CURSO DE LINGUÍSTICA GERAL II (módulo parcial): https://seclusao.art.blog/2018/04/16/saussureal/ Podemos retomar, portanto, da página 148 (SEGUNDA PARTE, cap. VI), salvo o que já houver sido explorado ainda antes, no
O curso I foi “redigido” com base num exemplar físico, cuja editora me escapa no momento;
O curso II foi “redigido” (e imagens foram aproveitadas) com base no PDF da edição Cultrix, com prefácio de Isaac Nicolau Salum (USP). Trad.: Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. ISBN 978-85-316-0102-6, 34ed., 2013.
Sou proprietário de um exemplar da obra e informo que os trechos por aqui veiculados têm intuitos tão-somente educativos.
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA (PRINCÍPIO DA DÉCADA DE 70) – Isaac Salum
“A 1ª edição do Cours é de 1916, e é, como se sabe, ‘obra póstuma’, pois Saussure faleceu a 22 de fevereiro de 1913. A versão portuguesa sai com ‘apenas’ 54 anos de atraso. Mas nesse ponto não somos só nós que estamos atrasados. O Cours de linguistique générale não foi um best-seller, mas foi em francês mesmo que ele se tomou conhecido na Europa e na América. A 1ª edição francesa, de 1916, tinha 337 paginas; as seguintes, de 1922, 1931, 1949, 1955, 1962… e 1969, têm 331 paginas. Note-se, porém, como crescem os intervalos entre as edições até a 4ª, de 1949, e depois se reduzem à constante de 7 anos, o que mostra que até a edição francesa teve a sua popularidade aumentada nestas duas ultimas décadas.
Uma vista de olhos sobre as traduções é bastante elucidativa. A primeira foi a versão japonesa de Kobayashi, de 1928, reeditada em 1940, 1941 e 1950. Vem depois a alemã de Lommel, em 1931, depois a russa, de H.M. Suhotin, em 1933. Uma divulgou-o no Oriente, e a outra no mundo germânico ( e nórdico) e a terceira no mundo eslavo. A versão espanhola, de Amado Alonso, enriquecida com um excelente prefácio de 23 páginas, saiu em 1945, sucedendo-se as edições de 1955, 1959, 1961, 1965 e 1967, numa cerrada competição com as edições francesas.” “A versão inglesa de Wade Baskin, saída em Nova Iorque, Toronto e Londres, de 1959. A polonesa é de 1961, e a húngara, de 1967. Em 1967 saiu a notável versão italiana de Tullio De Mauro, tradução segura e fiel, mas especialmente notável pelas 23 páginas introdutórias e por mais 202 páginas que se seguem ao texto, de maior rendimento, em virtude do corpo do tipo usado, ostentando extraordinária riqueza de informações sobre Saussure e sobre a sorte do Cours, com 305 notas ao texto e uma bibliografia de 15 páginas (cerca de 400 títulos).”
“Mas a freqüência das reedições e traduções do Cours nesta década de 60 que acaba de expirar mostra que já era tempo de fazer sair uma versão portuguesa dessa obra cujo interesse cresce com o extraordinário impulso que vêm tomando os estudos lingüísticos entre nós e em todo o mundo. Já se tem dito, e com razão, que a Lingüística é hoje a ‘vedette’ das ciências humanas. Acresce que o desenvolvimento dos currículos do nosso estudo médio nestes últimos anos impede que uma boa percentagem de colegiais e estudantes do curso superior possam ler Saussure em francês.” Retiraram o Francês da grade curricular do ensino médio. Malditos milicos!
“O Cours é um clássico. Não é uma ‘bíblia’ da Lingüística moderna, que dê a ultima palavra sobre os fatos, mas é ainda o ponto de partida de uma problemática que continua na ordem do dia.”
“É bem certo que a Lingüística americana moderna surgiu sem especial contribuição de Saussure; não deixa, porém, de causar espécie a onda de silêncio da quase totalidade dos lingüistas americanos com relação ao Cours. Bloomfield, fazendo em 1922 a recensão da Language de Sapir, chama o Cours ‘um fundamento teórico da mais recente tendência dos estudos lingüísticos’, repete esse juízo ao fazer a recensão do próprio Cours. em 1924, fala em 1926, do seu ‘débito ideal’ a Sapir e a Saussure, mas não inclui o Cours na bibliografia de sua Language, em 1933.”
“hoje não se pode deixar de reconhecer que o Cours levanta uma série intérmina de problemas. Porque, no que toca a eles, Saussure – como Sócrates e Jesus – é recebido ‘de segunda mão’. Conhecemos Sócrates pelo que Xenofonte e Platão escreveram como sendo dele. O primeiro era muito pouco filósofo para entendê-lo, e o segundo, filósofo demais para não ir além dele, ambos distorcendo-o. Jesus nada escreveu senão na areia: seus ensinos são os que nos transmitiram os seus discípulos, alguns dos quais não foram testemunhas oculares.”
COINCIDÊNCIA OU DESTINO? “foram três os Cursos de Lingüística Geral que ele ministrou na Universidade de Genebra” “Saussure várias vezes se mostra insatisfeito com os pontos de vista a que tinha chegado.” “Os editores do Cours – Charles Bally, Albert Sechehaye, com a colaboração de A. Riedlinger – só tiveram em mãos as anotações de L. Caille, L. Gautier, Paul Regard, Mme. A. Sechehaye, George Dégallier, Francis Joseph, e as notas de Riedlinger. E, tal qual ele foi editado, com a sistematização e organização dos 3 ilustres discípulos de Saussure, apresenta vários problemas críticos.”
Godel, Les sources manuscrites du Cours de linguistique générale de Ferdinand de Saussure, Genebra-Paris, Droz, 1957.
Benveniste, Saussure après um demi-siècle
“Vejo-me diante de um dilema: ou expor o assunta em toda a sua complexidade e confessar todas as minhas dúvidas, o que não pode convir para um curso que deve ser matéria de exame, ou fazer algo simplificado, mais bem-adaptado a um auditório¹ de estudantes que não são lingüistas. Mas a cada passo me vejo retido por escrúpulos.”
¹ Falando assim nem parece que seus cursos agora clássicos jamais ultrapassaram a dúzia de estudantes simultâneos!
“Ajunte-se como traço anedótico que a frase final do Cours tão citada – a Lingüística tem por único e verdadeiro objeto a língua encarada em si mesma e por si mesma – não é de Saussure, mas dos editores.
Aí está um problema crítico com tríplice complicação. Problema crítico grave como o da exegese platônica ou o problema sinótico dos Evangelhos. Naturalmente, as notas dos discípulos de Saussure foram apanhadas ao vivo na hora, como cada um podia anotar.”
“Saussure destruía os seus rascunhos apressados em que ia traçando dia a dia o esboço da sua exposição.”
“Godel não se mostra muito entusiasta com essas pesquisas. Eis o que ele diz: ‘Na época em que Saussure se ocupava de mitologia gêrmânica, apaixonou-se também por pesquisas singulares. (…) Os cadernos e os quadros em que ele consignou os resultados dessa longa e estéril investigação formam a parte mais considerável dos manuscritos que ele deixou” “É curioso notar que Tullio De Mauro, tão rico de informações, e que cita e usa tanto o Recueil como Les sources manuscrites, não os tenha incluído no seu inventário bibliográfico final, de cerca de 400 títulos.”
“Os Souvenirs de F. de Saussure concernant sa jeunesse et ses études atrás mencionados (Ms. fr. 3957) são ricos de informações acerca das suas relações com os lingüistas alemães e sobre a famosa Mémoire sur le système primitif des voyelles dans les langues indo-européenes, Leipzig, Teubner, 1879, 302 pp., escrita aos 21 anos.”
“Se a isso se acrescentar o conjunto de obras editadas em 1922 por Charles Bally e Léopold Gautier sob o título de Recueil des publications scientifiques de Ferdinand de Saussure, num grosso volume de 8 tomos e 641pp., teremos tudo o que Saussure publicou ou esboçou ou escreveu.”
“O estudo sincrônico dum estado atual de língua, especialmente na sua manifestação oral, atenua, quase dispensando, o trabalho filológico. Mas, paradoxalmente, a obra do lingüista que insistiu na sincronia constitui-se agora um notável problema filológico: o do estabelecimento do seu texto.
A edição crítica saiu em 1968 (ed. Rudolf Engler), num primeiro volume de grande formato, 31×22 cm, e de 515+515 páginas. É uma edição sinó(p)tica [simultânea, global, contextual], que dá as fontes lado a lado em 6 colunas. A primeira coluna reproduz o texto do Cours, da 1ª edição de 1916, com as variantes introduzidas na 2ª e na 3ª (de 1922 e 31). As colunas 2, 3 e 4 trazem as fontes usadas por Charles Bally e Albert Sechehaye. As colunas 5 e 6 trazem as fontes descobertas e publicadas por Robert Godel”
Assim como “a Synopse des quatre évangiles en français de Benoit e Boismard, o famoso livro de Saussure ‘que ele não escreveu’ poderá ter também o seu interesse pedagógico: será uma fotografia fiel de como é apreendido diversamente aquilo que é transmitido via oral.”
“A edição a ser oferecida a um público mais amplo só pode ser a que consagrou a obra: a edição crítica, de leitura pesada, será obra de consulta de grande utilidade para os especialistas e para os mais aficionados.” Poooxa…
“Mas êste prefácio já se alongou demais. Além disso, os trabalhos de análise da Lingüística moderna como As grandes correntes da Lingüística Moderna, de Leroy, As novas tendências da Lingüística, de Malmberg, Lingüística Románica, de lorgu Iordan, em versão espanhola de Manuel Alvar (pp. 509-601), os estudos de Meillet em Linguistique historique et linguistique générale II (pp. 174-183) e no Bullettin de la Société de Linguistique de Paris, o de Benveniste em Problèmes de linguistique générale (pp. 32-45), o de Lepschy, em La linguistique structurale (pp. 45-56), o prólogo da edição de Amado Alonso, a excelente edição de Tullio De Mauro, são guias de grande valor para o interessado. A estes acrescente-se o excelente trabalho de divulgação de Georges Mounin, Saussure ou le structuraliste sans le savoir – présentation, choix de textes, bibliographie, que, a nosso ver, tem [de] defeituoso apenas o título, pois Saussure foi antes ‘estruturalista antes do termo’, que Mounin poderia dizer à francesa le structuraliste avant la lettre.”
S., (tese de doutorado) De l’emploi du genitif absolu en sanskrit
PREFÁCIO À 1a EDIÇÃO
“Lecionou três cursos de Lingüística Geral, em 1906-1907, 1908-1909 e 1910-1911; é verdade que as necessidades do programa o obrigaram a consagrar a metade de cada um desses cursos a uma exposição relativa às línguas indo-européias, sua história e sua descrição, pelo que a parte essencial do seu tema ficou singularmente reduzida.”
“Que iríamos fazer desse material? Um trabalho crítico preliminar se impunha: era mister, para cada curso, e para cada pormenor de curso, comparando todas as versões, chegar até o pensamento do qual tínhamos apenas ecos, por vezes discordantes. Para os dois primeiros cursos, recorremos à colaboração do Sr. A. Riedlinger, um dos discípulos que acompanharam o pensamento do mestre com o maior interesse; seu trabalho, nesse ponto, nos foi muito útil. No que respeita ao terceira curso, A. Sechehaye levou a cabo o mesmo trabalho minucioso de colação e arranjo.”
“A ausência de uma Lingüística da fala é mais sensível. Prometida aos ouvintes do 3º curso, esse estudo teria tido, sem dúvida, lugar de honra nos seguintes; sabe-se muito bem por que tal promessa não pôde ser cumprida. Limitamo-nos a recolher a situar em seu lugar natural as indicações fugitivas desse programa apenas esboçado: não poderíamos ir mais longe.”
* * *
INTRODUÇÃO. I. VISÃO GERAL DA HISTÓRIA DA LINGÜÍSTICA
“os trabalhos de Ritschl acerca de Plauto podem ser chamados lingüísticos; mas nesse domínio a crítica filológica é falha num particular: apega-se muito servilmente à língua escrita e esquece a língua falada; aliás, a Antiguidade grega e latina a absorve quase completamente.”
“Bopp não tem, pois, o mérito da descoberta de que o sânscrito é parente de certos idiomas da Europa e da Ásia, mas foi ele quem compreendeu que as relações entre línguas afins podiam tornar-se matéria duma ciência autônoma.”
Curtius, Princípios de Etimologia Grega, 1879
Schleicher, Breviário de Gramática Comparada das Línguas Indo-Germânicas, 1816
(modelo seminal da escola comparatista)
“A Lingüística propriamente dita, que deu à comparação o lugar que exatamente lhe cabe, nasceu do estudo das línguas românicas e das línguas germânicas. Os estudos românicos, inaugurados por Diez – sua Gramática das Línguas Românicas data de 1836-38 –, contribuíram particularmente para aproximar a Lingüística do seu verdadeiro objeto. Os romanistas se achavam em condições privilegiadas, desconhecidas dos indo-europeístas; conhecia-se o latim, protótipo das línguas românicas; além disso, a abundância de documentos permitia acompanhar pormenorizadamente a evolução dos idiomas. Essas duas circunstâncias limitavam o campo das conjecturas e davam a toda a pesquisa uma fisionomia particularmente concreta. Os germanistas se achavam em situação idêntica; sem dúvida, o protogermânico não é conhecido diretamente, mas a história das línguas que dele derivam pode ser acompanhada com a ajuda de numerosos documentes, através de uma longa seqüência de séculos. Também os germanistas, mais próximos da realidade, chegaram a concepções diferentes das dos primeiros indo-europeístas.”
“Graças aos neogramáticos, não se viu mais na língua um organismo que se desenvolve por si, mas um produto do espirito coletivo dos grupos lingüísticos. Ao mesmo tempo, compreende-se quão errôneas e insuficientes eram as idéias da Filologia e da Gramatica comparada.”
INTRODUÇÃO. VII. A FONOLOGIA
“os primeiros lingüistas, que nada sabiam da fisiologia dos sons articulados, caiam a todo instante nessas ciladas; desapegar-se da letra era, para eles, perder o pé; para nós, constitui o primeiro passo rumo à verdade, pois é o estudo dos sons através dos próprios sons que nos proporciona o apoio que buscamos. Os lingüistas da época atual terminaram por compreendê-lo; retomando, por sua própria conta, pesquisas iniciadas por outros (fisiologistas, teóricos do canto etc.), dotaram a Lingüística de uma ciência auxiliar que a libertou da palavra escrita.”
“A Fonética é uma ciência histórica; analisa acontecimentos, transformações e se move no tempo. A Fonologia se coloca fora do tempo, já que o mecanismo da articulação permanece sempre igual a si mesmo.”
“O lingüista exige, antes de tudo, que lhe seja fornecido um meio de representar os sons articulados que suprima qualquer equívoco. De fato, inúmeros sistemas gráficos foram propostos.”
“Haveria razões para substituir por um alfabeto fonológico a ortografia usual? Essa questão tão interessante pode apenas ser aflorada aqui; para nós, a escrita fonológica deve servir apenas aos lingüistas. Antes de tudo, como fazer ingleses, alemães, franceses etc., adotarem um sistema uniforme! Além disso, um alfabeto aplicável a todos os idiomas correria o risco de atravancar-se de signas diacríticos; sem falar do aspecto desolador que apresentaria uma página de um texto que tal, é evidente que, à força de precisar, semelhante escrita obscureceria o que quisesse esclarecer e atrapalharia o leitor. Esses inconvenientes não seriam compensados por vantagens suficientes. Fora da Ciência, a exatidão fonológica não é muito desejável.”
“os gramáticos gregos designavam as sonoras (como b, d, g) pelo nome de consoantes ‘médias’ (mesai) e as surdas (como p, t, k) pelo nome de psilai, que os latinos traduziam por tenues.”
“não sabemos exatamente qual era o valor do ç sânscrito, mas como ele é continuação do k palatal indo-europeu, esse dado delimita claramente o campo das suposições.”
“Os textos poéticos são documentos preciosos para o conhecimento da pronúncia: conforme o sistema de versificação se baseie no nº de sílabas, na quantidade, ou na conformidade dos sons (aliteração, assonância, rima), tais monumentos nos fornecem informações sobre esses diversos pontos. Se o grego distingue certas longas pela grafia, em outras descura tal precisão; é nos poetas que devemos buscar informações sobre a quantidade de a, i e u. No antigo francês, a rima permite conhecer, p.ex., até que época eram diferentes as consoantes finais de gras e faz (latim facio, ‘eu faço’) e a partir de que momento se aproximaram e se confundiram. A rima e a assonância nos ensinam ainda que no francês antigo os ee provenientes dum a latino (p.ex.: père de patrem, tel de talem, mer de marem) tinham um som totalmente diverso dos outros ee. Jamais esses termos rimam ou fazem assonância com ele (de illa), vert (de viridem), belle (de bella), etc.”
“em gótico, kawtsjo nos informa a pronúncia de cautio em baixo latim.”
APÊNDICE À INTRODUÇÃO – PRINCÍPIOS DE FONOLOGIA
“Muitos fonologistas se aplicam quase exclusivamente ao ato de fonação, vale dizer, à produção dos sons pelos órgãos (laringe, boca etc.), e negligenciam o lado acústico. Esse método não é correto: não somente a impressão produzida no ouvido nos é dada tão diretamente quanto a imagem motriz dos órgãos, como também é ela a base de toda teoria.
O dado acústico existe já inconscientemente quando se abordam as unidades fonológicas; pelo ouvido, sabemos o que é um b, um t etc. Se se pudessem reproduzir por meio do cinematógrafo todos os movimentos da boca e da laringe ao executarem uma seqüência de sons, seria impossível descobrir subdivisões nessa seqüência de movimentos articulatórios; não se sabe onde um som termina e outro se inicia. Como afirmar, sem a impressão acústica, que em fal, por exemplo, existem três unidades, e não duas ou quatro? É na cadeia da fala ouvida que se pode perceber imediatamente se um som permanece ou não igual a si próprio; enquanto se tenha a impressão de algo homogêneo, este som é único. O que importa não é sua duração em colcheias e semicolcheias, mas a qualidade de impressão. A cadeia acústica não se divide em tempos iguais, mas em tempos homogêneos, caracterizados pela unidade de impressão, e esse é o ponto de partida natural para o estudo fonológico. Nesse sentido, o alfabeto grego primitivo merece nossa admiração. Cada som simples é nele representado por um único signo gráfico, e, reciprocamente, cada signo corresponde a um som simples, sempre o mesmo. É uma descoberta de gênio, que os latinos herdaram. Na escrita da palavra bárbaros, ‘bárbaro’, cada letra corresponde a um tempo homogêneo (…) No alfabeto grego primitivo, não se encontram grafias complexas coma o ‘ch’ francês p[ara uma modalidade do ‘s’], nem representações duplas de um som único como no francês o ‘s’+‘s’ por ‘s’, nem um signo simples para um som duplo, como o u ‘x’ por ks. Esse princípio, necessário e suficiente para uma boa escrita fonológica, os gregos o realizaram quase integralmente.
É verdade que escreviam [caracteres específicos] por kh, th, ph (…) mas é uma inovação posterior (…) As mesmas inscrições oferecem dois signos para o k, o kappa e o koppa, mas o fato é diferente: tratava-se de consignar dois matizes reais da pronúncia, pois o k era umas vezes palatal, outras velar; além disso, o koppa desapareceu mais tarde. Enfim – ponto mais delicado –, as inscrições primitivas gregas e latinas costumam consignar freqüentemente uma consoante dupla com uma letra simples; assim a palavra latina fuisse era escrita FUISE; portanto, infração do princípio, pois esse duplo s dura dois tempos que, como veremos, não são homogêneos e dão impressões distintas; erro desculpável, porém, pois esses dois sons, sem se confundirem, apresentam uma característica comum.”
“Os semitas só assinalavam as consoantes: um termo como bárbaros teria sido escrito por eles BRBRS.”
“o fonema é a soma das impressões acústicas e dos movimentas articulatórios da unidade ouvida e da unidade falada, das quais uma condiciona a outra; portanto, trata-se já de uma unidade complexa, que tem um pé em cada cadeia.”
“A glote, formada por dois músculos paralelos ou cordas vocais, se abre ou se fecha conforme elas se separam ou se juntam. A oclusão completa não entra, por assim dizer, em linha de conta; quanto à abertura, ela pode ser mais larga ou mais estreita. No primeiro caso, o ar passa livremente e as cordas vocais não vibram; no segundo, a passagem do ar determina as vibrações sonoras. Não há outra alternativa na emissão normal dos sons.
A cavidade nasal é um órgão completamente imóvel; a passagem do ar pode ser impedida pelo levantamento da úvula, nada mais; é uma porta aberta ou fechada.”
“a expiração, elemento positivo, mas que intervém em todo ato fonat6rio, não tem valor diferenciador; ao passo que a ausência de ressonância nasal, fator negativo, servira, do mesmo modo que sua presença, para caracterizar os fonemas.”
Excerto p. 55 – A matéria de fonologia é muito técnica e fisiológica para que eu me detenha apenas em parágrafos. “[]” denota ausência do fator na fala. Não existe fala sem expiração ou articulação bucal (o que não significa que inexista som). A letra c faz referência à intervenção da laringe, que ocorre nos cenários II e IV. A letra d diz respeito à ressonância nasal, que interfere no som emitido nos cenários III e IV. Essas são todas as combinações possíveis grosso modo (já que ainda falta comentar sobre as ‘n’ possibilidades de articulações bucais; a expiração é uniforme e não possui variações).
ESCALA DE OCLUSÃO-ABERTURA DA ARTICULAÇÃO:
(fechada) 0 (mín.) 1 2 3 4 5 6 (máx.)
0. OCLUSIVAS
3 subtipos: labial (p, b, m); dental (t, d, n); gutural (k, g, n com notação de ponto em cima).
1. FRICATIVAS OU EXPIRANTES
genericamente podemos subdividir este ponto da escala em palatais e velares conforme capta o ouvido humano na maioria das línguas.
Ex (cada exemplo exige movimento diferente da língua): Ing – thing, then; Fr – si, rose, chant, génie; Ale – ich, Bach; Alemão do Norte – liegen, Tage.
“ouve-se um v nasal no francês inventor; mas em geral a fricativa nasal não é um som de que a língua tenha consciência.”
2. NASAIS
3. LÍQUIDAS
2 subtipos: lateral e vibrante.
Lateral: Sobretudo no l francês.
Vibrante: Sobretudo no r francês.
4. SEMIVOGAIS (I, U, Ü)
Primeiro grau de oclusão para as vogais.
“Passado um certo grau de abertura, a boca funciona principalmente como ressoador. (…) Quanto mais a boca se fecha, mais o som laríngeo é interceptado; quanto mais se abre, mais diminui o ruído. É assim que, de modo totalmente mecânico, o som predomina na vogal.”
“O i se pronuncia com os lábios retraídos (signo ¯) e articulação dianteira; o u com os lábios arredondados sinal º) e articulação posterior, ü com a posição dos lábios de u articulação de i.”
5. E, O, Ö
Fr: pin, pont, brun.
dé, dos, deux.
mer, mort, meurt.
6. A NASAL & A ABERTO
A nasal: o nosso ã.
Fr: grand
* * *
“O lingüista não tem necessidade alguma de ser um fonologista consumado; ele pede simplesmente que lhe seja fornecido certo nº de dados necessários para o estudo da língua.”
“não é nunca uma unidade simples que cria embaraços em Lingüística: se, por exemplo, em dado momento, numa determinada língua, todo a se transformou em o, nada resulta daí; podemos limitar-nos a assinalar o fenômeno, sem procurar explicá-lo fonologicamente. A ciência dos sons não adquire valor enquanto dois ou mais elementos não se achem implicados numa relação de dependência interna (…) somente o fato de que haja dois elementos engendra uma relação e uma regra”
“no antigo alto alemão, hagl, balg, wagn, lang, donr, dorn, se tornaram mais tarde, hagal, balg, wagan, lang, donnar, dorn (…) ora uma vogal se desenvolve entre duas consoantes; ora o grupo permanece compacto. Como, pois, formular a lei?” R: Com base nos grupos consonantais. Ou seja, gn e ng possuem valores silábicos diferentes na pronúncia, etc.
“Para nos darmos conta do que se passa nos grupos, necessário se faz fundar uma Fonologia onde eles seriam considerados como equações algébricas; um grupo binário implica certo número de elementos mecânicos e acústicos que se condicionam reciprocamente; quando um varia, essa variação tem, sobre os outras, uma repercussão necessária, que poderá ser calculada.”
“Sem dúvida, num grupo como appa, distingue-se, além da implosão e explosão, um tempo de repouso no qual a oclusão se prolonga ad libitum, e, tratando-se de um fonema de abertura maior, como no grupo alla, é a emissão do próprio som que se prolonga na imobilidade dos órgãos.”
“o w inglês, o j alemão e amiúde o y francês (em yeux, etc.) representam sons que se abrem, em oposição a u e i somente. Mas num grau maior de abertura (e e o), a implosão e a explosão, teoricamente concebíveis (aeea, aooa) são bastante difíceis de se distinguirem na prática. (…) o a já não apresenta mais nem implosão nem explosão, pois para este fonema a abertura desfaz qualquer diferença desse gênero.”
“Pela primeira. vez, saímos da abstração; pela primeira vez, aparecem elementos concretos, indecomponíveis, ocupando um lugar e representando um tempo na cadeia falada. Pode-se dizer que P não era mais que uma unidade abstrata reunindo as características comuns do Pimplosivo e do P explosivo, as únicas que se encontram na realidade, exatamente como B, P, M se reúnem numa abstração superior, as labiais. Fala-se de P como se se falasse duma espécie zoológica; existem exemplares machos e fêmeas, mas jamais um exemplar ideal da espécie. São essas abstrações que até agora temos distinguido e classificado; é necessário, porém, ir mais longe e chegar ao elemento concreto.” “Vê-se porque bastam dois elementos para confundir a Fonologia tradicional [anglo-saxônica, particularmente a inglesa da época de S.], e assim fica demonstrada a impossibilidade de proceder, como ela o faz, por unidades fonológicas abstratas.”
“em prix, enquanto se pronuncia o p, os órgãos se encontram já na posição do r. Mas é impossível pronunciar em cadeia contínua a série inversa rp; não que seja mecanicamente impossível adotar a posição de p enquanto se articula um r que se abre, mas porque o movimento desse r, encontrando a abertura menor do p, não poderá ser percebido.”
“try forma uma cadeia explosiva perfeita”
“Os termos vogal e consoante designam espécies diferentes; soante e consoante indicam, ao contrário, funções na sílaba. Essa dupla terminologia permite evitar uma confusão que reinou por longo tempo.” Ex: “i” cumpre função de soante em fidalgo e de consoante em piegas. “A análise mostra que as soantes são sempre implosivas e as consoantes ora implosivas (boy), ora explosivas (pied).”
“Na prática, são os fonemas de abertura 2, 3 e 4 (nasais, líquidas, semivogais) que desempenham um ou outro papel [implosão ou explosão]”
“O ouvido percebe, em toda cadeia falada, a divisão em sílabas, e em toda sílaba uma soante.”
“o hiato, de emprego tão freqüente, não é outra coisa senão um elo implosivo rompido”
“Por que fac é medido como longo em factus? Responde-se: por causa do grupo ct; mas se isso se deve ao grupo em si, qualquer sílaba iniciada por 2 consoantes terá também quantidade longa; no entanto, não é assim (cliens)…” “A verdadeira razão está em que a explosão e a implosão são essencialmente diversas no que respeita à duração.” “Sabe-se, por outro lado, que as vogais colocadas diante de um grupo formado de oclusivas ou fricativa + líquida, são tratadas de dois modos: em patrem, o a pode ser longo ou breve”, conforme se pronuncia o tr de forma implosiva, o que dá a sensação de que o a, mesmo não tendo sido a sílaba tônica, fôra mais “longo”, ou se o pronuncia de forma explosiva, o que “encurta” o a.
“O ditongo constitui apenas um caso especial do elo implosivo” Exemplo que dá S.: art. A pronúncia de arte, artista nos soa bem natural. Acontece que o sistema articulatório se comporta da mesma maneira pronunciando autista. Falsos ditongos: “não se pode pronunciar uo como implosiva + implosiva sem rompimento da cadeia, a menos que, por via de um artifício, se imponha a esse grupo a unidade que ele não tem por natureza.”
“não podemos, p.ex., fazer distinção alguma entre newo e neuo”
“vogais protéticas” – aquele s incômodo do francês que não temos certeza se se pronuncia ou não, pois está sucedido de uma consoante.
“todo caráter fonológico pouco sensível tende a aumentar quando se insiste em conservá-lo.” (até decair o uso do s). Scole iscole, escole école
“É ainda o mesmo caso que se encontra na pronúncia popular da preposição de, que se transcreve por ed: un oiel ed tanche. Por síncope, detanche se tornou d’tanche”
“Basta apenas relembrar a questão das soantes indo-européias, e perguntar, p.ex., por que o antigo alto alemão hagl se transformou em hagal, enquanto balg permaneceu intacto. O l desta última palavra, segundo elemento de um elo implosivo [balg, o alg é perfeitamente contínuo, ou seja, é uma sílaba só, com três implosões sucessivas, o que é sempre possível quando o som seguinte é mais fraco que o anterior], faz o papel de consoante e não tinha razão alguma para trocar de função. Ao contrário, o l, igualmente implosivo, de hagl fazia ponto vocálico.”
“Por outro lado, [essa evolução] se obscureceu com o tempo, pois hoje Hagel se pronuncia novamente hagl [g explosivo]. É isto mesmo que faz a diferença entre a pronúncia dessa palavra e a do francês aigle [é-gle, somente o e é explosivo].”
Este é o ponto ideal para ler o https://seclusao.art.blog/2018/04/16/saussureal/, que eu chamei de CURSO GERAL II no cabeçalho (PRIMEIRA PARTE + cinco primeiros capítulos da SEGUNDA PARTE). Agora empreende-se o fechamento do módulo da Lingüística Sincrônica e vai-se mais além:
SEGUNDA PARTE. VI. MECANISMO DA LÍNGUA
“Se o mecanismo da língua fosse inteiramente racional, poderíamos estudá-lo em si mesmo; mas como não passa de uma correção parcial de um sistema naturalmente caótico, adota-se o ponto de vista imposto pela natureza mesma da língua, estudando esse mecanismo como uma limitação do arbitrário.”
SEGUNDA PARTE. VII. A GRAMÁTICA E SUAS SUBDIVISÕES
“Lingüisticamente, a morfologia não tem objeto real e autônomo; não pode constituir uma disciplina distinta da sintaxe.”
“Tudo o que compõe um estado de língua pode ser reduzido a uma teoria dos sintagmas e a uma teoria das associações. Primeiramente, certas partes da Gramática tradicional parecem agrupar-se sem esforço numa ou noutra dessas ordens: a flexão é evidentemente uma forma típica da associação das formas no espírito do falante; por outro lado, a sintaxe, vale dizer, segundo a definição mais corrente, a teoria dos agrupamentos de palavras, entra na sintagmática, pois esses agrupamentos supõem sempre pelo menos duas unidades distribuídas no espaço. Nem todos os fatos da sintagmática se classificam na sintaxe, mas todos os fatos de sintaxe pertencem à sintagmática.”
TERCEIRA PARTE. LINGÜÍSTICA DIACRÔNICA
II. AS MUDANÇAS FONÉTICAS
“Em alemão, todo i se tornou ei, depois ai: win, triben, lihen, zit deram Wein, treiben, leihen, Zeit; todo u se tomou au: hus, zun, ruchHaus, Zaun, Rauch; assim também ü se converteu em eu: hüsirHauser etc. Pelo contrário, o ditongo ie passou a i, que se continua a escrever ie: cf. biegen, lieb, Tier. Paralelamente, todos os uo se transformaram em u: muotMut etc. Todo z deu s (escrito ss): wazerWasser, fliezenfliessen etc. Todo h interior desapareceu de entre vogais: lihen, sehenleien, seen (escritos leihen, sehen). Todo w se transformou em v lábio-dental (escrito w): wazerwasr(Wasser).”
“O mais grave erro de método que recordamos aqui consiste em formular uma lei fonética, no presente, como se os fatos que abrange existissem de uma vez para sempre, em vez de nascerem e morrerem numa porção do tempo. É o caos, porque assim se suprime toda sucessão cronológica dos acontecimentos. (…) Quando se diz: ‘s se toma r em latim’, dá-se a entender que o rotacismo é inerente à natureza da língua e fica-se embaraçado diante de exceções como causa, risus etc. Somente a fórmula: ‘s intervocálico se tomou r em latim numa certa época’ autoriza a pensar que no momento em que s passava a r, causa, risus etc., não tinham s intervocálico e estavam ao abrigo da mudança; com efeito, dizia-se ainda caussa, rissus.”
“Disse-se que a raça teria predisposições que traçariam de antemão a direção das mudanças fonéticas. Existe aí uma questão de Antropologia comparada: o aparelho fonatório varia de uma raça para outra? Não, não mais que de um indivíduo para outro; um negro transplantado desde seu nascimento para a França fala o francês tão bem quanto os indígenas. Ademais, quando se utilizam expressões como ‘o órgão italiano’ ou ‘a boca dos germanos não admite isso’, arrisca-se a transformar em caráter permanente um fato puramente histórico”
“ao lado dos idiomas escandinavos, tão carregados de consoantes, os dos lapões e dos finlandeses são mais vocálicos que o próprio italiano.”
“Fez-se intervir a lei do menor esforço, que substituiria duas articulações por uma só, ou uma articulação difícil por outra mais cômoda. Esta idéia, diga-se o que se disser, merece exame: ela pode elucidar a causa do fenômeno em certa medida, ou indicar pelo menos a direção em que cumpre investigar.” “Só que se poderiam mencionar outros tantos casos em que se passa exatamente o contrário.” Meu exemplo: mor virou maior.
“Se é verdade que o abreviamento corresponde a um menor esforço no sentido da duração, é igualmente verdade que as pronunciações negligenciadas caem e recaem na sílaba longa e que a breve exige maior vigilância.”
“nada autoriza a admitir que às épocas agitadas da história de uma nação correspondam evoluções precipitadas dos sons de um idioma.”
III. CONSEQÜÊNCIAS GRAMATICAIS DA EVOLUÇÃO FONÉTICA
“As formas simpes hunc, hanc, hac, etc., do latim clássico, que remontam a hon-ce, han-ce, há-ce, conforme o mostram as formas epigráficas, são o resultado da aglutinação do pronome com a partícula –ce; podia-se, outrora, aproximar hon-ce etc., de ec-ce; mais tarde, porém, tendo –e caído foneticamente, isto não mais foi possível; o que equivale a dizer que não se distinguem mais os elementos de hunc, hanc, hac etc.”
“Por si mesma, a evolução dos sons não tem a virtude de criar duas formas em lugar de uma.”
“Se agora se pretende que o pronome latino me é representado em francês por duas formas: me e moi (cf. il me voit e c’est moi qu’il voit), responderemos: Foi o lat. me átono que se tornou me; me acentuado deu moi; ora, a presença ou ausência do acento depende, não de leis fonéticas que fizeram com que me passassea me e moi, mas do papel dessa palavra na frase; trata-se de uma dualidade gramatical.” “De fato, não se registram parelhas fonéticas em parte alguma. A evolução dos sons não faz mais que acentuar as diferenças existentes antes dela.”
“Em francês, todo o latino situado em sílaba aberta se tornou eu com o acento ou ou em posição pretônica; daí parelhas como pouvons : peuvent, oeuvre : ouvrier, nouveau : neuf etc., nas quais se distingue sem esforço um elemento regular de diferença de variação.”
“A alternância pode ser assim definida: uma correspondência entre dois sons ou grupos de sons determinados, que se permutam regularmente entre duas séries de formas coexistentes.”
“É um erro, partilhado por numerosos lingüistas, acreditar que a alternância seja de ordem fonética, simplesmente porque os sons lhe formam a matéria, e porque suas alterações intervêm na gênese. De fato, quer a tomemos em seu ponto de partida ou em seu ponto de chegada, ela pertence sempre à gramática e à sincronia.”
“O ablaut (alemão), ou variação vocálica radical coincidente com uma oposição gramatical, é um exemplo capital da alternância; todavia, não se distingue do fenômeno geral por nenhum caráter particular.”
IV. A ANALOGIA
Mecanismo compensatório do fenômeno fonético.
Ex: “A princípio se disse honos : honosem, depois, por rotacismo do s, honos : honorem. O radical tinha, desde então, uma forma dupla; tal dualidade foi eliminada pela nova forma honor, criada sobre o modelo de orator : oratorem.”
“não se pode dizer de antemão até onde irá a imitação de um modelo, nem quais são os tipos destinados a provocá-la. Dessarte, não são sempre as formas mais numerosas que desencadeiam a analogia.”
“Honor e honos coexistiram durante certo tempo e era possível usar uma pela outra. Entretanto, como repugna à língua manter dois significantes para uma só idéia, as mais das vezes a forma primitiva, menos regular, cai em desuso e desaparece. É esse resultado que faz crer numa transformação: uma vez terminada a ação analógica, o estado antigo (honos : honorem) e o novo (honor : honorem) estão, em aparência, na mesma oposição que a que resulta da evolução dos sons. Todavia, no momento em que nasce honor, nada mudou, pois não se substitui nada; o desaparecimento de honos não é mais uma mudança, de vez que se trata de um fenômeno independente do primeiro.”
“A analogia é inteiramente gramatical e sincrônica.”
“Carteiro não foi engendrado por carta; foi criado pelo modelo de prisioneiro: prisão. Do mesmo modo, encartar deve sua existência à analogia com enfaixar, enquadrar, encapuzar, etc., que contêm faixa, quadro, capuz, etc. Existem, pois, em toda língua, palavras produtivas e palavras estéreis, mas a proporção de umas e outras varia. Isso se reduz à distinção já feita entre as línguas lexicológicas e as línguas gramaticais. Em chinês, em sua maioria, as palavras são indecomponíveis; ao contrário, numa língua artificial, são quase todas analisáveis.”
“Nossas gramáticas européias operam com a quarta proporcional [fenômeno do honos honorem honor transformado em procedimento-padrão]; elas explicam, p.ex., a formação de um pretérito alemão partindo de palavras completas; dizem aos alunos: sobre o modelo de setzen: setzte formem o pretérito de lachen, etc. Ao contrário, a gramática hindu estudaria num capítulo determinado as raízes(setz-, lach-, etc.), em outro as terminações do pretérito (-te…); daria os elementos resultantes da análise, e os alunos teriam de recompor as palavras completas. Em todo dicionários sânscrito, os verbos estão classificados na ordem que lhes consigna a raiz.
Conforme a tendência dominante de cada grupo lingüístico, os teóricos da gramática se inclinarão para um ou outro desses métodos.”
“O latim antigo tinha, portanto, em alto grau, o sentimento das peças da palavra (radicais, sufixos, etc.) e de sua combinação. É provável que nossas línguas modernas não o tenham de maneira tão aguda, mas parece que o alemão o tem mais que o francês.”
V. ANALOGIA E EVOLUÇÃO
“pag-anus, formado sobre pag-us, basta para mostrar como os latinos analisavam Rom-anus [em detrimento do mais antigo Roma-nus]” Ou seja, ‘pagão’ tinha tudo para ser ‘pago’, ou pelo menos ‘paganos’.
“Um exemplo particularmente curioso mostrará como a analogia trabalha de época para época com novas unidades. Em francês moderno, somnolent é analisado somnol-ent, como se fosse um particípio presente; a prova disso é que existe um verbo somnoler. Mas em latim dividia-se somno-lentus, como succu-lentus, etc., e mais antigamente ainda, somn-olentus (‘que cheira a sono’), de olere, como vin-olentus, ‘que cheira a vinho’).”
“As inovações da analogia são mais aparentes que reais. A língua é um traje coberto de remendos feitos de seu próprio tecido. Quatro quintos do francês são indo-europeus, se se pensa na substância de que se compõem suas frases, ao passo que as palavras transmitidas na sua totalidade, sem mudança analógica, da língua-mãe ao francês moderno, caberiam no espaço de uma página (p.ex.: est = esti, os nomes dos números, certos vocábulos como ours, nez, père, chein, etc.). A imensa maioria das palavras constitui, de um modo ou de outro, combinações novas de elementos fônicos arrancados a formas mais antigas. Nesse sentido, pode-se dizer que a analogia, precisamente porque utiliza sempre a matéria antiga para as suas inovações, é eminentemente conservadora.”
“O latim agunt se transmitiu quase intacto desde a época pré-histórica (quando se dizia agonti) até o limiar da época romana. Durante esse intervalo, as gerações sucessivas o retomaram sem que nenhuma forma concorrente viesse suplantá-lo. A analogia não teve nada a ver com essa conservação? Pelo contrário (…) Agunt (…) é solidário de formas como dicunt, legunt, etc. e de outras como agimus, agitis, etc. Sem essa vizinhança, teria muitas possibilidades de ser substituído por uma forma composta de novos elementos. O que se transmitiu não foi agunt, mas ag-unt; a forma não muda, porque ag- e –unt se verificavam regularmente em outras séries”
“Por conseguinte, as formas se mantém porque são refeitas analogicamente sem cessar; uma palavra é simultaneamente compreendida como unidade e como sintagma e perdura enquanto seus elementos não mudam.”
“Veja-se o que ocorre em francês com dites e faites, que correspondem diretamente ao latim dic-itis, fac-itis, mas que não têm mais ponto de apoio na flexão verbal atual; a língua procura substituí-las; ouve-se dizer disez, faisez, sobre o modelo de plaisez, lisez, etc. e essas novas desinências são já usuais na maioria dos compostos contredisez, etc.).”
“As únicas formas sobre as quais a analogia não tem poder nenhum são naturalmente as palavras isoladas, tais como os nomes próprios, especialmente os nomes de lugares”
VI. A ETIMOLOGIA POPULAR
“estropiar palavras”
“Existe, em primeiro lugar, o caso em que a palavra recebe uma interpretação nova sem que sua forma mude. Em alemão, durchbläuen, ‘moer de pancadas’, remonta etimologicamente a bliuwan, ‘fustigar’; todavia, a palavra é associada a blau (azul) devido às equimoses produzidas pelas pancadas. Na Idade Média, o alemão tomou emprestado do francês aventure, de que fez regularmente abentüre, depois Abenteuer; sem deformar a palavra, foi ela associada com Abend (‘o que se conta no serão’) de tal maneira que no século XVIII se escrevia Abend-teuer.”
“Mais comumente, entretanto, deforma-se a palavra ‘para acomodá-la aos elementos que se acreditam reconhecer nela; é o caso de choucroute (de Sauerkraut) [Sauer, rato]; em alemão, dromedarius se tornou Trampeltier, ‘o animal que pateia’; o composto é novo, mas encerra palavras que já existiam, trampeln e Tier.”
“Eis um caso particularmente instrutivo: o latim carbunculus, ‘carvãozinho’, deu em alemão Karfunkel (por associação com funkeln, ‘cintilar’) e em francês escarboucle, ligado a boucle. Calfeter, calfetrer se tornou calfeutrer por influência de feutre.”
“A analogia nada tira dos signos que substitui. Contrariamente, a etimologia popular se reduz a uma interpretação da forma antiga; a recordação, mesmo [que] confusa, é o ponto de partida da deformação”
“A etimologia popular não age, pois, senão em condições particulares, e não atinge mais que as palavras, raras, técnicas ou estrangeiras, que as pessoas assimilam imperfeitamente. A analogia, ao contrário, é um fato absolutamente geral, que pertence ao funcionamento normal da língua.”
VII. A AGLUTINAÇÃO
“ausência de vontade”
“Em francês, disse-se a princípio ce ci em duas palavras, e mais tarde ceci (…) tous jourstoujours, ao jour d’ ui aujourd’hui, dès jàdejà, vert jusverjus.” Em decorrência, o acento antigo (vért-jús) também transformou-se (verjús).
“A aglutinação opera unicamente na esfera sintagmática; sua ação incide num grupo dado; não considera outra coisa. Ao contrário, a analogia faz apelo às séries associativas tanto quanto aos sintagmas.”
“em latim, possum não é mais que a soldadura de duas palavras potis sum, ‘eu sou dono’: é um aglutinado”
Grosso modo:
aglutinação lexicológica
analogia sintática
“Os lingüistas discutiram interminavelmente acerca das formas es-mi, es-ti, ed-mi, etc., do indo-europeu. Foram os elementos es-, ed-, etc., numa época muito recuada, palavras verdadeiras, aglutinadas a seguir com outras: mi, ti, etc., ou então resultam es-mi, es-ti, etc., de combinações com elementos extraídos de outras unidades complexas da mesma ordem, o que faria remontar a aglutinação a uma época anterior à formação das desinências em indo-europeu? À falta de testemunhos históricos, a questão é provavelmente insolúvel.”
VIII. UNIDADES, IDENTIDADES E REALIDADES DIACRÔNICAS
“O indo-europeu não conhecia as preposições; as relações que estas indicam eram indicadas por numerosos casos, providos de grande força significativa. Não existiam tampouco verbos compostos por meio de preverbos, mas apenas partículas, palavrinhas que se acrescentavam à frase para precisar e matizar a ação do verbo. Assim, nada que correspondesse ao latim reo b mortem, ‘ir diante da morte’, nem a obire mortem; ter-se-ia de dizer ire mortem ob. Esse é ainda o estado do grego primitivo”
“é a mesma substância com outras funções”
“Somente a solução do problema da unidade diacrônica nos permitirá ultrapassar as aparências do fenômeno de evolução e atingir-lhe a essência.”
“Com efeito, para que eu possa dizer que uma unidade persistiu idêntica a si mesma, ou que, persistindo como unidade distinta, mudou de forma ou de sentido – pois todos esses casos são possíveis – cumpre que eu saiba em quê me fundo para afirmar que um elemento tomado a uma época, p.ex. o francês chaud, é a mesma coisa que um elemento tomado a outra época, p.ex. o latim calidum.”
“é impossível que o som dê conta, por si só, da identidade.”
ADEMAIS, ERA O MAR PARA O ROMANO O MESMO QUE O MAR PARA O FRANCÊS? “Tem-se, sem dúvida, razão em dizer que o latim mare deve aparecer em francês sob a forma de mer porque todo a se tornou e em certas condições, porque o e átono final cai, etc.; afirmar, porém, que são essas relações a e, e 0 (zero), que constituem a identidade, é inverter os termos, pois, ao contrário, é em nome da correspondência mare : mer que eu julgo que o a se tornou ie, que o e final cai, etc.”
APÊNDICES DA TERCEIRA E QUARTA(?) PARTES
(?) Os editores foram muito afobados, colocando a carruagem antes dos bois!
“A escola antiga divida as palavras em raízes, temas, sufixos, etc., e dava a essas distinções um valor absoluto. Lendo Bopp e seus discípulos, acreditar-se-ia que os gregos tinham trazido consigo, desde um tempo imemorial, uma bagagem de raízes e sufixos, e que se dedicavam a confeccionar suas palavras ao falar, que pater, p.ex., era para eles raiz pa + sufixo ter, que doso, em sua boca, representava a soma de do + so + uma desinência pessoal, etc.”
“A escola nova [neogramáticos], após ter reconhecido os defeitos da antiga doutrina, o que era fácil, contentou-se em rejeitar a teoria, ao passo que, na prática, ficava como que embaraçada por um aparato científico que, apesar de tudo, não podia dispensar. Quando se raciocina sobre essas ‘abstrações’, vê-se a parte de realidade que representam, e um corretivo muito simples basta para dar a tais artifícios do gramático um sentido legítimo e exato. Foi o que tentamos fazer mais acima, ao mostrar que, unida por um vínculo interior à análise subjetiva da língua viva, a análise objetiva tem um lugar legítimo e determinado no método lingüístico.”
Como diria o filósofo (não necessariamente o filósofo – nem mesmo o filólogo, com perdão do trocadilho!), a raiz é relativa! Ou a r-aiz é hell-ativa!
“Em certos idiomas, caracteres precisos assinalam a raiz para os falantes. É o caso do alemão, em que tem um aspecto assaz uniforme; quase sempre monossilábica (streit-, bind-, haft-, etc.), ela obedece a certas regras de estrutura: os fonemas não aparecem nela numa ordem qualquer; certas combinações de consoantes, tais como oclusiva + líquida, estão proibidas em posição final: werk- é possível, wekr- não o é; encontram-se helf-, werd-; não se encontram hefl-, wedr-.”
“A etimologia não é nem uma disciplina distinta nem uma parte da Lingüística evolutiva; é somente uma aplicação especial dos princípios relativos aos fatos sincrônicos e diacrônicos [nem sequer é um método]. Ela remonta o passado [processo obviamente finito – ainda que fôra infinito, poderíamos dizer que seu limite é bem claro: a palavra, limite do sentido]” Pode-se falar, embora soe mais esquisito, em etimologia sincrônica. Ex: “matador”, cuja etimologia é o verbo “matar”. Ou pode-se prosseguir a análise até um radical indecomponível. E depois remontar à árvore ou família de radicais do Português presente (enquanto se quiser continuar nos limites da etimologia sincrônica).
QUARTA PARTE. LINGÜÍSTICA GEOGRÁFICA
I. DA DIVERSIDADE DAS LÍNGUAS
“O termo idioma designa com muita precisão a língua como algo que reflete os traços próprios de uma comunidade (o grego idioma já tinha o sentido de ‘costume especial’).”
“a Lingüística moderna reconheceu sucessivamente as famílias indo-européia, semítica, banto”
“O fino-úgrio, que compreende entre outros o finês propriamente dito ou suomi, o mordvino, o lapão, etc., é uma família de línguas faladas na Rússia setentrional e na Sibéria, e que remonta certamente a um idioma primitivo comum; tais línguas se relacionam com o grupo muito vasto das línguas ditas uralo-altaicas, cuja comunidade de origem não está provada, malgrado certos traços que se encontram em todas.”
“Cumpre não confundir o que pode ser com o que é demonstrável. O parentesco universal das línguas não é provável, mas se fosse verdadeiro – como o crê um lingüista italiano, Trombetti [próximas leituras] –, não poderia ser provado, devido ao excessivo número de mudanças ocorridas.”
“Dois idiomas podem diferir em todos os graus; assemelharem-se espantosamente, coma o zenda e o sânscrito; ou parecerem inteiramente dissemelhantes, como o sânscrito e o irlandês; todos os matizes intermediários são possíveis: assim, o grego e o latim estão mais perto um do outro que respectivamente do sânscrito etc. Os idiomas que divergem entre si somente em pequeno grau sio chamados dialetos; contudo, não se deve dar a esse termo um sentido rigorosamente exato”
II. COMPLICAÇÕES DA DIVERSIDADE GEOGRÁFICA
“na África do Sul, ao lado de diversos dialetos negros, comprova-se a presença do holandês e do inglês, resultado de duas colonizações sucessivas; foi da mesma maneira que o espanhol se implantou no México. Não se deve acreditar, porém, que as usurpações lingüísticas desse gênero sejam específicas da época moderna.”
“na Irlanda, fala-se o céltico e o inglês; muitos irlandeses possuem as duas línguas. Na Bretanha, emprega-se o bretão e o francês; na região basca, utilizam-se o francês ou o espanhol ao mesmo tempo que o basco. Na Finlândia, o sueco e o finês coexistem há muito tempo; o russo veio juntar-se a eles recentemente; na Curlândia e na Livônia falam-se o letão, o alemão e o russo; o alemão, importado por colonos chegados, na Idade Média, sob os auspícios da liga hanseática, pertence a uma classe especial da população; o russo foi a seguir importado por via de conquista. A Lituânia viu implantar-se, de par com o italiano, o polonês, conseqüência de sua antiga união com a Polônia, e o russo, resultado da incorporação ao império moscovita. Até o século XVIII, o eslavo e o alemão estavam em uso em toda a região oriental da Alemanha, a partir do Elba. Em certos países, a confusão de línguas é ainda maior; na Macedônia, encontram-se todas as línguas imagináveis: o turco, o búlgaro, o sérvio, o grego, o albanês, o rumeno etc., misturados de diversas maneiras, conforme as regiões.”
“Acontece, por exemplo, que, de duas línguas, uma é falada nas cidades e a outra nos campos; tal repartição, contudo, nem sempre é clara.”
“Se possuíssemos o mapa lingüístico do Império Romano, ele nos mostraria fatos em tudo semelhantes aos da época moderna. Assim, na Campanha, ao fim da República, falavam-se: o osco, como o testemunham as inscrições de Pompéia; o grego, língua dos colonos fundadores de Nápoles etc.; o latim; talvez até mesmo o etrusco, que imperara nessa região antes da chegada dos romanos. Em Cartago, o púnico ou fenício persistira de par com o latim (existia ainda na época da invasão árabe), sem contar que se falava certamente o númida em território cartaginês. Quase se pode admitir que na Antiguidade, à volta da bacia do Mediterrâneo, os países unilíngües constituíam a exceção.”
“os ciganos, fixados sobretudo na Hungria, formavam vilas compactas; o estudo de sua língua mostrou que devem ter vindo da Índia, numa época ignorada. Na Dobrudja, às bocas do Danúbio, encontram-se vilas tártaras esparramadas, pintalgando o mapa lingüístico daquela região.”
“Por ‘língua literária’ entendemos não somente a língua da literatura como também, em sentido mais gerai, toda espécie de língua culta, oficial ou não, ao serviço da comunidade inteira. Abandonada a si mesma, a língua conhece apenas dialetos, nenhum dos quais se impõe aos demais, pelo que ela está destinada a um fracionamento indefinido. Mas coma a civilização, ao se desenvolver, multiplica as comunicações, escolhe-se, por uma espécie de convenção tácita, um dos dialetos existentes para dele fazer o veículo de tudo quanto interesse à nação no seu conjunto.”
“dessarte, no francês literário, reconhece-se bem o dialeto da Ilha de França, e o toscano no italiano comum. Seja como for, a língua literária não se impõe do dia para a noite, e uma grande parte da população passa a ser bilíngüe, falando simultaneamente a língua de todos e o patuá local. É o que se vê em muitas regiões da França, como a Savóia, em que o francês é uma língua importada e não logrou sufocar ainda o patuá da terra.”
“Os mesmos fatos ocorreram em todos os tempos, nos povos que chegaram a certo grau de civilização. Os gregos tiveram o seu koiné, nascido do ático e do jônio, de par com o qual subsistiram os dialetos locais. Mesmo na antiga Babilônia, acredita-se poder estabelecer que houve uma língua oficial ao lado dos dialetos regionais.” Que ironia: uma Torre de Babel não logra sequer a ‘unidade nacional’!
“Uma língua geral supõe forçosamente o uso da escrita? Os poemas homéricos parecem provar o contrário; conquanto tenham surgido numa época em que mal se fazia uso da escrita, sua língua é convencional e acusa todos os caracteres de uma língua literária.”
III. CAUSAS DA DIVERSIDADE GEOGRÁFICA
“Esquece-se o fator tempo, porque é menos concreto que o espaça; na realidade, porém, é dele que releva a diferenciação lingüística. A diversidade geográfica deve traduzir-se em diversidade temporal.”
“Um u se toma ü num dado momento, num dado meio; por que se modificou nesse momento e nesse lugar, e por que se tomou ü e não o por exemplo? Eis o que ninguém poderia dizer.”
“em todo o norte da França, exceto na Picardia e numa parte da Normandia, o c e g latinos antes de alguns sons se transformaram (cantum chant; virga verge). Na Normandia e Picardia esse registro permaneceu intacto (cf. picardo cat por chat, rescapé por réchappé, que passou recentemente, aliás, para o francês; vergue de virga, etc.)”
“Se, num momento dado, uma mesma língua reina por toda a extensão de um território, ao cabo de 5 ou 10 séculos os habitantes de 2 pontos extremos não se entenderão mais, provavelmente; em compensação, os de um ponto qualquer continuarão a compreender o falar das regiões circunvizinhas.”
“A pesquisa dos caracteres dialetais foi o ponto de partida dos trabalhos de cartografia lingüística cujo modelo é o Atlas Linguistique de la France, de Gilliéron; cumpre citar também o da Alemanha, de Wenker. A forma do atlas é a mais indicada, pois somos obrigados a estudar o país região por região e para cada uma delas um mapa não pode abranger senão um pequeno número de caracteres dialetais; a mesma região deve ser retomada um grande número de vezes para que se possa ter uma idéia das particularidades fonéticas, lexicológicas, morfológicas, etc., que ali se superpõem. Investigações que tais supõem toda uma organização, inquirições de correspondentes locais, etc. Convém citar, aqui, a inquirição acerca dos patuás da Suíça romana. Uma das vantagens dos atlas lingüísticos é a de fornecer materiais para os trabalhos de dialetologia”
“Freqüentes vezes, um dialeto tem o nome de língua porque produziu uma literatura; é o caso do português e do holandês.”
“Assim como não se poderia dizer onde termina o alto alemão e onde começa o plattdeutsch, assim também é impossível traçar uma linha de demarcação entre o alemão e o holandês, entre o francês e o italiano. (…) uma zona compacta mais restrita, imaginada para servir de transição entre as duas línguas, como p.ex. o provençal entre o francês e o italiano, não tem realidade.”
“Pelos seus caracteres, o eslavo se sobrepõe ao iraniano e ao germânico, o que está de acordo com a repartição geográfica dessas línguas; de igual maneira, o germânico pode ser considerado como um anel intermediário entre o eslavo e o céltico, o qual, por sua vez, tem relações muito íntimas com o itálico (…) E, contudo, quando se considera uma fronteira entre 2 grupos de idiomas, p.ex., a fronteira germano-eslava, comprova-se um salto brusco (…) É que os dialetos intermediários desapareceram.” “Hoje, o francês literário vem chocar-se, na fronteira, com o italiano oficial (toscano generalizado), e é uma sorte que se possam ainda encontrar patuás de transição nos Alpes ocidentais, enquanto em tantas outras fronteiras lingüísticas se apagou toda lembrança de falares intermediários.”
IV. PROPAGAÇÃO DAS ONDAS LINGÜÍSTICAS
Quase poético: “a linha isoglossemática é como a orla extrema de uma inundação que se expande e que pode também refluir.”
“O foneticista distinguirá, pois, cuidadosamente os focos de inovação em que um fonema evolui unicamente sobre o eixo do tempo, e as áreas de contágio que, relevando simultaneamente do tempo e do espaço, não terão que intervir na teoria dos fatos fonéticos puros. No momento em que um ts, vindo de fora, substitui o t, não se trata da modificação de um protótipo tradicional, mas da imitação de um falar vizinho, que não leva em conta esse protótipo; quando uma forma herza, ‘coração’, vinda dos Alpes, substitui na Turíngia um herta mais arcaico, não se deve falar de mudança fonética, mas de empréstimo de fonema.”
“a teoria das ondas não nos dá somente uma visão mais justa da pré-hist6ria do indo-europeu; ela nos instrui acerca das leis primordiais de todos os fenômenos de diferenciação e das condições que regem o parentesco das línguas. Entretanto, essa teoria das ondas se opõe à das migrações sem a excluir necessariamente. (…) e isso nos leva aos problemas da evolução de um idioma em territórios separados. É o caso do antigo inglês.”
“o que o isolamento pode fazer, a continuidade geográfica o faz igualmente bem; se existe uma diferença entre essas duas ordens de fenômenos, não podemos discerni-la.”
QUINTA PARTE. QUESTÕES DE LINGÜÍSTICA RETROSPECTIVA. CONCLUSÃO.
I. AS DUAS PERSPECTIVAS DA LINGÜÍSTICA DIACRÔNICA
“O método da lingüística diacrônica prospectiva consiste unicamente em criticar os documentas de que se dispõe. Mas num grande número de casos, essa maneira de praticar a ciência é insuficiente ou inaplicável. Com efeito, para poder fixar a história de uma língua em todos os seus detalhes, acompanhando o curso do tempo, seria mister possuir uma infinidade de fotografias da língua, tomadas momento após momento. Ora, tal condição nunca se verifica: os romancistas, por exemplo, que têm o privilégio de conhecer o latim, ponto de partida de sua pesquisa, e de possuir uma massa imponente de documentas pertencentes a uma longa série de séculos, verificam, a cada instante, lacunas enormes em sua documentação. Cumpre então renunciar ao método prospectivo, ao documento direto, e proceder em sentido inverso, remontando o curso do tempo pela retrospecção. Nesse segundo modo de ver, colocamo-nos numa época dada para pesquisar não o que resulta de uma forma, mas qual é a forma mais antiga que lhe pode dar origem.
Enquanto a prospecção se reduz a uma simples narração e se funda inteiramente na crítica dos documentos, a retrospecção exige um método reconstrutivo, que se apóia na comparação. Não se pode estabelecer a forma primitiva de um signo único e isolado, ao passo que 2 signos diferentes, mas da mesma origem, como o latim pater, sânscrito pitar-, ou radical do latim ger-o e o de ges-tus, deixam já entrever, por via de sua comparação, a unidade diacrônica que os vincula ambos a um protótipo suscetível de ser reconstituído pela indução. Quanto mais numerosos forem os termos de comparação, mais precisas serão tais induções, e elas rematarão – se os dados forem suficientes – em verdadeiras reconstruções.”
“Se, p.ex., numerosos idiomas germânicos são atestados diretamente por documentos, o germânico comum de onde esses diversos idiomas saíram só é conhecido indiretamente, pelo método retrospectivo. É ainda da mesma maneira que os lingüistas pesquisaram, com variável êxito, a unidade primitiva de outras famílias.”
“Destarte, a história prospectiva do latim começa somente no séc. III ou IV a.C.; todavia, a reconstituição do indo-europeu permitiu que se tivesse uma idéia do que deve ter ocorrido no período que se estende entre a unidade primitiva e os primeiros documentos conhecidos, e foi só então que se pôde traçar o quadro prospectivo do latim.
“Ora, em teoria, pode-se conceber uma Geologia prospectiva, mas na realidade, e com maior freqüência, uma vista de olhos só pode ser retrospectiva; antes de relatar o que aconteceu num ponto da Terra está obrigada a reconstituir a cadeia dos acontecimentos e averiguar o que levou essa parte do globo ao seu estado atual.”
“Se estudarmos, p.ex., (retrospectivamente), as origens do sufixo de particípio francês em –é, remontaremos ao latim –atum; este, por suas origens, se relaciona primeiramente com os verbos denominativos latinos em –are (sílaba tônica -a-), os quais, por sua vez, remontam em grande parte aos substantivos femininos em –a| (cf. plantare : planta, grego timao : tima, etc.); por outro lado, -atum não existiria se o sufixo indo-europeu -to- não tivesse sido, por si mesmo, vivo e produtivo (cf. grego klu-to-s, latim in-clu-tu-s, sânscrito çru-ta-s, etc.): -atum encerra ainda o elemento formativo –m do acusativo singular. Se, inversamente, perguntarmos (prospectivamente) em quais formações francesas se encontra o sufixo primitivo -to-, poderíamos mencionar não somente os diversos sufixos, produtivos ou não, do particípio passado (aimé = latim amatum, fini = latim finitum, clos = latim clausum por *claudtum, etc.), mas também muitos outros como –u = latim –utum (cf. cornu = cornutum), -tif [sufixo erudito] = latim –tivum (cf. fugitif = fugitivum, sensitif, négatif, etc.) e uma porção de palavras que não se analisam mais, tais como point = latim punctum, dé= latim datum, chétif = latim captivum, etc.”
I. A LÍNGUA MAIS ANTIGA E O PROTÓTIPO
“como os documentos do sânscrito são os mais antigos do indo-europeu, tais foram erroneamente promovidos à dignidade de protótipo. Uma coisa é supor o indo-europeu engendrando o sânscrito, o grego, o eslavo, o céltico, o itálico, e outra é colocar uma dessas línguas no lugar do indo-europeu. (…) Bopp, p.ex., escrevia que ‘não acreditava que o sânscrito pudesse ser a fonte comum’, como se fosse possível formular, mesmo dubitativamente, semelhante suposição.”
primeiro dogma: não se pode dotar uma língua de idade.
“Não acontece à linguagem o mesmo que à Humanidade: a continuidade absoluta de seu desenvolvimento impede distinguir nela gerações, e Gaston Paris se insurgia, com razão, contra a concepção de línguas-filhas e línguas-mães, porque tal concepção supõe interrupções. Não é, pois, nesse sentido que se pode dizer que uma língua é mais velha que outra.”
segundo dogma: se se o fizer, condicionalmente, o tempo no qual o idioma foi falado não importa, mas sua originalidade. Ex: “poder-se-ia dizer que o lituano do século XVI [descoberta nova, língua mais ‘preservada’ ou ‘pura’] é mais antigo que o latim do séc. III a.C. [que se sabe ser apenas uma modificação de latins mais antigos dos quais não temos registros diretos].”
“Como conseqüência dessa idéia assaz confusa de antiguidade, que faz do sânscrito algo de anterior a toda a família, aconteceu mais tarde que os lingüistas, mesmo curados da idéia de uma língua-mãe, continuaram a dar importância excessiva ao testemunho que ele fornece como língua colateral.”
“em vez de falar do germânico, não se tinha escrúpulo em citar muito simplesmente ‘o gótico’, porque é anterior de vários séculos aos outros dialetos germânicos; ele se tornava, por usurpação, o protótipo, a fonte dos outros dialetos. No tocante ao eslavo, os lingüistas se apoiavam exclusivamente no eslavônico ou páleo-eslavo, conhecido no séc. X, porque os outros são conhecidos a partir de data mais recente.”
“remontando do francês ao latim, encontramo-nos bem na vertical; o território dessas línguas resulta ser, por acaso, o mesmo que aquele em que se falava o latim, e cada uma delas não é senão o latim evoluído. Vimos também que o persa das inscrições de Dario é o mesmo dialeto que o persa da Idade Média. Mas o inverso é bem mais freqüente: os testemunhos das diversas épocas pertencem a dialetos diferentes da mesma família.”
III. AS RECONSTRUÇÕES
“a comparação resultará sempre numa reconstrução de formas.”
“[mas] pode-se chegar a um fato morfológico geral, deduzido de um conjunto [de quantidade indeterminável] de verificações isoladas”
“Uma forma reconstruída não é um todo solidário, mas uma soma sempre decomponível de raciocínios fonéticos, e cada uma de suas partes é revogável e fica submetida a exame. Por conseguinte, as formas restituídas foram sempre o reflexo fiel das conclusões gerais que lhes são aplicáveis. [testagem e retestagem gradual de novos casos isolados observados] Para ‘cavalo’ em indo-europeu foram sucessivamente supostos os termos *akvas, *ak1vas, *ek1vos e por fim *ek1wos; só o s e o nº de fonemas não sofreram contestação”
(Usa-se a notação do * em geral quando a reconstrução de idioma pré-histórico – o suposto indo-europeu – é altamente segura.)
“O objetivo das reconstruções não é, portanto, restituir uma forma por si mesma, o que seria aliás bastante ridículo, mas cristalizar, condensar um conjunto de conclusões que se crêem acertadas,, segundo os resultados que foi possível obter a cada momento; numa palavra, registrar o progresso de nossa ciência. Não há porque justificar os lingüistas pela idéia assaz extravagante que se lhes atribui de restaurar de cabo a rabo o indo-europeu, como se pretendessem utilizá-lo. Nem sequer nutrem tal idéia quando abordam as línguas historicamente conhecidas (não se estuda o latim lingüisticamente a fim de falá-lo bem)”
“Trata-se de um instrumento indispensável para representar, com relativa facilidade, grande número de fatos gerais, sincrônicos e diacrônicos. As grandes linhas do indo-europeu se aclaram imediatamente pelo conjunto das reconstruções: p.ex., que os sufixos eram formados de certos elementos (f, s, r, etc.) com exclusão de outros , que a variedade complicada do vocalismo dos verbos alemães (cf. werden, wirst, ward, wurde, worden) oculta, na regra, uma mesma alternância primitiva: e-o-(valor-zero).”
“Existem formas reconstruídas que são completamente seguras, outras que permanecem discutíveis ou francamente problemáticas.”
“Em *ek1wos é inútil determinar a qualidade absoluta do e, perguntar se era aberto ou fechado, articulado mais ou menos adiante, etc.; enquanto não tenham sido reconhecidas diversas espécies de e, isso não terá importância, desde que não os confundamos com outros dos elementos distinguidos da língua (a, o, e, etc.). Isso equivale a dizer que o primeiro fonema de *ek1wos não diferia do 2º de *medhyos, do 3º de *age, etc., e que se poderia, sem especificar-lhe a natureza fônica, catalogá-lo e representá-lo pelo seu nº respectivo no quadro dos fonemas indo-europeus. Ou seja: a reconstrução de *ek1wos quer dizer que o correspondente indo-europeu do latim équos, sânscrito açva-s etc. era formado de 5 fonemas determinados, tomados à gama fonológica do idioma primitivo.”
IV. O TESTEMUNHO DA LÍNGUA EM ANTROPOLOGIA E EM PRÉ-HISTÓRIA
“seria um erro supor que pela comunidade de línguas se possa inferir a consangüinidade; que uma família de línguas encubra uma família antropológica.”
“Durante longo tempo, acreditou-se que as línguas fossem uma fonte inesgotável de documentos acerca dos povos que as falavam e de sua pré-história. Adolphe Pictet, um dos pioneiros do celtismo, é conhecido sobretudo pelo seu livro As Origens Indo-Européias (1859-63). Esta obra serviu de modelo a muitas outras; continua a ser a mais atraente de todas. Pictet quer encontrar, nos testemunhos fornecidos pelas línguas indo-européias, os traços fundamentais da civilização dos ‘árias’, e acredita poder fixar-lhe os aspectos mais diversos: coisas materiais (ferramentas, armas, animais domésticos), vida social (tratava-se de um povo nômade ou agrícola?), família, governo; intenta conhecer o berço dos árias, que situa em Bactriana; estuda a fauna e a flora da região que habitavam. É este o ensaio mais considerável que já se fez nessa direção; a ciência que assim inaugurou recebeu o nome de Paleontologia lingüística.”
“Uma das tentativas mais recentes é a de Hermann Hirt (Die Indogermanen, 1905-1907).(*) Ela se funda na teoria de Schmidt para determinar a região habitada pelos indo-europeus (…) fatos de vocabulário mostraram-lhe que os indo-europeus eram agricultores, e ele se recusa a situá-los na Rússia meridional, mais adequada à vida nômade; a freqüência dos nomes de árvores, e, sobretudo, de certas essências (pinho, bétula, faia, carvalho), o leva a pensar que a região dos árias era arborizada e situada entre o Harz e o Vístula, mais especialmente na região de Brandemburgo e Berlim. Recordemos também que, mesmo antes de Pictet, Adalbert Kuhn e outros haviam utilizado a Lingüística para reconstruir a mitologia e a religião dos indo-europeus.
(*) Cf. também Arbois de Jubainville: Os Primeiros Habitantes da Europa (1877); O. Schrader: Sprachvergleichung und Urgeschichte [Mesclas de língua e Pré-história]; S. Feist: Europa im Lichte der Vorgerschichte [A Europa à Luz da Pré-História] (1910).”
Ora, não parece que se possa pedir a uma língua ensinamentos desse gênero”
“compreendeu-se pouco a pouco como são raras as palavras cuja origem está bem-estabelecida, e o linguista se tornou mais circunspecto.”
“a palavra para designar ‘arar’ falta nos idiomas asiáticos; isso, porém, não significa que tal ocupação fosse desconhecida no princípio: o arar pode muito bem ter caído em desuso ou ter sido levado a cabo através de outros procedimentos, designados por outras palavras.”
“o cânhamo só veio a ser conhecido na bacia do Mediterrâneo muito tardiamente, mais tardiamente ainda que nos países do Norte; em cada ocasião, o nome do cânhamo passava com a planta.”
“Em Homero, einateres quer dizer <concunhadas> no sentido de <mulheres de vários irmãos>; e galooi <cunhadas> no sentido de <mulher e irmã do marido entre si>; ora, o latim janitrices corresponde a einateres pela forma e pela significação. Do mesmo modo, o <cunhado, marido da irmã> não tem o mesmo nome que os <concunhados, maridos de várias irmãs, entre si>. Aqui se pode, portanto, verificar um pormenor minucioso, mas em geral temos de contentar-nos com uma informação geral. O mesmo acontece com animais: no caso de espécies importantes, como a espécie bovina, não apenas se pode contar com a coincidência do grego bous, do alemão Kuh, do sânscrito gau-s, etc., e reconstituir um indo-europeu *g2ou-s, como também a flexão tem os mesmos caracteres em todas as línguas, o que não seria possível se se tratasse de uma palavra tomada de empréstimo, posteriormente, a outra língua.”
“A despeito de tudo quanto se disse sobre o vínculo de dominus com domus, os linguistas não se sentem plenamente satisfeitos, pois é coisa das mais extraordinárias ver um sufixo –no- formar derivados secundários; nunca se ouviu falar de uma formação como seria em grego *oiko-no-s ou *oike-nos-s de oikos, ou em sânscrito *açva-na- de açva-. Mas é precisamente tal rareza que dá ao sufixo de dominus sem valor e seu relevo. [Aqui, Saussure elenca uma série de semelhanças em idiomas, em que uma mesma raiz gerou as palavras para senhor ou deus e povo ou servo, submisso.]”
Por inferência e analogia, pode-se concluir que tribunus é uma derivação de tribus significando “chefe da tribo”.
“Dominus, com seu singular sufixo, nos parece uma prova dificilmente refutável não apenas de uma comunidade lingüística mas também de uma comunidade de instituições entre o etnismo italiota e o etnismo germânico. Cumpre, todavia, lembrar, uma vez mais, que as comparações de língua a língua RARAS VEZES proporcionam índices tão característicos.”
V. FAMÍLIAS DE LÍNGUAS E TIPOS LINGÜÍSTICOS. CONCLUSÃO.
“Embora reconhecendo que Schleicher violentava a realidade ao ver na língua uma coisa orgânica, que trazia em si própria a sua lei de evolução, continuamos, sem vacilar, a querer fazer dela uma coisa orgânica em outro sentido, ao supor que o ‘gênio’ de uma raça ou de um grupo étnico tende a conduzir a língua incessantemente por caminhos determinados.”
Mary Higgins & Chester Raphael (eds.), 1967 (1972). Tradução do alemão ao inglês por Therese Pol.
“The publication of the interview contained in this book is not made under the auspices nor with the consent or authorization of the Sigmund Freud Archives, Inc. or K.R. Eissler” É evidente que não! Mas o engraçado é que o entrevistador foi o próprio Kurt Eissler…
Entrevista realizada em 18 e 19 de outubro de 1952.
“While Reich in many of his writings did refer to this relationship and to the conflict that developed later, the directness and informality of the interview technique has made it possible to elicit the information in a manner that is both simple and concise, and it should have the advantage of placing the reader in a favourable position to determine for himself what was at issue.” “In view of recent strenuous efforts to eliminate the libido theory, the publication of this interview is unexpectedly timely. For Reich remained steadfast in viewing libido as the core of Freudian theory.” Libido nunca significou a mesma coisa para ambos. E, ao contrário do que parece aos não-iniciados, depende de Reich o nome de Freud continuar a ter força século XXI adentro, e não o contrário.
“Freud capitulated (sublimation, death-instinct, and cultural theories), and gained fame; Reich died in prison. The fact that Freud did not offer any scientific proof for the libido theory, even though he predicted it would be forthcoming, and the attenuation that resulted from his later speculations, left his disciples with little to sustain them. As a result, they have gradually abdicated, despite some idolatrical lip service in their theoretical discussions and they have offered little, if any, opposition to the concerted effort now being directed against the energy theory”
“They emphasize ‘sociology’ and conveniently deemphasize ‘sexuality’. Ironically, although Reich’s emphasis on the magnitude of the influence of society upon the individual caused his break with Freud and his expulsion from the International Psychoanalytic Association, he saw no justification for discarding Freud’s libido and remained the only one prepared to defend it.
Although he was never politically oriented, Reich was once violently condemned and, at times, even today, continues to be slandered as a communist because he attached so much importance to the impact of society and saw in Marxist doctrine some basis for hope in bringing about an improven1ent in the human condition. However, practical communism, as it developed in the Soviet Union, became a monster he termed ‘red facism’; and this fact, in addition to his own experiences as a physician among the masses, convinced him that human structure, molded by authoritarian institutions, is protoplasmically unable to change.”
“Even Adler, Jung and Rank are not denied Reich’s indebtedness for the inadvertent assistance their theoretical positions provided in his pursuit of a natural scientific basis for the libido theory.”
“We have also provided the footnotes and appended a supplement consisting of correspondence with Freud and others, as well as miscellaneous documents pertinent to the material of the interview.”
“Ernst Freud, managing director of the Sigmund Freud Copyrights, Ltd., initially expressed interest only in the payment of a royalty, but negotiations were abruptly terminated and permission refused on the advice of unnamed psychoanalysts.”
* * *
“Why should we be so full of regard for privacy in important matters when our newspapers drown us in small scandals every day?” “The developments in science and education within the next 100 years will be decisive in establishing whether this interview will have any meaning whatsoever, or whether the evasion of the issues of babyhood and motherhood will continue to mess up more centuries of human destiny.”
Em 2052 a raça humana verá. Eu provavelmente não estarei mais aqui.
(*) “Even though Freud came to realize that these communications could not be taken at face value and, thus, necessitated theoretical and technical modifications, the verbal productions remain the raw material of the psychoanalytic therapy. The attempts to alleviate the difficulty in verbal communication, utilizing free association, produced some improvement, but the ability of the patient to communicate verbally remained an essential feature of the technique. It tended to exclude the uncooperative psychotic, for example, or the patient whose ability to communicate verbally was impaired by the concealed spasm of the glottis. The attempt to relieve such spasm by initiating the gag reflex, as utilized in orgone therapy, would not be a recognized means of eliminating the difficulty in psychoanalysis.”
“I began to see the despair in Freud’s face some time around 1940. Although he was dead, he had a great influence upon the direction of my further search in the realm of human emotions. What was his despair about? Now, if I am right, if I read the emotional expression correctly, the problem is why he was in such despair. And why didn’t I see it before, in 1925 or 1930?” “I don’t know whether you know that he withdrew from all meetings and congresses in 1924. And he developed his cancer of the jaw at that time. Are you following me?” Esse maldito não praticava o coito.
“Now, cancer, in my research is a disease following emotional resignation – a bio-energetic shrinking, a giving up of hope.”
(*) “Carcinomatous shrinking biopathy [biopatia minguante carcinomatosa] is the term Reich has applied to the process underlying the disease known as cancer, in which he discovered the functional unity of psychic resignation and biopathic shrinking which precede, often by many years, and accompany the appearance of the malignant tumor.”
“What happened at that time not only happened in the IPA from 1926 to 1934. It has happened all through the ages. It happened in the Christian Church 1500 years ago. It happened in every home on this planet. Now that sounds peculiar, doesn’t it? What happened? Do you know the term ‘pestilent character’?”
PAULO FODIDO, O DOENTE: (*) “Evidence of Paul Federn’s efforts to disturb the relationship between Freud and Reich was clearly revealed by Freud himself in a letter to Reich dated November 22, 1928, in which he told him that Federn had requested Reich’s removal as director of the technical seminar. In a later letter from Freud to Reich, October 10, 1930, Federn’s malevolent ‘digging’ was again in evidence.”
“I don’t know what has been deposited in the Freud Archives about me – what slander or defamation. But I know it’s around. I know who was involved in it. Jones was in it.”
“You don’t know that rumor of schizophrenia? Oh, yes. That was spread by Fenichel. Oh, yes. Now, today, nobody believes it. It was quite a thing, quite a thing. I doubt that you never heard that I’m paranoiac, schizophrenic.”
“Now listen! I can explain how they came to invent such a rumor, or to set such a rumor into motion about me. In 1929 I began to work in character analysis with physiological emotions, with physiological feelings in the patients.”
(*) “Students of the various schools of psychoanalysis are required to read Character Analysis but are often specifically warned not to read the contents of the 3rd edition beyond the chapter on The Masochistic Character’, to mark their separation from Reich’s later work. This separation is, of course, correct, but the admonition to ignore the later work is given with defamatory emphasis.”
“In investigating the difference between the typical neurotic and the schizophrenic, I learned that the neurotic recognizes the excitations which may break through spontaneously, or in the course of treatment, as biological, as arising from within. The schizophrenic fails to recognize these primary, biophysical sensations and plasmatic streamings as an inner process and, thus, comes to misinterpret and distort them. (…) This explanation of the schizophrenic process was viewed as distorted and even delusional by psychoanalysts such as Jones, Federn, Fenichel. And out of such things grew the slander of calling me a paranoid schizophrenic.”
“At that time, about 1925, the psychoanalysts in the technical seminar didn’t like my work on genitality, on orgastic potency, on the actual stasis neurosis which underlies the whole dynamic structure of the energy source of the neurosis”
“Hitschmann was the only one who said, ‘You hit the nail on the head.’ (He was the director of the Psychoanalytic Polyclinic. We built it up together.)”
“Basically, Freud discovered the principle of energy functioning of the psychic apparatus. The energy-functioning principle. This was what distinguished hin1 from all other psychologists. Not so much the discovery of the unconscious.”
“First, when Freud discovered infantile sexuality, he was furiously attacked, in a horrible way, by Modju. Do you know who Modju is?
(…)
Then you knew that ‘Modju’ is a synonym for the emotional plague or pestilent character who uses underhanded slander and defamation in his fight against life and truth.”
“DR. EISSLER
From where did you get the name?
DR. REICH
It was derived frmn Mocenigo [sobrenome italiano], a nincompoop [idiota], a nobody, who delivered a very great scientist, in the 16th century, to the Inquisition. That scientist was Giordano Bruno. He was imprisoned for 8 years and then burned at the stake. This Mocenigo was a nobody who knew nothing, learned nothing, couldn’t learn anything. He wanted to get a good memory function from Bruno, who had a marvelous memory. But he couldn’t do it. Bruno couldn’t give it to him. So what did he do? He went out and killed Bruno. You see? That’s MO-cenigo. And DJU is Djugashvili. That’s Stalin.”
“F. was moving quite logically in the direction of the genitality problem, where I found myself so n1uch later, about fifteen years later. But he couldn’t get at it.” “The sublimation theory, which he developed as an absolute, was a consequence of that. It was an evasion.” Aristóteles, Nietzsche: o alerta já foi dado no séc. XIX. Enquanto não entenderem o MAL-ENTENDIDO sobre a CATARSE, que começou na Antiguidade, nada mudará. Isso foi quase uma transcrição exata de aspas do último autor citado. O cerne da questão humana, da nossa civilização.
“They hampered Freud. He was hampered so that he couldn’t develop further. And from there, he went right into the death-instinct theory.”
(*) “<Sublimation, as the essential cultural achievement of the psychic apparatus, is possible only in the absence of sexual repression; in the adult it applies only to the pregenital, but not to the genital impulses.> Reich, The Sexual Revolution (New York: The Noonday Press. 1962), p. 19.”
“You didn’t know that? I don’t think his life was happy. He lived a very calm, quiet, decent family life, but there is little doubt that he was very much dissatisfied genitally. Both his resignation and his cancer were evidence of that. Freud had to give up, as a person. (…) Now, if my theory is correct, if my view of cancer is correct, you just give up, you resign-and, then, you shrink.” “I always had the feeling he smoked – not nervousness, not nervousness – but because he wanted to say something which never came over his lips.” the key!
(*) “All day, from breakfast until he went to sleep, Freud smoked practically without pause … usual quantum was twenty cigars a day” (Hanns Sachs) E não são os cigarrinhos com filtro de hoje, eram charutos! Demolindo ao menos o primeiro volume de Schur (porque ainda não li os outros 2), em que a versão das cartas de F. é hagiografada: “esta semana eu fumei apenas um charuto, etc., etc.”…
(*) “Once – and only once – I saw him terribly angry. But the only sign of this anger was a sudden pallor and the way his teeth bit into his cigar.”Theodor Reik, From Thirty Years with Freud
“If you bite with a muscle for years and years, the tissue begins to deteriorate, and then cancer develops. Now, that cannot be found in psychoanalytic theory. That comes right out of my work, out of orgonomy.”
“He was alone and lonesome. Only later, about 1926, Anna Freud began to come into his life, into his work, as a co-worker. He stood it better then. But he really withdrew in 1924. The last time I saw him at a Congress was in Berlin, 1922.” “He knew in 1929 that in my youthful scientific enthusiasm I was right. But to admit this would have meant to sacrifice half of the organization.”
“I don’t speak about impotence or frigidity. No. What I mean is the emotional, the primary emotional experience of the merger of two organisms. Do you get me, now?
(…)
It’s not just to fuck, you understand, not the embrace in itself, not the intercourse. It is the real emotional experience of the loss of your ego, of your whole spiritual self.”
“Don’t worry. Just go on. Do your clinical work. Don’t worry. He was right! Today, these death-instinct things are dead; they are finished. You don’t hear of them any more.”
“Now, how, in heaven’s name, are psychiatrists, who are influenced to such a great extent by psychoanalytic thinking, ever to correct the psychic economy in children, in new-borns, in adolescents if they leave that libido out? I don’t think it will stay that way, because I’m still around. You know that? I am quite a bit around. So that is the struggle.”
“Depth psychology, therefore, operates with a function of recent origin. Many animals express themselves by sounds. But the living functions beyond and before any sound formation as a form of expression.”
“You remember the role the so-called ‘negative therapeutic reaction’ played in psychoanalysis. The more you knew, the worse you got. And nobody understood it. Nobody! I began to understand it a few years ago. I would like to try to condense it into a few words.”
“It will sound incredible in 100 years. Take it away from the mother. The mother must not touch or see the baby. The baby has no body contact after having had 9 months of body contact at a very high temperature – what we call the ‘orgonotic body energy contact’, the field action between them, the warmth and the heat. Then, the Jews introduced something about 6 or 7,000 years ago. And that is circumcision. I don’t know why they introduced it. It’s still a riddle. Take that poor penis. Take a knife – right? And start cutting. And everybody says, ‘It doesn’t hurt’. Everybody says, ‘No, it doesn’t hurt’. Get it? That’s an excuse, of course, a subterfuge. They say that the sheaths of the nerve are not yet developed. Therefore, the sensation in the nerves is not yet developed. Therefore, the child doesn’t feel a thing. (…) Circumcision is one of the worst treatments of children. And what happens to them? You just look at them. They can’t talk to you. They just cry. What they do is shrink. They contract, get away into the inside, away from that ugly world. I express it very crudely, but you understand what I mean, Doctor.”
(*) “I find it difficult to believe that circumcision, as practiced in our hospitals, would not represent stress and shock of some kind. Nobody who has witnessed the way these infants are operated on without anesthesia, the infant screaming in manifest pain, can reasonably deny that such treatment is likely to leave traces of some kind on the personality. This is one of the cruel ties the medical profession thoughtlessly inflicts on infants just because these cannot tell what they suffer.”René Spitz
“Words can’t express it. Here, in the very beginning, the spite develops. Here, the ‘no’’ develops, the big ‘NO’ of humanity. And then you ask why the world is in a mess.” “How is it understandable that a single Hitler or a single Djugashvili can control 800,000,000 people?”
BUDISMO ORIGINAL, BUDISMO EUROPEU, BUDISMO MUNDIAL:“The biological system of the human race has been ruined for ages. It has been ruined for thousands of years in Asia – in China, in Japan. The hardened structures in India and Arabia. The helplessness of millions. That is why the Moscow Modju has such success in Asia. It is also true, of course, in Europe and in America. Everywhere.” “People are dull. They are dull, dead, uninterested. And. then, they develop their pseudo-contacts, fake pleasures, fake intelligence, superficial things, the wars, and so on.”
“He wanted to get out of his own marriage. But he couldn’t. He was bound down – bound down by his position, by his Judaism, and by many other things.” “Freud was a peculiar mixture of a very progressive free thinker and a gentleman professor of 1860. Yet, in spite of his conservatism, he was so open-minded and so outgoing. I don’t think that he, himself, betrayed his cause, but he let himself be caught.”
“I have had to destroy one organization after another in order to remain free. You get my point?”
(*) “Reich’s connection with the communist movement in the late 1920s, which has been repeatedly exploited to discredit him, arose simply from the fact that it was expedient, in order to carry on his work in sexual hygiene, to encounter the masses of the people in a semblance of organization in the socialist and communist parties. Thus, <It was necessary to carry on sex-economic hygiene work within the framework of the socialist and communist parties because that was where the masses of people were at that time. Their problems had to be handled in their life set-up if one wanted to get out of the rut of individual treatment. Furthermore, the physicians who would aid in such matters as birth control, and other aspects of sexual hygiene were in the socialist and communist parties, because Russia, at that time, was still connected with sex-affirmative legislation.> Reich, 1952. From the Archives of the Orgone Institute.”
“It is terrifically painful to be alone and alive at the same time. That’s hell. I go through it myself. Do you know why I have removed myself, why I sit here, alone? I have to save my clean thoughts. I have to maintain a cleanliness, a purity. Freud didn’t succeed in that, and you can see it in his face. That was not quite clear in 1925. I didn’t understand it, then. But later, I too began to experience the emotional plague and to see what it does to man’s leaders. Now, that’s very crucial, not only to the understanding of Freud, but to the understanding of the human race and what it does, how it operates with its leaders, how it creates the dictator.”
“He didn’t have any pose. On the other hand, Federn was a prophet, with a beard. Somebody else – Eidelberg, for instance, sat there as a ‘thinker’. But Freud was just a simple animal. Would you accept that? Just a simple animal. That was Freud. And then he broke.”
“he would write, ‘Impotence, three months.’ Can you imagine trying to accomplish this in 3 months, or even in 6 months?
[Change of tape. Dialogue lost.]” Oh man!
HOW ALONE AM I, EVEN? “When I first met Freud, there was immediate contact-immediate contact of 2 organisms, an aliveness, interest, and going to the point. I had the same experience with Einstein when I met him in 1940.(*) There are certain people who click, just click in their emotional contact.
(*) Reich met Professor Albert Einstein on January 13, 1941. The basis for the meeting and their ensuing correspondence is contained in The Einstein Affair (Orgone Institute Press, 1953).”
“And there was a great difference between my way of expression, as you feel it right now, and that of the rest of the psychoanalysts in Vienna. It was so very dull there. About 8 or 10 people would sit around, and it was awfully. dull – if you know what I mean?”
(*) “<It is wrong to speak of the psychoanalytic method of thinking. Freud really had no method. He disliked method. And when he tried to do something with it, he went way off. He was a good empirical worker, but not a scientific methodologist. The first attempt to put method into psychoanalysis was my work in character analysis. That’s what Reik criticized me for, just for method. I put what was correct in psychoanalysis on a natural-scientific foundation, but my methodological, scientific work had in itself nothing to do with psychoanalysis, in the sense of being a part of it or developing from it. What I did was to put my eagle’s egg in the nest of chickens’ eggs. Then I took it out and gave it its own nest.> Reich, 1951. From the Archives of the Orgone Institute.”
Almost oh nest!
“He liked my work in the technical seminar. I think Anna Freud knows that very well. She often said it, and she could confirm it. I was a good psychiatrist. I was known as a good clinician. I think I was the only one in that group whose background was in biology, natural science, and natural philosophy. I don’t know whether there was – no, there was nobody else. I don’t think Nunberg or Hitschmann or Federn, or anybody else had that background.”
“He often expressed the hope that I would continue clinical work, just clinical work. I was a clinician. We agreed that speculations had no meaning. It was easy to put up a theory about a case. I, however, appealed to facts, to the developn1ent of the case. And that’s what Freud loved. So he had great hopes.”
“Here, Freud’s disappointment comes in. I went into sociology, which, at that time, was mixed or identical with politics. It was one thing. And, here, there was another man, another genius, Marx. I began to be interested in Marx and Engels in 1927. I had to, of course. They were very great men and they all were right. I learned some good, true sociology, there.”
“I want to have it quite clear that Das Unbehagen in der Kultur was written specifically in response to one of my lectures in Freud’s home.”
…AS WE GET TO KNOW THE CHARACTERS! “Helene Deutsch was very sympathetic, but noncommittal. Who else? Horney understood, but she dropped the sexual angle. Rado was far off. Alexander [Abraham, nulidade] was always far off. Yes, Alexander was an eneny. Anna Freud understood. She was always very interested and friendly, but she was also noncommittal.”
“Now, I can assure you I made many mistakes at that time. For instance, it was a mistake to believe that if you tell the people about a neurosis and if you tell them about happiness, they will be able to understand and to change.” Paradigma vvilfredyano.
“Well, if I hadn’t gone through those mistakes, I wouldn’t have arrived where I am now, at such a mature point. I don’t want to go into that here, but I want you to understand there is no use in individual therapy. No use! Oh, yes, good use to make money and to help here and there. But from the standpoint of the social problem, the mental-hygiene problem, it’s no use. Therefore, I gave it up. There is no use in anything but infants. You have to go back to the unspoiled protoplasm.”
(*) “<While I was accused by Freud of criticizing his psychoanalytic theory on behalf of and at the command of Moscow, Bischoff and Schneider, two Berlin stooges of the Moscow dictators, were using the most intricate devices of defamation, underhandedness, distortion, lies and calumny in order to wrest some 50,000 men, women, adolescents and children from my influence. These people had joined the Sexpol organizations in Germany solely because I had made them look at social institutions from the standpoint of the gratification of human needs. In contradistinction, the red fascists were only interested in state power and in getting social influence by misusing what I had built up. They were not at all interested in the factual, concrete solution of the sexual misery of people. Therefore, they fought me as an ‘anti-Marxist, counter-revolutionary Freudian’. A few years later, I pulled out of this Freudian and Marxian mess and moved onto the road which led to the common functioning principle underlying both Freud’s and Marx’s discoveries, i.e. the living in the human unconscious mind as well as in the human creative working power.> Reich, 1952. From the Archives of the Orgone Institute.”
SOMOS 3: “but I remember that he said, ‘It is not our purpose, or the purpose of our existence, to save the world.’ And you will be astounded when I tell you that I have now reached the same point. I am just where Freud was in 1930.”
“First, you must shift from therapy to prophylaxis – prevention. Second, you must concern yourself with the family, which is the origin of the oedipus conflict, and so on. It was cold. They were revolting. Freud was very hard with me, but it was a good hardness.”
(*) “The responsibility for the instigation and perpetuation of these vicious attacks culminating in Reich’s imprisonment and death must be laid at the door of the psychoanalysts. Their attempts to absolve themselves of this responsibility by references to Reich’s sanity must be scrutinized in the light of this interview, which was requested and conducted amidst these desperate efforts to discredit and destroy Reich and his work by groundless slander.”
“You see, the question is: Will our children, in a hundred years, when they are 5 or 6 years old, be able to live their natural lives as nature or God ordains it? Or will they sublimate according to Anna Freud?”
“Hitschmann once told me that Freud couldn’t stand Federn’s eyes. He referred to them once as ‘patricidal eyes’. And that was quite true. Wonderful! Federn really had murderous eyes. Yes!”
“DR. EISSLER
I mean, it’s your fault that you are speaking in such a fascinating way that I don’t notice the time, really.
