SUICIDADO PELA SOCIEDADE – Artaud

Trad. de Fred Teixeira, corrigida quando necessário [não é um texto – tradução – digno(a) aquel(e)a que insiste em pluralizar o verbo “haver” em casos vedados!]

As coisas vão mal pois a consciência doente tem o máximo interesse, neste momento, em não sair de seu estado doentio. E assim a sociedade deteriorada inventou a psiquiatria para defender-se das investigações de alguns seres superiores e iluminados, cujas faculdades de antecipação a molestavam.”

Não, Van Gogh não era louco, e no entanto seus quadros constituíam mesclas incendiárias, bombas atômicas, cujo ângulo de visão, se comparados com todas as pinturas que faziam furor na época, teria sido capaz de transtornar gravemente o conformismo de larva da burguesia do Segundo Império e dos vassalos de Thiers, de Gambetta, de Félix Faure, e mesmo os de Napoleão III.”

Defrontando a lucidez ativa de Van Gogh, a psiquiatria despenca, reduzida a um reduto de gorilas, realmente obsedados e paranóicos, que só dispõem, para mitigar os mais espantosos estados de angústia e opressão humanas, de uma ridícula terminologia, produto bem digno de seus cérebros viciados.”

Se durante o coito não consegue escutar aquele estalido característico da glote, do modo como tão a fundo conhece, e ao mesmo tempo o gargarejo da faringe, do esôfago, da uretra e do ânus, não se considera satisfeito.”

o pobre Van Gogh era casto, casto como não podem ser um anjo ou uma virgem, pois são exatamente eles que têm fomentado e alimentado em suas origens a grande máquina do pecado.”

Van Gogh buscou seu espaço durante toda sua vida, com energia e determinação excepcionais. E não se suicidou em um ataque de loucura, pela angústia de não chegar a encontrá-lo. Ao contrário, acabara de encontrar-se, de descobrir que era quem realmente era, quando a consciência geral da sociedade, para castigá-lo por haver se apartado dela, o suicidou.” “Pois está na lógica anatômica do homem moderno não poder jamais viver, e nem sequer pensar em viver, sem estar totalmente possuído.”

Pois não há fome, epidemia, erupção vulcânica, terremoto, guerra, que separem as mônadas do ar, que retorçam o pescoço e a face aparvalhada do fogo-fátuo, o destino neurótico das coisas, como uma pintura de Van Gogh exposta à luz do dia, colocada diretamente diante da vista, do ouvido, do tato, do olfato, do paladar, nas paredes de uma mostra lançada, enfim, como novidade para a atualidade cotidiana, posta outra vez em circulação.”

Não é freqüentemente que um homem, com uma bala no ventre, do fuzil que o matou, aplique a uma tela corvos negros, e abaixo deles alguma espécie de textura, possivelmente lívida, de qualquer modo vazia, na qual o tom de mancha de vinho da terra bate-se loucamente contra o amarelo sujo do trigo.”

No quadro há um céu muito baixo, emplastado, violáceo como as bordas de um relâmpago. A poucos centímetros do alto, e como se provenientes da parte inferior da tela, Van Gogh soltou os corvos, como se libertasse os germes negros de seus desejos suicidas, seguindo a tarja escura da linha onde o esbater de suas soberbas plumas faz pesar sobre os preparativos da tormenta terrestre a ameaça de sufocação vinda de cima.”

Opinião é opinião: “chegou a infundir paixão à naturalidade e aos objetos em tal medida que qualquer conto fabuloso de Poe, Melville, Hawthorne, Nerval, Achim, d’Arnin ou Hoffmann jamais poderiam superá-lo, dentro do plano dramático, em suas telas de dois centavos, as telas que, por outra, quase todas de moderadas dimensões, como se respondendo a um deliberado propósito.”

É quase impossível ser ao mesmo tempo médico e homem honrado, mas é vergonhosamente impossível ser psiquiatra sem estar marcado a ferro e fogo pela mais indiscutível das loucuras: a de não poder lutar contra esse velho reflexo atávico da turba que converte qualquer homem de ciência aprisionado na própria turba em uma espécie de inimigo nato e inato de todo gênio.”

BE COMMON, YOU FOOL: “O Dr. Gachet não dizia a Van Gogh que estava ali para retificar sua pintura (como me disse o Dr. Gastón Ferdière, médico-chefe do asilo de Rodez, que afirmou estar ali para retificar minha poesia), mas o mandava pintar ao natural, sepultar-se em uma paisagem normal para evitar a tortura de seus pensamentos. Como se não estivesse interessado, mas mediante uma dessas desrespeitosas e insignificantes torcidas de nariz, na qual todo o inconsciente burguês da Terra inscreveu a força ancestral e mágica de um pensamento cem vezes renegado e reprimido.”

No fundo de seus olhos, como se depilados, de carniceiro, Van Gogh se entregava sem descanso a uma dessas operações de alquimia sombria, que tomam a natureza e o corpo humano como uma marmita ou manjedoura.”

As naturezas superiores são predispostas sempre situadas um patamar acima do real a explicar tudo pelo influxo de uma consciência maléfica, e a acreditar que nada é devido ao azar, que tudo que acontece de mal deve-se a uma vontade maléfica, consciente e inteligente.

Coisa que os psiquiatras não crêem jamais.

Coisa que os gênios crêem sempre.”

Van Gogh soube se livrar a tempo dessa espécie de vampirismo da família, interessada em que o genial pintor se limitasse a pintar, sem reclamar, ao mesmo tempo, a revolução indispensável para o desenrolar corporal e físico de sua personalidade de iluminado. E entre o Dr. Gachet e Théo, o irmão de Van Gogh, houve muitos desses hediondos conciliábulos entre familiares e médicos chefes dos asilos de alienados, concernentes ao doente que têm em suas mãos.” Todas essas conversas são suaves práticas de psiquiatra de bonachão, que parecem inofensivas, mas que deixam no coração algo como a marca de uma lingüinha negra, a lingüinha negra e anódina de uma salamandra venenosa.”

Eu mesmo estive por nove anos num asilo de alienados e nunca tive a obsessão do suicídio, mas sei que cada conversa com um psiquiatra, pela manhã, no horário de visita, despertava em mim o desejo de me enforcar, ao perceber que não poderia degolá-lo com minhas próprias mãos.

Théo era bom para seu irmão, mas do ponto de vista material; isso não o impedia de considerar Van Gogh um delirante, um iluminado, um alucinado, porém se obstinava, ao invés de acompanhá-lo em seu delírio, em acalmá-lo. Que depois tenha morrido de pesar não muda o fato.”

Van Gogh concebeu suas telas como pintor, unicamente como pintor, mas seria por essa mesma razão um formidável músico.”

Pintor unicamente, Van Gogh, e nada mais; nada de filosofia, de misticismo, de ritual, de fisiologia ou liturgia, nada de histórico, literário ou poético; esses girassóis de ouro brônzeo estão pintados; estão pintados como girassóis e nada mais; mas para compreender um girassol dentro da realidade será indispensável, no futuro, recorrer a Van Gogh, e mesmo para entender uma real tormenta, um céu tempestuoso, de real textura; já não será mais possível evitar recorrer a Van Gogh.

Quero dizer que, para pintar, não foi além de servir-se dos meios que a pintura oferecia. Um céu em tormenta, uma textura branca de cinza, as telas, os pincéis, seus cabelos ruivos, os tubos de tinta, sua mão pálida, seu cavalete, mas todos os lamas unidos do Tibete podem fremir, sob seus castos trajes, o Apocalipse que prepararam, pois Van Gogh já nos terá feito pressentir com antecipação o peróxido mercurial em uma tela que contém a dose suficiente de catástrofe para obrigar-nos a tal orientação.”

O simples motivo de uma candeia acesa sob uma cadeira de palha com armação violácea comunica muito mais, graças às mãos de Van Gogh, que toda a série de tragédias gregas, ou dos dramas de Cyril Turner, de Webster ou de Ford, que até agora, por outra, permaneceram não representados.”

decerto qualquer coisa pode existir sem ter o trabalho de ser, e tudo pode ser, sem ter o trabalho, como Van Gogh, o desorbitado, de irradiar e rutilar.”

Pelo fato de que a boa saúde é um amontoado de males encurralados, de um formidável anelo de vida com cem chagas corroídas e que, apesar de tudo, é preciso fazer que viva, que é preciso prolongar e perpetuar.”

Frente a humanidade de macacos covardes e cachorros molhados, a pintura de Van Gogh demonstrará ter pertencido a um tempo em que não houve alma, nem espírito, nem consciência, nem pensamento; mas tão somente elementos primitivos, alternativamente encadeados e desencadeados.”

Apenas uma guerra perpétua explica uma paz que é unicamente trânsito, como o leite a ponto de esparramar explica a caçarola onde ferve.

Desconfiem das formosas paisagens de Van Gogh, revolucionadas e plácidas, crispadas e contidas.

Representam a saúde entre dois acessos de uma insurreição de boa saúde.

Um dia a pintura de Van Gogh, armada da febre da boa saúde, retornará para arrojar ao vento o pó de um mundo enjaulado, que seu coração não pôde suportar.”

Mas como já disse, o lúgubre do tema reside na suntuosidade com que estão representados os corvos. Essa cor de almíscar, de nardo exuberante, de trufas que parecem oriundas de um grande banquete. Nas ondas violáceas do céu, duas ou três cabeças anciãs de fumaça intentam uma gargalhada apocalíptica, mas ali estão os corvos incitando-as a agir com decência, quero dizer, a ter menos espiritualidade, e foi justamente o que quis dizer Van Gogh com essa tela de céu rebaixado, como se pintada no instante mesmo em que se libertava da existência, pois essa tela tem, ademais, uma estranha cor, quase pomposa, de nascimento, de bodas, de partida, e ouço os fortes golpes de címbalo que produzem as asas dos corvos por cima de uma terra cuja torrente Van Gogh não poderia conter.”

Que quem alguma vez soube como contemplar uma face humana contemple o auto-retrato de Van Gogh, refiro-me àquele do chapéu suave. Pintada por alguém bastante lúcido, essa face de carniceiro ruborizado nos inspeciona e vigia, nos escruta com seu olhar torpe. Não conheço um só psiquiatra capaz de escrutar um rosto humano com um poder tão sufocante, dissecando sua inquestionável psicologia como um estilete. O olhar de Van Gogh é o de um grande gênio, mas pelo modo como o vejo dissecar-me, imergindo da profundidade da tela, já não é o gênio de um pintor o qual sinto viver dentro dele, e sim o de um filósofo como nunca ouvi falar de outro igual.

Não, Sócrates não tinha esse olhar; unicamente o desventurado Nietzsche teve, quiçá, antes que ele, esse olhar que despe a alma, liberta o corpo da alma, desnuda o homem do corpo, além dos subterfúgios do espírito.

O olhar de Van Gogh está congelado, soldado, vitrificado, detrás de suas sobrancelhas peladas, de suas pálpebras finas e sem cenho.”

Um dia aparecerão os carrascos de Van Gogh, assim como apareceram os de Gerard de Nerval, Baudelaire, Edgar Allan Poe e Lautréamont.”

Além do mais, ninguém se suicida sozinho.

Nunca ninguém esteve só ao nascer.

Tampouco alguém está só ao morrer.”

Ele foi despachado deste mundo, primeiro por seu irmão, ao anunciar-lhe o nascimento do sobrinho, e imediatamente depois pelo Dr. Gachet, que, em lugar de recomendar repouso e isolamento, o enviou a pintar ao natural num dia em que tinha plena consciência de que Van Gogh faria melhor indo descansar.”

E Van Gogh, que pintou o café em Arlés, não estava ali. Mas eu estava em Rodez, e no entanto sobre a Terra, enquanto todos os habitantes de Paris terão se sentido, durante uma noite inteira, muito próximos de abandoná-la. E isso porque todos haviam participado ao mesmo tempo de certas imundícies generalizadas, nas quais a consciência dos parisienses abandonou por uma hora seu nível normal e passou a outro, a uma dessas torrentes maciças de ódio, das que me forçaram ser algo mais que testemunha em muitas oportunidades, durante meus nove anos de internação. Agora o ódio foi esquecido, assim como as purgações noturnas que o seguiram, e os mesmos que em tantas ocasiões mostraram a nu e à vista de todos suas almas sinistras de porcos desfilam agora diante de Van Gogh, ao qual, enquanto vivo, eles e seus pais e mães retorceram o pescoço conscientemente. Mas não foi numa dessas noites que disseram que caiu no Boulevard Madeleine, na esquina com a Rue des Mathurins, uma enorme pedra branca, como se surgida de uma recente erupção do Popocatepetl?”

MUJERES Y EDUCACIÓN SUPERIOR

Alejandra Montané López y Maria Eulina Pessoa de Carvalho (coord.), João Pessoa: UFPB 2013.

Breve historia del acceso de la mujer a la universidad española (1910-2013)

A excepción de Italia, las universidades del Viejo Continente fueron ámbitos exclusivamente masculinos hasta el siglo XIX y en algunos países hasta el siglo XX. En 1678, la noble veneciana Elena Lucrezia Cornaro Piscopia obtenía el doctorado en filosofía, marcando un hecho sin precedentes. Elena Lucrezia provenía de una familia especialmente influyente: había dado 3 papas y 8 cardenales a la Iglesia Catolica y una reina a la isla de Chipre. A los 26 sabía cantar, tocar y componer música, hablaba y traducía 4 lenguas modernas y 5 lenguas clásicas, y participaba de disputaciones académicas con intervención de hombres de ciencia provenientes de diversos países. Su erudición había movido a su poderosa familia a lograr un reconocimiento académico, no sin dificultades. Esse mismo año 1678 moría Anna Maria von Shuurman, la primeira mujer a la que se había permitido estudiar en la Universidad de Utrecht, a condición de permanecer encerrada <en un cuarto de madera colocado dentro de la misma aula universitaria, separado por una pared de madera en la que se habían practicado unos agujeros> (de Laurentis, 2000:12-13).”

Decreto-Resolución de 1377, del claustro de profesores de la Universidad de Bolonia: “Y puesto que la mujer es la razón 1ª del pecado, el arma del demonio, la causa de la expulsión del hombre del paraíso y de la destrucción de la antigua ley, y puesto que, en consecuencia, es preciso evitar cuidadosamente todo comercio con ella, nosotros defendemos y prohibimos expresamente que alguien se permita introducir alguna mujer, sea cual fuere ésta, incluso la más honrada, en la dicha universidad. Y si alguno lo hace a pesar de todo, será severamente castigado por el rector.”

La asistencia a classe de una mujer fue permitida, por 1ª vez, en 1875. Mª Dolores Aleu Riera es la 1ª mujer que realiza el examen de grado para obtener una Licenciatura, en Medicina, el 20-4-1882 (Flecha, 1996:63-64(*)).”

aunque antes, en 1849, se disse que Concepción Arenal se disfrazó de hombre para poder estudiar Derecho en la Universidad de Madrid (Flecha, op. cit.).”

Posteriormente, la guerra y el régimen franquista no potencian o permiten el acceso de la mujer, pero en este caso el problema no eran solamente las normativas legales, sino el modelo eclesiástico medieval que persistió en la universidad española hasta bien entrado el siglo XX, debido, según algunos autores, a la ruptura que supuso para su desarrollo la Guerra Civil Española y su posterior periodo de dictadura. Esta influencia de la iglesia junto a la consolidación del modelo napoleónico – propio de la universidad española hasta passada la década de los 80 – estaba caracterizada por el elitismo, la centralización y el utilitarismo de la enseñanza superior (Montané et al., 2010).”

El inicio de los cambios profundos que afectaron al sistema universitario y posibilitaron el total acceso de las mujeres a la universidad se dio a partir de la Constitución Española de 1978

El 1962, con el dictador governando España, se inició un acercamiento a la Comunidad Europea que no fue aceptado debido, justamente, al régimen político, aun así en 1970 se firmó un tratado comercial que producía rebajas arancelarias [alfandegárias] y que sería una 1ª aproximación. (…) finalmente el 12 de junio de 1985 se firmó en Madrid el Tratado de Adhesión de España a las Comunidades Europeas. Finalmente el 1 de enero de 1986, junto a Portugal, se constituía como miembro de pleno derecho.”

La LRU – Ley de Reforma Universitaria puede considerarse una ley de transición ideológica y como punto de partida de las grandes transformaciones de la educación superior constituye un <intento de reforma de nuestra Universidad y nuestra enseñanza superior bajo la clave del equilibrio histórico> (Souvirón, 1989:116).”

<Convenció per a l’eliminació de totes les formes de discriminació contra la dona> desenvolupada per Nacions Unides el 1979, o en la <Carta dels Drets Fonamentals> de la Unió Europea de l’any 2000, que a més, aporta en el seu article 14 que <tots els centres docentes tindran lliure creació dins del respecte als principis democràtics i a les lleis nacionals>, repetint els mateixos aspectes en l’elaborada el 2007. La UNESCO també es suma a aquesta opinió, incloent en la seva declaració dels <Objectius de desenvolupament del mil-lenni> l’àmbit de l’educació. L’objectiu número 3, recollit dins de la temática educativa de la proposta en la dècada de l’educació per al Desenvolupament sostenible 2005-2014, va dirigir a <promoure la igualtat de drets i oportunitats entre els gèneres contra una realitat de discriminacions i l’autonomia de la dona>, a més de destacar que <l’educació i formació de les nenes i les dones és un dret humà i un element essencial per al gaudi de tots els drets socials, econòmics, culturals i polítics>.”

(*) Flecha, 1996: Las primeras universitarias en España

Feministas e Acadêmicas: o papel da REDOR no fortalecimento dos estudos feministas e de gênero na educação superior no Norte e Nordeste do Brasil¹ (1910-2013)

¹ Pesquisa com apoio do Programa CAPES/DGU edital n. 40/12, projeto 303/13; e do MCTI/CNPq/SPM-PR/MDA Chamada 32/12, projeto n. 404888/2012-7.

As feministas acadêmicas da REDOR

Cecilia Maria Bacellar Sardenberg: “Lá [nos EUA] conheceu o 1º marido: Eu acabei casando com um americano, abandonei os estudos e fui morar numa base aérea, fui trabalhar numa loja, larguei faculdade, larguei tudo, fiz besteira. Foi meu 1º marido. Eu já casei e descasei várias vezes. Na cidade em que morava tinha um grupo feminista e ela começou a participar. Então, o meu feminismo começou nos EUA, vendo a situação da mulher, vendo a discriminação, eu fui somando…“Ele pediu que a CAPES suspendesse a minha bolsa, me acusando de tentativa de seqüestro dos meus filhos, eu fui presa… (choro). Tantos anos e eu vou falar sobre isso e choro. Minha foto saiu nos jornais de Salvador…”

Além destes problemas de ordem familiar, ainda aconteceu do professor orientador da tese de Cecília morrer. E ela teve que adiar a conclusão.”

Neim … o primeiro núcleo de estudos da América Latina a oferecer curso de doutorado em Estudos Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e Feminismo.”

Luzia Miranda: “Pesquisa … ciclos republicanos paraenses”

Em 1977, quando Luzia terminou a graduação, foi indicada por um professor para assumir a docência na Universidade. Naquela época, não tinha ainda concurso público, era indicação, era o período militar, e o professor titular da cadeira de Ciência Política indicou os 3 alunos que mais se destacaram e um deles era eu. Eu passei a ser professora da Universidade Federal do Pará em 1978.

Mary Ferreira: “Estive envolvida com a fundação do Partido dos Trabalhadores”

Gema Galgani Esmeraldo: “nós criamos a Comissão Estadual de Mulheres Trabalhadoras Rurais”

Gênero, “Raça”/Etnia e Classe: A presença feminina em cursos de graduação na Universidade Federal da Paraíba

Em meados do séc. XIX foram criadas as primeiras escolas normais – para formação docente – abertas para ambos os sexos.” “feminização do magistério” “Somente no final desse século, através de um decreto imperial, [é] que foi autorizada a presença feminina em cursos de nível superior.” “cursos tradicionalmente femininos: Filosofia, Letras, Ciências Humanas, entre outros”

E se mulheres não gostam de Engenharia, tão “simplesmente”?

Através de Lei Estadual de 1955, surgiu da junção de escolas superiores isoladas a Universidade da Paraíba, atual UFPB, que foi federalizada em 1960. (…) Em 2002, com a criação da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), desmembrou-se. “[Pelo] Reuni, a UFPB conseguiu dobrar o tamanho e atualmente é a IES do Norte e Nordeste do país que oferece o maior nº de vagas. Em 2004 ofereceu cerca de 3.700 e em 2012 ofertou 8.020, distribuídas pelo Processo Seletivo Seriado (PSS), pelo Exame Nacional do Ensino Médio e pelo Sistema de Seleção Unificada. No ensino de graduação, de 2004 a 2012, o nº de cursos aumentou de 50 para 104, enquanto o nº de alunos aumentou de 18.759 para 29.629.”

Em nossa pesquisa, o grupo de pardas/os foi somado ao contingente de respondentes que se autoclassificaram como negras/os, um procedimento realizado com base no trabalho de Batista (2005).”

podemos observar que as mulheres e homens brancos oriundos da rede particular acessam o ensino superior com uma idade média compreendida entre os 18 e os 21 anos. Entre as mulheres oriundas desta rede, as amarelas e brancas ingressam na instituição com 18,81 e 20,06, respectivamente. Em relação à rede pública, observamos a idade de acesso nos 21,91, para as mulheres negras, e nos 23,92 para os homens negros. As mulheres originárias da rede pública ingressaram com 23,1 anos, e as originárias da rede particular com 20,1 anos. (…) os estudantes [que] cursaram o ensino médio em escolas públicas ingressaram na UFPB com uma idade média de 24,1 anos, idade que retrocede para os 20,1 anos para os homens que estudaram em estabelecimentos particulares.”

predominância masculina: Matemática, Física e Ciência da Computação” “significativa presença feminina: Ciências Biológicas. Por sua vez, o Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) tem se mostrado, historicamente de forte presença feminina.” “O campeão em segregação sexista é o curso de Ciência da Computação, com uma média de 90% de homens ingressantes.” “Há um curioso fato: homens e mulheres apresentam juntos a menor matrícula na licenciatura em Geografia.” Curioso mesmo é Geografia ser ciência!

O percentual das negras vem aumentando de forma consistente desde o ano de 2004, quando representavam 0,5% das ingressantes; valor que saltou para 1,95% em 2009, quando supera o número de brancas (1,73%).”

os cursos mais escolhidos pelas mulheres foram Letras (18,31%) e Serviço Social (11,12%), com um percentual maior que o dobro em relação aos demais. Já os menos escolhidos, em ordem crescente, foram os de Regência de Bandas [!], Educação Artística: Música, Filosofia: Licenciatura, Teatro: Bacharelado, Teatro: Licenciatura, Educação Artística: Licenciatura, Artes Cênicas [qual a diferença para teatro bacharel?], Artes Plásticas, Artes Visuais, Tradução: Bacharelado, Comunicações em Mídias Digitais, Línguas Estrangeiras Aplicadas às Negociações Internacionais, Música [de novo?], Ciências Sociais: Licenciatura, Filosofia: Bacharelado, Psicologia: Licenciatura, Ciências Sociais: Bacharelado, Comunicação Social: Radialismo, Turismo, História: Licenciatura, Comunicação Social: Jornalismo, Comunicação Social: Relações Públicas, Psicologia [bacharelado].

No que se refere às escolhas masculinas, ressaltamos que, de maneira equivalente às das mulheres, a maior escolha recai sobre o curso de Letras. Como menores escolhas, temos: Regência de Bandas, Artes Plásticas, Artes Cênicas, Educação Artística: Música, Teatro: Bacharelado, Educação Artística: Licenciatura, Teatro: Licenciatura, Artes Visuais, Tradução: Bacharelado, Filosofia: Licenciatura, Línguas Estrangeiras Aplicadas (…), Psicologia: Lic., Serviço Social, Comunicações em Mídias Digitais, Ciências Sociais: Licenciatura, Turismo, C.Sociais:bac., Com.Soc.:Rel.Púb., Com.Soc.:Jorn., psicologia [bac.], Filosofia:bac., Com.Soc.:Rad., Música, História:lic.”

os homens sobrepujam as mulheres nos cursos de História, Música, Ciências Sociais: Licenciatura, Comunicação e[m] Mídias Digitais, Filosofia: lic. e bac., Teatro: lic. e bac., Educ. Artíst. e Música.”

Gênero e Tecnologia da Informação: um olhar sobre a Educação Superior na Paraíba e as possibilidades de promoção da eqüidade de gênero através da Educação

A paridade de sexo no uso da Internet também foi observada no nível pós-secundário.”

