o órgão italiano’ ou ‘a boca dos germanos não admite isso’, arrisca-se a transformar em caráter permanente um fato puramente histórico

ao lado dos idiomas escandinavos, tão carregados de consoantes, os dos lapões e dos finlandeses são mais vocálicos que o próprio italiano.”

Fez-se intervir a lei do menor esforço, que substituiria duas articulações por uma só, ou uma articulação difícil por outra mais cômoda. Esta idéia, diga-se o que se disser, merece exame: ela pode elucidar a causa do fenômeno em certa medida, ou indicar pelo menos a direção em que cumpre investigar.” “Só que se poderiam mencionar outros tantos casos em que se passa exatamente o contrário.” Meu exemplo: mor virou maior.

Se é verdade que o abreviamento corresponde a um menor esforço no sentido da duração, é igualmente verdade que as pronunciações negligenciadas caem e recaem na sílaba longa e que a breve exige maior vigilância.”

nada autoriza a admitir que às épocas agitadas da história de uma nação correspondam evoluções precipitadas dos sons de um idioma.”

III. CONSEQÜÊNCIAS GRAMATICAIS DA EVOLUÇÃO FONÉTICA

As formas simpes hunc, hanc, hac, etc., do latim clássico, que remontam a hon-ce, han-ce, há-ce, conforme o mostram as formas epigráficas, são o resultado da aglutinação do pronome com a partícula –ce; podia-se, outrora, aproximar hon-ce etc., de ec-ce; mais tarde, porém, tendo –e caído foneticamente, isto não mais foi possível; o que equivale a dizer que não se distinguem mais os elementos de hunc, hanc, hac etc.”

Por si mesma, a evolução dos sons não tem a virtude de criar duas formas em lugar de uma.”

Se agora se pretende que o pronome latino me é representado em francês por duas formas: me e moi (cf. il me voit e c’est moi qu’il voit), responderemos: Foi o lat. me átono que se tornou me; me acentuado deu moi; ora, a presença ou ausência do acento depende, não de leis fonéticas que fizeram com que me passasse a me e moi, mas do papel dessa palavra na frase; trata-se de uma dualidade gramatical.” “De fato, não se registram parelhas fonéticas em parte alguma. A evolução dos sons não faz mais que acentuar as diferenças existentes antes dela.”

Em francês, todo o latino situado em sílaba aberta se tornou eu com o acento ou ou em posição pretônica; daí parelhas como pouvons : peuvent, oeuvre : ouvrier, nouveau : neuf etc., nas quais se distingue sem esforço um elemento regular de diferença de variação.”

A alternância pode ser assim definida: uma correspondência entre dois sons ou grupos de sons determinados, que se permutam regularmente entre duas séries de formas coexistentes.”

É um erro, partilhado por numerosos lingüistas, acreditar que a alternância seja de ordem fonética, simplesmente porque os sons lhe formam a matéria, e porque suas alterações intervêm na gênese. De fato, quer a tomemos em seu ponto de partida ou em seu ponto de chegada, ela pertence sempre à gramática e à sincronia.”

O ablaut (alemão), ou variação vocálica radical coincidente com uma oposição gramatical, é um exemplo capital da alternância; todavia, não se distingue do fenômeno geral por nenhum caráter particular.”

IV. A ANALOGIA

Mecanismo compensatório do fenômeno fonético.

Ex: “A princípio se disse honos : honosem, depois, por rotacismo do s, honos : honorem. O radical tinha, desde então, uma forma dupla; tal dualidade foi eliminada pela nova forma honor, criada sobre o modelo de orator : oratorem.”

não se pode dizer de antemão até onde irá a imitação de um modelo, nem quais são os tipos destinados a provocá-la. Dessarte, não são sempre as formas mais numerosas que desencadeiam a analogia.”

Honor e honos coexistiram durante certo tempo e era possível usar uma pela outra. Entretanto, como repugna à língua manter dois significantes para uma só idéia, as mais das vezes a forma primitiva, menos regular, cai em desuso e desaparece. É esse resultado que faz crer numa transformação: uma vez terminada a ação analógica, o estado antigo (honos : honorem) e o novo (honor : honorem) estão, em aparência, na mesma oposição que a que resulta da evolução dos sons. Todavia, no momento em que nasce honor, nada mudou, pois não se substitui nada; o desaparecimento de honos não é mais uma mudança, de vez que se trata de um fenômeno independente do primeiro.”

A analogia é inteiramente gramatical e sincrônica.”

Carteiro não foi engendrado por carta; foi criado pelo modelo de prisioneiro : prisão. Do mesmo modo, encartar deve sua existência à analogia com enfaixar, enquadrar, encapuzar, etc., que contêm faixa, quadro, capuz, etc. Existem, pois, em toda língua, palavras produtivas e palavras estéreis, mas a proporção de umas e outras varia. Isso se reduz à distinção já feita entre as línguas lexicológicas e as línguas gramaticais. Em chinês, em sua maioria, as palavras são indecomponíveis; ao contrário, numa língua artificial, são quase todas analisáveis.”

Nossas gramáticas européias operam com a quarta proporcional [fenômeno do honos honorem honor transformado em procedimento-padrão]; elas explicam, p.ex., a formação de um pretérito alemão partindo de palavras completas; dizem aos alunos: sobre o modelo de setzen : setzte formem o pretérito de lachen, etc. Ao contrário, a gramática hindu estudaria num capítulo determinado as raízes (setz-, lach-, etc.), em outro as terminações do pretérito (-te…); daria os elementos resultantes da análise, e os alunos teriam de recompor as palavras completas. Em todo dicionários sânscrito, os verbos estão classificados na ordem que lhes consigna a raiz.

Conforme a tendência dominante de cada grupo lingüístico, os teóricos da gramática se inclinarão para um ou outro desses métodos.”

O latim antigo tinha, portanto, em alto grau, o sentimento das peças da palavra (radicais, sufixos, etc.) e de sua combinação. É provável que nossas línguas modernas não o tenham de maneira tão aguda, mas parece que o alemão o tem mais que o francês.”

V. ANALOGIA E EVOLUÇÃO

pag-anus, formado sobre pag-us, basta para mostrar como os latinos analisavam Rom-anus [em detrimento do mais antigo Roma-nus]” Ou seja, ‘pagão’ tinha tudo para ser ‘pago’, ou pelo menos ‘paganos’.

Um exemplo particularmente curioso mostrará como a analogia trabalha de época para época com novas unidades. Em francês moderno, somnolent é analisado somnol-ent, como se fosse um particípio presente; a prova disso é que existe um verbo somnoler. Mas em latim dividia-se somno-lentus, como succu-lentus, etc., e mais antigamente ainda, somn-olentus (‘que cheira a sono’), de olere, como vin-olentus, ‘que cheira a vinho’).”

As inovações da analogia são mais aparentes que reais. A língua é um traje coberto de remendos feitos de seu próprio tecido. Quatro quintos do francês são indo-europeus, se se pensa na substância de que se compõem suas frases, ao passo que as palavras transmitidas na sua totalidade, sem mudança analógica, da língua-mãe ao francês moderno, caberiam no espaço de uma página (p.ex.: est = esti, os nomes dos números, certos vocábulos como ours, nez, père, chein, etc.). A imensa maioria das palavras constitui, de um modo ou de outro, combinações novas de elementos fônicos arrancados a formas mais antigas. Nesse sentido, pode-se dizer que a analogia, precisamente porque utiliza sempre a matéria antiga para as suas inovações, é eminentemente conservadora.”

O latim agunt se transmitiu quase intacto desde a época pré-histórica (quando se dizia agonti) até o limiar da época romana. Durante esse intervalo, as gerações sucessivas o retomaram sem que nenhuma forma concorrente viesse suplantá-lo. A analogia não teve nada a ver com essa conservação? Pelo contrário (…) Agunt (…) é solidário de formas como dicunt, legunt, etc. e de outras como agimus, agitis, etc. Sem essa vizinhança, teria muitas possibilidades de ser substituído por uma forma composta de novos elementos. O que se transmitiu não foi agunt, mas ag-unt; a forma não muda, porque ag- e ­–unt se verificavam regularmente em outras séries”

Por conseguinte, as formas se mantém porque são refeitas analogicamente sem cessar; uma palavra é simultaneamente compreendida como unidade e como sintagma e perdura enquanto seus elementos não mudam.”

Veja-se o que ocorre em francês com dites e faites, que correspondem diretamente ao latim dic-itis, fac-itis, mas que não têm mais ponto de apoio na flexão verbal atual; a língua procura substituí-las; ouve-se dizer disez, faisez, sobre o modelo de plaisez, lisez, etc. e essas novas desinências são já usuais na maioria dos compostos contredisez, etc.).”

As únicas formas sobre as quais a analogia não tem poder nenhum são naturalmente as palavras isoladas, tais como os nomes próprios, especialmente os nomes de lugares”

VI. A ETIMOLOGIA POPULAR

estropiar palavras”

Existe, em primeiro lugar, o caso em que a palavra recebe uma interpretação nova sem que sua forma mude. Em alemão, durchbläuen, ‘moer de pancadas’, remonta etimologicamente a bliuwan, ‘fustigar’; todavia, a palavra é associada a blau (azul) devido às equimoses produzidas pelas pancadas. Na Idade Média, o alemão tomou emprestado do francês aventure, de que fez regularmente abentüre, depois Abenteuer; sem deformar a palavra, foi ela associada com Abend (‘o que se conta no serão’) de tal maneira que no século XVIII se escrevia Abend-teuer.”