DR. REICH
All right. Now, I could go on and on because it is endless. That’s what Freud means to me. Freud is like Columbus who landed on a shore and opened up a continent. You understand? Now, Freud had a severe conflict with Judaism. Here, he was bound down, too. On the one hand, out of protest against the persecution he had suffered, he maintained very bravely and very courageously that he was a Jew. But he wasn’t. Freud was not Jewish. Do you know what I mean, now? (…) So Freud was really German. His style, his thinking, his interests, everything was German. And, here, he was torn apart. On the one hand, he was a Zionist. On the other hand, he was a German. He liked Goethe, Faust. His language was German. His style was the wounded German style of Thomas Mann – the rounded, harmonic, but very complicated expression, in contradistinction to the English, which is straight and simple. That became more and more apparent in Freud as the years went by and his fame grew. And, then, there was his interest in Moses, who, to Freud’s mind, wasn’t a Jew either.”
“Freud was the Moses who never reached the promised land. His unconscious was only an idea. It’s not real. It was never real.”
“I think he was a very eager physician. He wanted to cure people, but it didn’t work.”
(*) “Making the unconscious conscious, which is, in essence, the function of psychoanalysis, is a speculative, intuitive process of interpretation. In orgone therapy, the attack upon the characterological and muscular rigidities effects a release of bio-energy which is expressed in clonic movements and the experience of bodily sensations described as streamings. This movement provides an objectively expressive language, eliminating the need for the verbal psychoanalytic speculations condemned by many as unscientific.”
“The Christians have the deepest point of view, the cosmic one. The American Jew has it, too, but not the European. I don’t know whether we should go into that. But I am very much interested in the history of Christianity. Do you know what Christ knew? He knew about the Life Energy.”
“Freud was anti-emotional, very anti-emotional. Freud was for intellect only, you understand. I myself am quite intellectual. But intellect without an emotional basis can’t quite fully live or work.”
“Intellectual activity has often such a structure and direction that it impresses one as an extremely clever apparatus precisely for the avoidance of facts, as an activity which really detracts from reality.”
“In short, psychoanalytic theory assumes that the unconscious is the last biologically given realm; that there is nothing behind what the analyst can find in the depth of the person. This theory knows nothing of the bio-energetic functions in the core of the living system; neither does it penetrate deeply enough into the realm of bio-energetic functioning to realize that the ‘polymorphous perversity’ and antisociality of the unconscious are artifacts of our culture which suppresses the naturally given bioenergetics emotions”
“DR. EISSLER
Yes. Now in one of your letters you said that you saw Freud at the window like a caged animal.
DR. REICH
That was that September, when we parted.”
“But to return to our last meeting. We talked for about an hour, maybe an hour and a half, and I left. I knew it was the last time I would see him. Somehow, I knew that I wouldn’t see him again. I walked down. And as I left, I looked up at his window, and I saw him walk up, down, up, down, fast, up-down, up-down, in that room. I don’t know exactly why this impression remained so vivid to me, but I had the impression ‘caged animal’ And that’s what he was. Every man of his greatness, of his vivacity, of his spirit, who knew what he wanted and landed where he did would behave like that, like a caged animal. I have a very good feeling for movement and for expressions, and that was my impression – caged animal.”
“You see, every pioneer has to have friends and co-workers to carry his work. Now, what usually happens is that they are not around, or if they are around, they take advantage of the pioneer. That’s a very dreadful truth, but it is truth. He waits and waits and waits for somebody to come around, to help, to do things and to go along with him. But they are just dead. You see, the pioneer somehow jumps out of the present-day biological structure of humanity.”
“NÓS” NÃO TEMOS UM PORQUÊ DE SER ASSIM. MAS TEMOS UM “PORQUE SIM” DE SER ASSIM.
“Oh, yes, neurasthenia. The neurasthenia problem. Now, you know that Freud began as a somaticist, as a man who worked with the body. Then he discovered the unconscious. So he switched over into psychology. But he never forgot that he was a somaticist. The greatest thing that ever happened in psychiatry was the discovery that the core of the neurosis was somatic, i.e., the stasis, the libido stasis was somatic. I once treated a waiter. I did this and did that, and finally, I had to give up. I described it in The Function. I worked an hour every day for over 2 years. It didn’t work. Didn’t work. Nothing happened, even though I went through to the urszene, to the primal scene. He had no erections, couldn’t have erections. Well, such things drove me to Freud. His basic attitude about our technique was that we shouldn’t be too ambitious in trying to cure. But I always had the feeling that he was very, very disappointed in the curative faculties of psychoanalysis. He had expected very much, and it didn’t quite work out. When I first began to analyze, treatment was to last 3 months, or, at the most, 6 months. Then it became longer and longer and longer. Then he left therapy altogether. He no longer wanted to improve humanity.”
(*) “Reich, here, is referring to neurasthenia as a specific example of a psychiatric disorder with a somatic core. Contrasting it with the psychoneuroses, Freud had classified neurasthenia and anxiety neuroses as actual (‘aktuelle’) neuroses, i.e., disturbances lacking a psychic etiology. He did go so far as to suggest that all psychoneuroses may have an actual-neurotic core, but he failed to pursue the issue. Reich, on the other hand, searching for the somatic core, found ample clinical evidence to justify the conclusion that the stasis of sexual energy was the common denominator of all neuroses. This was the starting point of his orgasm theory and all his later investigations into the nature of the sexual energy.”
“if your destructiveness is just inhibited and you turn it against yourself and eat yourself up inside, then I agree with you fully. But to believe in a primary masochism, in a wish to punish yourself, in a desire to die – no! no!”
“He couldn’t speak. You see, he had been a marvelous speaker. His words flew clearly, simply, logically. I remember that Berlin Congress. He was beautiful. He spoke about Das Ich und Das Es. He spoke very clearly. And then it hit him right there in the speech organ. He had to resign. This man had wanted to talk, to go out, to speak, to move. Look at his mouth, the configuration of his mouth. He wanted to go out, to do.” I wanna sing, dad serious, dead issues, but I’m pretty awful at it – so what? So my fingers, awfully good in what they do – type, type, and type… I once dreamt they got cut off! Brainless Zanardi
“By the way, I have to mention here that Horney took over my bio-energetic theory. When Freud’s dualism didn’t work, I proceeded toward the physiological and biological realm, and then toward the plasma motions. If I want something, I stretch out. Yes? If I am afraid, I pull in. And if I want to hit, I go out with a fury. So you have: I go out in love. I withdraw in anxiety. Or withdrawal is anxiety. That’s simple. It’s the plasma motion which does it. When I came to the United States, I visited Horney. She asked me about my work and I told her. Three or four years later, a book by her appeared. I don’t know which it was – Personality, or one of them. But it said she had a new theory: People are moving toward people, away from people, and against people. Toward people, away from people, against people. Do you get the point?”
“There was a mental-hygiene movement long before, but the recognition of the neuroses as a social problem, mass neuroses, that’s what I brought into the mental-hygiene movement.”
“I had made statistics in the Psychoanalytic Polyclinic, in free-thinker movements and in various associations. They revealed that about 90% of all women and about 70% to 80% of all men were just plain sick. That made me realize that there was a mass neurosis. I went to Freud. He had already said that all humanity was his patient. Here, quite concretely, was the evidence. 90% of all women (today, I would say even more) are characterologically and neurotically sick and not functioning according to natural law.”
(*) “From the beginning of the attack by the Food and Drug Administration in 1947 until his imprisonment in 1957, Reich was compelled to divert much of his time and energy to legal matters.”
“I went too far. I would have done better if I had restricted the movement for the first 10 years to the spreading of clinics. I had 6 clinics in Vienna where people came and received advice once or twice a week. I had one, Annie Reich had one, Annie Angel had one, Bergler had one, and so on. To provide medical and educational help was its purpose. But I went too fast. I unintentionally aroused the animosity of the political parties. They felt the power of it, and they bccan1e afraid or jealous. Their meetings were dull. They spoke about this and that, law and such things. People weren’t interested. When they came to our meetings they had the whole personal, emotional life right in the open. That created too much competition. It happened too quickly, too quickly.”
“Never do it the political way! People will get very enthusiastic about it. They will glow. They will burn for you. But their structures won’t follow. The character structure can’t follow. Then you are in trouble. That’s the danger, and that’s the special problem of mental-hygiene. I’m fully occupied with it, now, in an effort to solve it. This discrepancy between what a human being wants, what he dreams of, what he intellectually understands as true and good and what he actually can do, i.e., what his structure, the character structure, really permits him to do, is quite a problem in mental hygiene. It is also the gap where religion comes in with the idea of paradise.”
“Freud? I don’t know. I don’t think Freud was ever against it. But the psychoanalysts, socialists, communists, Nazis, yes, and the liberals – everybody was against it. All the politicians were against it. The problem is so tough, so complicated. But I did learn one thing: Never do it politically. Never do it politically. Do it factually. Establish clinics, help adolescents to establish their love lives…”
(*) “<Apart from the mass of diseases it creates, the process of armoring in early childhood makes every living expression edgy, mechanical, rigid, incapable of change and adaptation to living functions and processes. The living organ sensations, which have become inaccessible to self-perception, will, from now on, constitute the total realm of ideas which center around the ‘SUPERNATURAL’. This, too, is tragically logical. Life is beyond reach, ‘transcendental’. Thus, it becomes the center of religious longing for the saviour, the redeemer, the BEYOND.> Reich, Ether, God and Devil”
“Politically? F. always said, ‘I’m a scientist. I have nothing to do with politics.’ And since politics was hooked up with sociology, I said, ‘That’s an impossible standpoint.’ You can’t be apolitical in a situation such as the world was in. You know, the depression years. But he was right as far as politics went because politics is irrational. He was wrong as far as social science went.”
“Do you know what a political peddler does? He uses such terms as ‘sexual freedom’, ‘sexual happiness for youth’ as slogans. For example, the anarchists in England, the communists in Greece do it in a political way.”
“All that brain surgery,(*) all that stuff, the chemistry racket business – no good. That’s medicine of the past. There’s no doubt that Freud was one of the fathers of the quite new medicine-psychosomatic medicine, functional medicine. We are the pioneers in that direction.” “There’s so much cheating in the field of medicine, especially in the United States, cheating, cheats, just quacks, that I understand why they become chauvinistic and bureaucratic. (…) I think it was a very great mistake in his fight against the chauvinism in medicine when he protected Reik. (…) He was attacked by someone for practicing medicine. Freud supported him. And from that, ‘lay analysis’ developed.
(*) Reich is referring to the frontal lobotomy which gained some vogue in the treatment of mental disease.”
“The admission of lay analysts into natural scientific psychoanalysis was a very great mistake. Here, again, I refer to the natural scientific angle in psychoanalysis as opposed to the mere psychological angle. The psychological angle doesn’t carry you anywhere. You have to be rooted in natural scientific thinking, in physical medicine, and so on. You have all these lay analysts in the United States and, in my opinion, they do very much damage, very great damage. And it was Freud who opened the way to that.”
“It was quite clear where Adler was wrong. He got stuck in a very superficial layer with the power thing and he didn’t think further. It was an evasion of the libido theory. That was quite clear. Freud was very clear about these things. He had an awfully clear mind. He knew. (…) Freud attacked hin1 fron1 the standpoint of the libido theory. He rebuffed him and didn’t want anything of the ego theory. Then, Freud himself went into it, undermining the libido theory.”
“Jung meant something very important. You know what he meant? He really meant the energy in the universe, a universal libido. Freud said it was not scientific. You couldn’t measure it on a Geiger counter as I can.(*) Furthermore, it was mystically conceived.
(*) The Geiger-Müller counter is used to measure orgone energy in the atmosphere.”
“There is a deadly orgone energy. It is in the atmosphere. You can demonstrate it on devices such as the Geiger counter. It’s a swampy quality. You know what swamps are? Stagnant, deadly water which doesn’t flow, doesn’t metabolize. Cancer, too, is due to a stagnation.”
(*) “The moment a man questions the meaning and value of life, he is sick, since objectively neither has any existence; by asking this question one is merely admitting to a store of unsatisfied libido to which something else must have happened, a kind of fermentation leading to sadness and depression.”F. em uma carta. Mas esta frase é um plágio.
“He was theoretically very good. You must grant mistakes to a man who has to handle such a vast realm as the unconscious. Everybody makes mistakes.”
“He thought Stekel was a charlatan.(*) I think he was unjust to Stekel. Stekel did things. He slept with patients and such things. (…) I think that was his reason.
(*) <He plays the respectful disciple, and meantime assumes the privilege of a superior. He forgives me so to speak for all that he has done to me.> F., in Joseph Wortis, Fragment of
an Analysis with Freud”
“Rank said something very real, without knowing it. It is what we operate with today in our children’s clinic. It is the tight uterus, the contracted, spastic uterus which chokes the child. The oxygen is lacking. The CO2 is excessive. Then, coming out of such a spastic uterus is really a trauma. The birth process takes 20 to 40 hours in primaparae as against 1 to 5 hours in relaxed organisms. So Rank was in the right direction, too. But what did he do? Just as so many others did, just as Adler did with the will to power. They based everything on it. They made a secondary or tertiary process the sole, responsible factor. And Rank did the same thing.”
“Freud rejected the existence of so-called ‘ozeanische Gefühle’. He didn’t believe in such a thing. I never quite understood why. It is so obvious that the ‘ozeanische Gefühle’, the feeling of unity between you and Spring and God, or what people call God, and Nature is a very basic element in all religion, in all religious feeling to the extent that it is not sick and distorted.”
“Well, there was a question wether Anna Freud had a love life. That was a very much discussed thing. Many analysts in Vienna thought she lived in abstinence. And it was regretted. I, personally, felt somehow that it wasn’t good for the development of the education of children. Problems of genitality arise in education and if one of its leaders lives that way it is important. This is what everybody felt. I know nothing about her. I wouldn’t like to utter any opinions about it.”
“F. used to analyze his children. If the child had wet himself, he would ask, ‘Why did you do it?’”
“He liked pretty women. For instance, Princess Bonaparte was quite pretty at that time, and Deutsch was a very pretty woman. Want more of such gossip?”
“Fenichel wrote letters around about what everybody did to everybody else.”
“DR. REICH
You would like this? Tell me, how far do you go when you mean Freud, when you say Freud, Sigmund Freud Archives? How far do you go?
DR. EISSLER
Well, it’s difficult to say. It originally meant Freud, and just Freud, but I don’t think that you can really make sharp distinctions.”
“It is meaningful from a point of view of my own use, of my early development, my emotional connection with Freud. I liked him very much. He liked me very much. It was important. But it is only a memory now. The psychoanalysts still think I’m a psychoanalyst. No! No! Am I looked upon as a psychoanalyst?”
(*) “<Your suggestion to link up the discovery of the Life Energy with Freud’s contributions to science cannot be put into effect. There is no such link. The utmost station of my work process which had clear cut positive links with psychoanalysis is the presentation in the second edition of my Character Analysis. Even these positive links had been rejected by Freud, including the crucial orgasm theory, the starting point of the later orgone energy developments.> Reich, in a letter to Dr. Harry Slochower, January 3, 1956.”
“I think it will take hundreds of years before the theory of the unconscious and the theory of bio-energy will be really lived by alive people. And to protect that process, you have to guard against slander. Slander will go on for a long time – the slander of love, the slander of genitality, the slander of life, the hate of life – for a long time. To protect against that is part of the job. It is beyond psychoanalysis. It has nothing to do with psychoanalysis. It is outside.”
“everybody wants to know how many women he had; whether he was divorced or not divorced; how many times he was divorced, and so on and so on. But those who ask these questions and those who assume the right to delve into the private lives of the pioneer, mostly to do damage, are themselves hidden in the bushes. I have a very typical picture of that. The pioneer is like a deer in the open meadow, and all of his critics and all of his enemies are all around him in the bushes. They can shoot from ambush and he can’t do a thing about it. Now, Freud was a pioneer, and you know how people wanted to know about him. He ran away from that. I told you that yesterday. He stayed at home. He didn’t see people. He was careful about his private life. He went into the sublimation theory.
Now, I myself began to be a pioneer, about 1923, when I discovered the genitality problem in neurosis. And the enemies – they were not enemies yet, but they sensed danger. As I told you yesterday, most of the psychoanalysts had been patients, sexually disturbed themselves, and that had a great influence. But it wouldn’t have developed as it did if I hadn’t tackled the problem of genitality in the neuroses. So the spotlight was turned on to me very early. I remember, in this connection, a remark by Reik, Theodor Reik, when I gave my first lecture on die Rolle der Genitalität in der Neurosenetiologie. All of the Viennese psychoanalysts sat there and listened. They were very attentive. Then, for the first time, the emotional atmosphere around me cooled. Reik said that it was a perfect presentation, but <I wouldn’t like to have written that book.>”
“About 1926, when I published the work on the genitality in children, the first puberty, rumors came to my ears that I cohabited with my patients. I didn’t. It was Federn who slandered. That went on and on and on, underhandedly. I would hear something here, something there.”
“DR. REICH
(…) To further illustrate the situation as it developed around 1932 – I was in trouble with my wife, my first wife. You know that?
DR. EISSLER
Yes.
DR. REICH
She was sick. I just had to leave her. And I, in contradistinction to Freud, did not give up my private life. I lived my love life. I was not afraid of public opinion. When the relationship with my first wife did not work out, I took another woman. Today, such things are readily acknowledged, aren’t they? But in those ‘cultured’ Viennese circles it was something very peculiar. Now, I was in the open. Everybody knew about it. I was not promiscuous, or in any way amoral or immoral. But I never permitted my organism to grow stale or to become dirty. That goes very deep, you understand. You know what happens when somebody lives too long in abstinence. He gets dirty, dirty-minded, pornographic, neurotic, and so on. (…) One only shrinks if one lives against nature. One shrinks, gets sick, ill, in one way or another.”
“As a psychoanalyst, you are aware of the fact that the one who leads a frustrated life, or a pathological life, is envious of the one who doesn’t, the one who leads a clear and straight life.”
“When I was through with my first wife, I had a second one. I wasn’t married to her, not legally married to her, but she was my wife. That was Elsa Lindenberg.¹ (…) Without mentioning names, I shall mention facts which resulted from the genital frustration of some psychoanalysts.”
¹ “Elsa Lindenberg met Wilhelm Reich, the psychologist, in May, 1932, during a protest demonstration against Adolf Hitler and the Nazi Party. She later recalled that ‘I got to know Willie Reich when I used to walk around Berlin at night with a pot of glue and anti-Hitler posters.’” Fonte: https://spartacus-educational.com/Elsa_Lindenberg.htm
“There were instances where psychoanalysts, under the pretext of a genital examination, of a medical examination, put their fingers into the vaginas of their patients. It was quite frequent. I knew that. You see, it happened once or twice that I fell in love with a patient. Then I was frank about it. I stopped the treatment and I let the thing cool off. Then we decided either yes or no to go to bed.
(…)
I was quite straight about it. Some psychoanalysts didn’t do that. They would be hypocrites about it. They would pretend there was nothing there and would masturbate the patient during the sessions.”
“One way the world usually attempts to kill the pioneer is to segregate him, to put him away into loneliness, into lonesomeness, so he can’t live a normal life. That is one way of breaking him. It happened to Nietzsche, for example. Now, I never permitted anyone to do that to me. They tried many times. What did I do? I dissolved the organizations that tried to do that.”
“Well, for example, it happened recently in New York. There was a group of two dozen or so physicians who began to admire me and to have this mystical attitude toward me. They sat around me. They made that bust of me and carried it up and down the steps in my house and made a holy smoke out of me. That began to disturb my life, my vitality. I had to separate myself. I didn’t want it. It is much more important that I stay alive and do my experiments and my science than it is to have a few followers.”
(*) “The jailing of Reich achieved for his enemies what he had been able to avoid during so much of his eventful life. It was the final and tragically irrevocable solution to the endless attempts to segregate him. Jailing succeeded where slander and defamation had failed.”
“I was reproached because I married a former patient of mine, Annie Pink. It turned out very badly. Rado married a patient, Emmy. Others married patients. There was nothing wrong with that. What was wrong, however, was the hypocrisy which was in many treatments”
“You make somebody else bad in order to free yourself from responsibility. We call that the Emotional Plague.”
“This was not a special case of hate, or infamy, or destructiveness toward me. It is a general thing that goes on everywhere. But the psychoanalysts are no different from anyone else.”
“I assure you that it is the same with the orgonomists today with the genitality theory. They don’t touch it. These armored character structures cannot handle natural genitality. It may take another 50 years or so to get it across.
Let me give you another example. My second wife, Elsa Lindenberg, was very beautiful. That is her picture over there. I came to the Lucerne Congress with her in 1934. It is quite amusing to think back on that today. But to give you a picture of the attitude of some analysts at that time: They lived in hotels, sat around in smoky lobbies, and so on. I didn’t. I lived with my wife in a tent at the Lucerne Lake. I had a dagger, you know, as you have when camping. Today, nobody would find anything peculiar in it. Fifteen years later, a rumor went around in New York to the effect that I had gone completely crazy at Lucerne and had put up a tent in the lobby of the hotel and that I went around with a dagger. You never knew who started it, but that rumor went around and came back to me.” “Only starved, genitally starved individuals do such things. A genital character, a normal, healthy individual doesn’t do that. It doesn’t occur to him to do such things, to run after a woman in such a manner. They didn’t know that she was my wife, but when they found out, they retreated. To get to the essence of the whole thing, it is impossible for a human organism, such as that of an analyst, to work continuously over the years with the human structure, with the instincts, the perverted instincts and the healthy instincts, to take all that, to have to accept it, to have it poured onto him, and to stand it, unless he himself is completely clean, lucid, and orgastically satisfied, unless he himself lives in a good way. Now, that was not the case with the majority of psychoanalysts. And that is crucial. (…) Their structures couldn’t stand it. I don’t think they avoided it in a moral way. In some cases, they did so in a pornographic way; in others, in a defensive, compulsion neurotic way; in still others, by just not having contact with it, just not handling it.”
“You can’t get at the human character by psychoanalytic means. You have to reach it with character analysis or orgone therapy. Human beings live emotionally on the surface, with their surface appearance. Correct? In order to get to the core where the natural, the normal, the healthy is, you have to get through that middle layer. And in that middle layer there is terror. There is severe terror. Not only that, there is murder there. All that Freud tried to subsume under the death instinct is in that middle layer. He thought it was biological. It wasn’t. It is an artifact of culture. It is a structural malignancy of the human animal. Therefore, before you can get through to what Freud called Eros or what I call orgonotic streaming or plasmatic excitation (the basic plasma action of the bio-energetic system), you have to go through hell. Just through hell! This is true for the physician as well as the patient. In this hell, there is confusion, schizophrenic breakdown, melancholic depression.” “A bull is mad and destructive when it is frustrated. Humanity is that way, too.”
“At that time, I would have run. I couldn’t run today. The bridges are burned behind me. Looking back, I understand it. It is very dangerous. You see, the armor, as thick as it is and as bad as it is, is a protective device, and it is good for the individual under present social and psychological circumstances to have it. He couldn’t live otherwise. That is what I try to teach my doctors today. I tell them I am glad they don’t succeed in breaking down that armor because people, who have grown up with such structures, are used to living with them. If you take that away, they break down. They can’t, they just can’t live any longer. They can’t function, you see. It will take a long time – maybe decades, maybe centuries, I don’t know – until we have new generations whose structures will be different.”
“DR. EISSLER
You mentioned yesterday about Jones. I thought that that had a direct effect on-
DR. REICH
Oh yes, of course. He was a very frustrated Englishman, you see. And he hated the way I lived. So, to judge from the events at Lucerne, he most likely dug against me to Freud. He thought I was psychopathic. The analysts don’t distinguish the sick and the healthy. So, to them, I was psychopathic.”
“(…) Emmy, Rado’s his wife, and I had very strong genital contact with each other. Never anything like full embrace happened between us, but we danced a lot together and we had very strong contact. And Rado was jealous.
DR. EISSLER
And then he started an intrigue against you?
DR. REICH
Yes. He was the one who started that rumor in 1934. He began the rumor that I was schizophrenic. He was the one. And Fenichel picked it up. The rumor was that I was in a mental institution. I wasn’t. I never was, never have been. Fenichel was the one who broke down emotionally. It was Fenichel who was in an institution for three weeks after a breakdown. He broke down in connection with my separation from the IPA. I never mentioned him by name, but I related that whole story in Character Analysis, in the 3rd edition. I never reacted to that publicly because I knew I was strong enough to survive. So, to begin with, it was Rado because of Emmy. Fenichel and others picked it up easily, as usually happens. I had quite a time to get rid of that. The rumor preceded me by a year in the United States. Everybody thought I was psychotic. That was my punishment for the discovery of the orgasm function.”
“This ‘don’t touch it’ showed up quite clearly in the handling of the Freud Archives. I don’t know whether you know that. Freud was put away. Nobody wants to deal with Freudian problems, you understand. ‘Put them away for 100 years. Let 2 or 3 later generations decide about it. We don’t want anything of it.’ You won’t agree with me. There is, however, no doubt about it. When your secretary went down to the Library of Congress to confirm receipt of my documents, the answer I received back was the assurance that my correspondence with Freud or about Freud is put away for 100 years. But I am not interested in that. I never intended to put away my correspondence for 100 years. On the contrary, I am going to publish it during my lifetime. There is nothing to hide. Are you going to tell them what I say?”
“It was a handy tool for my enemies, you know. I wasn’t a communist. I wasn’t a Marxist. I understood Marx, but I saw that Marxism, as I proved in my writings, was insufficient to handle the problems. But the analysts were already afraid of the ‘social consequences’. If I had known where it would lead, I would have been afraid, too. But I didn’t, you see. I was determined to go right after the problem.”
“I was never a political communist. I would like to have that fully on record. Never. Oh, yes, I worked in the organization. I worked with them. I believed that capitalism was bad, but I don’t believe, today, that the misery stems from capitalism. The misery is older than capitalism. I tried hard to get psychology, especially psychoanalytic psychology, into sociology.” “From the point of view of later developments of misery for myself and my beloved ones, I wished I had never started my program of improving the socialist movements. No more deadly enemies, no greater danger to my life and liberty or happiness have ever come than that movement directed by liberators without knowledge of the laws of responsible freedom.”
“Bernfeld began it about 1925, but he dropped it. I continued in 1927. In Austria, I worked with the communists, but I was in the Arbeiter Hilfe. (The Arbeiterhilfe (Worker’s Help) consisted mainly of people who were not party members but sympathized openly with the Russian revolution. The Arbeiterhilfe and the Rote Hilfe (Red Help) were designed as a kind of Red Cross organization. However, these affiliates consisting of non-political members were in many cases abused for political power purposes in the early 30s, without the consent or even the knowledge of the members of these organizations.) In Germany, I belonged to the socialist physicians under Simmel.(*) I worked with the communist faction because of the new laws in Russia – the sexual laws. Freud was all for it. Today, everybody is for it except the Russians, who dropped it long ago. Somehow, the world has split up. You see, there was this tendency in the late 20s to unite psychology and Marxism, or psychoanalysis and Marxism.(**)
(*) Ernst Simmel (1882-1947), president of the Society for Socialist Physicians in Berlin, who pioneered in the development of hospital care of patients, using psychoanalytic principles.
(**) At that time, nobody had an inkling of the future split of a mechanized and ruined Karl Marx who would be confined to an imperialist, Russian, tyrant state, and a badly mauled Freud confined to the USA, appearing frequently in a commercial manner as thousands of ‘lay psychotherapists’”
“He was a Modju. Federn was a psychoanalytic Modju. He was very unhappy in his marriage, but he was a very, very good husband. He stuck to her and so on. And he was a ‘culturist’. He used to read Goethe to his patients.”
“DR. REICH
(…) When did you enter the psychoanalytic movement?
DR. EISSLER
Well, I went to psychoanalytic lectures from 1931 on.
DR. REICH
Are you a member of the psychoanalytic society now?
DR. EISSLER
Yes.
DR. REICH
In New York?
DR. EISSLER
Yes.
DR. REICH
May I ask you a question? Did you discuss this interview with anyone of the Board of Directors of the Psychoanalytic?
DR. EISSLER
What do you mean – discuss?
DR. REICH
Discuss what we should talk about?
DR. EISSLER
One or two, I think, know that I planned to interview you.
DR. REICH
Who?
DR. EISSLER
I think I told Hartmann and Kronold.
DR. REICH
You know Kronold was my student.
DR. EISSLER
Yes.
DR. REICH
He is quite decent, but they all left me. They all abandoned me.
DR. EISSLER
But they say you are a very good analyst.
DR. REICH
Yes. Other psychoanalysts don’t know about this interview? They don’t ask? But they know that I cooperate with you?
DR. EISSLER
Yes, sure. But their interest is really a peripheral one.
DR. REICH
Is that so?
DR. EISSLER
Yes.
DR. REICH
You know what I mentioned yesterday about that original damage done to the human, to infants. That’s what it is – this lack of interest. Nobody is interested. They can’t be interested. The protoplasm doesn’t sparkle any more. Oh, we encounter that everywhere. We have it right in our own midst. It is everywhere, everywhere. Were there any objections to my depositing the documents?
DR. EISSLER
Oh, no.
DR. REICH
There are a few severe enemies in the psychoanalytic association. Nunberg is very severe. There are very many friends there, too, but they don’t touch it. You know what I mean.”
“Do you know who has kept the libido theory alive and working today? And who developed it? I regard myself as the only one who did it. Nobody else. Is that clear? I want this quite clearly on record. I claim that. (…) It was also a point of frequent discussion with Freud. I refer here to the relationship of the quantitative to the qualitative. To him, it was one of his greatest discoveries that an idea is not active on its own, but because it has a certain energy cathexis, i.e., it has a certain amount of energy attached to it. In this, he had brought the quantitative and the qualitative together. He did the same thing when he claimed that the neurosis had a somatic nucleus. But the quantitative, the energy angle, was only a concept. It was not reality. Now, whereas the psychoanalytic organization developed the qualitative angle, i.e., the ideas, their interconnection, and so on, I picked up the energy angle. I had to hold on to the libido theory, you understand, not only because it was true, but because I needed it. I needed it as a tool. It led into the physiological realm. That means that what Freud called libido was not a chemical, but a movement of the protoplasm.”
(*) “I must guard against any attempt to write me down in history as a Freudian or as one of the many psychotherapeutic schools which sprang from the deletion of the living nerve of the Freudian theory, namely, the libido theory. The actual discovery of the cosmic energy has nothing whatever to do with Freud.” Reich, 1956
(*) “The microscope, telescope, orgonoscope, temperature-difference apparatus, electroscope, field meter, fluorophotometer, Geiger-Müller counter are some of the devices used to visualize and otherwise demonstrate and measure quantitatively the orgone energy in biological specimens and in the atmosphere.”
(*) “Blue is the specific color of orgone energy within and without the organism. Classical physics tries to explain the blueness of the sky by the scattering of the blue and of the spectral color series in the gaseous atmosphere. However, it is a fact that blue is the color seen in all functions which are related to the cosmic or atmospheric or organismic orgone energy. Protoplasm of any kind, in every cell or bacterium is blue. It is generally mistaken as ‘refraction’ of light which is wrong, since the same cell under the same conditions of light loses its blueness when it dies. Thunder clouds are deeply blue, due to high orgone charges contained in the suspended masses of water. A completely darkened room, if lined with iron sheet metal (the so-called ‘Orgone Room’), is not black, i.e., free of any light, but bluish or bluish-gray. Orgone energy luminates spontaneously; it is ‘luminescent’. Water in deep lakes and in the ocean is blue. The color of luminating, decaying wood is blue; so are the luminating tail ends of glowworms, St. Elmo’s fire, and the aurora borealis. The lumination in evacuated tubes charged with orgone energy is blue.’” Reich, The Orgone Energy Accumulator – Its Scientific and Medical Use
“However, I could have developed my discovery of the life energy as well from Driesch’s Entelechy or Bergson’s Élan Vital, or from any of the biochemical branches of science, had I happened to have worked practically in any of these fields. Similar conflicts would have arisen to free my thoughts. This is to say that there are many forerunners of my discovery.”
“Think of an article like Sterba’s on my work in which he leaves out the crucial orgasm question entirely. Oh, yes, I know they talk of anal and oral and so on. That is not the point, you understand. The point is the grasping of what the libido theory meant. With the libido theory, psychology hooked onto natural science for the first time in the history of science.”
(*) “The term id expresses, in a metaphysical manner, the fact that there is in the biosystem a ‘something’ the functions of which are determined outside of the individual. This ‘something’, the id, is a physical reality; the cosmic orgone energy. The living ‘orgonotic system’, the ‘bio-apparatus’, represents nothing but a special state of concentrated orgone energy. In a recent review, a psychoanalyst described the ‘orgone’ as ‘identical with Freud’s id’. This is as correct as the contention, say, that the ‘entelechy’ of Aristotle and Driesch is identical with the ‘orgone’. It is true, indeed, that the terms id, entelechy, élan vital and orgone describe ‘the same thing’. But one makes things all too easy for oneself with such analogies. ‘Orgone’ is a visible, measurable and applicable energy of a cosmic nature. Such concepts as id, entelechy, or élan vital, on the other hand, are only the expression of inklings of the existence of such an energy. Are the ‘electromagnetic waves’ of Maxwell ‘the same’ as the ‘electromagnetic waves’ of Hertz? Undoubtedly they are. But with the latter one can send messages across the oceans while with the former one cannot.
Such ‘correct’ equations without a mention of the practical differences serve the function of verbalizing away great discoveries in natural science. They are as unscientific as the sociologist who, in a recent review, referred to the orgone as a ‘hypothesis’. With hypotheses, with such things as the id or entelechy, one cannot charge blood corpuscles or destroy cancer tumors; with orgone energy, one can.”Character Analysis
* * *
APÊNDICES DO LIVRO (PART 2. DOCUMENTARY SUPPLEMENT)
TRECHOS DE ESCLARECIMENTOS E PREFÁCIOS
“Freud seemed to have been stuck in his own need to ‘sublimate’ which he, then, made valid for all by translating it into a wrong psychological theory. Contemporaries of his such as Strindberg, Ibsen, Nietzsche, who had no fear, were far ahead of Freud in these matters.”
“Dialectic materialism as outlined by Engels in his Anti-Dühringdeveloped into biophysical functionalism. This development was made possible by the discovery of the biological energy, the orgone (1936-1939). Sociology and psychology were put on a solid biological foundation. Such a development cannot remain without influence on thought. As thinking develops, old concepts change and new concepts take the place of obsolete ones. The Marxist ‘consciousness’ was replaced by ‘dynamic structure’, ‘needs’ by ‘orgonotic instinctual processes’, ‘tradition’ by ‘biological and characterological rigidity’, etc.” “Does that mean that the economic theory of Marxism is fundamentally wrong? I should like to clarify this question by an illustration. Is the microscope of Pasteur’s time, or Leonardo da Vinci’s water pump ‘wrong’? Marxism is a scientific economic theory which stems from the social conditions of the early 19th century.”
TRECHOS DE CORRESPONDÊNCIAS
Carta a Adler, 1920
“For if this will to power originated from the desire to become like the father (reinforced by the inferiority feeling that this cannot be done), the explanation would suffice if we did not have to ask ourselves: in what respect does the 4-year-old boy want to become like his father? If he feels the stirrings of inferiority, this must have a cause – and what is it? However, our curiosity will scarcely be satisfied by this answer: the youngster wants to become an engineer or a shoemaker like his father; he wants to build equally fine houses, etc., and since he cannot do this, his inferiority feelings awaken, and along with them the will to surpass his father. We can even occasionally observe that little boys show preference for games imitating the occupations of adults, the closest model being the father. But we will have to say that this is not always the case, and if it does happen, it is frequently an imitation, free of envy, whose strongest motives must be sought in entirely different areas. We should even admit that nothing could be more alien to the child than the reality, burdened with worries and sorrow, which in the long run cannot be concealed from him, particularly if he is intelligent; that he will select from this reality only that which gives him the most pleasure – that is, only the marvelous freedom, the come-and-go-as-you-please, above all the freedom from the paternal whip that keeps coercing him back into the narrow circle he tries to break by every available means. And, here, alone, we
would find the relation you have emphasized: cause-effect, pressure by the father (by all education)–inferiority feeling (and the will to surpass the father, i.e., to overcome him, to be free of him).”
“I would like to point to the enormously conspicuous circumstance that persons with a particularly highly developed will to power also show a distinctly sadistic character trait.”
“Here the question arises as to why the absolutely and relatively greater inferiority feeling of the female sex does not produce, by way of overcompensation, a will to power far stronger than the man’s …. In explaining this case, you mentioned the father’s extraordinary love for his young daughter and later, it seemed to me, you did not refer to this very important circumstance again. Is it not likely, then, that the girl returned her father’s love, could not emancipate herself from him and rejected all suitors, regardless of her wish to get married, which even seems to have tormented her?”
Carta a Ferenzi, 1925
“But the principal conclusion of this research, stimulated by The Ego and the Id concerning the character and its analysis, seems to me the, by now, generally accepted opinion that we are progressing from symptom analysis to a therapy that investigates the characterological foundations of the symptom neurosis; and that true and lasting cures can be achieved only if we succeed in modifying the neurotic character, which is the substructure of its symptomatology.”
“Since The Ego and the Id, we can no longer doubt that sadism – the aggressive, destructive death instinct – stands as the equal of Eros, and we are learning to assess its importance, which differs from Adler’s in being less one-sided, and yet somehow resembling it. I must confess that the contradiction between text and addendum irritated me all the more as I felt that the Professor F. did not unequivocally resolve it; for what Adler at the time understood to be an aggressive instinct is the same that Freud calls destructive instinct.”
Carta a Federn, 1926 (infelizmente Reich era muito ponderado e acabava não enviando essas cartas mais ofensivas!)
“On the occasion of the last election of secretaries, after you became acting chairman following Rank’s resignation from the executive committee, you told me that I would have become secretary, along with Nunberg, if it had not been necessary to iron out certain differences with Jokl and to appoint him for political reasons. Nunberg was elected because he had seniority. (May I be permitted to remind you in this connection that I have seniority over Jokl.) I accepted these political arguments, too, even if I did not approve their specific political nature, and I, the ‘aggressive, paranoid and ambitious’ type, forgot the whole affair without being in the least upset about it. It was only after the most recent decisions of the executive committee that both incidents assumed significance in my mind. Now the position of secretary was simply liquidated with the explanation that Bernfeld was the only one being considered ad personam. And what about the post of second secretary before Bernfeld’s elecion? Please believe me when I say that I thought of my automatic advancement to Bernfeld’s position (as secretary or librarian) for the first time when you spoke of the new election in the board meeting. I had a two-fold interest in being on the executive committee. The first was motivated by the understandable desire to see and listen to the Professor more frequently. Infantile, perhaps, but neither ambitious nor criminal. The second was purely factual: I feel that for several years I have presented important suggestions which actually should have originated with a member of the executive committee since they concerned organizational questions such as establishing, conducting and developing the technical seminar (the chairmanship of which I have never claimed); differentiating between two kinds of members, systematizing the clinic services and the employment of physicians. (My admission as acting chairman to the executive committee of the clinician admission I did not claim but which was promised to me – suffered the same fate, for even flimsier reasons, as did my admission to the executive committee of the Association. Without bemoaning the former, I performed my duties in the outpatient clinic to the best of my ability and judgment, giving no cause for complaint, in spite of constant vexations.) Without my energetic efforts against the decision of the Association, the important question of the psychoanalytic specialist might not have been tackled for many years. My organizational work in the Association, combined with my scientific activity, gave me the feeling of justified expectation.”
“My activity – which, like all positive things, also has its negative aspects – has earned me the reputation of being aggressive. I share this fate with Tausk. I had to admit that for a while, stung by an irrelevant scientific opposition and by the general conditions in the Association, I did not exercise sufficient restraint, a fact which I regretted very, very much, and, on realizing it, I changed my conduct immediately. However, I may safely say that, no matter in what defensive position I found myself, I never insulted a colleague or otherwise hurt his feelings. Should this nevertheless have happened, I am ready to make any amends that are asked for. I never intended any personal offense but always objectively said what I was convinced I was justified in saying – without false consideration, however, for age or position of the criticized party. I have always welcomed objective criticism. On the other hand, I have had to put up with many things that would have prompted any one among you to insist on an arbitration procedure, and yet I did not react personally (coram publico or in private) or aggressively. That my objective criticism became stricter still is something I cannot be blamed for. May I recall the personal insults of Dr. Hitschmann, Drs. Nunberg and Hoffer; also, the irrelevant personal criticism of my lectures by Dr. Reik (‘The paper is good, but I would not like to have written it’). I will not even mention all the needling – so intangible, without being the less hurtful – that I cannot itemize without making a fool of myself.
Also, please do not ask me for details about colleagues (there is only one among them who is younger than I am) who are apparently well-intentioned toward me. Unless it can be proved that I made gross or numerous serious errors which would explain the attitude of many members and, by extension, the attitude of the executive committee, then only one explanation suggests itself: our Association is suffering from intramural envy. A paralyzing skepticism prevails; almost no one takes an active interest in the outpatient clinic, and anyone who wants to bring clarity to the controversial question of analytic therapy and refuses to become stifled in his interest in psychoanalysis as a science and movement is looked upon with a jaundiced eye.”
“A conversation with Professor Freud about analytic therapy convinced me that an infinite number of opinions, circulated as belonging to the Professor (e.g., on passivity), are either falsely attributed to him or, if he voiced them at all, have been misunderstood. Whence stems this shyness to discuss our therapy which is so dangerous for psychoanalysis as well as for the individual analyst? The idiotic rationalization is: the Professor does not think much of therapy. And yet, it is nothing but one’s own inner insecurity and lack of sincerity which take cover behind Freud.I am not an optimist, as people keep telling me over and over. I am merely seeking the truth about our achievements, and for this purpose, confident of analytic honesty, I created the technical seminar.I have worked for many years to obtain insight into the circumstances of successful and unsuccessful analyses. I interpret it as a symptom, and blame everyone who takes this personally, for letting me be the only one in the seminar, in courses and in publications who has reported on failures and tried to clarify these in common discussion. Most of the Viennese analysts report either on the theory of the case alone or on successful cases only.
So this is the crime that makes me unpopular: I criticized the ostrich attitude as being unanalytic; I publicly maintained that an analyst is duty-bound to discharge a patient when he has lost the thread of the analysis and is unable to find it again; he must deal with the therapeutic theory of each case and he must study the criteria for prognosis. I have repeatedly asked for cooperation, and have met either with blind criticism or scorn for my efforts.”
Carta a Freud, 1928
“In yesterday’s meeting I lectured on A Problem of Psychoanalytic Technique, reporting on the technique of dealing with narcissistic defense. Last summer, I was criticized for giving my technical lectures at the Seminar and not at the Association. In yesterday’s lecture, I wished to present to the Association one of the problems which has been discussed for years at the Seminar, in order to elucidate the differences of opinion prevailing in the Seminar. To my greatest astonishment, Dr. Federn declared that what I had presented was so commonplace that it did not belong in the Association. This may be true or not; but I must protest against Dr. Federn’s hateful, high-handed tone, and against the fact that he paralyzed the discussion by proposing that the points of contention should not be debated, which, in view of the Association’s general apathy for debate, was quite enough. This unprofessional attitude of a chairman cannot, and must not, be tolerated.
It is not only my own feeling but the conviction of almost all analysts, particularly the younger ones, that Dr. Federn inhibits all constructive work by his inconsistency, his inability to conduct a discussion, and especially by his embarrassing manner of belittling everything a younger analyst may say; he is not only hampering the development of the Vienna Association but, worse, contributing to its deterioration. Dr. Sterba and Dr. Bibring, who, at my suggestion, were to present to the Association surveys on technique and therapy developed at the Seminar, have refused to do so because they do not want to expose themselves to Dr. Fedem’s supercilious condescension. If Dr. Fedem complained last year that the Seminar draws off lectures from the Association, then he should not now brush aside everything the younger analysts have to say; even if their knowledge is rather basic, they still struggle to acquire it on their own because it is generally held that Dr. Federn’s technical course was inadequate and did not offer what he calls ‘commonplace’. The younger analysts dare not complain because they fear for their future. Conditions in the Association are utterly depressing.”
Carta aos editores do International Journal for Psychoanalysis, 1932
“I criticized the doctrine of the death instinct at a time when I knew nothing about Marxism except that it existed (see discussion with Alexander, written down in 1926). It was not Marxism that caused me to criticize the empirically unproven hypotheses leading to horrendous conclusions (death instinct and repetition compulsion), but it was analytic empiricism that brought me to Marxism. After all, aside from individual psychological motives, the question why psychoanalysis deviated from its initial clear biological path could essentially be explained in sociological terms alone.”
Carta a Eitingon, 1932
“In our conversation of October 6th, you asked me not to admit any candidates in the first training stages to the unofficial technical seminar I am conducting, and to limit attendance to those analysts who at least are guests of the Association. You justified this demand by stating that I differ with Prof. Freud on the death instinct theory, which, judging by the latest decisions, has become an integral part of psychoanalytic theory.”
Carta à IPA, 1933
“Yesterday Dr. Freud, the editorial director, advised me that, following a decision of the advisory board and the publishers, the contract for my book Character Analysis, scheduled for early publication, has been cancelled.”
“For a long time, political reaction has identified psychoanalysis with Kulturbolschewismus, and rightly so. The discoveries of psychoanalysis are diametrically opposed to the nationalistic ideology and threaten its existence. It makes absolutely no difference whether the representatives of psychoanalysis resort to one precautionary measure or another, whether they withdraw from scientific work, or whether they adapt it to present conditions. The sociological and cultural-political character of psychoanalysis cannot be eliminated from this world by any measure whatsoever. The nature of its discoveries (infantile sexuality, sexual repression, sexuality and religion) makes it the arch-enemy of political reaction. One may hide behind such illusory beliefs as a ‘nonpolitical’ science: this will only harm scientific research, but will never prevent the ruling powers from sensing the dangers where indeed they are, and fighting them accordingly. (For example, the burning of Freud’s books.)
Since psychoanalysis, in the unanimous opinion of its exponents, has a cultural and political significance beyond its medical goals and will play a decisive role in the forthcoming struggle for a new social order, but will certainly not side with political reaction, any attempt at adapting or camouflaging the movement’s essential meaning is a senseless self-sacrifice. All the more so as a substantial group of analysts is determined to continue the cultural-political struggle. The existence of this group, regardless of its position inside or outside the IPV[ienna], is politically compromising even if its principal spokesmen should be physically destrayed. I see no possibility for the leaders of the IPV to disavow this group since it is rooted completely, and in contradistinction to other groups, in the soil of psychoanalytic discoveries with all their implications.”
“Hitler’s rule does not spell the end of the historical process. If ever the historical raison d’être of psychoanalysis and its sociological function was needed, the current phase of historical development must prove it.”
Carta a Anna Freud, 1933
“when they learned that I was going to Copenhagen, two Danish students wanted to study with me. They discussed this with several Viennese analysts. One of these analysts discouraged them because a training course with me allegedly would not be recognized. This man knew more than I did. Another promised the bewildered Danes to consult local training analysts, and came back with the information that a training analysis with me was not advisable because the Danes were Marxists, and since I, too, was a Marxist, ‘the danger of identification’ would be ‘too great’. This came as quite a surprise to me, for up to now it seemed virtually taken for granted that theologians were sent to Pfister, moral philosophers to Mueller-Braunschweig, and reconstructed socialists to Bernfeld. Only in my case this Gleichschaltung, to use the latest Nazi term, does not seem to apply. I am powerless against such methods, which I hesitate to describe more succinctly; neither do I fear them.”
“I do not know if you realize that Dr. Harnik is going to Copenhagen as a training analyst, with the explicit consent of Dr. Eitingon. Dr. Hamik’s psychotic illness makes such a move seem extremely questionable. I refrain from describing the serious complications that are bound to arise when his psychosis breaks out in the North. It obviously will not help the cause of analysis. In any event, Dr. Eitingon bears a heavy responsibility for placing Dr. Harnik in such an exposed position.”
Carta a Anna, 1933
“I have the greatest interest in eliminating two facts: first, the IPV’s strategy of ‘killing by silence’ as hitherto applied to my work, and, secondly, the resultant attempts to give me the cold shoulder unofficially, quietly, as it were by indirection. Dr. Eitingon’s private stand on the question of my call to Copenhagen as a training analyst, of which I informed you; Dr. Federn’s private proposal that I should be induced to resign from the IPV; the private attempts by several analysts to dispute my competence to train analysts and to disavow my purely analytic work – these represent inappropriate attempts to resolve a conflict which can only be clarified by an open, official stand.”
Carta a Rado, 1933
“I have the misfortune to be an extremely orthodox analyst and a Marxist all in one, which in our present world has produced some very unpleasant truths.”
“Hence, could you investigate and let me know how the Americans feel about me? And if I could eventually get a purely formal invitation from overseas for visa purposes? I would also be grateful if, in your capacity as secretary of the IUK of the IPV, you would take a stand on my teaching activity in Copenhagen by writing officially to Berlin to the Educational Committee.”
“(Erik Carstens to Freud)
10 November 1933
DANISH PSYCHOANALYTIC ASSOCIATION
Holbersgade 26 – Copenhagen K
My dear Professor:
The Danish Psychoanalytic Association has asked me to write you as follows:
We are turning to you, the founder of psychoanalytic science, to help us in our difficulties. Our efforts in behalf of psychoanalysis are threatened from two sides – by the Danish authorities and the ‘wild’ analysts. Without motivation, our Minister of Justice has rejected our petition for residence and working permit for Dr. Reich, who is our training analyst and scientific director. We replied by inviting the public to a lecture, where Reich, Neergaard and I discussed the Struggle for Psychoanalysis. The evening was a success, about 600 people attended, the press gave us good coverage, and a group of physicians decided to send a new petition to the Minister of Justice. We have written to Dr. E. Jones, asking him for his expert opinion on the need of authorized training for psychoanalysts, for submission to the Danish authorities. The next attack on psychoanalysis happened a few days ago: the Attorney General is suing the editor of a journal for publishing an article by Dr. Reich on sexual education which he considers pornographic. This article is a translation of Reich’s paper published in 1928 in the Journal for Psychoanalytic Pedagogy.
We are determined to continue the struggle for authorized psychoanalytic training, but are further handicapped by the activities of wild analysts. One of them, Sigurd Naesgaard, Ph.D., who has never been analyzed, has battled for years against the training analysis. He asserts that the training analysis is only a means of power. Publicly, he describes himself as your student, but his publications contain such a mixture of opinions by Stekel, Adler, Jung and yourself that no one can quite unravel who said what. He has asked many persons to practice psychoanalysis without previous training. Several have followed his suggestion. Recently he founded, together with Strömme (Oslo) and Bjerre (Stockholm) a Scandinavian Psychotherapeutic Association for the purpose of establishing psychotherapeutic training institutes. In the program brochure, the training analysis is not even mentioned.
I am writing in such detail about Dr. Naesgaard becanse I know that you have corresponded with him and because I must assume that, living as far away as you do, you are not fully informed about him. A friend of mine who knows Naesgaard quite well recently told me that Naesgaard showed him a letter from you, in which you mentioned Harnik and Reich. You apparently wrote about Harnik that you had known for years that he was manic-paranoid. As to your comment on Reich, my friend had promised to keep silent.
You will scarcely be able to judge from such a distance how much Harnik has damaged the psychoanalytic movement here. My letter would be very long indeed if I were to elaborate on this. Let me just say this: people in Copenhagen were greatly surprised, and still are, that a man in his condition was a member of the teaching committee of the German Psychoanalytic Association, that he was given the difficult assignment to teach psychoanalysis in Denmark, and that he was an authorized analyst at all.
In contrast to Harnik, Dr. Reich has rendered us such valuable practical assistance as a training analyst and director of our technical seminar during his brief residence that we wish to keep him at all costs. His departure would not only disrupt our training program but would also cause great personal harm since our training analyses would suddenly stop. Most of us are prevented by external circumstances from following him abroad. But for several analysands with strong transference feelings such a break would be just as harmful as an interrupted operation would be for a patient whose doctor leaves him in the middle of surgery.
Therefore, we would appreciate your helping us in this trying situation by sending us your expert opinion on these two questions:
1) Is a training analysis mandatory for those who wish to practice psychoanalysis?
2) Is Reich’s article ‘Where Does Nudist Education Lead To?’ (Journal for ps. Pedagogy, 1928) pornographic?
We further would ask your permission to forward your opinions to the Danish authorities and also – if we consider it appropriate, to publish them in Denmark.”
“Freud’s reply, dated November 12, 1933, acknowledged Reich’s stature as an analyst, but criticized his political ideology, which he felt interfered with his scientific work. Carsten’s appeal for help was rejected.” C A N A L H Ã O – EM 1933 PASSOU O ANO SE MASTURBANDO COM CHARUTO, NEM SABIA QUEM ERA HITLER!
Carta ao ‘camarada’ Fenichel, 1934
“In science, a political struggle usually does not present itself directly and thus is not easily recognizable, but is camouflaged as a difference of scientific theories. It requires considerable Marxist training to recognize whether such differences merely stem from factual confusion or whether, regardless of the facts, they arise from conflicting political ideologies. I do not consider it very promising to wage a struggle within a scientific movement with weapons taken from the arsenal of party politics. I mean, it is not important to prove that one school of thought is reactionary and the other revolutionary. What matters is not so much the private political conviction of the analyst; rather, it is important to show how the ideology of a scholar will influence the formation of his theory and his clinical, therapeutic work. Any critique of psychoanalysis must grow from the subject matter itself; it must demonstrate from the raw material of research in which particular concepts the road forks off-to the right, or to the left. Therefore, dialectical-materialist criticism of the psychoanalytic movement can only be fruitful if it proceeds from a specific standpoint it has already earned independently – in other words, from a theory. A concrete example: it is certainly characteristic that the attitude of the Paris group toward the German e1nigres was reactionary. But what is decisive for the development of psychoanalysis is the fact not only that today Laforgue’s theories are published in preference to authentic psychoanalytic works but that this distortion of psychoanalysis goes unopposed, even among analysts who have been the most dependable in the past. Therefore, whoever does not take an open stand against the wrong theories we criticize supports them, whether he likes to or not, and runs the danger of slipping into the wrong path. For my part, since 1924, when I saw the beginnings of a schism in the formation of analytic theory, I have tried to gain a firm foothold for my criticism by the consistent development of the psychoanalytic libido theory. The attacks of the most prominent members of the Vienna association (Deutsch, Federn, Nunberg, etc.) on my orgasm theory were the first signs of the conflict between dialectical-materialist and bourgeois psychoanalysis at a time when neither side was aware of it. Even then Freud seemed to realize the depth of the conflict. He once said to me after a lecture: ‘Either you are completely wrong, or you will soon have to carry the heavy burden of psychoanalysis alone’. I knew I was not basically wrong, and today I know that the second part of Freud’s prediction has come true for me. So I already have my own theoretical platform on which to base my militant criticism. I suggest that you also find a theoretical position. Which brings me to the second point.
I think that in Fenichel’s report I have lately detected a tendency that has always caused me great concern. I fully appreciate it, but for purely objective reasons I cannot agree with it. This tendency reads: ‘Wherever possible, Freud himself should be kept out of the conflict’. And this is precisely what cannot be done. It is taken for granted that in tone and attitude our criticism of Freud will differ from our criticism of Roheim, but we cannot, and should not, exclude Freud from criticism. For we must note the following:
1) The scientific sins of Roheim, Laforgue, Jones, Klein, Deutsch, etc., are more or less rooted in Freud.
2) The basic debate between dialectical-materialist and bourgeois psychoanalysts will primarily have to prove where Freud the scientist came into conflict with Freud the bourgeois philosopher; where psychoanalytic research corrected the bourgeois concept of culture and where the bourgeois concept of culture hindered and confused scientific research and led it astray. ‘Freud against Freud’ is the central theme of our criticism. Not for one moment should we put our consideration for Freud before our consideration for the future of psychoanalysis. And from my personal relationship with Freud I have come to the conclusion that he would prefer it this way, all appearances to the contrary.”
“The present state of affairs would not have spread to such an extent if Freud had not supported the reactionary trends and combated the Marxist trends.”
“If people kill our work by silence – unless they just plagiarize and distort it, as Balint did at the last Congress – we must not only vigorously defend ourselves and even move to the attack, but we must have the courage of our own convictions. We must discard all false modesty and take the position that we are carrying on scientific – i.e., Marxist, dialectical-materialist –psychoanalysis, and that we are determined to defend it even against Freud wherever he is inconsistent.”
“Clergymen and reactionary-minded physicians who in analysis fail to recognize the contradiction between sexual reality and social ideology cannot become analysts.”
“(Reich to dialectical materialistic psychoanalysts)
Malmö, May 30, 1934
To the Group of
Dialectical Materialistic Psychoanalysts
Attn: Otto Fenichel
Oslo
Dear Colleagues and Comrades:
When my further residence in Sweden was turned down owing to denunciations by psychiatrists, as it recently turned out, a group of psychoanalysts and sympathizers wrote a circular letter to Freud, Einstein, Bohr and Malinowski, asking them to protest in writing against the persecution of scientists by political reactionaries. Freud declined” “The question cannot be clarified by pointing to his age, his weariness, his private convictions, etc. What concerns us here is an essential part of the struggle between reaction and revolution.”
“Now is the time to prove why psychoanalysis has this significance, and why its function can be fulfilled in the camp of the political left alone.”
“To the Group of
Analysts in Opposition
through Otto Fenichel
Oslo”
“I am also professionally interested in seeing that my findings are linked with my name; neither do I want to be judged in the same category and on the same level with Melitta Schmideberg; I want my writings to be studied at least as carefully as those of Miss Searl or Harnik. I will definitely defend myself if my concepts and findings, for which I have fought hard since 1924 against all generally held opinions, are now taken for granted without mention of my name or are presented as new problems that have just come up.”
“I advised supporting liberal slogans but maintaining our own basic, negative stand on reactionary research, if later we intend to come forward as a Marxist group, for essentially we will not be able to conceal this appearance from the world. (…) After all, any development is still possible. I am convinced that these inner difficulties would not exist if for years I had not worked quite openly and if many members of the opposition were not personal friends of mine as well, which seems to commit them more than the situation requires.”
Carta a Lotte Liebeck, sua aluna, fim de 1934
“With O.F. (Otto Fenichel) the situation is very difficult! This friendship and readiness to understand the orgasm theory, combined with a structural inability and unconscious hostility, is a complicated problem for me. I am glad that you could judge this for yourself when you were in Sletten.”
“You have good reason to be shaken by reading Freud: he was a wonderful man. But I was even more shattered by the subsequent break in his work. This is tragic. I am curious to know if you will discern it before it becomes openly manifest. It goes back to the earliest writings (predominance of symbolic interpretation rather than questions of dynamics-economy, genitality, etc.). But this can only be discovered ex post facto.”
A resposta de Liebeck:
“The first work being lucid, courageous, with a brilliant prediction about the tremendous significance of the path shown and of the insights for mankind in general. The suggestion that it is up to the coming century to build up further-and then, ten years later, a totally different man, even in tone! What once was courage and clarity, combined with the utmost caution and integrity of scientific thinking, is now replaced by anxious vacillation and the fear of his own courage. How many disappointments and personal blows there must have been in the intervening years! (…) Objectively, I note that he can be beaten with his own weapons. Throughout his early works he disparaged the hereditary factor in favor of the accidental element – only to smuggle in through the back door the same factor he had previously thrown out! (…) At one time he thought that hereditary damage was incurable anyway; now it is for us to tell him that ourselves!” “Our profession ceases to be gemütlich if we have to rake up the deepest primeval emotions! And this we must inevitably do, or else we will get stuck just as inevitably halfway in between, or worse! And once we do this, we can no longer doubt the truth of the etiology anchored in the traumatic experiences of childhood. I believe more and more that we lean, quite without cause, on fantasies, and seriously neglect actual experience.”
“I deliberately take my cue from the works of 1896. From then on, the roads fork off. Here is how I see it: on the one hand, a continued development; on the other, a slow retreat. For some time both are in balance, and there are still many marvelous discoveries for us in subsequent writings, until the balance shifts more and more to the sterile side and leads to paths that deviate from the natural sciences. There is only one thing I don’t understand: why haven’t the others noticed this? Or am I doing them an injustice out of my limited knowledge of literature? But perhaps it is an indispensable existential lie to have this blind spot.”
“(Reich to psychoanalysts in Denmark, Norway and Germany
who are in opposition to, and in conflict with, Freud)
Oslo, December 16, 1934”
“The German association did not actually want to exclude me and had taken it for granted that I would automatically become a member of the Scandinavian group. I was asked by numerous colleagues from various local groups to rejoin via the Norwegian group, and 3 members of this group, who were attending the Congress, assured me of acceptance. I could not make up my mind at that time and wished to consider the matter. Here are the names of several prominent colleagues who regarded the whole affair as a pure formality: Zulliger, Loewenstein, Bally, Landauer, Meng, Schjelderup, Hoel, Raknes, etc. When I moved to Oslo to carry out certain experiments concerning my sexual theory, people collaborated with me as if I were a member. The close connection of my work with the IPV group, and renewed assurances from colleagues in Oslo, prompted me to reapply for membership. No one had expected that Dr. Fenichel would sharply oppose me and use his influence against me. A few days earlier, I had asked Fenichel for his opinion, but he merely shrugged. The reason for his opposition is as follows: he said I harmed the cause of natural scientific (dialectical-materialist) psychoanalysis; it would be better if I remained outside and if the cause were even dissociated from my name and person.”
“I would ask you to note that I deeply regret ever having placed any confidence in Fenichel and asking for his help. I cannot entrust the dialectical-materialist theory of psychoanalysis which I have worked out over many years amidst the gravest trials to anyone else, nor can I dissociate myself from it. I have no quarrel with anyone doing exactly as he pleases, but I must defend myself against usurpers and so-called services of friendship.”
SÍNTESE
“I, therefore, find myself faced with the unpleasant task of summarizing my scientific position. Basically, it contains three main parts:
1. The concepts held in common with Freudian theory (the materialistic dialectic already developed by Freud).
2. Orgasm theory and character analysis as consistent extensions of Freud’s natural science and, sinmultaneously, representing those theories that I opposed to the death-instinct theory and the interpretive technique. Point 2 is still in the realm of psychoanalysis.
3. My own concepts of sexuality, based on the orgasm theory and transcending the sphere of psychology (sex-economy and sex-politics). Part 3 has merely points of contact with psychoanalysis. It forms an independent field: the basic law of the sexual process.
Whoever expounds a ‘dialectical-materialist psychology’ without explicitly expounding its very core, with the risks and sacrifices this entails, has simply made up his ‘own’ dialectical-materialist psychology and is at liberty to teach it. There is nothing we can do about the nuisance of naming certain activities by whim. Even Stroemme, for example, calls himself a ‘psychoanalyst’.”
“It was from my teacher Freud that I learned the art of waiting and keeping my ideas free from undesirable interpretations and mongrelizations. I prefer to have fewer relationships and, instead, more tidiness in my work.”
“Whoever fears exclusion – which is not so reprehensible – cannot take part in this struggle and is much more valuable as a quiet sympathetic bystander than he would be as an active fighter. However, it is self-evident that the victory of the scientific over the metaphysical trend in psychoanalysis will be more easily attained and secured if we succeed in revealing the various consequences inherent in the raw material of their own problems to the colleagues of all those groups that have plainly demonstrated their scientific orientation in their own work. The commitment to the dialectical-materialist trend in psychoanalysis in no way entails a similar commitment to the political trend of communism. There is no doubt that the person who is a valid scientist in his chosen professional specialty is to that extent secured against the influences of political reaction. And scientific integrity carries infinitely more weight than a political commitment. These are the natural scientists who someday will become the decisive force of social progress.”
O ANTI-FENICHEL
“Fenichel finds himself in a grave conflict. On the one hand, he cannot deny the validity of my scientific position. On the other hand, he fears nothing more than taking an unequivocal stand for me and against Freud whenever the differences are manifest. He cannot oppose me factually without losing sympathies, and so he calls himself a friend of the cause while doing everything he can to avoid a conflict that is unavoidable anyway. No one is forced to go to battle for the natural scientific trend. Gerö declared that he is on my side, but does not want to fight for it. This is the proper attitude: Gerö will never become dishonest as long as he admits this to himself. Lantos told me that she sympathized with me, but that it was not her business and that she did not want to take any risks for it. We are on very good terms. Fenichel’s attitude is insincere because he is caught in a conflict between willingness and ability. I shall no longer argue with Fenichel, but the nature of his dishonesty should be clearly set down here. Perhaps my readmission would lead to a premature exclusion of the group. In Fenichel’s place, as the friend of a cause which was after all my own creation and which remains irrevocably tied to me, I would have talked with Reich, consulted him as to what could be done in order to build up enough strength for some future date; I would have named all those who might sooner or later be won over to the libido-theoretical point of view; I would have sent Reich’s papers around for discussion, etc., etc. What did Fenichel do? He never unequivocally argued against the death-instinct theory; he did not dare to engage in open polemics against Freud when necessary; he presents a theory of dialectical-materialist psychology which in its least important aspects agrees with the theory he ostensibly sympathizes with; no one knows how much scientific knowledge there really is that argues against the death-instinct theory, totem and taboo, etc.; in short, he is afraid. He might be valuable as a quiet co-worker, but he is completely unsuited to lead any scientific opposition because he is not willing to accept the slightest responsibilities. (…) Fenichel is both terribly frightened and terribly ambitious. What he did was the inevitable result of this emotional confusion. I have neither time nor inclination for such organizational struggles. They are sterile.”
Para Liebeck, 1935
“And I most sincerely believe that this isolation – not from Eitingon but from life itself, from the world, from all vital things and processes – will soon prove true for my opponents and hesitating ‘friends’. This of course depends on more general problems to which I subordinate such questions as penis envy in women, etc. I find that psychoanalysis has become isolated from reality, but I have reality on my side and am not alone. (…) For years I’ve pleaded for understanding; now I’ve had it. (…) As I said in my letter, the best thing I can do for the cause is just to send out my publications. Our teacher spent 15 years in isolation. I’m not striving to emulate him, but if necessary I, too, can take it. But I don’t believe it will come to that, because there’s too much momentum in my work. You’ll be glad to hear that I’m going to hold a continuous clinical course and a technical seminar at the university; there is great interest.”
“It won’t be my fault if in the course of time fewer and fewer people will want to travel by a 1915 type train when a more modern one is available.”
“So, dear Lotte, don’t get all entangled, but remember that even the worst will eventually pass to make room for something better.”
“I’ve only scanned Kaiser’s paper.¹ I was amused to see that Imago simultaneously published another article completely contradicting it. I’ve gradually learned to take this kind of thing from the humorous side, although I feel that a certain type of humor is an evasion. [Provavelmente fala do ar sardônico de F.] I believe Kaiser handled the subject too academically; he wanted to be too consistent and he went ahead too fast. He forgets that a theoretical postulate can be substantially correct but may not be easily carried into practice. His conclusion that all interpretation is superfluous is correct, but in our clinical practice we still cannot do without terminal interpretations. From my own development I disliked the academic tone: it didn’t touch the essentials. But still, I liked the article. But I have one suspicion: just as they’ve tried to dissociate me from dialectical-materialist psychoanalysis, just as they’ve usurped my orgasm theory without mentioning my name, so now the IPV is collecting its ‘own character analysts’. I can assure you that my book was only the beginning: the real thing is still to come and cannot be mastered without me.”
¹ Um autor já morto em 1935, outro à frente de seu tempo, que Reich conhecia e cita no Character Analysis. Hellmuth Kaiser, Effective Therapy.
Outra carta, para Lotte, 8 dias depois:
“The only constructive thing one can do today is to analyze the nature and origin of the ‘split’ with complete intellectual honesty and independence. I’ve done my part – and that’s the end of it. I scarcely have ti1ne to carry on this controversy.” Sua discípula estava fazendo àquela altura o que estou fazendo agora: lendo o ‘inimigo’ para apre(e)nder todos os seus erros, já não mais podendo me identificar com quaisquer de suas OPINIÕES. Uma revisão literário-teórica de suma valia, ainda que só para mim mesmo, na pior das hipóteses.
“I realize more and more how sinful the death-instinct theorv really is. What a choking off of life itself!”
“One more thing: Nic Hoel (op. cit.) had the idea that we should start thinking about ways and means of protecting character-analytic technique from unwelcome distortions. What do you think? How should we go about it? I think it’s important to start soon -this is bound to become a fad. We would have to establish definite training requirements. I’ll never permit the work to get out of my hands: it is my strongest weapon. Please write me about this. It is also in the interest of the younger colleagues.”
(*) “Some psychoanalysts stole my principle of character-analysis without mentioning me, because to mention me as the originator of the character-analytic technique would mean to defend the orgasm theory, and to stand the blows which follow in its path. So they have thrown out the orgasm theory and are taking over a kind of ghost which does not mean yes or no, black or white, mah nor bah. You are helpless against such procedure on the part of the so-called common or little man who grabs where he can take without being punished, and pays tribute to where he is treated in an authoritative manner. Take, hit and run is their motto.”
(**) “Liebeck had stated that Freud’s Three Contributions to the Theory of Sex contained ‘just about everything that can basically be said on the subject! Everything else strikes me as mere elaboration.’”
A Lotte, fev. 1935
“Today she had her first session. I immediately noticed what 3 or 4 years ago I probably would not have seen till much later: rigid body attitude, stiff as a board, arms stretched out, hands folded, head practically nailed down. In speaking, the lips hardly moved, the voice without resonance, high-pitched, near inaudible. In previous analyses she had always insisted that she could not, and would not, speak: for 3½ years. The more she was urged to talk, the less she could do so. With Fenichel she was silent for months, and so was he. Instead of making her aware of her body attitude, and nothing else, he asked her to change position (i.e., Ferenczi’s active technique); thereupon increased defiance. The first thing I tell her is: ‘You’re behaving as if you were facing an operation – completely stiff.’ Her reply: ‘I’ve never been afraid of operations; on the contrary, I’ve always wanted them.’ (Masochism!!!) I slowly begin to describe her attitude, feature by feature: mouth, voice, posture, mask-like face, head virtually nailed down. After about 15 minutes she starts speaking softly and urgently, and suddenly remembers the anxiety she felt as a child about operations. That she was always stretched out so expectantly; that at one time she was very angry with her mother because under some pretext she took her to a doctor without telling her the truth. It had hurt a great deal. The posture stiffened even more. I have an idea: ‘Corpse.’ I tell her that a single word seems to me to describe her attitude, but that I will not mention it because she would have to begin to feel it herself. Her reply: ‘Were you thinking of corpse?’ Then come memories: once her hair got stuck in a crate while she was playing; she would go wild if someone suddenly grasped her from behind. The ‘nailed-down’ head gradually acquired meaning, but I said nothing and merely continued describing her attitude. At the end of the hour she said ‘I don’t like my back. I’m lying here as if I were glued down, as if I had no back, as if I’d been cut in two length-wise,’ etc. Now what do you say to that? Not once in 3 years of analysis did she remember that she was afraid of surgery. Her very attitude communicated this. I confess I was shaken. Three years of money, effort, life itself!!! I’m pleased, and a little proud, to have found a way. No, I would be sinning against myself if I failed to draw the therapeutic line vis-à-vis the others, cautiously, but sharply and resolutely all the same.
Which reminds me: Elsa (Lindenberg) wrote me that she cannot verbalize in her analysis. I forgot to tell you that she has characteristic mouth movements. She will not talk, or talk poorly, unless her neck cramps are made conscious to her first. Please watch this. Each silence – and this I’ve learned only recently – is rooted in anxiety bound up in tensions of the neck musculature. Very important for the beginning; may save months of effort if properly handled.”
A Lotte, mar. 1935
“I’ve done myself a grave injustice by working for so many years under the impression that my theory of genitality was rooted in Freud. This was merely due to my father fixation. Some day I hope to make a clean break.”
“Yesterday Fenichel presented his ‘criticism’ of my technique and everybody was against him, including most of his own analysands (Nic, Raknes). Did you know he’s leaving Oslo? Things have been hard for him lately because the superiority of character analysis had become obvious to all. He’s going to Prague. Unfortunately, he believes that this will solve his problems. The whole Norwegian group has sided with me, except for one who doesn’t know what it is all about, and two who’re honestly trying but are structurally incapable.”
“The apparatus is among the most modem there is. It may soon be necessary to have a professionally trained assistant come from Germany because the local physiologist merely wants to ‘help’, but that’s not enough. The first experiments (recording of potentials at erogenous zones) will start soon. (…) Please try to find an unemployed electrophysiologist who is fully acquainted with the oscillograph and knows about the physiology of the skin and the vegetative nervous system.”
A English (psiquiatra e ex-colega de curso), nov. 1937
“Here is an example of the tactics employed by some psychiatrists. In his attack on me, Professor Ragnar Vogt thinks he can draw on the anthropologist Bronislaw Malinowski for support. Now we can prove conclusively that Malinowski approves (…) my ethnological interpretations of his book […] Furthermore, he himself has disputed the biological roots of the child-parent conflict, and has interpreted it sociologically. I do not know if you are fully familiar with this struggle in the Psychoanalytic Association, and outside of it, in 1926. If not, you might be interested in reading the back issues of Imago for 1926-27 on Malinowski’s views – of course, only if you consider such orientation necessary and feel that the avenues of approach you studied with me in Vienna and Berlin are insufficiently enlightening.”
Carta aberta de Malinowski, 1938
“I have known Dr. Wilhelm Reich for 5 years, during which period I have read his works and also on many occasions had the opportunity of conversation and discussion with him, in London and Oslo. Both through his published work and in the personal contacts he has impressed me as an original and sound thinker, a genuine personality, and a man of open character and courageous views. I regard his sociological work a distinct and valuable contribution to Science. It would, in my opinion, be the greatest loss if Dr. Reich were in any way prevented from enjoying the fullest facilities for the working out of his ideas and scientific discoveries.
I should like to add that my testimonial may have some additional strength, coming as it does from one who does not share Dr. Reich’s advanced views nor yet his sympathies with Marxian philosophy – I like to describe myself as an old-fashioned, almost conservative liberal.”
Reich a Malinowski, abr. 1938
“I’m not an incorrigible optimist, but thanks to my work I have deeply experienced not only man’s satanic impulses but also the human side of him. So if Hitler plucks the strings of the subhuman theme, why shouldn’t we concentrate on his human core which we know exists all along but has merely been buried?”
Malinowski a Reich, jul. 1939
“My dear Willy:
Many thanks for your letter of July 10. As you can see, I am still in America, and I shall be only too happy to do all I can to help you.
Unfortunately it is by no means easy to manipulate matters now, owing to the enormous pressure on the universities and teaching institutions here. The other unfortunate point in your case is the fact that many psychoanalysts will have nothing to do with you. You know where my sympathies are, so I need not tell you how indignant I feel when this attitude is revealed. This would not be so bad if American psychoanalysts were not so much dominated by people from Vienna or Berlin. But wherever can there be a psychoanalytical society with Rank or H. Sachs or Alexander in the key position.”
Reich a um tal „Dr. Scharfenberg“, carta jamais entregue
“Before moving to New York, I am taking the liberty to express my heartfelt thanks for the service you have rendered my scientific work. I would beg you to restrain your amazement over this somewhat unusual gesture. I am very much in earnest, for I have learned to appreciate the enormously important role of antagonists. The antagonist himself is usually unaware of this aspect of his achievement. You have advanced my extremely difficult scientific work by at least a decade.”
“You pretend to fight alcoholism and, if I remember rightly, you belong to several temperance societies. Now it may have escaped your notice that the case history you referred to with such abusive vehemence describes the cure of an alcoholic by means of the recently developed vegetotherapy. The damming up of sexual energy and the resultant vegetative anxiety are very likely the most important underlying causes of alcoholism.”
“Furthermore, it became clear as never before that the exponents of the obsolete school of psychiatry are determined to collaborate with the police, while modern psychiatry works with the patient. You reacted to the modern treatment of the difficult problem of infantile onanism with police denunciations, while we work with kindergarten and teaching staffs in order to remove for all time a medieval inquisition that has eroded the vital energies of small children.”
“Over the long haul, practitioners who threaten with deportation proceedings are fighting a losing battle. You know that it was psychiatrists of your own persuasion who conspired to make my residence in Denmark and Sweden impossible, and that local and foreign fascists openly cheered your opinions about me. That this scandalizing exposure could happen to a member of a workers’ party calling itself socialist, to a registered member of the Friends of the Right of Asylum, to an ‘anti-fascist’, etc., was worth witnessing, in spite of embarrassing inconveniences. It proves the close ties between fascist ideology and the false premises inherent in genetic-oriented psychiatry. (…) From the ‘theory of degenerative genetic substances’ to Hitler’s ‘racial theory’, it is only one step. True science will stop the influence of such atrophied thinking. In the history of science your name will go down on the minus side. And yet, you might be grateful to me in turn: thanks to your active opposition to me, you have gained the honor that sometime in the future you will at least be mentioned negatively in the history of science.”
(*) “Though denunciations with the police as a weapon against Reich’s work had happened before in Europe, it had never come to an arrest.” USfachos
Reich a Malinowski, 1942
“They had investigated my ‘case’ for more than a year, found nothing, had no complaints, and yet I was behind bars for 3½ weeks.”
“My first wife has something to do with it. My daughter Lore told me several months ago that I had better watch out because her mother had, together with Dr. Kubie from the Psa. Society, prepared something against me in case that I don’t behave well. Here you are! Do you remember my troubles in Denmark and Sweden back in 1934 when psychiatrists had run to the police? Well, here’s the same story. The odds confronting our work are tremendous, but so are also the achievements.”
depth or death psychology, comes the question with a big H
Reich a Neill, dez. 1948
“For instance, the rumor was circulated about two weeks ago in many places that a woman patient had been masturbated at the Orgone Institute and thereupon had a breakdown. The woman whose name was mentioned in this connection had never been here. We went after this story immediately with the help of our lawyer, and the man who spread the rumor, a Dr. Miller, took it back immediately. Well, this is what I call plague.”
MISCELÂNEA
“This manuscript (Introduction to Ibsen’s ‘Peer Gynt”, Libidokonflikte und Wahngebilde, 1919-20 [publicação somente em 1952]) is being deposited with the Sigmund Freud Archives not only because it had some interest for the psychoanalytic historian. It is being deposited mainly to give an impression of the academic atmosphere in which the early psychoanalytic movement was submerged at that time. Psychoanalysis, which dealt with human dirt of the worst kind, and at the same time had to survive the onslaught of the maligning, gossiping, slandering academic world of established ‘sex-free’’ psychiatry, was forced to compensate for the dirt it handled by a highly academic, ‘purified’ style. It was, for example, a habit with early psychoanalytic lectures to introduce their lectures with an excuse as to their right to deal with the subject, or as to the subject itself.”
“It is noteworthy that Freud’s simple style in his first papers of the 1890’s became more and more involved, academic, and ‘Goethean’ as the decades passed by. Reich, who met psychoanalysis in 1919 and had grown up in the spirit and language of German, acaden1ic, natural science and philosophy, discloses a shrouded, academic style in this manuscript, which deals little with sex directly.” “But as the years passed by, and as the emotional plague increased its efforts to kill Reich’s fight for the love life of infants and adolescents, in the 1930’s, the style became more congruous with the contents: simple, straight, brief-sentenced, hard-hitting, direct, avoiding circumlocution, evasion, and academicism.”
HISTÓRICO DA SOCIALIZAÇÃO DO NERVOSISMO SEXUAL DA MASSA: “I came to Freud through the field of sexology. It is thus not surprising that his theory of the actual neuroses (Aktualneurosen) which I later termed stasis neuroses (Stauungsneurosen) [neurose de estagnação ou entorpecimento] struck me as much more in keeping with natural science than the ‘interpretation’ of the ‘meaning’ of symptoms in the ‘psychoneuroses’. Freud applied the name of actual neuroses to neuroses which resulted from present-day (aktuelle) disturbances of sex life. According to this concept, anxiety neurosis and neurasthenia were disturbances which lacked a ‘psychic etiology’. Instead, they were the immediate result of dammed-up sexuality. They were like toxic disturbances. Freud assumed the existence of ‘chemical sexual substances’ which, if not correctly ‘metabolized’, caused such symptoms as palpitation, cardiac irregularity, acute anxiety attacks, sweating and other vegetative symptoms. He did not establish a connection between anxiety neurosis and the vegetative system. Anxiety neurosis, so his clinical experience showed, was caused by sexual abstinence or coitus interruptus. It had to be distinguished from neurasthenia, which, in contradistinction, was caused by ‘sexual abuse’, such as excessive masturbation, and which was characterized by pain in the back, headaches, general irritability, disturbances of memory and concentration, etc. That is, Freud classified according to their etiology syndromes which official neurology and psychiatry did not understand. For this, he was attacked by the psychiatrist Lowenfeld, who, like hundreds of other psychiatrists, denied completely the sexual etiology of the neuroses. Freud was trying to adapt his concepts to clinical terminology. As he put it, the symptoms of the actual neuroses, in contrast to those of the psychoneuroses, especially hysteria and compulsion neurosis, betrayed no psychic content whatsoever. (…) The psychoneuroses, understandably, occupied the center of the clinical interest of the psychoanalyst. According to Freud, the treatment of the actual neuroses consisted in the elimination of the harmful sexual practices, such as sexual abstinence or coitus interruptus in anxiety neurosis, excessive masturbation in neurasthenia. The psychoneuroses, on the other hand, called for psychoanalytic treatment. In spite of this sharp distinction, Freud admitted a connection between the two. He thought it likely that every psychoneurosis centered around an ‘actual-neurotic core’. This illuminating statement, which Freud never followed up, was the starting point of my own investigations of stasis anxiety.”
“However, the majority of psychoanalysts opposed Freud’s theory of the actual neuroses. They contended that actual neuroses did not exist at all (…) The chief exponent of this view was Stekel. He, like others, failed to see the fundamental difference between psychosomatic affect and psychic content of a symptom.”
“However, the symptoms of the actual neuroses had undeniably a psychic superstructure. Pure actual neuroses are rare. The distinction was not as sharp as Freud had assumed.”
“While most analysts ascribed everything to the psychic content of the neurotic symptoms, leading psychopathologists, like Jaspers, contended that psychological interpretation of meaning, and thus, psychoanalysis, were not within the realm of natural science at all.”
“In other words: (…) Can psychoanalysis claim to be such a psychology? Or is it only one of the many philosophical schools? Freud himself paid no attention to these methodological questions and quietly continued to publish his clinical observations; he disliked philosophical discussions. (…) They tried to classify us [a escolar reichiana] as mystics and thus to settle the question.”
“If it were true that only experimental psychology in the sense of Wundt was ‘natural science’, because it measured human reactions quantitatively, then, I thought, something was wrong with natural science. For Wundt and his pupils knew nothing of the human in his living reality.”
“The Viennese philosopher and physiologist Allers refused to enter upon the question of the existence of an unconscious psychic life, on the grounds that the assumption of an ‘unconscious’ was ‘a priori erroneous from a philosophical point of view’. I hear similar objections today. When I assert that highly sterilized substances produce life, it is argued that the slide was dirty, or that, if there seems to be life, it is ‘only a matter of Brownian movement’ [https://en.wikipedia.org/wiki/Brownian_motion].” Gostaria de saber o quanto andaram as comprovações ou refutações sobre esses experimentos reichianos, mas tudo que obtenho de mecanismos de busca é da própria teoria reichiana. Será que toda sua obra foi realmente relegada ao exotismo e desconhecimento?
“The fact that it is very easy to distinguish dirt on the slide from the bions, and equally easy to distinguish Brownian movement from vegetative movement, is not taken into consideration. In brief, ‘objective science’ is a problem in itself.”
RESUMINDO O ANTICRISTO OU ALÉM DO BEM E DO MAL…
“If the excitation subsided, the idea would collapse also. If, as is the case in the stasis neurosis, the idea of sexual intercourse does not arise in consciousness, due to moral inhibition, the excitation attaches itself to other ideas which are less subject to censorship. From this, I concluded: the stasis neurosis is a somatic disturbance, caused by sexual excitation which is misdirected because it is frustrated. However, without a psychic inhibition, sexual energy can never become misdirected. I was surprised that Freud had overlooked this fact. Once an inhibition has created the sexual stasis, this in turn may easily increase the inhibition and reactivate infantile ideas, which then take the place of normal ones.¹ That is, infantile experiences which in themselves are in no way pathological, may, due to a present-day inhibition, become endowed with an excess of sexual energy. Once that has happened, they become urgent; being in conflict with adult psychic organization, they have to be kept down by repression. Thus, the chronic psychoneurosis, with its infantile sexual content, develops on the basis of a sexual inhibition which is conditioned by present-day circumstances and is apparently ‘harmless’ at the outset. This is the nature of Freud’s ‘regression to infantile mechanisms’. All cases that I have treated showed this mechanism. If the neurosis had developed not in childhood, but at a later age, it was shown regularly that some ‘normal’ inhibition or difficulty of the sexual life had created a stasis, and this in turn had reactivated infantile incestuous desires and sexual anxieties.”
¹ Basta uma queda vital para viver pelo resto da eternidade num ciclo trágico.
“Reik had published a book on Geständniszwang und Strafbedürfnis [Compulsão a Confessar e Necessidade de Punição] in which the whole original concept of the neurosis was made upside down. That the book was well received was so much the worse. Reduced to the simplest terms, his innovation consisted in the elimination of the concept that the child fears punishment for sexual behavior. Freud, in Beyond the Pleasure Principle and in The Ego and the Id had assumed the existence of an unconscious need for punishment; this was supposed to account for the resistance against getting well. (…) According to this concept [the death instinct, Thanatos], life really was nothing but a disturbance of eternal silence, of nothingness.”
“It was only through Reik that I really found out where Freud began to err. Reik exaggerated and generalized many correct findings, such as the fact that criminals tend to give themselves away, or that to many people it is a relief to be able to confess a crime.”
“Such formulations made any further thinking unnecessary. If one was not able to cure, the death instinct could be blamed. When people committed murder, it was in order to go to prison; when children stole, it was to obtain relief from a conscience that troubled them. I marvel today at the energy that was expended at that time on the discussion of such opinions.” “The patients’ ‘negative therapeutic reaction’ was later shown to be nothing but the result of theoretical and technical inability to establish orgastic potency in the patient, in other words, to handle their pleasure anxiety.”
“Until now, we have been concerned only with the question whether non-physicians should practice psychoanalysis on patients (analysis for therapeutic purposes). The problem has now been shifted insofar as Prof. Freud, in his book on lay analysis, has taken a further step, proposing to separate psychoanalysis, even in its medical aspects, from medicine; i.e., to train ‘a special class of therapists’.” Essa e as outras 4 considerações abaixo sobre (contra a) ‘análise leiga’ datam de 1927.
“It is said that non-medical analysts require practical experience in order to engage in scholarly pursuits. But the facts show that the application of psychoanalysis to the humanities is not advanced, but on the contrary suffers when its proponents become clinicians, too. The awakening clinical interest supplants all other concerns. The development of psychoanalysis in the humanities has ceased since lay persons have also been practicing analysis. This argument is thus contradicted by experience.”
“A physician discovered psychoanalysis. l\lost analysts, and not the worst ones, are physicians. Prof Freud once stated that psychoanalysis will one day be placed on its organic base. Furthermore – and, until now, this has merited much too little consideration in the question of lay analysis – he posited something somatic as the core of the neuroses and the essence of the affects.”
“One need only consider the great area of the organic neuroses: hypochondria, neurasthenia and the psychoses. And do we not have much to expect from a psychology of the organic diseases? Or, after psychoanalysis has been separated from its foundation, must there be analysts who, as physicians, concern themselves only with the area bordering on the organic? In our opinion, neither science nor the patient would benefit by such a division.”
“At the present time, medical men offer the best guarantee of an adequate preliminary education. The fact that physicians have shown themselves so contemptuous and devoid of understanding toward psychoanalysis must be ascribed not to their somatic training but to their complexes. And have philosophers or biologists or academic psychologists who have come in contact with analysis behaved differently? Why is the ‘somatic prejudice’ any more onerous than the philosophical one? Does not the philosopher always have the most complicated objections to analysis?”
(*) “Walter Brichl, author of the chapter on Reich in the recently published Psychoanalytic Pioneers, perpetuates the myth that Reich ‘resigned’ from the IPA.”
(*) “We cannot give here an extensive presentation of the motives behind this expulsion or of the differences within the psychoanalytic movement. This may be done at a time when further catastrophes in the scientific development of psychoanalysis, catastrophes which are bound to come, will necessitate a detailed historical explanation. Here we shall show only briefly how conservative scientific organizations of today fight workers who strive to take scientific research seriously. The manner in which the expulsion of Wilhelm Reich took place is so grotesque as to appear incredible to the outsider.”
“As an organization, it has to represent a science which is, intrinsically and in its theoretical origin, revolutionary. But the representatives of this organization are steeped in the ideology and the milieu of the middle classes, are convinced of the unalterability of present-day living to such an extent that they con1d not escape coming into conflict with their own theory; this has taken place to the same extent to which the world political situation turned reactionary and threatened any correct scientific work with destruction of the scientists.” “The administration of the Association had no grounds on which to object to Wilhelm Reich’s scientific and clinical views. On the contrary, over a period of many years, members of the Association, in great numbers, considered his work (theory of genitality and character-analysis) as the consistent development of Freud’s originally revolutionary theory. There were, then, no solid grounds for his expulsion. For a number of years, therefore, the demand had been made that he resign voluntarily. This he rejected, stating that he would never resign voluntarily.”
“A decisive factor in the whole affair was the attitude of the Norwegians. The Executive Committee of the International Association tried to make the recognition of the Norwegian group contingent on their accepting the condition that they would not accept Reich as a member. The Norwegians, however, took the correct point of view: ‘We will not have conditions dictated to us. Make up your mind whether you want to recognize us or not. If you don’t, we will resign.’ The decisive and upright attitude of the Norwegians (Hoel, Raknes, Schjelderup) made a great impression and intimidated the Executive Committee. They were recognized unconditionally as a group of the International Association; however, the Swedish group was separated from the Norwegian group, in order to remove it from Reich’s influence. After his expulsion, Reich read his paper to the Congress as a guest.”
“Sex-economy is being represented as one of the deviations from psychoanalysis like that of Jung, Adler or Stekel. The reasons for this misrepresentation are stupidity as well as malice. He who knows the history of the psychoanalytic movement can see the difference at first glance. All deviations from Freud’s theory, without exception, are characterized by the negation of sexuality. With Jung, the libido became a meaningless, mystical all-soul concept, the best possible soil for the later Gleichschaltung in the Third Reich. Adler replaced sexuality by the will to power, Rank denied the existence of infantile sexuality. Sex-economy, on the other hand, took its starting point precisely from those basic elements in Freud’s theory which originally had aroused the ire of a world afraid of the truth. It developed the orgasm theory and tried in vain to incorporate it into psychoanalytic theory, where it organically belonged. It clarified the theory of the pre-genital infantile sexual drives and built the basis for a characterology which has the sexual process as its core. Character-analytic technique required the full recognition of the laws of sexual economy.”
“And what do things look like in the psychoanalytic movement itself? The English school is a sectarian circle completely divorced from life as it is. The Berlin Society attempted Gleichschaltung and thus perished. The Hungarian group consists almost exclusively of the house-analysts of rich people, without either scientific development or serious perspective. The Vienna Society is under the pressure of political reaction and ruled by some death-instinct theorists who no longer can be taken seriously from a scientific point of view. The French group looks desolate. Has the socialist movement accepted psychoanalysis? Here and there in words, because political reaction placed Freud in the camp of Kulturbolschewismus.”
“Our psychological criticism of Freud began with the clinical finding that the unconscious inferno is not anything absolute, eternal, or unalterable, that a certain social situation and development has created the character structure of today and is thus perpetuated. We recognized that the fear of the ‘sexual chaos’ is justified but also that it applies to definite historical periods; and our therapeutic work showed us that a different regulation of social living is possible.”
“Marxist economics was organized politically. In the realm of political economics, the political organization of science arouses no surprise. It is different in other fields. Here, the illusion of an ‘unpolitical science’ has created much confusion.”
“An anxiety fantasy can be inhibitive or agitating. Vegetotherapy has nothing to do with any kind of calisthenics or breathing exercises such as yoga. If anything, it is diametrically opposed to these methods. Calisthenics and all other breathing techniques are designed to teach the organism various movements or attitudes. Vegetotherapy strives to develop those attitudes, movements, excitations, and natural breathing rhythms that are specifically characteristic of the patient’s personality.”
“The principal method of psychoanalytic therapy is free association, i.e., essentially talking and communicating. The principal method of vegetotherapy consists in the disturbance of involuntary (hence unconscious) vegetative attitudes. Conversely, in vegetotherapy it is the not-talking – the elimination of conscious intensive oral expression – which is one of the principal methods for bringing to the fore vegetative feelings and affects, rooted in organic processes, before they become conscious.” “As a rule, the psychoanalyst sits behind the patient and, if possible, should not be seen by him. In vegetotherapy, this rule is suspended since it no longer relies on free association.”
“Psychoanalysis is a psychology; sex-economy is sexology. ‘Sexology’ is the science of the biological, physiological, emotional, and social processes of sexuality. Sex-economy is the first discipline to establish the profession of sex physician. Up to now this discipline was not taught as a specialized medical branch at the universities, and was practiced merely as a side line of other physicians such as gynecologists, specialists for venereal diseases, neurologists, psychoanalysts.”
“The practice of vegetotherapy requires:
a) An adequate orientation in the fundamentals of sociology, i.e., of the laws of the social process which influence the strength of man’s vegetative drives.
b) The knowledge of the basic elements governing the developmental history of sexual morality, from primitive society to the present state.
c) The knowledge of basic elements of psychiatry, with special consideration of the mechanisms operative in schizophrenia and in manic-depressive psychosis.
d) The work of the vegetotherapist demands precise knowledge of the autonomic or vegetative nervous system and the fundamentals of human physiology as well as endocrinology and sexual physiology.
e) A knowledge of the fundamentals of cell biology, vegetative current manifestations and electrical phenomena in protozoa are among the indispensable prerequisites for the practice of vegetotherapy.
f) Since vegetotherapy is increasingly penetrating the field of physical illness, knowledge of the relationship of the state of the bio-electric charge to the skin surface in neuroses and ego disturbances becomes a prerequisite of practical everyday work.”
“Communism in its present form as Red Fascism is not a political party like other political parties. It is politically and militarily armed organized emotional plague.”
“If you ask a liberal or a socialist or a Republican what he believes in socially, he will tell you frankly. The Red Fascist will not tell you what he is, who he is, what he wants. This proves that hiding is his basic characteristic. And only people who are hiding by way of their character constitution will operate in and for the Communist Party.”
“Such an attitude toward fact and truth, history and human welfare is not specifically a characteristic of Red Fascism. It is typical of all politics. Red Fascism differs from other political disrespect for fact and truth in that it eliminates all checks and controls of the abuse of power and drives the nuisance politician to his utmost power. To believe that ‘’peace negotiations’ are meant as such is disastrous. They may and they may not be meant, according to the momentary expediency.”
“Espionage and counter-espionage may belong as part of present-day social administration: It will never solve the problem of social pathology.”
“He will be a master in cunning, slyness, ‘know-how’ in getting along with people smoothly. He will stand out little from the crowd. He will be a ‘good fellow’, people will like him, he will appear honest and straight, and he will really mean what he says subjectively. But he will never quite overcome the feeling of being an abortive genius, gifted and crippled at the same time. This is strongly developed in him, and he has this trait in common with most average people. The people in general, however, have far less strained ambitions and are not as strong bio-energetically.”
“The pestilent character is basically a coward and he has much to hide, especially sexually. The hiddenness is essential to his social and emotional existence.”
“Djugashvili rides to power over millions, carried along by the very people whom he is going to suppress, supported and protected by what they have in common with hin1, be it ever so minute and little.”