HAHA: “a cultura do computador dominada por homens – observa-se o discurso machista, a competitividade, a ênfase na velocidade e no poder, a exclusão, o isolamento, o conteúdo violento nos jogos e a linguagem violenta”

A fraqueza de um estudo pseudo-sociológico que recorre a Bourdieu é patente…

bibliografia suplementar

Rawls, A theory of justice, 1917

OBRA COMPLETA DE FREUD – Tomo XI // NO DIVÃ COM CILA

06/06/2016 a 06/10/2016

Org. James Strachey, Anna Freud et al.

GLOSSÁRIO

coupeurs de nattes: pervertidos que sentem prazer em cortar o cabelo das mulheres.

macropsia: percepção que avoluma ou aumenta os corpos e objetos. Comum em hipoglicêmicos.

hebefrenia: loucura adolescente, demência precoce, esquizofrenia [!]

milhafre: ave

paramnésia: perturbação que faz esquecer a significação das palavras escutadas ou lidas

parético: enfraquecimento muscular não-relacionado com Pareto (paresia)!

Sprachwissenschaftliche Abhandlungen: ensaios filológicos

A) 5 LIÇÕES DE PSICANÁLISE (1910)

Entre 1885 e 1886 foi discípulo de Charcot em Paris, e acompanhou, em 1889, em Nancy, as experiências de Bernheim sobre o hipnotismo.” Durval Marcondes

Horácio recomendava esperar 9 anos para se publicar um escrito. Ora…

Há cerca de 40 anos que ele se dedica diariamente a 8, 9, 10, às vezes mesmo 11 análises de 1h cada.” Stephen Zweig, 1931

* * *

Caminharemos por algum tempo ao lado dos médicos, mas logo deles nos apartaremos”

esse enigmático estado que desde o tempo da medicina grega é denominado histeria” “diante da histeria o médico não sabe o que fazer” Para mais detalhes de Anna O., a “primeira histérica moderna”, ver BREUER.

Tomava na mão o cobiçado copo d’água, mas assim que o tocava com os lábios, repelia-o como hidrófoba. Para mitigar a sêde que a martirizava, vivia sòmente de frutas, melões etc. (…) despertou da hipnose com o copo nos lábios. A perturbação desapareceu definitivamente.”

Toda essa cadeia de recordações patogênicas tinha então de ser reproduzida em ordem cronológica e precisamente inversa – as últimas em primeiro lugar e as primeiras por último – sendo completamente impossível chegar ao primeiro trauma, muitas vezes o mais ativo, saltando sobre os que ocorreram posteriormente.”

Numa senhora de cêrca de 40 anos existia um tic (tique) sob a forma de um especial estalar da língua, que se produzia quando a paciente se achava excitada e mesmo sem causa perceptível. Originara-se esse tique em 2 ocasiões nas quais, sendo desígnio dela não fazer nenhum rumor, o silêncio foi rompido contra sua vontade justamente por esse estalido. Uma vez, foi quando com grande trabalho conseguira finalmente fazer adormecer seu filhinho doente, e desejava, no íntimo, ficar quieta para o não despertar; outra vez quando, numa viagem de carro com dois filhos, por ocasião de uma tempestade, os cavalos se assustaram e ela cuidadosamente quisera evitar qualquer ruído para que os animais não se espantassem ainda mais.”

histéricos e neuróticos: não só recordam acontecimentos dolorosos que se deram há muito tempo, como ainda se prendem a eles emocionalmente; não se desembaraçam do passado e alheiam-se por isso da realidade e do presente.” UnB quarto pai Marianna ranço Dilma risada buchicho cristofobia TCC formatura vai ter golpe vozdeus levaratéofimumavezcomeçadoojogo.

Breuer resolveu admitir que os sintomas histéricos apareciam em estados mentais particulares que chamava <hipnóides>. As excitações durante esses estados hipnóides tornam-se facilmente patogênicas porque não encontram neles as condições para a descarga normal do processo de excitação.” Eu não era eu.

Meu pai esteve comigo – quero dizer: contra mim! ao menos se estivera ausente em ALGUMA destas ocasiões! – em todos os meus piores momentos, geralmente como protagonista ou incentivador-da-lenha-na-fogueira:

– Expulsão do colégio militar (VIVA O BOZO!);

– Tome este volante, mesmo que não queira…

– Sociologia, mas que merda!

– Por que não pagam nem passagem no seu estágio gratuito? Na verdade é um estágio oneroso!

– Sua namorada é uma vaca, a sua cunhada me contou (complô de novela mexicana – não pode estar acontecendo comigo, não é possível…)

– Você CUSTA a crescer, come demais!

– Eu não quero que você use um computador, seu nerd!

– HAHAHA! Te humilharam, HAHAHA!

– Como assim você detesta a UnB?

– Para mim você não se formou.

– Você tinha que continuar a dar aula.

– Por que você faz essa terapia idiota e toma esses remédios inúteis?

– Roque pauleira?! Urgh…

– Desenhinho?

– Você devia fazer a prova do Barão de Rio Branco…

– Você gosta de estudar, por que não se doutora?

– Não gosto da sua esposa, não gosto dessa pobraiada carioca, não gosto que você não assuma compromissos e que não pague a taxa de água, inclusive prefiro os outros inquilinos problemáticos a você…

– Finjo que não gostaria que você tivesse um filho justamente quando você pensou que seria pai só para nunca me contradizer, isto é, sempre rebaixá-lo! Agora que sua chance de ser pai é 0, eu gostaria muito de um neto…

– Por que você nunca me ajuda quando eu peço?

– Você não é o FERA em informática? Me ajude a renovar este detector de radares, me ajude a pagar esta multa, me ajude, me ajude com a 2ª via, me ajude!!!… Ingrato!

– Lula isso Lula aquilo, PT me fodeu, comeu meu cu, fodeu meu país, só você não enxerga isso!

– Não consegue dormir? Que mentira é essa?!

– Idiota, não serve nem pra reagir a um assalto!

– Eu sou muito macho, reajo a PMs… Inclusive, revise esse texto em que conto essa estória; vou entregá-la na delegacia.

– Não existe este livro clássico de autor alemão na Alemanha democrática, este homem facínora (socialista, veja você!) foi banido deste país de Primeiro Mundo!

– Por que você demorou tanto na perícia médica, por que você relatou isso ao médico? Vão pensar que você é doido! Seja mais esperto, bata na mesa, resolva, como eu!

– ISSO É FRESCURA! SUA VIDA É UMA FRESCURA! Nos dois sentidos: eu PENEI bem mais. Tenha dó deste moribundo aqui…

– Cuide do seu irmão, pois eu vou morrer e ele precisa ser cuidado – por que não você?! Só porque eu nunca fiz nada do que te peço, não quer dizer que você não tenha que me obedecer, afinal, SOU SEU PAI! EU RESPEITAVA MEU PAI! MEU PAI ERA UM MERDA! Mas não divaguemos sobre aquilo que não nos diz respeito… Porque filosofar é coisa de inútil…

Onde existe um sintoma, existe também uma amnésia, uma lacuna da memória, cujo preenchimento suprime as condições que conduzem à produção do sintoma.”

A teoria de Breuer, dos estados hipnóides, tornou-se aliás embaraçante e supérflua, e foi abandonada pela psicanálise moderna.”

P. 24: “Tornou-se-me logo enfadonho o hipnotismo, como recurso incerto e algo místico; e quando verifiquei que apesar de todos os esforços não conseguia hipnotizar senão parte de meus doentes, decidi abandoná-lo, tornando o procedimento catártico independente dele.

dissociação” – mito ligado à histeria?

Somos todos fujões.

Em lugar do breve conflito, começa então um sofrimento interminável.”

Podemos admitir que seja tanto maior a deformação do elemento procurado quanto mais forte a resistência que o detiver.”

Aceitando a proposta da Escola de Zurique (Bleuler, Jung e outro), convém dar o nome de <complexo> a um grupo de elementos ideacionais interdependentes, catexizados de energia afetiva.”

Uma observação atenta mostra, contudo, que as idéias livres nunca deixam de aparecer.”

Para o psicanalista este método é tão precioso quanto para o químico a análise qualitativa.”

estudo das psicoses, com tanto êxito empreendido pela Escola de Zurique [?]”

O tripé do psicanalista: livre associação – sonho – ato falho. Meu blog é um manancial dos dois primeiros.

Parece-me quase escandaloso apresentar-me neste país de orientação prática como <onirócrita>”

Quando me perguntam como pode uma pessoa fazer-se psicanalista, respondo que é pelo estudo dos próprios sonhos.”

Hora solene de bramir o chicote em cômodos escuros semiconhecidos, dar uma flor até para quem é homem e quem sabe rolar por aí velozmente sem olhar para trás. Cifrões. O que mais me dá raiva é que eu gostaria de matar quem me proporcionava isso na infância.

Por ora continuarei matando edipianamente a aula de inglês, refazendo meus estudos abandonados e esquecendo a bolsa de educação física. E me deixarei dominar pelo pânico e dissabor do instante. Ansiosos não tem pesadelos.

Na vida onírica a criança prolonga, por assim dizer, sua existência no homem, conservando todas as peculiaridades e aspirações, mesmo as que se tornam mais tarde inúteis.”

A ansiedade é uma das reações do ego contra desejos reprimidos violentos.”

o esquecimento de coisas que deviam saber e que às vezes sabem realmente (p.ex. a fuga temporária dos nomes próprios), os lapsos de linguagem, tão freqüentes até mesmo conosco, na escrita ou na leitura em voz alta; atrapalhações no executar qualquer coisa, perda ou quebra de objetos, etc., bagatelas de cujo determinismo psicológico de ordinário não se cuida, que passam sem reparo como casualidades, como resultado de distrações, desatenções. Juntam-se ainda os atos e gestos que as pessoas executam sem perceber, e sobretudo, sem lhes atribuir importância mental, como sejam trautear melodias, brincar com objetos, com partes da roupa ou do próprio corpo, etc.” Cf. A Psicopatologia da Vida Cotidiana, 1901.

as perturbações do erotismo têm a maior importância entre as influências que levam à moléstia, tanto num como noutro sexo.” “Quando, em 1895, publiquei com o Dr. J. Breuer os Estudos sobre a Histeria, ainda não tinha esta opinião”

aquela mescla de lubricidade a afetado recato é o que governa a maioria dos <povos civilizados> nas coisas da sexualidade.”

Só os fatos da infância explicam a sensibilidade aos traumatismos futuros e só com o descobrimento desses restos de lembranças é que (…) afastamos os sintomas.”

Não é verdade certamente que o instinto sexual, na puberdade, entre no indivíduo como, segundo o Evangelho, os demônios nos porcos.”

F. – The Analysis of a Phobia in a Five-Year-Old Boy

O prazer de chupar o dedo, o gozo da sucção, é um bom exemplo de tal satisfação auto-erótica partida de uma zona erógena. Quem primeiro observou cientificamente esse fenômeno, o pediatra Lindner (1879), de Budapeste, já o tinha interpretado como satisfação dessa natureza e descrito exaustivamente a transição para outras formas mais elevadas de atividade sexual. Outra satisfação da mesma ordem, nessa idade, é a excitação masturbatória dos órgãos genitais, fenômeno que tão grande importância conserva para o resto da vida e que muitos indivíduos não conseguem suplantar jamais.”

Do gozo visual ativo [voyeurs] desenvolve-se mais tarde a sede de saber, como do passivo [exibicionista] o pendor para as representações artísticas e teatrais.”

Os mais profundamente atingidos pela repressão são primeiramente, e sobretudo, os prazeres infantis coprófilos”

o complexo nuclear de cada neurose”

P. 44: Édipo e Hamlet

O homem enérgico e vencedor é aquele que pelo próprio esforço consegue transformar em realidade seus castelos de ar.” E eu que fui longe demais… quixotei-me para salvar-me… Psicanálise como castelo aéreo. Lucy in the divan without diamonds…

Quando a pessoa inimizada com a realidade possui dotes artísticos (psicologicamente ainda enigmáticos [hehe]) podem suas fantasias transmudar-se não em sintomas senão em criações artísticas. Cf. Rank, 1907

VdP: “Conforme as circunstâncias de quantidade e da proporção entre as forças em choque, será o resultado da luta a saúde, a neurose ou a sublimação compensadora.” Categoria residual do que ele não pôde entender.

Nunca acabarão nem a ternura nem a repulsa.

Pp. 47-8: o transfer

B) LEONARDO DA VINCI E UMA LEMBRANÇA DA SUA INFÂNCIA [Eine Kindheitserinnerung des Leonardo da Vinci] (1910), trad. brasileira: Walderedo Oliveira

Leonardo, que talvez fosse o mais famoso canhoto da história, jamais tivera um caso de amor.”

(*) “o estudo freudiano sobre mães-deusas andróginas”

Es liebt die Welt das Strahlende zu schwärzen

Und das Erhabene in den Staub zu ziehn.”

O mundo gosta de denegrir o brilhante

E arrastar na lama o sublime.”

Schiller, A Jovem de Orléans

gênio universal cujos traços se podia esboçar, nunca definir” Burckhardt

Desprezava o ofício de escritor. Trattato della Pittura.

O que para você é o Big Bang para mim foi só uma conseqüência.

descobria defeitos em coisas que, aos outros, pareciam milagres.” Solmi (1910)

Von Seidlitz traz uma história das obras de Da Vinci, relatando telas e restaurações…

Desenhou armas para César Bórgia apesar de pacifista.

Não existe nas anotações de Leonardo um único comentário a respeito dos acontecimentos de sua época ou qualquer demonstração de preocupação com êles.”

Leonardo [se absteve de] examinar de perto os mamilos de qualquer mulher em período de amamentação. Se o tivesse feito teria certamente notado que o leite passa através de uma porção de canais excretores separados. Leonardo, no entanto, desenhou um único canal”

Não se tem o direito de amar ou odiar qualquer coisa da qual não se tenha conhecimento profundo.” Botazzi

Solmi, o “bom biógrafo”, segundo Freud: “Tale transfigurazione della scienza della natura in emozione, quasi direi, religiosa, è uno dei tratti caratteristici del manoscritii vinciani”

Terá pesquisado em vez de amar.”

não mais queria estudar pelo amor à arte mas, sim, pelo próprio amor ao estudo.” Solmi

Il sole non si move.” in: Quaderni d’Anatomia

P. 72: as crianças e as perguntas

Quem o tempo todo se reescreve demonstra que não pode passar por correto mesmo durante uma geração. Ou alguém aí já ouviu falar de uma segunda edição do Hamlet? Para nós, o que está dito, está dito. Livro perene de pedra, numa única camada.

Filho de peixe molusco alado é. Filho de molusco alado peixe é.

A tendência a botar o órgão sexual masculino na bôca e a chupá-lo, o que numa sociedade respeitável é considerado uma perversão sexual horrível, encontra-se, no entanto, com muita freqüência entre as mulheres de hoje – e de outros tempos também, como o evidenciam esculturas da antiguidade – e no ardor da paixão isso parece perder completamente o seu caráter repulsivo.” O boquete é instintivo.

Krafft-Ebing – Psycopathia Sexualis

Little Hans virou Joãozinho no Brasil.

O que nos leva a classificar alguém como sendo um invertido (homossexual) não é o seu comportamento real porém a sua atitude emocional.”

Antes do séc. XIX, ninguém podia saber a conotação dos hieróglifos egípcios. Uma civilização tão antiga, uma impressão e um julgamento tão recentes…

Uma característica especial do panteão egípcio era que os deuses individuais não desapareciam quando ocorria um processo de sincretismo.” “Ora, essa deusa-mãe com cabeça de abutre era geralmente representada pelos egípcios com um falo, seu corpo era de mulher, conforme mostram os seus seios, mas possuía também um membro masculino em ereção.”

Neith de Saís – de quem se originou, mais tarde, a Atenéia dos gregos” – cf. https://seclusao.art.blog/2019/06/08/timeu-ou-da-natureza/

podemos encontrar aqui uma das raízes do anti-semitismo que aparece com fôrça tão elementar e se manifesta de modo tão irracional entre as nações do Oeste. A circuncisão é inconscientemente associada à castração.”

Um culto fetichista cujo objeto é o pé ou calçado feminino parece tomar o pé como mero símbolo substitutivo do pênis da mulher, outrora tão reverenciado e depois perdido.”

Sem o saber, os coupeurs de nattes desempenham o papel de pessoas que executam um ato de castração sôbre o órgão genital feminino.” Escola Classe 106 Norte – Érika & A Tesoura Amarela Poucas madeixas. Impulso incontrolável. Diretoria. Morte da lembrança. Hiato. Morte da Infância. Ressurreição. E se…? E se for “inveja da feminilidade”, a antítese da inveja do pênis? E se radica aí minha obsessão metaleira, minha preferência por deixar o cabelo crescer?

e quando a conexão entre a religião oficial e a atividade sexual se tornou oculta da consciência geral, cultos secretos se dedicavam a conservá-la viva entre um certo número de iniciados.”

Pp. 91-2: as mais polêmicas até aqui. Freud defende uma “homossexualidade universal”; só o que há para diferenciar são os graus de intensidade e o caráter mais ou menos passageiro da “coisa”. Todo desenvolvimento sexual não-aberrante incluiria uma fase homossexual na infância.

Em todos os nossos casos de homossexuais masculinos [notável sua ignorância sobre o lesbianismo, derivada da sua ignorância em geral relativa às mulheres], os indivíduos haviam tido uma ligação erótica muito intensa com uma mulher, geralmente sua mãe, durante o primeiro período de sua infância, esquecendo depois êsse fato; essa ligação havia sido despertada ou encorajada por demasiada ternura por parte da própria mãe, e reforçada posteriormente pelo papel secundário desempenhado pelo pai durante sua infância. Sadger chama atenção para o fato de as mães dos seus pacientes homo. serem muitas vezes masculinizadas, mulheres com enérgicos traços de caráter e capazes de deslocar o pai do lugar que lhe corresponde.”

O menino reprime seu amor pela mãe, coloca-se em seu lugar, identifica-se com ela, e toma a si próprio como um modêlo a que devem assemelhar-se os novos objetos de seu amor. Dêsse modo êle transformou-se num homossexual.”

Como escolhia seus alunos pela beleza e não pelo talento, nenhum dêles – Cesare da Sesto, Boltraffio, Andrea Salaino, Francesco Melzi e outros mais – veio a tornar-se um pintor de importância.”

As formas de expressão por que a libido reprimida de L. se tornava manifesta – preocupação e pormenores com referência a dinheiro – estão entre os traços de caráter resultantes do erotismo anal. Ver meu trabalho Character and Anal Erotism (1908b).”

Qualquer pessoa que pense nas pinturas de L. recordar-se-á de um sorriso notável, ao mesmo tempo fascinante e misterioso, que êle punha nos lábios de seus modêlos femininos. É um sorriso imutável, desenhado em lábios longos e curvos; tornou-se uma característica do seu estilo e o têrmo <Leonardiano> tem sido usado para defini-lo.²

² [Nota acrescentada em 1919:] O conhecedor de arte pensará aqui no peculiar sorriso fixo encontrado em esculturas gregas arcaicas – nas de Egina, p.ex.; encontrará também qualquer coisa semelhante nas figuras de Verrocchio, professor de L. e, portanto, se sentirá reticente em aceitar os argumentos que se seguem.”

Voilà 4 siècles bientôt que Mona Lisa fait perdre la tête à tous ceux qui parlent d’elle, après l’avoir longtemps regardée.” Gruyer Apud SEIDLITZ

o contraste entre a reserva e a sedução, e entre a ternura mais delicada e uma sensualidade implacàvelmente exigente” “tendresse et coquetterie, pudeur et sourde volupté” “nel poema del suo sorriso” “toda a hereditariedade da espécie” “a bondade que esconde o propósito cruel”

O Autor como escravo de uma sua obra

<Heilige Anna Selbdritt> quadro da Madona

Assim, como todas as mães frustradas, substituiu o marido pelo filho pequeno.” NiE(l)tzc(in)e

(blow

list of f*cked liszts jew jeu jaws

LISTERINE

ELINE

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STERILE

clister

ter-lírica-e-ter-talento

bala-no-taco

L

E

I

S

servem para ser o-bebê-descidas pela go’ela dos sub’jug(ular)ados

úvula

lar dos desterrados

slavejó)

êle já tinha estado tempo demais sob o domínio da inibição para que pudesse voltar a desejar tais carícias dos lábios de outras mulheres”

É apenas um pequeno detalhe e ninguém, a não ser um psicanalista, lhe daria maior importância.”

Criava a obra de arte e depois dela se desinteressava, do mesmo modo que seu pai se desinteressava por êle.”

as raízes da necessidade de religião se encontram no complexo parental.”

estou-no-mundo

Adão era adolescente.

D***-Al*****-Ed***** o Triângulo Maldito dos Mimados para a Psicanálise Clássica. Reformado-Clássico-Proscrito

nos sonhos o desejo de voar representa verdadeiramente a ânsia de ser capaz de realizar o ato sexual.”

¹¹ [1919:] Esta afirmação baseia-se nas pesquisas de Paul Federn (1914) e Mourly Vold (Über den Traum, 1912 [parece não haver tradução para nenhuma língua]), um cientista norueguês que não tinha nenhum contato com a psicanálise.”

P. 115: o mito da “felicidade na infância”

Goku, o Fodedor

Tornou-se impacientissimo al pennello [pincel]”

C) AS PERSPECTIVAS FUTURAS DA TERAPÊUTICA PSICANALÍTICA [Die Zukünftigen Chancen der Psychoanalytischen Therapie] (1910), trad. brasileira David Mussa

<trepar> [em alemão <steigen>]¹ se usa como equivalente direto do ato sexual. Falamos de um homem como um <Steiger> [trepador] e de <nachsteigen> [correr atrás de, literalmente trepar]. Em francês os degraus de uma escada chamam-se <marches> e <un vieux marcheur> tem o mesmo sentido que o nosso <ein alter Steiger> [um velho devasso].”

¹ Curiosamente o bastante, escada em alemão é Treppe.

8 “[Nota do tradutor] Freud nem sempre estava igualmente convencido da possibilidade de auto-análises adequadas para aspirantes a analistas. Mais tarde, êle insistiu na necessidade de análises didáticas conduzidas por alguma outra pessoa.” Cause the world is full (fool!) of creepers (creeps, bisonhos, trepadeiras, tarados)!

Os senhores não podem exagerar a intensidade de carência interior de decisão das pessoas e de exigência de autoridade. O aumento extraordinário das neuroses desde que decaiu o poder das religiões pode dar-lhes uma medida disso.”

Uma operação, por certo, se destina a produzir reações; em cirurgia, estamos acostumados a isso, há muito tempo.”

os senhores devem pensar na posição de um ginecologista, na Turquia e no Ocidente. Na Turquia, tudo o que ele pode fazer é sentir o pulso de um braço, que se lhe estende através de um buraco na parede.”

A sugestão social é favorável, no presente, a tratar os pacientes nervosos pela hidropatia, dieta e eletroterapia, mas isso não capacita que tais recursos possam vencer as neuroses.”

O sucesso que o tratamento pode ter com o indivíduo deve ocorrer, igualmente, com a comunidade.”

a sua ansiosa superternura que tem em mira ocultar-lhes o ódio, a sua agorafobia que se relaciona com a ambição frustrada, as suas atitudes obsessivas que representam auto-censuras por más intenções e precauções contra as mesmas.”

essa necessidade de encobrimento [sintomas, provavelmente orgânicos, ou psicológicos ainda mais graves, que disfarçam a neurose – <ele é esquisito porque é tuberculose, porque tem pressão baixa, porque tem dores de cabeça e de barriga o tempo inteiro, porque sua coluna dói, porque herdou muitos genes ruins dos parentes…] destrói as vantagens de ser doente.” “Certo nº de pessoas, ao defrontar-se, em suas vidas, com conflitos que constataram muito difíceis de resolver, fogem para a neurose e, dêsse modo, retiram da doença vantagem inequívoca, embora, com o tempo, acarrete bastante prejuízo.” “Um bom nº daqueles que, hoje, fogem para a enfermidade não suportariam o conflito”

Lembremo-nos, no entanto, que nossa atitude perante a vida não deve ser a do fanático por higiene ou terapia.”

D) A SIGNIFICAÇÃO ANTITÉTICA DAS PALAVRAS PRIMITIVAS (prefiro ‘O contra-senso inerente aos conceitos’) [Über den Gegensinn der Urworte] (1910), trad. brasileira Clotilde da Silva Costa

Por que os sonhos funcionam sob o mecanismo da inversão da representação do desejo.

O nosso ofício de ironista.

