“É em nome da auto-análise de Freud que a auto-análise é hoje reconhecida por alguns como uma prática completa. Num livro recente, um autor alemão, Karl König, escreveu: <Freud fez a primeira auto-análise (1900). Quando de sua auto-análise, Freud dirigiu-se a um parceiro, Fliess, e talvez o tenha imaginado durante a auto-análise; pelo menos, sempre o trouxe em seus pensamentos.> O autor expôs em seguida a técnica da auto-análise: a análise dos próprios sonhos e o que ele denominou de <micro-sintomas>: esquecimentos momentâneos, dores de cabeça, dores de barriga. estados depressivos e, acima de tudo, coincidências temporais que criam um vínculo causal. Veremos que a atenção dada a este último aspecto foi um dos pilares do método de interpretação de Fliess.”
“essa auto-análise que prolonga a análise pode ser considerada, por uma curiosa inversão, como o começo da análise.”
1. A CORRESPONDÊNCIA FREUD/FLIESS, UM QUEBRA-CABEÇA TRUNCADO
“Algumas cartas de F. a Fliess foram publicadas pela 1ª vez no começo de 1906, durante a vida de F., mas sem sua autorização, no panfleto de Richard Pfennig intitulado Wilhelm Fliess e seus descobridores imitadores, O. Weininger e H. Swoboda, que acusava Weininger e Swoboda de haverem, por intermédio de Fr., plagiado Fl..” “Uma 2ª reprodução dessas 4 cartas (com diferenças mínimas de citação) saiu em junho de 1906, na brochura de Fl. denominada Em minha causa própria, que retomava as acusações de Pfennig.” “Fr., muito afetado pela publicação maldosa de suas cartas particulares ao amigo, decidiu, depois de 1904, destruir todas as cartas que recebera de Fliess, de modo que, hoje em dia, dispomos apenas de metade da correspondência.”
“A ascensão do nazismo obrigou os Fliess a emigrar e a se separar de parte dos arquivos de Fl., ao mesmo tempo que tentavam certificar-se de que esse material não seria destruído pelos nazistas. Após refletir sobre o assunto, Charles Fliess achou que a solução mais segura seria dirigir-se a um negociante de livros, pois sua profissão o punha em contato com o exterior e, desse modo, ele teria mais facilidade em fazer com que saíssem documentos da Alemanha. Foi assim que Charles vendeu as cartas de Fr., depois de fazer uma triagem prévia”
“O livreiro que comprou 250 das cartas de Fr. entrou em contato com Marie Bonaparte para lhe vender o conjunto a 12 mil francos.”
“Depois da guerra, Bonaparte, Anna Freud e Ernst Kris decidiram publicar as cartas, mas fazendo previamente uma triagem e censurando boa parte delas. O livro foi lançado em 50, sob o título de Aus den Anfängen der Psychoanalyse. Briefe an Wilhelm Fliess, Abhandlungen und Notizen aus den Jahren 1887-1902, Londres, Imago. A versão francesa saiu em 1956. Até hoje, início de 95, esse é o único texto das cartas de Fr. a Fl. de que o público francês dispõe! Graças ao trabalho de Michael Schröter, Gerhard Fichtner e Jeffrey Moussaieff Masson, a S. Fischer lançou, em 86, o volume Sigmund Freud Briefe an Wilhelm Fliess 1887-1904, que contém quase a íntegra não-censurada. A edição inglesa, de 85, traz erradamente o título The Complete Letters of (…).”
“Em 1895, época em que a correspondência atingiu um 1º pico, Fliess descobriu a solução para a concepção, i.e., as cifras referentes aos períodos masculinos e femininos – 23 e 28 –, os quais, segundo ele, regiam, entre outras coisas, a determinação do sexo e das datas de fecundidade.” “Um segundo pico foi atingido em 1897. A curva atingiu seu ápice em 1899, ano em que Fr. mandou publicar, no outono, A interpretação (…), depois de um momento de pressa de concluir ocorrido no verão, corrigindo com Fl. as provas dos primeiros capítulos (…) Depois a correspondência diminuiu muito rapidamente.”
“Essas cartas são bem-escritas, sempre em caracteres góticos. Vez por outra, Fr. utiliza palavras iídiche (Meschugge), ou do dialeto vienense (Knetscher), ou expressões em francês.”
“A importância da clientela de Fr. varia ao longo dos meses. Pode ir de 11 clientes/dia (em 1898) até 3 e ½ (!) (em 20/05/1900). Fr. não quer ter pacientes em demasia – eles lhe são um tormento quando está deprimido, o que não é raro”
“Como indica nos Estudos sobre a histeria, depois Fr. abandonou a hipnose, a fim de praticar a busca de idéias e lembranças através da pressão das mãos sobre a fronte. Mais adiante vem a técnica das associações livres, à qual ele certamente faz alusão em sua carta de 07/07/1897.”
“metapsicologia, termo surgido em 13/02/1896.”
“O Sr. E.: o ataque de angústia diante de um escaravelho (Käfer), aos 10 anos de idade, continuara inexplicado até o momento em que ele descobriu que essa palavra devia ser escutada como Que faire?, índice da perplexidade de sua mãe na hora de se casar.”
“Muitos desses manuscritos não foram preservados. Esse foi o caso, em especial, de uma série que ele batizou com o nome grego de Drekkologie (merdologia). Em consonância com seu nome, nenhum desses manuscritos foi conservado. Numerados 1, 2, 3,…, eles foram remetidos entre o fim de 1897 e o começo de 1898. Fliess os devolveu, depois de fazer algumas correções. Um desses textos da Drekkologie continha, provavelmente, um grande sonho de Fr., que ele tencionava inserir em lugar de destaque na Traumdeutung, mas que retirou a conselho de Fliess, porque dizia respeito a Martha. (…) Fr. também corrigia os manuscritos de Fl. – principalmente até a publicação de As relações entre o nariz e os órgãos genitais femininos, do fim de 1896 – e utilizava os trabalhos do amigo em suas pesquisas.”
“eles começaram por fazer o projeto de um livro a 2, versando sobre a neurastenia e a neurose de angústia. Esse projeto alimentou boa parte de sua correspondência entre 1892 e meados de 1893, momento em que o ritmo de suas cartas se acelerou. (…) Esse projeto tinha um objetivo nosográfico (a distinção entre as neuroses atuais e as psiconeuroses)”
SUJEITO NARIGUDO: “Fl. havia escrito um artigo preparatório para o estudo comum: Nova contribuição para a clínica e a terapia das neuroses nasais reflexas.”
Fl. A neurose nasal reflexa, abril de 1893 (conferência)
“Muito mais tarde, quando os 2 já haviam se afastado, Fr. renovaria a Fl. a proposta de escrever um livro conjunto sobre a bissexualidade. O projeto não foi além dessa proposta.”
“Fl., que até então só se ocupara das neuroses nasais reflexas, iria desenvolver, a partir dessa data (maio de 1895), um sistema delirante de interpretação, baseado na existência de períodos masculinos e femininos de 23 a 28 dias, aplicáveis com a mesma regularidade aos acontecimentos normais e patológicos que sucedem ao ser humano, assim como aos animais e às plantas. Esse sistema entrou em vigor a partir de As relações. Freud desconheceu o caráter delirante do sistema fliessiano e não tardou a se interessar por seus cálculos. Alimentou-os, fornecendo listas de datas de acontecimentos ocorridos com seus pacientes ou em sua família, procurando verificar a teoria de Fl. em si mesmo e integrando-a em sua própria teoria das neuroses – p.ex., na distinção entre as fases sexuais e as fases psíquicas que fossem múltiplas, respectivamente, de 23 e 28 dias.”
“Reconheceu não estar certo de poder retribuir na mesma moeda no que concernia à grande obra que Fl. estava preparando, O curso da vida: Fundamento para uma biologia exata, que só viria a ser publicado em 1906, embora Fr. desejasse vê-lo lançado ao mesmo tempo que a Traumd..”
“Anna receberia o nome de Wilhelm, se o filho esperado fosse um menino, como era previsto (pelos cálculos de Fliess).”
“Martin era atacado, segundo palavras do pai, de <Dichteritis (‘poesite’) periódica>.” Aos 8 anos de idade? Difícil acreditar…
“Fala pouco da mãe, mencionando com maior freqüência Martha e Minna, que vai morar em sua casa, e o pai, falecido em 23/10/1896, dia do aniversário de Fliess (…) Fr. responsabiliza seu pai pela histeria de seu irmão [??].”
“Dora, fragmento da análise de um caso de histeria estava pronto desde 1901, mas Fr. renunciou a publicá-lo, ao se dar conta de haver perdido Fl. como público.”
“Ao longo da correspondência, Fr. também modificou sua maneira de falar de si mesmo. Até 95, queixava-se muito da saúde e apelava para o médico que havia em Fl., o qual viera substituir Breuer nesse papel. Consultava-o sobre seu catarro nasal, suas enxaquecas e seus distúrbios cardíacos (dores, arritmia, etc.), que ele supunha estarem ligados a uma miocardite. Fliess aconselhou Fr. a parar de fumar charutos e, achando que se tratasse também de uma neurose nasal reflexa [hahaha], praticou em Fr. a cocainização do nariz. Fl., por sua vez, queixava-se sistematicamente de enxaquecas fortíssimas.”
“Ida ocupa um lugar de destaque em As relações, sob o nome de Sra. A., havendo Fr. desaconselhado que ela fosse chamada pelo nome verdadeiro.”
“Fr. observa ao amigo (no Manuscrito O) o quanto ele tem sorte por contar com uma mulher que é, ao mesmo tempo, sua paciente e sua secretária (ela retranscrevia os manuscritos do marido).”
“Aliás, sucedeu a Fr. pedir que Fl. lhe devolvesse esta ou aquela carta, por precisar dela para alguma publicação.” E um homem tão precavido não as copiava antes?!
“Como dizia Montaigne, mesclavam-se <na amizade outra causa e meta e fruto que não a amizade em si>.”
“o que conheces de melhor não pode ser dito aos meninos” Goethe
“Assim como as cartas de Fr. a Fl. não contam uma história, elas também não formam um todo. Constituem, antes, um quebra-cabeça no qual faltam diversas peças.”
“A falta das cartas de Fl. desequilibra a correspondência e induz a sua leitura no sentido de uma história na qual um dos personagens – no caso, Fl. – ocupa o lugar do ausente, do Outro silencioso, que não responde. É muito fácil, a partir daí, dar um passo a mais e dizer que Fl. encarnou a posição do analista para Fr., e que Fr. fez uma auto-análise com Fl.. Esse foi o passo dado pela maioria dos psicanalistas, que erigiram a auto-análise de Fr. com Fl. num mito fundador. Ainda hoje, estamos a tal ponto impregnados desse mito que nem sequer avaliamos a sua amplitude ou seus efeitos. Ele constitui uma versão das origens da psicanálise que prevalece tanto entre os lacanianos quanto entre os não-lacanianos. Octave Mannoni contribuiu para forjá-la em seu livro sobre Fr., notável sob outros aspectos.” “É sobretudo a Didier Anzieu que devemos, na França, a propagação do mito da auto-análise de Fr., que ele construiu nas 3 edições revistas de seu livro L’auto-analyse de Freud et la découverte de la psychanalyse.”
2. O CASO DA AUTO-ANÁLISE DE FREUD, NÃO SEM UM ITALIANO CULTO
“Cada tornar-se analista é determinado, em parte, pelo desejo que movia Fr. e Lacan como analistas.” Acho que já sei por que nunca me tornei um.
“O livro de Anzieu contribuiu para fabricar um mito da auto-análise, na medida em que equivaleu a uma reconstituição de uma espécie de <Diário de minha auto-análise> escrito por Fr., uma espécie de autobiografia analítica. Seu método consistiu em ligar, pela trama do que é sabido sobre a história de Fr., os sonhos, formações do inconsciente e ditos deste último a Fl..”
“no encontro no lago de Achen, em julho de 1900, Fl. afastou-se voluntariamente de Fr. e espaçou a remessa de suas cartas.” “Em 1901, Fl. censurou-o por <só ler nos pensamentos dos outros seus próprios pensamentos>.”
“A convicção de que seu pai, que morreu de erisipela após longos anos de supuração nasal, poderia ter sido salvo fez dele um médico, e até direcionou sua atenção para o nariz. A morte súbita de sua única irmã, 2 anos depois, no 10º dia de uma pneumonia pela qual ele não pôde responsabilizar os médicos, inspirou-lhe a teoria fatalista das datas predestinadas para a morte – como que para se consolar. Esse fragmento de análise, contrário ao desejo dele, foi o motivo interno do rompimento, que ele empregou de maneira sumamente patológica (paranóica).”
“Fl. sabia que seu pai não havia morrido de erisipela, e sim que se havia suicidado. O fato de ele não ter dito nada a Fr. a esse respeito mostra sua desconfiança, anterior a qualquer interpretação procedente de outrem.”
MEIO LENTO O DOUTOR, NÃO? “Foi preciso esperar pela divulgação da acusação de plágio, em 1906, para que Fr. começasse a conceber a idéia de que o amigo havia ultrapassado os limites do que ele esperava de uma amizade.”
“De aparecimento relativamente recente e de contornos imprecisos, a biologia era um campo que Fr. esperava que trouxesse uma certa garantia ou confirmação para o caminho que ele ia abrindo.”
“estou 10 a 15 anos à frente” 01/01/00 – de qualquer modo não foi muito…
“Uma vez que a biologia era uma ciência relativamente nova, havia margem para esse tipo de esperança. (…) Ele não hesitou em qualificar Fliess de Kepler da biologia, coisa de que o próprio Fl. estava convencido. Assim, a certeza megalomaníaca de que este dava mostras habilitou-o a desempenhar o papel que Fr. esperava dele.”
“Em sua carta de 22/09/98 a Fl., escreveu: Endlich erfuhr ich den Namen: Signorelli – <Finalmente aprendi o nome: Signorelli>, o que foi impropriamente traduzido, em La Naissance de la psychanalyse, como <Finalmente, lembrei-me do nome: Signorelli>. Depois, em seu artigo de 1898 intitulado O mecanismo psíquico do esquecimento, Fr. foi mais explícito: <Dado que, durante a viagem, eu não tinha nenhum acesso a livros de consulta, tive que aceitar, por vários dias, essa perda da lembrança e o tormento interno que lhe estava ligado, o qual retornava diversas vezes por dia, até que encontrei um italiano culto que me libertou, através da comunicação do nome: Signorelli.> Por último, no 1º capítulo da Psicopatologia da vida cotidiana, lemos: <Quando o nome correto me foi comunicado por uma fonte externa (vom fremder Seite), reconheci-o imediatamente e sem hesitação.> Anzieu cometeu um erro, portanto, ao atribuir à auto-análise de Fr., sozinho, o retorno do nome, porquanto ele não chegou à solução por si mesmo – apesar, justamente, de sua obstinação, ou seja, dos vários dias de tentativas repetidas e tormentosas –, e foi preciso um encontro com um italiano culto para que ele fosse liberto de seu tormento. É claro que Anzieu se apoiou numa tradução ruim da carta de 22/09/98. Mas não se pode imputar sua leitura unicamente a essa tradução, pois ele faz referência também ao texto alemão, e as versões do artigo de 1898 e da Psicopatologia são inequívocas quanto à intervenção do terceiro.”
gebildeten Italiener
ele era cultivado como uma planta!
o italiano ilustrado
Retirem o Édipo e a psicanálise em extensão fica inteiramente sujeita ao delírio do presidente Schreber
Lacan
encontrou o que estava procurando? encontrou-se ao menos?
a cultura é um peido estrondoso ou silencioso?
me dei (bem) comigo mesmo no espelho
Definitivamente Freud não compreenderia Lacan.
3. UM RESTO NÃO-ANALISADO DE FREUD PARA LACAN, EM 1964
“Hoje em dia, talvez vejamos menos lacanianos do que em 1979, e as divisões entre eles favorecem um recuo, mas ainda é fato que o lacanismo é hoje um elemento de nossa cultura. Isso é conseqüência da crise que abalou o movimento analítico francês nos anos 60 e que foi resolvida através da suspensão, por Lacan, de seu seminário sobre os nomes do pai, e de sua criação da Escola Freudiana de Paris. Ao proceder desse modo, Lacan quis romper com o corporativismo da sociedade de psicanálise a que pertencia e criar, por meio do fato cultural, interligações entre a psicanálise e o conjunto da sociedade.” blábláblá…
“A Escola que ele fundou, aliás, foi aberta aos não-analistas, que ali deveriam exercer uma função.”
“Em 20/11/63 realizou-se a primeira sessão desse seminário. Lacan anunciou que ela seria também a última. [?]” “Voltando a falar desse seminário nos anos seguintes, Lacan manteria o suspense, em vez de confirmar a suspensão definitiva. A suspensão do seminário constituiu uma reação às medidas discriminatórias da IPA que a SFP ratificou em relação e ele, em 11/63, e que Lacan assimilou a uma excomunhão, tal como a que atingira Espinosa. Essa história havia começado em 1959, com o pedido de adesão da SFP à IPA. Este foi acompanhado, durante 4 anos, por uma sucessão de inquirições e negociações, cujo pivô era o afastamento de Lacan e que, no fim de 07/63, levaram à chamada Diretriz de Estocolmo, que estipulava que ele fosse riscado da lista de didatas”
O homem que não acabava nada… “Em seguida deveria vir um livro de L., intitulado Questionamento do psicanalista, mas este nunca veio à luz. Em 65, porém, L. leu em seu seminário excertos de um livro que estava escrevendo, intitulado Vias da psicanálise verdadeira, mas que também ficaria inacabado.”
“Em 01/64, um mês depois da suspensão do seminário Os nomes(…), Lacan começou um outro”
“Depois de fundar sua Escola, em 21/06/64, L. pôde prevalecer-se de ter os pés em 3 Escolas: a ENS, com respeito ao lugar geográfico, a EPHE, como lugar social que se abria para o meio científico, e a Escola Freudiana de Paris, como lugar de transmissão formado por ele e seus alunos.”
“Na virada que se efetuou para Lacan em 1963-4, o encontro com Althusser foi decisivo.”
“Lacan tencionava não se deixar encerrar nos impasses de uma transmissão religiosa da psicanálise, impasses dos quais não bastava sair da IPA para escapar.”
“Uma escola, quando merece esse nome, no sentido em que esse termo é empregado desde a Antiguidade, é uma coisa onde se deve formar um estilo de vida”
L. 27/01/65 (por que é tão importante datar tudo?)
“Quanto ao seminário, ele deve ter um valor de ação para os que o acompanham”
“Chegou até a intitular um seminário de Les non-dupes errent [Os não-tapados erram]” “a descoberta do nó borremeano” “sujeito suposto saber”
ESSA TERMINOLOGIA ME DÁ ENGULHO
“Fl. teria encarnado, para Fr., uma imagem do Nome do pai sujeito suposto saber, no ideal científico que representava aos olhos dele, e essa imagem ter-se-ia transmitido para a psicanálise, sem que Fr. se apercebesse.”
“a distinção estabelecida por Pascal entre o Deus de Abraão, Isaac e Jacó e o Deus dos filósofos. Essas duas versões de D. de modo algum são incompatíveis num mesmo sujeito.”
“Na ciência, a forclusão [inclusão fora] da verdade como causa a faz aparentar-se com a paranóia, na qual existe uma forclusão do Nome-do-Pai. Como conciliar, sendo assim, a idéia da psicanálise – paranóia bem-sucedida – com o fato de ela reintroduzir o Nome-do-Pai na consideração científica?” Metafísica ela não é. Não que fosse possível de qualquer forma…
“podemos ver desatar-se em algum lugar o QUIASMA que lhe parece criar obstáculos.”
“Ora, o princípio da verdade como causa resulta da divisão forclusiva de Descartes, que, ao remeter a garantia das verdades eternas a Deus-sujeito suposto saber, permitiu que a ciência deslanchasse como acumulação de saber.”
“a publicação de Emílio correspondeu ao desencadeamento de um delírio em Rousseau. Alguns atrasos na impressão levaram-no a crer que os jesuítas se haviam apoderado do texto e tinham armado um conluio para lhe acrescentar suas próprias idéias, usando seu nome.” “A ficção do aio deve ser considerada como um Nome-do-Pai para Rousseau.”
“A continuação de Emílio, Emílio e Sofia ou Os solitários, encerra-se num drama, bem ao estilo de Rousseau. Emílio perde tudo: separa-se de Sofia, seus filhos e seus sogros morrem. <Tudo me anunciava uma vida agradável, tudo me prometia uma doce velhice e uma morte tranqüila nos braços de meus filhos. Ai de mim!>”
4. FLIESS, UM ARTISTA DA CIÊNCIA
“Swoboda era um jovem doutor em direito e filosofia, que entrou em análise com Fr. em 1900 e se lançou em estudos de psicologia, depois publicados em seu livro sobre os períodos. Afirmava ele que a emergência espontânea das lembranças sobrevinha ao cabo de um período de horas ritmado pelas cifras 23 e 18, e por seus múltiplos.”
“O livro de Weininger saiu em maio de 1903. Wei. suicidou-se em outubro do mesmo ano, na mesma casa em que morreu Beethoven. Antes de morrer, escreveu: <Mato-me para não matar um outro>.”
*POH4, FDI6, BIP6, FL6
“POH4, anterior à briga, teve como ambição fundar uma nova psicologia, emancipada da psicologia experimental e de sua instrumentação, que levasse em conta o conhecimento da psique individual e casos tomados em suas condições de vida habituais [psicologia da vida cotidiana].” Swoboda: “Se nos queimarem um quadro de Böcklin,se perderem a partitura dos Mestres Cantores, poderemos falar numa perda insubstituível. Na ciência, porém, não passamos de soldados rasos. Enquanto estivermos produzindo o individual, não teremos a menor relação com a ciência. Não existe na ciência o splendid isolation. Por aí se explica também o fato de as descobertas científicas serem, muitas vezes, feitas ao mesmo tempo.”
FID6: “É justamente o contrário que sucede: o desempenho científico de alta classe traz uma marca tão individual quanto qualquer desempenho artístico, e não é menos raro nem menos precioso do que este.”
“contrastar o artista com o cientista equivale a refutar a teoria dos períodos”
BIP6, a tréplica: “Quanto mais artista alguém é, menos precisa temer por sua prioridade.” “Existe um desenvolvimento contínuo e histórico da ciência, enquanto, na arte, qualquer realização, seja qual for sua época, pode continuar a ser admirável.” Um dos últimos anos em que se podia ser ingênuo o bastante para afirmar isso sem uma chuva de vaias.
Kuhn: “Os cientistas dirigem-se a um público restrito, uma <platéia>, e os artistas a um público amplo e em lugares diversos: leitores críticos, museus, galerias, etc. [uau, que multidão!]“a ciência destrói seu passado (…) nesse aspecto, K. aproxima-se de Lacan”“a arte cultiva seu passado”
“A nova concepção fliessiana da dupla sexuação permanente lançava na obscuridade, segundo seu autor, todas as concepções da bissexualidade que a haviam precedido.”
“os <alunos> de Fl. não parecem haver transmitido a teoria fliessiana a uma nova geração.”
Vol quatre du Banque Sabbath
“Fl. não discutia seu método; expunha seus resultados como a transcrição de uma lei da Natureza.”
Nesse mesmo dia há exatos 4700 anos um ancestral meu pegou um forte resfriado!
“A simultaneidade significativa dos acontecimentos era o zero necessário ao cálculo e do qual provinha a seqüência dos números.”
0 4 8 15 16 23 42
. . .
“A nosso ver [NÓS LACANIANOS], o sistema teórico de Fl. constituiu-se como uma defesa contra a transmissão de pensamento”
“Em O curso da vida, Fl. comparou a duração da vida do príncipe de Orange, Guilherme IV, e de sua irmã, Charlotte Amalie von Nassau Dietz, com a da vida de Bismarck e de Goethe, para constatar que, reduzidas a fórmulas escritas unicamente com os nos. 23 e 28, essas durações eram formalmente vizinhas.
Em O ano no ser vivo, comparando entre si os intervalos de nascimento de um certo n. de famílias e comparando-os com os intervalos nas datas de floração de uma planta, Fl. chegou a enunciar uma equação entre a família Fr. e a família Fl.: Freud 1 = Fliess 1 – (2Å [0,2 nanômetros?] – 23), onde Å representa o ano (365 dias), e o n. 1 indica os intervalos de nascimento entre os dois primeiros filhos de Fr. e de Fl..” “Essa fórm. evidencia o que Fl. chamava de Tipo D acrescido de 1 ano (os nos. entre parênteses), também encontrado em outras famílias e até em plantas.”
Guilherme PREMONIÇÃO Fliess
“Em Vom Leben und vom Tod(Da vida e da morte), Fliess relatou que, em 1886, morreram de tuberculose 34,19 homens em cada 10 mil, e 28,2 mulheres em cada 10 mil. A relação é igual a 28/23.” “A natureza escolhe, tanto entre os homens quanto entre as mulheres, grupos de 23 ou 28 seres, e os liga todos a um mesmo destino. Nesses grupos, todas as oscilações são equilibradas, e é por isso que cada um representa a mesma soma de substância viva.” “Um pouco mais adiante, ele observa que a mortalidade entre 1867 e 1907 oscilou entre 19 e 31,1 por cada mil habitantes. O quociente obtido é igual a 2,23/28. (…) enquanto a taxa de natalidade foi de 1872/1907 = 28/23.”
CONCLUSÃO
Não me venha “explicar” a “auto”análise de Freud (sem explicar!) relacionando-a com erros e omissões e a incompreensibilidade de Lacan! Stop at the flop – Inclusive esta conclusão poderia ter sido logo redigida à p. 2 – um dos livros mais desnecessários que já li!
“Esse ideal pseudocientífico contribuiria também para sustentar uma prática da análise selvagem na qual tendem a cair alguns analistas, o que não facilita as relações entre eles.”
APÊNDICES (mais ¼ do livro!)
Do mesmo sangue – Fl.
“Um dos meus colegas e amigos relatou ter sido atingido por dores apendiculares na mesma hora em que sua irmã começou a sentir as dores do parto. Isso ocorreu no dia do aniversário de um terceiro irmão.”
“Nos haras, é sabido que freqüentemente o potro adoece quando a égua fica no cio.” “No sul do Brasil, os bambus florescem a cada 13 anos; na costa ocidental das Índias, a floração acontece a cada 32 anos, e se dá simultaneamente num vasto território.”
Direita e esquerda – Fl. (tradução de Patricia Barouky)
O LADO DA VONTADE (O LADO ESCURO DA LUA): “Na casa de Goethe, em Weimar, há uma máscara pendurada cujo molde foi feito por Schadow, e que representa Goethe aos 60 anos, aproximadamente. Como a fotografia ainda não tinha sido inventada na época, essa máscara constitui o único documento autêntico sobre o rosto de Goethe, pois os quadros concordam tão pouco entre si que é impossível saber que aparência teria Goethe na realidade. Se estudarmos a máscara de Schadow um pouco mais de perto, observaremos uma extrema acentuação da metade esquerda do rosto. Do lado esquerdo, a fronte é mais recurvada, à esquerda a bossa da fronte é mais saliente, a arcada superciliar esquerda é mais alta, o osso malar é mais forte, a dobra nasal do lábio é muito mais pronunciada e, do mesmo modo, as outras partes do rosto são nitidamente mais desenvolvidas à esquerda do que do lado direito. Goethe, que sabia tudo, também havia reparado nisso. <A natureza golpeou-me do lado esquerdo>, disse certa vez. E quando se observa a máscara de Beethoven – não a máscara mortuária, com os traços emagrecidos, mas o conhecido molde do rosto de Beethoven vivo, que costuma ser adornado por louros –, nota-se a mesma coisa, a despeito de toda a diferença na realização e na forma. Também em Bee. a parte esquerda do rosto é maior e muito mais pronunciada do que a direita.”
Schopenhauer pisara ali antes. Você entrou com o pé esquerdo nessa celeuma!
Quem será meu mascareiro? Uma impressora-scanner, talvez…
“Para compreender a natureza desse fenômeno, é necessário termos uma nova percepção, qual seja, a de que os homens canhotos são mais propensos à feminilidade [eu diria ao fascismo], e as mulheres canhotas à masculinidade, ou seja, mais propensos no sentido de o serem mais intensamente do que se observa nos destros do mesmo sexo.”
“Normalmente, todo homem tem seios rudimentares e deles, nos meninos recém-nascidos, com freqüência até escorre leite, o chamado <leite de feiticeira>. E a penugem do bigode é igualmente própria das mulheres.” “Existe um nº excessivamente maior de falsos canhotos do que de canhotos. Basta observar de maneira suficientemente precisa para descobrir o mundo dos falsos canhotos: com qual mão o homem se barbeia, assoa o nariz, leva o copo à boca, segura o cigarro, distribui as cartas, tira a rolha das garrafas, em qual mão apóia sua cabeça e com qual delas abotoa o sobretudo.” “esse é, antes de mais nada, o artista. Portanto, o homem que tem um dom particular.”
“Compreendemos como o poeta dos Niebelungen, Wilhelm Jordan, pôde aprender, em tempo ínfimo, a escrever com a mão esquerda, e como Frederico, o Grande, depois de um ataque de gota na mão direita, pôde imediatamente escrever com a mão esquerda a carta enviada a sua irmã favorita, a baronesa de Bayreuth.”
“quando a natureza dá um excedente, ela também tem que criar uma carência, um vazio do qual o excedente tenha sido extraído. No interior de uma família com uma substância que forma uma unidade, uma entidade homogênea, da qual cada um dos que a ela pertencem constitui um fragmento, deve ser possível encontrar esse vazio.” $destrezaboemiaTALENTO
“o ser realmente sinistro”
Eu seria, teleologicamente, aquele que teria de advir.
all o’ them are 5 letter-words…
“eles não sabem que a natureza compensa essa sombra com uma abundância de luz.”
“O que foi dito dos eslavos é igualmente válido em relação aos franceses, com seu gosto refinado e suas mulheres autoritárias. Entre eles, os ferrolhos se fecham no sentido inverso e os bicos de gás fecham-se com o movimento contrário. (…) Na China, quase tudo é feito para a esquerda, e os homens usam cabelos compridos, presos em tranças.”
A idiotia do “cabelo feminino”… Ó, devem ser meus genes!!
Matar um dos irmãos gêmeos ou AMBOS? Qual destas superstições seria a mais aceitável?
“as famílias geniais nunca persistem.” Que honra que uma nulidade como a família que me gerou seja por isso chamada de GENIAL!
“Os Goethe, os Schiller, os Mozart, os Beethoven, nem mesmo os Bismarck existem – apenas, de fato, os Dupont e os Durand, em grande número. O gênio aparece na terra – segundo as palavras de Moebius – não para aumentar o número de homens: somente as obras imortais são seus filhos.”
NOTAS
“Lacan se considerava instigador do trabalho de Anzieu e o acusou de plágio por seu comentário do sonho da injeção de Irma: <Assim, será preciso que eu o publique (seu comentário do sonho de injeção, de 1955), e, se não o publiquei, foi por ter ficado absolutamente enojado com a maneira como isso foi retomado num certo livro que saiu com o título de Auto-análise: era meu texto, mas remetendo a ele de maneira a que ninguém compreendesse nada> (Lacan, …Ou pire, sessões de 14 e 21 de junho de 1972, inédito). A acusação de L. representa uma homenagem involuntária a Fl. [VAI TOMAR NO CU, PORGE!], que sabemos haver desencadeado uma acusação de plágio contra Fr.. Por outro lado, ela assinala que os lacanianos não têm como não se sentir interessados no problema da autoanálise de Fr. em sua relação com Fl..” Só assinala que vocês são um bando de mexeriqueiros.
“O termo <biologia> só foi introduzido no alvorecer do XIX, na França, num contexto científico (Xavier Bichat), e na Alemanha, onde fez parte do vocabulário romântico (G.R. Treviranus). A introdução desse termo destinava-se a dar lugar a uma ciência distinta da fisiologia, que levasse em conta a especificidade da força vital (Lebenskraft) imanente à matéria orgânica e incluísse o microcosmo e o macrocosmo no campo unitário de uma inteligibilidade universal [de micróbios a baleias, mas sobre vírus¿¿¿].” “A biologia romântica da Naturphilosophie propôs um novo modelo de saber, do qual não estava ausente o matematismo, sob a forma de números que regeriam a economia interna de um organismo total.”
Porge cita Roudinesco.
“Por trás de Ulisses, ausente, perfila-se o Pai oculto e esquivo, o Pai, talvez cruel, que deu às tentativas de cristologia féneloniana seu caráter trágico” (Fénelon, Télémaque)
IDÉIA FUTURA
PARA UMA HISTÓRIA DO PLÁGIO
De Hipócrates a Paulo Coelho, passando por Cervantes¿¿¿
maten (grego): em vão, à toa. Pode-se dizer que o automaton é a sorte com este atributo, em oposição à tique (abaixo).
tique (grego): acaso que contribui para um fim ou propósito“Aristóteles cita o exemplo de alguém que vai à ágora tratar de negócios e que, sem haver pensado nisso, depara com uma pessoa que lhe devia dinheiro.”
AS VIAGENS DE GULLIVER A VÁRIAS NAÇÕES REMOTAS DO MUNDO
Jonathan Swift, deão de São Patrício em Dublin, primeiro publicado no verão 1726-7 e agora finalmente trazido para os modernos conhecedores do Idioma Português, nesta pandemia de 2020!
“Meu pai costumava me remeter esporadicamente algumas somas de dinheiro que bastavam para minhas módicas despesas; eu as aplicava aprendendo a Náutica, bem como outros segmentos da Matemática úteis àqueles que desejam empregar seus dias viajando. Algo me dizia que, quer queira, quer não, mais cedo ou mais tarde, eu estaria destinado a este ofício! (…) Estudei Física 2 anos e 7 meses, conhecendo sua utilidade ao percorrer longos trajetos.”
“aconselhado a abandonar o celibato, casei-me com a senhorita Mary Burton, segunda filha do senhor Edmund Burton, tecelão e dono de armazém na rua de Newgate, de quem recebi, como dote, 8 mil xelins.”
“Fui cirurgião em dois navios subsecutivamente, vindo a fazer diversas viagens ao longo de 6 anos, às Índias Orientais e Ocidentais, excursões que também acresceram minha fortuna. Minhas horas de ócio eu empregava lendo os melhores autores, antigos ou modernos, nunca me encontrando nalgum lugar sem uma penca de livros; a bordo, ao poder observar os hábitos e os costumes de outros povos, aprendia sobre sua cultura, aproveitando para aprender também sua língua. Creio que eu nasci predisposto a esse tipo de aprendizado, pois minha prodigiosa memória me poupava dos mais ásperos esforços.”
“Acabei por aceitar uma proposta muito vantajosa do capitão William Prichard, regente do navio Antílope, que excursionaria em breve rumo aos mares do Sul. Partimos de Bristol dia 4 de maio de 1699, e posso dizer que no começo nossa jornada foi bastante próspera.”
“Na medição, encontrávamo-nos na latitude de 30 graus e 2 minutos sul. Doze de nossos tripulantes já haviam morrido de excesso de fadiga e escassez de víveres.”
“Nadei a esmo, conforme a fortuna me ditou, e de algum modo avancei graças ao vento e à maré. Constantemente deixava minhas pernas caírem, e não era capaz de sentir nenhum fundo. Mas, quando já não podia me agüentar, percebi que estava incrivelmente perto da praia, a uma profundidade propícia para um homem atravessar andando. Nesse momento a tempestade já havia enfraquecido deveras. O declive do solo neste litoral era tão pequeno que caminhei, ainda com as pernas submersas, mais de um quilômetro até me achar finalmente em terra seca. Calculei que devia ser umas 8 da noite.”
“Dentro em pouco senti algo vivo se movendo pela minha perna esquerda, deslizando e subindo suavemente, escalando até meu peito, e depois quase alcançando uma de minhas bochechas. Ao baixar minha vista para resolver o mistério – que será? –, vejo uma criatura humana de 6 polegadas, armada de arco-e-flecha, com uma aljava às costas. Não tive tempo de raciocinar antes que sentisse mais umas 40 criaturinhas semelhantes formigando por minha cútis! Claro, estão seguindo a primeira, conjeturei. Meu espanto carecia de expressão”
“Hekinahdegul!, os outros repetiram as mesmas palavras diversas vezes, e nesse ponto da estória eu não sabia o que isso queria dizer.”
“Tolgophonac”
“Langrodehulsan”
“Peplomselan”
“Essas pessoinhas são exímios matemáticos, e atingiram a perfeição em engenharia, muito devido à industriosidade e empenho do imperador, um grande mecenas do conhecimento, se me é permitido o trocadilho.”
“Passei algumas horas bastante premido pelas necessidades da natureza; é de admirar que eu tenha agüentado tanto, já que fazia já 2 dias que eu não evacuava. Meu caso era grave: ao mesmo tempo que se insinuava essa emergência corporal, meu sentimento de decência me refreava. A melhor solução que encontrei, enfim, foi enfiar-me o mais fundo que pudesse no que me deram como moradia; segui, portanto, até a corrente que me prendia não me permitir ir mais longe, e detrás de bem-fechados portões descarreguei aquele excesso desconfortável de dentro de mim. Mas juro que essa foi a única ocasião em minha vida que me tornei culpável por uma ação tão abjeta!”
“Deste dia em diante, meu hábito passou a ser, assim que acordava, praticar ‘o ato’ a céu aberto, no limite do alcance de minha corrente. Além disso, graças a minha prevenção e também ao susto do incidente anterior, todo o cuidado era tomado pelo governo para que, antes de qualquer trânsito de pessoas pela rua, dois servos especialmente designados removessem a matéria ofensiva com a ajuda de carrinhos de mão. Eu não perderia tanto tempo da narrativa com detalhes tão escatológicos, à primeira vista absolutamente inoportunos, se não cresse imprescindível justificar minha conduta, meu asseio e minha higiene perante a boa sociedade”
“Ele era pelo menos uma unha (minha) mais alto que todo o restante da côrte, o que, por si só, é de saltar às vistas, naquele mundinho em miniatura!” “Ele já estava na metade descendente da vida, nos seus 28 anos e 9 meses, dos quais ele reinou por 7 na mais plena tranqüilidade e prosperidade.” “Seus trajes eram simples, diria que a moda de seu povo se situava entre a asiática e a européia; porém, à cabeça usava um portentoso elmo dourado, todo cravado de jóias, encimado por uma pluma.”
“tentava me comunicar com eles em quantas línguas eu sabia e em quantas eu não sabia (qualquer palavra decorada já me servia de auxílio), as quais eu enumeraria como as seguintes: o Holandês erudito e o vulgar, Latim, Francês, Espanhol, Italiano e a língua franca; mas não se espantem quando eu disser que nada dessa minha poliglotia servia para eu me fazer entender.”
“Eles perceberam o quanto seria oneroso eu ser mantido pela tribo. Que minha dieta custar-lhes-ia o suor de muitos e muitos homúnculos, eventualmente causando até fome e miséria em seu país. Então a dado ponto eles me submeteram praticamente a uma greve de fome ou jejum compulsório. Mas não era uma solução definitiva. Então um dia me flecharam na face e nas mãos com setas envenenadas, esperando, senão matar-me (porque o veneno seria reduzido comparado a meu volume relativo de rios de sangue), ao menos livrarem-se de mim (esperando que eu fugisse). Na verdade só posso considerar este como o plano desde o início, ao pensar melhor, pois a própria possibilidade da minha morte e da transformação do meu corpo em cadáver seria o bastante para desencadear uma grave crise: uma porção imensurável de carne putrefata, um odor pestífero que logo se alastraria, e que talvez iniciasse uma epidemia capaz de dizimar aquela civilização na micro-metrópole de Lilliput! O melhor para eles é que eu me fosse embora, voluntariamente.”
“Foi ordenada uma comissão de 6 habitantes, que ganhariam salários, para serem meus domésticos; foram-lhes erguidas moradias equidistantes e ao redor da minha própria<casa>. Foi também estipulado que 300 alfaiates se encarregariam de me confeccionar alguns vestuários conforme a moda local”
“em cerca de 3 semanas eu fiz grandes progressos no aprendizado da língua nativa”
“Imprimis: no bolso direito da jaqueta do grande homem-montanha (pelo menos é assim que eu decifro a expressão quinbusflestrin), após a mais meticulosa busca, nada encontramos além de uma flanela gigante, gigante o bastante para servir de carpete da maior sala do palácio real. (…) Obrigamo-lo então a revelar o que se encontrava no extremo da corrente; pareceu-nos uma espécie de globo. Meio-prata e meio-translúcido, embora esta segunda parte também fosse de um material metálico; nessa metade transparente constatamos algumas estranhas figuras desenhadas em círculo; muito embora fôssemos capazes de <tocá-las>, era apenas uma ilusão de perspectiva, pois o tato nos revelava que tocávamos com os dedos apenas a superfície transparente do hemisfério do globo, e não os desenhos inscritos por debaixo daquele domo. Ele aproximou este globo de nossos tímpanos, queria que verificássemos uma coisa – o estranho mecanismo não parava de emitir um certo som como o de um moinho de vento, a intervalos regulares! Conjeturamos: será um animal desconhecido? Ou o deus que o homem-montanha venera? Achamos mais provável esta última opção, pois ele mesmo nos afiançou (se compreendemo-lo bem, pois ele não domina nossa língua e o conceito parecia um tanto abstrato) que rara era a ocasião em que ele fazia qualquer coisa sem consultar seu objeto ou talismã primeiro. Ele o chamou de <seu oráculo>, e declarou que tal globo ou entidade era o responsável por indicar-lhe precisamente o tempo destinado a cada ação do seu ciclo de existência.”
“a pólvora eu havia deixado amarrada, impermeável, dentro da algibeira, precaução de todo bom marinheiro quando infelizmente tem de se jogar no mar”
“Ele ficou espantado diante do barulho contínuo que o cilindro produzia, e também do rastro da bala no ar, que ele podia claramente discernir (a vista dos liliputianos é muito mais perfeita que a nossa)”
“Minha cimitarra, minhas pistolas e algibeira foram todas estocadas em carruagens nos depósitos de sua majestade; o resto dos meus pertences, ao menos, foi-me devolvido.
Eu tinha um bolso bem escondido em minhas vestes, que escapou a toda inspeção minuciosa deste povo singular. Nele eu guardava um par de óculos (porque algumas vezes eu tinha fraqueza nos olhos), um monóculo portátil e outras bagatelas que, não sendo de maior consequência para o imperador, bem julguei que não valesse a pena revelar-lhe a existência. Além do quê, cogitei que, de tanto manusearem esses instrumentos delicados, podiam acabar quebrando alguma lente.”
“Algumas vezes eu me deitava, de mãos espalmadas, e deixava que 5 ou 6 liliputianos dançassem sobre elas; com o passar do tempo, foram-se acostumando a mim e até os garotos e garotas da vila se aventuravam a conhecer-me de perto e tocar-me. As crianças gostavam de jogar esconde-esconde em minha cabeleira.”
“essa gente excelia qualquer nação que eu jamais conhecera em destreza e magnificência.”
“Quando um cargo de relevo fica vago, por morte ou desgraça (e desgraças acontecem), 5 ou 6 candidatos pleiteavam ao imperador sua posse na função renomada, através de um teste bem fora do comum: sua majestade e o restante da côrte deviam testemunhar uma dança sobre a corda!” “Não raro os próprios ministros em atividade eram convocados a demonstrar sua perícia equilibrista, a fim de convencer o imperador de que ainda possuíam a mesma habilidade que os levara ao cargo no passado.”
“Mas não pense que esses espetáculos nunca terminassem em acidentes fatais – isso era o mais comum, inclusive. Os documentos do governo registraram uma infinidade desses casos. Eu vi pessoalmente 2 ou 3 dos candidatos fraturarem algum membro. Mas o maior perigo se apresenta, mesmo, nas danças dos ministros; ciosos de superar os pretendentes aos novos cargos e de superarem a própria reputação já auferida, e buscando sobressair-se em relação a todos os demais funcionários, eles se aplicam até os limites de seus talentos corporais; nessa situação, raríssimo era o ministro que durante toda sua vida não sofria nenhuma queda da corda; está certo que nem todas as quedas matavam ou deixavam aleijado, pois vi muitos homens com a saúde perfeita que relatavam já haver tombado 2 ou 3 vezes…”
“Golbasto Momarem Evlame Gurdilo Shefin Mully Ully Gue, Todo-Poderoso Imperador de Lilliput, júbilo e terror supremos do universo, cujos domínios se estendem por 5 mil blustrugs (eu diria que coisa de 10km de raio), até os extremos do globo; monarca dos monarcas, mais alto que os filhos dos homens; cujo pé empurra para baixo e submete tudo com a gravidade, até o mais fundo; cuja cabeça altiva ameaça até o sol.
(…)
Art. 6º. Que ele deverá ser nosso aliado contra os inimigos da ilha de Blefuscu, e devotar-se ao máximo a fim de dizimar sua frota, que agora se organiza para invadir-nos.
(…)
Art. 8º. Que o supracitado homem-montanha deverá, dentro de no máximo 2 luas a contar da promulgação desta Lei, fornecer uma medição precisa da circunferência de nossos domínios mediante o cômputo dos seus passos como unidade de medida, circunscrevendo a costa.
Último artigo. O homem-montanha prestará juramento solene de que observará todos os artigos desta constituição. Sua retribuição por seus serviços será uma ração diária de carne e bebida o suficiente para nutrirem 1.724 (hum mil setecentos e vinte e quatro) liliputianos médios, com livre acesso à presença de nossa pessoa real, bem como outros privilégios e distinções.
Redigida em nosso palácio de Belfaborac, ao décimo segundo dia da 91ª lua de nosso reino.”
“O leitor talvez queira observar que, no último artigo da constituição que regulamenta a retomada de minha liberdade, o imperador estipula uma quantidade de carne e de bebida para minha pessoa equivalente à que seria destinada a alimentar 1724 indivíduos liliputianos. Algum tempo depois, perguntando a um de meus amigos da côrte como foi que eles chegaram a esta medição tão exata, fui relatado que os matemáticos a serviço de sua majestade, utilizando minha altura como parâmetro e com o auxílio do quadrante, chegaram à conclusão de que eles próprios estavam em proporção a mim como o número 1 está para o número 12; e, havendo analogia orgânica e estrutural entre nossos corpos, intuíram que o meu deveria possuir uma massa de 1724 homenzinhos e, conseqüentemente, meu metabolismo deveria queimar energia nas mesmas bases.”
“Eu ultrapassei o grande portão ocidental e avancei bastante sutilmente, esgueirando-me por entre as duas principais vias, não vestindo mais do que meu colete, um tanto justo, por medo de danificar, se usasse um tecido mais longo, os telhados e esquinas das casas.”
“nós lutamos contra dois grandes males: uma violenta facção em nosso lar e a constante ameaça do invasor do lado de fora, inimigo este que nos é superior militarmente. Quanto ao primeiro mal, vós deveis compreender que, há já 70 luas nesta nação há dois partidos que racham a unidade do império, sob as alcunhas de Tramecksan e Slamecksan, distinguindo-se os partidários dum e doutro conforme calçam cano-alto ou sapatos rasos. Alega-se que os de cano-alto ou coturno são a facção mais agradável posto que fiel às nossas maiores tradições e leis mais arcaicas; seja como for, sua majestade determinou compor seu quadro apenas dos sapatos-comuns, ficando a facção mais ortodoxa como mera expectadora dos eventos da Coroa. (…) (drurr é uma unidade de medida correspondente mais ou menos a 1/14 de uma polegada) (…) Os Tramecksan ou canos-altos são de fato a maioria; mas nós concentramos o poder. (…) Quanto ao que afirmas, que há outros reinos e Estados neste mundo, habitados por seres humanos tão grandes quanto tu, nossos filósofos estão muito céticos; sua opinião é de que caíste da lua, ou de uma das estrelas; porque, com certeza, se 100 mortais tão grandes quanto tu existissem, todos os víveres, toda a fauna de sua majestade extinguir-se-iam num piscar de olhos. Ademais, nossa História de 6 mil luas de idade não faz menção de nenhuma outra região para além dos impérios de Lilliput e Blefuscu. (…) A contenda principal é: o modo primitivo de quebrar os ovos, antes de comê-los, é pelo lado mais largo; mas quando o avô da majestade vigente, em sua infância, prestes a comer um ovo, e quebrando-o conforme o costume antigo, cortou um de seus dedos, seu pai, isto é, o bisavô de sua majestade vigente, decretou, prevendo pesadas punições para os infratores, que os ovos deviam, doravante, ser quebrados pelo seu lado mais estreito. O povo ficou descontente com os novos usos, tendo havido 6 rebeliões originadas pela promulgação desta lei; como resultado, um rei perdeu sua vida, e outro sua coroa. Essas comoções civis foram fomentadas muito visivelmente pela nobreza de Blefuscu, que não vacilou uma só vez em receber todos os refugiados e hereges de Lilliput, para reforçar seus exércitos. Foram computados 11 mil mortos, que preferiram a punição a quebrar os ovos pela parte mais estreita. Centenas de calhamaços foram então publicados na matéria. Os livros dos ‘coturnos’ ou ‘larguistas’, foram completamente proibidos, e os partidários desta crença foram declarados inaptos para a assunção de cargos. Durante todas essas instabilidades os imperadores de Blefuscu sempre maquinaram mediante seus embaixadores, acusando-nos de cisma religioso, alegando grave ofensa a uma doutrina fundamental do grande profeta Lustrog, exposta no capítulo XLIV do Blundecral (que é o Alcorão dos liliputianos). Mas esses versos parecem estar corrompidos ou sujeitos no mínimo a uma má-interpretação, uma vez que as palavras são estas: <todo verdadeiro crente deverá quebrar seus ovos do lado conveniente.>. E qual seria esse lado conveniente? Na minha humilde opinião, este problema deveria ser deixado à consciência de cada cidadão, ou pelo menos dos magistrados, que têm toda a competência para eleger um lado favorito.”
“O império de Blefuscu é uma ilha a nordeste de Lilliput, do qual jaz separado por um canal que não ultrapassa as 800 jardas.”
“Tão triviais são todos os serviços prestados a um príncipe, quando no outro prato da balança ele situa aquela única ocasião em que nos recusamos a satisfazer um capricho seu!”
“Burglum! Burglum! Burglum! O palácio real estava em chamas e fui acordado no meio da noite. (…) Por puro golpe do destino, na noite anterior aconteceu de eu ter tomado uma generosa quantidade de um deliciosíssimo vinho chamado por nós de glimigrim, e pelos blefuscudianos de flunec, do qual porém nos orgulhávamos de cultivar as melhores safras e os melhores vinhedos. Bebida muito diurética, esta! O acaso mais feliz é que eu não havia, até o momento, despejado nenhuma gota desta substância pelo meu canal uretral, até ser chamado pelos meus desesperados convivas a ajudar no combate ao incêndio. E o vívido contato com o calor daquelas chamas, após o fatigante trabalho de carregar tonéis de água que pudessem debelar o mal (para mim tais tonéis não passavam de tampas), finalmente acendeu em mim a vontade de desopilar! Dei vazão a meus instintos: urinei em tal quantidade, em tal abundância, e apliquei o jato tão adequadamente nos focos do incêndio, que em 3 minutos o fogo estava completamente extinto, e o resto dos escombros reais, que levaram tantas luas para serem erguidos, foram preservados da destruição.”
“Havia, sem embargo, uma questão: era interdito a qualquer pessoa, de qualquer condição, sangue-azul ou plebeu, aliviar-se nas dependências do palácio. Nisto, fiquei apreensivo: seria eu condenado à morte por tal blasfêmia sem tamanho? Mas sua majestade me tranqüilizou com o recado de que daria pessoalmente ordem ao grande-inquisidor para me anistiar formalmente por qualquer ofensa ao código neste caso tão excepcional.”
“Assim como a estatura média dos habitantes é ligeiramente inferior a 6 polegadas, também cada animal e planta existe em miniatura e nas mesmas proporções que em nosso mundo.”
“Sua maneira de escrever é um tanto peculiar, não sendo nem da esquerda para a direita, como com os europeus, nem da direita para esquerda, como os árabes fazem, nem de cima para baixo, como é o caso dos chineses, mas obliquamente, duma diagonal à outra, cruzando o papel, como as madames na Inglaterra.
Eles enterram seus mortos de ponta-cabeça, na vertical, porque eles acreditam que em 11 mil luas todos os mortos reviverão, e neste dia a terra (que eles crêem ser plana) virará do avesso, e por esse método eles procuram que, à ressurreição, os liliputianos acordem já sobre seus pés, prontos para caminharem para fora de suas tumbas. É verdade que os mais eruditos dentre os liliputianos confessam a absurdez dessa doutrina; mas a prática remanesce, havendo complacência com a sabedoria popular.”
“o símbolo da Justiça, presente nas côrtes de judicatura, é uma figura de 6 olhos, 2 à frente, 2 às costas e mais 1 de cada lado, significando circunspecção; com um saco de ouro aberto em sua mão direita, e uma espada embainhada à sinistra, o símbolo quereria dizer com isso que seu papel é mais recompensar do que punir.”
“não é concebível, entre os liliputianos, que uma criança esteja obrigada a obedecer ao pai biológico pelo simples fato de trazê-la ao mundo, tampouco à mãe (…) sua opinião é que os pais são os menos confiáveis para decidir sobre a educação da criança”
“As crianças são vestidas pelos adultos até os 4 anos; depois disso devem se vestir sozinhas, não importa se é um menino ou menina da aristocracia; as atendentes do sexo feminino, cuja idade é mais ou menos, proporcionalmente, a de 50 para nossos anos solares, só executam algumas tarefas consideradas mais vis, muito limitadas em número.”
“Os pais só podem ver seus filhos duas vezes ao ano; cada visita deve durar uma hora; pode-se dar um beijo à chegada e outro beijo à saída; mas um guardião do Estado, que deverá testemunhar esses encontros, não permitirá cochichos nem expressões de ternura exageradas e afetadas, nem troca de presentes, brinquedos espalhafatosos, guloseimas e que-tais.”
“Se for percebido que alguma dessas babás se atreve a entreter ou assustar as mocinhas com estórias tolas ou aberrantes, ou qualquer tipo de tolice, como as que soem praticar pela Inglaterra, a culpada será açoitada em praça pública, não só numa mas em três sessões separadas, em diferentes pontos da cidade, além de encarcerada por um ano, ao fim do qual é devolvida à liberdade, conquanto banida da sociedade para viver nas partes mais remotas. Esse sistema faz das donzelas tão ou mais embaraçadas diante de demonstrações de covardia e asneirice que os próprios homens, de modo que também detestam ornamentos corporais, indecentes e contrários ao asseio: com efeito, crescer homem ou mulher em Lilliput é absolutamente idêntico, a não ser, talvez, por uma suavização tênue nos exercícios físicos das mulheres (…) a esposa deve ser companhia prudente e agradável, já que nem sempre será jovem. Aos 12 anos as garotas atingem à maioridade (lembrando que sua escala de tempo é diferente da nossa); seus pais ou guardiães trazem-na para casa, demonstrando gratidão aos professores (um dos quais é o guardião estatal a que me referi nos reencontros semestrais entre pais e filhos durante a infância destes), mas sem choro de mulheres e coisas assim.”
“Como Sua Majestade é excepcionalmente benévola, e em consideração a teus incomensuráveis serviços à Coroa, ela está decidida a poupar-te a vida, sendo o bastante que arranquemos ambos os teus olhos, humilde punição que te quitará com a lei. (…) Claro que a extração de tuas córneas não fará de ti um homem fraco; mesmo um cego como tu, posto que gigante, poderá ser de utilidade para Sua Alteza. Aquele que, mesmo cego, serve ao rei demonstra redobrada valentia, e cremos mesmo que a falta de visão seja uma vantagem, por acrescer certa valentia interna ao ser; o medo que tiveste de que acontecesse algo a teus olhos foi a maior dificuldade que tivemos para capturar a frota rival. Ademais, para ti está de bom tamanho que vejas pelos olhos dos ministros, pois sabemos que assim são os príncipes (em metáfora, é claro).”
“O rei tem boas razões para crer que és um larguista no fundo de teu coração. E, como a traição principia no coração, antes de manifestar-se nos atos, sua majestade acusou-te como traidor da pátria com fundamento sólido, e insistiu em condenar-te à morte.”
“Foi decidido meticulosa e rigorosamente que o projeto de matar-te por inanição gradual permanecesse um segredo de Estado”
“Foi um costume introduzido pelo monarca atual e seu ministério (que contrasta vivamente com o uso dos antigos) que, após a côrte pronunciar qualquer sentença capital, fosse para bajular o ressentimento do rei ou excitar a malícia de um ou outro cortesão favorito, o imperador deveria proceder a um discurso perante seu conselho, expressando hipocritamente sua misericórdia e ternura infinitas, qualidades altamente reputadas e veneradas em todo o mundo. E este discurso era, posteriormente à transcrição do escriba, publicado em todo o reino; e nada amedrontava tanto as pessoas quanto esses encômios autodirigidos à benevolência de Sua Majestade! Quanto mais pomposas eram estas palavras, verificava-se a cada execução, mais inumana e cruel se mostrava a punição, e não raras eram as vezes em que o réu não passava de um inocente. Confesso, não havendo nascido para a côrte, nem sido educado para compor a mesma, ser tão mau juiz e árbitro das coisas que não encontrei em canto algum da sentença essa leniência e esse favor tão aventados! Considerei então (talvez erroneamente) que havia nesta peça mais rigor que gentileza!”
“Ruminava sobre meu futuro, e estava propenso a resistir a minha punição, uma vez que, de fato, não estando eu despojado do movimento em meus membros, minha força era suficiente para derrubar todo esse império. Bastaria arremessar algumas pedras e a capital estaria completamente arruinada. Mas meu remorso começou a crescer dia a dia e desisti desta resolução inicial, relembrando meu juramento para com o imperador, e todas as honras que dele recebi, incluindo meu título de nardac (o mais nobre da nação).”
“Devo admitir que a preservação de meus olhos – e minha conseqüente liberdade – deveu-se a meu caráter um tanto afoito e minha completa falta de experiência. Porque se eu conhecesse bem, àquela altura, a natureza de príncipes e ministros, que hoje eu posso me jactar de conhecer após visitar muitas outras côrtes, seus métodos de tratar criminosos menos detestáveis do que eu, ah, se de tudo isso fizesse idéiaentão!…creio mesmo que, cheio de alacridade e circunspecção, resignar-me-ia a minha dura sentença.”
“e o embaixador declarou que, a fim de manter a paz e a amizade entre os dois impérios, o imperador de Lilliput esperava que seu irmão de Blefuscu ordenasse minha extradição de volta ao país liliputiano, de pernas e braços bem-amarrados, para ser devidamente punido pela minha traição.”
“o acaso, bom ou mau isso eu não sei, atirou em minha direção um barco, em que eu não hesitaria em embarcar, oceano adentro. Não quis continuar a ser um objeto de disputas entre dois ilustres monarcas! O mesmo imperador que me mantinha como hóspede não se mostrou de todo insatisfeito com minha decisão. Na verdade, por acidente, acabei por apurar que ele estava, ao contrário, muito contente, assim como a maioria absoluta de seus ministros.
Essa descoberta me fez apressar minha partida. A côrte, já manifestamente impaciente pela minha ida, muito me auxiliou na empreitada. Quinhentos operários foram designados para confeccionar velas para meu barco, seguindo minhas meticulosas instruções; cada vela era o produto de 13 dobraduras do seu linho mais forte e resistente!
“Um mês depois do começo dos trabalhos, com tudo ajeitado, comuniquei oficialmente a Sua Majestade de Blefuscu minha partida imediata. (…) O monarca me regalou com 40 bolsas contendo 200 sprugs – a moeda blefuscudiana – cada, com um quadro enorme (para seus padrões) seu, o qual eu pus dentro de uma de minhas luvas para manter seco.”
“Abasteci a embarcação com carcaças de 100 bois e 300 ovelhas, além da mesma proporção em pão e bebida, quantidade que um blefuscudiano demoraria 400 refeições normais para consumir. Fiz questão de levar, ainda, 6 vacas e 2 touros vivos, bem como os mesmos números em ovelhas e carneiros, respectivamente, com o fito de exibi-los em minha terra natal e, quem sabe, proceder à criação desta micro-espécie. Para alimentá-los enquanto estivessem a bordo trouxe comigo um bom naco de feno, e uma saca de milho.”
“Lancei-me ao mar em 24 de setembro de 1701.”
“Meu propósito era atingir, se possível, uma das ilhas que, eu cria, se localizavam a nordeste da Terra de Van Diemen.¹ Mas não me deparei com terra nesse dia; no próximo, contudo, lá pelas 3 da tarde, após, pelos meus cálculos, navegar 24 ligas marítimas desde Blefuscu, avistei velas a sudeste (eu seguia sentido oeste-leste).”
¹ Cujo nome foi mudado para Ilha da Tasmânia na década de 1850. Fica próxima da Austrália.
“Era um navio mercante de minha terra, regressando do Japão pelos mares setentrional e meridional. O capitão, Senhor John Biddel, de Deptford, era bastante cortês e excepcional marinheiro.
Estávamos agora a 30 graus sul de latitude; havia 50 homens no navio. Aqui encontrei um velho camarada, Peter Williams, o que só aumentou minha estima pelo capitão John. Este camarada me tratou com a maior consideração. Ele logo desejou saber de que lugar eu vinha, e se fôra feito prisioneiro; eu não hesitei em resumi-lo minhas aventuras em breves palavras, mas ele obviamente pensou que eu delirava. Natural que um marinheiro perceba num discurso incrível sintomas de alguém que passou pelas piores atribulações em alto-mar, e não dê crédito. Porém, para comprovar tudo, retirei do bolso meu gado e rebanho, o que, por fim, após um grande espanto e turbação causados ao camarada, serviram para convencê-lo da autenticidade do meu relato.” “Dei-lhe duas bolsas de 200 sprugs. Afiancei-lhe que, chegados à Inglaterra, dar-lhe-ia também uma de minhas vaquinhas e uma de minhas ovelhinhas adultas, junto com as crias, quando já as tivessem.”
“Ancoramos em Downs dia 13 de abril de 1702. Minha única infelicidade foi que os ratos do navio levaram uma de minhas ovelhas.”
“Durante minha curta nova estada em meu lar, lucrei algum dinheiro exibindo meu gado-miniatura a pessoas distintas. Antes que começasse minha segunda viagem, consegui vendê-los, por fim, a 600 libras. Ao regressar mais tarde eu contemplaria o crescimento exponencial dos espécimes, especialmente dos carneiros, o que, penso eu, contribuirá muito para o progresso da manufatura de lã do país, dado que realmente a lã destas micro-ovelhas é de altíssima procedência!
Para resumir, fiquei parado apenas por mais 2 meses, ao lado de esposa e família, pois meu insaciável desejo de conhecer novos povos não me permitiria continuar por mais tempo. Deixei 1500 libras nas mãos de minha mulher, comprando também uma casa para todos se instalarem com conforto em Redriff. O resto de meu dinheiro levei comigo, parte em espécie, parte em bens, com o intento de voltar a multiplicar minha fortuna. Meu tio mais velho, John, morrera e deixara, em herança, terras nas proximidades de Epping, que geravam um lucro de aproximadamente 30 libras ao ano. (…) Meu filho Johnny, batizado em homenagem a esse tio, estava no primário, mas eu já podia ver o quanto o menino era adiantado. Minha filha Betty (hoje, enquanto escrevo, uma mulher casada e com filhos) começava a desempenhar seu ofício de costureira. Despedi-me, então, de minha esposa, da garota e do garoto, com lágrimas nos olhos, de ambas as partes, e embarquei para novas aventuras, num navio mercante de 300 toneladas, com destino ao Surat, grande entreposto comercial das Índias Ocidentais, capitaneado por John Nicholas, de Liverpool.”
* * *
PARTE II – VIAGEM A BROBDINGNAG
“Tivemos ventos muito favoráveis até chegarmos ao Cabo da Boa Esperança, onde desembarcamos para coletar água doce; porém, descobrindo um vazamento, desembarcamos também todos os nossos pertences e a carga e acampamos por ali; com o capitão padecendo de febre, não pudemos seguir nosso curso até o fim de março.”
“Nossa trajetória era leste-nordeste, o vento seguia o rumo sudoeste-nordeste.”
“fomos levados, pelos meus cálculos, 500 ligas além da conta para leste, desorientados a ponto de o marinheiro mais experiente a bordo nada saber de nosso paradeiro. Nossas provisões ainda estavam em boa quantidade, nosso navio seguia firme e inabalado, a tripulação compartilhava um bom estado, mas o problema foi que a água se tornou terrivelmente escassa. Preferimos seguir no mesmo curso, ao invés de dirigirmo-nos mais para o norte, o que podia nos levar à costa noroeste da Grande Tartária, ou quem sabe ao mar congelado. No dia 16 de junho de 1703, o garoto no topo do mastro avistou terra.
“Quando aportamos em terra não vimos água corrente nem nenhuma fonte, muito menos sinais de povoação.”
“para mim era impossível escalar esse lance de escadas, porque cada degrau tinha quase 2m de altura e o topo da pedra estava lá pelo sexto metro de altura do chão.”
“avistei um dos habitantes, nas planícies das proximidades, avançando em nossa direção, do mesmo tamanho do colosso que flagrei perseguindo nosso barco! Ele tinha a altura dum campanário gótico e sua passada percorria 5m, pelo menos! Meu espanto não tinha dimensões, de modo que corri até o pé-de-milho mais próximo para me esconder. O gigante se ergueu sobre aquela enorme montanha de pedra, para nós, que para ele não passava de um escabelo ou plataforma, mirando ao longe, nos campos do lado oposto, com a mão direita em concha sobre os olhos. Eu ouvi seu chamado numa voz muitas e muitas vezes mais elevada que uma trombeta militar; o som ecoou de modo tão grave e assustador pelo ar que demorei a entender que não se tratava de um trovão. Imediatamente, 7 monstros da sua estatura se aproximaram portando gadanhas, o gancho de cada uma tão largo quanto 6 foices humanas inteiras!”
“Eu chorei minha viúva desolada e meus filhos órfãos de pai. Lamentei profundamente minha loucura e meu capricho, depois de tantos apuros arriscando-me numa segunda viagem, contra o conselho de meus mais próximos. Nessa terrível agitação, podia menos ainda suportar lembrar de Lilliput, onde os nativos me olhavam como o maior prodígio aparecido naquele mundo; lá eu mesmo podia encerrar toda a tropa imperial em minhas mãos, afora inúmeras outras ações que estarão para sempre gravadas nas crônicas daquela civilização de milhares de luares de duração, a ponto de provavelmente haver no futuro discussões entre as velhas e as novas gerações – porque decerto que uns chamarão todos os relatos historiográficos oficiais de mitologia e contos de fadas impressionáveis, mas outra corrente sempre acreditará em sua realidade efetiva!”
“Considerando a criatura humana mais selvagem e mais cruel em proporção a seu tamanho, o que poderia eu esperar senão tornar-me o pão do dia de um desses enormes bárbaros, o primeiro que me avistasse e me apanhasse? Pela primeira vez acreditei de corpo e alma nos filósofos, que dizem: nada é grande ou pequeno, a não ser relativamente. A natureza sabia o que fazia quando colocou liliputianos e blefuscudianos como vizinhos – imagine se os micro-homens tivessem de se haver com estes gigantes, gigantes para o único <gigante> que eles mesmos conheceram! E não duvido que um dia pudessem encontrar, os liliputianos, outros liliputianos deles mesmos: uma civilização menor ainda, que meu olho demasiado humano sequer pudesse distinguir em meio à relva! Mas o que me parecia mais estranho era que, houvesse gigantes para estes gigantes, não sei que continente terrestre poderia abrigá-los!… Sem dúvida o mundo era uma vastidão ainda longe de ser completamente conhecida pelo gênero humano, de qualquer tamanho ou espécie, pensei eu — tudo isso eu pensei, não organizada nem pachorrentamente, como aparece agora no papel, num curto intervalo de tempo, em meio aos temores mais macabros e à maior incerteza sobre os próximos eventos!”
“O gigante agiu com cautela, a mesma do caçador que não ignora que um animal, ainda que pequeno, pode vir a arranhá-lo ou mordê-lo. Na Inglaterra eu sabia caçar doninhas como poucos! Por fim, o homem-montanha me espreitou pelas costas, e envolveu meu tão largo lombo suavemente, entre seu indicador e polegar, depositando-me depois a cerca de 3m de seus olhos, para estudar minha fisionomia com mais precisão.”
“Ele <falava> bastante comigo; mas o som de sua voz feria meus tímpanos, chacoalhava meu organismo como se fôra todo o núcleo de um engenho ou moinho trabalhando a todo vapor. Apesar de tudo, eu conseguia distinguir as sílabas que ele emitia. Eu respondia o mais alto que conseguia, tentando em várias línguas, no que meu dono aproximava sua orelha de mim menos de 2m, o que para ele devia ser quase contato epidérmico; mas sempre em vão, porque não parecíamos dois seres inteligíveis. Parecíamos dois animais incapazes da comunicação entre nós.”
“Ele chamou sua mulher, e me exibiu a ela. Ela gritou e correu para longe, como a dona de casa inglesa ao ver um sapo ou uma aranha. Porém, depois de contemplar meu comportamento por algum tempo, e como eu parecia entender a reagir aos sinais de seu marido, ela passou a se acostumar a mim gradualmente, até considerar-me com bastante afeto, eu diria.”
“Eu segurei com bastante dificuldade o vaso com as duas mãos, e demonstrando grande respeito bebi à saúde da senhora, pronunciando o mais alto que pude as palavras em Inglês, o que fez todos os presentes rirem do fundo do coração. E essas gargalhadas quase me ensurdeceram. Esse licor tinha gosto de sidra, e estava longe de ser ruim.”
“lembrando quão naturalmente malvadas são nossas crianças com papagaios, coelhos, gatinhos e cães ainda filhotes, prostrei-me de joelhos e, apontando para o garoto, fiz com que meu mestre entendesse, tão bem quanto podia, que eu perdoava a ação de seu filho. O pai entendeu e concordou, e o garoto pôde se sentar à mesa novamente”
“como sempre me contaram, e por experiência própria confirmei em minhas viagens, fugir ou demonstrar medo diante dum animal feroz sempre o faz persegui-lo e ter mais motivos para atacá-lo, resolvi, então, nessa hora crítica, dissimular indiferença.”
“Tive muito menos apreensão dos cachorros, que se atulhavam na sala, como é usual em chácaras, em 3 ou 4; um era um mastim, que para mim tinha o tamanho de uns quatro elefantes, e havia também um galgo, algo mais alto que o mastim, mas muito mais esbelto.
Quando o jantar estava por terminar, a babá apareceu com um bebê de um ano de idade, que imediatamente me espiou e começou a guinchar e lamuriar na típica linguagem da idade duma forma que tenho certeza ouvir-se-ia da ponte de Londres a Chelsea, tal era seu desejo de brincar comigo.”
“Devo confessar que nada me causava mais horror que a vista de seus monstruosos seios, que não sei no momento com o quê comparar a fim de transmitir ao leitor curioso a correta proporção de seu vulto, de sua forma e de sua cor. Cada um era da altura de um homem da nossa civilização, e em circunferência creio que beirava os 5 metros. O mamilo era metade da minha cabeça, e sua cor, como a dos demais detalhes da teta, com pintas, cravos e sardas monstruosos, eram-me nauseantes. (…) Isso me fez refletir acerca da maciez da pele de nossas senhoras inglesas, que tão belas nos parecem, mas, no fim das contas, só porque estão adaptadas ao nosso próprio tamanho! Os defeitos da nossa mulher só poderiam ser assim apreciados com a ajuda de lentes de aumento.”
“Lembro de, em Lilliput, ter considerado a compleição daqueles micro-habitantes talvez a coisa mais linda sob o sol. Ao falar sobre isso com um sábio da nação, com quem estabeleci amizade, ele me disse que meu rosto parecia muito mais bonito e jovem quando me observava desde o solo, e que eu já não parecia o mesmo quando se me observava em close, nas vezes em que eu pegava meu interlocutor pela palma da mão a fim de aproximá-lo dos meus ouvidos. Ele confessou, com sinceridade, que se espantara quando vira meu rosto de perto pela primeira vez. Ele percebia enormes buracos, e dizia que cada fio de minha barba parecia mais rígido que as cerdas de um javali, e minha compleição, composta de um sem-número de cores, era um caleidoscópio doloroso aos olhos e, enfim, repulsivo. Devo dizer ao leitor que, na Inglaterra, eu sou dono de uma beleza mediana quando o assunto é o meu sexo, e que minha pele tem poucas imperfeições e queimaduras de sol, a despeito de tantas andanças e viagens!”
“A filha de meu dono se afeiçoou muito a mim, e me confeccionou 7 camisas e algumas outras roupas de linho, dos melhores tecidos disponíveis, que para o meu tato eram mais ásperos que roupas de juta. (…) Ela também foi minha professora do idioma local. (…) Eu fui batizado por ela de Grildrig, o que a família acolheu de forma voluntariosa. Em pouco tempo eu seria conhecido por todo o reino. Essa palavra carrega o mesmo significado do latim nanunculus, italiano homunceletino, inglês mannikin, isto é, <pigmeu>. Se não fosse essa mulher creio que pereceria em minha estada nesse país. Ela sempre me mantinha consigo e a salvo em suas peregrinações – eu a chamava de minha Glumdalclitch, ou <pequena babá>.”
“A vizinhança já andava dizendo que meu dono havia encontrado um estranho animal no mato, do tamanho de um splacnuck, embora constituído em toda sua compleição como um ser humano (como um ser-montanha!). E não escapava às observações que em tudo eu me comportava humanamente também, fosse inerentemente ou por imitação. E notaram que eu tinha uma linguagem totalmente própria e que me alfabetizava rapidamente na língua deles, andava ereto sobre duas pernas, era educado e gentil, aparecia quando era chamado, obedecia qualquer instrução, tinha membros muito hábeis e elegantes, e que meu pequeno rosto era mais formoso que o de qualquer menina aristocrata de três anos de idade.”
“Minha mestra me considerava humilíssimo, não desprovido de honra e amor-próprio, e que era-me degradante ser exposto no mercado por dinheiro para os tipos mais vulgares. Ela me afiançou que conseguiu de seu papai e de sua mamãe a promessa de que Grildrig seria dela e só dela; mas em breve ela percebeu que queriam fazer como fizeram com seu carneirinho do ano passado. De início seu mascote, ele foi engordado e logo vendido para o açougueiro.”
“o cavalo avançava mais de 10 metros a cada passo e trotava tão alto que a sensação não era outra senão a de ver-se solto num navio na mais agitada das tempestades. Nossa jornada era algo mais extensa do que seria o percurso de Londres a Saint Alban.”
“quase não me deixavam descansar nesse tempo, a não ser às quartas-feiras, que eram o Sabbath nessa região.”
“Cruzamos 6 ou 7 rios, no mínimo muito mais profundos e largos que o Nilo e o Ganges. Devo admitir que raramente havia regaço menor que o Tâmisa, nosso rio de pouco menos de 400km de comprimento. Já havia 10 semanas que estávamos nessa jornada; eu fui exibido em 18 grandes cidades do império, afora cidadezinhas e vilarejos ou famílias campesinas à parte. Em 26 de outubro chegamos à capital, chamada Lorbrulgrud, <Orgulho do Universo>.”
“Eu já era basicamente um usuário fluente da língua, podendo entender cada palavra dos interlocutores.”
“Minha ama trazia consigo um livrinho de bolso, não muito maior que um átlas de Sanson. Tratava-se de um manual muito disseminado entre as jovenzinhas desta nação, uma espécie de sinopse dos preceitos e da história da religião ali adotada. Ela utilizou este volume para alfabetizar-me.”
“Eles concluíram pela análise minuciosa de meus dentes que eu era um animal carnívoro. Mas, ao mesmo tempo, eles não podiam imaginar como eu podia me sustentar, uma vez que mesmo os quadrúpedes mais inofensivos e menores, como ratos, eram demasiado perigosos para minha acanhada existência. Cogitaram se eu não tinha de recorrer a lesmas e demais insetos.”
“Eles jamais se dignariam a classificar-me como um de seus iguais, um exemplar de sua espécie que teve sua maturação interrompida precocemente, i.e., um anão, porque minha pequenez estava muito abaixo de qualquer grau de aceitação do que devia ser um anão para eles. O menor indivíduo de todo o reino, o bobo favorito da rainha, tinha, ao que me parece, 9,14m. Após muitos debates, eles chegaram portanto a um consenso, o de que eu era um mero relplumscalcath, literalmente um lusus naturae conforme à moderna filosofia européia, definição vazia que não deixa de ser apenas um arremedo dos escolásticos aristotélicos para disfarçar sua extrema ignorância das coisas: queriam dizer, em suma, que eu era uma dessas aberrações de circo, e nada mais.”
“a rainha (mulher de estômago fraco!) se serviu, duma garfada, dum monte de comida equivalente à massa que uma dúzia de fazendeiros ingleses poderiam consumir num banquete suntuoso. Depois de ver essa cena, confesso que a cada nova lembrança voltava a me sentir enjoado como na ocasião. Isso se repetiria ainda por muitos dias”
“Confesso que, após falar copiosamente de minha terra-natal Grã-Bretanha, de descrever nossos comércios e guerras através de tantos mares e terras, e como os negócios de Estado estavam divididos em partidos assim e assado, de nossos cismas religiosos, dos preconceitos pedagógicos, etc., etc., Sua Alteza, não resistindo ao charme da crônica, fez-me subir a sua destra espalmada e me transportou, muito delicadamente, até bem perto de seu rosto real. Então, afetuosamente me afagando às costas e à cabeça como se fosse seu cachorrinho, e após uma sincera gargalhada, perguntou-me: Tu és um whig ou um tory?”
“Quão desprezível não é a grandeza humana, capaz de ser emulada em todos os seus ínfimos detalhes por insetos diminutos como tu e teus semelhantes! Imagino que vós levais bem a sério a questão das distinções honoríficas. E tal como em nosso reino vós construís casas e cidades, que para nós não seriam mais que uma toca de coelho! Aposto que a aristocracia se admira ao espelho com vestimentas aprumadas e adornos mil; ama e peleja; contende, trai, engana, vilipendia!”
“E o rei continuava, enquanto eu, desconfortável, ora empalidecia, ora ruborizava, fosse de vexação ou pura indignação. Não era fácil ouvir falar assim tão galhofeiramente do nosso nobre país, da nossa invencível marinha e de nossa perícia e indústria sem iguais. Segundo a visão deste homem, a França era ainda mais digna de pena, quando lhe disse que nossa rival era apenas a segunda dentre as nações; e para ele a Europa não passava de um amontoado de arbitrariedades sem propósito. O que poderiam significar, nesse contexto tão irrelevante, virtude, piedade, honra, verdade, altivez e a ambição de conquistar o mundo inteiro? Nosso ridículo papel no jogo do universo era manifesto, e eu não fui poupado de ouvi-lo com todas as sílabas.”
“Nada me mortificava e me indignava tanto quanto este anão da rainha. Como eu disse, ele tinha <apenas> 9,14m, ou seja, era com toda a certeza o campeão dentre os pigmeus do reino – ninguém de sua própria espécie conseguia ser mais baixo do que ele. E parece que à minha vista ele também se sentia terrivelmente mortificado, interpretava minha existência como um insulto – uma ofensa direta à sorte que lhe cabia de ser o primeiro em alguma coisa. Sua inveja e ciúmes se tornaram evidentes. Pois eu duvido que vocês encontrem um bobo da côrte mais presumido do que este em todos os mundos nos quais pisarem!”
“ela costumava me perguntar se as pessoas do meu país eram tão covardes quanto eu.”
“A totalidade da extensão dos domínios do príncipe girava em torno dos 9500km em longitude e dos 4800km aos 8000km (especulava-se, sem muita certeza) em latitude. Isso me leva a crer que os geógrafos europeus encontram-se muito equivocados em seus cálculos ao supor que nada há entre o Japão e a Califórnia senão o oceano! Eu, particularmente, sempre acreditei que devia haver uma quantidade de terra equivalente para compensar, nas coordenadas opostas do globo, os desertos da Tartária. Proponho, doravante, uma reformulação dos mapas e cartas atuais, acrescentando este vasto continente dos gigantes na circunvizinhança da porção noroeste da América. Ofereço meus préstimos para o que se fizer necessário.”
“desnecessário dizer que essa gente se encontra excluída de todo comércio com qualquer outra nação do mundo.”
“a natureza, ao produzir as plantas e animais deste espaço, de dimensões tão extraordinárias, formou um ecossistema perfeitamente fechado, limitado a este continente, mantendo outras zonas terráqueas sem qualquer interferência ou comunicação com este espaço que padece de gigantismo. Parece que isso ocorre em benefício tanto desta terra dos gigantes quanto do resto do mundo, de forma que nenhuma das fisionomias da natureza sai prejudicada. Se há uma moral por trás destes fatos, deixo para os filósofos descobrirem.”
“As madames da côrte amiúde convidavam Glumdalclitch a seus apartamentos, e encorajavam-na a levar-me consigo, a fim de me contemplar e me tocar. Essas mulheres se compraziam em deixar-me pelado e inserir-me por inteiro entre os seus dois seios; eu tinha tremenda repulsa dessa gracinha, até porque o cheiro da pele das gigantes me era nauseabundo. Não digo isso para depreciar a honra dessas – no demais – prestigiosas damas, mas, como já deixei claro em minha narrativa, o fato de eu ser muito menor que elas me fazia exageradamente sensível para estas coisas. Qualquer cheiro, aparência ou som inexistentes ou desprezíveis para esta raça me eram muito notáveis e chamativos; numa palavra, ofensivos. Essas ilustres pessoas não deviam ser menos agradáveis para seus pares do que as melhores cortesãs inglesas, mas eu não podia participar deste encanto. Além do mais, qualquer aroma natural era menos traumatizante do que perfumes e loções, que estas aristocratas usavam em abundância e que me davam alergia ou simplesmente me faziam perder a consciência.”
“A mais adorável de todas estas damas da côrte, uma espirituosa adolescente de 16 anos, costumava me deixar sentado sobre um de seus mamilos, e cada vez inventava uma nova brincadeira ou um jeito inusitado de se entreter as minhas custas – estripulias dessas de moças, sem maiores conseqüências… mas que o leitor me escusará de eu não publicar neste recatado tratado. Estas coisas me deixavam tão inquieto e apreensivo que um certo dia pedi a Glumdalclitch que me arranjasse uma desculpa que me desobrigasse dali em diante de comparecer a essas <reuniões íntimas de comadres> de uma vez por todas.”
“Certa vez, um dos servos, cuja atribuição era encher-me o cantil com água fresca a cada 3 dias, se distraiu e deixou que um sapo enorme pulasse no balde e lá ficasse, sem de nada se dar conta. Ele abasteceu meu cantil derramando o bebê junto com a água, quer dizer, derramando o sapo junto com minha água, aposto, sem olhar o que estava fazendo, e se retirou. Eu tinha um barco próprio para velejar em uma banheira que este povo gentilmente construiu-me, como se se tratasse de um veleiro de brinquedo. Velejar consistia num dos meus melhores passatempos. O sapo adentrou a banheira, subiu ao barco, e eu só fui percebê-lo quando comecei a navegar. O sapo, com seu peso descomunal comparado ao do barco, fê-lo se inclinar em excesso para um dos lados, no que fui forçado a servir de contrapeso na parte oposta. Depois o sapo saltou até o meio do navio e, em seguida, sobre minha cabeça, e não parou de saltitar para frente e para trás, emporcalhando minha cara e minhas vestes com um lodo odioso. A largura horizontal deste bicho só o fez parecer, para mim, àquela altura, o animal mais deformado que podia existir. Mas, orgulhoso, mesmo Glumdalclitch tendo notado meu apuro, pedi para cuidar disso sozinho. Eu peguei um dos meus remos e dei-lhe umas boas pancadas, até ele finalmente achar melhor saltar de meu barquinho.”
“o macaco, sendo muito ágil e olhando em todas as direções, ótimo para detectar movimentos e encontrar meu paradeiro, deixou-me em tal estado de aflição que eu tirei sabe-se lá daonde firmeza de espírito e força mental para me esconder debaixo da cama e não dar um sinal de vida. Fato é que, depois de espreitar irrequieto uns instantes, urrando e fazendo caretas, ele conseguiu detectar minha presença. E enfiando uma de suas mãos pela porta da minha casa-miniatura, como um gato faria ao brincar com um rato, embora eu tentasse ludibriá-lo mudando de lugar rapidamente, ele por fim agarrou-me pelo cordão do capuz do meu casaco e me arrancou da casa de brinquedo.”
“Eu creio piamente que ele me tomou por um filhote de sua própria espécie, sempre acariciando simiescamente minha cara com sua outra mãozorra.”
“o macaco foi avistado por centenas na côrte, sentado num telhado, segurando-me como se fôra seu bebê, me alimentando, inserindo em minha boca certos víveres que ele havia amassado após retirá-lo das provisões que um dos macacos de seu bando carregava. Ele me fazia carinho e exortações se eu me recusava a comer. Os gigantes lá embaixo começaram a rir da cena. E não posso culpá-los: a cena deve ter parecido das mais ridículas e engraçadas, menos para mim mesmo, é claro. Seja como for, alguns jogaram pedras, esperando com isso fazer o macaco descer. Mas outros logo proibiram que se fizesse isso, porque se uma só dessas pedras me acertasse, era provável que meu próprio cérebro virasse uma papinha.”
“Eu quase morri engasgado com a comida amassada que o macaco insistia em enfiar minha goela abaixo. Minha querida <pequena babá> usou uma agulha para tirar tudo do fundo de minha garganta, no que comecei a vomitar, o que muito me aliviou. Mas eu me encontrava tão fraco a essa altura, e tão machucado nas costelas, de tanto ser abraçado pelo símio, que fiquei de cama umas boas duas semanas.”
“O macaco que me seqüestrou foi executado, e uma ordem expedida de que nenhum animal da espécie deveria ser deixado circulando nas dependências do palácio.”
“O rei me perguntou: O que tu te punhas a pensar enquanto no colo do macaco? Agradou-te a comida? Como ele fez para alimentar-te? O ar fresco dos cimos do telhado causou-te algum tipo de alteração no estômago? O que tu terias feito se isto te tivesse acontecido em teu próprio país? Sobre essa última pergunta, eu contei a Sua Majestade, com simplicidade, que na Europa quase não tínhamos macacos, só mesmo aqueles trazidos por curiosidade de outros países distantes, mas que estes eram tão pequenos que eu sozinho poderia lidar sem problemas com uma dúzia deles.”
“O fato é que a cada dia que passava eu alimentava a côrte com mais uma história burlesca e ridícula. Glumdalclitch, muito embora se afeiçoasse muito a mim, maliciosamente informava à rainha cada uma dessas ocorrências – porque ela não podia perder a oportunidade de tanto agradar a realeza.”
“Tinha um cocô de vaca no caminho, e eu tive de exercer minhas faculdades atléticas tentando saltá-lo. Peguei muito impulso, mas infelizmente o salto saiu fraco e eu afundei até os joelhos na substância. Eu percorri aquele monte de esterco como se fôra um terrível mangue, e um dos soldados me limpou tão bem quanto pôde com seu lenço. Deve-se imaginar o meu estado. Glumdalclitch me confinou a minha caixa até que voltássemos para casa. Obviamente a rainha foi logo informada do ocorrido, e o próprio soldado que me limpou espalhou o conto jocosamente por todo o reino. Todas as gargalhadas da cidade foram tiradas as minhas expensas por uma sucessão de dias.”
“Um dia o rei me posicionou para ouvir uma execução da banda real, mas eu duvido que todas as baterias e trombetas da Inglaterra poderiam ter feito um som tão ofensivo a meus ouvidos.”
“Quando criança eu aprendi a tocar a espineta. Glumdalclitch tinha uma em seu quarto e recebia aulas de um professor da aristocracia duas vezes por semana. Bom, pelo menos eu chamava o instrumento de espineta, porque me lembrava uma. Uma idéia surgiu em minha mente: de que eu pudesse entreter o rei e a rainha com uma canção inglesa com a ajuda deste instrumento. Mas, pensando bem, não passava de devaneio: a espineta tinha pelo menos uns 20m.”
“Um dia, talvez imprudentemente, tomei a liberdade de dizer ao rei que o desprezo com o qual ele aprendeu a imaginar a Europa, além do resto do mundo, é claro, não parecia condizente com toda sua sabedoria e caráter virtuoso; que a razão não aumenta com o tamanho do corpo; que, ao contrário, na Europa os mais altos eram geralmente os mais desprovidos de inteligência. Que, dentre os animais, os mais distintos por sua indústria e sagacidade eram as abelhas e formigas. E que, por mais que ele me tivesse em conta como um mero bobo da côrte, eu esperava poder viver para honrá-lo com algum serviço extraordinário. O rei me ouviu atentamente e começou a conceber uma opinião muito melhor de minha pessoa. Ele me pediu então uma minuciosa descrição do governo britânico, a mais minuciosa que eu pudesse fornecer. Acredito que, por mais orgulhosos de seu próprio reino, todos os príncipes gostam de ouvir sobre costumes de outras terras, para ver o que se pode melhorar na sua própria.
O leitor pode imaginar vivamente como eu desejava, nestas horas, ter o talento oratório de um Demóstenes ou Cícero, que me daria a chance de celebrar minha querida terra natal e exaltá-la ao grau máximo, num estilo condizente com seus méritos e sua prosperidade.
Seja como for, iniciei meu longo colóquio informando Sua Majestade da geografia da Inglaterra: disse que nosso país eram duas ilhas, que em seu todo constituíam 3 importantes reinados, unificados, porém, sob um só monarca; isso sem falar de nossas colônias na distante América. (…) Discorri então sobre a constituição inglesa e o funcionamento do nosso parlamento; detalhei portanto nosso ilustre corpo da Câmara dos Lordes, onde só exerciam mando os mais distinguidos dentre os sangue-azul, os mais tradicionais de berço e as famílias com mais patrimônio. Descrevi nosso sistema educacional e nossa imensa preocupação em incutir nos jovens o ensino das artes, da técnica e do combate militar. Apenas os melhores podiam se tornar conselheiros do rei. E demonstrei que se tornar legislador ou juiz era uma das maiores honras que se podia almejar. Enfim, esses eram os heróis de nossa pátria.”
“Outras pessoas, consideradas sagradas, também compunham aquela assembléia, os bispos, cujo ofício era zelar pela religião, bem como por todos os de hierarquia inferior no corpo eclesiástico. O rei e os mais sábios conselheiros se encarregavam de nomear os bispos dentre os mais compenetrados e santos dentre os padres. Os padres eram os mais espirituais do povo e da nação, o sustentáculo do clero.
A outra parte do parlamento era composta pela Câmera dos Comuns, gentis-homens livremente escolhidos pelas próprias pessoas do povo, baseadas principalmente na habilidade e no patriotismo de seus principais cidadãos. Contei então que a Câmara dos Comuns junta da Câmara dos Lordes constituíam a mais augusta assembléia de toda a Europa; este, que era o parlamento, em conjunção com o rei, decidia todos os mais importantes negócios de Estado e vigiava a aplicação da Lei.
Falei também das nossas côrtes de justiça, presididas pelos mais doutos e eruditos conhecedores do Direito, árbitros dos litígios civis, penais, morais… Relatei como era prudente e meticulosa nossa administração contábil e orçamentária. Estimei o valor e as glórias de nossas forças, da marinha e da infantaria. Fiz um censo tão bem quanto me lembrava de nossa população, quantos milhões se declaravam de uma confissão ou de outra, quantos se declaravam conservadores ou liberais. Não omiti sequer nossos desportes e passatempos favoritos, nem nenhuma outra particularidade que julguei que aumentaria a estima deste rei pelo meu país. Finalizei esses meus discursos com uma história resumida da Inglaterra nos últimos 100 anos.
Foram ao todo 5 audiências, cada uma delas de várias horas. O rei raramente me interrompia e parecia hipnotizado e concentrado em minha narrativa; às vezes ele se punha a anotar certas coisas; bem como anotava perguntas para me lançar no dia subseqüente.”
“Quais métodos são usados para aperfeiçoar as mentes e corpos de vossa jovem nobreza? Em que tipo de negócios os rebentos desta casta despendem seu tempo, seja na primeira infância ou na juventude mesma? Quando uma família da aristocracia se extingue, que medida é tomada e como se seleciona uma nova família para a Câmara dos Lordes? Qualé o pré-requisito para ser nomeado Lorde: conquistar a confiança do príncipe? Uma soma de dinheiro, talvez? Ou demonstrar engenhosidade e estrategismo políticos? As inovações, procurando sempre melhorar os costumes, chegam a causar algum tipo de perturbação ou ameaça de revolução? O interesse público é o último fim visado pelo monarca, ou há outros mais importantes? Quanto um lorde médio sabe sobre as Leis, e como vem a saber o que porventura sabe? Como um juiz faz para saber o que decidir numa questão vital sobre as propriedades de alguém em litígio? Está tua sociedade livre de vícios como a avareza, o partidarismo, a miséria? Poderia ser que a aristocracia esteja sujeita a se corromper por subornos, negociatas ou qualquer tática suja do ser humano sedicioso? Os bispos, eles são sempre nomeados com base na autenticidade de sua reputação e a honestidade de suas vidas, na extensão de seus conhecimentos em religião? Nunca houve um só que se tornasse um conspirador depois de ascender ao topo, mesmo que tivesse sido um bom padre? A fé é forte em todos os padres? As idéias são prostituídas entre aqueles que não querem perder suas ligações com a aristocracia, ou impera a sinceridade acima de tudo? Como são escolhidos os tais ‘comuns’? Um forasteiro eventualmente muito rico poderia vir a comprar votos ou exercer influência sobre a população? Por que todos estão inclinados a fazer parte desta assembléia, se é um trabalho tão duro e encerra tantas responsabilidades,e mesmo sem receber pensões ou salários, correndo o risco de levar a própria família à ruína?!? Os nobres estão sempre dispostos a tirar de seu próprio bolso a fim de auxiliar os outros? Mesmo se for um príncipe cheio de vícios e de pulso fraco?”
Enfim, eu senti que sua majestade duvidava do exaltado patamar de virtude e do espírito de abnegação de meu povo! Ele não cessava de multiplicar suas perguntas. Cada resposta gerava novas perguntas, e eu não sabia mais de onde peneirar tantas respostas! Suas objeções eram tamanhas, e tão impudentes, que me reservo ao direito de não incluí-las todas neste relato!”
“Quanto tempo leva para determinar o que é justo e o que é injusto? Quanto esforço, dinheiro e tudo o mais é gasto nesta operação? Advogados e oradores têm liberdade irrestrita de expressão ainda em casos de notórios assassinos ou maus-exemplos, cujos réus sejam indignos ou cuja defesa comprometa sua própria honra? (…) Quais são as possibilidades de reformar as Leis já instituídas? E como evitar que um juiz interprete uma Lei a seu bel prazer?”
“Quem são os credores dos ingleses? De onde tirais vós os recursos para pagá-los? – ele queria muito me ouvir falar dessas tais caríssimas e pesadas guerras. Deveis ser supinamente belicosos, ou então estais acostumados a viver em meio a inúmeros vizinhos de nações guerreiras e de mau temperamento! Não posso imaginar que vossos generais não sejam mais ricos ainda que vossos reis! … E que tipo de comércio ou empresa vós executais fora de suas ilhas, ademais dos naturalíssimos escambos e escoltas marítimas de rotina para manter-vos em paz?”
“Se nós fôssemos governados por nosso próprio consentimento, i.e., se meu povo fosse livre e o soberano de si mesmo, que elege seus próprios representantes, acho que nada nem ninguém teríamos, e não concebo do que os ingleses possam ter medo! E afinal de onde vêm todos esses inimigos de que falas?! Uma simples residência, não é ela muito mais bem-defendida pelo seu dono, seus filhos e família, enfim, que por meia dúzia de patifes recrutados nas ruas a baixos soldos, que lucrariam 100x mais cortando as próprias gargantas?”
“E essa coisa chamada jogo de cartas, a que idade começa-se a praticá-lo? E quando se pára? Quanto tempo é dedicado a isso a cada semana?! Essas apostas são perigosas – interferem no tamanho da fortuna de uma família?! Pessoas de caráter duvidoso podem se aproveitar de seu talento no jogo para amontoar riquezas? O título de nobre é comprável? Os vossos aristocratas conseguem viver em meio a rufiões ou não suportam essa perspectiva?”
“Teu último século e o de teu país, ó inglesinho, não passou de uma seqüência vertiginosa de conspirações, rebeliões, assassinatos a sangue frio, massacres, revoluções, exílios e banimentos, uma seleção das piores conseqüências dos mais graves vícios tais quais a avareza, a sedição, a hipocrisia, a perfídia, a crueldade, a fúria, a loucura, o ressentimento, a inveja, a luxúria, a malícia, a ambição!”
“Meu pequeno amigo Grildrig, fizeste um excelente panegírico de teu país. Provaste-me que a ignorância, a preguiça, o vício são os ingredientes mais aptos para formar os legisladores! Que as leis são mais bem-explicadas, interpretadas e aplicadas por aqueles cujos interesses e habilidades estão em perverter, confundir, enganar. Vejo em vós as linhas de uma instituição que, em sua origem, pode ter beirado o tolerável, mas que agora, metade apagada, em suas melhores partes, está agora infectada pela corrupção!”
“E quanto a ti, Grildrig, que passaste a maior parte de tua vida viajando, tenho muitas esperanças de que tu mesmo não cultivas muitos destes abomináveis vícios de tua nação!”
“Não posso concluir outra coisa senão que a grande maioria de teus conterrâneos é constituinte da raça mais perniciosa de pequenos e odientos vermes que a natureza jamais deu-se ao trabalho de perpetrar sobre a superfície da terra!”
“este monarca se mostrou tão cioso e inquisitivo em conhecer cada particular de minha vida e de meu povo que algumas informações e demandas não poderiam soar mais do que como ingratidão e descortesia, seja da parte dele ou da minha, ao me negar a responder ou dar satisfação de alguns detalhes. Às vezes não era por discrição: eu simplesmente desconhecia a resposta.”
“Se bem que devemos ser tolerantes com um rei que vive tão secluso do resto de todas as nações, e portanto nada deve saber em termos de maneiras e costumes ordinários para estrangeiros: nunca seu preconceito será aniquilado uma vez que há essa ignorância, e será sempre natural qualquer estreiteza conceitual, mais ou menos grave conforme o contexto. Creio que nós e o restante da Europa estamos, pelo menos, isentos deste defeito. Seria realmente bizarro se os padrões de vícios e virtudes adotados por um príncipe tão remoto e isolado tivessem utilidade universal!”
“Ele ficara abismado como um inseto rastejante tão impotente como eu (aqui uso suas expressões, literalmente) podia dar vazão a idéias tão desumanas, ainda mais sem o menor pudor na forma de dizê-lo, parecendo alheio a tantas cenas de violência e desolação que eu mesmo pintara como as conseqüências evidentes do uso dessas máquinas destrutivas. Algum gênio mau deve ter invadido vossa civilização, ele disse. Quanto a ele próprio, declarou que, embora poucas coisas o comovessem tanto quanto novas descobertas na arte e na natureza, ele preferiria perder metade de seu reino que ficar a par desses segredos sórdidos. E me recomendou dali em diante jamais voltar a esse assunto. Estranho caráter, estreitos princípios e visão tão limitada!”
“Eu tenho para mim que assim é essa gente porque ela não chegou ainda ao estágio em que se reduz a política a uma ciência. Uma vez eu lhe disse que <há dezenas de milhares de livros sobre a arte do governo entre nós>, o que, ao contrário do que eu projetava, gerou-lhe grande repulsa, uma péssima opinião de nós e muitos mal-entendidos!”
“A educação dos gigantes é muito precária, pois considera apenas a ética, a história, a poesia e a matemática, na qual, por sinal, eles são como que obrigados a exceler. Só que toda essa matemática é aplicada apenas em coisas práticas da vida cotidiana, p.ex., o aperfeiçoamento da agricultura e de outras artes mecânicas ou que chamaríamos de artesanato. Dentre nós creio que esta educação teria valor zero. Nunca vira povo tão pouco filosófico: idéias, entidades, abstrações e qualquer noção que fosse de transcendência eram-lhes particularmente impossíveis!”
“Desde épocas imemoriais eles já haviam descoberto a imprensa, como os chineses fizeram entre nós. Mas suas bibliotecas são até hoje acanhadíssimas. Mesmo a do rei, que é tida como a mais suntuosa, não possui mais do que mil volumes, distribuídos por uma galeria da coisa de uns 350 metros de extensão. Ganhei permissão real para pegar emprestado o livro que eu quisesse.”
“nada é mais alvejado pelos autores deste país que evitar qualquer palavra desnecessária ao discurso, ou mesmo a criação de sinônimos, porque se uma palavra comunica algo, essa palavra basta e eis tudo. Eu peregrinei minhas vistas por inúmeros de seus livros, principalmente os de história e moral.”
“seria bem razoável imaginar, homenzinho, que as espécies de hominídeos eram originalmente muito maiores, mas que pessoas do nosso tamanho e também da tua diminuta estatura sempre existiram em paralelo. Não só a tradição e os mitos nos falam de gigantes incomparáveis, não só alguma parcela de nossa história escrita, mas também provas fósseis, casualmente escavadas em diferentes porções de nosso reino; falo de esqueletos muito maiores que os dos homens atuais, que tu chamas de homens-montanhas.”
“Um cavaleiro montado num belo corcel chegava aos 30 metros de altura.”
“Eu estava bastante curioso para saber como esse príncipe, cujos domínios eram praticamente inacessíveis para qualquer outro país, sem falar que seriam inexpugnáveis por quaisquer de nossas forças armadas<diminutas>, avaliava os exércitos ou a falta de um, isto é, se ele estaria propenso, caso a necessidade se apresentasse, a ser um competente general de guerra ou se não passava de um rematado pacifista, desses que jamais veríamos dentre os líderes das nossas nações conhecidas.Será que ele ensinava a seus súditos a disciplina das batalhas e as treinava para enfrentar emergências?Essa minha ânsia, afinal, não durou muito, haja vista eu ter sido informado, tanto pelos livros de História quanto por alguns interlocutores, que, no decorrer das eras, houve na terra dos gigantes muitas pestes e doenças contagiosas, como essas que ajudaram a conter, assolar e subjugar aspopulaçõesna Europa, não muito tempo atrás. Também fiquei sabendo que – exatamente como em nosso Velho Continente – a nobreza dos gigantes vivia sempre sediciosa e ávida por mais poder ou por manter seus privilégios, enquanto que as massas contendiam o tempo todo arriscando a vida pela própria liberdade, e o rei, à parte, pelo domínio absoluto e nada mais.”
“O navio em que embarquei foi o primeiro jamais visto naquela costa, e o rei deu ordens estritas de que, a qualquer tempo que uma nova nau fosse contemplada no horizonte, outras embarcações dali em diante fossem capturadas e trazidas à terra firme, com todos os passageiros e tripulação intactos, que deviam ser transportados a Lorbrulgrud em carroças de duas rodas. O rei estava muito convencido nos últimos tempos da idéia de providenciar-me uma fêmea de meu tamanho, a fim de propagar minha nanica espécie – mas, sinceramente, de minha parte, preferia morrer que ser forçado a perpetuar uma espécie que passaria sua existência confinada em gaiolas como canários adestrados e, com o tempo, provavelmente vendida nos mercados para consumidores curiosos. Eu fui tratado com toda a deferência no reino; era o cortesão favorito do rei e da rainha, o deleite de uma côrte inteira. Mas considero isso um simples acaso individual, e a raça humana que de mim derivasse, creio, não teria a mesma sorte.”
“Já fazia 2 anos que estava entre os gigantes. Certa feita eu e Glumdalclitch fomos convocados a comparecer a uma audiência diante do rei e da rainha.”
“Eu olhava através das minhas janelas, mas nada podia ver além das nuvens e do céu. (…) alguma águia agarrou a argola de minha gaiola pelo bico, com o provável intento de deixá-la se quebrar numa rocha, como faria quando captura uma tartaruga, a fim de quebrar seu casco. E aí essa ave coletaria meu cadáver dos destroços, ou antes o devoraria sem pestanejar ali mesmo! A esperteza e o olfato desse animal permitem-no descobrir comida a centenas ou milhares de metros de distância, muito embora eu mesmo estivesse oculto ao olhar também muito agudo da criatura, por estar confinado nesta gaiola, que às vezes eu também chamava simplesmente de <minha caixa> ou <minha casa>; enfim, eu estava tão invisível para esse predador do mundo dos gigantes quanto estaria um homúnculo ou inseto bem-escondido num compartimento de 5cm³.”
“Percebi então que havia caído em alto-mar.”
“Ah, quantas vezes não desejei voltar a estar ao lado de minha querida Glumdalclitch! E pensar que cada hora separado desta minha babá era uma eternidade durante minha estada neste país! E além da situação lamentável em que estava não pude deixar de me entristecer também por Glumdalclitch, pensando o que ela estaria sentindo e pensando naqueles exatos instantes, de que forma ela lidaria com o luto de minha perda, o pesar da rainha, essas circunstâncias todas…”
“Ou, se eu escapasse desses perigos por um ou dois dias, o que sobraria para mim a não ser a morte mais miserável de frio e fome? Meu estresse máximo e perigo real de morrer a qualquer instante duraram 4 horas; eu esperava, não, eu desejava que cada segundo fosse literalmente o meu último.”
“Se há qualquer corpo aí embaixo, deixem que fale.”
“Alguns deles, ouvindo-me gritar tão selvagemente, pensaram logo que eu estava louco; outros ainda puseram-se a rir; de fato, a ficha demorou a cair: eu estava agora com pessoas da minha própria estatura e do mesmo nível de força que o meu!”
“Os marinheiros estavam todos admirados, me fazendo mil perguntas, às quais, para ser sincero, eu não desejava responder. Eu estava confuso à vista de tantos pigmeus ao mesmo tempo, porque era só o que pensava que eles poderiam ser: pigmeus da terra dos gigantes! Meus olhos estavam desacostumados com objetos e corpos pequenos.”
“Um deles disse:
– Eu distingui 3 águias voando rumo ao norte; mas confesso que não reparei se eram gigantescas ou do tamanho normal. Isso nem veio a minha mente.
Imagino que isso se deva à grande altura nas quais as águias se encontravam. Mas duvido que este homem entendesse as razões para minha pergunta.”
“como grandes criminosos, noutras nações, haviam sido forçados a embarcar em barcos pouco confiáveis e com provisão alimentícia muito minguada… Embora o capitão estivesse tão pesaroso da situação de racionar os bens, também se compadecia da miséria deste homem desgraçado e doente que caíra em seu navio, e prometia cumprir sua palavra e me levar a salvo para terra firme, nem que fosse no primeiro porto que tivesse a oportunidade de atracar, nem que fosse muito distante da Inglaterra, ou mesmo da Europa.”
“serão os olhos deste homem maiores que sua barriga? Não sei, meus caros, não sei, e não vejo mal nisso, ainda que fossem, porque este homem passou um dia inteiro sem comer!”
“Eu propus deixar todos os meus pertences como fiança de todos os favores de que me proveram. Porém o capitão se recusava a aceitar um tostão furado.¹ Despedimo-nos amavelmente, e fi-lo prometer que me visitaria em Redriff. Contratei um cavalo e um cocheiro por 5 xelins, que tomei emprestado do capitão.
Na estrada, observando a pequeneza das casas, das árvores, do gado e mesmo das pessoas, alucinei que estava ainda em Lilliput. Tinha verdadeiro receio de tropeçar e machucar qualquer viajante que encontrava, e não-raro gritava para que eles me dessem licença, como se falasse com pigmeus. Não menos de duas vezes quiseram quebrar minha cabeça pela minha atitude impertinente.”
¹ Outra situação idêntica a uma das cenas de Robinson Crusoe!
“Admoestei minha esposa dizendo que ela fôra frugal demais nos gastos, a ponto de pôr a si e a nossa filha quase em estado de penúria. Mas eu parecia tão fora de mim mesmo que elas opinaram omesmo que o capitão assim que me resgatara: achavam que eu tinha ficado louco. Digo isso porque o hábito e o preconceito parecem exercer uma extraordinária impressão sobre nós!”
“Minha esposa me aconselhou a jamais embarcar novamente, muito embora meu destino não estivesse alinhado com este plano de vida. Mas disso o leitor será informado a seu tempo!”
* * *
PARTE III – VIAGEM A LAPUTA, BALNIBARBI, LUGGNAGG, GLUBBDUBDRIB E AO JAPÃO
“Não pude recusar essa proposta. Minha ânsia por conhecer o mundo, a despeito de meus infortúnios passados, continuava violenta como sempre.”
“Tripulando a chalupa de 14 homens, 3 deles ingleses, ele me nomeou capitão da expedição”
“Ao décimo dia fomos perseguidos por dois piratas, que logo nos alcançaram; minha chalupa estava tão pesada com suprimentos que não conseguia velejar a contento; tampouco tínhamos aparato militar para defendermo-nos.”
“Lamento encontrar mais misericórdia num pagão que num irmão em Cristo, eu confessei ao holandês.”
“Considerei quão impraticável seria preservar minha vida num lugar tão desolado, e quão miseráveis não seriam meus últimos dias”
“O leitor jamais há de conceber meu espanto ao descobrir uma ilha flutuante, habitada por homens, que eram capazes (ao que parece) de levitar e afundar de novo sua ilha-nave e movê-la como bem desejassem”
“nunca na vida eu contemplara uma tal sorte de mortais, seres absolutamente singulares em suas formas, hábitos e tabus. Suas cabeças eram totalmente reclinadas, fosse para a direita, fosse para a esquerda; um de seus olhos apontava para dentro, isto é, para a parte de baixo do corpo e para o chão, e o outro para o zênite (o cume do firmamento)! Era um costume muito assíduo que a aristocracia do lugar conservasse sempre junto a si, em caráter imprescindível para a comunicação com o <mundo externo>, dois servos ou escravos, empregados faz-tudo.”
“Enquanto ascendíamos, inúmeras vezes perdiam o fio da conversação, de modo que eu tinha de relembrá-los. Às vezes de nada adiantava, e eu tinha de esperar que eles voltassem a si sozinhos. Mesmo diante de uma raça alienígena (o que eu era para eles), não podiam manifestar nada além da mais completa indiferença. Eu podia notar que lidava com indivíduos da aristocracia desse país, porque outros da mesma espécie, que eu chamaria de plebeus ou gente vulgar, tinham pensamentos mais ansiosos e contínuos, e viviam a gritar, mas os primeiros não lhes davam qualquer atenção.”
“Sua Majestade sequer pareceu me notar, ou a comitiva inteira, mesmo que nossa entrada tenha sido algo barulhenta. Ele estava ensimesmado num problema: como conseqüência, tivemos de esperar uma hora pelo seu <retorno>. De cada lado do rei havia um pajem ou servo; quando eles percebiam que o rei estava <de volta ao mundo real>, voltavam a se comunicar com ele. Um dos pajens servia-lhe de boca, o outro de ouvido. Assim ele se comunicava com o mundo exterior. Quando o rei percebeu nossa chegada, teve um sobressalto.”
“O rei me direcionou uma série de perguntas, de modo que eu (não pela primeira, nem pela última vez) tentei dar-lhe satisfação em várias línguas que conhecia. (…) esse rei era especialmente distinguido, reputado acima de seus predecessores no trono como excelente anfitrião de estrangeiros.”
“Tivemos duas refeições, de três pratos cada. Na primeira, havia uma paleta de cordeiro cortada em formato de triângulo equilátero, um pedaço de bife em rombóide (paralelogramo), e um pudim em ciclóide. A segunda refeição consistia em patos amarrados em forma de violino; salsichas e pudim idênticos a flautas e oboés, afora um peito de vitela imitando uma harpa”
“Em poucos minutos aprendi, na língua deles, a pedir pão e algo para beber, ou alguns outros petiscos.”
“Ele me trouxe pena, tinta e papel, além de 3 ou 4 livros, dando a entender pela linguagem de sinais que fôra enviado para ensinar-me as letras. Ficamos em labuta por 4 horas, tempo que me foi o bastante para redigir uma imensidão de palavras em colunas, com as respectivas traduções; também me esforcei para aprender as principais expressões curtas de uso cotidiano; meu tutor me ensinou como dar ordens aos meus serventes, tais quais pegar isso ou aquilo, ir embora, se apresentar, fazer reverência, sentar-se, erguer-se, andar, etc.”
“Em poucos dias, com a ajuda de uma memória em que podia depositar minha inteira confiança, podia me expressar razoavelmente bem neste idioma.”
“Lap, na antiga língua obsoleta, significa alto; e untuh, governador; daí é que dizem ter derivado o nome Laputa, antes Lapuntuh. Terra alta ou terra da altura, mais-alto-governo, como queiram.”
“O rei deu instruções para a locomoção leste-nordeste, rumo ao ponto vertical acima de Lagado, a metrópole de todo este alto-reino, localizada mais abaixo. Isso era a 145km de distância de onde estávamos; nossa viagem durou 4 dias e meio.”
“Ele me confidenciou que os residentes da ilha tinham os ouvidos adaptados para ouvir <a música das esferas, que toca inelutavelmente de período em período, de modo que a côrte está agora preparada para realizar sua parte, cada qual no instrumento em que mais excele>.”
“A facilidade que eu tinha com matemática me capacitou a absorver um pouco de sua fraseologia altamente avançada, que, por assim dizer, tinha a aritmética e a geometria como bases sólidas; a música também. (…) Suas idéias sempre percorrem figuras geométricas ou linhas cartesianas. Para elogiar, p.ex., a beleza de uma mulher, ou de algum animal, descrevem-na em losangos, círculos, trapézios, elipses e qualquer termo de especialista afim. Quando figuras imagéticas não são o suficiente, recorrem a metáforas musicais.”
“Suas casas não são nada bem-construídas; as paredes são sinuosas, nenhuma forma um ângulo reto ou simular ao das outras quinas em cômodo algum! Isso deriva do extremo desprezo desse povo pela geometria prática, que consideram coisa vulgar e de operário ou gente bruta, arte mecânica, enfim. Suas instruções, portanto, de engenheiros e arquitetos, abstratas e refinadas demais para os simples pedreiros, acarretam inúmeras falhas. Tanto quanto eles são destros e habilidosos num pedaço de papel, com o lápis, o compasso e os esquadros, são incompetentes e lassos no trato social, na ação concreta, no bê-á-bá da vida. Jamais vira nem veria dali em diante um povo tão estranho, anti-social e destrambelhado. Qualquer conceito estranho a sua sabedoria milenar consolidada deixava-os perplexos e sem reação. Se não fosse matemática ou música, era melhor que esquecêssemos!Eles são muito fáceis de contrariar, suscetíveis e teimosos, conservando o bom senso apenas quando têm a razão de seu lado; e numa discussão eles nunca cedem, então o melhor a fazer para se poupar é sempre dizer que eles têm razão. Eles desconhecem imaginação criativa, devaneio, invenção! Sequer pode-se nomear tais coisas em sua língua.”
“Mas, para não exagerar na crítica desse povo, o que mais me admirou neles foi sua forte disposição para novidades em política, sempre preocupados com o bem-estar social e os negócios da ilha; cada cidadão possuía suas opiniões e juízos particulares sobre negócios de Estado, e havia muitas facções que apreciavam o debate apaixonado. Na realidade já observara a mesma inclinação entre os matemáticos que conhecera na Europa, embora jamais atinasse com qualquer analogia entre as exatas e a ciência política! A não ser que essas pessoas imaginem que, como os menores círculos possuem tantos graus quanto os maiores, a regulação e a administração do mundo inteiro não requeiram nem menos nem mais habilidade que pôr um globo terrestre em movimento!”
“Essas pessoas se encontram perpetuamente angustiadas, jamais atingindo a tranqüilidade de espírito por mais do que alguns minutos. Suas perturbações derivam de causas que quase não afetam a vida do restante dos mortais. Suas apreensões despertam à causa de inúmeras mudanças dos corpos celestes que elas observam e temem. Por exemplo: temem que a Terra, devido à contínua aproximação do sol, seja, ao longo do tempo, absorvida ou engolida; que o disco solar vá gradativamente desmilingüindo por conta do próprio calor produzido em seu núcleo, até apagar-se por completo; e contam assustados como a Terra, que há pouco escapou, de forma miraculosa, de uma colisão fatal com o último cometa que adentrou o sistema solar,pode virar cinzas siderais à próxima visita de um desses corpos celestes de movimento inopinado! Não inopinado a ponto de escapar a seus meticulosos cálculos, é claro:afirma-se que em exatos 31 anos terrestres um novo cometa nos destruirá irrevogavelmente.”
“o sol, gastando diariamente seus nutrientes emitindo raios, sem reposição alguma, será inapelavelmente consumido e aniquilado (…) enfim, não queria ser tão repetitivo, mas estes meus novos amigos vivem tão alarmados e apreensivos sobre essas coisas tão distantes e remotas, senão improváveis, afora muitas outras calamidades sequer citadas, que são todos uns insones que não aproveitam os pequenos prazeres da vida. Quando cumprimentam um conhecido pela manhã, a primeira pergunta é sobre o estado do sol, como ele parecia estar ao se pôr no dia de ontem e se houve percepção de mudança no seu nascer hoje, e quão esperançosos podem ser os habitantes da ilha de evitar a catástrofe iminente! Esse tipo de diálogo é levado a cabo com a mesma desenvoltura de dois garotos que compartilham contos de terror, estórias de fantasmas e duendes. Como no caso dos garotos, eles se comprazem imensamente durante a conversa e manifestam extrema curiosidade – mas depois se arrependem e não conseguem dormir no escuro ou ir à cozinha de madrugada beber água.
As mulheres da ilha, verdadeiras Xantipas!, são muito, muito vivazes: não param de brigar com seus maridos e se afeiçoam facilmente a forasteiros, sendo esta ocasião tudo menos rara, pois muitas vezes a ilha pousa nos continentes telúricos. E muitas vezes visitantes são autorizados a subir a bordo e visitar a côrte, como eu. Não só issomas visitam as cidades e corporações sob os menores pretextos. Se bem que, coletivamente, são todos desprezados, por parecerem sempre querer o mesmo tipo de coisa – são utilitaristas, não há dúvida!”
“ah, mas os maridos… os maridos estão sempre tão absortos em especulações que a mulher e seu amante podem se dar ao luxo de proceder às maiores amabilidades e familiaridades inclusive no mesmo cômodo, bem debaixo de seus narizes, contanto que eles estejam com papel, caneta e livros ao alcance das mãos, i.e., devidamente distraídos – e desacompanhados de seus dedicados servos, é claro!
As esposas e filhas sem dúvida lamentam muito seu confinamento à ilha, embora eu, particularmente, julgue-a o pedaço de terra mais magnífico do planeta! Embora vivam aqui em meio à maior abundância e magnificência, e com permissão para circular sem restrições pelo habitat flutuante, elas anseiam ver o mundo lá de baixo e conhecer o tipo de entretenimento presente em Lagado, a capital baixa do império (…) me relataram que uma senhora distinta da côrte, repleta de filhos, desceu a Lagado sob o pretexto de tratar da saúde, mas que lá viveu ocultamente vários e vários meses.” “Essa senhora, mesmo com marido tão gentil e abnegado, e por mais que ele a tenha recebido de volta sem o menor indício de reprovação, pouco tempo depois conseguiu empreender nova fuga, com todas as suas jóias, e foi viver com o mesmo indivíduo, e dessa vez nunca mais voltou — seu paradeiro segue desconhecido na côrte.
Imagino que essa história toda pareça uma alegoria para retratar as famílias britânicas desestruturadas, o que seria mais fácil imaginar – que eu sou um autor de ficção, que não precisaria ter viajado a um país tão remoto para redigir esse tipo de coisa! Mas ao leitor que assim pensar eu alerto: o sexo feminino não difere em clima ou nação algum, consistindo num espécime muito mais uniforme do que se pode esperar!”
“Sua majestade não tinha o menor interesse em indagar sobre as leis, o governo, a história, a religião, os costumes dos países em que estive; suas perguntas se resumiam ao estado em que se encontrava nossa Matemática, mas mesmo assim minha resposta era recebida com desprezo e indiferença”
“A ilha flutuante, creio ser desnecessário até mencionar, é perfeitamente circular, possui um diâmetro de 7,166153km, possuindo, portanto, uma superfície de 10 mil acres.”
“É jurisdição do monarca elevar a ilha acima da região das nuvens e vapores, garantindo assim que só haja orvalho ou chuva quando ele bem entender.”
“Quando a pedra é posicionada paralela ao horizonte, a ilha fica estacionária; suas extremidades ficando a uma altitude isonômica da terra, a força gravitacional age em equivalência com a força normal, anulando qualquer possibilidade de aceleração.
Essa preciosa pedra, espécie de ímã-volante de toda a ilha, leme tão excepcional, é guardada por certos astrônomos que, de tempos em tempos, mudam sua posição conforme as prescrições do monarca. Estes especialistas passam a maior parte da vida observando os corpos celestes, assistidos por lentes telescópicas ‘n’ vezes mais avançadas que as européias!”
“Em seus catálogos científicos constam 10 mil estrelas fixas, enquanto que nossos mais vastos registros não contabilizam 1/3 deste número. Eles também descobriram duas estrelas-menores, ou satélites, rodopiando Marte; o que traslada mais próximo do planeta vermelho está distante de seu centro geométrico cerca de 3x a extensão de seu próprio diâmetro; o satélite externo, 5x.” “Eles conhecem 93 cometas e sabem seus períodos de passagem pelo nosso sistema com grandíssima exatidão.”
“Este rei seria o rei dos reis do universo, se ele pudesse unicamente reunir homens de igual capacidade em seus ministérios! Mas eu ousaria dizer que não há na ilha ninguém como este homem, nem que chegue perto do intelecto e da visão deste homem; os segundos certamente estão em nossa terra, em nossa altitude habitual, e eu duvido que um rei precavido aceitasse jamais como subordinados tão poderosos e influentes pessoas estranhas, arriscando a escravidão de seu país!”
“o rei, quando se põe animoso e, portanto, decidido a exterminar uma de suas cidades, ordena com fleuma a descida da ilha, dissimulando uma visita benevolente aos cidadãos do lugar escolhido para extermínio; mas tudo isso é por medo de quebrar o fundo da ilha, adamantino, duro como o diamante.”
“Diz a lei do lugar que nem o rei, nem ninguém do reino, nem qualquer de seus dois filhos mais velhos, estão permitidos a sair da ilha. Nem a rainha, até o término de sua infância.”
“Após conhecer todas as singularidades da ilha, eu desejava muito partir. Essas pessoas se tornaram muito cansativas para mim. Eram excelentes em duas ciências pelas quais nutro grande estima, e nas quais confesso ser algo versado; mas, ao mesmo tempo, eram consciências tão abstratas e especulativas, que com o passar do tempo creio que não poderia encontrar companhias mais desalentadoras! Passei a conversar apenas com as mulheres, com comerciantes, servos e pajens. Assim foram meus últimos 2 meses. Não podendo mais ocultar meu desprezo por tal gente, passei a me conduzir de forma impertinente, mas minha mudança só podia ser detectada por essas mesmas pessoas em quem eu ainda encontrava qualquer tipo de aprovação ou reciprocidade!”
“Ele me ouviu com bastante atenção e remeteu-me diversas observações sapientes, relacionadas ao meu discurso. Ele possuía, como sempre nesta classe, 2 servos, mas quase nunca os utilizava – só mesmo em visitas à côrte e em cerimônias. Quando estávamos a sós, ele apenas comandava que se retirassem do aposento.”
“Dia 16 de fevereiro eu me despedi de Sua Majestade e da côrte. O rei me presenteou com o que eu converteria para 200 libras esterlinas, sendo que meu protetor e seus apaniguados também me deram somas em dinheiro, que remontavam mais ou menos ao mesmo valor na somatória. Também levaria comigo uma carta de recomendação para um seu amigo em Lagado, a referida metrópole do reino, mais mundana. A ilha revolvendo cada vez mais baixo e em torno de duas montanhas, uns 3km mais abaixo, fui conduzido ao mundo telúrico da mesma forma como me fizeram subir da primeira vez.” “Encontrei rapidamente a casa da pessoa a quem fui recomendado na carta, e fui recebido, claro, devido à chancela real, com as maiores honrarias.”
“À manhã seguinte ele me levou em passeio de charrete para conhecer a capital, que seria, diria, metade de Londres em tamanho. As casas são esquisitíssimas, e maioria necessitando reparos urgentes! As pessoas nas ruas andam rápido, parecem bárbaras, olhos fixos, geralmente maltrapilhas. Atravessamos um dos portões da cidade e avançamos coisa de 5km campo adentro, onde testemunhei o trabalho de vários camponeses utilizando um sem-fim de utensílios, embora não tenha entendido a função de um deles sequer.”
“não podia atinar com tantas cabeças, mãos e rostos ocupados, no campo ou na cidade! Não entendia o conceito de produtividade dessa nação. Para falar a verdade, nunca vira um solo mais mal-cultivado, casas tão precárias e degradadas, nem pessoas de aspecto mais miserável e necessitado.
O senhor Munodi era um aristocrata, ex-governante de Lagado, mas soube que devido a uma insurreição dos ministros fôra demitido por alegada incompetência. Ainda assim, o rei o recebia com muita ternura e gentileza, como um homem benfazejo, cujo único defeito era a falta de entendimento.”
“Em nossa jornada ele me mostrou diversos métodos empregados por fazendeiros na administração de suas terras, os quais para mim eram todos imprestáveis; raro era o terreno em que eu distinguia um pé de milho ou pedaço de grama. Em 3h de viagem, entretanto, o cenário mudou completamente: chegamos a um meio rural muito bonito, a casas camponesas, umas próximas das outras, todas muito bem-erigidas, os campos compactos e repletos de vinhas e de milharais, além de campos para pastagem. Na verdade nunca vira uma paisagem tal na Inglaterra! (…) os camponeses de Lagado desprezavam e ridicularizavam o jeito do senhor Munodi fazer as coisas em suas propriedades, crendo-o um péssimo exemplo para o reino. Esse tipo de contra-exemplo (a produtividade no campo!) era também seguido por umas raras exceções, reputadas como os excêntricos, velhacos, teimosos, velhos rabugentos e fracos de espírito do lugar.
Chegamos enfim a seu lar, uma mansão bastante nobre e brilhantemente estruturada. Encontro nas leis deste projeto arquitetônico o que de melhor os antigos nos deixaram. As fontes, os jardins, as passarelas, avenidas e pomares eram distribuídos de forma justa e regular e sem dúvida havia bom gosto em sua disposição.”
“ele me contou com um ar melancólico que até consideraria seriamente a idéia de derrubar suas edificações e restaurá-las ao gosto dos atuais cidadãos de Lagado; de destruir todas as suas plantations e adotar as <modernizações> em voga, para seu próprio prejuízo, mas temia que tudo isto não fosse apreendido pelos demais senão como orgulho, afetação, ignorância e capricho, manchando ainda mais sua reputação em relação a Sua Majestade.”
