AS LEIS – Livro VII

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

 

“Nunca observaste como em todo animal o primeiro desenvolvimento é sempre o maior e mais enérgico, a ponto de muitos defenderem que o corpo humano não adquire nos 20 anos seguintes o dobro da altura que possui aos 5 anos?”

“Não me estranha, querido Clínias, que não tenhas idéia alguma do tipo de ginástica que convém aos embriões. Mas, por bizarra que essa idéia te pareça, vou explorá-la na seqüência.”

“Em Atenas, jovens e velhos indistintamente educam os filhotes de pássaro a brigar entre si. O engraçado é que não crêem que baste a prática destes duelos para fortalecê-los; pois vivem a andar para cá e para lá carregando-os (os pequenos, nas mãos; os grandes, debaixo dos braços), vários e vários quilômetros. Com a fadiga de suas pernas, estes homens pretendem dar força aos pássaros contendores, não a eles próprios. Essa pequena faceta leva quem reflete a conceber que o movimento e a agitação, não importa em que circunstância, e contanto que não levem à exaustão, são úteis a quaisquer tipos de corpos. É aí indiferente se os pássaros deste caso caminham sozinhos, ou são conduzidos por carruagens, navios, cavalos ou, enfim, da maneira que quiseres imaginar; exercício que, pois que ajuda na respiração do animal, e na digestão dos alimentos, faz com que os corpos adquiram saúde, beleza e vigor.”

“As grávidas dão passeios amiúde, no intuito de formar seu feto, como se ele fosse um amontoado de cera dentro da barriga que tem de ser moldado pela atividade da mãe; assim se concebe o bebê, ou o estágio ainda anterior ao bebê: como algo brando e flexível, ainda informado; embalá-lo-ão em mantas até que o neném tenha 2 anos de idade. Acaso multaremos as amas e babás que não levarem o objeto de seus cuidados no colo, seja em passeios pelos campos ou aos templos, ou à casa dos pais, até que sejam fortes o bastante para que se sustentem de pé por conta própria? Até as crianças chegarem aos 3 anos, terão de ser paparicadas ao extremo, resguardadas de sofrer qualquer torção ou contusão? E será que fará diferença ter uma babá magricela e frágil ou uma mulher bojuda cuidando da criança?” “Certas evidências permitem-nos conjeturar que as babás sabem por experiência quão bom é o movimento para os menininhos e menininhas que estão sob sua responsabilidade; da mesma forma que as mulheres que sabem curar o mal dos coribantes.¹”

¹ Sacerdotes de Réia, metalúrgicos da Idade Antiga. O sentido contextual é impreciso.

“Outra certeza é a de que o humor doce e o humor amargo têm participação decisiva na boa ou na má disposição das almas. É indispensável explicar os meios de influir no humor das crianças, o que deve ser tentado sem receio.”

“As babás mostram à criança vários objetos, a fim de adivinhar o que querem realmente. Quando se põe sossegado ou se cala de repente à vista de algum, inferem que deram com a causa certa; mas se a criança continua a espernear e gritar, pensam que estão longe de atinar com a solução do problema.”

“Isto não é assunto leviano. Megilo, escuta e sê, pois, árbitro entre mim e Clínias. Minha opinião é que para se viver bem não é preciso correr atrás do prazer, nem tomar os maiores cuidados a fim de evitar a dor a qualquer custo, senão ater-se a um dado meio-termo, que denomino estado pacífico.”

“nesta idade o caráter se forma principalmente sob o influxo do hábito.”

“vimos este tempo todo falando das leis não-escritas, que também são chamadas de leis dos nossos antepassados.”

“As crianças precisam brincar entre os 3 e os 6 anos (…) Como dissemos há pouco¹ que não se deve mesclar insulto e correção no caso do escravo, não lhes dando pretextos vãos para a revolta e retaliação nem para o desenvolvimento da insolência, também não se deve confundir ambas as coisas na educação das crianças livres.”

¹ Leis VI

“As crianças de 3 a 6 anos serão reunidas nos templos consagrados aos deuses. Suas babás os acompanharão, para vigiar a ordem e refrear sua vivacidade excessivamente impetuosa. Mas mesmo essas reuniões e estas babás terão uma supervisão, sendo sua inspetora em cada templo uma das 12 mulheres oficialmente autorizadas pelos guardiães da cidade, as <babás das babás>.”

“Passadas dos 6 anos, as crianças começarão a conviver somente com seus iguais (meninos, meninas). Cada grupo se adequará a uma rotina com prescrição dos exercícios mais próprios a cada idade e a cada gênero. Os varões aprenderão a montar a cavalo, atirar com o arco-e-flecha, usar a azagaia e a funda. As moças não estão proibidas, caso apresentem esta inclinação natural; no mínimo, entretanto, deverão entender do assunto em sua parte teórica.”

“Acredita-se, no que tange ao uso das mãos, e conseqüentemente às ações que delas dependem, que a natureza estabelecera uma diferença entre a mão esquerda e a mão direita; porque, com respeito aos pés e demais membros inferiores, não parece haver qualquer distinção entre direita e esquerda para os exercícios. Mas, quanto às mãos, somos como que mancos, por causa das babás e mamães, sempre de um dos lados. (…) Temos a prova de que o problema está na educação infantil, ao vermos os citas em batalha: tanto a mão canhota quanto a destra servem para apoiar o arco; e podem mirar as flechas com precisão seja com a direita ou com a esquerda, de modo que são atiradores ambidestros.”

“A ginástica tem duas partes, o baile e a luta. Há também duas classes de baile, uma que nos apresenta as palavras da Musa e que conserva sempre certo caráter de dignidade e de grandeza;¹ outra se destina a dotar o corpo e cada um de seus membros de saúde, agilidade e beleza, ensinando-os a relaxar e contrair na justa proporção em movimentos cadenciados, compassados e coordenados.² Com respeito à luta, não carecemos cá de mencionar todas as invenções dos mestres Anteu e Cercião, umas mais e outras menos convenientes, nem tudo que Epeu e Amico³ imaginaram a fim de aperfeiçoar o pugilato, pois essas minúcias não auxiliam na guerra.”

¹ O canto

² A dança

³ Todos esses nomes próprios se referem a figuras mitológicas.

“Os jogos ajudam no estabelecimento e na consolidação das leis. Quando os jogos se constituem em regras fixas, quando todas as crianças, em todo lugar e ocasião, jogam conforme os mesmos parâmetros, respeitando os mesmos objetos e da mesma maneira, não se deve temer que haja inovações nas leis sérias que são os pilares da sociedade.” Platão & A Re-deificação da Polis / Platão & A Destruição da História

“Será preciso desempenhar os maiores esforços para que os mais jovens não se apaixonem por novos gêneros de imitação, na dança, na melodia, etc., e que ninguém os atice ou os alicie em nenhum tipo de prazer inédito.”

DÉJÀ VU – Começa a repetir o dito em outras partes d’As Leis: “Vemos que os antigos davam o nome de leis aos ares que se tocam no alaúde.”

(*) “Os antigos eram meticulosos para que durante os sacrifícios não se pronunciasse qualquer palavra contrária ao espírito da cerimônia; quando isto acontecia, dava-se-lhes o nome de blasfêmias, maldições, etc. Quanto às palavras auspiciosas e favoráveis, eram bendições.”

“a raça dos poetas não é capaz de distinguir o bom do mau.”

“O poeta não poderá separar-se em seus versos do que é legítimo, justo, belo e honesto no Estado. E ser-lhe-á proibido  ensinar seu dom em particular antes de que os guardiães e os censores hajam visto e aprovado, conforme as leis, todos os conhecimentos a ser por ele transmitidos.”

“A parte elevada da música, própria para estimular o caráter, será reservada aos homens; a parte modesta e comedida, por lei, cabe destinar às mulheres.”

“Os negócios humanos são superestimados; e no entanto são necessários; nada há de mais penoso que essa tarefa, cá entre nós.”

“MEGILO – Estrangeiro, falas com demasiado desprezo da natureza humana.

ATENIENSE – Não o estranhes, Megilo, e permite-me o uso dessa linguagem, que nada mais é que o efeito da impressão produzida em mim pela contemplação dos atributos de Deus, comparados aos nossos. Queres que o homem não seja coisa desprezível e merecedora de consideração? Convenho na idéia, mas por favor prossigamos!

(…)

Os pais não deviam ter a liberdade de enviar os filhos a estes mestres sofistas nem abandonar sua educação; é premente que todos, futuros homens e mulheres, submetam-se à educação oficial da polis, pela simples razão de que pertencem a ela mais que seus próprios pais (que não cresceram na nova polis) (…) sei que agora mesmo, nas imediações do Ponto, há um número prodigioso de mulheres, chamadas Sauromatas,¹ que, conforme a lei local, se exercitam na mesma intensidade que os homens, e montam a cavalo, atiram com arco-e-flecha e manejam todo tipo de arma.”

¹ Ou sármatas. Seriam um povo bárbaro e haveria qualquer relação entre a condição desta sociedade de “democracia de gênero” com o mito das Amazonas (sociedade de mulheres guerreiras).

“Todo cidadão deve ter vergonha de, sendo homem livre que é, passar a noite inteira dormindo, sem que seja, ao mesmo tempo, aquele que primeiro aparece desperto, antes de todos os servos da sua casa.” “Sono em excesso não é saudável nem ao corpo nem à alma.”

“ATENIENSE – (…) As crianças devem se dedicar às letras dos 10 aos 13 anos; à lira e teoria musical após esta etapa; aos 16 deverá ter por concluídos estes estudos – não importa se a criança ou o pai da criança abominam ou exaltam sobremaneira esta arte, os indivíduos em formação não poderão estudá-la nem mais nem menos do que 3 anos, muito menos deixar por completo de estudá-la. Todo aquele que não seguir este cronograma será como que proscrito oficialmente da infância, condição de que falaremos adiante. (…) As crianças devem estudar as letras o tempo necessário a fim de aprenderem a ler e escrever. Para aqueles que após 3 anos não tenham atingido o nível adequado, não devemos nos afligir por isso. Quanto às obras poéticas, que não foram feitas para ser cantadas com o acompanhamento da lira, havendo poemas com metro e outros sem, e havendo prosa destituída de número e harmonia, escritos funestos que nos legaram uma vastidão de escritores mui suspeitos–, ó ilustres guardiães das leis! Para que servem estes tipos? Que credes vós que deve o bom legislador fazer com respeito a eles? (…)

CLÍNIAS – Estrangeiro, como podes fazer tantas perguntas retóricas, que parecem auto-endereçadas, tão perplexas?

ATENIENSE – Ainda bem que me interrompeste, caro Clínias! É preciso que formemos em conjunto este plano de legislação. E é justo que eu compartilhe convosco as vantagens e desvantagens que diviso.

CLÍNIAS – Mas repito: que é que te obriga a falar desta maneira e com esta entonação?

ATENIENSE – Já que insistes!… Mas não é fácil seguir adiante contra a opinião de uma infinidade de pessoas!”

“um grande número de poetas compôs em versos hexâmetros; outro, em jambos; outro grupo, ainda, elegeu temas sérios; outros escritores, temas festivos; um número infinito de pessoas, que se supõem exímios educadores, sustentam que é saudável dar todo tipo de poema e indicam todo gênero literário aos mais jovens, até a saciedade. Dizem que com isso estendem e multiplicam seus conhecimentos, até preencherem toda sua memória; outros, recortam certas passagens deste ou daquele autor, compilando-as num só volume monstruoso, obrigando os estudantes a decorar os mais díspares versos; têm o disparate de afirmar que este é o método mais seguro a fim de que atinjam a prudência, a virtude, a sabedoria e a destreza!”

“As danças báquicas e semelhantes, que tomam seu nome emprestado das ninfas, dos pãs, dos silenos, dos sátiros, nas quais imitam-se bêbados, e que são correntes em um sem-número de cerimônias religiosas, não possuem em si caráter pacífico ou guerreiro; defini-las é a coisa mais difícil. Mas me parece que pode-se segregá-las e considerá-las como um gênero novo, o de danças apolíticas.”

“o covarde, não-exercitado no auto-domínio, entrega-se facilmente a arrebatamentos e a movimentos súbitos e violentos.”

“a imitação das palavras mediante gestos é a razão de ser da dança. O que não explica por que o movimento de alguns é regular e o de outros irregular.”

“Quanto às palavras, cantos e danças cujo objetivo é imitar os corpos e os espíritos contrafeitos e afetados, onde se percebe sem esforço o caráter do bufão e do ridículo, enfim, quanto às imitações cômicas em geral, é forçoso estudar sua natureza e ter a respeito delas uma idéia exata (…) é necessário não mesclar, em nossa conduta, o sério com o ridículo; sendo que este último merece ser estudado justamente a fim de ser evitado. Seria imprudente e indecoroso. Para tais imitações o melhor é empregar escravos e estrangeiros, pois que não convém a homem ou mulher de condição livre este tipo de degradação, ainda que artística.”

“Quanto aos poetas sérios, quero dizer, os trágicos, se alguns deles se apresentassem diante de nós e nos perguntassem: <Estrangeiros, podemos ou não ir a vossa cidade representar nossas peças?>, que é que decidistes a respeito? Pelo que me diz respeito, vede vós a resposta que eu daria a estes divinos personagens: <Estrangeiros, nós mesmos estamos ocupados em compor a mais bela das tragédias; nosso plano de governo não é mais que uma imitação do mais belo e excelente que existe, e contemplamos de bom grado esta imitação como uma verdadeira tragédia.>

“A ignorância absoluta não é o maior dos males nem o mais temível; uma vasta extensão de conhecimentos mal-digeridos é coisa muito pior.”

AS LEIS – Livro VI

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

Os magistrados, depois de recolherem os nomes dos 300 com maior número de votos, exibi-los-ão em praça pública, e os eleitores deverão proceder livremente a outra eleição dentre estes 300.¹ Pela segunda vez os eleitos serão divulgados – desta vez, 100 nomes. Proceder-se-á a uma terceira eleição, e assim sucessivamente, até chegar à última subdivisão; e então os 37 candidatos com mais votos ao final serão declarados os magistrados da cidade.”

¹ Aproximadamente 0,05% dos cidadãos.

segundo o provérbio, o começo já é a metade da obra [Hesíodo].”

toda colônia em seu nascimento é como um bebê, incapaz de prover às próprias necessidades; ele depende daqueles que lhe deram a bênção da existência, e estes por esta mesma razão cumulam-no de carinhos, por mais que no dia de amanhã possa haver desavenças entre ele e a família.”

o que está bem-dito não é importuno se dizer duas vezes”

Quanto aos 37, eis suas funções: 1) guardarão as leis; 2) armazenarão os documentos onde estará discriminada a riqueza de cada cidadão, sendo vedado a qualquer um acumular mais de 4 minas ou 400 dracmas (na primeira classe), 3 minas (na 2ª), 2 (na 3ª) e 1 (4ª) (…)”

O cargo de guardiães das leis não excederá 20 anos, e não poderá ser assumido por alguém com menos de 50. E, seguindo esta regra, aquele que for eleito aos 60 poderá exercer a magistratura por no máximo 10 anos. Aos 70 anos dar-se-á irrevogavelmente a aposentadoria.”

O Senado terá 30 dúzias de membros (360 senadores); este número, não à toa, é mui cômodo para as divisões. A primeira que faremos é tomar o Senado por 4 partes iguais, cada uma constituída de 90 senadores. Estes serão os representantes inter-classes censitárias. No primeiro dia após a eleição dos magistrados, todos os cidadãos estarão obrigados a tomar parte na eleição dos senadores da primeira classe; pagará multa (fixada pela lei) todo aquele que falte com seu dever, de qualquer uma das 4 classes. (…) aqueles justamente da terceira e quarta classes que não comparecerem à votação dos senadores no terceiro e quarto dia das votações, destinados a eleger os representantes das 3ª e 4ª classes, não serão penalizados sob qualquer forma. Nem haverá qualquer tipo de sanção se nenhum candidato para estas vagas das terceira e quarta classes for apontado dentro de suas respectivas classes. Mas que fique bem claro que se os cidadãos das duas primeiras classes se ausentarem nos dias das eleições destes senadores das classes que lhes são inferiores pagarão uma multa mais pesada: o triplo da multa-padrão, no caso dos eleitores da 2ª classe, e o quádruplo, para os da 1ª. No quinto dia os magistrados abrirão as urnas para a contagem, em público. Todos, sem exceção, estão obrigados a refazer a eleição dentre os que tenham sido votados pelo menos 1 vez, num segundo turno. A pena é novamente a multa, a mesma que sofre o eleitor da 1ª classe que falta ao 1º dia de votação.”

As eleições, como acabo de descrevê-las, seriam um ponto médio entre as eleições monárquicas e as democráticas, hibridismo que considero essencial a todo bom governo (…) Não há igualdade entre coisas desiguais, a não ser considerando as devidas proporções: o que provoca sedições nos Estados são os extremos da igualdade e da desigualdade.

Parece-me que o conhecimento exato do país é uma ciência, a mais importante das ciências. Eis por que os jovens devem se dedicar à caça, com cães ou como mais for estabelecido, costume que deverá unir prazer e utilidade.”

Um juiz que nada acrescenta ao discurso dos advogados nos litígios não merece o cargo que ocupa”

ATENIENSE – Espero que saibas que o trabalho dos pintores, nas imagens que representam, em tese não tem fim, e na verdade vês que nada criam, apenas saturam ou desbotam as cores a fim de variar uma imagem já existente. Não espero que os pintores utilizem o mesmo vocabulário que o meu para sua arte. Mas quero apenas que te atenhas ao significado de minhas palavras: um quadro jamais é tão perfeito que não se possa acrescentar alguma coisa, de modo a torná-lo ainda mais belo e expressivo.

CLÍNIAS – Digamos que sei-o de ouvir dizer. Não sou conhecedor dos princípios da pintura.

ATENIENSE – E não perdeste nada.”

Agora diz-me: a empresa do legislador não parece a do pintor? O legislador propõe-se desde o começo a formar o corpo de leis mais perfeito possível; mas, com o tempo, quando a experiência já o tiver ensinado a julgar a própria obra, crês que haja um só legislador desprovido de senso a ponto de desconhecer que deixou detrás de si, e é impossível que não tenha deixado, vários traços de imperfeição, sendo seu ofício voltar atrás e dar algumas pinceladas em algumas de suas leis mais antigas, corrigindo-as? Ou, quando muito, pensa num mural público: um legislador corrige e melhora as leis de outros legisladores, como um pintor de uma obra que ele não começou também pode fazer a mesma coisa. Ora, se queremos um Estado que não decaia e degenere, não é preciso que assim sejam as coisas?”

fala-se muito dos escravos e da faca de dois gumes que é possuí-los: são úteis e perigosos.”

É evidente que o homem, animal de difícil manejo, não consente senão muito a contragosto que se estabeleça, na sociedade dos homens, esta distinção entre homem livre e escravo, senhor e servidor, dono e propriedade, que a necessidade introduziu, não é mesmo? (…) as revoltas freqüentes ocorridas entre os messênios, os males a que estão sujeitos os Estados onde há muitos escravos falando a mesma língua, e até o que se passa na Itália, em que escravos vagabundos exercem toda classe de bandoleirismo, são todos uma prova evidente disso.” “A maneira de se portar com aqueles que se pode impunemente maltratar é o que deixa ver se se ama com sinceridade a justiça e se se odeia de verdade tudo o que tem o selo da injustiça.”

Quando um escravo cometeu um mal, é preciso castigá-lo e não limitar-se a meras repreensões, como se faria se se tratasse de uma pessoa livre, porque isto fá-lo-ia mais insolente.”

Este sexo, que é de um caráter muito diferente do nosso, pela própria debilidade congênita, se vê mais inclinado que nós homens a se ocultar e caminhar por vias tortas. O legislador, vendo que era mais difícil o governá-las, errou, ao abandoná-las à própria sorte.”

Como se evitaria o ridículo caso se tentasse sujeitar as mulheres a comer e beber em público?”

É preciso que cada um compreenda que o gênero humano nunca começou nem nunca há de terminar, mas que sempre existiu e existirá sempre, ou pelo menos que sua origem se perde em tempos tão remotos que é quase impossível determinar essa época.”

O costume de sacrificar homens se conservou até nossos dias em muitos países. Em outros, por outro lado, não se atreveriam sequer a tocar a carne do boi. Neles, não se imolavam animais sobre os altares dos deuses; contentavam-se em oferecer-lhes frutas, mel e outros dons que não exigiam a derramada de sangue. Se abstinham do consumo de carne, crendo não ser lícito comê-la, muito menos manchar com sangue os altares dos deuses. Os costumes daqueles tempos é o que nos recomendam os mistérios de Orfeu, que prescreve alimentar-se daquilo que é inanimado e abster-se de tudo que é dotado de vida.”

INTRODUÇÃO À PSICOPATOLOGIA PSICANALÍTICA (E AUTOCONTESTAÇÃO DA TEORIA FREUDIANA NÃO-APERFEIÇOADA POR LACAN & OUTROS)

Juan Carlos Kusnetzoff, 4.ed., 1982.

LEGENDA:

Azul comentários de índole mais ou menos pessoal ou poéticos;

Verde groselhas freudianas (do próprio Freud ou de maus seguidores e intérpretes);

Vermelho destaques para o conhecimento da doutrina e ênfase para futuras leituras

INTRODUÇÃO

Desde o aparecimento do Vocabulário da Psicanálise de Laplanche e Pontalis [em breve no Seclusão], sua leitura, consulta e releitura tem-se tornado indispensável para o estudioso da psicanálise. Esse livro deve ser o acompanhante natural do estudo dos temas psicanalíticos.”

1. ASPECTOS GENÉTICOS / O CONCEITO DE CAUSALIDADE PSICOPATOLÓGICA / AS SÉRIES COMPLEMENTARES DE FREUD

monocausalidade unidirecional”, “causalidade mecânica”

para Freud não fazia qualquer diferença se o fato passado apontado como a causa do atual tivesse realmente existido ou não.”

Se nós supusermos que o encadeamento histórico dos fatos tem um começo absoluto, automaticamente se infere que houve a participação de uma CAUSA PRIMEIRA. A suposição de uma Causa Primeira é, na prática, uma suposição teológica (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, vol. I, cap. 45, art. 2, Réplica ao Objeto 7). Facilmente se compreende que só uma deidade pode ser tão eficaz para resumir nela mesma todas as Causas Primeiras das coisas, deixando em 2o plano as assim chamadas Causas Secundárias ou Naturais.”

REI FENO . . . MENO: “o postulado do assim chamado regressus ad infinitum eleva este infinito à categoria de divindade. Assim, se a intenção é tentar explicar o desconhecido atual mediante o conhecido histórico, a regressão ao infinito faz exatamente o contrário” Síndrome de Peter Parker ou Marco Aurélio ou Guy Debord (meu G.D. – falso)

toda vez que as funções simplificadas podem ser ocupadas por personagens de um grupo familiar, podemos explicar a manutenção auto-regulada de uma doença mental.” “resistência” “mecanismo de controle”

quando um doente melhora, pois, o resto do grupo familiar tende a apresentar distúrbios de conduta que anteriormente não possuía.” EFEITO POLTERGEIST NOS ARAÚJO AGUIAR: neurótico obsessivo retentor avaro (anal) → neurótico-demente regressivo dependente químico (oral) → neurótico ansioso superdotado (fase do falo castrado) (ELEMENTO-CHAVE: aquisição do metaconhecimento do mecanismo de feedback intrafamiliar) → cura através da evasão → neurótica somática, repressão da angústia e desequilíbrio pulsional em sintomas físicos que eclodem-não-eclodem (anal) → repetição do ciclo com os 2 membros restantes (intensificação-perpetuação ad inf…)

Álcool, erva, trabalho & o demônio do ódio

Possibilidades de amor fraturadas

Concentração do sentimento de culpa no elemento-chave (luta pessoal)

A arte como único contra-ataque aos papéis falidos de filho, mãe e paisagem

Incompreensão absoluta & não-redenção (ainda que encontrado o modo, aquele que se deseja salvar está referencialmente morto)

Prognósticos de herança maldita & fantasmas

2. ETAPAS DA EVOLUÇÃO PSICOSSEXUAL / CARACTERÍSTICAS DA SEXUALIDADE INFANTIL

excesso de energia não-satisfeita” “fase perverso-polimorfa” “diferenciação”

Esse conceito ampliado da boca como modelo proporciona, então, base e fundamento para pensar nas doenças ou transtornos asmáticos como problemas relacionáveis a esse período de desenvolvimento. Pensar nestes termos implicará também imaginar que quando o bebê se sente no colo da mãe, ele vivencia sensação de ser <contido>, <tomado>, <chupado>, <tocado> por uma imensa boca. Nesse período do desenvolvimento, o bebê, em seu íntimo, não pode diferenciar o que é uma mão, uma perna ou uma boca propriamente dita.”

Falar e ser falado será para ele, em certo nível e em certa época, como tocar e ser tocado.” “confusão aparentemente sem-sentido de determinados sintomas delirantes, ou o pensamento sensorializado da esquizofrenia”

o seio será o substituto do cordão umbilical.”

neste primitivíssimo período do desenvolvimento, não há dúvida de que existem os assim chamados afetos, mas titulá-los de Amor e Ódio, como o faz, p.ex., Melanie Klein, seria adultificar e, portanto, deformar um processo”

aparecimento dos dentes (…) A incorporação dos objetos agora é predominantemente sádica, destrutiva” “Será importante voltar a este estágio e suas conseqüentes fantasias, quando falarmos de depressão e melancolia.”

chamaremos mãe a todo ser humano que alimente o neném e lhe proporcione calor, sustentação espacial, contato dérmico, estímulos auditivos, etc. Essas funções podem ser realizadas por qualquer pessoa, independente de sexo, idade ou vínculo de parentesco com a criança.”

O neném carece do sentido de vinculação entre uma representação sensorial e outra. Para ele, a visão, a audição, as multivariadas e caleidoscópicas sensações provenientes de infinitas fontes são fragmentos de uma realidade e por isso são denominadas parciais, e não-unificadas.”

ou o mundo é tenso e sem prazer, ou o mundo é relaxado e prazeroso.”

Simplificando, o homem é o único ser da natureza que nasce desarvorado, sem poder sustentar-se nem sequer engatinhar ou tatear em busca de alimento, como o faz um filhote de cachorro. Isto quer dizer que se não houver uma ajuda externa para socorrê-lo, alimentá-lo, abrigando-o, sustentando-o, contendo-o, este recém-nascido morrerá inexoravelmente.” “a criança pagará o elevado preço da dependência, já que incorpora não só o leite mas a linguagem” “IN-dependência significa literalmente incorporação, interiorização de uma dependência.”

em vez da codificação tenso x relaxado, teremos confiança ou conhecidos x estranhos ou duvidosos. Estes últimos é que são sentidos como perigosos e serão o embasamento daquilo a que nós chamaremos Ódio”

corte oral definitivo”

No nosso entender, este estágio se denomina anal porque o ato da defecação ocupa um lugar importantíssimo no desenvolvimento psicossexual da criança; porém não se resume apenas ao controle esfincteriano. Esse serve de modelo para o controle motor em geral, sensações de domínio, prazer na expulsão ou na retenção, etc.”

É preciso lembrar que uma das primeiras descobertas da psicanálise foi justamente o controle e a manipulação que os neuróticos obsessivos fazem com os objetos reais e até com os pensamentos, tratando-os como se fossem <bolos fecais>, que se retêm, que se expulsam, e com os quais se obtém prazer.” Genealogia do cuzão mão-de-vaca: hipercontrole da microexistência.

O AMIGO IMAGINÁRIO DE JESUS: “Assim, o ruminar obsessivo de um pensador qualquer tem sua origem e modelo na capacidade de controlar a musculatura esfincteriana.”

A importância que adquire o bolo fecal como campo de disputa e de controle entre os desejos do meio ambiente (mãe, pai, etc.) torna-o apto para se constituir em herdeiro

totalmente equiparável entre o relacionamento existente entre o peito e boca.”

o bolo fecal contribui para modelar a importante noção do que é interno e do que é externo ao sujeito. Compreender-se-á agora que o medo de ser deglutido na fase oral é substituído na fase anal pelo medo de ser despojado do conteúdo corporal. Essa fantasia adquire vários matizes: ser arrancado, ser violentado, e sobretudo ser esvaziado.

valor de troca (…) Eis aqui o substrato psicossexual das equivalências descritas por Freud entre as fezes – presentes que se oferecem ou se recusam – e o dinheiro”

Um indivíduo adulto será avarento, <pão-duro> ou generoso, <mão-aberta> quanto ao uso particular de seu dinheiro, conforme tenha sido uma criança retentiva ou tenha mais docilmente atravessado o complexo aprendizado de seu controle esfincteriano. Desse modo, o valor adquire historicidade concreta. Não é o valor segundo Platão, para quem as coisas tinham valor por si mesmas.¹ O valor, para Freud, é valor enquanto desejabilidade. Ou seja, enquanto existam desejos de um indivíduos dirigidos para uma determinada coisa, essa coisa estará encaixada na história desse objeto. A história do valor será a história do desejo. Freud se insere desta maneira dentro da problemática filosófica de Spinoza, Hegel, Nietzsche e Marx, os quais desenvolveram uma crítica dos valores insistindo em torno de sua subjetividade.

¹ Duvidoso

MITO DA RESPONSABILIDADE”: Controlado, mas cheio de merda no estômago e na cabeça.

A criança terá duas alternativas, a esta altura de sua evolução psicossexual:

1. Pode utilizar-se de suas fezes como um presente, para satisfazer os desejos dos outros, agradá-los, conquistar e manter seu carinho, ou simplesmente como uma demonstração de afeto, ou

2. Numa outra alternativa, que é reter as fezes durante certo tempo, o que será, na maioria dos casos, entendido como hostilidade dirigida a seus pais que estão preocupados com a produção das fezes e seu respectivo auto-heterocontrole.”

o progressivo domínio do controle esfincteriano permite à criança ter acesso à noção de propriedade privada (visto que, suas fezes, ele pode <oferecê-las> ou retê-las).”

A bissexualidade humana encontra na fase anal sua expressão mais prototípica, já que o reto, sendo um órgão de excreção oco, permite a estruturação de:

1. masculinidade (…) Não é possível entender o sentido dessa afirmação se não se compreende a historicidade desta propriedade da mucosa anal. Com efeito, ela é herdeira da mucosa oral, que forma as paredes desse primeiro oco, onde o sujeito aprendeu a <tatear> o mundo exterior. (…)

2. sensações de ordem passiva (…) Daqui derivariam as tendências femininas. (…) na hierarquia que adquirem os corpos estranhos a este oco vem em primeiro lugar o dedo, durante o ato da masturbação, que serve de exploração, descobrimento e reconhecimento das propriedades desta zona erógena. A masturbação se constitui num prelúdio importantíssimo da sexualidade definitiva.” Má notícia para os que escolheram esperar!

De modo geral, são atribuídas à urina as mesmas características das fezes, ou seja, o prazer de urinar junto com o prazer da sua retenção.”

Fenichel afirma, e alguns dados clínicos o corroboram, que o prazer passivo proporcionado pela micção está deslocado nas mulheres para o correr das lágrimas quando estas fazem parte de quadros onde o pranto ocupa um lugar destacado.”

orgulho orvalho molhado

óvulo ovário

furo vários

masturbação primária” “masturbação secundária”

Esta historicidade da excitação ou da procura ativa da excitação de uma parte do corpo, e que afunda suas raízes desde o primeiro contato de um ser humano com outro ser humano, tem sua origem na estreita ligação de <peles> e <músculos> entre o bebê e sua Mãe.”

Acariciar bebês e pets como substitutivo/ressurgimento pulsional?

Numa verdadeira repetição de fatos similares, acontecidos em sua própria infância, é que os adultos repetem – punindo, proibindo – ativamente o que sofreram passivamente.”

A amnésia infantil (…) em particular dos fatos anteriores à idade de 6/7 anos, refere-se, direta ou indiretamente, às fantasias masturbatórias.”

a diferença não é percebida e sim negada (…) tanto meninos quanto meninas acreditam <ver> o pênis mesmo onde ele não existe.” Não há o “nada”.

Toda <descoberta> começa por ser um re-conhecimento, ou seja, projetar-se-á o que já é velho conhecido sobre o que é novo (e, portanto, angustiante).” Platão diria que já nascemos com a idéia de “pênis ideal”.

Esse período do desenvolvimento, no que se refere à significação que adquire a descoberta da desigualdade da constituição humana, ficará gravado no psiquismo do sujeito como um fato muitíssimo importante”

Uma atenta observação poderá demonstrar que todas as perguntas se referirão, direta ou indiretamente, à origem das diferenças”

ele tomará conhecimento do sentido da união sexual de seus pais e ficará curioso para saber e conhecer o lugar de sua <ex-residência>” We’re all orphaned aliens. Beware the Portal!

FRUSTRATION: ORIGINS: “Desde o momento em que a criança descobre o sentido e a funcionalidade da diferença sexual anatômica, ela passa a desejar também ter filhos.”

cena primária ou primitiva” Cena do Édipo e niilismo atômico (avatar n. 1)

TEORIAS INFANTIS SOBRE A FECUNDAÇÃO

(…)

Teorias da Fecundação Oral: crenças de que, por ingestão de um alimento fantástico, ou por contato com outra boca (beijo), se produziria a gravidez humana;

Teorias da Fecundação Ano-Uretral: crenças de que os atos de urinar ou de defecar em contato com outra pessoa, ou mesmo simultaneamente, seriam os responsáveis pela gravidez.

Teorias Visuais da Fecundação: crenças de que a exibição simultânea ou sucessiva dos órgãos genitais resultariam em gravidez.”

Há uma certa confusão entre o que se denomina pênis e o que se denomina falo, já que Freud, em alguns de seus artigos, os empregava indistintamente. Com uma visão teórica mais moderna, pode-se distinguir o falo como um símbolo.” “uma fantasia que condensa a posse de uma unidade e de uma potência do ser.” Freud sem Lacan, sou eu assim sem você…

tanto meninos quanto meninas compartilham a fantasia de que só um sexo existe.” “o menino reagirá à maneira de um fóbico e a menina à maneira de um melancólico ao complexo de castração.”

Esse desejo de se ver prolongado, duplicado e transcendido num filho, fantasia comum a ambos os sexos, levará consigo a <garantia> de se preservar contra a morte.”

Deveremos ressaltar que essa fantasia de mutilação peniana não é exatamente igual ao que se conhece popularmente como castração, já que esta última consiste na extração, por meios violentos, não do pênis, e sim das gônadas.”

a angústia de castração é um fato normal, efeito do amadurecimento psicológico do indivíduo.”

Este narcisismo extremo servirá como couraça protetora frente aos danos fantasiados que seu pênis poderia vir a sofrer.”

renegação ou Verwerfung: aceita-se que em torno desse mecanismo se originam as perversões e as psicoses.”

Toda fantasia de mutilação é atribuída pelo menino a uma punição infligida pelos pais para castigar desejos de prazeres similares aos que ele mesmo sente como proibidos.” “Para ele, só aquelas mulheres que tiveram a fantasia de obter prazer pela masturbação são as que sofreram esse <castigo>.” “fantasia de uma mãe com pênis, conhecida com o nome de <mãe fálica>.”

na menina, essa constatação e a grande frustração que sobrevém logo após acontecem antes do Complexo de Édipo. Mais precisamente, a castração é justamente a comprovação que permite entrar no Édipo. Ou seja, a evidência da castração lhe permite agora voltar-se para o pai como objeto de amor, passando a ser a vagina a sede corporal de seu investimento libidinoso, enquanto que para o menino a castração, ou melhor, o temor da castração, funciona sempre como limite restritivo aos desejos incestuosos desta fase, contribuindo, portanto, para fechar [antes de abrir?], para pôr um fim ao Complexo”

na menina, a Inveja do Pênis é equivalente ao conceito de renegação da diferença por parte do menino. (…) O agente dessa perda imaginária será a mãe. (…) a menina, para entrar no Complexo de Édipo direto, deverá atacar e denegrir sua mãe” “o acesso à genitalidade adulta tem muito de reacional e defensivo, posto que <cai nos braços do pai para fugir à ameaça materna>.”

desde que todo ser humano deve sua origem a dois seres chamados Pai e Mãe, não haverá nada passível de escapar a esta triangulação que constitui o âmago essencial do conflito humano.” Não? A propósito, gostaria muito de ter acesso a uma literatura contemporânea sobre como se desenvolve o Complexo de Édipo em filhos de casais gays de ambos os sexos… Casais de 1, de 2, de 3…

Toda esta conflitiva problemática edipiana eclode entre os 3 e os 5 anos de idade.”

Na clínica, o mais freqüente é que se apresentem casos de mistura dos Complexos de Édipo positivos e negativos. É o que se denomina forma completa ou total do Complexo de Édipo.”

Não há nada fora do C. de E.. Durante a vida inteira a pessoa continua vivendo essa peça teatral, assumindo diferentes papéis de um argumento que reflete sua história passada” “o Édipo é simplesmente uma história, a história de nosso primeiro amor, nosso amor infantil, ou então é o intemporal que faz da própria vida uma história que se repete, a ponto de que esta vida corre o risco de nunca nascer? (Safouan, A sexualidade feminina na doutrina freudiana, 1977, p. 67)

Acredita-se habitualmente que o Complexo de Édipo é algo que se supera e a que não se volta mais.”

Há uma antropologia psicanalítica que, aproveitando-se das estruturas teóricas freudianas, procura semelhanças em diferentes culturas. (…) É dentro desse contexto simbólico que se transmite uma lei fundamental nas relações sociais: a proibição do incesto.”

SHANGRI-LA SEARCH: “Incesto será, para esse autor, o gozo sexual com a mãe, tanto para o menino quanto para a menina. É preciso entender que não se trata do prazer genital-sexual entendido como figura penal da legislação corrente. Este ato, observado assim, clinicamente, será um sintoma grave da ordem das psicopatias ou psicoses. É o incesto que se realiza concretamente, na idade adulta.”

LEU DELEUZE? “Alguns destes pacientes vivem, em sua vida de adultos, bloqueados, tentando levantar muros, limites, pra reconstruir <alguma coisa> (…) A oscilação neurótica fará com que tentem transgredir também esse limite.”

os estudos de etnografia e genética demonstram que os povos que praticam a endogamia por tradição não possuem efeitos aberrantes na proporção em que se poderia supor.”

Esse Chefe-Pai primitivo (arque-pai) provocava sentimentos duplos: era temido e respeitado e, ao mesmo tempo, profundamente odiado. Um dia X, hipotético, teórico, os <filhos> dessa horda primitiva, revoltados, se uniram em força, matando esse Chefe-Pai, e engolindo-o. Segundo Freud, este seria o primeiro momento da humanidade. (…) O homem começou posteriormente a lembrar o episódio através do culto e da adoração de um totem simbolicamente representativo do Pai-morto. Seria esta a primeira e mais primitiva religião da humanidade. Por sua vez, a incorporação desse Pai primitivo fez emergirem sentimentos de remorso e arrependimento nos filhos, motores da adoração e lembranças posteriores.”

Esse período pré-edípico é completamente diferente da concepção da escola kleiniana, que faz questão de enfatizar a origem do Complexo de Édipo aproximadamente aos 6 ou 8 meses de idade, na chamada <posição depressiva>.”

O conceito de a posteriori ou <posterioridade> (nachträglich) foi resgatado por Lacan, adquirindo a partir dele uma importância capital dentro da obra freudiana.” “nem tudo o que é vivido pelo sujeito se integra imediatamente dentro de seu aparelho psíquico. Só depois é que esses acontecimentos vão adquirir relevância ou significado, quando o aparelho psíquico estiver totalmente amadurecido.” “quanto mais amadurecido for o aparelho psíquico, mais <triangulado> ele será. Ao contrário, quanto mais primitivo, mais narcísico e, portanto, mais dual e mais indiscriminado.”

dois tempos de <fechamento> do ap. psíq.” “P” de “Primeiro emprego” e “Pagar as contas” – “m” de “morrer”, “matar”, “masturbar”, “mastigar”, “meditar”, “militar”, “marchar adiante”, “memorizar”, “martirizar-se”, “moita”, “mimo”, “mansidão”, “maestria”, “marasmo”.

imitar o pai funciona simultaneamente como um mecanismo de defesa que elimina o pai real (eu SOU o pai e portanto não luto com ele) e como uma forma de satisfazer, agradar o pai, deixando-se modelar, educar, <fecundar>, metaforicamente falando, por ele.”

O Untergang ou sepultamento do Complexo de Édipo implica um afundar-se, dirigir-se aos fundamentos, ou seja, ao Isso.”

o menino está em posição de relacionamento heterossexual com a mãe desde o nascimento e, portanto, tem o pai como rival; daí que o movimento exogâmico será somente um afastamento <simples> desta estrutura elementar. Na menina, porém, o relacionamento inicial é com uma pessoa do mesmo sexo, tendo o pai como rival. (…) o eixo do Complexo deverá sofrer uma espécie de torção

Porém, tal como Freud o descreveu, a menina conservará essa idéia ilusória que ele chamou de esperança <de obter um dia, apesar de tudo, um pênis, e assim tornar-se semelhante a um homem>. Esta esperança <pode persistir até uma idade incrivelmente tardia e transformar-se em motivo para ações estranhas e de outra maneira inexplicáveis>.”

se entende como Complexo de Masculinidade uma estrutura composta em primeiríssimo lugar por uma relação extremamente intensa com a mãe, mas não resolvida satisfatoriamente. Simultaneamente, é também marcante a rivalidade com o pai, o que geralmente se expressa, por parte da menina, sob diversas formas de descrédito ou desprezo.” “o que se observa na clínica é que o que se esconde por trás da agressividade masculinóide, dos ciúmes reivindicatórios, etc., é uma <revolta contra a arbitrariedade do pai>.” “esse afastamento do objeto monopolizante torna-se imprescindível para a entrada no C. de E. feminino e, portanto, na sua futura autonomia exogâmica.” “A menina, então, dirige-se ao pai para ganhar a atenção e a admiração dele, que é o objeto de amor da mãe, ou seja, a fim de seduzi-lo.” “as mulheres são mais <ambivalentes a respeito de sua mãe que os homens com relação ao seu pai>.”

É importante salientar que Freud foi vacilante em muitos escritos no que se refere à designação desse processo de desaparecimento da estrutura edipiana. Em alguns textos, ele denomina de forma precisa <Destruição do Complexo> (e em outros, dissolução), em lugar da clássica Repressão ou Recalque. O que se destrói não pode voltar, mas o que se recalca sim. A saúde mental do sujeito dependerá ou estará intimamente vinculada à distinção entre estes dois processos.”

Em comparação com o menino, o processo da menina é muito mais gradual e, de certa forma, menos completo. (…) Embora a angústia de castração esteja presente, a força que adquire o medo de perder o amor da mãe é hierarquicamente superior e contribui para que a renúncia aos desejos pelo pai não seja tão drástica como é no menino.”

Quem não possui, é.”

introversão-regressão da libido sobre o ego, ou seja, o ego se apresenta ele próprio aos desejos libidinosos como um novo objeto de amor (identificação secundária). O resultado é uma libertação energética, que obviamente irá em busca de novos objetos para investir.”

o único complexo que habita o ser humano é o de Édipo. Não existem outros tipos de complexos, tais como <complexo de inferioridade>, de <masculinidade>, de <superioridade>, etc., porque isto suporia que tais complexos são uma parte do sujeito e Freud insistiu repetidas vezes no caráter estruturante que representa o C. de E. para um indivíduo como um todo.”

3. O EGO / O SUPEREGO / O IDEAL DO EGO

a rigor considera-se o Superego subdividido em 2 instâncias: o Superego p.d. e o chamado Ideal do Ego.” Substituirei doravante por Eu, Supereu e Isso (Id).

Identificação primária: ou nesta fase não existe objeto, ou ser o objeto e constituí-lo são a mesma coisa.” “Isto é o que se quer convencionalmente dizer com expressões tais como: <estágio de indiferenciação entre o self e o objeto>, ou <estágio de indiferenciação narcísica>, ou <estágio simbiótico>, ou <estágio autístico>, etc.” “dizer dependência e dizer identificação primária é mostrar um ou outro lado de uma mesma moeda.” Como se concilia essa abordagem (que parece dizer que migramos do total ao parcial) com a exposta mais acima, que parece dizer que migramos do parcial ao total quando crescemos (haja vista que bebê perceberia apenas “fragmentos de um real”?

Não será estranho que a problemática da identificação primária tenha profundas evocações filosóficas, que farão sentido para o leitor na medida da captação do conceito que quisemos expor. Essas expressões filosóficas são, p.ex.: <ser é ser para outro>, <ser para outro é ser com outro>, etc.”

O modelo descrito por Freud em Luto e melancolia (1917) mostra que o sujeito reestrutura dentro de si o vínculo perdido com seus pais reais e concretos devido a esse não edípico fundamental e estruturante.”

O conceito de função ultrapassa os limites desta obra. Digamos apenas que o uso do termo corresponde a toda uma tradição filosófica moderna: Leibniz, Hume, Bercovich e Kant. Função é tomada aqui como uma operação ou conjunto de operações determinantes de uma realidade, ou que permite compreender esta realidade. O uso do termo em matemática é altamente significativo: refere-se a uma relação entre quantidades que podem variar, e o que permanece constante é, precisamente, a relação. Frisa-se, aqui, a interdependência mútua dos elementos intervenientes (Ferráter Mora, Diccionario de Filosofía, Alianza Ed., 1979, vol. 2).”

e, além do mais, a palavra <ocupar> está vinculada à palavra alemã Besetzung, conhecida na terminologia psicanalítica como <carga>, <catexia>, ou <investimento>, que quer dizer, precisamente, ocupação, no sentido de ocupação de tropas, p.ex..”

a) No início da vida psíquica, identificação e catexia coincidem (ocupam <o mesmo lugar>).

b) Numa espécie de segundo tempo, ambas – idt. e cat. – se separam.

c) O destino da cat. é denominado <escolha do objeto>.

Portanto, dizer que no início da vida psíquica, identificação e catexia coincidem ou identificação e escolha de obj. coincidem ou ser e ter coincidem, é dizer, equivalentemente, a mesma coisa. (…) É um suposto teórico e, em conseqüência, inobservável, encontrando-se na mesma ordem conceitual que as fantasias primordiais, o mito da horda primitiva, ou o recalque primário.”

ALGUNS CONCEITOS LIGADOS À IDENTIFICAÇÃO USADOS EM PSICOPATOLOGIA:

1. Identificação primária ou total (ver acima)

2. Identificação parcial ou histérica

3. Identificação permanente – “a estrutura do caráter”

4. Identificação transitória

5. Identificação introjetiva (abaixo)

6. Identificação projetiva – “em Melanie Klein, acompanha-se de fantasias de controle e intrusão agressiva.”

7. Identificação com objeto total

8. Identificação com objeto parcial

9. Identificação progressiva

10. Identificação regressiva

11. Incorporação

12. Assimilação

13. Introjeção (abaixo)

14. Ejeção

15. Projeção – “É um mecanismo de defesa da série neurótica. Sua diferença para a identificação projetiva [ver mais além] consiste precisamente nisto. Esta é a série psicótica.”

16. Internalização

17. Imitação (acima)

18. Identidade (acima)

O Isso como herdeiro do narcisismo primitivo. (…) leva o sujeito a se igualar, a se modelar como os pais: Faça isso! Faça aquilo! Pense como seu pai! Seja como ele!, etc.” Easy on that one… Mas não faz sentido nenhum cotejado com o afirmado no capítulo 5 (fim da seção MODELO TÓPICO)!

O Supereu, herdeiro do Complexo Edípico. (…) esta identificação é a que fecha o <telhado> do edifício psíquico (…) Na realidade o objeto apenas mudou de lugar, já que anteriormente a pulsão procurava objetos exteriores que eram os pais reais e concretos e agora esses pais se introjetaram, transformando-se num <monumento>” “o Supereu é uma cicatriz”

Depois da orgia mística…

<Não seja como seu pai!> (Esta última expressão exprime a proibição do incesto: Eu posso ter relacionamento sexual em <sua> mãe, você não!!!)”

O Eu é um campo cênico”

3 instâncias: é o meu principal problema com o Freudismo. Continuo psicanalizando teimosamente apenas com os termos consciente-inconsciente. E não julgo que isso seja uma carência teórica minha…

sentimento inconsciente de culpa”

A auto-estima e a confiança do sujeito dependerão de um permanente balanço e ajuste entre estas duas últimas instâncias, da aprovação ou da rejeição que o sujeito sinta perante os pais interiorizados” Se entendi bem, a sentença anterior permite, em tese, baixa auto-estima conjugada com a maior confiança… Não sou aprovado, mas estou longe de ser rejeitado… Ou não se deveriam usar dois termos por preciosismo onde caberia apenas um.

4. LATÊNCIA / PUBERDADE / ADOLESCÊNCIA

PERÍODO DE LATÊNCIA

Foi assim denominado o peculiar período que se estende desde os 5 ou 6 anos de idade até as fases puberais do desenvolvimento. O nome reconhece uma certa calma, em comparação com o período precedente, a plena fase de eclosão do C.deE.”

predominância do sentimento de ternura” “Essa será também a idade do ludismo. Este ludismo tem forte sentido social, revelando o tipo de jogo, a estrutura do mesmo e as diversas temáticas existentes em seu interior – a mudança de objeto efetuada pelo aparelho psíquico.” “A aproximação com crianças, particularmente do mesmo sexo, é relativamente fácil e a crescente idealização dos vínculos, tanto de pares quanto de adultos, torna facilmente influenciável a criança nesta fase.”

A PUBERDADE

crise: (…) o aluvião pulsional que em curto lapso de tempo inunda o aparelho psíquico surpreende-o adaptado às exigências instintuais do período anterior (…) Essa luta desigual, inicialmente a favor das pulsões, produz um marcado desequilíbrio, responsável por toda uma série de sintomas [dores de cabeça e vertigens] conhecidas pelo nome de Crise Normal da Adolescência.”

A Pubescência

Ocorre precisamente uma revivescência de todas as situações edipianas que estavam em silêncio durante o período de latência.

Este reemergir das pulsões edipianas está contextuado numa verdadeira tormenta de identificação e de narcismo. Apresentam-se comumente sentimentos de angústia e dúvida – em alguns casos, com características compulsivas – sobre o corpo (tamanho, aparência, estética), o sexo (autenticidade, capacidade), o <si-mesmo> (despersonalização, estranheza). Por tudo isso, esta idade é conhecida com o nome de <idade do tonto> ou <idade ingrata>.

Juntamente com essas ansiedades, o sujeito pode apresentar fortes ansiedades paranóides, que às vezes se manifestam como verdadeiras hipocondrias circunstanciais. Todo esse cortejo de angústias, preocupações e dúvidas, acompanhado de diversos tipos de defesas, segue-se às primeiras poluções (aparecimento do sêmen nos garotos) e à menarca (primeira menstruação).”

As estruturas psíquicas, em seu circunstancial desequilíbrio, correm o risco de se desestruturarem total ou parcialmente. Mas, simultaneamente, apresenta-se ao sujeito a possibilidade de rearticulá-las agora perante esta investida pulsional. Rearticulação que será praticamente a última constitutiva do sujeito.

A ADOLESCÊNCIA

Esse processo deverá inevitavelmente se defrontar com o grupo social onde vive o adolescente, grupo este que tenderá a formar, canalizar e impor um conjunto normativo de regras, sob a forma de modelos de comportamento, costumes, leis, práticas e rituais diversos que, sem dúvida, moldarão a personalidade definitiva do futuro adulto. Mas essa modelagem é sumamente complexa, já que o jovem se vê obrigado a conciliar suas necessidades pulsionais com as normais sociais, tanto as que aprendeu na infância como as que encontra agora no contexto social em que atua. Não resta a menor dúvida de que este conflito se apresenta, por vezes, de forma tormentosa e não raro violenta. Daí a quase constante instabilidade do aparelho psíquico, em estruturação e desestruturação contínuas durante toda a adolescência.”

durante a adolescência, todas as outras manifestações auto-eróticas pré-genitais (orais, anais, fálicas) vão sendo progressivamente associadas à genitalidade, adquirindo o ato masturbatório uma satisfação com fantasias cada vez mais genitais.” “Entretanto, como toda atividade do adolescente, a masturbação será continuamente redefinida pelo grupo social onde ele atua. Isto porque a masturbação será geralmente sentida pelo jovem como uma atividade necessária e imperiosa, mas muito reprovada, gerando assim fortes sentimentos de culpa.”

crises de solidão e fastio” “verdadeiros estados esquizo-depressivos”

Pais e educadores, durante muito tempo, empreenderam verdadeira luta contra a masturbação, aludindo conseqüências nocivas a sua prática: impotência, tuberculose, loucura, esterilidade, etc.” “o sujeito entra num círculo vicioso de se proporcionar o prazer auto-erótico não apenas em busca da gratificação pulsional mas também para gratificar a necessidade de punição que é, por outro lado, a única maneira que ele encontra de redimir a culpa.”

ADULTHOOD IN A DESPERATE WORLD IN A NUTSHELL: “Em termos objetais, o dilema se apresenta entre um retorno a escolhas primárias narcísicas com características pré-genitais e tendentes a serem duais, e outra mais amadurecida que tende a <triangular> os vínculos e a genitalizá-los.”

O jovem passa por verdadeiros períodos esquizóides de introversão, que são geralmente circunstanciais mas que, em alguns casos, podem desembocar no autismo esquizofrênico.”

a criança não questiona o princípio geral da obediência.”

Só ele tem o direito de determinar o que é liberdade (Porot e Seux: Les Adolescents Parmi Nous, Ed. Flammarion, Paris, 1964)”

forte nostalgia da infância”: AS TEORIAS SUPREMAS (my newest revival book!) & O Mito do Príncipe Loiro https://www.clubedeautores.com.br/livro/as-teorias-supremas#.XWh9RuNKjIX

In search of a non-existent tail

níveis-limite”

Reuniões de família e domingos entediantes: a morte-e-o-silêncio-em-vida.

Freqüentemente, os afetos são intensos mas passageiros por pessoas da mesma idade. (…) Outro tipo de adolescente apresenta esse mesmo gênero de afeto, mas por pessoas mais velhas, às vezes bem mais velhas, representando substitutos paternos, na maioria das vezes usados como intermediários no processo de amadurecimento. (…) fixações identificatóriasCarlos Gomes e tantos professores. De fato até agora nestes comentários de índole pessoal eu citei o nome de 3 pessoas do meu passado, 2 professores do meu curso de jornalismo e um de filosofia, do meu ensino médio. Psicanaliticamente falando, eles foram o pai que eu não tive. Pulando alguns anos: E depois, já aos 22, eu era o professor, e não havia ninguém acima… E que tal abaixo?

Dentro desse contexto, a primeira escolha do adolescente como relacionamento amoroso ou de amizade é, freqüentemente, homossexual, sendo comuníssimas as experiências homossexuais ocasionais entre os adolescentes.” Engraçado que – além de não acontecer comigo – eu sequer verifiquei isso no meu próprio tempo, entre tantos colegas!

5. NOÇÕES DE METAPSICOLOGIA FREUDIANA

Os modelos da metapsicologia freudiana são fundamentalmente 3:

(1) dinâmico, onde se fala de pulsões, instintos, forças, moção impulsora;

(2) tópico, que é o ponto de vista que supõe o aparelho psíquico dividido em sistemas singulares (Consciente, Pré-Consciente, Inconsciente; ou ainda Eu, Supereu e Isso);

(3) e, finalmente, o modelo econômico, que é o ponto de vista que observa o aparelho psíq. como uma circulação, distribuição e administração de uma energia quantificável; falamos então de catexias, ou cargas, que aumentam, diminuem, sobrecarregam, etc.

Os matemáticos modernos, particularmente Carnap, chamam de <isomórfico> o modelo analógico (Introduction to Symbolic Logic and its Applications, 1958).”

será necessário ressalvar que o modelo, por mais aperfeiçoado que seja, é uma hipótese (literalmente uma sub-positio, uma sub-posição, i.e., suposição) e, portanto, proporciona uma plausibilidade em relação aos fatos, nunca suas demonstrações.”

para os quadros psicóticos e narcísicos, Freud foi reformulando sua modelística inicial até desembocar na segunda teoria dos instintos

MODELO TÓPICO

ressaltamos que o termo tópico faz cair a acentuação sobre uma certa disposição espacial das instâncias, podendo dar uma significação errônea de seu funcionamento. Provavelmente por essa razão Freud usou a palavra <aparelho>, que sublinha a funcionalidade interligada das instâncias entre si” “Como se pode observar, é muito difícil separar o modelo tópico do dinâmico, porque neste último a origem, o processamento, a distribuição e o destino final da energia estão articulados às distintas funções que correspondem a cada lugar e instância do modelo tópico.” Me pergunto qual a real utilidade do terceiro modelo, pois então…

Freud foi um brilhante expoente dos laboratórios experimentais da época e, além de dúzias de trabalhos sobre neurofisiologia, escreveu em 1891 um livro sobre as afasias. O tema critica as teorias que hierarquizavam a localização anatômico-concreta, de renomados cientistas da época.” “Sua associações com Breuer desemboca numa espécie de axioma: o espelho de um telescópio não pode ser, simultaneamente, uma chapa fotográfica.”

A Consciência será um fato fugaz, e nunca um arquivo.”

A característica do sistema Pré-Consc. é que seus conteúdos podem ser recuperados por um ato da vontade” “(diz-se então que o conteúdo estava reprimido); se não foi possível [rememorá-lo], a sua localização era no Inconsciente (diz-se, então, que o conteúdo estava recalcado).”

o Pré-Consc. contém <representações de palavras>, uma marca mnésica da palavra ouvida.” “A <representação de palavra> é uma marca acústica, que se opõe à chamada <representação de coisa>, que se encontra no Inconsciente e é predominantemente visual. A <representação de coisa> nunca pode ser consciente se não estiver associada a alguma representação verbal, encontrada no Pré-Consciente.” Lorotas. Dar nome ao silêncio dos bois. No word, no info.

Devemos também lembrar que <representação ideativa>, <traço mnêmico> e <representações de coisa> são sinônimos.”

Devemos reconhecer que esse conceito de núcleo do inconsciente é polêmico, controvertido [mas não me diga!], que deu e dá margem a acaloradas discussões, particularmente epistemológicas. Transcrevemos, porém, literalmente, a frase final da autorizada opinião de Laplanche e Pontalis: <No nosso modo de ver, as reservas suscitadas pela teoria de uma transmissão genética hereditária não devem nos fazer considerar igualmente caduca a idéia de que existem, na vida fantasiosa, estruturas irredutíveis às contingências do vivido individual>.” “Funcionalmente, representação de coisa e energia pulsional operam em conjunto.” Eu represento mais do que você!

condensação (…) é o somatório das várias cadeias de representações (…) é o sintoma, enquanto [que] o deslocamento é o mecanismo que conduz a ele. A condensação não deverá ser confundida com um resumo; é um produto da interseção circunstancial de deslocamentos em vários níveis do Inconsciente.”

Com o termo censura denominamos uma importante região fronteiriça que une e separa o Pré-Consciente/Consciente do Inconsciente.” “a censura tem no 1º tópico um caráter ainda passivo, de barreira inerte que apenas separa com rigidez os conteúdos inconscientes do outro sistema.” “Realmente, em 1923, ele incluiu entre as funções do Supereu a da censura, mas conferindo-lhe agora um sentido de coisa vigilante e dinâmica, com caracteres de instância psíquica diferenciada.”

o segundo tópico não elimina o primeiro”

A hesit he sit hesita…ção de um senhor não contribui para a refutação dos críticos à psicanálise e a in-desejada pecha de pseudo(onis)ciência, cofco(n)fere, fquerida_uck?

Os conteúdos fantasmáticos do Isso são, em sua maior parte, hereditários e o restante adquirido.”

Telebrasília desinforma…

Cláudia Busato e a aula em 2006: “O aspecto genético do Isso, como foi assinalado, é motivo de controvérsias entre partidários que salientam ora o ponto de vista filogenético, ora o ontogenético. É a metáfora freudiana que permite tal controvérsia: <No princípio tudo era Isso. O Eu tem se desenvolvido a partir do Isso, através da persistente influência do mundo exterior>.”

compress start resume

o caráter de inevitabilidade atinge o palco” “a maior parte do Eu é Inconsciente”

Peixe morre pela boca, Zeus morre pela coxa?

EM BUSCA DUM ÜBEREGO: “o Supereu está identificado com o Supereu dos próprios Pais.¹ Por tal motivo, encontram-se no Supereu os valores ditados pela cultura em que viveu o sujeito. Além dos valores, encontra-se também o que nomeamos ideologia ou ideologias, conjunto de crenças e preconceitos carregados afetivamente e que se impõem, à maneira de imperativo categórico kantiano, como mandamentos éticos.” Só um leigo absoluto em materialismo histórico e kantismo poderia misturar terminologias tão abstrusas de forma tão execrável numa só sentença! Fora o sentido indeterminado da palavra mais genérica possível, valor!

¹ Devo agradecer aos meus avós (ancestrais de forma geral) o possuir piedade e pena. Mas o que poderia qualquer melancolia nata contra o espírito do século XX (ainda ativo) e a imbecilidade que foge de si mesma?

Meu objetivo (dever) é desver, lamento! “O Supereu, instância fundamental para o entendimento da conduta do indivíduo, e sobretudo da sua psicopatologiaDeus mandou que eu não mexesse no que fede, eternamente fede…

Veja-se então como Freud se inscreve dentro de toda uma linha filosófica representada por Nietzsche, Spinoza, Hegel, onde o valor está ligado ao desejo, sendo este, por sua vez, um produto histórico (…) o Supereu outorga uma espécie de cosmovisão” Tanto e tão pouco: descobriram tudo, mas voltaram à estaca zero no mesmo ato…

Em resumo, o Isso está constituído por imagens de objetos amados, e o Supereu por objetos temidos [cicatriz cultural – nós, os especiais, detestamos o Ocidente!].”

Superergo sum achatado, Narciso estimulado (afogado)…

MODELO ECONÔMICO [Leia REICH!]

NÃO CONTE COM AS FEZES: “É o modelo mais controvertido, porque à luz da ciência moderna, particularmente das ciências físicas, não existe nenhuma precisão quanto aos componentes essenciais das energias.” Em alguns fragmentos de sua obra, F. aponta a esperança de quantificar no futuro essa energia. A energia é conhecida na teoria psicanalítica como catexia ou catexis, palavra que tenta traduzir o vocábulo alemão Besetzung. (…) A palavra em português investimento é muito mais adequada que catexia, pois até sob o ângulo da ciência econômica permite uma solidariedade entre a coisa investida e o <capitalista investidor>.

alguns quadros psicopatológicos evidenciam uma carência de energia em certas áreas, como acontece nos quadros de esquizoidia, depressões ou histerias conversivas.”

O princípio da Constância é vinculado (às vezes oposto) ao princípio do Nirvana(*), que é aquele princípio que tende a reduzir ao zero absoluto toda excitação. O princípio do Nirvana é o princípio que governa o conceito de instinto da morte (…)

(*) Tanto em O problema econômico do masoquismo quanto em Os instintos e suas vicissitudes, F. se refere a ambos como idênticos, opondo-se, sim, ao princípio do prazer: <O princípio do Nirvana (e também o da Constância) expressa a tendência do Instinto da morte; o princípio do prazer representa as exigências da libido, e a modificação desta última; o princípio da realidade representa a influência do mundo externo> [por suposto que quando se transa se transa apenas consigo mesmo, não é, Freudinho?] (…) consultar <princípio da constância> no Vocabulário da Psicanálise.

Os princípios são aceitos comumente nas ciências e, de modo geral, procedem de Aristóteles. Admite-se que o princípio é um ponto de partida, podendo logicamente existir vários princípios, que regulam determinado sistema lógico ou cognitivo.”

SÍNTESE (MANIA DE SIMETRIA OU KANTOMANIA, COMO DIRIA SCHOPENHAUER): “Como o leitor poderá observar, o conceito de prazer está perfeitamente articulado com o de processo primário, com o de energia livre e com o de identidade de percepção. Por outro lado, realidade está articulada com o processo secundário, energia ligada, identidade de pensamento. Em termos do 1º tópico, o princípio do prazer, com todas as suas séries articuladas, corresponde ao Inconsciente e o princípio de realidade ao Consciente. Em termos do 2º tópico, esta 1ª série corresponde ao Isso e à parte inconsciente do Eu. A 2ª série corresponde ao Eu consc..”

MODELO DINÂMICO

Os estímulos exteriores são passíveis de ser afastados, mediante a atividade muscular. Já os estímulos interiores exercem pressão mais ou menos contínua. (…) A isso chamamos de pulsão e instinto.”

<Por pressão (Drang) de um instinto, compreendemos seu fator motor, a quantidade de força ou a medida da exigência de trabalho que ela representa.> Esta é uma característica essencial de toda pulsão e até quando se fala de <pulsão passiva> está-se assinalando uma brevíssima maneira de exprimir a idéia de uma exigência ativa em procurar situações de passividade. Este ponto é de capital importância, já que F. não quis atribuir a atividade a uma pulsão específica (como Adler), pois toda pulsão tem por definição a capacidade de desencadear a atividade motora.”

Um objeto é o elemento mais variável de uma pulsão. A ligação a um objeto é feita com a exclusiva finalidade de procurar a sua descarga. Muitos fenômenos de ordem psicopatológica, especialmente os mais primitivos, são explicados por essa característica, onde o aparelho psíquico parece atuar às cegas à procura de uma descarga, tendo o objeto em si mesmo valor secundário.” “Compreende-se facilmente como o corpo pode, ao mesmo tempo, servir como fonte e como objeto, elemento fundamental para se entender o narcisismo.”

O “LIVRO” AOS 20 ANOS:Relação de objeto: Este conceito tenta exprimir que o objeto em si mesmo, <escolhido> pelo sujeito, tem uma vida própria e uma historicidade que explica o seu aparecimento nesse lugar e nesse tempo.”

Teoria das Pulsões

O protótipo da pulsão de autoconservação é a fome, e nunca F. se preocupou em descrever outro tipo. Mas admite-se que qualquer função orgânica seja fonte deste tipo de pulsão. (…) o comer muito (bulimia) ou o comer pouco (anorexia) podem ser explicados pela hiperativação, no primeiro caso, ou pela inibição no segundo, da função do apetite pelos efeitos produzidos pela pulsão sexual, apoiada nas de autoconservação.” “as pulsões de autoconservação estão regidas pelo princípio de realidade. As pulsões sexuais prescindem de objetos exteriores, sendo regidas pelo princípio de prazer. A fantasia, como expressão das pulsões sexuais, e portanto do corpo, constitui-se num refúgio, num espaço diferente do mundo anterior.”

invaginação da energia psíquica: uma dor de dentes, ou mesmo os sonhos normais, que expressam uma atividade psíquica intensa, com total afastamento do mundo exterior. Todas essas considerações levaram F. a substituir a dualidade pulsões de autoc. vs pulsões sex. pela dualidade libido do objeto vs libido do Eu.ZzZ – Reformulações e substituições que não reformulam nem reformam nada.

núcleo narcísico” “narcisismo secundário” = investimento de regresso no adulto frustrado

a dualidade pulsional, expressa nos pares antitéticos sadismo e amor, colocava problemas que durante alguns anos fizeram vacilar os textos freudianos, até seu reordenamento definitivo [sempre desconfie!] depois de 1920.”

QUANTA IRONIA: “Seguindo Laplanche, diremos que o texto de 1920 se apresenta como …o mais fascinante e mais desconcertante de toda a obra freudiana. Jamais F. se mostrou tão livre, tão audacioso, como neste grande afresco metapsicológico, metafísico e metabiológico [menos!]. Aparecem nele termos absolutamente novos: Eros, pulsão de morte, compulsão à repetição... (Laplanche, Vie et mort en Psychanalyse, 1970)”

Os casos clínicos perversos e melancólicos mostram, de modo evidente, que existe algo como uma tendência agressiva voltada contra o sujeito e permanecendo dentro dele com toda a sua força destruidora.”

qualquer problema de ordem masoquista tem a ver com uma submissão do Eu aos mandamentos agressivos e destruidores do Supereu [papai e mamãe, minha bola de ferro]. Deste modo muito particular o Eu satisfaz a energia pulsional superegóica.

A segunda teoria pulsional abalou quase todo o edifício teórico freudiano. Observado na sua totalidade, o princípio do prazer perde, depois de ‘20, a hierarquia, enquanto os problemas relativos à agressão são colocados em 1º plano.”

Vê-se aqui o âmago da filosofia de Schopenhauer.” Triste resultado para uma psicologia que se pretendia o sumo da empiria!

Teoria da Angústia

1ª teoria da angústia: 1905-1926

2ª teoria da angústia: Inibições, Sintomas e Angústia à morte de F.

em Como se origina a ansiedade (1905), F. é taxativo: a angústia reconhece uma etiologia sexual, em especial circunstâncias recentes.”

Saber demasiado sobre determinadas coisas e poder compará-las com os dados recolhidos na realidade pode desencadear até pânico. Lembremos a reação de Robinson Crusoe ao encontrar na praia uma pegada humana. Ele acreditava estar sozinho e, por conhecer o sinal que observava, inferiu rapidamente que na ilha existia pelo menos mais uma pessoa.”

a angústia real tem um desenvolvimento objetivo, concreto e exterior, mas também tem um desenvolvimento patológico incontrolado, irracional, podendo culminar num ataque ou numa reação de pânico. Isto leva-nos a procurar motivações inconscientes que atuem como desencadeantes destes afetos: portanto, subjacente a uma angústia real, na imensa maioria dos casos, encontra-se uma angústia neurótica.”

conceito de Angst: “deslizamentos confusionais compreensíveis” HAHAHAHA

NOWSEAAESxifsa

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Para o medo, F. reserva o termo Furcht.” “o desenvolvimento da angústia é um preparo mínimo para os fatores traumáticos.” “Reservamos o termo ansiedade, que é quase sempre usado como sinônimo de angústia, para descrever um estado de expectativa consciente de um perigo, embora este não seja conhecido.” “Finalmente, devemos deixar claro que a palavra angústia tem sua origem no grego Anxius ou Angor, significando aperto, estrangulamento, impossibilidade de respirar.” break your neck

se aconteceu um cerceamento, haverá a possibilidade de que ele volte a se produzir. Será sempre uma ameaça”

A Lei do Pai”

6. SONHOS, FANTASIAS E FUNÇÃO IMAGINÁRIA

para expressar a idéia de posse o trabalho onírico pode nos mostrar uma pessoa sentada numa cadeira.”

isso-êntico

7. DEFESAS, MECANISMOS DE DEFESA

existe muita controvérsia entre as diferenças que poderiam existir entre uma neurose e uma psicose. Na época de F. dizia-se que a neurose consistia numa rejeição do instinto, em ficar-se à mercê do mundo exterior. Na psicose, rejeitar-se-ia o mundo exterior, obedecendo automaticamente ao Isso.”

OS “ULTRARREALISTAS” – übercríticos dos outros: idiotas quanto a si mesmos Quando passei a considerar os Outros como parte da solução, me tornei o problema. Quem renega a fraqueza fica fraco Eu sou só o melhor escritor que você jamais irá conhecer. Não me exija traquejo empresarial e domínio sobre assuntos da arraia-miúda.

Usar os mais ranzinzas como espelho do que já fui (e me envergonha): R***** e M*** S******

qualquer sintoma psicopatológico é em si mesmo uma forma de punição. O sujeito vive o conjunto sintomatológico como merecendo-o.” “2 quadros psicopatológicos clássicos: a neurose obsessiva e a melancolia”

uma pessoa não adoece por possuir defesas e sim pela sua ineficácia ou pelo mau uso que faz delas.” “estereotipia defensiva”

Quem se inicia em psicopatologia acredita que um determinado paciente está <curado> quando se conseguem <abater as defesas>. Erro grave, porque podem passar inadvertidas ao profissional mudanças nas apresentações de conduta pertencentes às defesas articuladas pelo sujeito para lidar com os estímulos internos e externos”

um neurótico diz: <eu sofro, mas não sei por quê>. Um psicótico, entretanto, e, em certa medida, um perverso, acreditam numa realidade (delírio) que implica a rejeição de uma outra realidade cuja existência tiveram previamente que admitir. É como se dissessem: <eu não sofro, isto é o que sinto e penso>. Modernamente, o mecanismo básico das psicoses e perversões recebeu denominações diversas, como repúdio, rejeição, exclusão, desmentido para traduzir a palavra alemã Verwerfung. Em francês, a tradução proposta por Lacan é forclusion. Trata-se de uma rejeição, ou afastamento, próximo do recalque, mas não se confundindo com ele.EU TE REPUDIO! “o texto onde fica mais patente este mecanismo de defesa é no caso do Homem dos Lobos (1918).” “<Uma repressão é algo muito diferente de uma rejeição.> (Eine Verdrängung ist etwas anderes als eine Verwerfung.)” “Desta maneira, a exclusão da castração implica necessariamente em ausência da existência desse fato.”

Rejeitava a castração e apegava-se a sua teoria de relação sexual pelo ânus. Quando digo que ele a havia rejeitado, o primeiro significado da frase é o de que ele não teria nada a ver com a castração, no sentido de havê-la reprimido. (…) era como se não existisse. […] Afinal, seriam encontradas nele, lado a lado, duas correntes contrárias, das quais uma abominava a idéia da castração, ao passo que a outra estava preparada para aceitá-la e consolar-se com a feminilidade, como uma compensação.” “Para além de qualquer dúvida, porém, uma terceira corrente, a mais antiga e profunda, que nem sequer levantara ainda a questão da realidade da castração, seria capaz de entrar em atividade.”

Metaforicamente, e para esclarecer esse complicado e fundamental mecanismo de defesa, transcreveremos uma expressiva e notável explicação de Leclaire (À propos de l’Episode que présenta l’Homme aux Loups): Se imaginamos a experiência como um tecido, ou seja, ao pé da letra, como um pedaço de fazenda constituída por fios entrecruzados, poderíamos dizer que o recalque estaria representado por alguma ruptura ou por algum rasgão, importante e sempre passível de ser cerzido e reparado, enquanto que a exclusão estaria representada por alguma abertura devida ao tecido mesmo, i.e., por um buraco original que jamais seria suscetível de encontrar sua própria substância, já que esta nunca teria sido outra coisa senão substância de buraco, e que nunca poderia ser preenchido senão de modo imperfeito por um <remendo>, para retomar o termo freudiano.” “a alucinação, o delírio, será a <realidade> que <tampará> o buraco”

neurose: os sucessivos deslocamentos, condensações e distorções fizeram perder o sentido original, que se recupera com o trabalho interpretativo.

psicose: a estrutura desarticulada não é passível de ser representada simbolicamente, daí resultando que a interpretação, como recurso terapêutico, é inadequada”

8. OS CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO E AS OPERAÇÕES DEFENSIVAS

Cotas para esquizos

Uma personalidade histérica pode se apresentar com uma estrutura fóbica e, em outros momentos, com estrutura conversiva, estruturas que, por sua vez, são organizações defensivas de estruturas esquizóides ou melancólicas subjacentes.”

Ex-neurótico

Interessa pesquisar não só a fluidez da divisão destes níveis no plano sincrônico (diagnosticador/diagnosticado)[?], mas também no plano diacrônico (em que época da vida se quebrou, se se manteve da mesma maneira, etc.).”

NEUROTISMO

PSICOTISMO

ansiedade¹

enfermidade orgânica atual[?];

tensão¹

transferência neurótica[?]

narcisismo

manutenção da clivagem

clivagem não-conservada ou em risco de perder-se [NÃO HÁ TRAUMAS, É-SE O TRAUMA!]

Defesas: (…) [“maldição” – ver 2ª tabela e trechos de T&T mais abaixo: o rancor ao pai que volta contra si depois de morto]

Defesas: caracteropáticas[?]

Versão simplificada em relação à das pp. 204-5 (fig. 19).

¹ E qual seria a distinção fundamental entre ambas?

O esquema apresentado acima possui forte influência jacksoniana. Este neurologista inglês, herdeiro da doutrina <evolucionista spenceriana>, formulou, no final do século passado, sua célebre Teoria da Dissolução, que encontrou importante repercussão nos meios neurológicos e psiquiátricos.”

uma disciplina, cujo primeiro objetivo é analisar e interpretar as diferenças, poupa-se muitos problemas ao considerar somente as diferenças” (Lévi-Strauss, Raça e história)

Teoricamente, um sujeito seria capaz de apresentar todas as condutas possíveis se a situação, o contexto onde ele se inscreve, assim lho exigisse. Porém, todo sujeito tem <selecionado>, inconscientemente, um certo número, bastante restrito, de estruturas defensivas, que utiliza para lidar contra os perigos internos e externos em quase todos os contextos e meios sociais em que lhe cabe viver. Esta seleção apresenta-se como um estilo muito particular e característico”

Derrubam-se diques, erguem-se outros…

Normalmente, entende-se por contracatexia uma espécie de barreira levantada perante outras catexias transportadas pelas pulsões e desejos inconscientes.”

GENEALOGIA DO BLASÉ: “Esta <retirada> é conhecida com o nome de descatexia ou descatexização.”

Facilmente se deduz que a luta estabelecida entre os desejos originais e as defesas levantadas contra eles exige um permanente gasto psíquico.”

Para Fenichel, a contracatexia é o sinal da angústia” “reação do Eu, não criada por ele e sim usada por ele”

Deveremos frisar, insistentemente, que <neurotismo> e <psicotismo> são simplesmente duas séries ordenadas, numa escala complementar, e não podem ser tomadas como padrões rígidos ou como um guia dogmático.”

(*) O livro inverte as colunas abaixo (fig. 20, pp. 209-10), colocando PSICOTISMO à esquerda e NEUROTISMO à direita, erro que retificamos. Em negrito – após os títulos – aqueles conceitos que são pormenorizados num nível satisfatório mais à frente. A tabela também foi encolhida (como a de cima), pois apresenta um excesso de conceitos que só atrapalharia:

NEUROTISMO

PSICOTISMO

Projeção [“Eu sou o Goku” → “eu queria muito ser o Goku, mas não sou, ele está na TV” (mecanismo normal da criança que matura) – sentimento de decepção face a quem despe essa máscara, e sempre há um bode expiatório que não é o Eu.]

Identificação projetiva[-introjetiva]

[Mais para “o Goku sou eu, eu sou todo o possível, pois esqueci o que é faz-de-conta” – sentimento de indiferença, autossuficiência hipostásica]

repressão (recalque)

[negação → afirmação

(autores também usam denegar: odiar, trair)]

renegação (forclusão)

[de certa forma, encarnação do paradoxo – para além até da simples ambivalência da má-fé]

deslocamento [crise, accountability com o passado e somatização]

divisão [a-historicidade, indiferenciação]

regressão parcial

regressão total

inibição

¹

reatividade

¹

¹ Não há contrário equivalente na tabela.

Fosse a neurose uma figura geométrica, seria provavelmente um círculo; fosse a psicopatia uma figura geométrica, seria um ponto.

Quanticopata

Projeção

expulsão de uma idéia intolerável. <Portanto, o propósito da paranóia é rechaçar uma idéia que é incompatível com o Eu, projetando seu conteúdo no mundo externo>” Culpabilização do Outro.

repressão de um sentimento de amor, retorno do amor em seu contrário (o ódio) e responsabilização do ódio ao objeto que havia originalmente suscitado amor. <Eu não o amo – eu o odeio, porque ELE ME PERSEGUE>.”

Não se pode dizer que estejam alegres por se haverem livrado do morto; pelo contrário, estão de luto por ele, mas, é estranho dizê-lo, ele transformou-se num demônio perverso, pronto a tripudiar sobre os seus infortúnios e ansioso por matá-los. Torna-se, então, necessário aos sobreviventes defender-se contra o inimigo malvado; aliviaram-se da pressão provinda de dentro, mas apenas a trocaram pela pressão vinda de fora.” Totem & Tabu

Se já sinto meus avós no cangote…

Está fora de discussão que esse processo de projeção que transforma um morto num inimigo maligno, pode encontrar apoio em quaisquer atos reais de hostilidade de sua parte(*), os quais podem ser relembrados e sentidos como rancor contra ele: sua severidade, seu amor ao poder, sua injustiça, ou qualquer outra coisa que possa estar por trás até mesmo das relações humanas mais ternas”

(*) Grifo do próprio Freud

Laplanche e Pontalis, ao percorrerem os diversos sentidos adquiridos para Freud pelo termo <projeção>, concluem que o termo aparece sempre como uma defesa.“a tendência ao uso da projeção, sem desaparecer totalmente, é substituída e de certa forma compensada pela experiência ativa, objetiva, do sujeito no mundo exterior.”

Como fazendo parte de um amplo espectro de possibilidades, o mecanismo projetivo também aparece em estados <normais>: irritação por frustração, cansaço, alcoolismo leve, etc. Passado esse estado transitório [no caso do alcoolismo pouco acentuado, semanal?], passa também a tendência projetiva.” Pubescência…

OXÍMORO

Frustrado com a vida

Que me mata dia a dia

Cansado da minha pele

Que me retrai e vulnerabiliza

Nauseado dessa substância chamada

Oxigênio

Que me arranca o fôlego.

Deslocamento

O estudo de F. sobre o pequeno Hans demonstra que o objeto-cavalo possuía atributos para deslocar sobre si mesmo atributos do pai do menino: tamanho, força, incontrolabilidade muscular, possibilidade de ataque, etc.”

um fóbico pode ter uma monofobia, mas o mais freqüente é que possua várias e que, em certas ocasiões, tudo lhe produza medo (pantofobia).”

Regressão parcial

A regressão, como muitos outros mecanismos, faz parte da vida normal do sujeito. Assim, o ato de dormir, cotidiano, explica-se por este mecanismo.”

Introjeção

Se as características parciais ou totais do objeto perdido tomam conta, invasoramente, do sujeito, e este se comporta <como se> fosse realmente o objeto perdido, dir-se-á que ocorreu um fenômeno de identificação introjetiva, fazendo parte então dos processos psicóticos.” “a introjeção tem especial relevância na formação do Supereu.”

Isolamento

Geralmente faz parte da estrutura obsessiva, já que aqui os processos de recalque não são suficientes para manter inconscientes as representações causadoras de desprazer que retornam permanentemente.”

Formação reativa

É o mecanismo de defesa que leva o sujeito a efetuar o que é totalmente oposto àquilo inconsciente que se quer rejeitar. Tendências agressivas contra determinado objeto provocam reativamente uma extrema solicitude para com o mesmo.” “no período de latência todo o sistema ético de valores familiares e culturais atua como formações reativas das pulsões eróticas” O menininho calmo, familiar e hipócrita, enfim, o mais-normal-de-todos-os-Rafaéis, em seu mundo de respeito-aos-pais e videogames. Muito estudioso, cultivador da amizade ideal, e que dava a outra face diante do Outro da mesma faixa etária, pubescentes precoces [M*****].

Mas mesmo para uma teoria psicanalítica refeita e modernizada, este contínuo entre neurose e psicose parece coincidir em pontos excessivos! Reatividade é considerada, num patamar saudável, a conquista da saúde e superação (nunca definitiva) do Édipo; desregulada, é paranóide, e pode haver a recaída dos casos saudáveis; mas rejeição (verbo rejeitar usado acima) é claramente associada à psicotização (renegação)!

Sublimação [Hello Aristoteles my old friend!] ou: A ÉTICA DOS CASTRADOS

Fenichel a considera um mecanismo de defesa <bem-sucedido>. Mas Bergeret a considera uma defesa não-verdadeira (Abregé de Psychologie Pathologique, 1975). A polêmica continua ainda hoje.”

Nem sempre são claras as diferenças entre uma formação reativa e uma sublimação. Enquanto nesta última as atividades proporcionam imenso prazer, naquela existe um caráter forçado e por vezes compulsivo que desperta angústia assim que é deixado de lado. [falar gentilmente com minions gera esse quadro exato!]. O exemplo típico é qualquer espécie de trabalho. Se o sujeito pode deixá-lo, desfrutando periodicamente de seu tempo livre, aquele tenderá a ser visto como atividade sublimada [sou bergeretiano!].

Devemos reconhecer, com Laplanche e Pontalis, que a psicanálise apresenta lacunas importantes neste tópico.”

Negação negativa

Durante o percurso da cura típica, uma das melhores provas da queda parcial das barreiras do recalque consiste no estudo da fala dos pacientes, que expressam: Não, jamais pensei isso.

APROFUNDAMENTO

A. Godino Gabas, Oedipus Complexus Est, 1979.

E. Westermarck, The history of human marriage, 1920.

J. Bleger, Psicología de la Conducta, 1963.

K. Lewin, Principles of Topological Psychology, 1936.

Kusnetzoff, Psicanálise e Psicoterapia Breve na Adolescência, Zahar, RJ, 1980.

L. Morgan, Systems of consanguinity and affinity of the human family, 1871.

L. Grimberg & D. Liberman, Identificación proyectiva y comunicación en la situación transferencial (artigo), In: Psicoanálisis de la manía y la psicopatía, 1966.

M. Knobel, El Sindrome de la Adolescencia Normal, in: Adolescencia Normal. Paidós, 5a ed. 1977.

O. Fenichel, Teoría psicanalítica de las neurosis, 1966.

S. Freud, A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão, 1910.

______, A negativa (artigo), 1925.

______, O Moisés de Michelangelo, 1914.

______, O Narcisismo: uma introdução.

A REPÚBLICA – Livro X – OU: DE QUE FORMA PLATÃO PARIU O CRISTIANISMO

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

Terei de dizê-lo, muito embora me penalize dirigir tais palavras contra Homero, por quem desde criança nutro o maior respeito e afeição, o que como que amortece minha língua neste momento; pois sem dúvida que Homero é o mestre e chefe de todos estes belos poetas trágicos, alvos principais de minha crítica. Persisto em meu desígnio, na certeza de que a reputação de um só homem não deve falar mais alto que a consideração que devemos ter para com a verdade.”

Muita vez são os míopes que percebem os objetos antes que os de vista aguda e penetrante.”

– Este maior de todos os artífices possui o talento não só de esculpir todos os móveis como também o de criar as obras da natureza, todos os seres vivos e, como direi, até se faz a si próprio! E não cessa aqui: faz a terra, o céu, os deuses, tudo o que há no céu e sob a terra, no Hades.

– Vejo que discorres sobre um artista verdadeiramente admirável!”

Querido Homero, se é certo que és um artista distanciado em três graus da Verdade, incapaz de fabricar outra coisa senão aparências (porque tal é a definição que demos do imitador); se ocupas, no lugar, a segunda ordem; se conheceste o que pode melhorar ou piorar os Estados e os particulares, diz-nos enfim: que Estado te deve a melhora da própria constituição (Esparta deve-o a Licurgo; numerosos Estados, grandes e pequenos, devem-no a tantos outros)? Que país fala de ti como de um sábio legislador e se vangloria de haver tirado proveito de tuas leis? A Itália e a Sicília evocam Carondas; nós temos Sólon; mas onde está o povo que clama <Homero!>?”

– Distinguiu-se por essas múltiplas invenções úteis nas artes ou nos demais ofícios que são próprios de um homem sábio, como se conta até de Tales de Mileto e do cita Anacársis?¹

– Nada disso se conta de Homero, Sócrates.”

¹ A respeito do segundo: http://remacle.org/bloodwolf/livres/anacharsis/table.htm.

Escuta, para depois julgar. Sabes que até os mais razoáveis, quando ouvimos recitar passagens de Homero ou de qualquer outro poeta trágico, em que se apresenta um herói angustiado, deplorando sua sorte num largo monólogo, prorrompendo em gritos e se dando golpes no peito, sabes, repito!, que naquele ato percebemos um vivo prazer, que deixamos nos embalar inadvertidamente, e exaltamos o talento do poeta que nos transporta com mais força a este estado.

– Sei-o bem; como não?

– E no entanto já pudeste observar que em nossas próprias desgraças presumimos o exato contrário: seria o ideal poder mantermo-nos firmes e tranqüilos, como convém à condição humana, abandonando às mulheres estas mesmas lamentações que aplaudimos no teatro!

– Sim, observei-o muito bem.

– Diz-me: será justo isso? Aprovar com entusiasmo em outros uma condição que não consentiríamos que se desse conosco mesmos? Envergonhando-nos se porventura nos assemelháramos a tais personagens, e, simultaneamente, gozando e celebrando – em vez de sentir repugnância! – quando se dá com terceiros?”

– …depois de haver conservado e até agravado nossa suscetibilidade mediante a contemplação dos maus alheios, é difícil moderar a sensibilidade conosco mesmos.

– Tens razão.