Karl Abel (filósofo contemporâneo de F.): “Se a palavra egípcia <ken> devia significar <forte>, seu som que fosse alfabèticamente escrito seguia-se da figura de um homem em pé, armado; se a mesma palavra tinha de expressar <fraco>, as letras que representam o som se seguiam da figura de um corcunda, coxo.”

macio macilento

Em latim <altus> significa <alto> e <profundo>, <sacer> <sagrado> e <maldito> (…) <clamare> (gritar) – <clam> (suavamente, secretamente); <siccus> (sêco) – <succus> (suco). Em alemão <Boden> ainda significa o mais alto bem como o mais baixo da casa (sótão ou chão). Nosso <bös> (mau) se casa com a palavra <bass> (melhor [boss! boçal!]); em saxão antigo <bat> (bom [o homem-mocego é bom!]) corresponde ao inglês <bad> e o inglês <to lock> (trancar) ao alemão <Lücke>, <Loch> (vazio, buraco).”

<stumm> (mudo), <Stimme> (voz)”

5 “[Nota da tradutora] Diz-se que <lucus> (bosque em latim) se deriva de <lucere> (brilhar) porque nêle não há claridade. (Atribuído a Quintiliano.)” lusco-fusco

Mesmo hoje o homem inglês para exprimir <ohne> (sem) diz <without> (<mitohne>, i.e., com-sem), e o prussiano oriental faz o mesmo. A própria palavra <with>, que hoje corresponde ao <mit>, originàriamente significava ao mesmo tempo <sem> e <com>, como se pode reconhecer no inglês <withdraw> (retirar) e <withhold> (reter). A mesma transformação pode ser vista em <wider> (contra) e <wieder> (junto com).”

Topf – pot (DEU/ENG)

boat – tub (ENG/ENG)

wait – täwwen (ENG/DEU)

reck – care (ENG/ENG)

Balken – Klobe (DEU/DEU – viga, cepo)

capere – packen (LAT/DEU – tomar, agarrar respect.)

ren – Niere (LAT/DEU – rim)

leaf – folha (ENG/POR)

me  him

her  their

Leafar (li e fui longe, so far…)

Folha, Vento, folhas ao vento, oxigênio…

escrever&respirar

rayo

sucede a água

Arauto do Ar²

Taurus ²5

Sure-ata

seus réus

céus! rois reis en Romme

sóis brilhem me libertem, só. é.

fair lady não ria é uma bela moça cheia da lábia

Até um idiota como Stephen Hawking diria que no sono regular o ser humano rebobina a fita…

E) UM TIPO ESPECIAL DE ESCOLHA DE OBJETO FEITA PELOS HOMENS (Contribuições à Psicologia do Amor I) – Über einen besonderen Tipus der Objektwahl beim Manne (Beiträge zur Psichologie des Liebeslebens I) (1910 [überproduktiv!]), trad. brasileira Clotilde da Silva Costa

a precondição de que deva existir <uma terceira pessoa prejudicada>” “a pessoa em questão nunca escolherá uma mulher sem compromisso, i.e., uma moça solteira ou uma mulher casada livre” [???] “a segunda precondição consiste no sentido de que a mulher casta e de reputação irrepreensível nunca exerce atração que a possa levar à condição de objeto amoroso, mas apenas a mulher que é, de uma ou outra forma, sexualmente de má reputação, cuja fidelidade e integridade estão expostas a alguma dúvida.” “se torna alvo desse ciúme não o possuidor legítimo da pessoa amada, mas estranhos que fazem seu aparecimento pela primeira vez”

Don Juan: o primeiro afoito?

Para Freud a série tendente ao infinito das perguntas das crianças se resumiriam na matriz “como nascem as crianças?”. O que não faz sentido é a – súbita ou gradual – perda de interesse na questão antes de um esboço de resolução.

O que faria o macho alfa mais orgulhoso: desvirginar a donzela ou “ligar” o órgão da puta? Arrombar ou lacrar? Violar ou cicatrizar?

PRIMEIRA CITAÇÃO DO C.E. ENCONTRADA EM FREUD: “Ele começa a desejar a mãe para si mesmo, no sentido com o qual, há pouco, acabou de se inteirar, e a odiar de nova forma o pai como um rival que impede esse desejo; passa, como dizemos, ao controle do complexo de Édipo.”

Não perdoa a mãe por ter concedido o privilégio da relação sexual, não a ele, mas a seu pai, e considera o fato como um ato de infidelidade. Se esses impulsos não desaparecerem rapidamente, não há outra saída para os mesmos, senão seguir seu curso através de fantasias que têm por tema as atividades sexuais da mãe (ou primeiro amor), nas mais diversas circunstâncias; e a tensão conseqüente leva, de maneira particularmente rápida, a buscar alívio na masturbação.”

Quando a criança ouve dizer que deve sua vida aos pais, ou que sua mãe lhe deu a vida, seus sentimentos de ternura aliam-se a impulsos que lutam pelo poder e pela independência, e geram o desejo de retribuir essa dádiva aos pais e de compensá-los com outra de igual valor.”

<Não quero nada de meu pai; devolver-lhe-ei tudo quanto gastou comigo.> [!!!]” “a fantasia de salvar o pai de perigo” “o sentido desafiador é de longe o mais importante” “salvar a mãe adquire o significado de lhe dar uma criança – é supérfluo dizer, uma igual a ele.”

a experiência do nascimento, provavelmente, nos legou a expressão de afeto que chamamos de ansiedade. Macduff,¹ da lenda escocesa, que não nasceu de sua mãe mas lhe foi arrancado do ventre, por esse motivo não conhecia a ansiedade.²”

¹ Em Macbeth.

² Aprofundamento da questão parto-ansiedade em Inibições, Sintomas e Ansiedade.

F) SOBRE A TENDÊNCIA UNIVERSAL À DEPRECIAÇÃO NA ESFERA DO AMOR (Contribuições à Psicologia do Amor II) – Über die Allgemeinste Erniedrigung des Liebeslebens (Beiträge zur Psichologie des Liebeslebens II) (1912), trad. brasileira Jayme Salomão

Se o psicanalista clínico indagar a si mesmo qual perturbação leva as pessoas com maior freqüência a procurarem-no em busca de auxílio, ele será compelido a responder que consiste nas diversas formas de ansiedade.”

Artigo sobre a impotência sexual ligada a mulheres parecidas com a mãe no sentido freudiano, ou seja, ligada a mulheres que se escolheu amar.

Gênese 2:24

a impotência total que, talvez, mais tarde se reforce pelo início simultâneo de um real debilitamento dos órgãos que realizam o ato sexual.”

psicanestésicos, homens que nunca falham no ato, mas que o realizam sem dele derivar qualquer prazer especial”

mulheres frígidas” “Esta é a origem do empenho realizado por muitas mulheres de manter secretas, por certo tempo, mesmo suas relações legítimas”

o homem quase sempre sente respeito pela mulher que atua com restrição a sua atividade sexual, e só desenvolve potência completa quando se acha com um objeto sexual depreciado; e isto por sua vez é causado, em parte, pela entrada de componentes perversos em seus objetivos sexuais, os quais não ousa satisfazer com a mulher que ele respeita.” “Também é possível que a tendência a escolher uma mulher de classe mais baixa para sua amante permanente ou mesmo para sua esposa, tão freqüentemente observada nos homens de classes mais altas da sociedade, nada mais seja que sua necessidade de um objeto sexual depreciado” “[tais homens] consideram o ato sexual, basicamente, algo degradante, que conspurca e polui mais do que simplesmente o corpo.”

É, naturalmente, tão desvantajoso para a mulher se o homem a procura sem sua potência plena como o é se a supervalorização inicial dela, quando enamorado, dá lugar a uma subvalorização depois de possuí-la.”

Pode-se verificar, facilmente, que o valor psíquico das necessidades eróticas se reduz, tão logo se tornem fáceis suas satisfações. Para intensificar a libido, se requer um obstáculo” “Nas épocas em que não havia dificuldades que impedissem a satisfação sexual, como, talvez, durante o declínio das antigas civilizações, o amor tornava-se sem valor e a vida vazia”

os componentes instintivos coprófilos, que demonstraram ser incompatíveis com nossos padrões estéticos de cultura, provavelmente porque, em conseqüência de havermos adotado a postura ereta, erguemos do chão nosso órgão do olfato. (…) o excrementício está todo, muito íntima e inseparàvelmente ligado ao sexual; a posição dos órgãos genitais – inter urinas et faeces – permanece sendo o fator decisivo e imutável. Poder-se-ia dizer neste ponto, modificando um dito muito conhecido do grande Napoleão: <A anatomia é o destino.> Os órgãos genitais propriamente ditos não participaram do desenvolvimento do corpo humano visando à beleza: permaneceram animais (…) é absolutamente impossível harmonizar os clamores de nosso instinto sexual com as exigências da civilização.”

G) O TABU DA VIRGINDADE (Contribuições à Psicologia do Amor III) – Das Tabu der Virginität (Beiträge zur Psichologie des Liebeslebens III) (1918)

a prática da ruptura do hímen dessa maneira, fora do casamento subseqüente, é muito disseminada entre as raças primitivas que vivem ainda hoje. Como diz Crawley, <Essa cerimônia do casamento consiste na perfuração do hímen por uma pessoa designada que não o marido; é muito comum nos estágios mais baixos de cultura, especialmente na Austrália.> (Crawley, 1902, 347)”

Nas tribos Portland e Glenelg isto é feito à noiva por uma mulher idosa; e, às vezes, com essa finalidade são solicitados homens brancos, para deflorar as moças púberes (Brough Smith, 1878).”

A ruptura, às vezes, ocorre na infância”

Esse defloramento é efetuado pelo pai da noiva entre os Sakais (Malásia), os Battas (Sumatra) e os Alfoers das Celebes (Ploss e Bartels, 1891).” “Nas Filipinas haviam (sic) determinados homens cuja profissão era deflorar noivas, caso o hímen não houvesse sido perfurado na infância por uma mulher idosa, às vezes contratada para esse fim (Featherman, 1885-91).”

A perfuração ritual não acarreta necessàriamente a relação sexual. Freud critica o acanhamento e superficialidade dos primeiros etnógrafos.

8 “Em numerosos exemplos, não pode haver dúvidas de que outras pessoas além do noivo, p.ex., seus convidados e companheiros (nossos tradicionais <padrinhos do noivo> [<Kranzelherrn>]) têm livre acesso à noiva.”

a circuncisão de meninos e seu equivalente ainda mais cruel nas meninas (excisão do clitóris e dos pequenos lábios)”

em algumas ocasiões especiais, a sexualidade do homem primitivo pode sobrepujar todas as inibições; mas de maneira geral, parece ser mais fortemente dominada por proibições do que o é nas camadas mais altas da civilização.”

não se permite a um sexo pronunciar em voz alta os nomes próprios dos membros do outro sexo e as mulheres criam uma linguagem com um vocabulário especial.” “em algumas tribos, mesmo os encontros entre marido e mulher têm de se realizar fora de casa e às escondidas.”

SUPER MALLEVS MALEFICARVM: “Ele não separa o perigo material do psíquico, nem o real do imaginário. Em sua concepção animista do universo consistentemente aplicada, todo perigo decorre da intenção hostil de algum ser dotado de alma como ele próprio”

A frigidez inclui-se, assim, entre os determinantes genéticos das neuroses.”

<noites de Tobias> (o costume da continência durante as três primeiras noites do casamento)”

P. 190: “Por trás dessa inveja do pênis, manifesta-se a amarga hostilidade da mulher contra o homem, que nunca desaparece completamente nas relações entre os sexos e que está claramente indicada nas lutas e na produção literária das mulheres <emancipadas>. Em uma especulação paleobiológica, Ferenczi atribuiu a origem dessa hostilidade das mulheres à época em que os sexos se tornavam diferenciados. A princípio, a cópula realizou-se entre dois indivíduos semelhantes, um dos quais, no entanto, transformou-se no mais forte e forçou o mais fraco a se submeter à união sexual. Os sentimentos de amargura decorrentes dessa sujeição ainda persistem na disposição das mulheres hoje em dia.”

Arthur Schitzler – Das Schicksal des Freiherrn

Uma comédia da autoria de Anzengruber mostra como um simples camponês é dissuadido de casar com sua noiva pretendida porque ela é <uma rapariga que lhe cobrará primeiro a vida>. Por esse motivo ele concorda em que ela case com outro homem e está disposto a aceitá-la quando ficar viúva e não for mais perigosa. O título da peça, Das Jungferngift (<O Veneno da Virgem>), traz-nos à lembrança o hábito dos encantadores de serpentes que, primeiro, fazem as cobras venenosas morderem um pedaço de pano a fim de, depois, lidarem com elas sem perigo.”

Hebbel – Judite e Holofernes: “Quando o general assírio está cercando sua cidade, ela concebe o plano de seduzi-lo com sua beleza e de destruí-lo, usando assim um motivo patriótico, para esconder outro, sexual. Depois de haver sido deflorada por esse homem poderoso, que se gaba de seu vigor e de sua insensibilidade, ela encontra forças em sua fúria para lhe cortar a cabeça, tornando-se assim a libertadora de seu povo. (…) É claro que Hebbel sexualizou intencionalmente a narrativa patriótica do Apócrifo do Velho Testamento, pois, nela, Judite pode se gabar, depois ao voltar, que não foi violada, e nem existe no texto bíblico qualquer menção de sua misteriosa noite nupcial. Mas provavelmente, com a fina percepção de poeta, ele percebeu o velho motivo, que se havia perdido na narrativa tendenciosa [infantil Apud Groddeck].”

H) A CONCEPÇÃO PSICANALÍTICA DA PERTURBAÇÃO PSICOGÊNICA DA VISÃO – Die Psychogene Sehstörung in Psychoanalytischen Auffassung (1910), trad. brasileira Paulo Dias Corrêa

nos pacientes predispostos à histeria, há uma tendência inerente à dissociação – a uma desagregação das conexões em seu campo psíquico”

FREUD, O PAI DO SEXO: “Foi Jung, e não eu, que fêz da libido um equivalente da fôrça instintiva da tôdas as faculdades psíquicas, e que contesta a natureza sexual da libido. (…) Da minha concepção você extrai a natureza sexual da libido e da conclusão de Jung seu significado generalizado. É assim que se cria na imaginação dos críticos um pan-sexualismo que não existe nos meus conceitos nem nos de Jung. (…) Nunca afirmei que tôdos os sonhos expressassem a satisfação de um desejo sexual, mas muitas vêzes acentuei o contrário. Porém isto não produz nenhum efeito, e as pessoas continuam a repetir a mesma coisa.

Com meus agradecimentos cordiais e cumprimentos sinceros,

Seu, Freud.”

os dedos de pessoas que renunciaram à masturbação se recusam a aprender os movimentos delicados indispensáveis para tocar piano ou violino.”

como se uma voz punitiva estivesse falando de dentro do indivíduo e dizendo: <Como você tentou utilizar mal seu órgão da visão para prazeres sensuais perversos, é justo que você nunca mais veja nada> (…) A idéia da pena de talião está implícita nisto (…) A bela lenda de Lady Godiva nos conta como todos os habitantes da cidade se esconderam por trás de suas venezianas fechadas, a fim de tornar mais fácil a tarefa da senhora de cavalgar nua pelas ruas, em pleno dia, e como o único homem que espreitou pelas venezianas os seus encantos descobertos foi punido com a cegueira.”

I) PSICANÁLISE “SILVESTRE” – Über “Wilde” Psychoanlyse (1910), trad. brasileira Paulo Dias Corrêa

<neuroses atuais>, tais como a neurastenia típica e a neurose de angústia simples” “condições com uma causação puramente física e contemporânea” [???] “[F.] sugere dever considerar-se a hipocondria uma terceira <neurose atual>”

Dificuldade de distinguir entre neurastenia e hipocondria.

Psicanálise “silvestre”: amadora, sem método.

Pp. 211-2: “É idéia há muito superada, e que se funda em aparências superficiais, a de que o paciente sofre de uma espécie de ignorância, e que se alguém consegue remover esta ignorância dando a êle a informação (acêrca da conexão causal de sua doença com sua vida, acerca de suas experiências de meninice, e assim por diante) êle deve recuperar-se. (…) Se o conhecimento acêrca do inconsciente fôsse tão importante para o paciente como as pessoas sem experiência de psicanálise imaginam, ouvir conferências ou ler livros seria suficiente para curá-lo. Tais medidas, porém, têm tanta influência sôbre os sintomas da doença nervosa [uma vez que já houve a somatização, é tarde demais para se cuidar de forma amadora…] como a distribuição de cardápios numa época de escassez de víveres tem sôbre a fome. A analogia vai mesmo além de sua aplicação imediata; pois, informar o paciente sôbre seu inconsciente redunda, em regra, numa intensificação do conflito nêle e numa exacerbação de seus distúrbios. [- Você é narcista. – Obrigado, agora entendi! Deixo de me apaixonar pelo meu reflexo n’água quando puder…] (…) isto não se poderá fazer antes que 2 condições tenham sido satisfeitas. (…) o paciente deve (…) ter alcançado êle próprio a proximidade daquilo que êle reprimiu [digamos que ver NARCISISTAS lidando diariamente com seus problemas não ajuda muito… Automaticamente, não ser o que me torna mórbido torna-se errado – <humilde> e <sem estudos formais> é sardinha para piranhas na CAPES] e, segundo, êle deve ter formado uma ligação suficiente com o médico [permaneceram-me todos até aqui tipos ordinários, estranhos ao meu mundo] (…) A intervenção psicanalítica, portanto, requer de maneira absoluta um período bastante longo de contato com o paciente. (…) A psicanálise fornece essas regras técnicas definidas para substituir o indefinível <tato médico> que se considera como um dom especial. [ausência de Freuds e Groddecks em Brasília…] (…) Tenho amiúde encontrado que um procedimento inepto dêsses, mesmo se a princípio produzia uma exacerbação da condição do paciente, conduzia a uma recuperação ao final. Nem sempre, mas muito amiúde. Quando êle já insultou bastante o médico e se sente suficientemente distanciado de sua influência, seus sintomas cedem, ou êle se decide a tomar alguma iniciativa que vai no caminho da recuperação. A melhoria final então advém por si ou é atribuída a certo tratamento totalmente neutro por algum outro doutor para quem o paciente tenha mais tarde se voltado.”

J) ZUR SELBSTMORD-DISKUSSION

não estais inclinados a dar fácil crédito à acusação de que as escolas impelem seus alunos ao suicídio. Não nos deixemos levar demasiado longe, no entanto, por nossa simpatia”

Se é o caso que o suicídio de jovens ocorre não só entre os alunos de escolas secundárias, mas também entre aprendizes e outros, êste fato não absolve as escolas secundárias.”

A escola nunca deve esquecer que ela tem de lidar com indivíduos imaturos a quem não pode ser negado o direito de se demorarem em certos estágios do desenvolvimento e mesmo em alguns um pouco desagradáveis. A escola não pode adjudicar-se o caráter de vida: ela não deve pretender ser mais do que uma maneira de vida.”

Nem chegamos a uma compreensão psicanalítica do afeto crônico do luto.” Minha vida sempre num espeto. Me comporto como se fosse meu próprio bisneto a me lamentar: que desperdício de potencial!

F. – Certas Reflexões Sôbre a Psicologia do Rapaz em Idade Escolar (1914)

K) ANTHROPOPHYTEIA

Subscrevo-me, prezado Dr. Krauss, muito cordialmente,”

A Anthropophyteia foi um periódico, fundado e editado pelo Dr. F.S. Krauss, que tratava principalmente de material antropológico de natureza sexual.”

Bourke – Scatologic Rites of All Nations

L) DUAS FANTASIAS – Beispiele de Verrats pathogener Phantasien bei Neurotikern

(apenas contribuições ao glossário do cabeçalho)

M) CARTAS A UMA MULHER NEURÓTICA – Briefe am nervöse Frauen bei Dr. Neutra

a psicanálise não se pode satisfatoriamente combinar com a técnica da <persuasão> de Oppenheim

TEMPORALIDADE E ESPACIALIDADE NA ESTRUTURA DO SELF NAS ABORDAGENS SEMIÓTICA E DIALÓGICA – Mariane Lima de Souza & William B. Gomes (in: Psicologia em Estudo, vol. 14, n. 2, abr.-jun., 2009, pp. 365-73, UEM.)

#Epistemologia #Filosofia #Psicologia #Antropologia #Sociologia #Geografia #História #Linguistica #Ética

Wiley é citado em David Harvey, daí o interesse desencadeado. Estudos em compressão do espaço-tempo na pós-modernidade.

O pensamento enquanto processo reflexivo direcionado do presente (Eu) para o passado (Mim) de Mead é combinado ao pensamento enquanto processo interpretativo, direcionado do presente (Eu) para o futuro (Você) de Peirce. Tem-se, então, um processo semiótico mais abrangente, representado na conversação triádica Eu-Mim-Você. (Wiley, 1994)”

Os hóspedes de Goethe ou os visitantes de Wiley são constituídos de pessoas próximas, com as quais se desfruta maior (permanentes) ou menor (temporários) convivência. A instância inconsciente recobre os estados não conscientes e os estados limítrofes, como devaneios ou fantasias da imaginação. Segundo o autor, ela foi incluída apenas como artifício para dramatizar o problema de localizá-la na conversação interna e não com a finalidade de trazer um entendimento acabado sobre o inconsciente.”

Os visitantes temporários pertencem à segunda pessoa e à conjugação presente, são subjetivos e objetivos. Eles são mais livres que os visitantes permanentes e menos aliados ao outro generalizado que os visitantes permanentes. São disponíveis para o Eu como cossujeito. Os visitantes permanentes pertencem à segunda pessoa e à conjugação presente. Eles são objetivos e não livres, aliados e constitutivos do outro generalizado. São disponíveis para o Eu como cossujeito, mas sedimentados no outro generalizado. Por fim, o inconsciente é uma instância de terceira pessoa, atemporal, de todos os casos (objetivo, subjetivo, bem como objetivo e subjetivo, simultaneamente), determinado, livre da relação com o outro e está oculto do eu por barreiras lingüísticas semiporosas.”

As perspectivas dialógica e semiótica de self concordam com relação à definição do self como um signo. A perspectiva semiótica afirma que o senso de self humano é um processo semiótico de autoprodução (Pickering, 1999, p. 70), por ser racional, simbólico e linguístico (Wiley, 1994).”

A noção de diálogo na perspectiva dialógica do self, resultante do esforço de traduzir a distinção de James entre Eu e Mim <em um arcabouço narrativo e no arcabouço conceitual do romance polifônico em particular> (Hermans & Kempen, 1993, p. 44), também é semiótica. Contudo, a distinção de James entre Eu-Mim traduzida na distinção narrativa entre autor-ator, no tipo especial de relação sugerido por Bakhtin (1929/1973), aponta para uma semiótica diádica.”

O pragmatismo americano fornece a base para uma teoria do self tanto quanto ele o faz na perspectiva dialógica, porém, no lugar de uma distinção entre Eu e Mim de James, a perspectiva teórica semiótica descreve uma integração do eu-você de Peirce e do eu-mim de Mead”

A natureza espacial do self, na teoria dialógica, é expressa nos termos posição e posicionamento. De acordo com os autores Hermans, Kempen e Van Loon (1992), estes termos são mais dinâmicos e flexíveis que o tradicional termo papel (role). O self é definido como uma multiplicidade de posições do Eu que dialogam entre si, mas em um espaço comum, onde a simultaneidade das vozes envolvidas no diálogo é a expressão da descentralização do self.”

A espacialização do tempo é uma forma de responder à fraqueza das concepções tradicionais de narrativa e de autonarrativa, as quais são excessivamente pautadas por um viés temporal.”

A fraqueza que eu vejo na formulação corrente da abordagem teórica de Hermans é a pressuposição de que um indivíduo pode adotar uma instância narrativa ou autoral, de alguma forma acima das personagens que compõem o self polifônico e dialógico, e pode mover a narrativa da posição do eu livremente, de uma personagem a outra, para dar a cada uma a sua própria voz.” Barresi, 2002

Se o self pode assumir tal instância autoral, então a relação dialógica fica comprometida, uma vez que esse eu, acima dos outros caracteres, fica sozinho e sem interlocutores. Na concepção semiótica de self este problema é evitado, uma vez que a narrativa é sempre uma expressão comunicativa do eu, no tempo presente, em primeira pessoa.”

A perspectiva dialógica de Hermans se diferencia da perspectiva pós-moderna, que entende o self como uma ilusão produzida ideologicamente a partir de uma fragmentação e pluralidade de identidades. Nesse sentido, o self dialógico está completamente em acordo com a posição de Wiley (1994) sobre o self semiótico”

Conforme Grant (2004), a comunicação deve ser conceitualizada em termos da impenetrabilidade da mente do outro, isto é, as pretensões transcendentais devem ser abandonadas em favor de pretensões destranscendentalizadas. (…) Para o autor, o que marca a comunicação é a contingência e a complexidade e não a intersubjetividade.”