Mais comumente, entretanto, deforma-se a palavra ‘para acomodá-la aos elementos que se acreditam reconhecer nela; é o caso de choucroute (de Sauerkraut) [Sauer, rato]; em alemão, dromedarius se tornou Trampeltier, ‘o animal que pateia’; o composto é novo, mas encerra palavras que já existiam, trampeln e Tier.”

Eis um caso particularmente instrutivo: o latim carbunculus, ‘carvãozinho’, deu em alemão Karfunkel (por associação com funkeln, ‘cintilar’) e em francês escarboucle, ligado a boucle. Calfeter, calfetrer se tornou calfeutrer por influência de feutre.”

A analogia nada tira dos signos que substitui. Contrariamente, a etimologia popular se reduz a uma interpretação da forma antiga; a recordação, mesmo [que] confusa, é o ponto de partida da deformação”

A etimologia popular não age, pois, senão em condições particulares, e não atinge mais que as palavras, raras, técnicas ou estrangeiras, que as pessoas assimilam imperfeitamente. A analogia, ao contrário, é um fato absolutamente geral, que pertence ao funcionamento normal da língua.”

VII. A AGLUTINAÇÃO

ausência de vontade”

Em francês, disse-se a princípio ce ci em duas palavras, e mais tarde ceci (…) tous jours toujours, ao jour d’ ui aujourd’hui, dès jà dejà, vert jus verjus.” Em decorrência, o acento antigo (vért-jús) também transformou-se (verjús).

A aglutinação opera unicamente na esfera sintagmática; sua ação incide num grupo dado; não considera outra coisa. Ao contrário, a analogia faz apelo às séries associativas tanto quanto aos sintagmas.”

em latim, possum não é mais que a soldadura de duas palavras potis sum, ‘eu sou dono’: é um aglutinado”

Grosso modo:

aglutinação lexicológica

analogia sintática

Os lingüistas discutiram interminavelmente acerca das formas es-mi, es-ti, ed-mi, etc., do indo-europeu. Foram os elementos es-, ed-, etc., numa época muito recuada, palavras verdadeiras, aglutinadas a seguir com outras: mi, ti, etc., ou então resultam es-mi, es-ti, etc., de combinações com elementos extraídos de outras unidades complexas da mesma ordem, o que faria remontar a aglutinação a uma época anterior à formação das desinências em indo-europeu? À falta de testemunhos históricos, a questão é provavelmente insolúvel.”

VIII. UNIDADES, IDENTIDADES E REALIDADES DIACRÔNICAS

O indo-europeu não conhecia as preposições; as relações que estas indicam eram indicadas por numerosos casos, providos de grande força significativa. Não existiam tampouco verbos compostos por meio de preverbos, mas apenas partículas, palavrinhas que se acrescentavam à frase para precisar e matizar a ação do verbo. Assim, nada que correspondesse ao latim reo b mortem, ‘ir diante da morte’, nem a obire mortem; ter-se-ia de dizer ire mortem ob. Esse é ainda o estado do grego primitivo”

é a mesma substância com outras funções”

Somente a solução do problema da unidade diacrônica nos permitirá ultrapassar as aparências do fenômeno de evolução e atingir-lhe a essência.”

Com efeito, para que eu possa dizer que uma unidade persistiu idêntica a si mesma, ou que, persistindo como unidade distinta, mudou de forma ou de sentido – pois todos esses casos são possíveis – cumpre que eu saiba em quê me fundo para afirmar que um elemento tomado a uma época, p.ex. o francês chaud, é a mesma coisa que um elemento tomado a outra época, p.ex. o latim calidum.”

é impossível que o som dê conta, por si só, da identidade.”

ADEMAIS, ERA O MAR PARA O ROMANO O MESMO QUE O MAR PARA O FRANCÊS? “Tem-se, sem dúvida, razão em dizer que o latim mare deve aparecer em francês sob a forma de mer porque todo a se tornou e em certas condições, porque o e átono final cai, etc.; afirmar, porém, que são essas relações a e, e 0 (zero), que constituem a identidade, é inverter os termos, pois, ao contrário, é em nome da correspondência mare : mer que eu julgo que o a se tornou ie, que o e final cai, etc.”

APÊNDICES DA TERCEIRA E QUARTA(?) PARTES

(?) Os editores foram muito afobados, colocando a carruagem antes dos bois!

A escola antiga divida as palavras em raízes, temas, sufixos, etc., e dava a essas distinções um valor absoluto. Lendo Bopp e seus discípulos, acreditar-se-ia que os gregos tinham trazido consigo, desde um tempo imemorial, uma bagagem de raízes e sufixos, e que se dedicavam a confeccionar suas palavras ao falar, que pater, p.ex., era para eles raiz pa + sufixo ter, que doso, em sua boca, representava a soma de do + so + uma desinência pessoal, etc.”

A escola nova [neogramáticos], após ter reconhecido os defeitos da antiga doutrina, o que era fácil, contentou-se em rejeitar a teoria, ao passo que, na prática, ficava como que embaraçada por um aparato científico que, apesar de tudo, não podia dispensar. Quando se raciocina sobre essas ‘abstrações’, vê-se a parte de realidade que representam, e um corretivo muito simples basta para dar a tais artifícios do gramático um sentido legítimo e exato. Foi o que tentamos fazer mais acima, ao mostrar que, unida por um vínculo interior à análise subjetiva da língua viva, a análise objetiva tem um lugar legítimo e determinado no método lingüístico.”

Como diria o filósofo (não necessariamente o filósofo – nem mesmo o filólogo, com perdão do trocadilho!), a raiz é relativa! Ou a r-aiz é hell-ativa!

Em certos idiomas, caracteres precisos assinalam a raiz para os falantes. É o caso do alemão, em que tem um aspecto assaz uniforme; quase sempre monossilábica (streit-, bind-, haft-, etc.), ela obedece a certas regras de estrutura: os fonemas não aparecem nela numa ordem qualquer; certas combinações de consoantes, tais como oclusiva + líquida, estão proibidas em posição final: werk- é possível, wekr- não o é; encontram-se helf-, werd-; não se encontram hefl-, wedr-.”

A etimologia não é nem uma disciplina distinta nem uma parte da Lingüística evolutiva; é somente uma aplicação especial dos princípios relativos aos fatos sincrônicos e diacrônicos [nem sequer é um método]. Ela remonta o passado [processo obviamente finito – ainda que fôra infinito, poderíamos dizer que seu limite é bem claro: a palavra, limite do sentido]” Pode-se falar, embora soe mais esquisito, em etimologia sincrônica. Ex: “matador”, cuja etimologia é o verbo “matar”. Ou pode-se prosseguir a análise até um radical indecomponível. E depois remontar à árvore ou família de radicais do Português presente (enquanto se quiser continuar nos limites da etimologia sincrônica).

QUARTA PARTE. LINGÜÍSTICA GEOGRÁFICA

I. DA DIVERSIDADE DAS LÍNGUAS

O termo idioma designa com muita precisão a língua como algo que reflete os traços próprios de uma comunidade (o grego idioma já tinha o sentido de ‘costume especial’).”

a Lingüística moderna reconheceu sucessivamente as famílias indo-européia, semítica, banto”

O fino-úgrio, que compreende entre outros o finês propriamente dito ou suomi, o mordvino, o lapão, etc., é uma família de línguas faladas na Rússia setentrional e na Sibéria, e que remonta certamente a um idioma primitivo comum; tais línguas se relacionam com o grupo muito vasto das línguas ditas uralo-altaicas, cuja comunidade de origem não está provada, malgrado certos traços que se encontram em todas.”

Cumpre não confundir o que pode ser com o que é demonstrável. O parentesco universal das línguas não é provável, mas se fosse verdadeiro – como o crê um lingüista italiano, Trombetti [próximas leituras] –, não poderia ser provado, devido ao excessivo número de mudanças ocorridas.”

Dois idiomas podem diferir em todos os graus; assemelharem-se espantosamente, coma o zenda e o sânscrito; ou parecerem inteiramente dissemelhantes, como o sânscrito e o irlandês; todos os matizes intermediários são possíveis: assim, o grego e o latim estão mais perto um do outro que respectivamente do sânscrito etc. Os idiomas que divergem entre si somente em pequeno grau sio chamados dialetos; contudo, não se deve dar a esse termo um sentido rigorosamente exato”

II. COMPLICAÇÕES DA DIVERSIDADE GEOGRÁFICA

na África do Sul, ao lado de diversos dialetos negros, comprova-se a presença do holandês e do inglês, resultado de duas colonizações sucessivas; foi da mesma maneira que o espanhol se implantou no México. Não se deve acreditar, porém, que as usurpações lingüísticas desse gênero sejam específicas da época moderna.”

na Irlanda, fala-se o céltico e o inglês; muitos irlandeses possuem as duas línguas. Na Bretanha, emprega-se o bretão e o francês; na região basca, utilizam-se o francês ou o espanhol ao mesmo tempo que o basco. Na Finlândia, o sueco e o finês coexistem há muito tempo; o russo veio juntar-se a eles recentemente; na Curlândia e na Livônia falam-se o letão, o alemão e o russo; o alemão, importado por colonos chegados, na Idade Média, sob os auspícios da liga hanseática, pertence a uma classe especial da população; o russo foi a seguir importado por via de conquista. A Lituânia viu implantar-se, de par com o italiano, o polonês, conseqüência de sua antiga união com a Polônia, e o russo, resultado da incorporação ao império moscovita. Até o século XVIII, o eslavo e o alemão estavam em uso em toda a região oriental da Alemanha, a partir do Elba. Em certos países, a confusão de línguas é ainda maior; na Macedônia, encontram-se todas as línguas imagináveis: o turco, o búlgaro, o sérvio, o grego, o albanês, o rumeno etc., misturados de diversas maneiras, conforme as regiões.”

