“Continuador da tradição empirista inaugurada por Bacon e desenvolvida por Locke e Berkeley, levou-a a sua mais extrema conclusão, culminando em um sistema que tem sido injustamente acusado de ser excessivamente cético e de privar a ciência e a moral de qualquer justificação racional. Os dois textos aqui apresentados têm uma origem comum, sendo ambos condensações e reelaborações de partes de uma obra mais vasta, o Tratado da natureza humana, que David Hume (1711-1776) redigiu em sua juventude (1737)”
“Convencido de que o problema não estava no conteúdo de seu Tratado mas no estilo de sua exposição, Hume decidiu, alguns anos mais tarde, extrair dele duas obras mais curtas, nas quais procurou dar um tom acessível ao texto, eliminar a prolixidade argumentativa, suprimir os tópicos não-essenciais para a condução de seu argumento central e cuidar ao máximo da clareza da expressão.¹ São essas as duas Investigações reunidas no presente volume: a Investigação sobre o entendimento humano e a Investigação sobre os princípios da moral, extraídas do primeiro e do terceiro livros do Tratado e publicadas respectivamente em 1748 e 1751. Uma terceira obra, a Dissertação sobre as paixões, extrato do Livro II do Tratado e publicada em 1757, carece de maior relevância. De fato, os tópicos de maior interesse filosófico do Livro II, como a discussão da liberdade e da necessidade, já haviam sido incluídos na primeira Investigacão.”
¹ Se ao menos metade dos filósofos clássicos tivesse se preocupado em fazê-lo…
“Acrescento algumas palavras sobre as presentes traduções. As duas Investigações já haviam sido anteriormente publicadas no Brasil – a primeira (em duas traduções distintas) na coleção Os Pensadores, e a segunda, traduzida por mim para a Editora da Unicamp, em 1995, tomando-se como base, em todos esses casos, a clássica edição de L.A. Selby-Bigge, à época a edição mais respeitada desses textos de Hume. O aparecimento, em 1998 e 1999, das novas edições preparadas por Tom L. Beauchamp para a série Oxford Philosophical Texts, da Oxford University Press, estabeleceu um novo standard acadêmico e abriu a oportunidade para o preparo de novas traduções brasileiras, o que fui feito quase imediatamente no caso da Investigação sobre o entendimento humano, publicada já em 1999 pela Editora UNESP.”
* * *
UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE O ENTENDIMENTO HUMANO
SEÇÃO 1. DAS DIFERENTES ESPÉCIES DE FILOSOFIA
P. 19: crítica da filosofia moral até sua época (encarnada nos pragmatistas); chamemo-la de Filosofia A, doravante.
P. 20: crítica do racionalismo cartesiano (encarnada pelos pensantes), a Filosofia B doravante.
Hume efetuará a sua síntese entre ambas.
Um prefácio digno de um britânico fleumático: “É certo que, para o grosso da humanidade, a filosofia simples e acessível [A] terá sempre preferência sobre a filosofia exata e abstrusa, [B] e será louvada por muitos não apenas como mais agradável, mas também como mais útil que a outra.”
“É fácil para um filósofo profundo cometer um engano em seus sutis raciocínios, e um engano é necessariamente o gerador de outro; ele, entretanto, segue todas as conseqüências e não hesita em endossar qualquer conclusão a que chegue, por mais inusitada ou conflitante com a opinião popular.” Podemos dizer que Schopenhauer foi o representante da filosofia B de maior calibre, e que errou exatamente desta maneira. Os “filósofos A”, enquanto pregadores morais, estão mais para “ensaístas”, concatenam idéias provisoriamente apenas, sem compromisso. Ex: La Rochefoucauld.
Ruim de chute (é impossível sepultar escolas filosóficas, elas sempre voltam à moda): “A fama de Cícero floresce no presente, mas a de Aristóteles está completamente arruinada. La Bruyère atravessa os mares e ainda mantém sua reputação, mas a glória de Malebranche está confinada à sua própria nação e à sua própria época. E Addison, talvez, ainda será lido com prazer quando Locke estiver inteiramente esquecido.”
“O filósofo puro é um personagem que em geral não é muito bem-aceito pelo mundo, pois supõe-se que ele em nada contribui para o proveito ou deleite da sociedade, ao viver longe do contato com os seres humanos e envolvido com princípios e idéias não menos distantes da compreensão destes. Por outro lado, o mero ignorante é ainda mais desprezado; e, em uma época e nação em que florescem as ciências, não há sinal mais seguro de estreiteza de espírito que o de não se sentir minimamente atraído por esses nobres afazeres.”
“chega[mos] mesmo à absoluta rejeição de todos os raciocínios mais aprofundados (…) [da] metafísica”
“O anatomista põe-nos diante dos olhos os objetos mais horrendos e desagradáveis, mas sua ciência é útil ao pintor para delinear até mesmo uma Vênus ou uma Helena.”
Um otimista incubado: “E embora um filósofo possa viver afastado dos assuntos práticos, o espírito característico da filosofia, se muitos o cultivarem cuidadosamente, não poderá deixar de se difundir gradualmente por toda a sociedade e conferir uma similar exatidão a todo ofício e vocação.” “A estabilidade dos governos modernos, em comparação aos antigos, e a precisão da moderna filosofia têm-se aperfeiçoado e provavelmente irão ainda se aperfeiçoar por gradações similares.”
“E embora essas pesquisas possam parecer penosas e fatigantes, ocorre com algumas mentes o mesmo que com alguns corpos, os quais, tendo sido dotados de uma saúde vigorosa e exuberante, requerem severo exercício e colhem prazer daquilo que parece árduo e laborioso à humanidade em geral.”
“Todo gênio audaz continuará lançando-se ao árduo prêmio e considerar-se-á antes estimulado que desencorajado pelos fracassos de seus predecessores, esperando que a glória de alcançar sucesso em tão difícil empreitada esteja reservada apenas para si.”
“devemos dedicar algum cuidado ao cultivo da verdadeira metafísica a fim de destruir aquela que é falsa e adulterada.”
“Constitui, assim, uma parte nada desprezível da ciência a mera tarefa de reconhecer as diferentes operações da mente, distingui-las umas das outras, classificá-las sob os títulos adequados e corrigir toda aquela aparente desordem na qual mergulham quando tomadas como objetos de pesquisa e reflexão.”
“Tampouco pode restar alguma suspeita de que essa ciência seja incerta ou quimérica, a menos que alimentemos um ceticismo tão completo que subverta inteiramente toda especulação e, mais ainda, toda a ação.”
“E deveríamos porventura considerar digno do trabalho de um filósofo fornecer-nos o verdadeiro sistema dos planetas e conciliar a posição e a ordem desses corpos longínquos, ao mesmo tempo que simulamos desconhecer aqueles que com tanto sucesso delineiam as partes da mente que de tão perto nos dizem respeito?” “Os astrônomos por muito tempo se contentaram em deduzir dos fenômenos visíveis os verdadeiros movimentos, ordem e magnitude dos corpos celestes, até surgir finalmente um filósofo que, pelos mais afortunados raciocínios, parece ter determinado também as leis e forças que governam e dirigem as revoluções dos planetas.”
“Renunciar imediatamente a todas as expectativas dessa espécie pode ser com razão classificado como mais brusco, precipitado e dogmático que a mais ousada e afirmativa filosofia que já tenha tentado impor suas rudes doutrinas e princípios à humanidade.”
SEÇÃO 2. DA ORIGEM DAS IDÉIAS
Diga a um racionalista: Filosofe sobre a tortura, se queres tanto filosofar!
“Entendo pelo termo impressão, portanto, todas as nossas percepções mais vívidas, sempre que ouvimos, ou vemos, ou sentimos, ou amamos, ou odiamos, ou desejamos ou exercemos nossa vontade. E impressões são distintas das idéias, que são as percepções menos vívidas, das quais estamos conscientes quando refletimos sobre quaisquer umas das sensações ou atividades já mencionadas.”
“…e nada há que esteja fora do alcance do pensamento, exceto aquilo que implica uma absoluta contradição.” Ainda sob a sombra da opaca lógica aristotélica. Veremos isso com muito mais detalhes a seguir. Mas é curioso que a última página (e o limite teórico, por igual) da maior obra de Schopenhauer também seja inteiramente dominada pela mesma “sombra”…
INTUIÇÃO + MATEMÁTICA: “A idéia de Deus, no sentido de um Ser infinitamente inteligente, sábio e bondoso, surge da reflexão sobre as operações de nossa própria mente e do aumento ilimitado dessas qualidades de bondade e sabedoria.”
“um lapão ou um negro não têm idéia do sabor do vinho.”
“Portanto, sempre que alimentamos alguma suspeita de que um termo filosófico esteja sendo empregado sem nenhum significado ou idéia associada (como freqüentemente ocorre), precisaremos apenas indagar: de que impressão deriva esta suposta idéia?”
“a palavra idéia parece ter sido tomada usualmente num sentido muito amplo por Locke e outros, como significando qualquer uma de nossas percepções, nossas sensações e paixões, bem como pensamentos.” “L. caiu na armadilha dos escolásticos, os quais, ao fazerem uso de termos não-definidos, alongam tediosamente suas disputas sem jamais tocar no ponto em questão.”
SEÇÃO 3. DA ASSOCIAÇÃO DE IDÉIAS
“Pelo menos 250 anos de antecipação a Freud: “Mesmo em nossos devaneios mais desenfreados e errantes – e não somente neles, mas até em nossos próprios sonhos – descobrimos, se refletirmos, que a imaginação não correu inteiramente à solta, mas houve uma ligação entre as diferentes idéias que se sucederam umas às outras.”
“Embora o fato de que diferentes idéias estejam conectadas seja demasiado óbvio para escapar à observação, não é de meu conhecimento que algum filósofo tenha tentado enumerar ou classificar todos os princípios de associação; um assunto que, entretanto, parece digno de investigação. De minha parte, parece haver apenas 3 princípios de conexão entre as idéias, a saber, semelhança, contigüidade no tempo ou no espaço, e causa ou efeito.”
“Como o homem é um ser dotado de razão e está continuamente em busca de uma felicidade…”
“Como essa regra não admite nenhuma exceção, segue-se que, em composições narrativas, os acontecimentos ou ações que o escritor relata devem estar conectados por algum vínculo ou liame.”
“Ovídio baseou seu plano no princípio de conexão por semelhança.”
“Um analista ou historiador que se propusesse a escrever a história da Europa em um determinado século seria influenciado pela conexão de contigüidade”
“Mas a espécie mais usual de conexão entre os diferentes acontecimentos que figuram em qualquer composição narrativa é a de causa e efeito”
“Parece também que mesmo um biógrafo que fosse escrever a vida de Aquiles iria conectar os acontecimentos, mostrando suas relações e dependências mútuas, tanto quanto um poeta que fosse fazer da ira desse herói o assunto de sua narrativa, contrariamente a Aristóteles, Poética.” Talvez Ar. tenha sido enganado pelo procedimento de Homero na Ilíada. A propósito do quê H. não esquecerá de comentar: “Surge daí o artifício da narrativa oblíqua, empregada na Odisséia e na Eneida, em que o herói é inicialmente apresentado próximo à consecução de seus desígnios e posteriormente nos revela, como que em perspectiva, as causas e eventos mais distantes. Com esse método excita-se de imediato a curiosidade do leitor: os eventos seguem-se com rapidez e em estreita conexão, a atenção mantém-se viva e, por meio da relação próxima dos objetos, cresce continuamente do começo ao fim da narrativa.”
“A mesma regra vale para a poesia dramática, não se permitindo, em uma composição regular, a introdução de um ator que tenha pouca ou nenhuma relação com os personagens principais do enredo.”
“Pode-se objetar a Milton que ele foi muito longe no traçado de suas causas, e que a rebelião dos anjos produz a queda do homem por uma sucessão de eventos que é ao mesmo tempo muito longa e muito fortuita, para não mencionar que a criação do mundo, da qual ele dá um extenso relato, não é a causa dessa catástrofe mais do que da batalha de Farsália ou de qualquer outro evento já ocorrido. Mas se considerarmos que esses eventos todos: a rebelião dos anjos, a criação do mundo e a queda do homem assemelham-se uns aos outros por serem miraculosos e estarem fora do curso ordinário da natureza; que eles são considerados contíguos no tempo; e que, estando desconectados de todos os outros eventos e sendo os únicos fatos originais dados a conhecer pela revelação, chamam de imediato a atenção e evocam-se naturalmente uns aos outros no pensamento e na imaginação (…) [é] uma unidade suficiente”
“A explicação completa deste princípio e de todas as suas conseqüências levar-nos-ia a raciocínios demasiado vastos e profundos para esta investigação.”