– Não diremos outro tanto acerca do cômico? Se tu manifestas um prazer excessivo em ouvir palhaçadas sobre o que em ti mesmo te envergonharia ao invés de produzir teu riso, mas que tratas como ridículo quando escutas vindo de uma terceira pessoa, deixando neste momento de detestar tais condutas como más, ainda que seja no teatro em vez de em meras conversas privadas acerca de entes conhecidos, todo o processo de identificação que se dá com as emoções patéticas¹ irá, seguro, se repetir. Ao desejo de fazer rir, antes reprimido pela razão, serão soltas as rédeas. Antes temias passar por bufão ou histrião, mas, agora, alimentados esse desejo e essa propensão para a comédia, eles se tornarão predominantes em tua alma! O início é mais hesitante, mas em breve o homem não terá qualquer resquício de pudor diante dos demais, até ver-se convertido num farsante de carteirinha. Um comediante profissional.

– E o pior é que estás coberto de razão, Sócrates!”

¹ Trágicas, sérias, graves, capazes de causar abalo ou comoção. Palavra de origem grega que se perverteu para nós.

em nosso Estado não podemos admitir outras obras de poesia além dos hinos aos deuses e das odes aos heróis”

procuraremos não recair na paixão que por ela (a poesia) sentimos em nossa juventude, e de cuja influência não se livra fácil o comum dos mortais”

– Pode se chamar <grande> aquilo que se passa num pequeno espaço de tempo? O intervalo que separa nossa infância de nossa velhice é bem curto comparado à totalidade do tempo.

– Com efeito pode-se dizer que nada é.

– E não crerias absurdo se um ser imortal se devotasse a contemplar e se preocupar com espaços de tempo tão efêmeros ao invés de dirigir seu olhar à eternidade?

– Crê-lo-ia absurdo. Mas a propósito de quê vem essa afirmação tão súbita?

Não sentes que nossa alma é imortal e que jamais perece?

Ao ouvir estas palavras, olhando-me atônito, disse:

– Não, por Zeus! Podes prová-lo?”

Se encontramos na natureza uma coisa a que um mal pode tornar miserável, embora não possa dissolver nem destruir, desde este instante não é factível assegurar que esta coisa não poderá perecer?” “Mas é evidente que uma coisa que não pode perecer nem por seu próprio mal nem por um mal estranho deve necessariamente existir para sempre!”

se o número de seres imortais se fizesse maior, esses novos seres se formariam daquilo que é mortal e se decompõe”

– Não me concederás também que o homem, querido pelos deuses, só deveria esperar deles bens, mas que às vezes recebe males como expiação de faltas cometidas em vidas passadas (muitas delas não-humanas)?

– Assim o creio.”

E quanto aos injustos, defendo que, ainda quando desde muito tenros já tenham aprendido a dissimular o que são, na sua maior parte acabam por desvelar sua natureza hora ou outra até o final de suas vidas; os injustos, em geral, colhem na velhice o ridículo e o opróbrio que plantaram durante toda a vida (…) afirmo que serão açoitados e submetidos ao tormento; numa palavra, imagina-te que escutas de minha boca todos os gêneros de suplício concebíveis.”

Não vou contar uma estória de Alcínoo, que é comprida e maçante.¹ É a simples história dum homem puro de coração, Er o Armênio, originário da Panfília.² Dez dias após uma batalha cruel e sangrenta, onde encontraram pilhas de cadáveres, o seu era o único intacto pela ação do tempo. Conduzido a seu lar para as cerimônias fúnebres, ao décimo segundo dia, já prestes a ser deposto nas chamas, o destino de todos os defuntos, volveu à vida de repente, e referiu aos circunstantes tudo o que havia visto <do outro lado>. Segundo Er, no momento em que sua alma saiu do corpo, juntou-se a uma infinidade de outras almas em um sítio fantástico; havia duas aberturas na terra e mais duas no céu, neste lugar, estas alinhadas com aquelas, de modo que pareciam possuir alguma relação. Entre os dois pares estavam sentados vários juízes. Assim que pronunciavam sua sentença, os juízes mandavam os justos seguirem por uma das vias que conduziam ao céu, à direita, não sem antes marcar suas costas com uma insígnia que confirmava seus destinos bem-aventurados; os injustos, por sua vez, eram obrigados a seguir à esquerda, por uma das vias telúricas, e também recebiam um selo, desta feita condenatório. Nele, registravam-se todas suas más ações. Quando chegou a vez de Er ser julgado, de súbito os juízes mudaram de idéia, e decidiram que era preciso que alguém retornasse e levasse aos vivos as notícias do que se passava neste além-mundo, e ele fôra o escolhido. Comandaram que passasse mais tempo por ali, escutando e observando atentamente tudo o que acontecia ao seu redor. (…) Er viu que das segundas aberturas (pois, lembre-se, havia duas aberturas para cada destino desta viagem, mas só a primeira de cada par era usada para os que se iam após o julgamento) voltavam outras tantas almas, umas das profundas, outras do paraíso (…) Estas almas que estavam de regresso se detinham no caminho para conversarem calmamente entre si, referindo sua jornada, parecendo peregrinos numa feira, que se reviam depois de uma longa pausa. As que vinham da estrada da terra se exprimiam com gemidos e lamúrias, despertados pela recordação de mil anos, o tempo total que passavam no refúgio subterrâneo. As que vinham do retiro celeste só tinham deleites e prazeres para narrar. (…) Er escutou um diálogo que lhe chamou a atenção: contavam o destino de Ardieu, célebre tirano panfiliano do milênio anterior. Ardieu matara seu próprio pai, já bastante idoso, bem como seu irmão mais velho, sem falar que cometera muitos outros crimes aberrantes e atrozes. <Ele não volta, nem hoje e nem nunca!>, é o que se disse a seu respeito. (…) Acudiram alguns homens selvagens, que pareciam feitos de fogo. De imediato conduziram, por coerção, algumas das almas presentes, as piores dentre elas. Ardieu estava entre elas. Seus pés e suas mãos foram amarrados, e a cabeça imobilizada. Depois de derrubados brutalmente, foram esfolados em castigos contínuos, em seguida arrastados para fora da trilha, sobre urzes, que logo se conspurcaram de sangue. Os <homens de fogo> explicaram às almas que apenas testemunhavam aquele tratamento o porquê deste suplício direcionado às almas criminosas incorrigíveis; contaram também que após esta série de sofrimentos elas seriam arremessadas no Tártaro, o abismo do Hades.”

¹ Odisséia, Capítulos 9 a 12.

² Na Ásia.

A virtude não tem dono. Cada qual participa dela conforme a honra ou a despreza. Cada qual é livre para agir, porque Deus é inocente.”

Diz-se que a alma de Orfeu escolhera reencarnar como cisne devido ao rancor e ódio que nutria pelas mulheres, que o chacinaram na outra vida. Orfeu tinha horror à idéia de ser engendrado de novo em um útero de mulher. Diz-se também que a alma de Tamiras escolheu reencarnar como rouxinol. Diz-se também que uma alma de cisne optou por voltar na forma de humano, bem como muitos outros animais cantores. Outra alma, após o fim da última vida, escolheu a condição de leão na próxima. E sabem quem era esta alma? Ájax, filho de Telamon. Pesaroso das guerras armadas entre os homens, recusou-se obstinadamente a repetir a vida de guerreiro. Dizem também que a alma de Agamêmnon, igualmente dissaborosa quanto à existência humana depois de todas as desgraças que lhe sobrevieram neste mundo, optou por reencarnar como águia.”

(*) “Epeu, filho de Panopeu, foi quem construiu o cavalo de madeira que os aqueus usaram para invadir Tróia.”

Como eu referira, havia almas de animais que foram promovidas a humanos, ou promovidas ou rebaixadas a outras espécies animais, segundo a vida que viveram; os animais injustos reencarnavam como animais selvagens; os justos, como animais domésticos.”

Fim da série de traduções d’A República.

A REPÚBLICA – Livro VIII

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

O primeiro tipo de governo, e também o mais elogiado, é aquele em vigor em Creta e em Esparta. O segundo tipo, que ocupa outrossim o segundo posto em fama e reputação, é a oligarquia, governo exposto a um grande número de vícios. O terceiro tipo, oposto por inteiro ao segundo, é a democracia. Em seguida vem a <gloriosa> tirania, que se sobressai sobre todos os outros três tipos no quesito <enfermidades que podem contaminar um Estado>.”

Procuremos, desta feita, explicar como podem surgir a aristocracia e a timocracia.¹ Não é certo que, em geral, as trocas de todo governo político se originam no próprio partido que governa, assim que nele se suscita alguma cisão, e que, por pequeno que se suponha este partido, enquanto mantenha em seu seio a harmonia, é impossível que inovações possam tomar conta do Estado?”

¹ Timocracia ou timarquia: Trata-se da forma de governo deixada sem nome atribuída logo acima a Creta e Esparta, os melhores tipos “mundanos” de governo (enquanto não se puder atingir a República ideal). Este nome caiu em desuso a despeito da obra platônica, e no dicionário português hoje é considerado depreciativo (governo viciado em honrarias). É difícil diferenciá-lo, ademais, do conceito de aristocracia, se não se recorrer à própria exposição platônica. Atrelar esse tipo de Estado unicamente à disciplina bélica seria um estereótipo inaceitável, quase equiparar esta forma de governo ao que consideramos (muito influenciados pelos helenos, aliás) os governos dos “povos bárbaros”. Como se perdeu a noção de valor não-corrompida pela própria degradação da noção de valor, realmente seria uma contradição caso essa nomenclatura fosse intuitiva e apreendida de forma imediata.

O natural do Estado estabilizado não é o movimento; porém, como tudo o que nasce está destinado a perecer, este, como qualquer outro sistema de governo, não pode durar indefinidamente. Não só a planta que nasce do seio da terra, mas também a alma e o corpo dos animais que vivem sobre essa mesma superfície, sofrem mudanças do estado fértil ao infértil e vice-versa. Cada espécie está submetida a um ciclo ou revolução periódica, terminando e recomeçando sem cessar sua trajetória de vida. O que diferencia uma espécie da outra é tão-somente a duração desse ciclo.(*)”

(*) “Nesta passagem platônica, denominada pelos comentadores como <o discurso das Musas>, ou <discurso do número nupcial>, faz-se referência a um número para o qual parece impossível encontrar qualquer sentido racional, e cuja obscuridade tornou-se até proverbial. Alguns autores calculam-no como sendo 12.960.000, o que corresponderia ao número de dias do <grande ano> astronômico (36 mil anos de 360 dias).

Mesclando-se o ferro com a prata e o bronze com o ouro, resultam a inconveniência, a irregularidade e a desarmonia, defeitos que, onde quer que apareçam, engendram sempre a inimizade e a guerra.”

Uma vez produzida a dissensão, as raças de ferro e de bronze tratavam de enriquecer materialmente e adquirir cada vez mais terras, edificações, ouro e prata, ao passo que as raças de ouro e prata, ricas de natureza, jamais estando desprovidas, buscavam conduzir a alma à virtude e fazer perdurar a constituição primitiva. Depois de muitas lutas e violência recíproca, convieram em dividir as terras e as casas, destinando como escravos ao cuidado de suas terras e casas o restante dos cidadãos, a quem consideravam mais como homens livres, propriamente, espécies de amigos e provedores de seu sustento, continuando eles mesmos a guerra e provendo a segurança comum.”

Do regime anterior, herdarão o respeito aos magistrados, a aversão típica dos guerreiros à agricultura, ofícios manuais e profissões lucrativas, bem como conservarão o costume dos banquetes públicos e o cuidado da prática de exercícios ginásticos e militares.

Aquilo que essa nova configuração teria de próprio não seria, então, o temor de elevar os sábios às primeiras dignidades, porque já não se formarão em seu seio os caracteres de uma virtude simples e pura, senão apenas elementos compósitos? Daí deriva que elegerão para os postos de comando espíritos mais fogosos e simplórios, nascidos sobretudo para a guerra, não para a paz; supervalorizarão as táticas e ardis de combate; andarão sempre armados.”

Entregues em segredo a todos os prazeres, ocultar-se-ão da lei, como um filho pródigo sói ocultar-se do pai; e tudo isto graças a uma educação fundada não na persuasão, mas na força, que despreza a verdadeira Musa, a que preside à dialética e à filosofia, e por haver-se preferido a ginástica à música.”

Terá às vezes por pai um homem de bem, cidadão de um Estado mal-governado, cidadão este que foge das honras, dignidades e magistraturas e de todas as moléstias que os cargos carregam consigo. Enfim, este cidadão prefere perder direitos a sofrer tais males.”

Não devíamos explicar, agora, como a timocracia se converte em oligarquia?”

A cota (o rendimento patrimonial) que se requer a fim de se participar da casta que comanda é mais ou menos elevada, conforme o grau do princípio oligárquico em voga (se muito acentuado ou não), e está proibido àqueles cuja renda não alcance o patamar assinalado aspirar aos cargos públicos.”

Nos Estados oligárquicos a desordem é estimulada, porque uns possuem riquezas imensuráveis enquanto outros se vêem reduzidos à miséria definitiva.”

SÓCRATES – Mas acaso não há a seguinte distinção, meu querido Adimanto: que Deus quisera que os zangões alados houvessem nascido sem ferrão, enquanto que entre os zangões de dois pés alguns o têm, e aliás pungente além do normal?”

Nada é mais veloz e violento no jovem que a transição da ambição à avareza.”

O avaro é aquele que põe as riquezas acima de tudo em questão de acumulação, mas não valoriza proporcionalmente seu dispêndio. Já viste que o avaro usa o mínimo possível de recursos naturais que tem à mão? Priva-se do que é humanamente possível e por intermédio da ganância ilimitada acaba por dominar seus próprios desejos, reputando-os insensatos.”

– Sabes para onde deves dirigir teus olhos a fim de enxergar os desejos maléficos dos homens?

– Onde?

– Para esses conselhos tutelares de órfãos ou qualquer outro lugar ou associação de pessoas onde é-se livre para agir de forma má.

– Tens razão, Sócrates,

– Não é evidente que, se em outros negócios gozam de boa reputação pela aparência de homens justos, os maus sempre contêm seus desejos insidiosos e sua imprudência violenta o quanto a necessidade lhes permite, em caráter temporário, passando a manifestá-los somente onde ninguém pode zelar pela virtude nem pela conduta mais racional nem puni-los com a perda dos bens de que desfrutam em vida?

– Isso é absolutamente certo.

– Mas quando a questão é dissipar os bens de outrem, aí, por Zeus!, nestes homens serás capaz de enxergar distintamente desejos que mais parecem pertencer a zangões.

– Estou convencido a este respeito.

– Um homem assim estará sujeito a fortes rebeliões dentro de si mesmo; como que haverá dentro de si dois homens diferentes, cujos desejos lutarão para prevalecer. De praxe, a parte melhor subjugará a outra.

– Temo que sim.

– E é por isso que vês que, em aparência, estes vilões terão aspecto de moderados e donos de si próprios, mais até que em comparação a muitos homens bons que não conseguem ocultar seus (menores) defeitos. Mas sabe tu que a verdadeira virtude, capaz de produzir a harmonia e a unidade, ainda seguirá longe de habitar na alma destes homens dissimulados.

– De fato.”

Este homem, portanto, aparece no dia-a-dia à maneira oligárquica, isto é, menos poderoso do que pode ser; assim, ele sairá derrotado muitas vezes diante dos olhos do público, mas, como o que nele predomina é a avareza, seguirá sendo rico, e eis o que lhe importa.”

Tudo isto faz com que haja no Estado indivíduos dotados de ferrões, uns oprimidos pela dúvida, outros despojados de seus direitos e alguns padecendo de ambos ao mesmo tempo; mas o que é certo é que todos esses sujeitos-zangões estão em perpétua hostilidade contra aqueles que ficaram ricos pondo a mão em suas fortunas, sem escrúpulos de consciência; em hostilidade também para com o cidadão comum, que é bem diferente dele; o que o zangão quererá, no fim, será promover uma revolução.

– Disseste-o bem.

– E enquanto isso lá se vão os negociantes na rua, de cabeça baixa, pensando só em si mesmos e no próprio lucro; os comerciantes são outros zangões, que ferem com o aguilhão do dinheiro todos que estiverem indefesos a seu alcance; e quanto mais prevalecem os interesses mercantis no Estado, mais se vêem zangões e pobres.”

– Que espécie de lei poderia tentar remediar o mal nesse Estado?

– Na falta de remédio melhor, uma que caberia seria aquela que forçasse o cidadão a preocupar-se com sua virtude. Vê: se os contratos voluntários se celebrassem por conta e risco exclusivos do prestamista,¹ a usura se exerceria com menos descaro e este mal da avareza não proliferaria tanto.”

¹ Platão quer dizer: o Estado nada terá que ver com esta dívida; não usará sua força de polícia, mandando prender, castigar ou executar devedores. A possibilidade do calote será inerente ao ato de empréstimo. O particular que emprestou dinheiro que resolva o problema sozinho, e quem busca fazer justiça com suas mãos deverá se preparar para a legítima defesa de seus alvos.

os ricos, sendo assim, nenhum motivo têm para desprezar os pobres. Pelo contrário: um pobre, adelgaçado e amorenado de tanto se expor ao sol, quando cotejado com o rico, educado, pálido e gordo, em meio à guerra, no momento em que ambos defendem sua polis, parece mais ser digno de inveja do que lastimado, exibindo uma espécie de alegria secreta estimulada pelo sofrimento e pesar, ao passo que o rico ao menor esforço já se encontra exausto!”

O governo se faz democrático quando os pobres, obtendo a vantagem sobre os ricos, degolam alguns deles, desterram outros, repartem com os que foram poupados os cargos da administração; quinhão que, aliás, nestes governos, costuma-se determinar por sorteio.”

– Não serão, antes, homens livres num Estado repleto de liberdade e franqueza, e não terá cada um a liberdade de fazer o que lhe der na veneta?

– Se tu dizes…

– Mas onde quer que impere essa licença, é claro que cada cidadão dispõe de si mesmo e escolhe a seu bel prazer o gênero de vida que mais lhe agrada!

– É evidente.

– Portanto, será este o regime com mais diferenciações de classes.

– Como não?

– E eis que, em verdade, esta forma de governo tem a aparência de ser a mais bela de todas, e não deixa de desencadear um efeito admirável essa diversidade prodigiosa de caracteres, exatamente como as flores bordadas que fazem ressaltar a beleza de uma pintura. Bom, pelo menos será a forma mais bela de governo para aqueles que julgam as coisas como as mulheres e as crianças quando se admiram com as mais tresloucadas misturas de objetos.”

Se quisera alguém formar um plano de Estado, como fizemos até aqui, nada mais teria de fazer senão trasladar-se a qualquer Estado democrático, pois aí se encontra um mercado em que se vendem características de todos os regimes existentes.”

E, julgando à primeira vista, não é bastante cômodo e agradável não ser-se obrigado a desempenhar um cargo público, ainda que se possua os méritos requeridos? Não estar submetido a nenhuma autoridade, em caso de não querer; escolher se vai ou não à guerra; e estar em guerra e discórdia, ainda que os outros estejam em paz, bastando para isso desejá-lo; poder ser juiz e magistrado, por mais que a lei proíba o exercício dessas funções, caso a isso se ambicione?”

– Ah, com que magnífica indiferença se pisoteiam todas essas máximas – sem mesmo se dar ao trabalho de examinar qual foi a educação dos que gerem a coisa pública! E que empenho, na contramão, em acolher e honrar os políticos que lisonjeiam a plebe e se declaram amigos do povo!

– Um nobre regime, sem dúvida, tsc!

– Tais são, e não só!, as características da democracia: um governo extremamente cômodo, sem mando algum”

O desejo por toda sorte de comidas e quitutes e temperos, desejo reprimível, mediante uma boa educação desde a mocidade, desejo daninho ao corpo e à alma, à razão e à temperança, não deve ser compreendido com razão entre os desejos supérfluos?”

Algumas vezes sucede da facção democrática ceder ante a oligárquica, e então certos desejos são em parte destruídos e em parte arrancados d’alma, em decorrência de um pudor que é despertado no jovem, que através desse acidente reentra nas sendas no saber.

E no entanto, devido à má educação que recebeu de seu pai, novos desejos, mais fortes e numerosos, sucedem aos que haviam sido exilados.”

Eis aí quando voltam a se juntar aos comedores de lótus,(*) sem nem ao menos se envergonharem por isso!”

(*) “Ver o episódio dos <lotófagos> na Odisséia: o fruto que faz perder a memória.”

encobre-se a fealdade com os nomes mais preciosos: a insolência vira <boa educação>; anarquia vira <liberdade>; devassidão vira <magnificência>; desfaçatez vira <valor>.”

Carpe diem! O primeiro desejo a aparecer é o primeiro a ser cumprido. Hoje tem desejo de se embriagar ouvindo canções báquicas? Fá-lo. E amanhã lhe ocorre de jejuar e nada beber senão água. Uma hora gasta as energias na ginástica; na outra põe-se ocioso, despreocupado de tudo. Ora é filósofo, ora <homem de Estado>, sobe à tribuna, fala e age sem saber o que fala e o que faz. Num dia inveja a condição dos guerreiros e alista-se soldado; noutro, vira comerciante, porque tinha desenvolvido inveja dos comerciantes. Em suma, sua conduta é totalmente frouxa e inconsistente; e chama a tudo isso de <vida livre e prazenteira, vida feliz>!

– Ó, Sócrates, parece que pintaste com palavras a vida de um amante da igualdade!”

– Vejamos, meu querido, agora, como se forma o governo tirânico; tudo indica que se origina das democracias.

– Decerto.

– A passagem da democracia à tirania não se assemelha um tanto à passagem da oligarquia à democracia?

– Não entendo.

– O que na oligarquia se considera o maior bem, e o que, pode-se dizer, é a origem desta forma de governo, é a riqueza; concordas?

– Sim.

– O que causa sua ruína, porém, não é o próprio desejo de enriquecer tornado insaciável, o que causa uma indiferença letal a todas as outras coisas?

– Tens razão.

– Do mesmo modo, a causa da ruína de uma democracia é o desejo insaciável do que ela vê como seu maior bem.

– E que bem é esse?

– A liberdade. Num Estado democrático ouve-se por todos os cantos que a liberdade é o mais precioso dos bens e, por isso, o homem que nasceu livre sempre escolherá ali fixar sua residência.

– De fato, Sócrates, isso se ouve muito nas ruas.

– Mas não é justamente esse amor desenfreado à liberdade, acompanhado invariavelmente da mais extremada indiferença a tudo o mais, o que leva à decadência inelutável deste regime, despertando, por assim dizer, a tirania?

– Explica esta etapa melhor, Sócrates.

– Quando um Estado democrático, devorado por uma sede ardente de liberdade, é governado por maus escanceadores,¹ que derramam a bebida chamada liberdade pura, enchendo as taças e fazendo todos os convivas beberem copiosamente até a embriaguez. Daí em diante, o bêbado que pede mais e mais, caso não creia que o governante é liberal o suficiente com seu quinhão de liberdade, acusa e castiga qualquer <inimigo da liberdade> que não queira fazê-la jorrar; estes são considerados os maiores traidores da pátria e são tachados de reacionários, que desejam voltar aos tempos de oligarquia e restabelecer privilégios exclusivos.

– Não posso tirar nem pôr de nada do que disseste.

– E com igual desprezo tratam aqueles que ainda mostram algum respeito e submissão aos magistrados, atirando-lhes na cara que os magistrados para nada servem; que, em si, todo servidor público não passa de um escravo voluntário. Neste ponto, o homem típico exalta, seja na vida pública ou na vida privada, a igualdade suprema, quando magistrados não podem estar num patamar superior ao do cidadão comum. Num Estado tal, não deveria ser uma regra a extensão da liberdade total a todo e qualquer um?

– Ora, Sócrates, absolutamente!

– Não penetrará a anarquia no seio das famílias; não se alastrará mesmo até o reino animal?

– Não entendo o que acabaste de dizer!”

¹ Termo em desuso: quem serve vinho; mal e mal poderíamos adaptar para “garçom” ou quiçá “mordomo” nesta frase.

os professores temem e bajulam seus alunos; estes ridicularizam seus mentores e responsáveis. (…) Os velhos, por sua vez, condescendentes com os jovens, tornam-se jocosos e piadistas, a fim de imitar suas maneiras, temendo passar por caracteres demasiado altaneiros e despóticos.

Mas sem dúvida o abuso mais intolerável que a liberdade introduz na democracia é os escravos de ambos os sexos não serem menos livres que aqueles que os compraram. Ah, quase me esquecia de descrever o grau de liberdade e igualdade que alcançam as relações entre o homem e a mulher!”

são os animais domésticos mais livres neste governo que em nenhum outro. As cadelas, como diz o provérbio, ficam parecidas com as donas; e os cavalos e asnos, acostumados a caminhar de cabeça erguida e sem reverência, não seriam os primeiros a dar licença, num caminho estreito.”

não se pode incorrer num excesso sem se arriscar a cair no excesso contrário.”

– É evidente, pois, que é dessa estirpe de protetores (populistas) que nasce o tirano, dela e somente dela.

– Nada mais indiscutível.

– Mas por que o <protetor do povo> começa a se fazer tirano? Não seria porque começa a fazer parecido com o que dizem que se passava na Arcádia, no templo de Zeus Liceu?

– E o que é que dizem que ali se passava?

– Dizem¹ que quem ali comia entranhas humanas, mescladas com os restos de outros sacrifícios animais, se convertia logo em lobo. Nunca ouviste falar disso?

– Já, sim.

– De forma afim, quando o protetor do povo vê que este se encontra completamente submisso a suas vontades, empapa suas mãos no sangue dos seus próprios concidadãos. Utiliza-se de acusações caluniosas para se livrar de seus oponentes nos tribunais corrompidos, fazendo-os ser condenados sem fundamento, banhando sua língua de déspota e sua boca imunda com o sangue de seus irmãos, valendo-se da lei do exílio e das forjas e correntes. Propõe a abolição das dívidas e uma reforma agrária. Não seria uma necessidade, neste caso, para um tal caráter, perecer nas mãos dos inimigos ou, se quiser sobreviver, tornar-se tirano do Estado, convertendo-se no lobo do homem?

¹ Não é somente uma lenda de Platão ou mera crença popular tirada do vazio, ou pelo menos são dados compartilhados por outros autores, como Pausânias, livro 7.

O exilado de hoje é o tirano de amanhã.”

Se nem mesmo a classe no poder inteira consegue banir ou incapacitar seu adversário, muito menos condená-lo à morte, acusando-o como <inimigo do povo>, é natural pensar que atentarão contra sua vida nas sombras.

O homem ambicioso que já houver chegado a tal extremo aproveitará a ocasião para fazer ao povo uma petição. Pedir-lhe-á uma guarda pessoal, destinada, afinal, a proteger o protetor do povo!”

Quando as coisas já chegaram a esse ponto, todo homem que possui grandes riquezas – e que por essa razão passa por inimigo do povo – toma para si o oráculo dirigido a Creso: foge seguindo o rio Hermos, de leito pedregoso, e não teme o rótulo de covarde.(*)”

(*) “Ver Heródoto para mais detalhes.”

o protetor do povo destrói à esquerda e à direita todos aqueles de quem desconfia, para depois se declarar tirano abertamente.”

E não sorri graciosamente a todos que encontra, logo nos primeiros dias de sua dominação? E não diz que, nem de longe, sonha em ser tirano? Não faz as mais pomposas promessas em público e em particular, perdoando todas as dívidas, repartindo a terra entre o povo e os seus favoritos, e tratando todo mundo com benevolência e mansidão?”

– …e tem o cuidado de conservar sempre algumas sementes de guerra para que o povo sinta a necessidade de um chefe.

– É natural.

– Principalmente para que os cidadãos – empobrecidos pelos impostos de guerra – só pensem nas suas necessidades diárias, sem tempo para conspirar contra ele.

– Obviamente.

– E também faz isso, creio eu, para ter um meio seguro de desfazer-se dos de coração demasiado altivo para que se submetam a sua vontade, expondo-os aos ataques do inimigo.”

– O problema é que semelhante conduta só pode torná-lo mais e mais odioso ao cidadão.

– E não me estranha!

– E alguns daqueles que ajudaram em sua ascensão, os dotados de mais autoridade depois dele mesmo, não se dirigirão a ele e não falarão entre si com demasiada liberdade sobre o que se passa, tratando inclusive de censurá-lo? Isto é, penso eu que ao menos os mais atrevidos o farão.

– Imagino que sim.

– E então é preciso que o tirano se livre deles caso queira reinar tranqüilo; sem distinguir amigo de inimigo, ele faz com que desapareçam todos os homens possuidores de algum mérito.

– Isso é evidente.”

Faz justamente o contrário dos médicos, que purgam o corpo excretando o mal para conservar o bem.”

Vês que ele vive premido sem trégua pela necessidade de perecer ou então viver ao lado da canalha, e é inevitável que a canalha o aporrinhe bastante!”

– Ao formar sua guarda pessoal, um expediente que sói usar é recrutar escravos, a quem assegura que serão livres assim que o ajudarem a matar seus senhores.

– E faz muito bem, já que tais escravos lhe seriam inteiramente fiéis.

– Vês como é feliz a condição do tirano, que se vê obrigado a destruir cidadãos e a estabelecer a amizade com escravos, daqui em diante seus fiéis servidores!”

É com razão que se exalta a tragédia como uma escola de sabedoria, particularmente as de Eurípides, não achas? Porque Eurípides cunhou esta profunda máxima: os tiranos se fazem sábios mediante o trato com os sábios. Com isso ele quis dizer que os que compõem sua sociedade são muito espertos!

– Reconheço que Eurípides e os outros poetas qualificam a tirania como <divina> em muitas passagens de suas obras.

– Mas como os poetas trágicos são, eles também, sábios, não perdoarão que em nosso Estado, e em todos aqueles governados segundo os nossos princípios, recuse-se admiti-los no governo, uma vez que não passam de bajuladores!”

– Chamas ao tirano <parricida> e <perverso inimigo da velhice>? Mas eis que essas palavras resumem a tirania! O povo, querendo evitar a servidão dos homens livres, acaba sucumbindo ao despotismo dos próprios escravos. Vê-se, então, que a subserviência mais dura e mais amarga é a conseqüência lógica e natural de uma liberdade excessiva e desordenada: a escravidão sob um bando de escravos.”

HENRY IV

Depois de pacificar a terra arrasada pelos desmandos de Ricardo II, Henrique IV encontra uma série de problemas, dentre os quais, os próprios sobrinho e filho, este último o Príncipe de Gales. Um príncipe, como se há de ver, MinúsculO, com o perdão da expressão, e que porta nas entranhas o próprio pai, curiosa inversão (ele tem um rei na barriga). Mas será situação irreversível e incontornável?

KING HENRY IV

But I have sent for him to answer this;

And for this cause awhile we must neglect

Our holy purpose to Jerusalem.

Cousin, on Wednesday next our council we

Will hold at Windsor; so inform the lords:

But come yourself with speed to us again;

For more is to be said and to be done

Than out of anger can be uttered.

WESTMORELAND

I will, my liege.

PRINCE HENRY

Thou art so fat-witted, with drinking of old sack

and unbuttoning thee after supper and sleeping upon

benches after noon, that thou hast forgotten to

demand that truly which thou wouldst truly know.

What a devil hast thou to do with the time of the

day? Unless hours were cups of sack and minutes

capons and clocks the tongues of bawds and dials the

signs of leaping-houses and the blessed sun himself

a fair hot wench in flame-coloured taffeta, I see no

reason why thou shouldst be so superfluous to demand

the time of the day.”

PRÍNCIPE HENRIQUE

Você é tão destemperado, só pensa nesse vinho envelhecido e em desabotoar a camisa depois do almoço e em fazer a sesta na poltrona; tanto é assim que já esqueceu das coisas que não se esquece, e agora me pergunta coisas óbvias. Que diabos tem você com a hora do dia? Que t’importa isto? Só mesmo se as horas fossem taças de vinho e minutos codornas e relógios prostitutas e ponteiros letreiros de puteiro e o santo sol a própria grande e excitante puta da casa, caliente e num vestido de tafetá cor-de-fogo, só mesmo assim veria eu razão na sua leviandade em perguntar QUE HORAS SÃO?.

Com toda sua graça em forma de manteiga, não se frita nem um ovo!

FALSTAFF [o Fanffarrão]

(…) let us be Diana’s foresters, gentlemen of the shade, minions of the moon; and let men say we be men of good government, being governed, as the sea is, by our noble and chaste mistress the moon, under whose countenance we steal.”

FALSTAFF

By the Lord, thou sayest true, lad. And is not my

hostess of the tavern a most sweet wench?

PRINCE HENRY

As the honey of Hybla, my old lad of the castle. And

is not a buff jerkin a most sweet robe of durance?

FALSTAFF

How now, how now, mad wag! what, in thy quips and

thy quiddities? what a plague have I to do with a

buff jerkin?

PRINCE HENRY

Why, what a pox have I to do with my hostess of the tavern?

FALSTAFF

Well, thou hast called her to a reckoning many a

time and oft.

PRINCE HENRY

Did I ever call for thee to pay thy part?

FALSTAFF

No; I’ll give thee thy due, thou hast paid all there.

PRINCE HENRY

Yea, and elsewhere, so far as my coin would stretch;

and where it would not, I have used my credit.

(…)

FALSTAFF

(…) Do not thou, when thou art king, hang a thief.

PRINCE HENRY

No; thou shalt.

FALSTAFF

Shall I? O rare! By the Lord, I’ll be a brave judge.

PRINCE HENRY

Thou judgest false already: I mean, thou shalt have

the hanging of the thieves and so become a rare hangman.

FALSTAFF

Well, Hal, well; and in some sort it jumps with my

humour as well as waiting in the court, I can tell

you.”

A sabedoria grita nas ruas mas nenhum homem presta atenção.

Coisa espalhafatosa não pode ser boa!

Antes de conhecer você eu não sabia de nada.

Agora, veja você, sou pouco menos que um velhaco!

Mas chega! chega de ser bebum

tenho que tomar um rumo

Vadiar é minha vocação

E não é pecado dedicar-se ao seu talento nato

Portanto, vade ao ar, que serás recompensado!

Ó, se o homem há de ser salvo pelo mérito,

Em que círculo do Inferno caberás tu e tua vilania?

Ainda não cavaram tão profundo!

Incrível como a continuação de uma tragédia (ou pelo menos vendeta) seja, em Shakespeare, sem problemas de transição, uma comédia:

PRINCE HENRY

Good morrow, Ned.

POINS

Good morrow, sweet Hal. What says Monsieur Remorse?

what says Sir John Sack and Sugar? Jack! how

agrees the devil and thee about thy soul, that thou

soldest him on Good-Friday last for a cup of Madeira

and a cold capon’s leg?”

POINS

But, my lads, my lads, to-morrow morning, by four

o’clock, early at Gadshill! there are pilgrims going

to Canterbury with rich offerings, and traders

riding to London with fat purses: I have vizards [disfarces]

for you all; you have horses for yourselves:

Gadshill lies to-night in Rochester: I have bespoke

supper to-morrow night in Eastcheap: we may do it

as secure as sleep. If you will go, I will stuff

your purses full of crowns; if you will not, tarry

at home and be hanged.

FALSTAFF

Hear ye, Yedward; if I tarry at home and go not,

I’ll hang you for going.

POINS

You will, chops?

FALSTAFF

Hal, wilt thou make one?

PRINCE HENRY

Who, I rob? I a thief? not I, by my faith.

FALSTAFF

There’s neither honesty, manhood, nor good

fellowship in thee, nor thou camest not of the blood

royal, if thou darest not stand for ten shillings.

PRINCE HENRY

Well then, once in my days I’ll be a madcap.

FALSTAFF

Why, that’s well said.

PRINCE HENRY

Well, come what will, I’ll tarry at home.

FALSTAFF

By the Lord, I’ll be a traitor then, when thou art king.

PRINCE HENRY

I care not.

POINS

Sir John, I prithee, leave the prince and me alone:

I will lay him down such reasons for this adventure

that he shall go.

FALSTAFF

Well, God give thee the spirit of persuasion and him

the ears of profiting, that what thou speakest may

move and what he hears may be believed, that the

true prince may, for recreation sake, prove a false

thief; for the poor abuses of the time want

countenance. Farewell: you shall find me in Eastcheap.”

POINS [privately to the prince]

Falstaff, Bardolph, Peto and Gadshill

shall rob those men that we have already waylaid:

yourself and I will not be there; and when they

have the booty, if you and I do not rob them, cut

this head off from my shoulders.”

POINS

Tut! our horses they shall not see: I’ll tie them

in the wood; our vizards we will change after we

leave them: and, sirrah, I have cases of buckram [capas de couro]

for the nonce, to immask our noted outward garments.”

Yet herein will I imitate the sun,

Who doth permit the base contagious clouds

To smother up his beauty from the world,

That, when he please again to be himself,

Being wanted, he may be more wonder’d at,

By breaking through the foul and ugly mists

Of vapours that did seem to strangle him.

If all the year were playing holidays,

To sport would be as tedious as to work;

But when they seldom come, they wish’d for come,

And nothing pleaseth but rare accidents.

So, when this loose behavior I throw off

And pay the debt I never promised,

By how much better than my word I am,

By so much shall I falsify men’s hopes;

And like bright metal on a sullen ground,

My reformation, glittering o’er my fault,

Shall show more goodly and attract more eyes

Than that which hath no foil to set it off.

I’ll so offend, to make offence a skill;

Redeeming time when men think least I will.”

SOL & CONTEMPLAÇÃO

Imitarei o sol,

Que dá licença para as vulgares e licenciosas nuvens

Eclipsarem sua beleza para o mundo,

E que, quando deseja de novo ser si mesmo,

Sendo por todos ansiado, é ainda mais festejado

Ao romper por entre o feio e sórdido véu

De vapores que pareciam ter seus raios estrangulado.

Se o ano todo fossem rejubilantes feriados,

Recrear-se seria tedioso como trabalhar;

Mas quando eles vêm raro, são bastante esperados,

E acolhidos como dádiva oportuna.

É assim então que,

Quando eu deitar de lado a folga,

Deixando de ser sempre folgado,

Pagando de modo inesperado

A dívida da qual era o tributário,

Quão melhor não me mostrarei

Que meu próprio hábito,

Tanto me esforcei para frustrar expectativas!

E como metal brilhante em solo esquálido,

Minha redenção, contrastando com minhas faltas,

Parecerá ‘inda melhor e atrairá muito mais fãs

Que as qualidades constantes, sem máscara.

Ofenderei os olhos e o tato com cuidado

Par’enfim converter a ofensa em agrado,

Recuperando o que já davam por perdido.

(Tradução do monólogo do Príncipe Henrique, no final da CENA II, PRIMEIRO ATO.)

KING HENRY IV

Let me not hear you speak of Mortimer:

Send me your prisoners with the speediest means,

Or you shall hear in such a kind from me

As will displease you. My Lord Northumberland,

We licence your departure with your son.

Send us your prisoners, or you will hear of it.”

HOTSPUR [o sobrinho sedioso]

But I will lift the down-trod Mortimer

As high in the air as this unthankful king,

As this ingrate and canker’d Bolingbroke.”

HOTSPUR

He will, forsooth, have all my prisoners;

And when I urged the ransom once again

Of my wife’s brother, then his cheek look’d pale,

And on my face he turn’d an eye of death,

Trembling even at the name of Mortimer.

EARL OF WORCESTER

I cannot blame him: was not he proclaim’d

By Richard that dead is the next of blood?”

HOTSPUR

But soft, I pray you; did King Richard then

Proclaim my brother Edmund Mortimer

Heir to the crown?

NORTHUMBERLAND

He did; myself did hear it.”

HOTSPUR

All studies here I solemnly defy,

Save how to gall and pinch this Bolingbroke:

And that same sword-and-buckler Prince of Wales,

But that I think his father loves him not

And would be glad he met with some mischance,

I would have him poison’d with a pot of ale.”

HOTSPUR

(…)

Why, what a candy deal of courtesy

This fawning greyhound then did proffer me!

Look,<when his infant fortune came to age>,

And <gentle Harry Percy>, and <kind cousin>;

O, the devil take such cozeners! God forgive me!”

EARL OF WORCESTER

Then once more to your Scottish prisoners.

Deliver them up without their ransom straight,

And make the Douglas’ son your only mean

For powers in Scotland; which, for divers reasons

Which I shall send you written, be assured,

Will easily be granted.”

HOTSPUR

Why, it cannot choose but be a noble plot;

And then the power of Scotland and of York,

To join with Mortimer, ha?

EARL OF WORCESTER

And so they shall.

HOTSPUR

In faith, it is exceedingly well aim’d.”

EARL OF WORCESTER

(…)

For, bear ourselves as even as we can,

The king will always think him in our debt,

And think we think ourselves unsatisfied,

Till he hath found a time to pay us home:

And see already how he doth begin

To make us strangers to his looks of love.”

GADSHILL

(…) I am joined with no foot-land rakers, no long-staff 6-penny strikers, none of these mad mustachio purple-hued malt-worms; but with nobility and tranquillity, burgomasters and great oneyers, such as can hold in, such as will strike sooner than speak, and speak sooner than drink, and drink sooner than pray: and yet, zounds, I lie; for they pray continually to their saint, the commonwealth; or rather, not pray to her, but prey on her, for they ride up and down on her and make her their boots.”

FALSTAFF

(…)

a plague upon it when thieves cannot be true one to another!”

LADY PERCY

Out, you mad-headed ape!

A weasel hath not such a deal of spleen

As you are toss’d with. In faith,

I’ll know your business, Harry, that I will.

I fear my brother Mortimer doth stir

About his title, and hath sent for you

To line his enterprise: but if you go,– ”

HOTSPUR

Away,

Away, you trifler! Love! I love thee not,

I care not for thee, Kate: this is no world

To play with mammets and to tilt with lips:

We must have bloody noses and crack’d crowns,

And pass them current too. God’s me, my horse!

What say’st thou, Kate? what would’st thou

have with me?”

ESPORA-QUENTE

Fora,

Fora daqui, intrigueira! Amor?! Eu não te amo,

Me fodo pra você, Kate: isso não é mundo

Para idolatrar pés-de-barros nem titilar com os lábios:

Tem que ter fogo nas ventas, cara feia, não confiar em nada,

Nem ninguém; nem em quem tem ou terá uma coroa sobre a fronte!

Deus sou eu, Eu e meu cavalo! Que diz disso, ó querida Kate?

Que merda ‘cê’inda quer comigo?”

você é constante, a sua maneira,

mas não deixa de ser mulher: em prol do sigilo,

Nada de senhoras por perto; quero crer

Que você não fala nada sobre o que não sabe;

Por isso ainda acredito em você, querida e amável

Esposa do Espora!”

PRINCE HENRY

I am now of all humours that have showed themselves

humours since the old days of goodman Adam to the

pupil age of this present twelve o’clock at midnight.”

FRANCIS

Anon, anon, sir.

Exit

PRINCE HENRY

That ever this fellow should have fewer words than a parrot, and yet the son of a woman! His industry is upstairs and downstairs; his eloquence the parcel of a reckoning. I am not yet of Percy’s mind, the Hotspur of the north; he that kills me some six or seven dozen of Scots at a breakfast, washes his hands, and says to his wife <Fie upon this quiet life! I want work.> <O my sweet Harry,> says she, <how many hast thou killed to-day?> <Give my roan horse a drench,> says he; and answers <Some fourteen,> an hour after; <a trifle, a trifle.> I prithee, call in Falstaff: I’ll play Percy, and that damned brawn shall play Dame Mortimer his wife. <Rivo!> says the drunkard. Call in ribs, call in tallow.”

there is nothing but roguery to be found in villanous man: yet a coward is worse than a cup of sack with lime in it.”

FALSTAFF

I am a rogue, if I were not at half-sword with a

dozen of them two hours together. I have ‘scaped by

miracle. I am eight times thrust through the

doublet, four through the hose; my buckler cut

through and through; my sword hacked like a

hand-saw–ecce signum! I never dealt better since

I was a man: all would not do. A plague of all

cowards! Let them speak: if they speak more or

less than truth, they are villains and the sons of darkness.

PRINCE HENRY

Speak, sirs; how was it?

GADSHILL

We four set upon some dozen–

FALSTAFF

Sixteen at least, my lord.

GADSHILL

And bound them.

PETO

No, no, they were not bound.

FALSTAFF

You rogue, they were bound, every man of them; or I

am a Jew else, an Ebrew Jew.

GADSHILL

As we were sharing, some six or seven fresh men set upon us–

FALSTAFF

And unbound the rest, and then come in the other.

PRINCE HENRY

What, fought you with them all?

FALSTAFF

All! I know not what you call all; but if I fought

not with fifty of them, I am a bunch of radish: if

there were not two or three and fifty upon poor old

Jack, then am I no two-legged creature.

PRINCE HENRY

Pray God you have not murdered some of them.

FALSTAFF

Nay, that’s past praying for: I have peppered two

of them; two I am sure I have paid, two rogues

in buckram suits. I tell thee what, Hal, if I tell

thee a lie, spit in my face, call me horse. Thou

knowest my old ward; here I lay and thus I bore my

point. Four rogues in buckram let drive at me–

PRINCE HENRY

What, four? thou saidst but two even now.

FALSTAFF

Four, Hal; I told thee four.

POINS

Ay, ay, he said four.

FALSTAFF

These four came all a-front, and mainly thrust at

me. I made me no more ado but took all their seven

points in my target, thus.

PRINCE HENRY

Seven? why, there were but four even now.

FALSTAFF

In buckram?

POINS

Ay, four, in buckram suits.

FALSTAFF

Seven, by these hilts, or I am a villain else.

PRINCE HENRY

Prithee, let him alone; we shall have more anon.

FALSTAFF

Dost thou hear me, Hal?

PRINCE HENRY

Ay, and mark thee too, Jack.

FALSTAFF

Do so, for it is worth the listening to. These nine

in buckram that I told thee of–

PRINCE HENRY

So, two more already.

FALSTAFF

Their points being broken,–

POINS

Down fell their hose.

FALSTAFF

Began to give me ground: but I followed me close,

came in foot and hand; and with a thought seven of

the eleven I paid.

PRINCE HENRY

O monstrous! eleven buckram men grown out of two!

FALSTAFF

But, as the devil would have it, three misbegotten

knaves in Kendal green came at my back and let drive

at me; for it was so dark, Hal, that thou couldst

not see thy hand.

PRINCE HENRY

These lies are like their father that begets them;

gross as a mountain, open, palpable. Why, thou

clay-brained guts, thou knotty-pated fool, thou

whoreson, obscene, grease tallow-catch,–

FALSTAFF

What, art thou mad? art thou mad? is not the truth

the truth?

PRINCE HENRY

Why, how couldst thou know these men in Kendal

green, when it was so dark thou couldst not see thy

hand? come, tell us your reason: what sayest thou to this?

POINS

Come, your reason, Jack, your reason.

FALSTAFF

What, upon compulsion? ‘Zounds, an I were at the

strappado, or all the racks in the world, I would

not tell you on compulsion. Give you a reason on

compulsion! If reasons were as plentiful as

blackberries, I would give no man a reason upon

compulsion, I.

PRINCE HENRY

I’ll be no longer guilty of this sin; this sanguine

coward, this bed-presser, this horseback-breaker,

this huge hill of flesh,–

FALSTAFF

Sblood, you starveling, you elf-skin, you dried

neat’s tongue, you bull’s pizzle, you stock-fish! O

for breath to utter what is like thee! you

tailor’s-yard, you sheath, you bowcase; you vile

standing-tuck,–

PRINCE HENRY

Well, breathe awhile, and then to it again: and

when thou hast tired thyself in base comparisons,

hear me speak but this.

POINS

Mark, Jack.

PRINCE HENRY

We two saw you four set on four and bound them, and

were masters of their wealth. Mark now, how a plain

tale shall put you down. Then did we two set on you

four; and, with a word, out-faced you from your

prize, and have it; yea, and can show it you here in

the house: and, Falstaff, you carried your guts

away as nimbly, with as quick dexterity, and roared

for mercy and still run and roared, as ever I heard

bull-calf. What a slave art thou, to hack thy sword

as thou hast done, and then say it was in fight!

What trick, what device, what starting-hole, canst

thou now find out to hide thee from this open and

apparent shame?

POINS

Come, let’s hear, Jack; what trick hast thou now?

FALSTAFF

By the Lord, I knew ye as well as he that made ye.

Why, hear you, my masters: was it for me to kill the

heir-apparent? should I turn upon the true prince?

why, thou knowest I am as valiant as Hercules: but

beware instinct; the lion will not touch the true

prince. Instinct is a great matter; I was now a

coward on instinct. I shall think the better of

myself and thee during my life; I for a valiant

lion, and thou for a true prince. But, by the Lord,

lads, I am glad you have the money. Hostess, clap

to the doors: watch to-night, pray to-morrow.

Gallants, lads, boys, hearts of gold, all the titles

of good fellowship come to you! What, shall we be

merry? shall we have a play extempore?

PRINCE HENRY

Content; and the argument shall be thy running away.

FALSTAFF

Ah, no more of that, Hal, an thou lovest me!”

BARDOLPH

Yea, and to tickle our noses with spear-grass to

make them bleed, and then to beslubber our garments

with it and swear it was the blood of true men. I

did that I did not this seven year before, I blushed

to hear his monstrous devices.

PRINCE HENRY

O villain, thou stolest a cup of sack 18 years

ago, and wert taken with the manner, and ever since

thou hast blushed extempore. Thou hadst fire and

sword on thy side, and yet thou rannest away: what

instinct hadst thou for it?”

PRINCE HENRY

(…)

How long is’t ago, Jack, since thou sawest thine own knee?

FALSTAFF

My own knee! when I was about thy years, Hal, I was

not an eagle’s talon in the waist; I could have

crept into any alderman’s thumb-ring: a plague of

sighing and grief! it blows a man up like a

bladder.”

– Quanto tempo faz, tratante, que não vês mais teu próprio joelho?

– Ah, meu joelhinho! Quando eu tinha sua idade, ‘Riquinho, e minha cintura não media nem a garra duma águia! Eu podia m’enfiar em qualquer anel-médio de gentil-homem, não duvide! Era tão espesso e denso quanto um palito-de-dente. Soprassem e eu sairia voando feito bexiga de ar quente!…”

FALSTAFF

(…) But tell me, Hal,

art not thou horrible afeard? thou being

heir-apparent, could the world pick thee out three

such enemies again as that fiend Douglas, that

spirit Percy, and that devil Glendower? Art thou

not horribly afraid? doth not thy blood thrill at

it?

PRINCE HENRY

Not a whit, I’ faith; I lack some of thy instinct.”

FALSTAFF

Shall I? content: this chair shall be my state,

this dagger my sceptre, and this cushion [almofada] my crown.

PRINCE HENRY

Thy state is taken for a joined-stool, thy golden

sceptre for a leaden dagger, and thy precious rich

crown for a pitiful bald crown!”

Give me a cup of sack to make my eyes look red, that it may be thought I have wept; for I must speak in passion, and I will do it in King Cambyses’ vein.” [O filho de Ciro]

Me dê uma taça de vinho para meus olhos parecerem vermelhos, para que se pense que eu chorei; devo falar apaixonadamente, à maneira do Rei Cambises.”

Juventude não é unha nem barba, que quanto mais se apara mais cresce vigorosa: não, não; quanto mais se desperdiça esse dom, menos desse dom se tem, meu caro! Quanto mais se é jovem, menos se é jovem, compreende-me? Aquele que passa a juventude sem ser um jovem como os outros ainda se sustém jovial por longos anos. Aquele que deita a perder sua juventude a consuma, no pior sentido possível. Quanto mais intensamente o adolescente viveu, mais o prazer ficou para trás, congelado no passado, inacessível à reprise. Tempere essa gastança hormonal!

FALSTAFF [‘rei’presentando]

That thou art my son, I have

partly thy mother’s word, partly my own opinion,

but chiefly a villanous trick of thine eye and a

foolish-hanging of thy nether lip, that doth warrant

me. If then thou be son to me, here lies the point;

why, being son to me, art thou so pointed at? Shall

the blessed sun of heaven prove a micher and eat

blackberries? a question not to be asked. Shall

the sun of England prove a thief and take purses? a

question to be asked. There is a thing, Harry,

which thou hast often heard of and it is known to

many in our land by the name of pitch: this pitch,

as ancient writers do report, doth defile; so doth

the company thou keepest: for, Harry, now I do not

speak to thee in drink but in tears, not in

pleasure but in passion, not in words only, but in

woes also: and yet there is a virtuous man whom I

have often noted in thy company, but I know not his name.”

If then the tree may be

known by the fruit, as the fruit by the tree, then,

peremptorily I speak it, there is virtue in that

Falstaff: him keep with, the rest banish. And tell

me now, thou naughty varlet, tell me, where hast

thou been this month?”

PRINCE HARRY [HENRY] [agora no papel de seu próprio pai]

Thou art violently carried away from grace:

there is a devil haunts thee in the likeness of an

old fat man; a tun of man is thy companion. Why

dost thou converse with that trunk of humours, that

bolting-hutch of beastliness, that swollen parcel

of dropsies, that huge bombard of sack, that stuffed

cloak-bag of guts, that roasted Manningtree ox with

the pudding in his belly, that reverend vice, that

grey iniquity, that father ruffian, that vanity in

years? Wherein is he good, but to taste sack and

drink it? wherein neat and cleanly, but to carve a

capon and eat it? wherein cunning, but in craft?

wherein crafty, but in villany? wherein villanous,

but in all things? wherein worthy, but in nothing?

FALSTAFF

I would your grace would take me with you: whom

means your grace?”

If sack and sugar be a fault,

God help the wicked! if to be old and merry be a

sin, then many an old host that I know is damned: if

to be fat be to be hated, then Pharaoh’s lean kine

are to be loved. No, my good lord; banish Peto,

banish Bardolph, banish Poins: but for sweet Jack

Falstaff, kind Jack Falstaff, true Jack Falstaff,

valiant Jack Falstaff, and therefore more valiant,

being, as he is, old Jack Falstaff, banish not him

thy Harry’s company, banish not him thy Harry’s

company: banish plump Jack, and banish all the world.”

Sheriff

One of them is well known, my gracious lord,

A gross fat man.

Carrier

As fat as butter.

PRINCE HENRY

The man, I do assure you, is not here;

For I myself at this time have employ’d him.

And, sheriff, I will engage my word to thee

That I will, by to-morrow dinner-time,

Send him to answer thee, or any man,

For any thing he shall be charged withal:

And so let me entreat you leave the house.”

Sheriff

Good night, my noble lord.

PRINCE HENRY

I think it is good morrow, is it not?

Sheriff

Indeed, my lord, I think it be two o’clock.”

GLENDOWER

I say the earth did shake when I was born.

HOTSPUR

And I say the earth was not of my mind,

If you suppose as fearing you it shook.

GLENDOWER

The heavens were all on fire, the earth did tremble.

HOTSPUR

O, then the earth shook to see the heavens on fire,

And not in fear of your nativity.

Diseased nature oftentimes breaks forth

In strange eruptions; oft the teeming earth

Is with a kind of colic pinch’d and vex’d

By the imprisoning of unruly wind

Within her womb; which, for enlargement striving,

Shakes the old beldam earth and topples down

Steeples and moss-grown towers. At your birth

Our grandam earth, having this distemperature,

In passion shook.

GLENDOWER

Cousin, of many men

I do not bear these crossings. Give me leave

To tell you once again that at my birth

The front of heaven was full of fiery shapes,

The goats ran from the mountains, and the herds

Were strangely clamorous to the frighted fields.

These signs have mark’d me extraordinary;

And all the courses of my life do show

I am not in the roll of common men.

Where is he living, clipp’d in with the sea

That chides the banks of England, Scotland, Wales,

Which calls me pupil, or hath read to me?

And bring him out that is but woman’s son

Can trace me in the tedious ways of art

And hold me pace in deep experiments.

HOTSPUR

I think there’s no man speaks better Welsh.

I’ll to dinner.”

GLENDOWER

I can call spirits from the vasty deep.

HOTSPUR

Why, so can I, or so can any man;

But will they come when you do call for them?

GLENDOWER

Why, I can teach you, cousin, to command

The devil.

HOTSPUR

And I can teach thee, coz, to shame the devil

By telling truth: tell truth and shame the devil.

If thou have power to raise him, bring him hither,

And I’ll be sworn I have power to shame him hence.

O, while you live, tell truth and shame the devil!

MORTIMER

Come, come, no more of this unprofitable chat.”

MORTIMER

(…)

England, from Trent and Severn hitherto,

By south and east is to my part assign’d:

All westward, Wales beyond the Severn shore,

And all the fertile land within that bound,

To Owen Glendower: and, dear coz, to you

The remnant northward, lying off from Trent.

And our indentures tripartite are drawn;

Which being sealed interchangeably,

A business that this night may execute,

To-morrow, cousin Percy, you and I

And my good Lord of Worcester will set forth

To meet your father and the Scottish power,

As is appointed us, at Shrewsbury.

My father Glendower is not ready yet,

Not shall we need his help these fourteen days.

Within that space you may have drawn together

Your tenants, friends and neighbouring gentlemen.”

HOTSPUR

Methinks my moiety, north from Burton here,

In quantity equals not one of yours:

See how this river comes me cranking in,

And cuts me from the best of all my land

A huge half-moon, a monstrous cantle out.

I’ll have the current in this place damm’d up;

And here the smug and silver Trent shall run

In a new channel, fair and evenly;

It shall not wind with such a deep indent,

To rob me of so rich a bottom here.

GLENDOWER

Not wind? it shall, it must; you see it doth.

MORTIMER

Yea, but

Mark how he bears his course, and runs me up

With like advantage on the other side;

Gelding the opposed continent as much

As on the other side it takes from you.”

HOTSPUR

Will not you?

GLENDOWER

No, nor you shall not.

HOTSPUR

Who shall say me nay?

GLENDOWER

Why, that will I.

HOTSPUR

Let me not understand you, then; speak it in Welsh.

GLENDOWER

I can speak English, lord, as well as you;

For I was train’d up in the English court;

Where, being but young, I framed to the harp

Many an English ditty lovely well

And gave the tongue a helpful ornament,

A virtue that was never seen in you.

HOTSPUR

Marry,

And I am glad of it with all my heart:

I had rather be a kitten and cry mew

Than one of these same metre ballad-mongers;

I had rather hear a brazen canstick turn’d,

Or a dry wheel grate on the axle-tree;

And that would set my teeth nothing on edge,

Nothing so much as mincing poetry:

Tis like the forced gait of a shuffling nag.”

HOTSPUR

E que sorte a minha!

Agradeço de todo coração não ter o dom;

Preferia mil vezes ser um gatinho que faz miau

Que recitar baladinhas num sarau

Decassilábicas e paraxítonas

Preferia mesmo ouvir rodar uma girândola,

Uma roda sem óleo raspando no seu eixo,

Do que esses mimos pegajosos

Chamados poesia!

É como o trote forçado de um pangaré aleijado!”

Exit GLENDOWER

MORTIMER

Fie, cousin Percy! how you cross my father!

HOTSPUR

I cannot choose: sometime he angers me

With telling me of the mouldwarp and the ant,

Of the dreamer Merlin and his prophecies,

And of a dragon and a finless fish,

A clip-wing’d griffin and a moulten raven,

A couching lion and a ramping cat,

And such a deal of skimble-skamble stuff

As puts me from my faith. I tell you what;

He held me last night at least nine hours

In reckoning up the several devils’ names

That were his lackeys: I cried <hum>, and <well, go to>,

But mark’d him not a word. O, he is as tedious

As a tired horse, a railing wife;

Worse than a smoky house: I had rather live

With cheese and garlic in a windmill, far,

Than feed on cates [gostosuras] and have him talk to me

In any summer-house in Christendom.

MORTIMER

In faith, he is a worthy gentleman,

Exceedingly well read, and profited

In strange concealments, valiant as a lion

And as wondrous affable and as bountiful

As mines of India. Shall I tell you, cousin?

He holds your temper in a high respect

And curbs himself even of his natural scope

When you come ‘cross his humour; faith, he does:

I warrant you, that man is not alive

Might so have tempted him as you have done,

Without the taste of danger and reproof:

But do not use it oft, let me entreat you.”

MORTIMER

This is the deadly spite that angers me;

My wife can speak no English, I no Welsh.”

Glendower speaks to her in Welsh, and she answers him in the same

GLENDOWER

She is desperate here; a peevish self-wind harlotry,

one that no persuasion can do good upon.

The lady speaks in Welsh

MORTIMER

I understand thy looks: that pretty Welsh

Which thou pour’st down from these swelling heavens

I am too perfect in; and, but for shame,

In such a parley should I answer thee.

The lady speaks again in Welsh

I understand thy kisses and thou mine,

And that’s a feeling disputation:

But I will never be a truant, love,

Till I have learned thy language; for thy tongue

Makes Welsh as sweet as ditties highly penn’d,

Sung by a fair queen in a summer’s bower,

With ravishing division, to her lute.

GLENDOWER

Nay, if you melt, then will she run mad.

The lady speaks again in Welsh

MORTIMER

O, I am ignorance itself in this!”

The music plays

HOTSPUR

Now I perceive the devil understands Welsh;

And ‘tis no marvel he is so humorous.

By’r lady, he is a good musician.”

Você jura como a mulher dum confeiteiro”

KING HENRY IV

For all the world

As thou art to this hour was Richard then

When I from France set foot at Ravenspurgh,

And even as I was then is Percy now.

Now, by my sceptre and my soul to boot,

He hath more worthy interest to the state

Than thou the shadow of succession;

For of no right, nor colour like to right,

He doth fill fields with harness in the realm,

Turns head against the lion’s armed jaws,

And, being no more in debt to years than thou,

Leads ancient lords and reverend bishops on

To bloody battles and to bruising arms.

What never-dying honour hath he got

Against renowned Douglas! whose high deeds,

Whose hot incursions and great name in arms

Holds from all soldiers chief majority

And military title capital

Through all the kingdoms that acknowledge Christ:

Thrice hath this Hotspur, Mars in swathling clothes,

This infant warrior, in his enterprises

Discomfited great Douglas, ta’en him once,

Enlarged him and made a friend of him,

To fill the mouth of deep defiance up

And shake the peace and safety of our throne.

And what say you to this? Percy, Northumberland,

The Archbishop’s grace of York, Douglas, Mortimer,

Capitulate against us and are up.

But wherefore do I tell these news to thee?

Why, Harry, do I tell thee of my foes,

Which art my near’st and dearest enemy?

Thou that art like enough, through vassal fear,

Base inclination and the start of spleen

To fight against me under Percy’s pay,

To dog his heels and curtsy at his frowns,

To show how much thou art degenerate.”

FALSTAFF

Why, there is it: come sing me a bawdy song; make

me merry. I was as virtuously given as a gentleman

need to be; virtuous enough; swore little; diced not

above seven times a week; went to a bawdy-house once

in a quarter–of an hour; paid money that I

borrowed, three of four times; lived well and in

good compass: and now I live out of all order, out

of all compass.

BARDOLPH

Why, you are so fat, Sir John, that you must needs

be out of all compass, out of all reasonable

compass, Sir John.”

Yet all goes well, yet all our joints are whole.”

HOTSPUR

Forty let it be:

My father and Glendower being both away,

The powers of us may serve so great a day

Come, let us take a muster speedily:

Doomsday is near; die all, die merrily.

EARL OF DOUGLAS

Talk not of dying: I am out of fear

Of death or death’s hand for this one-half year.

Exeunt

FALSTAFF

Tut, never fear me: I am as vigilant as a cat to

steal cream.

PRINCE HENRY

I think, to steal cream indeed, for thy theft hath

already made thee butter. But tell me, Jack, whose

fellows are these that come after?

FALSTAFF

Mine, Hal, mine.

PRINCE HENRY

I did never see such pitiful rascals.

FALSTAFF

Tut, tut; good enough to toss; food for powder, food

for powder; they’ll fill a pit as well as better:

tush, man, mortal men, mortal men.

WESTMORELAND

Ay, but, Sir John, methinks they are exceeding poor

and bare, too beggarly.

FALSTAFF

Faith, for their poverty, I know not where they had

that; and for their bareness, I am sure they never

learned that of me.

PRINCE HENRY

No I’ll be sworn; unless you call three fingers on

the ribs bare. But, sirrah, make haste: Percy is

already in the field.”

EARL OF WORCESTER

Good cousin [Deafspur], be advised; stir not tonight.

VERNON

Do not, my lord.

EARL OF DOUGLAS

You do not counsel well:

You speak it out of fear and cold heart.”

VERNON

Come, come it nay not be. I wonder much,

Being men of such great leading as you are,

That you foresee not what impediments

Drag back our expedition: certain horse

Of my cousin Vernon’s are not yet come up:

Your uncle Worcester’s horse came but today;

And now their pride and mettle is asleep,

Their courage with hard labour tame and dull,

That not a horse is half the half of himself.”

Atualmente os cavalos não são nem a metade da metade de si mesmos.

SIR WALTER BLUNT

I come with gracious offers from the king,

if you vouchsafe me hearing and respect.

HOTSPUR

Welcome, Sir Walter Blunt; and would to God

You were of our determination!

Some of us love you well; and even those some

Envy your great deservings and good name,

Because you are not of our quality,

But stand against us like an enemy.”

HOTSPUR

The king is kind; and well we know the king

Knows at what time to promise, when to pay.

My father and my uncle and myself

Did give him that same royalty he wears;

And when he was not six and twenty strong,

Sick in the world’s regard, wretched and low,

A poor unminded outlaw sneaking home,

My father gave him welcome to the shore;

And when he heard him swear and vow to God

He came but to be Duke of Lancaster,

To sue his livery and beg his peace,

With tears of innocency and terms of zeal,

My father, in kind heart and pity moved,

Swore him assistance and perform’d it too.

Now when the lords and barons of the realm

Perceived Northumberland did lean to him,

The more and less came in with cap and knee;

Met him in boroughs, cities, villages,

Attended him on bridges, stood in lanes,

Laid gifts before him, proffer’d him their oaths,

Gave him their heirs, as pages follow’d him

Even at the heels in golden multitudes.

He presently, as greatness knows itself,

Steps me a little higher than his vow

Made to my father, while his blood was poor,

Upon the naked shore at Ravenspurgh;

And now, forsooth, takes on him to reform

Some certain edicts and some strait decrees

That lie too heavy on the commonwealth,

Cries out upon abuses, seems to weep

Over his country’s wrongs; and by this face,

This seeming brow of justice, did he win

The hearts of all that he did angle for;

Proceeded further; cut me off the heads

Of all the favourites that the absent king

In deputation left behind him here,

When he was personal in the Irish war.

SIR WALTER BLUNT

Tut, I came not to hear this.”

EARL OF WORCESTER

It pleased your majesty to turn your looks

Of favour from myself and all our house;

And yet I must remember you, my lord,

We were the first and dearest of your friends.

For you my staff of office did I break

In Richard’s time; and posted day and night

to meet you on the way, and kiss your hand,

When yet you were in place and in account

Nothing so strong and fortunate as I.

It was myself, my brother and his son,

That brought you home and boldly did outdare

The dangers of the time. You swore to us,

And you did swear that oath at Doncaster,

That you did nothing purpose ‘gainst the state;

Nor claim no further than your new-fall’n right,

The seat of Gaunt, dukedom of Lancaster:

To this we swore our aid. But in short space

It rain’d down fortune showering on your head;

And such a flood of greatness fell on you,

What with our help, what with the absent king,

What with the injuries of a wanton time,

The seeming sufferances that you had borne,

And the contrarious winds that held the king

So long in his unlucky Irish wars

That all in England did repute him dead:

And from this swarm of fair advantages

You took occasion to be quickly woo’d

To gripe the general sway into your hand;

Forget your oath to us at Doncaster;

And being fed by us you used us so

As that ungentle hull, the cuckoo’s bird,

Useth the sparrow; did oppress our nest;

Grew by our feeding to so great a bulk

That even our love durst not come near your sight

For fear of swallowing; but with nimble wing

We were enforced, for safety sake, to fly

Out of sight and raise this present head;

Whereby we stand opposed by such means

As you yourself have forged against yourself

By unkind usage, dangerous countenance,

And violation of all faith and troth

Sworn to us in your younger enterprise.”

Both he and they and you, every man

Shall be my friend again and I’ll be his:

So tell your cousin, and bring me word

What he will do: but if he will not yield,

Rebuke and dread correction wait on us

And they shall do their office. So, be gone;

We will not now be troubled with reply:

We offer fair; take it advisedly.”

FALSTAFF

Hal, if thou see me down in the battle and bestride

me, so; ‘tis a point of friendship.

PRINCE HENRY

Nothing but a colossus can do thee that friendship.

Say thy prayers, and farewell.

FALSTAFF

I would ‘twere bed-time, Hal, and all well.

PRINCE HENRY

Why, thou owest God a death.”

Well, ‘tis no matter; honour pricks

me on. Yea, but how if honour prick me off when I

come on? how then? Can honour set to a leg? no: or

an arm? no: or take away the grief of a wound? no.

Honour hath no skill in surgery, then? no. What is

honour? a word. What is in that word honour? what

is that honour? air. A trim reckoning! Who hath it?

he that died o’ Wednesday. Doth he feel it? no.

Doth he hear it? no. ‘Tis insensible, then. Yea,

to the dead. But will it not live with the living?

no. Why? detraction will not suffer it. Therefore

I’ll none of it. Honour is a mere scutcheon: and so

ends my catechism.

Exit

The king should keep his word in loving us;

He will suspect us still and find a time

To punish this offence in other faults:

Suspicion all our lives shall be stuck full of eyes;

For treason is but trusted like the fox,

Who, ne’er so tame, so cherish’d and lock’d up,

Will have a wild trick of his ancestors.

Look how we can, or sad or merrily,

Interpretation will misquote our looks,

And we shall feed like oxen at a stall,

The better cherish’d, still the nearer death.

My nephew’s trespass may be well forgot;

it hath the excuse of youth and heat of blood,

And an adopted name of privilege,

A hair-brain’d Hotspur, govern’d by a spleen:

All his offences live upon my head

And on his father’s; we did train him on,

And, his corruption being ta’en from us,

We, as the spring of all, shall pay for all.

Therefore, good cousin, let not Harry know,

In any case, the offer of the king.”

EARL OF WORCESTER

The Prince of Wales stepp’d forth before the king,

And, nephew, challenged you to single fight.

HOTSPUR

O, would the quarrel lay upon our heads,

And that no man might draw short breath today

But I and Harry Monmouth! Tell me, tell me,

How show’d his tasking? seem’d it in contempt?

VERNON

No, by my soul; I never in my life

Did hear a challenge urged more modestly,

Unless a brother should a brother dare

To gentle exercise and proof of arms.

He gave you all the duties of a man;

Trimm’d up your praises with a princely tongue,

Spoke to your deservings like a chronicle,

Making you ever better than his praise

By still dispraising praise valued in you;

And, which became him like a prince indeed,

He made a blushing cital of himself;

And chid his truant youth with such a grace

As if he master’d there a double spirit.

Of teaching and of learning instantly.

There did he pause: but let me tell the world,

If he outlive the envy of this day,

England did never owe so sweet a hope,

So much misconstrued in his wantonness.

HOTSPUR

Cousin, I think thou art enamoured

On his follies: never did I hear

Of any prince so wild a libertine.

But be he as he will, yet once ere night

I will embrace him with a soldier’s arm,

That he shall shrink under my courtesy.

Arm, arm with speed: and, fellows, soldiers, friends,

Better consider what you have to do

Than I, that have not well the gift of tongue,

Can lift your blood up with persuasion.”

An if we live, we live to tread on kings;

If die, brave death, when princes die with us!”

They fight. DOUGLAS kills SIR WALTER BLUNT. Enter HOTSPUR”

HOTSPUR

This, Douglas? no: I know this face full well:

A gallant knight he was, his name was Blunt;

Semblably furnish’d like the king himself.

EARL OF DOUGLAS

A fool go with thy soul, whither it goes!

A borrow’d title hast thou bought too dear:

Why didst thou tell me that thou wert a king?

HOTSPUR

The king hath many marching in his coats.

EARL OF DOUGLAS

Now, by my sword, I will kill all his coats;

I’ll murder all his wardrobe, piece by piece,

Until I meet the king.

HOTSPUR

Up, and away!

Our soldiers stand full fairly for the day.

Exeunt

FALSTAFF

(…) I am as hot as moulten

lead, and as heavy too: God keep lead out of me! I

need no more weight than mine own bowels. I have

led my ragamuffins where they are peppered: there’s

not three of my hundred and fifty left alive; and

they are for the town’s end, to beg during life.

But who comes here?”

PRINCE HENRY

Give it to me: what, is it in the case?

FALSTAFF

Ay, Hal; ‘tis hot, ‘tis hot; there’s that will sack a city.

PRINCE HENRY draws it out, and finds it to be a bottle of sack

PRINCE HENRY

What, is it a time to jest and dally now?

He throws the bottle at him. Exit

For God’s sake, gimme some sack!

Enter DOUGLAS

EARL OF DOUGLAS

Another king! they grow like Hydra’s heads:

I am the Douglas, fatal to all those

That wear those colours on them: what art thou,

That counterfeit’st the person of a king?

KING HENRY IV

The king himself; who, Douglas, grieves at heart

So many of his shadows thou hast met

And not the very king. I have two boys

Seek Percy and thyself about the field:

But, seeing thou fall’st on me so luckily,

I will assay thee: so, defend thyself.”

They fight. KING HENRY being in danger, PRINCE HENRY enters”

KING HENRY IV

Stay, and breathe awhile:

Thou hast redeem’d thy lost opinion,

And show’d thou makest some tender of my life,

In this fair rescue thou hast brought to me.”

Enter HOTSPUR

HOTSPUR

If I mistake not, thou art Harry Monmouth.

PRINCE HENRY

Thou speak’st as if I would deny my name.

HOTSPUR

My name is Harry Percy.

PRINCE HENRY

Why, then I see

A very valiant rebel of the name.

I am the Prince of Wales; and think not, Percy,

To share with me in glory any more:

Two stars keep not their motion in one sphere;

Nor can one England brook a double reign,

Of Harry Percy and the Prince of Wales.”

They fight

Enter FALSTAFF

FALSTAFF

Well said, Hal! to it Hal! Nay, you shall find no

boy’s play here, I can tell you.

Re-enter DOUGLAS; he fights with FALSTAFF, who falls down as if he were dead, and exit DOUGLAS. HOTSPUR is wounded, and falls

HOTPUR’S LAST DISCOURSE

“…But thought’s the slave of life, and life time’s fool”

Mas pensamentos são os escravos da vida, e os tolos de uma vida vivida.

When that this body did contain a spirit,

A kingdom for it was too small a bound;

But now two paces of the vilest earth

Is room enough: this earth that bears thee dead

Bears not alive so stout a gentleman.

If thou wert sensible of courtesy,

I should not make so dear a show of zeal:

But let my favours hide thy mangled face;

And, even in thy behalf, I’ll thank myself

For doing these fair rites of tenderness.

Adieu, and take thy praise with thee to heaven!

Thy ignominy sleep with thee in the grave,

But not remember’d in thy epitaph!

He spieth FALSTAFF on the ground

What, old acquaintance! could not all this flesh

Keep in a little life? Poor Jack, farewell!

I could have better spared a better man:

O, I should have a heavy miss of thee,

If I were much in love with vanity!

Death hath not struck so fat a deer to-day,

Though many dearer, in this bloody fray.

Embowell”d will I see thee by and by:

Till then in blood by noble Percy lie.

Exit PRINCE HENRY

Counterfeit? I lie, I am no counterfeit: to die,

is to be a counterfeit; for he is but the

counterfeit of a man who hath not the life of a man:

but to counterfeit dying, when a man thereby

liveth, is to be no counterfeit, but the true and

perfect image of life indeed. The better part of

valour is discretion; in the which better part I

have saved my life. ‘Zounds, I am afraid of this

gunpowder Percy, though he be dead: how, if he

should counterfeit too and rise? by my faith, I am

afraid he would prove the better counterfeit.

Therefore I’ll make him sure; yea, and I’ll swear I

killed him. Why may not he rise as well as I?

Nothing confutes me but eyes, and nobody sees me.

Therefore, sirrah,

Stabbing him

with a new wound in your thigh, come you along with me.

Takes up HOTSPUR on his back

Re-enter PRINCE HENRY and LORD JOHN OF LANCASTER

PRINCE HENRY

Come, brother John; full bravely hast thou flesh’d

Thy maiden sword.

LANCASTER

But, soft! whom have we here?

Did you not tell me this fat man was dead?

PRINCE HENRY

I did; I saw him dead,

Breathless and bleeding on the ground. Art

thou alive?

Or is it fantasy that plays upon our eyesight?

I prithee, speak; we will not trust our eyes

Without our ears: thou art not what thou seem’st.

FALSTAFF

No, that’s certain; I am not a double man: but if I

be not Jack Falstaff, then am I a Jack. There is Percy:

Throwing the body down

if your father will do me any honour, so; if not, let

him kill the next Percy himself. I look to be either

earl or duke, I can assure you.

PRINCE HENRY

Why, Percy I killed myself and saw thee dead.

FALSTAFF

Didst thou? Lord, Lord, how this world is given to

lying! I grant you I was down and out of breath;

and so was he: but we rose both at an instant and

fought a long hour by Shrewsbury clock. If I may be

believed, so; if not, let them that should reward

valour bear the sin upon their own heads. I’ll take

it upon my death, I gave him this wound in the

thigh: if the man were alive and would deny it,

zounds, I would make him eat a piece of my sword.

LANCASTER

This is the strangest tale that ever I heard.

PRINCE HENRY

This is the strangest fellow, brother John.

Come, bring your luggage nobly on your back:

For my part, if a lie may do thee grace,

I’ll gild it with the happiest terms I have.

A retreat is sounded

He that rewards me, God reward him! If I do grow great,

I’ll grow less; for I’ll purge, and leave sack, and

live cleanly as a nobleman should do.”

The noble Scot, Lord Douglas, when he saw

The fortune of the day quite turn’d from him,

The noble Percy slain, and all his men

Upon the foot of fear, fled with the rest;

And falling from a hill, he was so bruised

That the pursuers took him. At my tent

The Douglas is; and I beseech your grace

I may dispose of him.”

Rebellion in this land shall lose his sway,

Meeting the cheque of such another day:

And since this business so fair is done,

Let us not leave till all our own be won.

Exeunt

RUMOUR

Open your ears; for which of you will stop

The vent of hearing when loud Rumour speaks?

I, from the orient to the drooping west,

Making the wind my post-horse, still unfold

The acts commenced on this ball of earth:

Upon my tongues continual slanders ride,

The which in every language I pronounce,

Stuffing the ears of men with false reports.

I speak of peace, while covert enmity

Under the smile of safety wounds the world:

And who but Rumour, who but only I,

Make fearful musters and prepared defence,

Whiles the big year, swoln with some other grief,

Is thought with child by the stern tyrant war,

And no such matter? Rumour is a pipe

Blown by surmises, jealousies, conjectures

And of so easy and so plain a stop

That the blunt monster with uncounted heads,

The still-discordant wavering multitude,

Can play upon it. But what need I thus

My well-known body to anatomize

Among my household? Why is Rumour here?

I run before King Harry’s victory;

Who in a bloody field by Shrewsbury

Hath beaten down young Hotspur and his troops,

Quenching the flame of bold rebellion

Even with the rebel’s blood. But what mean I

To speak so true at first? my office is

To noise abroad that Harry Monmouth fell

Under the wrath of noble Hotspur’s sword,

And that the king before the Douglas’ rage

Stoop’d his anointed head as low as death.

This have I rumour’d through the peasant towns

Between that royal field of Shrewsbury

And this worm-eaten hold of ragged stone,

Where Hotspur’s father, old Northumberland,

Lies crafty-sick: the posts come tiring on,

And not a man of them brings other news

Than they have learn’d of me: from Rumour’s tongues

They bring smooth comforts false, worse than

true wrongs.

Exit

LORD BARDOLPH

As good as heart can wish:

The king is almost wounded to the death;

And, in the fortune of my lord your son,

Prince Harry slain outright; and both the Blunts

Kill’d by the hand of Douglas; young Prince John

And Westmoreland and Stafford fled the field;

And Harry Monmouth’s brawn, the hulk Sir John,

Is prisoner to your son: O, such a day,

So fought, so follow’d and so fairly won,

Came not till now to dignify the times,

Since Caesar’s fortunes!

NORTHUMBERLAND

How is this derived?

Saw you the field? came you from Shrewsbury?

LORD BARDOLPH

I spake with one, my lord, that came from thence,

A gentleman well bred and of good name,

That freely render’d me these news for true.

NORTHUMBERLAND

Here comes my servant Travers, whom I sent

On Tuesday last to listen after news.

Enter TRAVERS

I did demand what news from Shrewsbury:

He told me that rebellion had bad luck

And that young Harry Percy’s spur was cold.

With that, he gave his able horse the head,

And bending forward struck his armed heels

Against the panting sides of his poor jade

Up to the rowel-head, and starting so

He seem’d in running to devour the way,

Staying no longer question.

NORTHUMBERLAND

Ha! Again:

Said he young Harry Percy’s spur was cold?

Of Hotspur Coldspur? that rebellion

Had met ill luck?”

NORTHUMBERLAND

How doth my son and brother?

Thou tremblest; and the whiteness in thy cheek

Is apter than thy tongue to tell thy errand.

Even such a man, so faint, so spiritless,

So dull, so dead in look, so woe-begone,

Drew Priam’s curtain in the dead of night,

And would have told him half his Troy was burnt;

But Priam found the fire ere he his tongue,

And I my Percy’s death ere thou report’st it.

This thou wouldst say, <Your son did thus and thus;

Your brother thus: so fought the noble Douglas:>

Stopping my greedy ear with their bold deeds:

But in the end, to stop my ear indeed,

Thou hast a sigh to blow away this praise,

Ending with <Brother, son, and all are dead.>

MORTON

Douglas is living, and your brother, yet;

But, for my lord your son–”

And as the thing that’s heavy in itself,

Upon enforcement flies with greatest speed,

So did our men, heavy in Hotspur’s loss,

Lend to this weight such lightness with their fear

That arrows fled not swifter toward their aim

Than did our soldiers, aiming at their safety,

Fly from the field.

NORTHUMBERLAND

For this I shall have time enough to mourn.

In poison there is physic; and these news,

Having been well, that would have made me sick,

Being sick, have in some measure made me well:

And as the wretch, whose fever-weaken’d joints,

Like strengthless hinges, buckle under life,

Impatient of his fit, breaks like a fire

Out of his keeper’s arms, even so my limbs,

Weaken’d with grief, being now enraged with grief,

Are thrice themselves. Hence, therefore, thou nice crutch!

A scaly gauntlet now with joints of steel

Must glove this hand: and hence, thou sickly quoif!

Thou art a guard too wanton for the head

Which princes, flesh’d with conquest, aim to hit.

Now bind my brows with iron; and approach

The ragged’st hour that time and spite dare bring

To frown upon the enraged Northumberland!

Let heaven kiss earth! now let not Nature’s hand

Keep the wild flood confined! let order die!

And let this world no longer be a stage

To feed contention in a lingering act;

But let one spirit of the first-born Cain

Reign in all bosoms, that, each heart being set

On bloody courses, the rude scene may end,

And darkness be the burier of the dead!

TRAVERS

This strained passion doth you wrong, my lord.

MORTON

(…)

You cast the event of war, my noble lord,

And summ’d the account of chance, before you said

<Let us make head.> It was your presurmise,

That, in the dole of blows, your son might drop:

You knew he walk’d o’er perils, on an edge,

More likely to fall in than to get o’er;

You were advised his flesh was capable

Of wounds and scars and that his forward spirit

Would lift him where most trade of danger ranged:

Yet did you say <Go forth;> and none of this,

Though strongly apprehended, could restrain

The stiff-borne action: what hath then befallen,

Or what hath this bold enterprise brought forth,

More than that being which was like to be?

LORD BARDOLPH

We all that are engaged to this loss

Knew that we ventured on such dangerous seas

That if we wrought our life ‘twas ten to one;

And yet we ventured, for the gain proposed

Choked the respect of likely peril fear’d;

And since we are o’erset, venture again.

Come, we will all put forth, body and goods.”

MORTON

(…)

For that same word, rebellion, did divide

The action of their bodies from their souls;

And they did fight with queasiness, constrain’d,

As men drink potions, that their weapons only

Seem’d on our side; but, for their spirits and souls,

This word, rebellion, it had froze them up,

As fish are in a pond. But now the bishop

Turns insurrection to religion:

Supposed sincere and holy in his thoughts,

He’s followed both with body and with mind;

And doth enlarge his rising with the blood

Of fair King Richard, scraped from Pomfret stones;

Derives from heaven his quarrel and his cause;

Tells them he doth bestride a bleeding land,

Gasping for life under great Bolingbroke;

And more and less do flock to follow him.”

FALSTAFF

(…) the brain of this foolish-compounded clay, man, is not able to invent anything that tends to laughter, more than I invent or is invented on me: I am not only witty in myself, but the cause that wit is in other men.”

I will sooner have a beard grow in the palm of my hand than he shall get one on his cheek”

I looked a’ should have sent me two-and-twenty yards of satin, as I am a true knight, and he sends me security. Well, he may sleep in security; for he hath the horn of abundance, and the lightness of his wife shines through it”

Servant

Sir John Falstaff!

FALSTAFF

Boy, tell him I am deaf.

Page

You must speak louder; my master is deaf.

Lord Chief-Justice

I am sure he is, to the hearing of any thing good. Go, pluck him by the elbow; I must speak with him.

Servant

Sir John!

FALSTAFF

What! a young knave, and begging! Is there not wars? is there not employment? doth not the king lack subjects? do not the rebels need soldiers? Though it be a shame to be on any side but one, it is worse shame to beg than to be on the worst side, were it worse than the name of rebellion can tell how to make it.

Servant

You mistake me, sir.

FALSTAFF

Why, sir, did I say you were an honest man? setting my knighthood and my soldiership aside, I had lied in my throat, if I had said so.

Servant

I pray you, sir, then set your knighthood and our soldiership aside; and give me leave to tell you, you lie in your throat, if you say I am any other than an honest man.

FALSTAFF

I give thee leave to tell me so! I lay aside that which grows to me! if thou gettest any leave of me, hang me; if thou takest leave, thou wert better be hanged. You hunt counter: hence! avaunt!

Servant

Sir, my lord would speak with you.

Lord Chief-Justice

Sir John Falstaff, a word with you.

FALSTAFF

My good lord! God give your lordship good time of day. I am glad to see your lordship abroad: I heard say your lordship was sick: I hope your lordship goes abroad by advice. Your lordship, though not clean past your youth, hath yet some smack of age in you, some relish of the saltness of time; and I must humbly beseech your lordship to have a reverent care of your health.

Lord Chief-Justice

Sir John, I sent for you before your expedition to Shrewsbury.

FALSTAFF

An’t please your lordship, I hear his majesty is returned with some discomfort from Wales.

Lord Chief-Justice

I talk not of his majesty: you would not come when I sent for you.

FALSTAFF

And I hear, moreover, his highness is fallen into this same whoreson apoplexy.

Lord Chief-Justice

Well, God mend him! I pray you, let me speak with you.

FALSTAFF

This apoplexy is, as I take it, a kind of lethargy, an’t please your lordship; a kind of sleeping in the

blood, a whoreson tingling.

Lord Chief-Justice

What tell you me of it? be it as it is.

FALSTAFF

It hath its original from much grief, from study and perturbation of the brain: I have read the cause of his effects in Galen: it is a kind of deafness.

Lord Chief-Justice

I think you are fallen into the disease; for you hear not what I say to you.

FALSTAFF

Very well, my lord, very well: rather, an’t please you, it is the disease of not listening, the malady of not marking, that I am troubled withal.

Lord Chief-Justice

To punish you by the heels would amend the attention of your ears; and I care not if I do become your physician.

FALSTAFF

I am as poor as Job, my lord, but not so patient: your lordship may minister the potion of imprisonment to me in respect of poverty; but how should I be your patient to follow your prescriptions, the wise may make some dram of a scruple, or indeed a scruple itself.

Lord Chief-Justice

I sent for you, when there were matters against you for your life, to come speak with me.

FALSTAFF

As I was then advised by my learned counsel in the laws of this land-service, I did not come.

Lord Chief-Justice

Well, the truth is, Sir John, you live in great infamy.

FALSTAFF

He that buckles him in my belt cannot live in less.

Lord Chief-Justice

Your means are very slender, and your waste is great.

FALSTAFF

I would it were otherwise; I would my means were greater, and my waist slenderer.

Lord Chief-Justice

You have misled the youthful prince.

FALSTAFF

The young prince hath misled me: I am the fellow with the great belly, and he my dog.