E DE VOLTA À PAIDEIA: “It is clear that the educator and physician instead of the politician and policeman should be in charge of these affairs of social pathology.”
“Here an administrator has embraced a girl he knew in decency and honesty, but slightly out of range of what is considered ‘moral’ by ‘the public’. Many knew it, of course, but since everyone has such little and perfectly decent secrets, there is a common bond, so to speak, among the people who constitute what is called the public. Everybody has a more or less pressing bad conscience, well hidden under a mask of righteousness. Fear of getting into trouble with the law is quite general. Conformism stems from this fear and from these little secrets. And there is nothing whatsoever in the social set-up to understand, handle, or protect such innocent little secrets against invasion by dirty minds.”
O LIMITE MORAL É A MEGA-SENA: “It is all right to stop rampant cheating in the realm of public lotteries, but one can see no harm in a little gambling or a little tun at pinball machines. It is the pestilent character again who here, too, spoils the fun for the people by misusing and abusing freedom of action.”
“They are convinced of the ultimately decent nature of man. But, at the same time, they talk that way out of weakness and fear of the plague. They are factually hypnotized into immobility by the plague like a hen by the snake.”
“Now the pestilent character has easy going. He is protected on all sides and can proceed safely, without any danger of being detected, put into the bright sunlight, or challenged in any other way. If he adds political power machinery to his already rather well-set position he can conquer whole continents.”
“The public will not act or render any help to the truth. It will remain ‘sitting’ silently and watch helplessly or even gloatingly any crucifixion of innocent souls. The public administrator will be frightened to bits and try to maintain public morals and order. The pioneer will be silenced or he may go psychotic or fall into deep depression.”
Atacar o problema da censura na muda (na calada da noite)!
“The pestilent character is usually a coward and has nothing constructive to offer. Meet the plague head on. Do not yield or appease. Master your guilt feelings and know your weak spots. If necessary, reveal frankly your weak points, even your secrets. People will understand.” “Learn continuously how to meet the underhanded lie.”
Now I’m not so sure: “Truth is our potential ally even within the pestilent character. He, too, is somewhere decent deep down, though he may not know it.”
Diário de Reich, 15/10/53
“since clitoral genitality is a neurotic substitute for a blocked vaginal excitation, they [F. e Kinsey¹] confused the acme of the orgasm with the total orgasm which, in the ergonomic sense, includes, in addition to the acme, the ensuing convulsive movements.” Dor femural pós-coito (no lugar de omni tristi).
¹ Alfred Kinsey (1894-1956), sexólogo, biólogo e entomologista americano. Parece ser o pai da sexologia pop estilo Penélope da MTV (ou seja, inútil). Cultuado pelo LGBTQ, que nem deve saber quem foi Reich…
“According to the bio-energetic view of clinical orgonomy, the orgasm is identical with the total involuntary convulsion of the organism beginning with the acme (peak) of the orgasm and ending with complete relaxation. The orgasn1 function in the ergonomic sense reaches far beyond species and genus. It is older than the development of nerves. (…) It is clearly expressed in the protrusion of the pseudopodium of an ameba.”
Excerto de O Assassinato de Cristo (CONCLUSÃO)
“To add a new dogma of human living to the 1naze of philosophies, religions, and political prescriptions means adding another piece of confusion to the building of the Tower of Babel. The task is not the construction of a new philosophy of life, but diversion of the attention from futile dogmas to the ONE basic question: WHY HAVE ALL DOGMAS OF HOW TO LIVE SO FAR FAILED?”
S-H ou Sui.
“Let us now for a moment imagine that the psychoanalysts had acquired social power in some country. They would, from their point of view of the existence of an unconscious mind, acknowledge a vast domain of human existence beyond the conscious will. They would, if meeting with the ‘sitting’ of humanity, attribute it to ‘bad’ unconscious wishes of one kind or another. Their remedy would be to ‘make the spite conscious’, to exterminate the evil unconscious. This, of course, would not help, just as it does not help in the treatment of a neurotic, since the spiting itself is the result of the total body armoring, and the ‘evil unconscious’ is the result of the suppression of natural life in the infant; and ‘I won’t’ is superimposed upon a silent ‘I CAN’T’. This immobility, expressed as an ‘I CAN’T’, is naturally inaccessible to mere ideas or persuasion, since it is what orgone biophysics calls ‘STRUCTURAL’, i.e., frozen emotions. In other words, it is an expression of the total being of the individual, unalterable, just as the shape of a grown tree is unalterable.”
[+]
Margaret Anderson, Children of the South
N.B. Talvez os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade de Freud sejam seu único texto – ou seus únicos 3 textos – que realmente valham alguma pena ainda hoje.
R., Truth versus Modju + Escuta, Zé-Ninguém! (Listen, Little Man!) + The Murder of Christ…
A “filósofa da inveja” ou “charlatã II: Freud Femme”.
“Aunque muchos desconfiaron y siguen desconfiando (desde Heidegger hasta Nabokov, para citar a los más empecinados),¹ algunos hombres y mujeres que se contaron entre los más inventivos de este siglo (desde Virginia Woolf hasta Georges Bataille, desde André Breton hasta Jean-Paul Sartre, desde Romain Rolland hasta Gustave Mahler, desde André Gide hasta Émile Benveniste, desde Charlie Chaplin y Alfred Hitchcock hasta Woody Allen) leyeron a Freud o se tendieron en el diván analítico, para comprender o experimentar esa innovación del autoconocimiento”
¹ Às vezes a teimosia é uma virtude. Ou ela quis dizer que Heidegger e Nabokov nem sequer leram Freud ou pelo menos nenhum texto psicanalítico? Acho muito difícil… Mas não fazer análise ou discordar da seita não pode ser considerado recalcitrância nem na Paris “culta” dos 60…
Uma coisa é achar Freud genial; outra é, além disso, achar que ele contribuiu para o feminismo do século XX – INSÂNIA!
“Freud inventó el psicoanálisis a partir del amor de transferencia, que nunca teorizó a fondo”
“phantasy, palabra que los kleinianos escriben con ph en lugar de la f habitual”
“Atenta a la pulsión de muerte que Freud ya había puesto al mando de la vida psíquica en Más allá del principio de placer, ella hizo de esta función el agente principal de nuestras afecciones”
METAPSICOLOGIA QUE PAIRA ACIMA DOS FENÔMENOS: “La locura habrá sido la actualidad política quemante de nuestro siglo, y es forzoso recordar que el psicoanálisis fue contemporáneo de ella. No porque haya participado de no se sabe qué nihilismo consecutivo a la secularización, que habría producido conjuntamente la muerte de Dios, los totalitarismos y la ‘liberación sexual’… Sino porque, en esta desconstrucción de la metafísica que vivimos con más o menos riesgos y felicidad, el psicoanálisis nos ha llevado hasta el núcleo de la psique humana, para descubrir allí la locura que es a la vez su motor y su atolladero.”
“Más allá de los destinos específicos y de las desemejanzas entre las obras, es posible entrever ya algunas constantes comunes en los genios respectivos de Melanie Klein y Hannah Arendt” Odeio essas forçadas de barra gratuitas que uma mulher se sente obrigada a fazer com duas outras mulheres que não têm nada em comum, como que para ‘pagar uma dívida’!
“Arendt y Klein son de las insumisas cuyo genio consistió en arriegarse a pensar.” Poderia ser só um pouco mais clichê?
1. FAMILIAS JUDÍAS, HISTORIAS EUROPEAS: UNA DEPRESIÓN Y SUS CONSECUENCIAS
“En su breve Autobiografía redactada entre 1953 y 1959 (no publicada, propiedad del Melanie Klein Trust), la psicoanalista da una imagen muy modificada, incluso idealizada, de su vida. Dice haber sido fascinada por la atmósfera erudita que reinaba en la casa de los Deutsch, [¿??] haber apreciado la independencia de espíritu de su padre, que supo oponerse a los hassidim para emprender estudios de medicina, y haber admirado su dominio de una decena de idiomas… No obstante, evoca también ‘la repulsión’ que le inspiraban los caftanes de la hermana del padre, y no oculta su ‘desprecio’ por el ídish que hablaban los judíos eslovacos de su familia materna.”
“Las dificultades económicas de los Deutsch obligaron a Libussa a abrir un negocio un tanto extraño para una esposa de médico. Allí vendía plantas y reptiles: lo recordaremos al abordar la fantasía del cuerpo materno según Melanie Klein, bullente de horrorosos ‘objetos malos’ penianos y anales. [¿]”
“Los ‘poderosos armónicos incestuosos’ que resonaban en el seno de la familia Reizes [sobrenome do pai] se concentraron sobre todo en la relación de Melanie con Emanuel. Afectado de una enfermedad cardiaca como consecuencia de una escarlatina infantil, Emanuel se sabía condenado y, después de haber intentado estudiar medicina, se inscribió en la facultad de letras para dedicarse a la literatura y los viajes. Enfermo y endeudado, recorrió Italia escribiéndole a la madre y a la hermana, la cual le respondía con cartas llenas de sentimientos amorosos y alusiones sexuales. Fue en el marco de esta relación desesperadamente gemela, en la que hermano y hermana buscaban un fervor que estaba mucho más allá de la amistad, donde se inscribió… el matrimonio de Melanie. Ella tenía 17 años cuando conoció, en 1899, a Arthur Steven Klein, sobrino segundo de Libussa[deixa o irmão para se jogar nos braços de um primo, que bela e mórbida resolução!] y allegado a Emanuel: tenía 21 años y estudiaba química en la prestigiosa Alta Escuela Técnica de Zürich. Libussa vio en él ‘un buen partido’, e incluso a ‘el pretendiente más ventajoso’, y Emanuel demostró más entusiasmo por Arthur que la propia Melanie: más tarde, ella atribuyó su matrimonio no tanto al amor como al impulso del ‘temperamento apasionado del hermano’.”
“Sumergida aún en el duelo por su hermano, cuya muerte la conmovió profundamente, Melanie se casó el 31 de marzo de 1903, al día siguiente de cumplir 21 años. A juzgar por una novela muy autobiográfica que ella escribió más tarde (hacia 1913) el sexo solo le provocaba repulsión. Ese rechazo habría estado vinculado a la sensación de traicionar el lazo incestuoso con su hermano Emanuel.”“A julgar por uma novela autobiográfica escrita em 1913, o sexo para Melanie Klein provocava repulsão. Essa recusa se ligava à sensação de trair o laço incestuoso com seu irmão Emanuel.” O pré-requisito pra ser psicanalista deve ser ser doente mental!
“La existencia de la nueva familia Klein se desarrolló totalmente bajo la férula de Libussa: madre posesiva y abusiva, antes de instalarse con la pareja le prodigó consejos en cartas, les exigía ayuda económica, e incluso los acompañó en un viaje a Italia; consideraba a su hija inmadura y neurasténica, la abrumaba con su vigilancia, y llegó a ocupar el lugar de ‘la señora Klein’: Quería ocupar un lugar muy especial en la vida de la hija, y le propuso un medio extrañamente tortuoso para que Melanie pudiera comunicarse con ella sin que Arthur leyera sus cartas: «¡Dirigirlas sencillamente a la Señora Klein!». En este contexto, el propio Arthur se convirtió en ‘muy difícil’, comenzó a sufrir de los ‘nervios’ y del vientre… Las enfermedades de Melanie no tardaron en estallar a la luz del día”
Escritora de primeira ou segunda ou terceira categoria? “En su estilo es visible la influencia de la poesía erótica expresionista, pero también la ‘corriente de conciencia’, a la manera de Schnitzler y Joyce”
DODÓI DA BEBESSA, COITADA: “Melanie comenzó a asistir a una escuela de baile, donde conoció a Chezkel Zvi Kloetzel, un periodista del Berliner Tageblatt. Él estaba casado, se parecía a Emanuel… Melanie se enamoró de manera romántica, y le puso en secreto el nombre de… Hans, su hijo mayor.”
“A diferencia de los estalinistas, que caracterizaban el psicoanálisis como una ciencia decadente, ¡los compañeros de Béla Kun nombraron a Ferenczi profesor de psicoanálisis en la universidad! Pero cuando estalló la contrarrevolución, y al terror rojo lo sucedió un terror blanco antisemita, Roheim y Ferenczi fueron destituidos y amenazados de muerte.”
2. ANALIZAR A SUS HIJOS: DEL ESCÁNDALO A LA TÉCNICA DEL JUEGO
“Mucho antes que Freud, Wordsworth (1770-1850) había escrito que ‘el niño es el padre del hombre’. Bajo el signo del Niño Jesús y de las Confesiones de San Agustín, dos modelos de la infancia se disputaban el imaginario inglés: por un lado, John Locke, con sus Pensamientos acerca de la educación (1793) y J.-J. Rousseau con el Emilio (1762) o el mito purificado de la inocencia infantil; por otra parte, la convicción, de inspiración calvinista, de que el niño tiene una naturaleza perversa, heredada del pecado original, la cual justificaba la severidad a menudo cruel de los métodos educativos (flagelaciones, privaciones, amenazas).”
“En pleno siglo XIX, el escritor Charles Kingsley, en Antón Locke, describió de manera impresionante la tesis puritana. Su novela presenta los esfuerzos educativos de una madre convencida de la naturaleza diabólica de su niño, hasta su ‘conversión’ a los valores cristianos (privación de comida y sesiones regulares de latigazos le enseñan a moderar sus pasiones). Esta visión rígida subtiende la ferocidad de los intentos de moralización de los niños de las clases populares por los filántropos del siglo XIX. El libro culto de la burguesía triunfante, Tomas Brown en la escuela (1857), de Thomas Hughes, narra la transformación de la public school de Rugby por obra de Thomas Arnold, y describe la metamorfosis de un niño tímido en ‘the bad of school’, hecho a las virtudes de la ‘muscular Christianity’. [¿]”
“El niño parece ser el objeto de deseo por excelencia del imaginario inglés, que calificaríamos de buena gana de paidófilo si el término pudiera aún vestirse de una cierta inocencia puritana.”
3. PRIORIDAD E INTERIORIDAD DEL OTRO Y DEL VÍNCULO: EL BEBÉ NACE CON SUS OBJETOS
(…)
4. ¿LA ANGUSTIA O EL DESEO? EN EL COMIENZO ERA LA PULSIÓN DE MUERTE
(…)
5. UN SUPERYÓ PRECOZ TIRÁNICO
Merda ininteligível… “La fase de sadismo exacerbado desde el nacimiento, a la cual Melanie Klein le dio en 1946 el nombre de posición esquizoparanoide, apunta, con el pecho, al interior del cuerpo de la madre, que contiene el pene del padre. Allí veremos, con Jean Bégoin, el prototipo del espacio psíquico.”
6. ¿CULTO DE LA MADRE O ELOGIO DEL MATRICIDIO? LOS PADRES
“El universo kleiniano (se lo ha dicho demasiado) está dominado por la madre. Esa figura arcaica amenaza y aterroriza por su omnipotencia. ¿Será tan perniciosa que haya que abandonarla y hacerla morir? ¿No podría transformarse? Pero, ¿en qué? El abandono necesario de la madre, ¿constituirá un pasaje hacia el padre, como lo piensan Freud y Lacan? ¿O será más bien el primero de los encuentros con una madre buena finalmente restaurada, gratificante y gratificada? Sin duda, puesto que, para nuestra autora, no hay cuna que no tenga su bruja, ni bebé sin envidia. Y solo el analista o la analista (preferentemente mujer, o al menos un hombre que asuma lo femenino que hay en él) podría convencer al lactante que seguimos siendo eternamente, de que no es imposible encontrar hadas que merezcan nuestra gratitud.”
“Pero, al poner un énfasis excesivo en la madre, desatendida por el fundador, se corre el riesgo de olvidar al padre. En efecto, ¿cuál es el lugar del padre en Melanie? Una de las primeras personas que planteó el interrogante fue Melitta Schmideberg, la hija de la analista. Y lo hizo con violencia.”
“Traduzcamos: si la mujer huye del pene, lo hace porque huye del pecho; no podrá gozar, será frígida, porque gozar es en primer lugar gozar del seno que lleva el pene.”
7. LA FANTASÍA COMO METÁFORA ENCARNADA
(…)
8. INMANENCIA Y GRADOS DE SIMBOLISMO
(…)
9. DE LA LENGUA EXTRANJERA A LAS REDES DE LOS FIELES Y LOS INFIELES
“A partir de su instalación en Inglaterra, en 1926, Melanie Klein formuló sus pensamientos en inglés, no sin volver a menudo a su lengua materna, para seguir en contacto con sus emociones y hacerlas compartir: después de la muerte de su hijo Hans, ella se confió a Paula Heimann hablándole en alemán. Es también probable que cuando murió su hijo haya soñado en alemán, despertando muchos recuerdos penosos: la preferencia de su padre por Emilie, la muerte precoz de Sidonie, la pérdida cruel de Emanuel (por la cual sintió una aguda culpabilidad), el resurgimiento de la angustia al morir la madre, la ambivalencia respecto de Arthur, su marido, el abatimiento consecutivo a la muerte de Abraham y su difícil relación con Kloetzel.”
“La técnica y la política nos arrancan cada vez más a nuestros hábitat, y nos hemos vuelto a convertir en nómades.” ¿??
“Habitar, ser puesto en seguridad, quiere decir quedar encerrado (engefriedet) en lo que nos es pariente (en in das Frye), es decir, en lo que es libre (in das Freie) y que cuida todo en su ser. El rasgo fundamental de la habitación es ese cuidado. Penetra la habitación en toda su extensión. Esta extensión se nos aparece en cuanto pensamos que la condición humana reside en la habitación en el sentido de permanencia sobre la tierra de los mortales.” Martin Heidegger
“Como si no bastara con el apellido familiar Klein, que en alemán significa ‘pequeño’, a la hija que le nació el 19 de enero de 1904 (menos de un año después de su matrimonio con Arthur, el 31 de marzo de 1903) Melanie le puso sencillamente el nombre de Melitta: ‘Pequeña Melanie’. La dos veces pequeña tuvo de qué quejarse desde el principio, pero aguardó su hora. En la desavenencia entre sus padres, ella tomó aparentemente el partido de la madre. Lo que no dejaba de tener su mérito, pues Melanie, sufriendo bajo la férula de Libussa, se ausentaba continuamente en viajes y curas, Y era la abuela la que se ocupaba de la niña, por cierto que con devoción y solicitud, pero prefiriendo al hermanito menor, Hans, el varón, y explicándole a la pequeña Melitta que la madre era solo ‘una enferma emocional, tan enferma que tenía que abandonar constantemente a la hija’.”
“La inserción de Melitta en el mundo psicoanalítico fue rápida y brillante. Aparentemente, de niña había sido analizada por la madre. Más tarde tuvo un análisis didáctico con Eitingon; después se analizó con Karen Horney, ya en Londres con Ella Sharpe, y finalmente con Edward Glover. Se recibió de médica en la Universidad de Berlín en 1927, y viajó a Londres para redactar su tesis sobre la Historia de la homeopatía en Hungría, en 1928.”
“La guerra entre las dos mujeres se puso de manifiesto abiertamente en octubre de 1933, cuando Melitta Schmideberg fue elegida miembro del Instituto Británico: en su memoria, ella no atribuía las dificultades alimentarias de su paciente Viviane a factores funcionales, como lo quería la teoría de Melanie Klein, sino a la actitud de la madre que había procedido a una enseñanza demasiado estricta de la limpieza. Al morir su hermano Hans, en 1934, Melitta habló de suicidio, e insinuó que, como con todo suicida, una parte de la responsabilidad del acto correspondía a las dificultades con la familia, a la idealización y la decepción. Muy pronto la venganza de la hija, alentada por Glover, fue tomando forma hasta molestar a los miembros de la Sociedad. Siguieron escenas inconvenientes; Melitta le lanzó a Melanie apostrofes estridentes: ‘¿Dónde está el padre en tu obra?’. La guerrilla siguió jalonada por sarcasmos, indiscreciones, acusaciones que remitían a la primera infancia, a la vida familiar de los Klein.”
“Después de haberse mostrado muy crítica respecto de los trabajos de Anna Freud, y de haberla atacado indirectamente en el comentario sobre el libro de una colega, Melitta intentó acercarse a Anna en el momento en que estallaron las divergencias entre los annafreudianos y los kleinianos. Visitó a Freud cuando este llegó a Londres el 6 de junio de 1939. Melanie, que le había enviado al maestro una carta de bienvenida, no fue recibida, y solo asistió a las exequias de Freud a fines del mes de septiembre. Melitta participó en una reunión con Anna Freud y los suyos, y después tomó parte en las múltiples controversias contra su madre, en un tono ‘chirriante’ y ‘sarcástico’.”
10. LA POLÍTICA DEL KLEINISMO
“Los analistas ingleses —Barbara Low (cuyo apoyo a Anna Freud no se desmentirá, y que realizó una reseña elogiosa de su libro), Eder, Glover, Riviere, Sharpe y la propia Klein— leyeron con una atención minuciosa la obra de la hija del maestro. Aunque heterogéneo, el grupo estimó unánimemente (según la carta de Jones a Freud y en respuesta a las reconvenciones de este último) que resultaba inoportuno publicar en inglés una obra en la que era ostensible ‘un poco de precipitación’, que tenía ‘una base experimental también pobre’, y podía imponer ‘una detención’ al desarrollo del psicoanálisis de niños. Hasta el final de su vida, Anna Freud sintió la amargura de esa desaprobación, en particular por la conducta de Jones, que en ese momento dio muestras de cierto atrevimiento en su relación con Freud.”
“Melanie resumió como sigue los principios del análisis según Anna Freud que le parecían inaceptables: 1) el análisis del complejo de Edipo es imposible, porque interfiere las relaciones con los padres; 2) el análisis del niño debería limitarse a fines educativos; 3) el analista no debería aceptar la neurosis de transferencia por respeto a los padres, cuyo papel es predominante en la vida del hijo; 4) el analista debería ganarse la confianza del niño, y desplegar el análisis sobre esta base. Estos principios iban en contra de las observaciones de Klein”
“La primera referencia de Lacan a Klein se lee en su informe dedicado a la agresividad, que él presentó en mayo de 1948 en el XI Congreso de los Psicoanalistas de Lengua Francesa en Bruselas. Allí asimilaba su propia concepción de las ‘imágenes del cuerpo fragmentado’ con los ‘objetos internos’ de las fantasías arcaicas según Melanie, y en esa ‘fenomenología de la experiencia kleiniana’ reconoció los ‘fantasmas de la fase llamada paranoide’.”
“Mientras se apropiaba de la posición paranoide según Klein, la amplificó y definió el yo como una instancia de desconocimiento imaginario, construida como una estructura paranoica. La transferencia negativa destacada por Klein lo llevó a entender la cura como una paranoia dirigida que contribuye a deshacer los desconocimientos del yo”
“En esa exposición, Lacan también rindió un homenaje enfático a Anna Freud, lo cual se ha interpretado a menudo como una estrategia política de acercamiento a la hija del ‘fundador’.”
“Melanie perdió toda su confianza en Lacan y en adelante se acercó a Daniel Lagache.”
“Dos años después, en 1954, en el curso de su Seminario I, Los escritos técnicos de Freud, Lacan retomó el ‘caso Dick’ e introdujo su propia lectura de ‘La (de)negación’, basándose en Jean Hyppolite. Como lo hemos señalado, ese texto freudiano había sido el caballo de batalla de los kleinianos en las Controversias con los annafreudianos, que no lo conocían. En suma, Lacan adoptó la misma estrategia que los kleinianos en su propia refundación del psicoanálisis. Pero sin citar sus fuentes. Sin mencionar a Klein en su comentario sobre la negatividad freudiana, salvo… indirectamente, remitiendo a Kris y a Melitta acerca del caso clínico del Hombre de los Sesos Frescos.”
“Lacan le critica entonces a Jones que suscriba la ‘perfecta brutalidad’ de los conceptos kleinianos, y no vea en el pene más que un objeto parcial, y no ‘el falo’: denuncia la ligereza con que ‘incluye los fantasmas edípicos más originarios en el cuerpo materno, desde su procedencia de la realidad que supone el Nombre-del-Padre’.”
“Estos dos rostros del kleinismo no han dejado de atraer la atención de los sociólogos y otros teóricos de la modernidad ingleses, así como de las feministas británicas y estadounidenses. Entre los psicoanalistas, Melanie Klein es tal vez la única que, sin haber propuesto ella misma una reflexión directa sobre la historia y la sociedad modernas (como lo hicieron un Freud o un Reich), suscitó desarrollos políticos que exceden en mucho el alcance inmediato de sus concepciones clínicas. Su empirismo y sus torpezas teóricas hacen que la obra sea intrínsecamente abierta y polisémica, e inducen por defecto interpretaciones fagocitantes. Pero esto no basta para explicar ese éxito sociológico, que parece debido en parte a la atracción que ejerce el psicoanálisis de las profundidades en nuestro mundo contemporáneo, para cuya comprensión las ideologías y filosofías clásicas resultan caducas.”
“De modo que se perfilan dos rostros del kleinismo incluso en las extrapolaciones sociológicas de la obra de Melanie. Unas acentúan la teoría de lo negativo, la importancia de la pulsión de muerte y de las fuerzas destructivas que gobiernan a las figuras del contestatario, del rebelde, cuando no del paranoico o del egotista secretamente esquizofrénico. Esta lectura, más atenta a la interpretación, realizada por los psicoanalistas franceses, recientemente ha comenzado a aparecer también en la pluma de numerosos teóricos británicos. Otros, por el contrario, desde hace ya una decena de años, se felicitan por haber descubierto en Melanie Klein un fundamento del vínculo social, privilegiando la conciliación y llevando al extremo lo que incluso algunos clínicos kleinianos no se privan de exagerar: la reparación”
“Por partir de la teoría freudiana de las pulsiones sexuales y el Edipo, el Eros según Marcuse, se opone en vano a una sociedad fundada en la represión; una sociología que se inspire en él corre el riesgo de encallar en un ‘instrumentalismo interesado’. Esto es lo que dice Alford. Por el contrario, una sociología derivada del kleinismo podría modelar un vínculo social en el que prevalezcan la reparación y la reconciliación.”
“En efecto, mucho antes de la conmoción de Mayo del 68 y de la fuga anarquista de El anti-Edipo, que precedió en poco tiempo la pasión lacaniana por la paranoia femenina, Melanie vio al individuo como una economía movida por la pulsión de muerte, intrínsecamente esquizoparanoide y poco dispuesto a adaptarse a la realidad. Los annafreudianos le reprochaban que no tuviera en cuenta a la familia y la madre reales (mucho menos al padre), así como tampoco a la realidad exterior que había que conocer, sino que se encerraba en un mundo de fantasías sádicas, o en todo caso esencialmente negativas.”
“Bion y Winnicott iban a clarificar este tema, y lo desarrollaron hablando del ‘ensueño de la madre’ (versión positiva generadora de la vida psíquica), y de ‘madres intrusivas’ (versión maléfica desestructuradora del psiquismo).”
“Lacan debía remediar esa falta, inscribiendo la existencia del Edipo y el superyó kleinianos en la preexistencia de lo simbólico en los seres humanos, tal como se pone de manifiesto en el Nombre-del-Padre y en la pregnancia del Falo, cuya función paterna es portadora de lo imaginario.”
“Las feministas se felicitaron por la alternativa propuesta de este modo al machismo freudiano y al falocentrismo lacaniano. Otras lamentaron lo que consideran un ‘normadvismo’ kleiniano, es decir, su adhesión a la pareja padre-madre y a la heterosexualidad como condiciones del desarrollo creativo de la psique.”
BOOMER IMBECIL: “Y ni que hablar los juegos electrónicos cuya violencia enloquece a las asociaciones de padres —puesto que sus hijos se “proyectan” (¡y sí!) en ellos, al punto de no diferenciar ya la imagen y la realidad—, juegos en los que el mundo moderno parece hundirse en una fantasía, en el sentido kleiniano del término, taliónica y realista. Con la diferencia de que, en Melanie, el analista acompaña esa fantasía, la formula y la interpreta para hacerla pensable y solo de ese modo atravesarla, no prohibirla ni reprimirla. Por el contrario, los asesinos inconscientes de las escuelas estadounidenses solo han tenido por baby-sitter a la pantalla televisiva y, sin que ninguna palabra los salvara del dominio imaginario, son los náufragos de una posición depresiva nunca consumada, víctimas señaladas de la regresión esquizoparanoide.”Eles iam à escola, mas faltava que fossem à analista judia, ah bom!
Philip of France, in right and true behalf Of thy deceased brother Geffrey’s son, Arthur Plantagenet, lays most lawful claim To this fair island and the territories, To Ireland, Poictiers, Anjou, Touraine, Maine, Desiring thee to lay aside the sword Which sways usurpingly these several titles, And put these same into young Arthur’s hand, Thy nephew and right royal sovereign.
KING JOHN
What follows if we disallow of this?”
“KING JOHN
Bear mine to him, and so depart in peace: Be thou as lightning in the eyes of France; For ere thou canst report I will be there, The thunder of my cannon shall be heard: So hence! Be thou the trumpet of our wrath And sullen presage of your own decay. An honourable conduct let him have: Pembroke, look to ‘t. Farewell, Chatillon.
Exeunt CHATILLON and PEMBROKE”
“KING JOHN
What is thy name?
BASTARD
Philip, my liege, so is my name begun, Philip, good old sir Robert’s wife’s eldest son.
KING JOHN
From henceforth bear his name whose form thou bear’st: Kneel thou down Philip, but rise more great, Arise sir Richard and Plantagenet.”
“KING JOHN
Go, Faulconbridge: now hast thou thy desire; A landless knight makes thee a landed squire. Come, madam, and come, Richard, we must speed For France, for France, for it is more than need.”
“But, mother, I am not sir Robert’s son; I have disclaim’d sir Robert and my land; Legitimation, name and all is gone: Then, good my mother, let me know my father; Some proper man, I hope: who was it, mother?
LADY FAULCONBRIDGE
Hast thou denied thyself a Faulconbridge?
BASTARD
As faithfully as I deny the devil.
LADY FAULCONBRIDGE
King Richard Coeur-de-lion was thy father: By long and vehement suit I was seduced To make room for him in my husband’s bed: Heaven lay not my transgression to my charge! Thou art the issue of my dear offence, Which was so strongly urged past my defence.
BASTARD
Now, by this light, were I to get again, Madam, I would not wish a better father. Some sins do bear their privilege on earth, And so doth yours; your fault was not your folly: Needs must you lay your heart at his dispose, Subjected tribute to commanding love, Against whose fury and unmatched force The aweless lion could not wage the fight, Nor keep his princely heart from Richard’s hand. He that perforce robs lions of their hearts May easily win a woman’s. Ay, my mother, With all my heart I thank thee for my father! Who lives and dares but say thou didst not well When I was got, I’ll send his soul to hell. Come, lady, I will show thee to my kin; And they shall say, when Richard me begot, If thou hadst said him nay, it had been sin: Who says it was, he lies; I say ‘twas not.
Exeunt”
“CHATILLON
Then turn your forces from this paltry siege And stir them up against a mightier task. England, impatient of your just demands, Hath put himself in arms: the adverse winds, Whose leisure I have stay’d, have given him time To land his legions all as soon as I; His marches are expedient to this town, His forces strong, his soldiers confident. With him along is come the mother-queen, An Ate, stirring him to blood and strife; With her her niece, the Lady Blanch of Spain; With them a bastard of the king’s deceased, And all the unsettled humours of the land, Rash, inconsiderate, fiery voluntaries, With ladies’ faces and fierce dragons’ spleens, Have sold their fortunes at their native homes, Bearing their birthrights proudly on their backs, To make hazard of new fortunes here: In brief, a braver choice of dauntless spirits Than now the English bottoms have waft o’er Did nearer float upon the swelling tide, To do offence and scath in Christendom.
Drum beats
The interruption of their churlish drums Cuts off more circumstance: they are at hand, To parley or to fight; therefore prepare.”
“KING JOHN
Peace be to France, if France in peace permit Our just and lineal entrance to our own; If not, bleed France, and peace ascend to heaven, Whiles we, God’s wrathful agent, do correct Their proud contempt that beats His peace to heaven.”
“QUEEN ELINOR
Who is it thou dost call usurper, France?
CONSTANCE
Let me make answer; thy usurping son.
QUEEN ELINOR
Out, insolent! thy bastard shall be king, That thou mayst be a queen, and cheque the world!”
“ARTHUR
Good my mother, peace! I would that I were low laid in my grave: I am not worth this coil that’s made for me.
QUEEN ELINOR
His mother shames him so, poor boy, he weeps.
CONSTANCE
Now shame upon you, whether she does or no! His grandam’s wrongs, and not his mother’s shames, Draws those heaven-moving pearls from his poor eyes, Which heaven shall take in nature of a fee; Ay, with these crystal beads heaven shall be bribed To do him justice and revenge on you.”
“First Citizen
In brief, we are the king of England’s subjects: For him, and in his right, we hold this town.
KING JOHN
Acknowledge then the king, and let me in.
First Citizen
That can we not; but he that proves the king, To him will we prove loyal: till that time Have we ramm’d up our gates against the world.
KING JOHN
Doth not the crown of England prove the king? And if not that, I bring you witnesses, Twice fifteen thousand hearts of England’s breed,–
BASTARD
Bastards, and else.
KING JOHN
To verify our title with their lives.
KING PHILIP
As many and as well-born bloods as those,–
BASTARD
Some bastards too.
KING PHILIP
Stand in his face to contradict his claim.
First Citizen
Till you compound whose right is worthiest, We for the worthiest hold the right from both.”
“First Citizen
Heralds, from off our towers we might behold, From first to last, the onset and retire Of both your armies; whose equality By our best eyes cannot be censured: Blood hath bought blood and blows have answered blows; Strength match’d with strength, and power confronted power: Both are alike; and both alike we like. One must prove greatest: while they weigh so even, We hold our town for neither, yet for both.”
“BASTARD
(…)
The swords of soldiers are his teeth, his fangs; And now he feasts, mousing the flesh of men, In undetermined differences of kings. Why stand these royal fronts amazed thus? Cry, ‘havoc!’ kings; back to the stained field, You equal potents, fiery kindled spirits! Then let confusion of one part confirm The other’s peace: till then, blows, blood and death!”
“BASTARD
By heaven, these scroyles of Angiers flout you, kings, And stand securely on their battlements, As in a theatre, whence they gape and point At your industrious scenes and acts of death. Your royal presences be ruled by me: Do like the mutines of Jerusalem, Be friends awhile and both conjointly bend Your sharpest deeds of malice on this town: By east and west let France and England mount Their battering cannon charged to the mouths, Till their soul-fearing clamours have brawl’d down The flinty ribs of this contemptuous city: I’ld play incessantly upon these jades, Even till unfenced desolation Leave them as naked as the vulgar air. That done, dissever your united strengths, And part your mingled colours once again; Turn face to face and bloody point to point; Then, in a moment, Fortune shall cull forth Out of one side her happy minion, To whom in favour she shall give the day, And kiss him with a glorious victory. How like you this wild counsel, mighty states? Smacks it not something of the policy?
KING JOHN
Now, by the sky that hangs above our heads, I like it well. France, shall we knit our powers And lay this Angiers even to the ground; Then after fight who shall be king of it?
BASTARD
An if thou hast the mettle of a king, Being wronged as we are by this peevish town, Turn thou the mouth of thy artillery, As we will ours, against these saucy walls; And when that we have dash’d them to the ground, Why then defy each other and pell-mell Make work upon ourselves, for heaven or hell.
KING PHILIP
Let it be so. Say, where will you assault?
KING JOHN
We from the west will send destruction Into this city’s bosom.
Our thunder from the south Shall rain their drift of bullets on this town.
BASTARD
O prudent discipline! From north to south: Austria and France shoot in each other’s mouth: I’ll stir them to it. Come, away, away!”
“BASTARD
…Here’s a large mouth, indeed, That spits forth death and mountains, rocks and seas, Talks as familiarly of roaring lions As maids of thirteen do of puppy-dogs! What cannoneer begot this lusty blood? He speaks plain cannon fire, and smoke and bounce; He gives the bastinado with his tongue: Our ears are cudgell’d; not a word of his But buffets better than a fist of France: Zounds! I was never so bethump’d with words Since I first call’d my brother’s father dad.”
TUDO ACABA EM GUERRA OU CASÓRIO
“KING PHILIP
Speak England first, that hath been forward first To speak unto this city: what say you?
KING JOHN
If that the Dauphin there, thy princely son, Can in this book of beauty read ‘I love,’ Her dowry shall weigh equal with a queen: For Anjou and fair Touraine, Maine, Poictiers, And all that we upon this side the sea, Except this city now by us besieged, Find liable to our crown and dignity, Shall gild her bridal bed and make her rich In titles, honours and promotions, As she in beauty, education, blood, Holds hand with any princess of the world.
KING PHILIP
What say’st thou, boy? look in the lady’s face.
LEWIS
I do, my lord; and in her eye I find A wonder, or a wondrous miracle, The shadow of myself form’d in her eye: Which being but the shadow of your son, Becomes a sun and makes your son a shadow: I do protest I never loved myself Till now infixed I beheld myself Drawn in the flattering table of her eye.
Whispers with BLANCH
BASTARD
Drawn in the flattering table of her eye! Hang’d in the frowning wrinkle of her brow! And quarter’d in her heart! he doth espy Himself love’s traitor: this is pity now, That hang’d and drawn and quartered, there should be In such a love so vile a lout as he.”
* * *
“KING JOHN
Then do I give Volquessen, Touraine, Maine, Poictiers and Anjou, these five provinces, With her to thee; and this addition more, Full thirty thousand marks of English coin. Philip of France, if thou be pleased withal, Command thy son and daughter to join hands.
KING PHILIP
It likes us well; young princes, close your hands.”
“KING PHILIP
Now, citizens of Angiers, ope your gates, Let in that amity which you have made; For at Saint Mary’s chapel presently The rites of marriage shall be solemnized. Is not the Lady Constance in this troop? I know she is not, for this match made up Her presence would have interrupted much: Where is she and her son? tell me, who knows.
LEWIS
She is sad and passionate at your highness’ tent.
KING PHILIP
And, by my faith, this league that we have made Will give her sadness very little cure. Brother of England, how may we content This widow lady? In her right we came; Which we, God knows, have turn’d another way, To our own vantage.
KING JOHN
We will heal up all; For we’ll create young Arthur Duke of Bretagne And Earl of Richmond; and this rich fair town We make him lord of. Call the Lady Constance; Some speedy messenger bid her repair To our solemnity: I trust we shall, If not fill up the measure of her will, Yet in some measure satisfy her so That we shall stop her exclamation. Go we, as well as haste will suffer us, To this unlook’d for, unprepared pomp.
Exeunt all but the BASTARD
BASTARD
Mad world! mad kings! mad composition! John, to stop Arthur’s title in the whole, Hath willingly departed with a part, And France, whose armour conscience buckled on, Whom zeal and charity brought to the field As God’s own soldier, rounded in the ear With that same purpose-changer, that sly devil, That broker, that still breaks the pate of faith, That daily break-vow, he that wins of all, Of kings, of beggars, old men, young men, maids, Who, having no external thing to lose But the word ‘maid,’ cheats the poor maid of that, That smooth-faced gentleman, tickling Commodity, Commodity, the bias of the world, The world, who of itself is peised well, Made to run even upon even ground, Till this advantage, this vile-drawing bias, This sway of motion, this Commodity, Makes it take head from all indifferency, From all direction, purpose, course, intent: And this same bias, this Commodity, This bawd, this broker, this all-changing word, Clapp’d on the outward eye of fickle France, Hath drawn him from his own determined aid, From a resolved and honourable war, To a most base and vile-concluded peace. And why rail I on this Commodity? But for because he hath not woo’d me yet: Not that I have the power to clutch my hand, When his fair angels would salute my palm; But for my hand, as unattempted yet, Like a poor beggar, raileth on the rich. Well, whiles I am a beggar, I will rail And say there is no sin but to be rich; And being rich, my virtue then shall be To say there is no vice but beggary. Since kings break faith upon commodity, Gain, be my lord, for I will worship thee.
Exit”
“For grief is proud and makes his owner stoop.
To me and to the state of my great grief
Let kings assemble; for my grief’s so great
That no supporter but the huge firm earth
Can hold it up: here I and sorrows sit;
Here is my throne, bid kings come bow to it.”
“CARDINAL PANDULPH
Hail, you anointed deputies of heaven!
To thee, King John, my holy errand is.
I Pandulph, of fair Milan cardinal,
And from Pope Innocent the legate here,
Do in his name religiously demand
Why thou against the church, our holy mother,
So wilfully dost spurn; and force perforce
Keep Stephen Langton, chosen archbishop
Of Canterbury, from that holy see?
This, in our foresaid holy father’s name,
Pope Innocent, I do demand of thee.”
“KING PHILIP
Brother of England, you blaspheme in this.
KING JOHN
Though you and all the kings of Christendom
Are led so grossly by this meddling priest,
Dreading the curse that money may buy out;
And by the merit of vile gold, dross, dust,
Purchase corrupted pardon of a man,
Who in that sale sells pardon from himself,
Though you and all the rest so grossly led
This juggling witchcraft with revenue cherish,
Yet I alone, alone do me oppose
Against the pope and count his friends my foes.
CARDINAL PANDULPH
Then, by the lawful power that I have,
Thou shalt stand cursed and excommunicate.
And blessed shall he be that doth revolt
From his allegiance to an heretic;
And meritorious shall that hand be call’d,
Canonized and worshipped as a saint,
That takes away by any secret course
Thy hateful life.
CONSTANCE
O, lawful let it be
That I have room with Rome to curse awhile!
Good father cardinal, cry thou amen
To my keen curses; for without my wrong
There is no tongue hath power to curse him right.”
“KING JOHN
Philip, what say’st thou to the cardinal?
CONSTANCE
What should he say, but as the cardinal?
LEWIS
Bethink you, father; for the difference
Is purchase of a heavy curse from Rome,
Or the light loss of England for a friend:
Forego the easier.
BLANCH
The Lady Constance speaks not from her faith,
But from her need.
CONSTANCE
O, if thou grant my need,
Which only lives but by the death of faith,
That need must needs infer this principle,
That faith would live again by death of need.
O then, tread down my need, and faith mounts up;
Keep my need up, and faith is trodden down!
KING JOHN
The king is moved, and answers not to this.”
“KING PHILIP
Good reverend father, make my person yours,
And tell me how you would bestow yourself.
This royal hand and mine are newly knit,
And the conjunction of our inward souls
Married in league, coupled and linked together
With all religious strength of sacred vows;
The latest breath that gave the sound of words
Was deep-sworn faith, peace, amity, true love
Between our kingdoms and our royal selves,
And even before this truce, but new before,
No longer than we well could wash our hands
To clap this royal bargain up of peace,
Heaven knows, they were besmear’d and over-stain’d
With slaughter’s pencil, where revenge did paint
The fearful difference of incensed kings:
And shall these hands, so lately purged of blood,
So newly join’d in love, so strong in both,
Unyoke this seizure and this kind regreet?
Play fast and loose with faith? so jest with heaven,
Make such unconstant children of ourselves,
As now again to snatch our palm from palm,
Unswear faith sworn, and on the marriage-bed
Of smiling peace to march a bloody host,
And make a riot on the gentle brow
Of true sincerity? O, holy sir,
My reverend father, let it not be so!
Out of your grace, devise, ordain, impose
Some gentle order; and then we shall be blest
To do your pleasure and continue friends.
CARDINAL PANDULPH
All form is formless, order orderless,
Save what is opposite to England’s love.
Therefore to arms! be champion of our church,
Or let the church, our mother, breathe her curse,
A mother’s curse, on her revolting son.
France, thou mayst hold a serpent by the tongue,
A chafed lion by the mortal paw,
A fasting tiger safer by the tooth,
Than keep in peace that hand which thou dost hold.”
“It is religion that doth make vows kept;
But thou hast sworn against religion,
By what thou swear’st against the thing thou swear’st,
And makest an oath the surety for thy truth
Against an oath: the truth thou art unsure
To swear, swears only not to be forsworn;
Else what a mockery should it be to swear!
But thou dost swear only to be forsworn;
And most forsworn, to keep what thou dost swear.
Therefore thy later vows against thy first
Is in thyself rebellion to thyself”
“LEWIS
Father, to arms!
BLANCH
Upon thy wedding-day?
Against the blood that thou hast married?
What, shall our feast be kept with slaughter’d men?
Shall braying trumpets and loud churlish drums,
Clamours of hell, be measures to our pomp?
O husband, hear me! ay, alack, how new
Is husband in my mouth! even for that name,
Which till this time my tongue did ne’er pronounce,
Upon my knee I beg, go not to arms
Against mine uncle.
CONSTANCE
O, upon my knee,
Made hard with kneeling, I do pray to thee,
Thou virtuous Dauphin, alter not the doom
Forethought by heaven!”
“CONSTANCE
O fair return of banish’d majesty!
QUEEN ELINOR
O foul revolt of French inconstancy!
KING JOHN
France, thou shalt rue this hour within this hour.
BASTARD
Old Time the clock-setter, that bald sexton Time,
Is it as he will? well then, France shall rue.
BLANCH
The sun’s o’ercast with blood: fair day, adieu!
Which is the side that I must go withal?
I am with both: each army hath a hand;
And in their rage, I having hold of both,
They swirl asunder and dismember me.
Husband, I cannot pray that thou mayst win;
Uncle, I needs must pray that thou mayst lose;
Father, I may not wish the fortune thine;
Grandam, I will not wish thy fortunes thrive:
Whoever wins, on that side shall I lose
Assured loss before the match be play’d.”
“There where my fortune lives, there my life dies.”
“KING JOHN
Cousin, go draw our puissance together.
Exit BASTARD
France, I am burn’d up with inflaming wrath;
A rage whose heat hath this condition,
That nothing can allay, nothing but blood,
The blood, and dearest-valued blood, of France.
KING PHILIP
Thy rage sham burn thee up, and thou shalt turn
To ashes, ere our blood shall quench that fire:
Look to thyself, thou art in jeopardy.
KING JOHN
No more than he that threats. To arms let’s hie!
Exeunt”
“KING JOHN
Do not I know thou wouldst?
Good Hubert, Hubert, Hubert, throw thine eye
On yon young boy: I’ll tell thee what, my friend,
He is a very serpent in my way;
And whereso’er this foot of mine doth tread,
He lies before me: dost thou understand me?
Thou art his keeper.
HUBERT
And I’ll keep him so,
That he shall not offend your majesty.
KING JOHN
Death.
HUBERT
My lord?
KING JOHN
A grave.
HUBERT
He shall not live.
KING JOHN
Enough.
I could be merry now. Hubert, I love thee;
Well, I’ll not say what I intend for thee:
Remember. Madam, fare you well:
I’ll send those powers o’er to your majesty.
ELINOR
My blessing go with thee!
KING JOHN
For England, cousin, go:
Hubert shall be your man, attend on you
With all true duty. On toward Calais, ho!
Exeunt”
“HUBERT
Heat me these irons hot; and look thou stand
Within the arras: when I strike my foot
Upon the bosom of the ground, rush forth,
And bind the boy which you shall find with me
Fast to the chair: be heedful: hence, and watch.
First Executioner
I hope your warrant will bear out the deed.
HUBERT
Uncleanly scruples! fear not you: look to’t.
Exeunt Executioners
Young lad, come forth; I have to say with you.
Enter ARTHUR
ARTHUR
Good morrow, Hubert.”
“ARTHUR
Mercy on me!
Methinks no body should be sad but I:
Yet, I remember, when I was in France,
Young gentlemen would be as sad as night,
Only for wantonness. By my christendom,
So I were out of prison and kept sheep,
I should be as merry as the day is long;
And so I would be here, but that I doubt
My uncle practises more harm to me:
He is afraid of me and I of him:
Is it my fault that I was Geffrey’s son?
No, indeed, is’t not; and I would to heaven
I were your son, so you would love me, Hubert.
HUBERT
[Aside] If I talk to him, with his innocent prate
He will awake my mercy which lies dead:
Therefore I will be sudden and dispatch.”
“How now, foolish rheum!
Turning dispiteous torture out of door!
I must be brief, lest resolution drop
Out at mine eyes in tender womanish tears.
Can you not read it? Is it not fair writ?
ARTHUR
Too fairly, Hubert, for so foul effect:
Must you with hot irons burn out both mine eyes?
HUBERT
Young boy, I must.
ARTHUR
And will you?
HUBERT
And I will.”
“…Will you put out mine eyes?
These eyes that never did nor never shall
So much as frown on you.
HUBERT
I have sworn to do it;
And with hot irons must I burn them out.
ARTHUR
Ah, none but in this iron age would do it!
The iron of itself, though heat red-hot,
Approaching near these eyes, would drink my tears
And quench his fiery indignation
Even in the matter of mine innocence;
Nay, after that, consume away in rust
But for containing fire to harm mine eye.
Are you more stubborn-hard than hammer’d iron?
An if an angel should have come to me
And told me Hubert should put out mine eyes,
I would not have believed him,–no tongue but Hubert’s.
HUBERT
Come forth.
Stamps
Re-enter Executioners, with a cord, irons, & c
Do as I bid you do.”
“ARTHUR
Alas, what need you be so boisterous-rough?
I will not struggle, I will stand stone-still.
For heaven sake, Hubert, let me not be bound!
Nay, hear me, Hubert, drive these men away,
And I will sit as quiet as a lamb;
I will not stir, nor wince, nor speak a word,
Nor look upon the iron angerly:
Thrust but these men away, and I’ll forgive you,
Whatever torment you do put me to.
HUBERT
Go, stand within; let me alone with him.
First Executioner
I am best pleased to be from such a deed.
Exeunt Executioners”
“ARTHUR
Is there no remedy?
HUBERT
None, but to lose your eyes.
ARTHUR
O heaven, that there were but a mote in yours,
A grain, a dust, a gnat, a wandering hair,
Any annoyance in that precious sense!
Then feeling what small things are boisterous there,
Your vile intent must needs seem horrible.
HUBERT
Is this your promise? go to, hold your tongue.”
“Or, Hubert, if you will, cut out my tongue,
So I may keep mine eyes: O, spare mine eyes.
Though to no use but still to look on you!
Lo, by my truth, the instrument is cold
And would not harm me.
HUBERT
I can heat it, boy.
ARTHUR
No, in good sooth: the fire is dead with grief,
Being create for comfort, to be used
In undeserved extremes: see else yourself;
There is no malice in this burning coal;
The breath of heaven has blown his spirit out
And strew’d repentent ashes on his head.
HUBERT
But with my breath I can revive it, boy.
ARTHUR
An if you do, you will but make it blush
And glow with shame of your proceedings, Hubert:
Nay, it perchance will sparkle in your eyes;
And like a dog that is compell’d to fight,
Snatch at his master that doth tarre him on.
All things that you should use to do me wrong
Deny their office: only you do lack
That mercy which fierce fire and iron extends,
Creatures of note for mercy-lacking uses.
HUBERT
Well, see to live; I will not touch thine eye
For all the treasure that thine uncle owes:
Yet am I sworn and I did purpose, boy,
With this same very iron to burn them out.
ARTHUR
O, now you look like Hubert! all this while
You were disguised.
HUBERT
Peace; no more. Adieu.
Your uncle must not know but you are dead;
I’ll fill these dogged spies with false reports:
And, pretty child, sleep doubtless and secure,
That Hubert, for the wealth of all the world,
Will not offend thee.
ARTHUR
O heaven! I thank you, Hubert.
HUBERT
Silence; no more: go closely in with me:
Much danger do I undergo for thee.
Exeunt”
P EMBROKE
Then I, as one that am the tongue of these,
To sound the purpose of all their hearts,
Both for myself and them, but, chief of all,
Your safety, for the which myself and them
Bend their best studies, heartily request
The enfranchisement of Arthur; whose restraint
Doth move the murmuring lips of discontent
To break into this dangerous argument,–
If what in rest you have in right you hold,
Why then your fears, which, as they say, attend
The steps of wrong, should move you to mew up
Your tender kinsman and to choke his days
With barbarous ignorance and deny his youth
The rich advantage of good exercise?
That the time’s enemies may not have this
To grace occasions, let it be our suit
That you have bid us ask his liberty;
Which for our goods we do no further ask
Than whereupon our weal, on you depending,
Counts it your weal he have his liberty.
Enter HUBERT
KING JOHN
Let it be so: I do commit his youth
To your direction. Hubert, what news with you?
Taking him apart
“PEMBROKE
This is the man should do the bloody deed;
He show’d his warrant to a friend of mine:
The image of a wicked heinous fault
Lives in his eye; that close aspect of his
Does show the mood of a much troubled breast;
And I do fearfully believe ‘tis done,
What we so fear’d he had a charge to do.
SALISBURY
The colour of the king doth come and go
Between his purpose and his conscience,
Like heralds ‘twixt two dreadful battles set:
His passion is so ripe, it needs must break.
PEMBROKE
And when it breaks, I fear will issue thence
The foul corruption of a sweet child’s death.
KING JOHN
We cannot hold mortality’s strong hand:
Good lords, although my will to give is living,
The suit which you demand is gone and dead:
He tells us Arthur is deceased to-night.
SALISBURY
Indeed we fear’d his sickness was past cure.
PEMBROKE
Indeed we heard how near his death he was
Before the child himself felt he was sick:
This must be answer’d either here or hence.
KING JOHN
Why do you bend such solemn brows on me?
Think you I bear the shears of destiny?
Have I commandment on the pulse of life?
SALISBURY
It is apparent foul play; and ‘tis shame
That greatness should so grossly offer it:
So thrive it in your game! and so, farewell.
PEMBROKE
Stay yet, Lord Salisbury; I’ll go with thee,
And find the inheritance of this poor child,
His little kingdom of a forced grave.
That blood which owed the breadth of all this isle,
Three foot of it doth hold: bad world the while!
This must not be thus borne: this will break out
To all our sorrows, and ere long I doubt.
Exeunt Lords
KING JOHN
They burn in indignation. I repent:
There is no sure foundation set on blood,
No certain life achieved by others’ death.
Enter a Messenger
A fearful eye thou hast: where is that blood
That I have seen inhabit in those cheeks?
So foul a sky clears not without a storm:
Pour down thy weather: how goes all in France?
Messenger
From France to England. Never such a power
For any foreign preparation
Was levied in the body of a land.
The copy of your speed is learn’d by them;
For when you should be told they do prepare,
The tidings come that they are all arrived.”
“Messenger
My liege, her ear
Is stopp’d with dust; the first of April died
Your noble mother: and, as I hear, my lord,
The Lady Constance in a frenzy died
Three days before: but this from rumour’s tongue
I idly heard; if true or false I know not.”
“BASTARD
How I have sped among the clergymen,
The sums I have collected shall express.
But as I travell’d hither through the land,
I find the people strangely fantasied;
Possess’d with rumours, full of idle dreams,
Not knowing what they fear, but full of fear:
And here a prophet, that I brought with me
From forth the streets of Pomfret, whom I found
With many hundreds treading on his heels;
To whom he sung, in rude harsh-sounding rhymes,
That, ere the next Ascension-day at noon,
Your highness should deliver up your crown.
KING JOHN
Thou idle dreamer, wherefore didst thou so?
PETER
Foreknowing that the truth will fall out so.
KING JOHN
Hubert, away with him; imprison him;
And on that day at noon whereon he says
I shall yield up my crown, let him be hang’d.
Deliver him to safety; and return,
For I must use thee.
Exeunt HUBERT with PETER
O my gentle cousin,
Hear’st thou the news abroad, who are arrived?
BASTARD
The French, my lord; men’s mouths are full of it:
Besides, I met Lord Bigot and Lord Salisbury,
With eyes as red as new-enkindled fire,
And others more, going to seek the grave
Of Arthur, who they say is kill’d to-night
On your suggestion.
KING JOHN
Gentle kinsman, go,
And thrust thyself into their companies:
I have a way to win their loves again;
Bring them before me.
BASTARD
I will seek them out.”
“HUBERT
My lord, they say five moons were seen to-night;
Four fixed, and the fifth did whirl about
The other four in wondrous motion.
KING JOHN
Five moons!
HUBERT
Old men and beldams in the streets
Do prophesy upon it dangerously:
Young Arthur’s death is common in their mouths:
And when they talk of him, they shake their heads
And whisper one another in the ear;
And he that speaks doth gripe the hearer’s wrist,
Whilst he that hears makes fearful action,
With wrinkled brows, with nods, with rolling eyes.
I saw a smith stand with his hammer, thus,
The whilst his iron did on the anvil cool,
With open mouth swallowing a tailor’s news;
Who, with his shears and measure in his hand,
Standing on slippers, which his nimble haste
Had falsely thrust upon contrary feet,
Told of a many thousand warlike French
That were embattailed and rank’d in Kent:
Another lean unwash’d artificer
Cuts off his tale and talks of Arthur’s death.
KING JOHN
Why seek’st thou to possess me with these fears?
Why urgest thou so oft young Arthur’s death?
Thy hand hath murder’d him: I had a mighty cause
To wish him dead, but thou hadst none to kill him.
HUBERT
No had, my lord! why, did you not provoke me?
KING JOHN
It is the curse of kings to be attended
By slaves that take their humours for a warrant
To break within the bloody house of life,
And on the winking of authority
To understand a law, to know the meaning
Of dangerous majesty, when perchance it frowns
More upon humour than advised respect.
HUBERT
Here is your hand and seal for what I did.
KING JOHN
O, when the last account ‘twixt heaven and earth
Is to be made, then shall this hand and seal
Witness against us to damnation!
How oft the sight of means to do ill deeds
Make deeds ill done! Hadst not thou been by,
A fellow by the hand of nature mark’d,
Quoted and sign’d to do a deed of shame,
This murder had not come into my mind:
But taking note of thy abhorr’d aspect,
Finding thee fit for bloody villany,
Apt, liable to be employ’d in danger,
I faintly broke with thee of Arthur’s death;
And thou, to be endeared to a king,
Made it no conscience to destroy a prince.
HUBERT
My lord—
KING JOHN
Hadst thou but shook thy head or made a pause
When I spake darkly what I purposed,
Or turn’d an eye of doubt upon my face,
As bid me tell my tale in express words,
Deep shame had struck me dumb, made me break off,
And those thy fears might have wrought fears in me:
But thou didst understand me by my signs
And didst in signs again parley with sin;
Yea, without stop, didst let thy heart consent,
And consequently thy rude hand to act
The deed, which both our tongues held vile to name.
Out of my sight, and never see me more!
My nobles leave me; and my state is braved,
Even at my gates, with ranks of foreign powers:
Nay, in the body of this fleshly land,
This kingdom, this confine of blood and breath,
Hostility and civil tumult reigns
Between my conscience and my cousin’s death.
HUBERT
Arm you against your other enemies,
I’ll make a peace between your soul and you.
Young Arthur is alive: this hand of mine
Is yet a maiden and an innocent hand,
Not painted with the crimson spots of blood.
Within this bosom never enter’d yet
The dreadful motion of a murderous thought;
And you have slander’d nature in my form,
Which, howsoever rude exteriorly,
Is yet the cover of a fairer mind
Than to be butcher of an innocent child.
KING JOHN
Doth Arthur live? O, haste thee to the peers,
Throw this report on their incensed rage,
And make them tame to their obedience!
Forgive the comment that my passion made
Upon thy feature; for my rage was blind,
And foul imaginary eyes of blood
Presented thee more hideous than thou art.
O, answer not, but to my closet bring
The angry lords with all expedient haste.
I conjure thee but slowly; run more fast.
Exeunt”
ARTHUR
(…)
As good to die and go, as die and stay.
Leaps down
O me! my uncle’s spirit is in these stones:
Heaven take my soul, and England keep my bones!
Dies
Enter PEMBROKE, SALISBURY, and BIGOT”
“PEMBROKE
All murders past do stand excused in this:
And this, so sole and so unmatchable,
Shall give a holiness, a purity,
To the yet unbegotten sin of times;
And prove a deadly bloodshed but a jest,
Exampled by this heinous spectacle.
BASTARD
It is a damned and a bloody work;
The graceless action of a heavy hand,
If that it be the work of any hand.”
“HUBERT
Lords, I am hot with haste in seeking you:
Arthur doth live; the king hath sent for you.
SALISBURY
O, he is old and blushes not at death.
Avaunt, thou hateful villain, get thee gone!
HUBERT
I am no villain.
SALISBURY
Must I rob the law?
Drawing his sword
BASTARD
Your sword is bright, sir; put it up again.
SALISBURY
Not till I sheathe it in a murderer’s skin.
HUBERT
Stand back, Lord Salisbury, stand back, I say;
By heaven, I think my sword’s as sharp as yours:
I would not have you, lord, forget yourself,
Nor tempt the danger of my true defence;
Lest I, by marking of your rage, forget
Your worth, your greatness and nobility.
BIGOT
Out, dunghill! darest thou brave a nobleman?
HUBERT
Not for my life: but yet I dare defend
My innocent life against an emperor.
SALISBURY
Thou art a murderer.
HUBERT
Do not prove me so;
Yet I am none: whose tongue soe’er speaks false,
Not truly speaks; who speaks not truly, lies.
PEMBROKE
Cut him to pieces.
BASTARD
Keep the peace, I say.
SALISBURY
Stand by, or I shall gall you, Faulconbridge.
BASTARD
Thou wert better gall the devil, Salisbury:
If thou but frown on me, or stir thy foot,
Or teach thy hasty spleen to do me shame,
I’ll strike thee dead. Put up thy sword betime;
Or I’ll so maul you and your toasting-iron,
That you shall think the devil is come from hell.
BIGOT
What wilt thou do, renowned Faulconbridge?
Second a villain and a murderer?
HUBERT
Lord Bigot, I am none.
BIGOT
Who kill’d this prince?
HUBERT
‘Tis not an hour since I left him well:
I honour’d him, I loved him, and will weep
My date of life out for his sweet life’s loss.
SALISBURY
Trust not those cunning waters of his eyes,
For villany is not without such rheum;
And he, long traded in it, makes it seem
Like rivers of remorse and innocency.
Away with me, all you whose souls abhor
The uncleanly savours of a slaughter-house;
For I am stifled with this smell of sin.
BIGOT
Away toward Bury, to the Dauphin there!
PEMBROKE
There tell the king he may inquire us out.
Exeunt Lords”
“BASTARD
Ha! I’ll tell thee what;
Thou’rt damn’d as black–nay, nothing is so black;
Thou art more deep damn’d than Prince Lucifer:
There is not yet so ugly a fiend of hell
As thou shalt be, if thou didst kill this child.
HUBERT
Upon my soul–
BASTARD
If thou didst but consent
To this most cruel act, do but despair;
And if thou want’st a cord, the smallest thread
That ever spider twisted from her womb
Will serve to strangle thee, a rush will be a beam
To hang thee on; or wouldst thou drown thyself,
Put but a little water in a spoon,
And it shall be as all the ocean,
Enough to stifle such a villain up.
I do suspect thee very grievously.
HUBERT
If I in act, consent, or sin of thought,
Be guilty of the stealing that sweet breath
Which was embounded in this beauteous clay,
Let hell want pains enough to torture me.
I left him well.
BASTARD
Go, bear him in thine arms.
I am amazed, methinks, and lose my way
Among the thorns and dangers of this world.
How easy dost thou take all England up!
From forth this morsel of dead royalty,
The life, the right and truth of all this realm
Is fled to heaven; and England now is left
To tug and scamble and to part by the teeth
The unowed interest of proud-swelling state.
Now for the bare-pick’d bone of majesty
Doth dogged war bristle his angry crest
And snarleth in the gentle eyes of peace:
Now powers from home and discontents at home
Meet in one line; and vast confusion waits,
As doth a raven on a sick-fall’n beast,
The imminent decay of wrested pomp.
Now happy he whose cloak and cincture can
Hold out this tempest. Bear away that child
And follow me with speed: I’ll to the king:
A thousand businesses are brief in hand,
And heaven itself doth frown upon the land.
Exeunt”
“CARDINAL PANDULPH
(…)
On this Ascension-day, remember well,
Upon your oath of service to the pope,
Go I to make the French lay down their arms.
Exit
KING JOHN
Is this Ascension-day? Did not the prophet
Say that before Ascension-day at noon
My crown I should give off? Even so I have:
I did suppose it should be on constraint:
But, heaven be thank’d, it is but voluntary.
Enter the BASTARD
BASTARD
All Kent hath yielded; nothing there holds out
But Dover castle: London hath received,
Like a kind host, the Dauphin and his powers:
Your nobles will not hear you, but are gone
To offer service to your enemy,
And wild amazement hurries up and down
The little number of your doubtful friends.
KING JOHN
Would not my lords return to me again,
After they heard young Arthur was alive?
BASTARD
They found him dead and cast into the streets,
An empty casket, where the jewel of life
By some damn’d hand was robb’d and ta’en away.
KING JOHN
That villain Hubert told me he did live.
BASTARD
So, on my soul, he did, for aught he knew.
But wherefore do you droop? why look you sad?
Be great in act, as you have been in thought;
Let not the world see fear and sad distrust
Govern the motion of a kingly eye:
Be stirring as the time; be fire with fire;
Threaten the threatener and outface the brow
Of bragging horror: so shall inferior eyes,
That borrow their behaviors from the great,
Grow great by your example and put on
The dauntless spirit of resolution.
Away, and glister like the god of war,
When he intendeth to become the field:
Show boldness and aspiring confidence.
What, shall they seek the lion in his den,
And fright him there? and make him tremble there?
O, let it not be said: forage, and run
To meet displeasure farther from the doors,
And grapple with him ere he comes so nigh.
KING JOHN
The legate of the pope hath been with me,
And I have made a happy peace with him;
And he hath promised to dismiss the powers
Led by the Dauphin.
BASTARD
O inglorious league!
Shall we, upon the footing of our land,
Send fair-play orders and make compromise,
Insinuation, parley and base truce
To arms invasive? shall a beardless boy,
A cocker’d silken wanton, brave our fields,
And flesh his spirit in a warlike soil,
Mocking the air with colours idly spread,
And find no cheque? Let us, my liege, to arms:
Perchance the cardinal cannot make your peace;
Or if he do, let it at least be said
They saw we had a purpose of defence.
KING JOHN
Have thou the ordering of this present time.”
“CARDINAL PANDULPH
Hail, noble prince of France!
The next is this, King John hath reconciled
Himself to Rome; his spirit is come in,
That so stood out against the holy church,
The great metropolis and see of Rome:
Therefore thy threatening colours now wind up;
And tame the savage spirit of wild war,
That like a lion foster’d up at hand,
It may lie gently at the foot of peace,
And be no further harmful than in show.”
“LEWIS
(…)
And come ye now to tell me John hath made
His peace with Rome? What is that peace to me?
I, by the honour of my marriage-bed,
After young Arthur, claim this land for mine;
And, now it is half-conquer’d, must I back
Because that John hath made his peace with Rome?
Am I Rome’s slave? What penny hath Rome borne,
What men provided, what munition sent,
To underprop this action? Is’t not I
That undergo this charge? who else but I,
And such as to my claim are liable,
Sweat in this business and maintain this war?
Have I not heard these islanders shout out
‘Vive le roi!’ as I have bank’d their towns?
Have I not here the best cards for the game,
To win this easy match play’d for a crown?
And shall I now give o’er the yielded set?
No, no, on my soul, it never shall be said.”
“Trumpet sounds
What lusty trumpet thus doth summon us?
Enter the BASTARD, attended”
2a vez que essa mesma sequência de três linhas sucede na peça, uma no prólogo, outra no ato final.
“The youth says well. Now hear our English king;
For thus his royalty doth speak in me.
He is prepared, and reason too he should:
This apish and unmannerly approach,
This harness’d masque and unadvised revel,
This unhair’d sauciness and boyish troops,
The king doth smile at; and is well prepared
To whip this dwarfish war, these pigmy arms,
From out the circle of his territories.
That hand which had the strength, even at your door,
To cudgel you and make you take the hatch,
To dive like buckets in concealed wells,
To crouch in litter of your stable planks,
To lie like pawns lock’d up in chests and trunks,
To hug with swine, to seek sweet safety out
In vaults and prisons, and to thrill and shake
Even at the crying of your nation’s crow,
Thinking his voice an armed Englishman;
Shall that victorious hand be feebled here,
That in your chambers gave you chastisement?
No: know the gallant monarch is in arms
And like an eagle o’er his aery towers,
To souse annoyance that comes near his nest.
And you degenerate, you ingrate revolts,
You bloody Neroes, ripping up the womb
Of your dear mother England, blush for shame;
For your own ladies and pale-visaged maids
Like Amazons come tripping after drums,
Their thimbles into armed gauntlets change,
Their needles to lances, and their gentle hearts
To fierce and bloody inclination.
LEWIS
There end thy brave, and turn thy face in peace;
We grant thou canst outscold us: fare thee well;
We hold our time too precious to be spent
With such a brabbler.
CARDINAL PANDULPH
Give me leave to speak.
BASTARD
No, I will speak.
LEWIS
We will attend to neither.
Strike up the drums; and let the tongue of war
Plead for our interest and our being here.
BASTARD
Indeed your drums, being beaten, will cry out;
And so shall you, being beaten: do but start
An echo with the clamour of thy drum,
And even at hand a drum is ready braced
That shall reverberate all as loud as thine;
Sound but another, and another shall
As loud as thine rattle the welkin’s ear
And mock the deep-mouth’d thunder: for at hand,
Not trusting to this halting legate here,
Whom he hath used rather for sport than need
Is warlike John; and in his forehead sits
A bare-ribb’d death, whose office is this day
To feast upon whole thousands of the French.
LEWIS
Strike up our drums, to find this danger out.
BASTARD
And thou shalt find it, Dauphin, do not doubt.
Exeunt”
“KING JOHN
This fever, that hath troubled me so long,
Lies heavy on me; O, my heart is sick!
Enter a Messenger
Messenger
My lord, your valiant kinsman, Faulconbridge [Richard the Bastard],
Desires your majesty to leave the field
And send him word by me which way you go.“
“KING JOHN
Ay me! this tyrant fever burns me up,
And will not let me welcome this good news.
Set on toward Swinstead: to my litter straight;
Weakness possesseth me, and I am faint.
Exeunt”
ACT 5 SCENE 4 (na íntegra)
Another part of the field.
Enter SALISBURY, PEMBROKE, and BIGOT
SALISBURY
I did not think the king so stored with friends.
PEMBROKE
Up once again; put spirit in the French:
If they miscarry, we miscarry too.
SALISBURY
That misbegotten devil, Faulconbridge,
In spite of spite, alone upholds the day.
PEMBROKE
They say King John sore sick hath left the field.
Enter MELUN, wounded
MELUN
Lead me to the revolts of England here.
SALISBURY
When we were happy we had other names.
PEMBROKE
It is the Count Melun.
SALISBURY
Wounded to death.
MELUN
Fly, noble English, you are bought and sold;
Unthread the rude eye of rebellion
And welcome home again discarded faith.
Seek out King John and fall before his feet;
For if the French be lords of this loud day,
He means to recompense the pains you take
By cutting off your heads: thus hath he sworn
And I with him, and many moe with me,
Upon the altar at Saint Edmundsbury;
Even on that altar where we swore to you
Dear amity and everlasting love.
SALISBURY
May this be possible? may this be true?
MELUN
Have I not hideous death within my view,
Retaining but a quantity of life,
Which bleeds away, even as a form of wax
Resolveth from his figure ‘gainst the fire?
What in the world should make me now deceive,
Since I must lose the use of all deceit?
Why should I then be false, since it is true
That I must die here and live hence by truth?
I say again, if Lewis do win the day,
He is forsworn, if e’er those eyes of yours
Behold another day break in the east:
But even this night, whose black contagious breath
Already smokes about the burning crest
Of the old, feeble and day-wearied sun,
Even this ill night, your breathing shall expire,
Paying the fine of rated treachery
Even with a treacherous fine of all your lives,
If Lewis by your assistance win the day.
Commend me to one Hubert with your king:
The love of him, and this respect besides,
For that my grandsire was an Englishman,
Awakes my conscience to confess all this.
In lieu whereof, I pray you, bear me hence
From forth the noise and rumour of the field,
Where I may think the remnant of my thoughts
In peace, and part this body and my soul
With contemplation and devout desires.
SALISBURY
We do believe thee: and beshrew my soul
But I do love the favour and the form
Of this most fair occasion, by the which
We will untread the steps of damned flight,
And like a bated and retired flood,
Leaving our rankness and irregular course,
Stoop low within those bounds we have o’erlook’d
And cabby run on in obedience
Even to our ocean, to our great King John.
My arm shall give thee help to bear thee hence;
For I do see the cruel pangs of death
Right in thine eye. Away, my friends! New flight;
And happy newness, that intends old right.
Exeunt, leading off MELUN”
“LEWIS
Here: what news?
Messenger
The Count Melun is slain; the English lords
By his persuasion are again fall’n off,
And your supply, which you have wish’d so long,
Are cast away and sunk on Goodwin Sands.
LEWIS
Ah, foul shrewd news! beshrew thy very heart!
I did not think to be so sad to-night
As this hath made me. Who was he that said
King John did fly an hour or two before
The stumbling night did part our weary powers?”
“HUBERT
O, my sweet sir, news fitting to the night,
Black, fearful, comfortless and horrible.
BASTARD
Show me the very wound of this ill news:
I am no woman, I’ll not swoon at it.
HUBERT
The king, I fear, is poison’d by a monk:
I left him almost speechless; and broke out
To acquaint you with this evil, that you might
The better arm you to the sudden time,
Than if you had at leisure known of this.
BASTARD
How did he take it? who did taste to him?”
“BASTARD
Who didst thou leave to tend his majesty?
HUBERT
Why, know you not? the lords are all come back,
And brought Prince Henry in their company;
At whose request the king hath pardon’d them,
And they are all about his majesty.”
“PRINCE HENRY
It is too late: the life of all his blood
Is touch’d corruptibly, and his pure brain,
Which some suppose the soul’s frail dwelling-house,
Doth by the idle comments that it makes
Foretell the ending of mortality.
Enter PEMBROKE”
“PRINCE HENRY
O vanity of sickness! fierce extremes
In their continuance will not feel themselves.
Death, having prey’d upon the outward parts,
Leaves them invisible, and his siege is now
Against the mind, the which he pricks and wounds
With many legions of strange fantasies,
Which, in their throng and press to that last hold,
Confound themselves. ‘Tis strange that death
should sing.
I am the cygnet to this pale faint swan,
Who chants a doleful hymn to his own death,
And from the organ-pipe of frailty sings
His soul and body to their lasting rest.”
“There is so hot a summer in my bosom,
That all my bowels crumble up to dust:
I am a scribbled form, drawn with a pen
Upon a parchment, and against this fire
Do I shrink up.”
“PRINCE HENRY
O that there were some virtue in my tears,
That might relieve you!
KING JOHN
The salt in them is hot.
Within me is a hell; and there the poison
Is as a fiend confined to tyrannize
On unreprievable condemned blood.
Enter the BASTARD”
“O cousin, thou art come to set mine eye:
The tackle of my heart is crack’d and burn’d,
And all the shrouds wherewith my life should sail
Are turned to one thread, one little hair:
My heart hath one poor string to stay it by,
Which holds but till thy news be uttered;
And then all this thou seest is but a clod
And module of confounded royalty.”
“KING JOHN dies
SALISBURY
You breathe these dead news in as dead an ear.
My liege! my lord! but now a king, now thus.”
“What surety of the world, what hope, what stay,
When this was now a king, and now is clay?”
“SALISBURY
It seems you know not, then, so much as we:
The Cardinal Pandulph is within at rest,
Who half an hour since came from the Dauphin,
And brings from him such offers of our peace
As we with honour and respect may take,
With purpose presently to leave this war.
BASTARD
He will the rather do it when he sees
Ourselves well sinewed to our defence.
SALISBURY
Nay, it is in a manner done already;
For many carriages he hath dispatch’d
To the sea-side, and put his cause and quarrel
To the disposing of the cardinal:
With whom yourself, myself and other lords,
If you think meet, this afternoon will post
To consummate this business happily.
BASTARD
Let it be so: and you, my noble prince,
With other princes that may best be spared,
Shall wait upon your father’s funeral.
PRINCE HENRY
At Worcester must his body be interr’d;
For so he will’d it.”
“BASTARD
(…)
This England never did, nor never shall,
Lie at the proud foot of a conqueror,
But when it first did help to wound itself.
Now these her princes are come home again,
Come the three corners of the world in arms,
And we shall shock them. Nought shall make us rue,
Venho aqui tratar da gênese do sentimento de culpa. Defendo a tese, escorado em autores denominados imoralistas, de que a relação do indivíduo moderno com a culpa se assemelha à caça de uma longa e sinuosa serpente. A analogia ganha sentido quando se pensa que ao buscar incessantemente o rabo, e com ele jamais se deparar, o caçador apanha, tateando cego, de súbito, o que pensa ser uma das extremidades. E de fato: acaba de segurar a cobra pela cabeça. Ainda não era a cauda. A cauda é um enigma que, nesta minha história, jamais é desvendado. A pessoa inscrita na sociedade que busca “culpar alguém por alguma coisa” é um caçador de serpentes que acredita a todo tempo estar a ponto de se deparar com uma rabiça que chocalha. Há uma complexa relação entre “cena do crime” e “criminoso” que gostaria de desenvolver ao longo deste singelo ensaio.
Apurar um culpado é partir em busca da resposta: “quem fez?”, “de que consciência emanou a ação?”. Porém, tendo em vista conceitos lapidados ao longo de séculos como “indivíduo”, “volição”, “infração”, “acaso”, “antecedentes”, “conseqüências”, “testemunhos” e “confissões em júri”, torna-se impossível atingir um culpado ou uma penalização sobre os quais não recaia boa dose de incredulidade, mesmo revolta. O culpado e a penalização “ideais” ou “perfeitos” são o que se poderia chamar de cauda da serpente. Buscar a causa de uma cena e imputá-la a um sujeito é a prática mais corriqueira do propalado contrato social elaborado pelo homem branco europeu e hoje hegemônico no globo. Inicialmente, tal contrato era tácito, verbal ou hereditário. Filósofos então se acercaram do problema, evidenciaram-no, registraram-no, disseminaram a questão em diversos idiomas para que pessoas de épocas a partir dali pudessem consultá-la e quem sabe nela tomar parte. Houve até quem começasse a questionar a validade do contrato, sua engenharia, seus postulados, a natureza do homem. Pois se se necessita de um contrato, parece haver uma condição pré-contrato insustentável e que no entanto era o “previsível” ou “esperável”, o normal ou natural a suceder-se. Avessos ao contrato social renegam a moral cultivada pelo mundo ocidental e buscam novos valores para o homem, no que são vistos pelos compactuantes (assinantes do contrato) como imorais, apólogos do desrespeito ao contrato.
Contratos, de letras ou mais que isso, sempre podem ser quebrados. Diz-se que avalizam o ser com garantias, mas elas nunca são totalmente certas. Claro que se pode defender que é o suficiente e, ademais, o cume do possível. Infratores são prejudicados consensualmente; vítimas pontuais de infratores, algo sempre “fatal”, trágico, repentino, já que não podem ser evitadas, são aceitas e inscritas como “bodes expiatórios” insubstituíveis. Entra aqui uma expressão que gostaria de estender mais adiante ao autor da quebra de contrato, no ato de sua punição.
Assino o contrato. Acho que todos assinam o contrato ao nascerem em circunstâncias como as minhas. Mas sou contra o contrato. Enquanto não revogo minha assinatura, me limito ao que o leitor batiza de “plano teórico”, embora quem me conheça espere que eu não lance mão da dicotomia prática-teoria, por considerá-la uma barca furada. Fato é que enquanto não revogar minha assinatura e minha posição em acordo com o contrato social, caso ajam de modo ilegal contra mim serão punidos, o mesmo válido para mim. Não há escapatória: esqueci de dizer que quem não assina o contrato não existe. Não existe categoricamente neste mundo e não lhe pode ser agraciada nenhuma vantagem. Em um mar de milhões de pessoas e de coerção ultimada, significa que o indivíduo está condenado ao ostracismo mais cruel, provavelmente à inanição. Mesmo gangsters possuem um forte contrato social intra-grupo. Sou ciente do caráter absurdo de minha reivindicação aqui. Prossigo.
Assinar o contrato é proteger elementos para a própria existência esperando que uma instância que se põe à disposição de todos regule com sentenças negativas aqueles que ameaçarem a existência alheia. Assinar o contrato implica que caso aconteça uma ilegalidade (quebra de contrato), haverá um culpado pronto a indenizar, seja a vítima em si, seja a tal instância central-mediadora (aqui, o Estado, sistema de justiça). Portanto, assinar o contrato é reservar à disposição, quando necessário, um caçador de cauda de cobra. E se digo que é impossível obtê-la? Já o disse. O leitor o sabe. O leitor pode também alegar que há uma “proximidade do rabo suficiente para tornar as coisas justas”, ou ponderar que inexiste “medida melhor”. Discordarei até o final, mas reconheço que minha voz não é estridente o bastante para calar as ontologias dessas preferências, as motivações singulares de cada um. Adoraria um mundo em que houvesse mais e mais vozes desafiantes como a minha… Atenção!
Há uma confusão muito grande entre dois pares de coisas que me faz preferir a rasura da minha assinatura do contrato. Eis os pares: condicionamento/incondicionamento, sujeito/predicado. Há razões lingüísticas e históricas para crer que o mundo moderno erra ao propor dicotomias o tempo inteiro. A idéia de que há alguém para ser responsabilizado por uma “cena” precisa ser afastada. Tradicionalmente, devido à individualização das relações sociais, há sempre um autor para uma ação, sempre um sujeito para um predicado. É até difícil de engolir, para uma proporção extremamente elevada desta “realidade competitiva” que se diga que a distinção entre eu e outros e entre pessoa e meio não é correta! Não existem pessoas. Pessoas são palavras. Houve enormes equívocos na relação entre ser (sujeito) e objeto (entenda como mundo) que amalgamaram a vivência. Os “autores do contrato” (não cairei no erro de buscar um rabo de cobra, mas preciso ser sintético) são gerações sucessivas de filósofos que partiram de pressupostos convenientes ao dogma cristão, por sua vez associado a condições que surgiram no falecimento do mundo grego… Percebe como eu poderia seguir para trás até chegar a lugar algum? Esta foi uma caçada sinuosa a um apetitoso rabo. Pois bem, nos atenhamos na parte frontal do comboio: considero filósofos como Platão, Kant, os existencialistas do século XX e alguns outros no decorrer da linha do tempo como contribuintes deste modo de pensar. Porém não os quero prender, nem mesmo malograr! Queria mostrar a gênese do sentimento de culpa.
Tais pensadores propõem o pensamento, a razão humana, como algo incomensuravelmente único, pertencente ao sujeito, inalienável. Através dessa razão efetuam-se inter-relação ser-ser e ser-objeto. Efetuam-se predicados advindos de um ser. Não há predicado sem ser. O cristianismo coloca coisas inexplicáveis a cargo de uma entidade chamada deus. O homem moderno deixa deus um pouco de lado (para intervir somente quando cômodo) e convoca o Estado e mecanismos de “impessoalidade” para representar um grande número de pessoas como se fossem uma só (o Brasil como uma pessoa de 200 milhões de “rostos”). O autor do mundo é deus. O mundo é o predicado de um sujeito. O crime é o predicado do criminoso. Alguém comete, alguém é responsável. O ser tem a primazia. Mas o que é o ser?
Este debate está ficando muito extenso! Nunca vou resolvê-lo com propriedade magnânima se não estiver da espessura de um livro, mas eu disse que seria um ensaio singelo. Singelo no sentido de que não deve ser muito longo, embora não seja breve para o que um leitor gostaria de ler. Nunca se tem tempo para ler. Um blog de uma pessoa nada ilustre, então…
Eu falei de Deus. Ou deus. Existe também um par que ingressa agora no jogo, o condicionado/incondicionado. Tudo que é cobra, ou filamento de cobra, evento envolvido num emaranhado de outros, sendo causa de uns tantos e causador de outros mais, é condicionado. Só se pensa existir um autor para uma quebra de contrato porque alguém promove uma ação. Ações sempre estão ligadas a sujeitos delimitados, no mundo moderno. Pode parecer estranho, mas nem sempre foi assim. No mundo grego talvez não se dissesse “somos três pessoas”. Poder-se-ia contá-las, mas não no sentido que conhecemos. Seríamos parte de um todo indivisível. O incondicionado respeita essa idéia. O mundo é o caos. Qualquer tentativa lógica de pintar suas motivações redunda em fracasso, insuficiência. Nada está em relação com nada na medida em que tudo está em relação com tudo. Digamos que o grego ainda assuma que a teia de eventos e fatos seja uma cobra, uma cobra das grandes, mas que o homem grego não age como caçador de cauda. Se se pensa que tudo tem uma origem, há o problema da origem em si: o primeiro fato, a primeira ação, o primeiro ser, quem os trouxe ali? Deus serve para preencher essa lacuna como ninguém no mundo moderno. Pasmem aqueles que não sabiam muito sobre os gregos: eles não precisam de um deus!
Deus é tratado como todo-poderoso, onipotente, essa é sua razão de nos ser afigurável (paradoxo?!). Ele é incondicionado porque está além de qualquer causalismo, é independente e autônomo. Porém, como explicar que proviemos do incondicionado e somos condicionados? Mesmo os extensos poderes da criatura não depõem a seu favor. Na Grécia Arcaica aceita-se o mundo como eu penso que ele seja, um amontoado de caracteres incondicionados. Esbarraremos em perguntas por parte do leitor como “mas então de onde você acha que veio tudo?”. Não ficarei devendo esta resposta, mas devemos continuar até ela ser respondida!
O mundo moderno quer o condicionamento, mas como é complexo e na verdade impossível atingir o rabo da cobra, ele adiciona uma cláusula de incondicionamento ao contrato. Tudo isso para salvar a plausibilidade do binômio sujeito/predicado. Afinal, alguém tem de pagar por ter matado ou roubado alguém, ou antes, as pessoas precisam ser incutidas do medo para se sentirem seguras. Que belo vaivém!
Viu-se que são binômios assimétricos, deficientes. Não andam direito, não estão em compasso. Na Grécia está presente a idéia do incondicionado em sua totalidade, e agora não precisamos nos preocupar com cobras, autores, punições. O que parece punição, ao ocidental contemporâneo, o que faz vezes de castigo, não passa de “fato”, evento desligado de outros antes e depois de sua ocorrência. Chama-se a isso de ética trágica, um substituto do contrato social. Mente quem para me desmoralizar trata seres humanos que não pensam num contrato social como incapazes de viver, de estabelecer existências a longo prazo, viáveis. Além disso, “viável” é diferente aqui e acolá. A ética trágica preconiza que ninguém pode evitar desgraças, porém as desgraças são a chave da existência grandiosa, de quem quer ser lembrado em todos os tempos. Na Grécia clássica (pré-socrática), homem feliz é aquele que está “vencendo todo dia”. Pois, sem contrato, sua exposição a perigos permite que a sucessão de seus dias seja um contraste entre o perder e o ganhar. E o ganhar do grego, o prazer, só pode nascer do perder e do desprazer que lhe são anteriores. Dizem que o mundo ocidental tem um pouco disso: a ética da quantidade de vitórias! Mas isso é uma tendência que só pode se acentuar no futuro. Presentemente, é benquisto deitar-se e acalmar-se, dar-se a si mesmo uma vitória que permaneça. Outra vez já disse que a natureza não gosta de equilíbrios, e isso depõe contra a prática do contrato. Contratos são feitos para serem quebrados, parece saber o advogado, embora neste exato momento ele se acanhe. Parecemos viver em uma ânsia por cometer um crime. Essa vontade é a vontade de ser grego. Penso que minha antipatia pelo contrato já ganhou novos contornos! Pude explicar por um texto que não sou louco, mas apenas um “nostálgico”…
Complementarmente, para evitar buracos neste texto, me adensarei em alguns pontos. Se quiser, pode me abandonar. Intuo que eu esteja sendo interessante e você não vai partir.
Kant e seu imperativo categórico são as maiores salvaguardas da ética não-trágica, quer seja, da culpa e do contrato. Diz esse imperativo ele que a felicidade está em Deus ter fundado o mundo para que respeitemos uns aos outros, vivamos em comunhão. Persisto em que essa é uma prática maléfica que humilha o homem…
Eu diria que o mundo grego não é mais fraco por não ter um Deus. Antes, ele tem vários deuses. Mas esses deuses não são morais, não se preocupam com imputar autoria de ações a ninguém, tampouco se ocupam minutos que sejam com aquelas letrinhas pequenas de contratos… É uma liga poderosa. Já o Ocidente possui uma perna só. Para mim, o único alicerce da construção chamada “nosso mundo” é a palavra culpa. Se ela fenecer, todos os contratos serão cancelados.
Vou tentar convencê-lo a se juntar a mim e me encaminhar para a intrincada resposta que prometi (“mas então, de onde veio tudo?”). Mas para isso preciso fugir um pouco do assunto: conheci um homem – não pessoalmente – que antecipou todas as descobertas das ciências naturais no século XX, mesmo pertencendo ao século XIX e sendo um filósofo. Seu nome era Friedrich Wilhelm Nietzsche. Ele não é muito reconhecido pelos seus feitos. Sua principal descoberta foi que a natureza não existe, tal como pensamos, de forma absoluta. Ela não é o que ela é. O que vemos não pode ser, não existe a verdade, fixa, se quisermos chegar à VERDADE DAS COISAS. Nietzsche desvendou como ninguém as armadilhas da verdade. Podemos dizer que se trata de uma cobra. Quando dizemos que alguém é um criminoso pensamos estar enunciando uma verdade. Nietzsche resgatou o espírito grego e foi capaz de perceber que a verdade não pode nem QUER ser apanhada. Este é o problema: para que o rabo? Na verdade, antes que seja um desconsolo, seu enunciado é um consolo: “O único motivo da existência é não seguir qualquer motivo”. Não sei como imaginar uma vida que caminha para um propósito rijo no horizonte. Pode o indivíduo que lê se pensar como condicionado, realmente? A sociologia faz isso, tem essa missão. Ciência das mais recentes, sua principal sobrevivência é negar o livre-arbítrio individual, porque ela se escora na existência de uma sociedade onde tudo é “causado”. O velho papo do rabo… Anulando-se a individualidade em plena sociedade que valoriza supremamente o indivíduo, chega-se a uma crise irreversível. E pensar que o sujeito está sozinho é naufragar. O melhor é ser grego e entender que não existe indivíduo ou não-indivíduo. Está tudo misturado. De quem é a culpa, se a sociologia se encarrega de buscar as razões pela ocorrência de crimes? O leitor tem esperanças de que eu admita a captura da cauda da serpente? Não! A sociologia não se resolveu com essa culpa, com esse “bode expiatório”. Ou se resolveu, a sua maneira: se tudo está entrelaçado e o criminoso cometeu a ilegalidade devido a circunstâncias sociais, e estas nasceram de outras, que por sua vez nasceram da natureza em evolução, que por sua vez principiou-se do cosmos, que nasceu a dado momento de algum ato, o único culpado é este ato 1. O ato 1 é a criação do universo por Deus. Agora descortinei este deus: aparenta todo-poder, é todo-desgraça. O ocidental, o homem moderno, culpa a existência por um ato criminoso. Se o sujeito supremo é deus, todos os predicados são seus crimes. E o pior é que a autonomia do indivíduo se subjuga a ser predicado, ou seja, ao zero. É uma engenharia completamente falha. A vida no contrato social parece um teatro horroroso do qual não se pode escapar: cadê o autor da peça? O homem não é mais digno no momento em que se revolta contra o autor do contrato que julga ser imprescindível sem saber quem ele é e sem saber por onde começar a rasgar a peça jurídica; e caso ele entenda tudo o que eu disse, tem vergonha por seus pares, que não o farão, impossibilitando que ele mesmo seja um perfeito grego. Ser grego é ser deus, neste aspecto. Se tudo se imbrica, que se assuma a responsabilidade por tudo e por nada ao mesmo tempo!
Essencialmente, na natureza não existe nada que não se contradiga. Um criminoso é uma figura sempre ambígua. Um átomo é ambíguo. Nada é preciso. A vida é uma dança, um enigma, que nunca quer ser descoberto. Uma cobra não sibila reta. O fenômeno não existe em si. O próprio fenômeno é uma perspectiva. O mundo é muito mais rico do que aparenta. Não significa que nada seja real, mas que existe uma realidade para cada observador, e elas se sobrepõem, formando uma cornucópia impensável para o melhor dos criadores. Por isso o mundo não possui um autor. Como por trás de uma perspectiva há sempre uma criação ou ensaio de sentido, o Ocidente disso se aproveita para instalar a culpa. O Júri é uma instância observacional tão rica quanto qualquer pessoa, mas se diz acima de todas elas para julgar o ato como foi. Ora, não existe ato como foi! Além do mais, atos são atos e não podem ser negados. Tudo no cosmo se afirma. Crimes (que só recebem esse nome porque há sujeito – sem o ser, tudo são atos, apenas criminosos, apenas não-criminosos ou tão-somente atos puros, sem distinção, de qualquer forma) são atos. Irreversíveis. Apesar de existir o que se possa chamar de vingança, a vingança é um ato recomeçado. Não pode existir um centro de onde emana uma “punição”. Esta instância central está cometendo aí um crime, mas o homem não precisa se eximir de cometê-los e assistir o cometimento de ilegalidades de forma indireta. É uma prisão, uma revolta gerada pelo contrato e pelo conceito do Deus uno.
Para encerrar, um adágio em homenagem aos gregos, que acertaram, porque ao não pensar num contrato atingiram a imortalidade: “algo para ser eterno tem de acontecer só uma vez”. O universo é um anel, não uma cobra! Sua cauda é sua cabeça, sua origem é a mesma coisa que o seu desfecho. Este o enigma supremo do universo, porém eu não o descobri: enunciar uma verdade é perdê-la no instante em que ela sai das entranhas, para ser adotada de diferentes prismas, sempre em mutação, sempre em passos de dança. Agora a resposta “de onde veio tudo”: não acredito num deus que nos criou, em Kant, no contrato e na covardia. Eu acredito em uma economia invertida, em que o máximo esforço gera os menores resultados, e em que todos fazem o máximo de esforço.Há que haver riqueza. Quem possui mesmo a riqueza, riqueza de vida, tem o bastante para dar sem pedir nada em troca. Eu acredito que o universo jamais começou a começar e jamais cessará de terminar, embora ele comece e termine nalgum dia, para os que nele estão. Ele reverbera indefinidamente… Creio que a natureza seja traiçoeira e magnífica o suficiente para se ter engendrado isso: assim, jamais foi o “nada” e jamais rumará para um fim fixo, apenas se auto-afirmará perpetuamente… No anel, posso inverter o espaço-tempo, não existe antes e depois, e dizer que eu nasci porque neste momento de minha vida, aos 20 anos, decidi que devia nascer…
Republicação de artigo de 19/09/2008.Alterações apenas cosméticas nos grifos.
Ouso afirmar que o dilema do ensino superior no Brasil (Terceiro Mundo)¹ não reside em pontos abordáveis por qualquer campanha partidária e que o jovem que não vota pouco tem a ver com isso: antes, diria que aquele que se compraz em votar intensifica o problema!
¹ Não autorizo a interpretação de que “elogio” sistemas de “Primeiro Mundo” ao fazer desde o primeiro parágrafo uma crítica tão-somente ao “nosso mundo”, mas, como veremos abaixo, ao menos nestes lugares há uma maior qualidade no atendimento de serviços básicos, até para o cidadão que pode contribuir com muito pouco. De qualquer modo, ao avançar em minha argumentação deixo claro que não salvo países, muito pelo contrário: condeno todos os Estados.