SEÇÃO 4. DÚVIDAS CÉTICAS SOBRE AS OPERAÇÕES DO ENTENDIMENTO
Parte 1
O ANTI-KANT: “Arrisco-me a afirmar, a título de uma proposta geral que não admite exceções, que o conhecimento dessa relação [de qualquer relação de fatos] não é, em nenhum caso, alcançado por meio de raciocínios a priori, mas provém inteiramente da experiência”
O mesmo conteúdo que em Schopenhauer: “Quanto às causas dessas causas gerais, entretanto, será em vão que procuremos descobri-las; e nenhuma explicação particular delas será jamais capaz de nos satisfazer. Esses móveis princípios fundamentais estão totalmente vedados à curiosidade e à investigação humanas. Elasticidade, gravidade, coesão de partes, comunicação de movimento por impulso – essas são provavelmente as últimas causas e princípios que será dado descobrir na natureza” Todos o afirmariam antes da eletricidade.
“o resultado de toda filosofia é a constatação da cegueira e debilidade humanas”
“Mesmo a geometria, quando chamada a auxiliar a filosofia natural, é incapaz de corrigir esse defeito ou de nos levar ao conhecimento das causas últimas”
Parte 2
“Se houver qualquer suspeita de que o curso da natureza possa vir a modificar-se, e que o passado possa não ser uma regra para o futuro, toda a experiência se tornará inútil e incapaz de dar origem a qualquer inferência ou conclusão. (…) Por mais regular que se admita ter sido até agora o curso das coisas, isso, isoladamente, sem algum novo argumento ou inferência, não prova que, no futuro, ele continuará a sê-lo. (…) sua natureza secreta e, conseqüentemente, todos os seus efeitos e influências podem modificar-se sem que suas qualidades sensíveis alterem-se minimamente.”
SEÇÃO 5. SOLUÇÃO CÉTICA DESSAS DÚVIDAS
Parte 1
“É certo que, ao buscarmos atingir a elevação e a firmeza espiritual do sábio filósofo e esforçarmo-nos para confinar nossos prazeres exclusivamente ao campo de nossas próprias mentes, poderemos acabar tornando nossa filosofia semelhante à de Epicteto e outros estóicos, ou seja, simplesmente um sistema mais refinado de egoísmo”
“Há no entanto uma espécie de filosofia que parece pouco sujeita a esse inconveniente, pois não se harmoniza com nenhuma paixão desordenada da mente humana, nem se mistura, ela própria, a nenhuma afecção ou inclinação naturais; essa é a filosofia acadêmica ou cética.” “uma filosofia como essa é o que há de mais contrário à indolência acomodada da mente, sua arrogância irrefletida, suas grandiosas pretensões e sua credulidade supersticiosa.” “Surpreende que essa filosofia – que em quase todas as ocasiões deve mostrar-se inofensiva e inocente – seja objeto de tantas censuras e reprovações infundadas.”
Parte 2
Segue-se uma clássica crítica do catolicismo por parte de um inglês protestante do século XVIII.
“nossas emoções são mais fortemente despertadas quando vemos os locais que se diz terem sido freqüentados por homens ilustres do que quando ouvimos contar seus feitos ou lemos seus escritos. É assim que me sinto agora. Vem-me à mente Platão, de quem se diz ter sido o primeiro a entreter discussões neste lugar [a Academia de Atenas], e de fato o pequeno jardim acolá não apenas traz sua memória mas põe, por assim dizer, o próprio homem diante de meus olhos. E aqui está Espêusipo, aqui Xenócrates e seu discípulo Polemo, que costumava ocupar o próprio assento que ali vemos. E mesmo nosso edifício do Senado (refiro-me à Cúria Hostília, não ao novo edifício, que me parece ter-se tornado menor depois da ampliação)¹ trazia-me ao pensamento os vultos de Cipião, Catão, Lélio e principalmente de meu avô. Tal é o poder de evocação que reside nos locais, e não é sem razão que neles se baseia a arte da mnemônica.” Marco Piso
¹ Os homens são rabugentos e apegados ao passado em todas as eras.
“Suponhamos que nos fosse apresentado o filho de um amigo há muito tempo morto ou ausente; é claro que esse objeto faria instantaneamente reviver sua idéia correlativa e traria a nossos pensamentos todas as lembranças dos momentos íntimos e familiares do passado, em cores mais vívidas do que de outro modo nos teriam aparecido. Eis aqui outro fenômeno que parece comprovar o princípio já mencionado.”
“A influência do retrato supõe que acreditemos que nosso amigo tenha alguma vez existido. A contiguidade ao lar não poderia excitar as idéias que temos dele a menos que acreditemos que realmente exista.”
“Não é verdade que, quando uma espada é empunhada contra meu peito, a idéia do ferimento e da dor me afeta mais fortemente do que quando me é oferecida uma taça de vinho, mesmo que tal idéia viesse por acidente a ocorrer-me quando do aparecimento desse último objeto?” Aonde você quer chegar, meu caro?
“Assim como a natureza ensinou-nos o uso de nossos membros sem nos dar o conhecimento dos músculos e nervos que os comandam, [?] do mesmo modo ela implantou em nós um instinto que leva adiante o pensamento em um curso corresponde ao que ela estabeleceu para os objetos externos, [??] embora ignoremos os poderes e as forças dos quais esse curso e sucessão regulares de objetos totalmente depende. [!]”
[?] E quem é esta natureza, ente transcendental de seu sistema?
[??] “Implantaram-nos” instintos (voz passiva) que levam adiante pensamentos relativos a objetos exteriores? Características inatas cujo objetivo mesmo é lidar com o contingente? Mal-formulado!
[!] Finalmente uma afirmação competente no parágrafo – porém só mostra a vaidade da “filosofia cética”…
SEÇÃO 6. DA PROBABILIDADE
“Embora não haja no mundo isso que se denominou acaso”
SEÇÃO 7. DA IDÉIA DE CONEXÃO NECESSÁRIA
Parte 1
“Na realidade, dificilmente se encontrará em Euclides uma proposição tão simples que não contenha mais partes do que se pode encontrar em qualquer raciocínio moral que não enverede pela fantasia e presunção.” “Como a filosofia moral [A] parece ter recebido até agora menos aperfeiçoamentos que a geometria ou a física, podemos concluir que, se há alguma diferença a esse respeito entre essas ciências, as dificuldades que atravancam o progresso da 1ª requerem maior cuidado e aptidão para serem sobrepujadas.
Não há, entre as idéias que ocorrem na metafísica, [B] outras mais incertas e obscuras que as de poder, força, energia ou conexão necessária, das quais nos é forçoso tratar a cada instante em todas as nossas investigações.” E no entanto, nada há de mais certo que a existência e ubiqüidade mesmo desse poder.
“O cenário do universo está em contínua mutação, e os objetos seguem-se uns aos outros em sucessão ininterrupta, mas o poder ou força que põe toda essa máquina em movimento está completamente oculto de nossa vista e nunca se manifesta em nenhuma das qualidades sensíveis dos corpos.”
“Pode-se dizer que a todo instante estamos conscientes de um poder interno, quando sentimos que, pelo simples comando de nossa vontade, podemos mover os órgãos de nosso corpo ou direcionar as faculdades de nosso espírito. Um ato de volição produz movimento em nossos membros ou faz surgir uma nova idéia em nossa imaginação. Essa influência da vontade nos é dada a conhecer pela consciência. Dela adquirimos a idéia de poder ou energia, e ficamos certos de que nós próprios e todos os outros seres inteligentes estamos dotados de poder. Essa idéia, então, é uma idéia de reflexão, dado que a obtemos refletindo sobre as operações de nossa própria mente e sobre o comando que a vontade exerce tanto sobre os órgãos do corpo como sobre as faculdades da alma.”
“Essa influência, observa-se, é um fato que, como todos os outros acontecimentos naturais, pode ser conhecido apenas pela experiência” “a energia pela qual a vontade executa uma tão extraordinária operação, tudo isso está tão longe de nossa consciência imediata que deve para sempre escapar às nossas mais diligentes investigações.” Touché!
“Se estivesse em nosso poder remover montanhas por um recôndito desejo, ou controlar os planetas em suas órbitas, essa vasta autoridade não seria mais extraordinária nem estaria mais distante de nossa compreensão.”
“deveríamos conhecer a união secreta entre a alma e o corpo e a natureza dessas 2 substâncias que torna uma delas capaz de operar sobre a outra em um número tão grande de casos.”
“Por que a vontade tem uma influência sobre a língua e os dedos, mas não sobre o coração e o fígado?” Curiosidade de colegial…
“aprendemos em anatomia que o objeto imediato do poder no movimento voluntário não é o próprio membro movido, mas certos músculos, nervos, e espíritos animais, [?] ou talvez algo ainda mais minúsculo e mais desconhecido, através dos quais o movimento sucessivamente se propaga antes de atingir propriamente o membro cujo movimento é o objeto imediato da volição.” Então estávamos ou estamos inclusive hoje, antes das próximos descobertas, experimentando tudo errado, senhor?
“O que ocorre aqui é que a mente executa um ato da vontade que tem como objeto um certo acontecimento e imediatamente se produz um outro acontecimento que nos é desconhecido e difere totalmente daquele que se tencionava produzir. E esse acontecimento produz outro, também desconhecido, até que, por fim, após uma longa sucessão, produz-se o acontecimento desejado.”
“nossa idéia de poder não é copiada de nenhum sentimento ou consciência de poder que porventura experimentemos em nosso interior ao darmos início ao movimento animal ou empregarmos nossos membros nos usos e afazeres que lhes são próprios.” “Este nisus, ou esforço intenso do qual estamos conscientes, é a impressão original da qual essa idéia é copiada. Mas, em 1º lugar, atribuímos poderes a um vasto número de objetos com referência aos quais não é lícito supor a ocorrência de tal resistência ou exercício de força: ao Ser Supremo, que nunca depara com nenhuma resistência (…) Em segundo lugar, esse sentimento de um esforço para sobrepujar uma resistência não tem conexão conhecida com nenhum acontecimento (…) não poderíamos sabê-lo a priori.” “O que se tem aqui é uma genuína criação: a produção de alguma coisa a partir do nada”
“Nossa autoridade sobre os nossos sentimentos e paixões é muito mais tênue que sobre nossas idéias, e mesmo esta última autoridade está circunscrita a limites bem estreitos. Quem pretenderá indicar a razão última?” Hume já sente a ponta do iceberg do niilismo…
“Dominamos melhor nossos pensamentos pela manhã do que à noite”
IN COVID TIMES… “É só com a descoberta de fenômenos extraordinários como terremotos, peste e prodígios de qualquer outro tipo que a gente comum se sente incapaz de indicar uma causa adequada e de explicar o modo pelo qual o efeito é produzido por ela. É comum que pessoas em tais dificuldades recorram a algum princípio inteligente invisível (deus ex machina) como causa imediata do acontecimento que as surpreende e que elas julgam não mais poder ser explicado pelos poderes usuais da natureza.”
“Aqui, então, muitos filósofos sentem-se obrigados pela razão a recorrer, em todas as ocasiões, ao mesmo princípio que o vulgo não emprega a não ser em casos que parecem miraculosos ou sobrenaturais.”
“Nossa linha é demasiado curta para sondar abismos tão imensos.”
“Nunca foi intenção de sir Isaac Newton destituir as causas segundas¹ de toda sua força ou energia, embora alguns de seus seguidores tenham se esforçado para estabelecer essa teoria valendo-se de sua autoridade. Pelo contrário, aquele grande filósofo [hm] lançou mão de um fluido ativo etéreo para explicar sua atração universal, embora tenha sido suficientemente cauteloso e modesto para admitir que se tratava de mera hipótese sobre a qual não se deveria insistir sem mais experimentos.² (…) Descartes sugeriu aquela doutrina da eficácia única e universal da Divindade, sem nela insistir. Malebranche e outros cartesianos tornaram-na o fundamento de toda sua filosofia.”