Lord Chief-Justice

Well, I am loath to gall a new-healed wound: your day’s service at Shrewsbury hath a little gilded over your night’s exploit on Gadshill: you may thank the unquiet time for your quiet o’er-posting that action.

FALSTAFF

My lord?

Lord Chief-Justice

But since all is well, keep it so: wake not a sleeping wolf.

FALSTAFF

To wake a wolf is as bad as to smell a fox.

Lord Chief-Justice

What! you are as a candle, the better part burnt out.

FALSTAFF

A wassail candle, my lord, all tallow: if I did say of wax, my growth would approve the truth.

Lord Chief-Justice

There is not a white hair on your face but should have his effect of gravity.

FALSTAFF

His effect of gravy, gravy, gravy [recompense, suco da carne].

Lord Chief-Justice

You follow the young prince up and down, like his ill angel.

FALSTAFF

Not so, my lord; your ill angel is light; but I hope he that looks upon me will take me without weighing: and yet, in some respects, I grant, I cannot go: I cannot tell. Virtue is of so little regard in these costermonger times that true valour is turned bear-herd: pregnancy is made a tapster, and hath his quick wit wasted in giving reckonings: all the other gifts appertinent to man, as the malice of this age shapes them, are not worth a gooseberry. You that are old consider not the capacities of us that are young; you do measure the heat of our livers with the bitterness of your galls: and we that are in the vaward of our youth, I must confess, are wags too.

Lord Chief-Justice

Do you set down your name in the scroll of youth, that are written down old with all the characters of age? Have you not a moist eye? a dry hand? a yellow cheek? a white beard? a decreasing leg? an increasing belly? is not your voice broken? your wind short? your chin double? your wit single? and every part about you blasted with antiquity? and will you yet call yourself young? Fie, fie, fie, Sir John!

FALSTAFF

My lord, I was born about three of the clock in the afternoon, with a white head and something a round belly. For my voice, I have lost it with halloing and singing of anthems. To approve my youth further, I will not: the truth is, I am only old in judgment and understanding; and he that will caper with me for a thousand marks, let him lend me the money, and have at him! For the box of the ear that the prince gave you, he gave it like a rude prince, and you took it like a sensible lord. I have chequed him for it, and the young lion repents; marry, not in ashes and sackcloth, but in new silk and old sack.

Lord Chief-Justice

Well, God send the prince a better companion!

FALSTAFF

God send the companion a better prince! I cannot rid my hands of him.

Lord Chief-Justice

Well, the king hath severed you and Prince Harry: I hear you are going with Lord John of Lancaster against the Archbishop and the Earl of Northumberland.

FALSTAFF

Yea; I thank your pretty sweet wit for it. But look you pray, all you that kiss my lady Peace at home, that our armies join not in a hot day; for, by the Lord, I take but two shirts out with me, and I mean not to sweat extraordinarily: if it be a hot day, and I brandish any thing but a bottle, I would I might never spit white again. There is not a dangerous action can peep out his head but I am thrust upon it: well, I cannot last ever: but it was alway yet the trick of our English nation, if they have a good thing, to make it too common. If ye will needs say I am an old man, you should give me rest. I would to God my name were not so terrible to the enemy as it is: I were better to be eaten to death with a rust than to be scoured to nothing with perpetual motion.

Lord Chief-Justice

Well, be honest, be honest; and God bless your expedition!

FALSTAFF

Will your lordship lend me a thousand pound to furnish me forth?

Lord Chief-Justice

Not a penny, not a penny; you are too impatient to bear crosses. Fare you well: commend me to my cousin Westmoreland.

Exeunt Chief-Justice and Servant

FALSTAFF

If I do, fillip me with a three-man beetle. A man can no more separate age and covetousness than a’ can part young limbs and lechery: but the gout galls the one, and the pox pinches the other; and so both the degrees prevent my curses. Boy!

Page

Sir?

FALSTAFF

What money is in my purse?

Page

Seven groats and two pence.

FALSTAFF

I can get no remedy against this consumption of the purse: borrowing only lingers and lingers it out, but the disease is incurable. Go bear this letter to my Lord of Lancaster; this to the prince; this to the Earl of Westmoreland; and this to old Mistress Ursula, whom I have weekly sworn to marry since I perceived the first white hair on my chin. About it: you know where to find me.

Exit Page

A pox of this gout! or, a gout of this pox! for the one or the other plays the rogue with my great toe. ‘Tis no matter if I do halt; I have the wars for my colour, and my pension shall seem the more reasonable. A good wit will make use of any thing: I will turn diseases to commodity.”

Exit

Não há um só perigo que brote em que no meio dele não me joguem! Oh, ok, ok, eu não posso durar para sempre, não é mesmo? Mas seria melhor se a Inglaterra, se é que a Inglaterra tem alguma qualidade, tivesse a qualidade e a prudência de não tornar comum essa coisa de gerar perigos! Ora, se vocês da côrte insistem que sou um velho, deveriam dar-me repouso! Eu peço a Deus que meu nome não permaneça tão terrível a meus adversários, tanto quanto o é agora! Seria melhor ser devorado pela morte por inação e ferrugem dos membros que ser reduzido a nada por esse perpétuo movimento!”

HASTINGS

Our present musters grow upon the file

To five and twenty thousand men of choice;

And our supplies live largely in the hope

Of great Northumberland, whose bosom burns

With an incensed fire of injuries.

LORD BARDOLPH

The question then, Lord Hastings, standeth thus;

Whether our present five and twenty thousand

May hold up head without Northumberland?

HASTINGS

With him, we may.

LORD BARDOLPH

Yea, marry, there’s the point:

But if without him we be thought too feeble,

My judgment is, we should not step too far

Till we had his assistance by the hand;

For in a theme so bloody-faced as this

Conjecture, expectation, and surmise

Of aids incertain should not be admitted.”

LORD BARDOLPH

(…) [THE ROSEBUDS OF WAR]

We see the appearing buds; which to prove fruit,

Hope gives not so much warrant as despair

That frosts will bite them. When we mean to build,

We first survey the plot, then draw the model;

And when we see the figure of the house,

Then must we rate the cost of the erection;

Which if we find outweighs ability,

What do we then but draw anew the model

In fewer offices, or at last desist

To build at all? Much more, in this great work,

Which is almost to pluck a kingdom down

And set another up, should we survey

The plot of situation and the model,

Consent upon a sure foundation,

Question surveyors, know our own estate,

How able such a work to undergo,

To weigh against his opposite; or else

We fortify in paper and in figures,

Using the names of men instead of men:

Like one that draws the model of a house

Beyond his power to build it; who, half through,

Gives o’er and leaves his part-created cost

A naked subject to the weeping clouds

And waste for churlish winter’s tyranny.”

LORD BARDOLPH

What, is the king but five and twenty thousand?

HASTINGS

To us no more; nay, not so much, Lord Bardolph.

For his divisions, as the times do brawl,

Are in three heads: one power against the French,

And one against Glendower; perforce a third

Must take up us: so is the unfirm king

In three divided; and his coffers sound

With hollow poverty and emptiness.”

ARCHBISHOP OF YORK

That he should draw his several strengths together

And come against us in full puissance,

Need not be dreaded.

HASTINGS

If he should do so,

He leaves his back unarm’d, the French and Welsh

Baying him at the heels: never fear that.

LORD BARDOLPH

Who is it like should lead his forces hither?

HASTINGS

The Duke of Lancaster and Westmoreland;

Against the Welsh, himself and Harry Monmouth:

But who is substituted ‘gainst the French,

I have no certain notice.”

ARCHBISHOP OF YORK

(…)

So, so, thou common dog, didst thou disgorge

Thy glutton bosom of the royal Richard;

And now thou wouldst eat thy dead vomit up,

And howl’st to find it. What trust is in

these times?

They that, when Richard lived, would have him die,

Are now become enamour’d on his grave:

Thou, that threw’st dust upon his goodly head

When through proud London he came sighing on

After the admired heels of Bolingbroke,

Criest now <O earth, yield us that king again,

And take thou this!> O thoughts of men accursed!

Past and to come seems best; things present worst.”

FANG

Snare, we must arrest Sir John Falstaff.

MISTRESS QUICKLY

Yea, good Master Snare; I have entered him and all.

SNARE

It may chance cost some of us our lives, for he will stab.

MISTRESS QUICKLY

Alas the day! take heed of him; he stabbed me in

mine own house, and that most beastly: in good

faith, he cares not what mischief he does. If his

weapon be out: he will foin like any devil; he will

spare neither man, woman, nor child.

FANG

If I can close with him, I care not for his thrust.

MISTRESS QUICKLY

No, nor I neither: I’ll be at your elbow.

FANG

An I but fist him once; an a’ come but within my vice,–

MISTRESS QUICKLY

I am undone by his going; I warrant you, he’s an

infinitive thing upon my score. Good Master Fang,

hold him sure: good Master Snare, let him not

scape.”

It is more than for some, my lord; it is for all,

all I have. He hath eaten me out of house and home;

he hath put all my substance into that fat belly of

his: but I will have some of it out again, or I

will ride thee o’ nights like the mare.”

thou didst swear to me then, as I was

washing thy wound, to marry me and make me my lady

thy wife. Canst thou deny it? Did not goodwife

Keech, the butcher’s wife, come in then and call me

gossip Quickly? coming in to borrow a mess of

vinegar; telling us she had a good dish of prawns;

whereby thou didst desire to eat some; whereby I

told thee they were ill for a green wound? And

didst thou not, when she was gone down stairs,

desire me to be no more so familiarity with such

poor people; saying that ere long they should call

me madam? And didst thou not kiss me and bid me

fetch thee thirty shillings? I put thee now to thy

book-oath: deny it, if thou canst.”

Lord Chief-Justice

Sir John, Sir John, I am well acquainted with your

manner of wrenching the true cause the false way. It

is not a confident brow, nor the throng of words

that come with such more than impudent sauciness

from you, can thrust me from a level consideration:

you have, as it appears to me, practised upon the

easy-yielding spirit of this woman, and made her

serve your uses both in purse and in person.”

Come, an ‘twere not for thy humours, there’s not a better wench in England.”

PRINCE HENRY

(…) my heart bleeds inwardly that my father is so

sick: and keeping such vile company as thou art

hath in reason taken from me all ostentation of sorrow.

POINS

The reason?

PRINCE HENRY

What wouldst thou think of me, if I should weep?

POINS

I would think thee a most princely hypocrite.”

PRINCE HENRY

From a God to a bull? a heavy decension! it was

Jove’s case. From a prince to a prentice? a low

transformation! that shall be mine; for in every

thing the purpose must weigh with the folly.”

Viúva LADY PERCY

In military rules, humours of blood,

He was the mark and glass, copy and book,

That fashion’d others. And him, O wondrous him!

O miracle of men! him did you leave,

Second to none, unseconded by you,

To look upon the hideous god of war

In disadvantage; to abide a field

Where nothing but the sound of Hotspur’s name

Did seem defensible: so you left him.

Never, O never, do his ghost the wrong

To hold your honour more precise and nice

With others than with him! let them alone:

The marshal and the archbishop are strong:

Had my sweet Harry had but half their numbers,

To-day might I, hanging on Hotspur’s neck,

Have talk’d of Monmouth’s grave.”

“…so came I a widow;

And never shall have length of life enough

To rain upon remembrance with mine eyes,

That it may grow and sprout as high as heaven,

For recordation to my noble husband.”

NORTHUMBERLAND

(…)

Fain would I go to meet the archbishop,

But many thousand reasons hold me back.

I will resolve for Scotland: there am I,

Till time and vantage crave my company.

Exeunt

FALSTAFF

You make fat rascals, Mistress Doll.

DOLL TEARSHEET

I make them! gluttony and diseases make them; I

make them not.

FALSTAFF

If the cook help to make the gluttony, you help to

make the diseases, Doll: we catch of you, Doll, we

catch of you; grant that, my poor virtue grant that.”

PISTOL

God save you, Sir John!

FALSTAFF

Welcome, Ancient Pistol. Here, Pistol, I charge

you with a cup of sack: do you discharge upon mine hostess.

PISTOL

I will discharge upon her, Sir John, with two bullets.

FALSTAFF

She is Pistol-proof, sir; you shall hardly offend

her.

MISTRESS QUICKLY

Come, I’ll drink no proofs nor no bullets: I’ll

drink no more than will do me good, for no man’s

pleasure, I.

PISTOL

Then to you, Mistress Dorothy; I will charge you.

DOLL TEARSHEET

Charge me! I scorn you, scurvy companion. What!

you poor, base, rascally, cheating, lack-linen

mate! Away, you mouldy rogue, away! I am meat for

your master.

PISTOL

I know you, Mistress Dorothy.”

Si fortune me tormente, sperato me contento.”

DOLL TEARSHEET

Ah, you sweet little rogue, you! alas, poor ape,

how thou sweatest! come, let me wipe thy face;

come on, you whoreson chops: ah, rogue! I’ faith, I

love thee: thou art as valorous as Hector of Troy,

worth five of Agamemnon, and ten times better than

the Nine Worthies: ah, villain!

FALSTAFF

A rascally slave! I will toss the rogue in a blanket.”

FALSTAFF

Kiss me, Doll.

PRINCE HENRY

Saturn and Venus this year in conjunction! what

says the almanac to that?

POINS

And look, whether the fiery Trigon, his man, be not

lisping to his master’s old tables, his note-book,

his counsel-keeper.”

FALSTAFF

(…) I shall receive

money o’ Thursday: shalt have a cap to-morrow. A

merry song, come: it grows late; we’ll to bed.

Thou’lt forget me when I am gone.

DOLL TEARSHEET

By my troth, thou’lt set me a-weeping, an thou

sayest so: prove that ever I dress myself handsome

till thy return: well, harken at the end.

FALSTAFF

Some sack, Francis.

PRINCE HENRY / POINS

Anon, anon, sir.

Coming forward

FALSTAFF

I dispraised him before the wicked, that the wicked might not fall in love with him; in which doing, I have done the part of a careful friend and a true subject, and thy father is to give me thanks for it. No abuse, Hal: none, Ned, none: no, faith, boys, none.”

You see, my good wenches, how men of merit are sought after: the undeserver may sleep, when the man of action is called on. Farewell good wenches: if I be not sent away post, I will see you again ere I go.”

O ELOGIO REAL AO SONO

How many thousand of my poorest subjects

Are at this hour asleep! O sleep, O gentle sleep,

Nature’s soft nurse, how have I frighted thee,

That thou no more wilt weigh my eyelids down

And steep my senses in forgetfulness?

Why rather, sleep, liest thou in smoky cribs,

Upon uneasy pallets stretching thee

And hush’d with buzzing night-flies to thy slumber,

Than in the perfumed chambers of the great,

Under the canopies of costly state,

And lull’d with sound of sweetest melody?

O thou dull god, why liest thou with the vile

In loathsome beds, and leavest the kingly couch

A watch-case or a common ‘larum-bell?

Wilt thou upon the high and giddy mast

Seal up the ship-boy’s eyes, and rock his brains

In cradle of the rude imperious surge

And in the visitation of the winds,

Who take the ruffian billows by the top,

Curling their monstrous heads and hanging them

With deafening clamour in the slippery clouds,

That, with the hurly, death itself awakes?

Canst thou, O partial sleep, give thy repose

To the wet sea-boy in an hour so rude,

And in the calmest and most stillest night,

With all appliances and means to boot,

Deny it to a king? Then happy low, lie down!

Uneasy lies the head that wears a crown.”

Ah, quantos milhares de meus mais míseros súditos não desfrutam agora

Do mais aconchegante dos sonos noturnos! Ah sono, meu doce sono!

A gentil ama da mãe-natureza: como pude espantar este aio?

A ponto de não esperar mais que pese sobre meus cílios

Banhando meus sentidos em puro esquecimento?

Por que preferes visitar com constância as choças dos labregos?

Espreguiças-te na mais precária palha, não dormes comigo em meu leito real

Estiras-te, ao contrário, onde carapanãs roem tudo o que respira!

Não sentes este perfume do palácio dos senhores

Sob tetos imponentes e opulentos

Nem queres ser embalado e embalar-me por refinadas árias

Divindade tola, tens prazer em freqüentar só os vilões?

Camas sujas, deixando um vácuo nos canapés reais?

Preferes cubículos mofados a espaços bem-cuidados e arejados?

Vais então como sereia acalentar o reles marujinho que assiste do alto do mastro os mares

E deveria guardar-se, vigilante, de ter seus nervos apatetados

Tornando sua dura cama de madeira num berço confortável?

O vento que deveria servir-lhe de alerta-mor é que embalará essa cadeirinha de balanço extemporânea

Mal sabe o vigia enganado que assim entregue ao sono estará pior que enforcado

Voltando a si por demais tarde, quando as nuvens negras anunciarem

Em alto e bom som o estrondo da própria Morte!

Não podes tu, sono, deixar de tomar partido?

Deixar de lado essa gente corsária e voltar pra mim?

Na noite mais silenciosa e tranqüila

Que se mostra a mais propícia

Trairás teu próprio Rei?

Ora, se tão vil és, suma, pois!

Digo que a cabeça que sustenta uma coroa

Jamais dorme sossegada!

Warwick

Que vossa majestade ainda veja muitos sóis como este!

Sick King

Este sol cinza que escurece?

– Bom dia!

– Bom dia pra quem?

– Bom dia pra quem já comeu alguém/a queen!

– Então estou na noite…, e não é de núpcias.

KING HENRY IV

Then you perceive the body of our kingdom

How foul it is; what rank diseases grow

And with what danger, near the heart of it.

WARWICK

It is but as a body yet distemper’d;

Which to his former strength may be restored

With good advice and little medicine:

My Lord Northumberland will soon be cool’d.

KING HENRY IV

O God! that one might read the book of fate,

And see the revolution of the times

Make mountains level, and the continent,

Weary of solid firmness, melt itself

Into the sea! and, other times, to see

The beachy girdle of the ocean

Too wide for Neptune’s hips; how chances mock,

And changes fill the cup of alteration

With divers liquors! O, if this were seen,

The happiest youth, viewing his progress through,

What perils past, what crosses to ensue,

Would shut the book, and sit him down and die.

Tis not ‘ten years gone

Since Richard and Northumberland, great friends,

Did feast together, and in two years after

Were they at wars: it is but eight years since

This Percy was the man nearest my soul,

Who like a brother toil’d in my affairs

And laid his love and life under my foot,

Yea, for my sake, even to the eyes of Richard

Gave him defiance. But which of you was by–

You, cousin Nevil, as I may remember–

To WARWICK

When Richard, with his eye brimful of tears,

Then cheque’d and rated by Northumberland,

Did speak these words, now proved a prophecy?

<Northumberland, thou ladder by the which

My cousin Bolingbroke ascends my throne;>

Though then, God knows, I had no such intent,

But that necessity so bow’d the state

That I and greatness were compell’d to kiss:

<The time shall come,> thus did he follow it,

<The time will come, that foul sin, gathering head,

Shall break into corruption:> so went on,

Foretelling this same time’s condition

And the division of our amity.

WARWICK

There is a history in all men’s lives,

Figuring the nature of the times deceased;

The which observed, a man may prophesy,

With a near aim, of the main chance of things

As yet not come to life, which in their seeds

And weak beginnings lie intreasured.

Such things become the hatch and brood of time;

And by the necessary form of this

King Richard might create a perfect guess

That great Northumberland, then false to him,

Would of that seed grow to a greater falseness;

Which should not find a ground to root upon,

Unless on you.”

-ASCENSÃO & QUEDA DE HENRIQUE NO QUARTO-

REI HENRIQUE

Infeliz daquele que tem acesso ao livro que conta do futuro

E testemunha da revolução dos tempos

Montanhas viram vales, o continente, cansado da secura, derrete-se em mar e sal.

Os oceanos, as calças de Poseidon, se tornam muito largas e as vestes desistem do deus

Tudo se esvai em água!

Se esse livro fosse lido

Nem o jovem mais iludido

Animado o fecharia,

Diante de tantas tribulações para trás e,

O que é mais inconsolável,

Para frente, para frente, sem solenidade

Campeãs da impertinência!

Nem bem dez anos faz

Que Ricardo II e Nortumbelino, grandes meus amigos,

Almoçavam comigo!

Só setecentos dias e uma mudança completa se havia operado!

Um em guerra contra o outro; e Percy me jurou lealdade,

Era o mais fidalgo e meu companheiro de armas mais leal.

Como um irmão, sem esperar recompensa, deu-se aos trabalhos

Mais ásperos, humilhando-se debaixo do amor fraternal,

Arriscando a própria vida e deixando de temer o próprio olhar furioso do então

Rei Ricardo

Nevil Pavio, primo, tu viste tudo de que te falo.

Estavas lá quando Ricardo com o olho umedecido,

Vencido pelo ex-companheiro, profetizou então esta negra revelação.

Nortumbelino, pela escada que erigiste

Meu primo Bolingbroke ascenderá ao trono!

Deus sabe que não tinha essa tenção

Mas o estado das coisas dobrou o Estado

Eu e a grandeza estávamos destinados um ao outro, promissoras núpcias.

Mas Ricardo disse ainda: Chegará o dia em que o pecado abominável explodirá em corrupção.

Então ele já contava

Dos tempos atuais e da nossa divisão.

PAVIOCURTO

Todo homem tem uma história,

E alguns vêem na sua própria

Toda a ruína coletiva.

Não é dom tampouco sorte,

Apenas questão de sutileza, estudo,

Probabilidade! Ele anuncia o que vê

que pode acontecer; e de fato acontece!

Porque ele sabia que as sementes que plantara

Germinariam, e sabia muito bem de que planta se tratava!

Sim, Ricardo ainda vive, através de seus palpites, entre nós

Fazendo esta infame porém necessária Colheita dos Tempos:

Nortumbelino, que o traíra, não perderia ocasião

De fazê-lo de novo, árvore sempre crescente,

Cada vez um carvalho mais velho e falso!

E, meu Rei, este carvalho, que já abrigou na sombra um tal Percy, agora anda necessitado

De solo rico o bastante para suas raízes tão sedentas, a fim de não se ver podado.

E esse solo, que ironia, só pode ser Vossa Majestade!

SCENE II. Gloucestershire. Before SHALLOW’S house.

Enter SHALLOW and SILENCE, meeting; MOULDY, SHADOW, WART, FEEBLE, BULLCALF, a Servant or two with them

FESTA DO SONIC?

Entram Supérfluo e Silêncio, entrecruzando-se; Embolorado, Sombra, Verruga, Fracote, Novilho, um servo ou dois com todos eles.

Desairoso Janota

S[HAL]LOW

(…) Then was Jack Falstaff, now Sir John, a boy, and page to Thomas Mowbray, Duke of Norfolk.”

You R.I.P. what you shallow.

Jesu, Jesu, the mad days that I have spent! and to see how many of my old acquaintance are dead!”

SHALLOW

Death is certain. Is old Double of your town living yet?

SILENCE

Dead, sir.” Dobrado no caixão, sô.

Enter BARDOLPH and one with him

BARDOLPH

Good morrow, honest gentlemen: I beseech you, which

is Justice Shallow?

SHALLOW

I am Robert Shallow, sir; a poor esquire of this

county, and one of the king’s justices of the peace:

What is your good pleasure with me?

BARDOLPH

My captain, sir, commends him to you; my captain,

Sir John Falstaff, a tall gentleman, by heaven, and

a most gallant leader.

SHALLOW

He greets me well, sir. I knew him a good backsword

man. How doth the good knight? may I ask how my

lady his wife doth?

BARDOLPH

Sir, pardon; a soldier is better accommodated than

with a wife.

SHALLOW

It is well said, in faith, sir; and it is well said

indeed too. Better accommodated! it is good; yea,

indeed, is it: good phrases are surely, and ever

were, very commendable. Accommodated! it comes of

<accommodo> very good; a good phrase.

BARDOLPH

Pardon me, sir; I have heard the word. Phrase call

you it? by this good day, I know not the phrase;

but I will maintain the word with my sword to be a

soldier-like word, and a word of exceeding good

command, by heaven. Accommodated; that is, when a

man is, as they say, accommodated; or when a man is,

being, whereby a’ may be thought to be accommodated;

which is an excellent thing.

SHALLOW

It is very just.

Enter FALSTAFF

FALSTAFF

(…) where is Mouldy?

MOULDY [Embotado]

Here, an’t please you.

SHALLOW

What think you, Sir John? a good-limbed fellow;

young, strong, and of good friends.

FALSTAFF

Is thy name Mouldy?

MOULDY

Yea, an’t please you.

FALSTAFF

Tis the more time thou wert used.

SHALLOW

Ha, ha, ha! most excellent, I’ faith! Things that

are mouldy lack use: very singular good! in faith,

well said, Sir John, very well said.”

SHALLOW

Where’s Shadow?

SHADOW

Here, sir.

FALSTAFF

Shadow, whose son art thou?

SHADOW

My mother’s son, sir.

FALSTAFF

Thy mother’s son! like enough, and thy father’s

shadow: so the son of the female is the shadow of

the male: it is often so, indeed; but much of the

father’s substance!”

SHALLOW

Ha, ha, ha! you can do it, sir; you can do it: I

commend you well. Francis Feeble!

FEEBLE

Here, sir.

FALSTAFF

What trade art thou, Feeble?

FEEBLE

A woman’s tailor, sir.

SHALLOW

Shall I prick him, sir?

FALSTAFF

You may: but if he had been a man’s tailor, he’ld

ha’ pricked you. Wilt thou make as many holes in

an enemy’s battle as thou hast done in a woman’s petticoat?

FEEBLE

I will do my good will, sir; you can have no more.”

thou wilt be as valiant as the wrathful dove or most magnanimous mouse.”

FEEBLE

I would Wart might have gone, sir.

FALSTAFF

I would thou wert a man’s tailor, that thou mightst

mend him and make him fit to go. I cannot put him

to a private soldier that is the leader of so many

thousands: let that suffice, most forcible Feeble.”

FALSTAFF

I am bound to thee, reverend Feeble. Who is next?

SHALLOW

Peter Bullcalf o’ the green!

FALSTAFF

Yea, marry, let’s see Bullcalf.

BULLCALF

Here, sir.

FALSTAFF

Fore God, a likely fellow! Come, prick me Bullcalf

till he roar again.

BULLCALF

O Lord! good my lord captain,–

FALSTAFF

What, dost thou roar before thou art pricked?

BULLCALF

O Lord, sir! I am a diseased man.

FALSTAFF

What disease hast thou?

BULLCALF

A whoreson cold, sir, a cough, sir, which I caught

with ringing in the king’s affairs upon his

coronation-day, sir.

FALSTAFF

Come, thou shalt go to the wars in a gown; we wilt

have away thy cold; and I will take such order that

my friends shall ring for thee. Is here all?”

Já faz 55 anos, sor.”

Exeunt FALSTAFF and Justices

BULLCALF

Good Master Corporate Bardolph, stand my friend;

and here’s 4 Harry 10 shillings in French crowns

for you. In very truth, sir, I had as lief be

hanged, sir, as go: and yet, for mine own part, sir,

I do not care; but rather, because I am unwilling,

and, for mine own part, have a desire to stay with

my friends; else, sir, I did not care, for mine own

part, so much.

BARDOLPH

Go to; stand aside.

MOULDY

And, good master corporal captain, for my old

dame’s sake, stand my friend: she has nobody to do

any thing about her when I am gone; and she is old,

and cannot help herself: You shall have 40, sir.

BARDOLPH

Go to; stand aside.

FEEBLE

By my troth, I care not; a man can die but once: we

owe God a death: I’ll ne’er bear a base mind:

an’t be my destiny, so; an’t be not, so: no man is

too good to serve’s prince; and let it go which way

it will, he that dies this year is quit for the next.

BARDOLPH

Well said; thou’rt a good fellow.

FEEBLE

Faith, I’ll bear no base mind.

Re-enter FALSTAFF and the Justices

– Como será o pgto., sr.?

– Em 4 xelins e ducados.

– Ah, sim, suponho que todos tenham ido à escola como se deve.

– Não se arrependerá de confiar nas propriedades morais dele, sr.!

MAMÃE EU QUERIA (E VOU) (SERVIR O EXÉRCITO)

Ó, que m’importa! Um homem tem de morrer, e só se morre uma vez, nem mais, nem menos.

Sim, morre-se uma vez! Não há escapatória!

Devemos esta morte a Deus Todo-Poderoso, com certeza. Nunca me esquecerei disso.

Se for coisa do destino, decreto dos céus, que seja!

Se não for, ora, que não seja! Não terá sido dessa vez. Ninguém é bom demais para ser

súdito do Rei! Digo, bom demais

para não ser súdito do Rei, se é que m’entendem! Ninguém é grande pra não ser pequeno.

Pelo menos eu acho. Enfim, só penso:

quem morre esse ano não morre no próximo, já está zerado e saldado! É o qu’eu sempre digo:

Antes cedo do que cinco!

BARDOLPH

Sir, a word with you: I have 3 pound to free

Mouldy and Bullcalf.

FALSTAFF

Go to; well.

SHALLOW

Come, Sir John, which 4 will you have?

FALSTAFF

Do you choose for me.

SHALLOW

Marry, then, Mouldy, Bullcalf, Feeble and Shadow.

FALSTAFF

Mouldy and Bullcalf: for you, Mouldy, stay at home

till you are past service: and for your part,

Bullcalf, grow till you come unto it: I will none of you.”

Here’s Wart; you see what a

ragged appearance it is; a’ shall charge you and

discharge you with the motion of a pewterer’s

hammer, come off and on swifter than he that gibbets

on the brewer’s bucket. And this same half-faced

fellow, Shadow; give me this man: he presents no

mark to the enemy; the foeman may with as great aim

level at the edge of a penknife. And for a retreat;

how swiftly will this Feeble the woman’s tailor run

off! O, give me the spare men, and spare me the

great ones. Put me a caliver into Wart’s hand, Bardolph.”

Ele não é o mestre de seu ofício.”

FALSTAFF

These fellows will do well, Master Shallow. God keep you, Master Silence: I will not use many words with you.”

SHALLOW

Sir John, the Lord bless you! God prosper your

affairs! God send us peace! At your return visit

our house; let our old acquaintance be renewed;

peradventure I will with ye to the court.

FALSTAFF

Fore God, I would you would, Master Shallow.

SHALLOW

Go to; I have spoke at a word. God keep you.

FALSTAFF

Fare you well, gentle gentlemen.”

(…) Lord, Lord, how

subject we old men are to this vice of lying! This

same starved justice hath done nothing but prate to

me of the wildness of his youth, and the feats he

hath done about Turnbull Street: and every third

word a lie, duer paid to the hearer than the Turk’s

tribute. I do remember him at Clement’s Inn like a

man made after supper of a cheese-paring: when a’

was naked, he was, for all the world, like a forked

radish [rabanete espetado], with a head fantastically carved upon it

with a knife: a’ was so forlorn, that his

dimensions to any thick sight were invincible: a’

was the very genius of famine; yet lecherous as a

monkey, and the whores called him mandrake: a’ came

ever in the rearward of the fashion, and sung those

tunes to the overscutched huswives that he heard the

carmen whistle, and swear they were his fancies or

his good-nights. And now is this Vice’s dagger

become a squire, and talks as familiarly of John a

Gaunt as if he had been sworn brother to him; and

I’ll be sworn a’ ne’er saw him but once in the

Tilt-yard; and then he burst his head for crowding

among the marshal’s men. I saw it, and told John a

Gaunt he beat his own name; for you might have

thrust him and all his apparel into an eel-skin; the

case of a treble hautboy [poderia jurar que uma caixinha de anel serviria de mansão para esse frangote!] was a mansion for him, a

court: and now has he land and beefs. Well, I’ll

be acquainted with him, if I return; and it shall

go hard but I will make him a philosopher’s two

stones to me: if the young dace be a bait for the

old pike [se a tilapinha server de isca pro dardo velho… por que não perfurá-lo, não é mesmo? Este é só o começo do bacalhau!], I see no reason in the law of nature but I

may snap at him. Let time shape, and there an end.

Exit

Ó, a adaga do Vício se tornou gentil-homem – mas quando? E por quê?! Cruzes!

WESTMORELAND [MAISTERRAAOESTE]

(…) You, lord archbishop,

Whose see is by a civil peace maintained,

Whose beard the silver hand of peace hath touch’d,

Whose learning and good letters peace hath tutor’d,

Whose white investments figure innocence,

The dove and very blessed spirit of peace,

Wherefore do you so ill translate ourself

Out of the speech of peace that bears such grace,

Into the harsh and boisterous tongue of war;

Turning your books to graves, your ink to blood,

Your pens to lances and your tongue divine

To a trumpet and a point of war?

ARCHBISHOP OF YORK

(…) we are all diseased,

And with our surfeiting and wanton hours

Have brought ourselves into a burning fever,

And we must bleed for it; of which disease

Our late king, Richard, being infected, died.

But, my most noble Lord of Westmoreland,

I take not on me here as a physician,

Nor do I as an enemy to peace

Troop in the throngs of military men;

But rather show awhile like fearful war,

To diet rank minds sick of happiness

And purge the obstructions which begin to stop

Our very veins of life. Hear me more plainly.

I have in equal balance justly weigh’d

What wrongs our arms may do, what wrongs we suffer,

And find our griefs heavier than our offences.

We see which way the stream of time doth run,

And are enforced from our most quiet there

By the rough torrent of occasion;

And have the summary of all our griefs,

When time shall serve, to show in articles;

Which long ere this we offer’d to the king,

And might by no suit gain our audience:

When we are wrong’d and would unfold our griefs,

We are denied access unto his person

Even by those men that most have done us wrong.

The dangers of the days but newly gone,

Whose memory is written on the earth

With yet appearing blood, and the examples

Of every minute’s instance, present now,

Hath put us in these ill-beseeming arms,

Not to break peace or any branch of it,

But to establish here a peace indeed,

Concurring both in name and quality.

WESTMORELAND

When ever yet was your appeal denied?

Wherein have you been galled by the king?

What peer hath been suborn’d to grate on you,

That you should seal this lawless bloody book

Of forged rebellion with a seal divine

And consecrate commotion’s bitter edge?

ARCHBISHOP OF YORK

My brother general, the commonwealth,

To brother born an household cruelty,

I make my quarrel in particular.

WESTMORELAND

There is no need of any such redress;

Or if there were, it not belongs to you.

MOWBRAY

Why not to him in part, and to us all

That feel the bruises of the days before,

And suffer the condition of these times

To lay a heavy and unequal hand

Upon our honours?

WESTMORELAND

O, my good Lord Mowbray,

Construe the times to their necessities,

And you shall say indeed, it is the time,

And not the king, that doth you injuries.

Yet for your part, it not appears to me

Either from the king or in the present time

That you should have an inch of any ground

To build a grief on: were you not restored

To all the Duke of Norfolk’s signories,

Your noble and right well remember’d father’s?”

WESTMORELAND

You speak, Lord Mowbray, now you know not what.

The Earl of Hereford was reputed then

In England the most valiant gentlemen:

Who knows on whom fortune would then have smiled?

But if your father had been victor there,

He ne’er had borne it out of Coventry:

For all the country in a general voice

Cried hate upon him; and all their prayers and love

Were set on Hereford, whom they doted on

And bless’d and graced indeed, more than the king.

But this is mere digression from my purpose.

Here come I from our princely general

To know your griefs; to tell you from his grace

That he will give you audience; and wherein

It shall appear that your demands are just,

You shall enjoy them, every thing set off

That might so much as think you enemies.”

WESTMORELAND

(…)

Our battle is more full of names than yours,

Our men more perfect in the use of arms,

Our armour all as strong, our cause the best;

Then reason will our heart should be as good

Say you not then our offer is compell’d.

MOWBRAY

Well, by my will we shall admit no parley.

WESTMORELAND

That argues but the shame of your offence:

A rotten case abides no handling.”

HASTINGS

Besides, the king hath wasted all his rods

On late offenders, that he now doth lack

The very instruments of chastisement:

So that his power, like to a fangless lion,

May offer, but not hold.”

LANCASTER [PRINCE HENRY]

You are too shallow, Hastings, much too shallow,

To sound the bottom of the after-times.”

HASTINGS

Go, captain, and deliver to the army

This news of peace: let them have pay, and part:

I know it will well please them. Hie thee, captain.

Exit Officer

ARCHBISHOP OF YORK

To you, my noble Lord of Westmoreland.

WESTMORELAND

I pledge your grace; and, if you knew what pains

I have bestow’d to breed this present peace,

You would drink freely: but my love to ye

Shall show itself more openly hereafter.

ARCHBISHOP OF YORK

I do not doubt you.

WESTMORELAND

I am glad of it.

Health to my lord and gentle cousin, Mowbray.

MOWBRAY

You wish me health in very happy season;

For I am, on the sudden, something ill.

ARCHBISHOP OF YORK

Against ill chances men are ever merry;

But heaviness foreruns the good event.

WESTMORELAND

Therefore be merry, coz; since sudden sorrow

Serves to say thus, <some good thing comes

to-morrow.>

A paz é da mesma natureza da conquista: os dois partidos, nobremente submetidos, não se sentem, nenhum deles, vencidos.”

HASTINGS

My lord, our army is dispersed already;

Like youthful steers unyoked, they take their courses

East, west, north, south; or, like a school broke up,

Each hurries toward his home and sporting-place.

WESTMORELAND

Good tidings, my Lord Hastings; for the which

I do arrest thee, traitor, of high treason:

And you, lord archbishop, and you, Lord Mowbray,

Of capitol treason I attach you both.”

MOWBRAY

Is this proceeding just and honourable?

WESTMORELAND

Is your assembly so?

ARCHBISHOP OF YORK

Will you thus break your faith?

LANCASTER

I pawn’d thee none:

I promised you redress of these same grievances

Whereof you did complain; which, by mine honour,

I will perform with a most Christian care.

But for you, rebels, look to taste the due

Meet for rebellion and such acts as yours.

Most shallowly did you these arms commence,

Fondly brought here and foolishly sent hence.

Strike up our drums, pursue the scatter’d stray:

God, and not we, hath safely fought to-day.

Some guard these traitors to the block of death,

Treason’s true bed and yielder up of breath.

Exeunt

FALSTAFF

I have a whole school of tongues in this belly of

mine, and not a tongue of them all speaks any other

word but my name. An I had but a belly of any

indifference, I were simply the most active fellow

in Europe: my womb, my womb, my womb, undoes me.

Here comes our general.”

LANCASTER

(…)

Now, Falstaff, where have you been all this while?

When every thing is ended, then you come:

These tardy tricks of yours will, on my life,

One time or other break some gallows’ back.”

O que pensas que sou, uma andorinha, uma flecha ou uma bala? Teria eu em meus movimentos miseráveis e velhos-velhacos agilidade de pensamento e predição? Vim o mais rápido que pude!”

I came, saw and overcame”

LANCASTER

And now dispatch we toward the court, my lords:

I hear the king my father is sore sick:

Our news shall go before us to his majesty,

Which, cousin, you shall bear to comfort him,

And we with sober speed will follow you.”

FALSTAFF

I would you had but the wit: ‘twere better than

your dukedom. Good faith, this same young soberblooded

boy doth not love me; nor a man cannot make

him laugh; but that’s no marvel, he drinks no wine.

There’s never none of these demure boys come to any

proof; for thin drink doth so over-cool their blood,

and making many fish-meals, that they fall into a

kind of male green-sickness; and then when they

marry, they get wenches: they are generally fools

and cowards; which some of us should be too, but for

inflammation. A good sherris sack hath a two-fold

operation in it. It ascends me into the brain;

dries me there all the foolish and dull and curdy

vapours which environ it; makes it apprehensive,

quick, forgetive, full of nimble fiery and

delectable shapes, which, delivered o’er to the

voice, the tongue, which is the birth, becomes

excellent wit. The second property of your

excellent sherris is, the warming of the blood;

which, before cold and settled, left the liver

white and pale, which is the badge of pusillanimity

and cowardice; but the sherris warms it and makes

it course from the inwards to the parts extreme:

it illumineth the face, which as a beacon gives

warning to all the rest of this little kingdom,

man, to arm; and then the vital commoners and

inland petty spirits muster me all to their captain,

the heart, who, great and puffed up with this

retinue, doth any deed of courage; and this valour

comes of sherris. So that skill in the weapon is

nothing without sack, for that sets it a-work; and

learning a mere hoard of gold kept by a devil, till

sack commences it and sets it in act and use.

Hereof comes it that Prince Harry is valiant; for

the cold blood he did naturally inherit of his

father, he hath, like lean, sterile and bare land,

manured, husbanded and tilled with excellent

endeavour of drinking good and good store of fertile

sherris, that he is become very hot and valiant. If

I had a thousand sons, the first humane principle I

would teach them should be, to forswear thin

potations and to addict themselves to sack.”

Filhos se eu tivesse dez

A todos ensinaria

Encher a pança de tonéis!

KING HENRY IV

Humphrey, my son of Gloucester,

Where is the prince your brother?

GLOUCESTER

I think he’s gone to hunt, my lord, at Windsor.

KING HENRY IV

And how accompanied?

GLOUCESTER

I do not know, my lord.

KING HENRY IV

Is not his brother, Thomas of Clarence, with him?

GLOUCESTER

No, my good lord; he is in presence here.

CLARENCE

What would my lord and father?

KING HENRY IV

Nothing but well to thee, Thomas of Clarence.

How chance thou art not with the prince thy brother?

He loves thee, and thou dost neglect him, Thomas;

Thou hast a better place in his affection

Than all thy brothers: cherish it, my boy,

And noble offices thou mayst effect

Of mediation, after I am dead,

Between his greatness and thy other brethren:

Therefore omit him not; blunt not his love,

Nor lose the good advantage of his grace

By seeming cold or careless of his will;

For he is gracious, if he be observed:

He hath a tear for pity and a hand

Open as day for melting charity:

Yet notwithstanding, being incensed, he’s flint,

As humorous as winter and as sudden

As flaws congealed in the spring of day.

His temper, therefore, must be well observed:

Chide him for faults, and do it reverently,

When thou perceive his blood inclined to mirth;

But, being moody, give him line and scope,

Till that his passions, like a whale on ground,

Confound themselves with working. Learn this, Thomas,

And thou shalt prove a shelter to thy friends,

A hoop of gold to bind thy brothers in,

That the united vessel of their blood,

Mingled with venom of suggestion–

As, force perforce, the age will pour it in–

Shall never leak, though it do work as strong

As aconitum or rash gunpowder.”

WARWICK

My gracious lord, you look beyond him quite:

The prince but studies his companions

Like a strange tongue, wherein, to gain the language,

Tis needful that the most immodest word

Be look’d upon and learn’d; which once attain’d,

Your highness knows, comes to no further use

But to be known and hated. So, like gross terms,

The prince will in the perfectness of time

Cast off his followers; and their memory

Shall as a pattern or a measure live,

By which his grace must mete the lives of others,

Turning past evils to advantages.

KING HENRY IV

Tis seldom when the bee doth leave her comb

In the dead carrion.”

Ó, amigo, muitas vezes a abelha sai de seu favo só quando não há mais mel nenhum…

Tu és para mim uma andorinha de verão que canta as belezas tropicais no mais nevoento inverno…

Os anos passam e mudam seus humores exatamente como as estações do mesmo círculo do sol.

Will fortune never come with both hands full,

But write her fair words still in foulest letters?

She either gives a stomach and no food;

Such are the poor, in health; or else a feast

And takes away the stomach; such are the rich,

That have abundance and enjoy it not.”

A felicidade acaso nunca virá de mancheias e perfeita?

Só escrevendo por linhas tortas nessa comédia de tolos?

Ou temos um estômago sem comida,

Que é a vida do pobre, quando tem saúde;

Ou temos um banquete sem estômago,

Que é a vida do rico, que não desfruta sua abundância.”

My due from thee is this imperial crown,

Which, as immediate as thy place and blood,

Derives itself to me. Lo, here it sits,

Which God shall guard: and put the world’s whole strength

Into one giant arm, it shall not force

This lineal honour from me: this from thee

Will I to mine leave, as ‘tis left to me.

Exit

KING HENRY IV

Where is the crown? who took it from my pillow?

WARWICK

When we withdrew, my liege, we left it here.

KING HENRY IV

The prince hath ta’en it hence: go, seek him out.

Is he so hasty that he doth suppose

My sleep my death?

Find him, my Lord of Warwick; chide him hither.

(…)

How quickly nature falls into revolt

When gold becomes her object!

For this the foolish over-careful fathers

Have broke their sleep with thoughts, their brains with care,

Their bones with industry;

For this they have engrossed and piled up

The canker’d heaps of strange-achieved gold;

For this they have been thoughtful to invest

Their sons with arts and martial exercises:

When, like the bee, culling from every flower

The virtuous sweets,

Our thighs pack’d with wax, our mouths with honey,

We bring it to the hive, and, like the bees,

Are murdered for our pains. This bitter taste

Yield his engrossments to the ending father.”

I stay too long by thee, I weary thee.

Dost thou so hunger for mine empty chair

That thou wilt needs invest thee with my honours

Before thy hour be ripe? O foolish youth!

Thou seek’st the greatness that will o’erwhelm thee.

Stay but a little; for my cloud of dignity

Is held from falling with so weak a wind

That it will quickly drop: my day is dim.

Thou hast stolen that which after some few hours

Were thine without offence; and at my death

Thou hast seal’d up my expectation:

Thy life did manifest thou lovedst me not,

And thou wilt have me die assured of it.

Thou hidest a thousand daggers in thy thoughts,

Which thou hast whetted on thy stony heart,

To stab at half an hour of my life.

What! canst thou not forbear me half an hour?

Then get thee gone and dig my grave thyself,

And bid the merry bells ring to thine ear

That thou art crowned, not that I am dead.

Let all the tears that should bedew my hearse

Be drops of balm to sanctify thy head:

Only compound me with forgotten dust

Give that which gave thee life unto the worms.

Pluck down my officers, break my decrees;

For now a time is come to mock at form:

Harry the Fifth is crown’d: up, vanity!”

Aí seria outra peça, Mel Rey da Co(l)mé(d)ia Humana!

Be happy, he will trouble you no more;

England shall double gild his treble guilt,

England shall give him office, honour, might;

For the fifth Harry from curb’d licence plucks

The muzzle of restraint, and the wild dog

Shall flesh his tooth on every innocent.

O my poor kingdom, sick with civil blows!

When that my care could not withhold thy riots,

What wilt thou do when riot is thy care?

O, thou wilt be a wilderness again,

Peopled with wolves, thy old inhabitants!”

Que dia teremos a minha coração?

Com todo o PESO que isso exige?

Inexoravelmente

Mesmo vindo de coroa enferrujada

pela senilidade do dinheiro?

God witness with me, when I here came in,

And found no course of breath within your majesty,

How cold it struck my heart! If I do feign, [ME: How could it struck my heart?]

O, let me in my present wildness die

And never live to show the incredulous world

The noble change that I have purposed!

Coming to look on you, thinking you dead,

And dead almost, my liege, to think you were,

I spake unto this crown as having sense,

And thus upbraided it: <The care on thee depending

Hath fed upon the body of my father;

Therefore, thou best of gold art worst of gold:

Other, less fine in carat, is more precious,

Preserving life in medicine potable;

But thou, most fine, most honour’d: most renown’d,

Hast eat thy bearer up.> Thus, my most royal liege,

Accusing it, I put it on my head,

To try with it, as with an enemy

That had before my face murder’d my father,

The quarrel of a true inheritor.”

300bD295

Coroa

Cabeça de

Caveira

Não seria estar à

Beira

do Abismo

Começar a falar

Com os mortos ainda estando

Vivo?

Continua…

O my son,

God put it in thy mind to take it hence,

That thou mightst win the more thy father’s love,

Pleading so wisely in excuse of it!

Come hither, Harry, sit thou by my bed;

And hear, I think, the very latest counsel

That ever I shall breathe. God knows, my son,

By what by-paths and indirect crook’d ways

I met this crown; and I myself know well

How troublesome it sat upon my head.

To thee it shall descend with bitter quiet,

Better opinion, better confirmation;

For all the soil of the achievement goes

With me into the earth. It seem’d in me

But as an honour snatch’d with boisterous hand,

And I had many living to upbraid

My gain of it by their assistances;

Which daily grew to quarrel and to bloodshed,

Wounding supposed peace: all these bold fears

Thou see’st with peril I have answered;

For all my reign hath been but as a scene

Acting that argument: and now my death

Changes the mode; for what in me was purchased,

Falls upon thee in a more fairer sort;

So thou the garland wear’st successively.

Yet, though thou stand’st more sure than I could do,

Thou art not firm enough, since griefs are green;

And all my friends, which thou must make thy friends,

Have but their stings and teeth newly ta’en out;

By whose fell working I was first advanced

And by whose power I well might lodge a fear

To be again displaced: which to avoid,

I cut them off; and had a purpose now

To lead out many to the Holy Land,

Lest rest and lying still might make them look

Too near unto my state. Therefore, my Harry,

Be it thy course to busy giddy minds

With foreign quarrels; that action, hence borne out,

May waste the memory of the former days.

Leve esses hereges para o Velho Oeste.

Não faça Cruzadas

No deserto

Com esses comedores de areia

que não bebem vinho

Esqueça!

Puros são

os descendentes morenos

de Rousseau!

her eggs and the hereges

My gracious liege,

You won it, wore it, kept it, gave it me”

KING HENRY IV

Doth any name particular belong

Unto the lodging where I first did swoon?

WARWICK

Tis call’d Jerusalem, my noble lord.

KING HENRY IV

Laud be to God! even there my life must end.

It hath been prophesied to me many years,

I should not die but in Jerusalem;

Which vainly I supposed the Holy Land:

But bear me to that chamber; there I’ll lie;

In that Jerusalem shall Harry die.”

Da Ilha ao Exílio

a friend i’ the court is better than a penny in purse.”

LANCASTER

Good morrow, cousin Warwick, good morrow.

GLOUCESTER CLARENCE

Good morrow, cousin.

LANCASTER

We meet like men that had forgot to speak.

WARWICK

We do remember; but our argument

Is all too heavy to admit much talk.”

KING HENRY V

This new and gorgeous garment, majesty,

Sits not so easy on me as you think.

Brothers, you mix your sadness with some fear:

This is the English, not the Turkish court;

Not Amurath an Amurath succeeds,

But Harry Harry. Yet be sad, good brothers,

For, by my faith, it very well becomes you:

Sorrow so royally in you appears

That I will deeply put the fashion on

And wear it in my heart: why then, be sad;

But entertain no more of it, good brothers,

Than a joint burden laid upon us all.

For me, by heaven, I bid you be assured,

I’ll be your father and your brother too;

Let me but bear your love, I’ll bear your cares:

Yet weep that Harry’s dead; and so will I;

But Harry lives, that shall convert those tears

By number into hours of happiness.

Princes

We hope no other from your majesty.

KING HENRY V

You all look strangely on me: and you most;

You are, I think, assured I love you not.

Lord Chief-Justice

I am assured, if I be measured rightly,

Your majesty hath no just cause to hate me.

KING HENRY V

No!

How might a prince of my great hopes forget

So great indignities you laid upon me?

What! rate, rebuke, and roughly send to prison

The immediate heir of England! Was this easy?

May this be wash’d in Lethe, and forgotten?”

And I do wish your honours may increase,

Till you do live to see a son of mine

Offend you and obey you, as I did.

So shall I live to speak my father’s words:

<Happy am I, that have a man so bold,

That dares do justice on my proper son;

And not less happy, having such a son,

That would deliver up his greatness so

Into the hands of justice.> You did commit me:

For which, I do commit into your hand

The unstained sword that you have used to bear;

With this remembrance, that you use the same

With the like bold, just and impartial spirit

As you have done ‘gainst me. There is my hand.

You shall be as a father to my youth:

My voice shall sound as you do prompt mine ear,

And I will stoop and humble my intents

To your well-practised wise directions.

And, princes all, believe me, I beseech you;

My father is gone wild into his grave,

For in his tomb lie my affections;

And with his spirit sadly I survive,

To mock the expectation of the world,

To frustrate prophecies and to raze out

Rotten opinion, who hath writ me down

After my seeming.”

PISTOL

Under which king, Besonian? speak, or die.

SHALLOW

Under King Harry.

PISTOL

Harry the Fourth? or Fifth?

SHALLOW

Harry the Fourth.

PISTOL

A foutre for thine office!

Sir John, thy tender lambkin now is king;

Harry the Fifth’s the man. I speak the truth:

When Pistol lies, do this; and fig me, like

The bragging Spaniard.

FALSTAFF

What, is the old king dead?

PISTOL

As nail in door: the things I speak are just.”

the laws of England are at

my commandment. Blessed are they that have been my

friends; and woe to my lord chief-justice!”

FALSTAFF

God save thee, my sweet boy!

KING HENRY IV

My lord chief-justice, speak to that vain man.

Lord Chief-Justice

Have you your wits? know you what ‘tis to speak?

FALSTAFF

My king! my Jove! I speak to thee, my heart!

KING HENRY IV

I know thee not, old man: fall to thy prayers;

How ill white hairs become a fool and jester!

I have long dream’d of such a kind of man,

So surfeit-swell’d, so old and so profane;

But, being awaked, I do despise my dream.

Make less thy body hence, and more thy grace;

Leave gormandizing; know the grave doth gape

For thee thrice wider than for other men.

Reply not to me with a fool-born jest:

Presume not that I am the thing I was;

For God doth know, so shall the world perceive,

That I have turn’d away my former self;

So will I those that kept me company.

When thou dost hear I am as I have been,

Approach me, and thou shalt be as thou wast,

The tutor and the feeder of my riots:

Till then, I banish thee, on pain of death,

As I have done the rest of my misleaders,

Not to come near our person by ten mile.

For competence of life I will allow you,

That lack of means enforce you not to evil:

And, as we hear you do reform yourselves,

We will, according to your strengths and qualities,

Give you advancement. Be it your charge, my lord,

To see perform’d the tenor of our word. Set on.

Exeunt KING HENRY V, & c

FALSTAFF

That can hardly be, Master Shallow. Do not you

grieve at this; I shall be sent for in private to

him: look you, he must seem thus to the world:

fear not your advancements; I will be the man yet

that shall make you great.”

LANCASTER

I will lay odds that, ere this year expire,

We bear our civil swords and native fire

As far as France: I beard a bird so sing,

Whose music, to my thinking, pleased the king.

Come, will you hence?

Exeunt

Dancer

(…)

One word more, I beseech you. If you be not too

much cloyed with fat meat, our humble author will

continue the story, with Sir John in it, and make

you merry with fair Katharine of France: where, for

any thing I know, Falstaff shall die of a sweat,

unless already a’ be killed with your hard

opinions; for Oldcastle died a martyr, and this is

not the man. My tongue is weary; when my legs are

too, I will bid you good night: and so kneel down

before you; but, indeed, to pray for the queen.”

A REPÚBLICA – Livro V

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

“Que te parece mais ridículo nisso tudo? Provavelmente me dirá que são as mulheres exercitando-se nuas misturadas com os homens no ginásio – e não falo só das jovens, mas também das velhas, a exemplo daqueles anciãos que se comprazem nesse tipo de exercícios, em que pese as rugas e o aspecto desagradável que oferecem à vista.”

“Recordemos que não faz muito os gregos ainda acreditavam, como hoje a maioria das nações bárbaras, que a visão de um homem nu é um espetáculo vergonhoso e ridículo; e quando os ginásios foram abertos pela primeira vez em Creta, e logo depois em Esparta, os burlões daquele tempo tiveram muitos motivos para caçoadas. Porém, depois de a experiência ter demonstrado, creio eu, que era melhor fazer os exercícios estando nu que ocultando certas partes do corpo, a razão, atendendo ao que era mais conveniente, dissipou essa impressão de ridículo que produzia a visão da nudez, e comprovou que é coisa para néscios achar algo ridículo que não seja mal por si só; que não merece consideração aquele que tudo faz para promover o riso, inclusive tomando por objeto coisas distantes do irracional e do mal, muito menos aquele que se dirige com seriedade a fins outros que não o bem.”

“- E aí vês, meu querido amigo, que no governo dum Estado não há ocupação que seja própria da mulher ou do homem enquanto tais, senão que, havendo dotado a natureza a ambos os sexos das mesmas faculdades, todos os ofícios pertencem aos dois em comum, a única diferença sendo que a mulher é mais fraca que o homem.

– Correto.

– Imporemos, pois, tudo aos homens, sem reservar trabalho algum às mulheres?”

“- Há mulheres adequadas para o ofício de guardiãs, como há as que não o são; porque não são aquelas as qualidades que exigimos em nossos guerreiros?

– Sim.

– A natureza da mulher, concluindo, é tão própria para a guarda do Estado quanto a do homem.”

“Deriva daí que as esposas de nossos guerreiros deverão despojar-se de seus vestidos, posto que a virtude ocupará seu lugar. Participarão dos trabalhos da guerra e de todos os que a guarda do Estado exija, sem se ocupar de qualquer outra coisa. Só se terá em conta a fraqueza natural de seu sexo, atribuindo-lhes pesos e cargas menores que os dos homens. Quanto àquele que rir da visão das mulheres que se exercitarem nuas visando a um fim bom, este é um disparatado que nem sequer sabe o que faz, nem mesmo por que é que ri; porque há e haverá sempre razões para dizer que o útil é belo, e que é feio aquilo que é daninho.”

os esposos serão tirados pela sorte, o que elimina o subterfúgio dos súditos inferiores culparem os magistrados ao invés da mera fortuna.”

“A mulher dará filhos ao Estado a partir dos 20 e até os 40 anos, e o homem desde que já tenha ultrapassado <o momento de maior ímpeto de sua corrida>(*) e até os 55.”

(*) “O trecho entre aspas é provavelmente uma citação de verso perdido de Píndaro.”

“Se um cidadão procria antes ou depois desse prazo, declaramo-lo culpado de injustiça e sacrilégio por haver engendrado um filho cujo nascimento é obra de trevas e libertinagem”

O RELACIONAMENTO EQUILIBRADO EXIGE A PARIDADE ETÁRIA: “quando ambos os sexos já tiverem ultrapassado a idade fixada para dar filhos à pátria, deixaremos os homens em liberdade de ter relações com as mulheres que desejarem, menos com suas avós, suas mães, suas filhas e suas netas. As mulheres terão a mesma liberdade com relação aos homens, menos com seus avôs, pais, filhos e netos. Mas só serão permitidas tais uniões após prevenir-se o casal de que não deverá ter descendentes (pois a pessoa escolhida pelo cidadão já maduro poderá ainda não ser estéril).”

“Te parece justo que os gregos reduzam cidades gregas à servidão? Não deveriam proibir essa prática de forma geral, tanto quanto for possível, assentando por princípio que não haja escravidão de povos gregos, para evitar que caiam na escravidão dos bárbaros?”

“E não é vil e concupiscência imoral despojar um morto? Não é uma pequeneza de espírito, que apenas seria perdoável a uma mulher, tratar como inimigo o cadáver do adversário, quando a qualidade de inimigo já desapareceu, ficando só o instrumento de que se servia para combater? Os que agem desta maneira fazem o mesmo que os cães que mordem a pedra¹ que os feriu, em vez de atacarem a mão que a arremessou.”

¹ Essa ilustração do animal que morde a pedra, como que estabelecendo uma lei de talião com o sujeito-objeto equivocado, atribuindo entidade e intencionalidade ao reino mineral, ficou famosa na Filosofia. Spinoza, Schopenhauer, Nietzsche e diversos outros autores voltam a citar o exemplo.

“- Minha opinião é de que não se deve devastar nem queimar os campos dos gregos vencidos; e sim contentar-se com tomar todos os grãos e frutos da safra. E queres saber por quê?

– Com toda certeza.

– Parece-me que assim como a guerra e a discórdia têm nomes diferentes, são também duas coisas distintas que se relacionam com dois objetos paralelos. Uma ocorre por conta de laços de sangue e de amizade preexistentes entre nós, a outra por conta do que nos é absolutamente estranho. A inimizade entre chegados se chama discórdia; entre estranhos, guerra.¹

¹ Platão (pela boca de Sócrates) tenta aqui diferenciar o conflito militar entre Estados de uma guerra civil propriamente dita, conceito até então inexistente (na realidade há indistinção entre as esferas civil e militar para esse período histórico). Discórdia, o mesmo que desentendimento, desacordo, desavença, é um conceito negativo: ora, onde há desentendimento e desacordo, pressupõe-se que havia antes um entendimento ou um acordo (a atual “sociedade civil”), e que a tensão e violência que subitamente arrebentam farão com que um dia essa concórdia original seja restabelecida. A princípio, os dois (conflitos militares e discórdias entre co-irmãos) seriam inerentes à natureza humana. Mas a República representaria uma mudança importante nessa visão.

Já que a natureza parece incitar o homem a entrar em conflitos com seus semelhantes de tempos em tempos, o que se deveria ao menos tentar evitar é que em virtude deste tipo de conflito (onde imperam desde sempre uma certa ética e nobreza) fosse estabelecido, de forma artificial e inecessária, o ódio duradouro entre indivíduos que sequer se conhecem, intensificando as perdas e danos para ambos os lados. Não há qualquer razão lógica para incendiar plantações de um território adversário na guerra, promovendo a escassez e a fome de outros homens, “estranhos”, pessoas que não dizem respeito às dissensões intestinas daqueles poucos que iniciaram a luta.

Chegados”, pronunciado por Sócrates, não é o mesmo que família ou amigos íntimos, mas tem um sentido mais amplo para o homem antigo, que não podemos capturar com tanta facilidade. Qualquer cidadão da polis era de certa forma chegado um do outro (num governo equilibrado, i.e., a Atenas da época de Sócrates). Os homens participavam da política, votavam pela declaração ou não da guerra e viviam num pequeno território e em pequeno número, reconhecendo-se e estabelecendo convívio fraterno (o que não implica “harmonioso”, mas ao menos submetido a regras consensuais, mais até do que existiria hoje entre irmãos sangüíneos que habitam a mesma casa). Mesmo entre as polis havia laços que denominaríamos hoje “pan-nacionais” ou civilizacionais, pois reconheciam-se como helenos, em contraste com os bárbaros. Mas mesmo entre gregos e persas, p.ex., quer seja, helenos e bárbaros, havia idealmente um código de ética e admiração e respeito mútuos. Só era digno pelejar contra o inimigo porque ele era grandioso, e essa rixa deveria durar apenas enquanto perdurasse o estado de guerra, acontecimento o mais das vezes breve.

Para Platão, mesmo a guerra ética de helenos contra helenos já é um absurdo, o que é um pensamento anti-homérico. Não obstante, no caso de uma guerra entre gregos e persas pode-se até admitir, dependendo da estratégia e do contexto, aquilo que ele proíbe acima para guerras entre gregos (devastar e queimar os campos dos vencidos).

“Por conseguinte, quando entre gregos e bárbaros surja qualquer desavença e venham às vias de fato, essa, em nossa opinião, será uma verdadeira guerra; mas quando sobrevenha uma coisa semelhante entre os gregos, diremos que são naturalmente amigos, que isto é uma aberração ou doença, divisão intestina, que turva a Hélade,¹ e daremos então a essa inimizade o nome de discórdia.²”

¹ Sentimento nacional mais fundo, os laços mais primitivos do homem grego.

² Em decorrência disso, uma coisa que parece ser normalizada ou naturalizada é a própria guerra ao bárbaro em si, como se este assunto não admitisse reflexão, ou talvez porque a necessidade de concisão na estrutura do diálogo d’A República não permitisse essa digressão aqui.

“Quanto mais brecha encontramos, tanto mais te estreitamos para que nos expliques como é possível realizar teu Estado; fala, pois, e não nos faças mais esperar.”

“- Quando indagávamos qual era a essência da justiça e como devia ser o homem justo, supondo que existia, e quais as essências da injustiça e do homem injusto, nada mais propúnhamos que encontrar modelos, fixar nossas vistas em um e noutro, a fim de julgar a felicidade ou desgraça que acompanha cada um deles, e assim nos obrigar a concluir com relação a nós mesmos que seremos mais ou menos felizes segundo nos pareçamos mais a um modelo que a outro; mas nosso desígnio nunca foi assinalar a possibilidade da existência real desses modelos.

– Dizes a verdade.”

“- E nós, que foi que fizemos neste diálogo senão traçar o modelo de um Estado perfeito?

– Não fizemos nada senão isso.

– E o que dissemos, perde em alguma coisa se não podemos demonstrar a possibilidade da formação de um Estado segundo este modelo?”

“Trataremos agora de descobrir por que os Estados atuais estão mal-governados e que mudanças mínimas será possível neles introduzir, para que seu governo se faça semelhante ao nosso modelo.”

“- Como os filósofos não governam os Estados, ou como os que hoje se chamam reis e soberanos não são verdadeira e seriamente filósofos, de sorte que a autoridade pública e a filosofia se encontrassem juntas no mesmo sujeito; e como não se excluem, absolutamente, do governo tantas pessoas que aspiram hoje a um desses dois termos somente, em detrimento do outro; como nada do nosso modelo se verifica, portanto, meu querido Glauco, não há remédio possível para os males que arruínam os Estados nem para os do gênero humano; nem este Estado perfeito, cujo plano traçamos, aparecerá jamais sobre a terra, nem verá a luz do dia. Eis aqui o que há muito tempo duvidava se devia mesmo dizer, porque previa que a opinião pública se sublevaria contra semelhante pensar, porque é difícil aceitar que a felicidade pública e a privada só se podem realizar num Estado assim.

– Ao proferires um discurso semelhante, meu querido Sócrates, deves esperar que muitos, e entre eles gente de grandes méritos, se despojem, por assim dizer, de suas roupas e, armados com tudo o que tiverem ao alcance das mãos, arrojem-se sobre ti com todas as forças e dispostos a tudo. Se não os rechaças com as armas da razão, viverás continuamente atormentado graças a tuas próprias brincadeiras, e receberás um castigo por seres tão temerário.”

“todos os demais¹ não devem nem filosofar nem se mesclar no governo, senão seguir aos que dirigem.”

¹ Todos a não ser os políticos e o sábios, que são sempre uma coisa só, o rei ou os príncipes-filósofos.

“GLAUCO – Segundo tua explicação, o número de filósofos teria de ser infinito, e todos de um caráter bem estranho; porque seria preciso compreender sob este nome todos os que são aficionados pelos espetáculos, que também gostam de saber, e seria coisa singular ver entre os filósofos estas figuras que tanto aprovam as audições, que decerto nem sequer tirariam proveito dessa nossa conversação, mas que têm como que alugados seus ouvidos para todos os coros, e suas pernas para concorrer a todas as festas de Dionísio sem excetuar uma única, seja na cidade ou no campo. E chamaremos <filósofos> aos que não demonstram ardor senão para aprender tais coisas ou que se consagram ao conhecimento das artes mais ínfimas?

SÓCRATES – De maneira alguma; estes são filósofos apenas em aparência.

GLAUCO – Então quem são, segundo teu parecer, os verdadeiros filósofos?

SÓCRATES – Os que gostam de contemplar a verdade.”

SÓCRATES – Os primeiros, cuja curiosidade está por inteiro nos olhos e nos ouvidos, se comprazem em ouvir belas vozes, ver belas cores, belas figuras e todas as obras de arte ou da natureza em que entra o belo; mas sua mente é incapaz de ver e de apreciar a essência da beleza mesma, reconhecê-la e unir-se a ela.

GLAUCO – De fato.

SÓCRATES – Não são raríssimos os que podem se elevar ao belo em si e contemplá-lo em sua essência?

GLAUCO – São.

SÓCRATES – Um homem que, então, crê nas coisas belas, mas que não tem nenhuma idéia da beleza em si mesma, nem é capaz de seguir aqueles que queiram torná-la conhecida, vive ele em sonhos ou desperto? Atenta tu: que é sonhar? Não consiste em, seja dormindo seja acordado, tomar a imagem de uma coisa pela coisa mesma?”

“- …Diz-me: aquele que conhece, conhece alguma coisa ou nada? Responde no lugar do conhecedor de opiniões.

– Respondo que conhece alguma coisa.

– Este algo existe ou não existe?

– Existe, ora. Como se poderia conhecer o que não existe?

– De maneira que, sem levar mais adiante nossas indagações, sabemos, sem dúvida, que o que existe absolutamente é absolutamente cognoscível, e o que de maneira alguma existe, de maneira alguma pode ser conhecido.

– Perfeito.

– Mas se houvesse uma coisa que existisse e não existisse ao mesmo tempo, não ocuparia um lugar intermediário entre o que existe pura e simplesmente e o que não existe em absoluto?

– Estaria no meio de ambos.

– Portanto, se a ciência tem por objeto o ser, e a ignorância o não-ser, é preciso buscar, com respeito ao que ocupa o meio-termo entre o ser e o não-ser, uma maneira de conhecer que seja intermediária entre a ciência e a ignorância, supondo que haja tal coisa.

– Inquestionável.

– Sustentaremos que há algo chamado opinião?

– E como não o faríamos?

– Trata-se de faculdade distinta da ciência, ou sinônima?

– Distinta.

– Portanto, a opinião tem seu próprio objeto, e a ciência tem o seu, sendo que são reciprocamente exclusivos.

(…)

– Se o ser é objeto da ciência, o da opinião será outra coisa distinta do ser.

– Sim, outra.

– Será o não-ser? Ou é impossível que o não-ser seja o objeto da opinião? Atenta no que vou dizer agora: aquele que tem uma opinião, não tem opinião sobre alguma coisa? Pode-se ter uma opinião que recaia sobre nada?

(…)

– Então é forçoso dizer que o objeto da opinião não é nem o ser nem o não-ser.

– Nenhum dos dois, decerto.

– Por conseguinte, a opinião não é ciência nem ignorância.

– Pelo menos, não parece.

– Mas a opinião acaso vai mais longe que uma e se detém aquém da outra, de forma que seja mais luminosa que a ciência e mais obscura que a ignorância?

– Nada disso! Nem uma coisa nem outra!

– Acontece, então, o exato oposto? É mais obscura que a ciência e mais clarividente que a ignorância?

– Agora arremataste.

– Então, a opinião está na metade do percurso entre a iluminação total da ciência e a escuridão plena da ignorância?

– Absolutamente!”

Havendo assentado tudo isso de uma vez por todas, que me responda este homem que não crê que haja nada belo em si, nem que a idéia do belo seja imutável, e que só admite coisas belas; esse enamorado pelos espetáculos que não pode consentir que se lhe diga que o belo é uno e o justo é uno — que me responda este homem, pois (agora falo diretamente com ele): Não te parece que estas coisas mesmas, que tu julgas belas, justas e puras, sob outras relações não seriam também não-belas, não-justas e não-puras?

* * *

O que é, o que é? Adivinhação infantil na Grécia Antiga:

Um homem que não é homem

viu e não viu

um pássaro que não é pássaro

parado sobre um pau que não é pau

e atirou-lhe uma pedra que não é pedra”

RESOLUÇÃO: Um eunuco entreviu um morcego parado sobre uma cana e atirou-lhe sem querer uma pedra-pomes.

A REPÚBLICA – Livro III

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

“- Pois bem, um homem que está persuadido da existência do Hades e que é horrível, poderá deixar de temer a morte? Poderá preferi-la em combate a uma derrota e à escravidão?

– Impossível.”

PREFIGURAÇÕES SINISTRAS DAS CALDEIRAS DE LIVROS? “Conjuremos a Homero e aos demais poetas a não levarem a mal que apaguemos de sua obra essas passagens. Não é porque não sejam demasiado poéticas e não satisfaçam o ouvido do público; mas, quanto mais belas são, tanto mais são perigosas para as crianças e para os homens que, destinados a viver livres, devem preferir a morte à servidão.”

“Apaguemos também estes nomes odiosos e formidáveis de Cócito, Estige, Ínferos, Manes¹ e outros semelhantes, que fazem tremer aos que os escutam.”

¹ “1. Sombras ou almas dos mortos; 2. Deuses infernais do paganismo; 3. [Figurado] Memória dos antepassados. <manes>, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/manes [consultado em 23-06-2019].”

“Com razão é que suprimimos nos homens ilustres as lamentações, e reservamo-las às mulheres, e ainda assim não às mais dignas dentre elas, nem aos homens vis”

“- Tampouco será conveniente que se sintam inclinados à hilaridade. Risos em excesso dão lugar quase sempre a uma alteração também violenta.

– Assim também o creio.”

“Somente os magistrados supremos terão o poder de mentir, a fim de enganar o inimigo ou os cidadãos pelo bem da república.”

“Não consintamos, pois então, que aqueles que são objeto de nosso cuidado e para quem é um dever chegar a ser homens de bem se comprazam, já varões, no imitar uma mulher, seja jovem ou velha, uma casada briguenta ou orgulhosa, que pretenda se igualar aos deuses, jactanciosa de sua suposta felicidade, ou que se abandone em desgraça a queixas e lamentações. Ainda menos imitarão a adoentada, a apaixonada ou a que sofre das dores do parto.(*)” “Deve-se conhecer os dementes e os homens e mulheres maus, porém não se os deve imitar nem com eles parecer-se.”

(*) “No teatro grego, todos os papéis, tanto masculinos quanto femininos, eram desempenhados por homens.”

“Em nosso Estado daremos guarida a esses 3 tipos de narrativa ou só admitiremos uma ou outra das simples ou das mistas?”

“- Me parece, meu querido amigo, que tratamos a fundo esta parte da música que corresponde aos discursos e às fábulas, posto que falamos do que há que dizer e da forma de dizê-lo.

– Concordo contigo.

– Resta-nos falar desta outra metade da música que diz respeito ao canto e à melodia, certo?

– Ó, é evidente.”

“- Quais são as harmonias lastimosas? Diga-mo, já que és músico.

– A lídia mista, a lídia tensa¹ e outras semelhantes.

– É preciso, por conseguinte, suprimi-las como más, não só para os homens, mas também para aquelas mulheres que se gabam como sábias e moderadas.

– Totalmente de acordo.”

¹ Modalidades nascidas na Lídia, Ásia.

“- Quais são as harmonias moles e usadas nos banquetes?

– Algumas variedades da jônica e da lídia, consideradas harmonias relaxantes.

– Podem ser de algum uso para os guerreiros, meu querido?

– De forma alguma, restando, assim, apenas a dórica e a frígia para utilizar.

– Eu não conheço todas as espécies de harmonia; escolhe uma destas: uma forte, que traduza o tom e as expressões de um homem de coração, seja na peleja, seja em qualquer outra ação violenta, como quando, sem que o detenham as feridas nem a morte ou estando imerso na desgraça, espera, em tais ocasiões, com firmeza e sem se abater, pelos azares da fortuna; outra mais tranqüila, própria das ações pacíficas e completamente voluntárias de alguém que tenta convencer um outro de alguma coisa, com súplicas se é um deus, com advertências, se é um homem; ou que, ao contrário, se rende a suas súplicas, escuta suas lições e seus ditames, e que pelo menos nunca experimenta o menor contratempo, e que, enfim, longe de se envaidecer de seus triunfos, conduz-se com sabedoria e moderação e está sempre contente com sua sorte.”

“- Tampouco teremos necessidade de instrumentos de numerosas cordas nem da técnica pan-harmônica em nossos cantos e em nossa melodia, correto?

– Não, sem dúvida.

– Nem sustentaremos fabricantes de triângulos, de plectros¹ e outros instrumentos de cordas numerosas e de muitas harmonias?

– Não, ao que parece.

– Mas consentirias então em receber em nossa república os construtores e tocadores de flauta? Não equivale esse instrumento justamente aos que têm o maior número de cordas? E os que reproduzem todos os tons, são algo senão imitações da flauta?

– São equivalentes da flauta, com efeito.

– Assim, não nos restam mais que a lira e a cítara para a cidade, e para os campos o pífaro,² que será utilizada pelos pastores.

– É evidente, após tudo o que dissemos.

– Além do mais, meu querido amigo, não faremos nada extraordinário se dermos preferência a Apolo sobre Marsias,³ e aos instrumentos inventados por este deus aos do sátiro.

– Não, por Zeus!”

¹ Palheta

² Ou pife ou pífano. As principais fontes citam sua origem como indígena, ou pelo menos ligada a comunidades suíças do século XIV, portanto seria um instrumento da idade moderna apenas; mas, pela descrição de “siringa” no dicionário, trata-se virtualmente do mesmo objeto: uma flauta mais simples, feita de tubos de cana, bambus ou ossos ocos, e portanto muito antigo.

³ Entidade mitológica. Devido a sua presunção em julgar-se melhor músico que Apolo, recebe uma cruel punição divina (uma morte penosa).

“todas as medidas se reduzem a três tipos, assim como todas as harmonias resultam de quatro tons principais”

“Creio tê-lo ouvido falar algo confusamente acerca de certo metro composto que se chamava enoplio,¹ de um dátilo² e um heróico,³ e que se compunha, não sei como, igualando a parte tônica com a átona4 e terminando em sílabas longas ou breves; ademais, formava outro que se chamava iambo,5 creio eu, e não sei qual outro chamado troqueu,6 que se compunha de longas e breves.”

¹ A palavra parece existir só em italiano, celeiro precoce da música clássica; “enóplio” em Português é um inseto. Por falta de conhecimento em teoria musical, deixo no original, acrescentando o itálico que não havia na versão de Azcárate. Descreve o movimento rítmico que vai da sílaba breve à longa. Lembrando que, no contexto do diálogo platônico, não se trata só de música, mas algo mais amplo: pode se referir simplesmente à métrica utilizada por um poeta; normalmente o poeta se apresentava no teatro, ou um ator apresentava o poema escrito, sendo a voz humana, aliás, um instrumento musical em si, e dos mais complexos e versáteis.

² Uma sílaba longa + 2 breves; nesta ordem.

³ Normalmente associado a composições de versos decassílabos.

4 Ou “tonal e atonal”.

5 Sílaba átona sílaba tônica

6 Sílaba tônica sílaba átona (ou ainda “coreu”).

“o ritmo e a harmonia estão feitos para as palavras, e não as palavras para o ritmo e a harmonia.”

“- Não vês que os atletas passam a vida dormindo, e que, por pouco que se separem do regime que se lhes prescreve, contraem perigosas doenças?

– Já o observei.

– Necessitamos, pois, de um regime de vida mais flexível para os atletas guerreiros, que devem estar, como os cães, sempre alertas, ver tudo, ouvir tudo, mudar sem cessar, em campanha, de alimento e de bebida, sofrer frio e calor e, em conseqüência, ter um corpo à prova de todas as fadigas.

– Penso igual.”

“Em Homero mesmo pode-se aprendê-lo. Sabes que à mesa dos heróis nunca se servira peixe embora estivessem acampados no Helesponto, nem frituras, só carne assada, alimento cômodo para gente em guerra, a quem é mais fácil fazer fogo que levar consigo utensílios de cozinha.”

“-…as novas palavras <flatulência> e <catarro>.

– Decerto que estas palavras são novas e estrambóticas.

– E desconhecidas, na minha opinião, nos tempos de Asclépio.¹”

¹ Fundador mitológico da medicina.

MODERNIDADE: MELHOR VIVER DOENTE

“Que caia doente um carpinteiro, e verás como pede ao médico que lhe dê logo um vomitório ou um purgante ou, se for necessário, recorra ao ferro ou ao fogo. Mas se lhe prescreve um tratamento muito comprido, à base de gorrinho de lã para a cabeça e outras coisinhas que são moda, dirá bem pronto que não tem tempo para ficar de cama e que prefere morrer que renunciar a seu trabalho a fim de se ocupar do seu mal. Em seguida dispensará o médico e voltará a seu método ordinário de vida, com o qual ou recobrará a saúde cedo ou tarde, dedicado à labuta diária, ou, se o corpo não pode resistir à enfermidade, advirá a morte em seu auxílio e assim se livrará de preocupações.”

“- Em compensação, o rico, segundo se diz, não tem nenhuma classe de tarefas à qual não possa renunciar.

– Isso é o que dizem, ao menos.”

Não é certo que o primeiro efeito da música é adoçar seu valor, da mesma forma que o fogo abranda o ferro, e afrouxa essa rigidez que antes o inutilizava e o fazia de difícil trato? Mas se se continua entregando a seu feitiço sem se conter, esse mesmo valor desaparece e se derrete pouco a pouco, cortados por assim dizer os nervos da alma” “Sé a alma é fogosa, pelo contrário, sua coragem, ao se debilitar, faz-se instável; o menor motivo a irrita ou acalma, e em vez de fogosa torna-se colérica, irascível, repleta de mau humor.”

Vós que sois todos parte do Estado, vós – dir-lhes-ei, continuando a ficção – sois irmãos; mas o deus que os formou fez entrar o ouro na composição daqueles que estão destinados a governar os demais, e assim são os mais preciosos. Mesclou prata na formação dos auxiliares, e ferro e bronze na dos lavradores e demais artesãos. Como possuís todos uma origem comum, em que pese terdes, corriqueiramente, filhos que parecem-se convosco, poderá suceder, não obstante, que uma pessoa da raça de ouro tenha um filho da raça de prata, que outra da raça de prata dê a luz a um filho da raça de ouro, e que o mesmo suceda reciprocamente nas demais raças.“há um oráculo que diz que perecerá a república quando for governada pelo ferro ou pelo bronze.”

“Que comam sentados em mesas comuns, e que vivam juntos como devem viver os guerreiros no campo. Que se lhes faça entender que os deuses colocaram em suas almas ouro e prata divina e, por isso, eles não têm necessidade do ouro e da prata dos homens; que não lhes é permitido manchar a posse deste ouro imortal com a do ouro terrestre; que o ouro que eles têm é puro, enquanto que o ouro dos homens foi em todos os tempos a origem de muitos crimes.”

MUJERES Y EDUCACIÓN SUPERIOR

Alejandra Montané López y Maria Eulina Pessoa de Carvalho (coord.), João Pessoa: UFPB 2013.

Breve historia del acceso de la mujer a la universidad española (1910-2013)

A excepción de Italia, las universidades del Viejo Continente fueron ámbitos exclusivamente masculinos hasta el siglo XIX y en algunos países hasta el siglo XX. En 1678, la noble veneciana Elena Lucrezia Cornaro Piscopia obtenía el doctorado en filosofía, marcando un hecho sin precedentes. Elena Lucrezia provenía de una familia especialmente influyente: había dado 3 papas y 8 cardenales a la Iglesia Catolica y una reina a la isla de Chipre. A los 26 sabía cantar, tocar y componer música, hablaba y traducía 4 lenguas modernas y 5 lenguas clásicas, y participaba de disputaciones académicas con intervención de hombres de ciencia provenientes de diversos países. Su erudición había movido a su poderosa familia a lograr un reconocimiento académico, no sin dificultades. Esse mismo año 1678 moría Anna Maria von Shuurman, la primeira mujer a la que se había permitido estudiar en la Universidad de Utrecht, a condición de permanecer encerrada <en un cuarto de madera colocado dentro de la misma aula universitaria, separado por una pared de madera en la que se habían practicado unos agujeros> (de Laurentis, 2000:12-13).”

Decreto-Resolución de 1377, del claustro de profesores de la Universidad de Bolonia: “Y puesto que la mujer es la razón 1ª del pecado, el arma del demonio, la causa de la expulsión del hombre del paraíso y de la destrucción de la antigua ley, y puesto que, en consecuencia, es preciso evitar cuidadosamente todo comercio con ella, nosotros defendemos y prohibimos expresamente que alguien se permita introducir alguna mujer, sea cual fuere ésta, incluso la más honrada, en la dicha universidad. Y si alguno lo hace a pesar de todo, será severamente castigado por el rector.”

La asistencia a classe de una mujer fue permitida, por 1ª vez, en 1875. Mª Dolores Aleu Riera es la 1ª mujer que realiza el examen de grado para obtener una Licenciatura, en Medicina, el 20-4-1882 (Flecha, 1996:63-64(*)).”

aunque antes, en 1849, se disse que Concepción Arenal se disfrazó de hombre para poder estudiar Derecho en la Universidad de Madrid (Flecha, op. cit.).”

Posteriormente, la guerra y el régimen franquista no potencian o permiten el acceso de la mujer, pero en este caso el problema no eran solamente las normativas legales, sino el modelo eclesiástico medieval que persistió en la universidad española hasta bien entrado el siglo XX, debido, según algunos autores, a la ruptura que supuso para su desarrollo la Guerra Civil Española y su posterior periodo de dictadura. Esta influencia de la iglesia junto a la consolidación del modelo napoleónico – propio de la universidad española hasta passada la década de los 80 – estaba caracterizada por el elitismo, la centralización y el utilitarismo de la enseñanza superior (Montané et al., 2010).”

El inicio de los cambios profundos que afectaron al sistema universitario y posibilitaron el total acceso de las mujeres a la universidad se dio a partir de la Constitución Española de 1978

El 1962, con el dictador governando España, se inició un acercamiento a la Comunidad Europea que no fue aceptado debido, justamente, al régimen político, aun así en 1970 se firmó un tratado comercial que producía rebajas arancelarias [alfandegárias] y que sería una 1ª aproximación. (…) finalmente el 12 de junio de 1985 se firmó en Madrid el Tratado de Adhesión de España a las Comunidades Europeas. Finalmente el 1 de enero de 1986, junto a Portugal, se constituía como miembro de pleno derecho.”

La LRU – Ley de Reforma Universitaria puede considerarse una ley de transición ideológica y como punto de partida de las grandes transformaciones de la educación superior constituye un <intento de reforma de nuestra Universidad y nuestra enseñanza superior bajo la clave del equilibrio histórico> (Souvirón, 1989:116).”

<Convenció per a l’eliminació de totes les formes de discriminació contra la dona> desenvolupada per Nacions Unides el 1979, o en la <Carta dels Drets Fonamentals> de la Unió Europea de l’any 2000, que a més, aporta en el seu article 14 que <tots els centres docentes tindran lliure creació dins del respecte als principis democràtics i a les lleis nacionals>, repetint els mateixos aspectes en l’elaborada el 2007. La UNESCO també es suma a aquesta opinió, incloent en la seva declaració dels <Objectius de desenvolupament del mil-lenni> l’àmbit de l’educació. L’objectiu número 3, recollit dins de la temática educativa de la proposta en la dècada de l’educació per al Desenvolupament sostenible 2005-2014, va dirigir a <promoure la igualtat de drets i oportunitats entre els gèneres contra una realitat de discriminacions i l’autonomia de la dona>, a més de destacar que <l’educació i formació de les nenes i les dones és un dret humà i un element essencial per al gaudi de tots els drets socials, econòmics, culturals i polítics>.”

(*) Flecha, 1996: Las primeras universitarias en España

Feministas e Acadêmicas: o papel da REDOR no fortalecimento dos estudos feministas e de gênero na educação superior no Norte e Nordeste do Brasil¹ (1910-2013)

¹ Pesquisa com apoio do Programa CAPES/DGU edital n. 40/12, projeto 303/13; e do MCTI/CNPq/SPM-PR/MDA Chamada 32/12, projeto n. 404888/2012-7.

As feministas acadêmicas da REDOR

Cecilia Maria Bacellar Sardenberg: “Lá [nos EUA] conheceu o 1º marido: Eu acabei casando com um americano, abandonei os estudos e fui morar numa base aérea, fui trabalhar numa loja, larguei faculdade, larguei tudo, fiz besteira. Foi meu 1º marido. Eu já casei e descasei várias vezes. Na cidade em que morava tinha um grupo feminista e ela começou a participar. Então, o meu feminismo começou nos EUA, vendo a situação da mulher, vendo a discriminação, eu fui somando…“Ele pediu que a CAPES suspendesse a minha bolsa, me acusando de tentativa de seqüestro dos meus filhos, eu fui presa… (choro). Tantos anos e eu vou falar sobre isso e choro. Minha foto saiu nos jornais de Salvador…”

Além destes problemas de ordem familiar, ainda aconteceu do professor orientador da tese de Cecília morrer. E ela teve que adiar a conclusão.”

Neim … o primeiro núcleo de estudos da América Latina a oferecer curso de doutorado em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo.”

Luzia Miranda: “Pesquisa … ciclos republicanos paraenses”

Em 1977, quando Luzia terminou a graduação, foi indicada por um professor para assumir a docência na Universidade. Naquela época, não tinha ainda concurso público, era indicação, era o período militar, e o professor titular da cadeira de Ciência Política indicou os 3 alunos que mais se destacaram e um deles era eu. Eu passei a ser professora da Universidade Federal do Pará em 1978.

Mary Ferreira: “Estive envolvida com a fundação do Partido dos Trabalhadores”

Gema Galgani Esmeraldo: “nós criamos a Comissão Estadual de Mulheres Trabalhadoras Rurais”

Gênero, “Raça”/Etnia e Classe: A presença feminina em cursos de graduação na Universidade Federal da Paraíba

Em meados do séc. XIX foram criadas as primeiras escolas normais – para formação docente – abertas para ambos os sexos.” “feminização do magistério” “Somente no final desse século, através de um decreto imperial, [é] que foi autorizada a presença feminina em cursos de nível superior.” “cursos tradicionalmente femininos: Filosofia, Letras, Ciências Humanas, entre outros”

E se mulheres não gostam de Engenharia, tão “simplesmente”?