Acontece, por exemplo, que, de duas línguas, uma é falada nas cidades e a outra nos campos; tal repartição, contudo, nem sempre é clara.”

Se possuíssemos o mapa lingüístico do Império Romano, ele nos mostraria fatos em tudo semelhantes aos da época moderna. Assim, na Campanha, ao fim da República, falavam-se: o osco, como o testemunham as inscrições de Pompéia; o grego, língua dos colonos fundadores de Nápoles etc.; o latim; talvez até mesmo o etrusco, que imperara nessa região antes da chegada dos romanos. Em Cartago, o púnico ou fenício persistira de par com o latim (existia ainda na época da invasão árabe), sem contar que se falava certamente o númida em território cartaginês. Quase se pode admitir que na Antiguidade, à volta da bacia do Mediterrâneo, os países unilíngües constituíam a exceção.”

os ciganos, fixados sobretudo na Hungria, formavam vilas compactas; o estudo de sua língua mostrou que devem ter vindo da Índia, numa época ignorada. Na Dobrudja, às bocas do Danúbio, encontram-se vilas tártaras esparramadas, pintalgando o mapa lingüístico daquela região.”

Por ‘língua literária’ entendemos não somente a língua da literatura como também, em sentido mais gerai, toda espécie de língua culta, oficial ou não, ao serviço da comunidade inteira. Abandonada a si mesma, a língua conhece apenas dialetos, nenhum dos quais se impõe aos demais, pelo que ela está destinada a um fracionamento indefinido. Mas coma a civilização, ao se desenvolver, multiplica as comunicações, escolhe-se, por uma espécie de convenção tácita, um dos dialetos existentes para dele fazer o veículo de tudo quanto interesse à nação no seu conjunto.”

dessarte, no francês literário, reconhece-se bem o dialeto da Ilha de França, e o toscano no italiano comum. Seja como for, a língua literária não se impõe do dia para a noite, e uma grande parte da população passa a ser bilíngüe, falando simultaneamente a língua de todos e o patuá local. É o que se vê em muitas regiões da França, como a Savóia, em que o francês é uma língua importada e não logrou sufocar ainda o patuá da terra.”

Os mesmos fatos ocorreram em todos os tempos, nos povos que chegaram a certo grau de civilização. Os gregos tiveram o seu koiné, nascido do ático e do jônio, de par com o qual subsistiram os dialetos locais. Mesmo na antiga Babilônia, acredita-se poder estabelecer que houve uma língua oficial ao lado dos dialetos regionais.” Que ironia: uma Torre de Babel não logra sequer a ‘unidade nacional’!

Uma língua geral supõe forçosamente o uso da escrita? Os poemas homéricos parecem provar o contrário; conquanto tenham surgido numa época em que mal se fazia uso da escrita, sua língua é convencional e acusa todos os caracteres de uma língua literária.”

III. CAUSAS DA DIVERSIDADE GEOGRÁFICA

Esquece-se o fator tempo, porque é menos concreto que o espaça; na realidade, porém, é dele que releva a diferenciação lingüística. A diversidade geográfica deve traduzir-se em diversidade temporal.”

Um u se toma ü num dado momento, num dado meio; por que se modificou nesse momento e nesse lugar, e por que se tomou ü e não o por exemplo? Eis o que ninguém poderia dizer.”

em todo o norte da França, exceto na Picardia e numa parte da Normandia, o c e g latinos antes de alguns sons se transformaram (cantum chant; virga verge). Na Normandia e Picardia esse registro permaneceu intacto (cf. picardo cat por chat, rescapé por réchappé, que passou recentemente, aliás, para o francês; vergue de virga, etc.)”

Se, num momento dado, uma mesma língua reina por toda a extensão de um território, ao cabo de 5 ou 10 séculos os habitantes de 2 pontos extremos não se entenderão mais, provavelmente; em compensação, os de um ponto qualquer continuarão a compreender o falar das regiões circunvizinhas.”

A pesquisa dos caracteres dialetais foi o ponto de partida dos trabalhos de cartografia lingüística cujo modelo é o Atlas Linguistique de la France, de Gilliéron; cumpre citar também o da Alemanha, de Wenker. A forma do atlas é a mais indicada, pois somos obrigados a estudar o país região por região e para cada uma delas um mapa não pode abranger senão um pequeno número de caracteres dialetais; a mesma região deve ser retomada um grande número de vezes para que se possa ter uma idéia das particularidades fonéticas, lexicológicas, morfológicas, etc., que ali se superpõem. Investigações que tais supõem toda uma organização, inquirições de correspondentes locais, etc. Convém citar, aqui, a inquirição acerca dos patuás da Suíça romana. Uma das vantagens dos atlas lingüísticos é a de fornecer materiais para os trabalhos de dialetologia

Freqüentes vezes, um dialeto tem o nome de língua porque produziu uma literatura; é o caso do português e do holandês.”

Assim como não se poderia dizer onde termina o alto alemão e onde começa o plattdeutsch, assim também é impossível traçar uma linha de demarcação entre o alemão e o holandês, entre o francês e o italiano. (…) uma zona compacta mais restrita, imaginada para servir de transição entre as duas línguas, como p.ex. o provençal entre o francês e o italiano, não tem realidade.”

Pelos seus caracteres, o eslavo se sobrepõe ao iraniano e ao germânico, o que está de acordo com a repartição geográfica dessas línguas; de igual maneira, o germânico pode ser considerado como um anel intermediário entre o eslavo e o céltico, o qual, por sua vez, tem relações muito íntimas com o itálico (…) E, contudo, quando se considera uma fronteira entre 2 grupos de idiomas, p.ex., a fronteira germano-eslava, comprova-se um salto brusco (…) É que os dialetos intermediários desapareceram.” “Hoje, o francês literário vem chocar-se, na fronteira, com o italiano oficial (toscano generalizado), e é uma sorte que se possam ainda encontrar patuás de transição nos Alpes ocidentais, enquanto em tantas outras fronteiras lingüísticas se apagou toda lembrança de falares intermediários.”

IV. PROPAGAÇÃO DAS ONDAS LINGÜÍSTICAS

Quase poético: “a linha isoglossemática é como a orla extrema de uma inundação que se expande e que pode também refluir.”

O foneticista distinguirá, pois, cuidadosamente os focos de inovação em que um fonema evolui unicamente sobre o eixo do tempo, e as áreas de contágio que, relevando simultaneamente do tempo e do espaço, não terão que intervir na teoria dos fatos fonéticos puros. No momento em que um ts, vindo de fora, substitui o t, não se trata da modificação de um protótipo tradicional, mas da imitação de um falar vizinho, que não leva em conta esse protótipo; quando uma forma herza, ‘coração’, vinda dos Alpes, substitui na Turíngia um herta mais arcaico, não se deve falar de mudança fonética, mas de empréstimo de fonema.”

a teoria das ondas não nos dá somente uma visão mais justa da pré-hist6ria do indo-europeu; ela nos instrui acerca das leis primordiais de todos os fenômenos de diferenciação e das condições que regem o parentesco das línguas. Entretanto, essa teoria das ondas se opõe à das migrações sem a excluir necessariamente. (…) e isso nos leva aos problemas da evolução de um idioma em territórios separados. É o caso do antigo inglês.”

o que o isolamento pode fazer, a continuidade geográfica o faz igualmente bem; se existe uma diferença entre essas duas ordens de fenômenos, não podemos discerni-la.”

QUINTA PARTE. QUESTÕES DE LINGÜÍSTICA RETROSPECTIVA. CONCLUSÃO.

I. AS DUAS PERSPECTIVAS DA LINGÜÍSTICA DIACRÔNICA

O método da lingüística diacrônica prospectiva consiste unicamente em criticar os documentas de que se dispõe. Mas num grande número de casos, essa maneira de praticar a ciência é insuficiente ou inaplicável. Com efeito, para poder fixar a história de uma língua em todos os seus detalhes, acompanhando o curso do tempo, seria mister possuir uma infinidade de fotografias da língua, tomadas momento após momento. Ora, tal condição nunca se verifica: os romancistas, por exemplo, que têm o privilégio de conhecer o latim, ponto de partida de sua pesquisa, e de possuir uma massa imponente de documentas pertencentes a uma longa série de séculos, verificam, a cada instante, lacunas enormes em sua documentação. Cumpre então renunciar ao método prospectivo, ao documento direto, e proceder em sentido inverso, remontando o curso do tempo pela retrospecção. Nesse segundo modo de ver, colocamo-nos numa época dada para pesquisar não o que resulta de uma forma, mas qual é a forma mais antiga que lhe pode dar origem.

