“Mesmo que nunca tenha lido Coleridge, nem estudado teoria literária, você já deve estar familiarizado com o termo ‘suspensão de descrença’ – i.e. o esforço extra para não se pensar ‘que besteira, isso nunca aconteceria!’ que o leitor faz ao ler um texto ficcional que, a rigor, lide em algum grau com o fantástico (apesar de existirem várias narrativas não-fantásticas que forçam a barra no quesito suspensão de descrença, mas tudo bem). Coleridge, de quem já tratamos aqui no escamandro num post anterior sobre o seu ‘Kubla Khan’, pensou nesse termo como um modo de defender a sua ‘Balada do Velho Marinheiro’, publicada no volume Baladas Líricas, de autoria conjunta com Wordsworth, que deu início ao romantismo inglês.”
“É um velho Marinheiro,
E detém um, de três que vê:
– Por tua barba branca e cintilante olhar,
Tu me deténs por quê?
Agora o noivo escancarou as suas portas,
E eu sou seu familiar.
O comensal se apresta, principia a festa;
Ouve o alegre exultar.”
“Solta-me! Solta-me barbado vagabundo!”
“Agora a noiva já ingressara no salão,
Rubor rosa tem;
A inclinar as cabeças, menestréis alegres
À sua frente vêm.
O ouvinte contrafeito aqui bateu no peito,
Mas é forçado a ouvir;
E sua fala prossegue o Marinheiro antigo
De olhar a refulgir.”
“E de repente nos envolvem névoa e neve,
Com um frio assassino;
E, alto de um mastro ao vê-lo, flutuava gelo
De um verde esmeraldino.”
“Enfim passou por nós, bem no alto, um Albatroz,
Vindo da cerração;
Em nome do Senhor nós o saudamos,
Como se fosse outro cristão.
Comeu o que jamais comera, e lá na altura
Volteava sobranceiro;
Rompeu-se o gelo então com o estrondo de um trovão…
Passou o timoneiro!
E do sul um bom vento nos soprava alento;
O Albatroz nos seguia,
E à nossa saudação, por fome ou diversão,
Buscava todo dia!”
“Mas ave não se via
Que à nossa saudação, por fome ou diversão,
Acorresse algum dia!”
“Justo era, em seu pensar, tal pássaro matar
Que traz névoa e neblina.
A branda brisa arfava, a espuma alva voava,
E o sulco solto a esfiar…
Jamais humana voz soara antes de nós
Naquele mudo mar.”
“Água, água, quanta água em toda a parte,
E a madeira a encolher;
Água, água, quanta água em toda a parte,
Sem gota que beber.”
“Seus lábios eram rubros; seu olhar, lascivo;
Sua trança, auri-amarela;
Sua pele, como a lepra, era de um branco forte;
Ela era o próprio Pesadelo VIDA-EM-MORTE,
Que o sangue humano gela.”
“Apagam-se as estrelas, densa é a escuridão;
Lívida a face do piloto à luz junto ao timão!
Nas velas o orvalho é um suor…
Até que a Lua sobe ao longe no oriente,
Nos cornos envolvendo estrela refulgente
Junto à porta inferior.”
“Quatro vezes cinquenta a soma de homens vivos
Que, sem suspiro e sem gemido algum,
Com um baque pesado, quais massas inertes,
Caíram um por um.”
“Mesmo à alma superior a maldição de um órfão
Pode danar com seu poder;
Mais horrível, porém,
É quando o olhar de um morto
A nós vem maldizer!
Sete dias e noites vi tal maldição,
E não podia morrer.”
“E o albatroz, meu colar,
Se desprendeu de meu pescoço,
E mergulhou como chumbo no mar.”
“Mesmo em sonho, era estranho ver tanto homem morto
Do chão se levantar.”
“Instrumentos sem vida tornam-se seus membros…
Que tétrica equipagem!“
“Porém o que, sem vento ou vaga,
a esse navio ir tão depressa faz?”
“Ó sonho jubiloso! É o topo do farol
O que avisto afinal?
Aquilo é promontório?
Aquilo é mesmo a igreja?
É o meu país natal?”
“Tenho um estranho dom do verbo; e, como a noite,
Errar de terra em terra é meu destino;
No momento em que vejo um rosto num lugar,
Eu sei que é o homem que precisa me escutar,
E meu caso lhe ensino.”
SOBRE “A BALADA DO VELHO MARINHEIRO”
Superestimado.
GLOSSÁRIO:
albatroz
“substantivo masculino
Ave de habitat marinho, da família dos diomedeídeos, migradoras, de cor branca, corpo robusto, asas longas e cauda curta; com mais 3,5 metros de envergadura, sendo encontrada no hemisfério sul, é considerada a maior ave voadora do mundo.
Etimologia (origem da palavra albatroz). Do árabe al-gattas; do inglês albatross; pelo francês albatros.”
arrebol
“Cor avermelhada das nuvens quando o sol nasce ou se põe no horizonte.”
besta
“Arma portátil composta por um arco de madeira, ou de aço, cujas extremidades estão ligadas por uma corda que, ativada pelo gatilho, é esticada para arremessar setas ou balas de metal (pelouros).”
bruma
“Nebulosidade causada por gotículas de água que ficam suspensas e diminuem a visibilidade; nevoeiro.”
cambaxirra
“Nome comum a várias aves da família dos trogloditídeos, também chamada carriça, camaxirra, corruíra, garrincha, garriça.”
ovém
“Náutica Nome genérico do calabre que se fixa (ovém de avante e ovém de ré) para servir de apoio aos mastros e mastaréus de um navio.”
penha
“Rochedo grande, saliente e de localização isolada, normalmente numa encosta ou serra; penedo, penhasco, rocha.”
“old fools is the biggest fools there is. Can’t learn an old dog new tricks, as the saying is.”
“tolo velho é os mais tolos que tem. Não pode cachorro velho aprender truque novo, como diz o ditado.”
“Spare the rod and spile the child, as the Good Book says.”
“Deixa pra lá’ vara e’straga’ criança, como diz na Bíblia.”
“ele é o garoto da minha falecida irmã, tadinho, não tenho coragem de surrá-lo. Toda vez que deixo barato, minha consciência dói, e toda vez que o castigo meu coração só falta espedaçar. Seja como for, homem que nasceu de mulher vive pouco e cheio de problema e aflição, como diz o Livro Sagrado, e assim creio.”
“É mui difícil fazer ele trabalhar sábado, quando todo outro garoto dá de descanso.”
“Em 2 minutos, ou talvez menos, ele esqueceu todos os seus problemas. Não porque seus problemas fossem agora um iota a menos em carga e amargura, como são os problemas para os homens, mas porque outro interesse, forte e novo, obnubilou-os de sua mente por ora – como as desgraças dos homens são olvidadas na excitação de novas empreitadas.”
“Ele se sentiu como um astrônomo se sente quando descobre um planeta novo – sem dúvida, tanto quanto prazeres podem ser puros, profundos e poderosos, a vantagem estava com o garoto agora, não com o astrônomo!”
“Alguém novo de qualquer idade e qualquer sexo era a curiosidade mais incrível na pobre e arruinada cidadezinha de St. Petersburg.”
“– Posso te bater!
– Vamos ver se tem coragem!
– Posso fazer sim.
– Não, não tem coragem.
– Posso!
– Não pode!
– Posso.
– Não!
Uma pausa desconfortável. Então Tom abriu o bico:
– Qual seu nome?
– Não é da sua conta, talvez.
– Hmm… Tá bom, mas vou fazer ser.
– Então por que não faz?
– Se é o que você quer, tá feito.
– Ó, muito, muito, muito. Como despertou meu interesse.
– Ah, se acha muito esperto, né? Podia te derrubar com uma mão amarrada nas costas, se eu quiser.
– Então por que não derruba, você diz que pode.
– E eu vou, se você vacilar.
– Ah, não é o primeiro nem o último que canta de galo.
– Espertinho! Se acha, né, né não? Vai pa’ casa do chapéu, fi’.
– Chapéu. Tenta amassar esse ‘chapéu’ se você é o cara. Eu te desafio. Eu te desafio a amassar o meu chapéu. Nem é tocar em mim. O primeiro que tentar vai bancar o trouxa.
– Você é um mentiroso!
– E você outro.
– Você chama pra briga mas na hora amarela.
– Vai ver se tô na esquina.
– Vem cá – se você me dá mais uma dessas respostas vou tacar uma pedra na tua cabeça!
– Ah, sim, claro.
– Eu vou.
– Então… Taca, fazendo favor. Pra que você fica dizendo tudo que quer fazer? Por que não faz em vez? É porque é menino medroso.
– Não sou medroso.
– É.
– Não.
– Você é.”
“– Dá o fora!
– Vai você primeiro!
– Não.
– Eu também não.”
“– Você é um covarde e um pirralho. Vou dar o recado pro meu irmão mais velho. Ele pode te arrebentar com o mindinho. E eu vou falar pra ele fazer isso.
– E eu com teu irmão mais velho, cria? Meu irmão é maior que o teu. Ele pode atirar o teu por cima daquela cerca ali. (Ambos os irmãos eram imaginários.)
– Tá mentindo.
– Só porque você diz que tô mentindo não quer dizer que tô mentindo.
Tom riscou uma linha na poeira com seu dedão, e disse:
– Eu te desafio a pisar nessa linha. Se pisar vou te moer de pancada até ficar no chão. É a mesma coisa que tentar roubar uma ovelha dum rebanho. Vai pagar.
O novo menino logo pisou a linha, e retrucou:
– Agora que você disse que ia fazer, mas ver você fazer.
– Não chega perto, truta, tô avisando.
– Você já avisou mil vezes. Por que não pára de avisar?
– Desafiou! Faço até por 2 centavos, fi’.
O novo menino pegou dois moedões do bolso e os segurou em provocação. Tom deu um tapa e os derrubou no chão. Num instante os dois garotos rolavam agarrados na terra, impossíveis de desembolar, como dois gatos. E por bons 60 segundos cada um puxou e torceu o cabelo do outro, as roupas do outro, socou, arranhou o nariz, e cada um se sujou com glória o mais que pôde. A confusão estava armada, já não se via mais nada na poeira. Depois, a silhueta de Tom surgiu primeiro do bololô, triunfante, montado no novo garoto. Tom é quem socava.
– Grita ‘desisto’!
O menino se limitava a tentar se livrar de Tom. Já chorava – principalmente de raiva.
– Grita ‘desisto’! – e continuava com seus socos.
Finalmente o estranho cedeu e gritou seu DESISTO. Tom deixou ele se soltar e se erguer e disse:
– Aprendeu a lição. Melhor prestar atenção com quem vacila na próxima, fi’.
O novo menino saiu sacudindo e batendo a roupa tentando deixá-las o mais brancas, gemendo, convulsivo, seu fim de choro, fungando e olhando para trás de vez em quando e balançando a cabeça para ameaçar Tom: dá próxima, você tá ferrado! Tom respondeu com risadas, e se pavoneou todo. Assim que Tom virou as costas levou uma pedrada do garoto, acertando-o entre os ombros. O menino recuou num átimo e correu feito um antílope. Tom o perseguiu até em casa, e descobriu onde morava. Espreitou perto dos portões um tempo, como que desafiando o outro a sair, se ousasse. Mas o menino só estava interessado em fazer-lhe caretas pela janela. Já havia desistido. Por fim apareceu a mãe do rival, chamando Tom de mau, vicioso, criança vulgar, e ordenou que desse no pé. Assim Tom fez, mas dizendo que estava ansioso para agarrar de novo seu algoz.
Ele chegou em casa bem tarde aquela noite, e quando escalou com cuidado até a janela descobriu uma embocada, isto é, sua tia, esperando-o. E quando ela notou o estado de suas roupas se decidiu a tornar o sábado festivo do garoto em cativeiro e trabalho duro, sem falta.
SEGUNDO CAPÍTULO
“– Ela! Ela nunca trisca em ninguém – nem dar um cascudo na cabeça com aquele dedal – e quem é que liga, tô curioso pra saber. Ela fala feio, mas fala não ofende – pelo menos se ela não fala chorando. Jim, você vai ver uma maravilha. As melhores bolinhas de gude!
Jim começou a ceder.”
“Existem gentlemen ricos na Inglaterra que dirigem carros de 4 cavalos de 20 a 30 milhas diariamente, no verão, em estradas reservadas para a elite. Ricos, porque o privilégio lhes custa um bom dinheiro! Mas pense: se lhes fosse oferecido ordenado pelo serviço, isso se tornaria um trabalho, coisa de lacaio, e dele abdicariam.”
TERCEIRO CAPÍTULO
“ele se sentou num tronco à beira do rio e contemplou a monótona vastidão da corrente, desejando, quase inconscientemente, na verdade, se possível, se afogar e ali ficar, assim sem mais nem menos, para não necessitar passar pelas rotinas incessantes programadas pela natureza.”
QUARTO CAPÍTULO
“Tom gastou todas as suas energias para decorar 5 versos, e escolheu parte do Sermão da Montanha, porque não encontrou versos mais curtos. Depois de meia hora Tom tinha uma vaga idéia geral de sua lição, mas nada mais; sua mente atravessava todo o campo do pensamento humano, e suas mãos se encontravam ocupadas em distrações recreativas. Mary pegou seu livro para ouvir-lhe a recitação, e Tom tentou percorrer o caminho de volta em meio à neblina:
– Abençados são os-ã-ã—
– Pobres-
– Isso – pobres; abençoados são os pobres em espírito, pois eles-eles—
– É deles…
– Pois é deles. Abençoados são os pobres em espírito, pois é deles o reino dos céus. Abençados são aqueles que lamentam, porque eles-eles—
– De-
– Porque eles-ã-ã—
– D, E, V,…
– Porque eles D, E – Ai, eu não sei o que é!
– Devem!
– Ah, devem! Porque eles devem – porque eles devem-ã-ã-devem… lamentar-ãã-ãã-abençoados são aqueles que devem—aqueles que—ãã—aqueles que devem lamentar, porque eles devem—ãã—devem o quê?! Por que você não me diz, Mary? – pra que tanta crueldade?
– Ah, Tom, pobre Tom cabeça-de-vento… Não faço por mal. Não é do meu feitio. Você deve se concentrar e tentar aprender outra vez. Não se desencoraje, Tom, você vai conseguir! – e se conseguir, vou dar-lhe um presente. Um presente que você irá gostar. Tudo bem, Tom, Tom, bom menino.
– Tá bom, Mary, mas o que é então, me fala o que é.
– Nada de mais, Tom. Só que quando digo que você irá gostar, saiba que é a verdade.
– Aposto que sim, Mary, eu acredito. Eu vou tentar de novo!
E Tom “tentou de novo” – e sob a dupla pressão da curiosidade e da esperança do ganho ele tentou com tanto espírito que obteve um grande sucesso. Mary deu-lhe uma Barlow¹ novinha em folha, vendida a 12 centavos e meio. As convulsões de alegria de Tom sacudiram seu sistema até seus fundamentos. (…) É claro que essa faca não tinha fio nenhum, mas “com certeza era” uma Barlow, e havia uma grandeza inconcebível nisso – embora fosse um mistério essa noção dos meninos ocidentais de que esta faca pudesse ser falsificada só para seu descontentamento ao arranjar uma Barlow que não fosse uma Barlow… Foi e deverá continuar sendo eternamente um mistério.”
¹ Uma faca negra famosa à época, uma das primeiras de seu tipo: uma faca de bolso, que hoje chamaríamos de canivete, pois a lâmina era retrátil em relação ao cabo de madeira.
“ele achava que cachos eram algo afeminado, e seus próprios cachos enchiam-no de amargura”
“Ele se encontrava tão desconfortável quanto aparentava estar. Havia qualquer coisa que tornava rapazes rígidos em trajes completos e tão asseados. Ele desejava que Mary esquecesse seus sapatos, mas sabia que era um desejo destinado ao fracasso; pois ela os ensebou bem-ensebados, como era o costume, e os retirou do guarda-roupa. Ele perdeu as estribeiras e gritou que sempre era forçado a fazer o que não queria.”
“e as três crianças partiram para a missa de domingo – uma cerimônia que Tom odiava com todo o coração; já Sid e Mary adoravam a ocasião.
As horas do Sabá iam de 9 às 10:30. E depois o serviço da igreja. Duas das crianças sempre permaneciam para o sermão voluntariamente, e os outros também permaneciam – por razões de força maior.”
“Todas as classes de Tom tinham o mesmo padrão – agitadas, barulhentas, problemáticas. Quando a turma recitava as lições, nenhum aluno sabia seus versos direito, tinha que recebê-los soprados.”
“Quantos de meus leitores teriam a indústria e a aplicação para memorizar 2 mil versos, ainda que fosse por um exemplar da Bíblia de Doré?¹ E não obstante assim foi que Mary ganhou duas Bíblias de Doré – um paciente trabalho de 2 anos – sem falar no garoto de ascendência alemã que ganhou quatro ou cinco delas! Uma vez ele recitou 3 mil versos sem parar; mas o esforço custou a suas faculdades mentais, e ele era pouco mais que um rapaz idiota desse dia em diante – uma calamidade para a escola, uma vez que, em ocasiões especiais, diante de grandes públicos, o superintendente (como Tom mesmo falava) invariavelmente chamava o mesmo rapaz para ‘exercitar-se’.”
¹ Gustave Doré (1833-1883) não só ilustrou várias passagens da Bíblia como famosamente passagens da Divina Comédia de Dante.
“Quando um superintendente de missa de domingo faz sua costumeira pregação, um livro de salmos à mão é uma necessidade incontornável, igual escrituras musicais para um cantor que desempenhará um concerto-solo. Se bem que por que isto é assim é que não sabemos: nem o solista nem o superintendente fazem uso, realmente, dos papéis a sua frente.”
“O homem de meia-idade revelou-se um personagem prodigioso – nada menos que o juiz do condado – a mais augusta autoridade que essas crianças já haviam contemplado na vida – e as crianças se perguntavam de que ele era feito – simultaneamente queriam que ele esbravejasse e discursasse, mas temiam-no também ao máximo. Ele era de Constantinopla, a 12 milhas dali – é o quanto ele tinha viajado – uma enormidade, percorrendo o mundo – esses mesmos olhos já se tinham posto sobre a côrte do condado – que, diziam, tinha um telhado de metal.”
“O bibliotecário ‘se exibia a todos’ – correndo de lá pra cá com vários livros em punho, aproveitando-se de cada burburinho e algazarra, que autoridades-insetos sempre acolhiam como bom sinal. As jovens professorinhas ‘se exibiam a todos’, inclinando-se com meiguice sobre alunos atrasados para compor as filas, erguendo dedinhos deliciosamente advertidores aos menininhos mais malvadinhos e acarinhando os menininhos mais bonzinhos na mesma medida, afetuosamente. Os jovens professorzinhos ‘se exibiam a todos’, com pequenas broncas e outras exibições de autoridade, manifestações de atenção em disciplinar qualquer polegada em seu entorno. E, sobretudo, professorzinhos de ambos os sexos sempre achavam que fazer à biblioteca, ou então perto do púlpito. Eram sempre emergências e que necessitavam ser refeitas uma, duas vezes até. Havia muito apuro nessas providências candentes. As menininhas ‘se exibiam a todos’ de várias formas, e os menininhos ‘se exibiam a todos’ com tamanha diligência que o ar parecia mais carregado do que nunca de papéis e brochuras importantes e dos sons de disputas controladas, limitadas a murmúrios. E acima de tudo o mais o grande homem sentado e a emanar um majestoso e judicial sorriso para a contemplação dos presentes, aquecendo-se no sol de sua própria importância – porque sem dúvida ele também estava ‘se exibindo a todos’.”
“E agora, quando não havia mais esperanças, Tom Sawyer se pôs à frente com nove bilhetes amarelos, novo vermelhos e dez azuis, e requereu sua bíblia. Foi um trovão em pleno céu aberto. Walters jamais esperava uma aplicação dessa proveniência pelos próximos dez anos. Mas não havia nem como duvidar – ali estavam todos os bilhetes certificados, e Walters os inspecionou e não encontrou nada de errado. Tom foi elevado, perfilado com o juiz e os demais vencedores, e as grandes notícias logo tomaram a vila. Foi a maior surpresa da década, tão profunda sensação causou nos moradores o novo herói, investido agora da proteção até da autoridade judicial. A escola tinha não só uma maravilha, a autoridade, mas duas para contemplar aquele domingo. Todos os meninos se mordiam de inveja – mas quem mais se angustiou foram os que se aperceberam tarde demais que contribuíram diretamente para esse esplendor odioso, trocando seus próprios cartões pela riqueza que Tom acumulara vendendo sua cal. Esses agora menosprezavam a si mesmos, como os tolos do mais capcioso ardil, da cobra no jardim que seduziu-os todos.
O prêmio foi entregue a Tom com tanta efusão quanto o superintendente era capaz de demonstrar; só faltou talvez aquela reverência ou bajulação devida a um legítimo ganhador, porque os instintos do pobre senhor adivinhavam a existência de circunstâncias misteriosas rondando a ocasião, impossíveis de resolver em tão pouco tempo. Era ilógico imaginar que esse garoto tinha registrado na cabeça duas mil linhas da sabedoria das Escrituras – uma dúzia só já parecia exceder seus limites, disso o superintendente não tinha dúvida.
Amy Lawrence era só orgulho e contentamento, e ela tentou chamar a atenção de Tom como pôde para demonstrar-lhe – Tom, todavia, nem a olhava. Ela se pôs pensativa, espantada mas introspectiva. Com os minutos foi-se pondo desconfiada. A seguir, tentava se prender a alguma hipótese pouco nobre. Observava furtivamente como quem devia entender o inexplicável focando o olhar em qualquer coisa no salão. Foi então que seu coração partiu, sentiu ciúmes, revolta, lágrimas jorraram e passou a odiar todos em volta. Tom principalmente (ela assim pensava no momento).
Tom foi apresentado ao juiz. Sua língua se encontrava travada. Seu fôlego era escasso, o ar vinha com dificuldade. Seu coração chacoalhava – parte pela grandeza do homem, parte porque ele era o pai da menina. Ele teria adorado se prostrar e adorar este homem, se fosse no escuro e ninguém pudesse ver. O juiz colocou a mão na cabeça de Tom e disse que ele era um belo dum rapazinho, perguntando em seguida seu nome. O rapazinho balbuciou, engasgou, mas conseguiu emitir:
– Tom.
– Ah, Tom não, deve ser—
– Thomas.
– Isso! Foi o que pensei, que era um nome mais longo. Mas eu ouso dizer que ele é ainda mais longo, não? Não quer dizê-lo por completo?
– Diga ao senhor seu outro nome, Thomas – disse Walters, – e diga ‘senhor’. Não esqueça das maneiras!
– Thomas Sawyer – senhor!”
“– Creio que você não se importe em contar a mim e a esta dama algumas das coisas que aprendeu. Não, tenho certeza que não se importaria! Pois temos muito orgulho de jovens que aprendem bem. É evidente que você sabe o nome dos doze discípulos, não é assim? Por que não diz, por exemplo, o nome dos dois primeiros que foram nomeados pelo Senhor?
(…) As tripas do senhor Walters deram um nó. Ele disse a si mesmo: é impossível que o garoto responda a mais simples das questões! Por que o juiz foi perguntá-lo? Assim mesmo ele se sentiu na obrigação de falar algo, e interveio:
– Responda o juiz, Thomas – nada receie!
A garganta de Tom ainda parecia arder em chamas.
– Ah, eu sei que você sabe – atalhou a dama. Que os nomes dos dois primeiros discípulos eram…
– Davi e Golias!…
Baixemos as cortinas da cortesia e da caridade sobre a continuação desta cena.”
QUINTO CAPÍTULO
“Tom não tinha cachecol. E achava que os meninos que tinham era uns esnobes.”
“Havia, há certo tempo, um coro de igreja que não era nada mal, mas esqueci onde ele ficava. Isso foi há muito tempo. Lembro apenas de soslaio, mas devia ser num país estrangeiro.”
“Nas reuniões sociais da igreja ele sempre era chamado para declamar poesia; e assim que ele terminava as madames erguiam suas mãos só para deixá-las recair sobre seus colos, depois tapavam a vista, de repente úmida, vibravam as cabecinhas, como que querendo dizer que palavras não podiam expressar o que sentiam. Tão belo, belo DEMAIS para este mundo mortal.
Depois de cantado o hino, o Reverendo Senhor Sprague se dirigia a um quadro de avisos e lia lembretes de encontros e cerimônias da comunidade e mais este e aquele jantar beneficente, até que a lista parecia que iria até o juízo final e… um costume estranho, talvez ainda corrente na América, mesmo nas cidades, subsistente nessa idade dos jornais… Muitas vezes quanto menos razões há para preservar um costume, mais difícil é se livrar dele!
O ministro então passava a rezar. Uma oração boa e generosa. Muito específica: pedia o bem da própria igreja, o bem das criancinhas da igreja, o bem das outras igrejinhas do vilarejo, o bem do vilarejo em si, o bem da prefeitura, o bem do estado, o bem dos funcionários do estado, o bem Estados Unidos da América, o bem das igrejas de todos os Estados Unidos da América, o bem do Congresso, o bem do Presidente, o bem dos funcionários do governo norte-americano, o bem dos pobres marinheiros, à mercê de tempestades marítimas, o bem de milhões oprimidos e gemendo sob a tirania dos monarcas europeus, e também dos déspotas do Oriente, o bem a todos os que têm em si a luz da razão e uma boa alma, mas que ainda não têm olhos para ver nem ouvidos para ouvir, por assim dizer; o bem dos pagãos nas ilhas mais remotas; e fechava, esta oração bem-feitinha, com uma súplica para que as palavras que ele acabava e que ainda ia acabar de dizer fossem agraciadas com o favor divino, como sementes num solo fértil, fortalecendo, devagar e com o tempo, o bem, frutificando as coisas boas deste mundo maravilhoso. Amém.”
“ele considerava acréscimos injustos e torpes. No meio da pregação uma mosca pousou na parte de trás do banco justo diante de si. Uma mosca que parecia torturar seu próprio espírito como um crente em penitência. Esfregava calmamente as patas, depois esfregando-as na cabeça, tão vigorosamente que a cabeça parecia se descolar do corpo – o fio que era o pescoço da criatura se pôs à mostra. Raspando as asas com suas patas traseiras, aplainando-as com o resto de seu corpo, parecia agora que a mosca vestia um fraque. E seguia nessa espécie de higiene individual com a tranqüilidade de quem se sabe segura. De fato a mosca estava plenamente segura. Não importa quão intenso fosse o ímpeto das mãos de Tom, se coçando para esmagar ou espantar aquela mosca, Tom acreditava que sua alma seria sumariamente destruída no caso de cometer tal ato durante o sermão.”
“O ministro não só leu toda sua exortação costumeira como seguiu, no tom monocórdio possível, auto-resolvendo um argumento tão prosaico, na continuação da leitura, que não foram poucas as cabeças que começaram a pescar – e não deixava pela mundanidade de ser um argumento envolto em fogo imorredouro e enxofre e parecia reduzir a casta dos predestinados a uma companhia tão pequena que, no fim das contas, não valia o esforço da redenção. Tom contou as páginas do sermão. Depois da igreja ele sempre sabia quantas páginas haviam no discurso, porque ele se concentrava em contá-las; mas nada do conteúdo lhe era familiar.”
“Tom olhou, e esperou. Mas estava fora de alcance. É de confessar que outros fiéis desinteressados do sermão encontraram alívio no besouro, e passaram a fitá-lo também. De repente um cachorro de rua entrou, parecendo tristonho, lerdo devido à calidez do verão, muito comportado, cansado, talvez, do repouso e preguiça do estar parado o dia todo, arfando por uma mudança de ares. Ele mesmo observou o besouro. O rabo se ergueu começou a abanar. Ele começou a avaliar o prêmio. Circundou-o. Cheirou-o de distância segura, voltou a rodeá-lo com cautela. Avalentonou-se, cheirou de mais perto. Elevou seu focinho e tentou uma captura escrupulosa do inseto, mas errou de mira. Mais uma vez, e outra, e o besouro se desviava. O cão começava a gostar do esporte. Mera presa de seu estômago a roncar com o besouro já em suas patas, continuou seus experimentos. Uma hora fatigou-se e, indiferente, parecia não ligar para o alvo, nem para os objetos em torno. Dispersou-se. Balançou a cabeça, de pouco em pouco o queixo foi caindo e encostou mesmo no besouro, que não recusou a interação. O cão ganiu, chacoalhou a cabeça e o besouro caiu várias jardas para lá. E caiu mais uma vez de costas, inofensivo. Os vizinhos humanos, espectadores do espetáculo, deram risotas de uma alegria terna e interna, muitos dos rostos, consternados em ser assim flagrados, esconderam-se atrás de leques e lenços, e Tom, Tom também ficou contente! O cão parecia um tolo, e na verdade parecia ter alguma consciência disso. Não pensem que cães são incapazes de rancor, porque ele foi para se vingar. Aproximando-se do besouro iniciou um ataque mais desconfiado que todas as investidas anteriores, pululando em derredor cobrindo todos os pontos de um círculo imaginário, ameaçando com suas grandes patas a uma polegada da criatura, tentando a captura bucal com seus dentes rangidos, balouçando a cabeça até suas orelhas se porem eretas novamente. Mas esse cão não podia persistir por muito tempo, e se distraiu outra vez. Tentou se divertir com uma mosca próxima, mas isso era demasiado pouco. Seguiu os passos duma formiga, o nariz colado no chão da igreja, bocejou, suspirou, já havia esquecido do besouro inteiramente, a ponto de simplesmente sentar nele sem querer. Agora o uivo foi mais estridente que da outra vez, pareceu denotar muita dor. O cachorro foi em direção à nave da igreja, querendo distância dali. Ganiu ainda por um tempo. Ele cruzou a passagem entre os fiéis e o altar. Depois já estava na outra nave, saiu pelas portas. Já estava bom de se espreguiçar por hoje! Sua angústia aumentava a cada passo, era essa a impressão pelo menos, e no fim ele parecia um ponto de lã no horizonte em trajetória errática, cedendo talvez à força da gravidade, cometa que se aproximava em elipse a algum corpo celeste pesado. Mas o sofredor se recompôs e se dirigiu então… para aquele que era seu dono, então ele tinha uma casa um dono! Alguns latidos tristes ainda foram ouvidos, mas logo foram abafados pela janela recém-fechada…
Nesse ponto, a audiência da igreja já está sufocando, de cara vermelha, prendendo o riso, e o sermão chegou no fundo do poço, como se o tempo tivesse parado. O sermonista notou-o e interrompeu-se por um hiato, depois dos barulhos da aventura anterior; o retorno à lide foi célere, no entanto, e não pareceu a nenhum ouvinte, por isso, mais instigante nem ao menos ter sido afetado por qualquer traço emocional, o que era desabonador. Nada o alteraria até o fim. Mesmo risotas que escapassem eram recebidas com a mesma gravidade inalterável, tanto faz se sensível às risotas ou não. Só o que se ouvia além da voz e de alguns sons da platéia, para ser franco, era o ranger dos bancaços de madeira.
(…) Tom Sawyer caminhou aquele dia para casa um pouco alegre, pensando consigo que havia no fim de contas alguma satisfação a ser retirada dos serviços divinos quando as circunstâncias fossem favoráveis.”
SEXTO CAPÍTULO
“A segunda-feira de manhã encontrou Tom Sawyer no estado mais lamentável. Segundas de manhã sempre encontravam Tom deste jeito – porque eram o vagaroso reinício dos sofrimentos escolares semanais. Geralmente ele começava o dia desejando que o sabá nunca tivesse existido – ser liberado só fazia voltar à prisão algo mais dorido e odioso.”
“De repente ele se deu conta de algo. Um de seus dentes da frente e de cima estava frouxo. Isso significava sorte. Ele começava instintivamente a gemer, o <gatilho>, como ele mesmo costumava dizer, de, quando se lhe ocorresse propício, ganhar uma causa no tribunal – até que Tom lembrou de que talvez tudo terminasse com sua tia realmente arrancando seu dente – e decerto doeria.”
“Em pouco tempo Tom estava diante do pária juvenil do vilarejo, Huckleberry Finn,¹ filho do alcóolatra local.”
¹ Novela que é a seqüência direta desta.
“Huckleberry ia e vinha de acordo com sua própria vontade. Dormia no batente das portas no tempo bom e em barris vazios quando estava úmido. Ele não tinha de ir à escola ou à igreja, nem tinha qualquer adulto por mestre ou amo; não obedecia a ninguém. Ele podia ir pescar ou nadar quando e onde escolhesse, e demorar o quanto quisesse. Ninguém o proibia de brigar tampouco. E nem o mandava ir para a cama. (…) também não tinha de tomar banho, nem vestir roupas limpas. Podia xingar e praguejar que era uma beleza. Em resumo, tudo o que fazia a vida de um menino a mais preciosa, ‘Huck’ tinha.”
“Tom cumprimentou o romântico pária:
– Olá, Huckleberry!
– Olá você, sinta-se servido.
– O que é isso que você tem aí?
– Gato morto.
– Deixa eu ver, Huck. Ó, ele tá bem duro. Onde você achou?
– Comprei dum garoto.
– Com o quê?
– Dei um bilhete azul e uma bexiga que consegui no açougue.
– Onde você achou o bilhete azul?
– Comprei do Ben Rogers faz duas semanas por um bastão de arco de ginástica.
– Fala… o que dá pra fazer com gatos mortos, Huck?
– O que dá pra fazer? Espremer verruga.
– Não! Sério? Eu sei uma coisa melhor.
– Duvido. O que é?
– Ora, água de gambá!
– Água de gambá! Eu não dava um vintém por água de gambá.
– Tem certeza que não? Já tentou tirar verruga com água de gambá alguma vez?
– Não, nunca, mas o Bob Tanner já.
– Quem disse?!
– Ué, ele disse pro Jeff Thatcher, e o Jeff contou pro Johnny Baker, e o Johnny contou pro Jim Hollis, e o Jim contou pro Ben Rogers, e o Ben contou prum negro, e o negro me contou. Aí tem!
– Sim, mas e então? Todos eles mentem. Todos isto é, menos o negro. Eu não conheço ele. Mas eu nunca vi um negro que não mentiria. Porra! Agora me diz como o Bob Tanner fez, Huck.
– Ué, ele afundou a mão numa poça depois da chuva.
– Durante o dia?
– Acho que sim.
– Com a cara pra poça?
– Sim. Pelo menos eu diria.
– Ele falou alguma coisa?
– Eu não diria que falou. Eu não sei.
– Arrá! Curar verruga com água de gambá desse jeito não dá! Não, isso não ia dar em nada. Você tem que ir sozinho, até o meio do bosque, onde você sabe que tem uma poça velha lá, e assim que der meia-noite você fica de costas pra água podre, enfia sua mão nela e então diz: Grão de cevada, grão de cevada, comida de índio, água de gambá, água de gambá, engole essas verrugas;
e depois ir embora correndo, 11 passos, com seus olhos fechados, e depois se virar umas 3 vezes e ir direto pra casa sem falar com ninguém. Porque se você falar, o charme quebra.
– Ué, parece legal. Mas não foi o jeito que o Bob Tanner fez.
– Não senhor, com certeza absoluta não, porque ele é o moleque mais verruguento da cidade! Se ele tivesse feito ele não ia ter verruga! Eu tirei umas mil verrugas da minha mão desse jeito, Huck. Eu brinco tanto com sapo que sempre me dá verruga! Eu tiro com vagem.
– Feijão é muito bom, já fiz isso.
– Já? Como você faz?
– Você pega e divide a vagem, e corta a verruga até sair um pouco de sangue, aí você põe o sangue num pedaço do feijão e pega e cava um buraco e enterra o feijão mais ou menos meia-noite na encruzilhada na sombra da lua, e depois você queima o resto do feijão. O pedaço com sangue vai virar um ímã e vai puxar a outra metade que você cortou, aí é só você usar isso pra ressecar a verruga, e puxar ela da sua pele.
– É, é isso aí, Huck, é isso aí! Mas quando você tá enterrando o feijão, se você diz ‘Desce feijão, cai verruga, não vem mais me perturbar!’, é melhor! É assim que o Joe Harper faz, e ele já foi em Coonville, e um bando de lugar. Mas me diz – como é pra sarar com gato morto?
– Ué, você pega seu gato e vai e chega no cemitério perto de meia-noite, ou na hora do enterro de alguém mau. E meia-noite um diabo vai aparecer, ou talvez dois, três… Mas o negócio é que você não pode ver eles, você só ouve uma coisa que parece co’ vento, ou uns burburinhos. E quando eles tão levando o cadáver do homem mau, você lança o gato pra eles e grita: ‘Diabo segue corpo, gato segue diabo, verruga segue gato, sai de mim verruga!’. Isso vai curar qualquer verruga.
– É, faz sentido. Você já tentou, Huck?
– Não, mas a velha madre Hopkins que me disse.
– Hm, eu acho que é verdade então. Porque falam que ela é uma bruxa.
– Falam! Ué, Tom, eu sei que ela é. Ela enbruxou meu pai. Meu pai sabe. Ele vinha vindo um dia, aí ele viu que ela tava embruxando ele, então ele pegou uma pedra, e se ela não tivesse desviado tinha peg’em chei’! A mesma noite ele caiu rolando dum barracão em que ele tava bebendo, e quebrou o braço, cê ‘credita?!
– Cara, que horrível! Como ele sabia que ela tava embruxando ele?
– Deus, meu pai jura de mão junta. Ele diz que se elas tão olhando fixo pra você, tão embruxando você. Se elas tão murmurando é certeza, certeza! Quando elas tão murmurando elas tão falando o pai-nosso de trás pra frente!
– Hucky, me diz… Quando você vai fazer a parada com o gato?
– Essa noite. Eu acho que vão vir pro velho Hoss Williams.
– Mas o enterro foi sábado. Não pegaram o corpo dele sábado de noite?
– Ué, sabe-tudo! Com’é que o charme funciona até meia-noite então? E aí meia-noite de sábado já é domingo. Os demônios não vadiam domingo, eu diria.
– Nunca pensei nisso. Deve ser assim. Deixa eu ir contigo?
– Claro! Se você não tiver com medo…
– Com medo!! Duvido muito. Você vai miar?
– Sim. E você mia de volta, se escutar. A última vez, você me fez ficar miando um tempão até o velho Hays me tacar pedra! E ele falou: ‘Maldito seja esse gato!’. E pra me vingar eu atirei um tijolo na janela dele. Mas você não me ouviu.
– Não ouvi. Eu não pude miar aquela noite, porque minha tia tava me vigiando. Mas dessa vez eu vou miar. Ei, o que é aquilo?
– Só um carrapato.
– Onde conseguiu?
– Na floresta.
– Quer vender pelo quê?
– Não sei. Não quero vender, eu acho.
– Tá bom. É um carrapatinhozinho pequenininho mesmo.
– Qualquer um pode pegar um carrapato que não tem dono. Tô satisfeito com esse. É um carrapato bom pra mim.
– Lógico, tem carrapato pra caraca! Eu podia ter mil se eu quisesse.
– Por que você não arranja uns? Ah, você não consegue! É um carrapato recém-nascido. É o primeiro que espio esse ano!
– Ei, Huck… Eu te dou meu dente pelo carrapato.
– Hm, deixa ver.
Tom tirou um pedaço de papel do bolso e com cuidado desenrolou-o. Huckleberry estudou o dente com certa nostalgia. Era uma bagatela. Então ele disse:
– É genhuíno?
Tom levantou o beiço e mostrou a banguela.
– Ué, muito bom! – disse Huckleberry, satisfeito – Negócio fechado.
Tom encerrou o carrapato numa lata velha daquelas de armazenar balas de armas, a mesma caixa em que ultimamente Tom vinha confinando um besouro-veado. E então os garotos se separaram, cada um achando que saiu no lucro.
“– Thomas Sawyer!
Tom sabia que quando seu nome era pronunciado inteiro significa problema.
– Senhor!
– Venha aqui. Agora, senhor, por que está atrasado, como aliás quase sempre?
Tom estava para se refugiar em uma de suas mentiras cultivadas, quando viu duas longas tranças de cabelo amarelas repousando ao fundo, que ele imediatamente reconheceu pelo processo elétrico chamado simpatia do amor. E ao lado da portadora dessas tranças, eis o único lugar vago restante. Ele então preparou novo discurso direto das entranhas:
– Eu parei para conversar com Huckleberry Finn!
O pulso do professor até parou, dir-se-ia. Ficou sem reação. O barulho da sala também virou silêncio. Sem dúvida todos começaram a se perguntar mentalmente se aquele toleimas tinha virado o fio de vez.
– Você—você o quê?!
– Parei para conversar com Huckleberry Finn.
Não havia confusão na audição de qualquer palavra.
– Thomas Sawyer, essa é a mais espantosa confissão que jamais ouvi. Não é qualquer palmatória que limpará tamanha ofensa! Tire sua jaqueta.
O braço do mestre executou os golpes até se cansar, de modo que as estaladas foram aumentando de intervalo entre uma e outra até pararem por completo. Em seguida veio a ordem:
– Agora, senhor, vá, e se sente com as meninas! Que isso lhe sirva de máxima lição.
O tititi que percorreu a sala pareceu desconcertar o garoto. Mas o resultado externo, essa feição de abatimento, fôra em verdade causado por sua adoração infinita ao novo ídolo e aquele medo ou frio na barriga decorrente do ambíguo prazer de receber a honra de sentar-se ao seu lado. Ele sentou na extremidade do grande banco de pinheiro e a garota retraiu-se a sua passagem, jogando a cabeça para o lado. Cotoveladas e piscadinhas e sussurros atravessaram o cômodo, mas Tom sentou quieto, em postura tranqüila, de braços estendidos sobre a longa e baixa carteira diante de si, pelo menos afetando ler seu livro.”
“Então o garoto começou a olhar às furtadelas para a garota. Ela não deixou de notar, franziu os lábios em sentido de repulsa e virou o rosto em relação a ele por completo por um minuto inteiro. Quando ela cautelosamente volveu à posição antiga, viu um pêssego sobre sua carteira. Ela o jogou longe. Tom, com ternura, devolveu-o ao mesmo lugar. Ela o jogou longe de novo, mas com menos animosidade. Tom pacientemente retornou a fruta ao mesmo sítio. Então ela deixou o pêssego ficar lá. Tom garatujou em sua ardósia: ‘Por favor, fique com ele. – Eu tenho mais’. A garota mirou as palavras, mas pareceu não saber interpretá-las. Agora o garoto começou a desenhar alguma coisa, escondendo ao mesmo tempo o conteúdo com a mão esquerda. Por um tempo a garota simplesmente se negou a reparar; mas sua curiosidade humana começou a se manifestar por sinais orgânicos bastante finos e bem-disfarçados. O garoto continuava em seu trabalho, aparentemente inconsciente desses sinais. A garota entrou numa postura como que de uma tentativa passiva de enxergar algo do desenho, mas o garoto não demonstrou nenhuma perturbação diante dessa nova tática. Por fim ela cedeu e cochichou, hesitante:
– Deixa eu ver.
Tom descobriu parcialmente uma horrível caricatura duma casa de duas cumeeiras e uma chaminé com fumaça em espiral. Isso fez com que o interesse da garota pela parte ainda oculta da figura se intensificasse. Ela esqueceu de afetar qualquer discrição. Quando o desenho terminou, e Tom deixou-o a descoberto, ela olhou um instante, depois cochichou:
– É bonito. Desenha um homem.
O artista então compôs um homem no jardim frontal. O homem parecia um guindaste. Pelo seu tamanho ele podia pisar na casa e usá-la como degrau. Mas a garota não era hipercrítica. Satisfez-se com o monstro, e cochichou:
– É um homem bonito. Agora me põe do lado dele.
Tom desenhou uma ampulheta com uma lua cheia no topo, com riscos por membros, sem dizer que armou os dedos protuberantes com um portentoso leque. A garota disse:
– É muito, muito bonita. Eu gostaria de saber desenhar.
– É fácil – cochichou Tom. Eu vou te ensinar.
– Sério? Quando?
– Meio-dia. Você vai pra casa almoçar?
– Eu fico se você ficar.
– Bom – negócio fechado. Qual seu nome?
– Becky Thatcher. Qual o seu? Ah, eu já sei: é Thomas Sawyer.
– Esse é o nome por que me chamam aqui. Eu sou Tom para os íntimos. Você vai me chamar de Tom, não vai?
– Vou.
(…)
– Se eu mostrar, você vai contar.
– Não, eu não vou. Juro, juro, beijo, beijo, que não vou contar.
– Não vai contar pra ninguém? Nunca, enquanto viver?
– Não, nunca vou contar pra ninguém. Agora deixa eu ver.
– Ah, você não quer ver isso!
– Já que você me trata assim, eu vou ver. – E ela pôs sua mãozinha sobre a dele e uma ligeira luta decorreu, Tom fingindo que resistia sinceramente, mas deixando-se vencer aos milímetros até revelar as palavras EU TE AMO.
– Ai, seu malvado! – e deu uma palmada na mão trigueira de Tom, mas corou e pareceu feliz com a situação.
Exatamente nesta conjuntura o garoto sentiu um lento, fatídico agarrão que envolveu sua orelha, e um empuxo firme. Foi dessa maneira, agarrado pela aba, que ele foi conduzido através de toda a sala para seu assento de origem, debaixo de gargalhadas ardentes de toda a classe. Então o professor continuou de pé olhando para baixo, ao seu lado, por agoniantes segundos; até decidir deslocar-se a seu trono, sem mais palavras. Muito embora a orelha de Tom ardesse como o inferno, seu coração rejubilava.”
“na aula de leitura Tom estava de dar pena; na aula de geografia, trocou lagos por montanhas, montanhas por rios, e rios por continentes; na aula de pronúncia e ortografia as palavras mais básicas davam nós em sua língua e em sua pena. Era como esmigalhar com um pisão a medalha platinada que ganhara com tanto esforço no fim de semana.”
SÉTIMO CAPÍTULO
“Enquanto um menino importunasse o carrapato com interesse absorvente, o outro se interessaria na mesma medida. Ambos inclinavam a cabeça sobre a ardósia em sincronia, e ambos estavam tão entretidos que excluíam a existência do mundo exterior.”
“– Não vou deixar ele quieto!
– Você deve – ele tá do meu lado da linha.
– Ei, Joe Harper, de quem é esse carrapato?
– Eu não tô nem aí de quem é o carrapato – ele tá do meu lado da linha, e você não deve tocar nele.
– Então, só vou apostar que vou, e ponto. Ele é meu carrapato e eu vou fazer a merda que eu quiser com ele ou morrer!”
“– Não, não ligo muito pra ratos. Eu gosto é de chiclete.
– Bem lembrado – queria ter um agora.
– Mesmo? Eu tenho alguns. Eu vou deixar você mascar um bocado, mas você tem que me devolver depois!
Isso era vantajoso, então ambos passaram a mascar em turnos, e balançavam as pernas contra o banco, de tanta satisfação.
– Já ‘teve no circo? – perguntou Tom.
– Já, e meu pai vai me levar de novo já, já, se eu me comportar.”
“– Como é? Não tem comparação com nada. Você só fala pra um garoto que não vai ter nenhum outro garoto, a vida toda, só ele! Nenhum outro garoto, nunca, nunca, nunca, e depois vocês se beijam e isso é tudo. Todo mundo pode fazer isso!
– Beijar? Mas pra que beijar?
– Hm, beijar é, você sabe, é—ué, todo mundo beija.
– Todo mundo?!
– É, todo mundo que se ama! Você lembra o que eu escrevi na ardósia?
– Si-im.
– O que foi?
– Não posso te contar.
– Eu posso te contar?
– Si-im… Mas… não agora.
– Não, agora.
– Não, agora não. Ama-anhã…
– Nana nina! Agora. Por favor, Becky. – eu vou cochichar, eu vou cochichar bem baixinho.
Becky hesitava. Tom interpretou o silêncio como consentimento, passou o braço pela sua cintura e sussurrou a frase batida no tom mais brando que encontrou, com seus lábios o mais próximo possível da orelha de Becky. E ainda acrescentou:
– Agora você cochicha pra mim – igualzinho.
Ela resistiu, pelo menos por um hiato, então falou:
– Você olha pra lá pra não me ver, então eu cochicho. Mas você nunca vai contar pra ninguém, tá entendendo, Tom?! Você NÃO vai, Tom, tá bom?!
– Não, deixa. Pode deixar que eu não vou. Vamo’, Becky.
Ele virou o rosto. Ela se inclinou com timidez se aproximando até seu hálito fazer os cachinhos de Tom se moverem, e sussurrou:
– Eu… amo… você!
Então ela o repeliu e correu para longe, circulando as carteiras e bancos, Tom seguindo-a de perto. Becky se refugiou numa das quinas, com seu lencinho cobrindo o rosto. Tom amaciou seu pescoço e implorou:
– Vem, Becky, tá tudo bem. Quase acabando. Falta só o beijo! Não tem por que ter medo – é uma bobagem! Por favor, Becky! – E ele a puxou pelo lenço e as mãos.
Ela foi cedendo aos poucos, deixando as mãozinhas caírem. Seu rosto, fulgurante de tanta resistência, se aproximou do de Tom e se submeteu. Tom encostou sua boca na boca vermelha de Becky e disse:
– Agora terminou, Becky! Está feito! E depois disso, pra sempre, você nunca vai amar ninguém, só eu, e você vai poder casar com ninguém, só comigo, pra todo o sempre e a eternidade. Né?
– Não, nunca vou amar ninguém sem ser você, Tom, e eu nunca vou casar com ninguém, só com você, Tom… E você também não pode casar, só se for comigo, Tom.
– É claro! É óbvio! É parte do ritual. E sempre, indo pra escola, ou quando a gente ‘tiver indo pra casa, você tem que andar comigo… quando ninguém ‘tiver olhando… E você me escolhe e eu te escolho nas duplas, você é sempre meu par, eu sou sempre seu par, porque é assim que se faz quando um casal se compromete.
– É tão legal! Nunca tinha ouvido falar…
– É sempre tudo de bom! Sabe, eu e a Amy Lawrence—
Os olhos arregalados contaram a Tom que ele tinha pisado em ovos – e ele parou, aturdido.
– Ai, Tom! Então eu não sou a primeira que você jurou que ia…!!!
A criança desatou a chorar. Tom disse:
– Não chora, Becky, eu não ligo pra ela mais!!
– Sim, você liga, Tom – você sabe que liga.
Tom tentou circunvolver Becky pelo pescoço, mas ela o empurrou e virou a cara para a parede, sem que as lágrimas parassem de deslizar pelo seu rosto. Tom tentou de novo, cheio de consolações em suas palavras, mas foi repelido outra vez. Era o cume para seu orgulho. Ele escapuliu e se viu a céu aberto. Parou um tempo, em frenesi e aflito, fincando o olhar na porta pelo lado de fora, desejando mil vezes que ela se arrependeria e viria atrás dele. Mas ela não o fez.”
“Ela ouvia com atenção, mas não houve resposta. Ela não tinha como companheiros senão o silêncio e a solidão. Então ela se sentou novamente com o intuito de chorar e infligir um castigo a si mesma. Nesse meio-tempo os alunos começaram a se reagrupar, e ela teve de esconder toda sua tristeza, embora seu coração partido não fosse se emendar. Viver aquela tarde seria um longo calvário, sem ninguém dentre pessoas estranhas que lhe dirigisse um olhar terno ou com quem pudesse desabafar.”
OITAVO CAPÍTULO
“Dava-lhe a impressão que a vida não passava de uma grande peça pregada, na melhor das hipóteses, e ele muito invejava Jimmy Hodges, morto recentemente. Deve ser muito tranqüilo, ele pensava, parar e descansar e sonhar pra sempre, acompanhado do uivar do vento nas folhas e sentindo o contato com a relva e as flores, ali em cima do túmulo. Nada para encher nem lamentar, nunca, nunca mais! (…) Ele quis o melhor, e até ali fôra tratado como um cão – como o mais rueiro dos cães. Ela se arrependeria um dia – talvez quando fosse tarde demais. Se ele pudesse morrer, nem que temporariamente!
“E se ele virasse as costas agora e desaparecesse misteriosamente? E se ele fosse para longe – tão longe, para países desconhecidos além dos mares – e não voltasse jamais! Como ela se sentiria então? A idéia de se tornar um palhaço voltava recorrentemente, só para terminar enchendo-lhe de desgosto no presente. A frivolidade, as piadas e suspensórios de bolinhas soavam-lhe ofensivos, pelo menos quando bancavam os intrusos num espírito desassossegado nos augustos reinos do romance como o seu. Não, melhor seria se converter em soldado, e retornar após longos, longos anos, coroado de medalhas, famoso em todo o país. Não – melhor ainda: ele se aliaria aos índios e caçaria búfalos e seguiria as trilhas montanhosas e as planícies ainda não-documentadas do Extremo Oeste, e no futuro distante se sagraria o pajé de seu povo, todo adornado de penas, temível em pintura de guerra, pavoneando-se à entrada da igreja num domingo qualquer, como se nada, com um grito de desafio que anunciava a derramada de sangue – arrancaria os olhos de seus antigos companheiros de maneira implacável. Não, não, havia algo ainda mais satisfatório que isso! Ele seria um pirata! É isso! agora sim o futuro corria nítido diante de seus olhos, brilhando em esplendor inimaginável. Seu nome encheria as páginas dos jornais do mundo, todos estremeceriam ao ouvi-lo! Com que glória ele iria de porto em porto sacando riquezas, e como sey navio de casco negro dançaria sobre as ondas – ele já tinha um nome, o Espírito da Tempestade, com sua apavorante bandeira à frente!”
“Quem vem é Tom Saywer, o Pirata! – o Vingador Negro da Esquadra Espanhola!”
“A verdade é que uma superstição sua tinha falhado, aqui, uma que ele e tdos os seus camaradas tinham considerado como infalível. Se você enterrasse a bola de gude com certos encantamentos e deixasse-a intocada por 2 semanas, reabrindo o lugar com os mesmos encantamentos na hora indicada, com sílabas perfeitamente espelhadas, você constataria que todas as bolinhas de gude que perdera em toda sua vida estariam agora reunidas num só lugar, não importa quão longe estivessem antes de tudo. Mas agora tudo tinha ido água abaixo, sem lugar a dúvidas. Toda a fé de Tom chacoalhou até as fundações. Ele ouvira muitas vezes de sucessos semelhantes, mas nunca de fracassos. E ele nem sequer lembrava que já havia tentado muitas vezes antes… mas no fim ele esquecia onde havia enterrado a bola de gude, então deixava a questão de lado.”
“Ele sabia que era inútil discutir com bruxas, então deu de ombros. Mas de repente se lembrou da bola de gude que perdera, dando-se ao trabalho de procurá-la com a maior paciência. Nada feito. Voltando a sua casa dos tesouros, postou-se igual se havia postado quando jogou a bola de gude fora. Depois pegou outra bola do bolso e atirou-a de maneira análoga, dizendo:
– Irmão, vá procurar seu irmão!
Ele assistiu o trajeto da bola e depois correu para o lugar. Mas ou o impulso foi fraco ou forte demais. Ele ainda tentou seu plano mais duas vezes. A última repetição, quem diria, deu resultado. As duas bolas de gude estavam a cerca de 30 centímetros uma da outra.”
“– Quem és tu que ousas falar em tal linguagem?
– Eu, tu perguntas! Eu sou Robin Hood, como tua carcaça verminosa logo há de atestar!
– Ó, então és aquele famoso fora-da-lei? Com muita satisfação disputarei contigo quem manda nesses bosques! Em guarda!
Ambos sacaram suas espadas de ripa, largaram seus trapos no chão e começaram uma disputa de esgrima ferrenha, pé ante pé, com cautela e seriedade, em uma melhor de três. Tom disse:
Vamos ver do que és feito! Mais ímpeto!
Eles realmente injetaram mais ímpeto, pintando o sete e transpirando muito. De quando em vez Tom gritava coisas como:
Cai! Cai! Por que não cais?
Não devo, não posso! Por que não cais tu?! Irás te arrepender!
Ora, isso nada é! Não sou homem de cair. Não é o que está escrito no livro. O livro diz, ‘Então, com uma só estocada por trás, ele matou o infeliz Guy de Guisborne.’ Você agora tem que girar e me deixar acertar suas costas!
Não tinha como disputar a autoridade. Joe se virou, recebeu a pancada e simulou a queda.
Agora – disse Joe, se levantando – você tem que deixar eu matar você. Mais que justo!
Ué, não posso, não tá no livro!
Isso é muita sacanagem! Pra mim chega.”
“Os garotos se vestiram, esconderam seus equipamentos e foram embora, lamentando-se de não haver mais bandidos, se perguntando o que a civilização poderia oferecer em troca por tamanha perda. E cada um dizia que preferia mil vezes ser um fora-da-lei por um ano Na Floresta Sherwood que ser Presidente dos Estados Unidos para sempre.”
NONO CAPÍTULO
“Ele ficou feliz, porque o tempo cessou e a eternidade começou. Ele foi caindo no sono a despeito do esforço. O relógio bateu onze vezes, mas Tom não escutou.”
“Huckleberry Finn estava ali, acompanhado de seu gato morto. Os dois se moveram e desapareceram no imenso breu. Depois de meia hora já avançavam pela grama alta do cemitério.”
“– Eu não sabia o que fazia. Eu quero morrer nesse minuto se eu sabia. Era culpa do uísque e da empolgação, eu acho. Nunca usei uma arma na vida, Joe. Sempre briguei, é claro, mas nunca armado. Todos sabem disso. Joe, não abre o bico! Por favor, Joe – você é um bom sujeito! Sempre gostei de você joe, sempre ‘tive do seu lado, e você do meu, é claro. Não lembra? Você não vai contar, vai, Joe?
E a pobre criatura se pôs de joelhos diante do apático assassino, e juntou suas bonitas mãos.
– Não, você sempre foi honesto e direito comigo, Muff Potter, nunca vou dedurar você. É isso o mais justo que um homem pode ser, concorda?
– Joe, você é um anjo. Eu vou sempre lembrar até o fim da vida que você é o cara e me salvou.
E Potter começou a chorar.
– Vamos, vamos, não precisa disso. E nem é hora dessas coisas. Nada de abrir o berreiro aqui. Você sai por um lado, eu por outro – vai logo, e não deixa nenhuma pegada.
Potter foi num trote que logo se converteu numa corrida desabalada. O mestiço ficou olhando ele se distanciar.
DÉCIMO CAPÍTULO
“Huck Finn e Tom Sawyer juram que não vão contar nada pra mãe sobre
Isso e
Eles desejam que
Eles vão
Cair mortos
De cara no chão
Na hora
Se
Eles
Contarem
E vão apodrecer pra sempre.
Huckleberry estava repleto de admiração diante da facilidade de Tom para escrever, e da sublimidade de sua linguagem.”
“– Eu conheço essa voz, é Bull Harbison.(*)
(*) Nota do Autor: Se o Senhor Harbison tivesse um escravo chamado Bull, ele diria simplesmente dele como Bull do Harbison, mas um filho ou cachorro era um nome próprio e completo, nada mais, nada menos que Bull Harbison.
– Ué, isso é bom. Tom, eu estava morrendo de medo. Eu podia apostar que era um cachorro vadio!
O cachorro voltou a uivar. Os corações dos garotos pareciam querer parar novamente.
– Não, esse não é Bull Harbinson! – sussurrou Huckleberry. – …Tom?!
Tom, tremendo de pavor, sucumbium e fitou a rachadura. Seu sussuro ira quase inaudível:
– Ai, Huck, é um cachorro vadio!
– Rápido, Tom, rápido! Quem ele quer?
– Huck, acho que ele quer nós dois. A gente tá junto!
– Ué, Tom, acho que agora tamos fudidos. Eu acho que eu sei muito bem pr’onde tô indo! Eu fui muito malvado.
– Merda! Tudo isso é por ficar matando aula e fazer tudo que as pessoas boas falavam não faz isso, não faz!. Eu podia ser bom, como o Sid, se eu tivesse tentado. Mas não, eu não ia tentar ser, é óbvio. Mas se por um milagre eu escapar… Eu juro, eu juro que vou virar uma pedra na missa de domingo!”
Tom não chegou a chorar, mas fungou.
– Você mau!! – Huckleberry começou a fungar também. – Vamo’ entrar de acordo, Tom Sawyer, você é fichinha, um nabo do que eu sou! Não passa nem raspando! Seu pior lado é melhor que meu lado mais bom! Ai, Jesus, Jesus, Jesusinho… Se eu tivesse metade das suas chances…
Tom engasgou e disse:
– Olha, Hucky, olha! Ele ficou des costas pra gente!
Hucky de fato olhou, e não sem estar prenho de alegria!
– Pelo pajé! Ele tá des costas! Ele ‘tav’assim?
– ‘Tava, mas eu ‘tava tão tonto que não pensei. Isso é uma peça… o tinhoso faz enigma… Agora quem você acha que ele tá atrás?
O uivo parou. Tom tapou as orelhas.”
“– Fala, Tom… Dizem que um cachorro vadio veio uivando perto da casa do Johnny Miller, lá pra meia-noite, umas duas semanas atrás! E um noitibó pousou no corrimão e começou a cantar, nessa mesma noite! E ninguém morreu por lá até hoje!
– Ora, eu sabia dessa. E suponho que não morreu. Gracie Miller não caiu na cozinha e se queimou feio no fogo, logo no próximo sábado?
– Sim, sim, mas ela não morreu. E pior, ela tá melhorando da queimadura.
– ‘Tá tudo bem, mas você espera e verá. Ela tá marcada pra ir, tão finada quanto o Muff Potter! É o que os pretos dizem, e eles sabem mais dessas coisas, Huck!
Então eles se separaram, sem deixar, cada qual, de cogitar.”
“Ele chorou, pediu perdão, prometeu se endireitar de novo e de novo, depois disse que podia ir embora, sentindo que vencera na argumentação, mas não de modo perfeito: estava com um mínimo de confiança.
A verdade é que ele saiu de lá tão miserável que nem teve vontade de se vingar de Sid. Era debalde, portanto, que Sid tinha empreendido a fuga pelo portão traseiro. Ele se arrastou absolutamente arrasado até a escola, e recebeu o costumeiro açoite, com Joe Harper, por matar aula no dia anterior. Mas sua mente não estava no castigo em momento algum. Na verdade, seu coração: ele tinha coisas mais pesadas que suportar. Nenhuma dessas bagatelas lhe suscetibilizava as veias.”
DÉCIMO PRIMEIRO CAPÍTULO
“Não era nem meio-dia e a vila inteira já estava eletrizada com as péssimas notícias. Ninguém precisava de nenhum telegrama doutra parte. Não, não havia telegramas ainda na vila! Mas a estória foi de pé de ouvido em pé de ouvido, de bípede para bípede, como costumava ser. De grupo em grupo, de casa em casa, com pouco menos do que a velocidade miraculosa dos cabos e feixes elétricos. O diretor declarou que após as doze seria feriado. Seria muito estranho que o não fizesse.
Uma faca suja foi encontrada perto do cadáver, e testemunhas declararam reconhecê-la como pertencendo a Muff Potter (…) também foi espalhado por aí que a cidade foi saqueada por esse ‘assassino’ (o povo nunca é devagar quando o assunto é eleger evidências e chegar a vereditos definitivos), porém ele não pôde ser encontrado.”
“Toda a cidade estava em procissão ao cemitério. Tom não sentia mais seu coração pesado, e se juntou à procissão, e não porque ele preferiria mil vezes estar em qualquer outro lugar, mas porque uma fascinação indescritível e assustadora o puxava.”
“Sid disse:
– Tom, você se mexe e fala tanto no seu sono que não consigo dormir metade do tempo.
Tom ficou pálido e baixou os olhos.
– É um mau sinal – atalhou tia Polly, com severidade. – O que é que você tem na cabeça, Tom?
– Nada. Nada qu’eu saiba. – E no entanto a mão do garoto tremeu a ponto de derramar o café.
– E você fala cada coisa! – Sid continuou. – De madrugada você disse: É sangue, é sangue, é o que é!… Você não parou de repetir isso. E você disse também: Pára de me atormentar, eu vou contar! Contar o quê? O que é que você vai contar?
Tudo dançava diante de Tom. Não tinha como adivinhar o que iria acontecer mas, por sorte, tia Polly deixou de ligar muito para o estado de Tom e sem saber ela foi um tranqüilizante para ele. Indagou:
– Xi! É esse maldito assassinato… Eu mesma sonho com isso toda noite. Às vezes até sonho que sou eu a assassina.
Mary disse que ela se sentia do mesmo jeito, ficou muito afetada. Sid pareceu satisfeito. O fato é que Tom se afastou de todas as testemunhas de sua sofreguidão o mais rápido que pôde. Depois disso ele ainda reclamaria de dor de dente uma semana inteira. Toda noite ele amarraria um lenço em sua mandíbula. Vai saber se Sid não estava à espreita do corpo adormecido de Tom! E é o que ele fazia, e ele ainda removia a bandagem e ficava a escutar os murmúrios de Tom, captando cada sílaba discernível. Ele fazia de modo que quando Tom acordava não podia suspeitar de que a bandagem fôra desamarrada e amarrada de novo. Mas o pesar e a intranqüilidade notívaga de Tom foram reduzindo a cada dia e a estória da dor de dente já não convencia mais ninguém, nem fazia sentido para ele, e foi deixada de lado.”
DÉCIMO SEGUNDO CAPÍTULO
“Ele não queria mais saber de guerra, nem de ser pirata.”
“Ela acreditava em tudo que se publicava nesses jornais sobre “medicina”, e comprava qualquer teoria frenológica. A ignorância solene daquelas páginas era seu oxigênio. Toda esse besteirol sobre ventilação, e como dever-se-ia ir para a cama, e como acordar melhor, o que comer, o que beber, quanto se exercitar, qual postura mental conservar durante o dia, que roupa vestir, tudo era palavra sagrada para ela. Ainda assim, ela era incapaz de observar que todas as recomendações do número atual não faziam senão contradizer todas as indicações do número anterior. Ela era tão simples de coração e confiada como o dia era longo; a vítima perfeita. Ela reunia seus periódicos medicinais de charlatania e seus remédios-engodo e, armada para a guerra, cavalgava seu cavalo de batalha espectral, com ‘o inferno atrás’. Mas o que ela não podia suspeitar é que estava longe de ser um anjo que curava e o bálsamo de Gileade reencarnado, verdadeira bênção da vizinhança.”
“Tom, de forma anti-natural, foi ficando mais e mais melancólico, lívido, deprimido, enfim. Ela acrescentava banhos quentes, banhos sentado, banhos de ducha, e até imersões. O garoto continuava tão lúgubre quanto um ataúde. Ela começou a receitar, junto com tudo que continha água na higiene, farinha de aveia fina à dieta do garoto, sem falar em bandagens em pontos ‘vitais’ das articulações. Para ela, era como calcular quantos miligramas ou mililitros de algo iam para a panela – o garoto era sua cobaia de placebos que ninguém sabia placebos.”
“– Eu nunca vi nada igual. O que pode ter feito esse gato ficar assim?
– Eu sei lá, tia Polly. Gatos gostam de pregar peças em humanos.”
“– Pois então, senhor, por que raios você faria uma coisa dessas com uma pobre criatura incapaz de se defender, pode-se saber?
– Foi por pena – porque ele não tem nenhuma tia.
– Não tem nenhuma tia! – seu paspalho. O que é que tem a ver isso?
– Pra caramba! Porque se ele tivesse uma ela é que queimaria ele! Ela ia fritar as tripas dele com a mesma maldade dm homem!”
“Tom chegou à escola com tempo de sobra. Aliás, foi logo notado que esse acontecimento extraordinário vinha se repetindo todos os dias. E agora ele ficava ali perto do portão do parquinho em vez de jogando com seus camaradas. Ele estava doente, ele dizia, e parecia estar.”
DÉCIMO TERCEIRO CAPÍTULO
“Joe opinava que podia-se viver como ermitão, nos recessos profundos da caverna mais remota; e daí que se morresse em poucos anos de frio, fome, solidão? Depois de ouvir Tom, porém, ele percebeu que havia vantagens conspícuas numa vida dedicada ao crime, então consentiu em se tornar pirata.”
“Quem seriam as vítimas de suas piratarias ainda não era um problema na cabeça dos garotos. Foram atrás de Huckleberry Finn, que aderiu de pronto, porque para ele tudo era indiferente. Eles se separaram, combinando de se reencontrar na margem do rio duas milhas acima da vila, na melhor hora – meia-noite.”
“– Quem é?
– Tom Sawyer, o Sombrio Vingador da Marinha Espanhola. Digam seus nomes.
– Huck Finn, o Mão-Rubra, e Joe Harper, o Terror dos Mares.
Tom é que havia concebido esses títulos, das estórias de pirata que conhecia.
– Tá bom. Hey! Dêem a contrasenha.
Dois ásperos sussurros entregaram as mesmas sílabas malditas simultaneamente, ecoando na noite escura:
– San-gue!”
“O Sombrio Vingador seguia imóvel, de braços cruzados, “pensando pela última vez” nas cenas de sua felicidade pregressa, e também seus sofrimentos recentes, e desejando que “ela” pudesse vê-lo agora, longe, em alto-mar, encarando o perigo e a morte de coração aberto, dirigindo-se à destruição com um sorriso cruel nos lábios.”
“Aproximadamente às duas da madrugada a jangada ancorou na barreira 200 metros acima da cabeça da ilha, e ela ficou a balançar de um lado pro outro até a toda a carga fosse desembarcada.”
“– A verdade é que um pirata não faz nada, Joe, quando ele está em terra. Mas um ermitão fica rezando toda hora, e nunca se diverte, é um solitário.
– É, é assim mesmo – disse Joe. – mas eu nunca pensei a sério sobre isso, sabe? Eu preferia mesmo é ser pirata, agora que sei como é.
– A verdade é que as pessoas não falam dos ermitões, hoje, igual falavam. Mas um pirata… um pirata é sempre respeitado! E um ermitão tem que dormir nos lugares mais duros, e pôr andrajos e cinzas na cabeça, e ficar parado na chuva e—
– Mas pra que colocar andrajos e cinzas na cabeça? – perguntou de repente Huck.
– Eu sei-lá! Mas eles têm que fazer isso! Ermitões têm que fazer essas coisas. Não dá pra ser ermitão e não fazer essas coisas.
– A merda que eu ia fazer! – respondeu Huck.
– Ué, o que você ia fazer?
– Eu sei-lá! Mas eu não ia fazer essa porra!
– Mas Huck, você ia ter que fazer. Como você ia se safar?
– Uai, só não ia agüentar. Sairia pro mundo, fugiria.
– Fugir! Ora, você ia ser um bom dum ermitão de araque! Uma desgraça dos ermitões!”
“Mas os outros garotos lhe disseram que as roupas boas viriam logo, assim que começassem a saquear. Fizeram-no entender que sua roupa de maltrapilho já eram o bastante pra começar, se bem que piratas mais ricos já se lançavam aos mares com o vestuário adequado.”
“Eles começaram a pressentir que fizeram mal em fugir assim. Logo pensaram na carne roubada, e a tortura de verdade começou. Eles começaram a lembrar de quantas maçãs e guloseimas já não tinham roubado antes. Mas veja, a consciência e a memória não se alimentam sem a comida real.”
“Eles então concordaram que enquanto continuassem no ramo o negócio da pirataria não seria manchado pelo do roubo. Aí sim a consciência deu uma trégua, e esses curiosamente inconsistentes piratas conseguiram cair no sono dos justos.”
DÉCIMO QUARTO CAPÍTULO
“‘Besourinha, besourinha, voe logo para casa, sua casa está em chamas, seus filhos sozinhos’, e então a besouro-fêmea estendeu as asas e saiu voando, o que em nada não surpreendeu o garoto”
“Eles não sabiam que quão mais rápido um peixe de água fresca é assado após a pesca melhor fica. E também não pensaram muito sobre como dormir ao relento, passar o dia em atividades silvícolas, banhos de rio e tudo o mais agiam como excelentes temperos para qualquer comida.”
“Mesmo Finn, o Mão-Rubra, já sonhava com o alpendre de sua casa e sua coleção de tambores vazios. Mas cada qual se envergonhava de sua fraqueza, e ninguém era valente o bastante para emitir o que pensava.”
“Subitamente uma aura de heroísmo os revestia. Um tremendo triunfo. Estavam perdidos. Estavam sendo lamentados no vilarejo. Corações se rompiam por causa deles, ou da ausência deles. Lágrimas jorravam, denunciando culpas reprimidas perante esses pobres garotos finalmente aparecendo à luz do dia, desvelando arrependimentos e remorso. E o melhor de tudo: não podia haver outro assunto na cidade inteira, e os outros garotos sentiriam inveja, tanto quanto uma notoriedade tão macabra pudesse ser invejada. Tudo isso estava ótimo. Valia a pena ser pirata, afinal.”
DÉCIMO QUINTO CAPÍTULO
“– Sid! – Tom sentiu o olhar da velha sobre si, mesmo que não pudesse vê-la. – Nenhuma palavra contra o meu Tom, agora que ele se foi! Deus vai tomar conta dele – jamais se preocupe com essas coisas, senhor! Ah, senhora Harper, eu não sei como fazer isso passar! Eu não consigo fazer passar! Ele era tão querido pra mim, mesmo atormentando meu coração e quase botando meus bofes pra fora!
– O Senhor dá e o Senhor tira – Abençoado seja o nome do Senhor! Mas é muito duro – Ah, como é duro! No último sábado meu Joe estourou uma bombinha bem debaixo do meu nariz e eu dei-lhe um bofetão que deixou ele no chão. Se eu soubesse que logo mais… Ah, se eu pudesse voltar no tempo eu teria dado um abraço no meu Joe e dado as bênçãos pelo que ele fez!”
DÉCIMO SEXTO CAPÍTULO
“Uma dificuldade se apresentava: índios hostis não podiam entrar em guerra sem primeiro fazer as pazes, e isso não era concebível sem fumar um cachimbo da paz. Não havia nenhum outro processo do qual eles tivessem ouvido falar. Dois dos selvagens quase desejaram em voz alta naquele momento não ter deixado de ser piratas. Mas, as coisas como eram, não havia outro jeito. Fingindo estar à vontade como melhor podiam, providenciaram o cachimbo e passaram de mão em mão, cada qual dando sua baforada, na forma estabelecida.
E finalmente os garotos estavam gratos de terem se tornado selvagens, porque tinham ganho algo: podiam dar umas baforadas sem ter de passar o tempo procurando uma faca perdida. Não estavam fora de si o bastante para se sentirem aporrinhados de verdade. Não queriam jogar essa oportunidade única fora por falta de esforço. Não, eles praticaram cautelosamente, depois da refeição, com êxito razoável, e passaram uma tarde esplêndida. Sentiam-se mais orgulhosos e contentes em suas novas posições do que se estivessem de fato no escalpo e na pele das Seis Nações.¹”
¹ As tribos nativas norte-americanas Mohawks, Oneidas, Onandagas, Cayugas, Senecas (todos somados eram os iroqueses) e os Tuscaroras, inimigos daqueles.
DÉCIMO SÉTIMO CAPÍTULO
“Houve então uma disputa para determinar quem vira os meninos mortos por último, e cada um puxava a lúgubre façanha para si, e fornecia até provas, mais ou menos adulterada pela testemunha. E quando finalmente ficou estabelecido quem afinal viu os meninos mortos por último, e quem foi o último a trocar palavras com eles, os partidos eleitos ganharam uma espécie de aura, e foram objeto da estupefação e inveja de todo o resto. Um pobre rapaz, sem muito de que se gabar, disse com orgulho se lembrar de que ‘Tom Sawyer me deu uma sova certa vez’.
Mas essa tentativa de ter uma recordação venerável foi por água abaixo. Maioria dos garotos da vila podia dizer o mesmo, o que nivelava a distinção.”
“Um hino enternecedor foi cantado, e assim dizia a letra: ‘Eu sou a Ressurreição e a Vida’.
À medida que o serviço funerário prosseguiu, o pároco, pintando uma tal figura e uma tal imagem dos garotas perdidos, dessas promessas abortadas, da rareza de cada alma do bando, passou a acreditar na própria imagem que construía e foi abatido pelo remorso de, durante suas vidas, não ter-lhes dado o devido crédito, tendo olhos apenas para seus pecados e falhas. O ministro relatou ainda uma anedota para quase cada garoto da comitiva, que demonstrava suas naturezas doces e generosas, e para as pessoas se tornou mais fácil enxergar quão nobres e edificantes eram genuinamente tais episódios, mas a memória de que no passado tais momentos tivessem se assemelhado a velhacarias e torpezas das grandes só tornava o presente mais amargo e difícil de conciliar. A congregação se sensibilizava mais e mais pela vida das pobres criaturas, que antes só recebiam desconfiança e o jugo do chicote. As carpideiras não foram portanto as únicas a chorar no enterro. Mesmo o pastor não se conteve e se desmanchou sobre o púlpito.
Houve um farfalhar na galeria, não notado por ninguém. Um momento depois a porta da igreja rangeu, o ministro ergueu seus olhos úmidos para enxergar por sobre o lenço e pôs-se transfixo! Primeiro um par de olhos, depois dois, depois mais, seguiram o gesto do ministro. Como que fundida num só organismo, a congregação ergueu-se e fitou três garotos mortos caminhando pela nave, Tom na frente, Joe a seguir, Huck por último, todos em absolutos farrapos, mas Huck pior que os outros dois! Eles tinham se escondido na galeria abandonada durante todo o sermão!
Tia Polly, Mary e os Harpers se jogaram para abraçar seus restaurados ao reino dos vivos, cobriram-nos de beijos e deram as graças aos céus, enquanto o pobre Huck seguia cabisbaixo e pouco à vontade, sem saber o que fazer ou onde se esconder de tantos olhares perscrutantes.”
“– Tia Polly, não é justo. Alguém tem de estar feliz por ver o Huck.
– E tem mesmo. Eu estou feliz por ver ele, pobre coisa órfã!
E a atenção amorosa que a tia Polly prestou a Huck foi justamente a única coisa capaz de deixar o menino ainda mais embaraçado do que já estava.
De repente o ministro gritou com todo o ímpeto de sua voz:
– Louvai a Deus por todas as bênçãos que Ele derrama – cantai! – e ponde todos os vossos corações nisto!”
“Tom Sawyer o Pirata olhou ao redor entre todos os garotos cheios de inveja e confessou diante de seu coração que esse era o momento de sua vida que lhe dava mais orgulho.”
“Tom recebeu mais abraços e beijos aquele dia – baseado nos humores de tia Polly – do que em todo o ano anterior. E ele tinha dificuldade em saber se o que eles mais expressavam era agradecimento ao bom Deus ou afeição pelo pequeno.”
DÉCIMO OITAVO CAPÍTULO
“Esse era o grande segredo de Tom – o plano para regressar ao lar com seus irmãos-piratas e assistir seus próprios funerais.”
“Tia Polly e Mary foram muito amáveis com Tom, e muito atentas a suas necessidades. Havia uma quantidade infreqüente de conversa. No decurso de uma delas tia Polly disse:
– Sabe, não digo que não tenha sido uma ótima piada, Tom, deixar todo mundo sofrendo bas’camente uma semana pra vocês garotos ficarem no bem-bom. Mas é uma pena que você pudesse ter o coração tão duro a ponto de fazer essa piada justo comigo. Se você podia vir num tronco para ver seu funeral, creio que podia ter vindo me ver só para me dar uma pista de que não estava morto de verdade.
– É, você podia, Tom – disse Mary – e eu acho que você teria se tivesse pensado nisso.
– Teria, Tom? – perguntou tia Polly, sua face reluzindo melancolicamente – Teria, se tivesse pensado nisso?
– Eu… não sei. Teria estragado tudo.
– Tom, eu esperava que você me amasse desse tanto. – respondeu tia Polly num tom enlutado que desconcertou o garoto – Já seria algo se você se importasse o bastante para pensar a respeito, mesmo que não fizesse.”
– Sid teria pensado. E aliás Sid teria pensado e vindo fazer. Tom, você vai olhar pra trás um dia, quando for muito tarde, e vai querer ter se importado um pouquinho mais comigo, quando não custava absolutamente nada!
– Não é nada de mais. Um gato seria capaz de sonhar com alguém. Mas é melhor que nada, eu acho. Com o que você sonhou?
– Quarta-feira à noite sonhei que você estava sentada ali do lado da cama, e Sid sentado perto da caixa de lenha, e Mary perto dele.
– Aconteceu isso mesmo. Acontece sempre. Fico feliz que seu sonho tenha se preocupado em nos mostrar como somos de verdade.
– Sonhei também que a mãe do Joe Harper estava aqui.
– Ué, ela tava aqui! Você sonhou algo mais?
– Ah, muita coisa. Mas já esqueci quase tudo agora.
– Tente se lembrar; não consegue?
– De algum jeito acho que o vento – o vento soprou a – a
– Tente com mais ímpeto, Tom! O vento realmente soprou alguma coisa. Vamos!
Tom apertou os dedos em sua testa por um ansioso minuto e então pronunciou:
– Lembrei! Lembrei! O vento apagou a vela!
– Misericórdia de nós! Continue, Tom, continue!
– E se não me engano nesse momento você falou: “Ué, eu acho que aquela porta—”
– Prossiga, Tom!
– Deixa eu pensar um pouco. Só um momento. Ah sim, você disse que acreditava que a porta estava aberta.
– Assim como estava sentada aqui, eu fiz isso! Não fiz, Mary? Continue!
– E depois… e depois… Não tem como ter certeza, mas era como se você mandasse o Sid conferir e… e…
– E então, e então?!? O que eu fiz o Sid fazer, Tom? O quê, o quê?
– Você fez ele… você… Ah, você mandou ele fechar a porta!
– Pela nossa terra santa! Eu nunca ouvi uma coisa assim em toda a minha vida! Não me diga que não existe nada nos sonhos… Sereny Harper tem que saber disso antes que eu seja uma hora mais velha. Quero só ver ela desmerecer esse sonho com aquele papinho anti-superstição. Que mais, Tom?
– Ah, tudo tá mais claro como o dia agora. Depois você disse que eu não era ruim, só muito malcriado e bicho-do-mato, e de modo algum mais responsável que… que… eu acho que você disse que um potro ou coisa assim.
– E foi isso mesmo! Deus é o maior! Continue, Tom!
– E depois você começou a chorar.
– E foi isso mesmo. Foi isso mesmo que eu fiz. Não a primeira vez. E depois…
– Depois a senhora Harper também começou a chorar e disse que o Joe era igual, e desejou que ela não tivesse chicoteado ele por pegar o creme que ela mesma tinha vomitado…
– Tom! O períspirito estava sobre você! Você estava profetizando – é o que você estava fazendo! Ó terra bendita do Senhor, continue, continue, Tom!
– Então o Sid disse… disse…
– Eu acho que eu não falei nada, não – interpolou Sid.
– Sim, você disse, Sid – atalhou Mary.
– Aquietem suas cabeças e deixem o Tom falar. O que foi que ele disse, Tom?
– Ele disse – eu acho que ele disse que esperava que eu ‘tivesse melhor pr’onde eu tinha ido, mas que se eu tivesse sido melhor algumas vezes…
– É isso, você escutou isso?!? Foram essas mesmas as suas palavras!
– E você calou a boca dele de modo ríspido.
– Eu calei sim! Acho que foi um anjo que me auxiliou. Tinha um anjo lá, nalgum lugar!
– E a senhora Harper contou do Joe assustando ela com uma bombinha, e você falou de Pedro e do calmante…
– Tão genuíno quanto eu estar viva!
– E acho que depois falaram sobre drenar o rio pra procurar a gente, e sobre o funeral ser domingo, e depois você e irmã Harper mais velha se abraçaram e choraram, e elas foram embora.
– Aconteceu assim mesmo! Assim tintim por tintim, tão certo como eu estar sentada aqui com essas pernas! Tom, você não podia contar com mais precisura nem que ‘tivesse aqui na hora! E depois o quê? Desembucha, Tom!
– Acho que você rezou pra mim – e eu podia ver você e ouvir cada palavra que você disse. Você foi pra cama, e eu fiquei com tanta pena que escrevi num pedaço de casca de sicômoro “Não morremos… A gente só deu um tempo sendo piratas”. E deixei na mesa do lado da vela. E depois você parecia tão em paz dormindo… acho que eu fui e me inclinei e te dei um beijo nos lábios.
– Você fez isso, Tom? Fez isso? Eu te desculpo por tudo por esse gesto! E ela prendeu o garoto num abraço tão apertado que fê-lo se sentir o pior dos vilões.
– Muito bonito, Tom, mesmo sendo só um sonho – Sid, soliloquando, deixou-se ouvir.
“Que herói não tinha se tornado Tom! E ele não andava mais saltitando e empinando o nariz, como antes, mas numa postura digna, não sem molejo, como a de um pirata que sabe que é alvo das atenções. Ele tentava não transparecer que reparava nos olhares ou escutava os comentários que despertava ao passar, mas eles eram como manjares para Tom. Os garotos mais novos que ele se apinhavam em seus tornozelos, orgulhosos por estarem por perto e por serem tolerados por Tom tanto quanto alguém se junta à bateria à cabeça duma procissão ou sobe ao elefante que capitaneia a caravana à cidade. Garotos da sua idade tentavam fingir que ele nunca esteve ausente da vila, mas a verdade é que estavam corroídos de inveja. Dariam tudo pela mesma pele bronzeada de Tom, ou sua reluzente notoriedade súbita. E Tom agradecia o fato de ter tantos puxa-sacos, não desejando o fim do espetáculo, que ele achava inclusive mais divertido que a chegada de um circo.
“Nessas circunstâncias, seria estranho que o silêncio de Joe e Tom perdurasse por mais tempo. E então eles cederam e começaram a desabafar e aumentar suas histórias. Foi o acme da glória.
Tom decidiu que estava oficialmente em condições de declarar a independência em relação a Becky Thatcher agora. Bastava-lhe a glória não-amorosa. Agora tão distinguido por suas façanhas, quem sabe ela é que não se arrastasse atrás dele desejando ‘fazer as pazes’. Que ela tentasse, pois ele bancaria o perfeito indiferente. E chegou o dia em que ela apareceu em seu campo de visão. Tom fingiu que não a viu. Ele se moveu e se juntou a um grupo de garotas e garotos, puxando conversa. E ele percebeu que ela tentava capturar sua atenção, com o rosto vermelho e se movendo com graça e alegria para trás e para diante, o olhar nunca parado. Mas ela queria dar a impressão que na verdade estava atrás de outros garotos, ou sempre ocupada com alguém, para despertar-lhe ciúmes. E constantemente ela gargalhava alto para demonstrar que não estava carente de nada. Tom não era tolo e percebeu que ela sempre agia do modo mais eufórico bem perto dele, o que era suspeito. Toda a vaidade viciada de Tom se alimentava dessa atitude de Becky. Portanto, a tática da garota ia mal, e Tom só aumentava seu distanciamento e presunção. Becky se deu conta eventualmente e acabou desistindo. Ela notou que Tom se aproximara de Amy Lawrence mais que de qualquer outra pessoa em particular. Ela não conseguiu conter o desconforto. Mesmo tentando sair de cena, o fato era que seus pés tinham-na fincado no chão, e ela se sentia imobilizada. Ela disse a uma garota, praticamente às costas de Tom, com vivacidade simulada:
– Ora, Mary Austin! Marota, por que não apareceu no domingo?
– Mas eu vim; você não me viu?
– Ora, de modo algum. Você veio mesmo? Onde você sentou?
– Na sala da senhora Peters, como sempre. Inclusive, eu te vi.
– Você me viu? Ora, que engraçado, porque não te notei. Eu queria te falar do piquenique.
– Ah, que legal! Quem vai dar?
– Minha mãe vai dar um piquenique.”
– Ai, maravilha, espero que ela deixe eu participar!
– Vai sim! O piquenique é pra mim mesmo. Ela vai deixar qualquer um que eu queira, e quero que você apareça.
– Muito obrigada pela gentileza. E quando vai ser?
– Hm, acho que perto do período de férias.
– Vai ser muito divertido! Você vai chamar todos os garotos e garotas?
– Sim, todo mundo que é meu amigo – ou que queira ser. – Então ela olhou em direção de Tom, furtivamente, mas continuou falando com Amy Laurence sobre a terrível tempestade na ilha e como um relâmpago deixou o grande sicômoro em pedaços, caindo a um metro dele.
– Ei, posso ir? – disse Grace Miller.
– Sim.
– E eu? – essa foi Sally Rogers.
– Sim.
– Eu também? – Susy Harper dessa vez. – Com o Joe?
– Podem.
E essa cena continuou, cheio de bater de palmas, até que todo o grupo tinha, indivíduo após indivíduo pedido sua permissão, exceto Tom e Amy. Tom se virou e afastou com cálculo, ainda conversando, puxando Amy consigo. Os lábios de Becky tremeram e seus olhos umedeceram.”
“Os ciúmes borbulharam no sangue de Tom. Ele começou a se odiar por jogar fora a chance de reconciliação que Becky lhe oferecera.”
“ela sabia que estava ganhando a guerra, e estava contente por vê-lo sofrer enquanto ela mesma sofria.”
– Qualquer outro garoto! – Tom pensou, rangendo os dentes. – Qualquer outro da cidade, menos aquele espertinho de Saint Louis que acha que se veste como um dândi e que é aristocracia! Muito bem, eu te dei uma sova a primeira vez que você pisou nessa cidade, senhor, e vou te dar outra sova! Espere pelo seu! Só espere! Eu só vou—
E ele acompanhou a ameaça mental pelos gestos físicos de espancar um garoto invisível.
“Becky continuou seu teatro com Alfred, mas como os minutos fossem passando e um Tom amargurado e mordido pelos ciúmes não apareceu sua vitória parecia agora um céu feio e cinzento, e ela foi perdendo o interesse. Ela foi ficando sisuda e distraída, logo depois melancólica. Duas ou três vezes ela focou a audição ao ouvir passos, mas eram falsos alarmes. Tom não veio. Ela por fim se arrependeu de levar sua provocação tão longe.”
DÉCIMO NONO CAPÍTULO
“– Auntie, I know now it was mean, but I didn’t mean to be mean. I didn’t, honest. And besides, I didn’t come over here to laugh at you that night.
– What did you come for, then?
– It was to tell you not to be uneasy about us, because we hadn’t got drowned.”
VIGÉSIMO CAPÍTULO
“– What a curious kind of a fool a girl is! Never been licked in school! Shucks! What’s a licking! That’s just like a girl – they’re so thin-skinned and chicken-hearted. Well, of course I ain’t going to tell old Dobbins on this little fool, because there’s other ways of getting even on her, that ain’t so mean; but what of it? Old Dobbins will ask who it was tore his book. (…) Girls’ faces always tell on them. They ain’t got any backbone. She’ll get licked. Well, it’s a kind of a tight place for Becky Thatcher, because there ain’t any way out of it.”
VIGÉSIMO PRIMEIRO CAPÍTULO
“There is no school in all our land where the young ladies do not feel obliged to close their compositions with a sermon; and you will find that the sermon of the most frivolous and the least religious girl in the school is always the longest and the most relentlessly pious. But enough of this. Homely truth is unpalatable.”
VIGÉSIMO SEGUNDO CAPÍTULO
“to promise not to do a thing is the surest way in the world to make a body want to go and do that very thing. Tom soon found himself tormented with a desire to drink and swear”
“The dreadful secret of the murder was a chronic misery. It was a very cancer for permanency and pain.
Then came the measles. [catapora ou sarampo?]
During 2 long weeks Tom lay a prisoner, dead to the world and its happenings. He was very ill, he was interested in nothing. When he got upon his feet at last and moved feebly downtown, a melancholy change had come over everything and every creature. There had been a ‘revival’, and everybody had ‘got religion’, not only the adults, but even the boys and girls. Tom went about, hoping against hope for the sight of one blessed sinful face, but disappointment crossed him everywhere. He found Joe Harper studying a Testament, and turned sadly away from the depressing spectacle. He sought Ben Rogers, and found him visiting the poor with a basket of tracts. He hunted up Jim Hollis, who called his attention to the precious blessing of his late measles as a warning. Every boy he encountered added another ton to his depression; and when, in desperation, he flew for refuge at last to the bosom of Huckleberry Finn and was received with a Scriptural quotation, his heart broke and he crept home and to bed realizing that he alone of all the town was lost, forever and forever.
And that night there came on a terrific storm, with driving rain, awful claps of thunder and blinding sheets of lightning. He covered his head with the bedclothes and waited in a horror of suspense for his doom; for he had not the shadow of a doubt that all this hubbub was about him. He believed he had taxed the forbearance of the powers above to the extremity of endurance and that this was the result. It might have seemed to him a waste of pomp and ammunition to kill a bug with a battery of artillery, but there seemed nothing incongruous about the getting up such an expensive thunderstorm as this to knock the turf from under an insect like himself.
By and by the tempest spent itself and died without accomplishing its object. The boy’s first impulse was to be grateful, and reform. His second was to wait – for there might not be any more storms.”
“When he got abroad at last he was hardly grateful that he had been spared, remembering how lonely was his estate, how companionless and forlorn he was. He drifted listlessly down the street and found Jim Hollis acting as judge in a juvenile court that was trying a cat for murder, in the presence of her victim, a bird.”
VIGÉSIMO TERCEIRO CAPÍTULO
“he did not see how he could be suspected of knowing anything about the murder, but still he could not be comfortable in the midst of this gossip. It kept him in a cold shiver all the time. He took Huck to a lonely place to have a talk with him. It would be some relief to unseal his tongue for a little while; to divide his burden of distress with another sufferer.”
“– Why, Tom Sawyer, we wouldn’t be alive 2 days if that got found out. You know that.
(…) After a pause:
– Huck, they couldn’t anybody get you to tell, could they?
– Get me to tell? Why, if I wanted that halfbreed [mestiço] devil to drownd me they could get me to tell. They ain’t no different way.”
“– You’ve been mighty good to me, boys – better’n anybody else in this town. And I don’t forget it, I don’t. Often I says to myself, says I, ‘I used to mend all the boys’ kites and things, and show ‘em where the good fishin’ places was, and befriend ‘em what I could, and now they’ve all forgot old Muff when he’s in trouble; but Tom don’t, and Huck don’t – they don’t forget him, says I, ‘and I don’t forget them.’ Well, boys, I done an awful thing – drunk and crazy at the time – that’s the only way I account for it – and now I got to swing for it, and it’s right. Right, and best, too, I reckon – hope so, anyway. Well, we won’t talk about that. I don’t want to make you feel bad; you’ve befriended me. But what I want to say, is, don’t you ever get drunk – then you won’t ever get here. Stand a litter furder west – so – that’s it; it’s a prime comfort to see faces that’s friendly when a body’s in such a muck of trouble, and there don’t none come here but yourn.”
“Tom went home miserable, and his dreams that night were full of horrors. The next day and the day after, he hung about the courtroom, drawn by an almost irresistible impulse to go in, but forcing himself to stay out. Huck was having the same experience.”
“Counsel for Potter declined to question him. The faces of the audience began to betray annoyance. Did this attorney mean to throw away his client’s life without an effort?”
“The perplexity and dissatisfaction of the house expressed itself in murmurs and provoked a reproof from the bench. Counsel for the prosecution now said:
– By the oaths of citizens whose simple word is above suspicion, we have fastened this awful crime, beyond all possibility of question, upon the unhappy prisoner at the bar. We rest our case here.”
“-Your honor, in our remarks at the opening of this trial, we foreshadowed our purpose to prove that our client did this fearful deed while under the influence of a blind and irresponsible delirium produced by drink. We have changed our mind. We shall not offer that plea. [Then to the clerk:] Call Thomas Sawyer!
A puzzled amazement awoke in every face in the house, not even excepting Potter’s. Every eye fastened itself with wondering interest upon Tom as he rose and took his place upon the stand. The boy looked wild enough, for he was badly scared. The oath was administered.
– Thomas Sawyer, where were you on the 17th of June, about the hour of midnight?
– Tom glanced at Injun Joe’s [Joe o Mameluco] iron face and his tongue failed him. The audience listened breathless, but the words refused to come. After a few moments, however, the boy got a little of his strength back, and managed to put enough of it into his voice to make part of the house hear:
– In the graveyard!
– A little bit louder, please. Don’t be afraid. You were—
– In the graveyard.
A contemptuous smile flitted across Injun Joe’s face.
– Were you anywhere near Horse Williams’ grave?
– Yes, sir.
– Speak up – just a trifle louder. How near were you?
– Near as I am to you.
– Were you hidden, or not?
– I was hid.
– Where?
– Behind the elms that’s on the edge of the grave.
Injue Joe gave a barely perceptible start.
– Any one with you?
– Yes, sir. I went there with—
– Wait – wait a moment. Never mind mentioning your companion’s name. We will produce him at the proper time. Did you carry anything there with you?
Tom hesitated and looked confused.
– Speak out, my boy – don’t be diffident. The truth is always respectable. What did you take there?
– Only a—a—dead cat.
There was a ripple of mirth, which the court checked.
– We will produce the skeleton of that cat. Now, my boy, tell us everything that occurred – tell it in your own way – don’t skip anything, and don’t be afraid.
“The strain upon pent emotion reached its climax when the boy said:
– …and as the doctor fetched the board around and Muff Potter fell, Injun Joe jumped with the knife and—
Crash! Quick as lightning the halfbreed sprang for a window, tore his way through all opposers, and was gone!
VIGÉSIMO QUARTO CAPÍTULO
SIDESHOW BOB’S PRECEDENT!
“Tom was a glittering hero once more – the pet of the old, the envy of the young. His name even went into immortal print, for the village paper magnified him. There were some that believed he would be President, yet, if he escaped hanging.
As usual, the fickle, unreasoning world took Muff Potter to its bosom and fondled him as lavishly as it had abused him before. But that sort of conduct is to the world’s credit; therefore it is not well to find fault with it.
Tom’s days were days of splendor and exultation to him, but his nights were seasons of horror. Injun Joe infested all his dreams, and always with doom in his eye.”
“Huck’s confidence in the human race was wellnigh obliterated.”
“He felt sure he never could draw a safe breath again until that man was dead and he had seen the corpse.
Rewards had been offered, the country had been scoured, but no Injun Joe was found. One of those omniscient and awe-inspiring marvels, a detective, came up from St. Louis, moused around, shook his head, looked wise, and made that sort of astounding success which members of that craft usually achieve. That is to say, he ‘found a clew’. But you can’t hang a ‘clew’ for murder, and so after that detective had got through and gone home, Tom felt just as insecure as he was before.”
VIGÉSIMO QUINTO CAPÍTULO
“There comes a time in every rightly-constructed boy’s life when he has a raging desire to go somewhere and dig for hidden treasures.”
“Huck was always willing to take a hand in any enterprise that offered entertainment and required no capital, for he had a troublesome superabundance of that sort of time which is not money. ‘Where’ll we dig?” said Huck:
– Oh, most anywhere.
– Why, is it hid all around?
– No, indeed it ain’t. It’s hid in mighty particular places, Huck – sometimes on islands, sometimes in rotten chests under the end of a limb of an old dead tree, just where the shadow falls at midnight; but mostly under the floor in ha’nted houses.
– Who hides it?
– Why, robbers, of course – who’d you reckon? Sunday-school sup’rintendents?
– (…) I wouldn’t hide it; I’d spend it and have a good time.
– So would I. But robbers don’t do that way. They always hide it and leave it there.
– Don’t they come after it any more?
– No, they think they will, but they generally forget the marks, or else they die. Anyway, it lays there a long time and gets rusty; and by and by somebody finds an old yellow paper that tells how to find the marks – a paper that’s got to be ciphered over about a week because it’s mostly signs and hy’roglyphics.
– Hyro–which?
– Hy’rogryplhics – pictures and things, you know, that don’t seem to mean anything.
– Have you got one of them papers, Tom?
– No.
– Well then, how you going to find the marks?
– I don’t want any marks. They always bury it under a ha’nted house or on an island, or under a dead tree that’s got one limb sticking out. Well, we’ve tried Jackson’s Island a little, and we can try it again some time; and there’s the old ha’nted house up the Still-House branch, and there’s lots of dead-limb trees – dead loads of ‘em.
– Is it under all of them?
– How you talk! No!
– Then how you going to know which one to go for?
– Go for all of ‘em!
– Why, Tom, it’ll take all summer.
– Well, what of that? Suppose you find a brass pot with 100 dollars in it, all rusty and gray, or rotten chest full of di’monds. How’s that?
Huck’s eyes glowed.
– That’s bully. Plenty bully enough for me. Just you gimme the hundred dollars and I don’t want no di’monds.”
“– Richard? What’s his other name?
– He didn’t have any other name. Kings don’t have any but a given name.
– No?
– But they don’t.
– Well, if they like it, Tom, all right; but I don’t want to be a king and have only just a given name, like a nigger. But say—where you going to dig first?”
“– Well, I’ll have pie and a glass of soda every day, and I’ll go to every circus that comes along. I bet I’ll have a gay time.
– Well, ain’t you going to save any of it?
– Save it? What for?
– Why, so as to have something to live on, by and by.
– Oh, that ain’t any use. Pap would come back to thish-yer town some day and get his claws on it if I didn’t hurry up, and I tell you he’d clean it out pretty quick. What you going to do with yourn, Tom?
– I’m going to buy a new drum, and a sure’nough sword, and a red necktie and a bull pup, and get married.
– Married!
– That’s it.
– Tom, you – why, you ain’t in your right mind.
– Wait – you’ll see.
– Well, that’s the foolishest thing you could do. Look at pap and my mother. Fight! Why, they used to fight all the time. I remember, mighty well.
– That ain’t anything. The girl I’m going to marry won’t fight.
– Tom, I reckon they’re all alike. They’ll all comb a body. Now you better think ‘bout this awhile. I tell you you better. What’s the name of the gal?
– It ain’t a gal at all – it’s a girl. [Não é uma garota – é uma moça.]
– It’s all the same, I reckon; some says gal, some says girl – both’s right, like enough. Anyway, what’s her name, Tom?
– I’ll tell you some time – not now.
– All right – that’ll do. Only if you get married I’ll be more lonesomer than ever.
– No you won’t. You’ll come and live with me. Now stir out of this and we’ll go to digging.
They worked and sweated for half an hour. No result. They tolled another half-hour. Still no result. Huck said:
– Do they Always bury it as deep as this?
– Sometimes – not always. Not generally. I reckon we haven’t got the right place.”
“– It is mighty curious, Huck. I don’t understand it. Sometimes witches interfere. I reckon maybe that’s what’s the trouble now.
– Shucks! [Putz?] Witches ain’t got no power in the daytime.
– Well, that’s so. I didn’t think of that. Oh, I know what the matter is! What a blamed lot of fools we are! You got to find out where the shadow of the limb falls at midnight, and that’s where you dig!
– Then consound it, we’ve fooled away all this work for nothing. Now hang it all, we got to come back in the night. It’s an awful long way. Can you get out?
– I bet I will. We’ve got to do it tonight, too, because if somebody sees these holes they’ll know in a minute what’s here and they’ll go for it.
– Well, I’ll come around and maow tonight.
– All right. Let’s hide the tools in the bushes.
The boys were there that night, about the appointed time. They sat in the shadow waiting. It was a lonely place, and an hour made solemn by old traditions. Spirits whispered in the rustling leaves, ghosts lurked in the murky nooks, the deep baying of a hound floated up out of the distance, an owl answered with his sepulchral note. The boys were subdued by these solemnities, and talked little. By and by they judged that 12 had come (…) Their interest grew stronger, and their industry kept pace with it. The hole deepened and still deepened, but every time their hearts jumped to hear the pick strike upon something, they only suffered a new disappointment. It was only a stone or a chunk.”
“– (…) I feel as if something’s behind me all the time; and I’m afeard to turn around, becuz maybe there’s others in front a-waiting a chance. I been creeping all over, ever since I got here.
– Well, I’ve been pretty much so, too, Huck. They most always put in a dead man when they bury a treasure under a tree, to look out for it.
– Lordy!
– Yes, they do. I’ve always heard that.
– Tom, I don’t like to fool around much where there’s dead people. A body’s bound to get into trouble with ‘em, sure.
– (…) S’pose this one here was to stick his skull out and say something!
– Don’t Tom! It’s awful.;
– Well, it jus tis. Huck, I don’t feel comfortable a bit.
– Say, Tom, let’s give this place up, and try somewhere else.
– All right, I reckon we better.”
“– Well, all right. We’ll tackle the ha’nted house if you say so – but I reckon it’s talking chances.”
VIGÉSIMO SEXTO CAPÍTULO
“– Lookyhere, Tom, do you know what day it is?
Tom mentally ran over the days of the week, and then quickly lifted his eyes with a startled look in them—
– My! I never once thought of it, Huck!
– Well, I didn’t neither, but all at once it popped onto me that it was Friday.
– Blame it, a body can’t be too careful, Huck. We might ‘a’ got into an awful scrape, tackling such a thing on a Friday.
– Might! Better say we would! There’s some lucky days, maybe, but Friday ain’t.
– Any fool knows that. I don’t reckon you was the first that found it out, Huck.
– Well, I never said I was, did I? And Friday ain’t all, neither. I hada rotten bad dream last night – dreamt about rats.
– No! Sure sign of trouble. Did they fight?
– No.
– Well, that’s good, Huck. When they don’t fight it’s only a sign that there’s trouble around, you know. All we got to do is to look mighty sharp and keep out of it. We’ll drop this thing for today, and play. Do you know Robin Hood, Huck?
– No. Who’s Robin Hood?
– Why, he was one of the greatest men that was ever in England – and the best. He was a robber.
– Cracky, I wisht I was. Who did he rob?
– Only sheriffs and bishops and rich people and kings, and such like. But he never bothered the poor. He loved ‘em. He Always divided up with ‘em perfectly square.
– Well, he must ‘a’ been a brick.
– I bet you he was, Huck. Oh, he was the noblest man that ever was. They ain’t any such men now, I can tell you. He could lick any man in England, with one hand tied behind him”
“On Saturday, shortly after noon, the boys were at the dead tree again. They had a smoke and a chat in the shade, and then dug a little in their last hole, not with great hope, but merely because Tom said there were so many cases where people had given up a treasure after getting down within 6 inches of it, and then somebody else had come along and turned it up with a single thrust of a shovel. The thing failed this time, however, so the boys shouldered their tools and went away feeling that they had not trifled with fortune, but had fulfilled all the requirements that belong to the business of treasure-hunting.”
“– They’ve stopped… No – coming… Here they are. Don’t whisper another word, Huck. My goodness, I wish I was out of this!
Two men entered. Each boy said to himself: ‘There’s the old deaf and dumb Spaniard that’s been about town once or twice lately – never saw t’other man before.’”
“– Dangerous!, grunted the ‘deaf and dumb’ Spaniard – to the vast surprise of the boys. ‘Milksop!’
This voice made the boys gasp and quake. It was Injun Joe’s! There was silence for some time. Then Joe said:
– What’s any more dangerous than that job up yonder – but nothing’s come of it.”
“– Look here, lad – you go back up the river where you belong. Wait there till you hear from me. I’ll take the chances on dropping into this town just once more, for a look. We’ll do that ‘dangerous’ job after I’ve spied around a little and think things look well for it. Then for Texas! We’ll leg it together!
This was satisfactory. Both men presently fell to yawning, and Injun Joe said:
– I’m dead for sleep! It’s your turn to watch.”
“The boys drew a long, grateful breath. Tom whispered:
– Now’s our chance – come!
Huck said:
– I can’t – I’d die if they was to wake.
Tom urged – Huck held back. At last Tom rose slowly and softly, and started alone. But the first step he made wrung such a hideous creak from the crazy floor that he sank down almost dead with fright. He never made a second attempt. The boys lay there counting the dragging moments till it seemed to them that time must be done and eternity growing gray; and then they were grateful to note that at last the sun was setting.
Now one snore ceased. Injun Joe sat up, stared around – smiled grimly upon his comrade, whose head was drooping upon his knees – stirred him up with his foot and said:
– Here! You’re a watchman, ain’t you! All right, though – nothing’s happened.”
“– I don’t know – leave it here as we’ve always done, I reckon. No use to take it away till we start south. 650 silver’s something to carry.”
“accidents might happen; ‘tain’t in such a very good place; we’ll just regularly bury it deep.”
“The boys forgot all their fears, all their miseries in an instant. With gloating eyes they watched every movement. Luck! – the splendor of it was beyond all imagination! 600 dollars was Money enough to make half a dozen boys rich! Here was treasure-hunting under the happiest auspices – there would not be any bothersome uncertainty as to where to dig. They nudged each other every moment – eloquent nudges and easily understood, for they simply meant – ‘Oh, but ain’t you glad now we’re here!’
Joe’s knife struck upon something.
– Hello!, said he.
– What is it?, said his comrade.
– Half-rotten plank – no, it’s a box, I believe. Here – bear a hand and we’ll see what it’s here for. Never mind, I’ve broken a hole.
He reached his hand in and drew it out—
– Man, it’s money!
The two men examined the handful of coins. They were gold. The boys above were as excited as themselves, and as delighted.
Joe’s comrade said:
– We’ll make quick work of this. There’s an old rusty pick over amongst the weeds in the corner the other side of the fireplace – I saw it a minute ago.
He ran and brought the boys’ pick and shovel. Injun Joe took the pick, looked it over critically, shook his head, muttered something to himself, and then began to use it.”
“– Pard, there’s thousands of dollars here, said Injun Joe.”
“– Now you won’t need to do that job.”
“-You don’t know me. Least you don’t know all about that thing. ‘Tain’t robbery altogether – it’s revenge! – And a wicked light flamed in his eyes. – I’ll need your help in it. When it’s finished, then Texas. Go home to your Nance and your kids, and stand by till you hear from me.
– Well – if you say so; what’ll we do with this – bury it again?
– Yes. [Ravishing delight overhead.] No! by the great Sachem, no! [Profound distress overhead.] I’d nearly forgot. That pick had fresh earth on it! [The boys were sick with terror in a moment.] What business has a pick and a shovel here? What business with fresh earth on them? Who brought them here – and where are they gone? Have you heard anybody? – seen anybody? What! bury it again and leave them to come and see the ground disturbed? Not exactly – not exactly. We’ll take it to my den.
– Why, of course! Might have thought of that before. You mean Number One?
– No – Number Two – under the cross. The other place is bad – too common.
– All right. It’s nearly dark enough to start.
Injue Joe got up and went about from window to window cautiously peeping out. Presently he said:
– Who could have brought those tools here? Do you reckon they can be upstairs?
The boys’ breath forsook them. Injue Joe put his hand on his knife, halted a moment, undecided, and then turned toward the stairway. The boys thought of the closet, but their strength was gone. The steps came creaking up the stairs – the intolerable distress of the situation woke the stricken resolution of the lads – they were about to spring for the closet, when there was a crash of rotten timbers and Injun Joe landed on the ground amid the debris of the ruined stairway. He gathered himself up cursing, and his comrade said:
– Now what’s the use of all that? If it’s anybody, and they’re up there, let them stay there – who cares? If they want to jump down, now, and get into trouble, who objects? It will be dark in 15 minutes – and then let them follow us if they want to. I’m willing. In my opinion, whoever hove those things in here caught a sight of us and took us for ghosts or devils or something. I’ll bet they’re running yet.
Joe grumbled awhile, then he agreed with his friend that what daylight was left ought to be economized in getting things ready for leaving. Shortly afterward they slipped out of the house in the deepening twilight, and moved toward the river with their precious box.”
“Follow? Not they. They were contente to reach ground again without broken necks (…) They did not talk much. They were too much absorbed in hating themselves – hating the ill luck that made them take the spade and the pick there. But for that, Injun Joe never would have suspected. He would have hidden the silver with the gold to wait there till his ‘revenge’ was satisfied, and then he would have had the misfortune to find that money turn up missing. Bitter, bitter luck that the tools were ever brought there!”
“Very, very small comfort it was to Tom to be alone in danger! Company would be a palpable improvement, he thought.”
VIGÉSIMO SÉTIMO CAPÍTULO
“the quantity of coin he had seen was too vast to be real.” “he was like all boys of his age and station in life, in that he imagined that all references to ‘hundreds’ and ‘thousands’ were mere fanciful forms of speech, and that no such sums really existed in the world.”
VIGÉSIMO OITAVO CAPÍTULO
“– Yes! He was lying there, sound asleep on the floor, with his old patch on his eye and his arms spread out.
– Lordy, what did you do? Did he wake up?
– No, never budged. Drunk, I reckon. I just grabbed that towel and started!
– I’d never ‘a’ thought of the towel, I bet!
– Well, I would. My aunt would make me mighty sick if I lost it.
– Say, Tom, did you see that box?
– … U didn’t see the cross. I didn’t see anything but a bottle and a tin cup on the floor by Injun Joe (…) Don’t you see, now, what’s the matter with that ha’nted room?
– How?
– Why, it’s ha’nted with whiskey! Maybe all the Temperance Taverns have got a ha’nted room, hey, Huck?”
“– I said I would, Tom, and I will. I’ll ha’ntt that tavern every night for a year! I’ll sleep all day and I’ll stand watch all night.”
“That’s a mighty good nigger, Tom. He
TOM SAWYER .76
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GLOSSÁRIO INGLÊS
andiron: cão-de-lareira (móvel antigo onde se deixavam as toras de madeira ainda não usadas)
brass: latão
clodding: tolo (arc.)
knob: maçaneta
marble: bola de gude (de vidro), por extensão white marble, já que o mármore é branco.
“O editor, John Murray, anunciava para aquela venda de fim de ano o lançamento de um livro muito aguardado, pois revelaria os mistérios que envolviam o desaparecimento de mais de cem tripulantes da expedição mais ousada daquela época. Após numerosas tentativas, finalmente retornara à Inglaterra o capitão McClintock(*) com seu relato dos achados dos dois navios desaparecidos anos antes no rigoroso inverno do Ártico. Seu relato era dramático, com revelações inéditas de seus grandes achados, como o diário de bordo de Sir Franklin,(**) o experiente comandante da missão coberta de mistério, revelando o dia exato e as circunstâncias de sua morte. Já havia sido noticiado o achado de um esqueleto e dois corpos congelados de membros da desesperada tripulação, ainda vestindo roupas europeias. O livro traria até mesmo as figuras com a estampa do tecido das mortalhas encontradas.
(*) Francis Leopold McClintock (1819-1907), membro da Marinha Britânica, serviu em diversas expedições para localizar o paradeiro da expedição desaparecida no Ártico, entre 1848 e 1859, quando retornou em setembro de 1859, recebendo em seguida o título de Sir.
(**) Sir John Franklin (1786-1847), oficial da Marinha Britânica, que se notabilizou pela exploração dos mares polares, pioneiro no mapeamento da Antártida e do Ártico.”
“O livro do capitão McClintock, preparado em apenas sessenta dias, um prazo incrível até para os editores da atualidade, permitia entender em detalhes o que ocorrera com a tripulação dos dois navios encalhados no mar congelado, caminhando até caírem, um a um, mortos por desnutrição, escorbuto e frio. § Essa história é tão dramática e comovente que incentivou buscas até nos nossos dias. Em setembro de 2016, foram encontrados, em surpreendente bom estado de conservação, os destroços do naufrágio do HMS Erebus e do HMS Terror, imponentes navios de mais de trezentas toneladas, sepultados no fundo mar do Ártico. Eles eram, já em seu tempo, exemplares da supremacia tecnológica britânica e até mesmo orgulho nacional, pois haviam sido originalmente construídos para missões de guerra, o que explicava sua robusta estrutura interna. Equipados com potentes obuses, capazes de lançar bombas mortíferas a grande distância, possuíam estrutura adaptada para resistir tanto ao ricochete do disparo de grandes petardos como a choques com icebergs, inaugurando a linha de navios quebra-gelo. De fato, o HMS Terror servira na Guerra de 1812,(*) com seus dois obuses e dez canhões bombardeando o Forte McHenry, em Baltimore, em setembro de 1814, uma batalha que inspirou a letra do atual hino dos Estados Unidos da América.(**)
(*) A Guerra de 1812 é vista, pelos britânicos, como parte das guerras napoleônicas, mas, como envolveu batalhas pela posse de terras americanas, é tida também como a Segunda Guerra de Independência na perspectiva estadunidense.
(**) [Kitsch] A letra do hino nacional dos Estados Unidos foi baseada no poema A defesa do Forte McHenrye fala dessa batalha na qual ‘bombas eram lançadas ao ar’, algumas delas provenientes desse vaso de guerra, posteriormente reformado para exploração polar.”¹
¹ Até o parnasianismo do Ouviram do Ipiranga… é melhor do que isso!
“O sucesso imediato desse aguardado livro certamente impulsionou as vendas de outros da mesma fornada, entre eles A origem das espécies.(*)
(*) O título original, On the Origin of Species by Means of Natural Selection, or the Preservation of Favoured Races in the Struggle for Life, foi simplificado para The Origin of Species na 6ª edição pelo próprio Darwin, versão que se tornou famosa e prevaleceu até os dias de hoje. Por conta do reconhecimento público do título reduzido esta edição o adotou, embora traga, na verdade, uma tradução do texto da 1ª edição da obra, livre das diversas alterações posteriores. (N. E.)”
“Se depois de centenas ou milhares de anos já era possível reconhecer em chácaras e sítios formas muito diferentes de galinhas, pombos, couves, rabanetes e ervilhas, o que não seria possível encontrar em florestas cheias de formas de vida após milhões de anos? Essa era a essência do pensamento darwiniano, apresentado de maneira cristalina na primeira edição, aqui traduzida, permitindo explicar a diversidade biológica de nosso planeta em bases científicas modernas. § Era bem conhecida a epopeia de Darwin em sua viagem ao mundo a bordo do HMS Beagle. Porém é interessante ressaltar que A origem das espécies se valia de achados também de expedições anteriores daqueles navios misteriosamente desaparecidos, dos quais tanto se fala desde 1859. Em uma delas, Joseph Hooker(*) realizou uma série de achados botânicos e paleontológicos a bordo do HMS Erebus que o notabilizou desde a juventude e que aparecia agora, pelas mãos do amigo Darwin, como evidências robustas da teoria da evolução. O ineditismo de plantas e animais das terras do hemisfério Sul teve papel central na argumentação de Darwin, que se valia das opiniões de especialistas, como o amigo botânico, ao lado do jovem Huxley,(**) zoólogo que logo se juntaria na defesa do evolucionismo.
(*) Joseph Dalton Hooker (1817-1911), embora médico de formação, foi um dos maiores botânicos ingleses de sua época, tendo participado da expedição do HMS Erebus ao polo sul em 1839 com o capitão James Ross, em sua busca pioneira pelo polo sul magnético.
(**) Thomas Henry Huxley (1825-1895), zoólogo inglês que se notabilizou pela árdua defesa das ideias evolucionistas logo após a primeira edição de A origem das espécies, ganhando a alcunha de ‘o buldogue de Darwin’.”
“Na época de Darwin não havia indícios suficientes para crer que todos os continentes tivessem formado um bloco único em passado remoto. Hoje há consenso entre os geólogos [de] que os continentes são jangadas da crosta terrestre a se deslocar lentamente. Essa teoria teria poupado muito trabalho mental a Darwin, e não apenas nos capítulos finais.”
“Darwin então recorreu à supremacia imperial britânica, estendendo o poder de enfrentar e derrotar semelhantes sem piedade, fossem aborígenes neozelandeses, mamíferos marsupiais ou ervas sul-americanas.” “Se as gramíneas eram iguais na Inglaterra e nos pampas argentinos, isso seria explicado não pelos arquétipos ideais, mas pela superioridade das estirpes britânicas.” Grande tolinho.
(*) “Richard Owen (1804-1892), zoólogo inglês de grande destaque em sua época, realizou estudos de anatomia comparada e estabeleceu o conceito de homologia, muito utilizado por Darwin, atual até nossos dias. (…) Owen e Louis
Agassiz, ao lado de seu predecessor Georges Cuvier, despontaram como ícones da oposição ao pensamento evolucionista darwiniano.”
(*) “Jean Louis Rodolphe Agassiz (1807-1873), naturalista suíço, foi aluno de Cuvier e do famoso Humboldt, antes de imigrar para os Estados Unidos e trabalhar na criação do Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Harvard, em 1859, tendo sido seu primeiro diretor, até sua morte.”
(*) “Georges Cuvier (1769-1832), famoso anatomista e político francês, ficou famoso por estabelecer métodos de estudos de esqueletos de vertebrados e atestar que os fósseis não eram restos de um Dilúvio Universal, mas de animais extintos, embora se mantivesse como ferrenho opositor das ideias evolucionistas de seu tempo.”
“Para Darwin, que já tinha respeitável estatura científica nos domínios geológicos naquela década, a ideia ajudava a entender muito da distribuição geográfica atual, em especial a similaridade das biotas da Europa e América do Norte. Mamutes, lobos e ursos, pinheiros e ciprestes, poderiam ter transitado livremente por gélidas, porém sólidas, pontes, contudo derretidas pelo clima mais quente que se seguiu.”
“A descoberta de fósseis de eqüinos na América, onde o cavalo moderno foi reintroduzido pelos colonizadores europeus e se reproduziu sem limites, era explicada esplendidamente pela lógica da mudança climática global recente, que levara à extinção uma forma que agora se mostrava plenamente adaptada àquele mesmo ambiente em época anterior ao domínio do gelo.” A cavalo dado se olham os dentes colonizadores.
“Hoje, a ideia de mudanças climáticas globais nos parece óbvia, mas, em escala planetária, ela teve em Charles Darwin um de seus primeiros defensores. Mal sabia ele que esta ideia seria, até nossos dias, crucial para compreender a chegada do ser humano ao continente americano. Não por acaso, até hoje os que se recusam a aceitar a evolução biológica também rejeitam a ideia de mudanças climáticas globais antropogênicas.”Embora por motivos diferentes (dinheiro no segundo caso, já que o criacionismo não interfere em nada com o presente imediato – a não ser que sirva de consolo na cabeça do culpado: se essa espécie se extinguir, foi porque Deus quis; e ele poderá recriá-la, já que é onipotente).
“Estava bem assentada em Aristóteles a ideia de equilíbrio estático na Natureza, vista como eterna e imutável, na qual não há carência nem desperdício, que nada falta ou excede ao necessário, que cada característica tem uma finalidade específica a explicar sua existência, e que nada ocorre por acaso.”
“Como explicar o desaparecimento de espécies em um mundo em perfeito equilíbrio estático? O desaparecimento de uma única forma, de um único pilar, faria vir ao chão os andaimes da Criação!”
A DERROCADA DO UTILITARISMO: “Qual a utilidade das asas do ganso das ilhas Malvinas se ele é incapaz de voar? Qual a utilidade dos olhos do tuco-tuco sul-americano, frequentemente infeccionados, se ele vive na escuridão dos túneis escavados debaixo dos campos gaúchos? O que faz um pica-pau endêmico nessas paragens se ali não há árvores?”
E no entanto… utilidades do pensamento de Jeremy Bentham:“defendeu o bem-estar social como dever do Estado, direitos iguais para homens e mulheres, direito ao divórcio e, ao mesmo tempo, fim de diversas práticas sociais, como escravidão, pena de morte, castigos físicos; além disso, propôs a descriminalização da homossexualidade. Ele estendia aos animais o direito à felicidade, evitando sofrimentos, e foi um dos primeiros defensores dos direitos animais”!Só faltou a coletivização dos meios de produção.
“Justamente ao discutir as ideias do utilitarismo britânico, que via nas variações dos seres vivos formas de evitar a monotonia aos olhos humanos, ele percebeu que poderia explicar as variações entre as raças humanas, ‘tão fortemente marcadas’ por meio da ‘seleção sexual de um tipo particular’. Quando escreveu essas palavras, ele tinha em sua escrivaninha os diversos volumes do livro de seu estimado James Cowles Prichard, que discutia as raças humanas, utilizando inclusive pranchas coloridas, outra sofisticação gráfica para a época.” “Como fazer em poucos parágrafos o que havia tomado a Prichard vários volumes? Assim, apenas em seu livro de 1871, Descent of Man, [intraduzido?] Darwin pôde discutir ‘com muitos detalhes’ seus pontos de vista sobre a ação da seleção sexual nas raças humanas.”
“Desde o primeiro ensaio, escrito em 1844, Darwin destaca o ritual de acasalamento do dancing rock-thrush. Seu nome foi posteriormente retificado para rock-thrush of Guiana em todas as edições desta obra, na seção sobre seleção sexual. O nome aparece traduzido para o português como ‘melro’ ou ‘tordo-das-rochas’ desde a edição portuguesa de 1913. A confusão se justifica, vez que o nome popular rock thrush, na Inglaterra de meados do século XIX, designava a espécie Monticola saxatilis, descrita desde os tempos de Lineu. No entanto, nenhuma espécie dessa família (Muscicapidae) ocorre na Guiana nem em lugar algum do Novo Mundo. Ademais, os melros não praticam ritual de acasalamento incomum ou ‘dançante’… Na verdade, Darwin se equivocou, pois se referia ao Guianan cock-of-the-rock, ou seja, o galo-da-serra-do-pará (Rupicola rupicola). Essa bela ave da fauna brasileira, após mais de um século de injustiça e anonimato, ganhou justa homenagem na quarta capa desta edição.”
“O capítulo final de A origem das espécies – absolutamente inspirado, profético e grandioso – manteve a mesma estrutura da primeira à última edição. Ele é testemunha não apenas da solidez do argumento evolucionista como também da necessidade de alcançar o grande público por meio de algumas concessões. Darwin escreve não somente para os especialistas, mas também (e ao mesmo tempo) para o grande público, o que, aliás, explica a alternância de estilos literários ao longo do livro.(*)
(*) E a profusão de notas inseridas por este prefaciador e revisor técnico ao longo dos capítulos, pelo que se escusa antecipadamente.” Eu te entendo, amiguinho, eu te entendo. Sou viciado em interpolar textos – às vezes os meus próprios textos!
Com um siso e um apêndice, e munido de mais nada, o homem matou o rei-na-barriga que tinha em si desde os primórdios.
Alerta: “projeto inteligente” é um sinônimo utilizado pelos pérfidos pastores ou biólogos criacionistas para “criacionismo”, então… ¡date cuenta!
“Ao ler esta primeira edição, fica o leitor preservado dessas titubeantes inserções, das quais o autor dirá ter se arrependido, em carta endereçada a Hooker em 1863, sem, contudo, produzir qualquer efeito no texto das edições seguintes.”
Toda nota é técnica dentro de uma nota técnica.
(*) “Cuvier tinha realizado a dissecação de uma mulher sul-africana (Sarah ‘Saartjie’ Baartman) em seu controvertido ‘Observations sur le cadavre d’une femme connue à Paris et à Londres sous le nom de Vénus hottentote’ (1817).” WIKIA: “Saartjie (que se pronuncia «Sarqui») pode ser considerado equivalente ao português «Sarinha». (…) Mediante um pagamento extra, os seus exibidores permitiam aos visitantes tocar-lhe as nádegas, cujo invulgar volume (esteatopigia) parecia estranho e perturbador ao europeu da época. § A sua exibição em Londres causou escândalo, tendo a sociedade filantrópica African Association criticado a iniciativa e lançado um processo em tribunal. Durante o seu depoimento, Sarah Baartman declarou, em neerlandês, não se considerar vítima de coação e ser seu perfeito entendimento que lhe cabia metade da receita das exibições. O tribunal decidiu arquivar o caso, mas o acórdão não foi satisfatório, devido a contradições com outras investigações, pelo que a continuação do espetáculo em Londres tornou-se impossível.”Um inglês tenderá a ser justo, exceto numa ocasião: quando dinheiro está em jogo. +“No fim de 1814, Saartjie foi vendida a um francês, domador de animais, que viu nela uma oportunidade de enriquecimento fácil. Considerando que a adquirira como prostituta ou escrava, o novo dono mantinha-a em condições muito mais duras. Foi exposta em Paris, tendo de aceitar exibir-se completamente nua, o que contrariava o seu voto de jamais exibir os órgãos genitais. As celebrações da reentronização de Napoleão Bonaparte no início de 1815 incluíram festas noturnas. A exposição manteve-se aberta durante toda a noite e os muitos visitantes bêbados divertiram-se apalpando o corpo da indefesa mulher. § O anatomista francês Georges Cuvier e outros naturalistas visitaram-na, tendo sido objeto de numerosas ilustrações científicas no Jardin du Roi. O corpo foi totalmente investigado e medido, com registo do tamanho das nádegas, do clitóris, dos lábios e dos mamilos para museus e institutos zoológicos e científicos. Com a nova derrota de Napoleão, o fim do seu governo e a ocupação da França pelas tropas aliadas em junho de 1815, as exposições tornaram-se impossíveis. Saartje foi levada a prostituir-se e tornou-se alcoólatra.”Napoleão exerceu certas influências maléficas em coisas de “somenos” importância que mal poderíamos acreditar… Enfim, repulsivo.
É só o começo! “Após sua morte, o corpo de Baartman foi enviado para o laboratório de George Cuvier, no Museu Nacional de História Natural, para exames. Cuvier queria analisar seus genitais para testar sua teoria de que quanto mais ‘primitivo’ era o mamífero, mais acentuados seriam seus órgãos sexuais e desejo sexual. Baartman recusou-se a ser um experimento, enquanto estava viva. Com a permissão da polícia, Cuvier, que acumulou a maior coleção do mundo de espécimes humanos e animais, realizou uma autópsia no corpo de Baartman. Primeiro, ele fez um molde do corpo, então ele preservou o cérebro e genitais. (…) Cuvier, que conhecera Baartman, observou em sua monografia que o seu objeto de estudo era uma mulher inteligente, com uma memória excelente, especialmente para rostos. Além de sua língua nativa, ela falava neerlandês fluentemente, tinha um inglês razoável e algum conhecimento de francês. Ele descreve os ombros e costas dela como ‘graciosos’, com ‘braços delgados’, mãos e pés como ‘encantadores’ e ‘bonitos’. Ele acrescenta que ela era adepta de berimbau de boca, dançava de acordo com as tradições de seu país e tinha uma personalidade alegre. Apesar disso, ele interpretou seus restos mortais, de acordo com suas teorias sobre evolução racial, como a manifestação de traços semelhantes a macacos.” Um pouco de alívio ao final: “O caso ganhou proeminência mundial só depois de Stephen Jay Gould escrever The Hottentot Venusna década de 1980. Após a vitória do Congresso Nacional Africano na eleição geral na África do Sul em 1994, o presidente Nelson Mandela solicitou formalmente que a França devolvesse os restos mortais. Depois de muita disputa legal e debates na Assembleia Nacional Francesa,¹ o governo francês aceitou o pedido em 6 de março de 2002. Seus restos mortais foram repatriados para sua terra natal, o vale do rio Gamtoos, em 6 de maio de 2002[,] e eles foram enterrados em 9 de agosto de 2002, sobre Vergaderingskop, uma colina na cidade de Hankey, mais de 200 anos depois de seu nascimento. (…) O Centro Saartjie Baartman para mulheres e crianças, um refúgio para sobreviventes de violência doméstica, foi inaugurado na Cidade do Cabo em 1999.”
¹ Debater o quê, cretinos?
“Ele fez previsões testáveis, muitas das quais se comprovaram empiricamente, como a origem da baleia a partir de um mamífero terrestre, em vez do aperfeiçoamento de um réptil marinho, como pensavam muitos.”
Mais sobre Nelio Bezzo: “É pesquisador 1A do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), coordenador científico do Núcleo de Pesquisa em Educação, Divulgação e Epistemologia da Evolução ‘Charles Darwin’, ligado à Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, e do Projeto Temático BIOTA-FAPESP/Educação, que congrega pesquisadores da USP, UFABC, UNIFESP, USCS e do Instituto Butantan.”
INTRODUÇÃO
(*) “Darwin viajou no Beagle como convidado do capitão e tinha de arcar com suas despesas, de alimentação inclusive. Se fosse, de fato, o naturalista de bordo, todo o material coletado pertenceria ao almirantado e Darwin não poderia dele dispor como bem quisesse, como de fato ocorreu. (N.R.T.)” O destino escreve certo por linhas tortas (#chupacriacionismo).
“Espero ser desculpado por entrar em detalhes pessoais, mas eu os ofereço para mostrar que não tomei decisões apressadas. “ Se, p.ex., Fraud esperasse 20 anos para publicar suas “conclusões” teríamos nos livrado de 80% das asneiras que redigiu! Um homem de ciência não se apressa…
(*) “Darwin trabalhava no que ele chamava de Big Species Book (Grande livro das espécies) quando foi surpreendido pela carta recebida de Wallace.”
“Fui particularmente induzido a publicar este resumo, pois o senhor Wallace [Alfred Russel Wallace (1823-1913)], que hoje está estudando a história natural do arquipélago malaio, chegou quase exatamente às mesmas conclusões gerais que as minhas sobre a origem das espécies.” Um dos pares de descobridores simultâneos mais conhecidos.
(*) “Charles Lyell (1797-1875), advogado e geólogo britânico, publicou Principles of Geology em 3 volumes entre 1830 e 1833.” Ao passo que hoje não existem nem meios-advogados nem meios-geólogos, se formos aferir seus dons… até o séc. XIX a polimatia ou semi-polimatia parecia o estado natural para uma certa nata de burgueses, pequeno-burgueses ou aristocratas…
“Ao pensar sobre a origem das espécies, é bastante concebível que um naturalista, refletindo sobre as afinidades mútuas dos seres orgânicos, suas relações embriológicas, suas distribuições geográficas, suas sucessões geológicas e outros fatos semelhantes, possa chegar à conclusão de que cada espécie não tenha sido criada independentemente, mas que tenha descendido, como variação, de outras espécies. No entanto essa conclusão, ainda que bem fundamentada, seria insatisfatória até que pudesse ser demonstrado como as inúmeras espécies que habitam o mundo foram modificadas para que atingissem a perfeição de suas estruturas e coadaptação que tanto inspiram nossa admiração.”
(*) “seiva xilemática das plantas (antigamente, chamada seiva bruta)” Será que meus livros-textos do ensino fundamental já são antigamente?!
O PRIMEIRO NATURALISTA IN VITRO: “No início de minhas observações, me pareceu que o estudo cuidadoso de animais domesticados e plantas cultivadas provavelmente ofereceria a melhor oportunidade para elucidar esse problema obscuro. Não fiquei decepcionado; nesse e em todos os outros casos desconcertantes, percebi invariavelmente que nosso conhecimento sobre a variação por meio da domesticação, mesmo sendo imperfeito, oferecia as melhores e mais seguras pistas.”
Evocando N.: Sobrevivência do mais forte falando em coletividades é um oximoro, uma vez que quanto mais bem-sucedida é uma espécie, mais ela se propaga e, portanto, mais ela está submetida às leis da restrição da população. O gênio, até na natureza, é de vidro. Apenas o medíocre é persistente e perdurável.
“Embora muito ainda permaneça obscuro, e continuará assim por muito tempo, eu, após o estudo mais meticuloso e o julgamento mais imparcial de que sou capaz, não tenho dúvidas de que a posição sustentada pela maioria dos naturalistas – e sustentada também por mim anteriormente –, ou seja, de que cada uma das espécies foi criada independentemente, é falsa.” Dizer textualmente que o homem veio do macaco é, tecnicamente, contradizer Darwin. Mas tem-se de ser algo melhor do que estúpido para percebê-lo. O homem veio da primeira célula procarionte, esta seria a frase mais correta.
1. A VARIAÇÃO NA DOMESTICAÇÃO
“Parece bastante claro que os organismos devem ser expostos às novas condições de vida por várias gerações para que isso cause um nível apreciável de variação; e, assim que o organismo começa a variar, ele geralmente continua a variar por muitas gerações. Não há casos registrados de que o cultivo tenha feito com que uma variedade da espécie deixasse de ser variável. Nossas mais antigas plantas de cultivo, como o trigo, ainda costumam gerar novas variedades: nossos mais antigos animais domesticados ainda podem sofrer um rápido aprimoramento ou modificação.” De certo modo, isso já refuta a ‘seleção natural’: são os animais domésticos, que recebem fartura alimentar e não disputam contra outros pela sua sobrevivência, que são mais mutáveis e heterogêneos, dir-se-ia, superiores.
(*) “Note a insistência de Darwin ao tomar as ’monstruosidades’ como variedades, ou seja, como parte de um estado natural dos seres vivos, o que contrariava a tradição aristotélica, que as via como exceções inexplicáveis, pois incompatíveis com a ideia de perfeição da natureza, ideia ainda muito presente na história natural anglicana da época.”
(*) “Aqui Darwin fala de sua Teoria da Pangênese, ainda sem nomeá-la. Ele fará uma exposição mais detida apenas em 1868, em seu Variations of Animais and Plants under Domestication.”
“mas a principal é a consequência notável que o cativeiro ou o cultivo tem sobre as funções do sistema reprodutivo; este sistema parece ser muito mais sensível do que qualquer outra parte do organismo à ação de qualquer alteração nas condições de vida. Nada é mais fácil do que domar um animal, e poucas coisas são mais difíceis do que fazê-los procriar livremente em cativeiro, e isso nem mesmo, em muitos casos, quando o macho e a fêmea se unem.” Nem para cães e gatos há exceção?
“Quantos animais existem que não se reproduzem, apesar de já viverem há muito tempo em cativeiro não muito rigoroso em sua região nativa! Isso costuma ser atribuído à invalidação dos instintos; mas quantas plantas de cultivo exibem grande vigor e, ainda assim, raramente ou nunca produzem sementes!”
“para mostrar como as leis que determinam a reprodução dos animais em cativeiro são singulares, posso apenas mencionar que os animais carnívoros, mesmo os dos trópicos,[?] cruzam neste país [Inglaterra] de forma bastante livre quando estão em cativeiro, com exceção dos plantígrados, isto é, a família dos ursos; no entanto, as aves carnívoras, com raras exceções, quase nunca põem ovos férteis. O pólen de muitas plantas exóticas é completamente inútil, estando na mesma condição dos mais estéreis híbridos. Quando, por um lado, vemos animais e plantas domesticados, embora muitas vezes fracos e doentes que, ainda assim, reproduzem-se de forma livre em cativeiro; e quando, por outro lado, vemos indivíduos que, embora tenham sido retirados ainda jovens da natureza, são perfeitamente domados, vivendo por muitos anos e saudáveis (dentre os quais eu poderia citar inúmeros casos) e que, apesar disso, possuem seus sistemas reprodutivos tão gravemente afetados por causas não observadas a ponto de não funcionarem, então não devemos nos surpreender quando esses sistemas não funcionam em cativeiro de forma razoavelmente regular e produzem crias que não são perfeitamente semelhantes a seus pais ou a variações próximas a eles.
Dizem que a esterilidade é a ruína da horticultura; mas, sobre este ponto de vista, a variabilidade assenta-se sobre a mesma causa que produz a esterilidade; e a variabilidade é a fonte das melhores produções de um jardim. Devo ainda dizer que alguns organismos procriarão de forma mais livre em condições mais artificiais (por exemplo, o coelho e o furão mantidos em jaulas), mostrando que seu sistema reprodutivo não foi afetado; assim, o mesmo vale para alguns animais e plantas que toleram a domesticação ou o cultivo e sofrerão pequenas variações, talvez não mais do que em seu estado natural.”
(*) “Darwin utiliza a expressão sporting plants entre aspas, demonstrando certa discordância em tomá-las como simples sports of nature, uma maneira de contornar as dificuldades do mundo estático de Aristóteles, mas ainda sem a conotação de mutações em sentido moderno.”
“esses casos mostram que a variação não está necessariamente ligada, como alguns autores acreditam, ao ato de geração.”
“As mudas da mesma fruta e as crias da mesma ninhada são às vezes bastante diferentes entre si, embora tanto as crias quanto os progenitores, conforme observou Muller, tenham sido aparentemente expostos a exatamente as mesmas condições de vida; e isso mostra a pouca importância dos efeitos diretos das condições de vida em comparação com as leis da reprodução, do crescimento e da hereditariedade; (…) No caso de qualquer variação, é bastante difícil decidirmos o quanto devemos atribuí-la à ação direta do calor, da umidade, da luz, da alimentação, etc.”
“Desse ponto de vista, as experiências recentes do senhor Buckman [James Buckman (1816-1884)] com plantas parecem extremamente valiosas.”
“em alguns casos, o aumento de tamanho [ocorre] devido à quantidade de alimentos, a [mudança da] cor devido a certos tipos de alimentos e à luz; e, talvez, a espessura da pelagem [varie] devido ao clima.” O que não ocorre com o homem (que está em seu natural?) – o homem mais se modificou quando estava em cativeiro na própria natureza, na sua era ágrafa!
“Nos animais há um efeito mais acentuado [do hábito]; descobri, por exemplo, que, em relação a todo o esqueleto do pato doméstico, os ossos das asas ficam menos pesados e os ossos das patas ficam mais pesados do que os mesmos ossos do pato selvagem.” Don’t fly, just walk!
“O aumento – grande e herdado – do úbere de vacas e cabras em países onde elas são habitualmente ordenhadas, em comparação com o estado desses órgãos em outros países, é outro exemplo do efeito do uso. Não há um único animal doméstico que não tenha, em alguma região, orelhas caídas; parece algo provável o ponto de vista sugerido por alguns autores de que tal fato ocorre devido ao desuso da musculatura da orelha, pois os animais não se alarmam muito com o perigo.”
“Nas monstruosidades, as correlações entre partes bastante distintas são muito curiosas; e muitos exemplos são oferecidos por Isidore Geoffroy St. Hilaire em sua grande obra sobre o tema.”
“os gatos com olhos azuis são invariavelmente surdos” Refutado.
“Karl von Heusinger (1792-1883), médico alemão.”
“Os cães sem pêlos têm dentes imperfeitos; animais de pelo longo ou áspero estão propensos a ter, como se afirma, chifres longos ou muitos chifres; pombos com pés emplumados têm pele entre os dedos mais longos; pombos com bico curto têm pés pequenos e aqueles com bicos longos têm pés grandes.”
“leis misteriosas da correlação de crescimento”
“Vale a pena estudar os vários tratados publicados sobre algumas de nossas antigas plantas de cultivo, como o jacinto, a batata, até mesmo a dália, etc.; e é realmente surpreendente observar os pontos infindáveis da estrutura e da constituição nos quais as variedades e subvariedades diferem ligeiramente entre si.”
“Quaisquer variações não-hereditárias não são importantes para nós. Mas são quase infinitas a quantidade e a diversidade dos desvios hereditários estruturais, tanto os pequenos quanto os de considerável importância fisiológica. O tratado do doutor Prosper Lucas sobre o assunto, em dois grandes volumes, é o melhor e mais completo material sobre o tema.”
Por sorte, há todo tipo de antepassado nesse mundo, do mais vil ao mais divino (falo do atavismo – não é o tópico da conversação de Darwin neste momento).
“Quando surge um desvio freqüente e verificado no pai e no filho, não podemos afirmar que o desvio ocorreu por uma mesma causa original que atuou em ambos os indivíduos; mas, por outro lado, quando entre os indivíduos aparentemente expostos às mesmas condições verificamos qualquer desvio muito raro devido a uma extraordinária combinação de circunstâncias que surja no ascendente – digamos, apenas uma vez dentre vários milhões de indivíduos – e que reapareça no filho, a mera doutrina das probabilidades quase nos obriga a atribuir sua reaparição à hereditariedade.”
“As leis que regem a hereditariedade são bastante desconhecidas; não sabemos por que a mesma peculiaridade em diferentes indivíduos da mesma espécie e em indivíduos de espécies diferentes é por vezes herdada e por vezes não; por que a criança muitas vezes reverte a certas características de seu avô ou avó ou de outro ancestral mais remoto(*)” Agora sim.
(*) “Aqui aparece a primeira referência ao ‘princípio da reversão’, que explicaria o reaparecimento de uma característica de ancestral próximo ou ‘mais remoto’. Trata-se de assunto doloroso para Darwin, que havia acabado de perder um filho com 2 anos, batizado com seu nome (Charles), com síndrome de Down, vista à época como um tipo de ‘reversão mongólica’. O assunto será aprofundado logo adiante.” Que estultícia britânica.
“Tem pouca importância para nós o fato de que as peculiaridades que aparecem nos machos de nossas criações domésticas sejam freqüentemente transmitidas exclusivamente ou em um grau muito maior apenas aos machos. Uma regra muito mais importante, e que me parece confiável, é que, independentemente do período da vida em que uma peculiaridade apareça pela primeira vez, ela tenderá a surgir na prole em uma idade correspondente, embora às vezes ocorra mais cedo.”
“Mas as doenças hereditárias e alguns outros fatos me fazem acreditar que a regra tem uma extensão mais ampla e que, não havendo qualquer razão aparente para que alguma peculiaridade apareça em uma certa idade específica, ela realmente tenderá a surgir na prole no mesmo período em que apareceu pela primeira vez nos pais. Eu acredito que essa regra é extremamente importante para explicar as leis da embriologia. Essas observações, claro, aplicam-se apenas ao primeiro surgimento da particularidade e não à sua causa primária, que pode ter ocorrido nos óvulos ou no elemento masculino”
“farei referência neste ponto a uma afirmação muitas vezes feita pelos naturalistas, ou seja, que nossas variedades domesticadas, quando se tornam novamente selvagens, gradual mas certamente readquirem as características de seus ancestrais. Portanto, foi argumentado que não se pode projetar deduções com base em raças domésticas para explicar espécies em estado natural. Em vão, me esforcei para descobrir em que fatos decisivos a afirmação acima foi tantas vezes e tão corajosamente feita.” “podemos seguramente concluir que muitas das variedades domésticas mais fortemente distintas não conseguiriam, em nenhuma hipótese, viver em estado selvagem. Em muitos casos, não sabemos como eram seus ancestrais e então não poderíamos dizer se a reversão quase perfeita teria ou não ocorrido.”
“Se conseguíssemos demonstrar que nossas variedades domesticadas manifestaram uma forte tendência para a reversão – ou seja, para perder suas características adquiridas, enquanto as condições são mantidas inalteradas e as variedades são mantidas em um grupo consideravelmente grande, para que o cruzamento livre possa cancelar, por meio da mistura, qualquer pequeno desvio de estrutura –, então, nesse caso, garanto que não poderíamos deduzir nada sobre as espécies com base nas variedades domésticas.”
“Devo acrescentar que, quando em estado natural, as condições de vida são alteradas e provavelmente ocorrem variações e reversões das características, mas a seleção natural, como explicado mais adiante, determina até que ponto as novas características que assim surgem devem ser preservadas.”
“os naturalistas diferem bastante em relação à determinação das características de valor genérico, pois todas essas avaliações são até agora empíricas.”
“Seria muito interessante se pudéssemos esclarecer (…) se (…) o galgo, o bloodhound,(*) o terrier, o spaniel e o buldogue – que, como todos sabemos, propagam sua espécie de forma tão exata – são descendentes de uma única espécie. Tais fatos teriam grande peso para fazer-nos duvidar da imutabilidade das muitas espécies naturais muito afins, como, por exemplo, o caso das muitas raposas que habitam diferentes regiões do mundo. Eu não acredito, como veremos em breve, que todos os nossos cães sejam descendentes de apenas uma espécie selvagem; mas, no caso de algumas outras raças domésticas, existem provas circunstanciais ou até mesmo fortes evidências a favor dessa perspectiva.” Todo puro-sangue é na verdade um vira-lata laureado.
(*) Bloodhound:“cão de santo Humberto”. “Manterei o nome das raças inglesas em sua língua original, exceto o bulldog, que foi dicionarizado como buldogue.”
“Costuma-se supor que o homem optou pela domesticação de animais e plantas que possuíam uma extraordinária tendência inerente para variar e, da mesma forma, para resistir a diferentes climas.” Ele não teria como sabê-lo a priori. “quando um selvagem domesticou um animal pela primeira vez, como ele poderia saber se iriam ocorrer variações nas gerações seguintes, ou se este animal resistiria a outros climas?” Talvez porque nunca houve uma primeira vez. O “selvagem” (figura mítica) não saberia nem que diabos é “clima”!
“Não tenho dúvidas de que se outros animais e plantas, em número igual ao de nossas criações domesticadas e igualmente pertencentes a diversas classes e regiões, fossem tirados de seu estado de natureza e se fosse possível fazer com que eles se reproduzissem por um número igual de gerações sob domesticação, eles iriam variar, em média, tanto quanto têm variado as espécies progenitoras de nossas criações domesticadas atuais.” Exemplo: se pudessem criar um urso polar num freezer gigante. Alegar-se-ia que se o faz em zoológicos de países “temperados” (quase polares), mas não é a mesma coisa.
“O principal argumento invocado por aqueles que acreditam na origem múltipla de nossos animais domésticos é o fato de encontrarmos grande diversidade de raças nos registros mais antigos, especialmente nos monumentos do Egito; e que algumas das raças se assemelham e talvez sejam idênticas às ainda existentes. Mesmo que se descobrisse que isso é mais estrita e geralmente verdadeiro do que me parece ser o caso, o que demonstraria, senão que algumas de nossas raças originaram-se naquele local há 4 ou 5 mil anos? [um piscar de olhos insignificante] Mas as pesquisas do senhor Horner [(1785-1864), geólogo escocês] mostram a possibilidade de que homens suficientemente civilizados possam ter fabricado a cerâmica existente no vale do Nilo há 13 ou 14 mil anos; assim, quem poderá afirmar quanto tempo antes desses períodos antigos já havia selvagens, assim como já existiam na Terra do Fogo ou na Austrália, que possuíam cães semidomesticados no Egito?(*)”Nunca confiar nos capciosos egípcios.
(*) “Darwin está respondendo a réplicas de autoridades eclesiásticas, desafiadas pelos achados da invasão de Napoleão no Egito.” De novo Napoleão!
“…é altamente provável que nossos cães domésticos sejam descendentes de várias espécies selvagens.(*)
(*) Estudos moleculares modernos falharam em elucidar claramente a origem do cão doméstico, mas provavelmente a hipótese de Darwin se mantém válida, havendo indicações de mais de um evento de domesticação no passado, possivelmente há 33 mil anos, sendo que a(s) espécie(s) ancestral(is) teria(m) sido extinta(s).” Der Urhund oder die Urhunde?
“[Já] no que diz respeito aos cavalos, por razões que não posso oferecer aqui, estou mesmo inclinado a acreditar, em oposição a vários autores, que todas as raças descendem de um único grupo selvagem. O senhor Blyth,¹(*) cujo parecer, fruto de seu grande e variado conhecimento, eu devo valorizar mais do que a opinião de qualquer outra pessoa, acredita que todas as raças de galinhas originam-se da ave indiana selvagem comum (Gallus bankiva).(**)”
¹ Doctor Blyth! Será Togashi tão versado e eclético?!
(*) “Edward Blyth (1810-1873), zoólogo inglês, curador do museu da Sociedade Asiática Real de Bengala, em Calcutá, na Índia”
(**) “A nomenclatura moderna para o galo banquiva é Gallus gallus bankiva, uma subespécie do galo vermelho selvagem (Gallus gallus). O galo doméstico (Gallus gallus domesticus) é considerado outra subespécie, que não deriva diretamente do galo banquiva, de acordo com estudos moleculares recentes de DNA mitocondrial, embora tenham parentesco próximo.”
“A doutrina segundo a qual as nossas várias raças domésticas teriam se originado de várias unidades populacionais aborígenes foi levada a um absurdo extremo por alguns autores. Eles acreditam que todas as raças que conseguem se reproduzir de forma correta, mesmo que suas características distintivas sejam extremamente sutis, possuem um protótipo selvagem. Segundo este raciocínio, é preciso que tenha existido pelo menos uma vintena de espécies de gado selvagem, o mesmo número de ovelhas e vários tipos de cabras somente na Europa e outras várias apenas dentro da Grã-Bretanha. Um desses autores acredita que, somente na Grã-Bretanha, existiram onze espécies únicas de ovelhas selvagens! Quando levamos em conta que o país atualmente mal possui um mamífero peculiar, que a França tem apenas alguns diferentes da Alemanha e vice-versa e que o mesmo vale para a Hungria, Espanha, etc., e que, além disso, se notarmos que cada um desses reinos possui diversas raças peculiares de gado, ovelhas, etc., então devemos aceitar que muitas raças domésticas originaram-se na Europa; pois, de onde mais poderiam ter surgido, já que nenhum entre esses vários países conta com um número de espécies peculiares que suporte grupos ancestrais distintos?”
“Quem pode acreditar que animais tão parecidos com o galgo italiano, o bloodhound, o buldogue, o spaniel de Blenheim, (imagem) etc., que são tão diferentes de todos os Canidae selvagens, tenham existido livremente em estado natural?”
“J. Sebright realizou experimentos com esse objetivo específico e fracassou.” (criar deliberadamente novas raças de cães) “A prole do primeiro cruzamento entre duas raças puras é tolerável e, às vezes (como observei entre os pombos), extremamente uniforme, e tudo parece suficientemente simples; mas quando esses mestiços são cruzados uns com os outros por várias gerações, dificilmente teremos dois espécimes iguais e, desse modo, a tarefa se mostra extremamente difícil, ou melhor, totalmente desencorajadora.”
Sobre as raças de pombos domésticos
“Acreditando que é sempre melhor estudar um grupo especial, escolhi, após refletir sobre o assunto, os pombos domésticos. Além de ter mantido todas as raças que consegui comprar ou obter, também fui generosamente agraciado com espécimes empalhadas vindas de várias regiões do mundo, mais especialmente da Índia e da Pérsia, enviadas pelos honoráveis W. Elliot e C. Murray, respectivamente. Muitos tratados sobre pombos foram publicados em diferentes línguas, alguns deles são muito importantes por serem consideravelmente antigos. Associei-me a vários grandiosos criadores e fui aceito em dois clubes londrinos de criadores de pombos.”
(*) “English carrier, em inglês. Os nomes das linhagens de pombos ingleses serão dados em sua língua original, exceto o pombo-correio (carrier) e o pombo-das-rochas (rock pigeon, rock dove), também conhecido como pombo comum, pombo doméstico ou por seu nome binomial Columba livia. (N. T.)”
“short-faced tumbler”
Muitas aves batizam redes sociais. Redes sociais gospel! Uma IA antropomorfizada chamada Paloma para um app de relacionamentos só para crentelhos!… Pare com essas idéias já, laico herege!
Pouter
“O pombo-correio, mais especialmente o macho, também é notável pelo maravilhoso desenvolvimento de uma carúncula em torno da cabeça, e isso é acompanhado por pálpebras muito alongadas, narinas muito grandes e uma abertura ampla do bico.” “O pombo barb é afim do pombo-correio mas, em vez de ter bico muito longo, tem um bico muito curto e muito largo. O pouter tem corpo, asas e pernas muito alongados; seu papo extremamente desenvolvido, que ele infla com orgulho, bem pode causar espanto e até mesmo risos.” “O jacobin tem as penas ao longo da parte dorsal do pescoço tão invertidas a ponto de formarem uma capa, e ele tem, proporcionalmente ao seu tamanho, penas muito alongadas nas asas e na cauda. O trumpeter e o laugher, conforme indicado por seus nomes, proferem sons muito diferentes dos emitidos pelas outras raças. O fantail tem 30 ou até mesmo 40 penas na cauda, em vez de 12 ou 14, o número normal para todos os membros da grande família dos pombos; além disso, essas penas são mantidas abertas e são tão eretas que, em aves bem formadas, a cabeça e a cauda se tocam; a glândula de óleo(*) é bastante atrofiada.
(*) Trata-se da glândula uropigiana, que produz um muco oleoso, espalhado com o bico sobre as penas para impermeabilizá-las. Darwin dedicou especial atenção a órgãos atrofiados, que causavam desconforto aos naturalistas anglicanos da tradição aristotélica.”
“O tamanho e a forma das cavidades torácicas são altamente variáveis; o mesmo vale para o grau de divergência e tamanho relativo dos dois ramos da fúrcula.(*) A largura proporcional da abertura da boca, o comprimento proporcional das pálpebras, do orifício das narinas, da língua (nem sempre em estrita correlação com o comprimento do bico), o tamanho do papo e da parte superior do esôfago; o desenvolvimento e a atrofia da glândula sebácea; o número de penas primárias da asa e da cauda; o comprimento relativo entre as asas, a cauda e o corpo; o comprimento relativo entre pernas e pés; o número de pequenas escamas nos dedos, o desenvolvimento da pele entre os dedos, são todos pontos variáveis da estrutura. O período dentro do qual a plumagem perfeita é adquirida varia, e o mesmo vale para o estado de cobertura da plumagem das aves filhotes ao nascerem. A forma e o tamanho dos ovos variam. A forma do voo difere bastante, o que também ocorre, em algumas linhagens, com a voz e a disposição. Por fim, em determinadas linhagens, machos e fêmeas são levemente diferentes.
(*) Trata-se do osso popularmente conhecido como ‘forquilha’.”
“Mesmo que as diferenças entre as linhagens de pombos sejam grandes, estou totalmente convencido de que a opinião comum dos naturalistas está correta, ou seja: todas elas descendem do pombo-das-rochas (Columba livia)(*)” Vemos que nessa época os naturalistas estavam para os ornitólogos (meros catalogadores) como os filósofos estão para os filólogos.
(*) “Darwin compartilhava a ideia dos criadores de seu tempo, a qual foi confirmada por grande número de estudos posteriores, inclusive recentes. Algumas subespécies da atualidade podem ser linhagens ferais, ou seja, originadas de indivíduos domesticados que passaram a viver livremente e que, com o passar das gerações, manifestam algumas características selvagens.”
“Além disso, ao cruzarmos duas aves pertencentes a duas linhagens distintas, sendo que nenhuma delas é azul nem tem qualquer uma das marcas especificadas acima, a prole mestiça fica repentinamente bastante apta a adquirir essas características; por exemplo, eu cruzei alguns fantails uniformemente brancos com alguns barbs uniformemente pretos e eles produziram aves malhadas de castanho e aves pretas; em seguida, cruzei estas aves novamente. Um dos netos do fantail branco e do barb preto nasceu com uma bela cor azul, com a anca branca, uma dupla faixa preta nas asas e barradas e penas afiladas de branco na cauda, como qualquer outro pombo-das-rochas selvagem!”
“falo em 12 ou 20 gerações pois não conhecemos casos de descendentes que tenham revertido para algum ancestral separado por um número maior de gerações. No caso de uma linhagem que tenha sido cruzada apenas uma vez com uma linhagem distinta, a tendência de reversão para quaisquer características derivadas de tal cruzamento será, naturalmente, cada vez menor, pois em cada nova geração haverá menos sangue alheio; mas quando não houve nenhum cruzamento com uma linhagem distinta e há em ambos os pais a tendência de reversão das características perdidas em alguma geração anterior, então essa tendência (apesar de toda evidência contrária) pode ser transmitida sem alterações para um número indefinido de gerações.”
“Por último, os híbridos ou mestiços de todas as linhagens domésticas de pombos são perfeitamente férteis. Posso afirmar isso com base em minhas próprias observações, propositadamente feitas com as mais diferentes linhagens. Agora, é difícil, talvez impossível, apresentar algum caso de descendentes híbridos e perfeitamente férteis gerados por dois animais claramente distintos.”
“Em quarto lugar, os pombos têm sido acompanhados e cuidados com muita dedicação, bem como amados por muitas pessoas. Eles têm sido domesticados há milhares de anos em várias regiões do mundo; o registro mais antigo relacionado aos pombos pode ser encontrado na quinta dinastia egípcia, por volta de 3000 a.C., como foi dito para mim pelo professor Lepsius;(*) mas o senhor Birch(**) informou-me que os pombos aparecem em um cardápio da dinastia anterior. Nos tempos dos romanos, como ouvimos de Plínio, os pombos atingiam preços altíssimos; ‘além disso, chegaram ao ponto de darem conta do pedigree e da raça dos pombos’.
(*) Karl Richard-Lepsius (1810-1884), arqueólogo alemão.
(**) Samuel Birch (1813-1885), egiptólogo inglês.”
“Há uma circunstância bastante favorável para a produção de linhagens distintas: pombos machos e fêmeas podem, facilmente, formar casais para toda a vida; e, assim, diferentes linhagens podem ser mantidas juntas no mesmo aviário.” Incesto (digamos endogenia, pois o conceito é impróprio para animais, que não estão na esfera ética) e seus males.
“Tratei da provável origem dos pombos domésticos de forma um pouco longa, mas bastante insuficiente; a primeira vez que criei pombos e observei os vários tipos, sabendo bem que as crias mantêm as características dos pais, senti extrema dificuldade em acreditar que eles pudessem ser descendentes de um pai comum, como poderia ocorrer com qualquer naturalista ao chegar a uma conclusão semelhante em relação às muitas espécies de tentilhões ou outros grandes grupos de aves, na natureza. Uma circunstância me impressionou muito: todos os criadores dos vários animais domésticos e os cultivadores de plantas com quem conversei, ou cujos tratados li, estão firmemente convencidos de que as várias linhagens tratadas por cada um deles são descendentes de espécies aborígenes distintas. Pergunte, como eu perguntei, a um célebre criador de gado hereford se o seu gado poderia ser descendente da raça longhorn, e ele rirá de você com desprezo. Nunca conheci um apreciador de pombos, galináceos, patos ou coelhos que não estivesse totalmente convencido de que cada linhagem principal é descendente de uma espécie distinta. Jean Baptiste van Mons (1765-1842) mostra, em seu tratado sobre as pêras e as maçãs, quão grande é sua descrença na possibilidade de que os vários tipos, por exemplo, de maçãs ribston-pippin ou codlin, possam ter procedido das sementes de uma mesma árvore. (…) por conta de seus estudos contínuos e prolongados, eles ficaram fortemente impressionados com as diferenças entre as diversas raças; e embora eles bem saibam que cada raça varia ligeiramente, pois eles ganham seus prêmios ao selecionar essas pequenas diferenças, eles ainda ignoram todos os argumentos gerais, eles se recusam a sintetizar em suas mentes as pequenas diferenças acumuladas durante muitas gerações sucessivas. Será que aqueles naturalistas – que sabem muito menos sobre as leis da hereditariedade do que os criadores e que sabem tanto quanto eles sobre as conexões intermediárias das longas linhas de descendência, mas que, mesmo assim, admitem que muitas de nossas raças domésticas são descendentes dos mesmos pais – não poderiam aprender a ter cautela quando zombam da ideia de espécies em estado natural serem descendentes lineares de outras espécies?” Darwin não liga para erros de amadores, por mais crassos: mas que alguns naturalistas (supostos cientistas) ajam de maneira mais estúpida que os mais sábios dos colecionadores ou que todo colecionador com bom senso e capacidade de síntese, isso sim é indigno para a profissão e para um homem!
Seleção
Eu nem sabia que existem raças que são usadas como cavalos de carga que morreriam ou seriam péssimas disputantes como cavalos de corrida, e vice-versa…
“Não supomos que todas as linhagens tenham sido produzidas repentinamente da forma tão perfeita e útil como as vemos hoje; com efeito, sabemos que em vários casos essa não é sua história. A chave da questão é o poder do homem para realizar uma seleção acumulativa: a natureza nos dá as sucessivas variações; o homem adiciona variações em determinadas direções úteis para si. Nesse sentido, pode-se dizer que o homem produz linhagens úteis para si mesmo.”
“É certo que vários dos nossos maiores criadores conseguiram modificar algumas raças de gado e ovelhas de forma significativa, mesmo no período de uma única vida humana. Para compreendermos bem o que eles fizeram, é quase necessário lermos alguns dos muitos tratados dedicados ao assunto e avaliar os próprios animais. Os criadores costumam referir-se aos organismos dos animais como algo plástico que pode ser modelado quase que da forma que desejarem.” O problema é que havia não-cientistas já cientes do processo de seleção, mas que se imaginavam deuses por poder manipular à vontade a seleção natural mediante sua mesquinha seleção artificial. Pequenos homens! Num mundo em eterno retorno, quantas variantes de cabeças, bicos, penas, garras de pássaros vocês não acham que existem por mero atavismo?!?
“É a varinha do mágico, por meio da qual ele pode trazer à vida quaisquer formas e modelos que desejar.” Youatt, William. Sheep: Their Breeds, Management, and Diseases, to Which Is Added the Mountain Shepherd’s Manual.Londres: Baldwin and Cradock, 1837, p. 60.
“Na Saxônia, a importância do princípio da seleção em relação às ovelhas merino é tão plenamente reconhecida que os homens o seguem como um negócio: as ovelhas são colocadas em uma mesa e são analisadas assim como um especialista estuda uma pintura; isso é feito três vezes, com intervalos de meses; nesses períodos as ovelhas são marcadas e classificadas para que a melhor seja, por fim, selecionada para reprodução.”
“A melhoria não se deve de uma forma geral ao cruzamento de raças diferentes; todos os melhores criadores opõem-se fortemente a esta prática, exceto às vezes entre sub-raças muito próximas. E quando esse tipo de cruzamento é realizado, eles devem fazer uma seleção muito mais rigorosa do que a realizada nos casos normais. Se a seleção consistisse em apenas separar alguma variedade bastante distinta e reproduzir a partir dela, o princípio seria tão óbvio que nem valeria a pena ser notado; mas sua importância consiste no grande resultado produzido pela acumulação em uma única direção, durante sucessivas gerações, de diferenças absolutamente inapreciáveis para os olhos incultos; diferenças que eu tentei apreciar em vão.” O achatamento do focinho dos fofos lhasas e shitzus: muita endogamia, endogamia contínua da prole que surgisse com focinhos mais achatados que os de seus irmãos, etc.
“Nem um homem em mil tem olhos tão precisos e é tão criterioso para se tornar um importante criador.” Está mais para croupier.
“Os mesmos princípios são seguidos pelos horticultores; mas as variações nesse campo são frequentemente mais abruptas.” É como pular de romances franceses dum mesmo século direto para HQs e mangás: claro que a diferença se torna muito mais pronunciada entre cada “produção”.
“Se compararmos as flores dos dias atuais com os desenhos feitos apenas há vinte ou trinta anos, notaremos uma melhora surpreendente nas flores de muitos floristas.” Imagina como os lótus da Índia Antiga deviam ser feios… A não ser… quantos milhares de anos de “seleção humana” já haviam transcorrido antes dos Vedanta?
“Quando uma raça de plantas já está bem-estabelecida, os produtores de sementes já não escolhem as melhores plantas, mas vão simplesmente até suas plantações e arrancam as ‘daninhas’ (rogues), como eles chamam as plantas que se desviam do padrão adequado.” “quase ninguém é tão descuidado a ponto de permitir que seus piores animais procriem.(*)
(*) [Crux!] Darwin utilizará essa frase novamente em 1871, em seu livro Origem do homem, ao abordar a questão da eugenia: ‘Mas, com exceção do caso do próprio homem, dificilmente alguém é tão ignorante para permitir que seus piores animais procriem’.” O pior é não estabelecer compulsoriamente que aristocratas devam se casar com plebeus e somente com eles! Em pouco tempo os neo-aristocratas melhorarão consideravelmente…
“amor-perfeito (Viola tricolor)”
“note como os frutos dos vários tipos de groselheiras diferem em tamanho, forma, cor e pilosidade, mas, mesmo assim, como suas flores apresentam diferenças muito pequenas. Não podemos dizer que as variedades muito diferentes em alguma característica não tenham quaisquer diferenças em outras características; isso quase nunca, ou talvez nunca, ocorre.”
“É possível rejeitar o princípio da seleção ao afirmar que ele se tornou uma prática metódica há apenas pouco mais de três quartos de século; certamente demos maior atenção a ele nesses últimos anos e muitos tratados têm sido publicados sobre o assunto; posso ainda acrescentar que o resultado disso tem sido correspondentemente rápido e importante. Mas está muito longe de ser verdade que o princípio é uma descoberta moderna.”
“O princípio da seleção encontra-se claramente apresentado em uma antiga enciclopédia chinesa.” Mas aqui seleção quer dizer algo muito simples.
“Certas passagens do Gênesis não deixam dúvidas de que, já naquele tempo, cuidava-se da cor dos animais domésticos. Os selvagens atuais às vezes cruzam seus cães com animais caninos selvagens para melhorar a raça, e faziam o mesmo no passado, conforme podemos ler em certas passagens de Plínio, o Velho. [bibliografia não-confiável]”
“As alterações lentas e insensíveis deste tipo nunca poderiam ser reconhecidas, a menos que medições reais ou desenhos impecáveis das linhagens em questão já viessem sendo feitos há muito tempo para que pudéssemos compará-las.” Às vezes esqueço que D. não tinha sequer a arte da fotografia a seu dispor.
“Por um processo semelhante de seleção e pelo treinamento cuidadoso, os cavalos de corrida ingleses superam sua linhagem árabe paterna em velocidade e tamanho, ao ponto de esta última, de acordo com os regulamentos das corridas de Goodwood, ser favorecida pelo peso que carrega.”
“Youatt oferece uma excelente ilustração dos efeitos de um processo de seleção que pode ser considerado inconsciente, já que os criadores não esperavam, ou nem mesmo desejavam, ter produzido o resultado que se seguiu, a saber, a produção de duas linhagens distintas. Os dois rebanhos de ovelhas leicester mantidos pelos senhores Buckley e Burgess, conforme observa o senhor Youatt, ‘foram criados a partir de linhagens puras do grupo de animais originais do senhor Bakewellpor mais de 50 anos. Dentre aqueles que estão familiarizados com o caso, não há a mínima suspeita de que os proprietários desses dois rebanhos tenham se desviado do rebanho puro-sangue do senhor Bakewell mas, ainda assim, a diferença entre as ovelhas de cada um desses dois senhores é tão grande que elas parecem ser variedades completamente diferentes’.”
“Mesmo que existam selvagens tão bárbaros a ponto de nunca pensarem sobre as características herdadas dos descendentes de seus animais domésticos, um animal que seja particularmente útil a eles para qualquer finalidade especial será cuidadosamente preservado durante períodos de carestia e outras adversidades às quais os selvagens estão tão expostos, e esses melhores animais geralmente deixariam, dessa forma, mais descendentes do que os inferiores a eles; assim, estaríamos neste caso observando um tipo de seleção inconsciente.”
“em tempos de escassez, eles matam e devoram as mulheres velhas, pois elas têm menos valor que seus cães.(*)” Qualquer inglês metendo-se a antropólogo antes do século XX só fala asneiras.
(*) “Darwin reproduz informação recebida na viagem do Beagle, um mito repetido desde o século XVI. Em 1888, ficou bem estabelecido ser totalmente falso.”
“Ninguém espera obter um amor-perfeito de primeira qualidade ou uma dália a partir da semente de uma planta selvagem. Ninguém espera obter uma pêra que derrete na boca e de primeira qualidade a partir da semente de uma pêra selvagem, embora se possa ter sucesso a partir de uma muda de sementes fracas que estivesse crescendo em local selvagem, mas cuja origem fosse uma espécie doméstica. A pêra, embora cultivada na época clássica, parece, pela descrição de Plínio, ter sido um fruto de qualidade muito inferior.”
“Já que foram necessários séculos ou milhares de anos para aprimorar ou modificar a maioria de nossas plantas até seu presente padrão de utilidade para o homem, então podemos entender por que não recebemos nem uma única planta de cultivo da Austrália, do Cabo da Boa Esperança ou de qualquer outra região habitada por homens incivilizados. Não que esses países, tão ricos em espécies, não possuam por um estranho acaso¹ os grupos aborígenes de quaisquer plantas úteis, mas as plantas nativas não foram aprimoradas pela seleção contínua até atingirem um padrão de perfeição comparável ao oferecido, na Antiguidade, às plantas dos países civilizados.”
¹ Na verdade foi o europeu que sempre arruinou seu solo, pois não passa de um bárbaro que se cultivou às expensas dos asiáticos e africanos, incluindo aí o atual território da Grécia.
“O homem dificilmente pode selecionar, ou só com muita dificuldade, qualquer desvio de estrutura, excetuando aqueles que são externamente visíveis; e de fato ele raramente se importa com o que é interno. O homem somente consegue agir por meio da seleção após ter visto algum tipo de modificação ligeira ocorrida na natureza.”
“Mas utilizar a expressão ‘tentar criar um fantail’ é, não tenho dúvidas, na maioria dos casos, totalmente incorreto.” Tirou as palavras de minha boca.
“faz parte da natureza humana valorizar quaisquer novidades, mesmo que pequenas, daquilo que tem em mãos.” Na era da reprodutibilidade técnica, ainda mais.
“O ganso comum não deu origem a qualquer grande variedade; por isso a linhagem comum e a linhagem thoulouse, que diferem apenas na cor (a característica mais fugaz de todas), têm sido apresentadas nas exposições de aves domésticas como se fossem linhagens distintas.” Ué, mas você acabou de dizer que são linhagens distintas!
“não sabemos nada sobre a origem ou a história de nossas linhagens domésticas.” Não sabemos de porra nenhuma, nunca. Primeira lição!
“Mas, na verdade, dificilmente podemos dizer que uma linhagem, assim como o dialeto de uma língua, tenha uma origem definitiva.” Golpe de gênio.
“A manutenção de um grande número de indivíduos de uma espécie em uma região requer que as espécies sejam expostas a condições favoráveis de vida, a fim de procriarem livremente naquela região.”
“Já vi comentado de forma muito séria que, afortunadamente, os morangos apenas passaram a variar quando os horticultores começaram a cuidar dessa planta com mais atenção. Sem dúvida, desde que são cultivados, os morangos sempre variaram, mas as pequenas variações foram negligenciadas.” “as muitas variedades admiráveis de morango dos últimos trinta ou quarenta anos.” Love is red.
“Os pombos podem formar casais por toda a vida; isso é bastante conveniente para os apreciadores, pois assim muitas raças podem ser mantidas puras, mesmo que convivam no mesmo aviário; e esta circunstância deve ter favorecido bastante o aprimoramento e a formação de novas linhagens.” Na verdade segundo sua própria teoria teria criado mais monstruosidades… Sobre o acasalamento em família, Plínio estava certo!
“Por outro lado, os gatos, por causa de seus hábitos noturnos e de perambularem, não podem ser facilmente cruzados e, embora muito valorizados pelas mulheres e crianças, raramente vemos uma linhagem distinta; as linhagens por vezes encontradas quase sempre são importadas de outros países, muitas vezes de ilhas. Embora eu não duvide de que alguns animais domésticos variem menos do que outros, a raridade ou ausência de raças distintas de gatos, burros, pavões, gansos, etc. pode ser atribuída principalmente ao fato de a seleção não ter sido posta em prática: nos gatos, por causa da dificuldade de acasalamento; nos burros, por serem criados por pessoas pobres e da pouca atenção que é dada à sua reprodução; nos pavões, por sua difícil criação e pela manutenção de pequenos grupos; nos gansos, por serem valiosos apenas para duas finalidades, alimento e penas; e, de forma mais específica, porque as pessoas não sentem prazer em exibir raças distintas deste animal.” Quanto ódio ao bichinho!
2. A VARIAÇÃO NA NATUREZA
(*) “O termo ‘monstruosidades’ (grego terata) foi utilizado por Aristóteles para designar os seres com órgãos sem finalidade de linhagens domésticas, como a planta que produz a couve-flor. O termo foi continuamente utilizado pelos naturalistas, inclusive por Lineu.”
(*) “John Lubbock (1834-1913), entomologista e antropólogo, um jovem brilhante que freqüentava a casa de Darwin, tendo sido por ele muito estimulado. De uma família de banqueiros, seguiu carreira nas finanças, mas também se tornou um cientista evolucionista muito respeitado.”
(*) “Lubbock publicou, em 1858, estudos sobre a anatomia interna de um inseto conhecido como cochonilha (à época, chamado Coccus hesperidium), de grande interesse econômico, de onde se extrai um corante vermelho (ácido carmínico) com largo emprego até hoje, inclusive na indústria alimentícia (corante E 120). Em seu artigo, ele escreveu que ’o sistema nervoso, longe de ser similar em todos os espécimes, variava de maneira muito extraordinária’.”
“Os gêneros que são polimórficos em uma região parecem ser, com algumas poucas exceções, polimórficos em outras regiões e, julgando pelas conchas dos braquiópodes, também em períodos anteriores. Esses fatos são muito desconcertantes, pois parecem mostrar que esse tipo de variabilidade independe das condições de vida. Estou inclinado a suspeitar que observamos nestes gêneros polimórficos variações em pontos da estrutura que não servem nem prejudicam a espécie e que, conseqüentemente, não foram tomadas nem aceitas como definitivas pela seleção natural, como será explicado daqui por diante.”
“Na prática, quando um naturalista consegue, por meio de formas com características intermediárias, unir duas formas, ele tratará uma como sendo variedade da outra, chamando de espécie a mais comum (ou às vezes aquela que foi descrita em primeiro lugar) e a outra de variedade.”
“Compare a flora da Grã-Bretanha, da França ou dos Estados Unidos descrita por diferentes botânicos e note o número surpreendente de formas que foram classificadas por um botânico como uma espécie boa e por outro como mera variedade.”
(*) “Hewett Cottrell Watson (1804-1881), botânico pioneiro no estudo da distribuição das plantas (biogeografia) que se correspondeu intensamente com Darwin; publicou os relatos de sua expedição feita em 1842 aos Açores e, em 1845, publicou na revista Phytologist um artigo sobre Desenvolvimento Progressivo.”
“Há muitos insetos nas ilhotas do pequeno grupo da Madeira que foram caracterizados como variedades na admirável obra do senhor Wollaston mas que, sem sombra de dúvida, seriam classificados como espécies distintas por muitos entomologistas. Até mesmo a Irlanda tem alguns animais que são geralmente considerados como variedades mas que foram classificados como espécies por alguns zoólogos. Vários dos ornitólogos mais experientes consideram nosso faisão vermelho (L. lagopus) como apenas uma raça fortemente distinta de uma espécie norueguesa, mas a maioria o classifica como uma espécie indubitável e peculiar à Grã-Bretanha.”
“A distância entre a América e a Europa é grande, mas será que é suficiente a distância entre o continente e os Açores ou a ilha da Madeira, as Canárias ou a Irlanda?”
“Certamente, ainda não há uma linha clara de demarcação entre espécies e subespécies, isto é, entre as formas que, na opinião de alguns naturalistas, estejam muito próximas mas não cheguem a compor uma espécie; ou, além disso, entre subespécies e variedades bem-marcadas, ou entre as variedades menores e as diferenças individuais. Essas diferenças misturam-se entre si em uma série imperceptível; e a série imprime na mente a ideia de uma passagem real.”
“A passagem de uma fase de diferenciação para outra mais elevada pode se dever, em alguns casos, apenas à longa ação contínua de diferentes condições físicas de duas regiões diferentes; mas eu acredito muito pouco neste ponto de vista; e eu atribuo a passagem de uma variedade – que migra de um estado em que ela difere ligeiramente de seus progenitores para outro em que a diferença é maior – à ação da seleção natural, que acumula (como será daqui por diante mais plenamente explicado) diferenças de estrutura em determinadas direções definitivas.”
“Se uma variedade florescesse a ponto de ultrapassar o número de indivíduos da espécie materna, então aquela seria classificada como a espécie e a espécie como a variedade; ou ela poderia suplantar e exterminar a espécie materna; ou ambas poderiam coexistir, e ambas seriam classificadas como espécies diferentes.”
“Dessa forma, as que mais florescem ou, conforme dizemos, as espécies dominantes – aquelas que estão amplamente distribuídas por todo o mundo – são as mais difundidas em sua própria região e são as que possuem maior número de indivíduos, que com maior freqüência produzem variedades bem-marcadas ou, conforme eu as chamo, espécies incipientes.”
Um livro muito mais confuso, sem a atmosfera de clássico, do que eu poderia imaginar.
John Obadiah Westwood (1805-1893), An Introduction to the Modern Classification of Insects: founded on the natural habits and corresponding organization of the different families, Londres, 1839-1840.
“Os gêneros maiores, portanto, tendem a tornar-se ainda maiores; e, em toda a natureza, as formas de vida que agora são dominantes tendem a tornar-se ainda mais dominantes, deixando muitos descendentes dominantes modificados. Mas, por etapas que serão explicadas adiante, os gêneros maiores também tendem a se dividir em gêneros menores. E, assim, as formas .de vida em todo o universo tendem a se dividir em grupos subordinados a outros grupos.” Mistura abstrações que extrapolam com constatações um tanto óbvias.
3. LUTA PELA EXISTÊNCIA
“Já vimos que, por meio da seleção, as pessoas conseguem produzir grandes resultados e adaptar os seres orgânicos para seu próprio uso através da acumulação de pequenas, mas úteis, variações, dadas a eles pelas mãos da Natureza. No entanto a seleção natural, como veremos adiante, é um poder que está sempre pronto para agir e é imensamente superior aos fracos esforços do ser humano, da mesma forma como o são as obras da Natureza quando comparadas às obras de arte. § Trataremos agora um pouco mais detalhadamente da luta pela existência. Esse assunto será discutido com mais abrangência em uma obra futura, conforme ele bem merece.” Sempre com essas evasivas e adiamentos…
“Costumamos ver a face lustrosa da natureza com alegria, muitas vezes vemos a superabundância de alimentos; mas não vemos, ou esquecemos, que os pássaros, que cantam à toa em nosso entorno, vivem principalmente de insetos ou sementes e estão, portanto, constantemente destruindo a vida (…) nem sempre temos consciência de que, embora a comida possa ser superabundante no presente, isso não é o que ocorre em todas as estações de cada novo ano.
Devo estabelecer que uso o termo luta pela existência em sentido amplo e metafórico, que inclui a dependência de um ser em relação a outro e, ainda mais importante, que inclui não só a vida do indivíduo, mas o sucesso em deixar descendentes.”
“É a teoria de Malthus aplicada com forças múltiplas a todo o mundo dos reinos animal e vegetal; pois não há neste caso como ocorrer nenhum aumento artificial da quantidade de alimentos nem restrições discricionárias aos casamentos.”
“Lineu calculou que, se uma planta anual produzir apenas duas sementes (sendo que não existe qualquer planta tão improdutiva como essa), suas mudas produzirão mais duas no ano seguinte e assim por diante e, em vinte anos, haverá 1 milhão de plantas. O elefante é tido como o reprodutor mais lento de todos os animais conhecidos; dei-me ao trabalho de estimar sua provável taxa mínima de crescimento natural: admitindo que sua reprodução comece aos trinta anos e continue até noventa, dando à luz três pares de jovens reprodutores neste intervalo; se fosse assim, no final do quinto século haveria 15 milhões de elefantes vivos descendentes do primeiro casal.”
“se as declarações sobre a taxa de aumento do gado e de cavalos na América do Sul e mais tarde na Austrália não estivessem tão bem-documentadas, seria bastante difícil dar crédito a elas.” Só tem crédito o que fede a Europa?
“Várias das plantas mais numerosas atualmente na grande planície de La Plata, cobrindo algumas léguas quadradas da superfície e quase à exclusão de todos os outros vegetais, foram trazidas da Europa;(*) e existem plantas – importadas da América desde a sua descoberta – que hoje estão distribuídas pela Índia e, pelo que eu soube pelo doutor Falconer, espalham-se desde o Cabo Comorin até o Himalaia.
(*) Darwin se baseia na opinião dos botânicos da época, inclusive Lineu, sobre as gramíneas sul-americanas. Hoje se sabe que este exemplo não é correto. No entanto o argumento geral é válido, como em Galápagos, onde há centenas de espécies invasoras, inclusive a goiabeira.”
“Em tais casos, a progressão geométrica do aumento, cujo resultado nunca deixa de ser surpreendente, simplesmente explica o crescimento extraordinariamente rápido de indivíduos e a ampla difusão desses seres vivos em seus novos lares.”
“Nossa familiaridade com os animais domésticos maiores tende, assim imagino, a nos enganar: não vemos neles nenhuma grande destruição e esquecemos que milhares são abatidos anualmente para nos alimentar; além disso, em estado natural, um número igual de organismos também é eliminado de alguma forma.”
“A única diferença entre organismos que produzem anualmente milhares ou apenas alguns poucos ovos ou sementes é que os procriadores lentos precisariam de alguns anos a mais para povoar, em condições favoráveis, uma região inteira, mesmo que esta fosse enorme. O condor bota um par de ovos e o avestruz, vinte, e, ainda assim, na mesma região o condor pode ser o mais numeroso dos dois; a procelária (imagem, também conhecida como pardela-preta) coloca apenas um ovo, e acredita-se no entanto que seja a ave mais numerosa do mundo. Certa mosca deposita centenas de ovos, e outras, como as da família Hipobboscidae, um único; mas essa diferença não determina quantos indivíduos das duas espécies podem ser mantidos em uma região.”