Apesar da democracia se apresentar como o sistema menos inadequado de gestão do povo – ou de instituições –, sua controvérsia por excelência (eu diria “pouca vergonha”) é que constrange o indivíduo à participação, por uma rede de meios.
Em uma democracia de último tipo é absolutamente incorruptível o direito do cidadão ao alheamento. Vê-se que os direitos ativos são prometidos e não mais que parcialmente cumpridos: todos, constitucionalmente, teriam acesso à informação; não é o que acontece. Além disso, posso questionar o valor da informação em uma sociedade do espetáculo de massa. Poderia questionar qualquer tipo de serviço do Estado. Há dúvida em se o esgoto é melhor do que a falta de saneamento. Em uma grande cidade, certamente é uma bela solução provisória; mas o problema dos detalhes hiberna e ressuscita à frente. Paralelamente, posso apontar pequenas povoações em que a ausência de encanamentos representa facilidade de vida e bem-estar, porque o lixo de poucas casas não chega a agredir o meio ambiente. Aliás, povoados mais isolados e que não sucumbiram à tara da industrialização não possuem o que se pode chamar de lixo. Ilustrativamente, o tão danoso plástico é algo industrial. Nenhum indígena poderia “poluir” a natureza, no sentido que nós mesmos criamos para nossas porcarias… Nada essencial para o aborígene fica mil anos em deterioração como uma lata de Coca. E, cá entre nós, quer lugar mais imundo que o subterrâneo citadino? Porém, interrompamos esta última parte da digressão!
Eu me referia ao direito ao alheamento: a priori, é mais simples de fazê-lo valer do que a demagogia ou falácia da “benesse para todos” (os exemplos citados da televisão e jornais e do sistema de esgoto). Isso porque não há dependência econômica, não se lida com recursos escassos. O indivíduo que não incomoda a liberdade do próximo para desfrutar a sua, dando predileção à TV desligada, ao jornal na lixeira (não que o problema do excesso de lixo seja seu!) e à indiferença quanto à prestação de serviços pelo governo (“eles não recolhem meu lixo, em contrapartida eu não pago impostos”), é o modelo preciso do cidadão que quer e pode, segundo a lei, “alienar-se” do coletivo. Vê-se que, em verdade, apesar de uma ou outra baixa na receita, gostos voltados para a misantropia são apreciáveis da ótica do Estado. Basta não o olhar, o dispêndio zero, e a administração quita com suas obrigações para com o sujeito; o sujeito adora esta situação, está de acordo. Há reciprocidade, mutualidade. A democracia permite acordos tácitos em que “ninguém se mexe para não perturbar e não ser perturbado”. Assim como, não esqueçamos, jamais veda o caminho de quem quer participar, custe o que custar. O mundo perfeito!
Não obstante, essa é apenas a descrição normativa básica do paradigma democrático: não se sustenta após observações. O quadro real apresenta incongruências nos dois pólos: o cidadão ativo é submisso ao Estado e dele não recebe “recompensas” o suficiente (o que, aliás, produz em muitos a vontade de tornarem-se passivos); o cidadão passivo não consegue “não agir”. Disserto aqui sobre este segundo malefício, limitação congênita de democracias até onde as conheço. Em suma, pedimos ao poder central para não participarmos, aceitando as conseqüências (por mais que nos digam que tal atitude é prejudicial, fazemos um balanço interno e consideramo-la uma postura vantajosa!), no entanto a “máquina” não aceita nossa escolha. A falha clamorosa é que o Estado declara respeitar essa vontade de omissão; mas, na prática, pune o omisso (para não falar do ativo). Portanto, a afronta à liberdade é clara e venho por meio deste manuscrito denunciá-la. É verdade que esse meu ato se afigura como “luta ativa”, mas direciono-o tão-somente ao círculo mais próximo com o intuito de explicitar os motivos irrefutáveis de minha não-participação nas eleições da UnB, evidenciando uma crível superioridade da passividade em relação à atividade.
a) Findo este PRELÚDIO, adentremos o concreto.
De volta à universidade subdesenvolvida e votantes e não-votantes, observo que ontem, no campus Darcy Ribeiro, dia 18 de setembro de 2008, no último dia do primeiro turno para eleição do novo reitor, havia uma forte pressão, proveniente dos fiscais ou ativistas das chapas concorrentes (dir-se-ia, antigamente, “massa de manobra da inteligência”; dir-se-ia, por estarmos onde estamos, que eles SÃO a intelligentsia; mas me recuso – são ovelhas!), para quem ainda não havia votado e não demonstrava ímpeto para tal, votar. Uma pressão indevida e onipresente nos corredores do Minhocão: dificilmente se é indulgente ao ponto de vista de que “alienar-se” do processo eleitoral é já, em si, uma escolha. Argumenta-se, do lado de lá, que “sempre é melhor exercer seu voto”. Eu não compartilho desta tese. Todavia, exceto por esta carta, não tento demover quem pensa diferentemente de mim. Aí está o intenso paroxismo do “espírito democrático”.
b) Razões menos abstratas de “por que não voto” e da situação periclitante da universidade em relação profunda com a ruína do Ocidente² (e com a mediocridade da população, resultado dos impulsos democráticos):
² Ocidente, neste contexto: modelo desenvolvimentista, mundo moderno, crença no Iluminismo e preponderância do espírito apolíneo na condução das vidas (Idealismo, a vida fora da vida!).
O problema mais profundo é o SISTEMA ELEITORAL. É o MEIO URBANO. É a SOCIEDADE OCIDENTAL em todos os seus pressupostos. Devo dizer que enquanto perdurarmos neste modo infecundo de viver não VOTAREI. NUNCA votarei, pois o correto é não votar. A seguir exponho razões individuais para não ter votado ontem:
– Meu peso é nulo – em escala de Brasil, DF, UnB e mesmo em uma sala – geralmente defendo o indefensável para a moral que vigora; penso que se fossem somente eu e mais dois, eu seria provavelmente a minoria. Mas independentemente de uma personalidade avessa à mediania ou não, há total irrelevância do cidadão que vota. Note-se que eu sou um. Nunca vi uma eleição ser definida por um voto. Qualquer votante fervoroso sabe que não muda o menor estilhaço do espectro político. Corneteiros, que querem transformar seu voto em cem votos, pelas mãos e cabeças dos outros, são uma figura proibida na eleição politicamente correta (pois é dela que trato aqui – não preciso citar quem fere as liberdades individuais, quem age por interesses segundos, sempre a serviço de um poderoso, ou do candidato que mexe pauzinhos para se auto-eleger… Essas condutas são óbvias, qualquer um constata, e já demonstram per se a falência do ideal democrata… E eu aqui bancando o SALVACIONISTA… Nem deveria discutir com vocês!). Porém, mesmo para a eleição definida por UM voto, sua responsabilidade é nula, acredite. Como alguém poderia dizer “se eu votasse na legenda adversária, o resultado seria integralmente diferente”, todos os demais o poderiam! Isso implica que a responsabilidade é indizivelmente dividida. Não sobra nada. Nunca se é responsável, é a conclusão. A democracia é uma fuga da responsabilidade! Parece que não se vive, é um desperdício votar… Se ainda não se convenceu, devo explicar o mecanismo “democrático” da Universidade de Brasília: o mais votado pelos estudantes/professores/funcionários (e é muito mais sadio pensar que professores escolhem um reitor ao invés de jovens inconseqüentes em curto estágio por estas bandas) não é automaticamente eleito. Na verdade, longe disso. Mesmo os dois candidatos de segundo turno podem ficar alijados da cadeira de reitor. As eleições servem apenas para que seja submetida uma lista tríplice ao Ministério da Educação, que adotará os próprios critérios. Anula-se ainda mais um peso individual que tangia ao zero! Em suma, eu, pelo menos, tenho coisas muito mais terríveis e homéricas com as quais me preocupar – uma delas é o que fazer no domingo eleitoral se não tem futebol na tevê nem se vota para vereador ou prefeito em Brasília…
– Há obscuridade e interesses vis em cada um dos candidatos. Pouco pude conhecer destes renomáveis senhores e seus vices, nas páginas de jornais internos. Mas não só pode haver parcialidade por parte do jornalista como fica clara a vacuidade de cada programa. Todos bastante homogêneos entre si, parece ser o detalhe de uma barba grisalha ou de um sorriso ameaçador os fatores decisivos na escolha do aluno. E pelo que pude perceber, todas as candidaturas eram irregulares! Panfletagem em locais proibidos e posse de empresas privadas, coisas inconstitucionais… Não se vota em ladrão! O mais grave mesmo é o amontoado de santinhos e filipetas, que poderia ir para o lixão e ser tratado (reciclado), mas que devido ao recomeço da estação de chuvas escorreu em grosso para os esgotos, amplificando o problema já tratado mais acima.
– Uma universidade não pode primar pela democracia, é um lugar para relações hierárquicas. A universidade não é uma coisa engraçada? O conceito de uma instituição superior de ensino em si já muito me assusta, e ainda mais a micro-democracia em algo que exige tamanha verticalidade (professor x aluno). Tenho pena de quem panfletou em nome do 70 e alguma coisa… A universidade não tem lugar em meu cardápio de estimas porque está imbricada em uma legião de equívocos: “mercado de trabalho”, “boletins de desempenho” e “intenso convívio com PADRÕES” são aviltamentos indizíveis à vida!
Proponho eu a varredura completa. A universidade terá sempre, nestes moldes, um limite baixo de recursos. Os “revolucionárias da reitoria” não o desfrutarão: o capital inundará as engenharias. Por mais que seja reconstruído por pessoas diferentes (José Geraldo?), seu sucateamento é inevitável. Vivemos em uma nação herdeira de uma filosofia perfeita de “como tornar almas miseráveis”. A UnB não muda sem que mude primeiro o sistema-mundo. Mas num sistema-mundo transcendido (adequadamente!) inexistem universidades… Não quero melhorar a UnB porque quero destruí-la – eis a minha essência. Sou um verme latente. Uma larva que hiberna antes de amadurecer e inocular seus filhotes nos bebedouros – todos beberão e serão arruinados, se fracos. Haverá também muito veneno do esgoto, este mundo de porcalha próprio dos ocidentais!
Discurso em autodefesa, contra as acusações de Demóstenes, promotor do caso. O contexto histórico é Atenas sob a dominação de Filipe da Macedônia. A “Embaixada” se refere a uma comitiva de dez embaixadores escolhidos por Atenas para negociarem a paz na Macedônia. Tanto Ésquines como Demóstenes faziam parte desta dezena. Ambos têm versões diferentes sobre quem dos dois agira como traidor da pátria na mal-sucedida viagem. Demóstenes possui um discurso, a que este retorque, chamado hoje, para diferenciá-lo de seu homônimo (e antípoda), On the FALSE Embassy.
“But when it is a question of solicitude for the interests of the state, one solitary man stands out in all his speech—Demosthenes; all the rest are traitors! For he has unceasingly insulted us and poured out his slanderous lies, not upon me alone, but upon the rest as well”
“But we, who have shrines and family tombs in our native land, and such life and intercourse with you as belong to free man, and lawful marriage, with its offspring and connections, we while at Athens were worthy of your confidence, or you would never have chosen us, but when we had come to Macedonia we all at once turned traitors! But the man who had not one member of his body left unsold, posing as a 2ndAristeides <the Just>, is displeased, and spits on us, as takers of bribes.
“and when Pausanias was coming back to contend for the throne,¹ an exile then, but favoured by opportunity and the support of many of the people, and bringing a Greek force with him, and when he had already seized Anthemon, Therma, Strepsa and certain other places, at a time when the Macedonians were not united, but most of them favoured Pausanias: at this crisis the Athenians elected Iphicrates as their general to go against Amphipolis [no tempo desta ação, future colônia ateniense; ex-colônia ateniense, no momento do discurso de Ésquines]—for at that time the people of Amphipolis were holding their city themselves and enjoying the products of the land.” Vê-se, também, por extensão, que neste tempo Atenas formava uma coalisão imperialista com a Macedônia.
¹ Da dividida Macedônia. Segue explicação do tradutor: “Amyntas, king of Macedonia, left 3 sons, Alexander, Perdiccas, and Philip. Alexander succeeded his father, but after a short reign he was assassinated. His mother Eurydice with her paramour Ptolomaeus took the throne. Her power was threatened by Pausanias, a member of a rival princely house.”
(*) “Amyntas, hard pressed by his Illyrian and Thessalian neighbors, had at one time been driven from his throne by a rival prince. After 2 years, he was restored to power by help of Sparta and Athens. [!] It is conjectured that this was the occasion of his adoption of the Athenian Iphicrates, one of the most capable leaders of mercenary troops.”
Toda a controvérsia do princípio do discurso de defesa está em que a Macedônia tomou Anfípolis para si. Mas teria sido direito de conquista, subtraindo-a dos atenienses, ou uma “tirania”, uma usurpação de uma ainda-colônia de Atenas? Melindres e filigranas…
Ésquines diz que Demóstenes, o último da comitiva a falar com Filipe, desmaiou de nervoso.
“he … having forgotten what he had written, was unable to recover himself; nay, on making a 2nd attempt, he broke down again. Silence followed; then the herald bade us withdraw.”
“And when we were all dining together at Larisa, he made fun of himself and the embarrassment which had come upon him in his speech, and he declared that Philip was the most wonderful man under the sun.”
“In referring to me he said something like this: that I had not disappointed the hopes of those who elected me to the embassy. And to cap it all he moved that each of us be crowned with a garland of wild olive because of our loyalty to the people, and that we be invited to dine on the morrow in the Prytaneum. To prove that I have spoken to you nothing but the truth, please let the clerk take the decree, and let him read the testimony of my colleagues in the embassy.”
“Then he went on and said <See how briefly I will report all the rest. To Aeschines Philip seemed to be eloquent, but not to me; nay, if one should strip off his luck and clothe another with it, this other would be almost his equal.”
“that you may know, fellow citizens, that when it is a question of speaking in the city’s behalf, Demosthenes is helpless, but against those who have broken bread with him and shared in the same libations, he is a practised orator.”
“You find, therefore, that it was not Philocrates and I who entered into partnership in the negotations for the peace, but Philocrates and Demosthenes.”
“For it the presiding officers gave no opportunity for discussion in the 2nd meeting, it is impossible that I spoke then. And if my policy was the same as that of Philocrates, what motive could I have had for opposing on the first day, and then after an interval of a single night, in the presence of the same listeners, for supporting?”
A História (antiga, moderna, ambas?) divide a Guerra Atenas Contra Macedônia ou Liga Atenéia x Filipe II em duas, mas podemos encará-la como uma grande conflagração continuada, com esparsas tréguas. A Guerra de Tróia, por sinal, contemplou mais armistício do que combates, durando de 9 a 10 anos…
“and instead of respect and the hegemony of Hellas, Athens had a name that stank like a nest of Myonnesian¹ pirates. And Philip from his base in Macedonia was no longer contending with us for Amphipolis, but already for Lemnos, Imbros, and Scyros, our own possessions, while our citizens were abandoning Chersonese, the undisputed property of Athens.”
¹ Ilha dos Ratos, mostrando que corsários sempre foram depreciados como animais de rapina ou até coisa pior!
“charge the peace not to the ambassadors, but to the commanders o four arms.”
“Such was the situation of the city, such the circumstances under which the debate on the peace took place. But the popular speakers arose and with one consent ignored the question of the safety of the state, but called on you to gaze at the Propylaea of the Acropolis, and remember the battle of Salamis, and the tombs and trophies of our forefathers.”
(*) “Aristotle tells us that it was Cleophon who introduced the 2 obol donation from the treasury to provide a free seat in the theatre for every citizen who applied for it. This was the beginning of the Theorika, recognized in the time of Aeschines as one of the greatest abuses in the democracy.”
“Finally they brought the city to such a pass that she was glad to make peace, giving up everything, tearing down her walls [como bem visto nos discursos de Lísias no seclusão], receiving a garrison and a Lacedaemonian governor, and surrendering the democracy to the Thirty, who put 1500 citizens to death without a trial.”
“For Atrometus, our father, whom you slander, though you do not know him and never saw what a man he was in his prime—you, Demosthenes, a descendant through your mother of the nomad Scythians—our father went into exile in the time of the Thirty, and later helped to restore the democracy”
“But you find fault with my service as ambassador to Arcadia and my speech before the Ten Thousand there, and you say that I have changed sides—yourself more slave than freeman, all but branded as a runaway! (…) I acknowledge that I advised the people to come to terms with Philip, and to make the peace, which you, Demosthenes, now hold disgraceful, you who never had a weapon of war in your hands—but which I declare to be much more honourable than the war.”
“But if the responsibility for the wars is to be laid upon the ambassadors, while the generals are to receive the rewards, the wars you wage will know neither truce nor herald of peace, for no man will be willing to be your ambassador.”
“Demosthenees, who just now burst into tears here at mention of Cersobleptes, tried to shut him out of the alliance. (…) and my accuser has dared to tell you that it was I who drove Critobulus, Cersobleptes’ ambassador, from the ceremony—in the presence of the allies, under the eyes of the generals, after the people had voted as they did! Where did I get all that power?”
“you preserve for all time in the public archives your decrees, together with their dates and the names of the officials who put them to vote.”
“And do you put on airs before these jurymen, as though they did not know that you are the bastard son of Demosthenes the cutler?” Não é a primeira vez que Ésquines utiliza o fato de a mãe de Demóstenes não ser cidadã ateniense como argumento extra, ad hominem.
“For it serves you, as it does all liars, to confuse the dates, but it serves me to give the events in their order”
“At the same time I reviewed [to Phillip] from the beginning the story of the founding of the shrine, and of the first synod of the Amphictyons that was ever held; and I read their oaths, in which the men of ancient times swore that they would raze no city of the Amphictyonic states, nor shut them off from flowing water either in war or in peace; that if anyone should violate this oath, they would march against such an one and raze his cities; and if any one should violate the shrine of the god or be accessory to such violation, or make any plot against the holy places, they would punish him with hand and foot and voice, and all their power. To the oath was added a mighty course.”
“in the apportionment of the day eleven jars of water have been assigned to my defence.(*)
(*) How long a time would be occupied by the running of one amphora of water through the clepsydra, we have no means of knowing.”
“Would it not, then, be monstrous treatment for me if I should be convicted when my accuser is Demosthenes, the paid servant of Thebes and the wickedest man in Hellas, while my advocates are Phocians and Boeotians?”
“For you, Demosthenes, fabricated these charges against me, but I will tell my story, as I was taught to do from childhood, truthfully. Yonder is my father, Atrometus; there are few older men among all the citizens, for he is now 94 years old. When he was a young man, before the war destroyed his property, he was so fortunate as to be an athlete; banished by the Thirty, he served as a soldier in Asia, and in danger he showed himself a man (…) and he helped in the restoration of the democracy
It is my good fortune, too, that all the members of my mother’s family are free-born citizens; and today I see her here before my eyes in anxiety and fear for my safety. And yet, Demosthenes, this mother of mine went out to Corinth an exile, with her husband, and shared the disasters of the democracy; but you, who claim to be a man—that you really are a man I should not venture to say—you were once indicted for desertion, and you saved yourself by buying off the man who indicted you, Nicodemus of Aphidna, whom afterward you helped Aristarchus to destroy; wherefore you are polluted, and have no right to be invading the market-place.”
(*) “The murder of Nichodemus by Aristarchus, a young friend of Demosthenes, was a notorious case, but the attempts of Demosthenes’ enemies to connect him with it were entirely unsuccessful.”
“But you dared to speak about my wife’s family also—so shameless you are and so inherently thankless, you that have neither affection nor respect for Philodemus, the father of Philon and Epicrates, the man by whose good offices you were enrolled among the men of your deme, as the elder Paeanians know.”
“But see how far back his preparations for this accusation go. For there is a certain Olynthians living here, Aristophanes by name. Demosthenes was introduced to him by some one, and having found out that he is an able speaker, paid extravagant court to him and won his confidence; this accomplished, he tried to persuade him to give false testimony against me before you, promising, namely, to give him 500 drachmas on the spot, if he would consent to come into court and complain of me, and say that I was guilty of drunken abuse of a woman of his family, who had been taken captive; and he promised to pay him 500 more when he should have given the testimony.
But Aristophanes answered him, as he himself told the story, that Demosthenes had entirely misjudged his character, for he could do nothing of the sort. (…) Please call Aristophanes the Olynthian (…) and call those who heard his story and reported it to me—Dercylus, of the deme Hagnus, the son of Autocles, and Aristeides of Cephisia, the son of Euphiletus.”
“Ofttimes whole peoples suffer from one man
Whose deeds are sinful and whose purpose base.”
Hesiod
“You wrote a speech for the banker Phormion and were paid for it: this speech you communicated to Apollodorus, who was bringing a capital charge against Phormion.”
“I fought in the battle of Mantineia, not without honour to myself or credit to the city. I took part in the expeditions to Euboea, and at the battle of Tamynae as a member of the picked corps I so bore myself in danger that I received a wreath of honour then and there, and another at the hands of the people on my arrival home; for I brought the news of the Athenian victory, and Temenides, taxiarch of the tribe Pandionis, who was despatched with me from camp, told here how I had borne myself in the face of the danger that befell us.”
“In former days, after the battle of Salamis, our city stood in high repute, and although our walls had been thrown down by the barbarians yet so long as we had peace with the Lacedaemonians we preserved our democratic form of government.”
“and we held the democratic constitution unshaken. But meanwhile men who were neither free by birth nor of fit character had intruded into our body politic, and finally we became involved in war again with the Lacedaemonians, this time because of the Aeginetans.”
(*) “Ver Andocides, On the Peace with the Lacedaemonians”
“a creature who is no man—no better in spirit than a woman.”
“Is he not indeed to be pitied who must look into the sneering face of an enemy, and hear with his ears his insults? But nevertheless I have taken the risk, I have exposed my body to the peril.”
“EVÉLPIDES. (Indignado.) En verdad, es una indignidad lo que ha hecho con nosotros el pajarero, el bilioso Filócrates el del mercado de las aves, que decía que estos dos pajarracos nos iban a enseñar de entre las aves a Tereo, abubilla después de su metamorfosis, y nos vendió el grajo ése, un hijo de Tarrélides por un óbolo, y la otra por tres. Y ahora resulta que los dos no sabían dar más que picotazos. (Cambia de entonación, dirigiéndose al grajo.) ¿Y por qué abres el pico ahora? ¿Hay todavía algún sitio al que quieras despeñarnos? Porque por aquí no hay ningún camino.”
“EVÉLPIDES. ¿No es una cosa lastimosa que queramos irnos… (irónico) a los cuervos y, después de hacer nuestros preparativos, luego no podamos hallar el camino? Porque nosotros, gentes que nos escucháis, estamos enfermos de la enfermedad contraria a la de Sacas: éste, no siendo ciudadano, trata de meterse en las listas a la fuerza, mientras que nosotros, de una tribu y una familia estimables, ciudadanos entre los ciudadanos, sin que nadie nos eche, hemos salido de Atenas volando con los dos pies, y no por odio, porque no fuera naturalmente grande y rica y libre para todo el mundo para pagar impuestos. Pero la verdad es que las cigarras cantan uno o dos meses sobre las ramas, mientras que los atenienses cantan en los pleitos toda su vida. Por eso damos este paso, y con un canastillo, un puchero y mirto, vamos de un lado a otro buscando un lugar tranquilo donde asentarnos para pasar la vida. Nuestra expedición es en busca de Tereo, la abubilla, deseosos de que nos entere de si ha visto por dónde ha volado alguna ciudad de esa clase.”
“PISTETERO. ¿Sabes lo que vas a hacer? Golpea la roca con la pierna.
EVÉLPIDES. Y tú con la cabeza, para que el ruido sea doble.”
“SERVIDOR DE LA ABUBILLA. (Sale de la casa de ésta) ¿Quiénes son éstos? ¿Quién llama a mi amo?
PISTETERO. ¡Apolo protector! ¡Qué abertura de pico!”
“EVÉLPIDES. Pero si no somos hombres.
SERVIDOR. ¿Pues qué?
EVÉLPIDES. Yo, el asustado, un pájaro de Libia.
SERVIDOR. Dices tonterías.
EVÉLPIDES. Y, sin embargo, mira ante mis pies.
SERVIDOR. ¿Y qué pájaro es este otro? Dímelo.
PISTETERO. Un cagado, ave del Fasis.
EVÉLPIDES. Y tú, ¿qué clase de animal eres? Di, por los dioses.
SERVIDOR. Soy un pájaro esclavo.
EVÉLPIDES. ¿Es que te venció algún gallo?
SERVIDOR . No, pero cuando mi amo se convirtió en abubilla, pidió a los dioses que yo me hiciera pájaro, a fin de tenerme para acompañarle y servirle.
EVÉLPIDES. ¿Es que un pájaro necesita servidor?
SERVIDOR. Éste, por lo menos, sí, a causa, yo creo, de que fue primero hombre. Unas veces tiene ganas de comer boquerones del Falero: cojo mi escudilla y corro por los boquerones; le apetece puré y hace falta una cuchara y un puchero: corro por la cuchara.”
“EVÉLPIDES. Los doce dioses parece que te han dejado malparado.
ABUBILLA. ¿Os burláis de mi plumaje? Es que yo era un hombre, ¡oh extranjeros!
EVÉLPIDES. No nos reímos de ti.
ABUBILLA. ¿Pues de qué?
EVÉLPIDES. Tu pico es el que nos parece risible.
ABUBILLA. Estos excesos ha hecho contra mí Sófocles en sus tragedias, de Tereo que era antes.
EVÉLPIDES. ¿Tú, Tereo? ¿Ave o… pavo real?”
“ABUBILLA. Entonces, ¿buscas una ciudad mayor que la vieja Atenas?
EVÉLPIDES. Mayor, de ningún modo, pero sí una más apropiada para nosotros.
ABUBILLA. (Con seriedad.) Sin duda alguna, veo que buscas un régimen aristocrático.”
“PISTETERO. Cuando el padre de un bonito muchacho, al encontrarse conmigo, me hiciera estos reproches como si yo le hubiera ofendido: «Tiene gracia la cosa: te encuentras a mi hijo, Don Lindo, saliendo del gimnasio, recién bañado, y no le diste un beso, no le dijiste nada, no le abrazaste, no le cogiste los cojones [colhões], y eso tú, ¡un amigo de la familia!»”
“PISTETERO. Fundad una ciudad.
ABUBILLA . ¿Y qué ciudad podríamos fundar las aves?
PISTETERO. ¿De verdad? (Recitando como verso y con gravedad cómica.)
¡Oh, cuán necia es la frase
que osaste pronunciar!
(En tono normal.) Mira abajo.
ABUBILLA. Ya estoy mirando.
PISTETERO. Mira ahora arriba.
ABUBILLA. Ya miro.
PISTETERO. Vuelve el pescuezo.
ABUBILLA. Por Zeus, ¿voy a sacar provecho si me lo retuerzo?
PISTETERO. ¿Viste algo?
ABUBILLA. Las nubes y el cielo.
PISTETERO. ¿Y n o es este, a todas luces, el polo de las aves?
ABUBILLA . ¿El polo? ¿Cómo?
PISTETERO. Como el que dice el lugar. Como todos se espolean [rosetar, gracejar] y corren a través de él, se llama polo. Pues bien: si colonizáis esto y lo cercáis con murallas se llamará polis y reinaréis sobre los hombres como ahora sobre los saltamontes, ya los dioses los haréis morir con un hambre melia.(*)
EVÉLPIDES. ¿Cómo?
(*) Alude a la rendición de Melos, por hambre, unos meses antes de representarse Las aves.”
“de esta misma manera, cuando los hombres hagan sacrificios a los dioses, como éstos no os paguen tributo, no dejaréis pasar el olor a muslos asados a través del espacio y de una ciudad que no es suya.”
O imposto sobre o ar é real!
“ABUBILLA. Lo juro por la tierra, por los lazos, por las nubes, por las redes: nunca he oído una idea más ingeniosa; estoy dispuesto a fundar contigo la ciudad si están de acuerdo los otros pájaros.”
“¡Abubuí bubuí bubububuí bubuí!
¡Ió, ió, venid, venid!
Venid aquí todos, amigos alados,
que las tierras fértiles de los campesinos
pobláis, las bandadas que comen cebada,
las razas que buscan el grano,
de rápido vuelo, de suave canto;
los que en el sembrado piáis,
(…)
Porque ha llegado un ingenioso viejo,
de nuevas ideas,
de nuevas empresas agudo inventor.
Venid todos a consejo,
aquí, aquí, aquí, aquí
¡torotorotorotorotix!,
¡kikkabaú, kikkabaü,
torotorotorolililix!”
“UN AVE. ¡Torotix, torotix!
(La flau ta imita el canto de las aves.)”
“EVÉLPIDES. ¿Qué prodigio es éste? Entonces, ¿no sólo tú eres abubilla, sino también este otro pájaro?
ABUBILLA. Es hijo de la abubilla de Filocles y yo soy su abuelo; es como si dicen que Hiponico es hijo de Calias y otro Calias hijo de Hiponico.”
“EVÉLPIDES. Pero ¿por qué esa cresta de las aves? ¿Es que son soldados que van a correr el doble estadio?”
“EVÉLPIDES. Señor Apolo, ¡qué nube! Tantos volando no dejan ver ni la entrada del teatro.”
“CORIFEO. Pero más tarde arreglaremos nuestras cuentas con él; ahora me parece lo mejor que estos dos viejos sufran castigo y sean despedazados por nosotros.
PISTETERO. ¡Estamos perdidos!
EVÉLPIDES. Tú eres el único culpable. ¿Por qué me has hecho venir de Atenas?
PISTETERO. Para que me acompañaras.
EVÉLPIDES. Para llorar amargamente.
PISTETERO. No dices nada más que tonterías; pues ¿cómo vas a llorar, si te van a sacar los ojos?”
“ABUBILLA. Precisamente de sus enemigos aprenden mucho los sabios. La previsión es la salvadora de todo. Y de un amigo no la aprenderás, pero el enemigo enseguida obliga a ello. Sin ir más lejos, las ciudades aprendieron de los enemigos, y no de los amigos, a construir altas murallas y a tener naves de guerra; y este”
“CORIFEO. Lo pactamos.
PISTETERO. Júralo.
CORIFEO. Lo juro con la condición de que todos los jueces y espectado res den el premio a la comedia.
PISTETERO. Eso es.”
“CORIFEO. ¿Nosotros reyes? ¿De quién?
PISTETERO. ¿Vosotros? De todo lo que existe, de mí primero, de éste, del mismo Zeus; sois más antiguos y anteriores a Crono, a los titanes y a la Tierra.
CORIFEO. ¿Y a la Tierra?
PISTETERO. ¡Sí, por Apolo!
CORIFEO. ¡Esto no lo sabía yo, por Zeus!
PISTETERO. Porque eres un ignorante y nada curioso y no has dado siete vueltas a Esopo, que dice que la alondra nació antes que las demás aves, antes que la Tierra, y que después su padre enfermó y murió; y no había tierra y el cadáver estuvo expuesto cinco días; y ella, apurada ante la dificultad, enterró a su padre en su propia cabeza.”
“PISTETERO. Y de que antiguamente los dioses no gobernaban a los hombres, sino las aves, de eso hay muchas pruebas. Por ejemplo, os mostraré que el gallo era rey y mandaba sobre los persas antes de todos los Daríos y Megabazos, hasta el punto de que los griegos le llamamos ave persa por aquella soberanía.”
“PISTETERO. Y el cuco era rey de Egipto y de toda Fenicia; y cuando el cuco decía: «Cu-cú», todos los fenicios recolectaban trigo y cebada en los campos.”
“PISTETERO. Y lo peor de todo, Zeus, el que ahora reina, aunque es rey, tiene sobre la cabeza un águila; y su hija Atenea, una lechuza; y Apolo, como servidor, un halcón.”
“Os tiran piedras como a los locos; hasta en los templos todos los pajareros os tienden lazos y preparan contra vosotros varetas, cepos, hilos, redes, pihuelas y trampas; luego os cogen y os venden en montón; la gente os compra después de palparos. Y ni siquiera, ya que éste es su capricho, os sirven asados, sino que hacen un menudo picadillo con queso, aceite, silfio y vinagre y le agregan otra salsa dulce y grasienta y luego os la echan caliente, como sobre carnes secas de muerto.”
“Y cuando el muro se haya elevado, reclamad a Zeus el poder; y si dice que no, y no quiere, y no se vuelve atrás de su resolución, declaradle la guerra santa y prohibid a los dioses atravesar vuestro país cuando estén en erección, del modo que antes bajaban a seducir a las Alcmenas, las Alopes y las Semeles; pero si vienen, ponedles un sello en la punta, para que no se acuesten con aquéllas. Y os ordeno que enviéis a los hombres otra ave como heraldo, para que les diga que en adelante hagan sacrificios en honor de las aves, porque son éstas las que reinan; y luego de nuevo a los dioses. Unid a cada dios un ave, la que mejor se acomode a él: si uno sacrifica a Afrodita, que ofrende trigo¹ a la negreta; si una oveja a Posidón, que consagre trigo¹ al pato; si a Heracles, que ofrezca pasteles de miel bien macizos al cuervo marino, y si sacrifica un carnero a Zeus Rey, el rey es el reyezuelo,¹ al cual hay que ofrecer antes que a Zeus un mosquito muy macho.”
¹ Alusões obscenas ao falo!
“Estás delirando. También Hermes, que es dios, vuela y lleva alas, y otros muchos dioses. Sin ir más lejos, la victoria vuela con sus dos alas de oro, y, por Zeus, también el Amor; y Homero dijo que Iris era semejante a una paloma temblorosa.”
“Y que los cuervos saquen los ojos a los bueyes de labor y a las ovejas, como muestra; y que luego Apolo, el médico, los cure: para eso le pagan.”
“CORIFEO. ¿Y cómo llegarán a la vejez? Porque está en el Olimpo. ¿Deben morir de niños?
PISTETERO. No, por Zeus; las aves, por el contrario, les añadirán trescientos años.
CORIFEO. ¿De quién?
PISTETERO. ¿De quién? De sí mismas. ¿No sabes que «la chillona corneja» vive cinco generaciones de hombres?”
“Lo primero, no tendremos que construir templos de piedra ni ponerles puertas de oro, sino que estos dioses habitarán en matas y chaparras. Y los pájaros ilustres tendrán de templo un olivo. Y no necesitaremos ir a Delfos ni a Amón para sacrificar, sino que, en pie entre los madroños y acebuches, con unos granos de cebada y de trigo, les pediremos la fortuna, levantando las manos, y la conseguiremos tirando unos granos de trigo.”
“PISTETERO. Espera, tú, vuelve. Vamos a ver, dinos cómo éste y yo, que no volamos, viviremos con vosotros, que voláis.
ABUBILLA. Muy fácilmente.”
“El Caos, la Noche, el negro Erebo y el ancho Tártaro existieron
y aún no había tierra, aire ni cielo, cuando del Erebo en el seno
puso la Noche de alas negras, antes de nada, un huevo huero.
De éste nació, pasando el tiempo, Amor, objeto de deseo,
brillante el torso con sus alas, turbión más rápido que el viento.
Se unió el Amor al Caos alado en el Tártaro vasto y negro,
y así dio el ser a nuestra raza y la sacó a la luz primero.
Pues no existían aún inmortales: Amor unió los elementos
más tarde sólo y al unirse nació el Océano y el Cielo,
nació la Tierra con los dioses felices todos, nunca muertos.
Somos los dioses más antiguos, somos de Amor los herederos.
Es claro: veis, tenemos alas y a los amantes protegemos.”
“no huiremos a los cielos
ni, sentados en las nubes,
nos haremos los gloriosos
como Zeus; aquí presentes
os daremos a vosotros
y a vuestros hijos y nietos
salud y riqueza, vida,
paz, juventud, risa, danzas,
fiestas y leche de pájaro.
Podréis cansaros de bienes,
seréis ricos en tal grado.”
“Cuantas cosas son consideradas vergonzosas en la tierra y las prohíbe la ley, aquí entre nosotros los pájaros son dignas de elogio. Pues si en Atenas es infamante, según la ley, golpear a un padre, aquí entre nosotros es honroso; así, si uno corre hacia su padre y golpeándole le dice: «Levanta el espolón sí quieres lucha.» Si alguno de vosotros es un esclavo fugitivo y ha sido marcado a fuego, entre nosotros se le llamará el francolín, de plumaje moteado. Si alguno es tan frigio como Espíntaro, éste será el frígilo o pinzón, de la familia de Filemón. Si es un esclavo y un cario como Ejecéstides, que engendre unos abuelos en nuestra ciudad y aparecerán enseguida sus compañeros de fratría. Y si el hijo de Pisias quiere entregar por traición a gente indigna las puertas de la ciudad, que se haga perdiz, polluelo de su padre, pues para nosotros no es vergüenza alguna huir como una perdiz.”
“No hay cosa mejor ni más agradable que el que le salgan a uno alas. Así, si uno de vosotros los espectadores tuviera alas, si tiene hambre y se aburre en los coros de las tragedias, saldría volando y se iría a comer a casa, y luego, ya repleto, volvería a nosotros. Y si alguno de vosotros, como Patróclides, tiene ganas de cagar, no se… sudaría en su vestido, sino que volaría y, después de quedar descansado y de tomar aliento, volaría de regreso de nuevo. Y si alguno de vosotros es amante de alguna mujer y ve al marido en los asientos reservados al Consejo, agitaría las alas y se alejaría volando de nuestro lado, y luego, después de haber jodido, volvería otra vez. ¿No resulta que el tener alas merece cualquier cosa? Fijaos en que Diítrefes, que no tiene más alas que las asas de sus vasijas, fue elegido jefe de escuadrón, luego general de caballería y luego, él que ha salido de la nada, lo pasa espléndidamente y hoy es un hipalectrión amarillo [versão do centauro metade cavalo metade galo].”
“SACERDOTE. … y a los héroes pájaros y a los hijos de los héroes, y al Porfirión, y al Pelícano Blanco y al Pardo, y al Águila, y a la Perdiz, y al Pavo Real, y al Pardillo, y a la Gaviota, y a la Cerceta, y a la Garza, y a la Bubia, y al Paro, y al Herrerillo…
PISTETERO. ¡Basta! ¡Vete a los cuervos! Deja de invitar gente. ¿A qué sacrificio llamas, desgraciado, a las águilas del mar y a los buitres? ¿No ves que un solo milano nos llevaría la víctima entera? Vete de aquí con tus guirnaldas sacerdotales. Yo me basto solo para hacer este sacrificio.
(Se aparta el Sacerdote, Pistetero coge del canastillo el cuchillo sacrifical, tras lavarse las manos.)”
“POETA. (Interrumpiendo.)
¡Oh tú, a Nubicucópolis, ciudad de distinción,
celebra, Musa, de tus cantos al son!
PISTETERO. ¿De dónde sale ese personaje? Dime, ¿quién eres?
POETA. ¿Yo?
Lanzador de canciones dulces como la miel,
de las Musas celestes soy un servidor fiel,
como dice Homero.”
“POETA. He compuesto en honor de Cucópolis de las Nubes muchos y bonitos ditirambos y partenios y versos a la manera de Simónides.
PISTETERO. ¿Y cuándo has hecho eso? ¿Cuánto hace?
POETA.
Ha mucho, mucho tiempo
que esta ciudad ensalzo.
PISTETERO. ¿Pues no estaba yo haciendo el sacrificio del décimo día y poniéndole el nombre como a un niño?”
“PISTETERO. Esta peste nos va a dar que hacer si no logramos escapar dándole algo. ¡Eh, tú! (Dirigiéndose al Sacerdote.) Tú tienes una pelliza y una túnica. Quítate la pelliza y dásela al docto poeta. Tenia: me parece que estás helado.”
“POETA.
En los escitas nómadas se aleja de la gente
el que de algún vestido tejido es indigente.
La pelliza sin túnica, de honra y fama es carente.
Tú me entiendes bien.
PISTETERO. Entiendo que quieres llevarte la túnica. Quítatela: hay que ayudar al poeta. Cógela y vete. (El Sacerdote le da la túnica y queda medio desnudo; a continuación se marcha, asustado.)”
“ADIVINO. No empieces por el sacrificio del macho cabrío.
PISTETERO. ¿Y tú quién eres?
ADIVINO. ¿Quién? Un adivino.
PISTETERO. Que mal provecho te haga.
ADIVINO. ¡Desgraciado, no desprecies las cosas divinas! Hay un oráculo de Bacis, que se refiere sin duda a Cucópolis de las Nubes.
PISTETERO. ¿Y por qué no lo anunciaste antes que yo fundara la ciudad?
ADIVINO. La divinidad me ponía trabas.”
“PISTETERO. Ese oráculo se parece muy poco a este otro que me dictó Apolo:
Mas si sin ser llamado se acerca un majadero
y estorba el sacrificio, de carne deseoso,
hay que darle de palos entre los dos costados…”
“METÓN. Quiero parcelar el aire y dividirlo en yugadas.
PISTETERO. ¡Por los dioses! ¿Y quién eres tú?
METÓN. ¿Que quién soy? Metón, a quien conoce Grecia…¹ ¡Y hasta Colono!
PISTETERO. Pero, dime , ¿qué es esto?
METÓN. Cordeles para medir el aire. El aire, sábelo bien, tiene la forma de un horno, más o menos. Pongo encima este cordel curvado, aplico el compás…, ¿comprendes?
PISTETERO. No comprendo.
METÓN. Tomaré las medidas con un cordel puesto en línea recta, inscribiendo el círculo en un cuadrado; en medio estará la plaza, a la que llevarán vías directas y, como de una estrella, pues será circular, por todas partes saldrán de ella los rayos, espléndidas calles rectas.
PISTETERO. ¡Este hombre es un Tales!”
¹ Conhecido urbanista.
“INSPECTOR. Vengo como inspector, elegido en Atenas por sorteo, para Cucópolis de las Nubes.
PISTETERO. ¿Como inspector? ¿Y quién te ha enviado?
INSPECTOR. Un papelucho de Teleas.
PISTETERO. ¿Quieres cobrar tu sueldo sin buscarte complicaciones y marcharte?
(Le amenza con el bastón.)”
“¿No es esto insoportable? ¡Mandan ya inspectores a la ciudad, antes de que hagamos el sacrificio
fundacional!”
“VENDEDOR. Te perderé presentando contra ti una reclamación de diez mil dracmas.
PISTETERO. Y yo cogeré las urnas de tu tribunal y las haré añicos.
VENDEDOR. ¿Te acuerdas de cuando una tarde hiciste tus necesidades en la columna de las leyes?
PISTETERO. ¿Sí? Cogedlo. Amigo, ¿no te esperas? (Le persigue.) Vámonos de aquí nosotros cuanto antes, para sacrificar ahí dentro a los dioses el macho cabrío.
(Sale con el macho cabrío.)”
“Ya a mí que todo lo veo,
al potente, los mortales
sacrificarán con votos.
Pues yo contemplo los campos
y yo defiendo los frutos
destruyendo los insectos
todos que sobre la tierra
con bocas voraces devoran el fruto
que nace del cáliz, e igual en los árboles.
Mato a los que perfumados
huertos arruinan con daño.
Reptantes o alados, todos los que existen
mueren a mis… alas, son asesinados.”
“CORIFEO. A los jueces queremos hablarles sobre el premio, diciéndoles cuántos beneficios les daremos si nos lo conceden: recibirán regalos mucho mejores que los de Paris.”
“MENSAJERO 2º. Algo terrible ha sucedido. Uno de los dioses de Zeus ha entrado en el aire atravesando nuestras puertas. Ha escapado a la vigilancia de los grajos, centinelas de día.
PISTETERO. Un acto horrible y criminal ha realizado. ¿Qué dios?”
PISTETERO. ¿Cuál es tu nombre? ¿Eres una galera o un casco? (Alusión a l disfraz; lleva alas y arco iris en la cabeza.)
IRIS. La rápida Iris.”
“IRIS. ¿Yo? Vuelo hacia los hombres enviada por mi padre para decirles que hagan sacrificios a los dioses olímpicos, inmolen carneros y bueyes en las aras y llenen las calles del olor de la grasa de las víctimas.
PISTETERO. ¿Qué dices? ¿A qué dioses?
IRIS. ¿Que a qué dioses? A nosotros, los del cielo.
PISTETERO. ¿Vosotros sois dioses?
IRIS. ¿Pues qué o tro es dios?
PISTETERO. Las aves son ahora dioses para los hombres y a ellas han de sacrificar, pero, por Zeus, no a Zeus.”
“…Y tú, si sigues dándome la lata, voy a estirar las piernas y atravesar los muslos a la propia Iris; te quedarás asombrada de que, aunque viejo, todavía me pongo en erección como tres espolones.
(Trata de abrasarla.)
IRIS. ¿N o reventarás, buen hombre, con tus disparates?
“HERALDO. Por tu sabiduría, los hombres te coronan con esta corona de oro y te honran las gentes.
PISTETERO. La acepto. Pero ¿por q u é me honran las gentes?
HERALDO.
Fundador glorioso de ciudad etérea,
¡no sabes qué honores los hombres te dan
ni cuántos amantes ya tiene esta tierra!
Antes de que esta ciudad tú fundaras
tenían los hombres laconomanía,
hambrientos y sucios, peludos, socráticos,
llevando un bastón; pero ahora, al contrario,
son todos los hombres pajaromaníacos
e imitan en todo con gusto a los pájaros.
Porque, lo primero, salen de la cama
y, como nosotros, picotean… las leyes;
de allí van a posarse en los anuncios,
más tarde se alimentan de… decretos.
Es claro que tienen pajaromanía,
pues muchos reciben motes de los pájaros.
La perdiz le llaman a un tendero cojo,
de Menipo el nombre es la golondrina,
y del tuerto Opuntio, igualmente, el cuervo;
la alondra es Filocles; cataraña, Teógenes;
el ibis, Licurgo; Querefón, murciélago;
Siracosio, urraca; de su parte a Midias
codorniz llamaban; y se parecía
a una a la que han dado un palo en la cabeza.
(…)
Esto allá en Atenas; te digo una cosa:
vendrá desde allí número infinito
pidiendo costumbres y alas de rapaces.
Para esos colonos necesitas alas.”
“PISTETERO. Me parece que el mensajero no va a salirnos mentiroso, pues aquí viene uno que canta a las águilas.
PARRICIDA. ¡Ah! No hay nada más dulce que volar. Pues tengo pajaromanía y vuelo ya y quiero vivir con vosotros y tengo pasión por vuestras leyes.
PISTETERO. ¿Por qué leyes? Son muchas las leyes de los pájaros.
PARRICIDA. Por todas, pero sobre todo por la que hace honorable entre los pájaros estrangular al padre y morderle.”
“(Fin de la música. Entra Prometeo tapándose con las manos la cabeza.)”
“PROMETEO. ¡Zeus está perdido!
PISTETERO. ¿Desde cuándo está perdido?
PROMETEO. Desde que colonizasteis el aire. Pues ya no sacrifica a los dioses ningún hombre, ni, desde entonces, ha vuelto a subir a nosotros el olor a grasa de los muslos de las víctimas sacrificadas; ayunamos como en las Tesmoforias, por falta de ofrendas. Y los dioses bárbaros, hambrientos y chillando, como ilirios, amenazan con atacar desde arriba a Zeus si no logra que abran los mercados para poder importar carne de víctimas ya hecha chuletas.”
“PROMETEO. Sin duda alguna. Y te digo una cosa bien clara: van a venir embajadores de Zeus y de los Tríbalos de arriba para lograr un compromiso; vosotros no lo firméis mientras Zeus no devuelva el cetro a los pájaros y te dé a Soberanía como esposa.
PISTETERO. ¿Quién es Soberanía?
PROMETEO. Una bella joven que administra el rayo de Zeus y todo lo demás, la prudencia, las buenas leyes, la moderación, los astilleros, los insultos, el habilitado del juzgado, los
tres óbolos del jurado.
PISTETERO. ¿Todo eso administra?
PROMETEO. Te lo digo yo. Si logras que te la entregue, lo tienes todo. Para eso he venido, para explicarte estas cosas; yo siempre soy amigo de los hombres.
PISTETERO. Gracias a ti sólo de los dioses hacemos nuestros asados.
PROMETEO. Y odio a todos los dioses, como tú sabes.
PISTETERO. Sí, por Zeus, siempre has odiado a los dioses.
PROMETEO. Soy un puro Timón.¹ Pero para poder irme, dame una sombrilla, para que, si Zeus me ve desde arriba, crea que voy en una procesión dando escolta a una canéforo.
PISTETERO. Toma, llévate también el taburte.
(Se va Prometeo.)”
(*) “Ilustre misántropo.”
(**) “Las canéforos llevaban una cestilla sagrada en las Panateneas; detrás de cada una, otra doncella llevaba una sombrilla para quitarle el sol y un taburete para que se sentara en las paradas.”
Querfonte: (*) “Discípulo de Sócrates, así apodado [murciélago] por la palidez de su rostro: dedicado al estudio, no hacía la habitual vida al aire libre.”
“HERACLES. Ya me has oído, Posidón, que quiero estrangular al hombre que ha bloqueado a los dioses, sea quien sea.
POSIDÓN. Pero, ¡amigo Heracles, si hemos sido elegidos embajadores para hacer un pacto!”
“HERACLES. ¿Y de qué es esa carne?
PISTETERO. Son unos pájaros que se sublevaron contra los pájaros demócratas y fueron declarados culpables.
HERACLES. Y entonces, ¿primero les rallas encima el silfio?
PISTETERO. ¡Oh! Buenos días, Heracles. ¿Qué ocurre?
POSIDÓN. Hemos venido en embajada de parte de los dioses sobre el fin de la guerra…”
“PISTETERO. Nosotros no sólo nunca hemos empezado una guerra contra vosotros, sino que ahora mismo queremos, si os parece bien y si deseáis obrar en justicia, siquiera ahora, hacer la paz. Y obrar en justicia consiste en esto: que Zeus nos devuelva el cetro a nosotros los pájaros; y si nos ponemos de acuerdo sobre esta condición, invito a comer a los embajadores.
HERACLES. A mí me basta eso y voto a favor.
POSIDÓN. ¡Cómo, desgraciado! ¡Eres un imbécil y un glotón! ¿Vas a quitar el poder real a tu padre Zeus?”
“PISTETERO. Por Zeus, hay otra cosa de la que me acuerdo ahora. Hera se la doy a Zeus, pero a la joven Soberanía hay que dármela a mí por mujer.
POSIDÓN. Tú no quieres la paz. Volvamos a casa.
PISTETERO. Poco me importa. Cocinero, la salsa hay que hacerla dulce.
HERACLES. ¡Posidón, diantre de hombre!, ¿a dónde vas? ¿Vamos a hacer la guerra por una mujer?
POSIDÓN. ¿Pues qué hemos de hacer?
HERACLES. ¿Qué? La paz.
POSIDÓN. ¿Cómo, desgraciado? ¿No ves que te están engañando? Te perjudicas a ti mismo. Pues si Zeus se muere después de dejar a éstos el poder real, serás pobre, porque los bienes que Zeus deje al morir son tuyos.
PISTETERO. ¡Pobre de mí! ¡Cómo te rodea con sofismas! Ven acá conmigo para que te hable. Te engaña tu tío, desgraciado. De los bienes paternos ni a un óbolo tienes derecho, según la ley, porque eres bastardo y no hijo legítimo.
HERACLES. ¿Yo bastardo? ¿Qué dices?
PISTETERO. Tú, por Zeus, hijo de una mujer extranjera. ¿O cómo crees que Atenea sería heredera única si tuviera hermanos legítimos?
HERACLES. ¿Y si mi padre al morir me lega sus bienes como a bastardo?
PISTETERO. La ley no le deja. Este Posidón que ahora te azuza será el primero en oponerse a que recibas los bienes paternos, diciendo que él es hermano legítimo. Te voy a citar la ley de Solón: «Que el bastardo no tenga el derecho de parentesco de primer grado si hay hijos legítimos; y si no hay hijos legítimos, que los parientes colaterales más próximos se repartan la herencia.»
HERACLES. ¿Luego no me toca nada de la herencia de mi padre?
PISTETERO. No, por Zeus. Pero, dime, ¿tu padre te presentó ya a los miembros de su fratría?
HERACLES. A mí, no. Y la verdad, hace tiempo que me chocaba esto.
PISTETERO. Entonces, ¿por qué miras arriba con la boca abierta con aire de hombre al que le dan una paliza? Si te pones de nuestro lado, te haré rey y te daré leche de pájaro.
HERACLES. Desde hace un rato creo que tienes razón acerca de esa joven, y yo por mi parte te la entrego.
PISTETERO. ¿Y tú qué dices?
POSIDÓN. Voto en contra.
PISTETERO. Todo depende del Tríbalo. Y tú, ¿qué dices?
TRÍBALO. Bella joven y grande reina pájaro entrego.
HERACLES. Dice que la entreguemos.
POSIDÓN. Por Zeus, no es eso: lo que dice es que la entreguemos si no sabe andar, como las golondrinas.
HERACLES. Entonces dice que la entreguemos a las golondrinas.”
“HERACLES. ¿Queréis que yo, mientras tanto, me quede aquí guisando la carne? Vosotros idos.
POSIDÓN. ¿Que guisas la carne? ¿De qué glotonería estás hablando? Vente con nosotros.”
“(Entran PISTETERO y SOBERANÍA con corona, y el primero con cetro y rayo.)
Este texto foi originalmente redigido e publicado em meu primeiro (e extinto) blog, em 07/10/08.Eu tinha 20 anos. Hoje, mesmo que ainda concorde com maioria do que foi dito, não me expressaria da mesma forma.
Artigo dedicado a
colegas de discussão, em especial o Thomas
qualquer um que discorde dos métodos do professor Luiz Gusmão
os fãs de artigos bem-escritos
e, finalmente, às corajosas namoradas de quem primeiro ler (obviamente, homens)
Na página 8 de Filosofia do Amor, Georg Simmel nos brinda com a seguinte passagem: “(…) é fatal que um aumento de cultura acarrete uma necessidade maior de prostituição”, no que foi desqualificado peremptoriamente pelo cânone do magistério de Sociologia da UnB, Gusmão, em sala de aula repleta de alunos. O professor defende que a variável “flexibilidade da moral”, em 100 anos, tornou a afirmação obsoleta. Não é verdade. Ela jamais foi tão válida e referendada pelo quadro social. O “empirismo neo-platônico” gusmoniano falhou mais uma vez. Em sua decadência que recrudesce, o Ocidente continua sendo unidimensional neste aspecto. Jessé Souza, autor da Introdução a Simmel e a Modernidade, me inspirou a contra-atacar minha cátedra, pois palpavelmente compartilha de meu ponto de vista.
Até que haja rupturas galopantes da moral (“bons costumes”) e da justiça (e respectivos “tribunais imparciais”) haverá crescimento de prostituição e elevação de crimes.
Há visivelmente um paralelo que elucida a compreensão da massificação da sujidade feminina, que é a correspondente explosão da criminalidade, sobretudo de crimes periféricos, como é o caso do roubo de um pote de margarina. Há crimes brandos e crimes graves; bem como há a prostituta clássica e a fêmea de hoje em dia (uma “mulher da vida em doses homeopáticas”).
Quando Simmel fala que homicídios eram tributados com módicas multas, subentende-se que “crimes não eram valorizados em uma sociedade arcaica”. Essa leitura ocidental despreocupada com a desconstrução de categorias é nefasta, erro crasso. Matar não era considerado crime, eis o sensato. Todo crime tribal é hediondo. Quem praticar o incesto ou cozinhar um animal-totem será castigado com a morte. O crime era sempre grave. Mas era episódico. Hoje um ato ilegal é coibido de maneira mais macia – o que não evita a pecha de marginal – e sua prática se alastrou bastante.
Hoje, aceita-se muitas “depravações leves”, contra o quadro anterior¹ em que poucas ações (ou se se quiser mulheres) eram depravadas porém estas eram notórias e suportavam a carga apenas entre elas. Houve então uma “democratização” da vadiagem, o que está longe de simbolizar o afrouxamento moral.
¹ Sociedades ágrafas, Antiguidade e idade média.
O tabu é tão vigoroso que na sala de aula é benquisto ao professor homem disfarçar suas opiniões sobre o assunto. A mulher negará até o último momento ou mesmo não compreende o panorama.
Quanto mais fervilha a economia especulativa, mais se enxergam essas vicissitudes. A questão dos relacionamentos sexuais precoces que serviriam para evitar que o mancebo recorresse a prostitutas antes do casamento é um incidente que não atrapalha a teoria – muito pelo contrário: com a instituição do matrimônio em crise irreversível, sobra má-fama para todas. Inexiste qualquer pureza de espírito na mulher contemporânea em sua infinidade de sub-moldes.
Antes, a fogueira como punição da desonra. Hoje, cochichos. Quanto mais dinheiro, maior a força da propriedade. Mais sórdido é o caráter da exclusão social – os status de marginal/trombadinha e mulher que se vende tornam-se insuportáveis. Acirra-se o contraste. E ao mesmo tempo é impossível para cada homem não ser ladrão de vez em quando ou para cada mulher não agir feito puta. Isso não sou eu quem inventou: está nas ruas. Nunca a palavra de quatro letras foi tão empregada. Na sociedade das prostitutas, a mãe daquela que esqueceu por segundos de ser pudica é fortemente coagida pelo verbo. A proliferação da categoria das fêmeas que rodam a bolsa as está tornando sinônimo do grupo social, mais abrangente, “mulher” – engolindo o gênero feminino tal qual buraco negro. A castidade passou a ser encarada como mito. Houve a ampliação descomunal do conceito. O pote de margarina, banal, disseminado, me evoca a não menos freqüente menina-sabão. “Menina” que é de nítido caráter inocente, conjugado com o instrumento básico de limpeza nos lares e cuja função é escorregar, de mão em mão se for preciso. A limpeza vira sujeira quando se ensaboa os homens. Estranha palavra híbrida ocidental pós-moderna…
Se nem todas chegam a tanto (ser uma “menina-sabão”), pelo menos se diz que “tem cara de”, “se parece com uma”, “está agindo feito uma”, ou é insinuante em algo, se veste de maneira que provoca. Seja como for, algum pecado a moça tem! Obviamente, ele é produzido pelas relações de dinheiro. Certo é que o fenômeno não desapareceu, mas se fortaleceu. Quanto mais dinheiro, mais os valores da dignidade humana se degradam.
“A Standard Edition não inclui a correspondência de Freud. Esta tem enorme extensão [provavelmente mais que as próprias obras completas, 3970 páginas, PDF verdadeiramente grotesco composto de 20 volumes] e apenas algumas seleções relativamente pequenas foram publicadas até o momento. Com exceção das ‘Cartas Abertas’ e de algumas outras, publicadas com o consentimento de Freud durante sua vida, minha exceção principal a essa regra geral está representada pela correspondência que Freud manteve com Wilhelm Fliess no correr da parte inicial de sua carreira.”
“Para um editor que se defrontou com um total de uns dois milhões de palavras, o primeiro problema foi decidir qual a melhor maneira de apresentá-las aos leitores. Deveria o material ser ordenado segundo um critério classificatório ou um critério cronológico? A primeira edição alemã coligida (os Gesammelte Schriften, publicados durante a vida de Freud) empreendeu uma divisão de acordo com o assunto; para as Gesammelte Werke, mais recentes, pretendeu-se uma disposição estritamente cronológica. Nenhum dos dois critérios foi satisfatório. Os escritos de Freud não se encaixam comodamente em categorias, e a cronologia estrita significaria interromper cerradas seqüências de idéias. Aqui, portanto, foi adotada uma conciliação.”
NOTA MENTAL: NUNCA ACEITAR SER O EDITOR DAS OBRAS COMPLETAS DE REVISIONISTA NATO! “Um grave defeito nas edições alemãs é a ausência de qualquer tentativa de levar em conta as numerosas modificações de texto feitas por Freud nas edições sucessivas de alguns dos seus livros. Isso se aplica especialmente à Interpretação dos Sonhos e aos Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, pois ambos foram, em grau muito acentuado, remodelados em suas edições posteriores.”
“A maioria de suas alusões deve ter sido imediatamente compreensível para seus contemporâneos em Viena, mas elas estão muito além do alcance de um leitor atual de língua inglesa. Contudo, muitas vezes, especialmente em A Interpretação dos Sonhos, essas alusões desempenham um papel real no desenvolvimento de sua argumentação; sua explicação não pôde ser posta de lado, conquanto tivesse exigido pesquisa considerável e às vezes infrutífera.”
“quase sem exceção, esta edição não contém absolutamente referências a outros autores, por mais eminentes que sejam – exceto, naturalmente, aqueles que são citados pelo próprio Freud. (A enorme proliferação da bibliografia psicanalítica depois de sua morte, de qualquer modo, teria imposto essa decisão.)”
ESTRANHO MEA CULPA: “Quando a Standard Edition foi inicialmente planejada, considerou-se que seria vantajoso uma única pessoa incumbir-se de moldar todo o texto; com efeito, uma única pessoa executou a maior parte do trabalho de tradução, e mesmo quando uma versão anterior foi utilizada como base, pode-se constatar que se impôs a execução de grandes alterações. Infelizmente, isso provocou a rejeição, no interesse da desejada uniformidade, de muitas traduções feitas anteriormente e que, em si mesmas, eram excelentes. O modelo imaginário que sempre tive diante de mim foram os escritos de algum homem de ciência inglês, de grande cultura, nascido em meados do século dezenove. E em caráter explicativo, e não patriótico, eu gostaria de enfatizar a palavra ‘inglês’.”
“A Srta. Freud, sobretudo, revelou-se incansável ao dedicar suas preciosas horas de lazer à leitura de toda a tradução e ao contribuir com inestimáveis críticas.” Hm.
“O Sr. Woolf, que vem publicando as traduções inglesas de Freud há uns quarenta anos, participou ativamente da evolução desta edição. Sinto que minha gratidão especial, e até um tanto mesclada de culpa, se deve aos editores e impressores, por sua tolerância em atenderem às minhas exigências.”
“Já faz hoje quase meio século desde que, juntos, passamos dois anos em Viena, em análise com Freud, e desde que, decorridas apenas algumas semanas de análise, ele, de repente, nos instruiu a fazer uma tradução de um trabalho que escrevera havia pouco tempo – Ein Kind wird geschlagen –, tradução que agora faz parte, aqui, do Volume XVII.”
“Cuando Anum, el Altísimo, Rey de los Anunnakus, el divino Enlil, señor de cielos y tierra, que prescribe los destinos del País, otorgaron al divino Marduk, primogénito del dios Ea, la categoría de Enlil (soberano) de todo el pueblo, lo magnificaron entre los Igigus; cuando impusieron a Babilonia su sublime nombre la hicieron la más poderosa de los Cuatro Cuadrantes; cuando en su seno aseguraron a Marduk un reino eterno de cimientos tan sólidos como los de cielo y tierra, en aquellos días, Anum y el divino Enlil también a mí, Hammurabi, príncipe devoto respetuoso de los dioses, para que yo mostrase la Equidad al País, para que yo destruyese al malvado y al inicuo, para que el prepotente no oprimiese al débil, para que yo, como el divino Shamash, apareciera sobre los «Cabezas Negras» e iluminara la tierra, para que promoviese el bienestar de la gente, me impusieron el nombre.”
“Leyes
1 § Si un hombre acusa a otro hombre y le imputa un asesinato pero no puede probarIo, su acusador será ejecutado.
2 § Si un hombre le imputa a otro hombre actos de brujería pero no puede probarlo, el que ha sido acusado de magia tendrá que acudir al divino Río y echarse al divino Río y, si el divino Río se lo lleva, al acusador le será lícito quedarse con su patrimonio. Pero si el divino Río lo declara puro y sigue sano y salvo, quien le acusó de magia será ejecutado. El que se echó al divino Río se quedará con el patrimonio de su acusador.”
“4 § Si acude a atestiguar en un proceso sobre cebada o dinero, pagará la multa de ese proceso. 5 § Si un juez instruye un caso, dicta sentencia y extiende veredicto sellado, pero luego modifica su sentencia, al juez le probarán que ha cambiado la sentencia y la suma de la sentencia la tendrá que pagar 12 veces. Además, en pública asamblea, le echarán de su sede judicial de modo irrevocable y nunca más podrá volver a sentarse con jueces en un proceso.”
“7 § Si un hombre compra o recibe en depósito plata u oro o un esclavo o esclava o un buey, o una oveja, o un asno, o lo que sea, de manos de un hijo de un hombre o del esclavo de un hombre sin testigos ni contrato, ese hombre es un ladrón; será ejecutado.”
“13 § Si ese hombre no tiene entonces los testigos a mano, los jueces fijarán un plazo de hasta 6 meses. Si no presenta a sus testigos en 6 meses, ese hombre es un embaucador [enganador]; que cargue con toda la multa del juicio.”
“15 § Si un hombre deja que un esclavo del palacio o una esclava del palacio o un esclavo de un individuo común o una esclava de un individuo común salgan por la puerta principal de la ciudad, será ejecutado.”
“17 § Si un hombre captura en el campo a un esclavo o esclava fugitivos y los lleva a su amo, el amo le dará 2 siclos de plata.”
“21 § Si un hombre abre un boquete [buraco] en una casa, lo ejecutarán y lo dejarán colgado frente al boquete [pendurado ou enterrado ou abandonado].”
“25 § Si en la casa de un hombre hay un incendio y algún hombre que había venido a apagarlo desea algún objeto y se queda con el objeto del dueño de la casa, ese hombre será quemado en ese mismo fuego.”
“27 § Caso que un soldado o un militar haya caído cautivo estando de servicio en una fuerza del rey, y su campo o su huerta se hayan confiado –en su ausencia- a otro y ése haya ido cumpliendo con sus cargas fiscales: si consigue volver y regresar a su ciudad, le devolverán su campo y su huerta, y él cumplirá con sus cargas fiscales .”
“30 § Si un soldado o un militar deja las cargas fiscales por su campo, su huerta y su casa y se ausenta, y otro, en lugar suyo, se queda con su campo, su huerta y su casa y cumple con sus cargas fiscales durante 3 años, si aquél vuelve y reclama su campo, su huerta y su casa, que no se los den; el que cargó y cumplió con sus cargas fiscales, ése seguirá.”
“36 § El campo o la huerta o la casa de un soldado o de un militar o de un colono no puede venderse.”
“42 § Si un hombre arrienda un campo para explotarlo pero luego no produce cebada en el campo, que le prueben que no lo cultiva bien y él le dará al dueño tanta cebada como produzca su vecino.”
“45 § Si un hombre arrienda su campo a un arrendatario y recibe la renta de su campo, si el divino Adad devasta el campo o se lo lleva una riada, los perjuicios serán sólo del arrendatario.”
“48 § Si un hombre contrae una deuda y el divino Adad devasta su campo o se lo lleva una riada, o, por falta de agua, no se produce cebada en el campo, en ese año no le devolverá cebada a su acreedor; que moje su tablilla [o equivalente de rasgar, romper o contrato] y no pague el interés de ese año.”
“54 § Si no puede compensar la cebada, que lo vendan a él y sus bienes, y que, después, los que tenían las tierras cuya cebada se llevó el agua, se lo repartan.”
“59 § Si un hombre sin permiso del dueño de una huerta corta un árbol en la huerta de un hombre, le pagará 1/2 mina de plata.
60 § Si un hombre confía un campo a un hortelano para que plante una huerta y el hortelano la planta, que él la cultive cuatro años, y el quinto año, que se la repartan en partes iguales; el dueño de la huerta elegirá primero la parte que quiera quedarse.”
“108 § Si una tabernera no cobra cebada como precio por la cerveza y cobra en dinero según una pesa grande y rebaja el valor de cerveza en relación al valor de la cebada, que se lo prueben y la tiren al agua.
109 § Si una tabernera en cuyo local suelan reunirse embusteros no agarra a esos embusteros y los lleva a Palacio, que esa tabernera sea ejecutada.
110 § Si una sacerdotisa naditum o una sacerdotisa ugbabtum que no reside en un convento gagu abre una taberna o entra por cerveza en una taberna, a esa mujer, que la quemen.”
“117 § Si las deudas se apoderan de un hombre y tiene que vender a su esposa, a su hijo o a su hija, o andar ofreciéndoles para que sirvan por la deuda, que trabajen 3 años para la casa del que los compró o los tomó en servicio; el cuarto año serán libres.”
“119 § Si las deudas se apoderan de un hombre y tiene que vender a una esclava que ya le haya dado hijos y el dueño de la esclava paga todo el dinero que le había prestado el mercader, que redima a su esclava.”
“122 § Si un hombre da a otro hombre en depósito plata, oro o lo que sea, que todo lo que entrega lo enseñe a testigos, que redacte un contrato y que luego haga la entrega.
123 § Si efectúa la entrega sin testigos ni contrato y luego se lo niegan en el lugar en que lo entregó, en ese caso no podrá haber reclamación judicial.”
“127 § Si un hombre señala con el dedo a una sacerdotisa ugbabtu o a la esposa de otro hombre, y luego no lo prueba, a ese hombre que lo azoten ante los jueces; y le raparán media cabeza.
128 § Si alguien toma esposa, pero no redacta un contrato sobre ella, esa mujer no es esposa.
129 § Si la esposa de un hombre es sorprendida acostada con otro varón, que los aten y los tiren al agua; si el marido perdona a su esposa la vida, el rey perdonará también la vida a su súbdito.”
“131 § Si a la esposa de un hombre la acusa su marido y no ha sido descubierta acostada con otro varón, que ella jure públicamente por la vida del dios, y volverá a su casa.
132 § Si a la esposa de un hombre, a causa de otro varón, se la señala con el dedo, ella, aunque no haya sido descubierta acostada con el otro varón, tendrá que echarse al divino Río por petición de su marido.”
“134 § Si alguien es hecho preso y en su casa no hay de comer, que su esposa entre en casa de otro; esta mujer no tiene culpa.
135 § Si alguien está preso y en su casa no hay de comer, y su esposa, antes de que él vuelva, entra en casa de otro y alumbra hijos, y luego su marido logra volver y regresa a su ciudad, que esa mujer vuelva con su primer marido; los hijos seguirán a su padre.”
“137 § Si un hombre quiere divorciarse de una sacerdotisa shugitum que le ha dado hijos, o de una sacerdotisa naditum que le ha dado hijos, que a esa mujer le devuelvan su dote; además le darán la mitad del campo, de la huerta y de los bienes muebles, y criará a sus hijos; desde que haya criado a sus hijos, que a ella, de todo lo que les fue entregado a sus hijos, le den una parte como a un heredero más, y que case con ella el marido que a ella le guste.”
“139 § Si no ha habido precio de novia, le pagará 1 mina de plata como compensación por el repudio.
140 § Si es un individuo común, le pagará 1/3 de mina de plata como compensación por el repudio.
141 § Si la esposa de un hombre que vive en la casa del hombre planea irse y hace sisa, dilapida su casa, es desconsiderada con su marido, que se lo prueben; si su marido declara su voluntad de divorcio, que se divorcie de ella; no le dará nada para el viaje ni como compensación por repudio. Pero, si su marido no declara su voluntad de divorcio, que el marido tome a otra mujer y que la primera viva como una esclava en casa de su marido.
142 § Si una mujer siente rechazo hacia su marido y declara: «Ya no vas a tomarme», que su caso sea decidido por el barrio y, si ella guardó su cuerpo y no hay falta alguna, y su marido suele salir y es muy desconsiderado con ella, esa mujer no es culpable; que recupere su dote y marche a casa de su padre.
143 § Si no ha guardado su cuerpo, ha estado saliendo, ha dilapidado la casa y ha sido desconsiderada con su marido, a esa mujer la tirarán al agua.”
“145 § Caso que un hombre haya tomado (por esposa) a una (sacerdotisa) naditum y ella no le haya alumbrado hijos, si luego se propone tomar a una gugitum, que ese hombre tome a la shugitum, que la meta en su casa; pero la shugitum no tendrá el mismo rango que la naditum.” Pesquisar sobre o sistema de castas.
“148 § Si un hombre toma una esposa y a ella le ataca la sarna, y quiere tomar por esposa a otra, que la tome; que a su esposa con la sarna no la repudie; ella vivirá en la casa que hizo él y, mientras ella viva, él la seguirá manteniendo.”
“151 § Si la esposa de un hombre que vive en la casa del hombre, para evitar que se quede con ella un acreedor de su marido, obliga por contrato a su marido y le hace extender una tablilla, si ese hombre, antes de tomar a esa mujer, ya se había endeudado, sus acreedores no podrán hacerse con su mujer. Igualmente, si esa mujer, antes de entrar en casa de su marido, ya se había endeudado, sus acreedores no podrán quedarse con su marido.”
“153 § Si la esposa de un hombre, a causa de otro varón, hace que maten a su marido, a esa mujer la empalarán.
154 § Si un hombre yace con una hija suya, a ese hombre lo desterrarán de la ciudad.
155 § Si un hombre le elige una novia a su hijo y su hijo yace con ella, y más tarde es él quien yace con ella y lo sorprenden, a ese hombre lo atarán y lo tirarán al agua.”
“157 § Si un hombre, después de muerto su padre, yace con su madre, que los quemen a ambos.”
“158 § Si un hombre, después de muerto su padre, yace con su «principal» [=madrastra], que ya había alumbrado hijos, ese hombre será expulsado de casa de su padre.”
“161 § Si un hombre manda a casa de su suegro el regalo de esponsales y da el precio de la novia, y luego su amigo lo calumnia, y su suegro le dice al marido: «No tomarás a mi hija por esposa», que calcule 2 veces lo que le había sido llevado y lo devuelva, pero que a su esposa no la tome su amigo.” [¡]
“166 § Si un hombre les elige esposas a los hijos que haya tenido, pero no ha elegido aún esposa a su hijo menor, luego, al llegarle al padre su última hora, cuando los hermanos hagan partes, de los bienes de la casa del padre asignen a su hermano menor, que no ha tomado aún esposa, además de su parte, dinero para el precio de novia, y, de este modo, le dejarán tomar una esposa.”
“168 § Si un hombre se propone desheredar a su hijo y les dice a los jueces: «Desheredo a mi hijo», que los jueces decidan sobre su caso, y si el hijo no ha cargado con una falta lo suficientemente grave como para arrancarlo de su posición de heredero, el padre no lo arrancará de su condición de heredero.
169 § Si ha cargado con una falta respecto a su padre lo bastante grave para arrancarlo de su posición de heredero, que, la primera vez, no se lo echen en cara. Si se carga con una falta grave por segunda vez, su padre Io privará de su condición de heredero.”
“175 § Si un esclavo del palacio o un esclavo de individuo común toma por esposa a una hija de señor y ella alumbra hijos, el dueño del esclavo no reclamará como esclavos a los hijos de la hija de señor.”
“177 § Si una viuda, con hijos pequeños, quiere entrar como esposa en casa de otro, que no entre sin permiso de los jueces. Cuando entre, que los jueces valoren el patrimonio dejado por su marido y que el patrimonio del primer marido lo den en custodia al marido nuevo y a la mujer, y que se escriba una tablilla; tendrán que cuidar del patrimonio, y criar a los pequeños, y no venderán objeto alguno: el comprador que compre algo perteneciente a los hijos de la viuda perderá su dinero; la propiedad volverá a su dueña.”
“188 § Si un maestro artesano se lleva a un hijo ajeno para criarlo y le enseña su oficio, [el hijo] no podrá ser reclamado.”
“190 § Si un hombre se lleva un niño para adoptarlo y lo cría, pero no lo trata como a hijo, ese niño podrá volver a casa de su padre.”
“192 § Si el hijo adoptivo de un cortesano girsiqu o el hijo de una hieródula sekretum le dice al padre que lo ha criado o la madre que lo ha criado: «Tú no eres mi padre; tú no eres mi madre», que le corten a lengua.
193 § Si el hijo adoptivo de un cortesano girsiqu o el hijo de una hieródula sekretum averigua la casa de su padre natural y desdeña al padre que lo ha criado o a la madre que lo ha criado y se marcha a casa de su padre, que le saquen un ojo.
194 § Si un hombre confía su hijo a una nodriza y ese hijo muere mientras lo cuida la nodriza, si la nodriza, sin saberlo el padre ni la madre, se procura otro niño y se lo prueban, por haberse procurado otro niño sin saberlo el padre y la madre, que le corten un pecho.
195 § Si un hijo golpea a su padre, que le corten la mano.
196 § Si un hombre deja tuerto a otro, lo dejarán tuerto.
197 § Si le rompe un hueso a otro, que le rompan un hueso.
198 § Si deja tuerto a un individuo común o le rompe un hueso a un individuo común, pagará 1 mina de plata.
199 § Si deja tuerto al esclavo de un hombre o le rompe un hueso al esclavo de un hombre pagará la mitad de su valor.
200 § Si un hombre le arranca un diente a otro hombre de igual rango, que le arranquen un diente.”
“202 § Si un hombre golpea en la mejilla a otro hombre mayor que él, le darán en público 60 azotes de vergajo de buey.”
“205 § Si el esclavo de un hombre golpea en la mejilla al hijo de un hombre, que le corten una oreja.
206 § Si un hombre golpea a otro hombre durante una discusión acalorada y le produce una herida, que ese hombre jure: «Le he golpeado sin intención», y pagará el médico.”
“209 § Si un hombre golpea a una hija de hombre y le causa la pérdida del fruto de sus entrañas, pagará 10 siclos de plata por él.
210 § Si esa mujer muere, que maten a su hija.” Ambíguo, embora entendamos (pelo principio de Talião)!
“213 § Si golpea a la esclava de un hombre y le provoca la pérdida del fruto de sus entrañas, pagará 2 siclos de plata.”
“215 § Si un médico hace incisión profunda en un hombre con bisturí de bronce y le salva la vida al hombre, o si le abre la sien a un hombre con bisturí de bronce y le salva un ojo al hombre, percibirá 10 siclos de plata.” [¡]
“218 § Si un médico hace incisión profunda en un hombre con bisturí de bronce y le provoca la muerte, o si le abre la sien a un hombre con bisturí de bronce y deja tuerto al hombre, que le corten la mano.”
“219 § Si un médico hace incisión profunda al esclavo de un individuo común y le provoca la muerte, restituirá esclavo por esclavo.”
“224 § Si un veterinario hace incisión profunda en un buey o en un asno y le salva la vida, el dueño del buey o del asno le dará al médico 1/6 de siclo de plata al médico como paga.
225 § Si hace incisión profunda en un buey o un asno y le causa la muerte, pagará al dueño del buey o del asno 1/4 de su valor.
226 § Si un barbero, sin consentimiento del dueño de un esclavo, afeita el copete [topete] a un esclavo que no sea suyo, que corten la mano del barbero.
227 § Si un hombre hace que un barbero le afeite el copete a un esclavo que no es suyo, que ejecuten a ese hombre y lo cuelguen a la puerta de su casa; que el barbero jure: «Lo he afeitado sin saberlo» y no tendrá castigo.”
“229 § Si un albañil hace una casa a un hombre y no consolida bien su obra y la casa que acaba de hacer se derrumba y mata al dueño de la casa, ese albañil será ejecutado.
230 § Si muere un hijo del dueño de la casa, que ejecuten a un hijo de ese albañil.”
“232 § Si destruye bienes de la propiedad, que restituya todo lo destruido y, por no haber consolidado bien la casa que hizo y haberse derrumbado, que a su costa rehaga la casa derrumbada.”
“239 § Si un hombre contrata un barquero, le pagará 6 kures de cebada por año.”
“250 § Si un buey, al ir por una calle, da una cornada a un hombre y lo mata, no hay lugar para una reclamación judicial.
251 § Si el buey de un hombre suele dar cornadas y su barrio ya le ha hecho saber que da cornadas y él ni le recorta los cuernos ni controla su buey, si luego ese buey da una cornada a un hijo de hombre y lo mata, pagará ½ mina de plata.
252 § Si es el esclavo de un hombre, pagará 1/3 de mina de plata.”
“266 § Si en un corral, hay un toque de dios o un león mata reses, el pastor jurará públicamente su inocencia ante el dios, y, las pérdidas del corral, será el dueño del corral quien las afrontará en lugar suyo.”
“278 § Si un hombre compra un esclavo o una esclava y, antes de que haya pasado un mes, le da un solo ataque de epilepsia, que lo devuelva al que se lo vendió, y el comprador recuperará el dinero pagado.”
“282 § Si un esclavo dice a su amo: «Tú no eres mi amo», que el amo pruebe que sí, él es su esclavo, y luego le corte la oreja.” (último artigo)
“Yo soy Hammurabi, el rey perfecto. Respecto a los «Cabezas Negras» que me regaló Enlil y cuyo pastoreo me confió Marduk, no fui nada negligente, no me crucé de brazos. Les fui buscando lugares tranquilos, resolví las dificultades más duras, les hice salir la luz. Con el arma poderosa que me habían prestado el divino Zababa y la divina Ishtar, con la agudeza que me destinó el divino Ea, con la fuerza que me donó el divino Marduk, aniquilé a los enemigos arriba y abajo, extinguí la resistencia, y volví placentera la vida del País. Asenté a la gente aglomerada en regadíos, y no dejé pasar a nadie que los pudiera inquietar. Los Grandes Dioses me llamaron: yo soy el único Pastor Salvífico, de recto cayado, mi buena sombra se extiende por mi capital, llevé en mi regazo a la gente de Súmer y Acad, han prosperado por la Virtud mía, los he conducido en paz, los he resguardado con mi perspicacia. Para que el fuerte no oprima al débil, para garantizar los derechos del huérfano y la viuda, en Babilonia, la capital cuya cabeza exaltaron Anum y el divino Enlil, en el Esagil, el templo cuyos cimientos son tan sólidos como los cielos y la tierra, para decretar el derecho del País, para dictar las sentencias del País, para garantizar los derechos del oprimido, he inscrito mis eximias palabras en la estela mía, y las he alzado delante de mi estatua de Rey de la Equidad. Yo soy el rey que sobresale de entre los reyes. Mis palabras son exquisitas, mi potencia no tiene igual. Que, por orden de Shamash, el gran juez de cielos y tierra, brille mi Equidad en el País; que, por la palabra de Marduk, mi señor, mis signos y designios no tengan que enfrentarse a quien las aniquile; que, en el Esagil, que tanto amo, sea mi nombre pronunciado con gratitud por siempre. Que el oprimido a quien llevan a juicio pueda acudir ante mi estatua de Rey de la Equidad, que lea y relea mi estela inscrita y oiga mis exquisitas palabras, que mi estela le aclare el caso, él mismo comprenda su sentencia, y su corazón respire diciendo: «Hammurabi – el Señor que se manifiesta como padre carnal de la gente ha vibrado ante las palabras del divino Marduk, su señor, y ha hecho realidad los deseos de victoria de Marduk arriba y abajo; ha regocijado el corazón de Marduk, su señor, y convertido el bienestar en el destino sempiterno de la gente, e impuesto su derecho en el País».” “Que, en días venideros -en cualquier tiempo-, el rey que surja en el País guarde las palabras de Equidad que he grabado en mi estela; que no falsee la legislación que le he dado al País, ni las sentencias que he dictado al País; que no aniquile mis signos y designios. Si ese hombre tiene inteligencia y es capaz de poner orden en su país: que atienda a las palabras que he grabado en mi estela, y que, el camino, la conducta, la legislación que he dado al País, las sentencias que he dictado para el País, se los enseñe esta estela, y que dirija bien a sus «Cabezas Negras», que les dé una ley y que decida sobre ellos: que erradique de su país al malvado y al inicuo y procure el bienestar de su gente.” “Que el divino Nergal, el más Fuerte de los dioses, irresistible en la batalla, el que me asegura el triunfo, con su enorme poder queme a su gente como un incendio desatado en el cañaveral y, con su arma poderosa, lo haga azotar y desmenuce sus miembros como de figurilla de barro.”
“DIOSES Y TEMPLOS
Adab, lugar al SE [sudeste] de Nippur, culto a la diosa Nimmaj (hoy Bismaya).
Adad/Ishkur, dios del clima y la tormenta, culto en Karkara.
Anum/An, Dios del cielo, padre de los dioses (Uruk).
Anunnaku, el panteón, los dioses reunidos.
Aya, diosa de la luz, esposa de Shamash (Sippar).
Dagán, dios del cereal (Éufrates medio).
Damgalnunna, esposa de Ea/Enki (Malgum).
Dilbad, al S [sul] de Borsippa (dios Urash).
Duranki, lazo de cielo y tierra, mote de Nippur.
Ea/Enki, el Viviente, dios del saber y la magia, rey del abismo inferior de agua dulce.
E’abzu, casa del abismo subterráneo, templo de Ea en Eriddu.
E’anna, casa del cielo, templo de Ishtar en Uruk.
Ebabbar, casa blanca, templo de Shamash en Sippar y Larsa.
Egalmaj, palacio espléndido, templo de Ishtar en Isin.
Ekishnugal, casa rebosante de luz, templo de Sin en Ur.
Ekur, casa de la montaña, templo de Enlil en Nippur.
Emaj, casa espléndida, templo de Ninmaj en Adab.
Emeslam, casa del guerrero infernal, templos de Nergal (Kuta, Mashkan Sapir) y Erra (Kuta).
Emesmes, templo de Ishtar en Nínive.
Emete’ursag, casa digna del héroe, templo de Zababa en Kish.
Eninnu, casa de los 50 pájaros blancos del abismo, templo de Ningirsu (Girsu).
Enlil, el señor del aire, dios de la atmósfera, hijo de Anu, esposo de Ninlil, jefe de los dioses (Nippur).
Erra, dios de la peste y la guerra (Kuta).
Esagil, casa de la alta cima, templo de Marduk en Babilonia.
E’udgalgal, casa de las tempestades, templo de Adad en Karkara.
E’ulmash, templo de Ishtar en Acad.
Ezide, casa de la justicia, templo de Tutu en Borsippa.
Hursagkalamma, montaña mundial, templo de Ishtar en Kish.
Id, río divino cuando juzga por ordalía.
Igigu, conjunto de los dioses mayores.
Inanna = Ishtar.
Ishkur = Adad.
Ishtar = Inanna, diosa de la guerra y del amor, planeta Venus.
“Julian thought he could have stood his lot better if she had been selfish, if she had been an old hag who drank and screamed at him. He walked along, saturated in depression, as if in the midst of his martyrdom he had lost his faith.”
“if you know who you are, you can go anywhere. She said this every time he took her to the reducing class.”
“Knowing who you are is good for one generation only. You haven’t the foggiest idea where you stand now or who you are.”
“You remain what you are, she said. Your great-grand-father had a plantation and two hundred slaves.
There are no more slaves, he said irritably.”
“I’ve always had a great respect for my colored friends”
“Behind the newspaper Julian was withdrawing into the inner compartment of his mind where he spent most of his time. This was a kind of mental bubble in which he established himself when he could not bear to be a part of what was going on around him. From it he could see out and judge but in it he was safe from any kind of penetration from without. It was the only place where he felt free of the general idiocy of his fellows. His mother had never entered it but from it he could see her with absolute clarity.”
“he realized he was too intelligent to be a success”
“She excused his gloominess on the grounds that he was still growing up and his radical ideas on his lack of practical experience. She said he didn’t yet know a thing about ‘life,’ that he hadn’t even entered the real world – when already he was as disenchanted with it as a man of fifty.
The further irony of all this was that in spite of her, he had turned out so well. In spite of going to only a third-rate college, he had, on his own initiative, come out with a first-rate education; in spite of growing up dominated by a small mind, he had ended up with a large one; in spite of all her foolish views, he was free of prejudice and unafraid to face facts. Most miraculous of all, instead of being blinded by love for her as she was for him, he had cut himself emotionally free of her and could see her with complete objectivity. He was not dominated by his mother.”
“He would have liked to get in conversation with the Negro and to talk with him about art or politics or any subject that would be above the comprehension of those around them, but the man remained entrenched behind his paper. He was either ignoring the change of seating or had never noticed it. There was no way for Julian to convey his sympathy.”
“Instead, he approached the ultimate horror. He brought home a beautiful suspiciously Negroid woman. Prepare yourself, he said. There is nothing you can do about it. This is the woman I’ve chosen. She’s intelligent, dignified, even good, and she’s suffered and she hasn’t thought it fun.”
“He could not believe that Fate had thrust upon his mother such a lesson. He gave a loud chuckle so that she would look at him and see that he saw. She turned her eyes on him slowly. The blue in them seemed to have turned a bruised purple. For a moment he had an uncomfortable sense of her innocence, but it lasted only a second before principle rescued him. Justice entitled him to laugh. His grin hardened until it said to her as plainly as if he were saying aloud: Your punishment exactly fits your pettiness. This should teach you a permanent lesson.”
“She kept her eyes on the woman and an amused smile came over her face as if the woman were a monkey that had stolen her hat.”
“Don’t think that was just an uppity Negro woman, he said. That was the whole colored race which will no longer take your condescending pennies. That was your black double. She can wear the same hat as you, and to be sure, he added gratuitously (because he thought it was funny), it looked better on her than it did on you. What all this means, he said, is that the old world is gone. The old manners are obsolete and your graciousness is not worth a damn. He thought bitterly of the house that had been lost for him. You aren’t who you think you are, he said.”
“He turned her over. Her face was fiercely distorted. One eye, large and staring, moved slightly to the left as if it had become unmoored. The other remained fixed on him, raked his face again, found nothing and closed.”
“Help, help! he shouted, but his voice was thin, scarcely a thread of sound.”
Ironically, the son killed his raucous mother; Jacob read it as a sycophant father killed (failed to kill) his honest son. And not by rising, but by making him descend! The son in O’Connor’s felt guilty, unlike the dad in Lost’s.
“É em nome da auto-análise de Freud que a auto-análise é hoje reconhecida por alguns como uma prática completa. Num livro recente, um autor alemão, Karl König, escreveu: <Freud fez a primeira auto-análise (1900). Quando de sua auto-análise, Freud dirigiu-se a um parceiro, Fliess, e talvez o tenha imaginado durante a auto-análise; pelo menos, sempre o trouxe em seus pensamentos.> O autor expôs em seguida a técnica da auto-análise: a análise dos próprios sonhos e o que ele denominou de <micro-sintomas>: esquecimentos momentâneos, dores de cabeça, dores de barriga. estados depressivos e, acima de tudo, coincidências temporais que criam um vínculo causal. Veremos que a atenção dada a este último aspecto foi um dos pilares do método de interpretação de Fliess.”
“essa auto-análise que prolonga a análise pode ser considerada, por uma curiosa inversão, como o começo da análise.”
1. A CORRESPONDÊNCIA FREUD/FLIESS, UM QUEBRA-CABEÇA TRUNCADO
“Algumas cartas de F. a Fliess foram publicadas pela 1ª vez no começo de 1906, durante a vida de F., mas sem sua autorização, no panfleto de Richard Pfennig intitulado Wilhelm Fliess e seus descobridores imitadores, O. Weininger e H. Swoboda, que acusava Weininger e Swoboda de haverem, por intermédio de Fr., plagiado Fl..” “Uma 2ª reprodução dessas 4 cartas (com diferenças mínimas de citação) saiu em junho de 1906, na brochura de Fl. denominada Em minha causa própria, que retomava as acusações de Pfennig.” “Fr., muito afetado pela publicação maldosa de suas cartas particulares ao amigo, decidiu, depois de 1904, destruir todas as cartas que recebera de Fliess, de modo que, hoje em dia, dispomos apenas de metade da correspondência.”
“A ascensão do nazismo obrigou os Fliess a emigrar e a se separar de parte dos arquivos de Fl., ao mesmo tempo que tentavam certificar-se de que esse material não seria destruído pelos nazistas. Após refletir sobre o assunto, Charles Fliess achou que a solução mais segura seria dirigir-se a um negociante de livros, pois sua profissão o punha em contato com o exterior e, desse modo, ele teria mais facilidade em fazer com que saíssem documentos da Alemanha. Foi assim que Charles vendeu as cartas de Fr., depois de fazer uma triagem prévia”
“O livreiro que comprou 250 das cartas de Fr. entrou em contato com Marie Bonaparte para lhe vender o conjunto a 12 mil francos.”
“Depois da guerra, Bonaparte, Anna Freud e Ernst Kris decidiram publicar as cartas, mas fazendo previamente uma triagem e censurando boa parte delas. O livro foi lançado em 50, sob o título de Aus den Anfängen der Psychoanalyse. Briefe an Wilhelm Fliess, Abhandlungen und Notizen aus den Jahren 1887-1902, Londres, Imago. A versão francesa saiu em 1956. Até hoje, início de 95, esse é o único texto das cartas de Fr. a Fl. de que o público francês dispõe! Graças ao trabalho de Michael Schröter, Gerhard Fichtner e Jeffrey Moussaieff Masson, a S. Fischer lançou, em 86, o volume Sigmund Freud Briefe an Wilhelm Fliess 1887-1904, que contém quase a íntegra não-censurada. A edição inglesa, de 85, traz erradamente o título The Complete Letters of (…).”
“Em 1895, época em que a correspondência atingiu um 1º pico, Fliess descobriu a solução para a concepção, i.e., as cifras referentes aos períodos masculinos e femininos – 23 e 28 –, os quais, segundo ele, regiam, entre outras coisas, a determinação do sexo e das datas de fecundidade.” “Um segundo pico foi atingido em 1897. A curva atingiu seu ápice em 1899, ano em que Fr. mandou publicar, no outono, A interpretação (…), depois de um momento de pressa de concluir ocorrido no verão, corrigindo com Fl. as provas dos primeiros capítulos (…) Depois a correspondência diminuiu muito rapidamente.”
“Essas cartas são bem-escritas, sempre em caracteres góticos. Vez por outra, Fr. utiliza palavras iídiche (Meschugge), ou do dialeto vienense (Knetscher), ou expressões em francês.”
“A importância da clientela de Fr. varia ao longo dos meses. Pode ir de 11 clientes/dia (em 1898) até 3 e ½ (!) (em 20/05/1900). Fr. não quer ter pacientes em demasia – eles lhe são um tormento quando está deprimido, o que não é raro”
“Como indica nos Estudos sobre a histeria, depois Fr. abandonou a hipnose, a fim de praticar a busca de idéias e lembranças através da pressão das mãos sobre a fronte. Mais adiante vem a técnica das associações livres, à qual ele certamente faz alusão em sua carta de 07/07/1897.”
“metapsicologia, termo surgido em 13/02/1896.”
“O Sr. E.: o ataque de angústia diante de um escaravelho (Käfer), aos 10 anos de idade, continuara inexplicado até o momento em que ele descobriu que essa palavra devia ser escutada como Que faire?, índice da perplexidade de sua mãe na hora de se casar.”
“Muitos desses manuscritos não foram preservados. Esse foi o caso, em especial, de uma série que ele batizou com o nome grego de Drekkologie (merdologia). Em consonância com seu nome, nenhum desses manuscritos foi conservado. Numerados 1, 2, 3,…, eles foram remetidos entre o fim de 1897 e o começo de 1898. Fliess os devolveu, depois de fazer algumas correções. Um desses textos da Drekkologie continha, provavelmente, um grande sonho de Fr., que ele tencionava inserir em lugar de destaque na Traumdeutung, mas que retirou a conselho de Fliess, porque dizia respeito a Martha. (…) Fr. também corrigia os manuscritos de Fl. – principalmente até a publicação de As relações entre o nariz e os órgãos genitais femininos, do fim de 1896 – e utilizava os trabalhos do amigo em suas pesquisas.”