Através de Lei Estadual de 1955, surgiu da junção de escolas superiores isoladas a Universidade da Paraíba, atual UFPB, que foi federalizada em 1960. (…) Em 2002, com a criação da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), desmembrou-se. “[Pelo] Reuni, a UFPB conseguiu dobrar o tamanho e atualmente é a IES do Norte e Nordeste do país que oferece o maior nº de vagas. Em 2004 ofereceu cerca de 3.700 e em 2012 ofertou 8.020, distribuídas pelo Processo Seletivo Seriado (PSS), pelo Exame Nacional do Ensino Médio e pelo Sistema de Seleção Unificada. No ensino de graduação, de 2004 a 2012, o nº de cursos aumentou de 50 para 104, enquanto o nº de alunos aumentou de 18.759 para 29.629.”

Em nossa pesquisa, o grupo de pardas/os foi somado ao contingente de respondentes que se autoclassificaram como negras/os, um procedimento realizado com base no trabalho de Batista (2005).”

podemos observar que as mulheres e homens brancos oriundos da rede particular acessam o ensino superior com uma idade média compreendida entre os 18 e os 21 anos. Entre as mulheres oriundas desta rede, as amarelas e brancas ingressam na instituição com 18,81 e 20,06, respectivamente. Em relação à rede pública, observamos a idade de acesso nos 21,91, para as mulheres negras, e nos 23,92 para os homens negros. As mulheres originárias da rede pública ingressaram com 23,1 anos, e as originárias da rede particular com 20,1 anos. (…) os estudantes [que] cursaram o ensino médio em escolas públicas ingressaram na UFPB com uma idade média de 24,1 anos, idade que retrocede para os 20,1 anos para os homens que estudaram em estabelecimentos particulares.”

predominância masculina: Matemática, Física e Ciência da Computação” “significativa presença feminina: Ciências Biológicas. Por sua vez, o Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) tem se mostrado, historicamente de forte presença feminina.” “O campeão em segregação sexista é o curso de Ciência da Computação, com uma média de 90% de homens ingressantes.” “Há um curioso fato: homens e mulheres apresentam juntos a menor matrícula na licenciatura em Geografia.” Curioso mesmo é Geografia ser ciência!

O percentual das negras vem aumentando de forma consistente desde o ano de 2004, quando representavam 0,5% das ingressantes; valor que saltou para 1,95% em 2009, quando supera o número de brancas (1,73%).”

os cursos mais escolhidos pelas mulheres foram Letras (18,31%) e Serviço Social (11,12%), com um percentual maior que o dobro em relação aos demais. Já os menos escolhidos, em ordem crescente, foram os de Regência de Bandas [!], Educação Artística: Música, Filosofia: Licenciatura, Teatro: Bacharelado, Teatro: Licenciatura, Educação Artística: Licenciatura, Artes Cênicas [qual a diferença para teatro bacharel?], Artes Plásticas, Artes Visuais, Tradução: Bacharelado, Comunicações em Mídias Digitais, Línguas Estrangeiras Aplicadas às Negociações Internacionais, Música [de novo?], Ciências Sociais: Licenciatura, Filosofia: Bacharelado, Psicologia: Licenciatura, Ciências Sociais: Bacharelado, Comunicação Social: Radialismo, Turismo, História: Licenciatura, Comunicação Social: Jornalismo, Comunicação Social: Relações Públicas, Psicologia [bacharelado].

No que se refere às escolhas masculinas, ressaltamos que, de maneira equivalente às das mulheres, a maior escolha recai sobre o curso de Letras. Como menores escolhas, temos: Regência de Bandas, Artes Plásticas, Artes Cênicas, Educação Artística: Música, Teatro: Bacharelado, Educação Artística: Licenciatura, Teatro: Licenciatura, Artes Visuais, Tradução: Bacharelado, Filosofia: Licenciatura, Línguas Estrangeiras Aplicadas (…), Psicologia: Lic., Serviço Social, Comunicações em Mídias Digitais, Ciências Sociais: Licenciatura, Turismo, C.Sociais:bac., Com.Soc.:Rel.Púb., Com.Soc.:Jorn., psicologia [bac.], Filosofia:bac., Com.Soc.:Rad., Música, História:lic.”

os homens sobrepujam as mulheres nos cursos de História, Música, Ciências Sociais: Licenciatura, Comunicação e[m] Mídias Digitais, Filosofia: lic. e bac., Teatro: lic. e bac., Educ. Artíst. e Música.”

Gênero e Tecnologia da Informação: um olhar sobre a Educação Superior na Paraíba e as possibilidades de promoção da eqüidade de gênero através da Educação

A paridade de sexo no uso da Internet também foi observada no nível pós-secundário.”

HAHA: “a cultura do computador dominada por homens – observa-se o discurso machista, a competitividade, a ênfase na velocidade e no poder, a exclusão, o isolamento, o conteúdo violento nos jogos e a linguagem violenta”

A fraqueza de um estudo pseudo-sociológico que recorre a Bourdieu é patente…

bibliografia suplementar

Rawls, A theory of justice, 1917

A REPÚBLICA – Livro II

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

(*) “Os antigos criam que as serpentes se deixavam hipnotizar pelo canto. Vide Virgílio, Éclogas, 8:71.”

“Diz-se que é um bem em si o cometer a injustiça e um mal o padecê-la. E que resulta um maior mal em padecê-la que um bem em cometê-la. Que os homens cometeram e sofreram a injustiça alternativamente; experimentaram a ambas, e tendo todos os homens conhecido o que é sofrer já por bastante tempo, e não podendo os mais débeis dentre eles evitar os ataques dos mais fortes, nem atacá-los por sua vez, creram que era de interesse comum impedir que se fizesse e que se recebesse qualquer mal. Daqui nasceram as leis e as convenções. Passou-se a chamar justo e legítimo o que foi ordenado pela lei. (…) E chegou-se mesmo a amar a justiça, não porque seja um bem em si mesma, mas em razão da impossibilidade em que nos coloca de cometer a injustiça. Porque aquele que pode cometê-la e é verdadeiramente homem não se põe a negociar tratos para evitar que se cometam ou sofram injustiças, e seria isso uma loucura sua, caso negociasse. Eis aqui, Sócrates, a natureza da justiça.”

“Giges era pastor do rei da Lídia. Depois de uma tempestade seguida de violentos abalos sísmicos, a terra se abriu justo no local em que apascentava o seu gado; assombrado diante desta maravilha natural, desceu pela fenda aberta e, entre tudo o de mais estranho que encontrou, viu um cavalo de bronze, em cujo ventre havia, abertas, portinholas, pelas quais enfiou a cabeça para verificar o conteúdo das entranhas do simulacro de animal. O que encontrou foi um cadáver de porte aparentemente superior ao humano. Este cadáver, ademais, estava nu, e só possuía um adorno, um anel de ouro num dos dedos. Giges o tocou e o retirou da mão do cadáver. Posteriormente, havendo-se todos os pastores se reunido em assembléia da forma costumeira, ao fim do mês, a fim de prestar contas ao rei sobre o estado de seus rebanhos, Giges lá compareceu, usando o anel no dedo e sentando-se em meio aos demais pastores. Quando a pedra preciosa do anel, por acidente, girou para o lado de dentro (da palma da mão de Giges), ele se tornou invisível, e então dele falaram como se estivera ausente. Embasbacado com este novo prodígio, Giges girou a pedra de novo para o lado externo, e na mesma hora se fez visível.”

“Decidido, sabendo agora usar seu objeto, tramou para incluir-se entre os da comitiva de pastores que teriam uma conversação privada com o rei. Chegado ao palácio, corrompeu a rainha e com seu auxílio se desfez do rei e se apoderou do trono. Ora, se existissem dois anéis desta espécie, e se um fosse concedido a um homem justo e outro a um injusto, é consenso geral que provavelmente não haveria um só homem de caráter bastante firme para perseverar na justiça e abster-se de se apropriar dos bens alheios, sendo que poderia fazê-lo impunemente: furtar em praça pública, invadir as casas, abusar de quem fôra, matar alguns, libertar outros dos grilhões e, enfim, fazer tudo o que quisera de posse de um poder semelhante ao dos deuses em meio aos mortais. Em nada difeririam, portanto, as condutas de um e de outro: ambas tenderiam aos mesmos fins, e nada provaria melhor que ninguém é justo deliberadamente, mas tão-só por necessidade”

“O grande mérito da injustiça consiste em parecer justo sem sê-lo. É preciso dotar, portanto, o homem perfeitamente injusto da perfeita injustiça sem nada tirar dela, que, assim, mesmo cometendo os maiores crimes, saberia sempre conservar uma reputação de homem de bem; e quando ele desse um passo em falso, saberia sempre remediá-lo a tempo. Seria um homem tão eloqüente que convenceria de sua inocência aos próprios homens que se tornassem vítimas de suas ações e que fossem os seus acusadores; atrevido e poderoso, ora por si mesmo, ora através das amizades, operaria de modo a sempre conseguir pela força o que não poderia obter de outra forma.”

“O justo, dizem, o que é tal como eu o pintei, será açoitado, atormentado, acorrentado, queimar-se-á seus olhos, e, por fim, depois de terem-no feito sofrer toda a classe de males, será empalado, e assim farão compreender que não adianta tratar de ser justo, mas tão-somente de parecer sê-lo.” “enriquece, faz o bem aos seus íntimos, mal aos inimigos, oferece sacrifícios e presentes magníficos aos deuses, atrai a benevolência dos deuses e dos homens com mais facilidade e segurança do que o justo.”

“SÓCRATES – Os pais aconselham a justiça a seus filhos e os professores a seus alunos. E o fazem tendo em vista a justiça em si? Não, unicamente devido à reputação que vai embutida no conceito, a fim de que a reputação de homens justos propicie-lhes dignidades, uniões auspiciosas e todos os demais bens mencionados por Glauco. Mas vão ainda mais longe, e ensinam sobre os inesgotáveis favores e bênçãos derramados de mãos cheias sobre os justos pelos deuses. E citam Hesíodo e Homero (…) Museu¹ e seu filho vão ainda mais longe e prometem aos justos recompensas maiores ainda. Conduzem-nos para o além, no Hades; sentam-nos à mesa, coroados de flores, assegurando que passarão uma existência inteira em festas e banquetes, como se uma embriaguez eterna fosse a mais bela recompensa pela virtude. Segundo outros, estas recompensas não se limitam aos indivíduos. O homem são e fiel aos semelhantes revive em sua posteridade, que se perpetua de era em era.”

¹ Personagem mitológico. Teria criado os mistérios de Elêusis (esta uma das polis gregas), associados ao surgimento do orfismo (lado místico e oculto da religiosidade helena). Teria morrido de causas naturais (de velhice); talvez isso explique nossa instituição moderna do museu que preserva antiguidades artísticas e o dito popular de quem “quem vive de passado é museu”… Muito do que se sabe hoje sobre Museu foi retirado de Virgílio e Pausânias.

“Um único assunto como o dos ritos de sacrifício foi capaz de produzir uma vastidão de livros, entre cujos autores estão Museu e Orfeu, que os fazem descender, um das Musas, e o outro de Selene; e com estes discursos creia tu que não convencem apenas um ou outro, mas cidades inteiras! Estas, assim, pensam poder expiar qualquer culpa dos vivos e dos mortos através de um pequeno número de vítimas e de jogos regulares. Chamam tudo isso de purificações, estes sacrifícios instituídos para nos livrar dos males da próxima vida; e sustentam que aqueles que se isentam destas práticas estão sujeitos aos mais terríveis tormentos no amanhã.”

“Se se me diz que é árduo ao homem mau ocultar-se por muito tempo, responderei que todas as grandes empresas têm suas dificuldades, e que, suceda o que suceder, se desejo ser bem-sucedido, não tenho outro caminho a seguir que não o traçado pelos discursos que escuto. No mais, para escapar das inquirições, pode-se organizar seitas e irmandades. Mestres há que nos ensinarão a arte de seduzir o povo e os juízes com discursos artificiosos. Empregaremos a eloqüência e, na ausência desta, a força, a fim de escapar da punição de nossos crimes. Mas a força e o engodo nada podem contra os deuses. E na hipótese de que não haja deuses ou que eles não se imiscuam nas coisas deste mundo, ainda mais despreocupados ficamos de ludibria-los! Se há, sim, deuses, e eles participam, sim, dos negócios humanos, o fato é que deles só sabemos por ouvir falar, pelo povo, e pelos retratos dos poetas que descreveram sua genealogia; e precisamente estes mesmos poetas nos dizem que é possível aquietá-los e aplacar sua cólera por meio de sacrifícios, votos e oferendas.” “se alguém combate a injustiça, é que a covardia, a velhice ou qualquer outra debilidade tornam-no impotente para fazer o mal.”

“Muito me surpreendi, agradavelmente, dos discursos de Glauco e de Adimanto. Nunca admirei tanto quanto nesta ocasião seus dotes naturais”

“- (…) É quase impossível que um Estado encontre um ponto da terra em que não sejam necessárias as importações.

– É impossível, de fato.

– Também teria necessidade, nosso Estado, de que alguns se encarreguem de ir aos Estados vizinhos buscar o que falta.”

“- Mas no Estado mesmo, como se comunicarão uns cidadãos com outros sobre o fruto de seu trabalho? Porque esta é a primeira razão que tiveram para viver em sociedade e erigir tal Estado.

– É evidente que será por meio da compra e da venda.

– Logo, necessitar-se-á de um mercado e de uma moeda, signo do valor dos objetos trocados.”

“Quer dizer que nossa cidade não pode existir sem varejistas. Não é este o nome que se dá aos que, permanecendo na praça pública, nada mais fazem que comprar e vender, reservando-se o nome de atacadistas¹ aos que viajam e pululam de um Estado a outro?”

¹ Poder-se-ia usar o termo “traficantes”, mas a frase adquiriria duplo sentido. O sentido exato da sentença original não pode ser alcançado em Português, uma vez que para nós negociante, mercador ou comerciante adquiriram status de sinônimos, na prática. Então a oposição varejo-atacado não é exatamente a intenção original, mas não deixa de ser um substituto razoável – há o feirante ou microempresário sedentário e o verdadeiro ambulante, modesto ou opulento; mas fala-se aqui, efetivamente, do segundo tipo, empreendedor com capital suficiente para estabelecer papel em redes mais complexas de trocas.

“É provável que muitos não se dêem por satisfeitos com o gênero de vida simples que prescrevemos. Ainda acrescentarão camas, mesas, móveis de todas as sortes, refeições bem-condimentadas, perfumes, incensos, cortesãs e guloseimas de todas as classes e em profusão.”

“Será necessário aumentá-lo e fazer nele entrar uma multidão de gentes que o luxo, e não a necessidade, introduz nos Estados, como caçadores de todos os gêneros e aqueles cuja arte consiste na imitação por intermédio de figuras, cores e sons;¹ e ainda mais, os poetas, com todo seu cortejo, i.e., rapsodos, atores, dançarinos, empresários. E também fabricantes de artigos de todos os gêneros, principalmente aqueles que trabalham para o público feminino. Também precisaremos de novos servos: afinal, para tanta gente não farão falta aios e aias, amas e camareiras, cabeleireiros, garotos-de-recados, cozinheiros e mesmo porqueiros? No primeiro Estado não havia que pensar em todas essas coisas; mas neste, como passar sem elas? e sem toda classe de animais destinados a atender ao paladar dos gastrônomos?

– Com efeito: como não?

– Mas, com este gênero de vida, não crês que os médicos não se fazem mais necessários que antes?

– Muito mais importantes.”

¹ Pintores, escultores e músicos.

“SÓCRATES – Em decorrência, Glauco, faremos a guerra ou não? Vês alguma outra postura possível?

GLAUCO – Só esta tua.”

“SÓCRATES – Agora é preciso, querido amigo, dar guarida, em nosso Estado, a um numeroso exército que possa sair de encontro ao inimigo e defender o Estado e tudo o que possui das invasões do mesmo inimigo.

GLAUCO – Mas como?!?… Não poderão os próprios cidadãos atacar e se defender?

SÓCRATES – Não, se o princípio em que convimos ao formar o plano do Estado for autêntico. Convimos, para te lembrar, que era impossível que um mesmo homem desempenhasse vários ofícios.

GLAUCO – É, tens razão.”

“Mas estar ansioso por aprender e ser filósofo não são uma e a mesma coisa?”

“Formemos, pois, nossos homens como se tivéssemos tempo para contar estórias.”

“- Os discursos, em tua opinião, são parte integrante da música?

– Sim, assim os creio.

– E há discursos de duas classes, verdadeiros e falsos.

– Sim.

– Uns e outros entrarão igualmente em nosso plano de educação, começando pelos discursos falsos?

– Não compreendo teu pensamento.

– Não sabes que o primeiro que se faz com as crianças é contar-lhes fábulas, e que ainda quando se ache algo de verdadeiro nelas, não são, ordinariamente, mais que um tecido de falsidades?”

“Escolhamos os mitos convenientes e descartemos os demais. A seguir, comprometeremos as amas e as mães a entreter suas crianças com os mitos autorizados”

“…os de Hesíodo, Homero e demais poetas; porque os poetas, tanto os de hoje quanto os dos tempos antigos, não fazem nada senão divertir o gênero humano com falsas narrativas.”

“Acima de tudo, não é uma falsidade das maiores e das mais graves a de Hesíodo quanto aos atos de Urano, a vingança suscitada em Cronos, as façanhas deste e o péssimo tratamento que recebeu este de seu filho por sua vez? E ainda que tudo isso fôra exato, não são coisas que devam se contar na frente de crianças desprovidas de razão; é preciso condená-las ao silêncio; ou, se for preciso falar delas, só se deve fazê-lo em segredo, diante de uma audiência seleta, com a proibição expressa de revelar seu conteúdo aos de fora, e assim mesmo só depois de haver feito cada membro dessa audiência imolar, não um porco, mas uma vítima preciosa e rara a fim de limitar o número dos iniciados.” Não se deve contar o inato: o Complexo de Édipo.

“Pelo menos não se devem ouvir nunca em nosso Estado. Não quero que se diga na presença de um jovem que, cometendo os maiores crimes e até se vingando cruelmente de seu próprio pai pelas injúrias recebidas, alguém deixará de cometer qualquer coisa de extraordinário e assombroso, posto que há o precedente dos primeiros e maiores deuses, que deram o mau exemplo.”

“tampouco falaremos dos combates dos deuses, ou dos laços que havia entre uns e outros; lembre-se que nada disso é seguro. Menos ainda daremos a conhecer, seja em narrativas, seja através de pinturas e tapeçarias, as guerras dos gigantes e todas as querelas que houve entre os deuses e os heróis com seus parentes e amigos mais chegados.”

“Que jamais se ouça entre nós que Hera foi agrilhoada pelo próprio filho e Hefesto atirado do céu por seu pai, por ter desejado socorrer sua mãe quando este a mal tratava”

“ADIMANTO – Dizes coisas mui sensatas, mas se se nos perguntasse quais são as fábulas admissíveis, que responderíamos?

SÓCRATES – Adimanto, nem tu nem eu somos poetas. Nós fundamos uma república, e neste conceito nos cabe conhecer segundo que modelo devem os poetas compor suas fábulas, além de proibir que se separem fábula e autor um dia; mas não nos cabe compô-las.

ADIMANTO – Tem razão; mas o que as fábulas devem nos ensinar com respeito à divindade?

SÓCRATES – De imediato, é necessário que os poetas nos representem Deus tal qual é de todos os ângulos, seja na epopéia, seja na ode, seja na tragédia.”

“Deus, sendo essencialmente bom, não é causa de todas as coisas, como se diz por aí. E os bens e os males estão de tal maneira repartidos entre os homens que o mal domina, Deus não é causa senão de uma pequena parte do que nos acontece e não o é em tudo o mais (na natureza). A Deus só se devem atribuir os bens; quanto aos males, é preciso buscar outra causa que não seja a divindade.”

“Que não se dê confiança a Homero nem a qualquer outro poeta, insensato o bastante para disparatar sobre os deuses e para dizer, por exemplo, que:

Sobre o umbral do palácio de Zeus há dois tonéis,

um cheio de destinos felizes

e outro de destinos desgraçados,

Se Zeus toma de um e outro para um mortal,

Sua vida será uma mescla de bons e maus dias;

mas se toma só de um ou só de outro sem mescla,

uma terrível miséria o perseguirá sobre a divina terra.

“Não consentiríamos que se dissessem estes versos de Ésquilo¹ diante de nossa juventude:

A divindade faz crescer a culpa entre os homens

quando quer arruinar uma família totalmente.

¹ Níobe

(*) “Ínaco, drama satírico, atribuído alternadamente a Sófocles, Ésquilo e Eurípides.”

“A mentira, falando com propriedade, é a ignorância, que afeta a alma do que é enganado; porque a mentira nas palavras não é mais que uma expressão do sentimento que a alma experimenta; não é uma mentira pura, mas um fantasma filho do erro.”

“Deus é essencialmente reto e veraz em seus ditos e em suas ações, não muda de forma, nem pode enganar os demais, nem mediante fantasmas, nem mediante discursos, nem valendo-se de signos, seja durante o dia e à vigília, seja durante a noite e em sonhos.”

OBRA COMPLETA DE FREUD – Tomo XI // NO DIVÃ COM CILA

06/06/2016 a 06/10/2016

Org. James Strachey, Anna Freud et al.

GLOSSÁRIO

coupeurs de nattes: pervertidos que sentem prazer em cortar o cabelo das mulheres.

macropsia: percepção que avoluma ou aumenta os corpos e objetos. Comum em hipoglicêmicos.

hebefrenia: loucura adolescente, demência precoce, esquizofrenia [!]

milhafre: ave

paramnésia: perturbação que faz esquecer a significação das palavras escutadas ou lidas

parético: enfraquecimento muscular não-relacionado com Pareto (paresia)!

Sprachwissenschaftliche Abhandlungen: ensaios filológicos

A) 5 LIÇÕES DE PSICANÁLISE (1910)

Entre 1885 e 1886 foi discípulo de Charcot em Paris, e acompanhou, em 1889, em Nancy, as experiências de Bernheim sobre o hipnotismo.” Durval Marcondes

Horácio recomendava esperar 9 anos para se publicar um escrito. Ora…

Há cerca de 40 anos que ele se dedica diariamente a 8, 9, 10, às vezes mesmo 11 análises de 1h cada.” Stephen Zweig, 1931

* * *

Caminharemos por algum tempo ao lado dos médicos, mas logo deles nos apartaremos”

esse enigmático estado que desde o tempo da medicina grega é denominado histeria” “diante da histeria o médico não sabe o que fazer” Para mais detalhes de Anna O., a “primeira histérica moderna”, ver BREUER.

Tomava na mão o cobiçado copo d’água, mas assim que o tocava com os lábios, repelia-o como hidrófoba. Para mitigar a sêde que a martirizava, vivia sòmente de frutas, melões etc. (…) despertou da hipnose com o copo nos lábios. A perturbação desapareceu definitivamente.”

Toda essa cadeia de recordações patogênicas tinha então de ser reproduzida em ordem cronológica e precisamente inversa – as últimas em primeiro lugar e as primeiras por último – sendo completamente impossível chegar ao primeiro trauma, muitas vezes o mais ativo, saltando sobre os que ocorreram posteriormente.”

Numa senhora de cêrca de 40 anos existia um tic (tique) sob a forma de um especial estalar da língua, que se produzia quando a paciente se achava excitada e mesmo sem causa perceptível. Originara-se esse tique em 2 ocasiões nas quais, sendo desígnio dela não fazer nenhum rumor, o silêncio foi rompido contra sua vontade justamente por esse estalido. Uma vez, foi quando com grande trabalho conseguira finalmente fazer adormecer seu filhinho doente, e desejava, no íntimo, ficar quieta para o não despertar; outra vez quando, numa viagem de carro com dois filhos, por ocasião de uma tempestade, os cavalos se assustaram e ela cuidadosamente quisera evitar qualquer ruído para que os animais não se espantassem ainda mais.”

histéricos e neuróticos: não só recordam acontecimentos dolorosos que se deram há muito tempo, como ainda se prendem a eles emocionalmente; não se desembaraçam do passado e alheiam-se por isso da realidade e do presente.” UnB quarto pai Marianna ranço Dilma risada buchicho cristofobia TCC formatura vai ter golpe vozdeus levaratéofimumavezcomeçadoojogo.

Breuer resolveu admitir que os sintomas histéricos apareciam em estados mentais particulares que chamava <hipnóides>. As excitações durante esses estados hipnóides tornam-se facilmente patogênicas porque não encontram neles as condições para a descarga normal do processo de excitação.” Eu não era eu.

Meu pai esteve comigo – quero dizer: contra mim! ao menos se estivera ausente em ALGUMA destas ocasiões! – em todos os meus piores momentos, geralmente como protagonista ou incentivador-da-lenha-na-fogueira:

– Expulsão do colégio militar (VIVA O BOZO!);

– Tome este volante, mesmo que não queira…

– Sociologia, mas que merda!

– Por que não pagam nem passagem no seu estágio gratuito? Na verdade é um estágio oneroso!

– Sua namorada é uma vaca, a sua cunhada me contou (complô de novela mexicana – não pode estar acontecendo comigo, não é possível…)

– Você CUSTA a crescer, come demais!

– Eu não quero que você use um computador, seu nerd!

– HAHAHA! Te humilharam, HAHAHA!

– Como assim você detesta a UnB?

– Para mim você não se formou.

– Você tinha que continuar a dar aula.

– Por que você faz essa terapia idiota e toma esses remédios inúteis?

– Roque pauleira?! Urgh…

– Desenhinho?

– Você devia fazer a prova do Barão de Rio Branco…

– Você gosta de estudar, por que não se doutora?

– Não gosto da sua esposa, não gosto dessa pobraiada carioca, não gosto que você não assuma compromissos e que não pague a taxa de água, inclusive prefiro os outros inquilinos problemáticos a você…

– Finjo que não gostaria que você tivesse um filho justamente quando você pensou que seria pai só para nunca me contradizer, isto é, sempre rebaixá-lo! Agora que sua chance de ser pai é 0, eu gostaria muito de um neto…

– Por que você nunca me ajuda quando eu peço?

– Você não é o FERA em informática? Me ajude a renovar este detector de radares, me ajude a pagar esta multa, me ajude, me ajude com a 2ª via, me ajude!!!… Ingrato!

– Lula isso Lula aquilo, PT me fodeu, comeu meu cu, fodeu meu país, só você não enxerga isso!

– Não consegue dormir? Que mentira é essa?!

– Idiota, não serve nem pra reagir a um assalto!

– Eu sou muito macho, reajo a PMs… Inclusive, revise esse texto em que conto essa estória; vou entregá-la na delegacia.

– Não existe este livro clássico de autor alemão na Alemanha democrática, este homem facínora (socialista, veja você!) foi banido deste país de Primeiro Mundo!

– Por que você demorou tanto na perícia médica, por que você relatou isso ao médico? Vão pensar que você é doido! Seja mais esperto, bata na mesa, resolva, como eu!

– ISSO É FRESCURA! SUA VIDA É UMA FRESCURA! Nos dois sentidos: eu PENEI bem mais. Tenha dó deste moribundo aqui…

– Cuide do seu irmão, pois eu vou morrer e ele precisa ser cuidado – por que não você?! Só porque eu nunca fiz nada do que te peço, não quer dizer que você não tenha que me obedecer, afinal, SOU SEU PAI! EU RESPEITAVA MEU PAI! MEU PAI ERA UM MERDA! Mas não divaguemos sobre aquilo que não nos diz respeito… Porque filosofar é coisa de inútil…

Onde existe um sintoma, existe também uma amnésia, uma lacuna da memória, cujo preenchimento suprime as condições que conduzem à produção do sintoma.”

A teoria de Breuer, dos estados hipnóides, tornou-se aliás embaraçante e supérflua, e foi abandonada pela psicanálise moderna.”

P. 24: “Tornou-se-me logo enfadonho o hipnotismo, como recurso incerto e algo místico; e quando verifiquei que apesar de todos os esforços não conseguia hipnotizar senão parte de meus doentes, decidi abandoná-lo, tornando o procedimento catártico independente dele.

dissociação” – mito ligado à histeria?

Somos todos fujões.

Em lugar do breve conflito, começa então um sofrimento interminável.”

Podemos admitir que seja tanto maior a deformação do elemento procurado quanto mais forte a resistência que o detiver.”

Aceitando a proposta da Escola de Zurique (Bleuler, Jung e outro), convém dar o nome de <complexo> a um grupo de elementos ideacionais interdependentes, catexizados de energia afetiva.”

Uma observação atenta mostra, contudo, que as idéias livres nunca deixam de aparecer.”

Para o psicanalista este método é tão precioso quanto para o químico a análise qualitativa.”

estudo das psicoses, com tanto êxito empreendido pela Escola de Zurique [?]”

O tripé do psicanalista: livre associação – sonho – ato falho. Meu blog é um manancial dos dois primeiros.

Parece-me quase escandaloso apresentar-me neste país de orientação prática como <onirócrita>”

Quando me perguntam como pode uma pessoa fazer-se psicanalista, respondo que é pelo estudo dos próprios sonhos.”

Hora solene de bramir o chicote em cômodos escuros semiconhecidos, dar uma flor até para quem é homem e quem sabe rolar por aí velozmente sem olhar para trás. Cifrões. O que mais me dá raiva é que eu gostaria de matar quem me proporcionava isso na infância.

Por ora continuarei matando edipianamente a aula de inglês, refazendo meus estudos abandonados e esquecendo a bolsa de educação física. E me deixarei dominar pelo pânico e dissabor do instante. Ansiosos não tem pesadelos.

Na vida onírica a criança prolonga, por assim dizer, sua existência no homem, conservando todas as peculiaridades e aspirações, mesmo as que se tornam mais tarde inúteis.”

A ansiedade é uma das reações do ego contra desejos reprimidos violentos.”

o esquecimento de coisas que deviam saber e que às vezes sabem realmente (p.ex. a fuga temporária dos nomes próprios), os lapsos de linguagem, tão freqüentes até mesmo conosco, na escrita ou na leitura em voz alta; atrapalhações no executar qualquer coisa, perda ou quebra de objetos, etc., bagatelas de cujo determinismo psicológico de ordinário não se cuida, que passam sem reparo como casualidades, como resultado de distrações, desatenções. Juntam-se ainda os atos e gestos que as pessoas executam sem perceber, e sobretudo, sem lhes atribuir importância mental, como sejam trautear melodias, brincar com objetos, com partes da roupa ou do próprio corpo, etc.” Cf. A Psicopatologia da Vida Cotidiana, 1901.

as perturbações do erotismo têm a maior importância entre as influências que levam à moléstia, tanto num como noutro sexo.” “Quando, em 1895, publiquei com o Dr. J. Breuer os Estudos sobre a Histeria, ainda não tinha esta opinião”

aquela mescla de lubricidade a afetado recato é o que governa a maioria dos <povos civilizados> nas coisas da sexualidade.”

Só os fatos da infância explicam a sensibilidade aos traumatismos futuros e só com o descobrimento desses restos de lembranças é que (…) afastamos os sintomas.”

Não é verdade certamente que o instinto sexual, na puberdade, entre no indivíduo como, segundo o Evangelho, os demônios nos porcos.”

F. – The Analysis of a Phobia in a Five-Year-Old Boy

O prazer de chupar o dedo, o gozo da sucção, é um bom exemplo de tal satisfação auto-erótica partida de uma zona erógena. Quem primeiro observou cientificamente esse fenômeno, o pediatra Lindner (1879), de Budapeste, já o tinha interpretado como satisfação dessa natureza e descrito exaustivamente a transição para outras formas mais elevadas de atividade sexual. Outra satisfação da mesma ordem, nessa idade, é a excitação masturbatória dos órgãos genitais, fenômeno que tão grande importância conserva para o resto da vida e que muitos indivíduos não conseguem suplantar jamais.”

Do gozo visual ativo [voyeurs] desenvolve-se mais tarde a sede de saber, como do passivo [exibicionista] o pendor para as representações artísticas e teatrais.”

Os mais profundamente atingidos pela repressão são primeiramente, e sobretudo, os prazeres infantis coprófilos”

o complexo nuclear de cada neurose”

P. 44: Édipo e Hamlet

O homem enérgico e vencedor é aquele que pelo próprio esforço consegue transformar em realidade seus castelos de ar.” E eu que fui longe demais… quixotei-me para salvar-me… Psicanálise como castelo aéreo. Lucy in the divan without diamonds…

Quando a pessoa inimizada com a realidade possui dotes artísticos (psicologicamente ainda enigmáticos [hehe]) podem suas fantasias transmudar-se não em sintomas senão em criações artísticas. Cf. Rank, 1907

VdP: “Conforme as circunstâncias de quantidade e da proporção entre as forças em choque, será o resultado da luta a saúde, a neurose ou a sublimação compensadora.” Categoria residual do que ele não pôde entender.

Nunca acabarão nem a ternura nem a repulsa.

Pp. 47-8: o transfer

B) LEONARDO DA VINCI E UMA LEMBRANÇA DA SUA INFÂNCIA [Eine Kindheitserinnerung des Leonardo da Vinci] (1910), trad. brasileira: Walderedo Oliveira

Leonardo, que talvez fosse o mais famoso canhoto da história, jamais tivera um caso de amor.”

(*) “o estudo freudiano sobre mães-deusas andróginas”

Es liebt die Welt das Strahlende zu schwärzen

Und das Erhabene in den Staub zu ziehn.”

O mundo gosta de denegrir o brilhante

E arrastar na lama o sublime.”

Schiller, A Jovem de Orléans

gênio universal cujos traços se podia esboçar, nunca definir” Burckhardt

Desprezava o ofício de escritor. Trattato della Pittura.

O que para você é o Big Bang para mim foi só uma conseqüência.

descobria defeitos em coisas que, aos outros, pareciam milagres.” Solmi (1910)

Von Seidlitz traz uma história das obras de Da Vinci, relatando telas e restaurações…

Desenhou armas para César Bórgia apesar de pacifista.

Não existe nas anotações de Leonardo um único comentário a respeito dos acontecimentos de sua época ou qualquer demonstração de preocupação com êles.”

Leonardo [se absteve de] examinar de perto os mamilos de qualquer mulher em período de amamentação. Se o tivesse feito teria certamente notado que o leite passa através de uma porção de canais excretores separados. Leonardo, no entanto, desenhou um único canal”

Não se tem o direito de amar ou odiar qualquer coisa da qual não se tenha conhecimento profundo.” Botazzi

Solmi, o “bom biógrafo”, segundo Freud: “Tale transfigurazione della scienza della natura in emozione, quasi direi, religiosa, è uno dei tratti caratteristici del manoscritii vinciani”

Terá pesquisado em vez de amar.”

não mais queria estudar pelo amor à arte mas, sim, pelo próprio amor ao estudo.” Solmi

Il sole non si move.” in: Quaderni d’Anatomia

P. 72: as crianças e as perguntas

Quem o tempo todo se reescreve demonstra que não pode passar por correto mesmo durante uma geração. Ou alguém aí já ouviu falar de uma segunda edição do Hamlet? Para nós, o que está dito, está dito. Livro perene de pedra, numa única camada.

Filho de peixe molusco alado é. Filho de molusco alado peixe é.

A tendência a botar o órgão sexual masculino na bôca e a chupá-lo, o que numa sociedade respeitável é considerado uma perversão sexual horrível, encontra-se, no entanto, com muita freqüência entre as mulheres de hoje – e de outros tempos também, como o evidenciam esculturas da antiguidade – e no ardor da paixão isso parece perder completamente o seu caráter repulsivo.” O boquete é instintivo.

Krafft-Ebing – Psycopathia Sexualis

Little Hans virou Joãozinho no Brasil.

O que nos leva a classificar alguém como sendo um invertido (homossexual) não é o seu comportamento real porém a sua atitude emocional.”

Antes do séc. XIX, ninguém podia saber a conotação dos hieróglifos egípcios. Uma civilização tão antiga, uma impressão e um julgamento tão recentes…

Uma característica especial do panteão egípcio era que os deuses individuais não desapareciam quando ocorria um processo de sincretismo.” “Ora, essa deusa-mãe com cabeça de abutre era geralmente representada pelos egípcios com um falo, seu corpo era de mulher, conforme mostram os seus seios, mas possuía também um membro masculino em ereção.”

Neith de Saís – de quem se originou, mais tarde, a Atenéia dos gregos” – cf. https://seclusao.art.blog/2019/06/08/timeu-ou-da-natureza/

podemos encontrar aqui uma das raízes do anti-semitismo que aparece com fôrça tão elementar e se manifesta de modo tão irracional entre as nações do Oeste. A circuncisão é inconscientemente associada à castração.”

Um culto fetichista cujo objeto é o pé ou calçado feminino parece tomar o pé como mero símbolo substitutivo do pênis da mulher, outrora tão reverenciado e depois perdido.”

Sem o saber, os coupeurs de nattes desempenham o papel de pessoas que executam um ato de castração sôbre o órgão genital feminino.” Escola Classe 106 Norte – Érika & A Tesoura Amarela Poucas madeixas. Impulso incontrolável. Diretoria. Morte da lembrança. Hiato. Morte da Infância. Ressurreição. E se…? E se for “inveja da feminilidade”, a antítese da inveja do pênis? E se radica aí minha obsessão metaleira, minha preferência por deixar o cabelo crescer?

e quando a conexão entre a religião oficial e a atividade sexual se tornou oculta da consciência geral, cultos secretos se dedicavam a conservá-la viva entre um certo número de iniciados.”

Pp. 91-2: as mais polêmicas até aqui. Freud defende uma “homossexualidade universal”; só o que há para diferenciar são os graus de intensidade e o caráter mais ou menos passageiro da “coisa”. Todo desenvolvimento sexual não-aberrante incluiria uma fase homossexual na infância.

Em todos os nossos casos de homossexuais masculinos [notável sua ignorância sobre o lesbianismo, derivada da sua ignorância em geral relativa às mulheres], os indivíduos haviam tido uma ligação erótica muito intensa com uma mulher, geralmente sua mãe, durante o primeiro período de sua infância, esquecendo depois êsse fato; essa ligação havia sido despertada ou encorajada por demasiada ternura por parte da própria mãe, e reforçada posteriormente pelo papel secundário desempenhado pelo pai durante sua infância. Sadger chama atenção para o fato de as mães dos seus pacientes homo. serem muitas vezes masculinizadas, mulheres com enérgicos traços de caráter e capazes de deslocar o pai do lugar que lhe corresponde.”

O menino reprime seu amor pela mãe, coloca-se em seu lugar, identifica-se com ela, e toma a si próprio como um modêlo a que devem assemelhar-se os novos objetos de seu amor. Dêsse modo êle transformou-se num homossexual.”

Como escolhia seus alunos pela beleza e não pelo talento, nenhum dêles – Cesare da Sesto, Boltraffio, Andrea Salaino, Francesco Melzi e outros mais – veio a tornar-se um pintor de importância.”

As formas de expressão por que a libido reprimida de L. se tornava manifesta – preocupação e pormenores com referência a dinheiro – estão entre os traços de caráter resultantes do erotismo anal. Ver meu trabalho Character and Anal Erotism (1908b).”

Qualquer pessoa que pense nas pinturas de L. recordar-se-á de um sorriso notável, ao mesmo tempo fascinante e misterioso, que êle punha nos lábios de seus modêlos femininos. É um sorriso imutável, desenhado em lábios longos e curvos; tornou-se uma característica do seu estilo e o têrmo <Leonardiano> tem sido usado para defini-lo.²

² [Nota acrescentada em 1919:] O conhecedor de arte pensará aqui no peculiar sorriso fixo encontrado em esculturas gregas arcaicas – nas de Egina, p.ex.; encontrará também qualquer coisa semelhante nas figuras de Verrocchio, professor de L. e, portanto, se sentirá reticente em aceitar os argumentos que se seguem.”

Voilà 4 siècles bientôt que Mona Lisa fait perdre la tête à tous ceux qui parlent d’elle, après l’avoir longtemps regardée.” Gruyer Apud SEIDLITZ

o contraste entre a reserva e a sedução, e entre a ternura mais delicada e uma sensualidade implacàvelmente exigente” “tendresse et coquetterie, pudeur et sourde volupté” “nel poema del suo sorriso” “toda a hereditariedade da espécie” “a bondade que esconde o propósito cruel”

O Autor como escravo de uma sua obra

<Heilige Anna Selbdritt> quadro da Madona

Assim, como todas as mães frustradas, substituiu o marido pelo filho pequeno.” NiE(l)tzc(in)e

(blow

list of f*cked liszts jew jeu jaws

LISTERINE

ELINE

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STERILE

clister

ter-lírica-e-ter-talento

bala-no-taco

L

E

I

S

servem para ser o-bebê-descidas pela go’ela dos sub’jug(ular)ados

úvula

lar dos desterrados

slavejó)

êle já tinha estado tempo demais sob o domínio da inibição para que pudesse voltar a desejar tais carícias dos lábios de outras mulheres”

É apenas um pequeno detalhe e ninguém, a não ser um psicanalista, lhe daria maior importância.”

Criava a obra de arte e depois dela se desinteressava, do mesmo modo que seu pai se desinteressava por êle.”

as raízes da necessidade de religião se encontram no complexo parental.”

estou-no-mundo

Adão era adolescente.

D***-Al*****-Ed***** o Triângulo Maldito dos Mimados para a Psicanálise Clássica. Reformado-Clássico-Proscrito

nos sonhos o desejo de voar representa verdadeiramente a ânsia de ser capaz de realizar o ato sexual.”

¹¹ [1919:] Esta afirmação baseia-se nas pesquisas de Paul Federn (1914) e Mourly Vold (Über den Traum, 1912 [parece não haver tradução para nenhuma língua]), um cientista norueguês que não tinha nenhum contato com a psicanálise.”

P. 115: o mito da “felicidade na infância”

Goku, o Fodedor

Tornou-se impacientissimo al pennello [pincel]”

C) AS PERSPECTIVAS FUTURAS DA TERAPÊUTICA PSICANALÍTICA [Die Zukünftigen Chancen der Psychoanalytischen Therapie] (1910), trad. brasileira David Mussa

<trepar> [em alemão <steigen>]¹ se usa como equivalente direto do ato sexual. Falamos de um homem como um <Steiger> [trepador] e de <nachsteigen> [correr atrás de, literalmente trepar]. Em francês os degraus de uma escada chamam-se <marches> e <un vieux marcheur> tem o mesmo sentido que o nosso <ein alter Steiger> [um velho devasso].”

¹ Curiosamente o bastante, escada em alemão é Treppe.

8 “[Nota do tradutor] Freud nem sempre estava igualmente convencido da possibilidade de auto-análises adequadas para aspirantes a analistas. Mais tarde, êle insistiu na necessidade de análises didáticas conduzidas por alguma outra pessoa.” Cause the world is full (fool!) of creepers (creeps, bisonhos, trepadeiras, tarados)!

Os senhores não podem exagerar a intensidade de carência interior de decisão das pessoas e de exigência de autoridade. O aumento extraordinário das neuroses desde que decaiu o poder das religiões pode dar-lhes uma medida disso.”

Uma operação, por certo, se destina a produzir reações; em cirurgia, estamos acostumados a isso, há muito tempo.”

os senhores devem pensar na posição de um ginecologista, na Turquia e no Ocidente. Na Turquia, tudo o que ele pode fazer é sentir o pulso de um braço, que se lhe estende através de um buraco na parede.”

A sugestão social é favorável, no presente, a tratar os pacientes nervosos pela hidropatia, dieta e eletroterapia, mas isso não capacita que tais recursos possam vencer as neuroses.”

O sucesso que o tratamento pode ter com o indivíduo deve ocorrer, igualmente, com a comunidade.”

a sua ansiosa superternura que tem em mira ocultar-lhes o ódio, a sua agorafobia que se relaciona com a ambição frustrada, as suas atitudes obsessivas que representam auto-censuras por más intenções e precauções contra as mesmas.”

essa necessidade de encobrimento [sintomas, provavelmente orgânicos, ou psicológicos ainda mais graves, que disfarçam a neurose – <ele é esquisito porque é tuberculose, porque tem pressão baixa, porque tem dores de cabeça e de barriga o tempo inteiro, porque sua coluna dói, porque herdou muitos genes ruins dos parentes…] destrói as vantagens de ser doente.” “Certo nº de pessoas, ao defrontar-se, em suas vidas, com conflitos que constataram muito difíceis de resolver, fogem para a neurose e, dêsse modo, retiram da doença vantagem inequívoca, embora, com o tempo, acarrete bastante prejuízo.” “Um bom nº daqueles que, hoje, fogem para a enfermidade não suportariam o conflito”

Lembremo-nos, no entanto, que nossa atitude perante a vida não deve ser a do fanático por higiene ou terapia.”

D) A SIGNIFICAÇÃO ANTITÉTICA DAS PALAVRAS PRIMITIVAS (prefiro ‘O contra-senso inerente aos conceitos’) [Über den Gegensinn der Urworte] (1910), trad. brasileira Clotilde da Silva Costa

Por que os sonhos funcionam sob o mecanismo da inversão da representação do desejo.

O nosso ofício de ironista.

Karl Abel (filósofo contemporâneo de F.): “Se a palavra egípcia <ken> devia significar <forte>, seu som que fosse alfabèticamente escrito seguia-se da figura de um homem em pé, armado; se a mesma palavra tinha de expressar <fraco>, as letras que representam o som se seguiam da figura de um corcunda, coxo.”

macio macilento

Em latim <altus> significa <alto> e <profundo>, <sacer> <sagrado> e <maldito> (…) <clamare> (gritar) – <clam> (suavamente, secretamente); <siccus> (sêco) – <succus> (suco). Em alemão <Boden> ainda significa o mais alto bem como o mais baixo da casa (sótão ou chão). Nosso <bös> (mau) se casa com a palavra <bass> (melhor [boss! boçal!]); em saxão antigo <bat> (bom [o homem-mocego é bom!]) corresponde ao inglês <bad> e o inglês <to lock> (trancar) ao alemão <Lücke>, <Loch> (vazio, buraco).”

<stumm> (mudo), <Stimme> (voz)”

5 “[Nota da tradutora] Diz-se que <lucus> (bosque em latim) se deriva de <lucere> (brilhar) porque nêle não há claridade. (Atribuído a Quintiliano.)” lusco-fusco

Mesmo hoje o homem inglês para exprimir <ohne> (sem) diz <without> (<mitohne>, i.e., com-sem), e o prussiano oriental faz o mesmo. A própria palavra <with>, que hoje corresponde ao <mit>, originàriamente significava ao mesmo tempo <sem> e <com>, como se pode reconhecer no inglês <withdraw> (retirar) e <withhold> (reter). A mesma transformação pode ser vista em <wider> (contra) e <wieder> (junto com).”

Topf – pot (DEU/ENG)

boat – tub (ENG/ENG)

wait – täwwen (ENG/DEU)

reck – care (ENG/ENG)

Balken – Klobe (DEU/DEU – viga, cepo)

capere – packen (LAT/DEU – tomar, agarrar respect.)

ren – Niere (LAT/DEU – rim)

leaf – folha (ENG/POR)

me  him

her  their

Leafar (li e fui longe, so far…)

Folha, Vento, folhas ao vento, oxigênio…

escrever&respirar

rayo

sucede a água

Arauto do Ar²

Taurus ²5

Sure-ata

seus réus

céus! rois reis en Romme

sóis brilhem me libertem, só. é.

fair lady não ria é uma bela moça cheia da lábia

Até um idiota como Stephen Hawking diria que no sono regular o ser humano rebobina a fita…

E) UM TIPO ESPECIAL DE ESCOLHA DE OBJETO FEITA PELOS HOMENS (Contribuições à Psicologia do Amor I) – Über einen besonderen Tipus der Objektwahl beim Manne (Beiträge zur Psichologie des Liebeslebens I) (1910 [überproduktiv!]), trad. brasileira Clotilde da Silva Costa

a precondição de que deva existir <uma terceira pessoa prejudicada>” “a pessoa em questão nunca escolherá uma mulher sem compromisso, i.e., uma moça solteira ou uma mulher casada livre” [???] “a segunda precondição consiste no sentido de que a mulher casta e de reputação irrepreensível nunca exerce atração que a possa levar à condição de objeto amoroso, mas apenas a mulher que é, de uma ou outra forma, sexualmente de má reputação, cuja fidelidade e integridade estão expostas a alguma dúvida.” “se torna alvo desse ciúme não o possuidor legítimo da pessoa amada, mas estranhos que fazem seu aparecimento pela primeira vez”

Don Juan: o primeiro afoito?

Para Freud a série tendente ao infinito das perguntas das crianças se resumiriam na matriz “como nascem as crianças?”. O que não faz sentido é a – súbita ou gradual – perda de interesse na questão antes de um esboço de resolução.

O que faria o macho alfa mais orgulhoso: desvirginar a donzela ou “ligar” o órgão da puta? Arrombar ou lacrar? Violar ou cicatrizar?

PRIMEIRA CITAÇÃO DO C.E. ENCONTRADA EM FREUD: “Ele começa a desejar a mãe para si mesmo, no sentido com o qual, há pouco, acabou de se inteirar, e a odiar de nova forma o pai como um rival que impede esse desejo; passa, como dizemos, ao controle do complexo de Édipo.”

Não perdoa a mãe por ter concedido o privilégio da relação sexual, não a ele, mas a seu pai, e considera o fato como um ato de infidelidade. Se esses impulsos não desaparecerem rapidamente, não há outra saída para os mesmos, senão seguir seu curso através de fantasias que têm por tema as atividades sexuais da mãe (ou primeiro amor), nas mais diversas circunstâncias; e a tensão conseqüente leva, de maneira particularmente rápida, a buscar alívio na masturbação.”

Quando a criança ouve dizer que deve sua vida aos pais, ou que sua mãe lhe deu a vida, seus sentimentos de ternura aliam-se a impulsos que lutam pelo poder e pela independência, e geram o desejo de retribuir essa dádiva aos pais e de compensá-los com outra de igual valor.”

<Não quero nada de meu pai; devolver-lhe-ei tudo quanto gastou comigo.> [!!!]” “a fantasia de salvar o pai de perigo” “o sentido desafiador é de longe o mais importante” “salvar a mãe adquire o significado de lhe dar uma criança – é supérfluo dizer, uma igual a ele.”

a experiência do nascimento, provavelmente, nos legou a expressão de afeto que chamamos de ansiedade. Macduff,¹ da lenda escocesa, que não nasceu de sua mãe mas lhe foi arrancado do ventre, por esse motivo não conhecia a ansiedade.²”

¹ Em Macbeth.

² Aprofundamento da questão parto-ansiedade em Inibições, Sintomas e Ansiedade.

F) SOBRE A TENDÊNCIA UNIVERSAL À DEPRECIAÇÃO NA ESFERA DO AMOR (Contribuições à Psicologia do Amor II) – Über die Allgemeinste Erniedrigung des Liebeslebens (Beiträge zur Psichologie des Liebeslebens II) (1912), trad. brasileira Jayme Salomão

Se o psicanalista clínico indagar a si mesmo qual perturbação leva as pessoas com maior freqüência a procurarem-no em busca de auxílio, ele será compelido a responder que consiste nas diversas formas de ansiedade.”

Artigo sobre a impotência sexual ligada a mulheres parecidas com a mãe no sentido freudiano, ou seja, ligada a mulheres que se escolheu amar.

Gênese 2:24

a impotência total que, talvez, mais tarde se reforce pelo início simultâneo de um real debilitamento dos órgãos que realizam o ato sexual.”

psicanestésicos, homens que nunca falham no ato, mas que o realizam sem dele derivar qualquer prazer especial”

mulheres frígidas” “Esta é a origem do empenho realizado por muitas mulheres de manter secretas, por certo tempo, mesmo suas relações legítimas”

o homem quase sempre sente respeito pela mulher que atua com restrição a sua atividade sexual, e só desenvolve potência completa quando se acha com um objeto sexual depreciado; e isto por sua vez é causado, em parte, pela entrada de componentes perversos em seus objetivos sexuais, os quais não ousa satisfazer com a mulher que ele respeita.” “Também é possível que a tendência a escolher uma mulher de classe mais baixa para sua amante permanente ou mesmo para sua esposa, tão freqüentemente observada nos homens de classes mais altas da sociedade, nada mais seja que sua necessidade de um objeto sexual depreciado” “[tais homens] consideram o ato sexual, basicamente, algo degradante, que conspurca e polui mais do que simplesmente o corpo.”

É, naturalmente, tão desvantajoso para a mulher se o homem a procura sem sua potência plena como o é se a supervalorização inicial dela, quando enamorado, dá lugar a uma subvalorização depois de possuí-la.”

Pode-se verificar, facilmente, que o valor psíquico das necessidades eróticas se reduz, tão logo se tornem fáceis suas satisfações. Para intensificar a libido, se requer um obstáculo” “Nas épocas em que não havia dificuldades que impedissem a satisfação sexual, como, talvez, durante o declínio das antigas civilizações, o amor tornava-se sem valor e a vida vazia”

os componentes instintivos coprófilos, que demonstraram ser incompatíveis com nossos padrões estéticos de cultura, provavelmente porque, em conseqüência de havermos adotado a postura ereta, erguemos do chão nosso órgão do olfato. (…) o excrementício está todo, muito íntima e inseparàvelmente ligado ao sexual; a posição dos órgãos genitais – inter urinas et faeces – permanece sendo o fator decisivo e imutável. Poder-se-ia dizer neste ponto, modificando um dito muito conhecido do grande Napoleão: <A anatomia é o destino.> Os órgãos genitais propriamente ditos não participaram do desenvolvimento do corpo humano visando à beleza: permaneceram animais (…) é absolutamente impossível harmonizar os clamores de nosso instinto sexual com as exigências da civilização.”

G) O TABU DA VIRGINDADE (Contribuições à Psicologia do Amor III) – Das Tabu der Virginität (Beiträge zur Psichologie des Liebeslebens III) (1918)

a prática da ruptura do hímen dessa maneira, fora do casamento subseqüente, é muito disseminada entre as raças primitivas que vivem ainda hoje. Como diz Crawley, <Essa cerimônia do casamento consiste na perfuração do hímen por uma pessoa designada que não o marido; é muito comum nos estágios mais baixos de cultura, especialmente na Austrália.> (Crawley, 1902, 347)”

Nas tribos Portland e Glenelg isto é feito à noiva por uma mulher idosa; e, às vezes, com essa finalidade são solicitados homens brancos, para deflorar as moças púberes (Brough Smith, 1878).”

A ruptura, às vezes, ocorre na infância”

Esse defloramento é efetuado pelo pai da noiva entre os Sakais (Malásia), os Battas (Sumatra) e os Alfoers das Celebes (Ploss e Bartels, 1891).” “Nas Filipinas haviam (sic) determinados homens cuja profissão era deflorar noivas, caso o hímen não houvesse sido perfurado na infância por uma mulher idosa, às vezes contratada para esse fim (Featherman, 1885-91).”

A perfuração ritual não acarreta necessàriamente a relação sexual. Freud critica o acanhamento e superficialidade dos primeiros etnógrafos.

8 “Em numerosos exemplos, não pode haver dúvidas de que outras pessoas além do noivo, p.ex., seus convidados e companheiros (nossos tradicionais <padrinhos do noivo> [<Kranzelherrn>]) têm livre acesso à noiva.”

a circuncisão de meninos e seu equivalente ainda mais cruel nas meninas (excisão do clitóris e dos pequenos lábios)”

em algumas ocasiões especiais, a sexualidade do homem primitivo pode sobrepujar todas as inibições; mas de maneira geral, parece ser mais fortemente dominada por proibições do que o é nas camadas mais altas da civilização.”

não se permite a um sexo pronunciar em voz alta os nomes próprios dos membros do outro sexo e as mulheres criam uma linguagem com um vocabulário especial.” “em algumas tribos, mesmo os encontros entre marido e mulher têm de se realizar fora de casa e às escondidas.”

SUPER MALLEVS MALEFICARVM: “Ele não separa o perigo material do psíquico, nem o real do imaginário. Em sua concepção animista do universo consistentemente aplicada, todo perigo decorre da intenção hostil de algum ser dotado de alma como ele próprio”

A frigidez inclui-se, assim, entre os determinantes genéticos das neuroses.”

<noites de Tobias> (o costume da continência durante as três primeiras noites do casamento)”

P. 190: “Por trás dessa inveja do pênis, manifesta-se a amarga hostilidade da mulher contra o homem, que nunca desaparece completamente nas relações entre os sexos e que está claramente indicada nas lutas e na produção literária das mulheres <emancipadas>. Em uma especulação paleobiológica, Ferenczi atribuiu a origem dessa hostilidade das mulheres à época em que os sexos se tornavam diferenciados. A princípio, a cópula realizou-se entre dois indivíduos semelhantes, um dos quais, no entanto, transformou-se no mais forte e forçou o mais fraco a se submeter à união sexual. Os sentimentos de amargura decorrentes dessa sujeição ainda persistem na disposição das mulheres hoje em dia.”

Arthur Schitzler – Das Schicksal des Freiherrn

Uma comédia da autoria de Anzengruber mostra como um simples camponês é dissuadido de casar com sua noiva pretendida porque ela é <uma rapariga que lhe cobrará primeiro a vida>. Por esse motivo ele concorda em que ela case com outro homem e está disposto a aceitá-la quando ficar viúva e não for mais perigosa. O título da peça, Das Jungferngift (<O Veneno da Virgem>), traz-nos à lembrança o hábito dos encantadores de serpentes que, primeiro, fazem as cobras venenosas morderem um pedaço de pano a fim de, depois, lidarem com elas sem perigo.”

Hebbel – Judite e Holofernes: “Quando o general assírio está cercando sua cidade, ela concebe o plano de seduzi-lo com sua beleza e de destruí-lo, usando assim um motivo patriótico, para esconder outro, sexual. Depois de haver sido deflorada por esse homem poderoso, que se gaba de seu vigor e de sua insensibilidade, ela encontra forças em sua fúria para lhe cortar a cabeça, tornando-se assim a libertadora de seu povo. (…) É claro que Hebbel sexualizou intencionalmente a narrativa patriótica do Apócrifo do Velho Testamento, pois, nela, Judite pode se gabar, depois ao voltar, que não foi violada, e nem existe no texto bíblico qualquer menção de sua misteriosa noite nupcial. Mas provavelmente, com a fina percepção de poeta, ele percebeu o velho motivo, que se havia perdido na narrativa tendenciosa [infantil Apud Groddeck].”

H) A CONCEPÇÃO PSICANALÍTICA DA PERTURBAÇÃO PSICOGÊNICA DA VISÃO – Die Psychogene Sehstörung in Psychoanalytischen Auffassung (1910), trad. brasileira Paulo Dias Corrêa

nos pacientes predispostos à histeria, há uma tendência inerente à dissociação – a uma desagregação das conexões em seu campo psíquico”

FREUD, O PAI DO SEXO: “Foi Jung, e não eu, que fêz da libido um equivalente da fôrça instintiva da tôdas as faculdades psíquicas, e que contesta a natureza sexual da libido. (…) Da minha concepção você extrai a natureza sexual da libido e da conclusão de Jung seu significado generalizado. É assim que se cria na imaginação dos críticos um pan-sexualismo que não existe nos meus conceitos nem nos de Jung. (…) Nunca afirmei que tôdos os sonhos expressassem a satisfação de um desejo sexual, mas muitas vêzes acentuei o contrário. Porém isto não produz nenhum efeito, e as pessoas continuam a repetir a mesma coisa.

Com meus agradecimentos cordiais e cumprimentos sinceros,

Seu, Freud.”

os dedos de pessoas que renunciaram à masturbação se recusam a aprender os movimentos delicados indispensáveis para tocar piano ou violino.”

como se uma voz punitiva estivesse falando de dentro do indivíduo e dizendo: <Como você tentou utilizar mal seu órgão da visão para prazeres sensuais perversos, é justo que você nunca mais veja nada> (…) A idéia da pena de talião está implícita nisto (…) A bela lenda de Lady Godiva nos conta como todos os habitantes da cidade se esconderam por trás de suas venezianas fechadas, a fim de tornar mais fácil a tarefa da senhora de cavalgar nua pelas ruas, em pleno dia, e como o único homem que espreitou pelas venezianas os seus encantos descobertos foi punido com a cegueira.”

I) PSICANÁLISE “SILVESTRE” – Über “Wilde” Psychoanlyse (1910), trad. brasileira Paulo Dias Corrêa

<neuroses atuais>, tais como a neurastenia típica e a neurose de angústia simples” “condições com uma causação puramente física e contemporânea” [???] “[F.] sugere dever considerar-se a hipocondria uma terceira <neurose atual>”

Dificuldade de distinguir entre neurastenia e hipocondria.

Psicanálise “silvestre”: amadora, sem método.

Pp. 211-2: “É idéia há muito superada, e que se funda em aparências superficiais, a de que o paciente sofre de uma espécie de ignorância, e que se alguém consegue remover esta ignorância dando a êle a informação (acêrca da conexão causal de sua doença com sua vida, acerca de suas experiências de meninice, e assim por diante) êle deve recuperar-se. (…) Se o conhecimento acêrca do inconsciente fôsse tão importante para o paciente como as pessoas sem experiência de psicanálise imaginam, ouvir conferências ou ler livros seria suficiente para curá-lo. Tais medidas, porém, têm tanta influência sôbre os sintomas da doença nervosa [uma vez que já houve a somatização, é tarde demais para se cuidar de forma amadora…] como a distribuição de cardápios numa época de escassez de víveres tem sôbre a fome. A analogia vai mesmo além de sua aplicação imediata; pois, informar o paciente sôbre seu inconsciente redunda, em regra, numa intensificação do conflito nêle e numa exacerbação de seus distúrbios. [- Você é narcista. – Obrigado, agora entendi! Deixo de me apaixonar pelo meu reflexo n’água quando puder…] (…) isto não se poderá fazer antes que 2 condições tenham sido satisfeitas. (…) o paciente deve (…) ter alcançado êle próprio a proximidade daquilo que êle reprimiu [digamos que ver NARCISISTAS lidando diariamente com seus problemas não ajuda muito… Automaticamente, não ser o que me torna mórbido torna-se errado – <humilde> e <sem estudos formais> é sardinha para piranhas na CAPES] e, segundo, êle deve ter formado uma ligação suficiente com o médico [permaneceram-me todos até aqui tipos ordinários, estranhos ao meu mundo] (…) A intervenção psicanalítica, portanto, requer de maneira absoluta um período bastante longo de contato com o paciente. (…) A psicanálise fornece essas regras técnicas definidas para substituir o indefinível <tato médico> que se considera como um dom especial. [ausência de Freuds e Groddecks em Brasília…] (…) Tenho amiúde encontrado que um procedimento inepto dêsses, mesmo se a princípio produzia uma exacerbação da condição do paciente, conduzia a uma recuperação ao final. Nem sempre, mas muito amiúde. Quando êle já insultou bastante o médico e se sente suficientemente distanciado de sua influência, seus sintomas cedem, ou êle se decide a tomar alguma iniciativa que vai no caminho da recuperação. A melhoria final então advém por si ou é atribuída a certo tratamento totalmente neutro por algum outro doutor para quem o paciente tenha mais tarde se voltado.”

J) ZUR SELBSTMORD-DISKUSSION

não estais inclinados a dar fácil crédito à acusação de que as escolas impelem seus alunos ao suicídio. Não nos deixemos levar demasiado longe, no entanto, por nossa simpatia”

Se é o caso que o suicídio de jovens ocorre não só entre os alunos de escolas secundárias, mas também entre aprendizes e outros, êste fato não absolve as escolas secundárias.”

A escola nunca deve esquecer que ela tem de lidar com indivíduos imaturos a quem não pode ser negado o direito de se demorarem em certos estágios do desenvolvimento e mesmo em alguns um pouco desagradáveis. A escola não pode adjudicar-se o caráter de vida: ela não deve pretender ser mais do que uma maneira de vida.”

Nem chegamos a uma compreensão psicanalítica do afeto crônico do luto.” Minha vida sempre num espeto. Me comporto como se fosse meu próprio bisneto a me lamentar: que desperdício de potencial!

F. – Certas Reflexões Sôbre a Psicologia do Rapaz em Idade Escolar (1914)

K) ANTHROPOPHYTEIA

Subscrevo-me, prezado Dr. Krauss, muito cordialmente,”

A Anthropophyteia foi um periódico, fundado e editado pelo Dr. F.S. Krauss, que tratava principalmente de material antropológico de natureza sexual.”

Bourke – Scatologic Rites of All Nations

L) DUAS FANTASIAS – Beispiele de Verrats pathogener Phantasien bei Neurotikern

(apenas contribuições ao glossário do cabeçalho)

M) CARTAS A UMA MULHER NEURÓTICA – Briefe am nervöse Frauen bei Dr. Neutra

a psicanálise não se pode satisfatoriamente combinar com a técnica da <persuasão> de Oppenheim

CRÍTIAS OU DE ATLÂNTIDA

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

(*) “O preâmbulo, do qual nenhum diálogo de Platão carece, inexiste em Crítias. Seria porque trata-se de um manuscrito inacabado? Ou seria porque não é outra coisa senão a continuação da conversa dos mesmos interlocutores do Timeu, sem intervalo de tempo narrativo?”

“O estudo e a história das coisas antigas se introduziram pelo ócio das cidades, quando certo número de concidadãos, tendo as coisas necessárias para a vida asseguradas, não tiveram depois de preocupar-se com sua subsistência. E eis como os nomes dos antigos heróis se conservaram sem a lembrança de suas ações.”

“Nessa época as mulheres guerreavam junto com os homens, e por isso é que Atena era representada nas imagens e estátuas de armadura; era como uma advertência, a indicar que desde o momento em que o varão e a fêmea estão destinados a viver juntos devem também, de acordo com a natureza, exercer indistintamente todos os trabalhos da espécie.”

“A Ática está de certa forma desanexada do continente, parecendo-se um promontório, muito mais em conexão com o mar. Fica como uma vasilha envolta por um mar bastante profundo. Em meio às numerosas e terríveis inundações que tiveram lugar durante 9 mil anos, porque 9 mil anos se passaram desde aquela época, as terras, que as revoluções faziam deslizar das maiores alturas, não se amontoavam no solo, como nos demais países, mas, escorrendo pelo litoral, acabavam por perder-se nas profundezas do mar. Assim, como sucede nas ilhas pouco extensas, nosso país, comparado com o que era então, parece-se agora com um corpo exaurido pela enfermidade. A terra com vegetação foi toda para o fundo do mar e ficou apenas um corpo esfolado e estéril.”

“As chuvas enviadas por Zeus a cada ano não se perdiam inutilmente, como hoje; pelo contrário, a terra, retendo as águas abundantes, as conservava em seu seio, as tinha em reserva entre camadas de argila; deixava-as correr das planícies aos vales, e por toda parte viam-se milhares de fontes, rios e canais. Os monumentos sagrados, que naquela época estavam todos perto dos leitos dos rios, atestam a veracidade de minhas palavras.”

“a Acrópole estava muito distante de ter o aspecto atual. Numa só noite torrentes de chuva arrastaram a vegetação deste sítio e desnudaram-no e despojaram-no, em meio a tremores de terra e à inundação repleta, a terceira antes do dilúvio de Deucalião.”

“O filho mais velho, o rei, de quem a ilha e este mar, chamado Atlântico, tomaram seu nome, tendo sido o primeiro a ali reinar, era chamado Átlas.”

“Tal era a imensidão de riquezas que possuíam que nenhuma família real jamais possuiu nem possuirá volume semelhante.” “Cobriram de bronze, como verniz, o muro do cerco exterior em toda sua extensão; de estanho o segundo recinto; e a Acrópole em si de oricalco,¹ que reluzia como fogo.”

¹ Metal precioso fictício, invenção grega.

“Duas fontes, uma quente e outra fria, abundantes e inesgotáveis, graças à suavidade e à virtude de suas águas, satisfaziam admiravelmente todas as necessidades”

“Notai que a terra dava duas colheitas por ano, porque era regada no inverno pelas chuvas de Zeus, e no verão era fecundada pela água dos estanques.”

“Quanto ao governo geral e às relações dos reis entre eles, as ordens de Poseidon eram sua regra. Estas ordens lhes foram transmitidas pela lei soberana; os primeiros reis as gravaram numa coluna de oricalco, levantada no centro da ilha no templo de Poseidon.” “Além das leis, estava inscrito nesta coluna um juramento terrível, e imprecações contra aquele que as violasse. Verificado o sacrifício e consagrados os membros do touro segundo as leis, os reis derramavam gota a gota o sangue das vítimas numa taça, atiravam os demais restos no fogo e purificavam a coluna. Retirando em seguida o sangue da taça com um copo d’ouro, e derrubando parte de seu conteúdo nas chamas, juravam julgar segundo as leis escritas na coluna, castigar a quem as houvesse infringido, fazer observar as mesmas leis dali em diante com todo seu poder, e não governar eles mesmos nem obedecer ao que governasse em desconformidade com as leis de seus pais.”

“Aqueles que sabem penetrar nas coisas compreenderam que se haviam feito maus e perdido os mais preciosos de todos os bens; e os que não eram capazes de ver o que constitui verdadeiramente a vida ditosa creram que haviam atingido o auge da virtude e da felicidade, justo quando se encontravam dominados por uma paixão frenética, a de aumentar suas riquezas e seu poder.”

TIMEU OU DA NATUREZA

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

“Quanto às mulheres, declaramos que seria preciso pôr suas naturezas em harmonia com a dos homens, da qual não diferem, e dar a todas as mesmas ocupações que a eles se dá, inclusive as da guerra, e não só num caso ou noutro, mas em todas as circunstâncias da vida.”

“CRÍTIAS – Escuta, Sócrates, uma história bastante singular, mas inteiramente verdadeira, que no passado contava aquele que era o mais sábio dentre os Sete Sábios, Sólon em pessoa.”

(*) “Para informações biográficas de Sólon, Dropides e dos dois Crítias, cfr. as notas do diálogo Cármides. [a ser publicado no Seclusão]

“CRÍTIAS – (…) disse Elanciano Crítias [Crítias o velho]: <Aminandro, se Sólon, em lugar de compor versos por passatempo, se consagrara a sério à poesia, como muitos de seu tempo; se levara a cabo a obra que começara a escrever no Egito; se não tivera precisão de dedicar-se a combater as facções e os males de toda classe, que não cessavam de aparecer em torno seu; em minha opinião, nem Hesíodo nem Homero nem ninguém teriam tido chance de superá-lo enquanto poeta.> A conversa continuou:

– [Animandro] Que obra era essa que Sólon começara a compor no Egito?

– [Crítias velho] Tratava-se da história do acontecimento mais grandioso e de maior renome que se sucedera nesta cidade, cuja recordação, dado o transcurso do tempo e a morte de seus atores originais, não nos foi comunicado a nós.

– [Animandro] Ora, quero ouvir bem do começo tudo que Sólon relataria, do que se tratava esse grande evento, e quem o contou com aparência verídica pela primeira vez.

– [Crítias velho] Há no delta do Nilo, em cujo extremo este rio divide suas águas, um território chamado Saiticos, distrito cuja principal cidade é Saís, pátria do rei Amósis [ou Amásis]. Os habitantes honravam uma divindade como a fundadora desta cidade, chamada por eles de Neith, ninguém menos que nossa Atena, se havemos de crer em tal relato.(*)

(*) “Sobre a identidade de Neith de Saís com Atena ou Minerva, ver Heródoto, II, 28, 59, 170 e 176; Pausânias, II, 36; Cícero, Da natureza [ou genealogia] dos deuses, III, 23; e Plutarco, Sobre Ísis e Osíris, 9, 32 e 62.”

(*) “Níobe, filha de Foroneu,¹,² que deu a luz a um filho de Zeus, Argos, em honra do qual seria fundada a cidade homônima.³ [Fonte: Pseudo-Apolodoro]”

¹ Reza o mito que Níobe teria sido a(o) primeira(o) felizarda(o) mortal escolhida(o) por um deus olímpico para procriar.

² Foroneu é, por sua vez, neto de Oceano (titã) com Tétis.

³ Como se a mitografia já não fosse confusa o bastante, noutras fontes Argos (o rei) é ainda o quarto monarca da dinastia que fundou e governou Argos ou Argus (a cidade)!

“CRÍTIAS VELHO – [Sacerdote egípcio] <Sólon, Sólon! vós gregos sereis sempre umas crianças… na Grécia não há anciãos!>

– [Sólon] Que queres com isso dizer?

– [Sacerdote] Sois crianças na alma. Não possuís tradições remotas nem conhecimentos veneráveis por sua antiguidade. Eis o motivo. Mil vezes e de mil maneiras os homens se extinguiram, e ainda se extinguirão, o mais das vezes perecendo pelo fogo e pela água, mas outras tantas também por uma infinidade doutras causas.

“SACERDOTE – (…) no espaço que rodeia a terra e no céu realizam-se grandes revoluções. Os objetos que cobrem o globo desaparecem a cada grande intervalo de tempo num vasto incêndio. (…) O Nilo, nosso constante salvador, ao transbordar, salvara-nos de tal calamidade. E quando os deuses, purificando a terra por meio das águas, a submergem totalmente, os pastores no alto das montanhas e seus rebanhos se vêem salvos; mas os habitantes de vossas cidades litorâneas são arrastados ao mar pela corrente dos rios. Acontece que, no Egito, as águas nunca se precipitam do alto rumo às campinas; pelo contrário, manam das próprias entranhas da terra. É por isso que, diz-se, entre nós conservaram-se as mais antigas tradições, porque nós moramos num sítio privilegiado, em que um determinado número de homens sempre sobreviveu aos cíclicos desastres naturais. Decorre daí que, segundo nossa sabedoria muito mais longeva que a vossa, nada há que seja belo, grande e notável em qualquer matéria neste mundo que não tenha sido registrado por escrito por nossa civilização. No que se refere a vós gregos e tantos outros povos, apenas aprendestes a utilizar o alfabeto escrito e as coisas necessárias para o Estado, terríveis chuvas prorromperam sobre vós como raios, deixando remanescer somente alguns iletrados e gente estranha às Musas; desta feita, começais sempre de novo, sois verdadeiras crianças ignorantes dos sucessos antigos tanto deste país, o Egito, quanto do vosso próprio. Decerto essas genealogias, que acabas de expor, Sólon, parecem-se muito com contos de fadas; além de mencionares um só dilúvio, coisa inverossímil, posto que precedido por muitos outros, ignoras que a melhor e mais perfeita raça de homens existira em teu país, e que de um só germe desta raça que escapara à aniquilação total descende tua cidade. (…) uma mesma deusa protegera, instruíra e engrandecera a tua cidade e a nossa; a tua mil anos antes, formando-a de uma semente tomada da terra e de Hefesto. Nota que, segundo nossos livros sagrados, passaram-se 8 mil anos desde a fundação de nossa cidade. Vou dar-te, portanto, uma noção das instituições que tinham teus concidadãos de 9 mil anos atrás, sem olvidar de relatar-te os mais gloriosos de seus feitos.”

“Amiga da guerra e do conhecimento, a deusa devia escolher, para fundar um Estado, o país mais capaz de produzir homens que se parecessem com ela.”

“Nossos livros contam como Atenas destruiu um poderoso exército, que, partindo do Oceano Atlântico, invadira insolentemente a Europa e a Ásia. Naquela época era possível atravessar este oceano. Havia em suas águas uma ilha, situada em frente ao estreito, que em vossa língua chamais de <as colunas de Hércules>.¹ Esta ilha era maior que a Líbia e a Ásia juntas; os navegadores cruzavam dali às demais pequenas ilhas, e destas ao continente banhado pelo oceano digno de seu nome.²”

¹ O limite ocidental da Europa.

² “Atlântico” de Átlas, o Titã que suporta o globo celeste nas costas.

“este vasto poder, reunindo todas as suas forças, tentara um dia subjugar de uma só vez o teu e o nosso país, bem como todos os povos situados deste lado oriental do estreito.”

“Nos tempos que se sucederam a estes, grandes tremores de terra provocaram inundações; e em um só dia, digo, em uma só e fatal noite, a terra tragou todos os vossos guerreiros, e a ilha de Atlântida desapareceu entre as águas. Como resultado, não é possível, desde então, explorar este oceano, muito em decorrência do grande lodo deixado por esta imensa ilha no momento em que soçobrava até os confins das profundezas, que hoje serve de obstáculo insuperável para os navios.”

“esta imagem eterna, conquanto divisível, que chamamos de tempo. (…) o futuro e o passado são formas que em nossa ignorância aplicamos indevidamente ao Ser eterno. Dele nós dizemos: foi, é, será; quando só se pode dizer, verdadeiramente: ele é.”

a unidade perfeita do tempo, o ano perfeito, realiza-se quando as 8 revoluções de velocidades diferentes voltaram a seu ponto de partida”¹

¹ Segundo M. Martin, refere-se Platão ao “mínimo múltiplo comum” dos anos da Lua, de Mercúrio e dos outros planetas conhecidos então em seu percurso de translação ao redor do Sol, o que resultaria no ano perfeito ou grande ano para o observador terrestre, quando finalmente acontece de estarem todos os corpos celestes alinhados e tudo se reinicia do zero na grande corrida circular periódica e eterna da existência.

“…que o que fizer bom uso do tempo que lhe fôra dado para viver voltará ao astro que lhe é próprio, ali permanecerá e ali atravessará uma vida feliz; que o que delinqüir será transformado em mulher num segundo nascimento, e se ainda assim não cessar de ser mau encarnará outra vez no formato de seus vícios, como aquele animal a cujos costumes mais se tiver assemelhado na vida anterior; e, por fim, nem suas metamorfoses nem seus tormentos concluirão enquanto não se fizer digno de recobrar sua primeira e excelente condição, o que alcançará deixando-se governar pela revolução do mesmo e do semelhante e domando mediante a razão esta massa irracional, refrega tumultuosa das partes de fogo, água, ar e terra que vão se acrescentando ao longo do tempo a sua natureza.

Promulgadas estas leis, e com o objetivo de não responder, para o sucessivo, pela maldade destas almas,¹ Deus as semeou, estas na Terra, aquelas na Lua, e outras nos demais órgãos do tempo [planetas].”

¹ Este motivo reaparece no Fédon, quando Zeus resolve delegar o poder de julgar os mortos, no Submundo, a seus filhos. Aparentemente, a divindade se cansa de cuidar diretamente do problema de “avaliar o comportamento das almas pecadoras” em seus erros sem conta…

“O Ser, feito presa das águas por todos os lados, caminhava adiante, para trás, para a direita, para a esquerda, para cima, para baixo. A onda, que avançando e retrocedendo dava ao corpo seu alimento, estava já bastante agitada.”

“Os deuses encerraram os dois círculos divinos da alma num corpo esférico, que construíram à imagem da forma redonda do universo, que é aquilo que nós chamamos de cabeça, a parte mais divina de nosso corpo e a que manda em todas as demais.”

A observação do dia e da noite, as revoluções dos meses e dos anos, nos ensinaram o número, o tempo e o desejo de conhecer a natureza e o mundo. (…) Quanto aos demais benefícios, infinitamente menores, para quê celebrá-los? Só quem não é filósofo ou o cego de espírito que não sente aqueles primeiros benefícios poderiam se queixar, mas se queixariam em vão.”

“A harmonia, cujos movimentos são semelhantes aos de nossa alma, o tino dos que com inteligência cultivam o comércio das Musas — harmonia esta reduzida agora a servir, quão trágico!, a prazeres frívolos.”

MOIRA VENCIDA: “Superior à necessidade, a inteligência convencera a primeira de que devia dirigir a maior parte das coisas criadas ao bem; e, por haver-se deixado persuadir pelos conselhos da sabedoria, a necessidade deu azo a que se formara, no começo de tudo, o universo.”

“quanto ao fogo, p.ex., deixemos de dizer: isto é fogo; e da água não digamos: aquilo é água; mas sim: parece água. Procedamos da mesma forma com todas as coisas variáveis, às quais atribuímos erroneamente estabilidade sempre que, diante de seu aparecimento, as designamos por <isto> e <aquilo>.”

“Existe um número infinito de mundos ou somente um número limitado? Quem refletir atentamente compreenderá que não se pode sustentar a existência de um número infinito sem que isto denuncie o desconhecimento de coisas que pessoa alguma pode ignorar. Mas não há mais do que um mundo, ou é preciso admitir que haja cinco? É esta uma questão dificílima. A nós nos parece que a preferência por um mundo único é a mais correta; mas outros, encarando a questão sob outro ponto de vista, poderiam muito bem se opor.”

O LIVRO dISSO – Georg “Troll” Groddeck

trad. José Teixeira Coelho Netto

A estranha condição de Groddeck, simultaneamente precursor e discípulo de Freud.

“Georg Walther Groddeck nasceu a 13 de outubro de 1866 em Bad Kösen, Alemanha, filho de um médico, Karl Groddeck, cujos escritos teriam sido lidos com particular atenção por Nietzsche.”

“Groddeck era leitor assíduo de Ibsen, entre outros; em 1910 publicou um livro sobre as peças de Ibsen. Bem, em Peer Gynt, uma das personagens importantes é a figura de troll, ser mítico do folclore escandinavo, gigante ou não, habitante das cavernas ou das montanhas (ou das cavernas nas montanhas), amoral e imoral, capaz de ser homem e mulher, severo e devasso, brincalhão e destruidor.

“Seu modo de proceder partia do princípio de que as doenças do homem eram uma espécie de representação simbólica de suas predisposições psicológicas e que muitas vezes o centro delas, seu modelo tipológico, podia muito bem ser elucidado com sucesso através dos métodos freudianos somados às massagens e ao regime, tanto quanto qualquer neurose obsessiva.” Peixinho que sou, morrerei pela boca. Asfixiado por minhas próprias palavras geniosas e maldições. A cabeça lateja com a burrice dos demais, e os pulmões se sentem imediatamente fracos, sem conseguir executar o serviço. Faxina interior periódica. Mas um tanto freqüente demais.

“Ele sentia o horror dos poetas pelos discípulos, pelos ensaios, artigos e exegeses… horror de toda essa poeira estéril que se levanta ao redor de um homem original e de uma idéia nova.”

Lawrence Durrell

* * *

“A angústia – ou o medo –, como você sabe, é conseqüência de um desejo recalcado.” “É isso aí: você tem aqui a essência do médico: uma propensão para a crueldade recalcada ao ponto de tornar-se uma coisa útil, e cujo censor é o medo de fazer sofrer.”

“Ainda me lembro como ele [o pai, médico] ria das esperanças depositadas na descoberta dos bacilos da tuberculose e do cólera, e com que prazer ele dizia que, desprezando todos os dogmas da fisiologia, havia alimentado com sopinha um bebê. O primeiro livro de medicina que ele pôs nas minhas mãos – eu ainda estava no ginásio – foi a obra de Radmacher sobre o ensino da medicina experimental; como os trechos combatendo a ciência estavam energicamente assinalados no livro, e amplamente acrescidos de observações marginais, não é de espantar que, desde o começo de meus estudos, eu tenha me inclinado pelo ceticismo.”

“eu transferi para a ciência toda a raiva e o sofrimento de meus anos passados nos bancos escolares por ser muito mais cômodo atribuir a origem das perturbações da alma a realidades exteriores do que ir procurar a causa disso nos cantos mais escuros do inconsciente.

Mais tarde, infinitamente mais tarde, percebi que a expressão Alma Mater – <mãe amamentadora> – recorda, para mim, os primeiros e mais terríveis conflitos de minha vida. Minha mãe só amamentou o primeiro de seus filhos: nessa época ela contraiu uma grave infecção nos seios, em conseqüência do que suas glândulas mamárias secaram.”

“Mas quem pode conhecer os sentimentos de um bebê?”

As pessoas que detestam a mãe não têm filhos; isto é tão verdadeiro que nos casais sem filho é possível apostar, sem errar, que um dos dois é inimigo da própria mãe. Quando se odeia a mãe, teme-se o próprio filho, pois o ser humano vive segundo o velho preceito: <Neste mundo tudo se paga…>.” “Ela vive do ódio, da angústia, do ciúme e da tortura incessante provocada por uma sede de algo inacessível.”

“Você já imaginou as atribulações de uma criança amamentada por uma ama? É uma situação complicada, pelo menos quando a mãe verdadeira gosta da criança.”

“diante dessa questão inoportuna, mais vale procurar refúgio no reino da fantasia. Quando você se acostuma com esse reino, logo descobre que a ciência nada mais é que uma variedade da fantasia, uma espécie de especialidade dotada de todas as vantagens e de todos os perigos de uma especialidade.”

“cada um passou a desconhecer o que acontecia com o outro. Quanto ao filho, tornou-se um incrédulo. Sua vida dissociou-se. (…) começou a beber, destino freqüentemente reservado àqueles que se viram sem afeto nas primeiras semanas de existência.”

O ELITISMO DO ETILISMO: “Tive o trabalho de remontar um pouco até a fonte de sua aberração e sei que essa história infantil da ama-de-leite sempre vem à tona um pouco antes de ele sentir a necessidade de recorrer à diva garrafa.”

“Como presente de despedida, minha ama me deu uma moeda de bronze de 3 groschen, chamado <Dreier>, e me lembro muito bem que, ao invés de gastar o dinheiro em doces, como ela havia dito, me sentei nos degraus de pedra da escada da cozinha e comecei a lustrar a moeda. Desde esse dia, o número 3 me persegue. Palavras como trindade, tríplice, triângulo, adquirem, para mim, uma ressonância suspeita. (…) E foi assim que, desde pequenininho, deixei de lado o Santo Espírito, porque era o terceiro; foi por isso que, na escola, a construção de triângulos tornou-se para mim um pesadelo, e também essa foi a razão pela qual a política da Tríplice Aliança, tão decantada numa certa época, recebeu minha desaprovação desde o primeiro momento.”

“Acredito que o homem é vivido por algo desconhecido. Existe nele um <Isso>, uma espécie de fenômeno que comanda tudo que ele faz e tudo que lhe acontece. A frase <Eu vivo…> é verdadeira apenas em parte; ela expressa apenas uma pequena parte dessa verdade fundamental: o ser humano é vivido pelo Isso.”

Não é surpreendente que não consigamos recordar nada de nossos 3 primeiros anos de vida?” “por que as mães são tão mal informadas a respeito de seus próprios filhos, por que também elas esquecem a parte mais essencial desses 3 anos? Talvez elas apenas finjam esquecer. A menos que, também nelas, o essencial não chegue igualmente ao consciente.”

“Para o Isso, não existe uma idade para as coisas e o Isso é nossa própria vida.”

“Mesmo as senhoras mais distintas peidam.”

“Na vida, a gente começa sendo criança e atravessa a idade adulta através de 1000 caminhos que levam todos a um mesmo ponto: a volta ao estado infantil. A única diferença entre as pessoas é que elas voltam à infância ou tornam-se pueris.”

“ele sofre de cólicas hepáticas, de dores do parto enfim, se você prefere; de modo especial, tem problemas apendiculares – como todos os que gostariam de ser castrados, tornar-se mulheres.”

“pericardite, gravidez imaginária do coração.”

“Eu ouvi de um homem que morreu na guerra: uma vez, o cachorro da irmã dele, uma espécie de poodle – ele devia ter então 17 anos – tinha-se esfregado em sua perna, masturbando-se. Ele ficou olhando, interessado, quando, de repente, no momento em que o líquido seminal escorreu por sua perna, foi tomado pela idéia de que o cachorro ia dar à luz filhotinhos; esta idéia perseguiu-o durante semanas, meses.” “o papel curioso que o cachorro representa na vida oculta do ser humano”

“as hemorróidas, parecidas a vermes do reto, esse flagelo que atormenta um bom número de seres humanos durante toda a vida, na maioria das vezes se originam da associação verme-criança, e desaparecem quando some o terreno de cultura propícia criada pelo desejo simbólico do inconsciente”

“Conheço uma mulher – é uma dessas que têm por profissão adorar as crianças sem ter nenhum filho próprio, pois odeia a própria mãe – cujas regras [menstruações] sumiram durante 5 meses; a barriga inchou, os seios ficaram maiores; ela achava que estava grávida. Um dia eu lhe falei longamente sobre a relação entre os vermes e as idéias de gravidez que constatei numa de nossas amigas comuns. Naquela mesma noite, ela <deu a luz> a uma ascáride e, enquanto dormia, suas regras voltaram, ao mesmo tempo que a barriga desinchava.”