¹ Lei de causalidade, gravitação, etc.!
² O que desagradou os positivistas de então é que ele recuou demais: escolasticamente, atribuiu tudo a Deus! Laplace (da geração seguinte a Hume) refutaria o deísmo newtoniano com leis mais abrangentes sobre o sistema solar inteiro (avanço da matemática no período).
Parte 2
“Todos os acontecimentos parecem inteiramente soltos e separados. Um acontecimento segue outro, mas jamais nos é dado observar qualquer liame entre eles. Eles parecem conjugados, mas nunca conectados. E como não podemos ter nenhuma idéia de uma coisa que nunca se apresentou ao nosso sentido exterior ou sentimento interior, a conclusão inevitável parece ser que não temos absolutamente nenhuma idéia de conexão ou de poder, e que essas palavras acham-se totalmente desprovidas de significado quando empregadas tanto no raciocínio filosófico quanto na vida ordinária.” “ele agora sente que esses acontecimentos estão conectados em sua imaginação”
SEÇÃO 8. DA LIBERDADE E NECESSIDADE
Parte 1
“Espero tornar evidente que todos os homens sempre concordaram tanto sobre a doutrina da necessidade quanto sobre a da liberdade, em qualquer sentido razoável que se possa dar a esses termos, e que toda a controvérsia girou até agora meramente em torno de palavras.”
“Quer-se conhecer os sentimentos, inclinações e modo de vida dos gregos e romanos? Estude-se bem o temperamento e a as ações dos franceses e ingleses” Far-fetched!
“a terra, a água e outros elementos examinados por Ar. e Hipócrates não se assemelham mais aos que estão presentemente dados à nossa observação do que os homens descritos por Políbio e Tácito assemelham-se aos que agora governam o mundo.”
“A veracidade de Quinto Cúrcio é tão suspeita quando descreve a coragem sobrenatural de Alexandre que o impelia a atacar sozinho multidões, como quando descreve sua força e atuação sobrenaturais que o tornavam capaz de resistir a essas mesmas multidões.”
“A necessidade de qualquer ação, quer da matéria quer da mente, não é, propriamente, uma qualidade que esteja no agente, mas em um ser qualquer, dotado de pensamento e intelecto, que possa observar a ação; e consiste principalmente no fato de seus pensamentos estarem determinados a inferir a existência daquela ação a partir de alguns objetos precedentes”
“sentimos que a vontade se move facilmente em todas as direções e produz uma imagem de si própria (ou uma veleidade, como se diz nas escolas) mesmo naquele lado no qual não veio a se fixar.”
Parte 2
(…)
SEÇÃO 9. DA RAZÃO DOS ANIMAIS
“E não é igualmente a experiência que o faz até mesmo responder a seu nome e inferir, a partir desse som arbitrário, que referimo-nos a ele e não a algum outro de seus companheiros, e que o estamos chamando quando pronunciamos esse som de uma certa maneira e com um certo tom e inflexão?”
“Formular máximas gerais a partir de observações particulares é uma operação muito delicada, e nada é mais usual do que enganar-se nessa atividade, pela pressa ou por uma estreiteza da mente que não examina a questão sob todos os seus ângulos.” Procedimento muito corriqueiro na Filosofia A.
SEÇÃO 10. DOS MILAGRES
Parte 1
“a evidência que temos para a veracidade da religião cristã é menor que a evidência para a veracidade de nossos sentidos, porque já não era maior que esta nem mesmo nos primeiros autores de nossa religião, devendo certamente diminuir ao passar deles para seus discípulos, e ninguém pode depositar nos relatos destes tanta confiança quanto no objeto imediato de seus sentidos.” “Nada é tão convincente quanto um argumento conclusivo dessa espécie, que deve no mínimo silenciar o fanatismo e a superstição mais arrogantes e livrar-nos de suas exigências descabidas.”
“Não fosse a memória dotada de um certo grau de obstinação, não se inclinassem comumente os homens à verdade e a um princípio de probidade, não fossem eles sensíveis à vergonha de serem apanhados mentindo, se estas qualidades, eu digo, não fossem reveladas pela experiência como inerentes à natureza humana, então não teríamos por que depositar a menor confiança no testemunho humano. Um homem que delira, ou é famoso pela sua falsidade e baixeza, não tem perante nós a menor autoridade.” Vivo no século do vil delírio.
“A razão pela qual damos algum crédito a testemunhas e historiadores não deriva de qualquer conexão que percebamos a priori entre o testemunho e a realidade, mas de estarmos acostumados a encontrar uma concordância entre essas coisas.”
“Eu não acreditaria em tal história, ainda que ela me fosse contada pelo próprio Catão, era um dito proverbial em Roma.”
“Raciocinava corretamente o príncipe indiano que se recusou a acreditar nos primeiros relatos acerca dos efeitos do congelamento; e seria naturalmente necessário um testemunho muito poderoso para fazê-lo admitir fatos que decorrem de uma condição da natureza com a qual ele não estava familiarizado e que apresentavam tão pouca analogia com os acontecimentos dos quais tinha tido experiência constante e uniforme.”
Parte 2
“não se encontra em toda a história nenhum milagre atestado por um número suficiente de homens de bom senso, educação e saber tão inquestionáveis que nos garantam contra toda possibilidade de estarem eles próprios enganados; de integridade tão indubitável que os coloque acima de qualquer suspeita de pretenderem iludir outros; de tal crédito e reputação aos olhos da humanidade que tenham muito a perder no caso de serem apanhados em qualquer falsidade; e, ao mesmo tempo, que atestem fatos realizados de maneira tão pública e em uma parte do mundo tão conhecida que não se pudesse evitar o desmascaramento.”
“os efeitos que com muita dificuldade um Túlio ou um Demóstenes poderia obter sobre uma platéia romana ou ateniense, qualquer capuchinho, qualquer mestre itinerante ou estabelecido pode alcançar sobre o grosso da humanidade, e num grau mais elevado, manipulando essas paixões rudes e vulgares.”
“nem bem 2 jovens de mesma condição vêem-se por duas vezes e a vizinhança inteira já os une imediatamente por casamento.”
“Quando examinamos as histórias primevas de todas as nações, sentimo-nos como que transportados a algum mundo novo, no qual todo o arcabouço da natureza se acha desarticulado, e cada elemento realiza suas operações de uma maneira diferente da que o faz presentemente.”
“nem sempre ocorre que todo Alexandre depare com um Luciano pronto a denunciar e desmascarar suas imposturas.” Personagens desconhecidos.
“Um dos mais bem-atestados milagres em toda a história profana é aquele que Tácito conta de Vespasiano, que curou um cego em Alexandria por meio de sua saliva e um coxo com o simples toque de seu pé, em obediência a uma visão que estes tiveram do deus Serápis, o qual lhes ordenara recorrer ao imperador para obter essas curas milagrosas. Além disso, Suetônio oferece quase o mesmo relato em sua Vida de Vespasiano.” “Tácito era um autor contemporâneo aos fatos, famoso pela sinceridade e fidedignidade e, além disso, o maior e mais penetrante gênio, talvez, de toda a Antiguidade” “as testemunhas oculares do fato continuaram a confirmar seu depoimento depois que a família dos Flávios foi despojada do império e não poderia mais oferecer recompensas em troca de uma mentira.”
“A sabedoria, inteligência e honradez dos cavalheiros e a austeridade das freiras de Port-Royal têm sido muito louvadas por toda a Europa. E, contudo, todos eles depõem em favor de um milagre acontecido à sobrinha do famoso Pascal, cuja santidade de vida e extraordinária capacidade são bem-conhecidas. [A sobrinha de Pascal escreveu-lhe a biografia] O famoso Racine relata esse milagre em sua famosa história de Port-Royal, e a reforça com todas as provas que uma multidão de freiras, padres, médicos e homens da sociedade – todos eles de crédito inquestionável – puderam conferir a ele. Diversos homens de letras, particularmente o bispo de Tournay, consideraram esse milagre tão genuíno a ponto de empregá-lo na refutação de ateístas e livres-pensadores. A rainha-regente da França, que alimentava imensa hostilidade contra Port-Royal, enviou seu médico particular para investigar o milagre, o qual retornou absolutamente convertido. Em resumo, a cura sobrenatural era tão incontestável que salvou por um tempo o famoso monastério da ruína com a qual os jesuítas o ameaçavam. Se tivesse sido um logro [e não um autologro], teria sido certamente detectado por antagonistas tão sagazes e poderosos, e deveria ter apressado a ruína dos perpetradores. Nossos teólogos, capazes de construir um castelo formidável com materiais tão insignificantes, que prodigiosa estrutura não teriam erguido com todas essas circunstâncias e muitas outras que não mencionei! Quão freqüentemente teriam os grandes nomes de Pascal, Racine, Arnaud, Nicole ressoado em nossos ouvidos? Mas, se forem sábios, é melhor que adotem o milagre por ser mil vezes mais valioso que todo o restante de sua coleção.” Hume já estava tão cansado de contar ‘causos’ numa nota de rodapé que ocupa 4 páginas que até abandonou o relato a meio caminho!
“Nos primórdios das novas religiões, os sábios e instruídos comumente julgam que o assunto é demasiado insignificante para merecer seu cuidado e atenção. E quando mais tarde se interessam em desmascarar a fraude para abrir os olhos à multidão iludida, a hora certa já passou e os registros e testemunhas, que poderiam esclarecer a questão, estão para sempre perdidos.”
“A autoridade do testemunho humano provém apenas da experiência, mas é essa mesma experiência que nos assegura sobre as leis da natureza. Quando, portanto, esses 2 tipos de experiência se opõem, nada nos resta a fazer senão subtrair um do outro, e abraçar uma opinião, seja de um lado, seja de outro, com a confiança que o resíduo pode produzir. Mas, de acordo com o princípio aqui explicado, essa subtração, no que diz respeito a todas as religiões populares, equivale a uma completa aniquilação, e podemos estabelecer, portanto, como uma máxima, que nenhum testemunho humano pode ter força suficiente para provar um milagre e torná-lo uma genuína fundação para qualquer sistema religioso dessa espécie.”
“Embora o Ser ao qual o milagre é atribuído seja Todo-poderoso, o fato não se torna por isso minimamente mais provável, dado que nos é impossível conhecer os atributos ou ações de um tal Ser, a não ser pela experiência que temos de suas operações no curso usual da natureza.”
“Devemos fazer uma coleção ou história particular de todos os monstros e produções ou nascimentos prodigiosos, e, em suma, de todas as coisas novas, raras e extraordinárias na natureza. Mas esse exame deve ser feito com o máximo rigor, para não nos afastarmos da verdade. Acima de tudo, todos os relatos que dependem em algum grau da religião devem ser considerados suspeitos, como os prodígios de Lívio. E no mesmo grau todas as coisas que se encontram nos escritos de magia natural ou alquimia, ou em autores que parecem todos dotados de insaciável apetite por mentiras e fábulas.” Bacon, Novum Organum, II
“Para isso, teremos então de considerar inicialmente um livro que recebemos de um povo bárbaro e ignorante, escrito numa época em que eram ainda mais bárbaros e, muito provavelmente, longo tempo depois dos fatos nele narrados, um livro que não conta com a corroboração de nenhum testemunho concordante e que se assemelha aos relatos fabulosos que todas as nações fazem de suas origens.”
“todo aquele que aceita a religião cristã movido pela fé está consciente de um permanente milagre em sua própria pessoa, milagre esse que subverte todos os princípios de seu entendimento e o faz acreditar no que há de mais oposto ao costume e à experiência.” Tão kierkegaardiano!
SEÇÃO 11. DE UMA PROVIDÊNCIA PARTICULAR E DE UM ESTADO VINDOURO
“exceto pelo banimento de Protágoras e a morte de Sócrates – este último evento resultou parcialmente de outros motivos –, dificilmente se encontram, na história antiga, exemplos desse zelo fanático que tanto infesta a época presente. Epicuro viveu em Atenas até idade provecta, gozando de paz e tranqüilidade, e os epicuristas foram mesmo admitidos ao sacerdócio e oficiaram, diante do altar, os ritos mais sagrados da religião estabelecida. E o encorajamento público dos estipêndios e remunerações foi concedido igualmente, pelos mais sábios dos imperadores romanos, aos seguidores de todas as seitas filosóficas.” Cf. Luciano, O Banquete, Os Lápitas e O Eunuco. Este é o mesmo Luciano acima que “desmistificou” o homem Alexandre, O Grande?