“Cerca de 40 anos atrás, muitos subiram a Laputa, ou a negócio ou a lazer, e, depois de 5 meses de estada, voltaram cheios de novas concepções e invencionices matemáticas, o que na verdade eu chamo de preconcepções absurdas e desconhecimento – essas pessoas se tornaram muito voláteis, provavelmente em virtude de haverem respirado o ar rarefeito e elevado demais daquela região. Foi aí que os habitantes de Lagado começaram a tomar gosto pela falta total de administração de seus negócios, i.e., passaram a desprezar toda e qualquer coisa <material> e <mundana>. Tudo em que pensavam era na reforma imediata das técnicas, artes, ciências e linguagens. Eles providenciaram uma patente real a fim de erigir em Lagado uma academia de projetistas (mal consigo usar a palavra <engenheiros>). As idiossincrasias prevalecem em tal medida nessa gente extravagante da capital que não há, na atualidade, uma só província que não tenha sucumbido a seu amalucado exemplo. Nessas novas escolas os professores ensinam regras e métodos inauditos em agricultura e engenharia civil, concebem novos instrumentos e ferramentas para todos os negócios e manufaturas; dizem eles que assim, devido à revolução que acabarão por promover, um homem trabalhará por 10, um palácio será erguido numa semana, e será feito de materiais tão duráveis que jamais carecerá de reparos. Que todos os frutos da terra chegarão à maturidade em qualquer estação e terão dimensões 100x maiores que as atuais. Isso e muito mais eles prometem. O único inconveniente é que nenhum desses projetos jamais chegou à perfeição ou a qualquer resultado satisfatório. E enquanto esse dia não chega, o país vive na miséria e desperdiça seu potencial, as casas permanecem ruinosas e as pessoas sem quase o que comer ou vestir. Mas isso, ao invés de desencorajá-las, torna-as 50x mais agressivas e obstinadas. Não sei o que mais as move, se a esperança ou o desespero. Quanto a mim, senhor Gulliver, sou despido desse tal ‘novo espírito de empreender’! Hei de viver como vivi desde que nasci, como meus antepassados viveram, e não pretendo mudar. Mas a verdade é que os poucos de nós contrários às inovações são vistos como inimigos do povo, das artes, uns plebeus ignorantes! O que dizem de nós é que somos preguiçosos que preferem se ater a envelhecidas fórmulas de sucesso e que nos falta o ímpeto do sacrifício coletivo!”
“A um quilômetro de sua casa esse homem tinha um engenho movido pela correnteza de um grande rio que por ali passava. Essa construção atendia as suas necessidades, as de sua família e as de muitos outros amigos. Mas há exatos 7 anos os tais projetistas acadêmicos o procuraram com propostas de destruir o moinho e construir um outro na região montanhosa, em que pretendiam erguer um grande canal bem no meio dos desfiladeiros, enchendo-os com água, abastecendo-os de motores, sistemas condutores e certas engenhocas.Alegavam que os ventos e o ar, a grandes alturas, agitavam a água e, quanto mais ela pudesse ser movimentada, e de quão mais alto ela viesse, mais energia seria produzida. Munodi, não vendo saída, em desprestígio com a coroa e pressionado por muitos de seus vizinhos, cedeu. Apesar de terem aplicado 100 homens no projeto ao longo de 2 anos, o trabalho descarrilhou, tudo deu errado e os projetistas foram-se embora, culpando o próprio Munodi! Agora esses acadêmicos andam por aí procurando outras almas como o benévolo Munodi, a fim de engabelá-las por seu turno, prometendo sempre os melhores resultados e as mais altas probabilidades de êxito, com o mínimo esforço. Mas, na prática, tudo acontece ao revés.”
“Essa academia não se resume a um simples prédio, mas é mais como um condomínio ou um campus, com prédios dos dois lados de uma rua que, barata e desvalorizada, foi comprada para servir de sede aos projetistas.”
“O primeiro homem que vi era um senhor muito raquítico, de cara e mãos muito sujas; seu cabelo e barba eram compridos, esfrangalhados e chamuscados em vários lugares. Suas roupas, sua camisa e sua cara, enfim, eram para mim da mesmíssima cor. Ele se encontrava há 8 anos entretido num só projeto: extrair a luz solar de pepinos, os quais eram inseridos em frascos hermeticamente selados, e depositados ao ar livre em pleno verão, debaixo do sol mais inclemente. Ele me contou que, sem dúvida, em no máximo mais uns 8 anos, já terá podido iluminar todos os jardins do governador, e isso a custos irrisórios.”
“O projetista dessa cela era o estudante mais antigo da academia. Seu rosto e barba eram de um amarelo pálido, suas mãos e roupas eram recobertas por uma camada de poeira. Quando fomos apresentados ele me deu um entusiástico abraço, um cumprimento que em outra ocasião eu bem poderia ter desculpado! Desde sua entrada na academia, ele estava envolvido numa operação a fim de reduzir os excrementos humanos à comida original, separando as partes, removendo a tintura emprestada às fezes pela bile, dissipando o mau cheiro e drenando o suco gástrico. Ele contava com parcos recursos da sociedade de cientistas, dentre eles uma remessa semanal de um recipiente abastecido de bosta, mais ou menos das dimensões de um barril de chope de Bristol.
Também vi um professor tentando calcinar o gelo até virar pólvora; este último me mostrou um tratado que redigira, sobre a maleabilidade do fogo, o qual ainda não se encontrava publicado.
Havia um arquiteto dos mais engenhosos, que descobrira um novo método de construir casas, começando pelo teto e descendo progressivamente à base. Sua justificativa? Ele me contou que devíamos copiar os insetos peritos em construção, isto é, as abelhas e as aranhas!”
“ora, empregando aranhas o trabalho de tingir a seda será todo poupado.”
“Ele me exibiu uma vasta quantidade de moscas das cores mais belas, com as quais alimentava suas aranhas, garantindo que as teias sairiam com a mesma tintura das moscas. Como ele tinha um repertório de todas as cores de moscas, ele esperava assim conquistar a aprovação universal, ao menos a partir do momento em que encontrasse alimento apropriado para todas as variedades de moscas, constituído de certas gomas, óleos e matérias viscosas, a fim de dar a consistência e a força necessárias aos fios.”
“Eu me queixava no momento de uma pequena crise de cólica, quando meu guia me conduziu à sala de um renomado físico, que conseguia curar essa inconveniência através de operações contrárias de um mesmo instrumento. Havia um par de berrantes enormes, com o bocal muito alongado e estreito feito de marfim. Ele inseria essa parte (de uns 20cm!) no ânus do paciente. Fazendo ventar para aquelas partes, ele garantia poder tornar o intestino tão murcho e isento de gases quanto uma bexiga depois de estourada! O problema era que quando o mal era mais crônico e violento ele precisava retirar os berrantes várias vezes para repetir o procedimento de ventilação. Nesse intervalo em que retirava o berrante para reintroduzi-lo, o doutor precisava tapar o orifício do reto do paciente com seu dedo polegar, para não deixar nada escapar; depois que isso era feito 3 ou 4 vezes, no mais grave dos casos, o <vento adventício> podia finalmente ser liberado com todos os gases (funcionava exatamente como uma bomba d’água). O paciente recebia alta. Eu vi este homem fazer o experimento com um cão, mas não pude perceber qualquer resultado na primeira aplicação do berrante. Com a repetição da operação, vendo que o caso era grave, o doutor aplicou tanto vento no animal,e logo ele peidou tão feio, que foi impossível permanecer na sala… O cachorro morreu no ato! – mas o doutor iria tentar a ressuscitação do animal aplicando a mesma técnica… eu não fiquei para ver o resultado e segui adiante em minha visita…
Com efeito eu visitei muitos outros apartamentos de projetistas-especialistas, mas não vou desperdiçar o tempo do meu leitor com as curiosidades que acabei por observar, preferindo um relato mais breve da aventura.”
“A invenção mais brilhante que encontrei foi um dispositivo que pretendia reunir todo o conhecimento universal da humanidade mediante o registro de todas as palavras concebíveis e de sua repetição na mesma proporção em que ocorrem nos livros conforme sua classe gramatical (advérbios, preposições, conjunções, verbos, adjetivos, substantivos…), e tudo isso de uma forma dinâmica, um aparato gigantesco operado por muitos auxiliares. Achei meu colega, o inventor deste mecanismo (veja a imagem), tão aplicado e original que prometi que, se um dia eu voltasse ao Velho Continente, tornaria público o fato de que ele, e somente ele, era o inventor genuíno desta grandiosa máquina revolucionária. E eu disse a ele, encorajando-o: <Embora seja o costume do europeu o furtar, por assim dizer, invenções uns dos outros, nosso sistema tem, ao menos, essa vantagem: sempre fica dúbio, no final, quem fôra o descobridor do Ovo de Colombo…>, mas – complementei –<…agirei com tanta precaução que você pode estar certo de ficar como detentor derradeiro dos direitos sobre sua invenção, sem um rival sequer!>”
“A seguir nós nos dirigimos à faculdade de letras, onde 3 professores estavam em debate, cujo tema era: como aperfeiçoar o idioma natal? O primeiro projeto proposto foi o de diminuir o discurso, cortando polissílabos, e eliminando verbos e particípios, uma vez que coisas imaginadas não são senão normas. O segundo projeto era um esquema extremista em que se aboliam de vez todas as palavras; argumentou-se que seria uma ação altamente valiosa tanto no campo da saúde quanto no da objetividade científica. E para isso evidenciou-se que cada palavra que pronunciamos representa uma ligeira diminuição de nossa capacidade pulmonar por corrosão e que, por extensão, a língua contribui para o encurtamento da vida humana. Pregou-se uma solução: <Uma vez que as palavras são apenas nomes para as coisas, seria mais conveniente que cada homem carregasse consigo todas as coisas necessárias a fim de expressar idéias particulares.> Essa invenção, alegou-se, já teria sido possível e já seria uma realidade, se as mulheres e a gente vulgar e iletrada não ameaçasse, sempre, rebelião quando esta era a pauta do dia. Aquilo que nossos avós e pais faziam, é-nos muito difícil de abdicar. São esta gente os inimigos maiores do fazer-ciência. (…) Entrando em mais detalhes sobre esta curiosa proposta, à objeção levantada de um homem cuja profissão fosse muito abrangente, abarcando muitos tipos de objetos, este homem teria, proporcionalmente aos campos que domina, numa lei de igualdade compensatória, de carregar mais coisas nas costas, a não ser que fosse rico o bastante para ter um ou dois servos que o ajudassem nesse tocante. Eu vi dois dos sábios defensores desta proposta quase que afundando sob o solo dado o enorme peso de sua bagagem, como os nossos mascates. Aí, então, a pessoa que carregasse todos os objetos de que necessita para <falar>, quando encontrasse um conhecido seu na rua, depositaria sua sacola no chão, retiraria seus objetos e poderia, assim, dialogar mudamente por cerca de uma hora! A ajuda de terceiros com implementos ou o camaradismo a fim de que todos e cada um lograssem carregar sem maiores dificuldades toda sua <mercadoria de fala> em peso (com o perdão do trocadilho!) seriam aspectos indispensáveis desse novo e promissor modo de vida. (…) Como seria de se imaginar, a casa ou escritório de alguém nesta sociedade seria atulhado de coisas para que diálogos fossem sempre possíveis. Essa operação não é coisa simples: a habilidade no rápido e coordenado manejo de objetos sendo essencial, diria que é uma verdadeira ARTE da conversação!
Mas mais uma vantagem aludida com o emprego dessa nova técnica seria que finalmente cumpriríamos os desígnios de Babel: teríamos atingido a língua universal! Em nenhuma nação que adotasse esse método qualquer forasteiro que jamais estudou os costumes locais deixaria de ser plenamente compreendido! (…) Embaixadores tratariam com quantas autoridades internacionais pudesse haver, sem maiores inconvenientes.”
“nada há de tão extravagante e irracional que alguns filósofos não tenham proclamado como verdadeiro.”
“Propôs então o doutor: <Na assembléia do senado, alguns médicos deveriam comparecer nos seus três primeiros dias, e, à hora da saída, medir o pulso de cada um dos debatedores. Após o quê, considerando com sabedoria e consultando sobre os sintomas das mais variadas doenças, bem como seus métodos de cura, ao quarto dia, retornariam em companhia de seus apotecários munidos dos medicamentos adequados. Antes mesmo desta quarta reunião, eles administrariam todos os lenitivos, aperitivos, abstergentes, abrasivos, corrosivos, restringentes, detergentes, paliativos, laxativos, analgésicos, anti-cefalóides, anti-ictéricos, anti-apopléticos, acústicos, etc., na dosagem e na qualidade que o quadro de saúde de cada paciente demandasse. Conforme esses remédios sanassem ou não a doença, e em que grau, os médicos e farmacêuticos regressariam, ainda, para repetir, alterar ou omitir o tratamento.>”
“Como sucede de os favoritos do príncipe sofrerem, em geral, de curta e péssima memória, o mesmo doutor ainda prescrevera: <Quem quer que se encontre com o primeiro-ministro, após relatar o assunto, da forma mais lacônica e simples possível, deveria, no instante de despedir-se, dar um beliscão no nariz do sumo ouvinte, ou senão um chute no estômago, ou dar-lhe um pisão, ou puxar ambas as suas orelhas por no mínimo três vezes, ou então enfiar-lhe uma agulha no traseiro, ou deixar hematomas no seu braço, tudo pela melhor das causas: prevenir seu esquecimento. E, se se tratar de uma sucessão de muitos encontros, deveria repetir a operação a cada um deles, até que o negócio esteja fechado, i.e., que o primeiro-ministro dê, enfim, seu sim ou seu não e conclua a questão.>”
“O mesmo médico propôs uma bela medida contra as dissensões agudas e violentas entre os partidos. O método de fazer a reconciliação era o seguinte: reúnem-se 100 líderes de cada partido; eles são dispostos dois a dois entre aqueles com cabeças de tamanho mais próximo; dois cirurgiões qualificados serram o occipúcio de cada par da dupla simultaneamente. Os occipúcios extraídos são intercambiados, vindo a pertencer agora à cabeça de um antigo rival. Parece absolutamente um trabalho que exige a mais milimétrica precisão ou algo pode dar muito errado! Porém, o médico-cirurgião afiançou que <se a dupla-cirurgia for realizada com êxito, a cura é inescapável. Com as duas metades antagônicas de um cérebro pós-cirúrgico deixadas à vontade para debater o tema em questão, dentro do mesmo crânio, não poderiam deixar de se entender logo, porquanto não há outra saída, e produziriam nos pacientes assim operados aquela moderação e regularidade de pensamento, justo neles, que, previamente à intervenção da medicina, julgavam que sua existência neste mundo decorria tão-somente do eterno movimento praticado pelos corpos celestes e que por isso julgavam que seus defeitos eram predestinados e que não valia a pena esforçarem-se por minorá-los!>.”
“O método mais justo seria impor um imposto sobre os vícios e tolices; a soma fixada para cada homem seria estabelecida de forma eqüitativa por um júri composto de seus vizinhos.”
“As mulheres deveriam ser taxadas segundo sua beleza e destreza no vestirem-se, no que elas deveriam ter os mesmos privilégios que o homem, em valores a ser determinados por seu próprio juízo. Mas a constância, a castidade, o bom-senso e a gentileza não poderiam ser mensurados, porque daria muito trabalho e ademais os impostos seriam tão altos que quebrariam a economia.”
“Outro professor mostrou-me um artigo muito extenso com instruções para descobrir intrigas e conspirações contra o governo. Seu aconselhamento era, em síntese, o de que o governante devia prestar atenção na dieta dos suspeitos; as horas das refeições; em que posição dormiam; com qual das duas mãos coçavam o traseiro; analisar detidamente seus excrementos, de modo a retirar opiniões conclusivas de sua cor, odor, gosto, consistência, nível avançado ou inicial da digestão, enfim, tudo o que, segundo este nobre autor, permite que leiamos nas entrelinhas os pensamentos e intenções mais profundos daqueles que conspiram; é de fato sabido por todas as civilizações (que possuem vaso sanitário) que um homem nunca se põe tão sério, grave e deliberativo como quando está no trono. Após longos experimentos, este doutor conseguiu descobrir que aqueles que se punham a pensar, enquanto defecavam, na melhor maneira de matar o rei tinham as fezes esverdeadas; porém, se o caso fosse apenas o de levantar uma insurreição ou incendiar a metrópole, aí então as cores resultavam bem díspares, etc.”
“Pois saiba o senhor que na Tribnia,¹ dentre os nativos chamados Langdon,² na qual habitei muitos de meus anos em meio a minhas intermináveis viagens, o grosso da população consiste, no fim das contas, em grandes descobridores, inventores, investigadores, testemunhas, informantes, acusadores, procuradores, provadores, conjuradores, incitadores, sempre no uso de seus instrumentos subalternos, i.e., outros langdoninos. E todos, sem exceção, estão sempre, quaisquer que sejam sua índole e conduta, submetidos à vontade dos ministros de Estado e aos congressistas, senão outras marionetes ou avatares destes primeiros. As intrigas, nesse reino, são obra daqueles que querem se tornar proeminentes e marcar a história como grandes personalidades, o velho desejo de ser um GRANDE POLÍTICO. Se não é isso que os conspiradores querem, só posso cogitar alguns outros motivos: revigorar uma administração que se tornara louca? sufocar ou dividir minorias de descontentes (ou seja, conspirar apenas como isca para apanhar conspiradores)? encher seus cofres? piorar ou melhorar a imagem do império em face das outras nações (aquele dos dois que for mais vantajoso no momento para a fortuna individual)? E não duvide de que as coisas são tão bem encenadas na Tribnia que muitos até decidem mutuamente seus papéis antes da peça: talvez tirem no palitinho ou dalguma outra forma quem serão os bodes expiatórios da vez, aqueles que serão acusados e condenados pelo poder público; medidas formais são tomadas para confiscar seus pertences e rastrear suas cartas e correspondências; e, enfim, se os prende. Os papéis encontrados que sirvam de prova da conspiração são distribuídos para uma caterva de artistas, muito hábeis em decifrar significados misteriosos em palavras esdrúxulas e quase arbitrárias, prestando entonação às menores sílabas. Há uma interpretação de tudo quanto for informação num sentido bem elaborado – p.ex.: uma referência a uma latrina fechada numa carta de comadres pode ser o símbolo para conselho privado; uma revoada de gansos, símbolo do senado; um cachorro furibundo, um invasor; a peste, um exército à espreita; um abutre, o primeiro-ministro; a gota, o sumo-pontífice; o patíbulo, o secretário de Estado; uma retrete, um comitê de especialistas; uma peneira, uma dama da côrte; uma vassoura, a revolução; uma ratoeira, uma estratégia; um abismo sem fundo, o Tesouro; um naufrágio ou escolhos, a própria côrte; um chapéu de bobo com sinos nas pontas, um favorito; uma cana quebrada, a côrte de justiça; um tonel oco, o general; uma ferida aberta, a própria administração.(*)
(*) Este parágrafo é a versão revisada do dr. Hawksworth (1766); na edição original de 1726, a introdução era: Pois saiba o senhor que, vivesse eu num país em perpétua crise e rebuliço…Portanto, não havia ainda este código dual Tribnia-Langdon nem tampouco a figura do vaso sanitário fechado na enumeração simbólico-irônica que vem a seguir.”
¹ Forma velada de o autor se referir à Bretanha.
² Os londrinos – referência aos habitantes da capital Londres ou London no original.
“Se falhar esse jogo de associações na interpretação da linguagem empregada entre os comparsas, há nesta terra ainda dois métodos efetivos que os mais versados possuem de desbaratar conspirações: os acrósticos e os anagramas. Quanto ao primeiro método: todas as iniciais podem conter sentidos políticos. N pode querer dizer uma trama;¹ B, aludir à cavalaria; L, uma esquadra no mar… Quanto ao segundo método: transpondo as letras do alfabeto em qualquer <documento suspeito>, as verdades mais ocultas e impensadas podem vir à tona, principalmente o descontentamento do partido vencido. Então, p.ex., se eu dissesse, numa carta, a um amigo, em tom de desabafo, <O FLAGELO FERIDO TEM UM PESO!>, um decifrador competente poderia deslindar a seguinte sentença subjacente na primeira: <O REI SEM LEGADO É MOFO, PLUFT!>,² o que parece insinuar que quereriam assassinar ou desaparecer com o rei, que julgavam nada estar deixando para a glória futura do país, sendo mera relíquia de um passado desinteressante.”
¹ Não é nenhuma palavra com “n” em inglês; aqui, Swift escreve plot, deliberadamente para o efeito cômico da explicação, e assim nos dois próximos exemplos nonsense.
² “Our brother Tom has just got the piles” e “Resist—, a plot is brought home – The Thour” no original.
“O professor me agradeceu muitíssimo meu relato detalhado, e garantiu que na versão final de seu artigo eu ganharia diversas citações.
A verdade é que nada vi nesse país que me convencesse a uma estadia longa, então comecei a planejar meu retorno à Inglaterra.”
“O continente, do qual esse reino ocupa apenas uma parte, se estende, pelo menos creio, a oriente, até aquela obscura borda da América conhecida como costa oeste ou Califórnia. Ao norte, o limite de seus domínios é o Oceano Pacífico, que não dista mais de 250km da capital Lagado no centro. Nesta costa setentrional há um grande porto e bastante comércio com a grande ilha de Luggnagg, mais ou menos a noroeste de onde eu me encontrava então, aos 29° de latitude e aos 140° de longitude. Essa ilha chamada Luggnagg situa-se, portanto, a sudeste do Japão, mais ou menos a 800km. Há uma aliança restrita entre o imperador japonês e o rei de Luggnagg; com isso, viagens entre ambos os arquipélagos se tornam mais fáceis. Foi assim que decidi tomar meu rumo para a Europa por esta via.”
“Dessa vez, por incrível que pareça, minha jornada não contou com acidentes ou aventuras extraordinários que valham a pena narrar. Chegando ao porto de Maldonada nenhum navio estava ancorado na parte reservada para as embarcações de Luggnagg, nem havia qualquer aparência de que esperavam a chegada de alguma nau. Esta cidade em que desembarquei era mais ou menos do tamanho de Portsmouth. (…) Um gentleman me disse: <Como navios para Luggnagg não sairão no próximo mês, seria uma honra, se o senhor concordar, ser o guia do senhor numa excursão pelo pequeno arquipélago de Glubbdubdrib, que dista daqui não mais que 5 ligas marítimas a sudoeste.>”
“Glubbdubdrib, tanto quanto eu posso interpretar, significa ‘Ilha dos magos e feiticeiros’. Tem mais ou menos um terço do tamanho da ilha de Wight,¹ é de vegetação bastante frutífera e de prospectos excepcionais, governada por uma tribo inteiramente composta de magos. Nessa tribo todos os casamentos são endógamos, sendo que a sucessão cabe ao filho mais velho. Seu palácio mais seus jardins dão uma área de 3 mil acres,² toda cercada de uma muralha de pedra polida de 6 metros de altura.”
¹ Ou seja, tem por volta de 127km².
² O acre vale um número diferente em metros quadrados em cada notação, e são diversas as existentes. Não deve ser a mais comum delas, em que 1 acre = 4km², pois sendo assim 3 mil acres x 4km² dariam 12 mil km², o que seria o mesmo que dizer que o próprio palácio do rei da ilha e adjacências são CERCA DE 100X MAIORES QUE A PRÓPRIA ILHA (nota 1)! Ou a notação é uma que me é inacessível ou trata-se de um imenso efeito cômico (burlesco, aliás) do autor!
“Mestre da necromancia, o governante deste lugar pode chamar dentre os mortos qualquer um que desejar, contanto que os serviços do finado não durem mais do que 24h. Também há a limitação de não se poder chamar a mesma pessoa de novo num espaço de 3 meses, a não ser em circunstâncias extraordinárias.”
“Este rei entendia a língua de Balnibarbi, embora não fosse o idioma desta ilha. Ele me solicitou, portanto, relatos de minhas viagens e, para provar-me que eu seria tratado sem cerimônia nem etiqueta excessivas, dispensou todos os atendentes da côrte num simples voltear de seu dedo. Ao concretizar esse gesto – não falo por metáforas! – todos os seus súditos sumiram, escafederam, como vapor ou imagens oníricas, num só instante! (…) Sentindo-me encorajado, comecei uma breve narração que incluía uma seleção de minhas melhores aventuras até então. (…) Logo me pus tão familiar à aparição de espíritos que, depois da terceira ou quarta vez já não me sobressaltava com os visitantes! Mesmo que um ou outro me parecesse ainda assustador em um aspecto ou outro, minha curiosidade ultrapassava em muito esse ligeiro mal-estar. Sua alteza determinou, então, que eu tinha inteira liberdade para fazê-lo convocar qualquer personalidade morta que eu quisesse, e aliás que eu continuasse a fazê-lo até me contentar de todo, não importasse o número daqueles que eu gostaria de entrevistar nesta minha curta estada por tão poderosa côrte! Podia ser qualquer nome, desde o início dos tempos até os dias atuais, e eu teria liberdade irrestrita no interrogatório. Mas ele me fez observar que as perguntas que eu dirigisse deveriam estar confinadas ao tempo de existência do sujeito, sob pena de não obter nenhuma resposta que fizesse sentido. Além disso, o rei me assegurou: <Tu ouvirás a verdade e nada menos que a verdade, posto que mentir não é talento que possua qualquer valor no submundo>.”
“O primeiro que decidi convocar foi Alexandre o Grande, encabeçando seu exército da batalha de Arbela:¹ após um leve volver de dedo no ar pelo governante, este excelso imperador imediatamente se materializou, em meio a uma vasta planície, visível através da janela que se abria a nossa frente. Alexandre foi chamado a sentar-se diante de nós. Foi com muita dificuldade que compreendi seu grego, e eu mesmo não falo mais do que o básico neste idioma. Ele me jurou: <Não fui envenenado, morri de febre decorrente do excesso de bebedeira.>”
¹ Que terminou com a derrota de Dario III e representou a conquista dos persas pelo mundo helênico, tentada desde a formação da nação grega. Alexandre tinha muito menos soldados que seu adversário.
“Em seguida eu vi Aníbal cruzando os Alpes, dizendo: <Eu não tenho uma gota sequer de vinagre em meus campos>.¹”
¹ Uma anedota popular diz que o conquistador Aníbal conseguiu desintegrar enormes rochas que bloqueavam o caminho de suas tropas usando fogo e vinagre (ou azeite) como catalisador das chamas. Ou seja: entrevistando as personalidades históricas, Gulliver sempre se depara com desmentidos.
“Vi (não fui, ele que veio; nem venci, mas afianço que eu vi!) César e Pompeu na dianteira de suas tropas, prontos para qualquer assalto. O primeiro deles estava na forma física de seu último grande triunfo. Eu desejava também a convocação do senado romano para diante de nós. E num amplo salão eu pude ver todas as ilustres figuras daquele senado republicano, além de, ao seu lado, uma assembléia dos tempos mais recentes de Roma, do Império corrompido. Os componentes do primeiro salão pareciam heróis, semi-deuses; a outra turba parecia um amontoado de mascates, batedores de carteira, andarilhos e fanfarrões!
O rei necromante, a minha instância, fez sinal para que César e Bruto se adiantassem. Fui presa de verdadeira veneração ao contemplar este homem Bruto! Pude distinguir nele a mais resoluta das virtudes, um caráter intrépido e uma mente firme, um sincero amor pela sua nação e grande humanidade e benevolência em cada gesto seu. E percebi também que ambos se davam muito bem. César me confessou: <As maiores ações que perpetrei nem sequer igualam, em vários graus, a glória de quem as suprimiu deste mundo!>. Instado por esse comentário, conversei bastante com Bruto. E dele ouvi: <Meu ancestral Junius, Sócrates, Epaminondas, Cato o Jovem, Thomas More e eu andamos sempre juntos no Hades>. Um sextunvirato, decerto, a que nenhuma idade poderia acrescentar um sétimo elemento!
Mas seria tedioso fazer o leitor repassar por todos os meus encontros e conversações daquela ocasião, que foram saciando minha sede por ver e conhecer as pessoas mais renomadas dos séculos dos antigos! Também não poupei meus olhos da vista dos maiores destruidores e tiranos e usurpadores de nossa História; bem como surgiram diante de mim grandes restauradores da liberdade e da paz a nações antes subjugadas…”
“Propus então que aparecessem Homero e Aristóteles, seguidos de sua horda de comentadores. Mas os comentadores eram tão numerosos que algumas centenas tiveram de se pôr em fila, fora das dependências do palácio, aguardando sua vez. Assim que o bando apareceu, de longe, já podia distinguir Homero e Aristóteles dos demais, e até mesmo entre um e outro. Homero era mais alto e cavalheiresco, andava muito ereto para um velho, e seus olhos, ao contrário da crença comum, eram alguns dos mais perspicazes e fulminantes de que já se teve notícia! Aristóteles andava muito encurvado, necessitando do auxílio de um cajado. Sua vista era débil e cansada, seu cabelo ralo e fino, sua voz minguada. Percebi num átimo o quanto cada um deles era desconhecido pela própria turba de comentadores que os seguiam! E também percebi que nem no além estes dois travaram contato com quaisquer daqueles. Recebi um cochicho no ouvido de um fantasma, cuja identidade preservarei: <Acontece que estes comentadores ficam o mais distantes possível dos seus mestres, tamanha a vergonha e a culpa que carregam – enfim se deram conta de quão mal interpretaram seus ensinamentos e distorceram tudo quanto estes homens nos legaram, prejudicando incontáveis gerações de novos homens!>. Introduzi, destarte, Dídimo¹ e Eustácio a Homero, e consegui que ele os tratasse, quiçá, melhor do que mereciam. Homero, muito atento, logo percebeu que estes coitados não tinham gênio de poeta! Já Aristóteles não foi tão benevolente nem contido: pôs-se furioso quando contei-lhe sobre Scotus² e Ramus,³ ao mesmo tempo que lhe apresentava seus espectros, emanando daquela multidão. Aristóteles, sem meias-palavras, indagou se todos os demais eram tão asnáticos quanto aqueles dois!”
¹ Há muitos Dídimos na História, nenhum especialmente vinculado apenas à obra de Homero, então é difícil dizer a qual deles Swift se refere. O mesmo vale para Eustácio.
² Duns Scotus, frade franciscano do XIII. Um dos poucos filósofos da idade média ainda relevantes e talvez a única figura de destaque destes séculos que sirva como contraponto metafísico a Tomás de Aquino, foi um dos prefiguradores isolados e muito prematuros do existencialismo, cf. Heidegger. Beatificado em 1993.
³ Lógico francês do XVI. Na sua época inovou sobre Aristóteles e foi moda, mas logo caiu em esquecimento e suas teses foram consideradas esdrúxulas.
“Neste ponto, solicitei ao rei que trouxesse Descartes e Gassendi das trevas. Com Aristóteles ainda presente, pus-me como intermediário para explicar seus sistemas ao Peripatético. Diante do que ouviu, Aristóteles, cheio de humildade, reconheceu seus erros e imperfeições em filosofia natural, e que isto não lhe era nem um pouco degradante, pois em muitos pontos ele raciocinou por conjeturas. Ele também disse, implacável e austero, que a ética de Gassendi, que parecia um epicurista de primeira linha, e os vórtices de Descartes, por exemplo, um dia seriam também completamente refutados pelos filósofos da posteridade. Ele deu o mesmo diagnóstico para a lei da atração, que os eruditos da contemporaneidade defendem com todo o zelo. Em suas próprias palavras, Aristóteles deixou bem claro: <Novos sistemas da natureza são como novas modas, sendo que cada idade tem a sua; mesmo aqueles que alegam poder demonstrar suas teorias por axiomas matemáticos não prevalecem mais que por uma porção de tempo determinada, brevíssima considerando a infinita sucessão dos homens>.
Eu passei 5 dias inteiros conversando com muitos outros sábios antigos. Vi a maioria dos primeiros imperadores de Roma. Pedi ao necromante que nos mandasse servir um jantar feito pelos cozinheiros de Heliogábalo, o imperador mais hedonista de todos os tempos. Porém, seus dotes culinários não ficaram atestados, porque nas dependências do palácio não havia tantos ingredientes quanto eles desejavam. Um hilota (escravo espartano) de Agesilau nos preparou, também, um ensopado, mas, urgh!, não consegui dar uma segunda colherada.
Os dois gentlemen que me acompanhavam na visita à ilhota tinham necessidade, por razões particulares, de regressar dentro de mais 3 dias, após esses primeiros 5, então eu decidi empregar o tempo que ainda me restava com a idade moderna, o que ainda não tinha feito. Decidi me limitar a nossa Europa de 300 anos para cá. Sendo um conhecedor e admirador das famílias mais tradicionais, pedi logo que se apresentassem uma ou duas dúzias de reis, acompanhadas de seus ancestrais até a oitava ou nona geração, se possível. Minha decepção foi imensa e aterradora. Ao invés de semblantes superiores com diademas reais, o que vi foi, numa família, rabequistas, dândis afetados, prelados (profissão muito comum entre os italianos); noutra, barbeiros, um abade, dois cardeais, e assim por diante. Não conseguia suportar essa frustração histórica, haja vista minha mais alta reverência por cabeças coroadas. Quanto a condes, marqueses, duques, barões e que-tais, não fui tão escrupuloso, e confesso que me locupletei com a baixeza de suas árvores genealógicas! Percebi, após analisar muitos traços, de que famílias alguns dos meus contemporâneos descendem com mais probabilidade. E até conseguia fazer a mesma analogia e adivinhar mais ou menos de que raças de antigos e de que personalidades específicas estes nobres de algumas gerações passadas devem ter descendido.”
“Nec vir fortis, necfoemina casta [Nem homem viril, nem mulher casta] (Virgílio); é incrível como a crueldade, a covardia e a falsidade se tornaram tão evidentes que são praticamente sinônimas das características mais enraizadas duma família, dizendo muito mais que seus escudos e brasões. Era fácil ver como um celerado, um tratante, vinha como a sífilis e logo contaminava toda uma nobre casa, cujos descendentes não passavam de escrofulosos tumoríferos!”
“Me preocupava muito com os destinos de nossa história moderna. Analisando todos os rostos dos grandes das côrtes, percebi como o mundo foi tirado dos eixos por escritores venais, prostitutos bajuladores, que teciam loas a grandes espoliadores, amantes da guerra e covardes! Percebi logo como fui enganado pelos nossos historiadores a respeito de tantos tolos pintados como sábios, tantos mentirosos pintados como almas pias; vi até que a tal virtude romana não passava de traição da pátria. A piedade decerto não se encontrava nestes ateus que diziam pregá-la acima de tudo! A castidade era defendida na minha frente pelos mais desabridos sodomitas! A verdade era espezinhada na boca de alguns fofoqueiros. Ó, quantos indivíduos de excelência e perfeitamente inocentes não foram condenados à morte ou ao exílio perpétuo pela prática corrupta de juizecos e pela malícia de intermináveis facções!”
“Com que baixa opinião eu não saí a respeito da suposta ‘sabedoria humana’, da integridade, disso e daquilo, quando me dei conta da raiz e das motivações vis por trás de tão robustas e tão nobres empresas e revoluções registradas em nossos anais! É realmente miserável de se ver como as melhores coisas, maioria das vezes, se produziam da forma mais aleatória e acidental, em meio a um sem-fim de patifaria!
Sobretudo, veio-me um asco por todos aqueles que adoram escrever anedotas com um fundo moral, isto é, os vilões que imaginam escrever a ‘história secreta’ dos povos. Quanta trapaça e ignorância não há em suas sentenças! Poder-se-iam empilhar os reis enterrados por envenenamento… E esses escrevinhadores se comprazem nesses relatos mórbidos; replicam falas exatas e riquíssimas de príncipes e ministros sem que sequer tenha havido qualquer testemunho dessas frases; desvendam como que por mágica os pensamentos e procederes de embaixadores e secretários de Estado que nunca soubemos, nem mediante seus diários íntimos! Ah, sim, quem faz e quem escreve a história está sempre e invariavelmente incorrendo em erro! Descobri a causa de muitos eventos que pareceram surpreendentes quando grassaram no mundo: como uma puta governou por trás das cortinas um conselho inteiro; como generais conseguiram vitórias principalmente devido a seu caráter acanhado e às decisões mais estapafúrdias! (…) todos estes homens mais ‘elevados’ me mostraram da forma mais crua como é impossível um homem ocupar um trono real sem estar infectado de corrupção até a medula, porque o caráter reflexivo, sóbrio, confiante e otimista não combina em nada com os negócios públicos; inclusive poder-se-ia dizer que o bom caráter do monarca seria a principal pedra no sapato e empecilho do ‘comezinho transcorrer das coisas’!… O rei incita o irrealismo.”
“Minha nova viagem durou um mês. Sofremos numa violenta tempestade, de modo que foi preciso seguir o rumo oeste a fim de pegar ventos propícios. Por 60 ligas marítimas esse vento embalaria nossa embarcação. Em 21 de abril de 1708, chegamos ao rio de Clumegnig, uma cidade-porto, a sudeste de Luggnagg.”
“Senti-me premido a ocultar minha procedência e sustentei ser holandês. Como minha intenção era seguir posteriormente ao Japão, esse era o certo a fazer, uma vez que os Países Baixos são a única nação européia com permissão para visitar este império.”
“Toda minha ‘comitiva’ era esse pobre rapaz como intérprete, que persuadi a me acompanhar de forma remunerada; ganhamos cada qual uma mula para a cavalgada.”
“Há um costume que não posso aprovar: quando dá na veneta do rei condenar um de seus nobres à morte, e de maneira indulgente, manda que o chão seja espargido com determinado pó amarronzado, venenoso, que, ao ser lambido, mata infalivelmente em 24 horas. Contudo, para fazer jus à imensa clemência do príncipe regente, bem como à prestatividade deste para com a vida de seus súditos (no que devia, aliás, ser emulado pelos monarcas europeus), devo mencionar, honradamente, que ordens estritas são emitidas para que as partes infectadas do chão sejam bem-lavadas ao término de cada execução, coisa que, se seus domésticos negligenciam, pode resultar na pena de morte ou algum castigo mais brando para todos os encarregados da limpeza. Eu vi pessoalmente como sua majestade mandou chicotear um pajem que estava em sua vez de lavar o chão, mas que, maliciosamente, após uma execução, omitiu seus deveres! Devido a sua indolência, um jovem barão muito promissor, visitando o palácio para uma audiência, foi sem querer envenenado, por mais benquisto fosse pelo rei! Vê-se, porém, como era benevolente o príncipe, ao perdoar tão gritante falta de seu servo, desde que ele prometesse nunca mais agir assim.”
“Inckpling gloffthrobb squut serummblhiop mlashnalt zwin tnodbalkuffh slhiophad gurdlubh asht. Esses são os cumprimentos, expostos na lei local, devidos a qualquer pessoa admitida à presença do rei. Seria mais ou menos o seguinte em inglês: <Que Vossa Alteza Celestial sobreviva ao Sol, onze luas e meia!> A essa fórmula de etiqueta o rei respondia alguma outra coisa ritual, que não pude entender, havendo aprendido apenas a recitar minha parte. Então eu devia proceder à tréplica (não sei o significado – apenas decorei as sílabas): Fluft drin yalerick dwuldom prastrad mir push. Eu disse que não sei o significado porque eu não sei interpretar o que quer dizer, embora saiba traduzir: <Minha língua está na boca de meu amigo>. Mas acho que isso tinha alguma coisa a ver com chamar meu intérprete para junto da conversa, para assim podermos proceder à conversação! Com a ajuda do rapaz que contratei, pude responder todas as perguntas que Sua Alteza me dirigiu, o que durou mais de hora. Eu falei na língua balnibarbiana; meu guia convertia tudo no idioma luggnagguês.”
“Permaneci 3 meses ali. O rei adquiriu muita simpatia por mim, fazendo-me diversas propostas de cargos na côrte. Eu, porém, julguei mais prudente e justo passar o restante de meus dias em companhia de minha esposa e família.”
“Um dia, num círculo da aristocracia, fui questionado por um dos nobres:
– Você já viu um de nossos struldbugs ou imortais?
– Nunca; mas muito anseio por que me expliquem o que é isso que designam por esta apelação, que decerto é aplicada a uma criatura mortal como todos nós!
– Às vezes, por muito raro que seja, uma criança nasce, numa família aleatória, com um sinal vermelho na testa, logo acima da sobrancelha esquerda, uma marca infalível de que aquele ser jamais morrerá. Esse sinal tem estas dimensões [ele fez um gesto com os dedos, e pude compreender que se tratava mais ou menos do tamanho de uma moeda de prata de 3 pêni¹] quando a criança acaba de nascer. Com o tempo, ele vai ficando maior, e inclusive mudando de cor. Até os 12 anos, já se tornou verde. Aos 25 se torna azul escuro. Aos 45, preto-carvão, e já grande assim [ele fez com os dedos uma mímica que eu aproximo ao xelim]. A partir desse ponto, porém, o sinal não muda sua coloração nem seu tamanho. Amigo, estes seres são tão raros que se houver mais de 1100 struldbrugs (contando homens e mulheres), isso muito me surpreenderá! Creio que uns 50 vivam na metrópole. Fora da capital, houve a notícia de um último struldbrug nascido 3 anos atrás, do sexo feminino. Não há qualquer chance de um struldbrug ser mais freqüente em umas famílias que em outras, não há qualquer correlação! Tampouco qualquer struldbrug, ao ter filhos, teve filhos que fossem iguais a si mesmo…”
¹ Pense numa moeda de 50 centavos, tanto com referência ao tamanho quanto com o valor aproximado de 3 pêni ou threepence àquela altura.
“Nação ditosa, em que toda criança tem pelo menos uma chance ínfima de ser imortal!”
“Dizia ainda ele que Sua Majestade, sendo tão judiciosa, jamais deixaria de escolher, dentre os struldbrugs, um bom número para compor seu conselho. Se bem que uma côrte é algo tão mundano, impuro e estulto para a alta sabedoria de um struldbrug envelhecido que se nenhum é visto por lá atualmente, isso não é culpa do rei. Comecei a mudar de idéia quanto aos planos de ficar ou não neste país. Me parecia um futuro promissor poder gastar meus anos conversando com sábios struldbrugs!”
“Após um breve silêncio, o mesmo interlocutor deu prosseguimento:
– Mas é impressionante! Nunca vi alguém com seu otimismo com respeito à vida eterna! Diga-me no que consistiria sua vida, caso você tivesse tido o privilégio de nascer um struldbrug?”
“Ora, se eu fosse bem-aventurado para tanto, assim que soubesse, pelos meus conterrâneos, ser um imortal, isto é, aprendendo a diferença entre a vida e a morte, a primeira coisa que procuraria seria me tornar rico. Sendo econômico e previdente, creio que em cerca de 200 anos eu já teria atingido a meta de ser o homem mais rico da nação. Em segundo lugar, desde minha juventude me aplicaria ao estudo das artes e ciências, o que me garantiria ser o número 1 em cada uma após algum cultivo. Em terceiro e último lugar, tomaria o cuidado de registrar todas as minhas ações e eventos biográficos de conseqüência num diário, sem deixar, evidentemente, de redigir uma história a mais imparcial possível dos meus próprios reis e ministros, com notas e opiniões pessoais a cada ponto. Não deixaria de catalogar todas as mudanças culturais, lingüísticas, dietéticas, estéticas e variedades tais. Seria eu um tesouro vivo de conhecimento e sabedoria acumulados, e certamente me fariam exercer o cargo de oráculo do país!
Depois dos 60, creio que não voltaria a me casar, vivendo de maneira celibatária, mas não reclusa. Me comprazeria muito ser o mentor de jovens mentes brilhantes, convencendo-os, de acordo com minha vasta experiência, a ser virtuosos na vida pessoal e na vida pública. Meus amigos íntimos, entretanto, seriam unicamente outros de minha raça e condição; e mesmo dentre eles eu seria seletivo: procuraria me acercar apenas da dúzia mais anciã de todas, e dificilmente procuraria contato com os struldbrugs mais jovens que eu mesmo.”
“Como um homem mortal se distrai contemplando a sucessão anual das rosas e tulipas de seu jardim, sem nunca lamentar pelas rosas e tulipas mortas da estação passada, assim eu viveria!”
“rios famosos que com o tempo se tornam modestos córregos; o oceano, que em seu perpétuo movimento acaba por recuar e aumentar uma de suas margens, só para engolir completamente uma outra; a descoberta de muitos países até agora ignorados; a barbárie avançando e ultrapassando as nações mais eruditas e cultivadas; a arte de medir, o moto perpétuo, a medicina universal, e muitas outras invenções e ciências eu veria chegarem à perfeição!
Quantas belíssimas coisas não descobriríamos na astronomia, só pelo fato de sobrevivermos até podermos confirmar nossas predições? Observando o progresso e o retorno dos cometas, as mudanças de movimento do sol, da lua e das estrelas, ah!…
Incorri numa infinidade de outros tópicos, todos a que o desejo natural pela vida eterna e pela felicidade sublunar poderia me incitar. Quando terminei meu discurso, e o essencial do que eu disse foi devidamente transcodificado e retransmitido pelo meu intérprete a todos os ouvintes, houve uns bons minutos de discussão entre os pares na língua do país; sem entender uma palavra, me era possível, entretanto, ver que eu me passava por ridículo, porque era evidente que riam as minhas expensas! Enfim aquele que havia sido meu intérprete fez o favor de explicar-me tudo que se havia conversado. Toda essa gente desejava, em suma, retificar alguns erros crassos acerca da idéia que eu fazia da imortalidade terrena. Não que fosse culpa minha, por assim dizer, mas da imbecilidade universal da espécie humana, que não tem como perceber o erro de seus raciocínios abstratos a menos que seja confrontada com a dura realidade. Tendo essa nação convivido com imortais por muitos séculos, estas pessoas se sentiam no direito de censurar-me, uma vez que tinham muito mais experiência no assunto em questão. Os struldbrugs, ao que tudo indica, são exclusivos deste recanto do mundo, e nenhum outro povo conhece as peculiaridades desta condição. Nem em Balnibarbi nem no Japão, vizinhos que às vezes recebiam struldbrugs como embaixadores, tinha-se uma perspectiva acertada a esse respeito. Na verdade, poucos criam na possibilidade mesma de que estivessem tratando com imortais, julgando que fosse uma espécie de mito, lenda ou que se desejava pregar uma boa peça. E julgaram que eu não me portei diferentemente, pois notaram como a princípio eu acolhi com muito espanto e ressalvas a possibilidade de alguém viver anos infindáveis; e que se agora eu acreditava na existência dos struldbrugs, sem dúvida isso se devia a minha credulidade incomum. E assim seria com todas as nações que não conhecem indivíduos da raça imortal, pelo menos não tão bem, isto é, em toda sua vida, mas apenas, quando muito, como embaixadores que não residem muito tempo no exterior, logo se aposentando de suas funções: todos os povos compostos apenas por mortais manifestam um grande anseio pela imortalidade. Toda pessoa velha, decrépita, com um pé na cova, dentre as nações desprovidas de struldbrugs, teme a morte, e não hesita em fugir da morte, tentando inutilmente afastar o outro pé, aquele que ainda não está na cova, diante do destino inevitável de todo ser vivo que não recebeu a marca da imortalidade na testa logo que nasceu. Dizem que os velhos, por mais doentes e senis, nunca deixam de nutrir as esperanças de dias melhores, e sempre querer viver um dia a mais, não importando o dia de hoje. Para os mortais, a morte é o maior mal, e por mais que ela seja inerente à natureza é um fato horroroso. Só na ilha de Luggnagg, lugar privilegiado, esse apetite insaciável pela infinidade dos anos havia sido abolido, pelo menos nas mentes de todos que bem conheciam histórias de struldbrugs.
Alegaram que meu sistema de vida eterna era injusto e irracional, pois supunha, em primeiro lugar, uma juventude eterna, uma saúde sem-fim, um vigor inacabável, o que não passa de quimera e tolice. E me corrigiram, dizendo que a questão não era se seria desejável viver para sempre na flor dos anos e na primavera da vida, próspero e feliz. Mas sim como é que seria desejável para qualquer um viver para sempre, com todas as inconveniências naturais do envelhecimento. Os luggnagguianos confessaram, enfim, que nunca viram alguém partir desta vida de bom grado em Balnibarbi ou no Japão, exceto aqueles que já estivessem à mercê das mais cruentas misérias ou vivendo sob tortura. O intérprete me perguntou, já certo da resposta, se, nos países que eu já havia visitado, assim como na minha terra natal, os homens se comportavam de maneira diferente ou análoga.
Depois deste longo prefácio, ele finalmente me relatou como é verdadeiramente a vida de um struldbrug. Ele disse que um struldbrug vive como qualquer mortal até seus 30 anos de idade; aos poucos, porém, eles se tornam cada vez mais melancólicos e apáticos. Progridem até os 80 anos num ritmo constante, isto é, cada vez mais melancólicos e apáticos conforme a idade. Isso era conhecido não só por observação mas da boca dos próprios struldbrugs. Claro que, nunca havendo, numa só geração de mortais, mais do que 2 ou 3 struldbrugs, seria difícil generalizar e chegar a conclusões confiáveis para todos os struldbrugs de todos os tempos. Mas, o que é mais espantoso, assim que um struldbrug supera seus 80 anos, que é mais ou menos reconhecido como o termo da vida do homem mortal, marca além da qual poucos chegam,ainda mais provido de lucidez, percebe-se que, independentemente do dom recebido da imortalidade, este ser sofre de todas as doenças e abastardamento mental comuns à terceira idade. Não só isso, mas um struldbrug, justamente por saber-se eterno, parece sofrer ainda mais que qualquer mortal de idade avançada que sabe que um dia irá morrer. Os que ainda se comunicam tornam-se obstinados e recalcitrantes, rabugentos, invejosos, indolentes, vãos, tagarelas, maus ouvintes, incapazes de cultivar a amizade. Logo, pelo menos metaforicamente, mortos às afeições humanas, tornam-se incapazes de sentir ternura por qualquer descendente seu mais jovem que seus próprios netos ou bisnetos. Tornam-se apenas vultos, por assim dizer, fontes que emanam unicamente desejos e paixões impotentes. E as duas coisas que eles mais passam a odiar são os vícios comuns à juventude e a morte dos velhos. Vendo como vivem os mais jovens, eles se vêem alijados de há muito dos prazeres da existência; e sempre que ocorre um funeral, lamentam profundamente que alguém tenha ido para um lugar de repouso e sossego, enquanto eles ali continuam. E é curioso observar que eles não guardam memória das coisas que acontecem em seu tempo de velhice; eles teimam em recordar apenas aquilo que viveram durante a juventude e a meia-idade. Se bem que cada vez menos, quanto mais envelhecem. Sendo que ninguém mais confia no juízo de um struldbrug muito ancião, preferindo dar crédito às tradições, ao ouvir-dizer popular, do que a qualquer entrevista que se possa ter com um struldbrug milenar. Os menos desagradáveis dos struldbrugs são os que atingem um estado de perfeita senilidade e se recolhem em si mesmos, perdendo qualquer lembrança ou sociabilidade; estes, confessava meu intérprete, ainda são vistos com piedade e condescendência pelos mortais, porque, afinal, não incomodam ninguém.
Mas se um struldbrug, por exemplo, casa com outro struldbrug, a lei do país, muito sensata, dissolve o casamento, assim que o mais jovem do casal completa seus 80. Porque a lei entende que um struldbrug é o que é, e não tem culpa de ter nascido sem poder morrer. E seria crueldade aumentar o peso dessa velhice eterna, se se permitisse que um imortal, ainda por cima, tivesse sempre um cônjuge!
Como já se vislumbrou, um struldbrug de 80 anos é só um pária não mais contemplado pela lei. Seus herdeiros passam a ter desde então direito à herança; é claro que a caridade ainda é fomentada, e eles continuam de posse de um naco de seus bens, que lhes permita seguir vivendo comodamente; mas tudo o que seria supérfluo é-lhes imediatamente retirado. Os struldbrugs que porventura cheguem pobres aos 80 anos são custeados por pensões estatais. A essa idade, ninguém lhes confia emprego algum, pelo menos não um trabalho útil. Proíbe-se-lhes comprar ou arrendar terras; ser testemunha nos tribunais – seja a causa cível ou criminal –, etc. A verdade é que nem como jurados de pequenas causas eles seriam de qualquer proveito.
Aos 90, eles já perderam todos os dentes e fios de cabelo da cabeça. Já não têm paladar, se bem que comem e bebem indiscriminadamente o que lhes puserem à mesa, sem gula nem muito menos satisfação. As doenças de que padeciam de há muito não os abandonam, mas chegam a um ‘equilíbrio’, e param de se agravar. Começam a esquecer os nomes mais óbvios, os nomes das pessoas, mesmo dos antigos melhores amigos ou chegados. E, por isso, ler não é mais um hábito que faça sentido para eles, porque sua memória já não pode conduzi-los do início ao fim de uma frase sem que eles exclamem:<O quê? Nada compreendo disso!>. Nessa amnésia eterna, portanto, eles perdem a capacidade de se engajar em qualquer distração construtiva.
Como é sabido, em todos os lugares e inclusive em Luggnagg, a língua, como os costumes, vai mudando com o tempo, de modo que um struldbrug, ainda que pudesse dialogar com outro struldbrug muito mais velho ou mais novo, não poderia entendê-lo, nem fazer-se entender, porque cada qual aprendeu um idioma um tanto diferente. Aliás, a menor e mais banal conversação se torna materialmente impossível aos 200 anos. É verdade que eles ainda podem balbuciar palavras soltas, como bebês fariam. É assim que, embora sustentados pelo Estado, eles passam a viver como estrangeiros em seu próprio lar.
Foi isso que me contaram desta raça dos struldbrugs!Depois desse extenso relato tive a oportunidade de conhecer pessoalmente 5 ou 6 destes seres, o caçula ainda não bicentenário. Como eu fiz muitos amigos na ilha, eles sempre viajavam com struldbrugs para trazê-los a mim. Muito embora dissessem aos struldbrugs trazidos que eu era um grande viajante que viu inumeráveis partes do globo, eles naturalmente não demonstravam a mínima curiosidade nem me dirigiam perguntas; só o que pediam era um pouco de slumskudask, i.e., uma lembrancinha do estrangeiro. Na verdade não se enganem: nem esse ato era desinteressado, e descobri que essa era uma forma de burlar a lei e pedir esmolas, o que era diretamente proibido. Como eu disse, struldbrugs, quando envelhecem, são mantidos pelo Estado, e sua pensão não é lá muito elevada…
Eles são, em suma, desprezados e mesmo odiados por todos os tipos de habitantes locais. Quando um nasce, já recai sobre todos a certeza de um acontecimento ominoso, em nenhum grau mais evitável pelo fato de que seria uma desgraça sentida somente a longo prazo. Por isso é que eles registram nos cartórios com muito esmero a data de nascimento de um struldbrug, para que qualquer cidadão possa descobrir a idade de um só de olhar nos registros: quanto mais velho um struldbrug, mais longe dele se deve passar! Esse registro é arcano, mas a prática não retrocede a mais de 1000 anos ou, até onde pude entender, registros mais antigos que um milênio de idade já haviam sido destruídos ou tornados ilegíveis por intempéries climáticas, alguma catástrofe natural ou simples desorganização administrativa. Tirante esse registro do parto, há também uma forma mais simples e informal de se inteirar da idade de um struldbrug: pergunta-se-lhes de que reis ou grandes nomes da História ele se lembra; naturalmente que, muitas vezes, é necessário seguir essa entrevista de uma consulta aos livros de História. É um dogma que o último monarca lembrado por um struldbrug subira ao trono invariavelmente antes de seu octogésimo aniversário, prestando grande confiabilidade a esse método.
Honestamente, os struldbrugs foram a visão mais mortificante que tive em minha vida. E a mulher era sempre mais horrenda que o homem. Além das deformidades verificáveis em qualquer idoso mortal, havia uma aura infecta indefinível que envolvia cada struldbrug, mais e mais, conforme o avanço etário. Isso era tão palpável, embora tão difícil de descrever, que, batendo o olho,eu conseguia descobrir, sem hesitação, qual era o mais velho dos seis que eu vim a conhecer. E digo isso ressaltando que entre este e o segundo mais idoso não havia uma diferença espetacular, mas coisa de entre 100 e 200 anos!
O leitor facilmente adivinhará que, diante de tudo que aprendi e vi com meus próprios olhos, minha ânsia pela imortalidade terrena sofreu o mais duro golpe. Desde então, nunca deixei de guardar uma profunda vergonha dos antigos pensamentos fantásticos que eu nutria a respeito dessa possibilidade quimérica!”
“O rei soube de tudo que se passara comigo e meus recém-amigados, além de toda minha obsessão inicial pela imortalidade e sua súbita conversão em repulsa e desalento. De forma espirituosa ele me disse que desejava que eu levasse comigo, na volta, 2 ou 3 exemplares de struldbrugs para exibição em minha terra natal. Ele disse que assim toda minha nação seria devidamente ensinada a jamais temer a morte. Mas o rei só estava brincando: eu soube que, segundo as severas leis do reino, era interdita a exportação de struldbrugs. E esta era uma cláusula pétrea de sua avançada constituição. Confesso que, não fôra isso, a repelência (e as despesas!) de tê-los por perto durante uma longa viagem por mar seria vencida pelo meu altruísmo educador, e eu mostraria os struldbrugs de bom grado aos ingleses!”
“Sendo a avareza inseparável amiga da velhice, creio que, no tempo devido, dando-se-lhes o direito, os imortais chegariam a ser os grandes proprietários de toda a nação, depauperando os poderes civis em igual proporção. Por isso, concordo em absoluto com a lei que considera os struldbrugs avançados em idade meros párias.”
“Em seis dias encontrei um navio apto a zarpar comigo para o Japão, viagem que durou 15 dias.” “No porto, mostrei aos oficiais da alfândega a carta do rei de Luggnagg endereçada à Sua Majestade Imperial. Eles estavam habituados àquele selo; era, para falar a verdade, uma insígnia do tamanho da minha mão. Uma inscrição acompanhava o símbolo, dizendo: Um Rei que ergue um mendigo ignoto da terra. O magistrado daquela cidade costeira, ao ficar sabendo de meu documento real, recebeu-me como um verdadeiro ministro de Estado. Deram-me carruagens e servos para minha expedição, e encarregaram-se também de expedir minha bagagem para Edo. Em Edo fui convidado a uma audiência pública e ali me devolveram a carta do rei. Abriram-na de uma forma imensamente ritualística e cerimoniosa; trataram de explicar seu conteúdo ao Imperador via intérprete, e ele finalmente se dignou a me receber. Assim pronunciou: <Peça o que quiser e será atendido, em nome de Seu Real Irmão de Luggnagg!> – é claro que diz-se<Irmão> não por consangüinidade, mas pelo vínculo de suprema autoridade entre as duas nações vizinhas.”
“<Você é o primeiro holandês escrupuloso quanto a isso; você é mesmo um holandês?! Você não se porta como um destes, como é que se diz?, protestantes…>De qualquer maneira, ele não quis me interrogar mais seriamente – acredito que por consideração a Seu Amigo-Rei. Na verdade, o que pedi era muito incomum naquela côrte, mas o Rei é Soberano Absoluto, e muito Misericordioso e Benevolente! Ele ressalvou:<Se essa informação se torna pública entre os holandeses, esteja prevenido, nenhuma amizade entre nações evitará que cortem-lhe a garganta ainda no meio da sua viagem!>”
“Em 9 de junho de 1709 cheguei a Nagasaki; a viagem não foi breve nem muito menos sossegada. Aconteceu de eu estabelecer relações com alguns marinheiros de uma robusta embarcação de 450 toneladas, que eram justamente holandeses,de Amboyna, Amsterdã. Vivi muitos anos nos Países Baixos, estudando em Leyden, e meu Holandês não era menos que impecável, então consegui disfarçar minha identidade de súdito da rainha da Inglaterra. Seja como for, estes homens foram logo informados de que eu era um viajante crônico, e se mostraram muito curiosos sobre que aventuras eu vivi. Condensei os detalhes o mais que pude e ocultei o essencial, i.e., a maior parte dos acontecimentos. Eu conhecia muitos indivíduos holandeses. Podia facilmente inventar nomes de família para meus pais, que, alegava eu, eram gente simples da província de Gelderland. Eu pagaria de bom grado o exigido pelo meu traslado pelo capitão do navio (um tal Theodorus Vangrult, a propósito); porém, descobrindo que eu era cirurgião, este homem aceitou baixar a taxa pela metade, desde que eu servisse como médico. O fato é que nos dias de preparativos para incursão em alto-mar fui incessantemente interrogado pela tripulação sobre se eu ‘participara da cerimônia ou não’, pergunta que, dependendo da resposta, podia custar minha vida…Que cerimônia? Aquela em que se pede algo de todo súdito que deseja atestar Sua Lealdade Absoluta exceto no caso do simples comerciante holandês: lamber o piso da sala do Imperador do Japão!”
“Ah, nada aconteceu durante esta viagem que mereça ser citado. O vento foi favorável até o Cabo da Boa Esperança, onde paramos só para nos guarnecer de mais água potável. Em 10 de abril de 1710 chegamos sãos e salvos a Amsterdã, tendo perdido apenas 3 homens de doença, e um quarto que caíra do mastro nas águas, mais ou menos próximo da costa da Guiné. De Amsterdã foi um pulo para voltar à Inglaterra, num barco menor, saído daquela mesma cidade.
Dia 16 de abril lá estava eu de volta a Downs. Eu estive ausente de minha terrinha por 5 anos e 6 meses. Fui incontinenti a Redriff, lá chegando em 17 de abril, às 2 da tarde, e me reencontrei com minha esposa e família, todos na mais perfeita saúde.”
PARTE IV – VIAGEM AO PAÍS DOS HOUYHNHNMS
“Por mais 5 meses incompletos segui em casa, ao lado de mulher e filhos,feliz, devo dizer, e não sairia desse estado se já tivesse aprendido a lição, i.e.,sabido desde já no que consiste realmente a felicidade. Porque aí então no fim deste curto período eu deixei mais uma vez minha mulher, com a barriga bem visível,esperando mais um descendente meu, tendo eu resolvido aceitar uma oferta, que eu julgava aliás irrecusável, do capitão do Adventurer, um grande navio mercante de 350 toneladas. Bom navegante, e muito mais experiente agora, além de enjoado de exercer a medicina, que, se me desse na telha, eu poderia voltar a predicar por breves instantes, levei conosco um colega médico, Robert Purefoy, para ser o responsável pela saúde dos meus homens – eu ia, portanto, apenas como mercador e a fim de lucrar e de desvendar o desconhecido!¹ Desancoramos de Portsmouth no 7º dia de setembro de 1710; dia 14 cruzamos com o Capitão Pocock, de Bristol, no Teneriffe, cujo destino era a baía de Campechy, onde iriam atrás de madeira. Dois dias depois, acabamos nos separando por conta de uma tempestade. Dali a muito tempo, quando retornarianovamente ao lar, fiquei sabendo, afinal, que sua embarcação naufragara, e só um garoto, pajem, sobrevivera. É, o Capitão Pocock era um homem honesto, e bom capitão, mas um pouco otimista demais e obstinado em seguir uma rota sem nunca improvisar, mesmo diante de circunstâncias ruins. Foi isso que precipitara sua morte e a de quase toda sua tripulação, o que não foi a primeira nem será a última vez nos sete mares! Se ele tivesse seguido meu conselho, estaria hoje confortavelmente instalado diante da lareira de sua sala de estar, ao ladodos parentes, tão bem quanto eu – tão bem quanto eu chegaria a estar um dia–, mas agora não é a hora!
[¹ As semelhanças com Robinson Crusoe não param!]
Quanto a minha viagem, muitos colegas morreram da febre dos trópicos, ocasionada pela insolação; isso me levou, como capitão de meu próprio navio, a decidir nossa sorte, para o bem ou para o mal, recrutando gente de Barbados e das Ilhas Leeward, onde afinal desembarquei. Eu depressa me arrependeria de minha escolha: muitos destes sujeitos já haviam sido piratas e não eram confiáveis. Havia 50 mãos a bordo. Minhas ordens eram: comerciar com autóctones dos mares austraise coletar o máximo de informações. Bem, esses mercenários que contratei corromperam meus marujos fiéis e todos, ensandecidos, conspiraram para tomar o navio. E assim se deu:uma bela manhã, arrombaram a porta de minha cabine e completarem seus planos com facilidade; começaram por imobilizar meus pés e mãos atando-os.”
“Eles me davam, como um favor!, das minhas próprias carnes, e goles das minhas bebidas, enquanto lá fora se tornavam os donos do navio e deles mesmos. Seu objetivo era voltar ao ofício de piratas e render um navio espanhol.Para realizar esta façanha, porém, eles ainda precisavam recrutar mais homens.”
“Eles velejaramsemanas a fio. Negociaram com indígenas. Eu, contudo, ignorava quais podiam ser as coordenadas, tendo sido mantido prisioneiro em minha cabine, sem maiores expectativas além de ser morto a qualquer momento, já que ameaças não faltavam.
A 9 de maio de 1711, um James Welch baixou ao meu calabouço e relatou que tinha ordens do ‘capitão’ para me deixar na costa. Eu tentei barganhar com eles um destino melhor, mas sem sucesso. Ele nem mesmo aceitou revelar o nome do novo capitão do navio, o líder da rebelião. Me forçaram a subir no barco, concedendo-me ao menos o direito de vestir minhas melhores roupas, que eram de fato como se fossem novas, além de levar comigo um novelo de linho; porém, nada de armas, exceto um gancho de cabide. Não nego que tivessem alguma honra: não revistaram meus bolsos, onde por acaso eu guardara todo o dinheiro que levava na viagem, junto de alguns pequenos itens de sobrevivência. O barco seguiu por uma liga marítima, até que estivesse raso o bastante para eu descer à praia. Eu ainda supliquei para que me dissessem que lugar era aquele; mas a resposta que obtive foi <não sabemos mais do que você>. Completaram: <O capitão estava resolvido, após a venda da carga, a livrar-se de mim ao aparecimento da primeira terra firme>.”
“Após me hidratar e espairecer, comecei a explorar o sítio, decidido a entregar-me aos primeiros selvagens que surgissem. Quem sabe eu não conseguisse comprar minha vida com alguns braceletes, anéis de vidro ou outros desses itens insignificantes, que os grandes navegantes sempre levavam, expressamente para o escambo com os mui admirados nativos de países remotos…”
“Eu cheguei a uma estrada batida, onde percebivárias pegadas humanas, e também bovinas mas, sobretudo, eqüinas, a maioria delas. Foi então que contemplei diversos animais num campo mais aberto, e sempre um ou dois do bandoassentados em cada árvore. Suas formas eram muito singulares e deformadas, o que me desconcertou a princípio, e me fez, por prudência, conservar distância e seguir observando pordetrás da moita.”
“Sua cabeça e busto eram cobertos por uma espessa pelugem, alguns a tinham cacheada, outros lisa. Eles possuíam barbas como bodes, e uma espécie de crina muito avantajada descendo lombo abaixo, além de pêlos nas pernas e nos pés; mas o restante de seus corpos era nu e deixava transparecer uma pele de um marrom lustroso, quase cáqui. Eles subiam nas árvores com a agilidade de esquilos, e pude notar que possuíam garras muito compridas nas quatro patas, pontiagudas, em forma de gancho. Eles saltavam com agilidade igualmente prodigiosa. As fêmeas eram menores. Levavam compridas cabeleiras escorridas, embora sem nenhum pêlo facial, e sem pêlos noutras partes que eram peludas nos machos, exceto nas pudendas e no ânus. Suas tetas ficavam dependuradas entre suas patas dianteiras e ficavam rentes ao solo,enquanto caminhavam de quatro! Os pêlos de ambos os sexos, ao contrário da uniformidade da cor da pele, eram multicoloridos, podiam ser castanhos, mas também ruivos, negros ou loiros. Eu jamais vira, em todas as minhas andanças, animal tão repelente, ou não exatamente repelente, mas capaz de me inspirar a mais arraigada e preconcebida antipatia e aversão! Tanto que, julgando que játinha visto o bastante, imerso em nojo e desprezo, ergui-me e retornei à estrada batida, na esperança de chegar a alguma cabana com seres humanos. Eu não tinha caminhado muito quando uma dessas criaturas se encontrou frente a frente comigo, e se aproximou parecendo reconhecer-me, sem desviar o olhar. O monstro horrendo, ao ver-me melhor, entretanto, contorceu suas feições, diria que todos os músculos da face, e sua vista petrificou, como que de súbito, tanto elese espantara diante de algo que provavelmente nunca vira. Movendo-se novamente, chegando mais e mais perto, ergueu uma de suas patas, ou em ato de inocente curiosidade ou em sinal de animosidade, não sei dizer ao certo. Eu imediatamente saquei meu cabide-gancho e com o lado não-perfurante dei-lhe uma boa bordoada. Quem sabe de quem seria esse animal? Eu não ousava feri-lo gravemente. Quando a besta sentiu a pancada, recuou, mas grunhiu tão alto que quarenta membros de sua manada vieram acudi-lo, parecendo que uivavam, instigando-me com suascaretas medonhas. Eu corri até o tronco de uma árvore, nele apoiei as costas e mantive os quadrúpedes à distância empunhando e balançando meu gancho no ar. Alguns dessa horda demoníaca se apoiaram nos galhos da árvore e a escalaram facilmente, no que –verticalmente alinhados comigo –, começaram a expelir seus excrementos em minha cabeça! Eu minimizei os danos procurando ficar o mais rente possível ao caule; o problema é que aquele odor e material pestilentos foram me sufocando, pois em poucos segundos eu fiquei conspurcado de fezes…
Em meio a este pandemônio, notei todavia que muitos deles partiram em disparadao mais depressa que puderam, no que me aproveitei para abandonar a vizinhançadaquela árvore e correr estrada afora, enquanto tentava refletir no quê é que poderia tê-los assustado tanto. Ao perceber um vulto à esquerda, voltei-me e contemplei um cavalo que caminhava sossegadamente pelo campo. Percebi bem rápido que era dele que os outros haviam corrido. O cavalo hesitou, espantado, diante da minha figura. Aproximando-se, no entanto, parecendo manifestar muito mais auto-controle e prenda que o meu horrendo rival de ainda há pouco, fitou-me fundo nos olhos com sinais de admiração no focinho. Ele dirigiu a vista para minhas mãos e pés, rodeou-me para investigar melhor – e não escassas vezes! Eu seguiria viagem, evidentemente, mas ele fez questão de bloquear a estrada, embora parecesse sereno e nada ameaçador. Seguimos nos fitando um bom naco. Criando coragem, levei minhas mãos à altura do pescoço do animal a fim de afagá-lo, como fazem os jóqueis quando estabelecem um primeiro contato com sua montaria. O animal pareceu receber meu gesto com um infinito desdém, afastou a cabeça e como que franziu o sobrolho – se tivesse sobrolho! –, erguendo – suavemente – a pata dianteira direita a fim deapartar meu braço. Ele relinchou 3 ou 4 vezes, mas numa cadência tão única que eu comecei a delirar que ele falava comigo numa língua de cavalo!
Enquanto essa bizarra cena transcorria, outro cavalo se achegou. Dirigindo-se ao primeiro em postura que julguei um tanto formal, ambos tocaram-se mutuamente pela sola de seus cascos da pata posterior direita, relinchando em seqüências estranhas, e um se alternando com o outro! Eu mais uma vez testemunhei a diferença na modulação dos sons, que pareciam sílabas. Esses animais articulam a fala?! Eles se afastaram de mim alguns passos, como se fosse para conferenciarem mais à vontade (eu não podia dar crédito a minhas alucinações, aquilo era demais para mim!). Eles seguiram trotando a passos apascentados, um ao lado do outro, como se fossem dois seres humanos deliberando algo deveras importante! E às vezes voltavam a cabeça e me espiavam, como se estivessem a me vigiar. Eu não acreditava nessas ações provindas de tais bestas, animais brutos e silvestres! Comecei a refletir: se os habitantes deste lugar forem proporcionalmente tão inteligentes quanto seus animais, creio que cheguei ao povo mais sábio da Terra, é isto! Essa conclusão me tranqüilizou de tal maneira que eu decidi juntar-me a eles na caminhada, até que vislumbrasse alguma casinha ou vilarejo nohorizonte. Onde estão os humanos deste lugar?! Na verdade não era minha intenção seguir de perfil com os cavalos –deixai cada qual com seu cada qual, eu iria apressar o passo e fazê-los comer a poeira de meus passos. Mas foi aí que o primeiro cavalo, de um cinza sarapintado, muito atento aos meus movimentos, relinchou de forma tão expressiva que eu tive a nítida sensação de que ele me chamava!”
“A perplexidade em torno de meus sapatos, meias e calças era extraordinária; eles não paravam de relinchar uns aos outros toda vez que dirigiam o olhar para os meus acessórios. Eles também usavam linguagem gestual, e diria que em nada ficavam a dever ao filósofo europeu, quando este se punha concentrado a fim de resolver um problema elaborado!
No geral, o comportamento destes animais era tão ordeiro e racional, tão sensível e judicioso, que por fim concluí que eles deviam ser magos, que se autometamorfosearam por alguma razão e, encontrando um estranho enquanto assim permaneciam, resolveram dar lastro à brincadeira por mais algum tempo. Ou, talvez, estes animais estivessem apenas imensamente maravilhados com um homem da civilização como eu, com minhas roupas e feições e posturas mais delicadas que as de qualquer nativo vivendo num habitat tão remoto! Cada vez mais convicto de uma dessas hipóteses, resolvi, portanto, dirigir-me a eles da seguinte maneira:
– Respeitáveis gentlemen, se fordes feiticeiros, no que tenho motivos para acreditar, podeis então entender minha língua! Destarte eu exorto sua senhoria a reconhecer minha proveniência: eu sou um pobre e desgraçado homem das Ilhas Britânicas, dirigido por suas desventuras a este porto remoto. Eu solicito, mui educadamente, portanto, que um dentre vós me deixe cavalgar em suas costas, como se fôra cavalo de verdade, até que eu encontre alguma vila povoada neste país, onde possa encontrar abrigo e sustento. Se concordardes, presentear-vos-ei com esta faca e bracelete…,
no que logo os tirei de meu bolso. As duas criaturas daquela primeira cena após o tumulto na árvore ficaram paralisadas ouvindo todo o meu discurso, com parecença de ouvir e sorver cada sílaba do que eu dizia. Quando terminei, eles não pararam de ‘conversar em cavalês entre si’, como eu agora o chamo, cansado de comparar seus relinchos hiper-delicados com os dos cavalos ingleses. O debate parecia muito sério. Eu não pude deixar de notar que sua linguagem averbal e no entanto melodiosa expressava as paixões com bastante precisão; eu poderia, me dedicando por mais tempo, decerto, catalogar os diferentes fonemas e até registrar o alfabeto destes seres curiosos! Acho até que seria mais fácil que aprender chinês…
Prova disso é que toda hora eu distinguia a palavra Yahoosaindo de suas bocas dentuças, pronunciada por cada um da companhia, e sem parcimônia. Embora fosse vão tentar conjeturar sobre seu significado, enquanto os dois primeiros cavalos conferenciavam em particular, eu comecei então, para testar sua reação, a articular esta mesma palavra. Assim que se calaram eu pronunciei Yahoo forte e claramente, não sem tentar imitar, não nego, o mais que podia, o ‘sotaque’ de meus convivas, isto é, gritei relinchando! Nisso eles ficaram ainda mais sobressaltados. O cinza repetiu a mesma palavra duas vezes, como se quisesse ‘aperfeiçoar meu acento’. Eu cavalheirescamente anuí, tentando melhorar a pronúncia, o que julgo ter realizado, inclusive melhor e melhor à medida que tentava de novo e de novo. Mas reconheço que não poderia, mesmo depois de alguma prática, ser acusticamente confundido com um cavalo, ainda. O exemplar loiro jogou uma segunda palavra para eu tentar efetuar o mesmo. Essa era mais difícil. Transcrevendo-a para a ortografia inglesa, creio que equivalesse a Houyhnhnm. Minha competência foi menor, mas depois de algumas teimosas tentativas, creio que finalmente ‘os agradei’. Os dois estavam simplesmente maravilhados.
Depois de mais debate entre eles, que só podia se referir a mim, os dois amigos deram sinais de partir um em relação ao outro, da mesma forma que se haviam cumprimentado momentos antes: tocando-se os cascos. O cinza fez sinais de que queria que eu o seguisse, ou que o conduzisse, deveria dizer, posto que eu sou o mestre e ele a montaria! Bom, a mim não restava alternativa até finalmente encontrar o que eu desejava. Quando eu afrouxei meu passo, de fadiga, ele gritou hhuunhhuun.”
“um povo que podia civilizar animais brutos desta maneira esplêndida só podia exceler em todos os campos e ser a nação mais sábia e próspera desta terra! O cinza se pôs à frente e indicou que não toleraria comportamentos abusivos para comigo. Ele relinchou bastante em público, parecendo ter grande autoridade sobre os cavalos dessa cidade-estrebaria, e era correspondido com assentimentos subservientes e timoratos.”
“Comecei a achar que essa casa devia pertencer a alguém muito importante, porque havia grande cerimônia antes de eu poder entrar. Mas, enfim, que um homem pudesse ser inteiramente atendido e hospedado por cavalos, isso escapava completamente de minha concepção. Começava a temer que meu cérebro era o pivô da história toda: tão maltratado pelas agruras da viagem, começava a interpretar mal todas as percepções dos sentidos! Eu me recompus, portanto, e comecei a examinar os objetos do cômodo em que me haviam hospedado, sozinho: este estava mobilhado como o primeiro, apenas que mais elegantemente. Eu esfreguei os olhos muitas vezes, mas não podia ser miragem por desidratação ou cansaço! Belisquei meus braços e meus flancos, quem sabe assim eu acordaria… E nada.”
“Percebi que logo eu morreria de fome, a menos que encontrasse urgentemente alguém de minha própria espécie. Porque quanto a esses imundos Yahooscom que deparara antes no campo, embora houvesse, creio, àquela altura, no mundo inteiro, poucos que amassem a humanidade tanto quanto eu a amava, confesso que jamais vira um ser vivo senciente mais abominável em todos os aspectos! De algo que remetesse aos seres humanos, mais que os Houyhnhnms, pelo menos, isso era evidente, eles só tinham a capa, pois quanto mais eu me aproximava de um Yahoo, e quanto mais de perto eu os analisava, e quanto mais aprendia sobre eles, mais detestável essa raça se me tornava! Tal sensação nunca me abandonou de todo enquanto estive neste país. Isso o mestre-cavalo apreendeu quase instantaneamente, no meu primeiro encontro com estes bichos após ter sido conduzido à vila, graças aminhas atitudesum tanto enérgicas e minha incapacidade de disfarçar tamanha aversão. Ao notar que eu não os suportava de modo algum, e que seus hábitos alimentares me repugnavam ao extremo, ao contrário do que ele esperara inicialmente,o mestre-cavalo mandou os Yahoos de volta para o canil e, então, levou seu casco dianteiro à boca, o que muito me estupidificou, dada a imensa naturalidade com que ele desempenhou essa operação!Ele parecia querer se comunicar comigo, tentando entender que tipo de alimento mais me aprazaria. Porém, nada do que eu dissesse ou gesticulasse fazia-o entender o que é que eu queria comer. E mesmo que ele compreendesse, duvido muito que isso me ajudaria nalguma coisa, porque o problema era justamente achar os gêneros alimentícios de que eu tinha tanta precisão! Íamos nessa toada, eu inconsolável, ele sem entender, quando avistei uma vaca pastando ao longe, no que apontei para ela e demonstrei meu intenso desejo de beber de seu leite. Finalmente isso produziu seu efeito: o mestre-cavalo me conduziu de volta para seu estábulo e relinchou a uma serva-égua algo como <Abra o depósito!>, no que um cômodo foi aberto pela súdita e eu vi quehavia ali muitos vasos de barro e de madeira repletos de leite! Pareceu-me um aposento demasiado limpo e organizado, devo admitir. A serva-égua deu-me uma tigela cheia, e eu sorvi o líquido sem cerimônia. Finalmenteme refresquei um pouco desde o momento em que pisei nesta ilha!”
“Mandaram-me reproduzir as poucas palavras do vernáculo eqüino que eu já havia sido capaz de assimilar. Enquanto todos pastavam – isto é, jantavam – o mestre-cavalo me ensinou nomes para aveia, leite, fogo, água e alguns outros substantivos básicos, o que eu mui rapidamente pude sair repetindo, copiando sua pronúncia. Como já disse várias vezes, eu tenho um talento nato para aprender idiomas!”
“Aveia entre eles chama-se hlunnh. Pronunciei-o duas ou três vezes. Apesar de ter recusado os grãos de aveia quando primeiro mos ofereceram, logo mudei de opinião, considerando que isso podia servir-me de substituto para o pão, por ora. Com aveias, portanto, mais o leite, eu poderia manter minha saúde até achar um jeito de escapar deste lugar”
“Às vezes eu me embrenhava na mata atrás de uma lebre ou de um pássaro. Eu usava elásticos feitos de cabelo de Yahoo para compor minhas armadilhas. Também aprendi a apanhar as ervas mais benignas, que eu fervia e comia com a aveia, à guisa de salada. Aqui e acolá conseguia fazer minha própria manteiga e bebia seu soro. No começo sofri muito pela falta de sal, mas não há nada como o costume e a repetição para o paladar! Hoje, creio que a frequência com que comemos sal na Europa é um hábito caprichoso de nababo, do qual se perdeu a origem: imagino que a intenção dos primeiros que serviam sal nos repastos fosse somente a de provocar a sede, a menos que falemos da função de conservação da carne em longas viagens!”
“Mas o leitor já teve detalhes suficientes sobre minha dieta entre os Houyhnhnms. Uma coisa que detesto nos livros de viagem é quantas páginas os autores desperdiçam narrando seus hábitos culinários, como se quem lê se importasse realmente se quem escreve passa bem ou passa mal! Mas foi necessário fornecer essas descrições, ou nossas nações civilizadas achariam pouco crível que eu tenha conseguido me manter por 3 longos anos nestes confins, ao ladode companhia tão atípica, e vivendo quase só de vegetais!”
“Meus maiores esforços consistiram em aprender de uma vez esse idioma, que meu mestre (de agora em diante vou me referir a ele sem o uso do <cavalo>) e seus filhos, e todos os servos da casa, aliás, se mostravam desejosos de ensinar-me. Eles nunca deixaram de considerar uma espécie de prodígio que um animal selvagem como eu pudesse dar tantos sinais de racionalidade! Eu apontava todo e qualquer objeto, e perguntava qual era seu nome, que eu redigia em meu diário de navegador assim que me punha só. E eu corrigia meu sotaque solicitando que todos os membros daquela família pronunciassem as palavras.”
“Eles falavam pelas narinas e pela garganta, e sua língua é mais aparentada ao Alto-Holandês e ao Alemão do que aos outros idiomas europeus – mas um tanto mais gracioso e expressivo, devo dizer. O imperador Carlos V, por sinal, fez a mesma observação, certa feita: <Se fosse para conversar com meu cavalo, certamente falaríamos em Alto-Holandês>.
A curiosidade e a impaciência de meu mestre eram tamanhas que ele dispendia várias horas de seu dia para me instruir.”
“O que mais o deixava perplexo eram minhas roupas. Creio que ele mesmo não entendia se elas eram ou não parte do meu corpo, isso porque eu jamais as retirava antes de ir para a cama, e já as vestia antes do café da manhã. Meu mestre me perguntou várias coisas: de onde eu vinha, como eu cheguei a desenvolver esses lampejos de quase-razão que eu demonstrava em minhas ações, e ele queria sobretudo ouvir minha biografia de minha própria boca, o que ele estava esperançoso de conseguir em pouco tempo, dada minha enorme proficiência no aprendizado do idioma houyhnhnmês. A fim de auxiliar minha memória, compilei tudo que aprendi no alfabeto britânicocom sua tradução logo ao lado. Em dado momento, passei a fazer isso não só no meu quarto, mas na frente do meu mestre. Me deu muito trabalho explicar que diabos eu estava fazendo. Creio ser desnecessário explicar que os habitantes deste lugar não conheciam livros nem Literatura.
Em dez semanas eu já entendia quase todas as suas perguntas. Em 3 meses, dava respostas satisfatórias para várias de suas perguntas. Uma das coisas que ele queria muito saber era de que parte do país eu procedia, e quem me ensinou a imitar os Houyhnhnms. Porque, segundo ele, os Yahoos (que tinham a mesma cabeça e mãos que eu – e outras partes do corpo ele não poderia saber, porque eu as ocultava com minhas roupas) eram criaturas cheias de malícia, mal-dispostas, e impróprias para domesticar. Eu respondi que eu vim d’além-mar, de um lugar remoto, onde havia muitos como eu, transportado por um <vaso oco> (eles não tinham palavra para navio) feito do tronco das árvores; e que meus próprios companheiros me forçaram a desembarcar nesta praia, abandonado a mim mesmo.”
“Ele redargüiu que sem dúvida eu cometia um engano, isto é, que eu falava a coisa que não era. Acontece que eles não têm palavra para indicar mentira, falsidade ou erro. Ele alegava ser impossívelhaver um país além-mar (que isso era a coisa que não havia), ou que animais brutos, fossem quantos fossem, pudessem mover um vaso de madeira por onde quisessem sobre as águas. Ele tinha certeza que nenhum Houyhnhnm vivo seria capaz de construir tal meio de transporte, e com muito maior razão nenhum Yahoo seria capaz de pilotá-lo.
A palavra Houyhnhnm significa cavalo e, na etimologia local, perfeição de natureza. Eu disse ao meu mestre que <me falta a forma de me exprimir, mas melhorarei depressa e espero, num dia não tão distante, contar-lhe as maiores maravilhas>. Ele instava sua fêmea, seu potro e sua potra e todos os servos, de boa vontade, a ajudar na aceleração do meu aprendizado. Desnecessário dizer que, por 2 ou 3 horas, todos os dias, ele mesmo se encarregava da tarefa. Não só isso, mas muitos garanhões e éguas da vizinhança visitavam a residência de meu mestre, curiosos com <o grande Yahoo que podia até falar como um Houyhnhnm e que aparentava, em suas palavras e atos, poder chegar até a alguns vislumbres da razão!>. Estes residentes locais tinham um imenso prazer em conversar comigo e, não menos que meu mestre, me dirigiam pergunta atrás de pergunta. Eu não conseguia responder tudo, mas boa parte sim. Com todo esse convívio, fui fazendo progressos ainda mais notáveis. Em 5 meses, já escutava como um nativo e já falava como quem está um pouco aquém disso.”
“Já narrei ao leitor que, toda noite, uma vez que todos estivessem deitados, era meu costume desnudar-me e usar minhas roupas como coberta. Aconteceu, certa manhã bem cedo, de meu mestre mandar o pangaré acastanhado, um alazão mordomo da família, vir me ver. Quando o mordomo entrou eu ainda estava dormindo, e por um acaso minhas roupas tinham caído para o lado. Acordei com o relincho que este mordomo produziu, e escutei como ele voltou para contar ao mestre o que viu, todo atabalhoado. Vesti-me rapidamente e fui à sala. Meu mestre perguntou qual era o significado do que seu vassalo acabara de contar-lhe, i.e., que eu não era a mesma coisa quando eu dormia do que eu era quando estava acordado. O mordomo relatou-lhe assombrado que uma parte do meu corpo era branca, outra amarela, ou ao menos um pouco menos branca, e algumas partes marrons.
Eu vinha até ali guardando segredo sobre ‘isso das minhas vestes’, a fim de distinguir-me o mais possível dos aberrantes Yahoos. Mas vira que doravante este cuidado se tornara vão.”
“De onde eu vim, todos da minha espécie recobrem seus corpos com as peles de alguns animais, preparadas expressamente para isso por determinadas técnicas, tanto para fins de decência quanto para evitar as inclemências do ar.”
“ele simplesmente não podia entender por que a natureza deveria ensinar-nos a ocultar o que a natureza mesma nos deu”
“Meu mestre não deixou de me observar com o olhar mais atento. Seu rosto expressava grande curiosidade e admiração. Ele apanhou toda a minha roupa em sua quartela, peça por peça, para examinar com diligência. Então ele apalpou muito delicadamente meu corpo nu, e rodeou-me, embasbacado, umas tantas vezes. A primeira coisa que ele disse, após esse intervalo de exame silencioso, foi que sem dúvida alguma eu era um Yahoo. Mas que eu me distinguia, com efeito, de minha espécie, pois minha carne era mais macia, branca e minha pele bem mais branda. E que, além disso, ao contrário dos outros eu não tinha pêlos em muitas porções de meu corpo e que o formato de minhas garras era diferente, e elas eram menores. Que eu era o único exemplar que tinha essa afetação de caminhar continuamente sobre minhas duas patas traseiras. E que ele já tinha saciado sua curiosidade, dando-me permissão para voltar a vestir-me, uma vez que, ele bem observou, eu estava tremendo de frio.
Eu desabafei que me sentia desconfortável em ser comparado sempre a um Yahoo, animal odioso, que eu desprezava do fundo da minha alma: eu implorei que ele restringisse essa apelação somente aos demais, e que estendesse esse meu rogo a todos os seus entes e amigos que ele permitia que o visitassem. Também solicitei que meu segredo, o de levar uma cobertura falsa sobre meu corpo, não fosse compartilhado com mais ninguém, ao menos enquanto minhas roupas durassem. Expus que, pelo comportamento do seu valete, seria prudente de sua parte fazê-lo.
Meu mestre, muito consciencioso, logo anuiu a minha proposta. O segredo manteve-se guardado até que o tecido começou a se desfazer. Como alternativa para meus trapos, fui obrigado a usar de alguns expedientes, que mais tarde narrarei. Então ele me encorajou a continuar a aprender seu idioma, porque ele achava muito mais espantoso o fato de eu saber falar e raciocinar do que o aspecto do meu corpo, trajado ou nu.”
“Seria tedioso continuar entrando em detalhes sobre meu progresso no idioma. Reproduzirei, apenas, o relato mais completo que pude dar de mim mesmo nesta terra:
<Vim de um país muito distante, com uns 50 de minha própria espécie. Viajávamos sobre os mares dentro de um grande vaso oco feito de madeira, maior que sua casa. Descrevi-lhe então o navio da melhor forma que me coube, com a ajuda de meu lenço, para mostrar como a embarcação era impelida pelo vento. Numa briga entre nós eu fui deixado no litoral deste país, comecei a explorar o continente, sem nada dele conhecer, até você me encontrar e me livrar da perseguição daqueles execráveis Yahoos.>
Ele quis saber quem fez o navio e como era possível que os Houyhnhnms de minha nação legassem aos brutos tal empresa. Eu respondi:
<Só continuarei se você me der sua palavra de que não se sentirá ofendido. Se você der sua palavra, poderei contar todas as maravilhas que prometi!>
Ele empenhou sua palavra. Eu prossegui:
<O navio foi feito por criaturas como eu. Por todos os países aos quais já viajei, exatamente como em minha terra natal, seres a minha imagem e semelhança são os únicos animais racionais. Ao chegar a este país, fiquei tão espantado em ver Houyhnhnms agindo como homens dotados de razão quanto você mesmo e seus amigos ficaram ao ver-me e constatar minhas ações, sendo eu parecidocom um Yahoo. Mesmo que minha aparência seja a de um Yahoo, eu não enxergo homens quando olho para eles, só degenerescência e bruteza. Se a fortuna me agraciar com a volta a minha terra, quando relatar minhas aventuras, o que eu quero fazer, todos os animais racionais de lá dirão que eu disse a coisa que não era, que eu inventei tudo. Nenhum inglês diria que era a coisa (acreditaria possível) que um Houyhnhnm fosse o mestre de outro país, enquanto os Yahoos não passavam de selvagens.>”
“duvidar ou simplesmente não-acreditar são tão desconhecidos neste país que os habitantes não sabem como se portar em circunstâncias como as que eu suscitei entre eles.”
“O uso da língua é a mútua compreensão, receber a informação dos fatos. Se alguém diz a coisa que não é, a língua não tem uso. Quem escuta quem fala a coisa que não é não entendequem fala a coisa que não é! Porque o entendimento da coisa que não é é coisa que não é! Receber a coisa que não é é mais distante de receber uma informação doque permanecer em ignorância. Eu acreditaria uma coisa ser preta, quando a coisa é branca, e pequena, quando é grande.”
“Há Houyhnhnms entre vocês? Qual papel eles desempenham em sociedade?”
“Um grande número. No verão eles pastam nos campos, e no inverno são guardados nas estrebarias com muito feno e aveia, onde Yahoos servos dos donos dos Houyhnhnms devem escová-los, cuidar de seus cascos, servir-lhes comida, preparar seus leitos…”
“Entendo. Está evidente, segundo seu discurso, que qualquer chispa de razão que os Yahoos aparentam possuir não oculta o fato de os Houyhnhnms serem os verdadeiros mestres em sua sociedade. Eu desejaria de coração que nossos Yahoos fossem tão dóceis!”
“Mestre, se você deseja que eu continue o relato terá de escusar minhas palavras, que decerto o ofenderão.”
“Eu insisto, amigo, e escuso-o – eu quero saber o pior e o melhor de sua sociedade.”
“Não tenho escolha senão obedecê-lo. Os Houyhnhnms de minha sociedade, chamados cavalos, são dos animais mais formosos e afáveis que conhecemos. São também excepcionais em força e agilidade. Quando pertencem a pessoas de qualidade, são empregados em viagens, corridas ou para levar carruagens. São tratados com a maior ternura e o maior cuidado, até adoecerem fatalmente ou tornarem-se irreversivelmente mancos e inválidos. Ainda assim, os seus donos vendem os cavalos já doentes ou aleijados, que desempenham todo tipo de lide para seus novos donos, até a morte. Depois de morrer, um cavalo ainda oferece sua pele, que é esfolada e vendida para diversos fins. O cadáver é deixado para cães e aves de rapina. Falo dos cavalos mais nobres. A maioria dos cavalos não tem tanta sorte. São os cavalos dos camponeses e carroceiros, ou de outro cidadão de baixa extração qualquer. Estes não são poupados dos mais árduos serviços, e são mal-alimentados.”
“Não deixei de descrever, tão bem quanto pude, a arte da equitação; tudo sobre as rédeas, a sela, a espora, o chicote, o arreio e as rodas. Acrescentei: <Amarramos placas de uma substância rígida chamada ferro debaixo de suas patas a fim de resguardar seus cascos contra o atrito com os caminhos pedregosos de hábito percorridos.>”
“Como pode ser uma coisa que é, montar às costas de um Houyhnhnm! Tenho certeza que o servo mais débil de minha casa tem força o bastante para derrubar de seu corpo o Yahoo mais forte de todos. Se se jogasse no chão, este meu servo poderia rolar sobre si mesmo e matar qualquer ser primata!”
“Nossos cavalos são treinados, desde os 3 ou 4 anos de idade, para se acostumarem aos maiores suplícios e às condições mais severas, de modo que não se rebelem em relação ao trabalho que lhes está destinado. Se um cavalo se mostra intoleravelmente arredio ainda na infância acabam sendo empregados em carruagens, sendo severamente fustigados a cada má conduta. Os machos, geralmente usados para simples cavalgadas ou a coisa que é luta entre seres que são (meu jeito de dizer ‘fins militares’), são castrados logo aos 2 anos, para que seu espírito de garanhão se torne submisso, dócil e adestrável. Os cavalos são inteligentes e aprendem após ser recompensados ou castigados. Porém, mestre, saiba que os cavalos, de onde eu venho, não demonstram tinturas de razão, não mais do que os Yahoos de sua terra!”
“Era penoso explicar essas noções ao meu mestre, de modo que eu adentrava em circunlóquios em houyhnhnmês. Se suas carências são menores, suponho que sua linguagem terá menos vocábulos.”
“Se a coisa que é é um país no mundo com Yahoos inteligentes, só e somente só os Yahoos dentre todos os animais, é natural que Yahoos sejam os mestres. A sutileza da razão, aliada ao tempo e seus efeitos consolidadores, falará sempre mais alto que a força bruta. Mas o físico yahoo, especialmente do Yahoo de sua sociedade, se você for bom exemplo, é o pior físico de coisa que é para viver a vida que é.”
“Nasci de bons pais numa ilha chamada Inglaterra. A distância da Inglaterra para este país, em dias de jornada de um Houyhnhnm forte e saudável que trotasse do raiar ou pôr-do-sol na mesma direção, é, mais ou menos, um ano. Eu me eduquei cirurgião, profissão dos que curam feridas e machucados no corpo, decorrentes de acidentes ou violência. Meu país é governado por um Yahoo-fêmea, que denominamos rainha. Eu o evadi para conquistar riquezas, com as quais pudesse manter minha família e eu por muitos anos, ao meu retorno. Em minha última viagem eu era comandante do navio, chefiando cerca de 4 dúzias de Yahoos, muitos dos quais morreram afogados ou desidratados ou adoentados. Eu fui obrigado a reabastecer a tripulação com marujos de outras nações nas quais desembarcamos no caminho. Duas vezes quase naufragamos. A primeira vez por culpa de uma feroz tempestade; a segunda, em virtude da colisão com um penhasco.”
“Durante meu discurso meu mestre não se fez de rogado e me interrompeu inúmeras vezes. Necessitei gastar muitas palavras e frases até descrever de modo minimamente concebível a natureza dos crimes dos tripulantes que recrutei que haviam sido exilados de seus países de origem. Na verdade, só o consegui a duras penas, após dias e dias de conversação. Mas meu mestre finalmente me compreendeu. Era-lhe imensamente complicado captar qual seria a utilidade de agir de forma viciosa. Só pude fazê-lo conceber tal imagem dando muitos exemplos de cobiças e ambições dentre nós; fornecendo ilustrações das terríveis conseqüências da luxúria, intemperança, malícia e inveja (nomes que evidentemente não existem no vocabulário houyhnhnm. Foi praticamente o trabalho de um filósofo que conceitua estas coisas pela primeira vez, hipostasiando casos concretos e enfileirando suposições.” “Poder, governo, administração, guerra, lei, punição, castigo e mil outras coisas também tinham de ser expressas pela primeira vez no vernáculo.”
“O que me deixa aflito é que eu jamais poderei fazer justiça, em meras palavras, aos argumentos e raciocínios de meu mestre, pois minha incapacidade intelectiva forçosamente empobrece sua descrição. Nem falar de uma tradução ao nosso bárbaro Inglês, que vilipendia e muito o idioma original!”
“Obedecendo ao meu mestre, relatei-lhe a Revolução durante o Principado de Orange, a longa guerra com a França, iniciada pelo próprio Príncipe de Orange, continuada por seu sucessor ao trono, a rainha atual, não sem o consentimento dos maiores poderes da Cristandade, de modo que a guerra subsistia até o momento.A sua instância, enumerei: <Estima-se em mais de 1 milhão os Yahoos mortos no decorrer de todo este conflito; mais de uma centena de cidades foi sitiada e no mínimo 500 embarcações foram incendiadas ou afundaram.>”
“Divergências de opinião espoliaram milhões de vidas. P.ex., se carne é pão ou se pão é carne; se o suco de um dado fruto é sangue ou vinho; se assoviar é vício ou virtude; se é melhor beijar uma carta ou queimá-la; qual a melhor cor para uma casaca – preto, branco, vermelho, cinza…?; qual é o melhor comprimento e forma para ela – longa, curta, justa, folgada; e quanto à condição – suja ou limpa? E muitas questões mais!”
“Às vezes o desentendimento entre dois príncipes acarreta a deposição de um terceiro alheio à questão – na verdade quando acaba assim, o vencedor sempre espolia um príncipe vizinho mais fraco, mas diz que foi pela força das circunstâncias, pois não é seu direito natural o fazê-lo. Algumas vezes um príncipe só entra em guerra com outro por medo de que o outro entre em guerra consigo. Às vezes uma guerra é iniciada porque o inimigo é muito forte; às vezes, porque ele é muito fraco. (…) É um pretexto legítimo para a guerra invadir um país depois de sua população ter sido reduzida à miséria, destruída pela peste ou rachada em facções. É igualmente justificável entrar em guerra contra nosso mais valioso aliado, se acharmos que uma de suas cidades é altamente conveniente para nós; cidade, sim, mas pode ser também um território maior; por exemplo, se esse pedaço nos der acesso à faixa litorânea ou a estradas de comércio importantes. É um direito de um povo ter um território completo. Se um rei manda atacar uma nação de gentalha pobre e ignorante, não é ilegítimo matar metade desses pobres coitados nem escravizar a metade que sobrou. A razão disso é o imperativo de civilizar e educar os povos, e reduzir o grau de barbárie da face da terra. É não só permitido como é uma prática assaz honorável quando um rei deseja o auxílio de outro a fim de proteger-se melhor de um invasor; e que este ajudante, em consequência de ter expulsado o inimigo, tome para si todo o governo da nação amiga que salvou, podendo prender ou exilar o primeiro príncipe, afinal passou a ter crédito! A aliança de sangue, ou o que chamamos de casamento, é uma causa freqüente de guerras entre príncipes; quão mais próximos forem os laços familiares, mais encarniçado será o confronto. As nações mais pobres são famélicas, as ricas são altivas; e o orgulho e a fome estarão sempre se digladiando e alterando humores. E é por isso que a profissão de soldado é tida como a mais honrosa de todas. Um soldado é basicamente um Yahoo contratado para matar, a sangue frio, o máximo de outros Yahoos que ele nunca viu na vida.
Há uma certa quantidade de príncipes mendicantes na Europa, destes que não têm recursos para fazer a guerra eles próprios, mas que ao menos tem pequenos exércitos que lhes podem ser úteis. O que eles fazem é alugar seus homens para as nações ricas que estão a pelejar, normalmente estipulando um salário por dia por cada cabeça. Desta quantia recebidaa título de aluguel, o que não vai para o bolso destes soldados, que chamamos de ‘mercenários’, por empréstimo – assumindo que algum soldado consiga voltar para casa são (ou mesmo não são!) e salvo –, ¾ ficam para eles próprios (os monarcas que cederam mercenários), e digo que estes príncipes mendicantes subsistem das guerras alheias! Muitas nações assim há na parte norte da Europa.”
“Afortunadamente a vergonha ainda é maior que o perigo entre vocês Yahoos estrangeiros! Assim a natureza obrou para que vocês não causassem ainda mais desgraças. Suas bocas sendo planas e vocês não tendo focinho, é mais difícil que vocês se agridam com mordidas. Quanto às garras de suas patas traseiras e dianteiras, estas são tão diminutas e inofensivas que um só Yahoo de nossa terra derrubaria uma dúzia dos seus!”
“Sendo de certa forma um especialista na arte da guerra, eu me ri da ignorância do meu mestre nestes assuntos. Então eu forneci-lhe uma descrição algo exata de nossos artifícios bélicos: canhões, colubrinas, mosquetes, carabinas, pistolas, balas, pólvora, espadas, baionetas, formações de batalhas, o que são os cercos, fugas e recuadas, ofensivas de manual, a tática de estender o conflito num aparente empate estagnado até esgotar os suprimentos dos rivais, o contra-ataque a este tipo de tática, bombardeios remotos, batalhas navais, navios que mesmo com uma tripulação de 4 casas (mil homens) são inclementemente destroçados, batalhas em que 20 mil morrem facilmente de cada lado, os terríveis gemidos e uivos de dor dos que caem sem salvação no campo, membros e outras partes do corpo cortando o ar, fumaça, poeira, todos os barulhos infernais, a confusão, aqueles que morrem esmagados por cavalos descontrolados, já disse fugas?, perseguições, extermínios e vitórias!”
“Eu entraria de bom grado em mais particulares, mas meu mestre me pediu silêncio. Ele disse:
<Quem quer que entenda a natureza yahoo pode conceber até onde chega a vileza de um tal animal, i.e., provado que sua astúcia e sua força igualem sua malícia.>
Como, porém, meu discurso só repugnou-o ainda mais acerca de minha espécie, ele se sentiu terrivelmente perturbado e precisava de tempo para absorver todos estes horrores. Ele pensou sinceramente que se seus tímpanos continuassem expostos a estas palavras abomináveis num ritmo tal, logo, logo ele as admitiria com menos repulsa. E completou que, embora odiasse os Yahoos de seu país, ele não mais os culparia por suas qualidades inferiores, tanto quanto pudesse, comparando-os agora a meros gnnayh (uma ave de rapina), animal também cruel, ou então a uma simples pedra pontiaguda que calha de ferir-lhe o casco.”
“Meu mestre afirmou resolutamente que em detrimento de razão, nós éramos movidos ou possuídos por alguma qualidade inerente que expandia mais e mais nossos vícios naturais e garantia nossa sobrevivência. E que, como tudo que é distorcido e ruim em pequena escala, nossa civilização só podia ser uma ampliação defeituosa da natureza individual do Yahoo.”
“ele muito refletiu mas nunca chegou a uma opinião segura sobre a razão de que a lei, que foi feita para a preservação de todos e de cada um, devesse conduzir tantos indivíduos à ruína.”
“Há uma sociedade de homens entre nós criada desde a mocidade para convencer das coisas que não são, pela palavra. Estes homens conseguem fazer os outros verem que o branco é preto, e o preto é branco, tanto melhor quanto mais bem-pagos eles são! A esse tipo de sociedade dentro da sociedade os outros homens são escravos. Por exemplo: se meu vizinho cobiça minha vaca, ele contrata um destes, um advogado, para arrancar minha vaca de mim! Eu tenho, então, de contratar um outro advogado, para defender meu direito de continuar com minha vaca. É contra todo o Direito estabelecido (contra todo o fundamento de todas as leis) que qualquer homem advogue em causa própria. Continuando neste exemplo, eu, que sou o legítimo proprietário da vaca, estou em uma dupla desvantagem: primeiro, meu advogado, sendo treinado praticamente desde o berço a santificar a falsidade, não se sente confortável de ter de defender um cliente justo, o que é anômalo em seu campo do saber. Advogados que se submetem a essa tarefa fora de sua rotina diária acabam fazendo o serviço mal-feito ou de má-fé! A segunda desvantagem, meu mestre, é que meu advogado deve agir com muita cautela, ou será vítima de reprimendas pelos juízes, sendo malvisto por todos os seus colegas como um advogado que avilta os cânones de sua profissão. Sendo assim, eu fico com apenas 2 métodos de preservar minha vaca: o primeiro é pagando ao advogado de meu acusador uma taxa acima do que é publicamente a norma, fazendo-o trair seu próprio cliente ao insinuar, por meio de minha tática astuciosa, que a justiça estava do lado deste cliente que o procurou! A segunda maneira de vencer a causa é se meu advogado conseguir dar a meu pleito a aparência mais injusta possível; p.ex., concedendo que a vaca na verdade seria do meu vizinho. Se isso for adequadamente executado, é óbvio que o juiz ficará convencido do meu lado da história!”
“É uma máxima entre os advogados que o que já foi feito antes pode ser feito legalmente outra vez: então, a coisa que eles mais fazem é registrar todas as decisões anteriormente proferidas contra o bom senso da espécie humana. Sob o nome de <precedentes>, eles mostram tais provas às autoridades competentes e justificam, assim, as opiniões mais iníquas. Os juízes jamais deixarão de acatar estas novas verdades, uma vez que se tratam de provas, que são inquestionáveis.”
“É de se observar que esta sociedade cultiva um jargão peculiar, i.e., um jeito próprio de dizer as coisas, que nenhum outro mortal é capaz de compreender. Sob estas regras é que todas as suas leis são escritas. No estágio em que se encontram as leis hoje, depois de muitas gerações desta prática, falsidade e verdade ficaram tão embaralhadas que nem o mais sábio e honesto dos homens poderia dizer a diferença. É comum que leve 30 anos para se decidir se o pedaço de terra que ganhei de herança e que meus pais e avós por sua vez também ganharam de herança, ascendendo à sexta geração dos meus ancestrais, pertencem de fato a mim ou a algum estranho que vive a 500 quilômetros de distância!”
“Os advogados e juristas, em tudo aquilo que não se refere a suas próprias tratativas, são dos mais ignorantes e estúpidos dentre nós Yahoos europeus. Os mais fúteis em conversações, inimigos jurados do conhecimento, da sabedoria e da educação, e tão estultos quanto perversos quando o assunto é insultar e deformar a razão humana milenar, num esforço contínuo por destruir a obra de tantas gerações das outras classes de Yahoos com quem convivem.”
“eu não sei como consegui descrevê-lo o uso do dinheiro…” “o rico se apropria do fruto do trabalho dos pobres, sendo que estes últimos, em verdade, existem numa proporção de 1000 para cada rico”
“meu mestre insistia que todos os animais tinham direito a sua parte na distribuição dos produtos da terra”
“…toda esta vasta planície, digo, o triplo disto, deve ser devastado para que nossa melhor Yahoo-fêmea tenha seu excelente café-da-manhã, além dos utensílios de mesa necessários para consumi-lo.”
“Desta forma, deve haver países muito pobres que não têm condições de alimentar seus habitantes! Mas me diga uma coisa: como porções tão gigantescas de seu continente não possuem um só vaso de água fresca, sendo preciso enviar Yahoos pelos mares só para acharem de que beber?!”
“A Inglaterra em particular, segundo nossos cálculos, produz três vezes a quantidade de comida que seus habitantes são capazes de consumir; bem como muito licor extraído de grãos ou prensado das frutas de algumas árvores, que dão beberagens das mais deliciosas, e na mesma proporção superabundante. Diria que tudo ali, não só comida e bebida, é produzido muito acima da necessidade da população. Mas, para alimentar a luxúria e a intemperança das Yahoos-fêmeas, exportamos uma vasta proporção desses bens para outras nações, ainda que isso deixe parte de nossos habitantescarente, para, em troca, recebermos fontes de doenças, tolices mil, vícios sem conta, que distribuímos igualitariamente entre todos nós!!”
“O vinho não é importado para suplantar a sede nem para substituir alguma outra bebida, mestre. Este é um líquido especial que nos produz certo contentamento ao nos fazer evadir de nós mesmos, privando-nos de nossos sentidos por um tempo. Toda a melancolia que sentimos é temporariamente deixada de lado, e cedemos às mais caprichosas e extravagantes fantasias alojadas no cérebro, de repente não somos nada temerários, temos esperança ilimitada no amanhã, durante esse período não precisamos trabalhar, e, alterados até perder o império sobre nossas próprias pernas, acabamos, assim, ficando entorpecidos, até dormirmos profundamente. O lado ruim é que acordamos sempre doentes após tais ocasiões, fatigados e inclinados ao ócio. E é verdade, outrossim, que o uso desse licor, em abundância e a longo prazo, torna nossa vida cada vez mais desconfortável e repleta de enfermidades, quando não encurta esta mesma vida de forma anti-natural.”
“Nossa dieta engloba milhares de alimentos que são contraditórios entre si. Além disso, comemos quando não estamos com fome e bebemos sem sede. Sentamos e bebemos licores fortíssimos a noite inteira, sem nem mesmo forrar o estômago, o que nos predispõe à preguiça e a contrair diversas inflamações, precipitando ou arruinando a digestão. Yahoos-fêmeas prostituídas transmitem certa doença, capaz de apodrecer os ossos do Yahoo-macho que aceitaro seuabraço. Mas essa infecção e muitas outras são propagadas mui naturalmente de pai para filho. Muitos já nascem desfigurados e defeituosos. Seria interminável catalogar todas as doenças que nos afligem, mestre. Eu creio que esse número ultrapassa as 500 ou 600. Não há junta ou membro que não tenha seu mau estado particular.”
“A pretensão desses que chamamos de médicos – curandeiros em seu vernáculo – é a de que todas as doenças vêm da repleção (barriga cheia). Daí concluírem que uma grande evacuação do corpo é necessária, seja pela passagem natural ou pelo caminho de onde veio (a boca). Esses médicos conhecem inúmeras ervas, minerais, gomas, óleos, cascas, sais, sucos, algas, excrementos, extratos de cascas de árvore, serpentes, sapos, carne e ossos de homens mortos, pássaros, animais selvagens, peixes, etc., que utilizam para produzir os medicamentos de cheiro e gosto mais atrozes, abomináveis, nauseantes de que se tem notícia, tipo de composição que o estômago imediatamente ejetará – isso se chama vômito. Vindos do mesmo lugar, que chamamos de farmácia, além de outros venenos, os médicos nos prescrevem mais substâncias para engolir ou inserir pelo orifício traseiro (dependerá do humor do médico saber por qual buraco ele quer que entre a medicação), remédios esses não mais nem menos daninhos que os anteriores. Nossas entranhas se abalam da mesma forma com estes laxativos. Produzindo um relaxamento artificial dos músculos do nosso sistema digestório, levam junto, como faz a forte correnteza de um rio, tudo que pode estar impedindo o bom funcionamento do organismo. Isso os médicos chamam de purgação ou clister. Tendo a natureza prescrito somente o orifício superior para a intromissão de sólidos e líquidos, e o inferior para ejeções, fazia-se necessária uma arte engenhosa como a deles para agir conforme a doença – isto é, espelhar o mau funcionamento que ela provoca no organismo: ao forçarmos sólidos e líquidos pelo ânus e evacuar pela boca, podemos restabelecer o equilíbrio corporal.”
“Em política, um mau sinal é quando você passa a receber promessas, especialmente essas que demandam um juramento formal. Deste dia em diante o Yahoo mais inteligente sabe que está perdido.
Há 3 métodos de um homem chegar a ser chefe de Estado. O primeiro é o caminho da prudência, formando uma família, constituindo casamento, tendo uma filha, ou pelo menos uma irmã apta ao casório – a família é a base de tudo em nossa civilização! O segundo jeito é traindo e superando o predecessor no cargo. O terceiro modo é, com um zelo furioso, nas assembléias, engajar-se contra a corrupção generalizada da côrte. Um príncipe competente prefere, sem dúvida, empregar este terceiro tipo de homem. Este tipo de homem zeloso é quase sempre também o mais obsequioso e subserviente à vontade e aos caprichos de seu patrono.
Seja como for, esses ministros de Estado, portanto, tendo toda a máquina da nação a seu dispor, têm todas as condições necessárias para se conservarem no poder, chantageando ou aliciando maiorias no senado ou nos conselhos ou ainda empregando o expediente a que chamam de anistia(que expliquei-lhe em detalhes). Dessa forma eles se previnem contra atos de ressentimento ou vingança e auferem de sua carreira pública as maiores riquezas.
O palácio do chefe de Estado é um seminário para criação de lacaios: pajens, mordomos, porteiros, que macaqueiam seu superior em tudo que podem, se é que desejam, por sua vez,se elegerem delegados em seus distritos de origem. Esses vocacionados para a vida política devem exceler em 3 categorias: insolência, mentira e chantagem. Cada um deles, quando bem-sucedido ou bem-sucedida, terá uma côrte inteira a ele ou ela devotada, composta pelas pessoas de mais refinada linhagem. Algum desses lacaios (sub-prefeitos, prefeitos, ministro disso ou ministro daquilo) pode, a depender da sorte, da destreza pessoal e mesmo do seu nível de impudência, chegar a atingir o posto máximo na carreira e vir a ser o sucessor do próprio chefe de Estado que uma vez tanto bajulou!”
“Entre os nossos Houyhnhnms, o branco, o castanho-alaranjado e o cinzento não são tão bem-constituídos quanto o castanho-rubro, o cinza sarapintado e o negro, nem exibem os mesmos talentos ou inteligência, nem parecem melhores para se adestrar. Sendo assim, aqueles quase sempre são empregados nos ofícios subalternos, sem qualquerexpectativa de que excedam o destinomédio de sua própria raça. Essa hierarquia das raças eqüinas baseada na aparência exterior que se vêem toda a Europa seria considerada monstruosa e anômala aqui em seu país, meu mestre!”
“Quanto a mim, mestre, por mais que você me enalteça quanto ao que esperava de meu biótipo, a verdade é que sou de origens mais para humildes que para nobres, tendo sido eu criado por um par de europeus modestos porém mui dignos, cujo esforço e perseverança me proporcionaram uma educação tolerável, i.e., quase acima das expectativas para gente da minha condição. Mas ‘nobreza’ entre nós significa outra coisa que para um Houyhnhnm, posso assegurar-lhe. Prova disso é que os nobres são acostumados desde a mais tenra idade ao ócio e ao luxo, tornando-se moles e cansados com a idade e cheios de doenças venéreas que contraem com fêmeas promíscuas. E quando suas antigas fortunas são dissipadas, casam-se com uma mulherzinha de árvore genealógica qualquer, de um caráter qualquer, falto de inteligência ademais de incompatível com o próprio caráter, tudo pensando-se só no dinheiro. Como resultado, os casais se odeiam e desprezam. O produto de tais uniões? A escrófula, o raquitismo, a deformidade – em forma de novos seres! Dessa forma a família, vê-se bem, muito raramente chega aos netos (à terceira geração); a não ser que uma das filhas consiga um mui bom partido, i.e., um macho saudável para procriar fora do matrimônio, dentre seus vizinhos e serviçais, o que garantirá a continuação sem piora ou até mesmo a melhora da raça. (…) uma fisionomia saudável e robusta é tão inconveniente num homem de berço aristocrata que não resta remédio ao mundo diante de um tipo desses senão considerar que se trata de um bastardo, filho de cavalariço ou cocheiro.”
“Não havia passado um ano dentre os Houyhnhnms e já contraíra tal amor e veneração pelo seu povo que cheguei a tomar a resolução de nunca expatriar-me, na contemplação e na prática de todas as virtudes, nesta terra onde eu não tinha qualquer exemplo ou incitação ao vício. Mas o destino, ah, o destino!, esse meu inimigo mortal, determinaria a impossibilidade desse final feliz.”
“Os Yahoos são conhecidos por odiar-se uns aos outros, até mais do que odeiam as outras espécies. A razão para isso é que o caráter odiento de sua forma, que se pode contemplar nos outros indivíduos como se fôra um outro eu, torna cada Yahoo indisposto para com seu próximo. Eu duvido que cada indivíduo, egoísta como é, não se ache, em realidade, diferente dos demais.”
“De acordo com o que dissera meu mestre, ele havia achado excelente o costume dos Yahoos europeus de vestirem-se. Dessa forma ocultavam muitas de suas deformidades, de um e de todos, o que seria insuportável às vistas gerais. Porém, meu mestre reconheceu que dissera então a coisa que não era, porque cotejando meu relato dos Yahoos com o comportamento dos Yahoos locais, ele concluiu que a causa primeira da dissensão entre irmãos Yahoos, tanto num caso como noutro, devia ser a condição natural do Yahoo, tal qual ele aprendeu de minha boca. <Porque se você dá a 5 Yahoos comida que bastaria para 50, em vez de comerem em paz eles se pegarão pelas orelhas, cada um desejando tudo somente para si.>”
“Havia uma espécie de raiz, muito suculenta, mas algo rara e escondida, de que os Yahoos muito gostavam e que, quando a encontravam, chupavam-na sem moderação. Essa raiz produzia-lhes os mesmos efeitos do vinho no europeu. Algumas vezes isso os levava a se abraçarem e se amigarem, mas podia com a mesma facilidade metê-los em ranhenta discórdia. Eles uivavam, gargalhavam, se punham barulhentos, perdiam o equilíbrio, tropeçavam e rolavam pelo chão e terminavam adormecidos na lama.
Observei também que os Yahoos eram a única espécie animal deste país sujeita a doenças, conquanto esta ocorrência fosse bem mais rara entre eles que entre nossos cavalos, p.ex. A causa não era maus-tratos pelos Houyhnhnms, mas a própria sordidez daquele bicho. Em hoyuhnhnmês só havia uma mesma palavra para falar de todo o conjunto de enfermidades, hnea-yahoo, isto é, <mal de Yahoo>. A cura prescrita pelos pseudo-curandeiros Yahoos para eles próprios, segundo me pareceu, era uma mistura de cocô e xixi, forçada goela abaixo do doente. Não se trata de um gracejo, pois eu observei que o doente realmente fica bom logo depois. Eu recomendaria sem restrições essa mesma receita para meus conterrâneos, portanto, visando ao bem coletivo. Toda disenteria de comermos demais, todos os banquetes que nos empanturram, deixariam de ser problemáticos.”
“os machos brigam com as fêmeas com tanta brutalidade como a que usariam entre si.”
“Eles sabem nadar de nascença, igual girinos, podem passar muito tempo debaixo d’água, e utilizam essa vantagem para caçar peixes; as fêmeas levem o produto da caçada submarina para os filhotes.”
“quando explicava ao meu mestre alguns de nossos sistemas de filosofia natural, ele sempre ria e dizia algo como: <Uma criatura que se presume arrazoada avaliar-se a si mesma sobre o conhecimento fundado na conjetura de outras pessoas, e usar essa avaliação em coisas nas quais, por mais que este conhecimento fosse seguro, não há a menor utilidade!>.Meu mestre mostrou simpatizar com a personalidade do Sócrates platônico. Nada poderia honrar mais o príncipe dos filósofos. Não pude deixar de refletir desde então que destruição essa doutrina, se bem-compreendida, não poderia produzir nas bibliotecas de toda a Europa! Quantos caminhos fáceis dos homens eruditos não seriam para sempre interditados quando compreendessem Platão!”
“Em seus casamentos, os Houyhnhnms escolhem pela cor, para que nenhuma mistura desagradável se produza na prole. A força é o atributo mais valorizado no macho, e o decoro na fêmea. Não contraem matrimônio por amor, mas pensando no futuro da raça. Se a fêmea excede em força, seu consorte geralmente é o macho mais decoroso.”
“A violação da fidelidade conjugal, ou qualquer outra demonstração de promiscuidade, nunca existiu no país dos Houyhnhnms. O par unido passa o resto de suas existências em constante amizade e benevolência recíproca, que por sinal é a mesma camaradagem, guardadas as devidas proporções, que todo Houyhnhnm tem com outros Houyhnhnms. Não há inveja, ciúme, empáfia, fofoca, altercações nem descontentamentos.”
“Uma das questões polêmicas neste lugar é se dever-se-ia proceder ao extermínio dos Yahoos. Um dos favoráveis demonstrou argumentos de muito valor, como <Não bastasse serem os mais sujos, barulhentos e deformados animais que a natureza já produziu, os Yahoos são, ainda, rebeldes, intratáveis, indomesticáveis, astuciosos e malignos. Aqueles que conseguem mamam os úberes das vacas leiteiras dos Houyhnhnms escondido, matam e devoram gatos, esmagam e pisoteiam as plantações de aveia e o capim destinado ao pasto ao menor sinal de fraqueza na vigilância. As maldades e extravagâncias que eles são capazes de cometer é sem fim.> Ele ainda observou sagazmente uma peculiaridade sobre as origens dos Yahoos, a de que <eles não existem desde o sempre neste país; muitas idades atrás, dois desses inclassificáveis apareceram sobre uma montanha. Se eles nasceram devido ao sol inclemente sobre a lama e o calor daí decorrente ou do lodo podre, ou devido à estranha interação do lodo do continente com a escuma marítima, ou de qualquer outra forma, isso jamais saberemos. Mas esse casal de Yahoos engendrou novas vidas; e em pouco tempo sua espécie se tornou tão populosa que infestou a nação inteira. Para se livrarem das más conseqüências, os Houyhnhnms antepassados aprisionaram dois bebês Yahoos num canil, tratando de domesticá-los ao máximo. Este máximo não é de todo satisfatório, mas ao menos os bichos originais e todos os seus descendentes servem para ajudar nos serviços mais pesados>. Este Houyhnhnm garantiu que havia muita plausibilidade nessa tradição oral do seu povo sobre a gênese dos Yahoos e que acreditava piamente que eles não eram animais autóctones (yinhniamshy em houyhnhnmês), principalmente pelo ódio manifesto e inato aos Houyhnhnms. Além disso, todos os outros animais da ilha aborrecem a convivência com Yahoos. Embora suas disposições malignas provoquem naturalmente a repulsa, seria impossível que essa repelência de todos os outros animais do país a eles chegasse a tais extremos se eles fossem oriundos de lá, é o que se argumentava com muita lógica. Fosse isso verdade, seria como dizer que a natureza falhou nesta região, e esta raça já estaria extinta, pois geraria um imenso desequilíbrio na fauna. Seja como for, graças à misteriosa existência dessas excrescências odiosas diante das próprias criações da natureza, os Houyhnhnms puderam dispensar os serviços das mulas e outros indivíduos estéreis, que afinal são animais muito tratáveis e dignos! Mas, disse também este nobre Houyhnhnm, chegaria o dia em que seria mais vantajoso voltar a criar mulas, que são dóceis e boas serviçais, e higiênicas, do que continuar confiando trabalhos importantes do cotidiano a uma raça tão degenerada! Mulas e burros não fedem, são mais fortes, só um pouco menos ágeis que os Yahoos, fora que o zurro de um burro é ‘n’ vezes menos desagradável que o horrífico urro yahoo!”
“a andorinha (ou ao menos é assim que eu traduzo lyhannh, embora seja uma variedade de andorinha gigante se comparada às da Europa)”
“Eles mensuram o ano pelas revoluções do sol e da lua, mas não empregam subdivisões hebdomadárias. Eles têm um perfeito conhecimento astronômico destes dois corpos, conhecendo o fenômeno do eclipse. Eu diria que a isto se limita sua astronomia.
Na poesia, creio que superam todos os outros mortais do mundo; seja pela justeza de suas analogias, o caráter apropriado e exato de suas descrições, enfim, digo que a poesia houyhnhnmiana é inimitável. Seus versos o mais das vezes exaltam o valor da amizade e da benevolência comum e fazem odes aos ganhadores de competições de corrida e outros exercícios que soem praticar.”
“Os Houyhnhnms usam o intervalo entre a quartela e o casco de suas pernas dianteiras como mãos, e com destreza inimaginável para qualquer homem branco. Eu vi uma égua branca de nossa família costurar com uma agulha (que eu a emprestei de propósito) perfeitamente. Eles são perfeitamente capazes de ordenhar, colher aveia e, enfim, desempenhar qualquer trabalho cotidiano que entre nós requeira o uso das mãos. Eles foram capazes de fabricar uma espécie de pederneira que, atritada com outras pedras, constrói todo tipo de utensílio, equivalente às nossas cunhas, machados, martelos, etc. Assim eles conseguem instrumentos afiados para cortar o feno, apanhar a aveia, cultivar qualquer plantação que a natureza lhes permite. Os Yahoos transportam os feixes carpidos conduzindo carruagens, bem como os cavalos mais humildes amontoam a colheita em espécies de choupanas, onde o grão é extraído e levado aos depósitos. Como eu já disse, eles dominam o artesanato rústico da madeira e a olaria, sabendo coser vasos ao sol.”
“A expectativa de vida de um Houyhnhnm é de 70 a 75, mas alguns atingem os 80 anos.”
“A essa altura não sei se seria redundante observar: os Houyhnhnms não possuem palavra em seu idioma para expressar o <mal> nem nada que a ele se relacione. Na verdade, quando querem falar de algo de qualidade ruim, tomam de empréstimo as qualidades que enxergam nos Yahoos. Dessa maneira, a estupidez de um servo, a omissão de uma criança, uma pedra que fira seus cascos, um clima obstinadamente fechado e ruim para a agricultura, tudo isso são yahooíces, por assim dizer. Quando traduzo seus discursos com palavras como <maligno> ou <pérfido>, estou apenas retomando nosso léxico. Ou seja, se algo é mau ou ruim neste país, é hhnm Yahoo, mwhnaholm Yahoo, ynlhmndwihlma Yahoo… Uma casa mal-construída seria uma ynholmhnmrohlnw Yahoo.
Não me seria incômodo enumerar mais e mais dos costumes e virtudes desse excelente povo. Mas, almejando publicar brevemente um volume com minhas aventuras neste continente, não este aqui, mas um especialmente para descrever a civilização Houyhnhnm em sua completude, devo me interditar este enorme prazer e encaminhar o leitor interessado a esta outra publicação.¹ Nas páginas que me restam, doravante, nada me resta a não ser narrar minha própria tragédia.”
¹ Tudo indica que nosso amado Gulliver não cumpriu esta promessa – que pena!