A dialogicidade é, portanto, a qualidade essencial desse processo, que é tanto interno ou reflexivo (a consciência voltando sobre si mesma) quanto externo ou flexivo (a consciência dirigindo-se a outras consciências). Nesse sentido, segue-se a linha de Morin (1993), que define como sinônimos os conceitos de fala interna, diálogo interno e fala consigo ou fala do self (self-talk); de Blachowicz (1997), quando argumenta que a fala interna é genuinamente um diálogo e não um monólogo; de Bertau (1999), ao sugerir que o pensamento verbalizado ou audível (índice mais aproximado que se pode obter da fala interna) funciona como um processo dialógico e de Bakhtin (1929/1973), que define as relações dialógicas como ato comunicativo.”

A perspectiva dialógica volta-se à aplicabilidade do conceito recortando um contexto de pesquisa aplicada direcionada para a psicologia clínica e para as relações interpessoais; em contraste, a perspectiva semiótica volta-se para a funcionalidade do fenômeno, recortando um contexto de pesquisa inserido na psicologia dos processos básicos e da ética. Por conseguinte, a argumentação do self semiótico parece trazer uma fundamentação ontológica mais elegante. O conceito faz uma distinção entre a função evolucionária e a função cultural do self. A função evolucionária, comum a todos os seres humanos em todos os tempos e lugares, é a propriedade básica de geração de signos, sem a qual não haveria humanidade. Como gerador de signos, o self é uma estrutura, dialógica e a-histórica. Como especificador de signos, o self é um conteúdo emergente ou sedimentado com matizes culturais e históricas.”

Um provocativo debate entre as duas abordagens pode ser encontrado no número inaugural do International Journal for Dialogical Science, publicado em 2006.

Bakhtin, M. (1973). Problems of Dostoevsky’s poetics (R. W. Rotsel, Trad). Ann Arbor: Ardis (Original publicado em 1929).

Barresi, J. (2002). From ‘the Thought is the Thinker’ to ‘the Voice is the Speaker’. Theory & Psychology, 12, 237-250.

Bertau, M.-C. (1999). Spuren des Gesprachs in innerer Sprache. Versuch einer Analyse der dialogischen Anteile des lautes Denkens. [Marcas da fala em conversação interna. Uma análise da arte dialógica do pensamento em voz alta], Zeitchrift für Sprache & Kognition 18 (1/2), 4-19.

Blachowicz, J. (1997). The dialogue of the soul with itself. Journal of Consciousness Studies 4, 485-508.

Grant, C. B. (2004). Complex communication and the self at the edge. Theory & Psychology, 14, 221-237.

James, W. (1990). The principles of psychology. Chicago: Encyclopaedia Britannica (Original publicado em 1890).

Mead, G. H. (1934). Mind, self and society. Chicago: University of Chicago Press.

Morin, A. (1993). Self-talk and self-awareness: on the nature of the relation. The Journal of Mind and Behavior 14, 223-234.

Peirce, C. S. (1958). Collected Papers of C. S. Peirce. Vol. I-VIII, C. Hartshorne, P. Weiss & A. Burks (Eds.). Cambridge, Mass: Harvard University Press.

Pickering, J. (1999). The self is a semiotic process. In S. Gallagher & J. Shear (Eds.), Models of self (pp. 63-79). Exeter, UK: Imprint Academic.

Schutz, A. (1967), The phenomenology of the social world (G. Walsh & F. Lehnert, Trans.). Evanston, IL: Northwestern University Press (Original publicado em 1932).

Vico, G. (1999). A ciência nova (M. Lucchesi, Trad.) Rio de Janeiro: Record (Original publicado em 1744).

Wiley, N. (1994). The semiotic self. Chicago: The Univ. Chicago Press. [Em português: Wiley, N (1996). O self semiótico (L. P. Rouanet, Trad. – tradução com ressalvas de acordo com o artigo). São Paulo: Edições Loyola.

“THE MOST MYSTERIOUS MS.” STILL AN ENIGMA – Elizabeth Smith Friedman

A FRAUD? “<The most mysterious manuscript in the world.>, so named 40 years ago [1922] by the late Prof. John M. Manly of the University of Chicago, is now for sale in New York for $160,000, although not one cipher word on the 135 pages has ever been deciphered. The owner, Hans P. Kraus, the rare book dealer of Vienna and New York, upon being reproached for asking such a price, said that when deciphered the manuscript would be worth $1 million.

The existence of the manuscript has been known in the U.S. for 50 years, In 1912 it was purchased by a New York rare book dealer, the late Wilfred M. Voynich at a place never before disclosed but now identified by Kraus as the Mondragone Monastery in Frascati, near Rome. The age of the ms. is nor certain” “Accompanying the ms. was a letter of transmittal written in 1665 by Johannes Marcus Marci at the court of the Emperor Rudolph in Prague. Marci sent the ms. as a present to Athanasius Kircher, a celebrated Jesuit scholar and scientist in Rome who had written a work on ciphers. Marci challenged Kircher to solve the mystery; Kircher’s fame was such that his failure to do so probably discouraged other scholars, perhaps for centuries, from attempting the task.

The Marci letter said that the manuscript once belonged to the Emperor Rudolph and was thought to be the work of Roger Bacon, a statement which Voynich accepted as true. He later established that the ms. was in existence at least as early as 1608 when, after chemical treatment of a faded page, there appeared in the margin the signature Jacobi de Tepenecz. The title de Tepenecz was bestowed on this botanist and alchemist in 1609 [Roger Bacon viveu no séc. XIII].”

As to why Bacon had written in cipher, Voynich said that since Bacon had written dissertations in plain language on the subject of ciphers, it was logical to assume that he would have put his own precepts into practice.”

Newbold [criptógrafo do séc. XX] said his decipherments proved that the 13th century scientist had possessed both a telescope and a microscope, whose invention history places several centuries later; that the ms. included a drawing of what was undoubtedly the great spiral nebula in Andromeda, of whose existence Newbold had been entirely unaware, and that he had deciphered the date of a falling comet and other facts likewise unknown to him before then.”

Some sick souls believed that Newbold had learned the secrets of black magic, and one deluded woman traveled hundreds of miles to beseech him to cast out the demons that had taken possession of her.”

All the scholars competent to judge the ms. were – and still are [1962] – agreed that it is definitely not a hoax or the doodlings of a psychotic”

from a Vatican manuscript partly in cipher, they [Manly and William Friedman] obtained, by the straightforward methods of solving simple ciphers, a medieval recipe for making home brew; Newbold, using his complicated methods, produced a totally different result.”

The complex method used by Newbold was reducible to 9 steps. The first and last of these, without any consideration of the intermediate abstruse and confusing processes, are utterly devoid of precision and are incapable of yielding one and only one plain-language text – a rigid requirement of any legitimate cipher method.”

PÓS-II GUERRA: “The group comprised specialists in philology, paleography, ancient, classical and medieval languages and literature; Egyptologists, mathematicians and authorities in other sciences depicted in the manuscript. Under Friedman’s direction, they agreed to meet after working hours and concentrate their talents on an attempt to master the document.” “The scientists disbanded and returned to their universities or research projects. Their considered opinions as to the age, authorship and general nature of the ms., based on their extracurricular work, are still valid today”

a symbol often resembling our hand-written small letter <m> just as often looks as though it is composed of 3 separate symbols.”

The first impression is that here is a simple substitution cipher. However, the decipherer is doomed to utter frustration when no solution based on such a theory is reached.”

1. The number of basically different symbols employed in the manuscript is quite small – perhaps 20, or even fewer. However, tiny variations and affixes may make multiple forms of a basic character, which might suggest counting them as different symbols.

2. (…) the number of different <words> is quite limited.

3. (…) rarely are they over 7 or 8 symbols in length.

4. There is a very large number of repetitions of single <words> and groups of <words>.

(…)

7. The text is homogeneous, the same <words> appearing in all sections whether botanical, astrological, biological or astronomical.

(…)

10. Certain symbols appear so infrequently as to suggest that they are extraneous to the text or are errors, made perhaps by the author himself or by some scribe who transcribed the original.”

Unlike most unsolved ancient writings – the Mayan hieroglyphics, f.ex., where most scholars believe there is insufficient material and too little repetition – this manuscript presents exactly the opposite characteristics.”

There can be no question that the same scribe wrote the text and made the drawings”

Although a well-known American botanist, Dr. Hugh O’Neill, believes that he has identified 2 American plants in the illustrations, no other scholar has corroborated this, all agreeing that none of the plants depicted is indigenous to America.”

Egyptian hieroglyphic writing intrigued scholars for centuries. All attempts at solution were unsuccessful until Rosetta Stone was found in 1799. Even with the trilingual writing on that stone, and with one of the versions in the well-known language Greek, the decipherment took 30 years.”

TIMEU OU DA NATUREZA

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

“Quanto às mulheres, declaramos que seria preciso pôr suas naturezas em harmonia com a dos homens, da qual não diferem, e dar a todas as mesmas ocupações que a eles se dá, inclusive as da guerra, e não só num caso ou noutro, mas em todas as circunstâncias da vida.”

“CRÍTIAS – Escuta, Sócrates, uma história bastante singular, mas inteiramente verdadeira, que no passado contava aquele que era o mais sábio dentre os Sete Sábios, Sólon em pessoa.”

(*) “Para informações biográficas de Sólon, Dropides e dos dois Crítias, cfr. as notas do diálogo Cármides. [a ser publicado no Seclusão]

“CRÍTIAS – (…) disse Elanciano Crítias [Crítias o velho]: <Aminandro, se Sólon, em lugar de compor versos por passatempo, se consagrara a sério à poesia, como muitos de seu tempo; se levara a cabo a obra que começara a escrever no Egito; se não tivera precisão de dedicar-se a combater as facções e os males de toda classe, que não cessavam de aparecer em torno seu; em minha opinião, nem Hesíodo nem Homero nem ninguém teriam tido chance de superá-lo enquanto poeta.> A conversa continuou:

– [Animandro] Que obra era essa que Sólon começara a compor no Egito?

– [Crítias velho] Tratava-se da história do acontecimento mais grandioso e de maior renome que se sucedera nesta cidade, cuja recordação, dado o transcurso do tempo e a morte de seus atores originais, não nos foi comunicado a nós.

– [Animandro] Ora, quero ouvir bem do começo tudo que Sólon relataria, do que se tratava esse grande evento, e quem o contou com aparência verídica pela primeira vez.

– [Crítias velho] Há no delta do Nilo, em cujo extremo este rio divide suas águas, um território chamado Saiticos, distrito cuja principal cidade é Saís, pátria do rei Amósis [ou Amásis]. Os habitantes honravam uma divindade como a fundadora desta cidade, chamada por eles de Neith, ninguém menos que nossa Atena, se havemos de crer em tal relato.(*)

(*) “Sobre a identidade de Neith de Saís com Atena ou Minerva, ver Heródoto, II, 28, 59, 170 e 176; Pausânias, II, 36; Cícero, Da natureza [ou genealogia] dos deuses, III, 23; e Plutarco, Sobre Ísis e Osíris, 9, 32 e 62.”

(*) “Níobe, filha de Foroneu,¹,² que deu a luz a um filho de Zeus, Argos, em honra do qual seria fundada a cidade homônima.³ [Fonte: Pseudo-Apolodoro]”

¹ Reza o mito que Níobe teria sido a(o) primeira(o) felizarda(o) mortal escolhida(o) por um deus olímpico para procriar.

² Foroneu é, por sua vez, neto de Oceano (titã) com Tétis.

³ Como se a mitografia já não fosse confusa o bastante, noutras fontes Argos (o rei) é ainda o quarto monarca da dinastia que fundou e governou Argos ou Argus (a cidade)!

“CRÍTIAS VELHO – [Sacerdote egípcio] <Sólon, Sólon! vós gregos sereis sempre umas crianças… na Grécia não há anciãos!>

– [Sólon] Que queres com isso dizer?

– [Sacerdote] Sois crianças na alma. Não possuís tradições remotas nem conhecimentos veneráveis por sua antiguidade. Eis o motivo. Mil vezes e de mil maneiras os homens se extinguiram, e ainda se extinguirão, o mais das vezes perecendo pelo fogo e pela água, mas outras tantas também por uma infinidade doutras causas.

“SACERDOTE – (…) no espaço que rodeia a terra e no céu realizam-se grandes revoluções. Os objetos que cobrem o globo desaparecem a cada grande intervalo de tempo num vasto incêndio. (…) O Nilo, nosso constante salvador, ao transbordar, salvara-nos de tal calamidade. E quando os deuses, purificando a terra por meio das águas, a submergem totalmente, os pastores no alto das montanhas e seus rebanhos se vêem salvos; mas os habitantes de vossas cidades litorâneas são arrastados ao mar pela corrente dos rios. Acontece que, no Egito, as águas nunca se precipitam do alto rumo às campinas; pelo contrário, manam das próprias entranhas da terra. É por isso que, diz-se, entre nós conservaram-se as mais antigas tradições, porque nós moramos num sítio privilegiado, em que um determinado número de homens sempre sobreviveu aos cíclicos desastres naturais. Decorre daí que, segundo nossa sabedoria muito mais longeva que a vossa, nada há que seja belo, grande e notável em qualquer matéria neste mundo que não tenha sido registrado por escrito por nossa civilização. No que se refere a vós gregos e tantos outros povos, apenas aprendestes a utilizar o alfabeto escrito e as coisas necessárias para o Estado, terríveis chuvas prorromperam sobre vós como raios, deixando remanescer somente alguns iletrados e gente estranha às Musas; desta feita, começais sempre de novo, sois verdadeiras crianças ignorantes dos sucessos antigos tanto deste país, o Egito, quanto do vosso próprio. Decerto essas genealogias, que acabas de expor, Sólon, parecem-se muito com contos de fadas; além de mencionares um só dilúvio, coisa inverossímil, posto que precedido por muitos outros, ignoras que a melhor e mais perfeita raça de homens existira em teu país, e que de um só germe desta raça que escapara à aniquilação total descende tua cidade. (…) uma mesma deusa protegera, instruíra e engrandecera a tua cidade e a nossa; a tua mil anos antes, formando-a de uma semente tomada da terra e de Hefesto. Nota que, segundo nossos livros sagrados, passaram-se 8 mil anos desde a fundação de nossa cidade. Vou dar-te, portanto, uma noção das instituições que tinham teus concidadãos de 9 mil anos atrás, sem olvidar de relatar-te os mais gloriosos de seus feitos.”

“Amiga da guerra e do conhecimento, a deusa devia escolher, para fundar um Estado, o país mais capaz de produzir homens que se parecessem com ela.”

“Nossos livros contam como Atenas destruiu um poderoso exército, que, partindo do Oceano Atlântico, invadira insolentemente a Europa e a Ásia. Naquela época era possível atravessar este oceano. Havia em suas águas uma ilha, situada em frente ao estreito, que em vossa língua chamais de <as colunas de Hércules>.¹ Esta ilha era maior que a Líbia e a Ásia juntas; os navegadores cruzavam dali às demais pequenas ilhas, e destas ao continente banhado pelo oceano digno de seu nome.²”

¹ O limite ocidental da Europa.

² “Atlântico” de Átlas, o Titã que suporta o globo celeste nas costas.

“este vasto poder, reunindo todas as suas forças, tentara um dia subjugar de uma só vez o teu e o nosso país, bem como todos os povos situados deste lado oriental do estreito.”

“Nos tempos que se sucederam a estes, grandes tremores de terra provocaram inundações; e em um só dia, digo, em uma só e fatal noite, a terra tragou todos os vossos guerreiros, e a ilha de Atlântida desapareceu entre as águas. Como resultado, não é possível, desde então, explorar este oceano, muito em decorrência do grande lodo deixado por esta imensa ilha no momento em que soçobrava até os confins das profundezas, que hoje serve de obstáculo insuperável para os navios.”

“esta imagem eterna, conquanto divisível, que chamamos de tempo. (…) o futuro e o passado são formas que em nossa ignorância aplicamos indevidamente ao Ser eterno. Dele nós dizemos: foi, é, será; quando só se pode dizer, verdadeiramente: ele é.”

a unidade perfeita do tempo, o ano perfeito, realiza-se quando as 8 revoluções de velocidades diferentes voltaram a seu ponto de partida”¹

¹ Segundo M. Martin, refere-se Platão ao “mínimo múltiplo comum” dos anos da Lua, de Mercúrio e dos outros planetas conhecidos então em seu percurso de translação ao redor do Sol, o que resultaria no ano perfeito ou grande ano para o observador terrestre, quando finalmente acontece de estarem todos os corpos celestes alinhados e tudo se reinicia do zero na grande corrida circular periódica e eterna da existência.

“…que o que fizer bom uso do tempo que lhe fôra dado para viver voltará ao astro que lhe é próprio, ali permanecerá e ali atravessará uma vida feliz; que o que delinqüir será transformado em mulher num segundo nascimento, e se ainda assim não cessar de ser mau encarnará outra vez no formato de seus vícios, como aquele animal a cujos costumes mais se tiver assemelhado na vida anterior; e, por fim, nem suas metamorfoses nem seus tormentos concluirão enquanto não se fizer digno de recobrar sua primeira e excelente condição, o que alcançará deixando-se governar pela revolução do mesmo e do semelhante e domando mediante a razão esta massa irracional, refrega tumultuosa das partes de fogo, água, ar e terra que vão se acrescentando ao longo do tempo a sua natureza.

Promulgadas estas leis, e com o objetivo de não responder, para o sucessivo, pela maldade destas almas,¹ Deus as semeou, estas na Terra, aquelas na Lua, e outras nos demais órgãos do tempo [planetas].”

¹ Este motivo reaparece no Fédon, quando Zeus resolve delegar o poder de julgar os mortos, no Submundo, a seus filhos. Aparentemente, a divindade se cansa de cuidar diretamente do problema de “avaliar o comportamento das almas pecadoras” em seus erros sem conta…

“O Ser, feito presa das águas por todos os lados, caminhava adiante, para trás, para a direita, para a esquerda, para cima, para baixo. A onda, que avançando e retrocedendo dava ao corpo seu alimento, estava já bastante agitada.”

“Os deuses encerraram os dois círculos divinos da alma num corpo esférico, que construíram à imagem da forma redonda do universo, que é aquilo que nós chamamos de cabeça, a parte mais divina de nosso corpo e a que manda em todas as demais.”

A observação do dia e da noite, as revoluções dos meses e dos anos, nos ensinaram o número, o tempo e o desejo de conhecer a natureza e o mundo. (…) Quanto aos demais benefícios, infinitamente menores, para quê celebrá-los? Só quem não é filósofo ou o cego de espírito que não sente aqueles primeiros benefícios poderiam se queixar, mas se queixariam em vão.”

“A harmonia, cujos movimentos são semelhantes aos de nossa alma, o tino dos que com inteligência cultivam o comércio das Musas — harmonia esta reduzida agora a servir, quão trágico!, a prazeres frívolos.”

MOIRA VENCIDA: “Superior à necessidade, a inteligência convencera a primeira de que devia dirigir a maior parte das coisas criadas ao bem; e, por haver-se deixado persuadir pelos conselhos da sabedoria, a necessidade deu azo a que se formara, no começo de tudo, o universo.”

“quanto ao fogo, p.ex., deixemos de dizer: isto é fogo; e da água não digamos: aquilo é água; mas sim: parece água. Procedamos da mesma forma com todas as coisas variáveis, às quais atribuímos erroneamente estabilidade sempre que, diante de seu aparecimento, as designamos por <isto> e <aquilo>.”

“Existe um número infinito de mundos ou somente um número limitado? Quem refletir atentamente compreenderá que não se pode sustentar a existência de um número infinito sem que isto denuncie o desconhecimento de coisas que pessoa alguma pode ignorar. Mas não há mais do que um mundo, ou é preciso admitir que haja cinco? É esta uma questão dificílima. A nós nos parece que a preferência por um mundo único é a mais correta; mas outros, encarando a questão sob outro ponto de vista, poderiam muito bem se opor.”

O LIVRO dISSO – Georg “Troll” Groddeck

trad. José Teixeira Coelho Netto

A estranha condição de Groddeck, simultaneamente precursor e discípulo de Freud.

“Georg Walther Groddeck nasceu a 13 de outubro de 1866 em Bad Kösen, Alemanha, filho de um médico, Karl Groddeck, cujos escritos teriam sido lidos com particular atenção por Nietzsche.”

“Groddeck era leitor assíduo de Ibsen, entre outros; em 1910 publicou um livro sobre as peças de Ibsen. Bem, em Peer Gynt, uma das personagens importantes é a figura de troll, ser mítico do folclore escandinavo, gigante ou não, habitante das cavernas ou das montanhas (ou das cavernas nas montanhas), amoral e imoral, capaz de ser homem e mulher, severo e devasso, brincalhão e destruidor.

“Seu modo de proceder partia do princípio de que as doenças do homem eram uma espécie de representação simbólica de suas predisposições psicológicas e que muitas vezes o centro delas, seu modelo tipológico, podia muito bem ser elucidado com sucesso através dos métodos freudianos somados às massagens e ao regime, tanto quanto qualquer neurose obsessiva.” Peixinho que sou, morrerei pela boca. Asfixiado por minhas próprias palavras geniosas e maldições. A cabeça lateja com a burrice dos demais, e os pulmões se sentem imediatamente fracos, sem conseguir executar o serviço. Faxina interior periódica. Mas um tanto freqüente demais.

“Ele sentia o horror dos poetas pelos discípulos, pelos ensaios, artigos e exegeses… horror de toda essa poeira estéril que se levanta ao redor de um homem original e de uma idéia nova.”

Lawrence Durrell

* * *

“A angústia – ou o medo –, como você sabe, é conseqüência de um desejo recalcado.” “É isso aí: você tem aqui a essência do médico: uma propensão para a crueldade recalcada ao ponto de tornar-se uma coisa útil, e cujo censor é o medo de fazer sofrer.”

“Ainda me lembro como ele [o pai, médico] ria das esperanças depositadas na descoberta dos bacilos da tuberculose e do cólera, e com que prazer ele dizia que, desprezando todos os dogmas da fisiologia, havia alimentado com sopinha um bebê. O primeiro livro de medicina que ele pôs nas minhas mãos – eu ainda estava no ginásio – foi a obra de Radmacher sobre o ensino da medicina experimental; como os trechos combatendo a ciência estavam energicamente assinalados no livro, e amplamente acrescidos de observações marginais, não é de espantar que, desde o começo de meus estudos, eu tenha me inclinado pelo ceticismo.”

“eu transferi para a ciência toda a raiva e o sofrimento de meus anos passados nos bancos escolares por ser muito mais cômodo atribuir a origem das perturbações da alma a realidades exteriores do que ir procurar a causa disso nos cantos mais escuros do inconsciente.

Mais tarde, infinitamente mais tarde, percebi que a expressão Alma Mater – <mãe amamentadora> – recorda, para mim, os primeiros e mais terríveis conflitos de minha vida. Minha mãe só amamentou o primeiro de seus filhos: nessa época ela contraiu uma grave infecção nos seios, em conseqüência do que suas glândulas mamárias secaram.”

“Mas quem pode conhecer os sentimentos de um bebê?”

As pessoas que detestam a mãe não têm filhos; isto é tão verdadeiro que nos casais sem filho é possível apostar, sem errar, que um dos dois é inimigo da própria mãe. Quando se odeia a mãe, teme-se o próprio filho, pois o ser humano vive segundo o velho preceito: <Neste mundo tudo se paga…>.” “Ela vive do ódio, da angústia, do ciúme e da tortura incessante provocada por uma sede de algo inacessível.”

“Você já imaginou as atribulações de uma criança amamentada por uma ama? É uma situação complicada, pelo menos quando a mãe verdadeira gosta da criança.”

“diante dessa questão inoportuna, mais vale procurar refúgio no reino da fantasia. Quando você se acostuma com esse reino, logo descobre que a ciência nada mais é que uma variedade da fantasia, uma espécie de especialidade dotada de todas as vantagens e de todos os perigos de uma especialidade.”

“cada um passou a desconhecer o que acontecia com o outro. Quanto ao filho, tornou-se um incrédulo. Sua vida dissociou-se. (…) começou a beber, destino freqüentemente reservado àqueles que se viram sem afeto nas primeiras semanas de existência.”

O ELITISMO DO ETILISMO: “Tive o trabalho de remontar um pouco até a fonte de sua aberração e sei que essa história infantil da ama-de-leite sempre vem à tona um pouco antes de ele sentir a necessidade de recorrer à diva garrafa.”