“Em toda mãe, ao lado do amor que ela sente pelo filho, existe também uma aversão por esse mesmo filho.”

“Essas náuseas são causadas pela repugnância do Isso em relação a essa coisa que se introduziu no organismo. As náuseas expressam o desejo de eliminar a coisa, e os vômitos são uma tentativa de pô-la para fora. Por conseguinte, desejo e esboço de aborto. Que me diz? (…) outro sintoma da gravidez, originário do ódio da mulher pela criança: a dor de dente.” “E me pergunto seriamente se a associação feita pelo Isso entre o dente e a criança não é muito mais importante e cientificamente mais fecunda do que as deduções astronômicas de Newton. O dente é o filho da boca; a boca é o útero no qual ele cresce, do mesmo modo como o feto se desenvolve na matriz.”

“o fato de permanecer solteiro também é um modo de evitar a criança detestada, e já foi demonstrado que essa é uma das razões freqüentes do celibato e da virtude.” “E quando enfim se consegue levar o marido a renunciar ao miserável prazer de praticar a masturbação na vagina de sua mulher, é possível atribuir-lhe de mil modos as causas do mau humor, da infância sem alegria dos filhos e das desgraças do casamento.”

“Quer você acredite ou não, nunca houve um aborto que não tivesse sido intencionalmente provocado pelo Isso por razões facilmente identificáveis. Nunca! Em seu ódio, e quando tem o controle da situação, o Isso convida a mulher a dançar, montar a cavalo, viajar ou recorrer às mulheres <entendidas> que usam agulhas, sondas ou venenos, ou então a cair, bater-se, deixar-se bater ou ficar doente.”

“A vagina da mulher é um Moloch insaciável. Onde anda, portanto, essa vagina que se contentaria com ter em si um pequeno membro do tamanho de um dedo quando pode dispor de outro, grosso como o braço de uma criança? A imaginação da mulher trabalha com instrumentos poderosos, sempre foi e sempre será assim.”

“nunca se conseguirá descobrir inteiramente a origem dessa identificação entre o desejo sexual e o pecado.”

“A própria mãe dá a seu filho lições de onanismo; ela é obrigada a fazer isso, pois a natureza acumula sujeira, que tem de ser lavada, lá onde se encontram os órgãos da volúpia; a mãe é obrigada a fazer isso, não pode fazer de outro modo. E, pode acreditar, grande parte daquilo que recebe o rótulo de limpeza, a ânsia de servir-se do bidê, as lavagens após as evacuações, as irrigações, nada mais são que uma repetição das voluptuosas lições impostas pelo inconsciente.”

“A necessidade inelutável pela qual a vida comanda a auto-satisfação ao situar a sujeira e o fedor das fezes e da urina no mesmo lugar do prazer sexual demonstra que os deuses dotaram o ser humano com esse ato reprovado, com esse assim chamado vício, por alguma razão, e demonstra que esse ato faz parte do destino do homem.”

“observei, durante viagens minhas pelo interior, que de vez em quando um jovem lavrador, em pé atrás de seu arado, satisfazia suas vontades, sozinho e de um modo muito honesto. A mesma coisa se pode ver entre as camponesas jovens, quando não se perdeu o hábito de ver as coisas em virtude das proibições da infância; proibições como essa atuam, segundo as circunstâncias, durante longos anos, às vezes durante a vida toda, e de vez em quando é divertido observar tudo aquilo que as pessoas não vêem porque Mamãe proibiu que se visse. Mas para isso você não precisa ir até o mundo dos camponeses. Suas próprias recordações serão suficientes. (…) Nem é preciso pensar nas mil possibilidades do onanismo secreto, inocente, na equitação, na gangorra, na dança, na constipação; fora daí há muitas outras carícias cujo sentido mais profundo é a auto-satisfação.” “O próprio termo <onanismo> indica que é a idéia da perda do sêmen que assusta as pessoas. Você conhece a história de Onã? (…) Havia entre os judeus uma lei que obrigava o cunhado, no caso de o irmão morrer sem filhos, a compartilhar da cama da viúva; a criança assim concebida seria considerada descendente do morto. (…) Onã viu-se nessa situação; mas como não gostava da cunhada, deixava o sêmen cair ao chão ao invés de fazê-lo correr para o ventre da mulher. A fim de puni-lo pela violação da lei, Jeová fez com que morresse. O inconsciente da massa conservou dessa história apenas a imagem do líquido seminal caindo no chão, e estigmatizou com o nome de onanismo todo gesto semelhante, o que sem dúvida provocou o aparecimento da idéia da morte em virtude da auto-satisfação.”

“Não sou muito erudito, mas me parece que foi no fim do século XVIII que se espalhou esse medo do onanismo. Na correspondência entre Lavater e Goethe, ambos falam no onanismo espiritual com tanta naturalidade como se estivessem falando das peripécias de um passeio pelo campo. No entanto, essa foi a época em que a sociedade começou a se preocupar com os doentes mentais, e os alienados – sobretudo os idiotas – são ardorosos adeptos da auto-satisfação. Assim, é admissível que tenham confundido causa e efeito, é possível que tenham pensado que era pelo fato de se masturbar que o idiota se tornava um idiota.”

“o fato de, num enxame de irmãos e irmãs, aquele que mais diz besteiras ser sempre o caçula parece uma coisa natural. E foi assim que desde cedo perdi o hábito de manifestar minhas opiniões; recalquei todas elas.” “É uma situação bem desagradável e você bem pode imaginar os pulos que dá um ser recalcado, esmagado, anulado, quando se vê livre. Tenha um pouco de paciência. Mais umas poucas cartas meio doidas e este ser embriagado de liberdade se comportará com tanta ponderação e seriedade quanto o texto maduramente meditado de um psicólogo profissional qualquer.”

“O anel costuma ser considerado como símbolo do casamento; mas são muito poucos os que têm uma idéia da razão pela qual esse círculo expressa a noção da união conjugal. Os apótemas segundo os quais o anel é um elo, uma ligação, ou representa o amor eterno, sem começo nem fim, permitem tirar conclusões sobre o estado de espírito e a experiência daquele que usa esses florilégios do discurso, mas nada nos dizem sobre o fenômeno, produzido por forças desconhecidas, que levou a escolher o anel como representação do estado matrimonial. No entanto, se partirmos do princípio segundo o qual o hímen é a fidelidade sexual, a interpretação se torna fácil. O anel representa o órgão sexual feminino, sendo o dedo o órgão do homem. O anel não deve ser enfiado em nenhum outro dedo que não o do marido, e isso significa o voto de nunca acolher, no anel da mulher, um outro órgão sexual que não seja o do marido.” “a concepção do anel nupcial sob a forma de um elo ou círculo sem começo nem fim pode ser explicada por um mau humor ou por sentimentos românticos que vão procurar – e têm de – sua forma de expressão no tesouro comum dos símbolos e das associações.”

“(Todas as línguas do mundo iniciam a denominação do procriador com o fonema desdenhoso P, e a da parturiente com o som aprovador M.)”

“Os fundamentos da ciência são mais duráveis que o granito; suas paredes, salas e escadas reconstroem-se a si mesmas quando, aqui e ali, alguns pedaços de alvenaria, infantilmente construídos, desabam.”

“Todo mundo conhece Chapeuzinho Vermelho. A cabecinha vermelha sai, curiosa, da capa do prepúcio toda vez que se vai urinar e quando chega o momento do amor, a mesma cabeça vermelha se estica na direção das flores do campo, se mantém ereta sobre uma perna como o cogumelo, como aquele anãozinho no bosque com seu capuz vermelho, e o lobo no qual ele penetra para sair de seu ventre aberto após nove luas é um símbolo das teorias infantis da concepção do nascimento. Você se lembra que também acreditou nessa história de abrir a barriga?”

“o velho anão e sua longa barba representa a velhice impotente e o padre ilustra simbolicamente a renúncia voluntária involuntária.”

“Atrevo-me a pretender que as cantigas infantis e populares que têm por tema o <menino perdido no bosque> foram extraídas, com todos os seus detalhes, do fenômeno das pilosidades púbicas e da ereção, através de associações inconscientes”

A vida já é bastante séria, não é preciso que a gente ainda por cima se esforce por levar a sério as leituras, os estudos, o trabalho ou seja lá o que for.”

“Não é verdade que a mulher tenha uma sensibilidade aguda, que ela despreza e odeia a rudeza. Ela só detesta tudo isso nos outros. Ela ornamenta sua própria rudeza com o lindo nome de amor materno.”

“Um dia vi uma criança que tinha enfiado a cabeça entre umas barras de metal e que não podia nem ir para frente, nem para trás. Não vou esquecer seus gritos tão cedo.”

“Durante a mamada, a mulher é o homem que dá; e a criança, a mulher que recebe. Ou, colocando as coisas mais claramente, a boca que suga é a parte sexual feminina que recebe em si a teta à guisa de membro masculino.”

Não se surpreenda ao ver um homem correr atrás de uma boneca sem coração; reserve sua estupefação para aquele que não faz isso. E quando encontrar um homem profundamente enamorado, pode concluir sem hesitar que sua amante tem um coração cruel, que ela é cruel até o âmago, dessa espécie de crueldade que assume a máscara da bondade”

“Tudo isso, você vai me dizer, são apenas paradoxos, uma dessas brincadeiras típicas de Troll.”

“O mundo é dividido em duas partes: aquilo que convém momentaneamente ao ser humano é natural; aquilo que o desagrada, ele considera antinatural. (…) aquilo que existe é natural (…) Elimine a expressão <contra a natureza> de seu vocabulário habitual; com isso, estará dizendo uma besteira a menos.”

“A aprovação e o respeito envolvendo uma grande fecundidade, que antes ajudavam as mulheres soterradas por um bando de crianças a suportar seu destino, não existem mais. Pelo contrário, a mocinha é educada para ter medo dos filhos.”

“Há pessoas que não hesitam mesmo em estabelecer uma comparação entre as probabilidades de morte no parto e as probabilidades de sobrevivência dos homens durante as batalhas da Guerra Mundial. Essa é mais uma das manifestações de loucura de nossa época, e que pesa enormemente sobre nossa consciência, já carregada de remorsos e cada vez mais inextricavelmente mergulhada na hipocrisia no que diz respeito à produção da vida – e que, por isso, caminha cada vez mais depressa para sua destruição.”

“mãe e feiticeira são para o Isso da alma humana, geradora de contos, uma única e mesma coisa.”

“Você não encontrará nunca uma mulher a quem nunca tenha ocorrido a idéia de que seu filho será idiota, deficiente.”

“Parece provável até que a preguiça humana, o prazer que sentimos em ficar na cama até tarde, seja a prova do grande amor que o ser humano sente pela mãe, parece até que os preguiçosos que gostam de dormir são as melhores crianças. E se você se der conta de que quanto mais uma criança gosta da mãe, mais ela tem de lutar para se separar dela, naturezas como a de Bismarck ou do Velho Fritz – cujo ardente zelo pelo trabalho forma um curioso contraste com sua grande preguiça – se tornarão compreensíveis para você. O labor incessante que evidenciam é uma rebelião contra os elos do amor infantil que sentiam e que arrastam atrás de si.” “Bismarck, o Chanceler de Ferro, que na verdade tinha nervos de adolescente.” “Por que você acha engraçado que eu considere a mania de fumar como prova de infantilismo e apego à mãe? Nunca lhe ocorreu o quanto a ação de fumar se assemelha à ação de chupar o seio da mãe? (…) o fumante é um <filhinho da mamãe>.”

“E o fato de eu não ter conservado, por assim dizer, nenhuma lembrança do período situado entre meus 12 e 17 anos é prova dos combates que devem ter sido travados dentro de mim. Essas separações em relação à mãe são uma coisa muito curiosa, e posso dizer que o destino me tratou com muita indulgência.”

“três quartas partes de nosso sucesso, senão mais, dependem do encadeamento de circunstâncias que nos atribui alguma semelhança de caráter com os pais do paciente.”

<Sem mérito, nem dignidade>: estas palavras de Lutero devem estar presentes na mente dos que pretendem viver em paz consigo mesmos.”

“a prodigalidade torna-se diarréia, a avareza, constipação; o desejo de engendrar, cólica; o ato carnal torna-se uma dança, uma melodia, uma peça de teatro, edifica-se sob os olhos do homem em uma igreja, com a ponta masculina de seu campanário, as misteriosas abóbodas do ventre materno”

“Talvez conseguíssemos recuperar a capacidade de nos surpreendermos, perdida há muito tempo, nossa adoração pela criança – fato que, em nosso século de malthusianismo, já significa alguma coisa.”

“mais de ¾ dos estupros ocorrem durante esse período. Em outras palavras: um <quê> misterioso da mulher que sangra põe o homem numa espécie de estado de loucura que pode chegar até o crime.”

“Dos 20 mil germes fecundáveis com os quais a mulher vem ao mundo, quando ela chega à puberdade restam apenas algumas centenas e destes, na melhor das hipóteses, apenas uma dúzia serão fecundados”

“E depois disso tudo você vem me dizer essas bobagens sobre não se dever bater em crianças. Minha querida amiga, a criança quer apanhar, ela sonha com isso, ela morre de vontade de receber uma bofetada, como dizia meu pai. E através de uma artimanha que se manifesta de mil modos, ela trata de provocar essa punição. As mães acalmam seus bebês com tapinhas amistosos e a criança sorri. Ela acaba de limpar o filho, sobre a cômoda, e o beija nas maçãs rosadas que, um minuto antes, estavam sujas e, à guisa de suprema recompensa, administra no garotinho esperneante uma boa bofetada que ele recebe chiando de alegria.”

“Todos os idiomas designam o signo da virilidade pela palavra pau.”

“O Isso utiliza muito, e com alegria, esse tipo de tranqüilização. Por exemplo, ele produz o aparecimento, na boca amorosa e que deseja um beijo, de um eczema desfigurador; se me beijarem apesar disso, minha alegria será grande; se não me beijarem, não será por falta de amor, mas por desgosto diante do eczema. Essa é uma das razões pelas quais o adolescente, em fase de desenvolvimento, ostenta no rosto pequenas pústulas; é por isso que a mocinha, em seu primeiro baile, fica com uma maldita espinha no ombro nu ou na base do pescoço, para onde ela sabe que se voltarão os olhares; essa é também a razão pela qual a mão fica fria e úmida quando se estende na direção do bem-amado; é por isso que a boca, desejosa de um beijo, exala um mau hálito, por isso há escorrimentos nas partes sexuais, por isso as mulheres de repente se tornam feias e caprichosas e os homens desajeitados e infantilmente perturbados.“Se agrado a meu amado apesar de meu resfriado ou de meus pés que transpiram, é porque ele me ama de verdade”

“Ela coloca uma bandagem entre as coxas, pratica inconscientemente o onanismo sob o pretexto, admitido por toda parte, da higiene. E quando ela é realmente cuidadosa, por precaução já começa a usar o modess um dia antes e vai até um dia depois, sempre por precaução. E quando isso não a satisfaz, faz com que o sangramento dure mais tempo ou reapareça com mais freqüência.”

“Vou lhe contar um segredo: freqüentemente não consigo entender as definições, quer venham de outros ou de mim mesmo.”

“o frenesi da 4ª semana está além de suas forças. Ela precisa de uma ajuda, de uma espécie de fita para manter a máscara no lugar e encontra essa ajuda na doença, inicialmente nas dores lombares. O movimento para frente e para trás representa a atividade da mulher no coito; as dores lombares impedem esse movimento, reforçam a proibição lançada sobre o cio.”

“o Isso recorre às dores de cabeça a fim de obrigar o pensamento a repousar”

“Se uma leve indisposição não consegue resolver o conflito ou recalcá-lo, o Isso utilizará os grandes recursos: a febre, que obriga a mulher a ficar de cama, uma pneumonia, ou uma fratura da perna, que a imobiliza, diminuindo assim a esfera das percepções que exasperam seus desejos”

“Só morre aquele que quer morrer, aquele para quem a vida tornou-se insuportável.”

“segundo o tipo, o lugar e a época da doença, é possível deduzir o tipo, o lugar e a época do pecado que mereceu essa sanção. (…) Quando alguém fica cego, é porque não queria mais ver, porque pecou com os olhos ou tinha a intenção de fazê-lo; quando alguém fica sem fala é porque tinha um segredo e não ousava contá-lo bem alto.”

“a palavra Sucht (doença, paixão) nada tem a ver com sehnsucht (anelar) mas deriva de siech (doente). Mas o Isso se comporta como se não levasse em conta a etimologia; apega-se, como o grego inculto, aos sons da palavra e as utiliza para provocar a doença e alimentá-la.

Não seria tão ruim que os homens chamados a exercer a medicina fossem menos inteligentes, pensassem com menos sutilezas e deduzissem as coisas de modo mais infantil. Com isso se estaria fazendo melhor do que construindo sanatórios e hospitais.”

Tat Tvam Asi (Veda): Isso é tu.

“Com o tempo, e graças à aplicação com a qual entregamos à anatomia, à fisiologia, à bacteriologia e à estatística o cuidado de nos ditar nossas opiniões, chegamos ao ponto em que ninguém mais sabe ao que atribuir o nome de câncer.” “uma vez que não podemos acreditar mais em fantasmas, essas duas doenças (o câncer e a sífilis) – apesar ou por causa dos nomes por assim dizer indefiníveis que lhes dá a ciência, nomes cujas <associações> são grotescas e horrorosas – fornecem um bom substituto.” caranguejo: “Segundo Galeno, o legendário médico romano, o nome câncer foi dado à doença porque as veias intumescidas que circundam a parte afetada tinham a aparência das patas de um caranguejo.” dicionarioetimologico.com.br / sus+philos (amor ao porco, amor de porco), origem ~1530 (fonte: Id.)

Aquilo que os animais fazem, papai e mamãe também fazem nesses momentos em que ouço esse estranho tremer da cama e quando ouço os dois brincando de puf-puf trenzinho.”

“Toda doença é uma renovação do estado de bebê e encontra suas origens na saudade da mãe (…) A delicadeza da saúde, a freqüência e a duração das doenças são um indício da profundidade dos sentimentos que ligam o ser humano à imago da mãe.”

Pus na garganta. O que se põe na garganta, ora BOLAS?

Pus branco na garganta.

Felação que fodeu a garganta.

Sufocamento.

Medo de nadar.

Barco da Penny.

Trenzinho do pênis.

Engolir e seguir em frente.

Cuspir e enfrentar o problema.

Eu provei a mim mesmo que poderia fazer exatamente igual se decidisse me esforçar. Mas a verdade é que dá trabalho demais ser tão simples e grosseiro nos gostos.

“O que ressaltava mais nesse processo de semelhança com o pai era o envelhecimento precoce de D.

“Em casos de incapacidade sexual masculina, a primeira pergunta sempre deve ser: quais as relações deste homem com a mãe?”

“Eu já havia visto homens que, sob a pressão do complexo de Édipo, haviam contraído sífilis. É mais raro, porém, que essa doença seja inteiramente inventada pelo Isso e que, durante anos, se represente toda uma comédia de sintomas sifilíticos e blenorrágicos.”

“Mãe e filho: está aí, acumulada, toda a miséria do mundo, todas suas lágrimas, todo seu desespero. E como agradecimento, as únicas coisas que a mãe recebe são estas duras palavras: <Mulher, que tenho a ver contigo?>. Assim o exige o destino humano e não há mãe que se aborreça quando o filho a ignora. Pois é assim que deve ser.”

“O ódio com que D., bêbado, perseguia os pederastas, é homossexualidade recalcada”

“Já lhe contei que, no momento desses conflitos, ele criava coelhos. Entre estes havia um branco como a neve. Em relação a este coelho, D. assumiu um comportamento estranho. Permitia que todos os machos copulassem à vontade com as fêmeas e sentia um certo prazer em presenciar aqueles embates. O único não-autorizado a aproximar-se das fêmeas era aquele coelho branco. Quando o coelho conseguia fazê-lo, D. o pegava pelas orelhas, amarrava-o, suspendia-o de uma viga e chicoteava-o até não conseguir nem mexer o próprio braço. Era o braço direito, o primeiro a ser atingido pela doença. E foi exatamente nesse período que isso aconteceu.”

“O povo diz que quem vê a mãe nua fica cego.”

“O Isso escolhe, de modo despótico, o tipo de doença que quer provocar e não leva em conta nossa terminologia (se orgânica, se funcional ou se psíquica).”

“O corpo não fica doente. O que está morto não fica doente, no máximo apodrece.”

Bonita roupa de madeira, Fernandinho C&A (Corps und Alma)

“Não se suporta mais o papel de parede marrom, os vestidos verdes ou saias escocesas, o nome Gretchen faz o coração palpitar e assim por diante.”

“Creio que você não deve ter tido muita ocasião de ver ventres humanos nus. Isso já me aconteceu várias vezes. E é possível constatar uma coisa curiosa. Um sulco, uma longa ruga transversal ornamenta a parte superior do abdômen de um grande número de pessoas. Esse risco resulta do recalque. Ou então o que se vê são veias vermelhas. Ou o ventre está inchado, ou sabe Deus o que mais. Pense num ser humano assombrado durante anos, décadas, pela angústia de subir e descer escadas.” A escada tira a inocência, arranca o leite…

to stare

tomb

tombar

trap

step(dad-mom)

back-stairs

minha ex-

cada

ex-

pecial

“Pense no olho. Quando ele vê, transforma-se no teatro de toda uma série de processos diversos. Mas quando proíbem que veja e quando mesmo assim ele vê, não se atreve a transmitir suas impressões ao cérebro. Neste caso, o que pode acontecer com ele? Se for obrigado mil vezes ao dia a omitir o que percebe, não é admissível que acabe por se cansar e diga: <Vou tornar as coisas mais cômodas: se não posso ver, ficarei míope, alongarei meu eixo. E se isso não bastar, provocarei um derramamento de sangue na retina e ficarei cego>.”

Quem disse que eu quero ver o rosto das pessoas na rua?

Não quero copiar o quadro-negro nem ouvir conversa alheia.

pEidos-imagEn

Ironia das ironias, chiste dos chistes, Freud combatia a análise didática e a formalização da profissão que criou: “Quando, há anos, consegui superar meu orgulho e tomar a iniciativa de escrever a Freud, ele me respondeu mais ou menos nos seguintes termos: <Se você tiver compreendido o mecanismo da transferência e da resistência, pode sem receio dedicar-se ao tratamento de doentes através da psicanálise>.”

Quem persiste em ter espinha não fica paralítico.

“o trabalho mais importante do tratamento consiste em pôr de lado a transferência e superá-la.”

“3 instâncias das possibilidades de resistência [metáfora do salão, onde circulam os convidados pudicos e dignos, o guarda-costas, que faz a filtragem, e os convidados na antessala ou mundo exterior]”

ácaros acariciantes

alergia-a-carro

[c]at[arro]

rosa cara

rosca

Mabel

Baal

Fael

Colin

calling

call-in

center

periphery

peri go

danger

criança-cama-leão

adulto trust thrust Zarat

peso corcova(do) da obstinação

decerto criação

crianção

jugular

juba

lar

maxilar

maximizar

rocky

ronda

matinal

cave

homúnculo

carbúnculo

lungs long for…

lua

automobidle

deficiências autoimunes

death-ciência

memento mori

grande momento

virtual

Nem todo herói usa caspa, já dizia o Cristiano Ronaldo

“Todo aquele que não souber que espreitou assim por trás de cada moita, cada porta, aquele que for incapaz de falar do monte de porcaria oculto atrás dessas portas e moitas e for menos ainda capaz de se lembrar da quantidade de sujeira que ele mesmo pôs ali, esse não irá longe. É observando a si mesmo que se aprende a conhecer melhor as resistências. E é a si que a gente aprende a conhecer ao analisar os outros. Nós, médicos, somos uns privilegiados e não conheço outra profissão que pudesse me atrair mais.”

TABU PSICANALÍTICO? “é indispensável analisar a si mesmo. Não é fácil, mas isso nos revela nossas resistências pessoais e logo nos deparamos com fenômenos que desvendam a existência de resistências particulares a uma classe, um povo, até mesmo a toda a humanidade. Resistências comuns à maioria dos humanos, senão a todos.”

“Sentimos uma certa repugnância pelo uso de certas expressões infantis, expressões comuns em nós durante a infância. Em nossas relações com as crianças e – de modo bem curioso – com a pessoa que amamos, nós as empregamos sem segundas intenções; falamos em <fazer um xixizinho>, <um traque>, <pinto>, <xoxota>. Mas em companhia de adultos preferimos nos comportar como adultos, renegamos nossa natureza infantil e então <mijar>, <cagar>, <boceta> nos parecem mais normais. Estamos bancando os importantes, é só isso.”

“Parece que, freqüentemente, basta obrigar o guardião a anunciar um nome qualquer na sala do inconsciente; p.ex., Wüllner. Se entre os que estiverem perto da porta não houver ninguém com esse nome, o nome é posto a circular e se ele não chegar até aquele que assim se chama talvez haja um Müller que, intencionalmente ou não, entenderá mal o nome, abrirá passagem e entrará no consciente.”

rembrandt_circuncisao

“Com a mão direita, estou segurando minha caneta; com a esquerda, estou brincando com a corrente de meu relógio. Estou olhando para a parede da frente, para uma gravura de um quadro de Rembrandt intitulado A Circuncisão de Jesus. Meus pés estão no chão, mas o pé direito está marcando, com o calcanhar, o compasso de uma marcha militar que a orquestra do cassino está executando lá embaixo. Simultaneamente, percebo o grito de uma coruja, a buzina de um automóvel e os ruídos do bonde elétrico. Não sinto nenhum cheiro em particular, mas minha narina direita está ligeiramente tampada. Estou sentindo coceira na região da tíbia direita e tenho consciência de ter à direita de meu lábio superior uma pequena mancha redonda e vermelha. Meu humor está hoje instável e a extremidade de meus dedos, fria.”

Com as duas mãos, mas somente dois ou três dedos, digito rapidamente este parágrafo, seguindo o modelo acima; estou com o Word 2010 aberto, na página 17 do arquivo. Meu campo visual atual abrange 4 pessoas, ou deveria dizer 3 vultos e uma linda mulher madura em vestido verde de motivos florais, situada em ângulo oblíquo sem poder ler o que digito. Ela acaba de receber uma visita e se deslocar um pouco da mesa, me deixando apreensivo. Agora que me desconcentrei e a música que estava ouvindo acabou, antes de entrar a próxima, me dei conta de que o outro servidor no fundo do meu campo visual do olho direito, o Dênis, também está atendendo um servidor. Estou no primeiro andar de um prédio que, a rigor, é o quinto andar da construção em relação ao solo (uma vez que o primeiro andar da planta fica em cima de um andar chamado sobreloja, e sua referência para ser o <primeiro> é um térreo para pedestres, localizado ainda sobre vários andares de garagem). Uma das dezesseis abas do meu navegador Chrome está reproduzindo “Paradise regained” (Belphegor) no YouTube. Dois servidores conversam risonhos com meu corpo opaco atravessando sua comunicação sonora e visual (provavelmente sou um obstáculo indesejável). Sinto uma leve tensão maxilar. Os fones apertam. Está perto da minha pausa para fumar. A música adquire intensidade e faz meu sangue circular mais rápido. A cor predominante no meu campo visual é o preto. Sinto gosto de gengibre e café na boca. Sede, apesar de já ter bebido vários ml de água ainda há pouco. Meu celular está a minha frente, abaixo do monitor, sua tela está engordurada, isso me incomoda. Um número do Rio me liga insistentemente, eu ignoro. Transpiro bastante, sinto que o ar condicionado nesta sala é só de enfeite. A playlist já passou para outra música. Minha lente direita dos óculos está um pouco embaçada. O céu a minha frente (se eu olhar um pouco para cima, pela ampla janela) está parcialmente nublado. Estou tentando lembrar tudo o que farei nesta minha quinta-feira. Sinto a pele abaixo do lábio inferior áspera; ontem usei a gilete. Os pêlos do meu bigode estão compridos e eriçados nas pontas. Minhas pernas estão cruzadas abaixo da cadeira, meu tênis direito, laranja, resvala num dos pés do assento (de rodinhas), montados em formato de cruz. Imagino que este parágrafo já está longo mas mal descreve meu presente imediato. Não sinto qualquer espécie de dor muscular ou angústia traçável. São 10:14. Ah, lembrei: tenho que levantar e buscar um papel na impressora. Um adendo antes de encerrar o parágrafo: também há uma pintura, uma reprodução vulgar, e não um quadro, como no caso de Groddeck, bem pequena, numa pilastra a minha direita, acima dum extintor de incêndio. A gravura anexada à parede branca é uma representação católica típica da Virgem Maria e sua criança, ó! Apresenta tons pastéis. Se é que passamos do seu sétimo dia de vida (quem poderia saber), por baixo de sua manta branca – estou falando do menino Jesus – ele também está circunciso. O judeu que nos salvou há 2019 menos 32 ou 33 anos. Por mais que o mundo mude bastante em coisa de um século, esse fio de uma religião morta une inesperadamente ambos os autores, separados, ademais, por um oceano físico, além dos abismos de intersubjetividade e blá-blá-blá (cite um alemão fenomenólogo aqui). Eu não redigi isso de forma planejada, embora esse desfecho tenha parecido cuidadosamente arquitetado e harmonize com todo o “prólogo”. Agora também reparei que usei a palavra cruz já antes de reparar na gravura e comentar o Sacrifício. Poderia ser que meu inconsciente já houvesse engatilhado todos estes fatores? O papel continuaria na impressora, mas alguém viu, leu, e eu sorri constrangido: é meu.

“O anel é um símbolo feminino e o relógio, como todas as máquinas, também. Em meu espírito, o que está em jogo não é a corrente; ela simboliza, antes, algo que precede o ato sexual propriamente dito, anterior ao jogo do relógio [Kurapika quer FODER o Genei-Ryodan de modo inexorável e frio]. Minha mão esquerda diz que sinto mais prazer com as preliminares, em suma, com tudo aquilo de que o adolescente gosta [?], do que com a penetração em si.”

“Nada fere mais profundamente o ser humano do que atribuir-lhe uma nobreza que ele não tem.”

“<A caneta representa as partes sexuais do homem; o papel, a mulher que concebe; a tinta é o sêmen que escapa num rápido movimento de vaivém da caneta. Em outras palavras, escrever é um ato sexual simbólico. Mas ao mesmo tempo é o símbolo da masturbação, do ato sexual imaginário>. A pertinência dessa explicação está para mim no fato de que o mal do escritor desaparecia de cada um desses pacientes tão logo eles descobriam essas relações. (…) Para o doente com o mal do escritor, a escrita dita gótica é mais difícil que a latina, porque o movimento de vaivém é mais acentuado, mais intenso, mais incisivo. A caneta pesada é mais agradável de utilizar que a mais leve, que de algum modo representaria o dedo ou um pênis pouco satisfatório. [e para nós em 2019?] O lápis tem a vantagem de suprimir a perda simbólica do sêmen; a vantagem da máquina de escrever é que nela o erotismo está limitado ao teclado [?], ao movimento de vaivém das batidas e que a mão não tem contato direto com o pênis. Tudo isso corresponde aos fenômenos do mal do escritor, que leva da utilização da caneta comum à máquina de escrever passando pelo lápis e pela escrita latina para chegar finalmente ao ditado. [?]” “O tinteiro, com sua abertura que dá para profundas trevas, é um símbolo materno, representando a matriz da parturiente.” “Os caracteres, esses diabinhos pretos, se empurram para fora do tinteiro, esse ventre do inferno, e nos informam sobre a existência de íntimas relações entre a idéia da mãe e o império do Mal.”

“E se o Isso acha que uma simples vertigem, um passo em falso, uma entorse ou um encontrão num poste, pisar num pedregulho pontudo, uma dor no pé, não é advertência bastante, ele jogará o ser humano no chão, abrirá um buraco em seu crânio espesso, lhe ferirá o olho ou lhe fraturará o membro com o qual a pessoa está prestes a pecar. Talvez lhe arranje também uma doença, a gota, p.ex..”

“Quando digo às pessoas: <É preciso que você chegue ao ponto de não hesitar em poder se agachar um dia, numa rua, desabotoar a calça e fazer suas necessidades>, insisto na palavra poder. A polícia, os hábitos e o medo inculcado há séculos cuidarão para que meu paciente nunca <possa> fazer isso. A respeito disso, estou tranqüilo, embora você muitas vezes me chame de demônio e de <corruptor de costumes>.”

“o mais modesto, o mais humilde adora a si mesmo. Até Cristo na cruz, quando disse: <Meu pai meu pai, por que me abandonou?> e ainda <Tudo está consumado>. Ser um fariseu, dizer o tempo todo: <Rendo graças, Senhor, de não ser como aquele ali…> é uma coisa profundamente humana.”

“Suportou todas aquelas torturas apenas porque o pai dela se chamava Frederico Guilherme e porque lhe haviam dito na infância, por zombaria, que ela não era filha de sua mãe e tinha sido achada no meio do mato.”

FILHO ESPIRITUAL DE JÚLIO CÉSAR: “inventamos para nós uma vida imaginária na qual o rapto e a substituição nos devolvem nossa dignidade [longe da canalha alemã!].” Frequentemente eu sou o contrário: um alienígena que assume este corpo de prosaico terráqueo.

“Como único sinal de minha [antiga] dignidade, deram-me o nome de Augusta, a Sublime.”

(*) “Struwwelpeter é um famoso livro infantil ilustrado que fez as delícias e o horror de gerações de alemães cujos heróis são meninos de mau comportamento que recusam lavar-se, comer, cortar unhas e cabelos e que por isso recebem terríveis castigos: o que não come definha e morre, o que chupa os dedos tem todos os dedos cortados com enorme tesoura etc.”

“Quando se usa coroa, não se olha nem à esquerda nem à direita, julga-se tudo sem piscar, não se curva a cabeça diante de poder algum na terra. (…) ordena o Isso: fixe esta cabeça, endureça a coluna vertebral. Feche a mandíbula para que não possa gritar viva! (…) Paralise os ombros (…) Que suas pernas se endureçam, pois elas nunca deverão se ajoelhar diante de ninguém. Feche-lhe as pernas uma contra a outra para que nenhum homem nunca possa vir a se deitar entre elas. (…) ensinem-lhe, seivas e forças, a noção de ereção, da dureza, impedindo as pernas de se dobrarem, relaxarem (…) ensinem-lhe que é um homem.

“As diferenças de idade eram tão mínimas [na época dos casamentos arranjados desde a infância] que o primogênito devia ser em tudo o rival nato do pai e representava particularmente um perigo para a mãe, apenas mais velha que ele. (…) é bem possível que no começo matar o filho mais velho fosse um costume (…) camufla esse crime em rito religioso (…) [Muito depois] Os pais livravam-se de seus rivais no amor castrando-os. Com isso, não havia mais o que temer deles e conseguia-se um escravo barato. Quando a densidade demográfica tornava-se mais acentuada, passou-se a usar o sistema que consistia em mandar o filho mais velho para o estrangeiro, procedimento conhecido em certos momentos históricos sob o nome de Ver sacrum. [Tudo isso antes da invenção da agricultura e da formação de confederações maiores integradas por tribos menores, no nomadismo que exigia a força de trabalho humana e não apenas a vocação do pastoreio]”

“o globo é um símbolo materno (…) brincar com essa pequena bola equivale a um incesto alegórico. (…) o globo terrestre – nem preciso dizer –, tanto pelo fato de ser chamado de imagem de nossa <mãe-terra> quanto por sua aparência redonda, é sem dúvida uma alusão ao ventre materno em período <de esperança>.” Os terraplanistas são eunucos ou “homossexuais metafísicos”.

“O fruto que Eva passa a Adão [curiosa inversão] – e que de modo muito significativo foi imaginado através dos séculos como sendo uma maçã, fruto da deusa do amor, quando a Bíblia não fala em maçã alguma – este fruto, tão belo, tão tentador, tão delicioso de morder, corresponde ao peito, aos testículos, ao traseiro.”

“no esmagamento da cabeça da serpente estão representados tanto o relaxamento dos membros quanto a castração. E bem próxima está a idéia da morte. (…) O homem se vê diminuído em uma cabeça, encurtado de uma cabeça também é o membro, cuja glande, após o coito, se recolhe para dentro do prepúcio.”

“A menção ao traseiro de Eva lhe recorda que seu amante algumas vezes a possuiu por trás, enquanto você estava ajoelhada ou sentada sobre os joelhos.” “a ciência alemã sabe perfeitamente que todos, na juventude, gostaram do more ferarum [doggy style] ou tiveram pelo menos a vontade de praticá-lo.” “Nunca se teria pensado no clister se essa brincadeira bestial à la cachorrinho não tivesse existido. E também não se tomaria a temperatura no ânus. Nem haveria a teoria sexual infantil do parto pelo traseiro, que surge de 1000 maneiras na vida de todo ser humano, doente ou sadio.”

“Antigamente, as mulheres não usavam calcinhas; os homens e as mulheres sentiam prazer no gozo rápido. Mais tarde, pareceu-lhes mais divertido excitar-se com outras coisas e inventaram-se as calcinhas que, através de sua abertura, escondiam apenas pela metade os segredos que deveriam ocultar. Para encerrar, todas as mulheres usam hoje elegantes calcinhas inteiriças, com rendas. As rendas servem de isca, e a abertura fechada é para prolongar o jogo. Não deixe de prestar atenção à calça masculina, que insiste no lugar em que repousa o cavalinho.”

“O homem limpa a boca de lado, com um gesto de rejeição; a mulher usa o guardanapo a partir dos cantos da boca para chegar ao centro: quer conceber.”

“Para assoar o nariz, o homem produz o barulho de uma corneta, como um elefante, pois o nariz é símbolo de seu membro, sente orgulho dele e quer destacar seu valor.”

“Os meninos e os homens cospem, mostram que produzem sêmen; as moças choram, o que transborda de seus olhos simboliza o orgasmo.”

“A boca é o símbolo da mulher, e passar o dedo pelo bigode significa: <Gostaria de brincar com essa mulherzinha>.”

“A cabeça barbeada torna-se alegoria da glande nua no momento da ereção.”

“o fato de usar óculos: a pessoa quer ver melhor, mas não quer ser vista.”

“Aquele velho anda a passos curtos: quer prolongar o caminho que o levará à cova”

“Que capricho do Isso! Porco-mãe-Cristo!”

“Cobrir com a mão algo que não deve ser visto é coisa que se entende. Mas a mão sobre as partes sexuais? Tenho a impressão de estar diante de uma brincadeira do Isso.”

“O pomo de Adão provém sem dúvida do fato de que a maçã ficou entalada na garganta de Adão.”

“Na idade ingrata, também você teve um pescoço grosso demais. Isso passa. É só nas pessoas cujo Isso está completamente impregnado pela idéia da concepção através da boca e do horror de carregar uma criança na barriga, é só nessas pessoas que esse inchaço pode virar papo ou doença de Basedow.”

“Quando há 4 anos fiquei hidrópico em decorrência de uma grave pneumonia, meu olfato havia se desenvolvido a tal ponto que o uso de colheres tornou-se insuportável para mim porque – apesar de bem-lavadas – eu percebia o cheiro dos alimentos que haviam estado ali horas ou mesmo dias antes.”

“os urinóis da escola, cujos sufocantes eflúvios de amoníaco ainda hoje consigo sentir distintamente.”

“Já lhe contei que naquela época – eu tinha 12 ou 13 anos – ainda urinava na cama e tinha medo das brincadeiras dos colegas, mesmo que o fenômeno quase nunca acontecesse e, mesmo assim, em suas formas mais benignas.”

“Quando dois cães se encontram, se cheiram mutuamente os traseiros. É evidente que eles procuram saber, com a ajuda do nariz, se simpatizam com o outro. Quando as pessoas têm um certo senso de humor, elas riem, como você, desse costume canino; sem humor, a coisa é nojenta. Mas você manterá seu bom humor se eu disser que os seres humanos agem do mesmo modo?”

“aquilo que para um cheira mal, para outro é suave perfume.”

aADRENALINa

cigarroálitoflúordordegargantassuorseborreia

peidoarrotoespirrorrangerdedentes

este processo me cheira maldições

“Recorde-se, minha cara, que a criança primeiro aprende a conhecer e a gostar das pernas das pessoas”

“A atmosfera proveniente das exalações do sangue a envolve e aumenta seu desejo do incesto. Dessas impressões perturbadoras resulta todo o tipo de conflitos íntimos, aos quais se ligam decepções surdamente sentidas, profundamente dolorosas, que aumentam o pesar provocado pelos caprichos, pelos maus humores e enxaquecas da mãe. É de estranhar que se recorra ao recalque disso tudo?”

“Mas como poderia a mãe evitar esse embaraço? É seu destino ferir seu próprio filho naquilo que ele tem de mais profundo, é esse o destino de toda mãe. (…) na vida há muitas tragédias que esperam pelo poeta que as cantará. E talvez ele nunca apareça!”

“Não podemos suportar a idéia de que esse ser a que chamamos de mãe um dia nos recusou seu seio, que essa pessoa que diz nos amar, após nos ter incitado à masturbação, nos puniu por isso?”

“As crianças sabem que saíram da barriga da mãe. Mas são coagidas, por si e pelos adultos, a admitir a história da cegonha.”

“É destino do homem sentir vergonha de ter sido concebido humanamente e humanamente posto no mundo. Ele se acha ameaçado em seu orgulho, em sua semelhança com Deus. Ele gostaria tanto de procriar ao modo divino, de ser Deus! E pelo fato de que no ventre da mãe ele era um Deus todo-poderoso, descobre para si uma origem divina por meio da religião, inventa para si um deus-pai e aumenta o recalque do incesto até encontrar consolo na Virgem Maria, na Imaculada Conceição ou numa ciência qualquer.”

“Não queremos saber que ela sofreu por nossa causa, isso nos é intolerável. Ou será que você nunca percebeu o tormento de seus filhos quando você está triste ou chorando?”

“Assim como o <a> e o <b> surgem o tempo todo na fala, esse complexo, essa fobia de tornar-se mulher ressurge sem cessar em nós. E ponha <a> e <b> juntos e você terá ab (fora; no caso, idéia de cortar) e você rirá como eu, espero, dos trocadilhos do inconsciente.”

“Nada é mais desagradável ao médico do que a sensação de não estar na moda.”

“Hoje em dia usamos calças consideravelmente largas; mas há algumas décadas eram bem justas, de modo que as marcas da virilidade podiam ser vistas à distância.”

“Também a equitação é exibição: a identificação do cavalo com a mulher está profundamente mergulhada no inconsciente de todos; e que a coroa da noiva representa a vagina e o véu a membrana do hímen é algo que realmente não preciso dizer.”

“Nós, humanos, agimos todos conforme o princípio do ladrão que grita <Pega ladrão> mais forte do que todo mundo.”

“As mães imitam o som da urina, <xxxii xxxxxii>, a fim de facilitar a ejaculação do <pintinho> do filho e nós, médicos, recorremos todos ao estratagema de abrir a torneira da pia quando observamos que um paciente se sente inibido por ter de usar o vaso em nossa presença. Aliás, quem pode negar o papel do peido na vida humana? [No pay intended] Você não é a única, minha amiga, a esboçar um sorriso divertido ao recordar uma engraçada explosão.”

“o Sr. Bilioso, que há muito permitiu que seu senso de humor se perdesse nas mil dobras de sua boca maldizente”

O riso a cólera se encontram numa epidemia de espasmos vermelho-sangue gargalhões.

“Os gases fecais levam de modo natural aos incidentes que ocorrem na zona do sentido do olfato.”

Ultimamente tenho sentido que a vida não faz sentido.

Mas, dalguma forma, sei que a vida progride milagrosamente em, no mínimo, uns 5 sentidos.

agoramarumpoucodee

now sea a bunch o’s [heerrs]

nauseabunda

fe-dores humanXs

fera ferida suada e fedida

a podre Cida

O cheiro das fezes do meu melhor amigo de infância era o mesmo da minha primeira namorada. E não me ocorreu cheirar fedor parecido outra vez…

“O Isso fede quando quer feder.”

“Ouvi um adolescente dizer <Não sou tão porco assim para ter de me lavar todos os dias!>”

“Ó tu, fossa negra ambulante que te chamas a ti mesmo de ser humano! Por que engoles tua saliva, se a saliva é nojenta?”

“fazemos caretas no espelho unicamente por prazer; o exibicionismo atrai e repele.”

“E há sem dúvida pessoas educadas que enfiam o dedo no nariz quando estão sozinhas: os buracos foram feitos para que neles se enfie alguma coisa, e as narinas não são exceção à regra.”

GOSTOSA

CHEIROSA

CARNUDA

POLPUDA

ELA É MÚSICA

PARA MEUS OUVIDOS

É DE DAR ÁGUA NA BOCA

E DE PENSARMOS NA COR ROXA

DÁ VONTADE DE TESTAR MIL COISAS,

INCLUSIVE A PAREDE

MAS QUEM VÊ NISSO

QUALQUER MAL?

“para pegar com prazer uma mão fria e úmida é preciso amar profundamente a pessoa à qual pertence aquela mão.”

Venha, senhorita esteticista-mirim, cuidar da pele deste pobre púbere!

erupção CUtânea

cut cut cut!!!

Minha alergia aos 9 anos de idade que nenhum pediatra ou dermatologista soube tratar…

Veja como minha pele deseja ser suavemente tocada de modo suave! Um toque suave é maravilhoso, mas ninguém me acaricia. Me compreenda, me ajude! Como posso expressar meu desejo a não ser através destes arranhões que me imponho?”

Seja meu xampu, xuxu.

Quantas vezes será que vou cagar hoje

MATURIDADE PENIANA: “A partir do momento em que cessa o desenvolvimento da pessoa, começa o embrutecimento do ser humano e, ao invés de continuar sua procura da busca das maravilhas da existência, ele se contenta com ler jornais, ou educar-se até que um ataque o fulmine em seu escritório, acabando com tudo. Do berço à cova.”

“Pense numa menininha de 5 anos ao lado de um cavalo: diante de si ela vê o ventre do animal com aquela coisa que está presa ali e que, de repente, aumenta de tamanho, quase o dobro, deixando passar um potente jato de urina.”

“Diz o povo que, nas mulheres, é possível adivinhar o tamanho da entrada da vagina pelo tamanho da boca.”

“O bocejo não revela apenas o cansaço mas também que naquele momento está ali uma mulher lasciva”

“olhos saltados: pode ter certeza que essa pessoa quer, já de longe, deixar claros a curiosidade e o medo provocados por surpreendentes descobertas.” O tipo Sócrates. E seu oposto diametral: “Os olhos enfiados dentro das órbitas indicam que fugiram para lá quando o ódio dos homens tornou-se forte demais: não querem ver mais nada e, menos ainda, serem vistos.”

O tipo comprimido: ironicamente, sujeito que está sempre doente.

“os pêlos que crescem nas narinas”

amigdalite como crise de masculinidade

amigDallas, Paris,TEXAS

“Você naturalmente não precisa acreditar nisso, mas como se explica que duas entre 3 crianças peguem escarlatina e a terceira não?”

“estar doente tudo desculpa e faz expiar todos os desejos puníveis inconscientes, semiconscientes e conscientes”

O ISSO & A HISTERIA: “o Isso inventa a perda da consciência e disfarça simbolicamente o processo erótico sob a forma de espasmos, de movimentos assustadores e de deslocações do tronco, da cabeça e dos membros. Tudo acontece como num sonho, salvo que o Isso convida, para o espetáculo de seu orgasmo, um público honroso, do qual ele se põe a rir.”

Você é um homem ou uma galinha? Você seria capaz de atravessar, migrar de gênero (linha reta da vida)? Pôr ovos todos os dias um detrás do outro, ter filhos pelo sacrifício de seu ovo? Cloaca, cu híbrido unigênito de onde sai um pau autossaciável.

PERCEPÇÃO DA SEXUALIDADE NA INFÂNCIA (PRIMEIRA GRANDE TEORIA DA CONSPIRAÇÃO & MANIA DE PERSEGUIÇÃO): “Os ovos cortados dos homens serão comidos não porque são gostosos mas porque deles sairão filhos de homens. E o ciclo de reflexões se enrola lentamente; das trevas do espírito surge um ser assustador: o pai. O pai corta as partes sexuais da mãe e as entrega à própria mulher para que ela as coma. É daí que provêm as crianças. Essa é a razão das lutas que abalam a cama dos pais durante a noite; está aí a explicação dos suspiros e dos gemidos, do sangue no urinol. O pai é terrível, cruel, e suas punições são temíveis. Mas o que ele pune? Aquele esfregar e tocar. A mãe se tocaria, portanto? Idéia inconcebível. (…) A mão materna esfrega cotidianamente os ovinhos pueris do menininho, brinca com seu rabinho. (…) Mas com quem vou brincar se meu pai me cortar o rabinho?”

Olá minha cara! – feia

você é fome, vc está com fome, podemos resolver este problema!

“Já riram tanto de mim e eu mesmo já senti tanto prazer em me juntar a meus detratores que muitas vezes nem eu sei se de fato penso o que estou dizendo ou se digo as coisas por brincadeira.”

“Não é incrível que um cérebro de 3 anos já seja capaz de conceber a filosofia das formas e a teoria da fermentação? (…) a paridade fezes-nascimento-castração-concepção e lingüiça-pênis-fortuna-dinheiro se reproduz cotidianamente e a todo momento no mundo de idéias de nosso inconsciente, nos enriquecendo ou empobrecendo, nos tornando enamorados ou sonolentos, ativos ou preguiçosos, poderosos ou impotentes, felizes ou infelizes, dando-nos uma pele na qual transpiramos, fundando casais ou os separando”

(*) “Em alemão, ovário é Eiertock, literalmente <vara de ovos>.”

varaovo

TROMPA de FALOpio

“De modo curioso, a palavra tíbia (Schienbein) se transforma em coceira (Beinschiene)”

coceira

cóccix (cock6 uh, s-luht, full-o’-lust!)

coce-cu

come-chão

comichinha & coçadona

dar uma cossa

afago no gongo

pé-na-bunda

pena

canela tibieza

doce coceira

pro tempore

pó tempero sobremesa

fêmur

fêmea

femurização do homem

poça que coxa

vir-à-ilha

sudo reze

te machuquei?

imagina

“Minha infância se desperta e algo chora em mim.”

CONTOS DE FADAS: “pode-se perceber na recomendação da mãe para que não abram a porta uma alusão ao fato de que há apenas uma virgindade a perder”

BRUXA DO 7 A 1: “Há algo de curioso no fato de que a expressão alemã <sete malvado>, que significa megera, se aplica apenas às mulheres.” 7 é sexo

O sétimo filho não é engolido pelo Tempo.

boca de lobo

goela de lobo é nome de doença em alemão

lobo cefal

ceifar

“O Wolfsrachen, <goela de lobo>, implica na ausência da úvula, que representa, como você sabe, o membro viril. Em outras palavras, a castração. É uma alegoria da punição do onanismo. E se você já viu essa doença num ser humano, sabe como é terrível essa punição.”

“o Isso tem uma surpreendente memória dos números, um sentido primitivo do cálculo como só costuma acontecer naqueles atacados por certas formas de idiotia e, como um idiota, gosta de resolver na hora os problemas apresentados.”

“Durante muitos anos, quando queria manifestar meu descontentamento com alguma coisa, eu usava a expressão <Já lhe disse isso 26.783 vezes!>. (…) Percebi que a soma desses números dava 26, exatamente o nº que resta quando se subtrai dos 1000 os outros números. (…) Eu tinha 26 anos quando minha mãe morreu.”

FUCK DO MILÊNIO

2+6+7+8+3=26

Eu já te disse 1000x que não se trabalha no Dia do Trabalhador!

Eu tinha 19 anos quando morri

E eu, 33 quando Cristo nasceu. Tríplice Santíssima Coroa Aliança meio-diabólica (3+3=6, sendo 3, 3×33=99, menos que Abraão, mas 33 a mais que o tempo de vida de um Diabo em escala humana) .

Minha idade é uma dízima periódica de um dígito, eu arredondo para cima e abro o Sétimo Portal. Nove círculos do Inferno. 12 casas. 5 Cavaleiros de Bronze. 12-5=7. 07/05 capes 5 letras 2014 – veja abaixo. C4P3S 7 CAPE5 C4P35 (5+7=12)

Eu nasci em 1988. 1+9+8+8 = 26

1988(ano do supremo eterno retorno de todas as coisas)+26= 2014, 2+1+4= 7

1951, 16 7

1953, 18 9

1988-1951 = 37 (36) 9

1988-1953= 35 (34) 7

9+7=16

24/9

1/10

24+1

10-9

1+1+0=2

1953-1951

7 dias de diferença entre os aniversários dos meus pais

7 anos (virtualmente) de diferença entre mim e meu irmão mais velho

6 dias de diferença entre os aniversários dos meus padrinhos

6 anos (virtualmente) de diferença entre os filhos deles

Acho que já me aventurei o bastante!

“essa doença dos rins – para mim como para todos os doentes dos rins – é uma característica da dualidade de atitudes na vida, do fato de estar sempre entre – do Dois. O ser-rins se desdobra.” “Seu Isso se coloca entre o 1 – símbolo do falo ereto, do adulto, do pai – e o 3 – símbolo da criança.”

“a pequena altura de algumas pessoas tem uma relação com o desejo de <continuar pequeno>”

Ich bin Klein, mein Herz ist rein”

“Anna não tem começo nem fim, A e O, Anna e Otto, o ser, O Infinito, a Eternidade, o anel e o círculo, o zero, a mãe, Anna.”

Gayvota :3

W peitos maternos

“Não é maravilhosa essa expressão, Filho do Homem? E meu Isso me diz em alto e bom som: <Interprete, interprete…>”

Trisco e Dujas

“O Isso é ardiloso e não precisa ter muito trabalho para fazer esse cretino do consciente acreditar que o preto e o branco são antinomias e que uma cadeira é de fato uma cadeira, quando na verdade qualquer criança sabe muito bem que uma cadeira pode ser também um carro, uma casa, uma montanha, uma mãe.”

“Esse sentimento por aquele colega durara ainda algum tempo após minha saída daquela escola, até que eu os transferi para um colega da universidade e dele para minha irmã. Foi aí que se deteve minha homossexualidade, minha tendência a me apaixonar por amigos do mesmo sexo. Depois, só me apaixonei por mulheres.”

“A lista dessas amantes imaginárias é infinita e até recentemente era uma lista que aumentava quase cotidianamente com mais uma ou duas mulheres. O que há de característico nessa história é que minhas experiências realmente eróticas nunca tiveram relação alguma com essas bem-amadas de minha alma. Para minhas orgias onanistas, tanto quanto me lembro, nunca escolhi uma mulher de quem realmente gostei. Sempre estranhas, desconhecidas. Você sabe o que isso significa? Não? Significava que meu amor mais profundo pertencia a um ser que eu não tinha o direito de reconhecer, i.e., minha irmã e, por trás dela, minha mãe. Mas não se esqueça que só sei isso há pouco tempo e que antigamente nunca pensei que pudesse desejar minha irmã ou minha mãe. A gente atravessa a vida sem saber nada do que se passa com a gente.”

Quando estou perto de você, tenho a sensação de estar perto de você como nunca estive de qualquer outra pessoa. Mas quando você se afasta, parece que você ergue uma muralha e me sinto completamente estranha a você, mais estranha do que em relação a qualquer outra pessoa. Eu pessoalmente nunca senti isso, provavelmente porque nunca senti que alguém não fosse um estranho para mim. Mas agora entendo: para poder amar, eu precisava afastar para longe as personagens reais, aproximar artificialmente as <imagens> da mãe e da irmã. Isso deve ter sido bem difícil, mas era o único modo de manter viva minha paixão. Pode crer, as <imagens> têm muita força.”

“Num certo sentido, passei pelas mesmas fases com as crianças, os animais, as matemáticas e a filosofia.”

“os Troll, que representam para mim uma espécie particular de humanos – há os bons humanos, os maus humanos e os Troll”

preciso desses amores e desses <estranhamentos> artificiais porque sou um ser centrado sobre mim mesmo imoderadamente, porque estou contaminado por aquilo que os cientistas chamam de narcisismo.” “Entre nós, as crianças Troll, havia uma frase de que gostávamos muito: Primeiro eu, depois eu, depois nada, por muito tempo, e só depois os outros.

“todo dia novas vozes se erguem para protestar contra a condenação à pederastia, pois todos sentem que com isso se causou um grande mal contra um direito hereditário.”

“por termos a impressão de sermos ladrões, adúlteros, pederastas, mentirosos, combatemos com zelo o roubo, o assassinato e a mentira a fim de que ninguém, e nós menos que os outros, se dê conta de nossa depravação. Acredite: aquilo que o homem, o ser humano detesta, despreza, censura, é a base original de sua própria natureza.”

“A admiração pela força superior e pela altura maior do homem, se é uma das forças originais da heterossexualidade feminina, deveria ser considerada como um signo do poder de julgamento original da criança. Mas quem dirá se esta admiração é espontânea ou só se dá ao final de algum tempo?”

“O ESTUDADOR(…)”: “o banheiro é o lugar onde a criança faz suas observações sobre as partes sexuais de seus pais e irmãos e irmãs, especialmente do pai e dos irmãos mais velhos.”

“Tenho a impressão que a mulher possui uma quantidade sensivelmente igual de capacidade de amar o próprio sexo e o sexo oposto, e que ela dispõe disso à sua vontade. Em outras palavras, me parece que nela nem a homossexualidade nem a heterossexualidade estão profundamente recalcadas, que esse recalque é bastante superficial.” “Já no homem a pulsão por ele recalcada é a pulsão pela mãe e esse recalque, segundo as circunstâncias, arrasta consigo para o abismo o gosto pelas mulheres.”

“De fato não seria má idéia publicar estas cartas. Obrigado pela sugestão, cara amiga.”

“Para mim, a Bíblia é um livro para passatempo, adequado para a meditação e cheio de belas histórias, tanto mais notáveis quanto muita gente acreditou nelas durante milênios e também porque representam um papel preponderante no desenvolvimento da Europa e representam para cada um de nós um pouco de nossa infância.”

“é indiferente que uma idéia cresça por si mesma ou seja imposta do exterior. O que importa é que ela se espalhe até os abismos do inconsciente.”

“Este seu dedicado Troll acha que aquela velha divindade criou o homem de seu <cocô>, que a palavra <terra> foi posta no lugar da palavra <cocô> apenas por decência. O hálito e seu cheiro vivificante deve ter sido <soprado> pela mesma abertura de onde saiu o cocô. Afinal de contas, a raça humana bem vale um peido!”

“Meu homônimo pôs o membro e os testículos para trás, escondendo-os com as coxas, e disse que havia virado mulher. Freqüentemente repeti esses gestos diante do espelho e toda vez senti uma estranha volúpia.” “desde aquele dia observei outros homens e pude estabelecer que esse desejo sem angústias de tornar-se mulher é comum a todos os homens.”

“as dores de cabeça, com seu parentesco com as dores do parto, o trabalho, a criação de uma obra, esse <filho espiritual> do homem.”

“Sim, introduzi o dedo em meu traseiro e não foi apenas porque estava querendo me coçar.”

“para quem sente medo da castração, o pai é mais perigoso do que o irmão; o gato, que a criança vê todo dia, mais temível do que o lobo, que ela só conhece por ouvir falar e através dos contos. E, além disso, o lobo só devora carneirinhos. Em compensação, o gato come os ratos e a parte ameaçada por castração, o pinto, é um rato que entra no buraco; o medo que as mulheres sentem dos ratos é prova disso: o rato entra debaixo da saia, querendo se esconder no buraco existente debaixo dela.”

“as botas poderiam ser a mãe, a mulher que, com os orifícios do traseiro e da vagina, possui dois canos de botas. Também poderiam ser os testículos, os olhos, as orelhas, talvez as mãos que, através das preliminares, preparam o pulo de 7 léguas da ereção e do onanismo.”

“E de repente surge, em muitas línguas, a palavra chana (*)(em português, possivelmente uma corruptela de bichana) para designar os pêlos do sexo feminino, as próprias partes e também a mulher lânguida, a gata, a gatinha que pega o rato, exatamente como a mulher engole com o sexo o <rato> do homem.”

“O famoso provérbio sobre as aranhas, Matin chagrin, soir espoir (de manhã a tristeza, de noite a esperança) retrata a posição da mulher diante de sua sexualidade; quanto mais quente foi a noite de amor, mais ela se mostrará abatida de manhã ao acordar e tentar perceber no rosto do homem o que ele pode estar pensando sobre seus transportamentos noturnos. A vida moderna impõe cada vez mais à mulher uma nobreza de espírito que parece lhe proibir toda volúpia.”

“em todas as traquinagens infantis e das pessoas adultas existe a nostalgia do vermelhão ardido nos golpes de varas.”

“há algumas semanas eu me divirto perguntando a todos os moradores de minha clínica o nome das árvores que estão na entrada. Até agora, não recebi nenhuma resposta certa. São bétulas; dão os galhos com que fazemos varas; tão temidas e ainda mais desejadas (…) E no portão de entrada, colocado de modo que todos tropeçam nele, há um marco de pedra, arredondado e saliente como um falo; ninguém o vê também. É a pedra do tropeço e da irritação.”

“aqueles capazes de reconhecer se estão diante de um canário macho ou fêmea são realmente raros.”

“Você ainda se lembra da visita que fizemos juntos ao túmulo de Kleist?”

“Quando à vista da lagarta, esse <pintinho> de mil patas, rastejante, nos sentimos esmagados pela sombra do incesto com a mãe, pelo onanismo, pela castração do pai e de si mesmo, voltamos a ser crianças de 4 anos e não há nada que possamos fazer a respeito.”

“Um verme vermelho que desliza para dentro de um buraco: o que pode contra isso toda a sabedoria darwiniana sobre o trabalho profícuo da minhoca?”

“Diante do absurdo, a seriedade não tem razão nenhuma de existir. Somente a própria vida, o Isso, tem uma noção do que é a psicologia e os únicos intermediários desse conhecimento através da palavra são os poucos grandes poetas que existiram.”

“é fato que o ciúme só existe por causa da infidelidade do ciumento.”

“Muitos são os que, namorados na juventude, conservam desse primeiro amor uma imagem ideal, mas casam-se com outra pessoa. Quando se sentem de mau humor, i.e., quando se comportaram mal em relação ao esposo, e por isso, sentem raiva dele, vão procurar no fundo da memória os vestígios do amor ideal, lamentam-se após compará-lo com o atual, por estarem mal-casados e, aos poucos, encontram mil razões para convencerem-se da indignidade do esposo que ofenderam. É hábil mas, infelizmente, hábil demais. É que sobrevém a reflexão de que se foi infiel ao primeiro amor, abandonado por um segundo, e que se traiu o segundo para continuar ligado ao primeiro…”

“Já reparou como os adultos coçam seus cães com a ponta do sapato? Recordações da infância. E como os cães não falam somos obrigados a observá-los para conhecer suas reações.”

“Quer saber mais sobre os animais? Bem, vá montar guarda diante da jaula dos macacos no zoológico e veja como as crianças se comportam. Pode dar uma olhada nos adultos também. Se nesse período você não aprender mais sobre a alma humana do que leu em mil livros, você não é digna dos olhos que carrega no meio da cabeça.”

“Era essa a razão de seu silêncio! Estava considerando as possibilidades de publicação! E concede seu imprimatur a minhas cartas e recusa-o as suas. Assim seja! E que Deus a abençoe.”

“É evidente que o Isso também se divide, pois sabemos que cada uma das células traz em si suas possibilidades de vida independente e de subdivisão. (…) Não se esqueça, além disso, que o Isso-indivíduo do homem integral, assim como os Issos de cada célula, escondem, cada um, um Isso masculino e um Isso feminino, sem contar os minúsculos seres-Isso da cadeia ancestral.”

“sou obrigado a dizer que há um Isso da metade superior e outro da metade inferior do corpo, um outro da direita e da esquerda, um do pescoço e da mão, um dos espaços vazios do ser humano e um da superfície de seu corpo.” “Quando tentamos isso (compreender alguma coisa sobre o Universo), um Isso particularmente malicioso, oculto num canto qualquer, nos prega peças memoráveis e quase morre de rir de nossa pretensão, de nossos desejos de sermos poderosos.”

“O Isso do ser humano <pensa> bem antes do cérebro existir; pensa sem cérebro, ele constrói o cérebro. Essa é uma noção fundamental que o ser humano deveria ter presente na memória e que ele não pára de esquecer. A hipótese de que pensamos com o cérebro – certamente falsa – foi a origem de mil besteiras; ela foi também, sem dúvida, a fonte de muitas descobertas e invenções extremamente preciosas”

“Vivemos e porque vivemos não podemos deixar de acreditar que somos capazes de criar nossos filhos, que há causas e efeitos, que temos a liberdade de pensar e de prejudicar ou ajudar. Mas somos coagidos (…) É apenas por sermos presas de um erro eterno, por sermos cegos, porque não sabemos nada de nada, que podemos ser médicos e curar os doentes. A vaidade e uma boa opinião de si mesmo são os traços de caráter essenciais do ser humano.

“o maior mestre dessa arte do médico-pai, Schweninger

“A gente devia renunciar a <ser adulto> desde os 25 anos; até aí, precisamos disso para crescer, mas depois disso a coisa só é útil para os raros casos de ereção. Não lutar contra o amolecimento, não esconder mais de si do que aos outros esse relaxamento, essa flacidez, esse estado de avacalhação, é isso que precisava ser feito.”

“Lembre-se que eu tinha atrás de mim 20 anos de prática médica, inteiramente consagrada ao tratamento de casos crônicos desesperados – uma herança de Schweninger. Eu sabia exatamente o que poderia conseguir com o antigo sistema e não hesitava em creditar as curas suplementares ao meu conhecimento dos símbolos, que eu desatava sobre os pacientes como se fossem um furacão. Foi uma bela época.”

“Misteriosas forças vieram opor-se, coisas que, mais tarde, sob a influência de Freud, aprendi a designar pelo nome de resistência. Por um certo tempo voltei a usar o método da imposição, e fui castigado com vários fracassos”

Nasamecu: o escrito anti-freudiano de Groddeck, antes de conhecer o próprio Freud!

(baixado em Alemão com um outro título – ver e-mail pessoal)

“Não sei de nada mais idiota no mundo do que esse texto. Mas que um raio me parta se sei de onde fiquei sabendo dele.”

COM A FACA, O QUEIJO, O GRITO E A BULA NAS MÃOS E NA PONTA DA LÍNGUA: “não há doenças do organismo, físicas ou psíquicas, capazes de resistir à influência da análise. O fato de se proceder através da psicanálise, da cirurgia física, da dietética ou de medicamentos é mera questão de oportunidade.”

“Tratarei de me informar a respeito junto a ele, junto ao Isso, sobre os motivos que o levaram a usar esse procedimento, tão desagradável para ele quanto para mim; conversarei com ele e depois verei o que fazer. E se uma conversa não bastar, recomeçarei 10x, 20x, 100x, tanto quanto necessário para que o Isso, cansado dessas discussões, mude de procedimento ou obrigue sua criatura, a doença, a se separar de mim, seja interrompendo o tratamento, seja através da morte.”

“parece que ainda está muito aborrecido com o pai – ele havia criado seu deus segundo a imagem desse pai – para dobrar os joelhos diante dele.”

Pau que nasce, nasce, e é quanto basta.

todos os caminhos levam a Roma, os da ciência e os da charlatanice; por isso, não considero como particularmente importante a escolha do caminho a seguir, contanto que tenhamos tempo e não sejamos ambiciosos.”

“sempre existiram médicos que levantaram a voz para dizer: o homem fabrica ele mesmo suas doenças, nele repousam as causae internae, ele é a casa da doença e não é necessário procurar fora daí. Diante dessas palavras, muitos ergueram a cabeça, elas foram repetidas mas logo voltaram para as causas externas, atacadas com a profilaxia, a desinfecção e todo o resto.”

BACILOS & BIRTUDES: As vacinas são a comprovação da teoria da autofabricação das doenças. No entanto, saber disso não significa criar imunidade; somos todos amebas enfraquecidas da aurora do segundo milênio e a ficção já se tornou realidade, de forma irreversível.

Que impressão eu causo na tinta da gráfica?

“o paciente havia lido recentemente meu Fuçador de Almas (Der Seelensucher), publicado por nosso amigo comum Groddeck.”

“Para mim, a uremia [ausência de liberação das toxinas na urina, que intoxicam todo o organismo] é o resultado do combate mortalmente perigoso da vontade de recalcar contra o que foi recalcado e que procura constantemente se manifestar, contra os poderosos complexos de secreção de urina que emanam da mais tenra infância e que estão ocultos nas camadas mais profundas da constituição da pessoa.”

“Antes de dormir, abri com um corta-papéis pontiagudo as páginas de um exemplar da revista psicanalítica de Freud e a folheei. Descobri ali, entre outras coisas, a notícia de que Felix Deutsch fizera em Viena uma conferência sobre psicanálise e as doenças orgânicas. Você sabe que se trata de um assunto que me interessa faz tempo e que deixei nosso amigo comum Groddeck cuidar disso.”

LORD[S] OF CHAOS: The bloody rise of the satanic metal underground (1998), revised & enlarged (2003) [Ou: uma biografia obviamente não-autorizada do delinqüente eternamente juvenil Varg. V. de VVinter e VVar / & outras estórias não-relacionadas] – Moynihan & Søderlind

Our world, increasingly homogenized and with the entire spectrum of its cultural creations adulterated for palatable mass-consumption, needs dangerous ideas more than ever. It may not need the often ill-formed and destructive ideas expressed by some of the protagonists in Lords of Chaos, but we felt all along that this is an issue for the individual reader to decide.”

The notion of a Protocols of the Elders of Zion-style Jewish cabal running the world is absurd to begin with, but all the more so in a country with practically no Jewish population, and we felt the need to point this out.”

The Satyricon single Fuel for Hatred received heavy air-play on one of Norway’s 3 biggest radio stations, and just before this revised edition went to press we heard that Dimmu Borgir’s new album will be hawked to the public through TV advertising spots.”

William Pierce – The Turner Diaries

Heavy Metal exists on the periphery of Pop music, isolated in its exaggerated imagery and venting of masculine lusts. Often ignored, scorned, or castigated by critics and parents, Heavy Metal has been forced to create its own underworld. It plays by its own rules, follows its own aesthetic prerogatives. Born from the nihilism of the 1970s, the music has followed a singular course. Now in the latter half of the 1990s it is often considered passé and irrelevant, a costume parade of the worst traits in Rock. Metal is no longer a staple of FM radio, nor are record labels pushing it like they used to. Watching MTV and reading popular music magazines, one might not even realize Heavy Metal still existed at all.”

Arthur Lyons – The Second Coming: Satanism in America

In the first half of the twentieth century, Jazz was considered particularly dangerous, with its imagined potential to unleash animal passions, especially among unsuspecting white folk. (…) In his book on the Rolling Stones, Dance With the Devil, Stanley Booth quotes the New Orleans Times-Picayune in 1918: <On certain natures sound loud and meaningless has an exciting, almost an intoxicating effect, like crude colors and strong perfumes, the sight of flesh or the sadic pleasure in blood.>”

More directly tied to deviltry than Jazz, and likewise imbued with the potency of its racial origins, was Blues. Black slaves often adopted Christianity after their enforced arrival in America, but melded it with native or Voudoun strains. Blues songs abound with references to devils, demons, and spirits. One of the most influential Blues singers of all time, Robert Johnson, is said to have sold his soul to the Devil at a crossroads in the Mississippi Delta, and the surviving recordings of his haunting songs give credence to the legend that Satan rewarded his pact with the ability to play. Johnson recorded only 29 tunes, some of the more famous being Crossroads Blues, Me and the Devil Blues, and Hellhound on My Trail. The leaden resignation of his music is a genuine reflection of his existence. Life for Johnson began on the plantations, wound through years of carousing and playing juke joints, ending abruptly in 1938 when at the age of 27 he was poisoned in a bar, probably as a result of an affair with the club owner’s wife.”

A DÉCADA QUE COMEÇOU 26 DIAS MAIS CEDO: “The Stones took their diabolical inspiration seriously, deliberately cultivating a Satanic image, from wearing Devil masks in promotional photos to conjuring up sinister album titles such as Their Satanic Majesties Request and Let it Bleed. The band’s lyrics ambivalently explored drug addiction, rape, murder, and predation. The infamous culmination of these flirtations revealed itself at the Altamont Speedway outdoor festival on December 6, 1969. Inadvertently captured on film in the live documentary Gimme Shelter, it was only moments into the song Sympathy for the Devil before all hell broke loose between the legion of Hell’s Angels <security guards> and members of the audience, ending with the fatal stabbing of Meredith Hunter, a gun-wielding black man in the crowd. The infernal, violent chaos of the event at Altamont made it abundantly clear the peace and love of the ‘60s wouldn’t survive the transition to a new decade.” 7, o mais belo número.

Page’s interest in Crowley developed to a far more serious level than the Satanic dabbling of the Stones; his collection of original Crowley books and manuscripts is among the best in the world. Page held a financial share in the Equinox occult bookshop (named after the hefty journal of <magick> Crowley edited and published between 1909–14) in London and at one point even purchased Crowley’s former Scottish Loch Ness estate, Boleskine. The property continued to perpetuate its sinister reputation under new ownership, as caretakers were confined to mental asylums, or worse, committed suicide during their tenures there.” “If there is any early Rock band bearing exemplifying the basic themes that would later preoccupy many of the Black Metal bands in the ‘90s, it is Led Zeppelin.”

I read a lot of Dennis Wheatley’s books, stuff about astral planes. I’d been having loads of these experiences since I was a child and finally I was reading stuff that was explaining them. It lead me into reading about the whole thing —black magic, white magic, every sort of magic. I found out Satanism was around before any Christian or Jewish religion. It’s an incredibly interesting subject. I sort of got more into the black side of it and was putting upside-down crosses on my wall and pictures of Satan all over. I painted my apartment black. I was getting really involved in it and all these horrible things started happening to me. You come to a point where you cross over and totally follow it and totally forget about Jesus and God.” GZR, Seconds Magazine, #39, 1996, pg. 64.

Groups further from the spotlight than Black Sabbath—such as Black Widow and Coven—could afford to be even more obsessive in their imagery. The English sextet Black Widow released three diaphanous Hard Rock albums between 1970–72, and later appear as a footnote in books that cover the history of occultism in pop culture. The chanting refrain of their song Come to the Sabbat evokes images of their concerts which featured a mock ritual sacrifice as part of the show. Beyond sketchy tales of such events, and the few recordings and photos they’ve left behind, Black Widow remains shrouded in mystery.

Coven are just as obscure, but deserve greater attention for their overtly diabolic album Witchcraft: Destroys Minds and Reaps Souls. Presented in a stunning gatefold sleeve with the possessed visages of the three band members on the front, the cover hints at a true Black Mass, showing a photo with a nude girl as the living altar. The packaging undoubtedly caused consternation for the promotional department of Mercury Records, the major label who released it, and the album quickly faded into obscurity. Today it fetches large sums from collectors, clearly due more to its bizarre impression than for any other reason. The songs themselves are standard end-of-the-‘60s Rock, not far removed from Jefferson Airplane; the infusion of unabashed Satanism throughout the album’s lyrics and artwork makes up for its lack of strong musical impact. In addition to the normal tracks, the album closes with a thirteen minute Satanic Mass.”

To the best of our knowledge, this is the first Black Mass to be recorded, either in written words or in audio. It is as authentic as hundreds of hours of research in every known source can make it. We do not recommend its use by anyone who has not thoroughly studied Black Magic and is aware of the risks and dangers involved.” Coven, Witchcraft, Mercury Records, SR 61239.

Coven included the attractive female lead singer Jinx as well as a man by the name of Oz Osbourne, who bore no relation to the British vocalist Ozzy. In an additional coincidental twist, the first track on the Coven album is titled Black Sabbath.”

Do what thou wilt shall be the whole of the law”

Stories persisted for a time of a planned Satanic Woodstock in the early ‘70s where Coven was to play as a prelude to an address by Anton LaVey, High Priest of the Church of Satan.”

King Diamond, the singer and driving force behind Mercyful Fate, one of the most important openly Satanic Metal bands of the ‘80s, acknowledges he received dramatic influences from a Black Sabbath concert he attended as a kid in his native Denmark in 1971. He also tells of finding inspiration from Coven’s lead vocalist Jinx: An amazing singer, her voice, her range… not that I stand up for the viewpoints on their Witchcraft record, which was like good old Christian Satanism. But they had something about them that I liked…

Anton Szandor LaVey made headlines when he founded the first official Church of Satan on the dark evening of Walpurgisnacht, April 30, 1966. The fundamentals of the Church were based not on shallow blasphemy, but opposition to herd mentality and dedication to a Nietzschean ethic of the antiegalitarian development of man as a veritable god on earth, freed from the chains of Christian morality.”

We played to skinheads and punks and hairies—everybody. Where some guy with long hair couldn’t come into a Punk gig, all of the sudden it was really cool to go to a Venom gig for anybody. That’s why the audience grew really quick and became very strong; they were always religiously behind Venom and they’ve always stayed the same.” Abaddon

I never thought we’d be able to enter a studio again after that because we were really dirty sounding. But it turned out that 85-90% of all the fan mail that came to the record company from that record (the compilation was titled Scandinavian Metal Attack) was about our songs. So the guy from the record company called me up and said, <Hey, you really need to put your band together again and write some songs, because you have a full-length album to record this summer>. (…) Everybody seems to think that I’m a megalomaniac with a big head or something, but it wasn’t really my fault —I should have been born in some place like San Francisco or London where I would have had a real easy time putting this band together.” Quorthon

Much of the explanation for this sound was simply the circumstances of recording an entire album in two-and-a-half days on only a few hundred dollars. The end result was more extreme than anything else being done in 1984 (save maybe for some of the more violent English Industrial <power electronics> bands like Whitehouse, Ramleh, and Sutcliffe Jugend) and made a huge impact on the underground Metal scene.”

Aplicável ao “projeto ATS”: “I’m not one inch deeper into it than I was at that time, but your mind was younger and more innocent and you tend to put more reality toward horror stories than there is really. Of course there was a huge interest and fascination, just because you are at the same time trying to rebel against the adult world, you want to show everybody that I’d rather turn to Satan than to Christ, by wearing all these crosses upside down and so forth. Initially the lyrics were not trying to put some message across or anything, they were just like horror stories and very innocent.”

Like any style hyped incessantly by the music industry, Thrash Metal’s days were ultimately numbered. The genre became too big for its own good and major labels scrambled to sign Thrash bands, who promptly cleaned up their sound or lost their original focus in self-indulgent demonstrations of technical ability.”

The whole Norwegian scene is based on Euronymous and his testimony from this shop. He convinced them what was right and what was wrong.”

Norway’s official religion is Protestantism, organized through a Norwegian Church under the State. This has deep historical roots and a membership encompassing approximately 88% of Norway’s population. However, only about 2-3% of the population are involved enough to attend regular church services. A saying goes that most Norwegians will visit church on three occasions in their lives—and on two of them, they will be carried in.”

An example of the conservative Christian influence in Norway was the banning of Monty Python’s classic comedy The Life of Brian as blasphemous. The amicable rivalry and fun-making between Norwegians and Swedes led to the movie being advertised in Sweden as <a film so funny it’s banned in Norway>.” “While America has figures like Edgar Allan Poe as a part of the literary heritage, and slasher movies are screened on National TV, Norway’s otherwise highly prolific movie industry has produced but one horror film in its 70-year history. Horror films from abroad are routinely heavily censored, if not banned outright. This taboo against violence and horror permeates every part of Norwegian media. In one case, Norwegian National Broadcasting stopped a transmission of the popular children’s TV series Colargol the Singing Bear on the grounds that the particular episode featured a gun.”

When denied something, one tends to gorge on it when access is finally gained. Black Metal adherents tend to be those in their late teens to early twenties who have recently gained a relative degree of freedom and independence from their parents and other moral authorities.” Aqui, ao contrário, o pré-adolescente se rebela e o adultinho adere ao sertanejo e forró, arrependido e tosado, quando não rebola no axé.

One strange aspect of the Black Metal mentality of the earlier days was the insistence on suffering. Unlike other belief systems, where damnation is usually reserved for one’s enemies, the Black Metalers thought that they, too, deserved eternal torment. They were also eager to begin this suffering long before meeting their master in hell.”

I think Norway, being a very wealthy country with a high standard of living, makes young kids very blasé. It’s not enough to just play pinball anymore. They need something strong, and Black Metal provides really strong impulses if you get into it.” Desse ponto de vista, era pro Aloísio virar o metaleirinho do mal e eu ser o normal dos 2, concentrado em objetivos “realistas”. Conquanto… o jovem frustrado acaba caindo de barriga no fascismo quando vislumbra o “poder-na-máquina” e sente que pode tocá-lo e participar dele… Bolsonaro é seu goregrind e nada lhe faltará!

A MAN’S DEAD BODY MUST ALWAYS HAVE BEEN A SOURCE OF INTEREST TO THOSE WHOSE COMPANION HE WAS WHILE HE LIVED…”

GEORGES BATAILLE, DEATH AND SENSUALITY

Do the names eerily reflect the karma of the personalities they denote? Or are the people destined to fulfill the fate foretold in titles they (ir)reverently adopt?”

Mayhem began in 1984, inspired by the likes of Black Metal pioneers Venom, and later Bathory and Hellhammer. Judging from an early issue of Metalion’s Slayer magazine, Aarseth initially adopted Destructor for his stage name as guitarist. The other members of the earliest incarnation of the band were bassist Necro Butcher, Manheim on drums, and lead vocalist Messiah. Not long after this Aarseth took on Euronymous as his own personal mantle—presumably it sounded less comical and more exotic than his previous pseudonym. His new name was a Greek title mentioned in occult reference books as corresponding to a <prince of death>.”

Mayhem played their first show in 1985. Their debut demo tape, Pure Fucking Armageddon, appeared a year later in a limited edition of 100 numbered copies. By 1987 someone called Maniac replaced the previous singer, whom Aarseth henceforth referred to as a <former session vocalist>, despite his appearance on the demo as well as the first proper release, that year’s Deathcrush mini-LP.” “Dead, the distinctive singer for the Stockholm cult act Morbid, joined Mayhem and moved to Oslo. A new drummer was found in Jan Axel <Hellhammer> Blomberg, one of the most talented musicians in the underground. Even with the mini-LP selling briskly, and Mayhem’s bestial reputation increasing, the band and its members remained dirt poor.”

Euronymous found him. We only had one key to the door and it was locked, and he had to go in the window. The only window that was open was in Dead’s room, so he climbed in there and found him with half of his head blown away. So he went out and drove to the nearest store to buy a camera to take some pictures of him, and then he called the police.” Hellhammer, the drummer

He just sat in his room and became more and more depressed, and there was a lot of fighting. One time Euronymous was playing some synth music that Dead hated, so he just took his pillow outside, to go sleep in the woods, and after awhile Euronymous went out with a shotgun to shoot some birds or something and Dead was upset because he couldn’t sleep out in the woods either because Euronymous was there too, making noises.”

It might sound a bit weird, but Mayhem was the band that everyone had heard of, but not many people had actually heard because they had released the demos which were quite limited and the mini-LP itself was very limited. But I was lucky because I knew Maniac, the vocalist, so he had some extra copies of the mini-album and he gave me one. I was very impressed because it was the most violent stuff I had ever heard, very brutal. I remember I thought that these people like Euronymous, Maniac, and Necro Butcher were very mysterious, because they didn’t do many interviews but they were always in magazines and I saw pictures of them. They had long black hair and you couldn’t see their faces, it was mysterious and atmospheric.” Bård Eithun

WHEN DID YOU FIRST MEET EURONYMOUS?

I met Euronymous and Dead at a gig in Oslo in 1989; it was an Anthrax concert and I met them outside”

Dead hated cats. I remember one night he was trying to sleep. A cat was outside his apartment, so he ran outside with a big knife to get the cat. The cat ran into a shed [galpão] and he went after it. Then you heard lots of noise, and screaming, and there was a hole in the shed where the cat came out again, and Dead ran after it with his big knife, screaming, hunting the cat, only dressed in his underwear. That was his idea of how to deal with a cat.”

I remember Aarseth told me, <Dead did it himself, but it is okay to let people believe that I might have done it because that will create more rumors about Mayhem>. (…) But he did use some stuff from the brain to make necklaces.”

There is a bootleg of the Sarpsborg show [1990] called Dawn of the Black Hearts: Live in Sarpsborg [vídeo?], released by someone in South America.” Metalion

That’s one thing about worshiping death—why worry when people die?”

I see Dead, people.

Where?

Oh, everywhere on the stage!

She told me that the first <plane> in the astral world has the color of blue. The earthly plane has the color of black. Then comes a gray that is very near the earthly one and is easy to come to. The next one further is blue, then it gets brighter and brighter till it “stops” at a white shining one that can’t be entered by mortals. If any mortal succeeds in entering it, that one is no longer mortal and can not come back to the earthly planes nor back to this earth.” Morto, o Místico

No one speaks ill of him, which is rare in such an insular and competitive realm as the extreme music underground. As many will testify, however, Aarseth appeared to feel little sorrow over the loss of Dead, instead glorifying his violent departure in order to cultivate a further mystique of catastrophe surrounding the band.”

This has nothing to do with black, these stupid people must fear black metal! But instead they love shitty bands like Deicide, Benediction, Napalm Death, Sepultura and all that shit!! We must take this scene to what it was in the past! Dead died for this cause and now I have declared war! I’m angry, but at the same time I have to admit that it was interesting to examine a human brain in rigor mortis. Death to false black metal or death metal!! Also to the trendy hardcore people… Aarrgghh!” Euronymous “manifesto”

Dead died wearing a white T-shirt with I ❤ Transylvania stenciled across it.”

if we ever come to, for example, India, the most evil thing that we can do there that I have in mind will be to sacrifice a holy cow on stage.” Euro.

HELL IS FULL OF MUSICAL AMATEURS;

MUSIC IS THE BRANDY OF THE DAMNED.”

GEORGE BERNARD SHAW, MAN AND SUPERMAN

I’d rather be selling Judas Priest than Napalm Death, but at least now we can be specialized within <death> metal and make a shop where all the trend people will know that they will find all the trend music.”

O que vocês fazer hoje, Cérebro Mole e Solto?

O que fazemos todas as noites, Blacky… Tentar conquistar o mundo para Satanás!

Aarseth also kept in touch with a growing number of extreme bands from outside Norway whom he likewise encouraged and made plans to release records by: Japan’s Sigh, Monumentum from Italy, and the bizarre Swedish entity Abruptum. Only a few of these schemes would ever be realized before Aarseth’s death, mostly because he was never cut out to be a businessman. He ran his label ineptly, and the capital to invest in new releases was simply not there.”

WHAT SORT OF IDEAS DID VARG HAVE WHEN YOU FIRST MET HIM?

He was a Devil worshiper and he was against Nazis, for reasons I don’t know, but that’s what he said. After the arrest in early ’93 then he got into this Nazi stuff.” Eithun

the shelves contained bands like Metallica and Godflesh.”

he had a specific taste for German electronic music like Kraftwerk.”

Politically, Aarseth was a long way from the nationalist and often pseudo-right-wing sentiments that are so prominent in Black Metal today. He proclaimed himself a communist, and for a while had been a member of the Rød Ungdom (Red Youth), the youth wing of the Arbeidernes Kommunist Parti (Marxist-Leninistene) —The Marxist/Leninist Communist Workers Party. Though rather few in number, the party had an appeal for intellectuals, including many prominent writers and politicians, and thus maintained a strong grip on Norwegian cultural life for many years. Rød Ungdom was aggressively anti-Soviet, and looked to China and Albania for inspiration. Despots like Pol Pot were also viewed as models of resistance against Western imperialism.”

Some of the treasured objects in his collection were heroic photographs of Nicolae Ceaucescu, the former dictator of Rumania and one of Aarseth’s idols. <Albania is the future>, he would muse to anyone willing to listen.”

Varg came to Oslo for a time and moved into the basement of the record shop, living in the barren space there along with Samoth, the guitarist of Emperor.”

On the second Burzum release, Aske (Ashes), bass playing would be done by Samoth, but with this sole exception Vikernes maintained his project entirely alone.”

Very few such corpse-painted portraits of Vikernes exist—the fashion seems to be something more particular to Aarseth. If it is true that Vikernes introduced the ideology of medieval-style Devil worship to Norwegian Black Metal, it must be also acknowledged that not a moment was lost before Aarseth began trumpeting it as his own.”

As many as 1,200 stave churches may have existed in the early Middle Ages; only 32 original examples survived in the second half of this century. That total has since been revised to 31.”