SEÇÃO 12. DA FILOSOFIA ACADÊMICA OU CÉTICA
Parte 1
“Não há maior número de raciocínios filosóficos desenvolvidos sobre um assunto qualquer do que aqueles que provam a existência de uma Divindade e refutam as falácias dos ateístas; e, contudo, os filósofos religiosos continuam debatendo se algum homem pode ser tão cego a ponto de ser um ateísta especulativo. Como poderíamos reconciliar essas contradições?”
“que se entende por um cético?”
“A dúvida cartesiana, portanto, se fosse alguma vez capaz de ser atingida por qualquer criatura humana (o que obviamente não é), seria totalmente incurável, e nenhum raciocínio poderia jamais levar-nos a um estado de segurança e convencimento acerca de qualquer assunto.
Deve-se confessar, contudo, que essa espécie de ceticismo, quando exercida com mais moderação, pode ser entendida em um sentido muito razoável, e constitui um preparativo necessário para o estudo da filosofia”
Com efeito: ironicamente, Descartes foi muito mais cético que Hume, “o cético”!
“Até mesmo nossos próprios sentidos são postos em questão por uma certa espécie de filósofos, e as máximas da vida ordinária são sujeitas à mesma dúvida que os mais profundos princípios ou conclusões da metafísica e teologia. Como essas doutrinas paradoxais podem ser encontradas em alguns filósofos, e sua refutação em diversos outros, elas naturalmente excitam nossa curiosidade”
* * *
[POST SEPARADO] INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA HUME-KANTIANA
HUME ESTÁ PARA KANT COMO FEUERBACH ESTÁ PARA MARX: “sempre supomos um universo externo que não depende de nossa percepção, mas existiria ainda que nós a todas as outras criaturas sensíveis estivéssemos ausentes ou fôssemos aniquilados.”
Ainda com mais detalhes: Hegel Feuerbach (compreende Hegel, incapaz de prosseguir) Marx (compreende Hegel, compreende as falhas de Fuerbach, prossegue); Platão Hume (compreende a Idéia ou Representação, incapaz de prosseguir) Kant (criticismo kantiano ao estabelecer o a priori do espaço-tempo que leva em conta Platão e corrige as falhas de Hume).
Base de Hume:
instintos (naturalismo)
sentidos – sistema dos sentidos
ceticismo – crítica dos instintos e dos sentidos, sistema aperfeiçoado dos sentidos
“[A filosofia] não pode mais recorrer ao instinto infalível e irresistível da natureza (naturalismo, mera noção enganosa ou antes verificada como impossível de ser alcançada através da ‘equipagem’ do ser humano no mundo), pois tal caminho nos conduz a um sistema completamente diferente, que se demonstrou falível e mesmo enganoso.” Refutação do naturalismo e do idealismo cartesiano, duas correntes de pensamento filosóficas – ambas refutáveis já por suas contrárias através de ceticismos incompletos ou parciais. “E justificar esse pretenso sistema filosófico por uma série de argumentos claros e convincentes, ou sequer por algo que se assemelhe a um argumento, é algo que está fora do alcance de toda a capacidade humana.” Descoberta de que a raiz da imperfeição tanto do naturalismo quanto do pseudo-ceticismo cartesiano são a mesma: o racionalismo, ou a fé na razão, que os primeiros filósofos da modernidade elevaram a uma categoria superior aos instintos e aos sentidos, mas que é mera ficção ou arbitrariedade, i.e., apresenta um conteúdo vazio, contaminado pelos próprios instintos e sentidos de maneira inconsciente (nestes filósofos, cujo ceticismo, grande ferramenta da filosofia, deixava a desejar).
“Por qual argumento se poderia provar que as percepções da mente [sentidos e raciocínios] devem ser causadas por objetos externos inteiramente distintos delas, embora a elas assemelhados (se isso for possível), e não poderiam provir, seja da energia da própria mente, (I) seja da sugestão de algum espírito invisível e desconhecido, seja de alguma outra causa que ignoramos ainda mais?” (II) Começo da compreensão da dialética interior-exterior. Sujeito e objeto são díspares. Porém categorias os intersecionam num uno: cores e formas. A mente e uma mesa são objetos materiais, vermelhos, marrons, brancos, pouco importa, sólidos, etc. (I) é uma alusão avant la lettre a um tipo de solipsismo: conjetura-se: e se… todos os objetos exteriores que apreendemos são apenas criações nossas? Despidas de materialidade, apenas ilusões. Evocação do mito da caverna, do ainda-por-vir criticismo kantiano e das próprias considerações de uma filosofia ainda mais tardia a Hume e Kant eles mesmos, i.e., a fenomenologia do século XX, em que – com a ajuda manifesta de Kant – entendemos os fenômenos como aparências e ao mesmo tempo como nossa realidade relativa (posto descartar-se um absoluto). O (II) seria uma alusão direta à Coisa-Em-Si de Kant. Uma causa que está além do homem, e que incita à metafísica, ou seja, a meras especulações, sem poder ser refutada ou provada. “Reconhece-se, de fato, que muitas dessas percepções não surgem de nada exterior, como nos sonhos, na loucura e em outras enfermidades. E nada pode ser mais inexplicável que a maneira pela qual um corpo deveria operar sobre a mente para ser capaz de transmitir uma imagem de si mesmo a uma substância que se supõe dotada de uma natureza tão distinta e mesmo oposta.” Assunção humeana de corpo e mente como instâncias irrevocavelmente separadas. O corpo representa, nesta instância, os sentidos. A mente a capacidade de abstração. Que a substância? A matéria cinzenta, o cérebro, nosso sistema cognitivo. Sentidos e razão não possuem qualquer coincidência entre si. Nenhum pode sobrepor o outro, ambos são sempre contraditos e contradizem o outro, mas isto, esta conjugação paradoxal, é o homem. Nós sequer possuímos uma “imagem objetiva” de nosso próprio corpo, seja internamente seja externamente. Ex: não sabemos a priori como são nossas entranhas e como funcionam nossos sistemas biológicos como o digestório-excretório, o circulatório, o respiratório, etc., antes de uma investigação racional sobre tais temas. A mente também não pode comunicar conceitos ao corpo, e ela mesma não se conhece fisicamente ou, como queira, no nível espiritual, de forma objetiva, dadas nossas limitações. Não há uma instância maior-que-o-real a que se possa recorrer para arbitragem imparcial de todo esse impasse: no sonho, basta que se acorde. A causa está fora do sonho, por isso o sonho pode ser objeto de investigação. Na loucura, o louco não pode investigar-se, mas pode ser objeto de estudo. O homem, o filósofo, não pode investigar-se e investigar o mundo da mesma forma como o sonhador investiga o sonho e a medicina investiga o paciente. Neste caso, estamos dentro de um sonho, chamado mundo, e somos portadores de monomanias ou loucuras parciais que não podemos exatamente explicar ou esclarecer. Eis o que se pode construir contra todo ceticismo esclarecido. Nossos limites epistemológicos.
“PERGUNTA – É uma questão de fato se as percepções dos sentidos são produzidas por objetos externos a elas assemelhadas – como se decidirá esta questão?”
Nossos olhos enxergam outras matérias porque são matéria também (idênticas, em última instância, ao que observam), ou nossa visão (sentido) cria a matéria tal qual a observamos? Neste estágio, Hume está em um problema de “o ovo ou a galinha”, a que não tem certeza a qual concede prioridade causal. Tal debate parece hoje inocente, mesmo da perspectiva epistemológica. Até por isso é necessário esclarecer o leitor, no entanto, que tampouco fala-se aqui da investigação física sobre o fenômeno da visão (já que usamos presentemente este sentido, aquele que é mais explorado pela filosofia ocidental, em detrimento do tato, paladar, audição e olfato), que até a época de Hume não estava esclarecido na base atual (a resposta encontrando-se na luz em interação tanto com a retina humana quanto com o objeto). Não é este “ângulo cru” que interessa neste livro de Hume. Ele está, ao invés, a se perguntar: que é a verdade, qual é o fundamento do real? Essas mesmas perguntas, repito, são para nós inocentes, pois a filosofia pós-kantiana decidiu-se sobre esse aspecto, sem recorrer quer ao ovo, quer a galinha, no que ficou conhecida como a síntese kantiana (ou ainda crítica, simplesmente) das correntes filosóficas importantes que o precederam. Não é dada primazia à faculdade do olho (uma câmera senciente, por assim dizer, i.e., uma câmera ligada a um sistema nervoso) nem à dos objetos, mas sim ao caráter relativista da apreensão do mundo inerente ao ser humano e ao ‘fenômeno’, conceito que detalharemos mais a seguir.
Nem existe nada de que se possa falar que seja externo ao ser (um cogitado real ou coisa-em-si), nem é o sentido do ser que cria ilusões sensórias em detrimento de acessar uma suposta realidade não-sensível, independente (o que poderíamos, hoje, tanto chamar de coisa-em-si – de novo – como de absurdo). O ser é a própria realidade que observa; a mesa, a luz, o olho humano são fenômenos (aparências), única forma da realidade regida pelo tempo-espaço, nosso único modo de vivência. Nosso corpo e mente não se encontram cingidos à maneira humeana no sistema kantiano, posto que enquanto fenômeno eternamente aparente (ou seja, em modificação) ele é em si a elucidação dos conceitos de espaço e de tempo, conteúdo e forma e sua variação, que estão embutidos em nossos instintos, sentidos e cognição (se desdobra num e noutro desde que existe, até que deixe de existir). A realidade é relativa ao indivíduo porque dois corpos não podem ser conhecidos ao mesmo tempo da mesma perspectiva, nem ‘no mesmo espaço’, sendo cada apreensão fenomênica um ‘caso isolado’ na perspectiva de um só indivíduo ou de vários. Se Hume ainda falava de um Absoluto, mas ao mesmo tempo defendia haver uma impossibilidade prática de acessá-lo, Kant, na medida em que não trata da coisa-em-si de forma moral (na Crítica da Razão Pura Prática, abordagem que não nos interessa nesta epistemologia humeana), dispensa o absoluto, ao tempo em que, justamente, o conserva, somente que sob a forma do fenômeno (que não conhece distinção sujeito-objeto), único absoluto de seu sistema.
“RESPOSTA – Pela experiência.”
Como Hume não segue pela senda kantiana, ele entende que o real (o fenômeno) possa ser paulatinamente investigado pela experiência (“sentidos acumulados”, “sentidos orientados pela razão”, “razão orientada pelos sentidos” até, como queiram – também “memória”).¹ Sucede que, na fenomenologia póstuma chega-se ao veredito: a experiência humana não “acumula” fatores necessários para o entendimento da própria experiência ou do real, como diz Hume, simplesmente porque os fatores necessários são tempo e espaço,¹ que é inerente ao ser enquanto ser (e a única manifestação do ser é através do devir fenomenológico). Em outros termos, Hume procura uma solução que já estava solucionada, sendo sua investigação tautológica ou até mesmo pré-tautológica, contraproducente e falsificadora (já que podemos entender o mundo dos fenômenos como a tautologia ela mesma).