“a verdadeira importância de um grande número de ovos ou sementes é compensar a grande destruição que pode ocorrer em algum período da existência; e, na grande maioria dos casos, este período ocorre na fase inicial da vida.” “Para manter o número total de uma árvore que viva mil anos, em média, basta que uma única semente seja produzida uma vez a cada mil anos, supondo que esta semente nunca seja destruída e haja garantia de que germinará em local adequado. Assim, em todos os casos, o número médio de indivíduos de qualquer animal ou planta depende apenas de forma indireta do número de ovos ou sementes produzidos por ele.” De acordo, mas isso é lógica de jardim-de-infância.
“Diminua um obstáculo, mitigue levemente a destruição e o número das espécies aumentará quase instantaneamente para quantidades cada vez maiores. A face da Natureza pode ser comparada a uma superfície macia coberta com 10 mil cunhas¹ afiadas e muito próximas umas das outras, as quais são empurradas para baixo por golpes incessantes, às vezes uma cunha sendo atingida e, então, outra sendo atingida com mais força.(*)”E para D. essa imagem ainda cheia de candura era terrível!
¹ Instrumento para rachar lenha
(*) “Essa última sentença foi excluída nas edições seguintes.” Alegação de genocídio divino!
“Não sabemos exatamente o que restringe o crescimento, nem mesmo em um único exemplo.”
“No que se refere às plantas, há uma vasta destruição de sementes, mas, a partir de algumas observações que fiz, acredito que as mudas são as que mais sofrem, por germinarem em um terreno que já está densamente ocupado por outras plantas.” “Se deixarmos crescer o gramado cortado há muito tempo – ou mesmo um gramado repisado por quadrúpedes –, as plantas mais vigorosas, mesmo já sendo adultas, gradualmente matarão as menos vigorosas; assim, de 20 espécies que crescerem em uma área gramada (de 3 pés por 4, aproximadamente 1m²), 9 morrerão se deixarmos que outras espécies cresçam livremente.”
“Se nenhuma caça fosse abatida durante os próximos vinte anos na Inglaterra e, ao mesmo tempo, se nenhum predador fosse destruído,(*) haveria, muito provavelmente, um menor número de animais de caça no futuro, apesar de centenas de milhares de animais de caça estarem sendo atualmente abatidos a cada ano.
(*) Darwin refere-se aos animais que prejudicavam os estoques de alimentos, que faziam parte da lista editada por Henrique VIII, em 1532, e ampliada por sua filha, que pagava uma recompensa pelo abate de falcões, raposas, etc., o chamado ‘Vermin Act’. As paróquias que não abatessem predadores eram multadas. Essa caça foi intensa até meados do século XVIII, e quase extinguiu diversos animais ‘nocivos’ na Inglaterra.”
“mesmo o tigre da Índia raramente ousa atacar um elefante jovem protegido por sua mãe.” Culpa humana absoluta.
“as estações periódicas de extremo frio ou as secas, acredito, são os controles mais eficazes de todos. Estimo que o inverno de 1854-1855 destruiu 80% das aves de meu próprio terreno; e essa pode ser considerada uma tremenda destruição quando nos lembramos que 10% constitui uma mortalidade extraordinariamente grave nas epidemias humanas.” Imagine se 1% da população brasileira morresse de Covid… Tudo indica que beiramos esse número… Calamidade.
(*) “Não deixa de ser evidente a visão de Darwin, compartilhando a ideologia da época, de que as plantas europeias exterminariam as dos demais continentes, mas nunca o inverso.” Burrice e prepotência cultivadas em estufa.
“Quando uma espécie, devido a circunstâncias altamente favoráveis, aumenta excessivamente o número de seus indivíduos em uma pequena região, surgem epidemias; pelo menos isso é o que parece acontecer com frequência com nossos animais de caça: e aqui temos um controle limitador que independe da luta pela vida. Mas mesmo algumas dessas epidemias parecem ser causadas por vermes parasitas que – de alguma forma, e possivelmente em parte, através de sua fácil dispersão entre os animais aglomerados – foram desproporcionalmente favorecidos; e nesse caso surge uma espécie de luta entre o parasita e sua presa.”
Animais de pastagem são incríveis predadores até de árvores grandes e não-diretamente relacionadas com sua dieta (pinheiros), pois repisam e revolvem o solo de modo a matar muitas mudas.
“se ocorresse no Paraguai um aumento no número de certas aves insetívoras (cujo limite de indivíduos é provavelmente regulado por falcões ou outros animais predadores), o número de moscas diminuiria, o gado e os cavalos se tornariam selvagens, e isso certamente causaria muitas alterações na vegetação (como de fato tenho observado em partes da América do Sul)”
oportunidade mais (r)adiante
(*) “Note-se o raciocínio da moderna ecologia, ao tratar de cadeias e teias alimentares, quando o nome dessa ciência sequer havia sido criado.” Glorificação injustificada de D.
“A partir de experiências realizadas por mim, descobri que as visitas das abelhas, além de indispensáveis, são, no mínimo, altamente benéficas para a fertilização de nossos trevos; mas apenas as abelhas do gênero Bambus visitam o trevo vermelho, [Trifolium pratense] pois as outras abelhas não conseguem alcançar o seu néctar. Portanto, tenho pouquíssima dúvida de que se todas as abelhas do gênero Bambus desaparecessem ou se tornassem muito raras na Inglaterra, o amor-perfeito e o trevo vermelho também se tornariam raros ou desapareceriam completamente.”
“Percebi que, perto de aldeias e cidades, o número de colmeias dessas abelhas era mais elevado do que em outros lugares. Atribuo esse fato ao número de gatos que matam os ratos.”Newman
“Em todas as partes da Rússia, a pequena barata asiática tem levado consigo sua congênere, a grande. Uma espécie de mostarda substituirá outra, e o mesmo ocorrerá em outros casos. Podemos ver de forma vaga por que a competição é mais severa entre as formas mais próximas, que ocupam quase o mesmo lugar na economia da natureza;”
“a vantagem de sementes plumadas está indubitavelmente relacionada com o fato de o terreno já estar densamente tomado por outras plantas; as plumas permitem que as sementes sejam levadas para mais longe e caiam em solo desocupado.”
“Observe uma planta na sua região de distribuição; por que ela não duplica ou quadruplica o número de seus indivíduos? Sabemos que ela pode suportar muito bem um pouco mais de calor ou frio, umidade ou secura, pois em outros lugares ela se distribui por regiões ligeiramente mais quentes ou mais frias, mais úmidas ou mais secas. Nesse caso podemos ver claramente que, se quiséssemos imaginar a possibilidade de oferecer à planta o poder de aumentar o número de seus indivíduos, precisaríamos dar-lhe alguma vantagem sobre seus concorrentes, ou sobre os animais que as consomem. Nas fronteiras das regiões de sua distribuição geográfica, uma mudança em sua constituição legada ao clima seria claramente uma vantagem para nossa planta; mas temos razões para acreditar que somente algumas plantas ou alguns animais atingem uma distribuição tão ampla a ponto de poderem ser destruídos apenas pelo clima. A competição não deixará de existir até que cheguemos aos limites extremos da vida, nas regiões do Ártico ou nas fronteiras de uma região completamente desértica. O território pode ser extremamente frio ou seco, mas ainda haverá competição pelos pontos mais quentes ou mais úmidos entre algumas poucas espécies, ou entre os indivíduos da mesma espécie.”
“a guerra da natureza não é incessante, o medo não é sentido, a morte é geralmente rápida e o vigoroso, o saudável e o feliz sobrevivem e se multiplicam.” Diferente do homem.
4. SELEÇÃO NATURAL
“(lembrando que nascem muito mais indivíduos do que os que conseguem sobreviver)” Não a longuíssimo prazo, diria Jack Kerouac…
“As variações que não são úteis nem prejudiciais não seriam afetadas pela seleção natural e funcionariam como um elemento flutuante, conforme notamos, talvez, nas espécies ditas polimórficas.”
“Compreenderemos melhor o caminho provável da seleção natural ao tomarmos como exemplo o caso de uma região que esteja passando por alguma transformação física como, por exemplo, mudanças climáticas.” Ó! Mudanças climáticas, num universo regulado por deus (especificamente, Jeová)?! Que achado!
O excesso de notas de rodapé realmente é um incômodo desnecessário. Não era falsamente que o prefaciador pedia desculpas…
“A seleção sexual é, portanto, menos rigorosa do que a seleção natural.”
“Um cervo sem chifres ou um galo sem esporões teriam poucas chances de deixar descendentes.”
“foi descrito que os jacarés machos brigam, rugem e giram pela posse das fêmeas como os índios em uma dança de guerra(*)
(*) Darwin repassa a informação sem investigá-la. Provavelmente se refere aos jacarés da Flórida (aligátores), cujos machos são territoriais e, embora não tenham cordas vocais, vocalizam expelindo água com ar inspirado, soando um rugido grave, capaz de atrair fêmeas e repelir outros machos.”
“Apesar de os machos dos animais carnívoros já estarem bem armados, eles – e outros animais – podem ter recebido outros meios especiais de defesa por meio da seleção sexual: a juba do leão, a ombreira do javali e a mandíbula em forma de gancho do salmão macho, pois, para a vitória, um escudo pode ser tão importante quanto uma espada ou uma lança.”
“Entre as aves, a luta muitas vezes tem um caráter mais pacífico. Todos aqueles que estudaram o tema acreditam que há uma rivalidade extremamente séria entre os machos de muitas espécies para atrair as fêmeas pelo canto.”
“Sir R. Heron(*) descreveu como um pavão malhado era altamente atraente para todas as suas fêmeas. Pode parecer infantil atribuir qualquer efeito a tais meios aparentemente fracos: não poderei aqui dedicar-me aos detalhes necessários para oferecer suporte a essa perspectiva; mas se as pessoas, de acordo com seus padrões de beleza, conseguem em um curto espaço de tempo dar um porte elegante e beleza às suas garnisés, então não vejo nenhuma razão para duvidar que as aves fêmeas, selecionando durante milhares de gerações os machos mais melodiosos ou bonitos, de acordo com seu padrão de beleza, tenham produzido um efeito marcante.
(*) ”Refere-se ao relato de um caso de 1814 atribuído ao barão Robert Heron (1765-1854), presente no verbete ‘pavão’, publicado no volume 17 da famosa The Penny Cyclopedia for the Difusion of Useful Knowledge (1840).”
“Sabemos que [nos gatos] a tendência para capturar ratos em vez de camundongos é hereditária.”
“Nenhum naturalista põe em dúvida a vantagem do que tem sido chamado de ‘divisão fisiológica do trabalho’; portanto, acreditamos que seria vantajoso para uma planta produzir estames em apenas uma flor ou planta inteira, e pistilos apenas em outra flor ou planta.”
“Passemos agora para os insetos que se alimentam de néctar em nosso caso imaginário: poderíamos supor que a planta cujo néctar estamos lentamente aumentando por meio da seleção contínua seja uma planta comum; e que certos insetos se alimentassem principalmente do néctar dela. Eu poderia enumerar muitos fatos que mostrassem a ansiedade das abelhas em economizar tempo; por exemplo, seu hábito de sugar o néctar por meio de um buraco feito por elas na base de certas flores nas quais poderiam entrar, com um pouco mais de trabalho, pela corola. Tendo tais fatos em mente, não enxergo nenhuma razão para duvidar que um desvio acidental no tamanho e na forma do corpo ou na curvatura e no comprimento da probóscide, etc. – algo demasiado pequeno para ser apreciado por nós –, poderia ser vantajoso para uma abelha ou outro inseto, e, dessa forma, um indivíduo com essas características seria capaz de obter seu alimento de modo mais rápido e, então, ter uma chance melhor de sobreviver e de deixar descendentes.”
“Estou ciente de que esta doutrina da seleção natural, apresentada nos exemplos imaginários acima, está aberta às mesmas objeções que foram inicialmente oferecidas contra os nobres pontos de vista de Sir Charles Lyell em relação às ‘mudanças modernas da Terra como exemplos da geologia’; mas hoje em dia raramente ouvimos alguém dizer que a ação, por exemplo, das ondas costeiras seja uma causa fútil e insignificante quando usada para explicar as escavações de gigantescos vales ou para a formação das mais longas linhas de falésias interiores.”
“Estou fortemente inclinado a acreditar que todos os hermafroditas precisam de dois indivíduos, de forma ocasional ou costumeira, para realizar a reprodução de sua espécie.” “A pesquisa moderna diminuiu muito o número de supostos hermafroditas e, dentre os hermafroditas verdadeiros, muitos deles também se unem; ou seja, dois indivíduos se unem regularmente para a reprodução, e isso é o que nos interessa. (…) a grande maioria das plantas é hermafrodita.”
“lei geral da natureza: que nenhum organismo fertiliza-se a si mesmo por uma eternidade de gerações, mas que o cruzamento com outro indivíduo é indispensável – ainda que isso se dê ocasionalmente, talvez em intervalos muito longos.” Outra afirmação muito óbvia, mesmo para o séc. XIX.
“as anteras e os pistilos da própria planta estão geralmente tão próximos uns dos outros que a autofertilização parece ser quase inevitável. Muitas flores, por outro lado, têm seus órgãos de frutificação estreitamente fechados, como é o caso da grande família das ervilhas ou papilionáceas; mas em várias dessas flores, talvez em todas elas, há uma adaptação muito curiosa entre a estrutura da flor e a maneira pela qual as abelhas sugam seu néctar; pois, ao fazê-lo, elas empurram o pólen da própria flor para o estigma, ou levam o pólen para outra flor.”
“As abelhas atuarão como um pincel; é suficiente tocar as anteras de uma flor e depois o estigma de outra com o mesmo pincel para garantir sua fertilização; mas não devemos supor que as abelhas produziriam dessa forma uma infinidade de híbridos entre espécies distintas; pois, se você coloca o pólen da própria planta no pincel junto com o pólen de outra espécie, o primeiro tem um efeito tão preponderante que destrói invariável e completamente quaisquer influências de grãos de pólen externos, conforme foi demonstrado por Gärtner.”
“há na Lobelia fulgens um artifício muito bonito e elaborado pelo qual cada um dos infinitamente numerosos grânulos de pólen são removidos das anteras de cada flor antes de o estigma das flores individuais estar pronto para recebê-los; e como esta flor nunca é visitada por insetos, pelo menos no meu jardim, ela nunca produz uma semente; apesar disso, consegui criar muitas sementes ao colocar o pólen de uma flor sobre o estigma de outra; enquanto isso, outra espécie de Lobelia, que cresce perto da primeira, é visitada por abelhas e produz sementes livremente.”
“Quão estranhos são esses fatos! Quão estranho é o fato de o pólen e a superfície do estigma da mesma flor estarem tão próximos, mas – como se esse fato tivesse como objetivo a própria autofertilização – serem, em tantos casos, mutuamente inúteis uns para os outros! E quão simples tornam-se esses fatos se explicados pelo ponto de vista de que o cruzamento ocasional com um indivíduo distinto é vantajoso ou indispensável!”
“lei geral segundo a qual as formas boas derivam do cruzamento entre indivíduos distintos da mesma espécie.” Me surpreende que os europeus tenham conservado seus princípios eugênicos por tanto tempo…
“Voltando-nos brevemente aos animais: no ambiente terrestre há alguns hermafroditas, como lesmas, caracóis e vermes terrestres; mas todos eles se acasalam. Até este momento não encontrei nenhum animal terrestre que fertilize a si mesmo. Esse fato notável, que oferece um contraste tão forte com as plantas terrestres, pode ser entendido por meio da hipótese de um cruzamento ocasional ser indispensável, pois, tendo em conta o meio em que vivem os animais terrestres e a natureza de seu elemento fecundante, não conhecemos nenhuma maneira, análoga à ação dos insetos e do vento no caso das plantas, pela qual um cruzamento ocasional poderia ser realizado em animais terrestres sem a concordância de dois indivíduos.”
“Durante muito tempo, pareceu-me que, sob esta hipótese, os crustáceos da infraclasse Cirripedia [cracas] apresentavam um caso bastante difícil; mas eu consegui, por um acaso feliz, provar que dois indivíduos podem cruzar, mesmo que os dois sejam hermafroditas que se autofertilizem.”
“Mas se, de fato, todos os hermafroditas cruzam ocasionalmente com outros indivíduos, resulta muito pequena a diferença entre hermafroditas e as espécies unissexuais, pelo menos no que diz respeito à reprodução.”
Darwin parece um talento hiperativo que se perde em infinitas especulações que vai elencando, enumerando, acumulando e empilhando, sem saber como desenvolvê-las de modo decisivo, não conseguindo nada além disso mesmo: ser um biólogo especulador em vários fronts. Nem sequer chamaria seu “compilado” de observações e raciocínios de teoria… Ele não tem um foco, seu livro me deixa tonto! Várias das passagens de qualquer capítulo até aqui remetem a outros capítulos: “…porém tal idéia será desenvolvida a contento no capítulo tal”. E no entanto o presente capítulo é basicamente uma lista de idéias a ser propriamente desenvolvidas alhures!
Há ainda um grave problema sintático, senão de Darwin, do tradutor: a linguagem é muito imprecisa, refletindo o caráter hesitante do “descobridor”, conforme o trecho: “Finalmente, concluo que, embora pequenas áreas isoladas tenham provavelmente sido em alguns aspectosaltamente favoráveis para a produção de novas espécies, ainda assim, o curso das modificações tem sido em geral mais rápido em grandes áreas;” Por onde começo? Pequenas áreas podem ter sido favoráveis para produzir novas espécies – como podem não ter sido! O provavelmente enfraquece todo o postulado, relativiza-o para que não possa ser contestado, basicamente. Ainda dentro da mesma frase o provável é nuançado para funcionar apenas em alguns aspectos, de modo que, mesmo que liguemos a chave do provável, tornando-o certo, essa certeza não afeta muitos aspectos, só alguns (aspecto já sendo uma palavra abstrata o bastante). Não pára por aí: altamente favoráveis, provavelmente, mas somente em alguns aspectos, lembre-se: o ser MUITO favorável é enfático, que pena que é restringido como mera probabilidade parcial de ser! Tudo isso esbarra na restritiva ainda assim, para contornar a possibilidade do “possível” estar equivocado (mas como estaria, se aponta tanto para um lado quanto para o outro, ficando em cima do muro?). Isso porque D. falava das áreas isoladas pequenas, mas agora quer estipular algum tipo de conclusão válida para áreas grandes, e portanto impossível que sejam isoladas, sendo todo um ecossistema complexo… E quer estipular conclusões para ambas, áreas pequenas e grandes, ao mesmo tempo, com algum grau de precisão… Como ele se sai? O curso das modificações (seja lá o que é curso de modificação… uma direção qualquer…) tem sido mais rápido… Não, pensando bem isso seria muito taxativo… Restrinjamos para em geral, de modo que se naturalistas me objetarem eu poderei alegar que falava apenas generalizadamente, sempre havendo exceções e casos particulares – mais uma salvaguarda! Repare a densidade de senões no texto darwiniano… Uma tática não incomum no livro.
“Podemos, talvez, [!] por meio desses pontos de vista, [quase todos os pontos de vista passíveis de enumeração!] entender alguns fatos[não todos, aliás, poucos fatos!]que serão novamente aludidos em nosso capítulo sobre distribuição geográfica;” Além de desonesto intelectualmente, é feio, truncado, horroroso para qualquer leitor… E, como sempre, a melhor parte fica para um capítulo vindouro… Onde, não duvido, ele fará outras promessas, ad infinitum… Não são raras as instâncias em que promete discutir o assunto não num capítulo já pronto do livro vigente, mas numa próxima e ainda inexistente obra… Fosse kardecista, começaria a dizer vida…
“na água doce encontramos algumas das formas mais anômalas atualmente conhecidas no mundo, como o ornitorrinco(*) e a pirambóia, os quais, como fósseis, conectam até certo ponto ordens que hoje estão amplamente separadas na escala natural. Essas formas anômalas podem quase ser chamadas de fósseis vivos; elas sobreviveram até os dias atuais por habitarem uma área confinada e por terem sido dessa maneira expostas a uma competição menos severa.(**)
(*) Ao contrário do que afirma Darwin, tem ampla distribuição geográfica no leste australiano e na Tasmânia, tendo sido introduzido na ilha Kangoroo, onde mantém população estável.
(**) Trata-se de uma afirmação equivocada de Darwin. A noção de fóssil vivo transmite a falsa ideia de que seja uma espécie que ‘sobreviveu’, permanecendo inalterada por milhões de anos, o que tem sido amplamente contrariado por estudos moleculares. Essas espécies continuaram a se adaptar sucessivamente.”
“Quando o continente transformar-se em várias ilhas separadas devido ao afundamento de partes da superfície terrestre, restarão confinados muitos indivíduos da mesma espécie em cada ilha; o cruzamento fora dos limites da distribuição de cada espécie será, assim, impedido; depois das alterações físicas de quaisquer tipos, a imigração não será possível, de tal forma que os novos nichos de cada uma das ilhas serão preenchidos por modificações nos antigos habitantes; e o tempo permitirá que as variedades de cada uma se tornem bastante modificadas e aperfeiçoadas.” É difícil entender. Ele advoga que ilhas isoladas não produzem uma estagnação da evolução das espécies, mas ao mesmo tempo afirma que nas ilhas isoladas quase não há competição e portanto nenhuma necessidade de seleção natural que leve um animal à extinção, p.ex., o que é inconciliável com o fato de que a fauna e a flore continuem a mudar tanto… Pangéia como a era da luta de todos-contra-todos – Austrália como um ambiente tranqüilo… Puras idealizações!
“…um campo justo para a seleção natural melhorar ainda mais os habitantes e, portanto, produzir novas espécies.” Ao mesmo tempo, o campo justo, para D., é a própria luta de todos-contra-todos com o menos freios possíveis.
“Muitos irão afirmar que essas várias causas são mais do que suficientes para impedir completamente a ação da seleção natural. Não creio nisso. Por outro lado, acredito que a seleção natural sempre agirá muito lentamente, muitas vezes apenas em longos intervalos de tempo e geralmente apenasem alguns poucos habitantes da mesma região ao mesmo tempo.” Você apostaria suas fichas em alguém tão hesitante em afirmar qualquer coisa que seja? Não é que lhe sobre humildade científica – isso é excesso de medo! Estou me afogando em partículas restritivas! Não estou adaptado a meio tão agressivo!
“Também acredito que essa ação muito lenta e intermitente[aqui ele acrescenta outro senão muito importante: não é só que a seleção é demasiadamente lenta, levando milhares e milhares de anos – ela também pára de agir durante certos períodos!!! por muito tempo julgava que era absolutamente corriqueiro defender D. no séc. XIX, mas lendo no original me parece algo cada vez mais heróico…] da seleção natural concorda perfeitamente bem com o que a geologia nos diz sobre o modo pelo qual os habitantes deste mundo sofreram mudanças e sobre as taxas através das quais essas alterações ocorreram.” Se ele puder se associar à geologia, e se a geologia estiver correta, jamais poderá ser refutado, pois a seleção natural biológica se torna equivalente à história geológica do planeta…
“Embora o processo de seleção seja lento, se uma pessoa qualquer consegue fazer tanta coisa por meio da seleção artificial, não vejo limites para a quantidade de alterações – para a beleza e para a infinita complexidade das coadaptações entre todos os seres orgânicos, uns com os outros e com suas condições físicas de vida – que podem ser realizadas no longo curso do tempo pelo poder de seleção da Natureza.” Inclusive uma mistura de todas as cores, retornando todos os tons e matizes ao branco originário, isto é, uma constatação do caráter cíclico dessas transformações – que afinal não podem ser infinitas num tempo limitado… mas talvez, ainda mais criticamente, num longo espaço de tempo essas variações comecem a se repetir! Por que D. nunca levanta essa possibilidade, já que é tão cauteloso? Não há progressão no reino animal.Basta lembrar, por exemplo, que os continentes estão em tendência de afastamento desde que constituímos civilizações… Mas que o “final” desse processo só pode ser uma nova Pangéia, ou nossa extinção nesse ínterim… E “nossa”, da perspectiva da biologia, poderia querer dizer respeito a “todas as espécies”, a “determinadas espécies” ou ao homem propriamente dito… Mas do ângulo da hermenêutica, não havendo observador consciente e racional, um ser-no-mundo capaz da linguagem, do que adiantaria se o homem se ausentasse do espetáculo (existência)?
“EXTINÇÃO Este assunto será mais plenamente discutido em nosso capítulo sobre geologia;”Enfurecedor, enfuriante!…
“A geologia nos mostra claramente que o número de formas específicas não aumenta indefinidamente; e há de fato um motivo para esse aumento não ter ocorrido, uma vez que na Natureza o número de nichos não aumenta indefinidamente – não que tenhamos meios de saber se uma região já tem no momento seu número máximo de espécies. Provavelmente nenhuma região está hoje totalmente abastecida, pois no Cabo da Boa Esperança, onde há mais espécies de plantas do que em qualquer outra região do mundo,(*) algumas plantas estrangeiras têm se tornado aclimatadas, sem causar, tanto quanto sabemos, a extinção de espécies nativas.
(*) Já era reconhecida a grande diversidade florística daquela região, mas espécies invasoras sempre alteram as interações ecológicas locais.”
“Conseqüentemente, toda nova variedade ou espécie, durante o progresso de sua formação, [mas toda variedade ou espécie está sempre em progresso e formação!]será geralmente mais pressionada por seus semelhantes mais próximos que tendem a exterminá-la.” Darwin atira para todos os lados sem saber no que acertar: poucas linhas antes insiste (não pela 1ª vez) na tese de que as espécies mais raras e mais ‘isoladas’ em características são as que mais sofrem na ‘luta pela sobrevivência’, e agora já afirma o contrário: quem está em perigo iminente de extinção afinal? Todas as espécies juntas aqui e agora? Mas não acaba aí. Parágrafos depois (veja se ele não volta a afirmar justamente o contrário!!): “quanto mais diversificados se tornam os descendentes de uma espécie qualquer em estrutura, constituição e hábitos, tanto mais eles são capazes de ocupar muitos nichos diversificados na Natureza e, assim, aumentar o número de seus indivíduos.” Lembrando que sempre que uma espécie aumenta muito sua quantidade de indivíduos, mais se aproxima da extinção competitiva, segundo o próprio D.
“espécies incipientes”
“mas não podemos responsabilizar apenas o acaso por diferenças tão grandes e habituais como as existentes entre as variedades da mesma espécie e entre espécies do mesmo gênero.”A natureza não tem um fim.
“Se deixarmos que a espécie utilize seu poder de crescimento de forma natural, ela somente poderá aumentar o número de seus indivíduos (se não ocorrerem alterações nas condições de sua região) caso seus descendentes variem e busquem aproveitar os nichos atualmente ocupados por outros animais: alguns deles podem fazer isso ao, por exemplo, passarem a se alimentar de novos tipos de presas, mortas ou vivas; outros, ao habitar novos pontos, outros ainda, ao subir em árvores, ao freqüentar a água, e alguns, talvez, tornando-se menos carnívoros.”Não existe essa partição fantástica que ele denomina de nicho! D. não fornece uma conceituação, e por nicho entendem-se, conforme a enumeração, coisas tão ecléticas e impossíveis de mesclar como habitat, dieta, comportamento (dir-se-ia que se inspirou muito em Lamarck!) e até adaptações tão complexas que exigiriam mutações genéticas de várias gerações (mudança de terreno do solo para a água, p.ex.!). Como é que um animal herbívoro se torna carnívoro – bem-entendido, com exceção do homem?!
“Além disso, sabemos que cada espécie e cada variedade de gramínea produzem um número quase incontável de sementes por ano; e assim está, por assim dizer, esforçando-se ao máximo para aumentar o número de seus indivíduos.”A espécie não está preocupada com nada, não existe uma consciência coletiva, apenas um instinto individual.
Alphonse de Candolle & Casimir de Candolle, Prodromus systematis naturalis regni vegetabilis
Asa Gray, Manual of the Flora of the Northern United States
BABOSEIRA COMPLETA: “A vantagem da diversificação dos habitantes de uma mesma região é, na verdade, o mesmo que a divisão fisiológica do trabalho encontrada nos órgãos do corpo de um mesmo indivíduo, conforme foi tão bem elucidado por Milne-Edwards.”
“É possível pôr em dúvida, por exemplo, se os marsupiais australianos – que são divididos em grupos com poucas diferenças e que, conforme afirmado pelo senhor Waterhouse e outros, mal representam nossos animais carnívoros, ruminantes e roedores – conseguiriam competir, com sucesso, com essas ordens bem-definidas.” Nada sei de marsupiais australianos… Mas seria são desconfiar da capacidade da fauna da Oceania? Sendo assim, que se dane o tal Mister Casa D’Água!
(*) “Darwin aplica um raciocínio que toma os marsupiais como mamíferos ‘primitivos’ e ‘incompletos’, pois é comum serem exterminados por mamíferos placentários introduzidos. No entanto esse raciocínio tem premissas falsas. Marsupiais e placentários são igualmente ‘evoluídos’, cada um à sua maneira.”
“ascendente único de nossos vários novos subgêneros e gêneros.”
“No diagrama, supusemos até agora que o espaço entre cada linha horizontal representa milhares de gerações, mas poderia representar 1 milhão ou centenas de milhões de gerações e, da mesma forma, uma seção das sucessivas camadas da crosta terrestre que contêm os restos de organismos extintos.” O erro de D. é depositar todas as suas fichas na geologia/paleontologia. Dado que não existe o elo perdido entre o homem e o macaco, pois somos produtos de uma mutação abrupta, as crenças darwinianas são a razão mesma do histrionismo de grupos criacionistas, que podem alegar a “falta de prova científica” (de uma teoria equivocada, a do elo perdido, que serviria para justificar a teoria de que se trata, na verdade, de mais longo alcance, a do ancestral comum de todos os organismos) para deitar por terra todo o discurso racional sobre o devir das espécies, em prol de textos bíblicos e da origem divina do homem.
Muitas palavras para dizer apenas o seguinte: a longo prazo, toda espécie tende à extinção, e a natureza é a personificação do caos: “Um grupo grande irá lentamente conquistar outro grupo grande, reduzir o número de seus indivíduos, juntamente com suas chances de produzir mais variações e melhoramentos. Dentro do mesmo grande grupo, os subgrupos mais jovens e mais eficientemente melhorados, ao se ramificarem e dominarem diversos novos nichos da Natureza, tenderão constantemente a suplantar e destruir os subgrupos anteriores e menos melhorados. Subgrupos e grupos pequenos e fragmentados tenderão finalmente ao desaparecimento. Olhando para o futuro, é possível prever que os grupos de seres orgânicos que são atualmente grandes e vitoriosos, e que estão menos fragmentados, ou seja, aqueles que até o momento sofreram menos extinção, continuarão aumentando por um longo período. Mas não há como prever quais grupos irão, em última análise, prevalecer; pois nós bem sabemos que no passado muitos grupos bastante desenvolvidos foram extintos.”Os dinossauros refutam perfeitamente D.: a espécie ‘mais bem-adaptada e dominante’ passa a ser a mais mal-adaptada assim que sobrevém um racionamento de comida.
“Voltarei a esse assunto no capítulo sobre classificação, mas posso acrescentar que a partir desse ponto de vista segundo o qual pouquíssimas espécies do passado mais remoto tenham gerado descendentes, e do ponto de vista de que todos os descendentes da mesma espécie formam uma classe, podemos entender por que existem poucas classes em cada divisão principal dos reinos vegetal e animal.” Se seu raciocínio estivesse correto, com a idade que tem a Terra deveria ter havido só uma classe que pudéssemos detectar, ou seja, com registros fósseis e a única existente há já milhões de anos, pois essa é justamente a tendência ou projeção para um futuro tendente ao infinito segundo as teorias de D.E, como sempre, parece que o comentador da edição concorda comigo:
(*) “A afirmação de que a maioria das espécies que já existiram no planeta foi extinta é corajosa e se mantém correta; o mesmo não se pode dizer da variação do número de classes, uma conjectura sem base factual.”
5. LEIS DA VARIAÇÃO
“O avestruz, na verdade, vive no continente e está exposto a perigos dos quais não consegue escapar pelo vôo, mas consegue defender-se dos inimigos por meio de coices, como bem fariam todos os quadrúpedes menores. Podemos imaginar que o antigo progenitor do avestruz tivesse hábitos semelhantes aos de uma abetarda(*) e que – após a seleção natural ter aumentado o tamanho e o peso do seu corpo em gerações consecutivas – suas pernas tenham passado a ser mais utilizadas e suas asas menos, até que eles se tornaram incapazes de voar.
(*) Nome genérico das aves da família Otididae.”
“Como eu acredito que nossos animais domésticos foram originalmente escolhidos pelo ser humano primitivo por causa da facilidade com que eram criados em confinamento e por serem úteis, e não por ter sido descoberto mais tarde que poderiam realizar o transporte a longas distâncias, acredito que a capacidade comum e extraordinária de nossos animais domésticos de não apenas resistir aos climas mais diversos, mas também de manterem-se perfeitamente férteis (um teste muito mais forte) em qualquer um deles, possa ser usada como um argumento para defender a idéia de que muitos outros animais – neste caso em estado natural – poderiam facilmente suportar diversos tipos de clima.”
“CORRELAÇÕES DE CRESCIMENTO Com essa expressão quero dizer que as partes do organismo todo estão tão ligadas umas às outras durante seu crescimento e desenvolvimento que, quando ocorrem pequenas variações em qualquer dessas partes e essas são acumuladas através da seleção natural, outras partes também são modificadas. Esse é um assunto muito importante e compreendido de forma bastante imperfeita.”
“O que é mais comum do que a relação entre os olhos azuis e a surdez dos gatos ou do que a cor dos cascos e o sexo feminino das tartarugas? Ou, nos pombos, a relação entre os pés com penas e a pele entre os dedos externos, bem como a presença de mais ou menos penugem nas aves jovens quando saem de seus ovos com a futura cor de sua plumagem; ou, mais uma vez, a relação entre os pêlos e os dentes do cão sem pêlos da Turquia, ainda que neste caso a homologia tenha relevância? Em relação a este último caso de correlação, acredito que dificilmente poderia ser algo acidental que as duas ordens de mamíferos mais anômalas em suas coberturas dérmicas, como, por exemplo, os cetáceos (baleias) e a ordem Edentata (tatus, pangolins, etc.), fossem também as ordens com mais formas anômalas de dentição.”
“Geoffroy Sênior e Goethe(*) propuseram, mais ou menos na mesma época, a lei da compensação ou do equilíbrio do crescimento; ou, conforme disse Goethe, ‘a fim de gastar de um lado, a natureza é forçada a economizar do outro’.
(*) A metamorfose das plantas, 1790.”
6. CONTROVÉRSIAS ENVOLVENDO A TEORIA
Argumentação pouco convincente.
E FEZ-SE: “Sabermos como um nervo passa a ser sensível à luz é algo que nos desafia tanto quanto o faz não sabermos como a própria vida originou-se; mas reparem que [diversos fatos me fazem suspeitar que]¹ qualquer nervo sensível pode tornar-se sensível à luz e, da mesma forma, às vibrações mais grosseiras do ar que produzem o som.”
¹ Darwin escreve mal e de maneira hesitante. O trecho entre colchetes poderia ser facilmente omitido, ganhando-se em concisão e confiança.
“É preciso que a razão conquiste a imaginação; e, já que eu mesmo senti a profundidade dessa dificuldade, não me surpreende que as pessoas hesitem em conceder tamanha amplitude ao princípio da seleção natural.” Irônico que esse comentário parta de um superempírico: aquele que só afirma o que vê, não se arriscando a tecer conclusões lógicas sem dados imediatos. Sem falar que parece uma obra medieval, überpreocupada com deus.
7. INSTINTO
“Uma pequena dose de juízo ou razão, como afirma Pierre Huber,(*) muitas vezes entra em jogo, mesmo em animais que estão na base da escala da Natureza.
(*) Jean-Pierre Huber (1777-1840), entomólogo suíço, autor de diversos estudos sobre comportamento de insetos, seguiu a carreira do pai.”
“Se Mozart, em vez de tocar piano aos 3 anos de idade admiravelmente apesar da pouca destreza, já tivesse produzido música sem nenhuma instrução anterior, poderíamos então dizer com convicção que ele o teria feito de forma instintiva.”
“o medo do [em relação ao] homem é algo adquirido lentamente por vários animais que habitam ilhas desertas”
“o corvo, tão cauteloso na Inglaterra, é muito dócil na Noruega, tal como a gralha-cinzenta o é no Egito.”
“Le Roy descreve um cão cujo bisavô era um lobo; este cão mostrou um traço de sua ascendência selvagem somente de uma maneira: ele não ia em linha reta até seu dono quando era chamado.”
“nenhum animal é mais difícil de amansar do que os filhotes do coelho selvagem, mas quase nenhum outro animal é tão dócil quanto os filhotes do coelho domesticado”
“É praticamente impossível duvidar que o amor pelas pessoas se tornou algo instintivo nos cães. Todos os lobos, raposas, chacais e espécies do gênero Felis (gatos), quando mantidos mansos, ficam mais propensos a atacar aves, ovelhas e porcos; e descobrimos que essa tendência é algo incurável nos cães que foram trazidos ainda jovens para casa (Inglaterra) de regiões como a Terra do Fogo e a Austrália, onde os selvagens não os criavam como animais domésticos. Por outro lado, nossos cães domésticos raramente precisam, mesmo quando muito jovens, ser ensinados a não atacar aves, ovelhas e porcos!” “Por outro lado, as galinhas jovens perderam, inteiramente pelo hábito, o medo do cão e do gato”
(*) “Thomas Mayo Brewer (1814-1880), naturalista norte-americano, co-autor dos 3 volumes de A History of North American Birds (1874).”
“Muitas abelhas são parasitas e sempre põem seus ovos em ninhos de abelhas de outros tipos. Esse caso é mais notável do que o do cuco; pois não apenas os instintos dessas abelhas foram modificados de acordo com seus hábitos parasitários, mas também suas estruturas; isso porque elas não possuem o aparato de coleta de pólen que seria necessário para armazenar alimentos para sua própria prole.”
“As formigas são tão absolutamente desamparadas que, quando Huber isolou 30 delas sem nenhuma escrava, mas com os alimentos que mais gostam e com suas larvas e pupas para estimulá-las a trabalhar, elas não fizeram nada; não conseguiram nem se alimentar, e muitas morreram de fome. Huber, em seguida, introduziu uma única escrava (F. fusca), e ela imediatamente começou a trabalhar, alimentando e salvando os sobreviventes; construiu alguns alvéolos, cuidou das larvas e colocou a casa em ordem.” Jean-Pierre Huber, Recherches sur les Moeurs des Formis Indigenes [Natural History of Ants], 1810.
(*) “O tradutor do livro para o inglês, J.R. Johnson, tomou a decisão de substituir a expressão ‘formigas cinza-escuro’ por ‘negro’ e ‘formigas negras’ (negro e negro ant), por causa da ‘coloração’ e ‘situação mantida na colônia’ (de subserviência), uma clara referência à condição de escravizada. O tradutor registrou a ‘liberdade’ da tradução em nota, à página 252. No entanto, nem mesmo na versão inglesa aparecem os termos relativos à escravidão, como ‘escravo’, ‘senhor’ ou ‘mestre’. Darwin tinha um exemplar do original em francês, mas utilizou alguns dos termos de comentadores desde que a primeira resenha do livro foi publicada em inglês, em 1812. (…) Huber foi muito criticado por ‘naturalizar’ a escravidão, como se sua descrição fosse apenas obra de sua imaginação, mas provou ter sido um observador muito rigoroso.”
“Eu abri 14 formigueiros de F. sanguinea e encontrei algumas poucas escravas em todos eles. Machos e fêmeas férteis da espécie escrava são encontrados somente em suas próprias comunidades e nunca são vistos nos formigueiros da F. sanguinea. As formigas escravas são pretas e têm quase a metade do tamanho de suas mestras vermelhas”
“na Suíça, as escravas costumam trabalhar com suas mestras para construir o formigueiro, e elas são as únicas que abrem e fecham as portas pela manhã e à noite; e, conforme afirmado expressamente por Huber, a principal função delas é buscar pulgões. Esta diferença nos costumes habituais entre mestras e escravas nos dois países está ligada, provavelmente, ao fato de as escravas serem capturadas em maior número na Suíça em comparação com a Inglaterra.”
“Isso me deixou curioso para saber se a F. sanguinea era capaz de distinguir as pupas da F. fusca, que habitualmente são escravizadas, da pequena e furiosa F. flava, que é raramente capturada; ficou claro que elas conseguiam diferenciá-las de imediato, pois notei que, de forma ansiosa e com rapidez, elas capturavam as
pupas de F. fusca, mas ficavam muito aterrorizadas quando se deparavam com as pupas, ou até mesmo com a terra do formigueiro da F. flava, e rapidamente fugiam; mas após cerca de um quarto de hora, logo depois de todas as pequenas formigas amarelas terem ido embora, elas criavam coragem e carregavam as pupas para casa.”
(*) “Sabe-se hoje que a F. sanguinea nem sempre captura outras formigas, pois pode se autossustentar. Já as formigas descritas no início da seção como F. rufescens têm hábitos bem distintos e são incapazes de sobreviver sem a ajuda de formigas de outras espécies. Essa relação ecológica é denominada ‘esclavagismo’, e em outras línguas se utiliza o termo dulosis, derivado do vocábulo grego DOULOS = escravos.”
(*) “As melíponas são abelhas americanas sem ferrão, que ocorrem do México até a Argentina, sendo conhecidas entre nós com os nomes mandaçaia, urucu, etc.” Afinal, abelha é a própria definição de “com ferrão”!
“A maneira como as abelhas constroem é curiosa; elas sempre fazem uma parede grosseira que é de 10 a 20 vezes mais espessa que a parede excessivamente fina do alvéolo pronto, a qual, em última análise, será deixada assim. Nós podemos entender como elas trabalham ao imaginarmos pedreiros que primeiro juntam cimento em uma parede grossa e logo em seguida começam a aplainá-la igualmente em ambos os lados próximos ao solo até que, por fim, obtenham no centro uma parede lisa e muito fina; no processo, os pedreiros empilham o cimento retirado ao topo da parede e ao mesmo tempo adicionam cimento fresco.”
“Por este modo singular de construção, o favo ganha força contínua, com a máxima economia final de cera.(*)(**)
(*) Darwin parte da conjectura de que o favo de mel da abelha-europeia é a forma mais econômica de obter máximo poder de estocagem com mínimo consumo de cera. Trata-se de um problema matemático estudado desde a Grécia Antiga, relacionando menor perímetro com máxima área, visto como uma solução divina. Darwin procura mostrar como o mesmo problema pode ter sido solucionado pela ação da seleção natural, sem intervenção divina, o que provocou grande ira nos círculos religiosos.
(**) O matemático húngaro László Tóth (1915-2005) demonstrou, em 1965, que a afirmação não é rigorosamente correta para as 3 dimensões.”
(*) “O fóssil mais antigo de abelhas foi datado recentemente ao redor de 100 milhões de anos, e tem características semelhantes às das vespas, embora tenha adaptações para transporte de pólen. Esse fato indica que a evolução das abelhas certamente ocorreu em período muito anterior ao imaginado por Darwin”
8. HIBRIDISMO
“Acredito que a importância do fato de que os híbridos costumam ser estéreis tem sido muito subestimada por alguns autores modernos.”
cunha: instrumento para rachar lenha, de ferro ou madeira
rômbico: losango
tentilhão: “é uma ave de pequeno porte, com cerca de 15cm, da família dos Fringilídeos, de coloração bastante viva e canto bem sonoro. Habita toda a Europa, Ásia Central e norte da África, em zonas florestais e de pinheirais. Se alimenta de sementes e insetos. É também chamada de pintarroxo; chopin; pincha; chincho; patachim; chapin, etc.” Literalmente, AVE Maria, quantos nomes!
visco: “Planta da família das viscáceas” (chamada na obra de parasita; nas notas de hemiparasita)
Lista das obras grifadas em vermelho, em ordem alfabética:
BREWER, A History of North American Birds
CUVIER, ‘Observations sur le cadavre d’une femme connue à Paris et à Londres sous le nom de Vénus hottentote’
DE CANDOLLE & DE CANDOLLE, Prodromus systematis naturalis regni vegetabilis
GOETHE, A metamorphose das plantas
GRAY, Manual of the Flora of the Northern United States
HUBER, Recherches sur les Moeurs des Formis Indigenes [Natural History of Ants]
LYELL, Principles of Geology (3 vols.)
SAINT-HILAIRE, Cours de l’histoire naturelle des mammifères
VAN MONS, Abres fruitiers (livro sobre maçãs e pêras!)
WESTWOOD, An Introduction to the Modern Classification of Insects
YOUATT, William. Sheep: Their Breeds, Management, and Diseases, to Which Is Added the Mountain Shepherd’s Manual
“This is it, Adam, that grieves me; and the spirit of my father, which I think is within me, begins to mutiny against this servitude: I will no longer endure it, though yet I know no wise remedy how to avoid it.”
“OLIVER
Now, sir! what make you here?
ORLANDO
Nothing: I am not taught to make any thing.
OLIVER
What mar you then, sir?
ORLANDO
Marry, sir, I am helping you to mar that which God
made, a poor unworthy brother of yours, with idleness.”
“ORLANDO
Shall I keep your hogs and eat husks with them?
What prodigal portion have I spent, that I should
come to such penury?”
“The courtesy of nations allows you my better, in that you are the first-born; but the same tradition takes not away my blood, were there twenty brothers betwixt us: I have as much of my father in me as you; albeit, I confess, your coming before me is nearer to his reverence.”
“Wert thou not my brother, I would not take this hand from thy throat till this other had pulled out thy tongue for saying so”
“OLIVER
And what wilt thou do? beg, when that is spent?
Well, sir, get you in: I will not long be troubled
with you; you shall have some part of your will: I
pray you, leave me.”
“OLIVER
Get you with him, you old dog.
ADAM
Is ‘old dog’ my reward? Most true, I have lost my
teeth in your service. God be with my old master!
he would not have spoke such a word.
Exeunt ORLANDO and ADAM”
“CHARLES
They say he is already in the forest of Arden, and
a many merry men with him; and there they live like
the old Robin Hood of England: they say many young
gentlemen flock to him every day, and fleet the time
carelessly, as they did in the golden world.”
“I’ll tell thee, Charles: it is the stubbornest young fellow of France, full of ambition, an envious emulator of every man’s good parts, a secret and villanous contriver against me his natural brother: therefore use thy discretion; I had as lief thou didst break his neck as his finger. And thou wert best look to’t; for if thou dost him any slight disgrace or if he do not mightily grace himself on thee, he will practise against thee by poison, entrap thee by some treacherous device and never leave thee till he hath ta’en thy life by some indirect means or other; for, I assure thee, and almost with tears I speak it, there is not one so young and so villanous this day living. I speak but brotherly of him; but should I anatomize him to thee as he is, I must blush and weep and thou must look pale and wonder.”
“Exit CHARLES
Now will I stir this gamester: I hope I shall see
an end of him; for my soul, yet I know not why,
hates nothing more than he. Yet he’s gentle, never
schooled and yet learned, full of noble device, of
all sorts enchantingly beloved, and indeed so much
in the heart of the world, and especially of my own
people, who best know him, that I am altogether
misprised: but it shall not be so long; this
wrestler shall clear all: nothing remains but that
I kindle the boy thither; which now I’ll go about.
Exit”
SCENE II. Lawn before the Duke’s palace.
“for always the dulness of the fool is the whetstone of the wits.”
“ROSALIND
But is there any else longs to see this broken music
in his sides? is there yet another dotes upon
rib-breaking? Shall we see this wrestling, cousin?
LE BEAU
You must, if you stay here; for here is the place
appointed for the wrestling, and they are ready to
perform it.”
“DUKE FREDERICK
You will take little delight in it, I can tell you;
there is such odds in the man. In pity of the
challenger’s youth I would fain dissuade him, but he
will not be entreated. Speak to him, ladies; see if
you can move him.”
“ROSALIND
Young man, have you challenged Charles the wrestler?
ORLANDO
No, fair princess; he is the general challenger: I
come but in, as others do, to try with him the
strength of my youth.
CELIA
Young gentleman, your spirits are too bold for your
years. You have seen cruel proof of this man’s
strength: if you saw yourself with your eyes or
knew yourself with your judgment, the fear of your
adventure would counsel you to a more equal
enterprise. We pray you, for your own sake, to
embrace your own safety and give over this attempt.”
“ORLANDO
I beseech you, punish me not with your hard
thoughts; wherein I confess me much guilty, to deny
so fair and excellent ladies any thing. But let
your fair eyes and gentle wishes go with me to my
trial: wherein if I be foiled, there is but one
shamed that was never gracious; if killed, but one
dead that was willing to be so: I shall do my
friends no wrong, for I have none to lament me, the
world no injury, for in it I have nothing; only in
the world I fill up a place, which may be better
supplied when I have made it empty.”
“They wrestle
ROSALIND
O excellent young man!
CELIA
If I had a thunderbolt in mine eye, I can tell who
should down.
Shout. CHARLES is thrown
DUKE FREDERICK
No more, no more.
ORLANDO
Yes, I beseech your grace: I am not yet well breathed.”
“DUKE FREDERICK
I would thou hadst been son to some man else:
The world esteem’d thy father honourable,
But I did find him still mine enemy:
Thou shouldst have better pleased me with this deed,
Hadst thou descended from another house.
But fare thee well; thou art a gallant youth:
I would thou hadst told me of another father.
Exeunt DUKE FREDERICK, train, and LE BEAU”
“CELIA
Gentle cousin,
Let us go thank him and encourage him:
My father’s rough and envious disposition
Sticks me at heart. Sir, you have well deserved:
If you do keep your promises in love
But justly, as you have exceeded all promise,
Your mistress shall be happy.”
“ORLANDO
What passion hangs these weights upon my tongue?
I cannot speak to her, yet she urged conference.
O poor Orlando, thou art overthrown!
Or Charles or something weaker masters thee.”
“LE BEAU
Good sir, I do in friendship counsel you
To leave this place. Albeit you have deserved
High commendation, true applause and love,
Yet such is now the duke’s condition
That he misconstrues all that you have done.
The duke is humorous; what he is indeed,
More suits you to conceive than I to speak of.”
“Thus must I from the smoke into the smother;
From tyrant duke unto a tyrant brother:
But heavenly Rosalind!
Exit”
SCENE III. A room in the palace.
“is it possible, on such a sudden, you should fall into so strong a liking with old Sir Rowland’s youngest son?”
“DUKE FREDERICK
Mistress, dispatch you with your safest haste
And get you from our court.
ROSALIND
Me, uncle?
DUKE FREDERICK
You, cousin
Within these ten days if that thou be’st found
So near our public court as twenty miles,
Thou diest for it.”
“DUKE FREDERICK
Thou art thy father’s daughter; there’s enough.”
“Treason is not inherited, my lord;
Or, if we did derive it from our friends,
What’s that to me? my father was no traitor:
Then, good my liege, mistake me not so much
To think my poverty is treacherous.”
“CELIA
No, hath not? Rosalind lacks then the love
Which teacheth thee that thou and I am one:
Shall we be sunder’d? shall we part, sweet girl?
No: let my father seek another heir.
Therefore devise with me how we may fly,
Whither to go and what to bear with us;
And do not seek to take your change upon you,
To bear your griefs yourself and leave me out;
For, by this heaven, now at our sorrows pale,
Say what thou canst, I’ll go along with thee.”
“ROSALIND
Alas, what danger will it be to us,
Maids as we are, to travel forth so far!
Beauty provoketh thieves sooner than gold.
CELIA
I’ll put myself in poor and mean attire
And with a kind of umber smirch my face;
The like do you: so shall we pass along
And never stir assailants.”
“CELIA
What shall I call thee when thou art a man?
ROSALIND
I’ll have no worse a name than Jove’s own page;
And therefore look you call me Ganymede.
But what will you be call’d?
CELIA
Something that hath a reference to my state
No longer Celia, but Aliena.
ROSALIND
But, cousin, what if we assay’d to steal
The clownish fool out of your father’s court?
Would he not be a comfort to our travel?
CELIA
He’ll go along o’er the wide world with me;
Leave me alone to woo him. Let’s away,
And get our jewels and our wealth together,
Devise the fittest time and safest way
To hide us from pursuit that will be made
After my flight. Now go we in content
To liberty and not to banishment.
Exeunt”
ACT 2
SCENE I. The Forest of Arden.
“DUKE SENIOR
Now, my co-mates and brothers in exile,
Hath not old custom made this life more sweet
Than that of painted pomp? Are not these woods
More free from peril than the envious court?
Here feel we but the penalty of Adam,
The seasons’ difference, as the icy fang
And churlish chiding of the winter’s wind,
Which, when it bites and blows upon my body,
Even till I shrink with cold, I smile and say
‘This is no flattery: these are counsellors
That feelingly persuade me what I am.’”
“And this our life exempt from public haunt
Finds tongues in trees, books in the running brooks,
Sermons in stones and good in every thing.
I would not change it.
AMIENS
Happy is your grace,
That can translate the stubbornness of fortune
Into so quiet and so sweet a style.”
SCENE II. A room in the palace.
(…)
SCENE III. Before OLIVER’S house.
“Know you not, master, to some kind of men
Their graces serve them but as enemies?
No more do yours: your virtues, gentle master,
Are sanctified and holy traitors to you.
O, what a world is this, when what is comely
Envenoms him that bears it!”
“Thou art not for the fashion of these times,
Where none will sweat but for promotion,
And having that, do choke their service up
Even with the having: it is not so with thee.”
“ADAM
Master, go on, and I will follow thee,
To the last gasp, with truth and loyalty.
From seventeen years till now almost fourscore
Here lived I, but now live here no more.
At seventeen years many their fortunes seek;
But at fourscore it is too late a week:
Yet fortune cannot recompense me better
Than to die well and not my master’s debtor.
Exeunt”
SCENE IV. The Forest of Arden.
(…)
SCENE V. The Forest.
(…)
SCENE V. The Forest.
ORLANDO
“I will here be with thee presently;
and if I bring thee not something to eat, I will
give thee leave to die: but if thou diest before I
come, thou art a mocker of my labour.”
SCENE VII. The forest.
JAQUES
“The motley fool thus moral on the time,
My lungs began to crow like chanticleer,
That fools should be so deep-contemplative,
And I did laugh sans intermission
An hour by his dial. O noble fool!
A worthy fool! Motley’s the only wear.”
“O that I were a fool! I am ambitious for a motley coat.”
“…I must have liberty
Withal, as large a charter as the wind,
To blow on whom I please; for so fools have;
And they that are most galled with my folly,
They most must laugh. And why, sir, must they so?
The “why’ is plain as way to parish church:
He that a fool doth very wisely hit
Doth very foolishly, although he smart,
Not to seem senseless of the bob: if not,
The wise man’s folly is anatomized
Even by the squandering glances of the fool.
Invest me in my motley; give me leave
To speak my mind, and I will through and through
Cleanse the foul body of the infected world,
If they will patiently receive my medicine.”
DUKE SENIOR
“For thou thyself hast been a libertine,
As sensual as the brutish sting itself;
And all the embossed sores and headed evils,
That thou with licence of free foot hast caught,
Wouldst thou disgorge into the general world.”
“What woman in the city do I name,
When that I say the city-woman bears
The cost of princes on unworthy shoulders?
Who can come in and say that I mean her,
When such a one as she such is her neighbour?
Or what is he of basest function
That says his bravery is not of my cost,
Thinking that I mean him, but therein suits
His folly to the mettle of my speech?
There then; how then? what then? Let me see wherein
My tongue hath wrong’d him: if it do him right,
Then he hath wrong’d himself; if he be free,
Why then my taxing like a wild-goose flies,
Unclaim’d of any man. But who comes here?”
“ORLANDO
I almost die for food; and let me have it.
DUKE SENIOR
Sit down and feed, and welcome to our table.”
“DUKE SENIOR
Thou seest we are not all alone unhappy:
This wide and universal theatre
Presents more woeful pageants than the scene
Wherein we play in.
JAQUES
All the world’s a stage,
And all the men and women merely players:
They have their exits and their entrances;
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages. At first the infant,
Mewling and puking in the nurse’s arms.
And then the whining school-boy, with his satchel
And shining morning face, creeping like snail
Unwillingly to school. And then the lover,
Sighing like furnace, with a woeful ballad
Made to his mistress’ eyebrow. Then a soldier,
Full of strange oaths and bearded like the pard,
Jealous in honour, sudden and quick in quarrel,
Seeking the bubble reputation
Even in the cannon’s mouth. And then the justice,
In fair round belly with good capon lined,
With eyes severe and beard of formal cut,
Full of wise saws and modern instances;
And so he plays his part. The sixth age shifts
Into the lean and slipper’d pantaloon,
With spectacles on nose and pouch on side,
His youthful hose, well saved, a world too wide
For his shrunk shank; and his big manly voice,
Turning again toward childish treble, pipes
And whistles in his sound. Last scene of all,
That ends this strange eventful history,
Is second childishness and mere oblivion,
Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.”
“Most friendship is feigning, most loving mere folly:
Then, heigh-ho, the holly!
This life is most jolly.
Freeze, freeze, thou bitter sky,
That dost not bite so nigh
As benefits forgot:”
“…I am the duke
That loved your father: the residue of your fortune,
Go to my cave and tell me. Good old man,
Thou art right welcome as thy master is.
Support him by the arm….”
ACT III
SCENE I. A room in the palace.
(…)
SCENE II. The forest.
“TOUCHSTONE
For a taste:
If a hart do lack a hind,
Let him seek out Rosalind.
If the cat will after kind,
So be sure will Rosalind.
Winter garments must be lined,
So must slender Rosalind.
They that reap must sheaf and bind;
Then to cart with Rosalind.
Sweetest nut hath sourest rind,
Such a nut is Rosalind.
He that sweetest rose will find
Must find love’s prick and Rosalind.
This is the very false gallop of verses: why do you
infect yourself with them?
ROSALIND
Peace, you dull fool! I found them on a tree.
TOUCHSTONE
Truly, the tree yields bad fruit.”
“ROSALIND
I was seven of the nine days out of the wonder
before you came; for look here what I found on a
palm-tree. I was never so be-rhymed since
Pythagoras’ time, that I was an Irish rat, which I
can hardly remember.
CELIA
Trow you who hath done this?
ROSALIND
Is it a man?
CELIA
And a chain, that you once wore, about his neck.
Change you colour?
ROSALIND
I prithee, who?
CELIA
O Lord, Lord! it is a hard matter for friends to
meet; but mountains may be removed with earthquakes
and so encounter.”
“ROSALIND
Good my complexion! dost thou think, though I am
caparisoned like a man, I have a doublet and hose in
my disposition? One inch of delay more is a
South-sea of discovery; I prithee, tell me who is it
quickly, and speak apace. I would thou couldst
stammer, that thou mightst pour this concealed man
out of thy mouth, as wine comes out of a narrow-
mouthed bottle, either too much at once, or none at
all. I prithee, take the cork out of thy mouth that
may drink thy tidings.
CELIA
So you may put a man in your belly.
ROSALIND
Is he of God’s making? What manner of man? Is his
head worth a hat, or his chin worth a beard?
CELIA
Nay, he hath but a little beard.
ROSALIND
Why, God will send more, if the man will be
thankful: let me stay the growth of his beard, if
thou delay me not the knowledge of his chin.
CELIA
It is young Orlando, that tripped up the wrestler’s
heels and your heart both in an instant.”
“ROSALIND
Alas the day! what shall I do with my doublet and
hose? What did he when thou sawest him? What said
he? How looked he? Wherein went he? What makes
him here? Did he ask for me? Where remains he?
How parted he with thee? and when shalt thou see
him again? Answer me in one word.
CELIA
You must borrow me Gargantua’s mouth first: ‘tis a
word too great for any mouth of this age’s size. To
say ay and no to these particulars is more than to
answer in a catechism.
ROSALIND
But doth he know that I am in this forest and in
man’s apparel? Looks he as freshly as he did the
day he wrestled?
CELIA
It is as easy to count atomies as to resolve the
propositions of a lover; but take a taste of my
finding him, and relish it with good observance.
I found him under a tree, like a dropped acorn.
ROSALIND
It may well be called Jove’s tree, when it drops
forth such fruit.”
“Enter ORLANDO and JAQUES”
“JAQUES
I pray you, mar no more trees with writing
love-songs in their barks.
ORLANDO
I pray you, mar no more of my verses with reading
them ill-favouredly.”
“JAQUES
Rosalind is your love’s name?
ORLANDO
Yes, just.
JAQUES
I do not like her name.
ORLANDO
There was no thought of pleasing you when she was
christened.
JAQUES
What stature is she of?
ORLANDO
Just as high as my heart.
JAQUES
You are full of pretty answers. Have you not been
acquainted with goldsmiths’ wives, and conned them
out of rings?”
“JAQUES
The worst fault you have is to be in love.
ORLANDO
‘Tis a fault I will not change for your best virtue.
I am weary of you.
JAQUES
By my troth, I was seeking for a fool when I found
you.
ORLANDO
He is drowned in the brook: look but in, and you
shall see him.
JAQUES
There I shall see mine own figure.
ORLANDO
Which I take to be either a fool or a cipher.
JAQUES
I’ll tarry no longer with you: farewell, good
Signior Love.”
“ORLANDO
Who ambles Time withal?
ROSALIND
With a priest that lacks Latin and a rich man that
hath not the gout, for the one sleeps easily because
he cannot study, and the other lives merrily because
he feels no pain, the one lacking the burden of lean
and wasteful learning, the other knowing no burden
of heavy tedious penury; these Time ambles withal.”
“ORLANDO
Your accent is something finer than you could
purchase in so removed a dwelling.”
“ROSALIND
No, I will not cast away my physic but on those that
are sick. There is a man haunts the forest, that
abuses our young plants with carving ‘Rosalind’ on
their barks; hangs odes upon hawthorns and elegies
on brambles, all, forsooth, deifying the name of
Rosalind: if I could meet that fancy-monger I would
give him some good counsel, for he seems to have the
quotidian of love upon him.
ORLANDO
I am he that is so love-shaked: I pray you tell me
your remedy.”
“ROSALIND
A lean cheek, which you have not, a blue eye and
sunken, which you have not, an unquestionable
spirit, which you have not, a beard neglected,
which you have not; but I pardon you for that, for
simply your having in beard is a younger brother’s
revenue: then your hose should be ungartered, your
bonnet unbanded, your sleeve unbuttoned, your shoe
untied and every thing about you demonstrating a
careless desolation; but you are no such man; you
are rather point-device in your accoutrements as
loving yourself than seeming the lover of any other.”
“ROSALIND
Love is merely a madness, and, I tell you, deserves
as well a dark house and a whip as madmen do: and
the reason why they are not so punished and cured
is, that the lunacy is so ordinary that the whippers
are in love too. Yet I profess curing it by counsel.”
“…would now like him, now loathe
him; then entertain him, then forswear him; now weep
for him, then spit at him; that I drave my suitor
from his mad humour of love to a living humour of
madness; which was, to forswear the full stream of
the world, and to live in a nook merely monastic.
And thus I cured him; and this way will I take upon
me to wash your liver as clean as a sound sheep’s
heart, that there shall not be one spot of love in’t.
ORLANDO
I would not be cured, youth.
ROSALIND
I would cure you, if you would but call me Rosalind
and come every day to my cote and woo me.
ORLANDO
Now, by the faith of my love, I will: tell me
where it is.
ROSALIND
Go with me to it and I’ll show it you and by the way
you shall tell me where in the forest you live.
Will you go?
ORLANDO
With all my heart, good youth.
ROSALIND
Nay you must call me Rosalind. Come, sister, will you go?
Exeunt”
SCENE III. The forest.
“TOUCHSTONE
When a man’s verses cannot be understood, nor a
man’s good wit seconded with the forward child
Understanding, it strikes a man more dead than a
great reckoning in a little room. Truly, I would
the gods had made thee poetical.
AUDREY
I do not know what ‘poetical’ is: is it honest in
deed and word? is it a true thing?
TOUCHSTONE
No, truly; for the truest poetry is the most
feigning; and lovers are given to poetry, and what
they swear in poetry may be said as lovers they do feign.
AUDREY
Do you wish then that the gods had made me poetical?
TOUCHSTONE
I do, truly; for thou swearest to me thou art
honest: now, if thou wert a poet, I might have some
hope thou didst feign.
AUDREY
Would you not have me honest?
TOUCHSTONE
No, truly, unless thou wert hard-favoured; for
honesty coupled to beauty is to have honey a sauce to sugar.
JAQUES
[Aside] A material fool!
AUDREY
Well, I am not fair; and therefore I pray the gods
make me honest.
TOUCHSTONE
Truly, and to cast away honesty upon a foul slut
were to put good meat into an unclean dish.
AUDREY
I am not a slut, though I thank the gods I am foul.
TOUCHSTONE
Well, praised be the gods for thy foulness!
sluttishness may come hereafter. But be it as it may
be, I will marry thee, and to that end I have been
with Sir Oliver Martext, the vicar of the next
village, who hath promised to meet me in this place
of the forest and to couple us.
JAQUES
[Aside] I would fain see this meeting.“
“…As horns are odious, they are necessary. It is said, ‘many a man knows no end of his goods:’ right; many a man has good horns, and knows no end of them. Well, that is the dowry of his wife; ‘tis none of his own getting. Horns? Even so. Poor men alone? No, no; the noblest deer hath them as huge as the rascal. Is the single man therefore blessed? No: as a walled town is more worthier than a village, so is the forehead of a married man more honourable than the bare brow of a bachelor; and by how much defence is better than no skill, by so much is a horn more precious than to want. Here comes Sir Oliver.”
“JAQUES
Will you be married, motley?
TOUCHSTONE
As the ox hath his bow, sir, the horse his curb and
the falcon her bells, so man hath his desires; and
as pigeons bill, so wedlock would be nibbling.”
“[Aside] I am not in the mind but I were better to be
married of him than of another: for he is not like
to marry me well; and not being well married, it
will be a good excuse for me hereafter to leave my wife.”
SCENE IV. The forest.
“CELIA
Yes; I think he is not a pick-purse nor a
horse-stealer, but for his verity in love, I do
think him as concave as a covered goblet or a
worm-eaten nut.”
SCENE V. Another part of the forest.
“Scratch thee but with a pin, and there remains
Some scar of it; lean but upon a rush,
The cicatrice and capable impressure
Thy palm some moment keeps; but now mine eyes,
Which I have darted at thee, hurt thee not,
Nor, I am sure, there is no force in eyes
That can do hurt.”
“You are a thousand times a properer man
Than she a woman: ‘tis such fools as you
That makes the world full of ill-favour’d children:
‘Tis not her glass, but you, that flatters her;
And out of you she sees herself more proper
Than any of her lineaments can show her.
But, mistress, know yourself: down on your knees,
And thank heaven, fasting, for a good man’s love:
For I must tell you friendly in your ear,
Sell when you can: you are not for all markets:
Cry the man mercy; love him; take his offer:
Foul is most foul, being foul to be a scoffer.
So take her to thee, shepherd: fare you well.”
“Exeunt ROSALIND, CELIA and CORIN
PHEBE
Dead Shepherd, now I find thy saw of might,
‘Who ever loved that loved not at first sight?’”
“Silvius, the time was that I hated thee,
And yet it is not that I bear thee love;
But since that thou canst talk of love so well,
Thy company, which erst was irksome to me,
I will endure, and I’ll employ thee too:
But do not look for further recompense
Than thine own gladness that thou art employ’d.”
“PHEBE
Know’st now the youth that spoke to me erewhile?
SILVIUS
Not very well, but I have met him oft;
And he hath bought the cottage and the bounds
That the old carlot once was master of.”
“PHEBE
Think not I love him, though I ask for him:
‘Tis but a peevish boy; yet he talks well;
But what care I for words? yet words do well
When he that speaks them pleases those that hear.
It is a pretty youth: not very pretty:
But, sure, he’s proud, and yet his pride becomes him:
He’ll make a proper man: the best thing in him
Is his complexion; and faster than his tongue
Did make offence his eye did heal it up.
He is not very tall; yet for his years he’s tall:
His leg is but so so; and yet ‘tis well:
There was a pretty redness in his lip,
A little riper and more lusty red
Than that mix’d in his cheek; ‘twas just the difference
Between the constant red and mingled damask.
There be some women, Silvius, had they mark’d him
In parcels as I did, would have gone near
To fall in love with him; but, for my part,
I love him not nor hate him not; and yet
I have more cause to hate him than to love him:
For what had he to do to chide at me?
He said mine eyes were black and my hair black:
And, now I am remember’d, scorn’d at me:
I marvel why I answer’d not again:
But that’s all one; omittance is no quittance.
I’ll write to him a very taunting letter,
And thou shalt bear it: wilt thou, Silvius?
SILVIUS
Phebe, with all my heart.”
ACT IV
SCENE I. The forest.
“ORLANDO
Good day and happiness, dear Rosalind!
JAQUES
Nay, then, God be wi’ you, an you talk in blank verse.
Exit”
“The poor world is almost six thousand years old, and in all this time there was not any man died in his own person, videlicit, in a love-cause. Troilus had his brains dashed out with a Grecian club; yet he did what he could to die before, and he is one of the patterns of love. Leander, he would have lived many a fair year, though Hero had turned nun, if it had not been for a hot midsummer night; for, good youth, he went but forth to wash him in the Hellespont and being taken with the cramp was drowned and the foolish coroners of that age found it was ‘Hero of Sestos.’ But these are all lies: men have died from time to time and worms have eaten them, but not for love.”
“men are April when they woo, December when they wed:
maids are May when they are maids, but the sky
changes when they are wives. I will be more jealous
of thee than a Barbary cock-pigeon over his hen,
more clamorous than a parrot against rain, more
new-fangled than an ape, more giddy in my desires
than a monkey: I will weep for nothing, like Diana
in the fountain, and I will do that when you are
disposed to be merry; I will laugh like a hyen, and
that when thou art inclined to sleep.”
“O, that woman that cannot make her fault her husband’s occasion, let her never nurse her child herself, for she will breed it like a fool!”
“my affection hath an unknown bottom, like the bay of Portugal.”
SCENE II. The forest.
(cantado)
“Take thou no scorn to wear the horn;
It was a crest ere thou wast born:
Thy father’s father wore it,
And thy father bore it:
The horn, the horn, the lusty horn
Is not a thing to laugh to scorn.”
SCENE III. The forest.
“CELIA
Are you his brother?
ROSALIND
Wast you he rescued?
CELIA
Was’t you that did so oft contrive to kill him?
OLIVER
‘Twas I; but ‘tis not I I do not shame
To tell you what I was, since my conversion
So sweetly tastes, being the thing I am.
ROSALIND
But, for the bloody napkin?
OLIVER
By and by.
When from the first to last betwixt us two
Tears our recountments had most kindly bathed,
As how I came into that desert place:–
In brief, he led me to the gentle duke,
Who gave me fresh array and entertainment,
Committing me unto my brother’s love;
Who led me instantly unto his cave,
There stripp’d himself, and here upon his arm
The lioness had torn some flesh away,
Which all this while had bled; and now he fainted
And cried, in fainting, upon Rosalind.
Brief, I recover’d him, bound up his wound;
And, after some small space, being strong at heart,
He sent me hither, stranger as I am,
To tell this story, that you might excuse
His broken promise, and to give this napkin
Dyed in his blood unto the shepherd youth
That he in sport doth call his Rosalind.
ROSALIND swoons
CELIA
Why, how now, Ganymede! sweet Ganymede!
OLIVER
Many will swoon when they do look on blood.
CELIA
There is more in it. Cousin Ganymede!“
ACT 5 SCENE I. The forest.
“TOUCHSTONE
Why, thou sayest well. I do now remember a saying,
‘The fool doth think he is wise, but the wise man
knows himself to be a fool.’ The heathen
philosopher, when he had a desire to eat a grape,
would open his lips when he put it into his mouth;
meaning thereby that grapes were made to eat and
lips to open. You do love this maid?”
“TOUCHSTONE
Then learn this of me: to have, is to have; for it
is a figure in rhetoric that drink, being poured out
of a cup into a glass, by filling the one doth empty
the other; for all your writers do consent that ipse
is he: now, you are not ipse, for I am he.”
“TOUCHSTONE
He, sir, that must marry this woman. Therefore, you
clown, abandon,–which is in the vulgar leave,–the
society,–which in the boorish is company,–of this
female,–which in the common is woman; which
together is, abandon the society of this female, or,
clown, thou perishest; or, to thy better
understanding, diest; or, to wit I kill thee, make
thee away, translate thy life into death, thy
liberty into bondage: I will deal in poison with
thee, or in bastinado, or in steel; I will bandy
with thee in faction; I will o’errun thee with
policy; I will kill thee a hundred and fifty ways:
therefore tremble and depart.”
SCENE II. The forest.
“ORLANDO
Is’t possible that on so little acquaintance you
should like her? that but seeing you should love
her? and loving woo? and, wooing, she should
grant? and will you persever to enjoy her?
OLIVER
Neither call the giddiness of it in question, the
poverty of her, the small acquaintance, my sudden
wooing, nor her sudden consenting; but say with me,
I love Aliena; say with her that she loves me;
consent with both that we may enjoy each other: it
shall be to your good; for my father’s house and all
the revenue that was old Sir Rowland’s will I
estate upon you, and here live and die a shepherd.”
“…But, O, how bitter a thing it
is to look into happiness through another man’s
eyes! By so much the more shall I to-morrow be at
the height of heart-heaviness, by how much I shall
think my brother happy in having what he wishes for.”
“SILVIUS
It is to be all made of fantasy,
All made of passion and all made of wishes,
All adoration, duty, and observance,
All humbleness, all patience and impatience,
All purity, all trial, all observance;
And so am I for Phebe.
PHEBE
And so am I for Ganymede.
ORLANDO
And so am I for Rosalind.
ROSALIND
And so am I for no woman.
PHEBE
If this be so, why blame you me to love you?
SILVIUS
If this be so, why blame you me to love you?
ORLANDO
If this be so, why blame you me to love you?
ROSALIND
Who do you speak to, ‘Why blame you me to love you?’
ORLANDO
To her that is not here, nor doth not hear.
ROSALIND
Pray you, no more of this; ‘tis like the howling
of Irish wolves against the moon.
To SILVIUS
I will help you, if I can:
To PHEBE
I would love you, if I could. To-morrow meet me all together.
To PHEBE
I will marry you, if ever I marry woman, and I’ll be
married to-morrow:
To ORLANDO
I will satisfy you, if ever I satisfied man, and you
shall be married to-morrow:
To SILVIUS
I will content you, if what pleases you contents
you, and you shall be married to-morrow.
To ORLANDO
As you love Rosalind, meet:
To SILVIUS
as you love Phebe, meet: and as I love no woman,
I’ll meet. So fare you well: I have left you commands.
SILVIUS
I’ll not fail, if I live.
PHEBE
Nor I.
ORLANDO
Nor I.
Exeunt”
SCENE III. The forest.
(…)
SCENE IV. The forest.
“ROSALIND
I have promised to make all this matter even.
Keep you your word, O duke, to give your daughter;
You yours, Orlando, to receive his daughter:
Keep your word, Phebe, that you’ll marry me,
Or else refusing me, to wed this shepherd:
Keep your word, Silvius, that you’ll marry her.
If she refuse me: and from hence I go,
To make these doubts all even.
Exeunt ROSALIND and CELIA”
“Enter TOUCHSTONE and AUDREY
JAQUES
There is, sure, another flood toward, and these
couples are coming to the ark. Here comes a pair of
very strange beasts, which in all tongues are called fools.
TOUCHSTONE
Salutation and greeting to you all!
JAQUES
Good my lord, bid him welcome: this is the
motley-minded gentleman that I have so often met in
the forest: he hath been a courtier, he swears.
TOUCHSTONE
If any man doubt that, let him put me to my
purgation. I have trod a measure; I have flattered
a lady; I have been politic with my friend, smooth
with mine enemy; I have undone three tailors; I have
had four quarrels, and like to have fought one.”
“HYMEN
Peace, ho! I bar confusion:
‘Tis I must make conclusion
Of these most strange events:
Here’s eight that must take hands
To join in Hymen’s bands,
If truth holds true contents.
You and you no cross shall part:
You and you are heart in heart
You to his love must accord,
Or have a woman to your lord:
You and you are sure together,
As the winter to foul weather.
Whiles a wedlock-hymn we sing,
Feed yourselves with questioning;
That reason wonder may diminish,
How thus we met, and these things finish.
SONG.
Wedding is great Juno’s crown:
O blessed bond of board and bed!
‘Tis Hymen peoples every town;
High wedlock then be honoured:
Honour, high honour and renown,
To Hymen, god of every town!”
“EPILOGUE
ROSALIND
It is not the fashion to see the lady the epilogue;
but it is no more unhandsome than to see the lord
the prologue. If it be true that good wine needs
no bush, ‘tis true that a good play needs no
epilogue; yet to good wine they do use good bushes,
and good plays prove the better by the help of good
epilogues. What a case am I in then, that am
neither a good epilogue nor cannot insinuate with
you in the behalf of a good play! I am not
furnished like a beggar, therefore to beg will not
become me: my way is to conjure you; and I’ll begin
with the women. I charge you, O women, for the love
you bear to men, to like as much of this play as
please you: and I charge you, O men, for the love
you bear to women–as I perceive by your simpering,
none of you hates them–that between you and the
women the play may please. If I were a woman I
would kiss as many of you as had beards that pleased
me, complexions that liked me and breaths that I
defied not: and, I am sure, as many as have good
beards or good faces or sweet breaths will, for my
kind offer, when I make curtsy, bid me farewell.
Exeunt”
GLOSSÁRIO:
bur: casca de noz; aporrinhação.
chanticleer: galo
ewe: ovelha
jolly: alegre
motley: variegado, caleidoscópico; a roupa arco-íris de um bobo da côrte.
“¿Cuántos aficionados a la lectura (no digamos ya un ciudadano tristemente típico de los que únicamente lee la prensa deportiva o las revistas «del corazón») son capaces de mencionar hoy en día algún otro libro de Carroll aparte de las dos «Alicias»? Muy pocos. Y de esos pocos, la gran mayoría nombraría su otra obra magna, el extenso poema precursor de la literatura del absurdo La caza del snark. No obstante, como en el caso de todos los autores referidos, y de cualquier otro escritor que merezca ser calificado como tal, la producción de Carroll fue muchísimo más abundante.
Podríamos hablar de las decenas de miles de cartas que escribió a lo largo de su vida, muchas de ellas a los cientos de «amiguitas» cuya amistad siempre se esforzó por ganar y cultivar, y que constituían la mayor alegría de su, en ocasiones solitaria, existencia de soltero. (…) una selección de ellas ha merecido publicación en diversas ocasiones. También debemos mencionar sus obras matemáticas, la mayoría de ellas firmadas con su nombre real, Charles Lutwidge Dodgson. (Este siempre deseó mantener separado su alter ego literario de su yo real frente a los desconocidos, pues temía que su faceta de autor de libros infantiles le restara crédito cuando quisiera tratar temas más serios….) Al margen de sus escritos puramente especializados, dirigidos a colegas de profesión y expertos, compuso otros tantos en los que insertaba los problemas matemáticos en relatos o escenas noveladas, mediante los cuales buscaba acercar y popularizar estas materias entre el gran público, mostrar lo divertidas e interesantes que podían llegar a ser si se les daba una presentación lúdica.”
“No obstante, como poeta «puro» o serio, Carroll nunca pasó de la segunda fila. Admirador de Blake, Coleridge, Wordsworth o el «poeta laureado» Tennyson, trató de plasmar sus preocupaciones e inquietudes emocionales y espirituales a la manera de estos, pero nunca logró estar a su altura en este ámbito.”
“Los dos libros de Silvia y Bruno supusieron el mayor fracaso comercial y de crítica de su autor, pero con la perspectiva que dan los más de 100 años transcurridos desde que viesen la luz, resulta posible valorarlos en su contexto social y temporal, y atendiendo a la influencia que tendrían en escritores posteriores.
Silvia y Bruno y La conclusión de Silvia y Bruno fueron publicados en 1889 y 1893 respectivamente, y se gestaron durante más de 20 años partiendo de un relato breve escrito en 1867 para la revista Aunt Judy’s Magazine, «La venganza de Bruno», en el que el autor conoce a un par de hadas (los hermanos que posteriormente cederían sus nombres para el título de los libros) mientras da un paseo por un bosque en un día muy caluroso.”
“Curiosamente, según cuenta el ilustrador de La caza del snark, Henry Holiday, en su
artículo «The Snark’s Significance»[La relevancia del snark],el famoso poema iba en un principio a figurar en Silvia y Bruno,[perfeito paralelo com Jabberwocky] pero la extensión que finalmente alcanzó la composición hizo cambiar de idea a Carroll y que este lo publicase de manera independiente.”
“«¡Usted me crea una serie de problemas adicionales al ignorar tanto el texto! He tenido que reescribir varios pasajes, para que esté de acuerdo con la ilustración…», decía Carroll en una de sus cartas.”
“De hecho, la imagen de la pequeña Silvia fue una de las cuestiones que más preocupó a Carroll, y que motivó las primeras discusiones. Harry Furniss, en su autobiografía Confessions of a caricaturist [Confesiones de un caricaturista], publicada en 1902, afirmaba haber recibido por carta instrucciones como estas por parte del escritor:
[Silvia y Bruno] no son hadas a lo largo de todo el libro, sino niños. Todas estas condiciones hacen que su vestimenta constituya hasta cierto punto un rompecabezas. No deben tener alas; eso está claro. Y ha de tratarse de ropa completamente normal para la vida londinense. Debería ser lo más extravagante posible, al límite de lo que se considera presentable en sociedad. Tal vez las amistades pudieran decir: «¡Qué ropa más rara llevan estos niños!», pero no deberían poder afirmar: «¡No son humanos!»…”
“Ojalá me atreviera a prescindir de toda ropa: los niños desnudos resultan tan perfectamente puros y adorables, pero la Sra. Grundy(*) se pondría furiosa; no es una opción. Entonces la pregunta es: ¿qué cantidad mínima de ropa le satisfaría? (…) Detesto de un modo tan absoluto esa moda monstruosa de los tacones altos (y, de hecho, he planeado atacarla en este mismo libro), que me resultaría seguramente imposible permitir que mi dulce y pequeña heroína fuera víctima de ella.”
(*) Personaje de ficción de la obra Speed the plough («Ara más rápido», 1798) del dramaturgo inglés Thomas Morton (1764-1838), que desde su aparición pasó al imaginario colectivo anglosajón como encarnación del decoro.
¿Podría eliminar esas hombreras de sus mangas? ¿Por qué deberíamos observar deferencia alguna a una moda espantosa que quedará extinta de aquí a un año? Después de la fealdad sin parangón de la «crinolina», pienso que esas mangas de hombros altos son la peor cosa inventada para las damas en nuestra época. ¡Imagínese lo horrorizadas que estarían si una de sus hijas tuviera realmente esa forma!” “también creo que podríamos arriesgarnos a hacer su vestido de hada transparente. ¿No le parece que podríamos enfrentarnos a la Sra. Grundy hasta ese punto?”
“Cada una de sus dos partes se abre con un poema acróstico dedicado a una de sus amiguitas; en el tono nostálgico y sombrío de ambos se puede percibir nítidamente el pesar que le produce al escritor verse viejo y solitario, abandonado una y otra vez por sus amiguitas a medida que estas crecían y se casaban, frustrados ya sin solución los anhelos de un lejano en el tiempo ‘mediodía de ensueño’”
“El primero de los poemas está dedicado a Isa Bowman, quien fuera una de las amiguitas favoritas de Carroll de cualquier época. La conoció en 1886 durante los ensayos del primer musical que se hizo de Alicia en el País de las Maravillas, obra en la que tenía un pequeño papel. Por aquel entonces ella contaba 12 años, y era la mayor de varias hermanas actrices. Carroll quedó muy impresionado por la niña, pero no comenzó a entablar amistad con ella, llevarla de excursión y recibirla como invitada hasta septiembre de 1887. Durante los 8 años siguientes mantuvieron una estrecha relación, por carta y en diversas y frecuentes visitas. Gracias a su intermediación, Isa logró el papel protagonista en la primera reposición del musical de Alicia en 1888, y el escritor consiguió del mismo modo muchos otros trabajos para ella y sus hermanas. Su feliz amistad terminó en 1895 cuando Isa le anunció sus planes de boda, a lo cual él respondió de manera ofendida y agresiva, destrozando unas rosas que la joven, ya veinteañera, llevaba en el cinturón. Aunque Carroll se disculparía enseguida, no tardarían en romper el contacto. El poema que le dedicó en Silvia y Bruno es un doble acróstico: su nombre puede formarse uniendo la primera letra de cada uno de sus nueve versos, agrupados en tercetos monorrimos, o las tres primeras letras de cada uno de estos últimos; una muestra más del desbordante ingenio creativo del autor.”
“El segundo poema, el que introduce La conclusión de Silvia y Bruno, es asimismo un acróstico, aunque mucho más sutil: uniendo la tercera letra de cada verso se forma el nombre de Enid Stevens, a la que conoció en 1891 en la casa familiar de esta en Oxford. Enid era la «bella hermana» de 8 años de una de sus alumnas de lógica en la Oxford High School, también amiguita suya. Cohen [mau biógrafo]nos cuenta en su biografía de Carroll: «Su amistad con Enid se fue afianzando poco a poco. La ‘pidió prestada’ a menudo, la llevó a pasear, imprimió tarjetas de visita para ella, la recibió en sus habitaciones, sola o con su madre, para tomar el té, y consiguió que Gertrude Thomson pintase un retrato de ella, que colgó encima de la repisa de su chimenea». Carroll dedicó mucho tiempo y esfuerzo a su amistad con la pequeña Enid, y esta siempre recordó con alegría los años que compartieron entre juegos, meriendas y excursiones. Fue una de sus últimas amiguitas: durante los años finales de vida, invirtió cada vez más tiempo en trabajar y menos en sus relaciones sociales, obsesionado con escribir antes de morir una lista de trabajos que tenía en mente (algunos de los cuales menciona en el prefacio de Silvia y Bruno).”
“uno de los poemas, la divertida y descabellada «Canción del jardinero», se extiende a lo largo de todo el libro (con 8 estrofas en el primer volumen, y una última en el segundo). Los críticos coinciden en señalar que esta es posiblemente la composición más conseguida de la obra.”
“Hablemos ahora del argumento y los personajes: Silvia y Bruno son una pareja de jóvenes hermanos, de unos 10 y 5 años aproximadamente, hijos del rector o gobernante de Exotilandia, un país fantástico habitado por duendes y vecino de Hadalandia, el país de las hadas, cuyos soberanos son los Titania y Oberón shakespearianos (el propio Bruno, que junto con su hermana experimentará una transformación en hada durante el relato, posee una personalidad traviesa y bulliciosa muy similar a la del Puck de El sueño de una noche de verano).”
“el subrector ha urdido una conspiración con el lord canciller para sustituir a su hermano como dirigente vitalicio de Exotilandia aprovechando una ausencia de éste en un viaje al extranjero. Mediante argucias consiguen que el rector firme antes de partir un edicto que nombra a Sibimet emperador de Exotilandia, consiguiendo así su propósito.”
“La trama de los pequeños Silvia y Bruno se entrelaza desde el principio con otra que se desarrolla de manera paralela en el mundo real del autor, la Inglaterra del siglo XIX, al cual pertenece el propio narrador de la historia, un anciano heptagenario que, salvo por la diferencia de edad, podría ser perfectamente el propio Carroll.”
“Por esta razón, una primera lectura de la obra suele resultar muy confusa, dado que la narración salta frecuentemente de Exotilandia a Inglaterra sin previo aviso –muchas veces en un simple cambio de párrafo, o incluso dentro de uno– con las entradas y salidas en trance del narrador. La historia comienza, por ejemplo, en mitad de una frase y sin poner en situación al lector, lo cual resulta tremendamente desconcertante: el narrador acaba de experimentar bruscamente su primer «viaje astral» a Exotilandia y está observando lo que allí sucede sin que nadie repare en su presencia. Pero no es hasta el segundo capítulo cuando averiguamos que en realidad se encuentra en el interior de un vagón de tren camino a Elveston. Dada la naturaleza «narcoléptica» del narrador, capaz de quedarse «dormido» (esto es, de entrar en trance) en mitad de cualquier conversación, el lector se verá acompañándolo en sus constantes escapadas extracorporales a Exotilandia a lo largo de buena parte del relato, mas debido a la brusquedad de dichas excursiones a veces se sentirá un tanto desubicado.”
“Aparte de estos claros paralelismos entre los personajes de uno y otro mundo, sus propios nombres remiten al mundo campestre en que viven duendes y hadas: Silvia, para empezar, significa «habitante del bosque» en su latín originario; el apellido de lady Muriel, Orme, es «olmo» en francés; el de Arthur, Forester, deriva claramente del inglés forest («bosque»); y el de Eric Lindon se parece sospechosamente al también inglés linden («tilo»). El pueblo de pescadores en el que se desarrolla la trama amorosa de Muriel, Eric y Arthur se llama además Elveston, que suena curiosamente parecido a elves-town, «pueblo de los elfos».”
“La lengua de trapo de Bruno puede llegar a resultar cargante (¡díganselo a este traductor!), y el exceso de almíbar hace desear en algunos momentos que aparezca en escena la Reina de Corazones gritando «¡que les corten la cabeza!» para ponerle un poco de emoción al asunto.”
“Silvia y Bruno, además, constituye la obra de Carroll que mejor nos permite conocer a la persona, Charles L. Dodgson, que hay detrás de la máscara del pseudónimo: sus preocupaciones, anhelos, frustraciones y debilidades. Este libro no es seguramente el más idóneo para alguien que nunca haya pisado el País de las Maravillas, o viajado a bordo del barco que persigue al snark, pero para los que ya se hallan irremediablemente fascinados por ese mundo fantástico y desean conocer en lo más íntimo a su creador (llevándose de propina una buena ración de su genio), Silvia y Bruno es una obra imprescindible.”
“Las composiciones originales de Carroll son siempre muy musicales, con una métrica estricta y una rima muy marcada precisamente a tal objeto.”
BLUNO OU BDUNO: “Por último, quisiera explicar brevemente cómo he decidido adaptar el lenguaje infantil de Bruno, cuyas características en inglés no pueden trasladarse directamente a nuestro idioma. En líneas generales, se expresa como una persona adulta, pero he adjudicado a su forma de hablar una serie de particularidades que espero transmitan la sensación de que se trata de un niño de unos cuatro o cinco años: primero, un defecto de rotacismo (dificultad para pronunciar el fonema /r/ –la «r fuerte»–, el cual sustituye continuamente por los fonemas /d/ o /ſ/ –la «r suave»–), muy habitual en los niños que están aprendiendo a hablar; segundo, una tendencia a regularizar formas verbales irregulares y a inventar palabras extrapolando ciertas reglas lingüísticas generales, como las que rigen la formación de los distintos grados del adjetivo, incurriendo en ocasiones en sobrecorrección; tercero, simplificación de grupos consonánticos complejos; y cuarto, desórdenes y otros errores de pronunciación en palabras largas, complicadas o poco comunes. Para facilitar la comprensión de la manera de expresarse del personaje, he señalado en cursiva todas las palabras «alteradas» según el criterio anterior, [mas não tive a paciência de replicá-lo aquí; conquanto é bem óbvio quando acontece!] de manera que el lector pueda localizarlas e interpretarlas con facilidad. Soy consciente de que esto quizá dé gráficamente una impresión de recargamiento al texto, pero he querido destacar la claridad del diálogo por encima de consideraciones estéticas.”
Axel Alonso Valle
* * *
“Encorvados con amarga aflicción
o divertidos por alguna escena,
revoloteamos de sol a sol.
La jornada bebemos con sed fiera
y, desde su mediodía de ensueño,
ignoramos el fin que nos espera.”
“Y así fue que al final me vi en posesión de una indigesta ensalada de papeles –si el lector tiene la bondad de disculpar el doble sentido– que solamente necesitaba un hilvanado, sobre el hilo conductor de una historia ordenada, para constituir el libro que esperaba escribir. ¡Solamente! La tarea, al principio, parecía completamente irrealizable, y me dio una idea, mucho más clara de lo que nunca había tenido, del significado de la palabra «caos»; y creo que debieron de transcurrir 10 años, o más, antes de que lograra organizar lo suficiente dichos retazos como para ver a qué tipo de historia apuntaban, ya que esta tenía que surgir de los episodios, y no al revés. § No cuento todo esto por un ánimo egotista, sino porque creo de veras que algunos de mis lectores estarán interesados en estos detalles de la «génesis» de un libro, cuestión que, una vez finalizada, parece tan simple y directa que podrían suponer que fue escrito de corrido, página a página, como uno escribiría una carta, comenzando por el principio y terminando por el final.”
“No sé si Alicia en el País de las Maravillas era una historia original –yo, al menos, no fui un imitador consciente al escribirla–, mas lo que sí sé es que, desde su publicación, han aparecido alrededor de una docena de libros de cuentos similares, cortados exactamente por el mismo patrón. El camino que yo exploré de forma tímida –creyendo ser «el primero que se había adentrado en ese océano silente»– es ahora una calzada más que transitada: hace tiempo que todas las flores de sus márgenes fueron pisoteadas hasta enterrarlas en el polvo; y estaría exponiéndome al desastre si hiciera una nueva tentativa en ese estilo.”
“En primer lugar, una Biblia para niños. Esta obra tendría como única base verdaderamente fundamental pasajes y dibujos cuidadosamente escogidos, apropiados para la lectura de un niño. Un principio de selección, que yo adoptaría, sería que la religión se presentara al niño como una revelación de amor, sin que exista necesidad de angustiar y confundir su mente juvenil con la historia del crimen y el castigo. (Sobre dicho principio omitiría, por ejemplo, la historia del Diluvio Universal.)” “El libro debería poseer un tamaño manejable, una cubierta bastante vistosa, un tipo de letra claro y legible y, sobre todo, ¡gran cantidad de dibujos, dibujos y más dibujos!”Por crer que este livro é para adultos… talvez eu seja um adulto que conseguiu ainda conservar ser criança (o mais difícil dos milagres).
“Los pensamientos más tristes de todos deben de haber pertenecido a aquellos que imaginaban realmente una existencia de ultratumba, pero una mucho más terrible que la aniquilación: una existencia como espectros vaporosos, intangibles, prácticamente invisibles, errantes, durante interminables eras, en un mundo de sombras, sin nada que hacer, nada por lo que tener esperanza, ¡nada que amar!¹ En mitad de los alegres versos de Horacio, ese genial bon vivant, destaca una pavorosa palabra cuya tristeza absoluta le llega a uno al corazón. Es la palabra exilium en el famoso pasaje:
[¹ Não compreendeu o helenismo!]
Omnes eodem cogimur, omnium
Versatur urna serius ocius
Sors exitura et nos in aeternum
Exilium impositura cymbae.”
“Y muchos en estos días, me temo, aun cuando creen en una existencia tras la muerte mucho más real que la que Horacio jamás soñó, la ven pese a todo como una especie de «exilio» de todos los placeres de la vida, por lo que adoptan la teoría de Horacio, y dicen: «comamos y bebamos, pues mañana moriremos».
Asistimos a espectáculos, como el teatro –y digo «asistimos» porque yo también voy a representaciones, siempre que tengo oportunidad de ver una realmente buena–, y mantenemos alejado, si nos es posible, el pensamiento de que quizá no regresemos vivos. ¿Pero cómo sabe usted –querido amigo, cuya paciencia le ha ayudado a soportar este prolijo prefacio– que no será quizá su suerte, cuando la dicha se halle en su punto más álgido, experimentar la afilada punzada, o el mortífero desvanecimiento, que anuncia la crisis final; ver, con vago asombro, a amigos que se inclinan con inquietud sobre usted; escuchar sus susurros cargados de preocupación; tal vez formular usted mismo, con labios temblorosos, la pregunta: «¿Es grave?», y que le digan: «Sí, el fin está cerca» (y ¡oh, qué distinta parecerá la vida cuando se pronuncien esas palabras!)?; ¿cómo sabe usted, digo, que todo eso no le sucederá acaso esta misma noche?”
“¡Mañana, y mañana, y mañana!”
“Si la idea de una muerte súbita se le presenta, a usted, como algo especialmente aterrador al imaginar que le sucediera en un teatro, entonces no le quepa la menor duda de que este último es pernicioso para usted, por muy inofensivo que pueda ser para otros, y que está corriendo un peligro mortal al ir. Tenga la certeza de que la regla más segura es que no deberíamos atrevernos a vivir en ningún sitio en que no nos atrevamos a morir.” Não morrer na CAPES.
“Pero no puedo sino contemplar con profundo asombro y pesar al cazador que, de manera completamente cómoda y segura, puede hallar placer en algo que supone, para una criatura indefensa, un terror extremo y una muerte agónica; más profundo aún, si el cazador es alguien que ha jurado predicar a los hombres la Religión del Amor universal; y más profundo que nada, si resulta ser uno de esos seres «sensibles y delicados», cuyo mismo nombre sirve como símbolo del Amor –«tu amor hacia mí fue maravilloso, superior al de las mujeres»–, ¡y cuya misión en este mundo es sin duda ayudar y consolar a todos los afligidos!
¡Adiós, adiós, invitado!
Mas escucha mis palabras:
plegarias eleva a Dios
quien a hombre y bestia ama.
Más se elevan si se ama
al ratón como al león,
pues nuestro Dios bienamado
ama toda la creación(*).
(*) Los versos pertenecen al final de The rime of the ancient mariner”
* * *
“algunos vociferaban «¡Pan!» y otros «¡Impuestos!», mas nadie parecía saber
qué era lo que querían en realidad.”
“Nunca antes había oído tal clamor… ¡y a esta hora de la mañana, además! ¡Y tan unánime! ¿No le parece algo realmente sorprendente?
Yo apunté, de manera discreta, que mi impresión era que pedían distintas cosas, pero el canciller no escuchó ni por un segundo mi sugerencia.”
“¿Es que no puedes mantenerlos juntos? El rector llegará enseguida. ¡Dales la señal para que comiencen la marcha! –Se suponía obviamente que yo no debía oír todo aquello, pero apenas pude evitarlo, teniendo en cuenta que mi barbilla se hallaba prácticamente sobre el hombro del canciller.”
—¡Buenos días! –saludó el muchachito, dirigiéndose, de un modo más o menos general, al canciller y los camareros–. ¿Sabéis dónde está Silvia? ¡La estoy buscando!
—¡Está con el rector, según creo, æ’l! –contestó el canciller con una profunda reverencia. [earl?]
—¿Ha venido también el otdo pdofesod? –preguntó Bruno con voz temerosa.
—Sí, llegaron juntos. El otro profesor es… bueno, es posible que él no os caiga tan bien. Es algo más «soñador», ¿sabéis?
—Ojalá Silvia fuera algo más soñadora –comentó Bruno.
—¿A qué te refieres, Bruno? –dijo Silvia.
—Dice que no puede, ¿sabes? Pero yo cdeo que no es que no pueda, es que no quiere.
—¡Que no puede soñar! –repitió el perplejo rector.
—Eso dice –insistió Bruno–. Cuando le digo: «¡Dejemos ya las leciones!», ella dice: «Oh, ¡eso ni soñadlo!».
—Siempre quiere dejar las lecciones –explicó Silvia– a los 5 minutos de haber empezado.
—¡Cinco minutos de lecciones al día! –dijo el rector–. ¡A ese ritmo no aprenderás mucho, jovencito!
—Eso es justo lo que dice Silvia –replicó Bruno–. Dice que no quiero apdended mis leciones. Y yo le digo, una y otda vez, que no puedo hacedlo. ¿Y qué cdees que dice ella? Dice: «No es que no puedas, ¡es que no quieres!».
—Vayamos a ver al profesor –dijo el rector, evitando sabiamente continuar con la discusión. Los niños se bajaron de sus rodillas, cada uno de ellos agarró una mano, y el feliz trío echó a andar hacia la biblioteca, conmigo detrás. Para entonces, yo había llegado ya a la conclusión de que nadie (a excepción, durante unos breves momentos, del lord canciller) era capaz en absoluto de verme.
—¿Y qué le pasa? –preguntó Silvia, caminando de manera un poco más tranquila de lo normal, con idea de servir de ejemplo a Bruno, el cual no paraba de brincar al otro lado.
—Lo que le pasaba, aunque espero que ya esté recuperado, era lumbago, reumatismo y esa clase de cosas. Ha estado tratándose a sí mismo, ¿sabéis?: es un doctor muy sabio. De hecho, ha inventado 3 nuevas enfermedades, ¡además de una nueva forma de romperse la clavícula!
“Un hombre regordete y de aspecto jovial, ataviado con una toga floreada y con un libro de gran tamaño debajo de cada brazo, entró con paso presto por el extremo contrario de la sala, y empezó a cruzarla en línea recta sin reparar en los niños.
—Estoy buscando el tercer volumen –dijo–. ¿Por un casual no lo habrá visto?”
—¡Es a mis hijos a quienes no está viendo usted, profesor! –exclamó el rector, agarrándolo por los hombros y dándole la vuelta para que los mirara.
El profesor se carcajeó con fuerza: después los observó atentamente a través de sus grandes anteojos, durante unos instantes, sin decir nada.
Finalmente, se dirigió a Bruno:
—Espero que hayas pasado una buena noche, hijo.
Bruno puso cara de desconcierto.
—He pasado la misma noche que usted –contestó–. ¡Sólo ha habido una desde ayed!
—¿Son pupilos de alguien? –preguntó.
—No, no lo somos –saltó Bruno, el cual creía estar perfectamente capacitado para responder aquella pregunta él mismo.
El profesor meneó la cabeza apenado.
—¿Ni siquiera a media jornada?
—¿Pod qué íbamos a sedlo a media jodnada? –repuso Bruno–. ¡No somos ojos!
—Ah, ¿y en qué dirección? –contestó el rector, añadiendo hacia los niños–: Tampoco es que me importe. Lo que pasa es que él cree que afecta al tiempo. Es un hombre maravillosamente listo, ¿sabéis? A veces dice cosas que sólo es capaz de entender el otro profesor. ¡Y a veces dice cosas que nadie es capaz de entender! ¿Cuál es la dirección, profesor? ¿Arriba o abajo?
—¡Ninguna de las dos! –dijo el profesor, dando una suave palmada–. Se está poniendo de lado, si es que puede expresarse así.
—¿Y qué clase de tiempo produce eso? –indagó el rector–. ¡Atended, niños! ¡Vais a oír algo que vale la pena saber!
—Tiempo horizontal –señaló el profesor, y luego salió directo hacia la puerta, de tal modo que a puntísimo estuvo de pasarle por encima a Bruno, el cual logró apartarse de su camino por los pelos.
—¿Verdad que es sabio? –dijo el rector, siguiéndolo con la mirada, una llena de admiración–. Decididamente, ¡su nivel de conocimientos resulta arrollador!
—¿Pero de qué sirve llevar paraguas alrededor de las rodillas?
—Con lluvia normal –admitió el profesor– no servirían de mucho. Pero si alguna vez lloviera en horizontal, no tendrían precio, ¿sabéis?… ¡sencillamente no tendrían precio!
“Y esta es, por supuesto, la escena inicial del primer volumen. Ella es la heroína. Y yo soy uno de esos personajes secundarios que únicamente hacen acto de presencia cuando el desarrollo de su destino lo requiere, y cuya última aparición se da en el exterior de la iglesia, ¡mientras esperan para felicitar a la feliz pareja!.”
“«¡… no podía presentárseme mejor ocasión para un experimento telepático! Imaginaré su rostro y luego compararé el retrato con el original»
Al principio, ningún resultado coronó mis esfuerzos, aunque «dividí mi ágil mente» por aquí y por allá, de un modo que estaba seguro habría hecho a Eneas ponerse verde de envidia: pero el óvalo vislumbrado seguía tan provocadoramente vacío como siempre; una simple elipse, como de algún diagrama matemático, sin ni siquiera los focos a los que podría habérseles asignado los papeles de nariz y boca.”
“Con cada una de aquellas visiones fugaces, el rostro parecía tornarse más infantil e inocente y, cuando por fin logré eliminar por completo el velo con mi mente, se trataba, inconfundiblemente, ¡de la preciosa cara de la pequeña Silvia!
«¡De modo que, o bien he estado soñando con Silvia –me dije– y esta es la realidad, o he estado realmente con ella, y esto es un sueño! ¡Me pregunto si no será la propia vida un sueño!»”
«¡Oh, la noche del viernes! ¡Cuán lejos queda aún!»
«Es un hombre demasiado sensible –pensé– para haberse vuelto un fatalista. ¿Mas qué otra cosa puede querer decir con eso?»
—¿Crees en el destino?
La hermosa desconocida giró la cabeza enseguida ante la súbita pregunta.
—¡No, no creo! –dijo sonriendo–. ¿Y usted?
—¡No… no era mi intención hacerle esa pregunta! –tartamudeé, sorprendido por haber iniciado una conversación de un modo tan poco convencional.
La sonrisa de la dama mudó en risa: no una de burla, sino la risa de una niña feliz que se siente totalmente cómoda.
—¿Ah, no? –dijo–. ¿Entonces ha sido un caso de lo que ustedes los médicos llaman «cerebración inconsciente»?
—No soy médico –repuse–. ¿Acaso lo parezco? ¿O qué le hace pensar eso?
Ella señaló el libro que yo había estado leyendo, el cual descansaba de tal modo que su título, Enfermedades cardiacas, quedaba claramente a la vista.
“¡Existe tanta ciencia escrita que nadie ha leído jamás; y hay tanta ciencia pensada que aún no ha sido escrita! Mas, si se refiere a toda la raza humana, entonces pienso que ganan las mentes: todo lo registrado en los libros debe haber estado antes en la mente de alguien, ya sabe.”
—¡Me temo que algunos libros quedarían reducidos a papel en blanco! –observó.
—Así es. La mayoría de las bibliotecas se verían terriblemente menguadas en volumen. ¡Pero considere tan sólo lo que ganarían en calidad!
* * *
“Uggug, cielo, ¡ven y siéntate conmigo!”
“¡El golfo siempre se las arregla para tirar su café!”
“milady era la esposa del subrector (…) Uggug (un niño gordo y feísimo, aproximadamente de la misma edad que Silvia, con la expresión de un cerdo campeón de un concurso de peso)era el hijo de ambos. Silvia y Bruno, junto con el lord canciller, completaban un grupo de 7 personas.”
“Se trata, de hecho, de un problema muy simple de hidrodinámica. (Lo cual quiere decir una combinación de agua y fuerzas.) Si consideramos una piscina, y un hombre de gran fuerza (como es mi caso) que se dispone a zambullirse en ella, tenemos un ejemplo perfecto de esta ciencia. He de admitir –continuó el profesor, en tono más bajo y con la mirada gacha– que necesitamos un hombre de fuerza excepcional. Debe ser capaz de elevarse desde el suelo de un salto hasta aproximadamente el doble de su propia altura, girando en el aire a medida que asciende, para así caer de cabeza.”
“Supongamos –prosiguió, doblando su servilleta en un elegante festón– que esto representa lo que quizá sea la gran necesidad de nuestra era: la Piscina Portátil del Turista Activo. Uno puede referirse a ella de manera abreviada, si lo desea –añadió mirando al canciller–, mediante la sigla PPTA.”
—Una gran ventaja de esta piscina –retomó el profesor su explicación– es que requiere solamente unos 2 litros de agua…
—¡Yo no llamaría a eso piscina –observó su subexcelencia– a menos que su Turista Activo se sumerja por completo!
“Y en ese instante la sala se vio invadida por un clamor áspero y confuso, en el que las únicas palabras audibles eran: «¡Menos… pan! ¡Más… impuestos!». El anciano estalló en carcajadas.” “Y esta vez las palabras se oyeron con absoluta claridad, y con la precisión del tictac de un reloj: «¡Más… pan! ¡Menos… impuestos!».”
— …Pero ¿qué quieren decir con «menos impuestos»? ¿Cómo pueden bajar más? ¡Abolí el último de ellos hace un mes!
—¡Ha sido restablecido, æ’l, y por propia orden de su æ’l! –dicho lo cual, presentó otros edictos para que los examinara.
—¡Todo está resuelto! –anunció el rector, sin perder el tiempo en preliminares–. La subrectoría ha sido suprimida, y mi hermano designado para actuar como vicerrector siempre que me halle ausente.De modo que, como voy a estar de viaje en el extranjero durante una temporada, asumirá sus nuevas funciones de inmediato.
“Milady sonrió en aprobación de la opinión de su esposo, y continuó:
—¿Soy entonces yo obicerrectora?
—Si decides emplear ese título… –asintió el rector–, pero el tratamiento apropiado será «excelencia». Y confío en que «sus excelencias» respetarán el acuerdo que he preparado. La disposición que más me preocupa es la siguiente –desenrolló un pergamino de gran tamaño y leyó en voz alta–: «Ítem: que trataremos con amabilidad a los pobres». El canciller lo redactó por mí –añadió, mirando al alto funcionario–. Supongo que la palabra «ítem» tiene un profundo
significado legal, ¿no?”
—¿No habría que leerlo antes en alto? –inquirió milady.
—¡No hace falta, no hace falta! –exclamaron al mismo tiempo el subrector y el canciller, con febril entusiasmo.
—En absoluto –convino el rector en tono suave–. Tu esposo y yo lo hemos revisado juntos. Establece que él ejercerá la total autoridad de rector, y que podrá disponer de la renta anual adscrita al cargo, hasta mi regreso o, de no producirse, hasta que Bruno alcance la mayoría de edad; y que entonces deberá ceder, a Bruno o a mí según sea el caso, la rectoría, la renta no gastada y el contenido del Tesoro, el cual ha de conservarse, intacto, bajo su cuidado.
—Las despedidas, mejores cuanto más cortas –dijo el rector–. Todo está listo para mi viaje. Mis hijos están esperando abajo para decirme adiós. –Besó de forma solemne a milady, estrechó las manos de su hermano y del canciller, y se fue de la sala.
Los 3 aguardaron en silencio hasta que el sonido de unas ruedas anunció que el rector se encontraba ya lo suficientemente lejos; entonces, para mi sorpresa, empezaron a carcajearse de manera incontrolable.
—¡Qué gran ardid, oh, qué gran ardid! –exclamó el canciller. Tras lo cual el vicerrector y él unieron sus manos y se pusieron a dar grandes brincos por la sala. Milady era demasiado digna para brincar, pero emitió una risa parecida al relincho de un caballo, y agitó su pañuelo sobre su cabeza: estaba claro para su muy limitado entendimiento que se había hecho algo muy inteligente, pero aún no sabía el qué.
“Este es el que leyó pero no firmó, ¡y este el que firmó pero no leyó! Ya has visto que estaba todo tapado, salvo el espacio donde había que firmar…”
“…«Ítem: que ejercerá la autoridad de rector, en ausencia de este». ¡Oh!, eso ha sido cambiado a «que será gobernador vitalicio absoluto, con el título de emperador, si es elegido por el pueblo para tal cargo». ¿¡Qué!? ¿Eres emperador, cielo?”
—Aún no, querida –contestó el vicerrector–. Por el momento, no basta con enseñar este papel. Todo a su debido tiempo.”
—«Ítem: que trataremos con amabilidad a los pobres». ¡Eso se ha omitido por completo!
—¡Pues claro! –dijo su esposo–. ¡No vamos a preocuparnos por los miserables!
—Estupendo –contestó milady, con gran énfasis, y retomó de nuevo la lectura–: «Ítem: que el contenido del Tesoro sea conservado intacto». ¡Caramba, eso se ha cambiado a «estará a la absoluta disposición del vicerrector»! ¡Oh, Sibi, qué truco más astuto! ¡Sólo imagínatelo: todas las joyas! ¿Puedo ir a ponérmelas directamente?
—Esto… todavía no, amorcito –repuso de manera incómoda su esposo–. Entiende que la opinión pública aún no está del todo lista para ello. Debemos ir con tiento. Por supuesto tendremos el carruaje para nosotros de inmediato. Y yo tomaré el título de emperador tan pronto como podamos celebrar elecciones. Pero será difícil que toleren que usemos las joyas mientras sepan que el rector sigue vivo.Debemos extender el rumor de que ha muerto. Una pequeña conspiración…
—¡Una conspiración! –gritó contentísima la dama, dando palmas–. ¡Qué sorpresa, me encantan las conspiraciones! ¡Con lo interesantes que son!
“¡Comed, y no lloréis! –fueron sus escuetas y sencillas órdenes, y los pobres niños se sentaron uno junto al otro, pero no parecían tener ganas de comer.”
—¡Aquí tienes agua, bébetela! –bramó Uggug, vertiendo una jarra de agua sobre la cabeza del viejo.
—¡Bien hecho, hijo! –gritó el vicerrector–. ¡Así es como hay que tratar a esa gente, para que aprenda!
—¡Qué niño más listo! –convino la vicerrectora–. ¿Verdad que es muy alegre?
—¡Que lo muelan a palos! –voceó el vicerrector, mientras el viejo pordiosero sacudía el agua de su capa raída y volvía a levantar la vista en actitud sumisa.
—Por cierto, el viejo acuerdo decía algo sobre que Bruno heredaría la rectoría –recordó milady–. ¿Cómo queda eso en el nuevo? El canciller soltó una risita.
—Exactamente igual, palabra por palabra –dijo–, con una salvedad, milady. En vez de «Bruno», me he tomado la libertad de poner… –bajó la voz hasta un susurro– ¡de poner «Uggug», ya sabe!
—¡Uggug, cómo no! –exclamé, en un arranque de indignación que no pude seguir conteniendo. Pronunciar incluso aquella única palabra me resultó un esfuerzo titánico; mas, una vez proferido aquel grito, todo esfuerzo cesó de inmediato: la escena entera desapareció barrida por una ráfaga de viento y me vi incorporado en mi asiento, con la mirada fija en la joven dama del rincón opuesto del vagón, la cual se había levantado el velo del rostro, y me observaba con una expresión de divertida sorpresa.
—Si hubiera tenido una novela de terror en las manos –continuó ella–, algo sobre fantasmas o dinamita, o asesinatos a medianoche, resultaría comprensible: esas historias no valen el chelín que cuestan a menos que le causen a uno pesadillas.
“aparentaba ser, prácticamente, una chiquilla: imaginé que apenas habría cumplido los 20 años (…) «No obstante –cavilé–, en otros 10 años, Silvia tendrá su aspecto, y hablará como ella.»”
“…Los fantasmas de tren corrientes… quiero decir, los fantasmas de la literatura de trenes corriente, son algo lamentable. Me siento inclinada a decir, con Alexander Selkirk(*): «¡Su mansedumbre resulta pasmosa!». Y nunca llevan a cabo ningún asesinato a medianoche. ¡No podrían «revolcarse en sangre» para salvar sus vidas!
(*) Marinero escocés (1676-1721) famoso por haber vivido solo durante 4 años y 4 meses (de 1704 a 1709) en una isla entonces deshabitada del archipiélago de Juan Férnandez, en Chile. Se cree que Daniel Defoe se inspiró en parte en su historia para la creación de su novela Robinson Crusoe. El verso mencionado por la dama no es en realidad de Selkirk, sino del poeta inglés William Cowper (1731-1800), autor de The solitude of Alexander Selkirk («La soledad de Alexander Selkirk»), obra también inspirada en las experiencias del marinero. [N. del T.]
—«Revolcarse en sangre» es una frase muy expresiva, ciertamente. Me pregunto si es aplicable a cualquier fluido.
—Creo que no –contestó enseguida la dama, como si ya hubiera reflexionado sobre ello, hacía largo tiempo–. Ha de ser algo espeso. Por ejemplo, podría revolcarse en salsa de pan. Esta, al ser blanca, resultaría más apropiada para un fantasma, ¡suponiendo que quisiera revolcarse!”
«¡Ser un septuagenario, calvo y con anteojos tiene sus ventajas después de todo! –me dije–. En vez de un joven tímido y una doncella, intercambiando monosílabos con voz entrecortada entre terribles silencios, nos encontramos aquí con un anciano y una chiquilla, totalmente a sus anchas, ¡charlando como si se conociesen desde hace años!»
—¿Cree usted entonces –proseguí en voz alta– que en ocasiones deberíamos pedirle a un fantasma que se sentase? ¿Acaso poseemos autoridad alguna para ello? En Shakespeare, por ejemplo… ahí aparecen muchos… ¿hace Shakespeare alguna vez la acotación: «Cede una silla al fantasma»?
La dama adoptó una expresión intrigada y pensativa durante un instante: luego hizo un ademán de aplauso.
—¡Sí, así es! –gritó–. Le hace decir a Hamlet: «¡Descansa, descansa, espíritu turbado!».”
“calló entre risas argentinas.”
—Shakespeare debió de viajar en tren, aunque fuera únicamente en sueños: «espíritu turbado» es una frase realmente acertada. —«Turbado» en referencia, sin duda –se reincorporó ella a la charla–, a los sensacionales libritos que suelen leerse principalmente en los trenes. El vapor, cuando menos, ¡ha servido para generar un tipo completamente nuevo de literatura inglesa!
—Sin duda –repetí yo–. El verdadero origen de todos nuestros libros de medicina… y de cocina…
—¡No, no! –interrumpió ella de manera jovial–. ¡No hablaba de nuestra literatura! Nosotros somos bastante atípicos. Pero las emocionantes novelitas románticas, en las que el asesinato aparece en la página 15, y la boda en la 40, se deben con seguridad al vapor, ¿no le parece?
—Y cuando viajemos por medio de la electricidad, si me permite desarrollar su teoría, tendremos folletos en vez de libritos, y el asesinato y la boda se producirán en la misma página.
—¡Un desarrollo digno de Darwin! –exclamó la dama con entusiasmo–. Sólo que usted invierte su teoría. En vez de convertir un ratón en un elefante, ¡usted haría lo contrario! –Mas entonces nos metimos en un túnel, y yo me retrepé en mi asiento y cerré los ojos por un momento, tratando de recordar algunos de los incidentes de mi reciente sueño.
“Creyó ver un elefante
que alto un pífano tocaba;
mas luego advirtió que era,
de su esposa, una carta.
Por fin me doy cuenta –dijo–:
¡esta vida es bien amarga!
¡Y menudo personaje disparatado cantaba tales disparates! Parecía tratarse de un jardinero; aunque uno loco, sin duda, por el modo en que blandía su rastrillo; más loco, por cómo, de tanto en tanto, rompía a bailar con frenesí; ¡más loco que nadie, por el alarido con el que profirió los últimos versos de la estrofa!
Hasta cierto punto estaba describiéndose a sí mismo, pues tenía los pies de un elefante: pero el resto de él era piel y hueso; y las briznas de paja suelta que le sobresalían por todas partes parecían indicar que en un principio llevaba esta metida bajo la ropa, y que prácticamente toda ella se le había salido ya.
Silvia y Bruno esperaron pacientemente hasta el final de la primera estrofa. Entonces Silvia se aproximó sola (dado que a Bruno le había entrado una repentina vergüenza) y se presentó tímidamente diciendo:
—Disculpe, ¡me llamo Silvia!
—¿Y quién es esa otra cosa? –preguntó el jardinero.
–¿Qué cosa? –dijo Silvia, girándose–. Oh, ese es Bruno. Es mi hermano.
—¿Era tu hermano ayer? –inquirió el jardinero ansiosamente.
—¡Pues claro! –exclamó Bruno, que se había acercado poquito a poco, y al que no le gustaba nada que se hablara de él sin tomar parte en la conversación.
—¡Ah, bien! –dijo el jardinero con una especie de gruñido–. Aquí las cosas cambian así. ¡Cada vez que miro se ha transformado por fuerza en algo distinto! Pero a pesar de ello, ¡hago mi tarea! Me levanto a las 5 con el canto del gallo…”
“¡Recuerda que pájaro durmiente, tarde hincha el vientre!”
“…A mí no me gustan nada los gusanos. ¡Siempde me quedo en la cama hasta que el gallo se los ha comido todos!
—¡Qué cara tienes para contarme un cuento como ese! –exclamó el jardinero.
A lo cual Bruno contestó sabiamente:
—No hace falta tened cara para contad un cuento: sólo boca.”
“El viejo pordiosero debía de estar muy sordo, ya que hizo caso totalmente omiso a los vehementes gritos de Bruno, y continuó andando con gran esfuerzo y agotamiento, sin detenerse ni un instante hasta que los niños se colocaron delante de él y le ofrecieron el trozo de bizcocho. El pobre chiquillo estaba completamente sofocado, y sólo pudo articular la palabra: «¡Bicicocho!», no con la sombría decisión con la que la había pronunciado su excelencia de forma tan reciente, sino con una encantadora timidez infantil, levantando la vista hacia el rostro del anciano con ojos que amaban «al ratón como al león».
El anciano le quitó el bizcocho de las manos y lo devoró ansiosamente, como habría hecho una hambrienta bestia salvaje, mas no correspondió a su pequeño benefactor con ninguna palabra de agradecimiento; únicamente gruñó: «¡Más, más!», y clavó una mirada feroz en los niños, que se asustaron un poco.
—¡No hay más! –dijo Silvia con lágrimas en los ojos–. Yo me he comido el mío. Fue vergonzoso dejar que lo echaran de ese modo. Lo siento mucho…
No escuché el resto de la frase, pues mis pensamientos habían regresado, con gran sorpresa, a lady Muriel Orme, quien había pronunciado hacía nada aquellas mismas palabras de Silvia; así es, y con la misma voz de esta, ¡y con sus ojos amables y suplicantes!”
“Cuando el arbusto desapareció por completo de nuestra vista, se reveló una escalera de mármol que descendía en la negrura. El anciano abrió la marcha, y nosotros lo seguimos expectantes.” “un extraño resplandor argénteo, que parecía darse en el aire, ya que no había lámparas a la vista, y, cuando por fin llegamos a una zona de suelo llano, la sala en la que nos encontramos estaba iluminada casi como a plena luz del día.”
“En otro lugar, tal vez, me habría maravillado ver frutas y flores creciendo juntas; allí, mi mayor asombro era que jamás había contemplado antes frutas o flores como aquellas. Por encima de ellas, cada muro albergaba una vidriera circular, y rematando todo había una cúpula que parecía estar cubierta por entero de joyas.
Con asombro escasamente menor, me giré hacia un lado y a otro, tratando de averiguar cómo habíamos logrado entrar en la sala, pues no había ninguna puerta y todas las paredes se hallaban cubiertas por las preciosas y tupidas enredaderas.”
—¡Padre, padre! –repitió Bruno, y, mientras los felices niños recibían abrazos y besos, yo no pude hacer otra cosa que frotarme los ojos y decir: «¿Adónde han ido los harapos?», pues el anciano estaba vestido ahora con ropajes reales que centelleaban con joyas y bordados de oro, y llevaba ceñida en torno a la cabeza una corona del mismo metal precioso.
—¿Dónde estamos, padre? –susurró Silvia, abrazando con fuerza el cuello del anciano, y con su mejilla sonrosada apretada afectuosamente contra la de él.
—En Elfolandia, cariño. Es una de las provincias de Hadalandia.
—Pero yo creía que Elfolandia estaba lejísimos de Exotilandia, ¡y hemos recorrido una distancia ridícula!
—Vinisteis por el Camino Real, cielo. Sólo aquellos de sangre real pueden viajar por él, pero tú lo eres desde que me nombraron rey de Elfolandia, lo cual fue hace casi un mes. Enviaron 2 embajadores para asegurarse de que su invitación, para ser su nuevo soberano, me llegara. Uno era un príncipe, de modo que pudo venir por el Camino Real, y hacerlo sin que nadie salvo yo lo viera; el otro era un barón, así que tuvo que viajar por el camino normal, y me imagino que aún no ha llegado.
—No –corrigió Bruno–. Me defiero a si puedo comedme una de esas fdutas.
“Bruno corrió entusiasmado a la pared y cogió una fruta cuya forma era similar a la de un plátano, pero que tenía el color de una fresa.
Se la comió con una sonrisa de felicidad que fue decayendo gradualmente, hasta convertirse, cuando se la hubo terminado, en un rostro verdaderamente apático.”
—Lo son para vosotros, cariño, porque no pertenecéis a Elfolandia, todavía. Pero para mí son reales.
Bruno puso cara de extrañeza.
“Yo mismo intenté coger unas cuantas, pero era como tratar de asir el aire, así que me rendí al poco tiempo y regresé junto a Silvia.”
“un guardapelo en forma de corazón, tallado aparentemente a partir de una única gema, de un vivo color azul, con una fina cadenita de oro unida a él.”
“Ahora, Silvia, mira esto. –Y le mostró, sobre la palma de su mano, un guardapelo de un intenso color carmesí, con la misma forma que el azul y, como este último, unido a una delicada cadenita de oro.”
—¡Y este también tiene unas palabdas! –señaló Bruno–. Silvia… querá… a… todos.
—Ahora ves la diferencia –dijo el anciano–: colores y palabras diferentes. Escoge uno de ellos, tesoro. Te daré el que más te guste.
—Es muy agradable que te quieran –apuntó–, ¡pero más aún querer a otras personas! ¿Puedo quedarme el rojo, padre?
El anciano no respondió, pero pude ver que sus ojos se llenaban de lágrimas cuando bajó la cabeza y apretó sus labios contra la frente de Silvia en un largo y cariñoso beso.
“Me asaltó nuevamente una sensación de desconcierto respecto a cómo íbamos a lograr regresar –pues daba por sentado que adonde quiera que fueran los niños, yo los acompañaría–, pero por sus mentes no pareció pasar ni la más mínima sombra de duda, mientras abrazaban y besaban a su padre, susurrando, una y otra vez: «¡Adiós, querido padre!». Y entonces, de forma veloz y repentina, la oscuridad de la medianoche pareció caer sobre nosotros, y a través de ella resonó de manera estridente una extraña y alocada canción:
Creyó ver a la repisa
un búfalo encaramado:
mas luego advirtió que era
sobrina de su cuñado.
«¡Si no te largas ya –dijo–
la poli vendrá volando!»”
—¿Quiénes son tus allegados? –preguntó Bruno.
—¡Pues sea quien sea el que ha llegado, por supuesto! –respondió el jardinero–. Ya podéis pasar, si queréis.
—Pequeña, como ves, pero más que suficiente para los dos. Siéntate en el sillón, viejo amigo, ¡y deja que te eche otro vistazo! Pues, ciertamente, ¡sí se te ve un poco abatido! –dijo, y adoptó un solemne aire profesional–. Prescribo ozono, quantum sufficit; disipación social, fiant pilulae quam plurimae(*): ¡tómense, en banquetes, 3 veces al día!
(*) «háganse píldoras en abundancia».
* * *
—¡Pero doctor! –protesté–. ¡La alta sociedad no «recibe» 3 veces al día!
—¡Eso es lo que usted se cree! –contestó alegremente el joven médico–. En casa, tenis sobre hierba, 3 de la tarde. En casa, piscolabis, 5 de la tarde. En casa, música (en Elveston no se invita a cenar), 8 de la tarde. Carruajes a las 10. ¡Ahí lo tiene!
—Sí… la conozco. –Y el serio doctor se ruborizó ligeramente al añadir–: Sí, coincido contigo. Es realmente hermosa.
—¡Casi me enamoro perdidamente de ella! –Proseguí con picardía–. Hablamos…
—¡Cena algo! –Interrumpió Arthur¹ con aire de alivio, cuando la criada entró con la bandeja. Y resistió firmemente todos mis intentos de volver al tema de lady Muriel hasta que la tarde prácticamente se hubo agotado. Entonces, cuando nos hallábamos sentados contemplando el fuego y la conversación derivaba en silencio, realizó una apresurada confesión.
—No tenía intención de contarte nada sobre ella –dijo (sin dar ningún nombre, ¡como si no hubiera más que una «ella» en el mundo!)– hasta que la hubieras visto algo más y te hubieras formado una opinión propia; pero de algún modo me lo sonsacaste. Y no he dicho una palabra de esto a nadie más. ¡Pero a ti sí puedo confiarte un secreto, viejo amigo! ¡Así es! Lo que supongo dijiste en broma, ¡es cierto en mi caso!
—¡No fue nada más que eso, créeme! –dije con sinceridad–. ¡Cielo santo, hombre, si le triplico la edad! Pero si es tu elegida, entonces no me cabe duda de que no hay persona más buena…
—…ni dulce –continuó Arthur–, ni pura, ni abnegada, ni sincera, ni… –y calló bruscamente, como si no pudiera confiar en sí mismo para seguir hablando sobre una cuestión tan sagrada y preciosa.
¹ Curiosamente Arthur & Sylvia são os nomes dos pais do garoto (o terceiro de 5 filhos homens) que inspirou outro ícone das novelas infantis, ao lado das de Carroll:Peter Llewelyn Davies, depois transfigurado porJames Barrieem Peter Pan (1904)! Outra coincidência: Peter Davies serviu – e foi condecorado – na I Guerra; já dois filhos de Alice Liddell, a “Alice do mundo real”, foram mortos no confronto – não que filhos de europeus famosos morrendo ou se destacando com bravura numa guerra européia em grande escala fosse uma ‘ocorrência rara’, mas só ao não serem plebeus já se torna algo pitoresco… Curiosamente, enquanto Alice Liddell nunca sofreu por ser protagonista de um livro (e, ademais, suas semelhanças com a heroína ficcional são esparsas), ao contrário, rendendo-lhe fama e dinheiro até o fim dos dias, Peter Davies terminou se suicidando por nunca conseguir se livrar da associação ao “menino que nunca amadurece” (os tablóides ingleses estamparam, no início dos 1960: Morre Peter Pan atropelado por um trem…)! Peter Davies, uma casa editorial, foi fundada por ele.
“Me los imaginé paseando juntos, tranquila y amorosamente, bajo un dosel de árboles, en un precioso jardín de su propiedad, y recibiendo la bienvenida de su fiel jardinero, a su vuelta de alguna breve excursión.
Parecía bastante natural que este último se sintiera desbordado de gozo ante el regreso de un señor y una señora tan encantadores –¡y qué aspecto más extrañamente infantil tenían! Podría haberlos confundido con Silvia y Bruno–; ¡pero menos natural que lo expresara con bailes tan alocados y canciones tan delirantes!
Creyó ver una serpiente
que en griego lo interrogaba;
mas luego advirtió que era
un jueves de otra semana.
«¡Lo que sí lamento –dijo–
es que ahora ya no habla!»
…y menos natural que nada que el vicerrector y milady se encontraran a mi lado, hablando acerca de una carta abierta que el profesor, quien aguardaba en actitud dócil a pocos metros, acababa de entregarle.”
«…y por ello le rogamos gentilmente que acepte la corona, para la cual ha sido elegido de manera unánime por el Consejo de Elfolandia; y que permita que su hijo Bruno (cuya bondad, inteligencia y belleza han llegado a nuestros oídos) sea considerado príncipe heredero»
—¡No seas tonta, y deja de decir sandeces! Nuestra única oportunidad es que no vea a esos 2 mocosos. Si eres capaz de lograrlo, puedes dejarme el resto a mí. Yo le haré creer que Uggug es un dechado de inteligencia y todo eso.
—Está claro que tenemos que cambiarle el nombre por el de Bruno, ¿no? –aventuró milady.
El vicerrector se frotó la barbilla.
—¡Hum! ¡No! –dijo cavilante–. No serviría. El niño es tan rematadamente idiota que jamás aprendería a contestar a él.
—¡Cómo que idiota! –gritó milady–. ¡No es más idiota que yo!
—Tienes razón, querida –contestó en tono sedante el vicerrector–. ¡Desde luego que no!
Milady se quedó contenta.
—Su adiposidad el barón Doppelgeist.
—¿Por qué se presenta con un nombre tan raro? –dijo milady.
—Le fue imposible cambiárselo durante el viaje –respondió mansamente el profesor– porque venía cargado.
—Ve tú a recibirlo –le indicó milady al vicerrector– y yo me ocuparé de los niños.
—Bueno, así es –respondió, agachando modestamente la mirada–. Mis ancestros fueron todos célebres por su genio militar.
Milady sonrió gentilmente.
—Se trata a menudo de algo hereditario –comentó–; igual que el amor por la repostería. [confeitaria]
El barón pareció ofenderse ligeramente, y el vicerrector cambió de tema de manera sutil.
—La cena estará pronto lista –dijo–. ¿Me concede el honor de acompañar a su adiposidad a la habitación de invitados?
—¡Desde luego, desde luego! –asintió con entusiasmo el barón–. ¡Nunca se debe hacer esperar a la cena! –Dicho lo cual, salió de la sala casi al trote siguiendo al vicerrector.
—Cierto –asintió el barón–. El enemigo, como iba diciendo, nos superaba ampliamente en número, pero yo marché con mis hombres directamente al corazón de… ¿qué es eso? –exclamó el héroe bélico en tono agitado, colocándose detrás del vicerrector, cuando una extraña criatura se lanzó como loca hacia ellos, blandiendo una pala.
—Sólo es el jardinero –respondió el vicerrector en tono alentador–. Es totalmente inofensivo, se lo aseguro. ¡Escuche, está cantando! Es su pasatiempo favorito. Y una vez más volvieron a oírse aquellas agudas notas discordantes:
Creyó ver bajar de un bus
a un empleado de banca;
mas luego advirtió que era
un hipopótamo: «¡Hala!
Si a cenar viniese –dijo–
¡no dejaría migaja!».
“El barón pareció de nuevo ligeramente ofendido, pero el vicerrector se apresuró a explicar que la canción no se refería a él, y que, de hecho, no tenía ningún sentido.”
—Permítame presentarle a mi hijo –dijo el vicerrector; añadiendo, en un susurro–, ¡uno de los muchachos más sobresalientes y listos que jamás ha habido! Trataré de que le demuestre parte de su inteligencia. Sabe todo lo que los demás muchachos desconocen, y en tiro con arco, pesca, pintura y música, sus dotes son… pero júzguelo usted mismo. ¿Ve aquella diana de allí? Va a dispararle una flecha. Querido muchacho —dijo a continuación en voz alta–, a su adiposidad le complacería verte disparar. ¡Traed el arco y las flechas de su alteza!
Uggug puso una cara de gran enfurruñamiento cuando le entregaron el arco y la flecha, y se preparó para el disparo. Nada más salir volando el proyectil, el vicerrector propinó un fuerte pisotón en la punta del pie al barón, que profirió un grito de dolor.
—¡Sostenía el arco con tamaña torpeza que parecía imposible!–musitó. Pero no cabía ninguna duda: allí estaba la flecha, ¡justo en el centro de la diana!
—El lago está ahí al lado –dijo a continuación el vicerrector–. ¡Traed la caña de pescar de su alteza! –Y Uggug sujetó la caña de malísima gana, y dejó colgando la mosca sobre el agua.
—¡Tiene un escarabajo en el brazo! –chilló milady, pellizcando el brazo del pobre barón más fuerte que si 10 langostas se lo hubieran atenazado a la vez con sus pinzas–. Esa variedad es venenosa –explicó–. ¡Pero qué lástima! ¡Se ha perdido cómo sacaba el pez del agua!
Un enorme bacalao muerto yacía en la orilla, con el anzuelo en la boca.
—Siempre había creído –comentó el barón entre titubeos– que los bacalaos eran peces de agua salada.
—No en este país –señaló el vicerrector–. ¿Vamos adentro? Hágale alguna pregunta a mi hijo de camino… ¡sobre cualquier tema que guste! –Y el malhumorado muchacho recibió un violento empujón al frente para que caminara al lado del barón.
—Podría decirme su alteza –empezó cautelosamente el barón– ¿cuál sería el total de 7 por 9?
—¡Tuerza a la izquierda! –chilló el vicerrector, adelantándose con aspereza para indicar el camino, de forma tan brusca que chocó con su desafortunado invitado, el cual cayó pesadamente de bruces al suelo.
—¡Cuánto lo lamento! –exclamó milady, mientras su esposo y ella lo ayudaban a ponerse de nuevo en pie–. ¡Mi hijo se disponía a decir «63» cuando se ha caído!
“La cena se sirvió a su debida hora, y cada nuevo plato parecía acrecentar el buen humor del barón, mas todos los esfuerzos para que expresase su opinión sobre la inteligencia de Uggug fueron vanos, hasta que el interesante muchacho abandonó la sala, y se le vio por la ventana abierta rondando el jardín con un cestillo, el cual estaba llenando de ranas.”
“Ug… quiero decir, ¡muchacho! Ven un segundo, ¡y trae al maestro de música contigo! Para pasarle las páginas de la partitura –agregó como explicación.”
—¿Qué mútsica fa a quegueg?
—La sonata que su alteza toca tan deliciosamente –dijo el vicerrector.
—Tsu altesa no tiene… –empezó a decir el maestro de música, pero fue bruscamente interrumpido por el vicerrector.
—¡Silencio, señor! Vaya a pasarle las hojas de la partitura a su alteza. Querida –a la vicerrectora–, ¿le mostrarás qué hacer? Y mientras tanto, barón, yo le enseñaré un mapa sumamente interesante que tenemos… ¡de Exotilandia, Hadalandia y ese tipo de cosas!
—…¡Come como un tiburón! ¡Que yo lo mencionara resultaría escasamente apropiado!
Su esposa captó la idea, y al momento empezó a soltar indirectas de lo más sutiles y delicadas.
—¡Pero mire qué corta es la vuelta a Hadalandia! ¡Si saliera mañana por la mañana, llegaría allí en poco más de una semana!
…
—Puede volver 5 veces en el tiempo que le llevó venir una sola… ¡si sale mañana por la mañana!
Mientras ocurría todo aquello, la sonata resonaba por la sala. El barón no pudo evitar admitir para sí que la interpretación estaba siendo magnífica, pero sus intentos de captar el más mínimo atisbo del joven músico fueron inútiles. Cada vez que estaba a punto de lograr verlo, el vicerrector o su esposa se colocaban inevitablemente en medio, señalando algún nuevo punto del mapa, y ensordeciéndolo con algún nuevo nombre.
“En aquel momento la puerta se abrió: un rostro gordo y furioso se asomó por ella; una voz, ronca por la ira, bramó:
—¡Mi habitación está llena de ranas; me marcho! –La puerta volvió a cerrarse.
Y la noble composición seguía todavía sonando en la sala, pero era la magistral ejecución de Arthur la que originaba los ecos y me conmovía la misma alma con la delicada música de la inmortal Sonata Pathetique;¹ y no fue hasta que hubo expirado la última nota que el cansado pero feliz viajero fue capaz de pronunciar las palabras «¡Buenas noches!» e ir en busca de su muy necesitada almohada.”
¹ Sonata nº 8 de Beethoven, Opus 13.
“Al dar las 5, Arthur propuso –esta vez sin vergüenza alguna– que lo acompañara hasta el Hall a fin de que pudiera conocer al earl de Ainslie, quien lo había alquilado para pasar la estación, y me reencontrara con su hija lady Muriel.”
“Advertí, no obstante, y lo hice con agrado, indicios de un sentimiento que iba mucho más allá de un mero aprecio cordial en su encuentro con Arthur –aunque esto sucedía, según colegí, prácticamente a diario–, y la conversación que mantuvieron, en la que el earl y yo participamos sólo de manera ocasional, tuvo lugar con una comodidad y una espontaneidad difícil de encontrar salvo entre amigos que han mantenido una relación muy larga”
—No resulta difícil imaginar una situación –dijo Arthur– en la que las cosas necesariamente no tendrían peso, en relación unas con otras, aun manteniendo cada una de ellas su peso usual, si se la considerase de manera aislada.
—¡Qué terrible paradoja! –exclamó el earl–. Díganos cómo sería posible. Nunca lo adivinaremos.
—Bien, imagine esta casa, tal cual, situada a unos cuantos miles de millones de millas por encima de un planeta, y con ninguna otra cosa lo bastante cerca como para perturbarla; no hay duda de que cae hacia el planeta, ¿cierto?
El earl asintió con la cabeza.
—Desde luego… aunque tardaría varios siglos en hacerlo.
—¿Y habría té de las 5 mientras tanto? –dijo lady Muriel.
—Eso y otras cosas –señaló Arthur–. Los ocupantes vivirían sus vidas, crecerían y morirían, ¡y la casa seguiría cayendo, cayendo, cayendo! Pero en cuanto al peso relativo de las cosas: nada puede ser pesado, ya saben, salvo si intenta caer, y algo se lo impide. ¿Están todos de acuerdo?
Todos lo estábamos.
—Entonces, si cojo este libro y lo sostengo con el brazo extendido, está claro que siento su peso. Está tratando de caer y yo se lo impido. Y, si lo suelto, cae al suelo. Pero si estuviéramos todos cayendo a la vez, no podría tratar de caer más rápido, ¿comprenden?, ya que, si lo suelto, ¿qué otra cosa podría hacer sino caer? Y, como mi mano estaría cayendo también, a la misma velocidad, nunca la abandonaría, pues eso supondría adelantarla en la carrera. ¡Y jamás podría rebasar el suelo, también en caída!
—Lo entiendo con claridad –dijo lady Muriel–, ¡pero resulta mareante pensar en cosas así! ¿Cómo puede obligarnos a ello?
—Hay una idea más curiosa todavía –me atreví a decir–. Supongamos un cordel atado a la casa, desde abajo, y del que tira alguien en el planeta. Entonces, por supuesto, la propia casa va más deprisa que su ritmo natural de caída, pero los muebles, junto con nuestros nobles cuerpos, seguirían cayendo a su antigua velocidad, ¡por lo que se quedarían atrás!
—Subiríamos hasta el techo, prácticamente –apuntó el earl–. Lo cual acarrearía de manera inevitable una conmoción cerebral.
—Para evitar eso –dijo Arthur–, habría que fijar los muebles al suelo, y atarnos nosotros a ellos. Entonces el té de las cinco podría tener lugar tranquilamente.
—¡Con un pequeño inconveniente! –interrumpió lady Muriel de modo alegre–. Tendríamos que agarrar las tazas para que bajaran con nosotros, pero ¿qué hay del té?
—Me había olvidado del té –confesó Arthur–. Eso, sin duda, subiría hasta el techo… ¡a no ser que decidiera bebérselo en mitad de la ascensión!
E tudo isso o danado do Carroll imaginou antes de poder conhecer uma estação da Nasa!
“La canción de los pescadores se escuchaba cada vez más cerca y clara, a medida que su barca se aproximaba a la playa, y habría bajado para verlos descargar su flete de pescado si el microcosmos a mis pies no hubiera excitado aún más mi curiosidad.
Un viejo cangrejo, que no cesaba de moverse frenéticamente de un lado a otro de la charca, me tenía particularmente fascinado: existía una cierta vacuidad en sus ojos fijos y una violencia sin sentido en su comportamiento que recordaba, de manera irresistible, al jardinero que se había hecho amigo de Silvia y Bruno; mientras lo miraba, llegaron a mis oídos las notas con que concluía la melodía de su alocada canción.
El silencio que se produjo a continuación se vio roto por la dulce voz de Silvia:
—¿Podría dejarnos salir al camino, por favor?
—¡¿Qué?! ¿Para ir otra vez tras ese viejo pordiosero? –gritó el jardinero, que se puso a cantar:
Creyó ver un gran canguro¹
que molía en molinillo:
mas luego advirtió que era
un tónico en comprimidos.
«Si lo tomara –saltó–
¡me pondría muy malito!»”
¹ De caranguejo a canguru num átimo!
—…Así que, ¿sería tan amable de…?
—¡Pues claro! –respondió de inmediato el jardinero–. Yo siempre soy amable. Nunca soy desagradable con nadie. ¡Ya está! –Y abrió la puerta de un tirón, dejándonos salir al polvoriento y amplio camino.
—¿Qué era lo que teníamos que hacer con él, Bruno? ¡Se me ha olvidado por completo!
—¡Bésalo! –era la invariable receta de Bruno en casos de duda y dificultad. Silvia lo besó, pero no dio ningún resultado–. Fdótalo al devés –fue su siguiente sugerencia.
“…varios árboles, en la ladera de la colina vecina, estaban subiendo lentamente por ella, en solemne procesión, al tiempo que un apacible arroyuelo, que había estado fluyendo a nuestros pies un momento antes, formando pequeñas ondas, comenzó a crecer, a espumar, a silbar y a burbujear, de un modo verdaderamente alarmante.
—¡Fdótalo de otda manera! –chilló Bruno–. ¡Pdueba de ariba abajo! ¡Core!
Fue una feliz idea. Frotarlo de arriba a abajo surtió efecto, y el paisaje, que había estado mostrando signos de enajenación mental en diversas direcciones, regresó a su estado normal de sobriedad; a excepción de un ratoncillo de color pardoamarillento, que seguía correteando como loco por el camino, en una y otra dirección, meneando enérgicamente la cola como un pequeño león.”
“El ratón se puso en el acto a trotar con un paso ceremonioso, cuyo ritmo podíamos seguir sin dificultad. El único fenómeno que me produjo un cierto desasosiego fue el rápido aumento de tamaño de la pequeña criatura que estábamos siguiendo, que se parecía más y más a un verdadero león a cada momento que pasaba.”
“Ningún miedo pareció pasar por la mente de los niños, que le dieron suaves palmadas y lo acariciaron como si se tratase de un poni de las islas Shetland.
—¡Ayúdame a subid! –gritó Bruno. Y un momento después Silvia lo levantó hasta el ancho lomo de la mansa bestia, y ella se sentó detrás de él, de lado. Bruno llenó ambas manos de melena y simuló guiar a aquel nuevo tipo de corcel–. ¡Are! –aquello pareció bastar a modo de indicación verbal: el león inició al instante un medio galope tranquilo y pronto nos vimos en el corazón del bosque. Y digo «nos vimos», pues tengo la seguridad de que yo los acompañaba, aunque me siento totalmente incapaz de explicar cómo me las arreglé para mantener el ritmo de un león a dicho aire. Pero ciertamente yo era parte del grupo cuando nos topamos con un viejo pordiosero que estaba cortando leña, y a cuyos pies el león hizo una profunda reverencia, momento en el cual los niños desmontaron y se lanzaron a los brazos de su padre.
—¡De mal en peor! –dijo el anciano para sí en tono caviloso cuando los niños hubieron terminado su relato, algo confuso, de la visita del embajador, construido sin duda a partir del rumor general, pues ellos no lo habían visto en persona–. ¡De mal en peor! Ese es su destino. Lo veo, pero no puedo alterarlo. El egoísmo de un hombre mezquino y artero, de una mujer ambiciosa y necia, de un niño lleno de rencor y falto de amor… todos llevan en una dirección: ¡de mal en peor! Y vosotros, queridos míos, debéis sufrirlo por algún tiempo, me temo. Empero cuando las cosas estén peor que nunca, podéis acudir a mí. Es poco lo que puedo hacer de momento…”
“Que el engaño, el rencor, la ambición
duerman en la noche de la razón,
¡hasta que la flaqueza sea fuerza;
las tinieblas, fulgor;
y todo mal se invierta!
La nube de polvo se extendió por el aire, como si estuviera viva, adoptando formas curiosas que cambiaban sin cesar.
—¡Está fodmando letdas! ¡Y palabdas! –susurró Bruno, agarrándose, un poco asustado, a Silvia–. ¡Pero no consigo leedlas! ¡Hazlo tú, Silvia!”
—…Primero, ¿por qué me llamas Benjamín?
—¡Es parte de la conspiración, amor! Uno debe tener un alias, ¿sabes?…
—¡Oh, así que un alias! ¡Vaya! Y segundo, ¿con qué objeto compraste esta daga? Venga, ¡nada de evasivas! ¡No puedes engañarme!
…
—¡Oh, no hables tú de conspiraciones! –la cortó violentamente su esposo, tirando la daga al interior del armario–. Sabes tanto de dirigir una conspiración como una gallina. Lo primero que hay que hacer es conseguir un disfraz. ¡Mira esto!
Y con comprensible orgullo se ciñó el gorro y los cascabeles, y el resto del disfraz de bufón, le guiñó un ojo a su esposa y preguntó con ironía:
—¿Doy el pego o no?
Los ojos de milady brillaron con absoluto entusiasmo conspirativo.
—¡Totalmente! –exclamó, dando palmadas–. ¡Tienes todo el aspecto de un payaso!
El «payaso» sonrió con recelo. No estaba completamente seguro de si aquello era un halago o no.
—¿Quieres decir un bufón? Sí, esa era mi intención. ¿A que no te imaginas cuál es tu disfraz? –Y procedió a deshacer el paquete, mientras la dama lo observaba extasiada.
—¡Oh, qué maravilla! –gritó, cuando el disfraz estuvo por fin extendido–. ¡Un disfraz espléndido! ¡De mujer esquimal!
—¡Cómo que de esquimal! –bramó el otro–. Toma, póntelo, y mírate en el espejo. ¿Pero es que no ves que es un oso? –El vicerrector calló de repente, al oírse una áspera voz que aullaba:
«Mas luego advirtió, no obstante,
que era un oso sin cabeza».
…
—Tendré que practicar un poco la forma de andar –dijo milady, mirando a través de la boca del oso–: ya sabes que al principio es imposible no comportarse un poco como un humano. Y por supuesto dirás: «¡Arriba, Bruin!»,¹ ¿a que sí?
—¡Por supuesto que sí! –contestó el cuidador, agarrando la cadena que colgaba del collar del oso con una mano, mientras con la otra hacía restallar un pequeño látigo–. Ahora da una vuelta a la habitación bailando un poco. Muy bien, querida, muy bien. ¡Arriba, Bruin! ¡Arriba te digo!
[¹ Diz-se dos ursos marrons.]
—¡Deja que te tome el pulso, hijo mío! –solicitó el preocupado padre–. Ahora saca la lengua. ¡Ah, lo que pensaba! Tiene un poco de fiebre, profesor, y ha sufrido una pesadilla. Métalo en la cama inmediatamente y dele un jarabe que le baje la temperatura.
—El motivo por el que lo he mencionado, profesor, era pedirle que tuviera la amabilidad de presidir las elecciones. Como entenderá, ello conferiría respetabilidad al asunto para que no hubiera sospechas de nada turbio…
—¡Me temo que no puedo, excelencia! –balbuceó el anciano–. ¿Y si el rector…?
—¡Cierto, cierto! –interrumpió el vicerrector–. Su posición, como profesor de la corte, no lo vuelve oportuno, lo admito. ¡Pues nada! Entonces las elecciones se llevarán a cabo sin su intervención.
—¡Es siempde tan desagadable! –añadió Bruno lastimeramente–. Ahora que padde ya no está, todos lo son con nosotdos. ¡El león se podtó mucho mejod!
—Pero tenéis que hacer el favor de aclararme –contestó el profesor con gesto de preocupación– cuál es el león, y cuál el jardinero. Es sumamente importante no confundir 2 animales así uno con otro. Y en su caso, es muy probable que ocurra, dado que ambos tienen boca, ¿sabéis?…
—¿Siempde confunde unos animales con otdos? –preguntó Bruno.
—Bastante a menudo, me temo –confesó con franqueza el profesor–. Por ejemplo, están la conejera y el reloj del salón –señaló–.
Uno los confunde un poco… porque los dos tienen puertas, como sabéis. Ayer mismo, ¿os lo podéis creer?, metí unas lechugas en el reloj, ¡y traté de dar cuerda al conejo!
—¿Y el conejo madchaba, después de habedle dado cuedda? –inquirió Bruno.
El profesor se llevó las manos a la cabeza, y gimió:
—¿Que si marchaba? ¡Me parece que sí! ¡De hecho, se ha marchado! Y a dónde… ¡eso es lo que no puedo averiguar! Lo he intentado todo… me he leído entero el artículo «Conejo» en la enciclopedia…
—Bueno, verá, la cifra lleva doblándose muchos años –respondió el sastre, de forma un poco desabrida– y creo que me gustaría que me pagara ya. ¡Son 2 mil libras!
—¡Oh, eso no es nada! –observó el profesor con despreocupación, hurgando en su bolsillo, como si siempre llevara por lo menos dicha cantidad consigo–. ¿Pero no preferiría esperar 1 añito más y que pasen a ser 4 mil? ¡Piense tan sólo en lo rico que sería! ¡Podría ser rey, si quisiera!
—No sé si querría ser rey –dijo el hombre, pensativo–. ¡Pero desde luego parece un buen montón de dinero! Está bien, creo que esperaré…
—¡Claro que sí! –asintió el profesor–. Veo que es usted muy sensato. ¡Que tenga un buen día!
—¿Tendrá algún día que pagarle esas 4 mil libras? –preguntó Silvia cuando la puerta se cerró tras el acreedor.
—¡Nunca, mi niña! –contestó enfáticamente el profesor–. Seguirá doblándola, hasta que muera.¡Entenderéis que siempre merece la pena esperar 1 año más para conseguir el doble de dinero! Y ahora, ¿qué os gustaría hacer, amiguitos míos? ¿Os parece bien que os lleve a ver al otro profesor? Es una ocasión excelente para una visita –dijo para sí, echando un vistazo a su reloj–: normalmente se toma un breve descanso, de 14 minutos y ½, sobre esta hora.
A CREATURE OF CHAOS: “iba descubriendo a cada momento nuevas habitaciones y corredores en aquel misterioso palacio, y con escasa frecuencia lograba encontrar de nuevo los ya visitados.”
—¡Nos estás gastando una broma, anciano encantador! –dijo–. ¡Aquí no hay ninguna puerta!
—La habitación no tiene puertas –explicó el profesor–. Tendremos que entrar por la ventana.
De modo que fuimos hasta el jardín y no tardamos en hallar la ventana de la habitación del otro profesor. Era una ventana en la planta baja, y se encontraba invitadoramente abierta; el profesor aupó primero a los 2 niños para que entraran, y después él y yo trepamos al alféizar para seguirlos.
El otro profesor estaba sentado frente a una mesa, con un gran libro abierto delante, sobre el cual tenía la frente apoyada; abrazaba el libro con ambos brazos, y roncaba con fuerza.
—Lee así, por lo general –comentó el profesor–, cuando el libro es muy interesante, ¡y entonces a veces cuesta mucho conseguir que atienda!
—¡Qué ensimismado está! –exclamó el profesor–. ¡Debe de haber llegado a una parte del libro interesantísima! –Y descargó una buena lluvia de golpes sobre la espalda del otro profesor, mientras gritaba sin parar–: ¡Eh! ¡Eh! –Luego le dijo a Bruno–: ¿No es asombroso que esté tan abstraído?
—¡Eso es! –exclamó el profesor, encantado–. ¡Eso servirá, no hay duda! –Y cerró el libro con tanta brusquedad que pilló con fuerza la nariz del otro profesor entre las hojas.
Este se levantó al instante y llevó el libro al fondo de la habitación, donde lo devolvió a su sitio en la librería.
—He estado leyendo 18 horas y ¾ –dijo–, y ahora me tomaré un descanso de 14min30. ¿La charla está lista?
—…La gente nunca disfruta de la ciencia abstracta, ya sabe, cuando le ruge el estómago. Y también está el baile de disfraces. ¡Oh, será de lo más entretenido!
—¿En qué momento será el baile? –preguntó el otro profesor.
—En mi opinión debería celebrarse al principio del banquete… viene muy bien para que la gente rompa el hielo, ya sabe.¹
—Sí, ese es el orden correcto. Primero el conocer; luego el comer; y después el placer… ¡pues estoy seguro de que cualquier charla que imparta será un placer para nosotros! –dijo el otro profesor, el cual no había dejado de darnos la espalda en ningún momento, ocupado como estaba en sacar los libros, uno por uno, y colocarlos cabeza abajo. Un caballete, que sostenía una pizarra, se hallaba cerca de él, y, cada vez que le daba la vuelta a un libro, hacía una marca en el encerado con un trozo de tiza.
¹ Todos esses eventos demorarão centenas de páginas para acontecer!
—Deje que lo intente –dijo el otro profesor, sentándose al pianoforte–. Supongamos, por ejemplo, que comienza en la bemol –añadió, tocando la nota en cuestión–. ¡La, la, la! Creo que estoy dentro de la octava. –Volvió a tocar la nota y apeló a Bruno, que se encontraba a su lado–: ¿La he cantado como es debido, hijo?
—No, no lo ha hecho –respondió Bruno con gran decisión–. La ha cantado como bebido.
“Había una vez un cerdo sentado a solas
junto a una fuente rota,
que día y noche se lamentaba;
a un corazón de piedra habría conmovido
verlo retorcerse las pezuñas y soltar gemidos
porque era incapaz de saltar.”¹
¹ Também esta música-estorieta demorará a concluir, na boca de Bruno, no epílogo!
—Los extremos son siempre malos –comentó el profesor, con gran seriedad–. Por ejemplo, la sobriedad es algo muy bueno, cuando se practica con moderación: pero incluso esta, cuando se lleva al extremo, tiene desventajas.
«¿Qué desventajas?» fue la cuestión que me vino a la cabeza; y, como de costumbre, Bruno la formuló por mí:
—¿Qué debe en cajas?
—Esta es una de ellas –continuó el profesor–: cuando un hombre está achispado (ese es un extremo, sabéis), ve una sola cosa como si fueran 2. Pero cuando está extremadamente sobrio (ese es el otro extremo), ve 2 cosas como si fueran una sola. En ambos casos, se trata de algo igual de inconveniente.
—¿Qué significa «inconviniente»? –susurró Bruno a Silvia.
—La diferencia entre «conveniente» e «inconveniente» se ilustra mejor por medio de un ejemplo –dijo el otro profesor, que había oído la pregunta–. Si sencillamente piensas en cualquier poema que contenga las 2 palabras… como…
El profesor se tapó las orejas con las manos y adoptó una expresión consternada.
—Si se le deja empezar un poema –informó a Silvia–, ¡no parará de recitar! ¡Nunca lo hace!
—¿Alguna vez se ha puesto a recitar un poema y nunca ha parado? –indagó Silvia.
—En 3 ocasiones –dijo el profesor.
Bruno se puso de puntillas hasta que sus labios estuvieron a la altura del oído de Silvia.
—¿Y qué paso con esos tdes poemas? –susurró–. ¿Los está deciendo ahora?
—¡Calla! –le instó Silvia–. ¡El otro profesor está hablando!
—Adelante, entonces –dijo el profesor–. Lo que tiene que ser, será.
—¡Recuerda eso! –le susurró Silvia a Bruno–. Es una regla muy buena para las veces en que te haces daño.
—¡Y también para cuando hago duido! –contestó el descarado jovenzuelo–. ¡Así que decuéddelo usted también, señorita.
“Sus palabras fueron bastante severas, pero soy de la opinión de que, cuando uno desea realmente despertar en el criminal una conciencia de su culpabilidad, no debería pronunciar la frase con los labios muy cerca de su mejilla, dado que concluirla con un beso, por muy accidental que sea, debilita terriblemente el efecto.”
“«Pedro es pobre –dijo el noble Pablo–
mas su amigo fiel siempre yo he sido;
y, aunque mis medios son escasos,
ya que dar no, prestar me permito.
¡Qué pocos, salvo por interés,
ayudan al que lo necesita!
¡Pero a Pedro yo le prestaré,
pues sensible soy, 50 libras!».
¡Cuán inmenso fue el gozo de Pedro
al ver a su amigo tan solidario!
¡Con qué alegría firmó el acuerdo
por el cual quedaría endeudado!
Y dijo Pablo: «No está de más
que fijemos del retorno el día.
Siguiendo un buen consejo, será
de mayo el cuarto, al mediodía».
«¡Pero si ya es abril! Día uno,
si no me equivoco –dijo Pedro–.
Cinco semanas se irán al punto:
¡apenas duran un pestañeo!
Dame, para montar una empresa
y especular, al menos un año.»
«Es imposible cambiar la fecha.
Ha de pagarse el 4 de mayo.»
«¡Qué remedio! –suspiró el deudor–.
Me marcho: abóname el importe.
Ganaré 1 libra honesta o 2
con una sociedad por acciones.»
«Si parezco insensible, lo siento:
te haré el préstamo, naturalmente;
mas, por unas semanas, encuentro
que no será… en fin, conveniente.»
Cada semana, Pedro volvía,
para marcharse apesadumbrado;
la respuesta siempre era la misma:
«Hoy no te puedo dar lo que hablamos».
Y pasaron las lluvias de abril
–cinco semanas, prácticamente–
y aún Pablo replicaba así:
«Por el momento, ¡no es conveniente!».
Llegó el 4, y Pablo, puntual,
se presentó allí con un letrado.
«Creí mejor venir a tu hogar,
y dejar ya todo esto zanjado.»
¡Qué desesperación la de Pedro!
Mechones se arrancaba frenético,
y muy pronto sus rubios cabellos
formaron en el suelo gran séquito.
El letrado quieto lo observaba
con lástima medio contenida:
una lágrima en su ojo temblaba;
su mano el acuerdo sostenía.
Pero cuando al fin la profesión
de nuevo en su corazón se impuso,
dijo: «La Ley no tiene señor;
si no pagas seguirá su curso».
Y habló Pablo: «¡Cómo me arrepiento
de mi visita aquel día aciago!
¡Considera lo que haces, Pedro!
¡No serás más rico al estar calvo!
¿Crees que arrancándote los rizos
lograrás que mengüen tus problemas?
Frena esta violencia, te lo pido:
¡pues sólo más disgusto me creas!».
«Nunca a sabiendas infligiría
en tan buen corazón –Pedro dijo–
innecesario dolor o herida.
Mas, ¿por qué tan estricto, ‘amigo’?
Por muy legal que a lo mejor sea
pagar un préstamo inexistente,
¡yo creo que resulta un sistema
en extremo grado inconveniente!
«¡Tanta nobleza en mi alma no existe
como en la de algunos de estos tiempos!
–Pablo se sonrojó, pues humilde
era, y bajó la vista al suelo–.
¡La deuda me dejará pelado
y me atribulará para siempre!»
«¡No, no, Pedrito! –repuso Pablo–.
¡No te quejes así de tu suerte!
«No te falta en casa el alimento;
eres respetado en todo el mundo,
y en la barbería, según creo,
rizas tus patillas a menudo.
Aunque la nobleza nunca alcances
–te quedarás corto, ni lo intentes–,
la vía honesta tienes delante
¡aunque sea muy inconveniente!»
«Cierto es –dijo Pedro–, vivo estoy;
el mundo todavía me admira,
y una vez a la semana voy
a rizar y aceitar mis patillas.
Pero un activo insignificante
e ingresos nulos son mi presente:
abusar del capital, ya sabes,
¡es en cualquier caso inconveniente!»
«¡Pero paga! –exclamó su amigo–.
Mi buen Pedrito, ¡paga tus deudas!
¿Qué importa si al completo tu ‘activo’
resulta devorado por ellas?
Ya tardas una hora en pagar;
aunque ser generoso procuro.
Me irrita, pero bueno, ¡da igual!
¡NO TE APLICARÉ INTERÉS NINGUNO!»
«¡Cuánta bondad! –gritó el pobre Pedro–.
Empero ¡deberé mi alfiler
de corbata, mi piano, mi cerdo
e incluso mi peluca vender!»
Al poco todo aquello echó alas,
y, con cada vuelo, diariamente,
él se veía (y suspiraba)
en situación menos conveniente.
Pasaron semanas, meses, años:
Pedro quedó hecho un saco de huesos.
Y una vez hasta rogó, llorando:
«¿Te acuerdas, Pablo, de aquel dinero…?».
El cual contestó: «¡Te prestaré,
cuando pueda, todos mis ahorros!
¡Ah, Pedro, qué dicha obra en tu haber!
¡Decir que te envidio es decir poco!
«Estoy engordando, como ves,
y mi salud no es del todo buena.
Ya no siento el júbilo de ayer
al oír la llamada a la cena.
Pero tu figura es leve y fina,
y retozas igual que un muchacho:
¡el rancho es una diaria alegría
para apetitos así, tan sanos!».
«De veras que sé –Pedro repuso–
en qué feliz estado me veo.
Mas podría prescindir con gusto
de parte de esos lujos que tengo.
Lo que tú llamas sano apetito
supone del hambre mordedura.
Y, cuando no hay qué llevarse al pico,
¡el toque a fagina es cruel tortura!
«Ni un espantapájaros querría
este abrigo, o botas así.
¡Ah, Pablo, 5 míseras libras
harían otro hombre de mí!»
«Pedrito, me llena de sorpresa
escucharte hablar en ese tono.
¡Temo que no eres consciente apenas
de tus muchos motivos de gozo!
«No corres riesgo de criar manteca;
resultas pintoresco en harapos;
te salvas de sufrir las jaquecas
que el dinero trae bajo el brazo.
Y tienes tiempo de cultivar
el contento, virtud muy decente,
en pro de lo cual tu estado actual
¡te será de lo más conveniente!»
«Aunque penetrar –contestó Pedro–
tus hondos pensamientos no pueda,
no obstante, en tu carácter encuentro
alguna pequeña inconsistencia.
Tomártelo pareces con calma
cuando una promesa has de cumplir;
pero ¡ay, si de cobrar se trata!:
¡persona tan puntual jamás vi!»
Su amigo: «Toda cautela es poca
en lo que concierne a soltar ‘plata’;
para los cobros, como bien notas,
soy la puntualidad encarnada.
Uno ha de reclamar lo que es suyo;
mas, al prestar dinero a la gente,
¡se le debe permitir –propugno–
escoger ocasión conveniente!».
Un cierto día, mientras roía
Pedro un mendrugo –su dieta usual–,
se presentó Pablo de visita
y estrechó su mano con afán.
«Tus frugales costumbres conozco:
como herir tu orgullo no quisiera
por entrar con extraños curiosos,
¡he dejado a mi abogado fuera!
«Bien recuerdas, no me cabe duda,
con qué desdén todos te miraban
cuando empezó a irse tu fortuna.
¡Yo nunca te puse mala cara!
Y cuando tus pocas posesiones
perdiste y te viste marginado,
no he de recordarte cómo entonces
de ti me apiadé cual un hermano.
«Así pues, te ofrecí mi consejo
rebosante de sabiduría,
a cambio de nada, aunque es cierto
¡que haber cobrado por él podría!
Pero me abstengo de mencionar
mis buenas acciones: larga estela.
Ya que alardear, como sabrás,
es una cosa que odio de veras.
«¡Qué extensa parece ser la lista
de todos los favores que he hecho,
desde aquellos vagos, mozos días,
al préstamo de abril el primero!
El cual secó mis escasos fondos,
aunque de ello no hubieses sospecha;
pero tengo un corazón de oro
¡Y VOY A PRESTARTE OTRAS CINCUENTA!»
«No será así –Pedro contestó,
lágrimas de gratitud llorando–.
Nadie recuerda, mejor que yo,
tus servicios en años pasados;
y he de admitir que esta nueva oferta
es generosísimo presente.
Con todo, hacer uso de ella
¡no me parece muy conveniente!»
—…enseguida veréis la diferencia entre «conveniente» e «inconveniente». Ahora la entendéis del todo, ¿a que sí? –añadió, mirando con gesto amable a Bruno, el cual se encontraba sentado, junto a Silvia, en el suelo.
—Sí –dijo Bruno, en voz muy baja. Una respuesta tan sucinta era algo muy inusual, tratándose de él, pero en aquel momento me pareció verlo un tanto agotado. De hecho, se subió al regazo de Silvia mientras hablaba, y apoyó la cabeza en su hombro–. ¡Cuántos vedsos tenía el poema! –susurró.”
“El otro profesor observó a Bruno con cierta preocupación.
—La criaturita debería irse a la cama de una vez –dijo con aire autoritario.
—¿Por qué de una vez? –preguntó el profesor.
—Porque no puede irse de dos veces –respondió el otro profesor.
El profesor aplaudió con suavidad.”
—La acción de los nervios –empezó a decir con entusiasmo– es curiosamente lenta en algunas personas. Una vez, ¡tuve un amigo que tardaba años y años en sentir una quemadura hecha con un atizador al rojo!
—¿Y si simplemente se le pellizcaba? –inquirió Silvia.
—Entonces tardaría mucho más en sentirlo, naturalmente. De hecho, dudo que el hombre llegara a hacerlo jamás. Quizá sus nietos sí.
—No me gustaría sed nieto de un abuelo al que habieran pellizcado, ¿y usted, hombde señod? –susurró Bruno–. ¡Podería llegadle justo cuando quisiera estad contento! [o etéreo professor idoso da realidade alternativa começa a interagir com as crianças élficas]
—¿Pero es que acaso no quieres estar siempre contento, Bruno?
—No siempde –dijo Bruno con aire pensativo–. A veces, cuando estoy demasiado contento, quiero estad un poquito tdiste.Entonces se lo cuento a Silvia, ¿sabe?, y ella me pone algunas leciones. Y todo se aregla.
—Siento que no te gusten las lecciones –dije yo–. Deberías hacer como Silvia. ¡Ella siempre está ocupada a lo largo del día!
—¡Yo también! –señaló Bruno.
—¡No, no! –lo corrigió Silvia–. ¡Tú estás ocupado a lo corto del día!
—¿Y cuál es la diferencia? –preguntó Bruno–. Hombde señod, ¿no es el día tan codto como ladgo? Quiero decid, ¿no dura siempde lo mismo?
Dado que nunca había considerado la cuestión desde ese punto de vista, sugerí que lo mejor era que le preguntaran al profesor, y al instante salieron corriendo para solicitar la ayuda de su anciano amigo. El profesor paró de limpiar sus anteojos para pensar sobre aquello.
“Los niños volvieron, con paso lento y cavilante, para comunicar su respuesta.
—¿A que es sabio? –preguntó Silvia en un reverente susurro–. Si yo fuera así de sabia, me dolería la cabeza el día entero, ¡estoy segura!
—Parecéis estar hablando con alguien… que no está ahí –observó el profesor, girándose hacia los niños–. ¿Quién es?
Bruno puso cara de extrañeza.
—¡Yo nunca hablo con nadie cuando no está aquí! –respondió–. No es de buena educación. ¡Uno debería siempde esperad a que llegue antes de hablad con él!
El profesor miró con inquietud en mi dirección, y dio la impresión de estar atravesándome una y otra vez con la mirada sin verme.
—¿Con quién habláis entonces? –dijo–. Aquí no hay nadie, ¿sabéis?, excepto el otro profesor… ¡que tampoco está aquí! –agregó frenético, dando vueltas y vueltas sobre sí mismo como una perinola–. ¡Niños! ¡Ayudadme a buscarlo! ¡Rápido! ¡Se ha perdido otra vez! Los niños se pusieron en pie al momento.”
“Bruno cogió un librito muy pequeño de la librería, y lo abrió y sacudió imitando al profesor.
—Aquí no está –dijo.
—¡Ahí no puede estar, Bruno! –señaló Silvia con indignación.
—¡Pues claro que no! –contestó su hermano–. ¡Si estuviera aquí, se habdía caído del libdo al sacudidlo!
—¿Ha llegado a perderse en alguna ocasión anterior? –inquirió Silvia, levantando una esquina de la alfombra frente a la chimenea y echando un vistazo debajo.
—Lo hizo una vez –explicó el profesor–: se perdió en un bosque…
—¿Es que no era capaz de encontdadse otda vez? –preguntó Bruno–. ¿Pod qué no gditó? Está claro que se habdía oído a sí mismo, podque no podía andad muy lejos, ¿sabéis?
—Probemos a llamarlo a voces –propuso el profesor.
—¿Y qué gritamos? –dijo Silvia.
—Pensándolo bien, no lo hagáis –contestó el profesor–. El vicerrector podría oíros. ¡Se está volviendo terriblemente estricto!
Aquello recordó a los pobres niños todos los problemas que les habían hecho acudir a su viejo amigo. Bruno se sentó en el suelo y comenzó a llorar.
—¡Es tan cduel! –sollozó–. ¡Y deja que Uggug me quite todos mis juguetes! ¡Y la comida es una podquedía!
—¿Qué has tenido hoy para cenar? –preguntó el profesor.
—Un tdocito de cuedvo muedto –fue la amarga contestación de Bruno.
—Quiere decir pastel de grajo –explicó Silvia.”
—¿No le parece una pedsona amable, hombde señod?
—Desde luego que sí –dije yo. Pero el profesor no se percató de mi comentario. Se había puesto un bonito gorro con una larga borla, y se encontraba eligiendo uno de los bastones del otro profesor de una bastonera en una esquina de la habitación.
“iniciará la conversación (no se puede beber una botella de vino sin abrirla antes)” Hoje na padaria (4/6/23) um garoto de 3 ou 4 anos recebeu uma água mineral de sua mãe na fila do caixa e pôs-se a virar a garrafa, entornada na boca… Para sua surpresa o líquido não desceu nem molhou sua garganta sedenta, pois a garrafa ainda estava fechada… Tem razão, como se há de beber o vinho sem sacar a rolha?! Parte tão importante quanto ficar bêbado!
“Creyó ver volando en torno
a la lámpara un albatros:
mas luego advirtió que era
un sello postal barato.
«Mejor vete a casa –dijo–
¡o acabarás empapado!»”
“Para entonces habíamos llegado ya hasta el jardinero, quien se hallaba a la pata coja, como de costumbre, regando afanosamente un macizo de flores con una regadera vacía.
—¡Pero si no tiene agua! –le explicó Bruno, tirándole de la manga para llamar su atención.
—Así pesa menos –repuso el jardinero–. Si está muy llena, el brazo acaba doliendo. –Y siguió con su trabajo, al tiempo que canturreaba para sí:
¡O acabarás empapado!”
—No me importaría dejarle salir a usted –dijo el jardinero–. Pero no debo abrir la puerta a los niños. ¿Se cree que desobedecería las reglas? ¡Ni por un chelín y medio!
El profesor extrajo cuidadosamente un par de chelines.
—¡Con eso valdrá! –gritó el jardinero, mientras tiraba la regadera por encima del macizo de flores, y sacaba un puñado de llaves: una grande, y varias otras de menor tamaño.
“He observado a menudo que una puerta se abre mucho mejor con su propia llave.
La llave grande resultó ser la correcta al primer intento; el jardinero abrió la puerta y extendió la mano para recibir el dinero.
El profesor meneó negativamente la cabeza.”
“El jardinero puso cara de no entender nada, y permitió que saliésemos; pero mientras cerraba la puerta detrás de nosotros, lo oímos cantar para sí con aire meditabundo:
Creyó ver una cancela
que con una llave abría,
mas luego advirtió que eran
2 reglas de 3 seguidas.
«¡Y este gran misterio –dijo–
pa mí es claro como el día!»”
—¡Vaya, vaya! –dijo el bondadoso anciano–. Tal vez os siga, uno de estos días. Pero debo volver, ahora mismo. Veréis, dejé la lectura en una coma, ¡y es un fastidio no saber cómo acaba la frase! Además, el primer sitio por el que tenéis que pasar es Canilandia, y los perros siempre me han puesto un pelín nervioso. Pero viajar será muy sencillo en cuanto haya acabado mi nuevo invento: sirve para transportarse, ¿sabéis? Le falta únicamente un poquitín más de trabajo.
—¿No será eso muy cansado, transportarse uno mismo? –inquirió Silvia.
—Ah, no, mi niña. Verás, cualquier cansancio que uno sufra por transportar, ¡se lo ahorra siendo transportado! ¡Adiós, preciosos! ¡Adiós, señor! –añadió para mi gran sorpresa, y me estrechó la mano de manera afectuosa.
—¡Adiós, profesor! –contesté, mas mi voz sonaba extraña y distante, y los niños no se percataron en lo más mínimo de nuestra despedida. Era evidente que ni me veían ni me oían cuando, abrazados tiernamente el uno al otro, continuaron la marcha con paso audaz.”
—¡Ubuf, uof bufuofhau! –gruñó por fin–. ¡Guofbau hauguau ubuf! ¿Bou guaubau guofbufhau? ¿Bou guou? –interpeló a Bruno, con severidad.
Naturalmente Bruno entendió todo aquello, sin excesivos problemas. Todas las hadas entienden el perruno –esto es, la lengua de los perros–. Pero como puede que vosotros lo encontréis un poco difícil, sólo al principio, mejor será que os lo traduzca: «¡Humanos, en verdad lo creo! ¡Un par de humanos perdidos! ¿Qué perro es vuestro amo? ¿Qué queréis?».
“Los cortesanos no se fijaron para nada en mí, pero Silvia y Bruno fueron el blanco de muchas miradas inquisitivas, y de numerosos comentarios susurrados, de los cuales sólo alcancé a oír con claridad uno –realizado por un perro salchicha a un amigo suyo–: «Bau guof guauhau uofbau ubuf, ¿au bau?» («Pues no es demasiado fea para ser una humana, ¿no crees?»)”
Ouvi rumores de que Barkhtin é o maior lingüista desta sociedade!
“A continuación el centinela rascó violentamente la puerta y profirió un agudo y fuerte ladrido que hizo estremecerse a Bruno de la cabeza a los pies.
—¡Uofhau guau! –dijo una voz profunda desde el interior. (Lo que significa «¡Adelante!» en perruno.)”
—¿Bou guou? –fue lo primero que preguntó.
—¡Cuando su majestad se dirija a vosotros –corrió a susurrarle el centinela a Bruno– deberíais levantar las orejas!
Bruno miró a Silvia con actitud vacilante.
—Pdeferiría no hacedlo, pod favod –contestó–. Me dolería.
—¡Pero si no duele nada! –dijo el centinela con cierta indignación–. ¡Mira! ¡Se hace así! –Y levantó las orejas como 2 señales ferroviarias.
“¡Cuál fue el asombro –por no decir el horror– de todos los allí reunidos, cuando Silvia no hizo otra cosa que acariciarle la cabeza a su majestad, mientras Bruno le agarraba las largas orejas y simulaba atárselas bajo el mentón!
El centinela dejó escapar un fuerte gemido; un hermoso galgo –que al parecer era una de las damas de honor– sufrió un desvanecimiento, y el resto de los cortesanos se apartó a toda prisa, y dejó un amplio espacio para que el enorme terranova se abalanzara sobre los audaces extraños y los despedazara.
Sólo que… no lo hizo. Al contrario, su majestad incluso sonrió –hasta donde puede hacerlo un perro– y (los demás perros no dieron crédito a lo que vieron, pero así ocurrió, de todos modos) ¡meneó la cola!
—¡Hau uof auguof! –(Esto es: «¡Jamás vi cosa igual!») fue el grito unánime.
Su majestad echó una mirada severa a su alrededor, y soltó un leve gruñido, que produjo un silencio instantáneo.
—¡Conducid a mis amigos a la sala de banquetes! –ordenó, poniendo tanto énfasis en «mis amigos» que varios de los perros no pudieron evitar rodar sobre sus lomos y ponerse a lamer los pies de Bruno.”
“Pero era obvio que los niños no tenían mucha práctica en modales palaciegos. Silvia únicamente estrechó la gran pata; Bruno se abrazó a ella; el maestro de ceremonias parecía estupefacto.”
—Bueno, un sueñecito no le hará daño –dijo el maestro, que acto seguido se marchó. Apenas pude oír sus palabras, lo cual no es de extrañar: se encontraba apoyado en la borda de un navío, a muchas millas del muelle donde yo estaba. El barco se perdió tras el horizonte, y yo me hundí de nuevo en el sillón.
—¡Es un modo de proceder tremendamente inusual, majestad! –exclamó el gruñidor mayor, a punto de ahogarse por el disgusto de ser dejado al margen, dado que se había puesto su mejor traje de gala, confeccionado enteramente con pieles de gato, para la ocasión.
—Los escoltaré yo mismo –repitió su majestad, suave pero firmemente, despojándose de las vestiduras reales, y cambiando su corona por otra más pequeña–, y tú puedes permanecer en palacio.
—¡Me alegdo! –le susurró Bruno a Silvia cuando estuvieron lo bastante lejos como para que el gruñidor no pudiera oírlos–. ¡Estaba muy enfadadísimo! –Y no sólo acarició a su escolta real, sino que incluso lo abrazó por el cuello exultante de gozo.
—¡Es todo un alivio –dijo– alejarse del palacio de cuando en cuando! La realeza perruna lleva una vida insulsa, ¡os lo aseguro! ¿Te supondría…? –y esto se lo dijo a Silvia, en voz baja, y con aspecto de sentirse un poco tímido y avergonzado–. ¿Te supondría mucha molestia lanzar simplemente ese palo para que te lo traiga?
Silvia se quedó por un instante demasiado atónita como para hacer nada: le parecía una imposibilidad monstruosa que un rey quisiera correr detrás de un palo. Pero Bruno estaba a la altura de la ocasión, y con el alegre grito de «¡Venga! ¡Tdáelo, perito bueno!» lo arrojó por encima de un matorral. Un instante después el monarca de Canilandia había saltado las matas, recogido el palo y vuelto al galope con él en la boca a donde estaban los niños. Bruno se lo quitó de manera muy decidida.
—¡Pero el trabajo es el trabajo! –dijo el rey canino por fin–. Y yo debo retornar al mío. No podría ir más lejos –agregó, consultando un reloj para perros que colgaba de una cadena alrededor de su cuello–, ¡ni aunque hubiera un gato a la vista!
Se despidieron afectuosamente de su majestad y continuaron adelante, con paso cansado.
“¡Estoy casi segura de que son las puertas de Hadalandia! Sé que son totalmente doradas, padre me lo dijo, ¡y brillan tanto, tanto! –agregó en tono soñador.”
“Yo sabía, por alguna extraña iluminación mental, que un gran cambio estaba produciéndose en mi dulce amiguita (pues tal me gustaba considerarla) y que estaba trascendiendo la simple condición de duende de Exotilandia para pasar a ser una verdadera hada.
El cambio tardó más en llegar en el caso de Bruno, pero se completó en ambos antes de su llegada a las puertas doradas, a través de las cuales sabía que me sería imposible seguirlos. No pude hacer otra cosa que permanecer fuera y echar una última mirada a los 2 encantadores niños antes de que desapareciesen en su interior y las puertas doradas se cerraran con un potente estruendo.
¡Y menudo estruendo!
—¡Nunca se cerrará como una puerta de armario normal! –explicó Arthur–.”
“¡Así que ahora debes irte realmente a la cama, anciano! No estás para nada más. Da fe oficial el Dr. Arthur Forester.”
“…La primera vez que te hablé de… –empezó a decir Arthur, tras un largo e incómodo silencio–, es decir, cuando hablamos por primera vez de ella, ya que creo que fuiste tú quien sacó el tema, mi propia situación en la vida me impedía cualquier otra cosa que no fuera adorarla a distancia, y me encontraba dándole vueltas al plan de dejar finalmente este lugar e instalarme en alguna otra parte lejos de cualquier posibilidad de reencontrarme con ella. Esto parecía ser lo único provechoso que podía hacer con mi vida.
—¿Y crees que eso habría sido juicioso? –dije yo–. ¿No permitirte esperanza alguna?”
—Lo que quería contarte es lo siguiente –continuó su relato–: Esta tarde me han llegado noticias de mi abogado. No puedo entrar en los detalles del asunto, pero el resultado es que mi fortuna material es mucho mayor de lo que pensaba, y me encuentro (o pronto me encontraré) en posición de ofrecerle matrimonio, sin que ello resulte imprudente, a cualquier dama, incluso en el caso de que esta no aportara nada. Y hablando de ella, dudo que lo hiciera: el earl es pobre, según creo. Pero yo dispondría de suficiente para los 2, incluso si nos fallase la salud.
“Y en cuanto a… a lady Muriel, a pesar de mis esfuerzos, no logro adivinar sus sentimientos hacia mí. Si hay amor, ¡lo oculta! ¡No, debo esperar, debo esperar!”
“Arthur me escribió 1 o 2 veces durante el mes, pero en ninguna de sus cartas había mención alguna a lady Muriel. No obstante, su silencio no era un mal augurio: a mi modo de ver se trataba del comportamiento natural de un enamorado, el cual, aun cuando su corazón estuviese cantando «Es mía», temía plasmar su felicidad en las frías frases de una carta, prefiriendo en cambio esperar a contarlo de palabra. «Sí –pensé–; ¡escucharé su canción victoriosa de sus propios labios!»”
—¡No esperes demasiado! –contesté en tono alegre–. ¡Un corazón apocado nunca conquistó mujer hermosa!
—Quizá sea ese mi problema. Pero de verdad que todavía no me atrevo a decirle nada.
—No –replicó Arthur con firmeza–. No ha entregado su corazón a nadie: eso lo sé. Dicho lo cual, si ama a alguien mejor que yo, ¡que así sea! No estropearé su felicidad. El secreto morirá conmigo. Pero ella es mi primer… ¡y mi único amor!
“Teme excesivamente su destino
o posee un pequeño desierto,
quien no se atreve a saltar al vacío
aun pudiendo así ganar el cielo.(*)
(*) James Graham (1612-1650), primer marqués de Montrose [tradução adaptada].”
—¡No me atrevo a preguntarle si hay otro! –dijo de forma apasionada–. ¡Saberlo me rompería el corazón!