“Era hábito meu pegar mel do oco das árvores, que eu misturava com a água ou comia no meu pão. Nenhum homem mais que eu mesmo podia atestar a verdade dessas duas máximas: A natureza se satisfaz com bem pouco; A necessidade é a mãe da invenção. Nesse tempo eu gozava de saúde perfeita e serenidade mental. Nem mesmo o caráter traiçoeiro e inconstante de um amigo me eram sensíveis nesta ilha. Quanto mais as injúrias de um inimigo tácito ou manifesto! Não havia a menor ocasião para desavença, lisonja ou mexerico. Não havia personalidades de renome que agradar ou assecla que temer. Não era necessário se precaver contra a fraude ou a opressão. (…) Nada de chacota, polêmica, censura, reproches, vendetas, parasitas, aproveitadores de meia-tigela, incendiários, inconvenientes, advogados, prostitutas, bufões, viciados, bêbados, políticos, vigaristas, velhos ranzinzas, tagarelas enfadonhos, jornalistas, brutamontes, assassinos, ladrõezinhos, eruditos, convencidos, moralistas; nenhum líder, nem seguidores, nenhum partido, nem facções; nem encorajadores de vícios, bons retóricos ou maus exemplos; nada de prisões, armas brancas, ou pólvora, algemas, pelourinho ou cadafalso; nada de mercados e feiras, nem regateios ou engabelações; nada de orgulho, vaidade ou afetação; nada de dândis efeminados nem valentões; vadiagem; a sífilis; esposas, gastadeiras, temperamentais e lascivas! nada de pedantes tão altivos quanto estúpidos! nenhuma importunação, atrito insuportável, barulho, muvuca, companheiro cheio de palavras e modos e sem nada na cabeça; zero canalhas exaltados pelo que têm de pior! nenhuma nobreza que dita as regras de etiqueta que ela mesma inventou; nenhum senhor, falsificador, grande proprietário, juiz, rabequista, professor de dança, mestre de esgrima!… Não, não, nada disso!!!”
“Eu não falava se não fôra perguntado; e quando o fazia, respondia com pesar, porque parecia que eu prejudicava a harmonia destes habitantes no vão intuito de me melhorarem. Mas eu era todo ouvidos nas conversas entre Houyhnhnms. Nenhuma sílaba era inútil ou profana, toda comunicação era sucinta e pragmática, nenhuma palavra supérflua ou desgastada! (…) ninguém falava a contragosto ou em tom de reclamação, todos eram fonte de prazer para seus companheiros (…) Eles têm uma noção de que quando pessoas estão reunidas, um pouco de silêncio ocasional é muito mais saudável a fim de melhorar o nível da conversação do que um falatório constante. Isso eu provei na pele, e entendi que, nesses interstícios, evocava com naturalidade idéias frescas e altamente propícias para a continuidade do discurso!”
“Sem falsa modéstia, devo acrescentar que tão-só minha presença já era um estimulante para inúmeras conversas. Meu mestre sempre inteirava seus convivas dos detalhes de minha história que ele havia recentemente aprendido, e relatava as coisas que aprendera sobre minha terra natal. Todos se compraziam em discorrer sobre esse mar de novidades, necessariamente com resultados pouco lisonjeiros para a Europa. Serei pudico o bastante para não reproduzir aqui essas conversas.”
“Quando sucedia de eu fitar meu reflexo na superfície dum lago ou duma fonte, virava o rosto por reflexo, enojado, detestando meu próprio aspecto. Por outro lado, isso foi me fazendo tolerar um pouco mais o aspecto dos Yahoos da ilha. De tanto conversar com os Houyhnhnms e apreciá-los com os olhos, admirado de sua nobreza e superioridade, fui adquirindo seus maneirismos. Primeiro era simples emulação, depois se cristalizou em hábito. Meus amigos me dizem, hoje em dia, de forma bastante áspera, Você trota como um cavalo!, o que eu, no entanto, tomo como elogio. Tampouco desminto que ocasionalmente, no meio da fala, emito de repente sons guturais de Houyhnhnms, sem dar por mim. Os Yahoos europeus me ridicularizam, mas isso em nada me mortifica.”
“na última assembléia geral, quando o assunto dos Yahoos foi abordado, você estando ausente por motivos óbvios, os representantes do plano de extermínio Yahoo se expressaram ofendidos de que eu criasse um Yahoo em meio à própria família, e aliás, mais como Houyhnhnm que como um animal selvagem. Disseram que eu era sempre visto dialogando com você, o que aos olhos dos locais parecia significar que eu extraía prazer e edificação dessas conversações. Que, enfim, sua companhia me era extremamente agradável. Reiteraram que essa prática é inaceitável de acordo com a razão e a natureza, nem fôra jamais ouvida de antanho. A assembléia, sendo assim, exortou-me a ou tratá-lo como os demais de sua espécie, ou providenciar para que você fosse mandado embora, nadando, de volta ao lugar de onde veio. O assunto foi votado entre todos. O primeiro expediente foi rejeitado de pronto por todos os Houyhnhnms que já o viram em minha casa e que com você trataram durante esse tempo. A rejeição se baseava nestas razões elementares: como Yahoo capaz de demonstrar uma proto-razão, você me distinguia nitidamente dos outros Yahoos, depravados inatos; misturá-los seria correr o risco de que você os seduzisse com seus talentos para constituir uma nação isolada entre os bosques e montanhas da ilha, e, preparando um exército, invadisse e pilhasse nosso vilarejo durante a madrugada. Porque é óbvio que uma raça que abomina o trabalho preferiria roubar nossos rebanhos que se dar trabalho de criar algum. Meu mestre acrescentou: Sou constantemente cobrado por meus concidadãos e vizinhos, portanto, para cumprir o segundo desígnio daquela reunião. Infelizmente não posso procrastinar mais esta partida, meu amigo! Creio que, como você mesmo explicou, é-lhe impossível nadar até outro país. Por isso, é razoável iniciar os preparativos para construir-se um veículo capaz de fazê-lo singrar pelas águas até sua terra! Você já descreveu como se faz um navio, então nós podemos fazer isso!”
“Enorme tristeza e pesar recaíram sobre mim ao terminar de ouvir o discurso de meu mestre. Incapaz de suportar este sofrimento, desabei sobre seus pés. Quando readquiri consciência dos meus atos, ele continuou: Eu pensei que você havia morrido. Isso porque nenhum Houyhnhnm está sujeito a esses surtos de imbecilidade. Respondi, ainda com voz embargada: Ó, preferira mesmo a morte! Não posso culpar os habitantes do lugar nem a votação da assembléia, nem a disposição solícita de todos os nossos amigos mais próximos. Não obstante, no meu corrupto e débil juízo, considero que seria mais razoável ter havido menos rigor nesta sentença. Pois é de conhecimento de todos que eu não conseguiria nadar nem sequer 10km, sendo que o pedaço de terra habitado mais próximo deve distar mais do cêntuplo desta distância. Além disso, muitos dos materiais necessários para construir um barco (navio pequeno) estão simplesmente em falta neste país! Ainda assim, em obediência e gratidão a você, mestre, e a sua hospitalidade, eu irei tentar, até o fim, esta construção – embora tema ser a coisa que não era, não é e nem será! Por isso, mestre, não me considere ainda mais vil se lhe parecer que eu me comporto como alguém já condenado à destruição!”
“em 6 semanas, com a ajuda do servo acastanhado, que para ser franco executou as partes mais árduas, eu concluí o que posso chamar de uma vertente indiana de canoa, embora maior do que qualquer uma que eu tenha conhecido, tendo feito um teto de peles de Yahoo, firmemente amarradas com fios de cânhamo que eu mesmo extraí da vegetação e preparei.”
“quando me dispus a prostrar-me, para beijar seu casco, ele gentilmente ergueu sua pata alguns centímetros até minha boca. Eu não ignoro quão gravemente fui censurado entre meus colegas Yahoos europeus por citar essa parte de minhas viagens. Digam o que disserem os detratores, que é improvável tudo isso, i.e., que tão ilustre indivíduo, autêntico garanhão, tenha se prestado a rebaixar-se ao meu nível, não se incomodando de ser visto numa posição humilhante com uma criatura inferior, etc., etc.! Eu mesmo já li muita literatura de viagem: sei o quanto os viajantes adoram se jactar de enormes favores que receberam de estrangeiros!”
“Comecei minha desalentada viagem dia 15 de fevereiro de 1714, ou teria sido 1715? 9AM.”
“Eu ouvi, ainda, de alguma distância, o serviçal acastanhado, que nutria por mim uma grande estima, e que gritava: Hnuyillanyha, majah Yahoo! (Cuide-se, o nobre Yahoo!).
Meu intuito, agora que estava em alto-mar, era, se possível, descobrir qualquer ilhota desabitada mas que fôra propícia para, com meu suor, me servir de abrigo para as necessidades mais básicas da vida. Àquele momento eu acharia este módico fim muito mais feliz do que me tornar primeiro-ministro na nação mais culta. Na verdade eu estava com pavor de voltar aos homens, i.e., aos Yahoos organizados!”
“Baseado em nada além de conjeturas, deu em mim de rumar para leste, imaginando poder assim atingir as ilhas da costa sudoeste da Nova Holanda¹”
¹ Nada mais, nada menos que o então recém-descoberto continente australiano!
“Em 8 horas eu havia chegado ao litoral sudeste da Nova Holanda. Isso confirmou minhas já antigas suspeitas de que mapas e cartas geográficas situam este país ao menos 3 graus mais a leste do que ele realmente está localizado; eu já comuniquei este pensamento há muitos anos para meu grande amigo o Senhor Herman Moll,¹ dando justificativas plausíveis, muito embora este emérito estudioso tenha optado por outro viés baseado em outros autores.”
¹ Cartógrafo do XVII e XVIII. Sua data de nascimento e nacionalidade não estão bem-consolidados, mas seria holandês (radicado em Londres). Nessa época o oceano Atlântico ainda era chamado de “Mar do Império Britânico”. Um mapa de Moll serviu de pretexto para os franceses alegarem possessão de uma certa colônia, contra os ingleses, argumento que foi refutado pelas expedições de James Cook. Defoe (o autor mais parecido com Swift que existe!) era amigo pessoal de Moll. Outro detalhe curioso: no séc. XIX (ou seja, muito depois de Swift), um homônimo Herman Moll, alemão, foi preso e condenado a passar seus dias numa penitenciária na… AUSTRÁLIA! Esse degredo, ao contrário do que poderia parecer, não teve a ver com homicídio, mas apenas com questões de contravenção comercial (roubou dinheiro do patrão, comerciante de tabaco). Cumprido apenas ¼ da pena de 10 anos, ele foi solto e pôde lecionar em York.
Um globo terrestre fabricado e comercializado por Herman Moll.
“Não encontrei moradores na costa. Sem carregar nenhuma arma, tive receio de explorar o interior. Encontrei alguns crustáceos na areia e os comi crus, pois se acendesse fogo podia ser que nativos hostis me detectassem. Prossegui por 3 dias me alimentando de ostras e lapas ou outro molusco qualquer. Dessa forma eu não gastava minhas próprias provisões do barco. Encontrei uma excelente fonte de água doce, o que muito me reconfortou!
No quarto dia, me arriscando de manhãzinha um pouco imprudentemente, divisei de 20 a 30 aborígenes a não mais do que meio quilômetro de distância. Eram índios completamente nus, havia homens, mulheres e crianças no bando, estavam em volta duma fogueira; não vi fogo, mas vi fumaça. Um deles, incontinente, reparou em mim e logo avisou seus amigos. Cinco vieram correndo em minha direção, deixando as mulheres e crianças para trás. Eu também corri para salvar minha vida. Pulei na canoa e parti. Os selvagens, notando que não daria tempo de me alcançarem, atiraram flechas; uma me atingiu profundamente na parte interna do joelho esquerdo: tenho a cicatriz até hoje. Temendo o pior – que a flecha ainda por cima tivesse sido embebida em curare –, remei intensamente até fugir do alcance de qualquer projétil (era um lindo dia, o mar estava calmo). Quando me senti fora de perigo imediato, comecei a chupar a ferida para tirar o eventual veneno, e tratar a hemorragia com o que tinha em mãos.”
“Entre todos os meus impulsos, meu ódio pelos Yahoos foi o que falou mais alto: virei minha canoa e velejei e remei no rumo sul, atingindo o mesmo córrego que atravessara pela manhã, calculando que seria menos pior lidar com esses selvagens do que viver entre os europeus mais uma vez.”
“Os marinheiros, quando aportaram, notaram na minha canoa e, inspecionando-a, conjeturaram logo de cara que o dono não podia estar muito longe. Quatro deles, bem-armados, começaram a busca, revirando qualquer fenda ou buraco que achassem. Me encontraram totalmente vulnerável atrás da rocha. A primeira reação deles foi de espanto, com meus trajes tão bárbaros. Meu casaco era de peles, as solas dos meus sapatos de madeira, minha calça de pêlos. Eles, porém, adivinharam rapidamente que eu não era um nativo, pois que todos ali viviam pelados. Um dos homens da tripulação, um português, mandou que eu me erguesse e perguntou quem era eu. Eu compreendia seu idioma, então obedeci e comecei: Sou um pobre Yahoo banido de entre os Houyhnhnms. Por favor, deixai-me partir! Eles ficaram ainda mais atônitos ouvindo minha resposta em português fluente e, estudando melhor minhas feições, também arrazoaram que eu era um europeu como eles. Porém, não podiam compreender nada disso de Yahoos e Houyhnhnms. Caíram na risada, não nego, diante do meu acento um tanto… gutural. Disseram na minha cara que eu parecia um cavalo relinchando! Na hora eu senti grande indignação misturada com medo, e pus-me a tremer. Eu pedi novamente para ser deixado em paz e abandonado, e sem esperar resposta fui tranqüilamente caminhando para minha canoa. Eles me impediram e perguntaram: De que país vens tu? Na verdade eles perguntaram muitas coisas que eu não posso me lembrar. Eu disse que nascera na Inglaterra, de onde saíra 5 anos atrás – naquele ano Portugal e os ingleses se entendiam muito bem. Então eu voltei a demonstrar confiança e a esperar a concórdia que existe entre pessoas de duas nações civilizadas, desejando ir embora. Em minha pressa eu expliquei que era um Yahoo miserável procurando qualquer lugar desolado para passar o resto de minha desafortunada vida.
Quando eles começaram a discutir entre si eu senti que nada do que eu escutava ou contemplava podia ser mais anti-natural. Para mim era como ver cachorros raciocinando e falando! Vacas falando inglês, Yahoos inteligentes no País dos Houyhnhnms!”
“Eles tinham certeza que o capitão aceitaria levar-me de graça (como dizem em Português) para Lisboa, de onde eu poderia me virar e voltar sozinho à Inglaterra. Informaram que 2 da companhia voltariam agora ao navio para relatar do achado ao capitão e saber de sua decisão. Nesse meio-tempo, a menos que eu jurasse solenemente que não fugiria, disseram que iam me manter sob custódia. Eu achei melhor ceder a estes apelos. Eles estavam bastante curiosos para saber toda minha história, mas eu não pude satisfazê-los. Creio que isso os fez pensar que eu sofri alguma desgraça que comprometeu o meu juízo.”
“O cheiro deles quase me fazia desmaiar. Por fim, não mais agüentando de fome, eu pedi licença para apanhar algo de minha própria canoa. Mas o capitão, querendo ser gentil, ordenou que me trouxessem galinha e um bom vinho, além de preparar uma cama para mim numa cabine asseada. Eu não queria de maneira alguma tirar meus trajos, nem quando estava só. Enrolei-me na coberta, portanto, e em meia hora, imaginando que a tripulação estivesse comendo, saí de minha cabine – planejava pular no mar, por uma das laterais do navio, e nadar de volta para a ilha. Qualquer coisa a viver entre Yahoos! No entanto, tive a infelicidade de que um dos marinheiros detectou-me e preveniu meu ato. Informando o capitão, foi acorrentado na cabine.
Depois do jantar, Dom Pedro veio a mim, desejando saber a razão do meu desespero, capaz de conceber um plano tão absurdo. Ele garantiu que só queria meu bem e fazer por mim o que estivesse a seu alcance nessa situação. Ele se expressou de uma forma tão terna que me comoveu, a ponto de eu conseguir tratá-lo, a partir desse momento, como um animal capaz de alguma faísca de razão! Eu elaborei um resumo conciso de minha última aventura. Contei da conspiração de meus homens a bordo. Do país misterioso em que me deixaram e dos meus 5 anos de vida ali. Mas ele reagiu como se eu não tivesse narrado mais do que um delírio ou sonho. Não pude esconder minha reprovação. Pois estava agora fora de minha natureza o dom de mentir, tão peculiar aos Yahoos! Não importa a nação, um Yahoo nunca muda sua conduta – eles estão sempre resguardados contra o discurso dos outros, sabendo que, como eles próprios, outros Yahoos são bem capazes de mentir por qualquer coisa. Eu perguntei a Dom Pedro: É costume, em Portugal, falar a coisa que não é? Isso de que qualificas minha história é algo que tenho de refletir muito para lembrar que existe, falsidade, conto, falácia, ilusão!… Se eu tivesse vivido mil anos no País dos Houyhnhnms ainda assim não teria escutado uma só mentira do mais estropiado dos serviçais! Eu não dou valor ao fato de ser acreditado ou não; tu estás me ajudando muito, então não concederei qualquer importância à corrupção de tua natureza interior. Me prontifico a responder qualquer questionamento teu! A verdade existe para quem queira compreendê-la!
O capitão Dom Pedro, homem vivido, depois de muito me testar e confrontar minhas respostas a diferentes perguntas, típico procedimento para apanhar alguém na mentira, começou, enfim, depois de um tempo, a considerar que minha veracidade fosse-lhe plausível. Já que tu dizes que tens um apego inviolável pela verdade, tu deves dar-me palavra, Gulliver, palavra de honra, palavra de homem, de que me farás companhia nessa viagem, até o final, sem atentar, outra vez, contra tua própria vida; porque se tu fizeres o que fizeste de novo, e fores apanhado, ou se não concordares com meus termos, passarás todo o trajeto até Lisboa confinado, tratado como prisioneiro. Eu prometi que seguiria com ele até o fim da viagem, embora protestando e antecipando meu futuro: Sofrerei as mais amargas inclemências, para mim está bem! Mas não volto a viver entre Yahoos!
Nossa viagem transcorreu sem nenhum imprevisto. Em gratidão ao capitão pela simpatia que demonstrou para comigo, por mais que achasse repelente lidar com Yahoos, sentei ao seu lado e tentei ser sociável. Mas às vezes eu não podia esconder que aquilo tudo ofendia meu ser. Mas ele, eu via bem, fingia que não notava. Além do mais, a maior parte do dia eu ficava sozinho na cabine. Eu não gostava de ver Yahoos o tempo todo. O capitão tentou me convencer por diversas vezes a tirar minhas roupas rústicas e ofereceu as melhores roupas que tinha no armário. Eu jamais cederia. Sinceramente, me causava nojo pensar em revestir meu corpo com algo que já foi vestido por um Yahoo! Eu na verdade, devido à insistência do capitão, tolerei apenas que me arranjasse duas peças limpas, nunca usadas, as mais simples. Ou, se não fosse possível, ao menos que houvessem sido lavadas. Pensei que isso não denegriria, apesar de não ser o ideal. Toda noite eu retirava a roupa usada ao longo do dia e me encarregava eu mesmo de lavá-la cuidadosamente.
Chegamos em Lisboa em 5 de novembro de 1715. Quando desembarcamos, o capitão obrigou-me a colocar sua capa por cima de minha roupa andrajosa, para evitar aglomerações e rebuliço. Ele me alojou em sua própria casa. Ao meu próprio pedido, deixou-me ficar no cômodo mais afastado, no sótão e nos fundos. Eu implorei que ele ocultasse de todos os demais Yahoos tudo que confiei-lhe a respeito dos Houyhnhnms. Imaginei que qualquer detalhe dessa história causasse um sem-número de Yahoos vindo atrás de mim, além de ser uma coisa tão difícil para as mentes limitadas dos Yahoos compreenderem que com certeza eu poderia ser acusado de ir contra a moral e ser preso, se é que não queimado pela Inquisição! O capitão assentiu e me convenceu, por seu turno, a aceitar vestes limpas e novas. Eu cedi, mas não aceitei que o costureiro tomasse minhas medidas. Dom Pedro, sendo por acaso aproximadamente da mesma altura e peso que eu, não obstante, as roupas ficaram ótimas em mim. Ele providenciou tudo que melhorasse minha condição; mas eu não aceitava entrar em contato com nenhum objeto antes que ele se desempesteasse dos germes yahoos após pelo menos 24h ao ar livre!
O capitão não era casado, nem tinha mais do que 3 discretos empregados. Eu roguei que nenhum deles fosse visto durante nossas refeições. Devo confessar que a postura do capitão foi tão digna e honrada, sua camaradagem tão desinteressada e rara, seu entendimento humano tão elevado, que eu comecei a tolerar sua companhia, de verdade, não apenas por obrigação! Ele foi me conquistando e me socializando de tal maneira que eu já começava a olhar pela janela do meu cubículo. Gradativamente fui passando para outros quartos e, tomando coragem, depois de muito observar alguns pedestres, dei os primeiros passos na rua. Meu pavor estava bem diminuído. Mas meu desprezo e descontentamento pelo Yahoo em geral, esses creio que jamais se embotarão. E quanto mais nos engajamos em interações sociais, digo-vos, mais tende a aumentar esse ódio! Enfim, eu aceitava dar passeios, sempre em sua companhia. Mas o que mais ofendia minha sensibilidade continuava a ser o cheiro horrível dessas criaturas, de modo que eu precisava deixar meu olfato insensível com arruda ou até mesmo tabaco antes dessas ocasiões!
Depois de dez dias, Dom Pedro, a quem também prestei algumas informações sobre minha vida européia prévia, deu sua palavra que não se sentiria de consciência leve enquanto eu não retornasse a meu próprio país e vivesse em meu lar com minha esposa e meus filhos. Ele me relatou que havia um navio mercante inglês no porto, prestes a seguir viagem, e que ele me daria tudo que fosse necessário para empreender essa pequena viagem. Ah, seria tedioso repetir item por item todos os seus argumentos, e todas as minhas objeções, uma e a uma! Dom Pedro disse: É inviável achar uma ilha tão deserta e remota como este lugar em que tu desejas te confinar! Mas usa tua prudência e sabedoria, confina-te em tua própria casa, passa teu tempo de maneira reclusa como mais te aprouver!
Sem remédio, tive de aceitar sua proposta. Deixei Lisboa dia 24 de novembro, no navio mercante britânico. Nunca perguntei quem era o capitão da embarcação. Dom Pedro me acompanhou até a nave e me emprestou 20 libras. Se despediu muito cortesmente e até me abraçou, o que tolerei tão bem quanto pude. Nesta última viagem eu não travei contato nem com capitão nem com contra-mestre. Simulando estar doente, enclausurei-me na cabine. No quinto dia de dezembro de 1715, ancoramos em Downs, às 9 da manhã, aproximadamente. Às 3 da tarde eu estava no umbral de minha própria casa em Rotherhith.(*)
(*) A edição original e a de Hawkworth trazem este nome. Como o leitor pôde perceber, entretanto, Redriff era a casa de Gulliver na estória, de modo que pode ser uma simples omissão do autor.
Minha mulher e meus filhos me receberam com a mais cândida surpresa e euforia – eles imaginavam, e com razão, que eu já estava sete palmos sob a terra. Devo confessar, contudo, que à primeira vista eu senti esse contato com eles como repelente, quando muito indiferente. Embora eu tivesse jurado e me obrigado, desde que abandonei os Houyhnhnms, a ser tolerante e condescendente com os defeitos yahoos, tendo ademais resolvido honrar a promessa que fiz a Dom Pedro de Mendez, minha memória e imaginação estará perpetuamente embebida na virtude e nos elevados conceitos houyhnhnmianos. Vencendo essa minha resistência pouco a pouco, acabei por copular com outro de minha degradante raça yahoo (isto é, com minha esposa) e dei origem a novos espécimes, já na metade declinante da vida. Ainda hoje, quando paro para pensar, me encho de vergonha, confusão e um certo horror atenuado por ajudar a propagar essa espécie…
Voltando ao momento em que adentrei meu lar após tanto tempo, minha esposa me abraçou, beijou, etc., e eu, não estando acostumado ao toque desse animal odioso, como que desfaleci, e meus parentes foram me reanimando aos poucos ao longo de cerca de uma hora. Neste momento em que escrevo, já faz 5 anos que voltei. Durante o primeiro desses anos, não suportava a constante presença de minha esposa e das crianças. Seu cheiro era pestilento! Muito menos comer no mesmo aposento que eles!! Até hoje, devido a minhas interdições daquela época, eles mal ousam tocar o meu pão, ou beber do meu copo. Ainda é muito difícil pegar na mão de qualquer pessoa que seja.
Na minha nova vida, a primeira coisa em que gastei dinheiro foi num par de cavalos de raça que criei muito confortavelmente num estábulo próximo de casa. Depois do aroma destes dois animais, o cheiro que mais me agrada é o do meu cocheiro. Sinto que remoço com o cheiro que aquele estábulo exala e deixa em quem passa muito tempo ali!
Meus cavalos me entendem. Eu converso com eles 4 horas por dia. Eles nunca viram rédeas nem sela. Vivem em grande companheirismo comigo mesmo, e em intensa harmonia um com o outro.”
“Caro leitor, confiei-lhe a mais verídica história possível de um viajante nato, que dedicou 16 anos e 7 meses de sua módica existência a explorar novos recantos do globo. Meu estilo é tão rústico quanto a verdade o exige: minha intenção é comunicar um sentimento, não ornar palavras vãs! Ao contrário dos autores deste gênero literário tão questionável, eu poderia lançar mão de recursos narrativos fabulosos para cativar a atenção do público, coisa que não fiz. Narrei com simplicidade apenas os fatos, da forma mais direta que me coube, num estilo sem afetação. A informação, a meu ver, tem de vir antes do entretenimento.”
“Eu desejaria a promulgação de uma lei que estabelecesse que o viajante, antes de poder publicar suas memórias ou diário de viagem, seria obrigado a jurar, diante da Suprema Côrte, que tudo aquilo que ele manda imprimir é a absoluta verdade ou pelo menos aquilo que há de mais veemente e sincero partindo de seu coração e de seu conhecimento e experiência. Uma medida simples e que deixaria o mundo um lugar muito menos traiçoeiro. Muitos escritores, com fins populistas, impõem as piores malversações e forjas de fatos que sempre engabelam o tipo do leitor desatento. Com muito desgosto, fucei de cabo a rabo inúmeros livros de viagem antes de escrever minha obra. Confesso que, quando nem tinha isso em mente, esses volumes me causavam prazer – à minha juventude, plena de tolice. Tendo eu mesmo conhecido de perto quase todo país e quase todos os costumes, tendo tido o privilégio de contradizer pessoalmente muitas das fábulas que chegara a ler, posso afirmar minha autoridade e minha distância destes autores. Não poderia indicar um só, além de mim mesmo, que não me desperte aversão e que não se apoie impudentemente na incrível credulidade humana.”
“Nec si miserum Fortuna Sinonem
Finxit, vanumetiam,
mendacemque improba finget.¹
Sei muito bem quão vil a longo prazo é a reputação de quem escreve sem gênio ou erudição, sem nem, aliás, talento algum, exceto uma boa memória ou uma precisão de publicista ou de capitão de navio. Também sei que escritores de viagem, como autores de dicionários, acabam chafurdando sob o peso dos inúmeros novos exemplares que são preparados todos os anos neste mesmo ramo, sendo o sucesso de uns o mesmo que o esquecimento de tantos outros. Sei o quanto tudo isso são correntes e modas passageiras. É até bastante provável, inclusive, que os viajantes que venham a visitar os mesmos locais por que passei e descrevi, detectando erros e omissões minhas (se houver), e complementando com novas descobertas de autoria própria, obliterem minha fama deste mundo, tornando-me no mínimo dispensável, no máximo completamente ignoto. Mas essa ‘mortificação’ seria o melhor dos mundos para mim, se eu escrevesse apenas por vaidade: mas quem escreve pelo bem coletivo não poderá reclamar de ser ultrapassado no futuro após dar sua parcela de contribuição! (…) Não vou preencher uma linha com os costumes dos Yahoos dessas nações remotas e corrompidas – diria que os menos corrompidos de todos são os brobdingnaguianos. As máximas que coletei em meio a este povo, em moral e política, sobrepassam tudo que se vê na Europa.”
¹ Mesmo se a Fortuna fez Sinona miserável, Ela não o tornou mendaz e improbo.
a Teve papel ativo na invasão, pelos gregos, da cidade de Tróia.
“Foi-me solicitado, assim que minha fama se espalhou, após meu retorno, como cidadão inglês, o relato preciso, a um secretário de Estado, de minhas expedições. A principal alegação para esta abordagem formal é que <se o primeiro que travou contato com estas civilizações é um inglês, então é justa a reivindicação da posse destas terras pela Coroa>. Porém, sem medo de ser censurado, declaro que tenho minhas dúvidas acerca de se a colonização dos lugares que visitei pode trazer qualquer progresso ou mesmo se ela é possível. Nem todos são índios americanos e nem todos são Fernando Cortez! Os liliputianos, para começo de conversa, mal pagariam o investimento: uma esquadra para submetê-los seria uma inútil despesa para o Tesouro. Já quanto aos brobdingnaguianos, minha pergunta é se qualquer tentativa nesse sentido é minimamente prudente ou segura! Além disso, será a marinha inglesa páreo para as Ilhas Flutuantes sobre nossas cabeças?! Não sentiríamos vertigens mesmo que <os conquistássemos>? Os Houyhnhnms me parecem os menos preparados para se defender militarmente. No entanto, fosse eu ministro de Estado, jamais aconselharia uma tal expedição – invadi-los!!! Sua prudência, consenso interno, coesão social e adaptação ao meio, despojo das preocupações fúteis e falta de temor, seu amor pátrio, seriam talvez substitutos mais do que perfeitos para a inocência na arte militar. Imaginem 20 mil deles colidindo de frente com uma armada britânica! Furando nossas fileiras, capotando nossas carruagens, esmagando os crânios de nossos infantes com seus sólidos cascos até serem transformados em papa! De fato penso que os Houyhnhnms merecem o adágio atribuído a Augusto César: Recalcitrat undique tutus (Recalcitrância onipresente é segurança).
Ao invés de propostas insolentes de colonização deste paraíso na terra, eu desejaria a inclinação da Coroa por enviar uma delegação diplomática solicitando que os Houyhnhnms, quem sabe, se dispusessem a perder alguns de seus indivíduos mais pacientes para nos ensinar e nos civilizar, para transformar a Europa e ensiná-la, finalmente, pela primeira vez, as bases da honra, justiça, verdade, temperança, espírito público, resiliência, bravura, castidade, amizade, benevolência e fidelidade. Todas as virtudes que nomeamos em todas as nossas línguas que se podem encontrar na literatura moderna ou também na antiga, em todas essas os Houyhnhnms se sobressaem. Com minha parca erudição, é o que posso com certeza afirmar.”
“eles matam duas ou três dúzias de nativos, trazem outras tantas nos navios, obviamente na base da violência, como amostra grátis; ao voltar para casa são perdoados. E a colônia conquistada ganha a bênção e o direito divino. Naves são novamente despachadas à primeira oportunidade. Os autóctones são, então, conduzidos à destruição inexorável. Seus monarcas são torturados até revelarem a localização de seu ouro; o monopólio sobre as riquezas daquela extinta nação é imediatamente concedido para que nos banhemos no sangue de inocentes, lição de crueldade e luxúria incomparável!”
“Mesmo assim, a descrição desse processo escravizador e desumano não parece afetar a auto-estima britânica, que deveria ser o exemplo do mundo em termos de sabedoria, delicadeza e imparcialidade ao implantar Colônias! Seus dons liberais no avanço da religião e da educação; seus devotos cabeças na propagação da cristandade; sua precaução em habitar a terra de vidas pacatas e tementes a Deus. Enfim, deveria partir deste Reino, deste Império-Mãe da humanidade, a iniciativa no emprego da justiça e na exportação de um modelo de administração civil impecável para todas as colônias incivilizadas do globo terrestre, sem se deixar conspurcar ou corromper pelos barbarismos estrangeiros. Para corar, por assim dizer, oportunamente, todo este estado de coisas, a Grã-Bretanha deveria delegar aos homens mais judiciosos de todos, interessados exclusivamente na felicidade geral, a missão de ser os representantes da Rainha e do Rei nestas paragens remotas, nestes recantos tão distantes da metrópole!”
“E no entanto, se aqueles que realmente cuidam destes assuntos julgarem que cometo uma irresponsabilidade, estou disposto a me render, baixar a cabeça e sofrer o jugo de sua Lei. Mas jamais direi uma mentira: nenhum europeu pisou nestes países antes de mim. Se os habitantes de cada um destes reinos tiver voz, eles confirmarão o que digo. Claro que essa primazia quiçá possa ser também atribuída aos dois Yahoos lendários que foram vistos no topo de uma montanha no País dos Houyhnhnms. Eis a única exceção que eu admito.”
“Semana passada comecei a autorizar minha mulher a sentar comigo para jantar, mas na outra ponta da mesa, por enquanto. E dei-lhe a devida vênia para responder (com concisão) as perguntas que eu a dirigir, se estiver no humor.”
DO EDITOR AO PÚBLICO (POSFÁCIO: Problemas de família!) (tal qual na 1ª edição da obra)
“O autor destas Viagens, o Senhor Lemuel Gulliver, é meu mais antigo e íntimo amigo. Há algum parentesco entre nós do lado materno, inclusive. Cerca de 3 anos atrás, o Senhor Gulliver, cansado de receber curiosos em sua habitação, em Redriff, comprou um pequeno naco de terra, com uma casa não-luxuosa, mas confortável, nas proximidades de Newark, Nottinghamshire, seu condado de nascença. Agora o Senhor Lemuel vive mais afastado dos homens do que nunca, pelo menos enquanto não esteve em suas viagens. Apesar desse retraimento social, meu primo algo distante não é por isso menos querido pelos seus vizinhos.”
“Antes de deixar Redriff, ele deixou-me em posse dos referidos papéis, um relato de suas viagens pelo mundo, dando-me a liberdade para fazer com eles o que eu bem entendesse. Eu li suas memórias com esmero, três vezes.” “Há um indistinto ar de verdade por toda a obra. O próprio autor foi tão reconhecido por seus iguais como sendo uma pessoa veraz que se tornara uma espécie de provérbio entre seus vizinhos de Redriff, quando qualquer um afirmava alguma coisa, que tal coisa era tão verdadeira como se o Senhor Gulliver a tivesse dito.”
“Esse volume seria pelo menos duas vezes maior, se eu não tivesse tomado a iniciativa de suprimir trechos inteiros, inúmeras passagens, diria eu, referentes a ventos e marés e todas essas coisas chatas… Ninguém quer saber que clima fazia durante o trajeto, ou qual o ângulo do navio em relação a não sei que objeto! Como nos diários de bordo dos capitães, redigiu-se, nos manuscritos originais, com precisão milimétrica, cada procedimento, como o que se faz diante da ocorrência de uma tempestade, naquele linguajar técnico dos navegadores. Longitudes, latitudes, graus isso, graus aquilo, abundam. Temo que o Senhor Gulliver possa ter se arrependido de conceder-me liberdade para mexer em sua papelada, mas, enfim, sigo minha consciência.”
“Se minha ignorância em assuntos marítimos pode ter me levado a cometer erros e omissões, digo, pois, que me responsabilizo abertamente por essas deficiências. Se qualquer viajante vier a apresentar a curiosidade pela versão integral desses relatos, como haviam sido deixados pela pena do escritor, sem minha intervenção, eu terei a bondade de atender essas pessoas.”
Richard Sympson
CARTA DO CAPITÃO GULLIVER A SEU “PRIMO” SYMPSON
“Espero que você esteja pronto para admitir publicamente, quando de oportunidade, que por seu imenso e assíduo sentimento de urgência você me convenceu a publicar um relato muito vago e impreciso de minhas viagens, com, entretanto, a promessa de que minha falta de estilo seria consertada por jovens senhores acadêmicos, assim como fizera meu outro primo Dampier, após aconselhamento meu, em sua obra intitulada Viagem ao redor do mundo.¹ Porém, diferente do que você diz no começo do posfácio, não lembro de ter-lhe dado poder total para omitir trechos de minha narrativa, e muito menos para fazer interpolações. Sendo assim, quanto às últimas, eu abdico formalmente mediante esta comunicação de qualquer responsabilidade de autoria nos casos em que foi o editor quem escreveu pela minha pena! Devo citar, ilustrativamente, um parágrafo inteiro sobre sua majestade, a Rainha Ana, cujo nome é sinônimo da mais pia glória: embora a reverencie e a estime mais do que qualquer ser humano, vejo que o editor se excedeu ao enaltecer tanto um bípede, em cotejo ao meu mestre Houyhnhnm. (…) Sendo assim, você me fez falar a coisa que não era. E também faço referência à academia dos projetistas, e a inúmeras outras passagens – parece que no último quarto do livro é pior! – dos meus diálogos com o mestre Houyhnhnm. Ou você omitiu circunstâncias materiais importantes ou fez questão de mutilar meus pensamentos ou desfigurá-los de tal forma que o desiderato tornou-se irreconhecível até para mim mesmo.”
¹ Mais um exemplo do que poderíamos chamar de proto-derrubadas da quarta parede promovidas por Swift, ao trazer fatos do mundo real para prestar ainda mais realismo a sua prosa: Dampier completou a circunavegação do globo pelo menos 3x e realmente registrou seus achados numa obra com este título.
“Você poderia fazer o favor de explicar como uma coisa que eu disse, tantos anos atrás, a cerca de 5 mil ligas de distância, em outro reino, poderia se aplicar livremente a qualquer dos Yahoos, que, diz-se, em seu conjunto governam o rebanho. Tanto mais que, àquela ocasião, eu mal temia ou mal pensava na possibilidade infeliz de voltar a estar entre eles! Não tenho eu muitas razões de queixa, quando vejo esses mesmos Yahoos sendo puxados por Houyhnhnms em veículos, como se estes não passassem de brutos, e aqueles chegassem a criaturas racionais? Para evitar visão tão monstruosa e mesquinha, entre outros motivos, é que eu decidi me recolher ao campo!”
“Favor considerar, tanto quanto eu já lhe pedi que considerasse, em prol, como você mesmo diz, do <bem comum>, que os Yahoos não passam de uma espécie de animais completamente incapazes de reabilitação ou de aperfeiçoamento via preceitos morais: assim está provado. Porque vê-se que, em vez de um brusco cessar de todos os abusos e corrupções, ao menos nesta pequena Ilha, como eu teria meus motivos para suspeitar, vê-se, dizia eu, após 6 meses do escândalo que foi a publicização do meu livro, que nada mudou; não veio ao meu conhecimento uma só notícia de <efeito favorável> após a divulgação de minhas boas intenções. Como estou retirado no campo, portanto, peço-lhe que me envie, por carta, o informe do fim dos partidos e facções, da justiça imparcial dos juízes, da modéstia e honestidade dos advogados – com tinturas de bom senso –, da transformação desse sórdido bairro londrino chamado Smithfield numa praça para piqueniques, com muitas árvores e uma biblioteca cheia de livros de boas leis em detrimento do pelourinho de execuções hipocritamente ladeado por igrejas góticas, que é o que lá se encontra hoje, da verdadeira nobreza na formação de nossos nobres sem-caráter, do banimento dos atuais médicos, da virtude, honra, sinceridade e bom senso das Yahoos-fêmeas, das côrtes daninhas e torrentes de ministros varridos para sempre, da inteligência, presença de espírito e mérito finalmente recompensados da forma que merecem, da condenação à morte por inanição de todos esses espalhadores de desgraças em prosa chamados jornalistas (mande-lhes comer seu próprio algodão se estiverem famintos! mande-lhes secar seus potes de tinta, se estiverem com sede!); deixe-me saber de todas essas coisas, se um dia elas vierem a ocorrer!… (…) 7 meses, creio eu, seria tempo mais que suficiente para corrigir todo vício e tolice a que os Yahoos são sujeitos, se, e somente se, sua natureza fosse de fato minimamente capaz de aprendizado e inclinada à sabedoria!”
“Leio, ainda, que sou acusado de refletir sobre pessoas de altos cargos sobre quem eu não teria nada a dizer; acusado de degradar a natureza humana! – que natureza humana?, sou aqui obrigado a contestar –, e de difamar o sexo frágil!! Conquanto essas críticas não me venham em uníssono, afinal o bando dos escritores é sempre desunido e cheio de desavenças de opinião, e alguns deles, em vez de me atacarem por dizer o que digo, preferem se negar a acreditar que este livro é de minha pena, i.e., que eu tenha sido o autor de minhas próprias viagens! Para estes, eu achei ou roubei estes escritos de alguém ou algum outro lugar. Mas, de acordo com uns terceiros, eu não só escrevi As Viagens de Lemuel Gulliver como eu escrevi uma outra horda de livros, que eles inclusive se dão ao trabalho de elencar!
Digo que seu tipógrafo foi tão negligente que confundiu a cronologia, havendo trocado as datas de muitas das minhas partidas e regressos! Às vezes nem sequer o ano ele imprimiu corretamente, quem dirá o mês. Seria pedir demais que ele acertasse O DIA! Ouvi dizer que o manuscrito original foi, infelizmente, destruído e que desde a publicação da primeira tiragem não temos mais acesso a seu conteúdo veraz. Eu não me dei ao trabalho de produzir uma cópia antes de enviar-lhe este manuscrito, e portanto ele era o único no mundo. Sem embargo, ainda diante de tamanhos desconsolos, eu lhe enviei uma variedade de correções, as mais importantes, para que você gentilmente insira nos lugares corretos – se, é claro, vier a existir uma segunda edição!”
“Nas minhas primeiras viagens, enquanto ainda jovem, fui ensinado pelos mais experientes marinheiros, e portanto aprendi a redigir como eles. Desde então, contudo, verifiquei que os Yahoos marítimos da nova geração são tão aptos quanto os telúricos para inventar gírias e maneirismos de linguagem, de forma que as expressões que eles empregam mudam de ano a ano.”
“Se a censura dos Yahoos pudesse afetar-me em algum grau, teria eu imensas razões para reclamar. Alguns são tão convencidos e opiniosos que consideram meu livro de viagens como mera ficção ou delírio mental, e foram longe o bastante a ponto de teorizar que os Houyhnhnms e os Yahoos são tão ‘reais’ quanto os habitantes da ilha de Utopia de Thomas More!
Quanto aos povos de Lilliput, de BrobdingRag (como é a correta grafia da palavra, e não Brobdingnag como consta da 1ª edição!) e de Laputa, confesso que nunca me deparei com um Yahoo presunçoso a ponto de questionar suas existências, nem as informações sobre suas culturas que eu tornei públicas. Isso, claro, porque a veracidade tem um poder de convencimento imediato sobre o leitor. Quanto ao meu relato dos Houyhnhnms e Yahoos, se há menos plausibilidade, a culpa não é minha: vejo milhões neste mesmo continente desta última espécie! Nossas diferenças para com os Yahoos do país dos Houyhnhnms podem se resumir a duas: uma é que os urros que eles utilizam à guisa de linguagem soam estranhos a nossos ouvidos; a outra é que não andamos pelados (ou será que eles é que não andam pelados, já que a pelugem deles recobre todo o corpo, enquanto nós precisamos de tecidos para esse mesmo fim?). Eu escrevi sobre os povos que conheci, e sobretudo sobre os Yahoos, para emendar os nossos Yahoos, e não para bajulá-los! Enaltecer com palavras inócuas toda nossa espécie seria mais inconseqüente, para mim, do que os relinchos dos dois Houyhnhnms ‘degenerados’ que eu crio em meu estábulo. Porque estes, a despeito de decaídos em relação aos seus ancestrais, eu ainda consigo educar e corrigir-lhes os vícios até um certo ponto!”
“Concluo que eu jamais deveria ter concebido um projeto tão absurdo como o da reforma da raça Yahoo deste reino. Mas deixe estar, isso era coisa de meu eu idealista de outrora: já deixei estes esquemas visionários para trás, em definitivo.
“The Warring States period (453–211 BCE) is often described as the age of the ‘Hundred Schools of Thought.’ Motivated by the decline of the centralized Zhou regime and the increasing brutality of everyday life, early Chinese thinkers took it as their mission to offer possible solutions to this state of chaos. Their new ideas about the self and its relationships with social and political institutions subsequently found articulation in a growing corpus of literature. This intellectual awakening also produced a growingly sophisticated discourse on the topic of the human body and its cultivation, prompting some scholars to designate the 4th century BCE as China’s ‘discovery of the body’ and as the ‘bodily turn’ in the development of classical Chinese thought.”
“In the Mengzi 孟子, for instance, we find a brief reference to the circulation of flood-like qi as a component of an overarching regimen of moral self-cultivation, but the author’s description of this practice is lacking in detail. Another Warring States text, the Zhuangzi 莊子, contains references to practices that seem meditative in nature: ‘sitting and forgetting’ (zuo wang 坐忘) and ‘the purification of the mind’ (xin zhai 心齋). Both techniques envolve dimming sense perception and discarding emotions and desires in order to achieve an altered state of consciousness, but again, their particulars are not entirely clear. The most detailed account of seated meditation practices can be found in several chapters from the Guanzi 管子, an eclectic text traditionally believed to have been compiled in the state of Qi 齊 in the late Warring States period, most famously in an essay called the Inward Training (Neiye 內業). While not a meditation manual per se, the Neiye does include multiple references to body alignment, breathing exercises, and emptying one’s mind. This has led some scholars, most notably Harold Roth, to argue that the text was a product of a single lineage that held spiritual self-cultivation through corporal practices as its main goal.” “Fortunately, recent archaeological excavations have unearthed a large number of manuscripts that belong to a different literary genre – technical literature. These include medical recipes, prognostication and divination manuals, demon-quelling techniques, ritual instructions, and self-cultivation regimens, which offer us a glimpse into the realm of religious adepts, astrologers, physicians, and diviners, whose writings played a significant role in the shaping of Warring States and Qin-Han intellectual culture.
Two archaeological sites in particular contain a plethora of excavated manuscripts pertaining to the cultivation of the human body. Excavated in the 1970s and 1980s, the tombs in Mawangdui 馬王堆 in modern-day Hunan Province and Zhangjiashan 張家 山 in modern-day Hubei, held multiple technical manuals. Sealed in the early decades of the Han Dynasty (168 and 186 BCE respectively), the dating and authorship of the Mawangdui and Zhangjiashan self-cultivation manuscripts are a matter of scholarly debate. Chemical analysis reveals that the tombs were both sealed in the first half of the second century BCE, but an examination of various linguistic components suggests that the manuscripts might have been produced earlier and copied in different times by different scribes.”
“Widely recognized as a turning point in the study of early China, some scholars have gone so far as to argue that the information contained within the excavated manuscripts requires us to reassess everything we know about early Chinese intellectual history.”
“Authorship, for example, is a highly controversial topic in the study of early Chinese texts. While the provenance and approximate dating of excavated sources can be determined with some degree of accuracy, especially when they are compared with transmitted texts, in most cases these materials do not contain their author’s name.14 Faced with these challenges, contemporary scholars adopt two main approaches. The first, utilized by many of the individuals mentioned above, treats these sources as repositories of ideas, and reads them against the received literature in order to offer a richer account of Chinese philosophy, religion and medicine. The second approach involves putting a greater emphasis on the materiality of excavated manuscripts in an attempt to determine the reasons for their production and the identity of their authors, as well as readers.”
“The term ‘religio-medical marketplace,’ which is currently used to explain the intricate context in which various techniques of healing and self-cultivation were produced, exchanged, and discussed in early medieval China, was first put into use by C. Pierce Salguero in his study of the translation of early Buddhist scripture.”
“Michael Stanley-Baker picks up this term, which he then describes as a field of ‘discursive and economic competition’ comprised of diverse actors attempting to assert the supremacy of their own technologies of cure and salvation over that of their rivals, to analyze the role of therapeutics in the formation of Daoist beliefs and practices in the early medieval period. Stanley-Baker’s work endeavors to go beyond well-heeled categories such as the religion–science dichotomy or the classification of Daoist religion into distinct sects, and to instead investigate the various strategies employed by individual actors to ‘negotiate their ideological, institutional, social and physiological concerns.’”
“Some texts, such as the Lunyu 論語 (The Analects), Mozi 墨子, and the Mengzi, were written almost entirely in dialogue. Others, such as Xunzi 荀子 and the Zhuangzi, embed dialogues between exemplary figures within their philosophical arguments to lend them an aura of authority.”
“The same pattern recurs in the first 4 dialogues of the Shiwen, which all feature the Yellow Emperor asking various advisors general questions about the nature of life and death and the physiological make-up of humans. While his conversation partner in the third dialogue, Cao Ao 曹熬, is not attested in the received literature, the remaining 3 are well-known figures. Various received sources identify the protagonist of the 2nd dialogue, Great Perfection (Dacheng 大成) as the teacher of the mythical Yu the Great, the flood-tamer, including the Lüshi Chunqiu 呂氏春秋(The Spring and Autumn Annals of Master Lü).”
“In the first chapter, ‘Discourse on the Divine Perfection of High Antiquity’ (Shanggu Tianzhen Lun 上古天真論), the Yellow Emperor asks the Heavenly Teacher about the difference in the physiological make-up between the people of antiquity and people today. The following lines refer to the respondent as Qi Bo 岐 伯, leading the Tang dynasty commentator Wang Bing 王冰 to claim that the Heavenly Teacher is simply his title. The close relationship between the Yellow Emperor and Qi Bo, as well as their association with the technical arts, is further attested in the bibliographical ‘Yiwen Zhi 藝文志’ chapter of the Hanshu 漢書 (History of the Han), in the form of a reference to a now-lost text called the Massage[Techniques] of the Yellow Emperor and Qi Bo 黃帝岐伯按摩 and the designation of Qi Bo as one of high antiquity’s foremost masters of recipes and techniques (fangzhi 方技).”
“The use of mythical figures was a common literary technique in early Chinese literature. By presenting their ideas through dialogues between such familiar figures as the Yellow Emperor, Yao and Shun, Rong Cheng, and Ancestor Peng, the compilers of the Shiwen would have made their text more palatable to some educated elite readers. In addition to lending their manuscript a sense of familiarity, this literary device also associated a self-cultivation technique with established figures of authority, some of them already identified in the third and second century cultural milieu with issues of longevity, manipulation of time, and health. This allowed them to pursue their main goal – the construction of a new mode of discourse on the human body that presented the common problems of their target audience, aging men, as treatable conditions.”
PURA ESPECULAÇÃO: “Applying Stark and Finke’s model, I would argue, allows us to see the late Warring States ‘bodily turn,’ namely the emergence of a theoretical discourse on the human body, not as a response to a shift in demand but as a conscious attempt by the technical masters to instigate a shift in supply and break into one of the most lucrative and prestigious market niches – educated affluent male elites.”
“The fact that technical manuscripts were not preserved in the canon, leaves the impression that this was a wholly philosophical discourse. The discovery of the Mawangdui, Zhangjiashan, and other excavated sources, however, allows us to better ascertain the role of masters of techniques in the development of early theories of the human body and its cultivation.”
Wangzi Qiaofu asked Ancestor Peng:
‘Of the qi of man, which is the most essential?’
Ancestor Peng replied:
‘Of the qi of man, none can compare with penile essence. When penile qi is congested and clogged, the 100 vessels produce illness. When penile qi is insufficient, you cannot procreate. Thus, the key for obtaining longevity lies entirely with the penis.’
“Focusing on the male sexual potency and identifying the male sex organ as the key component in the quest of longevity and health can be construed as a calculated move by the authors” Não diga!
The Yellow Spirit asked the Left Spirit:¹
‘Why is it that the yin [the penis] is born together with the 9 apertures and 12 joints, yet it alone dies prematurely?’
The Left Spirit replied:
‘It is not utilized in strenuous activity; when there is sorrow and joy it is not used; it is not involved in drinking and eating. It dwells in deepest darkness and does not see the light of day, yet it is employed in a sudden and abrupt fashion, with no regard to its state of arousal. Unable to withstand the double hotness,² it is therefore severely hurt. Its name is avoided and its body concealed, yet it is employed very frequently and unceremoniously. Therefore it is born together with the body, yet it alone dies prematurely.’
If you are unable to utilize the 8 proliferations and eliminate the 7 diminutions, then, at the age of 40, your yin qi will half itself; at 50, your mobility will decline; at 60, your hearing will no longer be acute and your vision will no longer be clear; at 70, your lower body will wither and your upper body will unravel, your yin qi [virility] will be rendered useless, and mucus and tears will flow out.
¹ “The Yellow Spirit is probably an alternative title for the Yellow Emperor. As for the Left Spirit, received literature does not mention this figure. The title ‘left,’ however, often refers to the senior of a double appointment (outranking ‘right’). The Left Spirit is thus probably a member in the celestial ranks, an advisor to the Yellow Emperor.”
² “The meaning of the term ‘double hotness’ 兩熱 is unclear. Harper [abaixo] believes this refers to the hotness emanating from the two partners during intercourse.
O MESMO PURITANISMO DE SEMPRE: “Drinking and eating as he pleases, the pores and interstices of his skin are glossy and taut, his qi and blood are full and replete, and his body is light and lithe. But if he has intercourse impulsively, he will [be] unable to guide his qi and will fall ill. Sweating and panting, his insides will become feverish and his qi disordered.”
“Why do some age faster than others? Why do some retain their vigor and age gracefully while others wither away rapidly?”
I have heard that there are some things that even sages are unable to understand, only those who have obtained the Way. The culminant essence of Heaven and Earth is born in the indefinite, grows in the formless, and is perfected in the bodiless. He who obtains it can obtain longevity, he who loses it dies young
“In the last few decades, in the hope of capturing the attention of a potentially profitable segment of the population in many countries around the globe, medical experts and pharmaceutical companies began constructing a new discourse of masculinity, portraying the once natural process of aging and its accompanying byproducts as pathological ailments that fall under medical jurisdiction and can be pharmaceutically solved. Age-related decline in testosterone levels, for example, was ‘rebranded’ as andropause, a pathology that requires medical intervention through testosterone supplementation. The same can be said about the new category of erectile dysfunction (ED). Prompted by the initial slow sale of Viagra, Pfizer Pharmaceuticals launched a massive campaign based on the direct-to-consumer model, expanding the original target market share of aging men to include men of all ages by presenting it as a ‘technology of the gendered body,’ a way to transcend our natural biological limitations through bio-medical enhancement.”
“While we know that affluent elites hired scribes to copy manuscripts for their own use, real commercial book trade only began to emerge in the first century AD. The dissemination of the Mawangdui and Zhangjiashan texts was, in fact, highly regulated. According to Harper, receiving such books ‘constituted an initiation which bound the disciple to the physician and sanctified the books, confirming the exclusiveness of the knowledge they contained.’ This is further supported by the fact that the manuals themselves offer very terse instructions, often revealing only half the story. From this we can assume that these texts were meant to be read together with a master in order to be understood and used in everyday practice.”
The reason why people of low social status contract disease is due to hard manual labor, hunger, and thirst. Sweating profusely, they plunge themselves into water and proceed to lie down on the cold earth, not realizing that they should put on clothes.
“In recent years there has been a growing interest in the study of the interaction of China’s religious traditions and the role of Buddhism, Daoism and popular religion in the shaping of medieval concepts of the human body and the development of healing practices. Comparatively little work has been done on the impact of early Chinese religious ideas and practices on this field.” “unlike Buddhism and Daoism, early Chinese religion is a particularly amorphous entity that does not conform to contemporary definitions of religion, as it lacks many of the features modern scholars view as fundamental, such as a canonical set of sacred scriptures, organized clergy or a fixed pantheon. In fact, the label ‘early Chinese religion’ does not refer to a specific empirical singularity. It is mainly used as a heuristic device, a term coined by later scholars to help make sense of a collection of phenomena.” “Fortunately, the discovery and steady publication of excavated manuscripts from the Warring States and Qin-Han periods is expanding our knowledge of early Chinese religion, helping us to construct a richer picture than the one reflected in the received literary tradition.”
Notes
“Harper juxtaposes these individuals, whom he refers to as ‘natural experts and occultists,’ to the masters of philosophy (zi, 子). See Harper, Early Chinese Medical Literature, 10. I have chosen the appellation ‘masters of techniques’ in order to simultaneously stress their close association to the philosophical masters while also emphasizing the diferences between them. I would like to emphasize that by designating these hypothetical agents as ‘technical masters,’ I am not identifying them with the fangshi 方士, translated as ‘masters of esoterica’ or ‘masters of methods,’ who are often mentioned in Han sources. While modern scholars have identified the crucial role of the ideas and practices espoused by the fangshi in the development of Daoist religion, there is no conclusive evidence that links the authors of the Mawangdui and Zhangjiashan manuscripts to the fangshi. For more information, see Raz, The Emergence of Daoism, 39–42, and Arthur, Early Daoist Dietary Practices, 4. For an opposing view, see Nathan Sivin, who argues that this term does not denote ‘a social grouping toward which people align themselves’ but a ‘catchall phrase’ used by authors and bibliographers in a somewhat derogatory manner, attached to agents who did not align themselves with the goals of the state orthodoxy. Sivin, ‘Taoism and Science’”
“The content of the Mawangdui texts suggest that despite their emphasis on coupled practices, they were mainly geared toward male practitioners.”
“The 9 apertures are the eyes (2), ears (2), nostrils (2), mouth, anus, and urethra. The 6 palaces are the large intestine, small intestine, stomach, bladder, gall bladder and a somewhat unclear 6th organ often translated as the ‘triple burner.’ See Unschuld, Huang Di Nei Jing Su Wen, 130.”
Indications (entre ‘’ – artigos)
“For calisthenics, see Kohn, Chinese Healing Exercises: The Tradition of Daoyin and Despeux, ‘La Gymnastique Daoyin dans la Chine Ancienne’. For the role of dietary regimens in self-cultivation, see Arthur, Early Daoist Dietary Practices. For sexual cultivation, see Wile, Art of the Bedchamber.”
Boltz, ‘The Composite Nature of Early Chinese Texts’
Billeter, ‘Étude sur sept dialogues du Zhuangzi’; Cua, ‘The Logic of Confucian Dialogues”.
Pines, ‘Political Mythology and Dynastic Legitimacy’
Liexian Zhuan 列仙傳 (Collected Biographies of Immortals)
Pregadio, Encyclopedia of Taoism
Conrad, The Medicalization of Society
Valussi, ‘Female Alchemy: an Introduction’ Mollier, Buddhism and Taoism Face to Face
LOST é uma alegoria do mal representado pelo desenvolvimento tecnológico. A série retrata quem levaria a melhor caso um embate entre duas forças antagônicas acontecesse em dado tempo e lugar: a força do progresso cego da técnica versus o potencial da humanidade de se redimir dos males que ela mesma criou. Em Lost, essa luta é encarnada por semi-deuses e homens.
O princípio da técnica pura e levada a seus extremos (dominação diabólica da natureza) é representado pelo monstro da fumaça. O princípio do homem harmonizado com a natureza é representado pelo invisível Jacob. Esses são apenas dois dos avatares sob os quais essas “formas de vida” surgem na tela ao longo de vários episódios e temporadas. O que causou muita dissensão e desinteresse do público que acompanhava a série em seus começos é a famosa “trilha de mistérios”, que se acumulava e complexificava, e parecia não levar o espectador a lugar algum. Os mais céticos chegaram a pensar que a série não passaria de uma bola de neve que arrolaria mistério pós-mistério sem coerência ou inter-relação, com o fito de prender a audiência o máximo possível, sem resolver qualquer enigma satisfatoriamente, até ficar escancarado, ao final, que tudo não passava de uma “pegadinha gigante” ou do maior golpe de marketing da história recente de Hollywood.
De fato, a paciência é uma virtude quando se trata de absorver o que Lost tem a oferecer. Podemos dizer que a compreensão de todas as 4 primeiras temporadas só advém posteriormente a ver e rever a quinta e a sexta, onde os eventos mais arcaicos, os catalisadores de todos os outros, que envolvem os personagens mais consagrados e os favoritos do público, são finalmente revelados.
Por mais versátil e aberto a interpretações que permaneça até os dias de hoje, Lost, que encerrou em 2010, não transcende, na essência, a dualidade com que eu abri este ensaio: yin-yang, branco x preto, bem x mal (num sentido muito menos maniqueísta do que o apreciador de séries ocasional gostaria de digerir)…
As duas entidades em conflito, cuja infância é mostrada quase no “sopro final” das mais de 100 horas de teledramaturgia, são dois irmãos gêmeos nascidos em tempos imemoriais na mesma Ilha onde tudo em Lost acontece (e para onde convergem todas as ações até de quem ainda não chegou à Ilha, mas cujo destino está atrelado a ela). Um é Jacob e representa a luz; o segundo não foi batizado (no sentido estritamente lingüístico do termo), talvez porque quem DEU-LHE A LUZ não o esperava, e representa as trevas, embora seus papéis ainda não estejam CLAROS até os incidentes de suas vidas adultas que irão antagonizá-los de uma vez por todas. É clara a evocação do relato bíblico de Esaú e Jacó, embora este Esaú não tenha nome. Eles têm uma mãe, adotiva, cujo favorito é sem dúvida “Esaú”. Mas ele perderá os seus direitos de primogenitura assim que der vazão a seu excesso de curiosidade pelo mundo exterior e se tornar obcecado por uma só idéia: escapar da Ilha.
O santuário paradisíaco-mágico que contém uma espécie de manancial de energia de potencial ilimitado (conhecida pelos espectadores mais simplesmente como a “luz dourada”), sendo o núcleo aparente do milagre da vida na Terra, que é o lar destes dois irmãos, só ocasional e involuntariamente recebe visitas. Quando um navio cheio de arquitetos e engenheiros naufraga na Ilha, o homem de preto, alcunha usada para “Esaú” na série, a eles se alia e tenta construir uma espécie de Torre de Babel, até ser frustrado pela própria mãe adotiva, que já o havia prevenido. Ela incendeia toda a construção; o homem de preto se vinga matando-a. Jacob, pouco antes, havia dela recebido o dom da imortalidade ao beber da água que ficava próxima da fonte principal da luz dourada, o “coração da Ilha”. Ao descobrir o matricídio do irmão, ele quebra o tabu que lhes fôra imposto, o de não pisar neste coração, que ao mesmo tempo que é sagrado está ligado a uma maldição. Na verdade, irado com seu gêmeo, Jacob faz algo ainda mais insidioso: joga seu irmão inconsciente no córrego que transporta o corpo ao Coração. Desse modo, ele faz seu irmão cometer o interdito, e não ele próprio, assim como pune-o pela ofensa de sangue que ele cometera, sem sujar as mãos da mesma maneira. O homem de preto também obtém, por esse método, a imortalidade, mas ele dificilmente se teria sentido abençoado: ele ficou preso no que os visitantes póstumos da Ilha chamam de monstro da fumaça, ou em cadáveres, por uma dada quantidade de tempo, que ele tem a faculdade de reanimar, incorporando também as lembranças do falecido. É esta a maldição para quem cai no poço da água dourada.
Podemos interpretar os acontecimentos da juventude de Jacob e do “monstro” como a continuidade, em ares mais sérios, de seus jogos de infância. Havia um jogo de tabuleiro, de pedras brancas e pretas, que eles sempre jogavam, obviamente com Jacob representado pelas peças brancas e seu irmão sombrio pelas peças negras. Não fica claro se eles conheciam as regras e se realmente sua primeira partida já teve um fim – provavelmente não. Como semi-deuses (ou seres que, embora não onipotentes, não podem morrer), eles podem “criar o próprio jogo”, estabelecer regras que devem ser iguais para ambos, a fim de determinar um vencedor justo. Como tampouco eles podem se ferir mutuamente, tiveram de imaginar soluções para esse impasse, para que sua desavença não fosse eterna. Os fiéis da balança seriam os seres exteriores. A eles caberia decidir a cor das peças vitoriosas. Ficou estabelecido que qualquer um de fora poderia matar Jacob. Que, em compensação, o monstro da fumaça não poderia matar os “candidatos” (tanto quanto eles não podem causar qualquer dano ao monstro). Que a única forma do monstro ganhar o jogo seria se os “candidatos”, trazidos à Ilha para escolher-se o sucessor de Jacob, acabassem, em conseqüência de suas próprias ações, se matando, até não sobrar mais nenhum. Jacob estaria proibido de explicar essas regras a qualquer candidato até bem perto do fim. O monstro da fumaça só poderia realizar seus objetivos – assassinar um por um dos forasteiros de sua Ilha – de modo indireto, falando pela boca dos outros, alimentando complôs, mostrando-se convincente. Mais do que um jogo entre as duas deidades, é acima de tudo uma aposta: Jacob acredita que, apesar de todas as suas debilidades, o homem seja capaz de se responsabilizar por seus atos e de agir heroicamente, sem pedir nada em troca, quando a situação o exigir; o monstro da fumaça acha que o ser humano tem a natureza corrompida e está por isso condenado à extinção; e tudo o que o homem de preto enfeitiçado quer é desabitar a Ilha e privá-la de sucessores em potencial para o cargo de guardião da luz. O que ele faria do lado de fora, uma vez liberto, nunca é mais do que aludido na série, mas essa possibilidade é de alguma forma encarada por personagens-chave como o fim prático da civilização ou o Apocalipse.
A aposta dos irmãos prossegue sem grandes novidades até os séculos XX e XXI. Embora a Ilha sempre receba visitas, nenhuma delas até lá pertence à geração dos “candidatos”, e aqueles que pisam no santuário ou se tornam parte permanente do povo que habita a Ilha e serve a Jacob, ou acabam por satisfazer a sede de sangue do monstro, que adora aparecer diante de quem se perde na selva.
Um resumo da quinta temporada poderia ser o seguinte:
Na era dos satélites, na Guerra Fria, os americanos mapeiam a superfície terrestre e conseguem encontrar a Ilha, em algum lugar não-especificado do Pacífico Sul. O exército americano a utiliza como armazém para descarte de material nuclear, incluindo uma bomba de hidrogênio. O lugar também se torna a sede de um experimento social de vanguarda chamado Iniciativa Dharma, patrocinado por magnatas de ideário utópico. Eles chegam a compreender a singularidade do local e reunir cientistas da mais alta estirpe, gente que acredita em fontes de energia limpa e eternamente renovável (muitas décadas à frente de seu tempo!), em propriedades medicinais do eletromagnetismo e também no conceito (mais do que manjado para a ficção científica de nosso tempo) chamado “viagem no tempo”. A aparição súbita de alguns indivíduos “estranhos”, que não surgiram como os outros – sorteados e trazidos do “mundo civilizado” para viver uma “vida alternativa” -, mas que pareciam ter se infiltrado na Dharma com uma agenda própria, desencadeia a explosão do artefato da bomba H que estava aterrado no acampamento do “povo do Jacob”, que não se confunde com a Iniciativa Dharma. Esses “estranhos” eram alguns dos “candidatos”, que na realidade, propriamente falando, ainda estavam a 27 anos de pisar pela primeira vez na Ilha (por intermédio das “ocorrências fabulosas” explicadas a seguir) – Ilha que cada um deles só pôde conhecer porque quisera o destino que ali caísse um avião, no meio do vôo comercial nº 815 da Oceanic Airlines, que ia de Sidney a Los Angeles, em 2004.
Nenhuma explosão de bomba nuclear aconteceu de fato, mas desencadeou-se um gatilho energético para que os candidatos, perdidos no tempo, pudessem voltar à época presente – todo o plano fôra teorizado por um físico brilhante, que, em meio aos descaminhos da vida, fôra parar na mesma Ilha, poucos meses depois do desastre aéreo, ainda em 2004, como membro de uma “expedição científica”, tendo ele, que não era um dos candidatos de Jacob, viajado no tempo junto com o grupo. A teoria desse físico, Daniel Faraday (o Daniel Faraday de LOST, não o Daniel Faraday da Física real), mostrou-se parcialmente correta: embora aqueles que se encontravam fora de seu fluxo temporal tenham sido devolvidos à “linha do tempo de origem (já em 2007)”, sua concepção de que “a explosão por fusão liberaria tanta energia que cancelaria todos os eventos que haviam levado à queda do Oceanic 815, tornando possível que a viagem terminasse no aeroporto de Los Angeles com todos a salvo, apagando da história do universo as memórias e lembranças de qualquer laço criado entre aqueles passageiros a partir da queda do avião” estava crassamente equivocada. Não só não “se cancelou nada”, porque a linha do tempo é uma só, e tudo que os candidatos fizeram na década de 70 realmente impactou no estado das coisas de 2004-2007, sendo inclusive determinante para sua própria queda na Ilha, como Faraday pagou pelo erro de cálculo com a própria vida de uma maneira um tanto sofocliana: morrera nos braços de uma versão bastante jovem da própria mãe, Heloise Hawking, proferindo a frase: “Você sabia!… Você sabia e mesmo assim você me mandou… para morrer aqui!”.
Heloise e Charles Widmore eram dois jovens ingleses que haviam se incorporado aos discípulos de Jacob. Seu conhecimento da “aposta” devia ser algo limitado, mas eles sabiam que deviam dedicar suas vidas à causa de Jacob, que contava com o auxílio de pessoas abnegadas para realizar sua sucessão na hora certa. Heloise estava grávida quando matou a versão envelhecida de seu filho Daniel, que para ela não passava de um estranho quando fôra baleado. Daniel trazia consigo um diário. Este diário explicava todos os princípios da viagem no tempo e continha anotações pessoais dos últimos anos da vida de Daniel. Sem dúvida a viagem no tempo era real, e aquele era o filho de Heloise e Charles. Através do diário, de forma privilegiada, o casal veio a conhecer partes do plano de Jacob que ainda não haviam se consumado, até 2004. Dentre as informações coletadas, havia uma intrigante: “Se algo der errado, Desmond é a minha constante”.
Por razões que não são inteiramente descobertas, Heloise e Charles se separam. Desde a “explosão” da bomba H, nenhuma gravidez na Ilha conseguia ser levada até o fim. Heloise volta à Inglaterra para dar a luz a Daniel. Algum tempo depois, Benjamin Linus (que também havia crescido na Ilha, tornando-se um dos seguidores de Jacob de mais alta hierarquia) expulsa Charles, seu desafeto, da Ilha. Apesar disso, tanto Heloise quanto Charles continuam, cada um a sua maneira, se devotando ao futuro da Ilha e aplainando o terreno para a chegada dos candidatos. Isso incluía, naturalmente, a educação do próprio filho de ambos, Daniel. Desde muito novo ele, que possuía talento musical, foi forçado a estudar para desenvolver seu gênio matemático e em seguida se formar com excelência em Física na Universidade de Oxford. Heloise comprou-lhe um diário, idêntico ao diário que Daniel lhe havia deixado quando morreu. Daniel lecionou por alguns anos na cadeira de física da universidade. Foi num desses dias que ele recebeu a visita de um homem chamado Desmond Hume, que alegava estar transitando entre dois tempos, ora na mente do seu eu-atual, ora na mente de uma versão dele mesmo envelhecida cerca de dez anos. A princípio, Daniel pensou que fosse um trote aplicado por alguns de seus alunos descrentes de suas teorias, até que ele pôde comprovar a veracidade do que Desmond dizia e ajudá-lo a sair de seu transe, que acabaria levando-o a um derrame cerebral se durasse mais tempo. Daniel nunca mais viu Desmond no mundo exterior. Charles, tornado um bilionário, financiou anonimamente a carreira do filho, recrutando-o para se juntar à população da Ilha em 2004. Embora fosse um ato doloroso e estapafúrdio, Heloise e Charles compreenderam que o mundo dependia de que tudo sucedera, dali em diante, de forma que a viagem no tempo dos candidatos e de seu próprio filho fosse tornada possível, para que os eventos que eles viveram no passado ocorressem tais e quais. A razão é que sem uma coisa não poderia haver a outra, e os candidatos de Jacob morreriam presos em viagens temporais e deixados à mercê das maquinações do monstro da fumaça.
Outra coisa que o industrial Widmore sabia era que uma hora ele e um homem chamado Desmond cruzariam seus destinos. Desmond se tornou o namorado de Penelope, a filha de Charles de um segundo casamento. Ele procurou Widmore para pedir a mão de sua filha em casamento. Sabendo que uma questão bem maior estava em jogo, Charles tratou Desmond friamente, induzindo-o a abandonar Penelope (Penny), até que ele provasse a seu sogro, a sua amada e a ele mesmo que ele, um reles desempregado, era digno da fortuna de Penny Widmore. Sem falar que Desmond, enquanto ainda se preparava para oficializar seu noivado com Penny, antes de ter sido completamente desencorajado por Charles e de tomar sua drástica resolução, foi surpreendido por uma enigmática e soturna Heloise, recepcionista de joalheria, que lhe predicou: “Seu destino não é ficar com ela, é ir parar numa Ilha onde apertará um botão para salvar o mundo”. Ele intuía o peso da veracidade dessas palavras, embora isso não tornasse seu conteúdo menos absurdo. Sua sensação de culpa se intensificou, e isso ajudou Desmond a dar seu salto de fé: terminar o relacionamento com Penny para “se provar” diante dos olhos do mundo, e provar para si mesmo que poderia alterar o seu destino, que até ali tinha sido o de “um homem covarde”.
Levado a pensar que a enorme disparidade de classes era o real motivo da aversão de Charles a si mesmo, Desmond não tinha elementos para desconfiar que seu quase-sogro agira teatralmente. Quem acompanha LOST também só conhece os reais fundamentos desta “profunda antipatia” nos últimos capítulos. Os conglomerados empresariais de Widmore patrocinam uma corrida de regatas ao redor do mundo. Desmond se prepara para participar da competição com o objetivo de vencê-la para pedir a mão de Penny e ser aceito. Ele consegue que lhe doem um veleiro e começa a treinar. Não surpreendentemente, dadas as circunstâncias, ele acaba ficando à deriva durante uma tempestade e vai parar na Ilha.
Ele acorda dentro de uma escotilha e é avisado pelo seu salvador que fôra encontrado na areia, que “o mundo acabou” e que só sobrou este pedaço de terra em que estavam. Que ele devia tomar regularmente uma vacina, pois infelizmente foi exposto por alguns minutos às toxinas do ar da superfície, que se tornou irrespirável. Toda vez que um dos dois precisasse sair – o que só acontecia de 3 em 3 meses, para reabastecer os suprimentos da despensa, lançados de pára-quedas num ponto muito próximo à escotilha, por um avião, que sobrevoava aquela área, pontualmente e todas as vezes, conforme o cronograma do reabastecimento de suprimentos -, deveria usar uma roupa própria para evitar ser infectado. Para evitar o acúmulo e a descarga do excedente de energia eletromagnética represada num bolsão, era necessário digitar um código numérico a cada 108 minutos num terminal de computador. Como a tarefa é ingrata e sempre interrompe o sono do digitador, ela era feita em duplas, até que o parceiro anterior do homem que resgatou Desmond, Radzinsky, se suicidou. Radzinsky fizera parte da Iniciativa Dharma e testemunhara “o incidente”: após perfurações mal-feitas, esse reservatório energético de eletromagnetismo se tornou permanentemente instável, e no mesmo dia em que estruturas começaram a desabar e implodir, uma bomba H foi detonada, sem que se detectasse uma explosão. Além disso, vários dos envolvidos, que descobriram ser clandestinos no projeto Dharma, desapareceram por completo após a detonação. De alguma forma, a bomba H ajudou a estabilizar a situação e a escotilha para administrar a liberação em pequenas doses da energia eletromagnética pôde ser construída antes de um novo desastre.
Com o passar do tempo, os seguidores de Jacob terminaram o expurgo dos membros da Dharma, mas Radzinsky e seu parceiro, que deviam cuidar desta estação eletromagnética em especial, continuaram trancados executando seu serviço, saindo apenas para repor a despensa. Radzinsky ficou louco e atirou na própria cabeça enquanto seu colega dormia. Este homem, que depois de anos conseguia um substituto para seu colega morto, ensinou mais uma coisa a Desmond: “Se você não quiser passar a vida inteira apertando botões, e também não quiser que o mundo desapareça por sua causa, existe uma alternativa: girar a chave de segurança que cessará a instabilidade do bolsão, mas desintegrará aquele que girar a chave”. O homem tinha dito a Desmond que “não havia veleiro”, que ele devia ter sido feito em pedaços, pois Desmond foi encontrado já na praia. Secretamente, porém, ele se ausentava durante os turnos em que Desmond digitava o código no computador para continuar reparando o veleiro, que ele usaria em pouco tempo para tentar escapar da Ilha. Um dia Desmond viu um rasgão na roupa de quarentena de seu companheiro e decidiu segui-lo, descobrindo o segredo. Os dois brigaram do lado de fora da escotilha. Desmond se sentia enganado ao constatar que não havia contaminação do ar nem quarentena. Mas Desmond empurrou o colega, que bateu a cabeça num rochedo pontiagudo, matando-o acidentalmente. Sem tempo para chorar a morte de seu único companheiro ou enterrá-lo, Desmond correu de volta à escotilha para digitar o código no prazo de 108 minutos, que estava no fim; ele cumpriu a operação com retardo de alguns segundos. O acúmulo de energia começou a torcer as estruturas metálicas, mas a inserção do código foi lida pelo computador e a distribuição da energia pelo bolsão foi normalizada. A sobrecarga foi aliviada; no entanto, o acúmulo de energia por aqueles breves segundos foi o suficiente para derrubar um avião que sobrevoava a Ilha no exato instante da anomalia energética: o vôo da Oceanic 815.
Desmond ainda permanece digitando o código sozinho por algumas semanas; quando está prestes a sucumbir e suicidar-se, abre o livro de Dickens que levava sempre consigo, e que devia ser sua última leitura antes de morrer, e encontra uma carta de Penny, que nunca lera antes, em que se lia: “Para seguir vivendo, alguém só precisa ter uma pessoa no mundo que o ame”. Ele desiste de tirar a própria vida. Mais algum tempo passa e os sobreviventes da queda do vôo 815 conseguem abrir a escotilha, que não tem portas por fora, usando dinamites. Desmond se aproveita para fugir, ensinando o código para seus “sucessores”; ele embarca em seu veleiro, que ainda o aguardava na costa, mas algumas semanas depois reaparece no mesmo litoral. Ele diz aos sobreviventes acampados na praia que navegou o tempo todo numa só direção. O que corroboraria a visão de seu ex-companheiro de escotilha de que o mundo já havia acabado, e que a única coisa sobre as águas era a Ilha.
Enquanto se embriagava, desconsolável, na noite em que voltara à terra firme, Desmond é interrogado por John Locke, um dos candidatos e tripulante do vôo. John acha que toda a história de apertar o botão para salvar o mundo era um experimento psicológico da Iniciativa Dharma. Desmond aceita ir com ele até a escotilha no dia seguinte, render o homem que havia ficado para digitar o código e esperar a contagem regressiva zerar para ver o que aconteceria. Nos segundos finais, lembrando o que aconteceu no dia em que o avião caiu, Desmond desiste do plano de John; mas John destrói o computador que era usado para inserir o código. Desmond sabe que existe um bolsão eletromagnético que irá explodir e que a única forma de salvar os demais será se sacrificando: ele gira a chave de segurança, que guardava dentro de seu livro de Dickens, o céu muda de cor, depois um intenso clarão e um zunido de alta freqüência deixam todos na Ilha desorientados e incapacitados por alguns instantes. Desmond não morre, apesar de ter suas roupas desintegradas e de a escotilha ser totalmente implodida, deixando uma enorme depressão no solo, como se uma construção jamais tivesse existido naquele lugar. O que nem Desmond percebeu naquela hora é que ao girar a chave ele se tornara uma verdadeira chave de segurança humana, o único ser humano imune aos efeitos de radiação eletromagnética, não importa a intensidade – exatamente o plano de Jacob desde o início (e conseqüentemente o de Heloise Hawking e Charles Widmore também) -, além de adquirir com isso um senso singular da coexistência de seu passado, presente e futuro fundidos a sua consciência, “dom” que seria potencializado a cada nova exposição a correntes magnéticas.
E embora este ensaio não se destine a resumir todo o enredo e saturar o leitor com todos os spoilers imagináveis, faz-se necessário, ainda, contar apenas alguns eventos imediatamente subseqüentes, para aparar as arestas do tema viagem no tempo.
A velha rixa pessoal entre Benjamin Linus e Charles Widmore sobre quem seria o líder humano do time de Jacob estoura no momento em que o segundo desvenda as coordenadas da Ilha e ancora um navio nas suas proximidades. Enquanto isso, os sobreviventes do vôo 815 se preparam para sua chegada, dividindo-se em dois grupos: o daqueles que crêem que quem está no navio são assassinos que querem exterminar a população da ilha (capitaneados por John Locke, influenciado por Benjamin) e o daqueles que querem desesperadamente ser resgatados e acreditam que, bem-intencionados ou não, os tripulantes do navio são sua melhor chance de escapar da Ilha desde a queda do avião (liderados por Jack Shephard, que apesar de não ter nome de filósofo ou cientista tem um sobrenome bem sugestivo). Nêmese ou resgate? Na realidade, nenhum dos extremos: o único objetivo da expedição dos mercenários pagos por Widmore era arrancar Benjamin Linus da Ilha; mas seus meios não eram nem um pouco comedidos. Encurralado, Benjamin decide usar um último recurso ensinado por Jacob: “girar o eixo da Ilha”, um mecanismo imemorial instalado num poço capaz de transportar a Ilha para novas coordenadas, a fim de ocultá-la novamente dos radares do mundo exterior. O preço a pagar é que quem gira a “manivela subterrânea” é automaticamente exilado, ressurgindo num dos portais que servem como saídas, espalhados pelos continentes da Terra. Benjamin desloca a Ilha e volta ao mundo exterior, mas nesse momento ela começa a viajar temporalmente também (além de fisicamente), como um cavalo fora de controle ou um disco que quica sobre a vitrola e que não se permite ser lido, o que deixa todos os seus habitantes num estado pânico de viajantes do tempo à deriva, sem um referencial que os possa salvar. Assim como Desmond era a constante de Faraday (que veio no navio de Widmore, embora nada tivesse a ver com o esquadrão armado cuja missão era procurar e trazer Benjamin sob custódia) – e Penny a de Desmond -, a menos que cada um encontrasse sua própria constante (uma referência situada no mundo exterior que realocasse sua consciência no espaço-tempo devido ou de origem, o único em que se poderia sobreviver), após um certo número de viagens no tempo estaria fadado a morrer. O intervalo das viagens se tornava cada vez mais curto, inviabilizando qualquer tentativa dos “viajantes à deriva” manterem a calma ou entenderem o que se passava, muito menos de acessar uma suposta constante. Sobrou a John Locke, o único que sabia o que Benjamin havia feito, a última cartada, da qual no entanto ele não estava muito seguro: girar a manivela da Ilha uma vez mais. Ele também acaba exilado, e a Ilha, por fim, pára de saltar para trás e para frente no tempo, i.e., fixa seus “passageiros” num tempo; este tempo, porém, é a Guerra Fria, 1977, durante as experiências da Iniciativa Dharma…
Nada mais é que um compêndio de cabeças-duras e obstinações, longas neuroses em processo de cura…
A parricida que se torna mãe dedicada e é salva pelo cavalo preto da vida -Yin-Yang- versus o cavalo branco da Redroom de TP; A vítima vingativa que se torna herói altruísta; O javali preto que… O protagonista que tem de aprender a ser só mais uma peça no tabuleiro; A peça no tabuleiro – o rei, eu diria, a peça mais especial – que tem de se conformar em ser o bode expiatório marginal do jogo, sem decidir diretamente o ganhador (versus o jogo de xadrez de TP); E, em contraposição ao objeto que cumpre um destino, o azarado que faz a própria sorte. Mas que também peleja até aprender a fazê-la. O homem que morre tantas vezes e ainda encontra um significado no autossacrifício…
In der Wirklichkeitstehen: estar com os pés no chão (terra; realidade)
lazareto: hospital de leprosos, espaço destinado à quarentena
mit-teilsam: com-unicativo
Selbst-Verblendung: autocegamento
Verantwortlichkeit: responsabilidade
“Da ist eine Fliege in meiner Suppe”
“ins Dasein kommen” vir-a-ser
Desde que eu me entendo por gente
“Caso Ilse: o <ponto de partida> era o amor passional pelo pai e o sofrimento constante pelos maus-tratos que ele dispensava à mãe.”
“Enquanto, no Caso Ilse, o Dasein estaba sob uma alta-tensão que durou muitos anos e <deu vazão> a si mesma primeiramente no sacrifício da queimadura, depois no delírio de perseguição e no delírio amoroso, a alta-tensão sob a qual está o Dasein no caso Suzanne Urban mostra-se não apenas em um amor <idólatra> pelos pais, mas também em um culto amoroso hipocondríaco <quase anormal> aos pais e ao esposo. Esse culto é afetado profundamente e é colocado sob a máxima prova quando o esposo (um primo) contrai câncer na bexiga.” “Além disso, ressalte-se que não se trata de um delírio de perseguição singular <residual> que se liga a uma vivência de desabamento do mundo, como no caso Schreber-Flechsig, mas, como nos casos Lola e Ilse, de um delírio de perseguição anônimo ou plural.”
(Nota: os títulos a seguir foram insertos por mim de forma arbitrária, não correspondendo nem à posição dos capítulos e tópicos do livro nem coincidindo em nomenclatura.)
1. A FAMÍLIA RELATA O CASO
“nenhuma amizade autêntica.”
“Sobretudo nos últimos anos, colocou que o ideal haveria sido não ter se casado, mas ter feito carreira no teatro. Natureza muito erótica (…) gostava de contar ao velho pai piadinhas eróticas.”
Quem não vira artista fica doido; mas e o artista, anormal, fica o quê?
“Quando menina, era notavelmente bonita. (…) Não agia como uma coquette” “Tornou-se noiva de um primo muito rapidamente”
“Aos 27 anos começaram ataques de espirro paroxísticos [?] que permaneceram fechados à influência terapêutica. A organoterapia junto a renomados laringologistas falhou completamente.”
“O marido era dominado pela esposa, cedia a ela constantemente”“só tinha interesse pelo câncer do marido, não suportava qualquer outro assunto. Indignava-se se alguém risse em sua frente. Queria acima de tudo matar o marido ela mesma e suicidar-se depois. Desejava um acidente que trouxesse a morte para os dois.” “Insultava os médicos porque eles não matavam o marido.”
“A paciente ingressou num hospital psiquiátrico (…) desde o começo, acreditava que estava sendo observada, perseguida pela polícia, radiografada; segundo ela, a família (…) estava tomando seus bens; no parque havia fios elétricos que registravam os passos de todos, ela teria sido infectada com sífilis, além de ter câncer, e todas as doenças possíveis. Recusava comida, acreditando que estava envenenada. À noite, vozes entravam-lhe na cabeça e mandavam-na repetir tudo que havia de mau; tudo seria impresso e divulgado por meio de gravadores especiais. Havia fios por toda parte. Mesmo no banho, haveria aparatos que a fotografavam nua para expô-la publicamente. Julgava que misturados aos remédios tomava sêmen de rãs e lagartos, queria vomitar tudo.”
“As idéias persecutórias pioravam cada vez mais. Gritava da janela (…) haviam cortado fora o nariz, as orelhas, os braços da mãe. Os familiares estavam enfiados em meio a fezes, batiam neles com barras de ferro, etc.”
“alta após 4 semanas”
“Nos últimos tempos, envelheceu muito, os cabelos esbranquiçaram rapidamente.”
2. COMO SUZANNE SE VÊ
“[Internada na clínica de Binswanger,] escreveu em poucos dias 2 cadernos completos, em alemão, embora esse não fosse seu idioma natal. (…) A partir dos escritos, pode-se perceber o quão exatamente as informações dadas pela paciente concordam com as dadas pelos familiares do ponto de vista do tempo e dos fatos”
“Visto que a doença piorava cada vez mais, que meu marido começou a sofrer de insônia total apesar da medicação e que só comia se o forçavam e se alimentava principalmente de sangue prensado com creme, ovos e carne, os médicos sugeriram, uma vez que não se podia obter o novo medicamento (mesotório) onde morávamos, que fôssemos a Paris, ao que meus familiares também me encorajavam, dizendo que eu devia de toda maneira, embora estivesse arrasada, inconsolável, tentar também isso, a fim de nunca poder me culpar por [não] ter tentado fazer todo o possível para, se não salvar, ao menos prolongar a vida do homem. Essa estadia de 2 meses em P. foi o inferno para o pobre homem; alguns médicos queriam mandar operar meu marido, proposta, contudo, veementemente rejeitado por outros médicos.”
“Enquanto eu estou andando pelo parque, eu escuto minhas expressões um tanto triviais serem repetidas por algumas mulheres que estão andando o mais perto possível de mim, a fim de me mostrar que elas ouviram tudo. Isso me deixa frenética. Até mesmo meus pensamentos são repetidos por outras pessoas. Eu digo para minha irmã ‘Nós estamos aqui entre espiões, o que eles querem de mim?’, mas ela apenas ri”
“eu pressinto uma corrente elétrica”
“tornei-me assassina de toda a família; não isso apenas; eu mando despedaçar a tumba do meu pai. Esses pensamentos me vêm na língua …, que eu nunca usei em casa. (…) e eu, assassina, estou deitada aqui na cama, estou sendo alimentada, estão me dando banho enquanto meus inocentes familiares atormentam-se.”
“nós somos mendigas, eu caluniei vocês todos por meio do poder do diabo.”
“Agora estou vivendo com a única esperança de escrever um pedido (petição) de que fuzilem as pobres pessoas sofridas ao invés de martirizarem-nas por tanto tempo.”
3. ANOTAÇÕES DE BINSWANGER
“Teriam-na mandado dizer que seu sobrinho é um socialista. Sente depois, com toda a exatidão, que estão arrancando os olhos dele.”
“tão logo conta uma piada, faz mais uma vez censuras a si mesma. (…) Conta com muito gosto as piadas mais sujas. Pergunta quem lhe tirou o entendimento.”
“Em 4 de setembro de 1920 é retirada do hospital psiquiátrico pela irmã imprudente, depois da assinatura de uma declaração rigorosa (…) Desde então, não ouvimos sequer mais uma palavra a seu respeito, e todas as buscas ficaram sem resultado devido aos caos da I e II Guerras Mundiais.”
“Até o último momento, a letra era tão precisa e pequena que a paciente podia colocar toda a história de seu sofrimento em um cartão postal”
4. ANÁLISE DO DASEIN
“O médico disse-lhe que havia uma parte da bexiga que estava ferida, mas, quando ele virou as costas, fez para mim uma cara tão terrivelmente desesperançosa que fiquei completamente paralisada (…) de modo que o médico agarrou minha mão para me indicar que eu não devia mostrar a ele nenhuma das minhas sensações. Essa mímica foi uma coisa pavorosa! Meu marido também percebeu algo, talvez, mas exibiu uma expressão completamente amigável e apenas perguntou ao médico de onde isto poderia ter vindo; ele respondeu que isso frequentemente está no sangue, sem que se saiba sua origem.”
“horror mudo”
“Suzanne Urban leu no rosto e na mímica do médico não apenas a sentença de morte do marido, mas também a perspectiva das dores tormentosas que o aguardavam.”
“Todo o Dasein estava agora sob o domínio do tema de que foi encarregado na <cena original>, o tema do <câncer do marido>. Como algo de que alguém é encarregado <a partir de fora>, esse tema implica um encargo, o encargo, propriamente, de <levar a cabo> esse tema de alguma maneira, de não sucumbir a ele, mas vencê-lo.”
“Suzanne Urban agora fala consigo mesma, ouve a si mesma, escuta exclusivamente a si mesma. Se o dito de que todo monólogo é um diálogo (Vossler) é correto, isso também se aplica neste caso.”
“Enquanto o si-mesmo aberto (aberto à verdadeira comunidade) atenua a carga de tal tema falando a respeito dele com um amigo, o si-mesmo que se enclausura com o tema procura carregá-la <exclusivamente> em seus próprios ombros, sem ver que esses ombros se tornaram fracos demais para isso há muito. A essa altura estamos diante do 1º passo desse Dasein em direção ao cegamento do si-mesmo ou à extravagância.”
Vacas não-malhadas e gatos no telhado: “Nachts sind alle Kühe grau”
“Como é regra nos delírios de perseguição plurais, aqui o pretenso fundador da <desgraça de toda a família> [o psiquiatra da internação] vai depressa para o 2º plano para temporariamente dar lugar a uma pessoa completamente diferente (<a prostituta de rua>, a enfermeira) e somente ser mencionado de novo ocasionalmente. O Dr. R. figura aí como aquele que a separou de seu marido (…) o carrasco da família” “Apesar de tudo isso, não parece fora de questão que o Dr. R. deva seu significado de desgraça ou de pavor a uma <identificação atmosférica> com o urologista que <martirizou> o marido com seu exame e lhe revelou o diagnóstico de câncer tão <pavorosamente>. Pois o verdadeiro carrasco, aquele com quem <a desgraça de toda a família> começou, é decerto o médico da cena original”
Te peguei pela nota de rodapé.
Tu te tornas eternamente citável pelo artigo que publicas.
“Também a autosseculusão frente aos outros é uma forma desse ser compartilhado (…) Todavia, com isso ainda estamos na superfície, completamente à parte do fato de que a passividade sempre implica uma forma de atividade e vice-versa.”
Mundchen, a boquinha de Munique.
É fitar e começar: start and resume (pressing start): starren: é ver pra crer: que fita, pode crer!
Select your destinyfreedom!
Pausar qualquer progresso.
Engessar qualquer um que deu um pau na máquina que deu pau.
Congelar, reter, dar crise de pânico e resetar.
Meu torpor seguro onde cristalizaram as emoções já faz um tempo.
Já faz um tempo que as pessoas agem como se portas-afora fossem.
Ágora é que são elas, cuspindo na cara dos carnavais.
Parcas fora do baralho, só estão no mundo real –
Presente de hilota e pelego!
Recebo, não nego, dadivoso logro quando hipomaníaco eu estiver.
Rancorosa Lola Corre do Tempo que Assedia a Moça de Somas Bonitas.
Poxa que rosa sua coxa, recorro aos meus pensamentos para encerrar o coro
Com uma mensagem que não escoe pelo ralo: uma ponte entre nossas
Aspirações.
Abismo cheio de miasma, conhecido como el mismo.
Cacarejou a cara do novo dia normal e malogrado.
O Apanhador de Sentidos no Campo do Nonsense.
Em termos de sentido da vida, a única coisa que se apanha, em muitas pessoas, é seu eu-criança. Isso é falta de apanhar, K.! Preguiça mental!
Entorpecido em suas sólidas crenças morais.
Fagulhas de luz negra em seu olhar gasoso, de névoa desinteressada.
História da Moral: Não conte.
Wish-to-do-list:
Ator: doar um
Um ator, atordoar
fina morte morna de morfina
“Em lugar da simesmação autentica do Dasein no sentido da existência, entra a errância sem-fim para o <mundo pavoroso>, para a <odisséia pavorosa>.”
“A notável idiossincrasia das narrações delirantes dos esquizofrênicos está correlacionada ao fato de que o <como> da narração, a representação linguística, pode ser extremamente sucinta e precisa – tão precisa que um leigo, em regra, dará crédito às declarações delirantes da paciente prontamente se elas não forem abstrusas demais –, enquanto o <o quê>, o conteúdo de suas narrativas, é em regra notavelmente impreciso, vago, ambíguo, até mesmo <aventuroso>.”
“me sinto como se…”
“Quanto mais evidente é a sinistra entrega de Suzanne à publicidade, mais os órgãos executores dela (aqui como em outros lugares) se subtraem a uma verificação exata. Todos procedem de maneira mais ou menos secreta. (…) está cercada de espiões, contudo não consegue vê-los e identificá-los; ela escuta <um apitar policial>, mas não vê nenhum policial. (…) A despeito do sentimento de ódio para com o Dr. R e para com a <prostituta de rua>, Suzanne, ao contrário do presidente do senado Schreber, não implica com uma pessoa determinada, ao redor da qual circula amor & ódio. Não foi <ele> nem <ela> que armou, mas simplesmente <armaram> uma <armadilha pavorosa>” Bem weberiano!
“Lidamos com duas <linguagens> da paciente ao mesmo tempo: uma linguagem do pavor e uma linguagem da verificação calma e da reflexão. Delírio e reflexão sóbria não se excluem mutuamente”
“Suzanne ouve dia e noite um uivo pavoroso, como o dos lobos. <Tossem> e <cospem> alto diante da janela dela, ela vê grandes facas de cozinha que estão numa janela e grita alto ao ver algumas gotas de sangue sobre o chão, etc.”
“a criada do hospital está vestindo os aventais dela, para <mostrar-lhe> que estão fazendo <revistas> (policiais) em seu quarto. As declarações de uma senhora de que se deveria deixar o gato <dar uma boa mastigada no pássaro>, certos movimentos manuais e o ato de puxar o nariz, tudo isso tem o mesmo sentido, que algumas vezes ela escuta expresso por palavras: <a cabecinha precisa cair>.”
“Depois de pensar como seria bom se quisessem decapitar ela própria (em lugar de seus familiares), ela vê <diante de si> um menino que tem um sabre de brinquedo fazer o movimento da decapitação. Ao capinara grama <mostram> a foice significativamente: <Eu, contudo, entendi o sentido da foice>.”
“zombam dela, até mesmo da doença do marido: Câncer, câncer, pelo amor de Deus! Por que não lagosta?”
“O que torna o <paciente que sofre de delírio> alheio a nós, o que o faz parecer alienado não são percepções ou idéias isoladas, mas o fato de seu enclausuramento em um esboço de mundo dominado por um único ou alguns poucos temas, ou seja, enormemente estreito.”
“há os pensamentos que mandam-na pensar!”
“obrigam-na a pensar que os familiares são cobertos com chumbo e piche.”
“O mais tormentoso de todos os tormentos é, na verdade, a obrigação, que parte de um poder diabólico, de caluniar seus familiares <em pensamentos> ou com palavras e, desse modo, de fazer-se culpável pelos martírios e pela decadência tormentosa deles, portanto, de ser uma criminosa, por assim dizer, uma criminosa a contragosto.”
1) ‘voz’ inquisidora; 2) poder caluniador dos pensamentos e das palavras; 3) instância transcendente que reflete o jogo de perguntas e respostas, sendo aceita como destino pela ‘voz’, que no entanto ‘corrige’ as respostas quando necessário.
“Aí vemos que O Dasein ainda consegue resistir à publicização dos <pensamentos> ou, ao menos, ainda consegue encará-la de frente se ela estiver em extrema contradição com o si-mesmo. No entanto, é claro que as acusações caluniadores surgem a partir do próprio Dasein.”
Detalhe curioso: a ‘voz’ diz-lhe injustamente o tempo todo que seu marido, inocente, é um falso-moedeiro. “Em Kreuzlingen [segunda internação, na Suíça], ela sempre ouve o martelar de uma forja <nos ouvidos>, que indica que ali mora a mulher do falsificador de dinheiro!”
“E se alguém designa todos esses pensamentos como idéias delirantes, declara ela energicamente: Não são idéias delirantes, são idéias verdadeiras! E logo após Suzanne faz de novo um relato completamente objetivo sobre o novo medicamento que foi inventado contra o câncer em Munique e que seu irmão buscará.”
“a intenção de matar o marido com veneno (arsênico) agora é colocada como a causa de sua internação no 1º hospital”
A paciente passa a se arranhar (no lugar da enfermeira), a se masturbar sem consideração com quem a assiste ao invés de ter vergonha de qualquer atitude em seclusão, uma vez que é sempre, de alguma forma, filmada e gravada: “O mundo compartilhado, que normalmente tem o papel principal no delírio, aqui afunda em direção à completa insignificância. O Dasein retorna à vida no próprio corpo e ao gozo do próprio corpo, agora não mais na seclusão do mundo com-partilhado, mas <diante dos olhos dele>.”
ESPACIALIZAÇÃO DO DASEIN ou TEATRO DA PERSEGUIÇÃO: “Ellen West designava seu Dasein como uma prisão, uma rede e, sobretudo, um palco, cujas saídas estão ocupadas por homens armados <de espadas sacadas>
Jemandem auf den Leibrücken
“Mesmo os pensamentos são <coisas> que são como que tiradas de um recipiente e inseridas nele.”
“mundo sinistro marionético” “Essa consciência de ser uma simples marionete nas mãos de manipuladores desconhecidos está relacionada ao que há de mais pavoroso nos pavores” “Também o predomínio da tecnologia e do maquinário tecnológico está correlacionado à redução do mundo desse delírio a um simples mundo do contato.”
Minkowski – Les notions de distance vécue
E agora, que devir poderá dar uma condição de possibilidade de me salvar? EEEEuuuuuuu
Já conhecemos da <experiência natural> o papel da polícia como um poder sinistro-anônimo. É preciso ler somente O Processo de Kafka para ter uma idéia do tipo, da dimensão e do efeito desse poder. Além da polícia, agora entram em ação também seus companheiros, seja a mando dela, seja por conta própria.” “o médico encaminhador ou ‘carrasco’, os enfermeiros, os outros pacientes, os companheiros de viagem, etc.” “órgãos executores do pavoroso”
“Em todos os casos, trata-se das formas do pegar ou ser-pego por algo relacionados ao mundo compartilhado, no sentido da impressionabilidade.”
“Acima desses <ramos> dos órgãos executores do pavoroso e, especialmente, acima da polícia, encontramos – como contratantes – o partido (anti-socialista), o exército de ocupação (vive-se então a Primeira Guerra Mundial) ou mesmo o Estado. E sobre tudo isso está simplesmente o poder diabólico do pavoroso, que ora é apenas pressentido, ora é ouvido como uma ‘voz’ terrível.”
“Apesar de ele assumir uma voz, não se chega manifestamente à personificação propriamente dita do poder do pavoroso na forma de um diabo ou um demônio, como muitas vezes podemos constatar em outros casos. Em todo caso, também não ouvimos dizer nada sore visões diabólicas.”
Szilasi – Potência e impotência do espírito
5.O PALCO: CASO ELLEN WEST X CASO URBAN. QUANDO A PEÇA ENCENADA E MUITO CONVINCENTE TORNA-SE POR FIM O REAL (TEATRO DO PAVOR). REFERÊNCIA À TRAGÉDIA GREGA CLÁSSICA.
“o Dasein que adentrou o símile do palco de Ellen West está de uma vez por todas cercado por cortinas que não podem ser deslocadas, por inimigos insuperáveis.”
Resignação como a “ajuda que vem do próprio Dasein”.
“Uma vez que a possibilidade de ser da impressionabilidade se autonomize completamente e, com isso, se torne desmedida e ilimitada, e, consequentemente, o Dasein se limite ao recebimento de impressões, fala-se de alucinação. Se essa receptividade estiver sob a supremacia do pavoroso e obtiver instruções dele, trata-se necessariamente de alucinações pavorosas. O mesmo vale para os pensamentos.”
“O <palco> inteiro está posto em cena por um único <diretor>, por um único poder que confere sentido e dá uma direção. É apenas a partir desse poder que todos os atos que conferem e cumprem sentidos recebem sua diretiva e seu cumprimento intencional.”
Mergulho na viscosa piscina do delírio. Fácil entrar, difícil sair.
“Enquanto o delírio é uma das formas da sujeição do Dasein a esse poder do pavoroso, o mito e a religião, a poesia e a filosofia representam, pelo contrário, formas da superação dele.” “O pavoroso diz respeito ao Dasein em seu isolamento no autismo”
Partida bem disputada antes da partida bem acenada
“como se…” símile, analogia, erga mínimo distanciamento, abstração, consideração fria de uma autoimagem – diferente de quando se passa ao delírio (psicose) p.d.
“O ser-espiritual é exatamente esse retorno, esse recuperar-a-si-mesmo do tumulto do mundo, a possibilidade da capacidade de ser no espírito.”
passa-se à voz passiva do ente
“O próprio pavoroso-aflitivo se transformou aqui: em lugar do marido, encontramos toda a família ameaçada pelo martírio e pela morte, no lugar do martírio por uma doença incurável, entraram os martírios feitos pela polícia, etc.”
“Daí resulta que, para a compreensão do delírio, não podemos recorrer nem a um distúrbio do juízo em termos de um equívoco, nem a um distúrbio de percepção sensorial, de ilusão por meio de alucinações. Ambos são já consequências da transformação da estrutura do ser-no-mundo como um todo, no sentido do ser-no-mundo deliróide.”
“Ele não se porta de maneira diferente de uma pessoa a quem aconteceu uma injustiça real. Não tem somente a necessidade de <dizer o que sofre>, mas também de defender a si mesmo e os outros dos sofrimentos. (…) o contato com o mundo compartilhado não está de nenhuma maneira interrompido.”
Quem tem inimigos sempre tem testemunhas e objetos neutros no universo. Não houvesse isso, seria apenas uma câmara de yin-yang e partir-se-ia para o confronto direto. No entanto, o inimigo é covarde, é astuto e “mais sujo” do que nós (os personagens delirantes), precisa recorrer a subterfúgios e a táticas infames para “ganhar de nós”. Como ainda cremos, apesar de tudo, numa justiça como princípio das coisas, olhamos em todos os recantos atrás de alguém que simpatize com nossa causa e perceba a vileza e a má-fé de nossos oponentes-perseguidores.
“Desse ponto de vista, aquele que sofre de delírio de perseguição não é de forma alguma autista.” Ele sofre de hiper-realidade. Ele pensa que cometeu o crime perfeito e agora sofre uma retaliação não menos impecável…
O perseguido é um secreto exibicionista.
“a <conversão> dos acontecimentos em <ação> vai muito mais longe do que onde já se chegou ou pode se chegar na tragédia e também no mais arrepiante drama barroco. (…) o delírio (…) supera a (…) tragédia (…) [porque] (…) também os pensamentos [são] recebidos [de fora e incluídos] na ação.”
“aqui, como na tragédia, não há <rua sem-saída>, mas tudo vai a qualquer lugar e vem de qualquer lugar e claramente <se refere a um centro>”, o que, como já ressaltamos, exclui o acaso. (…) [Mas,] enquanto na tragédia o poeta é quem <transforma a matéria-prima com sua força>, no delírio o poder formador (…) é cego, e isso implica DESTRUIR A FORMA” Édipo é o autor dessa mímica infernal.
6. CONTINUAÇÃO DO TÓPICO ANTERIOR. REFERÊNCIA À POESIA DE BAUDELAIRE.
Para usar o idioleto idiótico de Einstein, no delírio de perseguição, deus joga todos os dados que tem à mão!
À procura da batida perfeita, quer dizer da cena perfeita, quer dizer, da cena original.O protótipo de todos os males.
O SONETO DA DESTRUIÇÃO AUTÔMATO-SANGRENTA
“Sem cessar, ao meu lado, se agita o Demônio,
Ele nada em torno de mim como um ar impalpável
Eu o trago e sinto que queima meu pulmão
E o enche de um desejo eterno e culpável.
Por vezes ele toma, sabendo meu grande amor pela Arte,
A forma da mais sedutora das mulheres
E, sob pretextos especiosos da tristeza,
Acostuma meu lábio a filtros infames.
Ele me conduz assim, longe do olhar de Deus,
Arquejando e quebrado de fadiga, em meio
Às planícies do Tédio,¹ profundas e desertas.
E lança aos meus olhos cheios² de confusão
Vestimentas sujas, feridas abertas,
É a máquina sangrenta da Destruição!”
Baudelaire
¹ Tártaro
² de cisne
νοῦς
Nada no ar
Ar que queima
Fogo que chamusca,
soterra
Terra que cobre
Tudo de novo.
Imagina se esse eidos pega n’olho
Você vê resultados nos testes de Rorschach?
7. A PARANÓIA DE ROUSSEAU
“nos ocuparemos de um caso especialmente famoso e bem-documentado da literatura mundial, o de Jean-Jacques Rousseau.”
“Esse caso é muito apropriado ao que nos interessa, pois a língua francesa é extraordinariamente rica em expressões metafóricas, que são aquilo de que se trata aqui.”
“Rousseau sofria de um delírio de perseguição completamente não-sangrento, puramente social ou reputacional, em termos de uma difamação levada ao extremo, e, no entanto, nele encontramos um vasto número de expressões da esfera do maquinário e da tecnologia a serviço da destruição.” UnB murky atmosphere
Rousseau, Dialogues (vol. XVIII[!] das Obras completas)
“Barbarus hic ego sum quia non intelligor illis”
Ovídio
“Aqui sou um bárbaro, pois não me entendem”
agrupamentos, cochichos, risos desrespeitosos, olhares cruéis e selvagens, escárnio… atentados… o inimigo sabe exatamente aquilo que mais nos pode ferir, como que magicamente… somos nós que temos rivais finalmente à nossa altura, ou nossa mente nos prega essa peça tão pesada (nosso maior inimigo é nossa própria inteligência tão sutil em seu masoquismo autoacusatório?)?
esse corredor polonês assintótico, entre a certeza absoluta de ser o bode expiatório e a certeza de ser só um ser-num-mundo-ruim, eternamente em dúvida entre os dois pólos perfeitos, eternamente num julgamento impreciso sobre todos os eventos e circunstâncias em pingue-pongue
“Eles encontraram a arte de me fazer sofrer uma morte lenta me mantendo enterrado vivo”
R.
“lama”
“apunhalam-me impunemente”
“tudo é uma armadilha”
“maldade diabólica”
não soa, é!
a ameaça de um vago processo…
ocafka da Kapes
a vingança é impessoal
“Imaginem pessoas que começam a colocar cada um uma boa máscara, bem ajustada, que se armam com ferro até os dentes, que surpreendem seu inimigo em seguida, o acertam por trás, colocam-no nu, atam-lhe o corpo, os braços, as mãos, os pés, a cabeça, de modo que ele não possa se mover, colocam-lhe uma mordaça na boca, furam-lhe os olhos, o estendem sobre a terra e passam, enfim, sua nobre vida a massacrá-lo de pavor docemente, de modo que, morrendo por suas feridas, ele não cesse de senti-las tão cedo … a vista cruel deles fere seus olhos por todas as partes … o espetáculo do ódio o aflige e o dilacera ainda mais [na mente que no corpo]”
“…estes Senhores conjurados em um complô anônimo para difamar-me, inclusive em face do amanhã…” “o grupo parte de 2 rivais, cujo número rapidamente aumenta para 10, mas gradualmente passa a abranger o mundo inteiro (l’univers)”
neurose de transferência do inimigo mortal zena-carolina (nevrose à 4)
cassaram-lhe a aposentadoria integral
invejavam seu carrão
não o valorizavam o suficiente
obviamente falavam mal dele as suas costas (((sem provas)))
UnB – tornar-se um adulto – emular o progenitor
pessoas falam mal de mim às costas
fazem cartazes, infringem normas do Orkut (sim, com provas!)
desvalorizam-me a olhos vistos (a imbecil que desistiu do curso para cursar medicina diz que Heisenberg não pode ser citado numa aula de Introdução à sociologia, pois “não tem nada a ver”, física nada tem a ver com este mundo compartilhado em que pisamos – e mesmo se tivesse, vc fez uma analogia idiota!!)
o calouro que tomou pinho-sol (como se tivesse sido um litro, foi um gole de desafio, mas isso não importa, é a última coisa que importaria, o que importa é a mofa e a troça, passar adiante este relato mui cômico… e ele não tem direito de se enfezar com essa história, afinal, quem mandou ele… inclusive quebrar o dente numa escada numa festa… que ridículo! que ridículo ele descontar hipócrita e dissimuladamente em seu blog intelectual – ele não tem esse direito! – ele me chamou de chato lá… disse que eu dou sono, eu atrapalho, que NÓS SOMOS BURROS, inadmissível, alguém que tomou um gole de pinho-sol ser superior a nós, ovelhas de rebanho, em qualquer coisa que seja!…apague seu blog, viva de acordo com meus preceitos, seu… doido… retifico… seu menos-que-doido pois eu li em Foucault que doidos são seres complexos e honrados vc é um menos-que-nada-e-além-do-mais-vc-é-um-playboyzinho-que-estudou-no-CEUB, meu pai arquiteto que gosta de ornar a casa com colunas gregas jamais teria dinheiro para pagar 700 reais por mês numa FACULDADE para mim, embora ele custeie minha vida numa cidade longe de Fortaleza num apartamento NO CENTRO DA CIDADE, o que pelas minhas contas, para o ano de 2007, excede com facilidade as 2 mil pratas… ó!)
O curso inteiro virou meu inimigo
Mas tinha começado com um núcleo duro…
Logo me afastei até mesmo dos meus amigos mais próximos, que decerto não compactuavam com nada dessa marmotada toda…
Virei um desconfiado de carteirinha. Estava sendo observado na biblioteca, na cantina…
E depois? Ninguém me deus os parabéns, era mera obrigação… Então, a OBRIGAÇÃO de honrar os pais eu a cancelo, porque eu sou livre. Sua obrigação é sofrer seu destino.
Meu destino foi sofrer meu estágio probatório. E rir no meio de uma pandemia, rir, gargalhar, galhofar cada vez mais alto e espalhafatoso, até o dia que por acidente (pois já não mais me perseguem, as pessoas estão paranoicas com outras coisas muito mais importantes, sem dúvida! estou curado!) – por acidente eu disse! – toparem com seus nomes nodoados num post numa entrada miserável na internet e tudo recomeçar?… MAS ESTE É UM PROCESSO SEM-FIM E AUTORRETROALIMENTADO, não se esqueça! Ele faz e paga e sofre e recebe o que pagou e assim por diante incessante infinitamente até que alunos e professores todos se esmaguem num abraço coletivo cheio de ruído e cólera e, não foi nada demais… insignificante.
No fim, eles têm de admitir: eu sou marcante. Eu tenho digitais, eu marco aquilo que toco. Se transformo em ouro ou cinzas, não interessa, o Dasein não tem – para emitir diagnósticos – qualquer resquício de pressa…
A vítima de racismo que comeu uma banana e deixou o agressor com cara de tacho é uma história que me lembra muito a minha!
Eu lavei minha boca e troquei a dentadura, para poder falar (com) coisas(-pessoas) melhores.
Eu sou viciado nessa história porque apesar da dor que me causou e que ainda me causa marginalmente, eu viveria todos estes capítulos de novo e de novo… Se sou doente de alguma coisa, essa é minha doença e ela é com toda certeza absolutamente intencional e culpa minha!
“A provocação tem 1000 vozes. É próprio da provocação misturar os gêneros, multiplicar os vocábulos, fazer literatura, e esta integridade da matéria dura que nos provoca vai ser atacada, não somente pela mão armada, mas pelos olhos ardentes, pelas injúrias. O ardor combativo, o neikos, é polivalente.”
Bachelard
Mas e Rousseau?
8.DESCONTINUIDADE TEMPORAL
“No pavor abismal relativo ao diagnóstico de câncer e no congelamento de todo o Dasein, <o tempo> estava, por assim dizer, em repouso, não se desdobrou em seus êxtases e, portanto, o Dasein não existia mais no sentido pleno da palavra.”
ab –ismo (até o exagero)
Mitwelt
mundo.com
niilismo&vc.td.a.ver.
“Enquanto no quarto estudo, o Caso Lola Voss, tivemos que nos contentar essencialmente com a verificação e a descrição dessa transformação, esperamos, neste quinto estudo, ter dado um passo a mais na compreensão daseinanalítica [hm] dela. Temos consciência que ainda estamos longe da meta.”
“A palavra physis vem do verbo phyo (nascer, originar-se).”
Um grau além da citação cruzada ou autocitação: a citação de um livro que é dedicado à própria teoria! Grosso modo: “Como diz Binswanger apud Szilasi …” Binswanger [!!!]
“com a evolução da esquizofrenia crônica, acontece pouca coisa, e sempre menos, na medida em que os pacientes esquizofrênicos não têm experiências novas no sentido da experiência natural, i.e., que <adicionem algo novo> às antigas, mas apenas experiências em termos da monotonia do velho estribilho. Permanece-se fundamentalmente na experiência do elemento geral único, e, assim, <não acontece muita coisa>”
“uma longura que se diferencia da lentidão da depressão.”
“no delírio de perseguição, tem-se uma imensidão de <<novas>> experiências”
“A temporalização da longura nunca conduz à temporalização do tédio”
“Vale notar que o termo utilizado para <andamento musical> em alemão é Tempo”
Adorno riria desse esforço: “Binswanger está tentando distinguir na etimologia de longura e lentidão vestígios de formas diferentes de lidar com o tempo. Infelizmente não é possível manter essas relações etimológicas em português.”
“A palavra para tédio é Langweile, formada pelo adjetivo lang e o substantivo Weile (momento, intervalo de tempo).”
“Se alguém, no convívio da vida e do trabalho, for irritado repetidamente da mesma maneira pela mesma pessoa, <ele não vai suportar para sempre>. Em verdade, aqui se experiencia a generalidade da irritação novamente em cada particularidade, mas não de maneira que (como no delírio) o particular represente o geral e exista somente pela graça dele, mas de modo que o geral se particularize de fato em toda sua dimensão, i.e., experiencie sua plena concreção em cada <ensejo> particular (…) É isso que, frente ao irritante, não suportamos para sempre.”
9. A CONSUMAÇÃO DO PAVOR
Husserl, Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie
“Só se repare de passagem que eu, a despeito de minha convicção da importância filosófica e científica imperecível do método puramente fenomenológico, não estou no campo do <intuicionismo absoluto> da maneira que Husserl o advoga, razão pela qual ainda sou aberto a contemplações e reflexões, como disse Hans Kunz em O problema do espírito na Psicologia Profunda (art.).”
“Dormimos todos juntos sobre vulcões”
Goethe
“Naquilo que é teu, também vejo o que é meu”
Ulisses no Ájax de Sófocles
é 1000, tio! run!
é 100&cia.
10. TENTATIVAS DE DIAGNÓSTICO
“quando o clínico fala de pessoa ou personalidade, ele já deixou o campo da análise do Dasein.”
“estamos demasiado acostumados a agir como se a doença invadisse uma pessoa saudável como se fosse alguém estranho!”
Tiling, Tipificação e Distúrbio Individual do Espírito, 1904.
“Eu vejo em T., a despeito de seus esquemas psicológicos historicamente condicionados, um predecessor da psiquiatria clínica moderna.”
“Suzanne Urban nunca perdeu sua <orientação> e nunca exibiu os distúrbios de pensamento esquizofrênicos formais. Isso também é importante para o tipo de ocorrência delirante de forma de delírio de nosso caso. Pois, ainda que se diferencie dos casos Strindberg e Rousseau pelo <afeto> melancólico em alto grau, tem em comum com eles a forma do delírio.”
“A alguém que leia o histórico da doença pode surgir a suspeita de que, no caso de Suzanne Urban, se tratasse de um delírio puramente depressivo (<afetivo>, <holotímico> ou <sintímico>). Esta suspeita se funda no fato de que de acordo com a família a doença começou com um <transtorno triste de humor>, que o humor permaneceu até o final depressivo e [que] os delírios [são de tipo] melancólico.”
“O delírio de culpabilidade leva a acreditar que se cometeram os crimes mais graves sem que haja razão para tanto, ou transforma más ações pequenas e reais em pecados imperdoáveis. Por causa do crime, não somente o paciente é castigado de maneira atroz nessa e na outra vida, mas também todos [os] seus familiares, o mundo inteiro”
Bleuler
7 x 77: a Bíblia é um manual psiquiátrico de primeira grandeza!
“Aqui não se fala de um pecado imperdoável e de seu castigo atroz.” Suzanne sente-se injustiçada. Além disso ela foi uma “criminosa” completamente passiva (de acordo consigo mesma).
hunter x hunter
paranoid x depressed
sense vs. sense
Muito Além da Melancolia (de Ken?)
Delírio de referência: sistematizado e independente do ciclo crime-culpa-e-castigo. Perto disso, a pura mel-ancolia é uma doce brisa.
“há uma perda das inibições morais que não é conciliável com o diagnóstico de melancolia.”
“Com isso, chegamos ao terreno espinhoso da paranoidia, da parafrenia e da paranóia. Já dizemos de antemão que, juntamente com Kolle, Bleuler, Mayer-Gross e outros, somos da opinião de que, hoje em dia, tanto a paranóia (psicótica) quanto a parafrenia devem ser classificadas como esquizofrenia.”
“Do ponto de vista puramente sintomatológico, o caso S.U. poderia ser classificado como a paraphrenia systematica de Kraepelin, já que se trata aqui de um desenvolvimento sorrateiro de um delírio de perseguiçãoconstantemente em avanço sem degeneração da personalidade.” Sublinhados: discordantes do caso S.U.
Este sujeito é incurrável, disse o doktor alemal. Ele não pode ser comido!
“o fosso de lama, semelhantemente à caverna, é uma forma particular especialmente feia, fétida e pútrida de profundeza da terra.”
“Uma vez que o diagnóstico de esquizofrenia parece confirmado, e visto que, <onde idéias delirantes e alucinações … estão em primeiro plano>, fala-se (como em Bleuler) de paranoidia, precisamos incluir o caso nesse subgrupo esquizofrênico e, quanto à orientação delirante, classificá-lo como delírio de perseguição paranóide.” Ainda assim: “não vemos sintomas catatônicos, negativismos, estereotipias, excentricidades, maneirismos e também neologismos ou propriedades lingüísticas esquizofrênicas”.
“paralisia das pernas”: histeria
delírio de perseguição singular (portanto necessariamente identitário, vinculado a um sujeito) x delírio de perseguição plural identitário (teoricamente possível, mas que sempre tenderia a alargar seus inimigos, tendendo ao próximo) x delírio de perseguição plural anônimo (caso S.U.)
INFERÊNCIA DA DESCONFIANÇA
Aquele que não desconfia de ninguém… talvez desconfie de si mesmo.
Aquele que não desconfia de ninguém, nem de si mesmo… talvez simplesmente não exista!
Aquele que desconfia de si mesmo, talvez não desconfie de mais ninguém. Saudável desconfiado! Homem invejável!
Aquele que desconfia de um, mas que não desconfia de si mesmo, pode desafortunadamente desconfiar de muitos.
Mas, amigos, aquele que desconfia de muitos, esse desconfia de todos os homens, mais cedo ou mais tarde!
Schreber, por exemplo, o típico delirante singular, vai sucumbindo ao delírio em degraus – imagem perfeita, porque uma escada não é uma rampa. Há uma descontinuidade, mas a ocorrência de ataques ou surtos agudos, que, pelo menos até o segundo, são visivelmente mais importantes do ponto de vista clínico e do ponto de vista do aprofundamento do delírio. Após o segundo, Schreber já está convencido de que ele está no centro de uma trama que envolve o destino do mundo inteiro. E no entanto é só uma figura que emite a voz. Seu pai ou deus. Há posteriormente certa contração (relaxamento), que podemos chamar de descida da escada.
Suzanne, ao contrário, ignora a escada, dá um drible da vaca no real, mesmo no real do delírio, enquanto o delirante for um Schreber. Quem são os inimigos de Suzanne? A sociedade anônima. Enfermeiras, doutores, bedéis, a polícia inteira da cidade ou do país, todos os fascistas e capitalistas, em última instância. Porque de repente os Urban são um bando de socialistas. O mundo não vai ser salvo nem acabar de maneira alguma, mas esse terremoto com Suzanne no centro de seu palco seria suficiente para liquefazer toda a ordem do seu dia. Ela, a vítima. Não deixarão constar nas manchetes de jornais nem nos livros de história a verdadeira história: que Suzanne é inocente. O Grande Irmão a apanhou. E ele tem infinitos avatares intercambiáveis. O que é que fazem com os perseguidos políticos? Podem muito bem metralhar. Mas se não metralham? Talvez não metralham porque existe o risco de se tornarem mártires! Aí então são mais cosméticos e cirúrgicos: basta com exilá-los, torná-los párias inofensivos, eternas personae non gratae. Se Suzanne está viva, só pode ser esse o tratamento a ela dispensada pelos inimigos ocultos!
O dia em que cri que o apresentador do canal de esportes se dirigia a mim, porque sabia que eu estava na pior. A mim!
A internet escamoteia Cila ou Caribde.
Ou eu bem gostaria que fosse verdade, para vender mais livros…
Quem cai na boca do trombone e é o centro das fofocas quer se matar –
Porque não pode se identificar
Com o lunático solitário que só queria ser falado e criticado!
Ou vice-versa.
Schreber x Professor Flechsig
ódio concentrado, advindo do amor pelo pai
Suzanne x “autoridades”
culpa sem relação interpessoal específica, difundida por todos os sentidos alucinados
culpa totalizante, culpa da própria nulidade social
o delírio seria a vingança da moral contra um eu torpe, que se torna mera coisa, títere no teatro. e sua punição deve ser universalmente contemplada, como num reality show ou grande panóptico avant la lettre, seu corpo nu, sua micção, defecação, o ato de comer, transpirar, assoar o nariz, gozar… menos exibicionismo a contragosto que um voyeurismo de si, um sadomasoquismo em que se é boneco, personagem trágico, platéia, direção e os próprios antagonistas.
“Schuld em alemão significa tanto culpa quanto dívida.”
“Uma vez que o conceito de autismo é usado ora no sentido daseinanalítico, ora no psicológico, caracterológico, psicopatológico ou psicanalítico, ele se tornou cientificamente quase inutilizável hoje em dia.”
novo demais pra ser demente, velho demais pra ser bobão.
“Nós vimos que nossa própria paciente se encontra na menopausa e os cabelos esbranquiçaram rapidamente nos últimos tempos.”
“Lembramos que Bleuler notou muito freqüentemente nos paranóides uma <sexualidade fraca>, bem como a falta de desejo por filhos. (…) um autoerotismo <forte> dificilmente pode ser concebido como um sinal de sexualidade forte.” “sem a predisposição sadomasoquista, o exame e o adoecimento do marido não teriam esse papel proeminente na doença.”
“seguimos Bleuler quando ele diz <de acordo com nossos conceitos, a constituição hipo-paranóica é uma subforma da psicopatia esquizóide, assim como a paranóia involutiva é uma subforma da esquizofrenia paranóide.>”
11. DE VOLTA A HEIDEGGER& ARREMATE
“Aqui o medo não mantém o Dasein <no nada>, desse modo, ele não deixa o mundo naufragar na insignificância, antes confere a ele uma significância distinta e absolutizada, a do pavoroso e, assim, do significado pavoroso de toda singularidade.
“Vemos no conceito de necessidade de delírio o quanto a investigação do delírio (para o mal do conhecimento psiquiátrico) acabou sendo levada a reboque pela investigação normal-psicológica.”
Diretamente relacionado com as polêmicas Freud//Adler: “Bleuler observa com muita agudeza mais uma vez [péla-saco] que se alguém fala de desejo ou necessidade de estar doente, de interesse pela doença, de meta, de ganho da doença, de fuga para as doenças, de intenção e organização, é necessário ter claro em mente, por causa das conseqüências práticas, que essas expressões e conceitos são tirados das idéias de um leigo sobre a psique [!] normal e, na verdade, não deveriam ser de forma alguma empregados em relação a estados mórbidos.”
Nunca vou entender como os autores cinicamente (acordo tácito?), após ridicularizarem Freud num parágrafo, sem citar, nas suas linhas, ‘F.’ e ‘psicanálise’, procedem, logo a seguir, a uma exaltação fabulosa do <legado>: “Em F., o conceito é muito mais profundo do que naquilo que se costuma falar [mais ainda?] sobre o processo de cura, uma vez que ele está firmemente baseado na teoria (construída com muita fineza) da libido, do recalque, do retorno do recalcado e da projeção.”
Projeção continua, a meu ver, o conceito mais problemático da psicologia em geral.