“eles começaram por fazer o projeto de um livro a 2, versando sobre a neurastenia e a neurose de angústia. Esse projeto alimentou boa parte de sua correspondência entre 1892 e meados de 1893, momento em que o ritmo de suas cartas se acelerou. (…) Esse projeto tinha um objetivo nosográfico (a distinção entre as neuroses atuais e as psiconeuroses)”
SUJEITO NARIGUDO: “Fl. havia escrito um artigo preparatório para o estudo comum: Nova contribuição para a clínica e a terapia das neuroses nasais reflexas.”
Fl. A neurose nasal reflexa, abril de 1893 (conferência)
“Muito mais tarde, quando os 2 já haviam se afastado, Fr. renovaria a Fl. a proposta de escrever um livro conjunto sobre a bissexualidade. O projeto não foi além dessa proposta.”
“Fl., que até então só se ocupara das neuroses nasais reflexas, iria desenvolver, a partir dessa data (maio de 1895), um sistema delirante de interpretação, baseado na existência de períodos masculinos e femininos de 23 a 28 dias, aplicáveis com a mesma regularidade aos acontecimentos normais e patológicos que sucedem ao ser humano, assim como aos animais e às plantas. Esse sistema entrou em vigor a partir de As relações. Freud desconheceu o caráter delirante do sistema fliessiano e não tardou a se interessar por seus cálculos. Alimentou-os, fornecendo listas de datas de acontecimentos ocorridos com seus pacientes ou em sua família, procurando verificar a teoria de Fl. em si mesmo e integrando-a em sua própria teoria das neuroses – p.ex., na distinção entre as fases sexuais e as fases psíquicas que fossem múltiplas, respectivamente, de 23 e 28 dias.”
“Reconheceu não estar certo de poder retribuir na mesma moeda no que concernia à grande obra que Fl. estava preparando, O curso da vida: Fundamento para uma biologia exata, que só viria a ser publicado em 1906, embora Fr. desejasse vê-lo lançado ao mesmo tempo que a Traumd..”
“Anna receberia o nome de Wilhelm, se o filho esperado fosse um menino, como era previsto (pelos cálculos de Fliess).”
“Martin era atacado, segundo palavras do pai, de <Dichteritis (‘poesite’) periódica>.” Aos 8 anos de idade? Difícil acreditar…
“Fala pouco da mãe, mencionando com maior freqüência Martha e Minna, que vai morar em sua casa, e o pai, falecido em 23/10/1896, dia do aniversário de Fliess (…) Fr. responsabiliza seu pai pela histeria de seu irmão [??].”
“Dora, fragmento da análise de um caso de histeria estava pronto desde 1901, mas Fr. renunciou a publicá-lo, ao se dar conta de haver perdido Fl. como público.”
“Ao longo da correspondência, Fr. também modificou sua maneira de falar de si mesmo. Até 95, queixava-se muito da saúde e apelava para o médico que havia em Fl., o qual viera substituir Breuer nesse papel. Consultava-o sobre seu catarro nasal, suas enxaquecas e seus distúrbios cardíacos (dores, arritmia, etc.), que ele supunha estarem ligados a uma miocardite. Fliess aconselhou Fr. a parar de fumar charutos e, achando que se tratasse também de uma neurose nasal reflexa [hahaha], praticou em Fr. a cocainização do nariz. Fl., por sua vez, queixava-se sistematicamente de enxaquecas fortíssimas.”
“Ida ocupa um lugar de destaque em As relações, sob o nome de Sra. A., havendo Fr. desaconselhado que ela fosse chamada pelo nome verdadeiro.”
“Fr. observa ao amigo (no Manuscrito O) o quanto ele tem sorte por contar com uma mulher que é, ao mesmo tempo, sua paciente e sua secretária (ela retranscrevia os manuscritos do marido).”
“Aliás, sucedeu a Fr. pedir que Fl. lhe devolvesse esta ou aquela carta, por precisar dela para alguma publicação.” E um homem tão precavido não as copiava antes?!
“Como dizia Montaigne, mesclavam-se <na amizade outra causa e meta e fruto que não a amizade em si>.”
“o que conheces de melhor não pode ser dito aos meninos” Goethe
“Assim como as cartas de Fr. a Fl. não contam uma história, elas também não formam um todo. Constituem, antes, um quebra-cabeça no qual faltam diversas peças.”
“A falta das cartas de Fl. desequilibra a correspondência e induz a sua leitura no sentido de uma história na qual um dos personagens – no caso, Fl. – ocupa o lugar do ausente, do Outro silencioso, que não responde. É muito fácil, a partir daí, dar um passo a mais e dizer que Fl. encarnou a posição do analista para Fr., e que Fr. fez uma auto-análise com Fl.. Esse foi o passo dado pela maioria dos psicanalistas, que erigiram a auto-análise de Fr. com Fl. num mito fundador. Ainda hoje, estamos a tal ponto impregnados desse mito que nem sequer avaliamos a sua amplitude ou seus efeitos. Ele constitui uma versão das origens da psicanálise que prevalece tanto entre os lacanianos quanto entre os não-lacanianos. Octave Mannoni contribuiu para forjá-la em seu livro sobre Fr., notável sob outros aspectos.” “É sobretudo a Didier Anzieu que devemos, na França, a propagação do mito da auto-análise de Fr., que ele construiu nas 3 edições revistas de seu livro L’auto-analyse de Freud et la découverte de la psychanalyse.”
2. O CASO DA AUTO-ANÁLISE DE FREUD, NÃO SEM UM ITALIANO CULTO
“Cada tornar-se analista é determinado, em parte, pelo desejo que movia Fr. e Lacan como analistas.” Acho que já sei por que nunca me tornei um.
“O livro de Anzieu contribuiu para fabricar um mito da auto-análise, na medida em que equivaleu a uma reconstituição de uma espécie de <Diário de minha auto-análise> escrito por Fr., uma espécie de autobiografia analítica. Seu método consistiu em ligar, pela trama do que é sabido sobre a história de Fr., os sonhos, formações do inconsciente e ditos deste último a Fl..”
“no encontro no lago de Achen, em julho de 1900, Fl. afastou-se voluntariamente de Fr. e espaçou a remessa de suas cartas.” “Em 1901, Fl. censurou-o por <só ler nos pensamentos dos outros seus próprios pensamentos>.”
“A convicção de que seu pai, que morreu de erisipela após longos anos de supuração nasal, poderia ter sido salvo fez dele um médico, e até direcionou sua atenção para o nariz. A morte súbita de sua única irmã, 2 anos depois, no 10º dia de uma pneumonia pela qual ele não pôde responsabilizar os médicos, inspirou-lhe a teoria fatalista das datas predestinadas para a morte – como que para se consolar. Esse fragmento de análise, contrário ao desejo dele, foi o motivo interno do rompimento, que ele empregou de maneira sumamente patológica (paranóica).”
“Fl. sabia que seu pai não havia morrido de erisipela, e sim que se havia suicidado. O fato de ele não ter dito nada a Fr. a esse respeito mostra sua desconfiança, anterior a qualquer interpretação procedente de outrem.”
MEIO LENTO O DOUTOR, NÃO? “Foi preciso esperar pela divulgação da acusação de plágio, em 1906, para que Fr. começasse a conceber a idéia de que o amigo havia ultrapassado os limites do que ele esperava de uma amizade.”
“De aparecimento relativamente recente e de contornos imprecisos, a biologia era um campo que Fr. esperava que trouxesse uma certa garantia ou confirmação para o caminho que ele ia abrindo.”
“estou 10 a 15 anos à frente” 01/01/00 – de qualquer modo não foi muito…
“Uma vez que a biologia era uma ciência relativamente nova, havia margem para esse tipo de esperança. (…) Ele não hesitou em qualificar Fliess de Kepler da biologia, coisa de que o próprio Fl. estava convencido. Assim, a certeza megalomaníaca de que este dava mostras habilitou-o a desempenhar o papel que Fr. esperava dele.”
“Em sua carta de 22/09/98 a Fl., escreveu: Endlich erfuhr ich den Namen: Signorelli – <Finalmente aprendi o nome: Signorelli>, o que foi impropriamente traduzido, em La Naissance de la psychanalyse, como <Finalmente, lembrei-me do nome: Signorelli>. Depois, em seu artigo de 1898 intitulado O mecanismo psíquico do esquecimento, Fr. foi mais explícito: <Dado que, durante a viagem, eu não tinha nenhum acesso a livros de consulta, tive que aceitar, por vários dias, essa perda da lembrança e o tormento interno que lhe estava ligado, o qual retornava diversas vezes por dia, até que encontrei um italiano culto que me libertou, através da comunicação do nome: Signorelli.> Por último, no 1º capítulo da Psicopatologia da vida cotidiana, lemos: <Quando o nome correto me foi comunicado por uma fonte externa (vom fremder Seite), reconheci-o imediatamente e sem hesitação.> Anzieu cometeu um erro, portanto, ao atribuir à auto-análise de Fr., sozinho, o retorno do nome, porquanto ele não chegou à solução por si mesmo – apesar, justamente, de sua obstinação, ou seja, dos vários dias de tentativas repetidas e tormentosas –, e foi preciso um encontro com um italiano culto para que ele fosse liberto de seu tormento. É claro que Anzieu se apoiou numa tradução ruim da carta de 22/09/98. Mas não se pode imputar sua leitura unicamente a essa tradução, pois ele faz referência também ao texto alemão, e as versões do artigo de 1898 e da Psicopatologia são inequívocas quanto à intervenção do terceiro.”
gebildeten Italiener
ele era cultivado como uma planta!
o italiano ilustrado
Retirem o Édipo e a psicanálise em extensão fica inteiramente sujeita ao delírio do presidente Schreber
Lacan
encontrou o que estava procurando? encontrou-se ao menos?
a cultura é um peido estrondoso ou silencioso?
me dei (bem) comigo mesmo no espelho
Definitivamente Freud não compreenderia Lacan.
3. UM RESTO NÃO-ANALISADO DE FREUD PARA LACAN, EM 1964
“Hoje em dia, talvez vejamos menos lacanianos do que em 1979, e as divisões entre eles favorecem um recuo, mas ainda é fato que o lacanismo é hoje um elemento de nossa cultura. Isso é conseqüência da crise que abalou o movimento analítico francês nos anos 60 e que foi resolvida através da suspensão, por Lacan, de seu seminário sobre os nomes do pai, e de sua criação da Escola Freudiana de Paris. Ao proceder desse modo, Lacan quis romper com o corporativismo da sociedade de psicanálise a que pertencia e criar, por meio do fato cultural, interligações entre a psicanálise e o conjunto da sociedade.” blábláblá…
“A Escola que ele fundou, aliás, foi aberta aos não-analistas, que ali deveriam exercer uma função.”
“Em 20/11/63 realizou-se a primeira sessão desse seminário. Lacan anunciou que ela seria também a última. [?]” “Voltando a falar desse seminário nos anos seguintes, Lacan manteria o suspense, em vez de confirmar a suspensão definitiva. A suspensão do seminário constituiu uma reação às medidas discriminatórias da IPA que a SFP ratificou em relação e ele, em 11/63, e que Lacan assimilou a uma excomunhão, tal como a que atingira Espinosa. Essa história havia começado em 1959, com o pedido de adesão da SFP à IPA. Este foi acompanhado, durante 4 anos, por uma sucessão de inquirições e negociações, cujo pivô era o afastamento de Lacan e que, no fim de 07/63, levaram à chamada Diretriz de Estocolmo, que estipulava que ele fosse riscado da lista de didatas”
O homem que não acabava nada… “Em seguida deveria vir um livro de L., intitulado Questionamento do psicanalista, mas este nunca veio à luz. Em 65, porém, L. leu em seu seminário excertos de um livro que estava escrevendo, intitulado Vias da psicanálise verdadeira, mas que também ficaria inacabado.”
“Em 01/64, um mês depois da suspensão do seminário Os nomes(…), Lacan começou um outro”
“Depois de fundar sua Escola, em 21/06/64, L. pôde prevalecer-se de ter os pés em 3 Escolas: a ENS, com respeito ao lugar geográfico, a EPHE, como lugar social que se abria para o meio científico, e a Escola Freudiana de Paris, como lugar de transmissão formado por ele e seus alunos.”
“Na virada que se efetuou para Lacan em 1963-4, o encontro com Althusser foi decisivo.”
“Lacan tencionava não se deixar encerrar nos impasses de uma transmissão religiosa da psicanálise, impasses dos quais não bastava sair da IPA para escapar.”
“Uma escola, quando merece esse nome, no sentido em que esse termo é empregado desde a Antiguidade, é uma coisa onde se deve formar um estilo de vida”
L. 27/01/65 (por que é tão importante datar tudo?)
“Quanto ao seminário, ele deve ter um valor de ação para os que o acompanham”
“Chegou até a intitular um seminário de Les non-dupes errent [Os não-tapados erram]” “a descoberta do nó borremeano” “sujeito suposto saber”
ESSA TERMINOLOGIA ME DÁ ENGULHO
“Fl. teria encarnado, para Fr., uma imagem do Nome do pai sujeito suposto saber, no ideal científico que representava aos olhos dele, e essa imagem ter-se-ia transmitido para a psicanálise, sem que Fr. se apercebesse.”
“a distinção estabelecida por Pascal entre o Deus de Abraão, Isaac e Jacó e o Deus dos filósofos. Essas duas versões de D. de modo algum são incompatíveis num mesmo sujeito.”
“Na ciência, a forclusão [inclusão fora] da verdade como causa a faz aparentar-se com a paranóia, na qual existe uma forclusão do Nome-do-Pai. Como conciliar, sendo assim, a idéia da psicanálise – paranóia bem-sucedida – com o fato de ela reintroduzir o Nome-do-Pai na consideração científica?” Metafísica ela não é. Não que fosse possível de qualquer forma…
“podemos ver desatar-se em algum lugar o QUIASMA que lhe parece criar obstáculos.”
“Ora, o princípio da verdade como causa resulta da divisão forclusiva de Descartes, que, ao remeter a garantia das verdades eternas a Deus-sujeito suposto saber, permitiu que a ciência deslanchasse como acumulação de saber.”
“a publicação de Emílio correspondeu ao desencadeamento de um delírio em Rousseau. Alguns atrasos na impressão levaram-no a crer que os jesuítas se haviam apoderado do texto e tinham armado um conluio para lhe acrescentar suas próprias idéias, usando seu nome.” “A ficção do aio deve ser considerada como um Nome-do-Pai para Rousseau.”
“A continuação de Emílio, Emílio e Sofia ou Os solitários, encerra-se num drama, bem ao estilo de Rousseau. Emílio perde tudo: separa-se de Sofia, seus filhos e seus sogros morrem. <Tudo me anunciava uma vida agradável, tudo me prometia uma doce velhice e uma morte tranqüila nos braços de meus filhos. Ai de mim!>”
4. FLIESS, UM ARTISTA DA CIÊNCIA
“Swoboda era um jovem doutor em direito e filosofia, que entrou em análise com Fr. em 1900 e se lançou em estudos de psicologia, depois publicados em seu livro sobre os períodos. Afirmava ele que a emergência espontânea das lembranças sobrevinha ao cabo de um período de horas ritmado pelas cifras 23 e 18, e por seus múltiplos.”
“O livro de Weininger saiu em maio de 1903. Wei. suicidou-se em outubro do mesmo ano, na mesma casa em que morreu Beethoven. Antes de morrer, escreveu: <Mato-me para não matar um outro>.”
*POH4, FDI6, BIP6, FL6
“POH4, anterior à briga, teve como ambição fundar uma nova psicologia, emancipada da psicologia experimental e de sua instrumentação, que levasse em conta o conhecimento da psique individual e casos tomados em suas condições de vida habituais [psicologia da vida cotidiana].” Swoboda: “Se nos queimarem um quadro de Böcklin,se perderem a partitura dos Mestres Cantores, poderemos falar numa perda insubstituível. Na ciência, porém, não passamos de soldados rasos. Enquanto estivermos produzindo o individual, não teremos a menor relação com a ciência. Não existe na ciência o splendid isolation. Por aí se explica também o fato de as descobertas científicas serem, muitas vezes, feitas ao mesmo tempo.”
FID6: “É justamente o contrário que sucede: o desempenho científico de alta classe traz uma marca tão individual quanto qualquer desempenho artístico, e não é menos raro nem menos precioso do que este.”
“contrastar o artista com o cientista equivale a refutar a teoria dos períodos”
BIP6, a tréplica: “Quanto mais artista alguém é, menos precisa temer por sua prioridade.” “Existe um desenvolvimento contínuo e histórico da ciência, enquanto, na arte, qualquer realização, seja qual for sua época, pode continuar a ser admirável.” Um dos últimos anos em que se podia ser ingênuo o bastante para afirmar isso sem uma chuva de vaias.
Kuhn: “Os cientistas dirigem-se a um público restrito, uma <platéia>, e os artistas a um público amplo e em lugares diversos: leitores críticos, museus, galerias, etc. [uau, que multidão!]“a ciência destrói seu passado (…) nesse aspecto, K. aproxima-se de Lacan”“a arte cultiva seu passado”
“A nova concepção fliessiana da dupla sexuação permanente lançava na obscuridade, segundo seu autor, todas as concepções da bissexualidade que a haviam precedido.”
“os <alunos> de Fl. não parecem haver transmitido a teoria fliessiana a uma nova geração.”
Vol quatre du Banque Sabbath
“Fl. não discutia seu método; expunha seus resultados como a transcrição de uma lei da Natureza.”
Nesse mesmo dia há exatos 4700 anos um ancestral meu pegou um forte resfriado!
“A simultaneidade significativa dos acontecimentos era o zero necessário ao cálculo e do qual provinha a seqüência dos números.”
0 4 8 15 16 23 42
. . .
“A nosso ver [NÓS LACANIANOS], o sistema teórico de Fl. constituiu-se como uma defesa contra a transmissão de pensamento”
“Em O curso da vida, Fl. comparou a duração da vida do príncipe de Orange, Guilherme IV, e de sua irmã, Charlotte Amalie von Nassau Dietz, com a da vida de Bismarck e de Goethe, para constatar que, reduzidas a fórmulas escritas unicamente com os nos. 23 e 28, essas durações eram formalmente vizinhas.
Em O ano no ser vivo, comparando entre si os intervalos de nascimento de um certo n. de famílias e comparando-os com os intervalos nas datas de floração de uma planta, Fl. chegou a enunciar uma equação entre a família Fr. e a família Fl.: Freud 1 = Fliess 1 – (2Å [0,2 nanômetros?] – 23), onde Å representa o ano (365 dias), e o n. 1 indica os intervalos de nascimento entre os dois primeiros filhos de Fr. e de Fl..” “Essa fórm. evidencia o que Fl. chamava de Tipo D acrescido de 1 ano (os nos. entre parênteses), também encontrado em outras famílias e até em plantas.”
Guilherme PREMONIÇÃO Fliess
“Em Vom Leben und vom Tod(Da vida e da morte), Fliess relatou que, em 1886, morreram de tuberculose 34,19 homens em cada 10 mil, e 28,2 mulheres em cada 10 mil. A relação é igual a 28/23.” “A natureza escolhe, tanto entre os homens quanto entre as mulheres, grupos de 23 ou 28 seres, e os liga todos a um mesmo destino. Nesses grupos, todas as oscilações são equilibradas, e é por isso que cada um representa a mesma soma de substância viva.” “Um pouco mais adiante, ele observa que a mortalidade entre 1867 e 1907 oscilou entre 19 e 31,1 por cada mil habitantes. O quociente obtido é igual a 2,23/28. (…) enquanto a taxa de natalidade foi de 1872/1907 = 28/23.”
CONCLUSÃO
Não me venha “explicar” a “auto”análise de Freud (sem explicar!) relacionando-a com erros e omissões e a incompreensibilidade de Lacan! Stop at the flop – Inclusive esta conclusão poderia ter sido logo redigida à p. 2 – um dos livros mais desnecessários que já li!
“Esse ideal pseudocientífico contribuiria também para sustentar uma prática da análise selvagem na qual tendem a cair alguns analistas, o que não facilita as relações entre eles.”
APÊNDICES (mais ¼ do livro!)
Do mesmo sangue – Fl.
“Um dos meus colegas e amigos relatou ter sido atingido por dores apendiculares na mesma hora em que sua irmã começou a sentir as dores do parto. Isso ocorreu no dia do aniversário de um terceiro irmão.”
“Nos haras, é sabido que freqüentemente o potro adoece quando a égua fica no cio.” “No sul do Brasil, os bambus florescem a cada 13 anos; na costa ocidental das Índias, a floração acontece a cada 32 anos, e se dá simultaneamente num vasto território.”
Direita e esquerda – Fl. (tradução de Patricia Barouky)
O LADO DA VONTADE (O LADO ESCURO DA LUA): “Na casa de Goethe, em Weimar, há uma máscara pendurada cujo molde foi feito por Schadow, e que representa Goethe aos 60 anos, aproximadamente. Como a fotografia ainda não tinha sido inventada na época, essa máscara constitui o único documento autêntico sobre o rosto de Goethe, pois os quadros concordam tão pouco entre si que é impossível saber que aparência teria Goethe na realidade. Se estudarmos a máscara de Schadow um pouco mais de perto, observaremos uma extrema acentuação da metade esquerda do rosto. Do lado esquerdo, a fronte é mais recurvada, à esquerda a bossa da fronte é mais saliente, a arcada superciliar esquerda é mais alta, o osso malar é mais forte, a dobra nasal do lábio é muito mais pronunciada e, do mesmo modo, as outras partes do rosto são nitidamente mais desenvolvidas à esquerda do que do lado direito. Goethe, que sabia tudo, também havia reparado nisso. <A natureza golpeou-me do lado esquerdo>, disse certa vez. E quando se observa a máscara de Beethoven – não a máscara mortuária, com os traços emagrecidos, mas o conhecido molde do rosto de Beethoven vivo, que costuma ser adornado por louros –, nota-se a mesma coisa, a despeito de toda a diferença na realização e na forma. Também em Bee. a parte esquerda do rosto é maior e muito mais pronunciada do que a direita.”
Schopenhauer pisara ali antes. Você entrou com o pé esquerdo nessa celeuma!
Quem será meu mascareiro? Uma impressora-scanner, talvez…
“Para compreender a natureza desse fenômeno, é necessário termos uma nova percepção, qual seja, a de que os homens canhotos são mais propensos à feminilidade [eu diria ao fascismo], e as mulheres canhotas à masculinidade, ou seja, mais propensos no sentido de o serem mais intensamente do que se observa nos destros do mesmo sexo.”
“Normalmente, todo homem tem seios rudimentares e deles, nos meninos recém-nascidos, com freqüência até escorre leite, o chamado <leite de feiticeira>. E a penugem do bigode é igualmente própria das mulheres.” “Existe um nº excessivamente maior de falsos canhotos do que de canhotos. Basta observar de maneira suficientemente precisa para descobrir o mundo dos falsos canhotos: com qual mão o homem se barbeia, assoa o nariz, leva o copo à boca, segura o cigarro, distribui as cartas, tira a rolha das garrafas, em qual mão apóia sua cabeça e com qual delas abotoa o sobretudo.” “esse é, antes de mais nada, o artista. Portanto, o homem que tem um dom particular.”
“Compreendemos como o poeta dos Niebelungen, Wilhelm Jordan, pôde aprender, em tempo ínfimo, a escrever com a mão esquerda, e como Frederico, o Grande, depois de um ataque de gota na mão direita, pôde imediatamente escrever com a mão esquerda a carta enviada a sua irmã favorita, a baronesa de Bayreuth.”
“quando a natureza dá um excedente, ela também tem que criar uma carência, um vazio do qual o excedente tenha sido extraído. No interior de uma família com uma substância que forma uma unidade, uma entidade homogênea, da qual cada um dos que a ela pertencem constitui um fragmento, deve ser possível encontrar esse vazio.” $destrezaboemiaTALENTO
“o ser realmente sinistro”
Eu seria, teleologicamente, aquele que teria de advir.
all o’ them are 5 letter-words…
“eles não sabem que a natureza compensa essa sombra com uma abundância de luz.”
“O que foi dito dos eslavos é igualmente válido em relação aos franceses, com seu gosto refinado e suas mulheres autoritárias. Entre eles, os ferrolhos se fecham no sentido inverso e os bicos de gás fecham-se com o movimento contrário. (…) Na China, quase tudo é feito para a esquerda, e os homens usam cabelos compridos, presos em tranças.”
A idiotia do “cabelo feminino”… Ó, devem ser meus genes!!
Matar um dos irmãos gêmeos ou AMBOS? Qual destas superstições seria a mais aceitável?
“as famílias geniais nunca persistem.” Que honra que uma nulidade como a família que me gerou seja por isso chamada de GENIAL!
“Os Goethe, os Schiller, os Mozart, os Beethoven, nem mesmo os Bismarck existem – apenas, de fato, os Dupont e os Durand, em grande número. O gênio aparece na terra – segundo as palavras de Moebius – não para aumentar o número de homens: somente as obras imortais são seus filhos.”
NOTAS
“Lacan se considerava instigador do trabalho de Anzieu e o acusou de plágio por seu comentário do sonho da injeção de Irma: <Assim, será preciso que eu o publique (seu comentário do sonho de injeção, de 1955), e, se não o publiquei, foi por ter ficado absolutamente enojado com a maneira como isso foi retomado num certo livro que saiu com o título de Auto-análise: era meu texto, mas remetendo a ele de maneira a que ninguém compreendesse nada> (Lacan, …Ou pire, sessões de 14 e 21 de junho de 1972, inédito). A acusação de L. representa uma homenagem involuntária a Fl. [VAI TOMAR NO CU, PORGE!], que sabemos haver desencadeado uma acusação de plágio contra Fr.. Por outro lado, ela assinala que os lacanianos não têm como não se sentir interessados no problema da autoanálise de Fr. em sua relação com Fl..” Só assinala que vocês são um bando de mexeriqueiros.
“O termo <biologia> só foi introduzido no alvorecer do XIX, na França, num contexto científico (Xavier Bichat), e na Alemanha, onde fez parte do vocabulário romântico (G.R. Treviranus). A introdução desse termo destinava-se a dar lugar a uma ciência distinta da fisiologia, que levasse em conta a especificidade da força vital (Lebenskraft) imanente à matéria orgânica e incluísse o microcosmo e o macrocosmo no campo unitário de uma inteligibilidade universal [de micróbios a baleias, mas sobre vírus¿¿¿].” “A biologia romântica da Naturphilosophie propôs um novo modelo de saber, do qual não estava ausente o matematismo, sob a forma de números que regeriam a economia interna de um organismo total.”
Porge cita Roudinesco.
“Por trás de Ulisses, ausente, perfila-se o Pai oculto e esquivo, o Pai, talvez cruel, que deu às tentativas de cristologia féneloniana seu caráter trágico” (Fénelon, Télémaque)
IDÉIA FUTURA
PARA UMA HISTÓRIA DO PLÁGIO
De Hipócrates a Paulo Coelho, passando por Cervantes¿¿¿
maten (grego): em vão, à toa. Pode-se dizer que o automaton é a sorte com este atributo, em oposição à tique (abaixo).
tique (grego): acaso que contribui para um fim ou propósito“Aristóteles cita o exemplo de alguém que vai à ágora tratar de negócios e que, sem haver pensado nisso, depara com uma pessoa que lhe devia dinheiro.”
AS VIAGENS DE GULLIVER A VÁRIAS NAÇÕES REMOTAS DO MUNDO
Jonathan Swift, deão de São Patrício em Dublin, primeiro publicado no verão 1726-7 e agora finalmente trazido para os modernos conhecedores do Idioma Português, nesta pandemia de 2020!
“Meu pai costumava me remeter esporadicamente algumas somas de dinheiro que bastavam para minhas módicas despesas; eu as aplicava aprendendo a Náutica, bem como outros segmentos da Matemática úteis àqueles que desejam empregar seus dias viajando. Algo me dizia que, quer queira, quer não, mais cedo ou mais tarde, eu estaria destinado a este ofício! (…) Estudei Física 2 anos e 7 meses, conhecendo sua utilidade ao percorrer longos trajetos.”
“aconselhado a abandonar o celibato, casei-me com a senhorita Mary Burton, segunda filha do senhor Edmund Burton, tecelão e dono de armazém na rua de Newgate, de quem recebi, como dote, 8 mil xelins.”
“Fui cirurgião em dois navios subsecutivamente, vindo a fazer diversas viagens ao longo de 6 anos, às Índias Orientais e Ocidentais, excursões que também acresceram minha fortuna. Minhas horas de ócio eu empregava lendo os melhores autores, antigos ou modernos, nunca me encontrando nalgum lugar sem uma penca de livros; a bordo, ao poder observar os hábitos e os costumes de outros povos, aprendia sobre sua cultura, aproveitando para aprender também sua língua. Creio que eu nasci predisposto a esse tipo de aprendizado, pois minha prodigiosa memória me poupava dos mais ásperos esforços.”
“Acabei por aceitar uma proposta muito vantajosa do capitão William Prichard, regente do navio Antílope, que excursionaria em breve rumo aos mares do Sul. Partimos de Bristol dia 4 de maio de 1699, e posso dizer que no começo nossa jornada foi bastante próspera.”
“Na medição, encontrávamo-nos na latitude de 30 graus e 2 minutos sul. Doze de nossos tripulantes já haviam morrido de excesso de fadiga e escassez de víveres.”
“Nadei a esmo, conforme a fortuna me ditou, e de algum modo avancei graças ao vento e à maré. Constantemente deixava minhas pernas caírem, e não era capaz de sentir nenhum fundo. Mas, quando já não podia me agüentar, percebi que estava incrivelmente perto da praia, a uma profundidade propícia para um homem atravessar andando. Nesse momento a tempestade já havia enfraquecido deveras. O declive do solo neste litoral era tão pequeno que caminhei, ainda com as pernas submersas, mais de um quilômetro até me achar finalmente em terra seca. Calculei que devia ser umas 8 da noite.”
“Dentro em pouco senti algo vivo se movendo pela minha perna esquerda, deslizando e subindo suavemente, escalando até meu peito, e depois quase alcançando uma de minhas bochechas. Ao baixar minha vista para resolver o mistério – que será? –, vejo uma criatura humana de 6 polegadas, armada de arco-e-flecha, com uma aljava às costas. Não tive tempo de raciocinar antes que sentisse mais umas 40 criaturinhas semelhantes formigando por minha cútis! Claro, estão seguindo a primeira, conjeturei. Meu espanto carecia de expressão”
“Hekinahdegul!, os outros repetiram as mesmas palavras diversas vezes, e nesse ponto da estória eu não sabia o que isso queria dizer.”
“Tolgophonac”
“Langrodehulsan”
“Peplomselan”
“Essas pessoinhas são exímios matemáticos, e atingiram a perfeição em engenharia, muito devido à industriosidade e empenho do imperador, um grande mecenas do conhecimento, se me é permitido o trocadilho.”
“Passei algumas horas bastante premido pelas necessidades da natureza; é de admirar que eu tenha agüentado tanto, já que fazia já 2 dias que eu não evacuava. Meu caso era grave: ao mesmo tempo que se insinuava essa emergência corporal, meu sentimento de decência me refreava. A melhor solução que encontrei, enfim, foi enfiar-me o mais fundo que pudesse no que me deram como moradia; segui, portanto, até a corrente que me prendia não me permitir ir mais longe, e detrás de bem-fechados portões descarreguei aquele excesso desconfortável de dentro de mim. Mas juro que essa foi a única ocasião em minha vida que me tornei culpável por uma ação tão abjeta!”
“Deste dia em diante, meu hábito passou a ser, assim que acordava, praticar ‘o ato’ a céu aberto, no limite do alcance de minha corrente. Além disso, graças a minha prevenção e também ao susto do incidente anterior, todo o cuidado era tomado pelo governo para que, antes de qualquer trânsito de pessoas pela rua, dois servos especialmente designados removessem a matéria ofensiva com a ajuda de carrinhos de mão. Eu não perderia tanto tempo da narrativa com detalhes tão escatológicos, à primeira vista absolutamente inoportunos, se não cresse imprescindível justificar minha conduta, meu asseio e minha higiene perante a boa sociedade”
“Ele era pelo menos uma unha (minha) mais alto que todo o restante da côrte, o que, por si só, é de saltar às vistas, naquele mundinho em miniatura!” “Ele já estava na metade descendente da vida, nos seus 28 anos e 9 meses, dos quais ele reinou por 7 na mais plena tranqüilidade e prosperidade.” “Seus trajes eram simples, diria que a moda de seu povo se situava entre a asiática e a européia; porém, à cabeça usava um portentoso elmo dourado, todo cravado de jóias, encimado por uma pluma.”
“tentava me comunicar com eles em quantas línguas eu sabia e em quantas eu não sabia (qualquer palavra decorada já me servia de auxílio), as quais eu enumeraria como as seguintes: o Holandês erudito e o vulgar, Latim, Francês, Espanhol, Italiano e a língua franca; mas não se espantem quando eu disser que nada dessa minha poliglotia servia para eu me fazer entender.”
“Eles perceberam o quanto seria oneroso eu ser mantido pela tribo. Que minha dieta custar-lhes-ia o suor de muitos e muitos homúnculos, eventualmente causando até fome e miséria em seu país. Então a dado ponto eles me submeteram praticamente a uma greve de fome ou jejum compulsório. Mas não era uma solução definitiva. Então um dia me flecharam na face e nas mãos com setas envenenadas, esperando, senão matar-me (porque o veneno seria reduzido comparado a meu volume relativo de rios de sangue), ao menos livrarem-se de mim (esperando que eu fugisse). Na verdade só posso considerar este como o plano desde o início, ao pensar melhor, pois a própria possibilidade da minha morte e da transformação do meu corpo em cadáver seria o bastante para desencadear uma grave crise: uma porção imensurável de carne putrefata, um odor pestífero que logo se alastraria, e que talvez iniciasse uma epidemia capaz de dizimar aquela civilização na micro-metrópole de Lilliput! O melhor para eles é que eu me fosse embora, voluntariamente.”
“Foi ordenada uma comissão de 6 habitantes, que ganhariam salários, para serem meus domésticos; foram-lhes erguidas moradias equidistantes e ao redor da minha própria<casa>. Foi também estipulado que 300 alfaiates se encarregariam de me confeccionar alguns vestuários conforme a moda local”
“em cerca de 3 semanas eu fiz grandes progressos no aprendizado da língua nativa”
“Imprimis: no bolso direito da jaqueta do grande homem-montanha (pelo menos é assim que eu decifro a expressão quinbusflestrin), após a mais meticulosa busca, nada encontramos além de uma flanela gigante, gigante o bastante para servir de carpete da maior sala do palácio real. (…) Obrigamo-lo então a revelar o que se encontrava no extremo da corrente; pareceu-nos uma espécie de globo. Meio-prata e meio-translúcido, embora esta segunda parte também fosse de um material metálico; nessa metade transparente constatamos algumas estranhas figuras desenhadas em círculo; muito embora fôssemos capazes de <tocá-las>, era apenas uma ilusão de perspectiva, pois o tato nos revelava que tocávamos com os dedos apenas a superfície transparente do hemisfério do globo, e não os desenhos inscritos por debaixo daquele domo. Ele aproximou este globo de nossos tímpanos, queria que verificássemos uma coisa – o estranho mecanismo não parava de emitir um certo som como o de um moinho de vento, a intervalos regulares! Conjeturamos: será um animal desconhecido? Ou o deus que o homem-montanha venera? Achamos mais provável esta última opção, pois ele mesmo nos afiançou (se compreendemo-lo bem, pois ele não domina nossa língua e o conceito parecia um tanto abstrato) que rara era a ocasião em que ele fazia qualquer coisa sem consultar seu objeto ou talismã primeiro. Ele o chamou de <seu oráculo>, e declarou que tal globo ou entidade era o responsável por indicar-lhe precisamente o tempo destinado a cada ação do seu ciclo de existência.”
“a pólvora eu havia deixado amarrada, impermeável, dentro da algibeira, precaução de todo bom marinheiro quando infelizmente tem de se jogar no mar”
“Ele ficou espantado diante do barulho contínuo que o cilindro produzia, e também do rastro da bala no ar, que ele podia claramente discernir (a vista dos liliputianos é muito mais perfeita que a nossa)”
“Minha cimitarra, minhas pistolas e algibeira foram todas estocadas em carruagens nos depósitos de sua majestade; o resto dos meus pertences, ao menos, foi-me devolvido.
Eu tinha um bolso bem escondido em minhas vestes, que escapou a toda inspeção minuciosa deste povo singular. Nele eu guardava um par de óculos (porque algumas vezes eu tinha fraqueza nos olhos), um monóculo portátil e outras bagatelas que, não sendo de maior consequência para o imperador, bem julguei que não valesse a pena revelar-lhe a existência. Além do quê, cogitei que, de tanto manusearem esses instrumentos delicados, podiam acabar quebrando alguma lente.”
“Algumas vezes eu me deitava, de mãos espalmadas, e deixava que 5 ou 6 liliputianos dançassem sobre elas; com o passar do tempo, foram-se acostumando a mim e até os garotos e garotas da vila se aventuravam a conhecer-me de perto e tocar-me. As crianças gostavam de jogar esconde-esconde em minha cabeleira.”
“essa gente excelia qualquer nação que eu jamais conhecera em destreza e magnificência.”
“Quando um cargo de relevo fica vago, por morte ou desgraça (e desgraças acontecem), 5 ou 6 candidatos pleiteavam ao imperador sua posse na função renomada, através de um teste bem fora do comum: sua majestade e o restante da côrte deviam testemunhar uma dança sobre a corda!” “Não raro os próprios ministros em atividade eram convocados a demonstrar sua perícia equilibrista, a fim de convencer o imperador de que ainda possuíam a mesma habilidade que os levara ao cargo no passado.”
“Mas não pense que esses espetáculos nunca terminassem em acidentes fatais – isso era o mais comum, inclusive. Os documentos do governo registraram uma infinidade desses casos. Eu vi pessoalmente 2 ou 3 dos candidatos fraturarem algum membro. Mas o maior perigo se apresenta, mesmo, nas danças dos ministros; ciosos de superar os pretendentes aos novos cargos e de superarem a própria reputação já auferida, e buscando sobressair-se em relação a todos os demais funcionários, eles se aplicam até os limites de seus talentos corporais; nessa situação, raríssimo era o ministro que durante toda sua vida não sofria nenhuma queda da corda; está certo que nem todas as quedas matavam ou deixavam aleijado, pois vi muitos homens com a saúde perfeita que relatavam já haver tombado 2 ou 3 vezes…”
“Golbasto Momarem Evlame Gurdilo Shefin Mully Ully Gue, Todo-Poderoso Imperador de Lilliput, júbilo e terror supremos do universo, cujos domínios se estendem por 5 mil blustrugs (eu diria que coisa de 10km de raio), até os extremos do globo; monarca dos monarcas, mais alto que os filhos dos homens; cujo pé empurra para baixo e submete tudo com a gravidade, até o mais fundo; cuja cabeça altiva ameaça até o sol.
(…)
Art. 6º. Que ele deverá ser nosso aliado contra os inimigos da ilha de Blefuscu, e devotar-se ao máximo a fim de dizimar sua frota, que agora se organiza para invadir-nos.
(…)
Art. 8º. Que o supracitado homem-montanha deverá, dentro de no máximo 2 luas a contar da promulgação desta Lei, fornecer uma medição precisa da circunferência de nossos domínios mediante o cômputo dos seus passos como unidade de medida, circunscrevendo a costa.
Último artigo. O homem-montanha prestará juramento solene de que observará todos os artigos desta constituição. Sua retribuição por seus serviços será uma ração diária de carne e bebida o suficiente para nutrirem 1.724 (hum mil setecentos e vinte e quatro) liliputianos médios, com livre acesso à presença de nossa pessoa real, bem como outros privilégios e distinções.
Redigida em nosso palácio de Belfaborac, ao décimo segundo dia da 91ª lua de nosso reino.”
“O leitor talvez queira observar que, no último artigo da constituição que regulamenta a retomada de minha liberdade, o imperador estipula uma quantidade de carne e de bebida para minha pessoa equivalente à que seria destinada a alimentar 1724 indivíduos liliputianos. Algum tempo depois, perguntando a um de meus amigos da côrte como foi que eles chegaram a esta medição tão exata, fui relatado que os matemáticos a serviço de sua majestade, utilizando minha altura como parâmetro e com o auxílio do quadrante, chegaram à conclusão de que eles próprios estavam em proporção a mim como o número 1 está para o número 12; e, havendo analogia orgânica e estrutural entre nossos corpos, intuíram que o meu deveria possuir uma massa de 1724 homenzinhos e, conseqüentemente, meu metabolismo deveria queimar energia nas mesmas bases.”
“Eu ultrapassei o grande portão ocidental e avancei bastante sutilmente, esgueirando-me por entre as duas principais vias, não vestindo mais do que meu colete, um tanto justo, por medo de danificar, se usasse um tecido mais longo, os telhados e esquinas das casas.”
“nós lutamos contra dois grandes males: uma violenta facção em nosso lar e a constante ameaça do invasor do lado de fora, inimigo este que nos é superior militarmente. Quanto ao primeiro mal, vós deveis compreender que, há já 70 luas nesta nação há dois partidos que racham a unidade do império, sob as alcunhas de Tramecksan e Slamecksan, distinguindo-se os partidários dum e doutro conforme calçam cano-alto ou sapatos rasos. Alega-se que os de cano-alto ou coturno são a facção mais agradável posto que fiel às nossas maiores tradições e leis mais arcaicas; seja como for, sua majestade determinou compor seu quadro apenas dos sapatos-comuns, ficando a facção mais ortodoxa como mera expectadora dos eventos da Coroa. (…) (drurr é uma unidade de medida correspondente mais ou menos a 1/14 de uma polegada) (…) Os Tramecksan ou canos-altos são de fato a maioria; mas nós concentramos o poder. (…) Quanto ao que afirmas, que há outros reinos e Estados neste mundo, habitados por seres humanos tão grandes quanto tu, nossos filósofos estão muito céticos; sua opinião é de que caíste da lua, ou de uma das estrelas; porque, com certeza, se 100 mortais tão grandes quanto tu existissem, todos os víveres, toda a fauna de sua majestade extinguir-se-iam num piscar de olhos. Ademais, nossa História de 6 mil luas de idade não faz menção de nenhuma outra região para além dos impérios de Lilliput e Blefuscu. (…) A contenda principal é: o modo primitivo de quebrar os ovos, antes de comê-los, é pelo lado mais largo; mas quando o avô da majestade vigente, em sua infância, prestes a comer um ovo, e quebrando-o conforme o costume antigo, cortou um de seus dedos, seu pai, isto é, o bisavô de sua majestade vigente, decretou, prevendo pesadas punições para os infratores, que os ovos deviam, doravante, ser quebrados pelo seu lado mais estreito. O povo ficou descontente com os novos usos, tendo havido 6 rebeliões originadas pela promulgação desta lei; como resultado, um rei perdeu sua vida, e outro sua coroa. Essas comoções civis foram fomentadas muito visivelmente pela nobreza de Blefuscu, que não vacilou uma só vez em receber todos os refugiados e hereges de Lilliput, para reforçar seus exércitos. Foram computados 11 mil mortos, que preferiram a punição a quebrar os ovos pela parte mais estreita. Centenas de calhamaços foram então publicados na matéria. Os livros dos ‘coturnos’ ou ‘larguistas’, foram completamente proibidos, e os partidários desta crença foram declarados inaptos para a assunção de cargos. Durante todas essas instabilidades os imperadores de Blefuscu sempre maquinaram mediante seus embaixadores, acusando-nos de cisma religioso, alegando grave ofensa a uma doutrina fundamental do grande profeta Lustrog, exposta no capítulo XLIV do Blundecral (que é o Alcorão dos liliputianos). Mas esses versos parecem estar corrompidos ou sujeitos no mínimo a uma má-interpretação, uma vez que as palavras são estas: <todo verdadeiro crente deverá quebrar seus ovos do lado conveniente.>. E qual seria esse lado conveniente? Na minha humilde opinião, este problema deveria ser deixado à consciência de cada cidadão, ou pelo menos dos magistrados, que têm toda a competência para eleger um lado favorito.”
“O império de Blefuscu é uma ilha a nordeste de Lilliput, do qual jaz separado por um canal que não ultrapassa as 800 jardas.”
“Tão triviais são todos os serviços prestados a um príncipe, quando no outro prato da balança ele situa aquela única ocasião em que nos recusamos a satisfazer um capricho seu!”
“Burglum! Burglum! Burglum! O palácio real estava em chamas e fui acordado no meio da noite. (…) Por puro golpe do destino, na noite anterior aconteceu de eu ter tomado uma generosa quantidade de um deliciosíssimo vinho chamado por nós de glimigrim, e pelos blefuscudianos de flunec, do qual porém nos orgulhávamos de cultivar as melhores safras e os melhores vinhedos. Bebida muito diurética, esta! O acaso mais feliz é que eu não havia, até o momento, despejado nenhuma gota desta substância pelo meu canal uretral, até ser chamado pelos meus desesperados convivas a ajudar no combate ao incêndio. E o vívido contato com o calor daquelas chamas, após o fatigante trabalho de carregar tonéis de água que pudessem debelar o mal (para mim tais tonéis não passavam de tampas), finalmente acendeu em mim a vontade de desopilar! Dei vazão a meus instintos: urinei em tal quantidade, em tal abundância, e apliquei o jato tão adequadamente nos focos do incêndio, que em 3 minutos o fogo estava completamente extinto, e o resto dos escombros reais, que levaram tantas luas para serem erguidos, foram preservados da destruição.”
“Havia, sem embargo, uma questão: era interdito a qualquer pessoa, de qualquer condição, sangue-azul ou plebeu, aliviar-se nas dependências do palácio. Nisto, fiquei apreensivo: seria eu condenado à morte por tal blasfêmia sem tamanho? Mas sua majestade me tranqüilizou com o recado de que daria pessoalmente ordem ao grande-inquisidor para me anistiar formalmente por qualquer ofensa ao código neste caso tão excepcional.”
“Assim como a estatura média dos habitantes é ligeiramente inferior a 6 polegadas, também cada animal e planta existe em miniatura e nas mesmas proporções que em nosso mundo.”
“Sua maneira de escrever é um tanto peculiar, não sendo nem da esquerda para a direita, como com os europeus, nem da direita para esquerda, como os árabes fazem, nem de cima para baixo, como é o caso dos chineses, mas obliquamente, duma diagonal à outra, cruzando o papel, como as madames na Inglaterra.
Eles enterram seus mortos de ponta-cabeça, na vertical, porque eles acreditam que em 11 mil luas todos os mortos reviverão, e neste dia a terra (que eles crêem ser plana) virará do avesso, e por esse método eles procuram que, à ressurreição, os liliputianos acordem já sobre seus pés, prontos para caminharem para fora de suas tumbas. É verdade que os mais eruditos dentre os liliputianos confessam a absurdez dessa doutrina; mas a prática remanesce, havendo complacência com a sabedoria popular.”
“o símbolo da Justiça, presente nas côrtes de judicatura, é uma figura de 6 olhos, 2 à frente, 2 às costas e mais 1 de cada lado, significando circunspecção; com um saco de ouro aberto em sua mão direita, e uma espada embainhada à sinistra, o símbolo quereria dizer com isso que seu papel é mais recompensar do que punir.”
“não é concebível, entre os liliputianos, que uma criança esteja obrigada a obedecer ao pai biológico pelo simples fato de trazê-la ao mundo, tampouco à mãe (…) sua opinião é que os pais são os menos confiáveis para decidir sobre a educação da criança”
“As crianças são vestidas pelos adultos até os 4 anos; depois disso devem se vestir sozinhas, não importa se é um menino ou menina da aristocracia; as atendentes do sexo feminino, cuja idade é mais ou menos, proporcionalmente, a de 50 para nossos anos solares, só executam algumas tarefas consideradas mais vis, muito limitadas em número.”
“Os pais só podem ver seus filhos duas vezes ao ano; cada visita deve durar uma hora; pode-se dar um beijo à chegada e outro beijo à saída; mas um guardião do Estado, que deverá testemunhar esses encontros, não permitirá cochichos nem expressões de ternura exageradas e afetadas, nem troca de presentes, brinquedos espalhafatosos, guloseimas e que-tais.”
“Se for percebido que alguma dessas babás se atreve a entreter ou assustar as mocinhas com estórias tolas ou aberrantes, ou qualquer tipo de tolice, como as que soem praticar pela Inglaterra, a culpada será açoitada em praça pública, não só numa mas em três sessões separadas, em diferentes pontos da cidade, além de encarcerada por um ano, ao fim do qual é devolvida à liberdade, conquanto banida da sociedade para viver nas partes mais remotas. Esse sistema faz das donzelas tão ou mais embaraçadas diante de demonstrações de covardia e asneirice que os próprios homens, de modo que também detestam ornamentos corporais, indecentes e contrários ao asseio: com efeito, crescer homem ou mulher em Lilliput é absolutamente idêntico, a não ser, talvez, por uma suavização tênue nos exercícios físicos das mulheres (…) a esposa deve ser companhia prudente e agradável, já que nem sempre será jovem. Aos 12 anos as garotas atingem à maioridade (lembrando que sua escala de tempo é diferente da nossa); seus pais ou guardiães trazem-na para casa, demonstrando gratidão aos professores (um dos quais é o guardião estatal a que me referi nos reencontros semestrais entre pais e filhos durante a infância destes), mas sem choro de mulheres e coisas assim.”
“Como Sua Majestade é excepcionalmente benévola, e em consideração a teus incomensuráveis serviços à Coroa, ela está decidida a poupar-te a vida, sendo o bastante que arranquemos ambos os teus olhos, humilde punição que te quitará com a lei. (…) Claro que a extração de tuas córneas não fará de ti um homem fraco; mesmo um cego como tu, posto que gigante, poderá ser de utilidade para Sua Alteza. Aquele que, mesmo cego, serve ao rei demonstra redobrada valentia, e cremos mesmo que a falta de visão seja uma vantagem, por acrescer certa valentia interna ao ser; o medo que tiveste de que acontecesse algo a teus olhos foi a maior dificuldade que tivemos para capturar a frota rival. Ademais, para ti está de bom tamanho que vejas pelos olhos dos ministros, pois sabemos que assim são os príncipes (em metáfora, é claro).”
“O rei tem boas razões para crer que és um larguista no fundo de teu coração. E, como a traição principia no coração, antes de manifestar-se nos atos, sua majestade acusou-te como traidor da pátria com fundamento sólido, e insistiu em condenar-te à morte.”
“Foi decidido meticulosa e rigorosamente que o projeto de matar-te por inanição gradual permanecesse um segredo de Estado”
“Foi um costume introduzido pelo monarca atual e seu ministério (que contrasta vivamente com o uso dos antigos) que, após a côrte pronunciar qualquer sentença capital, fosse para bajular o ressentimento do rei ou excitar a malícia de um ou outro cortesão favorito, o imperador deveria proceder a um discurso perante seu conselho, expressando hipocritamente sua misericórdia e ternura infinitas, qualidades altamente reputadas e veneradas em todo o mundo. E este discurso era, posteriormente à transcrição do escriba, publicado em todo o reino; e nada amedrontava tanto as pessoas quanto esses encômios autodirigidos à benevolência de Sua Majestade! Quanto mais pomposas eram estas palavras, verificava-se a cada execução, mais inumana e cruel se mostrava a punição, e não raras eram as vezes em que o réu não passava de um inocente. Confesso, não havendo nascido para a côrte, nem sido educado para compor a mesma, ser tão mau juiz e árbitro das coisas que não encontrei em canto algum da sentença essa leniência e esse favor tão aventados! Considerei então (talvez erroneamente) que havia nesta peça mais rigor que gentileza!”
“Ruminava sobre meu futuro, e estava propenso a resistir a minha punição, uma vez que, de fato, não estando eu despojado do movimento em meus membros, minha força era suficiente para derrubar todo esse império. Bastaria arremessar algumas pedras e a capital estaria completamente arruinada. Mas meu remorso começou a crescer dia a dia e desisti desta resolução inicial, relembrando meu juramento para com o imperador, e todas as honras que dele recebi, incluindo meu título de nardac (o mais nobre da nação).”
“Devo admitir que a preservação de meus olhos – e minha conseqüente liberdade – deveu-se a meu caráter um tanto afoito e minha completa falta de experiência. Porque se eu conhecesse bem, àquela altura, a natureza de príncipes e ministros, que hoje eu posso me jactar de conhecer após visitar muitas outras côrtes, seus métodos de tratar criminosos menos detestáveis do que eu, ah, se de tudo isso fizesse idéiaentão!…creio mesmo que, cheio de alacridade e circunspecção, resignar-me-ia a minha dura sentença.”
“e o embaixador declarou que, a fim de manter a paz e a amizade entre os dois impérios, o imperador de Lilliput esperava que seu irmão de Blefuscu ordenasse minha extradição de volta ao país liliputiano, de pernas e braços bem-amarrados, para ser devidamente punido pela minha traição.”
“o acaso, bom ou mau isso eu não sei, atirou em minha direção um barco, em que eu não hesitaria em embarcar, oceano adentro. Não quis continuar a ser um objeto de disputas entre dois ilustres monarcas! O mesmo imperador que me mantinha como hóspede não se mostrou de todo insatisfeito com minha decisão. Na verdade, por acidente, acabei por apurar que ele estava, ao contrário, muito contente, assim como a maioria absoluta de seus ministros.
Essa descoberta me fez apressar minha partida. A côrte, já manifestamente impaciente pela minha ida, muito me auxiliou na empreitada. Quinhentos operários foram designados para confeccionar velas para meu barco, seguindo minhas meticulosas instruções; cada vela era o produto de 13 dobraduras do seu linho mais forte e resistente!
“Um mês depois do começo dos trabalhos, com tudo ajeitado, comuniquei oficialmente a Sua Majestade de Blefuscu minha partida imediata. (…) O monarca me regalou com 40 bolsas contendo 200 sprugs – a moeda blefuscudiana – cada, com um quadro enorme (para seus padrões) seu, o qual eu pus dentro de uma de minhas luvas para manter seco.”
“Abasteci a embarcação com carcaças de 100 bois e 300 ovelhas, além da mesma proporção em pão e bebida, quantidade que um blefuscudiano demoraria 400 refeições normais para consumir. Fiz questão de levar, ainda, 6 vacas e 2 touros vivos, bem como os mesmos números em ovelhas e carneiros, respectivamente, com o fito de exibi-los em minha terra natal e, quem sabe, proceder à criação desta micro-espécie. Para alimentá-los enquanto estivessem a bordo trouxe comigo um bom naco de feno, e uma saca de milho.”
“Lancei-me ao mar em 24 de setembro de 1701.”
“Meu propósito era atingir, se possível, uma das ilhas que, eu cria, se localizavam a nordeste da Terra de Van Diemen.¹ Mas não me deparei com terra nesse dia; no próximo, contudo, lá pelas 3 da tarde, após, pelos meus cálculos, navegar 24 ligas marítimas desde Blefuscu, avistei velas a sudeste (eu seguia sentido oeste-leste).”
¹ Cujo nome foi mudado para Ilha da Tasmânia na década de 1850. Fica próxima da Austrália.
“Era um navio mercante de minha terra, regressando do Japão pelos mares setentrional e meridional. O capitão, Senhor John Biddel, de Deptford, era bastante cortês e excepcional marinheiro.
Estávamos agora a 30 graus sul de latitude; havia 50 homens no navio. Aqui encontrei um velho camarada, Peter Williams, o que só aumentou minha estima pelo capitão John. Este camarada me tratou com a maior consideração. Ele logo desejou saber de que lugar eu vinha, e se fôra feito prisioneiro; eu não hesitei em resumi-lo minhas aventuras em breves palavras, mas ele obviamente pensou que eu delirava. Natural que um marinheiro perceba num discurso incrível sintomas de alguém que passou pelas piores atribulações em alto-mar, e não dê crédito. Porém, para comprovar tudo, retirei do bolso meu gado e rebanho, o que, por fim, após um grande espanto e turbação causados ao camarada, serviram para convencê-lo da autenticidade do meu relato.” “Dei-lhe duas bolsas de 200 sprugs. Afiancei-lhe que, chegados à Inglaterra, dar-lhe-ia também uma de minhas vaquinhas e uma de minhas ovelhinhas adultas, junto com as crias, quando já as tivessem.”
“Ancoramos em Downs dia 13 de abril de 1702. Minha única infelicidade foi que os ratos do navio levaram uma de minhas ovelhas.”
“Durante minha curta nova estada em meu lar, lucrei algum dinheiro exibindo meu gado-miniatura a pessoas distintas. Antes que começasse minha segunda viagem, consegui vendê-los, por fim, a 600 libras. Ao regressar mais tarde eu contemplaria o crescimento exponencial dos espécimes, especialmente dos carneiros, o que, penso eu, contribuirá muito para o progresso da manufatura de lã do país, dado que realmente a lã destas micro-ovelhas é de altíssima procedência!
Para resumir, fiquei parado apenas por mais 2 meses, ao lado de esposa e família, pois meu insaciável desejo de conhecer novos povos não me permitiria continuar por mais tempo. Deixei 1500 libras nas mãos de minha mulher, comprando também uma casa para todos se instalarem com conforto em Redriff. O resto de meu dinheiro levei comigo, parte em espécie, parte em bens, com o intento de voltar a multiplicar minha fortuna. Meu tio mais velho, John, morrera e deixara, em herança, terras nas proximidades de Epping, que geravam um lucro de aproximadamente 30 libras ao ano. (…) Meu filho Johnny, batizado em homenagem a esse tio, estava no primário, mas eu já podia ver o quanto o menino era adiantado. Minha filha Betty (hoje, enquanto escrevo, uma mulher casada e com filhos) começava a desempenhar seu ofício de costureira. Despedi-me, então, de minha esposa, da garota e do garoto, com lágrimas nos olhos, de ambas as partes, e embarquei para novas aventuras, num navio mercante de 300 toneladas, com destino ao Surat, grande entreposto comercial das Índias Ocidentais, capitaneado por John Nicholas, de Liverpool.”
* * *
PARTE II – VIAGEM A BROBDINGNAG
“Tivemos ventos muito favoráveis até chegarmos ao Cabo da Boa Esperança, onde desembarcamos para coletar água doce; porém, descobrindo um vazamento, desembarcamos também todos os nossos pertences e a carga e acampamos por ali; com o capitão padecendo de febre, não pudemos seguir nosso curso até o fim de março.”
“Nossa trajetória era leste-nordeste, o vento seguia o rumo sudoeste-nordeste.”
“fomos levados, pelos meus cálculos, 500 ligas além da conta para leste, desorientados a ponto de o marinheiro mais experiente a bordo nada saber de nosso paradeiro. Nossas provisões ainda estavam em boa quantidade, nosso navio seguia firme e inabalado, a tripulação compartilhava um bom estado, mas o problema foi que a água se tornou terrivelmente escassa. Preferimos seguir no mesmo curso, ao invés de dirigirmo-nos mais para o norte, o que podia nos levar à costa noroeste da Grande Tartária, ou quem sabe ao mar congelado. No dia 16 de junho de 1703, o garoto no topo do mastro avistou terra.
“Quando aportamos em terra não vimos água corrente nem nenhuma fonte, muito menos sinais de povoação.”
“para mim era impossível escalar esse lance de escadas, porque cada degrau tinha quase 2m de altura e o topo da pedra estava lá pelo sexto metro de altura do chão.”
“avistei um dos habitantes, nas planícies das proximidades, avançando em nossa direção, do mesmo tamanho do colosso que flagrei perseguindo nosso barco! Ele tinha a altura dum campanário gótico e sua passada percorria 5m, pelo menos! Meu espanto não tinha dimensões, de modo que corri até o pé-de-milho mais próximo para me esconder. O gigante se ergueu sobre aquela enorme montanha de pedra, para nós, que para ele não passava de um escabelo ou plataforma, mirando ao longe, nos campos do lado oposto, com a mão direita em concha sobre os olhos. Eu ouvi seu chamado numa voz muitas e muitas vezes mais elevada que uma trombeta militar; o som ecoou de modo tão grave e assustador pelo ar que demorei a entender que não se tratava de um trovão. Imediatamente, 7 monstros da sua estatura se aproximaram portando gadanhas, o gancho de cada uma tão largo quanto 6 foices humanas inteiras!”
“Eu chorei minha viúva desolada e meus filhos órfãos de pai. Lamentei profundamente minha loucura e meu capricho, depois de tantos apuros arriscando-me numa segunda viagem, contra o conselho de meus mais próximos. Nessa terrível agitação, podia menos ainda suportar lembrar de Lilliput, onde os nativos me olhavam como o maior prodígio aparecido naquele mundo; lá eu mesmo podia encerrar toda a tropa imperial em minhas mãos, afora inúmeras outras ações que estarão para sempre gravadas nas crônicas daquela civilização de milhares de luares de duração, a ponto de provavelmente haver no futuro discussões entre as velhas e as novas gerações – porque decerto que uns chamarão todos os relatos historiográficos oficiais de mitologia e contos de fadas impressionáveis, mas outra corrente sempre acreditará em sua realidade efetiva!”
“Considerando a criatura humana mais selvagem e mais cruel em proporção a seu tamanho, o que poderia eu esperar senão tornar-me o pão do dia de um desses enormes bárbaros, o primeiro que me avistasse e me apanhasse? Pela primeira vez acreditei de corpo e alma nos filósofos, que dizem: nada é grande ou pequeno, a não ser relativamente. A natureza sabia o que fazia quando colocou liliputianos e blefuscudianos como vizinhos – imagine se os micro-homens tivessem de se haver com estes gigantes, gigantes para o único <gigante> que eles mesmos conheceram! E não duvido que um dia pudessem encontrar, os liliputianos, outros liliputianos deles mesmos: uma civilização menor ainda, que meu olho demasiado humano sequer pudesse distinguir em meio à relva! Mas o que me parecia mais estranho era que, houvesse gigantes para estes gigantes, não sei que continente terrestre poderia abrigá-los!… Sem dúvida o mundo era uma vastidão ainda longe de ser completamente conhecida pelo gênero humano, de qualquer tamanho ou espécie, pensei eu — tudo isso eu pensei, não organizada nem pachorrentamente, como aparece agora no papel, num curto intervalo de tempo, em meio aos temores mais macabros e à maior incerteza sobre os próximos eventos!”
“O gigante agiu com cautela, a mesma do caçador que não ignora que um animal, ainda que pequeno, pode vir a arranhá-lo ou mordê-lo. Na Inglaterra eu sabia caçar doninhas como poucos! Por fim, o homem-montanha me espreitou pelas costas, e envolveu meu tão largo lombo suavemente, entre seu indicador e polegar, depositando-me depois a cerca de 3m de seus olhos, para estudar minha fisionomia com mais precisão.”
“Ele <falava> bastante comigo; mas o som de sua voz feria meus tímpanos, chacoalhava meu organismo como se fôra todo o núcleo de um engenho ou moinho trabalhando a todo vapor. Apesar de tudo, eu conseguia distinguir as sílabas que ele emitia. Eu respondia o mais alto que conseguia, tentando em várias línguas, no que meu dono aproximava sua orelha de mim menos de 2m, o que para ele devia ser quase contato epidérmico; mas sempre em vão, porque não parecíamos dois seres inteligíveis. Parecíamos dois animais incapazes da comunicação entre nós.”
“Ele chamou sua mulher, e me exibiu a ela. Ela gritou e correu para longe, como a dona de casa inglesa ao ver um sapo ou uma aranha. Porém, depois de contemplar meu comportamento por algum tempo, e como eu parecia entender a reagir aos sinais de seu marido, ela passou a se acostumar a mim gradualmente, até considerar-me com bastante afeto, eu diria.”
“Eu segurei com bastante dificuldade o vaso com as duas mãos, e demonstrando grande respeito bebi à saúde da senhora, pronunciando o mais alto que pude as palavras em Inglês, o que fez todos os presentes rirem do fundo do coração. E essas gargalhadas quase me ensurdeceram. Esse licor tinha gosto de sidra, e estava longe de ser ruim.”
“lembrando quão naturalmente malvadas são nossas crianças com papagaios, coelhos, gatinhos e cães ainda filhotes, prostrei-me de joelhos e, apontando para o garoto, fiz com que meu mestre entendesse, tão bem quanto podia, que eu perdoava a ação de seu filho. O pai entendeu e concordou, e o garoto pôde se sentar à mesa novamente”
“como sempre me contaram, e por experiência própria confirmei em minhas viagens, fugir ou demonstrar medo diante dum animal feroz sempre o faz persegui-lo e ter mais motivos para atacá-lo, resolvi, então, nessa hora crítica, dissimular indiferença.”
“Tive muito menos apreensão dos cachorros, que se atulhavam na sala, como é usual em chácaras, em 3 ou 4; um era um mastim, que para mim tinha o tamanho de uns quatro elefantes, e havia também um galgo, algo mais alto que o mastim, mas muito mais esbelto.
Quando o jantar estava por terminar, a babá apareceu com um bebê de um ano de idade, que imediatamente me espiou e começou a guinchar e lamuriar na típica linguagem da idade duma forma que tenho certeza ouvir-se-ia da ponte de Londres a Chelsea, tal era seu desejo de brincar comigo.”
“Devo confessar que nada me causava mais horror que a vista de seus monstruosos seios, que não sei no momento com o quê comparar a fim de transmitir ao leitor curioso a correta proporção de seu vulto, de sua forma e de sua cor. Cada um era da altura de um homem da nossa civilização, e em circunferência creio que beirava os 5 metros. O mamilo era metade da minha cabeça, e sua cor, como a dos demais detalhes da teta, com pintas, cravos e sardas monstruosos, eram-me nauseantes. (…) Isso me fez refletir acerca da maciez da pele de nossas senhoras inglesas, que tão belas nos parecem, mas, no fim das contas, só porque estão adaptadas ao nosso próprio tamanho! Os defeitos da nossa mulher só poderiam ser assim apreciados com a ajuda de lentes de aumento.”
“Lembro de, em Lilliput, ter considerado a compleição daqueles micro-habitantes talvez a coisa mais linda sob o sol. Ao falar sobre isso com um sábio da nação, com quem estabeleci amizade, ele me disse que meu rosto parecia muito mais bonito e jovem quando me observava desde o solo, e que eu já não parecia o mesmo quando se me observava em close, nas vezes em que eu pegava meu interlocutor pela palma da mão a fim de aproximá-lo dos meus ouvidos. Ele confessou, com sinceridade, que se espantara quando vira meu rosto de perto pela primeira vez. Ele percebia enormes buracos, e dizia que cada fio de minha barba parecia mais rígido que as cerdas de um javali, e minha compleição, composta de um sem-número de cores, era um caleidoscópio doloroso aos olhos e, enfim, repulsivo. Devo dizer ao leitor que, na Inglaterra, eu sou dono de uma beleza mediana quando o assunto é o meu sexo, e que minha pele tem poucas imperfeições e queimaduras de sol, a despeito de tantas andanças e viagens!”
“A filha de meu dono se afeiçoou muito a mim, e me confeccionou 7 camisas e algumas outras roupas de linho, dos melhores tecidos disponíveis, que para o meu tato eram mais ásperos que roupas de juta. (…) Ela também foi minha professora do idioma local. (…) Eu fui batizado por ela de Grildrig, o que a família acolheu de forma voluntariosa. Em pouco tempo eu seria conhecido por todo o reino. Essa palavra carrega o mesmo significado do latim nanunculus, italiano homunceletino, inglês mannikin, isto é, <pigmeu>. Se não fosse essa mulher creio que pereceria em minha estada nesse país. Ela sempre me mantinha consigo e a salvo em suas peregrinações – eu a chamava de minha Glumdalclitch, ou <pequena babá>.”
“A vizinhança já andava dizendo que meu dono havia encontrado um estranho animal no mato, do tamanho de um splacnuck, embora constituído em toda sua compleição como um ser humano (como um ser-montanha!). E não escapava às observações que em tudo eu me comportava humanamente também, fosse inerentemente ou por imitação. E notaram que eu tinha uma linguagem totalmente própria e que me alfabetizava rapidamente na língua deles, andava ereto sobre duas pernas, era educado e gentil, aparecia quando era chamado, obedecia qualquer instrução, tinha membros muito hábeis e elegantes, e que meu pequeno rosto era mais formoso que o de qualquer menina aristocrata de três anos de idade.”
“Minha mestra me considerava humilíssimo, não desprovido de honra e amor-próprio, e que era-me degradante ser exposto no mercado por dinheiro para os tipos mais vulgares. Ela me afiançou que conseguiu de seu papai e de sua mamãe a promessa de que Grildrig seria dela e só dela; mas em breve ela percebeu que queriam fazer como fizeram com seu carneirinho do ano passado. De início seu mascote, ele foi engordado e logo vendido para o açougueiro.”
“o cavalo avançava mais de 10 metros a cada passo e trotava tão alto que a sensação não era outra senão a de ver-se solto num navio na mais agitada das tempestades. Nossa jornada era algo mais extensa do que seria o percurso de Londres a Saint Alban.”
“quase não me deixavam descansar nesse tempo, a não ser às quartas-feiras, que eram o Sabbath nessa região.”
“Cruzamos 6 ou 7 rios, no mínimo muito mais profundos e largos que o Nilo e o Ganges. Devo admitir que raramente havia regaço menor que o Tâmisa, nosso rio de pouco menos de 400km de comprimento. Já havia 10 semanas que estávamos nessa jornada; eu fui exibido em 18 grandes cidades do império, afora cidadezinhas e vilarejos ou famílias campesinas à parte. Em 26 de outubro chegamos à capital, chamada Lorbrulgrud, <Orgulho do Universo>.”
“Eu já era basicamente um usuário fluente da língua, podendo entender cada palavra dos interlocutores.”
“Minha ama trazia consigo um livrinho de bolso, não muito maior que um átlas de Sanson. Tratava-se de um manual muito disseminado entre as jovenzinhas desta nação, uma espécie de sinopse dos preceitos e da história da religião ali adotada. Ela utilizou este volume para alfabetizar-me.”
“Eles concluíram pela análise minuciosa de meus dentes que eu era um animal carnívoro. Mas, ao mesmo tempo, eles não podiam imaginar como eu podia me sustentar, uma vez que mesmo os quadrúpedes mais inofensivos e menores, como ratos, eram demasiado perigosos para minha acanhada existência. Cogitaram se eu não tinha de recorrer a lesmas e demais insetos.”
“Eles jamais se dignariam a classificar-me como um de seus iguais, um exemplar de sua espécie que teve sua maturação interrompida precocemente, i.e., um anão, porque minha pequenez estava muito abaixo de qualquer grau de aceitação do que devia ser um anão para eles. O menor indivíduo de todo o reino, o bobo favorito da rainha, tinha, ao que me parece, 9,14m. Após muitos debates, eles chegaram portanto a um consenso, o de que eu era um mero relplumscalcath, literalmente um lusus naturae conforme à moderna filosofia européia, definição vazia que não deixa de ser apenas um arremedo dos escolásticos aristotélicos para disfarçar sua extrema ignorância das coisas: queriam dizer, em suma, que eu era uma dessas aberrações de circo, e nada mais.”
“a rainha (mulher de estômago fraco!) se serviu, duma garfada, dum monte de comida equivalente à massa que uma dúzia de fazendeiros ingleses poderiam consumir num banquete suntuoso. Depois de ver essa cena, confesso que a cada nova lembrança voltava a me sentir enjoado como na ocasião. Isso se repetiria ainda por muitos dias”
“Confesso que, após falar copiosamente de minha terra-natal Grã-Bretanha, de descrever nossos comércios e guerras através de tantos mares e terras, e como os negócios de Estado estavam divididos em partidos assim e assado, de nossos cismas religiosos, dos preconceitos pedagógicos, etc., etc., Sua Alteza, não resistindo ao charme da crônica, fez-me subir a sua destra espalmada e me transportou, muito delicadamente, até bem perto de seu rosto real. Então, afetuosamente me afagando às costas e à cabeça como se fosse seu cachorrinho, e após uma sincera gargalhada, perguntou-me: Tu és um whig ou um tory?”
“Quão desprezível não é a grandeza humana, capaz de ser emulada em todos os seus ínfimos detalhes por insetos diminutos como tu e teus semelhantes! Imagino que vós levais bem a sério a questão das distinções honoríficas. E tal como em nosso reino vós construís casas e cidades, que para nós não seriam mais que uma toca de coelho! Aposto que a aristocracia se admira ao espelho com vestimentas aprumadas e adornos mil; ama e peleja; contende, trai, engana, vilipendia!”
“E o rei continuava, enquanto eu, desconfortável, ora empalidecia, ora ruborizava, fosse de vexação ou pura indignação. Não era fácil ouvir falar assim tão galhofeiramente do nosso nobre país, da nossa invencível marinha e de nossa perícia e indústria sem iguais. Segundo a visão deste homem, a França era ainda mais digna de pena, quando lhe disse que nossa rival era apenas a segunda dentre as nações; e para ele a Europa não passava de um amontoado de arbitrariedades sem propósito. O que poderiam significar, nesse contexto tão irrelevante, virtude, piedade, honra, verdade, altivez e a ambição de conquistar o mundo inteiro? Nosso ridículo papel no jogo do universo era manifesto, e eu não fui poupado de ouvi-lo com todas as sílabas.”
“Nada me mortificava e me indignava tanto quanto este anão da rainha. Como eu disse, ele tinha <apenas> 9,14m, ou seja, era com toda a certeza o campeão dentre os pigmeus do reino – ninguém de sua própria espécie conseguia ser mais baixo do que ele. E parece que à minha vista ele também se sentia terrivelmente mortificado, interpretava minha existência como um insulto – uma ofensa direta à sorte que lhe cabia de ser o primeiro em alguma coisa. Sua inveja e ciúmes se tornaram evidentes. Pois eu duvido que vocês encontrem um bobo da côrte mais presumido do que este em todos os mundos nos quais pisarem!”
“ela costumava me perguntar se as pessoas do meu país eram tão covardes quanto eu.”
“A totalidade da extensão dos domínios do príncipe girava em torno dos 9500km em longitude e dos 4800km aos 8000km (especulava-se, sem muita certeza) em latitude. Isso me leva a crer que os geógrafos europeus encontram-se muito equivocados em seus cálculos ao supor que nada há entre o Japão e a Califórnia senão o oceano! Eu, particularmente, sempre acreditei que devia haver uma quantidade de terra equivalente para compensar, nas coordenadas opostas do globo, os desertos da Tartária. Proponho, doravante, uma reformulação dos mapas e cartas atuais, acrescentando este vasto continente dos gigantes na circunvizinhança da porção noroeste da América. Ofereço meus préstimos para o que se fizer necessário.”
“desnecessário dizer que essa gente se encontra excluída de todo comércio com qualquer outra nação do mundo.”
“a natureza, ao produzir as plantas e animais deste espaço, de dimensões tão extraordinárias, formou um ecossistema perfeitamente fechado, limitado a este continente, mantendo outras zonas terráqueas sem qualquer interferência ou comunicação com este espaço que padece de gigantismo. Parece que isso ocorre em benefício tanto desta terra dos gigantes quanto do resto do mundo, de forma que nenhuma das fisionomias da natureza sai prejudicada. Se há uma moral por trás destes fatos, deixo para os filósofos descobrirem.”
“As madames da côrte amiúde convidavam Glumdalclitch a seus apartamentos, e encorajavam-na a levar-me consigo, a fim de me contemplar e me tocar. Essas mulheres se compraziam em deixar-me pelado e inserir-me por inteiro entre os seus dois seios; eu tinha tremenda repulsa dessa gracinha, até porque o cheiro da pele das gigantes me era nauseabundo. Não digo isso para depreciar a honra dessas – no demais – prestigiosas damas, mas, como já deixei claro em minha narrativa, o fato de eu ser muito menor que elas me fazia exageradamente sensível para estas coisas. Qualquer cheiro, aparência ou som inexistentes ou desprezíveis para esta raça me eram muito notáveis e chamativos; numa palavra, ofensivos. Essas ilustres pessoas não deviam ser menos agradáveis para seus pares do que as melhores cortesãs inglesas, mas eu não podia participar deste encanto. Além do mais, qualquer aroma natural era menos traumatizante do que perfumes e loções, que estas aristocratas usavam em abundância e que me davam alergia ou simplesmente me faziam perder a consciência.”
“A mais adorável de todas estas damas da côrte, uma espirituosa adolescente de 16 anos, costumava me deixar sentado sobre um de seus mamilos, e cada vez inventava uma nova brincadeira ou um jeito inusitado de se entreter as minhas custas – estripulias dessas de moças, sem maiores conseqüências… mas que o leitor me escusará de eu não publicar neste recatado tratado. Estas coisas me deixavam tão inquieto e apreensivo que um certo dia pedi a Glumdalclitch que me arranjasse uma desculpa que me desobrigasse dali em diante de comparecer a essas <reuniões íntimas de comadres> de uma vez por todas.”
“Certa vez, um dos servos, cuja atribuição era encher-me o cantil com água fresca a cada 3 dias, se distraiu e deixou que um sapo enorme pulasse no balde e lá ficasse, sem de nada se dar conta. Ele abasteceu meu cantil derramando o bebê junto com a água, quer dizer, derramando o sapo junto com minha água, aposto, sem olhar o que estava fazendo, e se retirou. Eu tinha um barco próprio para velejar em uma banheira que este povo gentilmente construiu-me, como se se tratasse de um veleiro de brinquedo. Velejar consistia num dos meus melhores passatempos. O sapo adentrou a banheira, subiu ao barco, e eu só fui percebê-lo quando comecei a navegar. O sapo, com seu peso descomunal comparado ao do barco, fê-lo se inclinar em excesso para um dos lados, no que fui forçado a servir de contrapeso na parte oposta. Depois o sapo saltou até o meio do navio e, em seguida, sobre minha cabeça, e não parou de saltitar para frente e para trás, emporcalhando minha cara e minhas vestes com um lodo odioso. A largura horizontal deste bicho só o fez parecer, para mim, àquela altura, o animal mais deformado que podia existir. Mas, orgulhoso, mesmo Glumdalclitch tendo notado meu apuro, pedi para cuidar disso sozinho. Eu peguei um dos meus remos e dei-lhe umas boas pancadas, até ele finalmente achar melhor saltar de meu barquinho.”
“o macaco, sendo muito ágil e olhando em todas as direções, ótimo para detectar movimentos e encontrar meu paradeiro, deixou-me em tal estado de aflição que eu tirei sabe-se lá daonde firmeza de espírito e força mental para me esconder debaixo da cama e não dar um sinal de vida. Fato é que, depois de espreitar irrequieto uns instantes, urrando e fazendo caretas, ele conseguiu detectar minha presença. E enfiando uma de suas mãos pela porta da minha casa-miniatura, como um gato faria ao brincar com um rato, embora eu tentasse ludibriá-lo mudando de lugar rapidamente, ele por fim agarrou-me pelo cordão do capuz do meu casaco e me arrancou da casa de brinquedo.”
“Eu creio piamente que ele me tomou por um filhote de sua própria espécie, sempre acariciando simiescamente minha cara com sua outra mãozorra.”
“o macaco foi avistado por centenas na côrte, sentado num telhado, segurando-me como se fôra seu bebê, me alimentando, inserindo em minha boca certos víveres que ele havia amassado após retirá-lo das provisões que um dos macacos de seu bando carregava. Ele me fazia carinho e exortações se eu me recusava a comer. Os gigantes lá embaixo começaram a rir da cena. E não posso culpá-los: a cena deve ter parecido das mais ridículas e engraçadas, menos para mim mesmo, é claro. Seja como for, alguns jogaram pedras, esperando com isso fazer o macaco descer. Mas outros logo proibiram que se fizesse isso, porque se uma só dessas pedras me acertasse, era provável que meu próprio cérebro virasse uma papinha.”
“Eu quase morri engasgado com a comida amassada que o macaco insistia em enfiar minha goela abaixo. Minha querida <pequena babá> usou uma agulha para tirar tudo do fundo de minha garganta, no que comecei a vomitar, o que muito me aliviou. Mas eu me encontrava tão fraco a essa altura, e tão machucado nas costelas, de tanto ser abraçado pelo símio, que fiquei de cama umas boas duas semanas.”
“O macaco que me seqüestrou foi executado, e uma ordem expedida de que nenhum animal da espécie deveria ser deixado circulando nas dependências do palácio.”
“O rei me perguntou: O que tu te punhas a pensar enquanto no colo do macaco? Agradou-te a comida? Como ele fez para alimentar-te? O ar fresco dos cimos do telhado causou-te algum tipo de alteração no estômago? O que tu terias feito se isto te tivesse acontecido em teu próprio país? Sobre essa última pergunta, eu contei a Sua Majestade, com simplicidade, que na Europa quase não tínhamos macacos, só mesmo aqueles trazidos por curiosidade de outros países distantes, mas que estes eram tão pequenos que eu sozinho poderia lidar sem problemas com uma dúzia deles.”
“O fato é que a cada dia que passava eu alimentava a côrte com mais uma história burlesca e ridícula. Glumdalclitch, muito embora se afeiçoasse muito a mim, maliciosamente informava à rainha cada uma dessas ocorrências – porque ela não podia perder a oportunidade de tanto agradar a realeza.”
“Tinha um cocô de vaca no caminho, e eu tive de exercer minhas faculdades atléticas tentando saltá-lo. Peguei muito impulso, mas infelizmente o salto saiu fraco e eu afundei até os joelhos na substância. Eu percorri aquele monte de esterco como se fôra um terrível mangue, e um dos soldados me limpou tão bem quanto pôde com seu lenço. Deve-se imaginar o meu estado. Glumdalclitch me confinou a minha caixa até que voltássemos para casa. Obviamente a rainha foi logo informada do ocorrido, e o próprio soldado que me limpou espalhou o conto jocosamente por todo o reino. Todas as gargalhadas da cidade foram tiradas as minhas expensas por uma sucessão de dias.”
“Um dia o rei me posicionou para ouvir uma execução da banda real, mas eu duvido que todas as baterias e trombetas da Inglaterra poderiam ter feito um som tão ofensivo a meus ouvidos.”
“Quando criança eu aprendi a tocar a espineta. Glumdalclitch tinha uma em seu quarto e recebia aulas de um professor da aristocracia duas vezes por semana. Bom, pelo menos eu chamava o instrumento de espineta, porque me lembrava uma. Uma idéia surgiu em minha mente: de que eu pudesse entreter o rei e a rainha com uma canção inglesa com a ajuda deste instrumento. Mas, pensando bem, não passava de devaneio: a espineta tinha pelo menos uns 20m.”
“Um dia, talvez imprudentemente, tomei a liberdade de dizer ao rei que o desprezo com o qual ele aprendeu a imaginar a Europa, além do resto do mundo, é claro, não parecia condizente com toda sua sabedoria e caráter virtuoso; que a razão não aumenta com o tamanho do corpo; que, ao contrário, na Europa os mais altos eram geralmente os mais desprovidos de inteligência. Que, dentre os animais, os mais distintos por sua indústria e sagacidade eram as abelhas e formigas. E que, por mais que ele me tivesse em conta como um mero bobo da côrte, eu esperava poder viver para honrá-lo com algum serviço extraordinário. O rei me ouviu atentamente e começou a conceber uma opinião muito melhor de minha pessoa. Ele me pediu então uma minuciosa descrição do governo britânico, a mais minuciosa que eu pudesse fornecer. Acredito que, por mais orgulhosos de seu próprio reino, todos os príncipes gostam de ouvir sobre costumes de outras terras, para ver o que se pode melhorar na sua própria.
O leitor pode imaginar vivamente como eu desejava, nestas horas, ter o talento oratório de um Demóstenes ou Cícero, que me daria a chance de celebrar minha querida terra natal e exaltá-la ao grau máximo, num estilo condizente com seus méritos e sua prosperidade.
Seja como for, iniciei meu longo colóquio informando Sua Majestade da geografia da Inglaterra: disse que nosso país eram duas ilhas, que em seu todo constituíam 3 importantes reinados, unificados, porém, sob um só monarca; isso sem falar de nossas colônias na distante América. (…) Discorri então sobre a constituição inglesa e o funcionamento do nosso parlamento; detalhei portanto nosso ilustre corpo da Câmara dos Lordes, onde só exerciam mando os mais distinguidos dentre os sangue-azul, os mais tradicionais de berço e as famílias com mais patrimônio. Descrevi nosso sistema educacional e nossa imensa preocupação em incutir nos jovens o ensino das artes, da técnica e do combate militar. Apenas os melhores podiam se tornar conselheiros do rei. E demonstrei que se tornar legislador ou juiz era uma das maiores honras que se podia almejar. Enfim, esses eram os heróis de nossa pátria.”
“Outras pessoas, consideradas sagradas, também compunham aquela assembléia, os bispos, cujo ofício era zelar pela religião, bem como por todos os de hierarquia inferior no corpo eclesiástico. O rei e os mais sábios conselheiros se encarregavam de nomear os bispos dentre os mais compenetrados e santos dentre os padres. Os padres eram os mais espirituais do povo e da nação, o sustentáculo do clero.
A outra parte do parlamento era composta pela Câmera dos Comuns, gentis-homens livremente escolhidos pelas próprias pessoas do povo, baseadas principalmente na habilidade e no patriotismo de seus principais cidadãos. Contei então que a Câmara dos Comuns junta da Câmara dos Lordes constituíam a mais augusta assembléia de toda a Europa; este, que era o parlamento, em conjunção com o rei, decidia todos os mais importantes negócios de Estado e vigiava a aplicação da Lei.
Falei também das nossas côrtes de justiça, presididas pelos mais doutos e eruditos conhecedores do Direito, árbitros dos litígios civis, penais, morais… Relatei como era prudente e meticulosa nossa administração contábil e orçamentária. Estimei o valor e as glórias de nossas forças, da marinha e da infantaria. Fiz um censo tão bem quanto me lembrava de nossa população, quantos milhões se declaravam de uma confissão ou de outra, quantos se declaravam conservadores ou liberais. Não omiti sequer nossos desportes e passatempos favoritos, nem nenhuma outra particularidade que julguei que aumentaria a estima deste rei pelo meu país. Finalizei esses meus discursos com uma história resumida da Inglaterra nos últimos 100 anos.
Foram ao todo 5 audiências, cada uma delas de várias horas. O rei raramente me interrompia e parecia hipnotizado e concentrado em minha narrativa; às vezes ele se punha a anotar certas coisas; bem como anotava perguntas para me lançar no dia subseqüente.”
“Quais métodos são usados para aperfeiçoar as mentes e corpos de vossa jovem nobreza? Em que tipo de negócios os rebentos desta casta despendem seu tempo, seja na primeira infância ou na juventude mesma? Quando uma família da aristocracia se extingue, que medida é tomada e como se seleciona uma nova família para a Câmara dos Lordes? Qualé o pré-requisito para ser nomeado Lorde: conquistar a confiança do príncipe? Uma soma de dinheiro, talvez? Ou demonstrar engenhosidade e estrategismo políticos? As inovações, procurando sempre melhorar os costumes, chegam a causar algum tipo de perturbação ou ameaça de revolução? O interesse público é o último fim visado pelo monarca, ou há outros mais importantes? Quanto um lorde médio sabe sobre as Leis, e como vem a saber o que porventura sabe? Como um juiz faz para saber o que decidir numa questão vital sobre as propriedades de alguém em litígio? Está tua sociedade livre de vícios como a avareza, o partidarismo, a miséria? Poderia ser que a aristocracia esteja sujeita a se corromper por subornos, negociatas ou qualquer tática suja do ser humano sedicioso? Os bispos, eles são sempre nomeados com base na autenticidade de sua reputação e a honestidade de suas vidas, na extensão de seus conhecimentos em religião? Nunca houve um só que se tornasse um conspirador depois de ascender ao topo, mesmo que tivesse sido um bom padre? A fé é forte em todos os padres? As idéias são prostituídas entre aqueles que não querem perder suas ligações com a aristocracia, ou impera a sinceridade acima de tudo? Como são escolhidos os tais ‘comuns’? Um forasteiro eventualmente muito rico poderia vir a comprar votos ou exercer influência sobre a população? Por que todos estão inclinados a fazer parte desta assembléia, se é um trabalho tão duro e encerra tantas responsabilidades,e mesmo sem receber pensões ou salários, correndo o risco de levar a própria família à ruína?!? Os nobres estão sempre dispostos a tirar de seu próprio bolso a fim de auxiliar os outros? Mesmo se for um príncipe cheio de vícios e de pulso fraco?”
Enfim, eu senti que sua majestade duvidava do exaltado patamar de virtude e do espírito de abnegação de meu povo! Ele não cessava de multiplicar suas perguntas. Cada resposta gerava novas perguntas, e eu não sabia mais de onde peneirar tantas respostas! Suas objeções eram tamanhas, e tão impudentes, que me reservo ao direito de não incluí-las todas neste relato!”
“Quanto tempo leva para determinar o que é justo e o que é injusto? Quanto esforço, dinheiro e tudo o mais é gasto nesta operação? Advogados e oradores têm liberdade irrestrita de expressão ainda em casos de notórios assassinos ou maus-exemplos, cujos réus sejam indignos ou cuja defesa comprometa sua própria honra? (…) Quais são as possibilidades de reformar as Leis já instituídas? E como evitar que um juiz interprete uma Lei a seu bel prazer?”
“Quem são os credores dos ingleses? De onde tirais vós os recursos para pagá-los? – ele queria muito me ouvir falar dessas tais caríssimas e pesadas guerras. Deveis ser supinamente belicosos, ou então estais acostumados a viver em meio a inúmeros vizinhos de nações guerreiras e de mau temperamento! Não posso imaginar que vossos generais não sejam mais ricos ainda que vossos reis! … E que tipo de comércio ou empresa vós executais fora de suas ilhas, ademais dos naturalíssimos escambos e escoltas marítimas de rotina para manter-vos em paz?”
“Se nós fôssemos governados por nosso próprio consentimento, i.e., se meu povo fosse livre e o soberano de si mesmo, que elege seus próprios representantes, acho que nada nem ninguém teríamos, e não concebo do que os ingleses possam ter medo! E afinal de onde vêm todos esses inimigos de que falas?! Uma simples residência, não é ela muito mais bem-defendida pelo seu dono, seus filhos e família, enfim, que por meia dúzia de patifes recrutados nas ruas a baixos soldos, que lucrariam 100x mais cortando as próprias gargantas?”
“E essa coisa chamada jogo de cartas, a que idade começa-se a praticá-lo? E quando se pára? Quanto tempo é dedicado a isso a cada semana?! Essas apostas são perigosas – interferem no tamanho da fortuna de uma família?! Pessoas de caráter duvidoso podem se aproveitar de seu talento no jogo para amontoar riquezas? O título de nobre é comprável? Os vossos aristocratas conseguem viver em meio a rufiões ou não suportam essa perspectiva?”
“Teu último século e o de teu país, ó inglesinho, não passou de uma seqüência vertiginosa de conspirações, rebeliões, assassinatos a sangue frio, massacres, revoluções, exílios e banimentos, uma seleção das piores conseqüências dos mais graves vícios tais quais a avareza, a sedição, a hipocrisia, a perfídia, a crueldade, a fúria, a loucura, o ressentimento, a inveja, a luxúria, a malícia, a ambição!”
“Meu pequeno amigo Grildrig, fizeste um excelente panegírico de teu país. Provaste-me que a ignorância, a preguiça, o vício são os ingredientes mais aptos para formar os legisladores! Que as leis são mais bem-explicadas, interpretadas e aplicadas por aqueles cujos interesses e habilidades estão em perverter, confundir, enganar. Vejo em vós as linhas de uma instituição que, em sua origem, pode ter beirado o tolerável, mas que agora, metade apagada, em suas melhores partes, está agora infectada pela corrupção!”
“E quanto a ti, Grildrig, que passaste a maior parte de tua vida viajando, tenho muitas esperanças de que tu mesmo não cultivas muitos destes abomináveis vícios de tua nação!”
“Não posso concluir outra coisa senão que a grande maioria de teus conterrâneos é constituinte da raça mais perniciosa de pequenos e odientos vermes que a natureza jamais deu-se ao trabalho de perpetrar sobre a superfície da terra!”
“este monarca se mostrou tão cioso e inquisitivo em conhecer cada particular de minha vida e de meu povo que algumas informações e demandas não poderiam soar mais do que como ingratidão e descortesia, seja da parte dele ou da minha, ao me negar a responder ou dar satisfação de alguns detalhes. Às vezes não era por discrição: eu simplesmente desconhecia a resposta.”
“Se bem que devemos ser tolerantes com um rei que vive tão secluso do resto de todas as nações, e portanto nada deve saber em termos de maneiras e costumes ordinários para estrangeiros: nunca seu preconceito será aniquilado uma vez que há essa ignorância, e será sempre natural qualquer estreiteza conceitual, mais ou menos grave conforme o contexto. Creio que nós e o restante da Europa estamos, pelo menos, isentos deste defeito. Seria realmente bizarro se os padrões de vícios e virtudes adotados por um príncipe tão remoto e isolado tivessem utilidade universal!”
“Ele ficara abismado como um inseto rastejante tão impotente como eu (aqui uso suas expressões, literalmente) podia dar vazão a idéias tão desumanas, ainda mais sem o menor pudor na forma de dizê-lo, parecendo alheio a tantas cenas de violência e desolação que eu mesmo pintara como as conseqüências evidentes do uso dessas máquinas destrutivas. Algum gênio mau deve ter invadido vossa civilização, ele disse. Quanto a ele próprio, declarou que, embora poucas coisas o comovessem tanto quanto novas descobertas na arte e na natureza, ele preferiria perder metade de seu reino que ficar a par desses segredos sórdidos. E me recomendou dali em diante jamais voltar a esse assunto. Estranho caráter, estreitos princípios e visão tão limitada!”
“Eu tenho para mim que assim é essa gente porque ela não chegou ainda ao estágio em que se reduz a política a uma ciência. Uma vez eu lhe disse que <há dezenas de milhares de livros sobre a arte do governo entre nós>, o que, ao contrário do que eu projetava, gerou-lhe grande repulsa, uma péssima opinião de nós e muitos mal-entendidos!”
“A educação dos gigantes é muito precária, pois considera apenas a ética, a história, a poesia e a matemática, na qual, por sinal, eles são como que obrigados a exceler. Só que toda essa matemática é aplicada apenas em coisas práticas da vida cotidiana, p.ex., o aperfeiçoamento da agricultura e de outras artes mecânicas ou que chamaríamos de artesanato. Dentre nós creio que esta educação teria valor zero. Nunca vira povo tão pouco filosófico: idéias, entidades, abstrações e qualquer noção que fosse de transcendência eram-lhes particularmente impossíveis!”
“Desde épocas imemoriais eles já haviam descoberto a imprensa, como os chineses fizeram entre nós. Mas suas bibliotecas são até hoje acanhadíssimas. Mesmo a do rei, que é tida como a mais suntuosa, não possui mais do que mil volumes, distribuídos por uma galeria da coisa de uns 350 metros de extensão. Ganhei permissão real para pegar emprestado o livro que eu quisesse.”
“nada é mais alvejado pelos autores deste país que evitar qualquer palavra desnecessária ao discurso, ou mesmo a criação de sinônimos, porque se uma palavra comunica algo, essa palavra basta e eis tudo. Eu peregrinei minhas vistas por inúmeros de seus livros, principalmente os de história e moral.”