—¿Y te parece sensato vivir con la duda? ¡No debes desperdiciar tu vida por un «y si…»!
—¡Te digo que no me atrevo!
—¿Quieres que lo averigüe yo por ti? –pregunté, con la libertad de un viejo amigo.
—¡No, no! –respondió con expresión afligida–. Te ruego que no digas nada. Mejor esperar.
“Uno no puede mantener que las hadas nunca son codiciosas, ni egoístas, ni enfadadizas, ni embusteras, porque eso sería absurdo, ¿sabes? Por tanto, ¿no crees que a lo mejor no les vendría mal recibir alguna pequeña reprimenda y castigo de vez en cuando?
De verdad que no veo por qué no debería intentarse, y estoy prácticamente seguro de que, si tan sólo uno pudiese atrapar un hada, y ponerla contra el rincón, y tenerla a pan y agua durante un día o dos, ello descubriría un carácter totalmente mejorado; o le bajaría un poco los humos, en cualquier caso.
La siguiente cuestión es: ¿cuál es la mejor época para ver hadas? Creo que puedo contarte todo lo que hay que saber al respecto.
La primera regla es que debe tratarse de un día realmente caluroso, uno que podamos considerar estable, y tienes que sentirte un poquito somnoliento, pero no tanto como para no poder mantener los ojos abiertos, atención. Deberías sentirte además ligeramente… «feérico», podríamos llamarlo, o «inquieto»; los escoceses dicen eerie, y quizá sea una palabra más bonita; si no sabes lo que significa, me temo que me resulta prácticamente imposible de explicar; habrás de esperar a encontrarte con un hada, y entonces lo sabrás.
Y la última regla es que los grillos no deberían estar cantando. No puedo detenerme a explicarlo; tendrás que fiarte por el momento.
De modo que, si todas estas cosas se dan al mismo tiempo, tienes muchas posibilidades de ver un hada, o, al menos, bastantes más que si no fuera así.
Lo primero que advertí, mientras paseaba ociosamente por un claro en el bosque, fue que había un escarabajo de gran tamaño, tendido boca arriba en el suelo, que luchaba por darse la vuelta, y me agaché sobre una rodilla para ayudar a la pobre criatura. Con algunas cosas, ¿sabes?, uno nunca puede estar totalmente seguro de lo qué le gustaría a un insecto: por ejemplo, me vería incapaz de decidir, suponiendo que yo fuera una polilla, si preferiría que me mantuviesen apartado de la vela o que me dejaran volar directamente hasta ella y quemarme; (…) pero sí guardo la absoluta certeza de que si fuera un escarabajo y hubiese rodado sobre mi caparazón hasta quedar panza arriba, estaría siempre encantado de que me ayudasen a levantarme.”
“Puedo decirte, además, que no tenía alas (no creo en las hadas aladas) y que poseía un abundante cabello largo y castaño y unos grandes y sinceros ojos del mismo color, y con esto he hecho todo lo que he podido para darte una idea de cómo era.
Silvia (averigüé su nombre más tarde) se había arrodillado, como estaba haciendo yo, para ayudar al escarabajo, pero a ella le hizo falta algo más que un palito para ponerlo de nuevo sobre sus patas; no pudo hacer otra cosa que, con ambos brazos, empujar al pesado insecto sobre su costado, y mientras lo hacía no paró de hablarle, medio regañándolo y medio consolándolo, como haría una niñera con un niño que se hubiese caído al suelo.”
Silvia miniatura
—…¿Y de qué sirve tener 6 patas, querido, si cuando quedas panza arriba sólo puedes agitarlas en el aire? Las piernas están pensadas para caminar con ellas, ¿sabes? No empieces ya a sacar las alas; aún no he acabado. Ve a ver a la rana que vive detrás de ese ranúnculo y dale saludos de mi parte, de Silvia… ¿puedes decir «saludos»?
“Y ahora tengo tiempo para hablarte de la regla sobre los grillos. Siempre cesan de cantar cuando pasa un hada, porque un hada es una especie de reina para ellos, supongo –en cualquier caso es un ser mucho más grande que un grillo–; así que siempre que estés dando un paseo y los grillos dejen repentinamente de cantar, puedes estar seguro de que están viendo un hada.”
“–soy todo un erudito en historia natural, ¿sabes? (por ejemplo, siempre puedo diferenciar a los gatos de los patos de un solo vistazo)–”
“A la sazón, en un instante, un destello de luz interior pareció iluminar una parte de mi vida que prácticamente había quedado en el olvido: las extrañas visiones que había experimentado durante mi viaje a Elveston, y pensé, súbitamente dichoso: «¡Aquellas visiones están destinadas a tener relación con mi vida real!».
Para entonces, aquella sensación de «inquietud» había regresado, y de pronto observé que no había ningún grillo cantando, así que me entró la completa certeza de que «Bruno» andaba muy cerca, por alguna parte.
Y así era: tan cerca que a punto había estado de pisarlo sin darme cuenta; lo cual habría sido terrible, suponiendo claro está que resulte posible pisar un hada: mi creencia es que su naturaleza es similar a la de los fuegos fatuos, y a estos no hay forma de pisarlos.
Piensa en algún niño de gran hermosura que conozcas, con mejillas sonrosadas, grandes ojos oscuros y pelo castaño y revuelto, e imagina después que es lo bastante pequeño como para caber sin dificultad en una taza de café, y tendrás una imagen muy atinada de él.
—¿Cómo te llamas, pequeño? –fue lo primero que dije, con voz tan suave como pude. Y, por cierto, ¿por qué razón iniciamos siempre las conversaciones con niños pequeños preguntándoles sus nombres? ¿Es porque pensamos que un nombre ayudará a hacerlos un poco mayores? Nunca se te ha ocurrido preguntárselo a un hombre adulto real, ¿eh?, ¿a que no? Empero fuese cual fuese el motivo, sentí la absoluta necesidad de saber su nombre; de modo que, como no respondió a mi pregunta, la repetí un poco más fuerte–: ¿Cómo te llamas, jovencito?
—¿Y usted? –contestó, sin alzar la vista.
Le dije mi nombre con modales muy delicados, ya que era demasiado pequeño como para enfadarme con él.
—¿Duque de Algo? –preguntó, mirándome durante sólo un instante, para luego seguir con lo que estaba haciendo.
—De nada –dije, levemente avergonzado por tener que confesarlo.
—Es usted lo bastante gdande para sed 2 duques –comentó la criaturita–. Supongo que entonces será sid algo, ¿no?
—No –respondí, con creciente vergüenza–. No poseo ningún título.
(…)
—Dime cómo te llamas, por favor.
—Bduno –contestó en el acto el pequeñín–. ¿Pod qué no lo pdeguntó antes «pod favod»?
(…)
—¿Eres una de las hadas que enseñan a los niños a ser buenos?
—Bueno, a veces tenemos que hacedlo –dijo Bruno–, y es un fastidio enodme. –Al decir esto, partió salvajemente por la mitad un pensamiento silvestre y pisoteó los trozos.
—¿Qué es lo que estás haciendo, Bruno? –pregunté.
—Estdopead el jaddín de Silvia –fue su única respuesta en un principio. Pero a medida que seguía rompiendo las flores, refunfuñó para sí–: Esa gduñona mala… no quiso dejadme id a jugad esta mañana… dijo que tenía que acabad antes mis leciones… ¡cómo no! ¡Pero voy a chinchadla bien!
—¡Oh, Bruno, no deberías hacer eso! –exclamé–. ¿No sabes que eso es vengarse? ¡Y la venganza es algo malvado, cruel y peligroso!
—¿Ven-gansa? –dijo Bruno–. ¡Qué palabda más divedtida! Supongo que dice que es cduel y peligorosa podque si la gansa se acedcara demasiado, ¡podería acabad en la olla!
—Se cayó –repitió Bruno, muy serio–, y si alguna vez viera a una oruga caedse, sabdía que es una cosa muy seriísima, y no estaría ahí sentado sondiendo… ¡y ya no le voy a contad nada más!
—Tienes toda la razón, Bruno, he sonreído sin querer. ¿Ves?, ya vuelvo a estar totalmente serio.
—Me lavo la cara de vez en cuando, ¿sabes, Bruno? La luna nunca lo hace.
—¡Oh, ya lo sé! –exclamó Bruno, y se inclinó hacia delante y añadió en un susurro cargado de solemnidad–. La cara de la luna se ensucia más y más cada noche, hasta que se pone totalmente negda. Y entonces, cuando está sucia del todo, así –se pasó la mano por sus propias mejillas sonrosadas mientras hablaba–, se la lava.
—Eres prácticamente la primera hada que he visto en mi vida. ¿Alguna vez has visto a otra persona aparte de mí?
—¡Un montón! –dijo Bruno–. Las vemos cuando vamos andando pod el camino.
—Pero ellas no pueden veros a vosotras. ¿Cómo es que nunca os pisan?
—No pueden pisadnos –explicó Bruno, con cara de estar divirtiéndose con mi ignorancia–. Mire, imagínese que está caminando pod aquí… así –dijo haciendo unas pequeñas marcas en el suelo–, y que hay un hada, que soy yo, caminando pod aquí. Muy bien, entonces pone un pie aquí, y otdo pie aquí, así que no pisa al hada.
La explicación no parecía mala del todo, pero no me convenció.
—¿Y por qué no iba a poner el pie donde está el hada?
—No sé pod qué –contestó el pequeñajo en tono pensativo–, pero sí sé que no lo haría. Nunca nadie ha pisado un hada.
—Me invitaron una vez, la semana pasada –asintió Bruno, con gran circunspección–. Fue para lavad las fuentes de sopa… digo, las fuentes de queso…. me hizo sentid bastante impodtante. Y sedví en la mesa. Y cometí apenas un solo fallo.
—¿Cuál fue? –dije–. No te dé vergüenza contármelo.
—Sólo que llevé unas tijeras para codtad la tednera –reveló Bruno con despreocupación–. Pero lo que me hizo sentid más impodtante fue que ¡le llevé al dey una vaso de sidda!
—¡Qué importante! –exclamé, mordiéndome el labio para contener la risa.
—¡A que sí! –añadió Bruno con mucha seriedad–. ¡No todo el mundo ha tenido un honod como ese!, ¿sabe?
Aquello hizo que me pusiera a pensar en las diversas excentricidades que calificamos de «un honor» en este mundo, pero que, después de todo, no poseen ni un ápice más de honor que del que disfrutó Bruno cuando le llevó al rey un vaso de sidra.
—¿Qué hace con un zoro cuando lo tiene? –replicó Bruno–. Sé que vosotdos los gdandullones cazáis zoros.
Traté de pensar en alguna buena razón por la que los «grandullones» debiéramos cazar zorros y él no cazara caracoles, pero no se me ocurrió ninguna; de manera que dije, finalmente:
—Bueno, supongo que tanto dan unos como otros. Iré a cazar caracoles algún día.
—Cdeía que no sería tan tonto –soltó Bruno– como para id usted solo a cazad caracoles. Sin alguien que lo sujetase del otdo cuedno, ¡nunca conseguiría atdapad a uno!
—Pues claro que no iré solo –contesté, totalmente serio–. Por cierto, ¿son los caracoles de ese tipo los mejores para la caza, o recomiendas los que no tienen concha?
—Oh, no, nunca cazamos los que no tienen concha –explicó Bruno, estremeciéndose ligeramente ante la idea–. Siempde se enfadan un montón cuando lo haces y, además, si te caes encima, ¡están muy pejagosísimos!
—Adelante –contesté yo–; me encantan las canciones.
—¿Qué canción quiere? –inquirió Bruno, a la vez que tiraba del ratón hasta un sitio desde el que pudiera verme bien–. La más bonita es «Dan, dan». Era imposible resistirse a una indirecta tan clara como aquella; no obstante, fingí reflexionar durante un momento, y luego dije:
—Pues esa es mi favorita.
—Eso demuestda que entiende de música –comentó Bruno, con un gesto de agrado–. ¿Cuántas campanillas le gustaría escuchad? –Y se metió el pulgar en la boca para ayudarme a pensarlo.
“Bduno” no “sofá-de-rato”
“Nunca antes había escuchado música floral –no creo que resulte posible, a no ser que se esté en el estado de «inquietud»– y no sé muy bien de qué modo darte una idea de cómo era, salvo diciendo que sonaba como un repique de campanas a mil millas de distancia.”
“¡Levanta! Muere el día.
Los búhos ululan, ¡dan, dan!
¡Despierta! En el lago,
los elfos ya tocan, ¡dan, dan!
Saludando a nuestro rey,
¡cantan, tan, tan!”
—El dey de las hadas es Oberón, y vive al otdo lado del lago, y a veces lo cduza en una pequeña badca, y nosotdos vamos a decibidlo; y entonces cantamos esta canción, ¿sabe?
—¿Y luego cenáis con él? –dije yo, de manera pícara.
—No debería hablad –replicó Bruno con irritación–; interumpe la canción.
Le dije que no volvería a hacerlo.
—Yo nunca hablo cuando estoy cantando –continuó, muy serio–, así que usted tampoco debería. –Después afinó las campanillas una vez más, y entonó:
¡Escucha! Por aquí y allá
las notas convocan, ¡dan, dan!
En los rápidos alegres
las campanas doblan, ¡dan, dan!
Saludando a nuestro rey,
¡trinan, nan, nan!
¡Contempla! En las ramas
qué faroles brillan, ¡dan, dan!
Son ojos de moscones
que la cena alumbran, ¡dan, dan!
Saludando a nuestro rey,
¡bailan, lan, lan!
¡Deprisa! Prueba y gusta
las viandas que esperan, ¡dan, dan!
La melaza se guarda…
—¡Silencio, Bruno! –interrumpí con un susurro de alerta–. ¡Viene Silvia!
“Aunque por qué estos dos niños que nunca antes habían sido tan felices debían estar llorando me resultaba un misterio.
Yo me encontraba muy feliz igualmente, pero naturalmente no lloré: los «grandullones» nunca lo hacen, ya sabes –les dejamos todo eso a las hadas–. Aunque creo que debía de estar lloviendo un poco justo en ese momento, pues descubrí unas pocas gotas sobre mis mejillas.”
“Entonces se alejaron de allí juntos con paso tranquilo y en actitud cariñosa, internándose entre los ranúnculos, cada uno rodeando al otro con el brazo, susurrando y riendo por el camino, y sin volver la mirada hacia este pobre narrador ni una sola vez. Bueno sí, una: justo antes de que los perdiera totalmente de vista, Bruno giró un poco la cabeza y se despidió descaradamente con un leve movimiento de la misma. Y ese fue el único agradecimiento que recibí por las molestias que me había tomado. Lo último que vi de ellos fue esto: Silvia estaba inclinándose abrazada al cuello de su hermano, diciéndole al oído en tono persuasivo: «¿Sabes, Bruno? He olvidado por completo esa palabra tan difícil. Dila otra vez. ¡Vamos! ¡Sólo una vez, cariño!».
Pero Bruno no quiso volver a intentarlo.”
“la «hora bruja» de las 5 ya había llegado, y sabía que los encontraría preparados para tomar una taza de té y charlar tranquilamente.
Lady Muriel y su padre me brindaron una bienvenida deliciosamente cálida. No eran del tipo de gente que lo recibe a uno en salones decorados a la última moda, que ocultan cualquier sentimiento de esa clase que por un casual pudieran albergar bajo la impenetrable máscara de una placidez convencional. El hombre de la máscara de hierro¹era, no cabe duda, una rareza y una maravilla en su propia época:¡en el Londres moderno nadie volvería la cabeza para cerciorarse de lo que había visto! No, estas eran personas auténticas. Cuando parecían estar contentos, era porque realmente lo estaban”
¹ Dumas
—¡…y traiga con usted, si es posible, al doctor Forester! Estoy segura de que le sentaría bien un día en el campo. Me temo que estudia demasiado…
Tuve «en la punta de la lengua» el decirle: «¡La belleza de usted es su única materia de estudio!», pero me la mordí justo a tiempo, con una sensación similar a la de alguien que, al cruzar la calle, ha estado a punto de verse arrollado por un cabriolé.
—…y pienso que lleva una vida muy solitaria –continuó diciendo ella, con una dulce seriedad que no permitía sospecha alguna de un doble sentido–. ¡Convénzalo para que venga! Y no olvide el día: el martes siguiente al que viene. Podemos llevarlos nosotros. Sería una pena que fueran en tren: ¡el paisaje del camino es tan bonito! Y en nuestro carruaje descubierto caben justamente 4 personas.
—¡Oh, le convenceré! –dije con confianza, pensando que, en caso de querer evitar que fuera, ¡habría de recurrir a toda mi capacidad de persuasión!
El picnic tendría lugar en 10 días, y aunque Arthur aceptó de inmediato la invitación que le llevé, nada de lo que yo pudiera decirle lo animaría a hacer una visita –ni solo ni con mi compañía– al earl y su hija en el ínterin. No; temía «desgastar su hospitalidad», dijo; que ya «lo habían visto suficiente por el momento» y, cuando al fin llegó el día de la excursión, se encontraba tan puerilmente nervioso e incómodo que creí conveniente organizarnos de manera que fuésemos a la casa cada uno por nuestra cuenta, siendo mi intención llegar algo más tarde que él, con objeto de darle tiempo para recuperarse del encuentro.
«Y este claro –me dije– parece traer a mi memoria algo que no puedo recordar con claridad: ¡tiene que ser el lugar donde vi a aquellos niños-hada!»
“Me faltan palabras para describir la belleza del pequeño grupo, acostado en una zona musgosa sobre el tronco del árbol caído, con el que tropezó mi mirada ansiosa: Silvia reclinada con el codo hundido en el musgo, y su carrillo sonrosado descansando sobre la palma de su mano, mientras Bruno yacía a sus pies con la cabeza en el regazo de su hermana.”
—No es que les tenga manía –dijo Bruno en tono despreocupado–, pero pdefiero los animales dectos.
—Pero bien que te gustan los perros cuando agitan la cola –lo interrumpió Silvia–. ¡No lo niegues, Bruno!
—Un pero tiene más cosas, ¿veddad que sí, hombde señod? –recurrió Bruno a mí–. ¿A que no le gustaría tened un pero con sólo cabeza y cola?
Reconocí que un perro de ese tipo resultaría poco interesante.
—No hay ningún perro así –apuntó Silvia con gesto pensativo.
—¡Pero lo habdía –exclamó Bruno– si el pdofesod lo acodtara para nosotdos!
—¿Acortarlo? –dije yo–. Eso es nuevo. ¿Cómo lo hace?
—Tiene una curiosa máquina… –empezó a explicar Silvia.
—Una máquina muy curiosísima –la cortó Bruno, que no estaba en absoluto dispuesto a dejar que le robaran la historia–, y si mete unacosaoloquesea pod un extdemo, ¿sabe?, y el pdofesod le da a la manivela, ¡sale supedcodto pod el otdo lado!
—Y un día, cuando estábamos en Exotilandia, ¿sabe?, antes de venid a Hadalandia, Silvia y yo le llevamos un gdan cocoddilo. Y él lo acodtó para nosotdos. ¡Qué pinta más gdaciosa tenía! No dejaba de mirad a su aldededod, diciendo: «¿Adónde ha ido el desto de mí?». Y entonces puso unos ojos tdistes…
—Los 2 ojos no –interrumpió Silvia.
—¡Claro que no! –dijo el pequeñín–. Sólo el que no podía ved adónde había ido el desto de él. Pero el ojo que sí podía…
—¿Cómo de corto era el cocodrilo? –pregunté, pues la historia se estaba enrevesando un poco.
—La mitad que cuando lo cogimos; así –indicó Bruno, extendiendo sus brazos al máximo.
Traté de realizar el cálculo de cuánto era aquello, pero me resultaba demasiado difícil. ¡Por favor, querido y pequeño lector, hazlo tú por mí!
—Pero no dejaríais a la pobre criatura así de corta, ¿no?
—No. Silvia y yo lo hicimos pasad otda vez pod la máquina y lo estiramos hasta… hasta… ¿cuánto fue, Silvia?
—Dos veces y media su longitud, y un poquitín más –señaló Silvia.
—Imagino que no preferiría estar así a de la otra forma, ¿me equivoco?
—¡Oh, sí que lo hacía! –interpuso Bruno–. ¡Estaba odgulloso de su nueva cola! ¡Jamás vio un cocoddilo más odgulloso! Era capaz de girad sobde sí mismo y subid andando pod su cola, y pod su lomo, ¡hasta llegad a su cabeza!
—Hasta la misma cabeza no –dijo Silvia–. Eso es imposible, ¿sabes?
—¡Oh, pero una vez lo hizo! –exclamó Bruno en tono triunfante–. Tú no lo viste, ¡pero yo sí! Caminaba de puntillas, para no despedtadse a sí mismo, podque cdeía que estaba dodmido. Y se subió con las 2 patas a su cola. Y andó y andó pod su lomo, y luego pod su fdente. ¡Y una pizquitina pod su nariz! ¡Ahí lo tienes!
Aquello era mucho peor que el rompecabezas anterior. ¡Por favor, querido niño, ayúdame otra vez!
—¡Pues yo no me creo que ningún cocodrilo haya caminado nunca sobre su propia frente! –gritó Silvia, demasiado alterada por la controversia como para limitar el número de sus negaciones.
—¡No sabes pod qué lo hizo! –replicó desdeñoso su hermano–. Tenía un muy buen motivo. Oí que dijo: «¿Qué me impide caminad sobde mi pdopia fdente?». Así que naturalmente lo hizo, ¿sabes?
—Si ese es buen motivo, Bruno –tercié yo–, ¿qué te impide a ti trepar a ese árbol?
“…¡Es que 2 pedsonas no pueden hablad cómodamente, cuando una está tdepando a un ádbol, y la otda no!
Amí me parecía que una conversación difícilmente podía resultar «cómoda» en mitad de una escalada a un árbol, incluso si ambas personas estaban haciéndolo; pero oponerse a cualquier teoría de Bruno entrañaba un claro peligro, así que pensé que era mejor dejar pasar la cuestión, y pedir que me hablaran de la máquina que alargaba cosas.”
—¡Escrito! –susurró Silvia.
—Hum…, habíamos escdibidito una canción infantil, y el pdofesod la espachoró para nosotdos para que fuera más ladga. Decía: «Había un hombdecito, que tenía un tdabuquito, y las balas…».
—Sé cómo sigue –interrumpí–. ¿Pero os importaría recitármela alargada?… quiero decir, tal como salió del rodillo.
—Le pediremos al profesor que se la cante –dijo Silvia–. Recitársela sería estropearla.
—Me gustaría conocer al profesor –apunté yo–. Y que todos vinierais conmigo para ver a unos amigos míos que viven cerca de aquí. ¿Os gustaría?
—No creo que al profesor le apetezca –contestó Silvia–. Es muy tímido. Pero a nosotros nos encantaría. Aunque sería mejor que no fuésemos con este tamaño, ¿sabe?
La dificultad ya se me había pasado por la cabeza, y tenía la sensación de que quizá resultaría ligeramente embarazoso presentar en sociedad a 2 amigos tan diminutos.
—¿Y qué tamaño tendréis? –inquirí.
—Lo mejor es que vayamos como… niños normales –contestó Silvia con aire pensativo–. Es el tamaño más fácil de lograr.
—¿Sería posible que vinieseis hoy? –dije, pensando: «¡Entonces podríais estar presentes en el picnic!».
Silvia lo meditó unos instantes.
—Hoy no –contestó–. No hemos preparado las cosas. Iremos… el próximo martes, si quiere. Y ahora, Bruno, ya es hora de que vayas a estudiar tus lecciones.
—¡Ah, pero eso ya lo has hecho! –exclamó Silvia de manera alegremente triunfante.
—¡Pues entonces te «desbesaré»! –Y se colgó del cuello de su hermana con ambos brazos para esta novedosa, pero aparentemente no muy dolorosa, operación.
—¡Se parece mucho a besar! –observó Silvia, tan pronto como sus labios se vieron otra vez libres para el habla.
—¡No tienes ni idea! ¡Te he quitado un beso con otdo! –respondió Bruno de forma muy severa, mientras se alejaba.
—Muy bien –asentí yo–, que sea el martes que viene. ¿Pero dónde está el profesor? ¿Fue con vosotros a Hadalandia?
—No –dijo Silvia–. Pero prometió que vendría a vernos, algún día. Está preparando su charla. Así que tiene que quedarse en casa.
—¿En casa? –repetí yo como si me hallara en un sueño, sin estar del todo seguro de qué había dicho ella.
—Sí, señor. El lord y lady Muriel están en casa. Haga el favor de seguirme.
“No hubo necesidad de que yo mantuviera viva la conversación. Lady Muriel y Arthur se hallaban claramente en ese estado sumamente placentero en el que uno no ha de ponderar cada pensamiento, al acudir este a los labios, con el miedo de que «esto no será bien recibido… esto ofenderá… esto dará una impresión demasiado seria… esto parecerá frívolo»; como amigos que se conociesen de toda la vida, en total sintonía, su charla se desgranaba sin interrupción.”
“—«¿Qué nos impide?» ¡Qué argumento más auténticamente femenino! –rio Arthur–. ¡Una dama nunca sabe sobre qué lado recae el onus probandi… la carga de la prueba!”
“¿Por qué debería despojar a mi vecino
de sus bienes contra su voluntad?”
(*) “Isaac Watts (1674-1748): poeta, teólogo, pedagogo y lógico inglés, considerado el padre de la composición de himnos litúrgicos en su lengua. Los versos presentados forman parte de un grupo de canciones moralizantes dirigidas a niños, una de sus temáticas predilectas como escritor. Carroll parodió en Alicia en el País de las Maravillas uno de sus poemas más conocidos durante la era victoriana: «Contra la holgazanería y las pillerías». [N. del T.]”
«Despojo a mi vecino de sus bienes porque los quiero para mí. ¡Y lo hago contra su voluntad porque no hay ninguna posibilidad de que consienta a ello!»
«¿Qué me impide caminar sobre mi propia frente?»
—Quienquiera que fuese, ¡espero que lo conozcamos en el picnic! –dijo lady Muriel–. Es una cuestión mucho más interesante que: «¿No resultan pintorescas estas ruinas?», «¿No son adorables esos tonos otoñales?». ¡Tendré que responder a esas 2 preguntas 10 veces, como mínimo, esta tarde!
—¡Ese es uno de los suplicios de la sociedad! –apuntó Arthur–. ¿Por qué no puede la gente dejarle a uno disfrutar de las maravillas de la naturaleza sin tener que decirlo a cada momento? ¿Por qué debería ser la vida un largo catecismo?
Culpa de los poetas!
—Pues en una galería de arte resulta igual de horrible –observó el earl–. Visité la Real Academia de las Artes el pasado mayo, con un joven artista presuntuoso: ¡y a qué tormento me sometió! No me habría molestado que criticara los cuadros él solo, pero tenía que mostrarme de acuerdo con él… o de lo contrario haber discutido, ¡lo cual habría sido peor!
—¿Es que alguna vez ha conocido a un hombre presuntuoso que alabara un cuadro? Aparte de pasar desapercibido, ¡lo que más teme es ver demostrada su falibilidad! Si elogias un cuadro una vez, tu reputación de infalible pende de un hilo. Supongamos que se trata de un cuadro figurativo y te atreves a decir que «dibuja bien». Alguien le toma las medidas y descubre que una de las proporciones es incorrecta en 3 milímetros. ¡Estás acabado como crítico! «¿No dijiste que dibujaba bien?», preguntan tus amigos con sarcasmo, mientras agachas la cabeza y te sonrojas. No. El único camino seguro, en caso de que alguien diga que «dibuja bien», es encogerse de hombros. «¿Que si dibuja bien?», repites con aire pensativo. «¡Ja!». ¡Esa es la manera de convertirse en un gran crítico!
“El orador era un hombre corpulento, cuyo rostro amplio, chato y pálido quedaba delimitado al norte por un flequillito, al este y al oeste por unas patillitas, y al sur por una barbita, que en conjunto componían un halo uniforme de pequeñas cerdas color marrón claro. Sus facciones estaban tan desprovistas de expresión que no pude evitar decir para mis adentros –de manera irreprimible, como atrapado en una pesadilla–: «sólo están esbozadas, ¡aún no han recibido los toques finales!».
—¡Oh, qué arquitecto más talentoso! –murmuró Arthur de forma inaudible, salvo para mí y lady Muriel–. ¡Capaz de predecir el efecto exacto que tendría su obra, una vez en ruinas, siglos después de su muerte!”
“¡pero un fondo sin neblina, ya saben, resulta sencillamente burdo! Sí, ¡necesitamos la indefinición!”
PROGRAMA ESTÉTICO DE ÍNDIO
—Desde su punto de vista, es una aserción correcta. Pero para cualquiera con alma para el arte, una visión así es ridícula. La naturaleza es una cosa. El arte, otra. La naturaleza nos muestra el mundo tal cual es. Pero el arte, como nos dice un autor latino… el arte, sabe usted… he olvidado las palabras…
—Ars est celare Naturam –interpuso Arthur con deliciosa prontitud.
—¡Qué ruinas más encantadoras! –dijo a voz en grito una joven dama con anteojos, la personificación misma del progreso de la razón, mirando a lady Muriel, como adecuada destinataria de todos los comentarios realmente originales–.¿Y no le parecen admirables esos tonos otoñales de los árboles? ¡A mí sí, profundamente!
—¿Y no es sorprendente –continuó la joven dama, pasando con asombrosa celeridad del sentimiento a la ciencia– que el simple impacto de ciertos rayos de colores en la retina nos proporcione un placer tan exquisito?
—¿Ha estudiado usted entonces fisiología? –inquirió cortésmente cierto médico de joven edad.
Arthur esbozó una sonrisa.
—Entonces, ¿nunca ha oído la teoría de que el cerebro también está invertido?
—¡Desde luego que no! ¡Qué hecho más hermoso! ¿Pero cómo puede demostrarse?
—Así –contestó Arthur, con toda la seriedad de 10 profesores fundidos en uno–: lo que llamamos «vértice» del cerebro es en realidad su «base», y viceversa; es una simple cuestión de nomenclatura. Este último polisílabo zanjó la cuestión.
“Nos «servimos» nosotros mismos, ya que la bárbara costumbre moderna (que combina 2 cosas buenas de tal modo que asegura las incomodidades de ambas y las ventajas de ninguna) de ir de picnic con sirvientes que lo atiendan a uno, no había llegado aún a aquella apartada región, y naturalmente los caballeros ni siquiera ocuparon sus sitios hasta que las damas estuvieron debidamente provistas de todas las comodidades imaginables. Entonces me aprovisioné de un plato de algo sólido y un vaso de algo líquido y encontré un hueco para sentarme al lado de lady Muriel.
Lo habían dejado libre, al parecer, para Arthur, en su calidad de extraño distinguido, pero a este le había entrado la timidez y se había colocado junto a la joven dama con anteojos, cuya voz chirriante ya había desatado sobre la sociedad frases de tal ominosidad como «¡el hombre es un conjunto de rasgos de personalidad!» o «¡lo objetivo es alcanzable únicamente a través de lo subjetivo!», las cuales Arthur estaba soportando con coraje; pero varios de los rostros presentaban expresiones alarmantes, por lo que consideré que era hora de introducir algún tema menos metafísico.”
“No hay nada que un niño bien regulado odie tanto como la regularidad. Pienso que un muchacho realmente sano disfrutaría enormemente de la gramática griega… ¡si tan sólo pudiera aprenderla cabeza abajo!”
«A cada uno sus sufrimientos, todos son hombres»
—…¡Imagínese, no gustarle una criatura tan adorable y tan persuasiva y asfixiantemente cariñosa como una serpiente!
—¡Que no le gustan las serpientes! –exclamé–. ¿Acaso es algo así posible?
—No, no le gustan –repitió con una fingida seriedad que realzaba su atractivo–. No les tiene miedo, ¿sabe? Pero no le gustan. ¡Dice que se agitan demasiado!
Me encontraba más sorprendido de lo que quería admitir. Había algo tan asombroso en este eco de las mismas palabras que había oído escasas horas antes de labios de aquel duendecillo del bosque, que sólo por medio de un gran esfuerzo logré decir, en tono despreocupado:
“Muriel, que no era una de esas cantantes que consideran de rigueur negarse a cantar hasta que no se lo han pedido 3 o 4 veces, y han alegado falta de memoria, pérdida de voz y otras razones conclusivas para su silencio, comenzó de inmediato:
Tres tejones hay sobre un pedrusco musgoso
junto a una oscura vereda:
cada uno sueña que es un monarca en su trono,
por lo que no hay quien los mueva.
Aunque su viejo padre languidezca solo,
no hay forma de que se muevan.
Tres sardinas que rondan en torno a la roca
anhelan sentarse arriba:
cada una intenta plasmar en trémulas notas
su hallazgo, que endulzaría,
piensan, su vida. Así pues, con voces rotas,
gimen y se desgañitan.
…
«¡Tejón, sus hijos se han extraviado, me temo.
¡Y las mías me han dejado!»
«Pues sí –respondió aquel–; está usted en lo cierto.
Muy poco los vigilamos.»
Y así los pobres padres mataron el tiempo,
llorando desconsolados.
En ese momento, Bruno paró súbitamente de cantar. —La canción de las saddinas necesita otda melodía, Silvia –dijo–. Y yo no puedo cantadla ¡si no la tocas para mí!
Silvia se sentó al momento sobre un champiñón diminuto que crecía casualmente frente a una margarita, como si esta fuese el instrumento musical más corriente del mundo, y se puso a tocar los pétalos a la manera de teclas de órgano. ¡Y qué música tan deliciosa y diminuta producían!”
Y si, en una ocasión diferente
de escenario florido e intrascendente,
pudiera elegir qué quiero cenar,
«¡Pide por esa boca tu manjar!».
Oh, veo enseguida
qué vida tendría:
¡del pudin de Ipergis probar ración
con una copa de suave Acigón!
—Ya puedes dejad de tocad, Silvia. Puedo haced la otda melodía mucho mejod sin acompasamiento.
—Quiere decir «sin acompañamiento» –susurró Silvia, sonriendo ante mi cara de perplejidad; luego simuló cerrar los registros del órgano.
…(y era su deseo): «¡Oh, las colas prenderles
con pincitas a montones!»
Debería mencionar que señaló los paréntesis, en el aire, con el dedo. Me pareció un plan estupendo. Ya sabes que no hay sonido que los represente, como tampoco lo hay para una pregunta.
Imagina que le has dicho a tu amigo: «Hoy estás mejor», y que quieres que entienda que le estás haciendo una pregunta; ¿qué puede ser más sencillo que dibujar simplemente un «?» en el aire con el dedo? ¡Te entendería enseguida
«¡Oh, sardinillas traviesas –gritó el menor–, con aletas vagabundas!»
“Y los tejones trotaron hasta la playa
que bordeaba la bahía.
Cada uno en la boca una sardina llevaba
exultante de alegría,
cuyas voces sobre las olas resonaban:
«¡Hurra, hurra! ¡Viva, viva!».”
“Y yo no pude evitar desear que existiese una regla tal en la sociedad que estableciera que, al finalizar una canción, el propio cantante debía decir lo que se esperaba y no dejárselo al público. Supongamos que una joven dama acaba de gorgoritear («con voces rotas») la exquisita letra de Shelley «I arise from dreams of thee»: ¡cuánto más agradable sería que, en vez de tener que decir uno «¡Oh, gracias, gracias!», que fuera la joven dama la que hiciese el comentario, mientras se pone los guantes y las apasionadas palabras «¡Oh, apriétalo contra el tuyo o terminará por romperse!» aún resuenan en los oídos!”
—¡Sabía que pasaría! –añadió ella en voz baja, a la vez que yo daba un respingo por el repentino estrépito del cristal roto–. Ha estado usted el último minuto sujetando la copa de lado, ¡y dejando que se derramara todo el champán! ¿Se había dormido? ¡Siento muchísimo que mi canción haya tenido un efecto tan narcótico!
“«Primero reunir un conjunto de hechos y después elaborar una teoría.» Ese, según creo, es el auténtico método científico. Me incorporé, froté mis ojos y empecé a reunir hechos.”
“Y ahora, ¿qué teoría de profundo y largo alcance había de elaborar a partir de ellos? El investigador se sintió confundido. ¡Un momento! Un hecho había escapado a su atención. En tanto que todos los demás se encontraban en grupos de 2 y 3 personas, Arthur se hallaba solo; mientras todas las lenguas estaban hablando, la suya en cambio permanecía en silencio; todos los rostros mostraban alegría, pero el suyo estaba sombrío y apesadumbrado. ¡Eso sí que era un hecho! El investigador pensó que debía elaborarse una teoría sin demora.
Lady Muriel se había levantado y dejado el grupo hacía unos instantes. ¿Podía ser esa la causa de su abatimiento? La teoría apenas alcanzaba la categoría de hipótesis de trabajo. Claramente, se requerían más hechos.”
“Pues lady Muriel había ido a recibir a un extraño caballero, apenas visible en la distancia; y luego regresó con él, hablando ambos de manera entregada y gozosa, como viejos amigos largo tiempo separados; y después fue de un grupo a otro, presentando al nuevo héroe del momento; y él, joven, alto y apuesto, se movía a su lado con gracia, y el porte erguido y el paso firme de un soldado. Ciertamente, ¡la teoría no auguraba nada bueno para Arthur! Su mirada se cruzó con la mía, y vino hasta donde me encontraba.
—Es muy apuesto –opiné.
—¡Odiosamente apuesto! –murmuró Arthur; luego sus propias palabras de amargura le hicieron sonreír–. ¡Suerte que sólo me has oído tú!
—Doctor Forester –dijo lady Muriel, que acababa de unírsenos–, permita que le presente a mi primo Eric Lindon… el capitán Lindon, debería decir.
Arthur se deshizo de su malhumor de forma total e inmediata al levantarse para ofrecer su mano al joven soldado.
—He oído hablar de usted –dijo–. Me alegro mucho de conocer al primo de lady Muriel.”
“El semblante de Arthur volvió a ensombrecerse, y pude adivinar que fue únicamente para distraer sus pensamientos que ocupó de nuevo su sitio junto a la joven dama metafísica, y retomó su interrumpida conversación.”
—Hablando de Herbert Spencer –empezó–, ¿de veras no encuentra ninguna dificultad lógica en considerar la naturaleza como un proceso de involución, que va de la homogeneidad coherente definida a la heterogeneidad incoherente indefinida?
«las cosas que son mayores que una misma cosa son mayores entre sí»(*)
(*) Carroll recoge aquí (según explica en el prefacio de La conclusión de Silvia y Bruno) una perversión estudiantil de la primera noción común o primer axioma de los Elementos de Euclides, que afirma que «las cosas que son iguales a una misma cosa son iguales entre sí». [N. del T.]”
…Pero otras mentes quizá necesiten algún no-sé-qué lógico… se me olvidan los términos técnicos.
—Para un argumento lógico completo –empezó Arthur con admirable solemnidad–, necesitamos 2 prememas…
(…)
¿Pero qué nombre recibe el argumento en su conjunto?
—Un silogilismo.(*)
—¡Ah, claro! Ya me acuerdo. Pero no necesito un silogilismo, sabe usted, para demostrar el axioma matemático que ha mencionado.
—Ni para demostrar que «todos los ángulos son iguales», supongo.
—¡Oh, por supuesto que no! ¡Una da una verdad sencilla como esa por sentada!
(*) “En su «explicación» de la estructura de un argumento lógico, el personaje de Arthur realiza varios juegos de palabras con la intención de tomar el pelo y poner en evidencia a su resabida interlocutora. «Prememas» (nótese el uso de la cursiva) sustituye a «premisas», «confusión» a «conclusión» y «silogilismo» a «silogismo». Naturalmente, los juegos de palabras eran distintos (y más claros, me temo) en el original inglés. [N. del T.]”
“Pasando igualmente desapercibido para la mujer, Arthur se encogió ligeramente de hombros y separó ampliamente las manos, como diciendo: «¿Qué más puedo decirle?», y se alejó de allí, dejando a la dama hablar de sus fresas por «involución», o como las prefiriera.”
“el problema de cómo llevar a 5 personas a Elveston, con un carruaje en el que sólo cabían 4, debía ser resuelto de algún modo.”
“La mejor alternativa, tal como yo lo veía, era que quien volviese andando a casa fuera yo, y así lo propuse sin tardanza.
—¿Seguro que no le importa? –respondió el earl–. Me temo que no cabemos todos en el carruaje, y no quiero decirle a Eric que abandone a su prima tan pronto.
—Lejos de importarme –aseguré–, lo preferiría. Así tendré tiempo de hacer un bosquejo de estas hermosas y antiguas ruinas.
—Te haré compañía –interpuso de pronto Arthur. Y, en respuesta a lo que supongo fue una expresión de sorpresa por mi parte, agregó en voz baja–: De verdad que me parece una opción más apetecible. Estaría realmente de más en el carruaje.
—Creo que yo también iré a pie –dijo el earl–. Tendrás que contentarte con Eric como escolta –añadió hacia lady Muriel, que se nos había unido mientras hablábamos.
—Deberás ser tan entretenido como Cerbero: «tres caballeros en uno» –se dirigió lady Muriel a su acompañante–. ¡Será una gran hazaña militar!
—¿Cuánto tardarás en hacer tu boceto? –preguntó Arthur.
—Bueno –contesté–, me gustaría dedicarle una hora. ¿No consideráis mejor marchar sin mí? Regresaré en tren. Sé que pasa uno dentro de una hora más o menos.
“De manera que dejaron que me las arreglara solo, y no tardé en hallar un sitio confortable donde sentarme, al pie de un árbol, desde el cual tenía una buena vista de las ruinas.”
—He vuelto para recordarte –dijo Arthur– que pasa un tren cada 10 minutos…
—¡Tonterías! –repuse–. ¡No es el metro de Londres!
—¡Sí que lo es! –insistió el earl–. Esto forma parte de Kensington.
—¿Por qué hablas con los ojos cerrados? –inquirió Arthur–. ¡Despierta!
—Creo que es este calor el que me está dando sueño –aduje, con la esperanza, pero sin la seguridad completa, de estar diciendo algo con sentido–. ¿Estoy despierto ahora?
—Me parece que no –dictó el earl–. ¿Qué piensa usted, doctor? ¡Sólo tiene un ojo abierto!
—¡Y donca como un oso! –gritó Bruno–. ¡Despiedte, querido anciano! –Y Silvia y él se pusieron manos a la obra, girándole la pesada cabeza de un lado a otro, como si su unión con los hombros fuera algo carente de cualquier importancia.
El profesor abrió finalmente los ojos y se incorporó, parpadeando hacia nosotros con absoluta perplejidad. [dissociação]
—¿Tendría la amabilidad de decir –se dirigió a mí con su acostumbrada y añeja cortesía– dónde nos encontramos ahora mismo… y quiénes somos, empezando por mí?
Creí conveniente empezar por los niños.
—Esta es Silvia, señor, y este es Bruno.
—¡Ah, sí! ¡A ellos los conozco muy bien! –murmuró el anciano–. Soy yo el que más preocupado me tiene. Y quizá tendría la bondad de mencionar, al mismo tiempo, cómo he llegado aquí.
—Se me ocurre un problema más serio –me atreví a indicar–, y es cómo va a volver.
“Visto como un problema ajeno, resulta de lo más interesante. Visto como una parte de la biografía de uno mismo, es, debo admitir, ¡muy angustioso!”
—¡Cierto, cierto! –respondió el profesor–. (…) En cuanto a mí, creo que dijo que era…
—¡Usted es el pdofesod! –chilló Bruno en su oído–. ¿No lo sabía?
¡Ha venido desde Exotilandia! ¡Y queda muy lejísimos de aquí! El profesor se puso en pie de un brinco con la agilidad de un muchacho.
…Le preguntaré a ese inocente campesino, con ese par de cubos que contienen (aparentemente) agua, si sería tan amable de indicarnos el camino. ¡Inocente campesino! –continuó alzando la voz–. ¿Podría decirnos por dónde se va a Exotilandia?
El inocente campesino se giró con una sonrisa avergonzada.
—¿Eh? –fue toda su respuesta.
—¡Por-dónde-se-va-a-Exotilandia! –repitió el profesor.
El inocente campesino dejó sus cubos en el suelo y se puso a pensar.
—Ah, yo no…
—Debería mencionar –lo interrumpió precipitadamente el profesor– que cualquier cosa que diga podrá utilizarse como prueba en su contra.
El inocente campesino recogió al instante sus cubos.
—¡Tonces no diré na! –contestó con brusquedad, y se alejó a paso rápido.
—¡Camina muy deprisa! –comentó el profesor con un suspiro–. Pero sé que era lo que había que decir. He estudiado vuestras leyes inglesas. En cualquier caso, preguntémosle a ese otro hombre que viene. No es inocente, ni un campesino…, pero no sé si alguno de los 2 puntos posee una importancia vital.
Se trataba, de hecho, del honorable Eric Lindon, el cual, al parecer, había cumplido con su tarea de acompañar a lady Muriel a casa y se encontraba ahora paseando tranquilamente frente a esta última, subiendo y bajando por el camino, y disfrutando de un solitario cigarro.
As viagens estão ficando mais freqüentes e mais curtas, Desmond, cuidado!
—Si no le es molestia, señor, ¿podría decirnos el camino más corto a Exotilandia? –Pese a su apariencia extravagante, el profesor era, por esa naturaleza esencial que ningún disfraz sería capaz de ocultar, un caballero de los pies a la cabeza.
—El nombre no me suena –dijo–. No estoy seguro de poder ayudarle.
—No está muy lejos de Hadalandia –indicó el profesor.
Las cejas de Eric Lindon se elevaron un poco al escuchar estas palabras, y una sonrisa divertida, que educadamente trató de reprimir, se dibujó fugazmente en su apuesto semblante.
—¡Está un pelín chiflado! –murmuró para sí–. ¡Pero es un anciano bien alegre! –Después se volvió hacia los niños–: ¿Y no podéis ayudarle vosotros, pequeños? –dijo con un tono de amabilidad que pareció ganárselos en el acto–. ¡Seguro que vosotros lo sabéis!
¿A cuántas millas está Babilonia?
Tres veces veinte más diez.
¿Puedo llegar sin más luz que una vela?
Así es, ¡y hasta volver!(*)
(*) Los versos forman parte de una canción infantil popular en Inglaterra durante el s. XIX. [N. del T.]
“A esas alturas estaba claro para mí que Eric Lindon no era consciente en absoluto de mi presencia. Incluso el profesor y los niños parecían haber dejado de verme, y yo permanecía en mitad del grupo, tranquilo como un fantasma, observando sin ser visto.
—¡Qué perfectamente isócrono! –exclamó el profesor con entusiasmo. Tenía su reloj en la mano, y estaba contando con atención las oscilaciones de Bruno–. ¡Mide el tiempo de manera tan precisa como un péndulo!
—Pero hasta los péndulos –apuntó el bondadoso y joven soldado, mientras liberaba su mano con cuidado del agarre de Bruno– ¡dejan de ser divertidos en algún momento! Vamos, ¡ya está bien, jovencito! La próxima vez que nos veamos, podrás repetir. Entretanto, más vale que llevéis a este anciano caballero a la calle Estrafalaria, número…
—¡La encontdaremos! –gritó Bruno entusiásticamente, mientras se llevaban al profesor, tirando de él.
—¡Cuarenta! –gritó de manera estentórea–. ¡Aunque no le he cantado las 40, sí se las he gritado! –agregó para sí–. ¡El mundo está loco, señores míos, loco de remate! –Encendió otro cigarro y siguió paseando hacia su hotel. [A resposta era 70.]
—¿Quiere un cigarro?
—Gracias, no fumo.
—¿Hay algún manicomio en las inmediaciones?
—No, que yo sepa.
—Pensé que a lo mejor sí. Acabo de encontrarme con un lunático. ¡El viejo más estrafalario que jamás he visto!
Y así, charlando amistosamente, pusimos rumbo a casa y nos deseamos mutuamente «buenas noches» en la puerta de su hotel. Ya a solas, noté cómo la sensación de «inquietud» me asaltaba de nuevo, y vi, frente a la puerta del número 40, las 3 figuras que tan bien conocía.
—¡No, no! Es la casa correcta –respondió de manera jovial el profesor–, pero es la calle equivocada. ¡Ahí es donde hemos cometido el fallo! Lo mejor ahora será…
Todo terminó. La calle se encontraba desierta. La vida ordinaria me rodeaba y la sensación de «inquietud» había desaparecido.
—¿Nos acompaña a la iglesia? –pregunté.
—No, gracias –repuso cortésmente–. No es… exactamente… lo mío, sabe usted. Es una institución magnífica… para los pobres. Cuando estoy con mi gente, voy; sólo por dar ejemplo. Pero aquí no me conocen, conque creo que me dispensaré de aguantar un sermón. ¡Los predicadores de los pueblos son siempre tan aburridos!
“Cualquier devoto esteticista –o esteta religioso, ¿cómo he de llamarlo?– moderno habría calificado el servicio de burdo y frío; para mí, recién llegado de una iglesia londinense cada vez más cambiada bajo la batuta de un supuesto párroco «católico», fue indescriptiblemente refrescante.
No hubo ningún desfile teatral de recatados niños de coro esforzándose al máximo para no sonreír como bobos bajo la mirada admirada de la congregación; la parte de la gente en el servicio la realizó esta misma, sin ayuda, salvo por un puñado de buenas voces, situadas juiciosamente aquí y allá entre ellos, que evitaron que el canto se descarriara demasiado.
No se asesinó la noble música contenida en la Biblia y la liturgia, por medio de su recitación en un apagado tono monocorde, sin más expresividad que una muñeca parlante.
No, las oraciones se rezaron, las lecturas se leyeron y –lo mejor de todo– el sermón se hizo hablado; y me vi repitiendo, cuando salíamos de la iglesia, las palabras de Jacob cuando «despertó de su sueño»: «¡No hay duda de que el Señor se encuentra aquí! ‘Esta no es sino la casa del Señor, y esta la puerta del Cielo’».
—Sí –asintió Arthur, aparentemente en respuesta a mis pensamientos–, esos servicios de la «Iglesia alta» se están convirtiendo rápidamente en puro formalismo. La gente está empezando a verlos cada vez más como «espectáculos», a los cuales únicamente «asisten» en el sentido francés. Y resulta especialmente perjudicial para los niños. Se sentirían mucho menos cohibidos disfrazados de hadas en un musical navideño. Con todas esas vestiduras y entradas y salidas a escena, y hallándose siempre en évidence, ¡no me sorprende que la vanidad consuma a esos petimetres descarados!”
(*) “William Paley (1743-1805), filósofo y teólogo utilitarista inglés. Es conocido sobre todo por su exposición del argumento teleológico de la existencia de Dios en su obra Natural Theology («Teología natural») [oximoro]. Fue un influyente defensor de la teoría del «diseño inteligente» del universo. La idea central de su pensamiento es que dicho diseño queda demostrado por la felicidad o bienestar general evidente en el orden físico y social de las cosas.[N. del T.]” Teoria com que teve de lidar Darwin em suas contínuas autocensuras.
“el modo de sacar a la luz los pensamientos más profundos de Arthur no era asentir ni disentir, sino simplemente escuchar.”
“El Bien y el Mal habían sido transformados de alguna manera en Ganancia y Pérdida, y la religión se había convertido en una especie de transacción comercial. Demos gracias por que nuestros pastores estén empezando a adoptar una visión más noble de la vida.” Que bom que começaram, faltava terminar…
“En el Antiguo Testamento, sin duda, se apela constantemente a recompensas y castigos como motivos para las acciones. Esa enseñanza funciona mejor con los niños, y los israelitas parecen haber sido, mentalmente, completos niños. Guiamos así a nuestros hijos, al principio, pero apelamos, lo antes posible, a su sentido innato del Bien y el Mal; y, cuando esa etapa ha quedado firmemente atrás, recurrimos al motivo más elevado de todos: el deseo de semejanza, y unión, con el Bien Supremo.”
—Mirad la letra de los himnos litúrgicos. ¡Qué corrompida está, hasta la médula, por el egoísmo! ¡Pocas composiciones humanas hay más totalmente degradadas que algunos himnos modernos!
Yo cité la estrofa:
Cuanto te demos, Señor,
mil veces será recompensado.
¡Daremos pues siempre con agrado,
generoso Creador!(*)
(*) Este fragmento pertenece al himnario The holy yeardel religioso y literato inglés Christopher Wordsworth (1807-1885), sobrino del famoso poeta William Wordsworth. [N. del T.]
“Tras dar muchas razones positivas para ser caritativo, el pastor concluyó con: «y, por todo lo que deis, ¡recibiréis una recompensa mil veces mayor!».Oh, que la absoluta mezquindad de un motivo tal sea expuesta ante hombres que conocen bien lo que es el autosacrificio, ¡que son capaces de apreciar la generosidad y el heroísmo!”
“¿Acaso existe prueba más sólida de la Bondad Original que debe haber en esta nación que el hecho de que la religión nos haya sido predicada como una especulación comercial, durante un siglo, y que todavía creamos en Dios?”
—Eso espero –contestó Arthur–, y, aunque no quiero ver legalizadas las «disputas en la iglesia», debo decir que nuestros pastores disfrutan de un enorme privilegio, que malamente merecen, y del cual abusan de manera terrible. Ponemos a nuestro hombre en un púlpito y prácticamente le decimos: «Ahora puedes hablarnos desde ahí durante media hora. ¡No abriremos la boca siquiera para interrumpirte! ¡Todo se hará a tu gusto!». ¿Y qué nos da él a cambio? Palabrería estúpida, que, de serte dirigida durante una cena, pensarías: «¿Es que me toma por idiota?».
“Cuando me aproximaba al extremo del andén, del cual surgía una empinada e irregular escalera de madera que conducía al mundo superior, vi a dos pasajeros que, obviamente, habían llegado en el tren, pero en los cuales, por extraño que parezca, yo no había reparado en absoluto, a pesar del escaso número de viajeros que se habían apeado. Se trataba de una mujer joven y de una niña; la primera, hasta donde podía juzgarse por las apariencias, era una niñera, o posiblemente una niñera-institutriz, al cuidado de la chiquilla, cuyo rostro refinado, más aún que su vestido, la distinguía como de una clase superior a la de su acompañante.
El semblante de la niña mostraba finura, pero también agotamiento y tristeza, y contaba una historia (o eso fue lo que me pareció leer) de gran enfermedad y sufrimiento, sobrellevada con dulzura y paciencia. Portaba una pequeña muleta con la que ayudarse al andar; y ahora se encontraba plantada frente a larga escalera, mirándola con gesto taciturno, esperando aparentemente a poder reunir el coraje suficiente para emprender el penoso ascenso.”
(*) “Lucus a non lucendo es una frase latina del gramático del siglo IV Mario Servio Honorato que afirma, con intención irónica, que la palabra «arboleda» en latín –lucus– procede del verbo lucere («resplandecer») supuestamente porque el ramaje de los árboles impide el paso de la luz del sol.La frase se usa generalmente como ilustración del peligro de emparentar etimológicamente dos palabras sólo porque se parecen.[N. del T.]”
“Cerrar los párpados, cuando algo parece volar hacia el ojo, es uno de tales actos, y decir: «¿Puedo ayudar a la niña a subir las escaleras?» constituyó otro. No fue que se me ocurriera pensamiento alguno de ofrecer ayuda, y que después hablara; el primer indicio que tuve de la probabilidad de dicho ofrecimiento fue el sonido de mi propia voz, y descubrir que había sido realizado. La criada calló por unos momentos, paseando dubitativamente su mirada de la niña a su cargo hasta mí, y luego de nuevo a ella.”
—¡Por favor! –fue todo lo que dijo, mientras una leve sonrisa se dibujaba fugazmente en el cansado y pequeño rostro. La levanté con escrupuloso cuidado, y su bracito se aferró al instante de manera confiada alrededor de mi cuello.
La niña pesaba muy poco –tan poco, de hecho, que se me pasó por la cabeza la ridícula idea de que me estaba resultando bastante más fácil subir con ella en brazos que si no la llevase–, y, cuando alcanzamos el camino en lo alto, con sus surcos producidos por carros y sus piedras sueltas –obstáculos formidables todos ellos para una niña coja–, descubrí que de mis labios había salido: «Más vale que cargue con ella durante este tramo tan accidentado», antes de haber establecido ninguna conexión mental entre su escabrosidad y mi pequeña y mansa carga.
—¡Ya se ha tomado demasiadas molestias, señor! –exclamó la criada–. Ella puede caminar perfectamente en llano. –Pero al oírse la sugerencia, el brazo ceñido a mi cuello se cerró apenas un poquitín más en torno a él, e hizo que me decidiera a contestar:
—De veras que no pasa nada. La llevaré un poco más. Voy en su misma dirección.
La niñera no planteó más objeciones, y el siguiente en hablar fue un niño andrajoso, descalzo y con una escoba al hombro, que cruzó el camino y simuló barrerlo frente a nosotros, aunque se encontraba perfectamente seco:
—¡Denos medio penique! –suplicó el golfillo, con una sonrisa de oreja a oreja en su sucia cara.
—¡No se lo dé! –advirtió la damita en mis brazos. Las palabras parecían duras, pero su tono era la ternura personificada–. ¡Es un pequeño gandul! –Y emitió una dulce risa argentina que jamás había oído de otros labios que no fueran los de Silvia. Para mi asombro, el muchacho, de hecho, comenzó igualmente a reír, como si existiera una cierta complicidad sutil entre los 2, cuando echó a correr por el camino y desapareció por un agujero en el seto.
Pero regresó enseguida, tras haberse deshecho de la escoba y provisto de un exquisito buqué de flores de misterioso origen.
—¡Compre un ramillete, compre un ramillete! ¡Sólo medio penique! –salmodió, arrastrando melancólicamente las palabras como un mendigo profesional.
—¡No se lo compre! –fue el edicto de Su Majestad, mientras observaba la harapienta criatura a sus pies con una altanería que parecía curiosamente mezclada con un tierno interés por ella. Pero esta vez me rebelé, e ignoré el mandato real. No renunciaría a unas flores tan preciosas, y con unas formas tan completamente nuevas para mí, por orden de ninguna jovencita, por muy imperiosa que esta fuese. Compré el buqué, y el chiquillo, tras meterse el medio penique en la boca, hizo el pino, como si quisiera determinar si la boca humana está realmente adaptada para servir de hucha.
Con un asombro que crecía por momentos, dirigí mi atención a las flores, y las examiné una por una: no había ni una sola entre ellas que pudiese recordar haber visto con anterioridad. Finalmente me volví hacia la niñera.
—¿Crecen estas flores por aquí de manera silvestre? Jamás he visto… –pero las palabras murieron en mis labios. ¡La niñera se había volatilizado!
—Ya puede bajarme, si quiere –señaló Silvia suavemente.
Yo obedecí sin decir nada, y no pude hacer otra cosa que preguntarme: «¿Estoy soñando?», al descubrir a Silvia y Bruno caminando uno a cada lado de mí, cogidos de mis manos con la pronta confianza de la niñez.
—¡Ahora sois más grandes que la última vez! –empecé por decir–. ¡Creo de veras que deberíamos presentarnos de nuevo! Hay mucho de vosotros que nunca he visto antes, ¿sabéis?
—¡Está bien! –respondió alegremente Silvia–. Este es Bruno. No se tarda nada. ¡Sólo tiene un nombre!
—¡Tengo otdo nombde! –protestó Bruno, con una mirada de reproche a la maestra de ceremonias–. Y es… ¡señod!
—¿Habéis venido a verme a mí, niños? –pregunté yo.
—Recuerde que le dijimos que vendríamos el martes –explicó Silvia–. ¿Tenemos el tamaño adecuado para ser niños normales?
—Totalmente adecuado para ser niños –contesté, añadiendo mentalmente: «¡Aunque no seáis niños «normales», en modo alguno!»–. ¿Pero qué le ha pasado a la niñera?
—¿Entonces no era sólida, como Silvia y tú?
—No. No podería tocadla, ¿sabe? Si caminara hacia ella, ¡la atdavesaría!
—De veras que pensé que se daría cuenta –dijo Silvia– cuando Bruno la hizo pasar accidentalmente por un poste de telégrafo. Acabó partida por la mitad. Pero usted estaba mirando en la dirección contraria.
Sentí que realmente había dejado pasar una oportunidad: ¡ser testigo de un acontecimiento como que una niñera acabe «partida por la mitad» no le ocurre a uno 2 veces en la vida!
—Lo hizo Bruno –señaló Silvia–. Es lo que se llama un «flizz».
—¿Y cómo haces un flizz, Bruno?
—El pdofesod me enseñó –dijo este–. Pdimero coges mucho aire…
—¡Oh, Bruno! –interpuso su hermana–. ¡El profesor dijo que no lo contaras!
—¡Ya se ha tomado demasiadas molestias, señor! Ella puede caminar perfectamente en llano.
Bruno rio de forma jovial cuando me giré precipitadamente hacia un lado y otro, buscando por todas partes a quien había hablado.
—¡Fui yo! –proclamó lleno de regocijo, con su propia voz.
“Para entonces nos encontrábamos ya cerca del Hall.
—Aquí es donde viven mis amigos –indiqué–. ¿Entraréis a tomar el té con ellos?
Bruno dio un pequeño brinco de júbilo, y Silvia dijo:
—Sí, por favor. Te apetece un poco de té, ¿a que sí, Bruno? No lo ha probado – me explicó– desde que salimos de Exotilandia.
—¡Y no era buen té! –añadió su hermano–. ¡Era muy flojísimo!”
“La sonrisa de bienvenida de lady Muriel no logró disimular del todo la expresión de sorpresa con que contempló a mis nuevos acompañantes.
Los presenté como era debido.
—Esta es Silvia, lady Muriel. Y este es Bruno.
—¿Algún apellido? –inquirió ella, con ojos que chispeaban de diversión.
—No –contesté yo con gravedad–. Ninguno.
Ella se rio, pensando obviamente que hablaba en broma, y se inclinó para besar a los niños; un saludo al que Bruno se sometió de manera reluctante; Silvia lo devolvió con creces.
Mientras Arthur (que había llegado antes que yo) y ella proporcionaban a los niños té y bizcocho, yo traté de entablar conversación con el earl; pero este se hallaba inquieto y distrait, por lo que apenas logramos avanzar. Al fin, con una súbita pregunta, reveló la causa de su intranquilidad.
—¿Me permite echar un vistazo a esas flores que tiene en la mano?
—¡Con mucho gusto! –dije, pasándole el buqué. Yo sabía que la botánica era una de sus disciplinas favoritas, y estas flores me eran tan completamente desconocidas y misteriosas que sentía genuina curiosidad por ver qué diría un botánico de ellas.
Las flores no disminuyeron su desasosiego. Por el contrario, se fue poniendo más y más nervioso a medida que las examinaba.
—¡Estas son todas de la India central! –exclamó, dejando a un lado parte del buqué–. Son raras, incluso allí, y nunca las he visto en ningún otro punto del mundo. Estas 2 son mexicanas… Esta… –Se levantó apresuradamente y la llevó a la ventana para examinarla con más luz, mientras el rubor producido por la emoción se le subía hasta la misma frente–… es, estoy casi seguro… pero tengo aquí un libro de plantas de la India… –Cogió un volumen de la librería y se puso a pasar las páginas con dedos temblorosos–. ¡Sí! ¡Compárela con este dibujo! ¡Es idéntica! Esta es la flor del upas, un árbol que crece por lo general sólo en el corazón de la selva; y la flor se marchita tan rápido una vez cortada, ¡que resulta prácticamente imposible conservar su forma o color más allá siquiera de sus contornos! Y, aun así, ¡esta está en plena floración! ¿Dónde ha conseguido estas flores? –añadió con jadeante ansiedad.
Yo le eché una mirada a Silvia, quien, silenciosa y solemnemente, se llevó un dedo a los labios, y luego le hizo una seña a Bruno para que la siguiera, y corrió afuera al jardín; y me vi en la situación de un acusado en un juicio cuyos dos principales testigos han sido conducidos repentinamente fuera de la sala.
—¡Permítame regalarle las flores! –balbuceé finalmente, sin idea alguna de cómo salir del atolladero–. ¡Usted sabe mucho más que yo sobre ellas!
—¡Las acepto con sumo agradecimiento! Pero todavía no me ha dicho… –había comenzado a decir el earl, cuando fuimos interrumpidos, para mi gran alivio, por la llegada de Eric Lindon.”
“El navío partió rumbo a occidente:
su albatros emprendió el vuelo;
una punzada en el pecho ella siente,
pues queda sola y en duelo.
Mas una reveladora sonrisa
se dibuja en su semblante:
«¡Pensará en mí… ¡oh, sí, pensará en mí
en tanto se halle distante!
»Aunque tú, océano, te interpones,
su unión dos vidas proclaman:
no hay distancia entre fieles corazones
que con tal pasión se aman.
Y confío en que mi buen marinero,
por siempre, y a cada instante,
pensará en mí… ¡oh, sí, pensará en mí
mientras se encuentre distante!».”
“Con objeto de ahorrarle más sufrimiento a mi amigo, me levanté para marcharme justo en el momento en que el earl se disponía a repetir su particularmente embarazosa pregunta acerca de las flores.
—Todavía no me ha…
—¡Sí, ya he probado el té, gracias! –corrí a atajarlo–. Y ya es más que hora de que nos vayamos. ¡Buenas noches, lady Muriel!”
—Sí, ya no hay remedio –terció Silvia–, ¡pero les dará lástima cuando descubran que han desaparecido!
—¿Cómo van a desaparecer?
—Bueno, el cómo, no lo sé. Pero se esfumarán. El ramillete no era más que un flizz, ¿sabe? Bruno lo creó.
“El buqué se desvaneció, como Silvia había augurado, y 1 o 2 días después, al realizar Arthur y yo una nueva visita al Hall, encontramos al earl y a su hija, junto con la anciana ama de llaves, fuera en el jardín, examinando los cierres de la ventana del salón.
—Estamos llevando a cabo una investigación –explicó lady Muriel, acercándose para recibirnos–, y los admitimos en ella, como inductores del suceso, para que nos cuenten todo lo que saben acerca de esas flores.”
—…Las flores han desaparecido durante la noche –continuó, volviéndose hacia Arthur–, y tenemos la completa seguridad de que nadie de la casa las ha tocado. Alguien ha debido de entrar por la ventana…
—Pero los cierres no han sido forzados –informó el earl.
—Tuvo que ser mientras usted se hallaba cenando, milady –dijo el ama de llaves.
—Eso es –asintió el earl–. El ladrón debió de verle traer las flores –se dirigió a mí–, y advertiría que no las llevaba consigo al marcharse. Y debía de estar al tanto de su gran valor, ¡el cual es sencillamente inestimable! –exclamó, preso súbitamente de la excitación.
—¡Y usted no llegó a decirnos cómo las consiguió! –afirmó lady Muriel.
—Tal vez algún día –balbuceé yo– me sea posible decírselo. Pero por el momento, ¿me dispensarían de ello?
El earl puso cara de decepción, pero contestó de forma amable:
—Está bien, no haremos preguntas.
—Aunque le consideraremos un pésimo testigo de la acusación –añadió lady Muriel en tono pícaro, al tiempo que accedíamos al cenador–. Lo declaramos a usted cómplice del robo, y lo sentenciamos a reclusión en aislamiento y a ser alimentado con agua, pan y… mantequilla. ¿Quiere azúcar?
—…Si, al menos, las flores hubieran sido comestibles, uno podría haber sospechado de un ladrón de muy distinto tipo…
—¿Se refiere a esa explicación universal para todas las desapariciones misteriosas: que el culpable fue el gato? –dijo Arthur.
—Así es –respondió ella–. ¡Qué conveniente sería que todos los ladrones fueran del mismo tipo! ¡Resulta tan confuso que unos sean cuadrúpedos y otros bípedos!
A ARTE DA TELEOLOGIA OU A TELEOLOGIA DA ARTE: “¿Le vale así?: el último suceso es un efecto del primero, pero la necesidad de ese suceso es una causa de la necesidad del primero.”
ZERO PATHOS, INFINITAS PATAS…FÍSICAS: “Por ejemplo, la raza humana posee un tipo de forma: bípeda. Otro conjunto, que va del león al ratón, es cuadrúpedo. Baje 1 peldaño o 2 más y llegará a los insectos de 6 patas: hexápodos; un nombre precioso, ¿no es cierto? Pero la belleza, en nuestro sentido de la palabra, parece disminuir a medida que descendemos: la criatura se vuelve más… yo no calificaría de «fea» a ninguna de las criaturas de Dios… más tosca. Y, cuando cogemos el microscopio, y seguimos bajando, nos topamos con animálculos, terriblemente toscos, ¡y con un número de patas inmenso!”
“…las ranas y las arañas no nos son exactamente necesarias, ¿verdad, Muriel?
Lady Muriel se estremeció perceptiblemente: saltaba a la vista que era un tema desagradable.”
—¡La grandiosidad del paisaje, cuál si no! Está claro que la grandiosidad de una montaña, según mi percepción, depende de su tamaño relativo con el mío. Doble la altura de la montaña, y naturalmente se vuelve 2 veces más grandiosa. Reduzca la mía a la mitad, y producirá el mismo efecto.
A solução está no advento dos pigmeus nesta hercúlea Terra, que uma vez já derrubou os desdenhosos gigantes!
—Pero déjeme proseguir –pidió el earl–. Tendremos una 3ª raza de hombres, de 10 centímetros de altura; una 4ª, de 2 centímetros…
—¡No podrían comer ternera y carnero normal, estoy segura! –interpuso lady Muriel.
—Cierto, hija mía, se me olvidaba. Cada grupo debe tener sus propias vacas y ovejas.
—Y su propia vegetación –añadí yo–. ¿Qué podría hacer una vaca de 2 centímetros de altura con una hierba que se mece con el viento muy por encima de su cabeza?
—Es cierto. Hemos de contar con un pasto dentro del pasto, por así decirlo. La hierba corriente haría las veces de un verde palmeral para nuestras vacas de 2 centímetros, a la vez que en torno a la raíz de cada alto tallo se extendería una diminuta alfombra de hierba microscópica. Sí, creo que nuestro esquema funcionará relativamente bien. Y resultaría muy interesante entrar en contacto con las razas por debajo de nosotros. ¡Los bulldogs de 2 centímetros serían unas criaturitas preciosas! ¡Dudo que nadie pudiera echar a correr al verlos, ni siquiera Muriel!
—¿No crees que deberíamos tener igualmente una serie in crescendo? –planteó lady Muriel–. ¡Imagínate medir 100 metros de alto! ¡Uno podría utilizar un elefante como pisapapeles y un cocodrilo como tijeras!
[Pero entonces la Inglaterra destruiría el mundo!]
—¿Y haría usted que las razas de diferentes tamaños se comunicasen entre sí? –inquirí–. ¿Entrarían en guerra unas con otras, por ejemplo, o firmarían tratados?
—Pienso que hemos de descartar la guerra. Cuando uno es capaz de aplastar una nación entera de un solo puñetazo, no puede llevar a cabo una guerra en igualdad de condiciones. Pero cualquier cosa que involucrara únicamente un choque de intelectos sería posible en nuestro mundo ideal, pues, naturalmente, debemos conceder capacidades mentales a todos, independientemente del tamaño. Quizá la regla más justa sería que, cuanto más pequeña fuese la raza, ¡mayor debería ser su desarrollo intelectual!
—¿Estás diciendo –intervino lady Muriel– que esos hombrecillos de 2 centímetros discutirán conmigo?
—¡Desde luego, desde luego! –afirmó el earl–. ¡La fuerza lógica de un argumento no depende del tamaño de la criatura que lo expone!
Ella sacudió la cabeza con indignación.
—¡Yo no discutiría con ningún hombre que midiera menos de 15 centímetros! –exclamó–. ¡Lo pondría a trabajar!
—¿En qué? –quiso saber Arthur, que escuchaba todos aquellos disparates con una sonrisa divertida.
—¡Bordando! –respondió ella al instante–. ¡Qué bordados más bonitos haría!
—No obstante, si hicieran un mal trabajo –apunté yo– no podrías discutir la cuestión. No sé por qué, pero convengo en que no podría hacerse.
—La razón es –explicó lady Muriel– que uno no podría sacrificar hasta tal punto su dignidad.
—¡Por supuesto que no! –se mostró Arthur inmediatamente de acuerdo–. Sería como discutir con una patata. Disculpen el juego de palabras, ¡pero eso enterraría por completo la propia dignidad!
Con Bduno no se discute!
“el persistente zumbido de las abejas me confundía, y el aire transmitía una somnolencia que interrumpía y mandaba a la cama cada pensamiento antes de haber sido completamente formado; así que lo único que pude decir fue:
—Eso depende por fuerza del peso de la patata.”
“«¡Qué extraño! Estaba seguro de encontrarme hablando con lady Muriel. ¡Pero se trataba de Silvia desde el principio!». E hice otro gran esfuerzo por decir algo que tuviera algún sentido:
—¿Es por la patata?”
“Y puse todo mi empeño en dar unos pocos pasos, pero el suelo se deslizó hacia atrás, exactamente a la misma velocidad que yo era capaz de imprimir a mis piernas, de modo que no avancé ni un ápice. Silvia se echó a reír otra vez.”
—¡Es usted un anciano adorable! –exclamó, poniéndose de puntillas para darle un beso, mientras él se inclinaba con solemnidad para recibir el saludo–. ¡Consigue dejarme perpleja! ¡Son varios los niños a los que no he estado chinchando!
El profesor regresó junto a su amigo, y en esta ocasión la voz dijo:
—Dile que los traiga aquí… ¡a todos!
O mais provável é que no mundo exótico o professor se veja em terceira pessoa (como idoso) e esteja reencarnado espiritualmente como criança,¹ agora que a transformação em fada dos dois irmãos foi completada. (Assim foi, efetivamente, por um tempo.)
¹ Já essa teoria não pôde se confirmar.
“Es Bruno quien llora, y es mi hermano, y, por favor, los 2 queremos irnos; él no puede caminar, ¿sabe?; está… soñando, ¿ve usted? –Esto lo dijo en un susurro, por miedo a herir mis sentimientos–. ¡Permítanos atravesar la Puerta de Marfil!”
Será que o professor se transformou no próprio Bruno? Sabemos quem é Sílvia no mundo real, mas não havia a contraparte “brunífera”. Deveria ser Arthur, conquanto… um casal romântico incestuoso não é recomendável para um romance infantil! No fim, Bruno não era ninguém…
“Resultaba muy difícil estirar las piernas lo suficiente como para tocar el suelo, mientras Silvia me guiaba a través del estudio.”
“Apenas tuve tiempo de echar una ojeada al otro profesor, el cual se encontraba sentado leyendo, de espaldas a nosotros, antes de que el profesor nos hiciera pasar por la puerta, y la cerrara después. Bruno se encontraba allí, cubriéndose el rostro con las manos y llorando amargamente.” A segunda hipótese foi descartada (observação já da 1ª leitura)!
—¿Pod qué existen las pieddas? Hombde señod, ¿lo sabe usted?
—Tienen una utilidad –dije yo–, aunque no sepamos cuál. ¿Para qué sirven los dientes de león, por ejemplo?
—¡Bruno! –murmuró Silvia en tono reprobatorio–. ¡No debes decir «hombre» y «señor» a la vez! ¡Recuerda lo que te expliqué!
—¡Nunca ha habido niño más impertinentísimo! –se exasperó Silvia, frunciendo el ceño hasta que sus resplandecientes ojos dejaron prácticamente de verse.
—¡Y nunca ha habido niña más ignorantísima! –replicó Bruno–.
—¿Pero por qué dices «dieleontes», Bruno? La palabra correcta es «dientes de león».
—Es por ir dando tantos brincos –dijo Silvia, riendo.
—Sí, así es –asintió Bruno–. Silvia me dice las palabdas, y entonces, cuando doy saltos, se baten todas en mi cabeza… ¡hasta que hacen espuma!
—Entonces, ¿no encontró usted el camino de regreso a Exotilandia? –le pregunté al profesor.
—¡Oh, sí que lo hice! –contestó–. No dimos con la calle Estrafalaria, pero hallé otro camino. He ido y vuelto varias veces desde entonces. Tenía que estar presente en las elecciones, ¿sabe?, como autor de la nueva Ley Monetaria. El emperador exhibió tal amabilidad que deseó que yo conservase el mérito de la misma. «¡Ocurra lo que ocurra (recuerdo perfectamente las palabras del discurso imperial), si resultara estar vivo el rector, vosotros daréis fe de que el cambio de moneda es obra del profesor, y no mía!»¡Nunca antes en mi vida me habían ensalzado tanto!–Unas lágrimas resbalaron por sus mejillas con el recuerdo, el cual al parecer no era agradable en su totalidad.
—¿Se ha dado al rector por muerto?
“Un bufón itinerante, que iba con un oso bailarín (los cuales se las arreglaron para entrar en palacio, un día), ha estado diciéndole a la gente que viene de Hadalandia, y que el rector murió allí. Yo quería que el vicerrector lo interrogara pero, por desgracia, milady y él siempre se encontraban fuera dando un paseo cuando aparecía el bufón. Sí, ¡se ha dado por muerto al rector! –Y las mejillas del anciano se vieron surcadas por más lágrimas.”
“Quería hacer que todos los habitantes de Exotilandia fuesen el doble de ricos que antes para así aumentar la popularidad del nuevo Gobierno. El problema era que casi no había dinero en el tesoro público para hacerlo. De modo que yo sugerí que podía conseguirlo doblando el valor de cada moneda y billete de Exotilandia. Es la solución más sencilla posible. ¡Me extraña que a nadie se le ocurriese antes! Nunca se vio un alborozo tan generalizado. Las tiendas están repletas de gente de sol a sol. ¡Todo el mundo compra de todo!”
—¿Cómo de lejos queda Exotilandia? –inquirí, para cambiar de tema.
—A unos 5 días de marcha, pero uno debe regresar cada cierto tiempo. Como profesor de la corte, he de estar en todo momento con el príncipe Uggug, ¿comprende? La emperatriz se pondría furiosa si lo dejara solo, aunque fuera únicamente por una hora.
—Pero, sin duda, cada vez que viene aquí se ausenta durante 10 días como mínimo, ¿no es cierto?
—¡Oh, más aún! –exclamó el profesor–. Una quincena, en ocasiones. Pero, naturalmente, tomo nota de la hora exacta de mi salida ¡para poder hacer retroceder el tiempo de la corte a ese mismo instante!
—Perdone –dije yo–. No comprendo.
Sin contestar, el profesor extrajo de su bolsillo un reloj de oro cuadrado, con 6 u 8 manecillas, y lo sostuvo en el aire para que yo lo inspeccionara.
—Esto –empezó– es un reloj exotilandés…
—Debí haberlo supuesto.
—…que posee la peculiar propiedad de que, en vez de marchar con el tiempo, es este el que marcha con el reloj. Confío en que ahora me haya entendido.
—Apenas –admití.
—Permita que le explique. Si no se manipula, sigue su propio ritmo. El tiempo no le afecta.
—He conocido relojes así –observé.
“Hacerlo hacia delante, sobrepasando la hora real, es imposible, pero puedo moverlas hasta un mes para atrás: ese es el límite.Y entonces uno encuentra que todos los acontecimientos se repiten de nuevo, con cualquier alteración que la experiencia pueda sugerir.”
“No lo pruebe ahora. Le prestaré el reloj unos cuantos días para que pueda divertirse haciendo experimentos.”
“«¡Ángel adorable! –pensé–. ¿Cómo voy a conseguir que tu mente inocente comprenda la idea del ‘deporte’ de la caza?» Y mientras observábamos, cogidos de la mano, la liebre muerta, de pie frente a ella, traté de explicar el concepto con palabras que ella pudiese entender.”
—Pero si a los hombres les gustan las liebres, ¿por qué… por qué…? –la voz le temblaba y sus preciosos ojos estaban inundados de lágrimas.
—Mucho me temo que no les gustan, querida niña.
—A todos los niños les encantan –señaló Silvia–. Y a todas las damas.
—Siento decirlo, pero incluso algunas damas van en ocasiones de cacería.
Silvia se estremeció.
—¡Oh, no, las damas no! –suplicó de corazón–. ¡Lady Muriel no!
—No, ella nunca lo hace, estoy convencido… pero esta es una visión demasiado triste para ti, querida. Probemos a buscar alguna…
Pero Silvia aún no estaba satisfecha. En un tono solemne y apagado, con la cabeza inclinada y las manos unidas, formuló su pregunta final:
—¿Ama Dios a las liebres?
—¡Sí! –respondí yo–. ¡De eso no me cabe duda! Ama a todas las criaturas vivientes. Hasta a los hombres que cometen pecados. ¡Cómo no va a amar a los animales, que son incapaces de ello!
—No sé qué significa «pecado» –declaró Silvia. Y yo no traté de explicárselo.
—Ven, mi niña –dije, intentando alejarla de allí–. Dile adiós a la pobre liebre y vayamos a buscar moras.
—En tal caso –observó Silvia–, creo que la patata tendría todo el derecho a preguntarle a usted su peso. ¡Puedo imaginarme sin problemas una patata Jersey Royal de calidad verdaderamente superior rehusando discutir con alguien que pese menos de 95 kilos!
Con un gran esfuerzo recuperé el hilo de mis pensamientos.
—¡Qué rápido empezamos a desvariar! –observé.
“«¡Y toda esa extraña aventura –pensé– ha ocupado el espacio de una sola coma en el discurso de lady Muriel! ¡Una única coma, para la cual los gramáticos nos dicen que ‘contemos uno’!» (Tuve la certeza de que el profesor había hecho retroceder amablemente el tiempo para mí hasta el punto exacto en que me había quedado dormido.)
Cuando, unos minutos después, abandonamos la casa, el primer comentario de Arthur fue sin duda uno extraño.
—Hemos pasado ahí sólo 20 minutos –señaló– y no he hecho otra cosa que escuchar tu conversación con lady Muriel, y sin embargo, de algún modo, ¡me siento exactamente como si hubiese estado hablando con ella durante por lo menos 1 hora!”
“Pero tenía demasiado aprecio por mi propia reputación de persona cuerda como para atreverme a explicar lo que había sucedido.”
—Llegará en el último tren –anunció en el tono de quien está continuando una conversación en vez de empezando otra.
—¿Te refieres al capitán Lindon?
—Sí, el capitán Lindon –asintió Arthur–. Obvié su nombre porque me pareció que estábamos hablando de él. El earl me dijo que llega esta noche, aunque mañana es el día en que sabrá si le conceden el ascenso que está esperando. Me extraña que no se quede un día más en la ciudad para enterarse del resultado, si es que realmente le preocupa tanto como piensa el earl.
—Es un hombre magnífico –reconoció Arthur–, pero confieso que las noticias serían buenas, para mí, ¡si recibiera su ascenso y su orden de incorporación a filas al mismo tiempo! Le deseo toda la felicidad del mundo… con una excepción. ¡Buenas noches! –Habíamos llegado a casa para entonces–. Esta noche no soy una buena compañía… es mejor que esté solo.
—¿Quiere unírsenos? –me propuso el earl, después de un intercambio de saludos con él, lady Muriel y el capitán Lindon–. Este joven inquieto está esperando un telegrama y vamos a la estación para recogerlo.
—También hay una mujer inquieta implicada –añadió lady Muriel.
—Eso se sobreentiende, hija mía –contestó su padre–. ¡Las mujeres nunca están tranquilas!
—Para una generosa apreciación de las mejores cualidades de uno mismo –apuntó excelentemente la hija–, no hay nada como un padre, ¿no es cierto, Eric?
—Los primos no participan en ello –comentó este, y entonces, de algún modo, la conversación pasó a dos «duólogos», tomando los jóvenes la delantera, con los 2 hombres de mayor edad siguiéndolos a un paso menos ansioso.
—¿Y cuándo volveremos a ver a sus pequeños amigos? –preguntó el earl–. Son unos niños singularmente cautivadores.
—Estaré encantado de traerlos, cuando pueda –respondí–. Pero yo mismo desconozco cuándo tendré ocasión de verlos otra vez.
—No voy a interrogarle –declaró el earl–, pero no hay nada de malo en mencionar que ¡a Muriel sencillamente le atormenta la curiosidad! Conocemos a la mayor parte de la gente de los alrededores y ella ha estado tratando de adivinar sin éxito en qué casa podrían estar alojándose.
—Tal vez algún día pueda arrojar un poco de luz al respecto, pero de momento…
—Gracias. Tendrá que sobrellevarlo lo mejor que pueda. Le diré que es una gran oportunidad para practicar la paciencia. Pero le cuesta verlo desde ese punto de vista. ¡Vaya, ahí están los niños!
Sí que lo estaban; esperaban (-nos, al parecer) en unas escaleras que permitían salvar una cerca, lo cual no podían haber hecho más que escasos momentos antes, pues lady Muriel y su primo habían pasado por delante de ella sin verlos.
—La visión que alberga inicialmente un niño de la vida –comentó el earl, con esa encantadora y triste sonrisa tan suya– es que es un periodo que ha de dedicarse a la acumulación de posesiones que puedan llevar encima. Esa visión se modifica con los años.
“Pero el amable anciano no era alguien con quien un niño, ya fuera humano o feérico, pudiera estar cohibido durante mucho tiempo, y al poco ella ya había cambiado mi mano por la suya, permaneciendo únicamente Bruno fiel a su primer amigo. Alcanzamos a la otra pareja justo cuando llegaba a la estación, y tanto lady Muriel como Eric saludaron a los niños como si los conocieran de toda la vida, este último diciendo:
—¿Así que llegasteis a Babilonia alumbrándoos sólo con velas, después de todo?”
—¿Qué? ¿Los conoces, Eric? –exclamó–. ¡Este misterio crece cada día más!
—Entonces debemos andar por el tercer acto –observó Eric–. No esperarás que el misterio se resuelva antes de que llegue el quinto, ¿no?
“…Escenario: un andén del ferrocarril. Se apagan las luces. Entra el príncipe (disfrazado, por supuesto) y su fiel criado. Este es el príncipe… –dijo cogiendo la mano de Bruno–. ¡Y aquí está su humilde sirviente! ¿Qué es lo que ordena a continuación su alteza real? –Y dedicó una reverencia de aires profundamente cortesanos a su desconcertado amiguito.
—¡Tú no eres un sidviente! –exclamó Bruno desdeñoso–. ¡Eres un cabellero!”
“¡Cuarto acto! –proclamó, con un repentino cambio de tono–. Se encienden las luces. Luces rojas y verdes. Se escucha un lejano retumbar. ¡Entra un tren de pasajeros!”
—¿Alguna vez ha convertido la vida real en una obra dramática? –dijo el earl–. Pruebe a hacerlo ahora. A menudo me entretengo así. Considere este andén nuestro escenario. Hay buenas entradas y salidas a ambos lados, ¿ve? Un excelente decorado de fondo: una locomotora real que se desplaza arriba y abajo. Todo este bullicio, y la gente que va de acá para allá, ¡han tenido que requerir un cuidadoso ensayo! ¡Con qué naturalidad actúan! ¡Sin mirar ni un instante al público! Y los grupos son siempre totalmente nuevos, ¿se da cuenta? ¡Nada de repeticiones!
Tan pronto como empecé a asimilar aquel punto de vista, me pareció realmente admirable. Incluso un mozo que pasaba, con una carretilla llena de equipaje, daba tal impresión de realismo que uno sentía la tentación de aplaudir. Tras él apareció una madre enfadada, con el rostro encendido, arrastrando a 2 niños que chillaban, y llamando a alguien que iba detrás: «¡John! ¡Venga!». Entra John, muy sumiso, muy callado, y cargado de paquetes. Y detrás de él, a su vez, venía una asustada y joven niñera, la cual llevaba en brazos a un rechoncho bebé, que también chillaba. Todos los niños lo hacían.
—¡Un estupendo detalle de la interpretación! –dijo el anciano en un aparte–. ¿Se ha percatado de la expresión aterrorizada de la niñera? ¡Era sencillamente perfecta!
—Ha dado usted con un filón completamente nuevo –aseguré–. Para la mayoría de nosotros la vida y sus placeres se asemejan a una mina que se halla prácticamente agotada.
—¡Ya lo ve! –exclamó el earl–. Para cualquiera con verdadero instinto dramático, ¡sólo ha acabado el preludio! Lo bueno aún está por venir. Uno va al teatro, paga los 10 chelines de una butaca, ¿y qué recibe por su dinero? Quizá se trate de un diálogo entre un par de granjeros, poco naturales con sus exageradamente caricaturescos atuendos de granjeros, menos naturales aún en sus forzados gestos y poses, y nada naturales en absoluto en sus intentos por transmitir jovialidad y espontaneidad al hablar. Vaya en cambio a sentarse a un vagón de tren de 3ª clase, ¡y tendrá el mismo diálogo, pero real como la vida misma! Asientos de 1ª fila, sin orquesta que obstruya la visión… ¡y gratis!
—Me pregunto si Shakespeare tenía eso en mente –cavilé en voz alta– cuando escribió: «El mundo entero es un escenario».
“La vida es, desde luego, un drama; uno con pocos bises… ¡y ningún buqué! –añadió en tono soñador–. ¡Nos pasamos media vida lamentándonos de las cosas que hicimos en la otra mitad!
»Y el secreto para disfrutar de ella –prosiguió, recuperando el tono alegre– ¡es la intensidad!
—Pero no en el sentido esteticista moderno, imagino. Como esa joven dama, en Punch,¹ que abre una conversación diciendo:
«¿Es usted intenso?».”
¹ “Punch, or The London Charivari was a British weekly magazine of humour and satire established in 1841 by Henry Mayhew and wood-engraver Ebenezer Landells. Historically, it was most influential in the 1840s and 1850s, when it helped to coin the term “cartoon” in its modern sense as a humorous illustration. From 1850, John Tenniel [ilustrador de Alice no País…] was the chief cartoon artist at the magazine for over 50 years. § After the 1940s, when its circulation peaked, it went into a long decline, closing in 1992. It was revived in 1996, but closed again in 2002.” “the term ‘cartoon’ then meant a finished preliminary sketch on a large piece of cardboard, or cartone in Italian. Punch humorously appropriated the term to refer to its political cartoons, and the popularity of the Punch cartoons led to the term’s widespread use.” “Punch enjoyed an audience including Elizabeth Barrett, Robert Browning, Thomas Carlyle, Edward FitzGerald, Charlotte Brontë, Queen Victoria, Prince Albert, Ralph Waldo Emerson, Emily Dickinson, Herman Melville, Henry Wadsworth Longfellow, and James Russell Lowell.”
“Supongamos que A y B están leyendo la misma novela mediocre, sacada de una biblioteca pública. A nunca se preocupa por comprender al cien por cien las relaciones entre los personajes, de las que tal vez dependa todo el interés de la historia; se «salta» todas las descripciones del escenario y todos los pasajes que le parecen relativamente aburridos; a los que sí lee, ni siquiera les dedica una atención somera; sigue con el libro –por el simple deseo de terminar y encontrar otra ocupación– horas después de cuando debería haberlo dejado; ¡y llega al «finis» en un estado de completo hastío y depresión! B se entrega en cuerpo y alma al acto, siguiendo el principio de que «cualquier cosa digna de hacerse, es digna de hacerse bien»; domina las genealogías; evoca imágenes en su mente al tiempo que lee sobre el escenario; lo mejor de todo, cierra con resolución el libro al final de algún capítulo, mientras su interés se halla aún en su punto álgido, y traslada su atención a otras cuestiones; de modo que, la próxima vez que se permite una hora de lectura, es como si un hombre hambriento se sentase a cenar; y, cuando acaba el libro, ¡regresa a su quehacer cotidiano como «un gigante renovado»!”
“nunca descubre que es basura, sino que se deja llevar hasta el final, intentando creerse que está disfrutando. B cierra el libro con suavidad, tras haber leído una docena de páginas, se dirige a la biblioteca ¡y lo cambia por uno mejor! Dispongo aún de otra teoría para aumentar el goce vital… es decir, si no he agotado su paciencia. Temo que me considere una vieja cotorra.”
—La teoría es que deberíamos experimentar nuestros placeres con rapidez, y nuestros dolores con lentitud.
—Pero ¿por qué? Yo lo habría dicho al revés.
—Al experimentar el dolor artificial, el cual puede ser tan banal como desee, de manera lenta, el resultado es que, cuando sobreviene un dolor real, por muy severo que este sea, lo único que necesita hacer es dejar que avance a su ritmo normal, ¡y cesará en un momento!
—Muy cierto –convine–, pero ¿qué pasa con el placer?
—Pues que, al experimentarlo rápidamente, puede introducir una cantidad mucho mayor en la vida. Se requieren 3 horas y media para escuchar y disfrutar de una ópera. Imagine que fuera capaz de asimilarla, y gozar de ella, en media hora. ¡Entonces puedo disfrutar de 7 óperas en el tiempo que usted tarda en escuchar una!
—He oído tocar un aire –declaró–, en modo alguno corto, de principio a fin, con variaciones y todo, ¡en 3 segundos!
—¿Cuándo? ¿Y cómo? –inquirí ansiosamente, con cierta sensación de estar soñando otra vez.
—Lo hizo una pequeña caja de música –respondió con voz suave–. Tras haberle dado cuerda, el regulador, o alguna cosa, se rompió, y la canción entera sonó, como he dicho, en unos 3 segundos. ¡Pero tuvo necesariamente que tocar todas las notas, ya sabe!
—¿Y le gustó? –pregunté, con toda la severidad de un abogado en el turno de repreguntas.
—¡Pues no! –confesó de forma sincera–. ¡Pero en aquel momento, sabe usted, no tenía el oído educado para apreciar ese tipo de música!
“un improvisado drama teatral creado especialmente para mí.”
“Hasta donde uno podía tomar nota del tiempo en un momento de horror como aquel, disponía de unos 10 claros segundos, antes de que el expreso llegara a su altura, para cruzar las vías y coger a Bruno. Si lo logró o no, fue algo totalmente imposible de adivinar; lo siguiente que se supo fue que el expreso había pasado, y que, con resultado de vida o muerte, todo había acabado. Cuando la nube de polvo se hubo despejado, y la vía se aclaró de nuevo a nuestros ojos, vimos con el corazón agradecido que el niño y su salvador estaban ilesos.
—¡Todo bien! –nos dijo Eric en voz alta y alegre, mientras cruzaba otra vez la vía–. ¡Está más asustado que lastimado!”
“No había llegado ningún telegrama.”
“¿No sería mejor que os devolviera el reloj del profesor? Cuando seáis hadas os resultará demasiado grande para cargar con él; ya sabéis.”
—¡Oh, qué va! –dijo–. Cuando nos hagamos pequeños, ¡el deloj también lo hará!
—E irá directamente a las manos del profesor –agregó Silvia– y usted ya no podrá usarlo más, así que más vale que lo haga ahora cuanto pueda. Debemos menguar cuando se ponga el sol. ¡Adiós!
—¡Y sólo faltan 2 horas para el crepúsculo! –dije mientras reanudaba mi paseo–. ¡He de aprovechar el tiempo!
“Y por fin se fue cada una por su lado. Esperé hasta que se hubieron alejado unos 20 metros la una de la otra, y entonces atrasé el reloj 1 minuto. El instantáneo cambio fue asombroso: las 2 figuras parecieron regresar al momento a donde se encontraban antes.”
“y así el diálogo entero se repitió, y, cuando se separaron por 2ª vez, las dejé seguir sus diversos caminos, y continué con mi paseo por el pueblo.”
“justo cuando el pensamiento me pasaba por la mente, el accidente que estaba imaginando se produjo. Había una pequeña carreta parada en la puerta del «Gran Almacén de Sombreros de Señora» de Elveston, cargada de cajas de cartón que el carretero estaba transportando al interior de la tienda, una a una. Una de las cajas se había caído al suelo, pero casi no parecía que mereciera la pena acercarse a recogerla, ya que el hombre regresaría en un momento. Sin embargo, en aquel instante, un joven montado en bicicleta dobló bruscamente la esquina de la calle y, al tratar de esquivar la caja, volcó su máquina, y resultó arrojado de cabeza contra la rueda de la carreta. El carretero corrió a socorrerlo, y él y yo levantamos al infortunado ciclista y lo llevamos adentro. Tenía un corte en la cabeza por el que sangraba, y una de sus rodillas parecía herida de gravedad; se decidió, pues, sin demora que lo mejor era trasladarlo de inmediato a la consulta del único traumatólogo del lugar. Ayudé a vaciar la carreta y a colocar en ella unas cuantas almohadas que sirvieran de lecho al herido, y fue únicamente cuando el carretero hubo subido a su asiento en el vehículo, y se disponía a salir para la consulta, que me acordé del extraño poder que poseía para deshacer todo aquel daño.
«¡Mi momento ha llegado!», me dije, mientras hacía retroceder la manecilla del reloj, y vi, casi sin sorprenderme esta vez, que todo regresaba al lugar que ocupaba en el instante crítico en que me percaté inicialmente de la caja caída.
Sin perder 1 segundo, salí a la calle, recogí la caja y la devolví a la carreta; un momento después la bicicleta había torcido la esquina, pasado la carreta sin impedimento ni obstáculo, y desaparecido al poco en la distancia, en una nube de polvo.
«¡El delicioso poder de la magia! –pensé–. ¡Qué cantidad de sufrimiento humano he… no sólo aliviado, sino aniquilado, en realidad!» Y me quedé observando la descarga de la carreta, con una agradable sensación de virtud consciente y el reloj mágico aún abierto en mi mano, pues albergaba curiosidad por saber qué pasaría cuando llegáramos nuevamente al momento exacto en que había hecho retroceder la manecilla.
El resultado fue uno que, de haber meditado la cuestión con detenimiento, podría haber previsto: al alcanzar la marca la manecilla del reloj, la carreta –que ya se había alejado y se encontraba para entonces a media calle de distancia– reapareció de nuevo frente a la puerta, y en el momento de echar a rodar, a la vez que –¡oh, desdichado sueño dorado de universal benevolencia que había deslumbrado mi fantasiosa imaginación!– el joven lesionado retornó a su abultado lecho de almohadas, con su pálida faz contraída en una rígida expresión que revelaba un dolor soportado con entereza.
«¡Oh, reloj mágico, te burlas de mí! –dije para mis adentros, en tanto salía del pueblo y enfilaba el camino hacia la costa que conducía a mi alojamiento–. El bien que creí poder hacer se ha desvanecido como un sueño; ¡el mal de este mundo problemático es la única realidad duradera!»”
“Se preguntarían inicialmente quién era yo, después me verían, luego bajarían la cabeza y dejarían de pensar en mí. Y en cuanto a echarme de manera violenta, tal suceso habría de tener lugar necesariamente al principio, en este caso. «De modo que si al final logro entrar –me dije–, ¡todo riesgo de expulsión habrá desaparecido!»
El carlino se sentó sobre sus cuartos traseros, como medida de precaución, a mi paso; pero como no presté atención alguna al tesoro que estaba guardando, me dejó ir sin lanzar siquiera un ladrido de amonestación. «Quien se adueña de mi vida –parecía estar diciéndose, entre sibilantes resuellos– empuña la correa. ¡Pero quien se adueña del Daily Telegraph…!» Mas no me enfrenté a esta espantosa contingencia.” Jornal ainda em operação.
“Los presentes en el salón –entré directamente, ¿entiendes?, sin llamar al timbre ni dar aviso alguno de mi acercamiento– eran 4 niñas sonrosadas y risueñas, de edades comprendidas entre los 14 y los 10 años, que aparentemente venían hacia la puerta (mas descubrí que, en realidad, estaban caminando hacia atrás), al tiempo que su madre, sentada junto al fuego con labores de aguja en el regazo, decía, justo en el momento de entrar yo en la habitación: «Ahora, niñas, podéis ir a abrigaros para salir de paseo».
Para mi total asombro –pues no me encontraba todavía acostumbrado a la acción del reloj– «todas las sonrisas cesaron» (utilizando las palabras de Browning) en las 4 bonitas caras, y las niñas sacaron piezas de labor, y se sentaron. Ninguna se percató en lo más mínimo de mi presencia, mientras yo acercaba una silla sin hacer ruido y me sentaba a observarlas.
Una vez desdobladas las costuras, y listas las 4 para empezar, su madre dijo: «¡Por fin habéis terminado! Podéis guardar vuestras labores, niñas». Pero estas hicieron caso omiso del comentario; por el contrario, se pusieron de inmediato a coser, si es que esa es la palabra apropiada para describir una operación que jamás antes había contemplado. Cada una de ellas enhebró su aguja con un corto cabo de hilo, unido a la labor, del que una fuerza invisible comenzó al instante a tirar, haciendo que atravesara la trama y arrastrara la aguja tras de sí; los hábiles dedos de la pequeña costurera cogieron esta en el otro lado, pero sólo para soltarla enseguida, una vez más.” As 4 Moiras & Penélope
“Y de este modo procedió el trabajo, deshaciéndose a un ritmo constante, y con los vestiditos cuidadosamente cosidos, o lo que quiera que fuesen, apedazándose sin parar. De tanto en tanto, una de las niñas hacía un alto cuando el hilo recuperado se volvía incómodamente largo, lo enrollaba en un carrete y recomenzaba con otro pequeño cabo.
Finalmente la labor quedó reducida por completo a retazos, que guardaron, y la dama se dirigió en primer lugar a la habitación de al lado, caminando de espaldas, y haciendo el siguiente comentario descabellado: «Todavía no, queridas: primero debemos terminar con la costura».” Pero por que no hablaba al revés??
“Tras lo cual, no me sorprendió ver a las niñas brincando de espaldas tras ella, a la vez que exclamaban: «¡Oh, madre, hace un día precioso para salir a pasear!».” Quadro lynchiano.
“¿Has visto a gente comer tarta de cerezas, y dejar cada cierto tiempo de manera cuidadosa un hueso del fruto en los platos desde sus labios? Pues algo parecido tuvo lugar durante aquel terrorífico –¿o debería decir tal vez «fantasmagórico»?– banquete. Un tenedor vacío se eleva a los labios, donde recibe una pieza bien cortada de carnero, y rápidamente la lleva hasta el plato, donde se une en el acto y por sí sola a la carne que ya se encuentra allí. Al poco pasaron uno de los platos, provisto de una tajada entera de carnero y dos patatas, al caballero que presidía la mesa, que restituyó en silencio la tajada a la pata, y las patatas a la fuente.
Su conversación resultó ser, si es que ello era posible, más desconcertante que su forma de cenar. Comenzó cuando la muchacha más joven se dirigió, repentinamente y sin provocación previa, a su hermana mayor:
—¡Oh, qué cuentista eres! –dijo.
Yo esperaba una contestación desabrida por parte de la hermana pero, en cambio, esta se giró riendo hacia su padre, y dijo, en un estentóreo susurro teatral:
—¡Ser ella la novia!
El padre, para cumplir con su parte en una conversación que parecía propia únicamente de lunáticos, contestó:
—Susúrramelo al oído, cariño.
Pero ella, en vez de susurrar (aquellas niñas no hacían nunca lo que se les decía), repuso, en voz muy alta:
—¡Claro que no! ¡Todo el mundo sabe lo que quiere Dolly!
Y la pequeña Dolly se encogió de hombros, y dijo, terriblemente malhumorada:
—¡Vamos, padre, no te metas conmigo! ¡Ya sabes que no quiero ser dama de honor de nadie!
—Y la cuarta será Dolly –fue la estúpida respuesta de su padre.
Aquí metió baza la número tres:
—¡Oh, pero ya lo han decidido, querida madre, en serio! Mary nos lo contó todo. Será 4 semanas después del próximo martes… y vendrán 3 de sus primas para hacer de damas de honor… y…
—¡A ella no se le olvida, Minnie! –contestó la madre entre risas–. ¡Ojalá decidieran casarse de una vez! No me gustan los noviazgos largos.
Y Minnie cerró la conversación –si es que una serie tan caótica de comentarios merece tal nombre– con:
—¡Imagínate! Esta mañana pasamos por delante de Cedars, justo cuando Mary Davenant se estaba despidiendo desde la verja del señor… no recuerdo su nombre. Nosotras por supuesto miramos hacia otro lado.
Para entonces me encontraba tan desesperadamente confuso que dejé de escuchar y seguí la cena hasta la cocina. ¿Pero qué necesidad, oh, lector hipercrítico, decidido a no creer ni un punto de esta rara aventura, hay de relatarte cómo el carnero se colocó en el asador, y se desasó lentamente; cómo las patatas se envolvieron en sus pieles, y se entregaron al jardinero para que las
enterrara; cómo, cuando el carnero llegó finalmente a estar crudo, el fuego, que había pasado gradualmente de un infierno al rojo a una simple llama, se extinguió tan bruscamente que el cocinero tuvo apenas el tiempo justo para atrapar su última chispa en el extremo de una cerilla; o cómo la criada, tras haber retirado el carnero del asador, se lo llevó (caminando de espaldas, por supuesto) fuera de la casa, al encuentro del carnicero, el cual venía (también de espaldas) por el camino?
Cuanto más vueltas le daba a aquella extraña aventura, más se enredaba sin solución el misterio, y supuso un verdadero alivio encontrar a Arthur en el camino y convencerlo de que me acompañara al Hall para averiguar qué noticias había traído el telégrafo.”
—¡Entonces el telegrama ha llegado! –afirmé.
—¿No lo sabía? Oh, lo había olvidado: llegó después de abandonar usted la estación. Sí, todo ha salido bien; Eric ha recibido su ascenso y, como ya ha hablado con Muriel de sus planes, tiene asuntos en la ciudad que debe atender sin demora.
“He decidido aceptar un empleo en la India que me han ofrecido. Allí, en el extranjero, supongo que encontraré un motivo por el que vivir; ahora mismo soy incapaz de ver ninguno.”
—¿Cuánto lo siente exactamente? –pregunté, con picardía.
—Tdes cuadtos de metdo –respondió Bruno con absoluta solemnidad–. Y yo también lo sento un poquitín –agregó, cerrando los ojos para no ver su propia sonrisa.
—No se dice «lo ponimos» –apuntó Silvia con gran seriedad.
—Bueno, entonces «le ponimos» –saltó su hermano–. ¡Nunca logdo decoddad cuándo hay que usad «lo» y cuándo «le»!
—Dejad que os ayude a buscarlo –me ofrecí. De modo que Silvia y yo iniciamos una «expedición» entre todas las flores, pero no dimos con ningún bebé.
—¿Y qué tendrá lugar en el teatro? –indagué yo.
—Primero celebran su banquete de cumpleaños –explicó Silvia–; después Bruno
representa unos fragmentos de Shakespeare, y luego les cuenta una historia.
—No, sólo los interpretará –aclaró Silvia–. No se sabe prácticamente el texto de ninguno. Cuando veo cómo va vestido, tengo que decirles a las ranas de qué personaje se trata. ¡Siempre están impacientes por adivinarlo! ¿No oye cómo preguntan todas «¿Cuál? ¿Cuál?»? –Y así era: hasta que Silvia lo explicó, parecía que únicamente croaban, pero ahora era capaz de distinguir el «¿Cuad? ¿Cuad?» con total claridad.
—¿Pero por qué tratan de adivinarlo antes de verlo?
—No lo sé –confesó Silvia–, pero siempre lo hacen. ¡A veces empiezan a hacer conjeturas semanas y semanas antes del día!
O relógio do protagonista ainda estará invertendo o tempo?!
“Y no tenía sentido, según Bruno, representar un «fragmento» de Shakespeare cuando no había nadie que lo viera (como ves, no me contó a mí como alguien).”
—¡Hamlet! –anunció de pronto la voz clara y dulce que yo tan bien conocía. El croar cesó por completo y al instante, y yo me giré hacia el escenario, con cierta curiosidad por ver cuáles eran las ideas de Bruno respecto al comportamiento del personaje más importante de Shakespeare.
Según este eminente intérprete del drama, Hamlet vestía una corta capa negra (que empleaba principalmente para taparse el rostro, como si sufriera un fuerte dolor de muelas), y caminaba separando mucho hacia fuera las puntas de los pies.
—¡Sed o no sed! –comentó Hamlet en tono alegre, y después hizo el pino varias veces, provocando la caída de la capa en plena actuación.
Me sentí un poco decepcionado; la concepción que tenía Bruno del papel me parecía falta de solemnidad.
—¿No recitará más del soliloquio? –le susurré a Silvia.
—Creo que no –me contestó esta de igual forma–. Suele hacer el pino cuando no se sabe más partes del texto.
Bruno había resuelto entretanto la cuestión desapareciendo del escenario, y las ranas se pusieron inmediatamente a preguntar el nombre del próximo personaje.
—¡Lo sabréis cuando lo veáis! –gritó Silvia, al tiempo que recolocaba a 2 o 3 ranitas que se las habían arreglado para ponerse de espaldas al escenario–. ¡Macbeth! –añadió, al reaparecer Bruno.
Macbeth se había envuelto en algo que le pasaba por encima de un hombro y bajo el brazo contrario, y que se suponía que era, creo, un plaid(*) escocés. Sujetaba una espina de planta en la mano, con el brazo totalmente extendido, como si le diera un poco de miedo.
(*) Prenda tradicional escocesa, usada especialmente como uniforme de gala por militares y gaiteros, consistente en una pieza alargada de tartán que se envuelve alrededor del cuerpo. Se lleva por lo general en combinación con el conocido kilt, con el cual debe ir siempre a juego. [N. del T.]
—¿Es esto una daga? –inquirió Macbeth, con tono de cierta perplejidad, y al momento las ranas elevaron un coro de respuesta: «¡No! ¡No!» (a esas alturas yo ya había aprendido a entender perfectamente su croar).
—¡Es una daga! –proclamó Silvia con voz autoritaria–. ¡Callad! –El croar cesó en el acto.
Shakespeare no nos ha dicho, hasta donde yo sé, que Macbeth presentara en su vida privada ningún hábito de tal excentricidad como hacer el pino, pero Bruno lo consideraba claramente una parte absolutamente esencial del personaje, y abandonó el escenario realizando una serie de volteretas. No obstante, regresó otra vez momentos después, con el extremo de un mechón de lana (dejado probablemente en la espina por una oveja que pasaba) bajo el mentón, el cual constituía una magnífica barba, que le llegaba prácticamente hasta los pies.
—¡Shylock! –anunció Silvia–. ¡No, disculpad! –rectificó a toda prisa–. ¡El rey Lear! No me había fijado en la corona. (Bruno se había provisto ingeniosamente de una, que le quedaba perfectamente, cortando la parte central de un diente de león a fin de dejar hueco para su cabeza.)
El rey Lear se cruzó de brazos (poniendo su barba en peligro inminente) y dijo, en un suave tono explicativo:
—¡Sí, un dey de los pies a la cabeza! –Y a continuación calló, como si se hallara considerando cuál podía ser el mejor modo de demostrar esto. Y aquí, con todo el respeto posible a Bruno como crítico shakespeariano, debo expresar mi opinión de que no era intención del poeta que sus 3 grandes héroes trágicos tuviesen unos hábitos personales tan extrañamente parecidos;al igual que tampoco creo que hubiera aceptado la facultad de hacer el pino como prueba alguna de pertenencia a una casta real. Mas, al parecer, el rey Lear, tras una profunda reflexión, fue incapaz de dar con ningún otro argumento con el que probar su realeza, y, como aquel era el último de los «fragmentos» de Shakespeare («Nunca hacemos más de tres», explicó Silvia en susurros), Bruno ofreció al público una larguísima serie de piruetas antes de retirarse por fin, dejando a las extasiadas ranas en un clamor conjunto de «¡Otro! ¡Otro!» que supongo constituía su modo de pedir un bis. Pero Bruno no resurgió en escena hasta que llegó el momento de contar la historia.
Cuando al fin apareció caracterizado de sí mismo, noté un sensible cambio en su comportamiento. No ejecutó más volteretas. Obviamente opinaba que, por muy apropiado que pudiera ser el hábito de hacer el pino para don nadies como Hamlet y el rey Lear, Bruno jamás sacrificaría su dignidad hasta tal punto.
—Había una vez un datón y un cocoddilo y un hombde y una cabda y un león. –Nunca antes había escuchado introducir el dramatis personae en una avalancha tan temerariamente atropellada, y esta me dejó sin aliento alguno. Hasta Silvia se quedó boquiabierta, y dejó que 3 de las ranas, que parecían haber empezado a cansarse del espectáculo, se metieran de un brinco en la zanja sin realizar ningún intento de detenerlas.
»Y el datón encontdó un zapato, y cdeyó que era una tdampa para datones. Así que se metió dentdo, y se quedó allí muchósimo tiempo. —¿Y por qué se quedó? –preguntó Silvia. Su función parecía ser muy similar a la del coro en una obra griega: tenía que espolear al orador, y hacerlo hablar mediante una serie de preguntas inteligentes.
—Podque cdeía que no podía salid de allí –explicó Bruno–. Era un datón listo. ¡Sabía que no podía escapad de las tdampas!
Al parecer, tenían los niños su tamaño “normal” de hada en esta escena… Pues, ¿qué diente-de-león va a ser corona para una cabeza, no fuera una microcabeza, mismo la de un niñito?
—Pero ¿por qué entró en un principio? –insistió Silvia.
—…y saltó y saltó –continuó Bruno, ignorando la pregunta–, y pod fin logdó salid. Entonces miró la etiqueta del zapato. Y en ella aparecía el nombde del hombde, pod lo que supo que no era su zapato.
—¿Había pensado que lo era? –atacó de nuevo Silvia.
—¿No te he dicho ya que cdeía que era una tdampa para datones? –replicó el indignado orador–. Pod favod, hombde señod, ¿podería haced que Silvia pdestase atención? –Esto hizo callar a su hermana, que pasó a ser toda oídos; de hecho, ella y yo habíamos pasado a ser la práctica totalidad de la audiencia, pues las ranas no paraban de marcharse dando saltos, y apenas quedaban ya allí unas pocas.
»Así que el datón le dio al hombde su zapato. Y el hombde se puso a dad botes, podque sólo tenía uno, y tenía muchas ganas de encontdad el otdo.
En ese momento aventuré una pregunta:
—¿Te refieres a botes de alegría o a que iba a la pata coja?
—A las 2 cosas –dijo Bruno–. Y el hombde sacó a la cabda del saco. –«Pero no habías mencionado el saco antes», dije yo. «Ni lo volveré a haced», contestó Bruno–. Y le dijo a la cabda: «Te quedarás pod aquí hasta que yo vuelva». Y el hombde se fue y cayó en un pdofundo hoyo. Y la cabda dio vueltas y más vueltas. Y pasó bajo el ádbol. Y meneó la cola. Y levantó la vista hacia el ádbol. Y cantó una tdiste cancioncilla. ¡Nunca habéis oído una igual!
—¿Puedes cantarla, Bruno? –le pedí.
—Sí, puedo –respondió Bruno en el acto–. Pero no lo haré. Haría llorad a Silvia…
—¡No es cierto! –lo cortó Silvia con gran indignación–. ¡Y no me creo para nada que la cabra la cantara!
—¡Sí que lo hizo! –aseguró Bruno–. La cantó entera. Yo vi cómo la cantaba con su ladga badba…
—No pudo cantarla con su barba –interpuse yo, esperando pillar al pequeñajo–: una barba no es una voz.
—¡Pues entonces no poderías pasead con Silvia! –exclamó Bruno en tono triunfal–. ¡Ella no es un pie!
Decidí que lo mejor era seguir el ejemplo de Silvia y guardar silencio por un rato. Bruno era demasiado listo para nosotros.
—Y cuando tedminó de cantad la canción, salió coriendo: en busca del hombde, ya sabéis. Y el cocoddilo fue detdás de ella, para moddedla, ¿entendéis? Y el datón siguió al cocoddilo.
—¿No iba corriendo el cocodrilo? –inquirió Silvia, que luego se dirigió a mí–: Los cocodrilos corren, ¿no?
Yo sugerí que lo correcto era decir que «se arrastran».
—No coría –aclaró Bruno– y no se arastdaba. Se movía con dificultad como un baúl de viaje. Y levantaba tantósimo la badbilla al caminad…
—¿Por qué lo hacía? –lo interrumpió Silvia nuevamente.
—¡Podque no le dolían las muelas! –espetó Bruno–. ¿Es que necesitas que lo esplique todo? Si le habieran dolido las muelas, naturalmente habdía ido con la cabeza baja, así, ¡y se la habdía envuelto en un montón de mantas calientes!
—Si hubiera tenido alguna –arguyó Silvia.
—¡Claro que tenía! –replicó su hermano–. ¿Acaso piensas que los cocoddilos salen a pasead sin mantas? Y fdunció el entdecejo. ¡Y a la cabda sus cejas le dieron muchósimo miedo!
“Así que el hombde saltó, y saltó, y finalmente consiguió salid del hoyo.”
“Silvia se quedó otra vez ligeramente boquiabierta por el asombro: aquel rápido salto de un personaje a otro de la historia la había dejado sin aliento.
—Y salió coriendo… en busca de la cabda, ya sabéis. Y oyó gduñid al león…”
—Los leones no gruñen –dijo Silvia.
—Este sí –afirmó Bruno–. Y tenía la boca gdande como un admario. Y en ella cabían un montón de cosas. Y el león pedsiguió al hombde… para comédselo, ¿sabéis? Y el datón coría detdás del león.
—Pero el ratón corría tras el cocodrilo –recordé yo–; ¡no podía perseguir a los dos!
Bruno dejó escapar un suspiro ante la falta de luces de su público, pero explicó de manera muy paciente:
—Sí que pedseguía a los dos: ¡podque iban en la misma dirección! Cogió pdimero al cocoddilo, y después no alcanzó al león. Y cuando cogió al cocoddilo, como tenía unas tenazas en el bolsillo, ¿qué cdeéis que hizo?
—No se me ocurre nada –reconoció Silvia.
—¡Nadie podería adivinadlo! –gritó Bruno con gran regocijo–. ¡Pues que le sacó el diente al cocoddilo!
—¿Qué diente? –me atreví a preguntar.
Pero no había manera de poner en apuros a Bruno.
—¡El diente con el que iba a modded a la cabda, pod supuesto!
—No podía estar seguro de que no lo iba a hacer –sostuve–, a no ser que le sacara todos los dientes.”
—¡Le… sacó… todos… los dientes!
—¿Y por qué se quedó esperando el cocodrilo a que se los sacaran? –planteó Silvia.
—No le quedó más demedio –sentenció Bruno.
Yo aventuré otra pregunta:
—¿Pero qué pasó con el hombre que dijo: «Puedes quedarte por aquí hasta que yo vuelva»?
—No dijo «puedes quedadte» –explicó Bruno–. Dijo «te quedarás». Igual que me dice Silvia: «Estudiarás tus leciones hasta las 12». ¡Oh, ojalá –añadió con un leve suspiro– Silvia dijera: «Puedes estudiad tus leciones»!
—¿Pero qué pasó con el hombre?
—Bueno, el león se alabanzó sobde él. Pero taddó tanto en caed que estuvo tdes semanas en el aire…
—¿Y se quedó el hombre esperando todo ese tiempo? –inquirí.
—¡Claro que no! –repuso Bruno, deslizándose de cabeza por el tallo de la dedalera hasta el suelo, pues la historia se acercaba claramente a su fin–. Vendió su casa e hizo las maletas, mientdas el león caía. Y se mudó a otda ciudad. Así que el león se comió al hombde equivocado.
Aquello era obviamente la moraleja; de manera que Silvia realizó su último anuncio a las ranas:
—¡La historia ha acabado! ¡Y de veras que no sé –agregó, en un aparte hacia mí– qué es lo que hemos de aprender de ella!
Yo tampoco lo tenía del todo claro, así que no sugerí nada, pero las ranas parecían bastante contentas, con moraleja o sin ella, y se limitaron a elevar en ronco coro «¡Adiós! ¡Adiós!» mientras se alejaban dando brincos.
“Lady Muriel se encontraba absolutamente radiante de felicidad: a la luz de aquella sonrisa, la tristeza no podía existir, e incluso Arthur recobró el buen ánimo ante ella, y, cuando lady Muriel comentó: «Como ve, estoy regando mis flores, aun cuando hoy es el día del sabbat», su voz casi mostró el viejo tono de alegría en su respuesta:
—Las obras piadosas se permiten incluso en sabbat. Pero hoy no lo es. El día del sabbat ya no existe.”
—¿Entonces usted permitiría a los niños jugar en domingo?
—Sin duda. ¿Por qué convertirlo en un día fastidioso para sus naturalezas inquietas?
“«¡Los domingos no debo jugar con mi muñeca! ¡Los domingos no debo cavar en el jardín!». ¡Pobre niña! ¡Desde luego tenía abundantes motivos para odiar el domingo!”
“Cuando, siendo niña, abría por primera vez los ojos en una mañana de domingo, una deprimente sensación de anticipación, que aparecía como muy tarde el viernes, culminaba. Sabía lo que me aguardaba, y mi deseo interior, por no decir expreso, era: «¡Ojalá fuera ya por la tarde!». No se trataba de un día de descanso, sino de lecturas, catecismos (el de Watts) y tratados sobre conversos, criadas piadosas y muertes edificantes de pecadores que salvaron su alma.
Desde primera hora debíamos aprender de memoria himnos y pasajes de las Escrituras hasta las 8 en punto, momento en que orábamos en familia, para después desayunar, de lo cual nunca me era posible disfrutar, en parte por el ayuno previo, y en parte por el terror a lo que aún me esperaba.
A las 9 comenzaba la escuela dominical, y me indignaba que me pusieran en clase con los niños del pueblo, además de preocuparme que, en caso de cometer alguna equivocación, me humillaran delante de ellos.
El servicio religioso era un verdadero desierto de Zin [Israel]. Yo deambulaba por él, e instalaba el tabernáculo de mis pensamientos en el forro del cuadrado banco de la familia, los revoltosos movimientos de mis hermanos pequeños y el horror de saber que, el lunes, tendría que escribir, de memoria, una recapitulación del improvisado e inconexo sermón, el cual podía tratar de cualquier cosa menos de lo que se le suponía, y que sería juzgada por el resultado.
A continuación teníamos un almuerzo frío a la 1 (los criados no trabajaban ese día), escuela dominical otra vez de 2 a 4, y oficio de tarde a las 6. Los tiempos muertos entre una cosa y otra eran quizá la prueba más dura de todas, debido a los esfuerzos que tenía que hacer para pecar menos de lo habitual, leyendo libros y sermones tan estériles como el mar Muerto.Tan sólo había un horizonte de esperanza durante todo el día, y ese era la «hora de dormir», ¡la cual nunca llegaba demasiado pronto!”
—El de que toda la naturaleza sigue unas leyes inmutables y ordenadas… la ciencia lo ha demostrado. De modo que pedirle a Dios que haga cualquier cosa (excepto cuando rezamos por bendiciones espirituales, por supuesto) es esperar un milagro, y no tenemos ningún derecho a hacer eso.
—Sí, pero ahí entra en juego el libre albedrío; puedo elegir esto o aquello, y Dios puede influir en mi decisión.
—¿De modo que no es usted fatalista?
—¡Oh, no! –exclamó ella con franqueza.
—…¿Está de acuerdo entonces con que puedo, por un acto de libre voluntad, mover esta taza –continuó, acompañando la palabra con la acción– en esta o esta otra dirección?
—Así es.
…Mi mano se mueve debido a que ciertas fuerzas (eléctricas, magnéticas o de cualquier tipo que la «fuerza nerviosa» pruebe ser) actúan sobre ella por medio de mi cerebro. El origen de esa fuerza nerviosa, almacenada en este órgano, podría atribuirse probablemente, en caso de que la ciencia estuviese completa, a fuerzas químicas con que la sangre provee al cerebro, y que en última instancia derivan de la comida que ingiero y del aire que respiro.
—¿Pero no sería eso fatalismo? ¿Dónde participa ahí el libre albedrío?
—En la elección de los nervios –contestó Arthur–. La fuerza nerviosa del cerebro puede fluir de forma igualmente natural por un nervio que por otro. Hace falta algo más que una ley natural inmutable para decidir qué nervio la transmitirá. Ese «algo» es el libre albedrío.
Los ojos de lady Muriel brillaron.
—«¿Instruirá al Todopoderoso quien con Él contiende?». ¿Negaremos nosotros, «el enjambre que nació al sol del mediodía», sintiendo en nuestro interior el poder de dirigir, hacia un sitio u otro, las fuerzas de la naturaleza (de la cual constituimos una parte tan insignificante), negaremos, en nuestra arrogancia sin límites, ese poder al Anciano de los Días? Diciendo a nuestro creador: «No pases de ahí. Fuiste el creador, ¡pero no puedes gobernar!»?
«Pues ¿cómo sabes tú, mujer, si salvarás a tu marido?»
I Corintios 7,16
“Oh, nunca una estrella
se perdió aquí: ¡se alzaba en la lejanía!
¡Mira al este, donde miles más habitan!
¿Qué avatar en su tierra Visnú tendría?”
—Robert Browning
– El oeste es la tumba apropiada para todo el pesar y los suspiros, para todos los errores y las insensateces del pasado; ¡para todas sus esperanzas marchitas y sus amores enterrados! ¡Del este llega una fuerza, una ambición, una esperanza, una vida y un amor renovados! ¡Mira al este! ¡Sí, mira al este!
Mira al este!
» ¡Que desaparezcan, con la noche, el recuerdo de un amor difunto, las hojas marchitas de una esperanza malograda y las enfermizas tribulaciones y los sombríos remordimientos que aturden las mejores energías del alma, y que surjan, creciendo, ascendiendo como una riada viviente, la determinación viril, la voluntad tenaz y la mirada a los cielos de la fe: el fundamento de toda esperanza, la evidencia de lo invisible!»
“Sueños, que eluden la comprensión del soñador;
manos rígidas, sobre el pecho de una difunta
madre, que nunca más devolverán con amor
los abrazos, ni tornarán ante el llanto en cuna;
de tales formas es mi deseo presentar
el relato que aquí acaba. ¡Deliciosa hada
que velas por aquel que vive para chincharte;
que quieres de corazón, que de broma regañas
al alegre y revoltoso Bruno! ¿Quién, al verte,
puede no amarte, preciosa, como lo hago yo?
¡Mi dulce Silvia, debemos decirnos adiós!”
* * *
[¡] Prefacio [!]
“Permítanme expresar aquí mi sincera gratitud hacia los muchos críticos que han reseñado, ya sea de manera favorable o desfavorable, el volumen anterior.” “Ambos han servido sin duda para que el libro fuese más conocido y han ayudado a que el público lector se formara sus opiniones de él. Permítanme asimismo asegurarles aquí que el que me haya abstenido prudentemente de leer cualquiera de sus críticas no se debe a que no sienta respeto alguno por ellas. Soy de la sólida opinión de que un autor haría muy bien en no leer recensiones de sus libros: las desfavorables casi con toda seguridad le harán enfadarse, y las favorables, engreírse; y ninguno de estos resultados es deseable.”El Dostoievski inglés!
“Me han llegado críticas, no obstante, de fuentes privadas, y mi intención es dar contestación a algunas de ellas. Una de tales críticas protesta por la censura excesivamente severa que hace Arthur sobre la cuestión de los sermones y los niños de los coros. Déjenme decirles, en respuesta, que no me responsabilizo personalmente de ninguna de las opiniones vertidas por los personajes de mi libro. Son tan sólo opiniones que, a mi juicio, podrían probablemente sostener las personas en cuyas bocas las pongo, y que eran dignas de tomarse en consideración.”
“Respecto a ca’n’t, no se discutirá que, en todas las demás palabras terminadas en «n’t», estas letras son una abreviación de not; ¡y resulta sin duda absurdo suponer que, en este caso aislado, not queda representado por «’t»! De hecho, can’t es la abreviación adecuada de can it, del mismo modo que is’t lo es de is it. De nuevo, en wo’n’t, el primer apóstrofo es necesario porque la palabra would queda acortada aquí a wo’; pero considero correcto escribir don’t con un solo apóstrofo, porque la palabra do está aquí completa. En cuanto a palabras como traveler, sostengo que el principio correcto es doblar la consonante cuando el acento cae en esa sílaba, y dejar sólo una en caso contrario. Esta regla se observa en la mayoría de los casos (p.e., doblamos la «r» en preferred, pero dejamos una en offered), de manera que sólo estoy extendiendo a otros una regla ya existente. Admito, sin embargo, que no escribo parallel, como esta exigiría; pero es la etimología quien nos obliga a insertar la doble «l» en dicha palabra.”
“Fue en 1873, creo ahora, cuando se me ocurrió por primera vez la idea de que un pequeño cuento de hadas (escrito, en 1867, paraAunt Judy’s Magazine, bajo el título deLa venganza de Bruno) podría servir como núcleo de una historia más larga.”“De manera que este párrafo ha estado esperando veinte años su oportunidad de salir a imprenta: ¡más del doble del periodo que Horacio, de forma tan prudente, recomendaba «reprimir» las creaciones literarias!”
“Y no fue hasta marzo de 1889 cuando, tras haber calculado el número de páginas que ocuparía el relato, decidí dividirlo en 2 partes y publicarlas por separado. Esto hacía necesario escribir una especie de conclusión para el primer volumen, y la mayoría de mis lectores, presumo, consideró esta la conclusión real cuando dicho volumen apareció en diciembre de 1889.”
MELHOR RATOS DO QUE PÉS:“El uso tremendamente peculiar que aquí se hace de un ratón muerto se ha extraído de la vida real. Una vez me encontré con un par de niños muy pequeños, en un jardín, que estaban echando un partido microscópico de críquet para 2. El bate tenía, me parece, más o menos el tamaño de una cuchara de servir, y la mayor distancia alcanzada por la pelota, en sus vuelos más audaces, era de unos 4 o 5 metros. La longitud exacta era por supuesto una cuestión de suprema importancia, y siempre se medía cuidadosamente (compartiendo amigablemente el bateador y el lanzador el duro trabajo) ¡con un ratón muerto!”
“Los 2 axiomas cuasimatemáticos citados por Arthur en la p. 209 del vol. I («las cosas que son mayores que una misma cosa son mayores entre sí» y «todos los ángulos son iguales») fueron realmente enunciados, con toda seriedad, por estudiantes de una universidad situada a menos de 100 millas de Ely.”
“Vol. II, p. 445. ¡El discurso en torno a la «obstrucción» no es un mero producto de mi imaginación! Está copiado palabra por palabra de las columnas del Standard, y fue pronunciado por sir William Harcourt, quien era, en aquel momento, miembro de la «oposición», en el National Liberal Club, el 16 de julio de 1890.”
“Vol. II, p. 529. El comentario del profesor sobre una cola de perro («por ese lado no muerde») lo hizo en realidad un niño cuando lo avisaron del peligro que estaba corriendo por tirar de la cola del perro.”
“ya fuese mi audiencia una docena de niñas de una escuela rural, una treintena o cuarentena en un salón londinense, o un centenar en un instituto, siempre las he encontrado francamente interesadas en atender, y profundamente apreciativas de la diversión que el relato proporcionaba.”
SAI PRA LÁ, CAC!“Mi intención era discutir, en este prefacio, de manera más exhaustiva de lo que lo hice en el volumen anterior, la «moralidad de la caza», en relación con las cartas que he recibido de amantes de esta última, en las que señalan los muchos y grandes beneficios que los hombres obtienen de ella, e intentan probar que el sufrimiento que inflige a los animales es demasiado insignificante para ser tenido en cuenta.” “Este es que Dios ha concedido al hombre un derecho absoluto a tomar las vidas de otros animales por cualquier causa que sea razonable, como la de proveerse de alimento, pero que no ha otorgado al hombre el derecho a infligir dolor, salvo en caso de necesidad; que el mero placer, o beneficio, no constituye una de dichos casos, y que, por consiguiente, ese dolor, infligido por esparcimiento, es cruel, luego no está bien.”
“El lector de este párrafo probablemente asistió a un sermón la mañana del domingo pasado. Pues bien: que mencione, si es capaz, el nombre del texto, ¡y que exponga el tratamiento que le dio el pastor!”As aulas chatas e obrigatórias tomaram o lugar dos “sermões”… Não sabemos nem de onde vêm, só sabemos que elas existem!
Iglesias y chanzas
“el Ejército de Salvación, con la mejor de las intenciones, me temo, ha contribuido en gran medida a que esto sea así, debido a la ordinaria familiaridad con la que tratan las cuestiones sagradas, y está claro que todo aquel que desee vivir con el espíritu de la oración «santificado sea tu nombre» debería hacer lo que esté en su mano, por poco que sea, para frenar eso.”
Navidad de 1893
* * *
“Durante el siguiente mes, o 2, mi solitaria vida en la ciudad me pareció, en comparación, desacostumbradamente monótona y tediosa. Extrañaba a los agradables amigos que había dejado en Elveston, el cálido intercambio intelectual, la afinidad que otorgaba a las propias ideas una realidad nueva y vívida, pero quizá, más que nada, echaba en falta la compañía de las 2 hadas –o niños de los sueños, pues todavía no había logrado resolver la cuestión de quiénes o qué eran– cuyas encantadoras travesuras habían iluminado mi vida con su magia.
En horas de oficina –las cuales, me figuro, reducen a la mayoría de los hombres al estado mental de un molinillo de café o un rodillo escurridor–, el tiempo transcurría a toda velocidad como suele ser habitual; era en los recesos de la vida, las desoladas horas en que los libros y los periódicos eran incapaces de seguir satisfaciendo el hastiado apetito, y en que uno, devuelto a sus terribles cavilaciones, trataba –completamente en vano– de poblar el aire vacío con los queridos rostros de los amigos ausentes, cuando la verdadera amargura de la soledad se hacía sentir.
Una tarde, en que la vida me parecía un poco más pesada que de costumbre, fui paseando hasta mi club, no tanto con la esperanza de encontrar allí a algún amigo, pues Londres se hallaba ahora «fuera de la ciudad», sino con la sensación de que allí, al menos, escucharía «dulces palabras pronunciadas por el ser humano», y contactaría con su pensamiento.”
—No –contestó Eric, con una voz firme que apenas dejó entrever un atisbo de emoción–; ese compromiso terminó. Sigo siendo «Benedick el hombre no desposado».¹
¹ Celibatário azedo de uma comédia de Shakespeare. Havia escrito essa curta nota semanas antes de ler Much Ado About Nothing – Benedick é divertidíssimo, retifico, e o azedume é uma fachada, mas serve como estereótipo-mor do “solteiro convicto” em toda a obra shakespeareana, demonstrando o bom gosto de Eric Lindon!
“Aunque mis experiencias con los duendes parecían haber desaparecido de manera tan absoluta de mi vida que nada se encontraba más lejos de mi mente que la idea de volver a ver a mis amigos féericos, reparé entonces por casualidad en una pequeña criatura que se movía entre el césped que bordeaba el camino, y que no daba impresión de ser un insecto, ni una rana, ni ninguna otra criatura viva que pudiera concebir. Arrodillándome con cuidado, y creando una jaula improvisada con mis dos manos, atrapé al pequeño andarín, y me asaltó una súbita sensación de sorpresa y placer al descubrir que mi prisionero no era otro que ¡el mismísimo Bruno!”
“Los conocimientos gramaticales de Bruno ciertamente no habían mejorado desde nuestro último encuentro.”
—Cdeo que tienes derecho a comedme –dijo el pequeñajo, mirándome a la cara con una sonrisa encantadora–. Pero no estoy asolutamente seguro. Mejod espera a pdeguntadle a alguien antes de hacedlo.
Desde luego parecía razonable no dar un paso tan irrevocable como ese sin la debida consulta previa.
—Definitivamente me informaré primero –dije–. Además, ¡todavía no sé si merecería la pena comerte!
—Me imagino que soy un bocado muy deliciosísimo –señaló Bruno con tono de satisfacción, como si fuese algo de lo que estar bastante orgulloso.
—¿Y qué estás haciendo aquí, Bruno?
—¡No me llamo así! –replicó mi avispado amiguito–. ¿Es que no sabes que mi nombde es «¡Oh, Bduno!»? Así es como me llama siempde Silvia cuando decito mis leciones.
—Bien, pues ¿qué estás haciendo aquí, oh, Bruno?
—¡Estudiando mis leciones, pod supuesto! –aseguró con ese brillo pícaro en la mirada que siempre aparecía cuando sabía que estaba soltando algún disparate.
—Yo siempde me apdendo mis leciones –dijo Bruno–. ¡Son las de Silvia las que me cuestan horores! –Frunció el entrecejo, como si estuviese realizando un terrible esfuerzo mental, y se dio unos golpecitos en la frente con los nudillos–. ¡Mi coco no me pedmite entededlas! –explicó con desesperación–. ¡Cdeo que me hacerían falta 2 cocos!
—¿Pero a dónde ha ido Silvia?
—¡Eso es justo lo que yo quiero sabed! –señaló desconsolado–. ¿De qué sidve que me ponga leciones, si luego no está aquí para esplicad las padtes difíciles?
“Para mí eran solamente unos cuantos pasos, pero una gran cantidad para Silvia; de modo que tuve que poner mucha atención en caminar despacio, a fin de no dejar a la criaturita tan atrás como para perderla de vista.”
“«Primero el placer y luego el trabajo» parecía ser el lema de estos diminutos seres, en vista de la cantidad de abrazos y besos que hubieron de intercambiar antes de poder pasar a otra cosa.
—Y bien, Bruno –empezó Silvia en tono de reproche–, ¿no te dije que debías continuar con tus lecciones, a menos que oyeras lo contrario?
—¡Es que oí lo contdario! –sostuvo Bruno, con un brillo travieso en la mirada.
—¿Qué fue lo que oíste, diablillo?
—Una especie de duido en el aire –señaló Bruno–, como si algo se moviera. ¿No lo oyó usted, hombde señod?”
“Silvia tenía una forma –que no me resultaba excesivamente admirable– de evitar las paradojas lógicas de Bruno consistente en pasar súbitamente a otro orden de cosas, estratagema maestra que adoptó en esta ocasión.
—Bueno, hay una cosa que debo decir…
—¿Sabía usted, hombde señod –comentó Bruno con aire contemplativo–, que Silvia no puede contad? Cada vez que suelta: «hay una cosa que debo decid», ¡sé pedfectamente que dirá 2! Y siempde lo hace.
—Dos cabezas piensan mejor que una, Bruno –respondí yo, sin tener una idea muy clara de adónde quería llegar con ello.
—No me impodtaría tened 2 cabezas –se dijo Bruno en voz baja–: una para tomad la cena y otda para discutid con Silvia… ¿cdee usted que me vería más guapo si teniera 2 cabezas, hombde señod?
La cuestión, le aseguré, no admitía dudas.”
—Sólo quedan 3 lecciones –señaló Silvia–: Ortografía, Geografía y Canto.
—¿Aritmética no? –pregunté.
—No, no tiene cabeza para la Aritmética…
—¡Pues claro que no! –saltó Bruno–. Mi cabeza es para el pelo. ¡No tengo un montón de ellas!
—… y es incapaz de aprenderse la tabla de multiplicación…
—Pdefiero mil veces la Historia –apuntó Bruno–. Tú tienes que depetid esa tabla de multicomplicación…
—Y tú tienes que repetir…
—¡No! –interrumpió Bruno–. La Historia se depite a sí misma. ¡Eso dijo el pdofesod!
“Silvia estaba colocando unas letras sobre una pizarra: R-O-M-A.
—A ver, Bruno –dijo–, ¿qué pone ahí?
Bruno miró las letras, en solemne silencio, durante un momento.
—¡Sé lo que no pone! –contestó finalmente.
—Eso no me vale –declaró su hermana–. ¿Qué pone?
Bruno miró de nuevo las misteriosas letras.
—¡Oh, es «A-M-O-R» al devés! –exclamó. (Yo convine en que así era, desde luego.)
—¿Cómo has hecho para ver eso? –preguntó Silvia.
—He ponido los ojos bizcos –dijo Bruno–, y entonces lo he veído enseguida. ¿Puedo cantad ya la Canción del madtín pescadod ?”
“Y ahí estaba, un gran mapamundi, extendido sobre el suelo. Era tan grande que Bruno tuvo que moverse por encima de él a gatas para señalar los lugares nombrados en la «lección del martín pescador».
—Cuando un madtín pescadod ve una mariquita que se aleja volando, dice: «No sientas Timor, que soy muy Pacífico». Y cuando la atdapa, dice: «¡Deja de moverte para todos Laos, que me Kansas!». Cuando la tiene entde sus garas, dice: «¡Se te acabaron los Buenos Aires!». Cuando se la mete en el pico, dice: «Ahora te voy a Catar». Y cuando se la ha tdagado, dice: «Vas a conocer mis Honduras». Ya está.” Tradução genial.
“Era una canción muy peculiar, por lo siguiente: el estribillo de cada estrofa aparecía en mitad de ella, en vez de al final. No obstante, la melodía era tan sencilla que no tardé en cogerla, y también logré hacer el estribillo coral; bueno, tal vez, hasta donde ello le es posible a una sola persona. Mis gestos hacia Silvia para que me ayudase fueron en vano; se limitó a sonreír con dulzura mientras negaba con la cabeza.”
—No se dice «veído» –lo corrigió Silvia–; deberías decir siempre «visto».
—Entonces tú no deberías pdeguntad: «¿Te has “leído” ya la lección?», ¡sino que deberías decid siempde que soy muy «listo»! Esta vez Silvia eludió la discusión dándose la vuelta y poniéndose a enrollar el mapamundi.
—¡Las lecciones han terminado! –proclamó con una voz de lo más melodiosa.
—¿Nada de lloros? –inquirí–. ¿No lloran siempre los niños pequeños cuando han de estudiar sus lecciones?
—Yo nunca lloro después de las 12 –dijo Bruno–, podque entonces queda poco para la hora de la cena.
—A veces, por la mañana –apuntó Silvia en voz baja–, los días que toca lección de Geografía, cuando ha sido desobe…
“Sobre la mesa, aguardando mi regreso, había un sobre de ese peculiar tono amarillo que siempre anuncia un telegrama, y que debe de estar, en la memoria de tantos de nosotros, inseparablemente unido a algún súbito y gran pesar, algo que ha arrojado una sombra, que nunca será completamente retirada mientras estemos en este mundo, sobre la claridad de la vida.”Eu, brasileiro nascido em 1988, sempre associei telegrama a boas novas: foste aprovado no concurso!, etc.
“la vida humana parece, en su conjunto, contener más penas que alegrías. Y, aun así, el mundo sigue girando. ¿Quién sabe por qué?”
“…y de inmediato me puse a hacer los preparativos necesarios para el viaje.”
“Cierto, había emprendido este mismo viaje, y a la misma hora del día, 6 meses antes, pero muchas cosas habían sucedido desde entonces, y la memoria de un anciano no posee más que una leve retentiva de los acontecimientos recientes: busqué «el eslabón perdido» en vano. De repente mi mirada se topó con un banco –el único existente en el desangelado andén– en el cual había una dama sentada, y entonces toda la escena que había olvidado me asaltó de manera tan vívida como si estuviese teniendo lugar otra vez.”
“La escena al completo retornó entonces vívidamente a mi memoria y, para acrecentar aún más la extrañeza de esta repetición, allí estaba el mismo anciano al que yo recordaba haber visto echado con tan malos modos por el jefe de estación a fin de hacerle sitio a su noble pasajera. El mismo, pero «con una diferencia»: ya no caminaba tambaleándose frágilmente por el andén, sino que de hecho se encontraba sentado al lado de lady Muriel, ¡y hablando con ella!”
—Tal vez sea su aire –declaré–, o el trabajo duro… o mi vida relativamente solitaria; en cualquier caso, no me vengo sintiendo muy bien últimamente. Pero Elveston no tardará en reanimarme otra vez. ¡La prescripción de Arthur (es mi médico, ya sabe, y tuve noticias suyas esta mañana) es «abundante ozono, leche fresca y compañía agradable»!
—¿Compañía agradable? –repitió lady Muriel, fingiendo meditar la cuestión en una bonita pose–. ¡Pues en serio que no sé dónde podemos encontrarle eso! Tenemos muy pocos vecinos. Pero lo de la leche fresca podemos arreglarlo. Cómpresela a mi vieja amiga la Sra. Hunter, allá, subiendo la colina. Puede confiar en su calidad. Y su pequeña Bessie va a la escuela a diario pasando por delante de donde se hospeda. Así que sería muy sencillo hacérsela llegar.
—Verá que es un paseo nada duro: menos de 3 millas, me parece.
—Bien, ahora que hemos zanjado ese asunto, deje que le devuelva el comentario. ¡No creo que tenga usted muy buen aspecto!
—Me imagino que no –contestó en voz baja, y su semblante pareció ensombrecerse de repente–. He tenido algunos problemas últimamente. Es un tema que llevo queriendo consultarle mucho tiempo, pero me costaba escribirle al respecto. ¡Me alegra tanto disponer de esta oportunidad!
»¿Cree usted –comenzó nuevamente, tras un instante de silencio, de un modo visiblemente avergonzado, algo nada común en ella– que una promesa, hecha de manera voluntaria y solemne, es siempre vinculante… salvo, por supuesto, en caso de que su cumplimiento acarreara un verdadero pecado?
—No se me ocurre ninguna otra excepción en este momento –respondí–. Esa rama de la casuística se trata normalmente, creo, como un problema de verdad o falsedad…
—¿Seguro que el principio es ese? –interrumpió ella con ansiedad–. Siempre había creído que la enseñanza de la Biblia al respecto consistía en textos como «no os mintáis los unos a los otros», ¿me equivoco?
—He considerado esa cuestión –contesté– y, a mi modo de ver, la esencia de mentir es la intención de engañar. Si uno hace una promesa, pensando totalmente en cumplirla, entonces en ese momento está sin duda actuando con sinceridad, y si posteriormente la rompe, ello no implica ningún engaño. No puedo calificarlo de falsedad.
—Me ha aliviado usted un gran miedo –dijo–, pero es algo que por supuesto está mal, de algún modo. ¿Qué textos citaría usted para probarlo?
—Cualquiera que hiciera hincapié en el pago de las deudas. Si A le promete algo a B, B tiene derecho a reclamárselo a A. Y el pecado de A, en caso de romper su promesa, me parece más análogo a robar que a mentir.
“¿Sabe que pienso que fuimos viejos amigos desde el principio? –añadió con un tono divertido en total disonancia con las lágrimas que relucían en sus ojos.”
“Yo era consciente desde hacía tiempo de que no estábamos en sintonía en lo relativo a la fe religiosa. Sus ideas sobre el cristianismo son muy sombrías; e incluso en lo que concierne a la existencia de un Dios, vive como en un estado de letargo. ¡Pero ello no ha afectado su vida! Ahora estoy convencida de que el ateo más absoluto puede llevar, aunque camine a ciegas, una vida noble y pura. Y si supiera la mitad de las buenas acciones… –Calló repentinamente, y volvió la cabeza.”
“…¡Dios no puede aprobar unos motivos tan bajos como esos! Aun así, no fui yo la que lo rompió. Yo sabía que me amaba y había realizado una promesa, y…
—¿Entonces fue él quien lo hizo?
—Me liberó de ella sin condiciones. –Ahora volvía a mirarme, habiendo recuperado del todo su calma habitual.
—En ese caso, ¿cuál es el problema?
—Es el siguiente: que no creo que lo hiciera libre y voluntariamente. Ahora, suponiendo que lo hiciera en contra de su voluntad, simplemente para satisfacer mis escrúpulos, ¿no conservaría su derecho sobre mí toda su fuerza? ¿Y no seguiría siendo vinculante mi promesa? Mi padre dice que no, pero no puedo evitar temer que su amor por mí haya influido en su decisión. Y no lo he consultado con nadie más. Tengo muchos amigos, pero para los días de sol radiante, no para los nubarrones y las tormentas de la vida; ¡no viejos amigos como usted!”
—Si usted todavía lo ama de verdad…
—¡No! –se apresuró a interrumpir ella–. Al menos… no de ese modo. Creo que lo amaba cuando me prometí, pero yo era muy joven; es difícil de decir. Pero fuera cual fuese el sentimiento, ahora ha desaparecido. El motivo por su parte es el amor; por el mío es… ¡el deber!
“…¿Es que esperas que la propuesta te la haga ella?
A Arthur se le escapó una sonrisa.”
—El tipo más común de «boca holgazana» –procedió a explicar Arthur– es sin lugar a dudas la producida por el dinero que los padres dejan en herencia a sus propios hijos. Por consiguiente, imaginé un hombre (excepcionalmente inteligente, o excepcionalmente fuerte y trabajador) que había contribuido con tal cantidad de trabajo útil a las necesidades de la comunidad que su equivalente, en ropa, etc., era (pongamos) 5 veces lo que necesitaba para sí mismo. No podemos negar su derecho absoluto a repartir la riqueza sobrante tal como elija. De modo que, si deja 4 hijos a su muerte (dos hijos y dos hijas, por ejemplo), junto con recursos suficientes como para cubrir sus necesidades básicas durante toda una vida, no me parece que se esté cometiendo injusticia alguna con la comunidad si los hijos deciden no hacer otra cosa en ella que «comer, beber y ser felices». Estoy absolutamente convencido de que la comunidad no podría decir con justicia, en referencia a ellos: «Si algún hombre no quiere trabajar, que tampoco coma». Su respuesta sería aplastante: «El trabajo ya ha sido hecho, el cual es un justo equivalente de la comida que estamos tomando, y vosotros ya os habéis beneficiado de él. ¿En base a qué principio de la justicia podéis exigir 2 cuotas de trabajo por una de alimento?».
—Estoy seguro, no obstante –dije yo–, de que hay algo de algún modo incorrecto si esas 4 personas son perfectamente capaces de realizar un trabajo útil, que la comunidad realmente necesita, y deciden sentarse y no hacerlo, ¿no?
“El oro es en sí una forma de riqueza material, pero un billete de banco es sencillamente una promesa de ceder una cierta cantidad de ella cuando se solicite. Digamos que el padre de estas 4 «bocas holgazanas» había realizado 5 mil libras de trabajo útil para la comunidad. A cambio, esta le había entregado el equivalente a una promesa escrita de darle, cuando se le solicitase, 5 mil libras de comida, etc. Entonces, si él usa únicamente mil libras y deja el resto de los billetes a sus hijos, no cabe duda de que estos poseen todo el derecho a presentar estas promesas escritas y decir: «Danos la comida cuyo trabajo equivalente ya ha sido hecho». Ahora considero que merece la pena exponer este caso, pública y claramente. Me gustaría metérselo en la cabeza a esos socialistas que aleccionan a nuestros indigentes carentes de cultura con opiniones como:«¡Mira a esos aristócratas hinchados! Sin dar ni un palo al agua por sí mismos, ¡y viviendo del sudor de nuestras frentes!». Me gustaría obligarlos a que vieran que el dinero que esos aristócratas se gastan representa una cantidad de trabajo ya realizada para la comunidad, y cuyo equivalente, en riqueza material, se lo debe esta a ellos.” Hmm. Trabalho de quem? E por quanto tempo? Mil anos? Mais-valia acumulada de bilhões de pessoas? Então essa é sua justificativa para a manutenção da miséria para muitos e do luxo para pouquíssimos? Espero que Arthur não seja seu alter ego, sr. Carroll!
—¿Y no podrían responder los socialistas: «Gran parte de ese dinero no representa en modo alguno trabajo honesto»? Si se pudiera rastrear su origen, yendo de poseedor en poseedor, aunque uno comenzase tal vez por varios pasos legítimos, como regalos, o legados, o «valores recibidos», pronto llegaría a un poseedor desprovisto de derecho moral a tenerlo, que lo obtuvo mediante fraude u otros delitos, y por supuesto sus descendientes no poseerían mayor derecho a recibir ese dinero que él.
“Si empezamos a remontarnos más allá del hecho de que el poseedor actual de una cierta propiedad la obtuvo de manera honesta, y a preguntar si alguno anterior, en tiempos pasados, la consiguió por medio de un fraude, ¿quedaría a salvo propiedad alguna?” Óbvio que não. E do que tens medo, animal?
—Mi conclusión general –continuó Arthur– desde el mero punto de vista de los derechos humanos, de un hombre frente a otro, fue esta: que si alguna «boca holgazana» y rica, que haya conseguido su dinero de manera legal, aunque no haya realizado por sí mismo ni una sola pizca del trabajo que representa, elige gastarlo en sus propias necesidades, sin contribuir con ningún trabajo a la comunidad a la que compra su comida y ropa, esa comunidad no tiene derecho a interponerse. Pero si consideramos la ley divina, la cosa cambia sensiblemente. Juzgado según ese criterio, un hombre así está indudablemente actuando mal si no utiliza, en beneficio de aquellos que lo necesitan, la fuerza o la habilidad que Dios le ha otorgado. Esa fuerza y habilidad no pertenecen a la comunidad, para satisfacer ninguna deuda; no pertenecen al hombre en sí, para su disfrute personal; pertenecen a Dios, para ser usadas de acuerdo a su voluntad, y se nos ha dejado meridianamente clara cuál es dicha voluntad: «haced bien, y prestad, sin esperar nada a cambio». Hoje Deus é a sociedade, e a sociedade se tornou Deus (não tem direito a nada, nem a qualquer apito moral, na verdade eram uns poucos filisteus e fariseus malditos).
“Pero yo diría, hablando en general, que un hombre que se permite cualquier capricho que se le ocurre, sin privarse de nada, y simplemente da a los pobres parte de, o incluso toda, la riqueza que le sobra, sólo se está engañando a sí mismo si llama a eso «caridad».”
—Pero incluso si gasta su dinero en sí mismo –insistí–, nuestro típico hombre rico muchas veces hace el bien, al emplear a gente que de otro modo carecería de trabajo, y eso resulta a menudo mejor que pauperizarlos dándoles el dinero.
—¡Me alegro de que hayas hecho ese comentario! –contestó Arthur–. No querría abandonar el tema sin poner de manifiesto las 2 falacias contenidas en esa afirmación, ¡las cuales llevan tanto tiempo sin rebatirse que la sociedad las acepta ya como un axioma!
—¿Cuáles son? –dije–. Yo ni siquiera veo una sola.
—Una es simplemente la falacia de la ambigüedad: el supuesto de que «hacer el bien» (es decir, beneficiar a alguien) es necesariamente algo bueno (es decir, una cosa correcta). La otra es el supuesto de que, si una de 2 acciones determinadas es mejor que la otra, la 1ª es necesariamente una buena acción en sí misma. Me gustaría llamar a esta última la «falacia de la comparación», la cual da por hecho que lo que es bueno de manera relativa lo es, por ello, de manera absoluta.
—Que sea la mejor que somos capaces de dar –respondió Arthur con confianza–. E incluso en ese caso «siervos inútiles somos». Pero permíteme que ponga un ejemplo de las 2 falacias. Nada ilustra mejor una falacia que un caso extremo, al cual incluye claramente. Suponte que encuentro 2 niños que se están ahogando en un estanque. Me lanzo corriendo a él y salvo a uno de los 2, para luego marcharme, dejando que el otro se ahogue. Está claro que «he hecho el bien» al salvarle la vida a un niño, ¿no? Pero… De nuevo, suponte que me cruzo con un extraño inofensivo, lo tumbo de un golpe y sigo mi camino. Obviamente eso es «mejor» que si a continuación hubiese saltado sobre él y le hubiera roto las costillas, ¿no? Pero…
—Esos «peros» son completamente irrebatibles –apunté–. Mas me gustaría un caso extraído de la vida «real».
—Bien, cojamos una de esas abominaciones de la sociedad moderna: un mercadillo benéfico. Es una interesante cuestión para considerar qué parte del dinero que llega al objetivo proyectado es auténtica caridad, y si esta se gasta incluso del mejor modo posible. Pero el tema requiere una clasificación ordenada, y un análisis, para una adecuada comprensión.
—Tal análisis me complacería mucho –señalé–; es algo que muchas veces me ha intrigado.
—De acuerdo, siempre que no te esté aburriendo. Pongamos que nuestro mercadillo benéfico haya sido organizado con objeto de proporcionar fondos a algún hospital, y que A, B y C ofrecen sus servicios elaborando artículos para la venta y ejerciendo de vendedores, mientras que X, Y y Z compran los artículos, y el dinero así pagado va al hospital.
»Hay 2 tipos distintos de tales mercadillos: uno donde el pago exigido es simplemente el valor de mercado de los productos proporcionados, [E o valor de custo, não?! Mas que mercadinhos muquiranas esses!] es decir, exactamente lo que uno tendría que pagar por ellos en una tienda; el otro, aquel en que se pide pagar unos precios exorbitantes. Debemos considerar cada uno por separado.
»Primero, el caso del «valor de mercado». Aquí A, B y C se hallan exactamente en la misma posición como comerciantes corrientes; la única diferencia es que donan lo recaudado al hospital. Prácticamente, están ofreciendo su trabajo especializado en beneficio del hospital. Esto en mi opinión es caridad genuina. Y no veo de qué otro modo mejor podrían ejercitarla. Pero X, Y y Z se encuentran exactamente en la misma posición que cualquier comprador corriente de productos. Hablar de «caridad» en relación con su parte en la transacción es un puro despropósito. Aunque es muy probable que ellos lo hagan.
»Segundo, el caso de los «precios exorbitantes». Aquí creo que lo más sencillo es dividir el pago en 2 partes: el «valor de mercado» y el excedente. La parte del «valor de mercado» se encuentra en la misma situación que en el primer caso; el excedente es lo único que hemos de considerar. Veamos: A, B y C no lo ganan, de modo que podemos dejarlos al margen de la cuestión; es un regalo de X, Y y Z al hospital. Y mi opinión es que no es la mejor manera de darlo; es mucho mejor comprar lo que quieran comprar, y dar lo que quieran dar, como 2 transacciones separadas; entonces se deja alguna posibilidad de que su motivación al dar pueda ser caridad real, en vez de tratarse de una motivación mixta: mitad caridad, mitad autocomplacencia.«La huella de la serpiente está sobre todo esto.» ¡Y es por ello que abomino completamente de actividades «benéficas» espurias como esas! –concluyó con inusual vehemencia, y decapitó salvajemente, con su bastón, un alto cardo al borde del camino, detrás del cual vi con sorpresa a Silvia y Bruno, allí de pie. Traté de detener el brazo de Arthur, pero era demasiado tarde. No estaba seguro de si el bastón los había alcanzado o no; sea como fuere, no le hicieron el más mínimo caso y, en cambio, sonrieron alegremente, y me saludaron con la cabeza; y de inmediato advertí que sólo eran visibles para mí; la influencia «inquietante» no había alcanzado a Arthur.
—¿Sabe que ese bastón me ha atdavesado la cabeza? –dijo Bruno. (Para entonces habían rodeado a Arthur corriendo hasta llegar a mí, y cada uno me tenía cogido de una mano.)– ¡Justo pod debajo de la badbilla! ¡Menos mal que no soy un caddo!
—Bueno, ¡de todos modos ya hemos terminado con el tema! –agregó Arthur–. Me temo que he estado hablando demasiado, para tu paciencia y mis fuerzas. Pronto deberé dar media vuelta. Estoy al borde del agotamiento.
«Cóbrate 3 pasajes, barquero.
Ten, te los pago de buen grado,
¡ya que conmigo (invisibles, empero)
un par de espíritus han cruzado!(*)»,
cité, involuntariamente.
(*) Estrofa final del poema Auf der Überfahrt («El pasaje») del autor alemán Johann Ludwig Uhland (1787-1862). Mi traducción ha sido realizada a partir de la versión inglesa que aparece en el original de este mismo volumen, obra de la traductora Sarah Austin (1793-1867). [N. del T.]
—Para citas totalmente inapropiadas e irrelevantes –rio Arthur–, ¡«pocos hay que te igualen, y ninguno que te supere»! –Tras lo cual, retomamos nuestro paseo.
“Se quedó plantado, vacilante, mirando primero un camino y después el otro; ¡una penosa imagen de absoluta indecisión!”
“Arthur era totalmente inconsciente de que había otra voluntad distinta a la suya actuando sobre el bastón, y al parecer pensó que había adoptado una posición horizontal simplemente porque estaba apuntando con él.
—Eso que hay bajo aquel seto, ¿no son Orchis? –observó–. Creo que eso me decide. Recogeré algunas de camino.
Entretanto, Bruno había corrido tras lady Muriel, y, dando numerosos saltos y gritos (audibles únicamente para Silvia y para mí mismo), de manera muy parecida a como si estuviera guiando ovejas, consiguió que diera media vuelta y caminase, con la vista recatadamente clavada en el suelo, en nuestra dirección.
¡La victoria era nuestra! Y, dado que era evidente que los enamorados, exhortados a reunirse de tal modo, debían encontrarse enseguida, yo me di la vuelta y me marché, esperando que Silvia y Bruno siguieran mi ejemplo, pues tenía el convencimiento de que cuantos menos espectadores hubiese, mejor sería para Arthur y su bondadoso ángel.
«¿Y cómo sería el encuentro?», me pregunté ensimismado mientras caminaba con resueltas zancadas.”
—¡Se dieron la mano! –dijo Bruno, que trotaba a mi lado, en respuesta a la tácita pregunta.
—¡Y se los veía contentísimos! –añadió Silvia desde el otro lado.
—Pues entonces debemos continuar, al paso más rápido que podamos –señalé–. ¡Ojalá supiese cuál es el mejor camino a la granja de Hunter!
—Seguro que en esta casita lo conocen –indicó Silvia.
—Me imagino que sí. Bruno, ¿te importa acercarte corriendo a preguntar?
Silvia lo frenó, riendo, cuando su hermano ya se iba.
—Espera un segundo –dijo–. Antes tengo que hacerte visible; ya sabes.
—Y también audible, ¿me equivoco? –agregué yo, al tiempo que ella cogía la joya que le pendía del cuello, se la pasaba por encima de la cabeza de Bruno y le tocaba con ella los ojos y los labios.
—Sí –asintió Silvia–, y una vez, ¿sabe?, le hice audible, ¡y olvidé volverlo visible! Y fue a comprar unos caramelos a una tienda. ¡El dueño se asustó tanto! Una voz pareció surgir del aire: «Pod favod, ¡quiero 50 gdamos de caramelos de cebada(*)!». ¡Y sobre el mostrador apareció un chelín, con un golpetazo! Y el hombre dijo:
«¡No puedo verte!». Y Bruno contestó: «¡Da igual que me veas o no, mientdas puedas ved el chelín!». Pero el hombre dijo que nunca vendía caramelos de cebada a personas que no fuera capaz de ver. Así que tuvimos que… ¡Bruno, ya estás listo! –Y este se alejó corriendo.
(*) Barley sugar drops en el original: caramelos de color ámbar que se elaboran hirviendo azúcar de caña en agua en la que se ha cocido cebada. [N. del T.]
—No hubió espacio para pdeguntas –se excusó Bruno–. El cuadto estaba lleno de gente.
—Estoy seguro de que es posible tirar al suelo a cualquiera –sostuve–, sin importar si es grueso o delgado.
—No poderías tiradlo al suelo –repitió Bruno–. Es más ancho que alto, así que cuando está tumbado es más alto que cuando está de pie; ¡está claro entonces que no poderías tiradlo «al suelo»!
—¿Podría usted decirme dónde se halla la granja de Hunter?–le pregunté al hombre, cuando se alejaba de la casa.
—¡Sí que puedo, señó! –contestó con una sonrisa–. Soy John Hunter en persona, a su servicio. Está a no ma de media milla, l’única casa que se ve, pasá la curva del camino d’allá. Mi buena mujé está’n casa, si su asunto é con ella. ¿O a lo mejó le valgo yo?
—Gracias –dije–. Quiero encargar algo de leche. Quizá lo mejor es que lo arregle con su esposa, ¿no?
—Sí –asintió el hombre–. Ella s’ocupa de to eso. Que tenga buen día, señó… ¡y también sus querubines! –Y siguió su camino con paso trabajoso.
—¡Los árboles equivocados! –se rio Silvia–. ¡Los árboles no pueden equivocarse! ¡No hay árboles equivocados!
—¡Entonces tampoco puede habed ádboles corectos! –exclamó Bruno, y Silvia dejó la cuestión.
“…¿Alguna vez probaste un caballo, hombrecito?
—¡Nunca! –negó Bruno con gran decisión–. Los caballos no son para comed. ¿Usted se los come?”
“…¿Sabes lo que dice el libro de poemas acerca de desperdiciar cosas adrede?
—No –dijo Bruno–. ¿El qué?”
—Podque despeddiciad… nosequenosecuántos… –empezó a repetir Bruno, bastante dispuesto, y a continuación se paró en seco–. ¡Ya no me acueddo de más!
—Siempde… –repitió Bruno en voz baja, y entonces, súbitamente inspirado, añadió–: ¡siempde mirad adónde va!
—¿Adónde va qué, precioso?
—¡Pues la codteza, claro! –aclaró Bruno–. Entonces, si viviera para decid: «Ojalá tuviera esa codteza…» y todo eso, ¡sabdía dónde la tiré!
Esta nueva interpretación dejó completamente boquiabierta a la buena mujer, que regresó al tema de «Bessie».
—¿No os gustaría ver la muñeca de Bessie, cielitos? Bessie, ¡lleva a la señorita y al caballerete a ver a Matilda Jane!
—Es la nueva taberna –explicó la mujer–. Se encuentra justo de camino, a mano para los obreros, cuando vuelven del ladrillal, los días como hoy, con su salario semanal. Un buen montón de dinero se va de ese modo. Y algunos de ellos se emborrachan.
“Entonces le conté la vieja historia de un cierto hombre de pueblo que se compró un pequeño barril de cerveza y puso a su esposa al cuidado del mismo, y de cómo, cada vez que quería tomarse su jarra, se la pagaba siempre directamente a ella, y ella nunca le «fiaba», y era una camarera totalmente inflexible que jamás le permitía excederse más de lo debido; cada vez que había que rellenar el barril, la mujer disponía de dinero en abundancia para ello, y lo que sobraba, lo metía en la hucha. Al terminar el año, él no sólo poseía una salud y un ánimo de primera, con ese aire indefinible pero inconfundible que siempre distingue al hombre sobrio del que «se pasa un poquitín», sino que además tenía una hucha llena de dinero, ¡ahorrado enteramente de su propio bolsillo!”
“Cualquiera de los dones de Dios puede convertirse en una maldición, si no lo utilizamos con sabiduría. Pero debemos volver ya a casa. ¿Le importaría llamar a las niñas? ¡Estoy seguro de que Matilda Jane ha tenido compañía suficiente, por un día!”
—Yo soy su mamá, y Silvia la niñera principal –explicó Bessie–; y Silvia me ha enseñado una canción de lo más bonita, ¡para que se la cante a Matilda Jane!
—Oigámosla otra vez, Silvia –pedí, encantado de tener la oportunidad, que tanto tiempo llevaba deseando, de oírla cantar. Pero a Silvia le entró vergüenza y se acobardó al momento.
—¡Oh, no, por favor! –me dijo, en un serio «aparte»–. Bessie se la sabe ya a la perfección. ¡Puede cantarla ella!
—¡Eso, eso! ¡Que la cante Bessie! –animó la orgullosa madre–. Bessie también tiene una voz bonita –este fue otro «aparte» para mí–, ¡aunque esté mal que yo lo diga!
“Matilda Jane, nunca miras
de mis libros los dibujos
que enseñarte yo procuro.
¡Has de estar ciega, Matilda!
Te cuento historias y enigmas,
mas no podemos hablar
pues no respondes jamás.
¡Te creo muda, Matilda!
Cielo, por mucho que insista,
nunca pareces oír
mis llamadas hacia ti.
¡Estás tan sorda, Matilda!
Matilda Jane, tú tranquila:
aunque seas muda, sorda
y ciega, alguien te adora,
¡y ese alguien soy yo, Matilda!”
—¡Qué canción más bonita! –exclamó la mujer del granjero–. ¿Quién se inventó la letra, cielito?
—Cr-creo que iré a buscar a Bruno –se excusó Silvia de forma pudorosa, y nos dejó a toda prisa. La curiosa niña parecía siempre temerosa de recibir elogios, o incluso simple atención.
—Fue Silvia –nos informó Bessie, orgullosa de su información superior–; y Bruno creó la música… ¡y yo la canté! –circunstancia esta última, por cierto, que no hacía falta que nos notificara.
Seguimos, pues, a Silvia, y todos entramos juntos al salón. Bruno seguía aún en la ventana, con los codos apoyados en el alféizar. Aparentemente ya había terminado de contarle la historia a la mosca y encontrado una nueva ocupación.
—¡No me imperumpáis! –dijo a nuestra llegada–. ¡Estoy contando los ceddos en el campo!
—¿Cuántos hay? –inquirí.
—Unos mil y cuatdo –señaló Bruno.
—Querrás decir «unos mil» –lo corrigió Silvia–. No sirve de nada que añadas «y cuatro»: ¡no puedes estar seguro de esos 4!
—¡Y tú te equivocas como siempde! –exclamó Bruno con triunfalismo–. Es sólo de los cuatdo de los que puedo estad seguro ¡podque están aquí, hocicando debajo de la ventana! ¡Los «mil» son los que he contado de manera apdoximada!
—Tenemos que irnos, niños –anuncié–. Despedíos de Bessie. –Silvia rodeó con sus brazos el cuello de la muchachita y le dio un beso, pero Bruno guardó las distancias, con gesto desacostumbradamente tímido. («¡Yo sólo doy besos a Silvia!», me explicó más tarde.) La mujer del granjero nos acompañó a la puerta, y poco después habíamos emprendido ya el regreso a Elveston.
—No voy a entrá –dijo–; hoy no.
—¡Una jarra cerveza no t’hará daño! –le gritaron a coro sus amigos–. ¡Ni dos jarras! ¡Ni una docena!
—No –se plantó Willie–. Me voy pa casa.
—¿Qué? ¿Sin bebé na, Willie, compadre? –vocearon los demás. Pero el «compadre» no estaba por la labor de discutir y se dio media vuelta porfiado, mientras los niños lo flanqueaban para protegerlo de cualquier cambio en su súbita resolución.
—¡Bien pronto llegas hoy, chacho! ¡Bien pronto! –Las palabras podrían haber sido una bienvenida, pero ¡oh, con qué tono de resentimiento las pronunció!–. ¿Qué t’ha hecho abandoná a tus alegres amigos, y los bailes y las tonterías? Imagino que traes los bolsillos vacíos, ¿eh? ¿O a lo mejó vienes pa vé morí a tu chiquilla? El bebé’stá muerto d’hambre, y no tengo bocao ni sorbo que darle. ¿Pero a ti qué ma te da? –Abrió el portillo con violencia y lo recibió con ojos encendidos por la furia.
“Nos pareció totalmente natural entrar con ellos; en una ocasión distinta uno habría pedido permiso, pero yo tenía la sensación, no sabía por qué, de que éramos invisibles de algún modo misterioso, y tan libres de ir y venir como espíritus incorpóreos.”
—No he bebío –le respondió él, en un tono más triste que airado–. Este bendito día no he probao una gota. ¡No! –vociferó, golpeando fuertemente la mesa con su puño cerrado y levantando la cabeza hacia su mujer con ojos brillantes–, ni jamá probaré otra gota de la maldita bebía… hasta que me muera… ¡con la ayúa de Dios mi creadó! –Su voz, que se había elevado súbitamente en un grito ronco, descendió de nuevo con la misma rapidez; luego volvió a bajar la cabeza y enterró el rostro entre sus brazos cruzados.
La mujer había caído de rodillas junto a la cuna, mientras su esposo hablaba. Ni lo miró ni pareció oírlo. Con las manos unidas sobre la cabeza, se balanceaba violentamente adelante y atrás.
—¡Polly! –dijo con suavidad; y luego, más fuerte–: ¡Mi quería Poll!
Entonces ella se puso en pie y fue hasta él, con expresión aturdida, como si estuviera caminando en sueños.
—¿Quién m’ha llamao «quería Poll»? –preguntó; su voz adoptó al hablar un tono de tierna picardía; sus ojos centelleaban, y la sonrosada luz de la juventud inundó sus pálidas mejillas hasta que pareció más una alegre chica de 17 que una ajada mujer de 40–. ¿Ha sío mi muchacho, mi Willie, que m’espera en el paso de la cerca?
También el rostro de él experimentó una transformación, bajo la acción de la misma luz mágica, hasta asemejar el de un tímido joven, y unos mozuelos aparentaban ser cuando él la rodeó con el brazo y la atrajo hacia sí, mientras con el otro arrojaba lejos el montón de dinero, como si su contacto le resultase odioso.
—¡Cógelo, muchacha! –dijo–. ¡Llévatelo to! Y tráenos algo que comé, pero compra primero un poco leche pa’l bebé.
“A mí me parecían nubes de lo más corrientes, ¡pero claro que yo no me había alimentado «de ambrosía celestial, y bebido la leche del Paraíso»(*)!
(*) Versos finales del poema Kubla Khan, de Coleridge. [N. del T.]”
“…Querido amigo –se interrumpió de improviso–; ¿cree que el Cielo da comienzo en la tierra, para alguno de nosotros?
—Para algunos –opiné–. Para algunas personas, tal vez, sencillas e inocentes como niños. Sabe que él dijo: «de ellos es el Reino de los Cielos».
Lady Muriel entrelazó sus manos y levantó la vista al cielo despejado con una expresión que había visto muchas veces en los ojos de Silvia.”
“¿Qué había de hacerse? ¿Se había fundido la vida del mundo de las hadas con la real? ¿O acaso compartía lady Muriel el estado de «inquietud», y poseía por tanto la capacidad de adentrarse conmigo en el mundo feérico? Me disponía a decir algo («Estoy viendo a un viejo amigo mío en el camino; si no lo conoce, ¿quiere que se lo presente?») cuando ocurrió algo extrañísimo: lady Muriel habló.
—Estoy viendo a un viejo amigo mío en el camino –dijo ella–: si no lo conoce, ¿quiere que se lo presente?
Me pareció despertar de un sueño, ya que aún notaba con fuerza la sensación de «inquietud», y la figura ante mis ojos parecía cambiar a cada instante, como una de las imágenes de un caleidoscopio: en un momento era el profesor, ¡y al siguiente era alguien distinto! Para cuando llegó a la cancela, no cabía duda de que era otra persona, y sentí que el proceder correcto era que lady Muriel, y no yo, lo presentara. Ella lo saludó amablemente y, tras abrir la cancela, invitó a pasar al venerable anciano –un alemán, a todas luces– que miraba a su alrededor con expresión confundida, ¡como si él también acabase de despertar de un sueño!
No, ¡claramente no se trataba del profesor! Mi viejo amigo no podría haberse dejado crecer una barba tan magnífica desde la última vez que nos vimos; además, me habría reconocido, pues yo albergaba la seguridad de no haber cambiado tanto durante ese tiempo.”
“sus amplios anteojos (uno de los complementos que le conferían un aspecto tan incómodamente similar al del profesor)”
“¡La riqueza ilimitada sólo puede conseguirse haciendo las cosas al revés!”
MOEBIUS:
—¿Alguna vez ha visto el rompecabezas del anillo de papel?–prosiguió Mein Herr, dirigiéndose al earl–, ¿en el que coge un pedazo de papel, y une sus extremos, retorciendo antes uno, como si quisiera juntar la esquina superior de un extremo con la esquina inferior del otro?
—Sí, conozco ese rompecabezas –afirmó lady Muriel–. El anillo tiene una sola superficie y un solo borde. Es muy misterioso. —La bolsa es exactamente igual, ¿no es cierto? –sugerí yo–. ¿No es la superficie externa de uno de sus lados continua con la superficie interna del otro lado?
“Su aspecto recordaba de un modo tan extraño al de una niña, confusa ante una lección difícil, y Mein Herr se comportaba, por el momento, de forma tan parecida al viejo profesor, que me invadió un total desconcierto; la sensación de «inquietud» era profundamente intensa en mí, y me sentí casi impelido a decir: «¿Lo entiendes, Silvia?». No obstante, logré guardar silencio con gran esfuerzo, y dejé que el sueño (si es que lo era, en realidad) se desarrollase hasta el final.”
“…¿Pero por qué la llama la «bolsa de Fortunatus», Mein Herr?
El adorable anciano le sonrió jovialmente de oreja a oreja, exhibiendo un parecido más fiel al profesor que nunca.
—¿Es que no lo ve, mi niña… quiero decir, milady? Todo lo que está dentro de la bolsa, también está fuera, y viceversa. ¡Así que tiene toda la riqueza del mundo en esa pequeña bolsa! Su pupila aplaudió, con desaforado placer.”
O CAVALO HAMSTER
—En su país –comenzó a decir Mein Herr sin previo aviso, sorprendiendo a todos–, ¿dónde acaba todo el tiempo que se pierde?
Lady Muriel puso un gesto serio.
—¿Quién sabe? –susurró medio para sus adentros–. Todo lo que uno sabe es que se ha ido… ¡para no volver!
—Bueno, en mi… quiero decir, en un país que visité –rectificó el anciano–, lo guardan; ¡y resulta de lo más útil, años después! Por ejemplo, imagine que tiene una tarde larga y tediosa por delante; nadie con quien hablar; nada interesante que hacer, y aún quedan horas para irse a la cama. ¿Qué hace entonces?
—Me pongo de muy mal humor –admitió ella con franqueza– ¡y me entran ganas de lanzar cosas por la habitación!
—Cuando eso le sucede a… a la gente que visité, nunca actúan así. Mediante un breve y sencillo proceso, que no puedo explicarle, guardan las horas inútiles y, en alguna otra ocasión, cuando por un casual necesitan tiempo adicional, lo vuelven a sacar.
El earl escuchaba con una sonrisa ligeramente incrédula.
—¿Por qué no puede explicar el proceso? –inquirió.
Mein Herr tenía preparada una razón a prueba totalmente de réplicas.
—Porque no tienen palabras, en su lengua, para trasmitir las ideas necesarias. Podría explicárselo en… en… ¡pero no lo entendería!
—¡Claro que no! –dijo lady Muriel, dispensando generosamente a Mein Herr de tener que dar el nombre del idioma desconocido–. Yo nunca lo he aprendido… al menos, no para hablar con fluidez, ya sabe. Por favor, ¡cuéntenos más cosas maravillosas!
—Conducen sus trenes sin motores de ningún tipo: lo único que se necesita es maquinaria para detenerlos. ¿Le parece eso suficientemente maravilloso, milady?
—¿Pero de dónde extraen su fuerza motriz? –me atreví a preguntar.
Mein Herr se giró al momento, para mirar al nuevo interlocutor. Después se quitó los anteojos, los limpió y me volvió a mirar, con evidente perplejidad. Pude ver que estaba pensando, de hecho, al igual que yo, que debíamos de habernos visto antes.
—Utilizan la fuerza de la gravedad –dijo–. Es una fuerza que también se conoce en su país, ¿me equivoco?
—Pero para eso haría falta una vía que bajara en pendiente –señaló el earl–. No se pueden tener todas las vías de tren cuesta abajo, ¿cierto?
—Son todas así – reveló Mein Herr.
—Pero no por ambos extremos.
—Por ambos extremos.
—¡Entonces me doy por vencido! – exclamó el earl.
—¿Puede explicar el proceso? –pidió lady Muriel–. ¿Sin usar esa lengua que soy incapaz de hablar con fluidez?
—No hay problema –contestó Mein Herr–. Cada vía ferroviaria se halla en un largo túnel, perfectamente recto; de modo que, como es lógico, el punto medio del mismo está más próximo al centro del planeta que los dos extremos; con lo cual todos los trenes recorren la mitad del camino cuesta abajo, y eso les proporciona impulso suficiente para recorrer la otra mitad cuesta arriba.
—Gracias. Lo he entendido a la perfección –dijo lady Muriel–. Pero la velocidad, en el punto medio del túnel, ¡debe de ser terrible! Mein Herr estaba evidentemente muy complacido por el perspicaz interés que lady Muriel ponía en sus comentarios. A cada momento que pasaba, el anciano parecía más hablador y desenvuelto.
—¿Le gustaría conocer nuestros métodos de conducción? –inquirió sonriente–. Para nosotros, ¡un caballo desbocado no supone problema alguno!
Lady Muriel sufrió un leve estremecimiento.
—Para nosotros es un peligro muy serio –explicó.
—Ello se debe a que su carruaje se encuentra totalmente detrás del caballo. Su caballo echa a correr, y el carruaje lo sigue. Quizá el animal tenga el bocado entre los dientes. ¿Quién lo va a detener? Y usted sale disparada, ¡cada vez a mayor velocidad! ¡Y finalmente se produce el inevitable disgusto!
—¿Pero y si el caballo de usted se las arregla para que el bocado se le quede entre los dientes?
—¡No importa! No nos preocuparía. Los arreos de nuestro caballo están unidos al mismo centro de nuestro carruaje. Hay dos ruedas delante de él, y dos detrás. Se fija al techo un extremo de un amplio cinturón, que se hace pasar por debajo del caballo, y cuyo otro extremo se sujeta a un pequeño… lo que ustedes llaman «cabrestante», creo. El caballo coge el bocado con los dientes. Echa a correr. ¡Nos movemos a 10 millas por hora, como un rayo! Hacemos girar nuestro pequeño cabrestante: 5 vueltas, 6, 7 y… ¡puf! ¡Nuestro caballo se levanta del suelo! Que galope en el aire cuanto le apetezca: nuestro carruaje permanece quieto. Nos sentamos alrededor de él, y lo observamos hasta que se cansa. Entonces lo bajamos. ¡Nuestro caballo se alegra mucho, muchísimo, cuando sus pezuñas vuelven a pisar el suelo!
—Porque no van a la par, milord. El extremo de una rueda se corresponde con el lateral de la rueda contraria. De modo que primero un costado del carruaje se eleva, y luego el otro. Y durante todo el proceso, no para de balancearse. ¡Ah, uno ha de ser un buen marinero para conducir nuestros carruajes-barco!
—¿Dónde lo conoció? –le pregunté a lady Muriel, una vez que Mein Herr se hubo marchado–. ¿Y dónde vive? ¿Y cuál es su verdadero nombre?
—Lo… conocí… –respondió en actitud pensativa–, ¡no puedo recordar dónde, en realidad! ¡Y no tengo idea de dónde vive! ¡Ni he oído nunca que tuviera otro nombre! Es muy curioso. ¡Nunca antes me había dado por pensar en lo misterioso que es!
—Espero que nos volvamos a encontrar –comenté–; despierta en mí un gran interés.
—Estará en nuestra fiesta de despedida, dentro de 2 semanas –señaló el earl–. Usted naturalmente vendrá, ¿no es así? Muriel tiene muchas ganas de reunir a todos nuestros amigos una vez más, antes de que nos vayamos del pueblo.
Y entonces me explicó, pues lady Muriel nos había dejado solos, que estaba tan ansioso por alejar a su hija de un lugar con tal cantidad de recuerdos dolorosos relacionados con el compromiso con el comandante Lindon, ya cancelado, que habían acordado celebrar la boda dentro de un mes, después de la cual Arthur y su esposa se irían de viaje al extranjero.
—¡No olvide venir el martes siguiente al próximo! –me recordó cuando nos despedíamos con un apretón de manos–. Ojalá pudiese traer consigo a esos encantadores niños que nos presentó en verano. ¡Y hablamos del misterio de Mein Herr! ¡No es nada comparado con el misterio que parece rodearlos a ellos! ¡Nunca olvidaré esas maravillosas flores!
—Los traeré si me es posible – dije yo. Pero cómo cumplir una promesa como aquella, cavilé durante mi camino de regreso a nuestro alojamiento, ¡era un problema que se me escapaba completamente!
“Me encanta leer cartas, pero sé muy bien lo cansado que es escribirlas.”
“Pero la persona más tímida y que se atasca más a menudo en una conversación dará necesariamente la impresión contraria al escribir una carta. Quizás haya necesitado media hora para redactar su segunda frase, pero ahí está, ¡justo después de la primera!”
—Ello se debe simplemente a que nuestro sistema de escritura de cartas está incompleto. Un escritor tímido debería poder mostrar que lo es. ¿Por qué no debería hacer pausas al escribir, al igual que haría hablando?
—Me refiero a que uno debería poder ser capaz, cuando no quiere que alguna cosa sea tomada en serio, de expresar ese deseo, ya que la naturaleza humana está constituida de tal modo que cualquier cosa que uno escribe en serio se interpreta como una broma, ¡y al revés! En cualquier caso, ¡eso es lo que ocurre al escribir a una dama!
—El primer pensamiento que acude a la mente –procedió Arthur– al leer cualquier cosa particularmente vil o brutal, llevada a cabo por un congénere, suele ser la percepción de un nuevo nivel de profundidad pecaminosa revelado debajo de nosotros, y nos parece contemplar ese abismo desde alguna posición superior, muy distante de él.