“A partir desse caso de Schwab, pode-se encontrar facilmente um caminho para o <demônio diabólico> de Suzanne Urban e de muitos outros pacientes que sofrem de delírio”
“nos afastamos de Bleuler e de Jung quando eles querem desqualificar a teoria do delírio primário com a assunção e freqüente evidenciamento de motivos inconscientes”
“Hans Kunz acreditava que era necessário ver a vivência de desabamento do mundo (cf. Schreber) <como o conteúdo> do delírio primário <mais adequado à ocorrência>, contudo essa vivência (como nosso caso mostra) não é de forma alguma um pressuposto necessário para o delírio primário.”
Heidenhain, J.J. Rousseaus Persönlichkeit, Philosophie und Psychose
“Vê-se quão pouco o critério da recorrência pode, do ponto de vista da <deflagração do delírio>, ser utilizado no diagnóstico diferencial de paranóia e esquizofrenia.”“Mesmo o <esquizofrênico> que chega imediatamente à certeza delirante tem, como nosso caso mostra também, experiências sempre novas que confirmam as antigas.”
“Hoje não podemos mais dizer que as idéias persecutórias se misturam ao quadro da doença <em razão de ilusões sensoriais>, como se podia ler na avaliação do hospital psiquiátrico Sonnenberg sobre o presidente do senado Schreber e infelizmente ainda se pode ler freqüentemente. Antes temos que perceber de uma vez por todas que as alucinações não são distúrbios isolados, como ressaltam Schröder e Meyer-Gross. Mas o precursor nesse tema foi Minkowski em Le Temps vécu, 1923.”
“Um louco não faz mais do que perceber a condição humana a sua maneira”
Sartre
“As alucinações não se originam de um distúrbio do sensório – compreendendo-se essas funções no sentido psicológico –, também não se originam de um distúrbio das funções da percepção, do pensamento, do juízo, mas partem de um distúrbio e uma variação das funções simpáticas da sensação. Visto que essas funções estão alteradas, o paciente vive outra comunicação com o mundo; mas uma vez que os modos de ser-no-mundo são fundamentais para todas as vivências, as alucinações não são distúrbios isolados”
Erwin Straus, Do Sentido dos Sentidos, 1935
“No conto Na Colônia Penal de Kafka, um viajante, ao ver um delinquente, pergunta ao oficial se ele sabia sua sentença. <Não>, diz o oficial, <seria inútil anunciá-la a ele. Ele já a sente sobre seu corpo>. Dessa maneira, Suzanne Urban não vem a saber de sua sentença, mas de seu sofrimento <sobre seu corpo>, e, por isso, é <inútil> <anunciar> ou explicar a sentença a ela, ou esclarecê-la. E quando Kafka continua: <não é fácil decifrar a escrita (da sentença) com os olhos; nosso homem a decifra, mas com suas feridas>, também nossa pobre S.U. decifra a escrita de seu <destino> não com os olhos (da compreensão), mas com suas <feridas> e as de seus familiares, com os <sofrimentos infligidos> a ela e a eles. (…) O Dasein zomba de qualquer outra experiência; pois esta é a mais <impressionante> no sentido duplo da palavra.” (íntimo e doloroso)
“Por mais que a clínica não consiga evitar todas as tentativas psicológicas, caracterológicas e biológicas de responder o porquê dessa questão em termos de um conhecimento objetificante, a tarefa da psiquiatria como ciência não se esgota nisso.”
“As capacidades anímicas, as propriedades anímicas, a alma (no sentido da psicologia e da psicopatologia), o caráter, a pessoa, a personalidade, o impulso, etc., tudo isso está ontologicamente no limbo, ou seja, não tem fundamento ontológico. Encontramos esse fundamento na analítica do Dasein de Heidegger.”
Jaeger, Paideia II [!!], Die griechische Medizin als Paideia
“o terrível não pode mais se tornar algo impessoal e extramundano contra o qual se pode invocar o destino, mas ele se tornou um ente intramundo que ainda é acessível sob o aspecto da hostilidade.”
Não existe satisfação compensatória: não é uma expiação que demande “x” de tempo ou energia, até haver a quitação. Em tese Suzanne poderia sofrer de seu delírio um tempo infinito (enquanto viver), sem tendência à cura. Realmente o poema de Baudelaire caía bem: uma máquina infernal!
Não importa o conteúdo do delírio: o médico deve analisar a vida pregressa desse tipo de paciente esquizofrênico.
Situação de partida > Autonomização delirante (a paciente perde o foco da ‘angústia original’, quando ainda tinha um ser-no-mundo autêntico)
hoplita: soldado grego de infantaria, com pesada armadura equipada
meteco: ver “metecs” 3 parágrafos abaixo e também “metics”
Introductions
“In Lysias we have the first really successful application of rhetorical theory to practical speech. The more vehement and showy style of Demosthenes, imitated by Cicero, and through him passed on to the modern world, long dominated English oratory.”
SPEECH XII. AGAINST ERATOSTHENES
Introdução e Considerações sobre o Discurso
“It is an attack upon Eratosthenes (probably from the autumn of403 BC), one of the Thirty, and involves the discussion of the whole administration of that body, and to some extent of that of the 400, the oligarchy of 411 BC.”
“Early in the administration of the Thirty Eratosthenes had set forth with others of their number to arrest certain rich metecs [estrangeiros domiciliados em Atenas, caso da família de Lísias]. It fell to him to seize Polemarchus, Lysias’s brother, who was immediately put to death. When, after the battle at Munychia (Spring, 403), most of the Thirty retired to Eleusis, Eratosthenes, with one other of their number, remained in Athens, though not as a member of the new governing board of Ten. In the final amnesty between the 2 parties it was provided that any one of the Thirty who was willing to risk a judicial examination of his conduct as a member of the late administration might remain in the city. Otherwise all were obliged to settle at Eleusis or remain permanently in exile. Eratosthenes, believing himself to be less compromised than the others of the Thirty, ventured to remain and submit to his <accounting>.”
“The more moderate democrats, notably Thrasybulus, the hero of the Return, were totally opposed to any attempt to strike back at the city party. (…) The task then which Lysias undertook was difficult. He had to convince the jury that the one man of the Thirty who was commonly believed least responsible for their crimes was so guilty that he was not to be forgiven, at a time when the watchword of the leaders of both parties was <Forgive and forget>.” “The real question of the day was as to the power of the democracy to regain the confidence and support of the great conservative middle class, men who had formerly been represented by Theramenes, and later by Eratosthenes. If these men could be convinced that the restored democracy would use its power moderately, foregoing revenge for the past, turning its back upon the demagogue and the political blackmailer, there was hope for the future.”
“No one could blame the Sicilian Lysias for seeking his personal revenge [hehehe] (…) It is this larger political aspect of the case which gives to the speech against Eratosthenes its historical interest. (…) To distinguish between those of the Thirty who had sought to establish personal tyranny and those who had honestly striven for a reformed, conservative democracy was of first importance.”
DIVISÃO DA EXPOSIÇÃO:
1. EXÓRDIO. Apresentação do caso.
2. NARRATIVA. Contextualização da procedência de Lísias e do crime dos Trinta contra esta família.
3. DIGRESSÃO. Denúncia formal do réu.
4. PROPOSIÇÃO
5. ARGUMENTAÇÃO
A. Argumentos imediatos.
i. Eratóstenes agiu de forma contraditória.
ii. Por que a tese de que Eratóstenes foi compelido ao ato é sem base.
iii. O caso pode gerar precedentes perigosos para cidadãos e estrangeiros de Atenas.
iv. É contraditório executar os generais de Arginusa e perdoar os Trinta Tiranos.
v. Reiteração.
B. Argumentos sobre a biografia de Eratóstenes. O passado reputado de Eratóstenes não entraria em jogo na acusação presente.
i. A conduta de Eratóstenes no período dos 400.
ii. A conduta de Eratóstenes no estabelecimento do governo dos Trinta.
iii. A conduta de Eratóstenes enquanto um dos Trinta.
iv. A conduta de Eratóstenes no período dos Dez.
C. Argumento-réplica sobre Eratóstenes ser amigo e apoiador de Teramenes. Ataque à carreira de Teramenes.
i. A conduta de Teramenes e suas conexões com os 400.
ii. A conduta de Teramenes depois do governo dos 400.
iii. A conduta de Teramenes na negociação da paz.
iv. A conduta de Teramenes quando do estabelecimento dos 30.
v. Conclusão: A amizade com Teramenes não é suficiente como prova de lealdade.
D. Conclusões gerais.
6. PERORAÇÃO
A. A pior pena existente ainda seria exígua perante o montante de crimes cometidos.
B. Ataque ao advogado do réu.
C. O perdão seria equivalente a aprovar a conduta dos réus.
D. Apelo aos partidos (júri).
i. Aos aristocratas
ii. Aos democratas
E. Conclusão: Sumário dos crimes; apelo ao júri para executar a vingança dos mortos.
“The speaker can pass at once to the narrative of the conduct upon which he bases his attack. And here Lysias is at his best. In the simplest language he describes the life of his own family and their sufferings (…) the sentences become very short, significant details of the story follow rapidly, and the hearer is made to see the events as if passing before his eyes.”
“The term digression applies to this section only as an interruption of the strictly logical order, which would require the presentation of the arguments before the attempt to move the feelings of the jury by denunciation.”
5.
B.
“In the review of Eratosthenes’s conduct as one of the Thirty (§§48-52), Lysias can bring no specific charge beyond that of the arrest of Polemarchus. He tries to forestall the plea of Eratosthenes that he actively opposed certain of the crimes of the Thirty by the shrewd claim that this would only prove that he could safely have opposed them all. He finally (§§53-61) tries to give the impression that Eratosthenes was connected with the bad administration of the Board of Ten, a charge that seems to be entirely without foundation.
To a jury already prejudiced by the affecting narrative of the arrest, and hurried on from one point to another, this whole attack was convincing; but the modern reader finds little of real proof, and an abundance of sophistry.”
C.
“Lysias comes now to the refutation of the main argument of the defense, that Eratosthenes was a member of that honorable minority among the Thirty who opposed the crimes of Critias’ faction, and whose leader, Theramenes, lost his life in the attempt to bring the administration to an honest course.
Whatever we may think of the real motives of Theramenes, there can be no question that at the time of this trial the people were already coming to think of him as a martyr for popular rights. All knew Eratosthenes was his friend and supporter. Lysias saw therefore that he must blacken the character of Theramenes. He accordingly turns to a rapid review of his career. In a few clear-cut sentences he pictures Theramenes at each crisis, always the same shrewd, self-seeking, unscrupulous man, always pretending to serve the state, always ready to shift to the popular side, always serving his own interests.
The attack is a masterpiece. There is no intemperate language, no hurling of epithets. <He accuses by narrating. The dramatically troubled time from 411 to 403 rises before us in impressive pictures. At every turn Theramenes appears as the evil genius of the Athenians. His wicked egoism stands out in every fact.>Bruns,Das literarische Porträt der Griechen, p. 493.
(…) but is this picture of Theramenes true to the facts? In his narrative Lysias selects those acts only upon which he can put a bad construction. He fails to tell us what appears so clearly in the narrative of Thucydides, and in the defense put into the mouth of Theramenes by Xenophon in his answer to Critias before the Senate, that his opposition to the extreme faction of the 400 was, whatever may have been his motive, an efficient cause of their overthrow, at a time when there was reason to fear that they were on the point of betraying the city to the Peloponnesians. (…) He misrepresents Theramenes’ responsibility for the hard terms of the Peace, and he ignores the fact that the final opposition to Critias which cost him his life was in every particular what would have been demanded of the most patriotic citizen. (…) Thucydides’ praise of the administration after the 400 is rather a praise of the form of government than of its leader.”
“In the next generation opinions were sharply divided as to the character of Theramenes. Aristotle, to whom he stood as the representative of the ideal government by the upper class, places him among the great men of Athens.”“The best of the statesmen at Athens, after those of early times, seem to have been Nicias, Thucydides, and Theramenes. As to Nicias and Th., nearly every one agrees that they were not merely men of birth and character, but also statesmen, and that they acted in all their public life in a manner worthy of their ancestry. On the merits of Theramenes opinion is divided, because it so happened that in his time public affairs were in a very stormy state. But those who give their opinion deliberately find him not, as his critics falsely assert, overthrowing every kind of constitution, but supporting every kind so long as it did not transgress the laws; thus showing that he was able, as every good citizen, to live under any form of constitution, while he refused to countenance illegality and was its constant enemy. (Kenyon’s trans.)” “Para um resumo das discussões modernas sobre o caráter de Teramenes, ver Busolt, História Grega, III. ii. 1463 [original em alemão].”
“By a phrase here, a single invidious word there, he shrewdly colors the medium through which we see the events. Every statement is so turned as to become an argument. (…) even antitheses are only sparingly used.”
“The study of the style of this speech is especially interesting because it is the only extant speech which Lysias wrote for his own delivery, and one of the first in his career as a practical speech writer. In preparing each of his other speeches he had to adapt the speech to the man who was to deliver it; in this he was free to follow his judgement of what a speech should be.”
* * *
“At first, indeed, they behaved with moderation towards the citizens and pretended to administer the state according to the ancient constitution … and they destroyed the professional accusers and those mischievous and evil-minded persons who, to the great detriment of the democracy, had attached themselves to it in order to curry favor with it. With all of this the city was much pleased, and thought the Thirty did it with the best of motives. But so soon as they had got a firmer hold on the city, they spared no class of citizens, but put to death any persons who were eminent for wealth or birth or character” Arist.“Xenophon gives similar testimony” “The Tholus, a building near the senate-house, was the headquarters and dining-hall of the Prytanes. It was thus the natural center of the administration of the Thirty, who used the subservient Senate to give a form of legality to their own acts.”
“when the Thirty took control they found the treasury exhausted by the expenses of the Peloponnesian War. They had not only to provide for the ordinary expenses of the government but to pay their Spartan garrison on the Acropolis. Xenophon says that the despoiling of the metics [a família de Lísias inclusa] was to meet the latter expense.”
“This entrance into Lysias’ house was, in spirit, a violation of the principle that a man’s house is his sanctuary, a principle as jealously maintained in Athens as in modern states.”
Gardner, The Greek House, in: Journal of Hellenic Studies, 21 (1901), 293ss.
Gardner & Jevons, Greek Antiquities
“One of the most common charges against them is that they condemned citizens to death without a trial, whereas the right of every citizen to trial with full opportunity for defense was one of the fundamental principles of the democracy. This right was extended to metics also.”
“the doubling of words merely for rhetorical effect is as rare in the simple style of Lysias as it is common in the rhetorical style of Demosthenes” (vide anexo ao fim)
“the ceremonial impurity of a murderer was so great that the accused was, after indictment, forbidden entrance to the sanctuaries or the Agora while awaiting trial. The trial itself was held in the open air, in order, as Antiphon (5:11) tells us, <that the jurors might not come into the same inclosure with those whose hands were defiled, nor the prosecutor come under the same roof with the murderer.>”
“whom in the world WILL you punish? KAÍ is used as an emphatic particle in questions, implying the inability of the speaker to answer his own question, or his impatience at the circumstances that raise the question. Its only English equivalent is a peculiar emphasis.” “In English we prefer the indefinite expression of place, in the world.”
“We infer that some of the states friendly to Athens had made formal proclamation excluding members of the late oligarchy from taking refuge with them. While Eleusis had been set apart as an asylum for the Thirty and their supporters, it is not unlikely that some, fearing that the democracy would not keep its promise of immunity, sought refuge in other states.”
“In the summer of 406 the Athenian fleet under Conon was shut up in the harbor of Mytilene by the Lacedaemonians [Spartans]. Desperate efforts were made for their rescue; a new fleet was hastily equipped and manned by a general call to arms. Seldom had an expedition enlisted so many citizens of every class. The new fleet met the enemy off the Arginusae islands, and, in the greatest naval battle ever fought between Greek fleets, won a glorious victory. The generals, wishing to push on in pursuit of the enemy, detailed 47 ships under subordinate officers to rescue the Athenian wounded from the wreckage. A sudden storm made both pursuit and rescue impossible, and more than 4,000 men, probably half of them Athenian citizens, were lost. The blow fell upon so many homes in Athens that public indignation against the generals passed all bounds, and the generals were condemned to death. Not only was the sentence in itself unjust, but it was carried by a vote against the accused in a body, in violation of the law’s guaranty of a separate vote upon the case of every accused citizen. A reaction in feeling followed, a part of the general reaction against the abuses of the democracy. That the popular repentance was not as general or as permanent as it ought to have been is clear from the fact that now, 3 years after the event, Lysias dares appeal to this precedent as ground for righteous severity in the present case; he is evidently not afraid that it will be a warning to them to beware of overseverity when acting under passion. Yet he shows his consciousness that he is on dangerous ground, for he takes pains to state the defense of the generals and the ground on which it was overruled.”
“an exaggeration, as it is in §83, where he says that the death of these men and that of their children would not be sufficient punishment for them. No one ever seriously proposed at Athens to put sons to death for their fathers’ crimes, but lesser penalties were put upon them; loss of civil rights was often visited upon the sons of a man condemned, and the common penalty of death and confiscation of property brought heavy suffering to the family (so in the case of the family for which Lysias pleads in Speech XIX). Yet even here the treatment was not inhuman; Demosthenes (27:65) says, Even when you condemn any one, you do not take away everything, but you are merciful to wife or children, and leave some part for them.”
“For the seizure of the arms of all citizens outside the 3,000 supporters of the Thirty, see Xen. Hell., 2. 3. 20. (…) The seizure of these arms, which many of the citizens had carried through all the years of the Peloponnesian War, was one the most outrageous acts of the Thirty.”
“the accused had opportunity for defense before the Senate, and, in the more serious cases, before the Ecclesia or a law court which had final jurisdiction. Under the Thirty the accused lost these privileges of defense.”
“They deposed the Thirty, and they elected ten citizens, with full power, to put a stop to the war. [proto-cesarianos]” Arist.
“Eratosthenes was not one of the new board. The fact that he dared to remain in the city is a strong argument in his favor, which Lysias tries to counteract by throwing upon him the odium of connection with Phidon.”
“There was a large conservative element in the city who were dismayed at seeing the radicals with Critias in control; they now took the lead, but were again disappointed in that the new board of Ten fell under sympathy with the Thirty at Eleusis, actively cooperated with them and continued their war policy. It was an instance, not infrequent in modern times, of the better element in a city rising up under a sudden impulse and apparently overthrowing a political machine, only to find the machine still in control after the excitement was over.”
“Antiphon was the moving spirit in planning the revolution of 411; Pisander was the most prominent man in its execution; Phrynichus the most daring; and Theramenes, the son of Hagnon, was a prime mover in the abolition of the democracy, a man not without ability as a speaker and thinker.” Thucyd., 8:68
“Sophocles, when asked by Pisander whether he, like the other probouloi, approved of the establishment of the 400, said, <Yes.><But what? Did that not seem to you a bad business?> <Yes,> said he, <for there was nothing better to do.>” Arist., Retórica
“the people had been persuaded to accept the new form of government in the hope of ending the war through Alcibiades with Persian support; this hope had now failed”
“After the deposition of the 400, Antiphon and Archeptolemus were put to death on the charge of having plotted with others of the oligarchs to betray the city to Sparta. Theramenes was at the head of the government, under a moderate constitution, from September 411 to about July 410.”
“The English, and usually the Greek, more logically uses for, as giving the grounds for the general statement.”
“Xenophon says that the Spartans had already announced the destruction of 10 stadia [2km] of the Long Walls as a condition of peace, and that what Theramenes offered to do was to find out from Lysander whether this was intended as a preliminary to the enslavement of the city, or only as a means of guaranteeing their faithful obedience to the other terms of peace. After remaining 3 months with Lysander he returned to Athens with the report that Lysander had no power in the matter, and that it must be determined by the government at Sparta.” “Ordinarily the Areopagus had no jurisdiction in political or military affairs, but this crisis was so extreme, involving the very existence of the city, that extraordinary action by the Areopagus is not unlikely.” “on the first mission, that to Lysander, Theramenes went alone, but had no authority to negotiate; on the second, he had authority, but it was shared with 9 fellow-ambassadors. Lysias purposely represents it as resting entirely with him.”
Os atenienses levaram meses para destruir as muralhas externas, cumprindo as condições da paz com Esparta. Tal qual a construção de um bom estádio candango, a demolição desses estádios de muro na Antiguidade estourou o prazo que havia sido fixado!…
“Dracontides doubtless presented the general plan, and the Thirty were chosen to draft a constitution which should carry it out in detail.”
“for the change of this word from an originally good meaning // cp. [compare] the history of English simple and silly.” RUDE SIMPLÓRIO SIMPLES HUMILDE SEM-PECADO IMBECIL DISTORCIDO ABSURDO DESORIENTADO TONTO TOLO AHHHH
THE FREE DICTIONARY.COM:
“sil•ly
adj. -li•er, -li•est, adj.
1. weak-minded or lacking good sense; stupid or foolish.
2. absurd; ridiculous; nonsensical.
3. stunned; dazed: He knocked me silly.
4. Archaic. rustic; plain; homely.
5. Archaic. weak; helpless.
6. Obs. lowly in rank or state; humble.
n.
7. Informal. a silly or foolish person.
(1375–1425; Middle English sely, orig., blessed, happy, guileless, Old English gesaelighappy, derivative of sael happiness; c. Dutch zalig, German selig)
silli•ly, adv.
silli•ness, n.”
“It was the plan of Sparta and her Athenian supporters to see to it that the fleet should never be restored. This was the more acceptable to the Thirty as the fleet had always been the center of democratic power. We are not surprised, then, to read in Isocrates (7:66) that the dockyards, which had cost not less than 1000 t., were sold by the Thirty for 3 t. to be broken up. But apparently the work was not completed, for 4 years after the Thirty Lysias (30:22) speaks of the dockyards as then falling into decay.”
PATERfação da MAEteria
* * *
SPEECH XVI. FOR MANTITHEUS
Introdução e Considerações sobre o Discurso
“The charge was brought against Mantitheus that he had been a member of the cavalry which had supported the Thirty, and that he was therefore not a fit candidate for the office of senator.”
“Before the Peloponnesian War Athens had made very little use of cavalry, but from the beginning of that war to the close of the next century a force of a thousand horsemen was maintained.”
“An enrolment which thus offered opportunity for display in time of peace, and a less dangerous and less irksome form of service in war, attracted the more ambitious and proud young men of the aristocracy.”
“Xenophon gives a striking testimony to the hatred of the democracy toward the cavalry corps in his statement that when, 4 years after the Return, the Spartans called upon Athens to furnish cavalry to help in the campaign in Asia Minor, the Athenians sent them 300 of those who had served as cavalrymen under the Thirty <thinking it a good thing for the Demos if they should go abroad and die there> (Hell. 3.I.4), a statement which betrays Xenophon’s own feeling toward the people.”
“It must have seemed to many of the returned exiles that the men who had so actively supported the lost cause ought to be more than content with permission to live retired lives as private citizens, and that for them to come forward now, seeking public office or any political influence whatever, was the height of presumption”
“Aristotle gives the following description of the examination of candidates for the archonship, which probably did not differ materially from the examination for the senatorship, with the exception of the demand on taxes below: <When they are examined, they are asked, first, ‘Who is your father, and of what demo? Who is your father’s father? Who is your mother? Who is your mother’s father, and of what demo?’ Then the candidate is asked whether he has an ancestral Apollo and a household Zeus, and where their sanctuaries are; next, if he possesses a family tomb, and where; then, if he treats his parents well, and pays his taxes, and has served on the required military expeditions.>”
“He had, in short, to write the speech which the young man would himself have written if he had possessed Lysias’ knowledge of law and politics, and Lysias’ training in argumentation.”
“Lysias knew the Athenian audience too well to suppose that plausible proof or valid proof would carry the case.”
“This omission of the usual appeal to the feelings of the hearers is quite in keeping with the confident tone of the whole speech. The omission of the peroration is also wise from the rhetorical point of view. Throughout the speech Lysias has repressed everything that could suggest artificial or studied speech; it is in keeping with this that he omits that part of the plea in which rhetorical art was usually most displayed.”
“No speech of Lysias offered a better opportunity for his peculiar skill in fitting the speech to the man”
* * *
“the Athenians did not venture to make universal their general principle of appointment to office by lot. The lot applied to officials whose work did not absolutely demand political or military experience or technical knowledge.”
“30 mines was an average sum in a family of moderate means.”
“The son of Alcibiades was alleged to have lost his property at dice.”
“Thrasybulus was at first the idol of the people under the restored democracy; but his moderate and conservative policy, sternly opposed to every violation of the amnesty and every indulgence of revenge, grew vexatious to the more radical element. (…) The defeat of the expedition to Corinth in 394 was a blow to his reputation. (…) in the full tide of enthusiasm for the new navy and its commander Conon the people forgot their allegiance to Thrasybulus.”
“the Homeric custom of wearing the hair long prevailed always at Sparta, but at Athens from about the time of the Persian Wars only boys wore long hair. When they became of age their hair was cut as a sign of their entering into manhood, and from that time on they wore hair about as short as modern custom prescribes; only the athletes made a point of wearing it close-cut. But there was a certain aristocratic set of young Spartomaniacs who affected Spartan appearance along with their pro-Spartan sentiments, and who were proud of wearing long hair, to the disgust of their fellow-citizens. These were the men who largely made up the cavalry corps.”
SPEECH XIX. ON THE STATE OF ARISTOPHANES [um homônimo do comediante, ao que tudo indica]
Introdução e Considerações sobre o Discurso
O reclamante da fala é supostamente o filho deste Aristófanes (mas o comentário diz que pode ter sido seu cunhado), morto sem julgamento e espoliado por Atenas, em busca da devolução de seus bens familiares ou de parte deles.
“The events which led to this speech were connected with two dangerous tendencies in the political life of the 4th century, the enrichment of naval commanders through their office, and the hasty and unreasonable punishment of public officers in response to a fickle public sentiment.”
“The city was attempting to take her old place in international affairs, with no sufficient revenue; the people saw in each new confiscation relief for the treasury.”
“The case of Nicophemus and Aristophanes is but one among many between 388-386, when these prosecutions were at their height.”
Lísias defendia vários casos de ambos os lados: como promotor de Atenas, acusando a corrupção de homens da marinha e pedindo sua execução e confisco de suas riquezas; e neste, como advogado contra o Tribunal.
Speech against Epicrates: “In my opinion, Athenians, if you should put these men to death without giving them trial or opportunity of defense, they could not be said to have perished <without trial>, but rather to have received the justice that is their due.”
Speech againt Ergocles: “Why should you spare men when you see the fleets that they commanded scattering and going to pieces for lack of funds, and these men, who set sail poor and needy, so quickly become the richest of all the citizens?”
“No other proem of Lysias is so long or developed in such detail. The reason is to be found in the fact that the speaker is addressing a jury who are thoroughly prejudiced against his case. Nicophemus and Aristophanes are believed to have been guilty of the gravest crimes, and now the defendant is believed to be concealing their property to the damage of the state. The prosecution have said everything possible to intensify this feeling.
The proem falls into two parts, one general, the other based on the facts peculiar to this case. It is surprising to find that for the first part Lysias has taken a ready-made proem from some book on rhetoric, and used it with slight changes. We discover this fact by comparing §§1-6 with the proem of Andocides’ speech On the Mysteries, delivered 12 years earlier, and the proem of Isocrates’ speech XV, published 34 years after that of Lysias. Andocides has divided the section, inserting a passage applicable to his peculiar case, but the 2 parts agree closely with Lysias’ proem. Isocrates had used a small part of the same material, but much more freely, changing the order and the phraseology, and amplifying the selected parts to fit his own style.” “Blass, arguing from certain phrases of Andocides, attributes the original proem to Antiphon.” “It was possible to compose them in such general terms that any one of them would fit a large class of cases. We hear of such collections by Thrasymachus, Antiphon, and Critias, and the mss. of Demosthenes have preserved to us a large collection of proems of his composition, 5 of which we find actually used in extant speeches of his.”
“This adaptation of the language to the personality of the speaker (ethos) is perfected by delicate touches here and there.”
“And here lies much of the power of Lysias. We often feel that his arguments are inconclusive; he fails to appeal strongly to the passions; in a case like this, where strong appeal might be made to our pity for the widow and little children, he seems cold. But the personality of the speaker and his friends is so real and their charm so irresistible, that at the close we find ourselves on their side.”
* * *
OS 3 FEDROS DA ATENAS SOCRÁTICA: “the Pheaedrus whom we know through Plato as a young friend of Socrates (Banquete), one of the group who listened to the Sophist Hippias (Protágoras), and the friend and enthusiastic admirer of Lysias, delicately portrayed in Plato’s Phaedrus. It was not strange that when the proposition was made to confiscate the property of Aristophanes, his widow (a de Fedro) turned for help to the friend of her first husband, now at the height of his fame as an advocate, nor that when the present suit against her father’s estate came on Lysias again wrote the defense.”
“we have 65 acres at about $70 an acre. This is the only passage in Greek authors which, by giving both the contents and the price of land, enables us to reckon land value. As we know neither the situation nor the nature of this land, even this information is of little worth.”
“This avoidance of the common oaths of everyday impassioned speech is as fitting to the calm and simple style of Lysias as is their constant use to the vehement style of Demosthenes.”
“of the 15 t. expended in the 4 or 5 years in question, the speaker has reckoned 5 t. for house and land, and 10 t. for the various public services; of this sum 2.83 t. was for ordinary liturgies of a rich citizen (service as choragus and trierarch) and for direct war taxes – an average of a little less than half a talent a year. A still more important source of information as to the public services of rich Athenian citizens is the account which Lysias gives in XXI of the public expenditures of his client for the 1st seven years after he attained his majority; the items are as follows:
1st year.
Choragus (tragic chorus) 3000 dracmae
Choragus (men’s chorus) 2000 dr.
2nd year.
Choragus (Pyrrhic) 800
Choragus (men’s chorus) 5000
3rd year.
Choragus (cyclic chorus) 300
7th year.
Gymnasiarch 1200
Choragus (boys’ chorus) 1500
Trierarch, 7 years 6 talents
War tax 3000 dr.
War tax 4000
TOTAL 9 t. 2800+ dr.
This gives an average contribution of about 1.325 t. a year. But these years were the final years of the Peloponnesian War, when public burdens were extraordinarily heavy; the same man gives smaller sums for the time immediately following. Moreover, the speaker says that the law would have required of him less than ¼ this amount. Unfortunately we have neither in this case nor in that of Aristophanes any knowledge of the total property or income from which these contributions were made, so that we have no sufficient basis for comparison with modern times. We lack the same data in the case of the speaker’s father, whose services of this kind amounted to 9 t. 2000 dr. in a period of 50 years [0.18 t./ano]. We only know that at his death the estate amounted to between 4 and 5 talents”
“Callias the 2nd was reputed to be the richest Athenian of his time. Hipponicus the 3rd inherited this wealth. He had 600 slaves let out in the mines; ha gave his daughter, on her marriage to Alcibiades, the unheard-of dowry of 10 talents. His son, the Callias of our text, finally dissipated the family wealth. He affected the new learning, and we have in Plato’s Protagoras (VI-ff.) a humorous description of his house infested by foreign sophists. His lavish expenditures upon flatterers and prostitutes still further wasted his property, and he died in actual want.”
“Aristophanes’ attack on Socrates in the Clouds gains much of its force in the picture of the son, corrupted and made impudent by his new learning, contradicting and correcting his old father.”
“the minimum of property which subjected a citizen to the liturgies was 3 t.”
SPEECH XXII. AGAINST THE GRAIN DEALERS
Introdução e Considerações sobre o Discurso
“This speech was written for a senator who was leading the prosecution of certain retail grain dealers, on the charge that, by buying up a larger stock of grain than the law permitted, they had injured the importers, and raised the price of grain to the consumers. It was probably delivered early in 386.
The successful expedition of Thrasybulus in 389-8 had brought the Hellespont under Athenian control, and thus secured the safety of the grain trade, which had been harassed by hostile fleets. But his death and the transfer of the command into less competent hands made the control of the Hellespont insecure again. At the same time the Spartans, having dislodged the Athenians from Aegina, were able constantly to endanger the grain ships at the home end of the route. The result was a period of unusual disturbance in the grain trade in the winter of 388-7.”
“the dealers were forbidden by law to store up more than 1/3 of any cargo; 2/3 had to be thrown upon the market immediately. If then, a sufficient combination could be made among the retail dealers, they could hold the price down effectively.”
“instead of passing the grain on to the consumers at a fair profit, the retailers used the low price to increase the stock of grain in their own storerooms, and put the retail price up according to the war rumors of the hour.”
“The Senate had final jurisdiction only in case of penalties not greater than a fine of 500 dracmas (Demosthenes 47); in all other judicial cases their findings had to be passed on to a law court for final action.” Aristotle
“Only one senator pressed the case against the dealers. The threatening of suits against rich men had become so common on the part of professional blackmailers that reputable men were loath to have anything to do with a case like this. The Senate found the charges sustained, and sent the case to a court under the presidency of the Thesmothetae.
The senator who had become so prominent in the prosecution felt obliged to carry the case through – otherwise he would have been believed to have been bought by the <ring of dealers>. He accordingly employed Lysias to prepare a speech for him to deliver in court. A study of this case involves a knowledge of the Athenian laws relating to commerce.
The small area of the Attic territory in proportion to population, and the poor adaptedness of the soil to grain production as compared with that of olives and figs, left the people largely dependent upon foreign sources for their grain. More than half of the supply came from foreign ports; the greater part from the Hellespont and the Euxine.”
“to prevent the accumulation of grains in the retailers’ storerooms, and their consequent control of prices, it was provided by law, under penalty of death, that no retailer should buy more than 50 baskets at a time (but as to how much the standard grain basket held we have no knowledge).” “The whole retail grain trade was supervised by a board of Grain Commissioners; of their appointment and duties we learn as follows from Aristotle:
There were formerly ten, appointed by lot, 5 for the Piraeus, and 5 for the city, but now there are 20 for the city and 15 for the Piraeus.”
“Thus, the government followed the grain at every step from its reception in the Piraeus to the home of the consumer.” “At the first meeting of the Ecclesia in every prytany a part of the routine business was the consideration of the grain supply.”
“The issue was so simple, the case so prejudiced in favor of the prosecution by the preliminary action of the Senate, and the odium of the act so certain, that Lysias was content to present every fact of the prosecution with the utmost simplicity and brevity.”
* * *
“it is uncertain whether this was the Anytus who shared in the prosecution of Socrates. That Anytus, a rich tanner, was a leading democrat, associated with Thrasybulus in the Return. [But] this activity in protecting the poor man’s food supply would be quite in keeping with his democratic rôle.”
Neste tipo de caso (economia alimentar), metecos podiam integrar o júri.
SPEECH XXIV. FOR THE CRIPPLE
Introdução e Considerações sobre o Discurso
“Lysias wrote this speech in support of the plea of a crippled artisan for the retention of his name on the list of disabled paupers who received a dole of an obol a day from the public treasury.” “An allowance of 2 obols/day from the treasury was all that saved many people from starvation during the last third of the Peloponnesian War.”
“A system of military pensions for men who had been disabled and for the sons and dependent parents of men who had died goes back to the time of Solon and Pisistratus: the soldiers’ pension under Pisistratus, after the example of Solon in the case of a single disabled veteran (Heraclides, cited by Plutarch) support and education of sons, introduced by Solon (Diogenes Laert.). The pension of dependent parents (Plato, Menexeno) presumably goes back to the same time.”
“It is to be remembered that the jury pay, available to all who cared to sit in court, and the pay for sitting in the Ecclesia offered no small relief to the poor citizens.”
“The ascription of the speech to Lysias seems to have been questioned in antiquity, and has recently been vigorously attacked by Bruns. The first objection raised by Bruns is that the tone and extent of the attack on the complainant are at variance with Lysias’ uniform calmness and restraint in attack; Lysias’ defendants confine their attacks on the prosecutors to their acts in the case itself, and are far from giving a general characterization of the men; the extent of the attack is always well proportioned to the gravity of the case. But in our speech we have a bitter and scornful attack on the whole character of the opponent, and it is as vehement as though the issue were some great thing – not an obol a day. Bruns sees a 2nd violation of the Lysian manner in the failure of the defendant to press the real points at issue –his physical disability and his poverty – and the comical pose in which he is made to give, instead of argument, a picture of himself.”
“We may suppose that the complainant had called attention to the horseback riding, something that only the richer citizens could afford, as indicating that the cripple had rich friends who could and would support him; the cripple pretends that the argument was that he was physically sound enough to jump unto a horse and ride it!”
“The parody on the common pleas of the day is carried out in the absurd appeal based on the past life of the speaker: he has been no sycophant; he, the cripple, has not been violent; he, the pauper, refrained from sharing in the government of the aristocratic Thirty!”
SPEECH XXV. DEFENSE AGAINST THE CHARGE OF HAVING SUPPORTED THE GOVERNMENT OF THE THIRTY
Introdução e Considerações sobre o Discurso
“This speech was written for a citizen who had been one of the 3,000 admitted by the Thirty to a nominal share in their government. The speaker has now, under the restored democracy, been chosen (by vote or lot) to some office.”
“his eligibility is challenged on the ground that he was a supporter of the Thirty. The complainants have brought no charge of specific acts, basing their attack upon the principle that former members of the oligarchical party cannot be trusted in office under the democracy. The defense must attack this principle, and it is this fact which raises the speech above the plane of personal questions, and makes it one of the most interesting documents in the history of the period immediately after the Return.
The oath of amnesty provided for the exclusion from the city of certain specified leaders of the oligarchy; to all other citizens it guaranteed oblivion of the past. Under any fair interpretation of this agreement the former supporters of the Thirty, even senators, office holders and soldiers under them, were perfectly eligible to office under the restored democracy. But to keep their pledges in the full spirit of them proved to be a severe test of the self-control of the party of the Return.
The wiser democratic leaders fully recognized the critical nature of the situation. An attempt by one of the returned exiles to violate the agreement and take vengeance on one of the city party was met by the summary seizure of the complainant and his execution by the Senate without trial (Aristotle). This made it clear that there was to be no policy of bloody reprisals; but the feeling of hostility remained.
Then, less than 3 years after the Return, came the attempt of the survivors of the Thirty, settled at Eleusis, to organize an attack by force. The prompt march of the citizen forces, together with their treacherous seizure of the oligarchical leaders, soon put down the movement. But now more than ever it seemed to the democratic masses intolerable that members of the city party should have equal privileges with themselves. Their spokesmen began to say that the aristocrats might consider the people generous indeed in allowing their former enemies to vote in the Ecclesia and to sit on juries; that to ask for more than this was an impertinence (Lys. 26. 2, 3).
Those who had been conspicuous supporters of the Thirty, or personally connected with their crimes of bloodshed and robbery, naturally refrained from thrusting themselves into prominence; indeed, few of these had probably remained in the city. But the first test came when men whose support of the Thirty had been only passive, and against whose personal character no charge could be raised, ventured to become candidates for office.”
“This speech was written by Lysias for one of the first cases of this sort – it may have been the very first. The issue was vital. If a man like the speaker, of proved ability and personal character, untainted by crime under all the opportunities offered during the rule of the Thirty, was now to be excluded from office, the reconciliation must soon break down.”
“The speech cannot be placed much later than 400, for the speaker, with all his pleas based on his good conduct before and during the rule of the Thirty, says nothing of his conduct since the Return (October, 394), nor does he cite cases of other men of his party holding office. Moreover, his warnings show that there are fugitives of the oligarchical party who still hope for a reaction and a counter blow against the democracy, and are not yet sure what will be the treatment of the former supporters of the Thirty, while he speaks simultaneously of the democracy not as established, but as in process of being established. ”
“The sentences are long and dignified. Only after the proem is well under way is there any touch of artificial rhetoric.”
“The argument is surprising; in the most blunt way he asserts that men follow self-interest in their attitude toward one form of government or another. He gives the jury to understand that he remained in the city under the Thirty because it was for his personal safety and for the safety of his property that he do so (…) he frankly tells the jury to assume that he acts from an enlightened self-interest” “The cool frankness with which he waives aside all claim of sentimental patriotism (…) must have been refreshing to a jury weary of hearing pious protestations of loyalty and sacrifice for the sacred democracy.”
“he makes the keen plea that a man who kept his hands clean in times when there was every encouragement to wrong-doing can be counted on to be a law-abiding citizen under the present settled government.”
“The tone of the attack is severe and earnest, but always dignified. There is no display of personal passion. The speaker stands above petty recriminations, and in a most convincing way exposes the conduct of a group of small politicians who were coming to the front on false claims of service in the late civil war, and who were destined to succeed before long in discrediting and thrusting aside the great patriots of the Return.”
“The coolness with which the client explained all political attachments on the ground of personal interest had its effect upon Lysias, and he counted upon its having its effect upon others.(*)” Bruns, Literarisches Porträt
(*) “The speech for Mantitheus (XVI) offers a marked contrast in this respect. The young cavalryman is full of talk of his own achievements.”
“The style is noticeably more rhetorical than is usual with Lysias.”
* * *
“blackmail by the threat of bringing innocent men before the courts on trumped-up charges was the regular work of the <sycophants>. (…) Xenophon tells how, by advice of Socrates, Crito finally supported a lawyer of his own to silence these fellows by counter–attacks (Mem. 2. 9.). (…) verdicts are more a matter of chance than of justice, and that it is wise by paying a small sum to be freed from great accusations and the possibility of great pecuniary losses (Isoc. 18. 9-ss.).”
“from these words, it is probable that Epigenes, Demophanes and Clisthenes were the complainants in this case.”
“Every Athenian official was required every prytany (35 days) to submit an account of his receipts and expenditures to a board of 10 auditors, selected by a lot from the Senate. At the close of his term of office he was also required to present complete accounts to another board”
SPEECH XXXII. THE SPEECH AGAINST DIOGITON (fragmentos) ou: O caso do avô (e tio-avô) escroque
Introdução e Considerações sobre o Discurso
“On the death of Diodotus, Diogiton, his brother, became the guardian of his widowed daughter and her 3 children. For a time he concealed from them the fact of Diodotus’ death, and under the pretext that certain documents were needed for conducting his brother’s business, he obtained from his daughter the sealed package of papers that had been left with her. After the death of Diodotus became known, the widow turned over to Diogiton, her father [ou seja, sobrinha que casara com o tio], whatever property was in her possession, to be administered for the family.
Diogiton arranged a second marriage for her with one Hegemon, but gave 1/6 less dowry than the will prescribed. In due time he arranged a marriage for his granddaughter also; there is no claim that he gave with her less than the dowry required by the will.
For 8 years Diogiton supported the boys from the income of the estate, but when the elder came of age, he called them to him and told them that their father had left for them only 2840 dr. (the sum her daughter returned him before), and that this had all been expended for their support; that already he had himself paid out much for them, and that the elder must now take care of himself.” “The elder son was the plaintiff, and his brother-in-law the one delivering this speech prepared by Lysias.”
“The mother [of the plaintiff; and daughter of the accused] had documentary proof of Diogiton having received one sum of 7 t. 4000 dr. and Diogiton now acknowledge in his sworn answer that he had received that sum, but he submitted detailed accounts purporting to show that it had all been used for the family [wise scoundrel!].” “The trial can be put in 402-1 or very soon thereafter.”
“Dionysius of Halicarnassus¹ [quem proporcionou o manuscrito hoje conhecido, cerca de 400 anos depois, um orador romano, discípulo genuíno de Lísias, portanto] says that in the cause of a suit against members of one’s own family the rhetoricians are agreed that the plaintiff must above all things else guard against prejudice on the part of the jury in the suspicion that he is following an unworthy and litigious course. The plaintiff must show that the wrongs which he is attacking are unendurable; that he is pleading in behalf of other members of the family nearer to him and dependent upon him for securing redress; that it would be wicked for him to refuse his aid. He must show further that he has made every attempt to settle the case out of court.”
¹ D.H., On the ancient orators
“The language of the proem, like that of Lysias’s proems in general, is for the most part periodic. A larger group of thoughts than is usual with Lysias is brought together under a single sentence structure from §1 up to §3. The impression is one of dignity and earnestness. There is no rhetorical embellishment either in grouping of cola or in play on words or phrases.”
“In this narrative there is a stroke of genius that places it, maybe, above all the others from Lysias. This is the introduction of the mother’s plea in her own words. The mother could not plead in court, but by picturing the scene in the family council Lysias carries the jurors in imagination to that room where a woman pleads with her father, protesting against the unnatural greed that has robbed his own grandsons, and begging him to do simple justice to her children. As the jurors heard how the hearers of that plea arose and left the room, silent and in tears, there was little need for argument.” “The result was a work of art perfect in the concealment of art.”
“The examination of the alleged expenditures is sharp and clear. The overcharge seems written on the face of every item, and the series culminates in a case of the most shameless fraud. (…) Out of an accounting of 8 years Lysias selects a very few typical items, makes the most of them in a brief, cutting comment, and then passes on before the hearers are wearied with the discussion of details.”
“The word play, a turn of speech rare in Lysias, but a favorite among rhetoricians, is fitted to the sarcastic tone” “The personification, a figure equally rare in Lysias, is in the same sarcastic tone”
GRAU ZERO DA ESCRITURA: “The speaker might be any Athenian gentleman; we get no impression of his age or temperament or character.”
“We have certainly a personal portrait of Diogiton, and this by the simplest recital of his words and conduct. There is no piling up of opprobrious epithets. By his own conduct greed is shown to have been the one principle of his life, from the time when he married his daughter to his brother to keep hold of his increasing property, to the day when, with hollow professions of regret and with shameless lies, he turned his grandsons out of doors.”
* * *
“for the seclusion of Athenian women see Becker, Charicles (Eng. trans.)”
“a man of ordinary standing was expected to have a slave attendant as he went about his business. Even the schoolboy had his.” Na democracia grega, os mais liberais, como Aristófanes em suas comédias, lutavam não pela extinção da escravidão, o que seria um preconceito ocidental anacrônico, mas pela equanimidade na distribuição dos escravos entre os mais ricos e a classe média!
“The Athenian tombs and monuments were among the finest products of Greek art. There was a tendency to extravagant outlay, but in most artistic form. The expense was great as compared with the expenditure of the living. We know of sums ranging from 3 minae to 2 talents. For full description and illustration see Percy Gardner’s Sculptured Tombs of Hellas.”
“The statement that the boys would have been as rich as any boys in the city (having about 12 t. after the payment of expenses for the 8 years and of dowries for mother and sister) seems reasonable from what we know of Athenian fortunes. (…) The fabulously rich men of the older generation, Nicias and Callias, were popularly supposed to have had fortunes of 100 and 200 talents. But a man who had 8 to 10 talents at the close of the Peloponnesian War was a rich man. (…) It was only after Alexander’s conquests had brought Oriental ideas of luxury and the means to grow rich by conquest and by trade on a large scale that the Greek family needed very much money to be <rich> [, life in old Athens being pretty simple and costless].”
SPEECH XXXIV. ON THE CONSTITUTION
“Should citizenship with full political rights be open to all Athenian as before the oligarchical revolution, or should it be restricted according to the understanding with Sparta the year before in connection with the surrender?”
“Usener holds that the assembly for which the speech of Lysias was written included only the men of the upper classes. (…) Wilamowitz finds confirmation of Usener’s view in the statement of Aristotle that under the amnesty the former officials of the city party were to give their accounting before the citizens whose names were on the assessor’s lists, i.e. the men of the upper classes (…) In our speech of Lysias the appeal is certainly to the property holders, but that is natural in any case (…) For the position against Usener, see Blass; Meyer, Forshungen zur alten Geschichte, II”
“It might well be presumed that the restoration of the democratic constitution would be considered an affront to Sparta, and it is possible that the Spartans had made definite statements to this effect. (…) Who could guarantee the loyalty of the Demos to the terms of the amnesty, when once demagogue and sycophant should resume their trade?”
“Since the amendment of Pericles in 451-0, those who could not show pure Athenian descent through both parents had been by law excluded from citizenship.” “These citizens had married foreign wives, and now many of them with their families were returning to Athens, bringing with them the question of admitting their half-Athenian sons to citizenship.”
“This speech of Lysias is of especial interest as being his earliest extant speech, and perhaps the first he wrote for a client. It is, moreover, the only extant speech of his composed for delivery before the Ecclesia. We owe its preservation to Dionysius of Hal., who incorporated it in his treatise on Lysias (op. cit.)” “Neither of the 2 other speeches preserved by Dionysius is given in full, and it is probable that he took this part from the beginning of a longer speech.”
“The plan of this part is simple: to appeal to the great middle class, men who have shared in the exile and the Return, and to convince them that the loss of the support of the non-landholding citizens will be more dangerous to the restored democracy than the chance of offending Sparta by failing to meet her wishes as to the revision of the constitution. The event proved the soundness of the argument. Sparta did not interfere, and the democracy was soon called upon to take up arms again against the oligarchs at Eleusis.”
“The brevity is like Lysias, but not the obscurity. (…) The tricks of the current rhetoric are conspicuous – repeated antithesis and balance of cola, the rhyming of successive cola, and play on the sound of words. We may see in these features evidence of immaturity in practical oratory.” “How soon and how thoroughly Lysias corrected both faults, we see in the speech against Diogiton (written a year or 2 later) and that for Mantitheus (some 10 years later).”
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“Much property had been confiscated by the 30, much abandoned in the flight of the owners. The restored Demos put the owners back into possession, and made no attempt at a distribution of land among themselves.”
“The event showed that the Spartan insistence upon dictating in the internal affairs of Athens had been due to the personal influence of Lysander. With his fall from power this policy was abandoned, and the restored Athenian democracy was left undisturbed.”
“In 418 Argos was forced into alliance with Sparta, and an oligarchical government was set up. But in the next year a successful democratic reaction carried the state over to the Athenian alliance, and with more or less of vigor it supported Athens throughout the war. Mantinea, which had joined Argos against Sparta, was like forced by the events of 418 to return to the Spartan alliance, and remained nominally under Sparta’s lead throughout the war. But she maintained her democratic constitution, and gave only indifferent support to the Spartans.”
“If the Spartans conquer, they know that they will not succeed in enslaving the Argives and Mantineans, for both people always rise up again after their defeats, as stubborn as ever. It is not worthwhile, then, for the Spartans to risk serious losses of their own for the slight gain of an incomplete subjugation of their neighbors.”
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APPENDIX II. ATHENIAN LEGAL PROCEDURE
“The following account is in general based on Lipsius’s revision of Meier & Schömann, Der Attische Process, and his revision of Schömann, Griechische Alterthümer. The conditions described are those of the early part of the 4th century, the time of Lysias’ professional activity.”
“The ancient court of Areopagus, composed of the ex-archons, sitting under the presidency of the religious head of the state, had sole jurisdiction in cases of premeditated homicide and arson.”
“Any citizen over 30 years of age, who was possessed of full civic rights, was eligible for jury service. (…) In the time of Lysias there was not such a pressure of legal business as in the Periclean period, when the Athenian courts were crowded with cases from the league cities (…) the service might become the regular employment of men who were quite content with small payment for light work, and of old men whose days of physical labor were over. From the time of Pericles the pay of the juryman was an obol for each day of actual service, until Cleon raised it to 3 obols, about the wages of an unskilled laborer.”
“It was not customary to arrest the accused and confine him while awaiting trial, except in a special class of crimes, prosecuted by special and more summary procedures; even then the defendant was released if he could furnish sufficient security for his appearance in court.”
“Many cases involved the testimony of slaves. This evidence was held valid only when given under torture, on the supposition that the desire for release from the torture on the one side would counterbalance the natural desire of the slave to testify according to his master’s orders on the other. (…) The torture was conducted by the litigants themselves or by men agreed upon by them, or in some cases by public slaves. The point to which the torture should be carried was previously agreed upon by the litigants.”
“The court room had wooden seats for the jurors, provision for listeners outside the railing which shut in the jurors’ seats, and 4 platforms.”
“The law required every man to deliver his plea in person. If he had not the ability to compose a speech for himself, he could employ a professional speech writer to write it for him; he then committed the speech to memory and delivered it as his own.”
“No opportunity for speeches in rebuttal was given except in the case of certain private suits.”
“At the close of the speeches there was no exposition of the law by the presiding magistrate, nor was there any opportunity for the jurymen to consult one with another, but the herald of the court called upon them to come forward to the platform immediately and deposit their votes.”
“the secrecy of the vote was fully protected.”
“Imprisonment was not used as a penalty, but only (…) until the execution of a man condemned to death.”
“When one of these professional haranguers, trained in the plausible rhetorical art, popular with the masses, and skilled in moving their emotions, threatened a quiet, law-abiding, wealthy citizen with a lawsuit, the citizen might well think twice before deciding to trust to the protection of the courts; to buy off the prosecutor was the simpler and safer way.”
APPENDIX III. RHETORICAL TERMS
“The Greek rhetoricians, beginning probably with Antisthenes, a contemporary of Lysias, distinguished 3 great types of prose composition.” “They found in Thucydides the perfection of the grand style.” “Lysias was the representative of the plain style.” “Isocrates was the representative of the third style, the intermediate type. His style showed a union of the best qualities of the other two.”
“So long as Thucydides, Lysias and Isocrates were the greatest of prose writers these 3 <styles> served the purpose of classification; but when the critics were confronted with the problem of defining and classifying the oratory of Demosthenes, they saw the inadequacy of the old formulae. (…) If he were placed with Isocrates as a representative of the intermediate style, the term would become so inclusive as to break down by its vagueness, and he could certainly be placed with neither of the extremes. The critics solved this problem of classification in two ways: some, like Demetrius, added a 4th style, the powerful style. This new <style> was a recognition of the fact that the real characteristic of Demosthenes’ oratory was not any mingling of grand and simple language, but a great power which moved men. Other critics, like Dionysius, made no attempt to remodel the old system, or to find a place for Dem. within it. They preferred rather to treat the style of Dem. as something outside and above the 3 older types: a style which gathered up into itself the virtues of all, and so was superior to all, a power of which the 3 became the instruments. [same shit!]”
“Aristotle in the next generation gives in his Rhetoric (3.9) a discussion of the periodic style, which probably represents the developed theory of Thrasymachus,¹ and which has remained the fundamental exposition of periodic theory for both ancient and modern times. Aristotle calls the running stylethe strung style. The separate thoughts are strung along one after another like beads; the first gives no suggestion that the 2nd is coming, not the 2nd that a 3rd is to follow; the series may stop at any point, or it may go on indefinitely.
¹ (…) Here, as in almost all matters of rhetoric, we must distinguish between the forms which the practical speakers instinctively shaped for themselves, and the names and theories which the rhetoricians afterward applied to them. The testimony as to Thrasymachus is that of Suidas and of Theophrastus, cited by Dionysius. (…)”
“Roberts’s edition (Demetrius on Style, Cambridge, 1902), with its admirable translation, commentary and glossary of technical terms, makes this treatise available as the best starting point for the study of the theory of Greek prose style.”
O período não é a unidade mínima. Dentro do estilo periódico, um período se subdivide em colas.
“Lysias, even in his plainest style, followed the custom of his time, and made frequent use of antithetic periods.”
“In the English we lose much of the periodic effect in losing the similarity of sound at the beginning and end of the cola, which in the Greek added to the unity produced by the parallelism of thought and construction, and by the uniform length of the cola.”
Spencer, Philosophy of Style
“Aristotle holds that there are periods composed of a single colon(3.9.5). (…) He probably had in mind the case of a single colon of considerable length, based on sensus suspensio of words.”
“If I have attained to any clearness of style, I think it is partly due to my having had to lecture 20 years as a professor at Harvard. It was always present to my consciousness that whatever I said must be understood at once by my hearers or never. Out of this, I, almost without knowing it, formulated the rule that every sentence must be clear in itself and never too long to be carried, without risk of losing its balance, on a single breath of the speaker.”James Russell Lowell
“Aristotle’s theory of the ‘period’ was faulty in that it restricted it to the 2 types of the antithetic and the parallel structure. But the modern rhetoricians have gone to the other extreme in making the sensus suspensio the only basis of the period. From that error it has resulted that they speak of a period as being always a full sentence. (…) We should obtain a better theory of the rhetorical period by returning to the sound doctrine of Demetrius, modifying it only by removing the restriction of 4 cola. We should then treat the period as something quite independent of the sentence (though often coinciding with it)”
“The fondness for antithesis, already marked in the earlier literature, reached its height in the rhetorical work of Gorgias and his pupils. As compared with them, Lysias is moderate in its use.”
“As rhyme was not an ordinary feature of Greek poetry, its use in prose did not seem to the Greek hearer as incongruous as it does to us.”
APPENDIX IV. MONEY AND PRICES AT ATHENS
“While Solon’s other units of measure came into universal use in Athens, his linear foot failed to displace, for common purposes, the old Aeginetan foot of 330mm; but this old foot was reduced, probably to correspond to the reduction in the Solonian foot, giving the common working foot of about 328mm. Attic coinage was based on the talent, the weight of a cubic foot of water (or wine). The unit of coinage was the drachma, a coin of pure silver, weighing 1/6000 of a talent, and equal to 4.32 grams, or 66.667 + grains Troy. The modern bullion value of the drachma would be, for the period 1899-1903, $0.08+, and its value in US coined silver would be $0.1795+.”
1 obol = 3 20th century cents
6 obols = 1 drachma
100 drachmas = 1 mina ($18)
60 minas = 1 talento ($1080)
“The standard silver dollar contains 371.25g of fine silver. Our silver <quarter> (our coin nearest to the drachma) contains only 347.22g of fine silver per dollar, but as our concern is chiefly with considerable sums of drachmas, the value is better taken on the dollar standard.”
“The daric, a coin of pure gold, passed in Athens as equal to 20 drachmas (~$4).”
“In the time of Lysias, a drachma would pay a day’s wages of a carpenter, or stone cutter, or superintendent of building operations.” = R$30 (ou seja: de 3 cents para 10 dólares em ~100 anos!)… 30.000% de inflação.
“The average day’s wages in the US in 1900 for men corresponding to the Athenian 1-drachma workmen were: for carpenters, $2,63; to stone cutters, $3,45; brick layers, $3,84; stone setters, $3,82. US Bureau of Labor, Bulletin N. 53, July, 1904.”
ORELHAS: “Da Psicose Paranóica, que já foi considerada como a última grande tese da psiquiatria contemporânea, constitui, na verdade, já a primeira incursão de Lacan no campo propriamente psicanalítico. (…) Após a leitura, Salvador Dalí criaria seu método paranóico-crítico[?], o qual traria novo fôlego para o movimento surrealista.”
DA PSICOSE PARANÓICA EM SUAS RELAÇÕES COM A PERSONALIDADE (DOUTORADO EM MEDICINA ORIENTADO POR HENRI CLAUDE, 1932)
“A MEU IRMÃO, O R.P. MARC-FRANÇOIS LACAN, BENEDITINO DA CONGREGAÇÃO DE FRANÇA.”
“A QUE SE ACRESCENTA MENÇÃO AOS MAIS VELHOS QUE HONRO, DENTRE OS QUAIS DR. ÉDOUARD PICHON. DEPOIS UMA HOMENAGEM A MEUS COMPANHEIROAS HENRI EY E PIERRE MALE, ASSIM COMO A PIERRE MARESCHAL.”
“Dentre os estados mentais da alienação, a c1ínica psiquiátrica desde há muito distinguiu a oposição entre dois grandes grupos mórbidos; trata-se, qualquer que seja o nome pelo qual tenham sido designados, segundo as épocas, na terminologia, do grupo das demências e do grupo das psicoses.”
“na ausência de qualquer déficit detectável pelas provas de capacidade (de memória, de motricidade, de percepção, de orientação e de discurso), e na ausência de qualquer lesão orgânica apenas provável, existem distúrbios mentais que, relacionados, segundo as doutrinas, à <afetividade>, ao <juízo>, à <conduta>, são todos eles distúrbios específicos da síntese psíquica.” “sem uma concepção suficiente do jogo dessa síntese, a psicose permanecerá sempre como um enigma: o que sucessivamente foi expresso pelas palavras loucura, vesânia, paranóia, delírio parcial, discordância, esquizofrenia. Essa síntese, nós a denominamos personalidade, e tentamos definir objetivamente os fenômenos que lhe são próprios”
“Com efeito, historicamente, os conflitos das doutrinas, cotidianamente, as dificuldades da perícia médico-legal, nosdemonstram a que ambigüidades e a que contradições remete toda concepção desta psicose [a paranóica] que pretende prescindir de uma definição explícita dos fenômenos da personalidade.”
“Se dedicamos algum cuidado a essa exposição, não foi apenas por um interesse de documentação cuja importância para os pesquisadores, no entanto, conhecemos, mas porque aí se revelam progressos clínicos incontestáveis.”
I. POSIÇÃO TEÓRICA E DOGMÁTICA DO PROBLEMA
I.1. FORMAÇÃO HISTÓRICA DO GRUPO DAS PSICOSES PARANÓICAS
“Três escolas, em primeiro plano, trabalharam, não sem se influenciar, para o isolamento do grupo: a francesa, a alemã, a italiana.”
O termo paranóia foi conceituado cientificamente pela primeira vez pela escola alemã (Cramer, 15/12/1893). Já o “termo, já empregado pelos gregos, foi utilizado por Heinroth, em 1818, em seu Lehrbuch des Störungen des Seelenslebens, inspirado nas doutrinas kantianas.”
“Kraepelin eBouman de Utrecht (…) evocam o tempo em que 70 a 80% dos casos de asilo eram catalogados como paranóia. Tal extensão se devia às influências de Westphal e Cramer. A paranóia era então a palavra que, em psiquiatria, tinha a significação mais vasta e mais mal-definida;era também a noção mais inadequada à clínica. Com Westphal, ela se torna quase sinônimo, não só de delírio, mas de distúrbio intelectual. E isso tinha sérias conseqüências numa época em que se estava prestes a admitir delírios larvares ou <em dissolução> (zerfallen) como causas de todas as espécies de estados singularmente diferentes de um distúrbio intelectual primitivo. Kraepelin zomba desses diagnósticos de <velhos paranóicos>, atribuídos a casos correspondentes à demência precoce, a estados de estupor confusional, etc.” “as paranóias agudas, às quais Kraepelin recusa qualquer existência autônoma”
“Os paranóicos são anacronismos vivos . . . O atavismo se revela ainda mais claramente na paranóia do que na imoralidade constitucional porque as idéias mudam de uma maneira mais precisa e mais visível do que os sentimentos”
Riva, E. nosog. della paranoïa
ENANTIODROMIA? “Quanto ao delírio [sintoma sine qua non da paranóia], ele se elabora segundo <duas direções opostas que freqüentemente se combinam entre si> (Kraep.). São o <delírio de prejuízo em seu sentido mais geral e o delírio de grandeza>. Sob a primeira denominação se agrupam o delírio de perseguição, de ciúme e de hipocondria. Sob a segunda, os delírios dos inventores, dos interpretadores filiais, dos místicos, dos erotômanos. A ligação é estreita entre todas essas manifestações; o polimorfismo, freqüente, a associação bipolar de um grupo ao outro, comum.”
“O delírio é, em regra, sistematizado. Ele é elaborado intelectualmente, coerente numa unidade, sem grosseiras contradições internas. É uma verdadeira caricatura egocêntrica de sua situação nas engrenagens da vida que o doente compõe para si, numa espécie de <visão-de-mundo>.”
I.2. CRÍTICA DA PERSONALIDADE PSICOLÓGICA
“O dado clínico da evolução sem demência, o caráter contingente dos fatores orgânicos (reduzidos, de resto, a distúrbios funcionais) que podem acompanhar a psicose, a dificuldade teórica, enfim, de explicar suas particularidades (o delírio parcial) pela alteração de um mecanismo simples, intelectual ou afetivo – tais elementos, e outros ainda mais positivos, fazem com que a opinião comum dos psiquiatras, como sabemos, atribua a gênese da doença a um distúrbio evolutivo da personalidade.”
“A psicologia científica se esforçou no sentido de precisar por completo a noção de personalidade, removendo-a de suas origens metafísicas, mas, como acontece em casos análogos, acabou por desembocar em definições bastante divergentes.”
a) A PERSONALIDADE SEGUNDO A CRENÇA COMUM
“a personalidade é a garantia que assegura, acima das variações afetivas, as constâncias sentimentais; acima das mudanças de situação, a realização das promessas. É o fundamento de nossa responsabilidade.”
b) ANÁLISE INTROSPECTIVA DA PERSONALIDADE
“Na verdade, a introspecção disciplinada só nos fornece perspectivas muito decepcionantes.” Boa.
“Após algumas dessas crises, nós não nos sentimos mais responsáveis por nossos desejos antigos, nem por nossos projetos passados, nem por nossos sonhos, nem mesmo por nossos atos.” Parece que em cem anos conseguiram arruinar completamente com o conceito de “tese de doutorado”… Nada que hoje se leia parece vir de um sujeito, apenas linhas robóticas.
c) ANÁLISE OBJETIVA DA PERSONALIDADE
“A personalidade, que se perde misteriosa na noite da primeira idade, afirma-se na infância segundo um modo de desejos, de necessidades, de crenças, que lhe é próprio e como tal foi estudado. Ela borbulha nos sonhos e esperanças desmedidas da adolescência, em sua fermentação intelectual,¹ em sua necessidade de absorção total do mundo sob os modos do gozar, do dominar e do compreender; ela se estende, no homem maduro, em uma aplicação de seus talentos ao real, um ajustamento imposto aos esforços, em uma adaptação eficaz ao objeto, ela pode se concluir em seu mais alto grau na criação do objeto e no dom de si mesmo. No velho, finalmente, na medida em que até aí ela soube se liberar das estruturas primitivas, ela se exprime numa segurança serena, que domina a involução afetiva.”
“Moisés escreveu o Pentateuco, pensamos, porque, se assim não o fizesse, todos os nossos hábitos religiosos deveriam ser mudados.”
William James
O “nós” implicado no itálico seria somente os hebreus contemporâneos de Moisés, ou literalmente a humanidade de todos os tempos? Seu ato foi criar uma moral redentora que não havia ainda? Ou cristalizar uma que havia mas que inelutavelmente seria perdida numa espécie de pressentimento de mais um dilúvio, sendo sua palavra escrita capaz de retardar ao máximo ou evitar essa hecatombe moral (congelamento zen-budista ou egípcio do modo de ser humano)? Questionamento absurdo.
d) DEFINIÇÃO OBJETIVA DOS FENÔMENOS DA PERSONALIDADE
(…)
e) POSIÇÃO DE NOSSA DEFINIÇÃO COM RELAÇÃO ÀS ESCOLAS DA PSICOLOGIA CIENTÍFICA
(…)
f) DEFINIÇÃO DA PSICOGENIA EM PSICOPATOLOGIA
“Ninguém atualmente duvida mais, efetivamente, da organicidade do psíquico, nem sonha fazer da alma uma causa eficaz.”
Contra o “inatismo” da doença ou derivação de “trauma físico”: “o evento causal só é determinante em função da história vivida do sujeito, de sua concepção sobre si mesmo e de sua situação vital com relação à sociedade; o sintoma reflete em sua forma um evento ou um estado da história psíquica, exprime os conteúdos possíveis da imaginação, do desejo ou da vontade do sujeito, possui um valor demonstrativo que visa uma outra pessoa; o tratamento pode depender de uma modificação da situação vital, quer nos próprios fatos, na reação afetiva do sujeito com relação a eles ou na representação objetiva que deles possui.” Tornar o problema consciente é o mais fácil: convencer-nos a sentir outra coisa diante do que sabemos ou promover uma mudança existencial seriam, respectivamente, da menos para a mais difícil das tarefas, as missões realmente problemáticas. “Modificação da situação vital” pode querer dizer: de forma nenhuma esse emprego! Mas somos tão passivos na questão, o mais das vezes, quanto quando torcemos pelo nosso time do coração…
“No que concerne à perícia, que é o critério prático da ciência do psiquiatra, é sobre essas bases que se fundamentam, mais ou menos implicitamente, as avaliações de responsabilidade, tais como a lei as exige de nós.” Para o não-psicanalista, só seria possível uma prova negativa: não se trata de loucura traumática nem congênita, logo pode ser (ou pode não ser!) que o paciente seja psicótico!Sua biografia teria de ser avaliada, mas a carga moral excele nesse tipo de análise de medicina forense funesta. Só um verdadeiro analista poderia tentar c[r]avar mais fundo e chegar a uma intuição melhorada da coisa…Impraticável que o Estado aponsentasse o servidor no limbo entre a psicose (supostamente intratável fora de Lacan) e a “simples” neurose… O mais prático e conveniente seria exonerá-lo do cargo. Meu próprio caso é uma ilustração salutar: se, no futuro, eu me encontrar nessa situação, o que diz, por exemplo, o “complexo” laudo do meu eletroencefalograma detalhado? Que eu tenho um cérebro perfeitamente saudável, mas que ignora-se por que raioseu tenho uma calosidade ou espécie de coágulo idêntico ao do epiléptico – sem o ser!Ao ponto de o médico, com certeza um pobre coitado sem culpa de sua ignorância, mas sem as qualificações exigidas para esta grandiosa tarefa (este é o fato nu e cru), me perguntar levianamente se eu sofri alguma forte pancada na cabeça durante minha fase de crescimento! Em síntese, toda a magna ciência “desses caras” não passa de especulação da mais comezinha… Que diferença faz o episódio causador da “bolha de sangue seco” numa região cerebral que não afeta minhas faculdades intelectivas, se eles sequer sabem o motivo de eu não apresentar qualquer sintoma de epilepsia em decorrência dessa mesma “bolha”? Uma adolescência terrível seria simplesmente o chute mais plausível. E para tê-lo concluído bastou a mim, o sujeito que viveu meu enredo, sem seis ou sete anos de estudos em medicina.
g) FECUNDIDADE DAS PESQUISAS PSICOGÊNICAS
“Ler o livro de um dos pais da Físico-química, WilhelmOstwald, sobre os maiores físicos e químicos do século XIX (Les Grands Hommes[Energetische Grundlagen der Kulturwissenschaft]). A introdução do ponto de vistaenergético nas leis da criação intelectual é aí muito sugestiva.”
h) VALOR PROBLEMÁTICO DOS SISTEMAS CARACTEROLÓGICOS E DA DOUTRINA CONSTITUCIONALISTA
“Mas quando Kretschmer chega a formar o quadro dos diversos tipos de personalidade, encontramos nele, sob o mesmo modo de reações sintéticas, temperamentos de natureza muito diversa: assim, subjacentes à personalidade estênica [resiliente, elástica, flexível, até eufórica ou hiperativa a depender do contexto], existem temperamentos ciclotimo-hipomaníacos[Ver abaixo. Para mim, a rigor, a diferença entre ciclotimo-hipomaníaco e depressivo ciclotímico é zero, mudando apenas o momento do ciclo em que o sujeito se encontra. Não importa onde você está agora na montanha-russa, contanto que saibamos que, como todos os outros passageiros, você vai completar uma – ou umas – volta(s) e descer outra vez… Ou, enfim, numa metáfora mais literal, que nunca vai realmente descer, mas vai passar infinitas vezes pelos mesmos pontos, quer queira, quer não…], por um lado, e também esquizotimo-fanáticos [delirantes originais]: quanto à personalidade astênica [fatigada, extenuada; numa palavra: preguiçosos¹], encontramos esquizóides agudamente hiperestênicos e depressivos ciclotímicos.” No fundo, passividade é resistência, derrota é estratégia; ação é rigidez, síndrome de Pirro… Tudo é permitido. Todo mundo é cão e se vira nesse mundo de manés, malandros e cães, amarrados com cordames e lingüiças…
¹ Brincadeirinha… Parece que o termo psicastenia, mais usado na primeira metade do século XX, deriva realmente da neurastenia lida em autores do século XIX (lassidão nervosa lassidão psíquica); a astenia tem a ver com certa lassidão inata do indivíduo: em situações estressantes, ele tende mais à passividade que o não-astênico (ou estênico), chega à irritabilidade (falência emocional) mais facilmente e quando não mais suporta a hiperexcitação cai num quadro depressivo. Da mesma fontea que usei para entender esta droga de parágrafo (mais sintomático da dificuldade de Lacan com a escrita que a conduta de Rousseau de uma suposta paranóiab), segue (alto interesse pessoal nos grifos desta cor!):
a https://www.psiquiatriageral.com.br/psicopatologia/06personalidade.htm b Lacan diz meia-dúzia de vezes neste livro que Rousseau ERA SEM SOMBRA DE DÚVIDA UM PARANÓICO, das quais devo ter transcrito pelo menos 3. Gostariamos de ver uma monografia sobre o assunto, tão detalhada quanto a de Aimmée!
“Personalidade explosiva – Caracteriza-se por exagerada excitabilidade emocional, tendendo à irritabilidade e predisposição a reações motoras correspondentes a essa excitabilidade. Motivos mínimos são capazes de desencadear crises de cólera, durante as quais o indivíduo perde o domínio de si próprio. Segue-se um estado de mau humor.Também se denominam estes casos de <tipos epileptóides>.” Bastante esclarecedor, ou pelo menos intrigante, para quem leu minhas anotações mais acima…
“Personalidade ciclóide – Distinguem-se duas variedades: a hipomaníaca [mania leve, tendência eufórica] e a pessimista-angustiosa. No primeiro grupo vemos os indivíduos eufóricos, expansivos, comunicativos, simpáticos, sintonizando facilmente com qualquer ambiente.i [Ambos] fazem facilmente amigos, são tolerantes e conciliantes no que diz respeito à moral. Há tanta facilidade para rir como para chorar, correspondendo a alternações de excitação e depressão.ii
i Nojo!
ii Gon Freecs, é você?
O pessimista-angustioso também revela inquietação. Tristes presságios povoam seu pensamento. São indivíduos fatalistas, céticos e de exagerada crítica, tendentes ao rancor.”
“Personalidade esquizóide – Caracterizam o interesse pelo que é raro e original, a tendência a fugir do meio habitual para melhor viver no mundo interior de suas próprias idéias, sonhos e desejos.”
No entanto, esse vocabulário é inútil, uma vez que das 10 personalidades listadas, possuo compatibilidade com várias, ao mesmo tempo em que sou avesso a várias (às vezes simultaneamente), e praticamente me vejo excluído apenas daquelas apontadas como “mais freqüentes em mulheres”.Também posso listar um vasto número de pessoas que se enquadrariam sem esforço em quase todas. Ou seja, trata-se de cultura inútil! Como a própria página, aliás, indica, humildemente: “Acumulação de defeitos da personalidade – Não é fácil encontrar, na vida prática, os tipos puros de personalidades psicopáticas como foram descritas. O que se verifica habitualmente é a acumulação de defeitos de personalidade no mesmo indivíduo.”
* * *
O mesmo do acima expresso em outras palavras, mostrando a diferença entre psicopático ou tipo psicopata e psicótico, o doente por excelência: “As constituições psicopáticas, hereditárias ou não, são inatas . . . As constituições são apenas variações, por excesso ou por falta, das disposições normais”Delmas
i) PERSONALIDADE E CONSTITUIÇÃO
“A constituição [o legado teórico que Lacan utiliza mas que pretende superar nesta monografia], com efeito, pode traduzir apenas uma fragilidade orgânica em relação a uma causa patogênica externa à personalidade, i.e., em relação a certo processo psíquico, para empregar o conceito geral elaborado por Jaspers” “Os problemas da relação da psicose com a personalidade e com a constituição não se confundem.”
I.3. CONCEPÇÕES DA PSICOSE PARANÓICA COMO DESENVOLVIMENTO DE UMA PERSONALIDADE
a) AS PSICOSES PARANÓICAS AFETAM TODA A PERSONALIDADE
“Não é para nos surpreender o fato de que o doente conserve todas as suas capacidades de operação, que ele se defronte, por exemplo, com uma questão formal de matemática, de direito ou de ética. Aqui, os aparelhos de percepção, no sentido mais geral, não estão de modo algum expostos aos estragos de uma lesão orgânica. O distúrbio é de outra natureza”
b) AS PSICOSES NÃO HERDAM APENAS TENDÊNCIAS DA PERSONALIDADE; ELAS SÃO O SEU DESENVOLVIMENTO, LIGADO À SUA HISTÓRIA. – DE KRAFFT-EBBING A KRAEPELIN.
“Lembremos que se encontra em Magnan o inicio da distinção entre a paranóia, desenvolvimento de uma personalidade (delírio dos degenerados) e a parafrenia, afecção progressiva (delírio crônico).”
YIN FILHO DE YANG
“Desde há muito o ser íntimo, toda a evolução do caráter do candidato à paranóia, se terão revelado anormais; além disso, não se pode negar que, freqüentemente, a anomalia específica da orientação do caráter é determinante para a forma especial que mais tarde assumirá a Verrücktheit primária, embora esta equivalha a uma <hipertrofia do caráter anormal>.Assim, vemos, por exemplo, um indivíduo anteriormente desconfiado, fechado, amante da solidão, um dia se imaginar perseguido; um homem brutal, egoísta, dotado de opiniões falsas sobre seus direitos, vir a dar num querelante; um excêntrico religioso cair na paranóia mística.” Krafft-Ebing
“Kraepelin critica, primeiramente, a teoria, muito vaga, dos <germes mórbidos>, em que Gaupp e também Mercklin instituem o início do delírio na personalidade, e que, em suma, vem a dar na teoria de Krafft-Ebbing.”
“a conformidade (antes e durante o delírio) do colorido pessoal das reações hostis ou benevolentes com relação ao mundo externo, a concordância da desconfiança do sujeito com o sentimento de sua própria insuficiência, e também aquela de sua aspiração ambiciosa e apaixonada pela notoriedade, pela riqueza e pela potência com a superestimação desmedida que tem de si mesmo” Kraepelin
“E ele lembra o fato (já assinalado por Specht) da sua freqüência nas situações sociais eminentemente favoráveis a tais conflitos, como a do professor, por exemplo.”
“O que, de resto, distingue a reação do paranóico das de tantos outros psicopatas atingidos pela mesma insuficiência é sua <resistência>, <seu combate apaixonado contra os rigores da vida, em que ele reconhece influências hostis>. É dessa luta que se origina o reforço do amor próprio. Vê-se, conclui Kraepelin, <que o delírio forma aqui uma parte constituída da personalidade>(Bestandteil des Personlichkeit.)”
“A exuberância da juventude, toda voltada para as grandes ações e para as experiências intensas, reflui pouco a pouco diante das resistências da vida, ou então é canalizada por uma vontade consciente de seu fim em vias ordenadas. As desilusões e os obstáculos levam ao amargor, às lutas apaixonadas ou então à renúncia que encontra seu refúgio em miúdas atividades de amador e em planos consoladores para o futuro. Mas pouco a pouco decresce a força de tensão; o pensamento e a vontade se embotam no círculo estreito da vida cotidiana, e, de tempos em tempos, apenas revivem na lembrança as esperanças e as derrotas do passado.” O paraíso do escritor-professor misantropo.
“Para Kraepelin, o delírio de grandeza é então essencialmente <a trama perseguida, na idade madura, dos planos de alto vôo do tempo da juventude>.”
“<recusar o juízo de outrem ou se esquivar em esperanças de futuro, que nenhum insucesso pode dissolver>. São essas as duas vias em que se engaja o pensamento delirante.” Dois gumes da mesma lâmina.
3 ESTÁGIOS DE GÊNESE DA DOENÇA: “Na juventude, a psicose, <oriunda de devaneios complacentes>, distinguir-se-ia <por seu colorido romântico, pela predominância das ilusões da memória e de um delírio de inventor>. Surgido na idade madura e ligado a idéias de perseguição, o delírio parecerá, antes de mais nada, uma medida de defesa contra as influências contrariantes da vida e se distinguirá essencialmente por uma superestimação desmedida das próprias capacidades do sujeito. Sobrevindo mais tarde [senilidade], com ou sem idéias de perseguição, o delírio se aproximará da primeira forma por seu aspecto de delírio de compensação.” Não faz sentido: a compensação perfeita é o próprio narcisismo hiperbólico!
“é no sonho de aventura e onipotência da juventude, nas construções irrealizáveis da criança curiosa pelas maravilhas da técnica, que o delírio vai encontrar seu modelo.” “persiste uma certa ambigüidade entre a noção de um desenvolvimento mediante <causas internas> e a de reação às <causas exteriores>.”
c) NA PSICOGENIA DAS PSICOSES PARANÓICAS, A ESCOLA FRANCESA SE PRENDE À DETERMINAÇÃO DOS FATORES CONSTITUCIONAIS. – SÉRIEUX & CAPGRAS. [PRINCIPAIS DISCÍPULOS DE MAGNAN, ESCREVIAM A 4 MÃOS] – DIFICULDADES DE UMA DETERMINAÇÃO UNÍVOCA. – DE PIERRE JANET A GÉNIL-PERRIN.
“Sérieux & Capgras não aceitam as tentativas de autores como Griesinger, Dagonet, Féré,Specht, Nacke,para diferenciar, em seu mecanismo, a interpretação mórbida da normal. A interpretação só é mórbida em virtude da orientação e da freqüência que lhe impõe a ideologia de base afetiva, própria não só do delírio, mas do caráter anterior do sujeito. Idéias de perseguição e de grandeza são diversamente combinadas em intensidade e em sucessão, mas segundo uma ordem fixa para cada enfermo. <O plano do edifício não muda, mas suas proporções aumentam>, pois o delírio progride <por acumulação, por irradiação, por extensão>, <sua riqueza é inesgotável>.”
“O delirante alucinado, dizem, experimenta uma mudança que o inquieta; primeiro, ele rechaça os pensamentos que o assediam; ele tem consciência da discordância destes com sua mentalidade anterior; mostra-se indeciso. Só chega à certeza, à sistematização, no dia em que a idéia delirante se tornousensação.”
“O primeiro período do delírio crônico, período interpretativo, surgiu-nos como uma manifestação da desordem mental provocada por uma brusca ruptura entre o passado e o presente, pelas modificações da atividade mental e pelos <sentimentos de incompletude que daí resultam> (Pierre Janet). O doente, ao buscar uma explicação para esse estado de mal-estar, forja interpretações que não o satisfazem, etc. Nada de semelhante ocorre no delírio de interpretação propriamente dito, cuja origem se perde ao longe.”
“No delírio de reivindicação [subtipo do de interpretação] eles dão destaque, entre outros mecanismos, ao da <idéia fixa que se impõe ao espírito de maneira obsedante, orienta sozinha toda a atividade . . . e a exalta em razão dos obstáculos encontrados>. É o próprio mecanismo da paixão.”
“Em 1898, Janet observa o aparecimento de delírios de perseguição, que ele denomina paranóia rudimentar, nos mesmos sujeitos que apresentam a síndrome a que deu o nome expressivo de <obsessão dos escrupulosos>. Os modos de invasão desse delírio, seus mecanismos psicológicos, o fundo mental sobre o qual se desenvolve, mostram-se idênticos ao fundo mental e aos acidentes evolutivos da psicastenia. Notemos que, em suas observações, Janet ressalta que o delírio surge como uma reação a certos acontecimentos traumatizantes. Quanto às predisposições constitucionais, são aquelas do psicastênico: o sentimento de insuficiência de sua própria pessoa, a necessidade de apoio, a baixa da tensão psicológica [?], aí estão traços bem diferentes da constituição paranóica, tal como deveria ser ulteriormente fixada.”
“Assim como um pé aleijado cresce harmoniosamente em relação ao germe no qual preexistia, do mesmo modo os erros do interpretante crescem assim como devem crescer num cérebro que os implica todos potencialmente desde sua origem. Na verdade, não existe aqui princípio nem fim.” Dromard
“A noção de bovarismo foi definida originalmente por Jules de Gaultier como <o poder concedido ao homem de se conceber como aquilo que não é>.”
d) NA PSICOGENIA DAS PSICOSES PARANÓICAS, A ESCOLA ALEMÃ SE PRENDE À DETERMINAÇÃO DOS FATORES REACIONAIS. – BLEULER. – PROGRESSO DESTA DETERMINAÇÃO. – DE GAUPP A KRETSCHMER E A KEHRER.
“O caráter invasivo comparável ao câncer e a incurabilidade do delírio são determinados pela persistência do conflito entre o desejo e a realidade.” Bleuler
“Desde 1905, Friedmann chama atenção para um certo número de casos, que ele designa como um subgrupo da paranóia de Kraepelin. Nesses casos, o delírio aparece claramente como uma reação a um acontecimento vivido determinado e a evolução é relativamente favorável. Ele os denomina paranóia benigna e indica três traços de caráter, próprios a tais sujeitos: eles são <sensíveis, tenazes, exaltados>.”
“Em 1909, Gaupp dá o nome de <paranóia abortiva> a delírios de perseguição que, nos melhores casos, podem ser curados; e a descrição magistral que nos dá a respeito mostra-nos a evolução de um delírio paranóico num terreno tipicamente psicastênico. <Trata-se, escreve, de homens instruídos, numa idade entre 25 e 45 anos, que sempre se mostraram com humor benevolente, modesto, pouco seguros de si, antes ansiosos, muito conscienciosos, escrupulosos até, em suma, aparecendo em toda sua maneira de ser semelhantes aos doentes que sofrem de obsessões. Naturezas ponderadas, voltadas para a critica de si mesmo, sem nenhuma superestimação de si, sem humor combativo. Neles se instala de maneira inteiramente insidiosa, sobre a base de uma associação específica mórbida e, na maioria dos casos, num vínculo temporal mais ou menos estreito com um acontecimento vivido de forte carga afetiva,¹ um sentimento de inquietação ansiosa com idéia de perseguição; com isto existe uma certa consciência da enfermidade psíquica; eles se queixam de sintomas psicastênicos.Esses seres, de natureza moralmente delicada,indagam primeiro se seus inimigos de fato não têm razão de pensarem mal a seu respeito, mesmo que não tenham dado lugar, por sua conduta, a uma crítica maliciosa ou a uma perseguição policial, senão judicial. Mas não aparece nenhum estado melancólico, nenhum delírio de auto-acusação; ao contrário, surgem idéias de perseguição com uma significação sempre mais precisa, bem-fundamentadas logicamente e coerentes, que se orientam contra pessoas ou corpos profissionais determinados (a polícia, etc.). O delírio de relação não se estende a todo o meio ambiente; desse modo, por exemplo, o próprio médico nunca será incluído na formação delirante, no decurso de uma estada de vários meses na clínica; ao contrário, o doente sente certa necessidade do médico, porque a segurança de que nenhum perigo o ameaça e de que, na clínica, ajuda e proteção lhe são garantidas, por vezes age sobre ele de maneira apaziguadora.Uma conversa séria com o médico pode aliviá-lo por algum tempo, mas certamente não de maneira duradoura. Às vezes, fazem algumas concessões e admitem que se trata de uma desconfiança patológica, de uma particular associação mórbida [João & Pablo]; mas novas percepções no sentido do delírio de interpretação trazem, então, precisamente um novo material ao sistema de perseguição. Com o progresso da afecção ansiosa, desconfiada, que evolui segundo grandes oscilações, as idéias de perseguição se tornam mais precisas e ocasionais ilusões sensoriais reforçam o sentimento de sua realidade.[Eu vi, eu ouvi, eu senti, clara, issa! como a luz do dia! Mas chega de graça, pois divago e devaneio, taíscutando? Nãominimize minha capacidade de autossuperação! Passei muito tempo irreconhecível: de heleno, me tornei num jururu! Um inseto marinado em ódio, impotência e rancor… Grande alívio que tudo isso findou!] Em momentos mais calmos, mostra-se uma certa lucidez sobre as idéias de perseguição anteriores: <Por conseguinte, eu evidentemente imaginei isso>; desse modo, a enfermidade continua durante anos, ora em remissão, ora exacerbando-se [COCHICHE NA MINHA FRENTE, SUA IMBECIL DESAFORADA! – desabafo diacrônico]; sempre persiste o fundo de humor de pusilanimidade ansiosa e o doente é dominado por esta reflexão: <Em que eu mereci essas marcas de hostilidade?> É apenas de maneira passageira que ele chega a se revoltar contra essa tortura eterna, ou até a se defender contra a agressão delirante. Jamais arrogância, nem orgulho, jamais idéias de grandeza, elaboração inteiramente lógica das idéias mórbidas de relação, nenhum traço de debilidade, uma conduta inteiramente natural.Os enfermos, que chegam livremente na clínica e a deixam de acordo com sua vontade, possuem até o fim a maior confiança no médico, gostando de voltar a consultá-lo quando, na prática de sua profissão, se sentem novamente perseguidos e importunados. Chegam então com a seguinte pergunta: <Será que isso realmente não passa de imaginação?> Com muita freqüência, não se constata uma progressão clara da afecção, embora nem sempre seja assim. Num caso observado, as associações mórbidas típicas existem há 12 anos, embora nenhum sistema delirante rígido se tenha constituído; trata-se bem antes de idéias de perseguição que variam em força; com isso, o doente é capaz de atuar na profissão em que está empregado. Em períodos relativamente bons, sempre se faz valer uma semiconsciência da enfermidade;a idéia prevalente não domina o sujeito inteiramente como ocorre no delírio de reivindicação. [síntese: eu sou mais controlado e lúcido que o meu pai; eu gestiono as idéias, não o contrário.] Em todos os casos, a disposição depressiva escrupulosa existia desde sempre; assim sendo, trata-se de um quadro delirante caracterogênico que, de certa maneira, é simétrico [eu e JJ, espelhos paralelos] ao quadro delirante caracterogênico colorido de mania de tantos querelantes.>”
¹ CONVIDADO A SE RETIRAR: A EXPULSÃO QUE NÃO É UMA EXPULSÃO, CLARO, SÓ PARA INGLÊS VER! CIRCUITO DA IPSEIDADE: T. EDSON OF JUDAS DE AGUIARHELEN[JUICEofjuízo][EN]A_PAPA_CEARIBADEVOLTÀORIGEM SAUL,[OpecadoR]DENTEBASDAVIFILHOFRITOFRAC.ASSADO ADOCONVIDADO.INESPERADOzzzSONECANABILIOTECASEMINARIO.PADRE.CAPESPESCAPEI.PEIXOTO.PEIXEFISGADO.BARBAZUL.LEUQAR.SEUSPRÓPRIOSPROBLEMAS.PROFESSORCONFESSOR.MAMAMARINADÓLEOGRAXO.ÁCIDO.ASSÍDUO.DERREPENTESÓQUERDORMIR.ALERGICO.FECHEOBLOGDEVIDOAMUDANÇASNAPOLÍTICAINSTITUCIONAL.QUEBRAQUEIXOMU.DANÇA.DINHEIRROTEIRO.RO-TEI-RO.POLIGLOTAGIOTAUTODIDATA.OPERSEGUIDOTEMDESEROPRIMEIRONACORRIDADÁDIVIDA.ROLLING.INCAPAZDEPAZ.DARDO.EU.JUD.EU.SELENCIOSILÊNIOVOZALTATROVÃORIENTACAOÀSVESSAS.MIQUEIXOMEQUEIXO.MAX.ILAR.TIRITA.DESCONFORME.CONFIRMEALGUÉMCONFIRMEQUEUSOUAQUILOQUEUPENSOQUEUSOU.NAOVÁN’ADOSOUTROS.POBLA.CIÓNDEMIERDAS.US.UNDER.THE.PILE.LASTLAP,LARS.TREADINGPUNCH.WHO’R’THEY THE DAY THEY KNEW… DIFUZZ.RETOMANDOFIODAMEADA:EX-PULSO.INTEGRANTE DA ORIENTAÇÃO²coordenação todos os seus esforços anteriores foram v ã o s nesta janela fechada que n a d a representa. andando em círculos circulando pelo andaime escada fechada escura claustrofóbica claudicante suor de sangue.
SÓ METENDO A BROCA PARA APROFUNDAR O SUBSOLO
ENQUANTO A ÁRVORE DA VIDA RELUZ LÁ NO ALTO, NÃO QUE NÃO ESTEJA DALGUM MODO ABORTADA.
PORQUE CRESCEU DEMAIS. SIMBÓLIRÔNICO,NÃO?!
QUE É QUE PODE RE VE LAR
GALHOPODRE200320102017stilldigginginthisstillsea
estilingue_do_tempo it lingers it really lingers…
JUDICIALIZAÇÃO DO SEU CU GORDO QUE JÁ CAGOU CAGARÁ NETINHOS
(isso não é poesia, é só é só terapia.)
“o delírio retorna a um estado de acalmia, quando a ocasião é liquidada ou seus efeitos compensados. Qualquer outro acontecimento vital ulterior poderá então desencadear a doença de maneira análoga.” Kraepelin
“O paranóico não sara, ele se desarma.”
“Ver a distinção entre temperamento e caráterem Ewald, Temperament und Charakter, Berlln, 1924.”
“A representação do acontecimento e o estado afetivo desagradável que está ligado a ela tendem a se reproduzir indefinidamente na consciência.Assim sendo, esse modo reacional da repressão é completamente oposto ao do recalcamento que, na histeria, por exemplo, repele a <lembrança> penosa para o inconsciente.”
Do blasé ao perfeito poeta? Do you still read me?! Do you steal my stuff behind my back?
“A representação consciente do trauma inicial transforma-se em representações parasitárias (Fremdkörperbildung), que lhe foram associadas, mas que não têm com ela mais nenhum elo significativo.” É ou não é meu caso, no caso? Espero que era, que essa era tenha passado… pro passado.
“Pode-se constatar nos sensitivos [X obsessivos¹] uma curiosa mistura de tendências estênicas (intensidade dos sentimentos interiorizados) e astênicas (dificuldade de exteriorização, falha de condução, retenção e repressão) (…) superestimação dos fracassos² (…) É essa tensãoque constitui o fator psicológico determinante nos delirantes sensitivos; estes são, em suma, completamente subjugados pelas tensões sociais e éticas, onde havíamos visto um componente essencial da personalidade.”
¹ Se essa permuta é válida não fica muito claro (em Kretschmer, de qualquer modo).
² A descrição do fenômeno não dá conta: não é possível ser um narcisista convencido e um fracassado ultimado ao mesmo tempo! Se só um passarinho pode escapar, um precisa ficar… Goleiro mão-de-gaoiola.
O melhor tratamento na juventude (~20 anos) seria: “Mãe, pelo menos o seu filho é um irresponsável!” Infelizmente comigo fizeram o inverso, retroalimentando o mal!
Fonte: vozes da minha cabeça?! Vozes antigas de desafetos reavivadas…
“Por conseguinte, o sensitivo se distingue do expansivo¹ pela inferioridade considerável de sua força psíquica e pelo conflito interior resultante do fato de suas predileções éticas” Poderia até fingir ser outra pessoa, mas isso vai contra meus valores mais arraigados. O tipo expansivo: Pa******, a antecessora no PG** da CA***, a vulgarmente conhecida como: grossa. O que para ela seria um sincericídio (sempre um suicídio moral com muitas testemunhas, espetaculoso) para mim é justamente preservação da minha integridade diante do espelho. O outro não me importa (mediatamente) – tant pis… Provavelmente a dita-cuja poderia alegar a mesma coisa (invertida). (P.S.: Soube a referida foi indiciada em comissão de ética por ser expansiva demais em e-mails institucionais… Cof cof… Pode até gostar de trabalho – o problema é quando gosta tanto que até dá trabalho pros outros…)
– Gostou de cima?
– Como assim? Eu nunca subi ali.
– De semancol, que eu mandei você tomar.
A PERSONALIDADE SENSITIVA DE KRETSCHMER EM POUCAS PALAVRAS: “uma extraordinária impressionabilidade, uma sensibilidade extremamente acessível e vulnerável, mas, por outro lado, certa dose consciente de ambição e de tenacidade. Os representantes acabados desse tipo são personalidades complicadas, muito inteligentes, dotados de um alto valor, homens de fina e profunda sensibilidade, de uma ética escrupulosa e cuja vida sentimental é de uma delicadeza excessiva e de um ardor todo interiorizado; são vítimas predestinadas de todas as durezas da vida. Encerram profundamente neles próprios a constância e a tensão de seus sentimentos. Possuem capacidade refinada de introspecção e de autocrítica. São muito suscetíveis e obstinados, mas, com isso, particularmente capazes de amor e de confiança. Têm por eles próprios uma justa auto-estima e, no entanto, são tímidos e muito inseguros quando se trata de se mostrar, voltados para si e no entanto abertos e filantropos, modestos mas de uma vontade ambiciosa, possuindo, de resto, altas virtudes sociais”
“lutas internas tão inúteis quanto secretas”
O EM VÃO!
Depois da (auto)crítica vem o desespero, depois do desespero a nova crítica e resolução firme, e ad…
“A interação do caráter e da experiência representa, no delírio de relação sensitivo, a causa essencial da doença.”
“A situação mais típica do sensitivo que adoece em seu meio social é a do <contexto social e espiritual, tão ambíguo, do professor primário, fértil em pretensões e que, no entanto, não recebe nenhuma consagração, colocado num plano superior e todavia mal-assegurado por uma formação espiritual [material?] incompleta.>”
O ELO DURKHEIMIANO: “Quando esses 3 fatores psicológicos [de dentro para fora, nesta ordem: a personalidade inata; o <evento-catástrofe> ou uma série episódica de contradições temperamento-êxitos&fracassos, enfim, o TRAUMA; o meio social mais geral] acarretaram uma repressão mórbida, então o fator biológico do esgotamento concorre essencialmente para o desencadeamento da doença, assim como, inversamente, o estado de fadiga neurastênica pode facilitar, em primeiro plano, o aparecimento de repressão nos caracteres sensitivos.”
“A experiência decisiva com a situação vital que a subtende é simplesmente tudo. Se a suprimíssemos, a doença ficaria reduzida a nada. Ela forma, por sua repetição na obsessão, o objeto sempre novo dos remorsos depressivos, dos temores hipocondríacos . . .”
O SÍTIO E O VAGABUNDO (pais e irmão)
“Toda semana a mesma coisa… toda semana esse ciclo trágico… isso nunca vai acabar… isso de novo… outra vez…” “Reclamo, mas eles fingem que não me escutam ou logo se esquecem e tudo acontece como da primeira vez…” “Essas memórias continuam voltando e eu fico preso a elas por vários dias, até me recuperar e parar de sentir a dor nas costas…” “Minha vó que morreu… Ela se compadeceria por mim? Quem se compadece por mim? Isso é algum tipo de vingança dos meus ancestrais, uma maldição muito anterior a minha existência? É culpa minha?!? Por que eu não sei lidar melhor com essa MERDA?! Por que eu sou assim?! Que derrota…” “E se eu só for piorando cada vez mais e for um incapacitado minha vida inteira?” “Me jogo ou não me jogo? E se eu não morrer? Tenho coragem? Meu ‘amigo’ me falou que é só se jogar de cabeça, não tem erro, e eu não vou sentir nada, eu vou apagar antes de chegar ao chão… Por que não? Por que me sujeitar a ver e sentir todo esse ciclo se repetindo de novo e de novo e me sentir impotente sempre e sempre?… Qual o sentido nisso tudo? Eu gostaria de chamar a atenção pra minha existência da única forma que me é possível, depois de tudo que tentei… que é deixando de existir…”
O livro que me “salvou”: Vontade de Potência.
* * *
MELHOROU MAS NEM TANTO: “todas as idéias de prejuízo e de inquisição pela família e pelos colegas, pelo público e pelos jornais, todas as angústias de perseguição provocadas pela polícia e pela justiça, provêm desse acontecimento inicial e a ele retornam.”
“a intensidade afetiva dos paroxismos, a ausência ordinária de reações agressivas, seu caráter apenas defensivo nos casos puros, a ênfase hipocondríaca do quadro, a amargura sentida em relação à própria inutilidade, o esforço no sentido do restabelecimento e a confiança do apelo ao médico.”
RESIGNA-TE!
Se deus (pai) morrer para mim, eu me torno uma espécie de Jason, conforme a literatura (o que me faz ser útil à sociedade e ter meu valor, ser um neurastênico, é que eu sofro continuamente sentindo o parasitismo causal dessa relação sem-saída). Um psicopata apagaria esse indesejável para-além do inconsciente e, astênico, dormente, insensível, maquínico, dissolvido, solto até mesmo do social, se realizaria, porém se perdendo, desvinculado de qualquer valor futuro… É esse altruísmo-no-egoísmo do herói que nos redime “no fim”…
Ver como eu cheguei a essa conclusão após ser um niilista conceitual virtualmente completo e agora que me entendo eticamente é uma verdadeira epopéia realizada, teatro grego in loco e na carne, mas já finalizado… Milagroso, enfim. Hic salta.
Muitos sóis sob o céu em seu ofuscante vermelho alaranjado róseo amarelado ainda quero assistir ou pressentir ou sentir, com a luz penetra assentir, menear, condescender às sombras do Hades apenas para depois me REDimir, em pele nova e calejada, ainda rosácea, mas mais de réptil, como se fosse possível continuar sofrendo e estar-agora-anestesiado tudo ao mesmo tempo e em evolução única, singular, astral, austral, hiperbórea, meridional, crítica, sub-tropical, na linha do Equador de toda a rotundidade desta vida neste planetinha neste seculozinho miserável e ingrato e que no entanto nos enche de graça e contentamento sabe-se lá pelo quê exatamente, mas sei que há algo… Tem de haver. Tende a haver. Não importa, há.
“As psicoses leves não vêm às mãos do médico de asilo, mas do médico de consultório. Assistidas por ele em tempo oportuno, elas devem desaparecer completamente, deixar uma correção completa do delírio.
Algumas formas, como o delírio dos masturbadores [???], parece que, mesmo após manifestações graves, podem ser completamente curadas.”
“O início da evolução é muito mais nítido do que deixa perceber a noção de insidiosidade sobre a qual insistem as descrições clássicas de Kraepelin e Gaupp.”
“A evolução, assim, nada tem de esquemático: curas rápidas, reações agudas, evolução prolongada por muitos anos com cura relativa, evolução recidivante desencadeada em ocasiões absolutamente determinadas, ou oscilações durante anos na fronteira entre a eclosão delirante e sua base neurótica.”
“a evolução típica não apresenta fenômenos de despersonalização.”
“Eis por que Kretschmer não fica, de modo algum, embaraçado, em suas considerações doutrinais, por só ter descrito um tipo particular de psicose paranóica. Ele efetivamente nada mais quis demonstrar, diz-nos, senão que, <quanto mais sensitivo é um caráter, tanto mais especificamente ele reagirá, no caso, a um complexo de culpa mediante um delírio de relação de estrutura sutil>.”
“Não existe a paranóia, mas apenas paranóicos.”
I.4. CONCEPÇÕES DA PSICOSE PARANÓICA COMO DETERMINADA POR UM PROCESSO ORGÂNICO
“Um delírio, com efeito, não é um objeto da mesma natureza que uma lesão física, que um ponto doloroso ou um distúrbio motor. Ele traduz um distúrbio eletivo das condutas mais elevadas do doente: de suas atitudes mentais, de seus juízos, de seu comportamento social. Além do mais o delírio não exprime este distúrbio diretamente; ele o significa num simbolismo social. Este simbolismo não é unívoco e deve ser interpretado.”
“o doente, para exprimir a convicção delirante, sintoma de seu distúrbio, pode se servir apenas da linguagem comum, que não é feita para a análise das nuanças mórbidas, mas somente para o uso das relações humanas normais.”
“A concepção subjacente que ele tem de si mesmo transforma o valor do sintoma: uma convicção orgulhosa, se estiver fundada numa hiperestenia afetiva primitiva, não tem o mesmo valor que uma defesa contra a idéia fixa de um fracasso ou de uma falta”
“a evolução para a atenuação, a adaptação, mesmo a cura da psicose, fatos, em suma, reconhecidos por todos os autores, virão corrigir a primeira noção da irredutibilidade do delírio.”
“Existem, certamente, fatores orgânicos da psicose. Devemos precisá-los tanto quanto possível. Se nos dizem que se trata de fatores constitucionais, admitiremos de boa vontade, contanto que isto não seja pretexto para uma satisfação meramente verbal” “Este processo é menos grave ou menos aparente do que aqueles que devem ser reconhecidos na psicose maníaco-depressiva, na esquizofrenia ou nas psicoses de origem tóxica. Ele é da mesma natureza. Em todas essas psicoses, o laboratório revelou alterações humorais ou neurológicas, funcionais senão lesionais, que, por ficarem insuficientemente asseguradas, não permitem menos que se afirme a prevalência do determinismo orgânico do distúrbio mental. Ainda que tais dados faltem nas psicoses paranóicas, seu andamento clínico pode nos fazer admitir sua identidade de natureza com as psicoses orgânicas. Esta é a tese de vários autores que se opõem aos partidários da psicogênese.” “Quando se trata de precisar quais são estes distúrbios característicos, as respostas diferem de autor para autor. Contudo, o estado atual da psiquiatria pode explicar a incerteza destas respostas, e não permite afastar a hipótese que lhes é comum, a de um determinismo não-psicogênico.”
TAXONOMIA BÁSICA E RELAÇÕES DE ORIGEM (“ORGANOGÊNESE”) DESSA CORRENTE:
“– distúrbios do humor, mais ou menos larvares, da psicose maníaco-depressiva;
– dissociação mental, mais ou menos frustra, dos estados paranóides e da esquizofrenia;
– determinismo, mais ou menos revelável, do delírio por estados tóxicos ou infecciosos.”
“Estas pesquisas gravitaram na França em torno da concepção do automatismo psicológico; elas resultaram na Alemanha na formação de um conceito analítico: o de processo, que foi especialmente criado pelas pesquisas sobre as psicoses paranóicas. Estes dois conceitos, o de automatismo e o de processo, definem-se por sua oposição às reações da personalidade. Acreditamos portanto que as pesquisas psicogênicas conservam todo seu valor.”
a) RELAÇÕES CLÍNICAS E PATOGÊNICAS DA PSICOSE PARANÓICA COM OS DISTÚRBIOS DO HUMOR DA PSICOSE MANÍACO-DEPRESSIVA.
“A relação das variações de humor, maníaco e melancólico, com as idéias delirantes é uma questão que nunca deixou de estar na ordem do dia das discussões psiquiátricas. Foi certamente um progresso capital da nosografia quando Lasègue isolou seu delírio das perseguições das lipemanias, com as quais Esquirol as confundia. Contudo, basta evocar o esforço de análise que teve que ser feito em seguida para discriminar os perseguidos melancólicos dos verdadeiros perseguidos para ver o quanto aparecem intrincadas variações depressivas do humor e idéias delirantes.”
“A exaltação maníaca faz parte do quadro clássicodos perseguidos perseguidores. Os autores modernos: Köppen, Sérieux e Capgras,que se fundamentam numa nosografia precisa do delírio de reivindicação, reconhecem aí um dos traços essenciais da síndrome.”
“Taguet insiste nas formas intermitentes do delírio, que aparecem nos estados de superexcitação periódica da inteligência, da sensibilidade e da vontade. Estes fatos, por volta de 1900, estavam na ordem do dia e eram objeto de discussões apaixonadas. Estas eram provocadas pela confiança por demais absoluta que certos autores davam ao progresso clínico representado pelo isolamento da noção de delírio sistematizado na França, da Verrücktheit ou da paranóia primária na Alemanha.” “Para Kraepelin, este termo de paranóia periódica é uma contradictio in adjecto, e ele não hesita nessa época em tachar de <candura> aqueles que o usam.”
“a alteração maníaca do humor, a logorréia [verbosidade], a grafomania [hábito ou compulsão da escrita, coerente ou não], a inquietude, a impulsão de agir, a ideorréia [fertilidade mental], a distração: características da mania.”
“Por certo acreditamos que é preciso abster-se de confundir a variação ciclotímica com os estados afetivos secundários às idéias delirantes. Ou, melhor dizendo, acreditamos ser preciso distinguir, com Bleuler, o distúrbio global do humor, depressivo ou hiperestênico, ou variação afetiva holotímica – e os estados afetivos ligados a certos complexos representativos, que representam uma situação vital determinada, ou variação afetiva catatímica.”
b) RELAÇÕES CLÍNICAS E PATOGÊNICAS [DE ORIGEM ORGÂNICA] DAS PSICOSES PARANÓICAS COM A DISSOCIAÇÃO MENTAL DAS PSICOSES PARANÓIDES E DA ESQUIZOFRENIA, CONFORME OS AUTORES.
“Não há dúvida de que existem fatos freqüentes em que um surto fugazde sintomas esquizofrênicosprecedeu em alguns anos o surgimento de uma psicose paranóica que se estabelece e dura.” “Enfim, a saída de uma psicose paranóica típica, evoluindo para uma dissociação mental manifesta de tipo paranóide, não é nada incomum.”
“Kahn, na Alemanha, apresenta fatos que demonstram <que muitos paranóicos legítimos atravessam em um período precoce um processo esquizofrênico e que eles conservam disso um ligeiro déficit a partir do qual a paranóia se instala>.”
Bleuler e os fatores psicogênicos da paranóia:
1. “uma afetividade com forte ação de circuito, que se distingue além disso pela estabilidade de suas reações”
2. “uma certa desproporção entre a afetividade e o entendimento.”
// “mecanismo paratímico larvar”
Bl. admite ainda a permutabilidade, em certas instâncias, entre processos esquizo e paranóicos.
“Por outro lado, temos razões para admitir que na esquizofrenia existe sempre um processo anatômico, mas não nas paranóias.” B.
c) RELAÇÕES CLÍNICAS E PATOGÊNICAS DA PSICOSE PARANÓICA COM AS PSICOSES DE INTOXICAÇÃO E DE AUTO-INTOXICAÇÃO. – PAPEL DO ONIRISMO E DOS ESTADOS ONIRÓIDES. – RELAÇÃO ENTRE OS ESTADOS PASSIONAIS E OS ESTADOS DE EMBRIAGUEZ PSÍQUICA. – PAPEL DOS DISTÚRBIOS FISIOLÓGICOS DA EMOÇÃO.
“Encontramos incessantemente, na pena dos autores, o voto de que um estudo melhor das seqüelas delirantes, que persistem depois dos delírios agudos, dos estados confusionais, dos estados de embriaguez delirante e de diversos tipos de onirismo, venha nos dar novos esclarecimentos sobre o mecanismo dos delírios.
O estudo do alcoolismo nos trouxe fatos fortemente sugestivos de idéias fixas pós-oníricas, de delírios sistematizados pós-oníricos, de delírios sistematizados de sonho a sonho, de delírios com eclipses (Legrain).”
“Desde então, a questão que se coloca é a de saber se os estados de auto-intoxicação, tais como podem ser realizados pelos distúrbios digestivos diversos, a estafa, etc., não podem desempenhar um papel essencial nas psicoses.”
“O desequilíbrio parassimpático, particularmente, parece desempenhar um papel determinante no surgimento dos estados de embriaguez atípicos e dos estados sub-agudos alcoólicos.”
“os estudos estatísticos de Drenkhahn (1909), onde se vê, após as medidas proibitivas tomadas contra o alcoolismo no exército alemão, a proporção dos distúrbios catalogados como neuróticos e psicóticos se elevar numa proporção estritamente compensatória da diminuição dos distúrbios ditos alcoólicos.”
“James, para quem a crença comporta um elemento afetivo essencial, salientou o fato de que certos estados de embriaguez parecem determinar experimentalmente o sentimento da crença.”
“Tentou-se atribuir, nas nossas psicoses, um papel todo particular à intoxicação pelo café, tão freqüentemente observada, com efeito, em certos sujeitos, mulheres próximas à menopausa, nas quais explode um delírio paranóico. Mesmo aí não se poderia falar de uma determinação exclusiva pelo tóxico.” Heuyer & Borel, Accidents subaigus du caféisme, 1922.
“De resto, esses determinismos humorais, ainda que fossem mais claramente confirmados nos fatos, deixariam intacto o problema da estrutura psicológica complexa dos delírios paranóicos, que é o problema a que nos dedicamos.”
d) ANÁLISES FRANCESAS DO “AUTOMATISMO PSICOLÓGICO” NA GÊNESE DAS PSICOSES PARANÓICAS. – RECURSO À CENESTESIA POR HESNARD & GUIRAUD. – AUTOMATISMO MENTAL, DE MIGNARD & PETIT. – SIGNIFICAÇÃO DOS “SENTIMENTOS INTELECTUAIS” DE JANET. – A NOÇÃO DE ESTRUTURA EM PSICOPATOLOGIA, SEGUNDO MINKOWSKI.
“O único vínculo teórico comum a essas pesquisas é a noção muito flexível de automatismo psicológico, que não tem nada em comum, senão a homonímia, com os fenômenos de automatismo neurológico. Graças à complexidade dos sentidos do termo automatismo, ele convém perfeitamente a uma série de fenômenos psicológicos que, como bem o mostrou nosso amigo H. Ey, são de ordem extremamente diversa.”
“Quando a ordem da causalidade psicogênica, tal como a definimos mais acima, é modificada pela intrusão de um fenômeno de causalidade orgânica, diz-se que há um fenômeno de automatismo. Este é o único ponto de vista que resolve a ambigüidade fundamental do termo automático, permitindo compreender ao mesmo tempo seu sentido de fortuito e de neutro que se entende com relação à causalidade psicogênica, e seu sentido de determinado que se entende com relação à causalidade orgânica.”
“CENESTESIA. Por este termo, compreende-se o conjunto das sensações proprioceptivas e enteroceptivas: tais como sensações viscerais, sensações musculares e articulares, mas somente enquanto elas permanecem vagas e indistintas e, propriamente falando, enquanto, como isto se passa em estado de saúde, ficam no estado de sensações puras, sem chegarem à percepção consciente.” “Ela forma a peça-mestra de uma doutrina geral da gênese dos distúrbios mentais, engenhosamente construída por Hesnard.”
“Janet apresenta amplos conhecimentos sobre o mecanismo da ilusão da memória, fenômeno que depende, e no mais alto grau, das insuficiências de adaptação ao real; mas ele não ataca, para si mesmo, o fenômeno tão delicado da interpretação. Contudo sua análise impõe, quanto a esse tema, sugestões preciosas. E é muito mais concebível que a interpretação mórbida, bem diferente do mecanismo normal da indução errônea ou da lógica passional, possa depender de um distúrbio primitivo das atividades complexas, distúrbio que a personalidade imputa naturalmente a uma ação de natureza social.
Qualquer que seja a expressão intelectual que lhes imponham as necessidades da linguagem, para o doente como para o observador, é preciso conceber os sentimentos intelectuais como estados afetivos, quase inefáveis, de que o delírio representa apenas a explicação secundária, freqüentemente forjada pelo doente após uma perplexidade prolongada.”
“Se o autor se recusa, com efeito, a concluir prematuramente por qualquer alteração de um sistema de neurônios especializado, cuja existência permanece cientificamente mítica, é, no entanto, a uma concepção biológica destes distúrbios que ele adere.” “A causalidade biológica desses fatos é bem acentuada pela influência de condições como as doenças, a fadiga, as emoções, as substâncias excitantes, a mudança de meio, o movimento, o esforço, a atenção, que agem não como fatores psicogênicos, mas como fatores orgânicos. § Esses sentimentos intelectuais, normalmente afetados pela regulação das ações (sentimento de esforço, de fadiga, de fracasso ou de triunfo), parecem também traduzir, com freqüência, de forma direta, uma modificação orgânica. Eles tenderão, contudo, nos dois casos, a surgir para o sujeito como condicionados pelos valores socialmente ligados ao sucesso dos atos pessoais (estima de si, auto-acusação) e uma conclusão delirante, correspondente a essas ilusões, aparecerá.” “um controle preciso desses dados poderia ser trazido pelo estudo psicológico atento dos fenômenos subjetivos da psicose maníacodepressiva.”
“A necessidade do familiar exige um trabalho de reclassificação, de reorganização. Essa reorganização se faz em torno de alguns fatos, tomados freqüentemente ao acaso, e que desempenharão o papel de cristais de poeira numa mistura em alta fusão. A cristalização será aliás pouco estável no princípio: somente mais tarde ela chegará a um sistema coerente, a expressões verbais fixas.” Meyerson & Quercy
UnB 2009: mictório FD antes da aula de TPM: o que sou eu, o que estou fazendo aqui, essa rotina apresenta algum sentido? doravante: petrificação da noção de que “ele” é o culpado por tudo. “Você é um lixo; fracassado… eu no seu lugar… VOCÊS… quem é ‘vocês’?”
“[subsidiariamente (não em minha opinião, de qualquer forma),] depois, a tentativa, bem-sucedida ou não, de redução do distúrbio pelas funções conceituais, mais ou menos organizadas, da personalidade.” Vencer na vida, mesmo aos olhos cínicos, hipócritas e inconfessáveis do LIXO. Queimar qualquer centelha nesse intuito. Êxito.
“Os autores são induzidos a tal concepção pelos fatos que trazem com o nome de interpretações frustradas, e que são interpretações em que faltam certos elementos da interpretação completamente desenvolvida.
Esse é o caso do doente no qual, após um período alucinatório, o delírio de perseguição se reduziu pouco a pouco a puras interpretações. Acontece um dia que uma vizinha, ocupada em podar uma cerca, solta estas palavras: <Tudo isso é selvagem.> O doente fica transtornado. No entanto, ele não pode afirmar que essas palavras o visavam. <Isso lhe pareceu engraçado.> Isso continua a lhe parecer engraçado.Ele está certo que a vizinha não pode lhe querer mal. A anamnese do doente, que merece ser lida nos pormenores, traduz ao mesmo tempo sua boa vontade (a ausência certa de reticência [não seria presença?]) e sua impotência para explicar aquilo que lhe aconteceu.
Esse doente está nesse momento perfeitamente orientado e conserva as reações intelectuais e mnêmicas na média normal.
Estamos aí na presença de uma atitude mental que se caracteriza por um estado afetivo quase puro, e em que a elaboração intelectual se reduz à percepção de uma significação pessoal impossível de precisar.
Tal redução do sintoma se apresenta como um fato de demonstração notável, mas, para que toda elaboração conceitual faltasse, parece ser necessário estarmos diante de um caso em que a reação de defesa psicológica seja má [ruim], e a observação nos indica com efeito que o caso se agrava ulteriormente e apresenta um quadro que se revela esquizofrênico.”
Quando todos os olhares são acusadores, pontiagudos, hostis, nos tornamos uma verdadeira lixa por todos os lados, e, assim como não sabemos o que fazer com essas pessoas, elas também não fazem idéia do que fazer conosco. Fica elas por elas. Cada um com seus problemas genealógicos e bons ou maus pais.
“Segundo a definição de Husserl, que é seu iniciador, a fenomenologia é <a descrição do domínio neutro do vivido e das essências que aí se apresentam>. Nós não podemos dar aqui mesmo uma idéia do método de que se trata. Digamos somente que Minkowski, que parece não ignorar essas pesquisas, transforma profundamente, como costuma fazer, seu método e seu espírito.”
ENTÃO A FENOMENOLOGIA HUSSERLIANA É UMA “IDÉIA PLATÔNICA”, NO SENTIDO MAIS PEJORATIVO DO TERMO, NA PIOR COMPREENSÃO POSSÍVEL DA FILOSOFIA DE PLATÃO: “Para compreender um delírio de ciúme, por exemplo, é preciso evitar de imputar à doente, ciumenta de uma outra mulher, uma construção dedutiva ou indutiva mais ou menos racional, mas compreender que sua estrutura mental a força a se identificar com sua rival, quando ela a evoca, e a sentir que ela é substituída por esta. Em outros termos, as estereotipias mentais são consideradas nesta teoria como mecanismos de compensação, não de ordem afetiva, mas de ordem fenomenológica. Inúmeros casos clínicos foram assim interpretados por Minkowski.”
“conteúdo e forma só poderão ser dissociados arbitrariamente na medida em que o papel do trauma vital nas psicoses for resolvido.” Referência ao élan vital de Minkowski.
e) ANÁLISES ALEMÃS DA ERLEBNIS PARANÓICA. – A NOÇÃO DE PROCESSO PSÍQUICO, DE JASPERS. – O DELÍRIO DE PERSEGUIÇÃO É SEMPRE ENGENDRADO POR UM PROCESSO, PARA WESTERTERP.
“Inúmeros acontecimentos, que sobrevêm ao alcance dos doentes e chamam sua atenção, despertam neles sentimentos desagradáveis pouco compreensíveis. Esse fato os preocupa bastante e os aborrece. Algumas vezes tudo lhes parece tão forte, as conversas ressoam com veemência demasiada em seus ouvidos, algumas vezes mesmo qualquer barulho, um acontecimento ínfimo, é suficiente para irritá-los. Eles têm sempre a impressão de que são eles que são visados nisso. Acabam por ser completamente persuadidos disso. Observam que falam mal a seu respeito, que é precisamente a eles que prejudicam. Colocadas sob forma de juízo, essas experiências engendram o delírio de relação.” Jaspers
“Ele nota o sobrevir episódico de fenômenos pseudo-alucinatórios. <Todos esses distúrbios não alcançam contudo um verdadeiro estado de psicose aguda. Os doentes orientados, ponderados, acessíveis freqüentemente até aptos ao trabalho, têm todo o lazer e o zelo necessário para elaborar, para explicar suas experiências, um sistema bem-organizado e idéias delirantes numerosas, explicativas, nas quais eles próprios não reconhecem freqüentemente mais que um caráter hipotético. Quando tais experiências se dissiparam após um tempo bastante longo [três anos, p.ex.?], não se encontra mais que os conteúdos delirantes de juízos petrificados; a experiência paranóica particular desapareceu.>”
“reivindicante com tom depressivo”
“Jaspers distingue ainda modificações intermediárias na reação¹ e no processo.² São aquelas que, embora sendo determinadas de modo puramente biológico e sem relação com os acontecimentos vividos pelo doente, são entretanto restauráveis e deixam intacta a personalidade: tais são os acessos, as fases, e os períodos, cujos exemplos podem ser encontrados em várias doenças mentais.”
¹ “Os episódios agudos não ocasionam nenhum transtorno duradouro. O statu quoante se restabelece.”
² “Os episódios agudos têm por conseqüência um transtorno não-restaurável.”; “Enxerto parasitário único comparável ao progresso de um tumor.” Nascimento de uma segunda personalidade.
“A organização psíquica é totalmente destruída nos processos orgânicos grosseiros: as lesões evolutivas do cérebro, na verdade, provocam distúrbios mentais que têm apenas a aparência de uma verdadeira psicose. A observação nos mostra, de fato, que a cada instante de sua evolução intervêm alterações psíquicas sempre novas, heterogêneas entre elas, sem liame estrutural comum.”
“Quatro casos de delírio de ciúme, agrupados 2 a 2, ilustram de modo notável esta oposição da psicose que se apresenta como um desenvolvimento [reversível]¹ àquela que aparece como um processo.”
¹ Classificação jasperiana. Não se concorda com ele hoje: a psicose é um processo incurável. Mas, como veremos, o próprio Lacan tinha muita fé no seu oposto!
“O delírio de ciúme (logo seguido de idéias de perseguição) manifesta-se num lapso de tempo relativamente curto, sem limites nítidos, mas que não ultrapassa cerca de um ano.”
“idéia delirante de ser observado (<falam baixo e zombam do sujeito>) (…) sintomas somáticos interpretados (<vertigem? cefaléia? distúrbios intestinais?>).”
Ressalva: precisaríamos de um estudo sobre o advento de paranóias e manias persecutórias em tempos de derrocada da democracia…
“não se encontra nenhuma adjunção de novas idéias delirantes, mas o sujeito guarda seu delírio antigo, não o esquece; ele considera seu conteúdo como a chave de seu destino e traduz sua convicção por atos. (…) O sujeito não é reticente.”
“Essas personalidades apresentam um complexo de sintomas que podemos aproximar da hipomania: consciência de si nunca enfraquecida, irritabilidade, tendência para a cólera e o pessimismo, disposições que, à menor ocasião, se transformam em seu contrário: atividade incessante, alegria de empreender.”
“[No caso de predisposição caracterológica, sem desencadeamento de processo psíquico no delirante ciumento] persiste apenas a tendência a novas explosões durante ocasiões apropriadas. Aqui, não há idéias de perseguição, nem de envenenamento; por outro lado, forte tendência à dissimulação.”
“O doente percebe que <alguma coisa nos acontecimentos tem a ver com ele sem que compreenda o que é>.” Westerterp
“Westerterp evidencia aqui minuciosamente as armadilhas a que a tendência a querer tudo compreender leva o observador; ele descobre, com muita sutileza, nos casos em que foi exercida a penetração psicológica por demais hábil de pesquisadores anteriores, os defeitos da armadura dessas explicações psicogênicas demasiado satisfatórias. Os levantamentos sobre o caráter anterior também devem ser submetidos a uma crítica minuciosa.”
Sempre teremos de tratar depressões e neuroses a nossa própria maneira. Uma solução mágica infalível, digo, uma solução científico-empírica infalível de 50 anos atrás já pode ser sabotada pelo inconsciente do doente médio, posto que tal solução se tornou lugar-comum na literatura e a depressão ou neurose, como um vírus ou bactéria, já se aperfeiçoou a fim de promover sua disseminação. A teoria da couraça ou de imunidade protetiva a novos episódios depressores infelizmente é – mas apenas porque tornou-se – incorreta.
“4. após um curto lapso de tempo sem atribuírem qualquer causa aos sintomas que sentem tão nitidamente, os doentes encontram uma explicação que os satisfaz mais ou menos, na idéia delirante de serem perseguidos por uma certa categoria de homens por causa de uma ação precisa;
5. então, uma forte desconfiança vem cada vez mais em primeiro plano;
6. o delírio, nascido assim secundariamente, permanece alimentado pela continuação das manifestações do processo, mas tira também de si mesmo interpretações compreensíveis, como toda idéia prevalente;
7. não existe nenhuma alucinação.”
II. O CASO “AIMÉE” OU A PARANÓIA DE AUTOPUNIÇÃO
“Acreditamos que, em vez de ser obrigatório publicar o conjunto de nosso material de modo forçosamente resumido, é, ao contrário, pelo estudo, tão integral quanto possível, do caso que nos pareceu mais significativo que poderemos dar o máximo de alcance intrínseco e persuasivo a nossos pontos de vista.”
II.1 EXAME CLÍNICO DO CASO “AIMÉE”
“Distúrbios mentais que evoluem há mais de um ano; as pessoas com as quais ela cruza na rua dirigem-lhe insultos grosseiros, acusam-na de vícios extraordinários, mesmo se essas pessoas não a conhecem; as pessoas de seu meio falam mal dela o mais que podem e toda a cidade de Melun está a par de sua conduta, considerada como depravada; ela também quis deixar a cidade, mesmo sem dinheiro, para ir a qualquer lugar.”
“O delírio que apresentou a doente Aimée revela a gama quase completa dos temas paranóicos. Temas de perseguição e temas de grandeza nele se combinam estreitamente. Os primeiros se exprimem em idéias de ciúme, de dano, em interpretações delirantes típicas. Não há idéias hipocondríacas, nem idéias de envenenamento. Quanto aos temas de grandeza, eles se traduzem em sonhos de evasão para uma vida melhor, em intuições vagas de ter que realizar uma grande missão social, em idealismo reformista, enfim, numa erotomania sistematizada sobre uma personagem da realeza.”
“Aimée colabora ardentemente na confecção do enxoval da criança esperada por todos. Em março de 192.. ela dá à luz uma criança do sexo feminino, natimorta. O diagnóstico é asfixia por circular de cordão. Segue-se uma grande confusão na doente. Ela atribui a desgraça a seus inimigos; de repente parece concentrar toda a responsabilidade disso numa mulher que durante 3 anos foi sua melhor amiga. Trabalhando numa cidade afastada, esta mulher telefonou pouco depois do parto para saber das novas. Isto pareceu estranho a Aimée; a cristalização hostil parece datar de então.”