“Como presente de despedida, minha ama me deu uma moeda de bronze de 3 groschen, chamado <Dreier>, e me lembro muito bem que, ao invés de gastar o dinheiro em doces, como ela havia dito, me sentei nos degraus de pedra da escada da cozinha e comecei a lustrar a moeda. Desde esse dia, o número 3 me persegue. Palavras como trindade, tríplice, triângulo, adquirem, para mim, uma ressonância suspeita. (…) E foi assim que, desde pequenininho, deixei de lado o Santo Espírito, porque era o terceiro; foi por isso que, na escola, a construção de triângulos tornou-se para mim um pesadelo, e também essa foi a razão pela qual a política da Tríplice Aliança, tão decantada numa certa época, recebeu minha desaprovação desde o primeiro momento.”

“Acredito que o homem é vivido por algo desconhecido. Existe nele um <Isso>, uma espécie de fenômeno que comanda tudo que ele faz e tudo que lhe acontece. A frase <Eu vivo…> é verdadeira apenas em parte; ela expressa apenas uma pequena parte dessa verdade fundamental: o ser humano é vivido pelo Isso.”

Não é surpreendente que não consigamos recordar nada de nossos 3 primeiros anos de vida?” “por que as mães são tão mal informadas a respeito de seus próprios filhos, por que também elas esquecem a parte mais essencial desses 3 anos? Talvez elas apenas finjam esquecer. A menos que, também nelas, o essencial não chegue igualmente ao consciente.”

“Para o Isso, não existe uma idade para as coisas e o Isso é nossa própria vida.”

“Mesmo as senhoras mais distintas peidam.”

“Na vida, a gente começa sendo criança e atravessa a idade adulta através de 1000 caminhos que levam todos a um mesmo ponto: a volta ao estado infantil. A única diferença entre as pessoas é que elas voltam à infância ou tornam-se pueris.”

“ele sofre de cólicas hepáticas, de dores do parto enfim, se você prefere; de modo especial, tem problemas apendiculares – como todos os que gostariam de ser castrados, tornar-se mulheres.”

“pericardite, gravidez imaginária do coração.”

“Eu ouvi de um homem que morreu na guerra: uma vez, o cachorro da irmã dele, uma espécie de poodle – ele devia ter então 17 anos – tinha-se esfregado em sua perna, masturbando-se. Ele ficou olhando, interessado, quando, de repente, no momento em que o líquido seminal escorreu por sua perna, foi tomado pela idéia de que o cachorro ia dar à luz filhotinhos; esta idéia perseguiu-o durante semanas, meses.” “o papel curioso que o cachorro representa na vida oculta do ser humano”

“as hemorróidas, parecidas a vermes do reto, esse flagelo que atormenta um bom número de seres humanos durante toda a vida, na maioria das vezes se originam da associação verme-criança, e desaparecem quando some o terreno de cultura propícia criada pelo desejo simbólico do inconsciente”

“Conheço uma mulher – é uma dessas que têm por profissão adorar as crianças sem ter nenhum filho próprio, pois odeia a própria mãe – cujas regras [menstruações] sumiram durante 5 meses; a barriga inchou, os seios ficaram maiores; ela achava que estava grávida. Um dia eu lhe falei longamente sobre a relação entre os vermes e as idéias de gravidez que constatei numa de nossas amigas comuns. Naquela mesma noite, ela <deu a luz> a uma ascáride e, enquanto dormia, suas regras voltaram, ao mesmo tempo que a barriga desinchava.”

“Em toda mãe, ao lado do amor que ela sente pelo filho, existe também uma aversão por esse mesmo filho.”

“Essas náuseas são causadas pela repugnância do Isso em relação a essa coisa que se introduziu no organismo. As náuseas expressam o desejo de eliminar a coisa, e os vômitos são uma tentativa de pô-la para fora. Por conseguinte, desejo e esboço de aborto. Que me diz? (…) outro sintoma da gravidez, originário do ódio da mulher pela criança: a dor de dente.” “E me pergunto seriamente se a associação feita pelo Isso entre o dente e a criança não é muito mais importante e cientificamente mais fecunda do que as deduções astronômicas de Newton. O dente é o filho da boca; a boca é o útero no qual ele cresce, do mesmo modo como o feto se desenvolve na matriz.”

“o fato de permanecer solteiro também é um modo de evitar a criança detestada, e já foi demonstrado que essa é uma das razões freqüentes do celibato e da virtude.” “E quando enfim se consegue levar o marido a renunciar ao miserável prazer de praticar a masturbação na vagina de sua mulher, é possível atribuir-lhe de mil modos as causas do mau humor, da infância sem alegria dos filhos e das desgraças do casamento.”

“Quer você acredite ou não, nunca houve um aborto que não tivesse sido intencionalmente provocado pelo Isso por razões facilmente identificáveis. Nunca! Em seu ódio, e quando tem o controle da situação, o Isso convida a mulher a dançar, montar a cavalo, viajar ou recorrer às mulheres <entendidas> que usam agulhas, sondas ou venenos, ou então a cair, bater-se, deixar-se bater ou ficar doente.”

“A vagina da mulher é um Moloch insaciável. Onde anda, portanto, essa vagina que se contentaria com ter em si um pequeno membro do tamanho de um dedo quando pode dispor de outro, grosso como o braço de uma criança? A imaginação da mulher trabalha com instrumentos poderosos, sempre foi e sempre será assim.”

“nunca se conseguirá descobrir inteiramente a origem dessa identificação entre o desejo sexual e o pecado.”

“A própria mãe dá a seu filho lições de onanismo; ela é obrigada a fazer isso, pois a natureza acumula sujeira, que tem de ser lavada, lá onde se encontram os órgãos da volúpia; a mãe é obrigada a fazer isso, não pode fazer de outro modo. E, pode acreditar, grande parte daquilo que recebe o rótulo de limpeza, a ânsia de servir-se do bidê, as lavagens após as evacuações, as irrigações, nada mais são que uma repetição das voluptuosas lições impostas pelo inconsciente.”

“A necessidade inelutável pela qual a vida comanda a auto-satisfação ao situar a sujeira e o fedor das fezes e da urina no mesmo lugar do prazer sexual demonstra que os deuses dotaram o ser humano com esse ato reprovado, com esse assim chamado vício, por alguma razão, e demonstra que esse ato faz parte do destino do homem.”

“observei, durante viagens minhas pelo interior, que de vez em quando um jovem lavrador, em pé atrás de seu arado, satisfazia suas vontades, sozinho e de um modo muito honesto. A mesma coisa se pode ver entre as camponesas jovens, quando não se perdeu o hábito de ver as coisas em virtude das proibições da infância; proibições como essa atuam, segundo as circunstâncias, durante longos anos, às vezes durante a vida toda, e de vez em quando é divertido observar tudo aquilo que as pessoas não vêem porque Mamãe proibiu que se visse. Mas para isso você não precisa ir até o mundo dos camponeses. Suas próprias recordações serão suficientes. (…) Nem é preciso pensar nas mil possibilidades do onanismo secreto, inocente, na equitação, na gangorra, na dança, na constipação; fora daí há muitas outras carícias cujo sentido mais profundo é a auto-satisfação.” “O próprio termo <onanismo> indica que é a idéia da perda do sêmen que assusta as pessoas. Você conhece a história de Onã? (…) Havia entre os judeus uma lei que obrigava o cunhado, no caso de o irmão morrer sem filhos, a compartilhar da cama da viúva; a criança assim concebida seria considerada descendente do morto. (…) Onã viu-se nessa situação; mas como não gostava da cunhada, deixava o sêmen cair ao chão ao invés de fazê-lo correr para o ventre da mulher. A fim de puni-lo pela violação da lei, Jeová fez com que morresse. O inconsciente da massa conservou dessa história apenas a imagem do líquido seminal caindo no chão, e estigmatizou com o nome de onanismo todo gesto semelhante, o que sem dúvida provocou o aparecimento da idéia da morte em virtude da auto-satisfação.”

“Não sou muito erudito, mas me parece que foi no fim do século XVIII que se espalhou esse medo do onanismo. Na correspondência entre Lavater e Goethe, ambos falam no onanismo espiritual com tanta naturalidade como se estivessem falando das peripécias de um passeio pelo campo. No entanto, essa foi a época em que a sociedade começou a se preocupar com os doentes mentais, e os alienados – sobretudo os idiotas – são ardorosos adeptos da auto-satisfação. Assim, é admissível que tenham confundido causa e efeito, é possível que tenham pensado que era pelo fato de se masturbar que o idiota se tornava um idiota.”

“o fato de, num enxame de irmãos e irmãs, aquele que mais diz besteiras ser sempre o caçula parece uma coisa natural. E foi assim que desde cedo perdi o hábito de manifestar minhas opiniões; recalquei todas elas.” “É uma situação bem desagradável e você bem pode imaginar os pulos que dá um ser recalcado, esmagado, anulado, quando se vê livre. Tenha um pouco de paciência. Mais umas poucas cartas meio doidas e este ser embriagado de liberdade se comportará com tanta ponderação e seriedade quanto o texto maduramente meditado de um psicólogo profissional qualquer.”

“O anel costuma ser considerado como símbolo do casamento; mas são muito poucos os que têm uma idéia da razão pela qual esse círculo expressa a noção da união conjugal. Os apótemas segundo os quais o anel é um elo, uma ligação, ou representa o amor eterno, sem começo nem fim, permitem tirar conclusões sobre o estado de espírito e a experiência daquele que usa esses florilégios do discurso, mas nada nos dizem sobre o fenômeno, produzido por forças desconhecidas, que levou a escolher o anel como representação do estado matrimonial. No entanto, se partirmos do princípio segundo o qual o hímen é a fidelidade sexual, a interpretação se torna fácil. O anel representa o órgão sexual feminino, sendo o dedo o órgão do homem. O anel não deve ser enfiado em nenhum outro dedo que não o do marido, e isso significa o voto de nunca acolher, no anel da mulher, um outro órgão sexual que não seja o do marido.” “a concepção do anel nupcial sob a forma de um elo ou círculo sem começo nem fim pode ser explicada por um mau humor ou por sentimentos românticos que vão procurar – e têm de – sua forma de expressão no tesouro comum dos símbolos e das associações.”

“(Todas as línguas do mundo iniciam a denominação do procriador com o fonema desdenhoso P, e a da parturiente com o som aprovador M.)”

“Os fundamentos da ciência são mais duráveis que o granito; suas paredes, salas e escadas reconstroem-se a si mesmas quando, aqui e ali, alguns pedaços de alvenaria, infantilmente construídos, desabam.”

“Todo mundo conhece Chapeuzinho Vermelho. A cabecinha vermelha sai, curiosa, da capa do prepúcio toda vez que se vai urinar e quando chega o momento do amor, a mesma cabeça vermelha se estica na direção das flores do campo, se mantém ereta sobre uma perna como o cogumelo, como aquele anãozinho no bosque com seu capuz vermelho, e o lobo no qual ele penetra para sair de seu ventre aberto após nove luas é um símbolo das teorias infantis da concepção do nascimento. Você se lembra que também acreditou nessa história de abrir a barriga?”

“o velho anão e sua longa barba representa a velhice impotente e o padre ilustra simbolicamente a renúncia voluntária involuntária.”

“Atrevo-me a pretender que as cantigas infantis e populares que têm por tema o <menino perdido no bosque> foram extraídas, com todos os seus detalhes, do fenômeno das pilosidades púbicas e da ereção, através de associações inconscientes”

A vida já é bastante séria, não é preciso que a gente ainda por cima se esforce por levar a sério as leituras, os estudos, o trabalho ou seja lá o que for.”

“Não é verdade que a mulher tenha uma sensibilidade aguda, que ela despreza e odeia a rudeza. Ela só detesta tudo isso nos outros. Ela ornamenta sua própria rudeza com o lindo nome de amor materno.”

“Um dia vi uma criança que tinha enfiado a cabeça entre umas barras de metal e que não podia nem ir para frente, nem para trás. Não vou esquecer seus gritos tão cedo.”

“Durante a mamada, a mulher é o homem que dá; e a criança, a mulher que recebe. Ou, colocando as coisas mais claramente, a boca que suga é a parte sexual feminina que recebe em si a teta à guisa de membro masculino.”

Não se surpreenda ao ver um homem correr atrás de uma boneca sem coração; reserve sua estupefação para aquele que não faz isso. E quando encontrar um homem profundamente enamorado, pode concluir sem hesitar que sua amante tem um coração cruel, que ela é cruel até o âmago, dessa espécie de crueldade que assume a máscara da bondade”

“Tudo isso, você vai me dizer, são apenas paradoxos, uma dessas brincadeiras típicas de Troll.”

“O mundo é dividido em duas partes: aquilo que convém momentaneamente ao ser humano é natural; aquilo que o desagrada, ele considera antinatural. (…) aquilo que existe é natural (…) Elimine a expressão <contra a natureza> de seu vocabulário habitual; com isso, estará dizendo uma besteira a menos.”

“A aprovação e o respeito envolvendo uma grande fecundidade, que antes ajudavam as mulheres soterradas por um bando de crianças a suportar seu destino, não existem mais. Pelo contrário, a mocinha é educada para ter medo dos filhos.”

“Há pessoas que não hesitam mesmo em estabelecer uma comparação entre as probabilidades de morte no parto e as probabilidades de sobrevivência dos homens durante as batalhas da Guerra Mundial. Essa é mais uma das manifestações de loucura de nossa época, e que pesa enormemente sobre nossa consciência, já carregada de remorsos e cada vez mais inextricavelmente mergulhada na hipocrisia no que diz respeito à produção da vida – e que, por isso, caminha cada vez mais depressa para sua destruição.”

“mãe e feiticeira são para o Isso da alma humana, geradora de contos, uma única e mesma coisa.”

“Você não encontrará nunca uma mulher a quem nunca tenha ocorrido a idéia de que seu filho será idiota, deficiente.”

“Parece provável até que a preguiça humana, o prazer que sentimos em ficar na cama até tarde, seja a prova do grande amor que o ser humano sente pela mãe, parece até que os preguiçosos que gostam de dormir são as melhores crianças. E se você se der conta de que quanto mais uma criança gosta da mãe, mais ela tem de lutar para se separar dela, naturezas como a de Bismarck ou do Velho Fritz – cujo ardente zelo pelo trabalho forma um curioso contraste com sua grande preguiça – se tornarão compreensíveis para você. O labor incessante que evidenciam é uma rebelião contra os elos do amor infantil que sentiam e que arrastam atrás de si.” “Bismarck, o Chanceler de Ferro, que na verdade tinha nervos de adolescente.” “Por que você acha engraçado que eu considere a mania de fumar como prova de infantilismo e apego à mãe? Nunca lhe ocorreu o quanto a ação de fumar se assemelha à ação de chupar o seio da mãe? (…) o fumante é um <filhinho da mamãe>.”

“E o fato de eu não ter conservado, por assim dizer, nenhuma lembrança do período situado entre meus 12 e 17 anos é prova dos combates que devem ter sido travados dentro de mim. Essas separações em relação à mãe são uma coisa muito curiosa, e posso dizer que o destino me tratou com muita indulgência.”

“três quartas partes de nosso sucesso, senão mais, dependem do encadeamento de circunstâncias que nos atribui alguma semelhança de caráter com os pais do paciente.”

<Sem mérito, nem dignidade>: estas palavras de Lutero devem estar presentes na mente dos que pretendem viver em paz consigo mesmos.”

“a prodigalidade torna-se diarréia, a avareza, constipação; o desejo de engendrar, cólica; o ato carnal torna-se uma dança, uma melodia, uma peça de teatro, edifica-se sob os olhos do homem em uma igreja, com a ponta masculina de seu campanário, as misteriosas abóbodas do ventre materno”

“Talvez conseguíssemos recuperar a capacidade de nos surpreendermos, perdida há muito tempo, nossa adoração pela criança – fato que, em nosso século de malthusianismo, já significa alguma coisa.”

“mais de ¾ dos estupros ocorrem durante esse período. Em outras palavras: um <quê> misterioso da mulher que sangra põe o homem numa espécie de estado de loucura que pode chegar até o crime.”

“Dos 20 mil germes fecundáveis com os quais a mulher vem ao mundo, quando ela chega à puberdade restam apenas algumas centenas e destes, na melhor das hipóteses, apenas uma dúzia serão fecundados”

“E depois disso tudo você vem me dizer essas bobagens sobre não se dever bater em crianças. Minha querida amiga, a criança quer apanhar, ela sonha com isso, ela morre de vontade de receber uma bofetada, como dizia meu pai. E através de uma artimanha que se manifesta de mil modos, ela trata de provocar essa punição. As mães acalmam seus bebês com tapinhas amistosos e a criança sorri. Ela acaba de limpar o filho, sobre a cômoda, e o beija nas maçãs rosadas que, um minuto antes, estavam sujas e, à guisa de suprema recompensa, administra no garotinho esperneante uma boa bofetada que ele recebe chiando de alegria.”

“Todos os idiomas designam o signo da virilidade pela palavra pau.”

“O Isso utiliza muito, e com alegria, esse tipo de tranqüilização. Por exemplo, ele produz o aparecimento, na boca amorosa e que deseja um beijo, de um eczema desfigurador; se me beijarem apesar disso, minha alegria será grande; se não me beijarem, não será por falta de amor, mas por desgosto diante do eczema. Essa é uma das razões pelas quais o adolescente, em fase de desenvolvimento, ostenta no rosto pequenas pústulas; é por isso que a mocinha, em seu primeiro baile, fica com uma maldita espinha no ombro nu ou na base do pescoço, para onde ela sabe que se voltarão os olhares; essa é também a razão pela qual a mão fica fria e úmida quando se estende na direção do bem-amado; é por isso que a boca, desejosa de um beijo, exala um mau hálito, por isso há escorrimentos nas partes sexuais, por isso as mulheres de repente se tornam feias e caprichosas e os homens desajeitados e infantilmente perturbados.“Se agrado a meu amado apesar de meu resfriado ou de meus pés que transpiram, é porque ele me ama de verdade”

“Ela coloca uma bandagem entre as coxas, pratica inconscientemente o onanismo sob o pretexto, admitido por toda parte, da higiene. E quando ela é realmente cuidadosa, por precaução já começa a usar o modess um dia antes e vai até um dia depois, sempre por precaução. E quando isso não a satisfaz, faz com que o sangramento dure mais tempo ou reapareça com mais freqüência.”

“Vou lhe contar um segredo: freqüentemente não consigo entender as definições, quer venham de outros ou de mim mesmo.”

“o frenesi da 4ª semana está além de suas forças. Ela precisa de uma ajuda, de uma espécie de fita para manter a máscara no lugar e encontra essa ajuda na doença, inicialmente nas dores lombares. O movimento para frente e para trás representa a atividade da mulher no coito; as dores lombares impedem esse movimento, reforçam a proibição lançada sobre o cio.”

“o Isso recorre às dores de cabeça a fim de obrigar o pensamento a repousar”

“Se uma leve indisposição não consegue resolver o conflito ou recalcá-lo, o Isso utilizará os grandes recursos: a febre, que obriga a mulher a ficar de cama, uma pneumonia, ou uma fratura da perna, que a imobiliza, diminuindo assim a esfera das percepções que exasperam seus desejos”

“Só morre aquele que quer morrer, aquele para quem a vida tornou-se insuportável.”

“segundo o tipo, o lugar e a época da doença, é possível deduzir o tipo, o lugar e a época do pecado que mereceu essa sanção. (…) Quando alguém fica cego, é porque não queria mais ver, porque pecou com os olhos ou tinha a intenção de fazê-lo; quando alguém fica sem fala é porque tinha um segredo e não ousava contá-lo bem alto.”

“a palavra Sucht (doença, paixão) nada tem a ver com sehnsucht (anelar) mas deriva de siech (doente). Mas o Isso se comporta como se não levasse em conta a etimologia; apega-se, como o grego inculto, aos sons da palavra e as utiliza para provocar a doença e alimentá-la.

Não seria tão ruim que os homens chamados a exercer a medicina fossem menos inteligentes, pensassem com menos sutilezas e deduzissem as coisas de modo mais infantil. Com isso se estaria fazendo melhor do que construindo sanatórios e hospitais.”

Tat Tvam Asi (Veda): Isso é tu.

“Com o tempo, e graças à aplicação com a qual entregamos à anatomia, à fisiologia, à bacteriologia e à estatística o cuidado de nos ditar nossas opiniões, chegamos ao ponto em que ninguém mais sabe ao que atribuir o nome de câncer.” “uma vez que não podemos acreditar mais em fantasmas, essas duas doenças (o câncer e a sífilis) – apesar ou por causa dos nomes por assim dizer indefiníveis que lhes dá a ciência, nomes cujas <associações> são grotescas e horrorosas – fornecem um bom substituto.” caranguejo: “Segundo Galeno, o legendário médico romano, o nome câncer foi dado à doença porque as veias intumescidas que circundam a parte afetada tinham a aparência das patas de um caranguejo.” dicionarioetimologico.com.br / sus+philos (amor ao porco, amor de porco), origem ~1530 (fonte: Id.)

Aquilo que os animais fazem, papai e mamãe também fazem nesses momentos em que ouço esse estranho tremer da cama e quando ouço os dois brincando de puf-puf trenzinho.”

“Toda doença é uma renovação do estado de bebê e encontra suas origens na saudade da mãe (…) A delicadeza da saúde, a freqüência e a duração das doenças são um indício da profundidade dos sentimentos que ligam o ser humano à imago da mãe.”

Pus na garganta. O que se põe na garganta, ora BOLAS?

Pus branco na garganta.

Felação que fodeu a garganta.

Sufocamento.

Medo de nadar.

Barco da Penny.

Trenzinho do pênis.

Engolir e seguir em frente.

Cuspir e enfrentar o problema.

Eu provei a mim mesmo que poderia fazer exatamente igual se decidisse me esforçar. Mas a verdade é que dá trabalho demais ser tão simples e grosseiro nos gostos.

“O que ressaltava mais nesse processo de semelhança com o pai era o envelhecimento precoce de D.

“Em casos de incapacidade sexual masculina, a primeira pergunta sempre deve ser: quais as relações deste homem com a mãe?”

“Eu já havia visto homens que, sob a pressão do complexo de Édipo, haviam contraído sífilis. É mais raro, porém, que essa doença seja inteiramente inventada pelo Isso e que, durante anos, se represente toda uma comédia de sintomas sifilíticos e blenorrágicos.”

“Mãe e filho: está aí, acumulada, toda a miséria do mundo, todas suas lágrimas, todo seu desespero. E como agradecimento, as únicas coisas que a mãe recebe são estas duras palavras: <Mulher, que tenho a ver contigo?>. Assim o exige o destino humano e não há mãe que se aborreça quando o filho a ignora. Pois é assim que deve ser.”

“O ódio com que D., bêbado, perseguia os pederastas, é homossexualidade recalcada”

“Já lhe contei que, no momento desses conflitos, ele criava coelhos. Entre estes havia um branco como a neve. Em relação a este coelho, D. assumiu um comportamento estranho. Permitia que todos os machos copulassem à vontade com as fêmeas e sentia um certo prazer em presenciar aqueles embates. O único não-autorizado a aproximar-se das fêmeas era aquele coelho branco. Quando o coelho conseguia fazê-lo, D. o pegava pelas orelhas, amarrava-o, suspendia-o de uma viga e chicoteava-o até não conseguir nem mexer o próprio braço. Era o braço direito, o primeiro a ser atingido pela doença. E foi exatamente nesse período que isso aconteceu.”

“O povo diz que quem vê a mãe nua fica cego.”

“O Isso escolhe, de modo despótico, o tipo de doença que quer provocar e não leva em conta nossa terminologia (se orgânica, se funcional ou se psíquica).”

“O corpo não fica doente. O que está morto não fica doente, no máximo apodrece.”

Bonita roupa de madeira, Fernandinho C&A (Corps und Alma)

“Não se suporta mais o papel de parede marrom, os vestidos verdes ou saias escocesas, o nome Gretchen faz o coração palpitar e assim por diante.”

“Creio que você não deve ter tido muita ocasião de ver ventres humanos nus. Isso já me aconteceu várias vezes. E é possível constatar uma coisa curiosa. Um sulco, uma longa ruga transversal ornamenta a parte superior do abdômen de um grande número de pessoas. Esse risco resulta do recalque. Ou então o que se vê são veias vermelhas. Ou o ventre está inchado, ou sabe Deus o que mais. Pense num ser humano assombrado durante anos, décadas, pela angústia de subir e descer escadas.” A escada tira a inocência, arranca o leite…

to stare

tomb

tombar

trap

step(dad-mom)

back-stairs

minha ex-

cada

ex-

pecial

“Pense no olho. Quando ele vê, transforma-se no teatro de toda uma série de processos diversos. Mas quando proíbem que veja e quando mesmo assim ele vê, não se atreve a transmitir suas impressões ao cérebro. Neste caso, o que pode acontecer com ele? Se for obrigado mil vezes ao dia a omitir o que percebe, não é admissível que acabe por se cansar e diga: <Vou tornar as coisas mais cômodas: se não posso ver, ficarei míope, alongarei meu eixo. E se isso não bastar, provocarei um derramamento de sangue na retina e ficarei cego>.”