—Las causas que actúan desde fuera son su entorno: lo que el Sr. Herbert Spencer llama su «medio». El punto que quiero dejar claro ahora es este: que un hombre es responsable de su acto de elección, pero no de su medio. Por consiguiente, si estos dos hombres realizan, en una ocasión determinada, cuando se ven expuestos a una tentación igual, esfuerzos iguales por resistir y elegir lo correcto, su condición, a ojos de Dios, debe ser la misma. Si Él está complacido en uno de los casos, también lo estará en el otro, y al contrario.
—Aun así, debido a sus diferentes medios, uno puede lograr una gran victoria sobre la tentación, mientras el otro cae en algún negro abismo criminal.
—Lo lamento muchísimo –me disculpé–; fue realmente imposible que vinieran conmigo… –En aquel momento mi intención era ciertamente acabar la frase, y fue con una sensación de absoluto asombro que no soy capaz de describir de manera adecuada, que me oí añadir–: pero se reunirán aquí conmigo durante la tarde. – Esas fueron las palabras, pronunciadas con mi voz, y que al parecer salieron de mis labios.
“Me refugié en el silencio. La única respuesta honesta habría sido: «El comentario no era mío. Yo no lo dije, ¡y es completamente falso!». Pero no tuve el valor moral de hacer tal confesión. No resulta muy difícil, creo, adquirir reputación de «lunático», pero es asombrosamente complicado deshacerse de ella, y me pareció completamente seguro que una declaración como esa justificaría del todo la expedición de una orden de lunatico inquirendo(*).
(*) En el antiguo sistema legal inglés, una orden judicial para que las autoridades indagasen si una persona estaba cuerda o no. [N. del T.]”
“Cuando las cosas a mi alrededor me parecieron nuevamente reales, Arthur se encontraba diciendo:
—Me temo que es irremediable: su número ha de ser finito.”
“Cuando la gente habla de «la última novedad musical», ¡esta siempre me recuerda a alguna melodía que escuché de niña!”
—Llegará un día (si el mundo dura lo suficiente) –dijo Arthur– en el que cada melodía posible habrá sido compuesta, cada juego de palabras posible, realizado… –lady Muriel se retorció las manos como una reina de la tragedia– y, algo aún peor, ¡cada libro posible, escrito!, ya que el número de palabras es finito.
MACHADIANO
—Pero sin duda los locos siempre escribirían libros nuevos, ¿no? –agregó–. ¡No podrían escribir los libros cuerdos otra vez!
—Cierto –asintió Arthur–. Pero sus libros también se acabarían. El número de libros locos está limitado por el número de locos.
—Y dicho número crece cada año –terció un hombre pomposo, al cual reconocí como el autodesignado animador del día del picnic.
—Eso dicen –contestó Arthur–. Y cuando el 90% de nosotros lo seamos –parecía tener muchas ganas de soltar disparates–, a los manicomios se les dará el uso que les corresponde.
—¿Que es…? – inquirió el hombre pomposo.
—¡Acoger a los cuerdos! – exclamó Arthur–.
“…Los locos dominarán el mundo, fuera. Lo harán de un modo un tanto extraño, no cabe duda. Los choques de trenes serán cosa habitual; no pararán de estallar buques de vapor; la mayoría de las ciudades arderán hasta los cimientos; la mayor parte de los barcos acabarán hundidos…
—¡Y casi todos los hombres morirán! –murmuró el hombre pomposo, que se hallaba clara y completamente turbado.
—Ciertamente –asintió Arthur–. Hasta que finalmente habrá menos locos que hombres cuerdos. Entonces saldremos del manicomio, ellos entrarán, ¡y las cosas volverán a su estado normal!
—¡Está bromeando! –masculló al final para sí, en un avergonzado tono de desdén, mientras se alejaba a grandes zancadas.
—¿Cuándo diría usted que comienza la propiedad de un plato de sopa?
—Esta es mi sopa –replicó ella en actitud severa–, y la que tiene delante de usted, la suya.
—No cabe duda –dijo Arthur–, ¿pero cuándo comencé a poseerla? Hasta el momento de servirla en el plato, era propiedad de nuestro anfitrión; mientras era ofrecida a la mesa, el camarero, podríamos decir, la guardaba en fideicomiso; ¿pasó a ser mía cuando la acepté? ¿O cuando se me colocó delante? ¿O cuando tomé la primera cucharada?
—¡Cómo le encanta discutir! – fue todo lo que dijo la anciana señora, pero lo dijo en voz alta, esta vez, sintiendo que los presentes tenían derecho a saberlo.
Arthur sonrió pícaramente.
—¡Me apostaría gustoso con usted un chelín –continuó diciendo– a que el Eminente Abogado a su lado –¡ciertamente, es posible decir algunas cosas de modo que requieran mayúsculas iniciales!– no es capaz de responderme!
—Yo nunca apuesto – replicó la señora con desabrimiento.
—¿Ni siquiera puntos de 6peniques al whist(*)?
—¡Nunca! –repitió–. El whist es bastante inocente… ¡pero apostando…! – La señora se estremeció.
(*) Un popular juego de naipes victoriano. [N. del T.]
—Me temo que no puedo aceptar esa visión –dijo–. Considero que la introducción de pequeñas apuestas en los juegos de cartas fue uno de los actos más morales que la sociedad, como tal, ha llevado jamás a cabo.
[A opinião do mais britânico dos britânicos, Carroll!]
—¿Y cómo es eso? –preguntó lady Muriel.
—Porque sacó los naipes, de una vez por todas, de la categoría de juegos en los que es posible hacer trampas. Miren el modo en que el cróquet está desmoralizando a la sociedad. Las damas están empezando a hacer trampas en él, de manera terrible y, si se las descubre, se limitan a reírse, y dicen que es divertido. Pero cuando hay dinero en juego, eso es imposible. No se acepta al tramposo como alguien ocurrente. Cuando un hombre se sienta a jugar a las cartas y les estafa dinero a sus amigos, no se divierte mucho con ello… ¡a no ser que considere divertido que lo tiren a patadas por las escaleras!
—Si todos los caballeros pensaran tan mal de las damas como usted –comentó mi vecina con cierto resentimiento–, habría muy pocas… muy pocas… –Pareció vacilar sobre cómo concluir la frase, pero finalmente eligió «lunas de miel» como palabras seguras.
—Al contrario –repuso Arthur, al tiempo que la sonrisa traviesa regresaba a su faz–: si la gente adoptara mi teoría, el número de lunas de miel… de una clase totalmente nueva… ¡aumentaría muchísimo!
—¿Y podemos conocer esa nueva clase de lunas de miel? –pidió lady Muriel.
—Llamemos X al caballero –comenzó a explicar Arthur, elevando un poco el tono de voz, ya que ahora se veía con una audiencia de 6 personas, incluyendo a Mein Herr, el cual estaba sentado al otro lado de mi pareja polinominal– e Y a la dama a la que piensa proponerle matrimonio. Él solicita una «luna de miel de prueba». Se le concede. De inmediato, la joven pareja, acompañada por la tía abuela de Y como carabina, parte para un viaje de un mes, durante el cual dan muchos paseos a la luz de la luna, y tienen muchas conversaciones a solas, y cada uno puede formarse una idea más correcta del carácter del otro, en 4 semanas, de lo que habría sido posible en una cantidad igual de años, cuando se ven bajo las restricciones normales de la sociedad. ¡Y es únicamente tras su regreso que X decide si al final le planteará o no la trascendental pregunta a Y!
—En 9 casos de cada 10 –proclamó el hombre pomposo–, ¡decidiría romper el compromiso!
—Entonces, en 9 casos de cada 10 –replicó Arthur– se evitaría una unión poco idónea, ¡y se salvaría a las 2 partes del sufrimiento!
—Las únicas uniones realmente poco idóneas –apuntó la señora mayor– son las efectuadas sin el suficiente dinero. El amor puede llegar después. ¡Pero se necesita dinero para empezar!
Esta observación se lanzó a la concurrencia como una especie de desafío general y, como tal, varios de los que lo oyeron lo aceptaron inmediatamente. El dinero pasó a ser la tónica de la conversación durante cierto rato, y un eco intermitente de la misma volvió a escucharse cuando colocaron el postre sobre la mesa, los criados abandonaron la habitación y el earl inauguró el vino en su bien recibida vuelta en torno a la mesa.
“…Es una verdadera delicia experimentar, una vez más, la sensación de tranquilidad que lo invade a uno cuando los camareros abandonan la habitación… cuando uno puede conversar sin la sensación de estar siendo espiado, y sin que constantemente le pasen platos a uno por encima del hombro. ¡Cuánto más sociable resulta ser capaz de servirle el vino a las damas y de pasar los platos a aquellos que desean servirse!
—En ese caso, tenga la amabilidad de mandar esos melocotones para acá –dijo un gordo de tez colorada, que estaba sentado más allá de nuestro pomposo amigo–. ¡Llevo deseando que lleguen, diagonalmente, cierto tiempo!
—Sí, se trata de una innovación espantosa –contestó lady Muriel–, dejar que los camareros vayan sirviendo el vino alrededor de la mesa durante el postre. Para empezar, siempre dan la vuelta con él en el sentido equivocado… ¡lo cual, por supuesto, siempre trae mala suerte a todos los presentes!
—¡Mejor ir en el sentido equivocado que no ir en absoluto! –interpuso nuestro anfitrión–. ¿Le importaría servirse? –dijo hacia el gordo de tez colorada–. Creo que usted no es abstemio, ¿o sí?
—¡Por supuesto que sí! –replicó este, pasando las botellas–. En Inglaterra se gasta casi el doble de dinero en bebida que en cualquier otro producto alimenticio. Lea esta tarjeta. –¿Qué persona con tendencia a abrazar cualquier moda pasajera no lleva siempre los bolsillos llenos de literatura apropiada?–. Las columnas de distinto color representan las cantidades gastadas en diversos productos alimenticios. Observe las 3 más altas. Dinero gastado en mantequilla y leche: 35 millones; en pan: 70 millones; en bebidas alcohólicas: ¡136 millones! Si por mí fuera, ¡cerraría todas las tabernas del país! Examine esa tarjeta, y lea el lema: «¡Ahí es donde va a parar todo el dinero!».
—¿Ha visto la tarjeta probebidas alcohólicas? –inquirió Arthur en tono inocente.
—¡No, señor! –repuso el orador de forma violenta–. ¿Cómo es?
—Prácticamente idéntica a esta. Las columnas de colores son las mismas. La única diferencia es que, en vez de las palabras «Dinero gastado en», pone: «Ingresos derivados de la venta de»; y, en vez de «¡Ahí es donde va a parar todo el dinero!», su lema es: «¡De ahí viene todo el dinero!».
El hombre de tez colorada frunció el ceño, pero obviamente consideraba que Arthur no merecía su atención. De modo que lady Muriel rompió una lanza a su favor.
—¿Sostiene usted –inquirió– que las personas pueden promover de manera más efectiva la abstención del consumo de bebidas alcohólicas si ellas mismas son abstemias?”
“Ninguno de nosotros se atrevió a reír, pues el hombre de tez colorada estaba claramente furioso.”
—Lo que causa principalmente el fracaso de una cena de gala es la escasez… no de carne, ni de bebida, siquiera, sino de conversación.
—¡Nunca he visto una cena de gala inglesa –apunté yo– en la que se acabara la charla!
—Disculpe –contestó respetuosamente Mein Herr–; yo no he hablado de «charla». He dicho «conversación». Todos esos temas como el tiempo, la política o los chismorreos locales son algo desconocido entre nosotros. Resultan o insulsos o controvertidos. Lo que nosotros necesitamos para conversar es un tema original y de interés. Para asegurarnos de ello, hemos probado diversas estrategias: pinturas en movimiento, criaturas salvajes, invitados en movimiento y un humorista giratorio. Pero este último es adecuado únicamente en fiestas pequeñas.
“»¡Capítulo uno! ¡Pinturas en movimiento! –proclamó la voz argentina de nuestra anfitriona.
—La mesa de comedor tiene la forma de un anillo circular –comenzó a explicar Mein Herr en tono suave y soñoliento, el cual, no obstante, podía oírse perfectamente en el silencio–. Los invitados están sentados en el lado interior además de en el exterior, habiendo accedido a sus sitios por una escalera de caracol desde la habitación situada en el piso de abajo. A lo largo de la parte central de la mesa discurren unos pequeños raíles, y hay un tren con una interminable cola de vagones que da vueltas por ella impulsado mecánicamente; en cada vagón hay 2 pinturas, apoyadas una contra otra de cara a los comensales. El tren da 2 vueltas durante la cena y, tras la primera, los camareros giran las pinturas de cada vagón, haciendo que miren en la dirección opuesta. Así, ¡cada invitado ve todas las pinturas!
… ¡Capítulo dos! ¡Criaturas salvajes! …
—Encontrábamos las pinturas en movimiento ligeramente monótonas –continuó Mein Herr–. La gente no quería hablar de arte de principio a fin de una cena; de modo que probamos con criaturas salvajes. Entre las flores que repartíamos por la mesa (igual que hacen ustedes), aparecía por acá un ratón, por allá un escarabajo; por acá una araña –lady Muriel se estremeció–, por allá una avispa; por acá un sapo, por allá una serpiente –«¡Padre!», saltó lady Muriel con desazón. «¿Has oído eso?»–; ¡así que teníamos mucha materia de conversación!
…
Esta vez no siguió silencio alguno.
—¡Tercer capítulo! –proclamó lady Muriel de inmediato–. ¡Invitados en movimiento!
—Incluso las criaturas salvajes resultaban monótonas –prosiguió el orador–. De manera que dejamos que los invitados eligieran sus propios temas y, para evitar el aburrimiento, los cambiábamos de sitio a ellos. Hicimos una mesa de dos anillos, y el interior giraba lentamente en círculo, sin parar, junto con el suelo del centro de la habitación y la línea interior de invitados. Así, se iba situando a cada uno de estos frente a todos los invitados exteriores. Era un poco confuso, en ocasiones, tener que empezar una historia con un amigo y acabarla con otro, ¡pero todas las estrategias tienen sus fallos, ya saben!
—¡Capítulo cuarto! –corrió a anunciar lady Muriel–. ¡El humorista giratorio!
—Descubrimos que, para grupos pequeños, una estrategia excelente era tener una mesa redonda con un hueco en el centro lo suficientemente grande como para que cupiese un invitado. En él colocábamos a nuestro mejor conversador. Giraba despacio sobre sí mismo, poniéndose de cara sucesivamente a cada uno de los demás invitados, ¡sin parar ni un segundo de contar entretenidas anécdotas!
—¡No creo que me gustara! –murmuró el hombre pomposo–. ¡Me marearía dar vueltas de ese modo! Declinaría la… – Pareció caer en la cuenta en ese instante de que tal vez el supuesto que había hecho no quedaba garantizado por las circunstancias; dio un apresurado trago de vino, que se le atragantó.
Pero Mein Herr había recaído en su estado de ensimismamiento, y no añadió nada más. Lady Muriel dio la señal, y las damas abandonaron la sala.”
—¡Resultan encantadoras, no cabe duda! Encantadoras, pero muy frívolas. Nos arrastran, por así decirlo, a un nivel inferior. Ellas…
—¿No requieren todos los pronombres un nombre que los anteceda? –inquirió con suavidad el earl.
“…El pensamiento es libre. Con ellas, nos vemos limitados a temas banales: arte, literatura, política y otros así. Uno puede soportar discutir de materias sin importancia como esas con una dama. Pero no hay hombre, en sus cabales… –paseó una severa mirada por la mesa, como si estuviese desafiando a los invitados a que lo contradijeran– ¡que haya hablado de vino con una dama! –Probó su copa de oporto, se reclinó en su silla y levantó el vino a la altura de su ojo, como para verlo al trasluz de la lámpara–. ¿La añada, milord? –inquirió, dirigiendo una mirada a su anfitrión.”
—No –siguió diciendo… ¿y por qué sucede, me detengo a preguntar, que, al retomar el hilo interrumpido de un diálogo, uno siempre comienza con este monosílabo desprovisto de alegría? Tras meditarlo angustiosamente, he llegado a la conclusión de que el propósito es el mismo que el del colegial, cuando la suma en la que está trabajando se ha convertido en un embrollo sin solución, y cuando desesperado coge la esponja, lo borra todo y empieza de nuevo. Exactamente del mismo modo, el orador apabullado, mediante el simple proceso de negar todo lo que se ha afirmado hasta entonces, descarta de un plumazo la discusión entera, y puede «empezar como es debido» con una nueva teoría–. No –siguió diciendo–; no hay nada como la mermelada de cereza, después de todo. ¡Eso es lo que yo digo!
—¡No en todas sus cualidades! –interpuso un hombrecillo de manera entusiasta y estridente–. En lo que respecta a la riqueza del tono general, no digo que tenga rival. Pero en cuanto a la delicadeza de la modulación… lo que podría llamarse los «armónicos» del sabor… ¡a mí deme una buena mermelada de frambuesa!
“Yo mismo lo he visto fijar la edad de una mermelada de fresa con un margen de error de un día (y todos sabemos lo difícil que es poner fechas a esa mermelada) ¡probándola una sola vez!”
“«La mermelada de cereza es la mejor para un mero claroscuro de sabor; la de frambuesa se presta mejor a esas discordancias resueltas que persisten de manera tan encantadora en la lengua, pero para un absoluto arrebato de perfección azucarada, ¡las demás mermeladas no tienen nada que hacer frente a la de albaricoque!». ¿No les parece muy bien dicho?”
“La discusión pasó entonces a ser general, y sus palabras se perdieron en una mezcolanza de nombres, en la que cada invitado pronunciaba alabanzas a su propia mermelada favorita. Finalmente, a través del barullo, la voz de nuestro anfitrión consiguió hacerse oír:
—¡Reunámonos con las damas! –Estas palabras parecieron traerme de vuelta a la realidad, y tuve la seguridad de que, durante los últimos minutos, había caído otra vez en el estado de «inquietud».
«¡Un extraño sueño! –me dije mientras desfilábamos escaleras arriba–. ¡Hombres adultos discutiendo, con tanta seriedad como si fuesen cuestiones de vida o muerte, los irremediablemente triviales detalles de meras exquisiteces culinarias, que no estimulan más funciones superiores humanas que los nervios de la lengua y el paladar! ¡Qué espectáculo más humillante sería una discusión así en la realidad!»
En ese momento, de camino al salón, recibí de manos del ama de llaves a mis pequeños amigos, vestidos con unos trajes de noche de lo más exquisitos, y más radiantes en su aspecto, arrebolado por la expectativa de goce, de lo que nunca antes los había visto. Aquello no me sorprendió, sino que acepté el hecho con la misma apatía irracional con que uno recibe los sucesos de un sueño, y apenas era consciente de una vaga ansiedad respecto a cómo iban a desenvolverse en una situación tan nueva para ellos… olvidando que la vida cortesana de Exotilandia era un entrenamiento más que suficiente para alternar en el mundo más sustancial.”
—¿Cuánto habéis viajado, bonita? –insistió la joven dama.
Silvia puso cara de confundida.
—Una milla o 2, creo –dijo con aire dubitativo.
—Una milla o tdes –terció Bruno.
—No se dice «1 milla o 3» –lo corrigió Silvia.
La joven dama mostró su aprobación con un asentimiento de cabeza.
—Silvia tiene toda la razón. No es habitual decir «1 milla o 3».
—Lo sería… si lo diciéramos lo bastante a menudo –apuntó Bruno.
Ahora quien puso cara de confundida fue la joven dama.
—¡Es muy ingenioso, para su edad! –musitó–. No eres mayor de 7, ¿verdad, precioso? –añadió en voz alta.
—No soy tantos –contestó Bruno–. Soy uno. Silvia es una. Silvia y yo somos 2. Ella me enseñó a contad.
—¡Oh, no te estaba contando!, ¿sabes? –aclaró la joven dama entre risas.
—¿Es que no has apdendido a hacedlo? –dijo el niño.
La joven se mordió el labio.
—Sólo tengo una edad –contestó Bruno–. Nadie tiene 7 edades.
—¿Y eres el hermano de esta jovencita? –dijo a continuación la dama, evitando hábilmente el problema.
—¡Yo no soy «su» hedmano! –saltó Bruno–. ¡Silvia es «mi» hedmana!
–Y la estrechó con ambos brazos mientras añadía–: ¡Es compeletamente mía!
“Era una de esas intérpretes a las que la sociedad califica de «brillantes», y se lanzó a ejecutar la más hermosa de las sinfonías de Haydn con un estilo que era claramente el producto de años de paciente estudio con los mejores maestros. Al principio parecía ser la perfección de la música a piano, pero tras unos cuantos minutos empecé a preguntarme, con hastío: «¿Qué es lo que le falta? ¿Por qué no se extrae placer de ello?».
Entonces me puse a escuchar con gran atención cada una de las notas, y el misterio se aclaró por sí solo. Existía una corrección mecánica casi perfecta… ¡pero eso era todo!No estaban sonando notas equivocadas, naturalmente: la pianista se sabía la pieza demasiado bien como para que eso ocurriera, pero se daba la irregularidad justa del compás para dejar al descubierto que ella no poseía verdadero «oído» para la música;la falta justa de fluidez en los pasajes más elaborados para revelar que no creía que su audiencia mereciera un auténtico esfuerzo; la monotonía mecánica justa en la acentuación para despojar de alma todas las modulaciones celestiales que estaba profanando;en resumen, resultaba simplemente irritante, y, cuando hubo tocado el final del tirón y ejecutado el último acorde como si, ahora que había terminado con el instrumento, le diese igual cuántas cuerdas rompía, ni siquiera me vi capaz de fingir unirme al estereotipado «¡Oh, gracias!» que fue pronunciado a coro a mi alrededor.”
—Es lo que ella merece –replicó Arthur, en sus trece–, pero la gente alberga tantos prejuicios en contra de la pena capital que…
—¡Ya empiezas con las tonterías! –exclamó su prometida–. Pero a ti te gusta la música, ¿no? Eso dijiste hace un momento.
—¿Que si me gusta la música? –repitió para sí el doctor en voz baja–. Mi querida lady Muriel, hay música y música. Tu pregunta es dolorosamente vaga. También podrías preguntarme, para el caso: «¿Te gusta la gente?».
Lady Muriel se mordió el labio, frunció el ceño y dio una patadita en el suelo. Como representación dramática de mal humor, resultó un claro fracaso. Sin embargo, logró engañar a uno de sus espectadores, y Bruno corrió a interponerse, como pacificador de una riña en gestación, con el siguiente comentario:
—¡A mí me gusta la gente!
Arthur plantó una cariñosa mano en la cabecita de ensortijados cabellos.
—¿Qué? ¿Toda la gente? –inquirió.
—No toda –explicó Bruno–. Sólo Silvia… y lady Muriel… y él… –dijo, señalando al earl– y tú… ¡y tú!
—No deberías señalar a la gente –le recriminó Silvia–. Es de muy mala educación.
—En el mundo de Bruno –observé yo– sólo hay 4 personas… ¡dignas de mención!
—¡En el mundo de Bruno! –repitió lady Muriel con gesto pensativo–. Un mundo luminoso y florido, en el que la hierba siempre es verde, la brisa siempre sopla con suavidad y nunca se juntan nubarrones; donde no hay bestias salvajes, ni desiertos…
—Desiertos tiene que haber –apuntó Arthur de manera firme–, al menos si se tratara de mi mundo ideal.
—¿Pero qué utilidad puede tener un desierto? –planteó lady Muriel–. No me creo que quisieras un páramo en tu mundo ideal.
Arthur sonrió.
—¡Pues claro que sí! –aseguró–. Un páramo resultaría más necesario que un ferrocarril, ¡y muchísimo más propicio para la felicidad general que unas campanas de iglesia!
—¿Pero para qué lo querrías?
—Para practicar música en él –respondió él–. Todas las damas jóvenes sin oído musical, pero que aun así insisten en aprender, deberían ser conducidas, cada mañana, 2 o 2 millas al interior del páramo. Allí cada una encontraría un cómodo cuarto habilitado para ellas, y también un piano barato de 2ª mano, en el que podría tocar durante horas, ¡sin añadir ni una sola punzada de innecesario dolor al conjunto del sufrimiento humano!
Lady Muriel miró alarmada en derredor suyo, no fuese a ser que alguien oyera de pasada aquella atroz opinión. Pero la hermosa pianista se encontraba a una distancia segura.
—Has de admitir al menos que es una joven dulcísima, ¿no te parece? –dijo a continuación.
—Oh, sin duda. Tan dulce como el agua con azúcar, si quieres… ¡y casi igual de interesante!
—¡Eres incorregible! –dijo lady Muriel, quien luego se giró hacia mí–: Espero que la Sra. Mills le haya parecido una pareja interesante para la cena.
—¡Oh, así que ese es su nombre! –repuse–. Pensaba que sería más largo.
—Y así es y será «bajo su propia cuenta y riesgo» (signifique lo que signifique eso) si alguna vez se atreve a dirigirse a ella de ese modo. ¡Es la «Sra. Ernest-Atkinson-Mills»!
—Es una de esas advenedizas –intervino Arthur– que piensan que, por añadir a su apellido todos sus nombres de pila sobrantes, con guiones entre medias, pueden darle al mismo un toque aristocrático. ¡Como si no fuera ya bastante difícil recordar un solo apellido!
—¡Es un señor muy mayor! –comentó Silvia, observando con admiración a Mein Herr, quien se había instalado en un rincón, desde el cual sus afables ojos nos sonreían a través de un gigantesco par de lentes–. ¡Y qué barba más adorable!
—¿Cómo se llama? –susurró Bruno.
—Se llama Mein Herr –le respondió Silvia, del mismo modo.
Bruno meneó la cabeza con impaciencia.
—¡«Manjad» es como llama a la comida que le gusta, no a él mismo, tonta! –Recurrió entonces a mí–: ¿Cómo se llama, hombde señod?
—Ese es el único nombre del que tengo constancia –dije yo–. Pero parece encontrarse muy solo. ¿No os da lástima su cabello gris?
—Me da lástima él –matizó Bruno–, pero su pelo no, ni una pizca. ¡Su pelo no puede sentid!
—Bien, vayamos a hablar con él y animémoslo un poco –sugerí–; quizá descubramos cómo se llama a sí mismo.
«¡La hosca vejez y la juventud no pueden vivir juntas!… ¡Ahora miradme bien, niños! Vosotros diríais que soy un hombre mayor, ¿no?»
—No sé si es usted un hombde mayod –repuso Bruno, mientras su hermana y él, ganados por la suave voz, se acercaban al hombre un poco más, con pasitos cortos–. Cdeo que tiene ochenta y tdes años.
—¡Qué exactitud! –exclamó Mein Herr.
—Hay razones –contestó Mein Herr apaciblemente–, que no puedo explicar con libertad, para no mencionar explícitamente personas, lugares o fechas. Sólo voy a permitirme un comentario: que el periodo de vida comprendido entre los 165 y los 175 años resulta especialmente seguro.
—Del siguiente modo: uno consideraría que nadar es un entretenimiento muy seguro, si apenas le llegasen noticias de que alguien muriese por ello. ¿Me equivoco al pensar que jamás ha oído que nadie se haya muerto entre esas 2 edades?
—Entiendo lo que quiere decir –asentí–, pero me temo que no puede demostrar que la natación es segura, basándose en el mismo principio. No resulta raro oír que alguien se ha ahogado.
—En mi país –dijo Mein Herr– nadie se ahoga nunca.
—¿No hay aguas lo suficientemente profundas?
—¡En abundancia! Pero no podemos hundirnos. Todos somos más ligeros que el agua. Dejen que se lo explique –añadió, al ver mi gesto de sorpresa–: imagine que desean obtener una raza de palomas de una forma o un color concretos; ¿no seleccionan, año tras año, aquellas que se aproximan más a la forma o el color que quieren, y se quedan con esas, deshaciéndose de las demás?
—Así es –respondí–. Lo llamamos «selección artificial».
—Exacto –dijo Mein Herr–. Pues bien, nosotros la hemos practicado durante algunos siglos, seleccionando sin cesar a la gente más ligera; de modo que, ahora, todo el mundo es más ligero que el agua.
—Entonces, ¿nunca pueden ahogarse en el mar?
—¡Nunca! Sólo en tierra (por ejemplo, cuando asistimos a una representación en un teatro) nos vemos en una situación de peligro como esa.
—¿Cómo es posible eso en un teatro?
—Todos nuestros teatros son subterráneos. Sobre ellos se colocan grandes tanques de agua. En caso de que se declare un incendio, los grifos se abren, y un minuto después el teatro se halla inundado ¡hasta el mismísimo techo! De ese modo se acaba con el fuego.
—Y con la audiencia, supongo.
—Eso es secundario –repuso Mein Herr con despreocupación–. Pero tienen el consuelo de saber que, ahogados o no, son todos más ligeros que el agua. Aún no hemos llegado a que la gente sea más ligera que el aire, pero estamos en ello; quizá en otros mil años o así…
—¿Qué hacen con la gente que pesa demasiado? –inquirió Bruno con gravedad.
—Hemos aplicado el mismo proceso –continuó Mein Herr, sin percatarse de la pregunta de Bruno– a muchos otros propósitos. Hemos seleccionado sin cesar bastones de paseo, conservando siempre aquellos que permitían andar mejor, ¡hasta que hemos obtenido algunos que caminan solos! Lo mismo hemos hecho con el algodón hidrófilo, ¡hasta conseguir algodón más ligero que el aire! ¡No tiene ni idea de lo útil que es como material! Lo llamamos «imponderal».
—¿Para qué lo emplean?
—Pues principalmente para empaquetar objetos que han de enviarse por correo. Hace que pesen menos que nada, ¿sabe?
—¿Y cómo saben los empleados de la oficina postal cuánto ha de pagar usted?
—¡Eso es lo hermoso del nuevo sistema! –exclamó Mein Herr de forma exultante–. Ellos nos pagan a nosotros, ¡no al revés! A veces me dan hasta 5 chelines por enviar un paquete.
—¿Y su Gobierno no se opone?
—Bueno, sí que plantea algunas objeciones. Dice que sale muy caro, a la larga. Pero la cuestión está meridianamente clara, según sus propias normas. Si yo envío un paquete que pesa medio kilo más que nada, pago 3 peniques; de modo que, naturalmente, si pesa medio kilo menos que nada, yo debería recibir 3 peniques.
—¡Sí que es un artículo útil! –dije.
—¡Qué cosa más útil es un mapa de bolsillo! –comenté.
—Eso también es algo que hemos aprendido de su nación –dijo Mein Herr–: la cartografía. Pero lo hemos llevado mucho más lejos. ¿Cuál considera que es el mapa más grande que poseería verdadera utilidad?
—Uno de en torno a 15 centímetros por milla.
—¡Sólo eso! –exclamó Mein Herr–. Nosotros no tardamos en llegar a los 6 metros por milla. Luego probamos con cien metros por milla. ¡Y después vino la idea más grandiosa de todas! Hicimos un mapa del país, en serio, ¡a una escala de una milla por milla! —¿Y lo han usado mucho? –inquirí.
Tanto falam do escritor espanhol que utilizou essa anedota… Mas veja só!
O que é sempre péssimo para um vôo e excelente para um mapa? Que tenha escala!
—Todavía no ha sido desplegado nunca –apuntó Mein Herr–; los granjeros se opusieron: decían que cubriría todo el campo, ¡bloqueando la luz del sol! De modo que en la actualidad usamos el propio campo como mapa, y le aseguro que funciona casi igual de bien. Deje que le haga yo ahora otra pregunta. ¿Cuál es el mundo más pequeño en el que le gustaría vivir?
PAINTBALL XIX
“Pero un científico amigo mío, que ha realizado varios viajes en globo, me asegura que ha visitado un planeta tan pequeño que ¡fue capaz de recorrer una vuelta entera a pie alrededor de él en 20 minutos! Se había producido una gran batalla, justo antes de su visita, que terminó de un modo bastante curioso: el ejército derrotado huyó a toda velocidad, y a los poquísimos minutos se encontró cara a cara con el ejército vencedor, el cual marchaba de regreso a casa, ¡y este se asustó tanto al verse entre dos ejércitos, que se rindió en el acto! Naturalmente eso le hizo perder la batalla, aunque, de hecho, había matado a todos los soldados del bando contrario.
—Los soldados muedtos no pueden huid –apuntó Bruno con expresión pensativa.
—«Matado» es un tecnicismo –repuso Mein Herr–. En el pequeño planeta del que hablo, las balas estaban hechas de una suave sustancia negra que dejaba una marca en todo lo que tocaba. De manera que, tras una batalla, lo único que había que hacer era contar cuántos soldados de cada bando estaban «muertos», lo cual quiere decir «marcados por detrás», ya que las marcas por delante no contaban.
—¿Entonces no se podía matar a nadie, a no ser que saliera corriendo? –planteé yo.
—Mi amigo científico descubrió un procedimiento mejor que ese. Advirtió que, si las balas se disparaban en dirección contraria alrededor del mundo, alcanzarían al enemigo por la espalda. Después de eso, los peores tiradores pasaron a ser considerados los mejores, y el peor de todos siempre conseguía el primer premio.
—¿Y cómo decidían cuál era el peor tirador de todos?
“En este planeta, [la Tierra] según me han contado, una nación está formada por varios súbditos, y un rey, pero en el pequeño planeta del que hablo, lo estaba por varios reyes, ¡y un súbdito!
—Dice usted que le han «contado» lo que sucede en este, nuestro planeta –observé–. ¿Sería mucho suponer que usted mismo es un visitante de otro planeta? Bruno aplaudió preso de la emoción.
—¿Es usted el hombde en la luna(*)? –exclamó. Mein Herr pareció incomodarse.
—No estoy en la luna, querido –dijo evasivamente–. Volviendo a lo que estaba diciendo, creo que ese método de gobierno debería ser satisfactorio. Verán, los reyes, sin duda, crearían leyes contradictorias unas con otras, por lo que el súbdito nunca podría ser castigado, porque, hiciese lo que hiciese, siempre estaría obedeciendo alguna de ellas.
(*) Un personaje que, en diversas leyendas y mitos de todo el mundo y en una canción infantil inglesa, se dice, habita en la luna. Cada una de las fuentes otorga distintas características y aspecto a dicha figura. [N. del T.]”
—¡Oh, bueno! Somos viejos ahora y, sin embargo, yo mismo fui niño, una vez… al menos eso creo.
No pude evitar reconocer para mis adentros que parecía desde luego una suposición bastante improbable, viendo su enmarañado cabello cano y la larga barba, que hubiera sido niño alguna vez.
—¿Le gusta la gente joven? –pregunté.
—Los jóvenes –respondió–. No exactamente los niños. Solía enseñar a jóvenes, hace muchos años, en mi querida y antigua universidad.”
—Dígame una cosa –rogó, posando su mano de manera imponente sobre mi brazo–. Pues soy forastero en su tierra, y apenas sé de sus modos de educación, aunque algo me dice que estamos más adelantados que ustedes en el ciclo eterno del cambio, y que muchas de las teorías que hemos probado y encontrado ineficaces, ustedes también las probarán, con un entusiasmo más exacerbado, y también encontrarán el fracaso, ¡con una desesperación más amarga!
Fue extraño ver cómo, a medida que hablaba, y sus palabras fluían de forma cada vez más libre, con una cierta elocuencia rítmica, sus facciones parecían resplandecer con una luz interior, y todo su cuerpo dio la impresión de transformarse, como si hubiera rejuvenecido 50 años en un instante.”
—No sé lo que es una ópera –contestó Silvia medio susurrando.
—¿Cómo entonces llamas el aire?
—No conozco ningún nombre para él –repuso Silvia, levantándose del instrumento.
—¡Pero esto es maravilloso! –exclamó el conde, siguiendo a la niña, y dirigiéndose a mí, como si yo fuese el dueño de este prodigio musical y debiera conocer por tanto la fuente de su música–. ¿Usted la ha oído tocar esto, más pronto… digo «antes de esta ocasión»? ¿Cómo llama el aire?
Yo negué con la cabeza, pero me vi salvado de más preguntas por lady Muriel, que se acercó a pedirle una canción al conde.
Este separó las manos excusándose, y agachó la cabeza.
—Pero milady, ya he revisionado… digo revisado… todas sus canciones; ¡y no habrá ninguna apropiada para mi voz! ¡No son para voces de bajo!
—¡Pues claro que no puede, si es farancés! ¡Los faranceses nunca pueden hablad un inglés tan buenósimo como nosotdos! –Y Silvia se llevó consigo al voluntario cautivo.
“¿A cuáles de sus profesores valoran ustedes más, a los que se entiende con facilidad o a los que hacen sentirse a uno confundido cada vez que hablan?
Me sentí obligado a admitir que por lo general admirábamos más a los profesores a quienes no entendíamos del todo.
—Justamente –dijo Mein Herr–. Así es al principio. Bien, nosotros estábamos en esa fase hace unos 80 años… ¿o eran 90? Nuestro profesor predilecto se expresaba peor cada año, y cada año lo teníamos en mayor admiración… ¡del mismo modo que sus aficionados al arte denominan «neblina» al más hermoso elemento paisajístico, y admiran una vista con desaforado placer cuando no pueden ver nada! Ahora le voy a decir cómo acabó la cosa. Nuestro ídolo impartía clases de Filosofía Moral. Pues bien, sus pupilos no entendían ni jota, pero se lo aprendieron todo de memoria, y cuando llegó el momento de los exámenes, respondieron con ello, y los examinadores dijeron: «¡Magnífico! ¡Qué profundidad!».
—¿Pero de qué sirvió eso a los jóvenes después?
—¿Acaso no lo ve? –repuso Mein Herr–. Ellos se convirtieron a su vez en maestros, y repitieron de nuevo todas esas cosas, y sus alumnos las pusieron en el examen, y los examinadores las aceptaron, ¡y nadie tenía la más mínima idea de qué quería decir todo aquello!
—¿Y cómo acabó?
—Del siguiente modo: nos levantamos un buen día y descubrimos que no había nadie allí que supiera nada de Filosofía Moral. De forma que la abolimos; profesores, clases, examinadores y todo lo demás. Y si alguien quería aprender algo al respecto, tenía que descubrirlo por sí mismo, ¡y pasados otros 20 años o así ya había varios hombres que realmente sabían algo de la materia! Ahora dígame otra cosa. ¿Cuántos años de aprendizaje pasa un joven antes de que lo examinen, en sus universidades?
Le dije que 3 o 4 años.
—¡Exactamente lo mismo que hacíamos nosotros! –exclamó–. Les enseñábamos un poquito y, justo cuando empezaban a asimilarlo, ¡se lo sacábamos todo de nuevo! Vaciábamos nuestros pozos antes de que estuviesen a ¼ de su capacidad; cosechábamos nuestras huertas con las manzanas todavía en flor; ¡aplicábamos la severa lógica de la aritmética a nuestros pollos, mientras dormían pacíficamente en sus cascarones! No cabe duda de que pájaro durmiente, tarde hincha el vientre, pero si el pájaro se levanta tan escandalosamente temprano que el gusano está todavía bien bajo tierra, ¿cuáles son entonces sus posibilidades de desayunar? No muchas, reconocí.
—¡Vea pues cómo funciona eso! –prosiguió de manera ansiosa–. Si quieren vaciar sus pozos tan pronto… porque supongo que me dirá que es lo que deben hacer, ¿no?
—Así es –dije–. En un país superpoblado con este, únicamente las oposiciones…
Mein Herr alzó las manos como si estuviese fuera de sí.
—¿Qué, otra vez? –gritó–. ¡Creía que desaparecieron hace 50 años! ¡Oh, este upas de las oposiciones! ¡Bajo cuya mortífera sombra todo el genio original, todo el estudio exhaustivo, toda la incansable diligencia de una vida mediante los cuales nuestros antepasados tanto hicieron avanzar el conocimiento humano, deben lenta pero inevitablemente marchitarse para verse reemplazados por un sistema de cocina, en el que la mente humana es una salchicha, y lo único que nos preguntamos es cuánta materia indigerible puede embutirse en su interior!
Siempre, después de estos arranques de elocuencia, parecía perder el control durante un momento y mantenerse asido al hilo de sus pensamientos por alguna palabra aislada.
—Embutirse, sí –repitió–. Sufrimos toda esa fase de la enfermedad; ¡fue horrible, se lo garantizo! Naturalmente, como la oposición era una prueba general, intentábamos incluir en ella exactamente lo que se quería, ¡y el gran objetivo a alcanzar era que el candidato no necesitase saber nada que no entrara en el examen! No digo que alguna vez se consiguiera del todo, pero uno de mis propios alumnos (perdone el egotismo de un anciano) estuvo muy cerca de ello. Tras el examen, me expuso los escasos datos que sabía pero no había sido capaz de incluir en su respuesta, ¡y puedo asegurarle que eran nimios, señor, absolutamente nimios!”
—En aquella época, nadie había dado con la estrategia mucho más racional de esperar los destellos individuales de genio y recompensarlos a medida que apareciesen. Por tanto, metíamos a nuestro desafortunado alumno en una botella de Leyden, lo cargábamos hasta las cejas, luego aplicábamos el electrodo de una oposición y extraíamos una magnífica chispa, ¡que muy a menudo rompía la botella! Pero ¿qué más daba eso? Le poníamos una etiqueta de «chispa de sobresaliente», ¡y la dejábamos en la repisa!
—¿Pero el sistema más racional…? –sugerí.
—¡Ah, sí!, ese vino después. En vez de dar toda la recompensa por aprender de una sola vez, solíamos pagar por cada buena respuesta a medida que se producían. ¡Qué bien me acuerdo de mis clases de aquellos días, con una pila de moneditas a mi lado! Era: «¡Una respuesta excelente, Sr. Jones!» (eso se traducía en un chelín, la mayoría de las veces). «¡Bravo, Sr. Robinson!» (lo cual valía media corona). Le voy a decir qué tal funcionó. ¡Ningún alumno aprendía un solo dato que no tuviera su premio! Y cuando llegaba de la escuela un muchacho inteligente, ¡recibía más dinero por aprender de lo que nos pagaban a nosotros por enseñarle! Entonces surgió la moda más disparatada de todas.
—¿Qué, otra moda? –dije.
—Es la última –dijo el anciano–. Debo de haberle cansado con mi largo relato. Cada college(*) quería para sí a los muchachos inteligentes; de manera que adoptamos un sistema que habíamos oído que resultaba muy popular en Inglaterra: los colleges competían entre sí por los jóvenes, ¡que se subastaban al mejor postor! ¡Qué idiotas éramos! De un modo u otro, estaban obligados a venir a la universidad. ¡No hacía falta que les pagáramos! ¡Y todo nuestro dinero se iba en conseguir que los más listos fueran a un college en vez de a otro! La competencia era tan fuerte que al final los simples pagos monetarios no bastaron. Cualquier college que quisiera conseguir a algún joven especialmente brillante tenía que abordarlo en la estación y perseguirlo por las calles. El primero que lo alcanzase tenía derecho a llevárselo.
(*) En el Reino Unido, las universidades tradicionales como Oxford y Cambridge son federaciones de colleges: instituciones autónomas de enseñanza superior que ofertan distintas carreras académicas y que poseen órganos de dirección independientes. [N. del T.]
“Ocho o 9 directores de college se habían reunido a las puertas (no se permitía la entrada a ninguno), y el jefe de estación había dibujado una línea en la acera, e insistía en que todos permanecieran detrás de la misma. ¡Las puertas se abrieron de golpe! El joven salió disparado a través de ellas y enfiló como un relámpago calle abajo, ¡mientras los directores proferían verdaderos gritos de emoción al verlo! El supervisor dio la salida, mediante la vieja fórmula establecida: «¡Semel! ¡Bis! ¡Ter! ¡Currite!»(*), ¡y la caza dio comienzo! ¡Oh, era algo digno de verse, créame! En la primera esquina el alumno tiró su lexicón de griego; más adelante, su manta de viaje; después varios objetos pequeños; a continuación su paraguas; por último, lo que supongo más apreciaba, su pequeña maleta, pero el juego había acabado: el esférico director de… de…
—¿De qué college? –pregunté.
—… de uno de ellos –reanudó su relato– había puesto en práctica la teoría (su propio descubrimiento) de la velocidad acelerada, y atrapó al joven justo enfrente de donde yo me encontraba. ¡Nunca olvidaré aquel frenético y emocionante forcejeo! Pero pronto llegó a su fin. ¡Era imposible escapar de aquellas manazas huesudas!
—¿Puedo preguntarle por qué se refiere a él como el «esférico» director? –dije.
—El epíteto aludía a su forma, que era una esfera perfecta. ¿Usted es consciente de que una bala, otro ejemplo de esfera perfecta, cuando cae en línea totalmente recta, se mueve con velocidad acelerada?
Yo asentí en silencio.
—Pues bien, mi esférico amigo (como me enorgullezco en llamarlo) se entregó a la investigación de las causas de ello. Descubrió que eran 3. Uno: que es una esfera perfecta. Dos: que se mueve en línea recta. Tres: que su movimiento no es ascendente. Cuando estas 3 condiciones se cumplen, uno obtiene velocidad acelerada.
—Me parece que no –dije–, si me permite discrepar. Imagine que aplicamos la teoría al movimiento horizontal. Si una bala se dispara horizontalmente, esta…
—… no se mueve en línea recta –terminó tranquilamente mi frase.
—Tiene usted razón –reconocí–. ¿Qué hizo su amigo a continuación?
—Lo siguiente era aplicar la teoría, como usted correctamente sugiere, al movimiento horizontal. Pero el cuerpo que se desplaza, que tiende siempre a caer, necesita un apoyo constante, si ha de moverse en una verdadera línea horizontal. «Entonces», se preguntó, «¿qué proporcionará apoyo constante a un cuerpo en movimiento?». Y su respuesta fue: «¡Las piernas humanas!». ¡Ese fue el descubrimiento que inmortalizó su nombre!
—¿Que era…? –dije a modo de indirecta.
—No lo he mencionado –fue la delicada contestación de mi sumamente insatisfactorio informador–.
(*) Versión latina de «¡A la de una! ¡A la de dos! ¡A la de tres! ¡Ya!».”
“Ahora le voy a decir cómo nos curamos de esa moda absurda de pujar unos contra otros por los estudiantes más listos, ¡igual que si fueran artículos de una subasta! Justo cuando la moda había alcanzado su punto álgido, y uno de los colleges había anunciado una beca de mil libras anuales, uno de nuestros turistas nos trajo el manuscrito de una antigua leyenda africana… casualmente llevo una copia de la misma en mi bolsillo. ¿Quiere que se la traduzca?”
“Entonces, con uno de esos convulsivos sobresaltos que le despiertan a uno en el momento exacto en que va a quedarse dormido, me di cuenta de que los profundos tonos musicales que me emocionaban no pertenecían a Mein Herr, sino al conde francés. El anciano seguía aún estudiando el manuscrito.”
“Era una necesidad política (o eso nos aseguró y nosotros le creímos, aunque jamás lo hubiéramos sabido hasta ese momento) que existiesen 2 partidos para cada cuestión y sobre cualquier tema. En política, los 2 partidos, que ustedes habían encontrado necesario instituir, se llamaban, según nos contó, Whigs y Tories.(*)
(*) Whigs y Tories eran los nombres que recibían respectivamente las facciones liberal y conservadora del Parlamento inglés hasta mediados del s. XIX.”
“…estos 2 partidos, que siempre mostraban una hostilidad crónica mutua, se turnaban en la dirección del Gobierno, y, según creo, el partido que resultaba no estar en el poder recibía el nombre de «oposición», ¿cierto?
—Ese es el nombre –asentí–. Desde el principio ha habido, siempre que hemos tenido Parlamento, 2 partidos, uno en el poder y otro en la oposición.
—Bien, la función de los «gobernantes» (si puedo llamarlos así) era hacer todo lo posible por el bienestar de la nación, en cuestiones tales como declarar guerras y paces, tratados comerciales, etc., ¿no es así?
—Sin duda –dije.
—Y la función de los «opositores» era (según nos aseguró nuestro viajero, aunque en un principio nos costase mucho creerlo) impedir que los «gobernantes» tuvieran éxito en cualquiera de esas cosas, ¿cierto?
—Criticar y enmendar sus medidas –lo corregí–. ¡Sería antipatriótico obstaculizar al Gobierno en sus acciones por el bien de la nación! Siempre hemos considerado al patriota el mayor de los héroes, ¡y que un espíritu antipatriótico es uno de los peores males humanos!”
“Le puedo asegurar –escribe– que, por antipatriótico que tal vez le parezca, la función reconocida de la «oposición» es obstaculizar, de cualquier modo no prohibido por la ley, la acción del Gobierno. Este proceso se denomina «obstrucción legítima»; y el mayor triunfo que la «oposición» puede llegar a disfrutar es el de tener la oportunidad de señalar que, debido a su «obstrucción», ¡el Gobierno ha fracasado en todas las acciones que emprendió por el bien de la nación!
—Su amigo no lo ha expresado correctamente del todo –comenté–. La oposición se alegraría sin duda de señalar que el Gobierno ha fracasado por su propia culpa, ¡pero no que lo ha hecho a causa de la «obstrucción»!
—¿Usted cree? –contestó él apaciblemente–. Permita que le lea ahora este recorte de periódico que mi amigo adjuntó en su carta. Es parte de la crónica de un discurso público, realizado por un hombre de Estado que era por aquel entonces miembro de la oposición:
Al cierre de la sesión, pensaba que no tenían razón ninguna para estar descontentos con la suerte de la campaña. Habían derrotado al enemigo en todos los puntos. Pero la persecución debía continuar. Tan sólo tenían que presionar a un enemigo desorganizado y falto de moral.
—Y bien, ¿a qué etapa de su historia nacional cree usted que se estaba refiriendo el orador?
—En realidad, el número de guerras victoriosas que hemos librado durante el último siglo –contesté, con un cálido sentimiento de orgullo británico– es demasiado elevado para que adivine, con alguna posibilidad de éxito, en cuál nos encontrábamos inmersos en ese momento. Sin embargo, nombraré la India como la más probable. El Motín(*) había sido sin duda prácticamente aplastado en el momento en que se pronunció ese discurso. ¡Qué alocución más hermosa, viril y patriótica debió de ser! –exclamé en un arranque de entusiasmo.
(*) El Motín de la India o Rebelión de la India de 1857 fue un levantamiento del ejército cipayo de la Compañía de las Indias Orientales inglesa, que desembocó en otras sublevaciones populares y en un intento de restauración de los regímenes mogol y maratha en el subcontinente. La revuelta fue completamente sofocada un año después, con una durísima represión.”
—Nos pareció extraño, al principio –prosiguió, tras esperar educadamente mi respuesta unos momentos–, pero nuestro respeto por su nación era tan grande que, cuando nos hicimos a la idea, ¡lo aplicamos en todos los aspectos de la vida! Fue «el principio del fin» para nosotros. ¡Mi país nunca más volvió a levantar cabeza! –Y el pobre y anciano caballero emitió un hondo suspiro.
“El siguiente paso (tras reducir a nuestro Gobierno a la impotencia y poner freno a toda nuestra legislación útil, lo cual no nos llevó excesivo tiempo) fue introducir lo que llamábamos «el glorioso principio británico de la dicotomía» en la agricultura. Convencimos a muchos de los terratenientes de que dividieran a sus trabajadores en 2 partidos y les asignaran posturas enfrentadas. Se los llamaba, al igual que a nuestros partidos políticos, «gobernantes» y «opositores»; el trabajo de los gobernantes era arar, sembrar, o cualquier otra cosa que se necesitara, tanto como pudieran en un día, y al llegar la noche se les pagaba de acuerdo a la cantidad realizada; el trabajo de los opositores era obstaculizar el de los primeros, y se les pagaba del mismo modo proporcional. Los terratenientes descubrieron que tenían que pagar únicamente la mitad de dinero que antes en salarios, y no advirtieron que la cantidad de trabajo realizada era de tan sólo una cuarta parte de la que se hacía previamente; de manera que, en un primer momento, acogieron la medida con gran entusiasmo.”
“En un breve espacio de tiempo, las cosas se acomodaron a una rutina regular. No se realizaba ningún trabajo en absoluto. De manera que los gobernantes no obtenían dinero, y los opositores recibían la paga completa. Y los terratenientes nunca descubrieron, hasta que la mayoría de ellos estuvieron arruinados, que los granujas habían acordado esa situación, ¡y se repartían la paga entre ellos! Mientras aquello duró, ¡se producían visiones curiosas! No son pocas las veces que he visto a un labrador, con 2 caballos enganchados al arado, esforzándose al máximo por hacerlo avanzar, al tiempo que el labrador de la oposición, con 3 burros sujetos al extremo contrario, ¡se afanaba con todas sus fuerzas en hacerlo retroceder! ¡Y el arado no se movía ni un ápice en ninguna de las 2 direcciones!”
“«Como el daño ya está hecho, quizá sea
usted tan amable de hacer las maletas,
pues 2 (su hija y su yerno) son compañía,
mas 3 no entran en dicha categoría.
Iniciaremos un programa de ahorro;
para obtener efectivo hallaré el medio.
¡Y no crea, suegra, que meterá el morro
en todo ello», bramó Tottles (e iba en serio).
La música pareció desvanecerse. Mein Herr estaba hablando de nuevo con su voz normal.
—Dígame una cosa más –pidió–. ¿Estoy en lo cierto al pensar que en sus universidades, aunque un hombre permanezca en una tal vez 30 o 40 años, lo examinan, una vez y no más, al final de los primeros 3 o 4?
—Así es, sin duda –admití.
—Entonces, ¡prácticamente examinan a un hombre al comienzo de su carrera! –dijo para sí mismo el anciano, más que para mí–. ¿Y qué garantías tienen de que retiene el conocimiento por el cual lo han recompensado… por adelantado, podríamos decir?
—Ninguna –reconocí, sintiéndome un poco desconcertado ante la deriva de sus comentarios–. ¿Cómo logran ustedes ese objetivo?
—Examinándolo al final de sus 30 o 40 años, no al principio –respondió con tranquilidad–. De media, el conocimiento que se halla entonces es de 1/5 aproximadamente del que había inicialmente, produciéndose el olvido a un ritmo muy constante, y aquel que olvida menos, se lleva el mayor honor y la mayor recompensa.”
“…Cuando un hombre parece estar volviéndose ignorante, o estúpido, de un modo alarmante, algunas veces se niegan a seguir sirviéndole. ¡No tiene usted ni idea de con qué entusiasmo comienza a refrescar un hombre los conocimientos de ciencias o idiomas que había olvidado cuando su carnicero le ha cortado el suministro de ternera y carnero!
—¿Y quiénes hacen de examinadores?
—Los jóvenes que acaban de llegar, rebosantes de saber. Le resultaría curioso –prosiguió– ver a unos simples muchachos examinando a tales ancianos. Conocí a un hombre al que pusieron a examinar a su propio abuelo. Fue un poco doloroso para ambos, sin duda. El añoso caballero estaba calvo como una bola de billar…
—¿Cuán calvo sería eso? –No tenía ni idea de por qué había hecho esa pregunta. Me dio la sensación de que se me estaba reblandeciendo el cerebro.”
“Había una vez un datón… un datón muy pequeño… ¡un datón muy diminutísimo! ¡Jamás se vio datón tan enano!…”
—¿Y nunca le pasó nada, Bruno? –pregunté yo–. ¿No tienes ninguna otra cosa que contarnos de él, aparte de que era tan diminuto?
—Nunca le sucedió nada –repuso Bruno con solemnidad.
—¿Y por qué? –planteó Silvia, la cual estaba sentada con la cabeza sobre el hombro de su hermano, esperando pacientemente una oportunidad para comenzar su propia historia.
—Podque era demasiado diminuto –explicó Bruno.
—¡Esa no es excusa! –dije–. Por minúsculo que fuese, le podría haber pasado alguna cosa.
Bruno me dirigió una mirada compasiva, como si considerase que yo era muy estúpido.
—Era demasiado diminuto –repitió–. Si le pasara algo, moriría… ¡era de lo más diminutísimo!
—¡Ya basta de hablar de su tamaño! –interpuso Silvia–. ¿Aún no has inventado nada más sobre él?
—Todavía no. —Pues, entonces, ¡no deberías empezar una historia hasta que sepas cómo seguir! Ahora calla, sé bueno y escucha la historia que he pensado yo.
Y Bruno, que había agotado ya prácticamente toda su inventiva, por haber empezado de manera demasiado precipitada, se resignó en silencio a prestar atención.
—El viento susurraba entre los árboles –«¡Menudos modales!», interrumpió Bruno. «Eso da igual», le contestó Silvia– y había caído la noche… una hermosa noche con luna, y los búhos ululaban… —¡Haz como que no eran búhos! –rogó Bruno, acariciando la mejilla de su hermana con su manita regordeta–. No me gustan los búhos. Tienen unos ojos muy gdandísimos. ¡Haz como que eran pollos!
—¿Te asustan sus enormes ojos, Bruno? –pregunté.
—A mí no me asusta nada –contestó Bruno en el tono más despreocupado que pudo poner–; son feos con esos ojazos. Cdeo que si lloraran, las lágdimas serían tan gdandes… ¡como la luna! –Se echó a reír de manera alegre–. ¿Alguna vez lloran los búhos, hombde señod?
—Ninguna vez lloran –respondí en actitud seria, tratando de emular la forma de hablar de Bruno–; no tienen nada de qué lamentarse, ¿sabes?
—¡Oh, eso no es veddad! –exclamó Bruno–. ¡Les da muchósima pena cuando matan a los pobdes datones! —Pero me figuro que no será así si tienen hambre.
—¡Usted no sabe nada de búhos! –apuntó Bruno desdeñoso–. Cuando tienen hambde, les da mucha, mucha pena habed matado a los datoncitos, podque si no lo habiesen hecho tenerían algo para cenad, ¿sabe usted?
—¡No hablaba de gazapo de equivocación, tonta! –respondió Bruno con un alegre brillo en los ojos–. ¡Gazapos de los que coren pod el campo!
—¡No digas que «picó»! –suplicó Bruno–. Sólo las cosas pequeñas pican… cositas finas y codtantes, con filo…
“Háblanos pod favod del picnic de Bduno, ¡y no de leones moddisqueantes”
“No se pueden consedvad pdomesas si no hay sal, podque se echan a pedded. Y consedvaba su cumpleaños en el segundo estante.”
—¿Cuánto tiempo lo tuvo? –pregunté yo–. Nunca puedo conservar el mío más de veinticuatro horas.
—¡Pero si un cumpleaños ya dura eso pod sí solo! –exclamó Bruno–. ¡Usted no sabe consedvadlos! ¡Este niño tuvo el suyo un año entero!
—Ser bueno ya es una especie de regalo, ¿no crees? –declaré.
—¡Una especie de degalo! –repitió Bruno–. ¡A mí me parece una especie de castigo!
—¡Oh, Bruno! –terció Silvia, casi con tristeza–. ¿Cómo puedes decir eso?
–Acto seguido, se sentó muy derecho y puso una cara ridículamente solemne–. Pdimero uno debe sentadse más tieso que velas…
“«¿Pod qué no te has cepillado el pelo? ¡Ve a cepilládtelo ahora mismo!». Luego: «¡Oh, Bduno, no debes doblad las hojas de las madgaritas!». ¿Apdendió usted a deletdead con madgaritas, hombde señod?”
“los niños que se aprenden sus lecciones a la perfección, siempre conservan sus cumpleaños, ¿sabe? De modo que, como no podía ser de otro modo, ¡ese niño mantuvo el suyo!”
—Puedes llamadlo Bduno, si quieres –comentó el pequeñín con aire indiferente–. No era yo, pero hace más interesante la historia.
“Y la vaca dijo: «¡Muuu! ¿Qué vas a hacer con toda esa leche?». A lo que Bruno contestó: «Por favor, señora, la quiero para mi picnic». La vaca contestó a su vez: «¡Muuu! ¡Pero espero que no la vayas a hervir!». Y Bruno dijo: «¡Claro que no! ¡La leche recién ordeñada está tan buena y calentita que no hace falta hervirla!»”
—No era un glotón, sabe usted, pod celebdad el picnic totalmente solo –quiso aclarar Bruno, tocándome el moflete para llamar mi atención–. Lo que pasa es que no tenía hedmanos ni hedmanas.
—¡Pero Bduno no estaba asustado! –aclaró el propietario del nombre–. ¡Así que siguió siendo negdo!
—¡No, qué va! ¡Siguió siendo rosa! –rio Silvia–. Si fueras negro, no te daría besos como este, ¿sabes?
«… si se acercaba un niño regordete y jugoso, ¡solía abalanzarme sobre él y zampármelo! ¡Oh, no tenéis ni idea de lo delicioso que resulta… un niño suculento!»
—«¡Oh, hubo un desayuno nupcial de lo más encantador! En un extremo de la mesa había un pudin de pasas. ¡Y en el otro un hermoso cordero asado! ¡Oh, no os imagináis lo delicioso que resulta… un buen cordero asado!» El cordero dijo entonces: «¡Oh, señor, le ruego que no hable sobre comerse corderos! ¡Hace que me entren escalofríos!». A lo que el león contestó: «Oh, bueno, ¡no hablaremos de eso, pues!».
—Lo que dijo el león: «Ahora, corderito tonto, vete a casa con tu madre y nunca vuelvas a hacer caso a viejos zorros. Y sé muy bueno y obediente».
»Lo que el león le dijo a Bruno: «Ahora, Bruno, lleváte esos zorritos a casa contigo y enséñalos a ser buenos y obedientes. ¡No como ese viejo malvado sin cabeza!» –«Sin ninguna cabeza», remachó Bruno.
»Lo que Bruno le dijo a los pequeños zorros: «A ver, zorritos, vais a recibir vuestra primera lección de buen comportamiento. Voy a meteros en la cesta, junto con las manzanas y el pan, y no debéis comeros ni las unas ni lo otro, ni nada de nada, hasta que lleguemos a mi casa, y entonces os daré de cenar».
»Lo que los zorritos le dijeron a Bruno: nada.
«Zorrito mayor, ¿te has comido tú las manzanas?». Y el zorrito mayor respondió: «¡No, no, no!». –Resulta imposible describir el tono con el que Silvia repitió este veloz y conciso «¡no, no, no!». Alcanzo como mucho a decir que fue como si un patito excitado hubiese tratado de emitir las palabras: demasiado rápido para ser un graznido de pato y, sin embargo, demasiado áspero para tratarse de ninguna otra cosa–. Bruno dijo entonces: «Zorrito mediano, ¿te has comido tú las manzanas?». Y el zorrito mediano contestó: «¡No, no, no!». Luego Bruno dijo: «Zorrito menor, ¿te has comido tú las manzanas?». Y el zorrito menor intentó articular: «¡No, no, no!», pero tenía la boca tan llena que le fue imposible, y sólo pudo decir: «¡Uac, uac, uac!»;
“–«¿Qué significa ‘hete aquí’?», preguntó Bruno. «¡Silencio!», contestó Silvia–.”
—«Zorrito mayor –continuó Silvia, abandonando la forma narrativa en su entusiasmo–, tú has sido tan bueno que apenas puedo creer que me hayas desobedecido, pero me estoy temiendo que te has comido a tu hermana pequeña.» Y el zorrito mayor dijo: «¡Uauac, uauac!», y entonces algo hizo que se atragantara. Bruno miró dentro de su boca, ¡y estaba llena! –Silvia paró de hablar para tomar aliento; Bruno se tumbó entre las margaritas y me lanzó una mirada de triunfo. «¿No es fabuloso, hombde señod?», dijo. Yo me esforcé por adoptar un tono crítico: «Es fabuloso», contesté, «¡aunque aterrador!». «Puede sentadse un poquitín más cedca de mí, si lo desea», ofreció Bruno.
—Así, Bruno dijo: «Zorrito mayor, ¿te has comido a ti mismo, granuja?». Y este dijo: «¡Uauac!». Y Bruno vio entonces que lo único que quedaba en la cesta era ¡la boca del zorrito! Así que la cogió, la abrió y ¡sacudió y sacudió! Y, por fin, ¡consiguió sacar al zorrito de su propia boca! Y luego dijo: «¡Abre otra vez la boca, pequeño malvado!». ¡Y sacudió y sacudió, hasta que logró sacar al zorrito mediano! Y a continuación ordenó a este último: «¡Ahora abre tú la boca!». ¡Y sacudió y sacudió, hasta que logró sacar al zorrito menor, junto con todas las manzanas, y todo el pan!
“Y aprendieron sus lecciones del derecho y del revés, y cabeza abajo. Y Bruno por fin hizo sonar otra vez la gran campanilla. «¡Tin, tin, tin! ¡A cenar, a cenar, a cenar!» Y cuando los zorritos bajaron… –«¿Llevaban delantales limpios?», interrogó Bruno. «¡Por supuesto!», respondió Silvia. «¿Y cucharas?» «¡Sabes que sí!» «No estaba seguro», dijo Bruno– ¡lo hicieron más lentos que un caracol! Y dijeron: «¡Oh! ¡No habrá cena! ¡Sólo el gran vergajo!». Pero cuando entraron en la habitación, ¡vieron una cena magnífica! –«¿Con bollos?», preguntó Bruno a gritos y dando palmas–. Con bollos y bizcocho y… –«¿… y mermelada?», sugirió Bruno–. Sí, mermelada… y sopa… y… –«¡… y confites!», intervino Bruno nuevamente, y Silvia pareció satisfecha.”
“…y jamás volvieron a comerse unos a otros… ¡ni a sí mismos!”
“Y, en el silencio subsiguiente, la última estrofa de la canción de Tottles resonó por la habitación.
Ved qué tranquila reside la pareja
en su nuevo nidito de las afueras.
La mujer, entre lágrimas, resignada,
acepta llevar una vida más llana.
Pero de rodillas pide una merced:
«¡Tesorito, no te enfades, te lo ruego:
puede que mamá venga por 2 o 3…».
«¡Ni pensarlo!», aulló Tottles (e iba en serio).”
—¡Pues claro! –profirió en voz alta lady Muriel–. ¡Bruno! ¿Dónde estás, bonito?
Pero no contestó ningún Bruno; aparentemente, los 2 niños habían desaparecido de forma tan súbita, y misteriosa, como la canción.
“Quedaban únicamente unos 8 o 9 –a los que el conde les estaba explicando, por vigésima vez, cómo había estado mirando a los niños durante la última estrofa de la canción; cómo había echado entonces una ojeada por la habitación, para ver qué efecto había tenido «la gran nota de pecho» sobre su audiencia, y cómo, al mirar otra vez, ambos habían desaparecido– cuando empezaron a oírse exclamaciones de consternación por todas partes, momento en que el conde finalizó bruscamente su relato para unirse al clamor.”
“Los invitados que aún quedaban allí dieron la impresión de estar más que contentos de irse, dejándonos solos al conde y a nosotros 4.”
—¿Quién son, entonces, estos adorables niños, le ruego me diga? –preguntó–. ¿Por qué vienen, por qué van, en este modo tan poco ordinario?
“El conde pareció disponerse a hacer más preguntas, pero se contuvo.
—La hora se vuelve tarde –señaló–. Le deseo una muy buena noche, milady. Me traslado a mi cama, para soñar… ¡si es que, en realidad, no soy soñando ya! –Dicho lo cual, abandonó presto la habitación.
—¡No se vaya todavía, no se vaya! –rogó el earl cuando me preparaba para seguir al conde–. ¡Usted no es un invitado!, ¿sabe? ¡Los amigos de Arthur están aquí en su casa!”
“La majestad del pensamiento reemplaza el trabajo manual. El intenso esfuerzo intelectual de un hombre, más los golpecitos a un puro, equivalen a las ideas banales, añadiendo la labor de bordado más elaborada, de una mujer. ¿Esa es tu opinión, no es cierto, sólo que mejor expresada?”
—Descanso del cuerpo y actividad de la mente –interpuse–. Hay algún escritor que dice que ese es el summum de la felicidad humana.
Não seria ao revés?
“resulta imposible imaginar cualquier forma de vida, o raza de seres inteligentes, en la que la verdad matemática perdiese su razón de ser.”
“Suponga que descubre un remedio para alguna enfermedad que hasta la fecha se creía incurable. Bien, es algo delicioso en el momento, sin duda; tremendamente interesante; tal vez le reporte fama y fortuna. Pero ¿luego qué? Centre su mirada en el futuro, unos pocos años después, en una vida en la que no existen las enfermedades. ¿De qué vale, entonces, su descubrimiento? Milton hace prometer demasiado a Jove.”
—El caso de la ciencia militar resulta aún más evidente –señaló el earl–. Sin pecado, la guerra sería sin duda imposible. Aun así, cualquier mente que haya tenido en esta vida algún interés profundo, no pecaminoso en sí, encontrará por sí sola con seguridad alguna línea de trabajo posterior que le agrade. Puede que Wellington no tuviera más batallas que librar y, con todo,
No dudamos que, para alguien tan leal,
otras tareas más nobles debe haber
que la batalla que libró en Waterloo,
¡y la victoria siempre suya ha de ser!(*)
(*) Tennyson, Ode on the death of the Duke of Wellington
“Tomad el caso de la matemática pura, por ejemplo: una ciencia independiente de nuestro presente entorno. Yo mismo la he estudiado un poco. Considerad el tema de las circunferencias y elipses: lo que llamamos las «curvas de segundo grado». En una vida futura, que un hombre descubriera absolutamente todas sus propiedades sería únicamente cuestión de unos años (o de cientos de años,…) (…) podría pasar a las curvas de tercer grado. Pongamos que con ellas tardara 10 veces más (como veis, disponemos de tiempo ilimitado). Me resulta difícil imaginar que su interés en la materia durara siquiera tanto, y, aunque no existe límite al grado de las curvas que podría estudiar, ciertamente el tiempo necesario para agotar toda la novedad y el interés del tema sería completamente finito, ¿no? E igual con todas las demás ramas de la ciencia.”
“«¿Y ahora qué? Con nada más por aprender, puede uno descansar satisfecho de conocimientos, con toda la eternidad aún por delante?» (…) A veces he pensado que uno podría, en esa situación, decir: «Es mejor no ser», y rezar por la aniquilación personal: el nirvana de los budistas.”
“Pero con el paso de los eones, todas las razones creadas alcanzarían finalmente y sin duda alguna el mismo nivel límite de saciedad. Y, llegados a ese punto, ¿qué ilusión queda?”
GISNO 16/17:“Me he imaginado a un niño pequeño, que juega con juguetes en el suelo de su cuarto, y que es capaz, no obstante, de razonar y de pensar sobre cómo será su vida 30 años más tarde.[2035 é logo ali]¿No podría ocurrir que se dijera a sí mismo: «Para entonces me habré cansado ya de juegos de cubos y bolos. ¡Qué aburrida será la vida!»? Sin embargo, si avanzamos esos 30 años, descubrimos que es un gran estadista, lleno de intereses y que experimenta placeres mucho más intensos de lo que su vida como bebé podía ofrecerle; placeres totalmente inconcebibles para su mente infantil y que ningún lenguaje acorde sería capaz de describir en absoluto.”
“La música del Cielo puede ser algo que esté más allá del poder de nuestra imaginación. ¡Pero aun así, la música terrenal es hermosa! Muriel, hija mía, ¡cántanos algo antes de que nos vayamos a la cama!”
—¡Y nuestra breve vida aquí –dijo el earl a continuación– es, respecto a esa hora grandiosa, como un día de verano para un niño! El cansancio se va apoderando de uno a medida que la noche avanza –añadió, con un deje de tristeza en su voz– ¡y empieza a desear irse a la cama! Y escuchar esas gratas palabras: «¡Vamos, pequeño, es hora de dormir!».
—¡Oh, Bruno! –exclamó Silvia–. ¿Es que no sabes que los búhos acaban de despertarse? Pero las ranas se fueron a la cama hace un siglo.
“Entonces comprendí cómo uno en ocasiones, al cruzar un bosque una tarde en calma, ve una hoja de helecho que se mece sin parar, totalmente por sí sola. ¿Te ha pasado a ti alguna vez? La próxima, trata de ver al hada que duerme sobre ella, si puedes, pero hagas lo que hagas, no cojas la hoja; ¡deja dormir a la criaturita!”
—¡Ya puede usted dar las buenas noches! –rio lady Muriel, levantándose y cerrando la tapa del piano mientras hablaba–. ¡Cuando no ha parado de cabecear todo el tiempo que he estado cantando para usted! A ver, ¿de qué trataba la canción? –demandó imperiosamente.
“Lady Muriel abrió la marcha hasta el salón de fumar, donde, ignorando todas las costumbres de la sociedad e instintos caballerosos, los 3 Señores de la Creación nos acomodamos en unas mecedoras bajas y dejamos que la única dama presente se moviera grácilmente entre nosotros para satisfacer nuestras necesidades en forma de refrescos, cigarrillos y lumbre. No es cierto: fue uno de los 3, únicamente, el que tuvo la caballerosidad de ir más allá del habitual «gracias» y de citar la exquisita descripción del poeta de cómo Geraint se sintió conmovido, al ser servido por Enid(*)
(*) De Idylls of the king, de Tennyson”
“¡Qué delgadas parecen ser las barreras que separan a un cristiano de otro cuando uno ha de enfrentarse con los grandes acontecimientos de la vida y la realidad de la muerte!”
(*) “El wesleyanismo es una rama del protestantismo cristiano que se fundamenta en las creencias y obras teológicas de los hermanos y reformistas evangélicos del s. XVIII John y Charles Wesley.”
“«¿Pero hay un médico allí?», escuchamos decir a Arthur, y una voz profunda, que no habíamos oído hasta entonces, contestó: «Muerto, señor. Falleció hace 3 horas».
Lady Muriel se estremeció y ocultó el rostro entre las manos, pero en ese momento cerraron con cuidado la puerta principal, y no oímos nada más.”
—Muriel… amor mío… –Dejó de hablar y los labios le temblaron, pero enseguida continuó con más seguridad.
»Muriel… cariño… me… requieren… en la ensenada.
—¿Es imprescindible que vayas? –suplicó ella; acto seguido se levantó de su asiento y apoyó las manos en los hombros de su prometido, con sus grandes ojos cuajados de lágrimas fijos en el rostro de él–. ¿Es imprescindible, Arthur? Quizá suponga… ¡la muerte!
Él la miró a los ojos sin acobardarse.
—Supone la muerte –dijo, en un ronco susurro–, pero… cariño… me llaman. Y ni siquiera mi vida misma… –Le falló la voz, y no añadió más.
Durante un instante ella permaneció totalmente en silencio, con los ojos alzados en una mirada de impotencia, como si incluso las oraciones fueran ahora inútiles, al tiempo que sus facciones se agitaban y estremecían con la gran agonía que estaba soportando. Entonces pareció llegarle una súbita inspiración que iluminó su semblante con una dulce y extraña sonrisa.
—¿Tu vida? –repitió ella–. ¡No puedes darla, pues no te pertenece!
Arthur se había recuperado para entonces, y pudo responder con absoluta firmeza:
—Eso es cierto –dijo–. Ya no me pertenece a mí, sino a ti, mi… ¡futura esposa! Y tú me… ¿me prohíbes que vaya? ¿No me dejarás marchar, querida mía?
Sin soltar las manos, lady Muriel apoyó suavemente su cabeza sobre el pecho de él. Nunca antes había hecho tal cosa en mi presencia, por lo que me di cuenta entonces de lo profundamente emocionada que debía de estar.
—Sí te dejaré –afirmó, en voz baja y tranquila–, con Dios.
—Y con los pobres de Dios –susurró él.
—Y con los pobres de Dios –agregó ella–. ¿Cuándo ha de ser, amor mío?
—Mañana por la mañana –respondió él–. Y tengo mucho que hacer hasta entonces.
“A las 8 de la mañana estábamos de vuelta en el Hall, y encontramos a lady Muriel, al earl y al viejo párroco esperándonos. Fue una procesión extrañamente triste y silenciosa la que llegó hasta la pequeña iglesia, y regresó de allí; y no pude evitar sentir que aquello se parecía mucho más a un funeral que a una boda; y eso era, de hecho, para lady Muriel: un funeral en vez de una boda; tal era el peso del presentimiento (como más tarde nos dijo) que albergaba de que su flamante marido se dirigía a su muerte.”
—Llevo todo lo que voy a necesitar como médico, ciertamente. Y mis propias necesidades personales son pocas: ni siquiera llevaré nada de mi guardarropa; hay un traje de pescador, de confección, esperándome en mi alojamiento. Iré únicamente con mi reloj, unos cuantos libros y… espera: hay un libro que me gustaría incluir, un Nuevo Testamento de bolsillo, para usarlo junto a los lechos de los enfermos y los moribundos…
—¡Llévate el mío! –pidió lady Muriel, que salió corriendo escaleras arriba para cogerlo–. No tiene nada escrito salvo «Muriel» –dijo al regresar con él–. ¿Quieres que ponga…?
“¿Acaso no eres tú mía? ¿Acaso –dijo recuperando su característica actitud pícara–, como diría Bruno, no me «pedteneces»?”
“«¿Estamos destinados, nosotros 4, a volver a encontrarnos alguna vez a este lado de la tumba?», me pregunté, mientras regresaba a casa. Y el repicar de una campana distante pareció responderme: «¡No! ¡No! ¡No!».”
“Nuestros lectores habrán seguido con doloroso interés las crónicas que hemos venido publicando cada cierto tiempo sobre la terrible epidemia que, en los últimos dos meses, se ha llevado a la mayoría de los habitantes de la aldea de pescadores colindante con el pueblo de Elveston. Los últimos supervivientes, que ascienden únicamente a 23 personas, de una población que, hace apenas 3 meses, superaba las 120, fueron desalojados el pasado miércoles, bajo la autoridad de la Junta Local, e instalados de manera segura en el Hospital del Condado: de modo que el lugar es ahora una auténtica «ciudad de los muertos», sin una sola voz humana que rompa su silencio.
El grupo de rescate consistió en 6 recios hombres, pescadores de los contornos, dirigidos por el médico residente del hospital, el cual acudió con dicho propósito, encabezando un convoy de ambulancias. Los 6 hombres habían sido seleccionados –de entre un número mucho mayor que se había ofrecido para esta «misión desesperada»– por su fuerza y robusta salud, pues la expedición se consideraba, incluso ahora, cuando la enfermedad ha pasado su pico de virulencia, no desprovista de peligro.”
“Nueve hombres, 6 mujeres y 8 niños componían los 23 pacientes. No ha sido posible identificarlos a todos, ya que algunos de los niños –sin familiares supervivientes– son bebés, y 2 hombres y una mujer no han sido capaces hasta el momento de ofrecer contestaciones racionales, al estar sus capacidades cerebrales completamente en suspenso.”
“Aparte de los pobres pescadores y sus familias, había sólo 5 personas a tener en cuenta, y se determinó, más allá de cualquier duda, que todas ellas figuraban entre los fallecidos. Es un triste placer hacer constar aquí los nombres de estos auténticos mártires que, sin duda, ¡merecen como el que más figurar en la gloriosa lista de los héroes de Inglaterra! Son los siguientes:
El Rvdo. James Burgess, magíster en Humanidades, y su mujer Emma. Era el párroco de la ensenada, cuya edad no alcanzaba los 30 años, y con únicamente 2 de matrimonio. En su casa se encontró un documento en el que constaban las fechas de sus muertes.
Junto a los suyos situaremos el honorable nombre del Dr. Arthur Forester, el cual, a la muerte del médico local, afrontó noblemente el inminente peligro de muerte, en vez de dejar a esa pobre gente abandonada en su hora de máxima necesidad. No se halló ningún registro de su nombre, ni de la fecha de su defunción, pero el cadáver fue fácilmente identificado, pese a ir vestido con un traje corriente de pescador (el cual se había procurado a su llegada a la aldea, según se sabe), por una copia del Nuevo Testamento, regalo de su esposa, que fue hallada sobre su pecho, cerca del corazón, y bajo sus manos cruzadas. No se consideró prudente retirar el cuerpo para su traslado a otro lugar de entierro, y, de acuerdo a ello, fue inhumado sin demora in situ, junto con otros 4 encontrados en distintas casas, con toda la debida reverencia. Su esposa, cuyo nombre de soltera era lady Muriel Orme, contrajo matrimonio con él la misma mañana en la que emprendió su misión de sacrificio.”
“Desde su ingreso en el hospital, 2 de los hombres y 1 de los niños han muerto. Se albergan esperanzas para todos los demás, aunque hay 2 o 3 casos en que las fuerzas vitales parecen encontrarse tan completamente agotadas que una recuperación final está en contra de todo pronóstico.”
“Me entristecía regresar al lugar y sentir que nunca jamás volvería a ver la jovial sonrisa de bienvenida que había aguardado mi llegada hacía tan pocos meses. «Y, con todo, si lo encontrase aquí –susurré, mientras seguía con ensimismamiento al mozo que llevaba mi equipaje en una carretilla–, y si ‘de pronto estrechara mi mano y preguntase mil cosas sobre mi hogar’, ello no… ‘ello no me resultaría extraño’(*)!»
(*) Versos extraídos del poema In memoriamde Tennyson, compuesto justamente en recuerdo de un amigo fallecido.”
“mis viejos y queridos amigos –pues así los consideraba, realmente, aunque casi no hacía ni medio año desde que los había conocido–: el earl y su hija enviudada.”
“Ella se retiró el velo de la cara al ver que me aproximaba y avanzó a mi encuentro con una sonrisa tranquila y una serenidad mucho mayor de la que habría podido esperar.
—¡Verle por aquí otra vez es casi como volver a los viejos tiempos! –dijo, en tono de verdadero agrado–. ¿Se ha pasado ya a ver a mi padre?”
—Sentémonos un rato y charlemos tranquilamente –sugirió ella. La calma, rayante en la indiferencia, con que se comportaba me sorprendió un poco. Apenas podía sospechar yo la férrea contención que se estaba imponiendo a sí misma.
—¿Recibió mi carta?
—Sí, pero fui posponiendo mi respuesta. Resulta tan difícil decir… por carta…
“Las compuertas habían cedido finalmente, y la ola de dolor fue la más terrible que jamás hube presenciado hasta el momento. Haciendo caso totalmente omiso de mi presencia, se arrojó sobre la hierba, enterrando el rostro en ella, y aferrándose con las manos a la pequeña cruz de mármol–. ¡Oh, precioso, precioso mío! –sollozó–. ¡Dios te tenía reservada una vida tan hermosa!
Me sobresaltó oír, de tal forma repetidas por lady Muriel, las mismas palabras de la adorable niña a la que había visto lamentarse con tanta amargura por la liebre muerta. ¿Se había transferido algún misterioso influjo del espíritu de aquella dulce hada, antes de su regreso a Hadalandia, al espíritu de la mujer que tanto cariño le tenía? La idea parecía demasiado descabellada para creerla.”
“El anciano se levantó de la silla, con una sonrisa, para darme la bienvenida, pero su autodominio era muy inferior al de su hija, y las lágrimas le surcaron el rostro cuando cogió mis manos entre las suyas, y las estrechó cálidamente.”
—¡Sé que usted toma el té de las 5 –me dijo, con la encantadora actitud vivaracha que tan bien recordaba–, incluso aunque le sea imposible imponer su traviesa voluntad a la ley de la gravedad, y hacer que las tazas desciendan por el espacio infinito un poco más rápido que el té!
Este comentario marcó el tono de nuestra conversación. Por tácito consenso, evitamos, durante aquel primer encuentro de los 2 tras su inmensa desgracia, los dolorosos temas que llenaban nuestros pensamientos, y charlamos como niños alegres que jamás hubieran conocido preocupaciones.
—…y mi padre intentó darle explicación por medio de un chiste espantoso relacionado con la expresión ad «naóseam». Pues bien, el perro soltó la pieza ósea, no porque le hubiera disgustado el juego de palabras, lo cual habría probado que era un perro con gusto, sino simplemente para descansar las mandíbulas, ¡pobrecillo! ¡Me dio tanta pena! ¿No quiere unirse a mi asociación benéfica para la dotación de bolsillos a los perros? ¿Qué le parecería a usted tener que llevar su bastón en la boca?
—Estoy totalmente de acuerdo –dijo lady Muriel–, pero ¿no condenan los autores ortodoxos esa opinión, porque sitúa al hombre al mismo nivel de los animales inferiores? ¿No marcan ellos una clara frontera entre la razón y el instinto?
—Esa era, ciertamente, la visión ortodoxa, hace una generación –explicó el earl–. La veracidad de la religión parecía sustentarse por completo en la afirmación de que el hombre era el único animal racional. Pero ya no es así. El hombre aún puede afirmar su derecho a ciertos monopolios, tales, por ejemplo, como el uso de un lenguaje que nos permite aprovechar el trabajo de muchos mediante la «división del trabajo». Pero la creencia de que disponemos del monopolio de la razón hace tiempo que fue desterrada. Y ello no se vio seguido, aun así, de ninguna catástrofe. Como dice un viejo poeta: «Dios sigue en su sitio».
Não tivesse pressa, sr. Carroll! Onde há divisão do trabalho e “razão” há crise e catástrofe!
(*) “Joseph Butler (1692-1752) fue un filósofo y teólogo inglés, obispo primero de Bristol y luego de Durham, autor de diversas obras de gran influencia en pensadores posteriores. En una de las más importantes, The analogy of religion, natural and revealed («Analogía de la religión, natural y revelada»), expone su visión de que no existen pruebas que demuestren que la «fuerza vital» de los animales desaparece a su muerte. [N. del T.]”
“A veces he pensado que lo único que podría llegar alguna vez a hacer que dejara de creer en un Dios perfectamente justo es el sufrimiento de los caballos…”
—Los sufrimientos de los caballos –planteé– están causados principalmente por la crueldad del hombre. De modo que es tan sólo uno de los muchos casos en los que el pecado hace sufrir a otros que no son el propio pecador. ¿Pero no encuentra mayores dificultades cuando el sufrimiento lo inflige un animal sobre otro? Pongamos, el de un gato que juega con un ratón. Suponiendo que no tuviese responsabilidad moral, ¿no es un misterio más oscuro que el de un hombre que fuerza a un caballo más allá del límite?
—Mencionó usted la «división del trabajo», hace un momento –dije–. Sin duda, es algo que alcanza una maravillosa perfección en una colmena de abejas, ¿no cree?
—Tan maravillosa, tan completamente sobrehumana –contestó el earl– y tan enteramente inconsistente con la inteligencia que muestran en otras cuestiones, que no me cabe ninguna duda de que es puro instinto, y no, como algunos sostienen, una razón de un nivel muy elevado. ¡Fíjese en la absoluta estupidez de una abeja cuando trata de pasar por una ventana abierta! No «intenta» pasar, en ningún sentido razonable de la palabra: ¡simplemente se va chocando aquí y allá hasta dar con la salida! De un cachorrito que se comportase así, diríamos que es imbécil. Y, sin embargo, ¡se nos pide que creamos que su nivel intelectual excede el de sir Isaac Newton!
—¡Trampa, trampa! –prorrumpió lady Muriel, en un tono triunfante de lo menos filial–. ¡Pero si tú mismo acabas de decir: «la mente de la abeja»!
—Pero no he dicho «mentes», hija mía –repuso el earl con suavidad–. Se me ha ocurrido, como solución más probable al «misterio de la abeja», que un enjambre posee una sola mente común. Estamos acostumbrados a ver una sola mente que anima un conjunto sumamente complejo de miembros y órganos, cuando estos se hallan unidos. ¿Cómo sabemos que es imprescindible una conexión material? ¿No podría bastar la mera proximidad? De ser así, ¡un enjambre de abejas no es más que un único animal cuyos muchos miembros no están ligados!
—Es una idea sorprendente –admití– que requiere una noche de descanso para su correcto entendimiento. Tanto la razón como el instinto me dicen que debería marcharme a casa. ¡Buenas noches, pues!
“Abandonamos el camino para internarnos bajo el sombrío dosel de la enramada, la cual formaba una estructura de una simetría casi perfecta, agrupada en encantadoras bóvedas de arista, o que se prolongaba, hasta donde alcanzaba la visión, en interminables naves centrales y laterales, coros y presbiterios, como si se tratara de una catedral fantasmal, erigida en sueños por un poeta trastornado.” Um matemático bêbado ou poeta (o que dá no mesmo) é mesmo coisa de outro mundo…
—Siempre, en este bosque –comenzó a decir lady Muriel tras un breve silencio (silencio que resultaba natural en aquella solitaria penumbra)–, ¡me da por pensar en las hadas! ¿Puedo hacerle una pregunta? –agregó de manera titubeante–. ¿Cree usted en las hadas?
El momentáneo impulso que sentí de hablarle de mis experiencias en aquel mismo bosque fue tan fuerte que tuve que hacer un verdadero esfuerzo por contener las palabras que acudían en tropel a mis labios.
—Si por «creer» se está refiriendo a «creer en su posible existencia», le digo que sí. Ya que en lo que respecta a su existencia real, naturalmente, se necesitarían pruebas.
—Decía usted, el otro día –continuó ella–, que aceptaría cualquier cosa, para la que hubiera indicios suficientes, que no fuese a priori imposible. Y me parece que mencionó los fantasmas como ejemplo de un fenómeno probable. ¿Serían las hadas otro caso?
—Así lo creo. –Me costó reprimir nuevamente el deseo de añadir más, pero aún no estaba seguro de que mi interlocutora fuese a aceptar mi confesión.
—¿Y tiene usted alguna teoría sobre qué tipo de lugar ocuparían en la Creación? ¡Dígame qué piensa acerca de ellas! ¿Tendrían, por ejemplo, suponiendo que tales seres existieran, responsabilidad moral de alguna clase? Quiero decir –su tono jocoso y despreocupado cambió de súbito a uno profundamente serio–, ¿serían capaces de pecar?
—Pueden razonar, quizás a un nivel inferior al de los hombres y las mujeres; nunca por encima, pienso yo, de las facultades de un niño; y, con absoluta seguridad, poseen sentido de la moral. Sería absurdo que existiera un ser así sin libre albedrío. De manera que ello me induce a concluir que tienen la capacidad de pecar.
—¿Cree, pues, en las hadas? –exclamó encantada, haciendo un repentino ademán, como si fuese a batir palmas–. Entonces, dígame, ¿qué razones tiene para ello?
Yo me resistía todavía a llevar a cabo la revelación que, estaba convencido, se acercaba.
—Creo que hay vida en todas partes, no únicamente material, no sólo aquella palpable a nuestros sentidos, sino también inmaterial e invisible. Creemos en nuestra propia esencia inmaterial, llámela «alma», o «espíritu», o como prefiera. ¿Por qué no iban a existir otras esencias similares a nuestro alrededor, no ligadas a un cuerpo visible y material? ¿No creó Dios este enjambre de alegres abejas para que danzaran bajo este sol durante una hora de gozo, sin otro objeto, que podamos concebir, que el de aumentar la felicidad general que sentimos?
A burrice de todo metafísico é sempre esta palavra: fim.
“Lady Muriel no hizo más preguntas. Continuó andando en silencio a mi lado, con la cabeza baja y las manos fuertemente entrelazadas. Se limitó, en tanto progresaba mi relato, a realizar alguna que otra inspiración brusca y superficial, como una niña que jadeara de gozo. Y le dije que nunca antes le había revelado a nadie ni en susurros mi doble vida, y mucho menos (pues la mía podría haber pasado por una ensoñación diurna) la doble vida de esos 2 adorables niños.
Y cuando le hablé de las locas travesuras de Bruno, se echó a reír de manera alegre; y cuando le hablé de la dulzura de Silvia, de su generosidad absoluta y su amor sin reservas, inspiró hondo, como alguien que recibe al fin unas preciosas noticias por las que el corazón ha suspirado largo tiempo; y por sus mejillas resbalaron lágrimas de felicidad, que se perseguían unas a otras.” O estágio da filha, princesa fada, pelo mundo humano terminou, teria dito seu pai e rei.
—He sentido muchas veces el intenso deseo de encontrarme con un ángel –susurró, en voz tan baja que apenas alcanzaba a oírla–. ¡Me alegro tanto de haber conocido a Silvia! Quedé prendada de esa niña desde el primer momento en que la vi… ¡Escuche! –se interrumpió bruscamente–. ¡Es Silvia cantando! ¡Estoy segura! ¿No reconoce su voz?
—He oído cantar a Bruno, más de una vez –dije–, pero nunca a Silvia.
—Yo sólo la he oído en una ocasión –repuso lady Muriel–. Fue el día que usted nos trajo aquellas misteriosas flores. Los niños habían salido corriendo al jardín, y yo vi a Eric venir en esa dirección, y me acerqué a la ventana para saludarlo; Silvia estaba cantando, bajo los árboles, una canción que jamás había oído. La letra era algo así: «Creo que es amor, siento que es amor». Su voz sonaba muy lejana, como en un sueño, pero era tan hermosa que no podía expresarse con palabras… tan dulce como la primera sonrisa de un bebé, o el primer destello de los blancos acantilados de Dover cuando uno regresa al hogar tras años llenos de tedio… una voz que parecía inundarlo a uno de paz y pensamientos divinos… ¡Escuche! –exclamó, interrumpiéndose otra vez por la emoción–. ¡Esa es su voz, y se trata de la misma canción!
“Nos quedamos totalmente callados, y un instante después los 2 niños aparecieron, dirigiéndose directamente hacia nosotros a través de un paso con forma de arco entre los árboles. Cada uno rodeaba al otro con un brazo, y el sol poniente dibujaba un halo dorado en torno a sus cabezas, como los que uno ve en las imágenes de los santos. Estaban mirando en nuestra dirección, pero era evidente que no nos veían, y no tardé en percatarme de que lady Muriel había entrado por una vez en un estado bien conocido por mí, y en el que ahora los 2 nos encontrábamos, el de «inquietud»; y de que, aunque nosotros pudiésemos ver perfectamente a los niños, éramos totalmente invisibles para ellos.”
“Dime: ¿cuál es el hechizo, cuando sus polluelos pían,
que incita al ave a volver a su nido?
¿O despierta a la cansada madre, cuyo bebé se desgañita,
para acunarlo hasta que se ha dormido?
¿Qué magia actúa sobre el infante, radiante de alegría,
que lo mueve a emitir gorgoritos?
Acto seguido tuvo lugar la más extraña de todas las experiencias extrañas que marcaron el maravilloso año cuya historia estoy escribiendo: la experiencia de oír cantar a Silvia por primera vez. Su parte era muy breve –apenas unas pocas palabras–, la cual entonó de una forma tímida, y realmente bajísima, casi inaudible, pero la dulzura de su voz resultaba simplemente indescriptible; nunca había oído sobre la faz de la tierra una música como aquella.”
“Es un secreto; nadie sabe cómo vino, ni cómo marchó:
¡pero el nombre del secreto es amor!”
—¡Qué bonitósimo! –exclamó el pequeñín, al pasar los 2 por nuestro lado, tan cerca que nos retiramos un poco para dejarles sitio, y parecía que sólo teníamos que extender una mano para tocarlos, pero no hicimos el intento.
—¡Es inútil que tratemos de detenerlos! –dije yo, mientras desaparecían en las sombras–. ¡Ni siquiera podían vernos!
“¡Han salido de nuestras vidas! –Exhaló otro suspiro; y los 2 guardamos silencio hasta que salimos al camino principal, en un punto cercano a mi alojamiento.”
“¡Buenas noches, querido amigo! Que nos veamos pronto… ¡y a menudo! –añadió con una afectuosa calidez que me llegó al corazón–. ¡«Pues pocos son aquellos a los que estimamos!»
—¡Buenas noches! –repuse–. Tennyson dijo eso de un amigo más digno que yo(*).
—¡Tennyson no tenía ni idea! –replicó ella descaradamente, con un toque de su antigua jovialidad infantil; después nos separamos.
(*) En su poema To the Rev. F. D. Maurice («Al reverendo F. D. Maurice»). [N. del T.]”
* * *
—¿Estará Uggug en el banquete? –preguntó Bruno. Ambos niños parecieron intranquilizarse ante la sombría alusión.
—¡Pues claro! –rio el profesor suavemente–. ¿Acaso no sabéis que es su cumpleaños? Se brindará a su salud y todo eso. ¿Qué sería el banquete sin él?
—Muchósimo más agdadable –dijo Bruno. Pero lo dijo apenas en un susurro, y nadie excepto Silvia lo oyó.
El profesor volvió a reír.
“Primero tendrá lugar la charla –explicó–. Es algo en lo que insiste la emperatriz. Dice que la gente comerá tanto en el banquete que tendrá demasiado sueño para atender en caso de que fuese después, y quizá tenga razón. Habrá un pequeño refrigerio, nada más llegar la gente; una especie de sorpresa para la emperatriz, ¿sabéis? Desde que ya no es… bueno, tan inteligente como antes… hemos creído aconsejable preparar pequeñas sorpresas para ella. Luego viene la charla…”
“¡Hoy es el día de la medicina! Sólo administramos medicamentos una vez por semana. ¡Si empezásemos a hacerlo a diario, los frascos no tardarían en quedar vacíos!”
—¿Qué?, ¡enfermar el día equivocado! –exclamó el profesor–. ¡Oh, eso sería inaceptable! ¡Un criado que se pusiera enfermo el día equivocado sería despedido fulminantemente! Esta es la medicina para hoy –prosiguió, bajando un gran frasco de un estante–. Yo mismo hice el preparado esta mañana temprano. ¡Pruébalo! –dijo, tendiéndole el frasco a Bruno–. ¡Moja el dedo y pruébalo!
—¿Que está asqueroso? –repuso el profesor–. ¡Naturalmente! ¿Qué sería la medicina, si no estuviese asquerosa?
—Agdadable –apuntó Bruno.
—Me disponía a decir… –dijo el profesor de manera titubeante, bastante sorprendido por la pronta réplica de Bruno– ¡que eso sería inaceptable! La medicina ha de saber mal, ¿sabes? Tenga la bondad de llevar este frasco al comedor de la servidumbre –le dijo al lacayo que contestó a la campanilla–, y dígales que es su medicina para hoy.
—¿Quién debe tomarla? –preguntó el lacayo, mientras se llevaba el frasco.
—¡Oh, aún no lo he decidido! –respondió el profesor con energía–. Iré enseguida a resolverlo. En cualquier caso, ¡dígales que esperen hasta que yo llegue! ¡Es realmente maravilloso –dijo, girándose hacia los niños– el éxito que he tenido en la cura de enfermedades! Estas son algunas de mis notas. –Cogió del estante una pila de papelitos, sujetos en grupos de 2 y 3–. Mirad, por ejemplo, este caso: «Pinche número 13 recuperado de fiebre común, febris communis». Y ved lo que pone en la nota adjunta: «Administré al pinche número 13 una dosis doble de medicina». ¿No es algo de lo que enorgullecerse?
“Uno puede conservar un medicamento durante años y años, ¡pero nadie quiere conservar jamás una enfermedad! Por cierto, venid a ver el estrado. El jardinero me pidió que fuera a comprobar si servía. Más vale que vayamos antes de que oscurezca.”
—¡Un anciano! –gritó el profesor, en tanto cruzaba rápidamente la habitación con gran entusiasmo–. ¡Debe de ser el otro profesor, que se perdió hace muchísimo tiempo!
—¡El banquete! –gritó el otro profesor, levantándose como un resorte y llenando la habitación con una nube de polvo–. En tal caso, más vale que vaya a… a pasarme un poco el cepillo. ¡Hay que ver cómo estoy!
—¡Y ahí sigue todavía ese simpático jaddinero! –exclamó Bruno encantado cuando salíamos al jardín–. ¡Seguro que lleva cantando esa misma canción desde que nos fuimos!
—¡Por supuesto que sí! –repuso el profesor–. Si dejara de hacerlo, no sería él, ¿sabes?
—¿Y quién sería? –quiso saber Bruno, pero el profesor pensó que lo mejor era hacer oídos sordos a la pregunta–.
—Es que quería saber qué comen los erizos, así que estoy reteniendo a este para ver si come patatas…
—Sería mucho mejor que retuviera una patata –sugirió el profesor–, ¡y que viera si el erizo se la come!
—¡Esa sería la forma correcta, sin duda! –exclamó el encantado jardinero–. ¿Vienen a ver el estrado?
“…mas luego advirtió que eran
2 reglas de 3 seguidas.
«¡Y este gran misterio –dijo–
pa mí es claro como el día!»
—Lleva meses enteros con esa canción –observó el profesor–. ¿Aún no ha terminado?
—Sólo queda una estrofa –contestó el jardinero apenado. Y, con lágrimas resbalándole por las mejillas, cantó la estrofa final:
Creyó ver un argumento
que en papa lo convertía:
mas luego advirtió que era
de jabón una pastilla.
«¡Algo tan horrendo –dijo–
mis esperanzas fulmina!»
Ahogándose en sollozos, el jardinero corrió a adelantarse unos metros respecto a los demás, con objeto de ocultar su emoción.”
—¡Oh, desde luego! –dijo el profesor–. Esa canción es la historia de su vida, ¿sabes?
Lágrimas provocadas por una compasión siempre a flor de piel relucieron en los ojos de Bruno.
—¡Me da muchósima pena que no sea el papa! –dijo–. ¿A ti no, Silvia?
—Bueno… no estoy segura –repuso Silvia de manera muy vaga–. ¿Eso le alegraría? –preguntó al profesor.
—El que no se alegraría sería el papa –observó este–. ¿No es precioso el estrado? –inquirió, cuando entramos en el pabellón.
—Bueno, no es exactamente una charla sobre magia –dijo el profesor, a la vez que colocaba unas cuantas máquinas de aspecto curioso sobre la mesa–. De todos modos, ¿qué sabes hacer? ¿Alguna vez has traspasado una tabla, por ejemplo?
—¡Muchas veces! –respondió Bruno–. ¿No es ciedto, Silvia?
El profesor se sorprendió claramente, aunque trató de disimularlo.
—Eso debe ser estudiado –murmuró para sí, mientras sacaba una libreta de notas–. Lo primero… ¿qué tipo de tabla?
—¡Díselo! –le susurró Bruno a Silvia, abrazándose a su cuello.
—Díselo tú –contestó Silvia.
—No puedo –dijo Bruno–. Es una palabda espinosa.
—¡Tonterías! –rio Silvia–. Eres capaz de decirla sin problemas, si haces el esfuerzo. ¡Vamos!
—Multi… –lo intentó Bruno–. Empieza así.
—¿De qué habla? –exclamó el confundido profesor.
—Se refiere a que ha repasado muchas veces la tabla de multiplicación –explicó Silvia.
El profesor puso cara de indignación y volvió a cerrar su libreta.
—Oh, pero eso es otra cosa totalmente distinta –dijo.
—Es un montón muy gdandísimo de otdas cosas –matizó Bruno–. ¿A que sí, Silvia?
Un estrepitoso toque de trompetas interrumpió aquella conversación.
“Me sorprendió enormemente el gran cambio que unos pocos meses habían obrado en los rostros de la pareja imperial. Una mirada perdida constituía ahora la expresión usual del emperador, mientras que en el rostro de la emperatriz aparecía y desaparecía, de manera intermitente, una sonrisa sin sentido.”
“¡Una mesa corriente de caoba! –gruñó, señalándola desdeñosamente con el pulgar–. ¿Por qué no se fabricó de oro, me gustaría saber?”
—¡Y luego está el bizcocho! ¡De pasas corrientes y molientes! ¡Por qué no se elaboró de… de… –Se produjo otra interrupción–. ¡Y el vino! ¡Un simple madeira de toda la vida! ¿Por qué no…? ¡Y esta silla! Eso es lo peor de todo. ¿Por qué no fue un trono? Las otras omisiones podrían disculparse, ¡pero lo de la silla es inaceptable!
—¡Lo que yo no puedo aceptar –terció la emperatriz, en exaltada sintonía con su furioso marido– es la mesa!
—¡Bah! –soltó el emperador.
—¡Es algo muy lamentable! –repuso con suavidad el profesor, en cuanto tuvo ocasión de hablar. Tras pensarlo un momento, reforzó el comentario–: ¡Todo –añadió, dirigiéndose a la concurrencia en general– es muy lamentable!
—¡Cuente unos chistes, profesor, ya sabe… sólo para que la gente se relaje y se sienta cómoda!
—¡Cierto, cierto, señora! –contestó con docilidad el profesor–. Este muchachito…
—¡No haga ningún chiste sobde mí, pod favod! –exclamó Bruno, al tiempo que los ojos se le llenaban de lágrimas.
—No lo haré si no quieres –dijo el bondadoso profesor–. Era sólo algo sobre una misión de infante-ría: un juego de palabras inofensivo… pero es igual. –Entonces se volvió hacia la multitud y se dirigió a ellos en voz alta–: ¡Siéntanse como 6! –voceó–. ¡Como 5! ¡Como 4! ¡Y como 3! ¡Entonces se sentirán como 2!
Hubo una sonora carcajada por parte de todos los asistentes, y después un gran número de susurros confundidos: «¿Qué ha dicho? Algo sobre comer, me parece…».
—Que traigan unas espinacas, profesor, ya sabe, para sorprender a los invitados.
—Si quiere sodpdended a la gente –apuntó Bruno–, debería ponedles danas vivas en la espalda.
“Pero la emperatriz ya había comido bastante y, de algún modo –no pude percatarme del proceso exacto–, todos nos vimos entonces en el pabellón, cuando el profesor se disponía a dar comienzo a la largamente esperada charla.
—En ciencia… de hecho, en la mayoría de las cosas… normalmente es mejor empezar por el principio. En algunas, por supuesto, es mejor empezar por el otro extremo. Por ejemplo, si uno quisiera pintar un perro de verde, lo más conveniente sería quizá empezar por la cola, ya que por ese lado no muerde. De modo que…
—¿Puedo ayudadle? –interrumpió Bruno.
—¡A pintad un pero de vedde! –exclamó Bruno–. ¡Usted puede empezad con la boca, y yo…!
“Un axioma, como saben, es algo que uno acepta sin contradicción. Por ejemplo, si yo dijese: «¡Aquí estamos!», sería aceptado sin oposición alguna, y es una buena forma de empezar una conversación. De manera que eso sería un axioma. O, de nuevo, suponiendo que yo dijese: «¡Aquí no estamos!», eso sería…
—¡… una bola! –gritó Bruno.
—¡Oh, Bruno! –dijo Silvia, en un susurro de amonestación–. ¡Pues claro que sería un axioma, si el profesor lo dijera!
—Tal vez fuese un «aquí-asoma» –replicó Bruno–, ¡pero no sería veddad!”
“Por ejemplo, tomen el axioma: «Nada es mayor que sí mismo»; esto es, «Nada puede contenerse a sí mismo». Cuántas veces se oye decir a la gente: «Estaba tan alterado, que era absolutamente incapaz de contenerse». ¡Pues claro que era incapaz! ¡El que estuviera alterado no tenía nada que ver en ello!
—¡Escuche una cosa! –saltó el emperador, que estaba empezando a ponerse un poco nervioso–. ¿Cuántos axiomas nos va a enunciar? A este ritmo, ¡no llegaremos a los experimentos hasta dentro de una semana!”
“Sólo hay –consultó nuevamente sus notas– 2 más que sean realmente necesarios.
—Pues léalos y pasemos a los especímenes –refunfuñó el emperador.
—El primer axioma –leyó en voz alta el profesor con gran premura– consta de las siguientes palabras: «Lo que es, es». Y el segundo, de estas otras: «Lo que no es, no es». Ahora vamos a pasar a los especímenes. La primera bandeja contiene cristales y otras cosas. –Acercó esta hacia sí y volvió a consultar su libreta–. Algunas de las etiquetas, debido a una adhesión insuficiente… –Entonces calló otra vez, y examinó cuidadosamente la página con sus gemelos–. No puedo leer el resto de la frase –dijo finalmente–, pero lo que dice es que las etiquetas se han despegado, y las cosas, mezclado…
—¡Deje que yo las vuelva a pegad! –gritó Bruno con entusiasmo, el cual empezó a lamer las etiquetas como si fuesen sellos postales y a colocarlas en los cristales y las demás cosas. Pero el profesor corrió a apartar la bandeja lejos de su alcance.
—¡Podrían acabar pegadas en los especímenes equivocados!, ¿sabes?”
—Nuestro primer espécimen –anunció, mientras colocaba el frasco delante del resto de cosas– es… es decir, se llama… –entonces lo levantó, y volvió a examinar la etiqueta, como si pensara que a lo mejor había cambiado desde la última vez que la miró– se llama aqua pura, agua corriente, el fluido que anima…
—¡Hip, hip…! –empezó a entonar el jefe de cocina entusiásticamente.
—¡… pero no embriaga! –se apresuró en continuar el profesor, a tiempo de detener por poco el «¡Hurra!» que estaba iniciándose.
–En aquel momento le hizo una seña al jardinero para que subiera al estrado, y con su ayuda empezó a montar lo que parecía una enorme caseta para perros, de la que salían proyectados por ambos lados unos tubos cortos.
—Pero ya hemos visto elefantes con anterioridad –refunfuñó el emperador.
—Sí, ¡pero no a través de un megaloscopio! –repuso el profesor exaltado–. Ustedes saben que no pueden ver una pulga, como es debido, sin una lente de aumentos… lo que llamamos un «microscopio». Pues bien, exactamente del mismo modo, uno no puede ver un elefante como es debido sin una lente de reducción. Hay una en cada uno de estos pequeños tubos. ¡Y esto es un megaloscopio! El jardinero traerá a continuación el siguiente espécimen. Retiren por favor ambas cortinas, en aquel extremo de allí, ¡y abran paso al elefante!
“«¡Creyó ver un elefante, que alto un pífano tocaba!». Hubo un momentáneo silencio, y entonces su áspera voz volvió a oírse en la distancia: «’Mas luego…’, ¡venga, arriba! ‘Mas luego advirtió que era…’, ¡so!, ‘que era, de su esposa, una…’ ¡abran paso, que viene!».
Y entró marchando o bamboleándose –difícil decir qué palabra es la correcta– un elefante, sobre sus patas traseras, mientras tocaba y sujetaba con las delanteras un pífano gigantesco.”
—¡El espécimen está ahora listo para su observación! –proclamó–. ¡Es exactamente del tamaño de un ratón común: Mus communis!
—Es muy pequeño –dijo con voz grave–. Más de lo que suelen serlo los elefantes, ¿me equivoco?
El profesor dio un brinco de gozosa sorpresa.
“¡Su alteza imperial ha hecho una observación perfectamente lógica!”
—¡Mantengan cerrada la puerta del microscopio! –gritó–. ¡Si la criatura escapase, con este tamaño…! –Pero el daño ya estaba hecho. La puerta se había abierto de golpe, y un momento después el monstruo andaba suelto, pisoteando a los aterrorizados espectadores, que no paraban de lanzar chillidos.
Pero el profesor no perdió su aplomo.
—¡Descorred esas cortinas! –gritó. Y así se hizo. El monstruo juntó sus patas, y de un tremendo salto desapareció en el cielo.
—¿Dónde está? –inquirió el emperador, frotándose los ojos.
—En la provincia de al lado, me imagino –respondió el profesor–. ¡Habrá salvado como mínimo 5 millas con ese salto! Lo siguiente es explicar uno o 2 procesos. Pero veo que apenas tengo sitio para maniobrar… la criaturita está relativamente en medio…
—Nuestro segundo experimento –anunció el profesor, mientras Bruno regresaba a su asiento, frotándose aún los codos ensimismado– es la producción de ese fenómeno apenas-visto-pero-que-seráenormemente- admirado: ¡la luz negra! Ustedes han contemplado la luz blanca, la roja, la verde, etcétera, ¡pero nunca, hasta este día maravilloso, han contemplado ojos distintos a los míos la luz negra! Esta caja –indicó, levantando el objeto con cuidado de la mesa, tras lo cual lo cubrió con un montón de mantas– está totalmente repleta de ella. Lo logré de la siguiente manera: metí una vela encendida en un armario a oscuras y cerré la puerta. Naturalmente, este estaba en ese momento lleno de luz amarilla. Luego cogí un bote de tinta negra y lo vertí sobre la vela y, para mi deleite, ¡cada chispa de luz amarilla pasó a ser negra! ¡Ese fue sin duda el momento de mayor orgullo de mi vida! Entonces llené una caja con ella. Y ahora… ¿querría alguien asomarse debajo de las mantas para verla?
—¿Qué has visto en la caja? –lo interrogó Silvia.
—¡Nada! –respondió Bruno con pesar–. ¡Estaba demasiado oscuro!
—¡Ha descrito a la perfección el aspecto de la luz negra! –exclamó el profesor con entusiasmo–. Esta y la nada resultan tan extremadamente similares, a primera vista, ¡que no me extraña que no haya logrado distinguirlas! Procederemos ahora al tercer experimento.
—¿Cuánto hemos de esperar? –gruñó el emperador.
El profesor miró su reloj.
—Bueno, creo que bastarán mil años para empezar –dijo–. Entonces liberaremos cuidadosamente la pesa y, si todavía muestra (como quizá sea el caso) una ligera tendencia a caer, la engancharemos otra vez a la cadena, y la dejaremos durante 8 mil años.
La emperatriz experimentó entonces uno de esos destellos de sentido común que sorprendían a todos los que la rodeaban.
—Entretanto habrá tiempo para otro experimento –señaló.
—¡Desde luego! –exclamó el encantado profesor–. Volvamos al estrado y pasemos al cuarto experimento.
»Para este último experimento, tomaré un cierto álcali, o ácido, no recuerdo qué. Ahora verán lo que ocurre cuando lo mezclo con un poco de… –cogió en ese momento un frasco y lo miró con aire dubitativo– cuando lo mezclo con… con algo…
El emperador interrumpió entonces:
—¿Cuál es el nombre de la sustancia? –preguntó.
—No me acuerdo –se disculpó el profesor– y se le ha caído la etiqueta. –Vació rápidamente el frasco en el otro y, con una tremenda explosión, ambos volaron en pedazos, perturbando todos los aparatos, e inundando el pabellón con un denso humo negro. Yo me levanté al instante, aterrado, y… y me vi de pie frente a mi solitaria chimenea, donde el atizador, tras caer finalmente de la mano del durmiente, había tirado las tenazas y el recogedor, y sacudido la tetera, lo cual había llenado el aire de nubes de vapor. Con un suspiro de cansancio, me encaminé hacia la cama.
—Me alegro de verlo tan animado –comencé por decir–. La última vez, recuerdo, pasaba casualmente por aquí justo cuando lady Muriel salía de la casa. ¿Sigue ella viniendo a visitarlo?
—Sí –repuso de forma pausada–. No s’ha olvidao de mí. No pierdo de vista su guapa cara muchos días seguíos. Bien m’acuerdo de la primera ve que vino, despué de vernos en la’stación de tren. Me dijo que vendría pa compensarme. ¡Dulce chiquilla! ¡Imagínese! ¡Pa compensarme!
Péssima tradução de um “sotaque” rural.
—Pasó lo siguiente, ¿sabe? Tábamos los dos esperando’l tren en la’stación. Y yo m’había sentao n’el banco. Y el jefe’stación vie y me manda a paseo… pa que la dama puea sentarse, ¿entiende?
—Lo recuerdo todo –asentí–. Yo estaba allí ese día.
“Minnie era mi nieta, señó, que vivía conmigo. Murió hace cosa d’un par de mese, quizá 3. Era una linda chiquilla, y buena, también. ¡Ah, pero la vía s’hace rara y solitaria sin ella!”
—Así que dice: «¡Haga como que soy su Minnie!», dice. «¿No le preparaba Minnie el té?» «Sí», le digo yo. Y prepara el té. «¿Y no l’encendía Minnie la pipa?», dice luego. «Sí», contesto. Y me enciende la pipa. «¿Y no le sacaba Minnie el té al porche?» Y yo digo: «Bonita», le digo, «¡me parece qu’eres ella!». Y s’echa a llorá un poco. Los dos lloramo un poco…
«El resultado de esa combinación, tal vez se hayan dado cuenta, ¡ha sido una explosión! ¿Quieren que repita el experimento?»
“El otro profesor entró leyendo un gran libro que sujetaba justo frente a sus ojos. Un resultado de que no fuese mirando por dónde iba fue que tropezó, mientras cruzaba el salón, salió por los aires, y cayó pesadamente de bruces en mitad de la mesa.”
—Si no me tropezara, no sería yo –dijo el otro profesor.
El profesor puso cara de gran horror.
—¡Oh, Bruno! –Esto era un susurro por parte de Silvia–. ¡No es de buena educación pedir un plato antes de que esté servido! Su hermano le respondió de la misma forma.
—Pero a lo mejod me olvido de pedidlo, cuando llegue, ¿sabes?; a veces sí que me olvido de cosas –agregó, al ver que Silvia se disponía a susurrarle algo más.
Y esta última no osó contradecir aquella afirmación.
“Para entonces, un camarero le había servido a Bruno un plato lleno de algo, lo cual hizo que se olvidara del pudin de pasas.
—Otra ventaja de las cenas de gala –explicó el profesor alegremente, para quien quisiera escucharle– es que lo ayuda a uno a ver a sus amigos. Si quieres ver a un hombre, ofrécele algo de comer. Con los ratones pasa lo mismo.”
—Hace mucho calor en la sala, con toda esta gente –le comentó el profesor a Silvia–. Me pregunto por qué no ponen algunos bloques de hielo en la chimenea. Uno la llena de carbón en el invierno, ya sabes, y se sienta en torno a ella para disfrutar del calor. ¡Qué agradable sería llenarla de hielo y hacer lo mismo con el fresquito!
A pesar del calor que hacía, la idea le provocó un ligero escalofrío a Silvia.
—Hace mucho frío fuera –señaló–. Hoy casi se me congelan los pies.
—¡Eso es culpa del zapatero! –repuso con jovialidad el profesor–. ¡Cuántas veces habré tenido que explicarle que debería hacer botas con pequeños soportes de hierro bajo las suelas, para instalar candiles! Pero nunca piensa. Nadie tendría frío, si tan sólo atendieran a esos pequeños detalles. Yo mismo siempre utilizo tinta caliente en invierno. ¡A poca gente se le ocurre alguna vez! ¡Con lo simple que es!
—¡Qué gato más gordo! –exclamó el lord canciller, inclinándose por delante del profesor para dirigirse a su pequeño vecino de asiento–. ¡Es totalmente asombroso!
—Era tdemendamente goddo al entdad –dijo Bruno–, así que sería muchósimo más asombdoso que adelgazara en un momento.
—¿Y esa fue la razón, supongo –planteó el lord canciller–, de que no le dieras el resto de la leche?
—No –negó Bruno–. Fue pod una dazón mejod. ¡Le quité el platito podque no le estaba gustando nada!
—A mí no me lo parece –apuntó el lord canciller–. ¿Qué te hizo pensar eso?
—Podque gduñía con la gadganta.
—¡Oh, Bruno! –exclamó Silvia–. ¡Así es como expresan los gatos que están contentos!
Bruno no parecía convencido.
—No es buen modo –objetó–. ¡Tú no decirías que estoy contento, si hiciera ese duido con la gadganta!
—¡Qué niño más singular! –musitó para sí mismo el lord canciller, pero Bruno lo había oído.
—¿Qué significa «un niño singulad»? –le susurró a Silvia.
—Significa «un» niño –le contestó Silvia, también susurrando–. Y «plural» significa 2 o 3.
—Entonces me alegdo muy muchósimo de sed un niño singulad –declaró Bruno con gran énfasis–. ¡Sería horible sed 2 o tdes niños! ¿Y si no jugaran conmigo?
—¿Por qué deberían hacerlo? –planteó el otro profesor, despertando repentinamente de un profundo ensimismamiento–. Es posible que estuviesen dormidos, ¿sabes?¹
¹ Possível influencia sobre Blackbeard em One Piece?!
“Los niños no se van a dormir todos a la vez, ¿sabes? Con lo que estos muchachos… ¿pero de quién estás hablando?”
—Ya no queda nada por hacer, ¿verdad?
—Bueno, la cena aún no ha terminado –recordó el profesor con una sonrisa de desconcierto–, ni el calor que hemos de soportar. Espero que disfrute de la cena, aunque sepa a poco, y que no le importe el calor, aunque sepa a mucho.
—¡Oh, eso pasa por acidente, en dealidad! –empezó a argumentar Bruno, con tanta vehemencia, que era obvio que ya le había planteado aquella misma dificultad al gato–. Me lo ha esplicado todo, mientdas se bebía la leche. Dijo: «Les enseño a los datones juegos nuevos, y a ellos les encanta». Y luego: «A veces pasan acidentes, y los datones se matan a sí mismos». Y luego: «Siempde me da muchósima pena, cuando sucede». Y luego…
—Si le diera tantísima pena –terció Silvia, con cierto desdén–, ¡no se comería a los ratones después de haberse matado a sí mismos!
Pero era obvio que también esta dificultad había sido tenida en cuenta en la exhaustiva discusión ética que acababa de tener lugar.
«Los datones muedtos nunca ponen ojeciones a que se los coman»
«No tiene sentido despeddiciad unos buenos datones»
—¡No ha tenido tiempo de decir tantas cosas! –interrumpió Silvia en tono indignado.
—¡No sabes cómo hablan los gatos! –replicó Bruno desdeñosamente–. ¡Lo hacen muy dapidísimo!
—¡Caramba, casi me olvido de la parte más importante del acto! El otro profesor ha de recitar un cerdo de un cuento… quiero decir, un cuento de un cerdo –se corrigió a sí mismo–. Tiene unas estrofas introductorias al principio, y al final.
—No puede tener estrofas introductorias al final, ¿o sí? –dijo Silvia.
—Espera a escucharlo –la instó el profesor–, entonces lo entenderás. No estoy seguro de que no tenga también alguna por la mitad. –Se puso en pie en ese momento, y se produjo un silencio instantáneo en todo el salón de banquetes; evidentemente, esperaban un discurso.
“Los pajarillos enseñan
a sonreír a unos tigres,
de cualquier malicia libres;
sonreír sin doblez, digo,
con la boca en semicírculo:
esa es la forma admisible.”
“Jamás conocí a un cerdo tan grueso,
que se bamboleara tanto al andar,
y que pudiese, por mucho que lo intentara,
¡hacer algo semejante a saltar!”
“Cuando el otro profesor terminó de recitar esta última estrofa, cruzó el salón hasta la chimenea y metió la cabeza por el conducto. Al hacerlo, perdió el equilibrio, cayó de cráneo en la parrilla vacía y quedó tan firmemente atascado en ella que llevó cierto tiempo conseguir sacarlo de allí. —Cdeí que quería ved cuánta gente había dentdo de la chibenea –había tenido tiempo de decir Bruno.”
—¡Se le debe de haber quedado la cara negra! –señaló la emperatriz con preocupación–. ¿Quiere que mande traer un poco de jabón?
—No, gracias –rechazó el ofrecimiento el otro profesor, manteniendo la cara girada hacia otro lado–. El negro es un color totalmente respetable. Además, el jabón sería inútil sin agua…
“Los pajarillos escriben
libros de gran interés,
lectura para los chefs;
lectura, digo, no asados:
el texto, si está tostado,
deja de verse tan bien.”
—¡Qué historia más tdiste! –dijo Bruno–. Empieza tdiste, y acaba más tdiste aún. Cdeo que voy a llorad. Silvia, déjame tu pañuelo, pod favod.
—No lo tengo aquí –susurró Silvia.
—Entonces, no lloraré –declaró Bruno valientemente.
—¡Bueno, bueno! –dijo–. ¡Prueba un poco de vino de primavera! –Llenó un vaso y se lo dio a Bruno–. ¡Bebe esto, bonito, y ya no serás el mismo!
—¿Quién seré? –preguntó Bruno, deteniéndose cuando se lo llevaba a los labios.
—¿Por qué has de meter siempre criaturas en las historias? –preguntó el profesor–. ¿Por qué no introduces acontecimientos, o circunstancias?
—Había una vez una coincidencia dando un paseo con un pequeño accidente, y se encontraron con una explicación, una explicación viejísima, tan vieja que iba completamente doblada sobre sí misma, y parecía más un enigma… –Cesó repentinamente su relato.
—¡Por favor, siga! –exclamaron ambos niños. El profesor se sinceró:
—Me resulta muy difícil inventar una historia de ese tipo. ¿Qué tal si Bruno cuenta una primero?
“Los pajarillos ocultan
sus crímenes en carteras,
y de ciervos connivencia;
connivencia y luego palos,
pues acaban devorados
si la memoria flaquea.”
“¡Beban a la salud del emperador! –Un gorgoteo generalizado resonó por todo el salón–. ¡Tres hurras por el emperador! –Este anuncio se vio seguido por el murmullo más débil posible, y el canciller, con una presencia de ánimo admirable, proclamó inmediatamente–: ¡El emperador va a hablar!”
—Pese a mi escasa disposición a ser el emperador… dado que todos así lo deseáis… ya sabéis lo mal que el difunto rector manejaba las cosas… con semejante entusiasmo como habéis mostrado… él os perseguía… os cobraba demasiados impuestos… sabéis quién es el más indicado para ser emperador… mi hermano carecía de sentido común…
Cuánto podría haber durado aquel curioso discurso resulta imposible de decir, pues justo en ese momento un huracán sacudió el palacio hasta los cimientos, abriendo de golpe las ventanas, apagando algunas de las lámparas y llenando el aire de nubes de polvo, las cuales adoptaban formas extrañas y parecían formar palabras.
Pero la tormenta amainó tan súbitamente como se había levantado: las ventanas volvieron a cerrarse; el polvo desapareció; todo estaba como un instante antes… a excepción del emperador y la emperatriz, en los cuales se había producido un cambio maravilloso. La mirada perdida y la sonrisa sin sentido se habían esfumado: todos podían ver que estos dos extraños seres habían recobrado el juicio.
—Y nos hemos comportado, mi esposa y yo, como dos bellacos redomados. No merecemos mejor calificativo. Cuando mi hermano se marchó, perdisteis al mejor rector que habéis tenido jamás. Y yo he hecho todo lo posible, pues soy un maldito hipócrita, para lograr con argucias que me convirtierais en emperador. ¡A mí! ¡Alguien que apenas tiene cerebro para ser limpiabotas!
El lord canciller se retorció las manos con desesperación.
—¡Está loco, buenos señores! –había empezado a decir. Pero el emperador y él dejaron repentinamente de hablar… y, en mitad del silencio absoluto que siguió, se oyó que alguien llamaba a la puerta principal.
“Se trataba desde luego de una visión lastimosa: los harapos que colgaban de su cuerpo estaban totalmente salpicados de barro; su cabello cano y su larga barba se encontraban salvajemente revueltos. Aun así, caminaba erguido, con paso majestuoso, como si estuviese acostumbrado a impartir órdenes, y, lo que resultaba más extraño de todo, Silvia y Bruno lo acompañaban, aferrados a sus manos y mirándolo con mudas expresiones de amor.”
“Para su completo asombro, el emperador se arrodilló al acercarse el pordiosero, y con la cabeza inclinada murmuró:
—¡Perdónanos!
—¡Perdónanos! –repitió de manera dócil la emperatriz, al tiempo que se arrodillaba al lado de su esposo.
El paria sonrió.
—¡Levantaos! –dijo–. ¡Os perdono! –Y la gente vio maravillada que se había producido un cambio en el viejo pordiosero, a la vez que hablaba. Lo que hasta entonces habían parecido mugrientos andrajos y manchas de barro resultaron ser en realidad atavíos reales, con bordados de oro y centelleantes gemas. Todos lo reconocieron entonces, e hicieron una reverencia ante el hermano mayor, y auténtico rector.
»¡Hermano mío y cuñada mía! –empezó a decir este último, con una voz clara que se escuchó en todo el vasto salón–. No vengo a molestaros. Sigue gobernando, como emperador, y hazlo sabiamente. Pues he sido elegido rey de Elfolandia. Mañana regreso allí, y no abandonaré el reino, salvo para… para… –Le tembló la voz y, con una expresión de inefable ternura, colocó sus manos en silencio sobre las cabezas de los 2 niños que lo flanqueaban, agarrados a él.”
“¡Dios santo! ¡Todo el mundo se había olvidado del príncipe Uggug!”
—Permitid que os lo explique. Sin-cuidado y Cuidados eran dos hermanos gemelos. Cuidados, como sabéis por el refrán, mató al asno. Y detuvieron por equivocación a Sin-cuidado, y fue a él a quien colgaron. De manera que Cuidados sigue vivo todavía. Pero vivir sin su hermano ha hecho de él alguien muy taciturno. Esa es la razón de que la gente diga: «¡Allá penas y Cuidados!».”
—¡Gracias! –dijo Silvia efusivamente–. Es extremadamente interesantísimo. Tal como yo lo veo, ¡eso lo explica todo!
—Bueno, todo todo no –replicó el profesor de manera modesta–. Hay 2 o 3 problemas científicos…
—¿Qué impresión general te dio su obesidad imperial? –preguntó el emperador al jefe de su guardia.
—Mi impresión fue que su obesidad imperial tiene cada vez más tendencia a…
—¿A qué?
Todos aguardaron la siguiente palabra con el aliento contenido.
—¡A pinchar!
—¡Como desee su alteza! Su obesidad imperial es… –No logró articular ni una palabra más.
La emperatriz se levantó presa de una súbita preocupación.
—¡Vayamos a buscarlo! –gritó. Y todo el mundo se dirigió en tromba hacia la puerta.
“¡Preocupadín, majestad! –estaba diciendo–. ¡Eso es lo que está, no cabe duda!”
—Puercoespín –dijo Silvia.
“Nos levantamos con gran apremio y seguimos a los niños escaleras arriba. Nadie se percató en lo más mínimo de mi presencia, pero esto no me sorprendió en absoluto, ya que hacía largo rato que me había dado cuenta de que era totalmente invisible para todos ellos, hasta para Silvia y Bruno.”
“Su voz era una especie de mezcla: había rugidos de león y bramidos de toro, y de vez en cuando un chillido como el de un loro gigante.”
—¡Un puercoespín! ¡El príncipe Uggug se ha convertido en un puercoespín!
—¡Un nuevo espécimen! –exclamó el encantado profesor–. Déjenme pasar, se lo ruego. ¡Debería ser catalogado de inmediato! Pero lo único que hicieron los hombres musculosos fue hacerle retroceder de un empujón.
—¡Cómo que catalogarlo! ¿Es que quiere que lo devore? –gritaron.
—¡Olvídese de especímenes, profesor! –dijo el emperador, abriéndose camino entre la multitud–. ¡Díganos cómo ponerlo a salvo!
—¡Una jaula grande! –repuso de inmediato el profesor–. ¡Traed una jaula grande –indicó en general hacia la gente– con fuertes barrotes de acero y una reja levadiza como la de una trampa para ratones! ¿Alguien tiene a mano algo así, por un casual?
No parecía algo que nadie fuese a tener a mano y, sin embargo, le trajeron una en el acto; curiosamente, resultó que había una en mitad de la galería.
—¡Colocadla de cara a la puerta, y subid la reja! –Esto se hizo en un momento.
»¡Ahora unas mantas! –voceó el profesor–. ¡Este es un experimento de lo más interesante!
—¡El experimento ha sido un éxito! –proclamó–. Todo lo que hace falta ahora es darle de comer 3 veces al día, a base de zanahorias picadas y…
—¡Olvídese por el momento de su comida! –lo interrumpió el emperador–. Volvamos al banquete. Hermano, tú primero, por favor. –Y el anciano, acompañado de sus hijos, encabezó el desfile de gente escaleras abajo.
—¡Ahí tienes el destino de una vida sin amor! –le dijo a Bruno, mientras regresaban a sus sitios. A lo cual este contestó:
—¡Yo siempde he querido a Silvia, así que nunca pincharé como lo hace él!
—Ahora el príncipe Uggug pincha mucho, ciertamente –comentó el profesor, que había oído las últimas palabras–, pero por muy puercoespín que sea, ¡sigue teniendo sangre real! Una vez que acabe el festín, voy a llevarle un pequeño regalo… sólo para que se calme, ya sabéis; no es agradable vivir en una jaula.
—¡Mi viejo enemigo! –gimió el profesor–. Lumbago, reumatismo, esas cosas. Creo que iré a tumbarme un rato. –Y salió renqueando del salón, bajo la compasiva mirada de los 2 niños.
—¡No tardará en ponerse mejor! –dijo en tono jovial el rey elfo–. ¡Hermano! –agregó, girándose hacia el emperador–. Tengo algunos asuntos que discutir contigo esta noche. La emperatriz cuidará de los niños. –Y los 2 hermanos se marcharon juntos, cogidos del brazo.
A la emperatriz los niños le parecieron una compañía bastante triste. No sabían hablar de otra cosa que no fuera «el querido profesor» y «qué pena que esté tan malito», hasta que acabó por hacer la bien recibida propuesta: «¡Vayamos a verlo!».
—Tenemos que llevarlo a pasar una temporada en la playa –dijo Silvia de manera tierna–. ¡Le hará muchísimo bien! ¡Y el océano es tan grandioso!
—¡Pero una montaña lo es más! –opinó Bruno.
—¿Qué tiene el mar de grandioso? –repuso el profesor–. ¡Pero si cabría dentro de una taza de té!
—Sólo parte de él –lo corrigió Silvia.
—Bueno, únicamente se necesitaría un cierto número de tazas de té para contenerlo todo. ¿Y dónde estaría entonces la grandiosidad? En cuanto a la montaña… ¡uno podría trasladarla entera en una carretilla, si se dispusiera de unos cuantos años!
—Reducida a pedazos en la carretilla… no tendría un aspecto grandioso –admitió Silvia con franqueza.
—Pero cuando los juntas otda vez… –empezó a decir Bruno.
—Cuando seas mayor –saltó el profesor–, ¡sabrás que uno no puede recomponer montañas así como así! Uno vive y aprende, ¿sabes?
—Pero no tiene pod qué hacedlo la misma pedsona, ¿no? –planteó Bruno–. ¿No vale con que yo viva y Silvia apdenda?
—¡Yo no puedo aprender sin vivir! –protestó Silvia.
—¡Pero yo puedo vivid sin apdended! –replicó Bruno–. ¡Sólo tienes que ponedme a pdueba!
—¡Pero yo sé todo lo que sé! –insistió el pequeñín–. ¡Sé muchósimas cosas! Todo, escepto las cosas que no sé. Y Silvia sabe todo lo demás.
El profesor emitió un suspiro y se dio por vencido.
—¿Sabes lo que es un boojum?
—¡Sí lo sé! –gritó Bruno–. ¡Es eso que se come y se puede haced en el hodno o fuera de él!
—Se refiere a un «bollo» –explicó Silvia en un susurro.
—No puedes hacer un bollo fuera del horno –observó el profesor en tono suave.
Bruno rio con desvergüenza.
—¡Seré yo quien le cuente una fáluba! –se lanzó Bruno a toda prisa–. Érase una vez una langosta, una uraca y un maquinista. Y la moraleja es que hay que acostumbdadse a maddugad…
—¿Cuándo inventaste esa fábula? –quiso saber el profesor–. ¿La semana pasada?
—No se me ocurre –se rindió el profesor–. ¿Hace cuánto?
—¡Todavía no lo he hecho! –exclamó Bruno en actitud triunfante–. ¡Pero sí he inventado una genial! ¿Se la cuento?
Que o livro não possua uma moraleja para Bduno, isso me deixará aterradoramente triste! Um Uggug mais fofinho…
—¿Pero cómo regresó a la repisa de la chimenea tras su primera caída? –preguntó la emperatriz. (Era la primera pregunta lógica que había formulado en toda su vida.)
* * *
“Soy tan alegre como largo es el día, salvo cuando hay que meditar sobre alguna cuestión sumamente difícil.”
“La nota contenía únicamente 5 palabras: «Venga inmediatamente, por favor. Muriel».”
«¡Se trata sólo de Eric Lindon, después de todo! –pensé, en parte aliviado y en parte irritado–. ¡Desde luego, no es razón para haberme hecho venir!»
«Los pasteles del funeral se sirvieron fríos en el banquete de bodas»
(Hamlet)
“Sobraban más preguntas. La seguí al interior de la casa con expectación. Allí en la cama yacía –pálido y agotado, una simple sombra de su antiguo yo– ¡mi viejo amigo, regresado de entre los muertos!”
—¡Arthur! –exclamé. Me vi incapaz de decir nada más.
—¡Sí, he vuelto, viejo amigo! –dijo con un hilo de voz, y sonrió al cogerle yo la mano–. Él –añadió, señalando a Eric, que se encontraba allí al lado– me salvó la vida. Me trajo de regreso. ¡Después de a Dios, Muriel, esposa mía, es a él a quien debemos estar agradecidos!
Le estreché la mano a Eric en silencio, y luego al earl, y de común acuerdo nos trasladamos todos a la zona más oscura de la habitación, donde podíamos hablar sin molestar al inválido, que yacía, callado y feliz, sosteniendo la mano de su mujer y contemplándola con ojos que resplandecían con la firme e intensa luz del amor.”
«¡Y este era su rival! –pensé–. ¡El hombre que le había arrebatado el corazón de la mujer que amaba!»
“pero no, aquello no eran en absoluto incoherencias producto del delirio.”
“Aquella me pareció una buena oportunidad para escabullirme sin tener que hacerla pasar a ella por ninguna clase de despedida; de modo que, tras saludar al earl y a Eric con la cabeza, abandoné en silencio la habitación. Este último me siguió escaleras abajo y afuera, a la noche.
—¿Vivirá? –le pregunté, tan pronto estuvimos lo bastante lejos de la casa como para poder hablar en un tono normal.
—¡Vivirá! –respondió con un énfasis cargado de entusiasmo–. Los médicos están totalmente de acuerdo al respecto. Todo lo que necesita ahora, dicen, es reposo, tranquilidad absoluta y buenos cuidados. Para nada le faltarán reposo y tranquilidad aquí; y, en cuanto a los cuidados, ¡vaya!, creo más que posible… –se esforzó por hacer que su temblorosa voz asumiera un tono de picardía– que, en su actual alojamiento, ¡reciba un trato bastante bueno.”
Final decepcionantemente carola.
“Ni el propio Bruno podría haber subido las escaleras con paso tan ligero al tiempo que avanzaba a tientas en la oscuridad, sin que me hubiese detenido a prender una cerilla en la entrada dado que sabía que había dejado la lámpara encendida en mi sala de estar.
Pero no fue ninguna luz de lámpara corriente lo que me bañó cuando entré en la habitación, con una extraña, nueva y vaga sensación de que el lugar se encontraba bajo el efecto de algún encantamiento sutil.”
“un anciano circunspecto con vestiduras reales, reclinado en una butaca, y 2 chiquillos, una niña y un niño, de pie junto a él.” Santíssima trindade, três reis magos e blá-blá-blá…
—¿Todavía tienes la joya, hija mía? –estaba diciendo el anciano.
—¡Oh, sí! –exclamó Silvia con inusitado entusiasmo.
»¿Acaso crees que sería capaz de perderla u olvidarla? –Deshizo el lazo que rodeaba su cuello, mientras hablaba, y puso la joya en la mano de su padre.
Bruno la observaba admirado.
—¡Qué bdillo más bonito! –dijo–. ¡Es igual que una estdellita doja! ¿Puedo cogedla?
—¡Silvia! ¡Mira! –exclamó–. Puedo ved a tdaves de ella cuando la levanto hacia el cielo.
»Y no es doja para nada: ¡oh, es de un azul de lo más pdecioso! ¡Y las palabdas son totalmente distintas! ¡Mírala!
Silvia estaba ya también bastante excitada a estas alturas, y los 2 niños sostuvieron la joya al trasluz y entre los 2 leyeron letra por letra la inscripción: «Todos querrán a Silvia».
—¡Caramba, [Cadamba] esta es la otda joya! –exclamó Bruno–. ¿No te acueddas, Silvia? ¡La que no escogiste!
Silvia se la quitó, con expresión confundida, y la sostuvo primero a contraluz y luego abajo.
—¡Es azul, de una manera –dijo suavemente para sí misma–, y roja, de la otra! Pero yo creía que había 2 joyas… ¡Padre! –exclamó de pronto, depositando el guardapelo otra vez en la mano de este. ¡Ahora creo que era la misma joya todo el rato!
—Entonces la elegiste en vez de ella misma –apuntó Bruno con aire cavilante–. Padde, ¿es eso posible?
—Sí, mi niña –le respondió el anciano a Silvia, sin advertir la embarazosa pregunta de su hermano–, era la misma joya, pero elegiste de manera totalmente correcta. –A continuación volvió a anudar el lazo en torno al cuello de su hija.
—Silvia querá a todos… todos querán a Silvia –susurró Bruno, que luego se puso de puntillas para besar la «estrellita roja»–. Cuando uno la mira, es doja y addiente como el sol… y cuando uno mira a tdavés de ella, ¡es delicada y azul como el cielo.
“Pero oh, Silvia, ¿qué es lo que hace que el cielo sea de un azul tan bonito?
Los dulces labios de Silvia formaron las palabras de su respuesta, pero su voz se escuchó débil y muy distante. La visión estaba desvaneciéndose rápidamente ante mi ansiosa mirada, pero tuve la impresión, en ese último momento de desconcierto, de que quien se asomaba a través de esos confiados ojos castaños no era Silvia…”
GLOSSÁRIO HISPÂNICO (suplemento):
albaricoque: damasco
álgido (= PT): culminante, máximo; frio (o português só carrega esta segunda conotação).
almíbar: caramelo
alternar (= PT): revezar
apuesto: galante
arista: aresta
arrebolado: corado, cor do arrebol (nuvens durante o nascer ou pôr do sol)
berrinche: pirraça
bisagra: dobradiça
bote: quique (el bote de la pelota)
búho: coruja
butaca: cadeira
cerciorarse: assegurar-se, certificar-se
chanza: gracejo
chaparrón: aguaceiro
chinchar: chatear, atentar
columpio: balança, gangorra
conejera: gaiola do coelho
cormorón: corvo-marinho
cotorra: tagarela
cuerdo: lúcido
daga: adaga
desangelado: sem-graça
espachurrar: amassar, achatar
espinaca: espinafre
estrafalario (= PT): extravagante
fajina: o toque para refeições, no exército
flequillito: franjinha
fresa: morango
galimatias (sing.) (= PT): abobrinha
gandul: fanfarrão, traste (= PT gandulo)
gazapo: coelho jovem; mancada. Carroll (ou o tradutor de Carroll) utiliza a expressão em duplo sentido.
golfo: pivete
grajo: gralha, urubu
granuja: vigarista, patife
guardapelo: medalhão
guión: hífen
hucha: cofrinho
jarabe: xarope
lumbre: lume
melocotón: pêssego
mendrugo: pão dormido, esmola reles
moflete: bochecha
mora: amora
oporto: vinho do porto, vinho forte
oruga: lagarta ou verdura
páramo (= PT): charneca, brejo, lugar parado no tempo ou entediante, fim de mundo
patillitas: pequenas hastes de óculos
penique: péni ou centavo
perinola: ventoinha (brinquedo)
polilla: sinônimo de mariposa, que também existe em espanhol
“The Tomb of the ANDRONICI appearing; the Tribunes and Senators aloft. Enter, below, from one side, SATURNINUS¹ and his Followers; and, from the other side, BASSIANUS² and his Followers; with drum and colours”
¹ Qualquer que seja a fonte, só houve dois Saturninos historicamente importantes na história romana: um usurpador que foi morto pelas próprias tropas antes de se consumar imperador e outro usurpador de circunstâncias semelhantes, porém biografia provavelmente inventada. Shakespeare, portanto, está bastante justificado em sua escolha para o “imperador romano” da peça!
[¹ O título de César (imperator), não o nome próprio.]
Enter MARCUS ANDRONICUS,¹ aloft, with the crown
[¹ Apesar do patronímico existir, todos os personagens da peça são fabulosos. Existiu apenas um Lucius, mas ele era poeta e dramaturgo, uma ‘jovem projeção ou auto-referência de Shakespeare’, se assim se quiser.]
MARCUS ANDRONICUS
Princes, that strive by factions and by friends
Ambitiously for rule and empery,
Know that the people of Rome, for whom we stand
A special party, have, by common voice,
In election for the Roman empery,
Chosen Andronicus, surnamed Pius
For many good and great deserts to Rome:
A nobler man, a braver warrior,
Lives not this day within the city walls:
He by the senate is accit’d home
From weary wars against the barbarous Goths;
That, with his sons, a terror to our foes,
Hath yoked a nation strong, train’d up in arms.
Ten years are spent since first he undertook
This cause of Rome and chastised with arms
Our enemies’ pride: five times he hath return’d
Bleeding to Rome, bearing his valiant sons
In coffins from the field;
And now at last, laden with horror’s spoils,
Returns the good Andronicus to Rome,
Renowned Titus, flourishing in arms.
Let us entreat, by honour of his name,
Whom worthily you would have now succeed.
And in the Capitol and senate’s right,
Whom you pretend to honour and adore,
That you withdraw you and abate your strength;
Dismiss your followers and, as suitors should,
Plead your deserts in peace and humbleness.
SATURNINUS
How fair the tribune speaks to calm my thoughts!
BASSIANUS
Marcus Andronicus, so I do ally
In thy uprightness and integrity,
And so I love and honour thee and thine,
Thy noble brother Titus and his sons,
And her to whom my thoughts are humbled all,
Gracious Lavinia, Rome’s rich ornament,
That I will here dismiss my loving friends,
And to my fortunes and the people’s favor
Commit my cause in balance to be weigh’d.
Exeunt the followers of BASSIANUS”
“SATURNINUS
[monologando]
Rome, be as just and gracious unto me
As I am confident and kind to thee.
Open the gates, and let me in.”
“Drums and trumpets sounded. Enter MARTIUS and MUTIUS; After them, two men bearing a coffin covered with black; then LUCIUS and QUINTUS. After them, TITUS ANDRONICUS; and then TAMORA, with ALARBUS, DEMETRIUS, CHIRON, AARON, and other Goths, prisoners; Soldiers and people following. The Bearers set down the coffin, and TITUS speaks”
“TITUS ANDRONICUS
…
Romans, of five-and-twenty valiant sons,
Half of the number that King Priam had,¹
Behold the poor remains, alive and dead!
These that survive let Rome reward with love;
These that I bring unto their latest home,
With burial amongst their ancestors:
Here Goths have given me leave to sheathe my sword.
Titus, unkind and careless of thine own,
Why suffer’st thou thy sons, unburied yet,
To hover on the dreadful shore of Styx?
Make way to lay them by their brethren.
…
[tomb]
O sacred receptacle of my joys,
Sweet cell of virtue and nobility,
How many sons of mine hast thou in store,
That thou wilt never render to me more!
LUCIUS
Give us the proudest prisoner of the Goths,
That we may hew his limbs, and on a pile
Ad manes fratrum sacrifice his flesh,
Before this earthy prison of their bones;
That so the shadows be not unappeased,
Nor we disturb’d with prodigies on earth.
TITUS ANDRONICUS
I give him you, the noblest that survives,
The eldest son of this distressed queen.
TAMORA
Stay, Roman brethren! Gracious conqueror,
Victorious Titus, rue the tears I shed,
A mother’s tears in passion for her son:
And if thy sons were ever dear to thee,
O, think my son to be as dear to me!
Sufficeth not that we are brought to Rome,
To beautify thy triumphs and return,
Captive to thee and to thy Roman yoke,
But must my sons be slaughter’d in the streets,
For valiant doings in their country’s cause?
O, if to fight for king and commonweal
Were piety in thine, it is in these.
Andronicus, stain not thy tomb with blood:
Wilt thou draw near the nature of the gods?
Draw near them then in being merciful:
Sweet mercy is nobility’s true badge:
Thrice noble Titus, spare my first-born son.
TITUS ANDRONICUS
Patient yourself, madam, and pardon me.
These are their brethren, whom you Goths beheld
Alive and dead, and for their brethren slain
Religiously they ask a sacrifice:
To this your son is mark’d, and die he must,
To appease their groaning shadows that are gone.
[Mercy’s for the weak and meeke.]
LUCIUS
Away with him! and make a fire straight;
And with our swords, upon a pile of wood,
Let’s hew his limbs till they be clean consumed.”
¹ Seria um ancestral de Roma, no sentido em que o rei Príamo é pai de figuras mitológicas como Heitor, Páris e Cassandra, que participaram da Guerra de Tróia. Mais abaixo veremos sobre Hécuba, sua outrossim mitológica esposa.
“TAMORA
O cruel, irreligious piety!
CHIRON
Was ever Scythia half so barbarous?
DEMETRIUS
Oppose not Scythia to ambitious Rome.
Alarbus goes to rest;and we survive
To tremble under Titus’ threatening looks.
Then, madam, stand resolved, but hope withal
The self-same gods that arm’d the Queen of Troy
With opportunity of sharp revenge
Upon the Thracian tyrant in his tent,
May favor Tamora, the Queen of Goths–¹
When Goths were Goths and Tamora was queen–
To quit the bloody wrongs upon her foes.”
¹ Os góticos ou godos são em si mesmos de mau agouro para o Império Romano, participando ativamente de sua dissolução histórica.
“LUCIUS
See, lord and father, how we have perform’d
Our Roman rites: Alarbus’ limbs are lopp’d,
And entrails feed the sacrificing fire,
Whose smoke, like incense, doth perfume the sky.
Remaineth nought, but to inter our brethren,
And with loud ‘larums welcome them to Rome.
TITUS ANDRONICUS
Let it be so; and let Andronicus
Make this his latest farewell to their souls.
Trumpets sounded, and the coffin laid in the tomb”
“Here lurks no treason, here no envy swells,
Here grow no damned grudges; here are no storms,
No noise, but silence and eternal sleep:
In peace and honour rest you here, my sons!
Enter LAVINIA¹
LAVINIA
In peace and honour live Lord Titus long;
My noble lord and father, live in fame!
Lo, at this tomb my tributary tears
I render, for my brethren’s obsequies;
And at thy feet I kneel, with tears of joy,
Shed on the earth, for thy return to Rome:
O, bless me here with thy victorious hand,
Whose fortunes Rome’s best citizens applaud!”
TITUS ANDRONICUS
Kind Rome, that hast thus lovingly reserved
The cordial of mine age to glad my heart!
Lavinia, live; outlive thy father’s days,
And fame’s eternal date, for virtue’s praise!”
¹ Lavínia é inspirada numa figura mitológica romana. Segue a wikia: “Lavínia estava prometida como esposa a Turno, rei dos rútulos. Mas, com a chegada de Enéias ao Lácio, Latino deu sua mão ao herói troiano, pois o oráculo de seu pai Fauno dizia que ela devia casar com um estrangeiro. O rompimento da promessa conjugal desencadeou a guerra entre troianos-latinos e os rútulos de Turno. A guerra terminou com a derrota de Turno.”
“MARCUS ANDRONICUS
Long live Lord Titus, my beloved brother,
Gracious triumpher in the eyes of Rome!
TITUS ANDRONICUS
Thanks, gentle tribune, noble brother Marcus.”
Shakespeare tinha uma peculiar predileção por retratar os campeões do povo em vez dos imperadores (pelo menos o fazia em mais ocasiões) quando se tratava de Roma. Note-se o quanto os trechos grifados em vermelho acima entrarão em contradição com o sucedido na peça!
“Titus Andronicus, the people of Rome,
Whose friend in justice thou hast ever been,
Send thee by me, their tribune and their trust,
This palliament of white and spotless hue;
And name thee in election for the empire,
With these our late-deceased emperor’s sons:
Be candidatus then, and put it on,
And help to set a head on headless Rome.”
“A better head her glorious body fits
Than his that shakes for age and feebleness:
What should I don this robe, and trouble you?
Be chosen with proclamations to-day,
To-morrow yield up rule, resign my life,
And set abroad new business for you all?
Rome, I have been thy soldier 40 years,
And led my country’s strength successfully,
And buried one-and-twenty valiant sons,¹
Knighted in field, slain manfully in arms,
In right and service of their noble country
Give me a staff of honour for mine age,
But not a sceptre to control the world:
Upright he held it, lords, that held it last.”
¹ O que significa que só lhe restaram 4: Mutius, Lucius, Lavinia e Quintus. Ao fim da peça, um só!
“SATURNINUS
[a Marcus]
Proud and ambitious tribune, canst thou tell?”
“SATURNINUS
Romans, do me right:
Patricians, draw your swords: and sheathe them not
Till Saturninus be Rome’s emperor.
Andronicus, would thou wert shipp’d to hell,
Rather than rob me of the people’s hearts!”
“TITUS ANDRONICUS
Content thee, prince; I will restore to thee
The people’s hearts, and wean them from themselves.¹
[¹ O carisma é intransferível, pelo menos quando aquele que em tese o recebe com o beneplácito do carismático original o odeia, pois a população percebe essas nuances e não perdoa a ingratidão do “mau afilhado”, ainda que leve anos para se rebelar.]
BASSIANUS
[Se eu devesse adivinhar, é o pusilânime da peça]¹
Andronicus, I do not flatter thee,
But honour thee, and will do till I die:
My faction if thou strengthen with thy friends,
I will most thankful be; and thanks to men
Of noble minds is honourable meed.”
¹ Errei e errei feio – vide além!
“TITUS ANDRONICUS
Tribunes, I thank you: and this suit I make,
That you create your emperor’s eldest son,
Lord Saturnine; whose virtues will, I hope,
Reflect on Rome as Titan’s rays on earth,¹
And ripen justice in this commonweal:
Then, if you will elect by my advice,
Crown him and say ‘Long live our emperor!’
¹ Talvez um prenúncio de sua queda, como a dos Titãs na Titanomaquia.
MARCUS ANDRONICUS
With voices and applause of every sort,
Patricians and plebeians, we create
Lord Saturninus Rome’s great emperor,
And say ‘Long live our Emperor Saturnine!’
A long flourish till they come down”
“And, for an onset, Titus, to advance
Thy name and honourable family,
Lavinia will I make my empress,
Rome’s royal mistress, mistress of my heart,
And in the sacred Pantheon her espouse:
Tell me, Andronicus, doth this motion please thee?”
“And here in sight of Rome to Saturnine,
King and commander of our commonweal,
The wide world’s emperor, do I consecrate
My sword, my chariot and my prisoners;
Presents well worthy Rome’s imperial lord:
Receive them then, the tribute that I owe,
Mine honour’s ensigns humbled at thy feet.”
SATURNINUS
“The least of these unspeakable deserts,
Romans, forget your fealty to me.”
“TITUS ANDRONICUS
[To TAMORA]
Now, madam, are you prisoner to
an emperor;
To him that, for your honour and your state,
Will use you nobly and your followers.
SATURNINUS
A goodly lady, trust me; of the hue
That I would choose, were I to choose anew.
Clear up, fair queen, that cloudy countenance:
Though chance of war hath wrought this change of cheer,
Thou comest not to be made a scorn in Rome:
Princely shall be thy usage every way.
Rest on my word, and let not discontent
Daunt all your hopes: madam, he comforts you
Can make you greater than the Queen of Goths.
Lavinia, you are not displeased with this?¹
LAVINIA
Not I, my lord; sith [since] true nobility
Warrants these words in princely courtesy.
SATURNINUS
Thanks, sweet Lavinia. Romans, let us go;
Ransomless here we set our prisoners free:
Proclaim our honours, lords, with trump and drum.
Flourish. SATURNINUS courts TAMORA in dumb show
BASSIANUS
Lord Titus, by your leave, this maid is mine.
Seizing LAVINIA
TITUS ANDRONICUS
How, sir! are you in earnest then, my lord?
BASSIANUS
Ay, noble Titus; and resolved withal
To do myself this reason and this right.
MARCUS ANDRONICUS
‘Suum cuique’ is our Roman justice:
This prince in justice seizeth but his own.
LUCIUS
And that he will, and shall, if Lucius live.
TITUS ANDRONICUS
Traitors, avaunt! Where is the emperor’s guard?
Treason, my lord! Lavinia is surprised!
SATURNINUS
Surprised! by whom?
BASSIANUS
By him that justly may
Bear his betroth’d from all the world away.
Exeunt BASSIANUS and MARCUS with LAVINIA”
¹ Possível insinuação de poligamia?
“TITUS ANDRONICUS
Follow, my lord, and I’ll soon bring her back.
MUTIUS
My lord, you pass not here.
TITUS ANDRONICUS
What, villain boy!
Barr’st me my way in Rome?
Stabbing MUTIUS”
“LUCIUS
My lord, you are unjust, and, more than so,
In wrongful quarrel you have slain your son.
TITUS ANDRONICUS
Nor thou, nor he, are any sons of mine;
My sons would never so dishonour me:
Traitor, restore Lavinia to the emperor.
LUCIUS
Dead, if you will; but not to be his wife,
That is another’s lawful promised love.
Exit”
“I’ll trust, by leisure, him that mocks me once;
Thee never, nor thy traitorous haughty sons,
Confederates all thus to dishonour me.
Was there none else in Rome to make a stale,
But Saturnine? Full well, Andronicus,
Agree these deeds with that proud brag of thine,
That said’st I begg’d the empire at thy hands.
TITUS ANDRONICUS
O monstrous! what reproachful words are these?”
“A valiant son-in-law thou shalt enjoy;
One fit to bandy with thy lawless sons,
To ruffle in the commonwealth of Rome.”
“TITUS ANDRONICUS
These words are razors to my wounded heart.
SATURNINUS
And therefore, lovely Tamora, queen of Goths,
That like the stately Phoebe ‘mongst her nymphs¹
Dost overshine the gallant’st dames of Rome,
If thou be pleased with this my sudden choice,
Behold, I choose thee, Tamora, for my bride,
And will create thee empress of Rome,
Speak, Queen of Goths, dost thou applaud my choice?
And here I swear by all the Roman gods,
Sith priest and holy water are so near
And tapers burn so bright and every thing
In readiness for Hymenaeus² stand,
I will not re-salute the streets of Rome,
Or climb my palace, till from forth this place
I lead espoused my bride along with me.
TAMORA
And here, in sight of heaven, to Rome I swear,
If Saturnine advance the Queen of Goths,
She will a handmaid be to his desires,
A loving nurse, a mother to his youth.”
¹ O mesmo que Artemis, deusa da lua.
² Deus grego do casamento (“a hymenaios is a genre of Greek lyric poetry that was sung during the procession of the bride to the groom’s house in which the god is addressed, in contrast to the Epithalamium, which is sung at the nuptial threshold. He is one of the winged love gods, the Erotes.”); daí, himeneu em português.
“MARCUS ANDRONICUS
O Titus, see, O, see what thou hast done!
In a bad quarrel slain a virtuous son.
TITUS ANDRONICUS
No, foolish tribune, no; no son of mine,
Nor thou, nor these, confederates in the deed
That hath dishonour’d all our family;
Unworthy brother, and unworthy sons!
“TITUS ANDRONICUS
‘And shall!’ what villain was it that spake
that word?
QUINTUS
He that would vouch it in any place but here.
TITUS ANDRONICUS
What, would you bury him in my despite?
MARCUS ANDRONICUS
No, noble Titus, but entreat of thee
To pardon Mutius and to bury him.
TITUS ANDRONICUS
Marcus, even thou hast struck upon my crest,
And, with these boys, mine honour thou hast wounded:
My foes I do repute you every one;
So, trouble me no more, but get you gone.
MARTIUS
He is not with himself; let us withdraw.”
“MARCUS and the Sons of TITUS kneel
MARCUS ANDRONICUS
Brother, for in that name doth nature plead,–
QUINTUS
Father, and in that name doth nature speak,–
TITUS ANDRONICUS
Speak thou no more, if all the rest will speed.
MARCUS ANDRONICUS
Renowned Titus, more than half my soul,–
LUCIUS
Dear father, soul and substance of us all,–
MARCUS ANDRONICUS
Suffer thy brother Marcus to inter
His noble nephew here in virtue’s nest,
That died in honour and Lavinia’s cause.
Thou art a Roman; be not barbarous:
The Greeks upon advice did bury Ajax
That slew himself; and wise Laertes’ son¹
Did graciously plead for his funerals:
Let not young Mutius, then, that was thy joy
Be barr’d his entrance here.”
¹ Aquiles
“The dismall’st day is this that e’er I saw,
To be dishonour’d by my sons in Rome!
Well, bury him, and bury me the next.
MUTIUS is put into the tomb”
“SATURNINUS
So, Bassianus, you have play’d your prize:
God give you joy, sir, of your gallant bride!
BASSIANUS
And you of yours, my lord! I say no more,
Nor wish no less; and so, I take my leave.”
“BASSIANUS
Rape, call you it, my lord, to seize my own,
My truth-betrothed love and now my wife?
But let the laws of Rome determine all;
Meanwhile I am possess’d of that is mine.
SATURNINUS
‘Tis good, sir: you are very short with us;
But, if we live, we’ll be as sharp with you.
BASSIANUS
My lord, what I have done, as best I may,
Answer I must and shall do with my life.
Only thus much I give your grace to know:
By all the duties that I owe to Rome,
This noble gentleman, Lord Titus here,
Is in opinion and in honour wrong’d;
That in the rescue of Lavinia
With his own hand did slay his youngest son,
In zeal to you and highly moved to wrath
To be controll’d in that he frankly gave:
Receive him, then, to favor, Saturnine,
That hath express’d himself in all his deeds
A father and a friend to thee and Rome.”
“TAMORA
My worthy lord, if ever Tamora
Were gracious in those princely eyes of thine,
Then hear me speak in indifferently for all;
And at my suit, sweet, pardon what is past.
SATURNINUS
What, madam! be dishonour’d openly,
And basely put it up without revenge?
“TAMORA
(…)
Lose not so noble a friend on vain suppose,
Nor with sour looks afflict his gentle heart.
Aside to SATURNINUS
be won at last;
Dissemble all your griefs and discontents:
You are but newly planted in your throne;
Lest, then, the people, and patricians too,
Upon a just survey, take Titus’ part,
And so supplant you for ingratitude,
Which Rome reputes to be a heinous sin,
Yield at entreats;and then let me alone:
I’ll find a day to massacre them all
And raze their faction and their family,
The cruel father and his traitorous sons,
To whom I sued for my dear son’s life,
And make them know what ‘tis to let a queen
Kneel in the streets and beg for grace in vain.
Aloud
Come, come, sweet emperor; come, Andronicus;
Take up this good old man, and cheer the heart
That dies in tempest of thy angry frown.
SATURNINUS
Rise, Titus, rise; my empress hath prevail’d.”
“This day all quarrels die, Andronicus;
And let it be mine honour, good my lord,
That I have reconciled your friends and you.
For you, Prince Bassianus, I have pass’d
My word and promise to the emperor,
That you will be more mild and tractable.
And fear not lords, and you, Lavinia;
By my advice, all humbled on your knees,
You shall ask pardon of his majesty.”
ACT 2
SCENE I. Rome. Before the Palace.
“AARON
Now climbeth Tamora Olympus’ top,
Safe out of fortune’s shot; and sits aloft,
Secure of thunder’s crack or lightning flash;
Advanced above pale envy’s threatening reach.
As when the golden sun salutes the morn,
And, having gilt the ocean with his beams,
Gallops the zodiac in his glistering coach,
And overlooks the highest-peering hills;
So Tamora:
(…)
Then, Aaron, arm thy heart, and fit thy thoughts,
To mount aloft with thy imperial mistress,
And mount her pitch, whom thou in triumph long
Hast prisoner held, fetter’d in amorous chains
And faster bound to Aaron’s charming eyes
Than is Prometheus tied to Caucasus.
Away with slavish weeds and servile thoughts!
I will be bright, and shine in pearl and gold,¹
To wait upon this new-made empress.
To wait, said I?to wanton with this queen,
This goddess, this Semiramis,² this nymph,
This siren, that will charm Rome’s Saturnine,
And see his shipwreck and his commonweal’s.
Holloa! what storm is this?”
¹ Trocadilho súbito e hoje controverso de Shakespeare: o mouro, negro, mesclando-se com a goda (branca).
This discord’s ground, the music would not please.”
“AARON
Why, are ye mad? or know ye not, in Rome
How furious and impatient they be,
And cannot brook competitors in love?
I tell you, lords, you do but plot your deaths
By this device.”
“DEMETRIUS
Why makest thou it so strange?
She is a woman, therefore may be woo’d;
She is a woman, therefore may be won;
She is Lavinia, therefore must be loved.
What, man! more water glideth by the mill
Than wots the miller of; and easy it is
Of a cut loaf to steal a shive, we know:
Though Bassianus be the emperor’s brother.
Better than he have worn Vulcan’s badge.”¹
¹ O mesmo que dizer: Ele pode ser o irmão do imperador, mas isso não o faz temível como um deus-guerreiro.
“AARON
For shame, be friends, and join for that you jar:
‘Tis policy and stratagem must do
That you affect; and so must you resolve,
That what you cannot as you would achieve,
You must perforce accomplish as you may.
Take this of me: Lucrece¹ was not more chaste
Than this Lavinia, Bassianus’ love.
A speedier course than lingering languishment
Must we pursue, and I have found the path.
My lords, a solemn hunting is in hand;
There will the lovely Roman ladies troop:
The forest walks are wide and spacious;
And many unfrequented plots there are
Fitted by kind for rape and villany:
Single you thither then this dainty doe,
And strike her home by force, if not by words:
This way, or not at all, stand you in hope.
Come, come, our empress, with her sacred wit
To villany and vengeance consecrate,
Will we acquaint with all that we intend;
And she shall file our engines with advice,
That will not suffer you to square yourselves,
But to your wishes’ height advance you both.
The emperor’s court is like the house of Fame,
The palace full of tongues, of eyes, and ears:
The woods are ruthless, dreadful, deaf, and dull;
There speak, and strike, brave boys, and take
your turns;
There serve your lusts, shadow’d from heaven’s eye,
And revel in Lavinia’s treasury.”
¹ Grande foreshadowing da peça: “Lucrece, was a noblewoman in ancient Rome, whose rape by Sextus Tarquinius (Tarquin) and subsequent suicide precipitated a rebellion that overthrew the Roman monarchy and led to the transition of Roman government from a kingdom to a republic.”
ACT 2
SCENE II. A forest near Rome. Horns and cry of hounds heard.
“DEMETRIUS
Chiron, we hunt not, we, with horse nor hound,
But hope to pluck a dainty doe to ground.”
ACT 3
SCENE III. A lonely part of the forest.
“TAMORA
My lovely Aaron, wherefore look’st thou sad,
When every thing doth make a gleeful boast?
The birds chant melody on every bush,
The snake lies rolled in the cheerful sun,
The green leaves quiver with the cooling wind
And make a chequer’d shadow on the ground:
Under their sweet shade, Aaron, let us sit,
And, whilst the babbling echo mocks the hounds,
Replying shrilly to the well-tuned horns,
As if a double hunt were heard at once,
Let us sit down and mark their yelping noise;
And, after conflict such as was supposed
The wandering prince and Dido once enjoy’d,
When with a happy storm they were surprised
And curtain’d with a counsel-keeping cave,¹
We may, each wreathed in the other’s arms,
Our pastimes done, possess a golden slumber;
Whiles hounds and horns and sweet melodious birds
Be unto us as is a nurse’s song
Of lullaby to bring her babe asleep.²
[¹ Quando Enéias e Dido fizeram amor às ocultas, algo que estava destinado pelos deuses (ou pelas deusas): “Aphrodite and Hera come together to create a storm, forcing Dido and Aeneas into a cave together. There, they declare their feelings for each other and consummate their love.”
² Quase um quadro digno de princesas da Disney!]
AARON
Madam, though Venus govern your desires,
Saturn is dominator over mine:
What signifies my deadly-standing eye,
My silence and my cloudy melancholy,
My fleece of woolly hair that now uncurls
Even as an adder when she doth unroll
To do some fatal execution?
No, madam, these are no venereal signs:
Vengeance is in my heart, death in my hand,
Blood and revenge are hammering in my head.¹
Hark Tamora, the empress of my soul,
Which never hopes more heaven than rests in thee,
This is the day of doom for Bassianus:
His Philomel² must lose her tongue to-day,
Thy sons make pillage of her chastity
And wash their hands in Bassianus’ blood.
Seest thou this letter? take it up, I pray thee,
And give the king this fatal plotted scroll.
Now question me no more; we are espied;
Here comes a parcel of our hopeful booty,
Which dreads not yet their lives’ destruction.”
¹ A cruel Tamora é uma vilã care-free; Aaron, igualmente – senão mais – mau, no entanto, está concentrado demais em seus próximos planos criminosos para pensar no prazer erótico no momento.
² Semi-deusa, irmã de Procne, a ser citada na peça como Progne. Filomela é estuprada por Tereu(s), marido de Procne, que se vinga deste (junto com sua irmã) da mesma maneira que se vingará Titus de Tamora (que também contará com o auxílio de Lavínia) no fim da peça. No mito, após o estupro Filomela é resgatada pelo Olimpo sendo transformada num rouxinol (podendo assim continuar vivendo, com a honra restaurada). Filomela ou Philo-mela significaria amante da melodia (devido à beleza do canto da ave). Novamente Shakespeare se inspira mais na versão ovidiana, o que é natural, devido ao contexto romano da peça. Sófocles tem uma tragédia chamada Tereus, perdida. O estupro de Filomela por Tereu também se deu num bosque. Então, deixando-a viva e para não ser descoberto em seu ato vil, o estuprador fará o que logo farão os dois irmãos godos… Mesmo assim, Shakespeare ainda foi além em gore e crueldade! Outro ponto em comum entre personagens: tanto Procne quanto Titus não hesitam em matar seus próprios filhos quando necessário em seus projetos de vingança! A Medéia de Eurípides também narra uma saga semelhante…
“Enter BASSIANUS and LAVINIA
BASSIANUS
Who have we here? Rome’s royal empress,
Unfurnish’d of her well-beseeming troop?
Or is it Dian, habited like her,
Who hath abandoned her holy groves
To see the general hunting in this forest?¹
TAMORA
Saucy controller of our private steps!
Had I the power that some say Dian had,
Thy temples should be planted presently
With horns, as was Actaeon’s; and the hounds
Should drive upon thy new-transformed limbs,
Unmannerly intruder as thou art!
LAVINIA
Under your patience, gentle empress,
‘Tis thought you have a goodly gift in horning;
And to be doubted that your Moor and you
Are singled forth to try experiments:
Jove shield your husband from his hounds to-day!
‘Tis pity they should take him for a stag.²
BASSIANUS
Believe me, queen, your swarth Cimmerian
Doth make your honour of his body’s hue,³
Spotted, detested, and abominable.
Why are you sequester’d from all your train,
Dismounted from your snow-white goodly steed.
And wander’d hither to an obscure plot,
Accompanied but with a barbarous Moor,
If foul desire had not conducted you?
LAVINIA
And, being intercepted in your sport,
Great reason that my noble lord be rated
For sauciness. I pray you, let us hence,
And let her joy her raven-colour’d love;
This valley fits the purpose passing well.4
BASSIANUS
The king my brother shall have note of this.
LAVINIA
Ay, for these slips have made him noted long:
Good king, to be so mightily abused!
TAMORA
Why have I patience to endure all this?
Enter DEMETRIUS and CHIRON
DEMETRIUS
How now, dear sovereign, and our gracious mother!
Why doth your highness look so pale and wan?
TAMORA
Have I not reason, think you, to look pale?
These two have ‘ticed me hither to this place:
A barren detested vale, you see it is;
The trees, though summer, yet forlorn and lean,
O’ercome with moss and baleful mistletoe:
Here never shines the sun; here nothing breeds,
Unless the nightly owl or fatal raven:
And when they show’d me this abhorred pit,
They told me, here, at dead time of the night,
A thousand fiends, a thousand hissing snakes,
Ten thousand swelling toads, as many urchins,
Would make such fearful and confused cries
As any mortal body hearing it
Should straight fall mad, or else die suddenly.
No sooner had they told this hellish tale,
But straight they told me they would bind me here
Unto the body of a dismal yew,
And leave me to this miserable death:
And then they call’d me foul adulteress,
Lascivious Goth, and all the bitterest terms
That ever ear did hear to such effect:
And, had you not by wondrous fortune come,
This vengeance on me had they executed.
Revenge it, as you love your mother’s life,
Or be ye not henceforth call’d my children.
DEMETRIUS
This is a witness that I am thy son.
Stabs BASSIANUS
CHIRON
And this for me, struck home to show my strength.
Also stabs BASSIANUS, who dies
LAVINIA
Ay, come, Semiramis, nay, barbarous Tamora,
For no name fits thy nature but thy own!
TAMORA
Give me thy poniard; you shall know, my boys
Your mother’s hand shall right your mother’s wrong.
DEMETRIUS
Stay, madam; here is more belongs to her;
First thrash the corn, then after burn the straw:
This minion stood upon her chastity,
Upon her nuptial vow, her loyalty,
And with that painted hope braves your mightiness:
And shall she carry this unto her grave?
CHIRON
An if she do, I would I were an eunuch.
Drag hence her husband to some secret hole,
And make his dead trunk pillow to our lust.
TAMORA
But when ye have the honey ye desire,
Let not this wasp outlive, us both to sting.
CHIRON
I warrant you, madam, we will make that sure.
Come, mistress, now perforce we will enjoy
That nice-preserved honesty of yours.
LAVINIA
O Tamora! thou bear’st a woman’s face,–
TAMORA
I will not hear her speak; away with her!”
¹ A deusa Diana não gostava da cidade – vivia nas florestas, caçando.
² Lavínia sabe que Arão e Tamora são amantes (que o imperador tem “galhos” ou “chifres” na testa).
³ Bárbaros. Novamente se alude à cor escura de Arão de modo depreciativo, associando a cor preta a coisas ruins, vis, sujas.
4Foreshadowing do buraco escuro em que logo serão depositados dois dos Andronicus – e o próprio Bassiano, já cadavérico.
“LAVINIA
When did the tiger’s young ones teach the dam?
O, do not learn her wrath; she taught it thee;
The milk thou suck’dst from her did turn to marble;
Even at thy teat thou hadst thy tyranny.
Yet every mother breeds not sons alike:
To CHIRON
Do thou entreat her show a woman pity.
CHIRON
What, wouldst thou have me prove myself a bastard?
LAVINIA
‘Tis true; the raven doth not hatch a lark:
Yet have I heard,–O, could I find it now!–
The lion moved with pity did endure
To have his princely paws pared all away:
Some say that ravens foster forlorn children,
The whilst their own birds famish in their nests:
O, be to me, though thy hard heart say no,
Nothing so kind, but something pitiful!”
“LAVINIA
O, let me teach thee! for my father’s sake,
That gave thee life, when well he might have
slain thee,
Be not obdurate, open thy deaf ears.
TAMORA
Hadst thou in person ne’er offended me,
Even for his sake am I pitiless.
Remember, boys, I pour’d forth tears in vain,
To save your brother from the sacrifice;
But fierce Andronicus would not relent;
Therefore, away with her, and use her as you will,
The worse to her, the better loved of me.
LAVINIA
O Tamora, be call’d a gentle queen,
And with thine own hands kill me in this place!
For ‘tis not life that I have begg’d so long;
Poor I was slain when Bassianus died.
TAMORA
What begg’st thou, then? fond woman, let me go.
LAVINIA
‘Tis present death I beg; and one thing more
That womanhood denies my tongue to tell:¹
O, keep me from their worse than killing lust,
And tumble me into some loathsome pit,
Where never man’s eye may behold my body:²
Do this, and be a charitable murderer.
TAMORA
So should I rob my sweet sons of their fee:
No, let them satisfy their lust on thee.”
¹ Como sempre nessas obras trágicas, os personagens acidentalmente narram seu terrível futuro: “Imploro aquilo que minha língua, como mulher, não pode pronunciar.” Não pode porque seria indecente. Em breve, porém, não poderá, literalmente, mesmo que quisesse e a moral o permitisse.
² Isso também faz parte da previsão: em vez de ser abandonada no escuro, Lavínia será flagrada em seu estado mais lamentável, pelo tio Marcus.
“LAVINIA
No grace? no womanhood? Ah, beastly creature!
The blot and enemy to our general name!
Confusion fall–
CHIRON
Nay, then I’ll stop your mouth. Bring thou her husband:
This is the hole where Aaron bid us hide him.
DEMETRIUS throws the body of BASSIANUS into the pit; then exeunt DEMETRIUS and CHIRON, dragging off LAVINIA.
TAMORA
Farewell, my sons: see that you make her sure.
Ne’er let my heart know merry cheer indeed,
Till all the Andronici be made away.
Now will I hence to seek my lovely Moor,¹
And let my spleenful sons this trull deflow’r.
Exit”
¹ Choca a ingenuidade dos irmãos em ato futuro da peça quando “descobrem” o produto de dois amantes, como se não fosse conseqüência natural, ao se indignarem com Aaron (ATO 4).
“AARON
Come on, my lords, the better foot before:
Straight will I bring you to the loathsome pit
Where I espied the panther fast asleep.
QUINTUS
My sight is very dull, whate’er it bodes.
MARTIUS
And mine, I promise you; were’t not for shame,
Well could I leave our sport to sleep awhile.
Falls into the pit
QUINTUS
What, art thou fall’n? What subtle hole is this,
Whose mouth is cover’d with rude-growing briers,
Upon whose leaves are drops of new-shed blood
As fresh as morning dew distill’d on flowers?
A very fatal place it seems to me.
Speak, brother, hast thou hurt thee with the fall?
MARTIUS
O brother, with the dismall’st object hurt
That ever eye with sight made heart lament!
AARON
[Aside] Now will I fetch the king to find them here,
That he thereby may give a likely guess
How these were they that made away his brother.
Exit”
“QUINTUS
Aaron is gone; and my compassionate heart
Will not permit mine eyes once to behold
The thing whereat it trembles by surmise;
O, tell me how it is; for ne’er till now
Was I a child to fear I know not what.
MARTIUS
Lord Bassianus lies embrewed here,
All on a heap, like to a slaughter’d lamb,
In this detested, dark, blood-drinking pit.
QUINTUS
If it be dark, how dost thou know ‘tis he?
MARTIUS
Upon his bloody finger he doth wear
A precious ring, that lightens all the hole,
Which, like a taper in some monument,
Doth shine upon the dead man’s earthy cheeks,
And shows the ragged entrails of the pit:
So pale did shine the moon on Pyramus
When he by night lay bathed in maiden blood.”¹
¹ Píramo e Tisbe: mais um casal trágico de Metamorfoses de Ovídio. Essa história provavelmente inspiraria Romeu & Julieta: dois amantes de duas famílias rivais que cometem cada qual suicídio devido a um mal-entendido (o primeiro achar que o segundo está morto, então se matar de verdade; o segundo acordar e ver o cadáver do primeiro, se matando finalmente). A luz da lua iluminando Píramo, coisa que não existe em Ovídio, pode ser uma referência ao apodo dado por Arão a Tamora: Artemis, deusa da lua, responsável por armar tamanho horror.
“QUINTUS
Reach me thy hand, that I may help thee out;
Or, wanting strength to do thee so much good,
I may be pluck’d into the swallowing womb
Of this deep pit, poor Bassianus’ grave.
I have no strength to pluck thee to the brink.
MARTIUS
Nor I no strength to climb without thy help.
QUINTUS
Thy hand once more; I will not loose again,
Till thou art here aloft, or I below:
Thou canst not come to me: I come to thee.
Falls in
Enter SATURNINUS with AARON
SATURNINUS
Along with me: I’ll see what hole is here,
And what he is that now is leap’d into it.
Say who art thou that lately didst descend
Into this gaping hollow of the earth?
MARTIUS
The unhappy son of old Andronicus:
Brought hither in a most unlucky hour,
To find thy brother Bassianus dead.
SATURNINUS
My brother dead! I know thou dost but jest:
He and his lady both are at the lodge
Upon the north side of this pleasant chase;
‘Tis not an hour since I left him there.
MARTIUS
We know not where you left him all alive;
But, out, alas! here have we found him dead.
Re-enter TAMORA, with Attendants; TITUS ANDRONICUS, and Lucius
TAMORA
Where is my lord the king?
SATURNINUS
Here, Tamora, though grieved with killing grief.
TAMORA
Where is thy brother Bassianus?
SATURNINUS
Now to the bottom dost thou search my wound:
Poor Bassianus here lies murdered.
TAMORA
Then all too late I bring this fatal writ,
The complot of this timeless tragedy;
And wonder greatly that man’s face can fold
In pleasing smiles such murderous tyranny.
She giveth SATURNINUS a letter
SATURNINUS
[Reads] ‘An if we miss to meet him handsomely–
Sweet huntsman, Bassianus ‘tis we mean–
Do thou so much as dig the grave for him:
Thou know’st our meaning. Look for thy reward
Among the nettles at the elder-tree
Which overshades the mouth of that same pit
Where we decreed to bury Bassianus.
Do this, and purchase us thy lasting friends.’
O Tamora! was ever heard the like?
This is the pit, and this the elder-tree.
Look, sirs, if you can find the huntsman out
That should have murdered Bassianus here.
AARON
My gracious lord, here is the bag of gold.
SATURNINUS
[To TITUS]Two of thy whelps, fell curs of
bloody kind,
Have here bereft my brother of his life.
Sirs, drag them from the pit unto the prison:
There let them bide until we have devised
Some never-heard-of torturing pain for them.
TAMORA
What, are they in this pit? O wondrous thing!
How easily murder is discovered!
TITUS ANDRONICUS
High emperor, upon my feeble knee
I beg this boon, with tears not lightly shed,
That this fell fault of my accursed sons,
Accursed if the fault be proved in them,–
SATURNINUS
If it be proved! you see it is apparent.
Who found this letter? Tamora, was it you?
TAMORA
Andronicus himself did take it up.
TITUS ANDRONICUS
I did, my lord: yet let me be their bail;
For, by my father’s reverend tomb, I vow
They shall be ready at your highness’ will
To answer their suspicion with their lives.
SATURNINUS
Thou shalt not bail them: see thou follow me.
Some bring the murder’d body, some the murderers:
Let them not speak a word; the guilt is plain;
For, by my soul, were there worse end than death,
That end upon them should be executed.
TAMORA
Andronicus, I will entreat the king;
Fear not thy sons; they shall do well enough.
TITUS ANDRONICUS
Come, Lucius, come; stay not to talk with them.
Exeunt”
ACT 2
SCENE IV. Another part of the forest. [na íntegra]
“Enter DEMETRIUS and CHIRON with LAVINIA, ravished; her hands cut off, and her tongue cut out.
DEMETRIUS
So, now go tell, an if thy tongue can speak,
Who ‘twas that cut thy tongue and ravish’d thee.
CHIRON
Write down thy mind, bewray thy meaning so,
An if thy stumps will let thee play the scribe.
DEMETRIUS
See, how with signs and tokens she can scrowl.¹
CHIRON
Go home, call for sweet water, wash thy hands.
DEMETRIUS
She hath no tongue to call, nor hands to wash;
And so let’s leave her to her silent walks.
CHIRON
An ‘twere my case, I should go hang myself.
DEMETRIUS
If thou hadst hands to help thee knit the cord.
Exeunt DEMETRIUS and CHIRON
Enter MARCUS”
¹ Outro foreshadowing!
Curioso para saber como representam tantos membros amputados no teatro!
“MARCUS
Who is this? my niece, that flies away so fast!
Cousin, a word; where is your husband?
If I do dream, would all my wealth would wake me!
If I do wake, some planet strike me down,
That I may slumber in eternal sleep!
Speak, gentle niece, what stern ungentle hands
Have lopp’d and hew’d and made thy body bare
Of her two branches, those sweet ornaments,
Whose circling shadows kings have sought to sleep in,
What will whole months of tears thy father’s eyes?
Do not draw back, for we will mourn with thee
O, could our mourning ease thy misery!
Exeunt”
¹ Referência a Orfeu, que conseguia fazer dormir até o cão tricéfalo que guardava o Hades.
ACT 3
SCENE I. Rome. A street.
“O earth, I will befriend thee more with rain,
That shall distil from these two ancient urns,
Than youthful April shall with all his showers:
In summer’s drought I’ll drop upon thee still;
In winter with warm tears I’ll melt the snow
And keep eternal spring-time on thy face,
So thou refuse to drink my dear sons’ blood.”
“LUCIUS
O noble father, you lament in vain:
The tribunes hear you not; no man is by;
And you recount your sorrows to a stone.”
“Why, tis no matter, man; if they did hear,
They would not mark me, or if they did mark,
They would not pity me, yet plead I must;
Therefore I tell my sorrows to the stones;
Who, though they cannot answer my distress,
Yet in some sort they are better than the tribunes,
For that they will not intercept my tale:
When I do weep, they humbly at my feet
Receive my tears and seem to weep with me;
And, were they but attired in grave weeds,
Rome could afford no tribune like to these.
A stone is soft as wax,–tribunes more hard than stones;
A stone is silent, and offendeth not,
And tribunes with their tongues doom men to death.”
“Why, foolish Lucius, dost thou not perceive
That Rome is but a wilderness of tigers?
Tigers must prey, and Rome affords no prey
But me and mine: how happy art thou, then,
From these devourers to be banished!
But who comes with our brother Marcus here?