“Uma segunda gravidez acarreta a volta de um estado depressivo, de uma ansiedade, de interpretações análogas. Uma criança nasceu a termo em julho do ano seguinte (a doente está cem 30 anos).” “Durante a amamentação, ela se torna cada vez mais interpretante, hostil a todos, briguenta. Todos ameaçam seu filho. Ela provoca um incidente com motoristas que teriam passado perto demais do carrinho do bebê. Causa diversos escândalos com os vizinhos. Ela quer levar o caso à justiça.”
“A seu favor, ela invoca o fato de querer ir aos Estados Unidos em busca do sucesso: será romancista. Ela confessa que teria abandonado seu filho.”
“eu interrogo as minhas companheiras, algumas das quais são loucas e outras tão lúcidas quanto eu, e quando eu tiver [sic] saído daqui, eu me proponho a morrer de rir por causa do que me acontece, pois acabo me divertindo realmente por ser sempre uma eterna vítima, uma eterna desconhecida, Santa Virgem, que história a minha! o senhor a conhece, todo mundo a conhece mais ou menos, a tal ponto falam mal de mim”
“guardava uma profunda inquietude: Quais eram os inimigos misteriosos que pareciam persegui-la? Ela não devia realizar um grandioso destino? Para procurar a resposta destas perguntas é que ela quis sair de sua casa, ir para a cidade grande.”
“Um dia, diz ela, como eu trabalhava no escritório, enquanto procurava, como sempre, em mim mesma, de onde podiam vir essas ameaças contra meu filho, escutei meus colegas falarem da Sra. Z. Compreendi então que era ela quem nos queria mal.” “Uma vez, no escritório de E., eu tinha falado mal dela. Todos concordavam em considerá-la de boa família, distinta . . . Eu protestei dizendo que era uma puta. É por isso que ela devia me querer mal.”
“A mais exaustiva pesquisa social não pôde nos revelar que ela tivesse falado a alguém a respeito da Sra. Z. Apenas uma de suas colegas nos relata vagas menções contra o <pessoal de teatro>.”
“Um dia (ela precisa o ano e o mês), a doente lê no jornal Le Journal que seu filho ia ser morto <porque sua mãe era caluniadora>, era <vil> e que se <vingariam dela>. Isto estava claramente escrito. Havia, além disso, uma fotografia que reproduzia a empena de sua casa natal na Dordonha, onde seu filho passava férias naquele momento, e ele, de fato, aparecia num canto da foto. Uma outra vez, a doente fica sabendo que a atriz vem representar num teatro bem próximo de sua casa; ela fica transtornada. <É para zombar de mim.>”
“Como certos personagens dos mitos primitivos se revelam como substitutos de um tipo heróico, assim aparecem atrás da atriz outras perseguidoras, cujo protótipo último, como veremos, não é ela mesma. São Sarah Bernhardt, estigmatizada nos escritos de Aimée, a Sra. C., essa romancista contra a qual quis abrir processo num jornal comunista. Vemos, a partir daí, o valor, mais representativo que pessoal, da perseguidora que a doente reconheceu. Ela é o tipo da mulher célebre, adulada pelo público, bem-sucedida, vivendo no luxo. E se a doente faz em seus escritos o processo vigoroso de tais vidas, dos artifícios e da corrupção que ela lhes imputa, é preciso sublinhar a ambivalência de sua atitude; pois ela também, como veremos, desejaria ser uma romancista, levar uma grande vida, ter uma influência sobre o mundo.”
“<Pensei que a Sra. Z. não podia estar só para me fazer tanto mal impunemente, era preciso que ela fosse apoiada por alguém importante.>Leitora assídua de novos romances e seguindo avidamente o sucesso dos autores, a doente achava, com efeito, imenso o poder da celebridade literária.”
“Todas essas personagens, artistas, poetas, jornalistas, são odiados coletivamente como grandes provocadores dos infortúnios da sociedade. <Trata-se de uma ralé, uma raça>; <eles não hesitam em provocar por suas bazófias o assassinato, a guerra, a corrupção dos costumes, para conseguir um pouco de glória e prazer.>”
“À medida que nos aproximamos da data fatal, um tema se precisa, o de uma erotomania que tem por objeto o príncipe de Gales.” “Ela disse ao médico perito que, um pouco antes do atentado, havia em Paris grandes cartazes que informavam ao Sr. P.B. que, se ele continuasse, seria punido. Ela tem portanto protetores poderosos, mas parece que os conhece mal. Com respeito ao príncipe de Gales, a relação delirante é bem mais precisa. Temos um caderno seu onde ela anota cada dia, com data e hora, uma pequena efusão poética e apaixonada que dirige a ele.”
“O quarto de hotel em que morava estava recoberto de retratos do príncipe; ela juntava igualmente os recortes de jornal relativos a seus movimentos e sua vida. Não parece que ela tenha tentado aproximar-se dele na ocasião de uma estada do príncipe em Paris, a não ser por um impulso metafórico (poemas). Por outro lado, parece que ela lhe remeteu pelo correio, por várias vezes, seus poemas (um soneto por semana), memoriais, cartas, uma das quais quando da viagem do príncipe à América do Sul, instando que desconfiasse dos embustes do Sr. de W. (já anteriormente mencionado), diretor da Imprensa Latina, que <dá a palavra de ordem aos revolucionários, pelos jornais, com as palavras em itálico>. Mas, detalhe significativo, até o fim ela não assina suas cartas.
Encontramo-nos, observemos, diante do próprio tipo da erotomania, segundo a descrição dos clássicos, retomada por Dide. O traço maior do platonismo ali se mostra com toda a nitidez desejável.
Assim constituído, e apesar dos surtos ansiosos agudos, o delírio, fato a destacar, não se traduziu em nenhuma reação delituosa durante mais de 5 anos. Certamente, nos últimos anos, certos sinais de alerta se produzem. A doente sente a necessidade de <fazer alguma coisa>. Porém, ponto notável, esta necessidade se traduz primeiro pelo sentimento de uma falta para com deveres desconhecidos que ela relaciona com os preceitos de sua missão delirante. Sem dúvida, se ela conseguir publicar seus romances, seus inimigos recuarão assustados.
Assinalamos suas queixas junto às autoridades, seus esforços para fazer com que um jornal comunista aceitasse ataques contra uma de suas inimigas, suas importunações junto ao diretor desse jornal. Estas lhe custam mesmo a visita de um inspetor de polícia, que usou de uma intimidação bastante rude.”
“Eu fui ao editor perguntar se podia vê-lo, ele me disse que ele vinha todas as manhãs apanhar sua correspondência, e eu o esperei na porta, apresentei-me e ele me propôs dar uma volta de carro pelo bosque, o que aceitei; durante este passeio, eu o acusei de falar mal de mim, ele não me respondeu. Por fim, tratou-me de mulher misteriosa, depois de impertinente, e eu não tornei a vê-lo mais.”
“Nos últimos 8 meses antes do atentado, a ansiedade está crescendo. Ela sente então cada vez mais a necessidade de uma ação direta. Ela pede a seu senhorio que lhe empreste um revólver e, diante de sua recusa, pelo menos uma bengala <para amedrontar essas pessoas>, quer dizer, aos editores que zombaram dela.
Ela depositava suas últimas esperanças nos romances enviados à livraria G. Daí sua imensa decepção, sua reação violenta quando eles lhe são devolvidos com uma recusa. É lamentável que não a tenham internado então.
Ela se volta ainda para um derradeiro recurso, o príncipe de Gales. Somente nesses últimos meses é que ela lhe envia cartas assinadas. Ao mesmo tempo, envia-lhe seus 2 romances, estenografados, e cobertos com uma encadernação de couro de um luxo comovente.Eles lhe foram devolvidos, acompanhados da seguinte fórmula protocolar:
Buckingham Palace
The Private Secretary is returning the typed manuscripts which Madame A. has been good enough to send, as it is contrary to Their Majesties’ rule to accept presents from those with whom they are not personally acquainted.
April, 193…
Este documento data da véspera do atentado. A doente estava presa, quando ele chegou.”
“Desde então, a doente está cada vez mais desvairada. Um mês antes do atentado, ela vai <à fábrica de armas de Saint-Étienne, praça Coquillère> e escolhe um <facão de caça que tinha visto na vitrina, com uma bainha>.”
“Que pensará ela de mim se eu não me mostro para defender meu filho? que eu sou uma mãe covarde.”
“Uma hora ainda antes deste infeliz acontecimento, eu não sabia ainda onde iria, e se não iria visitar, como de hábito, o meu garotinho.”
“Nenhum alívio se segue ao ato. Ela fica agressiva, estênica, exprime seu ódio contra sua vítima. Sustenta integralmente suas asserções delirantes diante do delegado, do diretor da prisão, do médico-perito”
“Sr. Doutor – escreve ela ainda num bilhete de tom extremamente correto, no 15º dia de sua reclusão –, gostaria de pedir-lhe para que fizesse retificar o juízo dos jornalistas a meu respeito: chamaram-me de neurastênica, o que pode vir a prejudicar minha futura carreira de mulher de letras e de ciências.”
“Oito dias após meu ingresso – escreveu-nos em seguida, na prisão de Saint-Lazare –, escrevi ao gerente de meu hotel para comunicar-lhe que estava muito infeliz porque ninguém quis me escutar nem acreditar no que eu dizia. Escrevi também ao Príncipe de Gales para dizer-lhe que as atrizes e escritores me causavam graves danos.”
“Vinte dias depois, escreve a doente, quando todos já estavam deitados, por volta das 7 da noite, comecei a soluçar e a dizer que esta atriz não tinha nada contra mim, que não deveria tê-la assustado; as que estavam ao meu lado ficaram de tal modo surpresas que não queriam acreditar no que eu dizia, e me fizeram repetir: mas ainda ontem você falava mal dela! – e elas ficaram estupefatas com isso. Foram contar à Madre Superiora que, a todo custo, queria me enviar à enfermaria.”
“A estatura da doente está acima da média. Esqueleto amplo e bem-constituído. Ossatura torácica bem desenvolvida, acima da média observada nas mulheres de sua classe. Nem gorda nem magra. Crânio regular. As proporções crânio-faciais são harmoniosas e puras. Tipo étnico bastante bonito. Ligeira dissimetria facial, que fica dentro dos limites habitualmente observados. Nenhum sinal de degenerescência. Nem sinais somáticos de insuficiência endócrina.”
“Durante vários meses conserva um estado subfebril leve, criptogenético, de 3 ou 4 décimos acima da média matinal e vespertina. Contraiu, pouco antes de seu casamento, uma congestão pulmonar (de origem gripal – 1917) e suspeitou-se de bacilose. Exames radioscópicos e bacteriológicos repetidos deram um resultado negativo. A radiografia nos mostrou uma opacidade hilar à esquerda. Outros exames negativos.”
“Dois partos cujas datas anotamos. Uma criança natimorta asfixiada por circular do cordão. Não se constatou anomalia fetal nem placentária. Diversas cáries dentárias por ocasião dos estados de gravidez. A doente tem uma dentadura postiça no maxilar superior.”
“Assinalemos, quanto aos antecedentes somáticos, que a vida levada pela doente desde a sua estada em Paris, trabalhando no escritório das 7 às 13h, depois preparando-se para o baccalauréat (vestibular e colação de grau do ensino médio), percorrendo bibliotecas e lendo desmedidamente, caracteriza-se por um surmenage intelectual e físico evidente. Ela se alimentava de maneira muito precária, escassa e insuficiente, para não perder tempo, e em horas irregulares. Durante anos, mas só depois de sua permanência em Paris, bebeu cotidianamente 5 ou 6 xícaras de café preparado por ela mesma e muito forte.”
“A família insiste muito quanto à emoção violenta sofrida pela mãe [outra <perseguida> ou <querelante>] durante a gestação de nossa doente: a morte da filha mais velha sedeveu, com efeito, a um acidente trágico: ela caiu, na frente de sua mãe, na boca de um forno aceso e rapidamente morreu em decorrência de queimaduras graves.” (Lembra o caso Suzanne Urban.)
“Consideram-na em seu serviço como muito trabalhadora,<pau para toda obra>, e atribuem a isso seus distúrbios de humor e de caráter.¹Dão-lhe uma ocupação que a isola em parte. Uma sondagem junto a seus chefes não revela nenhuma falha profissional até seus últimos dias em liberdade. Muito pelo contrário, na manhã seguinte ao atentado, chega ao escritório sua nomeação para um cargo acima do que ocupava.”
¹ O velho preconceito – se é assim, deviam nos aposentar ou reduzir nossa carga horária sem prejuízo!
“o ritmo do relato, fato notável numa doente como esta, não é retardado por nenhuma circunlocução, parêntese, retomada, nem raciocínio formal.”
“Diminui o tempo que poderia dedicar a seus trabalhos literários favoritos para executar inúmeros trabalhos de costura com que presenteia o pessoal do serviço. Estes trabalhos são de feitura delicada, de execução cuidadosa, porém de gosto pouco sensato.” HAHAHA!
“As anomalias do comportamento são raras; risos solitários aparentemente imotivados, bruscas excursões pelos corredores: estes fenômenos não são freqüentes e só foram observados pelas enfermeiras. Nenhuma variação ciclotímica perceptível.
A doente mantém uma grande reserva habitual de atitude. Por trás desta, tem-se a impressão de que suas incertezas internas não foram de modo algum apaziguadas. Vagos retornos erotomaníacos podem ser pressentidos sob suas efusões literárias, embora se limitem a isso.”
“uma vida de Joana d’Arc, as cartas de Ofélia a Hamlet; Quantas coisas eu não escreveria agora se estivesse livre e tivesse livros!”
“Agora que os acontecimentos me devolveram à minha modéstia, meus planos mudaram e eles já não podem perturbar em nada a segurança pública. Não me atormentarei mais por causas fictícias, cultivarei não só a calma como a expansão da alma. Cuidarei para que meu filho e minha irmã não se queixem mais de mim por causa do meu excessivo desinteresse.”
“Já evocamos ou citamos alguns escritos da doente. Vamos estudar agora as produções propriamente literárias que ela destinava à publicação. Seu interesse de singularidade já justificaria o lugar que lhes atribuímos, se além disso não tivessem um grande valor clínico, e isto sob um duplo ponto de vista. Estes escritos nos informam sobre o estado mental da doente na época de sua composição; mas, sobretudo, permitem que possamos apreender ao vivo certos traços de sua personalidade, de seu caráter, dos complexos afetivos e das imagens mentais que a habitam, e estas observações proporcionarão uma matéria preciosa ao nosso estudo das relações do delírio da doente com sua personalidade.”
“De fato, tivemos a felicidade de poder dispor destes dois romances que a doente, após a recusa de vários editores, enviou como último recurso à Côrte Real da Inglaterra (cf. acima). Ambos foram escritos pela doente nos 8 meses que antecederam o atentado, e sabemos em qual relação com o sentimento de sua missão e com o da ameaça iminente contra seu filho.
O primeiro data de agosto-setembro de 193.. e foi escrito, segundo a doente, de um só fôlego. Todo o trabalho não teria ultrapassado mais de 8 dias, se não houvesse sofrido uma interrupção de 3 semanas, cuja causa examinaremos mais adiante; o segundo foi composto em dezembro do mesmo ano, em um mês aproximadamente, <numa atmosfera febril>.
Lembremos desde já que os dois romances nos chegaram em forma de exemplares estenografados,¹ onde não aparece nenhuma particularidade tipográfica. Este traço se confirma nos rascunhos e manuscritos que temos em nosso poder, e se opõe à apresentação habitual dos escritos dos paranóicos interpretantes: maiúsculas iniciais nos substantivos comuns [o alemão é um povo doido mesmo!], sub-linhas [= SUBTRAÇO], palavras destacadas, vários tipos de tinta, todos traços simbólicos das estereotipias mentais.”
¹ Estenografia ou taquigrafia: a técnica aprendida por David Copperfield em seu estágio entre os Commons, parte do ofício de um advogado e também de um escrivão que deve escrever rápido e com precisão os acontecimentos de uma reunião ou depoimentos, sem deixar de incluir todas as informações necessárias. “Os sistemas típicos da taquigrafia fornecem símbolos ou abreviaturas para as palavras e as frases comuns, o que permite que alguém, bem treinado no sistema, escreva tão rapidamente que possa acompanhar as falas de um discurso.” “Marco Túlio Tirão (? – c. 4 a.C.), escravo e secretário de Cícero, é considerado o inventor da taquigrafia que elaborou o sistema Notae tironianae (abreviaturas tironianas).” “[A] Inglaterra é considerada a pátria da taquigrafia moderna. O médico e sacerdote inglês Timothy Bright (cerca de 1551—1615) publicou em 1558 [aos 7 anos de idade? HAHAHA] (sic – 1588) o sistema de taquigrafia Characterie, propiciando o renascimento da taquigrafia.” Método absurdamente ininteligível! “No Brasil o método mais usado no Legislativo e Judiciário brasileiro é o sistema inventado pelo gravador e taquigráfico espanholFrancisco de Paula Martí Mora (1761–1827), porém o método de taquigrafia mais comum é o de Oscar Leite Alves (1902–1974).”
“Solicitamos a ajuda de nosso amigo Guillaume de Tarde que, iniciado desde há muito tempo por seu pai, o eminente sociólogo, na anállse grafológica, se diverte com isso nas horas vagas.”
“As duas obras têm valor desigual. A segunda traduz, sem dúvida, uma baixa de nível, tanto no encadeamento das imagens quanto na qualidade do pensamento. Entretanto, o traço comum é que ambas apresentam uma grande unidade de tom e que um ritmo interior constante lhes garante uma composição. Nada, com efeito, de preestabelecido em seu plano: a doente ignora aonde será levada quando começa a escrever. Nisto ela segue, sem o saber, o conselho dos mestres(<Nada de plano. Escrever antes de pôr a nu o modelo . . . A página em branco deve sempre ser misteriosa>, P. Louys).”
“Consultar nosso artigo, escrito em colaboração com Lévy-Valensi e Migault, Écrits ‘inspirés’. Schizographie. A.M.P. (Annales Médico-Psychologiques), n. 5, 1931.” (breve no Seclusão)
“Quanto às circunlocuções da frase: parênteses, incidentes, subordinações intricadas, quanto a essas retomadas, repetições, rodeios da forma sintática, que exprimem nos escritos da maior parte dos paranóicos as estereotipias mentais de ordem mais elevada, é bastante notável constatar sua ausência total não só no primeiro escrito, como também no segundo.” Irônicas observações, vindas logo do rocambolesco Lacan – ou será que não?!? Talvez não houvesse melhor emissor deste ‘elogio velado da loucura’!
“Revela-se uma sensibilidade que qualificaremos de essencialmente <bovariana>, referindo-nos diretamente com esta palavra ao tipo da heroína de Flaubert.” “Mas esses desvarios da alma romântica, embora freqüentemente apenas verbais, não são estéreis”
“Inúmeras vezes veremos surgir sob sua pena termos de agricultura, de caça e de falcoaria. Esses toques de <regionalismo> são aliás bastante inábeis, mas são o signo de sua ingenuidade; e esse traço pode tocar exatamente aqueles que têm pouquíssimo gosto pelos artifícios de tal literatura. De resto, sente-se nela a presença de uma real cultura telúrica. A doente conhece muito bem seu patoá,¹ a ponto de ler a língua de Mistral.² Se fosse menos autodidata, poderia tirar melhor partido disso.”
¹ Dialeto campesino.
² “Frederic Mistral, alsoJosèp Estève Frederic Mistral (1830–1914), was an Occitanwriter and lexicographer of the Occitan language.a Mistral received the 1904 Nobel Prize in Literature<in recognition of the fresh originality and true inspiration of his poetic production, which faithfully reflects the natural scenery and native spirit of his people, and, in addition, his significant work as a Provençal philologist>.”
a Dialeto românico também chamado lenga d’òc ou langue d’oc (d’où região do Languedoc), falado, entre outras regiões, no sul da França, na Gasconha, em Mônaco, no Piemonte da Itália e em algumas partes da Espanha. Considerado irmão do catalão ou mesmo abrangendo-o de todo, pelo menos nas etiologias mais disseminadas até o final do século XIX. Antigamente já foi sinônimo do Provençal, mas hoje são entidades lingüísticas distintas. Quase uma língua morta, cujos esforços de gramaticalização e conversão para a modalidade escrita esbarram em intensas diferenças de sítio a sítio, tornando uma padronização virtualmente impossível.
Cosmopolitas não falam em patoá.
PREPAREM-SE PARA O SHOW DE HORRORES E CLICHESINSÍPIDOS VERDESCAMPOS! “O título do romance [n. 1] é O Detrator; está dedicado a Sua Alteza Imperial e Real, o Príncipe de Gales.”
“Em abril, os animais têm seus segredos, entre os arbustos a erva se agita ao vento, ela é fina, focinhos leitosos a descobrem.Que sorte! O leite será bom esta noite, eu beberei um bocado, diz o cão com a língua de fora. O dia inteiro as crianças brincaram umas com as outras e com os fiçhotes dos aromais, eles se acariciam, eles se amam.”
“Quantas fontes você conhece, fontes que você pode esvaziar de um gole, diz o menor ao mais velho que é profeta? Eu! Quantas você quiser! Mas eu não vou mostrá-las a você, você se descalçaria para se banhar. Ah! não profanar minhas fontes. Eu posso levar você à beira do riacho se você prometer sempre responder quando eu chamar. Sempre te responderei, diz o menor, não apenas uma vez, sempre. Seus olhos são fontes vivas; eles são maiores que as tulipas.”
“É isto que a fez sorrir? Ela sorri. Ela senta atrás da janela sem lâmpada. Sonha com o noivo desconhecido. Ah! se houvesse um que a amasse, que a esperasse, que desse seus olhos e seus passos para ela!”
“Pensamentos ferozes, pensamentos fortes, pensamentos ciumentos, pensamentos suaves, pensamentos alegres todos vão para ele ou vêm dele. Não são mais do que os dois no claro obscuro, seu coração queima como brasa, os planetas em fogo batem asas, a lua joga suas flores purpurinas no quarto. Ela pensa em tudo que a deslumbra, na rocha adamantina da gruta, na coroa imarcescível do pinheiro, ela escuta seu murmúrio, é o prelúdio.”
“David descobre seu caminho. Ele veste seguro sua farda de soldado. Esse órfão que vive com os homens manteve toda a sua rudeza. Depois de se encher de água turva, sua mãe tombou no campo num verão quente quando os peixes morrem no leito estreito da torrente. Seus cabelos estão jogados para trás como a cabeleira de uma espiga de centeio, ele é como um magnífico vespão cor de aurora e de crepúsculo. Esse camponês sabe se virar. Ninguém o iguala em arrumar, num piscar de olhos, um campo de pernas para o ar, ele reconhece o foiceiro pela foiçada, poda as árvores, doma os touros, faz trelas finas, acha a toca da lebre, as picadas de javali, sacode as sacas de sementes, sabe a idade dos pastos, evita as farpas, o precipício, os atoleiros, e sempre protege as safenas de suas pernas nuas. Ele sabe também usar a pena, evitar as lesões gramaticais, ele manda seus pensamentos para Aimée.”
“As lianas que a cobrem são furadas por lagartas aneladamente dispostas ou apinhadas em grupo, ladrilhos de mosaico. Sob este emaranhado há a nota viva do coral das lesmas e dos chapeuzinhos de musgo recobrindo as sarças, os sapinhos tropeçam nas folhas aos menores toques de gafanhotos ou caem na relva seca que grita como um gonzo.”
“De manhã, ao alvorecer, abro os postigos, as árvores que vejo estão aureoladas de alabastro, a penumbra as envolve, estou emocionada, esta aurora é doce como um amor.”
“Ela sonha. Um marido! Ele, um carvalho, e eu, um salgueiro furta-cor, que o entualasmo do vento une e faz murmurar. Na floresta, seus ramos se cruzam, entrelaçam-se, perseguem-se nos dias de vento, as folhas amam e vibram, a chuva lhe envia osmesmos beijos. Oh! Como sou ctumenta, meu marido é um carvalho e eu uma cerejeira branca! Eu sou multo ciumenta, ele é um carvalho e eu um salgueiro furta-cor! No bosque instável, a chuva lhes envia os mesmos beijos. Curvo-me para pegar um gládio, eu o encontrei em meu caminho; é prectso conquistar o direito de amar! No entanto a alegria está na casa, o pai, a mãe são fellzes. Estes dois adultos ágeis, cujos corpos foram maltratados pela terra tenaz, com muitos ‘Y’ nas faces e rugas na testa, amam seus filhos tanto quanto a terra e a terra tanto quanto seus fllhos.”
“Calcula-se que será preciso perder quatro dias para se casar, o que é multo em plena estação! um para comprar os panos, outro para comprar ouro, outro na costureira e o quarto para passar o contrato.”
“À beira da torrente, deixo a madeira morta seguir o seu curso e sou toda risos quando deslizam minhas canoazinhas onde está sentada toda uma comitiva de besouros ou de escaravelhos que vão estupidamente para a morte.”
“Ah! não há nada melhor que tocar violino na neve durante o inverno.”
“As meninas gulosas sempre às escondidas por gulodices, eu lhes ensino a guardar na boca uma maçã ou uma noz, mesmo se a glote se levanta, em seguida eu descasco uma coxa de noz bem branca, elas a comem sem nunca pensar em minhas astúcias inocentes.”
eu como leão tenho um apetite imenso
“descasco o rizoma do feto”
“Eu os preveni quando o incêndio estourou no bosque. Era preciso ouvir o crepitar! As bagas de genebra estalavam seco e as fagulhas me seguiam, o assombro me havia dado asas e o pilriteiro esporões, eu parecia o pássaro aviador, em volta de minhas hélices o ar ressonava, mais rápido que as nuvens eu vencia o vento”
“Na passagem, podemos notar claramente uma alusão ao príncipe de Gales, identificado com o rouxinol (Nightingale).”
A corcarne da concupiscência.
“Querem diamantes para suas coroas? Estão no alto dos ramos, a seu alcance, sob seus passos. Atenção quando caminham! Se os encontrarem, não digam nada. As puritanas os quereriam para seus rosários, a cortesã em seu quarto cheio de espelhos até o teto se cobria com eles, a milionária em seu camarote no espetáculo o faria seu único enfeite, pois ela não está em absoluto vestida, seu vestido colante é da cor de sua carne, não vemos onde ele começa”
“O colírio de pele de serpente tinge seus olhos viciosos. Os seus sapatos não são para andar, os chapéus de bambu, de crina, de seda, de tule, ela os veste de maneira espalhafatosa. Seus vestidos são bordados com canutilhos [fios de ouro ou prata]: é todo um museu, uma coleção de modelos inéditos ou excêntricos, neles o grotesco domina, mas há de se cobrir esse corpo sem encanto, há que se fazer olhado. Todo este aspecto artificial surpreende, ela expulsou o natural, os aldeões não olham mais as outras mulheres. Ela sabe como manejar os homens! Passa os dias na sua banheira, depois a cobrir-se de enfeites; mostra-se, intriga, maquina.”
“Desde então, <cochichos, risadinhas, apartes, complôs> compõem a pintura expressiva da arnbiência do delírio de interpretação.”
“No caminho, um casal vai com um grande ruído de sapatos ferrados, tão grandes quanto os seus vazios ressoam. O marido é orgulhoso e forte, ele tem um filho, ele o olha, a mulher leva a criança que se agarra a seu pescoço e a suas tetas caídas, a criança sorri, a mãe tem um semblante de animal feliz, eles se amam. Aimée inveja o par.”
“Oh criança, oh meninas que morrem, flores brancas que uma surda foice abate, fonte vicejante exaurida, apartada pelo negro e sublime mistério do globo, paloma caída do ninho e que faz seu sudário no chão assassino, frágil peito de pássaro que expira no bico ensangüentado do gavião, negra visão, que
amem vocês!
Abracem este corpo de criança!
Antes que o coloquem no ataúde,
Chorem, chamem mais e mais
Terão para se consolar,
Um metro cúbico no cemitério
Onde seu corpo virá rezar
Descobrirão então
Que a terra pode ser muito querida
Quando ela os liga à criança.
Ajoelhem-se abençoando-a
Com seus olhos abrindo-a logo
Para encontrar um camafeu branco!
“O autodidatismo transparece a cada momento: truísmos, declamações banais, leituras mal-compreendidas, confusão nas idéias e nos termos, erros históricos.”
“O estilo permite notar traços de <automatismo>, no sentido muito amplo de um eretismo intelectual sobre um fundo deficitário.”
“Encontramos a mesma busca preciosa na escolha das palavras, mas desta vez com um resultado bem menos feliz. Palavras extraídas de um dicionário explorado ao acaso seduziram a doente, verdadeira <namorada das palavras>, segundo seus próprios termos, por seu valor sonoro e sugestivo, sem que nem sempre acrescentasse a isto discernimento e atenção ao seu valor lingüístico adequado ou a seu alcance significativo.”
“Em toda a parte onde vou me observam, olham-me com um ar de suspeita de modo que à minha porta a multidão não tarda em me apedrejar. O flibusteiro a incita. Quero sair, fazem uma investida que me obriga a recuar, e eu pago um direito de ancoragem. Suporto algumas avanias. É pau para toda obra, diz uma mulher. Olham-na, ela fala de Jaime I, diz uma outra. Durmo muito mal, eu caço as feras no matagal com sua Alteza. Lêem isso nos meus olhos.”
Surrealismo involuntário.
“O coração me leva, o sangue me chama
Eu beijo o solo, todo banhado de seu sangue
A multidão impedida, conferencia e fugindo
Me lança uma espada de brilho rebelde
Partimos sozinhos, e a multidão suspeita
Do escaninho das janelas nos espreita ao passar.”
“É um incorruptível, diz o historiador; não bebe, não tem mulheres, matou milhares como um covarde, o sangue corre da praça do Trono até a Bastilha. Foi preciso Bonaparte apontando seus canhões sobre Paris para deter a carnificina.”
“Os poetas são o inverso dos Reis, estes amam o povo, os outros amam a glória e são inimigos da felicidade do gênero humano.”
“A retórica de Aristóteles não repousa em base alguma, é sempre o tema da licença, dos subterfúgios com a virtude por fachada, é uma traição contra seu rei. Eis ainda Cícero, cúmplice do assassinato de César, e Shakespeare colocando o assassino na altura de grande homem. No século XVIII, os filósofos pérfidos atacam os soberanos e os nobres que os protegem e os hospedam. Outras vezes, tiram dos grandes os sentimentos que eles não têm e com os quais se enfeitam. E o povo não reage. É por isso mesmo que as nações se deixam riscar da história do mundo, e se houvesse apenas Paris na França, logo o seríamos. Se há uma ilha que esteja habitada só por animais monstruosos e horríveis, é ela, é a própria cidade com suas prostitutas às centenas de milhares, seus rufiões, suas pocilgas, auas casas de prazeres a cada cinqüenta metros enquanto que a miséria se acumula no único cômodo do pardieiro.”
“Eles me matam em efígie e os bandidos matam; cortam em pedaços e os bandidos cortam em pedaços, fazem segredos e os povos fazem segredos, preparam sedições, excitam em vez de apaziguar, pilham, destroem e vocês destroem: vocês são vândalos. (…) Não há escândalo que não tenha sido sugestionado pela conduta ou manobras desenvoltas de alguns amantes das letras ou de Jornalismo.”
“Os que lêem livros não são tão bestas quanto os que os fazem, eles lhes acrescentam.”
“Cem vezes no ofício
Retomem seu trabalho
Pulam-no sem parar e tornem a poli-lo
Acrescentem algumas vezes e com freqüência suprimam.”
“Quem vende estes sapatos, estas novidades! Tusso, espirro! Os americanos? Eu não confio em meus sapatos amarelos; eu faço a queixa, examino meu sapato. Qual o seu número?, pergunta-me um estrangeiro, e o seu?, digo-lhe. Fazemo-nos compreender a custo de mímicas.”
“Embora haja matizes, as mulheres de província são mais potáveis que as das cidades”
“Sem dúvida alguma lhe aconteceu ficar boa de uma enxaqueca porque uma amiga lhe conta uma história engraçada, e se você medir a extensão das emoções à grandeza do sentimento, você está em presença do milagre, é a relatividade das influências”
vou pra ilha, minha filha
uma ilhota, filhota
bem longe, um lounge
dessa bolota!
“uma cabra que sai do teatro francês com uma rosa úmida e viscosa completamente desabrochada para fora e um topete louro entre os chifres, os jornalistas lhe fizeram pastar as mais belas flores do jardim de Paris, ela espalhou suas virtudes por toda parte. É preciso fugir!”
“Eu não posso mais avançar, o cortejo me impede a marcha, pergunto o que isto significa, calam-se, é um segredo de comédia, está rotulado: <Honra e Pátria>.”
“as crianças soletram o silabário enquanto se aromatiza a refeição. A família está em pé à minha volta, consternada, ansiosa, todos se abraçam ao mesmo tempo cheios de terror ante o Reino da Vergonha. FINIS”
“Este delírio merece o nome de sistematizado em toda a acepção que os antigos autores davam a este termo. Por mais importante que seja considerar a inquietação difusa que está em sua base, o delírio impressiona pela organização que liga seus diversos temas. A estranheza de sua gênese, a ausência aparente de qualquer fundamento na escolha da vítima, não lhe conferem traços particulares.”
“Devem-se deixar de lado igualmente as diversas variedades de parafrenias kraepelinianas. A parafrenia expansiva apresenta alucinações, um estado de hipertonia afetiva, essencialmente eufórica, uma luxúria do delírio, que são estranhos ao nosso caso.”
“A psicose paranóide esquizofrênica, de Claude [o orientador], deve ser deixada de lado pelas mesmas razões. (…) a atividade profissional de nossa paciente prosseguiu até a véspera do atentado. Estes sinais eliminam tal diagnóstico.”
“Paranóia (Verrücktheit), este é o diagnóstico ao qual nos prenderíamos a partir de agora, se uma objeção não nos parecesse poder ser levantada em virtude da evolução curável do delírio em nosso caso.”
“o próprio Kraepelin abandonou o dogma da cronicidade da psicose paranóica. (…) Seja o que for, a descrição magistral de Kretschmer mostrou um tipo de delírio paranóico em que se observa a cura”
“A evolução curável de nosso caso pode nos permitir incluí-lo entre as esquizofrenias de evolução remitente e curável a que se refere Bleuler? Certamente (…) A esquizofrenia, como se sabe, é caracterizada pelo <afrouxamento dos elos associativos> (Abspannung der Assoziationsbindungen).O sistema associativo dos conhecimentos adquiridos é sem dúvida o elemento de redução maior destas convicções errôneas, que o homem normal elabora sem cessar e conserva de maneira mais ou menos duradoura. A ineficácia desta instância pode ser considerada como um mecanismo essencial de um delírio como o de nosso sujeito.” No entanto, cf. Lacan, é um delírio sistematizado demais para um caso de esquizofrenia.
“Quanto aos distúrbios esporádicos que nossa doente apresentou, tais como sentimentos de estranheza, de déjà vu, talvez de adivinhação do pensamento, e mesmo as raríssimas alucinações, eles podem se manifestar entre os sintomas acessórios da esquizofrenia, mas de modo algum lhe pertencem especificamente. Os distúrbios mentais da primeira internação puderam nos fazer pensar por um momento num estado de discordância. Porém, nenhum documento que possuímos nos permite afirmá-lo. § Resta a hipótese de uma forma da psicose maníaco-depressiva. (…) nenhuma destas características aparece com suficiente nitidez em nosso caso”
“No interior do quadro existente da paranóia, nosso diagnóstico ficará, sem dúvida alguma, com o de delírio de interpretação.”
Sérieux & Capgras: de interpretação X de reivindicação.O problema: em S. et C., o delírio é incurável.
Séglas: delírio melancólico.
II.2 A PSICOSE DE NOSSO CASO REPRESENTA UM “PROCESSO” ORGANO-PSÍQUICO?
“O que importa é fazer precisar ao doente, sempre evitando sugerir-lhe algo, não seu sistema delirante, mas sim seu estado psíquico no período que precedeu a elaboração do sistema”
“É antes de mais nada um sentimento de transformação da ambiência moral: <Durante minha amamentação, todo o mundo havia mudado ao meu redor … Meu marido e eu, parecia-me que nos tornáramos estranhos um ao outro.>”
Um estranho no ninho: sou eu mesmo, que nem pássaro sou.
Meu bastardo diário,
Aqui no inferno dizem (Lá no inferno diziam, muitos anos atrás)…
“Ele é muito inteligente mas”(Síndrome de Helenojuçara)
O imbecil de hoje é o manipulador de amanhã (num jogo sem freio e sem exceções – quem tenta descer da roda, se espatifa no concreto do chão – único lugar para onde se cai)
Um certo aroma de golpe no ar
Encadeamento lógico de um tolo oportunista no poder e seus avatares espelhados
#DRINÃO
“evolução em 3 fases, que designaremos:
(I) fase aguda,
(II) fase de meditação afetiva e
(III) fase de organização do delírio.”
ESTADO ONIRÓIDE: “No sonho, como se sabe, o jogo das imagens parece, ao menos em parte, desencadeado por um contato com a ambiência reduzido a um mínimo de sensação pura. Aqui, ao contrário, há percepção do mundo exterior, mas ela apresenta uma dupla alteração que a aproxima da estrutura do sonho: ela nos parece refratada num estado psíquico intermediário ao sonho e ao estado de vigília; além disso, o limiar da crença, cujo papel é essencial na percepção, está aqui diminuído.”
“a doente, em sonho, caça na selva com a Alteza por quem está apaixonada”
O PERSEGUIDO PROCURA SEUS CARRASCOS (O REINO DAS SUPERINDIRETAS): “Não é, como pode parecer à primeira vista, de maneira puramente fortuita que uma significação pessoal vem transformar o alcance de certa frase escutada, de uma imagem entrevista, do gesto de um transeunte, do <fio> a que o olhar se engancha na leitura de um jornal.”
Todo hiper-interpretativo tem um quê de Fox Mulder: onde morrem a família, os amigos e as relações interpessoais no trabalho, morre também a teoria da conspiração. Ela precisa ser de amplo alcance para sua chama continuar a arder. O maior alcance possível: de preferência, a política. Prato cheio para servidores públicos.Kafka e seus processos…
“Essas características nos levam a admitir que estes fenômenos dependem desses estados de insuficiências funcionais do psiquismo, que atingem eletivamente as atividades complexas e as atividades sociais, e cuja descrição e teoria foram fornecidas por Janet em sua doutrina da psicastenia. A referência a esta síndrome explica a presença, manifesta em nosso caso, de perturbações dos sentimentos intelectuais. A teoria permite, além disso, compreender que papel desempenham nas perturbações as relações sociais no sentido mais amplo, como a estrutura destes sintomas, bem-integrados à personalidade, reflete sua gênese social, e, enfim, como os estados orgânicos de fadiga, de intoxicação, podem desencadear seu aparecimento.” Um filho natimorto ou a constatação de que minha carreira é uma bosta, etc.
“Sim, é como no tempo em que eu ia ao jornal comprar os números atrasados de um ou dois meses antes. Eu queria reencontrar neles o que havia lido, por exemplo, que iriam matar meu filho e a foto na qual eu o havia reconhecido. Porém, jamais reencontrei o artigo nem a foto, dos quais, no entanto, eu me recordava. No final, o quarto estava entulhado desses jornais.”
“ilusão da memória: (…) [e]sses distúrbios mnêmicos são, com efeito, bem frustros: nunca constatamos, num exame clínico sistemático e minucioso, distúrbios amnésicos de evocação, a não ser os que assinalamos em nossa observação e que incidem eletivamente no momento de introdução no delírio dos principais perseguidores.”
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(transformação oniróide-delirante; “crises de psicolepsia” em Janet)
“Janet ressaltou admiravelmente o papel desses distúrbios da memória nos sentimentos ditos sutis, experimentados pelos perseguidos alucinados (Les sentiments dans le délire de persécution, artigo).”
“o indivíduo que dorme e desperta bruscamente por um ruído provocado recorda-se de ter formado em sonho um encadeamento de imagens, que lhe parece ter tido uma duração importante e do qual, no entanto, toda ordem está manifestamente destinada a ocasionar o ruído que provocou o despertar, e do qual, aliás, o sujeito não podia prever nem a vinda inesperada nem a qualidade. Este fato, como todos aqueles que deixam tão enigmática a questão da duração dos sonhos, faz com que se perceba bem a dificuldade que apresenta uma orientação temporal objetivano desenvolvimento representativo das imagens.”
“nossa doente, como tantos outros psicopatas no período de incubação ou de eflorescência de sua doença, consultava abundantemente um destes videntes cuja propaganda se espalha livremente nos classificados dos jornais. (…) Que numa das consultas pagas de horóscopo lhe tenha sido anunciado que uma mulher loura desempenharia um importante papel em sua vida, o de uma fonte de infortúnios, esta foi a crença na qual a doente, durante sua psicose, apoiou em parte sua convicção delirante, no que concerne [a] sua principal perseguidora. Ora, hoje ela sabe, tendo sido feita a averiguação, que jamais lhe foi escrito nada semelhante.” “numerosas interpretações são ilusões da memória”
“Essa concepção é diferente da doutrina clássica, que vê na interpretação uma alteração do raciocínio, fundada sobre elementos constitucionais do espírito. Acreditamos que nossa análise constitui, em relação à clássica, um progresso real, ainda que seja apenas para compreender os freqüentes casos em que este suposto fator constitucional falta de maneira manifesta e onde é impossível discernir, na origem do delírio, o menor fato de raciocínio ou de indução delirante.”
II.3 A PSICOSE DE NOSSO CASO REPRESENTA UMA REAÇÃO A UM CONFLITO VITAL E A TRAUMAS AFETIVOS DETERMINADOS?
“sobre a infância de um sujeito, os registros familiares parecem sofrer os mesmos mecanismos de censura e de substituição que a análise freudiana nos ensinou a conhecer no psiquismo do próprio sujeito. A razão é que neles a pura observação dos fatos é perturbada pela estreita participação afetiva que os misturou a sua própria gênese. Quanto aos parentes colaterais, entra em jogo, além disso, a defasagem vital que alguns anos bastam para produzir na época da infância. Aqueles que pudemos ver, a irmã mais velha e um dos irmãos, têm, respectivamente, 5 anos a mais que a doente e 10 anos a menos. Necessidades econômicas, por outro lado, acrescentaram seu efeito aos fatores psíquicos: a irmã que criou a doente durante seus primeiros anos teve que deixar o teto paterno aos 14 anos, a própria doente aos 18, o que nos dá os limites de observação tanto da irmã quanto do irmão.”
“As esperanças que a inteligência reconhecida de nossa doente dava a seus parentes, valiam-lhe, nestes pontos, concessões, e até certos privilégios mais positivos. Alguns destes privilégios, tais como uma roupa branca mais fina que a de suas irmãs, parecem ainda provocar nelas uma amargura que não arrefeceu. O autor responsável por esta diferença de tratamento parece ter sido sua mãe. O intensíssimo vínculo afetivo que uniu Aimée de modo muito particular a sua mãe parece-nos que deve ser salientado.”
“Nenhuma reação nela é comparável à que desencadeia a evocação do pesar atual de sua mãe: <Eu deveria ter ficado junto dela>, este é o tema constante das lamentações da doente.” “após os recentes acontecimentos ocorridos com sua filha, ela se fechou num isolamento feroz, imputando formalmente à ação hostil de seus vizinhos mais próximos toda a responsabilidade do drama.”
JÁ QUE VOCÊ GOSTA DE ESTUDAR… “O cultivo do devaneio é confessadamente precoce. É possível que uma parte das promessas intelectuais que a doente produziu tenha derivado disto, e que seja por conta desta particularidade que ela deva ter parecido aos seus como designada entre todas para aceder à situação superior de professora.”
“esta abulia profissional e esta ambição inadaptada, que Janet também descreveu entre os sintomas psicastênicos.”
“Esse tema do touro perseguindo volta com freqüência nos sonhos de Aimée (ao lado de um sonho de víbora, animal que pulula em sua terra), e é sempre de mau agouro.”
“Dom-juan de cidade pequena e poetastro da igrejinha <regionalista>, essa personagem seduz Aimée pelos charmes malditos de um ar romântico e de uma reputação bastante escandalosa.” “A desproporção com o alcance real da aventura é manifesta: os encontros, bastante raros a ponto de terem escapado à espionagem de uma cidade pequena, de início desagradaram a doente; ela cede enfim, mas para ouvir logo de seu sedutor, decididamente apaixonado por seu papel, que ela não foi para ele senão o lance de uma aposta.Tudo se limita ao último mês de sua estadia na cidade pequena. Entretanto, esta aventura que leva consigo os traços clássicos do entusiasmo e da cegueira próprios à inocência, vai reter o apego de Aimée por 3 anos. Durante 3 anos, na cidade afastada em que seu trabalho a confinará, manterá seu sonho por uma correspondência trocada com o sedutor que ela não deve rever. Ele é o único objeto de seus pensamentos, e entretanto ela nada sabe nos contar sobre ele, mesmo à colega, de algum modo sua conterrânea, que é então a segunda grande ligação de amizade de sua vida.”
“Seu desinteresse é então completo e se expressa de maneira comovente num pequeno traço: declina as satisfações de vaidade que lhe oferece a colaboração literária nas folhas da paróquia sob o cuidado de seu amante.”
“Interiorização exclusiva, gosto pelo tormento sentimental, valor moral, todos os traços de um apego como este concordam com as reações que Kretschmer relaciona ao caráter sensitivo.”
“As razões de fracasso de uma ligação como esta parecem só se dever à escolha infeliz do objeto. Esta escolha traduz, ao lado de arrebatamentos morais elevados, uma falta de instinto vital de que dá testemunho, aliás, em Aimée, a impotência sexual que o transcorrer de sua vida permite corroborar”
“cansada de suas complacências tão vãs quanto dolorosas (…): <Passo bruscamente do amor ao ódio>”
“Estes sentimentos hostis ainda não estão mitigados. Eles são marcados pela violência do tom das réplicas que Aimée opõe às questões com que a pusemos à prova: <Triste indivíduo>, assim o designa, empalidecendo ainda. <Ele pode morrer. Não me fale mais deste cáften … e deste grosseiro>. Tornamos a encontrar aí esta duração indefinida, na consciência, do complexo passional que Kretschmer descreve como mecanismo de repressão.”
“Ela [sua melhor amiga, do escritório,] considera o trabalho a que foi compelida como muito inferior à sua condição moral, o que faz com que não se preocupe muito com ele. Toda sua atividade é empregada em manter sob seu prestígio intelectual e moral o pequeno mundo de seus colegas: ela rege suas opiniões, governa seus lazeres, assim como em nada negligencia para aumentar sua autoridade pelo rigor de suas atitudes. Grande organizadora de noitadas em que a conversa e o bridge são levados até bem tarde, ela conta ostensivamente numerosas histórias sobre as relações passadas de sua família, não desdenha em absoluto de fazer alusão às que lhe restaram. Ela representa junto a estas simplórias meninas o atrativo dos costumes nos quais ela as inicia. Por outro lado, ela sabe impor o respeito por meio de um recato e de hábitos religiosos não-desprovidos de afetação.” “através desta amiga é que pela primeira vez chegam aos ouvidos de Aimée o nome, os hábitos e os sucessos de Sra. Z., que era então vizinha de uma tia da narradora, e também o nome de Sarah Bernhardt que sua mãe teria conhecido no convento, ou seja, as duas mulheres que a doente designará mais tarde como suas maiores perseguidoras. Tudo levava Aimée a sofrer as seduções dessa pessoa, a começar pelas diferenças com que ela mesma se sente marcada em relação a seu meio: <Era a única que saía um pouco do comum, no meio de todas essas meninas feitas em série.>”
“<Com esta amizade, nos diz, opondo-a a suas duas primeiras amizades, eu guardava sempre um jardim secreto>: é o reduto onde a personalidade sensitiva se defende contra as investidas de seu contrário.” https://www.gutenberg.org/files/113/113-h/113-h.htm
“<Eu me sinto masculina.> Ela deixou escapar a palavra-chave.”
“Esse caráter de jogo na atitude sexual parece se confirmar, na época a que nos referimos, numa série de aventuras que ela dissimula muito bem dos que a cercam. Nesta menina desejável, o gosto da experiência se acomoda a uma frieza sexual real. Sua virtude, pelo menos no sentido farisaico, se acha também freqüentemente a salvo.” “Pudemos fazer uma idéia da personalidade do marido; não tivemos necessidade de solicitá-lo para que ele nos trouxesse informações tão prolixas quanto benévolas sobre sua mulher. Trata-se de um homem muito ponderado em seus julgamentos e, é bem provável, em sua conduta também, mas em quem nada dissimula a orientação muito estreitamente positiva dos pensamentos e dos desejos, e a repugnância a qualquer atitude inutilmente especulativa” “Desde esta época, imputa-se a Aimée ter se queixado de ciúme; mas seu marido também faz a mesma coisa. Os dois esposos tiram a matéria desses reproches das confissões recíprocas que eles fizeram sobre o passado deles. Parece que então, para Aimée, estes reproches nada mais são do que o que ficaram sendo para seu marido, armas com que se exprime o desentendimento que se comprova. Trata-se apenas ainda deste tipo de ciúme, qualificado por Freud, de ciúme de projeção.”
“Em breve Aimée retorna a este vício, a leitura, nem sempre tão <impune> quanto os poetas o crêem. Ela se isola, diz seu marido, em mutismos que duram semanas.” “ela se servirá do mais fútil pretexto para ficar em casa se, por exemplo, lhe chamam para um passeio, mas, uma vez que saiu, na hora de voltar só criará empecilhos.” A má-consciência sartriana
MULHER OMO: “Impulsões bruscas no andar, na caminhada, risos intempestivos e imotivados, acessos paroxísticos de fobia da mácula, lavagens intermináveis e repetidas das mãos; todos fenômenos típicos das agitações forçadas de Janet.”
“Viúva de um tio que foi em primeiro lugar seu empregador [sua irmã mais velha], que depois fez dela sua mulher com a idade de 15 anos, esta Ruth de um Boaz merceeiro¹ não realizou uma necessidade de maternidade, profundamente sentida por sua natureza. A partir de uma histerectomia total sofrida aos 27 anos por razões que desconhecemos, esta insatisfação, exaltada pela idéia de que não há esperança para ela e sustentada pelo desequilíbrio emotivo da castração precoce, torna-se a instância dominante de seu psiquismo. Pelo menos ela nos confessou isso sem disfarce, quando nos disse com toda a candura ter encontrado seu consolo no papel de mãe que conquistou junto ao filho de sua irmã a partir do fim do primeiro ano, ou seja, desde alguns meses que antecederam a primeira internação de Aimée.”
¹ Personagens bíblicas.
“ela acabou por fazer súplicas que eram, aliás, desnecesárias, para remediar tão grandes infortúnios. Acabou suas declarações com um quadro apologético de sua dedicação para com a doente, da atenção sem trégua de que dera provas ao seu lado, enfim, das angústias que tivera.”
“Eu me dava conta de que não significava mais nada para ele. Pensava freqüentemente que ele seria mais feliz se eu lhe devolvesse a liberdade, e que pudesse construir sua vida com outra.
Entretanto, tendo caráter sensitivo e psicastênico, Aimée não poderia apaziguar simplesmente com tal abandono, nem mesmo se contentar com o refúgio do devaneio. Ela sente a situação como uma humilhação moral e o exprime nos reproches permanentes que lhe formulam sua consciência. Não se trata aí, porém, de uma pura reação do seu foro íntimo; esta humilhação se objetiva na reprovação, bem real, que sua irmã lhe impõe incessantemente por seus atos, por suas palavras e até em suas atitudes.
Mas a personalidade de Aimée não lhe permite reagir diretamente por uma atitude de combate, que seria a verdadeira reação paranóica, entendida no sentido que esse termo assumiu desde a descrição de uma constituição que levou esse nome. Não é, com efeito, dos elogios e da autoridade que lhe são conferidos pelos que a cercam que sua irmã vai tirar sua principal força contra Aimée, é da própria consciência de Aimée. Aimée reconhecia, por seu valor, as qualidades, as virtudes, os esforços de sua irmã. Ela é dominada por ela, que representa sob um certo ângulo a imagem mesma do ser que ela é impotente para realizar. Como ela o foi, num grau menor, diante da amiga com qualidades de líder. Sua luta surda com aquela que a humilha e lhe toma o lugar só se exprime na ambivalência singular das opiniões que ela tem a seu respeito. Com efeito, é surpreendente o contraste entre as fórmulas hiperbólicas por meio das quais presta homenagem às generosidades de sua irmã e o tom frio com que as expressa. Às vezes sem querer explode a confissão: <Minha irmã era por demais autoritária. Ela não estava comigo. Estava sempre do lado do meu marido. Sempre contra mim.>” “<jamais pôde suportar> os direitos assumidos por sua irmã na educação da criança.”
“Devemos reconhecer aí a confissão do que é tão rigorosamente negado, a saber, no caso presente, da queixa que Aimée imputa à sua irmã por ter raptado seu filho, queixa em que é surpreendente reconhecer o tema que sistematizou o delírio.” “Ora, esta queixa no delírio foi afastada da irmã com uma constância cujo verdadeiro alcance a análise vai nos mostrar.”
“com o trauma moral da criança natimorta aparece em Aimée a primeira sistematização do delírio em torno de uma pessoa, a quem são imputadas todas as perseguições que ela sofreu. Esta espécie de cristalização do delírio se produziu de uma forma tão súbita que o testemunho espontâneo da doente não deixa dúvida; e ela se produziu com a amiga de outrora, Senhorita C. de la N. [, avatar da irmã mais velha]” “Quando, pela primeira vez, Aimée passa a uma reação de combate (a uma reação conforme com a descrição aceita da constituição paranóica), ela só o alcança por um viés; substitui o objeto que se oferece diretamente a seu ódio por um outro objeto, que provocou nela reações análogas pela humilhação sofrida e pelo caráter secreto do conflito, mas que tem a vantagem de escapar ao alcance de seus golpes. A partir daí, Aimée não deixará de derivar seu ódio para objetos cada vez mais distanciados de seu objeto real, como também cada vez mais difíceis de atingir.” CURA: Dê um chute no patrão e um tiro no seu pai!
“E os próprios temores que sua irmã manifesta atualmente quanto à própria vida, ainda que a própria doente nunca a tenha ameaçado, têm todas as características de uma advertência do seu instinto. Sem dúvida, por ocasião das últimas cenas em que Aimée queria forçar seu testemunho e falava em matar seu marido se não obtivesse o divórcio, ela pôde sentir, na violência do tom da doente, até onde iam realmente suas ameaças assassinas.”
“O surto delirante difuso que desabrocha com a segunda gravidez permanece compatível com uma vida profissional e familiar sensivelmente normal até nos primeiros meses de amamentação. Observemos de passagem que a menor amplitude das desordens, a intensidade diminuída da inquietude, que distinguem este surto do primeiro, parecem ligadas ao primeiro esboço de sistematização, cujo mecanismo acabamos de descrever. Até o quinto mês de amamentação, por outro lado, Aimée é quem cuida exclusivamente de seu filho (testemunho do marido).”
“Mas logo, apoiando-se em certas inexperiências de Aimée, a irmã impõe sua direção na educação da criança. As grandes reações interpretativas (querelas, escândalos, idéias delirantes) se multiplicam então, até o intento de fuga, na base de devaneios ambiciosos. Esta reação, que parece de natureza essencialmente psicastênica, leva o conflito a seu auge (<Arrancaram-me o meu filho>) e justifica a internação.”
“Deixam-na, então, viver só de seu salário, em Paris. Este isolamento pode ter sido favorável como garantia imediata contra um perigo de fato; no entanto, permanece muito mais discutível como medicação psicológica.” “Suas intervenções e sua própria presença serão cada vez mais mal-recebidas em casa. Ela fingirá ignorar seu marido quando de suas visitas, depois quase não as fará, e cada vez mais se enclausurará nas atividades compensatórias e quiméricas que ela criou para si em seu isolamento parisiense.”
“Enfim, suas tentativas, condenadas, para resolver o conflito por um divórcio que lhe devolvesse o filho, parecem corresponder a um sobressalto supremo da doente diante da expiração do prazo impulsivo do delírio, diante do batente inelutável que a espera na via de derivação afetiva em que seu psiquismo se comprometeu. Estes esforços últimos, que racionalmente parecem provenientes de fantasias do delírio, correspondem, não obstante, a um esforço obscuro e desesperado das forças afetivas em direção à saúde.
Ninguém no meio ambiente de Aimée estava em condições de reparar na urgência da situação. Com o mesmo desconhecimento bastante desculpável com que repetidas vezes acolheram suas tentativas de confidência delirante, os seus repeliram rudemente investidas das quais só podiam perceber o caráter inoportuno.
Por isso, com a firmeza quase consciente de uma necessidade longamente alimentada, numa última hesitação crepuscular, na hora mesmo em que pouco antes a doente pensava ainda que ia ficar junto de seu filho, ela efetivou a violência fatal contra uma pessoa irresponsável”
“Chegaram, entretanto, por fim, a confinar a doente numa atividade em que ela trabalha[va] sozinha, e onde eventualmente seus erros teriam o mínimo de conseqüências. Notemos, no entanto, o balanço favorável de seus esforços, que se traduz pela sanção de uma promoção”
“tormentos éticos objetivados, próximos dos escrúpulos psicastênicos.”
“Ao lado desta vida profissional em que a adaptação é relativamente conservada, a doente leva uma outra vida <irreal>, ela nos diz, ou <inteiramente imaginária>. <A doente, conta uma de suas colegas, vivia uma vida absurda>; mais ainda: <Ela estava fechada em seu sonho.>”
“Após 3 anos, ela se recusará a fazer uso de suas férias de outra forma que não seja se dedicando inteiramente a estas atividades: <Eu passei os 20 dias de uma de minhas licenças sem sair da Biblioteca Nacional>. Reconhecemos aí o caráter forçado das perseverações psicastênicas: acontece que, conta seu marido, ela rejeita, numa ocasião particularmente favorável, rever seus parentes após uma longa separação, alegando que prepara o exame de baccalauréat. Essas atividades se mostram ineficazes: fracassa 3 vezes no baccalauréat.”
“ela negligencia então seu próprio filho, parece pouco atenta por ocasião de 2 crises de apendicite que a criança apresenta. Depreendemos aí o próprio mecanismo dessas discordâncias da conduta sobre as quais insiste Blondel: a saúde da criança, que forma o tema ansioso central de seu delírio, deixa-a indiferente”
“Nesta vida psíquica dominada em sua maior parte pelo irreal, pelo sonho e pelo delírio, a dissimulação era de se esperar. Em tais doentes, dissimulação e reticência são apenas o avesso de uma crença delirante, cujo caráter incompleto eles indicam.” “Várias vezes ela se entrega na casa dela [?] a pequenos furtos destinados a cobrir seus déficits orçamentârios: jóias [?] e livros, que pertencem ao patrimônio, são roubados por ela sem que ninguém saiba.”
“Esses temas de revolta e de ódio aparecem como secundários ao próprio delírio. Ressaltemos que na mesma época a doente chega a dar uma forma literária não-desprovida de valor, não só aos melhores élans de sua juventude, como também às experiências mais valiosas que pôde viver, as de sua infância.”
“À antiga amiga, ela pedirá perdão por todo o mal que injustamente lhe desejou, do qua1 certamente nada lhe disse, senão ao romper com a correspondência, mas que poderia ter tido enormes conseqüências. Vários outros encontros, como no fim de um romance sentimental, terão por objetivo encerrar [com] o [seu] passado. Irá ter com a criada de seu hotel, etc.”
“A irmã mais velha se opõe formalmente à simples idéia de ter que se encontrar com nossa doente, mesmo em nossa presença. Diante de um apelo por carta feitopor esta, ela respondeu em termos tais que acreditamos ser conveniente poupar nossa doente de ouvi-los e participar-lhe somente o essencial. A própria doente, após breves conversas com seu marido, se opõe, a partir de então, a qualquer novo encontro. <Seria preciso, ela afirma, que me colocassem numa camisa-de-força para me arrastar até ele.> Ela mantém contato apenas com um irmão que a visita regularmente; e vive na esperança de encontrar seu filho.”
“O balanço desta atitude se traduz praticamente em uma produção que, apesar de nossos incentivos, permaneceu quase nula desde sua entrada no serviço. Ela se restringiu a algumas poesias curtas, embora sejam de uma qualidade bem inferior não só em relação a suas produções maiores, mas também em relação a suas tentativas anteriores do mesmo gênero, nas quais ela mostrava uma alegria sem igual.”
“Nada nos permite falar, em nossa doente, de disposição congênita, nem mesmo adquirida, que se exprimiria nos traços definidos da constituição paranóica.”
“O sentimento da natureza, que Montassut observa com muita precisão como freqüente nos paranóicos, não é em absoluto, como ele o afirma, uma simples conseqüência de sua inadaptação social. Ele representa um sentimento de um valor humano positivo, cuja destruição no indivíduo, mesmo se ele melhora sua adaptação social, não pode ser considerada como um benefício psíquico.”
“Todos os traços que, em nossa doente, poderiam se aproximar das características atribuídas à constituição dita paranóica – superestima megalomaníaca, desconfiança, hostilidade para com o meio, erros de juízo, autodidatismo, acusação de plágio, reivindicações sociais – só surgem em Aimée secundariamente à eclosão delirante.”
“As magistrais descrições desses dois autores, clinicamente convergentes em numerosos pontos, são, no entanto, bastante diferentes por sua concepção patogênica. Janet tem do distúrbio fundamental da psicastenia uma concepção estrutural eenergética,e parece remetê-la a um defeito congênito. Kretschmer tem do caráter sensitivo uma concepção dinâmica e evolutiva e o relaciona essencialmente à história do sujeito.”
“No entanto, a mesma objeção vale tanto para os processos hiponóides cuja observação é comum não apenas em doentes bastante diferentes, como também em sujeitos normais, quanto para esses traumatismos psíquicos que formam a trama de toda vida humana: por que tanto uns quanto outros determinam num caso dado uma psicose e uma psicose paranóica, e não qualquer outro processo neurótico ou desenvolvimento reativo?”
II.4A ANOMALIA DE ESTRUTURA E A FIXAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE DE AIMÉE SÃO AS CAUSAS PRIMEIRAS DA PSICOSE
a) DE COMO A PSICOSE DE NOSSA PACIENTE FOI REALIZADA PELOS MECANISMOS DE AUTOPUNIÇÃO QUE PREVALECEM NA ESTRUTURA DE SUA PERSONALIDADE.
“Sobre a teoria da intencionalidade da consciência, reportar-se à obra fundamental de Brentano, Psychologie von empirischen Standpunkte, 1874.“
“As intenções conscientes são desde há muito o objeto da crítica convergente dos <físicos> e dos moralistas, que mostraram todo o seu caráter ilusório. Esta é a razão principal da dúvida metódica lançada pela ciência sobre o sentido de todos os fenômenos psicológicos.”
“O mérito desta nova disciplina, que é a psicanálise, é nos ter ensinado a conhecer essas leis, a saber: aquelas que definem a relação entre o sentido objetivo de um fenômeno de consciência e o fenômeno objetivo a que corresponde: positivo, negativo, medíato ou imediato, essa relação é, com efeito, sempre determinada.” “Este método de interpretação, cuja fecundidade objetiva se revelou nos vastos campos da patologia, se tornaria ineficaz no limiar do domínio das psicoses? Não questionamos as classificações clínicas e queremos evitar qualquer síntese, mesmo teórica, que seja prematura. Porém, trata-se aqui apenas de aplicar aos fenômenos da psicose um método de anâlise que já deu suas provas em outra parte. Se uma psicose, com efeito, entre todas as entidades mórbidas, exprime-se quase puramente através de sintomas psíquicos, recusaremos a ela por isso mesmo todo sentido psicogênico? Parece-nos que seria abusar do direito de prejulgar, e que a questão só pode ser resolvida depois de ser posta à prova.” “Talvez a natureza da cura nos demonstre a natureza da doença.” “De saída, pode-se falar em cura? Sim, se damos a esse termo o valor clínico de redução de todos os sintomas mórbidos; quanto à persistência de uma predisposição determinante, não podemos decidir sobre ela, já que é esse o problema que tentamos cingir. O fato é que no 20º dia de sua detenção, e com um caráter brusco bem nítido, a psicose manifestada pelo delírio com seus diferentes temas curou. Depois, a paciente permaneceu no asilo, e essa cura se manteve até o momento presente, ou seja, durante um ano e meio aproximadamente.”
“A única intoxicação que pode ser discutida é o cafeinismo; mas não devemos exagerar o papel atribuído ao café nos distúrbios mentais.”
“Tais curas instantâneas do delírio se observam num tipo único de caso, e mesmo assim eventualmente: isto é, nos delirantes ditos passionaisapós a realização de sua obsessão assassina. O delirante, após o assassinato, sente nesse caso um alívio característico acompanhado pela queda imediata de todo o aparelho da convicção delirante.
Não se encontra aqui nada semelhante logo após a agressão. Certamente, esta agressão fracassou e a doente não transparece nenhuma satisfação especial pela evolução favorável que se verifica rapidamente no estado de sua vítima; mas este estado persiste ainda por 20 dias. Nada mudou, então, do lado da vítima. Ao contrário, quer nos parecer que alguma coisa mudou do lado do agressor. A doente <realizou> seu castigo”
“Que esses fatos se impusessem primeiramente aos praticantes da psicanálise, isto só se deve à abertura psicológica de seu método, pois nada implicava esta hipótese nas primeiras sínteses teóricas dessa doutrina. Não podemos empreender aqui a demonstração deste ponto que pensamos retomar em outro lugar: a análise dos determinismos autopunitivos e a teoria da gênese do supereu que ela engendrou representam na doutrina psicanalítica uma síntese superior e nova.”
“O poder afetivo do protótipo é dado por sua existência real na vida da doente. Mostramos mais acima que ele era representado por esta irmã mais velha, de quem Aimée sofreu todos os graus de humilhação moral e de reproches de sua consciência. Num menor grau, a sua amiga intima, a Senhorita C. de la N., que para Aimée representava tão eminentemente a adaptação e a superioridade para com seu meio, objeto de sua íntima inveja, desempenhou um papel análogo; porém, segundo a relação ambivalente, própria precisamente à inveja, sentimento que comporta uma parte de identificação; e isto nos leva à segunda significação do protótipo delirante.”
“Mulheres de letras, atrizes, mulheres do mundo, elas representam a imagem que Aimée concebe da mulher que, em algum grau, goza da liberdade e do poder social.” “Mas o objeto que Aimée atinge só tem um valor de puro símbolo, e ela não sente com seu gesto nenhum alívio. Contudo, pelo mesmo golpe que a torna culpada diante da lei, Aimée atinge a si mesma, e, quando ela o compreende, sente então a satisfação do desejo realizado: o delírio, tornado inútil, se desvanece.”
“o que nossa pesquisa forneceu foi, insistimos neste ponto, um distúrbio que só tem sentido em função da personalidade ou, se preferirmos, um distúrbio psicogênico.”
b) DE COMO, AO CONCEBER ESTES MECANISMOS AUTOPUNITIVOS, SEGUNDO A TEORIA FREUDIANA (UMA CERTA FIXAÇÃO EVOLUTIVA DA ENERGIA PSÍQUICA CHAMADA LIBIDO), DÁ-SE CONTA DAS CORRELAÇÕES CLÍNICAS MAIS EVIDENTES DA PERSONALIDADE DO SUJEITO. [Até para redigir TÍTULOS Lacan é um boçal! Teseu sem Ariadne…]
“A evolução da libido na doutrina freudiana parece corresponder com muita precisão, em nossas fórmulas, a esta parte, considerável na experiência, dos fenômenos da personalidade cujo fundamento orgânico é dado pelo desejo sexual.”
“enquanto alguns veriam no presente caso uma regressão da consciência para esse estado de indiferenciação primordial (Blondel), outros sem hesitar atribuiriam o distúrbio inicial a uma deficiência deste contato vital com a realidade, que é para eles a fonte primeira de toda atividade humana; estes falariam de racionalismo mórbido (Minkowski) e nosso mestre e amigo Dr. Pichon, citando Chesterton, nos diria: <O louco não é em absoluto o homem que perdeu a razão; o louco é aquele que perdeu tudo, menos sua razão>.”
“Quanto à imprecisão relativa do conceito de libido, ela não deixa para nós de ter seu valor. Tem, com efeito, o mesmo alcance geral que os conceitos de energia ou de matéria em física, e nessa qualidade representa a primeira noção que permite entrever a introdução em psicologia de leis de constância energética, bases de toda ciência.”
“Encontraremos uma síntese feliz do conjunto dos trabalhos psicanalíticos sobre [sintomas da perda de objeto] no livro de O. Fenichel, Perversionen, Psychosen, Charakterstörungen, particularmente em seu capítulo das <Esquizofrenias>, p. 68-106.”
“A prevalência mórbida dos mecanismos de autopunição será sempre acompanhada, portanto, de distúrbios que manifestam a função sexual. A fixação sádico-anal, que eles representam na maioria das vezes, explica sua correlação com os distúrbios neuróticos obsessivos e os sintomas ditos psicastênicos.”
“Se o valor patogênico de uma fixação pode ser aproximado de uma constituição, suscetível a um determinismo orgânico congênito, este valor dela se difere, quando deixa lugar à hipótese de um determinismo traumático”
“Esses pontos teóricos explicam a concomitância de traços de morbidez propriamente psicastênicos e obsessivos. Por outro lado, eles dão seu valor clínico às deficiências, que são negligenciadas no quadro de Janet, e que dizem respeito à esfera sexual.”
“incerteza do pragmatismo sexual (escolha de parceiros de uma incompatibilidade máxima)”
“Eu o amo, ele.
A primeira denegação possível:Eu não o amo. Eu o odeio, projetada secundariamente em Ele me odeia, fornece o tema de perseguição. Esta projeção secundária é imediata na fenomenologia própria ao ódio, e pode prescindir, quer nos parecer, de qualquer outro comentário.
A segunda denegação possível:Eu não o amo. É ela que eu amo, projetada secundariamente em Ela me ama, fornece o tema erotomaníaco. Aqui, a projeção secundária, pela qual a iniciativa amorosa parte do objeto, implica a intervenção de um mecanismo delirante próprio, deixado por Freud na obscuridade.
A terceira denegação possível:Eu não o amo. É ela que o ama, fornece, com ou sem inversão projetiva, o tema de ciúme.
Há, enfim, segundo Freud, uma quarta denegação possível, é aquela que incide globalmente sobre toda a fórmula e diz: Eu não o amo. Eu não amo ninguém. Amo somente a mim.”
“Fixação narcísica e pulsão homossexual são, portanto, neste caso, oriundas de pontos evolutivos muito próximos da libido. Estão quase contíguas no estágio de gênese do supereu.Este fato, segundo a teoria, indica um fraco processo regressivo e explica a benignidade relativa e a curabilidade da psicose em nosso caso.” Ou do artista em geral?
c) O PROTÓTIPO “CASO AIMÉE” OU A PARANÓIA DE AUTOPUNIÇÃO – FRUTOS DE SEU ESTUDO: INDICAÇÕES DE PRÁTICA MÉDICA E MÉTODOS DE PESQUISA TEÓRICA.
“Não temos de modo algum, com efeito, a ambição de acrescentar uma entidade nova à nosologia já tão pesada da psiquiatria. Os quadros, como se sabe, nela se distinguem com muita freqüência pela arbitrariedade de sua delimitação, por suas imbricações recíprocas, fontes de incessantes confusões, sem falar daqueles que são puros mitos. A história da psiquiatria demonstra suficientemente seu caráter vão e efêmero.”
“a psiquiatria – não é, que pena, um truismo lembrá-lo –, sendo a medicina do psíquico, tem por objeto as reações totais do ser humano, isto é, as reações da personalidade no primeiro plano.Ora, como acreditamos ter demonstrado, não há informação suficiente sobre esse plano senão através de um estudo tão exaustivo quanto possível da vida do sujeito. Contudo, a distância que separa a observação psiquiátrica da observação médica corrente não é tamanha que explique os 23 séculos que separam Hipócrates, o pai da Medicina, de Esquirol, em quem veríamos, de bom grado, o padrasto da psiquiatria.”
“O isento método da observação psiquiátrica já era conhecido, com efeito, por Hipócrates e sua escola. E a cegueira secular que se seguiu só nos parece imputável à dominação inconstante, mas contínua, de preconceitos filosóficos. Tendo dominado 15 séculos com Galeno [com seu plurivitalismo, espécie de antecessor do materialismo mecanicista], esses preconceitos são mantidos de um modo notável pela psicologia atomística da Enciclopédia, reforçados ainda pela reação comtista que exclui a psicologia da ciência, e permanecem não menos florescentes na maior parte dos psiquiatras contemporâneos, quer sejam psicólogos ou supostos organicistas. O principal destes preconceitos é que a reação psicológica não oferece ao estudo interesse em si mesma, porque ela é um fenômeno complexo. Ora, isto é verdadeiro apenas em relação aos mecanismos físico-químicos e vitais que esta reação põe em jogo, mas falso no plano que lhe é próprio. Ele é, com efeito, um plano, que tentamos definir, e no qual a reação psicológica tem o valor de toda reação vital: ela é simples por sua direção e por sua significação.”
“Seja como for, graças às circunstâncias históricas favoráveis, a observação do psiquismo humano, não de suas faculdades abstratas, mas de suas reações concretas, nos é de novo permitida. Pensamos que toda observação fecunda deve se impor à tarefa de fazer monografias psicopatológicas tão completas quanto possível.” “É nessa medida mesma que somos contrários a acrescer, segundo o costume, uma nova entidade mórbida, cuja autonomia não seríamos capazes de sustentar, aos quadros existentes. (…) O quadro clínico que vamos apresentar, apesar de nossas reservas, se limitará a este alcance puramente prático. (…) Se for preciso um título ao tipo clínico que vamos descrever, escolheremos o de paranóia de autopunição [em detrimento de ‘psicose paranóica’].”
c.1) Diagnóstico, Prognóstico, Profilaxia & Tratamento da Paranóia de Autopunição
“A personalidade anterior do sujeito é, antes de mais nada, marcada por um inacabamento das condutas vitais (a melhor introdução ao estudo da personalidade desses sujeitos se acha nos trabalhos já citados de Janet e de Kretschmer). Este traço está próximo da descrição dada por Janet das condutas psicastênicas; ele se distingue dela no que os fracassos incidem menos sobre a eficácia do rendimento social e profissional, freqüentemente satisfatórios, que sobre a realização das relações da personalidade que se relacionam à esfera sexual, ou seja, dos vínculos amorosos, matrimoniais, familiares.”
“ódio familiar (…) fuga diante do casamento e, quando realizado, desentendimento e fracassos conjugais, desconhecimento das funções de parentesco – este é o passivo do balançosocial desses tipos de personalidade.”
“Esses mesmos sujeitos que demonstram impotências de resultado constantenas relações afetivas para com o próximo mais imediato, revelam nas relações mais longínquas com a comunidade virtudes de uma incontestável eficácia. Desinteressados, altruístas, menos presos aos homens que à humanidade, habitualmente utopistas, esses traços não exprimem neles somente tendências afetivas, mas atividades eficazes: servidores zelozos do Estado, preceptores ou enfermeiras convencidos de seu papel, empregados ou operários excelentes, trabalhadores encarniçados, eles se conformam melhor ainda a todas as atividades entusiastas, a todos os <dons de si> que os diversos empreendimentos religiosos utilizam, e geralmente a todas as comunidades, quer sejam de natureza moral, política ou social, que se fundam sobre um vínculo supra-individual.”
“descargas afetivas espaçadas, mas extremamente intensas, manifestam-se habitualmente pelo reviramento de todas as posições ideológicas (conversão), mais freqüentemente pela inversão de uma atitude sentimental: passagem brusca, a respeito de uma pessoa, do amor ao ódio,¹ e inversamente. Nenhum estudo médico da vida afetiva desses sujeitos vale as admiráveis observações que encerra a obra de Dostoiévski; ver particularmente: Humilhados e ofendidos, O eterno marido, Crime e castigo, O duplo, Os demônios.”
¹ Tipo ideal: Freud.
“São hipermorais,jamais amorais. O que não quer dizer que não possam dissimular,principalmente sobre suas reações afetivas mais profundas.”
“Nem acesso esquizofrênico legítimo nem fase maníaco-depressiva são oberváveis nos antecedentes. Os traços da constituição paranóica permanecem míticos.” [?]
“Revela-se, o mais das vezes, uma relação manifesta entre o acontecimento crítico ou traumático [expulsão do colégio militar] e um conflito vital que persiste há vários anos. Este conflito, de forte ressonânciaética, está muito freqüentemente ligado às relações parentais ou fraternas do sujeito.”
“O perseguidor principal é sempre do mesmo sexo que o do sujeito, e é idêntico, ou pelo menos representa claramente, a pessoa do mesmo sexo à qual o sujeito se mantém preso mais profundamente por sua história afetiva.” Coisa curiosa… Porque tirando o pai tirânico prototípico, os únicos seres capazes de me infligir qualquer dano psicológico nesse mundo são as mulheres organizadas em bando.
“As idéias de grandeza não se exprimem na consciência do sujeito por nenhuma transformação atual de sua personalidade. Devaneios ambiciosos, projetos de reforma, invenções destinadas a mudar a sorte do gênero humano, elas têm sempre um alcance futuro, do mesmo modo que um sentido nitidamente altruísta. Elas apresentam assim características simétricas das idéias de perseguição. O mesmo conteúdo simbólico é aí fácil de ser reconhecido: ele se refere tanto numas quanto noutras ao ideal do eu do sujeito. Essas idéias podem não ser desprovidas de toda ação social efetiva e as idéias ditas de grandeza podem receber assim um início de realização. Já assinalamos, aliás, o caráter convincente que as ideologias dos paranóicos devem a sua raiz catatímica.”
O PATHOS: “Nenhuma nota clínica propriamente melancólica se observa no curso do delírio; apesar da tendência auto-acusadora particular que salientamos nas idéias delirantes, não se encontra nenhum sinal de inibição psíquica. No entanto, certos estados de exaltação passageira parecem corresponder a variações holotímicas e cíclicas do humor. A convicção delirante é poderosamente sustentada por essas variações positivas estênicas.
A dissimulação desses sujeitos se deve menos aos fracassos de suas tentativas de expansão que a determinada incerteza residual de suas crenças.” “O perigo que impõem a outrem as virtualidades reacionais desses sujeitos é inversamente proporcional ao paradoxo de seu delírio. Em outros termos, quanto mais as concepções do sujeito se aproximam do normal, mais ele é perigoso. Sérieux e Capgras já sublinharam o nível bem mais elevado do perigo apresentado pelos delirantes ditos reivindicadores (querelantes de Kraepelin), tanto em virtude da violência e da eficácia de sua reação agressiva [JJ] quanto de sua iminência imediata. Os paranóicos que descrevemos estão situados entre estes sujeitos e os interpretativos [este seria eu, um ‘paranóide atenuado’], cujas reações mais tardias e menos eficazes Sérieux e Capgras já observam.”
“a manutenção da psicose depende da permanência do conflito gerador.”
“As indicações profiláticas se impõem antes de mais nada. Elas devem se manter, para nossos sujeitos, a meio caminho de um isolamento social grande demais, que favorece o reforço de suas tendências narcísicas, e de tentativas de adaptação por demais completas, com cujos gastos afetivos eles não podem arcar, e que serão para eles a fonte de recalcamentos traumáticos.O isolamento total na natureza é uma solução válida, mas cuja indicação é puramente ideal.”
“A estadia prolongada no meio familiar só fará provocar uma verdadeira estagnação afetiva, segunda anomalia, cujo efeito viria se acrescer ao distúrbio psíquico, que quase sempre foi determinado nesse próprio meio. Quando este meio, por fim, faltar (morte dos pais), a psicose encontraria, a clínica nos mostra a cada dia, seu terreno ótimo.”
“A fórmula de atividade mais desejável para esses sujeitos é seu enquadramento numa comunidade laboriosa, à qual os liga um dever abstrato.” “Como professores, enfermeiras, ajudantes de laboratório ou de biblioteca, empregados, contramestres, eles revelarão qualidades morais de grande firmeza, ao mesmo tempo em que capacidades intelectuais em geral não-medíocres. Mas a sociedade moderna deixa o indivíduo num isolamento moral cruel, e de modo muito particularmente sensível nessas funções cuja situação intermediária e ambígua pode ser por si mesma a fonte de conflitos internos permanentes.”
“Paris encerra, dispõe, consume ou consome a maior parte dos brilhantes infelizes cujos destinos foram chamados de profissões delirantes . . . Nomeio assim todos esses ofícios cujo principal instrumento é a opinião que se tem de si mesmo, e cuja matéria primeira é a opinião que os outros têm a seu respeito. As pessoas que os exercem, votadas a uma eterna candidatura, são necessariamente sempre afligidas por um certo delírio de grandeza que é atravessado e atormentado sem trégua por um certo delírio de perseguição. Neste povo de únicos reina a lei de fazer o que nunca ninguém fez, nem nunca fará. (…) Vivem apenas para obter e tomar duradoura a ilusão de serem sós, pois a superioridade não é senão uma solidão situada nos limites atuais de uma espécie. Cada um deles funda sua existência na inexistência dos outros, mas dos quais é preciso arrancar seu consentimento, o de que eles não existem. Eu me divirto, às vezes, com uma imagem físicade nossos corações, que são feitos intimamente de uma enorme injustiça e de uma pequena justiça combinadas. Imagino que haja em cada um de nós um átomo importante entre nossos átomos, e constituído por dois grãos de energiaque mais queriam é se separar. São energias contraditórias mas indivisíveis. A natureza as juntou para sempre, embora sejam furiosamente inimigas. Uma é o eterno movimento de um grande elétron posttivo, e este movimento inesgotável engendra uma seqüência de sons graves na qual o ouvido interior distingue sem nenhuma dificuldade uma profunda frase monótona: Há apenas eu. Há apenas eu. Há apenas eu, eu, eu . . .Quanto ao pequeno elétron radicalmente negativo, ele grita no ápice do agudo, fura e volta a furar de maneira mais cruel, o tema egotista do outro: Sim, mas há alguém… Sim, mas há alguém… Alguém, alguém, alguém... E outro alguém . . . Pois o nome muda com bastante freqüência . . .”Paul Valéry
O ENGAJAMENTO EM PEQUENAS ASSOCIAÇÕES DE INDIVÍDUOS COM FINS COMUNS COMO TERAPIA: “Sabe-se, por outro lado, que as tendências homossexuais recalcadas encontram nestas expansões sociais uma satisfação tanto mais perfeita quanto ao mesmo tempo é mais sublimada e mais garantida contra qualquer revelação consciente.” Realmente é assim: de células bolsonaristas a rodas literárias.
“A técnica psicanalítica conveniente para estes casos ainda não está, segundo o testemunho dos mestres, madura. Aí está o problema mais atual da psicanálise e é preciso esperar que ele encontre sua solução. Pois uma estagnação dos resultados técnicos no seu alcance atual acarretaria logo o deperecimento da doutrina.”
“urge corrigir as tendências narcísicas do sujeito por uma transferência tão prolongada quanto possível. Por outro lado, a transferência para o analista, despertando a pulsão homossexual, tende a produzir nesses sujeitos um recalcamento no qual a própria doutrina nos mostra o mecanismo maior do desencadeamento da psicose. (…) O mínimo que pode acontecer é o abandono rápido do tratamento pelo paciente. Mas, em nossos casos, a reação agressiva se dirige com muita freqüência contra o próprio psicanalista [e pra quem mais seria?], e pode persistir por muito tempo ainda, mesmo após a redução de sintomas importantes, e para o espanto do próprio doente. Por isso inúmeros analistas propõem, como condição primeira, a cura destes casos em clínica fechada. Notemos, entretanto, como uma outra antinomia do problema da psicanálise das psicoses, que a ação deste tratamento implica até aqui a boa vontade dos doentes como condição primeira.”
PURO NADA TEÓRICO: “Por isso o problema terapêutico das psicoses nos parece tornar mais necessária uma psicanálise do eu do que uma psicanálise do inconsciente; quer dizer, é num melhor estudo das resistências do sujeito e numa experiência nova de sua <manobra> que ele deverá encontrar suas soluções técnicas.”
c.2) Métodos e Hipóteses de Pesquisa sugeridos por Nosso Estudo
“Todo o delírio de Aimée, já o mostramos, pode, ao contrário, ser compreendido como uma transposição cada vez mais centrífuga de um ódio cujo objeto direto ela quer desconhecer. Curada, ela denega formalmente toda culpa que seria atribuída a esta irmã, apesar da atitude plenamente desumana que esta manifesta, então, para com ela.” Eu tenho uma tendência completamente centrípeta: a despeito de mim mesmo, só o que quero é me lembrar.
“Parece-nos mesmo que ao conflito agudo e manifesto entre os pais correspondiam os raros casos de delírio paranóico precoce que vimos, a saber, em dois meninos de 14 e 16 anos: delírio nitidamente agressivo e reivindicador no mais jovem, delírio de interpretação típico no mais velho.”
“Os pesquisadores italianos modernos, como já mencionamos anteriormente (cap. I, 1ª parte), esperam obter a chave das estruturas mentais da paranóia a partir de uma aproximação com as formas, definidas pelos sociólogos, do pensamento primitivo, chamado ainda de pensamento pré-lógico. Foram levados a esse caminho pelo espírito que sobrevive das teorias lombrosianas, e encontram o melhor apoio nos trabalhos da escola sociológica francesa contemporânea.”
“esse caráter de necessidade pessoal que reveste para ela a obra literária, tudo isto se deve menos à psicose que aos traços precedentes? Certamente não, pois ela só conseguiu levar a cabo o que escreveu de melhor, e de mais importante, no momento mais agudo de sua psicose e sob a influência direta das idéias delirantes. A queda da psicose parece ter acarretado a esterilidade de sua pena. Não se pode dizer, ao contrário, que só uma instrução suficiente tanto dos meios de informação quanto de crítica, numa palavra, a ajuda social, faltou-lhe para que tenha realizado obra válida? Isto nos parece patente em inúmeras linhas de seus escritos. Todo aquele que nos lê evocará aqui, sem dúvida, o exemplo de um paranóico de gênio, de Jean-Jacques Rousseau. Consideremo-lo, pois, um instante, em função de nossa doente.” “Por outro lado, só um estudo histórico muito minucioso da atividade social e da atividade criadora do escritor poderia nos permitir julgar aquilo que seus próprios meios de expressão devem de positivo a sua anomalia mental: a saber, não só sua sensibilidade estética e seu estilo, mas seu poder de trabalho, suas faculdades de arrebatamento, sua memória especial, sua excitabilidade, sua resistência à fadiga, em suma, os diversos meios de seu talento e de seu ofício.”
MISTER INDIRETAS: “Nossa análise, manifestando a inanidade de toda gênese <racional> desses fenômenos,¹ retira todo valor dos argumentos puramente fenomenológicos sobre os quais certas doutrinas se fundam para opor radicalmente a interpretação, por um lado, e, por outro, os fenômenos <impostos>, xenopáticos, que chamamos ainda de <alucinatórios> por uma extensão admitida, embora discutível, do termo alucinação.”
¹ Nisso está plenamente certo.
“Pode-se dizer que, ao contrário dos sonhos, que devem ser interpretados, o delírio é por si mesmo uma atividade interpretativa do inconsciente [e quem interpreta o delírio?]. Estamos diante de um sentido inteiramente novo que se oferece ao termo delírio de interpretação.”
“Nada mais difícil de apreender que o encadeamento temporal, espacial e causal das intuições iniciais, dos fatos originais, da lógica das deduções, no delírio paranóico, seja ele o mais puro.”
“O parentesco, por outro lado, das concepções que citamos com as produções míticas do folclore é evidente: mitos de eterno retorno, sósias e duplos dos heróis, mito da Fênix, etc.”
“Notemos o seu parentesco mais inesperado com certos princípios gerais da ciência, a saber, os princípios de constância energética, ao menos na medida em que não os completam os princípios correlativos de queda e de degradação da energia. Este paralelo não surpreenderá aqueles para quem o belo livro de Meyerson (Cheminement de la pensée) houver mostrado a identidade formal dos mecanismos profundos de todo pensamento humano. Ele tornará claro, por outro lado, o fato, indicado por Ferenczi, da predileção manifesta em inúmeros paranóicos e parafrênicos (e também dementes precoces) pela metafísica e pelas doutrinas científicas que dela se aproximam.”
“A última palavra da ciência é prever, e se o determinismo, o que acreditamos, se aplica em psicologia, deve nos permitir resolver o problema prático que a cada dia é colocado ao perito a propósito dos paranóicos, a saber, em que medida um sujeito dado é perigoso e, especialmente, é capaz de realizar suas pulsões homicidas.” “Os casos não são raros, na prática da perícia psiquiátrica, em que o assassinato constitui por si só todo o quadro semiológico da anomalia psíquica presumida.”
“Um sujeito de que se pode dizer que levou uma vida exemplar pelo controle de si, pela doçura manifesta do caráter, pelo rendimento laborioso e pelo exercício de todas as virtudes familiares e sociais de repente mata: mata duas vezes e dois de seus mais próximos, com uma lucidez que revela a execução meticulosa dos crimes. Pensa em matar ainda e se matar em seguida, mas de repente se detém, como saciado. Ele vê o absurdo de seus crimes. Uma motivação, no entanto, o manteve até então: a de sua inferioridade, de seu destino votado ao fracasso. Motivação ilusória, pois nada em sua situação ia pior do que lhe era costumeiro, nem do que é comum a todos. Por um momento, no entanto, epifenômeno da impulsão-suicídio, o futuro se lhe afigurou fechado. Não quis abandonar os seus a suas ameaças, e começou o massacre. O primeiro crime, impulsivo, como acontece mais freqüentemente, mas preparado por uma longa obsessão; depois, no segundo crime, execução calculada, minuciosa, refinada. O exame psiquiátrico e biológico dos peritos, a observação prolongada durante vários meses em nosso serviço, só apresentaram depois do drama resultados totalmente negativos.” “Sua conduta sem faltas, a doçura quase humilhada de todo seu comportamento, em particular conjugal, assumem, só depois, um valor sintomático.”
“o perigo maior, mais imediato, mais dirigido também, que os querelantes apresentam, depende do fato de que neles o impulso homicida recebe o concurso energético da consciência moral, do supereu,que aprova e justifica o impulso. Sem dúvida, a forma sem máscara sob a qual a obsessãocriminosa aparece aqui na consciência e a hiperestenia hipomaníacaconcomitante se devem a esta situação afetiva, que se apresenta como o inverso do complexo de autopunição. Ao contrário, nas psicoses autopunitivas,que, como já mostramos, se traduzem clinicamente por um delírio de interpretação, as energias autopunitivas do supereuse dirigem contra as pulsões agressivas provenientes do inconsciente do sujeito, e retardam, atenuam e desviamsua execução.”
“Longe de se lastimar, como, com efeito, faz o querelante, por um prejuízo preciso, realizado, que é preciso fazer com que seu autor pague, o interpretativo crê sofrer por parte de seus perseguidores danos cujo caráter ineficaz,sempre futuro,puramente demonstrativo,é surpreendente para o observador, se ele escapar, aliás, à crítica do sujeito. Na maioria das vezes, é somente após um período não apenas dubitativo,mas longânime,que os sujeitos chegam a reagir. Mesmo esta reação, como aparece em nossa doente, terá primeiro um caráter por si mesmo demonstrativo, um valor de advertência, que deve freqüentemente permitir prevenir outros mais graves: o que, como já vimos, seguramente teria podido ser feito em nossa doente. Vê-se, enfim, que na medida mesma em que a reação assassina vai atingir um objeto que só suporta a carga de um ódio diversas vezes transferido, a própria execução, ainda que preparada, é com bastante freqüência ineficaz por falta de estenia.”
“Inúmeros desses casos vêm à nossa memória: um desses sujeitos, de origem estrangeira, após dez anos de perseguição delirante, suportada sem reação grave, vai ter na casa de um banqueiro de sua nacionalidade, que ele implicou, sem conhecê-lo, na conspiração de seus inimigos, e o abate com cinco tiros de revólver. Notemos que, nesses casos, se o alívio afetivo se produz após o assassinato, a convicção delirante persiste.”
III. EXPOSIÇÃO CRÍTICA, REDUZIDA EM FORMA DE APÊNDICE, DO MÉTODO DE UMA CIÊNCIA DA PERSONALIDADE E DE SEU ALCANCE NO ESTUDO DAS PSICOSES
“É o postulado que cria a ciência, e a doutrina, o fato.”
“É de uma confusão bastarda desses dois primeiros pontos de vista [intuitivo-lingüístico x metafísico-fenomenológico], um e outro excluídos pelas próprias condições da ciência, que nasceu a doutrina das constituições psicopatológicas. Essa doutrina estava, portanto, destinada a se esgotar, no plano dos fatos, nesse verbalismo puronas especulações escolásticas mais vazias de substância.
O ponto de vista do social no fenômeno da personalidade nos oferece, ao contrário, uma dupla tomada científica: nas estruturas mentais de compreensão que engendra de fato, ele oferece uma armadura conceitual comunicável; nas interações fenomenais que ele apresenta, ele oferece fatos que têm todas as propriedades do quantificável, pois são moventes, mensuráveis, extensivos.
(…)
Mas, inversamente, pela via dessas relações de compreensão,é o próprio individual e o estrutural [intuitivo e metafísico] que visamos a atingir, tão longe quanto possa ser cingido o concreto absoluto.”
“fazemos uma hipótese: se rejeitamos aquelas das doutrinas clássicas, não deixamos nunca nós mesmos de pretender forjar uma. Essa hipótese, é que existe um determinismo que é específico da ordem definida nos fenômenos pelas relações de compreensibilidade humana. Esse determinismo, nós o chamamos de psicogênico.Essa hipótese merece o título de postulado;indemonstrável com efeito e pedindo um assentimento arbitrário, ela é em todos os pontos homóloga aos postulados que fundam legitimamente qualquer ciência e definem para cada uma, ao mesmo tempo, seu objeto, seu método e sua autonomia.”
“Pode-se dizer que esta ciência é o complemento filosófico da ciência positiva, complemento tanto mais útil que, ao ignorar seu domínio, corre-se o risco de introduzir nessas matérias delicadas graves confusões metódicas.”
“a idéia que funda a caracterologia de Klages, e que ele exprime como a manifestação na ordem humana de um conflito entre o Espírito e a Vida. Consideramos que tal ponto de vista não tinha lugar em um trabalho que se apresenta como inaugural de um método rigoroso em uma ciência puramente positiva. Notemos, no entanto, que ele não deixa de trazer clarezas profundas sobre o caso fundamental do nosso estudo.”
“Ao leitor curioso por se iniciar nos problemas próprios da fenomenologia da personalidade, indiquemos, além dos trabalhos de uma exposição muito rigorosa de Klages, um livro que, por ser de uma composição um pouco confusa, permanece bastante sugestivo: o de Max Scheler, Nature et Formes de la Sympathie (trad. fran. de Lefebvre, Payot); particularmente as pp. 311-84, em que é estudado o problema, tão fundamental para toda a psiquiatria e psicologia empírica, dos fundamentos fenomenológicos do eu de outrem.”
“Na tripla preeminência desses dados até aqui desconhecidos na psicose, a saber das anomalias do comportamento sexual, do papel eletivo de certos conflitos e de seu elo com a história infantil, não podemos deixar de reconhecer as descobertas da psicanálise sobre o papel primordial, em psicopatologia, da sexualidade e da história infantis.”
“O único dado da técnica psicanalítica que tivemos em conta foi o valor significativo que atribuímos às resistências da personalidade do sujeito, ou seja, particularmente a seus desconhecimentos e denegações sistemáticos. Mas trata-se aí de uma reação psicológica cujo alcance, por ter sido brilhantemente utilizado pela psicanálise, nem por isso deixa de ter sido reconhecido bem anteriormente ao aparecimento desta ciência. Que nos seja suficiente, sem remontar mais acima, evocar a ênfase dada a essa reação pelos ensaístas e moralistas da tradição francesa, de La Rochefoucauld a Nietzsche.”
“dado o pouco de realidade apreendido até aqui pela nascente ciência da personalidade, estes postulados parecem oferecer apenas um pequeno ponto de apoio ao pensamento, sobretudo para os espíritos que se formaram somente nas representações da clínica, e cuja reflexão, por esse fato mesmo, não pode prescindir de imagens intuitivas.” Hoje mesmo li um parágrafo praticamente idêntico em Jung!
Lacan diz de forma um pouco mais polida: A Psicanálise permite-nos concluir que nossa paciente psicótica é lésbica, sádico-anal e incestuosa.
Filha de neurose, psicosinha é.
“A própria noção de fixação narcísica, sobre a qual a psicanálise funda sua [a-]doutrina das psicoses, permanece muito insuficiente, como manifesta bem a confusão dos debates permanentes sobre a distinção do narcisismo e do auto-erotismo primordial – sobre a natureza da libido que concerne o eu (o eu sendo definido por sua oposição ao isso,¹ a libido narcísica provém do eu ou do isso?); sobre a natureza do próprio eu”
¹ O problema capital da Psicanálise: eu e isso não podem ser opostos quando, de uma perspectiva nietzscheana, p.ex., muito mais lúcida e inclusive didática, eu e isso não passam de partições arbitrárias do próprio inconsciente. E mesmo no sistema formal estilizado do freudismo clássico a eterna necessidade de montar uma tópica tripartite nunca casa com necessidades terapêuticas de pacientes para-neuróticos (ou com a explicação da própria alma humana): como explicar que a instância da censura (supereu) não seja, ela sim, a que se opõe diametralmente ao isso, o inconsciente mais arcaico e profundo? Além disso, se não se considera o eu como contido no inconsciente, o problema só piora: ele está parte dentro, parte fora? Como é isso? Se queriam uma unidade mediadora, não deviam criar uma instância ex nihilo só para isso, sob pena de ter de lidar com “estrelas-do-mar que crescem dos braços amputados de uma primeira estrela-do-mar que se tentou matar”! E como se chama ou se dá a mediação isso-eu, e a eu-supereu? Existe mediação isso-supereu (sim, claro que existe, mas um freudiano ata suas mãos com seus a priori incautos – era para ser esse fraturado eu que acaba tendo uma identificação meramente negativa!)? O freudiano diria: isso e eu são polares, e mesmo com uma instância ‘no meio’, se relacionam – porém, objeta-se com bom senso: como o eu mais espontâneo estaria na periferia a consciência e o órgão de controle superegóico (a sociedade, os pais) por detrás, quando é visivelmente o inverso?!? Em suma, quanto mais se chafurda no “pseudo-empiricismo freudista”, mais a questão fica confusa e abstrata, senão insultante! Se não se deseja abrir mão de “um eu parte consciente, parte inconsciente”, melhor seria, para início de conversa, voltar a Nietzsche. Há um consciente e inconsciente, basta. Consciente e inconsciente são sistemas interrelacionados umbilicalmente. Basta. Ou, para ser ainda mais direto: só o que existe é o Inconsciente, sendo o consciente a ponta de fenômeno visível do iceberg humano. O resto não passa de especulação de vigaristas aproveitadores.
Narcisismo e punheta são sinônimos em diferentes níveis lingüísticos.
Deus sofre de despersonalização aguda grave.
“Sabe-se, com efeito, que as primeiras bases desta concepção [revisionista do narcisismo – um primeiro cisma com Freud antes da segunda tópica de Freud?] são lançadas em um estudo de Abraham sobre a demência precoce, datado de 1908 [Die psychosexuellen Differenzen der Hysterie und der Dementia praecox].” Uma cratera lunar perto do sistema solar da loucura… Cem aninhos somente…
“Digamos, no entanto, que a nosso ver a oposição freudiana do eu e do isso parece sofrer de uma dessas confusões, cujo perigo sublinhamos antes, entre as definições positivas e as definições gnoseológicas que se podem dar dos fenômenos da personalidade. Em outras palavras, a concepção freudiana do eu nos parece pecar por uma distinção insuficiente entre as tendências concretas, que manifestam esse eu e apenas como tais dependem de uma gênese concreta, e a definição abstrata do eu como sujeito do conhecimento.” “esse princípio de realidade só se distingue do princípio do prazer num plano gnoseológico e, assim sendo, é ilegítimo fazê-lo intervir na gênese do eu, uma vez que ele implica o próprio eu enquanto sujeito do conhecimento.”
“Esse supereu, Freud o concebe como a reincorporação (termo aqui justificado, apesar de sua estranheza aparente no estudo de fenômenos psíquicos), como a reincorporação ao eu, de uma parte do mundo exterior. Essa reincorporação incide sobre os objetos cujo valor pessoal, do ponto de vista genético social em que nós mesmos definimos este termo, é maior: com efeito, ela incide nesses objetos que resumem em si mesmos todas as coerções que a sociedade exerce sobre o sujeito, sejam os pais ou seus substitutos. Como explicar essa reintegração? Por um fim puramente econômico, isto é, inteiramente submetido ao princípio do prazer.”
“Podemos observar que o sujeito é aliviado da tirania dos objetos externos na medida dessa introjeção narcísica, mas na medida também em que, em razão dessa introjeção mesma, ele reproduz esses objetos e lhes obedece.”
“Em que medida todas as funções intencionais do eu e mesmo as primeiras definições objetivas se engendram de maneira análoga, é o que só podemos esperar saber mediante as vias de pesquisas futuras, dentre as quais o estudo das psicoses ditas discordantes parece nos oferecer esperanças maiores.”
“a questão que se coloca é a de saber se todo conhecimento não é de início conhecimento de uma pessoa antes de ser conhecimento de um objeto, e se a própria noção de objeto não é, para a humanidade, uma aquisição secundária.”
“vemos que se nos impõem, no estudo genético e estrutural dessas tendências concretas, noções de equivalência energética que só podem ser fecundas. Essas noções, aliás, introduzem-se por elas próprias em toda pesquisa psicológica, uma vez que esta última vise aos fenômenos concretos.”
“Sem esse recurso ao conceito energético, por exemplo, a concepção kretschmeriana dos caracteres permanece ininteligível.”
“As pesquisas epistemológicas mais recentes demonstraram abundantemente que é impossível pensar cientificamente, e mesmo pensar simplesmente, sem implicar de algum modo os dois princípios fundamentais de uma certa constância assim como de uma certa degradação de uma entidade, a qual desempenha um papel substancial em relação ao fenômeno. A essa entidade, a noção de energia fornece sua expressão mais neutra e mais comumente empregada. De nossa parte, ressaltemos aí, de passagem, a aura que ela parece conservar da gênese, que é preciso lhe atribuir, como a tantas outras formas de estruturas conceituais, de uma intencionalidade primitivamente social.”
“Nenhum estudo da psicose passional, na literatura francesa, parece-nos demonstrar maior penetração clínica e justeza na indicação das sanções sociais do que a bela monografia de Marie Bonaparte sobre o caso, que apaixonou a opinião pública, da sogra assassina, Sra. Lefebvre.”
“Somente o exame da continuidade genética e estrutural da personalidade nos elucidará, com efeito, em que casos de delírio se trata de um processo psíquico e não de um desenvolvimento, isto é, em que casos se deve reconhecer a manifestação intencional de uma pulsão que não é de origem infantil, mas de aquisição recente e exógena, e de tal ordem que, de fato, certas afecções, como a encefalite letárgica, fazem-nos conceber sua existência, ao nos demonstrar seu fenômeno primitivo.”
“Este <paralelismo> [automatismo mental], que supõe que toda representação é produzida por uma reação neurônica qualquer, arruína radicalmente toda e qualquer objetividade. Basta ler o livro de Taine sobre A inteligência, que dá a essa doutrina sua mais coerente exposição, para se convencer de que ela não permite de modo algum conceber em que diferem, por exemplo, a percepção e a alucinação. Aliás, Taine induz logicamente uma definição da percepção como <alucinação verdadeira>, que é a definição mesma do milagre perpétuo. Ao menos Taine concebia as conseqüências de sua doutrina. Mas seus epígonos, nossos contemporâneos, não se sentem mais embaraçados com elas. Eles as ignoram tranqüilamente. Desconhecendo o alcance heurístico dos preceitos de seus antecessores, eles os transformam nos propósitos sem conteúdo de uma rotina intelectual, e acreditam suprir, na observação dos fenômenos, os princípios de objetividade mediante afirmações gratuitas sobre sua materialidade.”
“Vê-se aqui nosso acordo com a crítica definitiva das localizações cerebrais feita por Bergson em Matière et Mémoire.O conhecimento aprofundado dessa obra deveria ser, ousamos dizer, exigido de todos aqueles a que se confira o direito de falar de psicopatologia.”
“Vê-se que, em nossa concepção, aqui concordante com Aristóteles, o meio humano, no sentido que lhe dá Uexküll, seria por excelência o melo social humano. Inútil ressaltar o quanto essa concepção se opõe às doutrinas, aliás arruinadas, da antropologia individualista do século XVIII, e particularmente a uma concepção como a do Contrato social de Rousseau, cujo caráter profundamente errôneo, de resto, assinala diretamente a estrutura mental paranóica própria de seu autor.”
“se define o delírio como a expressão, sob as formas da linguagem forjadas pelas relações compreensíveis de um grupo, de tendências concretas cujo insuficiente conformismo às necessidades do grupo é desconhecido pelo sujeito. Esta última definição do delírio permite conceber, de um lado, as afinidades observadas pelos psicólogos entre as formas do pensamento delirante, e as formas primitivas do pensamento; de outro, a diferença radical que as separa pelo único fato de que umas estão em harmonia com as concepções do grupo e as outras não.”
“Estejamos certos de que aqueles que não julgam esses esclarecimentos necessários, que são, convenhamos, de ordem metafísica, fazem eles próprios, sem que disso suspeitem, uma metafísica, mas da ruim, atribuindo constantemente a este fenômeno mental, definido só por sua estrutura conceitual – como a paixão, a interpretação, a fantasia imaginativa, o sentimento de xenopatia –, o alcance de um sintoma objetivo sempre equivalente a si mesmo.”
CONCLUSÕES
“Uma medida válida dessas tendências só pode ser dada por um estudo experimental do sujeito, do qual, até o presente momento, somente a psicanálise nos oferece a técnica aproximada. Para essa avaliação, a interpretação simbólica do material das imagens vale menos a nossos olhos do que as resistências pelas quais se mede o tratamento. Em outros termos, no estado atual da técnica, e supondo-a perfeitamente conduzida, os fracassos do tratamento possuem, para a disposição à psicose, um valor diagnóstico igual e superior às suas revelações intencionais. Somente o estudo dessas resistências e desses fracassos poderá fornecer as bases da nova técnica psicanalitica, da qual esperamos, no que diz respeito à psicose, uma psicoterapia dirigida.”
PRIMEIROS ESCRITOS SOBRE A PARANÓIA
O PROBLEMA DO ESTILO E A CONCEPÇÃO PSIQUIÁTRICA DAS FORMAS PARANÓICAS DA EXPERIÊNCIA
“Entre todos os problemas da criação artística, o que mais imperiosamente requer – e até para o próprio artista, acreditamos – uma solução teórica, é o do estilo.” “Segundo a natureza desta idéia, o artista, com efeito, conceberá o estilo como o fruto de uma escolha racional, de uma escolha ética, de uma escolha arbitrária, ou então ainda de uma necessidade sentida cuja espontaneidade se impõe contra qualquer controle, ou mesmo que é conveniente liberá-la por uma ascese negativa.”
“esses postulados estão suficientemente integrados à linguagem corrente para que o médico que, dentre todos os tipos de intelectuais, é o mais constantemente marcado por um leve retardamento dialético, não houvesse acreditado ingenuamente que pudesse reencontrá-los nos próprios fatos. Além disso, não se deve desconhecer que o interesse pelos doentes mentais nasceu historicamente de necessidades de origem jurídica.” “A partir daí, a questão maior que se colocou à ciência dos psiquiatras foi aquela, artificial, de um tudo-ou-nada da degradação mental (art. 64 do Código Penal).” “É o triunfo do gênio intuitivo próprio à observação, que um Kraepelin, ainda que engajado completamente nesses preconceitos teóricos, tenha podido classificar, com um rigor ao qual quase nada se acrescentou, as espécies clínicas cujo enigma devia, através de aproximações freqüentemente bastardas (de que o público retém apenas as senhas: esquirofrenia, etc.), engendrar o relativismo noumenal inigualado pelos pontos de vista ditos fenomenológicos da psiquiatria contemporânea. Essas espécies clínicas nada mais são que as psicoses propriamente ditas (as verdadeiras <loucuras> do vulgo).”
“o delírio se revela, com efeito, muito fecundo em fantasias de repetição cíclica, de multiplicação ubiquista, de retornos periódicos sem fim dos mesmos acontecimentos, em pares e triplas dos mesmos personagens, às vezes como alucinações de desdobramento da pessoa do sujeito. Essas intuições são manifestamente próximas de processos muito constantes da criação poética e parecem uma das condições da tipificação, criadora do estilo.”
“Os delírios, com efeito, não têm necessidade de nenhuma interpretação para exprimir, só por seus temas, e à maravilha, esses complexos instintivos e sociais que a psicanálise teve grande dificuldade em descobrir entre os neuróticos.”
“pode-se afirmar que Rousseau, para quem o diagnóstico de paranóia típica pode ser aplicado com a maior certeza, deve a sua experiência propriamente mórbida a fascinação que exerceu em seu século por sua pessoa e por seu estilo.”
“o gesto criminoso dos paranóicos comove às vezes tão longe a simpatia trágica, que o século, para se defender, não sabe mais se ele deve despojá-lo de seu valor humano ou então oprimir o culpado sob sua responsabilidade.”
MOTIVOS DO CRIME PARANÓICO: O CRIME DAS IRMÃS PAPIN
“o drama se desencadeia muito rapidamente, e sobre a forma do ataque é difícil admitir uma outra versão que a que deram as irmãs, a saber, que ele foi súbito, simultâneo, levado de saída ao paroxismo do furor: cada uma delas subjuga uma adversária, arranca-lhe, em vida, os olhos da órbita – fato inédito, dizem, nos anais do crime – e a espanca. Depois, com a ajuda do que encontram a seu alcance, martelo, pichel de estanho, faca de cozinha, elas se encarniçam no corpo de suas vítimas, esmagam-lhes as faces, e, deixando à mostra o sexo delas cortam profundamente as coxas e as nádegas de uma para ensagüentar as da outra. Lavam, em seguida, os instrumentos desses ritos atrozes, purificam-se a si mesmas, e deitam-se na mesma cama: <Agora está tudo limpo!>”
“No decorrer de uma outra crise, ela tenta arrancar os olhos, por certo que em vão, porém com algumas lesões. A agitação furiosa necessita desta vez a aplicação de camisa-de-força; ela se entrega a exibições eróticas, depois aparecem sintomas de melancolia: depressão, recusa de alimentos, auto-acusação, atos expiatórios de um caráter repugnante; depois disso, várias vezes, ela diz frases de significação delirante. Lembremos que a declaração de Christine de ter simulado tais estados não pode de modo algum ser tida como a chave real de sua natureza: o sentimento de jogo é nesse caso freqüentemente sentido pelo sujeito, sem que seu comportamento seja por isso menos tipicamente mórbido.
A 30 de setembro, as irmãs são condenadas pelo júri. Christine, entendendo que sua cabeça será cortada na praça de Mans, recebe esta notícia de joelhos.
Contudo, as características do crime, os problemas de Christine na prisão, a estranheza da vida das irmãs, haviam convencido a maioria dos psiquiatras da irresponsabilidade das assassinas.”
“Christine pergunta como estão passando suas duas vítimas e declara que acredita que elas voltaram num outro corpo”
“É provável mesmo que elas sairiam dos quadros genéricos da paranóia para entrar no das parafrenias, isolado pelo gênio de Kraepelin como formas imediatamente contíguas.”
“Ouviu-se, no decorrer dos debates, a surpreendente afirmação de que era impossível que dois seres fossem tomados juntos pela mesma loucura, ou antes a revelassem simultaneamente. É uma afirmação completamente falsa. Os delírios a dois estão dentre as formas das psicoses reconhecidas desde há muito. As observações mostram que eles se produzem eletivamente entre parentes próximos, pai e filho, mãe e filha, irmãos e irmãs.” “Nossa experiência precisa destes doentes nos fez hesitar, contudo, diante da afirmação, sobre a qual muitos passam por cima, da realidade de relações sexuais entre as irmãs. Por isso é que somos gratos ao doutor Logre pela sutileza do termo <casal psicológico>, em que se percebe sua reserva quanto a este problema. Os próprios psicanalistas, quando fazem derivar a paranóia da homossexualidade, qualificam esta homossexualidade de inconsciente, de <larvar>. Essa tendência homossexual só se exprimiria por uma negação apaixonada de si mesma, que fundaria a convicção de ser perseguido e designaria o ser amado no perseguidor. Mas o que é esta tendência singular que, tão próxima assim de sua revelação mais evidente, ficaria sempre dela separada por um obstáculo singularmente transparente?”
“O <mal de ser dois> de que sofrem esses doentes pouco os libera do mal de Narciso.”
“parece que entre elas as irmãs não podiam nem mesmo tomar a distância que é preciso para se matar. Verdadeiras almas siamesas, elas formam um mundo para sempre fechado; lendo seus depoimentos depois do crime, diz o doutor Logre, <tem-se a impressão de estar lendo duplo>. Com os únicos meios de sua ilhota, elas devem resolver seu enigma, o enigma humano do sexo.”
“Que longo caminho de tortura ela teve de percorrer antes que a experiência desesperada do crime a dilacerasse de seu outro si-mesmo, e que ela pudesse, depois de sua primeira crise de delírio alucinatório, em que ela acredita ver sua irmã morta, morta sem dúvida por esse golpe, gritar, diante do juiz que as confronta, as palavras da paixão manifesta: <Sim, digo sim.>”
“A curiosidade sacrílega que constitui a angústia do homem desde as priscas eras, é ela que as anima quando desejam suas vítimas, quando elas acossam em suas feridas hiantes [escancaradas] o que Christine mais tarde, perante o juiz, devia chamar, em sua inocência, <o mistério da vida>.”
REFERÊNCIAS SUPLEMENTARES
Abraham, Versuch einer Entdwicklungsgeschichte der Libido
Aravantinos, Esculape et les Asclépiades, 1907.[Livro sobre as observações psiquiátricas da Antiguidade]
Chaslin, La Confusion mentale primitive
Delmas, La Personnalité humaine
Exposito, Sulle natura e Sull’unità delle cosidette psicosi affective (artigo)
Ey, La notion de constitution, Essai critique (artigo)
Génil-Perrin, Les Paranoïaques
Heuyer, Le devinement de la pensée, 1926. (artigo)
Keraval, Des délires plus ou moins cohérents désignés sous le nom de paranoïa (artigo)
Lasègue, “Délire des persécutions”, in Études médicales, t. I.
Legrand du Saulle, Délire de persécution(sobre a coincidência do mesmo distúrbio em pares familiares)
“Pode-se ler aí, entre outros fatos, que o ancestral da linhagem, paranóico hipocondríaco, aterrorizava seus filhos com ameaças de morte – que fazia uso de sua filha, a mais inteligente das crianças e sua preferida, para escrever enquanto ditava suas memórias –, que, enfim, irritando-se com suas próprias dificuldades de estilo (sintoma paranóico), <mandava sua filha embora brutalmente ou a retinha para fazê-la dependurar-se numa porta até que caísse em síncope>. Não é de espantar então que após uma educação como esta, a menina, de todas as crianças, viesse [a] apresentar, por volta dos 50 anos, <um delírio de perseguição dos mais intensos com insuperáveis tendências ao suicidio>.”
Meyer, “What do histories of cases of insanity teach us concerning preventive mental hygiene during the years of school life”, in Psychological Clinic, 1908, t. II.
Régis, Les Régicides, 1890.
Russell, Analyse de l’esprit
Séglas, La Paranoïa, historique et critique
Sérieux & Capgras, Les folies raisonnantes [As loucuras racionais][*], 1906.
[*] SOBRE A OPÇÃO DE TRADUÇÃO DO TÍTULO: “Consultar a tradução brasileira de Paulo César Geraldes & Sonia Ioannides (sob supervisão de Ulysses Vianna Filho) do Manual de Psiquiatria, de Henri Ey, Ed. Masson, Rio, 1981.”
Tanzi & Lugaro, Trattato delle malattie mentali, t. II.
Tarde, Philosophie pénale, 1890.
White & Jelliffe, The philosophy of occupation therapy, in Arch. of occupational therapy, z.
“It is the unfortunate tendency of literary habits to enamour the studious of the seclusion of the closet, and to render them more conversant with the philosophy and erudition of bye-gone times, than with the sentiments and feelings of their fellow-men. Their knowledge of the world is, in a great measure, derived from books, not from an acquantance with its active duties; and the consequence is that when they venture into its busy haunts, they bring with them a spirit of uncompromising independence, which arrays itself at once against every prejudice they have to encounter: such a spirit is but ill calculated to disarm the hostility of any casual opponent, or in the circle where it is exhibited <to buy golden opinions> of any <sorts of people>. If the felictious example of the poet of the drawing room [poeta de câmara] seduces them into the haunts of fashionable life, they find themselves still less in their element; the effort to support the dignity of genius in a common-place conversation costs them, perhaps, more fatigue than the composition of half a volume would occasion in their study. Or if any congenial topic engage attention, they may have the good sense to subdue their ardour, and endeavour to assume an awkward air of fashionable nonchalance; they may attempt to be agreable, they may seem to be at ease, but they are on the stilts of literary abstraction all the time, and they cannot bow them down to kiss the crimson robe of good society with graceful homage. But these are minor inconveniences that arise from long indulgence in literary habits; the graverones are those that arise from impartial health and depressed spirits, the inevitable consequence of excessive mental application. Waywardness of temper, testiness of humour and capriciousness of conduct result from this depression; and under such circumstances the errors of genius are estimated too often by their immediate consequences, without any reference to predisposing causes. The fact is the carriage of genius is unlikely to conciliate strangers, while its faibles are calculated to weary even friends, and its very glory to make bitter rivals of its contemporaries and comrades.
Accordingly we find that its ashes are hardly cold before its failties are raked up from the tomb, and baited at the ring of biography, till the public taste is satiated with the sport. It is only when its competitors are gathered to their fathers, and the ephemeral details of trivial feuds, of petty faibles, and private scandal are buried with their authors that the conduct of genius begins to be understood, and its character to be fairly represented.”
“It was nearly a quarter of a century before <the malignant principles of Milton> gave the world sufficient time to ascertain there was such a poem in existence as Paradise Lost. Only 3,000 copies of it were sold in 11 years, while 8,000 copies of a modern novel have been disposed of in as many days; but we need not go back to the age of Milton for evidence of the tardy justice that is done to genius. Ten years ago the indiscretions of Shelly had rendered his name an unmentionable one to ears polite; but there is a reaction in public opinions, and whatever were his follies, his virtues are beginning to be known, and his poetry to be justly appreciated.”
Ser um poeta na verdadeira acepção da palavra é tão desesperador quanto ser um crente genuíno. A única coisa que você pode ter certeza é da sua danação, caso alguns requisitos se manifestem neste mundo; mas da salvação, da salvação você jamais terá provas ou certezas! O poeta não ruim, mas ao menos medíocre, se tornará famoso até o dia de sua morte, sabendo que nunca será considerado um poeta atemporal. O poeta que estiver entre os melhores do seu século morrerá nessa dúvida agoniante: não fui reconhecido porque os homens ainda não estavam prontos ou realmente jamais serei sequer mencionado ou lembrado? O gênio, por mais gênio, não consegue descobrir se é gênio ou farsante. Apenas pode saber, pela falta de fama imediata, que não é um poeta comum, mas pode ser um péssimo poetastro ou, quem sabe, um grande poeta que o destino se encarregará de enterrar na obscuridade pela perda e sumiço de seus manuscritos… Ambos destinos igualmente distantes do legado de um Goethe…
Os juízes (a crítica), o Radamanto das Musas Contemporâneas, são justamente do filão dos medíocres. Não é que os juízes condenem Byron, é que nem sequer o percebem digno de julgamento; ou sequer o percebem… Quanto aos amigos íntimos, também eruditos e poetas provavelmente, eles alimentarão apenas a indústria da fofoca, pois conhecerão os defeitos do temperamento poético do falecido amigo mais do que ninguém.
“Suicide might, indeed, have well had its horrors for that bard, who was even a more sensitive man than <the melancholy Cowley>, when he was informed that one of his best-natured friends was only waiting for the opportunity to write his life.”
“The Pythoness, we are told, was but a pitiable object when removed from the inspiration of the tripod, and the man of genius is, perhaps, no less divested of the attributes of his greatness when he is taken from his study, or followed in crowded circles.”
MAGNYFIYNG MALYGNYTI MYRROR: “But when biography is made the vehicle, not only of private scandal, but of that minor malignity of truth, which holds, as it were, a magnifying mirror to every naked imperfection of humanity, which possibly had never been discovered had no friendship been violated, no confidence been abused, and no errors exaggerated by the medium through which they have been viewed, it ceases to be a legitimate inquiry into private character or public conduct, and no infamy is comparable to that of magnifying the faults, or libelling the fame of the illustrious dead.”
“Blame not the world for such curiosity about its great ones; this comes of the world’s old-established necessity to worship. – Blame it not, pity it rather with a certain loving respect. Nevertheless, the last stage of human perversion, it has been said, is when sympathy corrupts itself into envy, and the indestructible interest we take in men’s doings has become a joy over their faults and misfortunes; this is the last and lowest stage – lower than this we cannot go. In a word, that species of biography which is written for contemporaries, and not for posterity, is worse than worthless. It would be well for the memory of many recent authors if their injudicious friends had made a simple obituary serve the purpose of a history.”
“It is rarely the lot of the wayward child of genius to have a Currie for his historian”
“It is greatly to be regretted that eminent medical men are not often to be met with literary attainments as well as professional ability for undertakings of this kind [biography a dead poet].”
MISANTHROPHY: “It is not amongst the Harveys, the Hunters, or the Heberdens of our country, or indeed amongst the enlightened physicians of any other, that we must look for the disciples of a gloomy misanthropy.”
“In spite of all the Rochefoucaults, who have libelled humanity –, in spite of all the cynics, who have snarled at its character, our tendency is to love mankind.” “It is to the practical and thorough knowledge of human nature which the physician attains by the exercise of his art that the active benevolence and general liberality which peculiarly distinguishes the medical profession is mainly to be attributed.”
“The literary man who indulges in habits prejudicial to his health, cannot be supposed ignorant of the effects that must arise from excessive application; and who can say he is guiltless of the infirmities he drags upon him?”
“The studious man sets out with stealing an hour or two from his ordinary repose: sometimes perhaps more; and finished by devoting whole nights to his pursuits. But this night-work leads to exhaustion, and the universal sense of sinking in every organ that accompanies it suggests the use of stimulants, most probably wine {!}; alcohol, however, in some shape or other. And what is the result? – why, the existence that is passed in a constant circle of excitement and exhaustion is shortened, or rendered miserable by such alternations; and the victim becomes accessory to his own sufferings.”
“if the proteiform symptoms of dyspepsia at last make their appearance, and the innumerable anomalous sufferings which, under the name of nervous and stomachic ailments, derange the viscera, and rack the joints of the invalid; if by constant application the blood is continually determined to the brain, and the caliber of the vessels enlarged to the extent of causing pressure or effusion in that vital organ; in any case, if the mischief there is allowed to proceed slowly and steadily, perhaps for years (as in the case of Swift), giving rise to a long train of nervous miseries – to hypochondria in its gloomiest form, or mania in its wildest mood, or paralysis in the expressionless aspect of fatuity [arrogância] (that frequent termination of the literary career); who can deny that the sufferer has, in a great measure, drawn the evil on himself, but who will not admit that his infirmities of mind and body are entitled to indulgence and compassion?”
“Misled by fancy’s meteor ray,
By passion driven,
But yet the light that led astray,
Was light from heaven.”
Burns
II. ADVANTAGES OF LITERARY PURSUITS
“A distinction has been made between literary men and men of letters; the former title has been given to authors, the latter to the general scholar and lover of science. In these volumes the term literary is applied to all persons who make books the business of their lives, or who are addicted to studious habits; and our observations apply to those who think too much on any subject, whether that subject be connected with legal, polemical or medical erudition.”
“It surely is not the least advantage of literary employment that it enables us to live in a state of blissful ignorance of our next-door neighbour’s fortune, faith and politics; that it produces a state of society which admits of no invasion on domestic privacy, and furnishes us with arms against ennui, which supersede the necessity of a standing army of elderly female moralists, and domestic politicians. In large cities, at least, literature occupies the ground which politics and scandal keep possession of in small ones; in the time of Tacitus, the evil was common to the communities of both:
Vitium parvis magnisque civitatibus commune
Ignorantium et invidiam.
Leisure, it seems, had no better occupation ere <the art of mutiplying manuscripts through the intervention of machinery> was discovered. But in these days of book-publishing celebrity, when the Press pours volumes on the twon with the velocity of Perkin’s steam-gun, one has hardly sufficient leisure to acquire a knowledge even of the names of those <dread counterfeits> of dead men’s thoughts, which living plagiarism is continually recasting and sending forth.”
“if we delude ourselves with the idea that we exert any happy influence over our country, or our own peace, by the unceasing agitation of political questions, we have formed a mistaken notion of our duties, as well as of our recreations.” A alegria do cultivado já era pouca; aí o povo pediu pela deterioração irremediável de toda a ordem social, e nos contaminou com problemas diários evitáveis no que concernisse a nós mesmos. Gastamos excessiva energia mental apenas ansiando não perder nosso sustento, não perder nossa (exígua) liberdade de expressão artística responsável, enfim, as condições mínimas para um escritor viver. Não sobra muita para nosso próprio trabalho.
“If the tea-table has ceased to be the terrible areopagus of village politics, where private reputation used formerly to be consigned to the tender mercies of maiden gentle-women and venerable matrons, whose leisure had no other occupation – it is because literature has afforded them an employment more pleasing to themselves, and less injurious to others.”
“The military man is well aware that the days of Ensign Northerton are long gone by, and that it has ceased to be the fashion to shoot maledictions at literature, even through the sides of Homer.”
“leisure without books is the sepulture of the living soul.”Seneca
“A comunidade das letras não tem partido, não tem nação; é uma pura República, em perpétua paz; o sossego não é atrapalhado por malícia doméstica, ou por assaltos estrangeiros; as perturbações não são provocadas por gritos de facção ou animosidade pública; a falsidade é o único inimigo denunciado pelos seus habitantes; a Verdade e seu ministro, a Razão, são os únicos guias que merecem crédito.”
III. ABUSES OF LITERARY PURSUITS
“the progress of crime is in a direct ratio with the pace of <the schoolmasters>”
“Festus told St. Paul that much learning had made him mad (…) Machiavel forbade princes to addict themselves to learning.”
“few have left their names to posterity without some appeal to future candour from the perverseness of malice of their own times.”
“It is indeed so seductive a pursuit, that the wear and tear of mind and body produce no immediate weariness, and at the moment no apparent ills. But study has no sabbath, the mind of the student has no holiday (…) he works his brain as if its delicate texture was an imperishable material which no excess was capable of injuring”
“other men look to their tools – a painter will wash his pencils, a smith will look to his hammer, a husbandman will mind his plough-irons, a huntsman will have a care of his hounds, a musician of his lute – scholars alone neglect that instrument which they daily use, by which they range over the world, and which, by study, is much consumed.”
IV. THE NERVOUS ENERGY
“The nervous energy is so much a part and parcel of the vital principle, their union is so intimate, that whether they stand in the relation of cause and effect, or are different names only for the same essence, they cannot be separately considered.”
“Nothing of it that doth fade
But doth suffer a sea change
Into something rare and strange.”