Enquanto a prospecção se reduz a uma simples narração e se funda inteiramente na crítica dos documentos, a retrospecção exige um método reconstrutivo, que se apóia na comparação. Não se pode estabelecer a forma primitiva de um signo único e isolado, ao passo que 2 signos diferentes, mas da mesma origem, como o latim pater, sânscrito pitar-, ou radical do latim ger-o e o de ges-tus, deixam já entrever, por via de sua comparação, a unidade diacrônica que os vincula ambos a um protótipo suscetível de ser reconstituído pela indução. Quanto mais numerosos forem os termos de comparação, mais precisas serão tais induções, e elas rematarão – se os dados forem suficientes – em verdadeiras reconstruções.”

Se, p.ex., numerosos idiomas germânicos são atestados diretamente por documentos, o germânico comum de onde esses diversos idiomas saíram só é conhecido indiretamente, pelo método retrospectivo. É ainda da mesma maneira que os lingüistas pesquisaram, com variável êxito, a unidade primitiva de outras famílias.”

Destarte, a história prospectiva do latim começa somente no séc. III ou IV a.C.; todavia, a reconstituição do indo-europeu permitiu que se tivesse uma idéia do que deve ter ocorrido no período que se estende entre a unidade primitiva e os primeiros documentos conhecidos, e foi só então que se pôde traçar o quadro prospectivo do latim.

Ora, em teoria, pode-se conceber uma Geologia prospectiva, mas na realidade, e com maior freqüência, uma vista de olhos só pode ser retrospectiva; antes de relatar o que aconteceu num ponto da Terra está obrigada a reconstituir a cadeia dos acontecimentos e averiguar o que levou essa parte do globo ao seu estado atual.”

Se estudarmos, p.ex., (retrospectivamente), as origens do sufixo de particípio francês em –é, remontaremos ao latim –atum; este, por suas origens, se relaciona primeiramente com os verbos denominativos latinos em –are (sílaba tônica -a-), os quais, por sua vez, remontam em grande parte aos substantivos femininos em –a| (cf. plantare : planta, grego timao : tima, etc.); por outro lado, -atum não existiria se o sufixo indo-europeu -to- não tivesse sido, por si mesmo, vivo e produtivo (cf. grego klu-to-s, latim in-clu-tu-s, sânscrito çru-ta-s, etc.): ­-atum encerra ainda o elemento formativo ­–m do acusativo singular. Se, inversamente, perguntarmos (prospectivamente) em quais formações francesas se encontra o sufixo primitivo -to-, poderíamos mencionar não somente os diversos sufixos, produtivos ou não, do particípio passado (aimé = latim amatum, fini = latim finitum, clos = latim clausum por *claudtum, etc.), mas também muitos outros como –u = latim ­–utum (cf. cornu = cornutum), -tif [sufixo erudito] = latim –tivum (cf. fugitif = fugitivum, sensitif, négatif, etc.) e uma porção de palavras que não se analisam mais, tais como point = latim punctum, = latim datum, chétif = latim captivum, etc.”

I. A LÍNGUA MAIS ANTIGA E O PROTÓTIPO

como os documentos do sânscrito são os mais antigos do indo-europeu, tais foram erroneamente promovidos à dignidade de protótipo. Uma coisa é supor o indo-europeu engendrando o sânscrito, o grego, o eslavo, o céltico, o itálico, e outra é colocar uma dessas línguas no lugar do indo-europeu. (…) Bopp, p.ex., escrevia que ‘não acreditava que o sânscrito pudesse ser a fonte comum’, como se fosse possível formular, mesmo dubitativamente, semelhante suposição.”

primeiro dogma: não se pode dotar uma língua de idade.

Não acontece à linguagem o mesmo que à Humanidade: a continuidade absoluta de seu desenvolvimento impede distinguir nela gerações, e Gaston Paris se insurgia, com razão, contra a concepção de línguas-filhas e línguas-mães, porque tal concepção supõe interrupções. Não é, pois, nesse sentido que se pode dizer que uma língua é mais velha que outra.”

segundo dogma: se se o fizer, condicionalmente, o tempo no qual o idioma foi falado não importa, mas sua originalidade. Ex: “poder-se-ia dizer que o lituano do século XVI [descoberta nova, língua mais ‘preservada’ ou ‘pura’] é mais antigo que o latim do séc. III a.C. [que se sabe ser apenas uma modificação de latins mais antigos dos quais não temos registros diretos].”

Como conseqüência dessa idéia assaz confusa de antiguidade, que faz do sânscrito algo de anterior a toda a família, aconteceu mais tarde que os lingüistas, mesmo curados da idéia de uma língua-mãe, continuaram a dar importância excessiva ao testemunho que ele fornece como língua colateral.”

em vez de falar do germânico, não se tinha escrúpulo em citar muito simplesmente ‘o gótico’, porque é anterior de vários séculos aos outros dialetos germânicos; ele se tornava, por usurpação, o protótipo, a fonte dos outros dialetos. No tocante ao eslavo, os lingüistas se apoiavam exclusivamente no eslavônico ou páleo-eslavo, conhecido no séc. X, porque os outros são conhecidos a partir de data mais recente.”

remontando do francês ao latim, encontramo-nos bem na vertical; o território dessas línguas resulta ser, por acaso, o mesmo que aquele em que se falava o latim, e cada uma delas não é senão o latim evoluído. Vimos também que o persa das inscrições de Dario é o mesmo dialeto que o persa da Idade Média. Mas o inverso é bem mais freqüente: os testemunhos das diversas épocas pertencem a dialetos diferentes da mesma família.”

III. AS RECONSTRUÇÕES

a comparação resultará sempre numa reconstrução de formas.”

[mas] pode-se chegar a um fato morfológico geral, deduzido de um conjunto [de quantidade indeterminável] de verificações isoladas

Uma forma reconstruída não é um todo solidário, mas uma soma sempre decomponível de raciocínios fonéticos, e cada uma de suas partes é revogável e fica submetida a exame. Por conseguinte, as formas restituídas foram sempre o reflexo fiel das conclusões gerais que lhes são aplicáveis. [testagem e retestagem gradual de novos casos isolados observados] Para ‘cavalo’ em indo-europeu foram sucessivamente supostos os termos *akvas, *ak1vas, *ek1vos e por fim *ek1wos; só o s e o nº de fonemas não sofreram contestação”

(Usa-se a notação do * em geral quando a reconstrução de idioma pré-histórico – o suposto indo-europeu – é altamente segura.)

O objetivo das reconstruções não é, portanto, restituir uma forma por si mesma, o que seria aliás bastante ridículo, mas cristalizar, condensar um conjunto de conclusões que se crêem acertadas,, segundo os resultados que foi possível obter a cada momento; numa palavra, registrar o progresso de nossa ciência. Não há porque justificar os lingüistas pela idéia assaz extravagante que se lhes atribui de restaurar de cabo a rabo o indo-europeu, como se pretendessem utilizá-lo. Nem sequer nutrem tal idéia quando abordam as línguas historicamente conhecidas (não se estuda o latim lingüisticamente a fim de falá-lo bem)”

Trata-se de um instrumento indispensável para representar, com relativa facilidade, grande número de fatos gerais, sincrônicos e diacrônicos. As grandes linhas do indo-europeu se aclaram imediatamente pelo conjunto das reconstruções: p.ex., que os sufixos eram formados de certos elementos (f, s, r, etc.) com exclusão de outros , que a variedade complicada do vocalismo dos verbos alemães (cf. werden, wirst, ward, wurde, worden) oculta, na regra, uma mesma alternância primitiva: e-o-(valor-zero).”

Existem formas reconstruídas que são completamente seguras, outras que permanecem discutíveis ou francamente problemáticas.”

Em *ek1wos é inútil determinar a qualidade absoluta do e, perguntar se era aberto ou fechado, articulado mais ou menos adiante, etc.; enquanto não tenham sido reconhecidas diversas espécies de e, isso não terá importância, desde que não os confundamos com outros dos elementos distinguidos da língua (a, o, e, etc.). Isso equivale a dizer que o primeiro fonema de *ek1wos não diferia do 2º de *medhyos, do 3º de *age, etc., e que se poderia, sem especificar-lhe a natureza fônica, catalogá-lo e representá-lo pelo seu nº respectivo no quadro dos fonemas indo-europeus. Ou seja: a reconstrução de *ek1wos quer dizer que o correspondente indo-europeu do latim équos, sânscrito açva-s etc. era formado de 5 fonemas determinados, tomados à gama fonológica do idioma primitivo.”

IV. O TESTEMUNHO DA LÍNGUA EM ANTROPOLOGIA E EM PRÉ-HISTÓRIA

seria um erro supor que pela comunidade de línguas se possa inferir a consangüinidade; que uma família de línguas encubra uma família antropológica.”

Durante longo tempo, acreditou-se que as línguas fossem uma fonte inesgotável de documentos acerca dos povos que as falavam e de sua pré-história. Adolphe Pictet, um dos pioneiros do celtismo, é conhecido sobretudo pelo seu livro As Origens Indo-Européias (1859-63). Esta obra serviu de modelo a muitas outras; continua a ser a mais atraente de todas. Pictet quer encontrar, nos testemunhos fornecidos pelas línguas indo-européias, os traços fundamentais da civilização dos ‘árias’, e acredita poder fixar-lhe os aspectos mais diversos: coisas materiais (ferramentas, armas, animais domésticos), vida social (tratava-se de um povo nômade ou agrícola?), família, governo; intenta conhecer o berço dos árias, que situa em Bactriana; estuda a fauna e a flora da região que habitavam. É este o ensaio mais considerável que já se fez nessa direção; a ciência que assim inaugurou recebeu o nome de Paleontologia lingüística.”