News of the destruction of one of Norway’s cultural landmarks made national headlines. It would not be long before other churches began to ignite in nighttime blazes. On August 1st of the same year the Revheim Church in southern Norway was torched; twenty days later the Holmenkollen Chapel in Oslo also erupted in flames. On September 1st the Ormøya Church caught fire, and on the 13th of that month Skjold Church likewise. In October the Hauketo Church burned with the others. After a short pause of a few months’ time, Åsane

Church in Bergen was consumed in flames, and the Sarpsborg Church was destroyed only two days later. In battling the blaze at Sarpsborg a member of the fire department was killed in the line of duty. Some would later consider this death the responsibility of the Black Circle.” “The authorities are reluctant to discuss the details of many of these incidents, fearing that undue attention may literally spark other firebugs or copycats to join the assault which Vikernes and his associates began in 1992.”

In eleventh-century England, arson was a crime punishable by death. Later, during the reign of King Henry II, a person convicted of arson would be exiled from the community after they had suffered the amputation of one hand and one foot.”

Lewis & Yarnell – Pathological Firesetting

True pyromaniacs tend to have a sexual impulse behind their action, according to psychologist Wilhelm Stekel, whose Peculiarities of Behavior covers the affliction in detail.”

It’s not a Satanic thing, it’s a national heathen thing. It’s not a rebellion against my parents or something, it’s serious. My mother totally agrees with it. She doesn’t mind if someone burns a church down. She hates the Church quite a lot. Also about the murder (of Østein Aarseth), she thinks that he deserved it, he asked for it. So she thinks it’s wrong to punish me for it. There’s no conflict between us at all about these things. The only thing she disliked was that I liked weapons and wanted to buy weapons, and suddenly she got a box of helmets at her place because I ordered them! Bulletproof vests, all this stuff…” Varg

TEENAGERS GONNA TEEN:

I said, I know who burned the churches, to the journalist, and I was making a lot of fun with him because we told him on the phone, we have a gun and if you try to bring anybody we’ll shoot you. Come meet me at midnight and all this, it was very theatrical. He was a Christian, and I fed him a lot of amusing info. Very amusing! Of course he twisted the words like usual. After he left we lay on the floor laughing.

We thought it would be some tiny interview in the paper and it was a big front page. The same day, an hour or so after I talked to him on the phone, the police came and arrested me. That was why I was arrested. I didn’t tell them anything. I talked to the police that time and I told them, I know who burned the churches —so what? They tried to say, We’ve seen you at the site, and all this, and I said, No you haven’t!

I’d already killed a man so it’s okay to be involved in this too, to burn down a church.” Eithun

VON [americana] were merely an obscure group who managed to release one raw-sounding demo tape, Satanic Blood, which became legendary within the Norwegian scene.” O primeiro full length (Satanic Blood, idem) dos caras é de 2012!

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IMAGEM 1. Kerrang!, 27/03/1993

The Kerrang! exposé is also notable as it appears to be the first media story which labels the Black Metal scene as <neo-fascist>. Arnopp quotes members of Venom and mainstream UK Metal band Paradise Lost (who the article claims were haphazardly attacked by teenage Black Metalers while on tour in Norway), referring to the Satanic Terrorists as Hitlerian Nazis.”

I support all dictatorships—Stalin, Hitler, Ceaucescu… and I will become the dictator of Scandinavia myself.” V.V. Mau-Mau

I didn’t care much about the value of human life. Nothing was too extreme. That there were burned churches, and people were killed, I didn’t react at all. I just thought, Excellent! I never thought, Oh, this is getting out of hand, and I still don’t. Burning churches is okay; I don’t care that much anymore because I think that point was proven. Burning churches isn’t the way to get Christianity out of Norway. More sophisticated ways should be used if you really want to get rid of it.” Ihsahn (Emperor)

I told them, why not burn up a mosque, the foreign churches from the Hindu and Islamic jerks—why not take those out instead of setting fires to some very old Norwegian artworks? They could have taken mosques instead, with plenty of people in them” Hellhammer o Batera

The epidemic mostly afflicted poor black churches in the South (States), and public outrage against a presumed conspiracy of racist terrorism resulted in the President’s formation of a National Church Arson Task Force in June, 1996. The Task Force has since concluded that no nationwide conspiracy exists, and suspects arrested in relation to the the fires have been blacks and Hispanics as well as whites. The motives in specific incidents have ranged widely, from revenge to vandalism to racial hatred.”

I understood that he was a homosexual very quickly. He was asking if I had a light, but he was already smoking. It was obvious that he wanted to have some contact. Then he asked me if we could leave this place and go up to the woods. So I agreed, because already then I had decided that I wanted to kill him, which was very weird because I’m not like this—I don’t go around and kill people. (…) He was walking behind me and I turned and stabbed him in the stomach. After that I don’t remember much, only that it was like looking at this whole incident through eyes outside of my body. It was as if I was looking at two people who were having a fight—and one had a knife, so it was easy to kill the other person. If something happens that is obscure, it’s easier for the mind to react if it acts like it is watching it from outside of yourself.” Eithun

The bizarre duo Abruptum (SUE), who allegedly recorded their music during bouts of self-inflicted torture, was praised by Aarseth as <the audial essence of Pure Black Evil>. He released their debut album Obscuritatem Advoco Amplectère Me on Deathlike Silence in 1992. Østein had also managed, with financial assistance from Varg Vikernes, to release the first Burzum CD on DSP. The second Burzum effort, Aske, was released in early 1993, some months after the burning of the Fantoft Stave Church. It was around this time, in the first months of the year, that bad blood arose between Vikernes and Aarseth. Their disagreement appears to come at the same period when Øystein was also arguing with members of the Swedish scene, causing a general animosity to surface between Black Metalers in the two neighboring countries.” “There was a certain degree of cooperation between the two groups, but the recent frictions had been strong enough that when Øystein Aarseth was found slaughtered in the stairwell of his apartment building on August 10, 1993, the initial suspicion of many was directed at the Swedes.”

People who never knew what Black Metal was, or Death Metal, or Metal at all, were attracted to this because they thought it was cool. People who never knew Grishnackh and never knew Euronymous. Oh yeah, Black Metal—that’s the new thing. There were so many new bands starting at this time in ’93 who were influenced by the writing in the newspapers.” Metalion

Aarseth had been forced to close the Helvete store a few months earlier, due to overwhelming attention from the media and police after the initial Black Metal church fire revelations. His parents were upset about all the negative publicity and, since they had helped him finance the shop, they successfully leaned on him to shut it down. Vikernes sarcastically points out how Aarseth’s inconsistent nature often resulted in deference to his parents’ wishes instead of adhering to the black and <evil> image he supposedly embodied: <Øystein once came to one of the newspapers wearing a white sweater, and later apologized to the scene, in case he had insulted anybody! It was all because of his parents. He was 26 years old!>

Øystein owed Varg a significant sum of royalty payments from the Burzum releases on Deathlike Silence, although given the poorly-run nature of the record label, this was hardly unusual or unexpected. Vikernes denies there was any monetary motive behind his actions. Others claim the attack came about as a result of a power struggle for dominance of the Black Metal scene, although astute insiders like Metalion are skeptical: That’s stupid reasoning, because you can’t expect to kill someone and have everyone think of you as the king and forget about him. That’s very, very primitive. It’s something more than that, I think.“Also Grishnackh’s mother paid for the studio recording of the first album, and Euronymous owed her money which she was supposed to get back.”

When he was sitting in his shop drinking Coca-Cola and eating Kebab from the Paki shop next door, it was all our money he bought everything with. It was dishonest pay. He was a parasite. Also he was half Lappish, a Sami, so that was a bonus. Bastard!” V.

They told the police they heard a woman screaming! I was laughing when I read about it. He ran away, pressing the doorbells and calling Help!

Bam! he was dead. Through his skull. I actually had to knock the knife out. It was stuck in his skull and I had to pry it out, he was hanging on it—and then he fell down the stairs. I hit him directly into his skull and his eyes went boing! And he was dead.”

NONE OF THE NEIGHBORS OPENED THEIR DOORS?

They didn’t dare. They thought it was some drunken fight. It’s the worst neighborhood in Oslo—60% colored people.”

When three people are going to tell the same story to the police, in interrogations lasting seven hours, it will go to hell.” Snorre Ruch, o Cúmplice

Varg was saying that what Bård had done was uncool, but inside the scene Bård’s actions commanded respect.”

The truth of the matter is that Snorre had shortly before joined Mayhem as a second guitar player. It is difficult to believe that he could have cared less about killing the founder of the band he was in—doubly difficult given Mayhem’s position as such a legendary group in the underground. In hearing his and Vikernes’s versions of the story, both are flawed. With his history of mental problems, one far-fetched explanation may be that Snorre was too daft to comprehend what he was actually participating in.”

The only foolish thing I did and the only thing I regret, is not killing (Snorre) as well. If I’d killed him as well I would not have gotten any more punishment if I was caught, and secondly, I wouldn’t have been caught. That’s what I regret.”

What is striking about members of the Scandinavian Black Metal circles in general is how little they cared about the lives or deaths of one another. When Dead killed himself, it became merely an opportunity for Aarseth to hype Mayhem to a new level. When he himself died violently two years later, his own bandmates speak of the killing with a tone of indifference more suited to a court stenographer.”

With the exception of Darkthrone, the major Norwegian Black Metal bands were now in hiatus, their key members facing prison sentences for arson, grave desecration, and murder. The legal proceedings that would follow disrupted the entire scene and pitted different factions against one another. People felt forced to choose sides: pro-Vikernes or pro-Euronymous. At this point a cult developed around the memory of Euronymous, hailed as <the King> or <Godfather of Black Metal>. As many have commented in the preceding interviews, much of this was hyperbole, emanating from a second generation of musicians trying to gain credibility by riding on the back of the legend of Aarseth’s Black Metal legacy.”

He simply refused to cooperate with the authorities, and maintained he was innocent until proven guilty. He followed the advice of his lawyer and never testified in court. The same cannot be said of the other offenders, most of whom confessed in detail once they were pressured by the police. On the one hand, this is understandable given their young age, relative naivety, and fear of worse punishments if they refused to admit their wrongdoing.”

ERROS E PUERILIDADES DA POLÍCIA NORUEGUESA: “Especially difficult to take seriously is the alleged calendar of <Satanic holy days> reprinted in the report, with many of the dates involving the sexual molestation of minors—something that is strongly condemned by all established Satanic organizations. And while it might be argued that fringe religious phenomena like Satanism are often so bewildering that it’s hard to accurately assess their practices, even complete novices in the study of New Religious Movements should begin to suspect something is wrong when they see references to dates that don’t exist, such as April 31. Unless, of course, Satanists are so evil that they follow their own calendar.” ZAGALLO (OLLAGAZ) AMOU.

Kirkebranner og satanistisk motiverte skadeverk also refers to stories that never really reached the media when the Satanic furor was at its height.”

But despite his smart-ass remarks and mental capabilities, Vikernes was no match for the seasoned investigators of the Kripos [FBI norueguês]. He sensed that the police net was tightening around him and that he was no longer in control of the situation, especially as the Oslo police dispatched its Church Fire Group to Bergen in 1993 to follow the goose steps of the Count and his subjects around Bergen.”

Lendas a respeito de Vikinho: “Vikernes knocked on the door of the police investigation’s impromptu headquarters in Room 318 of the Hotel Norge in Bergen, and seems to have virtually forced his way into the suite.”

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The word Varg has a great meaning for me. I could speak about this matter for an hour.”

Grishnackh is an evil character on the side of Sauron.”

That’s typical trial bullshit. Like my psychiatrists who examined me, one of them was a Jew and a Freemason! The other was a communist. My lawyer was a homosexual. The other lawyer was a Freemason. The one single Christian faith healer in Norway was in the jury! Can you imagine? In other words, a person who says, I can look through you and with the power of Jesus pull out the evil spirits who make you sick!

There is one person who has always stood by Varg’s side and spoken out rigorously in his defense: his mother Lene Bore. Not only has she attempted to improve the public perception of her son, she also visits him frequently, helps him deal with correspondence, and assists in business matters relating to Burzum.

A number of Burzum albums have been released since his imprisonment and all have sold admirably well on the worldwide market. Royalties for the record sales are received by Lene Bore, a fact that allegedly allowed for the development of serious trouble in the future. Lene Bore also helped provide the money for recording and releasing the early Burzum releases on Aarseth’s Deathlike Silence label, and as a result she had occasion to meet a number of Varg’s friends in the Black Metal scene. Her comments are interesting, for she has dealt with an amazing amount of unrest as a result of her son’s actions over the years, and some of her impressions of Varg’s life are quite different from his own.”

YOUR FAMILY SPENT A YEAR IN IRAQ. WHAT WAS THIS LIKE FOR VARG?

I think it might be here that Varg’s dislike toward other peoples started. He experienced a very differential treatment. The other children in his class would get slapped by their teachers; he would not be. For example when they were going to the doctor, even when there were other children waiting in line, Varg would be placed first. He reacted very strongly to this. He could not understand why we should go first when there were so many before us. He had a very strongly developed sense of justice. This created a lot of problems, because when he saw students being treated unfairly, he would intervene, and try to sort things out.”

DID VARG’S RACISM INTENSIFY AT A CERTAIN POINT?

If he had racist tendencies to begin with, I am sure that they came to the surface when he lived in Oslo.”

LONG-HAIRED SKINHEADS: “It’s difficult to say. When I was three years old we moved to a road named Odinsvei, Odin’s Walk, and we were playing with the neighbor. He had German toy soldiers, but he always wanted to have the American soldiers, because they were the big heroes in his view. So I ended up with the German soldiers, as he was five years older than I. And I actually came to like them. It developed from soldiers to running around with SS helmets and German hand grenades and a Schmeizer with a swastika on it. In time we tried to figure it out —what the hell does this mean? That’s how it really began, and it developed. I was a skinhead when I was 15 or 16. Nobody knows that. People say that suddenly I became a Nazi, but I was actually a skinhead back then. It was in waves—in ‘91 I was into occultism, in ‘92 Satanism, in ‘93 mythology and so on, in waves.

WHAT ABOUT YOUR FATHER?

I have very little contact with him. They’re divorced. He left about ten years ago. There wasn’t any big impact. I was glad to be rid of him; he was just making a lot of trouble for me, always bugging me. He was in the Navy. We were raised very orderly; it was a good experience. I had a swastika flag at home and he was hysterical about it. He’s a hypocrite.¹ He was pissed about all the colored people he saw in town, but then he’s worried about me being a Nazi. He’s very materialistic, as is my mother really, but that’s the only negative thing I can say about her.² The positive thing is that she’s very efficient, and in business I have to have someone take care of my money and I can trust her fully. I know she will do things in the best way.”

¹ Yeah, that prettily sums it up for all of us – satanists, pagans, nihilistics, depressed, guilty or innocent boys… with bad dads! Apenas troca “Nazi” por “PT” e “pessoas de cor” por “corrupção” (que ele pratica) e aí tens.

² This is war! UHHH

WHAT WAS SCHOOL LIKE?

It was an Iraqi elementary school. The English school couldn’t take us because they were full. I went to a regular Iraqi school. I could use some basic English. I think it was my mother’s idea, because she didn’t want us to stay home, bored. We couldn’t go out too much because of the rabid dogs and all this, so she put us in school, just to keep us active.”

In Bergen it’s a more aristocratic society I was part of, because of my mother mainly. I had very little contact with colored people, really. In Bergen we are still blessed with having a majority of whites—unlike Oslo, which is the biggest sewer in Norway.”

When I was a skinhead there still weren’t any colored people, but there were these punks—that was more the reason I went over to the other side.” He-he

We liked the Germans, because they always had better weapons and they looked better, they had discipline. They were like Vikings. The volunteers from America were tall, blond guys, who looked much more like the ones they were attacking than some Dagos who were waving them good luck when they left home. It’s pretty absurd.”

Our big hope was to be invaded by Americans so we could shoot them. The hope of war was all we lived for. That was until I was 17, and then I met these guys in Old Funeral.”

WHAT INFLUENCED YOU TOWARD THAT?

I got interested in occultism through other friends. We played role-playing games, and some of these guys (all older than me) started to buy books on occultism, because they were interested in magic and spell casting. They showed me the books and then I bought similar things. But the music guys weren’t interested in that stuff at all, they only cared about food. [QUE PORRA É ESSA? HAHA]

WHAT WAS THE MUSIC LIKE?

Originally it was Thrash Metal, and then it became Death-Thrash or Techno-Thrash, and I lost interest. I liked the first Old Funeral demo. It had ridiculous lyrics, but I liked the demo and that was why I joined with them. They developed into this Swedish Death Metal trend; I didn’t like that so I dropped out. But I played with them for two years.” The fart(Varg) that should’ve been.

We were drawn to Sauron and his lot, and not the hobbits, those stupid little dwarves. I hate dwarves and elves. The elves are fair, but typically Jewish—arrogant, saying, We are the chosen ones. So I don’t like them. But you have Barad-dûr, the tower of Sauron, and you have Hlidhskjálf, the tower of Odin; you have Sauron’s all-seeing-eye, and then Odin’s one eye; the ring of power, and Odin’s ring Draupnir; the trolls are like typical berserkers, big huge guys who went berserk, and the Uruk-Hai are like the Ulfhedhnar, the wolfcoats. This wolf element is typically heathen. So I sympathize with Sauron. That’s partly why I became interested in occultism, because it was a so-called <dark> thing. I was drawn to Sauron, who was supposedly <dark and evil>, so I realized there had to be a connection.”

Just like democracy claims to be <light> and <good>, I reasoned that then we obviously have to be <dark> and <evil>.” J.R.R. se revira no túmulo.

SALADA DE MAIONESE ESTRAGADA NA CAIXA ENCEFÁLICA: “I never said I will become the dictator of Scandinavia myself. I did say that I support Stalin, Hitler, and Ceaucescu, and I even said that Rumania is my favorite country—an area full of Gypsies! But the point is that Rumania is the best example of communism, and when people can realize how ridiculously the whole thing works, they can see what it really is. (…) It may be a provocative way to say it, but if there wasn’t Stalin, Hitler would look even worse. Now at least we can say, look at Stalin—he’s worse. He killed 26 million.”

Well, there was a T-shirt that Øystein printed which said <Kill the Christians.> I think that’s ridiculous. What’s the logic in that? Why should we kill our own brothers? They’re just temporarily asleep, entranced. We have to say, <Hey, wake up!> That’s what we have to do, wake them up from the Jewish trance. We don’t have to kill them—that would be killing ourselves, because they are part of us.”

He was at first allowed a computer, which he used for correspondence and for the preliminary texts which would form his nationalist heathen codex. Some of the essays he composed were forwarded to correspondents and began to appear in underground publications around Europe. Most of these concerned his investigations into the esoterica of Nordic mythology and cosmology. At a certain point, after he had compiled a large portion of his book, the prison authorities decided to take away his computer; presumably they were worried he was somehow employing it for nefarious ends.” “By titling his treatise Vargsmål, Vikernes seeks to place himself in mythic lineage as a modern-day figure worthy of the ancient sagas.” “The official publication of Vargsmål would only come about years after it was written. With Varg’s front-page notoriety there were certain publishers interested in releasing the book, obviously figuring to make a quick buck on the sensationalism that could be generated, but it appears that most backed out when they had a chance to review the actual contents. In addition to mythological commentary, the book brims with volatile statements and racial, anti-Christian, nationalist rhetoric.”

I would like to find a woman to live with in peace and quiet, far away from the world’s problems, but I cannot. It is my duty to sacrifice myself and my personal wishes for the benefit of my tribe.” He-he

Varg Vikernes serves the role of a pariah and heretic to Norwegians, similar on a number of levels to that of Charles Manson in America. Both profess a radical ideology at odds with, and at times unintelligible to the average citizen. Both insist they have done nothing wrong. Both espouse a revolutionary attitude, imbued with strong racial overtones. Both have become media bogeymen in their respective countries, and both knowingly contribute to their own mythicization. Both also understand well the inherent archetypal power of symbols and names—especially those they adopt for themselves.”

With his increasing nationalism, Vikernes has discovered his predecessor in Vidkun Quisling, the Norwegian political leader who founded a collaborationist pro-German government in the midst of the Second World War. Quisling was tried and executed for treason shortly after the war’s end. As a result his name has entered international vernacular as a synonym for <traitor>. In Norway, that name is still anathema even today.” Quisling – That Inhabited Worlds Are To Be Found Outside of the Earth, and the Significance Thereof for Our View of Life, o manifesto deste idiota.

Norway’s conversion to Christianity, made possible by St. Olav’s death as a martyr at Stiklestad, was described by Jacobsen [dissidente do quislinguismo, ainda mais extremista] as the introduction of <something false and unnatural into our folk’s life>. It was therefore logical for him to condemn Quisling’s adoption of the St. Olav’s cross as the NS symbol, declaring that the party symbol itself was non-Nordic.”

He lamented not being able to legally register his own religious organization in Norway due to his criminal record. Toward this goal he has, however, formed the Norwegian Heathen Front, a loosely knit operation through which he will issue propaganda. The members of German Black Metal band Absurd, also currently behind bars, are involved with a branch of the organization in their country.” Além de ideólogos degenerados, péssimos músicos. Um absurdo, literalmente.

he plans to employ his philosophy on the nature of women as a basis for NHF strategy. His awareness of the woman’s role in revolutionary activities is not unlike that of Charles Manson before him, although Vikernes claims to have arrived at it from personal observation during his Black Metal period.”

A PSICOLOGIA INFANTO-JUVENIL DO FASCISMO: “The groundwork of the Black Metal scene is the will to be different from the masses.¹ That’s the main object. Also girls have a very important part in this, because they like mystical things and are attracted to people who are different, who have a mystique.² When a girl says <Look how cute he is> when she sees a picture of someone, her male friends will think <She likes him. If I look like him maybe she will like me as well.> They turn toward the person she admires.² The way to make Norway heathen is to go through the girls, because the males follow the girls.³” Varg

¹ Baudrillard diria: Coitado, ele ainda está preso às concepções socialistas-revolucionárias! As massas não são nada conceituável, ou são tudo, não há relação binária passível de ser feita entre massa e não-massa, não é simples assim. Não mais. Mas sendo a massa o advento inevitável do mundo moderno decadente, negar a massa como os neo-pagãos presumem, seria negar a vida, e não reafirmá-la, como pensam os Anti-Nazarenos.

² Gado demais. Boi ou vaca.

³ No Brasil atual isso seria mais condizente com tornar-se funkeiro. Mundial e macroscopicamente falando, talvez aderir ao k-pop.

Males aren’t extreme really. You find females are more to the left or more to the right than the males. Females are more communistic, more extremely Marxist-Leninist, or more extremely rightist than the males.”

In Oslo everybody fucks everybody in the scene. If one person gets a venereal disease, everyone does. The females I know in the Black Metal scene are not very intelligent, they are basically just whores. That’s a typical Oslo phenomenon.

The people I correspond with are not Black Metal girls at all. Some of them were, but they realized that I don’t like it and then they realized they didn’t really like it either. They were just doing it because they wanted to get in touch with certain people. The way to power is through the women. Hitler knew this as well. Women elected Hitler.”

O TRAPÉZIO DOS MÍMICOS: “Ironically, while Vikernes’s name is more or less synonymous with Black Metal, he takes great care to distance himself from that musical milieu. He even now claims the early Burzum releases—records regarded today as milestones of the genre—never were Black Metal music at all, instead classifying them as <standard, bad Heavy Metal>. He passionately distances himself from all forms of Rock and Roll, stressing that Rock’s roots in Afro-American culture make it alien to white people.”

Presently, Vikernes is no longer even permitted to listen to CDs. The only music he is currently allowed to experience must come via MTV—something which, in his case, might be considered a cruel and unusual form of punishment.”

Denied a musical outlet, Vikernes has focused his strong creative drive on writing. His output has encompassed political tracts, a book on mythology called Germansk Mytologi og Verdensanskuelse (Germanic Mythology and Worldview), and fiction, including a short novel. His fictional works can be compared to the infamous neo-Nazi novels Hunter and The Turner Diaries, in the sense that much of it functions as a dramatization of National Socialist rhetoric. Vikernes seems to be slightly more aware of his literary limitations than the late author of the aforementioned books, Dr. William Pierce (a former physics professor who became director of the American racialist political group the National Alliance), who makes his characters’ tender pillow-talk read like political sermonizing.”

In the early days of the Heathen Front, the organization’s mailing address was one and the same with Vikernes’s private P.O. box prison address. This would, of course, mean that any prospective members would have their letters read and, one presumes, registered by the authorities. And this actually strengthens the Heathen Front’s assertion that Vikernes is not the leader: it would be very hard for him to do an effective job of it. Whatever his official role may be, Vikernes certainly has left a strong mark on the Heathen Front. Its program was written by Vikernes, and this is a mix of rather orthodox National Socialist doctrine and neo-Heathen, anti-Christian ideas, along with some emphasis on environmentalism.” “The Allgermanische Heidnische Front [subdivisão do já irrelevante Heathen Front] and its subdivisions in Norway, Sweden, Belgium, Denmark, Holland, Iceland, Germany, and Sweden (with <affiliated subdivisions> in Russia, Finland, and the USA) are probably little more than Internet tigers. While the AHF’s policy of concentrating on producing web pages might be a bid to attract [“““]intellectually[”””] inclined youthful recruits rather than the streetfighters that make up much of the younger rank-and-file of other European National Socialist organizations, the focus on the Internet may have a more pragmatic motive.

One of the wonders of the Internet is that, in theory, a single person with a little know-how, a modem, and an acceptable computer can create web pages just as impressive as those of any huge organization. And, still theoretically, a loose group of e-mail correspondents across Europe can take on the appearance of a tremendously organized international network. In addition to its functioning as a political equalizer, the added attraction to all this is that Net know-how is mainly the field of younger people—exactly the sort the AHF has aboard. But while Vikernes’s network might theoretically consist of one teenage computer nerd per country, each still living in his parents’ house, such an estimation would probably be way off the mark. So how real is the AHF?” “whether the AHF will be noticed in the future probably depends most on if it can succeed at recruiting young Burzum fans (its most realistic recruitment base) into political activism—or at providing a conduit for them into more militant groups and scenes.” Cenário pouco auspicioso para a “organização”.

He also explains their recruiting strategy: <We don’t approach the great masses, but rather let individuals from the masses approach us instead. This is probably why so many see us as an ‘Internet project’ or as inactive and passive.> braço sueco

National-Socialists in Sweden are as much a minority as they are everywhere else, and young activists are likely to rub brown-shirted¹ shoulders with members of other groups in informal settings like concerts, meetings, and parties.”

¹ Essencialmente, <Juventude Hitlerista>, qualquer grupo paramilitar subversivo de extrema-direita – análogo aos camisas-negras para a Alemanha.

while the Third Reich was in some ways a modern welfare state (at least for those whose blood and ideology were in line with NS doctrines), Vikernes asserts that military veterans who are disabled in future wars for the greatness of Germania should commit suicide rather than be a burden on the resources of the Nation.”

SS

solo sangue Scandinavia

The journal Kulturorgan Skadinaujo appears to be the work of young students, some of whom have adopted an academic writing style. Though the fanzine-style musings that occasionally appear in its pages detract from its academic tone, the main reason why Skadinaujo seems doomed to fail as a scholarly venture is the fact that it reviews books like the pseudo-archaeology of Graham Hancock side by side with properly executed scholarly works. The end result is hardly something to show your professor.”

He has taken to interpreting the Old Norse texts as proof of—or at the very least circumstantial evidence for—contact between humans and extra-terrestrials in ancient times.”

And in the same way that Hymir sent all his trolls out to wreak revenge on Thor for having gone fishing and catching the Midgard Serpent in one of the most well-known of the Norse myths, a war was waged on Atlantis. After the conflict, the island sank into the ocean and the Aryans sought refuge on other continents, where they eventually mixed with lower races of men. The Atlantean Aryans only survived as a pure race in Northern Europe, where they can produce children like Vikernes: blonde, blue-eyed, and long-skulled.”

LIGANDO LÉ COM CRÉ E NO KIBE DANDO RÉ: “Thor had red hair, but all our ancestors had blonde hair prior to the degeneration of the Viking Age. [?] But the planet Jupiter is the colour of rust! [?] And Thor protected men against uncontrollable natural forces, just like Jupiter’s gravitation protects earth. […] Why does Thor have a belt of strength? Does not Jupiter have a ring around it? [??]”

The roots of Nazi preoccupation with flying saucers are complex, and date back to before the Second World War. Clear indications exist that the Third Reich had a program for developing flying saucers as part of its war machine.” Legal, salvou meu dia.

After the war, the UFO myth entered the subconscious of the West, with the rumored UFO crash at Roswell and alien abduction stories becoming standard features in modern folklore. And while many of the contemporary myths dramatized by the tremendously successful TV series The X-Files might seem fantastic, the strangest ideas are the ones that people actually seem to believe in.”

While the circumstances that led to the creation of the book [ufologia babaca envolvendo a tribo Africana dos Dogon!] are convoluted (as any arguments dealing with ancient astronauts invariably are), at the root of the mystery lie the writings of the French anthropologists Marcel Griaule and Germaine Dieterlen, who did research on the Dogon in the 1930s. Twenty years later, the Frenchmen published their story of how the Dogon had revealed this astronomical knowledge about Sirius (Sigu Tolo in the native language) to them.

But other anthropologists who later visited the area have been unable to find the same astronomical knowledge circulating among the Dogon, and the most realistic hypotheses seem to be that the one Dogon informant who divulged the information to the two Frenchmen either learned his Sirius lore from earlier visitors (of the human variety), or indeed from Marcel Griaule himself, a keen astronomy fan who took along star-charts to help extract information. Either wittingly or unconsciously, the Dogon native might have had this knowledge transferred to him from his interviewer—or else Griaule overemphasized what was passed to him through his interpreter, thus finding exactly what he wanted to. Furthermore, many of the Dogon’s astronomical <facts> are just plain wrong.

In the world of the pop esotericism, however, the fact that claims are exposed as lackluster or even fraudulent often has little bearing on their continuing distribution via the myriad magazines and bookshops that cater to alternative ideas.”

Sitchin was first attracted to this peculiar field of research because he was puzzled by the Nefilim, who are mentioned in Genesis, 6. There, the Nefilim (also spelled Nephilim) are described as the sons of the gods who married the daughters of Man in the days before the great flood, the Deluge. The word Nefilim is often translated as <giants>, meaning that the Old Testament asserts there were days when giants walked upon the earth. If this sounds a bit like the occult narrative of Varg Vikernes, it only becomes more so when Sitchin claims that the correct and literal meaning of the word Nefilim is <those who have come down to earth from the heavens>. [eram filósofos: viviam com a cabeça nas nuvens!] Fallen angels procured the daughters of men as mates, which Sitchin takes to mean that the space-farers mixed their superior DNA with that of primitive mankind, leading to a quantum leap in human genetic and cultural evolution which spawned the blossoming Mesopotamian cultures.” Tão crível seria a hipótese de que caiu um meteorito radioativo na Terra e fez com que gorilas e chimpanzés entrassem em acelerada mutação – com mortalidade de virtuais 100%… Os escassos sobreviventes desta hecatombe ecológica, entretanto, viriam a ser Prometeus… Cof, cof.

IS THERE A SPECIAL CONNECTION BETWEEN NATIONAL-SOCIALISM AND UFOs?

DR. MICHAEL ROTHSTEIN [cético que estuda gente que acredita em OVNIs]: In certain ways, yes. Nazism has always had some kind of relation to the occult and certain Nazi groups (often outside the actual Nazi parties) have made a special point out of it. However, this really is fringe stuff [indie, marginal]. What is more interesting is the fact that UFOs on many occasions have been interpreted as devices developed by Nazi scientists, as German secret weapons. This is, I believe, more interesting than notions of clones of Hitler hiding under Antarctica in huge UFO-related facilities. Nazis are in many ways the demons of the modern world, at least most people find them disgusting and dangerous, and any association between the bewildering UFOs and these groups points to a certain understanding of UFOs as sinister or demonic.”

As long as people wish to believe, they will readily accept authorities that support their beliefs. The phenomenon is not that Von Däniken is able to persuade people of anything. The phenomenon is that people want Von Däniken to provide material for them to believe in. Furthermore, this is not in itself a <far-out> belief. Any belief in things out of the ordinary could be considered <far out>: God, for instance, or the Resurrection of Christ, flying yogis, whatever.”

As hinted by Rothstein, one of the most unusual marriages of UFO lore and National Socialism is the idea that the Third Reich is alive and well under the Antarctic ice-cap, keeping watch over the world by means of its flying saucers and waiting for the day to return and free the world from Zionist bankers, communists, and other enemies of the Aryan race.” “The most eloquent spiritual representative of such ideas in the present day is the Chilean dignitary and author Miguel Serrano [1917-2009], a former diplomat (to India, Yugoslavia and Austria) who counted both Carl Jung and Herman Hesse [curiosamente, anti-nazi notório – autor da novela Steppenwolf] among his circle of friends.” Serrano – C.G. Jung and Hermann Hesse: A Record of Two Friendships (1965) (original: El círculo hermético, de Hesse a Jung)

Mattias Gardell is a lecturer in religious anthropology at the University of Stockholm. He has studied radical religions extensively, and is the author of a book on the Nation of Islam, Countdown to Armageddon. His latest research project has involved a year of travelling around North America and interviewing figures involved in the neo-Nazi and Ásatru movements, two milieus that sometimes overlap—and especially so in the case of Varg Vikernes.”

Such ideas of blood as a carrier of hereditary information are common in Nazi circles, and can in some way be compared to Carl Jung’s theory of the collective unconscious.”

Their law of the strong scorns pity as a four-letter word; they await the day it is banished from the dictionaries. They despise doctrines of humility. Christ’s Sermon on the Mount is even worse poison to their ears. War is their ideal, and they romanticize the grim glory of older epochs where it was a fact of life. Where is the source for such a river of animosity and primal urges? Did torrents of hatred arise simply from the amplification of a phonograph needle vibrating through the spiralled grooves of a Venom album? Is Black Metal music possessed of the inherent power to impregnate destructive messages into the minds of the impressionable, laying a fertile seed destined to sprout into deed? To an enlightened mind it would seem unlikely.”

After reading a number of similar texts by Varg Vikernes, the Austrian artist and occult researcher named Kadmon was inspired to investigate in detail what enigmatic connections might exist between the phenomena of modern Black Metal and the ancient myths of the Oskorei. The Oskorei is the Norse name for the legion of dead souls who are witnessed flying, en masse, across the night sky on certain occasions. They are rumored to sometimes swoop down from the dark heavens and whisk a living person away with them. This army of the dead is often led by Odin or another of the heathen deities. Throughout the centuries, there are many reports from people who claim to have experienced the terrifying phenomenon—they attest to having seen and heard the Oskorei with their own eyes and ears. The tales of the Oskorei also refer to real-life folk customs which were still prevalent a few hundred years ago in rural parts of Northern Europe.” “noise, corpse-paint, ghoulish appearances, the adoption of pseudonyms, high-pitched singing, and even arson.”

In German folklore, stories of the Oskorei correspond directly to the Wild Hunt, also termed Wotan’s Host. Wotan (alternately spelled Wodan) is the continental German title for Odin, Varg Vikernes’s <patron deity>”

Gyldendal’s Store Norske Leksikon (The Large Norse Encyclopedia)

O SATÃ DE VIKERNES É O JUDEU ERRANTE: “There were often fights and killings at those places Oskoreia stopped. They could drink the yule ale and eat the food, but also carry people away if they were out in the dark. One could protect against the ride by gesturing in the shape of a cross or by throwing oneself to the ground with the arms stretched out like a cross. The best way was to place a cross above all the doors. Steel above the stalls was effective as well. The Oskorei was probably regarded as a riding company of dead people, perhaps those who deserved neither Heaven nor Hell.”

the cover of Bathory’s first <Viking> album, Blood Fire Death (1988), features a haunting depiction of the Oskorei in action. The remarkable development is how so many of the minute details of the legends would inadvertently or coincidentally resurface in unique traits of the Norwegian Black Metal adherents. This behavior had already become prominent years before the scene acquired its current attraction toward Nordic mythological themes, and before Vikernes ever began writing commentaries on such topics.”

Many of the <Satanic> bands even evince a strong fascination for native folklore and tradition, seeing them as vital allegories which represent primal energies within man. This type of viewpoint is expressed well by Erik Lancelot of the band Ulver:

<The theme of Ulver has always been the exploration of the dark sides of Norwegian folklore, which is strongly tied to the close relationship our ancestors

had to the forests, mountains, and sea. The dark side of our folklore therefore has a different outlook from the traditional Satanism using cosmic symbolism from Hebraic mythology, but the essence remains the same: the ‘demons’ represent the violent, ruthless forces feared and disclaimed by ordinary men, but without whom the world would lose the impetus which is the fundamental basis of evolution.>”

atavistic ativism

folclorenoruegues
IMAGEM 2. Extraído dum livro de lendas

Ler Two Essays on Analytical Psychology do Jung: “There are present in every individual, besides his personal memories, the great <primordial> images, as Jacob Burckhardt once aptly called them, the inherited powers of human imagination as it was from time immemorial. The fact of this inheritance explains the truly amazing phenomena that certain motifs from myths and legends repeat themselves […] It also explains why it is that our mental patients can reproduce exactly the same images and associations that are known to us from the old texts.”

Kadmon also points out a few strong contrasts between the rural folklore and Black Metal, which he sees as an urban phenomena. He is not entirely correct in this assertion, however, as many of the Norwegian Black Metal musicians do not come [from] cities such as Oslo, Bergen, or Trondheim, but live in small villages in the countryside. And Varg Vikernes, too, is proud to make the distinction that he is originally from a rural area some distance outside of Bergen, rather than the city itself. Further examples can be found with the members of Emperor, Enslaved, and a number of other bands.”

Besides Bathory, one other early Scandinavian Metal band had also extolled the religion and lifestyle of the Vikings in their music, a group from the ‘80s called Heavy Load. Possibly they also inspired some of the kids later involved in Black Metal, and indeed they have been mentioned with appreciation by some close to the scene, like Metalion.”

The group Immortal even went so far as to make a professional video clip with every band member shirtless in the midst of a freezing winter snowscape, furiously playing one of their songs. A video for the Burzum song Darkness goes much further, leaving out any human traces whatsoever—the entire 8:00 clip is based on images of runic stone carvings, over which shots flash of rushing storm clouds, sunsets, rocks, and woods. Co-directed by Vikernes from prison via written instructions, the result is impressively evocative despite the absence of any storyline or drama.”

POUCO IMANENTE VOCÊ, NÃO É, DISCÍPULO EX-QUERIDINHO DE FREUD? “According to Carl Jung, it is not always modern man who actively seeks to consciously revive a pre-Christian worldview, but rather he may become involuntarily possessed by the archetypes of the gods in question. In March, 1936, Jung published a remarkable essay in the Neue Schweizer Rundschau, which remains highly controversial to the present day. Originally written only a few years after the National-Socialists came to power in Germany, it is entitled Wotan.

Jung states in no uncertain terms his conviction that the Nazi movement is a result of <possession> by the god Wotan on a massive scale. He traces elements of the heathen revival back to various German writers, Nietzsche especially, who he feels were <seized> by Wotan and became transmitters for aspects of the god’s archetypal nature. He states, <It is curious, to say the least of it […] that an old god of storm and frenzy, the long quiescent Wotan, should awake, like an extinct volcano, to a new activity, in a country that had long been supposed to have outgrown the Middle Ages.>

Jung would some years later reveal his conviction [not proofs, like Moro] that both Nietzsche and he himself had experienced personal visits [Jung estuprado na infância?] in their dreams from the ghostly procession of the <Wild Hunt>, the German equivalent of the Oskorei.”

In Norway and Sweden there has also been growing general interest in the indigenous religion of their forefathers, to the point that at least one heathen group, Draupnir, has been recognized as a legitimate religious organization by the Norwegian government. Along with them, other Ásatrú organizations such as Bifrost also hold regular gatherings where they offer blot, or symbolic sacrifice, to the deities of old.

There is absolutely no specific connection between these Nordic religious practitioners and the Black Metal scene. In fact, public assumptions that such a link would exist have been a severe liability to these groups. Dispelling negative public impressions of their religion is made considerably more difficult with characters like Vikernes speaking so frequently of his own heathen beliefs to the press.”

VonStuck
IMAGEM 3. Franz von Stuck, A caçada selvagem

O TRÁGICO ATRASADOR DA REASCENSÃO MITOLÓGICA: “Vikernes’s extreme and bloody interpretation of indigenous Norse religion is just as problematic to the neo-heathen groups as was his flaming-stave-church and brimstone variety of Satanism a few years earlier to organizations like the Church of Satan. When contemporary figures sought to revive the old religion of Northern Europe, they had not intended to bring back uncontrollable barbarism and lawlessness with it.”

There is another obscure old fable of the Oskorei, where they fetch a dead man up from the ground, rather than their usual choice of someone among the living. It was collected by Kjetil A. Flatin in the book Tussar og trolldom (Goblins and Witchcraft) in 1930. If the folkloristic and heathen impulses of Norwegian Black Metal are in fact some untempered form of resurgent atavism, then this short tale is even more surprising in its ominously allegorical portents of events to come over 60 years later with Grishnackh, Euronymous, and the fiery deeds that swirled around them”

Originally bestowed with Kristian for his first name, Vikernes found this increasingly intolerable in his late teenage years. When he first introduced himself to the Black Metal scene it was still his forename. Sometime in 1991–92 he legally changed his name to Varg. His choice of a new title is curious in light of the actions he would later commit, and the legend that would surround him—although he claims to have adopted it mainly for its common meaning of <wolf>. If one understands the etymology and usage of the word varg in the various ancient Germanic cultures (and there is no evidence that Vikernes did at the time of his name change), his decision becomes downright ominous.

A fascinating dissertation exists entitled Wargus, Vargr—‘Criminal’ ‘Wolf’: A Linguistic and Legal Historical Investigation by Michael Jacoby, published in Uppsala, Sweden, but written in German. It is a highly detailed, heavily referenced exploration of the Germanic word Warg, or vargr in Norse.”

Qual é o lado mais podre do LobisOmen?

The designation was used in the oldest written laws of Northern Europe, often with a prefix to add a specific legal meaning, such as gorvargher (cattle thief) or morthvargr (killer).”

another ancient Germanic legal text, the Salic Law, which states: <If any one shall have dug up or despoiled an already buried corpse, let him be a varg.> Hehehe

LICANTROPIA ETIMOLOGIZADA E SOCIOLOGIZADA

Vargr is the same as u-argr, restless; argr being the same as the Anglo-Saxon earg. Vargr had its double signification in Norse. It signified a wolf, and also a godless man. […] The Anglo Saxons regarded him as an evil man: wearg, a scoundrel; Gothic vargs, a fiend. […] the ancient Norman laws said of the criminals condemned to outlawry for certain offenses, Wargus esto: be an outlaw! (be a varg!) […] among the Anglo Saxons an utlagh, or out-law, was said to have the head of a wolf. If then the term vargr was applied at one time to a wolf, at another to an outlaw who lived the life of a wild beast, away from the haunts of men—<he shall be driven away as a wolf, and chased so far as men chase wolves farthest,> was the legal form of sentence—it is certainly no matter of wonder that stories of outlaws should have become surrounded with mythical accounts of their transformation into wolves.” “As can be seen from the Baring-Gould quote above, the wolf connotation of the term later became associated with werewolves, and in certain sources the Devil himself is referred to as a werewolf. However, this negative outlook on wolves appears to surface after the onset of the Christian period of Europe; the pre-Christian heathens had a quite different perception. “A number of Black Metal bands display a fascination for the wolf. The most obvious example is Ulver, whose name itself means wolves in Norwegian.”

The wolf lives in the forest, symbol of the demonic world outside the control of human civilization, and serves thus as a link between the demonic and the cultural, chaos and order, light and dark, subconscious and conscious. Still I do not by this mean to say that the wolf represents the balance point between good and evil—rather he is the promoter of <evil> in a culture which has focused too much on the light side and disowned the animalistic. He symbolizes the forces which human civilization does not like to recognize, and is therefore looked upon with suspicion and awe.” E. Lancelot

In the older Viking times, wolves were totem animals for certain cults of warriors, the Berserkers. A specific group is mentioned in the sagas, the Ulfhethnar or <wolf-coats>, who donned the skin of wolves. Baring-Gould recounts the behavior of the Berserks who, wearing these special vestments, reached an altered state of consciousness:

<They acquired superhuman force […] No sword would wound them, no fire burn them, a club alone could destroy them, by breaking their bones, or crushing their skulls. Their eyes glared as though a flame burned in the sockets, they ground their teeth, and frothed at the mouth; they gnawed at their shield rims, and are said to have sometimes bitten them through, and as they rushed into conflict they yelped as dogs or howled as wolves.>”

Wolves are sacred to Odin, the <Allfather>, who is usually accompanied by his own two wolf-elementals, Geri and Freki. Many Germanic personal first names can be traced back to another root word for wolf, ulv or ulf, so this was clearly not an ignoble or derisive connotation, except in its varg form.” “In the old sagas Odin is bestowed with myriad names and titles, some of which include Herjan (War God), Yggr (the Terrible One), Bölverkr, (The Evil Doer), Boleyg (Fiery Eyed), and Grímnir (the Masked One).”

It happens that he betrays his believers and his protégés, and he sometimes seems to take pleasure in sowing the seeds of fatal discord..” Georges Dumézil

In her essay on the word Warg, Mary Gerstein also discusses comparative symbolism between Odin, who hung on the world tree Yggdrasil for 9 nights in order to gain wisdom, and Christ, who was hung on the cross as an outlaw [3 days], only to be reborn as an empowered heavenly deity. Vikernes, despite his heathenism, has in certain respects set himself up as both avatar and Christ-like martyr for his cause, willing to suffer in prison for his sacrifice.”

SUarEZ

zeus arrrrrrghhhhhhhhh

horror arquetípico:

argh!!!típico

GIMME THE HARP: “Odin is the embodiment of every form of frenzy, from the insane bloodlust that characterized the werewolf warriors who dedicated themselves to him, to erotic and poetic madness.” Não leia senhor dos anéis demaaais…

Odin’s hall is easy to recognize: a varg hangs before the western door, an eagle droops above.”

the renunciation oath which was enforced under Boniface among the Saxons and Thuringians, who were ordered to repeat: <I forsake all the Devil’s works and words, and Thunær (Thor) and Woden (Odin) and Saxnôt (the tribal deity of the Saxons) and all the monsters who are their companions.>”

In my town all they do is have their cars and they drive up and down the one main street. They have nothing else to do—it’s a kind of competition for who has the finest car and the loudest stereo. They basically live in their cars. Those who are younger, who don’t have a car—they sit at the side of the road and look at the cars. Their lives are extremely boring, and I can see that some people want more out of existence, they want to have their own personality and expression which makes it impossible to be associated with all those meaningless humans who walk around everywhere.” Isahn

It started up with the whole <anti-LaVey> attitude that was common within the scene, because his form of Satanism is very humane. No one wanted a humane Satanism” “When LaVey says that the simplest housewife can be a Satanist, which it seems like he does in the Satanic Bible, I guess some were terrified that he had views that would take the special thing they had away from them.” “Many people did not laugh; they were very serious all the time. Nothing should be <good>. Everybody was very grim looking. Everyone wanted to be like that, and I guess there are some who are that way still.” “Of course you were affected by the whole atmosphere, that you don’t sit and laugh in this Helvete place, and you have respect for the known figures in the scene, and were careful what to say to Euronymous in the beginning, before you got to know him.”

Normal people assume, <Oh, people into Black Metal must have had a terrible childhood and have been molested. They’re weak and come from terrible backgrounds.> But as far as I’m concerned, many people I know in the scene actually come from good families, non-religious families, and had a great childhood with very nice parents and no pressure at all. Quite wealthy families, really.”

LÁ VEM O SATANISTA: “Sometimes I think it would be great to be more anonymous—it’s a small town that I live in, everyone knows who I am. People look at me even though I don’t dress particularly extremely, just because everybody knows what I am. Also with where I work, people are very skeptical towards me, and sometimes it would be easier if no one knew.”

The essence of Black Metal is Heavy Metal culture, not Satanic philosophy. Just look at our audience. The average Black Metal record buyer is a stereotypical loser: a good-for-nothing who was teased as a child, got bad grades at school, lives on social welfare and seeks compensation for his inferiority complexes and lack of identity by feeling part of an exclusive gang of outcasts uniting against a society which has turned them down. And with Heavy Metal as a cultural and intellectual foundation, these dependents on social altruism proclaim themselves the <elite>! Hah!” E. Lancelot

MANIFESTUM UNIVERSALIS: “The Satanist is an observer of society—to him, the world is like a stage, in relation to which he chooses sometimes to be a spectator, other times a participant, according to his will. He can watch from the outside and laugh, cry, sigh, or applaud depending on the effect the scenery has on his emotions; or he can throw himself into the game for the thrill; but his nature is always that of the watcher, the artist. He is not overly concerned with changing society, for his commitment to humanity is minimal.”

An appropriate example of how such futile aspirations may end is the case of Varg Vikernes: a neo-Viking martyr. A prophet of the ego who paradoxically enough chose to be the Jesus of his ideals, and now must suffer for it behind the walls of spleen. I have much respect for this man’s conviction and courage, but not his sense of reality.” Garm

I think many of them have grown up with the Bible and phone book as the only books in the house.” Simen Midgaard, jornalista free-lancer e ocultista, líder do grupo Ordo Templi Orientis. “The O.T.O. is established in Norway, unlike the Church of Satan, Temple of Set, or other real Satanic organizations.”

if they are going to get rid of Judeo-Christianity, they will have to get rid of Satan as well, as a matter of fact. He is a sort of Trotsky in the revolution”

I’m rather indifferent to the State Church. I’m not indifferent to these terrible small sects who teach their people with fear from the day they are able to talk [essas pulgas de rodoviária!]. I support any revolt, however strong it is, against that kind of Christianity because I think it makes people into neurotics. It should be forbidden by law because they torture their own children.”

O BRASIL TEM O SATANISMO MAIS MADURO (O CARNAVALESCO – A LUBRICIDADE DA CARNE): “Satanism in Norway has become strong because it’s a despotic form of Satanism, but that is also why it’s going to fade so fast—because people are not able to live like that for a very long period of time.” Pål Mathiesen, teólogo cristão

The Satanists say—to put it brutally—that we are animals. The animal culture is the most important one, and we are losing that part of us. This is broad in the culture today, with the “wild women,” etc., this whole thing of going back to nature. Being part of nature instead of spirit or morals is very strong now.”

That struck me when I was talking to Ihsahn, the symbols he was using of 3,000 or 4,000-year-old Eastern religions, and at the same to say that it’s only Norway for me and only the Nordic religion that counts. It’s not rational on that point at all. It doesn’t relate to history as something rational—you just use it.”

I think Vikernes has been analyzing our times and thinking, what can we do to achieve something? But I also think that over the years he will find out that for us to go back to the heathen religion is very, very unrealistic. It’s not going to happen if you look at the religious aspect of it. We’re not going to go back to that kind of religious ritual. That is not going to happen.”

If you are declared a Satanist or Nazi in Norway, then you are that for the rest of your life, there’s not a question about it. You will be condemned for the rest of your life. I hate that aspect of our culture, I really think it’s a bad thing, because if we don’t have an opening for forgiveness it becomes very alien to me.”

I think in society when something like that happens it’s a very good opportunity for the media. They like it because they can start a lasting soap opera with strong characters, and these Satanic groups. The media embraced it to a certain extent, and made it really big in Norway. Of course it was big, but I would say that the media capitalized on it, because it was something extreme, new, and specifically Norwegian. For them to sell newspapers, they treat it as extremely as possible. Very early on the media started to define them as total extremists, the same way they might look upon the neo-Nazi movement. They defined them as that right away; then they had them there and they can look upon them like animals doing strange things, and they can report it like something that is very different from the rest of our society.”

This is something that’s important—individualism in Norway has been held down. That has happened. If you are different in school, or very good for example, or very intelligent, that becomes a problem for you. We don’t accept people with exceptional gifts or anything like that. In England or the US, you have schools for these kind of youngsters, you send them somewhere else, and say, <You are different, go over there>. We don’t have that. Everything is supposed to fit in, in a classroom of 25 or 30 people. If you are too weak or too healthy, or if you’re too good, you’re supposed to shut up. It’s mediocrity.” “We have a very special relationship to nature, a very close one. And during the Christian period this thing with nature has been suppressed—nature is not good, nature is <evil>, so to speak. Norwegians interact with nature and are very closely connected to it, just due to the way the country itself is formed.”

They’ve spent fifty years after the war bringing down Christianity, and for the first time they’re saying now that we need more Christianity in the schools. It shows the times have changed. Maybe we have become conscious to some extent about the Christian culture when people start to burn down our churches—maybe, you can’t rule that out.”

Asbjørn Dyrendal is a Research Fellow at the Department of Cultural Studies at the University in Oslo. He has been primarily researching the new and emergent religions, especially Wicca.”

There you had a lot of young people who wanted to be Satanists. Where could they hear about what you do when you’re a Satanist? They had to get it through the media and Christian sources. They got the myths, and they tried as best as they could, by their rather modest means, to live up to them. You can see that in the early interviews with Varg Vikernes. There were situations where the journalists were trying to see this in light of the stories supplied by Kobbhaug [policial que fantasiava sobre <sacrifícios de bebês>], and where Vikernes played the appropriate role. He was hinting that many people disappear each year, that these might have been killed, and then said that he cannot comment on who was doing the killings. When asked if he has killed anyone: I can’t talk about that. He was building up to get the question of whether he had killed anyone, and then denying it in a manner which implied the opposite.” Dyrendal

Vikernes was very fond of telling people that he read LaVey and Crowley. However, what he has come out with in interviews indicates that he hasn’t understood it all very well.”

WAIT & BLEED: “If you are an adolescent, you are in a period of your life where it is impossible for you to exert influence upon your surroundings. Being able to hate and feel strong can be very liberating. This is much of the same power that lay in other forms of Metal and in Punk.” “It has passed the point where people point at you and laugh, and reached the point where people shy away from you.”

Almost every form of shocking behavior will only make your parents say, <Well, we did that when we were young too>. So, to get a shock effect, you have to go much further in your symbolism. Personally, I think these explanations are a bit simplistic.”

I am of the opinion that most people see Vikernes as a rather pathetic figure—

someone with delusions of grandeur who is only able to function within this self-created image.”

The myth of the outwardly respectable, even upstanding, citizens that go out at night to do terrible things to children has been around for thousands of years and has been levelled at Christians, Jews, Catholics, Protestants, heretics, Freemasons, and lots of other groups. It was then recycled by horror writers, who fictionalized the material. It now seems to be influencing reality again. One account of <ritual abuse> I have read seems to have been lifted directly from Rosemary’s Baby, one of the great horror classics.”

There have only been a handful of Metal groups with direct ties to LaVey’s church over the years (King Diamond being one of the more outspoken), although in recent times this has begun to change. LaVey was himself a musician, specializing in lost or obscure songs of ages past, but he often mentioned a personal distaste for Rock and other modern music in interviews. This might have alienated some musicians—who otherwise exemplify LaVey’s philosophy—from any public allegiance with the Church of Satan. In reality, LaVey understood fully why a genre like Black Metal has appeal for youth, though he may not had have much interest in the cacophony of the music itself.” “The Black Metalers are also quite mistaken if they believe LaVey is merely a humanist. Even a cursory study of LaVey’s actual writings will uncover his unabashed misanthropy and derisive scorn for the follies of humankind.”

A lot of people had tried to give it exposure, as Devil’s advocates—writers like Twain and Nietzsche—but none had codified it as a religion, a belief system.” LaVey

In the case of the Nine Satanic Statements, it took me twenty minutes to write them out. I was listening to Chopin being played in the next room and I was so moved I just wrote them out on a pad of paper lying next to me. The crux of the philosophy of Satanism can be found in the Satanic Rules of the Earth, Pentagonal Revisionism, and the Nine Satanic Sins, of which of course <stupidity> is tantamount, closely followed by <pretentiousness>. Often pretentiousness comes in the form of so-called <independent thinkers> that have a knee-jerk reaction [reação reflexa, instantânea] to any association with us.” Não compreendo o sentido exato.

It sounds like there’s a lot of stupid people in Norway too, like any country.” “We get more mail from Russia than ever, now that the Soviet Union is gone. They’ve been under atheist control for so long and the new religious <freedom> is pushing bullshit they can’t swallow. They almost yearn for the good old days of Soviet atheism…”

A lot of them are kids and they like the name Satan just as they might be attracted to a swastika and the colors red and black.” “Now, if a representative of the Church of Satan had just one entire hour on national TV to say what we want to say, Christianity would be finished.”

The anti-Christian strength of National-Socialist Germany is part of the appeal to Satanists—the drama, the lighting, the choreography with which they moved millions of people. However, the Satanic attitude is that people should be judged by their own merit—in every race there are leaders and followers. Satanists are the <Others>, who will push the pendulum in the direction it needs to go to reset the balance—depending on circumstances, this could be toward fascism or in the opposite direction. Satanism is a very brutal, realistic way of looking at things sometimes.” Barton, boqueteiro (assessor, amante, secretário, sei lá!) oficial de LaVey – verde a cor do nojo

How can someone say I don’t like Rock and Roll? It’s never been defined. There’s so much that’s fallen under that general heading, but I guess it then evolved into what we have now, which I’ve described as being like a linear metronome, i.e., music without music. They’ve just run out of ideas, really.” Continua ouvindo seu Chopin no Inferno, velhote.

kids who don’t know anything besides Rock music can still gain strength and motivation from Black Metal, Death Metal, and so forth.” Enough to found a new “religion”.

…And then you have to get a job! That’s no market place for 2 (or 20, whatever) LaFEIs…

O SEGUNDO VARG É MAIS ESPERTO: “The biggest success story in Norwegian Black Metal—measured in chart positions, magazine coverage, and gaudy magazine posters—is Dimmu Borgir, a band which boasts of six-figure CD sales on the German label Nuclear Blast. Dimmu Borgir were not part of the initial waves of Norwegian Black Metal, and therefore they have neither blood nor soot on their hands. But they have been very adept at capitalizing on the shocking image of their predecessors in the genre, while at the same time carefully distancing themselves from the worst excesses so as not to lose record sales or gigs. A typical example can be seen in the promo pictures of Dimmu Borgir engaging in the mock sacrifice of a virgin —pictures that were produced in versions ranging from <softcore> (less gore) to <hardcore> (very bloody), so that different media could pick the version most suited to their audience. In other words, it seemed as if Dimmu Borgir wanted to be provocative enough to make the kids think they were cool, but not so provocative that the kids couldn’t get their parents to buy them the album for Christmas.”

Two or three years ago it was on the verge of becoming really, really big, and the international press was interested in Black Metal. If there had been more bands like Dimmu Borgir and The Kovenant that could have made it big in the mainstream, Black Metal could have been another example of an underground that stepped up to the major league. But strong forces in the scene suddenly became very introverted and reverted to an older, harder style of Black Metal.” AsbjØrn Slettemark

There is a handful of bands that sell well, about 10,000 to 20,000 copies of each release. But sales figures are hard to confirm, because labels tend to exaggerate; and on the other hand, many of the retailers for Black Metal records don’t register their sales.”

It is my impression that Nuclear Blast realized their stable of Death Metal and Speed Metal artists were starting to lag behind. It seems to me like they picked Dimmu Borgir more or less by chance, because the records that got them the contract weren’t really that special. But Dimmu Borgir were still developing as a band, and they were willing to do the image and magazine poster thing. It wouldn’t be possible to sell a more established band like Mayhem or Darkthrone the same way. I guess Dimmu Borgir have the good old Pop Star ambition, the standing in front of the mirror singing into the toothbrush thing.”

Compared to the multinational record companies, Nuclear Blast Records is like a hot dog stand. But the German label has its home base in the world’s biggest market for heavy metal, and is serious enough to have an American distribution deal with Warner Records. And Nuclear Blast know how to <move units>, in record business parlance. The Marketing Director of Nuclear Blast, Yorck Eysel, says Dimmu Borgir has sold 150,000 copies of their last album and 400,000 discs in all during the time they have been with his label. These numbers are repeated like a mantra by everyone that works with the band, but should be taken with a pinch of salt, as exaggerating sales figures is the oldest trick in the book for vinyl and CD pushers. They know that it is easier to sell you a record that has been in the charts than one which has only been coveted by a few obsessive collectors. Even if the sales figures might be inflated, Dimmu Borgir has sold an impressive amount of records, and Eysel thinks that is due to the band’s merit.”

Interestingly, during Varg Vikernes’s trial a Burzum album was reviewed in the news section of Dagbladet, one of Norway’s most important tabloids; this was at a time when his band was being treated with contempt [even] by the Rock [specialized] press.” “Pop music there generally has been difficult to export and the Metal bands regularly outsell the <commercial> Norwegian bands”

Sigurd Wongraven of Satyricon, who had earlier starred in a Rock Furore exposé about racism in Black Metal, later received the full Rock star treatment in mainstream tabloid Dagbladet for a 2-page article which focused on the fact that Wongraven liked Italian designer clothes. Black Metal had become popular enough, and house-trained enough, for the mainstream press to dispense with the barge pole when touching it, even if the specters of racism and satanism still surfaced often enough to make the bands seem somewhat scary.”

Ketil Sveen, a co-founder of the record label and distributor Voices of Wonder, was one of the first people to sell Norwegian Black Metal records on a bigger scale. He ended his cooperation with Burzum after Varg Vikernes stated that he was a National-Socialist. Today there is a racism clause in the contracts which prospective artists have to sign in order to work with Voices of Wonder.”

We sell Black Metal in 25 countries—there’s not a lot of other music that we get out to so many.” Sveen

BURZUM_lighter

IMAGEM 4. Igreja de Fantoft em brasa e logotipo da banda de Vikernes num isqueiro promocional da Voices of Wonder. “I’ve done a few stupid things in my life, and that lighter was one of the stupidest. In my defense I want to say that none of us suspected Vikernes had really done anything like that. We figured that if he was crazy enough to torch a church he would not be crazy enough to go around bragging about it.” Sveen

Welcome to the world of German Black Metal. Less well known than its Norwegian counterpart, the German scene remains genuinely underground, an obscure exit off the darkened Autobahn of extreme Rock. That changed briefly following the night of April 29, 1993, however, when the members of the Black Metal band [arguably] Absurd followed the example set by Bård Eithun and Varg Vikernes and replaced thought with crime.”

Lianne von Billerbeck & Frank Nordhausen – Satanskinder (Satan’s Children: The murder case of Sandro B., 1994)

Such curiosities were difficult to satisfy until the Wall fell in 1989 and East Germany was opened to the West. At this point previously forbidden or impossible-to-obtain records and videos steadily came within reach. The three 17-year-olds Hendrik Möbus, Sebastian Schauscheill, and Andreas Kirchner began to draw attention to themselves with their Satanic obsessions and penchant for Black Metal. They were antagonized for their interests by many of the other kids in town—both left-wing punks and right-wing skinheads [curiosamente, o som da banda é nazi, sobre guitarras punks estéreis] —but developed a group of admirers among the local schoolgirls.” “At a certain point in 1992, a younger student, a 14-year-old named Sandro, also developed a fascination for the members of this sinister band and their associates.” “Widely disliked due to his irritating manners, he had almost no real friends. He quickly began to adopt the style and interests of the satanists and desperately tried to ingratiate himself into their circle. He would ask to attend band rehearsals and began corresponding with them and the others in the clique [panela] around Absurd. Satanskinder describes a peculiar <letter writing culture> that thrived among all of these youths.” “Heated arguments also took place there between them and members of the Christian Youth Club, which met regularly at the Center as well.”

Together with a young girl named Rita, Sandro began to plot actions against Sebastian and Hendrik, hoping to make a mockery of them in Sondershausen.” “He was also aware of an ongoing affair between Sebastian and an older married woman named Heidegrit Goldhardt, now pregnant with Sebastian’s child.” “Sebastian’s romantic relationship with Heidegrit, who oddly enough was an evangelical Christian schoolteacher, had produced some unexpected results. He had joined in with her pet projects for environmentalism and animal rights, and now spent time writing polemical letters to the newspapers about such issues.” “Absurd no longer rehearsed at the Youth Center, but had moved their equipment to a small cottage built by Hendrik’s father in the nearby woods. Through the guise of a female friend, Juliane, a letter was sent to Sandro in which she confided her hatred of Absurd. She asked Sandro to meet her one evening at the Rondell, a WW1 memorial in the forest above the town, in order to discuss how she could contribute to Sandro’s campaign against the satanists.” “Juliane didn’t appear, but the members of Absurd did instead. Sandro must have been confused, but dismissed any idea that he had been set up. They then somehow convinced him to accompany them elsewhere so that they could all discuss an important matter.” “Suddenly Andreas grabbed an electrical cord and wrapped it around Sandro’s neck. A struggle ensued, Sandro tried to scream for help. At this point, Hendrik is alleged to have pulled a knife and cut Sandro. They tied his hands behind his back. Sandro begged to be let free, promising to never speak about anything that had just happened. They could even have his life savings—500 German Marks (approximately $325). The boys considered the idea of letting him go free in the woods, but feared he would not keep his promise of silence about the abduction, especially now that he had been wounded.” “On May 1st [2 dias depois] the three members of Absurd returned to the scene of the crime and dragged Sandro’s corpse, wrapped in a blanket, to a nearby excavation pit, where they quickly buried him.” “Sebastian related a strange personal anecdote: about 6 months before the murder he heard a voice in his head. It was difficult to understand; he thought it uttered the nonsensical phrase <Küster Maier>. Later he decided it probably must have said <töte Beyer> (Kill Beyer!).” “The story detailed above follows the chronology presented in Satanskinder, although the book embellishes it with endless psychological speculation. The descriptions of the authors are based entirely on comments by disgruntled ex-friends and hangers-on who had interacted with the killers, since the latter refused to speak to them. The picture painted is one of an outsider group of youths whose fantasies got the best of them.”

We used to listen to British and German Punk Rock, British Oi, as well as Thrash Metal (Slayer, Destruction, Sodom, Morbid Angel, Possessed).” Hendrik

mostly we obtained Polish or Hungarian bootlegs, or recorded stuff from the West German radio.” “I guess it was just a question of time before we became aware of splendid bands like Deicide, Beherit, Sarcófago, Bathory, Mayhem, and Darkthrone…”

Before he <moved to the beyond>, Øystein Aarseth wanted to sign Absurd to Deathlike Silence, since our Death from the Forest demo appealed to him quite a bit.”

ABSURD HAS CALLED ITSELF <LUCIFERIAN PAGANS>…

You can use the terms <Luciferian>, <Promethean>, and <Faustian> to describe one and the same principle: reaching out toward a higher stage of existence and awareness by facing and overcoming the limiting circumstances. That is the trail we are on. However, a <Luciferian will> on its own would fall into hedonism and egomania. For that reason we need heathenism; on the one hand for expression of free will, but also for its channeling toward the greater good. In other words, a person of this sort should not operate only according to self-interest, but rather should serve his ethnic community and be the <light bringer> for it.

What we didn’t know, and only first learned from the court record, was that Sandro was bisexual. With a likelihood bordering on certainty, Sandro had fallen in love with Sebastian. That is also not astonishing, as in those days Sebastian had a certain <sex appeal> among the youths.

So Sandro discovered the relationship between Sebastian and his lover, who was married and 8 years older, while Sebastian was also considered the leader of the local satanists. If this relationship were to become public—which did indeed happen after the arrests—then it would have caused a significant fuss in the small town of Sondershausen, the result being that the girl would have been expelled from her congregation.”

WHAT WERE YOU EACH FOUND GUILTY OF?

Due to our age of 17, they had to use the youth laws for punishment, which meant a maximum of ten years in detention, no matter if even for mass-murder. At the start of 1994 our trial took place, which was a giant media spectacle. Among other things, the court found us guilty of first degree murder, deprivation of liberty, threat and duress, and bodily injury. (…) Ironically, the section we were sentenced under is one of the few pieces of legislation that remains today from National-Socialist jurisprudence.

Besides the trashy book Satanskinder, at least 3 other books feature our case. However, this book is certainly wrong with its version (although several phrases sound familiar…), due to the fact we refused to cooperate. A TV-film has also been made based on the events in Sondershausen. We have become <Satan murderers> and <Children of Satan> for all time. One could laugh about these stories, which are eternally the same old thing, if only they hadn’t led to such dire consequences. Apart from the media’s self interest for an ongoing story, there are also circles of people that have utilized the media for engaging in personal conflicts with, for example, my parents. It has long since ceased to have anything to do with <discovering the truth> (if that ever had even played a role) or <informing the public>. It has to do with chicanery, with calculated slander. It can further be asserted in my case that I turn more and more into the archetype of the scapegoat. I am the modern Loki, whom the gods punished for their own sins.

Andreas was released a year before Sebastian and I. After getting reacquainted with the scene for a half-year (among other things, he attended a Mayhem reunion concert in Bischofswerda), he retreated completely back into his private life. He broke off all contacts, lives with his girlfriend, and has a good job. Even if I was unhappy about his <departure>, I nevertheless wish him all the best.

Sebastian has totally devoted himself to a folkish world of ideas. He is married and has made a small circle of friends and acquaintances in which he actually plays the same role as he once did in our clique in Sondershausen. In the meantime he has also recorded and released new Absurd material. In addition he sings with Halgadom, a joint project with the band Stahlgewitter who are friends of his. He has only a peripheral contact with the scene, a situation that has probably kept him out of the media’s sights. It is different with me, for I have always had and maintained numerous contacts in the scene. In addition, I worked at Darker Than Black Records, through which I naturally was in a more prominent situation than my two former accomplices. Since then the media has decided to put me in the stocks and clothe me as their new scapegoat. Because I also nurtured an association with nationalistically inclined people, I have been charged severely. Nobody was interested in the facts anymore, the only thing that counted was sensationalism.”

Beginning meagerly with hymns to demons discovered in Satanic horror films, the early demo cassettes of the band are low-fi chunks of adolescent noise, soaked with distortion and offering unintentionally humorous spoken introductions to the songs. Their music is more akin to ’60s garage Punk than some of the well-produced Black Metal of their contemporaries—but what they lacked by way of musical execution they were more than willing to make up for with the real-life execution of the sad figure of Sandro Beyer.” “If there is any clear spiritual mentor behind Absurd’s transformation over the years, it is Varg Vikernes. Varg himself seems to be aware of this, and smiles when talking of recent events inspired by what happened in Norway: <In Germany some churches have burned. And there are the Absurd guys, who have also turned neo-Nazi…>”

The long quotation Hendrik attributes to <Herr Wolf> at the end of the interview is in actuality the words of Adolph Hitler, speaking of the new prototype of hardened, pitiless youth which Nazi Germany would produce.”

WHITEWASHED CARBON COPY: “Such sentiments would make Varg Vikernes proud. Absurd’s own tiny record label, Burznazg, takes its name from a term Varg once planned to use for his own operations, and the most infamous criminal in Norway was surely proud to know of the Tribute to Burzum compilation CD project initiated by Hendrik Möbus and friends.”

Möbus also reveals the existence of a Germanic <Black Circle> which he claims the members of Absurd are also connected to, called Die Teutsche Brüderschaft (Teutonic Brotherhood). The Brüderschaft is mentioned prominently in the dedication list on Absurd’s debut CD.”

In July of 1999 announcements circulated about the release of Absurd’s new 4-song CD entitled Asgardsrei. The CD featured a more aesthetic presentation and an evolved sound, although with much of Absurd’s garage-band ambience still intact. Guests on the release included Graveland’s Rob Darken and well as an <ex-member of the German mainstream band Weissglut>. The end of the advertisement advised interested customers to <ORDER IT NOW before ZOG¹ take YOUR copy>.”

¹ “A sarcastic acronym for Zionist Occupational Government, often employed in radical political circles to describe any of the present-day Western democratic states.”

The public prosecutor had now decided to launch an effort to revoke Hendrik’s parole on the basis of alleged political crimes he had committed since his release from juvenile prison. These consisted of displaying banned political emblems and also giving a <Hitler salute> at a concert.” “Travelling across the USA, Hendrik passed through a string of ill-fated liaisons with racists upon whom he depended for safe-housing, culminating with two of them violently threatening him. Following this incident, he eventually made his way to the state of West Virginia and to the headquarters of William Pierce’s racialist group the National Alliance. All was relatively quiet for a number of weeks until Hendrik was arrested in late August, 2000 by US federal agents acting on an international warrant. The German government had requested to have Hendrik extradited to face his charges of parole violation.

The press treatment of the case was unusual, with Hendrik being elevated from a <Satanic murderer> to a <neo-Nazi fugitive>. He became an international cause célèbre—garnering headlines in US News and World Report, as well as major papers like the Los Angeles Times and the Washington Post—and his case raised many serious issues about the way in which modern democratic states handle persons who they deem as threats to democracy itself. Soon after his arrest, Hendrik wrote a letter to US President Bill Clinton and Attorney-General Janet Reno and requested status as a political refugee, stating that if he were extradited back to Germany he would be persecuted on account of his political beliefs.” “A <Free Hendrik Möbus> campaign was also launched on the Internet, and William Pierce produced episodes of his radio program American Dissident Voices in which he addressed the topic of Möbus’s case in detail. In the first major ruling, the U.S. magistrate decided that Hendrik was not eligible for political asylum as he was a <convicted felon> in Germany. Hendrik then attempted to appeal the decision. In their commentaries on the case, both he and William Pierce attempted to make the fundamental issue one of free speech, since the actions which resulted in the original parole revocation were not of a violent nature, but rather <political> misdeeds (which would be perfectly legal according to US laws). Both the US and German governments tried to avoid this thorny issue and confine the legal proceedings to the logistical issues of Hendrik’s parole violation itself, rather than debating the validity of the charges that led to the violation.” A FRAQUEZA CONGÊNITA DO TOTALITARISMO: “His strategy for avoiding extradition created a further paradox: he was forced to seek the mercy of liberal democratic political asylum laws—exactly the sort of laws which a strident German nationalist would vehemently oppose in their own country for anti-immigration reasons.”

Two further court judgments against him, one for public display of the Hitler salute and the other for mocking his victim in published statements, have added more than two years of additional incarceration to the time he will serve in jail. It quickly became clear that Hendrik’s personal goal of collaborating with William Pierce in a venture to promote radical Black Metal through the racial music underground would be impossible to realize from a German prison cell. An equally significant obstacle arose exactly one year later when William Pierce died suddenly from cancer on July 23, 2002.”

Gorefest, an antiracist and politically correct Death Metal group.”

The teenager’s room was described as quite ordinary, except for a collection of disturbing compact discs. His neighbors had often noticed sounds blaring from his room, <gnawing music, hard and stressful, which one would hear late at night>—not a bad description of standard Black Metal from an unfamiliar listener.”

When a black-metaller enters a party at nite, we can say he cvlt up from his home.

Jean-Paul Bourre – Les Profanateurs (The Desecrators): “The fascination surrounding the grave of Jim Morrison of The Doors (buried in Paris’ famous Père La Chaise cemetery) and those of other notable personalities is also inexplicably discussed in one chapter. Les Profanateurs desperately attempts to pull all these disparate elements into a sinister scenario in hopes of alarming its readers.” Parece até o livro que estou lendo!

They got pissed and destroyed a few graveyards and subsequently they were in prison for it. The hoo-hah died down pretty quickly over it, and that sort of thing isn’t good for a band of our stature anyway because people get the whole ideology wrong straight away. This is why we kind of branched off from the Norwegian thing because as soon as you’ve got the Black Metal tag, people assume you are a fascist and you’re into Devil worship, which can be linked to child abuse.” Dani Filth, a ovelha negra (lúcida)

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IMAGEM 5. Queen tabloid

The band began fairly quickly to distance themselves from their musical peers in Scandinavia by employing evocative aesthetics in the album artwork, and covering more romanticized themes drawn from nineteenth century literature and poetry. They wore the requisite Black Metal corpsepaint, but began to cultivate an atmosphere befitting of Hammer horror films rather than the one-dimensional <evilness> projected by other groups. Later releases Vempire and Dusk and Her Embrace brought the group to a exponentially increasing audience.”

In a strange political twist, an extremist racial group, the National Radical Party, nominated the singer of Metal band Korrozia Metalla (Коррозия Металла) as a mayoral candidate in Moscow. His name is Sergei Troitsky, AKA Spider, and he normally dresses in black T-shirts, jeans, and jackboots. Korrozia Metalla’s most popular song among fans is called Kill the Sunarefa, a slang term for darkly hued minorities from the south.” “Additional titillation regularly comes from naked females dancers who prance [rebolam, sensualizam] and masturbate on stage beside the musicians.”

The name Russia itself, after all, comes from the predominantly Swedish Viking tribe of the Rus who settled the region in the year 852C.E.[?].”

Poland, too, has a rapidly growing Black Metal scene which is closely linked to the rise of extreme right-wing activity there. The most visible band from that country is Graveland, led by the outspoken frontman Robert Fudali, AKA Darken.”

Fans of extreme Metal in this country are often far less intelligent than their Norwegian or European counterparts.” Which means, actually, that they are more intelligent.

SOCIEDADE DO ESPETÁCULO CONSUMADA: “The primary American interests outside of music include drugs and alcohol, neither of which played any significant part in the Norwegian Black Metal milieu. As a result, any antisocial actions are likely to be misdirected at best. The attempts to interrelate them into any kind of grand Satanic conspiracy are fruitless; the main similitude of these crimes lies in their irrational confusion.”

Singer Glen Benton branded an upside-down cross into his forehead years ago, and (to the obvious irritation of groups like Animal Militia) often advocates animal sacrifice in interviews. Allegedly the band’s albums have sold hundreds of thousands of copies worldwide.”

On April 13th, a group of male teenagers commenced a campaign of mayhem and terror with startling similarities in spirit to the Norse eruption in 1992–93. Calling themselves the Lords of Chaos, the cabal of six began their crusade by burning down a supermarket construction trailer. They followed this with the arson of a Baptist church. The terror spree escalated in perversity when the youths spread gasoline around a tropical aviary cage adjacent to a theme restaurant, then ignited the thatched-roof structure and watched the blaze exterminate the entire collection of exotic birds.”

Finnish groups like Beherit and Impaled Nazarene have enjoyed considerable success worldwide, paving the way for many fans to form their own bands and follow in their footsteps. And just as in Norway, segments of the Black Metal subculture also wed themselves to an especially virulent strain of teenaged Satanism. (…) They wear the distinctive Black Metal make-up, which gives cause for some Finns to call them <penguins>, and they flock to music festivals where their favorite bands play.” É o finlandês da picada…

Finnish metal him! Flo Mounier’s victory!

Unlike the scene in Norway, the crimes connected with Black Metal in Finland emanate from the fans, not the prominent artists. Despite its small size, this confused scene has produced one of the grisliest events to arise anywhere out of the Black Metal phenomenon. In one of the most notable cases in Finnish court history, four young Black Metalers murdered a friend in a scenario which featured overtones of Satanic sacrifice, cannibalism, and necrophilia.” “Reporting on the case is further complicated by the fact that the court has implemented a forty-year secrecy act on the entire legal proceedings.”

Jarno Elg’s career as a glue-sniffer and aspiring alcoholic led to psychiatric care at the young age of 11. He tried hashish the following year. By the time he was 16, young Jarno was drinking daily and devouring books on Satanism. This diet of Kilju [bebida etílica baseada na fermentação da laranja, com gusto e cheiro horríveis, típica da Finlândia], psychoactive chemicals, and teenaged Satanism was bound to go awry.”

The Poetic Edda, translated by Henry Adams Bellows

Sociologist Jeffrey Arnett has described Heavy Metal music as the <sensory equivalent of war.>” Segundo consta, numa rápida googlada, o sr. Arnett é PSICÓLOGO na área da adolescência/jovens adultos, e não SOCIÓLOGO.

[????????????????????????????] In France the journal Napalm Rock is issued regularly under the auspices of the National-Bolshevist political group Nouvelle Résistance.” Erva mais vencida que Hitler em 44.

The rebellious impulse in Metal therefore has yet to synthesize the nihilism with the fascism, and since fascism is a synthesis itself, there’s no reason this cannot eventually be achieved.” Kerry Bolton

The ‘60s music genres were thoroughly phony in their radicalism. Unlike Black Metal (and for that matter Oi, and much Industrial) the ‘60s musicians had no fundamental difference in outlook to the establishment they were supposedly rebelling against.”

ILLUMINATI: “The possibility of being bought off by the music business would most likely be by way of insisting on a return to the specifically anti-Christian themes at the expense of the heathen resurgence, since I’m sure many of the executives of the music industry can co-exist well enough and even utilize anti-Christianity, including Satanism, especially if it is of the nature of yet one more superficial American commodity.”

Será que esses albinos “phoneys” e bastardos utilizam Mozart o Maçom como garoto-propaganda de seu ideário europeu?

According to the police, the Einsatzgruppe was plotting direct action against prominent Norwegian politicians, bishops, and public figures. The group’s plans included a scheme to break Varg Vikernes out of jail by force. The Einsatzgruppe had all the trappings of a paramilitary unit: bulletproof vests, steel helmets, cartridge belts, and ski masks. In addition, the police found a list of 12 firearms and a map for a hiding place at a mountain. However, the only weapons the police confiscated right away were some sawed-off shotguns and dynamite with blasting caps. The police also found a war chest with 100,000 Norwegian Kroner (close to $20,000). This had been supplied by Lene Bore, Varg Vikernes’s mother. She was also arrested and charged with financing an illegal group. Bore confessed, but claimed she had no idea these people were <right-wing extremists>. She expressed concerns about the treatment her son received in jail, and claimed that he was subjected to violence by his fellow inmates. This was dismissed as unfounded by the prison director. However, it is true that Varg’s jaw had been broken in an altercation with another inmate in late 1996.” “Curiously, Bore could not be prosecuted under Norwegian law—conspiracy to break the law is not illegal if it is done to help a close family member.” “The group was, according to some sources, aiming to escape with the freed Vikernes to Africa—hardly the hideout of choice for passionate racists.”

The stigma associated with Nazism is much stronger in Norway than it is in neighboring Sweden or the US, where most of the Norwegian Nazis draw their inspiration from. This is largely due to the fact that Norway was occupied by Nazi Germany from 1940 to 1945.”

The Mayor of Brumunddal was subjected to what one would call low-level harassment. No physical attacks, no real serious vandalism, but an endless stream of mail-order merchandise, pizzas and ambulances ordered in his name. Pornographic photo montages were also posted along the route his children walked to school. Two of the activists from Brumunddal defecated on the steps of the town hall to express their discontent with municipal policy. They thought this was really smart, so they did it once more, and then were caught.”

Gaston Bachelard – Psychoanalysis of Fire

Fire stirs the spirit of human artistry; it is the spark of the will-to-create. It expresses the polarity of emotions, as Bachelard notes, and represents both the passionate higher ideals, as well as the hot and consuming tempers of irrationality.”

Most people have lost interaction with real fire; the once universal, mystical experience of blazing night fires is gone from their lives. Stoking the flames of resentment or dissension is frowned upon in a world which depends on the smooth exchange of services. Those possessed of unrestrained spirit are silenced, or ordered to fit in. Their tendencies must be stifled. Extreme emotions are shunned; those who act on them become outcasts. Mainstream culture produces a bulging sea of quaint diversions, the ostensible rewards for good behavior. The music and art made available to the masses has the consistency of soft, damp pulp—hardly a conducive medium for fire.”

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* * *

ANEXOS

It’s not good for us to laugh. We have nothing to laugh at in this laughable society.” Varguxo

The wild hunt appeared in many legends—a ghostly flock of dark, martial shapes riding through the night on their horses through the woods, lead by Odin, the one-eyed ruler of the dead, or sometimes by a female rider… a perception that in Christian times was transposed onto the Archangel Michael and his hosts.”

The Austrian folklorist Otto Höfler was able to prove in his books Kultische Geheimbünde der Germanen and Verwandlungskulte (Transformation Cults) that the wild hunt was not at all a mythological interpretation of storms, thunder, or flocks of birds—as many researchers thought—but a union of mythology and folklore, of myth and reality which was of great importance in the Nordic mystery cults.” “Höfler stressed that in the Germanic Weltanschauung, like that of most pre-Christian cultures, there was no sharp distinction between this world and the one beyond—the borders were fluid. The folklore of the cult groups was often very brutal. With or without drugs the members felt a furor teutonicus which Höfler called a <decidedly terroristic ecstasy> with various excesses”

Beer was was their special goal—kegs were stolen or secretly emptied, sometimes to be refilled with water or horse urine, or they themselves urinated back into the barrels. Often horses were also stolen; they became the property of the Oskorei. In the morning the farmers found their horses completely exhausted, or they had to search for them because the apocalyptic riders had set them free somewhere.”

Hoping for a rich harvest, one accepted the demands and offenses of the Oskorei as part of the bargain. Similar perceptions existed in the Alps when the Perchten were given nourishment as they went from house to house, or they were allowed to plunder the pantry.” “Gradually, however, many farmers were no longer willing to accept the outrages of the Oskorei. The cultic background of the thefts and pranks fell into oblivion, becoming superstition. The sympathy of the populace disappeared—now the disguised young men were no longer considered embodiments of the dead or fertility demons, but rather trouble-makers and evil-doers.” “The louder the drums, bells, cries, rattles, and whips, the more effective the noise magic became.”

They dress as ghostly as possible, speaking with a falsetto voice, reaching ecstasy by dancing, music and noise. … Their clothes should be as nightmarish as possible. They attempted to dress as ugly as they were able. They had terrible eyes, with big white rings or painted up with coal. (Johannessen, Norwegisches Burschenbrauchtum. Kult und Saga. Wien, 1967 (dissertation), pp. 13, 95.)”

The disguised members of the Oskorei altered their voices and gave themselves false names—they represented demons and had to remain unknown. In Black Metal as well only a few musicians use their real names; many take pseudonyms from Nordic history and mythology and in the meantime it is possible to find in Black Metal culture almost all deities of the Eddas.”

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IMAGEM 6. O Grito, de Munch, pintor norueguês expressionista.

But Black Metal is above all heathen noise, electronically enhanced. The music is powerful, violent, dark and grim; a demonic sonic art with several elements in common with the Norwegian expressionist painter Edvard Munch, whose famous work The Scream would fit well on a record cover. The eternal recurrence of certain leitmotifs, the dark blazing atmosphere, the obscure, viscous sonic landscape of many songs—often lasting more than ten minutes— have at times an almost psychedelic effect. In the heaviness and darkness of certain compositions it is possible to realize some subliminal melodies only after listening to these works several times. Black Metal is a werewolf culture, a werewolf romanticism.”

<A hard heart was placed in my breast by Wotan.> (Nietzsche, Beyond Good and Evil, aph. 260)” Muito bacana descontextualizar aforismos!

The first song I heard by Burzum was Det Som Engang Var in the CD Hvis lyset tar oss. Even now this song remains for me the most beautiful and powerful work of Burzum; its symphonic sonic violence is impressive over and over again. It is a 14-minute-long composition full of grim, blazing beauty—dark and fateful. The uniquely hair-raising, screaming-at-the-heavens vocal of Varg Vikernes turns the piece into an expressionistic shriek-opera, the words of which are probably incomprehensible even for Norwegians. The song was composed in the spring of 1992. Another work which fascinates me very much is Tomhet (Emptiness), on the same CD. This song too has an extraordinary length; from my point of view it is an exceptional soundtrack to the Norwegian landscape—that is, Norway as I imagine it, a country ruled by silence and storm, solitude and natural violence.”

I am no racist because I do not hate other races. I am no Nazi either, but I am a fascist. I love my race, my culture, and myself. I am a follower of Odin, god of war and death. He is also the god of wisdom, magic, and poetry. Those are the things I am searching for. Burzum exists only for Odin, the cyclopian enemy of the Kristian god. I do not consider my ideas to be extreme at all. That which stupid people call evil is for me the actual reason to survive.”

Daniel Bernard – Wolf und Mensch. Saarbrücken, 1983. [outro?]

Mircea Eliade – Shamanismus und archaische Ekstasetechnik. Frankfurt, 1991.

Rudolf Simek – Lexikon der Germanischen Mythologie. Stuttgart, 1984.

Grimm, Jacob – Teutonic Mythology (4 Vols). Magnolia, MA: Peter Smith, 1976.

Hoidal, Oddvar K. – Quisling: A Study in Treason. Oslo: Norwegian University Press, 1989.

Tarjei Vesaas – Land of Many Fires

L’ENCYCLOPÉDIE – AM – compilado (1)

* AMANUS, s. m. (Myth.) Dieu des anciens Perses. C’étoit, à ce qu’on croit, ou le soleil ou le feu perpétuel qui en étoit une image. Tous les jours les Mages alloient dans son temple chanter leurs hymnes pendant une heure devant le feu sacré, tenant de la vervaine en main [planta medicinal], & la tête couronnée de tiares dont les bandelettes [bandagens] leur tomboient sur les joues.”