“The body is allowed to have its transformations, but the mind is not worthy of a transmigration, not even to be portioned among the worms which have their being in our forms.”
V. (continuação)
“On a frosty day, for one melancholy mien we observe, we meet a hundred faces, the hilarity of whose expression is due to no other cause than that which has been just named.”
O fetiche da eletricidade! Capítulo estranho da obra…
VI. INFLUENCE OF STUDIOUS HABITS ON THE DURATION OF LIFE
“Every class of genius has distinct habits; all poets resemble one another, as all painters and all mathematicians. There is a conformity in the cast of their minds, and the quality of each is distinct from the other: the very faculty which fits them for one particular pursuit is just the reverse required for the other.” D’Israeli
“They are not so much injured by study who only covet to know what others knew before them, and reckon it the best way to make use of other people’s madness, as Pliny says of those who do not take the trouble to build new houses, but rather buy and live in those that are built by other people.”
“Keats wrote several pieces before he was 15, and only reached his 25th year.”
“The lady Dante celebrated in his poems under the name of Beatrice he fell in love with at the age of 10, and his enthusiasm terminated with life at 56.”
VII. PRECOCIOUS TALENTS
“No common error is attended with worse consequences to the children of genius than the practice of dragging precocious talent into early notice, of encouraging its growth in the hot-bed of parental approbation, and of endeavouring to give the dawning intellect the precocious maturity of that fruit which ripens and rots almost simultaneously.”
Michelângelo e Ticiano viveram 96 anos, quase o triplo de Rafael!
Brincadeira do sortilégio: a média entre todas as profissões levantadas por Madden, com vários nomes (como Beard já nos trouxe em AMERICAN NERVOUSNESS), será a idade de minha morte: 66. Poetas, como sempre, na lanterna – mina sorte é ser polímata!
VIII. LONGEVITY OF PHILOSOPHERS, POETS AND ASTRONOMERS
(…)
IX. LONGEVITY OF JURISTS AND DRAMATISTS
“Though law has occasionally to do with fiction, it is only in Ireland that it has to deal with fancy [!!]”
“Though the condition of all men too busily employed is miserable, yet are they most miserable who have not leisure to mind their own affairs.” Xilander
“It is an ugly custom we have brought into use of getting into a coach every foot we have to go: if we did but walk the ¼ part of the distance that we ride in a day, the evils of our sedentary habits might be greatly obviated by such exercise.”
“Another unseasonable annoyance of ours, is to be interrupted in our meals by business; and Hippocrates condemns all study soon after meals, especially in those of a bad digestion.”
“the latter days are the lawyer’s only holidays.”
“every dramatist must be a poet, but many of the greatest poets have proved very indifferent dramatists.”
Se um gênio aparecesse, quantos anos você trocaria por livros, provado que cada livro valesse um ano de sua vida?
X. LONGEVITY OF MEDICAL AUTHORS AND MISCELLANEOUS WRITERS
“He that condemns himself to compose on a stated day, will often bring to his ask an attention dissipated, a memory embarrassed, a mind distracted with anxieties, a body languishing with disease; he will labour on a barren topic till it is too late to change it; for in the ardor of invention, his thoughts become diffused into a wild exuberance which the pressing hour of publication cannot suffer judgment to examine or reduce.”
“There is, indeed, no labour more destructive to health than that of periodical literature, and in no species of mental application, or even of manual employment, is the wear and tear of mind and body so early and so severely felt.
But with the novelist it is far different; they have their attention devoted, perhaps for months, to one continued subject, and that subject neither dry nor disagreeable. They have no laborious references to make to other books, they have to burthen their memories with no authorities for their opinions, nor to trouble their brain with the connexion of any lengthened chain of ratiocination.”
“Scott seldom exceeded 15 pages a day, but even this for a continuance was a toilsome task, that would have broken down the health of any other constitution at a much earlier period.” “Pope boasts in one of his letters of having finished 50 lines of his Homer in one day; and it would appear to be the largest number he had accomplished.”
XI. LONGEVITY OF POLEMICAL AUTHORS – PHILOLOGISTS
“But seclusion from the world, and sedentary habits, can alone enable the philologist to make his memory the store-house of the erudition of past ages, or furnish the necessary materials for that vast pyramid of classical erudition, which is based on a catacomb of ancient learning, and has its apex in a cloud that sheds no rain on the arid soil beneath it.”
“Languages are but the avenues of learning, and he who devoted his attention to the formation of the pebbles that lay along the road, will have little leisure for the consideration of more important objects, whose beauty or utility arrest the attention of the general observer.”
XII. LONGEVITY OF MUSICAL COMPOSERS, SCULPTORS AND PAINTERS
“Finally, we have to observe the extraordinary difference in the longevity of the musical composers and that of the artists. We find the amount of life in the list of the sculptors and painters larger (…) than in that of the votaries of Euterpe [musa].”
“The term genus irritabile deserves to be transferred from the poetical to the musical tribe; for we take it that an enraged musician is a much more common spectacle than an irritated bard, and infinitely more rabid in his choler.
Generally speaking, musicians are the most intolerant of men to one another, the most captious, the best humoured when flattered, and the worst tempered at all other times.”
“It has been truly observed by an intelligent traveller that what the ancient poets fancied in verse, the sculptors formed in marble; what the priests invented afterwards in their cells, the painters have perpetuated on canvass.”
“The sublimest effort of pictorial art that can be adduced in favour of the received opinion of the inventive genius of painting is that wonderful picture of the Last Judgment, by Michael Angelo.”
XIII. THE LAST MOMENTS OF MEN OF GENIUS
“What medical man has attended at the death-bed of the scholar, or the studious man, and has not found death divested of half its terrors by the dignified composure of the sufferer, and his state one of peace and serenity, compared with the abject condition of the unenlightened mind in the same extremity?”
“A German entertains his fate, in his dying moments, more like a philosopher than a Frenchman. And, of all places in the world, the capital of Turkey is it, where we have seen death present the greatest terrors, and where life has been most unwillingly resigned. The Arabs, on the other hand, professing the same religion as the Turks, differ from them wholly in this respect, and meet death with greater indifference than the humbler classes of any other country, Mahomedan or Christian.”
“In various epidemics in the East, we have had occasion to observe the striking difference in the conduct of both in their last moments, and especially in the expedition of Ibrahim Pasha to the Morea, when hundreds were dying daily in the camp at Suda. There the haughty Moslem went to the society of his celestial houries like a miserable slave, while the good humoured Arab went like a hero to his long last home. The difference in their moral qualities, and the mental superiority the Egyptian over the Turk, made all the distinction.
The result of the observation of many a closing scene in various climes, leads to the conclusion that death is envisaged by those with the least horror, whose lives have been least influenced by superstition or fanaticism, as well as by those who have cultivated literature and science with the most ardour.”
“Let us not be led into a mistake by the convulsive throbs, the rattling in the throat, and the apparent pangs of death, which are exhibited by many persons when in a dying state. These symptoms are painful only to the spectators, and not to the dying, who are not sensible of them. The case here is the same as if one, from the dreadful contortions of a person in an epileptic fit, should form a conclusion respecting his internal feelings: from what affects us so much, he suffers nothing.”
The effect of this new stimulus of dark coloured blood in the arterial vessels appears strongly to resemble the exhilerating effects of opium, inasmuch as physical pain is lulled, the sensations soothed, and the imagination exalted. Long forgotten pleasures are recalled, old familiar faces are seen in the mind’s eye, and well remembered friends are communed with, and the imaginative power of giving a real presence to the shadowy reproductions of memory is busily employed, and a sort of delirium, or rather of mental exaltation, is the consequence, in which a rapid succession of ideas, in most instances apparently of an agreeable nature, pass through the mind, and the sense of bodily pain, to all appearance is wholly overpowered.”
“Rousseau, when dying, ordered his attendants to place him before the window, that he might once more behold his garden, and bid adieu to nature.”
“Petrarch was found dead in his library, leaning on a book.”
“Chaucer died ballad making. His last production he entitled A Ballad, made by Geoffry Chaucer on his death-bed, lying in great anguish.”
XIV. THE IMPROVIDENCE OF LITERARY MEN
“Newton, Galileo, Michael Angelo, Locke, Hume, Pope never married; neither did Bacon, Voltaire and many other illustrious men, who either distrusted their own fitness for the married state, or were afraid to stake their tranquillity on the hazard of the matrimonial die.”
FOR ALL THAT IT IS WORTHY, I.E., NOT IN THE LEAST FOR MONEY: “Camoens died in an alms-house, and 15 years afterwards had a splendid monument erected to his memory.”
“When Jupiter’s daughters were all married to the gods, the Muses alone were left solitary, probably because they had no portions. Helicon was forsaken of all suitors, and Calliope only continued to be a maid, because she had no dower.”
“They cannot ride a horse, which every clown can manage; salute and court a gentlewoman; carve properly at table; cringe and make congies, which every common swasher can do.”
“Examine, choose, or reject the wares, but stand to your own judgment, and do not, like children, when you have purchased one thing, repine that you do not possess another, which you did not purchase. If you would be rich, you must put your heart against the Muses, and be content to feed your understanding with plain and household truths. You must keep on in one beaten track, without turning to the right hand or the left.”
“Was it to be rich that you grew pale over the midnight lamp?”
XV. APPLICATION OF THE PRECEDING OBSERVATIONS – POPE
“The most frequent disorders of literary men are dyspepsia and hypochondria, and in extreme cases the termination of these maladies is in some cerebral disorder, either mania, epilepsy or paralysis, and there we intend to notice in order of their succession in the following brief sketches of the physical infirmities of Pope, Johnson, Burns, Cowper, Byron and, lastly, Scott, in whose case the absence of the ordinary errors of genius may be ascribed in a great measure to well regulated habits, which certainly were not those of the others above mentioned.”
“One patient calls his disorder spleen, another nervousness, another melancholy, another irritability: the medical nomenclature is no less prolific, but all their titles are for a single malady and <not one of them>, says Dr. James Johnson, in his admirable treatise on the Morbid Sensibility of the Stomach, <expresses the real nature of the malady, but only some of its multiform symptoms. Of all these designations, indigestion has been the most hacknied title, and it is, in my opinion, the most erroneous. The very worst forms of the disease – forms in which the body is tortured for years, and the mind ultimately wrecked, often exhibit no sign or proof of indigestion, in the ordinary sense of the word, the appetite being good, the digestion apparently complete.>”
“The fact is that where pain is not the character of the disease, the attention of the patient is carried to the symptoms in organs, perhaps, the remotest from the cause; and in this particular disorder, the patient is seldom or ever sensible of pain in the actual seat of it.”
“Pope wrote his compositions on the backs of letters, by which perhaps he might have saved 5 shillings in 5 years (a crime against stationary, by the way, which he shared in common with Sir Walter Scott)”
“But Pope’s biting sarcasm was only aimed at his enemies. Byron little cared whether friend or foe was the victim of his spleen; those he best loved in the world were those who suffered most from the bitterness of his distempered feelings. To read those injurious lines on Rogers, that have lately appeared, and which never ought to, is to fancy the malignity of Byron greater even than Milton’s, which (we are falsely told) was sufficient to make hell grow darker at its scowl.”
“censure is the tax which a man pays to the public for being eminent” Swift
“This extraordinary necessity for artificial warmth was an evident indication of the deficiency of nervous energy”
XVI. JOHNSON
“hypochondria is the middle state between the vapours of dyspepsia and the delusions of monomania.”
“His well meaning friends see no reason why he should deem himself either sick or sorrowful, when his physician can put his finger on no one part of his frame and say: Here is a disease”
“It is vain to tell him his sufferings are imaginary, and must be conquered by his reason, and that the shapes of horror, and the sounds of terror, which haunt and harass him by day and night, are engendered in his brain, and are the effects of a culpable indulgence in gloomy reveries. In his better moments he himself knows that it is so, but in spite of every exertion, those reveries do come upon him” “It is worse than useless to reason with him about the absurdity of his conduct – his temper is only irritated – it is cruel to laugh at his delusions, or try to laugh him out of them – his misery is only increased by ridicule.” “Raillery, remonstrance, the best of homilies, the gravest of lectures, do not answer here”
Remédio prescrito: dieta regulada e laxantes! Ah, o Zeitgeist!
Keila (quando ter um além é o mesmo que ter dois infernos – niilismo acabado//o contrário de um salto da fé e da ética do caval(h)eiro da resignação): “They can take no rest in the night, or if they slumber, fearful dreams astonish them, their soul abhorreth all meat, and they are brought to death’s door, being bound in misery and in iron. Like Job, they curse their stars [!!!], for Job was melancholy to despair, and almost to madness. They are weary of the sun and yet afraid to die, vivere nolunt et mori nesciunt. And then, like Esop’s fishes, they leap from the frying-pan into the fire, when they hope to be eased by means of physic [Jamais tomarei esses remédios hereges – RAFAEL, ME DÁ UM ZOLPIDEM?!? COMO VC É MAU!!]; – a miserable end to the disease when ultimately left to their fate by a jury of physicians furiously disposed; and there remains no more to such persons, if that heavenly Physician, by his grace and mercy (whose aid alone avails), do not heal and help them. [!!!] One day of such grief as theirs, is 100 years: it is a plague of the sense, a convulsion of the soul, an epitome of hell: and if there be a hell upon earth it is to be found in a melancholy man’s heart! (…) All other diseases are trifles to hypochondria; it is the pith and marrow [medula e tutano] of them all!” The sickest person under the sun. But never sick enough, know what I mean?
“A melancholy man is the true Prometheus, bound to Caucasus; the true Tityus, whose bowels are still devoured by a vulture.”
XVII. JOHNSON CONTINUED (Madden é uma maritaca!)
“the only wonder is that a physician could be found so ignorant of the moral duties of his calling, or so reckless of the feelings of a melancholy man, as to implant the very notion in his mind which it was his business to endeavour to eradicate if already fixed there; namely, that madness was to be the termination of his disease.”
“But the error is daily committed by the inexperienced, of supposing that literary men are possessed of strength of mind that may enable them to rise superior to the fears and apprehensions of the common invalid, and consequently that all reserve is to be laid aside and the real condition of such patients freely and fearlessly exhibited to their view.”
XVIII. JOHNSON CONTINUED (!!!)
“Metastasio never permitted the word death to be pronounced in his presence; and Johnson was so agitated by having the subject spoken of in his hearing that on one occasion he insulted Boswell for introducing the topic; and in the words of the latter he had put <his head into the lion’s mouth a great many times with comparative safety, but at last had it bitten off>.” Se este pobre Johnson vivesse hoje e trabalhasse na CAP a mera leitura das mensagens do grupo do whatsapp com anúncios diários de morte – obituário em tempo real – seria capaz de levá-lo ao suicídio.
“it was difficulty, says Sir John Hawkins, he could persuade him to execute a will, apparently as if he feared his doing so would hasten his dissolution.”
“There are no people, rude or learned, among whom apparitions of the dead are not related or believed.” Johnson “This is the language of the hypochondriac, not of the moralist”
XIX. JOHNSON CONTINUED (JÁ CHEGA!! E pior que não…)
“Like all hypochondriacs, he was a bad sleeper, and when sleepless he was accustomed, to use his own words, <to read in bed like a Turk> – by the way, the Turk neither reads in bed nor out of it.”
XX. JOHNSON CONTINUED (AND CONCLUDED!)
“I may be cracking my jokes, and yet cursing the sun – sun, how I hate thy beams!”
“he died in his perfect senses, resigned to his situation, at peace with himself and in charity with all men, in his 75th year.”
XXI. BURNS
“Every quarter of a century a revolution takes place in literary taste, the old idols of its worship are displaced for newer effigies, but the ancient altars are only overthrown to be re-established at some future time, and to receive the homage which they forfeited, on account of the fickleness of their votaries, and not in consequence of any demerits of their own.”
“Currie’s life of Burns still deserves to be considered one of the best specimens of biography in the English language.”
“the fastidious imagination can hardly associate the idea of poetry with that of an atmosphere that is redolent of tobacco smoke and spirituous liquors.” “In the parlance of convivial gentlemen, to have a bout at the Clarendon is to exceed in the pleasures of the table; but to commit the same excess in a country ale-house is to be in a state of disgusting intoxication.”
“Nor wine nor love could make me gay” Dryden
“At 22 he writes to his father: the weakness of my nerves has so debilitated my mind, that I dare not review past events, nor look forward into futurity, for the least anxiety or perturbation in my head produce most unhappy effects on my whole frame.”
Inspector (espécie de vigilante sanitário) e coletor de impostos foram suas opções de carreira nas “horas vagas” da poesia – urgh! “It would have been difficult to have devised a worse occupation for the poet, or to have found a man less fitted for its duties than Burns. After occupying his farm for nearly 3 years and a half, he found it necessary to resign it, and depend on the miserable stipend of his office – about 50 pounds a year, which ultimately rose to 70.”
“there is not among all the martyrologies that ever penned so rueful a narrative as the lives of the poets.”
“excess in wine is not the only intemperance; but that excessive application to studious habits is another kind of intemperance no less injurious to the constitution than the former.”
wiki: “He is regarded as a pioneer of the Romantic movement, and after his death he became a great source of inspiration to the founders of both liberalism and socialism, and a cultural icon in Scotland and among the Scottish diaspora around the world. Celebration of his life and work became almost a national charismatic cult during the 19th and 20th centuries, and his influence has long been strong on Scottish literature. In 2009 he was chosen as the greatest Scot by the Scottish public in a vote run by Scottish television channel STV.”
“segundo a minha família, havia um Munchausen viajando clandestinamente na Arca de Noé”
“a minha reputação, e com ela o recontar de diversas das minhas espantosas aventuras, espalhou-se em todo o mundo civilizado, através dos oceanos, das profundezas da África ao longínquo Japão, os mundos gêmeos do Sol e da Lua e os estranhos povos que lá vivem, e até mesmo na França. Portanto, para onde quer que viaje, encontro sempre quem me convença a contar essas histórias cujos pedidos nunca recuso, sendo um homem de nobre criação.
De acordo com o mencionado, os palermas que querem ouvir mais uma vez como os meus companheiros e eu fomos engolidos por uma baleia, ou como atravessei os céus de Constantinopla montado numa bola de canhão, não me permitem um momento de paz. E muitas vezes tenho como única recompensa um copo do mais ordinário conhaque ou até mesmo nada! Serei eu um contador de histórias que o faz apenas para o divertimento de outros? Não! Sou um nobre, um soldado e um aventureiro, enquanto eles são apenas simplórios, e que eu seja amaldiçoado se quiser ter algo mais a ver com eles.”
“Penso que esta deve ser a maior inovação na concepção de jogos desde o Baralho de Cartas de Tarot Colecionável, que eu inventei quando estava encarcerado na Bastilha, por uma falsa acusação de importar marmelos num domingo.”
“Este é um jogo de narração de histórias, e cada uma dessas histórias será baseada nas extraordinárias aventuras que vivi – no seu estilo, se não no seu conteúdo. Mas enquanto as histórias que vós contais são ficção, as minhas são inteiramente verdadeiras em todo e qualquer pormenor. Não o dizer é chamar-me de mentiroso, e fingir que as vossas fantasias aconteceram comigo é chamar-me de charlatão, e, se fizerdes qualquer uma destas duas coisas, levar-vos-ei lá fora e farei uma tal demonstração da arte da esgrima que vos estonteareis de tal modo que ficareis cego pelas faíscas durante um mês. Eu sou um nobre, senhores, e comigo não se brinca.”
“O jogo é simples. Os jogadores sentam-se à volta de uma mesa, de preferência com uma garrafa de um licor interessante ou de um vinho decente para umedecer as gargantas, e cada um, a sua vez, conta uma aventura ou feito espantoso. A narração da história é desencadeada por um dos outros, e o resto dos companheiros pode interromper com perguntas e observações quando acharem que o devem fazer, e é a função do narrador refutar ou evitar essas questões. Quando todos terminarem, o que tiver contado a melhor história paga bebidas aos seus companheiros e, com todos devidamente fortificados, o jogo pode recomeçar.”
“Se os vossos companheiros forem em número menor que cinco, então dai a cada homem cinco moedas. Se contardes mais de 20, não penseis em jogar o jogo: em vez disso aconselho que junteis as vossas posses, contrateis alguns mercenários e planejeis uma invasão da Bélgica.”
“quem propuser jogar com dinheiro em papel – que não serve para mais nada senão para limpar o tra… não é certamente um cavalheiro e deve ser expulso do vosso grupo e em seguida do vosso clube.”
“Se o grupo não estiver bêbado, cansado ou aborrecido, passai para a CRIAÇÃO DOS PERSONAGENS. Caso contrário, podereis omiti-la. Ou simplesmente omitir tudo.”
“Para tratar do assunto da criação dos personagens será necessário um pedaço de pergaminho e uma pena – assumindo que, tendo recebido uma educação decente, vós sabeis ler e escrever, pelo menos em Latim.”
“O curso da narrativa nunca pode amolecer, pois os outros jogadores podem interromper a qualquer momento o contador com uma aposta ou uma objeção. Isto é feito quando o jogador empurra uma moeda (nunca mais de uma) das moedas que tem a sua frente – a que chamaremos a parada –, interrompendo o curso da narrativa. Uma aposta seria lançada como demonstram estes exemplos:
– Aposto, Barão, que atrás da porta que mencionastes estava todo um regimento de cavalaria com fuzis esperando para vos emboscar; ou:
– Aposto, Conde, que a Imperatriz não se impressionou com a vossa oferta de duas girafas e mandou-vos abandonar os seus aposentos imediatamente.
As objeções, pelo contrário, lançam-se deste modo:
– Mas, Conde, é sabido que a Imperatriz tem ódio a girafas, desde que o seu cãozinho foi comido por uma; ou:
– Mas Duquesa, no momento que mencionais, o Colosso de Rodes já era uma ruína há 50 anos, por isso seria impossível terdes feito a sua escalada.”
“Se a aposta ou objeção do jogador que interrompeu estiver correta deve o contador concordar com o seu companheiro e pode guardar a moeda. Deverá, contudo, explicar obrigatoriamente como os acontecimentos introduzidos na interrupção do companheiro não o impediram de continuar com a aventura que está a descrever.
Se, contudo, a interrupção for julgada incorreta pode afastar a parada do colega junto com uma moeda sua, e informar ao outro que ele é um idiota que claramente não sabe do que fala e que obtém as suas informações ouvindo coscuvilhices de solteironas em rodadas de gim. Se aquele que interrompeu não está preparado para fazer frente a este insulto a sua honra, pode juntar outra moeda à pilha e devolvê-la ao contador, reforçando o seu caso e devolvendo o insulto com juros. O contador pode de novo devolver a aposta com outra moeda e outro insulto, e assim sucessivamente até que um dos lados retire a sua objeção e aceite o insulto (ficando com toda a ‘parada’), ou uma das partes esgote os seus fundos mas não desista – caso em que devem travar um duelo.”
“Os nobres enquadram-se num modelo estabelecido por Deus Todo Poderoso, e descrito pela 1ª vez por Baldesar Castiglione na sua obra O Livro do Cortesão. A verdade das suas palavras vem até hoje, apesar do fato de – devido a uma má fortuna de nascimento – ele ser italiano. Tomarei a liberdade de citar esse augusto nobre sem a sua permissão, visto que já faleceu há mais de 200 anos.”
“O comportamento do nobre é a pedra basilar de toda a civilização, pois sem a nobreza não haveria o patrocínio das ciências, artes, literatura ou música; e apenas as diversões mais comuns como o teatro, os bailaricos, a política e as trocas comerciais permaneceriam. Naturalmente, nenhum nobre tem coisa alguma a ver com magia, pela razoabilíssima razão de que a magia não existe.”
“(…O meu editor, digo, cujos olhos brilham de raiva e o cabelo se eriça como o daquele ouriço-cacheiro gigante que uma vez derrotei na Escócia virando-o pelo avesso, e assim apunhalando-o mortalmente com seus próprios espinhos – o meu editor, temo, morrerá de uma apoplexia, a menos que eu termine esta digressão, feche estes parênteses e regresse ao assunto das OBJEÇÕES E APOSTAS. Francamente, estou achando este assunto das regras mais do que aborrecido, especialmente agora que esta garrafa de conhaque acabou. Sim, isso foi uma indireta, que, ao que parece, ele não entendeu. O quê? Ah! fechar os parênteses. Que assim seja.)”
“É mais do que óbvio, até para o idiota mais tapado, que o contador da história não foi morto, pois ele está contando a história, e se tal objeção for feita, o contador pode embolsar a moeda do objetante, e todos os companheiros devem olhar para o tolo com indisfarçado desprezo. Podem atirar sobre ele pedaços de pão duro, mas atiçar-lhe os cães já é considerado de má-educação.”
“TRAVANDO DUELOS
(Advertem-me de que a moda agora é chamar a esta parte das regras de <Sistema de Combate>. É um nome feio que tropeça na língua e parece um manual prussiano sobre os métodos de esgrima com sabre. Desprezo-o. Se o seu criador sentir-se incomodado pelo meu desprezo por ele e pela sua frase, deixai-o desafiar-me e veremos se sabe algo sobre os verdadeiros <sistemas de combate>, ao mesmo tempo que reduzo a suas calças a renda.)”
“Lutar por questões de honra é um assunto perigoso que pode trazer a pobreza, ferimentos ou a morte ou – um horror pior – o ridículo perante os participantes, mas é tão necessário como o bife para um inglês, o ouro para um suíço ou evitar banhos para um francês.”
“O duelo tem de prosseguir somente até haver sangue derramado ou incapacidade, pois este é apenas um desentendimento amigável, mas já vi duelos serem travados até o desmembramento ou à morte por assuntos como um particípio passado mal conjugado.”
“Qualquer pessoa que possui um título hereditário ou que tenha servido como oficial em qualquer dos melhores exércitos do mundo (o alemão, o prussiano, o inglês, o espanhol, o italiano ou, para esse fim, o do Catai, o etíope, o persa – e com efeito, agora que pensei nisso, todos exceto o turco, o polonês e o irlandês) deve passar à seção seguinte.”
“recomendo um mestre de duelos inglês para duelos que possam durar até 5 dias e depois serem cancelados ou adiados devido à chuva ou acabarem em empate.”
“Um certo número de estados não-iluminados declararam os duelos ilegais, por isso os participantes correm o risco de serem interrompidos por membros das classes baixas brandindo cassetetes e mandados, o que é mais do que suficiente para pôr qualquer duelista desconcentrado.”
“TRAVANDO DUELOS ENTRE COVARDES
Se sois fraco de sangue, mole das carnes ou débil do fígado ou – como modo de obter uma desculpa – se estais com pressa para terminar o jogo, ou se há senhoras presentes que ficariam chocadas ao ver sangue, ou se sois incapaz de manterdes o papel que estais a desempenhar ao pensar num combate nobre, e vos encontrais de novo reduzido ao papel de um mero camponês, ou se fordes galês; se qualquer destas coisas for verdade, então talvez desejeis evitar o combate físico que representa um duelo. Em vez disso, tal como estais fingindo ser um nobre no meu jogo, podeis fingir que estais travando um duelo com um conjunto de regras que eu mesmo concebi para esse fim.
Eu retiro o <eu mesmo <concebi>. Na verdade, este jogo foi-me ensinado por um habitante da Estrela-Cão, que encontrei a uma grande distância de sua casa, na última ocasião em que visitei a Lua. Sei que este jogo foi ensinado originalmente a estes caninos astrais pelo famoso navegante Vasco da Gama, que em sua derradeira viagem, traçou a rota para a ilha do Ceilão, mas errou por vários milhares de léguas e acabou navegando para fora da borda do mundo. Eu culpo a fraca imitação que são as cartas marítimas portuguesas, mesmo sabendo que, sem dúvida, os portugueses hão de culpar a bússola, ou o vento, ou a água, ou os habitantes do Ceilão, ou a forma do mundo, ou a Lua, ou qualquer coisa que pudesse absolver a sua relaxada mão-de-obra.
Vasco da Gama chamou as regras de <Garrafa-Copo-Garganta> (ele era português, tal como esclareci anteriormente) e os habitantes da Estrela-Cão conhecem-nas como <Osso-Pau-Bola>. Chamar-lhes-ei de <Pedra-Papel-Tesoura> e… Ah! O meu editor diz-me que fui ultrapassado pelo destino e que o jogo já é conhecido por esse nome em todo o mundo, e que devo riscar o parágrafo acima.”
“bebi fundo do vinho do porto de lorde Bootlebury e dos olhos castanhos de sua filha mais nova, tão grandes e profundos como os do veado que matei na Floresta Negra empanturrando-o de bolo – o seu sabor, devo dizer, não ficou muito favorecido por este método”
“Poderia dizer mais, porém não vou gastar mais palavras neste assunto, destinado como é, apenas a mariquinhas e àqueles que têm medo de ver um pouco de sangue, ou de somar mais uma morte ou duas à sua consciência.”
“Assumindo que ambas as partes ainda vivem, o resultado de um duelo é o seguinte: o perdedor deve entregar todo o conteúdo da sua bolsa ao vencedor e retirar-se do jogo. Se uma das duas partes chegou a perder a vida no conflito, então a sua testemunha deve seguir essas instruções. Contudo, o seu galardão – se o tiver – deve permanecer intacto.”
“uma tripulação de piratas morenos e eu estávamos encurralados nas entranhas de um enorme monstro marinho que infelizmente nos tinha engolido – um acontecimento comum, soube pelas minhas conversas com diversos aventureiros marítimos, mas esta sendo de algum modo peculiar pois estávamos escalando o Matterhorn quando fomos engolidos.”
“TERMINANDO UMA HISTÓRIA
Pela minha experiência, uma história não deve demorar mais do que 5min, pois para além desse tempo os ouvintes começam a ficar aborrecidos e indiferentes e a falar entre eles e a atirar pedaços de pão duro e a jogar dados ou cartas e a chamar músicos e a dançar em cima da mesa e a seduzir a anfitriã e a distribuir literatura sediciosa ou revolucionária e a congeminar guerras na Ásia, e outras distrações que poderão fazer até mesmo o melhor contador perder o ritmo – particularmente se ele também tiver intuitos que envolvam a anfitriã.”
“Se um contador de histórias termina sua narrativa e não há ninguém para gritar <Viva!>, pois estão todos a dormir ou com outras ocupações, então ele deve dar a entender aos companheiros que chegou ao fim levantando-se e proferindo em alto e bom som: <Esta é a minha história, na qual todas as palavras são verdade, e se algum homem duvidar fá-lo-ei beber uma garrafa de conhaque num só gole.> Isso serve de sinal aos companheiros, pelo volume, não pelas palavras, que deverão levantar-se do torpor causado por uma história maçante e reunir uns quantos <Viva!> para darem a entender que perceberam que a história acabou.”
“Se porventura um contador se embrenhou de tal modo na sua narração que não percebeu que o grupo perdeu o interesse e começou em vez disso a fazer lutas de galos ou a caçar texugos, então qualquer dos seus companheiros poderá interromper num momento oportuno dizendo: <Isso me lembra a história contada pelo Barão N… (nomeando o jogador sentado à direita do presente contador) no qual ele..> e nomeia uma aventura. Com isso, ele deve avançar uma moeda. Se os demais integrantes do grupo concordarem, devem também avançar uma moeda cada um, e se mais da metade dos presentes concordarem que o manto de contador deve passar ao seguinte, então o Barão N— começará o relato de uma nova aventura. O contador anterior, abatido pela vergonha e pela desonra, poderá somar o dinheiro reunido à sua bolsa como uma recompensa. Se menos da metade do grupo apoiar com moedas a causa, então esse montante será entregue ao criado para comprar mais vinho.”
“DETERMINANDO O VENCEDOR
Quando todos terminaram as suas histórias, deverá haver um momento de pausa. Reclinai-vos nas vossas cadeiras e permiti que o criado ou criada que está a servir o vinho volte a encher o vosso copo. Pensai nas histórias que ouvistes e decidi qual delas é a melhor. Se fordes do tipo erudito podereis querer debater esta questão com os vossos companheiros, fazendo referência à Arte Poética de Aristóteles e aos recentes trabalhos críticos do poeta Dryden. Ou se não, tudo bem. Não tem importância.”
“Quando todos os jogadores tiverem falado, votado e distribuído o seu galardão (e devo de novo relembrar aos mais lentos, populares e plebeus dentre os meus leitores que um nobre nem consideraria a idéia de votar em si próprio), então cada jogador deve contar o número de moedas votadas para si e para a sua história. (Em voz baixa, naturalmente, não há nada que fique tão mal a um nobre como saber apenas contar alto; e se os vossos conhecimentos numéricos não passam do 5, então deveis desde já desistir de quaisquer intenções de jogar este jogo, e descobri para vós um passatempo mais de acordo com a vossa natureza como cultivar nabos, trabalhar como isca para ursos ou declarar guerra aos turcos.)
TERMINANDO O JOGO
O jogador com o maior galardão é declarado o vencedor do jogo. Todos gritam um sonoro <Viva!> e manda-se vir mais vinho para se beber à saúde do vencedor. É da etiqueta que o vencedor deverá pagar este vinho, e é também de praxe que o dinheiro acumulado como galardão não deve ser – ou melhor, nunca é – suficiente para cobrir o seu custo. Mas isso não é problema. Somos nobres e coisas mesquinhas como o pagamento justo e o dinheiro são consideradas por nós como sendo de menor importância.”
“Se jogardes estrategicamente, de modo a obterdes mais moedas, posso assegurar-vos que perdereis o jogo; parcialmente porque o vosso dinheiro deve ser dado a outro, e parcialmente porque tereis criado tal inimizade por parte dos restantes que nenhum votará em vós. Contudo, esta tática dar-vos-á a honra de decidir quem ganha o jogo.”
“Sem moedas não podereis interromper um camarada, contestar interrupções à vossa história ou votar pelo vencedor. E como um nobre não pede nem rouba, já que não tendes fundos, o melhor é aumentá-los contando uma bela história que estimule muitas interrupções por parte dos vossos companheiros, e que saibais desviá-las com a destreza da vossa língua.”
“Na rodada final do jogo, se os vossos companheiros admitiram mulheres ao jogo, NÃO RECOMENDO que voteis na VOSSA AMADA, ou no membro do grupo que esteja INTERESSADO EM VÓS. Segundo a minha experiência, isso raramente leva ao sucesso, e os vossos companheiros notarão, fazendo troça do vosso nobre gesto durante semanas.”
“CENÁRIO HISTÓRICO
Estamos obviamente no século XVIII, pois decerto não houve melhor época para se viver. Mais precisamente, encontramo-nos no ano da graça de 17–. A Renascença findou, o poder da Igreja está em decadência e finalmente a Europa é um local civilizado. Os turcos estão em Constantinopla e, na verdade, por todo o lado, os franceses estão de novo a gerar conflitos. A Suécia está em declínio, os russos vão invadindo a Criméia a intervalos regulares, o rei da Inglaterra é alemão e louco – duas excelentes condições para governar essa ilha – e algures, do outro lado do Oceano Atlântico, alguns colonos começam a superestimar a sua real importância.
A maravilha desta época é, sem sombra de dúvida, o maravilhoso balão voador dos irmãos Montgolfier, que pode transportar pessoas e animais alto no ar em perfeita segurança (…) Creio que os irmãos criaram essa sua invenção apenas como um modo de deixarem a França.”
“Agora que as Austrálias foram descobertas, está a ser-lhes dado um nobre uso como depósito de todos os indesejáveis da Europa. Um jovem indivíduo inglês chamado Watt criou uma chaleira gigante que pode dar potência a uma fábrica – dando chá quente em quantidade suficiente para contento de todos os trabalhadores. Incrível!”
“Os elementos das classes mais baixas que crêem que o dinheiro é um substituto aceitável para os títulos nobiliárquicos foram rápidos em aceitar essas inovações, e estão febrilmente ocupados em construir fábricas e empregar mulheres de nome Jenny para lhes tecer algodão.”
“Confesso que nada disto percebo nem entendo, mas parece que a Inglaterra está criando uma espécie de império – baseado, vejam só, em comércio, dinheiro e tubérculos. Que deus nos ajude…”
“a chama da aventura na alma do Homem tem sido recentemente acalmada por coisas grosseiras como ir ao teatro, ler novelas e jogar uíste.”
“eu não sou um homem extraordinário, meramente vivi em tempos extraordinários”
“Não está, lamento dizer-vos, dentro das vossas capacidades fazer amor com a imperatriz da Rússia, pela razão de que a sua honra está sob a minha proteção e, se vos apanho perto dela, dar-vos-ei uma surra tal que magoará de tal forma os vossos pés e o vosso traseiro que não sereis capaz de estar de pé ou de vos sentardes, e sereis forçados a passar um mês no ar, girando como um pião, a algumas polegadas acima do chão. Considerai isso um aviso.”
“Como, Barão, conseguistes passar por nativo entre o pequeno povo de Liluput.”
“E como, e por quê, sois conhecido na França como o Quinto Mosqueteiro?”
“Como provastes à Royal Society que o mundo não é redondo?”
“Como é que Platão menciona um diálogo que teve convosco no seu livro A República escrito há 2 mil anos?”
“Como foi que fostes vós e não Francis Bacon quem escreveu as peças de Shakespeare?”
“O que fizestes para que o ano de 1752 tenha perdido os dias entre 3 e 14 de setembro?”
“O vosso envolvimento no esquema da Royal Society para extrair luz solar de pepinos.”
“Por que fostes aprisionado na mesma cela do Homem da Máscara de Ferro, o que se passou entre vós, e como escapastes?”
“Como vos deitaste com o fantasma de Ana Bolena.”
“As três noites que passastes no castelo do conde da Transilvânia.”
“Como salvastes a raça dos Houhynhymns da sua vida de escravidão sob o jugo dos seus cruéis donos.”
“Como escrevestes o Réquiem de Mozart?”
“Como provastes que o monstro do Loch Ness não existe?”
“Com que provas acreditais que o Homem e o macaco são primos?”
Como foi que servistes Gustave Doré ao ponto num jantar e no dia seguinte ele fez uma ilustração vossa?
JJ: Para de ser tão sincero comigo, Rafael. [Sentido na cena imediata: você me ofende sendo assim, eu não gosto disso, parece grosseria, etc.]
EU: Cala a boca, eu tava sendo irônico comigo mesmo.
INTERPRETAÇÕES
Devido à censura do aparelho do sonho, a frase que eu teria dito, sem deformação, seria:
“E você para de ser grosso, pai!”
Ou
“Pelo contrário, eu não sou grosso com(o) você! Sinceridade não é grosseria; não foi isso que você me ensinou? Que doa a quem doer você é o mais sincero e honesto e autêntico de todos os seres?”
Outra interpretação que suscita o uso da expressão “ironia consigo próprio”:
No mundo real, significa que eu apenas não sei admitir a verdade para mim mesmo sobre meus pensamentos diários (sentimento de culpa em relação à família, improcedente). No fundo é só uma forma de autopunição ou de caçoar de mim mesmo, pois eu já tenho experiência e elementos coletados o suficiente para saber que, nessa disputa eu x família, eu sou o dono da razão e se quisesse não carregaria culpa alguma. Já não é mais um problema familiar. É apenas um jogo dentro da minha própria cabeça. Eu me divirto masoquistamente, como gato que desembolasse seu novelo de lã sem nunca querer terminar. Costurando roupas que descostura no outro dia, à espera de Ulisses.
Ou ainda:
JJ é uma PP (paródia de pai), pois o sonho me coloca onde na verdade ele estaria, inverte nossos papéis (trocando, neste caso, “bruto” ou “torpe”, que seria eu falando, pelo mais inofensivo “sincero”, que é “o que meu pai acha que é quando é grosso com os outros”). I.e., ele é que é sempre irônico consigo próprio, não eu: teatraliza ser durão a vida inteira em público, mas lá no fundo sabe que todas as críticas endereçadas a mim são imerecidas, jogo de cena. Esta ironia de JJ é involuntária, ao contrário da minha no sonho.
“sintió por primera vez en esta mañana un bienestar físico: las patitas tenían suelo firme por debajo, obedecían a la perfección, como advirtió con alegría; incluso intentaban transportarle hacia donde él quería”
“los alimentos frescos, por el contrario, no le gustaban, ni siquiera podía soportar su olor, e incluso alejó un poco las cosas que quería comer.”
“ya no podía ver el hospital de enfrente, cuya visión constante había antes maldecido, y si no hubiese sabido muy bien que vivía en la tranquila pero central Charlottenstrasse, podría haber creído que veía desde su ventana un desierto en el que el cielo gris y la gris tierra se unían sin poder distinguirse uno de otra. Sólo dos veces había sido necesario que su atenta hermana viese que la silla estaba bajo la ventana para que, a partir de entonces, después de haber recogido la habitación, la colocase siempre bajo aquélla, e incluso dejase abierta la contraventana interior.”
“Le gustaba especialmente permanecer colgado del techo; era algo muy distinto de estar tumbado en el suelo; se respiraba con más libertad”
“Al menos este cuadro, que Gregorio tapaba ahora por completo, seguro que no se lo llevaba nadie.”
“Sin pensar más en qué es lo que podría gustar a Gregorio, la hermana, por la mañana y al mediodía, antes de marcharse a la tienda, empujaba apresuradamente con el pie cualquier comida en la habitación de Gregorio, para después recogerla por la noche con el palo de la escoba, tanto si la comida había sido probada como si – y éste era el caso más frecuente – ni siquiera había sido tocada.”
“para comer se necesitan los dientes y, aun con las más hermosas mandíbulas, sin dientes no se podía conseguir nada.”
“Como comen los huéspedes y yo me muero!”
“- Queridos padres – dijo la hermana y, como introducción, dio un golpe sobre la mesa –, esto no puede seguir así. Si vosotros no os dais cuenta, yo sí me la doy. No quiero, ante esta bestia, pronunciar el nombre de mi hermano, y por eso solamente digo: tenemos que intentar quitárnoslo de encima. Hemos hecho todo lo humanamente posible por cuidarlo y aceptarlo; creo que nadie puede hacernos el menor reproche.”
“- Si él nos entendiese… – repitió el padre, y cerrando los ojos hizo suya la convicción de la hermana acerca de la imposibilidad de ello –, entonces sería posible llegar a un acuerdo con él, pero así…”
“Pero cómo es posible que sea Gregorio? Si fuese Gregorio hubiese comprendido hace tiempo que una convivencia entre personas y semejante animal no es posible, y se hubiese marchado por su propia voluntad: ya no tendríamos un hermano, pero podríamos continuar viviendo y conservaríamos su recuerdo con honor. Pero así esa bestia nos persigue, echa a los huéspedes, quiere, evidentemente, adueñarse de toda la casa y dejar que pasemos la noche en la calle.”
-Um glamouroso retrato da decadência ocidental, embora ingenuamente otimista quanto a ele e de um ultimado chauvinismo ianque!-
“Nervousness is strictly deficiency or lack of nerve-force. This condition, together with all the symptoms of diseases that are evolved from it, has developed mainly within the 19th century, and is especially frequent and severe in the Northern and Eastern portions of the United States. Nervousness, in the sense here used, is to be distinguished rigidly and systematically from simple excess of emotion and from organic disease.”
“The sign and type of functional nervous diseases that are evolved out of this general nerve sensitiveness is neurasthenia (nervous exhaustion), which is in close and constant relation with such functional nerve maladies as certain physical forms of hysteria, hay-fever [rinite alérgica], sick-headache, inebriety, and some phases of insanity; is, indeed, a branch whence at early or later stages of growth these diseases may take their origin.”
“The greater prevalence of nervousness in America is a complex resultant of a number of influences, the chief of which are dryness of the air, extremes of heat and cold, civil and religious liberty, and the great mental activity made necessary and possible in a new and productive country under such climatic conditions.
A new crop of diseases has sprung up in America, of which Great Britain until lately knew nothing, or but little. A class of functional diseases of the nervous system, now beginning to be known everywhere in civilization, seem to have first taken root under an American sky, whence their seed is being distributed.
All this is modern, and originally American; and no age, no country, and no form of civilization, not Greece, nor Rome, nor Spain, nor the Netherlands, in the days of their glory, possessed such maladies.” Not in their glories, that is.
“to solve it in all its interlacings, to unfold its marvellous phenomena and trace them back to their sources and forward to their future developments, is to solve the problem of sociology itself.” [!!!]
“Among the signs of American nervousness specially worthy of attention are the following: The nervous diathesis [degenerescência genética, i.e., uma suposta maior vulnerabilidade a doenças dos nervos decorrente da debilidade dos progenitores]; susceptibility to stimulants and narcotics and various drugs, and consequent necessity of temperance¹ [e ainda chama essa abordagem de sociológica sem levar em conta o fator cultural?]; increase of the nervous diseases inebriety [alcoolismo ou uma ligeira variação deste – suscetibilidade exagerada –, que o autor diferenciará no segundo capítulo] and neurasthenia (nervous exhaustion), hay-fever, neuralgia [dor crônica nas terminações nervosas], nervous dyspepsia [indigestão], asthenopia [fadiga ocular e dores de cabeça derivadas] and allied diseases and symptoms [bem específico…]; early and rapid decay of teeth [já fez seu Amil Dental?]; premature baldness; sensitiveness to cold and heat; increase of diseases not exclusively nervous, as diabetes and certain forms of Bright’s disease of the kidneys and chronic catarrhs; unprecedented beauty of American women; frequency of trance and muscle-reading [a tênue linha entre a paranormalidade e simples efeitos de indução eletromagnética]; the strain of dentition, puberty, and change of life; American oratory, humor [haha!], speech, and language; change in type of disease during the past half-century, and the greater intensity of animal life on this continent. [???]”
¹ Ah, obviamente Sêneca e Epicuro concordariam contigo!
“longevity has increased, and in all ages brain-workers have, on the average, been long-lived, the very greatest geniuses being the longest-lived of all.” “the law of the relation of age to work, by which it is shown that original brain-work is done mostly in youth and early and middle life, the latter decades being reserved for work requiring simply experience and routine.” Pequena confusão entre decaimento fisiológico e e incorporação da experiência como forma de reduzir o esforço mental!
Poetas românticos não usavam a cabeça? Pois sua efemeridade é mais-que-popular…
“in all our cyclopedias of medicine, the terms hysteria, somnambulism, ecstasy, catalepsy, mimicry of disease, spinal congestion, incipient ataxy, epilepsy, spasms and congestions, anemias and hyperemias, alcoholism, spinal irritation, spinal exhaustion, cerebral paresis, cerebral exhaustion and irritation, nervousness and imagination [!] are thrown together recklessly, confusedly, hopelessly as in a witches cauldron; and in all, and through all, one shall look vainly—save here and there, for an intelligent and differential description of neurasthenia, the most frequent, the most important, the most interesting nervous disease of our time, or of any time”
“still our medical graduates, after years spent in listening to lectures, must wait for their diploma before they are even ready to begin the study of this side of the nervous system. Meantime the literature of ataxia [desarranjo da coordenação motora], which is but an atom compared with the world of functional nervous diseases, has risen and is yet rising with infinite repetitions and revolutions to volumes and volumes.”
“So far as I know, there has been no hostile criticism of this philosophy in Germany, but in England, even now, these views are not unanimously sustained.” Nazistas retesados.
1. NATURE AND DEFINITION OF NERVOUSNESS
“Trance, with its numerous, interesting and intricate phenomena, a condition that has been known in all ages, and among almost all people, is not nervousness, albeit nervous people are sometimes subject to it. See my work on Trance [não muito interessado, mas obrigado assim mesmo!], in which this distinction between physiology and psychology is discussed more fully and variously illustrated.” “This interesting survival of the Middle Ages that we have right here with us today, is the most forcible single illustration that I know of, of the distinction between unbalanced mental organization and nervousness. These Jumpers are precious curiosities, relics or antiques that the 14th century has, as it were, dropped right into the middle of the 19th. The phenomena of the Jumpers are as interesting, scientifically, as any phenomena can be, but they aren’t contributions to American nervousness.
Brainlessness (excess of emotion over intellect) is, indeed, to nervousness, what idiocy is to insanity”
“Nervousness is not passionateness. A person who easily gets excited or angry, is often called nervous. One of the signs, and in some cases, one of the first signs of real nervousness, is mental irritability, a disposition to become fretted over trifles; but in a majority of instances, passionate persons are healthy—their exhibitions of anger are the expression of normal emotions, and not in any sense evidences of disease, although they may be made worse by disease, either functional or organic.Nervousness is nervelessness—a lack of nerve-force.” “In medical science we are forced to retain terminology that is in the last degree unscientific, for the same reason that we retain our orthography, which in the English language is, as all know, very bad indeed.” <Febre da grama> realmente não é muito literal!
“fear of lightning, or fear of responsibility, of open places or of closed places, fear of society, fear of being alone, fear of fears, fear of contamination, fear of everything, deficient mental control, lack of decision in trifling matters, hopelessness, deficient thirst and capacity for assimilating fluids, abnormalities of the secretions, salivation, tenderness of the spine, and of the whole body, sensitiveness to cold or hot water, sensitiveness to changes in the weather, coccyodynia, pains in the back, heaviness of the loins and limbs, shooting pains simulating those of ataxia, cold hands and feet, pain in the feet, localized peripheral numbness and hypersesthesia, tremulous and variable pulse and palpitation of the heart, special idiosyncrasies in regard to food, medicines, and external irritants, local spasms of muscles, difficulty of swallowing, convulsive movements, especially on going to sleep, cramps [cãibras ou cólicas], a feeling of profound exhaustion unaccompanied by positive pain, coming and going, ticklishness [hiperdelicadeza ou sensibilidade; em sentido mais estrito, facilidade para sentir comichão ou cócegas], vague pains and flying neuralgias, general or local itching, general and local chills and flashes of heat [calafrios e ondas de calor esporádicos], attacks of temporary paralysis, pain in the perineum, involuntary emissions, partial or complete impotence, irritability of the prostatic urethra,certain functional diseases of women [vague!], excessive gaping and yawning [bocejar exagerado], rapid decay and irregularities of the teeth, oxalates, urates, phosphates and spermatozoa in the urine, vertigo or dizziness, explosions in the brain at the back of the neck [?!], dribbling and incontinence of urine [incontinência urinária e seu reverso, alternados], frequent urination, choreic movements of different parts of the body, trembling of the muscles or portions of the muscles in different parts of the body, exhaustion after defecation and urination, dryness of the hair, falling away of the hair and beard, slow reaction of the skin, etc.Dr. Neisser, of Breslau, while translating my work on Nervous Exhaustion into German, wrote me that the list of symptoms was not exhaustive. This criticism is at once accepted, and was long ago anticipated. An absolutely exhaustive catalogue of the manifestations of the nervously exhausted state cannot be prepared, since every case differs somewhat from every other case.”
“There are millionnaires of nerve-force—those who never know what it is to be tired out, or feel that their energies are expended, who can write, preach, or work with their hands many hours, without ever becoming fatigued, who do not know by personal experience what the term <exhaustion> means; and there are those—and their numbers are increasing daily—who, without being absolutely sick, without being, perhaps for a lifetime, ever confined to the bed a day with acute disorder, are yet very poor in nerve-force; their inheritance is small, and they have been able to increase it but slightly, if at all; and if from overtoil, or sorrow, or injury, they overdraw their little surplus, they may find that it will require months or perhaps years to make up the deficiency, if, indeed they ever accomplish the task. The man with a small income is really rich, as long as there is no overdraft on the account; so the nervous man may be really well and in fair working order as long as he does not draw on his limited store of nerve-force. But a slight mental disturbance, unwonted toil or exposure, anything out of and beyond his usual routine, even a sleepless night, may sweep away that narrow margin, and leave him in nervous bankruptcy, from which he finds it as hard to rise as from financial bankruptcy.”
“Hence we see that neurasthenics who can pursue without any special difficulty the callings of their lives, even those callings requiring great and prolonged activity, amid perhaps very considerable excitement, as that of statesmanship, politics, business, commercial life, or in overworked professions, are prostrated at once when they are called upon to do something outside of their line, where their force must travel by paths that have never been opened and in which the obstructions are numerous and can only be overcome by greater energy than they can supply.” “The purpose of treatment in cases of nervous exhaustion is of a two-fold character— to widen the margin of nerve-force, and to teach the patient how to keep from slipping over the edge.”
“Our title is justified by this, that if once we understand the causes and consequences of American nervousness, the problems connected with the nervousness of other lands speedily solve themselves.” “The philosophy of Germany has penetrated to all civilized nations; in all directions we are becoming Germanized. Similarly, the nervousness of America is extending over Europe, which, in certain countries, at least, is becoming rapidly Americanized. Just as it is impossible to treat of German thought without intelligent reference to the thought of other nationalities, ancient or modern, so is it impossible to solve the problem of American nervousness without taking into our estimate the nervousness of other lands and ages. [Acaba de contradizer o grifado em verde!]”
O REVERSO DA MEDALHA
“Indeed, nervousness, in its extreme manifestations, seems to save one from these organic incurable diseases of the brain and of the cord; with some exceptions here and there, the neurasthenic does not go into or die of nervous disease.” “They may become insane—some of them do; they may become bed-confined invalids; they may be forced, as they often are, to resign their occupations, but they do not, as rule, develop the structural maladies to which here refer.” “nervousness is a physical not a mental state, and its phenomena do not come from emotional excess or excitability or from organic disease but from nervous debility and irritability.”
2. SIGNS OF AMERICAN NERVOUSNESS
“No one dies of spinal irritation; no one dies of cerebral irritation; no one dies of hay-fever; rarely one dies of hysteria; no one dies of general neuralgia; no one dies of sick-headache; no one dies of nervous dyspepsia; quite rarely does one die of nervous exhaustion; and even when these conditions are the cause of death they are not noted as such in the tables of mortality” “Nervousness of constitution is, indeed, an aid to longevity, and in various ways; it compels caution, makes imperative the avoidance of evil habits, and early warns us of the approach of peril.” “Wickedness was solemnly assigned as the cause of the increase of nervous diseases, as though wickedness were a modern discovery.” “nervous diathesis—an evolution of the nervous temperament.” “It includes those temperaments, commonly designated as nervous, in whom there exists a predisposition to neuralgia, dyspepsia, chorea, sick-headache, functional paralysis, hysteria, hypochondriasis, insanity, or other of the many symptoms of disease of the central or peripheral nervous system.”
“A fine organization. The fine organization is distinguished from the coarse by fine, soft hair, delicate skin, nicely chiselled features [bem-cinzelada ou esculpida – somos belos!], small bones, tapering extremities [membros pontiagudos, i.e., que se afunilam nas mãos e nos pés, na canela e no antebraço!], and frequently by a muscular system comparatively small and feeble. It is frequently associated with superior intellect, and with a strong and active emotional nature.” “It is the organization of the civilized, refined, and educated, rather than of the barbarous and low-born and untrained”
“The nervous diathesis appears, within certain limits, to protect the system against attacks of fever and inflammation.” Isso explicaria porque só tive febre uma vez desde a idade adulta.
“The tuberculous diathesis frequently accompanies a fine organization; but fine organizations only in a certain proportion of cases have a tuberculous diathesis. The nervous diathesis is frequently not only not susceptible to tuberculosis, but apparently much less so than the average, and sometimes, indeed, seems to be antagonistic to it, for there are many nervous patients in whom no amount of exposure or hardship or imprudence seems to be able to develop phthisis [tísica]” Devo acrescentar alguma imunidade ao câncer?
“Among Americans of the higher orders, those who live in-doors, drinking is becoming a lost art; among these classes drinking customs are now historic, must be searched for, read or talked about, like extinct or dying-away species.” “There is, perhaps, no single fact in sociology more instructive and far reaching than this, and this is but a fraction of the general and sweeping fact that the heightened sensitiveness of Americans forces them to abstain entirely, or to use in incredible and amusing moderation, not only the stronger alcoholic liquors, whether pure or impure, but also the milder wines, ales, and beers, and even tea and coffee.”
“I replied that there were very few nervous patients who were not injured by it, and very few who would not find it out without the aid of any physician. Our fathers could smoke, our mothers could smoke, but their children must oft-times be cautious; and chewing is very rapidly going out of custom, and will soon, like snuff-taking, become a historic curiosity; while cigars give way to cigarettes. From the cradle to the grave the Chinese empire smokes, and when a sick man in China has grown so weak that he no longer asks for his pipe, they give up hope, and expect him to die. Savage tribes without number drink most of the time when not sleeping or fighting, and without suffering alcoholism, or without ever becoming inebriates [!]” “But 50 years ago opium produced sleep; now the same dose keeps us awake, like coffee or tea—susceptibility to this drug has been revolutionized.” “Thus the united forces of climate and civilization are pressing us back from one stimulant to another, until, like babes, we find no safe retreat save in chocolate and milk and water.”
“Reprove an Angola negro for being drunk and he will reply, <My mother is dead,> as though that were excuse enough. Even as recently as the beginning of the present century, the custom of drinking at funerals yet survived with our fathers. At the present time both culture and conscience are opposed to such habits.”
“It is through the alcohol, and not the adulterations, that excessive drinking injures.” “This functional malady of the nervous system which we call inebriety, as distinguished from the vice or habit of drunkenness, may be said to have been born in America, has here developed sooner and far more rapidly than elsewhere, and here also has received earlier and more successful attention from men of science.” “For those individuals who inherit a tendency to inebriety, the only safe course is absolute abstinence, especially in early life; and in certain cases treatment of the nervous system, on the exhaustion of which the inebriety depends.”
AQUILO QUE NENHUMA REVISTA DE NUTRIÇÃO DIRÁ: “we so often find not only epileptics, but neurasthenics and nervous persons with other symptoms, are free and sometimes excessive eaters. They say their food does not give them strength, and it does not, for the same reason that the acid poured into the impure fluid of the battery does not give us electric force. There are those who all their lives are habitually small eaters and yet are great workers, and there are those who, though all their lives great eaters, are never strong; their food is either not digested or thoroughly assimilated, and so a much smaller fraction than should be is converted into nerve-force.”
“In all the great cities of the East, among the brain-working classes of our large cities everywhere, pork, in all its varieties and preparations, has taken a subordinate place among the meats upon our tables, for the reason that the stomach of the brain-worker cannot digest it.”
“Four and 5 meals a day is, or has been, the English and, notably, the German custom. Foreigners have greatly surpassed us in the taking of solid as well as liquid food.”
“The eyes also are good barometers of our nervous civilization. The increase of asthenopia and short-sightedness [miopia], and, in general, of the functional disorders of the eye, are demonstrated facts and are most instructive. The great skill and great number of our oculists are constant proof and suggestions of the nervousness of our age. The savage can usually see well; myopia is a measure of civilization.” “near-sightedness increases in schools” “Macnamara declares that he took every opportunity of examining the eyes of Southall aborigines of Bengal, for the purpose of discovering whether near-sightedness and diseases of like character existed among them, and he asserts that he never saw a young Southall whose eyes were not perfect.”
“at the age of 20, 26% of Americans are near-sighted. In Russia, 42%, and in Germany, 62%.” A nação mais intelectual do mundo.
“American dentists are the best in the world, because American teeth are the worst in the world.”
“Irregularities of teeth, like their decay, are the product primarily of civilization, secondarily of climate. These are rarely found among the Indians or the Chinese; and, according to Dr. Kingsley, are rare even in idiots”
“It is probable that negroes are troubled earlier than Indians. The popular impression that negroes always have good teeth is erroneous—the contrast between the whiteness of the teeth and the blackness of the face tending not a little to flatter them.”
“Coarse races and peoples, and coarse individuals can go with teeth badly broken down without being aware of it from any pain; whereas, in a finely organized constitution, the very slightest decay in the teeth excites pain which renders filling or extracting imperative. The coarse races and coarse individuals are less disturbed by the bites of mosquitoes, by the presence of flies or of dirt on the body, than those in whom the nervous diathesis prevails”
“It is said, for example, of the negroes of the South, that they rarely if ever sneeze.”
“Special explanations without number have been offered for this long-observed phenomenon—the early and rapid decay of American teeth—such as the use of sweets, the use of acids, neglect of cleanliness, and the use of food that requires little mastication. But they who urge these special facts to account for the decay of teeth of our civilization would, by proper inquiry, learn that the savages and negroes, and semi-barbarians everywhere, in many cases use sweets far more than we, and never clean their mouths, and never suffer, except in old age.”
“the only races that have poor teeth are those who clean them.” Quando o remédio vem mais tarde que a doença.
“Among savages in all parts of the earth baldness is unusual, except in extreme age, and gray hairs come much later than with us. So common is baldness in our large cities that what was once a deformity and exception is now almost the rule, and an element of beauty.”
“Increased sensitiveness to both heat and cold is a noteworthy sign of nervousness.”
“Cold bathing is not borne as well as formerly.” “Water treatment is as good for some forms of nervous disease as it ever was; but it must be adapted to the constitution of the patient, and adapted also to the peculiar needs of each case.”
“The disease, state, or condition to which the term neurasthenia is applied is subdivisible, just as insanity is subdivided into general paresis or general paralysis of the insane, epileptic insanity, hysterical, climatic, and puerperal insanity; just as the disease or condition that we call trance is subdivided into clinical varieties, such as intellectual trance, induced trance, cataleptic trance, somnambulistic trance, emotional trance, ecstatic trance, etc.”
“That diabetes is largely if not mainly a nervous disease is becoming more and more the conviction of all medical thinkers, and that, like Bright’s disease, it has increased of late, can be proved by statistics that in this respect are in harmony with observation.”
A ERA DA RINITE E DAS ALERGIAS: “A single branch of our neurological tree, hay-fever, has in it the material for years of study; he who understands that, understands the whole problem. In the history of nervous disease I know not where to look for anything as extraordinary or instructive as the rise and growth of hay-fever in the USA.”
“Catarrh of the nose and nasal pharyngeal states — so-called nasal and pharyngeal catarrh — is not a nervous disease, in the strict sense of the term, butthere is often a nervous element in it; and in the marked and obstinate forms it is, like decay and irregularities of the teeth, one of the signs or one of the nerve-symptoms of impairment of nutrition and decrease of vital force which make us unable to resist change of climate and extremes of temperature.”
“The phenomenal beauty of the American girl of the highest type, is a subject of the greatest interest both to the psychologist and the sociologist, since it has no precedent, in recorded history, at least; and it is very instructive in its relation to the character and the diseases of America.”
“The same climatic peculiarities that make us nervous also make us handsome”
“In no other country are the daughters pushed forward so rapidly, so early sent to school, so quickly admitted into society; the yoke of social observance (if it may be called such), must be borne by them much sooner than by their transatlantic sisters — long before marriage they have had much experience in conversation and in entertainment, and have served as queens in social life, and assumed many of the responsibilities and activities connected therewith. Their mental faculties in the middle range being thus drawn upon, constantly from childhood, they develop rapidly a cerebral activity both of an emotional and an intellectual nature, that speaks in the eyes and forms the countenance; thus, fineness of organization, the first element of beauty, is supplemented by expressiveness of features — which is its second element”
“Handsome women are found here and there in Great Britain, and rarely in Germany; more frequently in France and in Austria, in Italy and Spain”
“One cause, perhaps, of the almost universal homeliness of female faces among European works of art is the fact that the best of the masters never saw a handsome woman.” Esqueceu da relatividade histórica do tipo belo!
“If Raphael had been wont to see everyday in Rome or Naples what he would now see everyday in New York, Baltimore, or Chicago, it would seem probable that, in his Sistine Madonna he would have preferred a face of, at least, moderate beauty, to the neurasthenic and anemic type that is there represented. [?]”
“To the first and inevitable objection that will be made to all here said — namely, that beauty is a relative thing, the standard of which varies with age, race, and individual — the answer is found in the fact that the American type is today more adored in Europe than in America; that American girls are more in demand for foreign marriages than any other nationality; and that the professional beauties of London that stand highest are those who, in appearance and in character have come nearest the American type.” Isso se chama cultura hegemônica, e não um argumento de defesa – e um pouco de chauvinismo também…
“The ruddiness or freshness, the health-suggesting and health-sustaining face of the English girl seem incomparable when partially veiled, or when a few rods away” HAHA. Uma obra não muito recomendável na parte estética… Beleza EXÓTICA!
“The European woman steps with a firmer tread than the American, and with not so much lightness, pliancy, and grace. In a multitude, where both nations are represented, this difference is impressive.”
“The grasp of the European woman is firmer and harder, as though on account of greater strength and firmness of muscle. In the touch of the hand of the American woman there is a nicety and tenderness that the English woman destroys by the force of the impact.”
3. CAUSES OF AMERICAN NERVOUSNESS
“Punctuality is a greater thief of nervous force than is procrastination of time. We are under constant strain, mostly unconscious, often-times in sleeping as well as in waking hours, to get somewhere or do something at some definite moment.”
“In Constantinople indolence is the ideal, as work is the ideal in London and New York”
“There are those who prefer, or fancy they prefer, the sensations of movement and activity to the sensations of repose”
“The telegraph is a cause of nervousness the potency of which is little understood. (…) prices fluctuated far less rapidly, and the fluctuations which now are transmitted instantaneously over the world were only known then by the slow communication of sailing vessels or steamships” “every cut in prices in wholesale lines in the smallest of any of the Western cities, becomes known in less than an hour all over the Union; thus competition is both diffused and intensified.”
“Rhythmical, melodious, musical sounds are not only agreeable, but when not too long maintained are beneficial, and may be ranked among our therapeutical agencies.”
“The experiments, inventions, and discoveries of Edison alone have made and are now making constant and exhausting draughts on the nervous forces of America and Europe, and have multiplied in very many ways, and made more complex and extensive, the tasks and agonies not only of practical men, but of professors and teachers and students everywhere” Um tanto utópico e nostálgico para um “médico pragmático”…
“On the mercantile or practical side the promised discoveries and inventions of this one man have kept millions of capital and thousand of capitalists in suspense and distress on both sides of the sea.”
“the commerce of the Greeks, of which classical histories talk so much, was more like play — like our summer yachting trips”
“The gambler risks usually all that he has; while the stock buyer risks very much more than he has. The stock buyer usually has a certain commercial, social, and religious position, which is thrown into the risk, in all his ventures”
“as the civilized man is constantly kept in check by the inhibitory power of the intellect, he appears to be far less emotional than the savage, who, as a rule, with some exceptions, acts out his feelings with comparatively little restraint.”
“Love, even when gratified, is a costly emotion; when disappointed, as it is so often likely to be, it costs still more, drawing largely, in the growing years of both sexes, on the margin of nerve-force, and thus becomes the channel through which not a few are carried on to neurasthenia, hysteria, epilepsy, or insanity.”
“A modern philosopher of the most liberal school states that he hates to hear one laugh aloud, regarding the habit, as he declares, a survival of barbarism.”
“There are two institutions that are almost distinctively American — political elections and religious revivals”
“My friend, presidents and politicians are chips and foam on the surface of the sea; they are not the sea; tossed up by the tide and left on the shore, but they are not the tide; fold your arms and go to bed, and most of the evils of this world will correct themselves, and, of those that remain, few will be modified by anything that you or I can do.”
“The experiment attempted on this continent of making every man, every child, and every woman an expert in politics and theology is one of the costliest of experiments with living human beings, and has been drawing on our surplus energies with cruel extravagance for 100 years.” Agora, 250…
“Protestantism, with the subdivision into sects which has sprung from it, is an element in the causation of the nervous diseases of our time. No Catholic country is very nervous, and partly for this—that in a Catholic nation the burden of religion is carried by the church.” Coitado do Brasil, trocando o certo pelo duvidoso assim…
“The difference between Canadians and Americans is observed as soon as we cross the border, the Catholic church and a limited monarchy acting as antidotes to neurasthenia and allied affections. Protestant England has imitated Catholicism, in a measure, by concentrating the machinery of religion and taking away the burden from the people. It is stated —although it is supposed that this kind of statistics are unreliable— that in Italy insanity has been on the increase during these few years in which there has been civil and religious liberty in that country.”
“The anxieties about the future, family, property, etc., are certainly so wearing on the negro, that some of them, without doubt, have expressed a wish to return to slavery.”
“advances in science are not usually made by committees—indeed, are almost never made by them, least of all by government committees”
“The people of this country have been pressed constantly with these 3 questions: How shall we keep from starving? Who is to be the next president? And where shall we go when we die?In a limited, narrow way, other nations have met these questions; at least two of them, that of starvation and that of the future life; but nowhere in ancient or modern civilization have these 3 questions been agitated so severely or brought up with such energy as here.”
“Those who have acquired or have inherited wealth, are saved an important percentage of this forecasting and fore-worry”
“The barbarian cares nothing for the great problems of life; seeks no solution — thinks of no solution of the mysteries of nature, and, after the manner of many reasoners in modern delusions, dismisses what he cannot at once comprehend as supernatural, and leaves it unsatisfactorily solved for himself, for others, and for all time”
“Little account has been made of the fact that the old world is small geographically. The ancient Greeks knew only of Greece and the few outside barbarians who tried to destroy them. The discovery of America, like the invention of printing, prepared the way for modern nervousness; and, in connection with the telegraph, the railway, and the periodical press increased a hundred-fold the distresses of humanity.” “The burning of Chicago—a city less than half a century old, on a continent whose existence was unknown a few centuries ago—becomes in a few hours the property of both hemispheres, and makes heavy drafts on the vitality not only of Boston and New York, but of London, Paris, and Vienna.”
“Letter-writing is an index of nervousness; those nations who writes the most letters being the most nervous, and those who write scarcely at all, as the Turks and Russians, knowing nothing or but very little of it.”
“The education of the Athenian boy consisted in play and games and songs, and repetitions of poems, and physical feats in the open air. His life was a long vacation, in which, as a rule, he rarely toiled as hard as the American lad in the intervals of his toil. (…) What they called work, gymnastics, competition games, and conversations on art and letters, is to us recreation.”
“Up to a certain point work develops capacity for work; through endurance is evolved the power of greater endurance; force becomes the parent of force. But here, as in all animate nature, there are limitations of development which cannot be passed. The capacity of the nervous system for sustained work and worry has not increased in proportion to the demands for work and worry that are made upon it.”
GREEN COMMENT LAND: “Continuous and uniform cold as in Greenland, like continuous and uniform heat as on the Amazon, produces enervation and languor; but repeated alternations of the cold of Greenland and the heat of the Amazon produce energy, restlessness, and nervousness.”
“The element of dryness of the air, peculiar of our climate as distinguished from that of Europe, both in Great Britain and on the Continent, is of the highest scientific and practical interest.” “On the nervous system this unusual dryness and thinness of the air have a many-sided influence; such as increase of headaches, neuralgias, and diminished capacity for sustaining cerebral toil.” “The organs, pianos, and violins of America are superior to those made in Europe at the present time. This superiority is the result, not so much of greater skill, ingenuity, or experience, but—so far as I can learn, from conversing with experts in this line—from the greater dryness of the air, which causes the wood to season better than in the moist atmosphere of Europe.”
“Moisture conducts electricity, and an atmosphere well charged with moisture, other conditions being the same, will tend to keep the electricity in a state of equilibrium, since it allows free and ready conduction at all times and in all directions.” “In regions where the atmosphere is excessively dry, as in the Rocky Mountains, human beings—indeed all animals, become constantly acting lightning-rods, liable at any moment to be made a convenient pathway through which electricity going to or from the earth seeks an equilibrium.”
“in the East our neuralgic and rheumatic patients, just before thunder-storms, are suddenly attacked by exquisite pains that at once disappear with the fair weather. There are those so sensitive that for 100 miles, and for a full day in advance, as Dr. Mitchell has shown, they can predict the approach of a storm.”
“Dryness of the air, whether external or internal, likewise excites nervousness by heightening the rapidity of the processes of waste and repair in the organism, so that we live faster than in a moist atmosphere.”
“one of the Manchester mill owners asserted that, during a season of dry weather, there was, in weaving alone, a loss of 5%, in quantity, and another loss of 5%, in quality; in spinning, also, an equal loss is claimed. To maintain moisture in mills, sundry devices have been tried, which have met, I believe, with partial success in practice.”
“Even in our perfect Octobers, on days that are pictures of beauty and ideals of climate — just warm enough to be agreeable and stimulating enough not to be depressing, we yet remain in the house far more than Europeans are wont to do even in rainy or ugly seasons.” So what, Mr. Productive Media?
“The English know nothing of summer, as we know of it — they have no days when it is dangerous, and scarcely any days when it is painful to walk or ride in the direct rays of the sun; and in winter, spring, and fall there are few hours when one cannot by proper clothing keep warm while moderately exercising.”
“The Kuro Siwo stream of the Pacific, with its circuit of 18,000 miles, carries the warm water of the tropics towards the poles, and regulates in a manner the climate of Japan. Mr. Croll estimates that if the Gulf Stream were to stop, the annual temperature of London would fall 30 degrees [Farenheit], and England would become as cold as Nova Zembla. It is the influence of the Gulf Stream that causes London, that is 11° farther north than New York, to have an annual mean temperature but 2° lower.”
“According to Miss Isabella Bird, who has recently published a work entitled Unbeaten Tracks in Japan, which is not only the very best work ever written on Japan, but one of the most remarkable works of travel ever written by man or woman, it seems that the Japanese suffer both from extremes of heat and cold, from deep snows and ice, and from the many weeks of sultriness such as oppress us in the US. The atmosphere of Japan is though far more moist than that of America, in that respect resembling some of the British Isles”
“Our Meteorological Bureau has justified its existence and labors by demonstrating and popularizing the fact that our waves of extreme heat and of extreme cold and severe climatic perturbations of various kinds are born in or pass from the Pacific through these mountains and travel eastward, and hence their paths can be followed and their coming can be predicted with a measure of certainty.”
“in the latter part of the winter and early spring—or what passes for spring, which is really a part of winter, and sometimes its worse part—there is more suffering from cold, more liability to disease, by taking cold, and more debility from long confinement in dry and overheated air than in early and mid-winter”
“the strong races, like the Hebrews and Anglo-Saxons, succeed in nearly all climates, and are dominant wherever they go; but in unlimited or very extended time, race is a result of climate and environment.”
“Savages may go to the most furious excesses without developing any nervous disease; they may gorge themselves, or they may go without eating for a week, they may rest in camp or they may go upon laborious campaigns, and yet never have nervous dyspepsia, sick-headache, hay-fever, or neuralgia.”
“No people in the world are so careful of their diet, the quality and quantity of their food, and in regard to their habits of drinking, as the very class of Americans who suffer most from these neuroses.”
“Alcohol only produces inebriety when it acts on a nervous system previously made sensitive. Alcoholism and inebriety are the products not of alcohol, but of alcohol plus a certain grade of nerve degeneration.”
“But bad air, that is, air simply made impure by the presence of human beings, without any special contagion, seems powerless to produce disease of any kind, unless the system be prepared for it. Not only bad air, but bad air and filth combined, the Chinese of the lower orders endure both in this country and their own, and are not demonstrably harmed thereby (…) but impure air, plus a constitution drawn upon and weakened by civilization, is an exciting cause of nervous disease of immense force.”
“The philosophy of the causation of American nervousness may be expressed in algebraic formula as follows: civilization in general + American civilization in particular (young and rapidly growing nation, with civil, religious, and social liberty) + exhausting climate (extremes of heat and cold, and dryness) + the nervous diathesis (itself a result of previously named factors) + overwork or overworry, or excessive indulgence of appetites or passions = an attack of neurasthenia or nervous exhaustion.”
“Dr. Habsch, the chief oculist in Constantinople, says that the effect of tobacco upon the eyes is very problematical; that everybody smokes from morning to night, the men a great deal, the women a little less than the men, and the children smoke from the age of 7 and 8 years. He states that the number of cases of amaurosis [cegueira] is very limited. If expert oculists would examine the eyes of the Chinese, who smoke quite as much as the Turks, if not more, and smoke opium as well as tobacco, they would unquestionably confirm the conclusion of Dr. Habsch among the Turks. Dr. Habsch believes that in persons with a very delicate skin and conjunctiva [membrana mucosa que liga as pálpabras com o tecido ocular propriamente dito] among the Turks, smoking frequently causes chronic irritation, local congestion, profuse lachrymation, blepharitis ciliaris [inflamação dos cílios], and more or less intense redness of the eyelids. (cf. Dr. Webster on Amblyopia [Perda de visão] from the Use of Tobacco) [livro inexistente na web]”
“The Hollanders, according to a most expert traveller, Edmondo De Amicis, are the greatest smokers of Europe; on entering a house, with the first greeting you are offered a cigar, and when you leave another is handed to you; many retire with a pipe in their mouth, re-light it if they awake during the night; they measure distances by smoke – to such a place by not so many miles but by so many pipes.” “Says one Hollander, smoke is our second breath; says another, the cigar is the 6th finger of the hand.”
“Opium eating in China does not work in the way that the same habit does in the white races.” “when it is said of a Chinaman that he smokes opium, it is meant that he smokes to excess and has a morbid craving for it, just as with us the expression a man drinks means that he drinks too much”
“It is clear that the habit of taking opium does not necessarily impair fertility, since large families are known among those who use opium, even to excess.”
“Among my nervous patients I find very many who cannot digest vegetables, but must use them with much caution; but all China lives on vegetables, and indigestion is not a national disease. Many of the Chinese live in undrained grounds, in conditions favorable to ague and various fevers, but they do not suffer from these diseases, nor from diseases of the lungs and bronchial tubes, to the same extent as foreign residents there who do not use opium.”
“I have been twice favored with the chance to study Africa in America. On the sea islands of the South, between Charleston and Savannah, there are thousands of negroes, once slaves, most of whom were born on those islands, who there will die, and who at no time have been brought into relation with our civilization, except so far as it is exhibited in a very few white inhabitants in the vicinity. Intellectually, they can be not very much in advance of their African ancestors; in looks and manners they remind me of the Zulus now exhibiting in America; for although since emancipation they have been taught by philanthropists, part of the time under governmental supervision, some of the elements of common school teaching, yet none of them have made, or are soon likely to make, any very important progress beyond those elements, and few, if any of them, even care to exercise the art of reading after it is taught them. Here, then, is a bit of barbarism at our door-steps; here, with our own eyes, and with the aid of those who live near them and employ them, I have sought for the facts of comparative neurology. There is almost no insanity among these negroes; there is no functional nervous disease or symptoms among them of any name or phase; to suggest spinal irritation, or hysteria of the physical form, or hay-fever, or nervous dyspepsia among these people is but to joke.” “These primitive people can go, when required, for weeks and months sleeping but 1 or 2 hours out of the 24; they can labor for all day, or for 2 days, eating nothing or but little; hog and hominy and lish, all the year round, they can eat without getting dyspepsia; indulgence of passions several-fold greater, at least, than is the habit of the whites, either there or here, never injures them either permanently or temporarily; if you would find a virgin among them, it is said you must go to the cradle; alcohol, when they can get it, they drink with freedom, and become intoxicated like the whites, but rarely, indeed, manifest the symptoms of delirium-tremens, and never of chronic alcoholism”
“These blacks cannot summon as much energy for a moment in an emergency as the whites, since they have less control over their energies, but in holding-on power, in sustained, continuous, unbroken muscular endurance, for hours and days, they surpass the whites.”
“The West is where the East was a quarter of a century ago—passing more rapidly, as it would appear, through the same successive stages of development.”
4. LONGEVITY OF BRAIN-WORKERS AND THE RELATION OF AGE TO WORK
“Without civilization there can be no nervousness; there is no race, no climate, no environment that can make nervousness and nervous disease possible and common save when reenforced by brain-work and worry and in-door life. This is the dark and, so far as it goes, truthful side of our theme; the brighter side is to be drawn in the present chapter.
Thomas Hughes, in his Life of Alfred the Great, makes a statement that <the world’s hardest workers and noblest benefactors have rarely been long-lived>. That any intelligent writer of the present day should make a statement so untrue shows how hard it is to destroy an old superstition.
The remark is based on the belief which has been held for centuries that the mind can be used only at the injurious expense of the body. This belief has been something more than a mere popular prejudice; it has been a professional dogma, and has inspired nearly all the writers on hygiene since medicine has been a science; and intellectual and promising youth have thereby been dissuaded from entering brain-working professions; and thus, much of the choicest genius has been lost to civilization; students in college have abandoned plans of life to which their tastes inclined, and gone to the farm or workshop; authors, scientists, and investigators in the several professions have thrown away the accumulated experience of the better half of life, and retired to pursuits as uncongenial as they were profitless. The delusion has, therefore, in 2 ways, wrought evil, specifically by depriving the world of the services of some of its best endowed natures, and generally by fostering a habit of accepting statement for demonstration.
Between 1864 and 1866 I obtained statistics on the general subject of the relation of occupation to health and longevity that convinced me of the error of the accepted teachings in regard to the effect of mental labor.”
“The views I then advocated, and which I enforced by statistical evidence were:
1st. That the brain-working classes—clergymen, lawyers, physicians, merchants, scientists, and men of letters, lived much longer than the muscle-working classes.
2nd. That those who followed occupations that called both muscle and brain into exercise, were longer-lived than those who lived in occupations that were purely manual.
3rd. That the greatest and hardest brain-workers of history have lived longer on the average than brain-workers of ordinary ability and industry.
4th. That clergymen were longer-lived than any other great class of brain-workers. [QUE PRAGA!]
5th. That longevity increased very greatly with the advance of civilization; and that this increase was too marked to be explained merely by improved sanitary knowledge.
6th. That although nervous diseases increased with the increase of culture, and although the unequal and excessive excitements and anxieties attendant on mental occupations of a high civilization were so far both prejudicial to health and longevity, yet these incidental evils were more than counter-balanced by the fact that fatal inflammatory diseases have diminished in frequency and violence in proportion as nervous diseases have increased; an also that brain-work is, per se, healthful and conducive to longevity.”
“the greater majority of those who die in any one of the three great professions — law, theology, and medicine — have, all their lives, from 21 upwards, followed that profession in which they died.”
“I have ascertained the longevity of 500 of the greatest men in history. The list I prepared includes a large proportion of the most eminent names in all the departments of thought and activity. (…) the average age of those I have mentioned, I found to be 64.2. (…) the greatest men of the world have lived longer on the average than men of ordinary ability in the different occupations by 14 years” “The value of this comparison is enforced by the consideration that longevity has increased with the progress of civilization, while the list I prepared represents every age of recorded history.” “I am sure that any chronology comprising from 100 to 500 of the most eminent personages in history, at any cycle, will furnish an average longevity of from 64 to 70 years. Madden, in his very interesting work The Infirmities of Genius, gives a list of 240 illustrious names, with their ages at death.”
“The full explanation of the superior longevity of the brain-working classes would require a treatise on the science of sociology, and particularly of the relation of civilization to health. The leading factors, accounting for the long life of those who live by brain-labor, are:
(…)
In the successful brain-worker worry is transferred into work; in the muscle-worker work too often degrades into worry.” “To the happy brain-worker life is a long vacation; while the muscle-worker often finds no joy in his daily toil, and very little in the intervals.”
“Longevity is the daughter of comfort. Of the many elements that make up happiness, mental organization, physical health, fancy, friends, and money—the last is, for the average man, greater than any other, except the first.”
“for a large number, sleep is a luxury of which they never have sufficient for real recuperation”
“The nervous temperament, which usually predominates in brain-workers, is antagonistic to fatal, acute, inflammatory disease, and favorable to long life.”
“Nervous people, if not too feeble, may die everyday. They do not die; they talk of death, and each day expect it, and yet they live. Many of the most annoying nervous diseases, especially of the functional, and some even of the structural varieties, do not rapidly destroy life, and are, indeed, consistent with great longevity.”
“the nervous man can expose himself to malaria, to cold and dampness, with less danger of disease, and with less danger of death if he should contract disease, than his tough and hardy brother.”
“In the conflict with fevers and inflammations, strength is often weakness, and weakness becomes strength—we are saved through debility.”
“Still further, my studies have shown that, of distinctively nervous diseases, those which have the worst pathology and are the most hopeless, such as locomotor ataxia, progressive muscular atrophy, apoplexy with hemiplegia, and so on, are more common and more severe, and more fatal among the comparatively vigorous and strong, than among the most delicate and finely organized. Cancer, even, goes hardest with the hardy, and is most relievable in the nervous.”
“Women, with all their nervousness—and in civilized lands, women are more nervous, immeasurably, than men, and suffer more from general and special nervous diseases—yet live quite as long as men, if not somewhat longer; their greater nervousness and far greater liability to functional diseases of the nervous system being compensated for by their smaller liability to certain acute and inflammatory disorders, and various organic nervous diseases, likewise, such as the general paralysis of insanity.”
“Brain-workers can adapt their labor to their moods and hours and periods of greatest capacity for labor better than muscle-workers. In nearly all intellectual employments there is large liberty; literary and professional men especially, are so far masters of their time that they can select the hours and days for their most exacting and important work; and when from any cause indisposed to hard thinking, can rest and recreate, or limit themselves to mechanical details.”
“Forced labor, against the grain of one’s nature, is always as expensive as it is unsatisfactory”
“Even coarser natures have their moods, and the choicest spirits are governed by them; and they who worship their moods do most wisely; and those who are able to do so are the fortunate ones of the earth.”
“Again, brain-workers do their best work between the ages of 25-45; before that period they are preparing to work; after that period, work, however extensive it may be, becomes largely accumulation and routine.” “It is as hard to lay a stone wall after one has been laying it 50 years as during the first year. The range of muscular growth and development is narrow, compared with the range of mental growth; the day-laborer soon reaches the maximum of his strength. The literary or scientific worker goes on from strength to strength, until what at 25 was impossible, and at 30 difficult, at 35 becomes easy, and at 40 a past-time.”
“The number of illustrious names of history is by no means so great as is currently believed; for, as the visible stars of the firmament, which at a glance appear infinite in number, on careful estimate are reduced to a few thousands, so the galaxy of genius, which appears interminable on a comprehensive estimate, presents but few lights of immortal fame. Mr. Galton, in his Hereditary Genius,states that there have not been more than 400 great men in history.”
“obscurity is no sure evidence of demerit, but only a probability of such”
“Only in rare instances is special or general talent so allied with influence, or favor, or fortune, or energy that commands circumstances, that it can develop its full functions; <things are in the saddle and ride mankind>, environment commands the environed.”
“The stars we see in the sky are but mites compared with the infinite orbs that shall never be seen; but no star is a delusion—each one means a world, the light of which very well corresponds to its size and distance from the earth and sun.” “Routine and imitation work can no more confer the fame that comes from work that is original and creative than the moon can take the place of the sun.”
“It is this confounding of force with the results of force, of fame with the work by which fame is attained that causes philosophers to dispute, deny, or doubt, or to puzzle over the law of the relation of age to work, as here announced.
When the lightning flashes along the sky, we expect a discharge will soon follow, since light travels faster than sound; so some kinds of fame are more rapidly diffused than others, and are more nearly contemporaneous with their origin; but as a law, there is an interval — varying from years to hundreds of years — between the doing of any original work and the appreciation of that work by any considerable number of mankind that we call fame.
The great men that we know are old men; but they did the work that has made them great when they were young; in loneliness, in poverty, often, as well as under discouragement, and in neglected or despised youth has been achieved all that has advanced, all that is likely to advance mankind.”
“In the man of genius, the idea starts where, in the man of routine, it leaves off.”
“Original work—that done by geniuses who have thereby attained immortal fame, is the only kind of work that can be used as the measure of cerebral force in all our search for this law of the relation of work to the time of life at which work is done for the two-fold reason—first, that it is the highest and best measure of cerebral force; and, secondly, because it is the only kind of work that gives earthly immortality.”
“Men do not long remember, nor do they earnestly reverence those who have done only what everybody can do. We never look up, unless the object at which we look is higher than ourselves; the forces that control the rise and fall of reputation are as inevitable and as remorseless as heat, light, and gravity; if a great man looms up from afar, it is because he is taller than the average man; else, he would pass below the horizon as we receded from him; factitious fame is as impossible as factitious heat, light, or gravity; if there be force, there must have been, somewhere, and at some time, a source whence that force was evolved.”
“the strength of a man is his strength at his strongest point—what he can do in any one direction, at his very best. However weak and even puerile, immature, and non-expert one may be in all other directions except one, be gains an immortality of fame if, in that one direction he develops a phenomenal power; weaknesses and wickednesses, serious immoralities and waywardnesses are soon forgotten by the world, which is, indeed, blinded to all these defects in the face of the strong illumination of genius. Judged by their defects, the non-expert side of their character, moral or intellectual, men like Burns,¹ Shakespeare, Socrates, Cicero, Caesar, Napoleon, Beethoven, Mozart, Byron, Dickens, etc., are but as babes or lunatics, and far, very far below the standard of their fellows.”
¹ Poeta escocês, 1759-96.
SOBRE A PRECOCIDADE E “GASTO DA ENERGIA MENTAL”: “Men to whom these truths are repelling put their eyes on those in high positions and in the decline of life, like Disraeli or Gladstone, forgetting that we have no proof that either of these men have ever originated a new thought during the past 25 years, and that in all their contributions to letters during that time there is nothing to survive, or worthy to survive, their authors.
They point to Darwin, the occupation of whose old age has been to gather into form the thoughts and labors of his manhood and youth, and whose only immortal book was the product of his silver and golden decade.”
“The lives of some great men are not sufficiently defined to differentiate the period, much less the decade or the year of their greatest productive force. Such lives are either rejected, or only the time of death and the time of first becoming famous are noted; very many authors have never told the world when they thought-out or even wrote their masterpieces, and the season of publication is the only date that we can employ. These classes of facts, it will be seen, tell in favor of old rather than of young men, and will make the year of maximum production later rather than earlier, and cannot, therefore, be objected to by those who may doubt my conclusions.”
“For those who have died young, and have worked in original lines up to the year of their death, the date of death has sometimes been regarded as sufficient. Great difficulty has been found in proving the dates of the labors of the great names of antiquity, and, therefore, many of them are necessarily excluded from consideration, but in an extended comparison between ancient and modern brain-workers, so far as history makes possible, there was but little or no difference.”
“This second or supplementary list was analyzed in the same way as the primary list, and it was found that the law was true of these, as of those of greater distinction. The conclusion is just, scientific, and inevitable, that if we should go down through all the grades of cerebral force, we should find this law prevailing among medium and inferior natures, that the obscure, the dull, and the unaspiring accomplished the little they did in the direction of relatively original work in the brazen and golden decades.” Tenho 8 anos pela frente.
“These researches were originally made as far back as 1870, and were first made public in lectures delivered by me before the Long Island Historical Society. The titles of the lectures were, Young Men in History, and the Decline of Moral Principle in Old Age.”
“Finally, it should be remarked that the list has been prepared with absolute impartiality, and no name and no date has been included or omitted to prove any theory. The men who have done original or important work in advanced age, such as Dryden,¹ Radetzky,² Moltke,³ Thiers,4 De Foe,5 have all been noted, and are embraced in the average.”
¹ Poeta inglês, 1631-1700.
² Marechal, militar estrategista alemão que combateu inclusive Napoleão, vivendo ativo até uma idade avançada (1766-1858).
³ Provavelmente o Conde Adam Moltke (1710-1792), diplomata dinamarquês. Seu filho foi primeiro-ministro.
4 Marie Adolph –, político e escritor francês, 1797-1877, foi presidente eleito na França após a queda dos Bourbon.
5 Daniel Defoe viveu 71 anos e também foi ensaísta e publicou obras de não-ficção, além de seu maior sucesso.
“The golden decade alone represents nearly 1/3 of the original work of the world. (…) The year of maximum productiveness is 39.”
“All the athletes with whom I have conversed on this subject, the guides and lumbermen in the woods — those who have always lived solely by muscle — agree substantially to this: that their staying power is better between the ages of 35 and 45, than either before or after. To get the best soldiers, we must rob neither the cradle nor the grave; but select from those decades when the best brain-work of the world is done.”
“Original work requires enthusiasm; routine work, experience.” “Unconsciously the people recognize this distinction between the work that demands enthusiasm and that which demands experience, for they prefer old doctors and lawyers, while in the clerical profession, where success depends on the ability to constantly originate and express thought, young men are the more popular, and old men, even of great ability, passed by. In the editorial profession original work is demanded, and most of the editorials of our daily press are written by young men. In the life of every old man there comes a point, sooner or later, when experience ceases to have any educating power; and when, in the language of Wall St., he becomes a bear; in the language of politics, a Bourbon.”
“some of the greatest poets, painters, and sculptors, such as Dryden, Richardson, Cowper, Young, De Foe, Titian, Christopher Wren, and Michael Angelo, have done a part of their very best work in advanced life. The imagery both of Bacon and of Burke seemed to increase in richness as they grew older.
In the realm of reason, philosophic thought, invention and discovery, the exceptions are very rare. Nearly all the great systems of theology, metaphysics, and philosophy are the result of work done between 20 and 50.”
“Michael Angelo and Sir Christopher Wren could wait for a quarter or even half a century before expressing their thoughts in St. Peter’s or St. Paul’s; but the time of the conception of those thoughts — long delayed in their artistic expression — was the time when their cerebral force touched its highest mark.
In the old age of literary artists, as Carlyle, Dickens, George Elliot, or Tennyson, the form may be most excellent; but from the purely scientific side the work though it may be good, is old; a repetition often-times, in a new form, of what they have said many times before.”
“The philosophy of Bacon can never be written but once; to re-write it, to present it a 2nd time, in a different dress, would indicate weakness, would seem almost grotesque; but to statuary and painting we return again and again; we allow the artist to re-portray his thought, no matter how many times; we visit in succession a hundred cathedrals, all very much alike; and a delicious melody grows more pleasing with repetition; whence it is that in poetry — the queen of the arts — old age has wrought little, or not at all, since the essence of poetry is creative thought, and old age is unable to think; whence, also, in acting — the oldest of all the arts, the servant of all — the best experts are often at their best, or not far below their best, save for the acquisition of new characters, in the iron and wooden decades.”
“Similarly with the art of writing—the style, the dress, the use of words, the art of expressing thoughts, and not of thinking. Men who have done their best thinking before 40 have done their best writing after that period.” “it is thought, and not the language of thought, that best tests the creative faculties.”
“The conversation of old men of ability, before they have passed into the stage of imbecility, is usually richer and more instructive than the conversation of the young; for in conversation we simply distribute the treasures of memory, as a store hoarded during long years of thought and experience. He who thinks as he converses is a poor companion, as he who must earn his money before he spends any is a poor man. When an aged millionnaire makes a liberal donation it costs him nothing; he but gives out of abundance that has resulted by natural accumulation from the labors of his youth and middle life.”
“An amount of work not inconsiderable is done before 25 and a vast amount is done after 40; but at neither period is it usually of the original or creative sort that best measures the mental forces.” “In early youth we follow others; in old age we follow ourselves.”
“The same law applies to animals. Horses live to be about 25, and are at their best from 8 to 14” “Dogs live 9 or 10 years, and are fittest for the hunt between 2 and 6.”
“Children born of parents one or both of whom are between 25 and 40, are, on the average, stronger and smarter than those born of parents one or both of whom are very much younger or older than this.” “we are most productive when we are most reproductive [18-26??].”
“In an interesting paper entitled When Women Grow Old, Mrs. Blake has brought facts to show that the fascinating power of the sex is often-times retained much longer than is generally assumed.
She tells us of Aspasia, who, between the ages of 30 and 50 was the strongest intellectual force in Athens; of Cleopatra, whose golden decade for power and beauty was between 30 and 40; of Livia, who was not far from 30 when she gained the heart of Octavius; of Anne of Austria, who at 38 was thought to be the most beautiful queen in Europe; of Catherine II of Russia, who, even at the silver decade was both beautiful and imposing; of Mademoiselle Mars, the actress, whose beauty increased with years, and culminated between 30 and 45; of Madame Recamier, who, between 25 and 40, and even later, was the reigning beauty in Europe; of Ninon de I’Enclos, whose own son — brought up without knowledge of his parentage — fell passionately in love with her when she was at the age of 37, and who even on her 60th birthday received an adorer young enough to be her grandson.
“The voice of our great prima donnas is at its very best between 27 and 35; but still some retains, in a degree, its strength and sweetness even in the silver decade. The voice is an index of the body in all its functions, but the decay of other functions is not so readily noted.”
“As a lad of 16, Lord Bacon began to think independently on great matters; at 44, published his great work on The Advancement of Learning; at 36, published 12 of his Essays; and at 60 collected the thoughts of his life in his Organum. His old age was devoted to scientific investigation.
At the age of 29, Descartes began to map out his system of philosophy, and at 41 began its publication, and at 54 he died.
Schelling, as a boy, studied philosophy, and at 24 was a brilliant and independent lecturer, and at 27 had published many important works; at 28 was professor of philosophy and arts, and wrote his best works before 50.
Dryden, one of the exceptions to the average, did his best work when comparatively old; his Absalom was written at 50, and his Alexander’s Feast when he was nearly 70.
Dean Swift wrote his Tale of a Tub at 35, and his Gulliver’s Travels at 59.”
“Charles Dickens wrote Pickwick at 25, Oliver Twist and Nicholas Nickleby before 27, Christmas Chimes at 31, David Copperfieldat 38, and Dombey and Son at 35. Thus we see that nearly all his greatest works were written before he was 40; and it is amazing how little all the writings of the last 20 years of his life took hold of the popular heart, in comparison with Pickwick and David Copperfield, and how little effect the most enormous advertising and the cumulative power of a great reputation really have to give a permanent popularity to writings that do not deserve it. If Dickens had died at 40 his claim to immortality would have been as great as now, and the world of letters would have been little, if any, the loser. The excessive methodical activity of his mature and advanced life could turn off works with fair rapidity; but all his vast experience and all his earnest striving failed utterly to reach the standard of his reckless boyhood. His later works were more perfect, perhaps, judged by some canons, but the genius of Pickwick was not in them.”
“Edison with his 300 patents, is not the only young inventor. All inventors are young. Colt was a boy of 21 when he invented the famous weapon that bears his name; and Goodyear began his experiments in rubber while a young man of 24, and made his first success at 38, and at 43 had brought his discovery to approximate perfection.”
“The name of Bichat is one of the greatest in science, and he died at 32.”
“Handel at 19 was director of the opera at Hamburg; at 20 composed his first opera; at 35 was appointed manager of the Royal Theatre at London; at 25 composed Messiah and Jephtha, and in old age and blindness his intellect was clear and his power of performance remarkable.”
“Luther early displayed eloquence, and at 20 began to study Aristotle;¹ at 29 was doctor of divinity, and when he would refuse it, it was said to him that <he must suffer himself to be dignified, for that God intended to bring about great things in the church by his name>; at 34 he opposed the Indulgencies, and set up his 95 propositions; at 37 he publicly burned the Pope’s bull; at 47 he had completed his great task.”
¹ Realmente é impossível derivar prazer de ler Aristóteles antes dessa idade, senão uma ainda mais avançada!
“Von Moltke between 65 and 70 directed the operation of the great war of Prussia against Austria and France. But that war was but a conclusion and consummation of military study and organization that had been going on for a quarter of a century.”
“Jenner at 21 began his investigation into the difference between cow-pox and small-pox. His attention was called to the subject by the remark of a country girl, who said in his hearing that she could not have the small-pox, because she had had the cow-pox.” Varíola e varíola bovina. Bom… realmente existem ovos de Colombo!
“old men, like nations, can show their treasures of art long after they have begun to die; this, indeed, is one of the sweetest and most refreshing compensations for age”
“A contemporary deader in science (Huxley) has asserted that it would be well if all men of science could be strangled at the age of 60, since after that age their disposition — with possible exceptions here and there — is to become reactionary and obstructionists”
“Se um homem não é belo aos 20, forte aos 30, experiente aos 40 e rico aos 50, ele jamais será belo, forte, experiente ou rico neste mundo.” Lutero
“Só começamos a contar nossos anos quando já não há nada mais a ser contado”Emerson
“Procrastinamos nossos trabalhos literários até termos experiência e habilidade o bastante, até um dia descobrirmos que nosso talento literário era uma efervescência juvenil que finalmente perdemos.” E.
“Quem em nada tem razão aos 30, nunca terá.”
“Revoluções não são feitas por homens de óculos, assim como sussurros contendo verdades novas nunca são ouvidos por quem já entrou na idade da surdez” Oliver Holmes
Como pode ser que “o povo da minha rua” seja, para tantos indivíduos, a gente mais burra de toda a Terra? E, pior ainda, que todos que o dizem pareçam estar com a razão?!
Dizem que os jovens são os únicos que não escutam a voz da razão na discussão sobre a verdadeira idade da razão ser a juventude, e não a velhice. Ou eles estão errados ou eles estão errados.
“It is not in ambitious human nature to be content with what we have been enabled to achieve up to the age of 40. (…) Happiness may augment with years, because of better external conditions; and yet the highest happiness is obtained through work itself more than through the reward of work”
“a wise man declared that he would like to be forever 35, and another, on being asked his age, replied that it was of little account provided that it was anywhere between 25 and 40.”
$$$: “Capacity for original work age does not have, but in compensation it has almost everything else. The querulousness of age, the irritability, the avarice are the resultants partly of habit and partly of organic and functional changes in the brain. Increasing avarice is at once the tragedy and the comedy of age; as we near the end of our voyage we become more chary of our provisions, as though the ocean and not the harbor were before us.” “our intellectual ruin very often dates from the hour when we begin to save money.” A do meu pai começou quando criança.
PORQUE SIM, PORQUE EU MANDEI – POR QUE VOCÊ É ASSIM? NÃO RESPEITA SEU PAI, NÃO? POR QUE NÃO FAZ UM DOUTORADO? POR QUE NÃO COMPRA UM CARRO? “Moral courage is rare in old age; sensitiveness to criticism and fear of opposition take the place, in the iron and wooden decades, of delight in criticism and love of opposition of the brazen and golden decades” Nostalgic UnB times…
“fame like wealth makes us cautious, conservative, cowardly, since it implies the possibility of loss.”
“when the intellect declines the man is obliged to be virtuous. Physical health is also needed for indulgence in many of the vices”
“The decline of the moral faculties in old age may be illustrated by studying the lives of the following historic characters: Demosthenes, Cicero, Sylla, Charles V, Louis XIV, Frederic of Prussia, Napoleon (prematurely old), Voltaire, Jeffries, Dr. Johnson, Cromwell, Burke, Sheridan, Pope, Newton, Ruskin, Carlyle, Dean Swift, Chateaubriand, Rousseau, Milton, Bacon, Earl Pussell, Marlborough and Daniel Webster. In some of these cases the decline was purely physiological, in others pathological; in the majority it was a combination of both.
Very few decline in all the moral faculties. One becomes peevish, another avaricious, another misanthropic, another mean and tyrannical, another exacting and ugly, another sensual, another cold and cruelly conservative, another excessively vain and ambitious, others simply lose their moral enthusiasm and their capacity for resisting disappointment and temptation.”
“There are men who in extreme age preserve their teeth sound, their hair unchanged, their complexion fresh, their appetite sharp and digestion strong and sure, and their repose sweet and refreshing, and who can walk and work to a degree that makes their children and grandchildren feel very humble; but these observed exceptions in no way invalidate the general law, which no one will dispute, that the physical powers reach their maximum between 20 and 40, and that the average man at 70 is less muscular and less capable of endurance than the average man at 40.”
“For age hath opportunity no less
Than youth itself, though in another dress;
And as the evening twilight fades away,
The sky is filled with stars invisible by day.”
Longfellow
“To age is granted in increasing richness the treasures of memory and the delights of recognition which most usually come from those who, at the time of the deeds whose value they recognize, were infants or unborn; only those who bury their contemporaries, can obtain, during their own lifetime, the supremacy of fame.”
POR QUE CRIANÇAS PRODÍGIO SÃO A MAIOR FALSIFICAÇÃO POSSÍVEL: “Mrs. Carlyle, when congratulated on the honors given to her husband on the delivery of his Edinburgh address, replied with a certain disdain, as though he should have been honored before; but only by a reversal of the laws of the evolution of fame shall the manifestation of genius and the recognition of genius be simultaneous.”
“The high praise of contemporaries is almost insulting, since it implies that he whom they honor is but little better than themselves. Permanent fame, even in this rapid age [!!], is a plant of slow growth—first the blade; then, after a time, the ear; then, after many, many years, the full corn in the ear”
MEU COPYDESK E EU DE 2015 PARA CÁ SENTIMO-NOS ASSIM: “while the higher power of creating is disappearing, the lower, but for many the more needful, and with contemporaries more quickly appreciated, power of imitation, repetition, and routine, is increasing; we can work without working, and enjoy without striving”
O TRABALHO MATA AOS POUCOS: “An investigation made more recently by a Berlin physician into the facts and data relating to human longevity shows the average age of clergymen to be 65; of merchants, 63; clerks and farmers, 61; military men, 59; lawyers, 58; artists, 57; and medical men, 56 [!]. Statistics are given showing that medical men in England stand high in the scale of longevity. Thus, the united ages of 28 physicians who died there last year, amount to 2,354 years, giving an average of more the 84 years to each [!]. The youngest of the number was 80; the oldest, 93; 2 others were 92 and 89, respectively; 3 were 87, and 4 were 86 each; and there were also more than 50 who averaged from 74 to 75 years.”
“That precocity predicts short life, and is therefore a symptom greatly to be feared by parents, has, I believe, never been questioned. (…) plants that are soon to bloom are soon to fade”
APOSTO MINHA VIDA QUE MORREREI ANTES DE A.: “It is probable that, of two individuals with precisely similar organizations and under similar circumstances, the one that develops earlier will be the first to die.”
MINHA ‘GENÉTICA’ NÃO AJUDA: “millionnaires in intellect as well as in money, who can afford to expend enormous means without becoming impoverished.”
“Investigating the records of the past two centuries, Winterburn finds 213 recorded cases of acknowledged musical prodigies. None of them died before their 15th year, some attained the age of 103 — and the average duration of life was 58 — showing that, with all their abnormal precocity, they exceed the ordinary longevity by about 6%.”
“an almost irresistible impulse to the art in which they are destined to excel manifests itself in future virtuosi— in poets, painters, etc., from their earliest youth.”Wieland
Uma idéia de filme bem ruim: O ESCRITOR NOVATO DE 40 ANOS!
“A infância revela o homem, como a manhã revela o dia.” Milton
Madden – Infirmities of Genius (downloads)
MEMENTO À “PROFESSORA SORRISO”: “The stupidity attributed to men of genius may be really the stupidity of their parents, guardians, and biographers.”
“Music and drawing appeal to the senses, attract attention, and are therefore appreciated, or at least observed by the most stupid parents, and noted even in the most superficial biographies. Philosophic and scientific thought, on the contrary, does not at once, perhaps may never, reveal itself to the senses—it is locked up in the cerebral cells; in the brain of that dull, pale youth, who is kicked for his stupidity and laughed at for his absent-mindedness, grand thoughts may be silently growing”
“Newton, according to his own account, was very inattentive to his studies and low in his class, but a great adept at kite-flying, with paper lanterns attached to them, to terrify the country people, of a dark night, with the appearance of comets; and when sent to market with the produce of his mother’s farm, was apt to neglect his business, and to ruminate at an inn, over the laws of Kepler.”
“This belief is strengthened by the consideration that many, perhaps the majority, of the greatest thinkers of the world seemed dull, inane, and stupid to their neighbors, not only in childhood but through their whole lives.”
“It is probable, however, that nearly all cases of apparent stupidity in young geniuses are to be explained by the want of circumstances favorable to the display of their peculiar powers, or to a lack of appreciation or discernment on the part of their friends.”
“As compared with the world, the most liberal curriculum is narrow; to one avenue of distinction that college opens, the world opens ten.”
“GREAT precocity, like GREAT genius, is rare.”
O GÊNIO & O GENIOSO: “There is in some children a petty and morbid smartness that is sometimes mistaken for precocity, but which in truth does not deserve that distinction.”
A DOENÇA DE STEWIE: “Petty smartness is often-times a morbid symptom; it comes from a diseased brain, or from a brain in which a grave predisposition to disease exists; such children may die young, whether they do or do not early exhibit unusual quickness.”
A AMEBA SUPREMACISTA: “M.D. Delaunay has addressed to the Societé de Biologie a communication in which he takes the ground that precocity indicates biological inferiority. To prove this he states that the lower species develop more rapidly than those of a higher order; man is the slowest of all in developing and reaching maturity, and the lower orders are more precocious than the higher. As proof of this he speaks of the children of the Esquimaux, negroes, Cochin Chinese, Japanese, Arabs, etc. (…) He also states that women are more precocious than men”
THE RECURRING THEME: “The highest genius, as here and elsewhere seen, never repeats itself; very great men never have very great children; and in biological analysis, geniuses who are very precocious may be looked upon as the last of their race or of their branch—from them degeneracy is developed; and this precocity, despite their genius, may be regarded as the forerunner of that degeneracy.”
“Leibniz, at 12 understood Latin authors well, and wrote a remarkable production; Gassendi, <the little doctor>, preached at 4; and at 10 wrote an important discourse; Goethe, before 10, wrote in several languages; Meyerbeer, at 5, played remarkably well on the piano; Niebuhr, at 7, was a prodigy, and at 12 had mastered 18 languages [QUÊ?!]; Michael Angelo at 19 had attained a very high reputation; at 20 Calvin was a fully-fledged reformer, and at 24 published great works on theology that have changed the destiny of the world; Jonathan Edwards, at 10, wrote a paper refuting the materiality of the soul, and at 12 was so amazingly precocious that it was predicted of him that he would become another Aristotle; at 20 Melanchthon was so learned that Erasmus exclaimed: <My God! What expectations does not Philip Melanchthon create!>.”
“In order that a great man shall appear, a double line of more or less vigorous fathers and mothers must fight through the battles for existence and come out triumphant. However feeble the genius may be, his parents or grandparents are usually strong; or if not especially strong, are long-lived. Great men may have nervous if not insane relatives; but the nervous temperament holds to life longer than any other temperament. (…) in him, indeed, the branch of the race to which he belongs may reach its consummation, but the stock out of which he is evolved must be vigorous, and usually contains latent if not active genius.”
“The cerebral and muscular forces are often correlated; the brain is a part of the body. This view, though hostile to the popular faith, is yet sound and supportable; a large and powerful brain in a small and feeble body is a monstrosity.”
“a hundred great geniuses, chosen by chance, will be larger than a hundred dunces anywhere — will be broader, taller, and more weighty.”
“In any band of workmen on a railway, you shall pick out the <boss> by his size alone: and be right 4 times out of 5.”
“In certain of the arts extraordinary gifts may lift their possessor into fame with but little effort of his own, but the choicest seats in the temples of art are given only to those who have earned them by the excellence that comes from consecutive effort, which everywhere test the vital power of the man.”
“One does not need to practice medicine long to learn that men die that might just as well live if they had resolved to live and that many who are invalids could become strong if they had the native or acquired will to vow that they would do so. Those who have no other quality favorable to life, whose bodily organs are nearly all diseased, to whom each day is a day of pain, who are beset by life-shortening influences, yet do live by the determination to live alone.”
“the pluck of the Anglo-Saxon is shown as much on the sick-bed as in Wall Street or on the battlefield.” “When the negro feels the hand of disease pressing upon him, however gently, all his spirit leaves him.”
INNER VOW: “they live, for the same reason that they become famous; they obtain fame because they will not be obscure; they live because they will not die.”
“it is the essence of genius to be automatic and spontaneous. Many a huckster or corner tradesman expends each day more force in work or fretting than a Stewart or a Vanderbilt.”
“As small print most tires the eyes, so do little affairs the most disturb us” “the nearer our cares come to us the greater the friction; it is easier to govern an empire than to train a family.”
“Great genius is usually industrious, for it is its nature to be active; but its movements are easy, frictionless, melodious. There are probably many school-boys who have exhausted themselves more over a prize composition than Shakespeare over Hamlet, or Milton over the noblest passages in Paradise Lost.”
“So much has been said of the pernicious effects of mental labor, of the ill-health of brain-workers of all classes, and especially of clergymen, that very few were prepared to accept the statement that the clergy of this country and of England lived longer than any other class, except farmers; and very naturally a lurking fallacy was suspected. Other observers, who have since given special attention to the subject, have more than confirmed this conclusion, and have shown that clergymen are longer lived than farmers.” “A list of 10,000 is sufficient and more than sufficient for a generalization; for the second 5,000 did nothing more than confirm the result obtained by the first. It is fair and necessary to infer that if the list were extended to 10,000, 20,000, or even 100,000, the average would be found about the same.” “In their manifold duties their whole nature is exercised — not only brain and muscle in general, but all, or nearly all, the faculties of the brain — the religious, moral, and emotional nature, as well as the reason. Public speaking, when not carried to the extreme of exhaustion, is the best form of gymnastics that is known; it exercises every inch of a man, from the highest regions of the brain to the smallest muscle.” “The average income of the clergymen of the leading denominations of this country in active service as pastors of churches (including salary, house rent, wedding fees, donations, etc.), is between $800 and $1000, which is probably not very much smaller than the net income of all other professional classes. Furthermore, the income of clergymen in active service is collected and paid with greater certainty and regularity, and less labor of collection on their part, than the income of any other class except, perhaps, government officials; then, again, their earnings, whether small or great, come at once, as soon as they enter their profession, and is not, as with other callings, built up by slow growth.” “Merchants now make, always have made, and probably always will make, most of the money of the world; but business is attended with so much risk and uncertainty, and consequent anxiety, that merchants die sooner than clergymen, and several years sooner than physicians and lawyers.” “During the past 15 years, there has been a tendency, which is now rapidly increasing, for the best endowed and best cultured minds of our colleges to enter other professions, and the ministry has been losing, while medicine, business, and science have been gaining.”
“There are those who come into life thus weighted down, not by disease, not by transmitted poison in the blood, but by the tendency to disease, by a sensitiveness to evil and enfeebling forces that seems to make almost every external influence a means of torture; as soon as they are born, debility puts its terrible bond upon them, and will not let them go, but plays the tyrant with them until they die. Such persons in infancy are often on the point of dying, though they may not die; in childhood numberless physical ills attack them and hold them down, and, though not confining them to home, yet deprive them, perhaps, of many childish delights; in early maturity an army of abnormal nervous sensations is waiting for them, the gauntlet of which they must run if they can; and throughout life every function seems to be an enemy.
The compensations of this type of organization are quite important and suggestive, and are most consolatory to sufferers. Among these compensations, this perhaps is worthy of first mention — that this very fineness of temperament, which is the source of nervousness, is also the source of exquisite pleasure. Highly sensitive natures respond to good as well as evil factors in their environment, salutary as well as pernicious stimuli are ever operating upon them, and their capacity for receiving, for retaining, and for multiplying the pleasures derived from external stimuli is proportionally greater than that of cold and stolid organizations: if they are plunged into a deeper hell, they also rise to a brighter heaven (…) art, literature, travel, social life, and solitude, pour out on them their selected treasures; they live not one life but many lives, and all joy is for them variously multiplied. To such temperaments the bare consciousness of living, when life is not attended by excessive exhaustion or by pain, or when one’s capacity for mental or muscular toil is not too closely tethered, is often-times a supreme felicity. The true psychology of happiness is gratification of faculties, and when the nervous are able to indulge even moderately and with studied caution and watchful anxiety their controlling desires of the nobler order, they may experience an exquisiteness of enjoyment that serves, in a measure, to reward them for their frequent distresses.”
“The physician who collects his fee before his patient has quite recovered, does a wise thing, since it will be paid more promptly and more gratefully than after the recovery is complete.”
“Nervous organizations are rarely without reminders of trouble that they escape — their occasional wakefulness and indigestion, their headaches and backaches and neuralgias, their disagreeable susceptibility to all evil influences that may act on the constitution, keep them ever in sight of the possibility of wliat they might have been, and suggest to them sufferings that others endure, but from which they are spared.”
“While it is true that pain is more painful than its absence is agreeable, so that we think more of what is evil than of what is good in our environment, and dwell longer on the curses than the blessings of our lot, and fancy all others happier than ourselves, yet it is true likewise that our curses make the blessings more blissful by contrast”
“There are those who though never well are yet never sick, always in bondage to debility and pain, from which absolute escape is impossible, yet not without large liberty of labor and of thought” “Such persons may be exposed to every manner of poison, may travel far and carelessly with recklessness, even may disregard many of the prized rules of health; may wait upon and mingle with the sick, and breathe for long periods the air of hospitals or of fever-infested dwellings, and come out apparently unharmed.”
“This recuperative tendency of the nervous system is stronger, often-times, than the accumulating poison of disease, and overmasters the baneful effects of unwise medication and hygiene. Between the ages of 25 and 35, especially, the constitution often consolidates as well as grows, acquires power as well as size, and throws off, by a slow and invisible evolution, the subtile habits of nervous disease, over which treatment the most judicious and persistent seems to have little or no influence. There would appear to be organizations which at certain times of life must needs pass through the dark valley of nervous depression, and who cannot be saved therefrom by any manner of skill or prevision; who must not only enter into this valley, but, having once entered, cannot turn back: the painful, and treacherous, and agonizing horror, wisdom can but little shorten, and ordinary misdoing cannot make perpetual; they are as sure to come out as to go in; health and disease move in rhythm; the tides in the constitution are as demonstrable as the tides of the ocean, and are sometimes but little more under human control.” “It is an important consolation for those who are in the midst of an attack of sick-headache, for example, that the natural history of the disease is in their favor. In a few days at the utmost, in a few hours frequently, the storm will be spent, and again the sky will be clear, and perhaps far clearer than before the storm arose.” “nearly all severe pain is periodic, intermittent, rhythmical: the violent neuralgias are never constant, but come and go by throbs, and spasms, and fiercely-darting agonies, the intervals of which are absolute relief. After the exertion expended in attacks of pain, the tired nerve-atoms must need repose. Sometimes the cycles of debility, alternating with strength, extend through long years — a decade of exhaustion being followed by a decade of vigor.”
“There are those who pass through an infancy of weakness and suffering and much pain, and through a childhood and early manhood in which the game of life seems to be a losing one, to a healthy and happy maturity; all that is best in their organizations seems to be kept in reserve, as though to test their faith, and make the boon of strength more grateful when it comes.”
“Perfect health is by no means the necessary condition of long life; in many ways, indeed, it may shorten life; grave febrile and inflammatory diseases are invited and fostered by it, and made fatal, and the self-guarding care, without which great longevity is almost impossible, is not enforced or even suggested.” “Headaches, and backaches, and neuralgias, are safety-valves through which nerve-perturbations escape, and which otherwise might become centres of accumulated force, and break forth with destruction beyond remedy. The liability to sudden attacks of any form of pain, or distress, or discomfort, under overtoil or from disregard of natural law, is, so far forth, a blessing to its possessor, making imperative the need of foresight and practical wisdom in the management of health, and warning us in time to avoid irreparable disaster. The nervous man hears the roar of the breakers from afar, while the strong and phlegmatic steers boldly, blindly on, until he is cast upon the shore, often-times a hopeless wreck.”
A neurastenia também tem o nome de “cãibra do escritor”. No trecho a seguir, a referida “cãibra” está mais próxima de um surto neurastênico agudo, do qual, defende Beard, o ‘nervoso típico’ está protegido: “Those who are sensitive, and nervous, and delicate, whom every external or internal irritation injures, and who appreciate physical injury instantly, as soon as the exciting cause begins to act, cannot write long enough to get writer’s cramp; they are warned by uneasiness or pain, by weariness, local or general, and are forced to interrupt their labors before there has been time to receive a fixed or persistent disease.” “had they been feeble they would have been unable to persevere in the use of the pen so as to invite permanent nervous disorder.” “Without such warnings they might have continued in a life of excessive friction and exhausting worry, and never have suspected that permanent invalidism was in waiting for them, until too late to save themselves either by hygiene or medication. When a man is prostrated nervously, all the forces of nature rush to his rescue; but the strong man, once fully fallen, rallies with difficulty, and the health-evolving powers may find a task to which, aided or unaided, they are inadequate.”
The history of the world’s progress from savagery to barbarism, from barbarism to civilization, and, in civilization, from the lower degrees towards the higher, is the history of increase in average longevity, corresponding to and accompanied by increase of nervousness. Mankind has grown to be at once more delicate and more enduring, more sensitive to weariness and yet more patient of toil, impressible but capable of bearing powerful irritation: we are woven of finer fibre, which, though apparently frail, yet outlasts the coarser, as rich and costly garments often-times wear better than those of rougher workmanship.”
“Among our educated classes there are nervous invalids in large numbers, who have never known by experience what it is to be perfectly well or severely ill, whose lives have been not unlike a march through a land infested by hostile tribes, that ceaselessly annoy in front and on flank, without ever coming to a decisive conflict, and who, in advanced age, seem to have gained wariness, and toughness, and elasticity, by the long discipline of caution, of courage, and of endurance; and, after having seen nearly all their companions, whose strength they envied, struck down by disease, are themselves spared to enjoy, it may be, their best days, at a time when, to the majority, the grasshopper becomes a burden, and life each day a visibly losing conflict with death.” “the irritability, the sensitiveness, the capriciousness of the constitution, between the ages of 15 and 45, have, in a degree, disappeared, and the system has acquired a certain solidity, steadiness, and power; and thus, after a long voyage against opposing winds and fretting currents, they enter the harbor in calmness and peace.”
MEU SÉCULO ME IMPEDE DE COMPARTILHAR DESTE OTIMISMO: “It may be doubted whether, in the history of disease of any kind, there has been made so decided and so satisfactory an advance as has been made within the last quarter of a century, in the treatment of nervousness in its various manifestations.” “One great factor in the modern treatment of these functional nervous diseases is individualization, no two cases being treated precisely alike, but each one being studied by itself alone. Among wise physicians, the day for wholesale treatment of nervous diseases can never return. The result of all this progress is, that thousands who formerly would have suffered all their lives, and with no other relief except that which comes from the habitual addiction to narcotics, can now be cured, or permanently relieved, or at least put into working order where they are most useful and happy.” “if all new modes of action of nerve-force are to be so many added pathways to sorrow,—if each fresh discovery or invention is to be matched by some new malady of the nerves,—if insanity and epilepsy and neurasthenia, with their retinue of neuroses, through the cruel law of inheritance, are to be organized in families, descending in fiery streams throught the generations, we yet have this assurance,—that science, with keen eyes and steps that are not slow, is seeking and is finding means of prevention and of relief.”
5. PHYSICAL FUTURE OF THE AMERICAN PEOPLE [epílogo cagado e ‘poliânico’ totalmente desnecessário]
“This increase of neuroses cannot be arrested suddenly; it must yet go on for at least 25 or 50 years, when all of these disorders shall be both more numerous and more heterogenous than at present. But side by side with these are already developing signs of improved health and vigor that cannot be mistaken; and the time must come—not unlikely in the first half of the 20th century—when there will be a halt or retrograde movement in the march of nervous diseases, and while the absolute number of them may be great, relatively to the population, they will be less frequent than now; the evolution of health, and the evolution of nervousness, shall go on side by side.”
“Health is the offspring of relative wealth.” “febrile and inflammatory disorders, plagues, epidemics, great accidents and catastrophes even, visit first and last and remain longest with those who have no money.” “the absence of all but forced vacations—the result, and one of the worst results, of poverty—added to the corroding force of envy, and the friction of useless struggle,—all these factors that make up or attend upon simple want of money, are in every feature antagonistic to health and longevity. Only when the poor become absolute paupers, and the burden of life is taken from them and put upon the State or public charity, are they in a condition of assured health and long life.” “The inmates of our public institutions of charity of the modern kind are often the happiest of men, blessed with an environment, on the whole, far more salubrious than that to which they have been accustomed, and favorably settled for a serene longevity.” “For the same reasons, well-regulated jails are healthier than many homes, and one of the best prescriptions for the broken-down and distressed is for them to commit some crime.”
“A fat bank account tends to make a fat man; in all countries, amid all stages of civilization and semi-barbarism, the wealthy classes have been larger and heavier than the poor.” “In India this coincidence of corpulence and opulence has been so long observed that it is instinctively assumed; and certain Brahmins, it is said, in order to obtain the reputation of wealth, studiously cultivate a diet adapted to make them fat.”
“The majority of our Pilgrim Fathers in New England, and of the primitive settlers in the Southern and Middle States, really knew but little of poverty in the sense in which the term is here used. They were an eminently thrifty people, and brought with them both the habits and the results of thrift to their homes in the New World. Poverty as here described is of a later evolution, following in this country, as in all others, the pathway of a high civilization.”
“the best of all antidotes and means of relief for nervous disease is found in philosophy.” “Thus it is in part that Germany, which in scientific and philosophic discovery does the thinking for all nations, and which has added more to the world’s stock of purely original ideas than any other country, Greece alone excepted, is less nervous than any other nation; thus it is also that America, which in the same department has but fed on the crumbs that fall from Germany’s table, has developed a larger variety and number of functional nervous diseases than all other nations combined.”
“The capacity for growth in any given direction, physical or mental, is always limited; no special gift of body or mind can be cultivated beyond a certain point, however great the tenderness and care bestowed upon it.”
“In man, that higher operation of the faculties which we call genius is hereditary, transmissible, running through and in families as demonstrably as pride or hay-fever, the gifts as well as the sins of the fathers being visited upon the children and the children’s children; general talent, or some special talent, in one or both parents rises and expands in immediate or remote offspring, and ultimately flowers out into a Socrates, a Shakespeare, a Napoleon, and then falls to the ground”
“That a single family may rise to enduring prominence and power, it is needful that through long generations scores of families shall endure poverty and pain and struggle with cruel surroundings”
“The America of the future, as the America of the present, must be a nation where riches and culture are restricted to the few—to a body, however, the personnel of which is constantly changing.”
“Inebriety being a type of the nervous diseases of the family to which it belongs, may properly be here defined and differentiated from the vice and habit of drinking with which it is confounded. The functional nervous disease inebriety, or dipsomania, differs from the simple vice of drinking to excess in these respects:
(…)
The simple habit of drinking even to an extreme degree may be broken up by pledges or by word promises or by quiet resolution, but the disease inebriety can be no more cured in this way than can neuralgia or sick-headache, or neurasthenia, or hay-fever, or any of the family of diseases to which it belongs.
(…)
Of the nervous symptoms that precede, or accompany, or follow inebriety, are tremors, hallucinations, insomnia, mental depressions, and attacks of trance, to which I give the term alcoholic trance.
(…)
even drunkenness in a parent or grandparent may develop in children epilepsy or insanity, or neurasthenia or inebriety.
(…)
The attacks of inebriety may be periodical; they may appear once a month, and with the same regularity as chills and fever or sick-headache, and far more regularly than epilepsy, and quite independent of any external temptation or invitation to drink, and often–times are as irresistible and beyond the control of will as spasms of epilepsy or the pains of neuralgia or the delusions of insanity. Inebriety is not so frequent among the classes that drink excessively as among those who drink but moderately, although their ancestors may have been intemperate; it is most frequent in the nervous and highly organized classes, among the brain-workers, those who have lived indoors; there is more excessive drinking West and South than in the East, but more inebriety in the East.”
“probably no country outside of China uses, in proportion to population, so much opium as America, and as the pains and nervousness and debility that tempt to the opium habit are on the increase, the habit must inevitably develop more rapidly in the future than in the past; of hay-fever there must, in a not very distant time, be at least 100,000 cases in America, and in the 20th century hundreds of thousands of insane and neurasthenics.”
“There must be, also, an increasing number of people who cannot bear severe physical exercise. Few facts relating to this subject are more instructive than this — the way in which horseback-riding is borne by many in modern times. In our country, I meet with large numbers who cannot bear the fatigue of horseback-riding, which used to be looked upon — possibly is looked upon to-day — as one of the best forms of exercise, and one that is recommended as a routine by physicians who are not discriminating in dealing with nervously-exhausted patients.” “The greatest possible care and the best judgment are required in prescribing and adapting horseback-riding to nervous individuals of either sex; it is necessary to begin cautiously, to go on a walk for a few moments; and even after long training excess is followed by injury, in many cases.”
ANTIRRUBENISMO: “If either extreme is to be chosen, it is well, on the whole, to err on the side of rest rather than on the side of excess of physical exertion.”