¹ Como esta é uma INTRODUÇÃO À EPISTEMOLOGIA destes dois autores, achei por bem não complicar a exposição logo de início com um último fator enunciado por Kant na sua primeira Crítica que completa um “tripé de fundamentos”. Se possível gostaria de ter deixado esta parte fora, mas como Hume, a dado ponto das Investigações cita a própria “memória” e o termo que aqui é conveniente citar, i.e., “aprendizado das causas e efeitos”, vejo que ao menos dessa nota de rodapé o “terceiro elemento” da tríade kantiana deve constar, embora a explanação seja auto-suficiente recorrendo-se estritamente a tempo e espaço. O fator que explica a memória e o acúmulo de experiências, no sistema kantiano, é o princípio inato de apreensão de causa-efeito; se já não fôssemos equipados desta intuição elementar, a própria passagem do tempo ou as mudanças do espaço (que são, em realidade, um único fenômeno que se separa na expressão da linguagem) não seriam apreensíveis, o que demoliria todo o sistema. E na verdade quando falamos em espaço e em tempo já intuímos, por assim dizer, noções como e hegemonia de causas e efeitos no real ou nos fenômenos. Nosso próprio conceito ou abstração do que seria nossa memória envolve um recipiente, um contêiner, uma caixa, por exemplo, extensa e tridimensional, finita, capaz de armazenar, em diferentes etapas e períodos, informações, sendo que esta caixa nunca nos parecerá totalmente vazia nem cheia, embora intuamos naturalmente suas limitações – ainda que nem evoquemos aqui o esquema de um cérebro esta imagem inocente da caixa já é o suficiente; o cérebro que, antes de dissecar um corpo, um ser humano não conhece em sua aparência nem em outros atributos (o mesmo que se poderia dizer do intestino, p.ex.) a não ser pela educação ou instrução, direta ou indireta, por seres humanos que obtiveram estes dados no passado, i.e., numa palavra, pela razão. Em suma, a noção de causa-efeito nada mais é do que a articulação lógica que possibilita nossa compreensão (inata) de tempo e espaço como fundamentos do real e articulados em unidade regendo todos os fenômenos.
“Recorrer à veracidade do Ser supremo para provar a veracidade de nossos sentidos é, certamente, tomar um caminho muito inesperado.” Desta vez Hume está certo, e o próprio Kant, na Crítica da Razão Pura Prática, continuação moral de sua clássica e inauguradora Crítica da Razão Pura, retrocedeu e recaiu no próprio erro que já havia superado anos antes: atribuiu ao Ser supremo mediado pela ética cristã no mundo fenomênico o fundamento de nossa conduta social. Ele fez isso porque não encontrou outra solução metodológica para o dilema moral que suas conclusões no primeiro livro traziam: a queda no niilismo desenfreado, uma vez que os fenômenos são relativos e, portanto, realidades últimas individualmente falando. Faltava a explicação de como é possível a ética, isto é, a ação-no-mundo de forma que fosse possível a vida estabilizada em sociedade, fora da situação hipotética hobbesiana do estado de natureza (todos os homens contra todos os homens) e guiada por fins mais nobres do que a própria mundanidade fenomênica. Sua resposta bem conhecida é o enunciado do imperativo categórico. Sua premissa é válida para poucos séculos europeus de civilização cristã, ignorando portanto qualquer desenvolvimento histórico (a manifestação do Estado antes do modelo constitucional moderno, as civilizações anteriores, as civilizações não-européias e as civilizações póstumas, todas elas fenômenos transcendentais e estáveis, porém regidos por morais, culturas, religiões e códigos de ética alternativos ao tempo-espaço de Kant, i.e., o Estado de Direito cristão europeu do século XVIII). Kant retomaria uma epistemologia independente da coisa-em-si no seu terceiro trabalho clássico, a Crítica da Faculdade do Juízo, para explicar a possibilidade da Estética.
“Este é um tópico, portanto, no qual os céticos mais profundos e mais filosóficos sempre haverão de triunfar quando se propuserem a introduzir uma dúvida universal em todos os objetos de conhecimento e investigação humanos.” No sentido aqui atribuído ao ceticismo, todos os trabalhos filosóficos ainda válidos para nossa própria idade foram efetivamente legados por indivíduos céticos, sem reparos.
“É universalmente reconhecido, pelos modernos pesquisadores, que todas as qualidades sensíveis dos objetos, tais como o duro e o mole, o quente e o frio, o branco e o preto, etc., são meramente secundárias e não existem nos objetos eles mesmos, mas são percepções da mente que não representam nenhum arquétipo ou modelo externo. Se isso se admite com relação às qualidades secundárias, o mesmo deve igualmente seguir-se com relação às supostas qualidades primárias de extensão e solidez, as quais não podem ter mais direito a essa denominação que as anteriores. A idéia de extensão é inteiramente adquirida a partir dos sentidos da visão e do tato, e se todas as qualidades percebidas pelos sentidos estão na mente, não no objeto, a mesma conclusão deve alcançar a idéia de extensão, que é inteiramente dependente das idéias sensíveis, ou idéias de qualidades secundárias. Nada pode nos resguardar dessa conclusão a não ser declarar que as idéias dessas qualidades primárias são obtidas por abstração, uma opinião que, examinada cuidadosamente, revelar-se-á ininteligível e mesmo absurda. Uma extensão que não é nem tangível nem visível não pode ser minimamente concebida, e uma extensão visível ou tangível que não é nem dura nem mole, nem preta nem branca [Hume quis dizer: sem cor], está igualmente além do alcance da concepção humana. Que alguém tente conceber um triângulo em geral que não seja nem isósceles nem escaleno, nem tenha qualquer particular comprimento ou proporção entre seus lados, e logo perceberá o absurdo de todas as noções escolásticas referentes à abstração e às idéias gerais. (Em nota) Tomou-se de empréstimo esse argumento ao Dr. Berkeley; e, de fato, a maior parte dos escritos desse autor extraordinariamente habilidoso compõe as melhores lições de ceticismo que se pode encontrar entre os filósofos antigos ou modernos, incluindo Bayle. (…) Ele declara, entretanto, na folha de rosto (e sem dúvida com grande sinceridade), ter composto seu livro contra os céticos, bem como contra os ateus e os livres-pensadores. Mas todos os seus argumentos, embora visem a outro objetivo, são, na realidade, meramente céticos, o que fica claro ao se observar que não admitem nenhuma resposta e não produzem nenhuma convicção. Seu único efeito é causar aquela perplexidade, indecisão e embaraço momentâneos que são o resultado do ceticismo. [do filosofar]” Aqui Hume estava muito próximo de chegar ao criticismo kantiano, por exemplo. Diríamos que estava “quente”, mas que alguns parágrafos à frente “esfriou” de novo…
Parte 2
“Pode parecer muito extravagante que os céticos tentem destruir a razão por meio de argumentos e raciocínios, contudo esse é o grande objetivo de todas as suas disputas e investigações.”
“A principal objeção contra todos os raciocínios abstratos deriva das idéias de espaço e tempo; idéias que, na vida ordinária e para um olhar descuidado, passam por muito claras e inteligíveis, mas, quando submetidas ao escrutínio das ciências profundas (e elas são o principal objeto dessas ciências), geram princípios que parecem recheados de absurdos e contradições.” Significa: podemos abstrair inúmeras conclusões físico-matemática falsas acerca do espaço e do tempo, o que é o uso indiscriminado e mal-feito da razão, mas o que há de empírico e sensível no tempo e no espaço é irrefutável, indiscutível mesmo, ignorando e destruindo qualquer conceito ou abstração em última instância; daí ser fácil intuirmos por que espaço-tempo seja a base do kantismo: eis as noções mais imediatas e impregnadas no Ser, a condição de possibilidade de todos os fenômenos e representações.
Em mais algumas passagens de considerável extensão (!), Hume antecipa a eclosão, em um não-curto prazo, como a História verificou, dos famosos paradoxos das ciências exatas, principalmente na matemática pós-euclidiana, decorrente do próprio hiper-desenvolvimento e exaustão do modelo da geometria clássica, bem como podemos chamar já a matemática analítica (a álgebra), nascida aproximadamente com Descartes, do espelhamento desta situação, já adiantado, relativo à aritmética.
* * *
“A grande destruidora do pirronismo, ou ceticismo de princípios excessivos, é a ação, e os afazeres e ocupações da vida cotidiana.”
“Um seguidor de Copérnico, ou um de Ptolomeu, defendendo cada qual seu diferente sistema de astronomia, pode esperar produzir em sua audiência uma convicção que permanecerá constante e duradoura. Um estóico ou um epicurista expõem princípios que não apenas podem ser duradouros, mas também têm uma influência na conduta e nas maneiras. Mas um pirrônico não pode esperar que sua filosofia venha a ter alguma influência constante na mente humana; ou, se tiver, que essa influência seja benéfica para a sociedade. Ao contrário, ele deverá reconhecer – se puder – que toda vida humana seria aniquilada se seus princípios fossem adotados de forma constante e universal.” “Quando desperta de seu sonho, ele é o primeiro a rir-se de si mesmo e a confessar que suas objeções são puro entretenimento, e só tendem a mostrar a estranha condição da humanidade, que está obrigada a agir, a raciocinar e a acreditar sem ser capaz, mesmo pelas mais diligentes investigações, de convencer-se quanto às bases dessas operações ou de afastar as objeções que podem ser levantadas contra elas.”
Parte 3
“Existe, com efeito, um ceticismo mais mitigado, ou filosofia acadêmica, que pode ser tanto útil quanto duradouro” O famoso ‘pra que arrumar a cama se vou dormir de novo ainda hoje?’.
“Aqueles que têm propensão para a filosofia prosseguirão em suas pesquisas, porque ponderam que, em adição ao prazer imediato que acompanha essa ocupação, as decisões filosóficas nada mais são que as reflexões da vida ordinária, sistematizadas e corrigidas.”
“Parece-me que os únicos objetos das ciências abstratas, ou objetos de demonstração, são a quantidade e o número, e que todas as tentativas para estender essa espécie mais perfeita de conhecimento além desses limites não passam de sofística e ilusionismo.”
“Que o quadrado da hipotenusa é igual aos quadrados dos 2 outros lados, isso não pode ser conhecido, por mais exatamente que estejam definidos os termos, sem um processo de raciocínio e investigação.”
“A ímpia máxima da filosofia antiga Ex nihilo, nihil fit (Do nada, nada procede), pela qual se negava a criação da matéria, deixa de ser uma máxima, de acordo com a presente filosofia.”
“Os assuntos ligados à moral e à crítica são menos propriamente objetos do entendimento que do gosto e do sentimento. A beleza, quer moral ou natural, é mais propriamente sentida que percebida. Ou, se raciocinamos sobre ela, e tentamos estabelecer seu padrão, tomamos em consideração um novo fato, a saber, o gosto geral da humanidade ou algum outro fato desse tipo, que possa ser objeto do raciocínio e da investigação.” Longe de mim, ao demonstrar que a epistemologia kantiana é em síntese a superação da epistemologia humeana, rebaixar ou relegar Hume a um canto irrelevante da história dos pensadores. Nesta passagem, por exemplo, se vê com assaz clareza que Hume, apenas 13 anos mais velho que seu ainda mais celebrado “rival”, respirando a mesma cultura portanto, poderia muito bem ter sido o autor de todo o criticismo kantiano, se rumasse por veredas não muito distintas de seu próprio método, posto que essas linhas por si só contêm em germe não só as conclusões kantianas mais sublimes, como os postulados da primeira e da terceira Críticas, como até o sensato corretivo dos devaneios kantianos sobre a moral (segunda Crítica).
“Quando percorrermos as bibliotecas, convencidos destes princípios, que devastação não deveremos produzir! Se tomarmos em nossas mãos um volume qualquer, de teologia ou metafísica escolástica, p.ex., façamos a pergunta: Contém ele qualquer raciocínio abstrato referente a números e quantidades? Não. Contém qualquer raciocínio experimental referente a questões de fato e de existência? Não. Às chamas com ele, então, pois não pode conter senão sofismas e ilusão.”
UMA INVESTIGAÇÃO SOBRE OS PRINCÍPIOS DA MORAL
SEÇÃO 1. DOS PRINCÍPIOS GERAIS DA MORAL
“é inútil esperar que qualquer lógica – que não se dirige aos afetos – seja jamais capaz de levá-los a abraçar princípios mais sadios.”
“Por mais insensível que seja um homem, ele será freqüentemente tocado pelas imagens do certo e do errado, e, por mais obstinados que sejam seus preconceitos, ele deve certamente observar que outras pessoas são suscetíveis às mesmas impressões. O único modo, portanto, de converter um antagonista dessa espécie é deixá-lo sozinho.”
“Os filósofos da Antiguidade, embora afirmem muitas vezes que a virtude nada mais é que a conformidade com a razão, parecem em geral considerar que a moral deriva sua existência do gosto e do sentimento.”
“Extingam-se todos os cálidos sentimentos e propensões em favor da virtude, e toda repugnância ou aversão ao vício; tornem-se os homens totalmente indiferentes a essas distinções, e a moralidade não mais será um estudo prático nem terá nenhuma tendência a regular nossa vida e ações.”