Não há fogo sagrado que não seja apagado por um temporal.

AMAUTAS, s. m. (Hist. mod.) Philosophes du Pérou sous le regne des Incas. On croit que ce fut l’Inca Roca qui fonda le premier des écoles à Cusco, afin que les Amautas y enseignassent les Sciences aux Princes & aux Gentils-hommes; car il croyoit que la science ne devoit être que pour la Noblesse. Le devoir des Amautas étoit d’apprendre à leurs disciples les cérémonies & les préceptes de leur religion; la raison, le fondement & l’explication des lois; la politique & l’Art Militaire; l’Histoire & la Chronologie; la Poësie même, la Philosophie, la Musique & l’Astrologie. Les Amautas composoient des comédies & des tragédies qu’ils représentoient devant leurs Rois & les Seigneurs de la Cour aux fêtes solemnelles. Les sujets de leurs tragédies étoient des actions militaires, les triomphes de leurs Rois ou d’autres hommes illustres. Dans les comédies ils parloient de l’agriculture, des affaires domestiques, & des divers évenemens de la vie humaine. On n’y remarquoit rien d’obscene ni de rampant; tout au contraire y étoit grave, sententieux, conforme aux bonnes moeurs & à la vertu. Les acteurs étoient des personnes qualifiées; & quand la piece étoit joüée, ils venoient reprendre leur place dans l’assemblée, chacun selon sa dignité. Ceux qui avoient le mieux réussi dans leur rôle recevoient pour prix des joyaux ou d’autres présens considérables. La poësie des Amautas étoit composée de grands & de petits vers où ils observoient la mesure des syllabes. On dit néanmoins qu’au tems de la conquête des Espagnols ils n’avoient pas encore l’usage de l’écriture, & qu’ils se servoient de signes ou d’instrumens sensibles pour exprimer ce qu’ils entendoient dans les Sciences qu’ils enseignoient. Garcilasso de la Vega, Hist. des Incas, liv. II. & IV.

AMAZONE, s. f. (Hist. anc.) femme courageuse & hardie, capable de grands exploits.

Amazone, dans un sens plus particulier, est le nom d’une nation ancienne de femmes guerrieres, qui, dit-on, fonderent un Empire dans l’Asie mineure, près du Thermodon, le long des côtes de la mer Noire.

Il n’y avoit point d’hommes parmi elles; pour la propagation de leur espece, elles alloient chercher des étrangers; elles tuoient tous les enfans mâles qui leur naissoient, & retranchoient aux filles la mammelle droite pour les rendre plus propres à tirer de l’arc. C’est de cette circonstance qu’elles furent appellées Amazones, mot composé d’<A> privatif, & de MAO, mammelle, comme qui diroit sans mammelle, ou privées d’une mammelle.

Não havia homens entre elas; para a propagação da espécie elas procuravam estrangeiros; elas matavam todas as crianças macho que lhes nasciam, e decepavam nas mulheres a mama direita para torná-las mais aptas no exercício do tiro de arco. Provém dessa circunstância o chamarem-nas Amazonas, palavra composta do ‘A’ privativo, e de MAO, mama, como que dizendo sem mamas, ou privadas de uma das mamas.

Les Auteurs ne sont pas tous d’accord qu’il y ait eu réellement une nation d’Amazones. Strabon, Paléphate, & plusieurs autres le nient formellement: mais Hérodote, Pausanias, Diodore de Sicile, Trogue Pompée, Justin, Pline, Pomponius Mela, Plutarque, & plusieurs autres, l’assurent positivement. Hippocrate dit qu’il y avoit une loi chez elles, qui condamnoit les filles à demeurer vierges, jusqu’à ce qu’elles eussent tué trois des ennemis de l’État. Il ajoûte que la raison pour laquelle elles amputoient la mammelle droite à leurs filles, c’étoit afin que le bras de ce côté-là profitât davantage, & devînt plus fort.

Quelques Auteurs disent qu’elles ne tuoient pas leurs enfans mâles; qu’elles ne faisoient que leur tordre les jambes, pour empêcher qu’ils ne prétendissent un jour se rendre les maîtres.

M. Petit Medecin de Paris, a publié en 1681, une dissertation latine, pour prouver qu’il y a eu réellement une nation d’Amazones; cette dissertation contient quantité de remarques curieuses & intéressantes sur leur maniere de s’habiller, leurs armes, & les villes qu’elles ont fondées. Dans les médailles le buste des Amazones est ordinairement armé d’une petite hache d’armes appellée bipennis, ou securis, qu’elles portoient sur l’épaule, avec un petit bouclier en croissant que les Latins appelloient pelta, à leur bras gauche: c’est ce qui a fait dire à Ovide, de Ponto.

Non tibi amazonia est pro me sumenda securis, Aut excisa levi pelta gerenda manu.

Des Géographes & voyageurs modernes prétendent qu’il y a encore dans quelques endroits des Amazones. Le P. Jean de Los Sanctos, Capucin Portugais, dans sa description de l’Éthiopie, dit qu’il y a en Afrique une République d’Amazones; & AEnéas Sylvius rapporte qu’on a vû subsister en Boheme pendant 9 ans, une République d’Amazones fondée par le courage d’une fille nommée Valasca [Popazuda].”

AMAZONES. riviere des Amazones; elle traverse toute l’Amérique méridionale d’occident en orient, & passe pour le plus grand fleuve du monde. On croît communément que le premier Européen qui l’a reconnu fut François d’Orellana, Espagnol; ce qui a fait nommer cette riviere par quelques-uns Orellana: mais avant lui, elle étoit connue sous le nom de Maranon (qu’on prononce Maragnon) nom qu’elle avoit reçû, à ce qu’on croit, d’un autre Capitaine Espagnol ainsi appellé. Orellana dans sa relation dit avoir vû en descendant cette riviere, quelques femmes armées dont un cacique Indien lui avoit dit de se défier: c’est ce qui l’a fait appeller riviere des Amazones.

La carte très-défectueuse du cours de la riviere des Amazones dressée par Sanson sur la relation purement historique d’un voyage de cette riviere que fit Texeira, accompagné du P. d’Acunha Jésuite, a été copiée par un grand nombre de Géographes, & on n’en a pas eû de meilleure jusqu’en 1717 qu’on en publia une du P. Fritz Jésuite, dans les lettres édifiantes & curieuses.

Enfin M. de la Condamine, de l’Académie Royale des Sciences, a parcouru toute cette riviere en 1743; & ce voyage long, pénible, & dangereux, nous a valu une nouvelle carte de cette riviere plus exacte que toutes celles qui avoient précédé. Le célebre Académicien que nous venons de nommer a publié une relation de ce voyage très-curieuse & très-bien écrite, qui a été aussi insérée dans le volume de l’Académie Royale des Sciences pour 1745. Nous y renvoyons nos Lecteurs, que nous exhortons fort à la lire. M. de la Condamine dit qu’il n’a point vû dans tout ce voyage d’Amazones, ni rien qui leur ressemble; il paroît même porté à croire qu’elles ne subsistent plus aujourd’hui; mais en rassemblant les témoignages, il croit assez probable qu’il y a eu en Amérique des Amazones, c’est-à-dire une société de femmes qui vivoient sans avoir de commerce [bom eufemismo!] habituel avec les hommes.”

AMAZONIUS, nom donné au mois de Décembre par les flateurs de l’Empereur Commode, en l’honneur d’une courtisanne qu’il aimoit éperdument, & qu’il avoit fait peindre en Amazone: ce Prince par la même raison prit aussi le surnom d’Amazonius.” Êta amor mais brega!

AMBA. Manga!

AMBAGES, s. m. (Belles-Lettres.) mot purement Latin adopté dans plusieurs langues, pour signifier un amas confus de paroles obscures & entortillées dont on a peine à démêler le sens; ou un long verbiage [verborragia], qui, loin d’éclaircir les choses dont il s’agit, ne sert qu’à les embrouiller. V. Circonlocution.

encyclopedie AMbaiba

* AMBAIBA [foto], arbre qui croît au Brésil; il est très-élevé; son écorce ressemble à celle du figuier; elle couvre une peau mince, épaisse, verte & gluante; son bois est blanc, comme celui du bouleau, mais plus doux & plus facile à rompre; son tronc est de grosseur ordinaire, mais creux depuis la racine jusqu’au sommet; sa feuille est portée sur un pédicule épais, long de deux ou trois piés, d’un rouge foncé en dehors, & spongieux au-dedans; elle est large, ronde, découpée en neuf ou dix lanieres, & chaque laniere a sa côte, d’où partent des nervures en grand-nombre; elle est verte en dessus, cendrés en dessous, & bordée d’une ligne grisârre; le haut du creux donne une espece de moelle que les Negres mettent sur leurs blessures; les fleurs sortent de la partie supérieure du tronc, & pendent à un pédicule fort court, au nombre de 4 ou 5; leur forme est cylindrique; elles ont 7 à 9 pouces de long, sur un pouce d’épaisseur; leur cavité est pleine de duvet; il y a aussi des amandes [amêndoas] qui sont bonnes à manger, quand les fleurs sont tombées; les habitans du Brésil font du feu avec sa racine seche sans caillou ni acier [sem aço nem pedra]; ils pratiquent un petit trou; ils sichent dans ce trou un morceau de bois dur & pointu qu’ils agitent avec beaucoup de vitesse; le bois percé est sous leurs piés, & le bois pointu est perpendiculaire entre leurs jambes: l’agitation suffit pour allumer l’écorce.

On attribue à sa racine, à son écorce, à sa moelle, à sa feuille, au suc de ses rejettons, une si grande quantité de propriétés, que les hommes ne devroient point mourir dans un pays où il y auroit une douzaine de plantes de cette espece, si on en savoit faire usage. Mais je ne doute point que ceux qui habitent ces contrées éloignées ne portent le même jugement de nos plantes & de nous, quand ils lisent les vertus merveilleuses que nous leur attribuons [muito bem-percebido].

AMBASSADE. (…) L’histoire nous parle aussi d’ambassadrices; Mme la Maréchale de Guebriant a été, comme dit Wicquefort, la premiere femme, & peut-être la seule, qui ait été envoyée par aucune Cour de l’Europe en qualité d’ambassadrice. Matth. liv. IV. Vie d’Henri IV. dit que le Roi de Perse envoya une Dame de sa Cour en ambassade vers le Grand Seigneur pendant les troubles de l’Empire.”

AMBASSADEUR. (…) Ils croient donc que chez les Barbares qui inonderent l’Europe, ambascia signifioit le discours d’un homme qui s’humilie ou s’abaisse devant un autre, & qu’il vient de la même racine qu’abaisser, c’est-à-dire de an ou am & de bas.

(…)

Les ambassadeurs ordinaires sont d’institution moderne; ils étoient inconnus il y a 200 ans: avant ce tems-là tous les ambassadeurs étoient extraordinaires, & se retiroient sitôt qu’ils avoient achevé l’affaire qu’ils avoient à négocier. (…) A la vérité il n’y a nulle différence essentielle entre ambassadeur ordinaire & ambassadeur extraordinaire [ambos são perfeitamente inúteis]”

(…)

Le nom d’ambassadeur, dit Ciceron, est sacré & inviolable: non modo inter sociorum jura, sed etiam inter hostium tela incolume versatur. In Verr. Orat. VI. Nous lisons que David fit la guerre aux Ammonites pour venger l’injure faite à ses ambassadeurs, liv. II. Rois, 10. Alexandre fit passer au fil de l’épée les habitans de Tyr, pour avoir insulté ses ambassadeurs. La jeunesse de Rome ayant outragé les ambassadeurs de Vallonne [?], sut [fut?] livrée entre leurs mains pour les en punir à discrétion.

(…)

Dans toutes les autres Cours de l’Europe l’ambassadeur de France a le pas sur celui d’Espagne, comme cette Couronne le reconnut publiquement au mois de Mai 1662, dans l’audience que le Roi Louis XIV donna à l’ambassadeur d’Espagne, qui, en présence de 27 autres tant ambassadeurs que, envoyés des Princes, protesta que le Roi son maître ne disputeroit jamais le pas à la France. Ce fut en réparation de l’insulte faite à Londres l’année précédente par le Baron de Batteville, ambassadeur d’Espagne, au Comte d’Estrades, ambassadeur de France: on frappa à cette occasion une médaille.”

AMBIDEXTRE. “Hippocrate dans ses Aphorismes prétend qu’il n’y a point de femme ambidextre: plusieurs Modernes cependant soûtiennent le contraire, & citent des exemples en faveur de leur sentiment: mais s’il y a des femmes ambidextres, il faut avoüer du moins qu’il y en a beaucoup moins que d’hommes.”

AMBLYOPIE, s. f. est une offuscation ou un obscurcissement de la vûe, qui empêche de distinguer clairement l’objet, à quelque distance qu’il soit placé. Cette incommodité vient d’une obstruction imparfaite des nerfs optiques, d’une suffusion légere, du défaut ou de l’épaisseur des esprits, &c. Quelques-uns comptent 4 espèces d’amblyopies; savoir, la myopie, la presbytie, la nyctalopie, & l’amaurosis. Voyez chacune à son article. Blanchard. (N)

AMBRE-GRIS. “autrefois l’ambre étoit à la mode en France: combien ne voit-on pas encore de coupes, de vases & d’autres ouvrages faits de cette matiere avec un travail infini? mais les métaux précieux, les pierres fines & les pierreries l’ont emporté sur l’ambre-jaune dès qu’ils ont été assez communs pour fournir à notre luxe.”

AMBROSIA, nom que les Grecs donnoient à une fête que l’on célebroit à Rome le 24 Novembre en l’honneur de Bacchus. Romulus l’avoit instituée, & les Romains l’appelloient brumalia.”

AMBROSIE, s. f. dans la Théologie des payens, étoit le mets dont ils supposoient que leurs dieux se nourrissoient. Voyez Dieu & Autel. Ce mot est composé d’A’ privatif & de BROTO\, mortel; ou parce que l’ambrosie rendoit immortels ceux qui en mangeoient, ou parce qu’elle étoit mangée par des immortels.”

ON THE FUNCTIONS OF THE BRAIN AND OF EACH OF ITS PARTS: with observations on the possibility of determining the instincts, propensities, and talents, or the moral and intellectual dispositions of men and animals, by the configuration of the brain and head. – Vol. I (out of VI): “On the Origen of The Moral Qualities and Intellectual Faculties of Man, And The Conditions of Their Manifestation.” – François Joseph GALL (translated from the French by Winslow Lewis) (1835)

THE PHRENOLOGICAL LIBRARY

Volume 9 da coleção: Macknish – The Philosophy of Sleep

BIOGRAPHY-BIOGRAPHERS OF DR. GALL & HIS LETTERS TO HIS FRIENDS AND SPONSORS

He then observed, that his schoolfellows, so gifted, possessed prominent eyes [?]; and he recollected, that his rivals in the first school had been distinguished by the same peculiarity. (…) and, although the connection betwixt the talent and the external sign was not at this time established upon such complete evidence as is requisite for a philosophical conclusion, yet Dr. Gall could not believe that the coincidence of the two circumstances thus observed was entirely accidental.”

By degrees, he conceived himself to have found external characteristics, which indicated a decided disposition for Painting, Music, and the Mechanical Arts. He became acquainted, also, with some individuals remarkable for the determination of their character, and he observed, a particular part of their heads to be very largely developed. (…) Hitherto he had been altogether ignorant of the opinions of Physiologists, touching the brain, and of Metaphysicians respecting the mental faculties, and had simply observed nature. (…) He found that the moral sentiments had, by an almost general consent, been consigned to the thoracic and abdominal viscera; and, that while Pythagoras, Plato, Galen, Haller, and some other Physiologists, placed the sentient soul or intellectual faculties in the brain, Aristotle placed it in the heart, Van Helmont in the stomach, Des Cartes (sic) and his followers in the pineal gland, and Drelincourt and others in the cerebellum.

we were accused of want of will, or deficiency in zeal; but many of us could not, even with the most ardent desire, followed out by the most obstinate efforts, attain in some pursuits even to mediocrity; while in some other points, some of us surpassed our schoolfellows without an effort, and almost, it might be said, without perceiving it ourselves.”

Hitherto he had resorted only to Physiognomical indications, as a means of discovering the functions of the brain. On reflection, however, he was convinced that Physiology was imperfect when separated from Anatomy. (…) In every instance, when an individual, whose head he had observed while alive, happened to die, he used every means to be permitted to examine the brain, and frequently did so; and he found, as a general fact, that on removal of the skull, the brain, covered by the dura mater presented a form corresponding to that which the skull had exhibited in life.”

Dr. Gall was first known as an author by the publication of 2 chapters of an extensive work, entitled <Philosophisch-medicinische Untersuchungen über Natur und Kunst im gesunden und kranken Zustande des Menschen, Wien, 1791.> (…) This paper is a valuable document for the history of the science, and should convince every one that to Gall alone belongs the glory of having discovered the true physiology of the brain.”

And do not blame me for not making use of the language of Kant. I have not made progress enough in my researches to discover the particular organ for sagacity, for depth, for imagination, for the different kinds of judgement, &c.”

After having collected the result of my tedious experiments, I have built up a theory of their laws of relation.

man possesses, besides the animal qualities, the faculty of speech, and unlimited educability, – two inexhaustible sources of knowledge and action.”

Can it be, that there is any merit in the continence of those who are born eunuchs?”

A man like you possesses more than double the quantity of brain in a stupid bigot [intolerante, fanático, idiota, Davi]; and at least 1/6 more than the wisest or the most sagacious elephant.”

in old age, the hearing generally diminishes before the sight; while the taste almost always remains unimpaired.”

Is, then, the form of the skull moulded upon that of the brain?”

Men, unhappily, have such an opinion of themselves that each one believes that I am watching for his head as one of the most important objects of my collection. Nevertheless, I have not been able to collect more than 20 in the space of 3 years, if I except those that I have taken in the hospitals, or in the asylum for idiots. If I had not been supported by a man, who knows how to protect science, and to consult prejudices, by a man justly and universally esteemed for his qualities of mind and for his character, I should not have been able, in spite of all my labors, to collect even a few miserable specimens.

There are those, indeed, who do not wish that even their dogs and monkeys should be placed in my collection after their death. It would be very agreeable to me, however, if persons would send me the heads of animals, of which they have observed well the characters (…) every kind of genius should make me the heir of his head. (…) It would be assuredly dangerous for a [Caspar] Castner¹, a Kant, a Wieland², and other like celebrated men, if the exterminating angel of David were placed under my order; but, with Christian patience, I shall wait the tardy will of Providence.”

¹ Um missionário jesuíta, um dos primeiros antropólogos modernos da China.

² Poeta.

Why has no one preserved, for us, the skulls of Homer, Ovid, Virgil, Cicero, Hippocrates, Boerhaave, Alexander, Frederic, Joseph II, Catharine (sic), Voltaire, Rousseau, Locke, Bacon, and of others? – what ornaments for the beautiful temples of the muses!”

Here I imagine that I am a Jupiter, who beholds from the heavens his animal kingdom crowding upon the earth. Think a little of the immense space which I am going to pass through: — from the zoophyte, to the simple polypus, up to the philosopher and the theosophist? I shall hazard, like you, gentlemen poets, some perilous leaps. (…) I create insects, birds, fishes, mammalia. I make lap-dogs for your ladies, and horses for your beaux; and for myself, men, that is to say, fools and philosophers, poets and historians, theologians and naturalists. I end, then, with man, as Moses told you long before”

lasting peace among men will be always but a dream.”

Of the difference between the Heads of Men and Women. That which I could say on this subject must remain entre nous. We know very well that the heads of the women are difficult to unravel.”

I rather think that the wise men have baptized the child before it was born; they call me craniologist, and the science which I discovered, craniology; but, in the first place, all learned words displease me; next, this is not one applicable to my profession, nor one which really designates it.”

I admit no exceptions in the works of nature.”

I remark I have not sufficiently appreciated the a priori, that is to say, the philosophy which is to be founded upon the a piori. I have had the weakness in this, to judge others by myself (…) It was always difficult for me to reason soundly upon the experiments which I make, as well as upon those made by others, although I am persuaded that I can collect truths only on the highway of experience. It is possible, nevertheless, very possible, that others have a more favorable organization than I have to arrive at knowedge (sic) a priori

Having continued his lectures for 5 years, on the 9th of January, 1802, the Austrian Government issued an order that they should cease; his doctrine being considered dangerous to religion. (…) the prohibition strongly stimulated curiosity, and all publications on the subject continued to be permitted, provided they abstained from reflecting on the Government for issuing the <general order.>”

Conferenciou com o dr. Spurzheim, seu ex-aluno, por 35 cidades européias, a maioria na Alemanha. Acabou por se fixar em Paris 2 anos depois.

In these travels I experienced every where the most flattering reception. Sovereigns, ministers, philosophers, legislators, artists seconded my design on all occasions, augmenting my collection, and furnishing me every where with new observations. The circumstances were too favorable to permit me to resist the invitations which came to me from most of the Universities.”

His assertions were supported by a numerous collection of skulls, heads, casts; by a multiplicity of anatomical and physiological facts. Great indeed was the ardor excited among the Parisians, by the presence of the men who, as they supposed, could tell their fortunes by their hea[n]ds. Every one wanted to get a peep at them; every one was anxious to give them a dinner, or supper; and the writer of this article actually saw a list on which an eager candidate was delighted to inscribe himself for a breakfast, distant only 3 months and ½; at which breakfast, he sat a wondering guest.”

Chenevix

M. Cuvier was a man of known talent and acquirements, and his mind was applicable to many branches of science. But what equally distinguished him with the versatility of his understanding, was the suppleness of his opinions. He received the German Doctors with much politeness. He requested them to dissect a brain privately for him and a few of his learned friends; and he attended a course of lectures, given purposely for him and a party of his selection.”

Porém ainda na era napoleônica a Frenologia viria a decair, como na Áustria, como uma inimiga do Estado: “Napoleon was unquestionably a good judge of character and had his favorite rules in deciding upon the motives and designs of men. It was not in his nature to be either ignorant of, or indifferent to, the doctrines of Gall. Conscious of his own superiority, and eminently proud and selfish, it is not to be supposed that he would favor a system which opened to all the origin and nature of human actions. In admitting such a theory as that of Gall, he would himself become a subject of remark and investigation by his own consent; and, however well he might have liked the principles of organology, for his own exclusive use, his spirit could never have sanctioned the practice of them in others.”

Lavater¹, Cagliostro², Mesmer³ have never been to my mind; I felt I cannot tell how much aversion for them, and I took care not to admit any one who kept them among us. All these gentlemen are adroit, speak well, excite that fondness for the marvelous which the vulgar experience, and give an appearance of truth to theories the most false and unfounded. Nature does not reveal herself by external forms. She hides and does not expose her secrets. (…) beyond the influence of natural dispositions and of education, all is system, all is nonsense.”

Antommarchi

¹ Escritor, poeta, médico, teólogo e filósofo [!!] alemão (1741-1801). Foi o primeiro a introduzir com mais veemência e otimismo, durante a década de 1770, a idéia de que os estudos fisiognômicos podiam determinar até mesmo as singularidades do caráter do sujeito. Exemplo de obra no campo poético: Pontius Pilatus, oder der Mensch in allen Gestalten. Era famoso por seu temperamento vão; Goethe teria dele se afastado após percebê-lo.

² Ocultista italiano (1743-1795), o principal precursor ideológico do místico mais famoso do séc. XX, o britânico Aleister Crowley.

³ O fundador do Mesmerismo, Franz Mesmer viveu de 1734 a 1815. O Mesmerismo descreveria uma força invisível e poderosa que poderia ser resumida como um magnetismo cósmico-animal. Ele viveu para ver sua doutrina ganhar popularidade nos 1780 e morreu antes da decadência do credo (anos 1850). A confusão entre mesmerismo e hipnose decorre do fato de um “discípulo” de Mesmer ter desenvolvido a técnica hipnótica com base no magnetismo animal. Mémoire sur la découverte du magnetisme animal (1779).

That Cuvier was a phrenologist, there can be but little doubt; neither his Report, or any of his works, warrant us in supposing the contrary. Although political causes had a tendency to influence Cuvier against the doctrines of Gall – nevertheless, these 2 celebrated men were made to understand and esteem each other, and, towards the end of their career, they did each other justice. Gall had already one foot in the grave when Cuvier sent him a cranium, <which,> he said, <appeared to him to confirm his doctrine of the physiology of the brain.> But the dying Gall replied to him who brought it, <Carry it back, and tell Cuvier, that my collection only wants one head more, my own, which will soon be placed there as a complete proof of my doctrine.>

His audience amounted to betwixt 200 and 300; and so eagerly was he attended, that many more tickets were applied for at each course, than could be given, and the apartment was regularly crowded half an hour before the lecture began.”

His death gave rise to a succession of eulogisms and attacks in the French newspapers that had scarcely ever been paralleled, and public sentiment was warmly and loudly expressed in his favor. (…) a French friend adds: <Nothing was wanting to his glory; not even the abuse and calumnies of our devots de gazette.>”

The person of Dr. Gall was well developed; he was 5ft. 2’’” Desde quando alguém com 1,57m é alguém “bem-desenvolvido”? “Every part of his head was strikingly developed, measuring, above the eye-brows and at the top of the ears, 22 inches” Lógico.

VIROU PÉLA-SAQUICE: “The organs of Amativeness [?], Philoprogenitiveness [?], Adhesiveness [cara grudento!], Combativeness, and Destructiveness [!!!] were all very well developed in Gall. His Secretiveness was also rather large, but he never made a bad use of it. He was too conscious of his intellectual powers to obtain his ends by cunning or fraud. He was frank and honest, but acute and penetrating.”

[?] Nomenclaturas do também-assaz-idiótico discípulo n. 1, dr. Spurzheim (supra).

I remember as it were now, Dr. Gall opened his large eyes, fixed them on my countenance with a look of surprise and doubt, and then began to feel my brain [Namekian Goku!]. While he was making his observations, he now and then murmured, <Ce n’est pas vrai! Ce n’est pas possible!!> Shortly after having examined my cranium, he said to Bucher, that an individual with a head so well formed could not be of the character he had just mentioned; that on the contrary, unless I was blind and deaf, by the conformation of my cranium, he thought I was able to acquire general knowledge, particularly the languages, and geographical and astronomical sciences. Moreover, that if I had applied according to the development of my organs, I must be a distinguished person and a mad poet. When I heard this last remark, I told Bucher, Ce n’est pas bien! tu as trahi mon secret. I do not wonder at the Doctor’s accuracy. Bucher swore that he had not betrayed me. Gall remonstrated against my suspicion, and assured me of his being totally unacquainted with my trick; but I remained doubtful about the sincerity of both of them, and continued to be an adversary to Gall and his system.

(…)

Often when I knew the character of some of my soldiers who died, I sent the skulls to Dr. Gall, and requested his opinion; and I must say that more than once his remarks were truly astonishing; but I persisted in my incredulity. In 1810, one of my lieutenants was killed at the battle of Lintz; he was a Pole of a very violent temper, a bloody duellist, and much addicted to sensuality. I forwarded his skull to Dr. Gall, and in answer to my question, he replied, that it belonged to an individual very violent, ferocious, and a sensualist. This time I was the only depositary of my secret.”

Marquis de Moscati, um marquês que só aparece no Google atrelado a polêmicas anti-frenológicas

It cannot be denied that he was amply paid for his public lectures; that he was unfortunate in soliciting the sale of his work; and that he prosecuted some of his patients who refused to pay their bills.” Esse sujeito realmente tinha um dia de 48h… “it must be considered that in his domestic economy he failed in method, and consequently was always pressed by unforeseen and urgent wants. (…) He educated and supported his nephews, and young people of talents, and his table was free to every body (sic) [ou está falando de dissecações e exumações?].”

If they prosper, it is only by their own efforts; like the oak, they are sustained by their own strength, and it is to their own resources that they would be indebted for all they possess.” G.

G. had lived for some time at Berlin, with the celebrated poet Kotzebue, who profited by the occasion to learn of him the technical terms of his science, and such ideas and principles as he could best turn to ridicule. He composed his play, Craniomania, which was immediately performed at the theatre in Berlin, and G. attended the 1st representation, and laughed as heartily as any of them.”

He forgot the residence of his patients whom he had frequently visited in his carriage, and had considerable difficulty in remembering in what story of the building they lived. He was ignorant of geography, and whenever he looked upon a map he found something new, though he had observed it a thousand times before. So we may be sure, that if he traveled it was not from taste, but with the sole object of propagating his doctrines. If it be true, as we believe it is, that there is an organ of Order, Gall was absolutely destitute of it. The arrangement of his house was a curiosity.”

When I rise from the table, I cannot distinguish either man or woman who sat by my side during the meal.”

In verbal memory, Gall was also deficient. The organ of the sense of language, which gives the talent of philology, was a little better developed. He knew, besides his own, the Latin, and French language, which he wrote and spoke with facility, though defective in pronunciation, and had some knowledge of English and Italian.” Filologia não tem rigorosamente nada a ver com poliglotia!

The sense of the relations of colors, which is one of the fundamental qualities indispensable to the painter, was absolutely wanting in Gall.” “As he was a poor judge of painting, so was he as poor an amateur in music. He generally got wearied at the Opera or Concert; but a woman’s voice in conversation, he said, was very agreeable.” Danadinho…

every kind of numerical calculation fatigued him (…) He knew nothing of geometry. What a contrast to those philosophers who make this same science the basis of all positive knowledge! And so he was in mechanics, architecture and the arts.”

comparative sagacity”

All you Englishmen take me for a bird-catcher; I am sure you feel surprised that I am not somewhat differently made to any of you, and that I should employ my time in talking to birds. Birds, Sir, differ in their dispositions like men; and if they were but of more consequence, the peculiarity of their characters would have been as well delineated. Do you think that these little pets [2 dogs at his feet] possess pride and vanity like man?”

the greatest moral philosopher that Europe has produced”

To that other form of human intelligence, viz. the metaphysical, G. was strongly opposed, when it soars into the spiritual world, and pushes its inquiries into general principles and general truths” Tolo.

Observe his piquant observations [rich rhyme?] on the Editors of the Dictionary of Medical Sciences, in answer to the wish expressed by them that somebody would, at last, devote himself to the physiology of the brain. He exclaims <Behold, an instance of lethargy, in MM. Fournier and Begin, which has lasted from the time of my arrival in Paris, 1807, to the year 1819!>”

Moi, space and time, you know, are the pivots on which the metaphysicians turn much of their reasoning.”

Gall could never make verses. He even detested poetry” Alguma dúvida?

even in Italy – that land of despotism, religious and political – Phrenology has been cultivated with the greatest ardor” Hmmm…

O prospecto da Sociedade Francesa de Frenologia: “On the 22nd of August, every year, the anniversary of the death of Gall, the society holds a general public meeting, in which the general secretary gives an account of the labors of the society, reads notices of the members which it has lost and proclaims the names of those whom it has honored, announcing the prizes which it proposes to bestow.”

* A partir deste ponto, pérolas (que já abundam acima, incolores) serão assinaladas especialmente com esta cor marrom-alaranjada:*

That abstract philosophy, which originating in the East, obtained so great a reputation in Greece, and was supported by so much zeal in the new capital of Egypt, abounded with lofty conceptions, and with the sublime creations of a poetical fancy. But to what did it lead? The unhappy fruits of its popularity were the most intolerant dogmatism, and desolating scepticism; while the system was rendered imposing only by a cloak of mysterious importance thrown over it by the mad enthusiasm of its professors.”

The course which he has pointed out is that which will infallibly continue to wander blindfold amidst error and absurdity.”

What sculptor will not comprehend, that, by means of Phrenology, he may be able at a single glance to obtain a key to individual character?” “The painter cannot too strenuously pursue the study of Phrenology: for he has only an even surface on which to delineate his objects, and he may fail in giving them the necessary expression, by neglecting those traits which, however alight, are characteristic and necessary to bring out the distinguishing peculiarities of his subject.” “From ignorance of these principles, the ancients have, in some of their master-pieces, fallen into errors which are now considered monstrous, such as the extreme smallness of the head of the Venus de Medicis. (…) The ancients, when they concealed the enormous size of the head of Pericles, had the same end in view as the moderns, but were more faithful imitators of nature.”

Venus de Medicis.png Now tell me: do you really think so?

INTRODUCTION

The physician alone by night and day is witness of the most secret events in families, and of their most intimate relations. Virtuous or vicious, the man who suffers and struggles against death can with difficulty conceal from the physician his real character. Who would not wish to have for a friend the man to whom he confides his wife, his children, himself?”

We would recommend the keeping of phrenological journal for every patient; at least, noticing the most prominent developments.”

neglecting the useful example of the ancient sages of Greece, men have separated from each other too far physiology, medicine, education, morals, legislation, instead of appreciating their mutual relations” Oh!

MORAL PART

1. OF THE NATURE OF MAN, AND OF THE DIFFERENCE BETWEEN VEGETABLE AND ANIMAL LIFE.

Without a nervous system, there is no mechanical aptitude, no instinct, no propensity, no sentiment, talent, moral quality, or intellectual faculty; no affection, no passion.”

In all animals placed in the scale of living beings above the zoophytes, that is, in all animals properly so called, there exist one or more masses of a gelatinous substance, very vascular, of different color and consistence, which give rise to white threads, called nervous filaments. These filaments unite and form nerves, nervous cords, which go to this or that viscus and there spread themselves. These masses of gelatinous substance, called ganglions or plexuses, these sources of nervous filaments and the nerves formed from them, are more or less numerous, according to the number of parts or viscera with which the animal is provided and for which they are destined.”

Sensation, or organic sensibility without consciousness, is a contradiction in terms, but a contradiction very sagely preserved and professed in our schools.”

Does the fetus and infant, while inclosed in its mother’s womb, enjoy animal life, or a life purely automatic? How ought its destruction to be judged of before the tribunal of sound physiology? Those who maintain that animal life is nothing but a life of relation, an external life, that all our moral qualities and intellectual faculties are the result of impressions on the senses, must necessarily maintain that the fetus and the newly-born infant are still only automata, whose destruction has no relation to an animated being.”

In the cruel alternative of sacrificing the child, or of exposing the mother to almost certain death, the choice cannot be doubtful.” Bichat, o Aborteiro

In the system of Kant, the primitive faculties or functions, pure conceptions and ideas a priori, exist to the number of 25, viz. 2 forms of sensibility, space and time; 12 categories, or pure notions of the understanding, viz. unity (1*), plurality (2*), totality (3*), affirmation (4), negation (5), limitation (6), inherence and subsistence (7*), causality and dependence (8*); society (9); possibility and impossibility (10*); existence and non-existence (11*), necessity and contingence (12*); 8 notions which depend on these, viz. identity, diversity, agreement, contradiction, interior, exterior, matter and form; in fine, 3 forms of reason, consciousness and the soul, God, the universe [? – o excesso de vírgulas do tradutor só me atrapalha!].”

(*) Categorias que Kant (Ou Gall, em uma leitura equivocada? Não tenho condições de afirmar neste momento.) conta, aparentemente de forma bastante arbitrária, como “dualidades unitárias” ou como “unidades trinitárias”, conforme lhe(s) convém; como se não fosse bizarro, anti-didático e distorcido o bastante como base de todo um “sistema crítico da filosofia que se autossuporá atemporal”, vemos como o Dasein estava apenas na infância nesta peculiar regressão ad infinitum no tempo (hehe) que o Ocidente moderno “conseguiu” face aos gregos: o par existência e inexistência (vamos ficar só nesse) é inaceitável. Em síntese, a conta não fecha!

Whether we admit 1, 2, 3, 4, 5, 6 or 7 faculties of the soul, we shall see, in the sequel, that the error is always essentially the same, since all these faculties are mere abstractions. None of the faculties mentioned describes either an instinct, a propensity, a talent, nor any other determinate faculty, moral or intellectual. How are we to explain by sensation in general, by attention, by comparison, by reasoning, by desire, by preference and by freedom the origin and exercise of the principle of propagation; that of the love of offspring, of the instinct of attachment? How explain, by all these generalities, the talents for music, for mechanics, for a sense of the relations of space, for painting, poetry, &tc.?”

God knows where he got this ridiculous vanity.”

she will never be good for anything but a musician.”

The chase is his passion; the more animals he can kill, the happier he is.”

From most ancient to the most modern, they have not made a step further, one than another, in the exact knowledge of the true nature of man, of his inclinations and talents, of the source and motive of his determinations. Hence, there are as many philosophies as pretended philosophers; hence, that vacillation, that uncertainty in our institutions, especially in education and criminal legislation.”

Is it permitted, is it even necessary, to compare man with animals, in order to acquire a complete knowledge of his nature, moral and intellectual?”

2. ON THE ORIGIN OF THE MECHANICAL APTITUDES, INSTINCTS, PROPENSITIES, TALENTS; OF THE MORAL AND INTELLECTUAL FACULTIES OF MAN AND ANIMALS, IN GENERAL.

As respects taste, I have proved that birds and fishes possess it, as well as the mammifera.” “In treating of the organs of the relations of space, colors, and sounds, I shall again prove that those have been wrong who have attributed the faculty of finding one’s way home from a distance to the sense of smell; that of the talent for painting to the eyes; that of music and language, to the hearing.”

the flow of blood to the ear makes us imagine that we hear the sound of bells”

Buffon¹ says: It is by the touch alone, that we can gain complete and real knowledge: it is this sense which rectifies all the others, whose effects would be only illusions, and produce nothing but error in our minds, if touch did not teach us to judge.

This naturalist is so much prejudiced in favor of the advantages which result to us from touch, that, while speaking of the custom of swathing [envolver] the arms of infants, he expresses himself thus: One man has, perhaps, more mind than another only in consequence of having made, from his early childhood, a greater and prompter use of this sense; and we should do well to leave to the child the free use of its hands from the moment of its birth. Those animals which have hands appear to be most intelligent; monkeys do things so similar to the mechanical actions of men, that they would seem to have the same series of bodily sensations for their cause. All the other animals that have not the use of this organ, can have no very distinct acquaintance with the form of things. We may, also, conjecture that animals, which, like the cuttle fish, polypi, and other insects, have a great number of arms or claws, which they can unite and join, and with which they can seize foreign bodies in different places – that these animals, I say, have an advantage over others, and know and choose much better the things suitable for them; and that, if the hand were divided into an infinity of parts, all equally sensible and flexible, such an organ would be a kind of universal geometry.

(…)

The trunk of the elephant is a beautiful example, which will admirably illustrate my position. It is to this single instrument, that this noble animal owes his superiority over all other animals; it is by the possession of it that he seems to hold the middle place between man and brute. What pencil could express all the wonders effected by this sort of universal instrument, better than that of Nature’s painter? (…) he even learns to trace regular characters, with an instrument as small as a pen. (…) The elephant has, therefore, his nose in his hands (…) though this animal be, like all others, deprived of the power of reflecting, still as his sensations are found combined in the organ itself, as they are contemporaneous, and, as it were, indivisible from each other, it is not astonishing, that he should have of himself a species of ideas, and that he should acquire, in a short time, those which it is desired to impart to him.“If birds, notwithstanding the prodigious activity of their nutritive life, have, nevertheless, an intelligence so limited, are so little susceptible of durable attachment and show themselves so little capable of education, do not we find the cause of it in the imperfections of their touch?”

¹ História natural, 5a ed., vol. VI.

It is thus that, thanks to credulity, and the propensity for imitation, the old doctrine of Anaxagoras, which taught that the hand was the cause of human reason, has propagated itself without alteration to our age, which styles itself so enlightened.”

What would your libraries have been without the hands of copyists and compilers? Whatever is marvellous in the history of animals, it is to their trunks, their tails, their antennae, that you are indebted for it.”

Light and sounds strike their respective organs without the will of the animal; whereas he touches nothing without some preliminary exercise of the intellectual faculties.” Bichat

Experience does not show that the mind is always proportionate to the greater or less delicacy of these same senses. Women, for example, whose skin, more delicate than that of man, gives them greater acuteness in the sense of touch, have not more genius than a Voltaire, &c. Homer and Milton were blind at an early age; but what imagination can be stronger and more brilliant? Among those whose sense of hearing is most acute, are any superior to S. Lambert, Saurin, Nivérnois? Those, whose senses of taste and smell are the most exquisite, have they more genius than Diderot, Rousseau, Marmontel, Duclos, &c.? In whatever manner we inquire of experience, she always answers that the greater or less superiority of mind is independent of the greater or less perfection of the organs of the senses.” Helvétius

a stone does not oppress us more than heavy undigested food weights in the stomach”

CONTRA O ANIMAL SOCIAL: “Even at the present time, are not men, in their infancy, more surrounded by animals than by men?”

A QUINTESSÊNCIA ARISTOCRÁTICA

Eu, meu pai, e os figurantes. Todo mundo odeia o Rafa. Sócrates, filho de artífice e parteira. Santo Agostinho, filho de uma devota passiva e de um herege. Napoleão, camponês. Nietzsche filho de um pastor protestante e de uma arraia-miúda, irmão de uma protonazi. Filhos de grandes personalidades: geralmente fracassados. Filhos de funcionários públicos brasilienses: as exceções são incognoscíveis para seus “iguais”. Criança com motricidade elevada e educação de excelência: boneco inflável. Besta-loira decaída reencontra o seu mito original e o cumpre, aniquilando os mesquinhos valores burgueses. Rodes existe, pode ser provada, mas é uma ilha semovente misteriosa que muda de lugar, talvez um reino quântico. O que se sabe é que assim que saltamos na cidadela, inconscientes, repisamos o chão transfigurados. Através dos valores herdados, sem a ajuda de ninguém, aprendemos, lenta e sòfregamente, a reconhecermo-nos no espelho como a reaparição atávica de heróis de tempos inacessíveis. Tudo de uma forma impressionantemente lógica. Pimba! Conjuração e maldição: vendeta cronológica, tempo bálsamo da alma autoedificante. O filho transfigura o puramente plástico em Verbo e Faz-se. Amadurece, por mais que de forma acelerada, sempre tarde demais… Ou vive cada dia uma nova saga, superando a cada décimo terceiro trabalho todos os doze anteriores… Predestinado, é verdade, pelo próprio anseio, este sim, inato e imorredouro, a se tornar predestinado pelas próprias forças. Nascido campeão, com o gosto de fracasso na boca volta a erguer o cinturão. Lembranças inefáveis… Cada frustração foi vingada com juros. Testemunhas mudas. O que não reduz o brilho do espetáculo… Prazer em repetir situações complicadas… Filho de seus parentes espirituais de séculos amarelados e bolorentos, forasteiro em seu ninho, neopocilga. Indiferente aos dentes da roda do tempo, sempre mastigando suas conquistas inauditas, processo de paciência e placidez bovinas… O superanimal. Ressuscitador voluntário de fantasmas carnívoros. Canibal e fratricida. Usa a doença e a decadência física a seu favor para ser melhor amanhã do que é hoje no esplendor teórico das forças. Distorce as teorias num centrifugador de subpartículas… Ri desse teatro automático, mas quer continuar sendo ator. Misantropóide. Mr. Antropossapiensapiens, apex. Influenciador metadigital. Sem análogos viventes. Seus sonhos-pesadelos o puxam de volta toda noite, recordando os motivos principais do seu temperamento camaleônico… imutável. No cerne. Acelera a própria morte, talvez para abreviar suas chances, tornar o jogo finalmente desafiador outra vez. Sábio até quando pródigo e perdulário, reinicia a máquina em derrocada, reinicia, se formata. Um excelente adestrador de si mesmo. Palha amada, mãerretada. Cabeça. Ombros largos. Pernas finas. A mentira não possui estrias! Peter Pandora.

VOLTANDO AOS SERES TELÚRICOS: “This power so little belongs to man, that even when we are our own absolute masters we cannot escape the changes which the succession of years produces in our moral and intellectual faculties.” “the internal faculties do not announce themselves; they are in a state of indifference; they seize nothing and repulse nothing strongly; and as nothing draws these individuals toward a marked end, they have consequently no determinate vocation. Of this great majority of men it is said, with reason, that man is an imitative animal. Precepts, institutions, discussions, the severe exposition of the most interesting truths have but little power over them. [aka, o fracasso da religião de massa, dos aceitos em comunhão e dos crismados]”

Most great men have manifested their future greatness in their early years.” SÍNDROME DE JOHN LOCKE II: “Achilles, concealed under the robes of Pyrrha, seized a sword from among the gifts which Ulysses [Richard] brought”

DV? “Socrates, Pythagoras, Theophrastes, Demosthenes, Shakespeare, Molière, J.J. Rousseau, were the sons of artisans. These examples, with which history abounds, refute Hobbes, who holds that the difference of talents, or of mental faculties, comes from wealth, power and the condition in which one is born.

We even observe, that, in spite of the most decided opposition, and education, the most hostile to the innate character, nature, when endowed with energy, gains the victory both in the good and the bad. Tacitus justifies the instructors of Nero. This prince was cruel from infancy, and to all the lessons of humanity which his masters gave him he only opposed a heart of brass.” “There is an education for common men; the man of genius has the education which he gives himself, and which consists principally in destroying and effacing that which he has received.”

O Mestre nunca sabe ensinar. Isso é ótimo no caso do aprendiz que será um Mestre melhor; e péssimo, mas inevitável, no caso das buchas de canhão que passam por suas mãos.

Mães idiotas comparam seus filhos com os outros filhos – de modo fatalmente realista. Pais idiotas comparam seus filhos consigo mesmos, mas sempre invertendo o resultado. Ambos os diagnósticos são igualmente insuportáveis para o gênio. O gênio não pode se defender do ataque dos parvenus (o porteiro que se tornou servidor do senado, como se isso representasse bulhufas em seu sistema de valores inexplicável aos progenitores), muito menos das humilhações ou altas expectativas do varão: era para seres ainda maior, muito melhor, porque és superior a mim, mas não vejo isso se concretizando em sinais palpáveis; ou bem, sabes que eu, partindo de muito aquém, atingi muito mais além. E estes causos tão simplificados conseguem resumir a complexidade da história universal dos geniais nascidos em leitos de Procusto; os medíocres formam um capítulo enciclopédico à parte…

and why men who excel in one point are so indifferent in everything else?”

Helvétius himself is forced to confess that education would never have changed Newton into a poet, or Milton into an astronomer.”

Philosophers [Freud!] have recourse to small subterfuges to prove that our propensities and our talents are the result of chance. It is, they say, by insignificant impressions on the infant at the breast, by peculiar examples and events, that sometimes one faculty is determined and sometimes another. (…) Milton would not have written his poem had he not lost his place of secretary to Cromwell. (…) [But] how many secretaries lose their places without becoming Miltons! How many are in love, and write verses like Corneille and Racine; yet, these poets have found no equals among their successors.”

there exists no virtue, no moral precept, which has not been recommended, no faculty relative to human occupations which has not been more or less exercised. Cain was a laborer; Abel, a shepherd; the children of Jubal played on all sorts of wind and stringed instruments; the children of Tubal Cain were skillful workmen in iron and copper; Nehemiah established regulations of police”

COMO NEGAR AMIGOS E DESENCORAJAR PESSOAS, REFUTANDO MESMO ALGUNS AFORISMOS DE NIETZSCHE: “Quintilian ridicules the ancient maxim <that anybody, by means of constant application, may become an orator>. If precepts, says he, could bestow the art of eloquence, everyone would be eloquent.

Os homens ignoram aquilo que são capazes de fazer antes de, por experiência, tomarem nota daquilo que podem fazer segundo a própria natureza. (…) Assim, homens se sagraram poetas e oradores sem nem mesmo sonharem fazê-lo. Numa palavra, tudo que se tornaram, já o eram, por natureza; ninguém estudou para ser tal ou tal coisa, até perceber, de súbito, que havia sido dotado pela natureza com um talento específico. A natureza sempre dispôs das coisas, e sempre disporá: essa é uma afirmação que nunca será repetida demais.” Condillac

3. ON THE CONDITIONS REQUIRED FOR THE MANIFESTATION OF MORAL QUALITIES AND INTELLECTUAL FACULTIES.

The brain is formed and increases gradually until it has attained its perfection, and this perfection takes place only between 20 and 40 years of age.”

If dwarfs, who enjoy their intellectual faculties to a certain degree, appear to form an occasional exception to this law, the size of the head has not been duly noticed, which, in these cases, is always very disproportionate to the rest of the body. Even when the head is a little larger than those which characterize complete imbecility, the intellectual faculties are still almost entirely benumbed.”

I shall show that when individuals distinguish themselves peculiarly, and in a remarkable manner, by a determinate quality, or when they fall into a fixed idea, propensity, partial mania, or monomania, by too great exaltation, it is almost always the extraordinary development of some particular organ which occasions it.”

The ancients gave to the statues of their priests and their philosophers much larger foreheads than to those of their gladiators. Remark, especially, the distinction they have adopted in their Jupiter of the capitol; the form of no head has ever been so strongly prominent in the anterior and superior part of the forehead. What a difference between this and the head of Bacchus!”

It has always been remarked that too rapid an increase, or a hastened development of organs weakens their special functions. This especially happens in the climacteric years or periods of development, of which physicians and physiologists cannot too highly appreciate the importance. The mind, the body, all then suffer at once. The individual is incapable of steady application, and instruction is at once arrested. This state ceases, only, when the interval devoted to this development has been passed; and we readily perceive that this is the case, because the intellectual faculties at once resume all their energy.”

4. OF FATALISM, MATERIALISM, AND MORAL LIBERTY.

it is reproached to the physiology of the brain, that it overturns the first foundations of morality and religion; that it eminently favors materialism and fatalism; and that, consequently, it denies free will. History teaches that the same has always happened to every discovery.”

Vesanum, literarum imperitissimum arrogantissimum, calumniatorem, maledicentissimum, rerum omnium ignarissimum, transfugam impium, ingratum, monstrum ignorantiae, impietatis exemplar perniciosissimum quod pestilentiali halitu Europam venenat”

It would seem that nature had subjected all truths to persecution, in order to establish them in a more solid manner; for he who knows how to wrest one from her, presents always a front of brass to the darts hurled against him, and has always the strength to defend and to consolidate it. History show us that all the efforts and all the sophisms, directed against a truth once drawn from the abyss, fall like dust, raised by the wind against a rock.”

Malebranche – Recherche de la verité

The antagonists of Aristotle caused his books to be burned; afterwards they burned the works of Ramus¹, who had written against Aristotle, and declared the adversaries of the Stagyrite heretics; and there were even legislative acts, forbidding to attack his philosophy under pain of the galleys. And yet no one now concerns himself with the philosophy of Aristotle!”

¹ Petrus Ramus, século XVI, comentarista protestante dos filósofos da Antiguidade.

The ancient church bestowed the name materialists on those who taught that matter existed from all eternity, and that, consequently, the Deity had not drawn the world out of nothing. This sort of materialism ordinarily leads to the denial of the existence of a Supreme Being.”

I call the material condition which renders the exercise of a faculty possible, an organ.”

CAPCIOSO: “were this language sufficient to charge me with materialism, the same charge would apply to all physicians, all philosophers, and all the fathers of the church.”

Bichat – Sur la vie et la mort

Non virtus est, non posse peccare. Cum renunciatur improbitati. Statim adsciscitur virtus. Egressus enim malitiae virtutis operatur ingressum.” St. Ambrosius

Quidam in juvente luxuriose viventes, in senectute continentes fieri delectantur et tum eligunt servire castitati, quando libido eos servos habere contempsit. Nequaquam in senectute continentes vocandi sunt qui in juventute luxuriose vixerunt; tales non habent praemium, quia laboris certamen non habuerunt; eos enim exspectat gloria, in quibus fuerumt gloriosa certamina.” Isidoro, Do sumo bem

5. APPLICATION OF MY PRINCIPLES TO MAN, CONSIDERED AS AN OBJECT OF EDUCATION AND PUNISHMENT.

The most opposite qualities often make of them the most problematic beings; such were Louis XI, Charles V, Philip II, James II, Catherine de Medicis, who though under the influence of a superstitious devotion, were the scourge of their subjects. These are the persons who experience, in the most sensible manner, the struggle of two beings at war within them. Such were Socrates, St. Paul, St. Augustin;¹ who having the most violent combats to sustain, may claim the most glorious prizes of virtue.”

¹ Todo convertido? No cliché/estereótipo do primeiro, o autoconvertido também?

You have the musician, the mechanic, the poet, all exclusive and ardent in their pursuits; but you have also the debauchee, the bravo, the robber, who, in certain cases, are passionate to such a degree that the excessive activity of these propensities degenerates into actual madness, and deprives the individual of all power do restrain them.”

You see apathies and partial imbecilities when, by the side of qualities and faculties sufficiently well marked, one or a few organs are very little developed. With such an organization, Lessing and Tischbein detest music; Newton and Kant have a horror of women.

as St. Paul says, the more laws, the more sins.”

O avô conceitual de Skinner.

We have even seen some, who procured their own arrest, in order to find a refuge in the prison. Men and women are often left together, whence it happens that in the prisons themselves their numbers are multiplied. Sometimes the prisoners are permitted to have their children with them.”

AS GRADAÇÕES DO BOMBONISMO: “We inflict on a mother who has exposed [abandonou] her infant different punishments according as the infant has incurred more or less risk of perishing”

OS AMERICANOS NUNCA FORAM BONS DE PENALTY: “If we regard the punishment of death as the destruction of a mischievous and incorrigible individual, or as a means of preventing crime, I think, with Montesquieu, J.J. Rousseau, Sonnenfels, Hommel, Filangieri, Schmalz, Kleinschrodt, Feuerbach, Klein, Bexon and others, that we cannot call in question the right which society has of destroying one of its members.” Treta do tradutor/comentador com o autor nas notas de rodapé acerca da questão.

AHÁ! “If there be a crime, which deserves to be treated as murder the most premeditated, foolish and dangerous, that crime is duelling. Usually for the merest trifles, and sometimes exasperated by the taunts of a bully by profession, men kill one another, in presence of numerous witnesses! No! I might in vain transport myself to the most barbarous countries and times, I should never be able to conceive their allowing so atrocious, so cruel an outrage on morality to subsist! (…) What honor, what courage, is it to kill or to be killed for a few words which happen to displease you, or for the vanity and admiration of a mistress!”

(editor) “A few years since, a gentleman in N.Y. wrote a most sensible article against the practice of duelling – and a few months after, fell a victim to the sin which he had so unequivocally condemned.” Se fodeu, otário.

(editor) “These are purely the suggestions of destructiveness [sobre infringir penas de tortura para criminosos hediondos] – and we are not a little surprised, to find that so discriminating a mind as that of Dr. Gall should ever sanction such sentiments.” Talvez vocês, caros frenologistas, desconheçam a constituição cerebral deste sujeito!

We may assume, as a general principle, that a mother cannot feel either anger or hatred against her new-born infant. This principle would always be operative, if the mother in these circumstances always acted consistently; if, indeed, she retained the power to act thus when overwhelmed with utter humiliation. But, in this fatal moment, the mother thinks only of the ingratitude, the infidelity, the perfidy of the father of the child; he has deceived her in the most infamous manner; he has loaded her with shame, and plunged her into wretchedness; he has destroyed all her enjoyment of the present, all her hopes in the future; and, while he forgets her in the arms of another, the laws afford this injured woman no protection, no indemnity, against her seducer. The idea that all the artifices he has employed to betray confiding innocence, to seduce an inexperienced girl, are now regarded as subjects for mirth; this idea presents itself to every unfortunate who finds herself deserted; this injustice vexes, torments, revolts her.”

CABEÇAS DE MEDÉIA: “We have examined the form of the head of 29 infanticide women.”

In a report of the counsel-general of hospitals at Paris, which includes 10 years from 1804 to 1814, it is remarked, under the head of insane, that the number of those received at the Salpêtrière and the Bicêtre was 2154 men and 2804 women. Of this number of cases, 658 are placed to the account of child-birth, its consequences and preceding circumstances, more or less distant.” “it is evident that we do not here speak of prostitutes.”

I have observed that both sexes experience every month, once or twice, a species of periodical derangement, which disturbs the harmony of their affections and their habits, and which assumes the character of an irritation and a melancholy of which the individual affected can render no reason to himself.”

A woman at Bamberg, whenever she had drank brandy, felt a strong desire to set fire to some house; but no sooner had the excitement passed than this woman was filled with horror at her own previous state. As, however, she was not always on her guard against the enticements of her favorite beverage, she actually committed arson in 14 instances.”

Many men have an especial inclination for building, travelling, disputing; one is inflamed with an insatiable desire of glory; another cannot spare his best friends, when a brilliant sarcasm rises in his mind.”

He appeared about 16 years of age, though in fact he was 26. His head was round, and about the size of a child of 1 year. This individual was also deaf and dumb”

We remark that by an inexplicable singularity several of this class of individuals possessed of such feeble intellect are born with a peculiar talent for copying, drawing, finding rhymes and for music. I have known several who have learned, by themselves, to play tolerably on the organ and the harpsichord; and others to repair clocks and to make some pieces of mechanism,” Fodéré

The short foreheads, wrinkled, knotty, irregular, deep on one side, slanting, or that always incline different ways, will never be a recommendation to me, and will never gain my friendship. While your brother, your friend, or your enemy, while man, though that man were a malefactor, presents you a well-proportioned and open forehead, do not despair of him, he is still susceptible of amendment.” Lavater

general permanent alienation cannot be mistaken. But the case is very different when general alienation is periodical, and when the paroxysms, after having ceased entirely, recur, either at irregular periods, or after a fixed interval, or when it is limited to certain qualities in particular, especially when this partial alienation completely disappears from time to time, and recurs, sometimes periodically, sometimes irregularly.”

às vezes uma febre intermitente aparece sob o disfarce de uma cãibra (ou uma tensão muscular mais simples) em somente um dos lados, ou uma dor de dente. Mas a máscara sob a qual a enfermidade se revela não modifica sua natureza; é requerido o mesmo tratamento que seria recomendado a fim de se curar a febre intermitente.”

The individual who, in preceding paroxysms, seemed a fury let loose, may, in the following one, devote all his time to the exercises of the most fervent piety; and he who, today, gives himself to the excesses of the most noisy enjoyment may, tomorrow, be plunged in the deepest melancholy.”

During his lucid intervals, his physiognomy is calm, his air mild and reserved, his answers modest, and full of propriety; he shows urbanity in his manners, a severe probity, the desire of obliging others, and expresses an ardent desire of being cured of his malady; but at the return of the paroxysm, which is especially marked with a certain redness of the face, by an intense heat in the head, and by burning thirst, his gait is hasty, the tone of his voice bold and arrogant, his looks full of menace, and he experiences the most violent propensity to provoke all who approach him, to irritate them, and to contend with them to the last.”

He told us that, from his childhood, religion had occupied all his thoughts, and that he had read the Holy Scripture, and all the commentators thereon, with the greatest attention; but that the extreme diversity of opinions had convinced him that he should not find the true religion in this manner; that he had therefore renounced reading and research, and had earnestly supplicated the Deity that, if not contrary to his eternal decrees, he would make him an immediate revelation of the truth. After having prayed a long time, he one night saw the room filled with as brilliant a light as could be produced by many suns. In the midst of this splendor, our Lord Jesus Christ appeared to him, and revealed the true religion. Koeper had sought to spread it with indefatigable zeal, which was with him a matter of duty. It was impossible to make this man believe that he had been led astray by illusions.”

Some refuse or are not disposed to communicate their condition to others. This apparent indifference, this apathy, this perfidious silence, ordinarily marks the most dangerous cases. Some annoy all those around them, by trifling bickerings; they see, everywhere, nothing but misfortune and wickedness; and even when their affairs present a picture of prosperity they are in despair, lest their children be plunged in famine and misery. Some imagine that everybody despises or persecutes them; they complain unceasingly that they are neglected, that justice is not done them. Sometimes, all the symptoms suddenly disappear, and again show themselves as suddenly. The melancholy and pusillanimity increase daily: most of these subjects feel a sharp and permanent pain above the root of the nose, and in the middle of the lower part of the forehead: sometimes this pain has its seat at the top of the head; often, too, some complain of an insupportable tension in the region of the forehead and a painful constriction in the region of the belly, which is as it were compressed by a hoop [argola].”

Their madness, it is said, is only feigned: a madman does not say I am mad, and madness does not reason. This false and barbarous mode of argument has sent to the scaffold beings to whom there was nothing to reproach, except the derangement of their reason”

It often happens that the blow they give themselves is not mortal or that, in throwing themselves from the precipice, their destruction is not completed, or that they are drawn from the water too soon. It is, however, very rare that such adventures cure them. The greater part remain melancholic or depressed. At the end of some days they seem to repent of what they have done; they are ashamed of it, and for some time take a part in the business of life. But the paroxysms soon return with new violence (…) Sometimes this same malady is concealed under a mask, in appearance altogether different. Life is equally a burden to these subjects; but they have not the energy to inflict death on themselves; they seek, by a kind of confusion and contradiction in their ideas, the means of having it inflicted by others. For this purpose, they ordinarily commit a murder of persons who have never offended them [maior parte dos casos patológicos no Black Metal], and often even upon children.”

These critical evacuations which continue a long time are more abundant at certain periodical times; and as, at their approach, the symptoms of the malady augment, their apparent relapses serve to announce an approaching evacuation.”

* * *

FIM DO VOLUME I

Infelizmente só consigo encontrar, sem custos, a primeira (a presente) e a quinta partes desta “hexalogia”.

O BANQUETE OU DO HOMOSSEXUALISMO SUPREMO

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

ESCLARECIMENTO INICIAL

O sufixo pejorativo –ismo, entenda-se, não é o aqui utilizado. Para o filósofo grego, a condição homossexual é a característica do homem superior, o único apto a chefiar a sociedade. Portanto, é nesse sentido que o “Homossexualismo” do título deverá ser compreendido: como no Aristocratismo a classe dos aristocratas é a líder, no Homossexualismo platônico os homossexuais detêm o poder soberano e prescrevem as Leis a si mesmos e aos demais. Obviamente, a conotação de “doença” ou “enfermidade” subjacente ao homônimo mais infeliz desaparece, assim, por completo – a homoafetividade masculina é, ao contrário da visão deturpada moderna, o suprassumo do são e do saudável. Tampouco o sufixo –idade seria adequado para expressar essa idéia, uma vez que a Homossexualidade como a entendemos hoje no Ocidente é apenas uma “escolha livre e individual”, nem melhor nem pior que as outras preferências de gênero possíveis no amor; ao passo que, em Platão e nos mestres do saber grego que conhecemos, não havia o que “escolher” ou alteridade(s) a respeitar ou considerar: todo o demais (a mulher, o escravo de ambos os sexos – meros objetos – e o homem hetero ou bissexual – “sujeitos”, porém degenerados) estava sempre escalões abaixo. Não havia traço da noção de isonomia compartilhada pelas democracias contemporâneas.

(*) “Fedro fala como um jovem, mas jovem cujas paixões foram purificadas pelo estudo da filosofia; Pausânias como homem maduro, a quem a idade e a filosofia ensinaram aquilo que a juventude não sabe; Erixímaco se aplica como médico; Aristófanes tem a eloqüência do poeta cômico, ocultando, por debaixo de uma forma festiva pensamentos profundos; Agaton/Agatão se expressa como poeta. Por fim, depois de todos os demais da roda, e quando a teoria já se elevara por graus, Sócrates completa-a, expressando-se numa linguagem maravilhosa, própria de um sábio ou inspirado.”

* * *

APOLODORO¹ – (…) Sinto imenso prazer e julgo proveitoso o filosofar e o ouvir filosofar, como nada no mundo; já ouvir-vos tratar de vossos interesses, dos ricos e dos negociantes, me mata de fastio.”

¹ Na verdade, O Banquete é um diálogo entre Apolodoro e seu amigo. Ele, que apenas ouviu o relato do banquete de um dos participantes, reconta o ocorrido, revivendo os personagens daquela noite de apologia discursiva do amor. Esta testemunha ocular é Aristodemo. Não confundir este Aristodemo com o descendente de Hércules e herói mitológico. Trata-se de um filósofo pré-socrático, pouco notório. Nunca é demais lembrar que a denominação “pré-socrático”, embora quase sempre proceda cronologicamente, neste caso nos induz a erro. Pré-socráticos podem ter existido mais jovens que Sócrates e contemporâneos de Platão; poderiam ser filósofos de menor repercussão e que insistiam na interpretação cosmogônica ou cosmológica do mundo. Este Aristodemo, mais jovem ou mais velho que Sócrates (não sabemos), venera-o como a um mestre.

O AMIGO DE APOLODORO – (…) Desconheço por que te deram o apelido de Furioso; conquanto possa ver que algo disso se capta em teus discursos. Sempre te mostras áspero contigo mesmo e com todos, exceto com Sócrates.”

–Aqui inicia o relato do banquete em si e as transcrições das falas das personagens–

SÓCRATES – Aristodemo, vou me banquetear à casa de Agaton. Recusei-me a comparecer à festa que dava ontem para celebrar sua vitória no concurso, por desagradarem-me salões repletos.”

SÓCRATES – Segue-me, então, e invertamos o provérbio, provando que um homem de bem pode comer à casa de outro homem de bem sem ser convidado. Com prazer acusaria Homero de haver na verdade adulterado este ditado, e ademais de ter feito dele pouco caso, quando depois de representar Agamenon como grande guerreiro e Menelau como combatente débil faz com que este esteja no festim daquele, sem ao menos ter sido convidado; ou seja, Homero retrata um homem de condição inferior que sem cerimônia se apresenta à mesa do homem superior.”

lá, já estavam todos à mesa, esperando apenas que fossem servidos.”

Neste momento, um criado anunciou que encontrara Sócrates de pé no umbral de uma casa vizinha, e que, havendo-o convidado ao banquete, este se recusou.”

Começamos a comer, e Sócrates não aparecia. A cada momento Agaton instava algum escravo a ir buscá-lo. Eu o preveni de que Sócrates acabaria por cumprir sua palavra, que não tivesse pressa. Enfim, Sócrates entrou, depois de nos fazer esperar, segundo seu hábito, e nós já havíamos comido metade de nossa refeição. Agaton estava só, sobre uma cama no extremo da mesa, e o convidou a sentar-se junto de si.”

ERIXÍMACO – (…) Uma vez que ninguém aqui deseja exceder-se na bebida, serei menos importuno, ao relatar-vos umas quantas verdades sobre a embriaguez.”

FEDRO – Ó, Erixímaco! não é admirável que, de tantos poetas que compuseram hinos e cânticos em honra da maior parte dos deuses, nenhum fez o elogio do Amor, que, não obstante, é um deus importante? (…) Li um livro, intitulado Elogio do sal, em que o sábio autor exagerava as maravilhosas qualidades do sal e os grandes serviços que ele presta ao homem. Noutros termos, é raro encontrares coisa que não conste dum panegírico.”

ERIXÍMACO – Cada um, pois, improvisará da melhor forma que lhe couber um discurso em honra do Amor. A ordem será da esquerda para a direita. Desta forma, Fedro falará primeiro, ainda mais porque era sua intenção desde o início, e toda a idéia deste jogo foi dele. Escutemo-lo!”

(*) Eumelo e Acusilau, historiadores antigos, segundo refere Clemente de Alexandria, transcreveram em prosa os versos de Hesíodo, publicando-os como obra sua.”

O DISCURSO DE FEDRO

Na Grécia temos o brilhante exemplo da amorosa Alceste, filha de Pélias: só ela quis morrer por seu esposo; até os pais dele se negaram.”

Orfeu, filho de Eagro, foi arrojado dos ínferos sem conseguir o que fôra pedir. No lugar de lhe devolverem sua mulher, apresentaram-lhe um fantasma, mera sombra de Eurídice, porque apesar de músico excepcional, faltava algum valor a Orfeu. Porque, longe de imitar Alceste, morrendo por quem amava, meteu-se a descer vivo ao submundo. Os deuses, indignados diante de tamanha petulância, castigaram-lhe a covardia, fazendo-o ter uma morte vexatória nas mãos de várias mulheres. Já vês que, pelo contrário, Aquiles muito fôra honrado, este filho de Tétis, recompensado com a ida às Ilhas Bem-Aventuradas.¹ Acontece que, mesmo sua mãe prevenindo-o de que, assim que matasse Heitor seria ele também morto, e de que caso não combatesse voltaria são e salvo à casa paterna, vivendo uma vida muito longa e pacífica, Aquiles não hesitou, preferindo vingar Pátroclo, provando que dava mais valor à amizade que a sua própria vida. Escolheu morrer sobre o cadáver do amigo.”

¹ Homero retrata Aquiles apenas no Hades (Odisséia).

Ésquilo está de troça quando afirma que o amado era Pátroclo. Aquiles era mais belo, não apenas que Pátroclo, mas que todos os demais heróis. Não tinha ainda barba e era muito mais jovem, conforme Homero mesmo.” “Quem ama possui um não sei quê de mais divino que quem é amado, porque em sua alma habita um deus”

* * *

O DISCURSO DE PAUSÂNIAS

se não houvesse mais que uma Vênus,¹ não haveria mais que um Amor; mas como há duas Vênus, há necessariamente dois Amores. Quem duvida que existam duas Vênus? Uma, a mais velha, filha do céu, que não tem mãe, que chamaremos simplesmente Vênus Celeste; a outra, mais jovem, filha de Zeus e Dione, que chamaremos de a Vênus popular.”

¹ Azcárate sempre traduz conforme a mitologia romana. Também Afrodite. Nas outras traduções, dei prioridade à nomenclatura grega.

O amor da Vênus popular é popular (vulgar) também, e só inspira ações baixas”

uma vez que a Vênus Celeste não nascera de mulher, mas tão-só de varão, o amor que a acompanha só busca aos jovens. Ligados a uma deusa de mais idade, e que, por conseguinte, não tem a sensualidade fogosa da juventude, os inspirados por este Amor só desejam o sexo masculino, naturalmente mais forte e mais inteligente.”

Seria verdadeiramente desejável uma lei que proibisse amar os demasiado jovens, evitando-se assim gastar tempo com coisa tão incerta; porque quem sabe o que resultará um dia de tão terna juventude? que giro tomarão o corpo e o espírito, e até que ponto se dirigirão? ao vício? à virtude?”

Não é difícil compreender as leis que regem o amor em outros países, por serem precisas e bem simples. Só mesmo os costumes de Atenas e de Esparta necessitam de explicação. Nas Élides, por exemplo, e na Beócia, onde se cultiva pouco a arte da palavra, diz-se, puerilmente, que é bom dar nossos amores a quem nos ama, e ninguém acha-o um mau conselho, jovem ou velho. É preciso crer que nesses países o amor assim é autorizado para resolver as dificuldades e para se fazer amar sem ter de recorrer aos artifícios da língua, desconhecidos para essa gente. Mas na Jônia e em todos os países submetidos à dominação dos bárbaros tem-se este comércio por infame; proíbe-se igualmente tanto a filosofia quanto a ginástica, os tiranos não suportam ver surgirem, entre os súditos, paixões e amizades nem relações vigorosas, que é o que o amor melhor sabe criar. Os tiranos de Atenas já experimentaram esse tipo de lei em tempos antanhos. A paixão de Aristogíton e a fidelidade de Harmódio transtornaram esse estado de coisas. É claro que, nesses Estados em que é vergonhoso amar a quem nos ama, toda esta severidade nasce da iniqüidade dos que a estabeleceram, da pura tirania dos governantes e da covardia dos governados; e que nos países em que simplesmente se diz que é bom corresponder a quem nos ama, esta indulgência é uma prova de grosseria. Tudo isso é bem sabido pelos atenienses. Mas, como já disse, não é fácil compreender nossos princípios nessa matéria. Por um lado, diz-se que é melhor amar às claras que às furtadelas, e que é preciso amar com preferência os mais generosos e virtuosos, por mais que estes se afigurem menos belos.”

o mais estranho é que se quer que os amantes sejam os únicos perjuros que os deuses deixem de castigar, porque, diz-se, os juramentos não obrigam nos assuntos amorosos.”

Há entre nós a crença de que se um homem se submete a servir a um outro com a esperança de aperfeiçoar-se por intermédio dele numa ciência ou em qualquer virtude particular, esta servidão voluntária não é vergonhosa e não se chama adulação.”

* * *

Aqui, tendo feito Pausânias uma pausa (e eis aqui um jogo de palavras que vossos sofistas ensinam), seria a vez de Aristófanes começar, mas este não o pôde em virtude de uma crise de soluços que lhe sobreveio, não sei se por haver comido em excesso, ou outra razão. Então se dirigiu ao médico Erixímaco que estava sentado ao seu lado e lhe disse:

– É preciso, Erixímaco, que ou me livres desse soluço (hic)… ou que fales no meu lugar até que ele tenha cessado.

– Farei um e outro – respondeu Erixímaco –, porque vou falar em teu lugar, e tu falarás no meu, quando tua incomodidade já tiver passado. Passará rápido se, enquanto eu discurso, prenderes a respiração um pouco, e, não tendo curado o soluço, terás de gargarejar com água. Se o soluço, ainda assim, persistir, por ser demasiado violento, apanha qualquer instrumento com que consiga fazer cócegas no nariz; a isto se seguirá o espirro; e se o repetires uma ou duas vezes, o soluço cessará infalivelmente, por mais grave que seja.”

* * *

O DISCURSO DE ERIXÍMACO

Também é belo e necessário ceder ao que há de bom e de são em cada temperamento, e nisto consiste a medicina; pelo contrário, é vergonhoso comprazer ao que há de depravado e de enfermiço, e é preciso combatê-lo, se é que se fala de um médico hábil. Porque, para dizer em poucas palavras, a medicina é a ciência do amor corporal com relação à repleção e evacuação¹”

¹ O encher e esvaziar.

Esculápio¹, nosso patriarca, encontrou um meio de introduzir o amor e a concórdia entre os elementos contrários, e por isso é reputado o inventor da medicina, segundo os poetas e como penso eu mesmo. Me atrevo a assegurar que o Amor preside à medicina, e assim também à ginástica e à agricultura. Sem necessidade de fixar a atenção por muito tempo, descobre-se-o na música, e acho que foi o que Heráclito quis dizer, se bem que não soube colocá-lo em palavras. O que ele falou, em forma de enigma, foi: A unidade que se opõe a si mesma concorda consigo mesma (…) A harmonia é impossível se grave e agudo permanecem sem interagir; a harmonia é uma consonância; a consonância um acordo; e não pode haver um acordo entre partes opostas enquanto no fundo já não forem mais opostas (…) Analogamente, também as sílabas longas e as breves, que são opostas entre si, compõem o ritmo, assim que entram em acordo.”

¹ Lendário fundador da arte médica.

A adivinhação é a criadora da amizade que existe entre os deuses e os homens, pois sabe tudo o que há de santo e de ímpio nas inclinações humanas.”

* * *

– Cabe a ti, Aristófanes, suprir o que eu houver omitido. Portanto, se tens o projeto de honrar ao deus doutra maneira, fá-lo e começa, de contínuo, agora que teu soluço já passou.

Aristófanes respondeu:

– Passou, em efeito. Só me ressinto do espirro. Me admira que para restabelecer a ordem na economia do corpo seja preciso um movimento como este, acompanhado de ruídos e agitações tão ridículas; porque realmente este método da pena foi o único eficaz o bastante comigo.

– Olha como te portas, Aristófanes! Estás a ponto de iniciar teu discurso e parece que já zombas as minhas custas. Agora saibas que não terás paz, pois estou cá atento, de vigia, para ver se não vais é passar o tempo a ridicularizar o amor com piadas.”

* * *

O DISCURSO DE ARISTÓFANES

Quando desejavam caminhar depressa, apoiavam-se sucessivamente sobre seus 8 membros, e avançavam com rapidez mediante um movimento circular, como o que desempenha a roda, com os pés ao vento.”

A solução não carecia de dificuldades; não queriam os deuses aniquilar os homens, como noutros tempos aos titãs, fulminando-os com seus raios, pois aí então desapareceriam o culto e os sacrifícios que os homens lhes prestavam; no entanto, era certo que não deixariam esta insolência passar impune.” “e se depois deste castigo ainda conserveis vossa audácia monstruosa, recusando-vos ao repouso, dividi-los-ei mais uma vez, e ver-vos-ei precisados de andar sobre um só pé, como os que dançam sobre os odres de vinho na festa de Caco.¹”

¹ Caco, Cacus ou Kakos, filho de Vulcano ou Hefesto, deus olímpico. Teria uma aparência monstruosa e força sobre-humana, sendo, ademais, canibal. Arquétipo do ladrão ominoso que aterroriza as populações pastoris. Na mitologia é morto por Hércules durante seus Doze Trabalhos. O próprio Hércules teria iniciado seu tributo anual, construindo um altar, para aplacar a fúria dos deuses pelo seu ato.

Quando uma das duas metades perecia, aquela que sobrevivia buscava outra, à qual se unia novamente, fosse a metade de uma mulher inteira, o que agora se chama propriamente mulher, fosse uma metade de homem; e dessa forma ia-se extinguindo a raça. Zeus, tomado de compaixão, imaginou outro expediente: pôs à frente os órgãos da geração, que antes estavam atrás, gerando-se e derramando-se, outrora, o sêmen, não um no outro, mas no chão, como fazem as cigarras. Com esta providência de Zeus, a concepção passou a ser feita mediante a união do varão e da fêmea. Desde então, o produto da união do homem e da mulher são os filhos; se acaso o varão se unia ao varão, a saciedade os separava logo depois, restituindo-os aos trabalhos e demais cuidados da vida.”

Da mesma forma, os homens atuais, que provêm da separação dos homens primitivos, buscam o sexo masculino. Enquanto são jovens, amam aos homens; se comprazem em dormir com eles e estar em seus braços; são os melhores dentre os adolescentes e os adultos, como que oriundos de uma constituição mais varonil. (…) com a passagem do tempo, revelam-se mais capacitados que os demais para servir ao Estado. Uma vez em idade madura, passam a amar aos jovens (…) Do que eles mais gostam é passar a vida uns com os outros em celibato.”

Quando aquele que ama aos jovens ou outros homens em geral chega a encontrar sua metade, a simpatia, a amizade, o amor os unem de uma maneira tão maravilhosa que ambos não desejam, sob circunstância alguma, separar-se por um momento que seja. Estes mesmos homens, que passam toda a vida juntos, não podem dizer o que anelam, exatamente, um do outro, porque, se sentem tanto prazer ao viver dessa forma, claro está que a causa não são os sentidos corporais. É evidente que é a própria alma de cada qual que deseja algo além, inexprimível, mas que de certa forma pressente e atina. À hipótese de Hefesto em pessoa aparecer justo quando estivessem abraçados, com os instrumentos de sua arte de ferreiro, perguntando-lhes: Ó, meus caros! Que é aquilo que exigis reciprocamente?, e ao não obter nenhuma resposta, perplexo, continuar interpelando-os: O que quereis, afinal, não é encontrar-vos unidos de tal maneira que nem de dia nem de noite estejais segregados um do outro? Se é isso mesmo que quereis, vou fundir-vos e mesclar-vos para que sejais uma só pessoa e não mais duas, tanto na vida como na morte. Apenas dizei-me, e realizá-lo-ei!… Se, dizia eu, nessa hipótese, ouvissem a proposta de Hefesto, é absolutamente certo que os casais não a recusariam jamais”

Originalmente, como já disse, éramos um só; mas depois nossa iniquidade foi castigada e Zeus nos separou, como o foram os arcádios pelos espartanos(*)”

(*) “Os espartanos invadiram a Arcádia, destruíram os muros da Mantinéia e deportaram os habitantes a quatro ou cinco pontos diferentes. Cf. Xenofonte, Helênicas, 5:2.”

Que Erixímaco não critique estas minhas últimas palavras, como se fizessem alusão a Pausânias e a Agaton, porque quiçá estes dois são deste pequeno número, e pertencem ambos à natureza originalmente masculina.”

* * *

ainda não discursaram Agaton nem Sócrates.”

FEDRO – Meu querido Agaton, se continuas respondendo a Sócrates, isto não acabará; ele, quando tem com quem conversar, fica contente ao máximo e não pensa em nada mais – sobretudo se seu interlocutor é formoso.”

* * *

O DISCURSO DE AGATON

Estando de acordo com Fedro acerca de todo o demais, não posso convir com ele quanto a que o Amor seja mais antigo que Cronos e Jápeto.¹ Sustento, pelo contrário, que é o mais jovem dos deuses, e que sempre se conserva jovem. Essas velhas querelas dos deuses, que nos remetem a Hesíodo e Parmênides, se é que têm algo de verdadeiro, tiveram lugar no império da Necessidade, e não sob o reino do Amor; porque não teria havido qualquer desentendimento entre os deuses, castrações e mutilações, correntes, violências que-tais, se o Amor presidisse desde o início. A paz e a amizade, como sucede no presente, são a ordem do dia. É certo que o Amor é jovem e extremamente delicado, mas foi necessário um poeta – como Homero – para expressar a delicadeza deste deus sublime. Homero refere que Ate é deusa e delicada. Seus pés, diz ele, são tão leves que nunca os pousa em terra, mas pisa sobre a cabeça dos homens.”

¹ Titã primordial – filho de Urano e Gaia (como o próprio Cronos) e pai dos titãs Átlas e Prometeu, entre outros.

Só por livre e espontânea vontade se submete alguém ao Amor. Bem como a todo tipo de acordo, destes que não nascem da violência: quando a lei é justa. E o Amor não só é justo como moderado no mais alto grau, porque consiste a temperança em triunfar dos prazeres e das paixões; e há prazer superior ao Amor? Se todos os prazeres e todas as paixões estão abaixo do Amor, é que ele os domina; e se os domina, é de precisão que esteja dotado de um equilíbrio incomparável. Quanto à força, Marte não pode igualá-lo. Não é Marte que possui ao Amor, mas o Amor que possui a Marte, o Amor de Vênus, como dizem os poetas; porque aquele que possui é mais forte que o objeto possuído; e superar o que supera aos demais, não seria ser o mais forte de todos?”

o Amor é um poeta tão entendido que converte em poeta àquele que quer; e isto sucede até aos que são estranhos às Musas, logo que se sentem inspirados pelo Amor; o que prova que o Amor é notável nisto de consumar as obras que são da competência das Musas; afinal, não se ensina aquilo que não se conhece, bem como não se dá aquilo que não se tem”

Antes do Amor, como disse ao princípio, aconteceram entre os deuses muitas coisas deploráveis, durante o reinado da Necessidade.”

* * *

Sinto-me tão incapaz de dizer algo tão belo que, repleto de vergonha, de bom grado abandonaria o posto, se realmente pudera, porque a eloquência de Agaton me recordou a de Górgias, até se passar comigo o que diz Homero: temia eu que Agaton, ao arrematar, lançasse sobre meu discurso a cabeça de Górgias, este orador terrível, petrificando minha língua!”

Permita-me ainda, Fedro, proceder a algumas perguntas a Agaton, a fim de que com seu auxílio possa falar com mais segurança.”

desejo possuir no futuro aquilo que tenho neste instante.

(…)

E não seria isso amar o que não se tem certeza de possuir, aquilo que ainda não se possui, e desejar conservar para o dia de amanhã aquilo que se possui no momento presente?”

* * *

(*) “Por um artifício de composição que parece uma espécie de protesto implícito contra o papel tão inferior que a mulher desempenhou até este momento na conversação sobre o amor, Platão expõe suas opiniões pela boca de uma, a estrangeira de Mantinéia, que faz o prólogo¹ de Sócrates no famoso discurso.”

¹ Um prólogo tão extenso que chega a ser a metade do discurso socrático na obra!

* * *

SÓCRATES – Que é afinal o Amor, Diotima, se não é mortal nem tampouco imortal?

DIOTIMA – Um grande demônio,¹ Sócrates; porque todo demônio ocupa um lugar intermédio entre os deuses e os homens.”

¹ Daimon

DIOTIMA – (…) Como a natureza divina nunca entra em comunicação direta com o homem, ela se vale de demônios para se relacionar e conversar conosco, seja enquanto estamos acordados ou sonhando. (…) Os demônios são muitos e de muitas classes, e o Amor é um deles.”

DIOTIMA – Quando do nascimento de Vênus, houve entre os deuses um banquete, no qual se encontrava Poros,¹ filho de Métis,² em particular. Depois da refeição, Pênia³ pôs-se à porta, para mendigar migalhas e sobras. Nesta hora, Poros, embriagado pelo néctar dos deuses (ainda não haviam inventado o vinho) saiu da sala, entrando no jardim de Zeus, onde o sono não tardou a fechar suas pálpebras cada vez mais pesadas. Pênia, premida por seu estado de miséria, aproveitou para conceber um filho de Poros. Deitou-se com ele enquanto estava inconsciente, e como resultado dessa união nasceu o Amor. É por esta razão que o Amor se tornou o companheiro e serviçal número 1 de Vênus, porque foi concebido no mesmo dia de seu nascimento; sem falar que o Amor ama naturalmente a beleza, e Vênus é bela.”

¹ A Abundância.

² A Prudência.

³ A Penúria.

Tudo o que adquire, dissipa sem cessar, de sorte que nunca é rico nem pobre. Ocupa um posto intermediário entre a sabedoria e a ignorância, porque nenhum deus filosofa, nem deseja fazer-se sábio, posto que a natureza divina já contém a sabedoria. Sabeis, pois, que o sábio não filosofa. Idem para os ignaros: nenhum deles filosofa nem deseja fazer-se sábio, porque a ignorância produz precisamente o péssimo efeito de persuadir os feios, os maus e os estúpidos de que são belos, bons e sábios. E ninguém deseja as coisas de que já se crê portador.” “A sabedoria é uma das coisas mais belas do mundo, e, como o Amor ama o que é belo, é preciso concluir que o Amor é amante da sabedoria, i.e., filósofo”

DIOTIMA – distinguimos uma espécie particular de amor, e chamamo-la amor, usando o nome que corresponderia na verdade ao gênero inteiro; enquanto isso, para as demais espécies empregamos termos diferentes.”

é preciso unir ao desejo do bom o desejo da imortalidade, posto que o amor consiste em aspirar a que o bom nos pertença sempre.”

DIOTIMA – Os que são fecundos com relação ao corpo amam as mulheres, e se inclinam com preferência a elas, crendo assegurar, mediante a procriação dos filhos, a imortalidade e a perpetuidade do seu nome, e a felicidade que se imaginam no curso dos tempos. Mas aqueles que são fecundos com relação ao espírito…”

Sólon mesmo é honrado por vós como pai das leis, assim como outros grandes homens o são também em diversos países, seja na Grécia, seja entre os bárbaros, porque produziram uma infinidade de obras admiráveis e criaram toda classe de virtudes. Estes filhos lhes valeram templos, enquanto que os filhos carnais dos homens, aqueles que saem das entranhas da mulher, jamais engrandeceram ninguém.”

o caminho reto do amor, já se guie por si mesmo, já seja guiado por outro, é começar pelas belezas inferiores e elevar-se até a beleza suprema, passando, por assim dizer, por todos os graus da escala de um só corpo belo a dois, de dois a todos os demais, dos corpos belos às ocupações belas e às ciências belas, até que, de ciência em ciência, chegue-se à ciência por excelência, a ciência do belo mesmo, finalizando-se por conhecer esta ciência tal como ela é em si.”

* * *

(*) “Depois do discurso de Sócrates, parece que nada resta a dizer sobre o amor, e que o Banquete deve ser concluído. Mas Platão achou conveniente ressaltar, quando menos se esperava, a elevação moral de sua teoria mediante o contraste que apresenta frente à baixeza das inclinações ordinárias dos homens. É por esta razão que, neste instante, aparecem de improviso Alcibíades¹, embriagado, com a cabeça coroada de hera e violetas, acompanhado de tocadores de flauta e de uma porção de seus companheiros de bebedeira. Que representa essa orgia em meio a estes filósofos? Não faz saltar à vista a eterna diferença, para usar o próprio jargão platônico, entre a Vênus popular e a Vênus celeste? Mas o engenhoso autor do Banquete faz derivar daí outro resultado importante. A orgia, que ameaçava tornar-se contagiosa, cessa como por encanto no momento em que Alcibíades reconhece Sócrates entre os convivas.

¹ A eterna chacota de Platão. Como péssimo aluno de Sócrates, que se tornou um político tirânico e traidor da polis, nada mais justo que sempre figure assim nos diálogos que foram preservados para a posteridade.

* * *

Um instante após, ouvimos no pátio a voz de Alcibíades, meio ébrio e gritando”

ALCIBÍADES – Rides de mim porque estou bêbado? Ride o quanto quiserdes! Sei que digo a verdade. Mas vejamos, respondeis: entrarei sob esta condição ou não entrarei? Bebereis comigo ou não?”