Quem disse que eu quero ver o rosto das pessoas na rua?

Não quero copiar o quadro-negro nem ouvir conversa alheia.

pEidos-imagEn

Ironia das ironias, chiste dos chistes, Freud combatia a análise didática e a formalização da profissão que criou: “Quando, há anos, consegui superar meu orgulho e tomar a iniciativa de escrever a Freud, ele me respondeu mais ou menos nos seguintes termos: <Se você tiver compreendido o mecanismo da transferência e da resistência, pode sem receio dedicar-se ao tratamento de doentes através da psicanálise>.”

Quem persiste em ter espinha não fica paralítico.

“o trabalho mais importante do tratamento consiste em pôr de lado a transferência e superá-la.”

“3 instâncias das possibilidades de resistência [metáfora do salão, onde circulam os convidados pudicos e dignos, o guarda-costas, que faz a filtragem, e os convidados na antessala ou mundo exterior]”

ácaros acariciantes

alergia-a-carro

[c]at[arro]

rosa cara

rosca

Mabel

Baal

Fael

Colin

calling

call-in

center

periphery

peri go

danger

criança-cama-leão

adulto trust thrust Zarat

peso corcova(do) da obstinação

decerto criação

crianção

jugular

juba

lar

maxilar

maximizar

rocky

ronda

matinal

cave

homúnculo

carbúnculo

lungs long for…

lua

automobidle

deficiências autoimunes

death-ciência

memento mori

grande momento

virtual

Nem todo herói usa caspa, já dizia o Cristiano Ronaldo

“Todo aquele que não souber que espreitou assim por trás de cada moita, cada porta, aquele que for incapaz de falar do monte de porcaria oculto atrás dessas portas e moitas e for menos ainda capaz de se lembrar da quantidade de sujeira que ele mesmo pôs ali, esse não irá longe. É observando a si mesmo que se aprende a conhecer melhor as resistências. E é a si que a gente aprende a conhecer ao analisar os outros. Nós, médicos, somos uns privilegiados e não conheço outra profissão que pudesse me atrair mais.”

TABU PSICANALÍTICO? “é indispensável analisar a si mesmo. Não é fácil, mas isso nos revela nossas resistências pessoais e logo nos deparamos com fenômenos que desvendam a existência de resistências particulares a uma classe, um povo, até mesmo a toda a humanidade. Resistências comuns à maioria dos humanos, senão a todos.”

“Sentimos uma certa repugnância pelo uso de certas expressões infantis, expressões comuns em nós durante a infância. Em nossas relações com as crianças e – de modo bem curioso – com a pessoa que amamos, nós as empregamos sem segundas intenções; falamos em <fazer um xixizinho>, <um traque>, <pinto>, <xoxota>. Mas em companhia de adultos preferimos nos comportar como adultos, renegamos nossa natureza infantil e então <mijar>, <cagar>, <boceta> nos parecem mais normais. Estamos bancando os importantes, é só isso.”

“Parece que, freqüentemente, basta obrigar o guardião a anunciar um nome qualquer na sala do inconsciente; p.ex., Wüllner. Se entre os que estiverem perto da porta não houver ninguém com esse nome, o nome é posto a circular e se ele não chegar até aquele que assim se chama talvez haja um Müller que, intencionalmente ou não, entenderá mal o nome, abrirá passagem e entrará no consciente.”

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“Com a mão direita, estou segurando minha caneta; com a esquerda, estou brincando com a corrente de meu relógio. Estou olhando para a parede da frente, para uma gravura de um quadro de Rembrandt intitulado A Circuncisão de Jesus. Meus pés estão no chão, mas o pé direito está marcando, com o calcanhar, o compasso de uma marcha militar que a orquestra do cassino está executando lá embaixo. Simultaneamente, percebo o grito de uma coruja, a buzina de um automóvel e os ruídos do bonde elétrico. Não sinto nenhum cheiro em particular, mas minha narina direita está ligeiramente tampada. Estou sentindo coceira na região da tíbia direita e tenho consciência de ter à direita de meu lábio superior uma pequena mancha redonda e vermelha. Meu humor está hoje instável e a extremidade de meus dedos, fria.”

Com as duas mãos, mas somente dois ou três dedos, digito rapidamente este parágrafo, seguindo o modelo acima; estou com o Word 2010 aberto, na página 17 do arquivo. Meu campo visual atual abrange 4 pessoas, ou deveria dizer 3 vultos e uma linda mulher madura em vestido verde de motivos florais, situada em ângulo oblíquo sem poder ler o que digito. Ela acaba de receber uma visita e se deslocar um pouco da mesa, me deixando apreensivo. Agora que me desconcentrei e a música que estava ouvindo acabou, antes de entrar a próxima, me dei conta de que o outro servidor no fundo do meu campo visual do olho direito, o Dênis, também está atendendo um servidor. Estou no primeiro andar de um prédio que, a rigor, é o quinto andar da construção em relação ao solo (uma vez que o primeiro andar da planta fica em cima de um andar chamado sobreloja, e sua referência para ser o <primeiro> é um térreo para pedestres, localizado ainda sobre vários andares de garagem). Uma das dezesseis abas do meu navegador Chrome está reproduzindo “Paradise regained” (Belphegor) no YouTube. Dois servidores conversam risonhos com meu corpo opaco atravessando sua comunicação sonora e visual (provavelmente sou um obstáculo indesejável). Sinto uma leve tensão maxilar. Os fones apertam. Está perto da minha pausa para fumar. A música adquire intensidade e faz meu sangue circular mais rápido. A cor predominante no meu campo visual é o preto. Sinto gosto de gengibre e café na boca. Sede, apesar de já ter bebido vários ml de água ainda há pouco. Meu celular está a minha frente, abaixo do monitor, sua tela está engordurada, isso me incomoda. Um número do Rio me liga insistentemente, eu ignoro. Transpiro bastante, sinto que o ar condicionado nesta sala é só de enfeite. A playlist já passou para outra música. Minha lente direita dos óculos está um pouco embaçada. O céu a minha frente (se eu olhar um pouco para cima, pela ampla janela) está parcialmente nublado. Estou tentando lembrar tudo o que farei nesta minha quinta-feira. Sinto a pele abaixo do lábio inferior áspera; ontem usei a gilete. Os pêlos do meu bigode estão compridos e eriçados nas pontas. Minhas pernas estão cruzadas abaixo da cadeira, meu tênis direito, laranja, resvala num dos pés do assento (de rodinhas), montados em formato de cruz. Imagino que este parágrafo já está longo mas mal descreve meu presente imediato. Não sinto qualquer espécie de dor muscular ou angústia traçável. São 10:14. Ah, lembrei: tenho que levantar e buscar um papel na impressora. Um adendo antes de encerrar o parágrafo: também há uma pintura, uma reprodução vulgar, e não um quadro, como no caso de Groddeck, bem pequena, numa pilastra a minha direita, acima dum extintor de incêndio. A gravura anexada à parede branca é uma representação católica típica da Virgem Maria e sua criança, ó! Apresenta tons pastéis. Se é que passamos do seu sétimo dia de vida (quem poderia saber), por baixo de sua manta branca – estou falando do menino Jesus – ele também está circunciso. O judeu que nos salvou há 2019 menos 32 ou 33 anos. Por mais que o mundo mude bastante em coisa de um século, esse fio de uma religião morta une inesperadamente ambos os autores, separados, ademais, por um oceano físico, além dos abismos de intersubjetividade e blá-blá-blá (cite um alemão fenomenólogo aqui). Eu não redigi isso de forma planejada, embora esse desfecho tenha parecido cuidadosamente arquitetado e harmonize com todo o “prólogo”. Agora também reparei que usei a palavra cruz já antes de reparar na gravura e comentar o Sacrifício. Poderia ser que meu inconsciente já houvesse engatilhado todos estes fatores? O papel continuaria na impressora, mas alguém viu, leu, e eu sorri constrangido: é meu.

“O anel é um símbolo feminino e o relógio, como todas as máquinas, também. Em meu espírito, o que está em jogo não é a corrente; ela simboliza, antes, algo que precede o ato sexual propriamente dito, anterior ao jogo do relógio [Kurapika quer FODER o Genei-Ryodan de modo inexorável e frio]. Minha mão esquerda diz que sinto mais prazer com as preliminares, em suma, com tudo aquilo de que o adolescente gosta [?], do que com a penetração em si.”

“Nada fere mais profundamente o ser humano do que atribuir-lhe uma nobreza que ele não tem.”

“<A caneta representa as partes sexuais do homem; o papel, a mulher que concebe; a tinta é o sêmen que escapa num rápido movimento de vaivém da caneta. Em outras palavras, escrever é um ato sexual simbólico. Mas ao mesmo tempo é o símbolo da masturbação, do ato sexual imaginário>. A pertinência dessa explicação está para mim no fato de que o mal do escritor desaparecia de cada um desses pacientes tão logo eles descobriam essas relações. (…) Para o doente com o mal do escritor, a escrita dita gótica é mais difícil que a latina, porque o movimento de vaivém é mais acentuado, mais intenso, mais incisivo. A caneta pesada é mais agradável de utilizar que a mais leve, que de algum modo representaria o dedo ou um pênis pouco satisfatório. [e para nós em 2019?] O lápis tem a vantagem de suprimir a perda simbólica do sêmen; a vantagem da máquina de escrever é que nela o erotismo está limitado ao teclado [?], ao movimento de vaivém das batidas e que a mão não tem contato direto com o pênis. Tudo isso corresponde aos fenômenos do mal do escritor, que leva da utilização da caneta comum à máquina de escrever passando pelo lápis e pela escrita latina para chegar finalmente ao ditado. [?]” “O tinteiro, com sua abertura que dá para profundas trevas, é um símbolo materno, representando a matriz da parturiente.” “Os caracteres, esses diabinhos pretos, se empurram para fora do tinteiro, esse ventre do inferno, e nos informam sobre a existência de íntimas relações entre a idéia da mãe e o império do Mal.”

“E se o Isso acha que uma simples vertigem, um passo em falso, uma entorse ou um encontrão num poste, pisar num pedregulho pontudo, uma dor no pé, não é advertência bastante, ele jogará o ser humano no chão, abrirá um buraco em seu crânio espesso, lhe ferirá o olho ou lhe fraturará o membro com o qual a pessoa está prestes a pecar. Talvez lhe arranje também uma doença, a gota, p.ex..”

“Quando digo às pessoas: <É preciso que você chegue ao ponto de não hesitar em poder se agachar um dia, numa rua, desabotoar a calça e fazer suas necessidades>, insisto na palavra poder. A polícia, os hábitos e o medo inculcado há séculos cuidarão para que meu paciente nunca <possa> fazer isso. A respeito disso, estou tranqüilo, embora você muitas vezes me chame de demônio e de <corruptor de costumes>.”

“o mais modesto, o mais humilde adora a si mesmo. Até Cristo na cruz, quando disse: <Meu pai meu pai, por que me abandonou?> e ainda <Tudo está consumado>. Ser um fariseu, dizer o tempo todo: <Rendo graças, Senhor, de não ser como aquele ali…> é uma coisa profundamente humana.”

“Suportou todas aquelas torturas apenas porque o pai dela se chamava Frederico Guilherme e porque lhe haviam dito na infância, por zombaria, que ela não era filha de sua mãe e tinha sido achada no meio do mato.”

FILHO ESPIRITUAL DE JÚLIO CÉSAR: “inventamos para nós uma vida imaginária na qual o rapto e a substituição nos devolvem nossa dignidade [longe da canalha alemã!].” Frequentemente eu sou o contrário: um alienígena que assume este corpo de prosaico terráqueo.

“Como único sinal de minha [antiga] dignidade, deram-me o nome de Augusta, a Sublime.”

(*) “Struwwelpeter é um famoso livro infantil ilustrado que fez as delícias e o horror de gerações de alemães cujos heróis são meninos de mau comportamento que recusam lavar-se, comer, cortar unhas e cabelos e que por isso recebem terríveis castigos: o que não come definha e morre, o que chupa os dedos tem todos os dedos cortados com enorme tesoura etc.”

“Quando se usa coroa, não se olha nem à esquerda nem à direita, julga-se tudo sem piscar, não se curva a cabeça diante de poder algum na terra. (…) ordena o Isso: fixe esta cabeça, endureça a coluna vertebral. Feche a mandíbula para que não possa gritar viva! (…) Paralise os ombros (…) Que suas pernas se endureçam, pois elas nunca deverão se ajoelhar diante de ninguém. Feche-lhe as pernas uma contra a outra para que nenhum homem nunca possa vir a se deitar entre elas. (…) ensinem-lhe, seivas e forças, a noção de ereção, da dureza, impedindo as pernas de se dobrarem, relaxarem (…) ensinem-lhe que é um homem.

“As diferenças de idade eram tão mínimas [na época dos casamentos arranjados desde a infância] que o primogênito devia ser em tudo o rival nato do pai e representava particularmente um perigo para a mãe, apenas mais velha que ele. (…) é bem possível que no começo matar o filho mais velho fosse um costume (…) camufla esse crime em rito religioso (…) [Muito depois] Os pais livravam-se de seus rivais no amor castrando-os. Com isso, não havia mais o que temer deles e conseguia-se um escravo barato. Quando a densidade demográfica tornava-se mais acentuada, passou-se a usar o sistema que consistia em mandar o filho mais velho para o estrangeiro, procedimento conhecido em certos momentos históricos sob o nome de Ver sacrum. [Tudo isso antes da invenção da agricultura e da formação de confederações maiores integradas por tribos menores, no nomadismo que exigia a força de trabalho humana e não apenas a vocação do pastoreio]”

“o globo é um símbolo materno (…) brincar com essa pequena bola equivale a um incesto alegórico. (…) o globo terrestre – nem preciso dizer –, tanto pelo fato de ser chamado de imagem de nossa <mãe-terra> quanto por sua aparência redonda, é sem dúvida uma alusão ao ventre materno em período <de esperança>.” Os terraplanistas são eunucos ou “homossexuais metafísicos”.

“O fruto que Eva passa a Adão [curiosa inversão] – e que de modo muito significativo foi imaginado através dos séculos como sendo uma maçã, fruto da deusa do amor, quando a Bíblia não fala em maçã alguma – este fruto, tão belo, tão tentador, tão delicioso de morder, corresponde ao peito, aos testículos, ao traseiro.”

“no esmagamento da cabeça da serpente estão representados tanto o relaxamento dos membros quanto a castração. E bem próxima está a idéia da morte. (…) O homem se vê diminuído em uma cabeça, encurtado de uma cabeça também é o membro, cuja glande, após o coito, se recolhe para dentro do prepúcio.”

“A menção ao traseiro de Eva lhe recorda que seu amante algumas vezes a possuiu por trás, enquanto você estava ajoelhada ou sentada sobre os joelhos.” “a ciência alemã sabe perfeitamente que todos, na juventude, gostaram do more ferarum [doggy style] ou tiveram pelo menos a vontade de praticá-lo.” “Nunca se teria pensado no clister se essa brincadeira bestial à la cachorrinho não tivesse existido. E também não se tomaria a temperatura no ânus. Nem haveria a teoria sexual infantil do parto pelo traseiro, que surge de 1000 maneiras na vida de todo ser humano, doente ou sadio.”

“Antigamente, as mulheres não usavam calcinhas; os homens e as mulheres sentiam prazer no gozo rápido. Mais tarde, pareceu-lhes mais divertido excitar-se com outras coisas e inventaram-se as calcinhas que, através de sua abertura, escondiam apenas pela metade os segredos que deveriam ocultar. Para encerrar, todas as mulheres usam hoje elegantes calcinhas inteiriças, com rendas. As rendas servem de isca, e a abertura fechada é para prolongar o jogo. Não deixe de prestar atenção à calça masculina, que insiste no lugar em que repousa o cavalinho.”

“O homem limpa a boca de lado, com um gesto de rejeição; a mulher usa o guardanapo a partir dos cantos da boca para chegar ao centro: quer conceber.”

“Para assoar o nariz, o homem produz o barulho de uma corneta, como um elefante, pois o nariz é símbolo de seu membro, sente orgulho dele e quer destacar seu valor.”

“Os meninos e os homens cospem, mostram que produzem sêmen; as moças choram, o que transborda de seus olhos simboliza o orgasmo.”

“A boca é o símbolo da mulher, e passar o dedo pelo bigode significa: <Gostaria de brincar com essa mulherzinha>.”

“A cabeça barbeada torna-se alegoria da glande nua no momento da ereção.”

“o fato de usar óculos: a pessoa quer ver melhor, mas não quer ser vista.”

“Aquele velho anda a passos curtos: quer prolongar o caminho que o levará à cova”

“Que capricho do Isso! Porco-mãe-Cristo!”

“Cobrir com a mão algo que não deve ser visto é coisa que se entende. Mas a mão sobre as partes sexuais? Tenho a impressão de estar diante de uma brincadeira do Isso.”

“O pomo de Adão provém sem dúvida do fato de que a maçã ficou entalada na garganta de Adão.”

“Na idade ingrata, também você teve um pescoço grosso demais. Isso passa. É só nas pessoas cujo Isso está completamente impregnado pela idéia da concepção através da boca e do horror de carregar uma criança na barriga, é só nessas pessoas que esse inchaço pode virar papo ou doença de Basedow.”

“Quando há 4 anos fiquei hidrópico em decorrência de uma grave pneumonia, meu olfato havia se desenvolvido a tal ponto que o uso de colheres tornou-se insuportável para mim porque – apesar de bem-lavadas – eu percebia o cheiro dos alimentos que haviam estado ali horas ou mesmo dias antes.”

“os urinóis da escola, cujos sufocantes eflúvios de amoníaco ainda hoje consigo sentir distintamente.”

“Já lhe contei que naquela época – eu tinha 12 ou 13 anos – ainda urinava na cama e tinha medo das brincadeiras dos colegas, mesmo que o fenômeno quase nunca acontecesse e, mesmo assim, em suas formas mais benignas.”

“Quando dois cães se encontram, se cheiram mutuamente os traseiros. É evidente que eles procuram saber, com a ajuda do nariz, se simpatizam com o outro. Quando as pessoas têm um certo senso de humor, elas riem, como você, desse costume canino; sem humor, a coisa é nojenta. Mas você manterá seu bom humor se eu disser que os seres humanos agem do mesmo modo?”

“aquilo que para um cheira mal, para outro é suave perfume.”

aADRENALINa

cigarroálitoflúordordegargantassuorseborreia

peidoarrotoespirrorrangerdedentes

este processo me cheira maldições

“Recorde-se, minha cara, que a criança primeiro aprende a conhecer e a gostar das pernas das pessoas”

“A atmosfera proveniente das exalações do sangue a envolve e aumenta seu desejo do incesto. Dessas impressões perturbadoras resulta todo o tipo de conflitos íntimos, aos quais se ligam decepções surdamente sentidas, profundamente dolorosas, que aumentam o pesar provocado pelos caprichos, pelos maus humores e enxaquecas da mãe. É de estranhar que se recorra ao recalque disso tudo?”

“Mas como poderia a mãe evitar esse embaraço? É seu destino ferir seu próprio filho naquilo que ele tem de mais profundo, é esse o destino de toda mãe. (…) na vida há muitas tragédias que esperam pelo poeta que as cantará. E talvez ele nunca apareça!”

“Não podemos suportar a idéia de que esse ser a que chamamos de mãe um dia nos recusou seu seio, que essa pessoa que diz nos amar, após nos ter incitado à masturbação, nos puniu por isso?”

“As crianças sabem que saíram da barriga da mãe. Mas são coagidas, por si e pelos adultos, a admitir a história da cegonha.”

“É destino do homem sentir vergonha de ter sido concebido humanamente e humanamente posto no mundo. Ele se acha ameaçado em seu orgulho, em sua semelhança com Deus. Ele gostaria tanto de procriar ao modo divino, de ser Deus! E pelo fato de que no ventre da mãe ele era um Deus todo-poderoso, descobre para si uma origem divina por meio da religião, inventa para si um deus-pai e aumenta o recalque do incesto até encontrar consolo na Virgem Maria, na Imaculada Conceição ou numa ciência qualquer.”

“Não queremos saber que ela sofreu por nossa causa, isso nos é intolerável. Ou será que você nunca percebeu o tormento de seus filhos quando você está triste ou chorando?”

“Assim como o <a> e o <b> surgem o tempo todo na fala, esse complexo, essa fobia de tornar-se mulher ressurge sem cessar em nós. E ponha <a> e <b> juntos e você terá ab (fora; no caso, idéia de cortar) e você rirá como eu, espero, dos trocadilhos do inconsciente.”

“Nada é mais desagradável ao médico do que a sensação de não estar na moda.”

“Hoje em dia usamos calças consideravelmente largas; mas há algumas décadas eram bem justas, de modo que as marcas da virilidade podiam ser vistas à distância.”

“Também a equitação é exibição: a identificação do cavalo com a mulher está profundamente mergulhada no inconsciente de todos; e que a coroa da noiva representa a vagina e o véu a membrana do hímen é algo que realmente não preciso dizer.”

“Nós, humanos, agimos todos conforme o princípio do ladrão que grita <Pega ladrão> mais forte do que todo mundo.”

“As mães imitam o som da urina, <xxxii xxxxxii>, a fim de facilitar a ejaculação do <pintinho> do filho e nós, médicos, recorremos todos ao estratagema de abrir a torneira da pia quando observamos que um paciente se sente inibido por ter de usar o vaso em nossa presença. Aliás, quem pode negar o papel do peido na vida humana? [No pay intended] Você não é a única, minha amiga, a esboçar um sorriso divertido ao recordar uma engraçada explosão.”

“o Sr. Bilioso, que há muito permitiu que seu senso de humor se perdesse nas mil dobras de sua boca maldizente”

O riso a cólera se encontram numa epidemia de espasmos vermelho-sangue gargalhões.

“Os gases fecais levam de modo natural aos incidentes que ocorrem na zona do sentido do olfato.”

Ultimamente tenho sentido que a vida não faz sentido.

Mas, dalguma forma, sei que a vida progride milagrosamente em, no mínimo, uns 5 sentidos.

agoramarumpoucodee

now sea a bunch o’s [heerrs]

nauseabunda

fe-dores humanXs

fera ferida suada e fedida

a podre Cida

O cheiro das fezes do meu melhor amigo de infância era o mesmo da minha primeira namorada. E não me ocorreu cheirar fedor parecido outra vez…

“O Isso fede quando quer feder.”

“Ouvi um adolescente dizer <Não sou tão porco assim para ter de me lavar todos os dias!>”

“Ó tu, fossa negra ambulante que te chamas a ti mesmo de ser humano! Por que engoles tua saliva, se a saliva é nojenta?”

“fazemos caretas no espelho unicamente por prazer; o exibicionismo atrai e repele.”

“E há sem dúvida pessoas educadas que enfiam o dedo no nariz quando estão sozinhas: os buracos foram feitos para que neles se enfie alguma coisa, e as narinas não são exceção à regra.”

GOSTOSA

CHEIROSA

CARNUDA

POLPUDA

ELA É MÚSICA

PARA MEUS OUVIDOS

É DE DAR ÁGUA NA BOCA

E DE PENSARMOS NA COR ROXA

DÁ VONTADE DE TESTAR MIL COISAS,

INCLUSIVE A PAREDE

MAS QUEM VÊ NISSO

QUALQUER MAL?

“para pegar com prazer uma mão fria e úmida é preciso amar profundamente a pessoa à qual pertence aquela mão.”

Venha, senhorita esteticista-mirim, cuidar da pele deste pobre púbere!

erupção CUtânea

cut cut cut!!!

Minha alergia aos 9 anos de idade que nenhum pediatra ou dermatologista soube tratar…

Veja como minha pele deseja ser suavemente tocada de modo suave! Um toque suave é maravilhoso, mas ninguém me acaricia. Me compreenda, me ajude! Como posso expressar meu desejo a não ser através destes arranhões que me imponho?”

Seja meu xampu, xuxu.

Quantas vezes será que vou cagar hoje

MATURIDADE PENIANA: “A partir do momento em que cessa o desenvolvimento da pessoa, começa o embrutecimento do ser humano e, ao invés de continuar sua procura da busca das maravilhas da existência, ele se contenta com ler jornais, ou educar-se até que um ataque o fulmine em seu escritório, acabando com tudo. Do berço à cova.”

“Pense numa menininha de 5 anos ao lado de um cavalo: diante de si ela vê o ventre do animal com aquela coisa que está presa ali e que, de repente, aumenta de tamanho, quase o dobro, deixando passar um potente jato de urina.”