Enter MARCUS and LAVINIA
MARCUS ANDRONICUS
Titus, prepare thy aged eyes to weep;
Or, if not so, thy noble heart to break:
I bring consuming sorrow to thine age.
TITUS ANDRONICUS
Will it consume me? let me see it, then.
MARCUS ANDRONICUS
This was thy daughter.
TITUS ANDRONICUS
Why, Marcus, so she is.
LUCIUS
Ay me, this object kills me!
TITUS ANDRONICUS
Faint-hearted boy, arise, and look upon her.
Speak, Lavinia, what accursed hand
Hath made thee handless in thy father’s sight?
What fool hath added water to the sea,
Or brought a faggot to bright-burning Troy?
My grief was at the height before thou camest,
And now like Nilus, it disdaineth bounds.
Give me a sword, I’ll chop off my hands too;
For they have fought for Rome, and all in vain;
And they have nursed this woe, in feeding life;
In bootless prayer have they been held up,
And they have served me to effectless use:
Now all the service I require of them
Is that the one will help to cut the other.
‘Tis well, Lavinia, that thou hast no hands;
For hands, to do Rome service, are but vain.
LUCIUS
Speak, gentle sister, who hath martyr’d thee?
MARCUS ANDRONICUS
O, that delightful engine of her thoughts
That blabb’d them with such pleasing eloquence,
Is torn from forth that pretty hollow cage,
Where, like a sweet melodious bird, it sung
Sweet varied notes, enchanting every ear!
LUCIUS
O, say thou for her, who hath done this deed?
MARCUS ANDRONICUS
O, thus I found her, straying in the park,
Seeking to hide herself, as doth the deer
That hath received some unrecuring wound.”
“This way to death my wretched sons are gone;
Here stands my other son, a banished man,
And here my brother, weeping at my woes.
But that which gives my soul the greatest spurn,
Is dear Lavinia, dearer than my soul.
Had I but seen thy picture in this plight,
It would have madded me: what shall I do
Now I behold thy lively body so?
Thou hast no hands, to wipe away thy tears:
Nor tongue, to tell me who hath martyr’d thee:
Thy husband he is dead: and for his death
Thy brothers are condemn’d, and dead by this.
Look, Marcus! ah, son Lucius, look on her!
When I did name her brothers, then fresh tears
Stood on her cheeks, as doth the honey-dew
Upon a gather’d lily almost wither’d.
MARCUS ANDRONICUS
Perchance she weeps because they kill’d her husband;
Perchance because she knows them innocent.”
“Gentle Lavinia, let me kiss thy lips.
Or make some sign how I may do thee ease:
Shall thy good uncle, and thy brother Lucius,
And thou, and I, sit round about some fountain,
Looking all downwards to behold our cheeks
How they are stain’d, as meadows, yet not dry,
With miry slime left on them by a flood?”
“Or shall we cut away our hands, like thine?
Or shall we bite our tongues, and in dumb shows
Pass the remainder of our hateful days?
What shall we do? let us, that have our tongues,
Plot some deuce of further misery,
To make us wonder’d at in time to come.”
“TITUS ANDRONICUS
Mark, Marcus, mark! I understand her signs:
Had she a tongue to speak, now would she say
That to her brother which I said to thee:
His napkin, with his true tears all bewet,
Can do no service on her sorrowful cheeks.
O, what a sympathy of woe is this,
As far from help as Limbo is from bliss!”
“AARON
Titus Andronicus, my lord the emperor
Sends thee this word,–that, if thou love thy sons,
Let Marcus, Lucius, or thyself, old Titus,
Or any one of you, chop off your hand,
And send it to the king: he for the same
Will send thee hither both thy sons alive;
And that shall be the ransom for their fault.
TITUS ANDRONICUS
O gracious emperor! O gentle Aaron!
Did ever raven sing so like a lark,¹
That gives sweet tidings of the sun’s uprise?
With all my heart, I’ll send the emperor My hand:
Good Aaron, wilt thou help to chop it off?
LUCIUS
Stay, father! for that noble hand of thine,
That hath thrown down so many enemies,
Shall not be sent: my hand will serve the turn:
My youth can better spare my blood than you;
And therefore mine shall save my brothers’ lives.
MARCUS ANDRONICUS
Which of your hands hath not defended Rome,
And rear’d aloft the bloody battle-axe,
Writing destruction on the enemy’s castle?
O, none of both but are of high desert:
My hand hath been but idle; let it serve
To ransom my two nephews from their death;
Then have I kept it to a worthy end.
AARON
Nay, come, agree whose hand shall go along,
For fear they die before their pardon come.
MARCUS ANDRONICUS
My hand shall go.
LUCIUS
By heaven, it shall not go!
TITUS ANDRONICUS
Sirs, strive no more: such wither’d herbs as these
Are meet for plucking up, and therefore mine.
LUCIUS
Sweet father, if I shall be thought thy son,
Let me redeem my brothers both from death.
MARCUS ANDRONICUS
And, for our father’s sake and mother’s care,
Now let me show a brother’s love to thee.
TITUS ANDRONICUS
Agree between you; I will spare my hand.
LUCIUS
Then I’ll go fetch an axe.
MARCUS ANDRONICUS
But I will use the axe.
Exeunt LUCIUS and MARCUS
TITUS ANDRONICUS
Come hither, Aaron; I’ll deceive them both:
Lend me thy hand, and I will give thee mine.
AARON
[Aside] If that be call’d deceit, I will be honest,
And never, whilst I live, deceive men so:
But I’ll deceive you in another sort,
And that you’ll say, ere half an hour pass.
Cuts off TITUS’s hand
Re-enter LUCIUS and MARCUS
TITUS ANDRONICUS
Now stay your strife: what shall be is dispatch’d.
Good Aaron, give his majesty my hand:
Tell him it was a hand that warded him
From thousand dangers; bid him bury it
More hath it merited; that let it have.
As for my sons, say I account of them
As jewels purchased at an easy price;
And yet dear too, because I bought mine own.”
¹ Aqui, sem saber, Titus inverte uma das últimas metáforas de Lavínia – e está bastante enganado ao fazê-lo!
“AARON
(…)
Let fools do good, and fair men call for grace.
Aaron will have his soul black like his face.
Exit”
“MARCUS ANDRONICUS
O brother, speak with possibilities,
And do not break into these deep extremes.
TITUS ANDRONICUS
Is not my sorrow deep, having no bottom?
Then be my passions bottomless with them.
MARCUS ANDRONICUS
But yet let reason govern thy lament.”
“When heaven doth weep, doth not the earth o’erflow?
If the winds rage, doth not the sea wax mad,
Threatening the welkin with his big-swollen face?
And wilt thou have a reason for this coil?
I am the sea; hark, how her sighs do blow!
She is the weeping welkin, I the earth:
Then must my sea be moved with her sighs;
Then must my earth with her continual tears
Become a deluge, overflow’d and drown’d;
For why my bowels cannot hide her woes,
But like a drunkard must I vomit them.”
“Enter a Messenger, with two heads and a hand
Messenger
Worthy Andronicus, ill art thou repaid
For that good hand thou sent’st the emperor.
Here are the heads of thy two noble sons;
And here’s thy hand, in scorn to thee sent back;
Thy griefs their sports, thy resolution mock’d;
That woe is me to think upon thy woes
More than remembrance of my father’s death.
Exit
MARCUS ANDRONICUS
Now let hot Aetna cool in Sicily,
And be my heart an ever-burning hell!
These miseries are more than may be borne.
To weep with them that weep doth ease some deal;
But sorrow flouted at is double death.”
“That ever death should let life bear his name,
Where life hath no more interest but to breathe!
LAVINIA kisses TITUS
MARCUS ANDRONICUS
Alas, poor heart, that kiss is comfortless
As frozen water to a starved snake.
TITUS ANDRONICUS
When will this fearful slumber have an end?
MARCUS ANDRONICUS
Now, farewell, flattery: die, Andronicus;
Thou dost not slumber: see, thy two sons’ heads,
Thy warlike hand, thy mangled daughter here:
Thy other banish’d son, with this dear sight
Struck pale and bloodless; and thy brother, I,
Even like a stony image, cold and numb.
Ah, now no more will I control thy griefs:
Rend off thy silver hair, thy other hand
Gnawing with thy teeth; and be this dismal sight
The closing up of our most wretched eyes;
Now is a time to storm; why art thou still?
TITUS ANDRONICUS
Ha, ha, ha!
MARCUS ANDRONICUS
Why dost thou laugh? it fits not with this hour.
TITUS ANDRONICUS
Why, I have not another tear to shed:
Besides, this sorrow is an enemy,
And would usurp upon my watery eyes
And make them blind with tributary tears:
Then which way shall I find Revenge’s cave?¹
For these two heads do seem to speak to me,
And threat me I shall never come to bliss
Till all these mischiefs be return’d again
Even in their throats that have committed them.
Come, let me see what task I have to do.
You heavy people, circle me about,
That I may turn me to each one of you,
And swear unto my soul to right your wrongs.
The vow is made. Come, brother, take a head;
And in this hand the other I will bear.
Lavinia, thou shalt be employ’d: these arms!
Bear thou my hand, sweet wench, between thy teeth.
As for thee, boy, go get thee from my sight;
Thou art an exile, and thou must not stay:
Hie to the Goths, and raise an army there:
And, if you love me, as I think you do,
Let’s kiss and part, for we have much to do.
Exeunt TITUS, MARCUS, and LAVINIA
LUCIUS
Farewell Andronicus, my noble father,
The wofull’st man that ever lived in Rome:
Farewell, proud Rome; till Lucius come again,
He leaves his pledges dearer than his life:
Farewell, Lavinia, my noble sister;
O, would thou wert as thou tofore hast been!
But now nor Lucius nor Lavinia lives
But in oblivion and hateful griefs.
If Lucius live, he will requite your wrongs;
And make proud Saturnine and his empress
Beg at the gates, like Tarquin and his queen.²
Now will I to the Goths, and raise a power,
To be revenged on Rome and Saturnine.
Exit”
¹ A caverna da vingança, como veremos, será a própria casa de Titus Andronicus.
² Figura despótica que bem inspira Saturninus, e que ao mesmo tempo compartilha o primeiro nome com quem fala: “Lucius Tarquinius Superbus (died 495 BC) was the legendary 7th and final king of Rome,a reigning 25 years until the popular uprising that led to the establishment of the Roman Republic.[segundo o historiador Lívio] He is commonly known as Tarquin the Proud, from his cognomen Superbus (Latin for proud, arrogant, lofty).” Adicionalmente, o que não se sabe se é História ou mito, este Tarquínio teria matado seu próprio irmão, o rei anterior (estamos falando da monarquia pré-república Romana, que por sua vez é pré-Império Romano, ou seja, período bem remoto e historiograficamente difícil de avaliar), e sua esposa, a fim de sentar no trono, o que excede em maldade tudo que se via ao tempo e acelerou sua ruína e a ruína do sistema monárquico na cidade (realmente houve reis em Roma antes das instituições da República, daí os traços de autenticidade da fábula).
a A quem aprecia superstições, o número 7 aqui está eivado de maldições!
ACT 3
SCENE II. A room in Titus’ house. A banquet set out.
“TITUS ANDRONICUS
So, so; now sit: and look you eat no more
Than will preserve just so much strength in us
As will revenge these bitter woes of ours.
Marcus, unknit that sorrow-wreathen knot:
Thy niece and I, poor creatures, want our hands,
And cannot passionate our tenfold grief
With folded arms.This poor right hand of mine
Is left to tyrannize upon my breast;
Who, when my heart, all mad with misery,
Beats in this hollow prison of my flesh,
Then thus I thump it down.”
“MARCUS ANDRONICUS
Fie, brother, fie! teach her not thus to lay
Such violent hands upon her tender life.
TITUS ANDRONICUS
How now! has sorrow made thee dote already?
Why, Marcus, no man should be mad but I.
What violent hands can she lay on her life?
Ah, wherefore dost thou urge the name of hands;
To bid Aeneas tell the tale twice o’er,¹
How Troy was burnt and he made miserable?
O, handle not the theme, to talk of hands,
Lest we remember still that we have none.
Fie, fie, how franticly I square my talk,
As if we should forget we had no hands,
If Marcus did not name the word of hands!”
¹ Durante a Eneida Enéias tem de recontar várias vezes suas desventuras desde a queda de Tróia até suas viagens meridionais. Recontar o passado sofrido equivale a revivê-lo, em toda sua dor.
“Here is no drink! Hark, Marcus, what she says;
I can interpret all her martyr’d signs;
She says she drinks no other drink but tears,
Brew’d with her sorrow, mesh’d upon her cheeks:
Speechless complainer, I will learn thy thought;
In thy dumb action will I be as perfect
As begging hermits in their holy prayers:
Thou shalt not sigh, nor hold thy stumps to heaven,
Nor wink, nor nod, nor kneel, nor make a sign,
But I of these will wrest an alphabet
And by still practise learn to know thy meaning.”¹
¹ Uma linguagem bem sibilina, mais avançada que libras, posto que libras exigem mãos!
“MARCUS strikes the dish with a knife
What dost thou strike at, Marcus, with thy knife?
MARCUS ANDRONICUS
At that that I have kill’d, my lord; a fly.
TITUS ANDRONICUS
Out on thee, murderer! thou kill’st my heart;
Mine eyes are cloy’d with view of tyranny:
A deed of death done on the innocent
Becomes not Titus’ brother: get thee gone:
I see thou art not for my company.”
“Poor harmless fly,
That, with his pretty buzzing melody,
Came here to make us merry! and thou hast
kill’d him.”
“MARCUS ANDRONICUS
Pardon me, sir; it was a black ill-favor’d fly,
Like to the empress’ Moor; therefore I kill’d him.
TITUS ANDRONICUS
O, O, O,
Then pardon me for reprehending thee,
For thou hast done a charitable deed.
Give me thy knife, I will insult on him;
Flattering myself, as if it were the Moor
Come hither purposely to poison me.–
There’s for thyself, and that’s for Tamora.
Ah, sirrah!
Yet, I think, we are not brought so low,
But that between us we can kill a fly
That comes in likeness of a coal-black Moor.”
“He takes false shadows for true substances.”
“TITUS ANDRONICUS
Come, take away. Lavinia, go with me:
I’ll to thy closet; and go read with thee
Sad stories chanced in the times of old.
Come, boy, and go with me: thy sight is young,
And thou shalt read when mine begin to dazzle.
Exeunt”
ACT 4
SCENE I. Rome. Titus’ garden.
“Young LUCIUS [neto de Titus]
Help, grandsire, help! my aunt Lavinia
Follows me every where, I know not why:
Good uncle Marcus, see how swift she comes.
Alas, sweet aunt, I know not what you mean.”
“TITUS ANDRONICUS
She loves thee, boy, too well to do thee harm.
Young LUCIUS
Ay, when my father was in Rome she did.
MARCUS ANDRONICUS
What means my niece Lavinia by these signs?”
“Ah, boy, Cornelia¹ never with more care
Read to her sons than she hath read to thee
Sweet poetry and Tully’s Orator.”²
¹ Grande mulher romana, considerada uma intelectual, e mãe de vários políticos do tempo republicano (matrona da dinastia Graco). Em outros termos, a preceptora ideal, grande elogio a Lavínia, a tia que educou o sobrinho Lucius o Jovem da peça. “Rome worshipped her virtues, and when she died at an advanced age, the city voted for a statue in her honor.”
² Orações de Túlio Marco Cícero.
“For I have heard my grandsire say full oft,
Extremity of griefs would make men mad;¹
And I have read that Hecuba of Troy
Ran mad through sorrow:² that made me to fear;
Although, my lord, I know my noble aunt
Loves me as dear as e’er my mother did,
And would not, but in fury, fright my youth:
Which made me down to throw my books, and fly–³
Causeless, perhaps. …”
¹ Clever wordplay com “extremidades”… os extremos da tristeza, os extremos dos braços, decepados…
² Hécuba, que perdeu muitos parentes na derrota de Tróia, teria ficado louca de tanto sofrimento. Assim o sobrinho justifica o medo de que sua tia Lavínia tivesse também perdido a razão. Shakespeare cita Hécuba mais uma vez em Hamlet: “And all for nothing – For Hecuba! What’s Hecuba to him, or he to Hecuba / That he should weep for her?”Quando o tema é vingança, uma mulher que perdeu tudo e que depois conseguiu se vingar de alguns dos assassinos de seus entes queridos é uma das melhores figuras a ser citadas…
³ To fly… correr, fugir. Na cena anterior, a do triste banquete, matam uma mosca (fly). Throw my books, derrubar os livros, como quem não consegue segurá-los por falta de mãos. Creio que Shakespeare tenha utilizado essas referências conscientemente para brincar novamente com a duplicidade do discurso do sobrinho que vê sua dinastia em pedaços.
“LAVINIA turns over with her stumps the books which LUCIUS has let fall”
“Some book there is that she desires to see.
Which is it, girl, of these? Open them, boy.
But thou art deeper read, and better skill’d
Come, and take choice of all my library,
And so beguile thy sorrow, till the heavens
Reveal the damn’d contriver of this deed.”
“MARCUS ANDRONICUS
I think she means that there was more than one
Confederate in the fact: ay, more there was;
Or else to heaven she heaves them for revenge.”
“Young LUCIUS
Grandsire, ‘tis Ovid’s Metamorphoses;¹
My mother gave it me.
MARCUS ANDRONICUS
For love of her that’s gone,
Perhaps she cull’d it from among the rest.”
¹ Um dos livros mais importantes como pano de fundo da peça, com vários de seus episódios trágicos citados ao longo dos atos.
“This is the tragic tale of Philomel,
And treats of Tereus’ treason and his rape:
And rape, I fear, was root of thine annoy.”
“TITUS ANDRONICUS
Lavinia, wert thou thus surprised, sweet girl,
Ravish’d and wrong’d, as Philomela was,
Forced in the ruthless, vast, and gloomy woods? See, see!
Ay, such a place there is, where we did hunt—
O, had we never, never hunted there!–
Pattern’d by that the poet here describes,
By nature made for murders and for rapes.
MARCUS ANDRONICUS
O, why should nature build so foul a den,
Unless the gods delight in tragedies?”
“Apollo, Pallas, Jove, or Mercury,
Inspire me, that I may this treason find!
My lord, look here: look here, Lavinia:¹
This sandy plot is plain; guide, if thou canst
This after me, when I have writ my name
Without the help of any hand at all.”
¹ Se, na Antiguidade, alguém soubesse que os próprios deuses aprovam seu desejo de vingança, este alguém se sentiria absolutamente justificado. Titus adia sua vingança até ter certeza, por todos os métodos das adivinhações, que conta com o favor dos deuses – para consumar a única coisa que o manteve vivo por tanto tempo.
“He writes his name with his staff, and guides it with feet and mouth”
“Write thou good niece; and here display, at last,
What God will have discover’d for revenge;
Heaven guide thy pen to print thy sorrows plain,
That we may know the traitors and the truth!
She takes the staff in her mouth, and guides it with her stumps, and writes
TITUS ANDRONICUS
O, do ye read, my lord, what she hath writ?
‘Stuprum. Chiron. Demetrius.’
MARCUS ANDRONICUS
What, what! the lustful sons of Tamora
Performers of this heinous, bloody deed?
TITUS ANDRONICUS
Magni Dominator poli,¹
Tam lentus audis scelera? tam lentus vides?
¹ Titus, obviamente arrependido de ter apontado Saturnino como o novo imperador, evoca no vernáculo: Ó, Senhor dessa cidade, vês e ouves tu tão horrendos crimes praticados pelos teus?
“MARCUS ANDRONICUS
O, calm thee, gentle lord; although I know
There is enough written upon this earth
To stir a mutiny in the mildest thoughts
And arm the minds of infants to exclaims.
My lord, kneel down with me; Lavinia, kneel;
And kneel, sweet boy, the Roman Hector’s hope;¹
And swear with me, as, with the woful fere
And father of that chaste dishonour’d dame,
Lord Junius Brutus² sware for Lucrece’ rape,
That we will prosecute by good advice
Mortal revenge upon these traitorous Goths,
And see their blood, or die with this reproach.”
¹ Numa nação guerreira, de toda criança espera-se que seja um dia um grande herói como o foi o antepassado dos romanos Heitor.
² Referência ao fabuloso Lucius Junius Brutus, um dos vingadores da honra da estuprada Lucrécia (evento já comentado em nota anterior).
“You are a young huntsman, Marcus; let it alone;
And, come, I will go get a leaf of brass,
And with a gad of steel will write these words,
And lay it by: the angry northern wind
Will blow these sands, like Sibyl’s leaves, abroad,
And where’s your lesson, then? Boy, what say you?
Young LUCIUS
I say, my lord, that if I were a man,
Their mother’s bed-chamber should not be safe
For these bad bondmen to the yoke of Rome.”
“TITUS ANDRONICUS
Come, go with me into mine armoury;
Lucius, I’ll fit thee; and withal, my boy,
Shalt carry from me to the empress’ sons
Presents that I intend to send them both:
Come, come; thou’lt do thy message, wilt thou not?
Young LUCIUS
Ay, with my dagger in their bosoms, grandsire.
TITUS ANDRONICUS
No, boy, not so; I’ll teach thee another course.¹
Lavinia, come. Marcus, look to my house:
Lucius and I’ll go brave it at the court:
Ay, marry, will we, sir; and we’ll be waited on.
Exeunt TITUS, LAVINIA, and Young LUCIUS”
¹ Até nessa sanguinária peça Titus tem um freio para sua ambição de vingança, como “bom velhinho” (digito essas palavras em 24/12): seu neto não precisará se envolver diretamente, sua mensagem será apenas isso: uma mensagem, para trazer a cobra ao covil inóspito dos Andronici. As crianças não precisam participar da orgia de sangue (mais do que já participaram nas guerras de Roma, na frente de batalha, os adolescentes, ou simplesmente perdendo seus pais, os mais jovens).
“MARCUS…
…
Revenge, ye heavens, for old Andronicus!
Exit”
Here comes! Revenge is the true protagonist of this oeuvre:
ACT 4
SCENE II. The same. A room in the palace.
“CHIRON
Demetrius, here’s the son of Lucius;
He hath some message to deliver us.
AARON
Ay, some mad message from his mad grandfather.
Young LUCIUS
My lords, with all the humbleness I may,
I greet your honours from Andronicus.
[Aside] And pray the Roman gods confound you both!
DEMETRIUS
Gramercy, lovely Lucius: what’s the news?
Young LUCIUS
[Aside] That you are both decipher’d, that’s the news,
For villains mark’d with rape.–May it please you,
My grandsire, well advised, hath sent by me
The goodliest weapons of his armoury
To gratify your honourable youth,
The hope of Rome; for so he bade me say;
And so I do, and with his gifts present
Your lordships, that, whenever you have need,
You may be armed and appointed well:
And so I leave you both:
[Aside] like bloody villains.
Exeunt Young LUCIUS, and Attendant”
“Integer vitae, scelerisque purus,
Non eget Mauri jaculis, nec arcu. »
“O, ‘tis a verse in Horace; I know it well:
I read it in the grammar long ago.”
“AARON
…
Now, what a thing it is to be an ass!
Here’s no sound jest! the old man hath found their guilt;
And sends them weapons wrapped about with lines,
That wound, beyond their feeling, to the quick.
But were our witty empress well afoot,
She would applaud Andronicus’ conceit:
But let her rest in her unrest awhile.
And now, young lords, was’t not a happy star
Led us to Rome, strangers, and more than so,
Captives, to be advanced to this height?
It did me good, before the palace gate
To brave the tribune in his brother’s hearing.”
“DEMETRIUS
I would we had a thousand Roman dames
At such a bay, by turn to serve our lust.
CHIRON
A charitable wish and full of love.
AARON
Here lacks but your mother for to say amen.¹
CHIRON
And that would she for 20,000 more.
DEMETRIUS
Come, let us go; and pray to all the gods
For our beloved mother in her pains.
AARON
[Aside] Pray to the devils; the gods have given us over.
Trumpets sound within
DEMETRIUS
Why do the emperor’s trumpets flourish thus?
CHIRON
Belike, for joy the emperor hath a son.²
DEMETRIUS
Soft! who comes here?
Enter a Nurse, with a blackamoor Child in her arms
Nurse
Good morr ow, lords:³
O, tell me, did you see Aaron the Moor?
AARON
Well, more or less, or ne’er a whit at all,
Here Aaron is; and what with Aaron now?
Nurse
O gentle Aaron, we are all undone!4
Now help, or woe betide thee evermore!”
¹ Os parvos filhos de Tamora não entenderam o duplo sentido de Aaron – até que ele fosse mais explícito no chiste!
² Não o imperador, mas a imperatriz apenas!
³ Shakespeare não perde uma oportunidade: Good Morning, Good morrow, se torna Good morr [quase good moor]… O espaço confirma que é um chiste intencional.
4 A fala da enfermeira ecoa o própria “pensamento alto” de Aaron de segundos atrás, ou seja: agora há dois grandes problemas para ele e Tamora.
“Nurse
…
Our empress’ shame, and stately Rome’s disgrace!
She is deliver’d, lords; she is deliver’d.”
“AARON
Well, God give her good rest! What hath he sent her?
Nurse
A devil.”
“Nurse
A joyless, dismal, black, and sorrowful issue:
Here is the babe, as loathsome as a toad¹
Amongst the fairest breeders of our clime:
The empress sends it thee, thy stamp, thy seal,
And bids thee christen it with thy dagger’s point.
AARON
‘Zounds, ye whore! is black so base a hue?
Sweet blowse, you are a beauteous blossom, sure.
DEMETRIUS
Villain, what hast thou done?
AARON
That which thou canst not undo.
CHIRON
Thou hast undone our mother.
AARON
Villain, I have done thy mother.²
DEMETRIUS
And therein, hellish dog, thou hast undone.
Woe to her chance, and damn’d her loathed choice!³
Accurse[e]d the offspring of so foul a fiend!
CHIRON
It shall not live.
AARON
It shall not die.4
Nurse
Aaron, it must; the mother wills it so.
AARON
What, must it, nurse? then let no man but I
Do execution on my flesh and blood.5
DEMETRIUS
I’ll broach the tadpole on my rapier’s point:
Nurse, give it me; my sword shall soon dispatch it.
AARON
Sooner this sword shall plough thy bowels up.
Takes the Child from the Nurse, and draws
Stay, murderous villains! will you kill your brother?
Now, by the burning tapers of the sky, [pelo sol: vide glossário ao fim]
That shone so brightly when this boy was got,
He dies upon my scimitar’s sharp point
That touches this my first-born son and heir!
I tell you, younglings, not Enceladus,6
With all his threatening band of Typhon’s brood,
Nor great Alcides, nor the god of war,7
Shall seize this prey out of his father’s hands.
What, what, ye sanguine, shallow-hearted boys!
Ye white-limed walls! ye alehouse painted signs!8
Coal-black is better than another hue,
In that it scorns to bear another hue;
For all the water in the ocean
Can never turn the swan’s black legs to white,
Although she lave them hourly in the flood.
Tell the empress from me, I am of age
To keep mine own, excuse it how she can.9
DEMETRIUS
Wilt thou betray thy noble mistress thus?
AARON
My mistress is my mistress; this myself,
The vigour and the picture of my youth:10
This before all the world do I prefer;
This maugre all the world will I keep safe,
Or some of you shall smoke for it in Rome.
DEMETRIUS
By this our mother is forever shamed.
CHIRON
Rome will despise her for this foul escape.
Nurse
The emperor, in his rage, will doom her death.”
¹ Certamente alguém cujo fenótipo “traidor” da traição ao imperador não o qualifica como príncipe, portanto é um sapo.
² E aqui, com 9 meses de retardo, os ineptos filhos de Tamora entenderam que Aaron se convertera em seu padrasto! Os godos são devagar com piadas…
³ “Graças às péssimas escolhas de mamãe, sua sorte de sobreviver e reinar acabaram…”
4 Esse tipo de contraditório transforma esses momentos da peça em comédia – lembra até Chavo del Ocho, se ainda é mais econômico que as tantrums de Seu madruga, Chaves e Quico, p.ex.! Certamente continuaria a comédia pastelão, não fosse pela preocupada intervenção da nurse!
5 O astuto Arão já começa a ganhar tempo… Tanto quanto Demetrius e Chiron são uns parvos e umas lesmas, o mouro pensa rápido!
6 Titã grego e espécie de semi-deus egípcio (a influência da mitologia grega permeia essa identidade), filho de filho do lendário rei Aegyptus (descendente de Belus e Nilus, dois deuses locais, e um dos responsáveis pelo nome Egito). A razão da analogia aqui é que Enceladus termina assassinado.
7Alcides não é ninguém menos que Hércules em outra denominação. Godo f war poderia ser Zeus, o rei dos deuses, o Ares, especificamente o deus-guerreiro do Olimpo. Repare que o Word auto-corrigiu (auto-errou!) minha digitação de god of war para godo’f war, o que não deixa de nos vir a calhar nesse mar de trocadilhos shakespeariano! Ou seja: ninguém – humano ou deus – assassinará meu filho, quis dizer Aaron.
8 Uma instância de “racismo reverso”, diriam os bolsonaristas! Aaron sabe mesmo como ofender in the brink of an eye (num piscar de olhos); sua língua é tão ferina quanto seus planos são malignos.
9 Ao contrário, primeiro, de seus filhos tão infantis; e ao contrário de seu filho mútuo, ainda um bebê: não importa, ele será seu guardião. Com efeito, essa é a única cena que redime Aaron e talvez não nos permita qualificá-lo como o vilão mais atroz das peças de Shakespeare!
10“Questões amorosas são questões amorosas – mas aqui se trata de mim, e eu não sou cavalheiro o suficiente para me subordinar a uma imperatriz.”
Fonte: seattleshakespeare.org
“AARON
Why, there’s the privilege your beauty bears:
Fie, treacherous hue, that will betray with blushing
The close enacts and counsels of the heart!
Here’s a young lad framed of another leer:
Look, how the black slave smiles upon the father,
As who should say ‘Old lad, I am thine own.’”
“And from that womb where you imprison’d were
He is enfranchised and come to light:
Nay, he is your brother by the surer side,¹
Although my seal be stamped in his face.”
¹ Alusão a uma mãe ser sempre reconhecível devido a ser a grávida afinal de contas; mas também a Tamora ser a própria rainha de Roma.
“Nurse
Aaron, what shall I say unto the empress?
DEMETRIUS
Advise thee, Aaron, what is to be done,
And we will all subscribe to thy advice:
Save thou the child, so we may all be safe.”
Aqui todos os 3 que contrapunham Arão já estão vendidos: foram psicologicamente convencidos, e acabarão morrendo.
“DEMETRIUS
How many women saw this child of his?”
“Nurse
Cornelia the midwife and myself;
And no one else but the deliver’d empress.
AARON
The empress, the midwife, and yourself:
Two may keep counsel when the third’s away:
Go to the empress, tell her this I said.
He kills the nurse
Weke, weke! so cries a pig prepared to the spit.”
“And now be it known to you my full intent.
Not far, one Muli lives, my countryman;
His wife but yesternight was brought to bed;
His child is like to her, fair as you are:
Go pack with him, and give the mother gold,
And tell them both the circumstance of all;
And how by this their child shall be advanced,
And be received for the emperor’s heir,
And substituted in the place of mine,
To calm this tempest whirling in the court;
And let the emperor dandle him for his own.
Hark ye, lords; ye see I have given her physic,
Pointing to the nurse
And you must needs bestow her funeral;
The fields are near, and you are gallant grooms:
This done, see that you take no longer days,
But send the midwife presently to me.
The midwife and the nurse well made away,
Then let the ladies tattle what they please.
CHIRON
Aaron, I see thou wilt not trust the air
With secrets.
DEMETRIUS
For this care of Tamora,
Herself and hers are highly bound to thee.
Exeunt DEMETRIUS and CHIRON bearing off the Nurse’s body”
O tropo das crianças trocadas no berço é um dos mais antigos da humanidade, e Sh. como bom dramaturgo, que aumenta as coisas pequenas e reles, não hesita em usá-lo.
“Come on, you thick lipp’d slave, I’ll bear you hence;
For it is you that puts us to our shifts:
I’ll make you feed on berries and on roots,
And feed on curds and whey, and suck the goat,
And cabin in a cave, and bring you up
To be a warrior, and command a camp.
Exit”
Ah, como o próprio Arão não deixa o sarcasmo de lado e a auto-imolação ao conversar com e qualificar seu próprio filho! A caverna, sempre a caverna, é a origem de muitas conseqüências interessantes em Titus Andronicus…
ACT 4
SCENE III. The same. A public place.
“Ah, Rome! Well, well; I made thee miserable
What time I threw the people’s suffrages
On him that thus doth tyrannize o’er me.
Go, get you gone; and pray be careful all,
And leave you not a man-of-war unsearch’d:
This wicked emperor may have shipp’d her hence;
And, kinsmen, then we may go pipe for justice.”
“MARCUS ANDRONICUS
Kinsmen, his sorrows are past remedy.
Join with the Goths; and with revengeful war
Take wreak on Rome for this ingratitude,
And vengeance on the traitor Saturnine.
TITUS ANDRONICUS
Publius, how now! how now, my masters!
What, have you met with her?
PUBLIUS
No, my good lord; but Pluto sends you word,
If you will have Revenge from hell, you shall:
Marry, for Justice, she is so employ’d,
He thinks, with Jove in heaven, or somewhere else,
So that perforce you must needs stay a time.”
“I’ll dive into the burning lake below,
And pull her out of Acheron by the heels.
Marcus, we are but shrubs, no cedars we
No big-boned men framed of the Cyclops’ size;
But metal, Marcus, steel to the very back,
Yet wrung with wrongs more than our backs can bear:
And, sith there’s no justice in earth nor hell,
We will solicit heaven and move the gods
To send down Justice for to wreak our wrongs.”
“To Saturn, Caius, not to Saturnine;¹
You were as good to shoot against the wind.
To it, boy! Marcus, loose when I bid.
Of my word, I have written to effect;
There’s not a god left unsolicited.”
¹ Trocadilho com Saturno ou Cronos, o deus do tempo: o tempo de Saturnino está expirando…
“MARCUS ANDRONICUS
Kinsmen, shoot all your shafts into the court:
We will afflict the emperor in his pride.”
“TITUS ANDRONICUS
Ha, ha!
Publius, Publius, what hast thou done?
See, see, thou hast shot off one of Taurus’ horns.”
“And who should find them but the empress’ villain?
She laugh’d, and told the Moor he should not choose
But give them to his master for a present.”
“Clown
Alas, sir, I know not Jupiter; I never drank with him
in all my life.”
“TITUS ANDRONICUS
Then here is a supplication for you. And when you
come to him, at the first approach you must kneel,
then kiss his foot, then deliver up your pigeons, and
then look for your reward. I’ll be at hand, sir; see
you do it bravely.
Clown
I warrant you, sir, let me alone.”
ACT 4
SCENE IV. The same. Before the palace.
“Sweet scrolls to fly about the streets of Rome!
What’s this but libelling against the senate,
And blazoning our injustice every where?
A goodly humour, is it not, my lords?
As who would say, in Rome no justice were.
But if I live, his feigned ecstasies
Shall be no shelter to these outrages:
But he and his shall know that justice lives
In Saturninus’ health, whom, if she sleep,
He’ll so awake as she in fury shall
Cut off the proud’st conspirator that lives.”
“TAMORA
My gracious lord, my lovely Saturnine,
Lord of my life, commander of my thoughts,
Calm thee, and bear the faults of Titus’ age,
The effects of sorrow for his valiant sons,
Whose loss hath pierced him deep and scarr’d his heart;
And rather comfort his distressed plight
Than prosecute the meanest or the best
For these contempts.”
“Why, thus it shall become
High-witted Tamora to gloze with all:
But, Titus, I have touched thee to the quick,
Thy life-blood out: if Aaron now be wise,
Then is all safe, the anchor’s in the port.”
“Clown
‘Tis he. God and Saint Stephen¹ give you good den:
I have brought you a letter and a couple of pigeons here.
SATURNINUS reads the letter
SATURNINUS
Go, take him away, and hang him presently.
Clown
How much money must I have?
TAMORA
Come, sirrah, you must be hanged.
Clown
Hanged! by’r lady, then I have brought up a neck to
a fair end.
Exit, guarded”
¹ Santo Stefano ou Estêvão é o primeiro santo canonizado pela igreja católica. Teria nascido em 5 a.C. e morrido em 34 d.C., um ano após a crucificação de Cristo, sendo um de seus primeiros pregadores (foi morto por apedrejamento sentenciado pelos judeus romanos). Sua data de celebração é 26 de dezembro, mesma da publicação desse post e da escrita desse parágrafo. Por que pela primeira vez Shakespeare cita um elemento posterior ao paganismo greco-romano? Talvez para indicar a proximidade de uma transição de poder…
“May this be borne?–as if his traitorous sons,
That died by law for murder of our brother,
Have by my means been butcher’d wrongfully!
Go, drag the villain hither by the hair;
Nor age nor honour shall shape privilege:
For this proud mock I’ll be thy slaughterman;
Sly frantic wretch, that holp’st to make me great,
As flowers with frost or grass beat down with storms:
Ay, now begin our sorrows to approach:
‘Tis he the common people love so much;
Myself hath often over-heard them say,
When I have walked like a private man,
That Lucius’ banishment was wrongfully,
And they have wish’d that Lucius were their emperor.”
“TAMORA
King, be thy thoughts imperious, like thy name.
Is the sun dimm’d, that gnats do fly in it?
The eagle suffers little birds to sing,
And is not careful what they mean thereby,
Knowing that with the shadow of his wings
He can at pleasure stint their melody:
Even so mayst thou the giddy men of Rome.”
“I will enchant the old Andronicus
With words more sweet, and yet more dangerous,
Than baits to fish, or honey-stalks to sheep,
When as the one is wounded with the bait,
The other rotted with delicious feed.”
“I can smooth and fill his aged ear with golden promises; that, were his heart almost impregnable, his old ears deaf, yet should both ear and heart obey my tongue.”
“To Aemilius
Go thou before, be our ambassador:
Say that the emperor requests a parley
Of warlike Lucius, and appoint the meeting
Even at his father’s house, the old Andronicus.
SATURNINUS
Aemilius, do this message honourably:
And if he stand on hostage for his safety,
Bid him demand what pledge will please him best.”
“TAMORA
Now will I to that old Andronicus;
And temper him with all the art I have,
To pluck proud Lucius from the warlike Goths.”
ACT 5
SCENE I. Plains near Rome.
“First Goth
Brave slip, sprung from the great Andronicus,
Whose name was once our terror, now our comfort;
Whose high exploits and honourable deeds
Ingrateful Rome requites with foul contempt,
Be bold in us: we’ll follow where thou lead’st,
Like stinging bees in hottest summer’s day
Led by their master to the flowered fields,
And be avenged on cursed Tamora.
All the Goths
And as he saith, so say we all with him.”
“Second Goth
Renowned Lucius, from our troops I stray’d
To gaze upon a ruinous monastery;
And, as I earnestly did fix mine eye
Upon the wasted building, suddenly
I heard a child cry underneath a wall.
I made unto the noise; when soon I heard
The crying babe controll’d with this discourse:
‘Peace, tawny slave, half me and half thy dam!
Did not thy hue bewray whose brat thou art,
Had nature lent thee but thy mother’s look,
Villain, thou mightst have been an emperor:
But where the bull and cow are both milk-white,
They never do beget a coal-black calf.
Peace, villain, peace!’–even thus he rates
the babe,–
‘For I must bear thee to a trusty Goth;
Who, when he knows thou art the empress’ babe,
Will hold thee dearly for thy mother’s sake.’
With this, my weapon drawn, I rush’d upon him,
Surprised him suddenly, and brought him hither,
To use as you think needful of the man.
LUCIUS
O worthy Goth, this is the incarnate devil
That robb’d Andronicus of his good hand;
This is the pearl that pleased your empress’ eye,
And here’s the base fruit of his burning lust.
Say, wall-eyed slave, whither wouldst thou convey
This growing image of thy fiend-like face?
Why dost not speak? what, deaf? not a word?
A halter, soldiers! hang him on this tree.
And by his side his fruit of bastardy.”
“AARON
An if it please thee! why, assure thee, Lucius,
‘Twill vex thy soul to hear what I shall speak;
For I must talk of murders, rapes and massacres,
Acts of black night, abominable deeds,
Complots of mischief, treason, villanies
Ruthful to hear, yet piteously perform’d:
And this shall all be buried by my death,
Unless thou swear to me my child shall live.”
“LUCIUS
Who should I swear by? thou believest no god:
That granted, how canst thou believe an oath?
AARON
What if I do not? as, indeed, I do not;
Yet, for I know thou art religious
And hast a thing within thee called conscience,
With 20 popish tricks and ceremonies,
Which I have seen thee careful to observe,
Therefore I urge thy oath; for that I know
An idiot holds his bauble for a god
And keeps the oath which by that god he swears,
To that I’ll urge him: therefore thou shalt vow
By that same god, what god soe’er it be,
That thou adorest and hast in reverence,
To save my boy, to nourish and bring him up;
Or else I will discover nought to thee.”
“AARON
First know thou, I begot him on the empress.
LUCIUS
O most insatiate and luxurious woman!
AARON
Tut, Lucius, this was but a deed of charity
To that which thou shalt hear of me anon.
‘Twas her two sons that murder’d Bassianus;
They cut thy sister’s tongue and ravish’d her
And cut her hands and trimm’d her as thou saw’st.
LUCIUS
O detestable villain! call’st thou that trimming?
AARON
Why, she was wash’d and cut and trimm’d, and ‘twas
Trim sport for them that had the doing of it.”
“AARON
…
I train’d thy brethren to that guileful hole
Where the dead corpse of Bassianus lay:
I wrote the letter that thy father found
And hid the gold within the letter mention’d,
Confederate with the queen and her two sons:
And what not done, that thou hast cause to rue,
Wherein I had no stroke of mischief in it?
I play’d the cheater for thy father’s hand,
And, when I had it, drew myself apart
And almost broke my heart with extreme laughter:
I pry’d me through the crevice of a wall
When, for his hand, he had his two sons’ heads;
Beheld his tears, and laugh’d so heartily,
That both mine eyes were rainy like to his:
And when I told the empress of this sport,
She swooned almost at my pleasing tale,
And for my tidings gave me 20 kisses.
First Goth
What, canst thou say all this, and never blush?
AARON
Ay, like a black dog, as the saying is.
LUCIUS
Art thou not sorry for these heinous deeds?
AARON
Ay, that I had not done a thousand more.
Even now I curse the day–and yet, I think,
Few come within the compass of my curse,–
Wherein I did not some notorious ill,
As kill a man, or else devise his death,
Ravish a maid, or plot the way to do it,
Accuse some innocent and forswear myself,
Set deadly enmity between two friends,
Make poor men’s cattle break their necks;
Set fire on barns and hay-stacks in the night,
And bid the owners quench them with their tears.
Oft have I digg’d up dead men from their graves,
And set them upright at their dear friends’ doors,
Even when their sorrows almost were forgot;
And on their skins, as on the bark of trees,
Have with my knife carved in Roman letters,
‘Let not your sorrow die, though I am dead.’
Tut, I have done a thousand dreadful things
As willingly as one would kill a fly,
And nothing grieves me heartily indeed
But that I cannot do ten thousand more.
LUCIUS
Bring down the devil; for he must not die
So sweet a death as hanging presently.
AARON
If there be devils, would I were a devil,
To live and burn in everlasting fire,
So I might have your company in hell,
But to torment you with my bitter tongue!
LUCIUS
Sirs, stop his mouth, and let him speak no more.
Enter a Goth
Third Goth
My lord, there is a messenger from Rome
Desires to be admitted to your presence.
LUCIUS
Let him come near.
Enter AEMILIUS
Welcome, Aemilius what’s the news from Rome?”
“LUCIUS
Aemilius, let the emperor give his pledges
Unto my father and my uncle Marcus,
And we will come. March away.
Exeunt”
ACT 5
SCENE II. Rome. Before TITUS’ house.
“TAMORA
Thus, in this strange and sad habiliment,
I will encounter with Andronicus,
And say I am Revenge, sent from below
To join with him and right his heinous wrongs.
Knock at his study, where, they say, he keeps,
To ruminate strange plots of dire revenge;
Tell him Revenge is come to join with him,
And work confusion on his enemies.
They knock
Enter TITUS, above”
“TAMORA
If thou didst know me, thou wouldest talk with me.
TITUS ANDRONICUS
I am not mad; I know thee well enough:
Witness this wretched stump, witness these crimson lines;
Witness these trenches made by grief and care,
Witness the tiring day and heavy night;
Witness all sorrow, that I know thee well
For our proud empress, mighty Tamora:
Is not thy coming for my other hand?
TAMORA
Know, thou sad man, I am not Tamora;
She is thy enemy, and I thy friend:
I am Revenge: sent from the infernal kingdom,
To ease the gnawing vulture of thy mind,
By working wreakful vengeance on thy foes.
Come down, and welcome me to this world’s light;
Confer with me of murder and of death:
There’s not a hollow cave or lurking-place,
No vast obscurity or misty vale,
Where bloody murder or detested rape
Can couch for fear, but I will find them out;
And in their ears tell them my dreadful name,
Revenge, which makes the foul offender quake.
TITUS ANDRONICUS
Art thou Revenge? and art thou sent to me,
To be a torment to mine enemies?
TAMORA
I am; therefore come down, and welcome me.
TITUS ANDRONICUS
Do me some service, ere I come to thee.
Lo, by thy side where Rape and Murder stands; [os dois irmãos estupradores de Lavínia]
Now give me some surance that thou art Revenge,
Stab them, or tear them on thy chariot-wheels;
And then I’ll come and be thy waggoner,
And whirl along with thee about the globe.”
“TAMORA
These are my ministers, and come with me.
TITUS ANDRONICUS
Are these thy ministers? what are they call’d?
TAMORA
Rapine and Murder; therefore called so,
Cause they take vengeance of such kind of men.
TITUS ANDRONICUS
Good Lord, how like the empress’ sons they are!
And you, the empress! but we worldly men
Have miserable, mad, mistaking eyes.
O sweet Revenge, now do I come to thee;
And, if one arm’s embracement will content thee,
I will embrace thee in it by and by.
Exit above”
“Whate’er I forge to feed his brain-sick fits,
Do you uphold and maintain in your speeches,
For now he firmly takes me for Revenge;
And, being credulous in this mad thought,
I’ll make him send for Lucius his son;
And, whilst I at a banquet hold him sure,
I’ll find some cunning practise out of hand,
To scatter and disperse the giddy Goths,
Or, at the least, make them his enemies.”
“TITUS ANDRONICUS
Long have I been forlorn, and all for thee:
Welcome, dread Fury, to my woful house:
Rapine and Murder, you are welcome too.
How like the empress and her sons you are!
Well are you fitted, had you but a Moor:
Could not all hell afford you such a devil?
For well I wot the empress never wags
But in her company there is a Moor;
And, would you represent our queen aright,
It were convenient you had such a devil:
But welcome, as you are. What shall we do?”
“TAMORA
Show me a thousand that have done thee wrong,
And I will be revenged on them all.
TITUS ANDRONICUS
Look round about the wicked streets of Rome;
And when thou find’st¹ a man that’s like thyself.
Good Murder, stab him; he’s a murderer.
Go thou with him; and when it is thy hap
To find another that is like to thee,
Good Rapine, stab him; he’s a ravisher.
Go thou with them; and in the emperor’s court
There is a queen, attended by a Moor;
Well mayst thou know her by thy own proportion,
for up and down she doth resemble thee:
I pray thee, do on them some violent death;
They have been violent to me and mine.
TAMORA
Well hast thou lesson’d us; this shall we do.
But would it please thee, good Andronicus,
To send for Lucius, thy thrice-valiant son,
Who leads towards Rome a band of warlike Goths,
And bid him come and banquet at thy house;
When he is here, even at thy solemn feast,
I will bring in the empress and her sons,
The emperor himself and all thy foes;
And at thy mercy shalt they stoop and kneel,
And on them shalt thou ease thy angry heart.
What says Andronicus to this device?”
¹ Muito estranho que a grafia (os apóstrofos no lugar do ‘e’) variem durante a peça. Será exato?
“TITUS ANDRONICUS
Nay, nay, let Rape and Murder stay with me;
Or else I’ll call my brother back again,
And cleave to no revenge but Lucius.
TAMORA
[Aside to her sons] What say you, boys? will you
bide with him,
Whiles I go tell my lord the emperor
How I have govern’d our determined jest?
Yield to his humour, smooth and speak him fair,
And tarry with him till I turn again.”
“DEMETRIUS
Madam, depart at pleasure; leave us here.
TAMORA
Farewell, Andronicus: Revenge now goes
To lay a complot to betray thy foes.”
“TITUS ANDRONICUS
Fie, Publius, fie! thou art too much deceived;
The one is Murder, Rape is the other’s name;
And therefore bind them, gentle Publius.
Caius and Valentine, lay hands on them.
Oft have you heard me wish for such an hour,
And now I find it; therefore bind them sure,
And stop their mouths, if they begin to cry.
Exit
PUBLIUS, &c. lay hold on CHIRON and DEMETRIUS”
“Re-enter TITUS, with LAVINIA; he bearing a knife, and she a basin [como, na cabeça?!]
TITUS ANDRONICUS
…
Here stands the spring whom you have stain’d with mud,
This goodly summer with your winter mix’d.
You kill’d her husband, and for that vile fault
Two of her brothers were condemn’d to death,
My hand cut off and made a merry jest;
Both her sweet hands, her tongue, and that more dear
Than hands or tongue, her spotless chastity,
Inhuman traitors, you constrain’d and forced.
What would you say, if I should let you speak?
…
Hark, wretches! how I mean to martyr you.
This one hand yet is left to cut your throats,
Whilst that Lavinia ‘tween her stumps doth hold
The basin that receives your guilty blood.
You know your mother means to feast with me,
And calls herself Revenge, and thinks me mad:
Hark, villains! I will grind your bones to dust
And with your blood and it I’ll make a paste,
And of the paste a coffin I will rear
And make two pasties of your shameful heads,
And bid that strumpet, your unhallow’d dam,
Like to the earth swallow her own increase.
This is the feast that I have bid her to,
And this the banquet she shall surfeit on;
For worse than Philomel you used my daughter,
And worse than Progne I will be revenged:
And now prepare your throats. Lavinia, come,
He cuts their throats
Receive the blood: and when that they are dead,
Let me go grind their bones to powder small
And with this hateful liquor temper it;
And in that paste let their vile heads be baked.
Come, come, be every one officious
To make this banquet; which I wish may prove
More stern and bloody than the Centaurs’ feast.”¹
¹ O Centauro (ou Minotauro, o que é uma figura diferente, mas que às vezes se confunde – um seria um homem-cavalo o outro um homem-touro, o primeiro sendo animal na metade inferior, o segundo no hemisfério superior, isto é, sua cabeça é que seria de touro, enquanto não passaria de um bípede ereto) da mitologia grega que comia virgens entregas como tributo pela ilha de Creta.
ACT 5
SCENE III. Court of TITUS’ house. A banquet set out. [DESFECHO]
“LUCIUS
Good uncle, take you in this barbarous Moor,
This ravenous tiger, this accursed devil;
Let him receive no sustenance, fetter him
Till he be brought unto the empress’ face,
For testimony of her foul proceedings:
And see the ambush of our friends be strong;
I fear the emperor means no good to us.”
“The trumpets show the emperor is at hand.
Enter SATURNINUS and TAMORA, with AEMILIUS, Tribunes, Senators, and others”
“MARCUS ANDRONICUS
Rome’s emperor, and nephew, break the parle;
These quarrels must be quietly debated.
The feast is ready, which the careful Titus
Hath ordain’d to an honourable end,
For peace, for love, for league, and good to Rome:
Please you, therefore, draw nigh, and take your places.”
“Enter TITUS dressed like a Cook, LAVINIA veiled, Young LUCIUS, and others. TITUS places the dishes on the table”
“TITUS ANDRONICUS
…
My lord the emperor, resolve me this:
Was it well done of rash Virginius
To slay his daughter with his own right hand,
Because she was enforced, stain’d, and deflower’d?¹
SATURNINUS
It was, Andronicus.
TITUS ANDRONICUS
Your reason, mighty lord?
SATURNINUS
Because the girl should not survive her shame,
And by her presence still renew his sorrows.
TITUS ANDRONICUS
A reason mighty, strong, and effectual;
A pattern, precedent, and lively warrant,
For me, most wretched, to perform the like.
Die, die, Lavinia, and thy shame with thee;
Kills LAVINIA
And, with thy shame, thy father’s sorrow die!”
Que personagem, Shakespeare! Que personagem!
¹ A origem de uma lei romana que inocentou o pai de Virgínia quando este a matou para preservar-lhe a virgindade. Muitos sustentam que Lucrécia e Virgínia não passam de figuras mitológicas.
“SATURNINUS
What hast thou done, unnatural and unkind?
TITUS ANDRONICUS
Kill’d her, for whom my tears have made me blind.
I am as woful as Virginius was,
And have a thousand times more cause than he
To do this outrage: and it now is done.
SATURNINUS
What, was she ravish’d? tell who did the deed.
TITUS ANDRONICUS
Will’t please you eat? will’t please your
highness feed?
TAMORA
Why hast thou slain thine only daughter thus?
TITUS ANDRONICUS
Not I; ‘twas Chiron and Demetrius:
They ravish’d her, and cut away her tongue;
And they, ‘twas they, that did her all this wrong.
SATURNINUS
Go fetch them hither to us presently.
TITUS ANDRONICUS
Why, there they are both, baked in that pie;
Whereof their mother daintily hath fed,
Eating the flesh that she herself hath bred.
‘Tis true, ‘tis true; witness my knife’s sharp point.
Kills TAMORA
SATURNINUS
Die, frantic wretch, for this accursed deed!
Kills TITUS
LUCIUS
Can the son’s eye behold his father bleed?
There’s meed for meed, death for a deadly deed!
Kills SATURNINUS. A great tumult. LUCIUS, MARCUS, and others go up into the balcony”
“MARCUS ANDRONICUS
…
O, let me teach you how to knit again
This scatter’d corn into one mutual sheaf,
These broken limbs again into one body;
Lest Rome herself be bane unto herself,
And she whom mighty kingdoms court’sy to,
Like a forlorn and desperate castaway,
Do shameful execution on herself.
But if my frosty signs and chaps of age,
Grave witnesses of true experience,
Cannot induce you to attend my words,
To LUCIUS
Speak, Rome’s dear friend, as erst our ancestor,
When with his solemn tongue he did discourse
To love-sick Dido’s sad attending ear
The story of that baleful burning night
When subtle Greeks surprised King Priam’s Troy,
Tell us what Sinon hath bewitch’d our ears,¹
Or who hath brought the fatal engine in
That gives our Troy, our Rome, the civil wound.
…
But floods of tears will drown my oratory,
And break my utterance, even in the time
When it should move you to attend me most,
Lending your kind commiseration.
Here is a captain, let him tell the tale;
Your hearts will throb and weep to hear him speak.”
¹ Quem convence os troianos a abrirem o portão para receber a prenda do cavalo de madeira (Eneida).
“Alas, you know I am no vaunter, I;
My scars can witness, dumb although they are,
That my report is just and full of truth.
But, soft! methinks I do digress too much,
Citing my worthless praise: O, pardon me;
For when no friends are by, men praise themselves.”
“MARCUS ANDRONICUS
…
Now judge what cause had Titus to revenge
These wrongs, unspeakable, past patience,
Or more than any living man could bear.
Now you have heard the truth, what say you, Romans?
Have we done aught amiss,–show us wherein,
And, from the place where you behold us now,
The poor remainder of Andronici
Will, hand in hand, all headlong cast us down.
And on the ragged stones beat forth our brains,
And make a mutual closure of our house.
Speak, Romans, speak; and if you say we shall,
Lo, hand in hand, Lucius and I will fall.
AEMILIUS
Come, come, thou reverend man of Rome,
And bring our emperor gently in thy hand,
Lucius our emperor; for well I know
The common voice do cry it shall be so.
All
Lucius, all hail, Rome’s royal emperor!
MARCUS ANDRONICUS
Go, go into old Titus’ sorrowful house,
To Attendants
And hither hale that misbelieving Moor,
To be adjudged some direful slaughtering death,
As punishment for his most wicked life.”
“O, take this warm kiss on thy pale cold lips,
Kissing TITUS
These sorrowful drops upon thy blood-stain’d face,
The last true duties of thy noble son!”
“LUCIUS
Come hither, boy; come, come, and learn of us
To melt in showers: thy grandsire loved thee well:
Many a time he danced thee on his knee,
Sung thee asleep, his loving breast thy pillow:
Many a matter hath he told to thee,
Meet and agreeing with thine infancy;
In that respect, then, like a loving child,
Shed yet some small drops from thy tender spring,
Because kind nature doth require it so:
Friends should associate friends in grief and woe:
Bid him farewell; commit him to the grave;
Do him that kindness, and take leave of him.
Young LUCIUS
O grandsire, grandsire! even with all my heart
Would I were dead, so you did live again!
O Lord, I cannot speak to him for weeping;
My tears will choke me, if I ope my mouth.¹
Re-enter Attendants with AARON
AEMILIUS
You sad Andronici, have done with woes:
Give sentence on this execrable wretch,
That hath been breeder of these dire events.
LUCIUS
Set him breast-deep in earth, and famish him;
There let him stand, and rave, and cry for food;
If any one relieves or pities him,
For the offence he dies.This is our doom:
Some stay to see him fasten’d in the earth.”
¹ Sem dúvida não importa como intercalemos a leitura desta peça, ficamos exaustos ao final, tantas as lágrimas vertidas!
“Ten thousand worse than ever yet I did
Would I perform, if I might have my will;
If one good deed in all my life I did,
I do repent it from my very soul.”
Que falastrão o Seu Arão! E gosta dos números 20 e 10 mil!
“As for that heinous tiger, Tamora,
No funeral rite, nor man in mourning weeds,
No mournful bell shall ring her burial;
But throw her forth to beasts and birds of prey:
Her life was beast-like, and devoid of pity;
And, being so, shall have like want of pity.
See justice done on Aaron, that damn’d Moor,
By whom our heavy haps had their beginning:
Then, afterwards, to order well the State,
That like events may ne’er it ruinate.
Exeunt”
GLOSSÁRIO:
adder: víbora
blowse: mulher envergonhada, de face rubra
dainty doe: corça delicada
desert (em Shakespeare):“often deserts
Something that is deserved or merited, especially a punishment: They got their just deserts when the scheme was finally uncovered.” Punição ou mérito.
lark: cotovia
leer: olhar malicioso
maugre: obsoleto para guilty pleasure (prazer culposo, coisa má que defendo com todas as forças, embora talvez um pouco envergonhado, etc.)
“there appears much joy in him (…) joy could not show itself modest enough without a badge of bitterness.”
LEONATO
“How much better is it to weep at joy than to joy at weeping!”
BEATRICE
“I pray you, how many hath he killed and eaten in these wars? But how many hath he killed? for indeed I promised to eat all of his killing.”
“You had musty victual, and he hath holp to eat it”
“Você tinha carne podre, e ele ajudou a comê-la”
“LEONATO
You must not, sir, mistake my niece. There is a
kind of merry war betwixt Signior Benedick and her:
they never meet but there’s a skirmish of wit
between them.”
BEATRICE
“Who is his companion now? He hath every month a new sworn brother.”
“he wears his faith but as the fashion of his hat”
“Messenger
I see, lady, the gentleman is not in your books.
BEATRICE
No; an he were, I would burn my study.”
“LEONATO
You will never run mad, niece.
BEATRICE
No, not till a hot January.”
“DON PEDRO
Good Signior Leonato, you are come to meet your
trouble: the fashion of the world is to avoid
cost, and you encounter it.
LEONATO
Never came trouble to my house in the likeness of
your grace: for trouble being gone, comfort should
remain; but when you depart from me, sorrow abides
and happiness takes his leave.
DON PEDRO
You embrace your charge too willingly. I think this
is your daughter.
LEONATO
Her mother hath many times told me so.”
“BEATRICE
Is it possible disdain should die while she hath
such meet food to feed it as Signior Benedick?
Courtesy itself must convert to disdain, if you come
in her presence.”
“But it is certain I am loved of all ladies, only you excepted: and I would I could find in my heart that I had not a hard heart; for, truly, I love none.”
“I had rather hear my dog bark at a crow than a man swear he loves me.”
“BENEDICK
God keep your ladyship still in that mind! so some
gentleman or other shall ‘scape a predestinate
scratched face.
BEATRICE
Scratching could not make it worse, an ‘twere such
a face as yours were.
BENEDICK
Well, you are a rare parrot-teacher.
BEATRICE
A bird of my tongue is better than a beast of yours.”
“Exeunt all except BENEDICK and CLAUDIO
CLAUDIO
Benedick, didst thou note the daughter of Signior Leonato?
BENEDICK
I noted her not; but I looked on her.
CLAUDIO
Is she not a modest young lady?
BENEDICK
Do you question me, as an honest man should do, for
my simple true judgment; or would you have me speak
after my custom, as being a professed tyrant to their sex?
CLAUDIO
No; I pray thee speak in sober judgment.
BENEDICK
Why, i’ faith, methinks she’s too low for a high
praise, too brown for a fair praise and too little
for a great praise: only this commendation I can
afford her, that were she other than she is, she
were unhandsome; and being no other but as she is, I
do not like her.
CLAUDIO
Thou thinkest I am in sport: I pray thee tell me
truly how thou likest her.
BENEDICK
Would you buy her, that you inquire after her?
CLAUDIO
Can the world buy such a jewel?”
“Come, in what key shall a man take you, to go in the song?”
“In mine eye she is the sweetest lady that ever I looked on.”
“BENEDICK
I can see yet without spectacles and I see no such
matter: there’s her cousin, an she were not
possessed with a fury, exceeds her as much in beauty
as the first of May doth the last of December. But I
hope you have no intent to turn husband, have you?
CLAUDIO
I would scarce trust myself, though I had sworn the
contrary, if Hero would be my wife.”
“DON PEDRO
I charge thee on thy allegiance.
BENEDICK
You hear, Count Claudio: I can be secret as a dumb
man; I would have you think so; but, on my
allegiance, mark you this, on my allegiance. He is
in love. With who? now that is your grace’s part.
Mark how short his answer is;–With Hero, Leonato’s
short daughter.
CLAUDIO
If this were so, so were it uttered.”
“CLAUDIO
If my passion change not shortly, God forbid it
should be otherwise.
DON PEDRO
Amen, if you love her; for the lady is very well worthy.”
Bateu os olhos e não encontrou obstáculos.
Bateu nela os olhos e sentiu dor, pois ela era muito pontuda.
Comenos o come-nos.
“BENEDICK
That I neither feel how she should be loved nor
know how she should be worthy, is the opinion that
fire cannot melt out of me: I will die in it at the stake.”
“BENEDICK
That a woman conceived me, I thank her; that she
brought me up, I likewise give her most humble
thanks: but that I will have a recheat winded in my
forehead, or hang my bugle in an invisible baldrick,
all women shall pardon me. Because I will not do
them the wrong to mistrust any, I will do myself the
right to trust none; and the fine is, for the which
I may go the finer, I will live a bachelor.
DON PEDRO
I shall see thee, ere I die, look pale with love.
BENEDICK
With anger, with sickness, or with hunger, my lord,
not with love: prove that ever I lose more blood
with love than I will get again with drinking, pick
out mine eyes with a ballad-maker’s pen and hang me
up at the door of a brothel-house for the sign of
blind Cupid.
DON PEDRO
Well, if ever thou dost fall from this faith, thou
wilt prove a notable argument.
BENEDICK
If I do, hang me in a bottle like a cat and shoot
at me; and he that hits me, let him be clapped on
the shoulder, and called Adam.
DON PEDRO
Well, as time shall try: ‘In time the savage bull
doth bear the yoke.’
BENEDICK
The savage bull may; but if ever the sensible
Benedick bear it, pluck off the bull’s horns and set
them in my forehead: and let me be vilely painted,
and in such great letters as they write ‘Here is
good horse to hire,’ let them signify under my sign
‘Here you may see Benedick the married man.’
CLAUDIO
If this should ever happen, thou wouldst be horn-mad.
DON PEDRO
Nay, if Cupid have not spent all his quiver in
Venice, thou wilt quake for this shortly.”
“BENEDICK
Nay, mock not, mock not. The body of your
discourse is sometime guarded with fragments, and
the guards are but slightly basted on neither: ere
you flout old ends any further, examine your
conscience: and so I leave you.
Exit”
“CLAUDIO
Hath Leonato any son, my lord?
DON PEDRO
No child but Hero; she’s his only heir.
Dost thou affect her, Claudio?”
“I liked her ere I went to wars.”
“DON PEDRO
Thou wilt be like a lover presently
And tire the hearer with a book of words.
If thou dost love fair Hero, cherish it,
And I will break with her and with her father,
And thou shalt have her. Was’t not to this end
That thou began’st to twist so fine a story?”
“DON PEDRO
What need the bridge much broader than the flood?
The fairest grant is the necessity.
Look, what will serve is fit: ‘tis once, thou lovest,
And I will fit thee with the remedy.
I know we shall have revelling to-night:
I will assume thy part in some disguise
And tell fair Hero I am Claudio,
And in her bosom I’ll unclasp my heart
And take her hearing prisoner with the force
And strong encounter of my amorous tale:
Then after to her father will I break;
And the conclusion is, she shall be thine.
In practise let us put it presently.
Exeunt”
SCENE II. A room in LEONATO’s house.
“ANTONIO
…The prince and Count
Claudio, walking in a thick-pleached alley in mine
orchard, were thus much overheard by a man of mine:
the prince discovered to Claudio that he loved my
niece your daughter and meant to acknowledge it
this night in a dance: and if he found her
accordant, he meant to take the present time by the
top and instantly break with you of it.”
“LEONATO
No, no; we will hold it as a dream till it appear
itself: but I will acquaint my daughter withal,
that she may be the better prepared for an answer,
if peradventure this be true. Go you and tell her of it.”
SCENE III. The same.
“DON JOHN
…I cannot hide
what I am: I must be sad when I have cause and smile
at no man’s jests, eat when I have stomach and wait
for no man’s leisure, sleep when I am drowsy and
tend on no man’s business, laugh when I am merry and
claw no man in his humour.”
“…If I had my
mouth, I would bite; if I had my liberty, I would do
my liking: in the meantime let me be that I am and
seek not to alter me.”
ACT 2
SCENE I. A hall in LEONATO’S house.
“BEATRICE
How tartly that gentleman looks! I never can see
him but I am heart-burned an hour after.
HERO
He is of a very melancholy disposition.
BEATRICE
He were an excellent man that were made just in the
midway between him and Benedick: the one is too
like an image and says nothing, and the other too
like my lady’s eldest son, evermore tattling.
LEONATO
Then half Signior Benedick’s tongue in Count John’s
mouth, and half Count John’s melancholy in Signior
Benedick’s face,–
BEATRICE
With a good leg and a good foot, uncle, and money
enough in his purse, such a man would win any woman
in the world, if a’ could get her good-will.
LEONATO
By my troth, niece, thou wilt never get thee a
husband, if thou be so shrewd of thy tongue.
ANTONIO
In faith, she’s too curst.
BEATRICE
Too curst is more than curst: I shall lessen God’s
sending that way; for it is said, ‘God sends a curst
cow short horns;’ but to a cow too curst he sends none.”
“…Lord, I could not endure a husband with a beard on his face: I had rather lie in the woollen.”
“He that hath a beard is more than a youth, and he that hath no beard is less than a man: and he that is more than a youth is not for me, and he that is less than a man, I am not for him: therefore, I will even take 6-pence in earnest of the bear-ward, [constelação vizinha da Ursa Maior] and lead his apes into hell.”
“LEONATO
Well, then, go you into hell?
BEATRICE
No, but to the gate; and there will the devil meet
me, like an old cuckold, with horns on his head, and
say ‘Get you to heaven, Beatrice, get you to
heaven; here’s no place for you maids:’ so deliver
I up my apes, and away to Saint Peter for the
heavens; he shows me where the bachelors sit, and
there live we as merry as the day is long.
ANTONIO
[To HERO] Well, niece, I trust you will be ruled
by your father.”
“BEATRICE
Not till God make men of some other metal than
earth. Would it not grieve a woman to be
overmastered with a pierce of valiant dust? to make
an account of her life to a clod of wayward marl?
No, uncle, I’ll none: Adam’s sons are my brethren;
and, truly, I hold it a sin to match in my kindred.”
“For, hear me, Hero: wooing, wedding, and repenting, is as a Scotch jig, a measure, and a cinque pace: the first suit is hot and hasty, like a Scotch jig, and full as fantastical; the wedding, mannerly-modest, as a measure, full of state and ancientry; and then comes repentance and, with his bad legs, falls into the cinque pace faster and faster, till he sink into his grave.”
“I have a good eye, uncle; I can see a church by daylight.”
“All put on their masks
Enter DON PEDRO, CLAUDIO, BENEDICK, BALTHASAR, DON JOHN, BORACHIO, MARGARET, URSULA and others, masked”
“BEATRICE
That I was disdainful, and that I had my good wit
out of the ‘Hundred Merry Tales:’–well this was
Signior Benedick that said so.
BENEDICK
What’s he?
BEATRICE
I am sure you know him well enough.
BENEDICK
Not I, believe me.
BEATRICE
Did he never make you laugh?
BENEDICK
I pray you, what is he?
BEATRICE
Why, he is the prince’s jester: a very dull fool;
only his gift is in devising impossible slanders:
none but libertines delight in him; and the
commendation is not in his wit, but in his villany;
for he both pleases men and angers them, and then
they laugh at him and beat him. I am sure he is in
the fleet: I would he had boarded me.
BENEDICK
When I know the gentleman, I’ll tell him what you say.”
“DON JOHN
Sure my brother is amorous on Hero and hath
withdrawn her father to break with him about it.
The ladies follow her and but one visor remains.
BORACHIO
And that is Claudio: I know him by his bearing.
DON JOHN
Are not you Signior Benedick?
CLAUDIO
You know me well; I am he.”
“CLAUDIO[solilóquio]
Thus answer I in the name of Benedick,
But hear these ill news with the ears of Claudio.
‘Tis certain so; the prince wooes for himself.
Friendship is constant in all other things
Save in the office and affairs of love:
Therefore, all hearts in love use their own tongues;
Let every eye negotiate for itself
And trust no agent; for beauty is a witch
Against whose charms faith melteth into blood.
This is an accident of hourly proof,
Which I mistrusted not. Farewell, therefore, Hero!”
“DON PEDRO
I will but teach them to sing, and restore them to
the owner.
BENEDICK
If their singing answer your saying, by my faith,
you say honestly.”
“She told me, not thinking I had been myself, that I was the prince’s jester, that I was duller than a great thaw; huddling jest upon jest with such impossible conveyance upon me that I stood like a man at a mark, with a whole army shooting at me. She speaks poniards, and every word stabs: if her breath were as terrible as her terminations, there were no living near her; she would infect to the north star. I would not marry her, though she were endowed with all that Adam had left him before he transgressed: she would have made Hercules have turned spit, yea, and have cleft his club to make the fire too.”
“for certainly, while she is here, a man may live as quiet in hell as in a sanctuary; and people sin upon purpose, because they would go thither; so, indeed, all disquiet, horror and perturbation follows her.”
“BENEDICK
Will your grace command me any service to the
world’s end? I will go on the slightest errand now
to the Antipodes that you can devise to send me on;
I will fetch you a tooth-picker now from the
furthest inch of Asia, bring you the length of
Prester John’s foot, fetch you a hair off the great
Cham’s beard, do you any embassage to the Pigmies,
rather than hold 3 words’ conference with this
harpy. You have no employment for me?”
DON PEDRO
None, but to desire your good company.
BENEDICK
O God, sir, here’s a dish I love not: I cannot
endure my Lady Tongue.
Exit”
“BEATRICE
The count is neither sad, nor sick, nor merry, nor
well; but civil count, civil as an orange, and
something of that jealous complexion.
DON PEDRO
I’ faith, lady, I think your blazon to be true;
though, I’ll be sworn, if he be so, his conceit is
false. Here, Claudio, I have wooed in thy name, and
fair Hero is won: I have broke with her father,
and his good will obtained: name the day of
marriage, and God give thee joy!
LEONATO
Count, take of me my daughter, and with her my
fortunes: his grace hath made the match, and an
grace say Amen to it.
BEATRICE
Speak, count, ‘tis your cue.
CLAUDIO
Silence is the perfectest herald of joy: I were
but little happy, if I could say how much. Lady, as
you are mine, I am yours: I give away myself for
you and dote upon the exchange.
BEATRICE
Speak, cousin; or, if you cannot, stop his mouth
with a kiss, and let not him speak neither.
DON PEDRO
In faith, lady, you have a merry heart.”
“Thus goes every one to the world but I, and I am sunburnt; I may sit in a corner and cry heigh-ho for a husband!”
“DON PEDRO
By my troth, a pleasant-spirited lady.
LEONATO
There’s little of the melancholy element in her, my
lord: she is never sad but when she sleeps, and
not ever sad then; for I have heard my daughter say,
she hath often dreamed of unhappiness and waked
herself with laughing.”
“DON PEDRO
She were an excellent wife for Benedict.
LEONATO
O Lord, my lord, if they were but a week married,
they would talk themselves mad.”
“DON PEDRO
(…) I will in the interim undertake one of Hercules’ labours; which is, to bring Signior Benedick and the Lady Beatrice into a mountain of affection the one with the other. I would fain have it a match, and I doubt not but to fashion it, if you 3 will but minister such assistance as I shall give you direction.
LEONATO
My lord, I am for you, though it cost me ten
nights’ watchings.
CLAUDIO
And I, my lord.
DON PEDRO
And you too, gentle Hero?
HERO
I will do any modest office, my lord, to help my
cousin to a good husband.”
“…If we can do this, Cupid is no longer an archer: his glory shall be ours, for we are the only love-gods. Go in with me, and I will tell you my drift.
Exeunt”
ACT 2
SCENE II. The same.
“Enter DON JOHN and BORACHIO
DON JOHN
It is so; the Count Claudio shall marry the
daughter of Leonato.
BORACHIO
Yea, my lord; but I can cross it.
DON JOHN
Any bar, any cross, any impediment will be
medicinable to me: I am sick in displeasure to him,
and whatsoever comes athwart his affection ranges
evenly with mine. How canst thou cross this marriage?
BORACHIO
Not honestly, my lord; but so covertly that no
dishonesty shall appear in me.
DON JOHN
Show me briefly how.
BORACHIO
I think I told your lordship a year since, how much
I am in the favour of Margaret, the waiting
gentlewoman to Hero.”
“I can, at any unseasonable instant of the night, appoint her to look out at her lady’s chamber window.”
“The poison of that lies in you to temper. Go you to the prince your brother; spare not to tell him that he hath wronged his honour in marrying the renowned Claudio–whose estimation do you mightily hold up–to a contaminated stale, such a one as Hero.”
“–for in the meantime I will so fashion the matter that Hero shall be absent,–and there shall appear such seeming truth of Hero’s disloyalty that jealousy shall be called assurance and all the preparation overthrown.”
“[JOHN] …Be cunning in the working this, and thy fee is a thousand ducats.”
ACT 2
SCENE III. LEONATO’S orchard.
“[Grande monólogo de BENEDICK]
I do much wonder that one man, seeing how much
another man is a fool when he dedicates his
behaviors to love, will, after he hath laughed at
such shallow follies in others, become the argument
of his own scorn by falling in love: and such a man
is Claudio. I have known when there was no music
with him but the drum and the fife; and now had he
rather hear the tabour and the pipe: I have known
when he would have walked 10 miles a-foot to see a
good armour; and now will he lie 10 nights awake,
carving the fashion of a new doublet.He was wont to
speak plain and to the purpose, like an honest man
and a soldier; and now is he turned orthography; his
words are a very fantastical banquet, just so many
strange dishes. May I be so converted and see with
these eyes? I cannot tell; I think not: I will not
be sworn, but love may transform me to an oyster; but
I’ll take my oath on it, till he have made an oyster
of me, he shall never make me such a fool. One woman
is fair, yet I am well; another is wise, yet I am
well; another virtuous, yet I am well; but till all
graces be in one woman, one woman shall not come in
my grace.Rich she shall be, that’s certain; wise,
or I’ll none; virtuous, or I’ll never cheapen her;
fair, or I’ll never look on her; mild, or come not
near me; noble, or not I for an angel; of good
discourse, an excellent musician, and her hair shall
be of what colour it please God. Ha! the prince and
Monsieur Love! I will hide me in the arbour.”
“DON PEDRO
Come, Balthasar, we’ll hear that song again.
BALTHASAR
O, good my lord, tax not so bad a voice
To slander music any more than once.
DON PEDRO
It is the witness still of excellency
To put a strange face on his own perfection.
I pray thee, sing, and let me woo no more.”
“Air
BENEDICK [Oculto na moita.]
Now, divine air! now is his soul ravished! Is it
not strange that sheeps’ guts should hale souls out
of men’s bodies? Well, a horn for my money, when
all’s done.”
“Sigh no more, ladies, sigh no more,
Men were deceivers ever,
One foot in sea and one on shore,
To one thing constant never:
Then sigh not so, but let them go,
And be you blithe and bonny,
Converting all your sounds of woe
Into Hey nonny, nonny.
Sing no more ditties, sing no more,
Of dumps so dull and heavy;
The fraud of men was ever so,
Since summer first was leafy:
Then sigh not so, & c.”
“DON PEDRO
By my troth, a good song.
BALTHASAR
And an ill singer, my lord.
DON PEDRO
Ha, no, no, faith; thou singest well enough for a shift.”
BENEDICK [à parte]
An he had been a dog that should have howled thus,
they would have hanged him: and I pray God his bad
voice bode no mischief. I had as lief have heard the
night-raven, come what plague could have come after
it.”
“DON PEDRO
Do so: farewell.
Exit BALTHASAR
Come hither, Leonato. What was it you told me of
to-day, that your niece Beatrice was in love with
Signior Benedick?
CLAUDIO
O, ay: stalk on. stalk on; the fowl sits. I did
never think that lady would have loved any man.”
“BENEDICK
Is’t possible? Sits the wind in that corner?”
“DON PEDRO
May be she doth but counterfeit.
CLAUDIO
Faith, like enough.
LEONATO
O God, counterfeit! There was never counterfeit of
passion came so near the life of passion as she
discovers it.”
“DON PEDRO
Hath she made her affection known to Benedick?
LEONATO
No; and swears she never will: that’s her torment.”
“DON PEDRO
It were good that Benedick knew of it by some
other, if she will not discover it.
CLAUDIO
To what end? He would make but a sport of it and
torment the poor lady worse.”
“LEONATO
O, my lord, wisdom and blood combating in so tender
a body, we have 10 proofs to 1 that blood hath
the victory. I am sorry for her, as I have just
cause, being her uncle and her guardian.”
“CLAUDIO
Hero thinks surely she will die; for she says she
will die, if he love her not, and she will die, ere
she make her love known, and she will die, if he woo
her, rather than she will bate one breath of her
accustomed crossness.
DON PEDRO
She doth well: if she should make tender of her
love, ‘tis very possible he’ll scorn it; for the
man, as you know all, hath a contemptible spirit.
CLAUDIO
He is a very proper man.”
“DON PEDRO
And so will he do; for the man doth fear God,
howsoever it seems not in him by some large jests
he will make. Well I am sorry for your niece. Shall
we go seek Benedick, and tell him of her love?
CLAUDIO
Never tell him, my lord: let her wear it out with
good counsel.”
“They have the truth of this from Hero. They seem to pity the lady: it seems her affections have their full bent. Love me! why, it must be requited. I hear how I am censured: they say I will bear myself proudly, if I perceive the love come from her; they say too that she will rather die than give any sign of affection. I did never think to marry: I must not seem proud: happy are they that hear their detractions and can put them to mending.They say the lady is fair; ‘tis a truth, I can bear them witness; and virtuous; ‘tis so, I cannot reprove it; and wise, but for loving me; by my troth, it is no addition to her wit, nor no great argument of her folly, for I will be horribly in love with her. I may chance have some odd quirks and remnants of wit broken on me, because I have railed so long against marriage: but doth not the appetite alter? a man loves the meat in his youth that he cannot endure in his age.Shall quips and sentences and these paper bullets of the brain awe a man from the career of his humour? No, the world must be peopled.When I said I would die a bachelor, I did not think I should live till I were married. Here comes Beatrice. By this day! she’s a fair lady: I do spy some marks of love in her.
Enter BEATRICE
BEATRICE
Against my will I am sent to bid you come in to dinner.
BENEDICK
Fair Beatrice, I thank you for your pains.
BEATRICE
I took no more pains for those thanks than you take
pains to thank me: if it had been painful, I would
not have come.
BENEDICK
You take pleasure then in the message?
BEATRICE
Yea, just so much as you may take upon a knife’s
point and choke a daw withal. You have no stomach,
signior: fare you well.
Exit
BENEDICK
Ha! ‘Against my will I am sent to bid you come in
to dinner;’ there’s a double meaning in that ‘I took
no more pains for those thanks than you took pains
to thank me.’ that’s as much as to say, Any pains
that I take for you is as easy as thanks.If I do
not take pity of her, I am a villain; if I do not
love her, I am a Jew. I will go get her picture.
Exit”
ACT 3
SCENE I. LEONATO’S garden.
“HERO
Good Margaret, run thee to the parlor;
There shalt thou find my cousin Beatrice
Proposing with the prince and Claudio:
Whisper her ear and tell her, I and Ursula
Walk in the orchard and our whole discourse
Is all of her; say that thou overheard’st us;
And bid her steal into the pleached bower,
Where honeysuckles, ripen’d by the sun,
Forbid the sun to enter, like favourites,
Made proud by princes, that advance their pride
Against that power that bred it: there will she hide her,
To listen our purpose. This is thy office;
Bear thee well in it and leave us alone.”
“HERO
Now, Ursula, when Beatrice doth come,
As we do trace this alley up and down,
Our talk must only be of Benedick.
When I do name him, let it be thy part
To praise him more than ever man did merit:
My talk to thee must be how Benedick
Is sick in love with Beatrice. Of this matter
Is little Cupid’s crafty arrow made,
That only wounds by hearsay.
Enter BEATRICE, behind
Now begin;
For look where Beatrice, like a lapwing, runs
Close by the ground, to hear our conference.
URSULA
The pleasant’st angling is to see the fish
Cut with her golden oars the silver stream,
And greedily devour the treacherous bait:
So angle we for Beatrice; who even now
Is couched in the woodbine coverture.
Fear you not my part of the dialogue.
HERO
Then go we near her, that her ear lose nothing
Of the false sweet bait that we lay for it.
Approaching the bower
No, truly, Ursula, she is too disdainful;
I know her spirits are as coy and wild
As haggerds of the rock.
URSULA
But are you sure
That Benedick loves Beatrice so entirely?
HERO
So says the prince and my new-trothed lord.
URSULA
And did they bid you tell her of it, madam?
HERO
They did entreat me to acquaint her of it;
But I persuaded them, if they loved Benedick,
To wish him wrestle with affection,
And never to let Beatrice know of it.
URSULA
Why did you so? Doth not the gentleman
Deserve as full as fortunate a bed
As ever Beatrice shall couch upon?
HERO
O god of love! I know he doth deserve
As much as may be yielded to a man:
But Nature never framed a woman’s heart
Of prouder stuff than that of Beatrice;
Disdain and scorn ride sparkling in her eyes,
Misprising what they look on, and her wit
Values itself so highly that to her
All matter else seems weak: she cannot love,
Nor take no shape nor project of affection,
She is so self-endeared.
URSULA
Sure, I think so;
And therefore certainly it were not good
She knew his love, lest she make sport at it.
HERO
Why, you speak truth. I never yet saw man,
How wise, how noble, young, how rarely featured,
But she would spell him backward: if fair-faced,
She would swear the gentleman should be her sister;
If black, why, Nature, drawing of an antique,
Made a foul blot;if tall, a lance ill-headed;
If low, an agate very vilely cut;
If speaking, why, a vane blown with all winds;
If silent, why, a block moved with none.
So turns she every man the wrong side out
And never gives to truth and virtue that
Which simpleness and merit purchaseth.
URSULA
Sure, sure, such carping is not commendable.
HERO
No, not to be so odd and from all fashions
As Beatrice is, cannot be commendable:
But who dare tell her so? If I should speak,
She would mock me into air; O, she would laugh me
Out of myself, press me to death with wit.
Therefore let Benedick, like cover’d fire,
Consume away in sighs, waste inwardly:
It were a better death than die with mocks,
Which is as bad as die with tickling.
URSULA
Yet tell her of it: hear what she will say.
HERO
No; rather I will go to Benedick
And counsel him to fight against his passion.
And, truly, I’ll devise some honest slanders
To stain my cousin with: one doth not know
How much an ill word may empoison liking.
URSULA
O, do not do your cousin such a wrong.
She cannot be so much without true judgment–
Having so swift and excellent a wit
As she is prized to have–as to refuse
So rare a gentleman as Signior Benedick.
HERO
He is the only man of Italy.
Always excepted my dear Claudio.
URSULA
I pray you, be not angry with me, madam,
Speaking my fancy: Signior Benedick,
For shape, for bearing, argument and valour,
Goes foremost in report through Italy.
HERO
Indeed, he hath an excellent good name.
URSULA
His excellence did earn it, ere he had it.
When are you married, madam?
HERO
Why, every day, to-morrow. Come, go in:
I’ll show thee some attires, and have thy counsel
Which is the best to furnish me to-morrow.
URSULA
She’s limed, I warrant you: we have caught her, madam.
HERO
If it proves so, then loving goes by haps:
Some Cupid kills with arrows, some with traps.
Exeunt HERO and URSULA
BEATRICE
[Coming forward]
What fire is in mine ears? Can this be true?
Stand I condemn’d for pride and scorn so much?
Contempt, farewell! and maiden pride, adieu!
No glory lives behind the back of such.
And, Benedick, love on; I will requite thee,
Taming my wild heart to thy loving hand:
If thou dost love, my kindness shall incite thee
To bind our loves up in a holy band;
For others say thou dost deserve, and I
Believe it better than reportingly.
Exit”
Até para a pena frenética de Shakespeare isso foi muito mais rápido do que eu pensava!
ACT 3
SCENE II. A room in LEONATO’S house
“he hath a heart as sound as a bell and his tongue is the clapper, for what his heart thinks his tongue speaks.”
“BENEDICK
Gallants, I am not as I have been.
LEONATO
So say I methinks you are sadder.
CLAUDIO
I hope he be in love.
DON PEDRO
Hang him, truant! there’s no true drop of blood in
him, to be truly touched with love: if he be sad,
he wants money.
BENEDICK
I have the toothache.
DON PEDRO
Draw it.
BENEDICK
Hang it!
CLAUDIO
You must hang it first, and draw it afterwards.
DON PEDRO
What! sigh for the toothache?
LEONATO
Where is but a humour or a worm.
BENEDICK
Well, every one can master a grief but he that has
it.”
“LEONATO
Indeed, he looks younger than he did, by the loss of a beard.
DON PEDRO
Nay, a’ rubs himself with civet [fragrâncias, perfume africano ou oriental]: can you smell him
out by that?
CLAUDIO
That’s as much as to say, the sweet youth’s in love.”
“BENEDICK
Yet is this no charm for the toothache. Old
signior, walk aside with me: I have studied 8
or 9 wise words to speak to you, which these
hobby-horses must not hear.
Exeunt BENEDICK and LEONATO”
“the two bears will not bite one another when they meet.”
“CLAUDIO
Who, Hero?
DON PEDRO
Even she; Leonato’s Hero, your Hero, every man’s Hero:
CLAUDIO
Disloyal?”
“DON PEDRO
O day untowardly turned!
CLAUDIO
O mischief strangely thwarting!
DON JOHN [Don Juan]
O plague right well prevented! so will you say when
you have seen the sequel.
Exeunt”
ACT 3
SCENE III. A street.
“DOGBERRY
Come hither, neighbour Seacole. God hath blessed
you with a good name: to be a well-favoured man is
the gift of fortune; but to write and read comes by nature.”
“DOGBERRY
True, and they are to meddle with none but the
prince’s subjects. You shall also make no noise in
the streets; for, for the watch to babble and to
talk is most [in?]tolerable and not to be endured.
Watchman
We will rather sleep than talk: we know what
belongs to a watch.
DOGBERRY
Why, you speak like an ancient and most quiet
watchman; for I cannot see how sleeping should
offend: only, have a care that your bills be not
stolen. Well, you are to call at all the
ale-houses, and bid those that are drunk get them to bed.”
“Watchman
If we know him to be a thief, shall we not lay
hands on him?
DOGBERRY
Truly, by your office, you may; but I think they
that touch pitch will be defiled: the most peaceable
way for you, if you do take a thief, is to let him
show himself what he is and steal out of your company.
VERGES
You have been always called a merciful man, partner.
DOGBERRY
Truly, I would not hang a dog by my will, much more
a man who hath any honesty in him.
VERGES
If you hear a child cry in the night, you must call
to the nurse and bid her still it.
Watchman
How if the nurse be asleep and will not hear us?
DOGBERRY
Why, then, depart in peace, and let the child wake
her with crying; for the ewe that will not hear her
lamb when it baes will never answer a calf when he bleats.
“DOGBERRY
One word more, honest neighbours. I pray you watch
about Signior Leonato’s door; for the wedding being
there to-morrow, there is a great coil to-night.
Adieu: be vigilant, I beseech you.
Exeunt DOGBERRY and VERGES
Enter BORACHIO and CONRADE”
“BORACHIO
Stand thee close, then, under this pent-house, for
it drizzles rain; and I will, like a true drunkard,
utter all to thee.
Watchman
[Aside] Some treason, masters: yet stand close.
BORACHIO
Therefore know I have earned of Don John 1,000 ducats.
CONRADE
Is it possible that any villany should be so dear?
BORACHIO
Thou shouldst rather ask if it were possible any
villany should be so rich; for when rich villains
have need of poor ones, poor ones may make what
price they will.”
“CONRADE
Yes, it is apparel.
BORACHIO
I mean, the fashion.
CONRADE
Yes, the fashion is the fashion.
BORACHIO
Tush! I may as well say the fool’s the fool. But
seest thou not what a deformed thief this fashion
is?”
“BORACHIO
Seest thou not, I say, what a deformed thief this
fashion is? how giddily a’ turns about all the hot
bloods between 14 and five-and-thirty?
sometimes fashioning them like Pharaoh’s soldiers
in the reeky painting, sometime like god Bel’s
priests in the old church-window, sometime like the
shaven Hercules in the smirched worm-eaten tapestry,
where his codpiece seems as massy as his club?”
“CONRADE
And thought they Margaret was Hero?
BORACHIO
Two of them did, the prince and Claudio; but the
devil my master knew she was Margaret; and partly
by his oaths, which first possessed them, partly by
the dark night, which did deceive them, but chiefly
by my villany, which did confirm any slander that
Don John had made, away went Claudio enraged; swore
he would meet her, as he was appointed, next morning
at the temple, and there, before the whole
congregation, shame her with what he saw o’er night
and send her home again without a husband.”
First Watchman
We charge you, in the prince’s name, stand!
Second Watchman
Call up the right master constable. We have here
recovered the most dangerous piece of lechery that
ever was known in the commonwealth.
First Watchman
And one Deformed is one of them: I know him; a’
wears a lock.
CONRADE
Masters, masters,–
Second Watchman
You’ll be made bring Deformed forth, I warrant you.
CONRADE
Masters,–
First Watchman
Never speak: we charge you let us obey you to go with us.
BORACHIO
We are like to prove a goodly commodity, being taken
up of these men’s bills.
CONRADE
A commodity in question, I warrant you. Come, we’ll obey you.
Exeunt”
ACT 3
SCENE IV. HERO’s apartment.
“MARGARET
By my troth, ‘s not so good; and I warrant your
cousin will say so.
HERO
My cousin’s a fool, and thou art another: I’ll wear
none but this.”
“MARGARET
Of what, lady? of speaking honourably? Is not
marriage honourable in a beggar? Is not your lord
honourable without marriage? I think you would have
me say, ‘saving your reverence, a husband:’ and bad
thinking do not wrest true speaking, I’ll offend
nobody: is there any harm in ‘the heavier for a
husband’? None, I think, and it be the right husband
and the right wife; otherwise ‘tis light, and not
heavy: ask my Lady Beatrice else; here she comes.
Enter BEATRICE”
“HERO
Why how now? do you speak in the sick tune?
BEATRICE
I am out of all other tune, methinks.”
“BEATRICE
Ye light o’ love, with your heels! then, if your
husband have stables enough, you’ll see he shall
lack no barns.
MARGARET
O illegitimate construction! I scorn that with my heels.”
“…By my troth, I am exceeding ill: heigh-ho!
MARGARET
For a hawk, a horse, or a husband?
BEATRICE
For the letter that begins them all, H.
MARGARET
Well, and you be not turned Turk, there’s no more
sailing by the star.
BEATRICE
What means the fool, trow?
MARGARET
Nothing I; but God send every one their heart’s desire!”
“BEATRICE
I am stuffed, cousin; I cannot smell.
MARGARET
A maid, and stuffed! There’s goodly catching of cold.
BEATRICE
O, God help me! God help me! how long have you
professed apprehension?”
ACT 3
SCENE V. Another room in LEONATO’S house.
“DOGBERRY
A good old man, sir; he will be talking: as they
say, when the age is in, the wit is out: God help
us! it is a world to see. Well said, i’ faith,
neighbour Verges: well, God’s a good man; an 2 men
ride of a horse, one must ride behind. An honest
soul, i’ faith, sir; by my troth he is, as ever
broke bread; but God is to be worshipped; all men
are not alike; alas, good neighbour!
LEONATO
Indeed, neighbour, he comes too short of you.
DOGBERRY
Gifts that God gives.
LEONATO
I must leave you.
DOGBERRY
One word, sir: our watch, sir, have indeed
comprehended 2 auspicious persons, and we would
have them this morning examined before your worship.
LEONATO
Take their examination yourself and bring it me: I
am now in great haste, as it may appear unto you.
DOGBERRY
It shall be suffigance.”
“LEONATO
I’ll wait upon them: I am ready.
Exeunt LEONATO and Messenger
DOGBERRY
Go, good partner, go, get you to Francis Seacole;
bid him bring his pen and inkhorn to the gaol: we
are now to examination these men.”
ACT 4
SCENE I. A church. [na íntegra]
“LEONATO
Come, Friar Francis, be brief; only to the plain
form of marriage, and you shall recount their
particular duties afterwards.
FRIAR FRANCIS
You come hither, my lord, to marry this lady.
CLAUDIO
No.
LEONATO
To be married to her: friar, you come to marry her.
FRIAR FRANCIS
Lady, you come hither to be married to this count.
HERO
I do.
FRIAR FRANCIS
If either of you know any inward impediment why you
should not be conjoined, charge you, on your souls,
to utter it.
CLAUDIO
Know you any, Hero?
HERO
None, my lord.
FRIAR FRANCIS
Know you any, count?
LEONATO
I dare make his answer, none.
CLAUDIO
O, what men dare do! what men may do! what men daily
do, not knowing what they do!
BENEDICK
How now! interjections? Why, then, some be of
laughing, as, ah, ha, he!
CLAUDIO
Stand thee by, friar. Father, by your leave:
Will you with free and unconstrained soul
Give me this maid, your daughter?
LEONATO
As freely, son, as God did give her me.
CLAUDIO
And what have I to give you back, whose worth
May counterpoise this rich and precious gift?
DON PEDRO
Nothing, unless you render her again.
CLAUDIO
Sweet prince, you learn me noble thankfulness.
There, Leonato, take her back again:
Give not this rotten orange to your friend;
She’s but the sign and semblance of her honour.
Behold how like a maid she blushes here!
O, what authority and show of truth
Can cunning sin cover itself withal!
Comes not that blood as modest evidence
To witness simple virtue? Would you not swear,
All you that see her, that she were a maid,
By these exterior shows?But she is none:
She knows the heat of a luxurious bed;
Her blush is guiltiness, not modesty.
LEONATO
What do you mean, my lord?
CLAUDIO
Not to be married,
Not to knit my soul to an approved wanton.
LEONATO
Dear my lord, if you, in your own proof,
Have vanquish’d the resistance of her youth,
And made defeat of her virginity,–
CLAUDIO
I know what you would say: if I have known her,
You will say she did embrace me as a husband,
And so extenuate the ‘forehand sin:
No, Leonato,
I never tempted her with word too large;
But, as a brother to his sister, show’d
Bashful sincerity and comely love.
HERO
And seem’d I ever otherwise to you?
CLAUDIO
Out on thee! Seeming! I will write against it:
You seem to me as Dian in her orb,
As chaste as is the bud ere it be blown;
But you are more intemperate in your blood
Than Venus, or those pamper’d animals
That rage in savage sensuality.
HERO
Is my lord well, that he doth speak so wide?
LEONATO
Sweet prince, why speak not you?
DON PEDRO
What should I speak?
I stand dishonour’d, that have gone about
To link my dear friend to a common stale.
LEONATO
Are these things spoken, or do I but dream?
DON JOHN
Sir, they are spoken, and these things are true.
BENEDICK
This looks not like a nuptial.
HERO
True! O God!
CLAUDIO
Leonato, stand I here?
Is this the prince? is this the prince’s brother?
Is this face Hero’s? are our eyes our own?
LEONATO
All this is so: but what of this, my lord?
CLAUDIO
Let me but move one question to your daughter;
And, by that fatherly and kindly power
That you have in her, bid her answer truly.
LEONATO
I charge thee do so, as thou art my child.
HERO
O, God defend me! how am I beset!
What kind of catechising call you this?
CLAUDIO
To make you answer truly to your name.
HERO
Is it not Hero? Who can blot that name
With any just reproach?
CLAUDIO
Marry, that can Hero;
Hero itself can blot out Hero’s virtue.
What man was he talk’d with you yesternight
Out at your window betwixt 12 and 1?
Now, if you are a maid, answer to this.
HERO
I talk’d with no man at that hour, my lord.
DON PEDRO
Why, then are you no maiden. Leonato,
I am sorry you must hear: upon mine honour,
Myself, my brother and this grieved count
Did see her, hear her, at that hour last night
Talk with a ruffian at her chamber-window
Who hath indeed, most like a liberal villain,
Confess’d the vile encounters they have had
A thousand times in secret.
DON JOHN
Fie, fie! they are not to be named, my lord,
Not to be spoke of;
There is not chastity enough in language
Without offence to utter them. Thus, pretty lady,
I am sorry for thy much misgovernment.
CLAUDIO
O Hero, what a Hero hadst thou been,
If half thy outward graces had been placed
About thy thoughts and counsels of thy heart!
But fare thee well, most foul, most fair! farewell,
Thou pure impiety and impious purity!
For thee I’ll lock up all the gates of love,
And on my eyelids shall conjecture hang,
To turn all beauty into thoughts of harm,
And never shall it more be gracious.
LEONATO
Hath no man’s dagger here a point for me?
HERO swoons
BEATRICE
Why, how now, cousin! wherefore sink you down?
DON JOHN
Come, let us go. These things, come thus to light,
Smother her spirits up.
Exeunt DON PEDRO, DON JOHN, and CLAUDIO
BENEDICK
How doth the lady?
BEATRICE
Dead, I think. Help, uncle!
Hero! why, Hero! Uncle! Signior Benedick! Friar!
LEONATO
O Fate! take not away thy heavy hand.
Death is the fairest cover for her shame
That may be wish’d for.
BEATRICE
How now, cousin Hero!
FRIAR FRANCIS
Have comfort, lady.
LEONATO
Dost thou look up?
FRIAR FRANCIS
Yea, wherefore should she not?
LEONATO
Wherefore! Why, doth not every earthly thing
Cry shame upon her? Could she here deny
The story that is printed in her blood?
Do not live, Hero; do not ope thine eyes:
For, did I think thou wouldst not quickly die,
Thought I thy spirits were stronger than thy shames,
Myself would, on the rearward of reproaches,
Strike at thy life. Grieved I, I had but one?
Chid I for that at frugal nature’s frame?
O, one too much by thee! Why had I one?
Why ever wast thou lovely in my eyes?
Why had I not with charitable hand
Took up a beggar’s issue at my gates,
Who smirch’d thus and mired with infamy,
I might have said ‘No part of it is mine;
This shame derives itself from unknown loins’?
But mine and mine I loved and mine I praised
And mine that I was proud on, mine so much
That I myself was to myself not mine,
Valuing of her,–why, she, O, she is fallen
Into a pit of ink, that the wide sea
Hath drops too few to wash her clean again
And salt too little which may season give
To her foul-tainted flesh!
BENEDICK
Sir, sir, be patient.
For my part, I am so attired in wonder,
I know not what to say.
BEATRICE
O, on my soul, my cousin is belied!
BENEDICK
Lady, were you her bedfellow last night?
BEATRICE
No, truly not; although, until last night,
I have this 12-month been her bedfellow.
LEONATO
Confirm’d, confirm’d! O, that is stronger made
Which was before barr’d up with ribs of iron!
Would the 2 princes lie, and Claudio lie,
Who loved her so, that, speaking of her foulness,
Wash’d it with tears? Hence from her! let her die.
FRIAR FRANCIS
Hear me a little;
For I have only been silent so long
And given way unto this course of fortune…
By noting of the lady I have mark’d
A thousand blushing apparitions
To start into her face, a thousand innocent shames
In angel whiteness beat away those blushes;
And in her eye there hath appear’d a fire,
To burn the errors that these princes hold
Against her maiden truth. Call me a fool;
Trust not my reading nor my observations,
Which with experimental seal doth warrant
The tenor of my book; trust not my age,
My reverence, calling, nor divinity,
If this sweet lady lie not guiltless here
Under some biting error.
LEONATO
Friar, it cannot be.
Thou seest that all the grace that she hath left
Is that she will not add to her damnation
A sin of perjury; she not denies it:
Why seek’st thou then to cover with excuse
That which appears in proper nakedness?
FRIAR FRANCIS
Lady, what man is he you are accused of?
HERO
They know that do accuse me; I know none:
If I know more of any man alive
Than that which maiden modesty doth warrant,
Let all my sins lack mercy! O my father,
Prove you that any man with me conversed
At hours unmeet, or that I yesternight
Maintain’d the change of words with any creature,
Refuse me, hate me, torture me to death!
FRIAR FRANCIS
There is some strange misprision in the princes.
BENEDICK
Two of them have the very bent of honour;
And if their wisdoms be misled in this,
The practise of it lives in John the bastard,
Whose spirits toil in frame of villanies.
LEONATO
I know not. If they speak but truth of her,
These hands shall tear her; if they wrong her honour,
The proudest of them shall well hear of it.
Time hath not yet so dried this blood of mine,
Nor age so eat up my invention,
Nor fortune made such havoc of my means,
Nor my bad life reft me so much of friends,
But they shall find, awaked in such a kind,
Both strength of limb and policy of mind,
Ability in means and choice of friends,
To quit me of them throughly.
FRIAR FRANCIS
Pause awhile,
And let my counsel sway you in this case.
Your daughter here the princes left for dead:
Let her awhile be secretly kept in,
And publish it that she is dead indeed;
Maintain a mourning ostentation
And on your family’s old monument
Hang mournful epitaphs and do all rites
That appertain unto a burial.
LEONATO
What shall become of this? what will this do?
FRIAR FRANCIS
Marry, this well carried shall on her behalf
Change slander to remorse; that is some good:
But not for that dream I on this strange course,
But on this travail look for greater birth.
She dying, as it must so be maintain’d,
Upon the instant that she was accused,
Shall be lamented, pitied and excused
Of every hearer: for it so falls out
That what we have we prize not to the worth
Whiles we enjoy it, but being lack’d and lost,
Why, then we rack the value, then we find
The virtue that possession would not show us
Whiles it was ours. So will it fare with Claudio:
When he shall hear she died upon his words,
The idea of her life shall sweetly creep
Into his study of imagination,
And every lovely organ of her life
Shall come apparell’d in more precious habit,
More moving-delicate and full of life,
Into the eye and prospect of his soul,
Than when she lived indeed; then shall he mourn,
If ever love had interest in his liver,
And wish he had not so accused her,
No, though he thought his accusation true.
Let this be so, and doubt not but success
Will fashion the event in better shape
Than I can lay it down in likelihood.
But if all aim but this be levell’d false,
The supposition of the lady’s death
Will quench the wonder of her infamy:
And if it sort not well, you may conceal her,
As best befits her wounded reputation,
In some reclusive and religious life,
Out of all eyes, tongues, minds and injuries.
BENEDICK
Signior Leonato, let the friar advise you:
And though you know my inwardness and love
Is very much unto the prince and Claudio,
Yet, by mine honour, I will deal in this
As secretly and justly as your soul
Should with your body.
LEONATO
Being that I flow in grief,
The smallest twine may lead me.
FRIAR FRANCIS
‘Tis well consented: presently away;
For to strange sores strangely they strain the cure.
Come, lady, die to live: this wedding-day
Perhaps is but prolong’d: have patience and endure.
Exeunt all but BENEDICK and BEATRICE
BENEDICK
Lady Beatrice, have you wept all this while?
BEATRICE
Yea, and I will weep a while longer.
BENEDICK
I will not desire that.
BEATRICE
You have no reason; I do it freely.
BENEDICK
Surely I do believe your fair cousin is wronged.
BEATRICE
Ah, how much might the man deserve of me that would right her!
BENEDICK
Is there any way to show such friendship?
BEATRICE
A very even way, but no such friend.
BENEDICK
May a man do it?
BEATRICE
It is a man’s office, but not yours.
BENEDICK
I do love nothing in the world so well as you: is
not that strange?
BEATRICE
As strange as the thing I know not. It were as
possible for me to say I loved nothing so well as
you: but believe me not; and yet I lie not; I
confess nothing, nor I deny nothing. I am sorry for my cousin.
BENEDICK
By my sword, Beatrice, thou lovest me.
BEATRICE
Do not swear, and eat it.
BENEDICK
I will swear by it that you love me; and I will make
him eat it that says I love not you.
BEATRICE
Will you not eat your word?
BENEDICK
With no sauce that can be devised to it. I protest
I love thee.
BEATRICE
Why, then, God forgive me!
BENEDICK
What offence, sweet Beatrice?
BEATRICE
You have stayed me in a happy hour: I was about to
protest I loved you.
BENEDICK
And do it with all thy heart.
BEATRICE
I love you with so much of my heart that none is
left to protest.
BENEDICK
Come, bid me do any thing for thee.
BEATRICE
Kill Claudio.
BENEDICK
Ha! not for the wide world.
BEATRICE
You kill me to deny it. Farewell.
BENEDICK
Tarry, sweet Beatrice.
BEATRICE
I am gone, though I am here: there is no love in
you: nay, I pray you, let me go.
BENEDICK
Beatrice,–
BEATRICE
In faith, I will go.
BENEDICK
We’ll be friends first.
BEATRICE
You dare easier be friends with me than fight with mine enemy.
BENEDICK
Is Claudio thine enemy?
BEATRICE
Is he not approved in the height a villain, that
hath slandered, scorned, dishonoured my kinswoman? O
that I were a man! What, bear her in hand until they
Sweet Hero! She is wronged, she is slandered, she is undone.
BENEDICK
Beat–
BEATRICE
Princes and counties! Surely, a princely testimony,
a goodly count, Count Comfect; a sweet gallant,
surely! O that I were a man for his sake! or that I
had any friend would be a man for my sake! But
manhood is melted into courtesies, valour into
compliment, and men are only turned into tongue, and
trim ones too: he is now as valiant as Hercules
that only tells a lie and swears it. I cannot be a
man with wishing, therefore I will die a woman with grieving.
BENEDICK
Tarry, good Beatrice. By this hand, I love thee.
BEATRICE
Use it for my love some other way than swearing by it.
BENEDICK
Think you in your soul the Count Claudio hath wronged Hero?
BEATRICE
Yea, as sure as I have a thought or a soul.
BENEDICK
Enough, I am engaged; I will challenge him. I will
kiss your hand, and so I leave you. By this hand,
Claudio shall render me a dear account. As you
hear of me, so think of me. Go, comfort your
cousin: I must say she is dead: and so, farewell.
Exeunt”
ACT 4
SCENE II. A prison.
“DOGBERRY
Write down, that they hope they serve God: and
write God first; for God defend but God should go
before such villains! Masters, it is proved already
that you are little better than false knaves; and it
will go near to be thought so shortly. How answer
you for yourselves?
CONRADE
Marry, sir, we say we are none.
DOGBERRY
A marvellous witty fellow, I assure you: but I
will go about with him. Come you hither, sirrah; a
word in your ear: sir, I say to you, it is thought
you are false knaves.
BORACHIO
Sir, I say to you we are none.”
“First Watchman
This man said, sir, that Don John, the prince’s
brother, was a villain.
DOGBERRY
Write down Prince John a villain. Why, this is flat
perjury, to call a prince’s brother villain.
BORACHIO
Master constable,–
DOGBERRY
Pray thee, fellow, peace: I do not like thy look,
I promise thee.
Sexton [o tocador do sino numa côrte de justiça ou assembléia]
What heard you him say else?
Second Watchman
Marry, that he had received a thousand ducats of
Don John for accusing the Lady Hero wrongfully.”
“Sexton
What else, fellow?
First Watchman
And that Count Claudio did mean, upon his words, to
disgrace Hero before the whole assembly. and not marry her.
DOGBERRY
O villain! thou wilt be condemned into everlasting
redemption for this.
Sexton
What else?
Watchman
This is all.
Sexton
And this is more, masters, than you can deny.
Prince John is this morning secretly stolen away;
Hero was in this manner accused, in this very manner
refused, and upon the grief of this suddenly died.
Master constable, let these men be bound, and
brought to Leonato’s: I will go before and show
him their examination.
Exit”
ACT 5
SCENE I. Before LEONATO’S house.
“Bring me a father that so loved his child,
Whose joy of her is overwhelm’d like mine,
And bid him speak of patience;
Measure his woe the length and breadth of mine
And let it answer every strain for strain,
As thus for thus and such a grief for such,
In every lineament, branch, shape, and form:
If such a one will smile and stroke his beard,
Bid sorrow wag, cry ‘hem!’ when he should groan,
Patch grief with proverbs, make misfortune drunk
With candle-wasters; bring him yet to me,
And I of him will gather patience.
But there is no such man: for, brother, men
Can counsel and speak comfort to that grief
Which they themselves not feel; but, tasting it,
Their counsel turns to passion, which before
Would give preceptial medicine to rage,
Fetter strong madness in a silken thread,
Charm ache with air and agony with words:
No, no; ‘tis all men’s office to speak patience
To those that wring under the load of sorrow,
But no man’s virtue nor sufficiency
To be so moral when he shall endure
The like himself. Therefore give me no counsel:
My griefs cry louder than advertisement.”
“I pray thee, peace. I will be flesh and blood;
For there was never yet philosopher
That could endure the toothache patiently,
However they have writ the style of gods
And made a push at chance and sufferance.”
“My soul doth tell me Hero is belied;
And that shall Claudio know; so shall the prince
And all of them that thus dishonour her.”
“DON PEDRO
Nay, do not quarrel with us, good old man.
ANTONIO
If he could right himself with quarreling,
Some of us would lie low.”
“Nay, never lay thy hand upon thy sword;
I fear thee not.”
“Tush, tush, man; never fleer and jest at me:
I speak not like a dotard nor a fool,
As under privilege of age to brag
What I have done being young, or what would do
Were I not old. Know, Claudio, to thy head,
Thou hast so wrong’d mine innocent child and me
That I am forced to lay my reverence by
And, with grey hairs and bruise of many days,
Do challenge thee to trial of a man.
I say thou hast belied mine innocent child;
Thy slander hath gone through and through her heart,
And she lies buried with her ancestors;
O, in a tomb where never scandal slept,
Save this of hers, framed by thy villany!”
“My lord, my lord,
I’ll prove it on his body, if he dare,
Despite his nice fence and his active practise,
His May of youth and bloom of lustihood.”
“Canst thou so daff me? Thou hast kill’d my child:
If thou kill’st me, boy, thou shalt kill a man.”
“ANTONIO
He shall kill 2 of us, and men indeed:
But that’s no matter; let him kill one first;
Win me and wear me; let him answer me.
Come, follow me, boy; come, sir boy, come, follow me:
Sir boy, I’ll whip you from your foining[pontuda] fence;
Nay, as I am a gentleman, I will.”
“Content yourself. God knows I loved my niece;
And she is dead, slander’d to death by villains,
That dare as well answer a man indeed
As I dare take a serpent by the tongue:
Boys, apes, braggarts, Jacks, milksops!”
“Hold you content. What, man! I know them, yea,
And what they weigh, even to the utmost scruple,–
Scrambling, out-facing, fashion-monging boys,
That lie and cog and flout, deprave and slander,
Go anticly, show outward hideousness,
And speak off half a dozen dangerous words,
How they might hurt their enemies, if they durst;
And this is all.”
“DON PEDRO
Gentlemen both, we will not wake your patience.
My heart is sorry for your daughter’s death:
But, on my honour, she was charged with nothing
But what was true and very full of proof.
LEONATO
My lord, my lord,–
DON PEDRO
I will not hear you.”
“DON PEDRO
Leonato and his brother. What thinkest thou? Had
we fought, I doubt we should have been too young for them.
BENEDICK
In a false quarrel there is no true valour. I came
to seek you both.”
“DON PEDRO
As I am an honest man, he looks pale. Art thou
sick, or angry?
CLAUDIO
What, courage, man! What though care killed a cat,
thou hast mettle enough in thee to kill care.
BENEDICK
Sir, I shall meet your wit in the career, and you
charge it against me. I pray you choose another subject.”
“BENEDICK
Shall I speak a word in your ear?
CLAUDIO
God bless me from a challenge!
BENEDICK
[Aside to CLAUDIO]You are a villain; I jest not:
I will make it good how you dare, with what you
dare, and when you dare. Do me right, or I will
protest your cowardice. You have killed a sweet
lady, and her death shall fall heavy on you. Let me
hear from you.
CLAUDIO
Well, I will meet you, so I may have good cheer.
DON PEDRO
What, a feast, a feast?
CLAUDIO
I’ faith, I thank him; he hath bid me to a calf’s
head and a capon; the which if I do not carve most
curiously, say my knife’s naught. Shall I not find
a woodcock too?”
“DON PEDRO
But when shall we set the savage bull’s horns on
the sensible Benedick’s head?
CLAUDIO
Yea, and text underneath, ‘Here dwells Benedick the
married man’?”
“I must discontinue your company: your brother the bastard is fled from Messina: you have among you killed a sweet and innocent lady. For my Lord Lackbeard there, he and I shall meet: and, till then, peace be with him.
Exit”
“CLAUDIO
He is then a giant to an ape; but then is an ape a
doctor to such a man.”
“DON PEDRO
…Did he not say, my brother was fled?
Enter DOGBERRY, VERGES, and the Watch, with CONRADE and BORACHIO”
“DOGBERRY
Marry, sir, they have committed false report;
moreover, they have spoken untruths; secondarily,
they are slanders; sixth and lastly, they have
belied a lady; thirdly, they have verified unjust
things; and, to conclude, they are lying knaves.
DON PEDRO
First, I ask thee what they have done; thirdly, I
ask thee what’s their offence; sixth and lastly, why
they are committed; and, to conclude, what you lay
to their charge.”
“I have deceived even your very eyes: what your wisdoms could not discover, these shallow fools have brought to light: who in the night overheard me confessing to this man how Don John your brother incensed me to slander the Lady Hero, how you were brought into the orchard and saw me court Margaret in Hero’s garments, how you disgraced her, when you should marry her: my villany they have upon record; which I had rather seal with my death than repeat over to my shame. The lady is dead upon mine and my master’s false accusation; and, briefly, I desire nothing but the reward of a villain.”
“DON PEDRO
Runs not this speech like iron through your blood?
CLAUDIO
I have drunk poison whiles he utter’d it.
DON PEDRO
But did my brother set thee on to this?
BORACHIO
Yea, and paid me richly for the practise of it.”
“CLAUDIO
Sweet Hero! now thy image doth appear
In the rare semblance that I loved it first.
DOGBERRY
Come, bring away the plaintiffs: by this time our
sexton hath reformed Signior Leonato of the matter:
and, masters, do not forget to specify, when time
and place shall serve, that I am an ass.
VERGES
Here, here comes master Signior Leonato, and the
Sexton too.
Re-enter LEONATO and ANTONIO, with the Sexton”
“LEONATO
Art thou the slave that with thy breath hast kill’d
Mine innocent child?
BORACHIO
Yea, even I alone.”
“Yet I must speak. Choose your revenge yourself;
Impose me to what penance your invention
Can lay upon my sin: yet sinn’d I not
But in mistaking.”
“LEONATO
I cannot bid you bid my daughter live;
That were impossible: but, I pray you both,
Possess the people in Messina here
How innocent she died; and if your love
Can labour ought in sad invention,
Hang her an epitaph upon her tomb
And sing it to her bones, sing it to-night:
To-morrow morning come you to my house,
And since you could not be my son-in-law,
Be yet my nephew: my brother hath a daughter,
Almost the copy of my child that’s dead,
And she alone is heir to both of us:
Give her the right you should have given her cousin,
And so dies my revenge.”
“DOGBERRY
Moreover, sir, which indeed is not under white and
black, this plaintiff here, the offender, did call
me ass: I beseech you, let it be remembered in his
punishment.And also, the watch heard them talk of
one Deformed: they say he wears a key in his ear and
a lock hanging by it, and borrows money in God’s
name, the which he hath used so long and never paid
that now men grow hard-hearted and will lend nothing
for God’s sake: pray you, examine him upon that point.”
“LEONATO
[To the Watch] Bring you these fellows on. We’ll
talk with Margaret,
How her acquaintance grew with this lewd fellow.
Exeunt, severally”
ACT 5
SCENE II. LEONATO’S garden.
“BENEDICK
Pray thee, sweet Mistress Margaret, deserve well at
my hands by helping me to the speech of Beatrice.
MARGARET
Will you then write me a sonnet in praise of my beauty?
BENEDICK
In so high a style, Margaret, that no man living
shall come over it; for, in most comely truth, thou
deservest it.
MARGARET
To have no man come over me! why, shall I always
keep below stairs?
BENEDICK
Thy wit is as quick as the greyhound’s mouth; it catches.
MARGARET
And yours as blunt as the fencer’s foils, which hit,
but hurt not.
BENEDICK
A most manly wit, Margaret; it will not hurt a
woman: and so, I pray thee, call Beatrice: I give
thee the bucklers.
MARGARET
Give us the swords; we have bucklers of our own.
BENEDICK
If you use them, Margaret, you must put in the
pikes with a vice; and they are dangerous weapons for maids.”
“Sings
The god of love,
That sits above,
And knows me, and knows me,
How pitiful I deserve,–
I mean in singing; but in loving, Leander the good
swimmer, Troilus the first employer of panders, and
a whole bookful of these quondam carpet-mangers,
whose names yet run smoothly in the even road of a
blank verse, why, they were never so truly turned
over and over as my poor self in love. Marry, I
cannot show it in rhyme; I have tried: I can find
out no rhyme to ‘lady’ but ‘baby,’ an innocent
rhyme; for ‘scorn,’‘horn,’ a hard rhyme; for,
‘school,’ ‘fool,’ a babbling rhyme; very ominous
endings: no, I was not born under a rhyming planet,
nor I cannot woo in festival terms.
Enter BEATRICE”
“BENEDICK
O, stay but till then!
BEATRICE
‘Then’ is spoken; fare you well now: and yet, ere
I go, let me go with that I came; which is, with
knowing what hath passed between you and Claudio.
BENEDICK
Only foul words; and thereupon I will kiss thee.
BEATRICE
Foul words is but foul wind, and foul wind is but
foul breath, and foul breath is noisome; therefore I
will depart unkissed.
BENEDICK
Thou hast frighted the word out of his right sense,
so forcible is thy wit. But I must tell thee
plainly, Claudio undergoes my challenge; and either
I must shortly hear from him, or I will subscribe
him a coward.And, I pray thee now, tell me for
which of my bad parts didst thou first fall in love with me?
BEATRICE
For them all together; which maintained so politic
a state of evil that they will not admit any good
part to intermingle with them. But for which of my
good parts did you first suffer love for me?
BENEDICK
Suffer love! a good epithet! I do suffer love
indeed, for I love thee against my will.
BEATRICE
In spite of your heart, I think; alas, poor heart!
If you spite it for my sake, I will spite it for
yours; for I will never love that which my friend hates.
BENEDICK
Thou and I are too wise to woo peaceably.
BEATRICE
It appears not in this confession: there’s not one
wise man among 20 that will praise himself.”
“If a man do not erect in this age his own tomb ere he dies, he shall live no longer in monument than the bell rings and the widow weeps.”
“BEATRICE
And how long is that, think you?
BENEDICK
Question: why, an hour in clamour and a quarter in
rheum: therefore is it most expedient for the
wise, if Don Worm, his conscience, find no
impediment to the contrary, to be the trumpet of his
own virtues, as I am to myself. So much for
praising myself, who, I myself will bear witness, is
praiseworthy: and now tell me, how doth your cousin?
From Claudio and the prince: but what’s your will?
BENEDICK
Your answer, sir, is enigmatical:
But, for my will, my will is your good will
May stand with ours, this day to be conjoin’d
In the state of honourable marriage:
In which, good friar, I shall desire your help.”
“Enter DON PEDRO and CLAUDIO, and two or three others.”
“LEONATO
Good morrow, prince; good morrow, Claudio:
We here attend you. Are you yet determined
To-day to marry with my brother’s daughter?
CLAUDIO
I’ll hold my mind, were she an Ethiope.”
“DON PEDRO
Good morrow, Benedick. Why, what’s the matter,
That you have such a February face,
So full of frost, of storm and cloudiness?
CLAUDIO
I think he thinks upon the savage bull.
Tush, fear not, man; we’ll tip thy horns with gold
And all Europa shall rejoice at thee,
As once Europa did at lusty Jove,
When he would play the noble beast in love.
BENEDICK
Bull Jove, sir, had an amiable low;
And some such strange bull leap’d your father’s cow,
And got a calf in that same noble feat
Much like to you, for you have just his bleat.”
“CLAUDIO
…
Re-enter ANTONIO, with the Ladies masked
Which is the lady I must seize upon?
ANTONIO
This same is she, and I do give you her.
CLAUDIO
Why, then she’s mine. Sweet, let me see your face.
LEONATO
No, that you shall not, till you take her hand
Before this friar and swear to marry her.
CLAUDIO
Give me your hand: before this holy friar,
I am your husband, if you like of me.
HERO
And when I lived, I was your other wife:
Unmasking
And when you loved, you were my other husband.
CLAUDIO
Another Hero!
HERO
Nothing certainer:
One Hero died defiled, but I do live,
And surely as I live, I am a maid.”
“LEONATO
She died, my lord, but whiles her slander lived.
FRIAR FRANCIS
All this amazement can I qualify:
When after that the holy rites are ended,
I’ll tell you largely of fair Hero’s death:
Meantime let wonder seem familiar,
And to the chapel let us presently.
BENEDICK
Soft and fair, friar. Which is Beatrice?
BEATRICE
[Unmasking] I answer to that name. What is your will?
BENEDICK
Do not you love me?
BEATRICE
Why, no; no more than reason.
BENEDICK
Why, then your uncle and the prince and Claudio
Have been deceived; they swore you did.
BEATRICE
Do not you love me?
BENEDICK
Troth, no; no more than reason.
BEATRICE
Why, then my cousin Margaret and Ursula
Are much deceived; for they did swear you did.
BENEDICK
They swore that you were almost sick for me.
BEATRICE
They swore that you were well-nigh dead for me.
BENEDICK
‘Tis no such matter. Then you do not love me?
BEATRICE
No, truly, but in friendly recompense.
LEONATO
Come, cousin, I am sure you love the gentleman.
CLAUDIO
And I’ll be sworn upon’t that he loves her;
For here’s a paper written in his hand,
A halting sonnet of his own pure brain,
Fashion’d to Beatrice.
HERO
And here’s another
Writ in my cousin’s hand, stolen from her pocket,
Containing her affection unto Benedick.
BENEDICK
A miracle! here’s our own hands against our hearts.
Come, I will have thee; but, by this light, I take
thee for pity.
BEATRICE
I would not deny you; but, by this good day, I yield
upon great persuasion; and partly to save your life,
for I was told you were in a consumption.
BENEDICK
Peace! I will stop your mouth.
Kissing her
DON PEDRO
How dost thou, Benedick, the married man?
BENEDICK
I’ll tell thee what, prince; a college of
wit-crackers cannot flout me out of my humour. Dost
thou think I care for a satire or an epigram? No:
if a man will be beaten with brains, a’ shall wear
nothing handsome about him. In brief, since I do
purpose to marry, I will think nothing to any
purpose that the world can say against it; and
therefore never flout at me for what I have said
against it; for man is a giddy thing, and this is my
conclusion. For thy part, Claudio, I did think to
have beaten thee, but in that thou art like to be my
kinsman, live unbruised and love my cousin.
CLAUDIO
I had well hoped thou wouldst have denied Beatrice,
that I might have cudgelled thee out of thy single
life, to make thee a double-dealer; which, out of
question, thou wilt be, if my cousin do not look
exceedingly narrowly to thee.”
“BENEDICK
First, of my word; therefore play, music. Prince,
thou art sad; get thee a wife, get thee a wife:
there is no staff more reverend than one tipped with horn.
Enter a Messenger
Messenger
My lord, your brother John is ta’en in flight,
And brought with armed men back to Messina.
BENEDICK
Think not on him till to-morrow:
I’ll devise thee brave punishments for him.
Strike up, pipers.
Dance
Exeunt”
GLOSSÁRIO:
bleat: balido
buckler: escudo
capon: galo capado
codpiece: braguilha
ewe: ovelha fêmewa
foining: espetar; arma afiada
gaol:jail, gaiola
racemes: “An inflorescence having stalked flowers arranged singly along an elongated unbranched axis, with the flowers at the bottom opening first.” = CACHO, aproximadamente.
sea cole: “1. perennial of coastal sands and shingles of northern Europe and Baltic and Black Seas having racemes of small white flowers and large fleshy blue-green leaves often used as potherbs
Crambe maritima, sea kale
2. Crambe, genus Crambe – annual or perennial herbs with large leaves that resemble the leaves of cabbages
3. herb, herbaceous plant – a plant lacking a permanent woody stem; many are flowering garden plants or potherbs; some having medicinal properties; some are pests”
shingles: “An acute viral infection characterized by inflammation of the sensory ganglia of certain spinal or cranial nerves and the eruption of vesicles along the affected nerve path. It usually strikes only one side of the body and is often accompanied by severe neuralgia. Also called herpes zoster.”
tartly: amargo
trow: “A trow was a type of cargo boat found in the past on the rivers Severn and Wye in Great Britain and used to transport goods.” encyclopedia.thefreedictionary.com
Alice no País das Maravilhas revertido ao Português a partir da tradução alemã e (levemente) modificado a gosto. – Apenas as melhores passagens. Com as atualizações para este século espero não ofender a memória de Carroll!
“E de que valem os livros”, concluiu Alice, “sem figuras e diálogos?”
Em meio à queda ela pegou, de um dos quadros, um potinho com os dizeres: “LARANJAS EM CONSERVA”, porém, para imenso pesar seu, ele estava vazio.
„Ah!“ disse Alice de si para si, “depois de tamanha queda nunca vou conseguir subir de volta ainda que me depare com uma escada! Quão longe de casa ela já não estaria! Já falei tanto em voz alta desde que comecei a cair que acho que falei mais do que em toda a minha vida anterior!” (O que muito provavelmente era verdade.) “Gostaria de falar menos, pois significa que cairia menos!”
Pra baixo, pra baixo, pra baixo! Esse precipício não quer acabar nunca? „Quantos kilômetros será que eu ainda vou cair?“ Continuou a menina em voz alta. „Eu devo estar lá pela metade do trajeto! Deixa ver… isso deve dar uns 1350 kilômetros, segundo os meus cal–“(é bom que se saiba: Alice só tinha aprendido uma ou outra coisa na escola, e embora essa não fosse uma ocasião tão oportuna para exibir seus conhecimentos, até porque ninguém a ouvia, talvez ela não estivesse tão longe de acertar, chutando como o Messi) – “É, mais ou menos por aí; mas em que latitude e longitude seria isso?” (Alice não ligava o mínimo para o conceito de latitude e longitude; ela só queria mesmo era usar substantivos bonitos.)
Logo ela estaria batendo na mesma tecla. “Ah, como eu queria cair de uma vez no chão! Que engraçadas não devem ser, lá embaixo, as pessoas andando de ponta-cabeça! Como eles se chamam mesmo? Os Antipáticos, eu acho.” (Dessa vez ela no fundo agradecia de todo coração ninguém poder ouvir, pois a palavra estava muito mal-empregada.) “Claro que assim que chegar eu devo perguntar como é que se chama o país. Por gentileza, senhora, essa é a Nova Zelândia ou a Austrália? (E ela tentou se ajoelhar – para fazer a mímica de quem agradece a informação, mas é meio difícil fazer isso em queda livre! Poderia ela conseguir com muito esforço?) „Mas ela me tomaria por uma menininha muito tola, ao ouvir essa pergunta! Não, não é pergunta que se faça! Quem sabe eu consiga ler em alguma placa.”
“DINÁ com certeza vai sentir minha falta à noite!” (Dinah era a gata.) “Tomara que não esqueçam de colocar leite no pires dela na hora do chá. Diná! Bichinha! eu queria que você estivesse aqui embaixo comigo. Só o que me preocupa é que não tem nenhum rato no espaço; mas tenho certeza que ela acharia um papagaio. Aposto que ela ia adorar esse salto infinito! E gatos caçam papagaios?” . . . “Será que gatos gostam de caçar papagaios? Gostam gostam gostam? Gostam papagaios de caçar gatos?“
A primeira idéia de Alice foi que essa chave deveria ser a de uma das portas do corredor. Porém, todas as chaves ou eram demasiado grandes, ou demasiado pequenas; logo, ela estava de volta ao início. Quando ela repassava pelos mesmos lugares, deparou-se com cortinas baixinhas que não havia percebido na primeira volta. Afastou-as e viu que detrás havia uma portinhola, de coisa de uns 40 centímetros, no máximo. Ela testou a chavinha dourada no trinco na fechadura, e, para euforia sua, a tranca deu um click.
Ao abrir a porta Alice se achou no meio de um corredor pequenito, não muito maior que uma casa de rato.
Dessa vez ela encontrou uma garrafinha. “Isso com certeza não estava aqui antes”, disse Alice; e do gargalo do objeto pendia uma etiqueta, escrito “BEBA-ME!” em belas e garrafais (sem trocadilhos!) letras, digo, fontes, nada úmidas. Na verdade, minto: estava escrito “Beba-me”, em caixa baixa. É que a sede e o desespero nos fazem ver tudo maior, e com pontos de exclamação! Mas a precoce Alice, parecendo uma adulta, não queria se resolver tão rápido a cumprir ordens alheias, pois quem é adulta não adula. “Não nos precipitemos! Vai que é um veneno – melhor prevenir!”
e aquilo cheirava muito bem (era uma mistura de torta de cereja com chantilly, abacaxi, peru assado e rabanada), então ela não resistiu e bebeu tudo, glut-glut!
agora Alice tinha 25 centímetros de altura, e seu rosto demonstrava satisfação com a própria genialidade, posto que ela passava a ter o tamanho certo para atravessar a porta e ir ao belo jardim!
„COMA-ME!“, estava escrito numa bela letrinha. “Ótimo, vou comê-lo com gosto”, disse Alice, “e quando eu ficar maior vou alcançar o molho de chaves; depois que encolher uma segunda vez vou poder rastejar pelo buraco da porta. No fim das contas vou chegar ao jardim – então dá tudo na mesma!
Ela mastigou um pedacinho, e falou intrigada para si mesma: “Pra cima ou pra baixo?” Ela encostou a mão na cabeça e ficou estupefata: como estava grande! Claro que ela já contava com isso; é que tudo estava dando tão certo que ela não podia deixar de se maravilhar com cada coisa!
Ela não hesitou e comeu o bolo todinho.
„Ai, meus pobres pezinhos! quando vou poder calçar umas meias e sapatos em vocês, meus queridinhos? … vou presenteá-los todo Natal com um par de botas novo!”
Pobre Alice! de súbito, antes de que se pudesse aperceber, ela já estava na ponta dos sapatos, com um olho espionando o jardim; mas logo o que se passaria lhe daria muito o que pensar. Ela se sentou e se segurou para não recomeçar a chorar.
Era o coelho branco, que vinha exuberantemente bem-vestido e com brilhantina no penteado, com um par de luvas numa mão e um leque na outra. Ele aloprava em grandes passadas enquanto deixava escapar: “Ó! a duquesa, a duquesa! logo ela vai sair, e eu deixando-a esperar!” … O coelho a seguia, deixando o par de luvas brancas e o leque cair, arranjando-se noite adentro, como podia.
“Eu certamente não sou Ida“, dizia ela, “pois ela possui longos cachos, ao passo que meu cabelo não é nada cacheado; e na melhor das hipóteses Clara eu também não sou, pois que eu sou tão clarinha, e ela, ah, ela de clara não tem nada! Além do mais, ela é ela mesma, e eu sou eu, e, ah, como tudo é tão confuso! … Deixe-me ver: 4 vezes 5 é 12, e 4 vezes 6 é 13, e 4 vezes 7 é – ai ai! nessa arte do cálculo não sei passar do 20! Ah, mas a tabuada também não vai a tanto… Agora vamos de Geografia. Rondônia é a capital de Porto Velho, e Roráima é a capital de Cegueira, e Romaria––não, eu acho que tudo isso está errado! Eu preciso ser como a Clara!…”
“…quando Clara eu for, gostaria de aqui embaixo ficar!…”
„mas tão pequenina eu sou como nunca se viu, não, nunquinha! E devo dizer que isso é deveras horrível, ah se é!”
* * *
“Ô rato, sabe o que é? desde que pulamos nesse lodo todo estou cansadíssima de nadar, ô rato!” (Alice meditou com que idioma devia dirigir-se a um rato falante; Alice não tinha certeza de todo, mas sua memória tão prodigiosa recordava que na gramática teutônica de seu irmão lia-se “Eine Maus – einer Maus – einer Maus – eine Maus – Maus!”)
“Talvez ele não seja civilizado”, pensou Alice, “quem sabe é um selvático, aquele que acompanhava Guilherme o King Kongquistador” (apesar do conhecimento anedótico de Alice em História, ela não tinha muita noção de quanto tempo havia passado desde cada evento que podia evocar, e andava misturando as lições com videogames e filmes do Tarzan). Ela conseguiu se lembrar de uma coisa das suas aulas de Espanhol: “donde queda mi gatita?”. Na verdade era a primeira frase do seu livro-texto de conversação. O rato aumentou o ímpeto de suas patinhadas n’água, revelando pavor no tremor.
“Não gosto de gatos!”, gritou o rato, todo eriçado, com uma voz fora de si.
“Você ia gostar de gatos, se estivesse no meu lugar?”
“Não, nunquinha”, Alice respondeu num tom displicente: “não seja mais mau! Se você se comportar não te vou mostrar nossa gata Diná…”
“…e ela é uma caçadora de ratos tão famosa –– ó, eu peço perdão!” repetiu Alice, se contendo para não amedrontar ainda mais o pobre rato; ela realmente não podia evitar, mas não fazia por mal. “Prometo que não volto a tocar no assunto enquanto você não quiser!”
Então o rato nadou rápido como nunca, superando em muito a agilidade de Alice, evadindo o grande lodaçal num átimo.
lá estavam um pato e um dodô, um papagaio de penas vermelhas e uma jovem águia, e ainda uma variedade de criaturas exóticas. Alice meteu-se de penetra nesta distinguida sociedade assim que chegou à margem do grande lago-poça.
* * *
A primeira questão foi, para tentar resumir: … Uma grande diatribe com o papagaio, tipo ranzinza, que gostava de ficar repetindo: “eu sou mais velho que você e portanto devo ser mais sábio”; Alice não deixava por menos e questionava a idade da ave teimosa, mas isso o papagaio não sabia ou não queria esclarecer. No fim nada ficou decidido, ninguém levou a melhor na discussão desarrazoada. Esse papagaio gostava de repetir o argumento!
„…Guilherme o Kongquistador do Chic-eiro, que exigiu privilégios da Peppa, foi muito querido pelos selvagens, e logo se tornou o líder que eles tanto procuravam; não custaria muito para Guilherme usurpar e conquistar o Cacho de Bananas. Edviges e Hog-Verrugartz, Grafeno de Mércia e Niobitumba“
„AAAH!“, bocejou o papagaio.
„Foi o que me pareceu“, disse o rato – “Vou mais longe: Edviges e Hog-Verrugartz, Grafeno de de Mércia e Niobitumba, esclareceu em adição; o próprio Stigândhi, o patriota arcebispo de Canterbury achou melhor—„
„Achou O QUÊ?“ perguntou a formiga.
„ACHOU“, redarguiu o rato já um tanto fora de si: “você quer saber mais do o narrador o que cada palavra significa…”
“Eu sei muito bem o que PALAVRAS significam, quando EU as acho”, continuou a formiga: “De praxe o que se acha é um sapo ou um verme. A pergunta é: o que achou o arcebispo?”
O rato fingiu que não ouviu a pergunta, e deu prosseguimento: “…achou melhor, acompanhado de Edu Moscóvis, recusar a coroa a Guilherme. Guilherme apesar de muito ponderado, cedeu ao seu temperamento primata insolente, não é mesmo, minha querida?”, foi se voltando para Alice conforme discorria.
“Nem tanto ao mar nem tanto à terra”, foi cortando Alice: “não ponha palavras na minha boca.”
“Nesse caso”, disse o dodô, todo solene: “eu proponho que a assembléia entre em recesso até que possamos efetivamente esmiuçar os novos fatos e…”
“Fale direito!”, respondeu a águia. “Eu não distingo o sentido de suas longas palavras, e nem pretendo!”, terminou de dizer contraindo o pescoço, e se esforçando para ocultar um risinho de canto. Todas as outras aves começaram a piar em visível aprovação.
“O que se queria dizer”, falou o dodô, em tom exaltado, “era que o melhor meio para nos decidirmos seria organizar uma corrida eleitoral.”
“O que é uma corrida eleitoral?” perguntou Alice, sem muita vontade de saber, na verdade; mas o dodô seguia seu raciocínio, como se não ouvira a pergunta; e nenhum outro animal se dispôs a respondê-la.
“Então”, emendou o dodô, “a melhor arte, aquela que esclarece, é o jogo.”
Antes do “um, dois, três, já!” ela já partiu em disparada, queimando a largada, vendo-se logo que isso não era algo fácil de organizar, pois nem mesmo se havia decidido ainda qual seria a linha de chegada (e haveria quantos turnos?). Decorria cerca de meia hora desde que o corre-corre tinha começado quando o dodô aclamou de súbito: “A corrida terminou!”, e ninguém queria mesmo continuar a correr (votar!), com dor nos dedos. E todos se perguntaram ao mesmo tempo: “E quem diabos ganhou?”
Essa dúvida o dodô não respondeu sem muita prévia reflexão, de modo que ele se sentou com um dedo apoiando a testa (a mesma postura de Shakespeare em um de seus retratos), enquanto a multidão conservava o silêncio, na expectativa. Finalmente disse o dodô: “Cada um ganhou, e todos devem receber o prêmio, pois isto é uma democracia!”
“Mas quem deve DAR o prêmio?” perguntou todo um coro uníssono de vozes.
“Obviamente que ela!”, disse o dodô, com a pata a apontar Alice. E assim todos daquele círculo se dirigiram a Alice, gritando: “Prêmio, prêmio!”
Alice não fazia a menor idéia do que fazer; em seu desespero, meteu a mão no bolso e achou um pacotinho de doces (afortunadamente fechado, não estragado pela água salgada); o que ela ofereceu como recompensa. Ela distribuiu um quitute para cada.
“Contudo, saibam vocês que a menina também deve receber um prêmio”, interveio o rato.
“É justo”, respondeu com equanimidade o dodô. “O que tem você ainda no bolso?”
“Só um dedal”, respondeu Alice, desolada.
“Para mim, é bom o bastante”, continuou o dodô, embora o presente não fôra para ele. Todos estavam em círculo ao redor de Alice, no momento em que o dodô se apossava cerimoniosamente do dedal para examiná-lo com mais cuidado, e também para fazer o papel de presenteador, e logo encetava outro discurso com ar grandiloqüente: “Solicitamos que a menina aceite gentilmente esse elegante dedal, o qual eu do-dou, comparável a deliciosas ba-bagas de nossa pra-praça!”; e ao encerrar dis-discurso um tanto efêmero e pouco espetaculoso para tanta cerimônia, receberam, tanto o orador como a presenteada pelo seu próprio dedal, o aplauso geral. Tudo bem quando termina bem.
Alice achou tudo aquilo muitíssimo tolo; mas essa assembléia dos animais parecia se levar tão a sério e ser tão compenetrada no que fazia que ela não se permitiu rir em voz alta, preferindo, em vez disso, e na falta do que falar, inclinar-se em agradecimento em gesto simples, estendendo as mãos depois a fim de receber seu dedal de volta por graça dos animais. Foi uma performance bastante respeitável.
„Você me prometeu contar sua história“, disse Alice – „e donde vem isso de você desdenhar os kás e agás?“
„Ah“, suspirou o ratinho, „você decreto não ia querer conhecer minha história; pois é uma história muito longa e muito hemorrágica.“
Com isso, foi o ratinho que fez perguntas a Alice.
„O seu rabo não te deixa mentir? Será possível? Deve ser verdade!“
Alice via com admiração como a rabicha do ratinho se encolhia toda por entre suas patas traseiras; „mas como, hemorrágica? Que mágica faz você então?
„…Vamos, coragem, não se esquive tanto! eu tenho de te fazer perguntas, senão não terei com o que passar os próximos dois dias.“
„…caro Senhor, sem juiz, sem testemunhas, nada disso é necessário!“
„Eu sou testemunha, eu sou juiz“, falou, com uma careta astuta e cortante, „A pergunta me convém e condena-o à morte!“
„Não passe da medida!“, pronunciou o rato, se sentindo enforcado pelas palavras de Alice. „O que é que você está pensando?!“
„Peço perdão“, respondeu Alice, muito contristada: „mas é que você mudou de assunto umas 50 vezes, eu acho, mudou mais que de mão o bilhete premiado…“
„Pré…miado!!“, exclamou o rato, resoluto e já fora de si.
„Premiado!“, exclamou Alice, que gostava tanto de fazer novos amigos, e via no rato mais um. „Ó, mas e agora, quer mudar de assunto quando o papo eu engato??“
„En…gato!!“, contestou o rato por reflexo, começando, incomodado, a se mexer do lugar. „Já não posso mais escutar uma palavra quando você brinca com essas coisas!“
„Eu não fiz por mal!“, se desculpou outra vez a pobre Alice. „Ah, mas você é tão, tão sensível!”
O rato só resmungou em resposta.
„Por favor, volte, e conte-me sua história direito!“, insistiu Alice num berro; e os demais, todos em coro: „Isso, por favor, vai, conta!“ – mas o ratinho se tremeu todo, de medo ou de raiva, balançou a cabeça e seguiu adiante a passos rápidos.
e uma velha sapa aproveitou o ensejo para confidenciar a sua filha: „Sim, sim, minha criança! aproveite essa lição, nunca deixe o mau humor prevalecer! „Ó, cale esta língua grande, mamãe!“, respondeu a jovem sapa malcriada.
„Eu queria muito que Diná estivesse aqui, ah, como eu queria!“, exclamou Alice em voz alta, mas sem se dirigir a ninguém em específico. „Diná iria atrás dele com toda certeza!“
„E quem é Diná, se posso lhe perguntar?“, ousou o papagaio.
Alice respondeu com firmeza e comoção, com aquela firmeza e comoção de quem fala do coração: „Diná é nossa gata, e o passatempo dela é caçar ratos, caça tão bem que vocês nem imaginam! E, ah!, ela já persegue pássaros também! Uma vez ela comeu uma avezinha que foi uma beleza! Ela fica com uma careta tão assustadora nessas horas!“
Essa confidência deu azo a uma bagunça muito maior que a da corrida eleitoral de agora há pouco. Num piscar de olhos os bichos que voavam haveriam de dar o fora: uma pega-rabuda velhinha, coitada, se encolheu toda; antes de pronunciar: „Eu tenho mesmo de ir para casa! Esse sereno não é nada bom para minha garganta!“ e um canário pipilou para seus filhotes: „Vamos, vamos, criançada! Já está na hora de dormir, vamos para a cama, vamos!“ Com essas convincentes desculpas e fórmulas protocolares foram-se afastando todos, deixando Alice completamente sozinha no meio da sede daquela grande assembléia, agora deserta.
* * *
„a duquesa! a duquesa! Ah, minhas patas tão molengas! ah, minha pelugem e minha barba! Ela vai me tosar e enforcar, tão certo como furões são furões! Ah, onde elas podem ter caído no caminho? Eu não entendo!“
„Que é que você faz aqui, Mariana? Vá neste instante a sua casa e me arranje um par de luvas e um leque! Depressa!
Entrementes, chegou Alice a um quartinho bem arrumadinho, com mesa que dava para uma janela e, lá fora (como Alice já esperava) um leque e dois ou três parzinhos de luvas de tafetá … Dessa vez, nada de bilhetes nem recados como „BEBA-ME“. Mesmo assim, embebida em confiança, se me permitem a expressão, Alice puxou a tampa e botou a garrafa entre os lábios.
„Mas“, disse Alice, „quer dizer que não fiquei mais alta? Bem, isso é um alívio! – não ser uma mulher altona… – se bem que… meninas altas não têm de fazer dever de casa nem ir pra escola! Ah, ISSO eu não queria ter de fazer!“
„Ah, simplória Alice!“, disparou ela para si mesma. „Como poderia você estudar por aqui? Olhe ao redor, por um acaso você está vendo algo parecido com uma escola? Nem muito menos um livro-texto eu vi, desde que cheguei!“
„…Aqui, Abelagarto! o senhor exclamou: você tem de trepar pela chaminé!“
Primeiro ouviu um coro geral: „Lá está o Abel a voar!“, depois a voz do coelho, solo: „Na queda, entalou o seu traseiro!“, e em seguida um grande silêncio. Por último, de novo uma confusão de vozes:
– Não, prendeu foi a cabeça!
– Mais aguardente!
– Não o sufoquem!
– Como vai, meu velho? que foi que lhe aconteceu? conte-nos a todos!
„Eu mesmo não sei – Mas estou bem, obrigado! Estou muito melhor – mas ainda estou muito irritado para contar“
Chovia muitíssimo, mas Alice conseguiu correr logo para debaixo duma mata bem espessa.
„O principal a fazer agora“, disse Alice consigo, enquanto aguardava debaixo do arvoredo, „é esperar juntinho do maior tronco dessa floresta; e, em segundo lugar, achar a estrada para aquele jardim tão lindo. É, não tem plano melhor!”
Soou mesmo como um plano primoroso, bem-feito, como se de há muito pensado e repensado. O único problema era que ela podia até ser boa para planejar, mas era péssima para executar!
* * *
O bom conselho da lagartixa.
A lagartixa e Alice se entreolharam longamente. Finalmente, a lagartixa agarrou seu hookah e o levou à boca, aproveitando, enlanguescida, cada parcela da fumaça. Sua voz saiu toda lerda e anestesiada: „Quem é você?“
Não foi um começo de conversa promissor. Alice respondeu: „Eu – eu não sei bem, agora – talvez eu soubesse quem eu era hoje quando acordei; mas tanta coisa aconteceu e me transformei tantas vezes que agora estou confusa!“
„Que quer dizer?“, respondeu a lagarta, insolente. „Me esclareça!“
„Receio que eu não possa esclarecer nada, lagartixa, porque eu não sou eu, a senhora vê agora?“
„Eu não vejo, não.“
„Eu não consigo mesmo explicar…“, emendou Alice, muito polida: „…o que eu não consigo entender. Quando alguém encolhe e aumenta tantas vezes num só dia, fica todo atrapalhado!“
„Não, não fica, não!“
„Talvez você não tenha percebido, mas é que quando você está no casulo se metamorfoseia, fica mais curta ou mais longa, quer dizer, os dois, porque umas partes suas encolhem e até somem, outras encompridam, até nascem! E aí vira uma borboleta, não é engraçado isso?“
„De modo algum.“
„Você muda muito, muito mesmo, parece outra! até onde EU sei isso é uma coisa muito curiosa de ver!“
„VOCÊ!“, a lagarta respondeu com desprezo. „Quem é você então?“
E aqui estávamos de volta ao começo do diálogo outra vez! Alice já estava irritada com a situação, porque falava muito, com cortesia e afeto, e recebia respostas curtas e grossas. Parecia que não ia dar liga! Ela atirou a cabeça pra trás e falou, muito convencida, mudando de estratégia: „Eu ACHO que VOCÊ devia me falar PRIMEIRO QUEM É VOCÊ?!“
„POR QUÊ?“
Ai, outra pergunta difícil. E Alice estava quase sem chão ou meios de se desembaraçar. Alice decidiu que não ia conseguir nada ficando ali e tentando seu melhor, então já estava prestes a seguir o seu caminho.
„Venha cá!“, disse inesperadamente a lagartixa, „eu tenho algo importante a dizer!“
Alice, por mais brava que estivesse, achava difícil de resistir à curiosidade. Deu meia-volta e, fingindo relutância, aproximou-se.
„Não seja desconfiada!“, observou a esperta lagartixa.
„Isso é tudo?“, perguntou Alice, incrédula e decepcionada demais para tentar se comportar diante da estranha interlocutora.
„Não…“
Alice pensou: quer saber? Vou esperar e ter paciência, não tenho mesmo nada melhor que fazer! Talvez, quem sabe, essa daí desembucha e fala alguma coisa de útil. Vale o esforço, já que já estou aqui! Alguns minutos depois, exalou fumaça a lagartixa, sem a menor pressa; até que, por fim, tirou o hookah da boca e pronunciou: Você está dizendo, mocinha,… que t a m b é m se t r a n s f o r m a ?!“
„Eu não consigo, lagartixa, passar dez minutos simplesmente vendo as coisas gigantescas ou minúsculas… Estou sempre tendo que trocar tudo!“
„Não consegue ver as coisas só dum jeito?“
„É isso que eu estava tentando dizer esse tempo todo! Como se eu fosse uma estranha pro meu próprio corpo, entende? Mas não posso evitar!“, finalmente pôs tudo para fora a borocoxô Alice.
„E dizia: Você é velho, Pai Martinho“, disse a lagartixa.
Alice cruzou as mãos sobre o peito e começou a recitar:
„Você é velho, Pai Martinho“, assim dizia Juca Troll,
“E suas cãs tão compridas;
Mesmo assim você fica o tempo todo de ponta-cabeça;
Como é que você nem transpira?”
„Quando eu era jovem,“ o Pai Martinho respondia,
„Exclamava: Ai, para o cérebro esse frio não é bom!
Foi aí que descobri que eu não tinha nada a perder
Então encarei com coragem a questão,
Aquecendo meu cérebro no chão!“
„Você é velho“, dizia o rapaz, „e é tão gordo!
Não tinha como dar cambalhotas para trás na sua idade sem tombar!
Cruzes vezes mil! Como é que você dá conta?“
„Quando eu era jovem“, respondia o velho ao jovem tão confuso,
„Eu me machuquei e caí no chão, que estorvo!
Aí passei essa pomada, que me deixou tão elástico
Como dois de você, sua anta!“
„Você é velho“, dizia o rapaz, „e todo desdentado,
Como é que pode conseguir a carne dura mastigar?
Seu segredo você me contará!“
„Ah, eu muito discuti na vida porque era magistrado,
Sobretudo com minha querida mulher, dona do lar;
Nessa arte fiquei tão refinado,
Que minha boca até aço tritura se deixar!“
„Você é velho“, dizia o rapaz, „e nem era assim tão graçola;
Agora fica aí todo-prosa
Igual artista de circo! Até uma enguia
Equilibra – na ponta do nariz!
Me explica todo esse dom!“
„Três respostas tiveste tu, ó besta, e já basta!
Ou vou te ensinar uma lição (das boas),
No quadro-negro e de giz
Para ver se esta tua cabeça quente esfria!“
„Tem algo errado“, disse a lagartixa.
„É, tem uns errinhos na canção, eu acho“, disse Alice, acanhada; „Eu sou boa em trocar umas palavras pelas outras sem querer…“
„Não é isso: está errado do começo ao fim“, disse a lagartixa toda empertigada. Seguiu-se um silêncio comprido de um minuto.
A lagartixa foi quem voltou a falar primeiro: „Quão grande você QUER ficar?“.
„Ah, não é ficar desse ou daquele tamanho que eu acho ruim, é só ficar toda hora trocando de tamanho que não é lá muito agradável, concorda?”, respondeu Alice com vivacidade.
„Não, não concordo, não!“
Alice nem respondeu. Nunca na vida ela se sentiu tão contrariada por alguém! Ou essa lagartixa não prestava ou, ela pensou, estava ficando muito suscetível à opinião alheia!
„Você está satisfeita agora?“, deu corda de novo à conversa a lagartixa.
„Eu queria ficar, na verdade, um pouquinho mais alta, senhora lagartixa, se me fosse permitido escolher… três polegadas e meia não é um tamanho muito bom!“
„Pelo contrário, isso é ser bastante alto, a altura ideal, eu acho“, rebateu a exasperada lagartixa, que não admitia contrariedades. Para acompanhar a fala, se estirou toda como estava em cima da folha, para parecer mais impávida, o que a deixava com 3 polegadas de altura.
„Mas é que eu não estou habituada!“, lançou a modo de escusa a pobre menina, não sem muita manha na voz. E neste momento ela pensava: „Eu queria poder pegar numa mão todas essas criaturas atrevidas cheias de más-línguas!“
„Pois com o tempo todo mundo se acostuma“, disse a lagartixa sonolenta antes de voltar a fumar seu hookah, toda apascentada.
Dessa vez Alice aguardou pacientemente, pois queria muito pedir um favor à senhora lagartixa. Depois de dois ou três minutos com o hookah na boca, e depois de dois arrastados bocejos, a conversa podia reiniciar.
A lagartixa voltou com muitos cogumelos, rastejando sob o peso de tantos. Ao fim da trilha dividiu os cogumelos em dois montes, na grama: „Os deste lado a aumentam; os do outro lado a encolhem“.
„Deste, do outro? Qual é qual?“
„Dos cogumelos!“, e de repente tinha sumido do campo de visão de Alice.
Finalmente, para saber quais cogumelos faziam o quê, os do bolso esquerdo e os do bolso direito, que ela tomou o cuidado de manter separados, ela colocou na palma das mãos uma pequena amostra de cada bolsinho e se dispôs a experimentá-los, mordicando-os.
„Agora vejamos, qual é o efeito dos pedaços de cogumelo da mão direita?“ Hora de provar o efeito: num piscar de olhos ela sentiu imensa dor no queixo, pois ele se chocou com os seus pés!
Ela se assustou com sua rápida transformação, mas não havia tempo a perder agora que ela sabia que comer do bolso direito fá-la-ia cada vez mais anã. Logo ela se pôs a mordiscar da mão esquerda. Foi trabalhoso, já que seu queixo estava tão perto dos pés que quase não havia como abrir a boca e fazer passar um pedacinho de cogumelo.
„Ah, por fim minha cabeça está livre!“, exclamou Alice, com bastante entusasimo, o que não a impediu de, num piscar de olhos, se encontrar novamente angustiada, ao perceber que seus ombros não podiam ser vistos em lugar algum: tudo o que ela podia enxergar, olhando para baixo, era seu monstruoso pescoço, que começava num pontinho lá embaixo e chegava até sua cabeça agora elevada aos céus. Era como uma vareta ou um mastro muito fino estendido por sobre um mar verde.
„O que será que é toda essa coisa verde?“, pensou Alice. „E cadê meus ombrinhos, pra onde eles foram? Mesmo minhas pobres mãozinhas, não consigo nelas reparar! Só sei que ainda tenho olhos porque vejo – não os olhos, é claro…“ Mas evidente que ela ainda sentia seus membros, então experimentou tocar as coisas. Nada ela alcançava, mas ainda sentia seus pezinhos sobre a grama. No entanto nada se produziu em sua visão: tudo era menos do que um ponto escuro lá no chão.
Pelo visto e pelo não visto, ela era incapaz de alcançar seu rosto com suas mãozinhas. Ela teve então a idéia de baixar sua cabeça, comprimindo seu enorme pescoço. Para arroubo seu, ao flexionar este membro, ele obedecia seus comandos como se fôra o corpo de um animal invertebrado, uma serpente mesmo. Alice então serpenteou pelo ar, de forma um tanto circense e risível, um zigue-zague após o outro. Naturalmente que foi-se dirigindo cada vez para mais perto do mar verde, curiosa. Agora que podia ver de mais perto, notou que os tons mais escuros nada mais eram que as folhas das copas das árvores mais elevadas do grande jardim! Assim que ela se embrenhou por ali todos os galhos começaram a farfalhar, que confusão! Uma pomba, incomodada com a intrusão, apareceu diante dos olhos da serpente-Alice, e cutucou sua carita com acintosas chicotadas das asas.
„Olha a cobra!!“, guinchou a valente pomba.
„Eu não sou uma cobra!“, defendeu-se imediatamente Alice, indignada pela ofensa, aliás. „Me deixe em paz!“
„É cobra sim, senhora!“, repetiu a pomba, mas com um pouco mais de receio, chiando em vez de guinchando. „E o pior é que nenhuma cobra deixa de ser má e traiçoeira!“, completou a pomba, já soluçando, a muito custo, tanto era seu medo instintivo da criatura superior.”
„Eu não sei do que você está falando!“, foi a resposta de Alice.
„Nas raízes das árvores eu procurei, no riacho eu procurei, na sebe eu procurei…”, sem reparar na aflição de Alice; “…mas essas cobras! Nenhuma que conheci era boa!“
Alice quase não entendia a situação em que se metera; cogitou, contudo, que era inútil continuar arrazoando com a pomba e que o melhor era dar no pé (no pescoço, propriamente) dali.
„Você não sabe o trabalho que é até chocarem esses ovos“, arremeteu a pomba. „vigiar dia e noite para que bichos como cobras não se banqueteiem com meus próprios filhotes ainda nem nascidos! Não prego o olho há três semanas, imagine!“
„Ó, lamento muitíssimo, parece que você teve muitos dissabores na vida“, disse Alice, que não via outro jeito de entabular conversa que não expressando sua sincera opinião.
„…e então foi que eu procurei outra árvore dessa floresta, um galho bem alto, onde não pudesse chegar nenhuma cobra“, continuou a pomba, ainda cheia de desconfiança. „Eu realmente não esperava que uma cobra me caísse do céu perto do meu ninho!! Xôôô, cobrona!“
„Mas eu já disse que não sou nenhuma cobra! Eu sou uma – eu sou uma–“
„…É uma o quê, então? Já vi tudo: você quer é me passar a perna, sua cobra-raposa! A mim você não engana!“
„Eu – eu sou uma menininha“, prosseguiu Alice, quase gaga, com cara de coitada. Depois de tantas transformações no mesmo dia, e de comer as migalhas que o cão amassou, a jovem se sentia em verdadeira crise de identidade, não muito diferente das adolescentes com o dobro de sua idade.
„Um papinho muito bonito, realmente!“, atalhou a pomba, com profundo desdém. „Eu passei penas e penúrias toda a minha vida, muito mais que uma menininha com certeza já passou, e vi muita coisa, viu, mas nunca uma pessoa com um pescoço de coooobra…! Não, não! Você é uma cobra safada e mentirosa! Você não pode esconder os fatos!Nem vem que não tem, hoje você não come UM ovinho no que depender de mim!“ Um discurso digno de uma fábula de La Fontaine!
„Eu comi ovos hoje, mais cedo“, não resistiu a confessar Alice, com a melhor das intenções. „Mas é que menininhas comem ovos igualzinho as cobras!“
„Eu acho que não!“, retrucou a pomba, alerta: „Porque quem faz uma atrocidade dessas só pode ser uma serpente muito da esperta, mas não mais esperta do que eu!“
Toda essa linha de raciocínio era tão nova para Alice que ela parou um par de minutos a refletir, em silêncio. A pomba interrompeu sua meditação com a seguinte estocada: „O que você quer são ovos, isso eu sei bem demais, mais do que gostaria de saber, na verdade; só que pouco me importa se você é uma menininha comedora de ovos ou uma serpente, o que me importa é que não vai parar ovo nenhum na sua barriga, está me entendendo?!?“
„Pra você pouco importa, mas pra mim importa muito! E além do mais eu não estou querendo ovo nenhum e, quando eu quiser comer, não vou comer dos seus. Eu não como ovo cru!“
„Então vá embora de uma vez, ora ovas!“, disse a pomba, no auge da irritação, enquanto sentou empertigada em seus ovos. Alice foi baixando a cabeça o melhor que podia pelo emaranhado de galhos e troncos. Mas, como se pode imaginar, como uma criança faz um nó cego no seu cadarço que mal aprendera a amarrar, não duraria até Alice se enroscar no próprio pescoço e entre as árvores! „Ai, ai, quantos ramos, socorro!“ Como uma aprendiz de costureira, ela teve de retroceder várias vezes e desfazer o que tinha feito. Nisso um bocado de tempo já havia passado. Finalmente ela alcançou com a cabeça as mãozinhas, com pedacinhos de cogumelo à espera. Dessa vez ela tomou muito mais cuidado, mordiscando porções bem pequenininhas, ora duma mão, ora da outra, para não ter mais surpresas desagradáveis. Depois de mil transformações para mais e para menos, ela finalmente ficou grandinha do jeitinho que queria.
E o que ela queria era voltar ao seu „tamanho original“, se é que é possível uma criança de 7 anos assim pensar e fazer sentido. Mas o fato é que Alice voltava a ter o tamanho de uma menininha de sua idade, poucos centímetros a mais ou a menos, que importa! No começo ela se sentiu muito engraçada, desacostumada que estava com o mais prosaico dos normais. Mas logo voltou a seu costume de falar alto consigo mesma, da forma mais lúcida que as circunstâncias permitiam: „Ótimo, meu plano deu certo! Nunca pensei que fosse tão confuso crescer e diminuir! Depois de mudar tanto, não sei o que pode me acontecer no momento seguinte! Agora sou da altura correta: mas quem me garante que daqui a uns minutos não vou estar do tamanho deste capim, ou gigante como aquela árvore? Bom, estou do tamanho certo para passear no jardim!“ Enquanto falava, ela caminhava, e veio a deparar com uma clareira com uma edícula ao centro. Ela tinha a altura de algumas polegadas. „Quem eu sou agora não me permite entrar aí, pois sou enorme para quem quer que habite nesta casa! Fora que eu ia deixar quem quer que esteja aí muito assustado, se me olhasse pela janela!“ E lá foi a esperta Alice mordiscar de leve do cogumelo que a diminuía… Isto é, ela mordiscou uma porçãozita da mão direita. E diminuindo ora demais até para a portinha, outrora aumentando demais para caber ali dentro, finalmente ela chegou às dimensões certas para bater e entrar. Alguém abriria?
* * *
„Por que seu gato ri assim?“
„É um gato amarelo, porque o sorriso do gato é amarelo!“
„Eu não sabia que os gatos riam tanto, muito menos amarelo; aliás eu não sabia que esses animais PODIAM rir!“
„Vê-se que você não sabe muito…“, disse a duquesa, „…pois é assim como lhe digo.“
„Eu só queria varrer a entrada da minha casa“, deu um rouco rosnar a dequesa. „o mundo vai continuar girando como sempre – e ninguém devia falar da vida alheia!“
„24 horas, penso eu; ou seriam 12? Eu–“
„Repreenda teus jovens pra lá,
E dê-lhes uma sova se alguém espirrar;
Ah, tudo são cachos e cores
Quem é que se irrita com esses dissabores?“
CORO
(a cozinheira e o bebê completaram.)
„Au! au! au!“
„Eu dou uma bronca no meu moleque,
E dou-lhe uma sova quando espirra;
Ora, eu sei que pimenta irrita
Quando cai nas suas narinas!
CORO
„Au! au! au!“
* * *
„Não tem assento! Não tem assento!“, gritaram, assim que Alice se aproximou. „Pra mim tem lugar o bastante, sim, vejo cadeiras vazias!“, disse Alice, relutante diante da má vontade geral, sentando-se na grande cadeira com braços ao final da mesa.
„Cai-lhe bem um vinho?“, ouviu-se da lebre-de-março, como que coagindo ao perguntar.
„Eu não gostaria, esta é SUA mesa; não é para mais de três pessoas.“
„Seu cabelo deve ocupar o resto“, disse o Chapeleiro.
“Como vê, você não pode afirmar que ‘eu vejo porque eu como’ no lugar de ‘eu como porque eu vejo’.”
“Sim, você também não pode afirmar…”, contemporizou a lebre,“…‘eu quero porque eu posso‘ no lugar de ‘eu posso porque eu quero‘!“
“’Eu respiro quando eu durmo‘ nunca vai querer dizer ‚eu durmo quando eu respiro‘!“
„O que mais temos pra hoje?“ … ele tinha seu relógio colocado sobre a mesa, e ficava muito nervoso e angustiado, sempre consultando-o, e quando não observava os ponteiros se punha intrigado, chacoalhava o dispositivo e punha-o na orelha para ver se não teria parado. Alice caiu em si e então respondeu: „É o quarto.“
„Dois! Dia errado!“, pareceu se rejubilar o Chapeleiro. „Eu lhe disse que a manteiga estragaria!“, pronunciou, sentando-se e olhando com repulsa para a lebre.
„Era a melhor manteiga“, respondeu ela, cabisbaixa.
„Sim, mas agora temos que comer torrada sem acompanhamento“, resmungou o Chapeleiro. „Aqui essa faca não serve para nada, pois não temos no que passar!“
A lebre pegou o relógio e o observou, taciturna; em seguida molhou-o em sua xícara de chá e olhou-o de novo, mas em vão! “Era mesmo a melhor manteiga…“
“Esse relógio é muito engraçado!“, observou – com a boca – Alice. „Ele mostra o dia, não as horas!“
“E não deveria?“, resmungou a lebre; „Que mostrasse as horas, ainda vai… mas onde mostraria o ano?“
“Em lugar nenhum, é lógico…“, respondeu a esperta Alice, „…porque não é preciso relógio para indicar algo tão longo!“
“Pois é este o propósito do MEU relógio“, respondeu o Chapeleiro.
“Mas qual é a resposta?“, perguntou a menina.
“Ora, não faço a menor idéia“, respondeu o Chapeleiro.
“Nem eu!“, respondeu a lebre.
Alice suspirou, irritada. “Eu acho que vocês não sabem usar o tempo, se propõem charadas das quais não sabem a resposta!”
“Se você soubesse usar o tempo tão bem quanto eu…“, arremeteu o Chapeleiro, “…você não diria isso, porque nós sim é que sabemos usar o tempo!“
“Eu não sei o que você quis dizer.“
“É claro que você não pode saber, nem sabe poder!“, respondeu o Chapeleiro, meneando a cabeça depreciativamente, e depois olhando a menina do alto. “Você não faz a mínima idéia da noção de tempo!“
“Eu acho que não“, respondeu Alice com cautela. “Mas ontem mamãe me disse que eu devia passar o tempo com minha irmã mais velha.“
“É? Ela devia estar de muito mau humor para lhe dizer algo assim; pois o tempo não é alguém com quem outr’alguém consiga fazer alguma coisa, muito menos passar! Quando alguém quer ser firme com o tempo, usa um relógio. Por exemplo, uma certa vez eram 9 da manhã. Não adianta fazer nada, por mais rápido que seja, sequer dar bom dia, que depois já não são mais 9 da manhã! Porque o tempo a usou, não foi você que usou o tempo! Faça a experiência, e quando você acabar, vai ter de escrever outra coisa no relógio! Bobeou e… Uma e meia da tarde–é assim que é o tempo!”
“Ah, isso seria esplêndido!“, disse Alice, pensativa, “mas então eu não estaria faminta quando desse a hora, não é verdade?“
“De início talvez não…“, respondeu o Chapeleiro, “…mas até uma e meia com certeza estaria!”
“Mas então, o que é que todos vocês fazem aqui, estão comemorando alguma coisa, ou tomam chá aqui todos os dias?“
O Chapeleiro não pôde evitar baixar a cabeça. “Eu não venho aqui todos os dias! Nós tínhamos nos reunido a última vez na última Páscoa…”
“Ah, papagaio, ah, papagaio!
Quão verde é sua pena!,
Será que você conhece essa música?”
“Eu acho que já ouvi algo parecido!“
“E continua assim“, foi puxando o Chapeleiro, mais empolgado:
“Você não verdeja só na calmaria,
mas até quando chove e quando neva!
Ah, papagaio, ah, papagaio!“
Aqui se juntou a capivara para cantar, sonolento: “Ah, papagaio, ah, mamagaia, ah, papagaio, ah, mamagaia!“
“Obrigado, eu tinha me esquecido de que a rainha declamara: ‘Abominável aquele que mata o tempo com algazarras. Este deve ser decapitado!’“
“Ó, que horror! que desalmada!“, exclamou Alice.
“E pra mim, depois disso, é como se não existisse o tempo! Agora são sempre seis horas!”
Isso fez Alice ter de concluir, de forma inteligente: “Por isso é que tem tantas xícaras de chá na mesa?”
“Exato. Sempre é hora de servir o chá, e não temos tempo nem de lavar as xícaras.”
“Então vocês estão sempre sentados aqui? O tempo todo?”
“Assim o é. Enquanto as xícaras servirem.”
“Mas e quando vocês precisarem começar do início uma nova rodada de chá?”
“Ora, quando o assunto acabar nós iniciamos outro. A pequena dama pode por exemplo contar uma estória.”, bocejou verbalmente a capivara.
“Ah, no momento não consigo pensar em nada!”, disse Alice, preocupada em acabar cometendo algum desaforo.
“Então deixe a capivara falar!”, pronunciaram os outros dois. “Vamos, capizzzzara, acorda!” E deram-lhe, de cada lado, um beliscão caprichado.
A capivara foi despertando e abrindo seus olhos vermelhos lentamente. “Eu nem dormi”, falando com voz de sono: “Eu ouvi cada palavra dessa última conversa.”
“Conte-nos uma estória!”, pediu a lebre.
„Era uma vez três irmãzinhas…”, começou a capivara. “Chamavam-se Maria, Lúcia e Aparecida, e viviam juntas num poço–”
“Como viviam assim?”, perguntou Alice, parecendo excessivamente interessada. Queria saber como faziam para beber e comer, na verdade.
“Elas viviam de xarope”, explicou a capivara, depois de pensar um minuto inteiro.
“Mas isso seria impossível; elas iam ficar doentes rapidinho!”
“Elas eram isso mesmo, as três eram muito, muito doentinhas.”
“Mas POR QUE elas viviam logo no fundo do poço?”
“Não quer mais um pouco de chá?”, perguntou a lebre a Alice com muita pompa.
“Um pouco mais? Eu não cheguei a beber nem uma gota! Se não bebi nada, não posso beber mais.”
“Você quis dizer que não pode beber menos”, interveio o Chapeleiro. “É muito fácil beber mais do que nada.”
“Ninguém pediu a sua opinião!“
“Por que elas viviam num poço?, anda!”
A capivara piscou lentamente e em seguida respondeu, repetindo o que já havia dito: “Era um poço de xarope.”
„Era nada!“, disse Alice, furiosa. Mas o Chapeleiro e a lebre responderam juntos: “Xxxxxhhh!”. E a capivara resmungou:
„Quem é mal-educado não pode ouvir estórias!”
“Não ligue! Continue sua estória!”, disse Alice, apaziguadora. “Não vou mais interrompê-la. Vou ser toda ouvidos!”
„As três irmãzinhas também – aprendem a criar coisas, saiba você!”
“O que elas criaram?”, perguntou Alice, interrompendo, antes que se esquecesse do que queria perguntar.
“Xarope”, disse a capivara sem pensar, mas com as pálpebras a pesar.
“Eu preciso de xícara limpa”, atalhou o Chapeleiro, “nós precisamos de mais espaço aqui!”
O Chapeleiro foi o único que tirou vantagem da troca, e Alice continuou com tanto chá quanto antes (zero mililitros), como a lebre teve de se contentar em lamber o prato raso, pois a leiteira estava quase vazia. Na tentativa de beber o pouquinho de leite ainda disponível, derrubou tudo.
„Mas não entendo. Como elas conseguiram fazer o xarope?”
„Ora, não é necessária nenhuma técnica em especial para fazer qualquer xarope”, contemporizou o Chapeleiro. “Você nunca viu como é fácil fazer um xarope de qualidade, de muita qualidade, da melhor qualidade? Ai ai, sua cabeça de vento!…”
“…então elas fizeram uma mistura – de tudo que começasse com X.”
“Por que com X?” perguntou Alice, cheia de inocência.
“E por que não?”, contestou a lebre.
Alice permaneceu calada.
„…tudo o que começa com X, como xícara de chá, xampu do Xenofonte, xixi de rato, xarrua do Xá, xérox de uma foto da lua, xô!, xeiro e até algumas vezes o ‘x’ do tesouro!”
„Ora, não me xame de Xuxa“, disse o Chapeleiro.
Isso foi o estopim, indelicado demais para a menina Alice: ela ficou muito, muito magoada, se levantou e se afastou. A capivara continuava piscando como se fôra cair dormindo a qualquer instante, e os outros dois nem repararam em sua saída, muito embora ela tenha olhado para trás ainda umas duas vezes, na esperança infantil de que eles pudessem se desculpar e de que ela voltaria a se sentar com eles. Da útima vez que ela olhou para trás viu a capivara desmaiada com a cara metida no bule de chá.
„Essa foi a companhia para tomar chá mais XATA que XÁ encontrei, na minha vidinha toda inteira!”
Ela passou um bom tempo caminhando e contemplando aquele jardim maravilhoso, passando por debaixo das flores do canteiro e das tão cheirosas e frescas filhas primaveris da mãe-natureza.
* * *
„Atenção, Cinco! Vê se não respinga tinta em mim!”
“Sete resvalou no meu cotovelo!”
“Isso não TE ajuda em nada, Dois”, falou o Sete.
“Suas cabeças! Suas cabeças—”
„Disparate!”, respondeu Alice, bem alto e segura de si, e a rainha se conservou em silêncio, mas por bem pouco.
O rei levou a mão ao seu braço e disse brandamente: “Espere, querida, não passa de uma criança!”
A rainha olhou para o rei com cara de poucos amigos um só instante, depois fingiu que se esqueceu do marido e da garota e falou aos valetes de copas deitados de bruço: “Levantem daí!”
“Vocês não precisam morrer!“, disse Alice, metendo as cartas num vaso de flores das proximidades. Os três soldados foram daqui para ali, atrás dela, e depois os trancaram com placidez.
“Suas cabeças caíram?”, berrou a rainha.
“Suas cabeças já eram, conforme as ordens de vossa majestade!”, bradaram os soldados em resposta.
“Isso é bom!”, berrou a rainha. “Você sabe jogar croquet?”
Os soldados seguiram quietos, observando a reação que a pergunta produziria em Alice.
“Sim!”, berrou Alice.
„Então junte-se a nós!“, bramiu a rainha, e Alice se juntou aos jogadores, com cara de enxerida.
“Est… está um dia lindo!”, pronunciou uma voz acanhada perto de si. Ela se aproximou do coelho branco, que ao contrário das palavras que dizia manifestava intensa preocupação no olhar.
“Demais! Cadê a duquesa?”
„Sh, shhh!“, chiou o coelho, bem baixinho, com o dedo indicador encostando na boca. Seu nervosismo aumentou. Avhegou-se ao pé do ouvido de Alice e confidenciou: “Ela foi condenada à morte.”
“Por quê?”
“Você quis dizer: que tragédia?”, perguntou o coelho.
“Não, não, não foi isso que eu quis dizer. Eu não acho nada, não acho que é uma tragédia! Eu perguntei: POR QUÊ?”
„Ela deu uma bofetada na rainha”, esclareceu o coelho. Alice riu alto. “Shhh, quieta!”, sussurrou o coelho cada vez mais baixo. “A rainha vai ouvi-la!” Com efeito, nesse mesmo instante a rainha se aproximava, gritando: “Vamos, todos em seus lugares!”
O terreno era todo sulcado, cheio de subidas e descidas, montículos e buracos. A bola era na verdade um ouriço, e cada taco um flamingo, que os soldados eram obrigados a carregar no colo e manipular.
„Como vai você?“, disse o gato, que na verdade era só um sorriso de gato.
Alice esperou os olhos aparecerem para assentir com a cabeça. “Mas não adianta nada conversar com você”, disse a menina, “até suas orelhas aparecerem, pelo menos”. Enfim surgiu a grande cabeça, em sua totalidade. Ali estava Alice com seu flamingo-taco; contou-lhe tudo que transcorrera até agora no jogo, finalmente certa de que o gato, com suas orelhas, podia ouvir cada palavrinha.
„Como lhe pareceu a rainha?” perguntou o gato, num sussurro prudente.
“À vezes acho muitas coisas, às vezes nada. Tenho muito o que falar sobre isso…”
Vendo que a rainha se aproximava, não continuou sua fala, à espera de que ela se aproximasse mais. A rainha ia exortando todos que encontrava pelo caminho a não ficarem à toa no campo, ordenando que cada atleta se esforçasse por demonstrar seu valor, e relembrando que o ócio era contra a lei.
Quando chegou perto o bastante de Alice, esboçou um sorriso e perguntou com quem ela conversava. Fitou aquela cabeça aérea do gato com muita curiosidade sem esperar resposta.
“É um amigo meu – um gato-sorridente. Permiti Vossa Majestade que que vo-lo apresente.”
„Sua aparência não me agrada“, disse a rainha. “Ele deve beijar minha mão agora, em sinal de devoção.”
“Ó, preferiria não!”
„Ora, não seja impertinente! E pare de me olhar assim!” A cabeça do gato se deslocou para trás de Alice enquanto ouvia essas queixas da rainha.
“O gato olha para a rainha, a rainha olha para o gato”, disse Alice. “Li isso em algum lugar, só não lembro onde!”
O carrasco afirmou que não era possível decapitar uma cabeça que não tinha nenhum corpo. Que nunca vira coisa semelhante. E que mesmo quando se é avançado em idade é ainda possível aprender algo de novo.
A rainha objetou, por seu lado, que todos que tivessem uma cabeça deviam poder ser decapitados, e que isso sequer merecia virar tema de discussão.
* * *
Alice não estava gostando de várias coisas em seu aspecto: em primeiro lugar, que a duquesa fosse tão feia; em segundo, que fosse tão gorda; e terceiro, que seu queixo pontudo chegasse quase a espetar o ombro da menina. Com um queixo tão afiado, era como estar refém de uma espada!
“Você por um acaso chegou a ver o FALSO CÁGADO?”
“Não”, respondeu Alice. “Eu nem sei o que é um FALSO CÁGADO!”
“É um cágado que vira uma falsa sopa de cágado”, explicou a rainha.
“Eu nunca vi até hoje, nem nunca ouvi falar de uma coisa assim.”
“Venha já; ela deve contar-lhe a história.”
Logo ela chegou perto de um grifo, que dormitava ao sol. [Se não sabe o que é um grifo, olhe o desenho, fazendo o favor – não, não olhe, pensando bem, porque aqui não tem (o desenho)!]
“Venha aqui, vá acolá, faça isso, façaquilo… Nunca em toda a minha vida fui tão mandada pelos outros!”
“Por que chamam-na Mamãe Broncaqui?”, perguntou Alice.
“Ela RALHA AQUI ou ralha ali o dia todo”, disse o falso cágado, emburrado. “Você é realmente estúpida.”
“Ah, então você nunca freqüentou boas escolas…”, condescendeu o falso cágado, achando-se, aliás, muito generoso por isso. “Em nossa escola as contas sempre vêm ao final – depois de Francês, aula de Piano, aula de costura. Essas são mais importantes.”
“Muito importante, tanto a nova como a velha, Marografia. A aula de Fonte – o professor de Fonte e Esguicho era um velho bacalhau, que costumava ensinar sua disciplina semanalmente. Ele ensinava a Fricção de Nadadeira e Manias, Fonte Oceânica, Cintilação Oceânica e Impressão Oceânica!”
“E quantas horas durava a classe?”, quis saber Alice, ou na verdade pronunciou essas palavras, querendo muito mesmo era mudar de assunto.
“Dez no primeiro dia”, respondeu o falso cágado, “nove no seguinte, e assim por diante.”
“Que escola mais gozada essa!”
“Esta é a razão de ser de um professor.”
„Então no décimo primeiro dia todos estão livres?”
“Naturalmente!”
„E o que acontece no décimo segundo dia então?”, perguntou Alice, excepcionalmente entusiasmada em termos de assuntos escolares.
“É o suficiente por ora”, interrompeu o grifo, no melhor dos intentos: “Conte agora você sobre o jogo.”
* * *
O balé das lagostas.
“Reparem se ela não tem ossos no pescoço!”
“Talvez você nunca tenha vivido debaixo d‘água”—(“Não”, respondeu Alice)— “e talvez você não tenha familiaridade com as lagostas”—(Alice queria ter dito “eu já provei uma vez”, mas se apercebeu a tempo da gafe e, no lugar, disse, simplesmente: “Não, nunquinha!”—“você não faz idéia de quão emocionante o balé das lagostas é.”
“Não, realmente não, que tipo de dança é?”
“Antes”, respondeu o grifo, “façam uma fila na praia—”
„Deve ser uma dança muito bonita”, disse Alice, ansiosa.
Então você não vem
você não vem
você não vem dançar comigo?
…
Não, eu não quero, não posso,
não irei dançar contigo!
„Você sabe por que esse peixe se chama lixa?”
“Não tenho a menor idéia. Por quê?”
„É porque”, respondeu o grifo, com uma voz solene e profunda, “o homem SE LIXA para conhecê-lo bem. Dessa forma você já tem uma coisa interessante para contar sobre suas aventuras!”
“…Veja minha terra e minhas marés verdes…”
“Essa é a coisa mais abstrusa que já ouvi!“.
“É, também acho, mmas é melhor ouvir até o fim”, aconselhou o grifo. E Alice continuou na escuta.
“Ma – ravilhosa so – pa!
Ma – ravilhosa so – pa!
Ra – inha das so – pas,
Mara-maravilhosa Sô! Pá!
* * *
No centro do tribunal havia uma mesa com uma torta tamanho família. Parecia tão apetitosa que uma mera espreitada na sobremesa deixava Alice morta de fome.
O juiz era na verdade o rei, que trazia a coroa em cima da peruca, e toda hora ele rodava a coroa, de modo que o frontispício ora estava na testa, ora na nuca; decerto que ele se sentia muito incomodado e pouco à vontade na posição.
„E aqueles 12 animaizinhos lá na frente, aposto que são os jurados”, pensou Alice.
Ela se repetiu essa palavra duas ou três vezes, porque parecia muito briosa aprendendo coisas assim difíceis. Depois ela pensou, com razão, que muitas menininhas de sua idade se sentiriam assaz invejosas por não saberem tudo isso que ela agora sabia.
“Mas que coisa mais tola!”, pensou alto Alice. De todo modo o coelho foi o próximo a falar: “Silêncio no salão!”. O rei sentou com seu monóculo e começou a espiar os arredores, para ver quem tinha aberto a boca.
Alice pôde ver com exatidão como todos os jurados anotavam “Mas que coisa mais tola!” em seus quadros, e reparou também que um deles não sabia como a frase se escrevia, de modo que teve de consultar o seu vizinho. “Ai, ai! o quadro dele vai estar uma maravilha quando o interrogatório terminar!”, pensou Alice.
“Todos os jurados têm uma pena de escrever, então por que não eu?”, guinchou aquele que não sabia escrever direito. Isso foi demais para nossa menina Alice; ela levantou e foi ao outro lado da sala, conseguiu se enfiar entre toda aquela aglomeração do tribunal e logo achou um ensejo de furtar a pena. E ela foi tão serelepe que o pobrezinho do jurado ia demorar trezentos anos para se dar conta de quem fôra o responsável pelo sumiço da pena.
“Arauto, anuncie a promotoria!“
“Rainha Amada, ela assa o bolo,
…
Valete de Copas, meu caro, vem com o bolo na mão.