“Why Education is behind other Sciences and Arts?Schools and colleges everywhere are the sanctuaries of medievalism, since their aim and their powers are more for retaining what has been discovered than for making new discoveries; consequently we cannot look to institutions or organizations of education for the reconstruction of that system by which they enslave the world and are themselves enslaved. It is claimed by students of Chinese character that that great nation has been kept stationary through its educational policy — anchored for centuries to competitive examinations which their strong nerves can bear while they make no progress. In a milder way, and in divers and fluctuating degrees, all civilized nations take their inspiration from China, since it is the office and life of teaching to look backward rather than forward; in the relations of men as in physics, force answers to force, and as the first, like the second childhood is always reactionary, a class of youths tend by their collective power to bring the teacher down more than he can lift them up. Only conservative natures are fond of teaching; organizations are always in the path of their own reconstruction; mediocrity begets mediocrity, attracts it, and is attracted by it. Whence all our institutions become undying centres of conservatism. The force that reconstructs an organization must come from outside the body that is to be reconstructed.”
“The Gospel of Rest.The gospel of work must make way for the gospel of rest. The children of the past generation were forced, driven, stimulated to work, and in forms most repulsive, the philosophy being that utility is proportioned to pain; that to be happy is to be doing wrong, hence it is needful that studies should not only be useless but repelling, and should be pursued by those methods which, on trial, proved the most distressing, wearisome, and saddening. That this philosophy has its roots in a certain truth psychology allows, but the highest wisdom points also to another truth, the need of the agreeable; our children must be driven from study and all toil, and in many instances coaxed, petted, and hired to be idle; we must drive them away from schools as our fathers drove them towards the schools; one must be each moment awake and alive and active, to keep a child from stealthily learning to read; our cleverest offspring loves books more than play, and truancies [matar aula] and physical punishments are far rarer than half a century ago.”
“From investigations at Darmstadt, Paris, and Neuremburg, Dr. Treichler concludes that one-third of the pupils suffer more or less from some form of headache. It is not probable that these headaches in children are the result purely of intellectual exertion, but of intellectual exertion combined with bad air, with the annoyances and excitements and worries, the wasting and rasping anxieties of school life.”
“Even studies that are agreeable and in harmony with the organs, and to which tastes and talents are irresistibly inclined, are pursued at an expenditure of force which is far too great for many nervously organized temperaments. I have lately had under my care a newly married lady who for some years has been in a state of neurasthenia of a severe character, and of which the exciting cause was devotion to music at home; long hours at the piano, acting on a neurasthenic temperament, given to her by inheritance, had developed morbid fears and all the array of nervous symptoms that cluster around them, so that despite her fondness for a favorite art she was forced to abandon it, and from that time was dated her improvement, though at the time that I was called in to see her she had yet a long way to travel before she would reach even approximate health.”
“The reconstruction of the principles of evidence, the primary need of all philosophy, which cannot much longer be delayed, is to turn nearly all that we call history into myth, and destroy and overthrow beyond chance of resurrection all but a microscopic fraction of the world’s reasoning. Of the trifle that is saved, the higher wisdom of coming generations will know and act upon the knowledge that a still smaller fraction is worthy of being taught, or even remembered by any human being.” A tragédia é que uma filosofia do conhecimento só pode vir depois da burra e didática memorização de fatos tão lineares quanto sem nexo. Ou seja: chega-se ao ideal da educação quando ela já está finalizada ou, antes, só se chega ao suposto ideal, descobrindo-se que o começo devera ter sido diferente, quando o começo se sedimentou. Pode-se ensinar certo, mas não se pode aprender certo!
“The fact that anything is known, and true and important for some is of itself no reason why all should know or attempt to know it”
“Our children are coaxed, cajoled, persuaded, enticed, bluffed, bullied, and driven into the study of ancient and modern tongues; though the greatest men in all languages, whose writings are the inspiration to the study of languages themselves knew no language but their own; and, in all the loftiest realms of human creative power the best work has been done, and is done today, by those who are mostly content with the language in which they were cradled.” “of all accomplishments, the ability to speak and write in many tongues is the poorest barometer of intellectual force, and the least satisfactory for happiness and practical use”
“Shakespeare, drilled in modern gymnasia and universities, might have made a fair school-master, but would have kept the world out of Hamlet and Othello.”
“Of the sciences multiplying everyday, but few are to be known by any one individual; he who has studied enough of the systematized knowledge of men, and looked far enough in various directions in which it leads to know which his tastes and environment best adapt him to follow, and who resolutely obeys his tastes, even in opposition to all teachers,(*) philosophers, and scholars, has won the battle of life” Mementos: Jabur, Edsono (um representante dos jornalistas e um dos pseudossociofiloepistemólogos)
“the study of the art of thinking, of the philosophy of reasoning, in mathematics, poetry, science, literature, or language, is the best exercise for those who would gain this mental discipline”
O coach está para para o acadêmico de hoje como os sofistas estavam para os filósofos jônicos e eleatas da Grécia Antiga: é um sintoma da crise e insustentabilidade desse modo de conhecimento, mas tampouco chega a lugar algum. Prenuncia um tipo de Sócrates que vem aí?
“In all spheres of thought, the most hospitable of intellects, the most generous in their welcome to new truths or dreams of truth are those who have once learned the great secret of life—how to forget.”
GUSMÓN: “Conscientious professors in colleges often-times exhort their graduates to keep up some of the studies of college life during the activity of years — if those graduates are ever to do much in the world, it is by doing precisely NOT what they are thus advised to do.”
ESPECIALISTA AGRAMATICAL: “The details of geography, of mathematics, and of languages, ancient as well as modern, of most of the sciences, ought, and fortunately are, forgotten almost as soon as learned, save by those who become life-experts in these special branches”
“The systems of Froebel and Pestalozzi, and the philosophy of Rousseau in his Émile, analyzed and formulated in physiological language is, in substance, that it costs less force and is more natural and easy to get into a house through the doors, than to break down the walls, or come through the roof, or climb up from the cellar. Modern education is burglary; we force ideas into the brain through any other pathway and every other way except the doors and windows, and then we are astonished that they are unwelcome and so quickly expelled.”
“they see with the mind’s eye, though we close their eyelids.”
“Medicine has been taught in all our schools in a way the most unphilosophical, and despite all the modifications and improvements of late years, by bedside teaching and operations and demonstrations, the system of medical education is in need of reconstruction from the foundation; it begins where it should end; it feeds the tree through the leaves and branches instead of through the roots; physiology itself is taught unphysiologically; the conventional, hereditary, orthodox style is, for the student to take systematic text-books, go through them systematically from beginning to end, and attend systematic lectures, reserving study at the bedside for the middle and later years of his study; the didactic instruction coming first, and the practical instruction and individual observation coming last. Psychology and experience require that this should be reversed; the first years of the medical student’s life should be given to the bedside, the laboratory and dissecting room, and the principles of systematic instruction should be kept for the last years, and then used very sparingly. The human mind does not work systematically, and all new truths enter most easily and are best retained when they enter in psychological order. System in text-books is a tax on the nerve-force, costly both of time and of energy, and it is only by forgetting what has been taught them in the schools that men even attain eminence in the practice of medicine.
The first lesson and the first hour of medical study should be at the bedside of the sick man; before reading a book or hearing a lecture, or even knowing of the existence of a disease, the student should see the disease, and then, after having seen it and been instructed in reference to it, his reading will be a thousand-fold more profitable than it would had he read first and seen the case afterwards. Every practitioner with any power of analyzing his own mental operations knows that his reading of disease is always more intelligent after he has had a case, or while he has a case under treatment under his own eyes, and he knows also that all his reading of abstract, systematic books is of but little worth to him when he meets his first case, unless he re-read, and if he do so, he will find that he has forgotten all he has read before, and he will find, also, that he never understood what he read, and perhaps thoroughly and accurately recited on examination. By this method one shall learn more what is worth learning of medicine in one month, than now we learn in a year, under the common system, and what is learned will be in hand and usable, and will be obtained at incommensurably less cost of energy, as well as of time. So-called <systematic instruction> is the most extravagant form of instruction and is really no instruction, since the information which it professes to give does not enter the brain of the student, though the words in which it is expressed may be retained, and recited or written out on examination. I read the other day an opening lecture by a professor in one of our chief medical schools.I noticed that the professor apologized for being obliged to begin with what was dry and uninteresting, but stated that in a systematic course it was necessary to do so. It will not be his fault only, but rather the fault of the machinery of which he is one of the wheels, if the students who listen to and take notes of and worry over his lecture, never know what he means; 5 minutes study of a case of rheumatism or an inflamed joint, under the aid of an expert instructor, will give a person more knowledge of inflammation, in relation to the practice of medicine, than a year of lectures on that subject.
I make particular reference to medical education, not because it is the leading offender, but because it has made greater progress, perhaps, than almost any other kind of modern education.” “and the time will come when men shall read with amusement and horror of intelligent, human, and responsible young men beginning a medical course by listening to systematic abstract lectures.” 140 anos e nada…
“In theological seminaries, students are warned about preaching, or speaking, or lecturing during their 1st or 2nd year, and tied and chained down to lectures and homiletics, and theology and history” Nothing David (or Solomon) would be good at…
“Aside from the study of language, which is a separate matter, the first day’s work in a theological school should be the writing or preparing a sermon, and homiletics should follow — not precede.”
“All languages should be learned as we learn our own language — not through grammars or dictionaries, but through conversation and reading, the grammars and dictionaries being reserved for a more advanced stage of investigation and for reference, just as in the language in which we were born.”
“I applaud the English because they boast of their ignorance of American geography; of what worth to them, of what worth to most of us whether Montana be in California, or Alaska be or be not the capital of Arizona?”
“The Harvard professor who says that when students enter his room his desire is, not to find out what they knew, but what they did not know, ought to have been born in the 20th century, and possibly in the 30th, for his philosophy is so sound and so well grounded psychology that he cannot hope to have it either received or comprehended in his lifetime; and the innovation that Harvard has just promised, of having the teacher recite and the pupils ask the questions, is one of the few gleams of light in the great darkness by which this whole subject of education has been enveloped.”
EDSONO’S EXQUISITE CLASS OF TORTURE (2009): “Lectures, except they be of a clinical sort [belo troca-trilho!], in which appeals are made to the senses, cost so much in nerve-force, in those that listen to them, that the world cannot much longer afford to indulge in them and the information they give is of a most unsatisfactory sort, since questioning, and interruption, and repetition, and reviewing are scarcely possible (…) The human brain is too feeble and limited an organ to catch a new idea when first stated, and if the idea be not new it is useless to state it.”
ServIce on dem and us
dire dim straits
a threat!
“One of the pleasantest memories in my life, is that, during my medical education, I did not attend one lecture out of 12 — save those of a clinical sort — that were delivered (brilliant and able as some of them were) in the college where I studied, and my regret is that the poverty of medical literature at that time compelled me to attend even those. All the long lectures in my academical course at the college were useful to me — and I think were useful to all my classmates — only by enforcing the necessity, and inspiring the habit of enduring passively and patiently what we know to be in all respects painful and pernicious, providing we have no remedy.”
“Original thinkers and discoverers, and writers are objects of increasing worry on the part of their relatives and friends lest they break down from overwork; whereas, it is not so much these great thinkers as the young school-girl or bank clerk that needs our sympathy.”
“In England during the last summer, I attempted, without any human beings on whom to experiment, to explain some of the theories and philosophies of trance before an audience composed of the very best physiologists and psychologists of Europe, and with no hetter success than at home. If I had had but one out of the 20 or 30 cases on whom I have lately experimented, to illustrate and enforce my views, there would have been, I am sure, no difficulty in making clear not only the facts, but what is of chief importance, the interpretation of the facts.”
“Modern competitive examinations are but slightly in advance of the system of recitations and lectures. They seem to have been invented by someone who wished to torture rather than benefit mankind, and whose philosophy was: whatever is disagreeable is useful, and that the temporary accumulation of facts is true wisdom, and an accurate measure of cerebral force.”
“Knowing by heart is not knowing at all” Montaigne
“the greatest fool may often pass the best examination [Exemplo contemporâneo: ‘Patrick Damascenos’ se tornando médicos diplomados por universidades federais – no mínimo os minions esquecem o que aprendem em História após 30 dias (‘conteúdo inútil’, etc.), embora apostilas do Sigma ou Galois nunca fossem lá muito confiáveis, para início de conversa…]; no wise man can always tell what he knows; ideas come by suggestion rather than by order; you must wait for their appearing at their own time and not at ours”“he who can always tell what he knows, knows little worth knowing.”
“The first signs of ascension, as of declension, in nations are seen in women.”
“palace cars and elevators and sewing machines are types of recent improvements that help to diminish the friction of modern life. Formerly [!!!] inventors increased the friction of our lives and made us nervous.” E que diabos eram palace cars?
“The Germanization of America — by which I mean the introduction through very extensive immigration, of German habits and character — is a phenomenon which can now be observed, even by the dullest and nearest-sighted, in the large cities of the Northern portion of our country.” O nazismo foi o último a chegar.
“tending to displace pernicious whiskey by less pernicious beer and wine, setting the example of coolness and calmness, which the nervously exhausted American very much needs.”
Tempos em que valia a pena se conservar: “We have been all English in our conservatism, a quality which has increased in proportion as we have gained anything of wealth or character or any manifestation of force whatsoever, that is worth preserving.” Hoje os americanos são azeitonas vencidas em conserva.
“after such a vacation one needed a vacation.”
“The nervousness of the third generation of Germans [?] is a fact that comes to my professional notice more and more.”
“Not only are the <ha, ha’s> [RONALDINHO SOCCER!], of which so much [mundial] SPORT was once made, heard much less frequently than formerly in public meetings, but there is a positive ease and attractiveness to very many of the English speakers in and out of Parliament, in the pulpit and on the platform, that is thoroughly American” “it was proved that if all the [congress] speakers continued to speak as often and as elaborately as they had been speaking, a number of years would be required before they could adjourn [se significa entrar em recesso ou perder a próxima eleição, deixo a critério do leitor de criptas!].”
“the forces that renovate and save are mightier far than the forces that emasculate and destroy.”
Não sei se chamo o comentário de genial ou estúpido: “The American race, it is said, is dying out; but there is no American race. Americans are the union of European races and peoples, as lakes are fed by many streams, and can only disappear with the exhaustion of its sources. Europe must die before America. In sections of America, as in New England, and in large cities, the number of children to a family in certain classes is too small for increase of population.” Uma eterna sucessão de sins e nãos no melhor estilo Cleber Machado!
Felizmente o Deus Europeu-Ocidental morreu e a Ásia com seu rostinho de beldade imortal de 20 aninhos vem aí…
“For social distancing to have reversed the epidemic in China, the effective reproduction number must have declined by at least 50-60%, assuming a baseline R0 [taxa de transmissibilidade do vírus – per capita] between 2 and 2.5. Through intensive control measures, Shenzhen was able to reduce the effective reproduction number by an estimated 85%. However, it is unclear how well these declines in R0 might generalize to other settings: recent data from Seattle suggests that the basic reproduction number has only declined to about 1.4, or by about 30-45% assuming a baseline R0 between 2 and 2.5. Furthermore, social distancing measures may need to last for months to effectively control transmission and mitigate the possibility of resurgence.”
“We used data from the United States to model betacoronavirus transmission in temperate regions and to project the possible dynamics of SARS-CoV-2 infection through the year 2025.”
“According to the best-fit model parameters, the R0 for HCoV-OC43 and HCoV-HKU1 varies between 1.7 in the summer and 2.2 in the winter and peaks in the 2nd week of January, consistent with the seasonal spline estimated from the data. Also in agreement with the findings of the regression model, the duration of immunity for both strains in the best-fit SEIRS model is about 45 weeks, and each strain induces cross-immunity against the other, though the cross-immunity that HCoV-OC43 infection induces against HCoV-HKU1 is stronger than the reverse.”
“Next, we incorporated a third betacoronavirus into the dynamic transmission model to represent SARS-CoV-2. We assumed a latent period of 4.6 days, and an infectious period of 5 days, informed by the best-fit values for the other betacoronaviruses. We allowed the cross immunities, duration of immunity, maximum R0, and degree of seasonal variation in R0 to vary. We assumed an establishment time of sustained transmission on 11 March 2020, when the World Health Organization declared the SARS-CoV-2 outbreak a pandemic and we varied the establishment time in a sensitivity analysis. For a representative set of parameter values, we measured annual SARS-CoV-2 infections and the peak annual SARS-CoV-2 prevalence through 2025. We summarized the post-pandemic SARS-CoV-2 dynamics into the categories of annual outbreaks, biennial outbreaks, sporadic outbreaks, or virtual elimination. Overall, shorter durations of immunity and smaller degrees of cross-immunity from the other betacoronaviruses were associated with greater total incidence of infection due to SARS-CoV-2, and autumn establishments and smaller seasonal fluctuations in transmissibility were associated with larger pandemic peak sizes.”
“SARS-CoV-2 can proliferate at any time of year”
“If immunity to SARS-CoV-2 is not permanent, it will likely enter into regular circulation
Much like pandemic influenza, many scenarios lead to SARS-CoV-2 entering into long-term circulation alongside the other human betacoronaviruses, possibly in annual, biennial, or sporadic patterns over the next five years.”
“High seasonal variation in transmission leads to smaller peak incidence during the initial pandemic wave but larger recurrent wintertime outbreaks”
“The R0 for influenza in New York declines in the summer by about 40%, while in Florida the decline is closer to 20%, which aligns with the estimated decline in R0 for HCoV-OC43 and HCoV-HKU1. A 40% summertime decline in R0 would reduce the unmitigated peak incidence of the initial SARS-CoV-2 pandemic wave. However, stronger seasonal forcing leads to a greater accumulation of susceptible individuals during periods of low transmission in the summer, leading to recurrent outbreaks with higher peaks in the post-pandemic period.”
“If immunity to SARS-CoV-2 is permanent, the virus could disappear for five or more years after causing a major outbreak”
“Low levels of cross immunity from the other betacoronaviruses against SARS-CoV-2 could make SARS-CoV-2 appear to die out, only to resurge after a few years”
“Pharmaceutical treatments and vaccines may require months to years to develop and test, leaving non-pharmaceutical interventions (NPIs) as the only immediate means of curbing SARS-CoV-2 transmission. Social distancing measures have been adopted in many countries with widespread SARS-CoV-2 transmission. The necessary duration and intensity of these measures has yet to be characterized. To address this, we adapted the SEIRS transmission model to capture moderate/mild/asymptomatic infections (95.6% of infections), infections that lead to hospitalization but not critical care (3.08% of infections), and infections that require critical care (1.32% of infections). We assumed the worst-case scenario of no cross-immunity from HCoV-OC43 and HCoV-HKU1 against SARS-CoV-2, which makes the SARS-CoV-2 model unaffected by the transmission dynamics of those viruses. Informed by the transmission model fits, we assumed a latent period of 4.6 days and an infectious period of 5 days, in agreement with estimates from other studies. The mean duration of non-critical hospital stay was 8 days for those not requiring critical care and 6 days for those requiring critical care, and the mean duration of critical care was 10 days. We varied the peak (wintertime) R0 between 2.2 and 2.6 and allowed the summertime R0 to vary between 60% (i.e. relatively strong seasonality) and 100% (i.e. no seasonality) of the wintertime R0, guided by the inferred seasonal forcing for HCoV-OC43 and HCoV-HKU1.”
“In the case of a 20-week period of social distancing with 60% reduction in R0, for example, the resurgence peak size was nearly the same as the peak size of the uncontrolled epidemic: the social distancing was so effective that virtually no population immunity was built.”
“Strong social distancing maintained a high proportion of susceptible individuals in the population, leading to an intense epidemic when R0 rises in the late autumn and winter. None of the one-time interventions was effective in maintaining the prevalence of critical cases below the critical care capacity.
Intermittent social distancing could prevent critical care capacity from being exceeded). Due to the natural history of infection, there is an approximately 3-week lag between the start of social distancing and the peak critical care demand. When transmission is seasonally forced, summertime social distancing can be less frequent than when R0 remains constant at its maximal wintertime value throughout the year. The length of time between distancing measures increases as the epidemic continues, as the accumulation of immunity in the population slows the resurgence of infection. Under current critical care capacities, however, the overall duration of the SARS-CoV-2 epidemic could last into 2022, requiring social distancing measures to be in place between 25% (for wintertime R0 = 2 and seasonality) and 75% (for wintertime R0= 2.6 and no seasonality) of that time. When the latent, infectious, and hospitalization periods are gamma-distributed [segundo uma constante, e não exponencialmente], incidence rises more quickly, requiring a lower threshold for implementing distancing measures (25 cases per 10,000 individuals for R0 = 2.2 in our model) and more frequent interventions.”
SERIAM NECESSÁRIOS MUITO MAIS DO QUE APENAS HOSPITAIS E LEITOS DE CAMPANHA: “Increasing critical care capacity allowed population immunity to be accumulated more rapidly, reducing the overall duration of the epidemic and the total length of social distancing measures.”
“The observation that strong, temporary social distancing can lead to especially large resurgences agrees with data from the 1918 influenza pandemic in the United States, in which the size of the autumn 1918 peak of infection was inversely associated with that of a subsequent winter peak after interventions were no longer in place.”
“Although disease dynamics may differ by age, we did not have sufficient data to parameterize an age-structured model. We also did not directly model any effect from the opening of schools, which could lead to an additional boost in transmission strength in the early autumn. The transmission model is deterministic, so it cannot capture the possibility of SARS-CoV-2 extinction. It also does not incorporate geographic structure, so the possibility of spatially heterogeneous transmission cannot be assessed. The construction of spatially explicit models will become more feasible as more data on SARS-CoV-2 incidence becomes available; these will help determine whether there are differences in seasonal forcing between geographic locations, as for influenza, and will also help to assess the possibility of epidemic extinction while accounting for re-introductions.”
“In a recent study, an estimated 4% of individuals with coronavirus sought medical care, and only a fraction of these were tested.”
“Our findings generalize only to temperate regions, comprising 60% of the world’s population, and the size and intensity of outbreaks could be further modulated by differences in average interpersonal contact rates by location and the timing and effectiveness of non-pharmaceutical and pharmaceutical interventions. The transmission dynamics of respiratory illnesses in tropical regions can be much more complex. However, we expect that if post-pandemic transmission of SARS-CoV-2 does take hold in temperate regions, there will also be continued transmission in tropical regions seeded by the seasonal outbreaks to the north and south. With such reseeding, long-term disappearance of any strain becomes less likely, but according to our model the effective reproductive number of SARS-CoV-2 remains below 1 during most of each period when that strain disappears, meaning that reseeding would shorten these disappearances only modestly.”
“While long-lasting immunity would lead to lower overall incidence of infection, it would also complicate vaccine efficacy trials by contributing to low case numbers when those trials are conducted, as occurred with Zika virus. In our assessment of control measures in the initial pandemic period, we assumed that SARS-CoV-2 infection induces immunity that lasts for at least 2 years, but social distancing measures may need to be extended if SARS-CoV-2 immunity wanes more rapidly. In addition, if serological data reveals the existence of many undocumented asymptomatic infections that lead to immunity, less social distancing may be required. Serology could also indicate whether cross-immunity exists between SARS-CoV-2, HCoV-OC43, and HCoV-HKU1, which could affect the post-pandemic transmission of SARS-CoV-2. We anticipate that such cross-immunity would lessen the intensity of SARS-CoV-2 outbreaks, though some speculate that antibody-dependent enhancement (ADE) induced by prior coronavirus infection may increase susceptibility to SARS-CoV-2 and exacerbate the severity of infection.”
“A vaccine would accelerate the accumulation of immunity in the population, reducing the overall length of the epidemic and averting infections that might have resulted in a need for critical care. Furthermore, if there have been many undocumented immunizing infections, the herd immunity threshold may be reached sooner than our models suggest. Still, SARS-CoV-2 has demonstrated an ability to challenge robust healthcare systems, and the development and widespread adoption of pharmaceutical interventions will take months at best, so a period of sustained or intermittent social distancing will almost certainly be necessary.”
“Less effective one-time distancing efforts may result in a prolonged single-peak epidemic, with the extent of strain on the healthcare system and the required duration of distancing depending on the effectiveness. Intermittent distancing may be required into 2022 unless critical care capacity is increased substantially or a treatment or vaccine becomes available.”
A decadência irá te exaltar, e o pai te derrubar. Talvez com pés chatos de barro te instalarás, estalarão teus ossos. As medidas horizontais da cruz são assimétricas. E seu comprimento (e cumprimento) são 7 anos. Após o quê…
Que o firmamento escureça, suma o dia e assome a noite!
Que os cometas, trazendo as mudanças do tempo e da matéria,
Ostentem e baloucem suas fogosas cabeleiras de cristal pelos céus,
E que com elas chicoteiem as estrelas de mau augúrio que revolvem o vácuo
E consentiram na morte de Henrique!
Rei Henrique Quinto, muito bom para viver tempo demais!
Nunca a Inglaterra entrou em luto tão cruento.”
“EXETER
(…)
What! shall we curse the planets of mishap
That plotted thus our glory’s overthrow?
Or shall we think the subtle-witted French
Conjurers and sorcerers, that afraid of him
By magic verses have contrived his end?”
“GLOUCESTER
The church! where is it? Had not churchmen pray’d,
His thread of life had not so soon decay’d:
None do you like but an effeminate prince,
Whom, like a school-boy, you may over-awe.”
“Henry the Fifth, thy ghost I invocate:
Prosper this realm, keep it from civil broils,
Combat with adverse planets in the heavens!
A for more glorious star thy soul will make
Than Julius Caesar or bright–”
“Awake, awake, English nobility!
Let not sloth dim your horrors new-begot:
Cropp’d are the flower-de-luces in your arms;
Of England’s coat one half is cut away.”
“BEDFORD
Me they concern; Regent I am of France.
Give me my steeled coat. I’ll fight for France.
Away with these disgraceful wailing robes!
Wounds will I lend the French instead of eyes,
To weep their intermissive miseries.”
“The Dauphin Charlies is crowned king of Rheims;
The Bastard of Orleans with him is join’d;
Reignier, Duke of Anjou, doth take his part;
The Duke of Alencon flieth to his side.”
“If Sir John Faltolfe had not play’d the coward:
He, being in the vaward, placed behind
With purpose to relieve and follow them,
Cowardly fled, not having struck one stroke.”
“Is Talbot slain? then I will slay myself,
For living idly here in pomp and ease,
Whilst such a worthy leader, wanting aid,
Unto his dastard foemen is betray’d.
O no, he lives; but is took prisoner,
And Lord Scales with him and Lord Hungerford:
Most of the rest slaughter’d or took likewise.”
“I’ll hale the Dauphin headlong from his throne:
His crown shall be the ransom of my friend”
“EXETER
To Eltham will I, where the young king is,
Being ordain’d his special governor,
And for his safety there I’ll best devise.
Exit”
“ALENCON
They want their porridge and their fat bull-beeves:
Either they must be dieted like mules
And have their provender tied to their mouths
Or piteous they will look, like drowned mice.”
“CHARLES
Let’s leave this town; for they are hare-brain’d slaves,
And hunger will enforce them to be more eager:
Of old I know them; rather with their teeth
The walls they’ll tear down than forsake the siege.
REIGNIER
I think, by some odd gimmors or device
Their arms are set like clocks, stiff to strike on;
Else ne’er could they hold out so as they do.
By my consent, we’ll even let them alone.”
“BASTARD OF ORLEANS
(…)
A holy maid hither with me I bring,
Which by a vision sent to her from heaven
Ordained is to raise this tedious siege
And drive the English forth the bounds of France.
The spirit of deep prophecy she hath,
Exceeding the 9 sibyls of old Rome:
What’s past and what’s to come she can descry.
Speak, shall I call her in? Believe my words,
For they are certain and unfallible.”
“Re-enter the BASTARD OF ORLEANS, with JOAN LA PUCELLE [JOANA A VIRGEM]”
“Dauphin, I am by birth a shepherd’s daughter
(…)
God’s mother deigned to appear to me
And in a vision full of majesty
Will’d me to leave my base vocation
And free my country from calamity:
Her aid she promised and assured success:
In complete glory she reveal’d herself;
And, whereas I was black and swart before,
With those clear rays which she infused on me
That beauty am I bless’d with which you see.
Ask me what question thou canst possible,
And I will answer unpremeditated:
My courage try by combat, if thou darest,
And thou shalt find that I exceed my sex.
Resolve on this, thou shalt be fortunate,
If thou receive me for thy warlike mate.”
“CHARLES
(…)
In single combat thou shalt buckle with me,
And if thou vanquishest, thy words are true;
Otherwise I renounce all confidence.”
“Stay, stay thy hands! thou art an Amazon
And figtest with the sword of Deborah.”
“I must not yield to any rites of love,
For my profession’s sacred from above;
When I have chased all thy foes from hence,
Then will I think upon a recompense.”
“Glory is like a circle in the water,
Which never ceaseth to enlarge itself
Till by broad spreading it disperse to nought.
With Henry’s death the English circle ends”
“CHARLES
Was Mahomet inspired with a dove?
Thou with an eagle art inspired then.
Helen, the mother of great Constantine,
Nor yet Saint Philip’s daughters, were like thee.
Bright star of Venus, fall’n down on the earth,
How may I reverently worship thee enough?”
“SALISBURY
Talbot, my life, my joy, again return’d!
How wert thou handled being prisoner?
Or by what means got’st thou to be released?
Discourse, I pritheee, on this turret’s top.”
“TALBOT
(…)
But, O! the treacherous Falstolfe wounds my heart,
Whom with my bare fists I would execute,
If I now had him brought into my power.”
“TALBOT
(…)
Pucelle or puzzel,¹ dolphin or dogfish,²
Your hearts I’ll stamp out with my horse’s heels,
And make a quagmire of your mingled brains.”
¹ Synonyms
² Very similar species of fish.
“TALBOT
(…)
Here, here she comes. I’ll have a bout with thee;
Devil or devil’s dam, I’ll conjure thee:
Blood will I draw on thee, thou art a witch,
And straightway give thy soul to him thou servest.”
“A witch, by fear, not force, like Hannibal,
Drives back our troops and conquers as she lists:
So bees with smoke and doves with noisome stench
Are from their hives and houses driven away.
They call’d us for our fierceness English dogs;
Now, like to whelps, we crying run away.”
“Sheep run not half so treacherous from the wolf,
Or horse or oxen from the leopard,
As you fly from your oft-subdued slaves.”
“Pucelle is enter’d into Orleans,
In spite of us or aught that we could do.
O, would I were to die with Salisbury!
The shame hereof will make me hide my head.
Exit TALBOT.”
“CHARLES
(…)
France, triumph in thy glorious prophetess!
Recover’d is the town of Orleans:
More blessed hap did ne’er befall our state.”
“CHARLES
‘Tis Joan, not we, by whom the day is won;
For which I will divide my crown with her,
And all the priests and friars in my real
Shall in procession sing her endless praise.
A statelier pyramis to her I’ll rear
Than Rhodope’s or Memphis’ ever was:
In memory of her when she is dead,
Her ashes, in an urn more precious
Than the rich-jewel’d of Darius,
Transported shall be at high festivals
Before the kings and queens of France.
No longer on Saint Denis will we cry,
But Joan la Pucelle shall be France’s saint.
Come in, and let us banquet royalli,
After this golden day of victory.
Flourish. Exeunt.”
“BEDFORD
Coward of France! how much he wrongs his fame,
Despairing of his own arm’s fortitude,
To join with witches and help of hell!”
“Enter the BASTARD OF ORLEANS, ALENCON, and REIGNIER, half ready, and half unready”
“TALBOT
(…) I muse we met not with the Dauphin’s grace,
His new-come champions, virtuous Joan of Arc,
Nor any of his false confederates.”
“I have heard it said, unbidden guests are often welcomest when they are gone.”
“LADY OF AUVERGNE
Is this the scourge of France?
Is this Talbot, so much fear’d aborad
That with his name the mothers still their babes?
I see report is fabulous and false:
I thought I should have seen some Hercules,
A second Hector, for his grim aspect,
And large proportion of his strong-knit limbs.
Alas, this is a child, a silly dwarf!
It cannot be this weak and writhled shrimp
Should strike such terror to his enemies.”
The truth appears so naked on my side that it was just contacted by Barely Legal to a session of photos.
“RICHARD PLANTAGENET
(…)
If he suppose that I have pleaded truth,
From off his brier pluck a white rose with me.
SOMERSET
Let him that is no coward nor no flatterer,
But dare maintain the party of the truth,
Pluck a red rose from off this thorn with me.
WARWICK
I love no colours, and without all colour
Of base insinuating flattery
I pluck this white rose with Plantagenet.”
(…)
VERNON
Stay, lords and gentlemen, and pluck no more,
Till you conclude that he upon whose side
The fewest roses are cropp’d from the tree
Shall yield the other in the right opinion.”
“SOMERSET
Prick not your finger as you pluck it off,
Lest bleeding you do paint the white rose red
And fall on my side so, against your will.”
“SOMERSET
(…)
Was not thy father, Richard Earl of Cambridge,
For treason executed in our late king’s days?
(…)
His trespass yet lives guilty in thy blood;
And, till thou be restored, thou art a yeoman.”
“PLANTAGENET
(…)
For your partaker Pole and you yourself,
I’ll note you in my book of memory,
To scourge you for this apprehension”
“Farewell, ambitious Richard.
Exit”
“WARWICK
(…)
And here I prophesy: this brawl to-day,
Grown to this faction in the Temple-garden,
Shall send between the red rose and the white
A thousand souls to death and deadly night.”
“MORTIMER
(…)
Poor gentleman! his wrong doth equal mine.
Since Henry Monmouth first began to reign,
Before whose glory I was great in arms,
This loathsome sequestration have I had:
And even since then hath Richard been obscured,
Deprived of honour and inheritance.
But now the arbitrator of despairs,
Just death, kind umpire of men’s miseries,
With sweet enlargement doth dismiss me hence:
I would his troubles likewise were expired,
That so he might recover what was lost.”
“MORTIMER
That cause, fair nephew, that imprison’d me
And hath detain’d me all my flowering youth
Within a loathsome dungeon, there to pine,
Was cursed instrument of his decease.
RICHARD PLANTAGENET
Discover more at large what cause that was,
For I am ignorant and cannot guess.”
“Henry IV, grandfather to this king,
Deposed his nephew Richard, Edward’s son,
The first-begotten and the lawful heir,
Of Edward king, the III of that descent:
During whose reign the Percies of the nort,
Finding his usurpation most unjust,
Endeavor’d my advancement to the throne:
The reason moved these warlike lords to this
Was, for that—young King Richard thus removed,
Leaving no heir begotten of his body—
I was the next by birth and parentage;
For my mother I derived am
From Lionel Duke of Clarence, the third son
To King Edward III: whereas he
From John of Gaunt doth bring his pedigree,
Being but IV of that heroic line.
But mark: as in this haughty attempt
They laboured to plant the rightful heir,
I lost my liberty and they their lives.
Long after this, when Henry V,
Succeeding his father Bolingbroke, did reign,
Thy father, Earl of Cambridge, then derived
From famous Edmund Langley, Duke of York,
Marrying my sister that thy mother was,
Again in pity of my hard distress
Levied an army, weening to redeem
And have install’d me in the diadem:
But, as the rest, so fell that noble earl
And was beheaded. Thus the Mortimers,
In whom the tide rested, were suppress’d.”
“With silence, newphew, be thou politic:
Strong-fixed is the house of Lancaster,
And like a mountain, not to be removed.”
“And prosperous be thy life in peace and war!
Dies”
“BISHOP OF WINCHESTER
Rome shall remedy this.
WARWICK
Roam thither, then.”
“SOMERSET
Methinks my lord should be religious
And know the office that belongs to such.
WARWICK
Methinks his lordship should be humbler;
if fitteth not a prelate so to plead.”
“KING HENRY VI
Uncles of Gloucester and of Winchester,
The special watchmen of our English weal,
I would prevail, if prayers might prevail,
To join your hearts in love and amity.
O, what a scandal is it to our crown,
That two such noble peers as ye should jar!
Believe me, lords, my tender years can tell
Civil dissension is a viperous worm
That gnaws the bowels of the commonwealth.”
“O, how this discord doth afflict my soul!
Can you, my Lord of Winchester, behold
My sighs and tears and will not once relent?
Who should be pitiful, if you be not?
Or who should study to prefer a peace.
If holy churchmen take delight in broils?”
“Fie, uncle Beaufort! I have heard you preach
That malice was a great an grievous sin;
And will not you maintain the thing you teadh,
But prove a chief offender in the same?”
“WARWICK
(…)
What, shall a child instruct you what to do?
BISHOP
Well, Duke of Gloucester, I will yield to thee;
Love for thy love and hand for hand I give.”
“KING HENRY VI
O, loving uncle, kind Duke of Gloucester,
How joyful am I made by this contract!
Away, my masters! trouble us no more”
“KING HENRY VI
(…)
Therefore, my loving lords, our pleasure is
That Richard be restored to his blood.
WARWICK
Let Tichard be restored to his blood;
So shall his father’s wrongs be recompensed.
BISHOP OF WINCHESTER
As will the rest, so willeth Winchester.”
“Rise Richard, like a true Plantagenet,
And rise created princely Duke of York.”
“SOMERSET
(Aside) Perish, base prince, ignoble Duke of York!”
GLOUCESTER
Now will it best avail your majesty
To cross the seas and to be crown’d in France:
The presence of a king engenders love
Amongst his subjects and his loyal friends,
As it disanimates his enemies.
KING HENRY VI
When Gloucester says the word, King Henry goes;
For friendly counsel cuts off many foes.”
“EXETER (Alone)
(…)
As fester’d members rot but by degree,
Till bones and flesh and sinews fall away,
So will this base and envious discord breed.
And now I fear that fatal prophecy
Which in the time of Henry V
Was in the mouth of every sucking babe;
That Henry born at Monmouth should win all
And Henry born at Windsor lose all:
Which is so plain that Exeter doth wish
His days may finish ere that hapless time.”
“Captain
Whither away, Sir John Fastolfe, in such haste?
FASTOLFE
Whither away! to save myself by flight:
We are like to have the overthrow again.
Captain
What! will you fly, and leave Lord Talbot?
FASTOLFE
Ay,
All the Talbots in the world, to save my life!
Exit”
“BURGUNDY
Either she hath bewitch’d me with her words,
Or nature makes me suddenly relent.”
POUCELLE
(…)
See, then, thou fight’st against thy countrymen
And joint’st with them will be thy slaughtermen.
Come, come, return; return, thou wandering lord:
Charles and the rest will take thee in their arms.”
BURGUNDY
(…)
So farewell, Talbot; I’ll no longer trust thee.”
“KING HENRY VI
Stain to thy countrymen, thou hear’st thy doom!
Be packing, therefore, thou that wast a knight:
Henceforth we banish thee, on pain of death.
Exist FASTOLFE”
“KING HENRY VI
Good Lord, what madness rules in brainsick men,
When for so slight and frivolous a cause
Such factious emulations shall arise!
Good cousins both, of York and Somerset,
Quiet yourselves, I pray, and be at peace.”
“KING HENRY VI
(…)
If they perceive dissension in our looks
And that within ourselves we disagree,
How will their grudging stomachs be provoked
To wilful disobedience, and rebel!
Beside, what infamy will there arise,
When foreign princes shall be certified
That for a toy, a thing of no regard,
King Henry’s peers and chief nobility
Destroy’d themselves, and lost the realm of France!
O, think upon the conquest of my father,
My tender years, and let us not forego
That for a trifle that was bought with blood
Let me be umpire in this doubtful strife.
I see no reason, If I wear this rose,
Putting on a red rose
That any should therefore be suspicious
I more incline to Somerset than York:
Both are my kinsmen, and I love them both
(…)
Cousin of York, we institute your grace
To be our regent in these parts of France:
And, good my Lord of Somerset, unite
Your troops of horsemen with his bands of foot
(…)
Go cheerfully together and digest.
Your angry choler on your enemies.”
“YORK
(…)–but let it rest;
Other affairs must now be managed.”
“EXETER
(…)
This jarring discord of nobility,
This shouldering of each other in the court,
This factious bandying of their favourites,
But that it doth pressage sine ukk event.
‘Tis much when sceptres are in children’s hands;
But more when envy breeds unkind division;
There comes the rain, there begins confusion.”
“YORK
O God, that Somerset, who in proud heart
Doth stop my cornets, were in Talbot’s place!
So should we save a valiant gentleman
By forfeiting a traitor and a coward.
Mad ire and wrarhful fury makes me weep,
That thus we die, while remiss traitors sleep.”
“WILLIAM LUCY
(…)
This 7 years did not Talbot see his son;
And now they meet where both their lives are done.”
“SOMERSET
It is too late; I cannot send them now:
This expedition was by York and Talbot
Too rashly plotted: all our general force
Might with a sally of the very town
Be buckled with: the over-daring Talbot
Hath sullied all his gloss of former honour
By this unheedful desperate, wild adventure:
York set him on to fight and die in shame,
That, Talbot dead, great York might bear the name.”
“LUCY
(…)
Orleans the Bastard, Charles, Burgundy,
Alencon, Reignier, compass him about,
And Talbot perisheth by your default.”
“SOMERSET
Come, go; I will dispatch the horsemen straight:
Within 6 hours they will be at his aid.
LUCY
Too late comes rescue: he is ta’en or slain;
For fly he could not, if he would have fled;
And fly would Talbot never, though he might.”
“Now thou art come unto a feast of death,
A terrible and unavoided danger:
Therefore, dear boy, mount on my swiftest horse;
And I’ll direct thee how thou shalt escape
By sudden fligh: come, dally not, be gone.”
“…O if you love my mother,
Dishonour not her honourable name,
To make a bastard and a slave of me!
The world will say, he is not Talbot’s blood,
That basely fled when noble Talbot stood.”
“You fled for vantage, everyone will swear;
But, if I bow, they’ll say it was for fear.”
“JOHN TALBOT
And shall my yout be guilty of such blame?
No more can I be sever’d from your side,
Than can yourself yourself in twain divide:
Stay, go, do what you will, the like do I;
For live I will not, if my father die.”
“Come, side by side together live and die.
And soul with soul from France to heaven fly.”
“And in that sea of blood my boy did drench
His over-mounting spirit, and there died,
My Icarus, my blossom, in his pride.”
“Now my old arms are young John Talbot’s grave.
Dies
Enter CHARLES, ALENCON, BURGUNDY, BASTARD OF ORLEANS, JOAN LA PUCELLE, and forces
CHARLES
Had York and Somerset brought rescue in,
We should have found a bloody day of this.”
“LUCY
(…)
O, were mine eyeballs into bullets turn’d,
That I in rage might shoot them at your faces!
O, that I could but call these dead to life!”
“GLOUCESTER
Beside, my lord, the sooner to effect
And surer bind this knot of amity,
The Earl of Armagnac, near knit to Charles,
A man of great authority in France,
Proffers his only daughter to your grace
In marriage, with a large and sumptuous dowry.
KING HENRY VI
Marriage, uncle! alas, my years are young!
And fitter is my study and my books
Than wanton dalliance with a paramour.
Yet call the ambassador”
O BISPO QUE VIROU CARDEAL:
“CARDINAL OF WINCHESTER
(Aside) Now Winchester will not submit, I trow,
Or be inferior to the proudest peer.
Humphrey of Gloucester, thou shalt well perceive
That, neither in birth or authority,
The bishop will be overborne by thee:
I’ll either make thee stoop and bend thy knee,
Or sack this country with a mutiny.
Exeunt”
“JOAN LA PUCELLE
Of all base passions, fear is most accursed.
Command the conquest, Charles, it shall be thine,
Let Henry fret and all the world repine.”
“O, hold me not with silence over-long!
Where I was wont to feed you with my blood,
I’ll lop a member off and give it you
In earnest of further benefit,
So you do condescend to help me now.
The fiends summoned by La Poucelle hang their heads
No hope to have redress? My body shall
Pay recompense, if you will grant my suit.
They shake their heads
Cannot my body nor blood-sacrifice
Entreat you to your wonted furtherance?
Then take my soul, my body, soul and all,
Before that England give the Franch the foil.
They depart.
See, they forsake me! Now the time is come
That France must vail her lofty-plumed crest
And let her head fall into England’s lap.
My ancient incantations are too weak,
And hell too strong for me to buckle with:
Now, France, thy glory droopeth to the dust.”
“YORK [pai do futuro RICHARD III]
Damsel of France, I think I have you fast:
Unchain your spirits now with spelling charms
And try if they can gain your liberty.
A goodly prize, fit for the devil’s grace!
See, how the ugly wench doth bend her brows,
As if with Circe she would change my shape!
JOAN LA PUCELLE
Changed to a worser shape thou canst not be.”
“SUFFOLK
Fond man, remember that thou hast a wife;
Then how can Margaret be thy paramour?
MARGARET, prisoner
I were best to leave him, for he will not hear.
SUFFOLK
There all is marr’d; there lies a cooling card.
MARGARET
He talks at random; sure, the man is mad.”
“SUFFOLK
I’ll win this Lady Margaret. For whom?
Why, for my king: tush, that’s a wooden thing!
MARGARET
He talks of wood: it is some carpenter.”
“…though her father be the King of Naples,
Duke of Anjou and Maine, yet iis he poor,
And our nobility will scorn the match.
(…)
It shall be so, disdain they ne’er so much.
Hery is youthful and will quickly yield.”
“To be a queen in bondage is more vile
Than is a slave in base servility;
For princes should be free.”
“See, Reignier, see, thy daughter prisoner!”
“…Now cursed be the time
Of thy nativity! I would the milk
Thy mother gave thee when thou suck’dst her breast,
Had been a little ratsbane for thy sake!
Or else, when thou didst keep my lambs a-field,
I wish some ravenous wolf had eaten thee!
Dost thou deny thy father, cursed drab?
O, burn her, burn her! hanging is too good.”
“No, misconceived! Joan of Arc hath been
A virgin from her tender infancy,
Chaste and immaculate in very thought;
Whose maiden blood, thus rigorously effused,
Will cry for vengeance at the gates of heaven.”
“WARWICK
(…)
Place barrels of pitch upon the fatal stake,
That so her torture may be shortened.”
“JOAN
(…)
I am with child, ye bloody homicides:
Murder not then the fruit within my womb,
Although ye hale me to a violent death.”
“YORK
She and the Dauphin have been juggling:
I did imagine what would be her refuge.
WARWICK
Well, go to; we’ll have no bastards live”
“JOAN
You are deceived; my child is none of his:
It was Alencon that enjoy’d my love.
YORK
Alencon! that notorious Machiavel!”
“JOAN
…I have deluded you:
‘Twas neither Charles nor yet the duke I named,
But Reignier, king of Naples, that prevail’d.
WARWICK
A married man! that’s most intolerable.
YORK
Why, here’s a girl! I think she knows not well,
There were so many, whom she may accuse.
WARWICK
It’s sign she hath been liberal and free.
YORK
And yet, forsooth, she is a virgin pure.”
“YORK
Is all our travail turn’d to this effect?
After the slaughter of so many peers,
So many captains, gentlemen and soldiers,
That in this quarrel have been overthrown
And sold their bodies for their country’s benefit,
Shall we at last conclude effeminate peace?”
“GLOUCESTER
So should I give consent to flatter sin.
You know, my lord, your higness is betroth’d
Unto another lady of esteem:
How shall we then dispense with that contract,
And not deface your honour with reproach?”
“Henry is able to enrich his queen
And not seek a queen to make him rich”
“SUFFOLK
Thus Suffolk hath prevail’d; and thus he goes,
As did the youthful Paris once to Greece,
With hope to find the like event in love,
But prosper better than the Trojan did.
Margaret shall now be queen, and rule the king;
But I will rule both her, the king and realm.
Exit
End of PART I”
“GLOUCESTER
(Reads) ‘Imprimis, it is agreed between the French
king Charles, and William de la Pole, Marquess of
Suffolk, ambassador for Henry King of England, that
the said Henry shall espouse the Lady Margaret,
daughter unto Reignier King of Naples, Sicilia and
Jerusalem, and crown her Queen of England ere the
30th of May next ensuing. Item, that the duchy
of Anjou and the county of Maine shall be released
and delivered to the king her father’–
(….)
CARDINAL
(Reads) ‘…and she sent over of the King of England’s own
proper cost and charges, without having any dowry.’”
“GLOUCESTER
(…)
O peers of England, shameful is this league!
Fatal this marriage, cancelling your fame,
Blotting your names from books of memory,
Razing the characters of your renown,
Defacing monuments of conquer’d France,
Undoing all, as all had never been!”
“WARWICK
(…)
Anjou and Maine! myself did win them both;
Those provinces these arms of mine did conquer:
And are the cities, that I got with wounds,
Delivered up again with peaceful words?
Mort Dieu!”
“YORK
(…)
I never read but England’s kings have had
Large sums of gold and dowries with their wives:
And our King Henry gives away his own,
To match with her that brings no vantages.”
“GLOUCESTER
My Lord of Winchester, I know your mind;
‘Its not my speeches that you do mislike,
But ‘tis my presence that doth trouble ye.
Rancour will out: proud prelate, in thy face
I see thy fury: if I longer stay,
We shall begin our ancient bickerings.
Lordings, farewell; and say, when I am gone,
I prophesied France will be lost ere long.”
“WARWICK
Unto the main! O father, Maine is lost;
That Maine which by main force Warwick did win,
And would have kept so long as breath did last!
Main chance, father, you meant; but I meant Maine,
Which I will win from France, or else be slain”
“YORK
(…)
The peers agreed, and Henry was well pleased
To change 2 dukedoms for a duke’s fair daughter.
I cannot blame them all: what is’t to them?
‘Tis thine they give away, and not their own.
Pirates may make cheap pennyworths of their pillage
And purchase friends and give to courtezans,
Still revelling like lords till all be gone
(…)
So York must sit and fret and bite his tongue,
While his own lands are bargain’d for and sold.
(…)
A day will come when York shall claim his own
(…)
And, when I spy advantage, claim the crown,
For that’s the golden mark I seek to hit:
Nor shall proud Lancaster (…) wear the diadem upon his head,
Whose church-like humours fits not for a crown.
(…) Then will I raise aloft the milk-white rose,
With whose sweet smell the air shall be perfumed”
“DUCHESS [esposa de GLOUCESTER]
What say’st thou, man? hast thou as yet conferr’d
With Margery Jourdain, the cunning witch,
With Roger Bolingbroke, the conjurer?
And will they undertake to do me good?”
“QUEEN MARGARET
Not all these lords do vex me half so much
As that proud dame, the lord protector’s wife.
She sweeps it through the court with troops of ladies,
More like an empress than Duke Humphrey’s wife:
Strangers in court do take her for the queen:
She bears a duke’s revenues on her back,
And in her heart she scorns our poverty”
“GLOUCESTER
Madam, the king is old enough himself
To give his censure: these are no women’s matters.
QUEEN MARGARET
If he be old enough, what needs your grace
To be protector of his excellence?
GLOUCESTER
Madam, I am protector of the realm;
And, at his pleasure, will resign my place.”
“SOMERSET
Thy sumptuous buildings and thy wife’s attire
Have cost a mass of public treasury.”
“DUCHESS
(…)
Could I come near your beauty with my nails,
I’d set my ten commandments in your face.”
“YORK
(…)
Edward III, my lords, had 7 sons:
The first, Edward the Black Prince, Prince of Wales;
The second, William of Hatfield, and the third,
Lionel Duke of Clarence: next to whom
Was John of Gaunt, the Duke of Lancaster;
The fifth was Edmund Langley, Duke of York;
The sixth was Thomas of Woodstock, Duke of Gloucester;
William of Windsor was the seventh and last.
Edward the Black Prince died before his father
And left behind him Richard, his only son,
Who after Edward III’s death reign’d as king;
Till Henry Bolingbroke, Duke of Lancaster,
The eldest son and heir of John of Gaunt,
Crown’d by the name of Henry IV,
Seized on the realm, deposed the rightful king,
Sent his poor queen to France, from whence she came,
And him to Pomfret; where, as all you know,
Harmless Richard was murder’d traitorously.”
WARWICK
Father, the duke hath told the truth:
Thus got the house of Lancaster the crown.”
“SALIBURY
But William of Hatfield died without an heir.
YORK
The third son, Duke of Clarence, from whose line
I claimed the crown, had issue, Philippe, a daughter,
Who married Edmund Mortimer, Earl of March:
Edmund had issue, Roger Earl of March;
Roger had issue, Edmund, Anne and Eleanor.”
SALISBURY
This Edmund, in the reign of Bolingbroke,
As I have read, laid claim unto the crown;
And, but for Owen Glendower, had been king,
Who kept him in captivity till he died.
But to the rest.
YORK
His eldest sister, Anne,
My mother, being heir unto the crown
Married Richard Earl of Cambridge; who was son
To Edmund Langley, Edward III’s fifth son.
By her I claim the kingdom: she was heir
To Roger Earl of March, who was the son
Of Edmund Mortimer, who married Philippe,
Sole daughter unto Lionel Duke of Clarence:
So, if the issue of the elder son
Succeed before the younger, I am king.
WARWICK
What plain proceeding is more plain than this?
Henry doth claim the crown from John of Gaunt,
The fourth son; York claims it from the third.
Till Lionel’s issue fails, his should not reign:
It fails not yet, but flourishes in thee
And in thy sons, fair slips of such a stock.
Then, father Salisbury, kneel we together;
And in this private plot be we the first
That shall salute our rightful sovereign
With honour of his birthright to the crown.
BOTH
Long live our sovereign Richard, England’s king!
YORK
We thank you, lords. But I am not your king
Till I be crown’d and that my sword be stain’d
With heart-blood of the house of Lancaster;
And that’s not suddenly to be perform’d,
But with advice and silent secrecy.”
“QUEEN MARGARET
(…)
Small curs are not regarded when thet grin;
But great men tremble when the lion roars;
And Humphrey is no little man in England.
First note that he is near you in descent”
“SUFFOLK
(…)
Smooth runs the water where the brook is deep;
And in his simple show he harbours treason.
The fox barks not when he would steal the lamb.”
“POST
Great lords, from Ireland am I come amain,
To signify that rebels there are up
And put the Englishman unto the sword:
Send succors, lords, and stop the rage betime,
Before the wound do grow uncurable;
For, being green, there is great hope of help.”
“Show me one scar character’d on thy skin:
Men’s flesh preserved so whole do seldom win.”
“YORK
(…)
My brain more busy than the labouring spider
Weaves tedious snared to trap mine enemies.”
“WARWICK
It is reported, mighty sovereign,
That good Duke Humphrey traitorously is murder’d
By Suffolk and the Cardinal Beaufort’s means.
The commons, like an angry hive of bees
That want their leader, scatter up and down
And care not who they sting in his revenge.
Myself have calm’d their spleenful mutiny,
Until they hear the order of his death.”
“Cardinal Beaufort is at point of death;
For suddenly a grievous sickness took him,
That makes him gasp and stare and catch the air,
Blaspheming God and cursing men on earth.”
“CADE
…there shall be no money;
all shall eat and drink on my score (…)
DICK
The first thing we do, let’s kill all the lawyers.”
“CADE
…he can speak French; and therefore he is a traitor.”
“SIR HUMPHREY
Herald, away; and throughout every town
Proclaim them traitors that are up with Cade;
That those which fly before the battle ends
May, even in their wives’ and children’s sight,
Be hang’d up for example at their doors:
And you that be the king’s friends, follow me.”
“All scholars, lawyers, courtiers, gentlemen,
They call false caterpillars, and intend their death.”
“Away, burn all the records of the realm: my mouth shall be the parliament of England.”
“Thou hast most traitorouslyy corrupted the youth of the realm in erecting a grammar school (…) It will be proved to thy face that thou hast men about thee usually talk of a noun and a verb, and such abominable words as no Christian ear can endure to hear.”
“Away with him, away with him! he speaks Latin.”
“HENRY VI
(…)
Was never subject long’d to be a king
As I do long and wish to be a subject.”
“Thus stands my state, ‘twixt Cade and York distress’d.
Like to a ship that, having ‘scaped a tempest,
Is straightway calm’d and boarded with a pirate:
But now is Cade drivan back, his men dispersed;
And now is York in arms to second him.”
“The head of Cade! Great God, how just art Thou!
O, let me view his visage, being dead,
That living wrought such exceeding trouble.
Tell me, my friend, art thou the man thant slew him?”
“YORK
(…)
King did I call thee? no, thou art not king,
Not fit to govern and rule multitudes,
Which darest not, no, nor canst not rule a traitor.
That head of thine doth not become a crown;
Thy hand is made to grasp a palmer’s staff,
And not to grace an awful princely sceptre.
That gold must round engirt these brows of mine,
Whose smile and frown, like to Achilles’ spear,
Is able with the change to kill and cure.
Here is a hand to hold a sceptre up
And with the same to act controlling laws.
Give place: by heaven, thou shalt rule no more
O’er him whom heaven created for thy ruler.”
“SALISBURY
My lord, I have consider’d with myself
The title of this most renowned duke;
And in my conscience do repute his grace
The rightful heir to England’s royal seat.”
“YOUNG CLIFFORD
(…) York not our old men spares;
No more will I their babes: tears virginal
Shall be to me even as the dew to fire,
And beauty that the tyrant oft reclaims
Shall to my flaming wrath be oil and flax.
Henceforth I will not have to do with pity:
Meet I an infant of the house of York,
Into as many gobbets will I cut it
As wild Medea young Absyrtus did:
In cruelty will I seek out my fame.”
“Priests pray for enemies, but princes kill.”
“WARWICK
(…)
Saint Alban’s battle won by famous York
Shall be eternized in all age to come.
Sound drums and trumpets, and to London all:
And more such days as these to us befall!
Exeunt”
“CLIFFORD
Patience is for poltroons, such as he:
He durst not sit there, had your father lived.
My gracious lord, here in the parliament
Let us assail the family of York.
NORTHUMBERLAND
Well hast thou spoken, cousin: be it so.
KING HENRY VI
Ah, know you not the city favours them,
And they have troops of soldiers at their beck?”
“KING HENRY VI
(…)
Cousin of Exeter, frowns, words and threats
Shall be the war that Henry means to use.
Thou factious Duke of York, descend my throne,
and kneel for grace and mercy at my feet;
I am thy sovereign.
YORK
I am thine.
EXETER
For shame, come down, he made thee Duke of York.
YORK
‘Twas my inheritance, as the earldom was.
EXETER
Thy father was a traitor to the crown.
WARWICK
Exeter, thou art a traitor to the crown
In following this usurping Henry.
CLIFFORD
Whom should he follow but his natural king?
WARWICK
True, Clifford; and that’s Richard Duke of York.
KING HENRY VI
And shall I stand, and thou sit in my throne?
YORK
It must and shall be so: content thyself.
WARWICK
Be Duke of Lancaster; let him be king.
WESTMORELAND
He is both king and Duke of Lancaster;
And that the Lord of Westmoreland shall maintain.
WARWICK
And Warwick shall disprove it. Your forget
That we are those which chased you from the field
And slew your fathers, and with colours spread
March’d through the city to the palace gates.
NORTHUMBERLAND
Yes, Warwick, I remember it to my grief;
And, by his soul, thou and thy house shall rue it.
WESTMORELAND
Plantagenet, of thee and these thy sons,
Thy kinsman and thy friends, I’ll have more lives
Than drops of blood were in my father’s veins.
CLIFFORD
Urge it no more; lest that, instead of words,
I send thee, Warwick, such messenger
As shall revenge his death before I stir.
WARWICK
Poor Clifford! how I scorn his worthless threats!
YORK
Will you we show our title to the crow?
If not, our swords shall plead it in the field.
KING HENRY VI
What title hast thou, traitor, to the crown?
Thy father was, as thou art, Duke of York;
Thy grandfather, Roger Mortimer, Earl of March:
I am the son of Henry V,
Who made the Dauphin and the French to stoop
And seidez upon their towns and provinces.
WARWICK
Talk not of France, sith thou hast lost it all.
KING HENRY VI
The lord protector lost it, and not I:
When I was crown’d I was but 9 months old.
RICHARD
You are old enough now, and yet, methinks, you lose.
Father, tear the crown from the usurper’s head.
EDWARD
Sweet father, do so; set it on your head.
MONTAGUE
Good brother, as thou lovest and honourest arms,
Let’s fight it out and not stand caviling thus.
RICHARD
Sound drums and trumpets, and the king will fly.
YORK
Sons, peace!
KING HENRY VI
Peace, thou! and give King Henry leave to speak.
WARWICK
Plantagenet shall speak first: hear him, lords;
And be you silent and attentive too,
For he that interrupts him shall not live.
KING HENRY VI
Think’st thou that I will leave my kingly throne,
Wherein my grandsire and my father sat?
No: first shall war unpeople this my realm;
Ay, and their colours, often borne in France,
And now in England to out heart’s great sorrow,
Shall be my winding-sheet. Why faint you, lords?
My title’s good, and better far than his.
WARWICK
Prove it, Henry, and thou shalt be king.
KING HENRY VI
Henry IV by conquest got the crown.
YORK
‘Twas by rebellion against the king.
KING HENRY VI
(Aside) I know not what to say; my title’s weak.—
Tell me, may not a king adopt an heir?
YORK
What then?
KING HENRY VI
An if he may, then am I lawful king;
For Richard, in the view of many lords,
Resign’d the crown to Henry IV,
Whose heir my father was, and I am his.
YORK
He rose against him, being his sovereign,
And made him to resign his crown perforce.
WARWICK
Suppose, my lords, he did it unconstrain’d,
Think you ‘itwere prejudicial to his crown?
EXETER
No; for he could not so resign his crown
Nut that the next heir should succeed and reign.
KING HENRY VI
Art thou against us, Duke of Exeter?
EXETER
His is the right, and therefore pardon me.
YORK
Why whisper you, my lords, and answer not?
EXETER
My conscience tells me he is lawful king.
KING HENRY VI
(Aside) All will revolt from me, and turn to him.
NORTHUMBERLAND
Plantagenet, for all the claim thou lay’st,
Think not that Henry shall be so deposed.
WARWICK
Deposed he shall be, in despite of all.
NORTHUMBERLAND
Thou art deceived: ‘tis not thy southern power,
Of Essex, Norfolk, Suffolk, nor of Kent,
Which makes thee thus presumptuous and proud,
Can set the duke up in despite of me.
CLIFFORD
King Henry, be thy title right or wrong,
Lord Clifford vows to fight in thy defence:
May that ground gape and swallow me alive,
Where I shall kneel to him that slew my father!
KING HENRY VI
O Clifford, how thy words revive my heart!
YORK
Henry of Lancaster, resign thy crown.
What mutter you, or what conspire you, lords?
WARWICK
Do right unto this princely Duke of York,
Or I will fill the house with armed men,
And over the chair of state, where now he sits,
Write up his title with usurping blood.
He stamps with his foot and the soldiers show themselves
KING HENRY Vi
My Lord of Warwick, hear me but one word:
Let me for this my life-time reign as king.
YORK
Confirm the crown to me and to mine heirs,
And thou shalt reign in quiet while thou livest.
KING HENRY VI
I am content: Richard Plantagenet,
Enjoy the kingdom after my decease.
CLIFFORD
What wrong is this unto the prince your son!
WARWICK
What good is this to England and himself!
WESTMORELAND
Base, fearful and despairing Henry!
CLIFFORD
How hast thou injured both thyself and us!
WESTMORELAND
I cannot stay to hear these articles.
NORTHUMBERLAND
Nor I.
CLIFFORD
Come, cousin, let us tell the queen these news.
WESTMORELAND
Farewell, faint-hearted and degenerate king,
In whose cold blood no spark of honour bides.
NORTHUMBERLAND
Be thou a prey unto the house of York,
And die in bands for this unmanly deed!
CLIFFORD
In dreadful war mayst thou be overcome,
Or live in peace abandon’d and despised!
Exeunt NORTHUMBERLAND, CLIFFORD and WESTMORELAND
WARWICK
Turn this way, Henry, and regard them not.
EXETER
They seek revenge and therefore will not yield.
KING HENRY VI
Ah, Exeter!
WARWICK
Why should you sigh, my lord?
KING HENRY VI
Not for myself, Lord Warwick, but my son,
Whom I unnaturally shall disinherit,
But be it as it may: I here entail
The crown to thee and to thine heirs for ever;
Conditionally, that here thou take an oath
To cease this civil war, and, whilst I live,
To honours me as thy king and sovereign,
And neither by treason nor hostility
To seek to put me down and reign thyself.
YORK
This oath I willingly take and will perform.
WARWICK
Long live King Henry! Plantagenet embrace him.
KING HENRY VI
And long live thou and these thy forward sons!
YORK
Now York and Lancaster are reconciled.
EXETER
Accursed be he that seeks to make them foes!
Sennet. Here they come down
YORK
Farewell, my gracious lord; I’ll to my castle.
WARWICK
And I’ll keep London with my soldiers.
NORFOLK
And I to Norfolk with my followers.
MONTAGUE
And I unto the sea from whence I came.
Exeunt YORK, EDWARD, EDMUND, GEORGE, RICHARD, WARWICK, NORFOLK, MONTAGUE, their Soldiers, and Attendants
KING HENRY VI
And I, with grief and sorrow, to the court.
Enter QUEEN MARGARET and PRINCE EDWARD
EXETER
Here comes the queen, whose looks bewray her anger:
I’ll steal away.
KING HENRY VI
Exeter, so will I.
QUEEN MARGARET
Nay, go not from me; I will follow thee.
KING HENRY VI
Be patient, gentle queen, and I will stay.
QUEEN MARGARET
Who can be patient in such extremes?
Ah, wretched man! would I had died a maid
And never seen thee, never borne thee son,
Seeing thou hast proved so unnatural a father
Hath he deserved to lose his birthright thus?
Hadst thou but loved him half so well as I,
Or felt that pain which I did for him once,
Or nourish’d him as I did with my blood,
Thou wouldst have left thy dearest heart-blood there,
Rather than have that savage duke thine heir
And disinherited thine only son.
PRINCE EDWARD
Father, you cannot disinherit me:
If you be king, why should not I succeed?
KING HENRY VI
Pardon me, Margaret; pardon me, sweet son:
The Earl of Warwick and the duke enforced me.
QUEEN MARGARET
Enforced thee! art thou king, and wilt be forced?
I shame to hear thee speak. Ah, timorous wretch!
Thou hast undone thyself, thy son and me;
And given unto the house of York such head
As thou shalt reign but by their sufferance.
To entail him and his heirs unto the crown,
What is it, but to make thy sepulchre
And creep into it far before thy time?
Warwick is chancellor and the lord of Calais;
Stern Falconbridge commands the narrow seas;
The duke is made protector of the realm;
And yet shalt thou be safe? such safety finds
The trembling lamb environed with wolves.
Had I been there, which am a silly woman,
The soldiers should have toss’d me on their pikes
Before I would have granted to that act.
But thou preferr’st thy life before thine honour:
And seeing thou dost, I here divorce myself
Both from thy table, Henry, and thy bed,
Until that act of parliament be repeal’d
Whereby my son is disinherited.
The northern lords that have forsworn thy colours
Will follow mine, if once they see them spread;
And spread they shall be, to thy foul disgrace
And utter ruin of the house of York.
Thus do I leave thee. Come, son, let’s away;
Our army is ready; come, we’ll after them.”
“EDWARD
(…)
By giving the house of Lancaster leave to breathe,
It will outrun you, father, in the end.
YORK
I took an oath that he sould quietly reign.
EDWARD
But for a kingdom any oath may be broken:
I would break a thousand oaths to reign one year.
“RICHARD
(…) And, father, do but think
How sweet a thing it is to wear a crown;
Within whose circuit is Elysium
And all that poets feign of bliss and joy.
Why do we finger thus? I cannot rest
Until the white rose that I wear be dyed
Even in the lukewarm blood of Henry’s heart.”
“Messenger
The queen with all the noerthern earls and lords
Intend here to besiege you in your castle
She is hard by with 20,000 men
(…)
JOHN MORTIMER
She shall not need, we’ll meet her in the field.
YORK
What, with 5,000 men?
RICHARD
Ay, with 500, father, for a need:
A woman’s general; what should we fear?
A march afar off
(…)
YORK
5 men to 20! Though the odds be great,
I doubt not, uncle, of our victory.
Many a battle have I won in France,
When as the enemy hath been 10 to 1:
Why should I not now have the like success?”
“Thy father slew my father. Therefore, die.
Stabs him.
Plantagenet! I come, Plantagenet!
And this thy son’s blood cleaving to my blade
Shall rust upon my weapon, till thy blood,
Congeal’d with this, do make me wipe off both.”
“YORK
(…)
My sons, God knows what hath bechanced them:
But this I know, they have demean’d themselves
Like men born to renown by life or death.
Three times did Richard make a lane to me.
And thrice cried <Courage, father! fight it out!>
And full as oft came Edward to my side,
With purple falchion, painted to the hilt
In blood of those that had encounter’d him:
And when the hardiest warriors did retire,
Richard cried <Charge! And give no foot of ground!>
And cried <A crown, or else a glorious tomb!
A scepter, or an earthly sepulchre!>
With this, we charged again: but, out, alas!
We bodged again; as I have seen a swan
With bootless labour swim against the tide
And spend her strength with over-matching waves.”
“NORTHUMBERLAND
Yield to our mercy, proud Plantagenet.
(…)
YORK
My ashes, as the phoenix, may bring forth
A bird that will revenge upon you all:
And in that hope I throw mine eyes to heaven,
Scorning whate’er you can afflict me with.
Why come you not? what! multitudes, and fear?”
“QUEEN MARGARET
Hold, valiant Clifford! for a thousand causes
I would prolong awhile the traitor’s life.
Wrath makes him deaf: speak thou, Northumberland.”
“What! was it you that would be England’s king?
Was’t you that revell’d in our parliament,
And made a preachment of your high descent?
Where are your mess of sons to back you now?
The wanton Edward, and the lusty George?
And where’s that valiant crook-back prodigy,
Dicky your boy, that with his grumbling voice
Was wont to cheer his dad in mutinies?
Or, with the rest, where is your darling Rutland?
Look, York: I stain’d this napkin with the blood
That valiant Clifford, with his rapier’s point,
Made issue from the bosom of the boy;
And if thine eyes can water for his death,
I give thee this to dry thy cheeks withal.
Alas poor York! But that I hate thee deadly,
I should lament thy miserable state.
I prithee, grieve, to make me merry, York.
What, hath thy fiery heart so parch’d thine entrails
That not a tear can fall for Rutland’s death?
Why art thou patient, man? thou shouldst be mad;
And I, to make thee mad, do mock thee thus.
Thou wouldst be fee’d, I see, to make me sport:
York cannot speak, unless he wear a crown.
A crown for York! and, lords, bow low to him:
Hold you his hands, whilst I do set it on.
Putting a paper crown on his head
Ay, marry, sir, now looks he like a king!
Ay, this is he that took King Henry’s chair,
And this is he was hid adopted heir.
But how is that great Plantagenet
Is crown’d so soon, and broke his solemn oath?
As I bethink me, you should not be king
Till our King Henry had shook hands with death.
And will you pale your head in Henry’s glory,
And rob his temples of the diadem,
Now in his life, against your holy oath?
O, ‘tis a fault too too unpardonable!
Off with the crown, and with the crown his head;
And, whilst we breathe, take time to do him dead.
CLIFFORD
That is my office, for my father’s sake.
QUEEN MARGARET
Nay, stay; lets hear the orisons he makes.
YORK
She-wolf of France, but worse than wolves of France,
Whose tongue more poisons than the adder’s tooth!
How ill-beseeming is it in thy sex
To triumph, like an Amazonian trull,
Upon their woes whom fortune captivates!
But that thy face is, vizard-like, unchanging,
Made impudent with use of evil deeds,
I would assay, proud queen, to make thee blush.
To tell thee whence thou camest, of whom derived,
Were shame enough to shame thee, wer thou not shameless.
Thy father bears the type of King of Naples,
Of both the Sicils and Jerusalem,
Yet not so wealthy as an English yeoman.
Hath that poor monarch taught thee to insult?
It needs not, nor it boots thee not, proud queen,
Unless the adage must be verified,
That beggars mounted run their horse to death.
‘Tis beauty that doth oft make women proud;
But, God he knows, thy share thereof is small:
‘Tis virtue that doth make them most admired;
The contrary doth make thee wonder’d at:
‘Tis government that makes them seem divine;
The want thereof makes thee abominable:
Thou art as opposite to every good
As the Antipodes are unto us,
Or as the south to the septentrion,
O tiger’s heart wrapt in a woman’s hide!
How couldst thou drain the life-blood of the child,
To bid the father wipe his eyes withal,
And yet be seen to bear a woman’s face?
Women are soft, mild, pitiful and flexible;
Thou stern, obdurate, flinty, rough, remorseless.
Bids’t thou me rage? why, now thou hast thy wish:
For raging wind blows up incessant showers,
And when the rage allays, the rain begins.
These tears are my sweet Rutland’s obsequies:
And every drop cries vengeance for his death,
‘Gaint thee, fell Clifford, and thee, false
Frenchwoman.”
“NORTHUMBERLAND
Had he been slaughter-man to all my kin,
I should not for my life but weep with him.
To see how inly sorrow gripes his soul.
QUEEN MARGARET
What, weeping-ripe, my Lord Northumberland?
Think but upon the wrong he did us all,
And that will quickly dry thy melting tears.”
CLIFFORD
Stabbing him
QUEEN MARGARET
Stabbing him
YORK
Open Thy gate of mercy, gracious God!
My soul flies through these wounds to seek out Thee.
Dies”
“Messenger
(…)
And after many scorns, many foul taunts,
They took his head, and on the gates of York
They set the same; and there it doth remain,
The saddest spectacle that e’er I view’d.”
“RICHARD
(…)
To weep is to make less the depth of grief:
Tears then for babes; blows and revenge for me
Richard, I bear thy name; I’ll venge thy death,
Or die renowned by attempting it.”
“WARWICK
(…)
Their power, I think, is 30,000 strong:
Now, if the help of Norfolk and myself,
With all the friends that thou, brave Earl of March,
Amongst the loving Welshmen canst procure,
Will but amount to 25,000,
Why, Via! to London will we march amain,
And once again bestride our foaming steeds,
And once again cry <Charge upon our foes!>
But never once again turn back and fly.”
“King Edward, valiant Richard, Montague,
Stay we no longer, dreaming of renown,
But sound the trumpets, and about our task.”
“CLIFFORD
(…)
Thou, being a king, blest with a goodly son,
Didst yield consent to disinherit him,
Which argued thee a most unloving father.
Unreasonable creatures feed their young;
And though man’s face be fearful to their eyes,
Yet, in protection of their tender ones,
Who hath not seen them, even with those wings
Which sometime they have used with fearful flight,
Make war with him that climb’d unto their nest,
Offer their own lives in their young’s defence?
For shame, my liege, make them your precedent!
Were it not pity that godly boy
Should lose his birthright by his father’s fault,
And long hereafter say unto his child,
<What my great-grandfather and his grandsire got
My careless father fondly gave away>?
Ah, what a shame were this! Look on the boy;
And let his manly face, which promiseth
Successful fortune, steel thy melting heart
To hold thine own and leave thine own with him.”
“HENRY VI
(…)
Ah, cousin York! would thy best friends did know
How it doth grieve me that thy head is here!”
“CLIFFORD
I would your highness would depart the field:
The queen hath best success when you are absent.”
PRINCE EDWARD PLANTAGENET X EDWARD THE USURPER’S SON
“RICHARD
Northumberland, I hold thee reverently.
Break off the parley; for scarce I can refrain
The execution of my big-swoln heart
Upon that Clifford, that cruel child-killer.
CLIFFORD
I slew thy father, call’st thou him a child?
RICHARD
Ay, like a dastard and a treacherous coward,
As thou didst kill our tender brother Rutland;
But ere sunset I’ll make thee curse the deed.”
“KING HENRY VI
(…)
O God! Methinks it were a happy life,
To be no better than a omely swain;
To sit upon a hill, as I do now,
To carve out dials quaintly, point by point,
Thereby to see the minutes how they run,
How many make the hour full complete;
How many hours bring about the day;
How many days will finish up the year.
How many years a mortal man may live.
When this is known, then to divide the times:
So many hours must I tend my flock;
So many hours must I take my rest;
So many hours must Iontemplate;
So many hours must I sport myself;
So many days my ewes have been with young;
So many weeks ere the poor fools will ean:
So many years ere I shall shear the fleece:
So minutes, hours, days, months, and years,
Pass’d over to the end they were created,
Would bring white hairs unto a quiet grave.
Ah, what a life were this! how sweet! how lovely!
Gives me not the hawthorn-bush a sweeter shade
To shepherds looking on their silly sheep,
Than doth a rich embroider’d canopy
To kings that fear their subjects’ treachery?
O, yes, it doth; a thousand-fold it doth.”
“O boy, thy father gave thee life too soon,
And hath nereft thee of thy life too late!”
“KING HENRY VI
(…)
The red rose and the white rose are on his face,
The fatal colours of our striving houses:
The one his purple blood right well resembles;
The other his pale cheeks, methinks, presenteth:
Wither one rose, and let the other flourish;
If you contend, a thousand lives must wither.
A son
How will my mother for a father’s death
Take on with me and ne’er be satisfied!
Father
How will my wife for slaughter of my son
Shed seas of tears and ne’er be satisfied!
KING HENRY VI
How will the country for these woful chances
Misthink the king and not be satisfied!”
“CLIFFORD
(…)
And, Henry, hadst thou sway’d as kings should do,
Or as thy father and his father did,
Giving no ground unto the house of York,
They never then had sprung like summer flies;
I and 10,000 in this luckless realm
Had left no mourning widows for our death;
And thou this day hadst kept thy chair in peace.”
“WARWICK
I think his understanding is bereft.
Speak, Clifford, dost thou know who speaks to thee?
Dark cloudy death o’ershades his beams of life,
And he nor sees nor hears us what we say.”
“WARWICK
Ay, but he’s dead: off with the traitor’s head,
And rear it in the place your father’s stands.
And now to London with triumphant march,
There to be crowned England’s royal king:
From whence shall Warwick cut the sea to France,
And ask the Lady Bona for thy queen:
So shalt thou sinew both these lands together;
And, having France thy friend, thou shalt not dread
The scatter’d foe that hopes to rise again;
For though they cannot greatly sting to hurt,
Yet look to have them buzz to offend thine ears.
First will I see the coronation;
And then to Brittany I’ll cross the sea,
To effect this marriage, so it please my lord.”
“[Soon to be coronated] EDWARD
(…)
Richard, I will create thee Duke of Gloucester,
And George, of Clarence: Warwick, as ourself,
Shall do and undo as him pleaseth best.”
“KING HENRY VI
(…)
No, Harry, Harry, ‘tis no land of thine;
Thy place is fill’d, thy sceptre wrung from thee,
Thy balm wash’d off wherewith thou wast anointed:
No bending knee will call thee Caesar now,
No humble suitors press to speak for right,
No, not a man comes for redress of thee;
For how can I help them, and not myself?”
“Let me embrace thee, sour adversity,
For wise men say it is the wisest course.”
“Ay, but she’s come to beg, Warwick to give;
She, on his left side, craving aid for Henry,
He, on his right, asking a wife for Edward.
She weeps, and says her Henry is deposed;
He smiles, and says his Edward is install’d;
That she, poor wretch, for grief can speak no more;
Whiles Warwick tells his title, smooths the wrong,
Inferreth arguments of mighty strength,
And in conclusion wins the king from her,
With promise of his sister, and what else,
To strengthen and support King Edward’s place.
O Margaret, thus ‘twill be; and thou, poor soul,
Art then forsaken, as thou went’st forlorn!”
“And men may talk of kings, and why not I?”
“Second Keeper
But, if thou be a king, where is thy crown?
KING HENRY VI
My crown is in my heart, not on my head;
Not decked with diamonds and Indian stones,
Nor to be seen: my crown is called content:
A crown it is that seldom kings enjoy.
Second Keeper
Well, if you be a king crown’d with content,
Your crown content and you must be contented
To go along with us; for as we think,
You are the king King Edward hath deposed;
And we his subjects sworn in all allegiance
Will apprehend you as his enemy.
KING HENRY VI
But did you never swear, and break an oath?”
“KING HENRY VI
Where did you dwell when I was King of England?
Second Keeper
Here in this country, where we now remain.
KING HENRY VI
I was anointed king at nine months old;
My father and my grandfather were kings,
And you were sworn true subjects unto me:
And tell me, then, have you not broke your oaths?”
“Ah, simple men, you know not what you swear!
Look, as I blow this feather from my face,
And as the air blows it to me again,
Obeying with my wind when I do blow,
And yielding to another when it blows,
Commanded always by the greater gust;
Such is the lightness of you common men.
But do not break your oaths; for of that sin
My mild entreaty shall not make you guilty.
Go where you will, the king shall be commanded;
And be you kings, command, and I’ll obey.”
“In God’s name, lead; your king’s name be obey’d:
And what God will, that let your king perform;
And what he will, I humbly yield unto.
Exeunt”
“GLOUCESTER [o novo título de Richard, ainda não Terceiro]
Your highness shall do well to grant her suit;
It were dishonour to deny it her.”
“KING EDWARD IV
Ay, but thou canst do what I mean to ask.
LADY GREY
Why, then I will do what your grace commands.
(…)
Why stops my lord, shall I not hear my task?
KING EDWARD IV
An easy task; ‘tis but to love a king.
LADY GREY
That’s soon perform’d, because I am a subject.”
“KING EDWARD IV
Why, then, thy husband’s lands I freely give thee.
LADY GREY
I take my leave with many thousand thanks.”
“KING EDWARD IV
Ay, but, I fear me, in another sense.
What love, think’st thou, I sue so much to get?
LADY GREY
My love till death, my humble thanks, my prayers;
That love which virtue begs and virtue grants.
KING EDWARD IV
No, by my troth, I did not mean such love.
LADY GREY
Why, then you mean not as I thought you did.
KING EDWARD IV
But now you partly may perceive my mind.
LADY GREY
My mind will never grant what I perceive
Your highness aims at, if I aim aright.
KING EDWARD IV
To tell thee plain, I aim to lie with thee.
LADY GREY
To tell you plain, I had rather lie in prison.
KING EDWARD IV
Why, then thou shalt not have thy husband’s lands.
LADY GREY
Why, then mine honesty shall be my dower;
For by that loss I will not purchase them.
KING EDWARD IV
Therein thou wrong’st thy children mightily.
LADY GREY
Herein your highness wrongs both them and me.
But, mighty lord, this merry inclination
Accords not with the sadness of my suit:
Please you dismiss me either with ‘ay’ or ‘no.’
KING EDWARD IV
Ay, if thou wilt say ‘ay’ to my request;
No if thou dost say ‘no’ to my demand.
LADY GREY
Then, no, my lord. My suit is at an end.”
“KING EDWARD IV
[Aside] Her looks do argue her replete with modesty;
Her words do show her wit incomparable;
All her perfections challenge sovereignty:
One way or other, she is for a king;
And she shall be my love, or else my queen.–
Say that King Edward take thee for his queen?
LADY GREY
‘Tis better said than done, my gracious lord:
I am a subject fit to jest withal,
But far unfit to be a sovereign.”
“I know I am too mean to be your queen,
And yet too good to be your concubine.”
“No more than when my daughters call thee mother.
Thou art a widow, and thou hast some children;
And, by God’s mother, I, being but a bachelor,
Have other some: why, ‘tis a happy thing
To be the father unto many sons.
Answer no more, for thou shalt be my queen.”
“Enter a Nobleman
Nobleman
My gracious lord, Henry your foe is taken,
And brought your prisoner to your palace gate.
KING EDWARD IV
See that he be convey’d unto the Tower:
And go we, brothers, to the man that took him,
To question of his apprehension.
Widow, go you along. Lords, use her honourably.
Exeunt all but GLOUCESTER”
“GLOUCESTER
(…)
And yet, between my soul’s desire and me–
The lustful Edward’s title buried–
Is Clarence, Henry, and his son young Edward,
And all the unlook’d for issue of their bodies
(…)
Why, then, I do but dream on sovereignty;
Like one that stands upon a promontory,
And spies a far-off shore where he would tread,
Wishing his foot were equal with his eye,
And chides the sea that sunders him from thence,
Saying, he’ll lade it dry to have his way:
So do I wish the crown, being so far off;
And so I chide the means that keeps me from it;
And so I say, I’ll cut the causes off,
Flattering me with impossibilities.
My eye’s too quick, my heart o’erweens too much,
Unless my hand and strength could equal them.
Well, say there is no kingdom then for Richard;
What other pleasure can the world afford?
I’ll make my heaven in a lady’s lap,
And deck my body in gay ornaments,
And witch sweet ladies with my words and looks.
O miserable thought! and more unlikely
Than to accomplish twenty golden crowns!
Why, love forswore me in my mother’s womb:
And, for I should not deal in her soft laws,
She did corrupt frail nature with some bribe,
To shrink mine arm up like a wither’d shrub;
To make an envious mountain on my back,
Where sits deformity to mock my body;
To shape my legs of an unequal size;
To disproportion me in every part,
Like to a chaos, or an unlick’d bear-whelp
That carries no impression like the dam.
And am I then a man to be beloved?
O monstrous fault, to harbour such a thought!
Then, since this earth affords no joy to me,
But to command, to cheque, to o’erbear such
As are of better person than myself,
I’ll make my heaven to dream upon the crown,
And, whiles I live, to account this world but hell,
Until my mis-shaped trunk that bears this head
Be round impaled with a glorious crown.
And yet I know not how to get the crown,
For many lives stand between me and home:
And I,–like one lost in a thorny wood,
That rends the thorns and is rent with the thorns,
Seeking a way and straying from the way;
Not knowing how to find the open air,
But toiling desperately to find it out,–
Torment myself to catch the English crown:
And from that torment I will free myself,
Or hew my way out with a bloody axe.
Why, I can smile, and murder whiles I smile,
And cry ‘Content’ to that which grieves my heart,
And wet my cheeks with artificial tears,
And frame my face to all occasions.
I’ll drown more sailors than the mermaid shall;
I’ll slay more gazers than the basilisk;
I’ll play the orator as well as Nestor,
Deceive more slily than Ulysses could,
And, like a Sinon, take another Troy.
I can add colours to the chameleon,
Change shapes with Proteus for advantages,
And set the murderous Machiavel to school.
Can I do this, and cannot get a crown?
Tut, were it farther off, I’ll pluck it down. Exit”
“KING LEWIS XI
(…)
Be plain, Queen Margaret, and tell thy grief;
It shall be eased, if France can yield relief.”
“Scotland hath will to help, but cannot help;
Our people and our peers are both misled,
Our treasures seized, our soldiers put to flight,
And, as thou seest, ourselves in heavy plight.”
“WARWICK
From worthy Edward, King of Albion,
My lord and sovereign, and thy vowed friend,
I come, in kindness and unfeigned love,
First, to do greetings to thy royal person;
And then to crave a league of amity;
And lastly, to confirm that amity
With a nuptial knot, if thou vouchsafe to grant
That virtuous Lady Bona, thy fair sister,
To England’s king in lawful marriage.
QUEEN MARGARET
[Aside] If that go forward, Henry’s hope is done.”
“QUEEN MARGARET
King Lewis and Lady Bona, hear me speak,
Before you answer Warwick. His demand
Springs not from Edward’s well-meant honest love,
But from deceit bred by necessity;
For how can tyrants safely govern home,
Unless abroad they purchase great alliance?
To prove him tyrant this reason may suffice,
That Henry liveth still: but were he dead,
Yet here Prince Edward stands, King Henry’s son.
Look, therefore, Lewis, that by this league and marriage
Thou draw not on thy danger and dishonour;
For though usurpers sway the rule awhile,
Yet heavens are just, and time suppresseth wrongs.”
“OXFORD
Why, Warwick, canst thou speak against thy liege,
Whom thou obeyed’st 36 years,
And not bewray thy treason with a blush?
WARWICK
Can Oxford, that did ever fence the right,
Now buckler falsehood with a pedigree?
For shame! leave Henry, and call Edward king.”
“No, Warwick, no; while life upholds this arm,
This arm upholds the house of Lancaster.
WARWICK
And I the house of York.”
“KING LEWIS XI
Then, Warwick, thus: our sister shall be Edward’s;
And now forthwith shall articles be drawn
Touching the jointure that your king must make,
Which with her dowry shall be counterpoised.
Draw near, Queen Margaret, and be a witness
That Bona shall be wife to the English king.”
“WARWICK
Henry now lives in Scotland at his ease,
Where having nothing, nothing can he lose.
And as for you yourself, our quondam queen,
You have a father able to maintain you;
And better ‘twere you troubled him than France.”
“KING LEWIS XI
What! has your king married the Lady Grey!
And now, to soothe your forgery and his,
Sends me a paper to persuade me patience?
Is this the alliance that he seeks with France?
Dare he presume to scorn us in this manner?
QUEEN MARGARET
I told your majesty as much before:
This proveth Edward’s love and Warwick’s honesty.
WARWICK
King Lewis, I here protest, in sight of heaven,
And by the hope I have of heavenly bliss,
That I am clear from this misdeed of Edward’s,
No more my king, for he dishonours me,
But most himself, if he could see his shame.
Did I forget that by the house of York
My father came untimely to his death?
Did I let pass the abuse done to my niece?
Did I impale him with the regal crown?
Did I put Henry from his native right?
And am I guerdon’d at the last with shame?
Shame on himself! for my desert is honour:
And to repair my honour lost for him,
I here renounce him and return to Henry.
My noble queen, let former grudges pass,
And henceforth I am thy true servitor:
I will revenge his wrong to Lady Bona,
And replant Henry in his former state.
QUEEN MARGARET
Warwick, these words have turn’d my hate to love;
And I forgive and quite forget old faults,
And joy that thou becomest King Henry’s friend.”
“…if King Lewis vouchsafe to furnish us
With some few bands of chosen soldiers,
I’ll undertake to land them on our coast
And force the tyrant from his seat by war.
‘Tis not his new-made bride shall succor him:
And as for Clarence, as my letters tell me,
He’s very likely now to fall from him,
For matching more for wanton lust than honour,
Or than for strength and safety of our country.”
“BONA
My quarrel and this English queen’s are one.”
“KING LEWIS XI
Then, England’s messenger, return in post,
And tell false Edward, thy supposed king,
That Lewis of France is sending over masquers
To revel it with him and his new bride:
Thou seest what’s past, go fear thy king withal.”
“Warwick,
Thou and Oxford, with 5,000 men,
Shall cross the seas, and bid false Edward battle;
And, as occasion serves, this noble queen
And prince shall follow with a fresh supply.
Yet, ere thou go, but answer me one doubt,
What pledge have we of thy firm loyalty?”
“KING LEWIS XI
Why stay we now? These soldiers shall be levied,
And thou, Lord Bourbon, our high admiral,
Shalt waft them over with our royal fleet.
I long till Edward fall by war’s mischance,
For mocking marriage with a dame of France.
Exeunt all but WARWICK
WARWICK
I came from Edward as ambassador,
But I return his sworn and mortal foe:
Matter of marriage was the charge he gave me,
But dreadful war shall answer his demand.
Had he none else to make a stale but me?
Then none but I shall turn his jest to sorrow.
I was the chief that raised him to the crown,
And I’ll be chief to bring him down again:
Not that I pity Henry’s misery,
But seek revenge on Edward’s mockery.
Exit”
“KING EDWARD IV
Suppose they take offence without a cause,
They are but Lewis and Warwick: I am Edward,
Your king and Warwick’s, and must have my will.
GLOUCESTER
And shall have your will, because our king:
Yet hasty marriage seldom proveth well.
KING EDWARD IV
Yea, brother Richard, are you offended too?
GLOUCESTER
Not I:
No, God forbid that I should wish them sever’d
Whom God hath join’d together; ay, and ‘twere pity
To sunder them that yoke so well together.”
“MONTAGUE
Yet, to have join’d with France in such alliance
Would more have strengthen’d this our commonwealth
‘Gainst foreign storms than any home-bred marriage.
HASTINGS
Why, knows not Montague that of itself
England is safe, if true within itself?
MONTAGUE
But the safer when ‘tis back’d with France.
HASTINGS
‘Tis better using France than trusting France:
Let us be back’d with God and with the seas
Which He hath given for fence impregnable,
And with their helps only defend ourselves;
In them and in ourselves our safety lies.”
“GLOUCESTER
(…)
…your bride you bury brotherhood.”
“KING EDWARD IV
(…)
Nay, whom they shall obey, and love thee too,
Unless they seek for hatred at my hands;
Which if they do, yet will I keep thee safe,
And they shall feel the vengeance of my wrath.
GLOUCESTER
[Aside] I hear, yet say not much, but think the more.”
“KING EDWARD IV
(…)
But say, is Warwick friends with Margaret?
Post
Ay, gracious sovereign; they are so link’d in friendship
That young Prince Edward marries Warwick’s daughter.”
“CLARENCE
Belike the elder; Clarence will have the younger.
Now, brother king, farewell, and sit you fast,
For I will hence to Warwick’s other daughter;
That, though I want a kingdom, yet in marriage
I may not prove inferior to yourself.
You that love me and Warwick, follow me.
Exit CLARENCE, and SOMERSET follows
GLOUCESTER
[Aside] Not I:
My thoughts aim at a further matter;
I stay not for the love of Edward, but the crown.”
“KING EDWARD IV
(…)
But, ere I go, Hastings and Montague,
Resolve my doubt. You twain, of all the rest,
Are near to Warwick by blood and by alliance:
Tell me if you love Warwick more than me?
If it be so, then both depart to him;
I rather wish you foes than hollow friends:
But if you mind to hold your true obedience,
Give me assurance with some friendly vow,
That I may never have you in suspect.
MONTAGUE
So God help Montague as he proves true!
HASTINGS
And Hastings as he favours Edward’s cause!
KING EDWARD IV
Now, brother Richard, will you stand by us?
GLOUCESTER
Ay, in despite of all that shall withstand you.
KING EDWARD IV
Why, so! then am I sure of victory.
Now therefore let us hence; and lose no hour,
Till we meet Warwick with his foreign power.
Exeunt”
“WARWICK
(…) welcome, sweet Clarence; my daughter shall be thine.
And now what rests but, in night’s coverture,
Thy brother being carelessly encamp’d,
His soldiers lurking in the towns about,
And but attended by a simple guard,
We may surprise and take him at our pleasure?
Our scouts have found the adventure very easy:
That as Ulysses and stout Diomede
With sleight and manhood stole to Rhesus’ tents,
And brought from thence the Thracian fatal steeds,
So we, well cover’d with the night’s black mantle,
At unawares may beat down Edward’s guard
And seize himself; I say not, slaughter him,
For I intend but only to surprise him.
You that will follow me to this attempt,
Applaud the name of Henry with your leader.
They all cry, ‘Henry!’”
“The drum playing and trumpet sounding, reenter WARWICK, SOMERSET, and the rest, bringing KING EDWARD IV out in his gown, sitting in a chair. RICHARD and HASTINGS fly over the stage”
“WARWICK
Ay, but the case is alter’d:
When you disgraced me in my embassade,
Then I degraded you from being king,
And come now to create you Duke of York.
Alas! how should you govern any kingdom,
That know not how to use ambassadors,
Nor how to be contented with one wife,
Nor how to use your brothers brotherly,
Nor how to study for the people’s welfare,
Nor how to shroud yourself from enemies?”
“WARWICK
Then, for his mind, be Edward England’s king:
Takes off his crown
But Henry now shall wear the English crown,
And be true king indeed, thou but the shadow.
My Lord of Somerset, at my request,
See that forthwith Duke Edward be convey’d
Unto my brother, Archbishop of York.
When I have fought with Pembroke and his fellows,
I’ll follow you, and tell what answer
Lewis and the Lady Bona send to him.
Now, for a while farewell, good Duke of York.
They lead him out forcibly”
“OXFORD
What now remains, my lords, for us to do
But march to London with our soldiers?
WARWICK
Ay, that’s the first thing that we have to do;
To free King Henry from imprisonment
And see him seated in the regal throne.
Exeunt”
“QUEEN ELIZABETH
Come, therefore, let us fly while we may fly:
If Warwick take us we are sure to die. Exeunt”
“WARWICK
Your grace hath still been famed for virtuous;
And now may seem as wise as virtuous,
By spying and avoiding fortune’s malice,
For few men rightly temper with the stars:
Yet in this one thing let me blame your grace,
For choosing me when Clarence is in place.
CLARENCE
No, Warwick, thou art worthy of the sway,
To whom the heavens in thy nativity
Adjudged an olive branch and laurel crown,
As likely to be blest in peace and war;
And therefore I yield thee my free consent.
WARWICK
And I choose Clarence only for protector.
KING HENRY VI
Warwick and Clarence give me both your hands:
Now join your hands, and with your hands your hearts,
That no dissension hinder government:
I make you both protectors of this land,
While I myself will lead a private life
And in devotion spend my latter days,
To sin’s rebuke and my Creator’s praise.
WARWICK
What answers Clarence to his sovereign’s will?
CLARENCE
That he consents, if Warwick yield consent;
For on thy fortune I repose myself.
WARWICK
Why, then, though loath, yet must I be content:
We’ll yoke together, like a double shadow
To Henry’s body, and supply his place;
I mean, in bearing weight of government,
While he enjoys the honour and his ease.
And, Clarence, now then it is more than needful
Forthwith that Edward be pronounced a traitor,
And all his lands and goods be confiscate.
CLARENCE
What else? and that succession be determined.
WARWICK
Ay, therein Clarence shall not want his part.
KING HENRY VI
But, with the first of all your chief affairs,
Let me entreat, for I command no more,
That Margaret your queen and my son Edward
Be sent for, to return from France with speed;
For, till I see them here, by doubtful fear
My joy of liberty is half eclipsed.
CLARENCE
It shall be done, my sovereign, with all speed.”
“GLOUCESTER
[Aside] But when the fox hath once got in his nose,
He’ll soon find means to make the body follow.”
“HASTINGS
Sound trumpet; Edward shall be here proclaim’d:
Come, fellow-soldier, make thou proclamation.
Flourish
Soldier
Edward the Fourth, by the grace of God, king of
England and France, and lord of Ireland, &c.
MONTAGUE [provavelmente erro tipográfico – SIR JOHN MONTGOMERY é o correto]
And whosoe’er gainsays King Edward’s right,
By this I challenge him to single fight.
Throws down his gauntlet
All
Long live Edward the Fourth!”
“KING HENRY VI
(…)
I have not been desirous of their wealth,
Nor much oppress’d them with great subsidies.
Nor forward of revenge, though they much err’d:
Then why should they love Edward more than me?
No, Exeter, these graces challenge grace:
And when the lion fawns upon the lamb,
The lamb will never cease to follow him.”
“KING EDWARD IV
Now, Warwick, wilt thou ope the city gates,
Speak gentle words and humbly bend thy knee,
Call Edward king and at his hands beg mercy?
And he shall pardon thee these outrages.
WARWICK
Nay, rather, wilt thou draw thy forces hence,
Confess who set thee up and pluck’d thee own,
Call Warwick patron and be penitent?
And thou shalt still remain the Duke of York.”
“GLOUCESTER
Come, Warwick, take the time; kneel down, kneel down:
Nay, when? strike now, or else the iron cools.
WARWICK
I had rather chop this hand off at a blow,
And with the other fling it at thy face,
Than bear so low a sail, to strike to thee.”
“GLOUCESTER
Two of thy name, both Dukes of Somerset,
Have sold their lives unto the house of York;
And thou shalt be the third if this sword hold.”
“CLARENCE
Father of Warwick, know you what this means?
Taking his red rose out of his hat
Look here, I throw my infamy at thee
I will not ruinate my father’s house,
Who gave his blood to lime the stones together,
And set up Lancaster. Why, trow’st thou, Warwick,
That Clarence is so harsh, so blunt, unnatural,
To bend the fatal instruments of war
Against his brother and his lawful king? Perhaps thou wilt object my holy oath:
To keep that oath were more impiety
Than Jephthah’s, when he sacrificed his daughter.
I am so sorry for my trespass made
That, to deserve well at my brother’s hands,
I here proclaim myself thy mortal foe,
With resolution, wheresoe’er I meet thee–
As I will meet thee, if thou stir abroad–
To plague thee for thy foul misleading me.
And so, proud-hearted Warwick, I defy thee,
And to my brother turn my blushing cheeks.
Pardon me, Edward, I will make amends:
And, Richard, do not frown upon my faults,
For I will henceforth be no more unconstant.”
“KING EDWARD IV
So, lie thou there: die thou, and die our fear;
For Warwick was a bug that fear’d us all.
Now, Montague, sit fast; I seek for thee,
That Warwick’s bones may keep thine company.
Exit”
“WARWICK
(…)
Lo, now my glory smear’d in dust and blood!
My parks, my walks, my manors that I had.
Even now forsake me, and of all my lands
Is nothing left me but my body’s length.
Why, what is pomp, rule, reign, but earth and dust?
And, live we how we can, yet die we must.”
“Thou lovest me not; for, brother, if thou didst,
Thy tears would wash this cold congealed blood
That glues my lips and will not let me speak.
Come quickly, Montague [Somerset], or I am dead.”
“KING EDWARD IV
Thus far our fortune keeps an upward course,
And we are graced with wreaths of victory.
But, in the midst of this bright-shining day,
I spy a black, suspicious, threatening cloud,
That will encounter with our glorious sun,
Ere he attain his easeful western bed:
I mean, my lords, those powers that the queen
Hath raised in Gallia have arrived our coast
And, as we hear, march on to fight with us.”
“GLOUCESTER
The queen is valued 30,000 strong,
And Somerset, with Oxford fled to her:
If she have time to breathe be well assured
Her faction will be full as strong as ours.”
“QUEEN MARGARET
(…)
What though the mast be now blown overboard,
The cable broke, the holding-anchor lost,
And half our sailors swallow’d in the flood?
Yet lives our pilot still. Is’t meet that he
Should leave the helm and like a fearful lad
With tearful eyes add water to the sea
And give more strength to that which hath too much,
Whiles, in his moan, the ship splits on the rock,
Which industry and courage might have saved?
(…)
Why, is not Oxford here another anchor?
And Somerset another goodly mast?
The friends of France our shrouds and tacklings?
And, though unskilful, why not Ned and I
For once allow’d the skilful pilot’s charge?
We will not from the helm to sit and weep,
But keep our course, though the rough wind say no,
From shelves and rocks that threaten us with wreck.
As good to chide the waves as speak them fair.
And what is Edward but ruthless sea?
What Clarence but a quicksand of deceit?
And Richard but a ragged fatal rock?
All these the enemies to our poor bark.
Say you can swim; alas, ‘tis but a while!
Tread on the sand; why, there you quickly sink:
Bestride the rock; the tide will wash you off,
Or else you famish; that’s a threefold death.
This speak I, lords, to let you understand,
In case some one of you would fly from us,
That there’s no hoped-for mercy with the brothers
More than with ruthless waves, with sands and rocks.
Why, courage then! what cannot be avoided
‘Twere childish weakness to lament or fear.”
“SOMERSET
And he that will not fight for such a hope.
Go home to bed, and like the owl by day,
If he arise, be mock’d and wonder’d at.”
“KING EDWARD IV
Now here a period of tumultuous broils.
Away with Oxford to Hames Castle straight:
For Somerset, off with his guilty head.
Go, bear them hence; I will not hear them speak.”
“KING EDWARD IV
Bring forth the gallant, let us hear him speak.
What! can so young a thorn begin to prick?
Edward, what satisfaction canst thou make
For bearing arms, for stirring up my subjects,
And all the trouble thou hast turn’d me to?
PRINCE EDWARD
Speak like a subject, proud ambitious York!
Suppose that I am now my father’s mouth;
Resign thy chair, and where I stand kneel thou,
Whilst I propose the selfsame words to thee,
Which traitor, thou wouldst have me answer to.
QUEEN MARGARET
Ah, that thy father had been so resolved!”
“QUEEN MARGARET
Ay, thou wast born to be a plague to men.
GLOUCESTER
For God’s sake, take away this captive scold.
PRINCE EDWARD
Nay, take away this scolding crookback rather.
KING EDWARD IV
Peace, wilful boy, or I will charm your tongue.
CLARENCE
Untutor’d lad, thou art too malapert.
PRINCE EDWARD
I know my duty; you are all undutiful:
Lascivious Edward, and thou perjured George,
And thou mis-shapen Dick, I tell ye all
I am your better, traitors as ye are:
And thou usurp’st my father’s right and mine.”
“QUEEN MARGARET
O, kill me too!
GLOUCESTER
Marry, and shall.
Offers to kill her
KING EDWARD IV
Hold, Richard, hold; for we have done too much.
GLOUCESTER
Why should she live, to fill the world with words?
KING EDWARD IV
What, doth she swoon? use means for her recovery.”
“QUEEN MARGARET
O Ned, sweet Ned! speak to thy mother, boy!
Canst thou not speak? O traitors! murderers!
They that stabb’d Caesar shed no blood at all,
Did not offend, nor were not worthy blame,
If this foul deed were by to equal it:
He was a man; this, in respect, a child:
And men ne’er spend their fury on a child.
What’s worse than murderer, that I may name it?
No, no, my heart will burst, and if I speak:
And I will speak, that so my heart may burst.
Butchers and villains! bloody cannibals!
How sweet a plant have you untimely cropp’d!
You have no children, butchers! if you had,
The thought of them would have stirr’d up remorse:
But if you ever chance to have a child,
Look in his youth to have him so cut off
As, deathmen, you have rid this sweet young prince!”
“What, wilt thou not? Where is that devil’s butcher,
Hard-favour’d Richard? Richard, where art thou?
Thou art not here: murder is thy alms-deed;
Petitioners for blood thou ne’er put’st back.”
“KING HENRY VI
(…)
‘Good Gloucester’ and ‘good devil’ were alike,
And both preposterous; therefore, not ‘good lord’.
GLOUCESTER
Sirrah, leave us to ourselves: we must confer.
Exit Lieutenant”
“KING HENRY VI
I, Daedalus; my poor boy, Icarus;
Thy father, Minos, that denied our course;
The sun that sear’d the wings of my sweet boy
Thy brother Edward, and thyself the sea
Whose envious gulf did swallow up his life.
Ah, kill me with thy weapon, not with words!
My breast can better brook thy dagger’s point
Than can my ears that tragic history.
But wherefore dost thou come? is’t for my life?
GLOUCESTER
Think’st thou I am an executioner?
KING HENRY VI
A persecutor, I am sure, thou art:
If murdering innocents be executing,
Why, then thou art an executioner.
GLOUCESTER
Thy son I kill’d for his presumption.
KING HENRY VI
Hadst thou been kill’d when first thou didst presume,
Thou hadst not lived to kill a son of mine.
And thus I prophesy, that many a thousand,
Which now mistrust no parcel of my fear,
And many an old man’s sigh and many a widow’s,
And many an orphan’s water-standing eye–
Men for their sons, wives for their husbands,
And orphans for their parents timeless death–
Shall rue the hour that ever thou wast born.
The owl shriek’d at thy birth,–an evil sign;
The night-crow cried, aboding luckless time;
Dogs howl’d, and hideous tempest shook down trees;
The raven rook’d her on the chimney’s top,
And chattering pies in dismal discords sung.
Thy mother felt more than a mother’s pain,
And, yet brought forth less than a mother’s hope,
To wit, an indigested and deformed lump,
Not like the fruit of such a goodly tree.
Teeth hadst thou in thy head when thou wast born,
To signify thou camest to bite the world:
And, if the rest be true which I have heard, Thou camest—
GLOUCESTER
I’ll hear no more: die, prophet in thy speech:
Stabs him
For this amongst the rest, was I ordain’d.
KING HENRY VI
Ay, and for much more slaughter after this.
God forgive my sins, and pardon thee!
Dies”
“I, that have neither pity, love, nor fear.
Indeed, ‘tis true that Henry told me of;
For I have often heard my mother say
I came into the world with my legs forward:
Had I not reason, think ye, to make haste,
And seek their ruin that usurp’d our right?
The midwife wonder’d and the women cried
<O, Jesus bless us, he is born with teeth!>
And so I was; which plainly signified
That I should snarl and bite and play the dog.
Then, since the heavens have shaped my body so,
Let hell make crook’d my mind to answer it.
I have no brother, I am like no brother;
And this word ‘love’, which graybeards call divine,
Be resident in men like one another
And not in me: I am myself alone.
Clarence, beware; thou keep’st me from the light:
But I will sort a pitchy day for thee;
For I will buz abroad such prophecies
That Edward shall be fearful of his life,
And then, to purge his fear, I’ll be thy death.
King Henry and the prince his son are gone:
Clarence, thy turn is next, and then the rest,
Counting myself but bad till I be best.
I’ll throw thy body in another room
And triumph, Henry, in thy day of doom.
Exit, with the body”
“KING EDWARD IV
(…)
What valiant foemen, like to autumn’s corn,
Have we mow’d down, in tops of all their pride!
Three Dukes of Somerset, threefold renown’d
For hardy and undoubted champions;
Two Cliffords, as the father and the son,
And two Northumberlands; two braver men
Ne’er spurr’d their coursers at the trumpet’s sound;
With them, the two brave bears, Warwick and Montague,
That in their chains fetter’d the kingly lion
And made the forest tremble when they roar’d.
Thus have we swept suspicion from our seat
And made our footstool of security.
Come hither, Bess, and let me kiss my boy.
Young Ned, for thee, thine uncles and myself
Have in our armours watch’d the winter’s night,
Went all afoot in summer’s scalding heat,
That thou mightst repossess the crown in peace;
And of our labours thou shalt reap the gain.
GLOUCESTER
[Aside] I’ll blast his harvest, if your head were laid;
For yet I am not look’d on in the world.
This shoulder was ordain’d so thick to heave;
And heave it shall some weight, or break my back:
Work thou the way,–and thou shalt execute.”
“CLARENCE
What will your grace have done with Margaret?
Reignier, her father, to the king of France
Hath pawn’d the Sicils and Jerusalem,
And hither have they sent it for her ransom.”
“KING EDWARD IV
(…)
And now what rests but that we spend the time
With stately triumphs, mirthful comic shows,
Such as befits the pleasure of the court?
Sound drums and trumpets! farewell sour annoy!
For here, I hope, begins our lasting joy. Exeunt”
“El problema de la preferencia (o de la proairesis para los griegos) es un problema candente, por el cual se suele mostrar demasiado poco interés.” Em síntese, o problema monumental para o qual as massas não estão maduras (talvez jamais estejam): a relatividade e o absoluto envolvidos no <gosto>.
A supostamente utópica ou impossível DISCUSSÃO DO GOSTO após a Metafísica.
“Até que ponto e mediante que meios é possível determinar as razões primordiais que me permitem considerar algo como preferível e atribuir um significado a tal preferência?”
Superioridade intrínseca e escala de valores.
Outridade
“mosaico de opções”
“Que peso tem a preferência do indivíduo contra a das massas?”
Se não se pode discutir a arte, não se pode discutir mais nada.
Hume (Of the standard of taste), ensaísta e crítico do lado de lá (metafísico): a moral bíblico-alcorânica e o drama sanguinolento são inaceitáveis.
Zeitgeist da aletheia e do Belo.
SEMÂNTICA AUTOGENÉTICA: Fragmentação pós-moderna. Morte da Zeitgeist. Coabitação virtual de todas as Zeitgeister no mesmo indivíduo. Fim de um ciclo milenar e início do IMPÉRIO DA ESQUIZOFRENIA, que não sabemos quanto tempo durará.
“a necessidade de restabelecer, com critérios diferentes, um critério valorativo [valor dos valores] para aplicação aos fenômenos da vida, da arte e da sociedade.”
“as enquetes de Kinsey, método contestável”
“Vejamos alguns exemplos de vanguardas artísticas consideradas escandalosas quando apareceram: 1) numa galeria romana, o pintor Kounellis apresentou o quadro de uma mulher grávida, nua, por cujo ventre passeavam algumas baratas; 2) o artista americano Acconci, em NY, apresentava-se confinado em uma cabine estreita de madeira dentro da qual se entregava à masturbação; 3) na exposição Documenta de Kassel (1972), o romano Vettor Pisani expôs uma mulher nua (que vinha a ser sua irmã), cujo pescoço tinha uma argola metálica, e Pisani lhe aplicava uma <tortura simulada>, cutucando uma ferida falsa pintada na perna da modelo; 4) a escultora polaca Alina Szapocznikow expunha em Paris (1970) alguns <tumores>, modelados em plástico, hiperrealistas; 5) o artista austríaco Herman Nitsch alugou um castelo nos arredores de Viena (1968-72) para representar seu <teatro das orgias e dos mistérios> (Orgien und Mysterien Theater): tratavam-se de matanças <rituais> de cordeiros e bezerros, com cujo sangue e tripas os expectadores eram banhados; para isso, Nitsch usava condutos especialmente concebidos, que derramavam o sangue e pedaços dos intestinos sobre o público; o roteiro incluía a participação dos expectadores, que deviam, além de receber os restos mortais dos animais, besuntar-se a si mesmos e aos seus vizinhos com seus próprios excrementos; havia uma série de outros <jogos> sado-masoquistas na exposição, como a celebração de missas hereges e a crucificação simbólica de algumas das ovelhas. Aos interessados, uma descrição detalhada e explicação crítica deste evento figuram em PETER GORSEN, Das Prinzip Obszön, Rowohlt Verlag, Hamburgo, 1969,(*) pp. 114-5, que transcreve também um comunicado da polícia austríaca proibindo esse gênero de <espetáculo aberrante>. Segundo Nitsch, em carta ao próprio Gorsen, o cordeiro crucificado representa simultaneamente o Pai, o Rei, a autoridade política, o ídolo estatal, a divindade. Em suma, tratava-se de uma revivificação dos cultos dionisíacos (<A revolução é um fenômeno dionisíaco>, diz Nitsch), conducentes à liberação do homem de seus tabus religiosos e políticos. (…) É típico de nossa época pretender ressuscitar cultos e práticas iniciáticos ou pseudo-mágicos pertencentes a culturas antigas, em que ditas práticas possuíam ou podiam possuir um valor autêntico; hoje sua <imitação> – seja mediante a astrologia, alucinógenos, ritos budistas, mistérios dionisíaco-órficos como neste caso, ginástica iogue, etc. – tende a ser daninha e contraproducente a despeito da intenção autoral.
(*) Até o momento, o volume-resenha mais completo sobre as relações entre arte, pornografia e sociedade.”
“Exemplos como os acima multiplicam-se em outros segmentos: já pude discorrer em outra obra sobre o caso do musicólogo que gravou em fita magnética os últimos gemidos de um homem agonizante após um acidente de trânsito; bastante conhecido é ainda o caso do cineasta japonês que filmou o transcurso dos últimos instantes da vida de seu pai moribundo de câncer.”
“um deslizamento (contínuo) do significado por debaixo do significante” Lacan
Conceito de ASSIMETRIA ESTÉTICA por VON WRIGHT (ou mais bem uma primeira lei da assimetria): “Assimetria significa que se um estado é preferido em relação a outro, necessariamente o segundo estado não é preferido em detrimento do primeiro; i.e., pelo mesmo sujeito na mesma ocasião” Relação subsumida na fórmula-função (pPq) ~(qPp), p≠q.
“O assimétrico é a premissa de qualquer proairesis.” “O simétrico se identifica com a geometrização mórbida da esquizofrenia.” Paradoxo: a ERA DA ASSIMETRIA é a ERA DA ESQUIZOFRENIA. Que seja apenas um estágio transitório entre duas eras mais autênticas, não destrói-se a contradição inerente. Resta saber se ficaremos indefinidamente presos a uma simulação indefinida desta mesma condição, como diz Baudrillard, ou se essa dialética deixa de ser estéril e se torna propulsora da superação em algum momento. Em suma, se o “novo elemento” vitorioso será ou seguirá sendo a esquizofrenia, em seu sentido pejorativo, ou a assimetria. Em busca de uma nova simetria, de um novo pathos normal.
moral corrente: contradição em termos! moral petrificada
PRIMERA PARTE – UN ANÁLISIS PROAIRÉTICO
CAPÍTULO 1. PREFERENCIA, PREVISIÓN Y CAUSALIDAD
“belief is nothing but a strong and lively idea derived from a present impression (perception) related to it” HUME, A Treatise of Human Nature, 1739
“A maioria das vezes, os lingüistas realizam o estudo dessas modificações [de significante-significado] exclusivamente por zelo científico e erudito, sem ter em conta adequadamente as premissas socioantropológicas que as originam (ou, se se quer, invertendo ostermos da proposição no sentido de Whorf, até que se vejam as próprias premissas socioantropológicas determinadas por tais modificações!).”
“Quando, p.ex., um termo como o italiano testa (para nos atermos a um dos exemplos oferecidos por Guiraud, La sémantique), originariamente uma metáfora estilística nascida da associação da cabeça (caput) com o vaso de terracota (latim testa), passou a significar cabeça, com o que se semantizou de outro modo, enquanto que – acrescentaria eu – em outras línguas românicas adquiriu um significado mais parcial e setorial: testa em português = <frente> ou, inclusive, permaneceu unido ao lexema antigo (cabeza em espanhol = caput), etc., encontramo-nos perante um exemplo fácil do difícil que resulta <prognosticar> a evolução semântica de um termo – do difícil que resulta a previsão de um significado –, mas ao mesmo tempo da importância que pode ter para os efeitos denotativos e conotativos de uma língua o fato de que se produzam semelhantes transformações.
Outro exemplo: a palavra italiana finestra – em espanhol ventana, em português janela – apresenta, ainda considerando só estes 3 idiomas, conotações completamente diferentes, relacionadas com as condições de <abertura ao exterior> (finestra e também no caso do alemão fenster), de <proteção contra o vento> (ventana e também no caso do inglês window) ou de <porta pequena> (janela, de janua).”
“Our ideia of necessity and causation arises entirely from the uniformity observable in the operations of Nature.” Hume
“Max Müller, para quem a própria interpretação falsa ou aberrante de algumas normas é a que abre caminho para muitas interpretações míticas destinadas a se consolidar depois com o hábito e a adquirir valor de norma. Müller explica as razões do mito de Deucalião e Pirra, que fazem nascer os homens das pedras, pela analogia entre as expressões laoi e laas; e o mito de Dafne, transformada em planta de laurel, pelo fato de que a palavra dafne tem a mesma raiz sânscrita ahana, que significa aurora, etc.” “Pouco tempo depois Cassirer viria a refutar tal teoria, detalhadamente.”
“Segundo Julius Schwabe (em seu riquíssimo volume sobre os signos do zodíaco, Archetyp und Tierkreis. Grundlinien einer kosmischen Symbolik und Mythologie, 1951), a constelação de Gêmeos conotava no passado um elemento masculino em Pólux e outro feminino (ou fracamente masculino) em Cástor. Prova-o o fato de que entre os romanos os homens <juravam a Pólux> e as mulheres a Cástor. Outra prova desta masculinidade duvidosa de um dos gêmeos da constelação seria seu próprio nome, que apresenta um evidente significado castratório, como, além do mais, a própria lenda sobre o animal castor. De acordo com a lenda, esse animal, quando caçado, preferia autocastrar-se antes que ver-se privado de seus testículos pelo caçador: segundo os antigos, nestes órgãos encontrava-se uma substância utilíssima para o preparo de medicamentos contra a histeria, o tifo e outras doenças.”
“Segundo a concepção da alternância de grandes ciclos temporais (que alguns chamam de <grande ano platônico>), à medida que avançam as diferentes constelações no céu, entra-se ou sai-se de uma era determinada. Cada grande era <cósmica> pertenceria a uma constelação zodiacal determinada e se veria influenciada por ela. Pois bem: podemos comprovar então que o nascimento de Cristo se produziu ou coincidiu com a passagem do sol da constelação de Áries para a de Peixes (e temos de sobra exemplos e conotações, não só astrológicos, como geofísicos, geográficos e lingüísticos para a sucessão dos <anos platônicos>), o que nos levaria a reconhecer uma razão muito mais profunda e <oculta> para o uso do nome e da imagem do peixe como símbolo de Cristo, além da aparição do nome peixe em grego para se referir algumas vezes a Jesus Cristo no Novo Testamento. A passagem da Era de Áries à Era de Touro, e desta à de Peixes (que coincide precisamente com o cristianismo e, portanto, com nossa era), à qual sucederá a de Aquário, aparece agora ilustrada com muitos dados inéditos a respeito dos já conhecidos à época de Schwabe. A propósito da denominação das <eras cósmicas> a partir dos signos do zodíaco, consultar o referido autor.”
“Ist es nötig noch darauf hinzuweisen, dass die Urchristen, als sie das uralte Fischsymbol aufgriffen, sich damit eben als eine Gemeinschaft kennzeichnen wollten, die an Wiedergeburt im Geiste, Auferstehung, und Unsterblichkeit glaubte? Sie knüpften damit an die orphischpythagoreische Vorstellung der delphinischen Menschenseele an.” Schwabe “Is it necessary to point out that when the original Christians picked up the ancient fish symbol, they were trying to identify themselves as a community that believed in rebirth in the spirit, resurrection, and immortality? In doing so, they followed up on the Orphic-Pythagorean concept of the Dolphinic human soul.”
“Quanto à relação entre peixe e golfinho, considerado como animal fundamental, veja-se KARL KERÉNYI, Einführung in das Wesen der Mythologie.”
“as discussões sobre a importância que esses deslocamentos das constelações no firmamento poderiam ter para a confecção do horóscopo, segundo se tenha ou não em conta a posição astronômica e real do sol com respeito ao zodíaco, foram e seguem sendo numerosíssimas e encarniçadas: alguns astrólogos sustentam que o horóscopo não deveria considerar deslocamentos puramente físicos; outros afirmam que tais modificações contam também para fins astrológicos. Vemos que até o possível aspecto premonitório, presente nas práticas astrológicas, se encontra subordinado a um aspecto puramente semiótico, ou pelo menos se discute a partir dele – algo no mínimo curioso para uma crença esotérica!”
“Só a arte está em condições de propor os invólucros vazios de um significado ainda não exposto à luz do dia.”
“Por lo demás, estudios recientes sobre el factor tiempo, sobre su base fisiológica, biológica, patológica, han demostrado de sobra la posibilidad de una dilatación o de una restricción de lo <vivido> temporal y la posibilidad de obtener (mediante drogas, medicamentos y ejercicios especiales del tipo del Yoga, como el <training autógeno> de J.H. Schultz) las modificaciones más variadas de la temporalidad.”
CAPÍTULO 2. EL SIMBOLISMO DEL TIEMPO EN EL ARTE DE HOY
“Mucho más evidente es el aspecto simbolizador del tiempo en la categoría limítrofe del arte óptico-cinético (op art) en la que nos encontramos con obras inmóviles en realidad, pero que <sugieren> el movimiento (Bridget Riley, Alviani, Soto, Cruz Díez, etc.). En dichas obras – que hace unos 10 años [1962] aproximadamente estuvieron muy en boga – el tiempo existe <potencialmente>”
“Por que o ritmo é tão importante para nossa existência e por que uma alteração daquele se reflete num mal-estar profundo?”
“No me parece que haya otra forma de explicar la razón por la que muchas creaciones de nuestros días – basadas en tiempos alterados (en sentido psicodélico, en sentido musical-aleatorio, en sentido poético, etc.) – conducen a otras tantas situaciones de malestar físico y psíquico.”
“Así, pues, esa sensación de ligereza y de <ausencia de tiempo> que se puede experimentar en un rápido vuelo transoceánico (en el que la única sensación experimentada es, no la de la velocidad, sino la de la lentitud, dado que así se nos aparece el movimiento del avión frente a la vastedad y a la inmovilidad del paisaje de nubes y del océano situado debajo) corresponde a la ausencia de tiempo de muchos ejemplos de música moderna y de algunas situaciones de las artes visuales que hoy utilizan la dimensión temporal para expresarse.”
“la obsolescencia de la obra (de arte o producida por la industria) – hoy tan aguda, tan paradigmática – demuestra tangiblemente la invasión y la acción de la <consunción> [destruição lenta mas progressiva], del factor temporal, sobre las obras del hombre y la necesidad de su simbolización por parte de las diferentes artes”
“la marcada separación entre mentalidad y comportamiento juvenil y senil encuentra una contrapartida en una diversificación igualmente marcada en la mentalidad y en las actitudes de quienes tienen 16, 25, 30 años. Así, pues, existe una diferenciación destacada entre grados que todavía pueden referirse a una edad juvenil, cosa que no me parece sucediera con igual relieve hace 20 o 40 años.” [!]
“En mi opinión, ese hecho significa que se está produciendo una aceleración del tiempo <existencial> con respecto al fisio-patológico. El tiempo – como símbolo de un devenir que no se detiene – ha invadido estructuras todavía ayer sólidas y consistentes.”
“la sensación de una <amenaza temporal>, propensa a resquebrajar la seguridad de la existencia, está presente por todas partes y la simbolizan los aspectos artísticos y pseudoartísticos a los que he aludido”
O conceito de tempo “SAE (Standard Average European” de Whorf.
“No hay duda de que el fenómeno de la progresiva desaparición o atrofiamiento del pretérito indefinido en lenguas como el italiano (a excepción del toscano) y el francés (y NO en el español), o como la eficacia cada vez menor del futuro (en lenguas que lo presentan, p.ej., en forma compuesta exclusivamente: alemán, griego moderno, croata, esloveno) o <asimilado> al presente (como el ruso y otras lenguas eslavas, cuando utilizan el presente del aspecto perfectivo para indicar el futuro) o recurren a construcciones complejas en lugar de utilizar la forma originaria del futuro (como el francés: je vais faire, el español: voy a hacer, y el propio italiano: conto di fare, sto per fare, mi accingo a fare, por no hablar del futuro japonés, que muchas veces se puede identificar con el presente), demuestra que la actitud del hablante tiende la mayoría de las veces a eludir las situaciones temporales <definitivas> o bien definidas y a adoptar otras más desdibujadas y ambiguas.”
CAPÍTULO 3. ARTE CONCEPTUAL: PREFERENCIA Y TESAURIZACIÓN [“MAL DO ACUMULADOR”]
“El abismo que separa a 2 Weltanschauungen – o, mejor, a dos Kunstanschauungen – a sólo pocos años de distancia parece insalvable.”
“¿Por qué kitsch? Porque el cielo es demasiado azul, la vegetación demasiado verde, la superficie de la figura demasiado translúcida; y, en consecuencia, el conjunto aparece ya manipulado en gran medida y preparado para que se lo comercialice y se lo ofrezca a los turistas, para uso del <delfín burgués>, que pasará en este lugar vacaciones suficientemente prestigiosas como para que sirvan de status symbol de cara a los amigos y a los conocidos.”
“la presentación más o menos exacta, más o menos magnificada, de la realidad, ya sea la fotográfica, ya sea – con mayor razón aún – la impresionista o la enteramente abstracta, resulta estar superada.”
“Aquí quisiera limitarme a precisar el porqué de la aparición de una clase de preferencia por el aspecto conceptual en el arte visual, tal como se ha ido revelando en el último decenio, porque me parece uno de los temas en que la separación entre la época actual y la que acaba de transcurrir resulta más marcada, en que resulta más sintomática la afirmación de un tipo de preferencia hasta hace poco inimaginable.”
“dadá, el surrealismo, fueron las consecuencias extremas de un persiflage de la presentación naturalista del mundo exterior. El informalismo señaló un regreso inútil a una especie de impresionismo pictórico, sin <contenidos>, pero no sine materia; e incluso la pintura-objeto, que desembocó, por un lado, en el pop-art y, por otro, en el arte programado y cinético (me excuso por la rapidez telegráfica y por la aproximación de estas definiciones), seguía recurriendo, a pesar de todo, a la tangibilidad densa y manipulable de la obra.”