“Diz o povo que, nas mulheres, é possível adivinhar o tamanho da entrada da vagina pelo tamanho da boca.”

“O bocejo não revela apenas o cansaço mas também que naquele momento está ali uma mulher lasciva”

“olhos saltados: pode ter certeza que essa pessoa quer, já de longe, deixar claros a curiosidade e o medo provocados por surpreendentes descobertas.” O tipo Sócrates. E seu oposto diametral: “Os olhos enfiados dentro das órbitas indicam que fugiram para lá quando o ódio dos homens tornou-se forte demais: não querem ver mais nada e, menos ainda, serem vistos.”

O tipo comprimido: ironicamente, sujeito que está sempre doente.

“os pêlos que crescem nas narinas”

amigdalite como crise de masculinidade

amigDallas, Paris,TEXAS

“Você naturalmente não precisa acreditar nisso, mas como se explica que duas entre 3 crianças peguem escarlatina e a terceira não?”

“estar doente tudo desculpa e faz expiar todos os desejos puníveis inconscientes, semiconscientes e conscientes”

O ISSO & A HISTERIA: “o Isso inventa a perda da consciência e disfarça simbolicamente o processo erótico sob a forma de espasmos, de movimentos assustadores e de deslocações do tronco, da cabeça e dos membros. Tudo acontece como num sonho, salvo que o Isso convida, para o espetáculo de seu orgasmo, um público honroso, do qual ele se põe a rir.”

Você é um homem ou uma galinha? Você seria capaz de atravessar, migrar de gênero (linha reta da vida)? Pôr ovos todos os dias um detrás do outro, ter filhos pelo sacrifício de seu ovo? Cloaca, cu híbrido unigênito de onde sai um pau autossaciável.

PERCEPÇÃO DA SEXUALIDADE NA INFÂNCIA (PRIMEIRA GRANDE TEORIA DA CONSPIRAÇÃO & MANIA DE PERSEGUIÇÃO): “Os ovos cortados dos homens serão comidos não porque são gostosos mas porque deles sairão filhos de homens. E o ciclo de reflexões se enrola lentamente; das trevas do espírito surge um ser assustador: o pai. O pai corta as partes sexuais da mãe e as entrega à própria mulher para que ela as coma. É daí que provêm as crianças. Essa é a razão das lutas que abalam a cama dos pais durante a noite; está aí a explicação dos suspiros e dos gemidos, do sangue no urinol. O pai é terrível, cruel, e suas punições são temíveis. Mas o que ele pune? Aquele esfregar e tocar. A mãe se tocaria, portanto? Idéia inconcebível. (…) A mão materna esfrega cotidianamente os ovinhos pueris do menininho, brinca com seu rabinho. (…) Mas com quem vou brincar se meu pai me cortar o rabinho?”

Olá minha cara! – feia

você é fome, vc está com fome, podemos resolver este problema!

“Já riram tanto de mim e eu mesmo já senti tanto prazer em me juntar a meus detratores que muitas vezes nem eu sei se de fato penso o que estou dizendo ou se digo as coisas por brincadeira.”

“Não é incrível que um cérebro de 3 anos já seja capaz de conceber a filosofia das formas e a teoria da fermentação? (…) a paridade fezes-nascimento-castração-concepção e lingüiça-pênis-fortuna-dinheiro se reproduz cotidianamente e a todo momento no mundo de idéias de nosso inconsciente, nos enriquecendo ou empobrecendo, nos tornando enamorados ou sonolentos, ativos ou preguiçosos, poderosos ou impotentes, felizes ou infelizes, dando-nos uma pele na qual transpiramos, fundando casais ou os separando”

(*) “Em alemão, ovário é Eiertock, literalmente <vara de ovos>.”

varaovo

TROMPA de FALOpio

“De modo curioso, a palavra tíbia (Schienbein) se transforma em coceira (Beinschiene)”

coceira

cóccix (cock6 uh, s-luht, full-o’-lust!)

coce-cu

come-chão

comichinha & coçadona

dar uma cossa

afago no gongo

pé-na-bunda

pena

canela tibieza

doce coceira

pro tempore

pó tempero sobremesa

fêmur

fêmea

femurização do homem

poça que coxa

vir-à-ilha

sudo reze

te machuquei?

imagina

“Minha infância se desperta e algo chora em mim.”

CONTOS DE FADAS: “pode-se perceber na recomendação da mãe para que não abram a porta uma alusão ao fato de que há apenas uma virgindade a perder”

BRUXA DO 7 A 1: “Há algo de curioso no fato de que a expressão alemã <sete malvado>, que significa megera, se aplica apenas às mulheres.” 7 é sexo

O sétimo filho não é engolido pelo Tempo.

boca de lobo

goela de lobo é nome de doença em alemão

lobo cefal

ceifar

“O Wolfsrachen, <goela de lobo>, implica na ausência da úvula, que representa, como você sabe, o membro viril. Em outras palavras, a castração. É uma alegoria da punição do onanismo. E se você já viu essa doença num ser humano, sabe como é terrível essa punição.”

“o Isso tem uma surpreendente memória dos números, um sentido primitivo do cálculo como só costuma acontecer naqueles atacados por certas formas de idiotia e, como um idiota, gosta de resolver na hora os problemas apresentados.”

“Durante muitos anos, quando queria manifestar meu descontentamento com alguma coisa, eu usava a expressão <Já lhe disse isso 26.783 vezes!>. (…) Percebi que a soma desses números dava 26, exatamente o nº que resta quando se subtrai dos 1000 os outros números. (…) Eu tinha 26 anos quando minha mãe morreu.”

FUCK DO MILÊNIO

2+6+7+8+3=26

Eu já te disse 1000x que não se trabalha no Dia do Trabalhador!

Eu tinha 19 anos quando morri

E eu, 33 quando Cristo nasceu. Tríplice Santíssima Coroa Aliança meio-diabólica (3+3=6, sendo 3, 3×33=99, menos que Abraão, mas 33 a mais que o tempo de vida de um Diabo em escala humana) .

Minha idade é uma dízima periódica de um dígito, eu arredondo para cima e abro o Sétimo Portal. Nove círculos do Inferno. 12 casas. 5 Cavaleiros de Bronze. 12-5=7. 07/05 capes 5 letras 2014 – veja abaixo. C4P3S 7 CAPE5 C4P35 (5+7=12)

Eu nasci em 1988. 1+9+8+8 = 26

1988(ano do supremo eterno retorno de todas as coisas)+26= 2014, 2+1+4= 7

1951, 16 7

1953, 18 9

1988-1951 = 37 (36) 9

1988-1953= 35 (34) 7

9+7=16

24/9

1/10

24+1

10-9

1+1+0=2

1953-1951

7 dias de diferença entre os aniversários dos meus pais

7 anos (virtualmente) de diferença entre mim e meu irmão mais velho

6 dias de diferença entre os aniversários dos meus padrinhos

6 anos (virtualmente) de diferença entre os filhos deles

Acho que já me aventurei o bastante!

“essa doença dos rins – para mim como para todos os doentes dos rins – é uma característica da dualidade de atitudes na vida, do fato de estar sempre entre – do Dois. O ser-rins se desdobra.” “Seu Isso se coloca entre o 1 – símbolo do falo ereto, do adulto, do pai – e o 3 – símbolo da criança.”

“a pequena altura de algumas pessoas tem uma relação com o desejo de <continuar pequeno>”

Ich bin Klein, mein Herz ist rein”

“Anna não tem começo nem fim, A e O, Anna e Otto, o ser, O Infinito, a Eternidade, o anel e o círculo, o zero, a mãe, Anna.”

Gayvota :3

W peitos maternos

“Não é maravilhosa essa expressão, Filho do Homem? E meu Isso me diz em alto e bom som: <Interprete, interprete…>”

Trisco e Dujas

“O Isso é ardiloso e não precisa ter muito trabalho para fazer esse cretino do consciente acreditar que o preto e o branco são antinomias e que uma cadeira é de fato uma cadeira, quando na verdade qualquer criança sabe muito bem que uma cadeira pode ser também um carro, uma casa, uma montanha, uma mãe.”

“Esse sentimento por aquele colega durara ainda algum tempo após minha saída daquela escola, até que eu os transferi para um colega da universidade e dele para minha irmã. Foi aí que se deteve minha homossexualidade, minha tendência a me apaixonar por amigos do mesmo sexo. Depois, só me apaixonei por mulheres.”

“A lista dessas amantes imaginárias é infinita e até recentemente era uma lista que aumentava quase cotidianamente com mais uma ou duas mulheres. O que há de característico nessa história é que minhas experiências realmente eróticas nunca tiveram relação alguma com essas bem-amadas de minha alma. Para minhas orgias onanistas, tanto quanto me lembro, nunca escolhi uma mulher de quem realmente gostei. Sempre estranhas, desconhecidas. Você sabe o que isso significa? Não? Significava que meu amor mais profundo pertencia a um ser que eu não tinha o direito de reconhecer, i.e., minha irmã e, por trás dela, minha mãe. Mas não se esqueça que só sei isso há pouco tempo e que antigamente nunca pensei que pudesse desejar minha irmã ou minha mãe. A gente atravessa a vida sem saber nada do que se passa com a gente.”

Quando estou perto de você, tenho a sensação de estar perto de você como nunca estive de qualquer outra pessoa. Mas quando você se afasta, parece que você ergue uma muralha e me sinto completamente estranha a você, mais estranha do que em relação a qualquer outra pessoa. Eu pessoalmente nunca senti isso, provavelmente porque nunca senti que alguém não fosse um estranho para mim. Mas agora entendo: para poder amar, eu precisava afastar para longe as personagens reais, aproximar artificialmente as <imagens> da mãe e da irmã. Isso deve ter sido bem difícil, mas era o único modo de manter viva minha paixão. Pode crer, as <imagens> têm muita força.”

“Num certo sentido, passei pelas mesmas fases com as crianças, os animais, as matemáticas e a filosofia.”

“os Troll, que representam para mim uma espécie particular de humanos – há os bons humanos, os maus humanos e os Troll”

preciso desses amores e desses <estranhamentos> artificiais porque sou um ser centrado sobre mim mesmo imoderadamente, porque estou contaminado por aquilo que os cientistas chamam de narcisismo.” “Entre nós, as crianças Troll, havia uma frase de que gostávamos muito: Primeiro eu, depois eu, depois nada, por muito tempo, e só depois os outros.

“todo dia novas vozes se erguem para protestar contra a condenação à pederastia, pois todos sentem que com isso se causou um grande mal contra um direito hereditário.”

“por termos a impressão de sermos ladrões, adúlteros, pederastas, mentirosos, combatemos com zelo o roubo, o assassinato e a mentira a fim de que ninguém, e nós menos que os outros, se dê conta de nossa depravação. Acredite: aquilo que o homem, o ser humano detesta, despreza, censura, é a base original de sua própria natureza.”

“A admiração pela força superior e pela altura maior do homem, se é uma das forças originais da heterossexualidade feminina, deveria ser considerada como um signo do poder de julgamento original da criança. Mas quem dirá se esta admiração é espontânea ou só se dá ao final de algum tempo?”

“O ESTUDADOR(…)”: “o banheiro é o lugar onde a criança faz suas observações sobre as partes sexuais de seus pais e irmãos e irmãs, especialmente do pai e dos irmãos mais velhos.”

“Tenho a impressão que a mulher possui uma quantidade sensivelmente igual de capacidade de amar o próprio sexo e o sexo oposto, e que ela dispõe disso à sua vontade. Em outras palavras, me parece que nela nem a homossexualidade nem a heterossexualidade estão profundamente recalcadas, que esse recalque é bastante superficial.” “Já no homem a pulsão por ele recalcada é a pulsão pela mãe e esse recalque, segundo as circunstâncias, arrasta consigo para o abismo o gosto pelas mulheres.”

“De fato não seria má idéia publicar estas cartas. Obrigado pela sugestão, cara amiga.”

“Para mim, a Bíblia é um livro para passatempo, adequado para a meditação e cheio de belas histórias, tanto mais notáveis quanto muita gente acreditou nelas durante milênios e também porque representam um papel preponderante no desenvolvimento da Europa e representam para cada um de nós um pouco de nossa infância.”

“é indiferente que uma idéia cresça por si mesma ou seja imposta do exterior. O que importa é que ela se espalhe até os abismos do inconsciente.”

“Este seu dedicado Troll acha que aquela velha divindade criou o homem de seu <cocô>, que a palavra <terra> foi posta no lugar da palavra <cocô> apenas por decência. O hálito e seu cheiro vivificante deve ter sido <soprado> pela mesma abertura de onde saiu o cocô. Afinal de contas, a raça humana bem vale um peido!”

“Meu homônimo pôs o membro e os testículos para trás, escondendo-os com as coxas, e disse que havia virado mulher. Freqüentemente repeti esses gestos diante do espelho e toda vez senti uma estranha volúpia.” “desde aquele dia observei outros homens e pude estabelecer que esse desejo sem angústias de tornar-se mulher é comum a todos os homens.”

“as dores de cabeça, com seu parentesco com as dores do parto, o trabalho, a criação de uma obra, esse <filho espiritual> do homem.”

“Sim, introduzi o dedo em meu traseiro e não foi apenas porque estava querendo me coçar.”

“para quem sente medo da castração, o pai é mais perigoso do que o irmão; o gato, que a criança vê todo dia, mais temível do que o lobo, que ela só conhece por ouvir falar e através dos contos. E, além disso, o lobo só devora carneirinhos. Em compensação, o gato come os ratos e a parte ameaçada por castração, o pinto, é um rato que entra no buraco; o medo que as mulheres sentem dos ratos é prova disso: o rato entra debaixo da saia, querendo se esconder no buraco existente debaixo dela.”

“as botas poderiam ser a mãe, a mulher que, com os orifícios do traseiro e da vagina, possui dois canos de botas. Também poderiam ser os testículos, os olhos, as orelhas, talvez as mãos que, através das preliminares, preparam o pulo de 7 léguas da ereção e do onanismo.”

“E de repente surge, em muitas línguas, a palavra chana (*)(em português, possivelmente uma corruptela de bichana) para designar os pêlos do sexo feminino, as próprias partes e também a mulher lânguida, a gata, a gatinha que pega o rato, exatamente como a mulher engole com o sexo o <rato> do homem.”

“O famoso provérbio sobre as aranhas, Matin chagrin, soir espoir (de manhã a tristeza, de noite a esperança) retrata a posição da mulher diante de sua sexualidade; quanto mais quente foi a noite de amor, mais ela se mostrará abatida de manhã ao acordar e tentar perceber no rosto do homem o que ele pode estar pensando sobre seus transportamentos noturnos. A vida moderna impõe cada vez mais à mulher uma nobreza de espírito que parece lhe proibir toda volúpia.”

“em todas as traquinagens infantis e das pessoas adultas existe a nostalgia do vermelhão ardido nos golpes de varas.”

“há algumas semanas eu me divirto perguntando a todos os moradores de minha clínica o nome das árvores que estão na entrada. Até agora, não recebi nenhuma resposta certa. São bétulas; dão os galhos com que fazemos varas; tão temidas e ainda mais desejadas (…) E no portão de entrada, colocado de modo que todos tropeçam nele, há um marco de pedra, arredondado e saliente como um falo; ninguém o vê também. É a pedra do tropeço e da irritação.”

“aqueles capazes de reconhecer se estão diante de um canário macho ou fêmea são realmente raros.”

“Você ainda se lembra da visita que fizemos juntos ao túmulo de Kleist?”

“Quando à vista da lagarta, esse <pintinho> de mil patas, rastejante, nos sentimos esmagados pela sombra do incesto com a mãe, pelo onanismo, pela castração do pai e de si mesmo, voltamos a ser crianças de 4 anos e não há nada que possamos fazer a respeito.”

“Um verme vermelho que desliza para dentro de um buraco: o que pode contra isso toda a sabedoria darwiniana sobre o trabalho profícuo da minhoca?”

“Diante do absurdo, a seriedade não tem razão nenhuma de existir. Somente a própria vida, o Isso, tem uma noção do que é a psicologia e os únicos intermediários desse conhecimento através da palavra são os poucos grandes poetas que existiram.”

“é fato que o ciúme só existe por causa da infidelidade do ciumento.”

“Muitos são os que, namorados na juventude, conservam desse primeiro amor uma imagem ideal, mas casam-se com outra pessoa. Quando se sentem de mau humor, i.e., quando se comportaram mal em relação ao esposo, e por isso, sentem raiva dele, vão procurar no fundo da memória os vestígios do amor ideal, lamentam-se após compará-lo com o atual, por estarem mal-casados e, aos poucos, encontram mil razões para convencerem-se da indignidade do esposo que ofenderam. É hábil mas, infelizmente, hábil demais. É que sobrevém a reflexão de que se foi infiel ao primeiro amor, abandonado por um segundo, e que se traiu o segundo para continuar ligado ao primeiro…”

“Já reparou como os adultos coçam seus cães com a ponta do sapato? Recordações da infância. E como os cães não falam somos obrigados a observá-los para conhecer suas reações.”

“Quer saber mais sobre os animais? Bem, vá montar guarda diante da jaula dos macacos no zoológico e veja como as crianças se comportam. Pode dar uma olhada nos adultos também. Se nesse período você não aprender mais sobre a alma humana do que leu em mil livros, você não é digna dos olhos que carrega no meio da cabeça.”

“Era essa a razão de seu silêncio! Estava considerando as possibilidades de publicação! E concede seu imprimatur a minhas cartas e recusa-o as suas. Assim seja! E que Deus a abençoe.”

“É evidente que o Isso também se divide, pois sabemos que cada uma das células traz em si suas possibilidades de vida independente e de subdivisão. (…) Não se esqueça, além disso, que o Isso-indivíduo do homem integral, assim como os Issos de cada célula, escondem, cada um, um Isso masculino e um Isso feminino, sem contar os minúsculos seres-Isso da cadeia ancestral.”

“sou obrigado a dizer que há um Isso da metade superior e outro da metade inferior do corpo, um outro da direita e da esquerda, um do pescoço e da mão, um dos espaços vazios do ser humano e um da superfície de seu corpo.” “Quando tentamos isso (compreender alguma coisa sobre o Universo), um Isso particularmente malicioso, oculto num canto qualquer, nos prega peças memoráveis e quase morre de rir de nossa pretensão, de nossos desejos de sermos poderosos.”

“O Isso do ser humano <pensa> bem antes do cérebro existir; pensa sem cérebro, ele constrói o cérebro. Essa é uma noção fundamental que o ser humano deveria ter presente na memória e que ele não pára de esquecer. A hipótese de que pensamos com o cérebro – certamente falsa – foi a origem de mil besteiras; ela foi também, sem dúvida, a fonte de muitas descobertas e invenções extremamente preciosas”

“Vivemos e porque vivemos não podemos deixar de acreditar que somos capazes de criar nossos filhos, que há causas e efeitos, que temos a liberdade de pensar e de prejudicar ou ajudar. Mas somos coagidos (…) É apenas por sermos presas de um erro eterno, por sermos cegos, porque não sabemos nada de nada, que podemos ser médicos e curar os doentes. A vaidade e uma boa opinião de si mesmo são os traços de caráter essenciais do ser humano.

“o maior mestre dessa arte do médico-pai, Schweninger

“A gente devia renunciar a <ser adulto> desde os 25 anos; até aí, precisamos disso para crescer, mas depois disso a coisa só é útil para os raros casos de ereção. Não lutar contra o amolecimento, não esconder mais de si do que aos outros esse relaxamento, essa flacidez, esse estado de avacalhação, é isso que precisava ser feito.”

“Lembre-se que eu tinha atrás de mim 20 anos de prática médica, inteiramente consagrada ao tratamento de casos crônicos desesperados – uma herança de Schweninger. Eu sabia exatamente o que poderia conseguir com o antigo sistema e não hesitava em creditar as curas suplementares ao meu conhecimento dos símbolos, que eu desatava sobre os pacientes como se fossem um furacão. Foi uma bela época.”

“Misteriosas forças vieram opor-se, coisas que, mais tarde, sob a influência de Freud, aprendi a designar pelo nome de resistência. Por um certo tempo voltei a usar o método da imposição, e fui castigado com vários fracassos”

Nasamecu: o escrito anti-freudiano de Groddeck, antes de conhecer o próprio Freud!

(baixado em Alemão com um outro título – ver e-mail pessoal)

“Não sei de nada mais idiota no mundo do que esse texto. Mas que um raio me parta se sei de onde fiquei sabendo dele.”

COM A FACA, O QUEIJO, O GRITO E A BULA NAS MÃOS E NA PONTA DA LÍNGUA: “não há doenças do organismo, físicas ou psíquicas, capazes de resistir à influência da análise. O fato de se proceder através da psicanálise, da cirurgia física, da dietética ou de medicamentos é mera questão de oportunidade.”

“Tratarei de me informar a respeito junto a ele, junto ao Isso, sobre os motivos que o levaram a usar esse procedimento, tão desagradável para ele quanto para mim; conversarei com ele e depois verei o que fazer. E se uma conversa não bastar, recomeçarei 10x, 20x, 100x, tanto quanto necessário para que o Isso, cansado dessas discussões, mude de procedimento ou obrigue sua criatura, a doença, a se separar de mim, seja interrompendo o tratamento, seja através da morte.”

“parece que ainda está muito aborrecido com o pai – ele havia criado seu deus segundo a imagem desse pai – para dobrar os joelhos diante dele.”

Pau que nasce, nasce, e é quanto basta.

todos os caminhos levam a Roma, os da ciência e os da charlatanice; por isso, não considero como particularmente importante a escolha do caminho a seguir, contanto que tenhamos tempo e não sejamos ambiciosos.”

“sempre existiram médicos que levantaram a voz para dizer: o homem fabrica ele mesmo suas doenças, nele repousam as causae internae, ele é a casa da doença e não é necessário procurar fora daí. Diante dessas palavras, muitos ergueram a cabeça, elas foram repetidas mas logo voltaram para as causas externas, atacadas com a profilaxia, a desinfecção e todo o resto.”

BACILOS & BIRTUDES: As vacinas são a comprovação da teoria da autofabricação das doenças. No entanto, saber disso não significa criar imunidade; somos todos amebas enfraquecidas da aurora do segundo milênio e a ficção já se tornou realidade, de forma irreversível.

Que impressão eu causo na tinta da gráfica?

“o paciente havia lido recentemente meu Fuçador de Almas (Der Seelensucher), publicado por nosso amigo comum Groddeck.”

“Para mim, a uremia [ausência de liberação das toxinas na urina, que intoxicam todo o organismo] é o resultado do combate mortalmente perigoso da vontade de recalcar contra o que foi recalcado e que procura constantemente se manifestar, contra os poderosos complexos de secreção de urina que emanam da mais tenra infância e que estão ocultos nas camadas mais profundas da constituição da pessoa.”

“Antes de dormir, abri com um corta-papéis pontiagudo as páginas de um exemplar da revista psicanalítica de Freud e a folheei. Descobri ali, entre outras coisas, a notícia de que Felix Deutsch fizera em Viena uma conferência sobre psicanálise e as doenças orgânicas. Você sabe que se trata de um assunto que me interessa faz tempo e que deixei nosso amigo comum Groddeck cuidar disso.”

O POLÍTICO OU DA SOBERANIA

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

Ficino, escolástico do século XV, foi um dos primeiros tradutores de Platão, às portas do “ressurgimento moderno da Filosofia”. Victor Cousin, filósofo francês, 4 séculos mais tarde, faria uma tradução bem parecida. Falo isso porque em traduções de trechos difíceis eles costumam concordar.

(*) “Amon, i.e., o Zeus dos habitantes do litoral africano. Amon significa areia [embora haja controvérsias – e tem proveniência egípcia]. O Teodoro do diálogo é oriundo de Cirene [colônia grega situada na atual Líbia].”

(*) “Conforme o testemunho do mesmo Platão, o diálogo intitulado Teeteto precede O Sofista, que é por sua vez seguido pel’O Político, cujo plano é que fosse continuado em O Filósofo. [Este último não foi produzido antes da morte de Platão. Os diálogos, portanto, devem ser estudados como uma unidade, e não como independentes entre si.]

O ESTRANGEIRO – (…) Procedemos como aquele que, pretendendo dividir em dois o gênero humano, fizesse como os nativos da Ática, que distinguem os gregos de todos os demais povos como uma raça à parte; a seguir, juntando todas as demais nações, ainda que numerosas, quase infinitas, sem sequer se conhecerem muitas delas, as designam pelo singelo nome de <bárbaros>. (…) Quão mais sábio e veraz não seria dividir por espécies e por metades, se se dividisse o número em par ou ímpar, e a raça humana em varões e fêmeas; sem distinguir os lídios, os frígios ou qualquer outro povo, nem opô-los a todos os demais, a não ser quando não houvesse meio de dividir por espécies e por partes!”