“Mas em muitas espécies de beleza, particularmente no caso das belas-artes, é preciso empregar muito raciocínio para experimentar o sentimento adequado, e um falso deleite pode muitas vezes ser corrigido por argumentos e reflexão. Há boas razões para se concluir que a beleza moral tem muitos traços em comum com esta última espécie, e exige a assistência de nossas faculdades intelectuais para adquirir uma influência apropriada sobre a mente humana.”
“Dado que essa é uma questão factual e não um assunto de ciência abstrata, só podemos esperar obter sucesso seguindo o método experimental e deduzindo máximas gerais a partir de uma comparação de casos particulares.” Larochefoucauldismo
“Os homens estão hoje curados de sua paixão por hipóteses e sistemas em filosofia natural, e não darão ouvidos a argumentos que não sejam derivados da experiência.” Que otimismo!
“Já é tempo de que façam uma reforma semelhante em todas as investigações morais e rejeitem todos os sistemas éticos, por mais sutis e engenhosos, que não estejam fundados em fatos e na observação.”
SEÇÃO 2. DA BENEVOLÊNCIA
Parte 1
“Os epítetos ‘sociável’, ‘de boa índole’, ‘humano’, ‘compassivo’, ‘grato’, ‘amistoso’, ‘generoso’, ‘benfazejo’, ou seus equivalentes, são conhecidos em todas as linguagens e expressam universalmente o mais alto mérito que a natureza humana é capaz de atingir.”
“Uma elevada aptidão, uma coragem indomável, um sucesso florescente só podem expor um herói ou um político à inveja e má vontade do público; mas tão logo se acrescentem os louvores de humanitário e beneficente, tão logo sejam dadas demonstrações de brandura, enternecimento e amizade, a própria inveja se cala ou junta-se ao coro geral de aprovação e aplauso.”
“Em homens de talentos e capacidades mais ordinários, as virtudes sociais (se é que isto é possível) são requeridas de forma ainda mais essencial, já que não há, nesses casos, nada que se sobressaia para compensar sua ausência ou para preservar a pessoa da mais profunda aversão ou desprezo.”
“Deve-se de fato reconhecer que é apenas pela prática do bem que um homem pode verdadeiramente gozar das vantagens de ser eminente. Sua posição elevada, por si só, apenas o deixa mais exposto ao perigo e à tempestade.”
Parte 2
“Plantar uma árvore, cultivar um campo, gerar filhos: atos meritórios, segundo a religião de Zoroastro.” Faltou um quarto ato: ler meu blog.
“O ato de dar esmolas a pedintes vulgares é compreensivelmente elogiado, pois parece trazer alívio aos aflitos e indigentes; mas, quando observamos o encorajamento que isso dá à ociosidade e à devassidão, passamos a considerar essa espécie de caridade antes como uma fraqueza que uma virtude.”
“O tiranicídio, ou assassinato de usurpadores e príncipes opressivos, foi sumamente enaltecido em tempos antigos porque livrou a humanidade desses monstros e parecia, além disso, impor o temor a outros que a espada ou o punhal não podiam alcançar. Mas como a história e a experiência desde então nos convenceram de que essa prática aumenta a suspeita e a crueldade dos príncipes, um Timoleão e um Bruto, embora tratados com indulgência em vista das predisposições de sua época, são hoje considerados como modelos muito impróprios para imitação.”
“O luxo, ou refinamento nos prazeres e confortos da vida, foi durante muito tempo tomado como a origem de toda a corrupção no governo, e como a causa imediata de discórdia, rebelião, guerras civis e perda total de liberdade.”
SEÇÃO 3. DA JUSTIÇA
Parte 1
“A água e o ar, embora sejam as mais necessárias de todas as coisas, não são disputados como propriedades de indivíduos, e ninguém comete injustiça por mais prodigamente que se sirva e desfrute dessas bênçãos.” Como Hume envelheceu mal nesses 250 anos!
“Para quê erigir marcos limítrofes entre meu campo e o de meu vizinho se meu coração não fez nenhuma divisão entre nossos interesses, mas compartilha todas as suas alegrias e tristezas com a mesma força e vivacidade que experimentaria caso fossem originalmente as minhas próprias?”
O ANTI-HOBBES I: “Esta ficção poética de uma idade de ouro está, sob certos aspectos, em pé de igualdade com a ficção filosófica de um estado de natureza (…) Essa ficção de um estado de natureza como um estado de guerra não se iniciou com Thomas Hobbes, como se costuma imaginar (Leviatã, capítulo 13). Platão esforça-se para refutar uma hipótese muito semelhante a essa nos 2º, 3º e 4º livros da República. Cícero, ao contrário, toma-a como certa e universalmente admitida [Cícero é péssimo!]”
“Pode-se com razão duvidar de que uma tal condição da natureza humana tenha jamais existido, ou, se existiu, que tenha durado por tanto tempo a ponto de merecer a denominação de um estado.”
Hume não pôde prever um direito dos animais (p. 125 do PDF, 251 da edição); mais, aliás: não pôde prever nem direitos dos povos autóctones! “A grande superioridade dos europeus civilizados em relação aos índios selvagens inclinou-nos a imaginar que estamos, perante eles, em idêntica situação [àquela dos homens com os animais], e fez com que nos desembaraçássemos de todas as restrições derivadas da justiça e mesmo de considerações humanitárias.” Em seguida, sobre a situação isenta de esperança da mulher! Segundo Hume, pela força bruta, o homem jamais perderia seus direitos exclusivos à propriedade, p.ex.; ocorre que o charme da mulher ‘democratizou’ tais relações. Nada, portanto, mais etno-antropo-androcêntrico que este parágrafo!
Parte 2
“Fanáticos podem supor que o poder se funda na graça, e que somente os santos herdarão a terra, mas o magistrado civil muito corretamente põe esses sublimes teóricos em pé de igualdade com os assaltantes comuns e lhes ensina pela disciplina mais severa que uma regra que, do ponto de vista especulativo, parece talvez a mais vantajosa para a sociedade, pode revelar-se, na prática, totalmente perniciosa e destrutiva.”
PREFIGURAÇÕES DO SOCIALISMO: “Talvez os ‘Levellers’, que reclamavam uma distribuição igualitária da propriedade, tenham sido um tipo de fanáticos políticos que brotaram da espécie religiosa e confessavam mais abertamente suas pretensões, como tendo uma aparência mais plausível de poderem ser postas em prática e serem de utilidade para a sociedade humana.”
“a mínima gratificação de um frívolo capricho de um indivíduo custa freqüentemente mais do que o pão de muitas famílias, e até de muitas províncias.” Cita Esparta como a república que teria realizado o ideal da igualdade sobre a terra. E em seguida: “Sem mencionar que as leis agrárias, tão freqüentemente reivindicadas em Roma e postas em prática em muitas cidades gregas, procederam todas elas de uma concepção geral da utilidade desse princípio.” Claro que, como bom liberal do XVII, H. vai dizer que essas idéias não são mais exeqüíveis nem desejáveis, de forma alguma. Uma das razões é que tal disposição geraria a necessidade de uma justiça draconiana, praticamente uma comissão inquisitorial. Não deixa de ser verdade que Esparta e Roma foram assim, mas que, em Esparta pelo menos, isso não era sentido como peso devido à arete dos cidadãos.
“Quem não vê (…) que a propriedade deve passar por herança para os filhos e parentes, tendo em vista o mesmo útil propósito?”
“um sistema [o de Montesquieu!] que, em minha opinião, jamais poderá ser reconciliado com a verdadeira filosofia.” Posso entender por que Hume deve ter exercido influência do mais alto grau em mentes como Smith e Stuart-Mill! Aliás, Smith foi contemporâneo tanto de Montesquieu quanto de Hume, e conterrâneo de Hume (escocês)!
“Um sírio morreria de fome antes de saborear um pombo, um egípcio não se aproximaria de um pedaço de toucinho” “Uma ave na quinta-feira é um alimento lícito, na sexta-feira torna-se abominável; ovos são permitidos nesta casa e nesta diocese durante a Quaresma, cem passos adiante, comê-los é um pecado mortal; este terreno ou edifício ontem era profano, hoje, após serem murmuradas certas palavras, tornou-se pio e sagrado.”
Adoro o Hume antirreligioso: “Se os interesses da sociedade não estivessem de nenhum modo envolvidos, a razão pela qual a articulação de certos sons implicando consentimento por parte de uma pessoa deveria alterar a natureza de minhas ações com respeito a um objeto particular seria tão ininteligível quanto a razão pela qual uma fórmula litúrgica recitada por um padre, com um certo hábito e numa certa postura, deveria consagrar uma pilha de madeira e tijolos e torná-la desde então sagrada para todo o sempre.”
MALDITOS JESUÍTAS, ESSES “SUPERESCOLÁSTICOS”: “ver no Dicionário de Bayle o verbete ‘Loyola’.”
“As sutilezas casuísticas podem não ser maiores que as sutilezas dos advogados aqui mencionadas, mas como as primeiras são perniciosas e as últimas inocentes e mesmo necessárias, compreende-se a razão das recepções bastante diferentes que encontraram no mundo. § É uma doutrina da Igreja de Roma que o sacerdote, por um direcionamento secreto de sua intenção, pode invalidar qualquer sacramento.”
“E estas próprias palavras, herança e contrato, representam idéias infinitamente complicadas, e uma centena de volumes de legislação mais um milhar de volumes de comentários não se mostraram suficientes para defini-las com exatidão. Poderia a natureza, cujos instintos nos seres humanos são de todo simples, abarcar objetos tão complicados e artificiosos, e criar uma criatura racional sem nada consignar à operação de sua razão?” “Teríamos então idéias inatas originárias acerca de pretores, chanceleres e júris? Quem não vê que todas essas instituições surgem simplesmente das necessidades da sociedade humana?” Sedutor, mas errado.
O Zeitgeist é tão forte que mesmo um “anti-Iluminista” como Hume acaba chegando às mesmas conclusões que os baluartes do Esclarecimento: “A vantagem, ou antes a necessidade, que leva à justiça é tão universal e conduz em todas as partes de modo tão pronunciado às mesmas regras que o hábito toma assento em todas as sociedades e só com algum esforço investigativo somos capazes de descobrir sua verdadeira origem.”
SEÇÃO 4. DA SOCIEDADE POLÍTICA
“Alianças e tratados são formalizados todos os dias entre Estados independentes, o que constituiria desperdício de pergaminho se a experiência não tivesse mostrado que eles têm alguma influência e autoridade.”
“No caso de confederações como a antiga república dos aqueus ou, modernamente, os Cantões Suíços e as Províncias Unidas,(*) como a aliança tem, nesses casos, uma peculiar utilidade, as condições de união têm um caráter particularmente sagrado e impositivo, e uma violação delas será considerada tão ou mais criminosa que qualquer dano ou injustiça de caráter privado.
(*) Os Países Baixos, constituídos em 1579 pelo tratado de Utrecht. (N.T.)”
“A única solução que Platão oferece a todas as objeções que poderiam ser levantadas contra a posse em comum das mulheres estabelecida em sua comunidade imaginária é ‘pois sempre houve e haverá boa razão para se afirmar que o útil é belo, e o nocivo é feio’ (Rep., V).”
“Odeio um companheiro de bebedeiras que nunca esquece, diz o provérbio grego. As loucuras da última esbórnia devem ser sepultadas em eterno olvido a fim de abrir o máximo espaço para as loucuras da próxima.”
ÉTICA DO CARONEIRO PARTE II! (PREQUEL): “Que o veículo mais leve ceda passagem ao mais pesado, e, em veículos de mesmo porte, que o que está vazio dê preferência ao carregado são regras fundadas na conveniência. Que aqueles que estão se dirigindo para a capital têm precedência sobre os que estão retornando parece fundar-se em alguma representação da dignidade da grande cidade, e a uma preferência do futuro sobre o passado. Por análogas razões, entre pedestres, a mão direita dá direito a caminhar junto à parede e evita os esbarrões que as pessoas pacíficas acham muito desagradáveis e inconvenientes.”