“seria bem razoável imaginar, homenzinho, que as espécies de hominídeos eram originalmente muito maiores, mas que pessoas do nosso tamanho e também da tua diminuta estatura sempre existiram em paralelo. Não só a tradição e os mitos nos falam de gigantes incomparáveis, não só alguma parcela de nossa história escrita, mas também provas fósseis, casualmente escavadas em diferentes porções de nosso reino; falo de esqueletos muito maiores que os dos homens atuais, que tu chamas de homens-montanhas.”
“Um cavaleiro montado num belo corcel chegava aos 30 metros de altura.”
“Eu estava bastante curioso para saber como esse príncipe, cujos domínios eram praticamente inacessíveis para qualquer outro país, sem falar que seriam inexpugnáveis por quaisquer de nossas forças armadas<diminutas>, avaliava os exércitos ou a falta de um, isto é, se ele estaria propenso, caso a necessidade se apresentasse, a ser um competente general de guerra ou se não passava de um rematado pacifista, desses que jamais veríamos dentre os líderes das nossas nações conhecidas.Será que ele ensinava a seus súditos a disciplina das batalhas e as treinava para enfrentar emergências?Essa minha ânsia, afinal, não durou muito, haja vista eu ter sido informado, tanto pelos livros de História quanto por alguns interlocutores, que, no decorrer das eras, houve na terra dos gigantes muitas pestes e doenças contagiosas, como essas que ajudaram a conter, assolar e subjugar aspopulaçõesna Europa, não muito tempo atrás. Também fiquei sabendo que – exatamente como em nosso Velho Continente – a nobreza dos gigantes vivia sempre sediciosa e ávida por mais poder ou por manter seus privilégios, enquanto que as massas contendiam o tempo todo arriscando a vida pela própria liberdade, e o rei, à parte, pelo domínio absoluto e nada mais.”
“O navio em que embarquei foi o primeiro jamais visto naquela costa, e o rei deu ordens estritas de que, a qualquer tempo que uma nova nau fosse contemplada no horizonte, outras embarcações dali em diante fossem capturadas e trazidas à terra firme, com todos os passageiros e tripulação intactos, que deviam ser transportados a Lorbrulgrud em carroças de duas rodas. O rei estava muito convencido nos últimos tempos da idéia de providenciar-me uma fêmea de meu tamanho, a fim de propagar minha nanica espécie – mas, sinceramente, de minha parte, preferia morrer que ser forçado a perpetuar uma espécie que passaria sua existência confinada em gaiolas como canários adestrados e, com o tempo, provavelmente vendida nos mercados para consumidores curiosos. Eu fui tratado com toda a deferência no reino; era o cortesão favorito do rei e da rainha, o deleite de uma côrte inteira. Mas considero isso um simples acaso individual, e a raça humana que de mim derivasse, creio, não teria a mesma sorte.”
“Já fazia 2 anos que estava entre os gigantes. Certa feita eu e Glumdalclitch fomos convocados a comparecer a uma audiência diante do rei e da rainha.”
“Eu olhava através das minhas janelas, mas nada podia ver além das nuvens e do céu. (…) alguma águia agarrou a argola de minha gaiola pelo bico, com o provável intento de deixá-la se quebrar numa rocha, como faria quando captura uma tartaruga, a fim de quebrar seu casco. E aí essa ave coletaria meu cadáver dos destroços, ou antes o devoraria sem pestanejar ali mesmo! A esperteza e o olfato desse animal permitem-no descobrir comida a centenas ou milhares de metros de distância, muito embora eu mesmo estivesse oculto ao olhar também muito agudo da criatura, por estar confinado nesta gaiola, que às vezes eu também chamava simplesmente de <minha caixa> ou <minha casa>; enfim, eu estava tão invisível para esse predador do mundo dos gigantes quanto estaria um homúnculo ou inseto bem-escondido num compartimento de 5cm³.”
“Percebi então que havia caído em alto-mar.”
“Ah, quantas vezes não desejei voltar a estar ao lado de minha querida Glumdalclitch! E pensar que cada hora separado desta minha babá era uma eternidade durante minha estada neste país! E além da situação lamentável em que estava não pude deixar de me entristecer também por Glumdalclitch, pensando o que ela estaria sentindo e pensando naqueles exatos instantes, de que forma ela lidaria com o luto de minha perda, o pesar da rainha, essas circunstâncias todas…”
“Ou, se eu escapasse desses perigos por um ou dois dias, o que sobraria para mim a não ser a morte mais miserável de frio e fome? Meu estresse máximo e perigo real de morrer a qualquer instante duraram 4 horas; eu esperava, não, eu desejava que cada segundo fosse literalmente o meu último.”
“Se há qualquer corpo aí embaixo, deixem que fale.”
“Alguns deles, ouvindo-me gritar tão selvagemente, pensaram logo que eu estava louco; outros ainda puseram-se a rir; de fato, a ficha demorou a cair: eu estava agora com pessoas da minha própria estatura e do mesmo nível de força que o meu!”
“Os marinheiros estavam todos admirados, me fazendo mil perguntas, às quais, para ser sincero, eu não desejava responder. Eu estava confuso à vista de tantos pigmeus ao mesmo tempo, porque era só o que pensava que eles poderiam ser: pigmeus da terra dos gigantes! Meus olhos estavam desacostumados com objetos e corpos pequenos.”
“Um deles disse:
– Eu distingui 3 águias voando rumo ao norte; mas confesso que não reparei se eram gigantescas ou do tamanho normal. Isso nem veio a minha mente.
Imagino que isso se deva à grande altura nas quais as águias se encontravam. Mas duvido que este homem entendesse as razões para minha pergunta.”
“como grandes criminosos, noutras nações, haviam sido forçados a embarcar em barcos pouco confiáveis e com provisão alimentícia muito minguada… Embora o capitão estivesse tão pesaroso da situação de racionar os bens, também se compadecia da miséria deste homem desgraçado e doente que caíra em seu navio, e prometia cumprir sua palavra e me levar a salvo para terra firme, nem que fosse no primeiro porto que tivesse a oportunidade de atracar, nem que fosse muito distante da Inglaterra, ou mesmo da Europa.”
“serão os olhos deste homem maiores que sua barriga? Não sei, meus caros, não sei, e não vejo mal nisso, ainda que fossem, porque este homem passou um dia inteiro sem comer!”
“Eu propus deixar todos os meus pertences como fiança de todos os favores de que me proveram. Porém o capitão se recusava a aceitar um tostão furado.¹ Despedimo-nos amavelmente, e fi-lo prometer que me visitaria em Redriff. Contratei um cavalo e um cocheiro por 5 xelins, que tomei emprestado do capitão.
Na estrada, observando a pequeneza das casas, das árvores, do gado e mesmo das pessoas, alucinei que estava ainda em Lilliput. Tinha verdadeiro receio de tropeçar e machucar qualquer viajante que encontrava, e não-raro gritava para que eles me dessem licença, como se falasse com pigmeus. Não menos de duas vezes quiseram quebrar minha cabeça pela minha atitude impertinente.”
¹ Outra situação idêntica a uma das cenas de Robinson Crusoe!
“Admoestei minha esposa dizendo que ela fôra frugal demais nos gastos, a ponto de pôr a si e a nossa filha quase em estado de penúria. Mas eu parecia tão fora de mim mesmo que elas opinaram omesmo que o capitão assim que me resgatara: achavam que eu tinha ficado louco. Digo isso porque o hábito e o preconceito parecem exercer uma extraordinária impressão sobre nós!”
“Minha esposa me aconselhou a jamais embarcar novamente, muito embora meu destino não estivesse alinhado com este plano de vida. Mas disso o leitor será informado a seu tempo!”
* * *
PARTE III – VIAGEM A LAPUTA, BALNIBARBI, LUGGNAGG, GLUBBDUBDRIB E AO JAPÃO
“Não pude recusar essa proposta. Minha ânsia por conhecer o mundo, a despeito de meus infortúnios passados, continuava violenta como sempre.”
“Tripulando a chalupa de 14 homens, 3 deles ingleses, ele me nomeou capitão da expedição”
“Ao décimo dia fomos perseguidos por dois piratas, que logo nos alcançaram; minha chalupa estava tão pesada com suprimentos que não conseguia velejar a contento; tampouco tínhamos aparato militar para defendermo-nos.”
“Lamento encontrar mais misericórdia num pagão que num irmão em Cristo, eu confessei ao holandês.”
“Considerei quão impraticável seria preservar minha vida num lugar tão desolado, e quão miseráveis não seriam meus últimos dias”
“O leitor jamais há de conceber meu espanto ao descobrir uma ilha flutuante, habitada por homens, que eram capazes (ao que parece) de levitar e afundar de novo sua ilha-nave e movê-la como bem desejassem”
“nunca na vida eu contemplara uma tal sorte de mortais, seres absolutamente singulares em suas formas, hábitos e tabus. Suas cabeças eram totalmente reclinadas, fosse para a direita, fosse para a esquerda; um de seus olhos apontava para dentro, isto é, para a parte de baixo do corpo e para o chão, e o outro para o zênite (o cume do firmamento)! Era um costume muito assíduo que a aristocracia do lugar conservasse sempre junto a si, em caráter imprescindível para a comunicação com o <mundo externo>, dois servos ou escravos, empregados faz-tudo.”
“Enquanto ascendíamos, inúmeras vezes perdiam o fio da conversação, de modo que eu tinha de relembrá-los. Às vezes de nada adiantava, e eu tinha de esperar que eles voltassem a si sozinhos. Mesmo diante de uma raça alienígena (o que eu era para eles), não podiam manifestar nada além da mais completa indiferença. Eu podia notar que lidava com indivíduos da aristocracia desse país, porque outros da mesma espécie, que eu chamaria de plebeus ou gente vulgar, tinham pensamentos mais ansiosos e contínuos, e viviam a gritar, mas os primeiros não lhes davam qualquer atenção.”
“Sua Majestade sequer pareceu me notar, ou a comitiva inteira, mesmo que nossa entrada tenha sido algo barulhenta. Ele estava ensimesmado num problema: como conseqüência, tivemos de esperar uma hora pelo seu <retorno>. De cada lado do rei havia um pajem ou servo; quando eles percebiam que o rei estava <de volta ao mundo real>, voltavam a se comunicar com ele. Um dos pajens servia-lhe de boca, o outro de ouvido. Assim ele se comunicava com o mundo exterior. Quando o rei percebeu nossa chegada, teve um sobressalto.”
“O rei me direcionou uma série de perguntas, de modo que eu (não pela primeira, nem pela última vez) tentei dar-lhe satisfação em várias línguas que conhecia. (…) esse rei era especialmente distinguido, reputado acima de seus predecessores no trono como excelente anfitrião de estrangeiros.”
“Tivemos duas refeições, de três pratos cada. Na primeira, havia uma paleta de cordeiro cortada em formato de triângulo equilátero, um pedaço de bife em rombóide (paralelogramo), e um pudim em ciclóide. A segunda refeição consistia em patos amarrados em forma de violino; salsichas e pudim idênticos a flautas e oboés, afora um peito de vitela imitando uma harpa”
“Em poucos minutos aprendi, na língua deles, a pedir pão e algo para beber, ou alguns outros petiscos.”
“Ele me trouxe pena, tinta e papel, além de 3 ou 4 livros, dando a entender pela linguagem de sinais que fôra enviado para ensinar-me as letras. Ficamos em labuta por 4 horas, tempo que me foi o bastante para redigir uma imensidão de palavras em colunas, com as respectivas traduções; também me esforcei para aprender as principais expressões curtas de uso cotidiano; meu tutor me ensinou como dar ordens aos meus serventes, tais quais pegar isso ou aquilo, ir embora, se apresentar, fazer reverência, sentar-se, erguer-se, andar, etc.”
“Em poucos dias, com a ajuda de uma memória em que podia depositar minha inteira confiança, podia me expressar razoavelmente bem neste idioma.”
“Lap, na antiga língua obsoleta, significa alto; e untuh, governador; daí é que dizem ter derivado o nome Laputa, antes Lapuntuh. Terra alta ou terra da altura, mais-alto-governo, como queiram.”
“O rei deu instruções para a locomoção leste-nordeste, rumo ao ponto vertical acima de Lagado, a metrópole de todo este alto-reino, localizada mais abaixo. Isso era a 145km de distância de onde estávamos; nossa viagem durou 4 dias e meio.”
“Ele me confidenciou que os residentes da ilha tinham os ouvidos adaptados para ouvir <a música das esferas, que toca inelutavelmente de período em período, de modo que a côrte está agora preparada para realizar sua parte, cada qual no instrumento em que mais excele>.”
“A facilidade que eu tinha com matemática me capacitou a absorver um pouco de sua fraseologia altamente avançada, que, por assim dizer, tinha a aritmética e a geometria como bases sólidas; a música também. (…) Suas idéias sempre percorrem figuras geométricas ou linhas cartesianas. Para elogiar, p.ex., a beleza de uma mulher, ou de algum animal, descrevem-na em losangos, círculos, trapézios, elipses e qualquer termo de especialista afim. Quando figuras imagéticas não são o suficiente, recorrem a metáforas musicais.”
“Suas casas não são nada bem-construídas; as paredes são sinuosas, nenhuma forma um ângulo reto ou simular ao das outras quinas em cômodo algum! Isso deriva do extremo desprezo desse povo pela geometria prática, que consideram coisa vulgar e de operário ou gente bruta, arte mecânica, enfim. Suas instruções, portanto, de engenheiros e arquitetos, abstratas e refinadas demais para os simples pedreiros, acarretam inúmeras falhas. Tanto quanto eles são destros e habilidosos num pedaço de papel, com o lápis, o compasso e os esquadros, são incompetentes e lassos no trato social, na ação concreta, no bê-á-bá da vida. Jamais vira nem veria dali em diante um povo tão estranho, anti-social e destrambelhado. Qualquer conceito estranho a sua sabedoria milenar consolidada deixava-os perplexos e sem reação. Se não fosse matemática ou música, era melhor que esquecêssemos!Eles são muito fáceis de contrariar, suscetíveis e teimosos, conservando o bom senso apenas quando têm a razão de seu lado; e numa discussão eles nunca cedem, então o melhor a fazer para se poupar é sempre dizer que eles têm razão. Eles desconhecem imaginação criativa, devaneio, invenção! Sequer pode-se nomear tais coisas em sua língua.”
“Mas, para não exagerar na crítica desse povo, o que mais me admirou neles foi sua forte disposição para novidades em política, sempre preocupados com o bem-estar social e os negócios da ilha; cada cidadão possuía suas opiniões e juízos particulares sobre negócios de Estado, e havia muitas facções que apreciavam o debate apaixonado. Na realidade já observara a mesma inclinação entre os matemáticos que conhecera na Europa, embora jamais atinasse com qualquer analogia entre as exatas e a ciência política! A não ser que essas pessoas imaginem que, como os menores círculos possuem tantos graus quanto os maiores, a regulação e a administração do mundo inteiro não requeiram nem menos nem mais habilidade que pôr um globo terrestre em movimento!”
“Essas pessoas se encontram perpetuamente angustiadas, jamais atingindo a tranqüilidade de espírito por mais do que alguns minutos. Suas perturbações derivam de causas que quase não afetam a vida do restante dos mortais. Suas apreensões despertam à causa de inúmeras mudanças dos corpos celestes que elas observam e temem. Por exemplo: temem que a Terra, devido à contínua aproximação do sol, seja, ao longo do tempo, absorvida ou engolida; que o disco solar vá gradativamente desmilingüindo por conta do próprio calor produzido em seu núcleo, até apagar-se por completo; e contam assustados como a Terra, que há pouco escapou, de forma miraculosa, de uma colisão fatal com o último cometa que adentrou o sistema solar,pode virar cinzas siderais à próxima visita de um desses corpos celestes de movimento inopinado! Não inopinado a ponto de escapar a seus meticulosos cálculos, é claro:afirma-se que em exatos 31 anos terrestres um novo cometa nos destruirá irrevogavelmente.”
“o sol, gastando diariamente seus nutrientes emitindo raios, sem reposição alguma, será inapelavelmente consumido e aniquilado (…) enfim, não queria ser tão repetitivo, mas estes meus novos amigos vivem tão alarmados e apreensivos sobre essas coisas tão distantes e remotas, senão improváveis, afora muitas outras calamidades sequer citadas, que são todos uns insones que não aproveitam os pequenos prazeres da vida. Quando cumprimentam um conhecido pela manhã, a primeira pergunta é sobre o estado do sol, como ele parecia estar ao se pôr no dia de ontem e se houve percepção de mudança no seu nascer hoje, e quão esperançosos podem ser os habitantes da ilha de evitar a catástrofe iminente! Esse tipo de diálogo é levado a cabo com a mesma desenvoltura de dois garotos que compartilham contos de terror, estórias de fantasmas e duendes. Como no caso dos garotos, eles se comprazem imensamente durante a conversa e manifestam extrema curiosidade – mas depois se arrependem e não conseguem dormir no escuro ou ir à cozinha de madrugada beber água.
As mulheres da ilha, verdadeiras Xantipas!, são muito, muito vivazes: não param de brigar com seus maridos e se afeiçoam facilmente a forasteiros, sendo esta ocasião tudo menos rara, pois muitas vezes a ilha pousa nos continentes telúricos. E muitas vezes visitantes são autorizados a subir a bordo e visitar a côrte, como eu. Não só issomas visitam as cidades e corporações sob os menores pretextos. Se bem que, coletivamente, são todos desprezados, por parecerem sempre querer o mesmo tipo de coisa – são utilitaristas, não há dúvida!”
“ah, mas os maridos… os maridos estão sempre tão absortos em especulações que a mulher e seu amante podem se dar ao luxo de proceder às maiores amabilidades e familiaridades inclusive no mesmo cômodo, bem debaixo de seus narizes, contanto que eles estejam com papel, caneta e livros ao alcance das mãos, i.e., devidamente distraídos – e desacompanhados de seus dedicados servos, é claro!
As esposas e filhas sem dúvida lamentam muito seu confinamento à ilha, embora eu, particularmente, julgue-a o pedaço de terra mais magnífico do planeta! Embora vivam aqui em meio à maior abundância e magnificência, e com permissão para circular sem restrições pelo habitat flutuante, elas anseiam ver o mundo lá de baixo e conhecer o tipo de entretenimento presente em Lagado, a capital baixa do império (…) me relataram que uma senhora distinta da côrte, repleta de filhos, desceu a Lagado sob o pretexto de tratar da saúde, mas que lá viveu ocultamente vários e vários meses.” “Essa senhora, mesmo com marido tão gentil e abnegado, e por mais que ele a tenha recebido de volta sem o menor indício de reprovação, pouco tempo depois conseguiu empreender nova fuga, com todas as suas jóias, e foi viver com o mesmo indivíduo, e dessa vez nunca mais voltou — seu paradeiro segue desconhecido na côrte.
Imagino que essa história toda pareça uma alegoria para retratar as famílias britânicas desestruturadas, o que seria mais fácil imaginar – que eu sou um autor de ficção, que não precisaria ter viajado a um país tão remoto para redigir esse tipo de coisa! Mas ao leitor que assim pensar eu alerto: o sexo feminino não difere em clima ou nação algum, consistindo num espécime muito mais uniforme do que se pode esperar!”
“Sua majestade não tinha o menor interesse em indagar sobre as leis, o governo, a história, a religião, os costumes dos países em que estive; suas perguntas se resumiam ao estado em que se encontrava nossa Matemática, mas mesmo assim minha resposta era recebida com desprezo e indiferença”
“A ilha flutuante, creio ser desnecessário até mencionar, é perfeitamente circular, possui um diâmetro de 7,166153km, possuindo, portanto, uma superfície de 10 mil acres.”
“É jurisdição do monarca elevar a ilha acima da região das nuvens e vapores, garantindo assim que só haja orvalho ou chuva quando ele bem entender.”
“Quando a pedra é posicionada paralela ao horizonte, a ilha fica estacionária; suas extremidades ficando a uma altitude isonômica da terra, a força gravitacional age em equivalência com a força normal, anulando qualquer possibilidade de aceleração.
Essa preciosa pedra, espécie de ímã-volante de toda a ilha, leme tão excepcional, é guardada por certos astrônomos que, de tempos em tempos, mudam sua posição conforme as prescrições do monarca. Estes especialistas passam a maior parte da vida observando os corpos celestes, assistidos por lentes telescópicas ‘n’ vezes mais avançadas que as européias!”
“Em seus catálogos científicos constam 10 mil estrelas fixas, enquanto que nossos mais vastos registros não contabilizam 1/3 deste número. Eles também descobriram duas estrelas-menores, ou satélites, rodopiando Marte; o que traslada mais próximo do planeta vermelho está distante de seu centro geométrico cerca de 3x a extensão de seu próprio diâmetro; o satélite externo, 5x.” “Eles conhecem 93 cometas e sabem seus períodos de passagem pelo nosso sistema com grandíssima exatidão.”
“Este rei seria o rei dos reis do universo, se ele pudesse unicamente reunir homens de igual capacidade em seus ministérios! Mas eu ousaria dizer que não há na ilha ninguém como este homem, nem que chegue perto do intelecto e da visão deste homem; os segundos certamente estão em nossa terra, em nossa altitude habitual, e eu duvido que um rei precavido aceitasse jamais como subordinados tão poderosos e influentes pessoas estranhas, arriscando a escravidão de seu país!”
“o rei, quando se põe animoso e, portanto, decidido a exterminar uma de suas cidades, ordena com fleuma a descida da ilha, dissimulando uma visita benevolente aos cidadãos do lugar escolhido para extermínio; mas tudo isso é por medo de quebrar o fundo da ilha, adamantino, duro como o diamante.”
“Diz a lei do lugar que nem o rei, nem ninguém do reino, nem qualquer de seus dois filhos mais velhos, estão permitidos a sair da ilha. Nem a rainha, até o término de sua infância.”
“Após conhecer todas as singularidades da ilha, eu desejava muito partir. Essas pessoas se tornaram muito cansativas para mim. Eram excelentes em duas ciências pelas quais nutro grande estima, e nas quais confesso ser algo versado; mas, ao mesmo tempo, eram consciências tão abstratas e especulativas, que com o passar do tempo creio que não poderia encontrar companhias mais desalentadoras! Passei a conversar apenas com as mulheres, com comerciantes, servos e pajens. Assim foram meus últimos 2 meses. Não podendo mais ocultar meu desprezo por tal gente, passei a me conduzir de forma impertinente, mas minha mudança só podia ser detectada por essas mesmas pessoas em quem eu ainda encontrava qualquer tipo de aprovação ou reciprocidade!”
“Ele me ouviu com bastante atenção e remeteu-me diversas observações sapientes, relacionadas ao meu discurso. Ele possuía, como sempre nesta classe, 2 servos, mas quase nunca os utilizava – só mesmo em visitas à côrte e em cerimônias. Quando estávamos a sós, ele apenas comandava que se retirassem do aposento.”
“Dia 16 de fevereiro eu me despedi de Sua Majestade e da côrte. O rei me presenteou com o que eu converteria para 200 libras esterlinas, sendo que meu protetor e seus apaniguados também me deram somas em dinheiro, que remontavam mais ou menos ao mesmo valor na somatória. Também levaria comigo uma carta de recomendação para um seu amigo em Lagado, a referida metrópole do reino, mais mundana. A ilha revolvendo cada vez mais baixo e em torno de duas montanhas, uns 3km mais abaixo, fui conduzido ao mundo telúrico da mesma forma como me fizeram subir da primeira vez.” “Encontrei rapidamente a casa da pessoa a quem fui recomendado na carta, e fui recebido, claro, devido à chancela real, com as maiores honrarias.”
“À manhã seguinte ele me levou em passeio de charrete para conhecer a capital, que seria, diria, metade de Londres em tamanho. As casas são esquisitíssimas, e maioria necessitando reparos urgentes! As pessoas nas ruas andam rápido, parecem bárbaras, olhos fixos, geralmente maltrapilhas. Atravessamos um dos portões da cidade e avançamos coisa de 5km campo adentro, onde testemunhei o trabalho de vários camponeses utilizando um sem-fim de utensílios, embora não tenha entendido a função de um deles sequer.”
“não podia atinar com tantas cabeças, mãos e rostos ocupados, no campo ou na cidade! Não entendia o conceito de produtividade dessa nação. Para falar a verdade, nunca vira um solo mais mal-cultivado, casas tão precárias e degradadas, nem pessoas de aspecto mais miserável e necessitado.
O senhor Munodi era um aristocrata, ex-governante de Lagado, mas soube que devido a uma insurreição dos ministros fôra demitido por alegada incompetência. Ainda assim, o rei o recebia com muita ternura e gentileza, como um homem benfazejo, cujo único defeito era a falta de entendimento.”
“Em nossa jornada ele me mostrou diversos métodos empregados por fazendeiros na administração de suas terras, os quais para mim eram todos imprestáveis; raro era o terreno em que eu distinguia um pé de milho ou pedaço de grama. Em 3h de viagem, entretanto, o cenário mudou completamente: chegamos a um meio rural muito bonito, a casas camponesas, umas próximas das outras, todas muito bem-erigidas, os campos compactos e repletos de vinhas e de milharais, além de campos para pastagem. Na verdade nunca vira uma paisagem tal na Inglaterra! (…) os camponeses de Lagado desprezavam e ridicularizavam o jeito do senhor Munodi fazer as coisas em suas propriedades, crendo-o um péssimo exemplo para o reino. Esse tipo de contra-exemplo (a produtividade no campo!) era também seguido por umas raras exceções, reputadas como os excêntricos, velhacos, teimosos, velhos rabugentos e fracos de espírito do lugar.
Chegamos enfim a seu lar, uma mansão bastante nobre e brilhantemente estruturada. Encontro nas leis deste projeto arquitetônico o que de melhor os antigos nos deixaram. As fontes, os jardins, as passarelas, avenidas e pomares eram distribuídos de forma justa e regular e sem dúvida havia bom gosto em sua disposição.”
“ele me contou com um ar melancólico que até consideraria seriamente a idéia de derrubar suas edificações e restaurá-las ao gosto dos atuais cidadãos de Lagado; de destruir todas as suas plantations e adotar as <modernizações> em voga, para seu próprio prejuízo, mas temia que tudo isto não fosse apreendido pelos demais senão como orgulho, afetação, ignorância e capricho, manchando ainda mais sua reputação em relação a Sua Majestade.”
“Cerca de 40 anos atrás, muitos subiram a Laputa, ou a negócio ou a lazer, e, depois de 5 meses de estada, voltaram cheios de novas concepções e invencionices matemáticas, o que na verdade eu chamo de preconcepções absurdas e desconhecimento – essas pessoas se tornaram muito voláteis, provavelmente em virtude de haverem respirado o ar rarefeito e elevado demais daquela região. Foi aí que os habitantes de Lagado começaram a tomar gosto pela falta total de administração de seus negócios, i.e., passaram a desprezar toda e qualquer coisa <material> e <mundana>. Tudo em que pensavam era na reforma imediata das técnicas, artes, ciências e linguagens. Eles providenciaram uma patente real a fim de erigir em Lagado uma academia de projetistas (mal consigo usar a palavra <engenheiros>). As idiossincrasias prevalecem em tal medida nessa gente extravagante da capital que não há, na atualidade, uma só província que não tenha sucumbido a seu amalucado exemplo. Nessas novas escolas os professores ensinam regras e métodos inauditos em agricultura e engenharia civil, concebem novos instrumentos e ferramentas para todos os negócios e manufaturas; dizem eles que assim, devido à revolução que acabarão por promover, um homem trabalhará por 10, um palácio será erguido numa semana, e será feito de materiais tão duráveis que jamais carecerá de reparos. Que todos os frutos da terra chegarão à maturidade em qualquer estação e terão dimensões 100x maiores que as atuais. Isso e muito mais eles prometem. O único inconveniente é que nenhum desses projetos jamais chegou à perfeição ou a qualquer resultado satisfatório. E enquanto esse dia não chega, o país vive na miséria e desperdiça seu potencial, as casas permanecem ruinosas e as pessoas sem quase o que comer ou vestir. Mas isso, ao invés de desencorajá-las, torna-as 50x mais agressivas e obstinadas. Não sei o que mais as move, se a esperança ou o desespero. Quanto a mim, senhor Gulliver, sou despido desse tal ‘novo espírito de empreender’! Hei de viver como vivi desde que nasci, como meus antepassados viveram, e não pretendo mudar. Mas a verdade é que os poucos de nós contrários às inovações são vistos como inimigos do povo, das artes, uns plebeus ignorantes! O que dizem de nós é que somos preguiçosos que preferem se ater a envelhecidas fórmulas de sucesso e que nos falta o ímpeto do sacrifício coletivo!”
“A um quilômetro de sua casa esse homem tinha um engenho movido pela correnteza de um grande rio que por ali passava. Essa construção atendia as suas necessidades, as de sua família e as de muitos outros amigos. Mas há exatos 7 anos os tais projetistas acadêmicos o procuraram com propostas de destruir o moinho e construir um outro na região montanhosa, em que pretendiam erguer um grande canal bem no meio dos desfiladeiros, enchendo-os com água, abastecendo-os de motores, sistemas condutores e certas engenhocas.Alegavam que os ventos e o ar, a grandes alturas, agitavam a água e, quanto mais ela pudesse ser movimentada, e de quão mais alto ela viesse, mais energia seria produzida. Munodi, não vendo saída, em desprestígio com a coroa e pressionado por muitos de seus vizinhos, cedeu. Apesar de terem aplicado 100 homens no projeto ao longo de 2 anos, o trabalho descarrilhou, tudo deu errado e os projetistas foram-se embora, culpando o próprio Munodi! Agora esses acadêmicos andam por aí procurando outras almas como o benévolo Munodi, a fim de engabelá-las por seu turno, prometendo sempre os melhores resultados e as mais altas probabilidades de êxito, com o mínimo esforço. Mas, na prática, tudo acontece ao revés.”
“Essa academia não se resume a um simples prédio, mas é mais como um condomínio ou um campus, com prédios dos dois lados de uma rua que, barata e desvalorizada, foi comprada para servir de sede aos projetistas.”
“O primeiro homem que vi era um senhor muito raquítico, de cara e mãos muito sujas; seu cabelo e barba eram compridos, esfrangalhados e chamuscados em vários lugares. Suas roupas, sua camisa e sua cara, enfim, eram para mim da mesmíssima cor. Ele se encontrava há 8 anos entretido num só projeto: extrair a luz solar de pepinos, os quais eram inseridos em frascos hermeticamente selados, e depositados ao ar livre em pleno verão, debaixo do sol mais inclemente. Ele me contou que, sem dúvida, em no máximo mais uns 8 anos, já terá podido iluminar todos os jardins do governador, e isso a custos irrisórios.”
“O projetista dessa cela era o estudante mais antigo da academia. Seu rosto e barba eram de um amarelo pálido, suas mãos e roupas eram recobertas por uma camada de poeira. Quando fomos apresentados ele me deu um entusiástico abraço, um cumprimento que em outra ocasião eu bem poderia ter desculpado! Desde sua entrada na academia, ele estava envolvido numa operação a fim de reduzir os excrementos humanos à comida original, separando as partes, removendo a tintura emprestada às fezes pela bile, dissipando o mau cheiro e drenando o suco gástrico. Ele contava com parcos recursos da sociedade de cientistas, dentre eles uma remessa semanal de um recipiente abastecido de bosta, mais ou menos das dimensões de um barril de chope de Bristol.
Também vi um professor tentando calcinar o gelo até virar pólvora; este último me mostrou um tratado que redigira, sobre a maleabilidade do fogo, o qual ainda não se encontrava publicado.
Havia um arquiteto dos mais engenhosos, que descobrira um novo método de construir casas, começando pelo teto e descendo progressivamente à base. Sua justificativa? Ele me contou que devíamos copiar os insetos peritos em construção, isto é, as abelhas e as aranhas!”
“ora, empregando aranhas o trabalho de tingir a seda será todo poupado.”
“Ele me exibiu uma vasta quantidade de moscas das cores mais belas, com as quais alimentava suas aranhas, garantindo que as teias sairiam com a mesma tintura das moscas. Como ele tinha um repertório de todas as cores de moscas, ele esperava assim conquistar a aprovação universal, ao menos a partir do momento em que encontrasse alimento apropriado para todas as variedades de moscas, constituído de certas gomas, óleos e matérias viscosas, a fim de dar a consistência e a força necessárias aos fios.”
“Eu me queixava no momento de uma pequena crise de cólica, quando meu guia me conduziu à sala de um renomado físico, que conseguia curar essa inconveniência através de operações contrárias de um mesmo instrumento. Havia um par de berrantes enormes, com o bocal muito alongado e estreito feito de marfim. Ele inseria essa parte (de uns 20cm!) no ânus do paciente. Fazendo ventar para aquelas partes, ele garantia poder tornar o intestino tão murcho e isento de gases quanto uma bexiga depois de estourada! O problema era que quando o mal era mais crônico e violento ele precisava retirar os berrantes várias vezes para repetir o procedimento de ventilação. Nesse intervalo em que retirava o berrante para reintroduzi-lo, o doutor precisava tapar o orifício do reto do paciente com seu dedo polegar, para não deixar nada escapar; depois que isso era feito 3 ou 4 vezes, no mais grave dos casos, o <vento adventício> podia finalmente ser liberado com todos os gases (funcionava exatamente como uma bomba d’água). O paciente recebia alta. Eu vi este homem fazer o experimento com um cão, mas não pude perceber qualquer resultado na primeira aplicação do berrante. Com a repetição da operação, vendo que o caso era grave, o doutor aplicou tanto vento no animal,e logo ele peidou tão feio, que foi impossível permanecer na sala… O cachorro morreu no ato! – mas o doutor iria tentar a ressuscitação do animal aplicando a mesma técnica… eu não fiquei para ver o resultado e segui adiante em minha visita…
Com efeito eu visitei muitos outros apartamentos de projetistas-especialistas, mas não vou desperdiçar o tempo do meu leitor com as curiosidades que acabei por observar, preferindo um relato mais breve da aventura.”
“A invenção mais brilhante que encontrei foi um dispositivo que pretendia reunir todo o conhecimento universal da humanidade mediante o registro de todas as palavras concebíveis e de sua repetição na mesma proporção em que ocorrem nos livros conforme sua classe gramatical (advérbios, preposições, conjunções, verbos, adjetivos, substantivos…), e tudo isso de uma forma dinâmica, um aparato gigantesco operado por muitos auxiliares. Achei meu colega, o inventor deste mecanismo (veja a imagem), tão aplicado e original que prometi que, se um dia eu voltasse ao Velho Continente, tornaria público o fato de que ele, e somente ele, era o inventor genuíno desta grandiosa máquina revolucionária. E eu disse a ele, encorajando-o: <Embora seja o costume do europeu o furtar, por assim dizer, invenções uns dos outros, nosso sistema tem, ao menos, essa vantagem: sempre fica dúbio, no final, quem fôra o descobridor do Ovo de Colombo…>, mas – complementei –<…agirei com tanta precaução que você pode estar certo de ficar como detentor derradeiro dos direitos sobre sua invenção, sem um rival sequer!>”
“A seguir nós nos dirigimos à faculdade de letras, onde 3 professores estavam em debate, cujo tema era: como aperfeiçoar o idioma natal? O primeiro projeto proposto foi o de diminuir o discurso, cortando polissílabos, e eliminando verbos e particípios, uma vez que coisas imaginadas não são senão normas. O segundo projeto era um esquema extremista em que se aboliam de vez todas as palavras; argumentou-se que seria uma ação altamente valiosa tanto no campo da saúde quanto no da objetividade científica. E para isso evidenciou-se que cada palavra que pronunciamos representa uma ligeira diminuição de nossa capacidade pulmonar por corrosão e que, por extensão, a língua contribui para o encurtamento da vida humana. Pregou-se uma solução: <Uma vez que as palavras são apenas nomes para as coisas, seria mais conveniente que cada homem carregasse consigo todas as coisas necessárias a fim de expressar idéias particulares.> Essa invenção, alegou-se, já teria sido possível e já seria uma realidade, se as mulheres e a gente vulgar e iletrada não ameaçasse, sempre, rebelião quando esta era a pauta do dia. Aquilo que nossos avós e pais faziam, é-nos muito difícil de abdicar. São esta gente os inimigos maiores do fazer-ciência. (…) Entrando em mais detalhes sobre esta curiosa proposta, à objeção levantada de um homem cuja profissão fosse muito abrangente, abarcando muitos tipos de objetos, este homem teria, proporcionalmente aos campos que domina, numa lei de igualdade compensatória, de carregar mais coisas nas costas, a não ser que fosse rico o bastante para ter um ou dois servos que o ajudassem nesse tocante. Eu vi dois dos sábios defensores desta proposta quase que afundando sob o solo dado o enorme peso de sua bagagem, como os nossos mascates. Aí, então, a pessoa que carregasse todos os objetos de que necessita para <falar>, quando encontrasse um conhecido seu na rua, depositaria sua sacola no chão, retiraria seus objetos e poderia, assim, dialogar mudamente por cerca de uma hora! A ajuda de terceiros com implementos ou o camaradismo a fim de que todos e cada um lograssem carregar sem maiores dificuldades toda sua <mercadoria de fala> em peso (com o perdão do trocadilho!) seriam aspectos indispensáveis desse novo e promissor modo de vida. (…) Como seria de se imaginar, a casa ou escritório de alguém nesta sociedade seria atulhado de coisas para que diálogos fossem sempre possíveis. Essa operação não é coisa simples: a habilidade no rápido e coordenado manejo de objetos sendo essencial, diria que é uma verdadeira ARTE da conversação!
Mas mais uma vantagem aludida com o emprego dessa nova técnica seria que finalmente cumpriríamos os desígnios de Babel: teríamos atingido a língua universal! Em nenhuma nação que adotasse esse método qualquer forasteiro que jamais estudou os costumes locais deixaria de ser plenamente compreendido! (…) Embaixadores tratariam com quantas autoridades internacionais pudesse haver, sem maiores inconvenientes.”
“nada há de tão extravagante e irracional que alguns filósofos não tenham proclamado como verdadeiro.”
“Propôs então o doutor: <Na assembléia do senado, alguns médicos deveriam comparecer nos seus três primeiros dias, e, à hora da saída, medir o pulso de cada um dos debatedores. Após o quê, considerando com sabedoria e consultando sobre os sintomas das mais variadas doenças, bem como seus métodos de cura, ao quarto dia, retornariam em companhia de seus apotecários munidos dos medicamentos adequados. Antes mesmo desta quarta reunião, eles administrariam todos os lenitivos, aperitivos, abstergentes, abrasivos, corrosivos, restringentes, detergentes, paliativos, laxativos, analgésicos, anti-cefalóides, anti-ictéricos, anti-apopléticos, acústicos, etc., na dosagem e na qualidade que o quadro de saúde de cada paciente demandasse. Conforme esses remédios sanassem ou não a doença, e em que grau, os médicos e farmacêuticos regressariam, ainda, para repetir, alterar ou omitir o tratamento.>”
“Como sucede de os favoritos do príncipe sofrerem, em geral, de curta e péssima memória, o mesmo doutor ainda prescrevera: <Quem quer que se encontre com o primeiro-ministro, após relatar o assunto, da forma mais lacônica e simples possível, deveria, no instante de despedir-se, dar um beliscão no nariz do sumo ouvinte, ou senão um chute no estômago, ou dar-lhe um pisão, ou puxar ambas as suas orelhas por no mínimo três vezes, ou então enfiar-lhe uma agulha no traseiro, ou deixar hematomas no seu braço, tudo pela melhor das causas: prevenir seu esquecimento. E, se se tratar de uma sucessão de muitos encontros, deveria repetir a operação a cada um deles, até que o negócio esteja fechado, i.e., que o primeiro-ministro dê, enfim, seu sim ou seu não e conclua a questão.>”
“O mesmo médico propôs uma bela medida contra as dissensões agudas e violentas entre os partidos. O método de fazer a reconciliação era o seguinte: reúnem-se 100 líderes de cada partido; eles são dispostos dois a dois entre aqueles com cabeças de tamanho mais próximo; dois cirurgiões qualificados serram o occipúcio de cada par da dupla simultaneamente. Os occipúcios extraídos são intercambiados, vindo a pertencer agora à cabeça de um antigo rival. Parece absolutamente um trabalho que exige a mais milimétrica precisão ou algo pode dar muito errado! Porém, o médico-cirurgião afiançou que <se a dupla-cirurgia for realizada com êxito, a cura é inescapável. Com as duas metades antagônicas de um cérebro pós-cirúrgico deixadas à vontade para debater o tema em questão, dentro do mesmo crânio, não poderiam deixar de se entender logo, porquanto não há outra saída, e produziriam nos pacientes assim operados aquela moderação e regularidade de pensamento, justo neles, que, previamente à intervenção da medicina, julgavam que sua existência neste mundo decorria tão-somente do eterno movimento praticado pelos corpos celestes e que por isso julgavam que seus defeitos eram predestinados e que não valia a pena esforçarem-se por minorá-los!>.”
“O método mais justo seria impor um imposto sobre os vícios e tolices; a soma fixada para cada homem seria estabelecida de forma eqüitativa por um júri composto de seus vizinhos.”
“As mulheres deveriam ser taxadas segundo sua beleza e destreza no vestirem-se, no que elas deveriam ter os mesmos privilégios que o homem, em valores a ser determinados por seu próprio juízo. Mas a constância, a castidade, o bom-senso e a gentileza não poderiam ser mensurados, porque daria muito trabalho e ademais os impostos seriam tão altos que quebrariam a economia.”
“Outro professor mostrou-me um artigo muito extenso com instruções para descobrir intrigas e conspirações contra o governo. Seu aconselhamento era, em síntese, o de que o governante devia prestar atenção na dieta dos suspeitos; as horas das refeições; em que posição dormiam; com qual das duas mãos coçavam o traseiro; analisar detidamente seus excrementos, de modo a retirar opiniões conclusivas de sua cor, odor, gosto, consistência, nível avançado ou inicial da digestão, enfim, tudo o que, segundo este nobre autor, permite que leiamos nas entrelinhas os pensamentos e intenções mais profundos daqueles que conspiram; é de fato sabido por todas as civilizações (que possuem vaso sanitário) que um homem nunca se põe tão sério, grave e deliberativo como quando está no trono. Após longos experimentos, este doutor conseguiu descobrir que aqueles que se punham a pensar, enquanto defecavam, na melhor maneira de matar o rei tinham as fezes esverdeadas; porém, se o caso fosse apenas o de levantar uma insurreição ou incendiar a metrópole, aí então as cores resultavam bem díspares, etc.”
“Pois saiba o senhor que na Tribnia,¹ dentre os nativos chamados Langdon,² na qual habitei muitos de meus anos em meio a minhas intermináveis viagens, o grosso da população consiste, no fim das contas, em grandes descobridores, inventores, investigadores, testemunhas, informantes, acusadores, procuradores, provadores, conjuradores, incitadores, sempre no uso de seus instrumentos subalternos, i.e., outros langdoninos. E todos, sem exceção, estão sempre, quaisquer que sejam sua índole e conduta, submetidos à vontade dos ministros de Estado e aos congressistas, senão outras marionetes ou avatares destes primeiros. As intrigas, nesse reino, são obra daqueles que querem se tornar proeminentes e marcar a história como grandes personalidades, o velho desejo de ser um GRANDE POLÍTICO. Se não é isso que os conspiradores querem, só posso cogitar alguns outros motivos: revigorar uma administração que se tornara louca? sufocar ou dividir minorias de descontentes (ou seja, conspirar apenas como isca para apanhar conspiradores)? encher seus cofres? piorar ou melhorar a imagem do império em face das outras nações (aquele dos dois que for mais vantajoso no momento para a fortuna individual)? E não duvide de que as coisas são tão bem encenadas na Tribnia que muitos até decidem mutuamente seus papéis antes da peça: talvez tirem no palitinho ou dalguma outra forma quem serão os bodes expiatórios da vez, aqueles que serão acusados e condenados pelo poder público; medidas formais são tomadas para confiscar seus pertences e rastrear suas cartas e correspondências; e, enfim, se os prende. Os papéis encontrados que sirvam de prova da conspiração são distribuídos para uma caterva de artistas, muito hábeis em decifrar significados misteriosos em palavras esdrúxulas e quase arbitrárias, prestando entonação às menores sílabas. Há uma interpretação de tudo quanto for informação num sentido bem elaborado – p.ex.: uma referência a uma latrina fechada numa carta de comadres pode ser o símbolo para conselho privado; uma revoada de gansos, símbolo do senado; um cachorro furibundo, um invasor; a peste, um exército à espreita; um abutre, o primeiro-ministro; a gota, o sumo-pontífice; o patíbulo, o secretário de Estado; uma retrete, um comitê de especialistas; uma peneira, uma dama da côrte; uma vassoura, a revolução; uma ratoeira, uma estratégia; um abismo sem fundo, o Tesouro; um naufrágio ou escolhos, a própria côrte; um chapéu de bobo com sinos nas pontas, um favorito; uma cana quebrada, a côrte de justiça; um tonel oco, o general; uma ferida aberta, a própria administração.(*)
(*) Este parágrafo é a versão revisada do dr. Hawksworth (1766); na edição original de 1726, a introdução era: Pois saiba o senhor que, vivesse eu num país em perpétua crise e rebuliço…Portanto, não havia ainda este código dual Tribnia-Langdon nem tampouco a figura do vaso sanitário fechado na enumeração simbólico-irônica que vem a seguir.”
¹ Forma velada de o autor se referir à Bretanha.
² Os londrinos – referência aos habitantes da capital Londres ou London no original.
“Se falhar esse jogo de associações na interpretação da linguagem empregada entre os comparsas, há nesta terra ainda dois métodos efetivos que os mais versados possuem de desbaratar conspirações: os acrósticos e os anagramas. Quanto ao primeiro método: todas as iniciais podem conter sentidos políticos. N pode querer dizer uma trama;¹ B, aludir à cavalaria; L, uma esquadra no mar… Quanto ao segundo método: transpondo as letras do alfabeto em qualquer <documento suspeito>, as verdades mais ocultas e impensadas podem vir à tona, principalmente o descontentamento do partido vencido. Então, p.ex., se eu dissesse, numa carta, a um amigo, em tom de desabafo, <O FLAGELO FERIDO TEM UM PESO!>, um decifrador competente poderia deslindar a seguinte sentença subjacente na primeira: <O REI SEM LEGADO É MOFO, PLUFT!>,² o que parece insinuar que quereriam assassinar ou desaparecer com o rei, que julgavam nada estar deixando para a glória futura do país, sendo mera relíquia de um passado desinteressante.”
¹ Não é nenhuma palavra com “n” em inglês; aqui, Swift escreve plot, deliberadamente para o efeito cômico da explicação, e assim nos dois próximos exemplos nonsense.
² “Our brother Tom has just got the piles” e “Resist—, a plot is brought home – The Thour” no original.
“O professor me agradeceu muitíssimo meu relato detalhado, e garantiu que na versão final de seu artigo eu ganharia diversas citações.
A verdade é que nada vi nesse país que me convencesse a uma estadia longa, então comecei a planejar meu retorno à Inglaterra.”
“O continente, do qual esse reino ocupa apenas uma parte, se estende, pelo menos creio, a oriente, até aquela obscura borda da América conhecida como costa oeste ou Califórnia. Ao norte, o limite de seus domínios é o Oceano Pacífico, que não dista mais de 250km da capital Lagado no centro. Nesta costa setentrional há um grande porto e bastante comércio com a grande ilha de Luggnagg, mais ou menos a noroeste de onde eu me encontrava então, aos 29° de latitude e aos 140° de longitude. Essa ilha chamada Luggnagg situa-se, portanto, a sudeste do Japão, mais ou menos a 800km. Há uma aliança restrita entre o imperador japonês e o rei de Luggnagg; com isso, viagens entre ambos os arquipélagos se tornam mais fáceis. Foi assim que decidi tomar meu rumo para a Europa por esta via.”
“Dessa vez, por incrível que pareça, minha jornada não contou com acidentes ou aventuras extraordinários que valham a pena narrar. Chegando ao porto de Maldonada nenhum navio estava ancorado na parte reservada para as embarcações de Luggnagg, nem havia qualquer aparência de que esperavam a chegada de alguma nau. Esta cidade em que desembarquei era mais ou menos do tamanho de Portsmouth. (…) Um gentleman me disse: <Como navios para Luggnagg não sairão no próximo mês, seria uma honra, se o senhor concordar, ser o guia do senhor numa excursão pelo pequeno arquipélago de Glubbdubdrib, que dista daqui não mais que 5 ligas marítimas a sudoeste.>”
“Glubbdubdrib, tanto quanto eu posso interpretar, significa ‘Ilha dos magos e feiticeiros’. Tem mais ou menos um terço do tamanho da ilha de Wight,¹ é de vegetação bastante frutífera e de prospectos excepcionais, governada por uma tribo inteiramente composta de magos. Nessa tribo todos os casamentos são endógamos, sendo que a sucessão cabe ao filho mais velho. Seu palácio mais seus jardins dão uma área de 3 mil acres,² toda cercada de uma muralha de pedra polida de 6 metros de altura.”
¹ Ou seja, tem por volta de 127km².
² O acre vale um número diferente em metros quadrados em cada notação, e são diversas as existentes. Não deve ser a mais comum delas, em que 1 acre = 4km², pois sendo assim 3 mil acres x 4km² dariam 12 mil km², o que seria o mesmo que dizer que o próprio palácio do rei da ilha e adjacências são CERCA DE 100X MAIORES QUE A PRÓPRIA ILHA (nota 1)! Ou a notação é uma que me é inacessível ou trata-se de um imenso efeito cômico (burlesco, aliás) do autor!
“Mestre da necromancia, o governante deste lugar pode chamar dentre os mortos qualquer um que desejar, contanto que os serviços do finado não durem mais do que 24h. Também há a limitação de não se poder chamar a mesma pessoa de novo num espaço de 3 meses, a não ser em circunstâncias extraordinárias.”
“Este rei entendia a língua de Balnibarbi, embora não fosse o idioma desta ilha. Ele me solicitou, portanto, relatos de minhas viagens e, para provar-me que eu seria tratado sem cerimônia nem etiqueta excessivas, dispensou todos os atendentes da côrte num simples voltear de seu dedo. Ao concretizar esse gesto – não falo por metáforas! – todos os seus súditos sumiram, escafederam, como vapor ou imagens oníricas, num só instante! (…) Sentindo-me encorajado, comecei uma breve narração que incluía uma seleção de minhas melhores aventuras até então. (…) Logo me pus tão familiar à aparição de espíritos que, depois da terceira ou quarta vez já não me sobressaltava com os visitantes! Mesmo que um ou outro me parecesse ainda assustador em um aspecto ou outro, minha curiosidade ultrapassava em muito esse ligeiro mal-estar. Sua alteza determinou, então, que eu tinha inteira liberdade para fazê-lo convocar qualquer personalidade morta que eu quisesse, e aliás que eu continuasse a fazê-lo até me contentar de todo, não importasse o número daqueles que eu gostaria de entrevistar nesta minha curta estada por tão poderosa côrte! Podia ser qualquer nome, desde o início dos tempos até os dias atuais, e eu teria liberdade irrestrita no interrogatório. Mas ele me fez observar que as perguntas que eu dirigisse deveriam estar confinadas ao tempo de existência do sujeito, sob pena de não obter nenhuma resposta que fizesse sentido. Além disso, o rei me assegurou: <Tu ouvirás a verdade e nada menos que a verdade, posto que mentir não é talento que possua qualquer valor no submundo>.”
“O primeiro que decidi convocar foi Alexandre o Grande, encabeçando seu exército da batalha de Arbela:¹ após um leve volver de dedo no ar pelo governante, este excelso imperador imediatamente se materializou, em meio a uma vasta planície, visível através da janela que se abria a nossa frente. Alexandre foi chamado a sentar-se diante de nós. Foi com muita dificuldade que compreendi seu grego, e eu mesmo não falo mais do que o básico neste idioma. Ele me jurou: <Não fui envenenado, morri de febre decorrente do excesso de bebedeira.>”
¹ Que terminou com a derrota de Dario III e representou a conquista dos persas pelo mundo helênico, tentada desde a formação da nação grega. Alexandre tinha muito menos soldados que seu adversário.
“Em seguida eu vi Aníbal cruzando os Alpes, dizendo: <Eu não tenho uma gota sequer de vinagre em meus campos>.¹”
¹ Uma anedota popular diz que o conquistador Aníbal conseguiu desintegrar enormes rochas que bloqueavam o caminho de suas tropas usando fogo e vinagre (ou azeite) como catalisador das chamas. Ou seja: entrevistando as personalidades históricas, Gulliver sempre se depara com desmentidos.
“Vi (não fui, ele que veio; nem venci, mas afianço que eu vi!) César e Pompeu na dianteira de suas tropas, prontos para qualquer assalto. O primeiro deles estava na forma física de seu último grande triunfo. Eu desejava também a convocação do senado romano para diante de nós. E num amplo salão eu pude ver todas as ilustres figuras daquele senado republicano, além de, ao seu lado, uma assembléia dos tempos mais recentes de Roma, do Império corrompido. Os componentes do primeiro salão pareciam heróis, semi-deuses; a outra turba parecia um amontoado de mascates, batedores de carteira, andarilhos e fanfarrões!
O rei necromante, a minha instância, fez sinal para que César e Bruto se adiantassem. Fui presa de verdadeira veneração ao contemplar este homem Bruto! Pude distinguir nele a mais resoluta das virtudes, um caráter intrépido e uma mente firme, um sincero amor pela sua nação e grande humanidade e benevolência em cada gesto seu. E percebi também que ambos se davam muito bem. César me confessou: <As maiores ações que perpetrei nem sequer igualam, em vários graus, a glória de quem as suprimiu deste mundo!>. Instado por esse comentário, conversei bastante com Bruto. E dele ouvi: <Meu ancestral Junius, Sócrates, Epaminondas, Cato o Jovem, Thomas More e eu andamos sempre juntos no Hades>. Um sextunvirato, decerto, a que nenhuma idade poderia acrescentar um sétimo elemento!
Mas seria tedioso fazer o leitor repassar por todos os meus encontros e conversações daquela ocasião, que foram saciando minha sede por ver e conhecer as pessoas mais renomadas dos séculos dos antigos! Também não poupei meus olhos da vista dos maiores destruidores e tiranos e usurpadores de nossa História; bem como surgiram diante de mim grandes restauradores da liberdade e da paz a nações antes subjugadas…”
“Propus então que aparecessem Homero e Aristóteles, seguidos de sua horda de comentadores. Mas os comentadores eram tão numerosos que algumas centenas tiveram de se pôr em fila, fora das dependências do palácio, aguardando sua vez. Assim que o bando apareceu, de longe, já podia distinguir Homero e Aristóteles dos demais, e até mesmo entre um e outro. Homero era mais alto e cavalheiresco, andava muito ereto para um velho, e seus olhos, ao contrário da crença comum, eram alguns dos mais perspicazes e fulminantes de que já se teve notícia! Aristóteles andava muito encurvado, necessitando do auxílio de um cajado. Sua vista era débil e cansada, seu cabelo ralo e fino, sua voz minguada. Percebi num átimo o quanto cada um deles era desconhecido pela própria turba de comentadores que os seguiam! E também percebi que nem no além estes dois travaram contato com quaisquer daqueles. Recebi um cochicho no ouvido de um fantasma, cuja identidade preservarei: <Acontece que estes comentadores ficam o mais distantes possível dos seus mestres, tamanha a vergonha e a culpa que carregam – enfim se deram conta de quão mal interpretaram seus ensinamentos e distorceram tudo quanto estes homens nos legaram, prejudicando incontáveis gerações de novos homens!>. Introduzi, destarte, Dídimo¹ e Eustácio a Homero, e consegui que ele os tratasse, quiçá, melhor do que mereciam. Homero, muito atento, logo percebeu que estes coitados não tinham gênio de poeta! Já Aristóteles não foi tão benevolente nem contido: pôs-se furioso quando contei-lhe sobre Scotus² e Ramus,³ ao mesmo tempo que lhe apresentava seus espectros, emanando daquela multidão. Aristóteles, sem meias-palavras, indagou se todos os demais eram tão asnáticos quanto aqueles dois!”
¹ Há muitos Dídimos na História, nenhum especialmente vinculado apenas à obra de Homero, então é difícil dizer a qual deles Swift se refere. O mesmo vale para Eustácio.
² Duns Scotus, frade franciscano do XIII. Um dos poucos filósofos da idade média ainda relevantes e talvez a única figura de destaque destes séculos que sirva como contraponto metafísico a Tomás de Aquino, foi um dos prefiguradores isolados e muito prematuros do existencialismo, cf. Heidegger. Beatificado em 1993.
³ Lógico francês do XVI. Na sua época inovou sobre Aristóteles e foi moda, mas logo caiu em esquecimento e suas teses foram consideradas esdrúxulas.
“Neste ponto, solicitei ao rei que trouxesse Descartes e Gassendi das trevas. Com Aristóteles ainda presente, pus-me como intermediário para explicar seus sistemas ao Peripatético. Diante do que ouviu, Aristóteles, cheio de humildade, reconheceu seus erros e imperfeições em filosofia natural, e que isto não lhe era nem um pouco degradante, pois em muitos pontos ele raciocinou por conjeturas. Ele também disse, implacável e austero, que a ética de Gassendi, que parecia um epicurista de primeira linha, e os vórtices de Descartes, por exemplo, um dia seriam também completamente refutados pelos filósofos da posteridade. Ele deu o mesmo diagnóstico para a lei da atração, que os eruditos da contemporaneidade defendem com todo o zelo. Em suas próprias palavras, Aristóteles deixou bem claro: <Novos sistemas da natureza são como novas modas, sendo que cada idade tem a sua; mesmo aqueles que alegam poder demonstrar suas teorias por axiomas matemáticos não prevalecem mais que por uma porção de tempo determinada, brevíssima considerando a infinita sucessão dos homens>.
Eu passei 5 dias inteiros conversando com muitos outros sábios antigos. Vi a maioria dos primeiros imperadores de Roma. Pedi ao necromante que nos mandasse servir um jantar feito pelos cozinheiros de Heliogábalo, o imperador mais hedonista de todos os tempos. Porém, seus dotes culinários não ficaram atestados, porque nas dependências do palácio não havia tantos ingredientes quanto eles desejavam. Um hilota (escravo espartano) de Agesilau nos preparou, também, um ensopado, mas, urgh!, não consegui dar uma segunda colherada.
Os dois gentlemen que me acompanhavam na visita à ilhota tinham necessidade, por razões particulares, de regressar dentro de mais 3 dias, após esses primeiros 5, então eu decidi empregar o tempo que ainda me restava com a idade moderna, o que ainda não tinha feito. Decidi me limitar a nossa Europa de 300 anos para cá. Sendo um conhecedor e admirador das famílias mais tradicionais, pedi logo que se apresentassem uma ou duas dúzias de reis, acompanhadas de seus ancestrais até a oitava ou nona geração, se possível. Minha decepção foi imensa e aterradora. Ao invés de semblantes superiores com diademas reais, o que vi foi, numa família, rabequistas, dândis afetados, prelados (profissão muito comum entre os italianos); noutra, barbeiros, um abade, dois cardeais, e assim por diante. Não conseguia suportar essa frustração histórica, haja vista minha mais alta reverência por cabeças coroadas. Quanto a condes, marqueses, duques, barões e que-tais, não fui tão escrupuloso, e confesso que me locupletei com a baixeza de suas árvores genealógicas! Percebi, após analisar muitos traços, de que famílias alguns dos meus contemporâneos descendem com mais probabilidade. E até conseguia fazer a mesma analogia e adivinhar mais ou menos de que raças de antigos e de que personalidades específicas estes nobres de algumas gerações passadas devem ter descendido.”
“Nec vir fortis, necfoemina casta [Nem homem viril, nem mulher casta] (Virgílio); é incrível como a crueldade, a covardia e a falsidade se tornaram tão evidentes que são praticamente sinônimas das características mais enraizadas duma família, dizendo muito mais que seus escudos e brasões. Era fácil ver como um celerado, um tratante, vinha como a sífilis e logo contaminava toda uma nobre casa, cujos descendentes não passavam de escrofulosos tumoríferos!”
“Me preocupava muito com os destinos de nossa história moderna. Analisando todos os rostos dos grandes das côrtes, percebi como o mundo foi tirado dos eixos por escritores venais, prostitutos bajuladores, que teciam loas a grandes espoliadores, amantes da guerra e covardes! Percebi logo como fui enganado pelos nossos historiadores a respeito de tantos tolos pintados como sábios, tantos mentirosos pintados como almas pias; vi até que a tal virtude romana não passava de traição da pátria. A piedade decerto não se encontrava nestes ateus que diziam pregá-la acima de tudo! A castidade era defendida na minha frente pelos mais desabridos sodomitas! A verdade era espezinhada na boca de alguns fofoqueiros. Ó, quantos indivíduos de excelência e perfeitamente inocentes não foram condenados à morte ou ao exílio perpétuo pela prática corrupta de juizecos e pela malícia de intermináveis facções!”
“Com que baixa opinião eu não saí a respeito da suposta ‘sabedoria humana’, da integridade, disso e daquilo, quando me dei conta da raiz e das motivações vis por trás de tão robustas e tão nobres empresas e revoluções registradas em nossos anais! É realmente miserável de se ver como as melhores coisas, maioria das vezes, se produziam da forma mais aleatória e acidental, em meio a um sem-fim de patifaria!
Sobretudo, veio-me um asco por todos aqueles que adoram escrever anedotas com um fundo moral, isto é, os vilões que imaginam escrever a ‘história secreta’ dos povos. Quanta trapaça e ignorância não há em suas sentenças! Poder-se-iam empilhar os reis enterrados por envenenamento… E esses escrevinhadores se comprazem nesses relatos mórbidos; replicam falas exatas e riquíssimas de príncipes e ministros sem que sequer tenha havido qualquer testemunho dessas frases; desvendam como que por mágica os pensamentos e procederes de embaixadores e secretários de Estado que nunca soubemos, nem mediante seus diários íntimos! Ah, sim, quem faz e quem escreve a história está sempre e invariavelmente incorrendo em erro! Descobri a causa de muitos eventos que pareceram surpreendentes quando grassaram no mundo: como uma puta governou por trás das cortinas um conselho inteiro; como generais conseguiram vitórias principalmente devido a seu caráter acanhado e às decisões mais estapafúrdias! (…) todos estes homens mais ‘elevados’ me mostraram da forma mais crua como é impossível um homem ocupar um trono real sem estar infectado de corrupção até a medula, porque o caráter reflexivo, sóbrio, confiante e otimista não combina em nada com os negócios públicos; inclusive poder-se-ia dizer que o bom caráter do monarca seria a principal pedra no sapato e empecilho do ‘comezinho transcorrer das coisas’!… O rei incita o irrealismo.”
“Minha nova viagem durou um mês. Sofremos numa violenta tempestade, de modo que foi preciso seguir o rumo oeste a fim de pegar ventos propícios. Por 60 ligas marítimas esse vento embalaria nossa embarcação. Em 21 de abril de 1708, chegamos ao rio de Clumegnig, uma cidade-porto, a sudeste de Luggnagg.”
“Senti-me premido a ocultar minha procedência e sustentei ser holandês. Como minha intenção era seguir posteriormente ao Japão, esse era o certo a fazer, uma vez que os Países Baixos são a única nação européia com permissão para visitar este império.”
“Toda minha ‘comitiva’ era esse pobre rapaz como intérprete, que persuadi a me acompanhar de forma remunerada; ganhamos cada qual uma mula para a cavalgada.”
“Há um costume que não posso aprovar: quando dá na veneta do rei condenar um de seus nobres à morte, e de maneira indulgente, manda que o chão seja espargido com determinado pó amarronzado, venenoso, que, ao ser lambido, mata infalivelmente em 24 horas. Contudo, para fazer jus à imensa clemência do príncipe regente, bem como à prestatividade deste para com a vida de seus súditos (no que devia, aliás, ser emulado pelos monarcas europeus), devo mencionar, honradamente, que ordens estritas são emitidas para que as partes infectadas do chão sejam bem-lavadas ao término de cada execução, coisa que, se seus domésticos negligenciam, pode resultar na pena de morte ou algum castigo mais brando para todos os encarregados da limpeza. Eu vi pessoalmente como sua majestade mandou chicotear um pajem que estava em sua vez de lavar o chão, mas que, maliciosamente, após uma execução, omitiu seus deveres! Devido a sua indolência, um jovem barão muito promissor, visitando o palácio para uma audiência, foi sem querer envenenado, por mais benquisto fosse pelo rei! Vê-se, porém, como era benevolente o príncipe, ao perdoar tão gritante falta de seu servo, desde que ele prometesse nunca mais agir assim.”
“Inckpling gloffthrobb squut serummblhiop mlashnalt zwin tnodbalkuffh slhiophad gurdlubh asht. Esses são os cumprimentos, expostos na lei local, devidos a qualquer pessoa admitida à presença do rei. Seria mais ou menos o seguinte em inglês: <Que Vossa Alteza Celestial sobreviva ao Sol, onze luas e meia!> A essa fórmula de etiqueta o rei respondia alguma outra coisa ritual, que não pude entender, havendo aprendido apenas a recitar minha parte. Então eu devia proceder à tréplica (não sei o significado – apenas decorei as sílabas): Fluft drin yalerick dwuldom prastrad mir push. Eu disse que não sei o significado porque eu não sei interpretar o que quer dizer, embora saiba traduzir: <Minha língua está na boca de meu amigo>. Mas acho que isso tinha alguma coisa a ver com chamar meu intérprete para junto da conversa, para assim podermos proceder à conversação! Com a ajuda do rapaz que contratei, pude responder todas as perguntas que Sua Alteza me dirigiu, o que durou mais de hora. Eu falei na língua balnibarbiana; meu guia convertia tudo no idioma luggnagguês.”
“Permaneci 3 meses ali. O rei adquiriu muita simpatia por mim, fazendo-me diversas propostas de cargos na côrte. Eu, porém, julguei mais prudente e justo passar o restante de meus dias em companhia de minha esposa e família.”
“Um dia, num círculo da aristocracia, fui questionado por um dos nobres:
– Você já viu um de nossos struldbugs ou imortais?
– Nunca; mas muito anseio por que me expliquem o que é isso que designam por esta apelação, que decerto é aplicada a uma criatura mortal como todos nós!
– Às vezes, por muito raro que seja, uma criança nasce, numa família aleatória, com um sinal vermelho na testa, logo acima da sobrancelha esquerda, uma marca infalível de que aquele ser jamais morrerá. Esse sinal tem estas dimensões [ele fez um gesto com os dedos, e pude compreender que se tratava mais ou menos do tamanho de uma moeda de prata de 3 pêni¹] quando a criança acaba de nascer. Com o tempo, ele vai ficando maior, e inclusive mudando de cor. Até os 12 anos, já se tornou verde. Aos 25 se torna azul escuro. Aos 45, preto-carvão, e já grande assim [ele fez com os dedos uma mímica que eu aproximo ao xelim]. A partir desse ponto, porém, o sinal não muda sua coloração nem seu tamanho. Amigo, estes seres são tão raros que se houver mais de 1100 struldbrugs (contando homens e mulheres), isso muito me surpreenderá! Creio que uns 50 vivam na metrópole. Fora da capital, houve a notícia de um último struldbrug nascido 3 anos atrás, do sexo feminino. Não há qualquer chance de um struldbrug ser mais freqüente em umas famílias que em outras, não há qualquer correlação! Tampouco qualquer struldbrug, ao ter filhos, teve filhos que fossem iguais a si mesmo…”
¹ Pense numa moeda de 50 centavos, tanto com referência ao tamanho quanto com o valor aproximado de 3 pêni ou threepence àquela altura.
“Nação ditosa, em que toda criança tem pelo menos uma chance ínfima de ser imortal!”
“Dizia ainda ele que Sua Majestade, sendo tão judiciosa, jamais deixaria de escolher, dentre os struldbrugs, um bom número para compor seu conselho. Se bem que uma côrte é algo tão mundano, impuro e estulto para a alta sabedoria de um struldbrug envelhecido que se nenhum é visto por lá atualmente, isso não é culpa do rei. Comecei a mudar de idéia quanto aos planos de ficar ou não neste país. Me parecia um futuro promissor poder gastar meus anos conversando com sábios struldbrugs!”
“Após um breve silêncio, o mesmo interlocutor deu prosseguimento:
– Mas é impressionante! Nunca vi alguém com seu otimismo com respeito à vida eterna! Diga-me no que consistiria sua vida, caso você tivesse tido o privilégio de nascer um struldbrug?”
“Ora, se eu fosse bem-aventurado para tanto, assim que soubesse, pelos meus conterrâneos, ser um imortal, isto é, aprendendo a diferença entre a vida e a morte, a primeira coisa que procuraria seria me tornar rico. Sendo econômico e previdente, creio que em cerca de 200 anos eu já teria atingido a meta de ser o homem mais rico da nação. Em segundo lugar, desde minha juventude me aplicaria ao estudo das artes e ciências, o que me garantiria ser o número 1 em cada uma após algum cultivo. Em terceiro e último lugar, tomaria o cuidado de registrar todas as minhas ações e eventos biográficos de conseqüência num diário, sem deixar, evidentemente, de redigir uma história a mais imparcial possível dos meus próprios reis e ministros, com notas e opiniões pessoais a cada ponto. Não deixaria de catalogar todas as mudanças culturais, lingüísticas, dietéticas, estéticas e variedades tais. Seria eu um tesouro vivo de conhecimento e sabedoria acumulados, e certamente me fariam exercer o cargo de oráculo do país!
Depois dos 60, creio que não voltaria a me casar, vivendo de maneira celibatária, mas não reclusa. Me comprazeria muito ser o mentor de jovens mentes brilhantes, convencendo-os, de acordo com minha vasta experiência, a ser virtuosos na vida pessoal e na vida pública. Meus amigos íntimos, entretanto, seriam unicamente outros de minha raça e condição; e mesmo dentre eles eu seria seletivo: procuraria me acercar apenas da dúzia mais anciã de todas, e dificilmente procuraria contato com os struldbrugs mais jovens que eu mesmo.”
“Como um homem mortal se distrai contemplando a sucessão anual das rosas e tulipas de seu jardim, sem nunca lamentar pelas rosas e tulipas mortas da estação passada, assim eu viveria!”
“rios famosos que com o tempo se tornam modestos córregos; o oceano, que em seu perpétuo movimento acaba por recuar e aumentar uma de suas margens, só para engolir completamente uma outra; a descoberta de muitos países até agora ignorados; a barbárie avançando e ultrapassando as nações mais eruditas e cultivadas; a arte de medir, o moto perpétuo, a medicina universal, e muitas outras invenções e ciências eu veria chegarem à perfeição!
Quantas belíssimas coisas não descobriríamos na astronomia, só pelo fato de sobrevivermos até podermos confirmar nossas predições? Observando o progresso e o retorno dos cometas, as mudanças de movimento do sol, da lua e das estrelas, ah!…
Incorri numa infinidade de outros tópicos, todos a que o desejo natural pela vida eterna e pela felicidade sublunar poderia me incitar. Quando terminei meu discurso, e o essencial do que eu disse foi devidamente transcodificado e retransmitido pelo meu intérprete a todos os ouvintes, houve uns bons minutos de discussão entre os pares na língua do país; sem entender uma palavra, me era possível, entretanto, ver que eu me passava por ridículo, porque era evidente que riam as minhas expensas! Enfim aquele que havia sido meu intérprete fez o favor de explicar-me tudo que se havia conversado. Toda essa gente desejava, em suma, retificar alguns erros crassos acerca da idéia que eu fazia da imortalidade terrena. Não que fosse culpa minha, por assim dizer, mas da imbecilidade universal da espécie humana, que não tem como perceber o erro de seus raciocínios abstratos a menos que seja confrontada com a dura realidade. Tendo essa nação convivido com imortais por muitos séculos, estas pessoas se sentiam no direito de censurar-me, uma vez que tinham muito mais experiência no assunto em questão. Os struldbrugs, ao que tudo indica, são exclusivos deste recanto do mundo, e nenhum outro povo conhece as peculiaridades desta condição. Nem em Balnibarbi nem no Japão, vizinhos que às vezes recebiam struldbrugs como embaixadores, tinha-se uma perspectiva acertada a esse respeito. Na verdade, poucos criam na possibilidade mesma de que estivessem tratando com imortais, julgando que fosse uma espécie de mito, lenda ou que se desejava pregar uma boa peça. E julgaram que eu não me portei diferentemente, pois notaram como a princípio eu acolhi com muito espanto e ressalvas a possibilidade de alguém viver anos infindáveis; e que se agora eu acreditava na existência dos struldbrugs, sem dúvida isso se devia a minha credulidade incomum. E assim seria com todas as nações que não conhecem indivíduos da raça imortal, pelo menos não tão bem, isto é, em toda sua vida, mas apenas, quando muito, como embaixadores que não residem muito tempo no exterior, logo se aposentando de suas funções: todos os povos compostos apenas por mortais manifestam um grande anseio pela imortalidade. Toda pessoa velha, decrépita, com um pé na cova, dentre as nações desprovidas de struldbrugs, teme a morte, e não hesita em fugir da morte, tentando inutilmente afastar o outro pé, aquele que ainda não está na cova, diante do destino inevitável de todo ser vivo que não recebeu a marca da imortalidade na testa logo que nasceu. Dizem que os velhos, por mais doentes e senis, nunca deixam de nutrir as esperanças de dias melhores, e sempre querer viver um dia a mais, não importando o dia de hoje. Para os mortais, a morte é o maior mal, e por mais que ela seja inerente à natureza é um fato horroroso. Só na ilha de Luggnagg, lugar privilegiado, esse apetite insaciável pela infinidade dos anos havia sido abolido, pelo menos nas mentes de todos que bem conheciam histórias de struldbrugs.
Alegaram que meu sistema de vida eterna era injusto e irracional, pois supunha, em primeiro lugar, uma juventude eterna, uma saúde sem-fim, um vigor inacabável, o que não passa de quimera e tolice. E me corrigiram, dizendo que a questão não era se seria desejável viver para sempre na flor dos anos e na primavera da vida, próspero e feliz. Mas sim como é que seria desejável para qualquer um viver para sempre, com todas as inconveniências naturais do envelhecimento. Os luggnagguianos confessaram, enfim, que nunca viram alguém partir desta vida de bom grado em Balnibarbi ou no Japão, exceto aqueles que já estivessem à mercê das mais cruentas misérias ou vivendo sob tortura. O intérprete me perguntou, já certo da resposta, se, nos países que eu já havia visitado, assim como na minha terra natal, os homens se comportavam de maneira diferente ou análoga.
Depois deste longo prefácio, ele finalmente me relatou como é verdadeiramente a vida de um struldbrug. Ele disse que um struldbrug vive como qualquer mortal até seus 30 anos de idade; aos poucos, porém, eles se tornam cada vez mais melancólicos e apáticos. Progridem até os 80 anos num ritmo constante, isto é, cada vez mais melancólicos e apáticos conforme a idade. Isso era conhecido não só por observação mas da boca dos próprios struldbrugs. Claro que, nunca havendo, numa só geração de mortais, mais do que 2 ou 3 struldbrugs, seria difícil generalizar e chegar a conclusões confiáveis para todos os struldbrugs de todos os tempos. Mas, o que é mais espantoso, assim que um struldbrug supera seus 80 anos, que é mais ou menos reconhecido como o termo da vida do homem mortal, marca além da qual poucos chegam,ainda mais provido de lucidez, percebe-se que, independentemente do dom recebido da imortalidade, este ser sofre de todas as doenças e abastardamento mental comuns à terceira idade. Não só isso, mas um struldbrug, justamente por saber-se eterno, parece sofrer ainda mais que qualquer mortal de idade avançada que sabe que um dia irá morrer. Os que ainda se comunicam tornam-se obstinados e recalcitrantes, rabugentos, invejosos, indolentes, vãos, tagarelas, maus ouvintes, incapazes de cultivar a amizade. Logo, pelo menos metaforicamente, mortos às afeições humanas, tornam-se incapazes de sentir ternura por qualquer descendente seu mais jovem que seus próprios netos ou bisnetos. Tornam-se apenas vultos, por assim dizer, fontes que emanam unicamente desejos e paixões impotentes. E as duas coisas que eles mais passam a odiar são os vícios comuns à juventude e a morte dos velhos. Vendo como vivem os mais jovens, eles se vêem alijados de há muito dos prazeres da existência; e sempre que ocorre um funeral, lamentam profundamente que alguém tenha ido para um lugar de repouso e sossego, enquanto eles ali continuam. E é curioso observar que eles não guardam memória das coisas que acontecem em seu tempo de velhice; eles teimam em recordar apenas aquilo que viveram durante a juventude e a meia-idade. Se bem que cada vez menos, quanto mais envelhecem. Sendo que ninguém mais confia no juízo de um struldbrug muito ancião, preferindo dar crédito às tradições, ao ouvir-dizer popular, do que a qualquer entrevista que se possa ter com um struldbrug milenar. Os menos desagradáveis dos struldbrugs são os que atingem um estado de perfeita senilidade e se recolhem em si mesmos, perdendo qualquer lembrança ou sociabilidade; estes, confessava meu intérprete, ainda são vistos com piedade e condescendência pelos mortais, porque, afinal, não incomodam ninguém.
Mas se um struldbrug, por exemplo, casa com outro struldbrug, a lei do país, muito sensata, dissolve o casamento, assim que o mais jovem do casal completa seus 80. Porque a lei entende que um struldbrug é o que é, e não tem culpa de ter nascido sem poder morrer. E seria crueldade aumentar o peso dessa velhice eterna, se se permitisse que um imortal, ainda por cima, tivesse sempre um cônjuge!
Como já se vislumbrou, um struldbrug de 80 anos é só um pária não mais contemplado pela lei. Seus herdeiros passam a ter desde então direito à herança; é claro que a caridade ainda é fomentada, e eles continuam de posse de um naco de seus bens, que lhes permita seguir vivendo comodamente; mas tudo o que seria supérfluo é-lhes imediatamente retirado. Os struldbrugs que porventura cheguem pobres aos 80 anos são custeados por pensões estatais. A essa idade, ninguém lhes confia emprego algum, pelo menos não um trabalho útil. Proíbe-se-lhes comprar ou arrendar terras; ser testemunha nos tribunais – seja a causa cível ou criminal –, etc. A verdade é que nem como jurados de pequenas causas eles seriam de qualquer proveito.
Aos 90, eles já perderam todos os dentes e fios de cabelo da cabeça. Já não têm paladar, se bem que comem e bebem indiscriminadamente o que lhes puserem à mesa, sem gula nem muito menos satisfação. As doenças de que padeciam de há muito não os abandonam, mas chegam a um ‘equilíbrio’, e param de se agravar. Começam a esquecer os nomes mais óbvios, os nomes das pessoas, mesmo dos antigos melhores amigos ou chegados. E, por isso, ler não é mais um hábito que faça sentido para eles, porque sua memória já não pode conduzi-los do início ao fim de uma frase sem que eles exclamem:<O quê? Nada compreendo disso!>. Nessa amnésia eterna, portanto, eles perdem a capacidade de se engajar em qualquer distração construtiva.
Como é sabido, em todos os lugares e inclusive em Luggnagg, a língua, como os costumes, vai mudando com o tempo, de modo que um struldbrug, ainda que pudesse dialogar com outro struldbrug muito mais velho ou mais novo, não poderia entendê-lo, nem fazer-se entender, porque cada qual aprendeu um idioma um tanto diferente. Aliás, a menor e mais banal conversação se torna materialmente impossível aos 200 anos. É verdade que eles ainda podem balbuciar palavras soltas, como bebês fariam. É assim que, embora sustentados pelo Estado, eles passam a viver como estrangeiros em seu próprio lar.
Foi isso que me contaram desta raça dos struldbrugs!Depois desse extenso relato tive a oportunidade de conhecer pessoalmente 5 ou 6 destes seres, o caçula ainda não bicentenário. Como eu fiz muitos amigos na ilha, eles sempre viajavam com struldbrugs para trazê-los a mim. Muito embora dissessem aos struldbrugs trazidos que eu era um grande viajante que viu inumeráveis partes do globo, eles naturalmente não demonstravam a mínima curiosidade nem me dirigiam perguntas; só o que pediam era um pouco de slumskudask, i.e., uma lembrancinha do estrangeiro. Na verdade não se enganem: nem esse ato era desinteressado, e descobri que essa era uma forma de burlar a lei e pedir esmolas, o que era diretamente proibido. Como eu disse, struldbrugs, quando envelhecem, são mantidos pelo Estado, e sua pensão não é lá muito elevada…
Eles são, em suma, desprezados e mesmo odiados por todos os tipos de habitantes locais. Quando um nasce, já recai sobre todos a certeza de um acontecimento ominoso, em nenhum grau mais evitável pelo fato de que seria uma desgraça sentida somente a longo prazo. Por isso é que eles registram nos cartórios com muito esmero a data de nascimento de um struldbrug, para que qualquer cidadão possa descobrir a idade de um só de olhar nos registros: quanto mais velho um struldbrug, mais longe dele se deve passar! Esse registro é arcano, mas a prática não retrocede a mais de 1000 anos ou, até onde pude entender, registros mais antigos que um milênio de idade já haviam sido destruídos ou tornados ilegíveis por intempéries climáticas, alguma catástrofe natural ou simples desorganização administrativa. Tirante esse registro do parto, há também uma forma mais simples e informal de se inteirar da idade de um struldbrug: pergunta-se-lhes de que reis ou grandes nomes da História ele se lembra; naturalmente que, muitas vezes, é necessário seguir essa entrevista de uma consulta aos livros de História. É um dogma que o último monarca lembrado por um struldbrug subira ao trono invariavelmente antes de seu octogésimo aniversário, prestando grande confiabilidade a esse método.
Honestamente, os struldbrugs foram a visão mais mortificante que tive em minha vida. E a mulher era sempre mais horrenda que o homem. Além das deformidades verificáveis em qualquer idoso mortal, havia uma aura infecta indefinível que envolvia cada struldbrug, mais e mais, conforme o avanço etário. Isso era tão palpável, embora tão difícil de descrever, que, batendo o olho,eu conseguia descobrir, sem hesitação, qual era o mais velho dos seis que eu vim a conhecer. E digo isso ressaltando que entre este e o segundo mais idoso não havia uma diferença espetacular, mas coisa de entre 100 e 200 anos!
O leitor facilmente adivinhará que, diante de tudo que aprendi e vi com meus próprios olhos, minha ânsia pela imortalidade terrena sofreu o mais duro golpe. Desde então, nunca deixei de guardar uma profunda vergonha dos antigos pensamentos fantásticos que eu nutria a respeito dessa possibilidade quimérica!”
“O rei soube de tudo que se passara comigo e meus recém-amigados, além de toda minha obsessão inicial pela imortalidade e sua súbita conversão em repulsa e desalento. De forma espirituosa ele me disse que desejava que eu levasse comigo, na volta, 2 ou 3 exemplares de struldbrugs para exibição em minha terra natal. Ele disse que assim toda minha nação seria devidamente ensinada a jamais temer a morte. Mas o rei só estava brincando: eu soube que, segundo as severas leis do reino, era interdita a exportação de struldbrugs. E esta era uma cláusula pétrea de sua avançada constituição. Confesso que, não fôra isso, a repelência (e as despesas!) de tê-los por perto durante uma longa viagem por mar seria vencida pelo meu altruísmo educador, e eu mostraria os struldbrugs de bom grado aos ingleses!”
“Sendo a avareza inseparável amiga da velhice, creio que, no tempo devido, dando-se-lhes o direito, os imortais chegariam a ser os grandes proprietários de toda a nação, depauperando os poderes civis em igual proporção. Por isso, concordo em absoluto com a lei que considera os struldbrugs avançados em idade meros párias.”
“Em seis dias encontrei um navio apto a zarpar comigo para o Japão, viagem que durou 15 dias.” “No porto, mostrei aos oficiais da alfândega a carta do rei de Luggnagg endereçada à Sua Majestade Imperial. Eles estavam habituados àquele selo; era, para falar a verdade, uma insígnia do tamanho da minha mão. Uma inscrição acompanhava o símbolo, dizendo: Um Rei que ergue um mendigo ignoto da terra. O magistrado daquela cidade costeira, ao ficar sabendo de meu documento real, recebeu-me como um verdadeiro ministro de Estado. Deram-me carruagens e servos para minha expedição, e encarregaram-se também de expedir minha bagagem para Edo. Em Edo fui convidado a uma audiência pública e ali me devolveram a carta do rei. Abriram-na de uma forma imensamente ritualística e cerimoniosa; trataram de explicar seu conteúdo ao Imperador via intérprete, e ele finalmente se dignou a me receber. Assim pronunciou: <Peça o que quiser e será atendido, em nome de Seu Real Irmão de Luggnagg!> – é claro que diz-se<Irmão> não por consangüinidade, mas pelo vínculo de suprema autoridade entre as duas nações vizinhas.”
“<Você é o primeiro holandês escrupuloso quanto a isso; você é mesmo um holandês?! Você não se porta como um destes, como é que se diz?, protestantes…>De qualquer maneira, ele não quis me interrogar mais seriamente – acredito que por consideração a Seu Amigo-Rei. Na verdade, o que pedi era muito incomum naquela côrte, mas o Rei é Soberano Absoluto, e muito Misericordioso e Benevolente! Ele ressalvou:<Se essa informação se torna pública entre os holandeses, esteja prevenido, nenhuma amizade entre nações evitará que cortem-lhe a garganta ainda no meio da sua viagem!>”
“Em 9 de junho de 1709 cheguei a Nagasaki; a viagem não foi breve nem muito menos sossegada. Aconteceu de eu estabelecer relações com alguns marinheiros de uma robusta embarcação de 450 toneladas, que eram justamente holandeses,de Amboyna, Amsterdã. Vivi muitos anos nos Países Baixos, estudando em Leyden, e meu Holandês não era menos que impecável, então consegui disfarçar minha identidade de súdito da rainha da Inglaterra. Seja como for, estes homens foram logo informados de que eu era um viajante crônico, e se mostraram muito curiosos sobre que aventuras eu vivi. Condensei os detalhes o mais que pude e ocultei o essencial, i.e., a maior parte dos acontecimentos. Eu conhecia muitos indivíduos holandeses. Podia facilmente inventar nomes de família para meus pais, que, alegava eu, eram gente simples da província de Gelderland. Eu pagaria de bom grado o exigido pelo meu traslado pelo capitão do navio (um tal Theodorus Vangrult, a propósito); porém, descobrindo que eu era cirurgião, este homem aceitou baixar a taxa pela metade, desde que eu servisse como médico. O fato é que nos dias de preparativos para incursão em alto-mar fui incessantemente interrogado pela tripulação sobre se eu ‘participara da cerimônia ou não’, pergunta que, dependendo da resposta, podia custar minha vida…Que cerimônia? Aquela em que se pede algo de todo súdito que deseja atestar Sua Lealdade Absoluta exceto no caso do simples comerciante holandês: lamber o piso da sala do Imperador do Japão!”
“Ah, nada aconteceu durante esta viagem que mereça ser citado. O vento foi favorável até o Cabo da Boa Esperança, onde paramos só para nos guarnecer de mais água potável. Em 10 de abril de 1710 chegamos sãos e salvos a Amsterdã, tendo perdido apenas 3 homens de doença, e um quarto que caíra do mastro nas águas, mais ou menos próximo da costa da Guiné. De Amsterdã foi um pulo para voltar à Inglaterra, num barco menor, saído daquela mesma cidade.
Dia 16 de abril lá estava eu de volta a Downs. Eu estive ausente de minha terrinha por 5 anos e 6 meses. Fui incontinenti a Redriff, lá chegando em 17 de abril, às 2 da tarde, e me reencontrei com minha esposa e família, todos na mais perfeita saúde.”
PARTE IV – VIAGEM AO PAÍS DOS HOUYHNHNMS
“Por mais 5 meses incompletos segui em casa, ao lado de mulher e filhos,feliz, devo dizer, e não sairia desse estado se já tivesse aprendido a lição, i.e.,sabido desde já no que consiste realmente a felicidade. Porque aí então no fim deste curto período eu deixei mais uma vez minha mulher, com a barriga bem visível,esperando mais um descendente meu, tendo eu resolvido aceitar uma oferta, que eu julgava aliás irrecusável, do capitão do Adventurer, um grande navio mercante de 350 toneladas. Bom navegante, e muito mais experiente agora, além de enjoado de exercer a medicina, que, se me desse na telha, eu poderia voltar a predicar por breves instantes, levei conosco um colega médico, Robert Purefoy, para ser o responsável pela saúde dos meus homens – eu ia, portanto, apenas como mercador e a fim de lucrar e de desvendar o desconhecido!¹ Desancoramos de Portsmouth no 7º dia de setembro de 1710; dia 14 cruzamos com o Capitão Pocock, de Bristol, no Teneriffe, cujo destino era a baía de Campechy, onde iriam atrás de madeira. Dois dias depois, acabamos nos separando por conta de uma tempestade. Dali a muito tempo, quando retornarianovamente ao lar, fiquei sabendo, afinal, que sua embarcação naufragara, e só um garoto, pajem, sobrevivera. É, o Capitão Pocock era um homem honesto, e bom capitão, mas um pouco otimista demais e obstinado em seguir uma rota sem nunca improvisar, mesmo diante de circunstâncias ruins. Foi isso que precipitara sua morte e a de quase toda sua tripulação, o que não foi a primeira nem será a última vez nos sete mares! Se ele tivesse seguido meu conselho, estaria hoje confortavelmente instalado diante da lareira de sua sala de estar, ao ladodos parentes, tão bem quanto eu – tão bem quanto eu chegaria a estar um dia–, mas agora não é a hora!
[¹ As semelhanças com Robinson Crusoe não param!]
Quanto a minha viagem, muitos colegas morreram da febre dos trópicos, ocasionada pela insolação; isso me levou, como capitão de meu próprio navio, a decidir nossa sorte, para o bem ou para o mal, recrutando gente de Barbados e das Ilhas Leeward, onde afinal desembarquei. Eu depressa me arrependeria de minha escolha: muitos destes sujeitos já haviam sido piratas e não eram confiáveis. Havia 50 mãos a bordo. Minhas ordens eram: comerciar com autóctones dos mares austraise coletar o máximo de informações. Bem, esses mercenários que contratei corromperam meus marujos fiéis e todos, ensandecidos, conspiraram para tomar o navio. E assim se deu:uma bela manhã, arrombaram a porta de minha cabine e completarem seus planos com facilidade; começaram por imobilizar meus pés e mãos atando-os.”
“Eles me davam, como um favor!, das minhas próprias carnes, e goles das minhas bebidas, enquanto lá fora se tornavam os donos do navio e deles mesmos. Seu objetivo era voltar ao ofício de piratas e render um navio espanhol.Para realizar esta façanha, porém, eles ainda precisavam recrutar mais homens.”
“Eles velejaramsemanas a fio. Negociaram com indígenas. Eu, contudo, ignorava quais podiam ser as coordenadas, tendo sido mantido prisioneiro em minha cabine, sem maiores expectativas além de ser morto a qualquer momento, já que ameaças não faltavam.
A 9 de maio de 1711, um James Welch baixou ao meu calabouço e relatou que tinha ordens do ‘capitão’ para me deixar na costa. Eu tentei barganhar com eles um destino melhor, mas sem sucesso. Ele nem mesmo aceitou revelar o nome do novo capitão do navio, o líder da rebelião. Me forçaram a subir no barco, concedendo-me ao menos o direito de vestir minhas melhores roupas, que eram de fato como se fossem novas, além de levar comigo um novelo de linho; porém, nada de armas, exceto um gancho de cabide. Não nego que tivessem alguma honra: não revistaram meus bolsos, onde por acaso eu guardara todo o dinheiro que levava na viagem, junto de alguns pequenos itens de sobrevivência. O barco seguiu por uma liga marítima, até que estivesse raso o bastante para eu descer à praia. Eu ainda supliquei para que me dissessem que lugar era aquele; mas a resposta que obtive foi <não sabemos mais do que você>. Completaram: <O capitão estava resolvido, após a venda da carga, a livrar-se de mim ao aparecimento da primeira terra firme>.”
“Após me hidratar e espairecer, comecei a explorar o sítio, decidido a entregar-me aos primeiros selvagens que surgissem. Quem sabe eu não conseguisse comprar minha vida com alguns braceletes, anéis de vidro ou outros desses itens insignificantes, que os grandes navegantes sempre levavam, expressamente para o escambo com os mui admirados nativos de países remotos…”
“Eu cheguei a uma estrada batida, onde percebivárias pegadas humanas, e também bovinas mas, sobretudo, eqüinas, a maioria delas. Foi então que contemplei diversos animais num campo mais aberto, e sempre um ou dois do bandoassentados em cada árvore. Suas formas eram muito singulares e deformadas, o que me desconcertou a princípio, e me fez, por prudência, conservar distância e seguir observando pordetrás da moita.”
“Sua cabeça e busto eram cobertos por uma espessa pelugem, alguns a tinham cacheada, outros lisa. Eles possuíam barbas como bodes, e uma espécie de crina muito avantajada descendo lombo abaixo, além de pêlos nas pernas e nos pés; mas o restante de seus corpos era nu e deixava transparecer uma pele de um marrom lustroso, quase cáqui. Eles subiam nas árvores com a agilidade de esquilos, e pude notar que possuíam garras muito compridas nas quatro patas, pontiagudas, em forma de gancho. Eles saltavam com agilidade igualmente prodigiosa. As fêmeas eram menores. Levavam compridas cabeleiras escorridas, embora sem nenhum pêlo facial, e sem pêlos noutras partes que eram peludas nos machos, exceto nas pudendas e no ânus. Suas tetas ficavam dependuradas entre suas patas dianteiras e ficavam rentes ao solo,enquanto caminhavam de quatro! Os pêlos de ambos os sexos, ao contrário da uniformidade da cor da pele, eram multicoloridos, podiam ser castanhos, mas também ruivos, negros ou loiros. Eu jamais vira, em todas as minhas andanças, animal tão repelente, ou não exatamente repelente, mas capaz de me inspirar a mais arraigada e preconcebida antipatia e aversão! Tanto que, julgando que játinha visto o bastante, imerso em nojo e desprezo, ergui-me e retornei à estrada batida, na esperança de chegar a alguma cabana com seres humanos. Eu não tinha caminhado muito quando uma dessas criaturas se encontrou frente a frente comigo, e se aproximou parecendo reconhecer-me, sem desviar o olhar. O monstro horrendo, ao ver-me melhor, entretanto, contorceu suas feições, diria que todos os músculos da face, e sua vista petrificou, como que de súbito, tanto elese espantara diante de algo que provavelmente nunca vira. Movendo-se novamente, chegando mais e mais perto, ergueu uma de suas patas, ou em ato de inocente curiosidade ou em sinal de animosidade, não sei dizer ao certo. Eu imediatamente saquei meu cabide-gancho e com o lado não-perfurante dei-lhe uma boa bordoada. Quem sabe de quem seria esse animal? Eu não ousava feri-lo gravemente. Quando a besta sentiu a pancada, recuou, mas grunhiu tão alto que quarenta membros de sua manada vieram acudi-lo, parecendo que uivavam, instigando-me com suascaretas medonhas. Eu corri até o tronco de uma árvore, nele apoiei as costas e mantive os quadrúpedes à distância empunhando e balançando meu gancho no ar. Alguns dessa horda demoníaca se apoiaram nos galhos da árvore e a escalaram facilmente, no que –verticalmente alinhados comigo –, começaram a expelir seus excrementos em minha cabeça! Eu minimizei os danos procurando ficar o mais rente possível ao caule; o problema é que aquele odor e material pestilentos foram me sufocando, pois em poucos segundos eu fiquei conspurcado de fezes…
Em meio a este pandemônio, notei todavia que muitos deles partiram em disparadao mais depressa que puderam, no que me aproveitei para abandonar a vizinhançadaquela árvore e correr estrada afora, enquanto tentava refletir no quê é que poderia tê-los assustado tanto. Ao perceber um vulto à esquerda, voltei-me e contemplei um cavalo que caminhava sossegadamente pelo campo. Percebi bem rápido que era dele que os outros haviam corrido. O cavalo hesitou, espantado, diante da minha figura. Aproximando-se, no entanto, parecendo manifestar muito mais auto-controle e prenda que o meu horrendo rival de ainda há pouco, fitou-me fundo nos olhos com sinais de admiração no focinho. Ele dirigiu a vista para minhas mãos e pés, rodeou-me para investigar melhor – e não escassas vezes! Eu seguiria viagem, evidentemente, mas ele fez questão de bloquear a estrada, embora parecesse sereno e nada ameaçador. Seguimos nos fitando um bom naco. Criando coragem, levei minhas mãos à altura do pescoço do animal a fim de afagá-lo, como fazem os jóqueis quando estabelecem um primeiro contato com sua montaria. O animal pareceu receber meu gesto com um infinito desdém, afastou a cabeça e como que franziu o sobrolho – se tivesse sobrolho! –, erguendo – suavemente – a pata dianteira direita a fim deapartar meu braço. Ele relinchou 3 ou 4 vezes, mas numa cadência tão única que eu comecei a delirar que ele falava comigo numa língua de cavalo!