Uma das tentativas mais recentes é a de Hermann Hirt (Die Indogermanen, 1905-1907).(*) Ela se funda na teoria de Schmidt para determinar a região habitada pelos indo-europeus (…) fatos de vocabulário mostraram-lhe que os indo-europeus eram agricultores, e ele se recusa a situá-los na Rússia meridional, mais adequada à vida nômade; a freqüência dos nomes de árvores, e, sobretudo, de certas essências (pinho, bétula, faia, carvalho), o leva a pensar que a região dos árias era arborizada e situada entre o Harz e o Vístula, mais especialmente na região de Brandemburgo e Berlim. Recordemos também que, mesmo antes de Pictet, Adalbert Kuhn e outros haviam utilizado a Lingüística para reconstruir a mitologia e a religião dos indo-europeus.

(*) Cf. também Arbois de Jubainville: Os Primeiros Habitantes da Europa (1877); O. Schrader: Sprachvergleichung und Urgeschichte [Mesclas de língua e Pré-história]; S. Feist: Europa im Lichte der Vorgerschichte [A Europa à Luz da Pré-História] (1910).”

Ora, não parece que se possa pedir a uma língua ensinamentos desse gênero”

compreendeu-se pouco a pouco como são raras as palavras cuja origem está bem-estabelecida, e o linguista se tornou mais circunspecto.”

a palavra para designar ‘arar’ falta nos idiomas asiáticos; isso, porém, não significa que tal ocupação fosse desconhecida no princípio: o arar pode muito bem ter caído em desuso ou ter sido levado a cabo através de outros procedimentos, designados por outras palavras.”

o cânhamo só veio a ser conhecido na bacia do Mediterrâneo muito tardiamente, mais tardiamente ainda que nos países do Norte; em cada ocasião, o nome do cânhamo passava com a planta.”

Em Homero, einateres quer dizer <concunhadas> no sentido de <mulheres de vários irmãos>; e galooi <cunhadas> no sentido de <mulher e irmã do marido entre si>; ora, o latim janitrices corresponde a einateres pela forma e pela significação. Do mesmo modo, o <cunhado, marido da irmã> não tem o mesmo nome que os <concunhados, maridos de várias irmãs, entre si>. Aqui se pode, portanto, verificar um pormenor minucioso, mas em geral temos de contentar-nos com uma informação geral. O mesmo acontece com animais: no caso de espécies importantes, como a espécie bovina, não apenas se pode contar com a coincidência do grego bous, do alemão Kuh, do sânscrito gau-s, etc., e reconstituir um indo-europeu *g2ou-s, como também a flexão tem os mesmos caracteres em todas as línguas, o que não seria possível se se tratasse de uma palavra tomada de empréstimo, posteriormente, a outra língua.”

A despeito de tudo quanto se disse sobre o vínculo de dominus com domus, os linguistas não se sentem plenamente satisfeitos, pois é coisa das mais extraordinárias ver um sufixo –no- formar derivados secundários; nunca se ouviu falar de uma formação como seria em grego *oiko-no-s ou *oike-nos-s de oikos, ou em sânscrito *açva-na- de açva-. Mas é precisamente tal rareza que dá ao sufixo de dominus sem valor e seu relevo. [Aqui, Saussure elenca uma série de semelhanças em idiomas, em que uma mesma raiz gerou as palavras para senhor ou deus e povo ou servo, submisso.]”

Por inferência e analogia, pode-se concluir que tribunus é uma derivação de tribus significando “chefe da tribo”.

Dominus, com seu singular sufixo, nos parece uma prova dificilmente refutável não apenas de uma comunidade lingüística mas também de uma comunidade de instituições entre o etnismo italiota e o etnismo germânico. Cumpre, todavia, lembrar, uma vez mais, que as comparações de língua a língua RARAS VEZES proporcionam índices tão característicos.”

V. FAMÍLIAS DE LÍNGUAS E TIPOS LINGÜÍSTICOS. CONCLUSÃO.

Embora reconhecendo que Schleicher violentava a realidade ao ver na língua uma coisa orgânica, que trazia em si própria a sua lei de evolução, continuamos, sem vacilar, a querer fazer dela uma coisa orgânica em outro sentido, ao supor que o ‘gênio’ de uma raça ou de um grupo étnico tende a conduzir a língua incessantemente por caminhos determinados.”

DA FALA PARA A ESCRITA: Atividades de retextualização (2a ed.) – Marcuschi

Dedicado a Th. Ed. O Iletrado

GLOSSÁRIO

verbum dicendi: abre aspas (literalmente, assim falou:)


I. ORALIDADE E LETRAMENTO

Social Literacies”

Escrita como letramento pedagógico.

“deve-se ter imenso cuidado diante da tendência à escolarização do letramento, que sofre de um mal crônico ao supor que só existe um letramento. O letramento não é o equivalente à aquisição da escrita. Existem <letramentos sociais> que surgem e se desenvolvem à margem da escola, não precisando por isso serem depreciados.”

—“O letramento é um processo de aprendizagem social e histórica da leitura e da escrita em contextos informais e para usos utilitários (Street. 1995).” “A alfabetização pode dar-se, como de fato se deu històricamente, à margem da instituição escolar, mas é sempre um aprendizado mediante ensino” “A Suécia alfabetizou 100% de sua população já no final do século XVIII no ambiente familiar e para objetivos que nada tinham a ver com o desenvolvimento, e sim com práticas religiosas e atitudes de cidadania.” “A escolarização, por sua vez, é uma prática formal e institucional de ensino que visa a uma formação integral do indivíduo, sendo que a alfabetização é apenas uma das atribuições/atividades da escola.”

“há quem equipare a alfabetização (domínio ativo da escrita e da leitura) com desenvolvimento. Outros sugerem que a entrada da escrita representa a entrada do raciocínio lógico e abstrato. Ambas as teses estão cheias de equívocos e não passam de mitos.”

“De um lado, temos autores linguistas como Bernstein (1971), Labov (1972), Halliday (1985, numa 1a fase), Ochs (1979), representes das dicotomias mais polarizadas e visão restrita. De outro lado, temos autores como Chafe (1982, 1984, 1985), Tannen (1982, 1985), Gumprz (1982), Biber (1986, 1995), Blanche-Benveniste (1990), Halliday/Hasan (1989), que percebem as relações entre fala e escrita dentro de um contínuo”

quadro1

(visão imanentista)

quadro2

(visão culturalista)

“Esta visão não serve para tratar relações linguísticas, já que vê a questão em sua estrutura macro (visão global) e com tendência a uma análise da formação da mentalidade dentro das atividades psico-socioeconômico-culturais de um modo amplo. (…) Esses autores têm uma grande sensibilidade para os fatos históricos e não deixam de ter razão em boa parte de suas abordagens, mas isto não significa que estejam dizendo algo de substantivo sobre as relações textuais nas duas modalidades de uso da língua. É provável que as relações de causa e efeito por eles vistas entre a cultura e o uso da escrita não estejam bem situadas.”

Gnerre (1985) detecta nos autores ligados a essas correntes problemas em 3 pontos: etnocentrismo, supervalorização da escrita e tratamento globalizante [<não existem ‘sociedades letradas’, mas sim grupos de letrados>]”.” “A escrita seria a responsável pelo surgimento do raciocínio silogístico, tendo em vista o fato de ela contribuir essencialmente para a descontextualização dos significados que criariam autonomia ao passarem da <cabeça> para o <texto no papel>”

quadro3

(visão variacionista)

Marcuschi – O Tratamento da Oralidade no Ensino de Língua

“Valeria a pena perguntar-se porque (sic) a literatura de cordel identifica de modo tão nítido o nordestino. Também é interessante indagar-se em que partes de suas obras Graciliano Ramos e José Américo de Almeida ou José Lins do Rego são identificados como literatura nordestina. Com certeza não são seus temas, mas sim os diálogos de suas personagens.”

“Tomemos o caso típico da área jurídica. Ali é intenso e rígido o uso da escrita, já que a Lei deve ser tomada ao pé da letra. Contudo, precisamente a área jurídica faz um uso intenso e extenso das práticas orais nos tribunais, o que comprova que numa mesma área discursiva e numa mesma comunidade de práticas convivem duas tradições diversas, ambas fortemente marcadas.”

“uma aula expositiva, que em parte se compõe de leituras que o professor faz e de comentários que lhes acrescenta e, em parte, são exposições originais sem um texto escrito prévio base. No entanto, tratamos uma aula como um evento tipicamente oral. Há gêneros que se aproximam da oralidade pelo tipo de linguagem e pela natureza da relação entre os indivíduos, p.ex., as cartas íntimas e pessoais.”

“toda vez que emprego a palavra língua não me refiro a um sistema de regras determinado, abstrato, regular e homogêneo, nem a relações linguísticas imanentes.”