Onde está ele agora? Ai!”
“Que entrem as últimas testemunhas!“
“Sou um pobre homem, Vossa Majestade”, começou o timorato Chapeleiro, com a voz trêmula, “e preciso primeiro tomar o meu chá – não demora mais que uma palavrinha –, afora a rala fatia de pão com manteiga – e veja, basta uma xicrinha, um pratinho, um bulinho.”
“E que é que tem um prato e um bule?”, perguntou despeitada a rainha.
“Precisam estar quando tomo o chá”, emendou o Chapeleiro.
“Naturalmente que um serviço de chá requer prato e bule. Tem-me por uma besta por um acaso? Quero lhe ouvir!”
“Eu sou um pobre homem“, seguiu sem avançar o Chapeleiro, “e desde então não tenho mais como tomar meu chá – a lebre é testemunha!”
“Mas O QUÊ disse a capivara?”, perguntou um dos jurados.
“E-eu esqueci!”
“Mas é preciso que lembre”, disse a rainha, “…senão corto-lhe a cabeça!”
O infeliz Chapeleiro deixou a xícara e o pão mirrado caírem e deixou-se, também, cair, parando de joelhos diante da autoridade. “Eu sou um homem miserável, muito, muito reles, Vossa Majestade!”, era só o que ele sabia dizer.
“Você é um orador miserável!”, não perdeu a brecha a rainha.
“Eu gostaria muito de voltar ao meu chá”, respondeu o Chapeleiro com um olhar perplexo e desesperado dirigido em súplica à rainha, como desde o início do interrogatório, como um velho cantor pobre de repertório que só sabe repetir o mesmo estribilho.
“Você pode ir“, disse a rainha, ao que o Chapeleiro se dirigiu apressado para fora do tribunal, só que tão apressado que um de seus sapatos ficou pelo caminho.
“Pimenta, principalmente“, disse a cozinheira.
“Xarope“, respondeu uma vozinha sonolenta detrás de si.
“Prendam essa capivara!“, exclamou a rainha, voz esganiçada. “DeCAPIvarem essa CAPIta! Expulsem essa capivara do tribunal! Suprimam-na! Belisquem-na! Arramquem-lhe o bigode!”
O coelho branco retirou os óculos. “Como ordena Vossa Majestade; por onde devo começar?”
“Comece do começo”, disse o rei, como quem explica um problema matemático. “E chegue ao final, passando pelo meio.”
Esses eram os versos, igual o coelho branco os cantou:
“O que escutei de você,
me deixou com inveja;
Ela dizia que comigo se embevecia
quando eu só nadar podia!
Eles escreveram que eu não ia
(Era só o que sabíamos):
Quando eles nada fazem,
O que será de nós?
Eu lhe dava um, ela lhe dava dois,
Eles me davam três vezes quatro;
Mas ela está aqui, ela está ao meu lado;
Todos estão comigo!
Talvez eu e ela
Um dia nos desencontremos,
Mas ela sempre vai
Esperar eu voltar!
Eu pensava muito nos meus erros,
E ela dava muitos faniquitos,
Eu esperava o fim de tudo aquilo,
Enquanto isso ofendido.
Não tem preço, eles dirão,
O amor de alguém;
Não há alma nesse mundo
Que a conheça tão bem!”
“Essa é a maior revelação que ouvimos até agora!”, disse o rei, esfregando as mãos. “Deixem os jurados trabalharem.”
„Se é que alguém consegue entender alguma coisa que eles fazem”, disse Alice (ela estava tão por fora do que acontecia nestes últimos minutos que já não tinha coragem sequer de perguntar o significado de nada a ninguém, e essa foi a vez que ela passou mais tempo calada). “Dessa missa não acredito na metade! E digo mais, não enxergo nisso nenhum sentido!”
Os jurados escreveram tudo em suas pranchetas: “Ela acha que não há nenhum sentido nisso”, mas nenhum deles pensava no sentido daquelas palavras.
“Quando não faz sentido,” disse o rei, esclarecedor, “isso nos poupa um grande volume de trabalho! Quer dizer que não temos que nos preocupar com nada! Só sei que nada sei.”
“Mas aí vem alguém e diz: ‘E elas ainda estão aqui’”, disse Alice.
“De fato, eles ainda estão! ela segue aqui!”, disse o rei, triunfante, ao tempo em que colocava uma fatia de torta em cima da mesa, perto do valete de copas. “Nada pode ser mais claro! De novo: ‘Ah, lá vem o chilique!’”.
(Os pobres jurados, perdidos, ouviram e começaram a escrever a mesma coisa em suas lousas: não faz nenhum sentido. E eles copiavam tudo como ouviam nos menores pingos, a ponto de terem de mergulhar a pena no tinteiro diversas vezes sem parar.)
“Então não foi culpa sua!”, disse o rei, e dei um risinho, olhando de par em par para todo o júri. Todos pareciam ter levado uma pi(c)ada letal de escorpião. Ficaram paralisados, e com semblante pesado.
“Ora, foi uma pi(c)ada!”, saiu-se com essa o rei, demonstrando nervosismo – foi então que após segundos muito tensos sem se ouvir um farfalhar de papel nem mesmo ruído de cadeiras atritando contra o solo, todos soltaram o ar de seus pulmões e gargalharam sonoramente.
“Ai, que idiotice!”, falou Alice, em voz alta, sem conseguir se conter. “Se a decisão é só a opinião dela!”
“Cale a boca!”, disse a rainha, enquanto sua cara se tornava violeta.
“Eu não quero!”
“Cortem-lhe a cabeça!“, bradou a rainha o mais alto que podia. Mas as cartas não saíram de seus postos.
“Quem perguntou algo a vocês?”, ousou Alice, no cúmulo de seu justificado despeito. “Vocês não são nada além de um baralhinho inofensivo!”
Com essas palavras, ergueu-se todo o carteado no ar, circundando a menina. Ela soltou um grito, meio de susto, meio de ira, instintivamente soergueu os braços, sentindo-se cercada, dos pés à cabeça, isto é, dos cabelos aos sapatos. Cada uma daquelas cartas parecia se mover conforme flutuam as folhas secas de uma árvore ao capricho dos ventos numa refrescada tarde outonal! Significa que elas podem até demorar, mas vão, então, finalmente cair no chão, indefesas?! Ela ouvia agora, de repente, a tranqüilizadora voz de sua irmã mais velha, que a segurava em seu regaço:
“Calma, Alicinha! Foi só um pesadelo!”
Mas sua irmã ali continuava, perfeitamente sentada e tranqüila, com a cabeça apoiada numa das mãos, enquanto a outra folheava o grande livro, ambas debaixo da sombra da copa da árvore, naquela linda tarde nublada. E a pequena Alice sonhava, a sua distinta maneira, com maravilhosas aventuras, e só agora percebia: foi tudo um longo, longo sonho inocente!
“Espera, não é possível! Ela estava no País das Maravilhas, e talvez eu também conheça este lugar!” E tentou fechar os olhos e abri-los de novo, para ver se mudava de lugar. Mas ao reabri-los olhava em volta e via a realidade, o pomar de sua casa, na Inglaterra, não em outra terra, se maravilhosa era! Aquela graminha verde não deixava ninguém mentir, ela bem a conhecia. E aquele velho e familiar farfalhar calmo da brisa gentil… Sim, tudo aquilo era muito conhecido da irmã de Alice. Até o mesmo laguinho, à margem do qual, ouvindo aquelas ondinhas diminutas, ela estava acostumada a perder os sentidos e embalar no sono, outrora…
GLOSSÁRIO
Adler: águia
angenehm: agradável
Apfelsine: laranja = ORANGE
Atem: fôlego
bescheiden: contrito, modesto
Brett: quadro
Dachspitze: sótão, abóbada
durchkriechen: rastejar
eilig(e): com pressa, apessado(a)
einmachen: conservar
Ende: pato
entweder: equivalente ao either inglês
Entzücken: arroubo
Faselhase: ??? “[Brasil] Zoologia. Tipo de esquilo (Sciurus aestuans) que, sendo encontrado na Amazônia e em certas partes do litoral brasileiro, possui aproximadamente 20 centímetros de comprimento, de pelagem marrom-oliácea e possuidor de uma longa cauda.” A tradução mais difícil foi a desse personagem. Vemos que em cada tradução o autor escolhe um novo animal, apesar de o esquilo ser o protótipo ideal (ainda que a ilustração nada tenha de esquilo, a ser franco!), então eu fiz o mesmo e parti para a inovação, optando por uma brasileiríssima capivara!
All sorts of hearts; yea, from the glass-faced flatterer
To Apemantus, that few things loves better
Than to abhor himself: even he drops down
The knee before him, and returns in peace
Most rich in Timon’s nod.”
“When Fortune in her shift and change of mood
Spurns down her late beloved, all his dependants
Which labour’d after him to the mountain’s top
Even on their knees and hands, let him slip down,
Not one accompanying his declining foot.”
“TIMON
Painting is welcome.
The painting is almost the natural man;
or since dishonour traffics with man’s nature,
He is but outside: these pencill’d figures are
Even such as they give out. I like your work;
And you shall find I like it: wait attendance
Till you hear further from me.”
“Painter
You’re a dog.
APEMANTUS
Thy mother’s of my generation: what’s she, if I be a dog?
TIMON
Wilt dine with me, Apemantus?
APEMANTUS
No; I eat not lords.
TIMON
An thou shouldst, thou ‘ldst anger ladies.
APEMANTUS
O, they eat lords; so they come by great bellies.
TIMON
That’s a lascivious apprehension.
APEMANTUS
So thou apprehendest it: take it for thy labour.
TIMON
How dost thou like this jewel, Apemantus?
APEMANTUS
Not so well as plain-dealing, which will not cost a
man a doit.
TIMON
What dost thou think ‘tis worth?
APEMANTUS
Not worth my thinking. How now, poet!
Poet
How now, philosopher!
APEMANTUS
Thou liest.
Poet
Art not one?
APEMANTUS
Yes.
Poet
Then I lie not.
APEMANTUS
Art not a poet?
Poet
Yes.
APEMANTUS
Then thou liest: look in thy last work, where thou
hast feigned him a worthy fellow.
Poet
That’s not feigned; he is so.
APEMANTUS
Yes, he is worthy of thee, and to pay thee for thy
labour: he that loves to be flattered is worthy o’
the flatterer. Heavens, that I were a lord!
TIMON
What wouldst do then, Apemantus?
APEMANTUS
E’en as Apemantus does now; hate a lord with my heart.
TIMON
What, thyself?
APEMANTUS
Ay.
TIMON
Wherefore?
APEMANTUS
That I had no angry wit to be a lord.
Art not thou a merchant?
Merchant
Ay, Apemantus.
APEMANTUS
Traffic confound thee, if the gods will not!
Merchant
If traffic do it, the gods do it.
APEMANTUS
Traffic’s thy god; and thy god confound thee!”
“Enter ALCIBIADES, with the rest
Most welcome, sir!”
“First Lord
What time o’ day is’t, Apemantus?
APEMANTUS
Time to be honest.
First Lord
That time serves still.
APEMANTUS
The more accursed thou, that still omitt’st it.
Second Lord
Thou art going to Lord Timon’s feast?
APEMANTUS
Ay, to see meat fill knaves and wine heat fools.
Second Lord
Fare thee well, fare thee well.
APEMANTUS
Thou art a fool to bid me farewell twice.
Second Lord
Why, Apemantus?
APEMANTUS
Shouldst have kept one to thyself, for I mean to
give thee none.
First Lord
Hang thyself!
APEMANTUS
No, I will do nothing at thy bidding: make thy
requests to thy friend.
Second Lord
Away, unpeaceable dog, or I’ll spurn thee hence!
APEMANTUS
I will fly, like a dog, the heels o’ the ass.
Exit
First Lord
He’s opposite to humanity. Come, shall we in,
And taste Lord Timon’s bounty? he outgoes
The very heart of kindness.”
SCENE II. A banqueting-room in Timon’s house.
“VENTIDIUS
Most honour’d Timon,
It hath pleased the gods to remember my father’s age,
And call him to long peace.
He is gone happy, and has left me rich:
Then, as in grateful virtue I am bound
To your free heart, I do return those talents,
Doubled with thanks and service, from whose help
I derived liberty.
TIMON
O, by no means,
Honest Ventidius; you mistake my love:
I gave it freely ever; and there’s none
Can truly say he gives, if he receives:
If our betters play at that game, we must not dare
To imitate them; faults that are rich are fair.
VENTIDIUS
A noble spirit!”
“TIMON
O, Apemantus, you are welcome.
APEMANTUS
No;
You shall not make me welcome:
I come to have thee thrust me out of doors.
TIMON
Fie, thou’rt a churl; ye’ve got a humour there
Does not become a man: ‘tis much to blame.
They say, my lords, ‘ira furor brevis est;’ but yond
man is ever angry. Go, let him have a table by
himself, for he does neither affect company, nor is
he fit for’t, indeed.
APEMANTUS
Let me stay at thine apperil, Timon: I come to
observe; I give thee warning on’t.
TIMON
I take no heed of thee; thou’rt an Athenian,
therefore welcome: I myself would have no power;
prithee, let my meat make thee silent.
APEMANTUS
I scorn thy meat; ‘twould choke me, for I should
ne’er flatter thee. O you gods, what a number of
men eat Timon, and he sees ‘em not! It grieves me
to see so many dip their meat in one man’s blood;
and all the madness is, he cheers them up too.
I wonder men dare trust themselves with men:
Methinks they should invite them without knives;
Good for their meat, and safer for their lives.
There’s much example for’t; the fellow that sits
next him now, parts bread with him, pledges the
breath of him in a divided draught, is the readiest
man to kill him: ‘t has been proved. If I were a
huge man, I should fear to drink at meals;
Lest they should spy my windpipe’s dangerous notes:
Great men should drink with harness on their throats.
“This and my food are equals; there’s no odds:
Feasts are too proud to give thanks to the gods.
Apemantus’ grace.
Immortal gods, I crave no pelf;
I pray for no man but myself:
Grant I may never prove so fond,
To trust man on his oath or bond;
Or a harlot, for her weeping;
Or a dog, that seems a-sleeping:
Or a keeper with my freedom;
Or my friends, if I should need ‘em.
Amen. So fall to’t:
Rich men sin, and I eat root.”
“TIMON
Captain Alcibiades, your heart’s in the field now.
ALCIBIADES
My heart is ever at your service, my lord.
TIMON
You had rather be at a breakfast of enemies than a
dinner of friends.
ALCIBIADES
So the were bleeding-new, my lord, there’s no meat
like ‘em: I could wish my best friend at such a feast.
APEMANTUS
Would all those fatterers were thine enemies then,
that then thou mightst kill ‘em and bid me to ‘em!”
“Enter Cupid
Cupid
Hail to thee, worthy Timon, and to all
That of his bounties taste! The five best senses
Acknowledge thee their patron; and come freely
To gratulate thy plenteous bosom: th’ ear,
Taste, touch and smell, pleased from thy tale rise;
They only now come but to feast thine eyes.”
“Music. Re-enter Cupid with a mask of Ladies as Amazons, with lutes in their hands, dancing and playing
APEMANTUS
Hoy-day, what a sweep of vanity comes this way!
They dance! they are mad women.
Like madness is the glory of this life.
As this pomp shows to a little oil and root.
We make ourselves fools, to disport ourselves;
And spend our flatteries, to drink those men
Upon whose age we void it up again,
With poisonous spite and envy.
Who lives that’s not depraved or depraves?
Who dies, that bears not one spurn to their graves
Of their friends’ gift?
I should fear those that dance before me now
Would one day stamp upon me: ‘t has been done;
Men shut their doors against a setting sun.”
“FLAVIUS
(…)
‘Tis pity bounty had not eyes behind,
That man might ne’er be wretched for his mind.”
“Servant
My lord, there are certain nobles of the senate
Newly alighted, and come to visit you.
TIMON
They are fairly welcome.
FLAVIUS
I beseech your honour,
Vouchsafe me a word; it does concern you near.
TIMON
Near! why then, another time I’ll hear thee:
I prithee, let’s be provided to show them
entertainment.
FLAVIUS
[Aside] I scarce know how.”
“How now! what news?
Third Servant
Please you, my lord, that honourable
gentleman, Lord Lucullus, entreats your company
to-morrow to hunt with him, and has sent your honour
two brace of greyhounds.
TIMON
I’ll hunt with him; and let them be received,
Not without fair reward.”
“FLAVIUS
[Aside] What will this come to?
He commands us to provide, and give great gifts,
And all out of an empty coffer:
Nor will he know his purse, or yield me this,
To show him what a beggar his heart is,
Being of no power to make his wishes good:
His promises fly so beyond his state
That what he speaks is all in debt; he owes
For every word: he is so kind that he now
Pays interest for ‘t; his land’s put to their books.
Well, would I were gently put out of office
Before I were forced out!
Happier is he that has no friend to feed
Than such that do e’en enemies exceed.
I bleed inwardly for my lord.”
“TIMON
I take all and your several visitations
So kind to heart, ‘tis not enough to give;
Methinks, I could deal kingdoms to my friends,
And ne’er be weary. Alcibiades,
Thou art a soldier, therefore seldom rich;
It comes in charity to thee: for all thy living
Is ‘mongst the dead, and all the lands thou hast
Lie in a pitch’d field.
ALCIBIADES
Ay, defiled land, my lord.”
“Exeunt all but APEMANTUS and TIMON
APEMANTUS
What a coil’s here!
Serving of becks and jutting-out of bums!
I doubt whether their legs be worth the sums
That are given for ‘em. Friendship’s full of dregs:
Methinks, false hearts should never have sound legs,
Thus honest fools lay out their wealth on court’sies.
TIMON
Now, Apemantus, if thou wert not sullen, I would be
good to thee.
APEMANTUS
No, I’ll nothing: for if I should be bribed too,
there would be none left to rail upon thee, and then
thou wouldst sin the faster. Thou givest so long,
Timon, I fear me thou wilt give away thyself in
paper shortly: what need these feasts, pomps and
vain-glories?
TIMON
Nay, an you begin to rail on society once, I am
sworn not to give regard to you. Farewell; and come
with better music.”
“O, that men’s ears should be
To counsel deaf, but not to flattery!”
ACT II
SCENE I. A Senator’s house.
“Senator
(…)
If I want gold, steal but a beggar’s dog,
And give it Timon, why, the dog coins gold.
If I would sell my horse, and buy twenty more
Better than he, why, give my horse to Timon,
Ask nothing, give it him, it foals me, straight,
And able horses. No porter at his gate,
But rather one that smiles and still invites”
“Senator
(…) I love and honour him,
But must not break my back to heal his finger;
Immediate are my needs, and my relief
Must not be toss’d and turn’d to me in words,
But find supply immediate. Get you gone:
Put on a most importunate aspect,
A visage of demand; for, I do fear,
When every feather sticks in his own wing,
Lord Timon will be left a naked gull,
Which flashes now a phoenix. Get you gone.
CAPHIS
I go, sir.”
SCENE II. The same. A hall in Timon’s house.
“All Servants
What are we, Apemantus?
APEMANTUS
Asses.
All Servants
Why?
APEMANTUS
That you ask me what you are, and do not know
yourselves. Speak to ‘em, fool.
Fool
How do you, gentlemen?
All Servants
Gramercies, good fool: how does your mistress?
Fool
She’s e’en setting on water to scald such chickens
as you are. Would we could see you at Corinth!
APEMANTUS
Good! gramercy.”
“Fool
I think no usurer but has a fool to his servant: my
mistress is one, and I am her fool. When men come
to borrow of your masters, they approach sadly, and
go away merry; but they enter my mistress’ house
merrily, and go away sadly: the reason of this?”
“TIMON
You make me marvel: wherefore ere this time
Had you not fully laid my state before me,
That I might so have rated my expense,
As I had leave of means?
FLAVIUS
You would not hear me,
At many leisures I proposed.
TIMON
Go to:
Perchance some single vantages you took.
When my indisposition put you back:
And that unaptness made your minister,
Thus to excuse yourself.”
“TIMON
To Lacedaemon did my land extend.
FLAVIUS
O my good lord, the world is but a word:
Were it all yours to give it in a breath,
How quickly were it gone!”
“What heart, head, sword, force, means, but is
Lord Timon’s?
Great Timon, noble, worthy, royal Timon!
Ah, when the means are gone that buy this praise,
The breath is gone whereof this praise is made:
Feast-won, fast-lost; one cloud of winter showers,
These flies are couch’d.
TIMON
Come, sermon me no further:
No villanous bounty yet hath pass’d my heart;
Unwisely, not ignobly, have I given.
Why dost thou weep? Canst thou the conscience lack,
To think I shall lack friends? Secure thy heart;
If I would broach the vessels of my love,
And try the argument of hearts by borrowing,
Men and men’s fortunes could I frankly use
As I can bid thee speak.”
“TIMON
And, in some sort, these wants of mine are crown’d,
That I account them blessings; for by these
Shall I try friends: you shall perceive how you
Mistake my fortunes; I am wealthy in my friends.
Within there! Flaminius! Servilius!”
“That had, give’t these fellows
To whom ‘tis instant due. Ne’er speak, or think,
That Timon’s fortunes ‘mong his friends can sink.
FLAVIUS
I would I could not think it: that thought is
bounty’s foe;
Being free itself, it thinks all others so.
Exeunt”
ACT III
SCENE I. A room in Lucullus’ house.
“Draw nearer, honest Flaminius. Thy lord’s a
bountiful gentleman: but thou art wise; and thou
knowest well enough, although thou comest to me,
that this is no time to lend money, especially upon
bare friendship, without security. Here’s three
solidares for thee: good boy, wink at me, and say
thou sawest me not. Fare thee well.
FLAMINIUS
Is’t possible the world should so much differ,
And we alive that lived? Fly, damned baseness,
To him that worships thee!
Throwing the money back
LUCULLUS
Ha! now I see thou art a fool, and fit for thy master.
Exit”
“Has friendship such a faint and milky heart,
It turns in less than two nights? O you gods,
I feel master’s passion!”
SCENE II. A public place.
“First Stranger
We know him for no less, though we are but strangers
to him. But I can tell you one thing, my lord, and
which I hear from common rumours: now Lord Timon’s
happy hours are done and past, and his estate
shrinks from him.”
“LUCILIUS
What a strange case was that! now, before the gods,
I am ashamed on’t. Denied that honourable man!
there was very little honour showed in’t. For my own
part, I must needs confess, I have received some
small kindnesses from him, as money, plate, jewels
and such-like trifles, nothing comparing to his;
yet, had he mistook him and sent to me, I should
ne’er have denied his occasion so many talents.”
“SERVILIUS
Has only sent his present occasion now, my lord;
requesting your lordship to supply his instant use
with so many talents.
LUCILIUS
I know his lordship is but merry with me;
He cannot want fifty five hundred talents.”
“Commend me bountifully to his good lordship; and I
hope his honour will conceive the fairest of me,
because I have no power to be kind: and tell him
this from me, I count it one of my greatest
afflictions, say, that I cannot pleasure such an
honourable gentleman. Good Servilius, will you
befriend me so far, as to use mine own words to him?”
“True as you said, Timon is shrunk indeed;
And he that’s once denied will hardly speed.”
“First Stranger
Do you observe this, Hostilius?
Second Stranger
Ay, too well.
First Stranger
Why, this is the world’s soul; and just of the
same piece
Is every flatterer’s spirit. Who can call him
His friend that dips in the same dish? for, in
My knowing, Timon has been this lord’s father,
And kept his credit with his purse,
Supported his estate; nay, Timon’s money
Has paid his men their wages: he ne’er drinks,
But Timon’s silver treads upon his lip;
And yet–O, see the monstrousness of man
When he looks out in an ungrateful shape!–
He does deny him, in respect of his,
What charitable men afford to beggars.”
SCENE III. A room in Sempronius’ house.
“SEMPRONIUS
Must he needs trouble me in ‘t,–hum!–‘bove
all others?
He might have tried Lord Lucius or Lucullus;
And now Ventidius is wealthy too,
Whom he redeem’d from prison: all these
Owe their estates unto him.
Servant
My lord,
They have all been touch’d and found base metal, for
They have all denied him.”
“Must I be his last refuge! His friends, like
physicians,
Thrive, give him over: must I take the cure upon me?
Has much disgraced me in’t; I’m angry at him,
That might have known my place: I see no sense for’t,
But his occasion might have woo’d me first;
For, in my conscience, I was the first man
That e’er received gift from him:
And does he think so backwardly of me now,
That I’ll requite its last? No:
So it may prove an argument of laughter
To the rest, and ‘mongst lords I be thought a fool.
I’ld rather than the worth of thrice the sum,
Had sent to me first, but for my mind’s sake;
I’d such a courage to do him good. But now return,
And with their faint reply this answer join;
Who bates mine honour shall not know my coin.
Exit”
“The devil knew not what he did when he made man politic; he crossed himself by ‘t: and I cannot think but, in the end, the villainies of man will set him clear.”
“This was my lord’s best hope; now all are fled,
Save only the gods: now his friends are dead,
Doors, that were ne’er acquainted with their wards
Many a bounteous year must be employ’d
Now to guard sure their master.
And this is all a liberal course allows;
Who cannot keep his wealth must keep his house.”
SCENE IV. The same. A hall in Timon’s house.
“PHILOTUS
(…)
You must consider that a prodigal course
Is like the sun’s; but not, like his, recoverable.
I fear ‘tis deepest winter in Lord Timon’s purse;
That is one may reach deep enough, and yet
Find little.”
“HORTENSIUS
I’m weary of this charge, the gods can witness:
I know my lord hath spent of Timon’s wealth,
And now ingratitude makes it worse than stealth.
Varro’s First Servant
Yes, mine’s three thousand crowns: what’s yours?
Lucilius’ Servant
Five thousand mine.
Varro’s First Servant
‘Tis much deep: and it should seem by the sun,
Your master’s confidence was above mine;
Else, surely, his had equall’d.”
“FLAVIUS
Ay,
If money were as certain as your waiting,
‘Twere sure enough.
Why then preferr’d you not your sums and bills,
When your false masters eat of my lord’s meat?
Then they could smile and fawn upon his debts
And take down the interest into their
gluttonous maws.
You do yourselves but wrong to stir me up;
Let me pass quietly:
Believe ‘t, my lord and I have made an end;
I have no more to reckon, he to spend.
Lucilius’ Servant
Ay, but this answer will not serve.
FLAVIUS
If ‘twill not serve,’tis not so base as you;
For you serve knaves.
Exit”
“Second Servant
No matter what; he’s poor, and that’s revenge
enough. Who can speak broader than he that has no
house to put his head in? such may rail against
great buildings.”
“FLAVIUS
O my lord,
You only speak from your distracted soul;
There is not so much left, to furnish out
A moderate table.
TIMON
Be’t not in thy care; go,
I charge thee, invite them all: let in the tide
Of knaves once more; my cook and I’ll provide.
Exeunt”
SCENE V. The same. The senate-house. The Senate sitting.
“ALCIBIADES
(…)
Who cannot condemn rashness in cold blood?
To kill, I grant, is sin’s extremest gust;
But, in defence, by mercy, ‘tis most just.
To be in anger is impiety;
But who is man that is not angry?
Weigh but the crime with this.”
“ALCIBIADES
I say, my lords, he has done fair service,
And slain in fight many of your enemies:
How full of valour did he bear himself
In the last conflict, and made plenteous wounds!”
“ALCIBIADES
Hard fate! he might have died in war.
My lords, if not for any parts in him–
Though his right arm might purchase his own time
And be in debt to none–yet, more to move you,
Take my deserts to his, and join ‘em both:
And, for I know your reverend ages love
Security, I’ll pawn my victories, all
My honours to you, upon his good returns.
If by this crime he owes the law his life,
Why, let the war receive ‘t in valiant gore
For law is strict, and war is nothing more.
First Senator
We are for law: he dies; urge it no more,
On height of our displeasure: friend or brother,
He forfeits his own blood that spills another.”
“ALCIBIADES
Banish me!
Banish your dotage; banish usury,
That makes the senate ugly.
First Senator
If, after two days’ shine, Athens contain thee,
Attend our weightier judgment. And, not to swell
our spirit,
He shall be executed presently.
Exeunt Senators”
“…Banishment!
It comes not ill; I hate not to be banish’d;
It is a cause worthy my spleen and fury,
That I may strike at Athens. I’ll cheer up
My discontented troops, and lay for hearts.
‘Tis honour with most lands to be at odds;
Soldiers should brook as little wrongs as gods.
Exit”
SCENE VI. The same. A banqueting-room in Timon’s house.
“Enter TIMON and Attendants
TIMON
With all my heart, gentlemen both; and how fare you?
First Lord
Ever at the best, hearing well of your lordship.”
“…Gentlemen, our dinner will not
recompense this long stay: feast your ears with the
music awhile, if they will fare so harshly o’ the
trumpet’s sound; we shall to ‘t presently.”
“Second Lord
My most honourable lord, I am e’en sick of shame,
that, when your lordship this other day sent to me,
I was so unfortunate a beggar.
TIMON
Think not on ‘t, sir.
Second Lord
If you had sent but two hours before,–
TIMON
Let it not cumber your better remembrance.
The banquet brought in”
“Third Lord
Alcibiades is banished: hear you of it?
First Lord, Second Lord
Alcibiades banished!
Third Lord
‘Tis so, be sure of it.
First Lord
How! how!
Second Lord
I pray you, upon what?
TIMON
My worthy friends, will you draw near?
Third Lord
I’ll tell you more anon. Here’s a noble feast toward.
Second Lord
This is the old man still.
Third Lord
Will ‘t hold? will ‘t hold?
Second Lord
It does: but time will–and so–
Third Lord
I do conceive.
TIMON
Each man to his stool, with that spur as he would to
the lip of his mistress: your diet shall be in all
places alike. Make not a city feast of it, to let
the meat cool ere we can agree upon the first place:
sit, sit. The gods require our thanks.
You great benefactors, sprinkle our society with
thankfulness. For your own gifts, make yourselves
praised: but reserve still to give, lest your
deities be despised. Lend to each man enough, that
one need not lend to another; for, were your
godheads to borrow of men, men would forsake the
gods. Make the meat be beloved more than the man
that gives it. Let no assembly of twenty be without
a score of villains: if there sit twelve women at
the table, let a dozen of them be–as they are. The
rest of your fees, O gods–the senators of Athens,
together with the common lag of people–what is
amiss in them, you gods, make suitable for
destruction. For these my present friends, as they
are to me nothing, so in nothing bless them, and to
nothing are they welcome.
Uncover, dogs, and lap.
The dishes are uncovered and seen to be full of warm water”
Some Speak
What does his lordship mean?
Some Others
I know not.
TIMON
May you a better feast never behold,
You knot of mouth-friends I smoke and lukewarm water
Is your perfection. This is Timon’s last;
Who, stuck and spangled with your flatteries,
Washes it off, and sprinkles in your faces
Your reeking villany.
Throwing the water in their faces
Live loathed and long,
Most smiling, smooth, detested parasites,
Courteous destroyers, affable wolves, meek bears,
You fools of fortune, trencher-friends, time’s flies,
Cap and knee slaves, vapours, and minute-jacks!
Of man and beast the infinite malady
Crust you quite o’er! What, dost thou go?
Soft! take thy physic first–thou too–and thou;–
Stay, I will lend thee money, borrow none.
Throws the dishes at them, and drives them out
What, all in motion? Henceforth be no feast,
Whereat a villain’s not a welcome guest.
Burn, house! sink, Athens! henceforth hated be
Of Timon man and all humanity!
Exit”
“First Lord
He’s but a mad lord, and nought but humour sways him.
He gave me a jewel th’ other day, and now he has
beat it out of my hat: did you see my jewel?
Third Lord
Did you see my cap?
Second Lord
Here ‘tis.
Fourth Lord
Here lies my gown.
First Lord
Let’s make no stay.
Second Lord
Lord Timon’s mad.
Third Lord
I feel ‘t upon my bones.
Fourth Lord
One day he gives us diamonds, next day stones.
Exeunt”
ACT IV
SCENE I. Without the walls of Athens.
“Enter TIMON
TIMON
Let me look back upon thee. O thou wall,
That girdlest in those wolves, dive in the earth,
And fence not Athens! Matrons, turn incontinent!
Obedience fail in children! slaves and fools,
Pluck the grave wrinkled senate from the bench,
And minister in their steads! to general filths
Convert o’ the instant, green virginity,
Do ‘t in your parents’ eyes! bankrupts, hold fast;
Rather than render back, out with your knives,
And cut your trusters’ throats! bound servants, steal!
Large-handed robbers your grave masters are,
And pill by law. Maid, to thy master’s bed;
Thy mistress is o’ the brothel! Son of sixteen,
pluck the lined crutch from thy old limping sire,
With it beat out his brains! Piety, and fear,
Religion to the gods, peace, justice, truth,
Domestic awe, night-rest, and neighbourhood,
Instruction, manners, mysteries, and trades,
Degrees, observances, customs, and laws,
Decline to your confounding contraries,
And let confusion live! Plagues, incident to men,
Your potent and infectious fevers heap
On Athens, ripe for stroke! Thou cold sciatica,
Cripple our senators, that their limbs may halt
As lamely as their manners. Lust and liberty
Creep in the minds and marrows of our youth,
That ‘gainst the stream of virtue they may strive,
And drown themselves in riot! Itches, blains,
Sow all the Athenian bosoms; and their crop
Be general leprosy! Breath infect breath,
at their society, as their friendship, may
merely poison! Nothing I’ll bear from thee,
But nakedness, thou detestable town!
Take thou that too, with multiplying bans!
Timon will to the woods; where he shall find
The unkindest beast more kinder than mankind.
The gods confound–hear me, you good gods all–
The Athenians both within and out that wall!
And grant, as Timon grows, his hate may grow
To the whole race of mankind, high and low! Amen.”
SCENE II. Athens. A room in Timon’s house.
“First Servant
Hear you, master steward, where’s our master?
Are we undone? cast off? nothing remaining?
FLAVIUS
Alack, my fellows, what should I say to you?
Let me be recorded by the righteous gods,
I am as poor as you.”
“Enter other Servants
FLAVIUS
All broken implements of a ruin’d house.
Third Servant
Yet do our hearts wear Timon’s livery;
That see I by our faces; we are fellows still,
Serving alike in sorrow: leak’d is our bark,
And we, poor mates, stand on the dying deck,
Hearing the surges threat: we must all part
Into this sea of air.”
“O, the fierce wretchedness that glory brings us!
Who would not wish to be from wealth exempt,
Since riches point to misery and contempt?
Who would be so mock’d with glory? or to live
But in a dream of friendship?
To have his pomp and all what state compounds
But only painted, like his varnish’d friends?
(…)
I’ll follow and inquire him out:
I’ll ever serve his mind with my best will;
Whilst I have gold, I’ll be his steward still.”
SCENE III. Woods and cave, near the seashore.
“The senator shall bear contempt hereditary,
The beggar native honour.
It is the pasture lards the rother’s sides,
The want that makes him lean. Who dares, who dares,
In purity of manhood stand upright,
And say ‘This man’s a flatterer?’ if one be,
So are they all; for every grise of fortune
Is smooth’d by that below: the learned pate
Ducks to the golden fool: all is oblique;
There’s nothing level in our cursed natures,
But direct villany. Therefore, be abhorr’d
All feasts, societies, and throngs of men!”
“Ha, you gods! why this? what this, you gods? Why, this
Will lug your priests and servants from your sides,
Pluck stout men’s pillows from below their heads:
This yellow slave
Will knit and break religions, bless the accursed,
Make the hoar leprosy adored, place thieves
And give them title, knee and approbation
With senators on the bench: this is it
That makes the wappen’d widow wed again;
She, whom the spital-house and ulcerous sores
Would cast the gorge at, this embalms and spices
To the April day again. Come, damned earth,
Thou common whore of mankind, that put’st odds
Among the route of nations, I will make thee
Do thy right nature.”
“ALCIBIADES
What art thou there? speak.
TIMON
A beast, as thou art. The canker gnaw thy heart,
For showing me again the eyes of man!
ALCIBIADES
What is thy name? Is man so hateful to thee,
That art thyself a man?
TIMON
I am Misanthropos, and hate mankind.
For thy part, I do wish thou wert a dog,
That I might love thee something.”
“Religious canons, civil laws are cruel;
Then what should war be? This fell whore of thine
Hath in her more destruction than thy sword,
For all her cherubim look.
PHRYNIA
Thy lips rot off!
TIMON
I will not kiss thee; then the rot returns
To thine own lips again.
ALCIBIADES
How came the noble Timon to this change?
TIMON
As the moon does, by wanting light to give:
But then renew I could not, like the moon;
There were no suns to borrow of.
ALCIBIADES
Noble Timon,
What friendship may I do thee?
TIMON
None, but to
Maintain my opinion.
ALCIBIADES
What is it, Timon?
TIMON
Promise me friendship, but perform none: if thou
wilt not promise, the gods plague thee, for thou art
a man! if thou dost perform, confound thee, for
thou art a man!
ALCIBIADES
I have heard in some sort of thy miseries.
TIMON
Thou saw’st them, when I had prosperity.
ALCIBIADES
I see them now; then was a blessed time.
TIMON
As thine is now, held with a brace of harlots.
TIMANDRA
Is this the Athenian minion, whom the world
Voiced so regardfully?
TIMON
Art thou Timandra?
TIMANDRA
Yes.
TIMON
Be a whore still: they love thee not that use thee;
Give them diseases, leaving with thee their lust.
Make use of thy salt hours: season the slaves
For tubs and baths; bring down rose-cheeked youth
To the tub-fast and the diet.”
“TIMON
I prithee, beat thy drum, and get thee gone.
ALCIBIADES
I am thy friend, and pity thee, dear Timon.
TIMON
How dost thou pity him whom thou dost trouble?
I had rather be alone.
ALCIBIADES
Why, fare thee well:
Here is some gold for thee.
TIMON
Keep it, I cannot eat it.
ALCIBIADES
When I have laid proud Athens on a heap,–
TIMON
Warr’st thou ‘gainst Athens?
ALCIBIADES
Ay, Timon, and have cause.
TIMON
The gods confound them all in thy conquest;
And thee after, when thou hast conquer’d!
ALCIBIADES
Why me, Timon?
TIMON
That, by killing of villains,
Thou wast born to conquer my country.
Put up thy gold: go on,–here’s gold,–go on;
Be as a planetary plague, when Jove
Will o’er some high-viced city hang his poison
In the sick air: let not thy sword skip one:
Pity not honour’d age for his white beard;
He is an usurer: strike me the counterfeit matron;
It is her habit only that is honest,
Herself’s a bawd: let not the virgin’s cheek
Make soft thy trenchant sword; for those milk-paps,
That through the window-bars bore at men’s eyes,
Are not within the leaf of pity writ,
But set them down horrible traitors: spare not the babe,
Whose dimpled smiles from fools exhaust their mercy;
Think it a bastard, whom the oracle
Hath doubtfully pronounced thy throat shall cut,
And mince it sans remorse: swear against objects;
Put armour on thine ears and on thine eyes;
Whose proof, nor yells of mothers, maids, nor babes,
Nor sight of priests in holy vestments bleeding,
Shall pierce a jot. There’s gold to pay soldiers:
Make large confusion; and, thy fury spent,
Confounded be thyself! Speak not, be gone.
ALCIBIADES
Hast thou gold yet? I’ll take the gold thou
givest me,
Not all thy counsel.
TIMON
Dost thou, or dost thou not, heaven’s curse
upon thee!
PHRYNIA TIMANDRA
Give us some gold, good Timon: hast thou more?”
“…Hold up, you sluts,
Your aprons mountant: you are not oathable,
Although, I know, you ‘ll swear, terribly swear
Into strong shudders and to heavenly agues
The immortal gods that hear you,–spare your oaths,
I’ll trust to your conditions: be whores still;
And he whose pious breath seeks to convert you,
Be strong in whore, allure him, burn him up;
Let your close fire predominate his smoke,
And be no turncoats: yet may your pains, six months,
Be quite contrary: and thatch your poor thin roofs
With burthens of the dead;–some that were hang’d,
No matter:–wear them, betray with them: whore still;
Paint till a horse may mire upon your face,
A pox of wrinkles!”
“…Crack the lawyer’s voice,
That he may never more false title plead,
Nor sound his quillets shrilly: hoar the flamen,
That scolds against the quality of flesh,
And not believes himself: down with the nose,
Down with it flat; take the bridge quite away
Of him that, his particular to foresee,
Smells from the general weal: make curl’d-pate
ruffians bald”
“That your activity may defeat and quell
The source of all erection. There’s more gold:
Do you damn others, and let this damn you,
And ditches grave you all!
PHRYNIA, TIMANDRA
More counsel with more money, bounteous Timon.
TIMON
More whore, more mischief first; I have given you earnest.”
“ALCIBIADES
(…)
If I thrive well, I’ll visit thee again.
TIMON
If I hope well, I’ll never see thee more.
ALCIBIADES
I never did thee harm.
TIMON
Yes, thou spokest well of me.
ALCIBIADES
Call’st thou that harm?
TIMON
Men daily find it. Get thee away, and take
Thy beagles with thee.
ALCIBIADES
We but offend him. Strike!”
“Go great with tigers, dragons, wolves, and bears;
Tell thee, with speechless tongues and semblance pale,
That without covering, save yon field of stars,
Here they stand martyrs, slain in Cupid’s wars;
And with dead cheeks advise thee to desist
For going on death’s net, whom none resist.”
“For death remember’d should be like a mirror,
Who tells us life’s but breath, to trust it error.”
“am no viper, yet I feed
On mother’s flesh which did me breed.
I sought a husband, in which labour
I found that kindness in a father:
He’s father, son, and husband mild;
I mother, wife, and yet his child.
How they may be, and yet in two,
As you will live, resolve it you.
Sharp physic is the last: but, O you powers
That give heaven countless eyes to view men’s acts,
Why cloud they not their sights perpetually,
If this be true, which makes me pale to read it?
Fair glass of light, I loved you, and could still,
Takes hold of the hand of the Daughter of ANTIOCHUS”
“…Your time’s expired:
Either expound now, or receive your sentence.”
“PERICLES
Great king,
Few love to hear the sins they love to act;
‘Twould braid yourself too near for me to tell it.
Who has a book of all that monarchs do,
He’s more secure to keep it shut than shown:
For vice repeated is like the wandering wind.
Blows dust in other’s eyes, to spread itself;
And yet the end of all is bought thus dear,
The breath is gone, and the sore eyes see clear:
To stop the air would hurt them. The blind mole casts
Copp’d hills towards heaven, to tell the earth is throng’d
By man’s oppression; and the poor worm doth die for’t.
Kings are earth’s gods; in vice their law’s
their will;
And if Jove stray, who dares say Jove doth ill?
It is enough you know; and it is fit,
What being more known grows worse, to smother it.
All love the womb that their first being bred,
Then give my tongue like leave to love my head.”
“Forty days longer we do respite you;
If by which time our secret be undone,
This mercy shows we’ll joy in such a son:
And until then your entertain shall be
As doth befit our honour and your worth.”
“PERICLES
How courtesy would seem to cover sin,
When what is done is like an hypocrite,
The which is good in nothing but in sight!
If it be true that I interpret false,
Then were it certain you were not so bad
As with foul incest to abuse your soul;
Where now you’re both a father and a son,
By your untimely claspings with your child,
Which pleasure fits an husband, not a father;
And she an eater of her mother’s flesh,
By the defiling of her parent’s bed;
And both like serpents are, who though they feed
On sweetest flowers, yet they poison breed.
Antioch, farewell! for wisdom sees, those men
Blush not in actions blacker than the night,
Will shun no course to keep them from the light.
One sin, I know, another doth provoke;
Murder’s as near to lust as flame to smoke:
Poison and treason are the hands of sin,
Ay, and the targets, to put off the shame:
Then, lest my lie be cropp’d to keep you clear,
By flight I’ll shun the danger which I fear.
Exit
Re-enter ANTIOCHUS
ANTIOCHUS
He hath found the meaning, for which we mean
To have his head.
He must not live to trumpet forth my infamy,
Nor tell the world Antiochus doth sin
In such a loathed manner;
And therefore instantly this prince must die:
For by his fall my honour must keep high.
Who attends us there?”
“ANTIOCHUS
Thaliard,
You are of our chamber, and our mind partakes
Her private actions to your secrecy;
And for your faithfulness we will advance you.
Thaliard, behold, here’s poison, and here’s gold;
We hate the prince of Tyre, and thou must kill him:
It fits thee not to ask the reason why,
Because we bid it. Say, is it done?
THALIARD
My lord,
‘Tis done.”
“Messenger
My lord, prince Pericles is fled.
Exit
ANTIOCHUS
As thou
Wilt live, fly after: and like an arrow shot
From a well-experienced archer hits the mark
His eye doth level at, so thou ne’er return
Unless thou say <Prince Pericles is dead.>”
“Till Pericles be dead,
My heart can lend no succor to my head.”
“Then it is thus: the passions of the mind,
That have their first conception by mis-dread,
Have after-nourishment and life by care;
And what was first but fear what might be done,
Grows elder now and cares it be not done.
And so with me: the great Antiochus,
‘Gainst whom I am too little to contend,
Since he’s so great can make his will his act,
Will think me speaking, though I swear to silence;
Nor boots it me to say I honour him.
If he suspect I may dishonour him:
And what may make him blush in being known,
He’ll stop the course by which it might be known;
With hostile forces he’ll o’erspread the land,
And with the ostent of war will look so huge,
Amazement shall drive courage from the state;
Our men be vanquish’d ere they do resist,
And subjects punish’d that ne’er thought offence:
Which care of them, not pity of myself,
Who am no more but as the tops of trees,
Which fence the roots they grow by and defend them,
Makes both my body pine and soul to languish,
And punish that before that he would punish.”
“When Signior Sooth here does proclaim a peace,
He flatters you, makes war upon your life.
Prince, pardon me, or strike me, if you please;
I cannot be much lower than my knees.”
“HELICANUS
How dare the plants look up to heaven, from whence
They have their nourishment?
PERICLES
Thou know’st I have power
To take thy life from thee.
HELICANUS
[Kneeling]
I have ground the axe myself;
Do you but strike the blow.
PERICLES
Rise, prithee, rise.
Sit down: thou art no flatterer:
I thank thee for it; and heaven forbid
That kings should let their ears hear their
faults hid!
Fit counsellor and servant for a prince,
Who by thy wisdom makest a prince thy servant,
What wouldst thou have me do?”
“Her face was to mine eye beyond all wonder;
The rest–hark in thine ear–as black as incest:
Which by my knowledge found, the sinful father
Seem’d not to strike, but smooth: but thou
know’st this,
‘Tis time to fear when tyrants seem to kiss.”
“…and tyrants’ fears
Decrease not, but grow faster than the years”
“Therefore, my lord, go travel for a while,
Till that his rage and anger be forgot,
Or till the Destinies do cut his thread of life.
Your rule direct to any; if to me.
Day serves not light more faithful than I’ll be.”
“PERICLES
Tyre, I now look from thee then, and to Tarsus
Intend my travel, where I’ll hear from thee;
And by whose letters I’ll dispose myself.”
“CLEON
Thou speak’st like him’s untutor’d to repeat:
Who makes the fairest show means most deceit.
But bring they what they will and what they can,
What need we fear?
The ground’s the lowest, and we are half way there.
Go tell their general we attend him here,
To know for what he comes, and whence he comes,
And what he craves.
(…)
CLEON
Welcome is peace, if he on peace consist;
If wars, we are unable to resist.”
“PERICLES
(…)
We have heard your miseries as far as Tyre,
And seen the desolation of your streets:
Nor come we to add sorrow to your tears,
But to relieve them of their heavy load;
And these our ships, you happily may think
Are like the Trojan horse was stuff’d within
With bloody veins, expecting overthrow,
Are stored with corn to make your needy bread,
And give them life whom hunger starved half dead.
All
The gods of Greece protect you!
And we’ll pray for you.”
“Enter PERICLES, wet
PERICLES
Yet cease your ire, you angry stars of heaven!
Wind, rain, and thunder, remember, earthly man
Is but a substance that must yield to you;
And I, as fits my nature, do obey you:
Alas, the sea hath cast me on the rocks,
Wash’d me from shore to shore, and left me breath
Nothing to think on but ensuing death:
Let it suffice the greatness of your powers
To have bereft a prince of all his fortunes;
And having thrown him from your watery grave,
Here to have death in peace is all he’ll crave.”
“Third Fisherman
…Master, I
marvel how the fishes live in the sea.
First Fisherman
Why, as men do a-land; the great ones eat up the
little ones: I can compare our rich misers to
nothing so fitly as to a whale; a’ plays and
tumbles, driving the poor fry before him, and at
last devours them all at a mouthful: such whales
have I heard on o’ the land, who never leave gaping
till they’ve swallowed the whole parish, church,
steeple, bells, and all.”
“PERICLES
[Aside] How from the finny subject of the sea
These fishers tell the infirmities of men;
And from their watery empire recollect
All that may men approve or men detect!
Peace be at your labour, honest fishermen.”
“Second Fisherman
What a drunken knave was the sea to cast thee in our
way!
PERICLES
A man whom both the waters and the wind,
In that vast tennis-court, have made the ball
For them to play upon, entreats you pity him:
He asks of you, that never used to beg.”
“First Fisherman
…Here’s them in our
country Greece gets more with begging than we can do
with working.”
“First Fisherman
Why, I’ll tell you: this is called Pentapolis, and
our king the good Simonides.
PERICLES
The good King Simonides, do you call him.
First Fisherman
Ay, sir; and he deserves so to be called for his
peaceable reign and good government.
PERICLES
He is a happy king, since he gains from his subjects
the name of good by his government. How far is his
court distant from this shore?
First Fisherman
Marry, sir, half a day’s journey: and I’ll tell
you, he hath a fair daughter, and to-morrow is her
birth-day; and there are princes and knights come
from all parts of the world to just and tourney for her love.
PERICLES
Were my fortunes equal to my desires, I could wish
to make one there.
First Fisherman
O, sir, things must be as they may; and what a man
cannot get, he may lawfully deal for–his wife’s soul.”
“PERICLES
To beg of you, kind friends, this coat of worth,
For it was sometime target to a king;
I know it by this mark. He loved me dearly,
And for his sake I wish the having of it;
And that you’ld guide me to your sovereign’s court,
Where with it I may appear a gentleman;
And if that ever my low fortune’s better,
I’ll pay your bounties; till then rest your debtor.
First Fisherman
Why, wilt thou tourney for the lady?
PERICLES
I’ll show the virtue I have borne in arms.
First Fisherman
Why, do ‘e take it, and the gods give thee good on’t!”
“SIMONIDES
Who is the first that doth prefer himself?
THAISA
A knight of Sparta, my renowned father;
And the device he bears upon his shield
Is a black Ethiope reaching at the sun
The word, ‘Lux tua vita mihi.’”
“Who is the second that presents himself?
THAISA
A prince of Macedon, my royal father;
And the device he bears upon his shield
Is an arm’d knight that’s conquer’d by a lady;
The motto thus, in Spanish, ‘Piu por dulzura que por fuerza.’”
“SIMONIDES
And what’s the third?
THAISA
The third of Antioch;
And his device, a wreath of chivalry;
The word, ‘Me pompae provexit apex.’”
“SIMONIDES
What is the fourth?
THAISA
A burning torch that’s turned upside down;
The word, ‘Quod me alit, me extinguit.’
SIMONIDES
Which shows that beauty hath his power and will,
Which can as well inflame as it can kill.”
“The Fifth Knight passes over
THAISA
The fifth, an hand environed with clouds,
Holding out gold that’s by the touchstone tried;
The motto thus, ‘Sic spectanda fides.’
The Sixth Knight, PERICLES, passes over
SIMONIDES
And what’s
The sixth and last, the which the knight himself
With such a graceful courtesy deliver’d?
THAISA
He seems to be a stranger; but his present is
A wither’d branch, that’s only green at top;
The motto, ‘In hac spe vivo.’
SIMONIDES
A pretty moral;
From the dejected state wherein he is,
He hopes by you his fortunes yet may flourish.”
“First Lord
…
For by his rusty outside he appears
To have practised more the whipstock than the lance.”
Second Lord
He well may be a stranger, for he comes
To an honour’d triumph strangely furnished.
Third Lord
And on set purpose let his armour rust
Until this day, to scour it in the dust.
SIMONIDES
Opinion’s but a fool, that makes us scan
The outward habit by the inward man.
But stay, the knights are coming: we will withdraw
Into the gallery.”
“PERICLES
‘Tis more by fortune, lady, than by merit.
SIMONIDES
Call it by what you will, the day is yours;
And here, I hope, is none that envies it.
In framing an artist, art hath thus decreed,
To make some good, but others to exceed;
And you are her labour’d scholar. Come, queen o’
the feast,–
For, daughter, so you are,–here take your place:
Marshal the rest, as they deserve their grace.”
“THAISA
By Juno, that is queen of marriage,
All viands that I eat do seem unsavoury.
Wishing him my meat. Sure, he’s a gallant gentleman.
SIMONIDES
He’s but a country gentleman;
Has done no more than other knights have done;
Has broken a staff or so; so let it pass.”
“Whereby I see that Time’s the king of men,
He’s both their parent, and he is their grave,
And gives them what he will, not what they crave.”
“SIMONIDES
Yet pause awhile:
Yon knight doth sit too melancholy,
As if the entertainment in our court
Had not a show might countervail his worth.
Note it not you, Thaisa?”
“Loud music is too harsh for ladies’ heads,
Since they love men in arms as well as beds.
The Knights dance”
“SIMONIDES
Princes, it is too late to talk of love;
And that’s the mark I know you level at:
Therefore each one betake him to his rest;
To-morrow all for speeding do their best.
Exeunt”
“HELICANUS
For honour’s cause, forbear your suffrages:
If that you love Prince Pericles, forbear.
Take I your wish, I leap into the seas,
Where’s hourly trouble for a minute’s ease.
A twelvemonth longer, let me entreat you to
Forbear the absence of your king:
If in which time expired, he not return,
I shall with aged patience bear your yoke.
But if I cannot win you to this love,
Go search like nobles, like noble subjects,
And in your search spend your adventurous worth;
Whom if you find, and win unto return,
You shall like diamonds sit about his crown.”
“Enter SIMONIDES, reading a letter, at one door: the Knights meet him
First Knight
Good morrow to the good Simonides.
SIMONIDES
Knights, from my daughter this I let you know,
That for this twelvemonth she’ll not undertake
A married life.
Her reason to herself is only known,
Which yet from her by no means can I get.
Second Knight
May we not get access to her, my lord?
SIMONIDES
‘Faith, by no means; she has so strictly tied
Her to her chamber, that ‘tis impossible.
One twelve moons more she’ll wear Diana’s livery;
This by the eye of Cynthia hath she vow’d
And on her virgin honour will not break it.
Third Knight
Loath to bid farewell, we take our leaves.
Exeunt Knights
SIMONIDES
So,
They are well dispatch’d; now to my daughter’s letter:
She tells me here, she’d wed the stranger knight,
Or never more to view nor day nor light.
‘Tis well, mistress; your choice agrees with mine;
I like that well: nay, how absolute she’s in’t,
Not minding whether I dislike or no!
Well, I do commend her choice;
And will no longer have it be delay’d.
Soft! here he comes: I must dissemble it.
Enter PERICLES”
“SIMONIDES
Sir, you are music’s master.
PERICLES
The worst of all her scholars, my good lord.
SIMONIDES
Let me ask you one thing:
What do you think of my daughter, sir?
PERICLES
A most virtuous princess.
SIMONIDES
And she is fair too, is she not?
PERICLES
As a fair day in summer, wondrous fair.
SIMONIDES
Sir, my daughter thinks very well of you;
Ay, so well, that you must be her master,
And she will be your scholar: therefore look to it.”
“SIMONIDES
She thinks not so; peruse this writing else.
PERICLES
[Aside] What’s here?
A letter, that she loves the knight of Tyre!
‘Tis the king’s subtlety to have my life.
O, seek not to entrap me, gracious lord,
A stranger and distressed gentleman,
That never aim’d so high to love your daughter,
But bent all offices to honour her.
SIMONIDES
Thou hast bewitch’d my daughter, and thou art
A villain.”
“SIMONIDES
Traitor, thou liest.
PERICLES
Traitor!
SIMONIDES
Ay, traitor.
PERICLES
Even in his throat–unless it be the king–
That calls me traitor, I return the lie.
SIMONIDES
[Aside] Now, by the gods, I do applaud his courage.”
“I am glad on’t with all my heart.–
I’ll tame you; I’ll bring you in subjection.
Will you, not having my consent,
Bestow your love and your affections
Upon a stranger?”
“SIMONIDES
It pleaseth me so well, that I will see you wed;
And then with what haste you can get you to bed.
Exeunt”
Estranho Simonides…
“GOWER
…
Hymen hath brought the bride to bed.
Where, by the loss of maidenhead,
A babe is moulded. Be attent,
And time that is so briefly spent
With your fine fancies quaintly eche:
What’s dumb in show I’ll plain with speech.
DUMB SHOW.
[Provavelmente um espetáculo de bobos no teatro.]
Enter, PERICLES and SIMONIDES at one door, with Attendants; a Messenger meets them, kneels, and gives PERICLES a letter: PERICLES shows it SIMONIDES; the Lords kneel to him. Then enter THAISA with child, with LYCHORIDA a nurse. The KING shows her the letter; she rejoices: she and PERICLES takes leave of her father, and depart with LYCHORIDA and their Attendants. Then exeunt SIMONIDES and the rest
At last from Tyre,
Fame answering the most strange inquire,
To the court of King Simonides
Are letters brought, the tenor these:
Antiochus and his daughter dead;
The men of Tyrus on the head
Of Helicanus would set on
The crown of Tyre, but he will none:
The mutiny he there hastes t’ oppress;
Says to ‘em, if King Pericles
Come not home in twice six moons,
He, obedient to their dooms,
Will take the crown. The sum of this,
Brought hither to Pentapolis,
Y-ravished the regions round,
And every one with claps can sound,
‘Our heir-apparent is a king!
Who dream’d, who thought of such a thing?’
Brief, he must hence depart to Tyre:
His queen with child makes her desire–
Which who shall cross?–along to go:
Omit we all their dole and woe:
Lychorida, her nurse, she takes,
And so to sea. Their vessel shakes
On Neptune’s billow; half the flood
Hath their keel cut: but fortune’s mood
Varies again; the grisly north
Disgorges such a tempest forth,
That, as a duck for life that dives,
So up and down the poor ship drives:
The lady shrieks, and well-a-near
Does fall in travail with her fear:
And what ensues in this fell storm
Shall for itself itself perform.
I nill relate, action may
Conveniently the rest convey;
Which might not what by me is told.
In your imagination hold
This stage the ship, upon whose deck
The sea-tost Pericles appears to speak.
Exit”
“PERICLES
Thou god of this great vast, rebuke these surges,
Which wash both heaven and hell; and thou, that hast
Upon the winds command, bind them in brass,
Having call’d them from the deep! O, still
Thy deafening, dreadful thunders; gently quench
Thy nimble, sulphurous flashes! O, how, Lychorida,
How does my queen? Thou stormest venomously;
Wilt thou spit all thyself? The seaman’s whistle
Is as a whisper in the ears of death,
Unheard. Lychorida!–Lucina, O
Divinest patroness, and midwife gentle
To those that cry by night, convey thy deity
Aboard our dancing boat; make swift the pangs
Of my queen’s travails!”
“LYCHORIDA
Patience, good sir; do not assist the storm.
Here’s all that is left living of your queen,
A little daughter: for the sake of it,
Be manly, and take comfort.
PERICLES
O you gods!
Why do you make us love your goodly gifts,
And snatch them straight away? We here below
Recall not what we give, and therein may
Use honour with you.”
“PERICLES
Now, mild may be thy life!
For a more blustrous birth had never babe:
Quiet and gentle thy conditions! for
Thou art the rudeliest welcome to this world
That ever was prince’s child. Happy what follows!
Thou hast as chiding a nativity
As fire, air, water, earth, and heaven can make,
To herald thee from the womb: even at the first
Thy loss is more than can thy portage quit,
With all thou canst find here. Now, the good gods
Throw their best eyes upon’t!”
“PERICLES
A terrible childbed hast thou had, my dear;
No light, no fire: the unfriendly elements
Forgot thee utterly: nor have I time
To give thee hallow’d to thy grave, but straight
Must cast thee, scarcely coffin’d, in the ooze;
Where, for a monument upon thy bones,
And e’er-remaining lamps, the belching whale
And humming water must o’erwhelm thy corpse,
Lying with simple shells. O Lychorida,
Bid Nestor bring me spices, ink and paper,
My casket and my jewels; and bid Nicander
Bring me the satin coffer: lay the babe
Upon the pillow: hie thee, whiles I say
A priestly farewell to her: suddenly, woman.
Exit LYCHORIDA”
“PERICLES
I thank thee. Mariner, say what coast is this?
Second Sailor
We are near Tarsus.
PERICLES
Thither, gentle mariner.
Alter thy course for Tyre. When canst thou reach it?
Second Sailor
By break of day, if the wind cease.
PERICLES
O, make for Tarsus!
There will I visit Cleon, for the babe
Cannot hold out to Tyrus: there I’ll leave it
At careful nursing. Go thy ways, good mariner:
I’ll bring the body presently.
Exeunt”
“PHILEMON
Doth my lord call?
CERIMON
Get fire and meat for these poor men:
‘T has been a turbulent and stormy night.
Servant
I have been in many; but such a night as this,
Till now, I ne’er endured.
CERIMON
Your master will be dead ere you return;
There’s nothing can be minister’d to nature
That can recover him.”
“CERIMON
I hold it ever,
Virtue and cunning were endowments greater
Than nobleness and riches: careless heirs
May the two latter darken and expend;
But immortality attends the former.
Making a man a god. ‘Tis known, I ever
Have studied physic, through which secret art,
By turning o’er authorities, I have,
Together with my practise, made familiar
To me and to my aid the blest infusions
That dwell in vegetives, in metals, stones;
And I can speak of the disturbances
That nature works, and of her cures; which doth give me
A more content in course of true delight
Than to be thirsty after tottering honour,
Or tie my treasure up in silken bags,
To please the fool and death.
Second Gentleman
Your honour has through Ephesus pour’d forth
Your charity, and hundreds call themselves
Your creatures, who by you have been restored:
And not your knowledge, your personal pain, but even
Your purse, still open, hath built Lord Cerimon
Such strong renown as time shall ne’er decay.”
“CERIMON
Whate’er it be,
‘Tis wondrous heavy. Wrench it open straight:
If the sea’s stomach be o’ercharged with gold,
‘Tis a good constraint of fortune it belches upon us.
Second Gentleman
‘Tis so, my lord.
CERIMON
How close ‘tis caulk’d and bitumed!
Did the sea cast it up?
First Servant
I never saw so huge a billow, sir,
As toss’d it upon shore.
CERIMON
Wrench it open;
Soft! it smells most sweetly in my sense.
Second Gentleman
A delicate odour.
CERIMON
As ever hit my nostril. So, up with it.
O you most potent gods! what’s here? a corse!
First Gentleman
Most strange!
CERIMON
Shrouded in cloth of state; balm’d and entreasured
With full bags of spices! A passport too!
Apollo, perfect me in the characters!
Reads from a scroll
‘Here I give to understand,
If e’er this coffin drive a-land,
I, King Pericles, have lost
This queen, worth all our mundane cost.
Who finds her, give her burying;
She was the daughter of a king:
Besides this treasure for a fee,
The gods requite his charity!’
If thou livest, Pericles, thou hast a heart
That even cracks for woe! This chanced tonight.
Second Gentleman
Most likely, sir.
CERIMON
Nay, certainly to-night;
For look how fresh she looks! They were too rough
That threw her in the sea. Make a fire within:
Fetch hither all my boxes in my closet.”
Exit a Servant
Death may usurp on nature many hours,
And yet the fire of life kindle again
The o’erpress’d spirits. I heard of an Egyptian
That had nine hours lien dead,
Who was by good appliance recovered.
Re-enter a Servant, with boxes, napkins, and fire
Well said, well said; the fire and cloths.
The rough and woeful music that we have,
Cause it to sound, beseech you.
The viol once more: how thou stirr’st, thou block!
The music there!–I pray you, give her air.
Gentlemen.
This queen will live: nature awakes; a warmth
Breathes out of her: she hath not been entranced
Above five hours: see how she gins to blow
Into life’s flower again!”
“CERIMON
She is alive; behold,
Her eyelids, cases to those heavenly jewels
Which Pericles hath lost,
Begin to part their fringes of bright gold;
The diamonds of a most praised water
Do appear, to make the world twice rich. Live,
And make us weep to hear your fate, fair creature,
Rare as you seem to be.
She moves
THAISA
O dear Diana,
Where am I? Where’s my lord? What world is this?”
“Enter PERICLES, CLEON, DIONYZA, and LYCHORIDA with MARINA in her arms
PERICLES
Most honour’d Cleon, I must needs be gone;
My twelve months are expired, and Tyrus stands
In a litigious peace. You, and your lady,
Take from my heart all thankfulness! The gods
Make up the rest upon you!”
“PERICLES
We cannot but obey
The powers above us. Could I rage and roar
As doth the sea she lies in, yet the end
Must be as ‘tis. My gentle babe Marina, whom,
For she was born at sea, I have named so, here
I charge your charity withal, leaving her
The infant of your care; beseeching you
To give her princely training, that she may be
Manner’d as she is born.”
“Without your vows. Till she be married, madam,
By bright Diana, whom we honour, all
Unscissor’d shall this hair of mine remain,
Though I show ill in’t. So I take my leave.
Good madam, make me blessed in your care
In bringing up my child.”
“CERIMON
Madam, this letter, and some certain jewels,
Lay with you in your coffer: which are now
At your command. Know you the character?
THAISA
It is my lord’s.
That I was shipp’d at sea, I well remember,
Even on my eaning time; but whether there
Deliver’d, by the holy gods,
I cannot rightly say. But since King Pericles,
My wedded lord, I ne’er shall see again,
A vestal livery will I take me to,
And never more have joy.
CERIMON
Madam, if this you purpose as ye speak,
Diana’s temple is not distant far,
Where you may abide till your date expire.
Moreover, if you please, a niece of mine
Shall there attend you.
THAISA
My recompense is thanks, that’s all;
Yet my good will is great, though the gift small.
Exeunt”
“…But, alack,
That monster envy, oft the wrack
Of earned praise, Marina’s life
Seeks to take off by treason’s knife.
And in this kind hath our Cleon
One daughter, and a wench full grown,
Even ripe for marriage-rite; this maid
Hight Philoten: and it is said
For certain in our story, she
Would ever with Marina be:
Be’t when she weaved the sleided silk
With fingers long, small, white as milk;
Or when she would with sharp needle wound
The cambric, which she made more sound
By hurting it; or when to the lute
She sung, and made the night-bird mute,
That still records with moan; or when
She would with rich and constant pen
Vail to her mistress Dian; still
This Philoten contends in skill
With absolute Marina: so
With the dove of Paphos might the crow
Vie feathers white. Marina gets
All praises, which are paid as debts,
And not as given. This so darks
In Philoten all graceful marks,
That Cleon’s wife, with envy rare,
A present murderer does prepare
For good Marina, that her daughter
Might stand peerless by this slaughter.
The sooner her vile thoughts to stead,
Lychorida, our nurse, is dead:
And cursed Dionyza hath
The pregnant instrument of wrath
Prest for this blow. The unborn event
I do commend to your content:
Only I carry winged time
Post on the lame feet of my rhyme;
Which never could I so convey,
Unless your thoughts went on my way.
Dionyza does appear,
With Leonine, a murderer.
Exit”
“Enter DIONYZA and LEONINE
DIONYZA
Thy oath remember; thou hast sworn to do’t:
‘Tis but a blow, which never shall be known.
Thou canst not do a thing in the world so soon,
To yield thee so much profit. Let not conscience,
Which is but cold, inflaming love i’ thy bosom,
Inflame too nicely; nor let pity, which
Even women have cast off, melt thee, but be
A soldier to thy purpose.
LEONINE
I will do’t; but yet she is a goodly creature.
DIONYZA
The fitter, then, the gods should have her. Here
she comes weeping for her only mistress’ death.
Thou art resolved?
LEONINE
I am resolved.”
“MARINA
When I was born:
Never was waves nor wind more violent;
And from the ladder-tackle washes off
A canvas-climber. ‘Ha!’ says one, ‘wilt out?’
And with a dropping industry they skip
From stem to stern: the boatswain whistles, and
The master calls, and trebles their confusion.
LEONINE
Come, say your prayers.
MARINA
What mean you?
LEONINE
If you require a little space for prayer,
I grant it: pray; but be not tedious,
For the gods are quick of ear, and I am sworn
To do my work with haste.
MARINA
Why will you kill me?
LEONINE
To satisfy my lady.
MARINA
Why would she have me kill’d?
Now, as I can remember, by my troth,
I never did her hurt in all my life:
I never spake bad word, nor did ill turn
To any living creature: believe me, la,
I never kill’d a mouse, nor hurt a fly:
I trod upon a worm against my will,
But I wept for it. How have I offended,
Wherein my death might yield her any profit,
Or my life imply her any danger?
LEONINE
My commission
Is not to reason of the deed, but do it.
MARINA
You will not do’t for all the world, I hope.
You are well favour’d, and your looks foreshow
You have a gentle heart. I saw you lately,
When you caught hurt in parting two that fought:
Good sooth, it show’d well in you: do so now:
Your lady seeks my life; come you between,
And save poor me, the weaker.
LEONINE
I am sworn,
And will dispatch.
He seizes her
Enter Pirates
First Pirate
Hold, villain!
LEONINE runs away
Second Pirate
A prize! a prize!
Third Pirate
Half-part, mates, half-part.
Come, let’s have her aboard suddenly.
Exeunt Pirates with MARINA
Re-enter LEONINE
LEONINE
These roguing thieves serve the great pirate Valdes;
And they have seized Marina. Let her go:
There’s no hope she will return. I’ll swear
she’s dead,
And thrown into the sea. But I’ll see further:
Perhaps they will but please themselves upon her,
Not carry her aboard. If she remain,
Whom they have ravish’d must by me be slain.
Exit”
“[Num bordel, longe dali…]
Pandar
Therefore let’s have fresh ones, whate’er we pay for
them. If there be not a conscience to be used in
every trade, we shall never prosper.
Bawd [Cafetina]
Thou sayest true: ‘tis not our bringing up of poor
bastards,–as, I think, I have brought up some eleven–
BOULT
Ay, to eleven; and brought them down again. But
shall I search the market?
Bawd
What else, man? The stuff we have, a strong wind
will blow it to pieces, they are so pitifully sodden.
Pandar
Thou sayest true; they’re too unwholesome, o’
conscience. The poor Transylvanian is dead, that
lay with the little baggage.
BOULT
Ay, she quickly pooped him; she made him roast-meat
for worms. But I’ll go search the market.”
“Bawd
Come, other sorts offend as well as we.
Pandar
As well as we! ay, and better too; we offend worse.
Neither is our profession any trade; it’s no
calling. But here comes Boult.
Re-enter BOULT, with the Pirates and MARINA
BOULT
[To MARINA] Come your ways. My masters, you say
she’s a virgin?
First Pirate
O, sir, we doubt it not.
BOULT
Master, I have gone through for this piece, you see:
if you like her, so; if not, I have lost my earnest.
Bawd
Boult, has she any qualities?
BOULT
She has a good face, speaks well, and has excellent
good clothes: there’s no further necessity of
qualities can make her be refused.
Bawd
What’s her price, Boult?
BOULT
I cannot be bated one doit of a thousand pieces.
Pandar
Well, follow me, my masters, you shall have your
money presently. Wife, take her in; instruct her
what she has to do, that she may not be raw in her
entertainment.
Exeunt Pandar and Pirates
Bawd
Boult, take you the marks of her, the colour of her
hair, complexion, height, age, with warrant of her
virginity; and cry ‘He that will give most shall
have her first.’ Such a maidenhead were no cheap
thing, if men were as they have been. Get this done
as I command you.
BOULT
Performance shall follow.
Exit
MARINA
Alack that Leonine was so slack, so slow!
He should have struck, not spoke; or that these pirates,
Not enough barbarous, had not o’erboard thrown me
For to seek my mother!
Bawd
Why lament you, pretty one?
MARINA
That I am pretty.
Bawd
Come, the gods have done their part in you.
MARINA
I accuse them not.”
“Bawd
Ay, and you shall live in pleasure.
MARINA
No.
Bawd
Yes, indeed shall you, and taste gentlemen of all
fashions: you shall fare well; you shall have the
difference of all complexions. What! do you stop your ears?
MARINA
Are you a woman?
Bawd
What would you have me be, an I be not a woman?
MARINA
An honest woman, or not a woman.
Bawd
Marry, whip thee, gosling: I think I shall have
something to do with you. Come, you’re a young
foolish sapling, and must be bowed as I would have
you.
MARINA
The gods defend me!
Bawd
If it please the gods to defend you by men, then men
must comfort you, men must feed you, men must stir
you up. Boult’s returned.”
“BOULT
‘Faith, they listened to me as they would have
hearkened to their father’s testament. There was a
Spaniard’s mouth so watered, that he went to bed to
her very description.
Bawd
We shall have him here to-morrow with his best ruff on.
BOULT
To-night, to-night. But, mistress, do you know the
French knight that cowers i’ the hams?
Bawd
Who, Monsieur Veroles?
BOULT
Ay, he: he offered to cut a caper at the
proclamation; but he made a groan at it, and swore
he would see her to-morrow.
Bawd
Well, well; as for him, he brought his disease
hither: here he does but repair it. I know he will
come in our shadow, to scatter his crowns in the
sun.
BOULT
Well, if we had of every nation a traveller, we
should lodge them with this sign.”
“…
To weep that you live as ye do makes pity in your
lovers: seldom but that pity begets you a good
opinion, and that opinion a mere profit.
MARINA
I understand you not.
BOULT
O, take her home, mistress, take her home: these
blushes of hers must be quenched with some present practise.
Bawd
Thou sayest true, i’ faith, so they must; for your
bride goes to that with shame which is her way to go
with warrant.”
“MARINA
If fires be hot, knives sharp, or waters deep,
Untied I still my virgin knot will keep.
Diana, aid my purpose!
Bawd
What have we to do with Diana? Pray you, will you go with us?
Exeunt”
“DIONYZA
I think
You’ll turn a child again.
CLEON
Were I chief lord of all this spacious world,
I’ld give it to undo the deed. O lady,
Much less in blood than virtue, yet a princess
To equal any single crown o’ the earth
I’ the justice of compare! O villain Leonine!
Whom thou hast poison’d too:
If thou hadst drunk to him, ‘t had been a kindness
Becoming well thy fact: what canst thou say
When noble Pericles shall demand his child?
DIONYZA
That she is dead. Nurses are not the fates,
To foster it, nor ever to preserve.
She died at night; I’ll say so. Who can cross it?
Unless you play the pious innocent,
And for an honest attribute cry out
‘She died by foul play.’
CLEON
O, go to. Well, well,
Of all the faults beneath the heavens, the gods
Do like this worst.
DIONYZA
Be one of those that think
The petty wrens of Tarsus will fly hence,
And open this to Pericles. I do shame
To think of what a noble strain you are,
And of how coward a spirit.
CLEON
To such proceeding
Who ever but his approbation added,
Though not his prime consent, he did not flow
From honourable sources.”
“CLEON
Thou art like the harpy,
Which, to betray, dost, with thine angel’s face,
Seize with thine eagle’s talons.”
“By you being pardon’d, we commit no crime
To use one language in each several clime
Where our scenes seem to live. I do beseech you
To learn of me, who stand i’ the gaps to teach you,
The stages of our story. Pericles
Is now again thwarting the wayward seas,
Attended on by many a lord and knight.
To see his daughter, all his life’s delight.
Old Escanes, whom Helicanus late
Advanced in time to great and high estate,
Is left to govern. Bear you it in mind,
Old Helicanus goes along behind.
Well-sailing ships and bounteous winds have brought
This king to Tarsus,–think his pilot thought;
So with his steerage shall your thoughts grow on,–
To fetch his daughter home, who first is gone.
Like motes and shadows see them move awhile;
Your ears unto your eyes I’ll reconcile.
DUMB SHOW.
Enter PERICLES, at one door, with all his train; CLEON and DIONYZA, at the other. CLEON shows PERICLES the tomb; whereat PERICLES makes lamentation, puts on sackcloth, and in a mighty passion departs. Then exeunt CLEON and DIONYZA
See how belief may suffer by foul show!
This borrow’d passion stands for true old woe;
And Pericles, in sorrow all devour’d,
With sighs shot through, and biggest tears
o’ershower’d,
Leaves Tarsus and again embarks. He swears
Never to wash his face, nor cut his hairs:
He puts on sackcloth, and to sea. He bears
A tempest, which his mortal vessel tears,
And yet he rides it out. Now please you wit.
The epitaph is for Marina writ
By wicked Dionyza.”
“Let Pericles believe his daughter’s dead,
And bear his courses to be ordered
By Lady Fortune; while our scene must play
His daughter’s woe and heavy well-a-day
In her unholy service. Patience, then,
And think you now are all in Mytilene.”
“Bawd
Fie, fie upon her! she’s able to freeze the god
Priapus, and undo a whole generation. We must
either get her ravished, or be rid of her. When she
should do for clients her fitment, and do me the
kindness of our profession, she has me her quirks,
her reasons, her master reasons, her prayers, her
knees; that she would make a puritan of the devil,
if he should cheapen a kiss of her.
BOULT
‘Faith, I must ravish her, or she’ll disfurnish us
of all our cavaliers, and make our swearers priests.”
“LYSIMACHUS
Now, pretty one, how long have you been at this trade?
MARINA
What trade, sir?
LYSIMACHUS
Why, I cannot name’t but I shall offend.
MARINA
I cannot be offended with my trade. Please you to name it.
LYSIMACHUS
How long have you been of this profession?
MARINA
E’er since I can remember.
LYSIMACHUS
Did you go to ‘t so young? Were you a gamester at
five or at seven?
MARINA
Earlier too, sir, if now I be one.
LYSIMACHUS
Why, the house you dwell in proclaims you to be a
creature of sale.
MARINA
Do you know this house to be a place of such resort,
and will come into ‘t? I hear say you are of
honourable parts, and are the governor of this place.
LYSIMACHUS
Why, hath your principal made known unto you who I am?
MARINA
Who is my principal?
LYSIMACHUS
Why, your herb-woman; she that sets seeds and roots
of shame and iniquity. O, you have heard something
of my power, and so stand aloof for more serious
wooing. But I protest to thee, pretty one, my
authority shall not see thee, or else look friendly
upon thee. Come, bring me to some private place:
come, come.
MARINA
If you were born to honour, show it now;
If put upon you, make the judgment good
That thought you worthy of it.
LYSIMACHUS
How’s this? how’s this? Some more; be sage.
MARINA
For me,
That am a maid, though most ungentle fortune
Have placed me in this sty, where, since I came,
Diseases have been sold dearer than physic,
O, that the gods
Would set me free from this unhallow’d place,
Though they did change me to the meanest bird
That flies i’ the purer air!
LYSIMACHUS
I did not think
Thou couldst have spoke so well; ne’er dream’d thou couldst.
Had I brought hither a corrupted mind,
Thy speech had alter’d it. Hold, here’s gold for thee:
Persever in that clear way thou goest,
And the gods strengthen thee!
MARINA
The good gods preserve you!
LYSIMACHUS
For me, be you thoughten
That I came with no ill intent; for to me
The very doors and windows savour vilely.
Fare thee well. Thou art a piece of virtue, and
I doubt not but thy training hath been noble.
Hold, here’s more gold for thee.
A curse upon him, die he like a thief,
That robs thee of thy goodness! If thou dost
Hear from me, it shall be for thy good.”
“BOULT
I must have your maidenhead taken off, or the common
hangman shall execute it. Come your ways. We’ll
have no more gentlemen driven away. Come your ways, I say.”
“BOULT
The nobleman would have dealt with her like a
nobleman, and she sent him away as cold as a
snowball; saying his prayers too.
Bawd
Boult, take her away; use her at thy pleasure:
crack the glass of her virginity, and make the rest malleable.
BOULT
An if she were a thornier piece of ground than she
is, she shall be ploughed.
MARINA
Hark, hark, you gods!”
“MARINA
Neither of these are so bad as thou art,
Since they do better thee in their command.
Thou hold’st a place, for which the pained’st fiend
Of hell would not in reputation change:
Thou art the damned doorkeeper to every
Coistrel that comes inquiring for his Tib;
To the choleric fisting of every rogue
Thy ear is liable; thy food is such
As hath been belch’d on by infected lungs.
BOULT
What would you have me do? go to the wars, would
you? where a man may serve seven years for the loss
of a leg, and have not money enough in the end to
buy him a wooden one?”
“For what thou professest, a baboon, could he speak,
Would own a name too dear. O, that the gods
Would safely deliver me from this place!
Here, here’s gold for thee.
If that thy master would gain by thee,
Proclaim that I can sing, weave, sew, and dance,
With other virtues, which I’ll keep from boast:
And I will undertake all these to teach.
I doubt not but this populous city will
Yield many scholars.”
“BOULT
‘Faith, my acquaintance lies little amongst them.
But since my master and mistress have bought you,
there’s no going but by their consent: therefore I
will make them acquainted with your purpose, and I
doubt not but I shall find them tractable enough.
Come, I’ll do for thee what I can; come your ways.
Exeunt”
Diana boa de lábia
O ÚLTIMO ATO
“GOWER
Marina thus the brothel ‘scapes, and chances
Into an honest house, our story says.
She sings like one immortal, and she dances
As goddess-like to her admired lays;
Deep clerks she dumbs; and with her needle composes
Nature’s own shape, of bud, bird, branch, or berry,
That even her art sisters the natural roses;
Her inkle, silk, twin with the rubied cherry:
That pupils lacks she none of noble race,
Who pour their bounty on her; and her gain
She gives the cursed bawd. Here we her place;
And to her father turn our thoughts again,
Where we left him, on the sea. We there him lost;
Whence, driven before the winds, he is arrived
Here where his daughter dwells; and on this coast
Suppose him now at anchor. The city strived
God Neptune’s annual feast to keep: from whence
Lysimachus our Tyrian ship espies,
His banners sable, trimm’d with rich expense;
And to him in his barge with fervor hies.
In your supposing once more put your sight
Of heavy Pericles; think this his bark:
Where what is done in action, more, if might,
Shall be discover’d; please you, sit and hark.
Exit”
“First Lord
Sir,
We have a maid in Mytilene, I durst wager,
Would win some words of him.
LYSIMACHUS
‘Tis well bethought.
She questionless with her sweet harmony
And other chosen attractions, would allure,
And make a battery through his deafen’d parts,
Which now are midway stopp’d:
She is all happy as the fairest of all,
And, with her fellow maids is now upon
The leafy shelter that abuts against
The island’s side.”
“HELICANUS
Sure, all’s effectless; yet nothing we’ll omit
That bears recovery’s name. But, since your kindness
We have stretch’d thus far, let us beseech you
That for our gold we may provision have,
Wherein we are not destitute for want,
But weary for the staleness.
LYSIMACHUS
O, sir, a courtesy
Which if we should deny, the most just gods
For every graff would send a caterpillar,
And so afflict our province. Yet once more
Let me entreat to know at large the cause
Of your king’s sorrow.”
“Re-enter, from the barge, Lord, with MARINA, and a young Lady
LYSIMACHUS
O, here is
The lady that I sent for. Welcome, fair one!
Is’t not a goodly presence?
HELICANUS
She’s a gallant lady.”
“MARINA
Sir, I will use
My utmost skill in his recovery, Provided
That none but I and my companion maid
Be suffer’d to come near him.
LYSIMACHUS
Come, let us leave her;
And the gods make her prosperous!
MARINA sings”
“MARINA
Hail, sir! my lord, lend ear.
PERICLES
Hum, ha!
MARINA
I am a maid,
My lord, that ne’er before invited eyes,
But have been gazed on like a comet: she speaks,
My lord, that, may be, hath endured a grief
Might equal yours, if both were justly weigh’d.
Though wayward fortune did malign my state,
My derivation was from ancestors
Who stood equivalent with mighty kings:
But time hath rooted out my parentage,
And to the world and awkward casualties
Bound me in servitude.
Aside
I will desist;
But there is something glows upon my cheek,
And whispers in mine ear, ‘Go not till he speak.’”
Hum ha!
“MARINA
I said, my lord, if you did know my parentage,
You would not do me violence.
PERICLES
I do think so. Pray you, turn your eyes upon me.
You are like something that–What country-woman?
Here of these shores?
MARINA
No, nor of any shores:
Yet I was mortally brought forth, and am
No other than I appear.
PERICLES
I am great with woe, and shall deliver weeping.
My dearest wife was like this maid, and such a one
My daughter might have been: my queen’s square brows;
Her stature to an inch; as wand-like straight;
As silver-voiced; her eyes as jewel-like
And cased as richly; in pace another Juno;
Who starves the ears she feeds, and makes them hungry,
The more she gives them speech. Where do you live?
MARINA
Where I am but a stranger: from the deck
You may discern the place.
PERICLES
Where were you bred?
And how achieved you these endowments, which
You make more rich to owe?
MARINA
If I should tell my history, it would seem
Like lies disdain’d in the reporting.
PERICLES
Prithee, speak:
Falseness cannot come from thee; for thou look’st
Modest as Justice, and thou seem’st a palace
For the crown’d Truth to dwell in: I will
believe thee,
And make my senses credit thy relation
To points that seem impossible; for thou look’st
Like one I loved indeed. What were thy friends?
Didst thou not say, when I did push thee back–
Which was when I perceived thee–that thou camest
From good descending?
MARINA
So indeed I did.
PERICLES
Report thy parentage. I think thou said’st
Thou hadst been toss’d from wrong to injury,
And that thou thought’st thy griefs might equal mine,
If both were open’d.
MARINA
Some such thing
I said, and said no more but what my thoughts
Did warrant me was likely.
PERICLES
Tell thy story;
If thine consider’d prove the thousandth part
Of my endurance, thou art a man, and I
Have suffer’d like a girl: yet thou dost look
Like Patience gazing on kings’ graves, and smiling
Extremity out of act. What were thy friends?
How lost thou them? Thy name, my most kind virgin?
Recount, I do beseech thee: come, sit by me.
MARINA
My name is Marina.
PERICLES
O, I am mock’d,
And thou by some incensed god sent hither
To make the world to laugh at me.
MARINA
Patience, good sir,
Or here I’ll cease.
PERICLES
Nay, I’ll be patient.
Thou little know’st how thou dost startle me,
To call thyself Marina.
MARINA
The name
Was given me by one that had some power,
My father, and a king.
PERICLES
How! a king’s daughter?
And call’d Marina?
MARINA
You said you would believe me;
But, not to be a troubler of your peace,
I will end here.
PERICLES
But are you flesh and blood?
Have you a working pulse? and are no fairy?
Motion! Well; speak on. Where were you born?
And wherefore call’d Marina?
MARINA
Call’d Marina
For I was born at sea.
PERICLES
At sea! what mother?
MARINA
My mother was the daughter of a king;
Who died the minute I was born,
As my good nurse Lychorida hath oft
Deliver’d weeping.
PERICLES
O, stop there a little!
Aside
This is the rarest dream that e’er dull sleep
Did mock sad fools withal: this cannot be:
My daughter’s buried. Well: where were you bred?
I’ll hear you more, to the bottom of your story,
And never interrupt you.
MARINA
You scorn: believe me, ‘twere best I did give o’er.
PERICLES
I will believe you by the syllable
Of what you shall deliver. Yet, give me leave:
How came you in these parts? where were you bred?
MARINA
The king my father did in Tarsus leave me;
Till cruel Cleon, with his wicked wife,
Did seek to murder me: and having woo’d
A villain to attempt it, who having drawn to do’t,
A crew of pirates came and rescued me;
Brought me to Mytilene. But, good sir,
Whither will you have me? Why do you weep?
It may be,
You think me an impostor: no, good faith;
I am the daughter to King Pericles,
If good King Pericles be.
PERICLES
Ho, Helicanus!
HELICANUS
Calls my lord?
PERICLES
Thou art a grave and noble counsellor,
Most wise in general: tell me, if thou canst,
What this maid is, or what is like to be,
That thus hath made me weep?
HELICANUS
I know not; but
Here is the regent, sir, of Mytilene
Speaks nobly of her.
LYSIMACHUS
She would never tell
Her parentage; being demanded that,
She would sit still and weep.
PERICLES
O Helicanus, strike me, honour’d sir;
Give me a gash, put me to present pain;
Lest this great sea of joys rushing upon me
O’erbear the shores of my mortality,
And drown me with their sweetness. O, come hither,
Thou that beget’st him that did thee beget;
Thou that wast born at sea, buried at Tarsus,
And found at sea again! O Helicanus,
Down on thy knees, thank the holy gods as loud
As thunder threatens us: this is Marina.
What was thy mother’s name? tell me but that,
For truth can never be confirm’d enough,
Though doubts did ever sleep.
MARINA
First, sir, I pray,
What is your title?
PERICLES
I am Pericles of Tyre: but tell me now
My drown’d queen’s name, as in the rest you said
Thou hast been godlike perfect,
The heir of kingdoms and another like
To Pericles thy father.
MARINA
Is it no more to be your daughter than
To say my mother’s name was Thaisa?
Thaisa was my mother, who did end
The minute I began.
PERICLES
Now, blessing on thee! rise; thou art my child.
Give me fresh garments. Mine own, Helicanus;
She is not dead at Tarsus, as she should have been,
By savage Cleon: she shall tell thee all;
When thou shalt kneel, and justify in knowledge
She is thy very princess. Who is this?
HELICANUS
Sir, ‘tis the governor of Mytilene,
Who, hearing of your melancholy state,
Did come to see you.
PERICLES
I embrace you.
Give me my robes. I am wild in my beholding.
O heavens bless my girl! But, hark, what music?
Tell Helicanus, my Marina, tell him
O’er, point by point, for yet he seems to doubt,
How sure you are my daughter. But, what music?
HELICANUS
My lord, I hear none.
PERICLES
None!
The music of the spheres! List, my Marina.
LYSIMACHUS
It is not good to cross him; give him way.
PERICLES
Rarest sounds! Do ye not hear?
LYSIMACHUS
My lord, I hear.
Music”
“DIANA appears to PERICLES as in a vision
DIANA
My temple stands in Ephesus: hie thee thither,
And do upon mine altar sacrifice.
There, when my maiden priests are met together,
Before the people all,
Reveal how thou at sea didst lose thy wife:
To mourn thy crosses, with thy daughter’s, call
And give them repetition to the life.
Or perform my bidding, or thou livest in woe;
Do it, and happy; by my silver bow!
Awake, and tell thy dream.
Disappears
PERICLES
Celestial Dian, goddess argentine,
I will obey thee. Helicanus!”
“GOWER
Now our sands are almost run;
More a little, and then dumb.
This, my last boon, give me,
For such kindness must relieve me,
That you aptly will suppose
What pageantry, what feats, what shows,
What minstrelsy, and pretty din,
The regent made in Mytilene
To greet the king. So he thrived,
That he is promised to be wived
To fair Marina; but in no wise
Till he had done his sacrifice,
As Dian bade: whereto being bound,
The interim, pray you, all confound.
In feather’d briefness sails are fill’d,
And wishes fall out as they’re will’d.
At Ephesus, the temple see,
Our king and all his company.
That he can hither come so soon,
Is by your fancy’s thankful doom.
Exit
SCENE III. The temple of Diana at Ephesus; THAISA standing near the altar, as high priestess; a number of Virgins on each side; CERIMON and other Inhabitants of Ephesus attending. Enter PERICLES, with his train; LYSIMACHUS, HELICANUS, MARINA, and a Lady
PERICLES
Hail, Dian! to perform thy just command,
I here confess myself the king of Tyre;
Who, frighted from my country, did wed
At Pentapolis the fair Thaisa.
At sea in childbed died she, but brought forth
A maid-child call’d Marina; who, O goddess,
Wears yet thy silver livery. She at Tarsus
Was nursed with Cleon; who at fourteen years
He sought to murder: but her better stars
Brought her to Mytilene; ‘gainst whose shore
Riding, her fortunes brought the maid aboard us,
Where, by her own most clear remembrance, she
Made known herself my daughter.
THAISA
Voice and favour!
You are, you are–O royal Pericles!
Faints
PERICLES
What means the nun? she dies! help, gentlemen!
CERIMON
Noble sir,
If you have told Diana’s altar true,
This is your wife.
PERICLES
Reverend appearer, no;
I threw her overboard with these very arms.
CERIMON
Upon this coast, I warrant you.
PERICLES
‘Tis most certain.
CERIMON
Look to the lady; O, she’s but o’erjoy’d.
Early in blustering morn this lady was
Thrown upon this shore. I oped the coffin,
Found there rich jewels; recover’d her, and placed her
Here in Diana’s temple.”
“Are you not Pericles? Like him you spake,
Like him you are: did you not name a tempest,
A birth, and death?
PERICLES
The voice of dead Thaisa!
THAISA
That Thaisa am I, supposed dead
And drown’d.
PERICLES
Immortal Dian!
THAISA
Now I know you better.
When we with tears parted Pentapolis,
The king my father gave you such a ring.
Shows a ring
PERICLES
This, this: no more, you gods! your present kindness
AS VIAGENS DE GULLIVER A VÁRIAS NAÇÕES REMOTAS DO MUNDO
Jonathan Swift, deão de São Patrício em Dublin, primeiro publicado no verão 1726-7 e agora finalmente trazido para os modernos conhecedores do Idioma Português, nesta pandemia de 2020!
“Meu pai costumava me remeter esporadicamente algumas somas de dinheiro que bastavam para minhas módicas despesas; eu as aplicava aprendendo a Náutica, bem como outros segmentos da Matemática úteis àqueles que desejam empregar seus dias viajando. Algo me dizia que, quer queira, quer não, mais cedo ou mais tarde, eu estaria destinado a este ofício! (…) Estudei Física 2 anos e 7 meses, conhecendo sua utilidade ao percorrer longos trajetos.”
“aconselhado a abandonar o celibato, casei-me com a senhorita Mary Burton, segunda filha do senhor Edmund Burton, tecelão e dono de armazém na rua de Newgate, de quem recebi, como dote, 8 mil xelins.”
“Fui cirurgião em dois navios subsecutivamente, vindo a fazer diversas viagens ao longo de 6 anos, às Índias Orientais e Ocidentais, excursões que também acresceram minha fortuna. Minhas horas de ócio eu empregava lendo os melhores autores, antigos ou modernos, nunca me encontrando nalgum lugar sem uma penca de livros; a bordo, ao poder observar os hábitos e os costumes de outros povos, aprendia sobre sua cultura, aproveitando para aprender também sua língua. Creio que eu nasci predisposto a esse tipo de aprendizado, pois minha prodigiosa memória me poupava dos mais ásperos esforços.”
“Acabei por aceitar uma proposta muito vantajosa do capitão William Prichard, regente do navio Antílope, que excursionaria em breve rumo aos mares do Sul. Partimos de Bristol dia 4 de maio de 1699, e posso dizer que no começo nossa jornada foi bastante próspera.”
“Na medição, encontrávamo-nos na latitude de 30 graus e 2 minutos sul. Doze de nossos tripulantes já haviam morrido de excesso de fadiga e escassez de víveres.”
“Nadei a esmo, conforme a fortuna me ditou, e de algum modo avancei graças ao vento e à maré. Constantemente deixava minhas pernas caírem, e não era capaz de sentir nenhum fundo. Mas, quando já não podia me agüentar, percebi que estava incrivelmente perto da praia, a uma profundidade propícia para um homem atravessar andando. Nesse momento a tempestade já havia enfraquecido deveras. O declive do solo neste litoral era tão pequeno que caminhei, ainda com as pernas submersas, mais de um quilômetro até me achar finalmente em terra seca. Calculei que devia ser umas 8 da noite.”
“Dentro em pouco senti algo vivo se movendo pela minha perna esquerda, deslizando e subindo suavemente, escalando até meu peito, e depois quase alcançando uma de minhas bochechas. Ao baixar minha vista para resolver o mistério – que será? –, vejo uma criatura humana de 6 polegadas, armada de arco-e-flecha, com uma aljava às costas. Não tive tempo de raciocinar antes que sentisse mais umas 40 criaturinhas semelhantes formigando por minha cútis! Claro, estão seguindo a primeira, conjeturei. Meu espanto carecia de expressão”
“Hekinahdegul!, os outros repetiram as mesmas palavras diversas vezes, e nesse ponto da estória eu não sabia o que isso queria dizer.”
“Tolgophonac”
“Langrodehulsan”
“Peplomselan”
“Essas pessoinhas são exímios matemáticos, e atingiram a perfeição em engenharia, muito devido à industriosidade e empenho do imperador, um grande mecenas do conhecimento, se me é permitido o trocadilho.”
“Passei algumas horas bastante premido pelas necessidades da natureza; é de admirar que eu tenha agüentado tanto, já que fazia já 2 dias que eu não evacuava. Meu caso era grave: ao mesmo tempo que se insinuava essa emergência corporal, meu sentimento de decência me refreava. A melhor solução que encontrei, enfim, foi enfiar-me o mais fundo que pudesse no que me deram como moradia; segui, portanto, até a corrente que me prendia não me permitir ir mais longe, e detrás de bem-fechados portões descarreguei aquele excesso desconfortável de dentro de mim. Mas juro que essa foi a única ocasião em minha vida que me tornei culpável por uma ação tão abjeta!”
“Deste dia em diante, meu hábito passou a ser, assim que acordava, praticar ‘o ato’ a céu aberto, no limite do alcance de minha corrente. Além disso, graças a minha prevenção e também ao susto do incidente anterior, todo o cuidado era tomado pelo governo para que, antes de qualquer trânsito de pessoas pela rua, dois servos especialmente designados removessem a matéria ofensiva com a ajuda de carrinhos de mão. Eu não perderia tanto tempo da narrativa com detalhes tão escatológicos, à primeira vista absolutamente inoportunos, se não cresse imprescindível justificar minha conduta, meu asseio e minha higiene perante a boa sociedade”
“Ele era pelo menos uma unha (minha) mais alto que todo o restante da côrte, o que, por si só, é de saltar às vistas, naquele mundinho em miniatura!” “Ele já estava na metade descendente da vida, nos seus 28 anos e 9 meses, dos quais ele reinou por 7 na mais plena tranqüilidade e prosperidade.” “Seus trajes eram simples, diria que a moda de seu povo se situava entre a asiática e a européia; porém, à cabeça usava um portentoso elmo dourado, todo cravado de jóias, encimado por uma pluma.”
“tentava me comunicar com eles em quantas línguas eu sabia e em quantas eu não sabia (qualquer palavra decorada já me servia de auxílio), as quais eu enumeraria como as seguintes: o Holandês erudito e o vulgar, Latim, Francês, Espanhol, Italiano e a língua franca; mas não se espantem quando eu disser que nada dessa minha poliglotia servia para eu me fazer entender.”
“Eles perceberam o quanto seria oneroso eu ser mantido pela tribo. Que minha dieta custar-lhes-ia o suor de muitos e muitos homúnculos, eventualmente causando até fome e miséria em seu país. Então a dado ponto eles me submeteram praticamente a uma greve de fome ou jejum compulsório. Mas não era uma solução definitiva. Então um dia me flecharam na face e nas mãos com setas envenenadas, esperando, senão matar-me (porque o veneno seria reduzido comparado a meu volume relativo de rios de sangue), ao menos livrarem-se de mim (esperando que eu fugisse). Na verdade só posso considerar este como o plano desde o início, ao pensar melhor, pois a própria possibilidade da minha morte e da transformação do meu corpo em cadáver seria o bastante para desencadear uma grave crise: uma porção imensurável de carne putrefata, um odor pestífero que logo se alastraria, e que talvez iniciasse uma epidemia capaz de dizimar aquela civilização na micro-metrópole de Lilliput! O melhor para eles é que eu me fosse embora, voluntariamente.”
“Foi ordenada uma comissão de 6 habitantes, que ganhariam salários, para serem meus domésticos; foram-lhes erguidas moradias equidistantes e ao redor da minha própria<casa>. Foi também estipulado que 300 alfaiates se encarregariam de me confeccionar alguns vestuários conforme a moda local”
“em cerca de 3 semanas eu fiz grandes progressos no aprendizado da língua nativa”
“Imprimis: no bolso direito da jaqueta do grande homem-montanha (pelo menos é assim que eu decifro a expressão quinbusflestrin), após a mais meticulosa busca, nada encontramos além de uma flanela gigante, gigante o bastante para servir de carpete da maior sala do palácio real. (…) Obrigamo-lo então a revelar o que se encontrava no extremo da corrente; pareceu-nos uma espécie de globo. Meio-prata e meio-translúcido, embora esta segunda parte também fosse de um material metálico; nessa metade transparente constatamos algumas estranhas figuras desenhadas em círculo; muito embora fôssemos capazes de <tocá-las>, era apenas uma ilusão de perspectiva, pois o tato nos revelava que tocávamos com os dedos apenas a superfície transparente do hemisfério do globo, e não os desenhos inscritos por debaixo daquele domo. Ele aproximou este globo de nossos tímpanos, queria que verificássemos uma coisa – o estranho mecanismo não parava de emitir um certo som como o de um moinho de vento, a intervalos regulares! Conjeturamos: será um animal desconhecido? Ou o deus que o homem-montanha venera? Achamos mais provável esta última opção, pois ele mesmo nos afiançou (se compreendemo-lo bem, pois ele não domina nossa língua e o conceito parecia um tanto abstrato) que rara era a ocasião em que ele fazia qualquer coisa sem consultar seu objeto ou talismã primeiro. Ele o chamou de <seu oráculo>, e declarou que tal globo ou entidade era o responsável por indicar-lhe precisamente o tempo destinado a cada ação do seu ciclo de existência.”
“a pólvora eu havia deixado amarrada, impermeável, dentro da algibeira, precaução de todo bom marinheiro quando infelizmente tem de se jogar no mar”
“Ele ficou espantado diante do barulho contínuo que o cilindro produzia, e também do rastro da bala no ar, que ele podia claramente discernir (a vista dos liliputianos é muito mais perfeita que a nossa)”
“Minha cimitarra, minhas pistolas e algibeira foram todas estocadas em carruagens nos depósitos de sua majestade; o resto dos meus pertences, ao menos, foi-me devolvido.
Eu tinha um bolso bem escondido em minhas vestes, que escapou a toda inspeção minuciosa deste povo singular. Nele eu guardava um par de óculos (porque algumas vezes eu tinha fraqueza nos olhos), um monóculo portátil e outras bagatelas que, não sendo de maior consequência para o imperador, bem julguei que não valesse a pena revelar-lhe a existência. Além do quê, cogitei que, de tanto manusearem esses instrumentos delicados, podiam acabar quebrando alguma lente.”
“Algumas vezes eu me deitava, de mãos espalmadas, e deixava que 5 ou 6 liliputianos dançassem sobre elas; com o passar do tempo, foram-se acostumando a mim e até os garotos e garotas da vila se aventuravam a conhecer-me de perto e tocar-me. As crianças gostavam de jogar esconde-esconde em minha cabeleira.”
“essa gente excelia qualquer nação que eu jamais conhecera em destreza e magnificência.”
“Quando um cargo de relevo fica vago, por morte ou desgraça (e desgraças acontecem), 5 ou 6 candidatos pleiteavam ao imperador sua posse na função renomada, através de um teste bem fora do comum: sua majestade e o restante da côrte deviam testemunhar uma dança sobre a corda!” “Não raro os próprios ministros em atividade eram convocados a demonstrar sua perícia equilibrista, a fim de convencer o imperador de que ainda possuíam a mesma habilidade que os levara ao cargo no passado.”
“Mas não pense que esses espetáculos nunca terminassem em acidentes fatais – isso era o mais comum, inclusive. Os documentos do governo registraram uma infinidade desses casos. Eu vi pessoalmente 2 ou 3 dos candidatos fraturarem algum membro. Mas o maior perigo se apresenta, mesmo, nas danças dos ministros; ciosos de superar os pretendentes aos novos cargos e de superarem a própria reputação já auferida, e buscando sobressair-se em relação a todos os demais funcionários, eles se aplicam até os limites de seus talentos corporais; nessa situação, raríssimo era o ministro que durante toda sua vida não sofria nenhuma queda da corda; está certo que nem todas as quedas matavam ou deixavam aleijado, pois vi muitos homens com a saúde perfeita que relatavam já haver tombado 2 ou 3 vezes…”
“Golbasto Momarem Evlame Gurdilo Shefin Mully Ully Gue, Todo-Poderoso Imperador de Lilliput, júbilo e terror supremos do universo, cujos domínios se estendem por 5 mil blustrugs (eu diria que coisa de 10km de raio), até os extremos do globo; monarca dos monarcas, mais alto que os filhos dos homens; cujo pé empurra para baixo e submete tudo com a gravidade, até o mais fundo; cuja cabeça altiva ameaça até o sol.
(…)
Art. 6º. Que ele deverá ser nosso aliado contra os inimigos da ilha de Blefuscu, e devotar-se ao máximo a fim de dizimar sua frota, que agora se organiza para invadir-nos.
(…)
Art. 8º. Que o supracitado homem-montanha deverá, dentro de no máximo 2 luas a contar da promulgação desta Lei, fornecer uma medição precisa da circunferência de nossos domínios mediante o cômputo dos seus passos como unidade de medida, circunscrevendo a costa.
Último artigo. O homem-montanha prestará juramento solene de que observará todos os artigos desta constituição. Sua retribuição por seus serviços será uma ração diária de carne e bebida o suficiente para nutrirem 1.724 (hum mil setecentos e vinte e quatro) liliputianos médios, com livre acesso à presença de nossa pessoa real, bem como outros privilégios e distinções.
Redigida em nosso palácio de Belfaborac, ao décimo segundo dia da 91ª lua de nosso reino.”
“O leitor talvez queira observar que, no último artigo da constituição que regulamenta a retomada de minha liberdade, o imperador estipula uma quantidade de carne e de bebida para minha pessoa equivalente à que seria destinada a alimentar 1724 indivíduos liliputianos. Algum tempo depois, perguntando a um de meus amigos da côrte como foi que eles chegaram a esta medição tão exata, fui relatado que os matemáticos a serviço de sua majestade, utilizando minha altura como parâmetro e com o auxílio do quadrante, chegaram à conclusão de que eles próprios estavam em proporção a mim como o número 1 está para o número 12; e, havendo analogia orgânica e estrutural entre nossos corpos, intuíram que o meu deveria possuir uma massa de 1724 homenzinhos e, conseqüentemente, meu metabolismo deveria queimar energia nas mesmas bases.”
“Eu ultrapassei o grande portão ocidental e avancei bastante sutilmente, esgueirando-me por entre as duas principais vias, não vestindo mais do que meu colete, um tanto justo, por medo de danificar, se usasse um tecido mais longo, os telhados e esquinas das casas.”
“nós lutamos contra dois grandes males: uma violenta facção em nosso lar e a constante ameaça do invasor do lado de fora, inimigo este que nos é superior militarmente. Quanto ao primeiro mal, vós deveis compreender que, há já 70 luas nesta nação há dois partidos que racham a unidade do império, sob as alcunhas de Tramecksan e Slamecksan, distinguindo-se os partidários dum e doutro conforme calçam cano-alto ou sapatos rasos. Alega-se que os de cano-alto ou coturno são a facção mais agradável posto que fiel às nossas maiores tradições e leis mais arcaicas; seja como for, sua majestade determinou compor seu quadro apenas dos sapatos-comuns, ficando a facção mais ortodoxa como mera expectadora dos eventos da Coroa. (…) (drurr é uma unidade de medida correspondente mais ou menos a 1/14 de uma polegada) (…) Os Tramecksan ou canos-altos são de fato a maioria; mas nós concentramos o poder. (…) Quanto ao que afirmas, que há outros reinos e Estados neste mundo, habitados por seres humanos tão grandes quanto tu, nossos filósofos estão muito céticos; sua opinião é de que caíste da lua, ou de uma das estrelas; porque, com certeza, se 100 mortais tão grandes quanto tu existissem, todos os víveres, toda a fauna de sua majestade extinguir-se-iam num piscar de olhos. Ademais, nossa História de 6 mil luas de idade não faz menção de nenhuma outra região para além dos impérios de Lilliput e Blefuscu. (…) A contenda principal é: o modo primitivo de quebrar os ovos, antes de comê-los, é pelo lado mais largo; mas quando o avô da majestade vigente, em sua infância, prestes a comer um ovo, e quebrando-o conforme o costume antigo, cortou um de seus dedos, seu pai, isto é, o bisavô de sua majestade vigente, decretou, prevendo pesadas punições para os infratores, que os ovos deviam, doravante, ser quebrados pelo seu lado mais estreito. O povo ficou descontente com os novos usos, tendo havido 6 rebeliões originadas pela promulgação desta lei; como resultado, um rei perdeu sua vida, e outro sua coroa. Essas comoções civis foram fomentadas muito visivelmente pela nobreza de Blefuscu, que não vacilou uma só vez em receber todos os refugiados e hereges de Lilliput, para reforçar seus exércitos. Foram computados 11 mil mortos, que preferiram a punição a quebrar os ovos pela parte mais estreita. Centenas de calhamaços foram então publicados na matéria. Os livros dos ‘coturnos’ ou ‘larguistas’, foram completamente proibidos, e os partidários desta crença foram declarados inaptos para a assunção de cargos. Durante todas essas instabilidades os imperadores de Blefuscu sempre maquinaram mediante seus embaixadores, acusando-nos de cisma religioso, alegando grave ofensa a uma doutrina fundamental do grande profeta Lustrog, exposta no capítulo XLIV do Blundecral (que é o Alcorão dos liliputianos). Mas esses versos parecem estar corrompidos ou sujeitos no mínimo a uma má-interpretação, uma vez que as palavras são estas: <todo verdadeiro crente deverá quebrar seus ovos do lado conveniente.>. E qual seria esse lado conveniente? Na minha humilde opinião, este problema deveria ser deixado à consciência de cada cidadão, ou pelo menos dos magistrados, que têm toda a competência para eleger um lado favorito.”
“O império de Blefuscu é uma ilha a nordeste de Lilliput, do qual jaz separado por um canal que não ultrapassa as 800 jardas.”
“Tão triviais são todos os serviços prestados a um príncipe, quando no outro prato da balança ele situa aquela única ocasião em que nos recusamos a satisfazer um capricho seu!”
“Burglum! Burglum! Burglum! O palácio real estava em chamas e fui acordado no meio da noite. (…) Por puro golpe do destino, na noite anterior aconteceu de eu ter tomado uma generosa quantidade de um deliciosíssimo vinho chamado por nós de glimigrim, e pelos blefuscudianos de flunec, do qual porém nos orgulhávamos de cultivar as melhores safras e os melhores vinhedos. Bebida muito diurética, esta! O acaso mais feliz é que eu não havia, até o momento, despejado nenhuma gota desta substância pelo meu canal uretral, até ser chamado pelos meus desesperados convivas a ajudar no combate ao incêndio. E o vívido contato com o calor daquelas chamas, após o fatigante trabalho de carregar tonéis de água que pudessem debelar o mal (para mim tais tonéis não passavam de tampas), finalmente acendeu em mim a vontade de desopilar! Dei vazão a meus instintos: urinei em tal quantidade, em tal abundância, e apliquei o jato tão adequadamente nos focos do incêndio, que em 3 minutos o fogo estava completamente extinto, e o resto dos escombros reais, que levaram tantas luas para serem erguidos, foram preservados da destruição.”
“Havia, sem embargo, uma questão: era interdito a qualquer pessoa, de qualquer condição, sangue-azul ou plebeu, aliviar-se nas dependências do palácio. Nisto, fiquei apreensivo: seria eu condenado à morte por tal blasfêmia sem tamanho? Mas sua majestade me tranqüilizou com o recado de que daria pessoalmente ordem ao grande-inquisidor para me anistiar formalmente por qualquer ofensa ao código neste caso tão excepcional.”
“Assim como a estatura média dos habitantes é ligeiramente inferior a 6 polegadas, também cada animal e planta existe em miniatura e nas mesmas proporções que em nosso mundo.”
“Sua maneira de escrever é um tanto peculiar, não sendo nem da esquerda para a direita, como com os europeus, nem da direita para esquerda, como os árabes fazem, nem de cima para baixo, como é o caso dos chineses, mas obliquamente, duma diagonal à outra, cruzando o papel, como as madames na Inglaterra.
Eles enterram seus mortos de ponta-cabeça, na vertical, porque eles acreditam que em 11 mil luas todos os mortos reviverão, e neste dia a terra (que eles crêem ser plana) virará do avesso, e por esse método eles procuram que, à ressurreição, os liliputianos acordem já sobre seus pés, prontos para caminharem para fora de suas tumbas. É verdade que os mais eruditos dentre os liliputianos confessam a absurdez dessa doutrina; mas a prática remanesce, havendo complacência com a sabedoria popular.”
“o símbolo da Justiça, presente nas côrtes de judicatura, é uma figura de 6 olhos, 2 à frente, 2 às costas e mais 1 de cada lado, significando circunspecção; com um saco de ouro aberto em sua mão direita, e uma espada embainhada à sinistra, o símbolo quereria dizer com isso que seu papel é mais recompensar do que punir.”
“não é concebível, entre os liliputianos, que uma criança esteja obrigada a obedecer ao pai biológico pelo simples fato de trazê-la ao mundo, tampouco à mãe (…) sua opinião é que os pais são os menos confiáveis para decidir sobre a educação da criança”
“As crianças são vestidas pelos adultos até os 4 anos; depois disso devem se vestir sozinhas, não importa se é um menino ou menina da aristocracia; as atendentes do sexo feminino, cuja idade é mais ou menos, proporcionalmente, a de 50 para nossos anos solares, só executam algumas tarefas consideradas mais vis, muito limitadas em número.”
“Os pais só podem ver seus filhos duas vezes ao ano; cada visita deve durar uma hora; pode-se dar um beijo à chegada e outro beijo à saída; mas um guardião do Estado, que deverá testemunhar esses encontros, não permitirá cochichos nem expressões de ternura exageradas e afetadas, nem troca de presentes, brinquedos espalhafatosos, guloseimas e que-tais.”
“Se for percebido que alguma dessas babás se atreve a entreter ou assustar as mocinhas com estórias tolas ou aberrantes, ou qualquer tipo de tolice, como as que soem praticar pela Inglaterra, a culpada será açoitada em praça pública, não só numa mas em três sessões separadas, em diferentes pontos da cidade, além de encarcerada por um ano, ao fim do qual é devolvida à liberdade, conquanto banida da sociedade para viver nas partes mais remotas. Esse sistema faz das donzelas tão ou mais embaraçadas diante de demonstrações de covardia e asneirice que os próprios homens, de modo que também detestam ornamentos corporais, indecentes e contrários ao asseio: com efeito, crescer homem ou mulher em Lilliput é absolutamente idêntico, a não ser, talvez, por uma suavização tênue nos exercícios físicos das mulheres (…) a esposa deve ser companhia prudente e agradável, já que nem sempre será jovem. Aos 12 anos as garotas atingem à maioridade (lembrando que sua escala de tempo é diferente da nossa); seus pais ou guardiães trazem-na para casa, demonstrando gratidão aos professores (um dos quais é o guardião estatal a que me referi nos reencontros semestrais entre pais e filhos durante a infância destes), mas sem choro de mulheres e coisas assim.”
“Como Sua Majestade é excepcionalmente benévola, e em consideração a teus incomensuráveis serviços à Coroa, ela está decidida a poupar-te a vida, sendo o bastante que arranquemos ambos os teus olhos, humilde punição que te quitará com a lei. (…) Claro que a extração de tuas córneas não fará de ti um homem fraco; mesmo um cego como tu, posto que gigante, poderá ser de utilidade para Sua Alteza. Aquele que, mesmo cego, serve ao rei demonstra redobrada valentia, e cremos mesmo que a falta de visão seja uma vantagem, por acrescer certa valentia interna ao ser; o medo que tiveste de que acontecesse algo a teus olhos foi a maior dificuldade que tivemos para capturar a frota rival. Ademais, para ti está de bom tamanho que vejas pelos olhos dos ministros, pois sabemos que assim são os príncipes (em metáfora, é claro).”
“O rei tem boas razões para crer que és um larguista no fundo de teu coração. E, como a traição principia no coração, antes de manifestar-se nos atos, sua majestade acusou-te como traidor da pátria com fundamento sólido, e insistiu em condenar-te à morte.”
“Foi decidido meticulosa e rigorosamente que o projeto de matar-te por inanição gradual permanecesse um segredo de Estado”
“Foi um costume introduzido pelo monarca atual e seu ministério (que contrasta vivamente com o uso dos antigos) que, após a côrte pronunciar qualquer sentença capital, fosse para bajular o ressentimento do rei ou excitar a malícia de um ou outro cortesão favorito, o imperador deveria proceder a um discurso perante seu conselho, expressando hipocritamente sua misericórdia e ternura infinitas, qualidades altamente reputadas e veneradas em todo o mundo. E este discurso era, posteriormente à transcrição do escriba, publicado em todo o reino; e nada amedrontava tanto as pessoas quanto esses encômios autodirigidos à benevolência de Sua Majestade! Quanto mais pomposas eram estas palavras, verificava-se a cada execução, mais inumana e cruel se mostrava a punição, e não raras eram as vezes em que o réu não passava de um inocente. Confesso, não havendo nascido para a côrte, nem sido educado para compor a mesma, ser tão mau juiz e árbitro das coisas que não encontrei em canto algum da sentença essa leniência e esse favor tão aventados! Considerei então (talvez erroneamente) que havia nesta peça mais rigor que gentileza!”
“Ruminava sobre meu futuro, e estava propenso a resistir a minha punição, uma vez que, de fato, não estando eu despojado do movimento em meus membros, minha força era suficiente para derrubar todo esse império. Bastaria arremessar algumas pedras e a capital estaria completamente arruinada. Mas meu remorso começou a crescer dia a dia e desisti desta resolução inicial, relembrando meu juramento para com o imperador, e todas as honras que dele recebi, incluindo meu título de nardac (o mais nobre da nação).”
“Devo admitir que a preservação de meus olhos – e minha conseqüente liberdade – deveu-se a meu caráter um tanto afoito e minha completa falta de experiência. Porque se eu conhecesse bem, àquela altura, a natureza de príncipes e ministros, que hoje eu posso me jactar de conhecer após visitar muitas outras côrtes, seus métodos de tratar criminosos menos detestáveis do que eu, ah, se de tudo isso fizesse idéiaentão!…creio mesmo que, cheio de alacridade e circunspecção, resignar-me-ia a minha dura sentença.”
“e o embaixador declarou que, a fim de manter a paz e a amizade entre os dois impérios, o imperador de Lilliput esperava que seu irmão de Blefuscu ordenasse minha extradição de volta ao país liliputiano, de pernas e braços bem-amarrados, para ser devidamente punido pela minha traição.”
“o acaso, bom ou mau isso eu não sei, atirou em minha direção um barco, em que eu não hesitaria em embarcar, oceano adentro. Não quis continuar a ser um objeto de disputas entre dois ilustres monarcas! O mesmo imperador que me mantinha como hóspede não se mostrou de todo insatisfeito com minha decisão. Na verdade, por acidente, acabei por apurar que ele estava, ao contrário, muito contente, assim como a maioria absoluta de seus ministros.
Essa descoberta me fez apressar minha partida. A côrte, já manifestamente impaciente pela minha ida, muito me auxiliou na empreitada. Quinhentos operários foram designados para confeccionar velas para meu barco, seguindo minhas meticulosas instruções; cada vela era o produto de 13 dobraduras do seu linho mais forte e resistente!
“Um mês depois do começo dos trabalhos, com tudo ajeitado, comuniquei oficialmente a Sua Majestade de Blefuscu minha partida imediata. (…) O monarca me regalou com 40 bolsas contendo 200 sprugs – a moeda blefuscudiana – cada, com um quadro enorme (para seus padrões) seu, o qual eu pus dentro de uma de minhas luvas para manter seco.”
“Abasteci a embarcação com carcaças de 100 bois e 300 ovelhas, além da mesma proporção em pão e bebida, quantidade que um blefuscudiano demoraria 400 refeições normais para consumir. Fiz questão de levar, ainda, 6 vacas e 2 touros vivos, bem como os mesmos números em ovelhas e carneiros, respectivamente, com o fito de exibi-los em minha terra natal e, quem sabe, proceder à criação desta micro-espécie. Para alimentá-los enquanto estivessem a bordo trouxe comigo um bom naco de feno, e uma saca de milho.”
“Lancei-me ao mar em 24 de setembro de 1701.”
“Meu propósito era atingir, se possível, uma das ilhas que, eu cria, se localizavam a nordeste da Terra de Van Diemen.¹ Mas não me deparei com terra nesse dia; no próximo, contudo, lá pelas 3 da tarde, após, pelos meus cálculos, navegar 24 ligas marítimas desde Blefuscu, avistei velas a sudeste (eu seguia sentido oeste-leste).”
¹ Cujo nome foi mudado para Ilha da Tasmânia na década de 1850. Fica próxima da Austrália.
“Era um navio mercante de minha terra, regressando do Japão pelos mares setentrional e meridional. O capitão, Senhor John Biddel, de Deptford, era bastante cortês e excepcional marinheiro.
Estávamos agora a 30 graus sul de latitude; havia 50 homens no navio. Aqui encontrei um velho camarada, Peter Williams, o que só aumentou minha estima pelo capitão John. Este camarada me tratou com a maior consideração. Ele logo desejou saber de que lugar eu vinha, e se fôra feito prisioneiro; eu não hesitei em resumi-lo minhas aventuras em breves palavras, mas ele obviamente pensou que eu delirava. Natural que um marinheiro perceba num discurso incrível sintomas de alguém que passou pelas piores atribulações em alto-mar, e não dê crédito. Porém, para comprovar tudo, retirei do bolso meu gado e rebanho, o que, por fim, após um grande espanto e turbação causados ao camarada, serviram para convencê-lo da autenticidade do meu relato.” “Dei-lhe duas bolsas de 200 sprugs. Afiancei-lhe que, chegados à Inglaterra, dar-lhe-ia também uma de minhas vaquinhas e uma de minhas ovelhinhas adultas, junto com as crias, quando já as tivessem.”
“Ancoramos em Downs dia 13 de abril de 1702. Minha única infelicidade foi que os ratos do navio levaram uma de minhas ovelhas.”
“Durante minha curta nova estada em meu lar, lucrei algum dinheiro exibindo meu gado-miniatura a pessoas distintas. Antes que começasse minha segunda viagem, consegui vendê-los, por fim, a 600 libras. Ao regressar mais tarde eu contemplaria o crescimento exponencial dos espécimes, especialmente dos carneiros, o que, penso eu, contribuirá muito para o progresso da manufatura de lã do país, dado que realmente a lã destas micro-ovelhas é de altíssima procedência!
Para resumir, fiquei parado apenas por mais 2 meses, ao lado de esposa e família, pois meu insaciável desejo de conhecer novos povos não me permitiria continuar por mais tempo. Deixei 1500 libras nas mãos de minha mulher, comprando também uma casa para todos se instalarem com conforto em Redriff. O resto de meu dinheiro levei comigo, parte em espécie, parte em bens, com o intento de voltar a multiplicar minha fortuna. Meu tio mais velho, John, morrera e deixara, em herança, terras nas proximidades de Epping, que geravam um lucro de aproximadamente 30 libras ao ano. (…) Meu filho Johnny, batizado em homenagem a esse tio, estava no primário, mas eu já podia ver o quanto o menino era adiantado. Minha filha Betty (hoje, enquanto escrevo, uma mulher casada e com filhos) começava a desempenhar seu ofício de costureira. Despedi-me, então, de minha esposa, da garota e do garoto, com lágrimas nos olhos, de ambas as partes, e embarquei para novas aventuras, num navio mercante de 300 toneladas, com destino ao Surat, grande entreposto comercial das Índias Ocidentais, capitaneado por John Nicholas, de Liverpool.”
* * *
PARTE II – VIAGEM A BROBDINGNAG
“Tivemos ventos muito favoráveis até chegarmos ao Cabo da Boa Esperança, onde desembarcamos para coletar água doce; porém, descobrindo um vazamento, desembarcamos também todos os nossos pertences e a carga e acampamos por ali; com o capitão padecendo de febre, não pudemos seguir nosso curso até o fim de março.”
“Nossa trajetória era leste-nordeste, o vento seguia o rumo sudoeste-nordeste.”
“fomos levados, pelos meus cálculos, 500 ligas além da conta para leste, desorientados a ponto de o marinheiro mais experiente a bordo nada saber de nosso paradeiro. Nossas provisões ainda estavam em boa quantidade, nosso navio seguia firme e inabalado, a tripulação compartilhava um bom estado, mas o problema foi que a água se tornou terrivelmente escassa. Preferimos seguir no mesmo curso, ao invés de dirigirmo-nos mais para o norte, o que podia nos levar à costa noroeste da Grande Tartária, ou quem sabe ao mar congelado. No dia 16 de junho de 1703, o garoto no topo do mastro avistou terra.
“Quando aportamos em terra não vimos água corrente nem nenhuma fonte, muito menos sinais de povoação.”
“para mim era impossível escalar esse lance de escadas, porque cada degrau tinha quase 2m de altura e o topo da pedra estava lá pelo sexto metro de altura do chão.”
“avistei um dos habitantes, nas planícies das proximidades, avançando em nossa direção, do mesmo tamanho do colosso que flagrei perseguindo nosso barco! Ele tinha a altura dum campanário gótico e sua passada percorria 5m, pelo menos! Meu espanto não tinha dimensões, de modo que corri até o pé-de-milho mais próximo para me esconder. O gigante se ergueu sobre aquela enorme montanha de pedra, para nós, que para ele não passava de um escabelo ou plataforma, mirando ao longe, nos campos do lado oposto, com a mão direita em concha sobre os olhos. Eu ouvi seu chamado numa voz muitas e muitas vezes mais elevada que uma trombeta militar; o som ecoou de modo tão grave e assustador pelo ar que demorei a entender que não se tratava de um trovão. Imediatamente, 7 monstros da sua estatura se aproximaram portando gadanhas, o gancho de cada uma tão largo quanto 6 foices humanas inteiras!”
“Eu chorei minha viúva desolada e meus filhos órfãos de pai. Lamentei profundamente minha loucura e meu capricho, depois de tantos apuros arriscando-me numa segunda viagem, contra o conselho de meus mais próximos. Nessa terrível agitação, podia menos ainda suportar lembrar de Lilliput, onde os nativos me olhavam como o maior prodígio aparecido naquele mundo; lá eu mesmo podia encerrar toda a tropa imperial em minhas mãos, afora inúmeras outras ações que estarão para sempre gravadas nas crônicas daquela civilização de milhares de luares de duração, a ponto de provavelmente haver no futuro discussões entre as velhas e as novas gerações – porque decerto que uns chamarão todos os relatos historiográficos oficiais de mitologia e contos de fadas impressionáveis, mas outra corrente sempre acreditará em sua realidade efetiva!”
“Considerando a criatura humana mais selvagem e mais cruel em proporção a seu tamanho, o que poderia eu esperar senão tornar-me o pão do dia de um desses enormes bárbaros, o primeiro que me avistasse e me apanhasse? Pela primeira vez acreditei de corpo e alma nos filósofos, que dizem: nada é grande ou pequeno, a não ser relativamente. A natureza sabia o que fazia quando colocou liliputianos e blefuscudianos como vizinhos – imagine se os micro-homens tivessem de se haver com estes gigantes, gigantes para o único <gigante> que eles mesmos conheceram! E não duvido que um dia pudessem encontrar, os liliputianos, outros liliputianos deles mesmos: uma civilização menor ainda, que meu olho demasiado humano sequer pudesse distinguir em meio à relva! Mas o que me parecia mais estranho era que, houvesse gigantes para estes gigantes, não sei que continente terrestre poderia abrigá-los!… Sem dúvida o mundo era uma vastidão ainda longe de ser completamente conhecida pelo gênero humano, de qualquer tamanho ou espécie, pensei eu — tudo isso eu pensei, não organizada nem pachorrentamente, como aparece agora no papel, num curto intervalo de tempo, em meio aos temores mais macabros e à maior incerteza sobre os próximos eventos!”
“O gigante agiu com cautela, a mesma do caçador que não ignora que um animal, ainda que pequeno, pode vir a arranhá-lo ou mordê-lo. Na Inglaterra eu sabia caçar doninhas como poucos! Por fim, o homem-montanha me espreitou pelas costas, e envolveu meu tão largo lombo suavemente, entre seu indicador e polegar, depositando-me depois a cerca de 3m de seus olhos, para estudar minha fisionomia com mais precisão.”
“Ele <falava> bastante comigo; mas o som de sua voz feria meus tímpanos, chacoalhava meu organismo como se fôra todo o núcleo de um engenho ou moinho trabalhando a todo vapor. Apesar de tudo, eu conseguia distinguir as sílabas que ele emitia. Eu respondia o mais alto que conseguia, tentando em várias línguas, no que meu dono aproximava sua orelha de mim menos de 2m, o que para ele devia ser quase contato epidérmico; mas sempre em vão, porque não parecíamos dois seres inteligíveis. Parecíamos dois animais incapazes da comunicação entre nós.”
“Ele chamou sua mulher, e me exibiu a ela. Ela gritou e correu para longe, como a dona de casa inglesa ao ver um sapo ou uma aranha. Porém, depois de contemplar meu comportamento por algum tempo, e como eu parecia entender a reagir aos sinais de seu marido, ela passou a se acostumar a mim gradualmente, até considerar-me com bastante afeto, eu diria.”
“Eu segurei com bastante dificuldade o vaso com as duas mãos, e demonstrando grande respeito bebi à saúde da senhora, pronunciando o mais alto que pude as palavras em Inglês, o que fez todos os presentes rirem do fundo do coração. E essas gargalhadas quase me ensurdeceram. Esse licor tinha gosto de sidra, e estava longe de ser ruim.”
“lembrando quão naturalmente malvadas são nossas crianças com papagaios, coelhos, gatinhos e cães ainda filhotes, prostrei-me de joelhos e, apontando para o garoto, fiz com que meu mestre entendesse, tão bem quanto podia, que eu perdoava a ação de seu filho. O pai entendeu e concordou, e o garoto pôde se sentar à mesa novamente”
“como sempre me contaram, e por experiência própria confirmei em minhas viagens, fugir ou demonstrar medo diante dum animal feroz sempre o faz persegui-lo e ter mais motivos para atacá-lo, resolvi, então, nessa hora crítica, dissimular indiferença.”
“Tive muito menos apreensão dos cachorros, que se atulhavam na sala, como é usual em chácaras, em 3 ou 4; um era um mastim, que para mim tinha o tamanho de uns quatro elefantes, e havia também um galgo, algo mais alto que o mastim, mas muito mais esbelto.
Quando o jantar estava por terminar, a babá apareceu com um bebê de um ano de idade, que imediatamente me espiou e começou a guinchar e lamuriar na típica linguagem da idade duma forma que tenho certeza ouvir-se-ia da ponte de Londres a Chelsea, tal era seu desejo de brincar comigo.”
“Devo confessar que nada me causava mais horror que a vista de seus monstruosos seios, que não sei no momento com o quê comparar a fim de transmitir ao leitor curioso a correta proporção de seu vulto, de sua forma e de sua cor. Cada um era da altura de um homem da nossa civilização, e em circunferência creio que beirava os 5 metros. O mamilo era metade da minha cabeça, e sua cor, como a dos demais detalhes da teta, com pintas, cravos e sardas monstruosos, eram-me nauseantes. (…) Isso me fez refletir acerca da maciez da pele de nossas senhoras inglesas, que tão belas nos parecem, mas, no fim das contas, só porque estão adaptadas ao nosso próprio tamanho! Os defeitos da nossa mulher só poderiam ser assim apreciados com a ajuda de lentes de aumento.”
“Lembro de, em Lilliput, ter considerado a compleição daqueles micro-habitantes talvez a coisa mais linda sob o sol. Ao falar sobre isso com um sábio da nação, com quem estabeleci amizade, ele me disse que meu rosto parecia muito mais bonito e jovem quando me observava desde o solo, e que eu já não parecia o mesmo quando se me observava em close, nas vezes em que eu pegava meu interlocutor pela palma da mão a fim de aproximá-lo dos meus ouvidos. Ele confessou, com sinceridade, que se espantara quando vira meu rosto de perto pela primeira vez. Ele percebia enormes buracos, e dizia que cada fio de minha barba parecia mais rígido que as cerdas de um javali, e minha compleição, composta de um sem-número de cores, era um caleidoscópio doloroso aos olhos e, enfim, repulsivo. Devo dizer ao leitor que, na Inglaterra, eu sou dono de uma beleza mediana quando o assunto é o meu sexo, e que minha pele tem poucas imperfeições e queimaduras de sol, a despeito de tantas andanças e viagens!”
“A filha de meu dono se afeiçoou muito a mim, e me confeccionou 7 camisas e algumas outras roupas de linho, dos melhores tecidos disponíveis, que para o meu tato eram mais ásperos que roupas de juta. (…) Ela também foi minha professora do idioma local. (…) Eu fui batizado por ela de Grildrig, o que a família acolheu de forma voluntariosa. Em pouco tempo eu seria conhecido por todo o reino. Essa palavra carrega o mesmo significado do latim nanunculus, italiano homunceletino, inglês mannikin, isto é, <pigmeu>. Se não fosse essa mulher creio que pereceria em minha estada nesse país. Ela sempre me mantinha consigo e a salvo em suas peregrinações – eu a chamava de minha Glumdalclitch, ou <pequena babá>.”
“A vizinhança já andava dizendo que meu dono havia encontrado um estranho animal no mato, do tamanho de um splacnuck, embora constituído em toda sua compleição como um ser humano (como um ser-montanha!). E não escapava às observações que em tudo eu me comportava humanamente também, fosse inerentemente ou por imitação. E notaram que eu tinha uma linguagem totalmente própria e que me alfabetizava rapidamente na língua deles, andava ereto sobre duas pernas, era educado e gentil, aparecia quando era chamado, obedecia qualquer instrução, tinha membros muito hábeis e elegantes, e que meu pequeno rosto era mais formoso que o de qualquer menina aristocrata de três anos de idade.”
“Minha mestra me considerava humilíssimo, não desprovido de honra e amor-próprio, e que era-me degradante ser exposto no mercado por dinheiro para os tipos mais vulgares. Ela me afiançou que conseguiu de seu papai e de sua mamãe a promessa de que Grildrig seria dela e só dela; mas em breve ela percebeu que queriam fazer como fizeram com seu carneirinho do ano passado. De início seu mascote, ele foi engordado e logo vendido para o açougueiro.”
“o cavalo avançava mais de 10 metros a cada passo e trotava tão alto que a sensação não era outra senão a de ver-se solto num navio na mais agitada das tempestades. Nossa jornada era algo mais extensa do que seria o percurso de Londres a Saint Alban.”
“quase não me deixavam descansar nesse tempo, a não ser às quartas-feiras, que eram o Sabbath nessa região.”
“Cruzamos 6 ou 7 rios, no mínimo muito mais profundos e largos que o Nilo e o Ganges. Devo admitir que raramente havia regaço menor que o Tâmisa, nosso rio de pouco menos de 400km de comprimento. Já havia 10 semanas que estávamos nessa jornada; eu fui exibido em 18 grandes cidades do império, afora cidadezinhas e vilarejos ou famílias campesinas à parte. Em 26 de outubro chegamos à capital, chamada Lorbrulgrud, <Orgulho do Universo>.”
“Eu já era basicamente um usuário fluente da língua, podendo entender cada palavra dos interlocutores.”
“Minha ama trazia consigo um livrinho de bolso, não muito maior que um átlas de Sanson. Tratava-se de um manual muito disseminado entre as jovenzinhas desta nação, uma espécie de sinopse dos preceitos e da história da religião ali adotada. Ela utilizou este volume para alfabetizar-me.”
“Eles concluíram pela análise minuciosa de meus dentes que eu era um animal carnívoro. Mas, ao mesmo tempo, eles não podiam imaginar como eu podia me sustentar, uma vez que mesmo os quadrúpedes mais inofensivos e menores, como ratos, eram demasiado perigosos para minha acanhada existência. Cogitaram se eu não tinha de recorrer a lesmas e demais insetos.”
“Eles jamais se dignariam a classificar-me como um de seus iguais, um exemplar de sua espécie que teve sua maturação interrompida precocemente, i.e., um anão, porque minha pequenez estava muito abaixo de qualquer grau de aceitação do que devia ser um anão para eles. O menor indivíduo de todo o reino, o bobo favorito da rainha, tinha, ao que me parece, 9,14m. Após muitos debates, eles chegaram portanto a um consenso, o de que eu era um mero relplumscalcath, literalmente um lusus naturae conforme à moderna filosofia européia, definição vazia que não deixa de ser apenas um arremedo dos escolásticos aristotélicos para disfarçar sua extrema ignorância das coisas: queriam dizer, em suma, que eu era uma dessas aberrações de circo, e nada mais.”
“a rainha (mulher de estômago fraco!) se serviu, duma garfada, dum monte de comida equivalente à massa que uma dúzia de fazendeiros ingleses poderiam consumir num banquete suntuoso. Depois de ver essa cena, confesso que a cada nova lembrança voltava a me sentir enjoado como na ocasião. Isso se repetiria ainda por muitos dias”
“Confesso que, após falar copiosamente de minha terra-natal Grã-Bretanha, de descrever nossos comércios e guerras através de tantos mares e terras, e como os negócios de Estado estavam divididos em partidos assim e assado, de nossos cismas religiosos, dos preconceitos pedagógicos, etc., etc., Sua Alteza, não resistindo ao charme da crônica, fez-me subir a sua destra espalmada e me transportou, muito delicadamente, até bem perto de seu rosto real. Então, afetuosamente me afagando às costas e à cabeça como se fosse seu cachorrinho, e após uma sincera gargalhada, perguntou-me: Tu és um whig ou um tory?”
“Quão desprezível não é a grandeza humana, capaz de ser emulada em todos os seus ínfimos detalhes por insetos diminutos como tu e teus semelhantes! Imagino que vós levais bem a sério a questão das distinções honoríficas. E tal como em nosso reino vós construís casas e cidades, que para nós não seriam mais que uma toca de coelho! Aposto que a aristocracia se admira ao espelho com vestimentas aprumadas e adornos mil; ama e peleja; contende, trai, engana, vilipendia!”
“E o rei continuava, enquanto eu, desconfortável, ora empalidecia, ora ruborizava, fosse de vexação ou pura indignação. Não era fácil ouvir falar assim tão galhofeiramente do nosso nobre país, da nossa invencível marinha e de nossa perícia e indústria sem iguais. Segundo a visão deste homem, a França era ainda mais digna de pena, quando lhe disse que nossa rival era apenas a segunda dentre as nações; e para ele a Europa não passava de um amontoado de arbitrariedades sem propósito. O que poderiam significar, nesse contexto tão irrelevante, virtude, piedade, honra, verdade, altivez e a ambição de conquistar o mundo inteiro? Nosso ridículo papel no jogo do universo era manifesto, e eu não fui poupado de ouvi-lo com todas as sílabas.”
“Nada me mortificava e me indignava tanto quanto este anão da rainha. Como eu disse, ele tinha <apenas> 9,14m, ou seja, era com toda a certeza o campeão dentre os pigmeus do reino – ninguém de sua própria espécie conseguia ser mais baixo do que ele. E parece que à minha vista ele também se sentia terrivelmente mortificado, interpretava minha existência como um insulto – uma ofensa direta à sorte que lhe cabia de ser o primeiro em alguma coisa. Sua inveja e ciúmes se tornaram evidentes. Pois eu duvido que vocês encontrem um bobo da côrte mais presumido do que este em todos os mundos nos quais pisarem!”
“ela costumava me perguntar se as pessoas do meu país eram tão covardes quanto eu.”
“A totalidade da extensão dos domínios do príncipe girava em torno dos 9500km em longitude e dos 4800km aos 8000km (especulava-se, sem muita certeza) em latitude. Isso me leva a crer que os geógrafos europeus encontram-se muito equivocados em seus cálculos ao supor que nada há entre o Japão e a Califórnia senão o oceano! Eu, particularmente, sempre acreditei que devia haver uma quantidade de terra equivalente para compensar, nas coordenadas opostas do globo, os desertos da Tartária. Proponho, doravante, uma reformulação dos mapas e cartas atuais, acrescentando este vasto continente dos gigantes na circunvizinhança da porção noroeste da América. Ofereço meus préstimos para o que se fizer necessário.”
“desnecessário dizer que essa gente se encontra excluída de todo comércio com qualquer outra nação do mundo.”
“a natureza, ao produzir as plantas e animais deste espaço, de dimensões tão extraordinárias, formou um ecossistema perfeitamente fechado, limitado a este continente, mantendo outras zonas terráqueas sem qualquer interferência ou comunicação com este espaço que padece de gigantismo. Parece que isso ocorre em benefício tanto desta terra dos gigantes quanto do resto do mundo, de forma que nenhuma das fisionomias da natureza sai prejudicada. Se há uma moral por trás destes fatos, deixo para os filósofos descobrirem.”
“As madames da côrte amiúde convidavam Glumdalclitch a seus apartamentos, e encorajavam-na a levar-me consigo, a fim de me contemplar e me tocar. Essas mulheres se compraziam em deixar-me pelado e inserir-me por inteiro entre os seus dois seios; eu tinha tremenda repulsa dessa gracinha, até porque o cheiro da pele das gigantes me era nauseabundo. Não digo isso para depreciar a honra dessas – no demais – prestigiosas damas, mas, como já deixei claro em minha narrativa, o fato de eu ser muito menor que elas me fazia exageradamente sensível para estas coisas. Qualquer cheiro, aparência ou som inexistentes ou desprezíveis para esta raça me eram muito notáveis e chamativos; numa palavra, ofensivos. Essas ilustres pessoas não deviam ser menos agradáveis para seus pares do que as melhores cortesãs inglesas, mas eu não podia participar deste encanto. Além do mais, qualquer aroma natural era menos traumatizante do que perfumes e loções, que estas aristocratas usavam em abundância e que me davam alergia ou simplesmente me faziam perder a consciência.”
“A mais adorável de todas estas damas da côrte, uma espirituosa adolescente de 16 anos, costumava me deixar sentado sobre um de seus mamilos, e cada vez inventava uma nova brincadeira ou um jeito inusitado de se entreter as minhas custas – estripulias dessas de moças, sem maiores conseqüências… mas que o leitor me escusará de eu não publicar neste recatado tratado. Estas coisas me deixavam tão inquieto e apreensivo que um certo dia pedi a Glumdalclitch que me arranjasse uma desculpa que me desobrigasse dali em diante de comparecer a essas <reuniões íntimas de comadres> de uma vez por todas.”
“Certa vez, um dos servos, cuja atribuição era encher-me o cantil com água fresca a cada 3 dias, se distraiu e deixou que um sapo enorme pulasse no balde e lá ficasse, sem de nada se dar conta. Ele abasteceu meu cantil derramando o bebê junto com a água, quer dizer, derramando o sapo junto com minha água, aposto, sem olhar o que estava fazendo, e se retirou. Eu tinha um barco próprio para velejar em uma banheira que este povo gentilmente construiu-me, como se se tratasse de um veleiro de brinquedo. Velejar consistia num dos meus melhores passatempos. O sapo adentrou a banheira, subiu ao barco, e eu só fui percebê-lo quando comecei a navegar. O sapo, com seu peso descomunal comparado ao do barco, fê-lo se inclinar em excesso para um dos lados, no que fui forçado a servir de contrapeso na parte oposta. Depois o sapo saltou até o meio do navio e, em seguida, sobre minha cabeça, e não parou de saltitar para frente e para trás, emporcalhando minha cara e minhas vestes com um lodo odioso. A largura horizontal deste bicho só o fez parecer, para mim, àquela altura, o animal mais deformado que podia existir. Mas, orgulhoso, mesmo Glumdalclitch tendo notado meu apuro, pedi para cuidar disso sozinho. Eu peguei um dos meus remos e dei-lhe umas boas pancadas, até ele finalmente achar melhor saltar de meu barquinho.”
“o macaco, sendo muito ágil e olhando em todas as direções, ótimo para detectar movimentos e encontrar meu paradeiro, deixou-me em tal estado de aflição que eu tirei sabe-se lá daonde firmeza de espírito e força mental para me esconder debaixo da cama e não dar um sinal de vida. Fato é que, depois de espreitar irrequieto uns instantes, urrando e fazendo caretas, ele conseguiu detectar minha presença. E enfiando uma de suas mãos pela porta da minha casa-miniatura, como um gato faria ao brincar com um rato, embora eu tentasse ludibriá-lo mudando de lugar rapidamente, ele por fim agarrou-me pelo cordão do capuz do meu casaco e me arrancou da casa de brinquedo.”
“Eu creio piamente que ele me tomou por um filhote de sua própria espécie, sempre acariciando simiescamente minha cara com sua outra mãozorra.”
“o macaco foi avistado por centenas na côrte, sentado num telhado, segurando-me como se fôra seu bebê, me alimentando, inserindo em minha boca certos víveres que ele havia amassado após retirá-lo das provisões que um dos macacos de seu bando carregava. Ele me fazia carinho e exortações se eu me recusava a comer. Os gigantes lá embaixo começaram a rir da cena. E não posso culpá-los: a cena deve ter parecido das mais ridículas e engraçadas, menos para mim mesmo, é claro. Seja como for, alguns jogaram pedras, esperando com isso fazer o macaco descer. Mas outros logo proibiram que se fizesse isso, porque se uma só dessas pedras me acertasse, era provável que meu próprio cérebro virasse uma papinha.”
“Eu quase morri engasgado com a comida amassada que o macaco insistia em enfiar minha goela abaixo. Minha querida <pequena babá> usou uma agulha para tirar tudo do fundo de minha garganta, no que comecei a vomitar, o que muito me aliviou. Mas eu me encontrava tão fraco a essa altura, e tão machucado nas costelas, de tanto ser abraçado pelo símio, que fiquei de cama umas boas duas semanas.”
“O macaco que me seqüestrou foi executado, e uma ordem expedida de que nenhum animal da espécie deveria ser deixado circulando nas dependências do palácio.”
“O rei me perguntou: O que tu te punhas a pensar enquanto no colo do macaco? Agradou-te a comida? Como ele fez para alimentar-te? O ar fresco dos cimos do telhado causou-te algum tipo de alteração no estômago? O que tu terias feito se isto te tivesse acontecido em teu próprio país? Sobre essa última pergunta, eu contei a Sua Majestade, com simplicidade, que na Europa quase não tínhamos macacos, só mesmo aqueles trazidos por curiosidade de outros países distantes, mas que estes eram tão pequenos que eu sozinho poderia lidar sem problemas com uma dúzia deles.”
“O fato é que a cada dia que passava eu alimentava a côrte com mais uma história burlesca e ridícula. Glumdalclitch, muito embora se afeiçoasse muito a mim, maliciosamente informava à rainha cada uma dessas ocorrências – porque ela não podia perder a oportunidade de tanto agradar a realeza.”
“Tinha um cocô de vaca no caminho, e eu tive de exercer minhas faculdades atléticas tentando saltá-lo. Peguei muito impulso, mas infelizmente o salto saiu fraco e eu afundei até os joelhos na substância. Eu percorri aquele monte de esterco como se fôra um terrível mangue, e um dos soldados me limpou tão bem quanto pôde com seu lenço. Deve-se imaginar o meu estado. Glumdalclitch me confinou a minha caixa até que voltássemos para casa. Obviamente a rainha foi logo informada do ocorrido, e o próprio soldado que me limpou espalhou o conto jocosamente por todo o reino. Todas as gargalhadas da cidade foram tiradas as minhas expensas por uma sucessão de dias.”
“Um dia o rei me posicionou para ouvir uma execução da banda real, mas eu duvido que todas as baterias e trombetas da Inglaterra poderiam ter feito um som tão ofensivo a meus ouvidos.”
“Quando criança eu aprendi a tocar a espineta. Glumdalclitch tinha uma em seu quarto e recebia aulas de um professor da aristocracia duas vezes por semana. Bom, pelo menos eu chamava o instrumento de espineta, porque me lembrava uma. Uma idéia surgiu em minha mente: de que eu pudesse entreter o rei e a rainha com uma canção inglesa com a ajuda deste instrumento. Mas, pensando bem, não passava de devaneio: a espineta tinha pelo menos uns 20m.”
“Um dia, talvez imprudentemente, tomei a liberdade de dizer ao rei que o desprezo com o qual ele aprendeu a imaginar a Europa, além do resto do mundo, é claro, não parecia condizente com toda sua sabedoria e caráter virtuoso; que a razão não aumenta com o tamanho do corpo; que, ao contrário, na Europa os mais altos eram geralmente os mais desprovidos de inteligência. Que, dentre os animais, os mais distintos por sua indústria e sagacidade eram as abelhas e formigas. E que, por mais que ele me tivesse em conta como um mero bobo da côrte, eu esperava poder viver para honrá-lo com algum serviço extraordinário. O rei me ouviu atentamente e começou a conceber uma opinião muito melhor de minha pessoa. Ele me pediu então uma minuciosa descrição do governo britânico, a mais minuciosa que eu pudesse fornecer. Acredito que, por mais orgulhosos de seu próprio reino, todos os príncipes gostam de ouvir sobre costumes de outras terras, para ver o que se pode melhorar na sua própria.
O leitor pode imaginar vivamente como eu desejava, nestas horas, ter o talento oratório de um Demóstenes ou Cícero, que me daria a chance de celebrar minha querida terra natal e exaltá-la ao grau máximo, num estilo condizente com seus méritos e sua prosperidade.
Seja como for, iniciei meu longo colóquio informando Sua Majestade da geografia da Inglaterra: disse que nosso país eram duas ilhas, que em seu todo constituíam 3 importantes reinados, unificados, porém, sob um só monarca; isso sem falar de nossas colônias na distante América. (…) Discorri então sobre a constituição inglesa e o funcionamento do nosso parlamento; detalhei portanto nosso ilustre corpo da Câmara dos Lordes, onde só exerciam mando os mais distinguidos dentre os sangue-azul, os mais tradicionais de berço e as famílias com mais patrimônio. Descrevi nosso sistema educacional e nossa imensa preocupação em incutir nos jovens o ensino das artes, da técnica e do combate militar. Apenas os melhores podiam se tornar conselheiros do rei. E demonstrei que se tornar legislador ou juiz era uma das maiores honras que se podia almejar. Enfim, esses eram os heróis de nossa pátria.”
“Outras pessoas, consideradas sagradas, também compunham aquela assembléia, os bispos, cujo ofício era zelar pela religião, bem como por todos os de hierarquia inferior no corpo eclesiástico. O rei e os mais sábios conselheiros se encarregavam de nomear os bispos dentre os mais compenetrados e santos dentre os padres. Os padres eram os mais espirituais do povo e da nação, o sustentáculo do clero.
A outra parte do parlamento era composta pela Câmera dos Comuns, gentis-homens livremente escolhidos pelas próprias pessoas do povo, baseadas principalmente na habilidade e no patriotismo de seus principais cidadãos. Contei então que a Câmara dos Comuns junta da Câmara dos Lordes constituíam a mais augusta assembléia de toda a Europa; este, que era o parlamento, em conjunção com o rei, decidia todos os mais importantes negócios de Estado e vigiava a aplicação da Lei.
Falei também das nossas côrtes de justiça, presididas pelos mais doutos e eruditos conhecedores do Direito, árbitros dos litígios civis, penais, morais… Relatei como era prudente e meticulosa nossa administração contábil e orçamentária. Estimei o valor e as glórias de nossas forças, da marinha e da infantaria. Fiz um censo tão bem quanto me lembrava de nossa população, quantos milhões se declaravam de uma confissão ou de outra, quantos se declaravam conservadores ou liberais. Não omiti sequer nossos desportes e passatempos favoritos, nem nenhuma outra particularidade que julguei que aumentaria a estima deste rei pelo meu país. Finalizei esses meus discursos com uma história resumida da Inglaterra nos últimos 100 anos.
Foram ao todo 5 audiências, cada uma delas de várias horas. O rei raramente me interrompia e parecia hipnotizado e concentrado em minha narrativa; às vezes ele se punha a anotar certas coisas; bem como anotava perguntas para me lançar no dia subseqüente.”
“Quais métodos são usados para aperfeiçoar as mentes e corpos de vossa jovem nobreza? Em que tipo de negócios os rebentos desta casta despendem seu tempo, seja na primeira infância ou na juventude mesma? Quando uma família da aristocracia se extingue, que medida é tomada e como se seleciona uma nova família para a Câmara dos Lordes? Qualé o pré-requisito para ser nomeado Lorde: conquistar a confiança do príncipe? Uma soma de dinheiro, talvez? Ou demonstrar engenhosidade e estrategismo políticos? As inovações, procurando sempre melhorar os costumes, chegam a causar algum tipo de perturbação ou ameaça de revolução? O interesse público é o último fim visado pelo monarca, ou há outros mais importantes? Quanto um lorde médio sabe sobre as Leis, e como vem a saber o que porventura sabe? Como um juiz faz para saber o que decidir numa questão vital sobre as propriedades de alguém em litígio? Está tua sociedade livre de vícios como a avareza, o partidarismo, a miséria? Poderia ser que a aristocracia esteja sujeita a se corromper por subornos, negociatas ou qualquer tática suja do ser humano sedicioso? Os bispos, eles são sempre nomeados com base na autenticidade de sua reputação e a honestidade de suas vidas, na extensão de seus conhecimentos em religião? Nunca houve um só que se tornasse um conspirador depois de ascender ao topo, mesmo que tivesse sido um bom padre? A fé é forte em todos os padres? As idéias são prostituídas entre aqueles que não querem perder suas ligações com a aristocracia, ou impera a sinceridade acima de tudo? Como são escolhidos os tais ‘comuns’? Um forasteiro eventualmente muito rico poderia vir a comprar votos ou exercer influência sobre a população? Por que todos estão inclinados a fazer parte desta assembléia, se é um trabalho tão duro e encerra tantas responsabilidades,e mesmo sem receber pensões ou salários, correndo o risco de levar a própria família à ruína?!? Os nobres estão sempre dispostos a tirar de seu próprio bolso a fim de auxiliar os outros? Mesmo se for um príncipe cheio de vícios e de pulso fraco?”
Enfim, eu senti que sua majestade duvidava do exaltado patamar de virtude e do espírito de abnegação de meu povo! Ele não cessava de multiplicar suas perguntas. Cada resposta gerava novas perguntas, e eu não sabia mais de onde peneirar tantas respostas! Suas objeções eram tamanhas, e tão impudentes, que me reservo ao direito de não incluí-las todas neste relato!”
“Quanto tempo leva para determinar o que é justo e o que é injusto? Quanto esforço, dinheiro e tudo o mais é gasto nesta operação? Advogados e oradores têm liberdade irrestrita de expressão ainda em casos de notórios assassinos ou maus-exemplos, cujos réus sejam indignos ou cuja defesa comprometa sua própria honra? (…) Quais são as possibilidades de reformar as Leis já instituídas? E como evitar que um juiz interprete uma Lei a seu bel prazer?”
“Quem são os credores dos ingleses? De onde tirais vós os recursos para pagá-los? – ele queria muito me ouvir falar dessas tais caríssimas e pesadas guerras. Deveis ser supinamente belicosos, ou então estais acostumados a viver em meio a inúmeros vizinhos de nações guerreiras e de mau temperamento! Não posso imaginar que vossos generais não sejam mais ricos ainda que vossos reis! … E que tipo de comércio ou empresa vós executais fora de suas ilhas, ademais dos naturalíssimos escambos e escoltas marítimas de rotina para manter-vos em paz?”
“Se nós fôssemos governados por nosso próprio consentimento, i.e., se meu povo fosse livre e o soberano de si mesmo, que elege seus próprios representantes, acho que nada nem ninguém teríamos, e não concebo do que os ingleses possam ter medo! E afinal de onde vêm todos esses inimigos de que falas?! Uma simples residência, não é ela muito mais bem-defendida pelo seu dono, seus filhos e família, enfim, que por meia dúzia de patifes recrutados nas ruas a baixos soldos, que lucrariam 100x mais cortando as próprias gargantas?”
“E essa coisa chamada jogo de cartas, a que idade começa-se a praticá-lo? E quando se pára? Quanto tempo é dedicado a isso a cada semana?! Essas apostas são perigosas – interferem no tamanho da fortuna de uma família?! Pessoas de caráter duvidoso podem se aproveitar de seu talento no jogo para amontoar riquezas? O título de nobre é comprável? Os vossos aristocratas conseguem viver em meio a rufiões ou não suportam essa perspectiva?”
“Teu último século e o de teu país, ó inglesinho, não passou de uma seqüência vertiginosa de conspirações, rebeliões, assassinatos a sangue frio, massacres, revoluções, exílios e banimentos, uma seleção das piores conseqüências dos mais graves vícios tais quais a avareza, a sedição, a hipocrisia, a perfídia, a crueldade, a fúria, a loucura, o ressentimento, a inveja, a luxúria, a malícia, a ambição!”
“Meu pequeno amigo Grildrig, fizeste um excelente panegírico de teu país. Provaste-me que a ignorância, a preguiça, o vício são os ingredientes mais aptos para formar os legisladores! Que as leis são mais bem-explicadas, interpretadas e aplicadas por aqueles cujos interesses e habilidades estão em perverter, confundir, enganar. Vejo em vós as linhas de uma instituição que, em sua origem, pode ter beirado o tolerável, mas que agora, metade apagada, em suas melhores partes, está agora infectada pela corrupção!”
“E quanto a ti, Grildrig, que passaste a maior parte de tua vida viajando, tenho muitas esperanças de que tu mesmo não cultivas muitos destes abomináveis vícios de tua nação!”
“Não posso concluir outra coisa senão que a grande maioria de teus conterrâneos é constituinte da raça mais perniciosa de pequenos e odientos vermes que a natureza jamais deu-se ao trabalho de perpetrar sobre a superfície da terra!”
“este monarca se mostrou tão cioso e inquisitivo em conhecer cada particular de minha vida e de meu povo que algumas informações e demandas não poderiam soar mais do que como ingratidão e descortesia, seja da parte dele ou da minha, ao me negar a responder ou dar satisfação de alguns detalhes. Às vezes não era por discrição: eu simplesmente desconhecia a resposta.”
“Se bem que devemos ser tolerantes com um rei que vive tão secluso do resto de todas as nações, e portanto nada deve saber em termos de maneiras e costumes ordinários para estrangeiros: nunca seu preconceito será aniquilado uma vez que há essa ignorância, e será sempre natural qualquer estreiteza conceitual, mais ou menos grave conforme o contexto. Creio que nós e o restante da Europa estamos, pelo menos, isentos deste defeito. Seria realmente bizarro se os padrões de vícios e virtudes adotados por um príncipe tão remoto e isolado tivessem utilidade universal!”
“Ele ficara abismado como um inseto rastejante tão impotente como eu (aqui uso suas expressões, literalmente) podia dar vazão a idéias tão desumanas, ainda mais sem o menor pudor na forma de dizê-lo, parecendo alheio a tantas cenas de violência e desolação que eu mesmo pintara como as conseqüências evidentes do uso dessas máquinas destrutivas. Algum gênio mau deve ter invadido vossa civilização, ele disse. Quanto a ele próprio, declarou que, embora poucas coisas o comovessem tanto quanto novas descobertas na arte e na natureza, ele preferiria perder metade de seu reino que ficar a par desses segredos sórdidos. E me recomendou dali em diante jamais voltar a esse assunto. Estranho caráter, estreitos princípios e visão tão limitada!”
“Eu tenho para mim que assim é essa gente porque ela não chegou ainda ao estágio em que se reduz a política a uma ciência. Uma vez eu lhe disse que <há dezenas de milhares de livros sobre a arte do governo entre nós>, o que, ao contrário do que eu projetava, gerou-lhe grande repulsa, uma péssima opinião de nós e muitos mal-entendidos!”
“A educação dos gigantes é muito precária, pois considera apenas a ética, a história, a poesia e a matemática, na qual, por sinal, eles são como que obrigados a exceler. Só que toda essa matemática é aplicada apenas em coisas práticas da vida cotidiana, p.ex., o aperfeiçoamento da agricultura e de outras artes mecânicas ou que chamaríamos de artesanato. Dentre nós creio que esta educação teria valor zero. Nunca vira povo tão pouco filosófico: idéias, entidades, abstrações e qualquer noção que fosse de transcendência eram-lhes particularmente impossíveis!”
“Desde épocas imemoriais eles já haviam descoberto a imprensa, como os chineses fizeram entre nós. Mas suas bibliotecas são até hoje acanhadíssimas. Mesmo a do rei, que é tida como a mais suntuosa, não possui mais do que mil volumes, distribuídos por uma galeria da coisa de uns 350 metros de extensão. Ganhei permissão real para pegar emprestado o livro que eu quisesse.”
“nada é mais alvejado pelos autores deste país que evitar qualquer palavra desnecessária ao discurso, ou mesmo a criação de sinônimos, porque se uma palavra comunica algo, essa palavra basta e eis tudo. Eu peregrinei minhas vistas por inúmeros de seus livros, principalmente os de história e moral.”
“seria bem razoável imaginar, homenzinho, que as espécies de hominídeos eram originalmente muito maiores, mas que pessoas do nosso tamanho e também da tua diminuta estatura sempre existiram em paralelo. Não só a tradição e os mitos nos falam de gigantes incomparáveis, não só alguma parcela de nossa história escrita, mas também provas fósseis, casualmente escavadas em diferentes porções de nosso reino; falo de esqueletos muito maiores que os dos homens atuais, que tu chamas de homens-montanhas.”
“Um cavaleiro montado num belo corcel chegava aos 30 metros de altura.”
“Eu estava bastante curioso para saber como esse príncipe, cujos domínios eram praticamente inacessíveis para qualquer outro país, sem falar que seriam inexpugnáveis por quaisquer de nossas forças armadas<diminutas>, avaliava os exércitos ou a falta de um, isto é, se ele estaria propenso, caso a necessidade se apresentasse, a ser um competente general de guerra ou se não passava de um rematado pacifista, desses que jamais veríamos dentre os líderes das nossas nações conhecidas.Será que ele ensinava a seus súditos a disciplina das batalhas e as treinava para enfrentar emergências?Essa minha ânsia, afinal, não durou muito, haja vista eu ter sido informado, tanto pelos livros de História quanto por alguns interlocutores, que, no decorrer das eras, houve na terra dos gigantes muitas pestes e doenças contagiosas, como essas que ajudaram a conter, assolar e subjugar aspopulaçõesna Europa, não muito tempo atrás. Também fiquei sabendo que – exatamente como em nosso Velho Continente – a nobreza dos gigantes vivia sempre sediciosa e ávida por mais poder ou por manter seus privilégios, enquanto que as massas contendiam o tempo todo arriscando a vida pela própria liberdade, e o rei, à parte, pelo domínio absoluto e nada mais.”
“O navio em que embarquei foi o primeiro jamais visto naquela costa, e o rei deu ordens estritas de que, a qualquer tempo que uma nova nau fosse contemplada no horizonte, outras embarcações dali em diante fossem capturadas e trazidas à terra firme, com todos os passageiros e tripulação intactos, que deviam ser transportados a Lorbrulgrud em carroças de duas rodas. O rei estava muito convencido nos últimos tempos da idéia de providenciar-me uma fêmea de meu tamanho, a fim de propagar minha nanica espécie – mas, sinceramente, de minha parte, preferia morrer que ser forçado a perpetuar uma espécie que passaria sua existência confinada em gaiolas como canários adestrados e, com o tempo, provavelmente vendida nos mercados para consumidores curiosos. Eu fui tratado com toda a deferência no reino; era o cortesão favorito do rei e da rainha, o deleite de uma côrte inteira. Mas considero isso um simples acaso individual, e a raça humana que de mim derivasse, creio, não teria a mesma sorte.”
“Já fazia 2 anos que estava entre os gigantes. Certa feita eu e Glumdalclitch fomos convocados a comparecer a uma audiência diante do rei e da rainha.”
“Eu olhava através das minhas janelas, mas nada podia ver além das nuvens e do céu. (…) alguma águia agarrou a argola de minha gaiola pelo bico, com o provável intento de deixá-la se quebrar numa rocha, como faria quando captura uma tartaruga, a fim de quebrar seu casco. E aí essa ave coletaria meu cadáver dos destroços, ou antes o devoraria sem pestanejar ali mesmo! A esperteza e o olfato desse animal permitem-no descobrir comida a centenas ou milhares de metros de distância, muito embora eu mesmo estivesse oculto ao olhar também muito agudo da criatura, por estar confinado nesta gaiola, que às vezes eu também chamava simplesmente de <minha caixa> ou <minha casa>; enfim, eu estava tão invisível para esse predador do mundo dos gigantes quanto estaria um homúnculo ou inseto bem-escondido num compartimento de 5cm³.”
“Percebi então que havia caído em alto-mar.”
“Ah, quantas vezes não desejei voltar a estar ao lado de minha querida Glumdalclitch! E pensar que cada hora separado desta minha babá era uma eternidade durante minha estada neste país! E além da situação lamentável em que estava não pude deixar de me entristecer também por Glumdalclitch, pensando o que ela estaria sentindo e pensando naqueles exatos instantes, de que forma ela lidaria com o luto de minha perda, o pesar da rainha, essas circunstâncias todas…”
“Ou, se eu escapasse desses perigos por um ou dois dias, o que sobraria para mim a não ser a morte mais miserável de frio e fome? Meu estresse máximo e perigo real de morrer a qualquer instante duraram 4 horas; eu esperava, não, eu desejava que cada segundo fosse literalmente o meu último.”
“Se há qualquer corpo aí embaixo, deixem que fale.”
“Alguns deles, ouvindo-me gritar tão selvagemente, pensaram logo que eu estava louco; outros ainda puseram-se a rir; de fato, a ficha demorou a cair: eu estava agora com pessoas da minha própria estatura e do mesmo nível de força que o meu!”
“Os marinheiros estavam todos admirados, me fazendo mil perguntas, às quais, para ser sincero, eu não desejava responder. Eu estava confuso à vista de tantos pigmeus ao mesmo tempo, porque era só o que pensava que eles poderiam ser: pigmeus da terra dos gigantes! Meus olhos estavam desacostumados com objetos e corpos pequenos.”
“Um deles disse:
– Eu distingui 3 águias voando rumo ao norte; mas confesso que não reparei se eram gigantescas ou do tamanho normal. Isso nem veio a minha mente.
Imagino que isso se deva à grande altura nas quais as águias se encontravam. Mas duvido que este homem entendesse as razões para minha pergunta.”
“como grandes criminosos, noutras nações, haviam sido forçados a embarcar em barcos pouco confiáveis e com provisão alimentícia muito minguada… Embora o capitão estivesse tão pesaroso da situação de racionar os bens, também se compadecia da miséria deste homem desgraçado e doente que caíra em seu navio, e prometia cumprir sua palavra e me levar a salvo para terra firme, nem que fosse no primeiro porto que tivesse a oportunidade de atracar, nem que fosse muito distante da Inglaterra, ou mesmo da Europa.”
“serão os olhos deste homem maiores que sua barriga? Não sei, meus caros, não sei, e não vejo mal nisso, ainda que fossem, porque este homem passou um dia inteiro sem comer!”
“Eu propus deixar todos os meus pertences como fiança de todos os favores de que me proveram. Porém o capitão se recusava a aceitar um tostão furado.¹ Despedimo-nos amavelmente, e fi-lo prometer que me visitaria em Redriff. Contratei um cavalo e um cocheiro por 5 xelins, que tomei emprestado do capitão.
Na estrada, observando a pequeneza das casas, das árvores, do gado e mesmo das pessoas, alucinei que estava ainda em Lilliput. Tinha verdadeiro receio de tropeçar e machucar qualquer viajante que encontrava, e não-raro gritava para que eles me dessem licença, como se falasse com pigmeus. Não menos de duas vezes quiseram quebrar minha cabeça pela minha atitude impertinente.”
¹ Outra situação idêntica a uma das cenas de Robinson Crusoe!
“Admoestei minha esposa dizendo que ela fôra frugal demais nos gastos, a ponto de pôr a si e a nossa filha quase em estado de penúria. Mas eu parecia tão fora de mim mesmo que elas opinaram omesmo que o capitão assim que me resgatara: achavam que eu tinha ficado louco. Digo isso porque o hábito e o preconceito parecem exercer uma extraordinária impressão sobre nós!”
“Minha esposa me aconselhou a jamais embarcar novamente, muito embora meu destino não estivesse alinhado com este plano de vida. Mas disso o leitor será informado a seu tempo!”
* * *
PARTE III – VIAGEM A LAPUTA, BALNIBARBI, LUGGNAGG, GLUBBDUBDRIB E AO JAPÃO
“Não pude recusar essa proposta. Minha ânsia por conhecer o mundo, a despeito de meus infortúnios passados, continuava violenta como sempre.”
“Tripulando a chalupa de 14 homens, 3 deles ingleses, ele me nomeou capitão da expedição”
“Ao décimo dia fomos perseguidos por dois piratas, que logo nos alcançaram; minha chalupa estava tão pesada com suprimentos que não conseguia velejar a contento; tampouco tínhamos aparato militar para defendermo-nos.”
“Lamento encontrar mais misericórdia num pagão que num irmão em Cristo, eu confessei ao holandês.”
“Considerei quão impraticável seria preservar minha vida num lugar tão desolado, e quão miseráveis não seriam meus últimos dias”
“O leitor jamais há de conceber meu espanto ao descobrir uma ilha flutuante, habitada por homens, que eram capazes (ao que parece) de levitar e afundar de novo sua ilha-nave e movê-la como bem desejassem”
“nunca na vida eu contemplara uma tal sorte de mortais, seres absolutamente singulares em suas formas, hábitos e tabus. Suas cabeças eram totalmente reclinadas, fosse para a direita, fosse para a esquerda; um de seus olhos apontava para dentro, isto é, para a parte de baixo do corpo e para o chão, e o outro para o zênite (o cume do firmamento)! Era um costume muito assíduo que a aristocracia do lugar conservasse sempre junto a si, em caráter imprescindível para a comunicação com o <mundo externo>, dois servos ou escravos, empregados faz-tudo.”
“Enquanto ascendíamos, inúmeras vezes perdiam o fio da conversação, de modo que eu tinha de relembrá-los. Às vezes de nada adiantava, e eu tinha de esperar que eles voltassem a si sozinhos. Mesmo diante de uma raça alienígena (o que eu era para eles), não podiam manifestar nada além da mais completa indiferença. Eu podia notar que lidava com indivíduos da aristocracia desse país, porque outros da mesma espécie, que eu chamaria de plebeus ou gente vulgar, tinham pensamentos mais ansiosos e contínuos, e viviam a gritar, mas os primeiros não lhes davam qualquer atenção.”
“Sua Majestade sequer pareceu me notar, ou a comitiva inteira, mesmo que nossa entrada tenha sido algo barulhenta. Ele estava ensimesmado num problema: como conseqüência, tivemos de esperar uma hora pelo seu <retorno>. De cada lado do rei havia um pajem ou servo; quando eles percebiam que o rei estava <de volta ao mundo real>, voltavam a se comunicar com ele. Um dos pajens servia-lhe de boca, o outro de ouvido. Assim ele se comunicava com o mundo exterior. Quando o rei percebeu nossa chegada, teve um sobressalto.”
“O rei me direcionou uma série de perguntas, de modo que eu (não pela primeira, nem pela última vez) tentei dar-lhe satisfação em várias línguas que conhecia. (…) esse rei era especialmente distinguido, reputado acima de seus predecessores no trono como excelente anfitrião de estrangeiros.”
“Tivemos duas refeições, de três pratos cada. Na primeira, havia uma paleta de cordeiro cortada em formato de triângulo equilátero, um pedaço de bife em rombóide (paralelogramo), e um pudim em ciclóide. A segunda refeição consistia em patos amarrados em forma de violino; salsichas e pudim idênticos a flautas e oboés, afora um peito de vitela imitando uma harpa”
“Em poucos minutos aprendi, na língua deles, a pedir pão e algo para beber, ou alguns outros petiscos.”
“Ele me trouxe pena, tinta e papel, além de 3 ou 4 livros, dando a entender pela linguagem de sinais que fôra enviado para ensinar-me as letras. Ficamos em labuta por 4 horas, tempo que me foi o bastante para redigir uma imensidão de palavras em colunas, com as respectivas traduções; também me esforcei para aprender as principais expressões curtas de uso cotidiano; meu tutor me ensinou como dar ordens aos meus serventes, tais quais pegar isso ou aquilo, ir embora, se apresentar, fazer reverência, sentar-se, erguer-se, andar, etc.”
“Em poucos dias, com a ajuda de uma memória em que podia depositar minha inteira confiança, podia me expressar razoavelmente bem neste idioma.”
“Lap, na antiga língua obsoleta, significa alto; e untuh, governador; daí é que dizem ter derivado o nome Laputa, antes Lapuntuh. Terra alta ou terra da altura, mais-alto-governo, como queiram.”
“O rei deu instruções para a locomoção leste-nordeste, rumo ao ponto vertical acima de Lagado, a metrópole de todo este alto-reino, localizada mais abaixo. Isso era a 145km de distância de onde estávamos; nossa viagem durou 4 dias e meio.”
“Ele me confidenciou que os residentes da ilha tinham os ouvidos adaptados para ouvir <a música das esferas, que toca inelutavelmente de período em período, de modo que a côrte está agora preparada para realizar sua parte, cada qual no instrumento em que mais excele>.”
“A facilidade que eu tinha com matemática me capacitou a absorver um pouco de sua fraseologia altamente avançada, que, por assim dizer, tinha a aritmética e a geometria como bases sólidas; a música também. (…) Suas idéias sempre percorrem figuras geométricas ou linhas cartesianas. Para elogiar, p.ex., a beleza de uma mulher, ou de algum animal, descrevem-na em losangos, círculos, trapézios, elipses e qualquer termo de especialista afim. Quando figuras imagéticas não são o suficiente, recorrem a metáforas musicais.”
“Suas casas não são nada bem-construídas; as paredes são sinuosas, nenhuma forma um ângulo reto ou simular ao das outras quinas em cômodo algum! Isso deriva do extremo desprezo desse povo pela geometria prática, que consideram coisa vulgar e de operário ou gente bruta, arte mecânica, enfim. Suas instruções, portanto, de engenheiros e arquitetos, abstratas e refinadas demais para os simples pedreiros, acarretam inúmeras falhas. Tanto quanto eles são destros e habilidosos num pedaço de papel, com o lápis, o compasso e os esquadros, são incompetentes e lassos no trato social, na ação concreta, no bê-á-bá da vida. Jamais vira nem veria dali em diante um povo tão estranho, anti-social e destrambelhado. Qualquer conceito estranho a sua sabedoria milenar consolidada deixava-os perplexos e sem reação. Se não fosse matemática ou música, era melhor que esquecêssemos!Eles são muito fáceis de contrariar, suscetíveis e teimosos, conservando o bom senso apenas quando têm a razão de seu lado; e numa discussão eles nunca cedem, então o melhor a fazer para se poupar é sempre dizer que eles têm razão. Eles desconhecem imaginação criativa, devaneio, invenção! Sequer pode-se nomear tais coisas em sua língua.”
“Mas, para não exagerar na crítica desse povo, o que mais me admirou neles foi sua forte disposição para novidades em política, sempre preocupados com o bem-estar social e os negócios da ilha; cada cidadão possuía suas opiniões e juízos particulares sobre negócios de Estado, e havia muitas facções que apreciavam o debate apaixonado. Na realidade já observara a mesma inclinação entre os matemáticos que conhecera na Europa, embora jamais atinasse com qualquer analogia entre as exatas e a ciência política! A não ser que essas pessoas imaginem que, como os menores círculos possuem tantos graus quanto os maiores, a regulação e a administração do mundo inteiro não requeiram nem menos nem mais habilidade que pôr um globo terrestre em movimento!”
“Essas pessoas se encontram perpetuamente angustiadas, jamais atingindo a tranqüilidade de espírito por mais do que alguns minutos. Suas perturbações derivam de causas que quase não afetam a vida do restante dos mortais. Suas apreensões despertam à causa de inúmeras mudanças dos corpos celestes que elas observam e temem. Por exemplo: temem que a Terra, devido à contínua aproximação do sol, seja, ao longo do tempo, absorvida ou engolida; que o disco solar vá gradativamente desmilingüindo por conta do próprio calor produzido em seu núcleo, até apagar-se por completo; e contam assustados como a Terra, que há pouco escapou, de forma miraculosa, de uma colisão fatal com o último cometa que adentrou o sistema solar,pode virar cinzas siderais à próxima visita de um desses corpos celestes de movimento inopinado! Não inopinado a ponto de escapar a seus meticulosos cálculos, é claro:afirma-se que em exatos 31 anos terrestres um novo cometa nos destruirá irrevogavelmente.”
“o sol, gastando diariamente seus nutrientes emitindo raios, sem reposição alguma, será inapelavelmente consumido e aniquilado (…) enfim, não queria ser tão repetitivo, mas estes meus novos amigos vivem tão alarmados e apreensivos sobre essas coisas tão distantes e remotas, senão improváveis, afora muitas outras calamidades sequer citadas, que são todos uns insones que não aproveitam os pequenos prazeres da vida. Quando cumprimentam um conhecido pela manhã, a primeira pergunta é sobre o estado do sol, como ele parecia estar ao se pôr no dia de ontem e se houve percepção de mudança no seu nascer hoje, e quão esperançosos podem ser os habitantes da ilha de evitar a catástrofe iminente! Esse tipo de diálogo é levado a cabo com a mesma desenvoltura de dois garotos que compartilham contos de terror, estórias de fantasmas e duendes. Como no caso dos garotos, eles se comprazem imensamente durante a conversa e manifestam extrema curiosidade – mas depois se arrependem e não conseguem dormir no escuro ou ir à cozinha de madrugada beber água.
As mulheres da ilha, verdadeiras Xantipas!, são muito, muito vivazes: não param de brigar com seus maridos e se afeiçoam facilmente a forasteiros, sendo esta ocasião tudo menos rara, pois muitas vezes a ilha pousa nos continentes telúricos. E muitas vezes visitantes são autorizados a subir a bordo e visitar a côrte, como eu. Não só issomas visitam as cidades e corporações sob os menores pretextos. Se bem que, coletivamente, são todos desprezados, por parecerem sempre querer o mesmo tipo de coisa – são utilitaristas, não há dúvida!”
“ah, mas os maridos… os maridos estão sempre tão absortos em especulações que a mulher e seu amante podem se dar ao luxo de proceder às maiores amabilidades e familiaridades inclusive no mesmo cômodo, bem debaixo de seus narizes, contanto que eles estejam com papel, caneta e livros ao alcance das mãos, i.e., devidamente distraídos – e desacompanhados de seus dedicados servos, é claro!
As esposas e filhas sem dúvida lamentam muito seu confinamento à ilha, embora eu, particularmente, julgue-a o pedaço de terra mais magnífico do planeta! Embora vivam aqui em meio à maior abundância e magnificência, e com permissão para circular sem restrições pelo habitat flutuante, elas anseiam ver o mundo lá de baixo e conhecer o tipo de entretenimento presente em Lagado, a capital baixa do império (…) me relataram que uma senhora distinta da côrte, repleta de filhos, desceu a Lagado sob o pretexto de tratar da saúde, mas que lá viveu ocultamente vários e vários meses.” “Essa senhora, mesmo com marido tão gentil e abnegado, e por mais que ele a tenha recebido de volta sem o menor indício de reprovação, pouco tempo depois conseguiu empreender nova fuga, com todas as suas jóias, e foi viver com o mesmo indivíduo, e dessa vez nunca mais voltou — seu paradeiro segue desconhecido na côrte.
Imagino que essa história toda pareça uma alegoria para retratar as famílias britânicas desestruturadas, o que seria mais fácil imaginar – que eu sou um autor de ficção, que não precisaria ter viajado a um país tão remoto para redigir esse tipo de coisa! Mas ao leitor que assim pensar eu alerto: o sexo feminino não difere em clima ou nação algum, consistindo num espécime muito mais uniforme do que se pode esperar!”
“Sua majestade não tinha o menor interesse em indagar sobre as leis, o governo, a história, a religião, os costumes dos países em que estive; suas perguntas se resumiam ao estado em que se encontrava nossa Matemática, mas mesmo assim minha resposta era recebida com desprezo e indiferença”
“A ilha flutuante, creio ser desnecessário até mencionar, é perfeitamente circular, possui um diâmetro de 7,166153km, possuindo, portanto, uma superfície de 10 mil acres.”
“É jurisdição do monarca elevar a ilha acima da região das nuvens e vapores, garantindo assim que só haja orvalho ou chuva quando ele bem entender.”
“Quando a pedra é posicionada paralela ao horizonte, a ilha fica estacionária; suas extremidades ficando a uma altitude isonômica da terra, a força gravitacional age em equivalência com a força normal, anulando qualquer possibilidade de aceleração.
Essa preciosa pedra, espécie de ímã-volante de toda a ilha, leme tão excepcional, é guardada por certos astrônomos que, de tempos em tempos, mudam sua posição conforme as prescrições do monarca. Estes especialistas passam a maior parte da vida observando os corpos celestes, assistidos por lentes telescópicas ‘n’ vezes mais avançadas que as européias!”
“Em seus catálogos científicos constam 10 mil estrelas fixas, enquanto que nossos mais vastos registros não contabilizam 1/3 deste número. Eles também descobriram duas estrelas-menores, ou satélites, rodopiando Marte; o que traslada mais próximo do planeta vermelho está distante de seu centro geométrico cerca de 3x a extensão de seu próprio diâmetro; o satélite externo, 5x.” “Eles conhecem 93 cometas e sabem seus períodos de passagem pelo nosso sistema com grandíssima exatidão.”
“Este rei seria o rei dos reis do universo, se ele pudesse unicamente reunir homens de igual capacidade em seus ministérios! Mas eu ousaria dizer que não há na ilha ninguém como este homem, nem que chegue perto do intelecto e da visão deste homem; os segundos certamente estão em nossa terra, em nossa altitude habitual, e eu duvido que um rei precavido aceitasse jamais como subordinados tão poderosos e influentes pessoas estranhas, arriscando a escravidão de seu país!”
“o rei, quando se põe animoso e, portanto, decidido a exterminar uma de suas cidades, ordena com fleuma a descida da ilha, dissimulando uma visita benevolente aos cidadãos do lugar escolhido para extermínio; mas tudo isso é por medo de quebrar o fundo da ilha, adamantino, duro como o diamante.”
“Diz a lei do lugar que nem o rei, nem ninguém do reino, nem qualquer de seus dois filhos mais velhos, estão permitidos a sair da ilha. Nem a rainha, até o término de sua infância.”
“Após conhecer todas as singularidades da ilha, eu desejava muito partir. Essas pessoas se tornaram muito cansativas para mim. Eram excelentes em duas ciências pelas quais nutro grande estima, e nas quais confesso ser algo versado; mas, ao mesmo tempo, eram consciências tão abstratas e especulativas, que com o passar do tempo creio que não poderia encontrar companhias mais desalentadoras! Passei a conversar apenas com as mulheres, com comerciantes, servos e pajens. Assim foram meus últimos 2 meses. Não podendo mais ocultar meu desprezo por tal gente, passei a me conduzir de forma impertinente, mas minha mudança só podia ser detectada por essas mesmas pessoas em quem eu ainda encontrava qualquer tipo de aprovação ou reciprocidade!”
“Ele me ouviu com bastante atenção e remeteu-me diversas observações sapientes, relacionadas ao meu discurso. Ele possuía, como sempre nesta classe, 2 servos, mas quase nunca os utilizava – só mesmo em visitas à côrte e em cerimônias. Quando estávamos a sós, ele apenas comandava que se retirassem do aposento.”
“Dia 16 de fevereiro eu me despedi de Sua Majestade e da côrte. O rei me presenteou com o que eu converteria para 200 libras esterlinas, sendo que meu protetor e seus apaniguados também me deram somas em dinheiro, que remontavam mais ou menos ao mesmo valor na somatória. Também levaria comigo uma carta de recomendação para um seu amigo em Lagado, a referida metrópole do reino, mais mundana. A ilha revolvendo cada vez mais baixo e em torno de duas montanhas, uns 3km mais abaixo, fui conduzido ao mundo telúrico da mesma forma como me fizeram subir da primeira vez.” “Encontrei rapidamente a casa da pessoa a quem fui recomendado na carta, e fui recebido, claro, devido à chancela real, com as maiores honrarias.”