ALCIBÍADES – Por Hércules! Que é isto? Sócrates, vejo-te cá à espera a fim de surpreender-me, segundo teus costumes, aparecendo de repente quando menos te esperava! Que vieste fazer aqui hoje?! Por que ocupas este lugar no banquete? Como é que, em vez de te pores ao lado de Aristófanes ou de qualquer outro mais complacente contigo, ou que ao menos se esforce em sê-lo, tu soubeste colocar-te tão bem que te encontro, afinal, junto do mais formoso da reunião?

SÓCRATES – Imploro teu socorro, Agaton. O amor deste homem não é para mim um embaraço pequeno. Desde a época em que comecei a amá-lo, eu não posso mais contemplar ou conversar com nenhum outro jovem, sem que, agitado e ciumento, ele se entregue a incríveis excessos, enchendo-me de injúrias, e por pouco é que não transforma em agressões físicas suas ameaças! Tendes cuidado, convivas, para que não vos deixeis levar por um arrebatamento do gênero nesta hora tão delicada; procura, Agaton, assegurar meu sossego, ou protege-me, enfim, se estás disposto a alguma violência; receio este seu amor e seus ciúmes furiosos!”

ALCIBÍADES – Pois bem, amigos, que fazemos? Me pareceis excessivamente comedidos e nisso não posso consentir; é preciso beber; este é o trato que fizemos! (…) Agaton, por favor, que me tragam uma taça grande, se a tiveres; senão, ó escravo!, dá-me cá aquele cântaro! Porque aquele cântaro já leva bem uns dois litros.”

ALCIBÍADES – Que não levem para o lado malicioso aquilo que vou fazer na seqüência, porque Sócrates poderá beber o quanto queira, e nem por isso vós o vereis embriagado!

O cântaro preenchido pelo escravo, Sócrates o bebeu. Então Erixímaco, tomando a palavra:

ERIXÍMACO – Que faremos, Alcibíades? Seguiremos bebendo, sem falar nem cantar, e nos contentaremos com o mesmo que os beberrões que só sabem matar a sede?

ALCIBÍADES – Saúde, Erixímaco, digno filho do melhor e mais sábio dos pais!

ERIXÍMACO – Também te saúdo. Mas: que faremos?

(…)

ERIXÍMACO – Então escuta! Antes de tua chegada tínhamos convindo em que cada um de nós, seguindo um turno rigoroso, faria elogios ao Amor, o melhor que pudesse, começando pela direita. Todos cumprimos com nossa obrigação, e é, pois, justo que tu, que nada disseste e que não por isso bebeste menos, cumpras por tua vez com tua parte do negócio. Quando houveres concluído, elegerás um tema a Sócrates, de tua preferência; este a teu vizinho da direita, e assim sucessivamente.

ALCIBÍADES – (…) querer que um bêbado dispute em eloquência com gente comedida e de sangue frio é desigual em demasia!”

* * *

O DISCURSO DE ALCIBÍADES

Que outro fale, ainda que seja o orador mais hábil, e não causará impressão alguma sobre nós; mas tu, Sócrates – ou alguém que repita teus dizeres, por pouco versado que seja na arte da palavra –, fazes todos os ouvintes, homens, mulheres, crianças, se sentirem convencidos e hipnotizados.”

Ao ouvir Péricles e tantos de nossos grandes oradores, apreendi que são eloqüentes, mas nada de semelhante me fizeram experimentar. Minha alma não se turbava nem se indignava contra si mesma devido a sua escravidão. Mas, quando escuto esse Marsias,¹ a vida que levo me parece de repente insuportável!”

¹ Sátiro mitológico, um encantador nato. Punido por Apolo por sua vaidade, acaba, na posteridade, dando seu nome a um rio da Frígia.

vejo-me obrigado a dele fugir tapando meus ouvidos, como se se tratasse das sereias. Não fosse esse proceder, creio que permaneceria sentado a seu lado até o fim dos meus dias. Este homem desperta em mim um sentimento de que não se me creria capaz, isto é, o do pudor. É verdade, apenas Sócrates consegue me ruborizar, porque estou bem ciente de nada poder opor a seus conselhos! (…) Fujo-lhe, procuro evitá-lo; mas, quando volto a vê-lo, me envergonho, em sua presença, de haver desmentido minhas palavras com minha conduta; às vezes preferiria que ele não existisse; no entanto, se isso acontecera, estou convencido de que seria eu ainda mais desgraçado; de maneira que este homem é para mim um enigma!

Tamanha é a impressão que ele produz sobre minha pessoa, e a que a flauta deste sátiro produz sobre os outros! Mas talvez minhas palavras não dêem o termo exato do poder extraordinário que este homem exerce sobre quem o escuta; estejais convencidos de que nenhum de nós compreende a Sócrates. Já que comecei, continuo…

Sabeis do ardor que manifesta Sócrates pelos jovens formosos; com que empenho os busca, e até que ponto deles está enamorado; vedes, outrossim, o quanto a sociedade como um todo o menospreza, que ele nada sabe, ou, pelo menos, dissimula não saber. Tudo isso não é coisa de um Sileno¹?

Até mesmo na aparência ele lembra a fisionomia das estátuas de Sileno. Mas, convivas de banquete, abri-o, e que tesouros não vereis dentro dele! Sabei que a beleza de um homem é para ele o aspecto mais indiferente. É inconcebível imaginar até que ponto a desdenha, bem como a riqueza e as demais vantagens cobiçadas pelo vulgo. Sócrates as enxerga sem qualquer valor, e a nós mesmos, aliás, como se nada fôramos. Passa toda sua existência a zombar e a debochar de todo mundo! Porém, quando fala a sério e deixa ver seu interior–ignoro mesmo se outros chegaram a ver o que vi, vista tão divina, preciosa, majestosa, encantadora! Sócrates é simplesmente irresistível! Crendo ao princípio que ele se apaixonava por minha beleza, me vangloriava de minha grande sorte, e pensava em sua conquista como um meio certo a fim de receber em troca toda sua sabedoria! Sim, sempre me admirei muito ao espelho… Manifestei meus desejos a meu aio, que logo providenciou um encontro nosso, a sós. Agora é preciso que eu conte tudo, portanto atenção! E tu, Sócrates, se acaso incorro em erro, me adverte. A sós com Sócrates, esperava sempre que a conversação chegasse àqueles temas que só são desenvolvidos quando o amante não encontra testemunhas que possam atrapalhar seu discurso com o objeto amado! Nesta expectativa me auto-lisonjeava e somente dela já usufruía prazer. Mas minhas esperanças foram morrendo pouco a pouco. Sócrates passou o dia inteiro conversando comigo da sua forma usual, e depois se recolheu ao leito. Depois disso, desafiei-lhe a fazer exercícios ginásticos, esperando, por este método, ganhar algum terreno. Exercitamo-nos e lutamos muitas vezes, sem testemunhas. Que poderei atestar-lhes? Que nem assim obtive qualquer avanço! Sem poder conquistá-lo dessa forma velada, decidi-me ao ataque franco. Uma vez tendo começado, não seria lícito abandoná-lo sem ir às últimas conseqüências! Convidei-o para comer, como fazem os amantes que estendem um laço àqueles que amam; de chofre recusou, mas aos poucos foi cedendo e enfim resolveu-se por aceitar. Veio e comeu; mas quando terminou, fez menção de ir-se. Uma espécie de pudor me impediu de retê-lo. Mas logo lancei-lhe mais um laço; e depois de mais uma vez banquetearmos juntos, prolonguei desta vez a conversação até avançada a noite; e quando quis ir embora, intimei-o a dormir sob meu teto, sob o pretexto de que já era muito tarde. Deitou-se no mesmo banco em que comera; este banco estava próximo ao meu, e éramos só nós dois na casa.”

¹ Discípulo mitológico do deus Dionísio. Wikipédia: “Sileno era descrito como o mais velho, o mais sábio e o mais beberrão dos seguidores de Dioniso, e era descrito como tutor do jovem deus nos hinos órficos.”

as crianças e os bêbados dizem a verdade”

estou mordido e ferido pelos raciocínios da filosofia, cujos tiros são mais inclementes e afiados que o dardo duma víbora, assim que atingem uma alma jovem e bem-nascida. Fazem-na, enfim, dizer ou fazer mil coisas extravagantes; e vendo aqui neste banquete o ferro que me acutilou tantas vezes, Agaton, Erixímaco, Pausânias, Aristodemo, Aristófanes, deixando Sócrates de lado, e os demais, atacados todos como eu dessa mania e desse frenesi filosóficos, me dou por vencido e, mesmo que pouco inclinado a prosseguir minha história, diante de tantos ouvidos e olhares, fá-lo-ei, porque sabereis excusar minhas ações de então, e minhas palavras de agora. Mas quanto aos escravos e a todo profano sem cultura, ponde-os daqui para fora, e cerrem-lhes três portas para que nada ouçam!

Continuando, amigos: logo que acabou a luz do crepúsculo, e se retiraram os escravos de minha habitação, cri que não devia mais dar rodeios com Sócrates, e devia ser o mais direto possível. Toquei-o e disse-lhe:

– Sócrates, dormes tu?

– Não – respondeu.

– Pois bem, sabes o que eu penso?

– O quê?

– Que tu és o único amado digno de mim, e me parece que não te atreves a revelar teus sentimentos. E eu me julgaria sem razão se, a partir de minha descoberta, não procurasse comprazer-te em todas as ocasiões que pudesse. Faço isso porque só tenho a ganhar em nobreza, e assim também meus amigos, indiretamente. Neste momento nenhum pensamento me fustiga tanto quanto o de me aperfeiçoar o quanto puder, e ninguém vejo que pudesse ser de mais auxílio do que tu. Temeria mil vezes mais o ser criticado pelos sábios ao recusar algo a um homem como tu, que sê-lo pelo vulgo e pelos ignaros ao conceder-te tudo.

A tudo isto que eu disse, Sócrates respondeu com sua ironia habitual”

SÓCRATES – (…) Os olhos do espírito não começam a se fazer proféticos até que os do corpo comecem a se debilitar, e tu ainda não estás neste estágio.”

no fim, vedes que Sócrates nada me dedicou, senão desdém e desprezo a minha beleza, não fazendo mais do que insultá-la; e pensava eu que ela tinha bastante mérito, amigos! Sim, sede juízes da insolência de Sócrates; os deuses e as deusas serão testemunhas; àquela noite, saí de seu lado, no leito, como se despertasse após dormir com meu pai ou com meu irmãos mais novo!”

Mais submisso a esse homem do que um escravo o pode estar a seu dono, andava eu errante aqui e ali, sem saber que rumo tomar. Essas foram minhas primeiras relações com Sócrates. Depois nos encontramos de novo, no exército, na expedição contra a Potidéia, e fomos companheiros de quarto. Nos combates, vi Sócrates sobressair, não só a mim, mas também a todos os demais. Ele tinha a maior paciência para suportar todas as fadigas. Se faltava comida, coisa comum em campanha, Sócrates não dava sinais de sofrer de fome e de sede. Se nos encontrávamos na abundância, sabia desfrutar dela mais que qualquer um. Sem sequer apreciar a bebida, bebia mais que os demais se lhe estendiam a taça! (…) Naquele país o inverno é muito rigoroso, e a maneira como Sócrates resistia ao frio não era menos do que prodigiosa. Em tempos de grandes geadas, quando ninguém se atrevia a sair, ou, pelo menos, ninguém saía sem ir-se bem encasacado e calçado, e com os pés envoltos em feltro e peles de cordeiro, ele ia e vinha com a mesma capa que soía levar, caminhava com os pés nus com a facilidade típica de quem usava botas, ao ponto dos soldados olharem-no com despeito, achando-se por isso humilhados. Assim se conduzia Sócrates no exército.”

Mas o que faz de meu Sócrates digno de uma admiração particular é que não se acha outro que se lhe pareça, nem entre os antigos, nem entre nossos contemporâneos. Poder-se-ia, p.ex., comparar-se Brásidas¹ com Aquiles, Péricles com Nestor ou Antenor; e há ainda personagens que, contrastados, dão azo a semelhanças. Mas, repito, ninguém, antigo ou moderno, se aproxima, nem remotamente, a este homem, ou a seus discursos, nem a sua originalidade, a não ser que se comparassem ele e seus discursos não a um homem, como já o disse, mas aos silenos e aos sátiros; porque até esqueci de dizer, quando principiei meu discurso, que os discursos deste homem se parecem também, perfeitamente, com os dos silenos quando se expandem. Com efeito, apesar do desejo que se tem de ouvir Sócrates, o que disse parece, à primeira vista, inteiramente grotesco. As expressões com que ele veste seu pensamento são grosseiras, como a pele de um sátiro impudente. Não vos fala mais que de asnos com selas, de ferreiros, sapateiros, peliceiros, e aparenta sempre dizer uma mesma coisa nos mesmos termos; de sorte que não há ignorante ou néscio que não sinta a tentação de rir-se. Mas, como eu venho dizendo, abri seus discursos e examinai seu interior: encontrar-se-á de imediato que não há nada mais coerente e cheio de sentido; concedais só um pouco mais, e logo direis que são de natureza divina, encerrando em si as imagens mais nobres da virtude; numa só palavra, tudo quanto aquele que quer fazer-se um homem de bem deve ter em vista. (…) E não falo só por mim; outros recusados por Sócrates são Cármides, filho de Glauco; Eutidemo, filho de Díocles, e tantos mais, a quem enganou, simulando querer ser seu amante, quando não representou para com eles senão o papel da pessoa muito amada. Sendo assim, Agaton, aproveita-te destes exemplos e não te deixes enganar por este homem! Que minha triste experiência te ilumine, e não imites o insensato que, segundo o provérbio, não se faz sábio senão as suas custas.”

¹ General espartano na época da Guerra do Peloponeso.

* * *

Havendo cessado Alcibíades seu discurso, todos começaram a rir ao testemunhar sua franqueza, e percebendo que ainda estava muito apaixonado por Sócrates.

Este, tomando a palavra, disse então:

SÓCRATES – Imagino que hoje estiveste pouco expansivo, meu caro Alcibíades; doutra forma, não poderias, artificiosamente, e com amplo vocábulo e talento verbal, haver ocultado o verdadeiro motivo do teu discurso, o que só revelaste justo ao final, fazendo parecer que não era teu único objetivo colocar Agaton e eu em maus lençóis! Tens a pretensão de que eu devo amar-te, e não amar a mais ninguém, e que Agaton deve ser amado exclusivamente por ti. Mas teu artifício não passou despercebido; logo intuímos aonde ia a fábula dos sátiros e dos silenos; assim, meu querido Agaton, desfaçamos o projeto de Alcibíades, e faz de sorte que ninguém possa nos separar um do outro.

AGATON – Ó, creio que tens razão, Sócrates; estou certo de que seu esquema de se interpor entre mim e tu foi todo pensando com vistas a nossa separação! Mas de nada serviu, porque agora mesmo irei pôr-me a teu lado!

SÓCRATES – Ótimo, senta-te a minha direita!

ALCIBÍADES – Por Zeus! Quanto não me faz sofrer este homem! Imagina-se no direito de dar-me sua lei em tudo! Permite-me, pelo menos, ó maravilho Sócrates, que Agaton se ponha entre nós dois (a sua esquerda).”

SÓCRATES – Impossível! Tu acabas de fazer minha apologia, e agora me toca fazer a do meu vizinho da direita. (…) Deixa que venha este jovem, Alcibíades, e não o invejes as lisonjas que com impaciência desejo prestar-lhe!

AGATON – Não há modo de que eu permaneça aqui, Alcibíades. Quero resolutamente mudar de sítio, para ser elogiado por Sócrates!

ALCIBÍADES – Isto é o que sempre sucede! Onde quer que esteja Sócrates, somente ele tem lugar garantido ao lado dos jovens formosos. E agora mesmo, vede que pretexto simples e plausível encontrara a fim de que Agaton sentasse a seu lado!”

(*) “Após Alcibíades arrematar sua fala, a taça começa a circular entre os convidados, até que não resta um que não sucumbe por seu turno à embriaguez. Sócrates, único impassível, pois seu pensamento, estranho às desordens, faz seu corpo imune a elas, conversa sobre diversas temáticas com os restantes, os que resistem até os primeiros albores do dia. Finalmente, quando todos ali se entregam ao sono, abandona a casa do anfitrião do banquete Agaton, para ir dedicar-se a suas ocupações rotineiras: última manifestação desta alma forte, que a filosofia tinha tornado invulnerável às paixões.”

que o mesmo homem deve ser poeta trágico e poeta cômico, e que, quando se sabe tratar a tragédia segundo as regras da arte, deve-se saber por igual tratar a comédia. Obrigados a convir com as afirmações de Sócrates, e estando como que embotados pela longa noite de discussões, começaram a sentir sono. Aristófanes adormeceu primeiro, depois Agaton, com o sol já bastante alto; Sócrates, vendo ambos já inconscientes, levantou-se e saiu acompanhado, como de costume, por Aristodemo; dali foi-se ao Liceu, banhou-se, e passou o restante do dia em suas ocupações habituais, de modo que não regressou a sua casa até de tarde, quando enfim foi descansar.”

WINTER’S TALE ou CONTO DE UMA NOITE DE INVERNO

TEMPO, o Coro

LEONTES, o Rei Anfitrião

CAMILLO, um siciliano (súdito do anfitrião, depois do Rei da Boêmia, depois outra vez do rei siciliano!)

ARCHIDAMUS, um boêmio

ANTIGONUS, um siciliano, um dos primeiros da côrte de Leontes

jovem príncipe MAMILLIUS da Sicília, filho de Leontes, trágica criança!

POLIXENES, Rei da Boêmia, amigo de infância de Leontes

HERMIONE, (por algum tempo) Rainha da S.

PAULINA, uma confidente da Rainha, esposa de Antigonus

CLEOMENES, siciliano a serviço do oráculo (1)

DION, siciliano a serviço do oráculo (2)

PERDITA, a princesa desgraçada do reino da Sicília, seu nome a descreve bem

PASTOR boêmio, pai adotivo de Perdita

PALHAÇO, filho do Pastor

príncipe FLORIZEL, filho de Polixenes, apaixonado perditamente

AUTOLYCUS, ladrão astuto

MOPSA, o par romântico do Palhaço

DORCAS, humilde serva do Pastor

* * *

If the king had no son, they would desire to live on crutches [muletas, andador] till he had one.”

HERMIONE

(…)

Verily,

You shall not go: a lady’s ‘Verily’ ‘s

As potent as a lord’s. Will you go yet?

Force me to keep you as a prisoner,

Not like a guest; so you shall pay your fees

When you depart, and save your thanks. How say you?

My prisoner? or my guest? by your dread ‘Verily,’

One of them you shall be.”

LEONTES, papai coruja

(…)

Looking on the lines

Of my boy’s face, methoughts I did recoil

Twenty-three years, and saw myself unbreech’d,

In my green velvet coat, my dagger muzzled,

Lest it should bite its master, and so prove,

As ornaments oft do, too dangerous:

How like, methought, I then was to this kernel,

This squash, this gentleman.”

Go, play, boy, play: thy mother plays, and I

Play too, but so disgraced a part, whose issue

Will hiss me to my grave: contempt and clamour

Will be my knell. Go, play, boy, play.”

Estou pescando agora, embora não percebam!

Uma pesca delirante

E os convivas são os peixes

CAMILLO

Stays here longer.

LEONTES

Ay, but why?

CAMILLO

To satisfy your highness and the entreaties

Of our most gracious mistress.

LEONTES

Satisfy!

The entreaties of your mistress! satisfy!

Let that suffice.”

Enquanto aqui falo, neste exato momento

Muitos e muitos homens devem estar a segurar

sua mulherzinha nos braços;

E nem desconfiam que ela escorreu de suas mãos

na sua ausência,

E seu peixão foi fisgado pelo vizinho ao lado,

pelo Senhor Sorriso, seu vizinho: ah, isto é

até um consolo: Ver que não só comigo,

Mas os portões de outros abriram contra

sua vontade. Se todos os homens desesperassem

da fidelidade de suas esposas, um décimo da humanidade

se mataria enforcada. Médico pra isso não há!

É um mundo obsceno, que mais se mostra

Onde é predominante; e forte é essa obscenidade

De leste a oeste, de norte a sul:

Não há muralhas para uma barriga!

O inimigo poderá transitar a bel-prazer

Com mala e sacola: aos milhares, se pensarmos

Que tantos têm a doença, mas não sentem os sintomas.”

Viver em sussurros não é nada?

Beijinho na bochecha? Encontro de narizes?

Mandar beijo às escondidas? Parar de repente no ar

a gargalhada, e encerrâ-la num suspiro?–sinal infalível

de falta de honestidade—cavalgar lado a lado?

Trombadelas em esquinas escuras ao acaso?

Desejar que as horas passassem mais devagar?

Cada hora, cada minuto, nele se deliciar?

Estar desperta e lúcida tanto ao meio-dia

quanto à meia-noite? Todos cegos a essa agulha

diminuta e essas teias invisíveis que eles tecem,

mancomunados como estão? É seu ninho de amor,

essa teia-de-aranha! Isso tudo não é nada?

Porque se for, o mundo e tudo nele não é nada;

O azul do céu nada é; Boêmia não está de pé;

Minha esposa não existe; nada têm esses nadas,

Se isso é nada!”

Se seu fígado estivesse comprometido como está sua integridade, ela não teria mais um dia de vida!”

Um pajem vê mais do quarto de sua ama do que da terra vê do céu um deus;

ah tu, mordomo e garçom, que trazes e levas os copos,

por que é que tu não trazes uma bebida especial para aquele ali,

um boa-noite cinderela para toda a eternidade,

um afogamento que me deixaria realizado?”

LEONTES

I will seem friendly, as thou hast advised me.

Exit”

CAMILLO

(…)

I must

Forsake the court: to do’t, or no, is certain

To me a break-neck. Happy star, reign now!

Here comes Bohemia.

Re-enter POLIXENES

POLIXENES

The king hath on him such a countenance

As he had lost some province and a region

Loved as he loves himself: even now I met him

With customary compliment; when he,

Wafting his eyes to the contrary and falling

A lip of much contempt, speeds from me and

So leaves me to consider what is breeding

That changeth thus his manners.

CAMILLO

I dare not know, my lord.”

Você não ousa saber ou não sabe?

O que você sabe, você sabe,

não tem que ousar ou não.”

Good Camillo,

Your changed complexions are to me a mirror

Which shows me mine changed too; for I must be

A party in this alteration, finding

Myself thus alter’d with ‘t.”

POLIXENES

A sickness caught of me, and yet I well!

(…)

What incidency thou dost guess of harm

Is creeping toward me; how far off, how near;

Which way to be prevented, if to be;

If not, how best to bear it.”

Minha reputação agora fede até para coveiros!

I am sure ‘tis safer to

Avoid what’s grown than question how ‘tis born.”

Decerto é mais seguro evitar o que se tornou ameaçador do que descobrir como se tornou.”

This jealousy

Is for a precious creature: as she’s rare,

Must it be great, and as his person’s mighty,

Must it be violent, and as he does conceive

He is dishonour’d by a man which ever

Profess’d to him, why, his revenges must

In that be made more bitter. Fear o’ershades me:

Good expedition be my friend, and comfort

The gracious queen, part of his theme”

MAMILLIUS

A sad tale’s best for winter: I have one

Of sprites and goblins.”

All’s true that is mistrusted”

I have said

She’s an adulteress; I have said with whom:

More, she’s a traitor and Camillo is

A federary with her”

every inch of woman in the world, ay, every dram of woman’s flesh is false, If she be.”

ANTIGONUS

(…)

Be she honour-flaw’d,

I have three daughters; the eldest is eleven

The second and the third, nine, and some five;

If this prove true, they’ll pay for’t:

by mine honour,

I’ll geld ‘em all; fourteen they shall not see,

To bring false generations: they are co-heirs;

And I had rather glib myself than they

Should not produce fair issue.”

LEONTES

Though I am satisfied and need no more

Than what I know, yet shall the oracle

Give rest to the minds of others, such as he

Whose ignorant credulity will not

Come up to the truth. So have we thought it good

From our free person she should be confined,

Lest that the treachery of the two fled hence

Be left her to perform.”

(…)

She is something before her time deliver’d.

PAULINA

A boy?

EMILIA

A daughter, and a goodly babe,

Lusty and like to live: the queen receives

Much comfort in’t; says <My poor prisoner,

I am innocent as you.>”

We do not know

How he may soften at the sight o’ the child:

The silence often of pure innocence

Persuades when speaking fails.”

I am as ignorant in that as you

In so entitling me, and no less honest

Than you are mad; which is enough, I’ll warrant,

As this world goes, to pass for honest.”

The root of his opinion, which is rotten

As ever oak or stone was sound.”

It is an heretic that makes the fire,

Not she which burns in’t. I’ll not call you tyrant;

But this most cruel usage of your queen,

Not able to produce more accusation

Than your own weak-hinged fancy, something savours

Of tyranny and will ignoble make you,

Yea, scandalous to the world.”

Eu não sou tirano! E para prová-la, lançá-la-ei à fogueira!

Shall I live on to see this bastard kneel

And call me father? better burn it now

Than curse it then. But be it; let it live.

It shall not neither. “

We enjoin thee,

As thou art liege-man to us, that thou carry

This female bastard hence and that thou bear it

To some remote and desert place quite out

Of our dominions, and that there thou leave it,

Without more mercy, to its own protection

And favour of the climate. As by strange fortune

It came to us, I do in justice charge thee,

On thy soul’s peril and thy body’s torture,

That thou commend it strangely to some place

Where chance may nurse or end it. Take it up.”

LEONTES

Your actions are my dreams;

You had a bastard by Polixenes,

And I but dream’d it.”

Officer

You here shall swear upon this sword of justice,

That you, Cleomenes and Dion, have

Been both at Delphos, and from thence have brought

The seal’d-up oracle, by the hand deliver’d

Of great Apollo’s priest; and that, since then,

You have not dared to break the holy seal

Nor read the secrets in’t.”

Officer

[Reads] Hermione is chaste;

Polixenes blameless; Camillo a true subject; Leontes

a jealous tyrant; his innocent babe truly begotten;

and the king shall live without an heir, if that

which is lost be not found.

Lords

Now blessed be the great Apollo!

HERMIONE

Praised!

LEONTES

Hast thou read truth?

Officer

Ay, my lord; even so

As it is here set down.

LEONTES

There is no truth at all i’ the oracle:

The sessions shall proceed: this is mere falsehood.”

LEONTES

(…)

Apollo, pardon

My great profaneness ‘gainst thine oracle!

I’ll reconcile me to Polixenes,

New woo my queen, recall the good Camillo,

Whom I proclaim a man of truth, of mercy;

For, being transported by my jealousies

To bloody thoughts and to revenge, I chose

Camillo for the minister to poison

My friend Polixenes: which had been done,

But that the good mind of Camillo tardied

My swift command, though I with death and with

Reward did threaten and encourage him,

Not doing ‘t and being done: he, most humane

And fill’d with honour, to my kingly guest

Unclasp’d my practise, quit his fortunes here,

Which you knew great, and to the hazard

Of all encertainties himself commended,

No richer than his honour: how he glisters

Thorough my rust! and how his pity

Does my deeds make the blacker!”

PAULINA

(…) O lords,

When I have said, cry ‘woe!’ the queen, the queen,

The sweet’st, dear’st creature’s dead,

and vengeance for’t

Not dropp’d down yet.”

But, O thou tyrant!

Do not repent these things, for they are heavier

Than all thy woes can stir; therefore betake thee

To nothing but despair. A thousand knees

Ten thousand years together, naked, fasting,

Upon a barren mountain and still winter

In storm perpetual, could not move the gods

To look that way thou wert.”

HERMIONE’s ghost

(…)

for the babe

Is counted lost for ever, Perdita,

I prithee, call’t.”

Pastor

Quisera não haver idade entre 16 e 23,

ou que a juventude passasse esses 7 malditos

anos dormindo. Não há nada entre um extremo

e outro, deste intervalo suntuoso, a não ser

barrigas de bebê, anciãos ludibriados, roubos,

combates—Ah, quisera que enxergassem!

Se ao menos um desses cérebros de geléia e paçoca,

de 19 e 22 anos, não saísse para caçar nesse tempo ruinoso?

Estes descerebrados espantaram duas das minhas

melhores ovelhas, que, temo, serão primeiro achadas

pelo lobo que pelo mestre: creio que o único lugar

em que vivas ainda podem estar, seria no litoral,

à procura de hera.

Ó! Zeus meu, se não é uma grande fortuna o que

vejo agora com meus olhos! É uma manjedoura,

e há algo ali, bela manjedoura é! Ó!

Menino, menina? Enrolado, enrolada em trapos.

Ó, linda menina!”

when you do dance, I wish you a wave o’ the sea, that you might ever do nothing but that”

I am put to sea

With her whom here I cannot hold on shore;

And most opportune to our need I have

A vessel rides fast by, but not prepared

For this design. What course I mean to hold

Shall nothing benefit your knowledge, nor

Concern me the reporting.”

CAMILLO

(…)

If your more ponderous and settled project

May suffer alteration, on mine honour,

I’ll point you where you shall have such receiving

As shall become your highness; where you may

Enjoy your mistress, from the whom, I see,

There’s no disjunction to be made, but by–

As heavens forefend!–your ruin; marry her,

And, with my best endeavours in your absence,

Your discontenting father strive to qualify

And bring him up to liking.”

FLORIZEL and AUTOLYCUS exchange garments

Fortunate mistress,–let my prophecy

Come home to ye!–you must retire yourself

Into some covert: take your sweetheart’s hat

And pluck it o’er your brows, muffle your face,

Dismantle you, and, as you can, disliken

The truth of your own seeming; that you may–

For I do fear eyes over–to shipboard

Get undescried.”

What an exchange had this been without boot! What

a boot is here with this exchange! Sure the gods do

this year connive at us, and we may do any thing

extempore. The prince himself is about a piece of

iniquity, stealing away from his father with his

clog at his heels: if I thought it were a piece of

honesty to acquaint the king withal, I would not

do’t: I hold it the more knavery to conceal it;

and therein am I constant to my profession.”

CLOWN

She being none of your flesh and blood, your flesh

and blood has not offended the king; and so your

flesh and blood is not to be punished by him. Show

those things you found about her, those secret

things, all but what she has with her: this being

done, let the law go whistle: I warrant you.”

AUTOLYCUS

[Aside] Though I am not naturally honest, I am so

sometimes by chance: let me pocket up my pedlar’s excrement.

Takes off his false beard

How now, rustics! whither are you bound?

Shepherd

To the palace, an it like your worship.”

Clown

We are but plain fellows, sir.

AUTOLYCUS

A lie; you are rough and hairy. Let me have no

lying: it becomes none but tradesmen, and they

often give us soldiers the lie: but we pay them for

it with stamped coin, not stabbing steel; therefore

they do not give us the lie.”

PALHAÇO

Somos apenas seus humildes e simples servos, senhor.

AUTOLYCUS

Mentira; vocês são rústicos e cheios de pêlos emaranhados. Não mintam:

Todo aquele que mente vira um comerciante, e o comerciante

Vende ao soldado a mentira: mas pagamos com moeda-falsa,

Nada de aço ou espada! É por isso, meu amigo, que não nos vendem

A mentira.”

AUTOLYCUS

How blessed are we that are not simple men!

Yet nature might have made me as these are,

Therefore I will not disdain.

Clown

This cannot be but a great courtier.

Shepherd

His garments are rich, but he wears

them not handsomely.

Clown

He seems to be the more noble in being fantastical:

a great man, I’ll warrant; I know by the picking

on’s teeth.”

AUTOLYCUS

If I had a mind to be honest, I see Fortune would not suffer me: she drops booties in my mouth. I am courted now with a double occasion, gold and a means to do the prince my master good; which who knows how that may turn back to my advancement? I will bring these two moles, these blind ones, aboard him: if he think it fit to shore them again and that the complaint they have to the king concerns him nothing, let him call me rogue for being so far officious; for I am proof against that title and what shame else belongs to’t. To him will I present them: there may be matter in it.”

PAULINA

True, too true, my lord:

If, one by one, you wedded all the world,

Or from the all that are took something good,

To make a perfect woman, she you kill’d

Would be unparallel’d.

LEONTES

I think so. Kill’d!

She I kill’d! I did so: but thou strikest me

Sorely, to say I did; it is as bitter

Upon thy tongue as in my thought: now, good now,

Say so but seldom.

CLEOMENES

Not at all, good lady:

You might have spoken a thousand things that would

Have done the time more benefit and graced

Your kindness better.

PAULINA

You are one of those

Would have him wed again.

DION

If you would not so,

You pity not the state, nor the remembrance

Of his most sovereign name; consider little

What dangers, by his highness’ fail of issue,

May drop upon his kingdom and devour

Incertain lookers on. What were more holy

Than to rejoice the former queen is well?

What holier than, for royalty’s repair,

For present comfort and for future good,

To bless the bed of majesty again

With a sweet fellow to’t?

PAULINA

There is none worthy,

Respecting her that’s gone. Besides, the gods

Will have fulfill’d their secret purposes;

For has not the divine Apollo said,

Is’t not the tenor of his oracle,

That King Leontes shall not have an heir

Till his lost child be found? which that it shall,

Is all as monstrous to our human reason

As my Antigonus to break his grave

And come again to me; who, on my life,

Did perish with the infant. ‘Tis your counsel

My lord should to the heavens be contrary,

Oppose against their wills.

To LEONTES

Care not for issue;

The crown will find an heir: great Alexander

Left his to the worthiest; so his successor

Was like to be the best.”

LEONTES

Stars, stars,

And all eyes else dead coals! Fear thou no wife;

I’ll have no wife, Paulina.”

PAULINA

O Hermione,

As every present time doth boast itself

Above a better gone, so must thy grave

Give way to what’s seen now! Sir, you yourself

Have said and writ so, but your writing now

Is colder than that theme, ‘She had not been,

Nor was not to be equall’d;’–thus your verse

Flow’d with her beauty once:’’tis shrewdly ebb’d,

To say you have seen a better.”

Your mother was most true to wedlock, prince;

For she did print your royal father off,

Conceiving you: were I but twenty-one,

Your father’s image is so hit in you,

His very air, that I should call you brother,

As I did him, and speak of something wildly

By us perform’d before. Most dearly welcome!

And your fair princess,–goddess!–O, alas!

I lost a couple, that ‘twixt heaven and earth

Might thus have stood begetting wonder as

You, gracious couple, do: and then I lost–

All mine own folly–the society,

Amity too, of your brave father, whom,

Though bearing misery, I desire my life

Once more to look on him.”

FLORIZEL

Good my lord,

She came from Libya.

LEONTES

Where the warlike Smalus,

That noble honour’d lord, is fear’d and loved?”

Lord [mensageiro]

Bohemia greets you from himself by me;

Desires you to attach his son, who has–

His dignity and duty both cast off–

Fled from his father, from his hopes, and with

A shepherd’s daughter.”

Utter shame!

FLORIZEL

Camillo has betray’d me;

Whose honour and whose honesty till now

Endured all weathers.”

LEONTES

You are married?

FLORIZEL

We are not, sir, nor are we like to be;

The stars, I see, will kiss the valleys first:

The odds for high and low’s alike.”

Second Gentleman

Nothing but bonfires: the oracle is fulfilled; the king’s daughter is found: such a deal of wonder is

broken out within this hour that ballad-makers cannot be able to express it.”

The mantle of Queen Hermione’s, her jewel about the neck of it, the letters of Antigonus found with it which they know to be his character, the majesty of the creature in resemblance of the mother, the affection of nobleness which nature shows above her breeding, and many other evidences proclaim her with all certainty to be the king’s daughter.”

Third Gentleman

No: the princess hearing of her mother’s statue, which is in the keeping of Paulina,–a piece many years in doing and now newly performed by that rare Italian master, Julio Romano, who, had he himself eternity and could put breath into his work, would beguile Nature of her custom, so perfectly he is her ape: he so near to Hermione hath done Hermione that they say one would speak to her and stand in hope of answer: thither with all greediness of affection are they gone, and there they intend to sup.”

AUTOLYCUS

(…)

Enter Shepherd and Clown

Here come those I have done good to against my will,

and already appearing in the blossoms of their fortune.”

Clown

So you have: but I was a gentleman born before my father; for the king’s son took me by the hand, and called me brother; and then the two kings called my father brother; and then the prince my brother and the princess my sister called my father father; and so we wept, and there was the first gentleman-like tears that ever we shed.

Shepherd

We may live, son, to shed many more.

Clown

Ay; or else ‘twere hard luck, being in so preposterous estate as we are.

AUTOLYCUS

I humbly beseech you, sir, to pardon me all the faults I have committed to your worship and to give

me your good report to the prince my master.

Shepherd

Prithee, son, do; for we must be gentle, now we are gentlemen.

Clown

Thou wilt amend thy life?

AUTOLYCUS

Ay, an it like your good worship.

Clown

Give me thy hand: I will swear to the prince thou art as honest a true fellow as any is in Bohemia.

Shepherd

You may say it, but not swear it.

Clown

Not swear it, now I am a gentleman? Let boors and franklins say it, I’ll swear it.

Shepherd

How if it be false, son?

Clown

If it be ne’er so false, a true gentleman may swear it in the behalf of his friend: and I’ll swear to the prince thou art a tall fellow of thy hands and that thou wilt not be drunk; but I know thou art no tall fellow of thy hands and that thou wilt be drunk: but I’ll swear it, and I would thou wouldst be a tall fellow of thy hands.

AUTOLYCUS

I will prove so, sir, to my power.”

Uma estátua que emula a vida melhor que o sono emula a morte.

PAULINA

As she lived peerless,

So her dead likeness, I do well believe,

Excels whatever yet you look’d upon

Or hand of man hath done; therefore I keep it

Lonely, apart. But here it is: prepare

To see the life as lively mock’d as ever

Still sleep mock’d death: behold, and say ‘tis well.”

LEONTES

(…) But yet, Paulina,

Hermione was not so much wrinkled, nothing

So aged as this seems.

POLIXENES

O, not by much.

PAULINA

So much the more our carver’s excellence;

Which lets go by some sixteen years and makes her

As she lived now.”

I am ashamed: does not the stone rebuke me

For being more stone than it? O royal piece,

There’s magic in thy majesty, which has

My evils conjured to remembrance and

From thy admiring daughter took the spirits,

Standing like stone with thee.”

CAMILLO

My lord, your sorrow was too sore laid on,

Which 16 winters cannot blow away,

So many summers dry; scarce any joy

Did ever so long live; no sorrow

But kill’d itself much sooner.”

No settled senses of the world can match the pleasure of that madness.”

Nenhum sentido deste mundo, por mais apurado, pode igualar as delícias desta loucura.

Let no man mock me,

For I will kiss her.

PAULINA

Good my lord, forbear:

The ruddiness upon her lip is wet;

You’ll mar it if you kiss it, stain your own

With oily painting. Shall I draw the curtain?

LEONTES

No, not these twenty years.

PERDITA

So long could I

Stand by, a looker on.”

PAULINA

Music, awake her; strike!

Music

Tis time; descend; be stone no more; approach;

Strike all that look upon with marvel. Come,

I’ll fill your grave up: stir, nay, come away,

Bequeath to death your numbness, for from him

Dear life redeems you. You perceive she stirs:

HERMIONE comes down

Start not; her actions shall be holy as

You hear my spell is lawful: do not shun her

Until you see her die again; for then

You kill her double. Nay, present your hand:

When she was young you woo’d her; now in age

Is she become the suitor?

LEONTES

O, she’s warm!

If this be magic, let it be an art

Lawful as eating.

POLIXENES

She embraces him.

CAMILLO

She hangs about his neck:

If she pertain to life let her speak too.

POLIXENES

Ay, and make’t manifest where she has lived,

Or how stolen from the dead.”

Turn, good lady;

Our Perdita is found.

HERMIONE

You gods, look down

And from your sacred vials pour your graces

Upon my daughter’s head! Tell me, mine own.

Where hast thou been preserved? where lived? how found

Thy father’s court? for thou shalt hear that I,

Knowing by Paulina that the oracle

Gave hope thou wast in being, have preserved

Myself to see the issue.

Achadita!

PAULINA

(…) I, an old turtle,

Will wing me to some wither’d bough and there

My mate, that’s never to be found again,

Lament till I am lost.”

LEONTES

(…) Come, Camillo,

And take her by the hand, whose worth and honesty

Is richly noted and here justified

By us, a pair of kings.”

AS AFINIDADES ELETIVAS

Tradução de Tercio Redondo (Companhia das Letras)

Schiller, que tinha de se esforçar muito para escrever poesia, deixou registrado seu espanto com a facilidade com que Goethe era capaz de desfiar poemas em todo e qualquer formato, sem nenhum tipo de esforço ou preparação: se quisesse, podia falar poesia como outros homens falam blocos de prosa; era uma capacidade obviamente inata, no sentido de que compor música era inato em Mozart. Seus sonetos para Fräulein Herzlieb são, como se poderia esperar, imitações perfeitas do modelo italiano: ritmo de fluência fácil, rimas sem esforço, cada poema sendo o veículo de uma ideia levemente engenhosa.”

a própria ação não é realista, ela avança de uma forma mais ordenada do que a vida cotidiana ou a vida cotidiana em um romance, há uma simetria de ação estranha à realidade e, com frequência, a conclusão é prefigurada, de modo que há um sentido de inevitabilidade nela; por fim, há sempre um narrador explícito ou implícito, supõe-se que a história seja algo que ele viveu ou ouviu falar, e não uma coisa que inventou, sua função é reproduzir um evento real como uma obra de arte consciente, de tal modo que exiba um grau mais elevado de talento artístico e artificialidade do que se encontra normalmente em um romance. Essas <regras> não foram obviamente criadas com antecedência, mas extraídas da prática dos escritores alemães.” “E o motivo de enfatizar esse fato é alertar o leitor com antecedência para o tipo de narrativa que encontrará, de modo que, quando descobrir que ela não se desenvolve como um romance costuma fazer, não sinta algum desconforto ou suponha que a obra seja uma tentativa frustrada de uma forma literária que, na verdade, ela nunca pretendeu ser.”

sabemos apenas seus prenomes (Eduard, Ottilie, Charlotte), ou títulos (o capitão, o conde, a baronesa), ou profissão (o professor, o arquiteto, o jardineiro), ou, em um caso, um sobrenome irônico (Mittler — Mediador); o cenário não é realista, e os lugares em que a ação ocorre (a mansão, a aldeia, a cabana coberta de musgo, o pavilhão, o parque etc.) também possuem uma função simbólica; a própria ação não é realista, contém elementos não suscetíveis de explicação racional, e avança de uma forma mais ordenada e simétrica do que seria de esperar em um romance. E o mais importante é que não é narrada diretamente pelo autor, mas por um narrador que também é um personagem inventado, embora nunca apareça.”

Wahlverwandtschaft era um termo técnico de química do século XVIII, a tradução alemã de uma criação do químico sueco Torbern Olof Bergmann (1735-84), no título de seu livro De attractionibus electivis (1775), traduzido para o alemão por Heinrich Tabor em 1785. A expressão em inglês (e em português) <afinidade eletiva> está muito mais próxima do original em latim do que a tradução alemã e, embora não seja autoexplicativa, provavelmente não pode ser melhorada. Seu significado é descrito no quarto capítulo da primeira parte de As afinidades eletivas e não precisa ser repetido. O que devemos ressaltar aqui é o seu caráter extraordinário como título de uma obra de ficção. É como se um romancista contemporâneo chamasse seu livro de O princípio da verificabilidade ou E igual a MC ao quadrado. As conotações emocionais e românticas que o termo adquiriu depois derivaram do romance ao qual dava título: na época da publicação da obra, Wahlverwandtschaft era um termo usado unicamente em química.

(Prefácio de Hollingdale)

* * *

em certos casos é necessário e mesmo gentil preferir nada escrever a não escrever.”

Mas quem afinal é tão educado que já não tenha, de modo cruel, imposto sua superioridade sobre os outros? E quem é tão altivo que já não tenha padecido frente a tamanha opressão?”

Aqueles que são supersticiosos em relação ao significado dos nomes afirmam que o patronímico Mittler levou-o a abraçar esta que é a mais curiosa das vocações.”

Pensam que fui posto no mundo para dar conselhos? Esse é o ofício mais estúpido que alguém pode exercer. Aconselhe-se cada qual consigo mesmo e faça o que tem de ser feito. Tendo bom êxito, que se alegre com sua sabedoria e felicidade; advindo-lhe, porém, o mal, estarei às ordens. Aquele que quer se livrar de um mal, sempre sabe o que quer; aquele que deseja ter mais do que tem, está totalmente cego”

Acolham os amigos, deixem-nos de lado: é tudo a mesma coisa! Já vi fracassar o mais racional dos projetos e prosperar o mais canhestro deles.”

Eduard era menos hábil na flauta, pois, mesmo que por vezes se aplicasse com afinco ao estudo do instrumento, não era dotado da paciência e da perseverança necessárias à formação desse tipo de talento.”

Eduard cultivava com prazer o hábito da leitura em voz alta; surgiam assim oportunidades ocasionais e muito bem-vindas de se ouvir algo a respeito. Ele era dono de uma voz grave e bastante agradável, e no passado tornara-se famoso e benquisto em virtude da leitura cheia de verve e sentimento que fazia de obras poéticas e retóricas. Agora eram outros os temas que o interessavam, outros os escritos que declamava, e havia algum tempo trazia a seus ouvintes tratados de física e química e obras de caráter técnico.

Uma de suas idiossincrasias, partilhada certamente com outras pessoas, era a aversão que sentia quando alguém punha os olhos na página que estava a ler. No passado, durante a leitura pública de poemas, dramas e narrativas, esse zelo fôra a conseqüência natural da intenção do leitor — assim como do poeta, do ator e do narrador — de surpreender, estabelecer pausas e criar o suspense; daí o mal-estar gerado por um olhar bisbilhoteiro, que prejudicava o efeito buscado na declamação. Por isso, nessas ocasiões, Eduard sempre procurara ocupar um lugar em que não houvesse ninguém a suas costas. Agora, num grupo de apenas três pessoas, a precaução era ociosa, pois não se buscava exaltar os sentimentos nem estimular a fantasia; assim, ele não se cercava de cuidados em relação à curiosidade alheia.”

– Quando alguém põe os olhos na página que leio, sinto-me como que partido em dois pedaços”

– Você há de perdoar meu erro ao se inteirar do que se passou comigo. Ouvi durante a leitura a menção a afinidades e, nesse instante, lembrei-me de meus parentes, de alguns primos que ora ocupam meu pensamento. Em seguida minha atenção retorna à leitura; percebo que se fala de coisas absolutamente inanimadas e olho para o livro a fim de me reorientar

– Obviamente, trata-se apenas de terra e minerais, mas o homem é um completo Narciso; vê sua imagem refletida por toda parte e pretende ser a medida de todas as coisas.”

É muito ruim que não possamos mais aprender as coisas para a vida toda, disse Eduard. Nossos antepassados atinham-se às lições aprendidas na juventude; nós, porém, temos de reaprender tudo a cada cinco anos se não quisermos ficar obsoletos.”

Os álcalis e os ácidos antagonizam-se, mas apesar disso, ou talvez por isso mesmo, procuram-se avidamente e se apegam, modificam-se e formam um novo corpo, revelando sua afinidade de maneira suficientemente clara. Pensemos na cal, que exprime grande inclinação por todos os ácidos, uma verdadeira compulsão à união!”

– …as afinidades se tornam realmente interessantes quando produzem separações e divórcios.”

– Quer dizer, exclamou Charlotte, que essa triste palavra, infelizmente a cada dia mais pronunciada, é empregada também no domínio das ciências naturais?

– Decerto!, respondeu Eduard; no passado os químicos recebiam o título honorífico de artífice das separações.”

o emprego do termo afinidade eletiva está justificado, pois temos a impressão de que uma relação foi realmente favorecida, de que houve uma escolha em detrimento de outra.”

A ocasião determina a relação, do mesmo modo que ela faz o ladrão.”

Conversas metafóricas são gentis e divertidas; afinal, quem não gosta de se entreter com analogias? O homem, contudo, está num patamar superior em relação aos elementos.”

Esses casos são os mais significativos e curiosos; por meio deles podemos expor os estados de atração, afinidade, abandono e união entrecruzados no ponto em que um par de seres unidos entra em contato com outro par; os seres de ambos os pares abandonam então a prévia unidade e iniciam uma nova ligação. No ato de se deixar levar e no de apanhar, no de fugir e no de estar à procura, acreditamos vislumbrar uma determinação mais elevada; imputamos a esses seres uma espécie de vontade e escolha e tomamos por justificado o uso do termo científico afinidades eletivas.”

assim que eu puder realizar o experimento, tudo se tornará mais claro e compreensível.”

se, por meio de sua maravilhosa cor, a esmeralda faz bem à vista e chega mesmo a possuir algum poder de cura sobre esse nobre sentido, a beleza humana exerce uma influência ainda maior sobre os sentidos internos e externos. Aquele que a contempla não é atingido por nenhum sopro malfazejo; sente-se conciliado consigo mesmo e com o mundo.”

Ninguém ouvia seus passos, tão suave era o modo como chegava.”

Como é difícil para o homem ponderar com equilíbrio o sacrifício que se exige para a conquista de algo; como é difícil desejar os fins sem poder recusar os meios! Muitos confundem o meio e o fim, alegram-se com o primeiro esquecendo-se do segundo.”

DA HOSPITALIDADE NO ESTRANGEIRO: “Em tudo, devemos ser ponderados e constantes, na benevolência inclusive. Um óbolo demasiadamente generoso atrai mendigos em vez de despachá-los. Numa viagem, pelo contrário, quando estamos de passagem, surgimos diante de um pobre na forma eventual de um acaso feliz e podemos favorecê-lo com um donativo surpreendente.”

No trabalho sói acontecer o mesmo que na dança: parceiros que logram manter o mesmo passo tornam-se imprescindíveis; nasce então um sentimento de bem-estar que é partilhado por ambos os dançarinos. Desde que se aproximara do capitão, Charlotte passara a apreciá-lo, e um sinal indubitável dessa afeição era o fato de admitir a destruição de um retiro que ela, no início das obras, planejara e construíra com todo cuidado, e que, no entanto, contrariava os planos do amigo. Ela aquiescia a seu desejo, sem provar o menor desconforto.”

quando ele olhava para cima e via Ottilie avançando com desembaraço, sem demonstrar medo ou hesitação, saltando de uma pedra a outra e exibindo o mais perfeito equilíbrio, acreditava contemplar um ente celestial que pairava sobre ele. E quando, em trechos mais difíceis, ela tomava a mão que ele lhe estendia e se apoiava sobre seu ombro, ele não podia negar que jamais fora tocado por uma figura feminina tão delicada. Chegou a desejar que ela tropeçasse e escorregasse, de modo que pudesse tomá-la nos braços e aninhá-la em seu peito.”

Esse era provavelmente o mais belo par de mãos que se houveram juntado. Ele sentia que uma pedra se lhe desprendia do coração; ruía um muro que os separava.”

Não somos, afinal, capazes de fazer um longo passeio apenas para tomar um café, para comer um prato de peixe que em casa não tem o sabor que desejamos?”

O capitão e Charlotte observaram em silêncio esse feito inesperado, mantendo aquele sentimento que temos ao contemplar certas ações infantis que, em virtude das consequências que podem acarretar, não aprovamos mas também não censuramos, chegando até mesmo a invejá-las.”

E assim, de um gole, ele esvaziou uma taça de cristal finamente lavrado e o arremessou para o alto, pois o ato de quebrar o copo em que se bebeu num momento de bonança caracteriza o estado da suprema felicidade.”

Há quanto tempo?, perguntou Ottilie. Foram plantadas mais ou menos à época em que você veio ao mundo. Sim, cara menina, no tempo em que você estava no berço eu já me punha a plantar.

Falou-se em francês a fim de excluir os criados da conversa e divagou-se com maliciosa satisfação sobre relacionamentos mundanos envolvendo tanto a gente da alta classe quanto os remediados.”

Na comédia vemos o casamento como um desejo adiado por uma série de empecilhos que surgem a cada ato; no momento em que ele se realiza, fecham-se as cortinas e essa momentânea satisfação ecoa em nosso íntimo. Na vida as coisas acontecem de outro modo; a encenação continua e, quando as cortinas se abrem novamente, não queremos ver nem ouvir mais nada.”

em meio a um mundo tão movimentado, essa decidida e eterna duração na vida conjugal é um arranjo que se revela canhestro. Um de meus amigos, cujo bom humor sobressai pela proposição de novas leis, afirmou certa feita que todo casamento deveria encerrar um contrato de apenas cinco anos. Dizia que esse era um belo e sagrado número ímpar, que esse lapso de tempo era suficiente para que as pessoas se conhecessem, tivessem alguns filhos, se desentendessem e — o que é bonito nessa história — se reconciliassem. Ele costumava exclamar: <Como seria bela a primeira fase! Pelo menos dois, três anos transcorreriam de modo aprazível. Uma das partes desejaria então que a relação se prolongasse; a amabilidade cresceria à medida que se aproximasse o termo do contrato. A parte indiferente ou, quem sabe, insatisfeita, se tranquilizaria e se sentiria atraída por esse comportamento. As duas pessoas envolvidas se esqueceriam do tempo, como sói acontecer quando se está em boa companhia, e se surpreenderiam agradavelmente ao notar que o prazo estipulado de início fora imperceptivelmente estendido>.

Por mais galante e divertido que soasse o comentário, e por mais que se pudesse atribuir ao gracejo um profundo significado moral — como Charlotte bem podia perceber —, opiniões como essa incomodavam, sobretudo por causa de Ottilie. Charlotte sabia que nada era tão perigoso quanto a conversação demasiado livre, que trata de uma situação digna de punição ou, ao menos, de alguma censura, como se fosse algo comum, usual e até mesmo louvável; e certamente isso implicava tudo aquilo que dizia respeito aos laços matrimoniais. Por isso, com a desenvoltura de sempre, procurou desviar o rumo da conversa, e sentiu por não ter logrado o intento; ademais, Ottilie havia organizado tudo de maneira a não ter de se levantar. Um simples olhar da menina, calma e atenta, era suficiente para que o mordomo compreendesse o que lhe era demandado, de modo que tudo transcorria à perfeição, embora alguns criados recém-contratados e pouco expeditos permanecessem imóveis, enfiados em seu libré.”

Esse amigo, prosseguiu, propôs ainda outra lei: um casamento só deveria se tornar indissolúvel quando ambas as partes, ou pelo menos uma delas, estivesse se casando pela terceira vez, pois, nesse caso, a pessoa em questão demonstraria de maneira cabal que o casamento lhe era imprescindível. A essa altura dos acontecimentos, já se saberia como ela se comportara em suas relações matrimoniais anteriores e se ela apresentaria qualidades com maior potencial de promover a separação do que as más qualidades em si mesmas. Seria necessário que cada parte se informasse sobre a outra; cumpriria estar atento às pessoas casadas e às não casadas, pois não se saberia de antemão como as coisas iriam se desenrolar.”

enquanto estamos casados, ninguém se importa com nossas virtudes nem com nossas fraquezas.”

os casamentos têm — perdoem-me a expressão um pouco forte — algo de grosseiro; eles arruínam as relações mais delicadas e, na verdade, baseiam-se na rude segurança que ao menos uma das partes impõe em benefício próprio. Tudo então se torna óbvio, e os cônjuges parecem ter se unido com o intuito de que cada um siga o próprio caminho.”

Tê-lo conhecido é um acaso bastante oportuno. Sei de um cargo que lhe cabe perfeitamente e, por meio de sua indicação, posso ao mesmo tempo fazê-lo feliz e obsequiar da melhor maneira possível um amigo influente.

Ela se sentiu como que atingida por um raio. O conde nada notou, pois, acostumadas a se controlar o tempo todo, as mulheres aparentam certa compostura mesmo nas situações mais difíceis. Entretanto, a amiga já não ouvia mais o que o conde dizia no momento em que ele acrescentava: Quando me convenço de algo, faço tudo da maneira mais rápida possível. Já concebi a carta mentalmente e me sinto compelido a escrevê-la. Providencie um mensageiro a cavalo que eu possa despachar nesta mesma noite.

Charlotte estava arrasada.”

Mulheres casadas, mesmo quando não sustentam uma afeição recíproca, mantêm-se silenciosamente unidas, sobretudo diante das moças. (…) Além disso, ainda pela manhã a baronesa havia conversado com Charlotte sobre Ottilie. Reprovara sua permanência no campo, especialmente por causa de seu

espírito pacato, e recomendara que fosse entregue aos cuidados de uma amiga na cidade. Esta se empenhava na educação de sua única filha e no momento buscava para ela uma parceira de boa índole, que seria adotada e gozaria de todos os privilégios da casa. Charlotte decidiu considerar a proposta.”

o autocontrole exercido em situações extremas ensina-nos a agir com dissimulação também nos casos rotineiros e, aplicando essa força sobre nós mesmos, tornamo-nos capazes de estender nosso domínio sobre outras pessoas a fim de que, por meio da conquista de algo externo, compensemos nossas carências internas.

Esse modo de pensar geralmente implica uma espécie de prazer íntimo com a desventura de alguém que tateia às escuras e não tem consciência de que caminha para uma armadilha. Gozamos não apenas o sucesso de nossos planos, mas também a surpreendente humilhação que se anuncia.”

Um belo pé é uma grande dádiva da natureza. Sua graça é inesgotável. Observei-a hoje a caminhar; dá vontade de lhe beijar o calçado e repetir o bárbaro mas genuíno gesto de veneração dos sármatas, que desconheciam coisa melhor que o ato de, no sapato de uma pessoa amada e venerada, beber-lhe à saúde”

Na penumbra, contudo, o impulso interior e a imaginação passaram a reclamar imediatamente seus diretos sobre a realidade: Eduard tomava apenas Ottilie em seus braços; o capitão pairava ali, aproximando-se ou afastando-se do espírito de Charlotte; e assim, curiosamente, a ausência e a presença se entrelaçaram de maneira excitante e encantadora.” Eduard fodeu a esposa Charlotte imaginando que fosse sua encantadora sobrinha Otillie; Charlotte gozou com o pau do marido porque imaginava-o pertencendo ao capitão, seu melhor amigo. Infidelidade conjugal?

Não seria possível dizer qual dos dois se atirou primeiro aos braços do outro.”

Basta que amemos de todo o coração uma única pessoa para que todas as demais se tornem adoráveis!”

Ela mantinha os braços em seus ombros; ele a abraçou novamente e selou-lhe os lábios com um beijo ardente; no mesmo instante, porém, ajoelhou-se a seus pés, beijou-lhe a mão e exclamou: Você me perdoa, Charlotte?

O trabalho já não lhe dá prazer; tudo está prestes a terminar, e para quem? Os caminhos devem ser aplainados para que Ottilie possa percorrê-los confortavelmente; os bancos, postos em seu devido lugar para que Ottilie possa descansar. Também na nova casa ele faz o que está a seu alcance. Deve estar pronta para o aniversário de Ottilie. O pensamento e as ações de Eduard desconhecem quaisquer limites. A consciência de estar amando e de ser amado arrasta-o até o infinito. Como se lhe afigura distinta a aparência de todos os aposentos, de todo o entorno! Já não se sente em sua própria casa. A presença de Ottilie absorve todas as coisas, vê-se completamente tragado por ela: não lhe ocorre mais nenhum pensamento, a consciência não o adverte. Tudo aquilo que estivera reprimido em sua natureza irrompe agora, todo o seu ser jorra na direção de Ottilie.”

Charlotte traz Ottilie para perto de si; observa-a com atenção e, quanto mais percebe o que se passa em seu próprio coração, mais penetra no coração da sobrinha. Não vê outra possibilidade de salvação que não seja o afastamento da menina.”

DESAFIO ALQUÍMICO: “Charlotte esperava restabelecer em breve a própria relação com Eduard, e ordenava essas ideias de um modo tão razoável que acalentava mais e mais a ilusão de ser possível voltar a um estado anterior de confinamento e reconstituir aquilo que fora desfeito pela força.”

O ódio é certamente parcial, mas o amor o é ainda mais.”

para ele a música era um folguedo infantil e absolutamente despretensioso. Os amigos deviam ser benevolentes com aquilo que o entretinha e lhe dava prazer. Não imaginava que a falta de talento pudesse molestar a esse ponto os ouvidos de um terceiro. Via-se ofendido, furioso, incapaz de perdoar. Sentia-se livre para reagir sem qualquer escrúpulo.”

Cada sinal que pensa emitir para Ottilie retorna, acusando o próprio coração. Quer advertir e sente que ela mesma carece de advertência.”

Por princípio, não deixava inconclusa uma obra de que se encarregara, afastando-se apenas quando se via satisfatoriamente substituído. Desprezava aqueles que, para fazer notar sua saída, promoviam confusão em sua esfera de trabalho, desejando, como estúpidos egoístas, destruir aquilo que já não estivesse sob sua responsabilidade.”

Foi então que se ouviu uma horrível gritaria; grandes porções de terra despregavam-se do dique; viam-se muitas pessoas caindo na água. O solo cedera sob o peso da crescente multidão. Todos haviam procurado o melhor ponto para se acomodar e agora não se podia sair dali, não se andava para a frente nem para trás.”

Vislumbrava a união do amigo com Charlotte e a dele mesmo com Ottilie. A festa não poderia ter lhe dado um presente maior.”

Oh, como o invejo!, exclamou. Você pode gozar ainda a esmola de ontem; eu, porém, já não posso gozar o amor desse dia!”

Pois um coração que está à procura de algo intui que alguma coisa lhe falta, mas um coração que sai perdendo bem sabe aquilo de que foi privado; a nostalgia transforma-se em desgosto e impaciência, e uma natureza feminina, habituada a esperar e aguardar, deseja então desprender-se de seu círculo, tornar-se ativa, empreender alguma coisa e lutar por sua felicidade.”

Não podia permanecer em terra firme; subia ao barco e remava até o meio do lago; sacava então um relato de viagem, deixava-se embalar pelas ondas, lia e sonhava com terras distantes e nelas sempre achava seu amado.”

E, quando uma torturante fantasia o levava mais adiante, imaginava-a feliz ao lado de outro.”

uma alma absorvida pelo amor tem a necessidade urgente de se abrir, expor a um amigo aquilo que se passa com ela.”

Resta-me uma única alegria. Quando estávamos próximos, jamais sonhei com ela; agora que estamos distantes, unimo-nos em sonho. E, estranhamente, desde que passei a conhecer pessoas interessantes nestas redondezas, sua imagem tem visitado meus sonhos, como que para dizer: ‘Olhe para onde quiser, você não achará nada mais belo e adorável do que eu!’. Sua imagem imiscui-se em cada sonho meu. Tudo aquilo que nos diz respeito passa a se misturar e enovelar. Assinamos então um contrato; aí se apresentam a sua e a minha letra, o seu e o meu nome; ambos se tornam indistintos, ambos se entrelaçam. Porém, não é sem dor que ocorrem esses deliciosos devaneios. Às vezes, ela faz algo que frustra a ideia imaculada que dela tenho; só então sinto o quanto a amo, ao mesmo tempo que me assalta um indescritível temor. Bem a seu modo, ocorre também de ela zombar de mim e me torturar; mas então sua imagem imediatamente se transforma; seu rostinho lindo, redondo e celestial se alonga: é outra pessoa. Sem embargo, vejo-me torturado, insatisfeito e desconcertado.”

O AMADOR PROFISSIONAL: “Jamais amei em minha vida; somente agora entendo o que isso significa. Até agora tudo não passara de prelúdio, espera, passatempo e desperdício de tempo — até que a conheci, até que passei a amá-la, a amá-la de todo o coração. Nunca fui acusado diretamente, mas pelas costas diziam: eu era um incompetente; em quase tudo, agia como um amador. Pode ser; eu ainda não havia encontrado a matéria em que pudesse me revelar um mestre. Quero ver agora quem há de me superar na arte do amor.”

Há de haver uma paciência infinita, mas o inflexível afortunado não reconhece a dor infinita. Há casos — sim, há casos! — em que todo consolo é infame e o desespero se torna uma obrigação. Um nobre grego, que também sabe descrever heróis, não impede que eles chorem diante da aflição. Já dizia seu provérbio: ‘Os homens cobertos de lágrimas são bons’. Que me deixe aquele que traz o coração e os olhos ressequidos! Amaldiçoo os felizes, para os quais o infeliz deve servir de espetáculo.”

Diante de meus olhos contemplo minha vida presente e minha vida futura; resta-me optar entre a desventura e o prazer. Consiga, meu bom amigo, a separação, que se faz tão necessária e já se consumou; obtenha a concordância de Charlotte!”

Nossos destinos, o meu e o de Ottilie, são inseparáveis, e não vamos sucumbir. Veja esta taça! Nossas iniciais estão aí gravadas. Um celebrante cheio de júbilo arremessou-a para o alto; ninguém mais deveria dela beber; haveria de se partir no duro chão de pedra, mas foi apanhada. Resgatei-a por um alto preço, e agora bebo dela todos os dias a fim de me convencer de que são indissolúveis as relações que o destino selou.”

Tenho de acreditar e esperar que tudo voltará a ser como antes, que Eduard se reaproximará de mim. Não poderia ser diferente, pois você está diante de uma mulher que espera um filho.” “Conheço a força desse argumento sobre a alma masculina. Quantos casamentos não vi que foram apressados, consolidados ou refeitos por essa força! Uma esperança como essa é mais eficaz do que mil palavras; é a melhor esperança que podemos ter. Entretanto, no que me diz respeito, eu teria todos os motivos para estar aborrecido. Neste caso, noto que minha autoestima não é adulada. Entre vocês meu trabalho não é digno de gratidão. Vejo-me como aquele meu amigo médico que, pela graça de Deus, obtém a cura sempre que trata os pobres, mas raras vezes pode curar o rico, que bem gostaria de lhe pagar por isso. Aqui, felizmente, a questão se resolverá por si mesma, uma vez que meus esforços e minhas tentativas de persuasão seriam inúteis.”

Não obstante essas vantagens, alguns paroquianos haviam desaprovado a remoção dos sinais indicativos do lugar onde repousavam seus antepassados, ato que erradicava sua memória, pois os bem-conservados monumentos assinalavam a pessoa que ali jazia, mas não o lugar exato onde fora enterrada, e esse lugar é que constituía o cerne da questão, como muitos afirmavam.

Uma família da vizinhança partilhava esse ponto de vista; ela adquirira no cemitério comunitário um jazigo destinado a seus membros e estabelecera uma dotação regular à igreja. O jovem advogado vinha com o encargo de cancelar esse benefício e anunciar que doravante seus representados sustavam os pagamentos, pois as condições sob as quais o dinheiro fora despendido haviam sido suspensas de modo unilateral, desconsiderando-se todos os protestos e advertências. Charlotte, a responsável pela mudança, resolveu falar diretamente com o jovem, que, com ímpeto, mas sem se tornar demasiado impertinente, expôs seus motivos e os de seu mandante, dando que pensar.”

Jamais nos satisfazemos com o retrato daqueles que conhecemos. Por isso sempre tive pena do retratista. Raramente exigimos de alguém o impossível; mas não deixamos de fazê-lo quando se trata do pintor. Dele se espera que apreenda em sua obra a relação do retratado com as pessoas, bem como suas inclinações e aversões; não deve representar apenas o modo como ele mesmo vê uma pessoa, mas o modo como cada um de nós a compreende. Não me surpreende ver que esse tipo de artista paulatinamente se endurece, tornando-se indiferente e caprichoso. Esse detalhe seria irrelevante se não nos impusesse a renúncia ao retrato de pessoas tão preciosas e queridas.”

É deveras agradável a sensação de nos ocuparmos de um assunto que não conhecemos bem, pois ninguém tem o direito de censurar o diletante quando ele se aventura numa arte que jamais dominará por inteiro, e ninguém pode reprovar o artista quando ele extrapola as fronteiras de sua arte e avança sobre domínio vizinho.”

Creio que o homem sonha apenas para não cessar de ver.”

Por sorte o homem é capaz de conceber a desgraça apenas até certo ponto; aquilo que não pode compreender ou bem o aniquila ou o deixa indiferente. Há

momentos em que o temor e a esperança se fundem, compensam-se mutuamente e se esvaem numa obscura apatia.”

No fundo os macacos são verdadeiramente incroyables; é incompreensível que sejam excluídos das melhores rodas sociais.”

Ninguém falaria muito numa roda se soubesse quantas vezes deixou de compreender os outros.

Ao repetir a fala alheia é comum que a alteremos, e agimos desse modo apenas porque não a compreendemos.

Aquele que monopoliza o discurso sem se preocupar em agradar seus ouvintes gera antipatia.

Toda palavra que proferimos suscita uma ideia contrária.

Ambas, a contradição e a lisonja, ensejam um diálogo ruim.

Os grupos mais agradáveis são aqueles em que seus integrantes mantêm um cordial respeito mútuo.”

Admitimos que nossos defeitos sejam reprovados e acatamos a punição correspondente; somos pacientes ao arcar com suas consequências, mas nos tornamos impacientes quando temos de abandoná-los.

Certos defeitos são imprescindíveis à existência do indivíduo. É com insatisfação que veríamos um amigo abrir mão de certas peculiaridades.

Quando alguém age de modo contrário a seu temperamento, dizemos: <Está prestes a morrer>.”

Nossas paixões são verdadeiras fênices. Quando uma velha paixão se apaga, uma nova se ergue das cinzas.”

a relação com Ottilie, porém, tornou-se realmente amarga. Luciane desprezava a atividade tranquila e constante da doce menina, algo que, de modo inverso, era notado e elogiado por todos; e quando se mencionava o empenho de Ottilie no cuidado dos jardins e estufas, ela não se contentava em simplesmente zombar dos esforços da prima; ignorando o inverno rigoroso, dizia-se surpresa com a falta de flores e frutas, e mandava buscar grande quantidade de plantas, renovos e de tudo aquilo que estivesse a germinar, desperdiçando-os na ornamentação diária dos quartos e da mesa.”

Seus sentimentos em relação a ele permaneciam na superfície tranquila e não passional do parentesco de sangue, pois em seu coração não havia mais espaço restante; estava repleto do amor por Eduard, e apenas a divindade, que tudo penetra, podia com ele partilhar sua posse.”

Neste mundo, tomamos uma pessoa pelo que ela se faz passar; e de toda maneira ela tem de se fazer passar por algo. Toleramos mais os indivíduos incômodos que os insignificantes.”

Ninguém é tão enfadonho quanto o civil idiota. Dele temos o direito de exigir refinamento, pois jamais se ocupa de coisas grosseiras.”

Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser.

Basta a alguém declarar-se livre para logo se sentir limitado. Se, porém, vem a se declarar limitado, sente-se livre.”

Não existe consolo maior para os medíocres do que saber que o gênio não é imortal.”

Os idiotas e os inteligentes são inofensivos. Os meio bobos e os meio sábios são os tipos mais perigosos.”

A arte é o meio mais seguro para nos evadirmos do mundo; ela é também o meio mais seguro para nos vincularmos a ele.

Carecemos do artista mesmo nos momentos de grande felicidade e de grande apuro.

A arte ocupa-se daquilo que é difícil e bom.

Ver o difícil tratado com facilidade é contemplar o impossível.”

DA ROUPA COSIDA PELA AMADA> “Esse é o presente mais agradável que um homem enamorado e reverente pode receber, pois, ao recordar o incansável movimento dos belos dedos, não lhe escapará o delicioso pensamento de que também o coração participou de tão persistente trabalho.”

A boa pedagogia é exatamente o contrário das boas maneiras. Numa roda social, não devemos nos aferrar a nenhum assunto em particular, mas numa aula o primeiro mandamento seria o da luta contra toda e qualquer distração.”

Os homens deviam trajar uniforme desde a juventude, pois precisam se habituar a agir conjuntamente e se confundir com seus iguais, a obedecer em massa e a trabalhar em uníssono. Todo tipo de uniforme suscita um sentimento militar, bem como uma conduta mais justa e severa; de qualquer maneira, todos os meninos são soldados natos; basta ver-lhes os jogos de luta e combate, os assaltos a que se lançam e suas escaladas.”

– As mulheres devem se apresentar vestidas das mais variadas maneiras, cada uma de acordo com seu temperamento, para que descubram aquilo que lhes cai bem e lhes seja conveniente. Um motivo ainda mais importante para isso é que estão destinadas a permanecer e agir sozinhas vida afora.

– Isso me parece bastante paradoxal, pois quase nunca vivemos para nós mesmas.

(…)

– …O homem demanda o homem; se não existissem outros homens, ele seria capaz de criá-los; uma mulher poderia viver uma eternidade sem pensar em produzir sua semelhante.

Agora bastava torná-la inofensiva para as mulheres casadas, tornando-a também casada.”

Sabia que não desagradava a Ottilie e, se havia entre eles alguma diferença de classe, naquele tempo isso já não era uma questão incontornável. De todo modo, a baronesa lhe dissera que Ottilie continuaria a ser uma moça pobre. Ser aparentada com uma família rica não modificava essa situação, pois, segundo a experiente mulher, mesmo diante de um patrimônio colossal, o desafortunado tem escrúpulos em subtrair uma soma considerável àqueles que, ostentando um grau maior de parentesco, parecem gozar de direitos mais amplos sobre um bem.”

O MATO SEM CACHORRO DOS PASTORES: “Durante a viagem, seus sentimentos colocavam-no em pé de igualdade com Ottilie. A boa acolhida aumentou suas esperanças. É certo que não achou Ottilie tão receptiva quanto antes, mas estava mais madura, mais culta e, se quisermos, mais comunicativa do que na época em que a conheceu. Discretamente, deixaram-no livre para agir, em especial no âmbito de sua formação. Porém, quando esboçava uma aproximação de seu objetivo, certa timidez o impedia de seguir adiante.

Um dia, Charlotte ofereceu-lhe a oportunidade de se manifestar, dizendo, na presença de Ottilie: Você observou tudo aquilo que se desenvolve em meu redor; que tem a dizer sobre Ottilie? Fique à vontade para falar diante dela.

A conversa significativa, que obriga os interlocutores à reflexão, é seguida amiúde por um instante de silêncio, semelhante a um constrangimento geral. Andava-se de um lado a outro no salão; o auxiliar examinou alguns livros até deparar o volume in-fólio que ali estava desde a passagem de Luciane. Ao ver que seu conteúdo contemplava apenas macacos, fechou-o de imediato.”

É necessária uma vida ruidosa e cheia de experiências para que alguém possa tolerar os macacos, papagaios e mouros.”

Ninguém vagueia impune sob a copa das palmeiras”

Se a juventude de um filho ocorre em tempos de mudança, estamos seguros de que nada terá em comum com o pai. Se este viveu num período no qual os homens se compraziam em se apropriar de algo, em assegurar o patrimônio conquistado, circunscrevê-lo, delimitá-lo e garantir seu desfrute, tratando para isso de se apartar do mundo, aquele busca esticar o passo, comunicar-se, dispersar-se e abrir aquilo que se encontra fechado.”

Um menino veio ao mundo, em plena saúde, e as mulheres foram unânimes em dizer que o bebê era, sem tirar nem pôr, o retrato do pai. A exceção foi Ottilie, que, intimamente, discordou dessa apreciação no momento mesmo em que agradecia à parteira e saudava ternamente a criança. Charlotte já se ressentira da ausência do marido por ocasião das tratativas para o casamento da filha; agora ele não presenciava também o nascimento do filho; não determinaria o nome pelo qual a criança seria chamada.”

Naturalmente os incidentes amorosos recentes não haviam escapado aos ouvidos do público, que, aliás, está sempre seguro de que as coisas acontecem para que se possa falar delas.”

Mulheres jovens podem observar esse ou aquele rapaz, perguntando-se em segredo se o desejam como marido; mas a pessoa que tem de se preocupar com uma filha ou uma pupila estende seu olhar sobre um círculo mais amplo. Foi o que se passou nesse instante com Charlotte, para quem uma ligação do capitão com Ottilie não parecia algo impossível, recordando então o passado, quando se sentavam juntos nessa mesma cabana. Fora informada de que, mais uma vez, frustrara-se aquela perspectiva de um casamento vantajoso.”

Sempre que o assunto vinha à baila, o lorde não se abstinha de expor suas objeções, que o acompanhante ouvia modesta e pacientemente, sem, contudo, mudar seu ponto de vista nem suas intenções. Este dizia reiteradamente que não se devia desistir do experimento por ele falhar em alguns casos; que justamente por isso impunha-se uma investigação ainda mais séria e acurada, pois com certeza seriam reveladas relações e afinidades que ainda desconhecemos dos elementos inorgânicos entre si, dos inorgânicos com os orgânicos e também destes entre si.”

As amizades de juventude, assim como as de afinidade consanguínea, possuem a grande vantagem de não serem abaladas definitivamente por nenhum tipo de equívoco ou mal-entendido. E quando isso ocorre, logo se restabelecem os vínculos anteriores.”

Esses sentimentos acompanharam-me, sustentaram-me diante de todos os perigos; mas agora sinto-me na posição de alguém que atingiu o alvo, que superou todos os obstáculos, que nada mais depara em seu caminho. Ottilie é minha e encaro aquilo que se interpõe entre o pensamento e sua execução como algo absolutamente insignificante.

Trata-se de mera presunção dos pais imaginar que sua existência seja tão necessária para a criança. Tudo aquilo que vive encontra alimento e apoio, e quando, depois da morte do pai, o filho não tem uma juventude tão auspiciosa e confortável, é possível que, justamente por isso, forme-se mais rapidamente para o mundo, reconhecendo no devido tempo a necessidade de se dedicar a assuntos que todos nós, mais cedo ou mais tarde, teremos de enfrentar. E neste caso não se trata disso: somos ricos o bastante para prover uma porção de filhos, e de modo algum constitui dever ou boa ação amontoar tamanho patrimônio sobre uma única cabeça.”

Aquele que, em certa altura da vida, deseja realizar os sonhos e as esperanças da juventude, sempre se equivoca, pois cada decênio da vida de um homem traz consigo sua própria felicidade, suas próprias esperanças e expectativas. Ai daquele que, pelas circunstâncias ou por suas ilusões, se vê impelido rumo ao passado ou ao futuro! Cometemos uma tolice; deve ela durar pelo resto de nossos dias? Devemos então, em virtude de algum escrúpulo, recusar aquilo que os costumes de hoje não nos negam? Em quantas coisas abdicamos de nossos propósitos e ações! Isso não deve acontecer justamente neste ponto, em que não se trata desta ou daquela condição de vida, mas de toda a sua complexidade!”

Se lhe devo alguma coisa, é chegada a hora de lhe pagar com dividendos; se você me deve, está agora em condições de quitar sua dívida. Sei que ama Charlotte e ela é merecedora desse sentimento; sei que ela não lhe é indiferente; ela certamente haveria de reconhecer seu valor! Tome-a de minhas mãos, entregue-me Ottilie! Seremos assim os homens mais felizes de toda a Terra.”

Aquele que ao longo de toda a vida se mostrou honrado torna honrada uma ação que, nos outros, pareceria duvidosa.”

o ponto que Eduard parecia assinalar com mais ênfase e que se lhe afigurava o mais vantajoso era o seguinte: a criança deveria ficar com a mãe; seria então o major que a educaria e criaria, de acordo com seus pontos de vista, para que ela desenvolvesse suas aptidões. Não fora por acaso que se batizara o pequeno com o nome de Otto, herdado de ambos os amigos.”

Devo então, Ottilie, aterrorizar sua alma pura com a infeliz ideia de que marido e mulher, estando alheios um ao outro, podem entregar-se à volúpia, e assim, com outros ardentes desejos, profanar uma legítima aliança? (…) Por que não proferir a dura palavra: esta criança foi concebida a partir de um duplo adultério! Ela me separa de minha mulher e minha mulher de mim, da mesma maneira que deveria nos unir. Que testemunhe contra mim; que esses magníficos olhos digam aos seus que eu, nos braços de outra, pertencia a você. Saiba, Ottilie, que apenas em seus braços poderei espiar essa falta, esse crime!”

No braço e na mão esquerda, a criança e o livro; na direita, o remo. E então também ela balança e cai na canoa. O remo escapa-lhe e cai de um lado; procurando reequilibrar-se, caem-lhe a criança e o livro n’água. Ainda tem o bebê seguro pela roupa, mas a incômoda posição impede-a de se erguer. A mão direita, embora livre, não é suficiente para que ela se vire e se aprume; por fim, consegue tirar a criança d’água, mas os olhos do pequeno estão cerrados, já não respira.”

desnuda o próprio peito expondo-o pela primeira vez a céu aberto; pela primeira vez, aperta um ser vivente contra o seio imaculado e nu. Ah! Um ser que cessou de viver. Os membros frios da infeliz criatura enregelam-lhe o peito até o fundo d’alma. Lágrimas infinitas brotam de seus olhos e concedem ao ser imóvel uma aparência de calor e vida. Não desiste de seus esforços, cobre o bebê com seu xale e, com gestos de carícia e abraços, sopros, beijos e lágrimas, imagina substituir os instrumentos de socorro que lhe faltam nessa hora de solidão. Debalde! A criança jaz inerte em seus braços”

Consinto no divórcio. Devia tê-lo consentido antes. Com minha hesitação e resistência, matei a criança. Há coisas a que o destino se opõe com grande tenacidade. É em vão que a razão e a virtude, as obrigações e tudo aquilo que é sagrado atravessam seu caminho: há de acontecer o que é justo para ele e que para nós parece injusto; ao fim e ao cabo, ele intervém decididamente, não importando a maneira como venhamos a nos portar.

Que estou a dizer? O destino quer simplesmente reconduzir a seu devido lugar meu próprio desejo, minha própria intenção, contra os quais agi de modo irrefletido. Não havia eu mesma pensado em Ottilie e Eduard como o mais acertado dos casais? Não tentei eu mesma aproximá-los? Não foi você, meu amigo, confidente nesse plano? Por que não pude distinguir entre o verdadeiro amor e a obstinação de um homem? Por que tomei sua mão se, como amiga, podia tê-lo feito feliz com outra mulher? Observe a infeliz que está a dormir! Estremeço ao pensar no momento em que despertará dessa semiletargia e recobrará a consciência. Como poderá viver, como irá se consolar se não tiver a esperança de, por meio de seu amor, restituir a Eduard o que lhe furtou como instrumento nas mãos do destino mais assombroso? Ela pode devolver-lhe tudo pela afeição, pela paixão com que o ama. Se o amor pode tudo tolerar, pode ainda mais tudo restituir. Não devemos pensar em mim neste momento.”

Não somos culpados por nos tornarmos infelizes, mas também não merecemos ser felizes juntos.”

Estou decidida, assim como estivera naquela ocasião, e lhe comunico agora mesmo o teor dessa decisão. Jamais pertencerei a Eduard! Foi terrível a maneira com que Deus abriu meus olhos para o crime em que me enredei. Quero expiá-lo; ninguém vai me afastar de meu propósito! Em seguida, minha cara, minha melhor amiga, tome suas providências. Faça o major retornar. Escreva-lhe dizendo que não dê nenhum passo. Quão angustiante foi para mim a sensação de não me poder mover quando ele saiu. Eu queria me interpor, gritar para que você não o despedisse com esperanças tão criminosas.”

Não queira me comover nem me iludir! No instante em que eu souber que você consentiu no divórcio, expio no mesmo lago o delito, o crime que cometi.”

no fundo do coração perdoara-se a si mesma, sob a condição da renúncia total, e essa condição era indispensável para o porvir.”

Como é grande, mas talvez desculpável, a indiscrição das pessoas em relação a esses desventurados! Como são grandes sua tola impertinência e sua canhestra generosidade! Perdoe-me por falar assim, mas sofri terrivelmente junto àquela pobre moça quando Luciane a tirou daquele quarto escondido e passou a tratá-la com toda gentileza, querendo, com a melhor das intenções, arrastá-la para os jogos e a dança. Quando a pobre menina, cada vez mais inquieta, por fim fugiu e caiu desfalecida, e eu a segurei em meus braços; quando as pessoas em redor, assustadas e nervosas, deitaram seu olhar curioso sobre a infeliz, nesse momento não pude conceber que um idêntico destino me aguardava; mas minha simpatia por ela, tão viva e verdadeira, ainda se mantém. Agora posso dirigir minha compaixão a mim mesma e me precaver, de modo a não protagonizar uma cena semelhante.”

Nenhuma penitência, nenhuma renúncia pode nos livrar de um destino funesto e determinado a nos perseguir. O mundo se tornará repugnante e temível para mim se eu me expuser numa situação de ócio.”

Não conhecemos acaso a história de pessoas que, em virtude de grandes desgraças morais, refugiaram-se no deserto, mas lá, de maneira nenhuma, permaneceram ocultas e em segredo, tal como haviam esperado?”

O venturoso não está apto a conduzir os venturosos; é da natureza do homem cobrar sempre mais de si mesmo e dos outros, quanto mais ele recebe. Apenas o desventurado que se recupera sabe desenvolver para si mesmo e para os outros a consciência de que também as coisas frugais podem ser gozadas com prazer.”

Longe do objeto amado, quanto mais viva é nossa afeição, maior se torna a impressão de que somos senhores de nós mesmos, internalizando o poder da paixão, que procurava extravasar-se. Com que brevidade, com que rapidez não nos vemos subtraídos a esse equívoco quando aquilo que acreditávamos poder dispensar ressurge subitamente como algo imprescindível diante de nossos olhos!”

A esperança de restabelecer uma antiga felicidade volta e meia torna a flamejar no coração humano”

Para eles, a vida era um enigma cuja solução só poderiam encontrar se estivessem juntos.”

O caráter, a individualidade, a inclinação, a orientação, a localidade, o ambiente e os costumes configuram juntos uma totalidade em que cada pessoa transita como que imersa no único elemento, na única atmosfera em que se sente bem e confortável. E assim, para nossa surpresa, reencontramos inalteradas certas pessoas cuja volubilidade tantas vezes ouvimos criticada; passam-se os anos e notamos que elas não mudaram, mesmo depois de expostas a infindáveis excitações internas e externas.”

Os serões ocorriam regularmente. Em geral Eduard lia, e o fazia de modo mais animado, com mais sentimento; lia melhor e, se quisermos, até mesmo com mais jovialidade do que antes. Era como se, por meio da alegria e do sentimento, quisesse tirar Ottilie de sua letargia e mudez. Sentava-se como costumava fazer antes, de modo que ela pudesse ler as páginas do livro; ficava inquieto e distraído quando ela não agia desse modo, quando não estava seguro de que ela seguia suas palavras com os olhos.”

O major, ao violino, acompanhava o piano de Charlotte, assim como a flauta de Eduard se ajustava à maneira com que Ottilie tocava um instrumento de cordas. Aproximava-se agora o aniversário de Eduard, cuja comemoração não se havia alcançado no ano anterior. Dessa feita, deveria ser celebrado sem solenidade, numa reunião tranquila e cordial. As partes, entendendo-se de modo tácito e também explícito, haviam acordado isso. Contudo, quanto mais se aproximava o natalício, mais se acendia em Ottilie um espírito festivo, que até então fora mais sentido que notado. Parecia inspecionar regularmente as flores no jardim; dava instruções ao jardineiro para que poupasse todo tipo de plantas estivais, em particular as sécias, que nesse ano haviam florescido em grande abundância.”

Ela lhe aperta a mão com força, mira-o cheia de vida e amor e, depois de um suspiro profundo, de um sublime e calado movimento dos lábios, exclama com gracioso e terno esforço: <Prometa-me viver!>. E então desfalece. <Prometo!>, ele grita para ela, ou melhor, ao encalço dela, pois já se fôra.”

Aos poucos Eduard foi se livrando do terrível desespero, mas apenas para sua desgraça, pois tornava-se patente, tornava-se claro que havia perdido sua felicidade para todo o sempre.”

O estado de Ottilie, persistentemente belo, mais parecido ao sono que à morte, atraía muita gente. Os moradores do vilarejo e das vizinhanças queriam vê-la ainda, e todos desejavam ouvir da boca de Nanny o incrível acontecimento; alguns para zombá-lo, a maioria para duvidá-lo e uns poucos para lhe dar crédito.”

Finalmente, acharam-no morto. Mittler fez a triste descoberta. Chamou o cirurgião, que, com a serenidade de sempre, reparou nas circunstâncias em que o corpo fora encontrado. Charlotte correu para lá; suspeitou de um suicídio; quis acusar a si mesma e aos demais de um inescusável descuido. Mas o médico, apoiando-se nas causas naturais, e Mittler, nas morais, logo a convenceram do contrário.”

Leituras complementares:

BENJAMIN, Walter. Ensaios reunidos: Escritos sobre Goethe. São Paulo: Editora 34, 2009.

CASTRO, Claudia. A alquimia da crítica: Benjamin e as Afinidades eletivas de Goethe. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011.