“Por lo demás, no es casualidad que un movimiento tan vasto y, en definitiva, tan <incómodo> como el del conceptualismo se haya revelado precisamente en estos últimos años (de 1965 en adelante): años que han visto el surgimiento de las sublevaciones estudiantiles de 66-8 y su decadencia, la extensión y continuación de la guerra en Vietnam y de las guerrillas en tantas partes del mundo, la difusión de la droga, la decadencia de los movimientos de vanguardia en el cine y en el teatro underground, la crisis de la novela y de la música dodecafónica y, después, de la aleatoria”
“un nihilismo diferente del dadaísta, porque carece de fermentos irónicos y humorísticos, un nihilismo ya no propio de Duchamp, con frecuencia macabro, a veces irritante, otras masoquista o sádico.”
“hace 20 años [1952], la única o más importante tarea del crítico comprometido, del estetólogo, era la de defender la vanguardia, de intentar hacer de mediador entre el universo circunscrito, circunspecto, del artista y el obtuso, cargado de anteojos culturales y morales, del público.”
“la temporada de los happenings fue de corta duración, y en muchos casos se vio <comercializada> mediante la reproducción cinematográfica.”
“nuestra época ha llegado a un punto en que la escisión entre arte <puro> y arte utilitario es cada vez más clara y cruel. El primer sector se va alejando cada día más de la comprensión y del interés del gran público (incluso de un público relativamente culto), más aún de lo que ocurría con el arte abstracto de los años 30, con el op y el pop de los años 60; el segundo sector se acerca cada vez más al producto del diseño industrial y se une a la gran familia del kitsch.”
“El público se alimenta constantemente, de um modo que ya otras veces he definido como absurdo, de <sonidos musicales>, casi siempre carentes de interés artístico alguno, sin propósito renovador alguno, con una función de <relleno sonoro> exclusivamente, ni más ni menos que la del ruido que sube de la calle o del <gorjeo de los pájaros> de los tiempos remotos.” Aqui, muita coisa mudou!
“el llamado público de conciertos, los viejos ambientes de los aficionados a la <música clásica>, incluso gran parte de los profesionales (directores de orquestra, profesores de conservatorio, etc.) desarrollan sólo programas a base de música del pasado, sin interés ni comprensión algunos por la música de nuestros días (me refiero a la de Stockhausen, Schnebel, Berio, Cage, Donatoni, etc.). Las obras de los músicos contemporáneos están destinadas a pocos centenares de personas dispersas por el mundo, todavía menos que las que se interesan por el arte conceptual, por el land art, por el arte pobre.”
“Algunos de esos conceptos (como los de tesaurización y analidad aplicados al coleccionismo) surgieron en una discusión con el neurofisiólogo y psicoanalista Mauro Mancia.”
CONCEITO DE ANALIDADE POBREMENTE APLICADO AO COLECIONADOR: “Para muitos colecionadores, o fato de entrar em posse do quadro, da estátua, é por si mesmo fonte de gozo, de igual modo que o é o entesouramento [retenção] de suas próprias fezes pela criança.”
“Muchas veces, las casas de los coleccionistas tienen pocos muebles y objetos, están mal conservadas, con mobiliario anticuado y desmesuradamente moderno, incluso de gusto dudoso. Las obras están amontonadas en las paredes, una junto a otra, sin ningún respeto por su naturaleza particular, sin ninguna preocupación por ese <espacio vital> que cada una necesitaría ni por su convivencia recíproca.”
“En realidad, poetas concretos tradicionales como Ferdinand Kriwet, Rot, De Campos, etc., siguen ateniéndose, como por lo demás, Gominger (quizás el más riguroso y más imaginativo de los concretistas), al aspecto semántico del lenguaje verbal”
“En definitiva: muchos artistas conceptuales han tenido que someterse al deseo de los aficionados. Han tenido que encontrar el modo de saciar el apetito voraz de los <objetos>, siempre renovado, de aquéllos; han tenido que renunciar a sus sueños de pureza, de transitoriedade, de pobreza.”
CAPÍTULO 4. LA MODA COMO EXALTACIÓN PROAIRÉTICA
“Nenhum outro setor da atividade e da criatividade humana é mais representativo que a moda para uma investigação de caráter proairético [que versa sobre as preferências estéticas do público].” “a moda encarna, quase em estado puro, a preferencialidade, que, ressaltamos, não é a <superioridade> de determinada situação.” Sendo assim, a moda não é uma arte. Ou quem sabe seja o que vem depois do fim da arte.
“Quando dizemos hoje: <a lingüística, o estruturalismo, a psicanálise, o marxismo, a fenomenologia, etc., estão na moda>, no fundo reconhecemos que essas doutrinas poderosas, que essas solenes correntes do pensamentos, podem-se reduzir, no final, a simples momentos efêmeros de preferência, e que, portanto, depois de saboreadas o suficiente, destrinchadas e ostentadas, acabarão rápida e afortunadamente sendo substituídas por outras.”
“A palavra alemã Genuss, que os dicionários costumam traduzir por: gozo, posse, desfrute, uso, etc., significa na realidade: saboreio unido a gozo de uma substância ou situação determinada, e não me parece que exista uma palavra em nossa língua com a qual se a possa substituir. Fala-se de um Genuss pelo café, pelo álcool, pela droga, etc.”
Estilo X Styling (kitsch)
(passado – séc. XIX X séc. XX)
ex: Estilo Império, estilo Luís XVI, rococó, estilo Rainha Ana…
Havia um sincronismo e validades universais (ditados pela aristocracia).
“Bastaria recordar os numerosos trabalhos de Wölfflin, Dvorak, Panofsky, para se dar conta de que muitas de suas análises já não se podem aplicar às formas artísticas de nossos dias. Mas hoje – dado que nossa análise é predominantemente sincrônica – já nem podemos falar de estilo a propósito de certos móveis dinamarqueses, ou eletrodomésticos italianos, senão, sobretudo, de moda e de styling. É um fato – e muitos o afirmaram com razão – que o Art Nouveau, o Jugendstil, constituiu-se como o último estilo autêntico de nossa época.”
A moda do kitsch e o kitsch da moda.
“El propio hecho de haber considerado que se pudieran aplicar esquemas estructuralistas a la moda (como ha hecho Barthes en su Système de la mode), pero limitando en realidad su análisis al aspecto <verbal>, de nomenclatura, relacionado con ella, ha hecho que muchos prediquen la necesidad, o la oportunidad, de incluir la moda dentro de un aspecto lingüístico-estructuralista, como tantos otros sectores de la sociedad y de las ciencias humanas en general. Y la cosa no presentaría dificultad, si no se diera en este caso una eventualidad que no me parece se haya considerado: la de una institucionalización a priori, y no a posteriori, de los elementos lingüísticos relativos a dicho supuesto código.”
“Con frecuencia se afirma que la moda es un fenómeno vinculado a la sociedad capitalista y desconocido, o poco conocido, en los países socialistas y revolucionarios; no resulta muy difícil demostrar la falsedad de esa hipótesis.”
“A redundância: tudo é um invólucro teatral e barroco da propriedade doméstica: a mesa é coberta por uma toalha de mesa, ela mesma protegida por uma outra toalha de plástico. Cortinas e cortinas duplas às janelas. Tapetes, capas, revestimentos, abajures…” Baudrillard
“se o fato de trajar mangas de jaqueta excessivamente largas ou calças excessivamente apertadas (nos períodos em que <é moda>) deve ser considerado de mau gosto – kitsch –, podíamos também ampliar este juízo a outros setores para além da moda. Sempre voltará a época da lâmpada com luz oblíqua, talheres escandinavos, louça de aço inox, etc.”
“Mesmo no cinema, apenas em casos excepcionais – Potemkin, Greta Garbo, Buster Keaton, O vampiro de Düsseldorf (para citar 4 exemplos bem distintos entre si) – as imensas qualidades artísticas conseguem <vencer> o desgaste estilístico devido a uma questão de moda, que predomina nos longas bons mas não <ótimos>. O modo de se mover dos personagens, as frases pronunciadas, a entonação das vozes, certas atitudes românticas ou passionais hoje completamente defasadas e consideradas ingenuamente românticas, ou ridiculamente licenciosas, acabam contaminando mesmo as cenas que eram (e seriam ainda) de qualidade estética e técnica.”
“observar os rostos carrancudos e truculentos ou então inexpressivos, severos e carnavalescos dos diferentes hierarcas nazifascistas é – para todos, hoje – um espetáculo grotesco, ainda mais cômico que propriamente penoso e entristecedor. Como justificar o fato, senão pensando que um grande componente de moda interveio para dar àquela época o trato que ela merece?”
“De praxe, consideramos a toilette (a higiene, os hábitos e estilo) de nossos pais mais ridícula e démodé que a de nossos avós ou bisavós.”
“Na música, teatro, poesia não se adverte esse envelhecimento estético tão veloz decorrente da passagem da moda, uma vez que conseguimos substituir instintivamente com nosso modo de ser e de nos comportarmos aquilo que está descrito na novela ou indicado na peça. No cinema e na fotografia (meios <realistas>) isso é impossível. (…) Uma possível fonte de retroalimentação, que pode ser causa, ainda que também efeito de um espírito de época, desse estado de coisas efêmero é o fato de que no passado não era possível apresentar aos próprios descendentes, documentalmente, e com absoluta fidelidade, uma dada moda, sendo assim imperceptível, senão menos evidente e estridente, o contraste entre o ontem e o hoje.”
“Está ligeiramente out (fora de moda) quem ostenta nas paredes de seu chalé ou casa de verão uma pintura informal (em 1972), como também o está quem usa como música de fundo para receber seus amigos um Respighi¹ ou Pfitzner², embora o mesmo não se possa dizer de quem opta pelo jazz de vanguarda mais recente ou uma marcha de Bach.”
¹ Compositor italiano do XIX-XX, já ele mesmo um nostálgico de períodos ainda mais remotos (sécs. XVI ao XVIII).
² Praticamente o mesmo se pode dizer deste segundo compositor alemão, incluindo o período em que viveu e exerceu sua influência e seu gosto nostálgico, particularmente entusiasta de Palestrina.
“…e as coisas estão mudando enquanto escrevo”
“na Itália, basta seguir um automóvel para observar um exemplo perfeito dessa veemência gesticulatória do povo (não só abundante como até excessiva), com freqüência a causa de acidentes de trânsito, graves até: a maioria das vezes ambas as mãos do motorista abandonam o volante para que ele possa comunicar a seu companheiro a profundidade de seu pensamento de maneira apropriada (que o <co-piloto> decerto não vê, ocupado em vigiar o tráfego!).” “um baixo contínuo que acompanha a palavra”
“o V de vitória com a mão era quase desconhecido, antes de Churchill popularizar o gesto”
“A saudação de punho cerrado de tipo comunista está, talvez, em fase de decadência, como muitos gestos indicativos de <ter fome>, <enganar>, <vou dormir>. A saudação fascista, que esteve em voga, desgraçadamente, por muitos anos, seguiu, depois, existindo com um valor de saudação <normal>, desde que fosse executada com menor elevação do braço e com menos vigor (perdendo assim seu ar <romano>).”
O ciao ou adeus italiano na estação de trem, p.ex., antes de uma larga viagem, era vertical ou frontal (oscilações do braço entre a pessoa que saúda e a direção do viajante); com o tempo, passaram a usar o tchau que hoje conhecemos: oscilações laterais, à moda anglo-saxã ou germânica. Mais curioso ainda: em poucos anos, usos gestuais passaram por transformações importantes: antes mexiam-se os dedos das mãos no adeus, e a palma ficava imóvel; depois, os dedos ficavam juntos e sem se mexerem, e a mão adquiriu dinamismo.
“a passagem do tabaco da aspiração ao fumo se deveu a um aperfeiçoamento do gosto, ou <mudança de moda>. Não se pode dizer que amanhã não se voltará à moda de aspirar o tabaco ou de fumar o café ou mascar o chá.” Congelamento!
“é provável que num futuro próximo (quando, como é verossímil, se tenha liberado a maconha e substâncias semelhantes) o período atual pareça fortemente condicionado: primeiro, pelo proibicionismo; depois, pela liberação; e, finalmente, pela provável decadência do uso de tais substâncias.”
“Isso é o que não me parece admissível: buscar refúgio numa abolição ou atenuação da própria atividade consciente mediante fármacos que a embotam (ou a exaltam, mas desfigurando-a, desegotizando-a) é contrário a todos os princípios a que se dirigiu a civilização ocidental; é ainda adverso buscar refúgio ou auxílio em tentativas mecânicas de vidência ou de visões supressensíveis (práticas iogues, p.ex.).”
“conhecida é a relação entre sexualidade e iniciação no budismo clássico, como na prática do despertar do Chakra” “métodos ocultos que não são apropriados para nossa época”
Um tal Timothy Leary, psicólogo doidão, prescrevia o cogumelo Teonanacatl, tradicional entre aborígenes mexicanos, a seus pacientes nos anos 70. O Dalai-Lama rebateu este “profissional” em 1971: “O que mais falta aos próprios usuários desses narcóticos é o que poderia ser benéfico em seu uso – a Claridade, a Pureza e a Liberdade.”
CAPÍTULO 5. IDEOLOGÍA COMO PROAIRÉTICA PATOLÓGICA
“Joseph Gabel, em seu La conciencia falsa, que segue sendo indubitavelmente o melhor estudo dum aspecto patológico-político ou, se se quer, psicanalítico-marxista da ideologia, analizou bastante bem este <ponto fraco> do fanatismo ideológico.”
“Segundo Dévreux, se podemos considerar o período nazi como o estabelecimento de uma forma esquizofrênica, poderíamos, igualmente, considerar a sociedade européia de finais do séc. XIX como tendencialmente <histérica>.”
“Talvez não se possa dizer o mesmo da Itália em sua relação com o fascismo o mesmo da Alemanha em sua relação com o nazismo; a <cura> italiana não se produziu com o mesmo vigor.”
“Um caso de paranóia política poderia ser o de Israel: o enlace com pontos de partida ético-religiosos, que remontam a milhares de anos; a incrível firmeza na perseguição de um ideal construído sobre um conceito de <nação>, totalmente teórico; o fato de ter ressuscitado uma língua morta há vários séculos…”
“É sabido que a ignorância das funções mais elementares relacionados com o sexo era (até há pouco, se bem que segue sendo em parte) enorme, como também é conhecida a razão para isso: religião ou confissão (catolicismo), falso moralismo (vitoriano) ou alegações puritanas de virtude hipócritas (quakers, calvinistas e protestantes no geral).”
O VOCÁBULO “TEMPO” NOS IDIOMAS ESLAVOS (TEMPO METEOROLÓGICO, TEMPO CRONOLÓGICO):
Croata – vrijeme (clima); goda, rok (devir)
Eslovaco – cas (devir)
Esloveno – vreme (clima); ura (devir)
Polaco – cas (devir)
Russo – vremja (raiz ambivalente); pogoda(clima); cas (devir)
Tcheco – cas (devir)
SEGUNDA PARTE – LAS OPCIONES ECOLÓGICO-URBANÍSTICAS
INTRODUCCIÓN
“A arte (pintura e escultura, mas inclusive a poesia) deixou-se implicar nessa <glorificação do objeto> (a partir do surrealismo, percorrendo a pop art e a op art) de tal modo que não consegue mais livrar-se dessa objetualização dominante.”
“O sutil mal-estar, o sentimento de frustração que experimenta hoje um homem que tenha vivido sua infância no tempo pré-guerras, especialmente nas zonas densamente industrializadas, talvez passem batidos ao jovem nascido no pós-guerras, quando o estrondo das motos, a concentração de fumaça, o estrépito do tráfego, a poluição dos mares eram já uma realidade. E é igualmente possível imaginar que o homem de um futuro próximo esteja já imunizado, ainda mais que o jovem contemporâneo [1972!], contra o barulho e o ar poluído e cinzento onipresentes.”
“Numa praia contaminada nos arredores de Roma tive a ocasião de presenciar um filho perguntar ao pai se podia encher seu baldinho de água do mar: estava o menino tão impregnado da noção de contaminação que não podia deixar de considerar a água do mar como uma espécie de veneno, que se deveria evitar ao máximo.”
Expressões como “o céu azul” e “os eternos cumes nevados da montanha” já se tornaram tão kitsch quanto “amor à pátria” ou “lar doce lar” ou “a moral cristã”, “o seio materno”, “o espírito do corpo” e por aí vai…
“Seria hoje absurdo seguir falando de construção e urbanismo nos termos caros a um Le Corbusier ou um Lúcio Costa há não mais de 20 anos, ou a um Gropius, por exemplo.”
1. DESFASE [DEFASAGEM] ECOLÓGICO Y RESEMANTIZACIÓN URBANÍSTICA
“a indiferença quase total quanto à contribuição e à missão das <artes visuais> em integração com o meio ambiente tem feito com que o que se chama de arquitetura perca quase toda conexão com sua matriz expressiva primária.”
RECADO A LÚCIO COSTA: “A utopia do Bauhaus, que creu poder predicar e pôr em prática a identificação absoluta entre <utilidade> e <beleza> chegou ao fim.”
“Em lugar de almejar colonizar montes de pedra sem atmosfera como os da Lua (meta de aventuras recentes, já nada empolgantes, uma vez que nem as crianças assistem mais os programas dedicados aos vôos lunares na TV [1972!]), seria melhor que o homem tentasse não arruinar em definitivo o belíssimo planeta no qual teve a ventura de nascer.”
“Em primeiro lugar, é necessário livrar-se de formulações estéticas antiquadas que se obstinam em considerar a arquitetura como uma arte plástica, irmã da pintura e da escultura, como se fôra uma espécie de superdecoração em escala de cidade.”
“Se bem que em algumas artes (música e poesia) se possa apontar os equivalentes das partículas elementares da fala (morfemas, lexemas, sintagmas), no caso da arquitetura e urbanismo isso é muito mais problemático.”
“De um ponto de vista semiótico-territorial serão mais aceitáveis as tristíssimas favelas brasileiras, ou tugúrios colombianos, que as villas miseria argentinas. Talvez esta afirmação necessite um esclarecimento: significará, então, o que eu disse que não se pode identificar o aspecto semiológico com o sociológico? Se nos dispusermos a aceitar as abomináveis favelas, por se integrarem de modo mais <orgânico> à cidade do Rio, somos por isso insensíveis às conotações sociais que esta preferência supõe? Aí está o núcleo do problema: também na antiguidade romana, babilônica, grega, pré-colombiana, existiram as injustiças sociais mais inacreditáveis, mas não monstruosidades urbanístico-arquitetônicas como nas atuais Milan, Roma e Buenos Aires.”
“Os centros das cidades-satélites suecas não são nada senão shopping centers de tipo americano, enquanto que, na contra-mão, o <não-centro> das grandes cidades ianques (Cleveland, Atlanta, Houston) – excluindo-se talvez Manhattan, Boston e São Francisco da conta – já deixaram de existir, degradaram-se até se converter em setor de negócios ou mera sede administrativo-bancário-política, onde ninguém vive, onde a vida cessa quando cessa o expediente. E esse fenômeno começa a prevalecer em algumas cidades alemãs de design <americanizado>.”
2. LOS FACTORES PROAIRÉTICOS EN EL DESIGN AMBIENTAL
“Alvin Toffler contaba cómo en 70 de las mayores ciudades americanas el tiempo de residencia media en el mismo lugar era menos de 4 años. El desarraigo con respecto al hábitat propio no sería grave por sí mismo, si condujese a la reconstrucción en otro lugar de otro Heimat; pero eso es precisamente lo que ya no sucede a causa del carácter provisional del empleo, de la familia, que provocan el desinterés afectivo por el suelo urbano o por el natural.”
3. PREFERENCIAS Y PREVENCIONES EN LA ARQUITECTURA INDUSTRIALIZADA Y EN EL DESIGN
“a arquitetura industralizada (ou pré-fabricada, como com freqüência se diz, erroneamente) constitui um dos pontos delicados da exposição, que reaparece sempre que se fala de originalidade dos edifícios, de fantasia construtiva, da tão necessária luta contra o descenso do nível inventivo, contra a uniformização e a homogeneização das construções arquitetônicas de nossos dias.”
4. LOS PRECEDENTES DE UNA SEMIÓTICA ARQUITECTÓNICA
“Por mi parte, estoy convencido de que antes que nada hay que considerar la lingüística como una de las ramas de la semiótica, y no al revés (…) (como sostienen con frecuencia algunos autores franceses).” “En el caso de la arquitectura es evidente que no se puede hablar de una división en fonemas, sino, si acaso, sólo en <morfemas> (o sea, en partículas morfológicamente significativas, ¡ya que el elemento fonético está ausente!)” Um capítulo que não faz o menor sentido (como quase toda a segunda parte do livro)!
“Desgraçado do edifício que se disfarça sob o aspecto de outro, como – desgraçadamente – ocorre com freqüência: igreja com aparência de night club; estádio com a de templo; escola com a de açougue [!!!] (a menos que não seja incomum alguns prédios constituírem uma espécie de curiosidade <agradável>, conquanto isso parece ter sido moda passageira dos 1800)!”
“si una partitura de Bussotti puede considerarse con el mismo criterio que una pintura o un diseño moderno, también algunas notaciones arquitectónicas (croquis, proyectos, etc.), modernas y antiguas, tienen ya de por sí un gran valor artístico: basta con pensar en los célebres esbozos de Mendelssohn, en los de Haering o, sobre todo, en los de Scharoun, y, en el pasado, en algunos proyectos, realizados o no, de Ammannati, de Leonardo, de Miguel Angel, de Leon Battista Alberti. El valor artístico de dichos proyectos – prescindiendo de su <colocación semiótica> – es notable, y sería muy difícil decidir hasta qué punto se trata de obras de diseño, de maqueta, o equiparables a las realizaciones arquitectónicas auténticas. Como es sabido, según algunos, el croquis y el proyecto, si se desarrollaran y profundizaran lo suficiente, equivaldrían perfectamente a la obra ya realizada. (Y en cierto sentido lo vimos, cuando, durante la última guerra, se pudieron reconstruir algunas arquitecturas de la antigüedad sobre la base y con la ayuda de diseños de la época conservados y, por tanto, realizables.)”
“La lectura de la partitura, aunque informa, incluso de forma muy precisa, sobre determinado fragmento musical, no por ello deja de ser una lectura-no-musical (o, por lo menos, no sonora); según la opinión de algunos músicos (Stockhausen, Castaldi) no es otra cosa que el registro mediante un código muy perfeccionado de un objeto sonoro cuyo auténtico disfrute sólo puede producirse a través del órgano del oído. Stockhausen, p.ej., afirma que el tipo de <goce> que le produce el recorrer rápidamente una partitura (incluso saltando de un ponto a otro de la composición) es totalmente diferente al de la audición del mismo fragmento.” Cf. STOCKHAUSEN, Texte zur elektronischen und instrumentale Musik, 1963.
5. LA OPCIÓN POR LO ASIMÉTRICO Y LA ASIMETRÍA DE LAS OPCIONES
“en la Weltanschauung zen y taoísta predomina la tendencia a lo asimétrico, y algunos conceptos como los de wabí y de sabi podrían aproximarse al de asimetría.”
“Parece impossível, mas minha criada de quarto não admite que eu coloque minhas coisas na cômoda de forma assimétrica; quando limpa minha casa se apressa em <colocar simetricamente>, de acordo com um esquema fixo seu, todos os objetos que eu havia colocado de propósito fora do lugar.” Léger
“Podemos antecipar o começo do fenômeno, se pensamos na marcada tendência nessa direção que se pode advertir a partir dos últimos anos do séc. XIX com o florescimento do simbolismo na França e ainda antes, com o do pré-rafaelismo na Inglaterra: pintores e decoradores como Gustave Moreau, D.G. Rossetti, Burnes Jones, Odilon Redon, Khnopff, Puvis de Chavanne e, à geração seguinte, os austríacos da Secessão: Klimt, Schiele, etc., são todos tendencialmente assimétricos, pois começam a olhar com simpatia para o Extremo Oriente” “a adoração pelo número áureo, derivada dos círculos renascentistas, teria de ceder e ver-se invertida por novos módulos estéticos.”
“por que o coração está à esquerda e o fígado à direita? por que é mais comum ser destro? por que a mãe costuma segurar o recém-nascido pelo lado esquerdo?”
“O rosto esquerdo revela o lado oculto ou noturno (sinistro) da vida.”Werner Wolff
“…ao passo que a metade direita – precisamente por <depender> do hemisfério cerebral esquerdo, sede dos processos de criação de idéias mais racionalizados – parece ser o <espelho> da personalidade humana mais socializada e consciente.”
“normalmente o homem entrelaça as mãos de com o polegar direito superposto ao esquerdo, e a mulher ao contrário”
“e como pode ser que o laevus latino não se conservou no italiano (enquanto que se conservou no left inglês, no link alemão, no lijevo esloveno e croata e no lievyi russo?)”
derecho droit destro direito
izquierdo gauche sinistro esquerdo
“Se consideramos alguns esquemas urbanísticos clássicos – dos hipodâmicos aos estelares (tipo Palmanova), aos de L’Enfant (tipo Washington) ou Haussmann (tipo Paris) ou inclusive à aparente heterodoxia de Lúcio Costa no caso de Brasília –, vemos facilmente que em quase todos predomina um princípio de euritmia e equilíbrio, i.e., de obtenção do máximo de equilíbrio baseando-se numa simetria <dinâmica>, numa pseudo-assimetria, à la Hambidge. Hoje (1972!), até esse tipo de equilíbrio me parece pouco aceitável rumo a uma evolução da ordenação territorial e do <caráter distributivo> de nossos edifícios.”
“Na linguagem e no pensamento a assimetria está em todo lugar ou, para ser assimétrico, em quase todo lugar: podemos considerar simétricas as manobras analogizantes ensaiadas – de forma muitas vezes ingênua, mecânica – por um Lévi-Strauss? Sim, sem dúvida; mas isso seria pertencente à exceção: uma tentativa ou mania de assimilar códigos diferentes (sociológicos, alimentares, musicais, etnológicos!) sobretudo dum ponto de vista meramente sintático e sem levar em conta, salvo superficialmente, os autênticos aspectos semânticos e axiológicos que se interrelacionam. Mas, continuando, o fato de considerar como analógicas as metáforas propriamente ditas conduzirá à descoberta dum aspecto assimétrico também nelas, i.e., porque unem dois signifiés diferentes por meio dum signifiant único.”
#SugestõesdeTítulosdeLivros
OXÍMORO OU CARÍBDIS
LEITURAS PROSPECTIVAS
YASUICHI ARAKAWA, Die malerei des Zen-Buddhismus. Pinselstriche des Unendlichen, 1970
JEAN BAUDRILLARD, Le système des objets, 1968
MARIO BUNGE, The Place of the Causal Principle in Modern Science, 1963
GERMANO CELANT, Arte povera
Revista “Noigandres” (São Paulo), sobre a vertente mais séria da dita poesia concreta de origem germano-suíço-brasileira
GILLO DORFLES, Il Kitsch, antologia del cattuvi gusto, 1969 (1972) / El kitsch, antología del mal gusto, 1973
LUDWIG GIESZ, Phänomenologie des Kitsches, 1960 / Fenomenología del kitsh, 1973
HECAEN, La Symétrie en Neuropsychologie, 1970
EUGÈNE MINKOWSKI, Les conséquences psychopatologiques de la guerre et du nazisme, 1948
ALEXANDER MITSCHERLICH, La inhospitalidad de nuestras ciudades, 1969
EDWIN SCHUR, The Family and the Sexual Revolution, 1964
DAISETZ SUZUKI, Zen and Japanese Culture, 1959
VÁRIOS AUTORES, Psicología del vestir, 1975
HERMANN WEYL, Symmetry, 1952
IVOR DE WOLFE, Civilia, Architectural Press, Londres, 1972
“This is not the first time my writing has been informed by my dreaming self. By now I am wise enough to trust such experiences even before I can make sense of them.”
“Acceptance and praise foster a feeling of well-being in the child. They encourage confidence, spontaneity, hope, and a sense of being worthwhile. Punishment and threat induce guilt feelings, moralistic self-restriction, and pressure to atone. Guilt is the anxiety that accompanies transgressions, carrying with it the feeling of having done bad things and the fear of the parents’ angry retaliation. In the interests of self-protection, the child learns to deal with this anticipated punishment preemptively by turning it into an internalized threat against himself. § Disapproval and contempt make a child feel ashamed of not being a worthwhile person. The implied danger of abandonment may make him shy, avoidant, and ever anxious about making mistakes, appearing foolish, and being open to further ridicule.”“Aceitação e elogios alimentam na criança uma sensação de bem-estar e conforto. Encorajam a confiança, espontaneidade, esperança, um senso de capacidade e de cumprir o seu papel. Punição e ameaças induzem sentimentos de culpa, auto-restrições morais, pressão corretiva. A culpa é a ansiedade que acompanha transgressões, carregando consigo o sentimento de ter feito coisas ruins e o medo da retaliação furiosa dos pais.Com a auto-preservação em vista, a criança aprende a lidar com esse castigo iminente de modo preventivo, internalizando a ameaça contra si mesma.§ Desaprovação e desdém fazem a criança se sentir envergonhada por não ser uma pessoa valorosa. O perigo implicado no sentir-se abandonado é o desenvolvimento de uma personalidade tímida, esquiva, evitativa, constantemente ansiosa ou apreensiva quanto ao cometimento de erros, com medo de acabar parecendo um tolo ou de estar vulnerável ao ridículo dos outros.”
A ANTIGA SÍNDROME DE RENAN: Medo de ser expulso de casa. Medo de dar muitas despesas. Medo de ser um mero mortal.
“<Look how foolish you are, how clumsy, how stupid! What will other people think of you when they see that you can’t seem to do anything right? You should be ashamed of yourself acting like that. If only you really cared, if only you wanted to act right, if only you would try harder, then you could be the kind of child we want you to be.> Repeated exposure to such abuse calls forth an inner echo of self-contempt. § Eventually the child learns to say of himself, <What an idiot I am, what a fool, what an awful person! I never do anything right. I have no self-control. I just don’t try hard enough. If I did, surely they would be satisfied.>” “<Olha quão tolo você é, desajeitado, estúpido! O que vão pensar de você, se você não consegue fazer nada direito? Você devia sentir vergonha de si mesmo agindo desse jeito. Se apenas você se importasse, se você só quisesse agir adequadamente, se você apenas tentasse mais, aí então você seria o tipo de criança que queríamos que você fosse.> A exposição repetida a tal tipo de discurso leva a uma internalização dum eco de auto-desprezo; uma voz interna passa a repetir as mesmas coisas antes faladas pelos seus superiores. § Eventualmente, chega-se ao ponto em que a própria criança dirá, diante de cada nova decepção: <Que idiota que eu sou, que imbecil, que péssima pessoa! Nunca faço nada certo. Não tenho sequer auto-controle. E eu nunca tento o bastante. Se eu tentasse, com certeza satisfaria a vontade dos outros.>”
“My own mother often told me: <I love you, but I don’t like you.> It was clear that this meant that she loved me because she was a good mother, but that she did not like me because I was an unsatisfactory child.”
“The experience of being seen as momentarily not yet able to cope is a natural part of growth. It is also natural to experience the embarrassment that accompanies making mistakes, stumbling, blundering, or fucking-up.”
“Some parents are too hard on their children because of their own personal problems, others because of harsh cultural standards. Some cultures make excessive demands for precocious maturing of the child. In such settings, shaming inculcates the feeling that other people will not like the child unless he lives up to their expectations. § When shaming arises out of the pathology of neurotic parents, the child may be expected to take care of the parents. Such a child may never learn that the natural order of things is quite the reverse. He is discouraged from ever realizing that it is the parents who are supposed to take care of the child. § Even more insidious is the impact of the parent who unconsciously needs to have an unsatisfactory child. Such a parent will never be satisfied, no matter how hard the child tries, no matter how much he accomplishes. Anything less than perfection is unacceptable. If the child gets a grade of 95 on an examination, he will be asked why he didn’t get 100. If he gets 100, he will be asked what took him so long to get a satisfactory grade. Told that he should have been getting 100 all along, he may become afraid to do well lest perfect grades be demanded of him all the time from then on. If he happens to be a chronic straight-A student, then he may be asked, <If you’re so damn smart, how come you can’t keep your room clean?>” “This can lead to his spending a lifetime vainly seeking the approval of others in the hope that he may someday be validated at last. § My own parents shamed me needlessly and often. They made it clear that it was my clumsiness, my inadequacies, and my failures that made them unhappy. Even my successes and accomplishments were made to reveal how inferior and insufficient I was.”
“<Enough,> she stilled me. <A boy doesn’t interrupt when a father is talking, a father who sweats in the city all week long for him.>”
“Those who have been shamed can some day learn to overcome feeling unworthy. Embarrassment, in contrast, is a natural reaction that is inevitable in certain social situations.”
“quavering speech [fala tremida] or breaking of the voice, sweating, blanching [empalidecimento], blinking, tremor of the hand, hesitating or vacillating movement, absent-mindedness” Goffman, Interaction Ritual: Essays on Face-to-Face Behavior, 1967
“The medical term for less-than-normal breathing capacity, for instance, is respiratory embarrassment.”
“Some unexpected physical clumsiness, breach of etiquette, or interpersonal insensitivity may leave a person open to criticism for being more crude or coarse than he claims to be. But this is an issue of manners, not of morals. It may make for a temporary change of social status, but never carries with it the self-threatening sanctions of shame, with its implications of abandonment, loss of love, and ultimate emotional starvation.”
“For a moment all bets are off. Trust of myself and others is in jeopardy. All values are once again in question. First there is the question of trust in myself. Am I an adequate human being or a fool? What can I expect of myself? Do I really know what I am doing?”“It is a time for the exotic flowering of my paranoia. At such times I may mistakenly expect contempt and ridicule from loving friends and neutral strangers. It is just as though they would turn from me in disgust as my parents did when I did not meet their impossible standards.”
Where is my floor?
Please open that door
Shut those windows
Cracked room and mind
of a sweet-salty boy
Sing along and refrain
from hiding.
“There seems to be no way for any of us to get through the day without making a careless error, doing something foolish, committing a gaffe or faux pas.” Gof., op. cit.
“After hitting the lamppost I sat on the curb and cried as little as possible. I was really worried. Now it was time to go home and face my mother. Instead of seeing this mishap as an unfortunate accident around which I could feel sorry for myself and expect some sympathy, I knew that I had let my parents down again. I headed home and climbed the stairs to our apartment, skates over my shoulder.”
“Still, echoes of this grotesque situation can be heard at times from out of my unsettled and unworthy depths. I remember just a couple of years ago when I learned that I had to undergo a second bout of neurosurgery.”
“At such times my mother’s explicit instructions were: <Don’t fight, but never, never deny that you are a Jew.> She seemed to want me to be well-behaved, but did little to help me to avoid occasions of sin.”
“One afternoon after school Charlie started beating on me in front of a girl I had a crush on. For the first time in my unhappy marriage to Charlie Hooko, my own fear of being seen as a shamefully brutal, lower-class street fighter was overcome. The fear of being humiliated in the eyes of this girl was even more shameful. And so in the midst of the fight I punched Charlie right in the mouth. He couldn’t believe it. I could hardly believe it myself. § Charlie stopped the play at once. He took me down to the park and we both washed our faces at the fountain. Charlie announced to everyone around that I was a tough guy, that he admired me, and that we would be friends from then on. That ended months of regularly scheduled defeat.”
Punch like a girlish girl
Yea, just feel the flow
“As an early teenager I did eventually graduate to becoming a marginal member of a fighting street gang. I pretended that I was a better and more enthusiastic fighter than I ever really was.”
“As my children grew, being creatures of their age they moved toward the freak culture. Part of this involved their being the first kids in our neighborhood to let their hair grow long. So it was that another macho incident came about. One of our neighbors, strong both of will and of muscle, flew the Confederate flag.”
“What proof did he have, I demanded? His only answer was that my kids had long hair. He believed vandalism occurred only in the ghetto. Ghetto kids had long hair and they broke windows, he insisted. My kids had long hair. And so he concluded that it must have been one of them who had broken his window.”
“Ironically, the blunderer often unwittingly reveals the discomfort of his predicament by the very means by which he tries to hide it: <the fixed smile, the nervous hollow laugh, the busy hands, the downward glance that conceals the expression of the eyes.>” “Ironicamente, o atabalhoado freqüente e inadvertidamente expõe seu desconforto situacional pela própria tática utilizada para disfarçá-lo: <o sorriso fixo, a risada nervosa despropositada, as mãos hiper-ativas, a vista caída que esconde a expressão dos olhos.>”
“Essa necessidade social salutar de ocultar-se o embaraço é enfatizada nas pessoas que foram excessivamente submetidas a vexames na infância. Potencialmente, o indivíduo virá a desenvolver um estilo de conduta de tipo neurótico, agindo timidamente a maior parte do tempo e preferindo evitar que outros venham a percebê-lo ou a conhecê-lo.”
“Tendo tantas dificuldades de interação, não é raro que a pessoa acredite que sua abertura para o constrangimento e a vivência de situações ridículas [pois socialmente é impossível fugir de tais ocasiões] é realmente singular. Ela pode desenvolver a crença que outras pessoas não têm a mesma tendência de <se passarem por tolas> de tempos em tempos, como ela tem.”
“Sua própria conscienciosidade de seu problema age como um efeito bola de neve: a apreensão pela sua hiper-sensibilidade eleva seu senso de isolamento, peculiaridade, solidão, enfim. Que trágico que a pessoa deva sempre sentir-se como um desajustado! Basicamente, não diferimos uns dos outros. Ninguém é capaz de lidar o tempo todo com as demandas sociais, sempre excessivas. Mas é que o comportamento tímido-neurótico é sempre desproporcional, alimentando a convicção íntima de que <há algo muito errado consigo>.”
“As maneiras reservadas do introvertido <clássico> (não-mórbido) são parte, provavelmente, de sua orientação psicológica inata; e ele estará sempre mais inclinado ao mundo interior das experiências privadas, que lhe é bem mais confortável. Certo nível de acanhamento da personalidade é mesmo, senão natural, incentivado socialmente. Algumas pessoas (como o próprio que escreve) escondem sua timidez crônica debaixo de um véu de arrogância simulada.”
“When he does try to express himself, he is likely to be hesitant, needlessly soft-spoken, ingratiating, and apologetic. Whenever possible, he simply will try to avoid contact with other people.”
“A person who is not neurotically shy understands that it is the external situation that contributes to embarrassment, rather than some defect in his own character. Unlike the shy neurotic, he has come to learn that these anxieties are triggered by his reaction to particular people and situations.”“Uma pessoa que não é neuroticamente tímida compreende que é o contexto exterior que contribui para seu embaraço, em vez de qualquer defeito de seu próprio caráter. Ao contrário do tímido neurótico, aquela pessoa aprendeu a ver que essas angústias são acionadas pela sua reação a pessoas e eventos particulares.”
AUTONOOBSAIBOTADOR
“The shy neurotic cannot get anywhere in overcoming his excessive shyness without first revealing to himself that what he truly fears most is not rejection but acceptance, not failure but success. He begins to go after what he wants out of life.”“O tímido neurótico não chegará a lugar algum, enquanto tenta superar ou minorar sua timidez, caso não admita para si mesmo que o que ele realmente mais teme NÃO é a rejeição mas a aceitação, NÃO é o fracasso, e sim o próprio sucesso! É aí que ele começa a alcançar seus verdadeiros objetivos de vida.”
we’re all looped, leaked, sinking, seeking and not finding, just overwhelmed by our own hopes’ weights… what if…
a head dive in a pool of danger
“Feeling undeserving of such unfamiliar achievement and acceptance, he has unwittingly learned to discredit these pleasureable experiences. A poignant early expression of this self-defeating attitude occurs during the first phase of psychotherapy.”
“Anything that makes him feel worthwhile calls forth the echo of his mother’s voice, demanding that he question his presumption. It is as though he can almost hear her demanding, <Just who do you think you are?> Believing even for a moment that he is satisfactory as a human being evokes the underlying shameful feeling that he has presumed too much.”“Qualquer coisa que o faça sentir-se valorizado evoca o eco da voz de sua mãe, mandando que baixe a bola. É como se realmente pudesse ouvir, <Vem cá, quem você pensa que é?>. Acreditar por um só momento que ele é um ser humano completamente satisfatório é o suficiente para ter sua paz de espírito quebrada por pensamentos de culpa de que ele agiu presunçosamente.”
O supremo oposto do vaidoso dos vaidosos – e o que isso trouxe? Mais ódio dos ‘cristãos’ sobre sua cabecinha…
“So it is that each moment of decision is followed by a moment of revision. A minute later, he has reversed his thrust forward, retiring once more into his customary shyness.”
“His life is not what he meant it to be at all. It’s just not it at all.”
Evitar a confrontação é como comprar à prestação!
“Guy de Maupassant’s short story, The Diamond Necklace, is a classic example of the high price of false pride. It is the story of Matilda, a woman tortured and angered by having to live a shamefully ordinary life because she does not possess the luxuries and delicacies which she insists befit her station.”
“It was my parents who started me off down my own painful path of shame and false pride. My parents are no longer responsible for this trip that I sometimes continue to make. Now the enemy is within. It is only my own overblown ego that shames me. It is only I, still sometimes arrogantly insisting on having higher standards for myself than I would impose on others. How much easier to accept the flaws in others than in myself. To the extent that I cling to being special in this way, I remain stuck with the tediously painful life of the perfectionistic striver. I must get everything right, all the time, or suffer shame. It is far too heavy a price to pay for maintaining the illusion that I might be able to rise above human frailty.”
“I give up being satisfied with myself as a pretty decent, usually competent sort of guy who, like everyone else, sometimes makes mistakes, fucks up, and plays the fool. Instead I insist that if only I tried harder, really cared, truly wanted to, I could become that wonderful person who could make my long-dead parents happy. Then they would approve of me. I would be the best. Everyone would love me.”
“Guilt and shame originate from different kinds of faulty parenting. Guilt arises out of a certain kind of bad fathering, shame out of bad mothering.¹ Either parent may elicit one or the other depending on the particular parent’s role and attitude rather than on his or her gender alone.
Excessive authoritarian fathering creates guilty anticipation of punishment for transgression against the lawful order of things.Overly demanding mothering breeds shame.”
¹ Kleiniano demais…
“Paradoxically, too much shaming often produces defiance rather than propriety. No longer able to bear the overwhelming burden of shame, a child may develop a secret determination to misbehave. He comes to wear a mask of spite and shamelessness.”
“We were studying Shakespeare’s Julius Caesar. At the beginning of one week, the English teacher announced that we were to memorize Marc Antony’s eulogy. I protested loudly. Memorizing materials that needlessly cluttered up my head was both a waste of my time and an intrusive violation of my mind. No arbitrary school system had any right to do that to me.”
“<Ma, how come you always talk funny when you come to see a teacher?> This was one of my rare opportunities to shame her”
“Straight people were simply not prepared for coping with those of us who shamelessly stepped outside of the system, acted with contempt for the rules, and covertly shamed them for the arbitrariness of their principles.”
“At times my shameless behavior has gotten me into trouble. But so long as it sometimes gets results like that, who am I not to be tempted to continue to be outrageous?”
“More privately, I had developed the false pride of perfectionism to hide my shame and worthlessness from my own eyes. I had to avoid risking further failures and more mistakes. I had to be able to change my image so that I might escape without looking like I was running away or hiding out.”
NOSSAS TORRES DE MARFIM
“No longer would I be the fumbling incompetent who was too timid to go to parties because he never knew how to go about making friends. Instead I became a <heavy> intellectual. With such profoundly developed sensitivity, I could no longer be expected to be bothered devoting my precious energies to the pursuit of the mundane social goals that somehow seemed to excite almost everyone else I knew.
Even armoring as exquisite as this was not enough.Somewhere inside I knew I was just too damn lonely. I still needed to be needed. Acting obsequious, or even <being nice>, was an unthinkable solution. Instead I began to advertise myself as ever ready to rush into the gap whenever a task presented itself that ordinary folk found too unrewarding to mess with.”
“For the first few years of my career as a therapist I worked in impossibly archaic monolithic custodial institutions such as state mental hospitals and prisons. Though allegedly established and maintained as society’s attempt to care for and rehabilitate its social deviates, these institutions turned out to be punitive warehouses for those undesirables about whom the rest of us wished to forget. I cast myself as the champion of the oppressed.¹ Doggedly and unsuccessfully I fought the administrative powers, hoping to attain decent care, effective treatment, and eventual release for the inmates.”
¹ Incrivelmente similar a minha loucura de querer me tornar professor!
“Now I had a new problem. There were no bad parents to fight. How was I to define my role in this more benevolent situation?”
“I do not usually shake hands with a new patient unless the patient gives some indication that this is part of where he starts out in social relationships, in which case I respond.”
“His opening lines were: How long have you been a therapist? Don’t you know that phobic patients can’t stand to be touched? You insist on shaking hands with me knowing that I am too compliant to refuse. It could only make me anxious. The demands you make on me!”
“Should he awaken during the night and need to go to the bathroom to urinate, he must simply suffer through the hours until dawn. He was not able to risk disturbing his dog by getting out of bed. His feeling of friendship with the dog was substantiated by his bringing him along to the treatment sessions.”
“There he asked to be deported to Russia for asylum. Surely he would get better treatment under Communism than he had from the barbaric democratic psychiatric services in America’s capital.” “I described my own experience, and I pointed out that the patient was crazy. He had made me crazy. I warned this man that he would make him crazy, too, unless we all understood that just because the patient claimed that something difficult needed to be done did not mean that we had to do it. The patient was all heat and no light. We were vulnerable to his unrealistic outcries because of our own needs to meet every challenge heroically, no matter how nutty it might be. If we thought it over for a minute, we would realize that there wasn’t much in the way of disastrous consequence in this for anyone but the patient himself. That was unfortunate for him, but that was the way it had to be. Happily, the perspective I offered was sufficient to relieve the Congressional Counsel of his own anxiety.”
“The patient was an attractive woman in her early twenties whose birth defects included having no feet and only rudimentary hands. She managed to get about with a combination of prosthetic devices and monumental denial.” “Focusing on her frustrated wishes to become a star in the public eye allowed her to avoid her anxiety and despair about the oppressive difficulties that she encountered in everyday living. My own parallel defensiveness led me to join her, supporting her crazy longings with my own denial of shame-filled helplessness. She made her own contribution by avoiding my tentative therapeutic interventions. There was just no way she could hear my timid suggestions that this whole show business preoccupation was an avoidance of dealing with the day-to-day quality of her life.”
“Unattended snot ran out of her nostrils and down her face (her measure of how much messiness I could tolerate?). I listened and sympathized as if my mere presence would heal her.” “For some reason, which I still do not understand, after about a year of this circus she let me in on her <secret>. All during this time she had been seeing me on Thursday afternoons, and now she confessed that she had also been in therapy on Monday mornings at another clinic with another crazy therapist.”
“This new challenge’s chart described her as a borderline psychotic, a part-time alcoholic, an unhappy, aggressive woman with preoccupying sexual hangups and several previous unsatisfying bouts of psychotherapy. When I went out to the waiting room to invite her in for our first therapy session she struck me as a slight, timid waif of a woman. She looked more like an emaciated 12-year-old than a life-hardened 32-year-old.”
“Oh, now I get it, the old color symbolism test. A male therapist with a red shirt, and now I’m supposed to tell you that I’m sometimes gay, and you probably are, too!” “You’re the therapist I’ve been looking for all of my life. I’m never, never going to leave you. I know that you’ll be able to accept whatever I do without ever making me feel bad or throwing me out.” “My relief and sense of well-being was immediately transformed. I got the sinking feeling that I had just made a lifetime contract with an albatross.”
“By then I was off balance, but I knew the direction in which I must go. I told her that alcoholic beverages were not permitted in the clinic. If she opened the beer here in my office that would be the end of treatment. As in the first session, she seemed relieved rather than upset by my setting some limits on her acting out.”
“She had gone to visit her dentist to have a tooth extracted. He knew that she had bad reactions to the usual anesthetics that he used. Therefore he had brought a bottle of whiskey and insisted that she have a couple of straight shots to prepare her for the extraction. She described herself as having been rather uncertain. Still she yielded to his encouragement to have one, two, and then another couple of shots. She claimed that soon she was so high that she could not resist his insistence that she perform fellatio.”
* * *
Albert Ellis
“While I have the floor, let me also disagree with Shelly’s [Sheldon’s] (and almost all other therapists’) allegation or implication that shame largely stems from early childhood experiences. Shit, no! If anything, early childhood experiences largely arise out of our innate predispositions toward inventing <shameful> conditions and actions and consequently idiotically making ourselves—and I mean making ourselves—unduly embarrassed about our inventions.” “Because Shelly’s feelings of shame in regard to the incident with his parents have a high degree of correlation with his feelings of shame today, he mistakenly assumes that the former caused the latter.” “Shelly’s parents indubitably taught him various standards of ‘right’ and ‘wrong’—including the standard, ‘You act rightly when you stubbornly refuse to imagine yourself letting either of your parents drown and wrongly when you even consider saving only one of them from drowning.’ Given such standards, and having the human tendency to adopt them, Shelly will assuredly believe that he acts ‘rightly’ when he tells his parents that under no conditions would he let either of them drown and ‘wrongly’ when he tells them that he would choose one over the other. Granted.”
“A person’s history therefore has relatively little to do with present feelings of shame or self-downing. Shelly may have learned his standards of good and bad behavior from his parents (and others), but he decided to take them seriously and he still decides to do so if he feels ashamed of anything he does today.”
“I had a female client who had serious feelings of inadequacy about herself, especially in her relations with men, and whom I helped considerably to overcome some of these feelings. She had an attractive female friend to whom she talked about me and the way I had helped her, and who got somewhat turned on to me. This friend, in her own manipulative way, managed to meet me at a series of lectures I gave and suggested that we date.
Now I knew that I’d better not do this. Not only have I refused from my first days as a therapist to have social relations with my clients—for although this may have some advantages, I recognize that it tends to lead to more harm than good—but I also have refused to maintain close relations with any of their intimates. (…) A good idea, and I invariably—or almost invariably—stick with it. But not this time! The friend of my client seemed so charming and attractive that I decided to break my self-imposed rule and to date her. I saw her a few times, got intimate with her socially and sexually, and then decided to stop seeing her because I found her much less charming and interesting than I previously had thought. In the course of my fairly brief relations with her, I deliberately mentioned nothing about my client, since I knew that they had a somewhat close relationship, and I didn’t want to give away any confidences.
Nothing happened for several weeks; and then, after I and my client’s female friend no longer saw each other, all hell suddenly broke loose. My client, Josephine, came in one day terribly upset and said that she had discovered that I had seen her friend socially. She found this most distressing for several reasons. She thought that I might have revealed some things about her to her friend. She felt constrained, now, in telling me certain feelings that she had about this woman. She confessed a sexual interest in me and said that she felt jealous that I had shown no inclination to have sex with her while I had obviously had it with Sarah. She hated Sarah for having seduced me and then having boasted about it. Most of all, curiously enough, she felt upset because I had stupidly allowed myself to get taken in by Sarah, who, according to Josephine, had no interest in me other than as a conquest, who had fooled me into thinking she had more intelligence than she actually had, and whose inherent nastiness I had presumably entirely failed to perceive.” “I, like Josephine, at first upset myself more about my mistaken diagnosis of Sarah than about anything else.” “Her interest in me stemmed mainly from her belief that I might help her with her own personal problems and from the ego boost she experienced from telling others that she had a well-known psychotherapist interested in her. Although I had told her very specifically not to mention our association to Josephine, whom I guessed would upset herself about it, she had not only told all to her friend but had also lyingly stated that she had given me up and that I still had a great interest in resuming relations with her.” “I took a chance that my relationship with Sarah would never get back to her. I really had preferred Sarah over her, and perhaps some of this preference had come through in my relationship to Josephine. I had given her an opportunity to see some of my diagnostic weaknesses—and thereby helped remove some of her confidence in me as therapist. When she had shown an overt sexual interest in me, I had quite ethically but perhaps too brusquely repulsed her, partly because at the time I already had established a sexual relationship with Sarah, and Josephine did not seem half so attractive to me. If I had never gone with Sarah, I might well have handled rebuffing Josephine in a more tactful and more therapeutic way.” “She seemed to accept the fact that I had not deliberately done anything to hurt her and had only made some understandable errors.” “Fortuitously, she got involved with a well-known psychiatrist who treated her with a dishonesty similar to Sarah’s treatment of me, and I helped her considerably in accepting herself with her gullibility [naiveness] and in breaking away from him without feeling terribly hurt.”
“I set a few more rigorous rules for myself about socializing with the friends and relatives of my clients, and eventually I mainly forgot about the entire incident.”
“If I down ‘me’, ‘myself’, or my totality for my errors, I essentially take myself out of the human condition and view myself as a subhuman. Falsely! For, as a human, I cannot very well attain superhumanness or subhumanness except by a miracle!”
“As far as I can see, you do not really admit the true wrongness of your acts if you don’t make yourself feel very guilty about them. And, even if you do acknowledge their badness, you do not motivate yourself strongly enough to change them and keep yourself from recommitting them in the future. Poppycock [Baboseira]!” “As a person who admits his own irresponsibility but who doesn’t down himself totally for having it, I save myself immense amounts of time and energy that I otherwise would spend dwelling on my poor actions, obsessively showing myself how wrongly I did them, and savagely berating myself for having such fallibility.”
“I try not to make myself guilty about making myself guilty, nor to make myself feel ashamed of making myself ashamed. I don’t find it easy! I keep slipping. My goddamned fallibility clearly remains.”
Gerald Bauman
“I felt the role of therapist to be an artificial one requiring that I adopt a facade that made me feel like the newly clothed emperor. I think I persisted in this unpleasant exercise partly because doing therapy was then the wave of the future for young clinicians, partly because I was assured by colleagues and supervisors that I was reasonably competent and talented, and partly because I tend to become stubborn under duress.”
“The most difficult <incident> of all lasted about two years. In the course of some very significant changes in my life, I was subject to severe anxiety attacks while working with clients (and at other times as well). The awful feeling would gradually well up in a great surge that might last for several minutes and then gradually subside. The experience was particularly frightening because I never felt certain how <high> the surge would go. While working, for example, I felt as though if it went much further, I might fall out of my chair or flee the room (these never happened). Though appearing to occur at random, these <attacks> themselves seemed to become more intense over about two years; then I gradually became able to overcome them and resolve the underlying issues.”
CONTRA-MEDIDAS PARA MOMENTOS DE “NUDEZ TERAPÊUTICA”:
“Minimize (or eliminate) pretense in self-presentation. This is especially relevant to, and difficult for, beginning therapists.”;
Buscar uma espécie de “acordo tácito” com o paciente sobre o nível de nudez ideal que o terapeuta e o “tratando” desejam para a terapia;
Sempre ter em mente flexibilidade nas regras de resolução de problemas meta-terapêuticos – incluindo seguir ou não, conforme o caso, até mesmo ESTA regra!
Howard Fink
O INSEGURO ESTEIO MORAL DA NAÇÃO: “He began to wonder if his suspicious attitude toward his wife was some sort of an illusion he had to maintain to give him the upper hand in the relationship, to be the constant moral superior.”
“The subject of his wife and I forming some sort of a conspiratorial love pairagainst him was never again mentioned without a lot of genuine humor associated with it. In fact, as if to further discount the possibility, he once said that he never thought I could lose enough weight anyway to be called slim or skinny by anybody.”
Arthur Colman
“While I have known her, she has worked as a topless and bottomless dancer, a masseuse in a parlor catering to conventioneers, and now nude encounter. She has been only partially successful at these jobs. She turns off as she undresses.”
“When she worked as a masseuse, she did not like to touch men’s genitals and do <a local>. It was formally against the policy of the club, although she admitted that to <jerk a customer off> got you a larger tip.”
“Here she was, earning twenty dollars a half hour (exactly my fee, dollar for minute) by sitting nude talking to men who chose their state of dress. No touching, no closeness, no real intimacy. She didn’t admit to seeing the analogies in our situations, probably because she was frightened of exploring their meaning. Her fear protected me from the full impact of the miming that she portrayed as the naked therapist.”
“Being embarrassed about experiencing a particular feeling is just the beginning of the cycle. Confronting the need to keep the feelings hidden increases its potency. Deciding to risk the uncovering process by telling the patient what has been happening inside of me can momentarily increase the embarrassment until it is released in a rush as the communication is finally made.”
O velho dilema de se apaixonar durante as sessões.
“My wife and I have written a book, Love and Ecstasy, about merger experiences in the solitary, dyadic, and group orientations.”
“I remember one patient that I worked with in the Kopp/Colman office. Yvonne was an exquisite, delicate 18-year-old rebel. Her father was a wealthy member of the State Department, her mother the dependent matron of a colonial mansion. Yvonne worked at shattering all family hypocrisy. She attacked with reckless competence, trying everything, flagrantly, desperately, and always self-destructively. She came to Shelly through some of her friends. He represented a bearded refuge for her, an adult who might understand. He sent her to me.
Her name should have been Jezebel. At that point in my life she represented impulse, license, sensuality, limitless possibilities. (…) Falling in love with her would be a lot simpler solution to my malaise than reclaiming the lost parts of my own spirit.”
“I knew I was clever enough to translate what was happening inside of me into words and actions that would facilitate her therapeutic work with me, but I wasn’t sure that I had the courage to risk such an intimate and painful personal statement, with its unknown repercussions for both of us.”
“It is not unusual now for me to feel love in a variety of forms for men and women with whom I work.” “Fantasies from therapy (in the case of Yvonne) invaded my sexual relationship with my wife and my paternal relationship with my daughter, just as those relationships entered my therapy relationship with her.” “She described her evaluation session with me and noted that she was sure I had had an erection during some of the hour. Triumphantly she proclaimed that she was positive of that fact as I got up to escort her out of the room at the end of the hour. She wondered about my ability to work in such a state and about my designs on her. She also wondered about the quality of my marriage and my sex life.” “I remembered being sexually aroused by Susan. My response had been prompted largely by the provocative role she had assumed during the hour rather than from a personal attraction. She could be very sexy, but most often used it as a weapon and a defense. I knew that precisely because of my reaction to her—arousal without great interest.” “I said I got sexually excited by many of my patients, female and male. I tried to use all my responses to an individual in my work, those of my body (including my penis) in all its states, and of my mind, with all its fantasies. I certainly did not plan to cut off parts of myself in the therapy encounter. Integrating that openness in the special setting of therapy with my family and other personal life was difficult and a challenge.”
QUANDO DOIS JUNGUIANOS SÃO CASADOS: “Libby knows me and herself well enough to assume that we could experience other people sexually and still focus our most intimate sexual expressions in each other, that she as Every-woman could become a repository for all my sexual fantasies just as I could for hers.”
Arthur Reisel
Verdade e vitória são contraditórias.
Meu analista tem uma voz paciente, e eu ouvidos doutorais!
“Arthur, it takes ten years before a therapist begins to know what he’s doing.”
“Thinking that a straightforward discussion of the pot experience might ease some of this mother’s extreme fears, I asked the girls what it was like for them to smoke pot. Their replies were cautious and evasive. As I should have anticipated, they hit the ball smartly back into my court, asking me if I had smoked pot and if so, why didn’t I describe how it felt? Being a more skilled player than the girls, I could have used a therapeutic trick shot to put the ball back in their court. Yet something told me that the truth was called for here even if the shocked mother were to decide that a therapist who smoked pot was not for her family. Fortunately, it turned out well. Despite her innocence the mother is an open-minded woman who accepts differences in others.”
“Used with Karen’s permission, excerpts from her letters to me will amplify and enrich my presentation.”
“I think you protest too strongly and judge too harshly of a previous generation; but the protesting quite vehemently part interests me the most because I have seen it come out before with Carolyn; it wasn’t what you said as much as the intensity with which it was said. You see, on occasion I am also interested in getting into other people’s lives even though I do not get paid for it. I am interested in what makes them tick, and I try to remain as receptive as I can to subtle, non-verbal clues.”
“you are very, very far from being an open book. In other words, there is much about you that I do not know. I don’t really know how it makes you feel. I know at one point in the therapy I felt like I was naked, and you were a rapist, and you called me a beggar, and it hurt, and I thought: I’d rather be a beggar than a rapist. It just seemed that you kept taking and taking”
“you can’t beat them; you never beat them; all it accomplishes in the long run is letting them beat you. I don’t think either one of us would think that was a life well spent.”deixar-se levar é como ir para o inferno, pois não existe paraíso sem esforço. se isso significa que você “tem de dar valor”? Hoho, chega, descanse os nervos, o inferno não deve ser tão ruim… Me chama que eu vou!
“I did not tell you my complete reaction to your giving away one of your pictures. My initial feeling was a tinge of jealousy that you thought enough of one of your other female patients to give her a picture you liked very much. What felt like a little child in me yelled out: What are you doing? Don’t you know? I’m supposed to be the most important one! You’re not supposed to give your favorite picture to someone else! On that same level, I’m still not exactly bouncing off the walls about it; a little of the same feeling came back when you brought it up today. However, I feel it is so ridiculous, and childish, and unrealistic that I don’t even know if I completely allow myself to feel it, much less express it.”
uimpulsaindimpulsa
“She wasn’t going to think you had designs on her, was she? You didn’t, did you? Then, what’s to feel uneasy about? It was a very nice thing. People should do it more often. I’m glad you did, a little jealous, but pleased.”
“I get the very strong impression from you that you like doing things according to schedule, and that you really do not take deviations too gracefully. It is too bad that people’s needs do not run according to schedule also, or maybe most of your patients can program them for their hour or whatever.”
“Fuck your schedule; it might have fucked our lives. We should have gone elsewhere, but you didn’t have to worry about that because I was already too attached to you for that, and I’m sure you didn’t lose any sleep over it. I have resented it; I didn’t realize I resented it so much.”
“She then sent a brief note to apologize for blaming me for fucking up her and her husband’s lives. Karen knew they were responsible for their own lives, and she felt badly about hitting below the belt over the issue of my schedule.” Below the belt, but not too much…
Quantos anos de serviço contribuídos como “terapendo”?
Jacqulyn S. Clements
“Alan, in his 5th year of hospitalization, had been recalling the days when he was an airplane mechanic. He concluded with the comment, <That’s why I can’t ever get married; I’m a mechanic.>
You may be noting the symbolism. What I said was, <Well, I don’t know about that. I’ve known a number of mechanics and most of them were married.>
Alan pondered this thoughtfully. Then with a twinkle in his eyes, he leaned close to me and said, <But were they schizophrenic?>”
“Telling these stories is vaguely embarrassing, but, as lived, they were really good experiences for me and for the clients. My response in each case was a silent but clear <Touché!>. I don’t recommend dumb comments; but if you’ve got a Bobby or an Alan, you can learn a lot and enjoy each other.
An incident from my practice that illustrates a negative feeling of goofing and embarrassment occurred on the day I handed Mrs. B the A-child’s appointment card. My comments made it obvious that I thought she was married to Mr. A, who was also seated in the waiting room. These weren’t new people; I’d interviewed each with their real spouses. When Mrs. B pointed out my error, I wished I could disappear into a hole in the floor, and my right arm flew up in the air. I used it to touch my hair and said, <Oh, my, where is my head today?> Then, taking the A-child back to the therapy room, I quipped, <I almost got you a new mother today—ha ha.> As far as I know this had no big effect on therapeutic progress, although I certainly wouldn’t call it a confidence builder.”
“Sophisticated clients know what Gestalters and such are like; they probably saw their 6th Fritz Perls film just last week.” Um dos fundadores de um dos ramos da Gestalt (que não é monolítica): Perls, F., Hefferline, R., & Goodman, P., Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality (1951).
“I went to all those miscellaneous workshops and training institutes like everybody else, but I never did manage to come home a recognizable anything. I tell them I’m a Jackie-therapist, and this means, of course, my confidence rests almost solely on results. Yes, this has bothered me some. I’ve never felt ashamed not to be a walking encyclopedia on psychoanalytic theory, but often when another therapist is visiting the premises, I feel tempted to ask my client to please get down on the floor and scream like he’s having an avant-garde breakthrough.”
“I’ve had a few clients with outstanding embarrassment records. Cindy, age 14, recalled her 1st date: She spilled Coke in the boy’s lap, bowled [derrubou] a 16, and then left his car door open, resulting in $70 worth of damage. In such award-winning-goofers I also plant seeds to the effect that they’ve hit bottom, so what’s left to fear?”
“It’s amazing how many children I’ve seen who won’t run on a dropped ball. Little princesses just pose and posture the whole game—any game. The strikeout freezers can usually stay on the team if their batting average is high enough. But princesses are eventually ridiculed and chosen last.”
NÓ CEGO: “My other chronic childhood embarrassment worry had to do with body functions. In grade school about the worst thing I could imagine was wetting my pants in class. However, I was also too embarrassed to ask to be excused to go to the restroom. Would this qualify as a double bind? I am probably one of the few people in existence who neither asked to go nor went anyway.”
“It wasn’t until this very year that I got blood on my skirt in public. I was seeing a teenage boy for therapy when it happened. I laughed.” Quando crescemos e aprendemos que dar aquela freada ou mijada na rua não é nada de mais. “Now I’ll ruin the story a little bit: The teenage boy had gone before I realized it had happened, and then I laughed.”
“Life’s traumas, goofs, negative embarrassments and such should be stored lightly. If they’re off in the warehouse, they’re hard to get at when you need them and could do something constructive with them. But even sending the empty storage cabinet to the warehouse is ill advised. Then you wouldn’t have anything to put these memories in. They’d be laying around in sight too much. There are times for getting them out, but really nobody wants to see or hear that stuff all the time, even your best friends. And how about your own probable concentration on them? That’s called negative feedback overload. To avoid repression or indiscriminate hang-out, better get those storage cabinets out of storage!” O que está sempre exposto passa a ser ignorado (como certos livros na prateleira, que estão na sua frente mas você não os vê mais).
“The hypothesis was born: Be they orthodox or atheists, Jews have one foot stuck on the wailing wall. This was a hunch, not a put-down.” “A hipótese havia nascido: Fossem ortodoxos ou ateus, os judeus têm um pé fincado no Muro das Lamentações. Isso era um palpite, não uma afirmação ou acusação.”
IDENTIFICAÇÃO ESPIRITUAL, NO NEED FOR SHOWING (wallpaper de estrela de Davi e correlatos): “My fantasies went even further. I pondered the possible effects of Jewish Depression on the theory and practice of psychotherapy. Since nearly all the geniuses and heroes in this field really are you-know-whats, there might be an accidental bias that could be labeled the J.D. factor. Non-Jewish therapists would pick it up by identification and introjection. By now, almost everybody probably has J.D. This means things may not be as bad as they look.” Ser antissemita é ser antiocidental como um todo, mas não significa ser pró-oriental. Na verdade o Oriente desconhece o pânico anti-judaico; isso é uma doença exclusiva do homem moderno autocastrador. Ser antissemita seria negar nossas mais vincadas raízes pagãs. Ser antissemita é ser um destruidor dos próprios antepassados, nobres e elevados (recado a Varg & simplórios desta era).
“Wailing Wall. To wail is to cry. A wall is a block. A crying block? Crying because of a block?” Trocadilho impossível em Português.
“Note that Adam and Eve had no neurotic human parents and did not live in an uptight culture. They didn’t even have any childhood memories. Archetypal shame may be rather far removed from psychological theories regarding its derivatives. Note also that Adam and Eve were not Jewish; they were everybody. There was a wailing wall long before the one in Jerusalem. The latter is likely a modern intensification, or reenactment.”
“For many years, as an adult, I had frequent repeats of two rather common dream themes. In one I was to be in some play. It was opening night, and the curtain was soon to rise. I couldn’t remember any of my lines. I couldn’t recall ever having been to rehearsals. I couldn’t even find a script to refresh my memory or to take, hidden, on stage with me. In the other dream it was time to go take some school exam. I hadn’t been going to class. I’d forgotten I’d even enrolled in the course. If I’d ever had the textbook, I didn’t know where it was.
Despite years of individual therapy, group encounters, and hundreds of psychological theory and how-to books, these dreams continued unchanged. Then last year I had breakthrough dreams for both of them and have not had either one since.
In the breakthrough play dream, the curtain actually goes up and I step on stage. I not only have to improvise my lines, but I’m not dressed like the others. Six women glide by in beautiful satin gowns, and I’m standing there in a terrycloth robe with a Kotex [absorvente] sticking out of one pocket. Everybody laughs. In the school dream, I go to the room, take the exam, and presumably flunk.”
“All our righteousnesses are as filthy rags (Isaiah 64:6) is a commentary on general goodness, not just what we call self-righteousness. As such, it always sounded like a real bummer to me. Maybe the frequency of righteousness wasn’t high, but what a slam on quality. I once thought: Now there’s a good recipe for neurosis.”
“Of course, the righteousness insight didn’t really pop out of nowhere. I’ve been on a gradually emerging spiritual journey for 3 or 4 years now. Sometime during this period the following dialogue probably took place, although I’m surely still working on the last line of it.”
Donald D. Lathrop
“<I have never had a failure in psychotherapy!> My out-bragging the braggart was so incredible that it shut him up. What a blessing for me! The rationalizations that would have poured out of my mouth in justification for my clearly unreal claim humiliate me even now as I think of them. Evidently he recognized at that point that I was crazy. He never attended another supervisory session.”
“The type of therapy—the goals, the expectations, the method—defines failure. In psychoanalysis, the best studied of the therapies, failure has two important faces. One is the therapy that never ends, the <interminable analysis>. The other is the therapy that ends without a full completion of one of the technical dimensions of (psychoanalytic) treatment, namely the resolution of the transference neurosis.” “In most psychotherapies, the transference neurosis is left almost totally untouched. Good results are achieved by minimizing its development.”
“We talked about Arlene Mildred and her father. There were parallels. Arlene had been suicidal for months and was perpetually rejected by her parents. Yet if she killed herself, there is no question that her father would be on the phone screaming threats at me.”
“I feel better (as always) when I work, when I do the work that is my calling. It’s hard to concentrate, but there is relief for me in involving myself with the immediate problems of the living. Now there is something new. I am now haunted by the reality that no one in my care, not my patients, not my family, not myself, is safe from death through my unawareness. The only relief for me is talking into my machine, blindly recording for what purpose I do not know.”
“I recalled today that Mildred had had an illegitimate child and that her parents had condemned her for it; they had disinherited her, had left her with the feeling that in no way could she redeem herself. Now that she is gone, they are going to punish me.”
“But maybe not! Sometime in the late afternoon, sometime after the first woman had comforted me, I began to permit myself to think that maybe they would not sue me. Even now this goes back and forth, now one way, now the other. I know that I will just be waiting, waiting for however long it will be before the letter comes, before the papers are served, waiting and scared and at the same time a little defiant. They are not going to destroy me. I am not going to destroy myself.”
“That’s another strange quirk in this. I can no longer take comfort, as I have for so many years, in fantasies of committing suicide myself. Some recent realizations have convinced me that not only is suicide no longer a possibility for me, but comforting myself with fantasies of suicide is no longer acceptable. How strange, how ironic, that at the same time this door is closed to me, I have experienced the first suicide in my professional career.”
“These are all games. Nothing changes the reality. Mildred is dead. The games I now play to keep other men from judging me, from punishing me for my unconsciousness, for my carelessness, for whatever part is my fault, these games do not seem to me to have much to do with Mildred and me.”
“Tonight Mildred’s parents are busy making the plans and carrying out the procedure of burying their daughter. When they are through, they will come to bury me.”
“She told me that she was responsible for all of the evil in the world. I told her she did not frighten me; I told her, as I have told lots of crazy people, that I would expose myself to her and then we would see whether she was indeed the overseer of all evil. Now she is laughing. I just wish she wasn’t angry. Of all the helpers, all the professionals who have been involved with this young woman over 6 years of suicidal behavior, she saved her act of murder for me. I can stand the laughter, but the contempt, the anger, the hurt to my therapist’s arrogance, that really digs in hard.
Strange that this poor woman and I came together. We were brought together by the impersonal forces of the State. She was covered for her psychiatric care by welfare. I was and am obliged to make much of my living by treating these people. Like many such patients, she did not even pick me. I was picked for her by the good-hearted woman who runs the boarding house where Mildred was sent after her release from the state hospital. This totally untrained person gets the horribly sick, broken souls after they are hastily patched up and discharged from the state hospital. She is understandably anxious to find some professional to take care of her boarders. Many of them are as severely disturbed as any patient I have ever seen in the backward of a state hospital.
From the first time she came to my office, Mildred did not want to see me. In fact, for her first appointment, she refused to come in. I was glad. I didn’t need any more patients. I didn’t need to convince this unattractive young woman that I could help her. So I let her go. But the lady with the burden of taking care of her day in and day out was insistent, and a reappointment was made. Second try: I got her into the office. It was at this time she told me that she was the carrier of all evil. I found something to like in her. Her arrogance regarding evil stimulated my own in a competitive sort of way. I’ve known since I was a kid that no one is <badder> than I am. After that beginning, it was a succession of broken appointments, my happily giving up on her because she was stuck in a hospital in another part of the state, getting her back, working within totally unrealistic limitations of time and money imposed by welfare regulations, step by step to the final miserable result.”
“I was aware, as dawn broke this morning during my run on the beach, of Mildred’s blind eyes that do not see this sunrise. My dream last night was that I was working with some other people, trying to finish a job. Although I was working hard and felt the importance of finishing the job, I was not frantic. Then I was relaxing with some people, perhaps having cocktails, and a young woman asked me whether I would be giving a language course. I replied, Who, me? Parlez-vous ze Deutsch? Everyone laughed, for I had demonstrated that language was my very weakest subject.
I did not understand this seemingly light-hearted and trivial dream in response to Mildred’s death. Then I went to consult my friend, my guide, Max Zeller (our relationship was called Jungian analysis, or psychotherapy, and I was the patient). Max suggested that we consult the I Ching. This was a beautiful idea. It was the very sort of objective statement that I would be willing to accept. I certainly did not want any more comforting.
I asked the I Ching about the nature of my involvement with Mildred, the meaning of this experience. The answer was hexagram 28, <The Preponderance of the Great>. In this ancient Chinese symbolism was revealed a union of solidness, steadfastness, and joy. My light-hearted dream of last night now makes sense to me. As a student, much less a teacher of the language of the unconscious, I am a rank beginner. My life is the task that must be completed. As the dream says, I no longer work frantically at the task, imagining that I will thus impress the gods or get the job done, i.e., reach perfection. The hexagram also comforts me in my experience of inner peace, my lack of grief. I had feared that this was merely denial on my part, the refusal to feel the expected emotions. But the ancient book of Chinese wisdom suggests that grief and breast-beating are simply not part of this experience.”
“Now it is years later. I never heard another word from Mildred’s parents. The boyfriend who had encouraged her to sign herself out of the hospital against my advice called a couple of times. He mainly wanted to share his feeling that all of us had been bound together by a cosmic experience. I could agree—since he made no further demand on me. I was satisfied that he had forgiven himself as I had myself.
My failure, as I now see it, was in not being aware of the purpose of my treatment of Mildred. This young woman had been in agony for years, convinced that she was personally responsible for all of the evil in the world. She had tried repeatedly to solve both her own excruciating pain and the world’s unnecessary suffering by killing herself. However, she had always been too disorganized, too fragmented to succeed. I had treated her with medication and with psychotherapy so that she finally had the necessary ego resources to carry through a definite act of self-annihilation. My job was to cure her so she could kill herself! My failure was in remaining unconscious, in not being willing to be fully responsible for my part of the therapeutic contract.
I had known for years before this incident that the danger of suicide is greatest during the recovery phase. I knew that I could have legally detained her for a while longer. It would have been a lot of trouble, but it could have been done. The fact is, I just didn’t care enough about Mildred. That’s what was lethal.
I don’t want to slip into moralizing. That has no place in a world that is moving slowly but surely away from judgment, away from manipulation through guilt. I am convinced that my own refusal of guilt in Mildred’s death was the key to my not being punished by society. If we permit guilt to take over, we communicate to others their right to take vengeance on us.”Meu satânico erro em quase todos os períodos turbulentos da minha vida: ser cristão demais! Jussara, Maria das Graças, veteranos bobiólogos, até mesmo indivíduos estranhos, conhecidos na véspera… sempre se aproveitaram dessa faceta, tantos rostos descarnados disponíveis para umas pancadinhas, impunemente… Felizmente minha língua e meus dedos, embora em efeito retardado, isso lá é verdade, não seguem ordens ou ditames do “corpo típico” (o que me lembra TÍSICO), se é que se me entende. Aloprados e mais sinceros do que idiotas e bons, eles procedem à vendeta; “fora de contexto” não existe na perspectiva dessas duas instâncias, verdadeiras guias desta carne que transpira. Uma vez, em que não importa quanto veneno a serpente inoculasse eu jamais reconheceria qualquer porcentagem de culpa: Isabel the Unimportant Nóia, leprosa que se filia com os tipos mais tortos e mendicantes, desajustados, dessa Brasília imunda (e por isso me conhece!), não tinha nenhuma razão, mas, ainda pior, nenhuma chance de, com razão ou não, me convencer de minha responsabilidade no incidente que precipitou meu divórcio. Isto não é dizer que esse tipo de pessoa sem conhecimento causal algum tem qualquer ciência socrática de que nada sabe: pelo contrário, uma Unimportant Bell é sempre e perigosamente a “personalidade forte” que carrega uma fé cega, uma autoconfiança ilimitada nos próprios métodos, a pura contingência e falta de método, a vida informe e tosca, não-lixada, torpe como madeira matéria-prima. Estas pessoas são tão fanáticas em seu niilismo inócuo quanto qualquer dogmático tentando reinjetar, atavicamente, tabus e ritos milenares já superados na nossa sociedade protestantemente laica (faz parte do jogo de cena a impressão de que os evangélicos nunca foram tão poderosos, mas é uma força de castelo de açúcar, com dilúvios à vista…). Não temos rigidez e teimosia para levar adiante nenhum propósito que não tenha nascido ontem mesmo, enquanto civilização brasileira pós-moderna. Os mais doidos e inconseqüentes que já conheço há anos, mesmo que sem qualquer padrão real, são os únicos que posso descrever com precisão em seu martelar psicológico entediante.
ATENÇÃO, FIÉIS! NOSSOS PLANOS FORAM ANTECIPADOS PARA ONTEM: “All of my life I have failed. All of my life, I have suffered depression as a consequence. But I would far rather take my punishment as depression than project the responsibility for punishing me out onto the world. Others are not likely to be as merciful to me as my own educated inner Judge. I had a revelation once: There is no judgment on Judgment Day.”
Vin Rosenthal
“Unlike Joseph K. in Kafka’s The Trial, I know what I am guilty of”
“I am so nervous! I take some Thorazine. (Why Thorazine! Especially when I’ve never taken any psychotropic drug—not even marijuana.)”
“(And now I know what my patients are talking about when they tell of their anxiety.)” Weird. Sempre achei que a descoberta antecedia a profissão!
“Were you aware that a contract with a ‘schizophrenic’ often has little binding power?”
“The Tribunal gets really hot when it suspects sexual misconduct on my part. The judges are terribly suspicious of anything that looks the slightest bit sexual. (This sometimes is a hard one because they don’t always agree among themselves about what is sexual and about the rules of common practice and the behavior of the hypothetical <reasonable therapist.>) The Tribunal casts its confronting eyes over my writings and challenges me about such statements as follows:
She says: If it hadn’t been for your response to me, your holding me, I don’t think I would ever have come to believe anyone could find me sexually desirable; no matter how long we had just talked about it.
I’m amazed and overjoyed. I had picked up her message that she genuinely desired to have me-as-a-person act warmly, lovingly, intimately, with her-as-a-person, but I was uncertain whether I should risk it. Now I can see that by limiting my risk I would have seriously limited her possibilities.
My judges are especially wary whenever I Hold a patient.” “they often are skeptical and insist on reading between the lines and beyond what I have written.”
“If I sense the person is feeling sexual as a child, I let him know he is safe. If I sense the person is sexualizing to avoid, I try to encourage his getting to his child; if he does not, we sit up and work on it. This is also true if I sense that I am sexualizing the situation. I do not continue TO HOLD a patient if I stay with my sexual feelings”
“The Age of Aquarius enables me to avoid detection; no one looks that closely, and whoever does is ridiculed for being <uptight>.”
“What would you have me do? What kind of job would you permit me to hold that would enable me to retain my humanity, use my skills and talents and develop my potential? Remember, my peers are no better than me. The few unflawed noble souls are, wisely, going about their business in an unpublic way; they couldn’t care less. I have to live somewhere, someone has to share my company—otherwise that would be too inhuman a punishment to fit my misdemeanors. Reforming seems like such a difficult, even impossible task. Disappearing feels easier, yet, I’d have to take myself along. I suppose I’ll just go along as I have and hope that nothing happens.”
Lora Price
why not just a few?
“In the social work profession, close, intensive working together with clients toward personality shifts and problem-solving is called <counseling>. This is a term that suggests <telling> someone what to do as a way to be helpful.” “It is the social worker—the woman—whom the public mind most often identifies as the offerer of the <concrete> service. The intangibles, the profundities, are within the male preserve.” “Sigmund Freud and Otto Rank supplied the educational approaches that dominate the field. When I was in graduate school the faculty was overwhelmingly female. The course in psychological theory was the only one not taught by a social worker. Instead, the instructor was a male psychiatrist with a faculty appointment as <consultant>.”
“Even those social work agencies most heavily invested in offering counseling rather than concrete services rely upon regularly scheduled psychiatric consultations to determine and consolidate diagnosis and the direction of treatment. When I was a caseworker in a family service agency, it was a male psychiatrist who was hired to offer his expert opinion on a weekly, one-hour consultant schedule. There were only one or two caseworkers who could <present> within this frame.”
“Mistakes or therapeutic errors (although they were not so designated) were to be kept <in house>. This was a familiar and oft-taught lesson.” “The case supervisor, my supervisor, and I would all sit there chatting amiably, awaiting the arrival of the psychiatrist. He always came late because his schedule was so busy. All four of us would then engage in seeming accord as if there was only one way to work with my clients, one direction for me to follow. Because my submitted materials reflected only that I knew exactly what to do, we could then all bask in the aura of certain knowledge and perfection.”
“Making one’s way is equated with manipulation and control. Although the kernel of this truth first became evident in my work in a social work unit (a family service agency), it was even more glaringly so when I began working in mental health facilities. Ironically, these are considered the apex of clinical social work placements because of the opportunity they offer to do counseling—or therapy—without the impediment of the concrete service traditionally found in social work agencies. I had decided to go this route because of my wish to work with clients more intensively and knowledgeably.”
“When I applied for the job I wanted, I was turned down by the woman who was the Chief Social Worker. She said I was too inexperienced and would make too many mistakes. Besides that, I had been trained as a Rankian and obviously would not fit in with the Freudian approach of that particular clinic. She knew that my being there would <embarrass> the social workers who needed to keep up with (if not be better than) the medical staff. The chief of the service was a male psychiatrist. I saw him next. He was pleased to maintain his position in the ongoing struggle by overruling her and hiring me. In any case, he could not conceive that anything I would do could be that important. He knew that it was the doctors who ran that clinic.”
“the <family> was considered to be my area of expertise. The people I saw were labeled <clients> in deference to their secondary standing in the treatment matrix.”
“In my mind, women were less likely to be accepted into medical school than men, and girls were not as skilled as boys in dealing with prerequisite subjects such as science and mathematics. Also, becoming a social worker consumes less time and less money. Clearly, expending less energy befits a profession which is only of secondary importance.”
“Away from my clients I wept copiously. With them, I insisted on appearing intact and untroubled. I feel embarrassed now by my complicity in perpetuating their assurances that I could be perfect”
Arthur L. Kovacs
“Presented at the symposium Critical Failure Experiences in Psychotherapy, Division 29 Midwinter Meeting, 1972.”
“I now know that this formulation is nonsense. What we do with our patients— whether we do so deviously and cunningly or overtly and brashly—is to affirm our own identities in the struggle with their struggles. We use them, for better or worse, to secure precious nourishments, to preserve our sanity, to make our lives possible, and to reassure ourselves in the face of that ineffable dread that lurks always beyond the margins of our awareness and can be heard as a very quiet electric hum emanating from the depths of our souls when everything is silent.”
“In this way, we can use our training to utter comfortable lies to ourselves and to avoid looking at the processes by which the persons we are either catalyze or defeat those who move in communion with us.”
“…what? Disaster? Chaos? Stalemate? I do not even know the right word to describe the outcome.”
“Part of me needed a persecutor, and Gwen supplied the potential to play the part.” “When I no longer needed to be persecuted, we somehow parted.”
“subjective time is always more important than objective time”
“Gwen came to see me because she had begun to experience severe anxiety attacks in school. Most of these were evoked by encounters with her psychology instructor, a married, middle-aged man. She was convinced, in her own paranoid fashion (to which I was unutterably blind in the beginning), that he was making seductive, obscene, and shaming gestures toward her continually. When he discussed masturbation in his lectures, she believed he was shaming her before the whole class, accusing her and revealing that she was a masturbator. She would blush, feel terrified, and have to leave class.Gwen was frequently aware of his genitals bulging in his trousers. She often believed he dressed in a fashion to accentuate them and positioned himself in such a way as to exhibit his endowments to her. When he talked about sexual matters, she <knew> he was lusting after her. I need to make it clear that, as I do so often, I partly trusted Gwen’s craziness and indeed believed there was something in the instructor that longed for her. She was, I must repeat, deadly cute.”
“When she returned to her next appointment, she was furious with me. She screamed at me that I was a rotten fucker, that I had sent her to her humiliation, that I took sadistic pleasure in teasing her. The force of her violence was incredible; her features contorted into a malevolent hatred that I have seldom seen. For the first time, I sensed the presence of some awesome murderousness in her, and I felt frightened. The pitch of her screaming was louder than I had ever heard. I believe, and still do, that the instructor had manipulated her and given her a dose of clever poison to choke on as he protected himself from her paranoid wisdom. I tried to get her to hear that. Her ears were closed by the noise of her own anguished, vicious screaming. She broke out of my office, fleeing from me and from her rage, almost wrenching the door off its hinges—although she probably does not weigh more than 95 pounds [43kg].”
“My beliefs, inflicted on Gwen and most others who opened themselves to me, were my armor, my sword, and my shield at that time of my life.”
“The next many months Gwen found exquisite ways to torment me, even though I could not get her to come to my office. She began, for example, to call me, usually around 3A.M.. I would stagger out of bed to answer the phone. There would be an ominous silence, then a loud screaming, You goddam piece of shit! I want you to die! or something equally vicious and abusive. Suddenly the phone would be hung up and it would be over until the next time. I believed then that my life was in the grip of some malevolent, overwhelmingly crushing principle, for Gwen’s timing was exquisite. Most of her calls occurred at times when I felt too weary, too battered to stand one more moment of anguish in my life. My struggle to build a new existence was beginning to consume me. Most of those nights I had fallen into fitful sleep after lengthy episodes of bitter acrimony with my former wife or of crying desperate tears at having to cross such a limitless desert alone. Gwen’s calls would cause me to start up from steamy, sweat-rumpled sheets in terror; I did not feel the strength to deal with her.”
“At last, after an absence of 4 months, I finally received a daytime call from Gwen. She asked to make an appointment! When she came in, she told me that she had been thinking about her therapy a lot and that she felt she wanted to enter group therapy. Having others around would, she believed, keep the 2 of us from getting into terrible trouble together. (I often notice patients possess incredible wisdom, if we would only listen!) I also, as did she, wanted and needed to dilute the horrible intensity of what had been transpiring between us. I readily assented, and Gwen started group.”
“In her middle adolescence, Gwen’s stepfather had a psychotic episode, preceded by a period of great violence during which he brandished a pistol repeatedly, screamed at his family members often in desperate viciousness, and engaged in great, raging, hallucinatory battles with his wife—during which he sometimes bloodied her or broke her bones—before he himself finally went to a psychiatric hospital. Gwen trembled violently as she remembered and related these things. During this period of treatment, also, Gwen got herself a job as a secretary, decided to attend college at night, and moved into her own apartment, separating from her family for the first time in her life. And I felt smug, pompous, and marvelously effective as her therapist. What an ass I was!”
“Once I was working with another patient. The other patient was pouting, sullen, withholding. She had come up to the edge of something and now sat stolidly, defiantly, unyieldingly. I became exasperated and started shaking her. The next thing I knew, Gwen threw herself on me, fists flailing, screaming You fucker, you fucker! It took 10 people to pry her off of me. I was very shaken.
Another marathon. Days, months, years—I do not know how much later. I had taken 20 patients into the Sierra Nevada. We were camped out in a snow-surrounded, glacial-scoured, lake-filled paradise. I had asked a woman along to share my sleeping bag at night. As I look back, I now feel ashamed of my choice. My companion was young and very pretty but had nothing more for me than sexual compliance. For this she wished to present me with a large number of emotional demands. At that period of my life I was desperate for any crumb of nourishment, did not appreciate my worth, and would hunger after anyone I believed would have me. We fought a great deal that weekend. Gwen kept watching the two of us balefully. During the 2nd day, she asked the largest man in the group to restrain her physically while she talked to me. He did so, and once again she shifted gears into her screaming viciousness, calling me a piece of shit, a motherfucker—any obscenity she could muster. He held her so she wouldn’t hit me. She struggled hard to get free while she vilified me. The gist of her tirade was, of course, that I was a moral leper, a vile sensualist, and a user of people.
As my first marriage continued to die and as I searched for the goodness I so longed for, Gwen became somehow in my mind the world’s representation of the established moral order. She had been selected to make me suffer for my sinful attempts to make a new life. The night calls and screaming at me over the telephone continued, usually when I could least bear them. Incredible vituperation also spilled out of her in group each week.”
“Weekends are always terrible when marriages are dying.”
“I want her dead! I suddenly knew it and began to fantasize the myriad ways I could kill her. I danced exultantly over her broken corpse. Her life must end so that mine could go on! (…) That shitty, stinking little cunt-bitch! I arrived at work trembling in fearful awe over the intensity of my own murderousness. That night in group my patience was exhausted. The 2 of us got into a screaming battle with each other. I told her how I longed for her to die. We traded insults and murderous fantasies. I felt momentarily better.
Another night—weeks later. I am talking to someone else about masturbation. Gwen’s paranoia flares up again. She accuses me of sitting with my legs apart to compel her to stare at my crotch. She insists that I am talking about masturbation to shame her. She yells that I should get it straight once and for all that she does not masturbate. I get furious. I tell her that she is a stupid little bitch. I tell her she is 20 years old and that it is time she started masturbating. I describe to her how to do it and order her to go home and carry out my instructions after group. I add that I never want to hear anything about masturbation from her again. She becomes silent. Finally, I start searching my heart about her accusations. I tell her that they are partly justified, that when I first met her I had indeed tried her on in fantasy as a possible lover. I assented that I had probably teased her provocatively and flirted with her in subtle ways. I admitted to her the crazy desperation that seized most of my life then, the hunger to be at rest in a good woman’s arms. I added that my fantasies about her had died, though, soon after my getting to know her—that she was not my other half, nor what I needed for me. I said that I regretted that fact. I believed that my inability even to imagine her any longer as a partner to me was a sad tragedy. I felt forlorn as I talked to her. I closed the group by expressing my wish that a day might come before either of us were dead when once again she could stir me in such a way as to invoke in me imagery of her being my woman. I knew that that would be a sign that something profound had happened to each of us.
Early the next morning, Gwen called. She asked if she could have an individual appointment with me. I had a cancellation that afternoon and readily assented. At the appointed hour, I opened the waiting room door. Her face was contracted with rage. As she walked by me, she slapped my face. When we entered my office, I asked her what the hell that had been for. She screamed that I had exposed, shamed, and humiliated her in front of her friends in group. Then she went berserk and threw herself on me, trying to claw my face and spitting at me as we tussled. We crashed to the floor, spilling furniture and books everywhere. I finally subdued her, and as she began to feel the assertion of my strength and control she murmured between clenched teeth: Go ahead, you bastard. Fuck me. I told her I wasn’t interested. She began to sob convulsively. I had never seen her like that. She was suddenly very little and helpless, a 3-year-old who had been running around in murderous fury, trying to pretend that she had adult competencies lest the world penetrate her disguise and annihilate her. An image is indelibly burned into my awareness: the two of us sitting there on the floor in the midst of the rubble of my office, Gwen sobbing helplessly in my arms, my rocking her and feeling rubber-kneed and weak from the awe and fearfulness of what we had just experienced.”
“She began describing her stepfather coming into her room one night. Gwen stopped, flushed, went incredibly tense, and would not go on.” “My instructions to her to enter into a dialogue with the half-fantasied, half-remembered shade of that man on that nameless occasion precipitated a kind of trance-like state. Gwen became 14 again. She relived and reproduced what I knew was in store for all of us—her stepfather’s feared, longed-for, luscious, tormenting, lacerating, hungering attempted rape of her that awful night of her memory. Who knows whether the events were real or not? I still do not. But their reality was powerful that evening she described them to us.”
“Her tear-drowned eyes remained closed. I picked her up and rocked her as I would my own daughter. At first she drank me in. Then I felt her stiffen. I knew intuitively what was happening, and I said to Gwen, No, I don’t have an erection. She realized it too, at the same time, and turned to rubber once again in my lap. Yet, at that moment, I sensed our relationship was doomed and hopeless. If I held her at some emotional distance to placate her longing, terrified struggle over being penetrated, she would rail at me for being no help, disinterested or worthless to her. If she captured my attention, and I started to move closer to her, I would become the bearded satyr—too exciting, too forbidden, and too dangerous to deal with. Either way the end result was an outburst of fearful hatred. I talked to her often about this frustrated, impotent dilemma into which she thrust me. It never did any good.
Instead, Gwen began to separate from me. She started to come to group less and less. At first I felt comfortable with this, for the events of her life demonstrated a thrust toward increasing competency and mastery. She received a significant promotion at work.She separated from her boyhood lover and began to explore the possibilities of loving a much more capable man a few years older than she was. (…) One day she called me to ask me for a referral. A friend who did not have much money wanted to enter therapy and asked her, so she said, for the name of a good clinic. I provided this to her, and I added that the friend should ask for Dr. X, if possible, at that agency for I knew he had a good reputation. Three months later I found out, when Gwen began to talk matter-of-factly about it in group, that it was Gwen herself who had gone to see Dr. X and that Dr. X had begun seeing her, not at the clinic, but in his private practice!”
“She finally mustered the courage to tell her new lover that she was falling in love with him and to ask him for more of himself than he had been willing to give her thus far. He smiled, told her that she was a sweet thing, but that all he wanted her for was an occasional night in the sack. He laughed delightedly at her precious gift of her avowing that she wanted him, and he went to the refrigerator to break out a bottle of champagne. Gwen went berserk, tore up the man’s apartment, and forced him to throw her out bodily. She then came to group the next week, started up her screaming machine again, complained that I was an evil monster who ruined people’s lives, and stormed out of the office. I did not see Gwen again for three months. I was relieved. I thought she was gone forever, and I was happy. I had at last left my previous life, was living alone, and felt joyously in love with the woman who is now my wife. Gwen’s seeming departure was a mystical sign to me that my perilous journey was at last over and that I would be able to rest in my wife’s arms, exhausted, ecstatic, and optimistic about what we were beginning to build.
Much to my surprise, Gwen signed up for a weekend marathon [!] I held the next January. My soon-to-be wife accompanied me on that occasion. As I relive those moments, I remember how Gwen stared at the two of us in hateful envy. She detested my happiness. She tried to interfere, with sarcasm and cruel mockery, in any work I attempted to do. I finally stopped everything to contend with her. I was quaking with tension. After Gwen played many screaming broken records over and over again, I asked her what the hell she wanted from me. To my astonishment, she softened and asked to be held. Haltingly, I agreed. She came and sat next to me. I put my arm around her and she leaned against me, but I felt some kind of stiffness and unyieldingness in her manner and bearing. I told her I missed the vulnerable child she had—on a precious very few occasions—allowed herself to be with me. My wife, in her usual marvelously intuitive fashion, saw the look in Gwen’s eyes and began to speak to her of her own struggles with pride and envy. They swapped tales of being children, of longing for good fathers, and of all the turmoil and fear such longings create. My wife urged that Gwen be resolute in searching for what she wanted and that she not allow her fears of other women’s retribution to turn her aside from her quest. Gwen softened and allowed herself at last to surrender to being held. Later in the night one of the women in the group asked Gwen for permission to, and indeed did, feed her from a baby’s bottle. [Ah, kleinianos!]
Gwen then disappeared from my life. Once in a while I would get a phone call from her complaining bitterly about the cold, cruel, and vicious treatment she was receiving at the hands of Dr. X. I urged her each time to discuss her grievances, real or imagined, with him and told her she was always welcome, if she wished, to return to group—that many people missed her and asked about her. Last June, I got a call from her again. She and Dr. X had gotten into a fight, and he had thrown her out of therapy, saying that he was sick of her vicious bitchiness, would not put up with it anymore, and was not going to see her again. Gwen sounded crazy and frightened on the phone. I began to get anxious.
Two weeks later I came into my office and found it at shambles. All my books had been thrown on the floor. The furniture was overturned. Papers had been ripped up. A cover from Time magazine, the one with Jesus Christ Superstar on it, had been ripped off. A knife, thrust through the face of Jesus, impaled it to my couch. I knew immediately who had done it, and I began to fear for my life. Then Gwen called and asked for an individual appointment. I refused, telling her that I was afraid of the violence in her. I urged her to come to group so that we could talk where we would both be safe. She screamed at me and hung up.”
“Three weeks later, a fireman came into my office. Gwen had been gathered in off the roof of my building after having threatened noisily for an hour to jump.” “The physician in charge called me. He said Gwen had confessed to him it was the 3rd attempt she had made on her life in 48 hours.”
“The mother reported that Gwen had assaulted her parents and her father’s psychiatrist during the past week. I begged the mother to have Gwen hospitalized. Instead the mother screamed at me for being <one of the fucking Jew-doctors> that had ruined her daughter’s life. Screaming in fury, she told me she was going to take Gwen home. For the next 3 weeks I walked in dread, not knowing whether Gwen was alive or dead, not knowing if she would come at me out of some other dark night, this time with a weapon.
Late in July, Gwen called again. She asked for an appointment. For some reason known only to my sense of the uncanny¹, I granted her request. I was terrified, but I needed to confront some primitive dread in me. I was sick to death of being a person who always ducked bullies and fled from the possibility of violence. She would be the occasion for me to confront me.”
¹ Referência freudiana
“She related to me that she had made appointments with 8 different therapists in the past 4 weeks and had physically assaulted all 8 of them and fled.”
“I guess I’ll live. But I don’t think I’m going to go on with therapy.”
“As she disappeared down the hall she smiled bravely and called out over her shoulder, You’re the only one who always lets me come back. I have not seen or heard from her this past 3 years.”
“Gwen served me well as my vicious companion at a time I needed one. The impress of her being will always be with me.”
Hobart F. Thomas
“On several occasions I have experienced deep feelings of love and/or sexual attraction for clients. At other times I have felt and expressed feelings of irritation and anger. None of these emotionally charged situations, however, seems to provide the devastating frustration of those in which no truly personal contact occurred. I am recalling the long and seemingly fruitless hours spent with depressed patients in mental institutions, which seem to put one’s faith in a therapeutic process to the ultimate test.”
“Perhaps the toughest experiences of my career were the days of attempting to practice before I myself had undergone personal therapy. I had mastered the knowledge, techniques, and procedures well enough to obtain a clinical Ph.D., but the heart and guts of the process were missing. Bizarre as it may sound, I even recall on more than one occasion actually envying the experiences of some of my clients in therapy.”
“Approximately 4 years after completing a doctorate, I entered personal therapy. Reasons for the long delay are not easy to determine. In spite of episodes such as the above, I seemed to be endowed with sufficient ego strength to keep the show going. Besides, I was not convinced that the Freudian model and many of its practitioners, who represented the bulk of my exposure to clinical practice at the time, were the answer either to my own or to the world’s problems. It was then, and is now, my conviction that one best chooses a therapist out of some deep intuitive place, and one can do no better than to follow one’s feelings when making such a choice.”
“Bouts with the perfection monster”
“Being <analyzed>, at least in the circles in which I traveled at the time, also qualified one for membership in a rather exclusive club. A part of me wanted to belong, to be accepted, to be part of the action. Another part, for whatever reasons, refused to join up and pay the membership dues.”
“Ironically, my impression is that, currently, the Jungian school is considered more <in> [fashion] than the Freudian. At the time, such was definitely not the case.”
“What if all of a sudden I can’t function?”
“The outer drama in which therapist and client each play their respective roles continues, apparently without interruption, until the end of the hour.”
“The experience of panic occasionally recurs, sometimes in the consulting room, sometimes while teaching a class, or sometimes during seemingly ordinary conversation—usually, in each case, when I feel pretty much in charge and everything appears to be running smoothly. (Another clue here, perhaps?)”
“really plays well for his age”
“We need not always stand alone.”
“Look, Mom, I finally made it!”
“My hunch is that the state of panic is a corrective, devised by my wiser Self to help put things back in the proper perspective—a real therapeutic kick in the ass to remind me that I’m not God.” My hunch is that my panic is for me to saying Farewell, father!
“it is essential to know how to let be.”
“that’s all: [be] midwife. You can relax.”
“My perfection bogey-man stays with me a good deal of the time, however. Having experienced that paradisaical state of Being, I do keep searching for ways to get there and stay there. Even when I appear to be laying back, I’m trying—trying to do, trying not to do. And, too often, in rushing to reach home I forget to smell the flowers along the way.”
NO, NOT FREUD: “When my own therapists revealed themselves to me as persons, not gods, I soon realized that human imperfection has about it its own particular beauty.”
Joen Fagan (mulher – informação relevante para um dos casos que ela irá contar!)
“One of my oracles is the dictionary. Built into the derivation of words and the range of their meanings is a cohesion of human experience. So I asked Webster the meaning of naked, and found my eye pausing over and returning to <defenseless, unarmed, lacking confirmation or support.> As I sat, feeling my way into these meanings, I remembered William.”
“He sat in the front row, nodding at the right times and laughing at my jokes, behaviors much appreciated by a teacher.” “You know so much about this; don’t you think…?” or “Why wouldn’t it be true that…?”
“I was lonely, but people had to press against me to become friends; even though I needed and wanted them, my reserve and hesitancy took some broaching. It was the same with students who had asked me to counsel with them. They had to persist past my uncertainty and self-doubts. So I accepted some intrusiveness and tolerated my discomfort with him without firm limits or comments.”
“Did I think he needed to go back into therapy? Did I think he was crazy? His father had said that to him this week. His wife had told him that too. But he thought he was doing well. Would I see him for therapy?
No, William.
Why not?
You’re not finished with Carl. Besides, I won’t see students who are taking courses from me for therapy. (Avoiding saying, of course, that I doubted my ability to handle him or that he was too manipulative.)
Well, will you have lunch with me? Why not?
He was becoming a nuisance. Once, as he got up to go, he suddenly leaned over and tried to kiss me. I was angry then and told him so.”
“Did I think he was crazy? He had been hospitalized before. What did I think? <I think you’re bothered about a number of things and should go back and see Carl.>”
“Anyway, in another week summer vacation would start, and 3 months away from the college would solve the whole thing.”
“The next morning an envelope was in the mailbox at my house; it was a somewhat confused but humorous letter from William saying he had decided to spend the summer in a nearby public park and inviting me to join him.”
“The next day there was another letter, more angry and threatening, with some sexual allusions that were immediately denied. You know, of course, that I’m just kidding. I love you and wouldn’t hurt you or do you harm. I began feeling frightened and did not sleep well. The letter the next day was even more threatening. If you won’t see me, you won’t see anybody. I want you and I’ll get you.”
“The father called me later that afternoon to say that he had found William and had had him admitted to a psychiatric ward. My relief, though, was short-lived. Letters now started coming through the mail, openly delusional, abusive, threatening, and sexually blatant. Again I waited and did nothing, not knowing anything to do. Should I contact his unit? Or him? Or his father? To do what? Say I was scared? Then his father called again. He thought I might want to know that William had escaped from the ward.
There was a paranoid somewhere in the city and I was the center of his delusions. Several days of extreme anxiety. I put chain locks on my doors and jumped at noises. I remembered a patient at the hospital where I had interned, who, ten years after his last contact with a former female therapist, still maintained a similar life-focusing preoccupation with her. The hospital viewed him as sufficiently dangerous to call and warn her when he escaped”
“I remembered other threats to therapists and attacks by patients, and I frantically found work to do and friends to be with.”
“Shortly after that an FBI agent called to say they had investigated the forgery at the request of the bank but did not recommend pressing charges since William was now in the psychiatric ward at Bellevue. Again, relief.
Once every few months a postcard came, and one time, a box of candy on Valentine’s Day. He might no longer have been paranoid, but I was; thinking there was a chance it was poisoned, I threw it away. The sight of the neat, familiar writing could still evoke anxiety, but the cards came less and less frequently until finally a year or more had passed with nothing to remind me of him.”
“Do you know that you saved my life?
No, William, I didn’t know that.
He stood up, went to the door, paused, said goodbye, and left. I realized that I had no idea what he had meant.”
“Do you know, William, how much you taught me about the impossibility of running?”
Barbara Jo Brothers (e sim, é só uma pessoa)
“I am caught. There is no way my vanity will let me avoid rising to the challenge, no way I would decline contributing to this book…but knowing this as my personal dilemma: the risk of exposure of a place inside myself—a place I have found virtually unbearable… a place I have virtually given my life to protect.”
“When I met Jerry, I was in the first month of my first clinical job, armed with my degree and with all of the accompanying mixtures of zeal and anxiety. There was Jerry. Transferred to the local state hospital’s adolescent unit because his family’s funds had run out (after 9 months of psychoanalysis and private hospitalization), Jerry was as crazy at that point as he had been 9 months before. I had known his analyst, so I knew a bit of his history.”
“In my youthful mind, if one of the best analysts in town was giving up, I was already expiated from whatever penalties of failure might ensue and from the awesome demands of Knowing-What-I-Am-Doing.
Jerry and I did well. Then one day the hospital decided to discharge him, prematurely in my judgment. I sent him to what I considered to be the best mental health center in town and tried to tell myself something to make the uneasiness a little easier in my hither-to-relied-on gut.”
“My own therapist comes in, tries to look like a doctor, takes my pulse. <Are you depressed?> he says. I reply, <I’m too sick to be depressed. Come back in a few days and I might have a depression for you.>”
“We had lost our connection after my discharge. I had referred him to the best therapist I knew in community out patient mental health clinics. He was re-hospitalized. I vehemently protested when hospital policy dictated that he not be admitted to my unit simply because of having had one more birthday since his discharge [ultrapassou o limite de idade de sua clínica]. I might have conquered death, but I was not going to have an effect on the monolithic mental ill-health system. He went to the adult unit and killed himself while out on pass.”
“Exposure, expression, mistake, all are cyclical. My exposure is beginning to sound like my salvation. That which I fear most seems to serve my best interests most powerfully.”
“I dodge and twist and evade.”
Carl Whitaker
“Before antibiotics, treatment of gonorrhea in the female usually consisted of months of hospital bed-rest. The Green Girls were locked in a big ward on top of the hospital in the middle of the East River. It was my job to try to keep them from becoming overly excited in order to prevent flaring up of the infection that had gotten them arrested and imprisoned.
It was a strange flip for a religious country boy to end up dealing with Broadway chorus girls. They wanted to have their operation by our own gyn department because we used a special incision below the hairline. That way they could go back on the stage and not be laughed at for exposing their surgical scar.”
“I saw this big white polar bear sitting on the bed, and I knew he wasn’t real, but I had to call the nurse because he looked so real.”
“As I learned more about the vivid experiences of psychosis, I rapidly lost my interest in the mechanical carpentry work we call surgery.”
“A patient who was mumbling to himself explained that voices were calling him horrible things and saying that he had intercourse with his mother. I said, ‘That must be very upsetting,’ and he waved me off with, ‘Oh, no, they’ve been doing that for years, and I don’t pay attention anymore’.”
“Later I talked with an 85 year-old man who came in for molesting an 8 year-old girl. When I met the girl, who looked like a professional actress fresh out of Hollywood, it made huge gashes in my fantasy of what life and people were all about.”
“This call of the wild, the agony and ecstasy of schizophrenia, of the whole psychotic world, ballooned inside of me.” “The magic of schizophrenia, that Alice-in-Wonderland quality of spending hour after hour, sometimes all night long, with a patient whose preoccupation with delusions and hallucinations made him as fascinating as yourself, was matched by the mystery world of play therapy.”
“My discovery of Melanie Klein and her beliefs about infant sexuality was like a repetition in depth of my earlier discovery of the psychotic world.” Oh no, not this bitch again, defenestrate her, from the fifth flour, please!
“my first introduction to psychotherapy was by way of the Philadelphia social work school’s form of Rank’s process thinking. I became more and more intrigued by what brings about change. There was an 8 year-old boy who hadn’t said anything since he had whooping cough [coqueluche] at age 2. I spent 6 months seeing that boy once a week while the social worker talked to his mother upstairs. He never said anything to me either, but we threw the football out in the yard. He did listen to me talk about him. I finally gave up and admitted I couldn’t help. He and his mother went away disappointed. I thought I’d had it with psychotherapy until we got a call back 3 weeks later saying he’d started talking.”
“It became more and more clear that medical students were divided into those who didn’t know how to be tender and those who didn’t know how to be tough. How difficult it was to teach either one to have access to the other. I didn’t really know I was merely talking about myself for some years, but I did discover the joys of working with delinquents. That power! I always thought of them as Cadillacs with steering gear problems, whereas the neurotics we saw in the medical school clinic were like old Fords that were only hitting on two cylinders. Looking back, I often wonder how many of the delinquents stole cars just so they could come back and tell me about it.”
“As a matter of fact, for the next 3 or 4 years I bottle fed almost every patient I saw—man, woman, or child; neurotic, psychotic, psychopathic, or alcoholic—and with a high degree of usefulness, if not success. It was only some time later that it dawned on me that it wasn’t the patient who required the technique, but the therapist. I was learning to mother, and once that was developed I couldn’t use the technique anymore.”
“I didn’t even know then that co-therapy was a secret system for learning how to talk about emotional experiences. It allowed you to be able to objectify a subjective experience shared with someone else.”
I eventually left to work in Atlanta, where we discovered in those early days that the baby bottle was a valuable way to induce regression in the service of growth but that fighting was equally valuable. Just as the baby bottles spread from one to another in our staff group of 7, so the fighting moved until we were apt to be involved physically with almost every patient in one way or another. The intimacy of physical contact—of slapping games, of wrestling, and of arm-wrestling—became a part of our discovery of our own toughness.”
“By 1946 we had 3 daughters and 1 son. The problem of trying to be an administrator and a clinician had exteriorized a lot of my immaturity. When the stress in the hospital and medical school got high, I began to precipitate myself into psychosomatic attacks with cold sweats, chills, vomiting, diarrhea, and a half day in bed. Cuddling with my wife resolved this, but I went back into psychotherapy to help develop confidence in preventing it. Living with our own children also convinced Muriel and me that the only <unconditional positive regard> in this world comes from little children.”
“It was clear to us that the reason people work with schizophrenics is that they want to find their own psychotic inner-person, which is known more and more as the right brain—that nonanalytic total-gestalt-organized part of our cortex. We struggled over the schizophrenogenic mother and over whether the father himself can create schizophrenia. All this anteceded systems theory, which made it clear that it takes a family system (and more) to originate such a holocaust.” Quanta inocência, diria Deleuze…
“The craziness that had overlain her arteriosclerosis of the brain had long since faded into the background. She just ate and slept and smiled and went to the bathroom. But the family still loved her and still enjoyed being with her. They had not turned away from her because of her failing health.”
“It seems that the initial therapist is contaminated with all of the usual problems of being a mother: He’s all-forgiving, all-accepting, and minimally demanding. In contrast, when the consultant comes in for the second interview, he turns out to be very much like the father: He is reality-oriented, demanding, intellectual, much less tempted to accept the original complaints or the original presentation, and very much freer to think about what’s being presented in a conceptual, total gestalt manner.”
“The Atlanta clinic was our private world, and the sophisticated world of a psychoanalytic organized group left me with uncertainties, awkwardness, and the temptation to be isolated.”
“The initial phase of working with the family demands a coup d’état, in which the therapist proves his power and his control of the therapeutic process, thus enabling the family to have the courage to change their living pattern. Other concepts, such as the importance of the detumescence of the scapegoat [resolução, desinchação – conotação cancerígena] or surfacing other scapegoats in the family, spreading the anxiety around the family, and the necessity of using paradoxical intention to reverse the axis of responsibility so the family would carry the initiative for their own change, all were picked up from the residents when they were working with families as co-therapists.”
“One of the covert changes that I experienced was my increasing conviction that everybody is schizophrenic. Most of us don’t have the courage to be crazy except in the middle of the night when we’re sound asleep, and we try to forget it before we wake up. I became more and more courageous in my advancing years and tenured role, and I began to use the word with greater nonchalance. During the first 6 months to 1 year, it was quite a shock, but after that it became gradually more and more accepted, at least in my own head.”
“There is being driven crazy, which means that one’s malignant isolationism¹ is brought about by being forced out of one’s family. There is going crazy, which, in the case of falling in love, is a delightful experience, although very frightening. Going crazyalso takes place in the therapeutic setting, where it’s sometimes called transference psychosis, much in the same way we talk of transference neurosis [still two words that can’t make sense]. And then there is acting crazy—the crazy responsiveness of the individual who has once been insane and who, when under stress, returns to that state of being even though he’s not out of control in the same way. He’s like the child who has just learned to walk. If he gets in a hurry, he’ll get down and crawl on his hands and knees, even though it’s slower.”
¹ O que será que quer dizer? Meu caso? Vivendo com 3 idiotas cada vez mais incapazes de me entender e na verdade cada vez mais decorativos (1988-2017), de repente meu corpo se rebela e diz: CHEGA, VOCÊ JÁ SUPORTOU DEMAIS! ACABOU SUA AUTOIMPOSTA EXPIAÇÃO! Mas quer dizer que quem fritava a batata, no fim, eram eles… Consolador!
“the quasicraziness that happens in social groups”
Alex Redmountain (“Despite his name, he is not an American Indian, but, rather improbably, a Jewish-Slavic refugee of World War II.” – Kopp)
“The affliction is self-love, narcissism, a narrowness of vision that places everything outside oneself at the periphery. Though it appears open and seeking, it makes learning very difficult.Stop reinventing the wheel, I was told; I finally did, but since no one told me to stop reinventing the compass, and sextant, and steam engine, I kept on doing that for quite a while.”
“Out on the street, the therapist is like a hooker who’s been thrown out by her pimp. There’s no security, no status. You’re surrounded by a dozen other hustlers, each selling some exotic solution to life’s problems: astrology, card reading, Scientology, revolution, a quickie in the back of the Dodge van parked across the street. Psychotherapy looks like just another fast fix, a way to set the pain aside momentarily or to pretend to an inflated self-importance. And often it is.”
“I am a clinical psychologist, traditionally trained, and I was still doing the usual clinical psychologist things: testing, individual and group therapy, supervision, formal consultation. But I was getting restless, found it hard to stay within the confines of the clinic where I saw my patients. Little by little, mostly by self-invitation, I cultivated a street beat through familiar geography: free schools and open universities, gay people and street people, adolescents of infinite variety and the many species of chicken-hawk who prey on them, alternate enterprises of every ideology imaginable, and a total spectrum of lifestyles. It seemed like a great opportunity for checking out the barriers. It was also a great opportunity for, as we used to say in The Bronx, getting my ass handed to me—as in the sentence, When I hand you your ass, boy, your head is gonna fall so low you’ll be looking up at roach shit [cocô de barata].”
“Basically, I’m a middle-class grown-up with slightly rebellious inclinations; the one time I was impulsive enough to drop out of school, I joined the U.S. Army and was promptly dispatched to die of boredom in Korea. The setting for my street-shrink activities was a deteriorating, exciting, but not especially dangerous or sinful neighborhood in a large Eastern city. It was exciting because of its variety: its residents encompassed all ages and classes, at least 3 races, and 12 ethnic groups; Maoist food <collectives> operated on the same block with 30 year-old Mom and Pop groceries; soul music blared from one record shop speaker while salsa and bomba rhythms leaped out from another around the corner; store-front churches rose from the ashes of revolutionary Trotskyite print shops—and vice versa.”
“Another source was the illusion of being a savior, a reconciliator loved by all. When I walked around the neighborhood, greeting militants and leftover flower children, precinct captains and self-actualization addicts, I imagined myself a combination of country doctor and masterful statesman, healing rifts both psychic and physical as I passed on through. And in the best Lone Ranger silver bullet tradition, I dreamed of encountering evil, overcoming it, and riding off toward the foothills and the setting sun—all within the 30 minutes normally reserved for the radio serials of my youth.
This kind of delusion wreaks havoc with the long-distance running qualities usually required of the psychotherapist. It also helped me suppress some doubts about my own endurance. With every new patient I took on in my public practice, I wondered: Can I really last the journey? As the complexity of every individual unfolded, I worried: It may be just too hard, too long, too draining. What if I want to run off and fast alongside Cesar Chavez [uma espécie de João Pedro Stédile] in the lettuce fields? What if I decide to go to Harvard Business School so I can destroy capitalism from within?”
“I’m there in 20 minutes. Who said that house calls were a thing of the past? Upstairs I can hear crunching and smashing noises. Down in the <parlor> 8 resident runaways and 2 counselors mill about, looking worried, indifferent, scared, sullen—depending on whom you are looking at.” “a monstrous teenage version of an NFL defensive end, 6 foot 6, at least 240 pounds. He is methodically ripping apart the wooden bunks—the bunks that my friend Joe put together over a couple of weeks of unpaid labor, after his unemployment ran out! I am outraged.”
“Sally greets me with a strange, playful look in her sensual eyes. (Whoops, it’s hard to keep lust and hubris clearly separate.) For many reasons, Sally is one of my favorite counselors.”
Shrink é uma gíria suburbana para psicólogo ou psiquiatra.
“God works in mysterious ways, said Sally, having been raised a brimstone Baptist and never quite given it up. I had to agree. I often had the feeling, when I was doing therapy, that anything I said would work: insight, catharsis, epiphanies would follow some inaudible inanity from my mouth. At other times, when I thought I was being wondrous wise, my words fell as flat as a swatted bug. It all has to do with chemistry, or radiation, or smell. Or something. Before I knew that, I sometimes took the calling of therapy very seriously indeed.”
“Because I think it’s just an ego trip. I don’t even call myself a therapist, you
know.”
“What do you mean, even you! Who are you, Sigmund Freud?”
“No, but at least I’m not trying to be something I’m not!”
“Aw, fuck you!” she shouts.
“Fuck you!” I yell back.
“All that doctor done was yell at me, tell me I was a whore and would end up a junkie or dead or in prison, and I’d never have kids, or a man, or anything decent at all.”
“As far as I am concerned, the making of a therapist and the making of a centered person are parallel, though not congruent, journeys.”
“First Tale of Lust. I had agreed to see Janet for short-term therapy at her home; she had a 1 year-old daughter, a night job as a waitress, and no one to babysit. I knew there were many caveats against this kind of thing, but I was sure I could handle it.”
“I kept trying to remember why therapists shouldn’t become sexually involved with patients. I found myself perusing, at length, articles that argued an opposing view. Even the reputable Association of Humanistic Psychology, I noted, was sponsoring a panel at its annual meeting: Sexual Relations Between Therapists and Clients.”
“She observed that the tension between us was palpable. I agreed. In fact, it was becoming intolerable. Yes, I said. Well, she wanted to know, what were we going to do about it?”
“I read Albert Ellis [logo acima!] and Martin Shepard, wrote an essay entitled Challenging Some Traditional Preconceptions in Psychotherapy—in which I never mentioned sex.”
“On the 13th day, I received a short note from Janet on the back of an old Valentine card: I’ve discovered that there are more fine lovers around than psychotherapists. Will you be my (one and only) therapist?
Human, all-too-human: After I daydreamed about choking her with a spiked bulldog collar, boiling her in oil, and throwing her out of a dirigible over the most polluted part of the Hudson River, I met with her—in my office. We dealt with it, as the New Yorker cartoon says, by talking about it. We actually went on to do some excellent work together, 50 minutes at a time, 2 days a week, face to face, and no hugging.”
“Second Tale of Lust. Tamara was 16, dark as an Arab princess, radiating ripeness. She was a resident at one of the group foster homes at which I dispensed weekly advice. Whenever she greeted me, she would wrap herself around me like the original seductive serpent, and I would try desperately to keep my cool—without success.
I am seldom drawn to adolescents sexually, or so I like to believe. I like the way they look, I enjoy their narcissism from afar, but I’m not crazy enough to trade a tumble for a prison sentence, not even in fantasy.”
“Tamara, whose house parents I met regularly for case consultation and whose Oedipal problems I knew almost as well as my own”
“I couldn’t take my eyes off her, and I didn’t want to take the rest of me off, either.
Although I danced with many people that night, I found myself dancing with Tamara more than with anyone else: more sensually, more energetically, more proximately. After a few beers, I forgot the age gap between us. After a few more, stalwart drinker [robusto bebedor] that I am, I was carried upstairs by some friends and carefully placed upon an unoccupied mattress [colchonete]. I woke a couple of hours later to find Tamara bending over me, swaying, her hair against my face. I wasn’t very alert, but she seemed completely out of it—drunk and stoned and incoherent.
Without thinking, I pulled her down beside me, touched her, kissed her, felt her responding to me. As I caressed her, she spoke softly at first, and then more insistently. Her mumbling only gradually became comprehensible: Daddy, Daddy, Daddy…
Laying her head against the pillow, I drew away gently. The one short pang inside me yielded to tenderness. I massaged her eyes and brow until she fell asleep.”
“Third Tale of Lust. It was spring, and 5 of my street clients, including one gay male, declared their love-lust for me. I knew all about transference, of course, but I was also feeling very sexual in my new, slimmed-down version.
At my therapy seminar that week, another fledgling therapist like myself spoke of how he enjoyed his patients’ sexual fantasies about him. Our teacher-supervisor looked at him wryly. <Just remember,> he said, <that there are a dozen paunchy, balding, 70 year-old therapists in this town whose patients are madly in love with them. Don’t take too much credit.>
I decided not to, either.”
“Therapist hubris is based on the mutual illusion of patient and therapist that theirs is not a relationship among equals. Thus, it fires the therapist’s infantile yearnings for magical solutions, omnipotence, oceanic love.”
* * *
DE VOLTA AO KOPP (CONCLUSÃO)
“Everything is folly in this world, except to play the fool.”
“The response of embarrassment is not a personal flaw. On the contrary, it is a socially oriented readjustment pattern that acts to reestablish more orderly, adequate behavior. In showing embarrassment, the flustered person (sometimes unwittingly) reveals his responsiveness to the discrepancy between expected and actual performance. This offers the blunderer a chance to get himself together while remaining in consensual accord with the rest of the group. At the same time, perceiving his reaction, his audience is in a position to help him to reestablish his earlier state of unselfconscious ease.”
“I feel less pained and alone in my embarrassment, standing among these other naked therapists.”
“But for those of us who have not been subjected to excessive shaming, failing at something may be experienced as no more than not yet attaining what we might. For others who have too often been made to feel worthless, each failed attempt may create the feeling of being a total failure.”
“It was Erasmus who gave the West the paradox of the Wise Fool. In the literature of the Middle Ages, the Fool had played a minor role. But beginning with Erasmus’ book, In Praise of Folly, the Renaissance Fool stepped forward as a major figure in the humanist vision of man. Desiderius Erasmus of Rotterdam, the bastard son of an obscure father, emerged as a great humanist who would be courted by princes, popes, and scholars of his age, a man whose Wise Fool would foster men’s self-acceptance for centuries to come.”
“Like Socrates, her only claim to wisdom is that she knows that she knows not.”
“Like all those later Fools, Don Quixote, Huck Finn, Chaplin’s little tramp, and the Marx Brothers, she does not comprehend what is expected of her by society. Like all clowns she is free to walk irreverently through the walls of convention, simply because she does not see that they exist. Often enough, these hollow boundaries collapse before the force of her ignorance.”
“The good judgment of the Wise is sometimes no more than the closed mindedness of those who know better.” I’d say Final Judgement.
“By accepting the Fool in myself, I open my imagination to all the possibilities that I was once too wise to consider.”
“So it is that when I was a young man I hoped to make fewer and fewer mistakes, while in my later life my ambition is to make more. I would sin boldly. Not that I have come to like feeling embarrassed. Not at all! Rather most of the time now it all just seems worth it to me to experience feeling foolish if that is the price of trying new ways of being.”
O palhaço que habita em mim saúda o palhaço que um dia habitará em você.
O homem ocidental se tornou zen para não apertar o botão da bomba; isso pausará sua existência cadavérica nesse mundo além de qualquer previsão legal… Eis o problema. O Último Homem aprendeu com seus erros logo após o penúltimo erro – que infortúnio e que pepino para nós! Se apenas houvesse uma máquina de auto-sepultamento, um suicídio assistido por si mesmo, uma auto-eutanásia no mais redundantemente literal dos zentidos… Ainda estamos impessoais demais diante do nosso instinto vital, não operamos a nossa própria máquina para comandar ações grandiloqüentes deste nível e desse porte! Asia Rise!
“A single individual’s solitary failing is painful, but the shared frailties of all men are ultimately comic. So it is that one stutterer is tragic, but like it or not, three stutterers having an argument is a funny scene.”
“Seriousness is an accident of time. It consists in putting too high a value on time. In eternity there is no time. Eternity is a mere moment, just long enough for a joke”Herman Hesse, Steppenwolf
“Out of the Middle East comes the tradition of the Sufi, that mystical/intuitive aspect of Islam that ranges from the whirling trance states of the Dervishes to the teaching stories of that Wise Fool, Nasrudin. The Sufi tales offer the sort of folk wisdom that discloses that out of each situation comes its own remedy. Each mishap is an opportunity to learn if only our imagination is open to reappraising the source of our discomfort.”
“Enjoy yourself, or try to learn—you will annoy someone. If you do not—you will annoy someone.”
“Who is it who’s rejecting whom?… if somebody rejects me…who they think they’re rejecting isn’t me anyway.… By them pushing me away I see them caught in their own paranoia…”Baba Ram
Ser um incompreendido do meu tempo implica que eu mesmo não posso me compreender!
“You don’t decide to give something up. They fall away, that’s the secret of it.”
It’s ok to fail on an impossible mission, right, Tom Cruise?
“Even when I am doing well, or being special, being judged is oppressive, carrying with it as it does the impossible ideal of perfection. How much easier is the freedom to be what I am, ordinary and imperfect as that may be, no more than a natural Fool.”
“To witness my Self without blaming myself is like being a child again, only this time in a safe, warm place under the watchful eyes of loving parents. It is during such moments that I can accept whatever I do as no more than what I must do at that time. It is then that I would no more question the adequacy of what I am doing than I would wonder whether or not my cat knows just how to go about being a cat.”
Guru, If You Meet the Buddha on the Road, Kill Him!, by the same author.
“A menudo se señala que no todo lo que siente un paciente hacia su analista se debe a la transferencia, y que, a medida que el análisis progresa, gradualmente aumenta la capacidad del paciente para experimentar <sentimientos más reales>. Esta advertencia misma señala que la diferenciación entre estas dos clases de sentimientos no siempre es fácil.”
“Si un analista intenta trabajar sin atender a sus sentimientos, sus interpretaciones serán pobres. He visto a menudo esto en el trabajo de los principiantes, quienes, despreocupados, ignoran o ahogan sus sentimientos.”