II. PROCESSOS DE RETEXTUALIZAÇÃO

“A expressão retextualização foi empregada por Neusa Travaglia (1993) em sua tese de doutorado sobre a tradução de uma língua para outra. (…) aqui também se trata de uma <tradução>, mas de uma modalidade para outra, permanecendo-se, no entanto, na mesma língua. Igualmente poderíamos usar as expressões refacção e reescrita, como o fazem Raquel S. Fiad e Maria Laura Mayrink-Sabison (1991) e Maria Bernadete Abaurre et alli (1995), que observam aspectos relativos às mudanças de um texto no seu interior (uma escrita para outra, reescrevendo o mesmo texto) sem envolver as variáveis que incidem no caso da retextualização como tratada neste estudo”

a passagem da fala para a escrita não é a passagem do caos para a ordem”

Transcrever a fala é passar um texto de sua realização sonora para a forma gráfica com base numa série de procedimentos convencionalizados.” “no caso da retextualização, a interferência é maior e há mudanças mais sensíveis”

“(1) nível da substância da expressão: diz respeito à materialidade linguística e considera a correspondência entre letra e som”

“(2) nível da forma da expressão: considera-se a distinção entre o grafema (a grafia usual) e o fonema na realização fonética (a pronúncia) (p.ex.: menino e [mininu]), diferenças que no francês são mais acentuadas do que no português.”

“(3) nível da forma do conteúdo: ex: o que queres comer? que que qué comê?

“(4) nível da substância do conteúdo:” formes de politesse

“o manuscrito pode ser neutralizado pela máquina de escrever, pela escrita eletrônica, mas o som não pode ser neutralizado mesmo depois de gravado em fita magnética.”

Rey-Debove, 1996

convenções de transcrição” “idealização da língua”

“Existem transcrições que já são um primeiro formato de retextualização. P.ex., aquelas que introduzem pontuação e eliminam as hesitações (caso das entrevistas publicadas). Veja-se o caso da publicação de contos da tradição oral que se apresentam como transcrição, mas são verdadeiras edições de texto com muitas mudanças.”

“No caso de ser o próprio autor quem retextualiza, as mudanças são muito mais drásticas e, freqüentemente, o autor despreza a transcrição (ou gravação) da fala e redige um novo texto. (…) É difícil disfarçar de modo completo a origem oral de um texto.”

Isaltina Mello Gomes – Dos Laboratórios aos Jornais: Um estudo sobre jornalismo científico (tese de mestrado – UFPE, 1995)

Taylor & Cameron (1987) designam esse procedimento de editoração do ouvinte como a hipótese da frase-alvo (target-sentence hypothesis), ou seja, a meta de chegar uma frase bem-formada.”

“Tudo indica que temos um <estoque> de enunciados ou de material lingüístico pré-moldado e sempre pronto para ser investido em nossos usos espontâneos da língua. Esses estoques operariam como uma espécie de material para cálculos projetivos de enunciados novos.”

“Na conversação e na fala em geral, o ouvinte é tão criativo como o falante.”

“Outro dos projetos de Labov consistiu em tabular o percentual de orações gramaticalmente corretas nas gravações da fala de grupos de diferentes classes sociais em diferentes situações sociais. A noção de <correção gramatical> faz referência, neste contexto, a orações <bem-formadas segundo regras estáveis do dialeto dos falantes>. […] Os resultados da tabulação de Labov afiguraram-se muito reveladores. A imensa maioria das orações eram gramaticalmente corretas, sobretudo na fala informal, dando-se maior percentagem delas na linguagem da classe trabalhadora que na classe média. O percentual máximo de orações agramaticais foi encontrado nos livros de atas dos congressos acadêmicos.

fluência discursiva”

“As estenógrafas iam muito além do que prevêem, p.ex., as regras de editoração de Taylor & Cameron. Ao contrário dos demais estudos analisados a seguir, o trabalho de Cortelazzo (1985) levou em conta um texto originalmente monologado e não dialogado. (…) No caso de diálogos a interferência no estilo torna-se mais acentuada.”


A etnografia de um escrivão da polícia.

Quem vê constata? Quem constata, apura, reflete, se depara?

Quem atira mata!


“as ações narradas como casuais e fortuitas, sem intenção, são colocadas como concatenadas, intencionais e planejadas para incriminar o suspeito; há uma mudança de perspectiva no objetivo da informação dos fatos.”

“as citações ditas <textuais> e inclusive postas entre aspas e atribuídas literalmente ao cientista nunca corresponderam à fala do cientista e sempre foram uma reconstrução”

“usar uma expressão mais familiar ou mais erudita, uma sintaxe mais elaborada ou menos elaborada, é uma decisão da alçada do discurso (pragmática, sociolinguística, estilística, etc.) e não da forma linguística em si.”

tradução endolíngüe”

“a reação de José Ruy Gandra (Folha de SP, 30/10/1993), em relação à reclamação do músico Arnaldo Antunes (Folha de SP, 23/10/1993) que lamentara as distorções ocorridas no texto que reproduzia uma entrevista para a revista Playboy (n. 219). Assim se expressa A. Antunes a certa altura de seu texto reclamatório: <Nunca me reconheci tão pouco em uma entrevista. Nunca abominei tanto um discurso colocado por terceiros em minha boca. Um pequeno e bom exemplo desse procedimento: o entrevistador me perguntou se eu já tivera relações homossexuais. A resposta foi um sucinto ‘não’. Resposta publicada: ‘Nunca, nem mesmo em troca-troca quando eu era criança’. Essa espécie de ‘adorno’ às declarações com fantasias e fetiches do entrevistador se tornou procedimento usual na edição da matéria de uma forma geral.> A réplica: <(…) Arnaldo Antunes mente, como comprova a fita número 4 da entrevista. Pergunta: ‘Você já teve transa homossexual?’. Resposta: ‘Não, nunca.’ Pergunta: ‘Nem quando criança, troca-troca?’. Resposta: ‘Não, nem criança…’ Com o aval da concordância expressa do entrevistado e em nome da concisão, as duas perguntas foram fundidas em uma só. Não há nisso nenhum mistério nem ato condenável.> (grifo de Marcuschi)”

“Ainda veremos que esse tipo de operação é a rotina por parte do juiz em tomadas de depoimentos. Com uma diferença: o depoente não tem direito à réplica, mas a obrigação de assinar como sua a formulação do juiz.”

“textos não são como uma bonbonnière de onde só saem bombons.” Saem também limões.

“Agradeço aos meus alunos do curso de Linguística 3 a colaboração que sempre prestaram.”

“na oralidade, cerca de 20% do material linguístico é repetido, sem se contar nesse percentual as reduplicações tidas como hesitações”

força ilocutória”

eu sou preto, mas não sou Gato Félix”

Abuêndia P. P. Pinto, 1979

Hudinilson Urbano (2000)

cor local”

…taxados (sic) imediatamente de nazistas e fascistas…”

…o índice mental dessa sociedade vai cair…”

…pessoas geneticamente inaptas para a concepção…”


YOU THE PEOPLE / I THE IMPORTANT

ela é auto(ra)-(c)entrada e-gó(t)i(ca)

g0y

x0y

(n)x0

t4

fred

Street Fighter Z

falseamento & interpretação

denominação e demonização dos bois


princípio de expansão”

FRAGMENTOS DE UMA REALIDADE QUE BATE À PORTA:

…ele foi criado/os pais dele por um clima de… autoritarismo… entendeu? meu avô era autoritário… ele não via a justiça… sabe? entendeu? ele foi criado no Norte… no interior… são uma pessoa tipo… entre aspas… ignorantes… né? entendeu?… então é isso que o meu pai ( ) uma visão assim da vida… então é isso que ele passa pra mim… ele não vê nada… ele não conversa… ele sabe criticar… criticar… me criticar… me recriminar… dizer que eu estou errada… entendeu? é isso que eu acho da minha família… que eu não acho que é um exemplo… só isso…” “Meu pai não fala comigo, só pensa em trabalhar e estudar.”

“Trata-se [agora] de uma aula de Filosofia dada na UFPE por uma jovem [34 anos!] professora.”


DO GROTÃO DE MISÉRIA E BRUTEZA AOS CON-FINS HEIDEGGERIANOS DO SER-DO-ENTE:

RE-BUSCAR A-LI(E)N-GUAGEM

#IdeiaTítuloLivro


…eu posso deixar de pensar… a minha realidade como humano né? que isso é impossível… mesmo porque no próprio forma de agir… né? na própria vivência do sujeito ele já tem uma visão de mundo… porque:… os conteúdos da nossa consciência nem sempre estão a nível consciente… inconscientemente gente manifesta determinadas atitudes… então nessa forma… seríamos todos filósofos no sentido… mais… abstrato no sentido mais concreto da da da palavra né? mas dizemos também que a filosofia propriamente dita né? filosofia no sentido acadêmico é preciso que exista uma atitude… deixar pra posteridade a história do que foi esse seu pensamento né? colocar através de método sistemático essa idéias deixar… para que…”

Campo acadêmico relativamente inexplorado. Principais brechas:

– “Quais as categorias gramaticais mais eliminadas nos processos de retextualização?”

– “Quais os critérios seguidos na introdução da paragrafação?”

NÃO FOI ISSO O QUE EU QUIS DIZER!

C A L M A

P E R A

L Á

Houve uma redução de 85% do substrato nesta síntese!


FUTURA REFERÊNCIA

BAKHTIN – Estética da Criação Verbal

GOODY – Domesticação do Pensamento Selvagem

HAVELOCK – Origins of Western Literacy

KLEIMAN – Os Significados do Letramento. Uma Nova Perspectiva sobre a Prática Social da Escrita.