Enquanto essa bizarra cena transcorria, outro cavalo se achegou. Dirigindo-se ao primeiro em postura que julguei um tanto formal, ambos tocaram-se mutuamente pela sola de seus cascos da pata posterior direita, relinchando em seqüências estranhas, e um se alternando com o outro! Eu mais uma vez testemunhei a diferença na modulação dos sons, que pareciam sílabas. Esses animais articulam a fala?! Eles se afastaram de mim alguns passos, como se fosse para conferenciarem mais à vontade (eu não podia dar crédito a minhas alucinações, aquilo era demais para mim!). Eles seguiram trotando a passos apascentados, um ao lado do outro, como se fossem dois seres humanos deliberando algo deveras importante! E às vezes voltavam a cabeça e me espiavam, como se estivessem a me vigiar. Eu não acreditava nessas ações provindas de tais bestas, animais brutos e silvestres! Comecei a refletir: se os habitantes deste lugar forem proporcionalmente tão inteligentes quanto seus animais, creio que cheguei ao povo mais sábio da Terra, é isto! Essa conclusão me tranqüilizou de tal maneira que eu decidi juntar-me a eles na caminhada, até que vislumbrasse alguma casinha ou vilarejo nohorizonte. Onde estão os humanos deste lugar?! Na verdade não era minha intenção seguir de perfil com os cavalos –deixai cada qual com seu cada qual, eu iria apressar o passo e fazê-los comer a poeira de meus passos. Mas foi aí que o primeiro cavalo, de um cinza sarapintado, muito atento aos meus movimentos, relinchou de forma tão expressiva que eu tive a nítida sensação de que ele me chamava!”
“A perplexidade em torno de meus sapatos, meias e calças era extraordinária; eles não paravam de relinchar uns aos outros toda vez que dirigiam o olhar para os meus acessórios. Eles também usavam linguagem gestual, e diria que em nada ficavam a dever ao filósofo europeu, quando este se punha concentrado a fim de resolver um problema elaborado!
No geral, o comportamento destes animais era tão ordeiro e racional, tão sensível e judicioso, que por fim concluí que eles deviam ser magos, que se autometamorfosearam por alguma razão e, encontrando um estranho enquanto assim permaneciam, resolveram dar lastro à brincadeira por mais algum tempo. Ou, talvez, estes animais estivessem apenas imensamente maravilhados com um homem da civilização como eu, com minhas roupas e feições e posturas mais delicadas que as de qualquer nativo vivendo num habitat tão remoto! Cada vez mais convicto de uma dessas hipóteses, resolvi, portanto, dirigir-me a eles da seguinte maneira:
– Respeitáveis gentlemen, se fordes feiticeiros, no que tenho motivos para acreditar, podeis então entender minha língua! Destarte eu exorto sua senhoria a reconhecer minha proveniência: eu sou um pobre e desgraçado homem das Ilhas Britânicas, dirigido por suas desventuras a este porto remoto. Eu solicito, mui educadamente, portanto, que um dentre vós me deixe cavalgar em suas costas, como se fôra cavalo de verdade, até que eu encontre alguma vila povoada neste país, onde possa encontrar abrigo e sustento. Se concordardes, presentear-vos-ei com esta faca e bracelete…,
no que logo os tirei de meu bolso. As duas criaturas daquela primeira cena após o tumulto na árvore ficaram paralisadas ouvindo todo o meu discurso, com parecença de ouvir e sorver cada sílaba do que eu dizia. Quando terminei, eles não pararam de ‘conversar em cavalês entre si’, como eu agora o chamo, cansado de comparar seus relinchos hiper-delicados com os dos cavalos ingleses. O debate parecia muito sério. Eu não pude deixar de notar que sua linguagem averbal e no entanto melodiosa expressava as paixões com bastante precisão; eu poderia, me dedicando por mais tempo, decerto, catalogar os diferentes fonemas e até registrar o alfabeto destes seres curiosos! Acho até que seria mais fácil que aprender chinês…
Prova disso é que toda hora eu distinguia a palavra Yahoosaindo de suas bocas dentuças, pronunciada por cada um da companhia, e sem parcimônia. Embora fosse vão tentar conjeturar sobre seu significado, enquanto os dois primeiros cavalos conferenciavam em particular, eu comecei então, para testar sua reação, a articular esta mesma palavra. Assim que se calaram eu pronunciei Yahoo forte e claramente, não sem tentar imitar, não nego, o mais que podia, o ‘sotaque’ de meus convivas, isto é, gritei relinchando! Nisso eles ficaram ainda mais sobressaltados. O cinza repetiu a mesma palavra duas vezes, como se quisesse ‘aperfeiçoar meu acento’. Eu cavalheirescamente anuí, tentando melhorar a pronúncia, o que julgo ter realizado, inclusive melhor e melhor à medida que tentava de novo e de novo. Mas reconheço que não poderia, mesmo depois de alguma prática, ser acusticamente confundido com um cavalo, ainda. O exemplar loiro jogou uma segunda palavra para eu tentar efetuar o mesmo. Essa era mais difícil. Transcrevendo-a para a ortografia inglesa, creio que equivalesse a Houyhnhnm. Minha competência foi menor, mas depois de algumas teimosas tentativas, creio que finalmente ‘os agradei’. Os dois estavam simplesmente maravilhados.
Depois de mais debate entre eles, que só podia se referir a mim, os dois amigos deram sinais de partir um em relação ao outro, da mesma forma que se haviam cumprimentado momentos antes: tocando-se os cascos. O cinza fez sinais de que queria que eu o seguisse, ou que o conduzisse, deveria dizer, posto que eu sou o mestre e ele a montaria! Bom, a mim não restava alternativa até finalmente encontrar o que eu desejava. Quando eu afrouxei meu passo, de fadiga, ele gritou hhuunhhuun.”
“um povo que podia civilizar animais brutos desta maneira esplêndida só podia exceler em todos os campos e ser a nação mais sábia e próspera desta terra! O cinza se pôs à frente e indicou que não toleraria comportamentos abusivos para comigo. Ele relinchou bastante em público, parecendo ter grande autoridade sobre os cavalos dessa cidade-estrebaria, e era correspondido com assentimentos subservientes e timoratos.”
“Comecei a achar que essa casa devia pertencer a alguém muito importante, porque havia grande cerimônia antes de eu poder entrar. Mas, enfim, que um homem pudesse ser inteiramente atendido e hospedado por cavalos, isso escapava completamente de minha concepção. Começava a temer que meu cérebro era o pivô da história toda: tão maltratado pelas agruras da viagem, começava a interpretar mal todas as percepções dos sentidos! Eu me recompus, portanto, e comecei a examinar os objetos do cômodo em que me haviam hospedado, sozinho: este estava mobilhado como o primeiro, apenas que mais elegantemente. Eu esfreguei os olhos muitas vezes, mas não podia ser miragem por desidratação ou cansaço! Belisquei meus braços e meus flancos, quem sabe assim eu acordaria… E nada.”
“Percebi que logo eu morreria de fome, a menos que encontrasse urgentemente alguém de minha própria espécie. Porque quanto a esses imundos Yahooscom que deparara antes no campo, embora houvesse, creio, àquela altura, no mundo inteiro, poucos que amassem a humanidade tanto quanto eu a amava, confesso que jamais vira um ser vivo senciente mais abominável em todos os aspectos! De algo que remetesse aos seres humanos, mais que os Houyhnhnms, pelo menos, isso era evidente, eles só tinham a capa, pois quanto mais eu me aproximava de um Yahoo, e quanto mais de perto eu os analisava, e quanto mais aprendia sobre eles, mais detestável essa raça se me tornava! Tal sensação nunca me abandonou de todo enquanto estive neste país. Isso o mestre-cavalo apreendeu quase instantaneamente, no meu primeiro encontro com estes bichos após ter sido conduzido à vila, graças aminhas atitudesum tanto enérgicas e minha incapacidade de disfarçar tamanha aversão. Ao notar que eu não os suportava de modo algum, e que seus hábitos alimentares me repugnavam ao extremo, ao contrário do que ele esperara inicialmente,o mestre-cavalo mandou os Yahoos de volta para o canil e, então, levou seu casco dianteiro à boca, o que muito me estupidificou, dada a imensa naturalidade com que ele desempenhou essa operação!Ele parecia querer se comunicar comigo, tentando entender que tipo de alimento mais me aprazaria. Porém, nada do que eu dissesse ou gesticulasse fazia-o entender o que é que eu queria comer. E mesmo que ele compreendesse, duvido muito que isso me ajudaria nalguma coisa, porque o problema era justamente achar os gêneros alimentícios de que eu tinha tanta precisão! Íamos nessa toada, eu inconsolável, ele sem entender, quando avistei uma vaca pastando ao longe, no que apontei para ela e demonstrei meu intenso desejo de beber de seu leite. Finalmente isso produziu seu efeito: o mestre-cavalo me conduziu de volta para seu estábulo e relinchou a uma serva-égua algo como <Abra o depósito!>, no que um cômodo foi aberto pela súdita e eu vi quehavia ali muitos vasos de barro e de madeira repletos de leite! Pareceu-me um aposento demasiado limpo e organizado, devo admitir. A serva-égua deu-me uma tigela cheia, e eu sorvi o líquido sem cerimônia. Finalmenteme refresquei um pouco desde o momento em que pisei nesta ilha!”
“Mandaram-me reproduzir as poucas palavras do vernáculo eqüino que eu já havia sido capaz de assimilar. Enquanto todos pastavam – isto é, jantavam – o mestre-cavalo me ensinou nomes para aveia, leite, fogo, água e alguns outros substantivos básicos, o que eu mui rapidamente pude sair repetindo, copiando sua pronúncia. Como já disse várias vezes, eu tenho um talento nato para aprender idiomas!”
“Aveia entre eles chama-se hlunnh. Pronunciei-o duas ou três vezes. Apesar de ter recusado os grãos de aveia quando primeiro mos ofereceram, logo mudei de opinião, considerando que isso podia servir-me de substituto para o pão, por ora. Com aveias, portanto, mais o leite, eu poderia manter minha saúde até achar um jeito de escapar deste lugar”
“Às vezes eu me embrenhava na mata atrás de uma lebre ou de um pássaro. Eu usava elásticos feitos de cabelo de Yahoo para compor minhas armadilhas. Também aprendi a apanhar as ervas mais benignas, que eu fervia e comia com a aveia, à guisa de salada. Aqui e acolá conseguia fazer minha própria manteiga e bebia seu soro. No começo sofri muito pela falta de sal, mas não há nada como o costume e a repetição para o paladar! Hoje, creio que a frequência com que comemos sal na Europa é um hábito caprichoso de nababo, do qual se perdeu a origem: imagino que a intenção dos primeiros que serviam sal nos repastos fosse somente a de provocar a sede, a menos que falemos da função de conservação da carne em longas viagens!”
“Mas o leitor já teve detalhes suficientes sobre minha dieta entre os Houyhnhnms. Uma coisa que detesto nos livros de viagem é quantas páginas os autores desperdiçam narrando seus hábitos culinários, como se quem lê se importasse realmente se quem escreve passa bem ou passa mal! Mas foi necessário fornecer essas descrições, ou nossas nações civilizadas achariam pouco crível que eu tenha conseguido me manter por 3 longos anos nestes confins, ao ladode companhia tão atípica, e vivendo quase só de vegetais!”
“Meus maiores esforços consistiram em aprender de uma vez esse idioma, que meu mestre (de agora em diante vou me referir a ele sem o uso do <cavalo>) e seus filhos, e todos os servos da casa, aliás, se mostravam desejosos de ensinar-me. Eles nunca deixaram de considerar uma espécie de prodígio que um animal selvagem como eu pudesse dar tantos sinais de racionalidade! Eu apontava todo e qualquer objeto, e perguntava qual era seu nome, que eu redigia em meu diário de navegador assim que me punha só. E eu corrigia meu sotaque solicitando que todos os membros daquela família pronunciassem as palavras.”
“Eles falavam pelas narinas e pela garganta, e sua língua é mais aparentada ao Alto-Holandês e ao Alemão do que aos outros idiomas europeus – mas um tanto mais gracioso e expressivo, devo dizer. O imperador Carlos V, por sinal, fez a mesma observação, certa feita: <Se fosse para conversar com meu cavalo, certamente falaríamos em Alto-Holandês>.
A curiosidade e a impaciência de meu mestre eram tamanhas que ele dispendia várias horas de seu dia para me instruir.”
“O que mais o deixava perplexo eram minhas roupas. Creio que ele mesmo não entendia se elas eram ou não parte do meu corpo, isso porque eu jamais as retirava antes de ir para a cama, e já as vestia antes do café da manhã. Meu mestre me perguntou várias coisas: de onde eu vinha, como eu cheguei a desenvolver esses lampejos de quase-razão que eu demonstrava em minhas ações, e ele queria sobretudo ouvir minha biografia de minha própria boca, o que ele estava esperançoso de conseguir em pouco tempo, dada minha enorme proficiência no aprendizado do idioma houyhnhnmês. A fim de auxiliar minha memória, compilei tudo que aprendi no alfabeto britânicocom sua tradução logo ao lado. Em dado momento, passei a fazer isso não só no meu quarto, mas na frente do meu mestre. Me deu muito trabalho explicar que diabos eu estava fazendo. Creio ser desnecessário explicar que os habitantes deste lugar não conheciam livros nem Literatura.
Em dez semanas eu já entendia quase todas as suas perguntas. Em 3 meses, dava respostas satisfatórias para várias de suas perguntas. Uma das coisas que ele queria muito saber era de que parte do país eu procedia, e quem me ensinou a imitar os Houyhnhnms. Porque, segundo ele, os Yahoos (que tinham a mesma cabeça e mãos que eu – e outras partes do corpo ele não poderia saber, porque eu as ocultava com minhas roupas) eram criaturas cheias de malícia, mal-dispostas, e impróprias para domesticar. Eu respondi que eu vim d’além-mar, de um lugar remoto, onde havia muitos como eu, transportado por um <vaso oco> (eles não tinham palavra para navio) feito do tronco das árvores; e que meus próprios companheiros me forçaram a desembarcar nesta praia, abandonado a mim mesmo.”
“Ele redargüiu que sem dúvida eu cometia um engano, isto é, que eu falava a coisa que não era. Acontece que eles não têm palavra para indicar mentira, falsidade ou erro. Ele alegava ser impossívelhaver um país além-mar (que isso era a coisa que não havia), ou que animais brutos, fossem quantos fossem, pudessem mover um vaso de madeira por onde quisessem sobre as águas. Ele tinha certeza que nenhum Houyhnhnm vivo seria capaz de construir tal meio de transporte, e com muito maior razão nenhum Yahoo seria capaz de pilotá-lo.
A palavra Houyhnhnm significa cavalo e, na etimologia local, perfeição de natureza. Eu disse ao meu mestre que <me falta a forma de me exprimir, mas melhorarei depressa e espero, num dia não tão distante, contar-lhe as maiores maravilhas>. Ele instava sua fêmea, seu potro e sua potra e todos os servos, de boa vontade, a ajudar na aceleração do meu aprendizado. Desnecessário dizer que, por 2 ou 3 horas, todos os dias, ele mesmo se encarregava da tarefa. Não só isso, mas muitos garanhões e éguas da vizinhança visitavam a residência de meu mestre, curiosos com <o grande Yahoo que podia até falar como um Houyhnhnm e que aparentava, em suas palavras e atos, poder chegar até a alguns vislumbres da razão!>. Estes residentes locais tinham um imenso prazer em conversar comigo e, não menos que meu mestre, me dirigiam pergunta atrás de pergunta. Eu não conseguia responder tudo, mas boa parte sim. Com todo esse convívio, fui fazendo progressos ainda mais notáveis. Em 5 meses, já escutava como um nativo e já falava como quem está um pouco aquém disso.”
“Já narrei ao leitor que, toda noite, uma vez que todos estivessem deitados, era meu costume desnudar-me e usar minhas roupas como coberta. Aconteceu, certa manhã bem cedo, de meu mestre mandar o pangaré acastanhado, um alazão mordomo da família, vir me ver. Quando o mordomo entrou eu ainda estava dormindo, e por um acaso minhas roupas tinham caído para o lado. Acordei com o relincho que este mordomo produziu, e escutei como ele voltou para contar ao mestre o que viu, todo atabalhoado. Vesti-me rapidamente e fui à sala. Meu mestre perguntou qual era o significado do que seu vassalo acabara de contar-lhe, i.e., que eu não era a mesma coisa quando eu dormia do que eu era quando estava acordado. O mordomo relatou-lhe assombrado que uma parte do meu corpo era branca, outra amarela, ou ao menos um pouco menos branca, e algumas partes marrons.
Eu vinha até ali guardando segredo sobre ‘isso das minhas vestes’, a fim de distinguir-me o mais possível dos aberrantes Yahoos. Mas vira que doravante este cuidado se tornara vão.”
“De onde eu vim, todos da minha espécie recobrem seus corpos com as peles de alguns animais, preparadas expressamente para isso por determinadas técnicas, tanto para fins de decência quanto para evitar as inclemências do ar.”
“ele simplesmente não podia entender por que a natureza deveria ensinar-nos a ocultar o que a natureza mesma nos deu”
“Meu mestre não deixou de me observar com o olhar mais atento. Seu rosto expressava grande curiosidade e admiração. Ele apanhou toda a minha roupa em sua quartela, peça por peça, para examinar com diligência. Então ele apalpou muito delicadamente meu corpo nu, e rodeou-me, embasbacado, umas tantas vezes. A primeira coisa que ele disse, após esse intervalo de exame silencioso, foi que sem dúvida alguma eu era um Yahoo. Mas que eu me distinguia, com efeito, de minha espécie, pois minha carne era mais macia, branca e minha pele bem mais branda. E que, além disso, ao contrário dos outros eu não tinha pêlos em muitas porções de meu corpo e que o formato de minhas garras era diferente, e elas eram menores. Que eu era o único exemplar que tinha essa afetação de caminhar continuamente sobre minhas duas patas traseiras. E que ele já tinha saciado sua curiosidade, dando-me permissão para voltar a vestir-me, uma vez que, ele bem observou, eu estava tremendo de frio.
Eu desabafei que me sentia desconfortável em ser comparado sempre a um Yahoo, animal odioso, que eu desprezava do fundo da minha alma: eu implorei que ele restringisse essa apelação somente aos demais, e que estendesse esse meu rogo a todos os seus entes e amigos que ele permitia que o visitassem. Também solicitei que meu segredo, o de levar uma cobertura falsa sobre meu corpo, não fosse compartilhado com mais ninguém, ao menos enquanto minhas roupas durassem. Expus que, pelo comportamento do seu valete, seria prudente de sua parte fazê-lo.
Meu mestre, muito consciencioso, logo anuiu a minha proposta. O segredo manteve-se guardado até que o tecido começou a se desfazer. Como alternativa para meus trapos, fui obrigado a usar de alguns expedientes, que mais tarde narrarei. Então ele me encorajou a continuar a aprender seu idioma, porque ele achava muito mais espantoso o fato de eu saber falar e raciocinar do que o aspecto do meu corpo, trajado ou nu.”
“Seria tedioso continuar entrando em detalhes sobre meu progresso no idioma. Reproduzirei, apenas, o relato mais completo que pude dar de mim mesmo nesta terra:
<Vim de um país muito distante, com uns 50 de minha própria espécie. Viajávamos sobre os mares dentro de um grande vaso oco feito de madeira, maior que sua casa. Descrevi-lhe então o navio da melhor forma que me coube, com a ajuda de meu lenço, para mostrar como a embarcação era impelida pelo vento. Numa briga entre nós eu fui deixado no litoral deste país, comecei a explorar o continente, sem nada dele conhecer, até você me encontrar e me livrar da perseguição daqueles execráveis Yahoos.>
Ele quis saber quem fez o navio e como era possível que os Houyhnhnms de minha nação legassem aos brutos tal empresa. Eu respondi:
<Só continuarei se você me der sua palavra de que não se sentirá ofendido. Se você der sua palavra, poderei contar todas as maravilhas que prometi!>
Ele empenhou sua palavra. Eu prossegui:
<O navio foi feito por criaturas como eu. Por todos os países aos quais já viajei, exatamente como em minha terra natal, seres a minha imagem e semelhança são os únicos animais racionais. Ao chegar a este país, fiquei tão espantado em ver Houyhnhnms agindo como homens dotados de razão quanto você mesmo e seus amigos ficaram ao ver-me e constatar minhas ações, sendo eu parecidocom um Yahoo. Mesmo que minha aparência seja a de um Yahoo, eu não enxergo homens quando olho para eles, só degenerescência e bruteza. Se a fortuna me agraciar com a volta a minha terra, quando relatar minhas aventuras, o que eu quero fazer, todos os animais racionais de lá dirão que eu disse a coisa que não era, que eu inventei tudo. Nenhum inglês diria que era a coisa (acreditaria possível) que um Houyhnhnm fosse o mestre de outro país, enquanto os Yahoos não passavam de selvagens.>”
“duvidar ou simplesmente não-acreditar são tão desconhecidos neste país que os habitantes não sabem como se portar em circunstâncias como as que eu suscitei entre eles.”
“O uso da língua é a mútua compreensão, receber a informação dos fatos. Se alguém diz a coisa que não é, a língua não tem uso. Quem escuta quem fala a coisa que não é não entendequem fala a coisa que não é! Porque o entendimento da coisa que não é é coisa que não é! Receber a coisa que não é é mais distante de receber uma informação doque permanecer em ignorância. Eu acreditaria uma coisa ser preta, quando a coisa é branca, e pequena, quando é grande.”
“Há Houyhnhnms entre vocês? Qual papel eles desempenham em sociedade?”
“Um grande número. No verão eles pastam nos campos, e no inverno são guardados nas estrebarias com muito feno e aveia, onde Yahoos servos dos donos dos Houyhnhnms devem escová-los, cuidar de seus cascos, servir-lhes comida, preparar seus leitos…”
“Entendo. Está evidente, segundo seu discurso, que qualquer chispa de razão que os Yahoos aparentam possuir não oculta o fato de os Houyhnhnms serem os verdadeiros mestres em sua sociedade. Eu desejaria de coração que nossos Yahoos fossem tão dóceis!”
“Mestre, se você deseja que eu continue o relato terá de escusar minhas palavras, que decerto o ofenderão.”
“Eu insisto, amigo, e escuso-o – eu quero saber o pior e o melhor de sua sociedade.”
“Não tenho escolha senão obedecê-lo. Os Houyhnhnms de minha sociedade, chamados cavalos, são dos animais mais formosos e afáveis que conhecemos. São também excepcionais em força e agilidade. Quando pertencem a pessoas de qualidade, são empregados em viagens, corridas ou para levar carruagens. São tratados com a maior ternura e o maior cuidado, até adoecerem fatalmente ou tornarem-se irreversivelmente mancos e inválidos. Ainda assim, os seus donos vendem os cavalos já doentes ou aleijados, que desempenham todo tipo de lide para seus novos donos, até a morte. Depois de morrer, um cavalo ainda oferece sua pele, que é esfolada e vendida para diversos fins. O cadáver é deixado para cães e aves de rapina. Falo dos cavalos mais nobres. A maioria dos cavalos não tem tanta sorte. São os cavalos dos camponeses e carroceiros, ou de outro cidadão de baixa extração qualquer. Estes não são poupados dos mais árduos serviços, e são mal-alimentados.”
“Não deixei de descrever, tão bem quanto pude, a arte da equitação; tudo sobre as rédeas, a sela, a espora, o chicote, o arreio e as rodas. Acrescentei: <Amarramos placas de uma substância rígida chamada ferro debaixo de suas patas a fim de resguardar seus cascos contra o atrito com os caminhos pedregosos de hábito percorridos.>”
“Como pode ser uma coisa que é, montar às costas de um Houyhnhnm! Tenho certeza que o servo mais débil de minha casa tem força o bastante para derrubar de seu corpo o Yahoo mais forte de todos. Se se jogasse no chão, este meu servo poderia rolar sobre si mesmo e matar qualquer ser primata!”
“Nossos cavalos são treinados, desde os 3 ou 4 anos de idade, para se acostumarem aos maiores suplícios e às condições mais severas, de modo que não se rebelem em relação ao trabalho que lhes está destinado. Se um cavalo se mostra intoleravelmente arredio ainda na infância acabam sendo empregados em carruagens, sendo severamente fustigados a cada má conduta. Os machos, geralmente usados para simples cavalgadas ou a coisa que é luta entre seres que são (meu jeito de dizer ‘fins militares’), são castrados logo aos 2 anos, para que seu espírito de garanhão se torne submisso, dócil e adestrável. Os cavalos são inteligentes e aprendem após ser recompensados ou castigados. Porém, mestre, saiba que os cavalos, de onde eu venho, não demonstram tinturas de razão, não mais do que os Yahoos de sua terra!”
“Era penoso explicar essas noções ao meu mestre, de modo que eu adentrava em circunlóquios em houyhnhnmês. Se suas carências são menores, suponho que sua linguagem terá menos vocábulos.”
“Se a coisa que é é um país no mundo com Yahoos inteligentes, só e somente só os Yahoos dentre todos os animais, é natural que Yahoos sejam os mestres. A sutileza da razão, aliada ao tempo e seus efeitos consolidadores, falará sempre mais alto que a força bruta. Mas o físico yahoo, especialmente do Yahoo de sua sociedade, se você for bom exemplo, é o pior físico de coisa que é para viver a vida que é.”
“Nasci de bons pais numa ilha chamada Inglaterra. A distância da Inglaterra para este país, em dias de jornada de um Houyhnhnm forte e saudável que trotasse do raiar ou pôr-do-sol na mesma direção, é, mais ou menos, um ano. Eu me eduquei cirurgião, profissão dos que curam feridas e machucados no corpo, decorrentes de acidentes ou violência. Meu país é governado por um Yahoo-fêmea, que denominamos rainha. Eu o evadi para conquistar riquezas, com as quais pudesse manter minha família e eu por muitos anos, ao meu retorno. Em minha última viagem eu era comandante do navio, chefiando cerca de 4 dúzias de Yahoos, muitos dos quais morreram afogados ou desidratados ou adoentados. Eu fui obrigado a reabastecer a tripulação com marujos de outras nações nas quais desembarcamos no caminho. Duas vezes quase naufragamos. A primeira vez por culpa de uma feroz tempestade; a segunda, em virtude da colisão com um penhasco.”
“Durante meu discurso meu mestre não se fez de rogado e me interrompeu inúmeras vezes. Necessitei gastar muitas palavras e frases até descrever de modo minimamente concebível a natureza dos crimes dos tripulantes que recrutei que haviam sido exilados de seus países de origem. Na verdade, só o consegui a duras penas, após dias e dias de conversação. Mas meu mestre finalmente me compreendeu. Era-lhe imensamente complicado captar qual seria a utilidade de agir de forma viciosa. Só pude fazê-lo conceber tal imagem dando muitos exemplos de cobiças e ambições dentre nós; fornecendo ilustrações das terríveis conseqüências da luxúria, intemperança, malícia e inveja (nomes que evidentemente não existem no vocabulário houyhnhnm. Foi praticamente o trabalho de um filósofo que conceitua estas coisas pela primeira vez, hipostasiando casos concretos e enfileirando suposições.” “Poder, governo, administração, guerra, lei, punição, castigo e mil outras coisas também tinham de ser expressas pela primeira vez no vernáculo.”
“O que me deixa aflito é que eu jamais poderei fazer justiça, em meras palavras, aos argumentos e raciocínios de meu mestre, pois minha incapacidade intelectiva forçosamente empobrece sua descrição. Nem falar de uma tradução ao nosso bárbaro Inglês, que vilipendia e muito o idioma original!”
“Obedecendo ao meu mestre, relatei-lhe a Revolução durante o Principado de Orange, a longa guerra com a França, iniciada pelo próprio Príncipe de Orange, continuada por seu sucessor ao trono, a rainha atual, não sem o consentimento dos maiores poderes da Cristandade, de modo que a guerra subsistia até o momento.A sua instância, enumerei: <Estima-se em mais de 1 milhão os Yahoos mortos no decorrer de todo este conflito; mais de uma centena de cidades foi sitiada e no mínimo 500 embarcações foram incendiadas ou afundaram.>”
“Divergências de opinião espoliaram milhões de vidas. P.ex., se carne é pão ou se pão é carne; se o suco de um dado fruto é sangue ou vinho; se assoviar é vício ou virtude; se é melhor beijar uma carta ou queimá-la; qual a melhor cor para uma casaca – preto, branco, vermelho, cinza…?; qual é o melhor comprimento e forma para ela – longa, curta, justa, folgada; e quanto à condição – suja ou limpa? E muitas questões mais!”
“Às vezes o desentendimento entre dois príncipes acarreta a deposição de um terceiro alheio à questão – na verdade quando acaba assim, o vencedor sempre espolia um príncipe vizinho mais fraco, mas diz que foi pela força das circunstâncias, pois não é seu direito natural o fazê-lo. Algumas vezes um príncipe só entra em guerra com outro por medo de que o outro entre em guerra consigo. Às vezes uma guerra é iniciada porque o inimigo é muito forte; às vezes, porque ele é muito fraco. (…) É um pretexto legítimo para a guerra invadir um país depois de sua população ter sido reduzida à miséria, destruída pela peste ou rachada em facções. É igualmente justificável entrar em guerra contra nosso mais valioso aliado, se acharmos que uma de suas cidades é altamente conveniente para nós; cidade, sim, mas pode ser também um território maior; por exemplo, se esse pedaço nos der acesso à faixa litorânea ou a estradas de comércio importantes. É um direito de um povo ter um território completo. Se um rei manda atacar uma nação de gentalha pobre e ignorante, não é ilegítimo matar metade desses pobres coitados nem escravizar a metade que sobrou. A razão disso é o imperativo de civilizar e educar os povos, e reduzir o grau de barbárie da face da terra. É não só permitido como é uma prática assaz honorável quando um rei deseja o auxílio de outro a fim de proteger-se melhor de um invasor; e que este ajudante, em consequência de ter expulsado o inimigo, tome para si todo o governo da nação amiga que salvou, podendo prender ou exilar o primeiro príncipe, afinal passou a ter crédito! A aliança de sangue, ou o que chamamos de casamento, é uma causa freqüente de guerras entre príncipes; quão mais próximos forem os laços familiares, mais encarniçado será o confronto. As nações mais pobres são famélicas, as ricas são altivas; e o orgulho e a fome estarão sempre se digladiando e alterando humores. E é por isso que a profissão de soldado é tida como a mais honrosa de todas. Um soldado é basicamente um Yahoo contratado para matar, a sangue frio, o máximo de outros Yahoos que ele nunca viu na vida.
Há uma certa quantidade de príncipes mendicantes na Europa, destes que não têm recursos para fazer a guerra eles próprios, mas que ao menos tem pequenos exércitos que lhes podem ser úteis. O que eles fazem é alugar seus homens para as nações ricas que estão a pelejar, normalmente estipulando um salário por dia por cada cabeça. Desta quantia recebidaa título de aluguel, o que não vai para o bolso destes soldados, que chamamos de ‘mercenários’, por empréstimo – assumindo que algum soldado consiga voltar para casa são (ou mesmo não são!) e salvo –, ¾ ficam para eles próprios (os monarcas que cederam mercenários), e digo que estes príncipes mendicantes subsistem das guerras alheias! Muitas nações assim há na parte norte da Europa.”
“Afortunadamente a vergonha ainda é maior que o perigo entre vocês Yahoos estrangeiros! Assim a natureza obrou para que vocês não causassem ainda mais desgraças. Suas bocas sendo planas e vocês não tendo focinho, é mais difícil que vocês se agridam com mordidas. Quanto às garras de suas patas traseiras e dianteiras, estas são tão diminutas e inofensivas que um só Yahoo de nossa terra derrubaria uma dúzia dos seus!”
“Sendo de certa forma um especialista na arte da guerra, eu me ri da ignorância do meu mestre nestes assuntos. Então eu forneci-lhe uma descrição algo exata de nossos artifícios bélicos: canhões, colubrinas, mosquetes, carabinas, pistolas, balas, pólvora, espadas, baionetas, formações de batalhas, o que são os cercos, fugas e recuadas, ofensivas de manual, a tática de estender o conflito num aparente empate estagnado até esgotar os suprimentos dos rivais, o contra-ataque a este tipo de tática, bombardeios remotos, batalhas navais, navios que mesmo com uma tripulação de 4 casas (mil homens) são inclementemente destroçados, batalhas em que 20 mil morrem facilmente de cada lado, os terríveis gemidos e uivos de dor dos que caem sem salvação no campo, membros e outras partes do corpo cortando o ar, fumaça, poeira, todos os barulhos infernais, a confusão, aqueles que morrem esmagados por cavalos descontrolados, já disse fugas?, perseguições, extermínios e vitórias!”
“Eu entraria de bom grado em mais particulares, mas meu mestre me pediu silêncio. Ele disse:
<Quem quer que entenda a natureza yahoo pode conceber até onde chega a vileza de um tal animal, i.e., provado que sua astúcia e sua força igualem sua malícia.>
Como, porém, meu discurso só repugnou-o ainda mais acerca de minha espécie, ele se sentiu terrivelmente perturbado e precisava de tempo para absorver todos estes horrores. Ele pensou sinceramente que se seus tímpanos continuassem expostos a estas palavras abomináveis num ritmo tal, logo, logo ele as admitiria com menos repulsa. E completou que, embora odiasse os Yahoos de seu país, ele não mais os culparia por suas qualidades inferiores, tanto quanto pudesse, comparando-os agora a meros gnnayh (uma ave de rapina), animal também cruel, ou então a uma simples pedra pontiaguda que calha de ferir-lhe o casco.”
“Meu mestre afirmou resolutamente que em detrimento de razão, nós éramos movidos ou possuídos por alguma qualidade inerente que expandia mais e mais nossos vícios naturais e garantia nossa sobrevivência. E que, como tudo que é distorcido e ruim em pequena escala, nossa civilização só podia ser uma ampliação defeituosa da natureza individual do Yahoo.”
“ele muito refletiu mas nunca chegou a uma opinião segura sobre a razão de que a lei, que foi feita para a preservação de todos e de cada um, devesse conduzir tantos indivíduos à ruína.”
“Há uma sociedade de homens entre nós criada desde a mocidade para convencer das coisas que não são, pela palavra. Estes homens conseguem fazer os outros verem que o branco é preto, e o preto é branco, tanto melhor quanto mais bem-pagos eles são! A esse tipo de sociedade dentro da sociedade os outros homens são escravos. Por exemplo: se meu vizinho cobiça minha vaca, ele contrata um destes, um advogado, para arrancar minha vaca de mim! Eu tenho, então, de contratar um outro advogado, para defender meu direito de continuar com minha vaca. É contra todo o Direito estabelecido (contra todo o fundamento de todas as leis) que qualquer homem advogue em causa própria. Continuando neste exemplo, eu, que sou o legítimo proprietário da vaca, estou em uma dupla desvantagem: primeiro, meu advogado, sendo treinado praticamente desde o berço a santificar a falsidade, não se sente confortável de ter de defender um cliente justo, o que é anômalo em seu campo do saber. Advogados que se submetem a essa tarefa fora de sua rotina diária acabam fazendo o serviço mal-feito ou de má-fé! A segunda desvantagem, meu mestre, é que meu advogado deve agir com muita cautela, ou será vítima de reprimendas pelos juízes, sendo malvisto por todos os seus colegas como um advogado que avilta os cânones de sua profissão. Sendo assim, eu fico com apenas 2 métodos de preservar minha vaca: o primeiro é pagando ao advogado de meu acusador uma taxa acima do que é publicamente a norma, fazendo-o trair seu próprio cliente ao insinuar, por meio de minha tática astuciosa, que a justiça estava do lado deste cliente que o procurou! A segunda maneira de vencer a causa é se meu advogado conseguir dar a meu pleito a aparência mais injusta possível; p.ex., concedendo que a vaca na verdade seria do meu vizinho. Se isso for adequadamente executado, é óbvio que o juiz ficará convencido do meu lado da história!”
“É uma máxima entre os advogados que o que já foi feito antes pode ser feito legalmente outra vez: então, a coisa que eles mais fazem é registrar todas as decisões anteriormente proferidas contra o bom senso da espécie humana. Sob o nome de <precedentes>, eles mostram tais provas às autoridades competentes e justificam, assim, as opiniões mais iníquas. Os juízes jamais deixarão de acatar estas novas verdades, uma vez que se tratam de provas, que são inquestionáveis.”
“É de se observar que esta sociedade cultiva um jargão peculiar, i.e., um jeito próprio de dizer as coisas, que nenhum outro mortal é capaz de compreender. Sob estas regras é que todas as suas leis são escritas. No estágio em que se encontram as leis hoje, depois de muitas gerações desta prática, falsidade e verdade ficaram tão embaralhadas que nem o mais sábio e honesto dos homens poderia dizer a diferença. É comum que leve 30 anos para se decidir se o pedaço de terra que ganhei de herança e que meus pais e avós por sua vez também ganharam de herança, ascendendo à sexta geração dos meus ancestrais, pertencem de fato a mim ou a algum estranho que vive a 500 quilômetros de distância!”
“Os advogados e juristas, em tudo aquilo que não se refere a suas próprias tratativas, são dos mais ignorantes e estúpidos dentre nós Yahoos europeus. Os mais fúteis em conversações, inimigos jurados do conhecimento, da sabedoria e da educação, e tão estultos quanto perversos quando o assunto é insultar e deformar a razão humana milenar, num esforço contínuo por destruir a obra de tantas gerações das outras classes de Yahoos com quem convivem.”
“eu não sei como consegui descrevê-lo o uso do dinheiro…” “o rico se apropria do fruto do trabalho dos pobres, sendo que estes últimos, em verdade, existem numa proporção de 1000 para cada rico”
“meu mestre insistia que todos os animais tinham direito a sua parte na distribuição dos produtos da terra”
“…toda esta vasta planície, digo, o triplo disto, deve ser devastado para que nossa melhor Yahoo-fêmea tenha seu excelente café-da-manhã, além dos utensílios de mesa necessários para consumi-lo.”
“Desta forma, deve haver países muito pobres que não têm condições de alimentar seus habitantes! Mas me diga uma coisa: como porções tão gigantescas de seu continente não possuem um só vaso de água fresca, sendo preciso enviar Yahoos pelos mares só para acharem de que beber?!”
“A Inglaterra em particular, segundo nossos cálculos, produz três vezes a quantidade de comida que seus habitantes são capazes de consumir; bem como muito licor extraído de grãos ou prensado das frutas de algumas árvores, que dão beberagens das mais deliciosas, e na mesma proporção superabundante. Diria que tudo ali, não só comida e bebida, é produzido muito acima da necessidade da população. Mas, para alimentar a luxúria e a intemperança das Yahoos-fêmeas, exportamos uma vasta proporção desses bens para outras nações, ainda que isso deixe parte de nossos habitantescarente, para, em troca, recebermos fontes de doenças, tolices mil, vícios sem conta, que distribuímos igualitariamente entre todos nós!!”
“O vinho não é importado para suplantar a sede nem para substituir alguma outra bebida, mestre. Este é um líquido especial que nos produz certo contentamento ao nos fazer evadir de nós mesmos, privando-nos de nossos sentidos por um tempo. Toda a melancolia que sentimos é temporariamente deixada de lado, e cedemos às mais caprichosas e extravagantes fantasias alojadas no cérebro, de repente não somos nada temerários, temos esperança ilimitada no amanhã, durante esse período não precisamos trabalhar, e, alterados até perder o império sobre nossas próprias pernas, acabamos, assim, ficando entorpecidos, até dormirmos profundamente. O lado ruim é que acordamos sempre doentes após tais ocasiões, fatigados e inclinados ao ócio. E é verdade, outrossim, que o uso desse licor, em abundância e a longo prazo, torna nossa vida cada vez mais desconfortável e repleta de enfermidades, quando não encurta esta mesma vida de forma anti-natural.”
“Nossa dieta engloba milhares de alimentos que são contraditórios entre si. Além disso, comemos quando não estamos com fome e bebemos sem sede. Sentamos e bebemos licores fortíssimos a noite inteira, sem nem mesmo forrar o estômago, o que nos predispõe à preguiça e a contrair diversas inflamações, precipitando ou arruinando a digestão. Yahoos-fêmeas prostituídas transmitem certa doença, capaz de apodrecer os ossos do Yahoo-macho que aceitaro seuabraço. Mas essa infecção e muitas outras são propagadas mui naturalmente de pai para filho. Muitos já nascem desfigurados e defeituosos. Seria interminável catalogar todas as doenças que nos afligem, mestre. Eu creio que esse número ultrapassa as 500 ou 600. Não há junta ou membro que não tenha seu mau estado particular.”
“A pretensão desses que chamamos de médicos – curandeiros em seu vernáculo – é a de que todas as doenças vêm da repleção (barriga cheia). Daí concluírem que uma grande evacuação do corpo é necessária, seja pela passagem natural ou pelo caminho de onde veio (a boca). Esses médicos conhecem inúmeras ervas, minerais, gomas, óleos, cascas, sais, sucos, algas, excrementos, extratos de cascas de árvore, serpentes, sapos, carne e ossos de homens mortos, pássaros, animais selvagens, peixes, etc., que utilizam para produzir os medicamentos de cheiro e gosto mais atrozes, abomináveis, nauseantes de que se tem notícia, tipo de composição que o estômago imediatamente ejetará – isso se chama vômito. Vindos do mesmo lugar, que chamamos de farmácia, além de outros venenos, os médicos nos prescrevem mais substâncias para engolir ou inserir pelo orifício traseiro (dependerá do humor do médico saber por qual buraco ele quer que entre a medicação), remédios esses não mais nem menos daninhos que os anteriores. Nossas entranhas se abalam da mesma forma com estes laxativos. Produzindo um relaxamento artificial dos músculos do nosso sistema digestório, levam junto, como faz a forte correnteza de um rio, tudo que pode estar impedindo o bom funcionamento do organismo. Isso os médicos chamam de purgação ou clister. Tendo a natureza prescrito somente o orifício superior para a intromissão de sólidos e líquidos, e o inferior para ejeções, fazia-se necessária uma arte engenhosa como a deles para agir conforme a doença – isto é, espelhar o mau funcionamento que ela provoca no organismo: ao forçarmos sólidos e líquidos pelo ânus e evacuar pela boca, podemos restabelecer o equilíbrio corporal.”
“Em política, um mau sinal é quando você passa a receber promessas, especialmente essas que demandam um juramento formal. Deste dia em diante o Yahoo mais inteligente sabe que está perdido.
Há 3 métodos de um homem chegar a ser chefe de Estado. O primeiro é o caminho da prudência, formando uma família, constituindo casamento, tendo uma filha, ou pelo menos uma irmã apta ao casório – a família é a base de tudo em nossa civilização! O segundo jeito é traindo e superando o predecessor no cargo. O terceiro modo é, com um zelo furioso, nas assembléias, engajar-se contra a corrupção generalizada da côrte. Um príncipe competente prefere, sem dúvida, empregar este terceiro tipo de homem. Este tipo de homem zeloso é quase sempre também o mais obsequioso e subserviente à vontade e aos caprichos de seu patrono.
Seja como for, esses ministros de Estado, portanto, tendo toda a máquina da nação a seu dispor, têm todas as condições necessárias para se conservarem no poder, chantageando ou aliciando maiorias no senado ou nos conselhos ou ainda empregando o expediente a que chamam de anistia(que expliquei-lhe em detalhes). Dessa forma eles se previnem contra atos de ressentimento ou vingança e auferem de sua carreira pública as maiores riquezas.
O palácio do chefe de Estado é um seminário para criação de lacaios: pajens, mordomos, porteiros, que macaqueiam seu superior em tudo que podem, se é que desejam, por sua vez,se elegerem delegados em seus distritos de origem. Esses vocacionados para a vida política devem exceler em 3 categorias: insolência, mentira e chantagem. Cada um deles, quando bem-sucedido ou bem-sucedida, terá uma côrte inteira a ele ou ela devotada, composta pelas pessoas de mais refinada linhagem. Algum desses lacaios (sub-prefeitos, prefeitos, ministro disso ou ministro daquilo) pode, a depender da sorte, da destreza pessoal e mesmo do seu nível de impudência, chegar a atingir o posto máximo na carreira e vir a ser o sucessor do próprio chefe de Estado que uma vez tanto bajulou!”
“Entre os nossos Houyhnhnms, o branco, o castanho-alaranjado e o cinzento não são tão bem-constituídos quanto o castanho-rubro, o cinza sarapintado e o negro, nem exibem os mesmos talentos ou inteligência, nem parecem melhores para se adestrar. Sendo assim, aqueles quase sempre são empregados nos ofícios subalternos, sem qualquerexpectativa de que excedam o destinomédio de sua própria raça. Essa hierarquia das raças eqüinas baseada na aparência exterior que se vêem toda a Europa seria considerada monstruosa e anômala aqui em seu país, meu mestre!”
“Quanto a mim, mestre, por mais que você me enalteça quanto ao que esperava de meu biótipo, a verdade é que sou de origens mais para humildes que para nobres, tendo sido eu criado por um par de europeus modestos porém mui dignos, cujo esforço e perseverança me proporcionaram uma educação tolerável, i.e., quase acima das expectativas para gente da minha condição. Mas ‘nobreza’ entre nós significa outra coisa que para um Houyhnhnm, posso assegurar-lhe. Prova disso é que os nobres são acostumados desde a mais tenra idade ao ócio e ao luxo, tornando-se moles e cansados com a idade e cheios de doenças venéreas que contraem com fêmeas promíscuas. E quando suas antigas fortunas são dissipadas, casam-se com uma mulherzinha de árvore genealógica qualquer, de um caráter qualquer, falto de inteligência ademais de incompatível com o próprio caráter, tudo pensando-se só no dinheiro. Como resultado, os casais se odeiam e desprezam. O produto de tais uniões? A escrófula, o raquitismo, a deformidade – em forma de novos seres! Dessa forma a família, vê-se bem, muito raramente chega aos netos (à terceira geração); a não ser que uma das filhas consiga um mui bom partido, i.e., um macho saudável para procriar fora do matrimônio, dentre seus vizinhos e serviçais, o que garantirá a continuação sem piora ou até mesmo a melhora da raça. (…) uma fisionomia saudável e robusta é tão inconveniente num homem de berço aristocrata que não resta remédio ao mundo diante de um tipo desses senão considerar que se trata de um bastardo, filho de cavalariço ou cocheiro.”
“Não havia passado um ano dentre os Houyhnhnms e já contraíra tal amor e veneração pelo seu povo que cheguei a tomar a resolução de nunca expatriar-me, na contemplação e na prática de todas as virtudes, nesta terra onde eu não tinha qualquer exemplo ou incitação ao vício. Mas o destino, ah, o destino!, esse meu inimigo mortal, determinaria a impossibilidade desse final feliz.”
“Os Yahoos são conhecidos por odiar-se uns aos outros, até mais do que odeiam as outras espécies. A razão para isso é que o caráter odiento de sua forma, que se pode contemplar nos outros indivíduos como se fôra um outro eu, torna cada Yahoo indisposto para com seu próximo. Eu duvido que cada indivíduo, egoísta como é, não se ache, em realidade, diferente dos demais.”
“De acordo com o que dissera meu mestre, ele havia achado excelente o costume dos Yahoos europeus de vestirem-se. Dessa forma ocultavam muitas de suas deformidades, de um e de todos, o que seria insuportável às vistas gerais. Porém, meu mestre reconheceu que dissera então a coisa que não era, porque cotejando meu relato dos Yahoos com o comportamento dos Yahoos locais, ele concluiu que a causa primeira da dissensão entre irmãos Yahoos, tanto num caso como noutro, devia ser a condição natural do Yahoo, tal qual ele aprendeu de minha boca. <Porque se você dá a 5 Yahoos comida que bastaria para 50, em vez de comerem em paz eles se pegarão pelas orelhas, cada um desejando tudo somente para si.>”
“Havia uma espécie de raiz, muito suculenta, mas algo rara e escondida, de que os Yahoos muito gostavam e que, quando a encontravam, chupavam-na sem moderação. Essa raiz produzia-lhes os mesmos efeitos do vinho no europeu. Algumas vezes isso os levava a se abraçarem e se amigarem, mas podia com a mesma facilidade metê-los em ranhenta discórdia. Eles uivavam, gargalhavam, se punham barulhentos, perdiam o equilíbrio, tropeçavam e rolavam pelo chão e terminavam adormecidos na lama.
Observei também que os Yahoos eram a única espécie animal deste país sujeita a doenças, conquanto esta ocorrência fosse bem mais rara entre eles que entre nossos cavalos, p.ex. A causa não era maus-tratos pelos Houyhnhnms, mas a própria sordidez daquele bicho. Em hoyuhnhnmês só havia uma mesma palavra para falar de todo o conjunto de enfermidades, hnea-yahoo, isto é, <mal de Yahoo>. A cura prescrita pelos pseudo-curandeiros Yahoos para eles próprios, segundo me pareceu, era uma mistura de cocô e xixi, forçada goela abaixo do doente. Não se trata de um gracejo, pois eu observei que o doente realmente fica bom logo depois. Eu recomendaria sem restrições essa mesma receita para meus conterrâneos, portanto, visando ao bem coletivo. Toda disenteria de comermos demais, todos os banquetes que nos empanturram, deixariam de ser problemáticos.”
“os machos brigam com as fêmeas com tanta brutalidade como a que usariam entre si.”
“Eles sabem nadar de nascença, igual girinos, podem passar muito tempo debaixo d’água, e utilizam essa vantagem para caçar peixes; as fêmeas levem o produto da caçada submarina para os filhotes.”
“quando explicava ao meu mestre alguns de nossos sistemas de filosofia natural, ele sempre ria e dizia algo como: <Uma criatura que se presume arrazoada avaliar-se a si mesma sobre o conhecimento fundado na conjetura de outras pessoas, e usar essa avaliação em coisas nas quais, por mais que este conhecimento fosse seguro, não há a menor utilidade!>.Meu mestre mostrou simpatizar com a personalidade do Sócrates platônico. Nada poderia honrar mais o príncipe dos filósofos. Não pude deixar de refletir desde então que destruição essa doutrina, se bem-compreendida, não poderia produzir nas bibliotecas de toda a Europa! Quantos caminhos fáceis dos homens eruditos não seriam para sempre interditados quando compreendessem Platão!”
“Em seus casamentos, os Houyhnhnms escolhem pela cor, para que nenhuma mistura desagradável se produza na prole. A força é o atributo mais valorizado no macho, e o decoro na fêmea. Não contraem matrimônio por amor, mas pensando no futuro da raça. Se a fêmea excede em força, seu consorte geralmente é o macho mais decoroso.”
“A violação da fidelidade conjugal, ou qualquer outra demonstração de promiscuidade, nunca existiu no país dos Houyhnhnms. O par unido passa o resto de suas existências em constante amizade e benevolência recíproca, que por sinal é a mesma camaradagem, guardadas as devidas proporções, que todo Houyhnhnm tem com outros Houyhnhnms. Não há inveja, ciúme, empáfia, fofoca, altercações nem descontentamentos.”
“Uma das questões polêmicas neste lugar é se dever-se-ia proceder ao extermínio dos Yahoos. Um dos favoráveis demonstrou argumentos de muito valor, como <Não bastasse serem os mais sujos, barulhentos e deformados animais que a natureza já produziu, os Yahoos são, ainda, rebeldes, intratáveis, indomesticáveis, astuciosos e malignos. Aqueles que conseguem mamam os úberes das vacas leiteiras dos Houyhnhnms escondido, matam e devoram gatos, esmagam e pisoteiam as plantações de aveia e o capim destinado ao pasto ao menor sinal de fraqueza na vigilância. As maldades e extravagâncias que eles são capazes de cometer é sem fim.> Ele ainda observou sagazmente uma peculiaridade sobre as origens dos Yahoos, a de que <eles não existem desde o sempre neste país; muitas idades atrás, dois desses inclassificáveis apareceram sobre uma montanha. Se eles nasceram devido ao sol inclemente sobre a lama e o calor daí decorrente ou do lodo podre, ou devido à estranha interação do lodo do continente com a escuma marítima, ou de qualquer outra forma, isso jamais saberemos. Mas esse casal de Yahoos engendrou novas vidas; e em pouco tempo sua espécie se tornou tão populosa que infestou a nação inteira. Para se livrarem das más conseqüências, os Houyhnhnms antepassados aprisionaram dois bebês Yahoos num canil, tratando de domesticá-los ao máximo. Este máximo não é de todo satisfatório, mas ao menos os bichos originais e todos os seus descendentes servem para ajudar nos serviços mais pesados>. Este Houyhnhnm garantiu que havia muita plausibilidade nessa tradição oral do seu povo sobre a gênese dos Yahoos e que acreditava piamente que eles não eram animais autóctones (yinhniamshy em houyhnhnmês), principalmente pelo ódio manifesto e inato aos Houyhnhnms. Além disso, todos os outros animais da ilha aborrecem a convivência com Yahoos. Embora suas disposições malignas provoquem naturalmente a repulsa, seria impossível que essa repelência de todos os outros animais do país a eles chegasse a tais extremos se eles fossem oriundos de lá, é o que se argumentava com muita lógica. Fosse isso verdade, seria como dizer que a natureza falhou nesta região, e esta raça já estaria extinta, pois geraria um imenso desequilíbrio na fauna. Seja como for, graças à misteriosa existência dessas excrescências odiosas diante das próprias criações da natureza, os Houyhnhnms puderam dispensar os serviços das mulas e outros indivíduos estéreis, que afinal são animais muito tratáveis e dignos! Mas, disse também este nobre Houyhnhnm, chegaria o dia em que seria mais vantajoso voltar a criar mulas, que são dóceis e boas serviçais, e higiênicas, do que continuar confiando trabalhos importantes do cotidiano a uma raça tão degenerada! Mulas e burros não fedem, são mais fortes, só um pouco menos ágeis que os Yahoos, fora que o zurro de um burro é ‘n’ vezes menos desagradável que o horrífico urro yahoo!”
“a andorinha (ou ao menos é assim que eu traduzo lyhannh, embora seja uma variedade de andorinha gigante se comparada às da Europa)”
“Eles mensuram o ano pelas revoluções do sol e da lua, mas não empregam subdivisões hebdomadárias. Eles têm um perfeito conhecimento astronômico destes dois corpos, conhecendo o fenômeno do eclipse. Eu diria que a isto se limita sua astronomia.
Na poesia, creio que superam todos os outros mortais do mundo; seja pela justeza de suas analogias, o caráter apropriado e exato de suas descrições, enfim, digo que a poesia houyhnhnmiana é inimitável. Seus versos o mais das vezes exaltam o valor da amizade e da benevolência comum e fazem odes aos ganhadores de competições de corrida e outros exercícios que soem praticar.”
“Os Houyhnhnms usam o intervalo entre a quartela e o casco de suas pernas dianteiras como mãos, e com destreza inimaginável para qualquer homem branco. Eu vi uma égua branca de nossa família costurar com uma agulha (que eu a emprestei de propósito) perfeitamente. Eles são perfeitamente capazes de ordenhar, colher aveia e, enfim, desempenhar qualquer trabalho cotidiano que entre nós requeira o uso das mãos. Eles foram capazes de fabricar uma espécie de pederneira que, atritada com outras pedras, constrói todo tipo de utensílio, equivalente às nossas cunhas, machados, martelos, etc. Assim eles conseguem instrumentos afiados para cortar o feno, apanhar a aveia, cultivar qualquer plantação que a natureza lhes permite. Os Yahoos transportam os feixes carpidos conduzindo carruagens, bem como os cavalos mais humildes amontoam a colheita em espécies de choupanas, onde o grão é extraído e levado aos depósitos. Como eu já disse, eles dominam o artesanato rústico da madeira e a olaria, sabendo coser vasos ao sol.”
“A expectativa de vida de um Houyhnhnm é de 70 a 75, mas alguns atingem os 80 anos.”
“A essa altura não sei se seria redundante observar: os Houyhnhnms não possuem palavra em seu idioma para expressar o <mal> nem nada que a ele se relacione. Na verdade, quando querem falar de algo de qualidade ruim, tomam de empréstimo as qualidades que enxergam nos Yahoos. Dessa maneira, a estupidez de um servo, a omissão de uma criança, uma pedra que fira seus cascos, um clima obstinadamente fechado e ruim para a agricultura, tudo isso são yahooíces, por assim dizer. Quando traduzo seus discursos com palavras como <maligno> ou <pérfido>, estou apenas retomando nosso léxico. Ou seja, se algo é mau ou ruim neste país, é hhnm Yahoo, mwhnaholm Yahoo, ynlhmndwihlma Yahoo… Uma casa mal-construída seria uma ynholmhnmrohlnw Yahoo.
Não me seria incômodo enumerar mais e mais dos costumes e virtudes desse excelente povo. Mas, almejando publicar brevemente um volume com minhas aventuras neste continente, não este aqui, mas um especialmente para descrever a civilização Houyhnhnm em sua completude, devo me interditar este enorme prazer e encaminhar o leitor interessado a esta outra publicação.¹ Nas páginas que me restam, doravante, nada me resta a não ser narrar minha própria tragédia.”
¹ Tudo indica que nosso amado Gulliver não cumpriu esta promessa – que pena!
“Era hábito meu pegar mel do oco das árvores, que eu misturava com a água ou comia no meu pão. Nenhum homem mais que eu mesmo podia atestar a verdade dessas duas máximas: A natureza se satisfaz com bem pouco; A necessidade é a mãe da invenção. Nesse tempo eu gozava de saúde perfeita e serenidade mental. Nem mesmo o caráter traiçoeiro e inconstante de um amigo me eram sensíveis nesta ilha. Quanto mais as injúrias de um inimigo tácito ou manifesto! Não havia a menor ocasião para desavença, lisonja ou mexerico. Não havia personalidades de renome que agradar ou assecla que temer. Não era necessário se precaver contra a fraude ou a opressão. (…) Nada de chacota, polêmica, censura, reproches, vendetas, parasitas, aproveitadores de meia-tigela, incendiários, inconvenientes, advogados, prostitutas, bufões, viciados, bêbados, políticos, vigaristas, velhos ranzinzas, tagarelas enfadonhos, jornalistas, brutamontes, assassinos, ladrõezinhos, eruditos, convencidos, moralistas; nenhum líder, nem seguidores, nenhum partido, nem facções; nem encorajadores de vícios, bons retóricos ou maus exemplos; nada de prisões, armas brancas, ou pólvora, algemas, pelourinho ou cadafalso; nada de mercados e feiras, nem regateios ou engabelações; nada de orgulho, vaidade ou afetação; nada de dândis efeminados nem valentões; vadiagem; a sífilis; esposas, gastadeiras, temperamentais e lascivas! nada de pedantes tão altivos quanto estúpidos! nenhuma importunação, atrito insuportável, barulho, muvuca, companheiro cheio de palavras e modos e sem nada na cabeça; zero canalhas exaltados pelo que têm de pior! nenhuma nobreza que dita as regras de etiqueta que ela mesma inventou; nenhum senhor, falsificador, grande proprietário, juiz, rabequista, professor de dança, mestre de esgrima!… Não, não, nada disso!!!”
“Eu não falava se não fôra perguntado; e quando o fazia, respondia com pesar, porque parecia que eu prejudicava a harmonia destes habitantes no vão intuito de me melhorarem. Mas eu era todo ouvidos nas conversas entre Houyhnhnms. Nenhuma sílaba era inútil ou profana, toda comunicação era sucinta e pragmática, nenhuma palavra supérflua ou desgastada! (…) ninguém falava a contragosto ou em tom de reclamação, todos eram fonte de prazer para seus companheiros (…) Eles têm uma noção de que quando pessoas estão reunidas, um pouco de silêncio ocasional é muito mais saudável a fim de melhorar o nível da conversação do que um falatório constante. Isso eu provei na pele, e entendi que, nesses interstícios, evocava com naturalidade idéias frescas e altamente propícias para a continuidade do discurso!”
“Sem falsa modéstia, devo acrescentar que tão-só minha presença já era um estimulante para inúmeras conversas. Meu mestre sempre inteirava seus convivas dos detalhes de minha história que ele havia recentemente aprendido, e relatava as coisas que aprendera sobre minha terra natal. Todos se compraziam em discorrer sobre esse mar de novidades, necessariamente com resultados pouco lisonjeiros para a Europa. Serei pudico o bastante para não reproduzir aqui essas conversas.”
“Quando sucedia de eu fitar meu reflexo na superfície dum lago ou duma fonte, virava o rosto por reflexo, enojado, detestando meu próprio aspecto. Por outro lado, isso foi me fazendo tolerar um pouco mais o aspecto dos Yahoos da ilha. De tanto conversar com os Houyhnhnms e apreciá-los com os olhos, admirado de sua nobreza e superioridade, fui adquirindo seus maneirismos. Primeiro era simples emulação, depois se cristalizou em hábito. Meus amigos me dizem, hoje em dia, de forma bastante áspera, Você trota como um cavalo!, o que eu, no entanto, tomo como elogio. Tampouco desminto que ocasionalmente, no meio da fala, emito de repente sons guturais de Houyhnhnms, sem dar por mim. Os Yahoos europeus me ridicularizam, mas isso em nada me mortifica.”
“na última assembléia geral, quando o assunto dos Yahoos foi abordado, você estando ausente por motivos óbvios, os representantes do plano de extermínio Yahoo se expressaram ofendidos de que eu criasse um Yahoo em meio à própria família, e aliás, mais como Houyhnhnm que como um animal selvagem. Disseram que eu era sempre visto dialogando com você, o que aos olhos dos locais parecia significar que eu extraía prazer e edificação dessas conversações. Que, enfim, sua companhia me era extremamente agradável. Reiteraram que essa prática é inaceitável de acordo com a razão e a natureza, nem fôra jamais ouvida de antanho. A assembléia, sendo assim, exortou-me a ou tratá-lo como os demais de sua espécie, ou providenciar para que você fosse mandado embora, nadando, de volta ao lugar de onde veio. O assunto foi votado entre todos. O primeiro expediente foi rejeitado de pronto por todos os Houyhnhnms que já o viram em minha casa e que com você trataram durante esse tempo. A rejeição se baseava nestas razões elementares: como Yahoo capaz de demonstrar uma proto-razão, você me distinguia nitidamente dos outros Yahoos, depravados inatos; misturá-los seria correr o risco de que você os seduzisse com seus talentos para constituir uma nação isolada entre os bosques e montanhas da ilha, e, preparando um exército, invadisse e pilhasse nosso vilarejo durante a madrugada. Porque é óbvio que uma raça que abomina o trabalho preferiria roubar nossos rebanhos que se dar trabalho de criar algum. Meu mestre acrescentou: Sou constantemente cobrado por meus concidadãos e vizinhos, portanto, para cumprir o segundo desígnio daquela reunião. Infelizmente não posso procrastinar mais esta partida, meu amigo! Creio que, como você mesmo explicou, é-lhe impossível nadar até outro país. Por isso, é razoável iniciar os preparativos para construir-se um veículo capaz de fazê-lo singrar pelas águas até sua terra! Você já descreveu como se faz um navio, então nós podemos fazer isso!”
“Enorme tristeza e pesar recaíram sobre mim ao terminar de ouvir o discurso de meu mestre. Incapaz de suportar este sofrimento, desabei sobre seus pés. Quando readquiri consciência dos meus atos, ele continuou: Eu pensei que você havia morrido. Isso porque nenhum Houyhnhnm está sujeito a esses surtos de imbecilidade. Respondi, ainda com voz embargada: Ó, preferira mesmo a morte! Não posso culpar os habitantes do lugar nem a votação da assembléia, nem a disposição solícita de todos os nossos amigos mais próximos. Não obstante, no meu corrupto e débil juízo, considero que seria mais razoável ter havido menos rigor nesta sentença. Pois é de conhecimento de todos que eu não conseguiria nadar nem sequer 10km, sendo que o pedaço de terra habitado mais próximo deve distar mais do cêntuplo desta distância. Além disso, muitos dos materiais necessários para construir um barco (navio pequeno) estão simplesmente em falta neste país! Ainda assim, em obediência e gratidão a você, mestre, e a sua hospitalidade, eu irei tentar, até o fim, esta construção – embora tema ser a coisa que não era, não é e nem será! Por isso, mestre, não me considere ainda mais vil se lhe parecer que eu me comporto como alguém já condenado à destruição!”
“em 6 semanas, com a ajuda do servo acastanhado, que para ser franco executou as partes mais árduas, eu concluí o que posso chamar de uma vertente indiana de canoa, embora maior do que qualquer uma que eu tenha conhecido, tendo feito um teto de peles de Yahoo, firmemente amarradas com fios de cânhamo que eu mesmo extraí da vegetação e preparei.”
“quando me dispus a prostrar-me, para beijar seu casco, ele gentilmente ergueu sua pata alguns centímetros até minha boca. Eu não ignoro quão gravemente fui censurado entre meus colegas Yahoos europeus por citar essa parte de minhas viagens. Digam o que disserem os detratores, que é improvável tudo isso, i.e., que tão ilustre indivíduo, autêntico garanhão, tenha se prestado a rebaixar-se ao meu nível, não se incomodando de ser visto numa posição humilhante com uma criatura inferior, etc., etc.! Eu mesmo já li muita literatura de viagem: sei o quanto os viajantes adoram se jactar de enormes favores que receberam de estrangeiros!”
“Comecei minha desalentada viagem dia 15 de fevereiro de 1714, ou teria sido 1715? 9AM.”
“Eu ouvi, ainda, de alguma distância, o serviçal acastanhado, que nutria por mim uma grande estima, e que gritava: Hnuyillanyha, majah Yahoo! (Cuide-se, o nobre Yahoo!).
Meu intuito, agora que estava em alto-mar, era, se possível, descobrir qualquer ilhota desabitada mas que fôra propícia para, com meu suor, me servir de abrigo para as necessidades mais básicas da vida. Àquele momento eu acharia este módico fim muito mais feliz do que me tornar primeiro-ministro na nação mais culta. Na verdade eu estava com pavor de voltar aos homens, i.e., aos Yahoos organizados!”
“Baseado em nada além de conjeturas, deu em mim de rumar para leste, imaginando poder assim atingir as ilhas da costa sudoeste da Nova Holanda¹”
¹ Nada mais, nada menos que o então recém-descoberto continente australiano!
“Em 8 horas eu havia chegado ao litoral sudeste da Nova Holanda. Isso confirmou minhas já antigas suspeitas de que mapas e cartas geográficas situam este país ao menos 3 graus mais a leste do que ele realmente está localizado; eu já comuniquei este pensamento há muitos anos para meu grande amigo o Senhor Herman Moll,¹ dando justificativas plausíveis, muito embora este emérito estudioso tenha optado por outro viés baseado em outros autores.”
¹ Cartógrafo do XVII e XVIII. Sua data de nascimento e nacionalidade não estão bem-consolidados, mas seria holandês (radicado em Londres). Nessa época o oceano Atlântico ainda era chamado de “Mar do Império Britânico”. Um mapa de Moll serviu de pretexto para os franceses alegarem possessão de uma certa colônia, contra os ingleses, argumento que foi refutado pelas expedições de James Cook. Defoe (o autor mais parecido com Swift que existe!) era amigo pessoal de Moll. Outro detalhe curioso: no séc. XIX (ou seja, muito depois de Swift), um homônimo Herman Moll, alemão, foi preso e condenado a passar seus dias numa penitenciária na… AUSTRÁLIA! Esse degredo, ao contrário do que poderia parecer, não teve a ver com homicídio, mas apenas com questões de contravenção comercial (roubou dinheiro do patrão, comerciante de tabaco). Cumprido apenas ¼ da pena de 10 anos, ele foi solto e pôde lecionar em York.
Um globo terrestre fabricado e comercializado por Herman Moll.
“Não encontrei moradores na costa. Sem carregar nenhuma arma, tive receio de explorar o interior. Encontrei alguns crustáceos na areia e os comi crus, pois se acendesse fogo podia ser que nativos hostis me detectassem. Prossegui por 3 dias me alimentando de ostras e lapas ou outro molusco qualquer. Dessa forma eu não gastava minhas próprias provisões do barco. Encontrei uma excelente fonte de água doce, o que muito me reconfortou!
No quarto dia, me arriscando de manhãzinha um pouco imprudentemente, divisei de 20 a 30 aborígenes a não mais do que meio quilômetro de distância. Eram índios completamente nus, havia homens, mulheres e crianças no bando, estavam em volta duma fogueira; não vi fogo, mas vi fumaça. Um deles, incontinente, reparou em mim e logo avisou seus amigos. Cinco vieram correndo em minha direção, deixando as mulheres e crianças para trás. Eu também corri para salvar minha vida. Pulei na canoa e parti. Os selvagens, notando que não daria tempo de me alcançarem, atiraram flechas; uma me atingiu profundamente na parte interna do joelho esquerdo: tenho a cicatriz até hoje. Temendo o pior – que a flecha ainda por cima tivesse sido embebida em curare –, remei intensamente até fugir do alcance de qualquer projétil (era um lindo dia, o mar estava calmo). Quando me senti fora de perigo imediato, comecei a chupar a ferida para tirar o eventual veneno, e tratar a hemorragia com o que tinha em mãos.”
“Entre todos os meus impulsos, meu ódio pelos Yahoos foi o que falou mais alto: virei minha canoa e velejei e remei no rumo sul, atingindo o mesmo córrego que atravessara pela manhã, calculando que seria menos pior lidar com esses selvagens do que viver entre os europeus mais uma vez.”
“Os marinheiros, quando aportaram, notaram na minha canoa e, inspecionando-a, conjeturaram logo de cara que o dono não podia estar muito longe. Quatro deles, bem-armados, começaram a busca, revirando qualquer fenda ou buraco que achassem. Me encontraram totalmente vulnerável atrás da rocha. A primeira reação deles foi de espanto, com meus trajes tão bárbaros. Meu casaco era de peles, as solas dos meus sapatos de madeira, minha calça de pêlos. Eles, porém, adivinharam rapidamente que eu não era um nativo, pois que todos ali viviam pelados. Um dos homens da tripulação, um português, mandou que eu me erguesse e perguntou quem era eu. Eu compreendia seu idioma, então obedeci e comecei: Sou um pobre Yahoo banido de entre os Houyhnhnms. Por favor, deixai-me partir! Eles ficaram ainda mais atônitos ouvindo minha resposta em português fluente e, estudando melhor minhas feições, também arrazoaram que eu era um europeu como eles. Porém, não podiam compreender nada disso de Yahoos e Houyhnhnms. Caíram na risada, não nego, diante do meu acento um tanto… gutural. Disseram na minha cara que eu parecia um cavalo relinchando! Na hora eu senti grande indignação misturada com medo, e pus-me a tremer. Eu pedi novamente para ser deixado em paz e abandonado, e sem esperar resposta fui tranqüilamente caminhando para minha canoa. Eles me impediram e perguntaram: De que país vens tu? Na verdade eles perguntaram muitas coisas que eu não posso me lembrar. Eu disse que nascera na Inglaterra, de onde saíra 5 anos atrás – naquele ano Portugal e os ingleses se entendiam muito bem. Então eu voltei a demonstrar confiança e a esperar a concórdia que existe entre pessoas de duas nações civilizadas, desejando ir embora. Em minha pressa eu expliquei que era um Yahoo miserável procurando qualquer lugar desolado para passar o resto de minha desafortunada vida.
Quando eles começaram a discutir entre si eu senti que nada do que eu escutava ou contemplava podia ser mais anti-natural. Para mim era como ver cachorros raciocinando e falando! Vacas falando inglês, Yahoos inteligentes no País dos Houyhnhnms!”
“Eles tinham certeza que o capitão aceitaria levar-me de graça (como dizem em Português) para Lisboa, de onde eu poderia me virar e voltar sozinho à Inglaterra. Informaram que 2 da companhia voltariam agora ao navio para relatar do achado ao capitão e saber de sua decisão. Nesse meio-tempo, a menos que eu jurasse solenemente que não fugiria, disseram que iam me manter sob custódia. Eu achei melhor ceder a estes apelos. Eles estavam bastante curiosos para saber toda minha história, mas eu não pude satisfazê-los. Creio que isso os fez pensar que eu sofri alguma desgraça que comprometeu o meu juízo.”
“O cheiro deles quase me fazia desmaiar. Por fim, não mais agüentando de fome, eu pedi licença para apanhar algo de minha própria canoa. Mas o capitão, querendo ser gentil, ordenou que me trouxessem galinha e um bom vinho, além de preparar uma cama para mim numa cabine asseada. Eu não queria de maneira alguma tirar meus trajos, nem quando estava só. Enrolei-me na coberta, portanto, e em meia hora, imaginando que a tripulação estivesse comendo, saí de minha cabine – planejava pular no mar, por uma das laterais do navio, e nadar de volta para a ilha. Qualquer coisa a viver entre Yahoos! No entanto, tive a infelicidade de que um dos marinheiros detectou-me e preveniu meu ato. Informando o capitão, foi acorrentado na cabine.
Depois do jantar, Dom Pedro veio a mim, desejando saber a razão do meu desespero, capaz de conceber um plano tão absurdo. Ele garantiu que só queria meu bem e fazer por mim o que estivesse a seu alcance nessa situação. Ele se expressou de uma forma tão terna que me comoveu, a ponto de eu conseguir tratá-lo, a partir desse momento, como um animal capaz de alguma faísca de razão! Eu elaborei um resumo conciso de minha última aventura. Contei da conspiração de meus homens a bordo. Do país misterioso em que me deixaram e dos meus 5 anos de vida ali. Mas ele reagiu como se eu não tivesse narrado mais do que um delírio ou sonho. Não pude esconder minha reprovação. Pois estava agora fora de minha natureza o dom de mentir, tão peculiar aos Yahoos! Não importa a nação, um Yahoo nunca muda sua conduta – eles estão sempre resguardados contra o discurso dos outros, sabendo que, como eles próprios, outros Yahoos são bem capazes de mentir por qualquer coisa. Eu perguntei a Dom Pedro: É costume, em Portugal, falar a coisa que não é? Isso de que qualificas minha história é algo que tenho de refletir muito para lembrar que existe, falsidade, conto, falácia, ilusão!… Se eu tivesse vivido mil anos no País dos Houyhnhnms ainda assim não teria escutado uma só mentira do mais estropiado dos serviçais! Eu não dou valor ao fato de ser acreditado ou não; tu estás me ajudando muito, então não concederei qualquer importância à corrupção de tua natureza interior. Me prontifico a responder qualquer questionamento teu! A verdade existe para quem queira compreendê-la!
O capitão Dom Pedro, homem vivido, depois de muito me testar e confrontar minhas respostas a diferentes perguntas, típico procedimento para apanhar alguém na mentira, começou, enfim, depois de um tempo, a considerar que minha veracidade fosse-lhe plausível. Já que tu dizes que tens um apego inviolável pela verdade, tu deves dar-me palavra, Gulliver, palavra de honra, palavra de homem, de que me farás companhia nessa viagem, até o final, sem atentar, outra vez, contra tua própria vida; porque se tu fizeres o que fizeste de novo, e fores apanhado, ou se não concordares com meus termos, passarás todo o trajeto até Lisboa confinado, tratado como prisioneiro. Eu prometi que seguiria com ele até o fim da viagem, embora protestando e antecipando meu futuro: Sofrerei as mais amargas inclemências, para mim está bem! Mas não volto a viver entre Yahoos!
Nossa viagem transcorreu sem nenhum imprevisto. Em gratidão ao capitão pela simpatia que demonstrou para comigo, por mais que achasse repelente lidar com Yahoos, sentei ao seu lado e tentei ser sociável. Mas às vezes eu não podia esconder que aquilo tudo ofendia meu ser. Mas ele, eu via bem, fingia que não notava. Além do mais, a maior parte do dia eu ficava sozinho na cabine. Eu não gostava de ver Yahoos o tempo todo. O capitão tentou me convencer por diversas vezes a tirar minhas roupas rústicas e ofereceu as melhores roupas que tinha no armário. Eu jamais cederia. Sinceramente, me causava nojo pensar em revestir meu corpo com algo que já foi vestido por um Yahoo! Eu na verdade, devido à insistência do capitão, tolerei apenas que me arranjasse duas peças limpas, nunca usadas, as mais simples. Ou, se não fosse possível, ao menos que houvessem sido lavadas. Pensei que isso não denegriria, apesar de não ser o ideal. Toda noite eu retirava a roupa usada ao longo do dia e me encarregava eu mesmo de lavá-la cuidadosamente.
Chegamos em Lisboa em 5 de novembro de 1715. Quando desembarcamos, o capitão obrigou-me a colocar sua capa por cima de minha roupa andrajosa, para evitar aglomerações e rebuliço. Ele me alojou em sua própria casa. Ao meu próprio pedido, deixou-me ficar no cômodo mais afastado, no sótão e nos fundos. Eu implorei que ele ocultasse de todos os demais Yahoos tudo que confiei-lhe a respeito dos Houyhnhnms. Imaginei que qualquer detalhe dessa história causasse um sem-número de Yahoos vindo atrás de mim, além de ser uma coisa tão difícil para as mentes limitadas dos Yahoos compreenderem que com certeza eu poderia ser acusado de ir contra a moral e ser preso, se é que não queimado pela Inquisição! O capitão assentiu e me convenceu, por seu turno, a aceitar vestes limpas e novas. Eu cedi, mas não aceitei que o costureiro tomasse minhas medidas. Dom Pedro, sendo por acaso aproximadamente da mesma altura e peso que eu, não obstante, as roupas ficaram ótimas em mim. Ele providenciou tudo que melhorasse minha condição; mas eu não aceitava entrar em contato com nenhum objeto antes que ele se desempesteasse dos germes yahoos após pelo menos 24h ao ar livre!
O capitão não era casado, nem tinha mais do que 3 discretos empregados. Eu roguei que nenhum deles fosse visto durante nossas refeições. Devo confessar que a postura do capitão foi tão digna e honrada, sua camaradagem tão desinteressada e rara, seu entendimento humano tão elevado, que eu comecei a tolerar sua companhia, de verdade, não apenas por obrigação! Ele foi me conquistando e me socializando de tal maneira que eu já começava a olhar pela janela do meu cubículo. Gradativamente fui passando para outros quartos e, tomando coragem, depois de muito observar alguns pedestres, dei os primeiros passos na rua. Meu pavor estava bem diminuído. Mas meu desprezo e descontentamento pelo Yahoo em geral, esses creio que jamais se embotarão. E quanto mais nos engajamos em interações sociais, digo-vos, mais tende a aumentar esse ódio! Enfim, eu aceitava dar passeios, sempre em sua companhia. Mas o que mais ofendia minha sensibilidade continuava a ser o cheiro horrível dessas criaturas, de modo que eu precisava deixar meu olfato insensível com arruda ou até mesmo tabaco antes dessas ocasiões!
Depois de dez dias, Dom Pedro, a quem também prestei algumas informações sobre minha vida européia prévia, deu sua palavra que não se sentiria de consciência leve enquanto eu não retornasse a meu próprio país e vivesse em meu lar com minha esposa e meus filhos. Ele me relatou que havia um navio mercante inglês no porto, prestes a seguir viagem, e que ele me daria tudo que fosse necessário para empreender essa pequena viagem. Ah, seria tedioso repetir item por item todos os seus argumentos, e todas as minhas objeções, uma e a uma! Dom Pedro disse: É inviável achar uma ilha tão deserta e remota como este lugar em que tu desejas te confinar! Mas usa tua prudência e sabedoria, confina-te em tua própria casa, passa teu tempo de maneira reclusa como mais te aprouver!
Sem remédio, tive de aceitar sua proposta. Deixei Lisboa dia 24 de novembro, no navio mercante britânico. Nunca perguntei quem era o capitão da embarcação. Dom Pedro me acompanhou até a nave e me emprestou 20 libras. Se despediu muito cortesmente e até me abraçou, o que tolerei tão bem quanto pude. Nesta última viagem eu não travei contato nem com capitão nem com contra-mestre. Simulando estar doente, enclausurei-me na cabine. No quinto dia de dezembro de 1715, ancoramos em Downs, às 9 da manhã, aproximadamente. Às 3 da tarde eu estava no umbral de minha própria casa em Rotherhith.(*)
(*) A edição original e a de Hawkworth trazem este nome. Como o leitor pôde perceber, entretanto, Redriff era a casa de Gulliver na estória, de modo que pode ser uma simples omissão do autor.
Minha mulher e meus filhos me receberam com a mais cândida surpresa e euforia – eles imaginavam, e com razão, que eu já estava sete palmos sob a terra. Devo confessar, contudo, que à primeira vista eu senti esse contato com eles como repelente, quando muito indiferente. Embora eu tivesse jurado e me obrigado, desde que abandonei os Houyhnhnms, a ser tolerante e condescendente com os defeitos yahoos, tendo ademais resolvido honrar a promessa que fiz a Dom Pedro de Mendez, minha memória e imaginação estará perpetuamente embebida na virtude e nos elevados conceitos houyhnhnmianos. Vencendo essa minha resistência pouco a pouco, acabei por copular com outro de minha degradante raça yahoo (isto é, com minha esposa) e dei origem a novos espécimes, já na metade declinante da vida. Ainda hoje, quando paro para pensar, me encho de vergonha, confusão e um certo horror atenuado por ajudar a propagar essa espécie…
Voltando ao momento em que adentrei meu lar após tanto tempo, minha esposa me abraçou, beijou, etc., e eu, não estando acostumado ao toque desse animal odioso, como que desfaleci, e meus parentes foram me reanimando aos poucos ao longo de cerca de uma hora. Neste momento em que escrevo, já faz 5 anos que voltei. Durante o primeiro desses anos, não suportava a constante presença de minha esposa e das crianças. Seu cheiro era pestilento! Muito menos comer no mesmo aposento que eles!! Até hoje, devido a minhas interdições daquela época, eles mal ousam tocar o meu pão, ou beber do meu copo. Ainda é muito difícil pegar na mão de qualquer pessoa que seja.
Na minha nova vida, a primeira coisa em que gastei dinheiro foi num par de cavalos de raça que criei muito confortavelmente num estábulo próximo de casa. Depois do aroma destes dois animais, o cheiro que mais me agrada é o do meu cocheiro. Sinto que remoço com o cheiro que aquele estábulo exala e deixa em quem passa muito tempo ali!
Meus cavalos me entendem. Eu converso com eles 4 horas por dia. Eles nunca viram rédeas nem sela. Vivem em grande companheirismo comigo mesmo, e em intensa harmonia um com o outro.”
“Caro leitor, confiei-lhe a mais verídica história possível de um viajante nato, que dedicou 16 anos e 7 meses de sua módica existência a explorar novos recantos do globo. Meu estilo é tão rústico quanto a verdade o exige: minha intenção é comunicar um sentimento, não ornar palavras vãs! Ao contrário dos autores deste gênero literário tão questionável, eu poderia lançar mão de recursos narrativos fabulosos para cativar a atenção do público, coisa que não fiz. Narrei com simplicidade apenas os fatos, da forma mais direta que me coube, num estilo sem afetação. A informação, a meu ver, tem de vir antes do entretenimento.”
“Eu desejaria a promulgação de uma lei que estabelecesse que o viajante, antes de poder publicar suas memórias ou diário de viagem, seria obrigado a jurar, diante da Suprema Côrte, que tudo aquilo que ele manda imprimir é a absoluta verdade ou pelo menos aquilo que há de mais veemente e sincero partindo de seu coração e de seu conhecimento e experiência. Uma medida simples e que deixaria o mundo um lugar muito menos traiçoeiro. Muitos escritores, com fins populistas, impõem as piores malversações e forjas de fatos que sempre engabelam o tipo do leitor desatento. Com muito desgosto, fucei de cabo a rabo inúmeros livros de viagem antes de escrever minha obra. Confesso que, quando nem tinha isso em mente, esses volumes me causavam prazer – à minha juventude, plena de tolice. Tendo eu mesmo conhecido de perto quase todo país e quase todos os costumes, tendo tido o privilégio de contradizer pessoalmente muitas das fábulas que chegara a ler, posso afirmar minha autoridade e minha distância destes autores. Não poderia indicar um só, além de mim mesmo, que não me desperte aversão e que não se apoie impudentemente na incrível credulidade humana.”
“Nec si miserum Fortuna Sinonem
Finxit, vanumetiam,
mendacemque improba finget.¹
Sei muito bem quão vil a longo prazo é a reputação de quem escreve sem gênio ou erudição, sem nem, aliás, talento algum, exceto uma boa memória ou uma precisão de publicista ou de capitão de navio. Também sei que escritores de viagem, como autores de dicionários, acabam chafurdando sob o peso dos inúmeros novos exemplares que são preparados todos os anos neste mesmo ramo, sendo o sucesso de uns o mesmo que o esquecimento de tantos outros. Sei o quanto tudo isso são correntes e modas passageiras. É até bastante provável, inclusive, que os viajantes que venham a visitar os mesmos locais por que passei e descrevi, detectando erros e omissões minhas (se houver), e complementando com novas descobertas de autoria própria, obliterem minha fama deste mundo, tornando-me no mínimo dispensável, no máximo completamente ignoto. Mas essa ‘mortificação’ seria o melhor dos mundos para mim, se eu escrevesse apenas por vaidade: mas quem escreve pelo bem coletivo não poderá reclamar de ser ultrapassado no futuro após dar sua parcela de contribuição! (…) Não vou preencher uma linha com os costumes dos Yahoos dessas nações remotas e corrompidas – diria que os menos corrompidos de todos são os brobdingnaguianos. As máximas que coletei em meio a este povo, em moral e política, sobrepassam tudo que se vê na Europa.”
¹ Mesmo se a Fortuna fez Sinona miserável, Ela não o tornou mendaz e improbo.
a Teve papel ativo na invasão, pelos gregos, da cidade de Tróia.
“Foi-me solicitado, assim que minha fama se espalhou, após meu retorno, como cidadão inglês, o relato preciso, a um secretário de Estado, de minhas expedições. A principal alegação para esta abordagem formal é que <se o primeiro que travou contato com estas civilizações é um inglês, então é justa a reivindicação da posse destas terras pela Coroa>. Porém, sem medo de ser censurado, declaro que tenho minhas dúvidas acerca de se a colonização dos lugares que visitei pode trazer qualquer progresso ou mesmo se ela é possível. Nem todos são índios americanos e nem todos são Fernando Cortez! Os liliputianos, para começo de conversa, mal pagariam o investimento: uma esquadra para submetê-los seria uma inútil despesa para o Tesouro. Já quanto aos brobdingnaguianos, minha pergunta é se qualquer tentativa nesse sentido é minimamente prudente ou segura! Além disso, será a marinha inglesa páreo para as Ilhas Flutuantes sobre nossas cabeças?! Não sentiríamos vertigens mesmo que <os conquistássemos>? Os Houyhnhnms me parecem os menos preparados para se defender militarmente. No entanto, fosse eu ministro de Estado, jamais aconselharia uma tal expedição – invadi-los!!! Sua prudência, consenso interno, coesão social e adaptação ao meio, despojo das preocupações fúteis e falta de temor, seu amor pátrio, seriam talvez substitutos mais do que perfeitos para a inocência na arte militar. Imaginem 20 mil deles colidindo de frente com uma armada britânica! Furando nossas fileiras, capotando nossas carruagens, esmagando os crânios de nossos infantes com seus sólidos cascos até serem transformados em papa! De fato penso que os Houyhnhnms merecem o adágio atribuído a Augusto César: Recalcitrat undique tutus (Recalcitrância onipresente é segurança).
Ao invés de propostas insolentes de colonização deste paraíso na terra, eu desejaria a inclinação da Coroa por enviar uma delegação diplomática solicitando que os Houyhnhnms, quem sabe, se dispusessem a perder alguns de seus indivíduos mais pacientes para nos ensinar e nos civilizar, para transformar a Europa e ensiná-la, finalmente, pela primeira vez, as bases da honra, justiça, verdade, temperança, espírito público, resiliência, bravura, castidade, amizade, benevolência e fidelidade. Todas as virtudes que nomeamos em todas as nossas línguas que se podem encontrar na literatura moderna ou também na antiga, em todas essas os Houyhnhnms se sobressaem. Com minha parca erudição, é o que posso com certeza afirmar.”
“eles matam duas ou três dúzias de nativos, trazem outras tantas nos navios, obviamente na base da violência, como amostra grátis; ao voltar para casa são perdoados. E a colônia conquistada ganha a bênção e o direito divino. Naves são novamente despachadas à primeira oportunidade. Os autóctones são, então, conduzidos à destruição inexorável. Seus monarcas são torturados até revelarem a localização de seu ouro; o monopólio sobre as riquezas daquela extinta nação é imediatamente concedido para que nos banhemos no sangue de inocentes, lição de crueldade e luxúria incomparável!”
“Mesmo assim, a descrição desse processo escravizador e desumano não parece afetar a auto-estima britânica, que deveria ser o exemplo do mundo em termos de sabedoria, delicadeza e imparcialidade ao implantar Colônias! Seus dons liberais no avanço da religião e da educação; seus devotos cabeças na propagação da cristandade; sua precaução em habitar a terra de vidas pacatas e tementes a Deus. Enfim, deveria partir deste Reino, deste Império-Mãe da humanidade, a iniciativa no emprego da justiça e na exportação de um modelo de administração civil impecável para todas as colônias incivilizadas do globo terrestre, sem se deixar conspurcar ou corromper pelos barbarismos estrangeiros. Para corar, por assim dizer, oportunamente, todo este estado de coisas, a Grã-Bretanha deveria delegar aos homens mais judiciosos de todos, interessados exclusivamente na felicidade geral, a missão de ser os representantes da Rainha e do Rei nestas paragens remotas, nestes recantos tão distantes da metrópole!”
“E no entanto, se aqueles que realmente cuidam destes assuntos julgarem que cometo uma irresponsabilidade, estou disposto a me render, baixar a cabeça e sofrer o jugo de sua Lei. Mas jamais direi uma mentira: nenhum europeu pisou nestes países antes de mim. Se os habitantes de cada um destes reinos tiver voz, eles confirmarão o que digo. Claro que essa primazia quiçá possa ser também atribuída aos dois Yahoos lendários que foram vistos no topo de uma montanha no País dos Houyhnhnms. Eis a única exceção que eu admito.”
“Semana passada comecei a autorizar minha mulher a sentar comigo para jantar, mas na outra ponta da mesa, por enquanto. E dei-lhe a devida vênia para responder (com concisão) as perguntas que eu a dirigir, se estiver no humor.”
DO EDITOR AO PÚBLICO (POSFÁCIO: Problemas de família!) (tal qual na 1ª edição da obra)
“O autor destas Viagens, o Senhor Lemuel Gulliver, é meu mais antigo e íntimo amigo. Há algum parentesco entre nós do lado materno, inclusive. Cerca de 3 anos atrás, o Senhor Gulliver, cansado de receber curiosos em sua habitação, em Redriff, comprou um pequeno naco de terra, com uma casa não-luxuosa, mas confortável, nas proximidades de Newark, Nottinghamshire, seu condado de nascença. Agora o Senhor Lemuel vive mais afastado dos homens do que nunca, pelo menos enquanto não esteve em suas viagens. Apesar desse retraimento social, meu primo algo distante não é por isso menos querido pelos seus vizinhos.”
“Antes de deixar Redriff, ele deixou-me em posse dos referidos papéis, um relato de suas viagens pelo mundo, dando-me a liberdade para fazer com eles o que eu bem entendesse. Eu li suas memórias com esmero, três vezes.” “Há um indistinto ar de verdade por toda a obra. O próprio autor foi tão reconhecido por seus iguais como sendo uma pessoa veraz que se tornara uma espécie de provérbio entre seus vizinhos de Redriff, quando qualquer um afirmava alguma coisa, que tal coisa era tão verdadeira como se o Senhor Gulliver a tivesse dito.”
“Esse volume seria pelo menos duas vezes maior, se eu não tivesse tomado a iniciativa de suprimir trechos inteiros, inúmeras passagens, diria eu, referentes a ventos e marés e todas essas coisas chatas… Ninguém quer saber que clima fazia durante o trajeto, ou qual o ângulo do navio em relação a não sei que objeto! Como nos diários de bordo dos capitães, redigiu-se, nos manuscritos originais, com precisão milimétrica, cada procedimento, como o que se faz diante da ocorrência de uma tempestade, naquele linguajar técnico dos navegadores. Longitudes, latitudes, graus isso, graus aquilo, abundam. Temo que o Senhor Gulliver possa ter se arrependido de conceder-me liberdade para mexer em sua papelada, mas, enfim, sigo minha consciência.”
“Se minha ignorância em assuntos marítimos pode ter me levado a cometer erros e omissões, digo, pois, que me responsabilizo abertamente por essas deficiências. Se qualquer viajante vier a apresentar a curiosidade pela versão integral desses relatos, como haviam sido deixados pela pena do escritor, sem minha intervenção, eu terei a bondade de atender essas pessoas.”
Richard Sympson
CARTA DO CAPITÃO GULLIVER A SEU “PRIMO” SYMPSON
“Espero que você esteja pronto para admitir publicamente, quando de oportunidade, que por seu imenso e assíduo sentimento de urgência você me convenceu a publicar um relato muito vago e impreciso de minhas viagens, com, entretanto, a promessa de que minha falta de estilo seria consertada por jovens senhores acadêmicos, assim como fizera meu outro primo Dampier, após aconselhamento meu, em sua obra intitulada Viagem ao redor do mundo.¹ Porém, diferente do que você diz no começo do posfácio, não lembro de ter-lhe dado poder total para omitir trechos de minha narrativa, e muito menos para fazer interpolações. Sendo assim, quanto às últimas, eu abdico formalmente mediante esta comunicação de qualquer responsabilidade de autoria nos casos em que foi o editor quem escreveu pela minha pena! Devo citar, ilustrativamente, um parágrafo inteiro sobre sua majestade, a Rainha Ana, cujo nome é sinônimo da mais pia glória: embora a reverencie e a estime mais do que qualquer ser humano, vejo que o editor se excedeu ao enaltecer tanto um bípede, em cotejo ao meu mestre Houyhnhnm. (…) Sendo assim, você me fez falar a coisa que não era. E também faço referência à academia dos projetistas, e a inúmeras outras passagens – parece que no último quarto do livro é pior! – dos meus diálogos com o mestre Houyhnhnm. Ou você omitiu circunstâncias materiais importantes ou fez questão de mutilar meus pensamentos ou desfigurá-los de tal forma que o desiderato tornou-se irreconhecível até para mim mesmo.”