SEÇÃO 5. POR QUE A UTILIDADE AGRADA
Parte 1
“Se a natureza não tivesse feito essa distinção com base na constituição original da mente, as palavras ‘honroso’ e ‘vergonhoso’, ‘estimável’ e ‘odioso’, ‘nobre’ e ‘desprezível’ não existiriam em nenhuma linguagem; e mesmo que os políticos viessem a inventar esses termos, jamais seriam capazes de torná-los inteligíveis ou fazê-los veicular alguma idéia aos ouvintes. Nada mais superficial, portanto, que esse paradoxo dos céticos”
“Essa dedução da moral a partir do amor de si mesmo, ou de uma atenção aos interesses privados, é uma idéia óbvia” “Mas (…) a voz da natureza e da experiência parecem se opor claramente à teoria egoísta.”
“O descumprimento das obrigações para com os pais é desaprovado por todos os homens” Mas Políbio vê que essas considerações são também egoístas: <quando eu tiver filhos…>
“Que tem isso a ver comigo? Há poucas ocasiões em que essa pergunta não é pertinente”
“Um homem trazido à beira de um precipício não pode olhar para baixo sem tremer, e o sentimento de um perigo imaginário atua sobre ele em oposição à opinião e crença de uma segurança real.” Poderíamos inverter os vocábulos imaginário e real nesta frase e ela manteria o mesmo sentido, se é que não faria ainda mais sentido…
Parte 2
“Poucos gêneros poéticos trazem mais entretenimento do que o gênero pastoral”
“A leitura atenta da história parece ser um entretenimento tranqüilo, mas não seria de nenhum modo um entretenimento se nossos corações não batessem em movimentos correspondentes aos que são descritos pelo historiador.”
“Tucídides e Guicciardini mantêm com dificuldade nossa atenção quando o 1º descreve os triviais confrontos das pequenas cidades da Grécia e o 2º as guerras inofensivas de Pisa. (…) Mas a profunda aflição do numeroso exército ateniense diante de Siracusa e o perigo que tão de perto ameaçava Veneza, esses despertam compaixão, esses incitam o terror e a ansiedade.” Hoje tudo isso para nós está unido sob uma única alcunha: passado remoto; igualmente indiferente, igualmente apaixonante, dependendo da circunstância e do receptor.
“Se admitíssemos que a crueldade de Nero era inteiramente voluntária e não antes o efeito de um constante temor e ressentimento, é evidente que Tigelino, de preferência a Sêneca e Burro, deveria ter gozado de sua constante e invariável aprovação.”
NACIONALISMO: FÓSSIL: “Dedicamos sempre uma consideração mais apaixonada a um estadista ou patriota que serve nosso próprio país em nossa própria época do que a um outro cuja influência benéfica operou em eras remotas ou em nações distantes, nas quais o bem resultante de sua generosa benevolência, estando menos relacionado conosco, parece-nos mais obscuro, afeta-nos com uma simpatia menos vívida.” Essa regra só se aplicaria aos seres humanos que conhecemos em nossa vida diária: os fascistas com quem convivo me inspiram aversão infinitamente maior que qualquer traste que eu venha a conhecer lendo a história do Nazismo.
SEÇÃO 6. DAS QUALIDADES ÚTEIS A NÓS MESMOS
Parte 1
“Para um Cromwell, talvez, ou para um De Retz, a discrição pode parecer uma virtude típica de vereador, no dizer do Dr. Swift; e, sendo incompatível com aqueles vastos desígnios inspirados por sua coragem e ambição, poderia neles constituir realmente um defeito ou imperfeição.”
“Um dos extremos da frugalidade é a avareza, que, ao privar um homem de todo uso de suas riquezas e simultaneamente impedir a hospitalidade e qualquer prazer sociável, sofre, com razão, uma dupla censura.”
“Mas, em épocas antigas, quando ninguém podia sobressair-se sem o dom da oratória e a audiência era demasiado refinada para suportar as arengas cruas e mal-digeridas com que nossos improvisados oradores se dirigem às assembléias públicas, a faculdade da memória tinha então a mais alta importância e era, em conseqüência, muito mais valorizada do que no presente.”
Parte 2
“As justas proporções de um cavalo descritas por Xenofonte e Virgílio são as mesmas hoje aceitas pelos que lidam com esses animais, porque seu fundamento é o mesmo, a saber, a experiência do que é prejudicial ou útil nesses animais.”
“Quanto escárnio e desdém, por parte de ambos os sexos, acompanham a impotência! O infeliz indivíduo é visto como privado de um prazer essencial na vida e, ao mesmo tempo, incapaz de proporcioná-lo a outros.”
SEÇÃO 7. DAS QUALIDADES IMEDIATAMENTE AGRADÁVEIS A NÓS MESMOS
DÊNIS & CABELINHO: “A chama se propaga a todo o círculo, e mesmo os mais rabugentos e taciturnos são contagiados por ela. Embora Horácio o tenha afirmado, tenho certa dificuldade em admitir que as pessoas tristes detestam as alegres, porque sempre observei que, quando a jovialidade é moderada e decente, as pessoas sérias são as que mais se deliciam, já que ela dissipa as trevas que comumente as oprimem e proporciona-lhes uma rara diversão.” “surge uma cordial emoção dirigida para a pessoa que transmite tanta satisfação. Ela constitui um espetáculo mais tonificante, sua presença difunde sobre nós uma satisfação e um contentamento mais serenos; nossa imaginação, penetrando em seus sentimentos e disposições, é afetada de uma maneira mais agradável do que se nos tivesse sido apresentado um temperamento triste, abatido, sombrio e angustiado.”
“Não há ninguém que não seja afetado, em certas ocasiões, pelas desagradáveis paixões do medo, cólera, abatimento, aflição, tristeza, ansiedade, etc. Mas essas paixões, por serem naturais e universais, não fazem nenhuma diferença entre uma pessoa e outra, e não podem jamais constituir motivo de censura. É apenas quando a disposição produz uma propensão a uma dessas desagradáveis paixões que desfiguram o caráter e, ao produzir desconforto, transmitem o sentimento de desaprovação ao espectador.”
“Poucos invejariam o caráter que César atribui a Cássio:
He loves no play,
As thou do’st, Anthony: he hears no music:
Seldom he smiles; and smiles in such a sort,
As if he mock’d himself, and scorn’d his spirit
That could be mov’d to smile at any thing.”
Shakespeare, Júlio César, ato I, cena II,203-207, trecho tão comentado por Deleuze no Anti-Édipo!
“Ide!, exclamou o mesmo herói a seus soldados quando estes se recusaram a segui-lo até as Índias, ide e dizei a vossos compatriotas que deixastes Alexandre completando a conquista do mundo! E o Príncipe de Condé, grande admirador dessa passagem, complementa: Alexandre, abandonado por seus soldados entre bárbaros ainda não totalmente subjugados, sentia em si uma tamanha dignidade e direito de comando que não podia acreditar ser possível que alguém se recusasse a obedecer-lhe. Na Europa ou na Ásia, entre gregos ou persas, pouco lhe importava: onde quer que encontrasse homens, imaginava que haveria de encontrar súditos.”
RUBENEUS ADRIANUS: “E se, como freqüentemente acontece, a mesma pessoa que rasteja diante de seus superiores é insolente com seus subordinados, essa contradição em seu comportamento, longe de corrigir o vício anterior, agrava-o extraordinariamente pelo acréscimo de um vício ainda mais odioso.”
“Contemplei Filipe, contra quem lutastes, expondo-se resolutamente, em sua busca de poder e domínio, a todos os ferimentos; o olho coberto de uma crosta de sangue, o pescoço contorcido, o braço e coxa trespassados, pronto a abandonar de bom grado qualquer parte de seu corpo que a fortuna agarrasse desde que pudesse, com o restante, viver com honra e renome. Quem diria que, nascido em Pela, lugar até então vil e ignóbil, ele tenha sido inspirado por tão grande ambição e sede de celebridade, ao passo que vós, atenienses, . . . .” Demóstenes
“Os suevos arranjavam seus cabelos com um louvável intento; não para amar ou serem amados: eles se adornavam apenas para seus inimigos e para parecerem mais terríveis.” – Tácito. O penteado coque-samurai dos bárbaros germânicos massacrados por César – acabei de ler a mesma citação na History of The Romans Under the Empire de Merivale (em breve no Seclusão)!
“Os citas, de acordo com Heródoto em seu Livro 4, após escalpelarem seus inimigos, tratavam a pele como um couro e usavam-na como uma toalha, e quem possuísse o maior número dessas toalhas era o mais merecedor de apreço entre eles.”
“E esse [a ética da coragem guerreira] também, até muito recentemente, foi o sistema ético predominante em muitas das regiões bárbaras da Irlanda, se podemos dar crédito a Spenser em seu judicioso relato do estado daquele reino: ‘É comum que os filhos das boas famílias, tão logo sejam capazes de usar suas armas, reúnam-se imediatamente a 3 ou 4 vagabundos ou mercenários os quais vagueiam à toa durante algum tempo pelo país, apoderando-se apenas de comida, até que afinal se lhe ofereça alguma má aventura, a qual, logo que se torna conhecida, faz com que ele seja considerado daí em diante como um homem de valor, em quem há coragem.”
“A serenidade filosófica pode, na verdade, ser considerada simplesmente como um ramo da grandeza de espírito.”
“Epicteto não tinha sequer uma porta no casebre em que morava, e por isso logo perdeu seu lampião de ferro, o único de seus objetos que valia a pena ser furtado. E tendo decidido frustrar todos os futuros ladrões, substituiu-o por um lampião de barro, que manteve pacificamente desde então em sua posse.”
“sofremos por contágio e simpatia, e não podemos manter-nos como espectadores indiferentes, mesmo estando certos de que nenhuma conseqüência danosa nos advirá dessas ameaçadoras paixões.”
“A coragem excessiva e a resoluta inflexibilidade de Carlos XII arruinaram seu país e assolaram todos os vizinhos, mas exibem um tal esplendor (…) que poderiam ser até (…) aprovadas (…) se não traíssem (…) sintomas (…) evidentes de loucura”
SEÇÃO 8. DAS QUALIDADES IMEDIATAMENTE AGRADÁVEIS AOS OUTROS
“Um espanhol sai de sua casa à frente de seu hóspede, significando com isso que o deixa como senhor dela. Em outros países, o dono da casa sai em último lugar, como um sinal usual de respeito e consideração.”
“pouca satisfação é obtida pelo contador de longas histórias ou pelo declamador empertigado.”
“Há um tipo inofensivo de mentirosos, comumente encontrados nas reuniões, que se comprazem muitíssimo com relatos fantásticos. Em geral sua intenção é agradar, mas, como as pessoas se encantam mais com aquilo que supõem verdadeiro, esses indivíduos se equivocam redondamente sobre as formas de entreter e incorrem em uma censura universal.”
“As pessoas têm, em geral, uma propensão muito maior para se sobrevalorizarem do que para se menosprezarem, não obstante a opinião de Aristóteles sobre o assunto em Ética a Nicômaco.”
“Ninguém poderá censurar Maurício, príncipe de Orange, por sua resposta de caráter bem-humorado e velado quando lhe perguntaram quem ele considerava o maior general de sua época: O marquês de Spinola é o segundo.”
“A magnífica obstinação de Sócrates, como Cícero a denominava, tem sido grandemente celebrada em todas as épocas, e, quando conjugada à usual modéstia de seu comportamento, compõe um caráter luminoso. (…) Em suma, um generoso temperamento e amor-próprio, quando bem-fundamentados, disfarçados com decoro e corajosamente defendidos contra as calúnias e vicissitudes, é uma grande virtude e parece derivar seu mérito da nobre elevação de seu sentimento, ou do fato de ser imediatamente agradável a seu possuidor.”
“Por que essa ansiedade em relatar que estivemos em companhia de pessoas ilustres e que recebemos referências elogiosas, como se essas não fossem coisas corriqueiras que todos poderiam imaginar sem que lhes fossem contadas?”
SEÇÃO 9. CONCLUSÃO
Parte 1
O ANTI-SCHOPENHAUER: “Celibato, jejum, penitência, mortificação, negação de si próprio, submissão, silêncio, solidão e todo o séquito das virtudes monásticas – por que razão são elas em toda parte rejeitadas pelas pessoas sensatas a não ser porque não servem a nenhum propósito; não aumentam a fortuna de um homem nem o tornam um membro mais valioso da sociedade; não o qualificam para as alegrias da convivência social nem o tornam mais capaz de satisfazer-se consigo mesmo?” “Um fanático sombrio e ignorante pode, após sua morte, ganhar uma data no calendário, mas dificilmente seria admitido, enquanto vivo, à intimidade e ao convívio social, exceto por aqueles tão transtornados e lúgubres quanto ele.”