“À manhã seguinte ele me levou em passeio de charrete para conhecer a capital, que seria, diria, metade de Londres em tamanho. As casas são esquisitíssimas, e maioria necessitando reparos urgentes! As pessoas nas ruas andam rápido, parecem bárbaras, olhos fixos, geralmente maltrapilhas. Atravessamos um dos portões da cidade e avançamos coisa de 5km campo adentro, onde testemunhei o trabalho de vários camponeses utilizando um sem-fim de utensílios, embora não tenha entendido a função de um deles sequer.”
“não podia atinar com tantas cabeças, mãos e rostos ocupados, no campo ou na cidade! Não entendia o conceito de produtividade dessa nação. Para falar a verdade, nunca vira um solo mais mal-cultivado, casas tão precárias e degradadas, nem pessoas de aspecto mais miserável e necessitado.
O senhor Munodi era um aristocrata, ex-governante de Lagado, mas soube que devido a uma insurreição dos ministros fôra demitido por alegada incompetência. Ainda assim, o rei o recebia com muita ternura e gentileza, como um homem benfazejo, cujo único defeito era a falta de entendimento.”
“Em nossa jornada ele me mostrou diversos métodos empregados por fazendeiros na administração de suas terras, os quais para mim eram todos imprestáveis; raro era o terreno em que eu distinguia um pé de milho ou pedaço de grama. Em 3h de viagem, entretanto, o cenário mudou completamente: chegamos a um meio rural muito bonito, a casas camponesas, umas próximas das outras, todas muito bem-erigidas, os campos compactos e repletos de vinhas e de milharais, além de campos para pastagem. Na verdade nunca vira uma paisagem tal na Inglaterra! (…) os camponeses de Lagado desprezavam e ridicularizavam o jeito do senhor Munodi fazer as coisas em suas propriedades, crendo-o um péssimo exemplo para o reino. Esse tipo de contra-exemplo (a produtividade no campo!) era também seguido por umas raras exceções, reputadas como os excêntricos, velhacos, teimosos, velhos rabugentos e fracos de espírito do lugar.
Chegamos enfim a seu lar, uma mansão bastante nobre e brilhantemente estruturada. Encontro nas leis deste projeto arquitetônico o que de melhor os antigos nos deixaram. As fontes, os jardins, as passarelas, avenidas e pomares eram distribuídos de forma justa e regular e sem dúvida havia bom gosto em sua disposição.”
“ele me contou com um ar melancólico que até consideraria seriamente a idéia de derrubar suas edificações e restaurá-las ao gosto dos atuais cidadãos de Lagado; de destruir todas as suas plantations e adotar as <modernizações> em voga, para seu próprio prejuízo, mas temia que tudo isto não fosse apreendido pelos demais senão como orgulho, afetação, ignorância e capricho, manchando ainda mais sua reputação em relação a Sua Majestade.”
“Cerca de 40 anos atrás, muitos subiram a Laputa, ou a negócio ou a lazer, e, depois de 5 meses de estada, voltaram cheios de novas concepções e invencionices matemáticas, o que na verdade eu chamo de preconcepções absurdas e desconhecimento – essas pessoas se tornaram muito voláteis, provavelmente em virtude de haverem respirado o ar rarefeito e elevado demais daquela região. Foi aí que os habitantes de Lagado começaram a tomar gosto pela falta total de administração de seus negócios, i.e., passaram a desprezar toda e qualquer coisa <material> e <mundana>. Tudo em que pensavam era na reforma imediata das técnicas, artes, ciências e linguagens. Eles providenciaram uma patente real a fim de erigir em Lagado uma academia de projetistas (mal consigo usar a palavra <engenheiros>). As idiossincrasias prevalecem em tal medida nessa gente extravagante da capital que não há, na atualidade, uma só província que não tenha sucumbido a seu amalucado exemplo. Nessas novas escolas os professores ensinam regras e métodos inauditos em agricultura e engenharia civil, concebem novos instrumentos e ferramentas para todos os negócios e manufaturas; dizem eles que assim, devido à revolução que acabarão por promover, um homem trabalhará por 10, um palácio será erguido numa semana, e será feito de materiais tão duráveis que jamais carecerá de reparos. Que todos os frutos da terra chegarão à maturidade em qualquer estação e terão dimensões 100x maiores que as atuais. Isso e muito mais eles prometem. O único inconveniente é que nenhum desses projetos jamais chegou à perfeição ou a qualquer resultado satisfatório. E enquanto esse dia não chega, o país vive na miséria e desperdiça seu potencial, as casas permanecem ruinosas e as pessoas sem quase o que comer ou vestir. Mas isso, ao invés de desencorajá-las, torna-as 50x mais agressivas e obstinadas. Não sei o que mais as move, se a esperança ou o desespero. Quanto a mim, senhor Gulliver, sou despido desse tal ‘novo espírito de empreender’! Hei de viver como vivi desde que nasci, como meus antepassados viveram, e não pretendo mudar. Mas a verdade é que os poucos de nós contrários às inovações são vistos como inimigos do povo, das artes, uns plebeus ignorantes! O que dizem de nós é que somos preguiçosos que preferem se ater a envelhecidas fórmulas de sucesso e que nos falta o ímpeto do sacrifício coletivo!”
“A um quilômetro de sua casa esse homem tinha um engenho movido pela correnteza de um grande rio que por ali passava. Essa construção atendia as suas necessidades, as de sua família e as de muitos outros amigos. Mas há exatos 7 anos os tais projetistas acadêmicos o procuraram com propostas de destruir o moinho e construir um outro na região montanhosa, em que pretendiam erguer um grande canal bem no meio dos desfiladeiros, enchendo-os com água, abastecendo-os de motores, sistemas condutores e certas engenhocas.Alegavam que os ventos e o ar, a grandes alturas, agitavam a água e, quanto mais ela pudesse ser movimentada, e de quão mais alto ela viesse, mais energia seria produzida. Munodi, não vendo saída, em desprestígio com a coroa e pressionado por muitos de seus vizinhos, cedeu. Apesar de terem aplicado 100 homens no projeto ao longo de 2 anos, o trabalho descarrilhou, tudo deu errado e os projetistas foram-se embora, culpando o próprio Munodi! Agora esses acadêmicos andam por aí procurando outras almas como o benévolo Munodi, a fim de engabelá-las por seu turno, prometendo sempre os melhores resultados e as mais altas probabilidades de êxito, com o mínimo esforço. Mas, na prática, tudo acontece ao revés.”
“Essa academia não se resume a um simples prédio, mas é mais como um condomínio ou um campus, com prédios dos dois lados de uma rua que, barata e desvalorizada, foi comprada para servir de sede aos projetistas.”
“O primeiro homem que vi era um senhor muito raquítico, de cara e mãos muito sujas; seu cabelo e barba eram compridos, esfrangalhados e chamuscados em vários lugares. Suas roupas, sua camisa e sua cara, enfim, eram para mim da mesmíssima cor. Ele se encontrava há 8 anos entretido num só projeto: extrair a luz solar de pepinos, os quais eram inseridos em frascos hermeticamente selados, e depositados ao ar livre em pleno verão, debaixo do sol mais inclemente. Ele me contou que, sem dúvida, em no máximo mais uns 8 anos, já terá podido iluminar todos os jardins do governador, e isso a custos irrisórios.”
“O projetista dessa cela era o estudante mais antigo da academia. Seu rosto e barba eram de um amarelo pálido, suas mãos e roupas eram recobertas por uma camada de poeira. Quando fomos apresentados ele me deu um entusiástico abraço, um cumprimento que em outra ocasião eu bem poderia ter desculpado! Desde sua entrada na academia, ele estava envolvido numa operação a fim de reduzir os excrementos humanos à comida original, separando as partes, removendo a tintura emprestada às fezes pela bile, dissipando o mau cheiro e drenando o suco gástrico. Ele contava com parcos recursos da sociedade de cientistas, dentre eles uma remessa semanal de um recipiente abastecido de bosta, mais ou menos das dimensões de um barril de chope de Bristol.
Também vi um professor tentando calcinar o gelo até virar pólvora; este último me mostrou um tratado que redigira, sobre a maleabilidade do fogo, o qual ainda não se encontrava publicado.
Havia um arquiteto dos mais engenhosos, que descobrira um novo método de construir casas, começando pelo teto e descendo progressivamente à base. Sua justificativa? Ele me contou que devíamos copiar os insetos peritos em construção, isto é, as abelhas e as aranhas!”
“ora, empregando aranhas o trabalho de tingir a seda será todo poupado.”
“Ele me exibiu uma vasta quantidade de moscas das cores mais belas, com as quais alimentava suas aranhas, garantindo que as teias sairiam com a mesma tintura das moscas. Como ele tinha um repertório de todas as cores de moscas, ele esperava assim conquistar a aprovação universal, ao menos a partir do momento em que encontrasse alimento apropriado para todas as variedades de moscas, constituído de certas gomas, óleos e matérias viscosas, a fim de dar a consistência e a força necessárias aos fios.”
“Eu me queixava no momento de uma pequena crise de cólica, quando meu guia me conduziu à sala de um renomado físico, que conseguia curar essa inconveniência através de operações contrárias de um mesmo instrumento. Havia um par de berrantes enormes, com o bocal muito alongado e estreito feito de marfim. Ele inseria essa parte (de uns 20cm!) no ânus do paciente. Fazendo ventar para aquelas partes, ele garantia poder tornar o intestino tão murcho e isento de gases quanto uma bexiga depois de estourada! O problema era que quando o mal era mais crônico e violento ele precisava retirar os berrantes várias vezes para repetir o procedimento de ventilação. Nesse intervalo em que retirava o berrante para reintroduzi-lo, o doutor precisava tapar o orifício do reto do paciente com seu dedo polegar, para não deixar nada escapar; depois que isso era feito 3 ou 4 vezes, no mais grave dos casos, o <vento adventício> podia finalmente ser liberado com todos os gases (funcionava exatamente como uma bomba d’água). O paciente recebia alta. Eu vi este homem fazer o experimento com um cão, mas não pude perceber qualquer resultado na primeira aplicação do berrante. Com a repetição da operação, vendo que o caso era grave, o doutor aplicou tanto vento no animal,e logo ele peidou tão feio, que foi impossível permanecer na sala… O cachorro morreu no ato! – mas o doutor iria tentar a ressuscitação do animal aplicando a mesma técnica… eu não fiquei para ver o resultado e segui adiante em minha visita…
Com efeito eu visitei muitos outros apartamentos de projetistas-especialistas, mas não vou desperdiçar o tempo do meu leitor com as curiosidades que acabei por observar, preferindo um relato mais breve da aventura.”
“A invenção mais brilhante que encontrei foi um dispositivo que pretendia reunir todo o conhecimento universal da humanidade mediante o registro de todas as palavras concebíveis e de sua repetição na mesma proporção em que ocorrem nos livros conforme sua classe gramatical (advérbios, preposições, conjunções, verbos, adjetivos, substantivos…), e tudo isso de uma forma dinâmica, um aparato gigantesco operado por muitos auxiliares. Achei meu colega, o inventor deste mecanismo (veja a imagem), tão aplicado e original que prometi que, se um dia eu voltasse ao Velho Continente, tornaria público o fato de que ele, e somente ele, era o inventor genuíno desta grandiosa máquina revolucionária. E eu disse a ele, encorajando-o: <Embora seja o costume do europeu o furtar, por assim dizer, invenções uns dos outros, nosso sistema tem, ao menos, essa vantagem: sempre fica dúbio, no final, quem fôra o descobridor do Ovo de Colombo…>, mas – complementei –<…agirei com tanta precaução que você pode estar certo de ficar como detentor derradeiro dos direitos sobre sua invenção, sem um rival sequer!>”
“A seguir nós nos dirigimos à faculdade de letras, onde 3 professores estavam em debate, cujo tema era: como aperfeiçoar o idioma natal? O primeiro projeto proposto foi o de diminuir o discurso, cortando polissílabos, e eliminando verbos e particípios, uma vez que coisas imaginadas não são senão normas. O segundo projeto era um esquema extremista em que se aboliam de vez todas as palavras; argumentou-se que seria uma ação altamente valiosa tanto no campo da saúde quanto no da objetividade científica. E para isso evidenciou-se que cada palavra que pronunciamos representa uma ligeira diminuição de nossa capacidade pulmonar por corrosão e que, por extensão, a língua contribui para o encurtamento da vida humana. Pregou-se uma solução: <Uma vez que as palavras são apenas nomes para as coisas, seria mais conveniente que cada homem carregasse consigo todas as coisas necessárias a fim de expressar idéias particulares.> Essa invenção, alegou-se, já teria sido possível e já seria uma realidade, se as mulheres e a gente vulgar e iletrada não ameaçasse, sempre, rebelião quando esta era a pauta do dia. Aquilo que nossos avós e pais faziam, é-nos muito difícil de abdicar. São esta gente os inimigos maiores do fazer-ciência. (…) Entrando em mais detalhes sobre esta curiosa proposta, à objeção levantada de um homem cuja profissão fosse muito abrangente, abarcando muitos tipos de objetos, este homem teria, proporcionalmente aos campos que domina, numa lei de igualdade compensatória, de carregar mais coisas nas costas, a não ser que fosse rico o bastante para ter um ou dois servos que o ajudassem nesse tocante. Eu vi dois dos sábios defensores desta proposta quase que afundando sob o solo dado o enorme peso de sua bagagem, como os nossos mascates. Aí, então, a pessoa que carregasse todos os objetos de que necessita para <falar>, quando encontrasse um conhecido seu na rua, depositaria sua sacola no chão, retiraria seus objetos e poderia, assim, dialogar mudamente por cerca de uma hora! A ajuda de terceiros com implementos ou o camaradismo a fim de que todos e cada um lograssem carregar sem maiores dificuldades toda sua <mercadoria de fala> em peso (com o perdão do trocadilho!) seriam aspectos indispensáveis desse novo e promissor modo de vida. (…) Como seria de se imaginar, a casa ou escritório de alguém nesta sociedade seria atulhado de coisas para que diálogos fossem sempre possíveis. Essa operação não é coisa simples: a habilidade no rápido e coordenado manejo de objetos sendo essencial, diria que é uma verdadeira ARTE da conversação!
Mas mais uma vantagem aludida com o emprego dessa nova técnica seria que finalmente cumpriríamos os desígnios de Babel: teríamos atingido a língua universal! Em nenhuma nação que adotasse esse método qualquer forasteiro que jamais estudou os costumes locais deixaria de ser plenamente compreendido! (…) Embaixadores tratariam com quantas autoridades internacionais pudesse haver, sem maiores inconvenientes.”
“nada há de tão extravagante e irracional que alguns filósofos não tenham proclamado como verdadeiro.”
“Propôs então o doutor: <Na assembléia do senado, alguns médicos deveriam comparecer nos seus três primeiros dias, e, à hora da saída, medir o pulso de cada um dos debatedores. Após o quê, considerando com sabedoria e consultando sobre os sintomas das mais variadas doenças, bem como seus métodos de cura, ao quarto dia, retornariam em companhia de seus apotecários munidos dos medicamentos adequados. Antes mesmo desta quarta reunião, eles administrariam todos os lenitivos, aperitivos, abstergentes, abrasivos, corrosivos, restringentes, detergentes, paliativos, laxativos, analgésicos, anti-cefalóides, anti-ictéricos, anti-apopléticos, acústicos, etc., na dosagem e na qualidade que o quadro de saúde de cada paciente demandasse. Conforme esses remédios sanassem ou não a doença, e em que grau, os médicos e farmacêuticos regressariam, ainda, para repetir, alterar ou omitir o tratamento.>”
“Como sucede de os favoritos do príncipe sofrerem, em geral, de curta e péssima memória, o mesmo doutor ainda prescrevera: <Quem quer que se encontre com o primeiro-ministro, após relatar o assunto, da forma mais lacônica e simples possível, deveria, no instante de despedir-se, dar um beliscão no nariz do sumo ouvinte, ou senão um chute no estômago, ou dar-lhe um pisão, ou puxar ambas as suas orelhas por no mínimo três vezes, ou então enfiar-lhe uma agulha no traseiro, ou deixar hematomas no seu braço, tudo pela melhor das causas: prevenir seu esquecimento. E, se se tratar de uma sucessão de muitos encontros, deveria repetir a operação a cada um deles, até que o negócio esteja fechado, i.e., que o primeiro-ministro dê, enfim, seu sim ou seu não e conclua a questão.>”
“O mesmo médico propôs uma bela medida contra as dissensões agudas e violentas entre os partidos. O método de fazer a reconciliação era o seguinte: reúnem-se 100 líderes de cada partido; eles são dispostos dois a dois entre aqueles com cabeças de tamanho mais próximo; dois cirurgiões qualificados serram o occipúcio de cada par da dupla simultaneamente. Os occipúcios extraídos são intercambiados, vindo a pertencer agora à cabeça de um antigo rival. Parece absolutamente um trabalho que exige a mais milimétrica precisão ou algo pode dar muito errado! Porém, o médico-cirurgião afiançou que <se a dupla-cirurgia for realizada com êxito, a cura é inescapável. Com as duas metades antagônicas de um cérebro pós-cirúrgico deixadas à vontade para debater o tema em questão, dentro do mesmo crânio, não poderiam deixar de se entender logo, porquanto não há outra saída, e produziriam nos pacientes assim operados aquela moderação e regularidade de pensamento, justo neles, que, previamente à intervenção da medicina, julgavam que sua existência neste mundo decorria tão-somente do eterno movimento praticado pelos corpos celestes e que por isso julgavam que seus defeitos eram predestinados e que não valia a pena esforçarem-se por minorá-los!>.”
“O método mais justo seria impor um imposto sobre os vícios e tolices; a soma fixada para cada homem seria estabelecida de forma eqüitativa por um júri composto de seus vizinhos.”
“As mulheres deveriam ser taxadas segundo sua beleza e destreza no vestirem-se, no que elas deveriam ter os mesmos privilégios que o homem, em valores a ser determinados por seu próprio juízo. Mas a constância, a castidade, o bom-senso e a gentileza não poderiam ser mensurados, porque daria muito trabalho e ademais os impostos seriam tão altos que quebrariam a economia.”
“Outro professor mostrou-me um artigo muito extenso com instruções para descobrir intrigas e conspirações contra o governo. Seu aconselhamento era, em síntese, o de que o governante devia prestar atenção na dieta dos suspeitos; as horas das refeições; em que posição dormiam; com qual das duas mãos coçavam o traseiro; analisar detidamente seus excrementos, de modo a retirar opiniões conclusivas de sua cor, odor, gosto, consistência, nível avançado ou inicial da digestão, enfim, tudo o que, segundo este nobre autor, permite que leiamos nas entrelinhas os pensamentos e intenções mais profundos daqueles que conspiram; é de fato sabido por todas as civilizações (que possuem vaso sanitário) que um homem nunca se põe tão sério, grave e deliberativo como quando está no trono. Após longos experimentos, este doutor conseguiu descobrir que aqueles que se punham a pensar, enquanto defecavam, na melhor maneira de matar o rei tinham as fezes esverdeadas; porém, se o caso fosse apenas o de levantar uma insurreição ou incendiar a metrópole, aí então as cores resultavam bem díspares, etc.”
“Pois saiba o senhor que na Tribnia,¹ dentre os nativos chamados Langdon,² na qual habitei muitos de meus anos em meio a minhas intermináveis viagens, o grosso da população consiste, no fim das contas, em grandes descobridores, inventores, investigadores, testemunhas, informantes, acusadores, procuradores, provadores, conjuradores, incitadores, sempre no uso de seus instrumentos subalternos, i.e., outros langdoninos. E todos, sem exceção, estão sempre, quaisquer que sejam sua índole e conduta, submetidos à vontade dos ministros de Estado e aos congressistas, senão outras marionetes ou avatares destes primeiros. As intrigas, nesse reino, são obra daqueles que querem se tornar proeminentes e marcar a história como grandes personalidades, o velho desejo de ser um GRANDE POLÍTICO. Se não é isso que os conspiradores querem, só posso cogitar alguns outros motivos: revigorar uma administração que se tornara louca? sufocar ou dividir minorias de descontentes (ou seja, conspirar apenas como isca para apanhar conspiradores)? encher seus cofres? piorar ou melhorar a imagem do império em face das outras nações (aquele dos dois que for mais vantajoso no momento para a fortuna individual)? E não duvide de que as coisas são tão bem encenadas na Tribnia que muitos até decidem mutuamente seus papéis antes da peça: talvez tirem no palitinho ou dalguma outra forma quem serão os bodes expiatórios da vez, aqueles que serão acusados e condenados pelo poder público; medidas formais são tomadas para confiscar seus pertences e rastrear suas cartas e correspondências; e, enfim, se os prende. Os papéis encontrados que sirvam de prova da conspiração são distribuídos para uma caterva de artistas, muito hábeis em decifrar significados misteriosos em palavras esdrúxulas e quase arbitrárias, prestando entonação às menores sílabas. Há uma interpretação de tudo quanto for informação num sentido bem elaborado – p.ex.: uma referência a uma latrina fechada numa carta de comadres pode ser o símbolo para conselho privado; uma revoada de gansos, símbolo do senado; um cachorro furibundo, um invasor; a peste, um exército à espreita; um abutre, o primeiro-ministro; a gota, o sumo-pontífice; o patíbulo, o secretário de Estado; uma retrete, um comitê de especialistas; uma peneira, uma dama da côrte; uma vassoura, a revolução; uma ratoeira, uma estratégia; um abismo sem fundo, o Tesouro; um naufrágio ou escolhos, a própria côrte; um chapéu de bobo com sinos nas pontas, um favorito; uma cana quebrada, a côrte de justiça; um tonel oco, o general; uma ferida aberta, a própria administração.(*)
(*) Este parágrafo é a versão revisada do dr. Hawksworth (1766); na edição original de 1726, a introdução era: Pois saiba o senhor que, vivesse eu num país em perpétua crise e rebuliço…Portanto, não havia ainda este código dual Tribnia-Langdon nem tampouco a figura do vaso sanitário fechado na enumeração simbólico-irônica que vem a seguir.”
¹ Forma velada de o autor se referir à Bretanha.
² Os londrinos – referência aos habitantes da capital Londres ou London no original.
“Se falhar esse jogo de associações na interpretação da linguagem empregada entre os comparsas, há nesta terra ainda dois métodos efetivos que os mais versados possuem de desbaratar conspirações: os acrósticos e os anagramas. Quanto ao primeiro método: todas as iniciais podem conter sentidos políticos. N pode querer dizer uma trama;¹ B, aludir à cavalaria; L, uma esquadra no mar… Quanto ao segundo método: transpondo as letras do alfabeto em qualquer <documento suspeito>, as verdades mais ocultas e impensadas podem vir à tona, principalmente o descontentamento do partido vencido. Então, p.ex., se eu dissesse, numa carta, a um amigo, em tom de desabafo, <O FLAGELO FERIDO TEM UM PESO!>, um decifrador competente poderia deslindar a seguinte sentença subjacente na primeira: <O REI SEM LEGADO É MOFO, PLUFT!>,² o que parece insinuar que quereriam assassinar ou desaparecer com o rei, que julgavam nada estar deixando para a glória futura do país, sendo mera relíquia de um passado desinteressante.”
¹ Não é nenhuma palavra com “n” em inglês; aqui, Swift escreve plot, deliberadamente para o efeito cômico da explicação, e assim nos dois próximos exemplos nonsense.
² “Our brother Tom has just got the piles” e “Resist—, a plot is brought home – The Thour” no original.
“O professor me agradeceu muitíssimo meu relato detalhado, e garantiu que na versão final de seu artigo eu ganharia diversas citações.
A verdade é que nada vi nesse país que me convencesse a uma estadia longa, então comecei a planejar meu retorno à Inglaterra.”
“O continente, do qual esse reino ocupa apenas uma parte, se estende, pelo menos creio, a oriente, até aquela obscura borda da América conhecida como costa oeste ou Califórnia. Ao norte, o limite de seus domínios é o Oceano Pacífico, que não dista mais de 250km da capital Lagado no centro. Nesta costa setentrional há um grande porto e bastante comércio com a grande ilha de Luggnagg, mais ou menos a noroeste de onde eu me encontrava então, aos 29° de latitude e aos 140° de longitude. Essa ilha chamada Luggnagg situa-se, portanto, a sudeste do Japão, mais ou menos a 800km. Há uma aliança restrita entre o imperador japonês e o rei de Luggnagg; com isso, viagens entre ambos os arquipélagos se tornam mais fáceis. Foi assim que decidi tomar meu rumo para a Europa por esta via.”
“Dessa vez, por incrível que pareça, minha jornada não contou com acidentes ou aventuras extraordinários que valham a pena narrar. Chegando ao porto de Maldonada nenhum navio estava ancorado na parte reservada para as embarcações de Luggnagg, nem havia qualquer aparência de que esperavam a chegada de alguma nau. Esta cidade em que desembarquei era mais ou menos do tamanho de Portsmouth. (…) Um gentleman me disse: <Como navios para Luggnagg não sairão no próximo mês, seria uma honra, se o senhor concordar, ser o guia do senhor numa excursão pelo pequeno arquipélago de Glubbdubdrib, que dista daqui não mais que 5 ligas marítimas a sudoeste.>”
“Glubbdubdrib, tanto quanto eu posso interpretar, significa ‘Ilha dos magos e feiticeiros’. Tem mais ou menos um terço do tamanho da ilha de Wight,¹ é de vegetação bastante frutífera e de prospectos excepcionais, governada por uma tribo inteiramente composta de magos. Nessa tribo todos os casamentos são endógamos, sendo que a sucessão cabe ao filho mais velho. Seu palácio mais seus jardins dão uma área de 3 mil acres,² toda cercada de uma muralha de pedra polida de 6 metros de altura.”
¹ Ou seja, tem por volta de 127km².
² O acre vale um número diferente em metros quadrados em cada notação, e são diversas as existentes. Não deve ser a mais comum delas, em que 1 acre = 4km², pois sendo assim 3 mil acres x 4km² dariam 12 mil km², o que seria o mesmo que dizer que o próprio palácio do rei da ilha e adjacências são CERCA DE 100X MAIORES QUE A PRÓPRIA ILHA (nota 1)! Ou a notação é uma que me é inacessível ou trata-se de um imenso efeito cômico (burlesco, aliás) do autor!
“Mestre da necromancia, o governante deste lugar pode chamar dentre os mortos qualquer um que desejar, contanto que os serviços do finado não durem mais do que 24h. Também há a limitação de não se poder chamar a mesma pessoa de novo num espaço de 3 meses, a não ser em circunstâncias extraordinárias.”
“Este rei entendia a língua de Balnibarbi, embora não fosse o idioma desta ilha. Ele me solicitou, portanto, relatos de minhas viagens e, para provar-me que eu seria tratado sem cerimônia nem etiqueta excessivas, dispensou todos os atendentes da côrte num simples voltear de seu dedo. Ao concretizar esse gesto – não falo por metáforas! – todos os seus súditos sumiram, escafederam, como vapor ou imagens oníricas, num só instante! (…) Sentindo-me encorajado, comecei uma breve narração que incluía uma seleção de minhas melhores aventuras até então. (…) Logo me pus tão familiar à aparição de espíritos que, depois da terceira ou quarta vez já não me sobressaltava com os visitantes! Mesmo que um ou outro me parecesse ainda assustador em um aspecto ou outro, minha curiosidade ultrapassava em muito esse ligeiro mal-estar. Sua alteza determinou, então, que eu tinha inteira liberdade para fazê-lo convocar qualquer personalidade morta que eu quisesse, e aliás que eu continuasse a fazê-lo até me contentar de todo, não importasse o número daqueles que eu gostaria de entrevistar nesta minha curta estada por tão poderosa côrte! Podia ser qualquer nome, desde o início dos tempos até os dias atuais, e eu teria liberdade irrestrita no interrogatório. Mas ele me fez observar que as perguntas que eu dirigisse deveriam estar confinadas ao tempo de existência do sujeito, sob pena de não obter nenhuma resposta que fizesse sentido. Além disso, o rei me assegurou: <Tu ouvirás a verdade e nada menos que a verdade, posto que mentir não é talento que possua qualquer valor no submundo>.”
“O primeiro que decidi convocar foi Alexandre o Grande, encabeçando seu exército da batalha de Arbela:¹ após um leve volver de dedo no ar pelo governante, este excelso imperador imediatamente se materializou, em meio a uma vasta planície, visível através da janela que se abria a nossa frente. Alexandre foi chamado a sentar-se diante de nós. Foi com muita dificuldade que compreendi seu grego, e eu mesmo não falo mais do que o básico neste idioma. Ele me jurou: <Não fui envenenado, morri de febre decorrente do excesso de bebedeira.>”
¹ Que terminou com a derrota de Dario III e representou a conquista dos persas pelo mundo helênico, tentada desde a formação da nação grega. Alexandre tinha muito menos soldados que seu adversário.
“Em seguida eu vi Aníbal cruzando os Alpes, dizendo: <Eu não tenho uma gota sequer de vinagre em meus campos>.¹”
¹ Uma anedota popular diz que o conquistador Aníbal conseguiu desintegrar enormes rochas que bloqueavam o caminho de suas tropas usando fogo e vinagre (ou azeite) como catalisador das chamas. Ou seja: entrevistando as personalidades históricas, Gulliver sempre se depara com desmentidos.
“Vi (não fui, ele que veio; nem venci, mas afianço que eu vi!) César e Pompeu na dianteira de suas tropas, prontos para qualquer assalto. O primeiro deles estava na forma física de seu último grande triunfo. Eu desejava também a convocação do senado romano para diante de nós. E num amplo salão eu pude ver todas as ilustres figuras daquele senado republicano, além de, ao seu lado, uma assembléia dos tempos mais recentes de Roma, do Império corrompido. Os componentes do primeiro salão pareciam heróis, semi-deuses; a outra turba parecia um amontoado de mascates, batedores de carteira, andarilhos e fanfarrões!
O rei necromante, a minha instância, fez sinal para que César e Bruto se adiantassem. Fui presa de verdadeira veneração ao contemplar este homem Bruto! Pude distinguir nele a mais resoluta das virtudes, um caráter intrépido e uma mente firme, um sincero amor pela sua nação e grande humanidade e benevolência em cada gesto seu. E percebi também que ambos se davam muito bem. César me confessou: <As maiores ações que perpetrei nem sequer igualam, em vários graus, a glória de quem as suprimiu deste mundo!>. Instado por esse comentário, conversei bastante com Bruto. E dele ouvi: <Meu ancestral Junius, Sócrates, Epaminondas, Cato o Jovem, Thomas More e eu andamos sempre juntos no Hades>. Um sextunvirato, decerto, a que nenhuma idade poderia acrescentar um sétimo elemento!
Mas seria tedioso fazer o leitor repassar por todos os meus encontros e conversações daquela ocasião, que foram saciando minha sede por ver e conhecer as pessoas mais renomadas dos séculos dos antigos! Também não poupei meus olhos da vista dos maiores destruidores e tiranos e usurpadores de nossa História; bem como surgiram diante de mim grandes restauradores da liberdade e da paz a nações antes subjugadas…”
“Propus então que aparecessem Homero e Aristóteles, seguidos de sua horda de comentadores. Mas os comentadores eram tão numerosos que algumas centenas tiveram de se pôr em fila, fora das dependências do palácio, aguardando sua vez. Assim que o bando apareceu, de longe, já podia distinguir Homero e Aristóteles dos demais, e até mesmo entre um e outro. Homero era mais alto e cavalheiresco, andava muito ereto para um velho, e seus olhos, ao contrário da crença comum, eram alguns dos mais perspicazes e fulminantes de que já se teve notícia! Aristóteles andava muito encurvado, necessitando do auxílio de um cajado. Sua vista era débil e cansada, seu cabelo ralo e fino, sua voz minguada. Percebi num átimo o quanto cada um deles era desconhecido pela própria turba de comentadores que os seguiam! E também percebi que nem no além estes dois travaram contato com quaisquer daqueles. Recebi um cochicho no ouvido de um fantasma, cuja identidade preservarei: <Acontece que estes comentadores ficam o mais distantes possível dos seus mestres, tamanha a vergonha e a culpa que carregam – enfim se deram conta de quão mal interpretaram seus ensinamentos e distorceram tudo quanto estes homens nos legaram, prejudicando incontáveis gerações de novos homens!>. Introduzi, destarte, Dídimo¹ e Eustácio a Homero, e consegui que ele os tratasse, quiçá, melhor do que mereciam. Homero, muito atento, logo percebeu que estes coitados não tinham gênio de poeta! Já Aristóteles não foi tão benevolente nem contido: pôs-se furioso quando contei-lhe sobre Scotus² e Ramus,³ ao mesmo tempo que lhe apresentava seus espectros, emanando daquela multidão. Aristóteles, sem meias-palavras, indagou se todos os demais eram tão asnáticos quanto aqueles dois!”
¹ Há muitos Dídimos na História, nenhum especialmente vinculado apenas à obra de Homero, então é difícil dizer a qual deles Swift se refere. O mesmo vale para Eustácio.
² Duns Scotus, frade franciscano do XIII. Um dos poucos filósofos da idade média ainda relevantes e talvez a única figura de destaque destes séculos que sirva como contraponto metafísico a Tomás de Aquino, foi um dos prefiguradores isolados e muito prematuros do existencialismo, cf. Heidegger. Beatificado em 1993.
³ Lógico francês do XVI. Na sua época inovou sobre Aristóteles e foi moda, mas logo caiu em esquecimento e suas teses foram consideradas esdrúxulas.
“Neste ponto, solicitei ao rei que trouxesse Descartes e Gassendi das trevas. Com Aristóteles ainda presente, pus-me como intermediário para explicar seus sistemas ao Peripatético. Diante do que ouviu, Aristóteles, cheio de humildade, reconheceu seus erros e imperfeições em filosofia natural, e que isto não lhe era nem um pouco degradante, pois em muitos pontos ele raciocinou por conjeturas. Ele também disse, implacável e austero, que a ética de Gassendi, que parecia um epicurista de primeira linha, e os vórtices de Descartes, por exemplo, um dia seriam também completamente refutados pelos filósofos da posteridade. Ele deu o mesmo diagnóstico para a lei da atração, que os eruditos da contemporaneidade defendem com todo o zelo. Em suas próprias palavras, Aristóteles deixou bem claro: <Novos sistemas da natureza são como novas modas, sendo que cada idade tem a sua; mesmo aqueles que alegam poder demonstrar suas teorias por axiomas matemáticos não prevalecem mais que por uma porção de tempo determinada, brevíssima considerando a infinita sucessão dos homens>.
Eu passei 5 dias inteiros conversando com muitos outros sábios antigos. Vi a maioria dos primeiros imperadores de Roma. Pedi ao necromante que nos mandasse servir um jantar feito pelos cozinheiros de Heliogábalo, o imperador mais hedonista de todos os tempos. Porém, seus dotes culinários não ficaram atestados, porque nas dependências do palácio não havia tantos ingredientes quanto eles desejavam. Um hilota (escravo espartano) de Agesilau nos preparou, também, um ensopado, mas, urgh!, não consegui dar uma segunda colherada.
Os dois gentlemen que me acompanhavam na visita à ilhota tinham necessidade, por razões particulares, de regressar dentro de mais 3 dias, após esses primeiros 5, então eu decidi empregar o tempo que ainda me restava com a idade moderna, o que ainda não tinha feito. Decidi me limitar a nossa Europa de 300 anos para cá. Sendo um conhecedor e admirador das famílias mais tradicionais, pedi logo que se apresentassem uma ou duas dúzias de reis, acompanhadas de seus ancestrais até a oitava ou nona geração, se possível. Minha decepção foi imensa e aterradora. Ao invés de semblantes superiores com diademas reais, o que vi foi, numa família, rabequistas, dândis afetados, prelados (profissão muito comum entre os italianos); noutra, barbeiros, um abade, dois cardeais, e assim por diante. Não conseguia suportar essa frustração histórica, haja vista minha mais alta reverência por cabeças coroadas. Quanto a condes, marqueses, duques, barões e que-tais, não fui tão escrupuloso, e confesso que me locupletei com a baixeza de suas árvores genealógicas! Percebi, após analisar muitos traços, de que famílias alguns dos meus contemporâneos descendem com mais probabilidade. E até conseguia fazer a mesma analogia e adivinhar mais ou menos de que raças de antigos e de que personalidades específicas estes nobres de algumas gerações passadas devem ter descendido.”
“Nec vir fortis, necfoemina casta [Nem homem viril, nem mulher casta] (Virgílio); é incrível como a crueldade, a covardia e a falsidade se tornaram tão evidentes que são praticamente sinônimas das características mais enraizadas duma família, dizendo muito mais que seus escudos e brasões. Era fácil ver como um celerado, um tratante, vinha como a sífilis e logo contaminava toda uma nobre casa, cujos descendentes não passavam de escrofulosos tumoríferos!”
“Me preocupava muito com os destinos de nossa história moderna. Analisando todos os rostos dos grandes das côrtes, percebi como o mundo foi tirado dos eixos por escritores venais, prostitutos bajuladores, que teciam loas a grandes espoliadores, amantes da guerra e covardes! Percebi logo como fui enganado pelos nossos historiadores a respeito de tantos tolos pintados como sábios, tantos mentirosos pintados como almas pias; vi até que a tal virtude romana não passava de traição da pátria. A piedade decerto não se encontrava nestes ateus que diziam pregá-la acima de tudo! A castidade era defendida na minha frente pelos mais desabridos sodomitas! A verdade era espezinhada na boca de alguns fofoqueiros. Ó, quantos indivíduos de excelência e perfeitamente inocentes não foram condenados à morte ou ao exílio perpétuo pela prática corrupta de juizecos e pela malícia de intermináveis facções!”
“Com que baixa opinião eu não saí a respeito da suposta ‘sabedoria humana’, da integridade, disso e daquilo, quando me dei conta da raiz e das motivações vis por trás de tão robustas e tão nobres empresas e revoluções registradas em nossos anais! É realmente miserável de se ver como as melhores coisas, maioria das vezes, se produziam da forma mais aleatória e acidental, em meio a um sem-fim de patifaria!
Sobretudo, veio-me um asco por todos aqueles que adoram escrever anedotas com um fundo moral, isto é, os vilões que imaginam escrever a ‘história secreta’ dos povos. Quanta trapaça e ignorância não há em suas sentenças! Poder-se-iam empilhar os reis enterrados por envenenamento… E esses escrevinhadores se comprazem nesses relatos mórbidos; replicam falas exatas e riquíssimas de príncipes e ministros sem que sequer tenha havido qualquer testemunho dessas frases; desvendam como que por mágica os pensamentos e procederes de embaixadores e secretários de Estado que nunca soubemos, nem mediante seus diários íntimos! Ah, sim, quem faz e quem escreve a história está sempre e invariavelmente incorrendo em erro! Descobri a causa de muitos eventos que pareceram surpreendentes quando grassaram no mundo: como uma puta governou por trás das cortinas um conselho inteiro; como generais conseguiram vitórias principalmente devido a seu caráter acanhado e às decisões mais estapafúrdias! (…) todos estes homens mais ‘elevados’ me mostraram da forma mais crua como é impossível um homem ocupar um trono real sem estar infectado de corrupção até a medula, porque o caráter reflexivo, sóbrio, confiante e otimista não combina em nada com os negócios públicos; inclusive poder-se-ia dizer que o bom caráter do monarca seria a principal pedra no sapato e empecilho do ‘comezinho transcorrer das coisas’!… O rei incita o irrealismo.”
“Minha nova viagem durou um mês. Sofremos numa violenta tempestade, de modo que foi preciso seguir o rumo oeste a fim de pegar ventos propícios. Por 60 ligas marítimas esse vento embalaria nossa embarcação. Em 21 de abril de 1708, chegamos ao rio de Clumegnig, uma cidade-porto, a sudeste de Luggnagg.”
“Senti-me premido a ocultar minha procedência e sustentei ser holandês. Como minha intenção era seguir posteriormente ao Japão, esse era o certo a fazer, uma vez que os Países Baixos são a única nação européia com permissão para visitar este império.”
“Toda minha ‘comitiva’ era esse pobre rapaz como intérprete, que persuadi a me acompanhar de forma remunerada; ganhamos cada qual uma mula para a cavalgada.”
“Há um costume que não posso aprovar: quando dá na veneta do rei condenar um de seus nobres à morte, e de maneira indulgente, manda que o chão seja espargido com determinado pó amarronzado, venenoso, que, ao ser lambido, mata infalivelmente em 24 horas. Contudo, para fazer jus à imensa clemência do príncipe regente, bem como à prestatividade deste para com a vida de seus súditos (no que devia, aliás, ser emulado pelos monarcas europeus), devo mencionar, honradamente, que ordens estritas são emitidas para que as partes infectadas do chão sejam bem-lavadas ao término de cada execução, coisa que, se seus domésticos negligenciam, pode resultar na pena de morte ou algum castigo mais brando para todos os encarregados da limpeza. Eu vi pessoalmente como sua majestade mandou chicotear um pajem que estava em sua vez de lavar o chão, mas que, maliciosamente, após uma execução, omitiu seus deveres! Devido a sua indolência, um jovem barão muito promissor, visitando o palácio para uma audiência, foi sem querer envenenado, por mais benquisto fosse pelo rei! Vê-se, porém, como era benevolente o príncipe, ao perdoar tão gritante falta de seu servo, desde que ele prometesse nunca mais agir assim.”
“Inckpling gloffthrobb squut serummblhiop mlashnalt zwin tnodbalkuffh slhiophad gurdlubh asht. Esses são os cumprimentos, expostos na lei local, devidos a qualquer pessoa admitida à presença do rei. Seria mais ou menos o seguinte em inglês: <Que Vossa Alteza Celestial sobreviva ao Sol, onze luas e meia!> A essa fórmula de etiqueta o rei respondia alguma outra coisa ritual, que não pude entender, havendo aprendido apenas a recitar minha parte. Então eu devia proceder à tréplica (não sei o significado – apenas decorei as sílabas): Fluft drin yalerick dwuldom prastrad mir push. Eu disse que não sei o significado porque eu não sei interpretar o que quer dizer, embora saiba traduzir: <Minha língua está na boca de meu amigo>. Mas acho que isso tinha alguma coisa a ver com chamar meu intérprete para junto da conversa, para assim podermos proceder à conversação! Com a ajuda do rapaz que contratei, pude responder todas as perguntas que Sua Alteza me dirigiu, o que durou mais de hora. Eu falei na língua balnibarbiana; meu guia convertia tudo no idioma luggnagguês.”
“Permaneci 3 meses ali. O rei adquiriu muita simpatia por mim, fazendo-me diversas propostas de cargos na côrte. Eu, porém, julguei mais prudente e justo passar o restante de meus dias em companhia de minha esposa e família.”
“Um dia, num círculo da aristocracia, fui questionado por um dos nobres:
– Você já viu um de nossos struldbugs ou imortais?
– Nunca; mas muito anseio por que me expliquem o que é isso que designam por esta apelação, que decerto é aplicada a uma criatura mortal como todos nós!
– Às vezes, por muito raro que seja, uma criança nasce, numa família aleatória, com um sinal vermelho na testa, logo acima da sobrancelha esquerda, uma marca infalível de que aquele ser jamais morrerá. Esse sinal tem estas dimensões [ele fez um gesto com os dedos, e pude compreender que se tratava mais ou menos do tamanho de uma moeda de prata de 3 pêni¹] quando a criança acaba de nascer. Com o tempo, ele vai ficando maior, e inclusive mudando de cor. Até os 12 anos, já se tornou verde. Aos 25 se torna azul escuro. Aos 45, preto-carvão, e já grande assim [ele fez com os dedos uma mímica que eu aproximo ao xelim]. A partir desse ponto, porém, o sinal não muda sua coloração nem seu tamanho. Amigo, estes seres são tão raros que se houver mais de 1100 struldbrugs (contando homens e mulheres), isso muito me surpreenderá! Creio que uns 50 vivam na metrópole. Fora da capital, houve a notícia de um último struldbrug nascido 3 anos atrás, do sexo feminino. Não há qualquer chance de um struldbrug ser mais freqüente em umas famílias que em outras, não há qualquer correlação! Tampouco qualquer struldbrug, ao ter filhos, teve filhos que fossem iguais a si mesmo…”
¹ Pense numa moeda de 50 centavos, tanto com referência ao tamanho quanto com o valor aproximado de 3 pêni ou threepence àquela altura.
“Nação ditosa, em que toda criança tem pelo menos uma chance ínfima de ser imortal!”
“Dizia ainda ele que Sua Majestade, sendo tão judiciosa, jamais deixaria de escolher, dentre os struldbrugs, um bom número para compor seu conselho. Se bem que uma côrte é algo tão mundano, impuro e estulto para a alta sabedoria de um struldbrug envelhecido que se nenhum é visto por lá atualmente, isso não é culpa do rei. Comecei a mudar de idéia quanto aos planos de ficar ou não neste país. Me parecia um futuro promissor poder gastar meus anos conversando com sábios struldbrugs!”
“Após um breve silêncio, o mesmo interlocutor deu prosseguimento:
– Mas é impressionante! Nunca vi alguém com seu otimismo com respeito à vida eterna! Diga-me no que consistiria sua vida, caso você tivesse tido o privilégio de nascer um struldbrug?”
“Ora, se eu fosse bem-aventurado para tanto, assim que soubesse, pelos meus conterrâneos, ser um imortal, isto é, aprendendo a diferença entre a vida e a morte, a primeira coisa que procuraria seria me tornar rico. Sendo econômico e previdente, creio que em cerca de 200 anos eu já teria atingido a meta de ser o homem mais rico da nação. Em segundo lugar, desde minha juventude me aplicaria ao estudo das artes e ciências, o que me garantiria ser o número 1 em cada uma após algum cultivo. Em terceiro e último lugar, tomaria o cuidado de registrar todas as minhas ações e eventos biográficos de conseqüência num diário, sem deixar, evidentemente, de redigir uma história a mais imparcial possível dos meus próprios reis e ministros, com notas e opiniões pessoais a cada ponto. Não deixaria de catalogar todas as mudanças culturais, lingüísticas, dietéticas, estéticas e variedades tais. Seria eu um tesouro vivo de conhecimento e sabedoria acumulados, e certamente me fariam exercer o cargo de oráculo do país!
Depois dos 60, creio que não voltaria a me casar, vivendo de maneira celibatária, mas não reclusa. Me comprazeria muito ser o mentor de jovens mentes brilhantes, convencendo-os, de acordo com minha vasta experiência, a ser virtuosos na vida pessoal e na vida pública. Meus amigos íntimos, entretanto, seriam unicamente outros de minha raça e condição; e mesmo dentre eles eu seria seletivo: procuraria me acercar apenas da dúzia mais anciã de todas, e dificilmente procuraria contato com os struldbrugs mais jovens que eu mesmo.”
“Como um homem mortal se distrai contemplando a sucessão anual das rosas e tulipas de seu jardim, sem nunca lamentar pelas rosas e tulipas mortas da estação passada, assim eu viveria!”
“rios famosos que com o tempo se tornam modestos córregos; o oceano, que em seu perpétuo movimento acaba por recuar e aumentar uma de suas margens, só para engolir completamente uma outra; a descoberta de muitos países até agora ignorados; a barbárie avançando e ultrapassando as nações mais eruditas e cultivadas; a arte de medir, o moto perpétuo, a medicina universal, e muitas outras invenções e ciências eu veria chegarem à perfeição!
Quantas belíssimas coisas não descobriríamos na astronomia, só pelo fato de sobrevivermos até podermos confirmar nossas predições? Observando o progresso e o retorno dos cometas, as mudanças de movimento do sol, da lua e das estrelas, ah!…
Incorri numa infinidade de outros tópicos, todos a que o desejo natural pela vida eterna e pela felicidade sublunar poderia me incitar. Quando terminei meu discurso, e o essencial do que eu disse foi devidamente transcodificado e retransmitido pelo meu intérprete a todos os ouvintes, houve uns bons minutos de discussão entre os pares na língua do país; sem entender uma palavra, me era possível, entretanto, ver que eu me passava por ridículo, porque era evidente que riam as minhas expensas! Enfim aquele que havia sido meu intérprete fez o favor de explicar-me tudo que se havia conversado. Toda essa gente desejava, em suma, retificar alguns erros crassos acerca da idéia que eu fazia da imortalidade terrena. Não que fosse culpa minha, por assim dizer, mas da imbecilidade universal da espécie humana, que não tem como perceber o erro de seus raciocínios abstratos a menos que seja confrontada com a dura realidade. Tendo essa nação convivido com imortais por muitos séculos, estas pessoas se sentiam no direito de censurar-me, uma vez que tinham muito mais experiência no assunto em questão. Os struldbrugs, ao que tudo indica, são exclusivos deste recanto do mundo, e nenhum outro povo conhece as peculiaridades desta condição. Nem em Balnibarbi nem no Japão, vizinhos que às vezes recebiam struldbrugs como embaixadores, tinha-se uma perspectiva acertada a esse respeito. Na verdade, poucos criam na possibilidade mesma de que estivessem tratando com imortais, julgando que fosse uma espécie de mito, lenda ou que se desejava pregar uma boa peça. E julgaram que eu não me portei diferentemente, pois notaram como a princípio eu acolhi com muito espanto e ressalvas a possibilidade de alguém viver anos infindáveis; e que se agora eu acreditava na existência dos struldbrugs, sem dúvida isso se devia a minha credulidade incomum. E assim seria com todas as nações que não conhecem indivíduos da raça imortal, pelo menos não tão bem, isto é, em toda sua vida, mas apenas, quando muito, como embaixadores que não residem muito tempo no exterior, logo se aposentando de suas funções: todos os povos compostos apenas por mortais manifestam um grande anseio pela imortalidade. Toda pessoa velha, decrépita, com um pé na cova, dentre as nações desprovidas de struldbrugs, teme a morte, e não hesita em fugir da morte, tentando inutilmente afastar o outro pé, aquele que ainda não está na cova, diante do destino inevitável de todo ser vivo que não recebeu a marca da imortalidade na testa logo que nasceu. Dizem que os velhos, por mais doentes e senis, nunca deixam de nutrir as esperanças de dias melhores, e sempre querer viver um dia a mais, não importando o dia de hoje. Para os mortais, a morte é o maior mal, e por mais que ela seja inerente à natureza é um fato horroroso. Só na ilha de Luggnagg, lugar privilegiado, esse apetite insaciável pela infinidade dos anos havia sido abolido, pelo menos nas mentes de todos que bem conheciam histórias de struldbrugs.
Alegaram que meu sistema de vida eterna era injusto e irracional, pois supunha, em primeiro lugar, uma juventude eterna, uma saúde sem-fim, um vigor inacabável, o que não passa de quimera e tolice. E me corrigiram, dizendo que a questão não era se seria desejável viver para sempre na flor dos anos e na primavera da vida, próspero e feliz. Mas sim como é que seria desejável para qualquer um viver para sempre, com todas as inconveniências naturais do envelhecimento. Os luggnagguianos confessaram, enfim, que nunca viram alguém partir desta vida de bom grado em Balnibarbi ou no Japão, exceto aqueles que já estivessem à mercê das mais cruentas misérias ou vivendo sob tortura. O intérprete me perguntou, já certo da resposta, se, nos países que eu já havia visitado, assim como na minha terra natal, os homens se comportavam de maneira diferente ou análoga.
Depois deste longo prefácio, ele finalmente me relatou como é verdadeiramente a vida de um struldbrug. Ele disse que um struldbrug vive como qualquer mortal até seus 30 anos de idade; aos poucos, porém, eles se tornam cada vez mais melancólicos e apáticos. Progridem até os 80 anos num ritmo constante, isto é, cada vez mais melancólicos e apáticos conforme a idade. Isso era conhecido não só por observação mas da boca dos próprios struldbrugs. Claro que, nunca havendo, numa só geração de mortais, mais do que 2 ou 3 struldbrugs, seria difícil generalizar e chegar a conclusões confiáveis para todos os struldbrugs de todos os tempos. Mas, o que é mais espantoso, assim que um struldbrug supera seus 80 anos, que é mais ou menos reconhecido como o termo da vida do homem mortal, marca além da qual poucos chegam,ainda mais provido de lucidez, percebe-se que, independentemente do dom recebido da imortalidade, este ser sofre de todas as doenças e abastardamento mental comuns à terceira idade. Não só isso, mas um struldbrug, justamente por saber-se eterno, parece sofrer ainda mais que qualquer mortal de idade avançada que sabe que um dia irá morrer. Os que ainda se comunicam tornam-se obstinados e recalcitrantes, rabugentos, invejosos, indolentes, vãos, tagarelas, maus ouvintes, incapazes de cultivar a amizade. Logo, pelo menos metaforicamente, mortos às afeições humanas, tornam-se incapazes de sentir ternura por qualquer descendente seu mais jovem que seus próprios netos ou bisnetos. Tornam-se apenas vultos, por assim dizer, fontes que emanam unicamente desejos e paixões impotentes. E as duas coisas que eles mais passam a odiar são os vícios comuns à juventude e a morte dos velhos. Vendo como vivem os mais jovens, eles se vêem alijados de há muito dos prazeres da existência; e sempre que ocorre um funeral, lamentam profundamente que alguém tenha ido para um lugar de repouso e sossego, enquanto eles ali continuam. E é curioso observar que eles não guardam memória das coisas que acontecem em seu tempo de velhice; eles teimam em recordar apenas aquilo que viveram durante a juventude e a meia-idade. Se bem que cada vez menos, quanto mais envelhecem. Sendo que ninguém mais confia no juízo de um struldbrug muito ancião, preferindo dar crédito às tradições, ao ouvir-dizer popular, do que a qualquer entrevista que se possa ter com um struldbrug milenar. Os menos desagradáveis dos struldbrugs são os que atingem um estado de perfeita senilidade e se recolhem em si mesmos, perdendo qualquer lembrança ou sociabilidade; estes, confessava meu intérprete, ainda são vistos com piedade e condescendência pelos mortais, porque, afinal, não incomodam ninguém.
Mas se um struldbrug, por exemplo, casa com outro struldbrug, a lei do país, muito sensata, dissolve o casamento, assim que o mais jovem do casal completa seus 80. Porque a lei entende que um struldbrug é o que é, e não tem culpa de ter nascido sem poder morrer. E seria crueldade aumentar o peso dessa velhice eterna, se se permitisse que um imortal, ainda por cima, tivesse sempre um cônjuge!
Como já se vislumbrou, um struldbrug de 80 anos é só um pária não mais contemplado pela lei. Seus herdeiros passam a ter desde então direito à herança; é claro que a caridade ainda é fomentada, e eles continuam de posse de um naco de seus bens, que lhes permita seguir vivendo comodamente; mas tudo o que seria supérfluo é-lhes imediatamente retirado. Os struldbrugs que porventura cheguem pobres aos 80 anos são custeados por pensões estatais. A essa idade, ninguém lhes confia emprego algum, pelo menos não um trabalho útil. Proíbe-se-lhes comprar ou arrendar terras; ser testemunha nos tribunais – seja a causa cível ou criminal –, etc. A verdade é que nem como jurados de pequenas causas eles seriam de qualquer proveito.
Aos 90, eles já perderam todos os dentes e fios de cabelo da cabeça. Já não têm paladar, se bem que comem e bebem indiscriminadamente o que lhes puserem à mesa, sem gula nem muito menos satisfação. As doenças de que padeciam de há muito não os abandonam, mas chegam a um ‘equilíbrio’, e param de se agravar. Começam a esquecer os nomes mais óbvios, os nomes das pessoas, mesmo dos antigos melhores amigos ou chegados. E, por isso, ler não é mais um hábito que faça sentido para eles, porque sua memória já não pode conduzi-los do início ao fim de uma frase sem que eles exclamem:<O quê? Nada compreendo disso!>. Nessa amnésia eterna, portanto, eles perdem a capacidade de se engajar em qualquer distração construtiva.
Como é sabido, em todos os lugares e inclusive em Luggnagg, a língua, como os costumes, vai mudando com o tempo, de modo que um struldbrug, ainda que pudesse dialogar com outro struldbrug muito mais velho ou mais novo, não poderia entendê-lo, nem fazer-se entender, porque cada qual aprendeu um idioma um tanto diferente. Aliás, a menor e mais banal conversação se torna materialmente impossível aos 200 anos. É verdade que eles ainda podem balbuciar palavras soltas, como bebês fariam. É assim que, embora sustentados pelo Estado, eles passam a viver como estrangeiros em seu próprio lar.
Foi isso que me contaram desta raça dos struldbrugs!Depois desse extenso relato tive a oportunidade de conhecer pessoalmente 5 ou 6 destes seres, o caçula ainda não bicentenário. Como eu fiz muitos amigos na ilha, eles sempre viajavam com struldbrugs para trazê-los a mim. Muito embora dissessem aos struldbrugs trazidos que eu era um grande viajante que viu inumeráveis partes do globo, eles naturalmente não demonstravam a mínima curiosidade nem me dirigiam perguntas; só o que pediam era um pouco de slumskudask, i.e., uma lembrancinha do estrangeiro. Na verdade não se enganem: nem esse ato era desinteressado, e descobri que essa era uma forma de burlar a lei e pedir esmolas, o que era diretamente proibido. Como eu disse, struldbrugs, quando envelhecem, são mantidos pelo Estado, e sua pensão não é lá muito elevada…
Eles são, em suma, desprezados e mesmo odiados por todos os tipos de habitantes locais. Quando um nasce, já recai sobre todos a certeza de um acontecimento ominoso, em nenhum grau mais evitável pelo fato de que seria uma desgraça sentida somente a longo prazo. Por isso é que eles registram nos cartórios com muito esmero a data de nascimento de um struldbrug, para que qualquer cidadão possa descobrir a idade de um só de olhar nos registros: quanto mais velho um struldbrug, mais longe dele se deve passar! Esse registro é arcano, mas a prática não retrocede a mais de 1000 anos ou, até onde pude entender, registros mais antigos que um milênio de idade já haviam sido destruídos ou tornados ilegíveis por intempéries climáticas, alguma catástrofe natural ou simples desorganização administrativa. Tirante esse registro do parto, há também uma forma mais simples e informal de se inteirar da idade de um struldbrug: pergunta-se-lhes de que reis ou grandes nomes da História ele se lembra; naturalmente que, muitas vezes, é necessário seguir essa entrevista de uma consulta aos livros de História. É um dogma que o último monarca lembrado por um struldbrug subira ao trono invariavelmente antes de seu octogésimo aniversário, prestando grande confiabilidade a esse método.
Honestamente, os struldbrugs foram a visão mais mortificante que tive em minha vida. E a mulher era sempre mais horrenda que o homem. Além das deformidades verificáveis em qualquer idoso mortal, havia uma aura infecta indefinível que envolvia cada struldbrug, mais e mais, conforme o avanço etário. Isso era tão palpável, embora tão difícil de descrever, que, batendo o olho,eu conseguia descobrir, sem hesitação, qual era o mais velho dos seis que eu vim a conhecer. E digo isso ressaltando que entre este e o segundo mais idoso não havia uma diferença espetacular, mas coisa de entre 100 e 200 anos!
O leitor facilmente adivinhará que, diante de tudo que aprendi e vi com meus próprios olhos, minha ânsia pela imortalidade terrena sofreu o mais duro golpe. Desde então, nunca deixei de guardar uma profunda vergonha dos antigos pensamentos fantásticos que eu nutria a respeito dessa possibilidade quimérica!”
“O rei soube de tudo que se passara comigo e meus recém-amigados, além de toda minha obsessão inicial pela imortalidade e sua súbita conversão em repulsa e desalento. De forma espirituosa ele me disse que desejava que eu levasse comigo, na volta, 2 ou 3 exemplares de struldbrugs para exibição em minha terra natal. Ele disse que assim toda minha nação seria devidamente ensinada a jamais temer a morte. Mas o rei só estava brincando: eu soube que, segundo as severas leis do reino, era interdita a exportação de struldbrugs. E esta era uma cláusula pétrea de sua avançada constituição. Confesso que, não fôra isso, a repelência (e as despesas!) de tê-los por perto durante uma longa viagem por mar seria vencida pelo meu altruísmo educador, e eu mostraria os struldbrugs de bom grado aos ingleses!”
“Sendo a avareza inseparável amiga da velhice, creio que, no tempo devido, dando-se-lhes o direito, os imortais chegariam a ser os grandes proprietários de toda a nação, depauperando os poderes civis em igual proporção. Por isso, concordo em absoluto com a lei que considera os struldbrugs avançados em idade meros párias.”
“Em seis dias encontrei um navio apto a zarpar comigo para o Japão, viagem que durou 15 dias.” “No porto, mostrei aos oficiais da alfândega a carta do rei de Luggnagg endereçada à Sua Majestade Imperial. Eles estavam habituados àquele selo; era, para falar a verdade, uma insígnia do tamanho da minha mão. Uma inscrição acompanhava o símbolo, dizendo: Um Rei que ergue um mendigo ignoto da terra. O magistrado daquela cidade costeira, ao ficar sabendo de meu documento real, recebeu-me como um verdadeiro ministro de Estado. Deram-me carruagens e servos para minha expedição, e encarregaram-se também de expedir minha bagagem para Edo. Em Edo fui convidado a uma audiência pública e ali me devolveram a carta do rei. Abriram-na de uma forma imensamente ritualística e cerimoniosa; trataram de explicar seu conteúdo ao Imperador via intérprete, e ele finalmente se dignou a me receber. Assim pronunciou: <Peça o que quiser e será atendido, em nome de Seu Real Irmão de Luggnagg!> – é claro que diz-se<Irmão> não por consangüinidade, mas pelo vínculo de suprema autoridade entre as duas nações vizinhas.”
“<Você é o primeiro holandês escrupuloso quanto a isso; você é mesmo um holandês?! Você não se porta como um destes, como é que se diz?, protestantes…>De qualquer maneira, ele não quis me interrogar mais seriamente – acredito que por consideração a Seu Amigo-Rei. Na verdade, o que pedi era muito incomum naquela côrte, mas o Rei é Soberano Absoluto, e muito Misericordioso e Benevolente! Ele ressalvou:<Se essa informação se torna pública entre os holandeses, esteja prevenido, nenhuma amizade entre nações evitará que cortem-lhe a garganta ainda no meio da sua viagem!>”
“Em 9 de junho de 1709 cheguei a Nagasaki; a viagem não foi breve nem muito menos sossegada. Aconteceu de eu estabelecer relações com alguns marinheiros de uma robusta embarcação de 450 toneladas, que eram justamente holandeses,de Amboyna, Amsterdã. Vivi muitos anos nos Países Baixos, estudando em Leyden, e meu Holandês não era menos que impecável, então consegui disfarçar minha identidade de súdito da rainha da Inglaterra. Seja como for, estes homens foram logo informados de que eu era um viajante crônico, e se mostraram muito curiosos sobre que aventuras eu vivi. Condensei os detalhes o mais que pude e ocultei o essencial, i.e., a maior parte dos acontecimentos. Eu conhecia muitos indivíduos holandeses. Podia facilmente inventar nomes de família para meus pais, que, alegava eu, eram gente simples da província de Gelderland. Eu pagaria de bom grado o exigido pelo meu traslado pelo capitão do navio (um tal Theodorus Vangrult, a propósito); porém, descobrindo que eu era cirurgião, este homem aceitou baixar a taxa pela metade, desde que eu servisse como médico. O fato é que nos dias de preparativos para incursão em alto-mar fui incessantemente interrogado pela tripulação sobre se eu ‘participara da cerimônia ou não’, pergunta que, dependendo da resposta, podia custar minha vida…Que cerimônia? Aquela em que se pede algo de todo súdito que deseja atestar Sua Lealdade Absoluta exceto no caso do simples comerciante holandês: lamber o piso da sala do Imperador do Japão!”
“Ah, nada aconteceu durante esta viagem que mereça ser citado. O vento foi favorável até o Cabo da Boa Esperança, onde paramos só para nos guarnecer de mais água potável. Em 10 de abril de 1710 chegamos sãos e salvos a Amsterdã, tendo perdido apenas 3 homens de doença, e um quarto que caíra do mastro nas águas, mais ou menos próximo da costa da Guiné. De Amsterdã foi um pulo para voltar à Inglaterra, num barco menor, saído daquela mesma cidade.
Dia 16 de abril lá estava eu de volta a Downs. Eu estive ausente de minha terrinha por 5 anos e 6 meses. Fui incontinenti a Redriff, lá chegando em 17 de abril, às 2 da tarde, e me reencontrei com minha esposa e família, todos na mais perfeita saúde.”
PARTE IV – VIAGEM AO PAÍS DOS HOUYHNHNMS
“Por mais 5 meses incompletos segui em casa, ao lado de mulher e filhos,feliz, devo dizer, e não sairia desse estado se já tivesse aprendido a lição, i.e.,sabido desde já no que consiste realmente a felicidade. Porque aí então no fim deste curto período eu deixei mais uma vez minha mulher, com a barriga bem visível,esperando mais um descendente meu, tendo eu resolvido aceitar uma oferta, que eu julgava aliás irrecusável, do capitão do Adventurer, um grande navio mercante de 350 toneladas. Bom navegante, e muito mais experiente agora, além de enjoado de exercer a medicina, que, se me desse na telha, eu poderia voltar a predicar por breves instantes, levei conosco um colega médico, Robert Purefoy, para ser o responsável pela saúde dos meus homens – eu ia, portanto, apenas como mercador e a fim de lucrar e de desvendar o desconhecido!¹ Desancoramos de Portsmouth no 7º dia de setembro de 1710; dia 14 cruzamos com o Capitão Pocock, de Bristol, no Teneriffe, cujo destino era a baía de Campechy, onde iriam atrás de madeira. Dois dias depois, acabamos nos separando por conta de uma tempestade. Dali a muito tempo, quando retornarianovamente ao lar, fiquei sabendo, afinal, que sua embarcação naufragara, e só um garoto, pajem, sobrevivera. É, o Capitão Pocock era um homem honesto, e bom capitão, mas um pouco otimista demais e obstinado em seguir uma rota sem nunca improvisar, mesmo diante de circunstâncias ruins. Foi isso que precipitara sua morte e a de quase toda sua tripulação, o que não foi a primeira nem será a última vez nos sete mares! Se ele tivesse seguido meu conselho, estaria hoje confortavelmente instalado diante da lareira de sua sala de estar, ao ladodos parentes, tão bem quanto eu – tão bem quanto eu chegaria a estar um dia–, mas agora não é a hora!
[¹ As semelhanças com Robinson Crusoe não param!]
Quanto a minha viagem, muitos colegas morreram da febre dos trópicos, ocasionada pela insolação; isso me levou, como capitão de meu próprio navio, a decidir nossa sorte, para o bem ou para o mal, recrutando gente de Barbados e das Ilhas Leeward, onde afinal desembarquei. Eu depressa me arrependeria de minha escolha: muitos destes sujeitos já haviam sido piratas e não eram confiáveis. Havia 50 mãos a bordo. Minhas ordens eram: comerciar com autóctones dos mares austraise coletar o máximo de informações. Bem, esses mercenários que contratei corromperam meus marujos fiéis e todos, ensandecidos, conspiraram para tomar o navio. E assim se deu:uma bela manhã, arrombaram a porta de minha cabine e completarem seus planos com facilidade; começaram por imobilizar meus pés e mãos atando-os.”
“Eles me davam, como um favor!, das minhas próprias carnes, e goles das minhas bebidas, enquanto lá fora se tornavam os donos do navio e deles mesmos. Seu objetivo era voltar ao ofício de piratas e render um navio espanhol.Para realizar esta façanha, porém, eles ainda precisavam recrutar mais homens.”
“Eles velejaramsemanas a fio. Negociaram com indígenas. Eu, contudo, ignorava quais podiam ser as coordenadas, tendo sido mantido prisioneiro em minha cabine, sem maiores expectativas além de ser morto a qualquer momento, já que ameaças não faltavam.
A 9 de maio de 1711, um James Welch baixou ao meu calabouço e relatou que tinha ordens do ‘capitão’ para me deixar na costa. Eu tentei barganhar com eles um destino melhor, mas sem sucesso. Ele nem mesmo aceitou revelar o nome do novo capitão do navio, o líder da rebelião. Me forçaram a subir no barco, concedendo-me ao menos o direito de vestir minhas melhores roupas, que eram de fato como se fossem novas, além de levar comigo um novelo de linho; porém, nada de armas, exceto um gancho de cabide. Não nego que tivessem alguma honra: não revistaram meus bolsos, onde por acaso eu guardara todo o dinheiro que levava na viagem, junto de alguns pequenos itens de sobrevivência. O barco seguiu por uma liga marítima, até que estivesse raso o bastante para eu descer à praia. Eu ainda supliquei para que me dissessem que lugar era aquele; mas a resposta que obtive foi <não sabemos mais do que você>. Completaram: <O capitão estava resolvido, após a venda da carga, a livrar-se de mim ao aparecimento da primeira terra firme>.”
“Após me hidratar e espairecer, comecei a explorar o sítio, decidido a entregar-me aos primeiros selvagens que surgissem. Quem sabe eu não conseguisse comprar minha vida com alguns braceletes, anéis de vidro ou outros desses itens insignificantes, que os grandes navegantes sempre levavam, expressamente para o escambo com os mui admirados nativos de países remotos…”
“Eu cheguei a uma estrada batida, onde percebivárias pegadas humanas, e também bovinas mas, sobretudo, eqüinas, a maioria delas. Foi então que contemplei diversos animais num campo mais aberto, e sempre um ou dois do bandoassentados em cada árvore. Suas formas eram muito singulares e deformadas, o que me desconcertou a princípio, e me fez, por prudência, conservar distância e seguir observando pordetrás da moita.”
“Sua cabeça e busto eram cobertos por uma espessa pelugem, alguns a tinham cacheada, outros lisa. Eles possuíam barbas como bodes, e uma espécie de crina muito avantajada descendo lombo abaixo, além de pêlos nas pernas e nos pés; mas o restante de seus corpos era nu e deixava transparecer uma pele de um marrom lustroso, quase cáqui. Eles subiam nas árvores com a agilidade de esquilos, e pude notar que possuíam garras muito compridas nas quatro patas, pontiagudas, em forma de gancho. Eles saltavam com agilidade igualmente prodigiosa. As fêmeas eram menores. Levavam compridas cabeleiras escorridas, embora sem nenhum pêlo facial, e sem pêlos noutras partes que eram peludas nos machos, exceto nas pudendas e no ânus. Suas tetas ficavam dependuradas entre suas patas dianteiras e ficavam rentes ao solo,enquanto caminhavam de quatro! Os pêlos de ambos os sexos, ao contrário da uniformidade da cor da pele, eram multicoloridos, podiam ser castanhos, mas também ruivos, negros ou loiros. Eu jamais vira, em todas as minhas andanças, animal tão repelente, ou não exatamente repelente, mas capaz de me inspirar a mais arraigada e preconcebida antipatia e aversão! Tanto que, julgando que játinha visto o bastante, imerso em nojo e desprezo, ergui-me e retornei à estrada batida, na esperança de chegar a alguma cabana com seres humanos. Eu não tinha caminhado muito quando uma dessas criaturas se encontrou frente a frente comigo, e se aproximou parecendo reconhecer-me, sem desviar o olhar. O monstro horrendo, ao ver-me melhor, entretanto, contorceu suas feições, diria que todos os músculos da face, e sua vista petrificou, como que de súbito, tanto elese espantara diante de algo que provavelmente nunca vira. Movendo-se novamente, chegando mais e mais perto, ergueu uma de suas patas, ou em ato de inocente curiosidade ou em sinal de animosidade, não sei dizer ao certo. Eu imediatamente saquei meu cabide-gancho e com o lado não-perfurante dei-lhe uma boa bordoada. Quem sabe de quem seria esse animal? Eu não ousava feri-lo gravemente. Quando a besta sentiu a pancada, recuou, mas grunhiu tão alto que quarenta membros de sua manada vieram acudi-lo, parecendo que uivavam, instigando-me com suascaretas medonhas. Eu corri até o tronco de uma árvore, nele apoiei as costas e mantive os quadrúpedes à distância empunhando e balançando meu gancho no ar. Alguns dessa horda demoníaca se apoiaram nos galhos da árvore e a escalaram facilmente, no que –verticalmente alinhados comigo –, começaram a expelir seus excrementos em minha cabeça! Eu minimizei os danos procurando ficar o mais rente possível ao caule; o problema é que aquele odor e material pestilentos foram me sufocando, pois em poucos segundos eu fiquei conspurcado de fezes…
Em meio a este pandemônio, notei todavia que muitos deles partiram em disparadao mais depressa que puderam, no que me aproveitei para abandonar a vizinhançadaquela árvore e correr estrada afora, enquanto tentava refletir no quê é que poderia tê-los assustado tanto. Ao perceber um vulto à esquerda, voltei-me e contemplei um cavalo que caminhava sossegadamente pelo campo. Percebi bem rápido que era dele que os outros haviam corrido. O cavalo hesitou, espantado, diante da minha figura. Aproximando-se, no entanto, parecendo manifestar muito mais auto-controle e prenda que o meu horrendo rival de ainda há pouco, fitou-me fundo nos olhos com sinais de admiração no focinho. Ele dirigiu a vista para minhas mãos e pés, rodeou-me para investigar melhor – e não escassas vezes! Eu seguiria viagem, evidentemente, mas ele fez questão de bloquear a estrada, embora parecesse sereno e nada ameaçador. Seguimos nos fitando um bom naco. Criando coragem, levei minhas mãos à altura do pescoço do animal a fim de afagá-lo, como fazem os jóqueis quando estabelecem um primeiro contato com sua montaria. O animal pareceu receber meu gesto com um infinito desdém, afastou a cabeça e como que franziu o sobrolho – se tivesse sobrolho! –, erguendo – suavemente – a pata dianteira direita a fim deapartar meu braço. Ele relinchou 3 ou 4 vezes, mas numa cadência tão única que eu comecei a delirar que ele falava comigo numa língua de cavalo!
Enquanto essa bizarra cena transcorria, outro cavalo se achegou. Dirigindo-se ao primeiro em postura que julguei um tanto formal, ambos tocaram-se mutuamente pela sola de seus cascos da pata posterior direita, relinchando em seqüências estranhas, e um se alternando com o outro! Eu mais uma vez testemunhei a diferença na modulação dos sons, que pareciam sílabas. Esses animais articulam a fala?! Eles se afastaram de mim alguns passos, como se fosse para conferenciarem mais à vontade (eu não podia dar crédito a minhas alucinações, aquilo era demais para mim!). Eles seguiram trotando a passos apascentados, um ao lado do outro, como se fossem dois seres humanos deliberando algo deveras importante! E às vezes voltavam a cabeça e me espiavam, como se estivessem a me vigiar. Eu não acreditava nessas ações provindas de tais bestas, animais brutos e silvestres! Comecei a refletir: se os habitantes deste lugar forem proporcionalmente tão inteligentes quanto seus animais, creio que cheguei ao povo mais sábio da Terra, é isto! Essa conclusão me tranqüilizou de tal maneira que eu decidi juntar-me a eles na caminhada, até que vislumbrasse alguma casinha ou vilarejo nohorizonte. Onde estão os humanos deste lugar?! Na verdade não era minha intenção seguir de perfil com os cavalos –deixai cada qual com seu cada qual, eu iria apressar o passo e fazê-los comer a poeira de meus passos. Mas foi aí que o primeiro cavalo, de um cinza sarapintado, muito atento aos meus movimentos, relinchou de forma tão expressiva que eu tive a nítida sensação de que ele me chamava!”
“A perplexidade em torno de meus sapatos, meias e calças era extraordinária; eles não paravam de relinchar uns aos outros toda vez que dirigiam o olhar para os meus acessórios. Eles também usavam linguagem gestual, e diria que em nada ficavam a dever ao filósofo europeu, quando este se punha concentrado a fim de resolver um problema elaborado!
No geral, o comportamento destes animais era tão ordeiro e racional, tão sensível e judicioso, que por fim concluí que eles deviam ser magos, que se autometamorfosearam por alguma razão e, encontrando um estranho enquanto assim permaneciam, resolveram dar lastro à brincadeira por mais algum tempo. Ou, talvez, estes animais estivessem apenas imensamente maravilhados com um homem da civilização como eu, com minhas roupas e feições e posturas mais delicadas que as de qualquer nativo vivendo num habitat tão remoto! Cada vez mais convicto de uma dessas hipóteses, resolvi, portanto, dirigir-me a eles da seguinte maneira:
– Respeitáveis gentlemen, se fordes feiticeiros, no que tenho motivos para acreditar, podeis então entender minha língua! Destarte eu exorto sua senhoria a reconhecer minha proveniência: eu sou um pobre e desgraçado homem das Ilhas Britânicas, dirigido por suas desventuras a este porto remoto. Eu solicito, mui educadamente, portanto, que um dentre vós me deixe cavalgar em suas costas, como se fôra cavalo de verdade, até que eu encontre alguma vila povoada neste país, onde possa encontrar abrigo e sustento. Se concordardes, presentear-vos-ei com esta faca e bracelete…,
no que logo os tirei de meu bolso. As duas criaturas daquela primeira cena após o tumulto na árvore ficaram paralisadas ouvindo todo o meu discurso, com parecença de ouvir e sorver cada sílaba do que eu dizia. Quando terminei, eles não pararam de ‘conversar em cavalês entre si’, como eu agora o chamo, cansado de comparar seus relinchos hiper-delicados com os dos cavalos ingleses. O debate parecia muito sério. Eu não pude deixar de notar que sua linguagem averbal e no entanto melodiosa expressava as paixões com bastante precisão; eu poderia, me dedicando por mais tempo, decerto, catalogar os diferentes fonemas e até registrar o alfabeto destes seres curiosos! Acho até que seria mais fácil que aprender chinês…
Prova disso é que toda hora eu distinguia a palavra Yahoosaindo de suas bocas dentuças, pronunciada por cada um da companhia, e sem parcimônia. Embora fosse vão tentar conjeturar sobre seu significado, enquanto os dois primeiros cavalos conferenciavam em particular, eu comecei então, para testar sua reação, a articular esta mesma palavra. Assim que se calaram eu pronunciei Yahoo forte e claramente, não sem tentar imitar, não nego, o mais que podia, o ‘sotaque’ de meus convivas, isto é, gritei relinchando! Nisso eles ficaram ainda mais sobressaltados. O cinza repetiu a mesma palavra duas vezes, como se quisesse ‘aperfeiçoar meu acento’. Eu cavalheirescamente anuí, tentando melhorar a pronúncia, o que julgo ter realizado, inclusive melhor e melhor à medida que tentava de novo e de novo. Mas reconheço que não poderia, mesmo depois de alguma prática, ser acusticamente confundido com um cavalo, ainda. O exemplar loiro jogou uma segunda palavra para eu tentar efetuar o mesmo. Essa era mais difícil. Transcrevendo-a para a ortografia inglesa, creio que equivalesse a Houyhnhnm. Minha competência foi menor, mas depois de algumas teimosas tentativas, creio que finalmente ‘os agradei’. Os dois estavam simplesmente maravilhados.
Depois de mais debate entre eles, que só podia se referir a mim, os dois amigos deram sinais de partir um em relação ao outro, da mesma forma que se haviam cumprimentado momentos antes: tocando-se os cascos. O cinza fez sinais de que queria que eu o seguisse, ou que o conduzisse, deveria dizer, posto que eu sou o mestre e ele a montaria! Bom, a mim não restava alternativa até finalmente encontrar o que eu desejava. Quando eu afrouxei meu passo, de fadiga, ele gritou hhuunhhuun.”
“um povo que podia civilizar animais brutos desta maneira esplêndida só podia exceler em todos os campos e ser a nação mais sábia e próspera desta terra! O cinza se pôs à frente e indicou que não toleraria comportamentos abusivos para comigo. Ele relinchou bastante em público, parecendo ter grande autoridade sobre os cavalos dessa cidade-estrebaria, e era correspondido com assentimentos subservientes e timoratos.”
“Comecei a achar que essa casa devia pertencer a alguém muito importante, porque havia grande cerimônia antes de eu poder entrar. Mas, enfim, que um homem pudesse ser inteiramente atendido e hospedado por cavalos, isso escapava completamente de minha concepção. Começava a temer que meu cérebro era o pivô da história toda: tão maltratado pelas agruras da viagem, começava a interpretar mal todas as percepções dos sentidos! Eu me recompus, portanto, e comecei a examinar os objetos do cômodo em que me haviam hospedado, sozinho: este estava mobilhado como o primeiro, apenas que mais elegantemente. Eu esfreguei os olhos muitas vezes, mas não podia ser miragem por desidratação ou cansaço! Belisquei meus braços e meus flancos, quem sabe assim eu acordaria… E nada.”
“Percebi que logo eu morreria de fome, a menos que encontrasse urgentemente alguém de minha própria espécie. Porque quanto a esses imundos Yahooscom que deparara antes no campo, embora houvesse, creio, àquela altura, no mundo inteiro, poucos que amassem a humanidade tanto quanto eu a amava, confesso que jamais vira um ser vivo senciente mais abominável em todos os aspectos! De algo que remetesse aos seres humanos, mais que os Houyhnhnms, pelo menos, isso era evidente, eles só tinham a capa, pois quanto mais eu me aproximava de um Yahoo, e quanto mais de perto eu os analisava, e quanto mais aprendia sobre eles, mais detestável essa raça se me tornava! Tal sensação nunca me abandonou de todo enquanto estive neste país. Isso o mestre-cavalo apreendeu quase instantaneamente, no meu primeiro encontro com estes bichos após ter sido conduzido à vila, graças aminhas atitudesum tanto enérgicas e minha incapacidade de disfarçar tamanha aversão. Ao notar que eu não os suportava de modo algum, e que seus hábitos alimentares me repugnavam ao extremo, ao contrário do que ele esperara inicialmente,o mestre-cavalo mandou os Yahoos de volta para o canil e, então, levou seu casco dianteiro à boca, o que muito me estupidificou, dada a imensa naturalidade com que ele desempenhou essa operação!Ele parecia querer se comunicar comigo, tentando entender que tipo de alimento mais me aprazaria. Porém, nada do que eu dissesse ou gesticulasse fazia-o entender o que é que eu queria comer. E mesmo que ele compreendesse, duvido muito que isso me ajudaria nalguma coisa, porque o problema era justamente achar os gêneros alimentícios de que eu tinha tanta precisão! Íamos nessa toada, eu inconsolável, ele sem entender, quando avistei uma vaca pastando ao longe, no que apontei para ela e demonstrei meu intenso desejo de beber de seu leite. Finalmente isso produziu seu efeito: o mestre-cavalo me conduziu de volta para seu estábulo e relinchou a uma serva-égua algo como <Abra o depósito!>, no que um cômodo foi aberto pela súdita e eu vi quehavia ali muitos vasos de barro e de madeira repletos de leite! Pareceu-me um aposento demasiado limpo e organizado, devo admitir. A serva-égua deu-me uma tigela cheia, e eu sorvi o líquido sem cerimônia. Finalmenteme refresquei um pouco desde o momento em que pisei nesta ilha!”
“Mandaram-me reproduzir as poucas palavras do vernáculo eqüino que eu já havia sido capaz de assimilar. Enquanto todos pastavam – isto é, jantavam – o mestre-cavalo me ensinou nomes para aveia, leite, fogo, água e alguns outros substantivos básicos, o que eu mui rapidamente pude sair repetindo, copiando sua pronúncia. Como já disse várias vezes, eu tenho um talento nato para aprender idiomas!”
“Aveia entre eles chama-se hlunnh. Pronunciei-o duas ou três vezes. Apesar de ter recusado os grãos de aveia quando primeiro mos ofereceram, logo mudei de opinião, considerando que isso podia servir-me de substituto para o pão, por ora. Com aveias, portanto, mais o leite, eu poderia manter minha saúde até achar um jeito de escapar deste lugar”
“Às vezes eu me embrenhava na mata atrás de uma lebre ou de um pássaro. Eu usava elásticos feitos de cabelo de Yahoo para compor minhas armadilhas. Também aprendi a apanhar as ervas mais benignas, que eu fervia e comia com a aveia, à guisa de salada. Aqui e acolá conseguia fazer minha própria manteiga e bebia seu soro. No começo sofri muito pela falta de sal, mas não há nada como o costume e a repetição para o paladar! Hoje, creio que a frequência com que comemos sal na Europa é um hábito caprichoso de nababo, do qual se perdeu a origem: imagino que a intenção dos primeiros que serviam sal nos repastos fosse somente a de provocar a sede, a menos que falemos da função de conservação da carne em longas viagens!”
“Mas o leitor já teve detalhes suficientes sobre minha dieta entre os Houyhnhnms. Uma coisa que detesto nos livros de viagem é quantas páginas os autores desperdiçam narrando seus hábitos culinários, como se quem lê se importasse realmente se quem escreve passa bem ou passa mal! Mas foi necessário fornecer essas descrições, ou nossas nações civilizadas achariam pouco crível que eu tenha conseguido me manter por 3 longos anos nestes confins, ao ladode companhia tão atípica, e vivendo quase só de vegetais!”
“Meus maiores esforços consistiram em aprender de uma vez esse idioma, que meu mestre (de agora em diante vou me referir a ele sem o uso do <cavalo>) e seus filhos, e todos os servos da casa, aliás, se mostravam desejosos de ensinar-me. Eles nunca deixaram de considerar uma espécie de prodígio que um animal selvagem como eu pudesse dar tantos sinais de racionalidade! Eu apontava todo e qualquer objeto, e perguntava qual era seu nome, que eu redigia em meu diário de navegador assim que me punha só. E eu corrigia meu sotaque solicitando que todos os membros daquela família pronunciassem as palavras.”
“Eles falavam pelas narinas e pela garganta, e sua língua é mais aparentada ao Alto-Holandês e ao Alemão do que aos outros idiomas europeus – mas um tanto mais gracioso e expressivo, devo dizer. O imperador Carlos V, por sinal, fez a mesma observação, certa feita: <Se fosse para conversar com meu cavalo, certamente falaríamos em Alto-Holandês>.
A curiosidade e a impaciência de meu mestre eram tamanhas que ele dispendia várias horas de seu dia para me instruir.”
“O que mais o deixava perplexo eram minhas roupas. Creio que ele mesmo não entendia se elas eram ou não parte do meu corpo, isso porque eu jamais as retirava antes de ir para a cama, e já as vestia antes do café da manhã. Meu mestre me perguntou várias coisas: de onde eu vinha, como eu cheguei a desenvolver esses lampejos de quase-razão que eu demonstrava em minhas ações, e ele queria sobretudo ouvir minha biografia de minha própria boca, o que ele estava esperançoso de conseguir em pouco tempo, dada minha enorme proficiência no aprendizado do idioma houyhnhnmês. A fim de auxiliar minha memória, compilei tudo que aprendi no alfabeto britânicocom sua tradução logo ao lado. Em dado momento, passei a fazer isso não só no meu quarto, mas na frente do meu mestre. Me deu muito trabalho explicar que diabos eu estava fazendo. Creio ser desnecessário explicar que os habitantes deste lugar não conheciam livros nem Literatura.
Em dez semanas eu já entendia quase todas as suas perguntas. Em 3 meses, dava respostas satisfatórias para várias de suas perguntas. Uma das coisas que ele queria muito saber era de que parte do país eu procedia, e quem me ensinou a imitar os Houyhnhnms. Porque, segundo ele, os Yahoos (que tinham a mesma cabeça e mãos que eu – e outras partes do corpo ele não poderia saber, porque eu as ocultava com minhas roupas) eram criaturas cheias de malícia, mal-dispostas, e impróprias para domesticar. Eu respondi que eu vim d’além-mar, de um lugar remoto, onde havia muitos como eu, transportado por um <vaso oco> (eles não tinham palavra para navio) feito do tronco das árvores; e que meus próprios companheiros me forçaram a desembarcar nesta praia, abandonado a mim mesmo.”
“Ele redargüiu que sem dúvida eu cometia um engano, isto é, que eu falava a coisa que não era. Acontece que eles não têm palavra para indicar mentira, falsidade ou erro. Ele alegava ser impossívelhaver um país além-mar (que isso era a coisa que não havia), ou que animais brutos, fossem quantos fossem, pudessem mover um vaso de madeira por onde quisessem sobre as águas. Ele tinha certeza que nenhum Houyhnhnm vivo seria capaz de construir tal meio de transporte, e com muito maior razão nenhum Yahoo seria capaz de pilotá-lo.
A palavra Houyhnhnm significa cavalo e, na etimologia local, perfeição de natureza. Eu disse ao meu mestre que <me falta a forma de me exprimir, mas melhorarei depressa e espero, num dia não tão distante, contar-lhe as maiores maravilhas>. Ele instava sua fêmea, seu potro e sua potra e todos os servos, de boa vontade, a ajudar na aceleração do meu aprendizado. Desnecessário dizer que, por 2 ou 3 horas, todos os dias, ele mesmo se encarregava da tarefa. Não só isso, mas muitos garanhões e éguas da vizinhança visitavam a residência de meu mestre, curiosos com <o grande Yahoo que podia até falar como um Houyhnhnm e que aparentava, em suas palavras e atos, poder chegar até a alguns vislumbres da razão!>. Estes residentes locais tinham um imenso prazer em conversar comigo e, não menos que meu mestre, me dirigiam pergunta atrás de pergunta. Eu não conseguia responder tudo, mas boa parte sim. Com todo esse convívio, fui fazendo progressos ainda mais notáveis. Em 5 meses, já escutava como um nativo e já falava como quem está um pouco aquém disso.”
“Já narrei ao leitor que, toda noite, uma vez que todos estivessem deitados, era meu costume desnudar-me e usar minhas roupas como coberta. Aconteceu, certa manhã bem cedo, de meu mestre mandar o pangaré acastanhado, um alazão mordomo da família, vir me ver. Quando o mordomo entrou eu ainda estava dormindo, e por um acaso minhas roupas tinham caído para o lado. Acordei com o relincho que este mordomo produziu, e escutei como ele voltou para contar ao mestre o que viu, todo atabalhoado. Vesti-me rapidamente e fui à sala. Meu mestre perguntou qual era o significado do que seu vassalo acabara de contar-lhe, i.e., que eu não era a mesma coisa quando eu dormia do que eu era quando estava acordado. O mordomo relatou-lhe assombrado que uma parte do meu corpo era branca, outra amarela, ou ao menos um pouco menos branca, e algumas partes marrons.
Eu vinha até ali guardando segredo sobre ‘isso das minhas vestes’, a fim de distinguir-me o mais possível dos aberrantes Yahoos. Mas vira que doravante este cuidado se tornara vão.”
“De onde eu vim, todos da minha espécie recobrem seus corpos com as peles de alguns animais, preparadas expressamente para isso por determinadas técnicas, tanto para fins de decência quanto para evitar as inclemências do ar.”
“ele simplesmente não podia entender por que a natureza deveria ensinar-nos a ocultar o que a natureza mesma nos deu”
“Meu mestre não deixou de me observar com o olhar mais atento. Seu rosto expressava grande curiosidade e admiração. Ele apanhou toda a minha roupa em sua quartela, peça por peça, para examinar com diligência. Então ele apalpou muito delicadamente meu corpo nu, e rodeou-me, embasbacado, umas tantas vezes. A primeira coisa que ele disse, após esse intervalo de exame silencioso, foi que sem dúvida alguma eu era um Yahoo. Mas que eu me distinguia, com efeito, de minha espécie, pois minha carne era mais macia, branca e minha pele bem mais branda. E que, além disso, ao contrário dos outros eu não tinha pêlos em muitas porções de meu corpo e que o formato de minhas garras era diferente, e elas eram menores. Que eu era o único exemplar que tinha essa afetação de caminhar continuamente sobre minhas duas patas traseiras. E que ele já tinha saciado sua curiosidade, dando-me permissão para voltar a vestir-me, uma vez que, ele bem observou, eu estava tremendo de frio.
Eu desabafei que me sentia desconfortável em ser comparado sempre a um Yahoo, animal odioso, que eu desprezava do fundo da minha alma: eu implorei que ele restringisse essa apelação somente aos demais, e que estendesse esse meu rogo a todos os seus entes e amigos que ele permitia que o visitassem. Também solicitei que meu segredo, o de levar uma cobertura falsa sobre meu corpo, não fosse compartilhado com mais ninguém, ao menos enquanto minhas roupas durassem. Expus que, pelo comportamento do seu valete, seria prudente de sua parte fazê-lo.
Meu mestre, muito consciencioso, logo anuiu a minha proposta. O segredo manteve-se guardado até que o tecido começou a se desfazer. Como alternativa para meus trapos, fui obrigado a usar de alguns expedientes, que mais tarde narrarei. Então ele me encorajou a continuar a aprender seu idioma, porque ele achava muito mais espantoso o fato de eu saber falar e raciocinar do que o aspecto do meu corpo, trajado ou nu.”
“Seria tedioso continuar entrando em detalhes sobre meu progresso no idioma. Reproduzirei, apenas, o relato mais completo que pude dar de mim mesmo nesta terra:
<Vim de um país muito distante, com uns 50 de minha própria espécie. Viajávamos sobre os mares dentro de um grande vaso oco feito de madeira, maior que sua casa. Descrevi-lhe então o navio da melhor forma que me coube, com a ajuda de meu lenço, para mostrar como a embarcação era impelida pelo vento. Numa briga entre nós eu fui deixado no litoral deste país, comecei a explorar o continente, sem nada dele conhecer, até você me encontrar e me livrar da perseguição daqueles execráveis Yahoos.>
Ele quis saber quem fez o navio e como era possível que os Houyhnhnms de minha nação legassem aos brutos tal empresa. Eu respondi:
<Só continuarei se você me der sua palavra de que não se sentirá ofendido. Se você der sua palavra, poderei contar todas as maravilhas que prometi!>
Ele empenhou sua palavra. Eu prossegui:
<O navio foi feito por criaturas como eu. Por todos os países aos quais já viajei, exatamente como em minha terra natal, seres a minha imagem e semelhança são os únicos animais racionais. Ao chegar a este país, fiquei tão espantado em ver Houyhnhnms agindo como homens dotados de razão quanto você mesmo e seus amigos ficaram ao ver-me e constatar minhas ações, sendo eu parecidocom um Yahoo. Mesmo que minha aparência seja a de um Yahoo, eu não enxergo homens quando olho para eles, só degenerescência e bruteza. Se a fortuna me agraciar com a volta a minha terra, quando relatar minhas aventuras, o que eu quero fazer, todos os animais racionais de lá dirão que eu disse a coisa que não era, que eu inventei tudo. Nenhum inglês diria que era a coisa (acreditaria possível) que um Houyhnhnm fosse o mestre de outro país, enquanto os Yahoos não passavam de selvagens.>”
“duvidar ou simplesmente não-acreditar são tão desconhecidos neste país que os habitantes não sabem como se portar em circunstâncias como as que eu suscitei entre eles.”
“O uso da língua é a mútua compreensão, receber a informação dos fatos. Se alguém diz a coisa que não é, a língua não tem uso. Quem escuta quem fala a coisa que não é não entendequem fala a coisa que não é! Porque o entendimento da coisa que não é é coisa que não é! Receber a coisa que não é é mais distante de receber uma informação doque permanecer em ignorância. Eu acreditaria uma coisa ser preta, quando a coisa é branca, e pequena, quando é grande.”
“Há Houyhnhnms entre vocês? Qual papel eles desempenham em sociedade?”
“Um grande número. No verão eles pastam nos campos, e no inverno são guardados nas estrebarias com muito feno e aveia, onde Yahoos servos dos donos dos Houyhnhnms devem escová-los, cuidar de seus cascos, servir-lhes comida, preparar seus leitos…”
“Entendo. Está evidente, segundo seu discurso, que qualquer chispa de razão que os Yahoos aparentam possuir não oculta o fato de os Houyhnhnms serem os verdadeiros mestres em sua sociedade. Eu desejaria de coração que nossos Yahoos fossem tão dóceis!”
“Mestre, se você deseja que eu continue o relato terá de escusar minhas palavras, que decerto o ofenderão.”
“Eu insisto, amigo, e escuso-o – eu quero saber o pior e o melhor de sua sociedade.”
“Não tenho escolha senão obedecê-lo. Os Houyhnhnms de minha sociedade, chamados cavalos, são dos animais mais formosos e afáveis que conhecemos. São também excepcionais em força e agilidade. Quando pertencem a pessoas de qualidade, são empregados em viagens, corridas ou para levar carruagens. São tratados com a maior ternura e o maior cuidado, até adoecerem fatalmente ou tornarem-se irreversivelmente mancos e inválidos. Ainda assim, os seus donos vendem os cavalos já doentes ou aleijados, que desempenham todo tipo de lide para seus novos donos, até a morte. Depois de morrer, um cavalo ainda oferece sua pele, que é esfolada e vendida para diversos fins. O cadáver é deixado para cães e aves de rapina. Falo dos cavalos mais nobres. A maioria dos cavalos não tem tanta sorte. São os cavalos dos camponeses e carroceiros, ou de outro cidadão de baixa extração qualquer. Estes não são poupados dos mais árduos serviços, e são mal-alimentados.”
“Não deixei de descrever, tão bem quanto pude, a arte da equitação; tudo sobre as rédeas, a sela, a espora, o chicote, o arreio e as rodas. Acrescentei: <Amarramos placas de uma substância rígida chamada ferro debaixo de suas patas a fim de resguardar seus cascos contra o atrito com os caminhos pedregosos de hábito percorridos.>”
“Como pode ser uma coisa que é, montar às costas de um Houyhnhnm! Tenho certeza que o servo mais débil de minha casa tem força o bastante para derrubar de seu corpo o Yahoo mais forte de todos. Se se jogasse no chão, este meu servo poderia rolar sobre si mesmo e matar qualquer ser primata!”
“Nossos cavalos são treinados, desde os 3 ou 4 anos de idade, para se acostumarem aos maiores suplícios e às condições mais severas, de modo que não se rebelem em relação ao trabalho que lhes está destinado. Se um cavalo se mostra intoleravelmente arredio ainda na infância acabam sendo empregados em carruagens, sendo severamente fustigados a cada má conduta. Os machos, geralmente usados para simples cavalgadas ou a coisa que é luta entre seres que são (meu jeito de dizer ‘fins militares’), são castrados logo aos 2 anos, para que seu espírito de garanhão se torne submisso, dócil e adestrável. Os cavalos são inteligentes e aprendem após ser recompensados ou castigados. Porém, mestre, saiba que os cavalos, de onde eu venho, não demonstram tinturas de razão, não mais do que os Yahoos de sua terra!”
“Era penoso explicar essas noções ao meu mestre, de modo que eu adentrava em circunlóquios em houyhnhnmês. Se suas carências são menores, suponho que sua linguagem terá menos vocábulos.”
“Se a coisa que é é um país no mundo com Yahoos inteligentes, só e somente só os Yahoos dentre todos os animais, é natural que Yahoos sejam os mestres. A sutileza da razão, aliada ao tempo e seus efeitos consolidadores, falará sempre mais alto que a força bruta. Mas o físico yahoo, especialmente do Yahoo de sua sociedade, se você for bom exemplo, é o pior físico de coisa que é para viver a vida que é.”
“Nasci de bons pais numa ilha chamada Inglaterra. A distância da Inglaterra para este país, em dias de jornada de um Houyhnhnm forte e saudável que trotasse do raiar ou pôr-do-sol na mesma direção, é, mais ou menos, um ano. Eu me eduquei cirurgião, profissão dos que curam feridas e machucados no corpo, decorrentes de acidentes ou violência. Meu país é governado por um Yahoo-fêmea, que denominamos rainha. Eu o evadi para conquistar riquezas, com as quais pudesse manter minha família e eu por muitos anos, ao meu retorno. Em minha última viagem eu era comandante do navio, chefiando cerca de 4 dúzias de Yahoos, muitos dos quais morreram afogados ou desidratados ou adoentados. Eu fui obrigado a reabastecer a tripulação com marujos de outras nações nas quais desembarcamos no caminho. Duas vezes quase naufragamos. A primeira vez por culpa de uma feroz tempestade; a segunda, em virtude da colisão com um penhasco.”
“Durante meu discurso meu mestre não se fez de rogado e me interrompeu inúmeras vezes. Necessitei gastar muitas palavras e frases até descrever de modo minimamente concebível a natureza dos crimes dos tripulantes que recrutei que haviam sido exilados de seus países de origem. Na verdade, só o consegui a duras penas, após dias e dias de conversação. Mas meu mestre finalmente me compreendeu. Era-lhe imensamente complicado captar qual seria a utilidade de agir de forma viciosa. Só pude fazê-lo conceber tal imagem dando muitos exemplos de cobiças e ambições dentre nós; fornecendo ilustrações das terríveis conseqüências da luxúria, intemperança, malícia e inveja (nomes que evidentemente não existem no vocabulário houyhnhnm. Foi praticamente o trabalho de um filósofo que conceitua estas coisas pela primeira vez, hipostasiando casos concretos e enfileirando suposições.” “Poder, governo, administração, guerra, lei, punição, castigo e mil outras coisas também tinham de ser expressas pela primeira vez no vernáculo.”
“O que me deixa aflito é que eu jamais poderei fazer justiça, em meras palavras, aos argumentos e raciocínios de meu mestre, pois minha incapacidade intelectiva forçosamente empobrece sua descrição. Nem falar de uma tradução ao nosso bárbaro Inglês, que vilipendia e muito o idioma original!”
“Obedecendo ao meu mestre, relatei-lhe a Revolução durante o Principado de Orange, a longa guerra com a França, iniciada pelo próprio Príncipe de Orange, continuada por seu sucessor ao trono, a rainha atual, não sem o consentimento dos maiores poderes da Cristandade, de modo que a guerra subsistia até o momento.A sua instância, enumerei: <Estima-se em mais de 1 milhão os Yahoos mortos no decorrer de todo este conflito; mais de uma centena de cidades foi sitiada e no mínimo 500 embarcações foram incendiadas ou afundaram.>”
“Divergências de opinião espoliaram milhões de vidas. P.ex., se carne é pão ou se pão é carne; se o suco de um dado fruto é sangue ou vinho; se assoviar é vício ou virtude; se é melhor beijar uma carta ou queimá-la; qual a melhor cor para uma casaca – preto, branco, vermelho, cinza…?; qual é o melhor comprimento e forma para ela – longa, curta, justa, folgada; e quanto à condição – suja ou limpa? E muitas questões mais!”
“Às vezes o desentendimento entre dois príncipes acarreta a deposição de um terceiro alheio à questão – na verdade quando acaba assim, o vencedor sempre espolia um príncipe vizinho mais fraco, mas diz que foi pela força das circunstâncias, pois não é seu direito natural o fazê-lo. Algumas vezes um príncipe só entra em guerra com outro por medo de que o outro entre em guerra consigo. Às vezes uma guerra é iniciada porque o inimigo é muito forte; às vezes, porque ele é muito fraco. (…) É um pretexto legítimo para a guerra invadir um país depois de sua população ter sido reduzida à miséria, destruída pela peste ou rachada em facções. É igualmente justificável entrar em guerra contra nosso mais valioso aliado, se acharmos que uma de suas cidades é altamente conveniente para nós; cidade, sim, mas pode ser também um território maior; por exemplo, se esse pedaço nos der acesso à faixa litorânea ou a estradas de comércio importantes. É um direito de um povo ter um território completo. Se um rei manda atacar uma nação de gentalha pobre e ignorante, não é ilegítimo matar metade desses pobres coitados nem escravizar a metade que sobrou. A razão disso é o imperativo de civilizar e educar os povos, e reduzir o grau de barbárie da face da terra. É não só permitido como é uma prática assaz honorável quando um rei deseja o auxílio de outro a fim de proteger-se melhor de um invasor; e que este ajudante, em consequência de ter expulsado o inimigo, tome para si todo o governo da nação amiga que salvou, podendo prender ou exilar o primeiro príncipe, afinal passou a ter crédito! A aliança de sangue, ou o que chamamos de casamento, é uma causa freqüente de guerras entre príncipes; quão mais próximos forem os laços familiares, mais encarniçado será o confronto. As nações mais pobres são famélicas, as ricas são altivas; e o orgulho e a fome estarão sempre se digladiando e alterando humores. E é por isso que a profissão de soldado é tida como a mais honrosa de todas. Um soldado é basicamente um Yahoo contratado para matar, a sangue frio, o máximo de outros Yahoos que ele nunca viu na vida.
Há uma certa quantidade de príncipes mendicantes na Europa, destes que não têm recursos para fazer a guerra eles próprios, mas que ao menos tem pequenos exércitos que lhes podem ser úteis. O que eles fazem é alugar seus homens para as nações ricas que estão a pelejar, normalmente estipulando um salário por dia por cada cabeça. Desta quantia recebidaa título de aluguel, o que não vai para o bolso destes soldados, que chamamos de ‘mercenários’, por empréstimo – assumindo que algum soldado consiga voltar para casa são (ou mesmo não são!) e salvo –, ¾ ficam para eles próprios (os monarcas que cederam mercenários), e digo que estes príncipes mendicantes subsistem das guerras alheias! Muitas nações assim há na parte norte da Europa.”
“Afortunadamente a vergonha ainda é maior que o perigo entre vocês Yahoos estrangeiros! Assim a natureza obrou para que vocês não causassem ainda mais desgraças. Suas bocas sendo planas e vocês não tendo focinho, é mais difícil que vocês se agridam com mordidas. Quanto às garras de suas patas traseiras e dianteiras, estas são tão diminutas e inofensivas que um só Yahoo de nossa terra derrubaria uma dúzia dos seus!”
“Sendo de certa forma um especialista na arte da guerra, eu me ri da ignorância do meu mestre nestes assuntos. Então eu forneci-lhe uma descrição algo exata de nossos artifícios bélicos: canhões, colubrinas, mosquetes, carabinas, pistolas, balas, pólvora, espadas, baionetas, formações de batalhas, o que são os cercos, fugas e recuadas, ofensivas de manual, a tática de estender o conflito num aparente empate estagnado até esgotar os suprimentos dos rivais, o contra-ataque a este tipo de tática, bombardeios remotos, batalhas navais, navios que mesmo com uma tripulação de 4 casas (mil homens) são inclementemente destroçados, batalhas em que 20 mil morrem facilmente de cada lado, os terríveis gemidos e uivos de dor dos que caem sem salvação no campo, membros e outras partes do corpo cortando o ar, fumaça, poeira, todos os barulhos infernais, a confusão, aqueles que morrem esmagados por cavalos descontrolados, já disse fugas?, perseguições, extermínios e vitórias!”
“Eu entraria de bom grado em mais particulares, mas meu mestre me pediu silêncio. Ele disse:
<Quem quer que entenda a natureza yahoo pode conceber até onde chega a vileza de um tal animal, i.e., provado que sua astúcia e sua força igualem sua malícia.>
Como, porém, meu discurso só repugnou-o ainda mais acerca de minha espécie, ele se sentiu terrivelmente perturbado e precisava de tempo para absorver todos estes horrores. Ele pensou sinceramente que se seus tímpanos continuassem expostos a estas palavras abomináveis num ritmo tal, logo, logo ele as admitiria com menos repulsa. E completou que, embora odiasse os Yahoos de seu país, ele não mais os culparia por suas qualidades inferiores, tanto quanto pudesse, comparando-os agora a meros gnnayh (uma ave de rapina), animal também cruel, ou então a uma simples pedra pontiaguda que calha de ferir-lhe o casco.”
“Meu mestre afirmou resolutamente que em detrimento de razão, nós éramos movidos ou possuídos por alguma qualidade inerente que expandia mais e mais nossos vícios naturais e garantia nossa sobrevivência. E que, como tudo que é distorcido e ruim em pequena escala, nossa civilização só podia ser uma ampliação defeituosa da natureza individual do Yahoo.”
“ele muito refletiu mas nunca chegou a uma opinião segura sobre a razão de que a lei, que foi feita para a preservação de todos e de cada um, devesse conduzir tantos indivíduos à ruína.”
“Há uma sociedade de homens entre nós criada desde a mocidade para convencer das coisas que não são, pela palavra. Estes homens conseguem fazer os outros verem que o branco é preto, e o preto é branco, tanto melhor quanto mais bem-pagos eles são! A esse tipo de sociedade dentro da sociedade os outros homens são escravos. Por exemplo: se meu vizinho cobiça minha vaca, ele contrata um destes, um advogado, para arrancar minha vaca de mim! Eu tenho, então, de contratar um outro advogado, para defender meu direito de continuar com minha vaca. É contra todo o Direito estabelecido (contra todo o fundamento de todas as leis) que qualquer homem advogue em causa própria. Continuando neste exemplo, eu, que sou o legítimo proprietário da vaca, estou em uma dupla desvantagem: primeiro, meu advogado, sendo treinado praticamente desde o berço a santificar a falsidade, não se sente confortável de ter de defender um cliente justo, o que é anômalo em seu campo do saber. Advogados que se submetem a essa tarefa fora de sua rotina diária acabam fazendo o serviço mal-feito ou de má-fé! A segunda desvantagem, meu mestre, é que meu advogado deve agir com muita cautela, ou será vítima de reprimendas pelos juízes, sendo malvisto por todos os seus colegas como um advogado que avilta os cânones de sua profissão. Sendo assim, eu fico com apenas 2 métodos de preservar minha vaca: o primeiro é pagando ao advogado de meu acusador uma taxa acima do que é publicamente a norma, fazendo-o trair seu próprio cliente ao insinuar, por meio de minha tática astuciosa, que a justiça estava do lado deste cliente que o procurou! A segunda maneira de vencer a causa é se meu advogado conseguir dar a meu pleito a aparência mais injusta possível; p.ex., concedendo que a vaca na verdade seria do meu vizinho. Se isso for adequadamente executado, é óbvio que o juiz ficará convencido do meu lado da história!”
“É uma máxima entre os advogados que o que já foi feito antes pode ser feito legalmente outra vez: então, a coisa que eles mais fazem é registrar todas as decisões anteriormente proferidas contra o bom senso da espécie humana. Sob o nome de <precedentes>, eles mostram tais provas às autoridades competentes e justificam, assim, as opiniões mais iníquas. Os juízes jamais deixarão de acatar estas novas verdades, uma vez que se tratam de provas, que são inquestionáveis.”
“É de se observar que esta sociedade cultiva um jargão peculiar, i.e., um jeito próprio de dizer as coisas, que nenhum outro mortal é capaz de compreender. Sob estas regras é que todas as suas leis são escritas. No estágio em que se encontram as leis hoje, depois de muitas gerações desta prática, falsidade e verdade ficaram tão embaralhadas que nem o mais sábio e honesto dos homens poderia dizer a diferença. É comum que leve 30 anos para se decidir se o pedaço de terra que ganhei de herança e que meus pais e avós por sua vez também ganharam de herança, ascendendo à sexta geração dos meus ancestrais, pertencem de fato a mim ou a algum estranho que vive a 500 quilômetros de distância!”
“Os advogados e juristas, em tudo aquilo que não se refere a suas próprias tratativas, são dos mais ignorantes e estúpidos dentre nós Yahoos europeus. Os mais fúteis em conversações, inimigos jurados do conhecimento, da sabedoria e da educação, e tão estultos quanto perversos quando o assunto é insultar e deformar a razão humana milenar, num esforço contínuo por destruir a obra de tantas gerações das outras classes de Yahoos com quem convivem.”
“eu não sei como consegui descrevê-lo o uso do dinheiro…” “o rico se apropria do fruto do trabalho dos pobres, sendo que estes últimos, em verdade, existem numa proporção de 1000 para cada rico”
“meu mestre insistia que todos os animais tinham direito a sua parte na distribuição dos produtos da terra”
“…toda esta vasta planície, digo, o triplo disto, deve ser devastado para que nossa melhor Yahoo-fêmea tenha seu excelente café-da-manhã, além dos utensílios de mesa necessários para consumi-lo.”
“Desta forma, deve haver países muito pobres que não têm condições de alimentar seus habitantes! Mas me diga uma coisa: como porções tão gigantescas de seu continente não possuem um só vaso de água fresca, sendo preciso enviar Yahoos pelos mares só para acharem de que beber?!”
“A Inglaterra em particular, segundo nossos cálculos, produz três vezes a quantidade de comida que seus habitantes são capazes de consumir; bem como muito licor extraído de grãos ou prensado das frutas de algumas árvores, que dão beberagens das mais deliciosas, e na mesma proporção superabundante. Diria que tudo ali, não só comida e bebida, é produzido muito acima da necessidade da população. Mas, para alimentar a luxúria e a intemperança das Yahoos-fêmeas, exportamos uma vasta proporção desses bens para outras nações, ainda que isso deixe parte de nossos habitantescarente, para, em troca, recebermos fontes de doenças, tolices mil, vícios sem conta, que distribuímos igualitariamente entre todos nós!!”
“O vinho não é importado para suplantar a sede nem para substituir alguma outra bebida, mestre. Este é um líquido especial que nos produz certo contentamento ao nos fazer evadir de nós mesmos, privando-nos de nossos sentidos por um tempo. Toda a melancolia que sentimos é temporariamente deixada de lado, e cedemos às mais caprichosas e extravagantes fantasias alojadas no cérebro, de repente não somos nada temerários, temos esperança ilimitada no amanhã, durante esse período não precisamos trabalhar, e, alterados até perder o império sobre nossas próprias pernas, acabamos, assim, ficando entorpecidos, até dormirmos profundamente. O lado ruim é que acordamos sempre doentes após tais ocasiões, fatigados e inclinados ao ócio. E é verdade, outrossim, que o uso desse licor, em abundância e a longo prazo, torna nossa vida cada vez mais desconfortável e repleta de enfermidades, quando não encurta esta mesma vida de forma anti-natural.”
“Nossa dieta engloba milhares de alimentos que são contraditórios entre si. Além disso, comemos quando não estamos com fome e bebemos sem sede. Sentamos e bebemos licores fortíssimos a noite inteira, sem nem mesmo forrar o estômago, o que nos predispõe à preguiça e a contrair diversas inflamações, precipitando ou arruinando a digestão. Yahoos-fêmeas prostituídas transmitem certa doença, capaz de apodrecer os ossos do Yahoo-macho que aceitaro seuabraço. Mas essa infecção e muitas outras são propagadas mui naturalmente de pai para filho. Muitos já nascem desfigurados e defeituosos. Seria interminável catalogar todas as doenças que nos afligem, mestre. Eu creio que esse número ultrapassa as 500 ou 600. Não há junta ou membro que não tenha seu mau estado particular.”
“A pretensão desses que chamamos de médicos – curandeiros em seu vernáculo – é a de que todas as doenças vêm da repleção (barriga cheia). Daí concluírem que uma grande evacuação do corpo é necessária, seja pela passagem natural ou pelo caminho de onde veio (a boca). Esses médicos conhecem inúmeras ervas, minerais, gomas, óleos, cascas, sais, sucos, algas, excrementos, extratos de cascas de árvore, serpentes, sapos, carne e ossos de homens mortos, pássaros, animais selvagens, peixes, etc., que utilizam para produzir os medicamentos de cheiro e gosto mais atrozes, abomináveis, nauseantes de que se tem notícia, tipo de composição que o estômago imediatamente ejetará – isso se chama vômito. Vindos do mesmo lugar, que chamamos de farmácia, além de outros venenos, os médicos nos prescrevem mais substâncias para engolir ou inserir pelo orifício traseiro (dependerá do humor do médico saber por qual buraco ele quer que entre a medicação), remédios esses não mais nem menos daninhos que os anteriores. Nossas entranhas se abalam da mesma forma com estes laxativos. Produzindo um relaxamento artificial dos músculos do nosso sistema digestório, levam junto, como faz a forte correnteza de um rio, tudo que pode estar impedindo o bom funcionamento do organismo. Isso os médicos chamam de purgação ou clister. Tendo a natureza prescrito somente o orifício superior para a intromissão de sólidos e líquidos, e o inferior para ejeções, fazia-se necessária uma arte engenhosa como a deles para agir conforme a doença – isto é, espelhar o mau funcionamento que ela provoca no organismo: ao forçarmos sólidos e líquidos pelo ânus e evacuar pela boca, podemos restabelecer o equilíbrio corporal.”
“Em política, um mau sinal é quando você passa a receber promessas, especialmente essas que demandam um juramento formal. Deste dia em diante o Yahoo mais inteligente sabe que está perdido.
Há 3 métodos de um homem chegar a ser chefe de Estado. O primeiro é o caminho da prudência, formando uma família, constituindo casamento, tendo uma filha, ou pelo menos uma irmã apta ao casório – a família é a base de tudo em nossa civilização! O segundo jeito é traindo e superando o predecessor no cargo. O terceiro modo é, com um zelo furioso, nas assembléias, engajar-se contra a corrupção generalizada da côrte. Um príncipe competente prefere, sem dúvida, empregar este terceiro tipo de homem. Este tipo de homem zeloso é quase sempre também o mais obsequioso e subserviente à vontade e aos caprichos de seu patrono.
Seja como for, esses ministros de Estado, portanto, tendo toda a máquina da nação a seu dispor, têm todas as condições necessárias para se conservarem no poder, chantageando ou aliciando maiorias no senado ou nos conselhos ou ainda empregando o expediente a que chamam de anistia(que expliquei-lhe em detalhes). Dessa forma eles se previnem contra atos de ressentimento ou vingança e auferem de sua carreira pública as maiores riquezas.
O palácio do chefe de Estado é um seminário para criação de lacaios: pajens, mordomos, porteiros, que macaqueiam seu superior em tudo que podem, se é que desejam, por sua vez,se elegerem delegados em seus distritos de origem. Esses vocacionados para a vida política devem exceler em 3 categorias: insolência, mentira e chantagem. Cada um deles, quando bem-sucedido ou bem-sucedida, terá uma côrte inteira a ele ou ela devotada, composta pelas pessoas de mais refinada linhagem. Algum desses lacaios (sub-prefeitos, prefeitos, ministro disso ou ministro daquilo) pode, a depender da sorte, da destreza pessoal e mesmo do seu nível de impudência, chegar a atingir o posto máximo na carreira e vir a ser o sucessor do próprio chefe de Estado que uma vez tanto bajulou!”
“Entre os nossos Houyhnhnms, o branco, o castanho-alaranjado e o cinzento não são tão bem-constituídos quanto o castanho-rubro, o cinza sarapintado e o negro, nem exibem os mesmos talentos ou inteligência, nem parecem melhores para se adestrar. Sendo assim, aqueles quase sempre são empregados nos ofícios subalternos, sem qualquerexpectativa de que excedam o destinomédio de sua própria raça. Essa hierarquia das raças eqüinas baseada na aparência exterior que se vêem toda a Europa seria considerada monstruosa e anômala aqui em seu país, meu mestre!”
“Quanto a mim, mestre, por mais que você me enalteça quanto ao que esperava de meu biótipo, a verdade é que sou de origens mais para humildes que para nobres, tendo sido eu criado por um par de europeus modestos porém mui dignos, cujo esforço e perseverança me proporcionaram uma educação tolerável, i.e., quase acima das expectativas para gente da minha condição. Mas ‘nobreza’ entre nós significa outra coisa que para um Houyhnhnm, posso assegurar-lhe. Prova disso é que os nobres são acostumados desde a mais tenra idade ao ócio e ao luxo, tornando-se moles e cansados com a idade e cheios de doenças venéreas que contraem com fêmeas promíscuas. E quando suas antigas fortunas são dissipadas, casam-se com uma mulherzinha de árvore genealógica qualquer, de um caráter qualquer, falto de inteligência ademais de incompatível com o próprio caráter, tudo pensando-se só no dinheiro. Como resultado, os casais se odeiam e desprezam. O produto de tais uniões? A escrófula, o raquitismo, a deformidade – em forma de novos seres! Dessa forma a família, vê-se bem, muito raramente chega aos netos (à terceira geração); a não ser que uma das filhas consiga um mui bom partido, i.e., um macho saudável para procriar fora do matrimônio, dentre seus vizinhos e serviçais, o que garantirá a continuação sem piora ou até mesmo a melhora da raça. (…) uma fisionomia saudável e robusta é tão inconveniente num homem de berço aristocrata que não resta remédio ao mundo diante de um tipo desses senão considerar que se trata de um bastardo, filho de cavalariço ou cocheiro.”
“Não havia passado um ano dentre os Houyhnhnms e já contraíra tal amor e veneração pelo seu povo que cheguei a tomar a resolução de nunca expatriar-me, na contemplação e na prática de todas as virtudes, nesta terra onde eu não tinha qualquer exemplo ou incitação ao vício. Mas o destino, ah, o destino!, esse meu inimigo mortal, determinaria a impossibilidade desse final feliz.”
“Os Yahoos são conhecidos por odiar-se uns aos outros, até mais do que odeiam as outras espécies. A razão para isso é que o caráter odiento de sua forma, que se pode contemplar nos outros indivíduos como se fôra um outro eu, torna cada Yahoo indisposto para com seu próximo. Eu duvido que cada indivíduo, egoísta como é, não se ache, em realidade, diferente dos demais.”
“De acordo com o que dissera meu mestre, ele havia achado excelente o costume dos Yahoos europeus de vestirem-se. Dessa forma ocultavam muitas de suas deformidades, de um e de todos, o que seria insuportável às vistas gerais. Porém, meu mestre reconheceu que dissera então a coisa que não era, porque cotejando meu relato dos Yahoos com o comportamento dos Yahoos locais, ele concluiu que a causa primeira da dissensão entre irmãos Yahoos, tanto num caso como noutro, devia ser a condição natural do Yahoo, tal qual ele aprendeu de minha boca. <Porque se você dá a 5 Yahoos comida que bastaria para 50, em vez de comerem em paz eles se pegarão pelas orelhas, cada um desejando tudo somente para si.>”
“Havia uma espécie de raiz, muito suculenta, mas algo rara e escondida, de que os Yahoos muito gostavam e que, quando a encontravam, chupavam-na sem moderação. Essa raiz produzia-lhes os mesmos efeitos do vinho no europeu. Algumas vezes isso os levava a se abraçarem e se amigarem, mas podia com a mesma facilidade metê-los em ranhenta discórdia. Eles uivavam, gargalhavam, se punham barulhentos, perdiam o equilíbrio, tropeçavam e rolavam pelo chão e terminavam adormecidos na lama.
Observei também que os Yahoos eram a única espécie animal deste país sujeita a doenças, conquanto esta ocorrência fosse bem mais rara entre eles que entre nossos cavalos, p.ex. A causa não era maus-tratos pelos Houyhnhnms, mas a própria sordidez daquele bicho. Em hoyuhnhnmês só havia uma mesma palavra para falar de todo o conjunto de enfermidades, hnea-yahoo, isto é, <mal de Yahoo>. A cura prescrita pelos pseudo-curandeiros Yahoos para eles próprios, segundo me pareceu, era uma mistura de cocô e xixi, forçada goela abaixo do doente. Não se trata de um gracejo, pois eu observei que o doente realmente fica bom logo depois. Eu recomendaria sem restrições essa mesma receita para meus conterrâneos, portanto, visando ao bem coletivo. Toda disenteria de comermos demais, todos os banquetes que nos empanturram, deixariam de ser problemáticos.”
“os machos brigam com as fêmeas com tanta brutalidade como a que usariam entre si.”
“Eles sabem nadar de nascença, igual girinos, podem passar muito tempo debaixo d’água, e utilizam essa vantagem para caçar peixes; as fêmeas levem o produto da caçada submarina para os filhotes.”
“quando explicava ao meu mestre alguns de nossos sistemas de filosofia natural, ele sempre ria e dizia algo como: <Uma criatura que se presume arrazoada avaliar-se a si mesma sobre o conhecimento fundado na conjetura de outras pessoas, e usar essa avaliação em coisas nas quais, por mais que este conhecimento fosse seguro, não há a menor utilidade!>.Meu mestre mostrou simpatizar com a personalidade do Sócrates platônico. Nada poderia honrar mais o príncipe dos filósofos. Não pude deixar de refletir desde então que destruição essa doutrina, se bem-compreendida, não poderia produzir nas bibliotecas de toda a Europa! Quantos caminhos fáceis dos homens eruditos não seriam para sempre interditados quando compreendessem Platão!”
“Em seus casamentos, os Houyhnhnms escolhem pela cor, para que nenhuma mistura desagradável se produza na prole. A força é o atributo mais valorizado no macho, e o decoro na fêmea. Não contraem matrimônio por amor, mas pensando no futuro da raça. Se a fêmea excede em força, seu consorte geralmente é o macho mais decoroso.”
“A violação da fidelidade conjugal, ou qualquer outra demonstração de promiscuidade, nunca existiu no país dos Houyhnhnms. O par unido passa o resto de suas existências em constante amizade e benevolência recíproca, que por sinal é a mesma camaradagem, guardadas as devidas proporções, que todo Houyhnhnm tem com outros Houyhnhnms. Não há inveja, ciúme, empáfia, fofoca, altercações nem descontentamentos.”
“Uma das questões polêmicas neste lugar é se dever-se-ia proceder ao extermínio dos Yahoos. Um dos favoráveis demonstrou argumentos de muito valor, como <Não bastasse serem os mais sujos, barulhentos e deformados animais que a natureza já produziu, os Yahoos são, ainda, rebeldes, intratáveis, indomesticáveis, astuciosos e malignos. Aqueles que conseguem mamam os úberes das vacas leiteiras dos Houyhnhnms escondido, matam e devoram gatos, esmagam e pisoteiam as plantações de aveia e o capim destinado ao pasto ao menor sinal de fraqueza na vigilância. As maldades e extravagâncias que eles são capazes de cometer é sem fim.> Ele ainda observou sagazmente uma peculiaridade sobre as origens dos Yahoos, a de que <eles não existem desde o sempre neste país; muitas idades atrás, dois desses inclassificáveis apareceram sobre uma montanha. Se eles nasceram devido ao sol inclemente sobre a lama e o calor daí decorrente ou do lodo podre, ou devido à estranha interação do lodo do continente com a escuma marítima, ou de qualquer outra forma, isso jamais saberemos. Mas esse casal de Yahoos engendrou novas vidas; e em pouco tempo sua espécie se tornou tão populosa que infestou a nação inteira. Para se livrarem das más conseqüências, os Houyhnhnms antepassados aprisionaram dois bebês Yahoos num canil, tratando de domesticá-los ao máximo. Este máximo não é de todo satisfatório, mas ao menos os bichos originais e todos os seus descendentes servem para ajudar nos serviços mais pesados>. Este Houyhnhnm garantiu que havia muita plausibilidade nessa tradição oral do seu povo sobre a gênese dos Yahoos e que acreditava piamente que eles não eram animais autóctones (yinhniamshy em houyhnhnmês), principalmente pelo ódio manifesto e inato aos Houyhnhnms. Além disso, todos os outros animais da ilha aborrecem a convivência com Yahoos. Embora suas disposições malignas provoquem naturalmente a repulsa, seria impossível que essa repelência de todos os outros animais do país a eles chegasse a tais extremos se eles fossem oriundos de lá, é o que se argumentava com muita lógica. Fosse isso verdade, seria como dizer que a natureza falhou nesta região, e esta raça já estaria extinta, pois geraria um imenso desequilíbrio na fauna. Seja como for, graças à misteriosa existência dessas excrescências odiosas diante das próprias criações da natureza, os Houyhnhnms puderam dispensar os serviços das mulas e outros indivíduos estéreis, que afinal são animais muito tratáveis e dignos! Mas, disse também este nobre Houyhnhnm, chegaria o dia em que seria mais vantajoso voltar a criar mulas, que são dóceis e boas serviçais, e higiênicas, do que continuar confiando trabalhos importantes do cotidiano a uma raça tão degenerada! Mulas e burros não fedem, são mais fortes, só um pouco menos ágeis que os Yahoos, fora que o zurro de um burro é ‘n’ vezes menos desagradável que o horrífico urro yahoo!”
“a andorinha (ou ao menos é assim que eu traduzo lyhannh, embora seja uma variedade de andorinha gigante se comparada às da Europa)”
“Eles mensuram o ano pelas revoluções do sol e da lua, mas não empregam subdivisões hebdomadárias. Eles têm um perfeito conhecimento astronômico destes dois corpos, conhecendo o fenômeno do eclipse. Eu diria que a isto se limita sua astronomia.
Na poesia, creio que superam todos os outros mortais do mundo; seja pela justeza de suas analogias, o caráter apropriado e exato de suas descrições, enfim, digo que a poesia houyhnhnmiana é inimitável. Seus versos o mais das vezes exaltam o valor da amizade e da benevolência comum e fazem odes aos ganhadores de competições de corrida e outros exercícios que soem praticar.”
“Os Houyhnhnms usam o intervalo entre a quartela e o casco de suas pernas dianteiras como mãos, e com destreza inimaginável para qualquer homem branco. Eu vi uma égua branca de nossa família costurar com uma agulha (que eu a emprestei de propósito) perfeitamente. Eles são perfeitamente capazes de ordenhar, colher aveia e, enfim, desempenhar qualquer trabalho cotidiano que entre nós requeira o uso das mãos. Eles foram capazes de fabricar uma espécie de pederneira que, atritada com outras pedras, constrói todo tipo de utensílio, equivalente às nossas cunhas, machados, martelos, etc. Assim eles conseguem instrumentos afiados para cortar o feno, apanhar a aveia, cultivar qualquer plantação que a natureza lhes permite. Os Yahoos transportam os feixes carpidos conduzindo carruagens, bem como os cavalos mais humildes amontoam a colheita em espécies de choupanas, onde o grão é extraído e levado aos depósitos. Como eu já disse, eles dominam o artesanato rústico da madeira e a olaria, sabendo coser vasos ao sol.”
“A expectativa de vida de um Houyhnhnm é de 70 a 75, mas alguns atingem os 80 anos.”
“A essa altura não sei se seria redundante observar: os Houyhnhnms não possuem palavra em seu idioma para expressar o <mal> nem nada que a ele se relacione. Na verdade, quando querem falar de algo de qualidade ruim, tomam de empréstimo as qualidades que enxergam nos Yahoos. Dessa maneira, a estupidez de um servo, a omissão de uma criança, uma pedra que fira seus cascos, um clima obstinadamente fechado e ruim para a agricultura, tudo isso são yahooíces, por assim dizer. Quando traduzo seus discursos com palavras como <maligno> ou <pérfido>, estou apenas retomando nosso léxico. Ou seja, se algo é mau ou ruim neste país, é hhnm Yahoo, mwhnaholm Yahoo, ynlhmndwihlma Yahoo… Uma casa mal-construída seria uma ynholmhnmrohlnw Yahoo.
Não me seria incômodo enumerar mais e mais dos costumes e virtudes desse excelente povo. Mas, almejando publicar brevemente um volume com minhas aventuras neste continente, não este aqui, mas um especialmente para descrever a civilização Houyhnhnm em sua completude, devo me interditar este enorme prazer e encaminhar o leitor interessado a esta outra publicação.¹ Nas páginas que me restam, doravante, nada me resta a não ser narrar minha própria tragédia.”
¹ Tudo indica que nosso amado Gulliver não cumpriu esta promessa – que pena!
“Era hábito meu pegar mel do oco das árvores, que eu misturava com a água ou comia no meu pão. Nenhum homem mais que eu mesmo podia atestar a verdade dessas duas máximas: A natureza se satisfaz com bem pouco; A necessidade é a mãe da invenção. Nesse tempo eu gozava de saúde perfeita e serenidade mental. Nem mesmo o caráter traiçoeiro e inconstante de um amigo me eram sensíveis nesta ilha. Quanto mais as injúrias de um inimigo tácito ou manifesto! Não havia a menor ocasião para desavença, lisonja ou mexerico. Não havia personalidades de renome que agradar ou assecla que temer. Não era necessário se precaver contra a fraude ou a opressão. (…) Nada de chacota, polêmica, censura, reproches, vendetas, parasitas, aproveitadores de meia-tigela, incendiários, inconvenientes, advogados, prostitutas, bufões, viciados, bêbados, políticos, vigaristas, velhos ranzinzas, tagarelas enfadonhos, jornalistas, brutamontes, assassinos, ladrõezinhos, eruditos, convencidos, moralistas; nenhum líder, nem seguidores, nenhum partido, nem facções; nem encorajadores de vícios, bons retóricos ou maus exemplos; nada de prisões, armas brancas, ou pólvora, algemas, pelourinho ou cadafalso; nada de mercados e feiras, nem regateios ou engabelações; nada de orgulho, vaidade ou afetação; nada de dândis efeminados nem valentões; vadiagem; a sífilis; esposas, gastadeiras, temperamentais e lascivas! nada de pedantes tão altivos quanto estúpidos! nenhuma importunação, atrito insuportável, barulho, muvuca, companheiro cheio de palavras e modos e sem nada na cabeça; zero canalhas exaltados pelo que têm de pior! nenhuma nobreza que dita as regras de etiqueta que ela mesma inventou; nenhum senhor, falsificador, grande proprietário, juiz, rabequista, professor de dança, mestre de esgrima!… Não, não, nada disso!!!”
“Eu não falava se não fôra perguntado; e quando o fazia, respondia com pesar, porque parecia que eu prejudicava a harmonia destes habitantes no vão intuito de me melhorarem. Mas eu era todo ouvidos nas conversas entre Houyhnhnms. Nenhuma sílaba era inútil ou profana, toda comunicação era sucinta e pragmática, nenhuma palavra supérflua ou desgastada! (…) ninguém falava a contragosto ou em tom de reclamação, todos eram fonte de prazer para seus companheiros (…) Eles têm uma noção de que quando pessoas estão reunidas, um pouco de silêncio ocasional é muito mais saudável a fim de melhorar o nível da conversação do que um falatório constante. Isso eu provei na pele, e entendi que, nesses interstícios, evocava com naturalidade idéias frescas e altamente propícias para a continuidade do discurso!”
“Sem falsa modéstia, devo acrescentar que tão-só minha presença já era um estimulante para inúmeras conversas. Meu mestre sempre inteirava seus convivas dos detalhes de minha história que ele havia recentemente aprendido, e relatava as coisas que aprendera sobre minha terra natal. Todos se compraziam em discorrer sobre esse mar de novidades, necessariamente com resultados pouco lisonjeiros para a Europa. Serei pudico o bastante para não reproduzir aqui essas conversas.”
“Quando sucedia de eu fitar meu reflexo na superfície dum lago ou duma fonte, virava o rosto por reflexo, enojado, detestando meu próprio aspecto. Por outro lado, isso foi me fazendo tolerar um pouco mais o aspecto dos Yahoos da ilha. De tanto conversar com os Houyhnhnms e apreciá-los com os olhos, admirado de sua nobreza e superioridade, fui adquirindo seus maneirismos. Primeiro era simples emulação, depois se cristalizou em hábito. Meus amigos me dizem, hoje em dia, de forma bastante áspera, Você trota como um cavalo!, o que eu, no entanto, tomo como elogio. Tampouco desminto que ocasionalmente, no meio da fala, emito de repente sons guturais de Houyhnhnms, sem dar por mim. Os Yahoos europeus me ridicularizam, mas isso em nada me mortifica.”
“na última assembléia geral, quando o assunto dos Yahoos foi abordado, você estando ausente por motivos óbvios, os representantes do plano de extermínio Yahoo se expressaram ofendidos de que eu criasse um Yahoo em meio à própria família, e aliás, mais como Houyhnhnm que como um animal selvagem. Disseram que eu era sempre visto dialogando com você, o que aos olhos dos locais parecia significar que eu extraía prazer e edificação dessas conversações. Que, enfim, sua companhia me era extremamente agradável. Reiteraram que essa prática é inaceitável de acordo com a razão e a natureza, nem fôra jamais ouvida de antanho. A assembléia, sendo assim, exortou-me a ou tratá-lo como os demais de sua espécie, ou providenciar para que você fosse mandado embora, nadando, de volta ao lugar de onde veio. O assunto foi votado entre todos. O primeiro expediente foi rejeitado de pronto por todos os Houyhnhnms que já o viram em minha casa e que com você trataram durante esse tempo. A rejeição se baseava nestas razões elementares: como Yahoo capaz de demonstrar uma proto-razão, você me distinguia nitidamente dos outros Yahoos, depravados inatos; misturá-los seria correr o risco de que você os seduzisse com seus talentos para constituir uma nação isolada entre os bosques e montanhas da ilha, e, preparando um exército, invadisse e pilhasse nosso vilarejo durante a madrugada. Porque é óbvio que uma raça que abomina o trabalho preferiria roubar nossos rebanhos que se dar trabalho de criar algum. Meu mestre acrescentou: Sou constantemente cobrado por meus concidadãos e vizinhos, portanto, para cumprir o segundo desígnio daquela reunião. Infelizmente não posso procrastinar mais esta partida, meu amigo! Creio que, como você mesmo explicou, é-lhe impossível nadar até outro país. Por isso, é razoável iniciar os preparativos para construir-se um veículo capaz de fazê-lo singrar pelas águas até sua terra! Você já descreveu como se faz um navio, então nós podemos fazer isso!”
“Enorme tristeza e pesar recaíram sobre mim ao terminar de ouvir o discurso de meu mestre. Incapaz de suportar este sofrimento, desabei sobre seus pés. Quando readquiri consciência dos meus atos, ele continuou: Eu pensei que você havia morrido. Isso porque nenhum Houyhnhnm está sujeito a esses surtos de imbecilidade. Respondi, ainda com voz embargada: Ó, preferira mesmo a morte! Não posso culpar os habitantes do lugar nem a votação da assembléia, nem a disposição solícita de todos os nossos amigos mais próximos. Não obstante, no meu corrupto e débil juízo, considero que seria mais razoável ter havido menos rigor nesta sentença. Pois é de conhecimento de todos que eu não conseguiria nadar nem sequer 10km, sendo que o pedaço de terra habitado mais próximo deve distar mais do cêntuplo desta distância. Além disso, muitos dos materiais necessários para construir um barco (navio pequeno) estão simplesmente em falta neste país! Ainda assim, em obediência e gratidão a você, mestre, e a sua hospitalidade, eu irei tentar, até o fim, esta construção – embora tema ser a coisa que não era, não é e nem será! Por isso, mestre, não me considere ainda mais vil se lhe parecer que eu me comporto como alguém já condenado à destruição!”
“em 6 semanas, com a ajuda do servo acastanhado, que para ser franco executou as partes mais árduas, eu concluí o que posso chamar de uma vertente indiana de canoa, embora maior do que qualquer uma que eu tenha conhecido, tendo feito um teto de peles de Yahoo, firmemente amarradas com fios de cânhamo que eu mesmo extraí da vegetação e preparei.”
“quando me dispus a prostrar-me, para beijar seu casco, ele gentilmente ergueu sua pata alguns centímetros até minha boca. Eu não ignoro quão gravemente fui censurado entre meus colegas Yahoos europeus por citar essa parte de minhas viagens. Digam o que disserem os detratores, que é improvável tudo isso, i.e., que tão ilustre indivíduo, autêntico garanhão, tenha se prestado a rebaixar-se ao meu nível, não se incomodando de ser visto numa posição humilhante com uma criatura inferior, etc., etc.! Eu mesmo já li muita literatura de viagem: sei o quanto os viajantes adoram se jactar de enormes favores que receberam de estrangeiros!”
“Comecei minha desalentada viagem dia 15 de fevereiro de 1714, ou teria sido 1715? 9AM.”
“Eu ouvi, ainda, de alguma distância, o serviçal acastanhado, que nutria por mim uma grande estima, e que gritava: Hnuyillanyha, majah Yahoo! (Cuide-se, o nobre Yahoo!).
Meu intuito, agora que estava em alto-mar, era, se possível, descobrir qualquer ilhota desabitada mas que fôra propícia para, com meu suor, me servir de abrigo para as necessidades mais básicas da vida. Àquele momento eu acharia este módico fim muito mais feliz do que me tornar primeiro-ministro na nação mais culta. Na verdade eu estava com pavor de voltar aos homens, i.e., aos Yahoos organizados!”
“Baseado em nada além de conjeturas, deu em mim de rumar para leste, imaginando poder assim atingir as ilhas da costa sudoeste da Nova Holanda¹”
¹ Nada mais, nada menos que o então recém-descoberto continente australiano!
“Em 8 horas eu havia chegado ao litoral sudeste da Nova Holanda. Isso confirmou minhas já antigas suspeitas de que mapas e cartas geográficas situam este país ao menos 3 graus mais a leste do que ele realmente está localizado; eu já comuniquei este pensamento há muitos anos para meu grande amigo o Senhor Herman Moll,¹ dando justificativas plausíveis, muito embora este emérito estudioso tenha optado por outro viés baseado em outros autores.”
¹ Cartógrafo do XVII e XVIII. Sua data de nascimento e nacionalidade não estão bem-consolidados, mas seria holandês (radicado em Londres). Nessa época o oceano Atlântico ainda era chamado de “Mar do Império Britânico”. Um mapa de Moll serviu de pretexto para os franceses alegarem possessão de uma certa colônia, contra os ingleses, argumento que foi refutado pelas expedições de James Cook. Defoe (o autor mais parecido com Swift que existe!) era amigo pessoal de Moll. Outro detalhe curioso: no séc. XIX (ou seja, muito depois de Swift), um homônimo Herman Moll, alemão, foi preso e condenado a passar seus dias numa penitenciária na… AUSTRÁLIA! Esse degredo, ao contrário do que poderia parecer, não teve a ver com homicídio, mas apenas com questões de contravenção comercial (roubou dinheiro do patrão, comerciante de tabaco). Cumprido apenas ¼ da pena de 10 anos, ele foi solto e pôde lecionar em York.
Um globo terrestre fabricado e comercializado por Herman Moll.
“Não encontrei moradores na costa. Sem carregar nenhuma arma, tive receio de explorar o interior. Encontrei alguns crustáceos na areia e os comi crus, pois se acendesse fogo podia ser que nativos hostis me detectassem. Prossegui por 3 dias me alimentando de ostras e lapas ou outro molusco qualquer. Dessa forma eu não gastava minhas próprias provisões do barco. Encontrei uma excelente fonte de água doce, o que muito me reconfortou!
No quarto dia, me arriscando de manhãzinha um pouco imprudentemente, divisei de 20 a 30 aborígenes a não mais do que meio quilômetro de distância. Eram índios completamente nus, havia homens, mulheres e crianças no bando, estavam em volta duma fogueira; não vi fogo, mas vi fumaça. Um deles, incontinente, reparou em mim e logo avisou seus amigos. Cinco vieram correndo em minha direção, deixando as mulheres e crianças para trás. Eu também corri para salvar minha vida. Pulei na canoa e parti. Os selvagens, notando que não daria tempo de me alcançarem, atiraram flechas; uma me atingiu profundamente na parte interna do joelho esquerdo: tenho a cicatriz até hoje. Temendo o pior – que a flecha ainda por cima tivesse sido embebida em curare –, remei intensamente até fugir do alcance de qualquer projétil (era um lindo dia, o mar estava calmo). Quando me senti fora de perigo imediato, comecei a chupar a ferida para tirar o eventual veneno, e tratar a hemorragia com o que tinha em mãos.”
“Entre todos os meus impulsos, meu ódio pelos Yahoos foi o que falou mais alto: virei minha canoa e velejei e remei no rumo sul, atingindo o mesmo córrego que atravessara pela manhã, calculando que seria menos pior lidar com esses selvagens do que viver entre os europeus mais uma vez.”
“Os marinheiros, quando aportaram, notaram na minha canoa e, inspecionando-a, conjeturaram logo de cara que o dono não podia estar muito longe. Quatro deles, bem-armados, começaram a busca, revirando qualquer fenda ou buraco que achassem. Me encontraram totalmente vulnerável atrás da rocha. A primeira reação deles foi de espanto, com meus trajes tão bárbaros. Meu casaco era de peles, as solas dos meus sapatos de madeira, minha calça de pêlos. Eles, porém, adivinharam rapidamente que eu não era um nativo, pois que todos ali viviam pelados. Um dos homens da tripulação, um português, mandou que eu me erguesse e perguntou quem era eu. Eu compreendia seu idioma, então obedeci e comecei: Sou um pobre Yahoo banido de entre os Houyhnhnms. Por favor, deixai-me partir! Eles ficaram ainda mais atônitos ouvindo minha resposta em português fluente e, estudando melhor minhas feições, também arrazoaram que eu era um europeu como eles. Porém, não podiam compreender nada disso de Yahoos e Houyhnhnms. Caíram na risada, não nego, diante do meu acento um tanto… gutural. Disseram na minha cara que eu parecia um cavalo relinchando! Na hora eu senti grande indignação misturada com medo, e pus-me a tremer. Eu pedi novamente para ser deixado em paz e abandonado, e sem esperar resposta fui tranqüilamente caminhando para minha canoa. Eles me impediram e perguntaram: De que país vens tu? Na verdade eles perguntaram muitas coisas que eu não posso me lembrar. Eu disse que nascera na Inglaterra, de onde saíra 5 anos atrás – naquele ano Portugal e os ingleses se entendiam muito bem. Então eu voltei a demonstrar confiança e a esperar a concórdia que existe entre pessoas de duas nações civilizadas, desejando ir embora. Em minha pressa eu expliquei que era um Yahoo miserável procurando qualquer lugar desolado para passar o resto de minha desafortunada vida.
Quando eles começaram a discutir entre si eu senti que nada do que eu escutava ou contemplava podia ser mais anti-natural. Para mim era como ver cachorros raciocinando e falando! Vacas falando inglês, Yahoos inteligentes no País dos Houyhnhnms!”
“Eles tinham certeza que o capitão aceitaria levar-me de graça (como dizem em Português) para Lisboa, de onde eu poderia me virar e voltar sozinho à Inglaterra. Informaram que 2 da companhia voltariam agora ao navio para relatar do achado ao capitão e saber de sua decisão. Nesse meio-tempo, a menos que eu jurasse solenemente que não fugiria, disseram que iam me manter sob custódia. Eu achei melhor ceder a estes apelos. Eles estavam bastante curiosos para saber toda minha história, mas eu não pude satisfazê-los. Creio que isso os fez pensar que eu sofri alguma desgraça que comprometeu o meu juízo.”
“O cheiro deles quase me fazia desmaiar. Por fim, não mais agüentando de fome, eu pedi licença para apanhar algo de minha própria canoa. Mas o capitão, querendo ser gentil, ordenou que me trouxessem galinha e um bom vinho, além de preparar uma cama para mim numa cabine asseada. Eu não queria de maneira alguma tirar meus trajos, nem quando estava só. Enrolei-me na coberta, portanto, e em meia hora, imaginando que a tripulação estivesse comendo, saí de minha cabine – planejava pular no mar, por uma das laterais do navio, e nadar de volta para a ilha. Qualquer coisa a viver entre Yahoos! No entanto, tive a infelicidade de que um dos marinheiros detectou-me e preveniu meu ato. Informando o capitão, foi acorrentado na cabine.
Depois do jantar, Dom Pedro veio a mim, desejando saber a razão do meu desespero, capaz de conceber um plano tão absurdo. Ele garantiu que só queria meu bem e fazer por mim o que estivesse a seu alcance nessa situação. Ele se expressou de uma forma tão terna que me comoveu, a ponto de eu conseguir tratá-lo, a partir desse momento, como um animal capaz de alguma faísca de razão! Eu elaborei um resumo conciso de minha última aventura. Contei da conspiração de meus homens a bordo. Do país misterioso em que me deixaram e dos meus 5 anos de vida ali. Mas ele reagiu como se eu não tivesse narrado mais do que um delírio ou sonho. Não pude esconder minha reprovação. Pois estava agora fora de minha natureza o dom de mentir, tão peculiar aos Yahoos! Não importa a nação, um Yahoo nunca muda sua conduta – eles estão sempre resguardados contra o discurso dos outros, sabendo que, como eles próprios, outros Yahoos são bem capazes de mentir por qualquer coisa. Eu perguntei a Dom Pedro: É costume, em Portugal, falar a coisa que não é? Isso de que qualificas minha história é algo que tenho de refletir muito para lembrar que existe, falsidade, conto, falácia, ilusão!… Se eu tivesse vivido mil anos no País dos Houyhnhnms ainda assim não teria escutado uma só mentira do mais estropiado dos serviçais! Eu não dou valor ao fato de ser acreditado ou não; tu estás me ajudando muito, então não concederei qualquer importância à corrupção de tua natureza interior. Me prontifico a responder qualquer questionamento teu! A verdade existe para quem queira compreendê-la!
O capitão Dom Pedro, homem vivido, depois de muito me testar e confrontar minhas respostas a diferentes perguntas, típico procedimento para apanhar alguém na mentira, começou, enfim, depois de um tempo, a considerar que minha veracidade fosse-lhe plausível. Já que tu dizes que tens um apego inviolável pela verdade, tu deves dar-me palavra, Gulliver, palavra de honra, palavra de homem, de que me farás companhia nessa viagem, até o final, sem atentar, outra vez, contra tua própria vida; porque se tu fizeres o que fizeste de novo, e fores apanhado, ou se não concordares com meus termos, passarás todo o trajeto até Lisboa confinado, tratado como prisioneiro. Eu prometi que seguiria com ele até o fim da viagem, embora protestando e antecipando meu futuro: Sofrerei as mais amargas inclemências, para mim está bem! Mas não volto a viver entre Yahoos!
Nossa viagem transcorreu sem nenhum imprevisto. Em gratidão ao capitão pela simpatia que demonstrou para comigo, por mais que achasse repelente lidar com Yahoos, sentei ao seu lado e tentei ser sociável. Mas às vezes eu não podia esconder que aquilo tudo ofendia meu ser. Mas ele, eu via bem, fingia que não notava. Além do mais, a maior parte do dia eu ficava sozinho na cabine. Eu não gostava de ver Yahoos o tempo todo. O capitão tentou me convencer por diversas vezes a tirar minhas roupas rústicas e ofereceu as melhores roupas que tinha no armário. Eu jamais cederia. Sinceramente, me causava nojo pensar em revestir meu corpo com algo que já foi vestido por um Yahoo! Eu na verdade, devido à insistência do capitão, tolerei apenas que me arranjasse duas peças limpas, nunca usadas, as mais simples. Ou, se não fosse possível, ao menos que houvessem sido lavadas. Pensei que isso não denegriria, apesar de não ser o ideal. Toda noite eu retirava a roupa usada ao longo do dia e me encarregava eu mesmo de lavá-la cuidadosamente.
Chegamos em Lisboa em 5 de novembro de 1715. Quando desembarcamos, o capitão obrigou-me a colocar sua capa por cima de minha roupa andrajosa, para evitar aglomerações e rebuliço. Ele me alojou em sua própria casa. Ao meu próprio pedido, deixou-me ficar no cômodo mais afastado, no sótão e nos fundos. Eu implorei que ele ocultasse de todos os demais Yahoos tudo que confiei-lhe a respeito dos Houyhnhnms. Imaginei que qualquer detalhe dessa história causasse um sem-número de Yahoos vindo atrás de mim, além de ser uma coisa tão difícil para as mentes limitadas dos Yahoos compreenderem que com certeza eu poderia ser acusado de ir contra a moral e ser preso, se é que não queimado pela Inquisição! O capitão assentiu e me convenceu, por seu turno, a aceitar vestes limpas e novas. Eu cedi, mas não aceitei que o costureiro tomasse minhas medidas. Dom Pedro, sendo por acaso aproximadamente da mesma altura e peso que eu, não obstante, as roupas ficaram ótimas em mim. Ele providenciou tudo que melhorasse minha condição; mas eu não aceitava entrar em contato com nenhum objeto antes que ele se desempesteasse dos germes yahoos após pelo menos 24h ao ar livre!
O capitão não era casado, nem tinha mais do que 3 discretos empregados. Eu roguei que nenhum deles fosse visto durante nossas refeições. Devo confessar que a postura do capitão foi tão digna e honrada, sua camaradagem tão desinteressada e rara, seu entendimento humano tão elevado, que eu comecei a tolerar sua companhia, de verdade, não apenas por obrigação! Ele foi me conquistando e me socializando de tal maneira que eu já começava a olhar pela janela do meu cubículo. Gradativamente fui passando para outros quartos e, tomando coragem, depois de muito observar alguns pedestres, dei os primeiros passos na rua. Meu pavor estava bem diminuído. Mas meu desprezo e descontentamento pelo Yahoo em geral, esses creio que jamais se embotarão. E quanto mais nos engajamos em interações sociais, digo-vos, mais tende a aumentar esse ódio! Enfim, eu aceitava dar passeios, sempre em sua companhia. Mas o que mais ofendia minha sensibilidade continuava a ser o cheiro horrível dessas criaturas, de modo que eu precisava deixar meu olfato insensível com arruda ou até mesmo tabaco antes dessas ocasiões!
Depois de dez dias, Dom Pedro, a quem também prestei algumas informações sobre minha vida européia prévia, deu sua palavra que não se sentiria de consciência leve enquanto eu não retornasse a meu próprio país e vivesse em meu lar com minha esposa e meus filhos. Ele me relatou que havia um navio mercante inglês no porto, prestes a seguir viagem, e que ele me daria tudo que fosse necessário para empreender essa pequena viagem. Ah, seria tedioso repetir item por item todos os seus argumentos, e todas as minhas objeções, uma e a uma! Dom Pedro disse: É inviável achar uma ilha tão deserta e remota como este lugar em que tu desejas te confinar! Mas usa tua prudência e sabedoria, confina-te em tua própria casa, passa teu tempo de maneira reclusa como mais te aprouver!
Sem remédio, tive de aceitar sua proposta. Deixei Lisboa dia 24 de novembro, no navio mercante britânico. Nunca perguntei quem era o capitão da embarcação. Dom Pedro me acompanhou até a nave e me emprestou 20 libras. Se despediu muito cortesmente e até me abraçou, o que tolerei tão bem quanto pude. Nesta última viagem eu não travei contato nem com capitão nem com contra-mestre. Simulando estar doente, enclausurei-me na cabine. No quinto dia de dezembro de 1715, ancoramos em Downs, às 9 da manhã, aproximadamente. Às 3 da tarde eu estava no umbral de minha própria casa em Rotherhith.(*)
(*) A edição original e a de Hawkworth trazem este nome. Como o leitor pôde perceber, entretanto, Redriff era a casa de Gulliver na estória, de modo que pode ser uma simples omissão do autor.
Minha mulher e meus filhos me receberam com a mais cândida surpresa e euforia – eles imaginavam, e com razão, que eu já estava sete palmos sob a terra. Devo confessar, contudo, que à primeira vista eu senti esse contato com eles como repelente, quando muito indiferente. Embora eu tivesse jurado e me obrigado, desde que abandonei os Houyhnhnms, a ser tolerante e condescendente com os defeitos yahoos, tendo ademais resolvido honrar a promessa que fiz a Dom Pedro de Mendez, minha memória e imaginação estará perpetuamente embebida na virtude e nos elevados conceitos houyhnhnmianos. Vencendo essa minha resistência pouco a pouco, acabei por copular com outro de minha degradante raça yahoo (isto é, com minha esposa) e dei origem a novos espécimes, já na metade declinante da vida. Ainda hoje, quando paro para pensar, me encho de vergonha, confusão e um certo horror atenuado por ajudar a propagar essa espécie…
Voltando ao momento em que adentrei meu lar após tanto tempo, minha esposa me abraçou, beijou, etc., e eu, não estando acostumado ao toque desse animal odioso, como que desfaleci, e meus parentes foram me reanimando aos poucos ao longo de cerca de uma hora. Neste momento em que escrevo, já faz 5 anos que voltei. Durante o primeiro desses anos, não suportava a constante presença de minha esposa e das crianças. Seu cheiro era pestilento! Muito menos comer no mesmo aposento que eles!! Até hoje, devido a minhas interdições daquela época, eles mal ousam tocar o meu pão, ou beber do meu copo. Ainda é muito difícil pegar na mão de qualquer pessoa que seja.
Na minha nova vida, a primeira coisa em que gastei dinheiro foi num par de cavalos de raça que criei muito confortavelmente num estábulo próximo de casa. Depois do aroma destes dois animais, o cheiro que mais me agrada é o do meu cocheiro. Sinto que remoço com o cheiro que aquele estábulo exala e deixa em quem passa muito tempo ali!
Meus cavalos me entendem. Eu converso com eles 4 horas por dia. Eles nunca viram rédeas nem sela. Vivem em grande companheirismo comigo mesmo, e em intensa harmonia um com o outro.”
“Caro leitor, confiei-lhe a mais verídica história possível de um viajante nato, que dedicou 16 anos e 7 meses de sua módica existência a explorar novos recantos do globo. Meu estilo é tão rústico quanto a verdade o exige: minha intenção é comunicar um sentimento, não ornar palavras vãs! Ao contrário dos autores deste gênero literário tão questionável, eu poderia lançar mão de recursos narrativos fabulosos para cativar a atenção do público, coisa que não fiz. Narrei com simplicidade apenas os fatos, da forma mais direta que me coube, num estilo sem afetação. A informação, a meu ver, tem de vir antes do entretenimento.”
“Eu desejaria a promulgação de uma lei que estabelecesse que o viajante, antes de poder publicar suas memórias ou diário de viagem, seria obrigado a jurar, diante da Suprema Côrte, que tudo aquilo que ele manda imprimir é a absoluta verdade ou pelo menos aquilo que há de mais veemente e sincero partindo de seu coração e de seu conhecimento e experiência. Uma medida simples e que deixaria o mundo um lugar muito menos traiçoeiro. Muitos escritores, com fins populistas, impõem as piores malversações e forjas de fatos que sempre engabelam o tipo do leitor desatento. Com muito desgosto, fucei de cabo a rabo inúmeros livros de viagem antes de escrever minha obra. Confesso que, quando nem tinha isso em mente, esses volumes me causavam prazer – à minha juventude, plena de tolice. Tendo eu mesmo conhecido de perto quase todo país e quase todos os costumes, tendo tido o privilégio de contradizer pessoalmente muitas das fábulas que chegara a ler, posso afirmar minha autoridade e minha distância destes autores. Não poderia indicar um só, além de mim mesmo, que não me desperte aversão e que não se apoie impudentemente na incrível credulidade humana.”
“Nec si miserum Fortuna Sinonem
Finxit, vanumetiam,
mendacemque improba finget.¹
Sei muito bem quão vil a longo prazo é a reputação de quem escreve sem gênio ou erudição, sem nem, aliás, talento algum, exceto uma boa memória ou uma precisão de publicista ou de capitão de navio. Também sei que escritores de viagem, como autores de dicionários, acabam chafurdando sob o peso dos inúmeros novos exemplares que são preparados todos os anos neste mesmo ramo, sendo o sucesso de uns o mesmo que o esquecimento de tantos outros. Sei o quanto tudo isso são correntes e modas passageiras. É até bastante provável, inclusive, que os viajantes que venham a visitar os mesmos locais por que passei e descrevi, detectando erros e omissões minhas (se houver), e complementando com novas descobertas de autoria própria, obliterem minha fama deste mundo, tornando-me no mínimo dispensável, no máximo completamente ignoto. Mas essa ‘mortificação’ seria o melhor dos mundos para mim, se eu escrevesse apenas por vaidade: mas quem escreve pelo bem coletivo não poderá reclamar de ser ultrapassado no futuro após dar sua parcela de contribuição! (…) Não vou preencher uma linha com os costumes dos Yahoos dessas nações remotas e corrompidas – diria que os menos corrompidos de todos são os brobdingnaguianos. As máximas que coletei em meio a este povo, em moral e política, sobrepassam tudo que se vê na Europa.”
¹ Mesmo se a Fortuna fez Sinona miserável, Ela não o tornou mendaz e improbo.
a Teve papel ativo na invasão, pelos gregos, da cidade de Tróia.
“Foi-me solicitado, assim que minha fama se espalhou, após meu retorno, como cidadão inglês, o relato preciso, a um secretário de Estado, de minhas expedições. A principal alegação para esta abordagem formal é que <se o primeiro que travou contato com estas civilizações é um inglês, então é justa a reivindicação da posse destas terras pela Coroa>. Porém, sem medo de ser censurado, declaro que tenho minhas dúvidas acerca de se a colonização dos lugares que visitei pode trazer qualquer progresso ou mesmo se ela é possível. Nem todos são índios americanos e nem todos são Fernando Cortez! Os liliputianos, para começo de conversa, mal pagariam o investimento: uma esquadra para submetê-los seria uma inútil despesa para o Tesouro. Já quanto aos brobdingnaguianos, minha pergunta é se qualquer tentativa nesse sentido é minimamente prudente ou segura! Além disso, será a marinha inglesa páreo para as Ilhas Flutuantes sobre nossas cabeças?! Não sentiríamos vertigens mesmo que <os conquistássemos>? Os Houyhnhnms me parecem os menos preparados para se defender militarmente. No entanto, fosse eu ministro de Estado, jamais aconselharia uma tal expedição – invadi-los!!! Sua prudência, consenso interno, coesão social e adaptação ao meio, despojo das preocupações fúteis e falta de temor, seu amor pátrio, seriam talvez substitutos mais do que perfeitos para a inocência na arte militar. Imaginem 20 mil deles colidindo de frente com uma armada britânica! Furando nossas fileiras, capotando nossas carruagens, esmagando os crânios de nossos infantes com seus sólidos cascos até serem transformados em papa! De fato penso que os Houyhnhnms merecem o adágio atribuído a Augusto César: Recalcitrat undique tutus (Recalcitrância onipresente é segurança).
Ao invés de propostas insolentes de colonização deste paraíso na terra, eu desejaria a inclinação da Coroa por enviar uma delegação diplomática solicitando que os Houyhnhnms, quem sabe, se dispusessem a perder alguns de seus indivíduos mais pacientes para nos ensinar e nos civilizar, para transformar a Europa e ensiná-la, finalmente, pela primeira vez, as bases da honra, justiça, verdade, temperança, espírito público, resiliência, bravura, castidade, amizade, benevolência e fidelidade. Todas as virtudes que nomeamos em todas as nossas línguas que se podem encontrar na literatura moderna ou também na antiga, em todas essas os Houyhnhnms se sobressaem. Com minha parca erudição, é o que posso com certeza afirmar.”
“eles matam duas ou três dúzias de nativos, trazem outras tantas nos navios, obviamente na base da violência, como amostra grátis; ao voltar para casa são perdoados. E a colônia conquistada ganha a bênção e o direito divino. Naves são novamente despachadas à primeira oportunidade. Os autóctones são, então, conduzidos à destruição inexorável. Seus monarcas são torturados até revelarem a localização de seu ouro; o monopólio sobre as riquezas daquela extinta nação é imediatamente concedido para que nos banhemos no sangue de inocentes, lição de crueldade e luxúria incomparável!”
“Mesmo assim, a descrição desse processo escravizador e desumano não parece afetar a auto-estima britânica, que deveria ser o exemplo do mundo em termos de sabedoria, delicadeza e imparcialidade ao implantar Colônias! Seus dons liberais no avanço da religião e da educação; seus devotos cabeças na propagação da cristandade; sua precaução em habitar a terra de vidas pacatas e tementes a Deus. Enfim, deveria partir deste Reino, deste Império-Mãe da humanidade, a iniciativa no emprego da justiça e na exportação de um modelo de administração civil impecável para todas as colônias incivilizadas do globo terrestre, sem se deixar conspurcar ou corromper pelos barbarismos estrangeiros. Para corar, por assim dizer, oportunamente, todo este estado de coisas, a Grã-Bretanha deveria delegar aos homens mais judiciosos de todos, interessados exclusivamente na felicidade geral, a missão de ser os representantes da Rainha e do Rei nestas paragens remotas, nestes recantos tão distantes da metrópole!”
“E no entanto, se aqueles que realmente cuidam destes assuntos julgarem que cometo uma irresponsabilidade, estou disposto a me render, baixar a cabeça e sofrer o jugo de sua Lei. Mas jamais direi uma mentira: nenhum europeu pisou nestes países antes de mim. Se os habitantes de cada um destes reinos tiver voz, eles confirmarão o que digo. Claro que essa primazia quiçá possa ser também atribuída aos dois Yahoos lendários que foram vistos no topo de uma montanha no País dos Houyhnhnms. Eis a única exceção que eu admito.”
“Semana passada comecei a autorizar minha mulher a sentar comigo para jantar, mas na outra ponta da mesa, por enquanto. E dei-lhe a devida vênia para responder (com concisão) as perguntas que eu a dirigir, se estiver no humor.”
DO EDITOR AO PÚBLICO (POSFÁCIO: Problemas de família!) (tal qual na 1ª edição da obra)
“O autor destas Viagens, o Senhor Lemuel Gulliver, é meu mais antigo e íntimo amigo. Há algum parentesco entre nós do lado materno, inclusive. Cerca de 3 anos atrás, o Senhor Gulliver, cansado de receber curiosos em sua habitação, em Redriff, comprou um pequeno naco de terra, com uma casa não-luxuosa, mas confortável, nas proximidades de Newark, Nottinghamshire, seu condado de nascença. Agora o Senhor Lemuel vive mais afastado dos homens do que nunca, pelo menos enquanto não esteve em suas viagens. Apesar desse retraimento social, meu primo algo distante não é por isso menos querido pelos seus vizinhos.”
“Antes de deixar Redriff, ele deixou-me em posse dos referidos papéis, um relato de suas viagens pelo mundo, dando-me a liberdade para fazer com eles o que eu bem entendesse. Eu li suas memórias com esmero, três vezes.” “Há um indistinto ar de verdade por toda a obra. O próprio autor foi tão reconhecido por seus iguais como sendo uma pessoa veraz que se tornara uma espécie de provérbio entre seus vizinhos de Redriff, quando qualquer um afirmava alguma coisa, que tal coisa era tão verdadeira como se o Senhor Gulliver a tivesse dito.”
“Esse volume seria pelo menos duas vezes maior, se eu não tivesse tomado a iniciativa de suprimir trechos inteiros, inúmeras passagens, diria eu, referentes a ventos e marés e todas essas coisas chatas… Ninguém quer saber que clima fazia durante o trajeto, ou qual o ângulo do navio em relação a não sei que objeto! Como nos diários de bordo dos capitães, redigiu-se, nos manuscritos originais, com precisão milimétrica, cada procedimento, como o que se faz diante da ocorrência de uma tempestade, naquele linguajar técnico dos navegadores. Longitudes, latitudes, graus isso, graus aquilo, abundam. Temo que o Senhor Gulliver possa ter se arrependido de conceder-me liberdade para mexer em sua papelada, mas, enfim, sigo minha consciência.”
“Se minha ignorância em assuntos marítimos pode ter me levado a cometer erros e omissões, digo, pois, que me responsabilizo abertamente por essas deficiências. Se qualquer viajante vier a apresentar a curiosidade pela versão integral desses relatos, como haviam sido deixados pela pena do escritor, sem minha intervenção, eu terei a bondade de atender essas pessoas.”
Richard Sympson
CARTA DO CAPITÃO GULLIVER A SEU “PRIMO” SYMPSON
“Espero que você esteja pronto para admitir publicamente, quando de oportunidade, que por seu imenso e assíduo sentimento de urgência você me convenceu a publicar um relato muito vago e impreciso de minhas viagens, com, entretanto, a promessa de que minha falta de estilo seria consertada por jovens senhores acadêmicos, assim como fizera meu outro primo Dampier, após aconselhamento meu, em sua obra intitulada Viagem ao redor do mundo.¹ Porém, diferente do que você diz no começo do posfácio, não lembro de ter-lhe dado poder total para omitir trechos de minha narrativa, e muito menos para fazer interpolações. Sendo assim, quanto às últimas, eu abdico formalmente mediante esta comunicação de qualquer responsabilidade de autoria nos casos em que foi o editor quem escreveu pela minha pena! Devo citar, ilustrativamente, um parágrafo inteiro sobre sua majestade, a Rainha Ana, cujo nome é sinônimo da mais pia glória: embora a reverencie e a estime mais do que qualquer ser humano, vejo que o editor se excedeu ao enaltecer tanto um bípede, em cotejo ao meu mestre Houyhnhnm. (…) Sendo assim, você me fez falar a coisa que não era. E também faço referência à academia dos projetistas, e a inúmeras outras passagens – parece que no último quarto do livro é pior! – dos meus diálogos com o mestre Houyhnhnm. Ou você omitiu circunstâncias materiais importantes ou fez questão de mutilar meus pensamentos ou desfigurá-los de tal forma que o desiderato tornou-se irreconhecível até para mim mesmo.”
¹ Mais um exemplo do que poderíamos chamar de proto-derrubadas da quarta parede promovidas por Swift, ao trazer fatos do mundo real para prestar ainda mais realismo a sua prosa: Dampier completou a circunavegação do globo pelo menos 3x e realmente registrou seus achados numa obra com este título.
“Você poderia fazer o favor de explicar como uma coisa que eu disse, tantos anos atrás, a cerca de 5 mil ligas de distância, em outro reino, poderia se aplicar livremente a qualquer dos Yahoos, que, diz-se, em seu conjunto governam o rebanho. Tanto mais que, àquela ocasião, eu mal temia ou mal pensava na possibilidade infeliz de voltar a estar entre eles! Não tenho eu muitas razões de queixa, quando vejo esses mesmos Yahoos sendo puxados por Houyhnhnms em veículos, como se estes não passassem de brutos, e aqueles chegassem a criaturas racionais? Para evitar visão tão monstruosa e mesquinha, entre outros motivos, é que eu decidi me recolher ao campo!”
“Favor considerar, tanto quanto eu já lhe pedi que considerasse, em prol, como você mesmo diz, do <bem comum>, que os Yahoos não passam de uma espécie de animais completamente incapazes de reabilitação ou de aperfeiçoamento via preceitos morais: assim está provado. Porque vê-se que, em vez de um brusco cessar de todos os abusos e corrupções, ao menos nesta pequena Ilha, como eu teria meus motivos para suspeitar, vê-se, dizia eu, após 6 meses do escândalo que foi a publicização do meu livro, que nada mudou; não veio ao meu conhecimento uma só notícia de <efeito favorável> após a divulgação de minhas boas intenções. Como estou retirado no campo, portanto, peço-lhe que me envie, por carta, o informe do fim dos partidos e facções, da justiça imparcial dos juízes, da modéstia e honestidade dos advogados – com tinturas de bom senso –, da transformação desse sórdido bairro londrino chamado Smithfield numa praça para piqueniques, com muitas árvores e uma biblioteca cheia de livros de boas leis em detrimento do pelourinho de execuções hipocritamente ladeado por igrejas góticas, que é o que lá se encontra hoje, da verdadeira nobreza na formação de nossos nobres sem-caráter, do banimento dos atuais médicos, da virtude, honra, sinceridade e bom senso das Yahoos-fêmeas, das côrtes daninhas e torrentes de ministros varridos para sempre, da inteligência, presença de espírito e mérito finalmente recompensados da forma que merecem, da condenação à morte por inanição de todos esses espalhadores de desgraças em prosa chamados jornalistas (mande-lhes comer seu próprio algodão se estiverem famintos! mande-lhes secar seus potes de tinta, se estiverem com sede!); deixe-me saber de todas essas coisas, se um dia elas vierem a ocorrer!… (…) 7 meses, creio eu, seria tempo mais que suficiente para corrigir todo vício e tolice a que os Yahoos são sujeitos, se, e somente se, sua natureza fosse de fato minimamente capaz de aprendizado e inclinada à sabedoria!”
“Leio, ainda, que sou acusado de refletir sobre pessoas de altos cargos sobre quem eu não teria nada a dizer; acusado de degradar a natureza humana! – que natureza humana?, sou aqui obrigado a contestar –, e de difamar o sexo frágil!! Conquanto essas críticas não me venham em uníssono, afinal o bando dos escritores é sempre desunido e cheio de desavenças de opinião, e alguns deles, em vez de me atacarem por dizer o que digo, preferem se negar a acreditar que este livro é de minha pena, i.e., que eu tenha sido o autor de minhas próprias viagens! Para estes, eu achei ou roubei estes escritos de alguém ou algum outro lugar. Mas, de acordo com uns terceiros, eu não só escrevi As Viagens de Lemuel Gulliver como eu escrevi uma outra horda de livros, que eles inclusive se dão ao trabalho de elencar!
Digo que seu tipógrafo foi tão negligente que confundiu a cronologia, havendo trocado as datas de muitas das minhas partidas e regressos! Às vezes nem sequer o ano ele imprimiu corretamente, quem dirá o mês. Seria pedir demais que ele acertasse O DIA! Ouvi dizer que o manuscrito original foi, infelizmente, destruído e que desde a publicação da primeira tiragem não temos mais acesso a seu conteúdo veraz. Eu não me dei ao trabalho de produzir uma cópia antes de enviar-lhe este manuscrito, e portanto ele era o único no mundo. Sem embargo, ainda diante de tamanhos desconsolos, eu lhe enviei uma variedade de correções, as mais importantes, para que você gentilmente insira nos lugares corretos – se, é claro, vier a existir uma segunda edição!”
“Nas minhas primeiras viagens, enquanto ainda jovem, fui ensinado pelos mais experientes marinheiros, e portanto aprendi a redigir como eles. Desde então, contudo, verifiquei que os Yahoos marítimos da nova geração são tão aptos quanto os telúricos para inventar gírias e maneirismos de linguagem, de forma que as expressões que eles empregam mudam de ano a ano.”
“Se a censura dos Yahoos pudesse afetar-me em algum grau, teria eu imensas razões para reclamar. Alguns são tão convencidos e opiniosos que consideram meu livro de viagens como mera ficção ou delírio mental, e foram longe o bastante a ponto de teorizar que os Houyhnhnms e os Yahoos são tão ‘reais’ quanto os habitantes da ilha de Utopia de Thomas More!
Quanto aos povos de Lilliput, de BrobdingRag (como é a correta grafia da palavra, e não Brobdingnag como consta da 1ª edição!) e de Laputa, confesso que nunca me deparei com um Yahoo presunçoso a ponto de questionar suas existências, nem as informações sobre suas culturas que eu tornei públicas. Isso, claro, porque a veracidade tem um poder de convencimento imediato sobre o leitor. Quanto ao meu relato dos Houyhnhnms e Yahoos, se há menos plausibilidade, a culpa não é minha: vejo milhões neste mesmo continente desta última espécie! Nossas diferenças para com os Yahoos do país dos Houyhnhnms podem se resumir a duas: uma é que os urros que eles utilizam à guisa de linguagem soam estranhos a nossos ouvidos; a outra é que não andamos pelados (ou será que eles é que não andam pelados, já que a pelugem deles recobre todo o corpo, enquanto nós precisamos de tecidos para esse mesmo fim?). Eu escrevi sobre os povos que conheci, e sobretudo sobre os Yahoos, para emendar os nossos Yahoos, e não para bajulá-los! Enaltecer com palavras inócuas toda nossa espécie seria mais inconseqüente, para mim, do que os relinchos dos dois Houyhnhnms ‘degenerados’ que eu crio em meu estábulo. Porque estes, a despeito de decaídos em relação aos seus ancestrais, eu ainda consigo educar e corrigir-lhes os vícios até um certo ponto!”
“Concluo que eu jamais deveria ter concebido um projeto tão absurdo como o da reforma da raça Yahoo deste reino. Mas deixe estar, isso era coisa de meu eu idealista de outrora: já deixei estes esquemas visionários para trás, em definitivo.
“São árduas tarefas: não ver mulher, estudar, jejuar, não dormir!”
“What is the end of study? let me know.”
Aprender o que por outros meios não se aprende.
“I will swear to study so,
To know the thing I am forbid to know:
As thus,–to study where I well may dine,
When I to feast expressly am forbid;
Or study where to meet some mistress fine,
When mistresses from common sense are hid;
Or, having sworn too hard a keeping oath,
Study to break it and not break my troth.
If study’s gain be thus and this be so,
Study knows that which yet it doth not know:
Swear me to this, and I will ne’er say no.”
“Juro estudá-lo,
Aprender aquilo que estou impedido de saber no momento:
Como seja,– investigar onde jantarei,
Quando banquetes estiverem suspensos;
Ou estudar onde encontrar belas jovens,
Quando o senso comum mas esconder;
Ou, tendo me comprometido com algo tão severo,
Estudar como quebrar e não quebrar meu juramento.
Se o lucro do estudo for dessa monta,
O estudo obtém o que ele ainda não tem:
Me obrigue a jurar a isso, e jamais recusarei.”
“So, ere you find where light in darkness lies,
Your light grows dark by losing of your eyes.”
“Até você achar onde tem luz na escuridão,
Você já perdeu a luz dos olhos da visão.”
Quando obtiverdes as luzes, obtereis também a miopia!
Sempre na escuridão, é a nossa clara norma.
O estudo é como o sol: útil, desde que não incisivo
Todo padrinho pode batizar
Dar nome às coisas… não é nada de mais!
“Esses paraninfos telúricos das luzes divinas
Que dão um nome para cada estrela fixa
Não tiram mais proveito de suas noites brancas
Do que aqueles que andam de olhos fechados por aí.”
GOZOS & PENAS
Como está bem-paramentado,
aquele que argumenta contra a razão!
Bem procedeu, a fim de mal proceder!
Ele mata a praga, mas também mata a plantação!
Por que advir o verão
Por que há de vir o verão
Antes que os pássaros
Emendem sua canção?
Por que celebrar partos
quando eles não são fatos
mas ainda fetos?
Por que celebrar o nascimento
do que ainda pode morrer
antes de nascer?
Cada coisa em sua estação
Agora é hora da diversão!
Primeiro vem o gozo
Depois o trabalho de parto!
Muita pena se economiza
Quando muita pena se economiza!
Deixe-me ler o contrato!
Juro que mesmo que um enfado
Assinarei no ato!
MAD IN CHINA & ALEXANDRIA
Quem estuda demais em bibliotecas
Morre quando ela é incendiada
Quanto mais apreço pelos livros
Menos apreço pelos livros
“although I seem so loath,
I am the last that will last keep his oath.
But is there no quick recreation granted?”
“How low soever the matter, I hope in God for high words.”
“COSTARD
O assunto tem a ver comigo, senhor, e com Jaquenetta.
Seus pormenores? Eu estou neles.
BIRON
De que modo?
COSTARD
Ó, senhor, da forma e da maneira que seguem:
Fui visto com ela na casa-real, sentado com
ela daquela forma, e flagrado seguindo-a rumo
ao parque; o que, se juntar os cacos, é em maneira e forma,
como se segue. Então, senhor, sobre a maneira,–foi a
maneira como um homem fala com uma mulher: sobre a forma,–
de alguma forma.”
“FERDINAND
[Lê] <Acontece que>–
COSTARD
Deve acontecer: mas se ele diz que acontece, ele, pra falar a verdade, está narrando inverdades.
FERDINAND
Quieto!”
“mas, agora, ao lugar onde; se trata do rumo norte-nordeste e leste, do lado ocidental do teu tão bem-ornado jaridm: lá eu vi esse cisne baixo e vil, que parece pato, essa sardinha de tua côrte,–”
A dupla mais divertida desta comédia:
“DON ADRIANO DE ARMADO
I love not to be crossed.
MOTH
[Aside] He speaks the mere contrary; crosses love not him.”
You are a gentle man and a gamester, gay mister, sir.
“DON ADRIANO DE ARMADO
I will hereupon confess I am in love: and as it is base for a soldier to love, so am I in love with a base wench. If drawing my sword against the humour of affection would deliver me from the reprobate thought of it, I would take Desire prisoner, and ransom him to any French courtier for a new-devised courtesy. I think scorn to sigh: methinks I should outswear Cupid. Comfort, me, boy: what great men have been in love?
MOTH
Hercules, master.
DON ADRIANO DE ARMADO
Most sweet Hercules! More authority, dear boy, name more; and, sweet my child, let them be men of good repute and carriage.
MOTH
Samson, master: he was a man of good carriage, great carriage, for he carried the town-gates on his back like a porter: and he was in love.”
“DON ADRIANO DE ARMADO
Green indeed is the colour of lovers; but to have a love of that colour, methinks Samson had small reason for it. He surely affected her for her wit.”
“– Canta, garoto; meu espírito pesa de amor.
– Isso é para ser visto, já que amas uma puta leviana.”
“O porrete de Hércules não é páreo para a cega seta do Cupido
(…) sua desgraça é ser tratado como garoto,
mas sua glória é subjugar o homem”
“Love is a familiar; Love is a devil:
there is no evil angel but Love. Yet was Samson so
tempted, and he had an excellent strength; yet was
Solomon so seduced, and he had a very good wit.”
O amor é um parente, é um ente diabólico:
não há anjo caído senão o Cupido. Sansão ficou tão
tentado, mesmo sendo um varão poderoso, hiperbólico;
e Salomão hipnotizado, apesar de ser um sábio.
“Devise, wit;
write, pen; for I am for whole volumes in folio.”
“Arquiteta, cabeça;
constrói, caneta; porque eu sinto que estou para compor tijolos!”
“I am less proud to hear you tell my worth
Than you much willing to be counted wise
In spending your wit in the praise of mine.”
“Todo orgulho é de se desejar, e assim é o seu para mim.”
“Você é muito espertinha pra continuar espertinha muito tempo.”
“BIRON
What time o’ day?
ROSALINE
The hour that fools should ask.”
“LONGAVILLE
Pray you, sir, whose daughter?
BOYET
Her mother’s, I have heard.
LONGAVILLE
God’s blessing on your beard!”
– De quem é ela filha?
– De sua mãe, eu ouvi dizer.
– Deus te abençoe, sem querer!
“BOYET
Deceive me not now, Navarre is infected.
PRINCESS
With what?
BOYET
With that which we lovers entitle affected”
“I only have made a mouth of his eye,
By adding a tongue which I know will not lie.”
“These are complements, these are humours; these
betray nice wenches, that would be betrayed without
these; and make them men of note–do you note
me?–that most are affected to these.”
Esses são complementos, esses são humores; esses
enganam mulherzinhas da breca, que seriam a-traídas sem
essas coisas; e fazem dos autores homens de nota—
você me nota? —os que mais são afetados por elas.
SEM SAÍDA NOS JOGOS DA CONQUISTA
Meu caro,
Você mais prejudica sua reputação,
sendo galanteador barato
de baratas donas (ou donas baratas?)
As difíceis estarão fora de seu horizonte!
“A man, if I live; and this, by, in, and without, upon
the instant”
Serei homem, se viver; e isso, por, em, e sem, direto
ao instante
Você é o triplo de si mesmo multiplicado por zero.
Guiar o amor é chumbo!
Mas o chumbo que sai duma arma continua lento?
“No enigma, no riddle, no l’envoy; no salve in the
mail, sir: O, sir, plantain, a plain plantain! no
l’envoy, no l’envoy; no salve, sir, but a plantain!”
Nada de alívio em sua carta, senhor, apenas
cascas de banana em que escorregar.
O pombo-correio nem sempre salva vidas.
“The fox, the ape, and the humble-bee,
Were still at odds, being but three.
There’s the moral.”
HOMEM, O MELHOR ANIMAL
A raposa, o mico e a abelhinha,
Continuava a ser um problema, estarem em 3.
Essa é a moral.
Era preciso ser de tudo junto um animal!
Vender bem é como comer e pescar
“ADRIANO DE ARMADO
Come hither, come hither. How did this argument begin?
MOTH
By saying that a costard was broken in a shin [canela].”
Remuneração: muito melhor que uma oração!
de graças
“BIRON
And I, forsooth, in love! I, that have been love’s whip; / E eu amando! Eu que fui o chicote do amo!
A very beadle to a humorous sigh; / Um funcionário dos suspiros afetados;
A critic, nay, a night-watch constable; / Um crítico, não, um vigilante constante;
A domineering pedant o’er the boy; / um tirano sobre o moleque;
Than whom no mortal so magnificent! / mais que qualquer mortal não importa o qual!
This whimpled, whining, purblind, wayward boy; / Esse moleque volúvel, choroso, lerdo, pródigo;
This senior-junior, giant-dwarf, Dan Cupid; / Esse velhaco júnior, gigante-anão, Mestre Cupido;
Regent of love-rhymes, lord of folded arms, / Regente das rimas amorosas, senhor dos braços cruzados,
The anointed sovereign of sighs and groans, / O soberano dedicado aos suspiros e gemidos,
Liege of all loiterers and malcontents, / Lorde de todos os vadios e descontentes,
Dread prince of plackets, king of codpieces, / Príncipe pavoroso do insondável, rei d’onde jorra o gozo
Sole imperator and great general / Imperador absoluto e grande general
Of trotting ‘paritors:–O my little heart:– / de fazer barafundas e bagunças:–Ah, meu coraçãozinho:–
And I to be a corporal of his field, / E eu ser uma cobaia sua agora,
And wear his colours like a tumbler’s hoop! / Vestir as cores de um bamboleador de circo!
What, I! I love! I sue! I seek a wife! / O quê, eu! Eu fazer a côrte! Eu procurar uma mulher!