PRETI – A Linguagem dos Idosos

As duas maneiras de traduzir (traduzido de J.L. Borges)

Universalmente, suponho haver duas classes de tradução. Uma pratica a literalidade, a outra a perífrase. A primeira corresponde às mentalidades românticas; a segunda às clássicas. Queria justificar esta afirmação, diminuindo seu ar de paradoxo. Às mentalidades clássicas interessa-lhes sempre a obra de arte e nunca o artista. Crerão na perfeição absoluta e buscá-la-ão.

Desdenharão os regionalismos, as peculiaridades, os acidentes. Não deveria ser a poesia uma beleza semelhante à lua: eterna, desinteressada, imparcial? A metáfora, por exemplo, não é considerada pelo classicismo nem como ênfase nem como uma visão pessoal, senão uma obtenção da verdade poética, que, uma vez adquirida, pode (e deve) ser desfrutada por todos. Cada literatura possui um repertório dessas verdades, e o tradutor saberá aproveitá-las e verter seu escrito original não só em palavras como também em sintaxe e em metáforas típicas de seu próprio idioma. Esse procedimento nos parece sacrílego, e às vezes o é. Nossa condenação, não obstante, peca por otimismo, pois a maioria das metáforas deixa de ser representação para vir a se tornar algo maquinal. Ninguém que escuta o advérbio “espiritualmente” pensa no hálito, no sopro ou na alma; ninguém capta diferença alguma (nem sequer enfática) entre as locuções “muito pobre” e “pobre como as aranhas”.

Inversamente, os românticos nunca duplicam uma obra de arte, duplicam o homem mesmo. E o homem (já se o sabe) não é atemporal ou arquetípico, é João da Silva, Fulano, Sicrano, ou não?, é Juan Mengano, é possuidor de um clima, de um corpo, de uma ascendência, de um fazer-algo, de um não-fazer-nada-em-seu-próprio-tempo, e até de uma morte que lhe é exclusiva. Máximo cuidado para não distorcer uma só das palavras que ele deixou registradas!

Essa reverência do eu, da diferença intransponível que constitui qualquer eu, justifica a literalidade nas traduções. E, de mais a mais, o distante, o estrangeiro, são sempre o belo. Novalis enunciou com clareza esse sentimento romântico: A filosofia distante e estranha ressoa como poesia. Tudo se torna poético de longe: montanhas longínquas, homens longínquos, acontecimentos longínquos, e tudo o mais. Disso deriva o essencialmente poético de nossa natureza. A poesia da noite e da penumbra {Werke, III, 213}. A degustação da lonjura, a viagem caseira pelo tempo e espaço, o investir-se e revestir-se de destinos alheios, não são garantidos, avalizados, pelas traslações literárias de obras antigas: às vezes a promessa não passa do prólogo.

O propósito anunciado da veracidade faz do tradutor um falsário, posto que este, a fim de manter a estranheza do que traduz, se vê compelido a enfatizar as cores nativas, recrudescer a crueldade, adocicar as doçuras e exagerar tudo até as raias da mentira.

Borge, Jorge Luis. “Las dos maneras de traducir”, La Prensa, 1º de agosto de 1926. Retirado de Textos recuperados 1919-1930, Buenos Aires, Emecé, 1997, 256-259.

COMENTÁRIOS SOBRE O PROCESSO DE TRADUÇÃO

Creio que sou um romântico, na terminologia borgeana. Não consigo evitar de trair pelo método mais oblíquo, indireto, dentre os dois exibidos (já que mesmo o defensor aparente de uma tradução alegórica, aliás, sobretudo ele, segundo a própria denominação, “trai” o texto de partida ao convertê-lo, porque “robotiza” e “banaliza” a metáfora – em suma, talvez o modus operandi “clásico” já esteja perdido para nós, pós-modernos, a despeito das boas intenções). Trair o texto, como todos “traímos”. A “literalidade” é um rótulo enganoso, pseudo-beato em contraste com o Don Juan assumido do estilo “clássico”, como o próprio Borges deixa transparecer ao longo de sua pequena porém densa passagem acerca do “traduzir”. Somos literais somente a nós mesmos, o texto alheio é o meio para nosso fim (embora “todo homem”, como diz o ditado, “seja farinha do mesmo saco”, e nisso resida nosso mérito romântico, e ao trairmos os antepassados apenas somos sinceros e verazes conosco e com nossa contemporaneidade). Somos “maquiavélicos com alma”, isto é, Maquiaveis devotados à poesia e às Musas, remexamos em escritos políticos ou não. Os metafóricos muitas vezes são mais exatos, viscerais e “fiéis” do que nós, mas este não é um debate que eu queira prolongar aqui.

O primeiro aspecto interessante desta tarefa é seu caráter metalinguístico. Iniciei meus comentários me auto-definindo justamente porque o próprio conteúdo textual nos conduz a isso. Ao mesmo tempo que traduzo o que Borges entende por “tradução”, me enquadro numa das categorias de seu falar, seja residualmente, seja alternadamente; talvez mescle ambas com razoável equilíbrio, sem me aperceber. Os próximos parágrafos, até o penúltimo, se devotarão a uma análise mais pormenorizada e técnica do meu processo tradutivo.

A única observação sobre meu primeiro parágrafo que creio necessária a essa altura é o porquê do uso da mesóclise em “buscá-la-ão”: sendo um texto erudito, ainda que este padrão culto esteja em desuso e/ou declínio no português, sinto que é adequado. Quanto a “justificar” no lugar de “razonar”, em detrimento do mais óbvio “raciocinar”, encontro entre os sinônimos do português “razoar” (irmão lacônico do “raciocinar”) o mesmo “justificar”. E é isso mesmo que faz o autor, porque a principio sua afirmação (categorização dual) parece invertida ou trocada e causa espanto ao leitor.

O segundo parágrafo acabou por ser o mais “romântico” da minha tradução, ou seja, é absolutamente o mais literal e aquele que transcrevi com mais segurança na manutenção de cognatos espanhol-portugueses. Minha dificuldade maior se deu justamente no final, no momento de pesar entre as possibilidades de tradução para “pobre como las arañas”. Estranhei a expressão, por não conhecê-la em português; com efeito, numa rápida pesquisa na web, não pude me deparar com essa ocorrência ipsis literis, mas sim com o ditado correlato “a aranha vive do que tece”. Como esse dizer implica “é possível se viver estritamente do próprio trabalho ou suor”, dizer “pobre como uma aranha” ainda me soa plausível para este texto, pois o leitor tem maturidade para concluir que a aranha produz e tece a própria teia, e vive (se alimenta e se defende) com a ajuda desse mesmo artifício, aracnídeo engenhoso e laborioso que é. “A aranha vive do que tece” não me parece expressar necessariamente a pobreza, sendo apenas uma alusão insuficiente a ela (poderia ser interpretado como um comentário sobre uma personalidade egoísta e auto-centrada em excesso, por exemplo).

Quem seriam Diego Fulano ou Juan Mengano? Nada mais equivalente aos nossos “Fulanos” e “Sicranos”, substitutivos de “um desconhecido qualquer” na linguagem cotidiana! Ainda assim, mantive “Juan Mengano”, por não ter certeza do quanto a mensagem perderia em simbolismo com a supressão do nome tal qual. “João da Silva” foi uma escolha a mais, devido à abundância de Joões e de Silvas presente no Brasil: é “qualquer destes sujeitos”, desconhecidos a princípio, que pode ser um autor ou re-autor ou co-autor de um texto (quer seja, um tradutor).

O termo aglutinante “não-fazer-nada-em-seu-próprio-tempo” foi a solução que encontrei para uma das passagens subsequentes, principalmente tendo por base o “hacer algo” que o antecede no texto-fonte. A hifenização do binômio (ou estruturas ainda mais amplas) que inicia com um verbo no infinitivo ficou consagrada no português a partir das traduções de filósofos como Martin Heidegger; como autor do século XX, Borges é necessariamente tributário de um certo estilo “existencial” do pensar que caracteriza essa verbalização de ações encaradas num mundo sem transcendência e calcado na imanência e “solidão” ou “auto-suficiência” do sujeito (os tradutores de Heidegger cunharam os termos ser-no-mundo, ser-aí, ser-para-a-morte, etc.; bem como Heidegger e Hannah Arendt se detiveram longamente em estudos sobre os conceitos de ação e fabricação humanas, o que exigiu inovações linguísticas que pudessem transmitir tais conceitos com propriedade nas línguas de chegada), independentemente de a produção dominante de Borges ser ficcional (na realidade, filosofia e literatura se retroalimentam e se entrepenetram continuamente).

Ainda dessa perspectiva (como encaramos a tradução e as inovações do século XX associadas à corrente existencialista), “vestuario” para mim alcança uma significação muito mais profunda neste contexto, estando mais para “pele” em sentido metafórico ou “caráter”, “gênio”, em sentido mais denotativo, ou seja, tudo que constitui a singularidade do ser e do artista. Daí eu escolher traduzir o simples substantivo por dois verbos de conjugação pronominal, investir-se e revestir-se. Nós nos investimos da vida do autor precedente ou original, nos revestimos nós próprios da “roupa”, das idéias, deste ente primário, “incorporamo-lo”, por um breve espaço de tempo, é verdade, mas que fica eternizado na escrita. Aí subjazem outros conceitos interessantes explorados pela Escola de Chicago da Sociologia, capitaneada por Erving Goffman (máscaras, personas, etc.).