O ANTI-HOBBES II: “aqueles pensadores que sinceramente sustentam o predominante egoísmo do ser humano não se escandalizarão em absoluto ao ouvir falar desses tênues sentimentos de virtude implantados em nossa natureza.”
“Quando um homem chama outro de seu inimigo, seu rival, seu antagonista, seu adversário, entende-se que ele está falando a linguagem do amor de si mesmo e expressando sentimentos que lhe são próprios e que decorrem das situações e circunstâncias particulares em que está envolvido. Mas, quando atribui a alguém os epítetos de corrupto, odioso ou depravado, já está falando outra linguagem e expressando sentimentos que ele espera que serão compartilhados por toda sua audiência.”
“Quando o coração está cheio de ira, nunca lhe faltam pretextos dessa natureza, embora sejam às vezes tão ridículos como os de Horácio que, ao ser quase esmagado pela queda de uma árvore, pretendeu acusar de parricídio quem a havia plantado (Odes, livro 2, ode 13).” [!!!]
NOVAMENTE ME ESPANTO QUE HUME NÃO TENHA VIVIDO APÓS LAPLACE! “quando reflito que, embora se tenha medido e delineado o tamanho e a forma da Terra, explicado os movimentos das marés, submetido a ordem e organização dos corpos celestes a leis apropriadas, e reduzido o próprio infinito a um cálculo, ainda persistem as disputas relativas ao fundamento de seus deveres morais (…) recaio na desconfiança e no ceticismo, [não diga! logo você, sr. Hume?!] e suspeito que, se fosse verdadeira (…) esta hipótese tão óbvia (…) teria já há muito tempo recebido o sufrágio e a aceitação unânimes da humanidade.”
Parte 2
(…)
APÊNDICE 1. Sobre o sentimento moral
(…)
APÊNDICE 2.
(…)
APÊNDICE 3.
(…)
APÊNDICE 4.
“Em tempos mais recentes, toda espécie de filosofia e em especial a ética têm estado mais estreitamente unidas à teologia do que jamais estiveram entre os pagãos; e como essa última ciência não faz quaisquer concessões às demais, mas verga todos os ramos do conhecimento para seus propósitos particulares, sem dar muita atenção aos fenômenos da natureza ou a sentimentos mentais livres de preconceitos, segue-se que o raciocínio e mesmo a linguagem foram desviados de seu curso natural, e fez-se um esforço para estabelecer distinções em situações em que a diferença entre os objetos era quase imperceptível. Filósofos, ou antes teólogos sob esse disfarce, ao tratar toda a moral em pé de igualdade com as leis civis, protegidas pelas sanções de recompensa ou punição, foram necessariamente levados a fazer da característica do voluntário ou involuntário o fundamento de toda a sua teoria.”
“Que temos um dever em relação a nós mesmos é algo que até o mais vulgar sistema de moral reconhece”
UM DIÁLOGO
“Parece que Alcheic tinha sido muito belo em sua juventude, tinha sido cortejado por muitos amantes, mas concedera seus favores especialmente ao sábio Elcouf, a quem se supunha que ele devia o espantoso progresso que fizera em filosofia e na virtude.
Surpreendeu-me também o fato de que a esposa de Alcheic (que, aliás, era também sua irmã) não se mostrasse minimamente escandalizada com essa espécie de infidelidade.
Mais ou menos à mesma época descobri (…) que Alcheic era um assassino e um parricida, e que mandara para a morte uma pessoa inocente, que lhe era estreitamente aparentada e a quem estava obrigado a proteger e defender por todos os laços da natureza”
“Recebi recentemente uma carta de um correspondente em Fourli, pela qual fiquei sabendo que, após minha partida, Alcheic apropriadamente se enforcou, e morreu universalmente lamentado e aplaudido em todo o país.”
“mal poderíeis distinguir se ele estava zombando ou falando sério.”
“Cuidado, gritou ele, tende cuidado! Não percebeis que estais blasfemando e insultando os vossos favoritos, os gregos, especialmente os atenienses, que eu ocultei o tempo todo sob os nomes bizarros que empreguei?”
“Mas não dissestes que Usbek era um usurpador!”
“Não o fiz, para que não descobrísseis o paralelo que tinha em mente. Mas, mesmo acrescentando essa circunstância, não deveríamos hesitar, de acordo com nosso sentimento de moral, em classificar Bruto e Cássio como traidores ingratos e assassinos, embora saibais que são talvez as mais altas personalidades de toda a Antiguidade, e que os atenienses erigiram-lhes estátuas, [?] colocadas próximas às de Harmódio e Aristogiton, seus próprios libertadores.”
“Creio que com justiça mostrei que um ateniense de mérito poderia ser alguém que entre nós passaria hoje por incestuoso, parricida, assassino, ingrato, pérfido traidor e outra coisa demasiado abominável para ser nomeada; [gay] sem contar sua rusticidade”
“Geometria, física, astronomia, anatomia, botânica, geografia, navegação: em todas estas reivindicamos com razão a superioridade. Mas que temos a opor a seus moralistas? Vossa representação das coisas é falaciosa.”
“Ser-me-ia permitido informar aos atenienses de que houve uma nação em que o adultério, tanto ativo quanto passivo, gozava da mais alta popularidade e estima? Na qual cada homem educado escolhia para sua amante uma mulher casada, talvez a esposa de seu amigo e companheiro, e vangloriava-se dessas infames conquistas tanto quanto se tivesse sido várias vezes vencedor no boxe ou na luta nos Jogos Olímpicos? Na qual cada homem também se orgulhava de sua mansidão (…) com relação a sua própria mulher, e alegrava-se de fazer amigos e obter vantagens permitindo que ela prostituísse seus encantos; e que dava-lhe plena liberdade e indulgência? Pergunto, então, que sentimentos os atenienses experimentariam por um tal povo”
Ser-me-ia preciso acrescentar que esse mesmo povo era tão orgulhoso de sua escravidão e dependência como os atenienses de sua liberdade, e embora um homem desse povo estivesse oprimido, desgraçado, empobrecido, insultado ou aprisionado pelo tirano, ainda consideraria altamente meritório amá-lo, servi-lo e obedecer-lhe?”
“E se um homem que lhes é absolutamente estranho desejasse que, sob ameaça de morte, cortassem a garganta de um velho amigo, eles imediatamente obedeceriam e se julgariam altamente favorecidos e honrados por essa comissão.”
“Mas embora estejam tão prontos a sacar sua espada contra seus amigos, nenhuma desgraça, dor ou miséria jamais levará essas pessoas a apontarem-na contra seu próprio peito. Um homem de posição irá remar nas galés, mendigar seu pão, definhar na prisão, sofrer todas as torturas, conquanto conserve sua ignóbil existência.”
“É também muito usual entre esse povo construir prisões nas quais todas as artes de afligir e atormentar os infelizes prisioneiros são cuidadosamente estudadas e praticadas. E é comum que pais voluntariamente encerrem vários de seus filhos nessas prisões, a fim de que um outro filho, que admitem não ter mais mérito, ou até tê-lo menos, que os outros, possa gozar integralmente de sua fortuna e chafurdar em toda espécie de voluptuosidade e prazeres.”
“Mas o mais singular nessa caprichosa nação é que vossos folguedos durante as saturnais, quando os escravos são servidos por seus senhores, são seriamente estendidos por eles de modo a cobrir o ano inteiro e todo o tempo de sua vida, acompanhados ainda de algumas circunstâncias que aumentam o absurdo e o ridículo. (…) em todo o tempo a superioridade das mulheres é prontamente reconhecida e aceita por todos (…) Dificilmente um crime seria mais universalmente condenado do que uma infração a essa regra.”
“Também os franceses, sem dúvida, são um povo muito civilizado e inteligente; no entanto, seus homens de mérito poderiam, entre os atenienses, ser objetos do maior desprezo e ridículo, e mesmo de ódio. O que torna a questão mais extraordinária é que esses dois povos são considerados os mais similares em seu caráter nacional entre todos os povos antigos e modernos! E enquanto os ingleses se gabam de assemelhar-se aos romanos, seus vizinhos no continente traçam um paralelo entre os cultivados gregos e si próprios.”
“Os amores gregos (…) provêm de uma causa muito inocente, a freqüência dos exercícios de ginástica entre esse povo, e eram recomendados, embora absurdamente, como uma fonte de amizade, simpatia, apego mútuo e fidelidade”
“Como se poderia recuperar a liberdade pública das mãos de um usurpador ou tirano, se seu poder o protege da rebelião pública e de nossos escrúpulos da vingança privada?”
“reconheço que há uma dificuldade quase tão grande de justificar a galanteria francesa quanto a grega, exceto, talvez, que a 1ª é muito mais natural e agradável.”
“Certamente nada pode ser mais absurdo e bárbaro que a prática do duelo”
“Horácio enalteceu uma testa baixa, e Anacreonte sobrancelhas unidas; mas o Apolo e a Vênus da Antiguidade são ainda nossos modelos de beleza masculina e feminina”
“De todas as nações do mundo nas quais não se permitia a poligamia, os gregos parecem ter sido os mais reservados em suas relações com o belo sexo”
“vemos que, exceto pelas fabulosas histórias de Helena e Clitemnestra, quase não há nenhum acontecimento na história grega que decorra das intrigas femininas. Nos tempos modernos, entretanto, particularmente em uma nação vizinha, as mulheres participam de todas as transações e arranjos da Igreja e do Estado (…) Henrique III pôs em perigo sua coroa e perdeu sua vida por ter incorrido no desagrado das mulheres”
“quem poderia imaginar que os romanos tivessem um tão grande desinteresse pela música e considerassem a dança aviltante; ao passo que os gregos passassem todo o tempo a tocar flauta, cantar e dançar?”
“Hoje, quando a filosofia perdeu a atração da novidade, não tem mais uma influência tão extensa, mas parece confinar-se principalmente a especulações de gabinete, da mesma maneira como a antiga religião estava limitada a sacrifícios no templo. Seu lugar está agora ocupado pela moderna religião, que inspeciona por inteiro nossa conduta e prescreve uma regra universal a nossas ações, a nossas palavras, a nossos próprios pensamentos e inclinações”
“Diógenes é o modelo mais célebre de filosofia extravagante. Procuremos um seu paralelo nos tempos modernos. Não devemos desonrar nenhum autor filosófico comparando-o com os Domingos ou Loyolas, [dominicanos e jesuítas] ou algum padre ou monge canonizado. [No lugar disso,] comparemos Diógenes a Pascal” “O filósofo antigo se sustentava por sua magnanimidade, exibição, orgulho, e pela idéia de sua própria superioridade perante seus conterrâneos. O filósofo moderno professava constantemente humildade e aviltamento, desprezo e ódio de si mesmo, e esforçava-se por alcançar essas supostas virtudes, tanto quanto fosse possível alcançá-las. As austeridades do grego visavam habituá-lo aos desconfortos e impedir que jamais viesse a sofrer. As do francês eram adotadas meramente por elas próprias, com o fito de fazê-lo sofrer o máximo possível. O filósofo entregava-se aos prazeres mais bestiais, mesmo em público; [quanto escândalo, ui, ui!] o santo recusava a si próprio os mais inocentes deles, mesmo em privado. O primeiro julgava seu dever amar seus amigos, ralhar com eles, censurá-los, descompô-los. O último esforçava-se por tornar-se absolutamente indiferente às pessoas que lhe eram mais próximas, e amar e falar bem de seus inimigos. O grande alvo dos sarcasmos de Diógenes era a superstição de qualquer tipo (…) A mortalidade da alma era seu princípio-padrão (…) As mais ridículas superstições dirigiam a fé e os atos de Pascal, e um extremo desprezo desta vida em comparação com uma vida futura era o principal fundamento de sua conduta.”
“Onde está, então, o padrão universal da moral de que falais?”
Dos dois diálogos hipostasiados por David Hume apreendi que: para vencer uma discussão tens de ser o último a falar!