A woman, that is like a German clock, / Uma mulher, sabes como é, é um relógio alemão,
Still a-repairing, ever out of frame, / Sempre necessitando reparos, sempre fora de compasso
And never going aright, being a watch, / E sempre desajustada, sendo um relógio,
But being watch’d that it may still go right! / Mas sendo observada para ver se ainda serve pr’algo!
Nay, to be perjured, which is worst of all; / Ná! Ser vítima de perjúrio, juro de pé junto, é o pior de tudo;
And, among three, to love the worst of all; / E, dentre três opções, amar a pior que há;
A wightly wanton with a velvet brow, / Criatura caprichosa com sobrancelhas de veludo,
With two pitch-balls stuck in her face for eyes; / Com duas agulhas no lugar do buraco dos olhos;
Ay, and by heaven, one that will do the deed / Ai! e, por deus, conseguirão o que querem (me flechar!)
Though Argus were her eunuch and her guard: / Como se Argo fosse seu eunuco e guarda principal:
And I to sigh for her! to watch for her! / E eu a suspirar por ela! Querendo contemplá-la!
To pray for her! Go to; it is a plague / Rezar por ela! Me deixar levar para a doença infecciosa
That Cupid will impose for my neglect / Que o Cupido me impôs dado meu descuido
Of his almighty dreadful little might. / Em reconhecer sua todo-poderosa valentiazinha
Well, I will love, write, sigh, pray, sue and groan: / Pois bem, vou amar, suspirar, rezar, cortejar e gemer
Some men must love my lady and some Joan¹. / Alguns amam mulher desta feita, outros princesas.”
¹ Nome de princesa francesa da época.
“and he it was that might rightly say,
Veni, vidi, vici; which to annothanize in the
vulgar,–O base and obscure vulgar!–videlicet, He
came, saw, and overcame: he came, one; saw two;
overcame, three. Who came? the king: why did he
come? to see: why did he see? to overcome: to
whom came he? to the beggar: what saw he? the
beggar: who overcame he? the beggar. The
conclusion is victory: on whose side? the king’s.
The captive is enriched: on whose side? the
beggar’s. The catastrophe is a nuptial: on whose
side? the king’s: no, on both in one, or one in
both. I am the king; for so stands the comparison:
thou the beggar; for so witnesseth thy lowliness.
Shall I command thy love? I may: shall I enforce
thy love? I could: shall I entreat thy love? I
will. What shalt thou exchange for rags [trapos]? robes [vestidos ornados];
for tittles [migalhas]? titles; for thyself? me. Thus,
expecting thy reply, I profane my lips on thy foot,
my eyes on thy picture. and my heart on thy every
part. Thine, in the dearest design of industry,
DON ADRIANO DE ARMADO.”
“he hath not eat paper, as it were; he hath not drunk ink: his intellect is not replenished; he is only an animal, only sensible in the duller parts”
“DULL
You two are book-men: can you tell me by your wit
What was a month old at Cain’s birth, that’s not five
God give you good morrow, master Parson [pastor, pessoa].
HOLOFERNES
Master Parson, quasi pers-on [uma-pessoa; um-persa, um-igual]. An if one should be
pierced, which is the one?”
“Venetia, Venetia,
Chi non ti vede non ti pretia.
[Veneza, Veneza,
Quem não te conhece não te cobiça.]
Old Mantuan, old Mantuan! who understandeth thee
not, loves thee not. Ut, re, sol, la, mi, fa.”
Quem não te entende não te ama, man-tu-amo! Virgiliano…
Se saber é poder, saber amar deve bastar!
Resiste ao relâmpago e trovão do deus
Curva tudo!
“Ovidius Naso was the man: and why, indeed, Naso,
but for smelling out the odouriferous flowers of
fancy, the jerks of invention? Imitari is nothing:
so doth the hound his master, the ape his keeper,
the tired horse his rider.”
“By heaven, I do love: and it hath taught me to rhyme
and to be melancholy; and here is part of my rhyme,
and here my melancholy. Well, she hath one o’ my
sonnets already”
“Nor shines the silver moon one half so bright
Through the transparent bosom of the deep,
As doth thy face through tears of mine give light”
“Did not the heavenly rhetoric of thine eye,
‘Gainst whom the world cannot hold argument,
Persuade my heart to this false perjury?
Vows for thee broke deserve not punishment.
A woman I forswore; but I will prove,
Thou being a goddess, I forswore not thee:
My vow was earthly, thou a heavenly love;
Thy grace being gain’d cures all disgrace in me.
Vows are but breath, and breath a vapour is:
Then thou, fair sun, which on my earth dost shine,
Exhalest this vapour-vow; in thee it is:
If broken then, it is no fault of mine:
If by me broke, what fool is not so wise
To lose an oath to win a paradise?”
A retórica de céu azul dos teus olhos
Contra a qual não se ousa argumentar
Me persuade ao perjúrio perjurável?
Promessas quebradas por ti não são puníveis.
Com mulher eu me meti; mas posso provar
Não peço mão de humana quando quero a de uma deusa!
Minha promessa era mundana, não fala do paradisíaco
Se eu tiver sua graça estarei livre da desgraça!
Promessas são alentos, alentos são vapores:
Olá, você, sol que abrilhanta minha existência,
Promete você mesmo algo de verdade, e lá vai:
Se perjuro não é tenho culpa no cartório.
Se perjuro, que tolo foi jamais tão sábio
Ser um perjuro e ir pro céu?
Eu sou um moinho… Por que rodo?… Não, porque vento!
“DUMAIN
As fair as day.
BIRON
Ay, as some days; but then no sun must shine.”
Claro, claro como a luz solar!
A de algumas manhãs; por que antes que saibas pode trovejar!
A febre do sangue não será esquecida neste reino.
sais mineirais
açucar’s vegetais
je sais la réponse
nesta mina estou
a-ferrado!
“Do not call it sin in me,
That I am forsworn for thee;
Thou for whom Jove would swear
Juno but an Ethiope were;
And deny himself for Jove,
Turning mortal for thy love.”
“O, would the king, Biron, and Longaville,
Were lovers too! Ill, to example ill,
Would from my forehead wipe a perjured note;
For none offend where all alike do dote.”
Ah, bem que o rei, Biron e Vidalonga,
Poderiam amar também! O sujo falando do cagado,
Isso aliviaria minha cabeça pecaminosa do chumbo;
Porque ninguém ofende em fossa pública!
“I heard your guilty rhymes, observed your fashion,
Saw sighs reek from you, noted well your passion:
Ay me! says one; O Jove! the other cries;
One, her hairs were gold, crystal the other’s eyes”
Andei observando, essas rimas perigosas,
Ouvi suspiros bronquíticos, vi o ribombar das veias ao coração:
Ai de mim! diz um; Ah, Zeus! o outro grita;
Um: suas madeixas eram d’ouro, cristais os olhos da outra!
Seus olhos não me deixam descansar!
Seque essas lágrimas, está com cara de bruxa que acaba de acordar!
Fazer sonetos, hein, que coisa linda, senhores românticos?
Eu não faço e eu meto—
a mão na cara dos amantes!
Do pico o Cupido
acertou verdadeiros
morteiros
lânguidos
fatais
ais! ais! ais!
quente corre
vosso sangue
preta segue
sua visão
da situação
presente!
Vendo vocês
Hércules fraqueja
Salomão pede gorjeta
Nestor faz tricô, cabisbaixo!
Timão apenas ri!
Cadê a gravidade?
Suas preocupações voaram!
Quem confia em homens inconstantes é o primeiro a ser traído!
Vocês são uns patetas!
Comigo somos trapalhões!
Heróicas tartarugas-ninja do amor!
Vamos pintar a faixa:
O CAMPEÃO VOLTOU!
Desde o começo dos tempos
quando Adão comeu maçã
a maré sobe e baixa
o jovem desrespeita os mais velhos
fazemos coisas erradas
e daí, somos carne e osso,
não é por isso que nascemos?
Que águia já se apaixonou, me diga? Ela que não serve
nem pra namoro à distância!
Minha amada é gorda como a lua cheia
Bela uma vez por mês
Me hipnotiza me faz uivar
Minha amada é velha como a velha no hospício
ou no asilo
Todos querem paparicar
Mimar de cuidados
Afinal que mimosa não é!
Minha amada é a coisa mais baixinha
Mas altos chegam sua dignidade e seu, ré, ré,
sentimento
Não preciso comprar sapatos caros
Nem brincar de Cinderelo
O problema são as acusações
de Pedofilia
Minha amada é preta, mas o sol alumia
Como todas
Do carvão você precisa, que coisa é essa de
ser racista? Estamos no século da escravidão!
Venha e me acorrente
No porão do galeão, com suas danças sensuais!
“Devils soonest tempt, resembling spirits of light.
O, if in black my lady’s brows be deck’d,
It mourns that painting and usurping hair
Should ravish doters with a false aspect;
And therefore is she born to make black fair.
Her favour turns the fashion of the days,
For native blood is counted painting now;
And therefore red, that would avoid dispraise,
Paints itself black, to imitate her brow.”
“Dark needs no candles now, for dark is light.”
“Your mistresses dare never come in rain,
For fear their colours should be wash’d away.”
“Say, can you fast? your stomachs are too young;
And abstinence engenders maladies.
And where that you have vow’d to study, lords,
In that each of you have forsworn his book,
Can you still dream and pore and thereon look?
For when would you, my lord, or you, or you,
Have found the ground of study’s excellence
Without the beauty of a woman’s face?”
Elas são o nosso chão!
Elas são nossa comida!
Elas tiram nossas noites de sono
por belas razões!
“Then when ourselves we see in ladies’ eyes,
Do we not likewise see our learning there?
O, we have made a vow to study, lords,
And in that vow we have forsworn our books.
For when would you, my liege, or you, or you,
In leaden contemplation have found out
Such fiery numbers as the prompting eyes
Of beauty’s tutors have enrich’d you with?”
“A lover’s eyes will gaze an eagle blind;
A lover’s ear will hear the lowest sound,
When the suspicious head of theft is stopp’d:
Love’s feeling is more soft and sensible
Than are the tender horns of cockl’d snails
Love’s tongue proves dainty Bacchus gross in taste:
For valour, is not Love a Hercules,
Still climbing trees in the Hesperides?
Subtle as Sphinx; as sweet and musical
As bright Apollo’s lute, strung with his hair:
And when Love speaks, the voice of all the gods
Makes heaven drowsy with the harmony.”
“Never durst poet touch a pen to write
Until his ink were temper’d with Love’s sighs;
O, then his lines would ravish savage ears
And plant in tyrants mild humility.
From women’s eyes this doctrine I derive:
They sparkle still the right Promethean fire;
They are the books, the arts, the academes,
That show, contain and nourish all the world:
Else none at all in ought proves excellent.
Then fools you were these women to forswear”
Que não ouse o poeta pegar na pena pra escrever
Antes de ser picado pela abelha do amor
Sua pena terá o bico vermelho alucinante, flamejante
Suas linhas farão o bruto chorar;
e o tirano se humilhar!
É dos olhos das mulheres que eu saco esta doutrina:
O fogo prometéico empalidece só de vê-las passar,
É certo, tudo de divino obscurece,
Não são elas os livros, as artes, as academias prediletas
que exibem, embalam e alimentam o mundo?
Do contrário, nada valeria a pena nessa vastidão.
É, tolos vocês são, recusar mulher!
É a lei do Amor e da Caridade que prevalece, oras!
Você é um homem ou um guei?
Faz logo o que seu pai fez!
Galo magrão não bica grão!
“HOLOFERNES
He draweth out the thread of his verbosity finer than the staple of his argument. I abhor such fanatical phantasimes [fantasistas, maneiristas], such insociable and point-devise [perfectionistas] companions; such rackers [atormentadores] of orthography, as to speak dout¹, fine, when he should say doubt²; det³, when he should pronounce debt4,–d, e, b, t, not d, e, t: he clepeth [nomeia] a calf5, cauf6; half7, hauf8; neighbour9vocatur11 nebor10; neigh12 abbreviated ne13. This is abhominable14,–which he would call abbominable15: it insinuateth me of insanie16: anne intelligis, domine17? to make frantic, lunatic.”
¹ Apagar o fogo (verbo); cético (substantivo/adjetivo).
² Dúvida.
³ Separar, no Inglês arcaico; hoje, seria (um)a (das) abreviatura(s) de uma droga psicodélica, de efeito curto e intenso, a dimetiltriptamina, ainda DMT, o que enriquece ainda mais os jogos de linguagem de W.S., involuntariamente.
4 Débito, dívida.
5 Bezerro.
6 Jeito caipira de dizer cesto antigamente.
7 Metade.
8 Aqui, a etimologia me aponta apenas uma grafia diferente da mesma palavra half.
9 Vizinho
10 Aqui, me parece que Shakespeare, acompanhando a afetação e exageração dos personagens, começa a misturar significados anglos e latinos. Podemos encontrar nebot como referência a sobrinho. Parente//vizinho.
11Vocatur é o mesmo que “é”, resumindo; conjugação do verbo chamar mas que neste contexto tem o mesmo papel do ser: chama vizinho de parente, etc.
12 Relincho.
13 “Não” em Latim.
14 Abominável.
15 Indistinguível do precedente.
16 Forma antiga para insanidade ou insânia.
17 Um trocadilho com a expressão Anno Domini (Ano do Senhor, idade da razão, era moderna, etc.) em que o que o interlocutor quer dizer é: Esse homem não bate bem, e ele nos deixa loucos também, percebe?
“DON ADRIANO DE ARMADO
Men of peace, well encountered.
HOLOFERNES
Most military sir, salutation.”
“MOTH
[Aside to COSTARD] They have been at a great feast of languages, and stolen the scraps.
COSTARD
O, they have lived long on the alms-basket of words. I marvel thy master hath not eaten thee for a word; for thou art not so long by the head as honorificabilitudinitatibus: thou art easier swallowed than a flap-dragon.”
“MOTH
Yes, yes; he teaches boys the hornbook [abecedário]. What is a, b, spelt backward, with the horn on his head?
HOLOFERNES
Ba, pueritia [puerilidade], with a horn added.
MOTH
Ba, most silly sheep with a horn. You hear his learning.
The third of the five vowels, if you repeat them; or the fifth, if I.
[Moth é francês, a pronúncia do “u” é quase a do “i” latino. I, o pronome, também é uma consoante, bem diversa, se pronunciada por um anglo!]
HOLOFERNES
I will repeat them,–a, e, i,–
MOTH
The sheep: the other two concludes it,–o, u.”
“O, an the heavens were so pleased that thou wert but my bastard, what a joyful father wouldst thou make me”
Excrementos por exatidões! Que troca! Sem incrementos! Sem ressentimentos?
Prefiro dormitórios e colchões!
“in the posteriors of this day, which the rude multitude call the afternoon.”
“HOLOFERNES
Via, goodman Dull! thou hast spoken no word all this while.
DULL
Nor understood none neither, sir.”
You can’t snuff the light!
“PRINCESS
But, Katharine, what was sent to you from fair Dumain?
KATHARINE
Madam, this glove.
PRINCESS
Did he not send you twain?
KATHARINE
Yes, madam, and moreover
Some thousand verses of a faithful lover,
A huge translation of hypocrisy,
Vilely compiled, profound simplicity.”
“MARIA
Folly in fools bears not so strong a note
As foolery in the wise, when wit doth dote;
Since all the power thereof it doth apply
To prove, by wit, worth in simplicity.”
“An angel is not evil; I should have fear’d her
had she been a devil.”
“PRINCESS
And will they so? the gallants shall be task’d;
For, ladies, we shall every one be mask’d;
And not a man of them shall have the grace,
Despite of suit, to see a lady’s face.
Hold, Rosaline, this favour thou shalt wear,
And then the king will court thee for his dear;
Hold, take thou this, my sweet, and give me thine,
So shall Biron take me for Rosaline.
And change your favours too; so shall your loves
Woo contrary, deceived by these removes.”
“The effect of my intent is to cross theirs:
They do it but in mocking merriment;
And mock for mock is only my intent.”
Vamos jogar o jogo deles:
que é exatamente ser nós mesmas!
“Ask them how many inches is in one mile: if they have measured many, the measure then of one is easily told.”
“ROSALINE
My face is but a moon, and clouded too.
FERDINAND
Blessed are clouds, to do as such clouds do!
Vouchsafe, bright moon, and these thy stars, to shine,
Those clouds removed, upon our watery eyne.”
“FERDINAND
Will you not dance? How come you thus estranged?
ROSALINE
You took the moon at full, but now she’s changed.
FERDINAND
Yet still she is the moon, and I the man.
The music plays; vouchsafe some motion to it.
ROSALINE
Our ears vouchsafe it.
FERDINAND
But your legs should do it.
ROSALINE
Since you are strangers and come here by chance,
We’ll not be nice: take hands. We will not dance.
FERDINAND
Why take we hands, then?
ROSALINE
Only to part friends:
Curtsy, sweet hearts; and so the measure ends.
FERDINAND
More measure of this measure; be not nice.
ROSALINE
We can afford no more at such a price.
FERDINAND
Prize you yourselves: what buys your company?
ROSALINE
Your absence only.
FERDINAND
That can never be.
ROSALINE
Then cannot we be bought: and so, adieu;
Twice to your visor, and half once to you.
FERDINAND
If you deny to dance, let’s hold more chat.
ROSALINE
In private, then.
FERDINAND
I am best pleased with that.
They converse apart”
“BIRON
Dama da mão branca, uma doce palavra contigo.
PRINCESA
Mel, e leite, e açúcar; são 3.”
“– Uma palavra em segredo!
– Mas que não seja doce!
– Biliosa então será!”
“BOYET
The tongues of mocking wenches are as keen
As is the razor’s edge invisible,
Cutting a smaller hair than may be seen,
Above the sense of sense; so sensible
Seemeth their conference; their conceits have wings
Fleeter than arrows, bullets, wind, thought, swifter things.”
“FERDINAND
Rebuke me not for that which you provoke:
The virtue of your eye must break my oath.”
“BIRON
By Jove, I always took three threes for nine.
COSTARD
O Lord, sir, it were pity you should get your living
by reckoning, sir.”
“That sport best pleases that doth least know how”
“Judas I am,–
DUMAIN
A Judas!
HOLOFERNES
Not Iscariot, sir.
Judas I am, ycliped Maccabaeus.
DUMAIN
Judas Maccabaeus clipt is plain Judas.
BIRON
A kissing traitor. How art thou proved Judas?
HOLOFERNES
Judas I am,–
DUMAIN
The more shame for you, Judas.”
“DUMAIN
He’s a god or a painter; for he makes faces.”
“BIRON
Honest plain words best pierce the ear of grief;
And by these badges understand the king.
For your fair sakes have we neglected time,
Play’d foul play with our oaths: your beauty, ladies,
Hath much deform’d us, fashioning our humours
Even to the opposed end of our intents:
And what in us hath seem’d ridiculous,–
As love is full of unbefitting strains,
All wanton as a child, skipping and vain,
Form’d by the eye and therefore, like the eye,
Full of strange shapes, of habits and of forms,
Varying in subjects as the eye doth roll
To every varied object in his glance:
Which parti-coated presence of loose love
Put on by us, if, in your heavenly eyes,
Have misbecomed our oaths and gravities,
Those heavenly eyes, that look into these faults,
Suggested us to make. Therefore, ladies,
Our love being yours, the error that love makes
Is likewise yours: we to ourselves prove false,
By being once false for ever to be true
To those that make us both,–fair ladies, you:
And even that falsehood, in itself a sin,
Thus purifies itself and turns to grace.”
“FERDINAND
Now, at the latest minute of the hour,
Grant us your loves.
PRINCESS
A time, methinks, too short
To make a world-without-end bargain in.
No, no, my lord, your grace is perjured much,
Full of dear guiltiness; and therefore this:
If for my love, as there is no such cause,
You will do aught, this shall you do for me:
Your oath I will not trust; but go with speed
To some forlorn and naked hermitage,
Remote from all the pleasures of the world;
There stay until the 12 celestial signs
Have brought about the annual reckoning.
If this austere insociable life
Change not your offer made in heat of blood;
If frosts and fasts, hard lodging and thin weeds
Nip not the gaudy blossoms of your love,
But that it bear this trial and last love;
Then, at the expiration of the year,
Come challenge me, challenge me by these deserts,
And, by this virgin palm now kissing thine
I will be thine; and till that instant shut
My woeful self up in a mourning house,
Raining the tears of lamentation
For the remembrance of my father’s death.
If this thou do deny, let our hands part,
Neither entitled in the other’s heart.”
“ROSALINE
Oft have I heard of you, my Lord Biron,
Before I saw you; and the world’s large tongue
Proclaims you for a man replete with mocks,
Full of comparisons and wounding flouts,
Which you on all estates will execute
That lie within the mercy of your wit.
To weed this wormwood from your fruitful brain,
And therewithal to win me, if you please,
Without the which I am not to be won,
You shall this twelvemonth term from day to day
Visit the speechless sick and still converse
With groaning wretches; and your task shall be,
With all the fierce endeavor of your wit
To enforce the pained impotent to smile.”
“A jest’s prosperity lies in the ear of him that hears it, never in the tongue of him that makes it” O sucesso da piada nunca está na língua de quem conta, mas no ouvido de quem ouve
(song)
“The cuckoo then, on every tree,
Mocks married men; for thus sings he, Cuckoo;
Cuckoo, cuckoo: O word of fear,
Unpleasing to a married ear!
When shepherds pipe on oaten straws
And merry larks are ploughmen’s clocks,
When turtles tread, and rooks, and daws,
And maidens bleach their summer smocks
The cuckoo then, on every tree,
Mocks married men; for thus sings he, Cuckoo;
Cuckoo, cuckoo: O word of fear,
Unpleasing to a married ear!”
“The words of Mercury are harsh after the songs of Apollo.”
DISCRETO GLOSSÁRIO PARA MARINHEIROS DE PRIMEIRA VIAGEM
boatswain: oficial, contramestre da embarcação, o primeiro na linha de comando após o master (vide baixo).
capful: tampa
capful of wind: brisa repentina
curlew: ave pernalta (maçarico)
dram: dose
master: capitão, autoridade máxima num navio
punch: ponche
supercargo: sobrecargo (espanhol), comissário de navio mercante
uncouth: tosco, bruto
urge: (subs.) desejo, necessidade;
(verb.) (u. somebody to) encorajar;
argumentar, defender, endossar;
(u. on) incitar, pressionar, compelir.
TRADUÇÃO DOS PRINCIPAIS TRECHOS DA OBRA
1
“Eu nasci no ano de 1632, na cidade de Iorque, de boa família (…) meu pai, sendo um forasteiro de Bremen (…) amealhou uma boa fortuna no comércio, deixando seus negócios para casar com minha mãe e se estabelecer em Iorque. Dela eu herdei meu sobrenome Robinson, pertencente a uma nobre família rural. Meu nome de batismo é Robinson Kreutznaer; mas, devido à corrupção corrente das palavras no Inglês, somos agora chamados – aliás, chamamo-nos a nós mesmos, e assim o escrevemos – Crusoe”
2
“Eu tinha dois irmãos mais velhos, um dos quais foi morto na batalha de Dunkirk contra os espanhóis. O que veio a ser do meu segundo irmão, eu jamais soube, ou soube tanto quanto meus pais vieram a saber de mim. (…) Meu pai, que já era muito velho, me deu uma boa educação, tanto quanto permite a educação doméstica numa cidade de interior desprovida de escolas, e me preparou para o Direito; mas eu não desejava nada que não fosse rumar ao mar; e minha estranha inclinação tanto me conduziu contra as vontades, digo, os comandos do meu pai, e contra todas as tentativas e persuasões da minha mãe e amigos da família, que só podia haver algo de fatal nessa propensão anti-natural à natureza, uma correnteza que me empurrava para a vida de misérias em que eu me veria afogado.”
3
“minha condição de vida era mediana, ou o que se poderia chamar de estrato superior da vida humilde, que meu pai, inclusive, considerava, baseado em sua não-depreciável experiência, a melhor condição na face da terra, a mais apropriada à felicidade humana, não exposta às misérias e durezas, ao trabalho duro e sofrimentos típicos da parte mecanizada da humanidade, e ao mesmo tempo não contaminada pelo orgulho, luxúria, ambição, e inveja dos situados acima.” “reis lamentaram com frequência os miseráveis efeitos de terem nascido para grandes coisas” “o homem sábio já deu seu testemunho sobre isso, dizendo que o segredo da felicidade é não desejar riquezas nem pobrezas.”
4
“se eu não me sentia bem e feliz no mundo, isso devia se atribuir ao mero destino ou a uma falha exclusivamente minha” “meu pai decidira que no que dependesse dele eu não seria um azarado que tivesse de buscar sustento noutros recantos, e que me seria dada uma tranqüila existência no seio dos negócios da família” “Fiquei profundamente afetado pela sinceridade desse discurso, e, de fato, como não ficar?” “Tinha agora dezoito anos, o que já era demasiado tarde para se tornar aprendiz de negociante ou secretário de advogado”
5
“Esse garoto pode ser feliz se escolher permanecer em casa; mas se se aventurar pelo mundo exterior, será a criatura mais miserável a ter nascido: não posso dar meu consentimento a isso.”
6
“1º de setembro de 1651 (…) Nunca nenhuma desgraça na vida de um jovem aventureiro, acredito eu, apareceu tão cedo, ou durou tanto quanto a minha.”
7
“Ao longo dessas primeiras aflições eu me sentia estúpido, paralisado em minha cabine, localizada na entreponte, e mal posso descrever meu temperamento de então: como pôr em palavras a penitência que me adveio quando pensei ter passado pelo pior que eu poderia passar: achava, com efeito, que a amargura da morte era coisa do passado, e que na minha segunda vez o mal-estar não se repetiria.”
8
“soubemos que dois navios próximos de nós cortaram seus mastros por inteiro, pesados que estavam; e nossos homens gritaram que um navio que navegava cerca de uma milha à frente havia afundado.”
9
“e, quando eles cortaram o mastro dianteiro, o mastro principal ficou tão torto, e balançou tanto o navio, que foram obrigados a cortá-lo também, deixando o convés plano. (…) a tempestade continuou com tamanha fúria que os próprios marinheiros admitiram nunca ter visto uma pior. (…) Me era vantajoso, pensando bem, o fato de que eu não fazia idéia do que eles realmente queriam dizer com naufrágio até eu ver tudo com os meus próprios olhos”
10
“os homens me ergueram e me contaram que eu, que não havia podido fazer nada da outra vez, podia agora bombear a água tão bem quanto qualquer outro; no que eu me agitei e me dirigi à bomba, trabalhando sem desdém. (…) Estava tão espantado que como que desmaiei. Como era uma ocasião em que ninguém podia vacilar sob o preço da própria vida, ninguém reparou em mim; mas um homem que chegou à bomba me empurrou para o lado com o pé, e ali me deixou, me imaginando morto”
11
“o capitão seguiu disparando por ajuda; e uma pequena embarcação, que veio até nós com os tiros, lançou um barco. Foi com um supremo esforço que ele conseguiu chegar até nós; mas nos era impossível subir a bordo, ou para o barco se conservar perto da borda do navio, até que os homens, remando desesperadamente, arriscando suas vidas para salvar as nossas, receberam a corda que nossos homens jogaram por sobre a popa com uma bóia na ponta e esticaram com tanta dificuldade, até estar ao alcance. Puxamo-los com vigor rente a nossa popa, e todos conseguimos subir no barco. Mas era em vão para eles ou para nós pensar em conseguir atingir de novo o navio deles (…) Não estávamos muito mais do que um quarto de hora fora do nosso navio até que vimos a embarcação soçobrar. Foi então que entendi pela primeira vez o que é que queria dizer efetivamente um naufrágio marítimo.”
12
“Conseguimos embarcar (…) e assim que chegamos em segurança à terra firme seguimos a pé a Yarmouth, onde, como miseráveis que éramos, fomos tratados com a maior humanidade, tanto pelos magistrados da cidade, que nos designaram bons dormitórios, quanto por mercadores e donos de navios, que nos deram dinheiro suficiente para nos levar a Londres ou Hull ou aonde achássemos melhor.
Se eu tivesse tido a prudência de voltar a Hull, e de lá para casa, teria sido um homem feliz, e meu pai, como na parábola do Nosso Abençoado Salvador, teria mesmo sacrificado um bezerro gordo em minha honra; porque o terem ouvido que o navio em que me encontrava não foi mais visto desde Yarmouth foi muitas semanas antes, e demoraria até que meu pai obtivesse qualquer comprovação de que eu não havia morrido afogado.”
13.0 (original)
“I know not what to call this, nor will I urge that it is a secret overruling decree, that hurries us on to be the instruments of our own destruction, even though it be before us, and that we rush upon it with our eyes open. Certainly, nothing but some such decreed unavoidable misery, which it was impossible for me to escape, could have pushed me forward against the calm reasonings and persuasions of my most retired thoughts, and against two such visible instructions as I had met with in my first attempt.”
13A (versão contextual ou “ousada”)
“nem sei do que chamá-la, nem alego em definitivo que se trate de um decreto invencível e inevitável, incompreensível para nós, meros mortais, essa coisa que nos leva a ser os instrumentos de nossa própria destruição, ainda quando podemos ver esta última distintamente à frente, e que nos defrontemos em vão com o perigo com todas as nossas forças e astúcias. Antes, mediante todos os nossos esforços, apressaríamos o mau desfecho ao invés de detê-lo. Porém, estou quase convencido de que nada senão essa hipótese de uma desgraça previamente decretada, inescapável, poderia explicar minha conduta resolutamente errônea e sem discernimento, quando eu sempre havia sido, até ali, um sujeito tão ponderado e meticuloso. Como se não bastasse, eu ainda fui alertado, recebendo, por assim dizer, sinais explícitos no sentido de que deveria reformar minha conduta, através de duas catástrofes consecutivas, nas duas únicas vezes em que me havia aventurado em alto-mar.”
13B (versão mais literal ou “conservadora”)
“Eu não sei do que chamar isso, nem defenderei que é um mandato soberano secreto, que nos conduz a ser os instrumentos de nossa própria perdição, ainda que esteja diante de nós, e que corramos a isso de olhos abertos. Certamente, nada a não ser uma infelicidade imperativa similar, de que me era impossível fugir, poderia ter me empurrado contra a análise ponderada e as exortações dos meus mais retirados pensamentos, e contra duas instruções tão visíveis como as com que me deparei na minha primeira provação.”
13C (versão-síntese ou “cristã”)
Parece incrível, quase milagroso, eu diria, que ignoremos assim, dessa maneira estúpida, tola e arredia os sinais mais claros e proeminentes da Providência em nossas vidas, o que sempre nos custa muito caro. Em nossa cegueira concorremos a nossa própria queda. Nossa razão, numa avaliação depois dos fatos, depois da poeira baixar, se encontrava indubitavelmente comprometida, mergulhada na insânia. Tudo isso eu sou obrigado a chamar de destino do pecador ou decreto dos céus.
14
“– Talvez tudo isso tenha nos sucedido por sua causa, como Jonas no navio de Társis¹. Diga-me, filho, o que você faz da vida; e com que propósito decidiu viajar por mar?”
¹ Localização citada na Bíblia (Tarshish na versão inglesa) pelo menos em Reis I, Crônicas II, Ezequiel, Salmos e Isaías, além da ocorrência mais famosa, no livro do profeta Jonas (daí a alusão do interlocutor de Crusoe nesta fala admoestadora: ambos, Robinson e Jonah, podem ser considerados descrentes amaldiçoados cujo arrependimento nunca se manifestará tarde demais). E desde que esta cidade aparece em diferentes livros de distintos profetas, referindo-se aparentemente a coordenadas geográficas dessemelhantes, torna-se um problema determiná-la realmente em sua identidade. Especialistas inferem que pode se tratar de Cartago, algum outro entreposto do Mar Vermelho usado pelos Antigos, da Fenícia (atual Líbano e proximidades), ou quem sabe até da Espanha (onde o profeta Jonas teria supostamente desembarcado caso completasse a viagem desastrosa, ponto geográfico que deveria ser bem afastado do Oriente Médio considerando o alcance das navegações antigas). Outros defendem que a locução “de Társis” usada para navios no Antigo Testamento era um epíteto para se referir, além de a embarcações provindas da tal localidade, a qualquer veículo mercante e de grande porte, guiado com muitos remadores ao invés de com velas, já que este porto poderia ter sido tão famoso que ajudou a popularizar a nomenclatura entre todas as nações que praticavam trocas de víveres e gêneros. Um navio de Társis seria, portanto, segundo esse último raciocínio, um tipo de navio enorme que estaríamos seguros de transportar várias riquezas. Salomão teria, por exemplo, uma frota de navios de Társis, mesmo que eles nem passassem pelo local, significando-se com isso que era um monarca opulento.
15
“<Eu não pisaria no mesmo navio que você de novo nem por mil libras.> Essa foi, como eu disse, uma divagação de suas disposições, ainda muito agitadas pela perda da véspera, e já era mais longe do que ele tinha brevê para conduzir as coisas.”
16
“Desde esse dia passei constantemente a observar algumas incongruências e irracionalidades do ser humano normal, especialmente dos jovens – por exemplo, eles nunca têm vergonha de pecar, mas se envergonham de se arrepender; não têm vergonha pela ação pela qual eles seriam acertadamente considerados imbecis, por outro lado têm vergonha do que vem depois, vergonha que só os tornaria homens mais sábios. (…) Uma relutância irresistível continuou adiando a minha decisão de ir para casa; e como passei muito tempo viajando, a lembrança de toda a desgraça foi se dissipando, e com ela também o ímpeto de voltar ao meu lar. Até o ponto de eu praticamente deixar essa idéia de lado, preferindo procurar-me outra viagem.”
17
“O vento soprava do norte-nordeste, o que contrariava meus desejos, porque se soprasse do sul estaria seguro de fazer a costa da Espanha, e de atingir a baía de Cádiz”
18
“Depois de pescarmos por algum tempo, sem conseguir nada – porque mesmo com peixes no gancho eu não os puxava, para que ele não os visse –, eu disse ao mouro, <Isso não vai dar certo; nosso senhor não vai ter nada para a mesa; precisamos pescar além.>”
19
“<Xury, se você for fiel a mim, far-lhe-ei um grande homem; mas se você não pretende cumprir a condição> – isto é, jurar por Maomé e a barba de seu pai – <eu devo jogá-lo no mar também.> O menino sorriu, e falou tão inocentemente que não podia duvidar mais dele, então ele jurou fidelidade a mim, jurou que iria para qualquer canto do mundo comigo”
20
“É impossível descrever os barulhos horrendos, e os gritos insanos, e os uivos que brotaram, fosse na faixa litorânea, fosse na parte interiorana, depois do disparo das armas, coisas que tenho minhas razões para crer que essas criaturas desconheciam até então: só isso já me convenceu de que o melhor era não desembarcar no escuro, sendo que mesmo de dia essa empresa seria arriscadíssima; cair nas mãos de selvagens como esses não teria sido melhor do que se nas garras de leões e tigres”
21
“Como anteriormente já havia passado por estas costas, sabia muito bem que as Ilhas Canárias e as Ilhas de Cabo Verde não distavam do litoral. Mas como estava sem instrumentos para observar a latitude, não me lembrando ou não sabendo com exatidão a latitude dessas ilhas, mal sabia por onde começar a procurá-las, ou quando era o melhor tempo; minha expectativa era, continuando pela costa, chegar às partes onde os ingleses realizavam comércio, podendo assim pedir ajuda.
Segundo os meus cálculos mais confiáveis, o lugar onde estávamos devia ser aquele país que, estando entre os domínios do Imperador do Marrocos e os negros, seguia inabitado e inabitável, exceto por feras selvagens; os negros nunca conseguiram ali se fixar, tendo se dirigido ao sul por medo dos mouros, e os mouros consideraram, por sua vez, essas terras inférteis; e, com certeza, ambos fugiam também do prodigioso número de tigres, leões, leopardos e outras bestas furiosas cujo habitat é ali; destarte, aquela era uma zona apenas para caça, para os mouros, que só a visitavam com exércitos, de 2 a 3 mil homens de uma vez; avançando pela costa, por aproximadamente cem milhas não vimos nada senão um deserto litorâneo, de dia, e não ouvimos nada senão uivos e bramidos terríveis à noite.”
22
“Xury, cujos olhos eram muito mais aptos que os meus, me chama de forma branda e tenta me persuadir de que o melhor a fazer seria tentar o máximo pela costa; <Porque,>, disse ele, <bem ali, olha, fica monstro horripilante, bem do ladinho colina, agora dormindo.>”
23
“<Me mata ele! ele me come numa boca!> – uma bocada, ele queria dizer.”
24
“Foi a nossa caça, mas não servia para comer; e eu estava muito lamentoso por termos perdido três cargas de pólvora atirando no que se tornaria carcaça inutilizável para nós. No entanto, Xury disse que gostaria de comer um pouco; então ele sobe a bordo e me solicita a machadinha. <Para quê, Xury?>, perguntei. <Eu corto fora sua cabeça,> ele respondeu. E contudo, Xury não pôde cortar-lhe a cabeça, se bem que cortou pelo menos uma pata, e a trouxe consigo, e era uma pata monstruosa.
Me peguei pensando, então, que, apesar de tudo, pelo menos a pele desse animal devia acabar nos servindo para alguma coisa; então me resolvi a extrair sua pele, se me fosse possível. Xury e eu logo fomos ao trabalho; ou quase só o Xury, que era muito melhor do que eu nisso”
25
“É impossível expressar o espanto dessas pobres criaturas quando ouvem o fogo de nossas armas: alguns desses aborígenes estavam inclusive prontos para morrer de simples medo, havendo desfalecido no solo como cadáveres enrijecidos, tamanho seu terror; mas quando viram a fera alvejada de fato morta, e afundando n’água, e que eu gesticulei para que avançassem, eles criaram coragem e vieram, e começaram a buscar o corpo da criatura. Eu fui o primeiro a apalpá-la graças à mancha de sangue; com o auxílio de uma corda, que eu amarrei em sua circunferência, fiz os negros puxarem. Vimos que se tratava de um leopardo bastante curioso, todo pintalgado, muito bonito de se olhar; os negros ergueram as mãos de pura admiração, pensando que eu, pelas minhas próprias forças, havia matado o monstro.
As outras criaturas, espantadas pelo brilho da pólvora e o barulho da arma, nadaram em velocidade na contra-mão, até as montanhas de onde tinham vindo; dessa distância, já não podia distingui-las. Descobri que os negros ansiavam por comer a carne da criatura abatida, então logo aprovei o banquete, procurando lisonjeá-los (…) ainda que sem qualquer faca, com um simples pedaço de madeira afiada eles extraíram facilmente sua pele, mais facilmente, aliás, do que eu poderia com uma boa lâmina. Eles me ofereceram um pouco da carne, mas eu a recusei, instando-os a usufruírem cem por cento do meu presente; fiz apenas sinais para a pele, que me interessava; eles ma deram sem qualquer objeção; trouxeram-me, inclusive, muitas outras de suas provisões, algumas incompreensíveis para mim, que eu julguei conveniente aceitar sem restrição, porém. Depois fiz sinais sobre querer água, e lhes repassei algumas jarras vazias, virando-as de cabeça para baixo, significando que queria que mas enchessem. Eles logo chamaram seus amigos, e vieram duas mulheres, trazendo a bordo um grande recipiente feito de barro cozido ao sol, pelo menos supu-lo; enquanto isso, mandei minhas jarras com Xury, que desceu e encheu todas as três. As mulheres estavam tão peladas quanto os homens.”
26
“Ele era um homem caridoso e um justo capitão; ordenou a todos os seus homens que não tocassem em nada meu: depois, alojou tudo como se fosse seu mesmo, e me repassou tudo listado em inventário, exatamente como era, sem se esquecer mesmo dos três potes de barro.”
27
“Tivemos uma excepcional viagem para os Brasis¹, e eu cheguei à Bahia de Todos los Santos, ou Baía de Todos os Santos, cerca de 22 dias depois. E agora que havia sido livrado uma vez mais da mais miserável das condições em vida, devia considerar o que fazer a seguir.
Jamais poderei enaltecer o suficiente o generoso tratamento a mim dispensado pelo capitão português: não só deixou que eu desembarcasse sem pagar um tostão pela viagem, como me deu 20 ducados pela pele de leopardo, e 40 pela de leão, que tinha no meu barco, e fez com que todos os meus bens no navio fossem diligentemente devolvidos a mim; tudo que eu lhe quis vender ele fez questão de comprar, garrafas, duas das minhas armas, e até mesmo um pedaço dum torrão de cera de abelha – pedaço porque eu tinha gastado um tanto do torrão para confeccionar velas”
¹ Robinson sempre se referirá ao Brasil como “The Brazils”, daí a necessidade de manter alguma correspondência com a expressividade do original.
28
“Não estava há muito tempo nos Brasis quando fui recomendado para a casa de um homem bom e honesto, como eu mesmo, que possuía um ingenio, como eles o chamam por lá (i.e., uma monocultura com uma casa de engenho de cana-de-açúcar, plantation). (…) resolvi me tornar eu também um agricultor entre iguais: determinado a isto, isto é, prosperar rapidamente, como vi que era possível pelos relatos de brusca ascensão social desses empreendedores portugueses, que vinham do nada e se tornavam muito ricos, busquei meios de reaver meu patrimônio que estava retido em Londres, a fim de investir no negócio das plantações. Com esse fito, providenciei uma espécie de carta de naturalização, pré-requisito para se possuir terras brasileiras. E comprei tantas terras incultas quantas meu dinheiro inglês permitira. Tracei um plano para minhas plantações e meu estabelecimento, proporcional a meu capital inicialmente investido.”
29
“Esse capital podia ser considerado pequeno, assim como o do meu vizinho, um português de Lisboa de pais ingleses, chamado Wells, sujeito com quem comecei a me entender muito bem. Por dois anos plantamos apenas para nossa subsistência. Mas depois começamos a aumentar a produção, e nossas terras entraram em ordem; no terceiro ano, experimentamos cultivar tabaco, reservando um bom terreno para a cana já na temporada seguinte. Ah, realmente cometi um erro em partir com meu servo Xury!”
30
“Era, realmente, um empreendimento algo alheio a meu gênio, e diretamente contrário à vida que eu usufruíra nesses últimos tempos, ansiada vida aventureira pela qual eu tinha inclusive abandonado a casa de meu pai, desobedecendo todos os seus bons conselhos. Acho até que por alguma profunda ironia estava chegando àquela condição mediana, ou estrato superior da vida humilde, que meu pai previamente tanto recomendara. Tudo isso do outro lado do mundo, quando eu não teria precisado ter me esforçado tanto nem rodado além-mar.”
31
“mas uma existência verdadeiramente solitária, numa ilha cheia de desolação, deveria ser minha sina, eu, que vivi a vida civilizada inteira descontente, sempre comparando minha sorte com a dos meus próximos, e que ao me ver tão sozinho e abandonado só gostaria, enfim, de voltar à condição antiga, tão de repente enfeitada de riquezas e idílios que eu era incapaz de enxergar.”
32
“a primeira coisa que eu fiz foi comprar um escravo negro, mais um criado europeu – i.e., outro além daquele que o capitão me trouxe de Lisboa. No entanto, como a prosperidade mal-administrada tantas vezes nos conduz as nossas maiores adversidades, assim deu-se comigo. Entrei o ano seguinte com grande sucesso no meu negócio: plantei 50 grandes rolos de tabaco em meu terreno, muito mais do que poderia dispor eu mesmo e nas trocas com meus vizinhos; e esses rolos, pesando cada um umas 100 libras (coisa de 40kg), foram muito bem-curados, para aguardar remessa assim que retornasse o navio lisboeta”
33
“Continuasse eu nesse ritmo, teria ocasião de colher os melhores frutos, bem melhores do que meu pai talvez desejasse para mim como condição benfazeja, tranqüila e retirada, sem que ele tivesse deixado de me inculcar, incansavelmente, vários exemplos dos pequenos prazeres de que a <estação intermediária da vida> está abarrotada”
34
“Você deve supor que, tendo vivido praticamente 4 anos nos Brasis, e tendo começado a prosperar acima das expectativas na minha plantation, eu tinha não só aprendido o idioma, mas até amealhado reputação e amizades respeitáveis entre os demais plantadores, bem como entre os mercantes de São Salvador, que era o nome do nosso porto; e que, nas minhas conversações com eles, eu teria uma hora ou outra tocado no assunto do meu par de viagens pelas costas da Guiné: a maneira como se traficava com os negros de lá, e como era fácil auferir muitas riquezas através do escambo de quinquilharias – como colares de contas, brinquedos, facas, tesouras, machados, pedaços de vidro e similares – obtendo não só ouro em pó, grãos da Guiné¹, dentes de elefante, etc., como outros negros, para trabalhar nos Brasis, em grande quantidade.
Eles escutavam os meus discursos sobre esses temas com muita atenção, principalmente no tocante à compra e venda de negros, que ainda não era um tráfico dos mais comuns daqueles tempos, tanto que seu monopólio era exercido por assientos, isto é, corporações pessoalmente designadas pelos reis de Espanha e Portugal, e quase todos os escravos obtidos ficavam como que estocados pelo poder público; poucos negros vinham para cá para serem comprados, e isso a um valor exorbitante.”
¹ Cardamomos ou ainda grãos-do-paraíso.
35
“numa palavra, a questão era se eu aceitaria ir como comissário no navio, para gerenciar o comércio no litoral da Guiné; como benesse, me ofereceram uma parte igual na divisão dos negros, sem a necessidade de desembolsar qualquer soma.
Seria uma boa proposta, devo dizer, caso fosse destinada a qualquer homem sem latifúndios nos Brasis, ou pelo menos a quem cuidava de terras pequenas e sem perspectivas de melhora a curto prazo; para mim, já estabelecido, que só tinha mesmo de repetir o que tinha feito até ali por mais 3 ou 4 anos para ficar rico; e considerando que minha remessa de tabacos me traria ainda mais de 3 a 4 mil libras esterlinas, na pior das hipóteses – para mim, pensar em tal aventura seria a coisa mais precipitada que alguém na minha posição pudesse conceber.
Mas eu, que nasci para ser o meu próprio destruidor, não pude resistir à oferta; não mais do que quando cedi aos meus primeiros impulsos nômades, fugindo das asas de meu pai. Numa palavra, encorajei os homens, disse que aceitava a proposta de coração, desde que vigiassem minhas possessões nesse ínterim, agindo conforme algumas ordenações genéricas de minha parte. Estabelecemos tudo em um contrato”
36
“Subi a bordo numa data maligna, Primeiro de Setembro de 1659, sendo este o aniversário de 8 anos da minha saída da casa dos meus pais em Hull, bancando o rebelde, em relação à autoridade parental, e o tolo, em relação a meus próprios interesses.
Nosso navio tinha cerca de 120 toneladas de carga, levava 6 armas e 14 homens, além do capitão, seu contínuo e eu mesmo. Não havia, dentre essa carga, grande volume de coisas pessoais; todo o espaço fôra aproveitado para o escambo com os negros, incluindo artesanatos, vidros, conchas e coisas do gênero, mimos que os agradam em especial, como espelhos, facas, tesouras, machadinhas, etc.”
37
“Desfrutávamos de tempo favorável, apesar de muito quente, enquanto navegávamos nossa própria costa, até atingirmos a altura do Cabo Santo Agostinho; daí, perdendo contato com a faixa litorânea, seguimos rente como se fôssemos desembarcar na ilha de Fernando de Noronha, mantendo o curso norte-nordeste, com a diferença de que contornamos a ilha pelo oeste. Nesse trajeto atravessamos a linha do Equador em 12 dias, e, conforme o último registro de navegação, nos encontrávamos a 7°22’ de latitude norte, quando um violento tornado, ou furacão, nos desorientou totalmente. Os ventos começaram de sudeste, sentido noroeste, apresentando leves e contínuas mudanças de direção, até se estabelecer sentido nordeste; neste ponto, explodiram em terríveis rajadas, que nos impediram por 12 dias inteiros de mudar de direção; só podíamos seguir viagem empurrados para o que o destino e a fúria da natureza nos reservasse; nem preciso dizer que durante cada momento desses 12 dias eu esperava ser engolido pelo mar; de fato, ninguém no navio estava certo de sair-se com vida da empreitada.”
38
“o capitão descobriu estarmos próximos à costa da Guiana, isto é, os confins setentrionais do Brasil¹, além do rio Amazonas, em direção ao rio Orinoco, comumente chamado o Grande Rio”
¹ Aqui o autor Defoe realmente escreve Brazil, no singular. Seria the Brazils então mero maneirismo?
39
“concluímos não haver país habitado para emergências antes de chegarmos ao círculo das ilhas do Caribe, então resolvemos rumar a Barbados, o que levaria uns 15 dias e não seria complicado, em casos normais, contanto que evitássemos as perigosas correntes da Baía ou Golfo do México.”
40
“Com esse intuito, alteramos nosso curso, virando oeste-noroeste, a fim de alcançar algumas das ilhas britânicas, que concebíamos como de águas mais calmas. Contudo, nossa viagem era determinada por outros desígnios. Na latitude de 12°18’, uma segunda tempestade nos atingiu, deslocando-nos para oeste com a mesma impetuosidade da primeira. Isso nos subtraiu de tal forma de qualquer possibilidade de contato humano que, se fosse para nos salvarmos das tormentas marítimas, estaríamos sob perigo muito maior de ser devorados por selvagens do que de voltar à civilização.”
41
“Não é fácil para ninguém que nunca esteve em situação parecida descrever ou conceber sequer a consternação da tripulação. Não sabíamos mais onde estávamos, ou para onde a tempestade nos dirigia – se para alguma ilha ou o continente, se para algum lugar ermo ou habitado.”
42
“embora a tempestade tenha cedido consideravelmente, o mar continuava temerosamente alto comparado à linha da praia, e seria corretamente chamado nesse momento den wild zee, como dizem os holandeses durante as tempestades.”
43
“apressávamos nossa destruição com nossas próprias mãos, puxando o navio conforme podíamos para terra firme.”
44
“à medida que chegávamos mais perto da costa, o panorama parecia mais e mais assustador, pior do que o mar.”
45
“A onda que veio me afundou bem uns 5 ou 10 metros”
46
“e duas vezes mais fui erguido pelas ondas e levado em direção à praia, como antes, uma praia bem plana.”
47
“Finalmente estava em terra e a salvo da maré, então comecei a olhar para cima e agradecer a Deus pela minha vida, quando há alguns minutos eu não podia esperar mais por nenhuma salvação.”
48
“Até alegrias repentinas, como as desgraças, confundem, a princípio.”
49
“quanto aos homens, jamais os vi de novo, nem sinal deles, a não ser três de seus chapéus, uma boina, e dois sapatos que não eram do mesmo par.”
50
“Eu não tinha nada comigo a não ser uma faca, um cachimbo e um pouco de tabaco numa caixa. Essas eram todas as minhas provisões; e isso me transportou a tamanhas angústias que por alguns instantes corri pela praia feito um louco.”
51
“Descobri que todos os mantimentos do navio estavam secos e intocados pela água, e passando pela pior das fomes, fui ao armazém de pão e enchi meus bolsos de biscoito (…) também achei algum rum na cabine-mor do qual tomei uns bons goles, coisa de que estava precisado, haja vista a determinação que eu tinha de possuir para enfrentar o que me aguardava à frente.”
52
“Ainda ignorava onde eu pudesse estar; se num continente ou numa ilha; se em terras habitadas ou não; se em meio a feras selvagens ou não.”
53
“Sim, eu me encontrava numa ilha envolta pelo mar de todos os lados: nenhuma terra no horizonte a não ser algumas rochas, a considerável distância; e outras duas ilhas, menores que esta, uns 15km a oeste.
Descobri, ainda, que a ilha era um deserto, e, como tive boas razões para acreditar, inabitado por seres humanos; nem de animais selvagens eu tive indícios. Se bem que vi muitas aves, mas não conhecia suas espécies; e quando as matava não sabia dizer se eram comestíveis. Enquanto voltava pelo caminho que tracei a fim de circundar a ilha, atirei num pássaro grande que vi pousado na copa de uma árvore, nos limiares de uma espessa floresta. Acho que foi a primeira arma disparada por ali desde a criação do mundo. Logo que atirei, de todas as imediações da vegetação irromperam inumeráveis pássaros, dos mais díspares gêneros, criando uma orquestra de grasnados e lamentos confusos. Eram muitos os cantos e as notas, cada um diferente do vizinho, mas nenhum deles eu tinha antes ouvido. Quanto ao animal que matei, tomei-o por uma espécie de gavião, pela cor e pelo bico, mas ele tinha garras muito pequenas para um. Infelizmente sua carne não passava de carniça.”
54
“Comecei a pensar na possibilidade de pegar ainda outras coisas que estavam estocadas no navio, particularmente o cordame e as velas; então me resolvi a empreender uma nova excursão até os destroços, se é que seria possível.”
55
“Alarguei um sorriso sem testemunhas à vista daquele dinheiro: <Ô, merda!>, bradei alto, <pra que você me serve agora? Não vales nada – não, nem o esforço de me curvar e apanhar-te do chão! Uma dessas facas já vale todas essas moedas amontoadas; não tenho utilidade para vós – ficai aí, e ide para as profundas como criatura cuja vida não vale a pena ser salva.> No entanto, após reconsiderações, eu levei o dinheiro comigo; e embrulhando tudo numa lona, comecei a pensar em elaborar mais uma jangada; porém, no meio desses preparativos, assisti o céu enegrecendo, e senti o vento começar a soprar; num quarto de hora estourou o vendaval.”
56
“A primeira vez que atirei em meio a essas criaturas, matei uma cabra, que levava uma cabritinha consigo, na lactação, o que me muito me flagelou; quando a mãe tombou, a criança permaneceu estática a seu lado, até eu vir e pegá-la; assim que decidi carregar o cadáver da mais velha nos ombros, a cabritinha me seguiu até a boca de meu esconderijo; não podia deixá-la a esmo lá fora, então a trouxe para dentro, na esperança de poder domesticá-la; no entanto, a cabrita nunca comeu; fui forçado a matá-la e comê-la. Essas duas carnes me sustentaram por um bom período, porque eu não estava comendo muito, procurando conservar meus mantimentos, especialmente o pão, o máximo possível.”
57
“Ora, você se encontra numa condição desolada, é a pura verdade; mas, faça o favor de lembrar: onde estão, agora, todos os outros companheiros? Não eram onze no barco? Onde estão os 10? Por que eles não foram salvos, e você, apenas, <se perdeu> dos demais? Por que só você escapou? Quem teve o melhor desfecho?”
58
“<Particularmente,> dizia eu, alto (embora para mim mesmo), <o que eu poderia ter feito sem uma arma, sem munição, sem nenhuma ferramenta para construir qualquer coisa, ou com o que trabalhar, sem roupas, forragem para um leito, uma tenda, ou qualquer tipo de lona?>”
59
“Era, segundo os meus cálculos, 30 de setembro, quando, da forma como eu relatei mais acima, pisei pela primeira vez nessa ilha horrenda (…) eu considerava minha latitude presente como 9°22” norte.
Depois dos primeiros 10 ou 12 dias, me veio à tona a probabilidade de que eu perderia a noção do tempo e dos dias por pura falta de livros, papéis, caneta e tinta, enfim, e acabaria deixando de observar até mesmo os dias do Sabá; para preveni-lo, comecei a cortar com uma faca numa grande trave, em letras maiúsculas – e, transformando-a numa cruz gigante, cravei-a no lugar onde primeiro pisei –, <APORTEI NESTA ILHA EM 30 DE SETEMBRO DE 1659.>
Na lateral dessa trave retangular eu cortava a cada dia uma lasca vertical, e cada sétima lasca era um risco horizontal que cortava as 6 lascas anteriores, demarcando a conclusão de mais uma semana – todo primeiro dia do mês eu também riscava todas as lascas do mês anterior; e assim eu fui mantendo meu rude calendário, para reconhecer as semanas, meses e anos.”
60
“Encontrei três bíblias muito bem-conservadas dentre meus suprimentos com coisas da velha Inglaterra, e que tinha sem muito porquê embrulhado junto com outras coisas mais práticas para minha longa viagem; havia ainda alguns livros portugueses; dentre eles, dois ou três livros de reza católicos¹; e muitos mais, que eu fiz questão de estocar diligentemente em minha caverna. Não devo esquecer de mencionar que tínhamos no navio um cachorro e dois gatos, sobre cuja eminente história devo tecer observações em tempo apropriado; isso porque levei ambos os gatos comigo; quanto ao cão, ele pulou do navio por si mesmo, e nadou até a praia, me achando, no dia em que recuperei minhas primeiras provisões do navio, e foi meu fiel escudeiro por anos a fio; eu não tinha necessidade de nada que ele me trouxesse, nem de sua diuturna companhia; eu só queria que ele um dia conversasse comigo, mas esse dia jamais chegaria.Encontrei penas, tinta e papel em meio aos destroços aproveitáveis do navio, e os utilizei ao máximo; enquanto sobrava alguma tinta, mantive registros muito exatos, mas depois não tive mais como, porque com a matéria-prima da ilha me era impossível produzir mais tinta.
E isso me fez ver que eu desejava muitas coisas não obstante as tantas coisas muito preciosas que por milagre pude reunir comigo nesta desolação; dessas coisas, a tinta era uma das que mais me faziam falta; como também uma pá, uma picareta, uma enxada, qualquer coisa que me ajudasse a cavar a terra; agulhas, alfinetes, linha; quanto ao linho, logo senti essa carestia também.”
¹ Popish no original
61
“Que necessidade tinha eu de lamentar o tédio das minhas tarefas mais demoradas, uma vez que eu tinha todo o tempo do mundo para realizá-las com toda a calma?”
62
“Eu fiz questão de deixar um relato da minha vida de náufrago sobrevivente por escrito, não tanto para legar minha experiência solitária à posteridade – principalmente diante da perspectiva de não ter herdeiro algum –, mas como que para me libertar dos pensamentos repetidos, que eu ruminava e me afligiam”
63
“eu contrapus assaz imparcialmente, como bom e simultâneo devedor e credor, os confortos de que eu usufruía e as misérias a que estava sujeito, dessa forma — [segue uma tabela de duas colunas, intituladas “Mal” e “Bem”, numa infinidade de linhas, das quais eu transcrevo apenas duas]:
Mal.
Bem.
…
…
Não tenho roupas com que me agasalhar.
Se bem que eu me encontro no clima quente, onde, se tivesse roupas, mal poderia vesti-las.
…
…
Não tenho uma alma penada com quem conversar ou espairecer.
Se bem que Deus enviou o navio, maravilhosamente, para perto o bastante da costa, para que eu pudesse aproveitar o maior número de suprimentos necessários para suster minha nova vida, suprir algumas de minhas carências mais profundas e me manter forte e revigorado tanto quanto meu corpo me permita, pelo tempo que for preciso.
[Um verdadeiro Homo oeconomicus!]
64
“Comecei a me dedicar, então, a alguns expedientes que julguei necessários neste momento, conforme a sensação de luxo na minha ilha ia aumentando, satisfeitas as necessidades mais prementes. Eu queria muito uma cadeira e uma mesa; sem elas não podia desfrutar de alguns poucos dos confortos conhecidos que ainda me estariam acessíveis; não poderia escrever nem comer, isto é, como um ser civilizado, e com o prazer que se demanda de um homem. Desta feita, fui ao trabalho.”
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“todo homem pode ser, com a ajuda do tempo, mestre de qualquer arte mecânica.”
66
“Foi nessa época que comecei de fato a manter um diário completo dos meus afazeres; antes disso, nos primeiros instantes, estive sempre em correrias e aflições, então a fadiga física, ademais da minha confusão mental, não me permitiam nenhuma ocupação saudável e regular que fosse considerada supérflua. Na verdade teriam sido edições deploráveis do meu pequeno jornal da ilha, pois acabaria descrevendo meus tormentos de consciência, o que não teria fim produtivo algum. Um exemplo hipotético: <dia 30. – Após alcançar a areia, me salvando de um afogamento, ao invés de estar grato a Deus pela minha salvação, após, primeiro, vomitar, de tanta água salgada que havia no meu estômago, recuperando-me o mais que podia, corri pela beira-mar crispando minhas mãos e batendo na minha cabeça e no meu rosto…>”
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“30 de Setembro, 1659. – Eu, o mísero e desgraçado Robinson Crusoe, tendo soçobrado em meio a uma terrível tempestade, acabei atingindo essa ilha desafortunada e deprimente, que eu batizei de <A Ilha do Desespero>”
68
“1º de Novembro. – Fixei minha tenda debaixo duma rocha, e passei minha primeira noite ali; fi-la o mais larga possível, com estacas que sustentassem uma maca.”
69
“4 de Novembro. – Essa manhã comecei a organizar meus turnos de trabalho, minha ronda diária armado, minha sesta, o período para recreação – p.ex., toda manhã eu caminhava com minha espingarda por 2 ou 3 horas, se não chovesse; em seguida trabalhava em algo até as onze; comia o que tinha à disposição; das 12 às 2 necessitava cochilar, o clima sendo tão quente; no entardecer eu voltava ao trabalho manual. Meu período de labuta nesses dois dias foi inteiramente gasto construindo minha mesa, já que eu ainda era um marceneiro bem desajeitado, embora o tempo e a necessidade me fizessem, dentro em pouco, um mecânico nato e completo, pelo menos tanto quanto a natureza poderia fazer de qualquer um.
5 de Novembro. – Esse dia eu passeei com meu rifle e meu cão, tendo matado um gato selvagem; sua pele era muito macia, mas a carne era inútil; como se há de observar, eu extraía e preservava as peles de todas as criaturas que eu matava.”
70
“7 de Novembro. – O tempo começou a melhorar. Dias 7, 8, 9, 10, e parte ainda do dia 12 (porque o 11 caiu num domingo), eu passei fazendo uma cadeira, e com um supremo esforço consegui dar-lhe um formato tolerável
(…)
Nota. – Logo eu negligenciaria meu repouso aos domingos; omitindo sua marcação na trave de que falei, acabei esquecendo que dia do mês correspondia a que dia da semana.”
71
“18 de Novembro. – No dia seguinte, explorando o bosque, achei uma árvore daquele tipo de madeira, ou bem parecido, que nos Brasis chamam de árvore-de-ferro, tamanha sua resistência.”
72
“10 de Dezembro. – Já dava minha caverna ou catacumba por terminada; quando de repente (parece que escavei-a muito ampla) uma grande quantidade de terra desmoronou de um dos lados; foi o bastante para me atemorizar, e com razão, porque se eu estivesse ali debaixo naquele instante jamais teria necessitado de um coveiro.”
73
“27 de Dezembro. – Matei um cabrito, e incapacitei outro, então o capturei e o trouxe para casa amarrado numa corda; imobilizei sua perna quebrada e a amarrei numa tala.
Nota bene – Fui tão bom veterinário que o cabrito sobreviveu, e a perna cresceu vigorosa como nova; porém, involuntariamente, por ter sido o enfermeiro dessa cabra por tanto tempo, ela ficou domesticada, comendo sempre da relva perto da minha porta, de modo que ela não quis ir embora depois disso. Foi a primeira vez que considerei criar um rebanho, o que manteria meu sustento uma vez que minha pólvora tivesse se esgotado.”
74
“1º de Janeiro. – (…) Explorando os vales que estão além da parte central da ilha até mais tarde, deparei-me com múltiplas cabras, muito embora um tanto tímidas e arredias; tive a idéia de trazer meu cachorro para ver o que ele conseguiria caçar.
75
2 de Janeiro. – No dia seguinte, como planejado, voltei com meu cão, e mandei-o para cima das cabras, mas errei meus cálculos: todas se juntaram para encarar meu mascote, e ele se deu conta do perigo, evitando se aproximar.”
76
“Encontrei uma espécie de pombo selvagem, que construía seu ninho diferente dos pombos-torcazes¹, que nidificam no topo das árvores, mas como pombos domésticos², que fazem seu lar no topo de penhascos, geralmente em fendas rochosas³. Apanhando alguns, me dediquei a domesticá-los; contudo, quando cresceram logo revoaram, o que, julguei, devia ter sido por falta de comida, porque raramente tinha com o que alimentá-los; ainda assim, continuei encontrando seus ninhos, e pegando os filhotes desses primeiros pombos, que tinham uma carne deliciosa.”
¹ Espécie européia
² A espécie que nos é familiar
³ Daí a predileção dos pombos urbanos por se aninharem no topo de edifícios, em sacadas e parapeitos, seu ponto preferencial instintivamente.
77
“Àquela altura eu clamava por velas; assim que escurecia, mais ou menos às 7, era obrigado a ir deitar. Lembrei-me então do torrão de cera com que produzi velas em minhas aventuras africanas; só que eu não tinha nenhuma cera!”
78
“após testemunhar vários pés-de-cevada em pleno crescimento, nesse clima absolutamente impróprio para grãos germinarem, sem saber a causa do milagre, quedei-me estupefato, e comecei a acreditar que Deus interveio no caso; e que sua ação benévola foi tão dirigida a minha sobrevivência neste lugar desolado quanto isolado do mundo eu me encontrava.” “Mas devo confessar que minha gratidão devota à Providência divina começou a definhar, igualmente, assim que me dei conta de que isso não passava de um fato lógico, quando me lembrei de que, certa vez, alimentei galinhas naquele mesmo sítio com sementes que havia trazido da embarcação”
79
“conservei cuidadosamente as folhas dessas espigas, que pode-se ter certeza de que estavam na sua estação (mais ou menos fim de junho); estocando cada grão, me decidi a replantá-los, esperando tê-los em quantidade o bastante para me fornecer pão. Mas não foi antes do quarto ano que eu pude me permitir usufruir dessa colheita, e ainda assim modicamente, como farei questão de detalhar mais à frente; perdi tudo na primeira temporada por ignorar a época adequada da semeadura; eu fiz o plantio logo antes da estação seca, o que matou minha safra desde sua pré-concepção, salvo raríssimas plantas”
80
“fui ao meu pequeno armazém e traguei um pouco de rum; e que, aliás, desde que cheguei à ilha procurei fazer bem frugalmente, sabendo que um dia minha escassa provisão de destilados poderia acabar.”
81
“4 de Maio. – Depois de uma jornada inteira de pescaria, não conseguindo nenhum peixe que eu ousasse comer, já na última tentativa de obter um almoço, acabei fisgando um polpudo e tenro golfinho. Eu utilizava uma linha de cânhamo, mas não dispunha de anzol; o que não me impedia de às vezes voltar para casa de mãos cheias. Antes de proceder à refeição eu deixava os peixes ao relento, secando ao sol.”
82
“16 de Junho. – Na descida para a praia encontrei uma tartaruga, ou cágado, grande. Foi a primeira vez que vi esse animal na ilha; depois eu descobriria que foi por puro azar, porque me aventurando pelo outro lado da ilha mais tarde chegaria à conclusão de que era fácil obtê-las às centenas.
17 de Junho. – Passei o dia cozinhando a tartaruga. Encontrei dentro dela o equivalente a umas 5 dúzias de ovos; a carne de tartaruga era a refeição mais deliciosa que já havia provado na vida, talvez porque passei tantos meses à custa tão-só de carne de bode e aves.”
83
“21 de Junho. – Estou muito doente; e muito apreensivo com minha condição – sozinho dessa forma. Rezei pela primeira vez desde a tempestade em Hull, mas essa reza deve ter parecido mais um delírio, tamanha minha desorientação mental.
22 de Junho. – Um pouco melhor; mas com muito medo do que pode me acontecer.
23 de Junho. – Piorei novamente; febre e calafrios, e também uma dor-de-cabeça violenta.
24 de Junho. – Muito melhor.
25 de Junho. – Febre muito violenta; a crise durou umas 7h; sentindo frio e calor alternadamente, cheio de suor frio.
26 de Junho. – Melhor; sem mais carne, saí armado, mas me achei muito fraco no meio do caminho. Mesmo assim, matei uma cabra, trazendo-a para a caverna com a maior dificuldade. Comi um pouco dela assada; preferiria tê-la cozido para comer como sopa, mas eu não tinha nenhuma panela.
27 de Junho. – A febre regressou tão violenta que me contorci na cama o dia inteiro, sem comer nem beber. Estava prestes a morrer de sede; muito debilitado, mal poderia me suster de pé, muito menos sair e procurar água. Rezei de novo, sentindo tonteira e confusão quase sempre; e quando ela me deixava um pouco, minha lucidez era a do ignorante, que não tem idéia do que pedir; por fim, gritei, <Senhor, olhe por mim! Tenha piedade de mim! Misericórdia, Senhor!> Acredito que não saí desse transe por 2 ou 3h; até que, baixando a febre, adormeci, para acordar só à noite. Despertei muito mais disposto, mas ainda fraco e sedento. Sem água na caverna, não me atrevi a sair do lugar e esperei o sono vir novamente. Nesse segundo sono do dia tive esse horrível pesadelo: estava sentado no chão, do lado de fora do meu abrigo, no mesmo lugar onde fiquei logo que começou uma forte chuva, após aquele desmoronamento parcial do meu teto; e dali eu observei um homem descendo de uma grande nuvem negra, circundado pelas brilhantes chamas do fogo, iluminando tudo abaixo de si. Aliás, minto: ele era a própria luz, ele emanava luz, radioso, a ponto de me doer a vista fitá-lo; não bastasse, sua fisionomia era severa, indescritivelmente severa. (…) Assim que ele pisou em terra (ele vinha flutuando em direção ao solo lentamente), aproximou-se de mim sem hesitar, de posse de um longo bastão ou qualquer arma do tipo, com a visível intenção de me matar (…) <Depois de tudo isso, não estás arrependido, então vais morrer!> (…) Ninguém que ler esse relato deve esperar que eu seja capaz de descrever as angústias de minha alma durante essa terrível visão. Isto é, por mais que tivesse sido apenas um sonho, era sempre com a própria realidade que eu sonhava. Quando eu despertei não parecia minimamente liberto daquela forte impressão; acho mesmo que demorei vários segundos para me dar conta de que tinha sido tudo imaginário.
Ai de mim! Até ali, não tinha nenhum conceito da divindade. O pouco que me foi transmitido pela educação paterna foi simplesmente desperdiçado graças a uma longa série de oito anos de ininterruptas perversidades marítimas”
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“Todos os acontecimentos anteriores da minha história fazem mais críveis as desgraças que ainda preciso relatar. Porque o que virá na seqüência é decerto mais miserável, e tinha de sê-lo, para me fazer perceber que havia a mão de Deus nisso, e que tudo isso era a punição devida pelo meu pecado passado – meu comportamento rebelde para com meu pai – ou meus pecados presentes, abundantes – ou a justa recompensa pela trajetória da minha existência maldita como um todo.”
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“Quando fui salvo e resgatado em alto-mar pelo capitão português, bem-empregado, e tratado de forma tão honorável e justa, para não dizer caritativa, me parece que não fui grato internamente por isso. Depois, de novo, quando naufraguei, me arruinei, e quase me afoguei antes de chegar a esta ilha, eu ainda me encontrava tão longe quanto antes de qualquer remorso (…) Eu apenas me repetia com freqüência que eu era um cachorro desgraçado, nascido para a miséria.”
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“Essa é a condição compartilhada pelos marinheiros, a da euforia subsecutiva à sobrevivência ao naufrágio, a do esquecimento de tudo, como se nunca tivesse acontecido, após a primeira tigela de ponche”
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“Mesmo o terremoto, talvez a mais terrível das tragédias naturais, a que mais faz pressentirmos o Poder invisível que dirige todas as circunstâncias, não basta para inculcar na gente essa reverência e fixar em nossa mente as fortes impressões do incidente.”
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“quando comecei a estar doente, e uma visão ociosa e ponderada das misérias da morte pôde se formar em minha mente; quando minha alma começou a afundar sob o peso do meu forte destempero, e meu corpo estava já exausto pela violência da febre; a consciência, minha consciência dormente por tanto tempo, decidiu acordar, e comecei a reprovar a mim mesmo e ao meu passado, em que eu, com bastante evidência, com uma insolência sobrenatural, provoquei a justiça divina, consecutivamente; os primeiros golpes foram terríveis e imprevisíveis, mas dada a insistência com que eu me obstinava na minha cegueira, Deus, que não falha, promoveu mais uma vez seu julgamento.”
89
“Se eu me perguntar: por que não fui aniquilado num desses incidentes? Por que não se afogou você, seu idiota, em Yarmouth Roads; nem foi assassinado na luta de quando o navio foi tomado por piratas de Salé; devorado pelas bestas selvagens na costa da África; ou por que não se afogou aqui, quando toda a tripulação pereceu menos eu?”
90
“me ocorreu ao pensamento que os brasileiros não atribuem a seu clima, mas a seu tabaco todos os destemperos, e eu tinha um rolo de tabaco num dos baús, quase seco, e alguns que estavam verdes, ainda úmidos.
Eu, pela interferência de Deus, sem dúvida, achei as coisas certas; é, nesse baú eu encontrei a solução para dois problemas: o da alma e o do corpo. Abri-o e encontrei o que eu queria, o tabaco; e vendo os poucos livros que tinha no navio, ali ao lado, e salvos, eu peguei uma das Bíblias de que já tinha comentado. Sem a calma e a disposição necessárias, não havia sequer aberto esse livro até aquele mesmo dia. Pois então, eu deixei o livro e o tabaco para mim sobre a mesa. Em meu despropósito, não saberia como usar aquele tabaco.”
91
“Comecei a repetir, como as crianças de Israel quando lhes foi prometida carne que comer, <Pode Deus colocar uma mesa no deserto?> então eu comecei a dizer, <Pode Deus Ele mesmo me libertar deste lugar?>”
92
“decerto perdi um dia no meu cômputo, e nunca soube quando.”
93
“4 de Julho. – De manhã apanhei a Bíblia; e começando pelo Novo Testamento, empreendi uma leitura a sério, e me impus a obrigação de ler por um bocado todas as manhãs e também todas as noites; procurando não considerar o número de capítulos, mas com o fito de ir até onde meus pensamentos me levassem. Não muito tempo passou nesse trabalho até que eu achei meu coração muito mais profunda e sinceramente afetado pelo meu passado reprovável.”
94
“Cheguei a estas palavras: <Ele é enaltecido um Príncipe e um Salvador, concede o arrependimento e o perdão.>¹ Deixei cair a Bíblia; e com meu coração e minhas mãos erguidas aos céus, numa espécie de transe de contentamento, gritei com toda a força, <Jesus, tu filho de Davi!…> Essa foi a primeira vez que pude dizer, no sentido verdadeiro das palavras, que rezei em toda a minha vida; agora eu rezava com a consciência do meu estado”
¹ Atos 5:31, com omissões
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“é até difícil imaginar quão afundado eu estava, e a que debilidade eu estava reduzido.”
96
“Tive freqüentes convulsões em meus nervos e em meus membros por algum tempo. Aprendi com isso algo em particular, que sair na estação da chuva era a coisa mais perniciosa para a minha saúde que podia haver”
97
“Foi em 15 de Julho que iniciei uma investigação mais pormenorizada da ilha.”
98
“Encontrei muitos pés-de-cana, silvestres, imperfeitos para o cultivo.”
99
“eu observei tão escassamente enquanto estava nos Brasis que pouco sabia dessas plantas no campo; pouco, ao menos, para quem pretendia tirar algum proveito em meio à calamidade.”
100
“As vinhas se espalharam por sobre as árvores, e os cachos de uva estavam agora em seu acme, maduros e suculentos. Essa foi uma descoberta e tanto, que me deixou extremamente contente; mas fui alertado, pela minha experiência, a desfrutar com moderação deles; considerando que quando estava no litoral da Barbária¹, comer uvas matou vários dos nossos britânicos, escravos então, ocasionando-lhes febres e constipações. Mas encontrei uma bela utilidade para essas uvas; antes de consumi-las, deveria curá-las ou secá-las ao sol, e conservá-las como uvas secas ou passas são conservadas, pelo que julguei que ficariam, e de fato ficaram, apetitosas e saudáveis para a ingestão, justamente quando estivéssemos fora da estação das uvas.
Passei a noite ali, sem voltar a minha habitação; foi esta a primeira vez, desde que desembarquei na ilha, que pernoitei fora.”
¹ Norte da África
101
“Encontrei cacaueiros em abundância, além de limão, laranja e citronelas; nenhum pé de gêneros com que eu estivesse habituado. Podia-se ver que as árvores davam poucos frutos. Os limões verdes que tive a chance de experimentar não só eram uma delícia como muito nutritivos; misturei seu suco com água, o que fez da substância ainda mais aprazível, muito refrescante. Eu já tinha provisões o bastante para regressar à caverna; e eu estava resolvido a manter também um estoque de uvas, citronelas, limões… Assim eu chegaria preparado à estação das chuvas, da qual eu sabia estar na véspera.”
102
“Fiquei surpreso ao me deparar com minha pilha de uvas, tão suculentas quando as havia extraído, desfigurada, com frutos espalhados pelo chão de forma irregular, muitos deles já devorados ou esbagaçados. Minha primeira conclusão foi: a ilha possui criaturas selvagens, as quais eu ignorava”
103
“Enquanto regressava à moradia principal após essa jornada, contemplava o vale, frutífero, o ar prazenteiro do panorama, as correntes de água doce mais à mão, os bosques circundantes, cheios de víveres, e que facilitavam o abrigo às tempestades: em suma, me dei conta, de súbito, que o lugar em que resolvera fixar minha primeira morada foi simplesmente o pior daquele país.”
104
“quando pensei melhor sobre o assunto, achei que por outro lado eu estava bem mais perto do litoral naquela habitação mais antiga, e esse tipo de vantagem não podia ser desprezado”
105
“e embora em reconsiderações tenha me resolvido a ficar no mesmo lugar, construí-me uma espécie de caramanchão, circundando-o a certa distância por uma cerca considerável de vegetação, de duas camadas, tão alta quanto eu mesmo conseguiria atravessar, bem compacta e espessa; e nele eu poderia ficar seguro, por até duas ou três noites com suprimentos, sem sair do lugar”
106
“deste dia em diante – 14 de Agosto –, choveu quase que todo dia até meados de Outubro; e às vezes tão violentamente que não podia me aventurar fora da caverna dias a fio.
Durante a estação, surpreendi-me com o crescimento de minha família, até porque logo no começo das chuvas perdi um membro, uma das minhas duas gatas domésticas trazidas no navio (ela fugira ou morrera, e seu cadáver não pudera ser encontrado, ou assim eu pensava, até que ela voltaria ao lar no fim de Agosto com três filhotes). Isso me pareceu sobremaneira estranho já que a única espécie de gatos que eu pude encontrar vivendo na ilha era selvagem, incluindo aquele exemplar que abati com minha arma no último novembro; e para mim seria impossível a reprodução entre esses gatos selvagens e minhas felinas. Os gatos (ou qualquer coisa que fossem) da ilha eram bem diferentes do gênero europeu com que estamos habituados. Quando minha gata apareceu com crias, ter cruzado com algum destes machos nativos parecia a única explicação provável; mas os filhotes não aparentavam ser híbridos ou mestiços; eram gatos europeus por inteiro. Eu estava perplexo: só havia dois gatos-fêmeas de linhagem européia na ilha – como explicar esta propagação da raça? Seja como for, continuando minha história, desses três primeiros gatos eu vim, depois, a ficar tão empesteado de gatos nos meus domínios que tive que matar vários deles, como se fossem vermes ou bestas selvagens; e os que sobraram ainda tive de enxotar para mais longe.”
107
“minha comida era assim administrada: comia uma diversidade de cereais no café; como almoço, um pedaço de carne de cabra, ou de tartaruga, grelhada – porque, para minha infelicidade, eu não dispunha de qualquer recipiente para preparar nenhum ensopado; e dois ou três ovos de tartaruga de jantar.”
108
“30 de Setembro. – Triste dia do meu primeiro aniversário nesta ilha. Ou pelo menos a contagem dos riscos na trave agora chegava a 365 dias.
(…)
Durante todo esse período não observei o Sabá; no princípio, porque não tinha qualquer senso de religião em minha mente, mas depois porque tinha perdido os meios de distinguir entre os dias da semana, já que confundi os riscos do poste com o passar do tempo, errando na contagem, ou omitindo alguns dias, por puro esquecimento; mas o fato é que eu chegava a meu segundo ano na minha nova casa, aproximadamente. E, decidindo refundar o calendário, estabeleci que a cada sétimo dia desde este dia de aniversário eu comemoraria o Sabá. Pouco tempo depois, a tinta começou a faltar, então eu me contentava agora com registros os mais sucintos; abandonei a forma de memorandos diários e detalhados acerca de meus progressos na ilha.”
109
“Metade de abril, maio, junho e julho inteiros e ainda a metade de agosto – estação seca, época do ano em que o sol está para o norte da linha do Equador.
A outra metade de agosto, setembro e a primeira metade de outubro – estação chuvosa, quando o sol mais se esconde.
A segunda metade de outubro, novembro, dezembro, janeiro e a primeira metade de fevereiro – secura, o sol estando mais para o hemisfério sul.”
110
“Tentei de várias formas me produzir uma cesta. No entanto, todos os galhos que eu apanhava para a tarefa se provavam tão quebradiços que era tudo em vão. De toda forma, foi uma grande vantagem para mim que quando criança eu passasse um bom tempo ocioso observando um desses cesteiros da vila fazendo seu trabalho; observar aquelas peças de vime era muito prazeroso. Garotos, diferentemente de homens crescidos, são sempre muito oficiosos e maleáveis, oferecendo ajuda no trabalho dos adultos e aprendendo rotinas com extrema facilidade. O método me era conhecido, portanto; o que me faltava eram os materiais. Foi aí que eu pensei que se eu usasse a madeira mais resistente que já usara para fundar meu cercado a coisa com as cestas poderia dar certo. Ela devia se parecer minimamente com a madeira dos salgueiros típicos da Europa que mais se usavam para produzir artesanato. O dia seguinte à idéia, portanto, me dirigi a minha casa de campo, como eu chamava, e cortando alguns dos ramos menores, verifiquei que sua qualidade era ainda melhor do que nas minhas expectativas; na próxima vez que fiz a viagem, pois, vim preparado, com uma machadinha, para extrair uma maior quantidade de matéria-prima, que de fato era abundante nesta porção da ilha.”
111
“embora não sejam uma referência estética, meus cestos rudimentares serviram bem ao seu propósito; dali em diante eu sempre estava carregando alguns nas minhas andanças; e quando acabava o vime eu providenciava mais; e fui me especializando e produzindo cestos cada vez maiores e mais resistentes para armazenar todo o meu milho. Era muito mais prático que em sacos.”
112
“eu consegui discernir terra – se uma ilha ou continente, impossível dizer; mas era visível um promontório se estendendo do oeste a oeste-sudoeste, por uma grande distância; de acordo com meus cálculos, não poderiam ser menos do que de 80km a 100km.
Eu não poderia dizer que parte do mundo era essa, a não ser que era com certeza uma parte da América, e, conclusão a que cheguei depois das minhas observações, devia se tratar de uma das partes do domínio espanhol, quiçá totalmente habitada por selvagens, onde, se ali eu tivesse desembarcado, estaria em situação muito mais grave que a atual; isso me resignou quanto aos desígnios da Providência, que eu agora cria determinar todas as coisas para o melhor; sim, eu achei a resignação e serenei minha mente, deixando de lado aflitivos desejos de estar lá ao invés de aqui.
Além do mais, depois de alguma ponderação sobre o caso, raciocinei que se essa terra fosse mesmo espanhola, mais cedo ou mais tarde eu veria passar alguma embarcação por estas águas; e, se não, quase com certeza este lugar seriam as costas selvagens entre as colônias espanholas e os Brasis, terra-de-ninguém apinhada dos piores aborígenes; eles são canibais, ou devoradores de homens, e não hesitam em assassinar e comer todos os corpos que caem em suas mãos.”
113
“vira papagaios em abundância, e gostaria muito de ter levado um para mim, se possível, para adestrá-lo e ensiná-lo a falar. Depois de algum sacrifício, capturei um papagaio tenro, nocauteando-o com um galho; depois de tratá-lo, trouxe-o para a caverna; mas levaria anos até que ele começasse a me repetir com a voz; daí em diante as coisas fluíram, e ele sempre estava a chamar meu nome como um velho parente.”
114
“Esse passeio foi muito frutífero. Deparei-me com lebres (ou era o que pareciam ser) e raposas; mas todas de gêneros bem distintos dos conhecidos até então por mim. Nessa ronda eu matei e preparei várias como refeição, mas descobri que não forneciam uma carne que valesse a pena.”
115
“Nessas andanças eu nunca percorri mais do que uns 3km em linha reta num só dia; mas eu dava tantas voltas e rodeios tentando descobrir cada metro quadrado da flora que não se podia dizer que eu não me deitasse exausto onde eu escolhesse me assentar para passar a noite.”
116
“Por esses lados eu também encontrava aves as mais inauditas, a verdade é que nem todas tão misteriosas assim, pois em minhas prévias aventuras pelo Atlântico já havia conhecido várias espécies exóticas; o melhor de tudo é que a carne de algumas delas era deliciosa; os nomes dessas aves, jamais poderia dizer, salvo pelos pingüins¹.”
¹ Pode parecer que Defoe não sabia nada de zoologia ao lermos este parágrafo, mas realmente existe uma única espécie de pingüim, o Pingüim de Galápagos, que vive em clima tropical e pouco lembra o nosso típico “amiguinho polar” das representações mais corriqueiras.
117
“Eu naveguei contornando a costa com rumo leste, imagino que uns 20km, e fincando uma vara na areia como referência, concluí dever voltar pra casa, e que a próxima jornada seria pelo outro lado da ilha a leste da minha habitação, continuando a volta em torno ao litoral, tal que no fim estaria de volta à vara havia plantado na areia, circunavegando assim minha ilha.”
118
“Nessa jornada meu cachorro encontrou uma cabrinha, e nela avançou; e eu, correndo para tomar o controle, cheguei a tempo, e a salvei viva do cão. Minha idéia era trazê-la para casa, porque a caça desses animais esquivos é sempre muito difícil por aqui. Meu plano era arranjar duas cabras para que procriassem, e eu tivesse filhotinhos domesticados para mim. Além do mais, a pior das tragédias, acabar a minha munição, seria compensada com uma criação regular desses animais a fim de garantir a minha carne.”
119
“Eu sentia visivelmente quão mais feliz essa vida era, com todas as suas circunstâncias miseráveis, do que a vida que levei durante todo o meu passado.”
120
“Antigamente, enquanto perambulava, ou caçando ou explorando o país, a angústia da minha alma quanto a minha condição extrema podia explodir a qualquer momento, e meu coração como que morria, considerando as florestas, as montanhas, os desertos em que eu me encontrava, sem que eu passasse de um prisioneiro, enjaulado nessas grades eternas e aferrolhado pelo próprio oceano, numa vastidão inabitada, sem redenção. Em meio à pior confusão mental, na tempestade do espírito, eu só podia retorcer as mãos e chorar feito criança. Às vezes essas crises me afetavam no meio do meu expediente, com a arma na mão, e eu só podia me sentar no meio do caminho e suspirar, olhando ao meu redor por uma ou duas horas inteiras antes de conseguir me mexer; e na verdade isso era pior do que quando a explosão me fazia chorar, porque então eu não descarregava o que me oprimia; a pior desgraça é aquela que não se exaure e não o abandona de uma vez.”
121
“Eu nunca tinha aberto a Bíblia, ou dado a mínima, para ser sincero, até minha fatídica viagem; mas acho que Deus providenciou cuidadosamente para que um exemplar do Livro se encontrasse no navio, volume dado a mim por um amigo da Inglaterra, que embalou-o como que por acaso junto com outros de meus pertences à ocasião em que solicitei provisões pessoais, sem que eu tivesse sequer cogitado pedir-lhe esse favor. E agora a Bíblia era minha única e última assistência depois do naufrágio. E Deus salvou-a de perecer nas águas!”
122
“Empreendi 42 dias numa prateleira para minha caverna; eu aposto que dois serralheiros, com ferramentas e uma serra, é lógico, teriam produzido 6 delas em meia-jornada, com a madeira da mesma árvore.”
123
“Eu me encontrava novamente perplexo e impotente: como descascar o milho e fazer refeições com ele? Mais básico ainda: como limpá-lo? Como, uma vez já tendo aprendido a fazer várias comidas, produzir pão? Não, não adiantaria saber como fazer, se eu não tinha material para assá-lo… Essas vontades todas, aliadas à minha necessidade de estocar milho, para as vicissitudes climáticas, me fez deixar a colheita inteira intocada, esperando a próxima estação de semeadura”
124
“Agora eu poderia dizer com franqueza que estava trabalhando pelo meu pão. Duvido que a não ser um número muito pequeno de pessoas tenha pensado a sério sobre a multitude de pequenas coisas necessárias no fabrico do pão: o plantio, a colheita, o desfolhamento, a cura, a fermentação,…”
125
“Logo eu já estava desejando um moinho para me ajudar a peneirar todos os grãos, fermento e sal, e um forno; mas eu me virei sem todas essas maravilhas; e ainda assim o milho resultante era-me um luxo inestimável.”
126
“todo meu tempo de trabalho eu me distraía conversando com meu papagaio, ensinando-o mais e mais vocabulário; ensinei-o rapidamente seu nome, e a repeti-lo bem alto, <Poll>, que foi a primeira palavra que eu escutei pronunciada na ilha por outro alguém que não eu mesmo. Trabalho, aliás, que eu considerava um extra.
Uma tarefa hercúlea pela frente: ponderei longamente sobre a possibilidade de cozer alguns vasos de terra para estocar meus bens, sem saber nada de olaria. Considerando o calor intenso, imaginei que assim que me deparasse com alguma argila propícia, poderia deixar o material ressecar ao sol, tornando-o rígido o suficiente para moldar as formas à vontade”
127
“Qual não foi o meu desconsolo quando vi que, depois de ter selecionado uma grande árvore no bosque, tendo-a arduamente derrubado, e com minhas rústicas ferramentas talhado o exterior como o de um casco de navio com boa aerodinâmica, e queimado e cortado na medida as partes internas da madeira tornando-a oca, aplicando o princípio do navio ideal — quando vi que, depois de tudo isso eu devia deixar minha obra-prima abandonada onde estava por falta de meios para lançá-la na água, longe da costa que estava?
Pode-se pensar que eu empreendi esse trabalho como um louco, sem projetar nada; mas eu estava tão concentrado em fazer uma embarcação capaz de enfrentar as águas do oceano profundo que sinceramente esse <pequeno detalhe> ficou ignorado e postergado para o depois: e, com efeito, era mais fácil navegar 50 milhas marítimas do que avançar 50m com aquela estrutura de madeira por sobre terra firme.”
128
“Eu derrubei um cedro tal que não sei se Salomão contou com um tão magnânimo para a construção do Templo de Jerusalém; tinha uns bons 1.80m de diâmetro na parte mais baixa próxima ao toco, e 1.50m, na altura de seus quase 7m de longitude (…) eu passei 20 dias só cortando a base desse cavalo de tróia; outros 14 me livrando dos ramos, numa inexprimível labuta de machadadas repetitivas (…) me custou 3 meses mais limpar o interior, lapidando a forma de um barco; tudo isso sem fogo, apenas com marreta e cinzel, graças à teimosia; o resultado foi uma charmosa periagua¹, grande o bastante para levar 26 homens, ou seja, eu e todos os meus mantimentos, com segurança”
¹ Adaptação de piragua (espanhol), termo usado para designar as embarcações construídas por aborígenes americanos feitas de um só tronco de árvore. Não é exatamente o mesmo que uma piroga ou tsé-tsé, por isso mantive no original.
129
“Se tivesse conseguido levar esse mamute de madeira para a água, não resta dúvida de que eu empreenderia a viagem mais insana e improvável da história.
Mas, como eu já disse, todos os expedientes que empreguei para tentar levar a embarcação à água falharam; isso muito embora eu não tenha desistido senão depois de muitos suor, tempo e fracassos.”
130
“quem há de se ressentir das dores se vê a felicidade logo ali adiante?”
131
“Medi a distância de terra que separava o barco do mar e projetei cavar uma doca ou canal, para, levando a montanha a Maomé, trazer a água ao barco. (…) mas demoraria de 10 a 12 anos (…) finalmente, com grande relutância, dei por encerrada aquela tentativa.”
132
“Eu tinha o bastante para comer e satisfazer minhas necessidades, então o que era o excedente? Se eu matasse mais carne do que poderia ingerir, o cachorro a comeria, ou o verme; se eu plantasse mais milho do que poderia comer, estragaria; as árvores que eu cortasse e cuja madeira não aproveitasse apodreceriam no solo; para mim, bastava pouca madeira para combustível, e como vivia numa ilha tropical o único fogo que eu usava era para a comida.”
133
“O mais descarado cobiçador, a mais descarada ave-de-rapina no mundo, teriam sido curados desse vício se estivessem no meu lugar; eu possuía infinitamente mais do que poderia saber utilizar.”
134
“Eu até tinha, como citei en passant lá atrás, dinheiro físico, bem como ouro e prata, e enfim, mais de 16kg em libra esterlina. Para quê?! Deixei tudo encostado no recanto mais imprestável da caverna, porque não havia o mínimo comércio por aqui (…) eu trocaria tudo por uma lata de tinta.”
135
“Gastei horas inteiras, aliás, dias inteiros, me representando, nas cores mais vívidas, como agiria caso tivesse chegado à ilha sem poder contar com nada do que retirei do navio. E raciocinava que não poderia chegar a comida alguma que não fosse peixes e tartarugas; o que significa que teria perecido, porque até comer meu primeiro peixe ou localizar a primeira tartaruga vários dias haviam-se passado! E que mesmo que eu tivesse sobrevivido, viveria como o pior dos selvagens; mesmo que matasse cabras e pássaros à mão, não teria como abri-los, destrinchá-los, dividir sua carne, separá-la da pele e das entranhas; seria obrigado a rasgá-la com meus próprios dentes ou garras, feito besta-fera.”
136
“<Alguma aflição é como a minha?> É muito fácil ver que outras pessoas recaem em cenários muito mais desastrosos, e como muitos só não recaem por causa da Providência.”
137
“Mas ai de mim! Sucumbindo cedo ao nomadismo marinho, a vida mais destituída do temor a Deus, porque ignara dos terrores d’Ele, que estão sempre à mostra!”
138
“Minha tinta, como observei, acabou a dada altura. Isto é, quando restava apenas um bocado, diluí-o na água para aumentar o tempo de uso, mas no fim a letra saía tão pálida que o papel mal podia ser lido.”
139
“há uma estranha coincidência nos dias em que a Providência decidiu se mostrar para mim (…) Primeiro, observei que no mesmo dia em que rompi com meu pai e amigos e disparei para Hull, com o fito de ser marinheiro, foi também o dia do ano que fui tomado prisioneiro pelos piratas de Salé; e esse foi ainda o mesmo dia do calendário em que escapei do naufrágio do navio em Yarmouth; como se não bastasse, foi o exato dia em que empreendi minha fuga da própria escravidão de Salé, com um pequeno barco; e pasmem, porque, agora estou disposto à revelação – esse dia é aquele em que vim ao mundo, o 30 de Setembro; para não dizer que desde o nascimento só me ocorreram tragédias, foi no 26º aniversário que celebrei o milagre de escapar vivo do último naufrágio, este que me trouxe à ilha; a maldição e a solidão sempre andaram de mãos dadas em minha existência. Mas eu prefiro encarar essa data como um recomeço positivo.
A primeira coisa de que sofri a escassez depois do esgotamento da minha tinta foi o pão – digo, o biscuit de trigo que trouxe do navio; esse eu racionei ao máximo, permitindo-me um por dia apenas por mais de um ano; e não comi nada parecido por mais um ano, até que conseguisse fazer pão do meu milho; lembro-vos do quanto foi extravagante ver milharais crescendo na ilha, devido àquele curioso acidente, então posso me considerar um cara de sorte.”
140
“eu não poderia sair pelado por aí – não, mesmo que eu fosse inclinado a essas coisas, coisa que eu não sou –, primeiro devido à infração moral que isso representa, mesmo estando-se sozinho; e, depois, por uma razão puramente prática: não me era possível agüentar a abrasão solar, de modo que estar vestido era menos pior; o contato direto com o poderoso sol causava bolhas na minha pele; qualquer tecido era imperativo. Depois de um tempo de aprendizado, eu já não me prestava a sair da caverna em plena luz do dia sem um boné ou chapéu.”
141
“entreguei-me ao trabalho, costurando, ou melhor seria dizer, remendando da pior forma, porque meu serviço com um novo colete¹ para mim era um autêntico vexame”
¹ “Waistcoat” no original. Não devemos esquecer que um gentleman (ou mesmo uma pessoa de classe inferior) da Inglaterra do século XVII não saía de casa com menos de 3 camisas sobrepostas, e podemos também nos assegurar de que esse hábito indumentário não fosse fácil de abandonar, como Robinson diz sobre a parte “imoral” de ficar pelado diante de si mesmo, uma vez que Deus não deixou sequer que Adão e Eva andassem descobertos após o Pecado Original. Por maior que fosse o calor, e por mais que não se necessitasse de tantas peças para se proteger das assaduras ou queimações do sol, não é absurdo imaginar que um inglês médio, jogado numa ilha tropical subitamente, não dispensasse, ainda assim, a elegância na aparência (não importa o quão cafona isso soe hoje). Adicione a isso o fato de que a aristocracia conservadora e anglicana daquela época tinha extrema predileção por casacas e sobrecasacas de tons negros (os primeiros ancestrais da estética dos góticos e metaleiros?).
142
“Já mencionei por diversas vezes que sempre preservara as peles das criaturas que matara, i.e., de todas as de 4 patas; algumas, no entanto, foram completamente inutilizadas pelo sol forte, que as endurecia, mas algumas se salvavam e me eram imprescindíveis.”
143
“se eu já era um mau carpinteiro, eu era um costureiro ainda pior.”
144
“eu gastei uma quantidade incrível de tempo e agonias até terminar um guarda-chuva (…) eu tinha visto esse tipo de artesanato nos Brasis, onde esses objetos são muito usados contra o calor”
145
“a maior dificuldade era conseguir fazer o guarda-chuva fechar. Podia fazer tranqüilamente um que ficasse sempre aberto, mas assim ele não seria portátil e fácil de carregar em todos os meus périplos. Porém, ao final meus esforços foram recompensados. Usei algumas das minhas peles, os pêlos para cima, de forma que o objeto aparava completamente a água da chuva, como um belo toldo, além de me privar do sol durante tempo aberto. Pela primeira vez pude andar pela ilha despreocupado nos momentos de intensidade solar. De fato, eu me sentia melhor nessas caminhadas, protegido assim, que nos tempos abertos mais frescos (menos abafados) de antes, desguarnecido. Quando usar o guarda-chuva era contra-indicado podia simplesmente retraí-lo e carregá-lo para cima e para baixo debaixo do braço.”
146
“Isso fez da minha vida um tanto mais sociável (suportável): quando aprendi a desprezar a carência de conversações, mantendo diálogos com meus próprios pensamentos, e em última instância com Deus, via exortações, não era esse proceder muito mais elevado do qualquer tipo de sociedade com os homens no mundo civilizado?”
147
“Era 6 de Novembro, do sexto ano do meu reino – ou cativeiro, o que achar melhor. Nas minhas contínuas explorações, eu estava averiguando condições do terreno na parte oriental da ilha. Havia uma região cheia de saliências rochosas que continuavam em direção ao mar, e de fato prosseguiam visíveis, mesmo uns 10km mar adentro; o mais intrigante, logo depois dessa distância era discernível um banco de areia, com um belo topo seco, acima do nível do mar, com a respeitável extensão de pelo menos uns 2,5km. Eu precisava verificar essa ocorrência pessoalmente!”
148
“Havia encontrado uma tartaruga na praia, tão grande quanto eu podia erguer, e a enfiei no barco; e eu tinha comigo uma grande jarra de água fresca, ou melhor, um dos meus jarros de barro; mas do que isso podia me servir no meio do vasto oceano, onde, com certeza, nenhuma praia havia, nenhuma terra firme ou ilha, por pelo menos uns 5000km?
Agora eu percebia quão fácil era para a Providência piorar até mesmo a condição humana mais deplorável. E eu reavaliava meu anterior estado desolado e solitário como um dos melhores da terra; e considerava ficar preso naquela ilha o paraíso. Estirei as mãos, apontando para o céu – <Ó deserto abençoado!> disse eu, <Talvez nunca mais o veja. Ah, criatura miserável que és! aonde a corrente te leva?> Depois, censurei meu temperamento ingrato, e o ter repudiado minha segura condição de solitário; agora, o que eu não daria para estar de volta na ilha! Concluo que nunca percebemos nosso verdadeiro estado até sermos afetados por um duro contraste, nem sabemos valorizar as coisas boas senão na falta delas.”
149
“E no entanto eu trabalhei duro, lutei até o limite de minhas forças, e mantive meu barco o mais ao norte possível, ou seja, em aproximação do ponto em que a corrente virava (…) nada de bússola a bordo, sem referência para como voltar à ilha, caso eu perdesse a concentração por um instante”
150
“Quando eu cheguei de novo em terra, prostrei-me e agradeci a Deus minha salvação, deixando de lado definitivamente qualquer projeto de fuga com meu barco”
151
“calcule você, que lê minha história, a minha surpresa ao ser acordado por uma voz que me chamava pelo nome repetidas vezes, <Robin, Robin, Robin Crusoe: pobre Robin Crusoe! Onde está você, Robin Crusoe? Onde está você? Por onde você andou?>”
152
“a voz insistia, <Robin Crusoe, Robin Crusoe>, e o que era parte do sonho foi gradualmente me despertando e me pondo em alerta, embora terrivelmente amedrontado, já entregue à pior das consternações; logo que abri meus olhos, lá estava meu Poll sentado no topo da cerca; soube de imediato que era ele que me chamava o tempo todo; porque foi nesse linguajar lamentoso que ensinei-lhe a falar; e ele aprendeu com tamanha perfeição que se apoiava no meu dedo, aproximando o bico do meu rosto, e berrava, <Pobre Robin Crusoe! Onde está você? Como chegou aqui?> e coisas do tipo.”
153
“contente em meus pensamentos, abdiquei de livre e espontânea vontade de conservar qualquer barco, mesmo que tenham sido o produto de incontáveis meses de muito trabalho, fora todo o esforço despendido em empurrar um deles até a água.”
154
“nunca me vangloriei tanto ou me alegrei tanto de algo quanto quando consegui terminar um cachimbo de tabaco; e em que pese se tratasse de uma coisa tão feia e assimétrica, de uma cor igualmente feia, do vermelho que fica o barro queimado endurecido, era forte e firme e servia para canalizar a fumaça, ou seja, servia para meu conforto, porque antes de cair aqui eu sempre costumava fumar; e havia cachimbos no navio, mas esqueci de trazê-los à primeira exploração, imaginando que não haveria, de qualquer jeito, tabaco na ilha”
155
“Então eu verifiquei que minha pólvora estava consideravelmente diminuída; esta seria uma carência impossível de suprir, logo, comecei a ponderar seriamente o que eu deveria fazer assim que toda ela acabasse; ou seja, como eu faria para matar os animais.”
156
“Estando agora em meu décimo primeiro ano na minha nova residência, com a pólvora escasseando, passei a praticar artes de capturar e enganar as cabras, para testar o que podia fazer sem a ajuda das armas; particularmente, meu objetivo era conseguir uma fêmea grávida. Produzi algumas armadilhas; acredito até que elas funcionaram para atrair as vítimas; mas a matéria-prima não era boa, e sem um fio resistente esses animais acabavam escapando, e a isca era devorada sem mais. Por fim, pensei em forjar pequenos precipícios”
157
“Eu não podia imaginar àquela altura o que aprenderia depois, i.e., que a fome pode domar um leão.”
158
“em cerca de um ano e meio eu já tinha um rebanho de 12 cabras, crianças inclusas; em dois anos mais a população cresceria para 34, sem contar muitos que eu matava para o jantar.”
159
“Mas isso não era tudo; agora não só eu tinha carne de cabra quando quisesse, como leite – uma coisa em que, no começo, eu nem tive tempo para pensar, mas que, conforme fui me instalando na ilha, começou a fazer falta; fazia ordenhas rotineiras e produzia de 4 a 9 litros por dia, dependendo da época. (…) Eu, que nunca havia ordenhado uma vaca, muito menos uma cabra, ou visto a manteiga e o queijo sendo feitos quando menino, depois de tantos entreveros e infortúnios, cá estava a fazer manteiga e queijo, além de sal”
160
“Quanta misericórdia Nosso Senhor não pode distribuir a Suas criaturas, mesmo aquelas em condições lamentáveis, que se julgavam abandonadas e destinadas à destruição!”
161
“Tenho certeza que a visão da minha pequena família sentada no jantar faria um estóico sorrir. Ali estava sua majestade, o rei e senhor supremo de toda a ilha; tinha a vida de todos os meus servos a meu inteiro dispor; podia enforcar, afogar, conceder a liberdade, ou suprimi-la, e não havia descontentes na côrte.”
162
“Poll, como meu súdito favorito, era o único a quem era permitido me dirigir a palavra. Meu cachorro, agora velho e louco, sem ter podido encontrar uma parceira para propagar a prole, sentava-se à direita; dois gatos, um de cada lado da mesa, na expectativa de uma esmola de minhas mãos aqui e acolá, como que esperançosos da magnanimidade da realeza e cientes de que os bons criados são recompensados com favores especiais.”
163
“Minha barba crescera mais de 20 centímetros de comprimento; mas um dia, de posse de tesouras e lâminas afiadas o suficiente em minha <base>, resolvi-me a apará-la. Deixei toda ela curta, exceto pelo bigode, que deixei crescerem à moda maometana dos dois lados, como vi alguns turcos usarem em Salé; essa aparência não era seguida entre os mouros”
164
“Não pude deixar de me pegar pensando que aquela pegada isolada na areia só podia se tratar da pegada do diabo; por que como qualquer outra forma humana (que não Robin Crusoe!) poderia chegar a esse lugar? Onde estaria a embarcação que trouxe tais quimeras? Cadê qualquer outra pegada ou vestígio antropóide? E como raios um homem chegaria ali?”
165
“Mas então meditei que o diabo encontraria um sem-número de maneiras diferentes de assinalar sua presença, ou melhor, de me assustar; como eu morava do outro lado da ilha, não fazia sentido deixar uma singular marca, passageira, num recanto em que minha chance de a perceber era mesmo de 1 em 10 mil; a primeira maré alta, a primeira ventania forte, seriam o bastante para desfigurar completamente essa pegada.”
166
“A freqüência com que essas coisas ocorrem me dissuadia de associar o episódio do aparecimento dessa pegada na praia remota ao demônio; então comecei a avaliar que ela devia pertencer a uma criatura mais perigosa – i.e., o pé de um selvagem do continente que veio de canoa com seus companheiros, arrastada para cá seja devido às correntes marítimas seja devido a ventos rebeldes”
167
“Não podia deixar de pensar na chegada de muitos deles para me devorar; e, doutra forma, podia ser que não me achassem, mas achassem minha gruta, meu palácio subterrâneo, que depredassem todo o meu milharal, ou dispersassem todo o meu rebanho domesticado de cabras, o que me faria morrer ignominiosamente de fome. Meu pavor diante desta perspectiva baniu de mim toda esperança devota, toda aquela confiança em Deus, fundada em tantas e maravilhosas experiências que me provaram Sua benevolência”
168
“Que estranho jogo-de-xadrez da Providência é a vida do homem!”
169
“Hoje amamos o que amanhã odiaremos; hoje procuramos aquilo de que amanhã nos esquivamos; hoje desejamos o que amanhã tememos, aliás, mais que isso, aquilo diante do que trememos de pavor. Isso tinha sua perfeita ilustração em mim mesmo, nesta ocasião, da forma mais convincente possível; eu, cujo maior drama um dia fôra estar alijado da convivência com outros homens, sozinho, limitado pelo oceano sem-fim, solapado da humanidade, condenado ao silêncio; eu, a quem os céus nem se importavam em enumerar entre os vivos, ou de ser visto em comunhão com qualquer outra criatura semelhante; eu, que ver um da mesma espécie que eu teria sido nessa época o mesmo que uma Ressurreição, e a maior bênção concedível a um filho de Adão, depois da redenção no dia do Juízo, claro; esse mesmo eu era agora quem se sentia apavorado frente à possibilidade de ver um outro homem, e preferia no momento se ver debaixo da terra a encarar um hipotético vulto silencioso de um homem.”
170
“Bem no meio dessas cogitações, apreensões e reflexões, veio à tona o pensamento de que toda essa representação podia não passar de uma quimera, de uma peça pregada pela minha imaginação; ou simplesmente um engodo, nomeadamente, a marca do meu próprio pé conservada na areia. Sim, porque eu já havia feito aquele caminho invertido, chegando do mar das minhas peregrinações com meu barco: e isso bastou para me persuadir do caráter ilusório de tudo aquilo”
171
“Teria eu interpretado o papel daqueles tolos que tentam fazer estórias de fantasmas e aparições sobrenaturais, mas que acabam, depois, acreditando e temendo essas figuras mais do que qualquer outro?
172
“Quando reencontrei a marca e medi-a com meu próprio pé, achei-a muito maior que minha própria sola.”
173
“Quão ridículas nossas resoluções quando possuídos pelo medo!”
174
“o medo do perigo é 10 mil vezes mais assustador que o próprio perigo, quando aparente; e consideramos o peso da ansiedade ainda maior, e por boa margem, do que o próprio mal que desencadeia essa ansiedade: (…) eu parecia, a meu ver, Saulo, que resmungava não só de que os filisteus o perseguiam como que Deus o havia abandonado; porque eu não agia como quem quisesse recompor a lucidez, clamando por Deus em minha angústia e estando seguro de Seus caminhos, como já havia sido capaz de fazer, em prol de mim mesmo; se eu fosse um bom devoto, estaria mais reconfortado neste momento de atribulação”
175
“posso testemunhar, pela minha experiência, que um ânimo calmo, beato, amoroso e afetivo é muito mais propício para a reza do que o um ânimo atemorizado e descomposto.”
176
“estive, um tempo antes, propenso a experimentar transformar um pouco da minha cevada em malte, para fermentar uma cerveja.”
177
“Como sei eu o que Deus diria desse caso em particular? É certo que essas pessoas não cometem esse ato considerando-o criminoso; não agem contra a própria consciência, contra sua cultura; eles ignoram que seja uma ofensa, e ao contrário de nós não a cometem pensando em desafiar a justiça divina. Eles não acham mais errado matar um prisioneiro de guerra do que nós achamos matar um boi; ou comer carne humana, mais do que nós consideraríamos comer uma deliciosa carne de carneiro.”
178
“isso justificaria a conduta dos espanhóis em todas as barbaridades praticadas na América, quando destruíram milhões dessas gentes; gentes que, por mais idólatras e selvagens, e repletas de ritos desumanos e sangrentos, como oferecer homens em sacrifício a seus ídolos, eram, ainda, pelo menos em relação aos espanhóis, demasiado inocentes; e pensar que a expulsão (devastação!) desses índios de suas terras seja comentada pelos próprios espanhóis, a essa altura, com tamanhas repelência e ojeriza arrependidas, sem falar das outras nações cristãs da Europa, que referenciam o episódio como mero massacre, uma amostra sangrenta e inatural da crueldade humana, injustificável perante Deus ou mesmo perante o próprio homem (…) é como se o reino da Espanha fosse particularmente conhecido por gerar uma raça de homens sem princípios ou ternura, má até as entranhas, incapaz da piedade aos mais fracos, um traço reconhecido da disposição de caráter generosa.”
179
“Eu me encontrava agora no vigésimo terceiro ano da minha estadia na ilha, e já estava tão em simbiose com o lugar e a maneira de viver nele que, pudesse eu desfrutar da certeza de não mais ser perturbado pelas visitas dos selvagens, me contentaria em passar o resto dos meus dias neste cenário, igualzinho a um bode que encontrei agonizante numa caverna subterrânea que descobri tardiamente na ilha. (…) Havia, como é sabido, ensinado meu Poll a falar; e ele o fazia com tanto desprendimento, com tanta articulação e simplicidade, que isso me satisfazia inteiramente; e ele co-habitou comigo não menos do que 26 anos. O quanto ele ainda poderia ter sobrevivido, eu não sei, mas sei que nos Brasis dão por certo que esse animal vive 100 anos. Meu cão me foi um companheiro prazenteiro e fiel por não menos do que 16 anos, morrendo de simples velhice. Quanto aos meus gatos, multiplicaram-se, como observei anteriormente, a um grau em que fui obrigado a usar da pólvora para controlar a população, se é que eu desejava não ser devorado no lugar, e todos os meus suprimentos; mas fato é que quando os dois originais (as duas fêmeas, como também já expliquei) se foram, e depois de várias vezes ter de efetuar esse <controle populacional>, ou mesmo conservá-los por perto mas sem providenciar-lhes alimento diretamente, todos foram, uns após os outros, tornando-se selvagens, fugindo para as matas, com a exceção de dois ou três favoritos, que mantive como animais de estimação, cujos filhotes eu sempre afogava ao nascerem. Nem todos, no entanto: 2 ou 3 eu mantinha comigo na caverna, ensinando a comer na minha própria mão; e tive ainda mais dois papagaios, que também tagarelavam bem, todos capazes de chamar <Robin Crusoe>, mas nenhum como Poll, o original”
180
“Com que habitualidade, no curso de nossas vidas, o mal de que mais buscamos evadir, quando nele recaímos, temido o quanto seja, não acaba se tornando a janela para nossa salvação?”
181
“detectei 9 ou mais selvagens nus sentados em torno de uma pequena fogueira feita por eles, não com o fito de aquecer, porque ninguém sente calor nestas latitudes, mas, como eu bem supunha, para preparar porções de sua bárbara dieta de carne humana que traziam consigo”
182
“Observei que, ao longo de 1h ou mais, antes de se irem, dançaram, e eu pude ver os detalhes de seus gestos e posturas através de minha luneta. Mas não podia precisar a cena tão bem a ponto de afirmar se estavam cem por cento nus ou não cobriam as partes com alguma folhagem ou tecido; nem mesmo apurar quem era homem ou mulher eu podia, àquela distância.”
183
“nem parei para pensar que, se eu matasse um bando – de 10 ou 12 –, teria, no dia, na semana, no mês, ou enfim, no ano seguinte, de matar outro e depois outro, ad infinitum, até não ser mais do que um homicida frio, pior que um canibal”
184
“enquanto lia a Bíblia, e refletindo com muita severidade sobre minhas atuais circunstâncias, muito me surpreendi com o barulho de uma arma, ou assim pensava, vindo do mar. Esse foi um tipo de surpresa inédito para mim”
185
“Assumi de imediato que se trataria de um navio com problemas perto da costa, e que podia ser uma viagem em frota, ou que esperassem haver uma outra embarcação nas proximidades, apta a socorrê-los. Tive presença de espírito, num momento tão alarmante, onde cada segundo conta, de notar que dali eu nada poderia fazer, mas quem sabe eles é que podiam me ajudar! Reuni toda a madeira seca que consegui e, fazendo uma pilha de dar inveja, taquei-lhe fogo, sobre uma colina.”
186
“não demorou um instante para eu ouvir outra arma ser disparada assim que meu fogo ardeu, e depois do primeiro tiro outros tantos, todos do mesmo local.”
187
“Em todo meu tempo de vida solitária nunca sentira um tão forte e premente desejo de estar em sociedade com meus iguais, ou um lamento mais profundo por estar tão longe de tudo.”
188
“Creio mesmo ter repetido as palavras, <Ah, se tivesse pelo menos um homem vivo!> umas mil vezes; e eu nutria tamanho desejo de que isso acontecesse que ao pronunciar esta frase minhas mãos crispavam-se, e meus dedos pressionavam a palma de minhas mãos, de forma a estraçalhar qualquer coisa despida de muita dureza, que eu porventura pudesse estar segurando, contra minha vontade; e meus dentes se entrebatiam, e tão intensamente, que eu não conseguia desfazer essa tensão mandibular por algum tempo.”
189
“Mas não era para ser o que não era para ser; fosse o destino deles, ou o meu, ou ambos, impediam-nos; até meu último ano de estadia na ilha, mediante pormenores que ainda irei mostrar, nada soube do paradeiro real desses supostos afogados; e o pior de tudo foi ter me deparado com o cadáver de uma criança na praia logo no dia seguinte.”
190
“Quando me aproximava da rocha, um cachorro, notando minha chegada, ganiu e latiu; e, atraído pelo meu chamado, se atirou ao mar. Logo o puxei para o barco, e vi que estava quase morto de sede e fome. Dei-lhe um bocado do meu pão, e ele devorou como um lobo em fúria faminto há duas semanas na nevasca; também dei água fresca para a pobre criatura, água na qual, se eu não a administrasse com solicitude, ele certamente teria se afogado. Cheguei a bordo da carcaça do navio, mas o que eu vi foram dois corpos feito um no refeitório ou castelo de proa, completamente abraçados em sua agonia final.”
191
“Além do cachorro, nada no navio que conservasse a vida; nem sequer suprimentos aproveitáveis, só podridão invadida e corroída pela água do mar. Havia alguns tonéis de licor, se de vinho ou brandy¹, não sei dizer, preservadas, no porão, que eu agora podia ver, depois da vazão das águas; mas eram recipientes grandes e pesados demais para valerem meu tempo.”
¹ Espécie de cachaça feita da uva, mais forte que o vinho típico, um pouco mais parecido com o cognac, de origem inglesa ao contrário do rival, de origem francesa.
192
“penso que esse navio vinha com mercadorias de Buenos Ayres¹, ou do Rio da Prata, no extremo sul da América, e seu trajeto seria mais ou menos os Brasis, depois Havana, depois o Golfo do México até quem sabe desembarcar na Espanha.”
¹ Mantive o charmoso erro ortográfico de Defoe.
193
“Peguei uma pá-de-lareira e algumas tenazes, que eu já desejava com ardor há muitos anos, bem como duas pequenas chaleiras de metal, um pote de cobre para fazer chocolate, e uma grelha”
194
“Descobri que o tonel de licor era dum tipo de rum, mas não das safras que costumamos ter nos Brasis; em outras palavras, um não muito bom”
195
“Eu tinha, agora, dois pares de sapatos, que removi dos pés de dois afogados que flagrei nos destroços, e achei, ainda, outros dois pares num dos baús, o que eu recebi com todas as boas-vindas; mas não eram como os sapatos ingleses, nem no conforto nem no acabamento, estando mais para sandálias do que sapatos de verdade.”
196
“minha cabeça desafortunada, que sempre me dava indícios de que nascera para fazer do meu corpo miserável”
197
“a grande praga da humanidade, de onde advém, até onde eu sei, metade das suas misérias: o não estar satisfeito com a condição que lhe fôra dada por Deus e pela Natureza – aprendi isso da pior forma, contrariando os bons conselhos de meu pai, no que eu enxergo meu pecado original, sem falar nos meus erros subseqüentes e do mesmo tipo que esse; a soma de todos esses fatores resultou na minha condição insólita; porque se a Providência tivesse me abençoado com a moderação nos desejos, aquela posição privilegiada que ganhei nos Brasis, a de monocultor, teria gradualmente me elevado – e eu estaria usufruindo disso nesse momento, depois de décadas na ilha – a uma das maiores plantações da colônia – eu estou bem convencido de que, com os melhoramentos que eu vinha empreendendo no solo no pouco tempo em que me estabeleci ali, minhas terras e suas commodities agora me valeriam cerca de uma centena de milhar de moidores¹ –, mas lá fui eu com meu espírito irrequieto largar o certo pelo duvidoso, mexer com viagens ousadas para as Guinés para capturar negros, sendo que sem nada de aventureiro no sangue, com muita parcimônia e a ajuda do tempo, eu simplesmente poderia comprar mão-de-obra escrava da soleira da minha própria porta de quem se arriscasse a traficar, os verdadeiros traficantes que nasceram para isso? e mesmo que houvesse um pouco de ágio nessa operação, a diferença de preço não valia todos os riscos que eu aceitei correr.”
¹ Um “moidore” ou “moeda d’oiro”, moeda em circulação em Portugal e no Brasil colonial, valia quase 30 xelins, a forte moeda inglesa. A conta é fácil: 100.000×30=3.000.000 xelins, uma verdadeira fortuna.
198
“o erro de cálculo se apoderou tão poderosamente de meu temperamento que eu divisava sempre novos planos para estragar minha vida pacata”
199
“meu estado retornou ao antigo: eu tinha mais posses do que antes, mas não era de forma alguma, por isso, mais rico; eu explico: não havia mais utilidade para minha riqueza insular do que para os silvícolas do Peru antes dos espanhóis invadirem aqueles domínios.”
200
“a pior das danações possíveis – i.e., cair nas mãos dos canibais e selvagens, que cairiam sobre mim da mesma forma que eu cairia sobre um bode ou uma tartaruga; e não sentiriam mais remorso do que eu quando sacrifico, para meu estômago, um pombo ou um maçarico de águas rasas.”
201
“algo tão abaixo da brutalidade em si – devorar a própria raça! (…) me ocorreu de especular: de que parte do mundo provinham afinal esse bando de desgraçados? quão longe da costa era esse lugar? o que eles pretendiam nessas excursões? que tipo de barcos eles possuíam? e por que não me planejar para poder visitar eu mesmo este misterioso país, do mesmo modo como eles me visitam?”
202
“Note bem que toda essa cadeia de raciocínios era mero fruto de uma mente perturbada, misturada com um temperamento impaciente, já intensificado até o desespero devido à situação que se prolongava, e as decepções acumuladas que eu tivera desde o naufrágio que vivenciei”
203
“era o primeiro som de voz humana que eu ouvia, salvo a minha, nos últimos vinte e cinco anos ou mais.”
204
“eles faziam suas espadas de madeira tão afiadas, tão pesadas, e a madeira era tão rígida, que era até possível degolar alguém com elas, trucidar, aliás, todas as partes do corpo, com um golpe só para cada uma, como esses bárbaros adoram fazer.”
205
“A sua cor de pele era de um matiz diferente do negro, mas ainda assim muito fulvo ou pardacento; mas não de um amarelo feio e nauseante, como dos brasileiros e virginianos, fora outros nativos da América, mas de uma espécie de bege de azeite, lustroso, que tinha algo de um inefável agrado, embora, como vêem, dificílimo de descrever.”
206
“Num piscar de olhos eu já estava falando com ele; e ensinando-o a falar comigo: e a primeira coisa foi fazê-lo saber que seu nome seria Sexta-feira¹, que foi o dia da semana em que salvei sua vida: batizei-o assim em memória da ocasião. Da mesma forma, ensinei-o a chamar-me de Mestre; que para ele esse deveria ser absolutamente o meu nome: eduquei-o, ainda, para falar Sim e Não e me certifiquei de que entendesse o que significavam.”
¹ Friday, no original. Eis aqui um dos personagens secundários mais célebres da Literatura.
207
“Notei que Sexta-feira ainda sentia ânsia de vômito comendo apenas as carnes animais que eu lhe dava, e que ele ainda era, em sua natureza, um canibal.”
208
“nunca homem nenhum teve um servo mais fervoroso, fiel e amável do que Sexta-feira foi para mim: sem paixões, rompantes de mau humor ou caprichos, perfeitamente devotado e comprometido; todas as suas afeições eram destinadas a mim, como as de uma criança a um pai; e devo dizer que ele sacrificaria sua vida pela minha a qualquer ocasião”
209
“Agora minha vida começou a ser tão fácil que eu já dizia para mim mesmo que, estivesse eu a salvo de outros selvagens, não ligaria de morrer nestas coordenadas.”
210
“A pobre criatura, que, de determinada distância, me viu matando o selvagem, seu inimigo tribal, mas que não podia intuir ou conceber como eu fiz aquilo, não podia se demonstrar senão absorto, comovido, chocado, maravilhado, a ponto de parecer que iria bater as botas. Pois bem; semanas se passaram. Ele não viu a causa nem o momento exato em que matei o cabrito; mas correu para o animal a apalpá-lo, para verificar se ele não estaria ensangüentado; e, sem raciocinar direito, imaginou que eu também, movido por algum ímpeto extraordinário, estaria prestes a matar ele próprio: ele veio a mim totalmente subserviente, prostrado, implorante, abraçando meus joelhos, murmurando numa língua estranha para mim; mesmo assim, seu conteúdo não poderia ser muito diferente do que <Salve-me, por tudo o que é mais sagrado, tenha compaixão!>.
211
“Eu vi quão espantado ele estava, ainda mais porque não me viu inserir nada na arma, mas deve ter interpretado tudo o que se passou como um meio mágico de matar e destruir, não importa o quê: homem, besta, ave, qualquer coisa que se aproximasse, ou mesmo algo longínquo de mim; e o pavor despertado em Sexta-feira era de tal monta que não pôde ser controlado senão com certo tempo; e eu acredito que, se eu nada explicasse, ele me idolatraria, e idolatraria minha arma comigo como uma deusa. Mas, quanto à arma, ele ficaria dias receando sequer tocá-la; mas ele se aproximava e falava com ela, e parecia responder depois de uns instantes, como se tivesse recebido uma resposta; depois eu vim a entender seu procedimento: ele estava implorando para que ela não o matasse.”
212
“Depois de comer um pouco eu dei uns pedaços para meu homem, que pareceu muito agradecido, e demonstrou apreciar o gosto; mas o mais estranho para Sexta-feira foi ver-me colocar sal na comida. Ele fez sinais para comunicar que o sal era péssimo para ingerir; e, colocando um pouco na própria boca, como mímica, pareceu nauseado, querendo cuspir o conteúdo a qualquer custo, e depois lavando a boca com água fresca: seguindo seu modelo, me servi de um pouco de carne sem sal, e fiz as mesmas caretas, tão exageradas quanto as dele; mas isso não o convenceu”
213
“ele me relatou, tão bem quanto podia, que não voltaria a comer carne humana nunca mais, o que ouvi muito encantado.”
214
“em pouco tempo Sexta-feira já podia me substituir no trabalho e sem que a qualidade fosse menor.
Comecei a calcular que, havendo duas bocas para alimentar ao invés de uma, eu devia me reservar mais solo para a plantação, investindo em mais milho; eu demarquei essa terra extra e comecei a limpar o terreno da mesma maneira que antes. Sexta-feira trabalhou comigo árdua e até alegremente: e eu o revelei para que era tudo aquilo; era para cultivar mais milho, que geraria mais pão, porque agora ele estava comigo, e eu queria ter o bastante para ele e para mim.”
215
“Esse foi o ano mais prazenteiro de toda a minha vida neste lugar. Sexta-feira já começava a falar bem melhor, e entendia os nomes de quase todas as coisas que eu citava, e de todos os lugares a que eu mandava que ele fosse, e conversava muito comigo também; em suma, voltei a usar minha própria língua, órgão com que eu estava desacostumado. Ademais do prazer que nossos diálogos ocasionavam, eu nutria muito contentamento por este rapaz: sua honestidade simples e sem simulações me parecia mais cristalina a cada dia, e eu começava realmente a amar a criatura; de sua parte, creio que ele me amava mais do que lhe era facultado amar qualquer coisa em sua vida pregressa.
Uma vez eu o testei, para ver se ele tinha alguma inclinação a voltar a seu velho habitat; e, tendo-lhe ensinado o Inglês tão bem até que ele pudesse responder qualquer pergunta minha, eu o questionei se a nação à qual ele pertencia nunca conquistara outras em batalha.”
216
“Mestre. – Você é o melhor guerreiro que eu já vi; como você veio a se tornar prisioneiro, Sexta-feira?
Sexta-feira. – Minha nação bater muito bem para escravizada.
Mestre. – Como assim bater? Se sua nação bate nas outras, como você foi capturado?
Sexta-feira. – Eles mais grande número que nação, no lugar que estava eu; eles pegar um, dois, três, e eu: minha nação vencer eles no lugar antigo, onde eu não estar; lá minha nação pegar um, dois, muito mil.
Mestre. – Mas por que sua facção não o resgatou das mãos do inimigo?
Sexta-feira. – Eles correr, um, dois, três, e eu, e fazer ir canoa na; minha nação ter não canoa esse tempo aí.
Mestre. – Então, Sexta-feira, o que faz sua nação com os homens que pega? Ela os leva e os come, como estes fizeram?
Sexta-feira. – Sim, sim, eles irem aqui; ir outro lugar mais.
Mestre. – Você já esteve aqui com eles?
Sexta-feira. – Sim, eu estever aqui. (aponta para o lado noroeste da ilha, que, aparentemente, era sua <base>.)
Mediante esse diálogo esclarecedor, descobri que meu amigo Sexta-feira formava parte dos selvagens que desembarcavam esporadicamente na parte mais remota da minha ilha, para fazer a mesma coisa que quase teriam feito com ele, não fosse minha intervenção; algum tempo depois, quando criei coragem para levá-lo àquele canto, o canto noroeste, ele estava familiarizado com o lugar, e narrou como já estivera ali por exemplo quando se banquetearam de 20 homens, 2 mulheres, e 1 criança; ele não podia dizer 20 em Inglês, a bem da verdade; mas ele enumerou essa quantidade enfileirando pedrinhas, e pedindo que eu mesmo dissesse.”
217
“Ele me contou que não havia perigo, nenhuma canoa afundava: mas depois de algum tempo em alto-mar, entrava-se numa corrente e num vento forte que sopravam sempre para o mesmo lado de manhã, e para o lado oposto à tarde. Eu havia entendido essa descrição como a maré baixando e subindo, na hora; mas posteriormente compreendi que era algo mais, tratava-se da correnteza e do refluxo do poderoso Orinoco, em cuja garganta nossa ilha repousava; e que essa nação de Sexta-feira, que apurei estar a oeste e a noroeste, ficava na grande ilha de Trinidad, no ponto setentrional dessa mesma foz. Enchi Sexta-feira de perguntas sobre a tribo, seus membros, o mar, a costa e que nações rivais estavam próximas; ele me relatou toda a extensão de seus conhecimentos com a maior abertura imaginável. Eu lhe perguntei os nomes das múltiplas nações canibais, mas ele na verdade chamava todos os seus inimigos e amigos por um só nome, Caribes; agora eu sabia com certeza onde eu me encontrava no mapa, sendo os Caribes essa região que se estende do estreito do Rio Orinoco até as Guianas, e que também está limitada por Santa Marta¹. Sexta-feira me falou que muito além da lua, ou seja, do lugar em que se põe a lua, no extremo oeste, habitavam homens brancos barbados, como eu, e apontou para meus bigodes invejáveis, que já descrevi; e que eles matar muito homens, essas foram literalmente suas palavras: do que entendi, ele se referia aos espanhóis, cujas crueldades na América se alastraram por todo o Caribe, e eram lembradas por todas as nações do mundo, e recontadas de pai para filho.”
¹ Atual Martinica
218
“As respostas de Sexta-feira muito me enterneciam; comecei a alimentar a esperança de, mais cedo ou mais tarde, achar um jeito de escapar da ilha, e muito contava nisso com o auxílio desse pobre selvagem. Durante o já longo tempo que Sexta-feira estava a meu lado, e que podíamos conversar em Inglês, me eximi de introduzir qualquer noção religiosa em sua mente; o máximo que fiz foi perguntar-lhe, certa feita, quem foi que o fez. A criatura mostrou não entender a pergunta, mas pensou que eu perguntava quem era seu pai – então eu reiniciei, com outra abordagem, indagando quem fez o mar, a terra em que pisávamos, as colinas e as florestas. Ele me disse, <sido Benamuckee, um que viver além tudo>. Ele não podia dar descrições acessórias desse ser excelente, só sabia dizer que era extremamente antigo, <velho velho mais>, disse Sexta, <que mar, terra, que também estrelas e lua>.”
219
“Ele ouvia com muita atenção e recebia com evidente alegria a noção de Jesus Cristo ter sido enviado para redimir todos nós; e sobre a maneira como devíamos nos dirigir a nosso Deus, e Sua capacidade de nos escutar, mesmo de tão longe. Ele me disse, um dia, que se nosso Deus podia nos ouvir, lá de cima do sol, ele devia ser mesmo um Deus superior a Benamuckee, que vivia bem abaixo, no topo de uma montanha, e mesmo assim não podia escutar nada até que alguns caribes se aproximassem de sua morada. Ele continuou, <Não; eles nunca irem quem moço ser; só homem velho ir”, pajés que ele chamava de Oowokakee; sim, estes eram os membros do restrito clero primitivo, os sacerdotes de sua nação; e segundo Sexta-feira eles subiam a montanha para dizer O (assim ele chamava o fazer preces), e depois desciam e repassavam aos demais os proclames de Benamuckee. Nisso, observei que havia tentativa de luzes mesmo entre os mais cegos e ignorantes pagãos do mundo; e a política de fazer da religião um segredo indevassável, para preservar o sentimento da veneração entre a população, submetendo-a ao clero, longe de ter nascido com os romanos, era um dado universal da humanidade, presente até entre esses selvagens bárbaros e brutais! Eu me dei ao trabalho, para esclarecer essa fraude ao meu amigo Sexta-feira, de dizer-lhe que a pretensão de seus anciãos que simulam idas às montanhas para dizer <O> ao seu <deus> Benamuckee não passava de artifício; e ainda que o fato de trazerem notícias do que teria dito Benamuckee era apenas um graveto a mais nessa fogueira; que se é que eles obtinham alguma resposta ou conversavam com alguém, era decerto com um espírito mau; então dissertei demoradamente acerca do demônio, sua origem, sua rebelião contra Deus, sua inimizade e inveja do homem, a razão dela, sua reclusão teimosa e vingativa num recanto obscuro do mundo de seu Pai, buscando amealhar seguidores, sendo uma paródia de um deus, e os diversos estratagemas por ele empregados para iludir o gênero humano e levá-lo à ruína; como ele tinha acesso em segredo a nossas paixões e sentimentos mais profundos, adaptando suas armadilhas a nossas tentações, de modo a jogar uns homens contra os outros para que o homem se tornasse a perdição do próprio homem, e para que escolhêssemos espontaneamente a danação eterna, sua única forma de vencer o Pai.
Descobri não ser tão fácil incutir-lhe essas últimas noções quanto fôra inspirar-lhe o Espírito Santo. A natureza era meu colaborador automático em meus argumentos para evidenciar a onipotência do Criador e para sustentar a necessidade de uma Causa Primeira emanada de um Poder que governava a Providência mediante expedientes por todos os mortais ignorados; era fácil ensinar acerca da eqüidade e justiça que se concretizam ao pagarmos tributo e homenagearmos Este Ser, que nos fez, afinal; mas nada parecido parecia funcionar quando se tratava do Coisa-Ruim, sua gênese, sua pessoa, seu caráter e, acima de tudo, sua propensão inata ao mal, e a combater o homem; a pobre criatura, atônita, também me confundiu quando perguntou coisas da forma mais inocente possível, sem que eu soubesse como responder.”
220
“<Mas Mestre>, diz Sexta-Feira, <você dizer Deus tão forte, tão grande; Ele é forte grande terrível mais não que demônio?> <Sim, sim, Sexta-feira; Deus é mais poderoso que o diabo – Deus está acima do diabo, por conseguinte oramos a Deus para sobrepujarmos o diabo, e para que Ele nos conceda resistir a suas provações e apagar o fogo de nossas paixões e repentes.> <Mas>, insistiu Sexta-feira, <se Deus muito forte mais, terrível mais que diabo mau, por que Deus matar não diabo, fazer ele mais não fazer mal?> Eu fui arrebatado por esse raciocínio tão simples; e, em que pese eu ser já um coroa experimentado, não passava de um douto noviço em termos bíblicos, recém-auto-convertido, mal-qualificado para bancar o casuísta ou resolvedor de enigmas capciosos; assim de chofre não sabia nem o que dizer; então simulei não tê-lo escutado bem, para ganhar tempo; ele era muito dócil e estava muito ansioso por uma resposta para deixar o assunto de lado, e se repetiu da mesma forma, palavra por palavra. Mas eu já tinha amortecido parte do impacto e me dispunha a responder algo construtivo: <Deus ainda irá puni-lo com severidade; mas essa punição está reservada para o dia do Juízo Final, e neste dia o diabo será arremessado de encontro ao abismo infindável, e condenado ao fogo eterno>.”
221
“mas por que matar não diabo agora; matado não muito atrás??”
222
“<Ahhhhh… Hmmm…>, continuou Sexta, tão ternamente, <dizer então que você, eu, demônio, tudo mau ruim, todos preservado, rependido, Deus perdoar todos.> Aqui eu desmoronei de novo ao âmago mais fundo do paradoxo. Isso era um testemunho preciso de que as noções mais básicas da natureza, embora guiem as criaturas capazes da razão ao conhecimento de Deus, e ao devido culto ao Ser Supremo, seres naturais que somos, ainda assim, não bastam; só a revelação divina é capaz de ensinar o que quis transmitir Jesus Cristo, i.e., a redenção destinada a nós; ensinar do Mediador do novo pacto, do intercessor no escabelo do trono de Deus”
223
“Depois expliquei-lhe tão bem quanto pude por que nosso Messias não veio na forma de anjo, mas tomou a forma da semente de Abraão; e como, por esta mesma razão, os anjos caídos não podiam partilhar da redenção; que ele veio tão-só para as ovelhas perdidas da casa de Israel, etc.”
224
“quando me dei conta de que nessa vida de ermitão que vinha levando a tendência natural era ser movido a olhar para o céu, e procurar a Mão que me trouxe até aqui, pareceu de repente óbvio que a conseqüência disso era que eu também era um instrumento da Providência, destinado a salvar a vida e, até onde eu sei, a alma de um pobre selvagem, declarando-lhe a verdadeira Palavra, ensinando-o a doutrina cristã, pois só em Jesus Cristo a vida é eterna; eu dizia que, quando refletia sobre essas coisas, uma alegria secreta escorria por todas as partes da minha alma, e eu exultava de felicidade por ter sido aqui trazido, para este lugar, que eu considerei por tanto tempo e em várias ocasiões o mais pavoroso de todos em que eu podia estar.”
225
“<Eu vir barco assim chegar porto minha nação> Eu não entendi Sexta-feira durante um bom tempo; mas, por fim, quando havia ruminado o suficiente, compreendi que um barco, igual àquele, aportou no litoral de seu país; ou ainda melhor, como ele explicou, foi levado pelo mau tempo até a praia.”
226
“Sexta-feira me descreveu o barco bem o bastante; mas fui concebê-lo perfeitamente quando acrescentou com alguma afeição, <Nós salvar homem brancos de afogo>. Então perguntei, para confirmar, se não havia homens brancos, como ele os chamou, no barco. <Sim,> ele disse; <barco cheio homem brancos!> Eu quis saber quantos. Ele disse, com a ajuda dos dedos, 17. Perguntei, então, o que foi deles. Ele contou, <Eles viver, eles morar minha na nação.>
Isso fez minha mente girar; porque inferi que se tratassem dos homens do meu próprio navio, cuja tripulação sumira sem vestígios no naufrágio; como havia botes a bordo, considerando a embarcação maior já condenada, pode muito bem ser que um grupo tivesse se preparado a tempo, mas que as fortes correntes tenham-nos levado para mais longe da ilha, até a costa dos selvagens. Então voltei a questioná-lo, mais acuradamente, o que aconteceu com eles. Ele me confirmou que sem sombra de dúvida eles ainda viviam por lá; que eles já lá estavam há cerca de 4 anos; que os selvagens não tocaram neles, pelo contrário, deixaram que vivessem à parte sem ser incomodados, e até deram-lhes comida no início. Então perguntei como eles, canibais, não devoraram os homens brancos. Ele respondeu, <Não, eles fazer irmão com eles;> isto é, pelo que entendi, estabeleceram uma trégua; Sexta-feira completou, <Eles não comer homens mas quando fazer guerra e lutar;>”
227
“se Sexta-feira pudesse voltar a sua nação, poderia ser que ele esquecesse toda sua religião como toda sua devoção a mim, e estaria em ótimas condições para relatar da minha presença aqui, voltar com mais homens, quem sabe 100 a 200, e banquetear-se comigo, no que ele não apresentaria qualquer remorso, imerso novamente em sua inconsciência antiga. Mas eu cometi um erro de avaliação e subestimei o caráter desta pobre e humilde criatura, o que muito me remordeu a minha própria consciência. Contudo, como meus ciúmes ainda se mantiveram sensíveis durante algumas semanas, passei a agir de modo mais circunspecto”
228
“<Você viraria um selvagem de novo, comeria carne humana de novo, e seria tão selvagem quanto antes?> Ele me olhou cheio de tristeza, e balançando a cabeça, agitado, bradou, <Não, não, Sexta-feira contar eles para viver bem; contar eles para rezar a Deus; contar a eles para comer pão-de-milho, criar carne, leite; comer não homem mais.> <Mas então,> eu me manifestei, <vão te matar, Sexta-feira.> Ele me olhou sério, e disse, <Não, não, eles matar eu não, eles querer aprender amar.>”
229
“podíamos achar uma maneira de fugir de lá, uma vez estando no continente, junto com todos os homens brancos; pelo menos, seria melhor do que partindo sozinho dessa ilha a 40 milhas da costa.”
230
“<Pois então, Sexta-feira, devemos ir agora a sua nação?> Ele pareceu muito incomodado com meu dizer; atribuo isso a ele achar o barco muito pequeno para fazer essa viagem. Então eu disse que tinha um maior; no dia seguinte fui com ele até o local em que depositei meu primeiro barco, aquele que eu não pude levar até a água. Ele disse que era grande o bastante; o problema agora era que, como eu não o conservara, e como ele havia ficado por lá uns 22 ou 23 anos, o sol tinha rachado e apodrecido a madeira de tal forma que o tornou inavegável.”
231
“ele se tornou um marinheiro excepcional, salvo que não pude ensiná-lo a usar a bússola.”
232
“<Ah, Mestre! Ah, mestre! Ah, desgraça! Ah, ruim!> – <Qual o problema, Sexta?> <Olha ali,> disse ele, <um, dois, três canoas; um, dois, três!> Dessa forma de falar eu apreendi que havia 6; mas chegando mais perto vi que eram mesmo só 3. <Vamos, Sexta, não fique com medo.> Assim encorajei-o como pude. No entanto, ele estava cada vez mais atemorizado, porque nada passava pela sua cabeça a não ser que eles tinham vindo procurá-lo, e o retalhariam e o comeriam”
233
“eu não tinha medo de seu número, pois eles estavam todos nus, desarmados, eram uns miseráveis, e eu tinha certeza de ser superior – isso mesmo se estivesse sozinho. Mas de súbito me veio um pensamento: qual era minha necessidade, ou meu direito, de ir e me meter com eles, de sujar minhas mãos com sangue, ir e atacar pessoas que não me fizeram nem me quiseram fazer o mal?”
234
“é verdade, Sexta-feira podia justificar-se, pois era um inimigo natural desses homens, vivia em estado de guerra com essa nação, e era absolutamente honroso para ele atacá-los – mas eu não podia dizer o mesmo.”
235
“Ele me disse que não era alguém de sua nação, mas um dos barbados de que ele falara, que chegaram de barco.”
236
“Eu o ergui e perguntei, na língua portuguesa, o quê ele era. Ele me respondeu em Latim, Christianus”
237
“Eis o saldo do assalto sanguinário: Três mortos no nosso primeiro disparo, da árvore; dois no seguinte; dois mortos por Sexta-feira no barco; dois mortos por Sexta-feira daqueles feridos no primeiro tiro; um morto por Sexta-feira nos bosques; três mortos pelo espanhol; quatro mortos, aqui e ali, espalhados pelo campo de batalha, em decorrência dos ferimentos, ou então assassinados pelo meu homem Sexta em sua perseguição implacável; quatro que escaparam de barco, um dos quais muito ferido, se é que não morto já – 21 ao todo.”
238
“eu fiquei muito apreensivo com essa fuga, porque podiam avisar seu povo e voltar com centenas de canoas para nos devorar estritamente calcados na vantagem numérica; então consenti em persegui-los por mar, correndo para uma de suas canoas abandonadas; pulei para dentro e convoquei Sexta-feira para me seguir: mas logo que subi a bordo percebi inesperadamente outra criatura viva largada ali, amarrada nos pés e mãos, como estava antes o espanhol, preparado para ser imolado, em pânico absoluto, sem saber quem eu era; ele não conseguia se mexer nem olhar para fora do barco de tão apertado que estava amarrado. Estava quase morto.”
239
“Quando Sexta-feira chegou, eu solicitei que falasse com ele, e contasse de sua salvação; e, puxando minha garrafa, pedi para dar-lhe na boca, o que, junto com a boa notícia, reviveu o espírito do cativo, e ele já pôde ao menos pôr-se sentado na embarcação.”
240
“quando Sexta-feira enfim voltou a si, me revelou: era seu pai!”
241
“Minha ilha era agora bem habitada, e me imaginava um monarca extremamente rico; era uma reflexão curiosa me tomar por uma majestade. Em primeiro lugar, todo o país era minha própria propriedade, então meu direito de domínio era absoluto. Segundo, meu povo estava perfeitamente sujeito a mim – eu era senhor absoluto e o legislador supremo –: todos deviam suas próprias vidas a mim, e estariam dispostos a arriscar suas vidas por mim. Uma outra coisa marcante é que havia 3 súditos, e cada um de uma confissão religiosa diferente – meu primeiro homem, Sexta-feira, era Protestante¹, seu pai um pagão e canibal, e o espanhol um Papista. Eu, entretanto, permitia a liberdade de consciência na ilha. Mas que importância tem tudo isso!”
¹ Já de há muito, à primeira vez que li o livro, mas sobretudo com estas palavras, pude concluir com segurança: o objetivo final da obra The Life and Adventures of Robinson Crusoe era ser um panfleto luterano.
242
“Sua visão era de que os selvagens do barco jamais poderiam ter sobrevivido à tempestade que desabou aquela mesma noite em que escaparam, e de que pereceram afogados com certeza, ou no mínimo foram levados para o sul a litorais de outras nações, onde era mais certo ainda que morressem, devorados por seus incontáveis inimigos; quanto ao que poderiam fazer caso chegassem sãos e salvos ao próprio país, o velho afirmou que de nada sabia; a questão é que eles estavam tão apavorados pela maneira como foram atacados, com o barulho, o fogo, etc., que mesmo que eles escapassem e pudessem relatar o ocorrido aos compatriotas o mais provável é que contassem que foram atacados e assassinados pelo trovão e o relâmpago, por entidades divinas e não homens; e que os dois que apareceram – Sexta-feira e eu – eram dois espíritos celestes, ou erínias, que baixaram à terra a fim de destruí-los. (…) era-lhes impossível sequer conceber que um homem pudesse soltar fogo, falar a língua dos céus (trovões) e matar de tanta distância, sem nem mesmo erguer as mãos: e esse velho selvagem tinha toda a razão; como eu mesmo vim a testemunhar em seguida, os selvagens nunca tentaram voltar, tão aterrorizados pelo relato dos 4 sobreviventes (eu julgo mesmo que eles tenham escapado vivos do incidente), acreditando ser essa uma ilha encantada com a qual não deveriam se meter.”
243
“Preferia mil vezes estar entregue aos selvagens e ser devorado vivo do que cair nas garras impiedosas dos padres da Inquisição.”
244
<Embora os filhos de Israel tenham a princípio celebrado sua fuga do Egito, depois se rebelaram contra o mesmo Jeová, O que os libertou, quando se amotinaram pedindo pão no meio do deserto.>
245
“Seguindo meus comandos, o espanhol e o velho selvagem, o pai de Sexta-feira, foram embora numa das canoas em que, poder-se-ia dizer, haviam chegado, cativos, ou seja, em que foram trazidos, para serem jantados. Dei a cada um um rifle, com travas, e umas oito cargas de pólvora e projéteis, instruindo-os a cuidar bem dos meus <filhotes>, e não empregá-los a não ser em caso de extrema necessidade.”¹
¹ Poderia batizar as linhas gerais do comportamento do protagonista e a ideologia (ou “espírito de época”) de Defoe na singela alusão weberiana: A ÉTICA PROTESTANTE & O ESPÍRITO DO ARMAMENTISMO!
246
“Em primeiro lugar, comecei a considerar o que um navio inglês estaria fazendo nesse quadrante do mundo, uma vez que não era a rota de nenhuma das partes com que comerciava a Inglaterra; e não houve tempestade recente que os carregasse para cá; sendo assim, se fossem mesmo ingleses, a probabilidade é de que estivessem aqui por motivos escusos; então, era melhor seguir no meu plano do que arriscar cair nas mãos de bandidos e assassinos.
Nunca se devem desprezar os sinais secretos do perigo que sobrevêm quando menos se pensa estar sujeito a ele. Que esses sinais secretos nos alcançam a tempo hábil de evitar o mal, acredito que ninguém possa negar; que esses indícios ou presságios sejam descobertas de um mundo invisível, onde há comunicação de espíritos, disso não devemos duvidar; e se eles são inclinados a nos alertar do perigo, por que não supor que são uma agência amigável (e se estamos falando de deus em pessoa ou de meros subordinados, isso não modifica a questão) e que vêm para o nosso bem?”
247
“havia ao todo 11 homens, dos quais 3 estavam desarmados e, como eu suspeitava, amarrados; e quando os primeiros 4 ou 5 pularam na praia, trouxeram os três como prisioneiros: um do trio, pude perceber que empregava os gestos mais ternos e apaixonados, indicando apelo, aflição, e desespero, beirando aliás a extravagância.”
– Não, fora de questão, Sexta; receio que vão matá-los, sim; mas de uma coisa estou certo: não vão devorá-los.”
249
“<Estarei falando com Deus ou um homem? É um homem de verdade ou um anjo?> <Não tema, senhor,> disse eu; <se Deus houvera mandado um anjo para salvá-lo, ele viria mais bem-trajado, e armado de outra maneira; por gentileza, deixe os medos e anseios de parte; eu sou um homem, um inglês, e estou disposto a ajudá-lo; veja você, tenho apenas um e único servo…>”
250
<Em suma, meu senhor, eu era o comandante do navio – meus homens se amotinaram; eles estavam resolvidos a não me matar, e, ao menos, me desembarcaram neste ermo desolado, com mais estes dois – um o meu subordinado, e outro um passageiro – onde nossa expectativa era perecer, porque pensávamos ser um local inabitado, e sinceramente ainda não sei o que pensar.>
251
“Ele me disse que havia dois vilões alucinados aos quais, no meu lugar, ele não dirigiria nenhuma misericórdia; e que se eles fossem abatidos, ele acreditava que todos os outros amotinados retomariam os seus postos.”
252
<Veja, senhor, se eu estiver disposto a colaborar com sua empreitada, você estaria disposto a atender duas condições? (…) falo de 2 somente; 1º, que enquanto você permanecer nesta ilha comigo, não aspirará a nenhuma autoridade; e se eu puser armas nas suas mãos, você irá, em qualquer ocasião, mas devolver depois, sem ter prejudicado nenhuma gente dessa ilha em suas ações, limitando-se a obedecer minhas ordens como as de um general militar; 2º, que se o navio for recuperado você me levará, eu e meu escudeiro Sexta-feira, para a Inglaterra, sem custo de passagem.>
253
“O capitão contou-lhes que iria poupar suas vidas se fosse-lhe dada uma prova de sua repugnância e arrependimento, acerca da traição que cometeram, e se jurassem fidelidade no procurar recuperar o navio, e mais tarde em conduzi-lo de volta à Jamaica, de onde a embarcação viera.”
254
“…e assim nossa vitória estava completa.”
255
“Tudo o que lhes mostrei, tudo que eu lhes disse, era perfeitamente admirável, mas o que o capitão apreciou acima de tudo foi minha fortificação, e com que grau de precisão eu forjara meu abrigo escondido pelas copas das densas árvores, brotos que, plantados 20 anos atrás, assomavam agora formando uma verdadeira floresta, e era incrível como as árvores cresciam mais rápido aqui que na Inglaterra”
256
“Eu lhe disse que esse era meu castelo e minha casa, mas que eu também tinha um sítio no interior, como muitos príncipes possuem, para onde eu podia me retirar quando oportuno, e que eu iria mostrá-lo adequadamente qualquer hora; mas que no momento nosso negócio era considerar como reaver o navio. Ele concordou, mas confessou que estava perdido quanto a que medidas tomar, uma vez que ainda havia 26 mãos a bordo, todas pactuadas numa conspiração maldita, arriscando suas vidas contra a lei, e que sua força seria aumentada pelo desespero, e levariam a insubordinação às últimas conseqüências, se preciso. Nada mais natural, já que se fossem vencidos seu destino natural eram as galés inglesas, ou então as colônias penitenciárias da Coroa, o que quer dizer que era inviável atacarmos com tão pouca gente como éramos.”
257
“Pudemos escutar quando uns se lamentavam com os outros, angustiados: estamos presos numa ilha encantada; ou há aborígenes insidiosos aqui, e vamos irremediavelmente ser assassinados, ou então são demônios e espíritos maus, e vamos ser levados para o inferno e ser consumidos pelas chamas.”
258
“Ao estampido da pólvora eu avancei com todo o meu exército, que era agora de 8 homens, quer seja, eu mesmo, generalissimo; Sexta-feira, meu tenente-general; o capitão e seus 2 homens, e os 3 prisioneiros de guerra a que também confiamos armas.”
259
“<Tom Smith! Tom Smith!> Tom Smith respondeu de imediato, <É Robinson?> porque ao que tudo indica reconheceu minha voz. O outro respondeu, <Sim, isso mesmo; Pelo devido temor a Deus, Tom Smith, largue as armas e se renda, ou todos vocês são homens mortos.> <A quem devemos nos render? Onde estão?>, tentou blefar Smith. <Aqui estão>, disse a voz; <aqui estão o capitão e 50 homens com ele, que os caçaram essas duas horas inteiras; o oficial do navio está morto; Will Fry foi ferido, e eu sou um prisioneiro; e se vocês não se renderem agora estão todos perdidos.>”
260
“Também lhes contei a história dos 17 espanhóis que eram esperados, para quem deixei uma carta, e fi-los prometerem tratá-los como iguais. Aqui deve-se notar que o capitão, que possuía tinta a bordo, muito se admirou de que eu nunca tivesse encontrado uma solução para minha escassez de tinta, com tanto carvão e água a minha disposição, ou então qualquer outro material suplente, uma vez que eu havia elaborado muitas outras coisas e derivado luxos de matérias-primas que demandavam muito mais trabalho duro.”
261
“E assim deixei minha ilha, a 19 de Dezembro, como descobri de acordo com a datação do navio, do ano de 1686, depois de 28 anos, 2 meses e 19 dias de confinamento; sendo assim redimido de minha segunda prisão acidental no mesmo dia do mês em que escapei dos mouros de Salé. Nesse navio, depois de uma viagem comprida, aportei na Inglaterra em 11 de Junho, do ano 1687, tendo estado ao todo 35 anos ausente de minha pátria.
Quando cheguei à Inglaterra eu não passava de um perfeito estranho a todos, como se nunca tivesse nascido. Minha benfeitora e fiel escudeira, que eu deixara a cargo das minhas posses, estava viva, mas não sem muitas intempéries na vida; tornou-se viúva uma segunda vez, e empobrecida. Deixei-a tranqüila quanto ao que poderia pensar que me devia, dizendo que isso não tinha mais a menor importância; pelo contrário, em gratidão pelo seu cuidado atencioso e fidedignidade, confortei-a com o pouco que pude de provisões; de fato, nem chegava a ser um grande ato de gentileza”
262
“Depois de um tempo fui para Yorkshire; meu pai já estava morto, minha mãe e o restante da família também extintos, exceto duas irmãs além de duas sobrinhas do meu irmão que me restava antes das minhas viagens, agora também falecido; e como já de há muito eu tinha sido dado como um parente morto, não havia qualquer fortuna no meu nome; numa palavra, eu não estava numa situação confortável; o pouco dinheiro que eu trouxera da minha ilha talvez não me garantisse a subsistência por muito tempo.”
263
“Decidi viajar a Lisboa, para ver se não podia por este meio obter informações do estado de minhas plantações nos Brasis, e saber do meu antigo parceiro, que com certeza também me considerava morto. Cheguei a Portugal no Abril seguinte, sempre acompanhado de meu inseparável Sexta-feira, o meu favorito, e mais confiável de todos os servos que já tive. Investigando, para minha surpresa e contentamento, descobri que meu velho amigo, capitão do navio português que me ajudou no meu primeiro incidente de relevo, me retirando do continente africano a troco de nada, vivia ainda.”
264
“dada a extrema probabilidade de eu ter naufragado e acabado no fundo do mar, meus provedores financeiros repassaram meus ganhos de produção ao procurador-fiscal, que estabeleceu propriedade sobre o montante, no caso de eu jamais aparecer para reclamá-lo, distribuindo-o na seguinte proporção: um terço destinado ao rei e 2/3 ao monastério de Santo Agostinho, destinado à caridade e a um fundo para a conversão de índios à fé católica: mas, no caso de eu aparecer, ou alguém que me representasse, para clamar a herança, ela ser-me-ia devolvida; os lucros da produção anual, sendo distribuídos para fins não-lucrativos, porém, não poderiam ser recuperados: se bem que me asseguraram que o tesoureiro real para as questões das terras, e o mecenas que mantinha o monastério, tomaram o devido cuidado de exigir contas ao incumbente (meu velho amigo e vizinho de plantation), que nunca deixava de divulgar as rendas anuais do negócio agrário, soma da qual, para simplificar, eu tinha direito à metade, que o mecenas e o tesoureiro recebiam diligentemente.”
265
“a terça parte do rei que, pelo visto, acabava indo parar em outra instituição religiosa, só para se ter idéia, equivalia a mais de 200 moidores/ano¹”
¹ Conforme explicação no fragmento 197, trata-se de 6.000 shillings, uma quantidade esmagadoramente incalculável, ou incalculavelmente esmagadora. Em suma, Robinson Crusoe se tornou um bilionário da noite para o dia!
266
“o valor da minha terra era calculado em 19.446 crusadoes, o que equivalia a aproximadamente 3.240moidores.¹”
¹ Talvez Robinson fosse ainda mais que um bilionário: um trilhardário; alguém impossível de conceber nos dias de capitalismo financeiro e integrado globalmente de hoje, em que estimar fortunas é menos complicado e em que há mecanismos mais garantidos de redistribuição de renda e controle e taxação de riquezas exorbitantes (ver n. 268 e 269).
267
“lembrai que os últimos momentos de Jó foram melhores que o próspero início.”
268
“Eu era o dono, não mais que de repente, de mais de 5.000 libras esterlinas em dinheiro, e tinha um patrimônio, nos Brasis, que me rendia mais de 1.000 libras/ano, tão seguro e rentável quanto outras rendas provindas de terras londrinas: então, para resumir, eu me encontrava agora numa condição que eu mal poderia entender, muito menos aprender a desfrutar.”
269
“Eu não dispunha mais de uma caverna onde esconder meus tesouros, ou de um lugar qualquer onde pudessem ser guardados sem tranca ou chave, sem me preocupar, até enferrujar, desbotar e criar bolor, porque ninguém ia conseguir encontrá-los; pelo contrário, eu não tinha câmaras ou depósitos o bastante para alojar tantas posses, ou na verdade a quem confiar os papéis que me certificavam essas riquezas.”
270
“Comecei a despertar a inclinação para regressar aos Brasis e me estabelecer lá em definitivo, afinal aquela fazenda me soava o lugar mais natural para me fixar; apesar de me acostumar lentamente à idéia, eu tinha escrúpulos religiosos que me impediam de dar o passo decisivo. Mas admito que não foi a religião católica dos Brasis o fator determinante para adiar minha viagem no presente”
271
“é que, quando comecei a pensar em viver e morrer ao lado deles, comecei a me arrepender haver-me professado um Papista, e achava agora que não era essa a melhor crença na qual morrer.
Mas, como eu já disse, não era essa a razão principal da minha hesitação, mas que eu realmente não sabia aos cuidados de quem relegar todas as minhas posses; finalmente, tomei a decisão de ir à Inglaterra, onde eu deveria, uma vez chegado, estabelecer alguma relação, ou rede de relações, em que pudesse me escorar”
272
“eu tinha me apegado demais ao mar, e ainda assim manifestava uma estranha aversão à ida para a Ilha Britânica pela via marítima, desta vez”
273
“É a mais pura verdade que meus maiores infortúnios se devem ao mar, e essa era a razão mais evidente da minha apreensão; mas não subestime o menor pressentimento instintivo de um homem em iguais circunstâncias: duas das embarcações que eu havia fretado para meu deslocamento, sem minha presença mas com vários dos meus pertences, simplesmente malograram. Uma foi atacada por piratas argelinos, e a outra afundou em Start, nas proximidades de Torbay¹, deixando apenas 3 sobreviventes; ou seja, em qualquer destes navios que eu estivesse teria resultado para mim uma nova desgraça.
Assediado pelos meus próprios pensamentos temerosos de tal maneira, meu mais experiente piloto, a quem eu tudo comunicava, me pressionou vivamente a não fazer essa viagem inteiramente pelo mar, antes desembarcando o mais cedo possível, por exemplo no porto de Groyne² e cruzando por terra da Baía de Biscay³ até La Rochelle4, partindo de onde eu teria uma jornada fácil e segura até Paris, de lá para Calais, de Calais para Dover5; de Dover para Madri, e seguindo sempre pelas estradas francesas.”
¹ Inglaterra
² Não consegui apurar a localidade
³ Gasconha, região do sudoeste francês próxima dos Pirineus e da Espanha, cuja população é em alto grau composta por descendentes de bascos. É a terra natal de D’Artagnan (Dumas).
4 França
5 Sudeste da Inglaterra, na menor distância verificada entre a França e a Ilha, bastando atravessar um estreito para se cruzar a fronteira.
274
“foi o inverno europeu mais severo na memória de todos os viventes”
275
“Sendo o urso uma criatura pesada e desajeitada, que não galopa como o lobo, habilidoso e ligeiro, ele tem duas qualidades particulares, que geralmente são a regra de suas ações; primeiro, quanto a homens, que não são sua caça em específico (ele só os ataca se for o primeiro a ser atacado, ou se estiver morrendo de fome, o que é provável que fosse o caso agora, estando o terreno coberto de neve), se você não se meter com eles, eles não se meterão consigo; isso significa ser muito civil com um urso, e dar licença para deixar-lhe a passagem, porque ele é no fundo um gentleman; ele não vai sair do caminho nem para um príncipe; se você está morrendo de medo, o conselho é nem olhar na direção dele e seguir seu caminho; porque se você der uma parada, e der uma olhadela de viés, ele vai interpretar como uma afronta; e se você jogar alguma coisa nele, mesmo que seja um pedacinho de galho tão grande quanto um dedo mindinho, ele vai se sentir violado de verdade, e vai ignorar todos os outros negócios até acertar as contas com você, este é um ponto de honra – essa é sua primeira qualidade: a segunda é, uma vez afrontado, um urso nunca deixará o afrontador escapar, noite e dia, até dar-se o tira-teima, mesmo que o acompanhe apenas de longe, tão de longe que não possa ser pressentido ou detectado; ele é um perseguidor implacável.”
276
“Todos ficamos surpresos ao contemplá-lo; mas quando Sexta-feira o viu, nele se via o semblante da coragem e da alegria. <O! O! O!>, repete Sexta três vezes, apontando: <Ah, mestre, você me deixar ir, eu apertar mão com ele; eu você fazer rir.>
Não tem como dizer que não fiquei atônito com essa reação. <Tolo! Ele vai devorá-lo!> – <Comer eu!!! Comer eu!!>, repetiu Sexta-feira duas vezes; <EU comer ele; eu fazer você rir.> Então Sexta-feira se sentou e descalçou suas botas num átimo, vestindo no lugar um par de sandálias (como chamamos esses sapatos frouxos que eles usam, e que ele levava no bolso), deu ao meu outro assistente o arreio do cavalo, e sem sua arma ele literalmente deslizou pela neve, como um cervo, ou melhor ainda, como o vento.
O urso caminhava devagar, e não parecia querer encrenca, até Sexta-feira se aproximar um tanto, chamá-lo, como se o urso pudesse entendê-lo. <Escuta tu, escuta tu! eu falar contigo.> Contemplamos à distância, estávamos na borda de uma floresta da Gasconha, onde o terreno é plano e aberto, com árvores esparsas. Sexta-feira, que estava, como dizemos popularmente, nos calcanhares do urso, se pôs frente a frente com ele na maior ligeireza, se apoderou de uma pedra grande das proximidades, e atirou-a nele, acertando-o bem na cabeça, mas sem conseguir machucá-lo mais do que se atirasse contra um muro; mas isso era o que Sexta-feira realmente queria, porque o pilantra o fez visivelmente só para atrair a atenção do urso e fazê-lo seguir suas pegadas na neve, e ainda por cima nos fazer rir enquanto o chamava e o instigava mais e mais. Assim que o urso sentiu o impacto da pedrada e fitou o índio, não hesitou em segui-lo, com passadas largas, sacudindo de forma estranha, o que com certeza poria mesmo um cavalo em fuga; Sexta-feira desenhou uma escapatória em nossa direção, como se quisesse a nossa ajuda; logo empunhamos as carabinas e estávamos prontos para os disparos, para salvar nosso homem; mesmo muito bravo com sua conduta intempestiva, atraindo esse predador para cima de nós, sendo que antes ele nada queria conosco; então eu bradei, <Cachorro! isso é o ‘nos fazer rir?’. Venha e monte seu cavalo, nós cuidamos dele agora.> <Não disparar, não disparar; calminha aí, e vocês rir muito ainda>”
277
“Nem bem o urso abandonou aquela parte mais frágil do galho, <Rá!>, fez Sexta-feira para nós, <agora vocês ver eu ensinar urso dançar!>: então ele começou a pular e sacudir o galho corpulento, no que o urso começou a cambalear, mas sem perder o equilíbrio, e olhando sempre para trás, pensando como poderia voltar e descer; aí foi que nós rimos realmente com vontade.”
278
“<O quê? Você não vir longe mais? Favor ô, vir mais!>; e Sexta-feira continuou pulando e fazendo o galho vibrar cada vez mais; e o urso, como que entendendo a língua dele, realmente se aproximou, prosseguindo enroscado ao galho; Sexta-feira retomou seus saltos ritmados, e o urso parou de novo. Achávamos a oportunidade perfeita para dar um tirombaço na cabeça da fera, e dissemos para Sexta-feira não se mexer: mas ele gritou firmemente, <Ah, favor! Favor, gente! Não atirar, eu atirar depois só>: foi o que ele seguiu dizendo a fim de nos acalmar. Para encurtar logo essa história, Sexta-feira caprichou tanto em sua dança, e o urso ficou tão refém do procedimento, que não paramos de rir por um longo período, mas mesmo assim não podíamos entender como aquilo acabaria, pois Sexta-feira seguia encurralado: primeiro, pensávamos que ele contava em derrubar o urso com um de seus pulos; acontece que o urso era esperto demais para cair dessa maneira; ele não ficava parado nas partes mais sensíveis da grande ramagem, e segurava-se firme com suas garras enormes; ansiávamos, em verdade, pelo fim do longo espetáculo. Mas Sexta-feira nos removeu a neblina e a dúvida dos pensamentos com a mesma celeridade de sempre: <Ora, Ora, você não se adiantar mais, né ursão, eu ir então; você não vir mim; eu vir tu;> e dizendo isso Sexa-feira não hesitou em ir à extremidade mais leve do ramo da árvore, que provavelmente racharia com seu peso, mas deixou-se cair suavemente, agarrando numas folhagens para amortecer a queda, no que pisou em terra e rapidamente armou-se. <Ora,> interpelei-o, <Sexta, o que fará agora? Por que não atira de uma vez?> <Não atirar,> me respondeu Sexta-feira, <não ainda; eu atirar agora, não matar; eu ficar, fazer mais risada>. E o índio cumpriu a palavra: o urso, vendo seu contendor escapulir-se, tentou baixar mais rápido, mas morrendo de medo de se desequilibrar do galho, olhando para trás a cada recuo de poucos centímetros, vinha de marcha à ré bem devagar, até finalmente alcançar o tronco; então desceu, ainda com todo o cuidado e sem pressa, prendendo-se com as garras na madeira e movendo uma pata traseira de cada vez; nessa conjuntura, e antes que pudesse pisar a neve, Sexta-feira se aproximou, destravou a espingarda e o matou. Então o sacana nos olhou para ver nossa reação; e quando viu que todos nós estávamos a gargalhar depois de pensarmos que ele estava o tempo todo em apuros, ele começou a rir alto também. <Assim matar nós urso na nossa nação!”> <Assim que vocês matam? Como, se vocês não têm armas de fogo…> <Não,>, não arma, não, mas disparar flecha grande.> Esse foi um excelente entretenimento para todos nós; mas, convenhamos, ainda nos encontrávamos em meio silvestre, com nosso guia ferido, e não sabíamos direito o que fazer; o uivar de lobos repercutia em minha mente; exceto um uivo que ouvi na costa d’África, que sempre recordava na memória, esse era o som mais horripilante que já tinha ouvido.”
279
“Tínhamos que atravessar uma senda perigosíssima, e nosso guia nos alertou que, houvesse mais lobos na região, certamente com eles nos depararíamos; esse era um planalto estreito, cercado de árvores, e além de tudo comprido, o que perfazia uma garganta, que devíamos atravessar para superar as florestas espessas, e só além estaria o vilarejo onde repousaríamos. Já estava a meia hora do pôr-do-sol quando nos vimos nesse cenário desanimador: seja como for, nos arredores do primeiro bosque nada havia de ruim, exceto que vimos 5 grandes lobos a coisa de meio quilômetro de distância, em velocidade, como se estivessem no meio da caça; mas não vinham na nossa trajetória e pareciam não ter-nos notado sequer, tendo saído também de nossa vista num instante.”
280
“não vimos mais nenhum lobo até nos embrenharmos, na segunda seção de árvores espessas, por coisa de 2km, até termos de novo planalto liso pela frente e repararmos em mais lobos. Vimos um cavalo morto; isto é, a carcaça do banquete lupino, e uma dúzia deles ainda se livrando dos restos, mas já estava quase tudo terminado, estavam só a roer os ossos.”
281
“Não cruzáramos metade do planalto que nos faltava quando ouvimos de novo uivos vindos da floresta esquerda que nos encheram de calafrios. Vimos uma centena de lobos se aproximando numa alcatéia, como que em fila, na perfeita organização de um calejado exército. Não fazia idéia de como recebê-los todos; raciocinando rápido, concluí que manter uma linha de frente densa era a única resposta apropriada; isso nós perfizemos rápido; só solicitei que metade abrisse fogo, e enquanto essa metade recarregava sua arma, a outra disparasse, para não darmos intervalo algum às feras, se elas não demonstrassem nenhum receio em avançar. E na verdade no segundo lance de disparos devíamos usar as pistolas (pois cada qual tinha tanto um fuzil quanto um par de pistolas). Dessa forma, poderíamos disparar 6 rajadas a metade de nosso bando; mas todo esse planejamento foi exagerado, pois a linha de frente do inimigo se assustou e recuou logo com os primeiros disparos. O barulho os assustava tanto quanto o próprio fogo. Quatro caíram com tiros na cabeça; muitos outros estavam feridos, manchando bastante a neve branca; é verdade, eles pararam, mas não desistiram. Nesse ínterim, me lembrando de que já havia escutado que a mais feroz das criaturas se assustava com o som da voz humana, instei todos os meus colegas a berrar tanto quanto conseguissem; e descobri na prática que essa noção não era equívoca; com nossos gritos eles começaram a dar meia-volta. Então eu coordenei uma segunda torrente de disparos logo a suas costas, o que os fez galopar em retirada de vez, e sumiram-se nas árvores. Isso nos deu tempo para carregar nossas armas; e era importante continuarmos nos deslocando em direção à vila sem perder tempo. Mas mal recarregamos nossas espingardas e apontamos, ouvimos ruídos horríveis daquela mesma floresta para onde se afugentaram os feridos vivos e os assustados, só que provinha de um ponto mais adiantado, onde deveríamos chegar ainda.
A noite se impunha, a luz era cada vez mais cinza e opaca, o que só piorava as coisas; a princípio o som era indistinto, mas com nossa lenta aproximação foi ficando claro: eram uivos e rugidos daquelas criaturas infernais; de súbito percebemos três bandos compactos de lobos, um à esquerda, um por trás de nós, outro pela frente, de modo que parecíamos irremediavelmente emboscados: porém, como eles não caíram em cima de nós de imediato, fomos galgando pela neve, devagar, porque puxar nossos cavalos era um problema. Foi assim que chegamos à clareira da floresta, com o intuito de atravessar esta última como nosso obstáculo final; nesse instante fomos pegos de surpresa ao nos deparar com um número indeterminado de lobos à espreita, semi-oculto pela vegetação. Sem nos dar tempo para pensar ouvimos um tiro, de outra abertura na floresta próxima; vimos um cavalo trotando no nosso rumo, só com sela e arreios, sem cavaleiro, avançando como o vento, perseguido por 16 ou 17 lobos no que parecia ser o limite da velocidade dos animais na natureza: e o cavalo podia ir mais depressa; mas imaginávamos que ele não poderia manter esse ritmo nesse terreno pouco propício a seu tipo: e assim se deu.
Outra visão ainda mais horrenda nos sobreveio; aproximando-nos com alguma cautela do local em que lobos e cavalo entraram em contato, que foi pior para o último, vislumbramos a carcaça de outro cavalo e de dois homens, devorados pelo apetite infame dessas criaturas; e um dos homens era sem dúvida o autor do disparo que ouvíramos, porque a seu lado estava um fuzil ainda fumegante; ele já estava sem cabeça, pescoço e algumas outras partes superiores. Isso terminou de nos desesperar; nossa confusão teve de cessar porque as criaturas nos premiam a achar uma solução instantânea, e nós seríamos o banquete lupino (a sobremesa) se não pensássemos em alguma coisa para virar o jogo; eu acredito que em todo esse cenário havia coisa de 300 lobos para nos destroçar. Creio que aquilo que nos salvou foi que havia muita lenha empilhada na horizontal, perto da referida clareira, porque muitas das árvores desse bosque haviam sido desmatadas em alguma estação anterior pelos locais (só podia ser no verão). Eram troncos enormes de pinheiro, e nos dariam uma grande vantagem na defesa. Não sei por que todo o madeirame não havia ainda sido transportado, mas tínhamos de usá-lo a nosso favor. Organizei meu bando como em trincheiras, em formação triangular, ou seja, três lados de frente para o que pudesse atacar de fora; envolvemos com este “cordão retilíneo” os cavalos, que ficaram no centro, guarnecidos. Nunca vi nem em ficção um assalto tão furioso de bestas selvagens contra o que quer que fosse, e nem sei como estou aqui a contar. Eles vieram emitindo sons que eu mal podia associar aos grunhidos que já ouvira até então, e tentaram subir pelos troncos de madeira para nos abocanhar; acredito que essa fúria estivesse acentuada justamente por causa da ânsia pela carne de cavalo que eles farejaram. Coordenei os lances de tiros, como daquela outra vez; e os disparos foram tão precisos que vi inúmeros desses predadores caírem já sem vida; mas eram muitos e não podíamos parar, e eles seguiam vindo como demônios, sem perderem a confiança, como no assalto anterior, que não era comparável a este. E os de trás premiam os da frente, de modo que mesmo que algum lobo mais covarde quisesse retroceder não teria podido.
Quando foi ejetada a segunda carga de nossos canos, alguns segundos me deram a falsa impressão de que houve intimidação por parte deles, mas eles retomaram a caça com o mesmo vigor de antes; demos mais duas salvas de tiros; acredito que nessas 4 primeiras saraivadas o número de abatidos foi de 16, 17, 18… com pelo menos o dobro de feridos, mas o exército de quatro patas não parava por nada.”
282
“despachamo-los num instante, e os demais estavam tão apavorados com a luz que a noite contrastante – pois agora a escuridão era quase total – só fazia da ameaça do fogo algo mais terrível e opressor, então recuar era para eles inevitável; ordenei que carregássemos nossas pistolas uma última vez numa sessão sincronizada de tiros, e depois dela gritamos com todas as forças dos pulmões; nisso, os lobos simplesmente meteram o rabo entre as pernas, e demos cabo de uns 20 que ainda vimos espalhados pela neve, agonizando ou rastejando, rasgando-os barbaramente com nossas espadas, o que produziu o efeito que eu esperava: os gemidos de morte desses infelizes animais que ficaram para trás terminaram, por nós, o serviço de terror psicológico nos sobreviventes em fuga; não sobrou um que ousasse nos desafiar.
Fazendo as contas, acho que matamos umas cinco dúzias dessas feras, e se houvesse luz do dia creio que o massacre teria sido mais amplo. O campo de batalha varrido das ameaças, seguimos em frente, porque cerca de 5km ainda nos separavam da cidade.”
283
“em uma hora de caminhada estávamos no vilarejo onde nos hospedaríamos, cujos moradores estavam visivelmente apreensivos e andando armados; parece que a noite passada os lobos e até alguns ursos assaltaram o local, forçando-os a manter-se em vigília se não quisessem perder seus rebanhos de ovelhas e mesmo os próprios entes.”
284
“aqui fomos obrigados a contratar um novo guia e ir rumo a Toulouse, onde a temperatura era mais agradável e quente, sem dúvida uma localidade deliciosa, sem neve nenhuma, sem lobos, nem nada similar; quando contamos nossa saga em Toulouse, nem ficaram surpresos; disseram que é o normal da estação nas florestas ao pé das montanhas, especialmente em nevascas; mas o que acharam estranho foi que tipo de guia resolveu nos conduzir assim tão perigosamente por aquelas trilhas, justo nessa época do ano, e que foi extraordinário ninguém de nós terminar sendo devorado. Quando relatamos nossa tática de esquadrão, com os cavalos ao centro, nos culparam severamente, e disseram que era 50 para 1 a probabilidade da morte face à da salvação, usando tal expediente. Era a vista dos cavalos que deixava os lobos enraivecidos, e que em outras circunstâncias eles têm medo das armas; só que passando fome e sob a loucura instintiva da caça à presa natural, a expectativa de abocanhar a carne eqüina tornava-os insensíveis ao perigo; se não tivéssemos mantido rajadas contínuas de balas, e se não tivéssemos atirado em invólucros de pólvora para causar detonações, o mais provável é que não teríamos para quem contar essas histórias senão no outro mundo.”
285
“disseram que o melhor nessa ocasião seria agruparmo-nos todos, deixando para trás nossos cavalos, e assim nos livraríamos com a maior facilidade, ou pelo menos assim reza a inteligência e a experiência. Nunca senti tanto remorso por desafiar tolamente o perigo quanto agora, por incrível que pareça; três centenas de lobos querendo devorá-lo, sem nenhum escudo na paisagem ou refúgio no horizonte, sendo que não precisávamos estar naquele local e podíamos ter evitado atrair tantas feras, era mais terrível do que um súbito mal marítimo, muitas vezes imprevisível, inevitável; achei mesmo que minha hora estava encomendada, nalgum ponto daquela noite”
286
“Em suma, preferia circunavegar o globo, mesmo que estivesse certo de cruzar com uma tempestade por semana.
Felizmente, dos próximos dias não tenho nada sobrenatural a relatar, enquanto ainda estive percorrendo a França – nada que outros viajantes não tenham relatado previamente com muito mais propriedade. Fui de Toulouse a Paris, e sem muito me demorar já estava em Calais, pisando em Dover em segurança dia 14 de Janeiro, já no fim desse rigoroso inverno.”
287
“Meu maior guia e conselheiro privado não podia deixar de ser minha preciosa viúva, a minha antiga tutora, que, em gratidão pelo dinheiro que lhe enviei, não considerava nunca excesso de zelo nem cuidado fazer tudo que estivesse a seu alcance pelo meu bem; e eu depositava tanta confiança nela que não tive a menor intranqüilidade em atribuir-lhe toda a responsabilidade pela administração da minha fortuna; na verdade não só isso, como me senti um tanto aliviado depois de tudo; não é comum poder contar com alguém de tamanha integridade ao seu lado.
Resolvido, afinal, a arrematar a questão das minhas plantations nos Brasis, escrevi ao meu amigo lisboeta, que, comunicando minha sobrevinda aos dois empresários que agora usufruíam dos meus direitos de terra, os descendentes dos meus investidores originais, ambos residentes nos Brasis, recebeu a resposta em sinal de aprovação pela minha oferta, e remeterem imediatamente 33.000 dólares espanhóis¹ a um receptor em Lisboa, que me indicaram.”
¹ “Pieces of eight” no original, uma das primeiras moedas aceitas quase que irrestritamente em nível global por algum tempo.
288
“E assim se conclui, basicamente, a primeira metade de uma vida devotada ao acaso e à aventura – uma vida sujeita às tramas da Providência, e duma variedade que o mundo poderia replicar em uma multitude de indivíduos; começando tolamente, mas terminando de forma muito mais feliz do que qualquer um dos capítulos dessa história poderia sinalizar.
Qualquer um adivinharia que nesse estado de eterno sucumbente da Fortuna (e falo do azar, não do dinheiro!) esse meu epílogo não significaria um verdadeiro fim – e esse <qualquer um> teria acertado em cheio. Não é que eu simplesmente não conseguisse parar. Eu tentei. Mas novas circunstâncias sempre me retiravam do repouso. Eu nascera inclinado ao nomadismo, não tinha família, nem muitos conhecidos tão próximos; nem mesmo a riqueza me trouxera esses <luxos> humanitários; depois de liquidar minha propriedade nos Brasis, capitalizando bastante, ainda não podia retirar esses trópicos da cabeça, parecia que meu destino <morava> ali; o vento me levaria ao meu destino; e mais que isso, eu tinha no íntimo uma vontade de rever a minha ilha, de saber se os espanhóis que estavam para lá chegar quando parti estavam bem.”
289
“Me casei, e confesso que nada perdi com isso, e tive 3 filhos, 2 meninos e 1 menina; mas, ficando viúvo prematuramente, e meu sobrinho retornando ao lar enriquecido após uma viagem à Espanha, meu eterno ímpeto de viajar, e sua importunidade, prevaleceram, e este meu parente logrou me convencer a embarcar em seu navio como comerciante autônomo em direção às Índias Orientais; este era o ano de 1694.
No decorrer dessa viagem visitei minha nova colônia na ilha, vi meus sucessores os espanhóis, me informei de tudo que se passara desde minha partida – e posso dizer-lhe, eles sofreram nas mãos dos vilões que eu deixei que residissem por ali; soube como foram insultados, os humildes hispânicos, como se entenderam, voltaram a se desentender, entraram em comunhão, e em atrito uma vez mais, e como por último os espanhóis, em legítima defesa, foram obrigados a recorrer à violência; como os ingleses corsários terminaram por se tornarem servos dos espanhóis, mas como apesar de tudo os espanhóis sempre os trataram com bondade, mesmo durante a vigência dessa desigualdade – um conto, enfim, que se fosse pormenorizado aqui, se desdobraria nos acidentes mais maravilhosos concebíveis, não sem minha participação nisso tudo. Eu cheguei em tempo de colaborar com eles numa guerra travada contra os caribes, que continuavam a fazer visitas cerimoniais à costa. A ilha se modificara muito, 5 dos novos habitantes inclusive arriscaram-se na navegação ao continente, e seqüestraram 11 homens e 5 mulheres aborígenes, razão pela qual encontrei, ao aportar na minha segunda visita, 22 crianças na ilha.
Eu permaneci por 20 dias, entreguei-lhes suprimentos os mais variados, particularmente armas, pólvora, balas, roupas, ferramentas, e ainda 2 mãos-de-obra, isto é, 2 trabalhadores, que trouxe da Inglaterra, um carpinteiro e um ferreiro.”
290
“De lá, voltei à costa brasileira, de onde fretei um navio com mais gente para povoar a ilha; e no novo navio, além de novos recursos, enviei 7 mulheres, as quais selecionei muito bem, para serem esposas devotas para aqueles a quem coubesse a sorte de ser seus consortes.”
291
“Mas de todas essas coisas, com o relato composto e minucioso de como 300 caribes vieram e atacaram a ilha, destruindo suas plantações, e como houve luta dos novos habitantes contra esse exército selvagem, não só uma, mas duas vezes, e de que aqueles foram primeiro derrotados mas depois venceram, com a ajuda providencial de uma tempestade, e como renovaram e recuperaram suas provisões e cultivos, e seguiram vivendo ali, de tudo isso…
…, e com o acréscimo de outros incidentes ocorridos longe da ilha, nas mais remotas coordenadas do globo terrestre, novas aventuras protagonizadas por mim, por 10 anos mais de minha atribulada existência, de tudo isso devo eu falar, na Segunda Parte de minha História.”