Como o original, creio que pude manter a principal característica do texto no idioma de chegada: a ambiguidade do significado. No fundo, todo tradutor, por mais que parta de pressupostos distintos, percorre as mesmas sendas. Quem sabe Ulisses e Joyce não sejam a mesma pessoa?

Tradutor: Rafael de Araújo Aguiar

A MUDANÇA LINGUÍSTICA – Paulo Chagas

“Essa construção, perdida no português atual e em outras línguas românicas, é frequente nas línguas germânicas e no francês. Em francês, p.ex., o pronome on (originalmente o caso sujeito correspondente à forma regida ome, omne, todas elas formas do substantivo com o significado original de <homem>) é utilizado e, frases como on parle français. Da mesma forma, em várias línguas germânicas, como o alemão, encontramos o pronome man com esses mesmos sentidos, como em man spricht Deutsch

“Das numerosas palavras de origem árabe que entraram no português durante o domínio mouro na Península Ibérica, muitas se fixaram na forma precedida do artigo definido al, por exemplo alfaiate, álgebra. Outras se fixaram sem o artigo. Provavelmente houve variação com algumas delas. Nas palavras cuja forma em árabe era iniciada por uma consoante coronal, ou seja, uma consoante produzida com a ponta da língua, havia assimilação do l do artigo definido a essa consoante coronal, surgindo uma consoante geminada ou dobrada, pronunciada mais longa do que a consoante simples. Essa é a origem de palavras como arroz e azeite. A consoante geminada só se manteve nas palavras com r. A palavra rebaldes é a mesma que se manteve na forma arrabalde, tendo sido utilizada, portanto, quer em sua forma sem artigo, quer na forma precedida do artigo definido, que se assimilou ao r seguinte”

exemplo de fato diacrônico e dinâmico: a perda da mesóclise como fenômeno vernáculo no português do Brasil. Vernáculo deve ser entendido aqui no sentido de Labov, um tipo de construção que os falantes usam enquanto estão conversando à vontade e sem fazer esforço consciente para falar <corretamente>.”

“na região mais ocidental do Império Romano, houve a sonorização das oclusivas surdas intervocálicas não-geminadas (p, t e k), ao passo que em regiões mais orientais, como a Itália central e meridional ou a Dácia (correspondente à atual Romênia), não ocorreu essa sonorização. Na região em que se formou o francês, essas oclusivas passaram por uma transformação mais radical ainda, tendo sido apagadas após terem se sonorizado.”

variações latinas

“no português do Brasil, teve-se um substrato indígena (tupi e outras línguas nativas), principalmente com relação ao Sul e ao Sudeste; podemos também dizer que nele houve um superestrato de origem diversa: italiano, alemão, japonês, etc. Além disso, nas regiões de fronteira, há o adstrato espanhol.”

“A influência do francês sobre o inglês teve como marco importante o ano de 1066, quando a Grã-Bretanha foi invadida pelos normandos, que implantaram o francês da época como língua da côrte, fazendo com que o inglês da época fosse socialmente menos prestigiado.”

latim portugues

“No caso do português, houve perda de distinções existentes no latim. Enquanto o latim tinha 10 vogais diferentes, o port. ficou com 7, se excluirmos as vogais nasais, como normalmente se faz. Temos 3 casos de fusão: do a longo e do a breve, que produziram a em português; do e longo e do i breve, que produziram e fechado; e do o longo e do u breve, que produziram o fechado. Isso está indicado na tabela pela ausência de divisão nas células correspondentes aos resultados em português das vogais que se fundiram.”

“Um exemplo bastante dramático desse tipo de mudança linguística é a chamada Grande Mutação Vocálica ocorrida em inglês, que se iniciou por volta do século XV. Ela é um exemplo de mutação em cadeia, na qual uma vogal se altera e provoca alterações em outra, e assim por diante. A tabela a seguir, extraída de Aitchison (1991:153), ilustra o grande rearranjo ocorrido no sistema vocálico do inglês médio para o período inicial do inglês moderno:”

revolucao ingles

“Se antigamente só ocorria o primeiro tipo de sentença (o guarda não queria me deixar entrar) e mais recentemente passou a ocorrer o segundo (o guarda não queria deixar eu entrar), isso indica que sentenças como o guarda não queria deixar o menino entrar foram reanalisadas, de forma que o menino passou a ser sentido intuitivamente como sujeito, e não mais como objeto.”

“Casos excepcionais em que a gramática normativa prescreve pares de singular e plural que se afastam desse padrão são sentidos como estranhos pela maioria dos falantes. Por exemplo, a palavra caráter tem o plural caracteres. Provavelmente, para a maior parte dos falantes esse tipo de informação soa estranho. É comum utilizarmos o plural para falar de letras ou números digitados, p.ex., a senha terá de conter 8 caracteres. É tão forte o estranhamento dos falantes quanto a esse tipo de par singular-plural que acabou sendo criado o singular caractere para se falar de letras e números digitados. Dizemos então que pelo menos um caractere deve ser algum número.”

TEORIA DAS RESTRIÇÕES: Se há uma aplicação de regra que feriria o universal de outra regra canônica ou então que, numa solução alternativa, feriria demais a si mesma, opta-se por uma exceção “mais branda”. Ex:

ônibus

plural: ônibus

Porque:

(REGRA 1) Plurais com consoantes ao final geram nova sílaba; a pronúncia da sílaba tônica permanece a mesma. Teríamos ônibuses.

(REGRA 2) Não há no português palavras ante-proparoxítonas: ônibuses feriria esta regra. Como a construção oníbuses também feriria a regra canônica 1, optou-se por uma “solução intermediária”: manter a palavra invariável. Os ônibus.

CURIOSIDADE: O plural de simples já foi simpleses!


Tarallo – Tempos linguísticos, 1990

ESTUDOS DE TRADUÇÃO – SOBRE A VARIAÇÃO

Como Não Fazer Inimigos Diariamente & Escapar de Pessoas


A) TRADUÇÃO E SOCIOLINGUÍSTICA VARIACIONISTA: A LÍNGUA PODE TRADUZIR A SOCIEDADE? In: Tradução & Comunicação – Revista Brasileira de Tradutores (n. 20, ano 2010) – Patrícia da Cunha Lacerda

Herzog, Labov & Weinreich – Empirical foundations for a theory of language change, 1968

Labov – Sociolinguistic patterns, 1972


“baseando-se na linguística formalista, estabeleceu-se como teoria a <Ciência da Tradução>, cuja intenção era analisar a tradução sob uma perspectiva de sistematicidade.” “Com o passar do tempo, temos observado um questionamento da noção de equivalência. A partir da abordagem histórico-descritiva, a tradução estabeleceu-se como uma disciplina independente e passou a ser denominada <Estudos da Tradução> (Holmes, 1972).”

“Como funcionalismo – também reconhecido como pós-estruturalismo [?] – entendem-se todas as abordagens linguísticas que concebem a língua como um instrumento de comunicação”

literatura comparada”


B) O PROJETO DE TRADUÇÃO MINORIZANTE DE LAWRENCE VENUTI

O americano anti-anglo-saxão e desmistificador do establishment!

“A sua crítica à estratégia de <domesticação>, adotada pela maioria dos tradutores de literatura ficcional nos países anglófonos, mais especificamente Estados Unidos e Inglaterra, é uma marca de seu trabalho.”

A ESTRATÉGIA DE DOMESTICAÇÃO

“A domesticação transmite a ilusão de preservação do espírito do autor original na tradução. Venuti critica a estratégia de domesticação embora reconheça que a tradução inevitavelmente realiza um trabalho de domesticação pela condição de estar escrita na língua <doméstica>. Assim sendo, o autor parece implicitamente propor uma certa gradação: um texto pode ser traduzido sem que se apague totalmente o <ar de estrangeiridade> (2002, p. 17).”

<Uma tradução fluente é aquela que utiliza um inglês atual (‘moderno’) em vez de arcaico, que seja amplamente utilizado, em vez de especializado (‘jargão’), e que seja padrão em vez de coloquial (‘cheio de gírias’)>

“efeito de transparência”

Infelizmente o foco do texto é na tradução: LÍNGUA DE PARTIDA (QUALQUER UMA) LÍNGUA DE CHEGADA (INGLÊS), o que não nos interessa aqui e agora.

“No Brasil, ao contrário, apesar de imaginar que a tendência do público também seja a de preferir uma tradução fluente e sem opacidades, vejo uma presença muito grande de referências da cultura estrangeira, um hábito de não traduzir nomes de produtos, de personagens, de referências estrangeiras como nomes de lugares, eventos, festividades, marcas culturais de modo geral.”

A ESTRATÉGIA DE ESTRANGEIRIZAÇÃO

<A tradução deve ser vista como um tertium datum, que ‘soa estrangeiro’ para o leitor, mas tem uma aparência opaca que a impede de parecer uma janela transparente através da qual se visse o autor ou o texto original: é esta opacidade – um uso da língua que resista à leitura fácil segundo os padrões contemporâneos – que deixará visível a intervenção do tradutor, seu confronto com a natureza alienígena do texto estrangeiro.>

<traduções de outras línguas para o alemão devem soar diferente: o leitor deve ser capaz de intuir o espanhol por trás de uma tradução do espanhol, ou o grego, por trás de uma tradução do grego. Se todas as traduções forem parecidas (como ocorria nas traduções vitorianas dos clássicos(*)), a identidade do texto-fonte se perde.> Schleiemacher (aquele?)

(*) BOM TEMA MONO