¹ Mais um exemplo do que poderíamos chamar de proto-derrubadas da quarta parede promovidas por Swift, ao trazer fatos do mundo real para prestar ainda mais realismo a sua prosa: Dampier completou a circunavegação do globo pelo menos 3x e realmente registrou seus achados numa obra com este título.
“Você poderia fazer o favor de explicar como uma coisa que eu disse, tantos anos atrás, a cerca de 5 mil ligas de distância, em outro reino, poderia se aplicar livremente a qualquer dos Yahoos, que, diz-se, em seu conjunto governam o rebanho. Tanto mais que, àquela ocasião, eu mal temia ou mal pensava na possibilidade infeliz de voltar a estar entre eles! Não tenho eu muitas razões de queixa, quando vejo esses mesmos Yahoos sendo puxados por Houyhnhnms em veículos, como se estes não passassem de brutos, e aqueles chegassem a criaturas racionais? Para evitar visão tão monstruosa e mesquinha, entre outros motivos, é que eu decidi me recolher ao campo!”
“Favor considerar, tanto quanto eu já lhe pedi que considerasse, em prol, como você mesmo diz, do <bem comum>, que os Yahoos não passam de uma espécie de animais completamente incapazes de reabilitação ou de aperfeiçoamento via preceitos morais: assim está provado. Porque vê-se que, em vez de um brusco cessar de todos os abusos e corrupções, ao menos nesta pequena Ilha, como eu teria meus motivos para suspeitar, vê-se, dizia eu, após 6 meses do escândalo que foi a publicização do meu livro, que nada mudou; não veio ao meu conhecimento uma só notícia de <efeito favorável> após a divulgação de minhas boas intenções. Como estou retirado no campo, portanto, peço-lhe que me envie, por carta, o informe do fim dos partidos e facções, da justiça imparcial dos juízes, da modéstia e honestidade dos advogados – com tinturas de bom senso –, da transformação desse sórdido bairro londrino chamado Smithfield numa praça para piqueniques, com muitas árvores e uma biblioteca cheia de livros de boas leis em detrimento do pelourinho de execuções hipocritamente ladeado por igrejas góticas, que é o que lá se encontra hoje, da verdadeira nobreza na formação de nossos nobres sem-caráter, do banimento dos atuais médicos, da virtude, honra, sinceridade e bom senso das Yahoos-fêmeas, das côrtes daninhas e torrentes de ministros varridos para sempre, da inteligência, presença de espírito e mérito finalmente recompensados da forma que merecem, da condenação à morte por inanição de todos esses espalhadores de desgraças em prosa chamados jornalistas (mande-lhes comer seu próprio algodão se estiverem famintos! mande-lhes secar seus potes de tinta, se estiverem com sede!); deixe-me saber de todas essas coisas, se um dia elas vierem a ocorrer!… (…) 7 meses, creio eu, seria tempo mais que suficiente para corrigir todo vício e tolice a que os Yahoos são sujeitos, se, e somente se, sua natureza fosse de fato minimamente capaz de aprendizado e inclinada à sabedoria!”
“Leio, ainda, que sou acusado de refletir sobre pessoas de altos cargos sobre quem eu não teria nada a dizer; acusado de degradar a natureza humana! – que natureza humana?, sou aqui obrigado a contestar –, e de difamar o sexo frágil!! Conquanto essas críticas não me venham em uníssono, afinal o bando dos escritores é sempre desunido e cheio de desavenças de opinião, e alguns deles, em vez de me atacarem por dizer o que digo, preferem se negar a acreditar que este livro é de minha pena, i.e., que eu tenha sido o autor de minhas próprias viagens! Para estes, eu achei ou roubei estes escritos de alguém ou algum outro lugar. Mas, de acordo com uns terceiros, eu não só escrevi As Viagens de Lemuel Gulliver como eu escrevi uma outra horda de livros, que eles inclusive se dão ao trabalho de elencar!
Digo que seu tipógrafo foi tão negligente que confundiu a cronologia, havendo trocado as datas de muitas das minhas partidas e regressos! Às vezes nem sequer o ano ele imprimiu corretamente, quem dirá o mês. Seria pedir demais que ele acertasse O DIA! Ouvi dizer que o manuscrito original foi, infelizmente, destruído e que desde a publicação da primeira tiragem não temos mais acesso a seu conteúdo veraz. Eu não me dei ao trabalho de produzir uma cópia antes de enviar-lhe este manuscrito, e portanto ele era o único no mundo. Sem embargo, ainda diante de tamanhos desconsolos, eu lhe enviei uma variedade de correções, as mais importantes, para que você gentilmente insira nos lugares corretos – se, é claro, vier a existir uma segunda edição!”
“Nas minhas primeiras viagens, enquanto ainda jovem, fui ensinado pelos mais experientes marinheiros, e portanto aprendi a redigir como eles. Desde então, contudo, verifiquei que os Yahoos marítimos da nova geração são tão aptos quanto os telúricos para inventar gírias e maneirismos de linguagem, de forma que as expressões que eles empregam mudam de ano a ano.”
“Se a censura dos Yahoos pudesse afetar-me em algum grau, teria eu imensas razões para reclamar. Alguns são tão convencidos e opiniosos que consideram meu livro de viagens como mera ficção ou delírio mental, e foram longe o bastante a ponto de teorizar que os Houyhnhnms e os Yahoos são tão ‘reais’ quanto os habitantes da ilha de Utopia de Thomas More!
Quanto aos povos de Lilliput, de BrobdingRag (como é a correta grafia da palavra, e não Brobdingnag como consta da 1ª edição!) e de Laputa, confesso que nunca me deparei com um Yahoo presunçoso a ponto de questionar suas existências, nem as informações sobre suas culturas que eu tornei públicas. Isso, claro, porque a veracidade tem um poder de convencimento imediato sobre o leitor. Quanto ao meu relato dos Houyhnhnms e Yahoos, se há menos plausibilidade, a culpa não é minha: vejo milhões neste mesmo continente desta última espécie! Nossas diferenças para com os Yahoos do país dos Houyhnhnms podem se resumir a duas: uma é que os urros que eles utilizam à guisa de linguagem soam estranhos a nossos ouvidos; a outra é que não andamos pelados (ou será que eles é que não andam pelados, já que a pelugem deles recobre todo o corpo, enquanto nós precisamos de tecidos para esse mesmo fim?). Eu escrevi sobre os povos que conheci, e sobretudo sobre os Yahoos, para emendar os nossos Yahoos, e não para bajulá-los! Enaltecer com palavras inócuas toda nossa espécie seria mais inconseqüente, para mim, do que os relinchos dos dois Houyhnhnms ‘degenerados’ que eu crio em meu estábulo. Porque estes, a despeito de decaídos em relação aos seus ancestrais, eu ainda consigo educar e corrigir-lhes os vícios até um certo ponto!”
“Concluo que eu jamais deveria ter concebido um projeto tão absurdo como o da reforma da raça Yahoo deste reino. Mas deixe estar, isso era coisa de meu eu idealista de outrora: já deixei estes esquemas visionários para trás, em definitivo.
“The Warring States period (453–211 BCE) is often described as the age of the ‘Hundred Schools of Thought.’ Motivated by the decline of the centralized Zhou regime and the increasing brutality of everyday life, early Chinese thinkers took it as their mission to offer possible solutions to this state of chaos. Their new ideas about the self and its relationships with social and political institutions subsequently found articulation in a growing corpus of literature. This intellectual awakening also produced a growingly sophisticated discourse on the topic of the human body and its cultivation, prompting some scholars to designate the 4th century BCE as China’s ‘discovery of the body’ and as the ‘bodily turn’ in the development of classical Chinese thought.”
“In the Mengzi 孟子, for instance, we find a brief reference to the circulation of flood-like qi as a component of an overarching regimen of moral self-cultivation, but the author’s description of this practice is lacking in detail. Another Warring States text, the Zhuangzi 莊子, contains references to practices that seem meditative in nature: ‘sitting and forgetting’ (zuo wang 坐忘) and ‘the purification of the mind’ (xin zhai 心齋). Both techniques envolve dimming sense perception and discarding emotions and desires in order to achieve an altered state of consciousness, but again, their particulars are not entirely clear. The most detailed account of seated meditation practices can be found in several chapters from the Guanzi 管子, an eclectic text traditionally believed to have been compiled in the state of Qi 齊 in the late Warring States period, most famously in an essay called the Inward Training (Neiye 內業). While not a meditation manual per se, the Neiye does include multiple references to body alignment, breathing exercises, and emptying one’s mind. This has led some scholars, most notably Harold Roth, to argue that the text was a product of a single lineage that held spiritual self-cultivation through corporal practices as its main goal.” “Fortunately, recent archaeological excavations have unearthed a large number of manuscripts that belong to a different literary genre – technical literature. These include medical recipes, prognostication and divination manuals, demon-quelling techniques, ritual instructions, and self-cultivation regimens, which offer us a glimpse into the realm of religious adepts, astrologers, physicians, and diviners, whose writings played a significant role in the shaping of Warring States and Qin-Han intellectual culture.
Two archaeological sites in particular contain a plethora of excavated manuscripts pertaining to the cultivation of the human body. Excavated in the 1970s and 1980s, the tombs in Mawangdui 馬王堆 in modern-day Hunan Province and Zhangjiashan 張家 山 in modern-day Hubei, held multiple technical manuals. Sealed in the early decades of the Han Dynasty (168 and 186 BCE respectively), the dating and authorship of the Mawangdui and Zhangjiashan self-cultivation manuscripts are a matter of scholarly debate. Chemical analysis reveals that the tombs were both sealed in the first half of the second century BCE, but an examination of various linguistic components suggests that the manuscripts might have been produced earlier and copied in different times by different scribes.”
“Widely recognized as a turning point in the study of early China, some scholars have gone so far as to argue that the information contained within the excavated manuscripts requires us to reassess everything we know about early Chinese intellectual history.”
“Authorship, for example, is a highly controversial topic in the study of early Chinese texts. While the provenance and approximate dating of excavated sources can be determined with some degree of accuracy, especially when they are compared with transmitted texts, in most cases these materials do not contain their author’s name.14 Faced with these challenges, contemporary scholars adopt two main approaches. The first, utilized by many of the individuals mentioned above, treats these sources as repositories of ideas, and reads them against the received literature in order to offer a richer account of Chinese philosophy, religion and medicine. The second approach involves putting a greater emphasis on the materiality of excavated manuscripts in an attempt to determine the reasons for their production and the identity of their authors, as well as readers.”
“The term ‘religio-medical marketplace,’ which is currently used to explain the intricate context in which various techniques of healing and self-cultivation were produced, exchanged, and discussed in early medieval China, was first put into use by C. Pierce Salguero in his study of the translation of early Buddhist scripture.”
“Michael Stanley-Baker picks up this term, which he then describes as a field of ‘discursive and economic competition’ comprised of diverse actors attempting to assert the supremacy of their own technologies of cure and salvation over that of their rivals, to analyze the role of therapeutics in the formation of Daoist beliefs and practices in the early medieval period. Stanley-Baker’s work endeavors to go beyond well-heeled categories such as the religion–science dichotomy or the classification of Daoist religion into distinct sects, and to instead investigate the various strategies employed by individual actors to ‘negotiate their ideological, institutional, social and physiological concerns.’”
“Some texts, such as the Lunyu 論語 (The Analects), Mozi 墨子, and the Mengzi, were written almost entirely in dialogue. Others, such as Xunzi 荀子 and the Zhuangzi, embed dialogues between exemplary figures within their philosophical arguments to lend them an aura of authority.”
“The same pattern recurs in the first 4 dialogues of the Shiwen, which all feature the Yellow Emperor asking various advisors general questions about the nature of life and death and the physiological make-up of humans. While his conversation partner in the third dialogue, Cao Ao 曹熬, is not attested in the received literature, the remaining 3 are well-known figures. Various received sources identify the protagonist of the 2nd dialogue, Great Perfection (Dacheng 大成) as the teacher of the mythical Yu the Great, the flood-tamer, including the Lüshi Chunqiu 呂氏春秋(The Spring and Autumn Annals of Master Lü).”
“In the first chapter, ‘Discourse on the Divine Perfection of High Antiquity’ (Shanggu Tianzhen Lun 上古天真論), the Yellow Emperor asks the Heavenly Teacher about the difference in the physiological make-up between the people of antiquity and people today. The following lines refer to the respondent as Qi Bo 岐 伯, leading the Tang dynasty commentator Wang Bing 王冰 to claim that the Heavenly Teacher is simply his title. The close relationship between the Yellow Emperor and Qi Bo, as well as their association with the technical arts, is further attested in the bibliographical ‘Yiwen Zhi 藝文志’ chapter of the Hanshu 漢書 (History of the Han), in the form of a reference to a now-lost text called the Massage[Techniques] of the Yellow Emperor and Qi Bo 黃帝岐伯按摩 and the designation of Qi Bo as one of high antiquity’s foremost masters of recipes and techniques (fangzhi 方技).”
“The use of mythical figures was a common literary technique in early Chinese literature. By presenting their ideas through dialogues between such familiar figures as the Yellow Emperor, Yao and Shun, Rong Cheng, and Ancestor Peng, the compilers of the Shiwen would have made their text more palatable to some educated elite readers. In addition to lending their manuscript a sense of familiarity, this literary device also associated a self-cultivation technique with established figures of authority, some of them already identified in the third and second century cultural milieu with issues of longevity, manipulation of time, and health. This allowed them to pursue their main goal – the construction of a new mode of discourse on the human body that presented the common problems of their target audience, aging men, as treatable conditions.”
PURA ESPECULAÇÃO: “Applying Stark and Finke’s model, I would argue, allows us to see the late Warring States ‘bodily turn,’ namely the emergence of a theoretical discourse on the human body, not as a response to a shift in demand but as a conscious attempt by the technical masters to instigate a shift in supply and break into one of the most lucrative and prestigious market niches – educated affluent male elites.”
“The fact that technical manuscripts were not preserved in the canon, leaves the impression that this was a wholly philosophical discourse. The discovery of the Mawangdui, Zhangjiashan, and other excavated sources, however, allows us to better ascertain the role of masters of techniques in the development of early theories of the human body and its cultivation.”
Wangzi Qiaofu asked Ancestor Peng:
‘Of the qi of man, which is the most essential?’
Ancestor Peng replied:
‘Of the qi of man, none can compare with penile essence. When penile qi is congested and clogged, the 100 vessels produce illness. When penile qi is insufficient, you cannot procreate. Thus, the key for obtaining longevity lies entirely with the penis.’
“Focusing on the male sexual potency and identifying the male sex organ as the key component in the quest of longevity and health can be construed as a calculated move by the authors” Não diga!
The Yellow Spirit asked the Left Spirit:¹
‘Why is it that the yin [the penis] is born together with the 9 apertures and 12 joints, yet it alone dies prematurely?’
The Left Spirit replied:
‘It is not utilized in strenuous activity; when there is sorrow and joy it is not used; it is not involved in drinking and eating. It dwells in deepest darkness and does not see the light of day, yet it is employed in a sudden and abrupt fashion, with no regard to its state of arousal. Unable to withstand the double hotness,² it is therefore severely hurt. Its name is avoided and its body concealed, yet it is employed very frequently and unceremoniously. Therefore it is born together with the body, yet it alone dies prematurely.’
If you are unable to utilize the 8 proliferations and eliminate the 7 diminutions, then, at the age of 40, your yin qi will half itself; at 50, your mobility will decline; at 60, your hearing will no longer be acute and your vision will no longer be clear; at 70, your lower body will wither and your upper body will unravel, your yin qi [virility] will be rendered useless, and mucus and tears will flow out.
¹ “The Yellow Spirit is probably an alternative title for the Yellow Emperor. As for the Left Spirit, received literature does not mention this figure. The title ‘left,’ however, often refers to the senior of a double appointment (outranking ‘right’). The Left Spirit is thus probably a member in the celestial ranks, an advisor to the Yellow Emperor.”
² “The meaning of the term ‘double hotness’ 兩熱 is unclear. Harper [abaixo] believes this refers to the hotness emanating from the two partners during intercourse.
O MESMO PURITANISMO DE SEMPRE: “Drinking and eating as he pleases, the pores and interstices of his skin are glossy and taut, his qi and blood are full and replete, and his body is light and lithe. But if he has intercourse impulsively, he will [be] unable to guide his qi and will fall ill. Sweating and panting, his insides will become feverish and his qi disordered.”
“Why do some age faster than others? Why do some retain their vigor and age gracefully while others wither away rapidly?”
I have heard that there are some things that even sages are unable to understand, only those who have obtained the Way. The culminant essence of Heaven and Earth is born in the indefinite, grows in the formless, and is perfected in the bodiless. He who obtains it can obtain longevity, he who loses it dies young
“In the last few decades, in the hope of capturing the attention of a potentially profitable segment of the population in many countries around the globe, medical experts and pharmaceutical companies began constructing a new discourse of masculinity, portraying the once natural process of aging and its accompanying byproducts as pathological ailments that fall under medical jurisdiction and can be pharmaceutically solved. Age-related decline in testosterone levels, for example, was ‘rebranded’ as andropause, a pathology that requires medical intervention through testosterone supplementation. The same can be said about the new category of erectile dysfunction (ED). Prompted by the initial slow sale of Viagra, Pfizer Pharmaceuticals launched a massive campaign based on the direct-to-consumer model, expanding the original target market share of aging men to include men of all ages by presenting it as a ‘technology of the gendered body,’ a way to transcend our natural biological limitations through bio-medical enhancement.”
“While we know that affluent elites hired scribes to copy manuscripts for their own use, real commercial book trade only began to emerge in the first century AD. The dissemination of the Mawangdui and Zhangjiashan texts was, in fact, highly regulated. According to Harper, receiving such books ‘constituted an initiation which bound the disciple to the physician and sanctified the books, confirming the exclusiveness of the knowledge they contained.’ This is further supported by the fact that the manuals themselves offer very terse instructions, often revealing only half the story. From this we can assume that these texts were meant to be read together with a master in order to be understood and used in everyday practice.”
The reason why people of low social status contract disease is due to hard manual labor, hunger, and thirst. Sweating profusely, they plunge themselves into water and proceed to lie down on the cold earth, not realizing that they should put on clothes.
“In recent years there has been a growing interest in the study of the interaction of China’s religious traditions and the role of Buddhism, Daoism and popular religion in the shaping of medieval concepts of the human body and the development of healing practices. Comparatively little work has been done on the impact of early Chinese religious ideas and practices on this field.” “unlike Buddhism and Daoism, early Chinese religion is a particularly amorphous entity that does not conform to contemporary definitions of religion, as it lacks many of the features modern scholars view as fundamental, such as a canonical set of sacred scriptures, organized clergy or a fixed pantheon. In fact, the label ‘early Chinese religion’ does not refer to a specific empirical singularity. It is mainly used as a heuristic device, a term coined by later scholars to help make sense of a collection of phenomena.” “Fortunately, the discovery and steady publication of excavated manuscripts from the Warring States and Qin-Han periods is expanding our knowledge of early Chinese religion, helping us to construct a richer picture than the one reflected in the received literary tradition.”
Notes
“Harper juxtaposes these individuals, whom he refers to as ‘natural experts and occultists,’ to the masters of philosophy (zi, 子). See Harper, Early Chinese Medical Literature, 10. I have chosen the appellation ‘masters of techniques’ in order to simultaneously stress their close association to the philosophical masters while also emphasizing the diferences between them. I would like to emphasize that by designating these hypothetical agents as ‘technical masters,’ I am not identifying them with the fangshi 方士, translated as ‘masters of esoterica’ or ‘masters of methods,’ who are often mentioned in Han sources. While modern scholars have identified the crucial role of the ideas and practices espoused by the fangshi in the development of Daoist religion, there is no conclusive evidence that links the authors of the Mawangdui and Zhangjiashan manuscripts to the fangshi. For more information, see Raz, The Emergence of Daoism, 39–42, and Arthur, Early Daoist Dietary Practices, 4. For an opposing view, see Nathan Sivin, who argues that this term does not denote ‘a social grouping toward which people align themselves’ but a ‘catchall phrase’ used by authors and bibliographers in a somewhat derogatory manner, attached to agents who did not align themselves with the goals of the state orthodoxy. Sivin, ‘Taoism and Science’”
“The content of the Mawangdui texts suggest that despite their emphasis on coupled practices, they were mainly geared toward male practitioners.”
“The 9 apertures are the eyes (2), ears (2), nostrils (2), mouth, anus, and urethra. The 6 palaces are the large intestine, small intestine, stomach, bladder, gall bladder and a somewhat unclear 6th organ often translated as the ‘triple burner.’ See Unschuld, Huang Di Nei Jing Su Wen, 130.”
Indications (entre ‘’ – artigos)
“For calisthenics, see Kohn, Chinese Healing Exercises: The Tradition of Daoyin and Despeux, ‘La Gymnastique Daoyin dans la Chine Ancienne’. For the role of dietary regimens in self-cultivation, see Arthur, Early Daoist Dietary Practices. For sexual cultivation, see Wile, Art of the Bedchamber.”
Boltz, ‘The Composite Nature of Early Chinese Texts’
Billeter, ‘Étude sur sept dialogues du Zhuangzi’; Cua, ‘The Logic of Confucian Dialogues”.
Pines, ‘Political Mythology and Dynastic Legitimacy’
Liexian Zhuan 列仙傳 (Collected Biographies of Immortals)
Pregadio, Encyclopedia of Taoism
Conrad, The Medicalization of Society
Valussi, ‘Female Alchemy: an Introduction’ Mollier, Buddhism and Taoism Face to Face
LOST é uma alegoria do mal representado pelo desenvolvimento tecnológico. A série retrata quem levaria a melhor caso um embate entre duas forças antagônicas acontecesse em dado tempo e lugar: a força do progresso cego da técnica versus o potencial da humanidade de se redimir dos males que ela mesma criou. Em Lost, essa luta é encarnada por semi-deuses e homens.
O princípio da técnica pura e levada a seus extremos (dominação diabólica da natureza) é representado pelo monstro da fumaça. O princípio do homem harmonizado com a natureza é representado pelo invisível Jacob. Esses são apenas dois dos avatares sob os quais essas “formas de vida” surgem na tela ao longo de vários episódios e temporadas. O que causou muita dissensão e desinteresse do público que acompanhava a série em seus começos é a famosa “trilha de mistérios”, que se acumulava e complexificava, e parecia não levar o espectador a lugar algum. Os mais céticos chegaram a pensar que a série não passaria de uma bola de neve que arrolaria mistério pós-mistério sem coerência ou inter-relação, com o fito de prender a audiência o máximo possível, sem resolver qualquer enigma satisfatoriamente, até ficar escancarado, ao final, que tudo não passava de uma “pegadinha gigante” ou do maior golpe de marketing da história recente de Hollywood.
De fato, a paciência é uma virtude quando se trata de absorver o que Lost tem a oferecer. Podemos dizer que a compreensão de todas as 4 primeiras temporadas só advém posteriormente a ver e rever a quinta e a sexta, onde os eventos mais arcaicos, os catalisadores de todos os outros, que envolvem os personagens mais consagrados e os favoritos do público, são finalmente revelados.
Por mais versátil e aberto a interpretações que permaneça até os dias de hoje, Lost, que encerrou em 2010, não transcende, na essência, a dualidade com que eu abri este ensaio: yin-yang, branco x preto, bem x mal (num sentido muito menos maniqueísta do que o apreciador de séries ocasional gostaria de digerir)…
As duas entidades em conflito, cuja infância é mostrada quase no “sopro final” das mais de 100 horas de teledramaturgia, são dois irmãos gêmeos nascidos em tempos imemoriais na mesma Ilha onde tudo em Lost acontece (e para onde convergem todas as ações até de quem ainda não chegou à Ilha, mas cujo destino está atrelado a ela). Um é Jacob e representa a luz; o segundo não foi batizado (no sentido estritamente lingüístico do termo), talvez porque quem DEU-LHE A LUZ não o esperava, e representa as trevas, embora seus papéis ainda não estejam CLAROS até os incidentes de suas vidas adultas que irão antagonizá-los de uma vez por todas. É clara a evocação do relato bíblico de Esaú e Jacó, embora este Esaú não tenha nome. Eles têm uma mãe, adotiva, cujo favorito é sem dúvida “Esaú”. Mas ele perderá os seus direitos de primogenitura assim que der vazão a seu excesso de curiosidade pelo mundo exterior e se tornar obcecado por uma só idéia: escapar da Ilha.
O santuário paradisíaco-mágico que contém uma espécie de manancial de energia de potencial ilimitado (conhecida pelos espectadores mais simplesmente como a “luz dourada”), sendo o núcleo aparente do milagre da vida na Terra, que é o lar destes dois irmãos, só ocasional e involuntariamente recebe visitas. Quando um navio cheio de arquitetos e engenheiros naufraga na Ilha, o homem de preto, alcunha usada para “Esaú” na série, a eles se alia e tenta construir uma espécie de Torre de Babel, até ser frustrado pela própria mãe adotiva, que já o havia prevenido. Ela incendeia toda a construção; o homem de preto se vinga matando-a. Jacob, pouco antes, havia dela recebido o dom da imortalidade ao beber da água que ficava próxima da fonte principal da luz dourada, o “coração da Ilha”. Ao descobrir o matricídio do irmão, ele quebra o tabu que lhes fôra imposto, o de não pisar neste coração, que ao mesmo tempo que é sagrado está ligado a uma maldição. Na verdade, irado com seu gêmeo, Jacob faz algo ainda mais insidioso: joga seu irmão inconsciente no córrego que transporta o corpo ao Coração. Desse modo, ele faz seu irmão cometer o interdito, e não ele próprio, assim como pune-o pela ofensa de sangue que ele cometera, sem sujar as mãos da mesma maneira. O homem de preto também obtém, por esse método, a imortalidade, mas ele dificilmente se teria sentido abençoado: ele ficou preso no que os visitantes póstumos da Ilha chamam de monstro da fumaça, ou em cadáveres, por uma dada quantidade de tempo, que ele tem a faculdade de reanimar, incorporando também as lembranças do falecido. É esta a maldição para quem cai no poço da água dourada.
Podemos interpretar os acontecimentos da juventude de Jacob e do “monstro” como a continuidade, em ares mais sérios, de seus jogos de infância. Havia um jogo de tabuleiro, de pedras brancas e pretas, que eles sempre jogavam, obviamente com Jacob representado pelas peças brancas e seu irmão sombrio pelas peças negras. Não fica claro se eles conheciam as regras e se realmente sua primeira partida já teve um fim – provavelmente não. Como semi-deuses (ou seres que, embora não onipotentes, não podem morrer), eles podem “criar o próprio jogo”, estabelecer regras que devem ser iguais para ambos, a fim de determinar um vencedor justo. Como tampouco eles podem se ferir mutuamente, tiveram de imaginar soluções para esse impasse, para que sua desavença não fosse eterna. Os fiéis da balança seriam os seres exteriores. A eles caberia decidir a cor das peças vitoriosas. Ficou estabelecido que qualquer um de fora poderia matar Jacob. Que, em compensação, o monstro da fumaça não poderia matar os “candidatos” (tanto quanto eles não podem causar qualquer dano ao monstro). Que a única forma do monstro ganhar o jogo seria se os “candidatos”, trazidos à Ilha para escolher-se o sucessor de Jacob, acabassem, em conseqüência de suas próprias ações, se matando, até não sobrar mais nenhum. Jacob estaria proibido de explicar essas regras a qualquer candidato até bem perto do fim. O monstro da fumaça só poderia realizar seus objetivos – assassinar um por um dos forasteiros de sua Ilha – de modo indireto, falando pela boca dos outros, alimentando complôs, mostrando-se convincente. Mais do que um jogo entre as duas deidades, é acima de tudo uma aposta: Jacob acredita que, apesar de todas as suas debilidades, o homem seja capaz de se responsabilizar por seus atos e de agir heroicamente, sem pedir nada em troca, quando a situação o exigir; o monstro da fumaça acha que o ser humano tem a natureza corrompida e está por isso condenado à extinção; e tudo o que o homem de preto enfeitiçado quer é desabitar a Ilha e privá-la de sucessores em potencial para o cargo de guardião da luz. O que ele faria do lado de fora, uma vez liberto, nunca é mais do que aludido na série, mas essa possibilidade é de alguma forma encarada por personagens-chave como o fim prático da civilização ou o Apocalipse.
A aposta dos irmãos prossegue sem grandes novidades até os séculos XX e XXI. Embora a Ilha sempre receba visitas, nenhuma delas até lá pertence à geração dos “candidatos”, e aqueles que pisam no santuário ou se tornam parte permanente do povo que habita a Ilha e serve a Jacob, ou acabam por satisfazer a sede de sangue do monstro, que adora aparecer diante de quem se perde na selva.
Um resumo da quinta temporada poderia ser o seguinte:
Na era dos satélites, na Guerra Fria, os americanos mapeiam a superfície terrestre e conseguem encontrar a Ilha, em algum lugar não-especificado do Pacífico Sul. O exército americano a utiliza como armazém para descarte de material nuclear, incluindo uma bomba de hidrogênio. O lugar também se torna a sede de um experimento social de vanguarda chamado Iniciativa Dharma, patrocinado por magnatas de ideário utópico. Eles chegam a compreender a singularidade do local e reunir cientistas da mais alta estirpe, gente que acredita em fontes de energia limpa e eternamente renovável (muitas décadas à frente de seu tempo!), em propriedades medicinais do eletromagnetismo e também no conceito (mais do que manjado para a ficção científica de nosso tempo) chamado “viagem no tempo”. A aparição súbita de alguns indivíduos “estranhos”, que não surgiram como os outros – sorteados e trazidos do “mundo civilizado” para viver uma “vida alternativa” -, mas que pareciam ter se infiltrado na Dharma com uma agenda própria, desencadeia a explosão do artefato da bomba H que estava aterrado no acampamento do “povo do Jacob”, que não se confunde com a Iniciativa Dharma. Esses “estranhos” eram alguns dos “candidatos”, que na realidade, propriamente falando, ainda estavam a 27 anos de pisar pela primeira vez na Ilha (por intermédio das “ocorrências fabulosas” explicadas a seguir) – Ilha que cada um deles só pôde conhecer porque quisera o destino que ali caísse um avião, no meio do vôo comercial nº 815 da Oceanic Airlines, que ia de Sidney a Los Angeles, em 2004.
Nenhuma explosão de bomba nuclear aconteceu de fato, mas desencadeou-se um gatilho energético para que os candidatos, perdidos no tempo, pudessem voltar à época presente – todo o plano fôra teorizado por um físico brilhante, que, em meio aos descaminhos da vida, fôra parar na mesma Ilha, poucos meses depois do desastre aéreo, ainda em 2004, como membro de uma “expedição científica”, tendo ele, que não era um dos candidatos de Jacob, viajado no tempo junto com o grupo. A teoria desse físico, Daniel Faraday (o Daniel Faraday de LOST, não o Daniel Faraday da Física real), mostrou-se parcialmente correta: embora aqueles que se encontravam fora de seu fluxo temporal tenham sido devolvidos à “linha do tempo de origem (já em 2007)”, sua concepção de que “a explosão por fusão liberaria tanta energia que cancelaria todos os eventos que haviam levado à queda do Oceanic 815, tornando possível que a viagem terminasse no aeroporto de Los Angeles com todos a salvo, apagando da história do universo as memórias e lembranças de qualquer laço criado entre aqueles passageiros a partir da queda do avião” estava crassamente equivocada. Não só não “se cancelou nada”, porque a linha do tempo é uma só, e tudo que os candidatos fizeram na década de 70 realmente impactou no estado das coisas de 2004-2007, sendo inclusive determinante para sua própria queda na Ilha, como Faraday pagou pelo erro de cálculo com a própria vida de uma maneira um tanto sofocliana: morrera nos braços de uma versão bastante jovem da própria mãe, Heloise Hawking, proferindo a frase: “Você sabia!… Você sabia e mesmo assim você me mandou… para morrer aqui!”.
Heloise e Charles Widmore eram dois jovens ingleses que haviam se incorporado aos discípulos de Jacob. Seu conhecimento da “aposta” devia ser algo limitado, mas eles sabiam que deviam dedicar suas vidas à causa de Jacob, que contava com o auxílio de pessoas abnegadas para realizar sua sucessão na hora certa. Heloise estava grávida quando matou a versão envelhecida de seu filho Daniel, que para ela não passava de um estranho quando fôra baleado. Daniel trazia consigo um diário. Este diário explicava todos os princípios da viagem no tempo e continha anotações pessoais dos últimos anos da vida de Daniel. Sem dúvida a viagem no tempo era real, e aquele era o filho de Heloise e Charles. Através do diário, de forma privilegiada, o casal veio a conhecer partes do plano de Jacob que ainda não haviam se consumado, até 2004. Dentre as informações coletadas, havia uma intrigante: “Se algo der errado, Desmond é a minha constante”.
Por razões que não são inteiramente descobertas, Heloise e Charles se separam. Desde a “explosão” da bomba H, nenhuma gravidez na Ilha conseguia ser levada até o fim. Heloise volta à Inglaterra para dar a luz a Daniel. Algum tempo depois, Benjamin Linus (que também havia crescido na Ilha, tornando-se um dos seguidores de Jacob de mais alta hierarquia) expulsa Charles, seu desafeto, da Ilha. Apesar disso, tanto Heloise quanto Charles continuam, cada um a sua maneira, se devotando ao futuro da Ilha e aplainando o terreno para a chegada dos candidatos. Isso incluía, naturalmente, a educação do próprio filho de ambos, Daniel. Desde muito novo ele, que possuía talento musical, foi forçado a estudar para desenvolver seu gênio matemático e em seguida se formar com excelência em Física na Universidade de Oxford. Heloise comprou-lhe um diário, idêntico ao diário que Daniel lhe havia deixado quando morreu. Daniel lecionou por alguns anos na cadeira de física da universidade. Foi num desses dias que ele recebeu a visita de um homem chamado Desmond Hume, que alegava estar transitando entre dois tempos, ora na mente do seu eu-atual, ora na mente de uma versão dele mesmo envelhecida cerca de dez anos. A princípio, Daniel pensou que fosse um trote aplicado por alguns de seus alunos descrentes de suas teorias, até que ele pôde comprovar a veracidade do que Desmond dizia e ajudá-lo a sair de seu transe, que acabaria levando-o a um derrame cerebral se durasse mais tempo. Daniel nunca mais viu Desmond no mundo exterior. Charles, tornado um bilionário, financiou anonimamente a carreira do filho, recrutando-o para se juntar à população da Ilha em 2004. Embora fosse um ato doloroso e estapafúrdio, Heloise e Charles compreenderam que o mundo dependia de que tudo sucedera, dali em diante, de forma que a viagem no tempo dos candidatos e de seu próprio filho fosse tornada possível, para que os eventos que eles viveram no passado ocorressem tais e quais. A razão é que sem uma coisa não poderia haver a outra, e os candidatos de Jacob morreriam presos em viagens temporais e deixados à mercê das maquinações do monstro da fumaça.
Outra coisa que o industrial Widmore sabia era que uma hora ele e um homem chamado Desmond cruzariam seus destinos. Desmond se tornou o namorado de Penelope, a filha de Charles de um segundo casamento. Ele procurou Widmore para pedir a mão de sua filha em casamento. Sabendo que uma questão bem maior estava em jogo, Charles tratou Desmond friamente, induzindo-o a abandonar Penelope (Penny), até que ele provasse a seu sogro, a sua amada e a ele mesmo que ele, um reles desempregado, era digno da fortuna de Penny Widmore. Sem falar que Desmond, enquanto ainda se preparava para oficializar seu noivado com Penny, antes de ter sido completamente desencorajado por Charles e de tomar sua drástica resolução, foi surpreendido por uma enigmática e soturna Heloise, recepcionista de joalheria, que lhe predicou: “Seu destino não é ficar com ela, é ir parar numa Ilha onde apertará um botão para salvar o mundo”. Ele intuía o peso da veracidade dessas palavras, embora isso não tornasse seu conteúdo menos absurdo. Sua sensação de culpa se intensificou, e isso ajudou Desmond a dar seu salto de fé: terminar o relacionamento com Penny para “se provar” diante dos olhos do mundo, e provar para si mesmo que poderia alterar o seu destino, que até ali tinha sido o de “um homem covarde”.
Levado a pensar que a enorme disparidade de classes era o real motivo da aversão de Charles a si mesmo, Desmond não tinha elementos para desconfiar que seu quase-sogro agira teatralmente. Quem acompanha LOST também só conhece os reais fundamentos desta “profunda antipatia” nos últimos capítulos. Os conglomerados empresariais de Widmore patrocinam uma corrida de regatas ao redor do mundo. Desmond se prepara para participar da competição com o objetivo de vencê-la para pedir a mão de Penny e ser aceito. Ele consegue que lhe doem um veleiro e começa a treinar. Não surpreendentemente, dadas as circunstâncias, ele acaba ficando à deriva durante uma tempestade e vai parar na Ilha.
Ele acorda dentro de uma escotilha e é avisado pelo seu salvador que fôra encontrado na areia, que “o mundo acabou” e que só sobrou este pedaço de terra em que estavam. Que ele devia tomar regularmente uma vacina, pois infelizmente foi exposto por alguns minutos às toxinas do ar da superfície, que se tornou irrespirável. Toda vez que um dos dois precisasse sair – o que só acontecia de 3 em 3 meses, para reabastecer os suprimentos da despensa, lançados de pára-quedas num ponto muito próximo à escotilha, por um avião, que sobrevoava aquela área, pontualmente e todas as vezes, conforme o cronograma do reabastecimento de suprimentos -, deveria usar uma roupa própria para evitar ser infectado. Para evitar o acúmulo e a descarga do excedente de energia eletromagnética represada num bolsão, era necessário digitar um código numérico a cada 108 minutos num terminal de computador. Como a tarefa é ingrata e sempre interrompe o sono do digitador, ela era feita em duplas, até que o parceiro anterior do homem que resgatou Desmond, Radzinsky, se suicidou. Radzinsky fizera parte da Iniciativa Dharma e testemunhara “o incidente”: após perfurações mal-feitas, esse reservatório energético de eletromagnetismo se tornou permanentemente instável, e no mesmo dia em que estruturas começaram a desabar e implodir, uma bomba H foi detonada, sem que se detectasse uma explosão. Além disso, vários dos envolvidos, que descobriram ser clandestinos no projeto Dharma, desapareceram por completo após a detonação. De alguma forma, a bomba H ajudou a estabilizar a situação e a escotilha para administrar a liberação em pequenas doses da energia eletromagnética pôde ser construída antes de um novo desastre.
Com o passar do tempo, os seguidores de Jacob terminaram o expurgo dos membros da Dharma, mas Radzinsky e seu parceiro, que deviam cuidar desta estação eletromagnética em especial, continuaram trancados executando seu serviço, saindo apenas para repor a despensa. Radzinsky ficou louco e atirou na própria cabeça enquanto seu colega dormia. Este homem, que depois de anos conseguia um substituto para seu colega morto, ensinou mais uma coisa a Desmond: “Se você não quiser passar a vida inteira apertando botões, e também não quiser que o mundo desapareça por sua causa, existe uma alternativa: girar a chave de segurança que cessará a instabilidade do bolsão, mas desintegrará aquele que girar a chave”. O homem tinha dito a Desmond que “não havia veleiro”, que ele devia ter sido feito em pedaços, pois Desmond foi encontrado já na praia. Secretamente, porém, ele se ausentava durante os turnos em que Desmond digitava o código no computador para continuar reparando o veleiro, que ele usaria em pouco tempo para tentar escapar da Ilha. Um dia Desmond viu um rasgão na roupa de quarentena de seu companheiro e decidiu segui-lo, descobrindo o segredo. Os dois brigaram do lado de fora da escotilha. Desmond se sentia enganado ao constatar que não havia contaminação do ar nem quarentena. Mas Desmond empurrou o colega, que bateu a cabeça num rochedo pontiagudo, matando-o acidentalmente. Sem tempo para chorar a morte de seu único companheiro ou enterrá-lo, Desmond correu de volta à escotilha para digitar o código no prazo de 108 minutos, que estava no fim; ele cumpriu a operação com retardo de alguns segundos. O acúmulo de energia começou a torcer as estruturas metálicas, mas a inserção do código foi lida pelo computador e a distribuição da energia pelo bolsão foi normalizada. A sobrecarga foi aliviada; no entanto, o acúmulo de energia por aqueles breves segundos foi o suficiente para derrubar um avião que sobrevoava a Ilha no exato instante da anomalia energética: o vôo da Oceanic 815.
Desmond ainda permanece digitando o código sozinho por algumas semanas; quando está prestes a sucumbir e suicidar-se, abre o livro de Dickens que levava sempre consigo, e que devia ser sua última leitura antes de morrer, e encontra uma carta de Penny, que nunca lera antes, em que se lia: “Para seguir vivendo, alguém só precisa ter uma pessoa no mundo que o ame”. Ele desiste de tirar a própria vida. Mais algum tempo passa e os sobreviventes da queda do vôo 815 conseguem abrir a escotilha, que não tem portas por fora, usando dinamites. Desmond se aproveita para fugir, ensinando o código para seus “sucessores”; ele embarca em seu veleiro, que ainda o aguardava na costa, mas algumas semanas depois reaparece no mesmo litoral. Ele diz aos sobreviventes acampados na praia que navegou o tempo todo numa só direção. O que corroboraria a visão de seu ex-companheiro de escotilha de que o mundo já havia acabado, e que a única coisa sobre as águas era a Ilha.
Enquanto se embriagava, desconsolável, na noite em que voltara à terra firme, Desmond é interrogado por John Locke, um dos candidatos e tripulante do vôo. John acha que toda a história de apertar o botão para salvar o mundo era um experimento psicológico da Iniciativa Dharma. Desmond aceita ir com ele até a escotilha no dia seguinte, render o homem que havia ficado para digitar o código e esperar a contagem regressiva zerar para ver o que aconteceria. Nos segundos finais, lembrando o que aconteceu no dia em que o avião caiu, Desmond desiste do plano de John; mas John destrói o computador que era usado para inserir o código. Desmond sabe que existe um bolsão eletromagnético que irá explodir e que a única forma de salvar os demais será se sacrificando: ele gira a chave de segurança, que guardava dentro de seu livro de Dickens, o céu muda de cor, depois um intenso clarão e um zunido de alta freqüência deixam todos na Ilha desorientados e incapacitados por alguns instantes. Desmond não morre, apesar de ter suas roupas desintegradas e de a escotilha ser totalmente implodida, deixando uma enorme depressão no solo, como se uma construção jamais tivesse existido naquele lugar. O que nem Desmond percebeu naquela hora é que ao girar a chave ele se tornara uma verdadeira chave de segurança humana, o único ser humano imune aos efeitos de radiação eletromagnética, não importa a intensidade – exatamente o plano de Jacob desde o início (e conseqüentemente o de Heloise Hawking e Charles Widmore também) -, além de adquirir com isso um senso singular da coexistência de seu passado, presente e futuro fundidos a sua consciência, “dom” que seria potencializado a cada nova exposição a correntes magnéticas.
E embora este ensaio não se destine a resumir todo o enredo e saturar o leitor com todos os spoilers imagináveis, faz-se necessário, ainda, contar apenas alguns eventos imediatamente subseqüentes, para aparar as arestas do tema viagem no tempo.
A velha rixa pessoal entre Benjamin Linus e Charles Widmore sobre quem seria o líder humano do time de Jacob estoura no momento em que o segundo desvenda as coordenadas da Ilha e ancora um navio nas suas proximidades. Enquanto isso, os sobreviventes do vôo 815 se preparam para sua chegada, dividindo-se em dois grupos: o daqueles que crêem que quem está no navio são assassinos que querem exterminar a população da ilha (capitaneados por John Locke, influenciado por Benjamin) e o daqueles que querem desesperadamente ser resgatados e acreditam que, bem-intencionados ou não, os tripulantes do navio são sua melhor chance de escapar da Ilha desde a queda do avião (liderados por Jack Shephard, que apesar de não ter nome de filósofo ou cientista tem um sobrenome bem sugestivo). Nêmese ou resgate? Na realidade, nenhum dos extremos: o único objetivo da expedição dos mercenários pagos por Widmore era arrancar Benjamin Linus da Ilha; mas seus meios não eram nem um pouco comedidos. Encurralado, Benjamin decide usar um último recurso ensinado por Jacob: “girar o eixo da Ilha”, um mecanismo imemorial instalado num poço capaz de transportar a Ilha para novas coordenadas, a fim de ocultá-la novamente dos radares do mundo exterior. O preço a pagar é que quem gira a “manivela subterrânea” é automaticamente exilado, ressurgindo num dos portais que servem como saídas, espalhados pelos continentes da Terra. Benjamin desloca a Ilha e volta ao mundo exterior, mas nesse momento ela começa a viajar temporalmente também (além de fisicamente), como um cavalo fora de controle ou um disco que quica sobre a vitrola e que não se permite ser lido, o que deixa todos os seus habitantes num estado pânico de viajantes do tempo à deriva, sem um referencial que os possa salvar. Assim como Desmond era a constante de Faraday (que veio no navio de Widmore, embora nada tivesse a ver com o esquadrão armado cuja missão era procurar e trazer Benjamin sob custódia) – e Penny a de Desmond -, a menos que cada um encontrasse sua própria constante (uma referência situada no mundo exterior que realocasse sua consciência no espaço-tempo devido ou de origem, o único em que se poderia sobreviver), após um certo número de viagens no tempo estaria fadado a morrer. O intervalo das viagens se tornava cada vez mais curto, inviabilizando qualquer tentativa dos “viajantes à deriva” manterem a calma ou entenderem o que se passava, muito menos de acessar uma suposta constante. Sobrou a John Locke, o único que sabia o que Benjamin havia feito, a última cartada, da qual no entanto ele não estava muito seguro: girar a manivela da Ilha uma vez mais. Ele também acaba exilado, e a Ilha, por fim, pára de saltar para trás e para frente no tempo, i.e., fixa seus “passageiros” num tempo; este tempo, porém, é a Guerra Fria, 1977, durante as experiências da Iniciativa Dharma…
Nada mais é que um compêndio de cabeças-duras e obstinações, longas neuroses em processo de cura…
A parricida que se torna mãe dedicada e é salva pelo cavalo preto da vida -Yin-Yang- versus o cavalo branco da Redroom de TP; A vítima vingativa que se torna herói altruísta; O javali preto que… O protagonista que tem de aprender a ser só mais uma peça no tabuleiro; A peça no tabuleiro – o rei, eu diria, a peça mais especial – que tem de se conformar em ser o bode expiatório marginal do jogo, sem decidir diretamente o ganhador (versus o jogo de xadrez de TP); E, em contraposição ao objeto que cumpre um destino, o azarado que faz a própria sorte. Mas que também peleja até aprender a fazê-la. O homem que morre tantas vezes e ainda encontra um significado no autossacrifício…
In der Wirklichkeitstehen: estar com os pés no chão (terra; realidade)
lazareto: hospital de leprosos, espaço destinado à quarentena
mit-teilsam: com-unicativo
Selbst-Verblendung: autocegamento
Verantwortlichkeit: responsabilidade
“Da ist eine Fliege in meiner Suppe”
“ins Dasein kommen” vir-a-ser
Desde que eu me entendo por gente
“Caso Ilse: o <ponto de partida> era o amor passional pelo pai e o sofrimento constante pelos maus-tratos que ele dispensava à mãe.”
“Enquanto, no Caso Ilse, o Dasein estaba sob uma alta-tensão que durou muitos anos e <deu vazão> a si mesma primeiramente no sacrifício da queimadura, depois no delírio de perseguição e no delírio amoroso, a alta-tensão sob a qual está o Dasein no caso Suzanne Urban mostra-se não apenas em um amor <idólatra> pelos pais, mas também em um culto amoroso hipocondríaco <quase anormal> aos pais e ao esposo. Esse culto é afetado profundamente e é colocado sob a máxima prova quando o esposo (um primo) contrai câncer na bexiga.” “Além disso, ressalte-se que não se trata de um delírio de perseguição singular <residual> que se liga a uma vivência de desabamento do mundo, como no caso Schreber-Flechsig, mas, como nos casos Lola e Ilse, de um delírio de perseguição anônimo ou plural.”
(Nota: os títulos a seguir foram insertos por mim de forma arbitrária, não correspondendo nem à posição dos capítulos e tópicos do livro nem coincidindo em nomenclatura.)
1. A FAMÍLIA RELATA O CASO
“nenhuma amizade autêntica.”
“Sobretudo nos últimos anos, colocou que o ideal haveria sido não ter se casado, mas ter feito carreira no teatro. Natureza muito erótica (…) gostava de contar ao velho pai piadinhas eróticas.”
Quem não vira artista fica doido; mas e o artista, anormal, fica o quê?
“Quando menina, era notavelmente bonita. (…) Não agia como uma coquette” “Tornou-se noiva de um primo muito rapidamente”
“Aos 27 anos começaram ataques de espirro paroxísticos [?] que permaneceram fechados à influência terapêutica. A organoterapia junto a renomados laringologistas falhou completamente.”
“O marido era dominado pela esposa, cedia a ela constantemente”“só tinha interesse pelo câncer do marido, não suportava qualquer outro assunto. Indignava-se se alguém risse em sua frente. Queria acima de tudo matar o marido ela mesma e suicidar-se depois. Desejava um acidente que trouxesse a morte para os dois.” “Insultava os médicos porque eles não matavam o marido.”
“A paciente ingressou num hospital psiquiátrico (…) desde o começo, acreditava que estava sendo observada, perseguida pela polícia, radiografada; segundo ela, a família (…) estava tomando seus bens; no parque havia fios elétricos que registravam os passos de todos, ela teria sido infectada com sífilis, além de ter câncer, e todas as doenças possíveis. Recusava comida, acreditando que estava envenenada. À noite, vozes entravam-lhe na cabeça e mandavam-na repetir tudo que havia de mau; tudo seria impresso e divulgado por meio de gravadores especiais. Havia fios por toda parte. Mesmo no banho, haveria aparatos que a fotografavam nua para expô-la publicamente. Julgava que misturados aos remédios tomava sêmen de rãs e lagartos, queria vomitar tudo.”
“As idéias persecutórias pioravam cada vez mais. Gritava da janela (…) haviam cortado fora o nariz, as orelhas, os braços da mãe. Os familiares estavam enfiados em meio a fezes, batiam neles com barras de ferro, etc.”
“alta após 4 semanas”
“Nos últimos tempos, envelheceu muito, os cabelos esbranquiçaram rapidamente.”
2. COMO SUZANNE SE VÊ
“[Internada na clínica de Binswanger,] escreveu em poucos dias 2 cadernos completos, em alemão, embora esse não fosse seu idioma natal. (…) A partir dos escritos, pode-se perceber o quão exatamente as informações dadas pela paciente concordam com as dadas pelos familiares do ponto de vista do tempo e dos fatos”
“Visto que a doença piorava cada vez mais, que meu marido começou a sofrer de insônia total apesar da medicação e que só comia se o forçavam e se alimentava principalmente de sangue prensado com creme, ovos e carne, os médicos sugeriram, uma vez que não se podia obter o novo medicamento (mesotório) onde morávamos, que fôssemos a Paris, ao que meus familiares também me encorajavam, dizendo que eu devia de toda maneira, embora estivesse arrasada, inconsolável, tentar também isso, a fim de nunca poder me culpar por [não] ter tentado fazer todo o possível para, se não salvar, ao menos prolongar a vida do homem. Essa estadia de 2 meses em P. foi o inferno para o pobre homem; alguns médicos queriam mandar operar meu marido, proposta, contudo, veementemente rejeitado por outros médicos.”
“Enquanto eu estou andando pelo parque, eu escuto minhas expressões um tanto triviais serem repetidas por algumas mulheres que estão andando o mais perto possível de mim, a fim de me mostrar que elas ouviram tudo. Isso me deixa frenética. Até mesmo meus pensamentos são repetidos por outras pessoas. Eu digo para minha irmã ‘Nós estamos aqui entre espiões, o que eles querem de mim?’, mas ela apenas ri”
“eu pressinto uma corrente elétrica”
“tornei-me assassina de toda a família; não isso apenas; eu mando despedaçar a tumba do meu pai. Esses pensamentos me vêm na língua …, que eu nunca usei em casa. (…) e eu, assassina, estou deitada aqui na cama, estou sendo alimentada, estão me dando banho enquanto meus inocentes familiares atormentam-se.”
“nós somos mendigas, eu caluniei vocês todos por meio do poder do diabo.”
“Agora estou vivendo com a única esperança de escrever um pedido (petição) de que fuzilem as pobres pessoas sofridas ao invés de martirizarem-nas por tanto tempo.”
3. ANOTAÇÕES DE BINSWANGER
“Teriam-na mandado dizer que seu sobrinho é um socialista. Sente depois, com toda a exatidão, que estão arrancando os olhos dele.”
“tão logo conta uma piada, faz mais uma vez censuras a si mesma. (…) Conta com muito gosto as piadas mais sujas. Pergunta quem lhe tirou o entendimento.”
“Em 4 de setembro de 1920 é retirada do hospital psiquiátrico pela irmã imprudente, depois da assinatura de uma declaração rigorosa (…) Desde então, não ouvimos sequer mais uma palavra a seu respeito, e todas as buscas ficaram sem resultado devido aos caos da I e II Guerras Mundiais.”
“Até o último momento, a letra era tão precisa e pequena que a paciente podia colocar toda a história de seu sofrimento em um cartão postal”
4. ANÁLISE DO DASEIN
“O médico disse-lhe que havia uma parte da bexiga que estava ferida, mas, quando ele virou as costas, fez para mim uma cara tão terrivelmente desesperançosa que fiquei completamente paralisada (…) de modo que o médico agarrou minha mão para me indicar que eu não devia mostrar a ele nenhuma das minhas sensações. Essa mímica foi uma coisa pavorosa! Meu marido também percebeu algo, talvez, mas exibiu uma expressão completamente amigável e apenas perguntou ao médico de onde isto poderia ter vindo; ele respondeu que isso frequentemente está no sangue, sem que se saiba sua origem.”
“horror mudo”
“Suzanne Urban leu no rosto e na mímica do médico não apenas a sentença de morte do marido, mas também a perspectiva das dores tormentosas que o aguardavam.”
“Todo o Dasein estava agora sob o domínio do tema de que foi encarregado na <cena original>, o tema do <câncer do marido>. Como algo de que alguém é encarregado <a partir de fora>, esse tema implica um encargo, o encargo, propriamente, de <levar a cabo> esse tema de alguma maneira, de não sucumbir a ele, mas vencê-lo.”
“Suzanne Urban agora fala consigo mesma, ouve a si mesma, escuta exclusivamente a si mesma. Se o dito de que todo monólogo é um diálogo (Vossler) é correto, isso também se aplica neste caso.”
“Enquanto o si-mesmo aberto (aberto à verdadeira comunidade) atenua a carga de tal tema falando a respeito dele com um amigo, o si-mesmo que se enclausura com o tema procura carregá-la <exclusivamente> em seus próprios ombros, sem ver que esses ombros se tornaram fracos demais para isso há muito. A essa altura estamos diante do 1º passo desse Dasein em direção ao cegamento do si-mesmo ou à extravagância.”
Vacas não-malhadas e gatos no telhado: “Nachts sind alle Kühe grau”
“Como é regra nos delírios de perseguição plurais, aqui o pretenso fundador da <desgraça de toda a família> [o psiquiatra da internação] vai depressa para o 2º plano para temporariamente dar lugar a uma pessoa completamente diferente (<a prostituta de rua>, a enfermeira) e somente ser mencionado de novo ocasionalmente. O Dr. R. figura aí como aquele que a separou de seu marido (…) o carrasco da família” “Apesar de tudo isso, não parece fora de questão que o Dr. R. deva seu significado de desgraça ou de pavor a uma <identificação atmosférica> com o urologista que <martirizou> o marido com seu exame e lhe revelou o diagnóstico de câncer tão <pavorosamente>. Pois o verdadeiro carrasco, aquele com quem <a desgraça de toda a família> começou, é decerto o médico da cena original”
Te peguei pela nota de rodapé.
Tu te tornas eternamente citável pelo artigo que publicas.
“Também a autosseculusão frente aos outros é uma forma desse ser compartilhado (…) Todavia, com isso ainda estamos na superfície, completamente à parte do fato de que a passividade sempre implica uma forma de atividade e vice-versa.”
Mundchen, a boquinha de Munique.
É fitar e começar: start and resume (pressing start): starren: é ver pra crer: que fita, pode crer!
Select your destinyfreedom!
Pausar qualquer progresso.
Engessar qualquer um que deu um pau na máquina que deu pau.
Congelar, reter, dar crise de pânico e resetar.
Meu torpor seguro onde cristalizaram as emoções já faz um tempo.
Já faz um tempo que as pessoas agem como se portas-afora fossem.
Ágora é que são elas, cuspindo na cara dos carnavais.
Parcas fora do baralho, só estão no mundo real –
Presente de hilota e pelego!
Recebo, não nego, dadivoso logro quando hipomaníaco eu estiver.
Rancorosa Lola Corre do Tempo que Assedia a Moça de Somas Bonitas.
Poxa que rosa sua coxa, recorro aos meus pensamentos para encerrar o coro
Com uma mensagem que não escoe pelo ralo: uma ponte entre nossas
Aspirações.
Abismo cheio de miasma, conhecido como el mismo.
Cacarejou a cara do novo dia normal e malogrado.
O Apanhador de Sentidos no Campo do Nonsense.
Em termos de sentido da vida, a única coisa que se apanha, em muitas pessoas, é seu eu-criança. Isso é falta de apanhar, K.! Preguiça mental!
Entorpecido em suas sólidas crenças morais.
Fagulhas de luz negra em seu olhar gasoso, de névoa desinteressada.
História da Moral: Não conte.
Wish-to-do-list:
Ator: doar um
Um ator, atordoar
fina morte morna de morfina
“Em lugar da simesmação autentica do Dasein no sentido da existência, entra a errância sem-fim para o <mundo pavoroso>, para a <odisséia pavorosa>.”
“A notável idiossincrasia das narrações delirantes dos esquizofrênicos está correlacionada ao fato de que o <como> da narração, a representação linguística, pode ser extremamente sucinta e precisa – tão precisa que um leigo, em regra, dará crédito às declarações delirantes da paciente prontamente se elas não forem abstrusas demais –, enquanto o <o quê>, o conteúdo de suas narrativas, é em regra notavelmente impreciso, vago, ambíguo, até mesmo <aventuroso>.”
“me sinto como se…”
“Quanto mais evidente é a sinistra entrega de Suzanne à publicidade, mais os órgãos executores dela (aqui como em outros lugares) se subtraem a uma verificação exata. Todos procedem de maneira mais ou menos secreta. (…) está cercada de espiões, contudo não consegue vê-los e identificá-los; ela escuta <um apitar policial>, mas não vê nenhum policial. (…) A despeito do sentimento de ódio para com o Dr. R e para com a <prostituta de rua>, Suzanne, ao contrário do presidente do senado Schreber, não implica com uma pessoa determinada, ao redor da qual circula amor & ódio. Não foi <ele> nem <ela> que armou, mas simplesmente <armaram> uma <armadilha pavorosa>” Bem weberiano!
“Lidamos com duas <linguagens> da paciente ao mesmo tempo: uma linguagem do pavor e uma linguagem da verificação calma e da reflexão. Delírio e reflexão sóbria não se excluem mutuamente”
“Suzanne ouve dia e noite um uivo pavoroso, como o dos lobos. <Tossem> e <cospem> alto diante da janela dela, ela vê grandes facas de cozinha que estão numa janela e grita alto ao ver algumas gotas de sangue sobre o chão, etc.”
“a criada do hospital está vestindo os aventais dela, para <mostrar-lhe> que estão fazendo <revistas> (policiais) em seu quarto. As declarações de uma senhora de que se deveria deixar o gato <dar uma boa mastigada no pássaro>, certos movimentos manuais e o ato de puxar o nariz, tudo isso tem o mesmo sentido, que algumas vezes ela escuta expresso por palavras: <a cabecinha precisa cair>.”
“Depois de pensar como seria bom se quisessem decapitar ela própria (em lugar de seus familiares), ela vê <diante de si> um menino que tem um sabre de brinquedo fazer o movimento da decapitação. Ao capinara grama <mostram> a foice significativamente: <Eu, contudo, entendi o sentido da foice>.”
“zombam dela, até mesmo da doença do marido: Câncer, câncer, pelo amor de Deus! Por que não lagosta?”
“O que torna o <paciente que sofre de delírio> alheio a nós, o que o faz parecer alienado não são percepções ou idéias isoladas, mas o fato de seu enclausuramento em um esboço de mundo dominado por um único ou alguns poucos temas, ou seja, enormemente estreito.”
“há os pensamentos que mandam-na pensar!”
“obrigam-na a pensar que os familiares são cobertos com chumbo e piche.”
“O mais tormentoso de todos os tormentos é, na verdade, a obrigação, que parte de um poder diabólico, de caluniar seus familiares <em pensamentos> ou com palavras e, desse modo, de fazer-se culpável pelos martírios e pela decadência tormentosa deles, portanto, de ser uma criminosa, por assim dizer, uma criminosa a contragosto.”
1) ‘voz’ inquisidora; 2) poder caluniador dos pensamentos e das palavras; 3) instância transcendente que reflete o jogo de perguntas e respostas, sendo aceita como destino pela ‘voz’, que no entanto ‘corrige’ as respostas quando necessário.
“Aí vemos que O Dasein ainda consegue resistir à publicização dos <pensamentos> ou, ao menos, ainda consegue encará-la de frente se ela estiver em extrema contradição com o si-mesmo. No entanto, é claro que as acusações caluniadores surgem a partir do próprio Dasein.”
Detalhe curioso: a ‘voz’ diz-lhe injustamente o tempo todo que seu marido, inocente, é um falso-moedeiro. “Em Kreuzlingen [segunda internação, na Suíça], ela sempre ouve o martelar de uma forja <nos ouvidos>, que indica que ali mora a mulher do falsificador de dinheiro!”
“E se alguém designa todos esses pensamentos como idéias delirantes, declara ela energicamente: Não são idéias delirantes, são idéias verdadeiras! E logo após Suzanne faz de novo um relato completamente objetivo sobre o novo medicamento que foi inventado contra o câncer em Munique e que seu irmão buscará.”
“a intenção de matar o marido com veneno (arsênico) agora é colocada como a causa de sua internação no 1º hospital”
A paciente passa a se arranhar (no lugar da enfermeira), a se masturbar sem consideração com quem a assiste ao invés de ter vergonha de qualquer atitude em seclusão, uma vez que é sempre, de alguma forma, filmada e gravada: “O mundo compartilhado, que normalmente tem o papel principal no delírio, aqui afunda em direção à completa insignificância. O Dasein retorna à vida no próprio corpo e ao gozo do próprio corpo, agora não mais na seclusão do mundo com-partilhado, mas <diante dos olhos dele>.”
ESPACIALIZAÇÃO DO DASEIN ou TEATRO DA PERSEGUIÇÃO: “Ellen West designava seu Dasein como uma prisão, uma rede e, sobretudo, um palco, cujas saídas estão ocupadas por homens armados <de espadas sacadas>
Jemandem auf den Leibrücken
“Mesmo os pensamentos são <coisas> que são como que tiradas de um recipiente e inseridas nele.”
“mundo sinistro marionético” “Essa consciência de ser uma simples marionete nas mãos de manipuladores desconhecidos está relacionada ao que há de mais pavoroso nos pavores” “Também o predomínio da tecnologia e do maquinário tecnológico está correlacionado à redução do mundo desse delírio a um simples mundo do contato.”
Minkowski – Les notions de distance vécue
E agora, que devir poderá dar uma condição de possibilidade de me salvar? EEEEuuuuuuu
Já conhecemos da <experiência natural> o papel da polícia como um poder sinistro-anônimo. É preciso ler somente O Processo de Kafka para ter uma idéia do tipo, da dimensão e do efeito desse poder. Além da polícia, agora entram em ação também seus companheiros, seja a mando dela, seja por conta própria.” “o médico encaminhador ou ‘carrasco’, os enfermeiros, os outros pacientes, os companheiros de viagem, etc.” “órgãos executores do pavoroso”
“Em todos os casos, trata-se das formas do pegar ou ser-pego por algo relacionados ao mundo compartilhado, no sentido da impressionabilidade.”
“Acima desses <ramos> dos órgãos executores do pavoroso e, especialmente, acima da polícia, encontramos – como contratantes – o partido (anti-socialista), o exército de ocupação (vive-se então a Primeira Guerra Mundial) ou mesmo o Estado. E sobre tudo isso está simplesmente o poder diabólico do pavoroso, que ora é apenas pressentido, ora é ouvido como uma ‘voz’ terrível.”
“Apesar de ele assumir uma voz, não se chega manifestamente à personificação propriamente dita do poder do pavoroso na forma de um diabo ou um demônio, como muitas vezes podemos constatar em outros casos. Em todo caso, também não ouvimos dizer nada sore visões diabólicas.”
Szilasi – Potência e impotência do espírito
5.O PALCO: CASO ELLEN WEST X CASO URBAN. QUANDO A PEÇA ENCENADA E MUITO CONVINCENTE TORNA-SE POR FIM O REAL (TEATRO DO PAVOR). REFERÊNCIA À TRAGÉDIA GREGA CLÁSSICA.
“o Dasein que adentrou o símile do palco de Ellen West está de uma vez por todas cercado por cortinas que não podem ser deslocadas, por inimigos insuperáveis.”
Resignação como a “ajuda que vem do próprio Dasein”.
“Uma vez que a possibilidade de ser da impressionabilidade se autonomize completamente e, com isso, se torne desmedida e ilimitada, e, consequentemente, o Dasein se limite ao recebimento de impressões, fala-se de alucinação. Se essa receptividade estiver sob a supremacia do pavoroso e obtiver instruções dele, trata-se necessariamente de alucinações pavorosas. O mesmo vale para os pensamentos.”
“O <palco> inteiro está posto em cena por um único <diretor>, por um único poder que confere sentido e dá uma direção. É apenas a partir desse poder que todos os atos que conferem e cumprem sentidos recebem sua diretiva e seu cumprimento intencional.”
Mergulho na viscosa piscina do delírio. Fácil entrar, difícil sair.
“Enquanto o delírio é uma das formas da sujeição do Dasein a esse poder do pavoroso, o mito e a religião, a poesia e a filosofia representam, pelo contrário, formas da superação dele.” “O pavoroso diz respeito ao Dasein em seu isolamento no autismo”
Partida bem disputada antes da partida bem acenada
“como se…” símile, analogia, erga mínimo distanciamento, abstração, consideração fria de uma autoimagem – diferente de quando se passa ao delírio (psicose) p.d.
“O ser-espiritual é exatamente esse retorno, esse recuperar-a-si-mesmo do tumulto do mundo, a possibilidade da capacidade de ser no espírito.”
passa-se à voz passiva do ente
“O próprio pavoroso-aflitivo se transformou aqui: em lugar do marido, encontramos toda a família ameaçada pelo martírio e pela morte, no lugar do martírio por uma doença incurável, entraram os martírios feitos pela polícia, etc.”
“Daí resulta que, para a compreensão do delírio, não podemos recorrer nem a um distúrbio do juízo em termos de um equívoco, nem a um distúrbio de percepção sensorial, de ilusão por meio de alucinações. Ambos são já consequências da transformação da estrutura do ser-no-mundo como um todo, no sentido do ser-no-mundo deliróide.”
“Ele não se porta de maneira diferente de uma pessoa a quem aconteceu uma injustiça real. Não tem somente a necessidade de <dizer o que sofre>, mas também de defender a si mesmo e os outros dos sofrimentos. (…) o contato com o mundo compartilhado não está de nenhuma maneira interrompido.”
Quem tem inimigos sempre tem testemunhas e objetos neutros no universo. Não houvesse isso, seria apenas uma câmara de yin-yang e partir-se-ia para o confronto direto. No entanto, o inimigo é covarde, é astuto e “mais sujo” do que nós (os personagens delirantes), precisa recorrer a subterfúgios e a táticas infames para “ganhar de nós”. Como ainda cremos, apesar de tudo, numa justiça como princípio das coisas, olhamos em todos os recantos atrás de alguém que simpatize com nossa causa e perceba a vileza e a má-fé de nossos oponentes-perseguidores.
“Desse ponto de vista, aquele que sofre de delírio de perseguição não é de forma alguma autista.” Ele sofre de hiper-realidade. Ele pensa que cometeu o crime perfeito e agora sofre uma retaliação não menos impecável…
O perseguido é um secreto exibicionista.
“a <conversão> dos acontecimentos em <ação> vai muito mais longe do que onde já se chegou ou pode se chegar na tragédia e também no mais arrepiante drama barroco. (…) o delírio (…) supera a (…) tragédia (…) [porque] (…) também os pensamentos [são] recebidos [de fora e incluídos] na ação.”
“aqui, como na tragédia, não há <rua sem-saída>, mas tudo vai a qualquer lugar e vem de qualquer lugar e claramente <se refere a um centro>”, o que, como já ressaltamos, exclui o acaso. (…) [Mas,] enquanto na tragédia o poeta é quem <transforma a matéria-prima com sua força>, no delírio o poder formador (…) é cego, e isso implica DESTRUIR A FORMA” Édipo é o autor dessa mímica infernal.
6. CONTINUAÇÃO DO TÓPICO ANTERIOR. REFERÊNCIA À POESIA DE BAUDELAIRE.
Para usar o idioleto idiótico de Einstein, no delírio de perseguição, deus joga todos os dados que tem à mão!
À procura da batida perfeita, quer dizer da cena perfeita, quer dizer, da cena original.O protótipo de todos os males.
O SONETO DA DESTRUIÇÃO AUTÔMATO-SANGRENTA
“Sem cessar, ao meu lado, se agita o Demônio,
Ele nada em torno de mim como um ar impalpável
Eu o trago e sinto que queima meu pulmão
E o enche de um desejo eterno e culpável.
Por vezes ele toma, sabendo meu grande amor pela Arte,
A forma da mais sedutora das mulheres
E, sob pretextos especiosos da tristeza,
Acostuma meu lábio a filtros infames.
Ele me conduz assim, longe do olhar de Deus,
Arquejando e quebrado de fadiga, em meio
Às planícies do Tédio,¹ profundas e desertas.
E lança aos meus olhos cheios² de confusão
Vestimentas sujas, feridas abertas,
É a máquina sangrenta da Destruição!”
Baudelaire
¹ Tártaro
² de cisne
νοῦς
Nada no ar
Ar que queima
Fogo que chamusca,
soterra
Terra que cobre
Tudo de novo.
Imagina se esse eidos pega n’olho
Você vê resultados nos testes de Rorschach?
7. A PARANÓIA DE ROUSSEAU
“nos ocuparemos de um caso especialmente famoso e bem-documentado da literatura mundial, o de Jean-Jacques Rousseau.”
“Esse caso é muito apropriado ao que nos interessa, pois a língua francesa é extraordinariamente rica em expressões metafóricas, que são aquilo de que se trata aqui.”
“Rousseau sofria de um delírio de perseguição completamente não-sangrento, puramente social ou reputacional, em termos de uma difamação levada ao extremo, e, no entanto, nele encontramos um vasto número de expressões da esfera do maquinário e da tecnologia a serviço da destruição.” UnB murky atmosphere
Rousseau, Dialogues (vol. XVIII[!] das Obras completas)
“Barbarus hic ego sum quia non intelligor illis”
Ovídio
“Aqui sou um bárbaro, pois não me entendem”
agrupamentos, cochichos, risos desrespeitosos, olhares cruéis e selvagens, escárnio… atentados… o inimigo sabe exatamente aquilo que mais nos pode ferir, como que magicamente… somos nós que temos rivais finalmente à nossa altura, ou nossa mente nos prega essa peça tão pesada (nosso maior inimigo é nossa própria inteligência tão sutil em seu masoquismo autoacusatório?)?
esse corredor polonês assintótico, entre a certeza absoluta de ser o bode expiatório e a certeza de ser só um ser-num-mundo-ruim, eternamente em dúvida entre os dois pólos perfeitos, eternamente num julgamento impreciso sobre todos os eventos e circunstâncias em pingue-pongue
“Eles encontraram a arte de me fazer sofrer uma morte lenta me mantendo enterrado vivo”
R.
“lama”
“apunhalam-me impunemente”
“tudo é uma armadilha”
“maldade diabólica”
não soa, é!
a ameaça de um vago processo…
ocafka da Kapes
a vingança é impessoal
“Imaginem pessoas que começam a colocar cada um uma boa máscara, bem ajustada, que se armam com ferro até os dentes, que surpreendem seu inimigo em seguida, o acertam por trás, colocam-no nu, atam-lhe o corpo, os braços, as mãos, os pés, a cabeça, de modo que ele não possa se mover, colocam-lhe uma mordaça na boca, furam-lhe os olhos, o estendem sobre a terra e passam, enfim, sua nobre vida a massacrá-lo de pavor docemente, de modo que, morrendo por suas feridas, ele não cesse de senti-las tão cedo … a vista cruel deles fere seus olhos por todas as partes … o espetáculo do ódio o aflige e o dilacera ainda mais [na mente que no corpo]”
“…estes Senhores conjurados em um complô anônimo para difamar-me, inclusive em face do amanhã…” “o grupo parte de 2 rivais, cujo número rapidamente aumenta para 10, mas gradualmente passa a abranger o mundo inteiro (l’univers)”
neurose de transferência do inimigo mortal zena-carolina (nevrose à 4)
cassaram-lhe a aposentadoria integral
invejavam seu carrão
não o valorizavam o suficiente
obviamente falavam mal dele as suas costas (((sem provas)))
UnB – tornar-se um adulto – emular o progenitor
pessoas falam mal de mim às costas
fazem cartazes, infringem normas do Orkut (sim, com provas!)
desvalorizam-me a olhos vistos (a imbecil que desistiu do curso para cursar medicina diz que Heisenberg não pode ser citado numa aula de Introdução à sociologia, pois “não tem nada a ver”, física nada tem a ver com este mundo compartilhado em que pisamos – e mesmo se tivesse, vc fez uma analogia idiota!!)
o calouro que tomou pinho-sol (como se tivesse sido um litro, foi um gole de desafio, mas isso não importa, é a última coisa que importaria, o que importa é a mofa e a troça, passar adiante este relato mui cômico… e ele não tem direito de se enfezar com essa história, afinal, quem mandou ele… inclusive quebrar o dente numa escada numa festa… que ridículo! que ridículo ele descontar hipócrita e dissimuladamente em seu blog intelectual – ele não tem esse direito! – ele me chamou de chato lá… disse que eu dou sono, eu atrapalho, que NÓS SOMOS BURROS, inadmissível, alguém que tomou um gole de pinho-sol ser superior a nós, ovelhas de rebanho, em qualquer coisa que seja!…apague seu blog, viva de acordo com meus preceitos, seu… doido… retifico… seu menos-que-doido pois eu li em Foucault que doidos são seres complexos e honrados vc é um menos-que-nada-e-além-do-mais-vc-é-um-playboyzinho-que-estudou-no-CEUB, meu pai arquiteto que gosta de ornar a casa com colunas gregas jamais teria dinheiro para pagar 700 reais por mês numa FACULDADE para mim, embora ele custeie minha vida numa cidade longe de Fortaleza num apartamento NO CENTRO DA CIDADE, o que pelas minhas contas, para o ano de 2007, excede com facilidade as 2 mil pratas… ó!)
O curso inteiro virou meu inimigo
Mas tinha começado com um núcleo duro…
Logo me afastei até mesmo dos meus amigos mais próximos, que decerto não compactuavam com nada dessa marmotada toda…
Virei um desconfiado de carteirinha. Estava sendo observado na biblioteca, na cantina…
E depois? Ninguém me deus os parabéns, era mera obrigação… Então, a OBRIGAÇÃO de honrar os pais eu a cancelo, porque eu sou livre. Sua obrigação é sofrer seu destino.
Meu destino foi sofrer meu estágio probatório. E rir no meio de uma pandemia, rir, gargalhar, galhofar cada vez mais alto e espalhafatoso, até o dia que por acidente (pois já não mais me perseguem, as pessoas estão paranoicas com outras coisas muito mais importantes, sem dúvida! estou curado!) – por acidente eu disse! – toparem com seus nomes nodoados num post numa entrada miserável na internet e tudo recomeçar?… MAS ESTE É UM PROCESSO SEM-FIM E AUTORRETROALIMENTADO, não se esqueça! Ele faz e paga e sofre e recebe o que pagou e assim por diante incessante infinitamente até que alunos e professores todos se esmaguem num abraço coletivo cheio de ruído e cólera e, não foi nada demais… insignificante.
No fim, eles têm de admitir: eu sou marcante. Eu tenho digitais, eu marco aquilo que toco. Se transformo em ouro ou cinzas, não interessa, o Dasein não tem – para emitir diagnósticos – qualquer resquício de pressa…
A vítima de racismo que comeu uma banana e deixou o agressor com cara de tacho é uma história que me lembra muito a minha!
Eu lavei minha boca e troquei a dentadura, para poder falar (com) coisas(-pessoas) melhores.
Eu sou viciado nessa história porque apesar da dor que me causou e que ainda me causa marginalmente, eu viveria todos estes capítulos de novo e de novo… Se sou doente de alguma coisa, essa é minha doença e ela é com toda certeza absolutamente intencional e culpa minha!
“A provocação tem 1000 vozes. É próprio da provocação misturar os gêneros, multiplicar os vocábulos, fazer literatura, e esta integridade da matéria dura que nos provoca vai ser atacada, não somente pela mão armada, mas pelos olhos ardentes, pelas injúrias. O ardor combativo, o neikos, é polivalente.”
Bachelard
Mas e Rousseau?
8.DESCONTINUIDADE TEMPORAL
“No pavor abismal relativo ao diagnóstico de câncer e no congelamento de todo o Dasein, <o tempo> estava, por assim dizer, em repouso, não se desdobrou em seus êxtases e, portanto, o Dasein não existia mais no sentido pleno da palavra.”
ab –ismo (até o exagero)
Mitwelt
mundo.com
niilismo&vc.td.a.ver.
“Enquanto no quarto estudo, o Caso Lola Voss, tivemos que nos contentar essencialmente com a verificação e a descrição dessa transformação, esperamos, neste quinto estudo, ter dado um passo a mais na compreensão daseinanalítica [hm] dela. Temos consciência que ainda estamos longe da meta.”
“A palavra physis vem do verbo phyo (nascer, originar-se).”
Um grau além da citação cruzada ou autocitação: a citação de um livro que é dedicado à própria teoria! Grosso modo: “Como diz Binswanger apud Szilasi …” Binswanger [!!!]
“com a evolução da esquizofrenia crônica, acontece pouca coisa, e sempre menos, na medida em que os pacientes esquizofrênicos não têm experiências novas no sentido da experiência natural, i.e., que <adicionem algo novo> às antigas, mas apenas experiências em termos da monotonia do velho estribilho. Permanece-se fundamentalmente na experiência do elemento geral único, e, assim, <não acontece muita coisa>”
“uma longura que se diferencia da lentidão da depressão.”
“no delírio de perseguição, tem-se uma imensidão de <<novas>> experiências”
“A temporalização da longura nunca conduz à temporalização do tédio”
“Vale notar que o termo utilizado para <andamento musical> em alemão é Tempo”
Adorno riria desse esforço: “Binswanger está tentando distinguir na etimologia de longura e lentidão vestígios de formas diferentes de lidar com o tempo. Infelizmente não é possível manter essas relações etimológicas em português.”
“A palavra para tédio é Langweile, formada pelo adjetivo lang e o substantivo Weile (momento, intervalo de tempo).”
“Se alguém, no convívio da vida e do trabalho, for irritado repetidamente da mesma maneira pela mesma pessoa, <ele não vai suportar para sempre>. Em verdade, aqui se experiencia a generalidade da irritação novamente em cada particularidade, mas não de maneira que (como no delírio) o particular represente o geral e exista somente pela graça dele, mas de modo que o geral se particularize de fato em toda sua dimensão, i.e., experiencie sua plena concreção em cada <ensejo> particular (…) É isso que, frente ao irritante, não suportamos para sempre.”
9. A CONSUMAÇÃO DO PAVOR
Husserl, Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie
“Só se repare de passagem que eu, a despeito de minha convicção da importância filosófica e científica imperecível do método puramente fenomenológico, não estou no campo do <intuicionismo absoluto> da maneira que Husserl o advoga, razão pela qual ainda sou aberto a contemplações e reflexões, como disse Hans Kunz em O problema do espírito na Psicologia Profunda (art.).”
“Dormimos todos juntos sobre vulcões”
Goethe
“Naquilo que é teu, também vejo o que é meu”
Ulisses no Ájax de Sófocles
é 1000, tio! run!
é 100&cia.
10. TENTATIVAS DE DIAGNÓSTICO
“quando o clínico fala de pessoa ou personalidade, ele já deixou o campo da análise do Dasein.”
“estamos demasiado acostumados a agir como se a doença invadisse uma pessoa saudável como se fosse alguém estranho!”
Tiling, Tipificação e Distúrbio Individual do Espírito, 1904.
“Eu vejo em T., a despeito de seus esquemas psicológicos historicamente condicionados, um predecessor da psiquiatria clínica moderna.”
“Suzanne Urban nunca perdeu sua <orientação> e nunca exibiu os distúrbios de pensamento esquizofrênicos formais. Isso também é importante para o tipo de ocorrência delirante de forma de delírio de nosso caso. Pois, ainda que se diferencie dos casos Strindberg e Rousseau pelo <afeto> melancólico em alto grau, tem em comum com eles a forma do delírio.”
“A alguém que leia o histórico da doença pode surgir a suspeita de que, no caso de Suzanne Urban, se tratasse de um delírio puramente depressivo (<afetivo>, <holotímico> ou <sintímico>). Esta suspeita se funda no fato de que de acordo com a família a doença começou com um <transtorno triste de humor>, que o humor permaneceu até o final depressivo e [que] os delírios [são de tipo] melancólico.”
“O delírio de culpabilidade leva a acreditar que se cometeram os crimes mais graves sem que haja razão para tanto, ou transforma más ações pequenas e reais em pecados imperdoáveis. Por causa do crime, não somente o paciente é castigado de maneira atroz nessa e na outra vida, mas também todos [os] seus familiares, o mundo inteiro”
Bleuler
7 x 77: a Bíblia é um manual psiquiátrico de primeira grandeza!
“Aqui não se fala de um pecado imperdoável e de seu castigo atroz.” Suzanne sente-se injustiçada. Além disso ela foi uma “criminosa” completamente passiva (de acordo consigo mesma).
hunter x hunter
paranoid x depressed
sense vs. sense
Muito Além da Melancolia (de Ken?)
Delírio de referência: sistematizado e independente do ciclo crime-culpa-e-castigo. Perto disso, a pura mel-ancolia é uma doce brisa.
“há uma perda das inibições morais que não é conciliável com o diagnóstico de melancolia.”
“Com isso, chegamos ao terreno espinhoso da paranoidia, da parafrenia e da paranóia. Já dizemos de antemão que, juntamente com Kolle, Bleuler, Mayer-Gross e outros, somos da opinião de que, hoje em dia, tanto a paranóia (psicótica) quanto a parafrenia devem ser classificadas como esquizofrenia.”
“Do ponto de vista puramente sintomatológico, o caso S.U. poderia ser classificado como a paraphrenia systematica de Kraepelin, já que se trata aqui de um desenvolvimento sorrateiro de um delírio de perseguiçãoconstantemente em avanço sem degeneração da personalidade.” Sublinhados: discordantes do caso S.U.
Este sujeito é incurrável, disse o doktor alemal. Ele não pode ser comido!
“o fosso de lama, semelhantemente à caverna, é uma forma particular especialmente feia, fétida e pútrida de profundeza da terra.”
“Uma vez que o diagnóstico de esquizofrenia parece confirmado, e visto que, <onde idéias delirantes e alucinações … estão em primeiro plano>, fala-se (como em Bleuler) de paranoidia, precisamos incluir o caso nesse subgrupo esquizofrênico e, quanto à orientação delirante, classificá-lo como delírio de perseguição paranóide.” Ainda assim: “não vemos sintomas catatônicos, negativismos, estereotipias, excentricidades, maneirismos e também neologismos ou propriedades lingüísticas esquizofrênicas”.
“paralisia das pernas”: histeria
delírio de perseguição singular (portanto necessariamente identitário, vinculado a um sujeito) x delírio de perseguição plural identitário (teoricamente possível, mas que sempre tenderia a alargar seus inimigos, tendendo ao próximo) x delírio de perseguição plural anônimo (caso S.U.)
INFERÊNCIA DA DESCONFIANÇA
Aquele que não desconfia de ninguém… talvez desconfie de si mesmo.
Aquele que não desconfia de ninguém, nem de si mesmo… talvez simplesmente não exista!
Aquele que desconfia de si mesmo, talvez não desconfie de mais ninguém. Saudável desconfiado! Homem invejável!
Aquele que desconfia de um, mas que não desconfia de si mesmo, pode desafortunadamente desconfiar de muitos.
Mas, amigos, aquele que desconfia de muitos, esse desconfia de todos os homens, mais cedo ou mais tarde!
Schreber, por exemplo, o típico delirante singular, vai sucumbindo ao delírio em degraus – imagem perfeita, porque uma escada não é uma rampa. Há uma descontinuidade, mas a ocorrência de ataques ou surtos agudos, que, pelo menos até o segundo, são visivelmente mais importantes do ponto de vista clínico e do ponto de vista do aprofundamento do delírio. Após o segundo, Schreber já está convencido de que ele está no centro de uma trama que envolve o destino do mundo inteiro. E no entanto é só uma figura que emite a voz. Seu pai ou deus. Há posteriormente certa contração (relaxamento), que podemos chamar de descida da escada.
Suzanne, ao contrário, ignora a escada, dá um drible da vaca no real, mesmo no real do delírio, enquanto o delirante for um Schreber. Quem são os inimigos de Suzanne? A sociedade anônima. Enfermeiras, doutores, bedéis, a polícia inteira da cidade ou do país, todos os fascistas e capitalistas, em última instância. Porque de repente os Urban são um bando de socialistas. O mundo não vai ser salvo nem acabar de maneira alguma, mas esse terremoto com Suzanne no centro de seu palco seria suficiente para liquefazer toda a ordem do seu dia. Ela, a vítima. Não deixarão constar nas manchetes de jornais nem nos livros de história a verdadeira história: que Suzanne é inocente. O Grande Irmão a apanhou. E ele tem infinitos avatares intercambiáveis. O que é que fazem com os perseguidos políticos? Podem muito bem metralhar. Mas se não metralham? Talvez não metralham porque existe o risco de se tornarem mártires! Aí então são mais cosméticos e cirúrgicos: basta com exilá-los, torná-los párias inofensivos, eternas personae non gratae. Se Suzanne está viva, só pode ser esse o tratamento a ela dispensada pelos inimigos ocultos!
O dia em que cri que o apresentador do canal de esportes se dirigia a mim, porque sabia que eu estava na pior. A mim!
A internet escamoteia Cila ou Caribde.
Ou eu bem gostaria que fosse verdade, para vender mais livros…
Quem cai na boca do trombone e é o centro das fofocas quer se matar –
Porque não pode se identificar
Com o lunático solitário que só queria ser falado e criticado!
Ou vice-versa.
Schreber x Professor Flechsig
ódio concentrado, advindo do amor pelo pai
Suzanne x “autoridades”
culpa sem relação interpessoal específica, difundida por todos os sentidos alucinados
culpa totalizante, culpa da própria nulidade social
o delírio seria a vingança da moral contra um eu torpe, que se torna mera coisa, títere no teatro. e sua punição deve ser universalmente contemplada, como num reality show ou grande panóptico avant la lettre, seu corpo nu, sua micção, defecação, o ato de comer, transpirar, assoar o nariz, gozar… menos exibicionismo a contragosto que um voyeurismo de si, um sadomasoquismo em que se é boneco, personagem trágico, platéia, direção e os próprios antagonistas.
“Schuld em alemão significa tanto culpa quanto dívida.”
“Uma vez que o conceito de autismo é usado ora no sentido daseinanalítico, ora no psicológico, caracterológico, psicopatológico ou psicanalítico, ele se tornou cientificamente quase inutilizável hoje em dia.”
novo demais pra ser demente, velho demais pra ser bobão.
“Nós vimos que nossa própria paciente se encontra na menopausa e os cabelos esbranquiçaram rapidamente nos últimos tempos.”
“Lembramos que Bleuler notou muito freqüentemente nos paranóides uma <sexualidade fraca>, bem como a falta de desejo por filhos. (…) um autoerotismo <forte> dificilmente pode ser concebido como um sinal de sexualidade forte.” “sem a predisposição sadomasoquista, o exame e o adoecimento do marido não teriam esse papel proeminente na doença.”
“seguimos Bleuler quando ele diz <de acordo com nossos conceitos, a constituição hipo-paranóica é uma subforma da psicopatia esquizóide, assim como a paranóia involutiva é uma subforma da esquizofrenia paranóide.>”
11. DE VOLTA A HEIDEGGER& ARREMATE
“Aqui o medo não mantém o Dasein <no nada>, desse modo, ele não deixa o mundo naufragar na insignificância, antes confere a ele uma significância distinta e absolutizada, a do pavoroso e, assim, do significado pavoroso de toda singularidade.
“Vemos no conceito de necessidade de delírio o quanto a investigação do delírio (para o mal do conhecimento psiquiátrico) acabou sendo levada a reboque pela investigação normal-psicológica.”
Diretamente relacionado com as polêmicas Freud//Adler: “Bleuler observa com muita agudeza mais uma vez [péla-saco] que se alguém fala de desejo ou necessidade de estar doente, de interesse pela doença, de meta, de ganho da doença, de fuga para as doenças, de intenção e organização, é necessário ter claro em mente, por causa das conseqüências práticas, que essas expressões e conceitos são tirados das idéias de um leigo sobre a psique [!] normal e, na verdade, não deveriam ser de forma alguma empregados em relação a estados mórbidos.”
Nunca vou entender como os autores cinicamente (acordo tácito?), após ridicularizarem Freud num parágrafo, sem citar, nas suas linhas, ‘F.’ e ‘psicanálise’, procedem, logo a seguir, a uma exaltação fabulosa do <legado>: “Em F., o conceito é muito mais profundo do que naquilo que se costuma falar [mais ainda?] sobre o processo de cura, uma vez que ele está firmemente baseado na teoria (construída com muita fineza) da libido, do recalque, do retorno do recalcado e da projeção.”
Projeção continua, a meu ver, o conceito mais problemático da psicologia em geral.
“A partir desse caso de Schwab, pode-se encontrar facilmente um caminho para o <demônio diabólico> de Suzanne Urban e de muitos outros pacientes que sofrem de delírio”
“nos afastamos de Bleuler e de Jung quando eles querem desqualificar a teoria do delírio primário com a assunção e freqüente evidenciamento de motivos inconscientes”
“Hans Kunz acreditava que era necessário ver a vivência de desabamento do mundo (cf. Schreber) <como o conteúdo> do delírio primário <mais adequado à ocorrência>, contudo essa vivência (como nosso caso mostra) não é de forma alguma um pressuposto necessário para o delírio primário.”
Heidenhain, J.J. Rousseaus Persönlichkeit, Philosophie und Psychose
“Vê-se quão pouco o critério da recorrência pode, do ponto de vista da <deflagração do delírio>, ser utilizado no diagnóstico diferencial de paranóia e esquizofrenia.”“Mesmo o <esquizofrênico> que chega imediatamente à certeza delirante tem, como nosso caso mostra também, experiências sempre novas que confirmam as antigas.”
“Hoje não podemos mais dizer que as idéias persecutórias se misturam ao quadro da doença <em razão de ilusões sensoriais>, como se podia ler na avaliação do hospital psiquiátrico Sonnenberg sobre o presidente do senado Schreber e infelizmente ainda se pode ler freqüentemente. Antes temos que perceber de uma vez por todas que as alucinações não são distúrbios isolados, como ressaltam Schröder e Meyer-Gross. Mas o precursor nesse tema foi Minkowski em Le Temps vécu, 1923.”
“Um louco não faz mais do que perceber a condição humana a sua maneira”
Sartre
“As alucinações não se originam de um distúrbio do sensório – compreendendo-se essas funções no sentido psicológico –, também não se originam de um distúrbio das funções da percepção, do pensamento, do juízo, mas partem de um distúrbio e uma variação das funções simpáticas da sensação. Visto que essas funções estão alteradas, o paciente vive outra comunicação com o mundo; mas uma vez que os modos de ser-no-mundo são fundamentais para todas as vivências, as alucinações não são distúrbios isolados”
Erwin Straus, Do Sentido dos Sentidos, 1935
“No conto Na Colônia Penal de Kafka, um viajante, ao ver um delinquente, pergunta ao oficial se ele sabia sua sentença. <Não>, diz o oficial, <seria inútil anunciá-la a ele. Ele já a sente sobre seu corpo>. Dessa maneira, Suzanne Urban não vem a saber de sua sentença, mas de seu sofrimento <sobre seu corpo>, e, por isso, é <inútil> <anunciar> ou explicar a sentença a ela, ou esclarecê-la. E quando Kafka continua: <não é fácil decifrar a escrita (da sentença) com os olhos; nosso homem a decifra, mas com suas feridas>, também nossa pobre S.U. decifra a escrita de seu <destino> não com os olhos (da compreensão), mas com suas <feridas> e as de seus familiares, com os <sofrimentos infligidos> a ela e a eles. (…) O Dasein zomba de qualquer outra experiência; pois esta é a mais <impressionante> no sentido duplo da palavra.” (íntimo e doloroso)
“Por mais que a clínica não consiga evitar todas as tentativas psicológicas, caracterológicas e biológicas de responder o porquê dessa questão em termos de um conhecimento objetificante, a tarefa da psiquiatria como ciência não se esgota nisso.”
“As capacidades anímicas, as propriedades anímicas, a alma (no sentido da psicologia e da psicopatologia), o caráter, a pessoa, a personalidade, o impulso, etc., tudo isso está ontologicamente no limbo, ou seja, não tem fundamento ontológico. Encontramos esse fundamento na analítica do Dasein de Heidegger.”
Jaeger, Paideia II [!!], Die griechische Medizin als Paideia
“o terrível não pode mais se tornar algo impessoal e extramundano contra o qual se pode invocar o destino, mas ele se tornou um ente intramundo que ainda é acessível sob o aspecto da hostilidade.”
Não existe satisfação compensatória: não é uma expiação que demande “x” de tempo ou energia, até haver a quitação. Em tese Suzanne poderia sofrer de seu delírio um tempo infinito (enquanto viver), sem tendência à cura. Realmente o poema de Baudelaire caía bem: uma máquina infernal!
Não importa o conteúdo do delírio: o médico deve analisar a vida pregressa desse tipo de paciente esquizofrênico.
Situação de partida > Autonomização delirante (a paciente perde o foco da ‘angústia original’, quando ainda tinha um ser-no-mundo autêntico)