O ESTRANGEIRO – Toda a parte da ciência especulativa que se refere ao mando, como já dissemos, que tem por objeto a educação dos animais, dos que vivem em rebanho. De acordo?

SÓCRATES O JOVEM¹ – Sim.

O ESTRANGEIRO – Assim, já dividimos todo o reino animal, pondo de um lado os selvagens, e doutro os que se pode amansar; pois esses animais que são suscetíveis de amansamento nós denominamos animais domesticados, em contraste com os selvagens.”

¹ Este é apenas um xará do grande Sócrates, estudante novato de Filosofia.

O ESTRANGEIRO – Nestas divisões da educação dos animais que andam, é preciso se valer de perífrases¹ para designar as diversas partes; porque querer dar a cada uma um nome próprio seria prestar-se a um trabalho desnecessário.

SÓCRATES O JOVEM – Então como se deve dizer?

O ESTRANGEIRO – Desta forma: dividida a educação dos animais que andam em duas partes, uma se refere à espécie de animais que vive em grupos e que tem chifres; e a outra à espécie que não os tem.

SÓCRATES O JOVEM – Se estabelecermos isso, tudo bem, não será mais preciso voltar a este assunto.

O ESTRANGEIRO – Muito bem: é óbvio que o rei conduz um rebanho desprovido de cornos.

SÓCRATES O JOVEM – Mas por que isso é óbvio?

O ESTRANGEIRO – Decomponhamos esta espécie; façamos de forma que designemos aquilo que lhe pertence.

SÓCRATES O JOVEM – Estou conforme.

O ESTRANGEIRO – Queres dividi-la segundo os animais que têm ou não a pata fendida; ou segundo o critério da geração, i.e., aquelas em que a geração pode se produzir mesmo que não se trate dos mesmos animais e aquelas em que a geração só se dá entre os semelhantes? Compreendeste a questão?

SÓCRATES O JOVEM – Não exatamente.

O ESTRANGEIRO – Vou dar um exemplo: os cavalos e os asnos podem reproduzir entre si.

SÓCRATES O JOVEM – Ah, compreendo.

O ESTRANGEIRO – Ao contrário, os demais animais domésticos, que vivem em rebanho, engendram cada um sua própria espécie dentro de seus confins, não se mesclando nem engendrando híbridos.

SÓCRATES O JOVEM – Sim, isso é exato.

O ESTRANGEIRO – Mas e então: te parece que o político cuida de uma espécie que engendra em comum com outras, ou de um animal puro, que não se mescla com nenhum outro?

SÓCRATES O JOVEM – Evidentemente, de uma espécie que não se mescla.

O ESTRANGEIRO – Agora é preciso, ainda, dividir em duas partes esta espécie eleita, como já fizemos outras vezes.

SÓCRATES O JOVEM – Com certeza.”

¹ Substitutos na mesma língua, i.e., poder-se-ia chamar “animal que produz e se alimenta de mel” no lugar de “abelha”. Nem tudo que não tem nome carece por isso de uma descrição exata.

O ESTRANGEIRO – (…) os cachorros não devem ser incluídos entre os animais que vivem em sociedade.

SÓCRATES O JOVEM – Não, decerto. Mas então como obteremos nossas duas metades desta vez?

O ESTRANGEIRO – Procedendo como vós faríeis; refiro-me a ti e Teeteto, posto que vós vos ocupais da Geometria.¹

SÓCRATES O JOVEM – Ainda não entendo aonde queres chegar.

O ESTRANGEIRO – Pelo cálculo da diagonal. E depois pelo da diagonal da diagonal.

SÓCRATES O JOVEM – Ainda não compreendi!

O ESTRANGEIRO – A natureza própria da espécie humana, quanto a seu modo de andar, não consiste em ser exatamente como a diagonal, sobre a qual pode-se construir um quadrado de 2 pés?

SÓCRATES O JOVEM – Sim, exato.

O ESTRANGEIRO – E a natureza da outra espécie, relativamente ao mesmo objeto, não é como a diagonal do quadrado do nosso quadrado, posto que tem 2×2 pés?”

¹ Isto não está em contradição com a nota anterior sobre o jovem Sócrates: um dos pilares da dialética platônica é justamente o conhecimento matemático, que é preciso dominar primeiro em sua generalidade a fim de filosofar com conseqüência.

O ESTRANGEIRO – Eis nossa espécie humana ao lado e em companhia da mais nobre e ao mesmo tempo a mais ágil das espécies.

SÓCRATES O JOVEM – É verdade que se trata de uma conseqüência bem ridícula.

O ESTRANGEIRO – Não é o mais natural que o mais lento chegue sempre mais tarde?

SÓCRATES O JOVEM – Irrefutável.

O ESTRANGEIRO – E não seria mais ridículo ainda apresentar o rei correndo com seu rebanho, e disputando corrida com o homem mais atlético, um corredor nato?”

SÓCRATES O JOVEM – Nada concebo de mais ridículo.

O ESTRANGEIRO – Já vês às claras, Sócrates, o que disséramos quanto ao sofista.

SÓCRATES O JOVEM – O que exatamente?

O ESTRANGEIRO – Que este método não considera o que é nobre e o que não o é, nem considera se o caminho é curto ou comprido, apenas concentra todas as suas forças na busca pela verdade.

SÓCRATES O JOVEM – Já o aprecio.

O ESTRANGEIRO – Pois bem: depois de tudo isto, e antes de que perguntes-me qual era esse caminho mais curto do qual falavas antes, que conduz à definição do rei, eu mesmo me adiantarei.

SÓCRATES O JOVEM – De acordo.

O ESTRANGEIRO – Teria sido necessário começar por dividir os animais que andam em bípedes e quadrúpedes. E, como à primeira categoria só pertencem os pássaros – ademais do homem –, seria preciso dividir esta nova espécie de bípedes em bípedes nus e bípedes com pena;¹(*) por último, feita esta dupla operação, e deixado às claras o modo de educar ou de conduzir os homens, situamos, numa terceira etapa, o político e o rei à cabeça desta arte, confiando-lhes a renda do Estado, como legítimos possuidores desta ciência.”

¹ Este trecho é muito famoso e parodiado, já por contemporâneos (vd. Aristófanes), já por modernos muito mais próximos de nós. Aristóteles e Diógenes Laércio, este último nem que fosse de forma distorcedora ou descontextualizadora, também tornaram essa passagem ainda mais célebre.

(*) “Esta passagem deu origem sem dúvida à famosa anedota de Diógenes o Cínico. Diógenes Laércio [um dos primeiros historiadores da Filosofia, ainda do mundo antigo, que acabo de citar], num comentário sobre a vida de seu xará, nos diz: <Como ele tinha ouvido a definição platônica do homem (um animal de dois pés sem penas), pegou um galo e, depenando-o, levou-o à Academia, e ao apresentá-lo afirmou: ‘Eis aqui o homem de Platão.’>.”

O ESTRANGEIRO – Uma das antigas tradições, ainda recordadas e que se recordarão por muito tempo, é a do prodígio, que apareceu na querela entre Atreu e Tiestes. Tu com certeza já a ouviste, então te será fácil dizeres o que se sucedeu então.

SÓCRATES O JOVEM – Creio que falas da maravilha da ovelha de ouro.(*)

O ESTRANGEIRO – Não se trata disso, meu jovem! Falo da mudança do nascer e do pôr do sol e dos demais astros, os quais se punham no mesmo ponto de que agora nascem, e nasciam do lado oposto. Querendo o deus testificar sua presença a Atreu, por uma mudança repentina foi que estabeleceu a ordem atual.

SÓCRATES O JOVEM – Ah, já ouvi esta estória também.

O ESTRANGEIRO – Também é muito popular aquela do reinado de Cronos.

SÓCRATES O JOVEM – Já perdi as contas de quantas vezes a escutei!

O ESTRANGEIRO – Mas não se diz por aí que os homens doutros tempos eram filhos da terra, e que não nasciam uns dos outros?

SÓCRATES O JOVEM – Sim, sim, essa é outra de nossas antigas tradições orais.”

(*) Cuja determinação necessitaria de 3 divisões sucessivas em 2 partes, como as realizadas pelo Estrangeiro até aqui.

O ESTRANGEIRO – Escuta! Este universo é às vezes dirigido por Deus mesmo, que lhe imprime um movimento circular; mas em outras Ele o abandona, como quando suas revoluções já preencheram a medida do tempo marcado. O mundo, então, dono de seu movimento, descreve um círculo contrário ao primeiro, porque é um ser vivo e recebeu a inteligência daquele que desde o princípio o ordenou harmoniosamente. A causa deste movimento retrógrado é necessária e inata ao mundo, e vou dizer-te qual é esta.

SÓCRATES O JOVEM – Estou curioso!

O ESTRANGEIRO – Ser sempre da mesma maneira, na mesma forma e sendo o mesmo ser é privilégio dos deuses por excelência. A natureza do corpo não pertence a esta ordem das coisas. O ser a que chamamos céu e mundo foi dotado, desde seu começo, de uma multitude de qualidades admiráveis, porém participa ao mesmo tempo da natureza dos corpos.” “Mover-se por si mesmo por toda a eternidade só pode fazê-lo aquele que conduz tudo o que se move, e este ser não pode se mover simultaneamente de duas maneiras antitéticas. Tudo isto prova que nem se pode dizer que o mundo se dá a si mesmo o movimento por toda a eternidade, nem que recebe da divindade dois impulsos e dois impulsos contrários, nem que é colocado alternativamente em movimento por duas divindades contrárias.”

sua massa imensa, suspensa igualmente por todas as partes, gira sobre um ponto de apoio muito estreito.” Antes ou depois do Eureka! de Arquimedes?

Então necessariamente há uma grande mortandade entre os demais animais, e dentre os homens são poucos os que sobrevivem. Estes últimos experimentam mil fenômenos surpreendentes e inauditos; mas o mais extraordinário é o que resulta do movimento retrógrado do mundo, quando ao curso atual dos astros sucede outro, contrário.” “a idade dos diversos seres vivos se deteve repentinamente” “Os cabelos brancos dos anciãos se tornaram negros” “e o corpo e a alma se metamorfosearam juntos. Ao fim deste progresso tudo se desvaneceu e entrou no nada.” “Se os anciãos voltavam às formas da juventude, era natural que os que haviam morrido e estavam enterrados ressuscitassem, voltassem à vida e seguissem o movimento geral, que renovava em sentido contrário a geração” “Os animais, divididos em gêneros e em grupos, eram dirigidos por daimons, que, como pastores divinos, sabiam prover a todas as necessidades do rebanho” “Deus mesmo conduzia e vigiava os homens; da mesma forma que hoje os homens, como animais de uma natureza mais divina, conduzem as espécies inferiores. Sob este governo divino não havia nem cidades, nem casamentos, nem família. Os homens ressuscitavam todos do seio da terra sem nenhuma lembrança passada. Ignorantes de nossas instituições, coletavam nas árvores e nos bosques frutas em abundância, sem para isso aprender o cultivo, pois a terra era fecunda. Nus e sem abrigo, passavam quase toda a vida ao ar livre; as estações, temperadas, eram-lhes agradáveis; o espesso céspede que cobria a terra lhes propiciava leitos macios. Eis aqui, Sócrates, a vida dos homens sob Cronos.”

Quando terminou a época que compreende todas estas coisas, sobrevindo uma revolução, e a raça nascida da terra já havia perecido quase por inteiro, e cada alma já havia passado por todas as gerações, entregando à terra as sementes de que ela era tributária, sucedeu que o senhor deste universo, à guisa do piloto que abandona o timão, lançou-se para fora, passando a ocupar apenas um ponto de observação; e a fatalidade, bem como seu próprio impulso, arrastaram o mundo num redemoinho contrário.”

Enquanto o mundo dirige, em concerto com seu guia e senhor, os animais que encerra em seu seio, produz pouco mal e muito bem. Quando chega a separar-se do guia, no primeiro instante de seu isolamento governa ainda com sabedoria; mas à medida que o tempo passa e que o esquecimento chega, o antigo estado de desordem reaparece e domina; e, por último, o bem que produz é de tão pouco valor e a quantidade de mal, que se mescla com ele, tão grande, que o mundo mesmo, com tudo o que encerra, se põe em perigo de perecer. É então que o deus, que ordenara o mundo, ao vê-lo em perigo, e não desejando que sucumba na confusão e chegue a se perder e dissolver no abismo da dessemelhança, é então, repito, que, assumindo de novo o timão, repara as alterações que sofreu o universo, restabelecendo o antigo movimento por ele (este deus) presidido, protegendo-o contra a caducidade, e fazendo dele imortal.” “tendo o mundo adentrado no caminho da atual geração, a idade se deteve de novo e se viu que reaparecia já a corrente contrária. Aqueles animais que por sua pequenez estavam quase reduzidos ao nada começaram a crescer; e os que tinham saído da terra encaneceram de repente; morreram e voltaram à própria terra. Todo o demais sofreu a mesma mudança, imitando e seguindo todas as modificações do universo.” “Privados da proteção do daimon, seu pastor e senhor, entre animais naturalmente selvagens e que se haviam feito ferozes, os homens débeis e sem defesa eram despedaçados por eles. Viram-se desprovidos, além disso, da arte e da indústria nestes primeiros tempos, porque a terra havia cessado de oferecer-lhes o alimento, sem que tivessem meios de procurar-se-o, pois esta era uma necessidade nova. Por isso acabavam vivendo na maior escassez, até que os deuses nos proporcionaram, com as devidas instruções e ensinamentos, estes presentes de que falam as antigas tradições: Prometeu, o fogo; Hefesto e a deusa que o acompanha nos mesmos trabalhos, as artes; outras divindades, as sementes e as plantas.”

O ESTRANGEIRO – A meu ver, só quando já se tiver determinado a natureza do governo do Estado é que nos convenceremos de que o homem político chegou a sua definição completa.”

O ESTRANGEIRO – Alimentar seu gado é um dever de todos os pastores, mas não do político, ao qual atribuímos, assim, um nome que não lhe convém; e o que se devia fazer era escolher um que fosse comum a todos os pastores de uma vez.”

confundimos o rei com o tirano, figuras tão diferentes, seja em si mesmas, seja pela maneira exterior de governar.”

Chamemos, pois, a arte de governar mediante a violência de tirania; e a arte de governar voluntariamente os animais bípedes, governo esse prestado com gosto, de política”

a exposição já se fez demasiado comprida, e não pudemos pôr termo a nossa história.”

O ESTRANGEIRO – Até que fim, caro Sócrates! Mas por quem, em vez de responder de uma vez que a arte do tecedor é a de entrelaçar a trama e a urdidura, demos tantas voltas e procedemos a mil divisões inúteis?

SÓCRATES O JOVEM – Me parece, querido estrangeiro, que nada do que dissemos é inútil.”

nenhuma dessas artes nega a existência do justo meio, para o bem ou para o mal; pelo contrário, as artes forçosamente a admitem, se bem que com desconfiança”

O ESTRANGEIRO – Se suprimirmos a política, como poderíamos indagar depois no que consiste a ciência real?

SÓCRATES O JOVEM – Isso seria impossível.

O ESTRANGEIRO – Pois bem; da mesma forma que no Sofista provamos que o não-ser existe, porque não sendo assim não se poderia conceder existência ao discurso, provaremos agora que os excessos, o mais e o menos, o bem e o mal que escapam do justo meio da política, são comensuráveis; e não só entre si, como justamente em referência a este justo meio.”

O ESTRANGEIRO – O quê? Mas será possível?! Nos consagraremos a esta indagação sobre a política só para aprender política, ou fá-la-emos para chegarmos também a ser dialéticos mais hábeis acerca de todas as outras coisas?

SÓCRATES O JOVEM – Evidentemente que com o segundo fito.”

Acrescentemos que, se se encontra um homem que, neste tipo de discussões, censura todos os discursos longos e não aprova estes perpétuos rodeios e reviravoltas, é preciso impedi-lo de ir-se embora depois de haver simplesmente criticado a extensão de nosso discurso. Peçamos-lhe que comprove claramente de que modo uma discussão mais breve faria dos contendores melhores dialéticos e mais hábeis perscrutadores das razões por trás das coisas! (…) Voltemos ao homem político, aplicando ao caso nosso exemplo do tecedor de que acabamos de falar.

O ESTRANGEIRO – Todas as artes que fabricam instrumentos para o Estado, grandes ou pequenos, é preciso que as consideremos como artes auxiliares. Sem elas, na verdade, não haveria nem Estado nem política; no entanto, nenhuma delas integra a ciência real.

SÓCRATES O JOVEM – Certamente que não!

O ESTRANGEIRO – (…) se alguém disser que não há nada que não seja instrumento de outra coisa, enunciaria uma proposição muito provável, porém há uma entre as coisas que o Estado possui que não tem este caráter.”

O ESTRANGEIRO – Não colocaremos numa quinta espécie a arte da ornamentação, a pintura, a música, todas as imitações que se realizam com a cooperação destas artes, que têm por único objeto o prazer, e que, com razão, poderiam ser chamadas por um só nome?

SÓCRATES O JOVEM – Sim, mas qual?

O ESTRANGEIRO – As artes de recreio.”

O ESTRANGEIRO – E não formaremos uma sexta espécie com esta outra que fornece a cada uma das artes de que acabamos de falar os corpos, com os quais e sobre os quais elas operam, espécie muito variada e que procede de outras muitas artes?

SÓCRATES O JOVEM – Aonde queres chegar?

O ESTRANGEIRO – O ouro, a prata e todos os metais que se extraem das minas; tudo aquilo que a arte de cortar e esculpir as árvores fornece à carpintaria e à marcenaria; a arte de extrair tocos das árvores; a do curtidor que despoja os animais de sua pele; todas as artes análogas que nos preparam a cortiça, o papel e as maromas (cordas grossas); tudo isso fornece espécies simples de trabalhos com os quais podemos formar espécies compostas.”

Tudo o que se pode possuir, com exceção dos animais domésticos, parece-me que está categorizado nestas 7 espécies.”

Quanto à posse de animais domésticos, sem contar os escravos, a arte de educar o gado, que distinguimos anteriormente, abarca a todos os animais, de modo indubitável.

(…)

Só nos falta a espécie dos escravos, e em geral a dos servidores, entre os quais, pelo que me consta, incluem-se os que competem frente ao rei pela elaboração mesma do tecido que é seu desígnio elaborar; à maneira que vimos antes: que os que fiam, os que cardam e os que executam alguma das operações supracitadas competiam entre si pelo título de tecelões.”

O ESTRANGEIRO – Aqueles que se adquire por dinheiro podemos sem dificuldade batizar de escravos, e dizer que não participam, absolutamente, da ciência real.

SÓCRATES O JOVEM – Sem dúvida.

O ESTRANGEIRO – Mas todos esses homens livres, que voluntariamente se filiam com os anteriores na classe dos servidores, transportando e distribuindo entre si os produtos da agricultura e das demais artes; fixando-se nas praças; ou comprando e vendendo de cidade em cidade, por mar ou por terra; trocando objetos por moeda, se é que não moeda por moeda; os cambistas, os comerciantes, os locadores de embarcações, os traficantes, como os chamamos; teria toda essa gente a pretensão de aspirar à ciência política?

SÓCRATES O JOVEM – No máximo, à ciência mercantil.”

O ESTRANGEIRO – A classe dos pregoeiros, dos homens hábeis em redigir escritos, e que freqüentemente nos prestam seu ministério, e outros tantos muito versados na arte de desempenhar certas funções perante os magistrados; que diremos deles todos?

SÓCRATES O JOVEM – O mesmo que disseste antes; que estes são servidores, mas não chefes de Estado.

O ESTRANGEIRO – No entanto, não fui, pelo menos não conscientemente, mero títere quando afirmei que nesta categoria veríamos aparecer os que têm as maiores pretensões à ciência política; eis o que é estranho: que tais pretendentes pertençam à classe dos servidores.”

O ESTRANGEIRO – (…) Encontramos os adivinhos, que têm uma parte da ciência do servidor, porque se os considera intérpretes dos deuses entre os homens.

SÓCRATES O JOVEM – Exatamente.

O ESTRANGEIRO – Temos também a classe dos sacerdotes, que, segundo se opina, sabem oferecer, em nosso nome, sacrifícios aos deuses a fim de agradá-los, e sabem também pedir-lhes bens, intercedendo em nosso favor.”

Com efeito, a ordem dos sacerdotes e adivinhos tem-se em alta conta e inspira um profundo respeito dada a nobreza de suas funções. No Egito ninguém pode reinar sem pertencer à classe sacerdotal; e se um homem de uma classe inferior se apodera do trono pela violência tem necessariamente de salvaguardar-se ingressando logo nesta ordem. Entre os gregos, em muitas cidades, são os primeiros magistrados que presidem os principais sacrifícios.”

O ESTRANGEIRO – O que não se conhece é sempre surpreendente. Isso se aplica a mim. Tive um momento de estupor a primeira vez que vi o grupo que se ocupa dos negócios públicos.

SÓCRATES O JOVEM – Que grupo?

O ESTRANGEIRO – O maior mágico de todos os sofistas, o mais hábil nesta arte, e que é preciso distinguir, por mais difícil que seja, do verdadeiro político e do verdadeiro rei, caso queiramos contemplar com clareza o objeto de nossas indagações.”

O ESTRANGEIRO – Mas estas três formas não são de certo modo cinco, já que duas delas criam para si mesmas outros nomes?

SÓCRATES O JOVEM – Quais nomes?

O ESTRANGEIRO – Ao considerar estes governos sob a perspectiva da violência ou do livre consentimento, da pobreza ou da riqueza, das leis ou da licenciosidade que neles aparecem, divide-se-os em dois; e como se encontram duas formas de monarquia, são denominadas como tirania e reinado.

(…)

Analogamente, todo Estado governado por uns poucos se chama ou aristocracia ou oligarquia.

SÓCRATES O JOVEM – Nenhuma objeção.

O ESTRANGEIRO – Quanto à democracia, que o povo governe com o uso da força ou com o consentimento dos demais, que os que a exercem observem escrupulosamente as leis ou não, a rigor não faz diferença, pois não a conhecemos por nomes distintos.”

É necessário examinar agora em qual destes governos se encontra a ciência de mandar nos homens, ciência, por acaso, a mais difícil e mais preciosa de todas as que se pode adquirir.”

O ESTRANGEIRO – Mas será possível que, numa cidade de mil homens, cem, ou somente 50, possuam-na de maneira suficiente?

SÓCRATES O JOVEM – Neste caso, de todas as artes, seria esta a mais fácil. Sabemos, positivamente, que de mil homens não extrairemos nem 100 jogadores de xadrez que possam ser considerados mestres entre os gregos, quanto mais 100 reis! Afinal de contas, governe ou não, quem possui a ciência real merece ser chamado de rei, e nisso estamos bastante de acordo.

as diferenças que separam todos os homens e todas as ações e a incessante variação das coisas humanas, que sempre estão em movimento, não permitem a uma arte, qualquer que seja ela, estabelecer uma regra simples e única, que convenha em todos os tempos e lugares.

(…)

E no entanto sabes que é este o caráter da lei, como o de um homem obstinado e falto de educação, que não tolera que ninguém faça nada contra sua vontade, nem questione, ainda que alguém descubra algo inusitado e genial.

SÓCRATES O JOVEM – Com certeza; a lei impera sobre cada um de nós indistintamente, como acabaste de expor.

O ESTRANGEIRO – E não é impossível que o que é sempre o mesmo convenha ao que não é sempre o mesmo?

SÓCRATES O JOVEM – Temo que sim.

O ESTRANGEIRO – Doravante, como é que pode ser imprescindível criar leis, se as leis não são as melhores? Investiguemos este problema!”

Aquilo que convém ao maior número de indivíduos e de circunstâncias será o que constituirá a lei, e o legislador o imporá a toda a comunidade, seja formulando-o por escrito, seja estipulando-o via costumes dos antepassados transmitidos oralmente.”

O ESTRANGEIRO – Não seria de crer que um médico, e também um professor de ginástica, ao empreender uma viagem e, quiçá, ausentar-se por um longo período, tenha razões para temer pelo futuro de seus doentes e alunos, caso não tome o cuidado de deixar suas prescrições por escrito, para que não se as esqueçam? E afinal, é o melhor deixar suas disposições e convicções assim por escrito, ou haveria outro expediente mais recomendável?

SÓCRATES O JOVEM – Não, nada melhor que deixar tudo por escrito.

O ESTRANGEIRO – Mas se acaso volta mais cedo do que havia planejado, não se atreverá a substituir as prescrições que havia deixado por outras novas, caso perceba que estas são mais saudáveis aos doentes graças ao que aprendeu sobre os ventos ou sobre mudanças de temperatura nos lugares em que esteve, em que o curso ordinário das estações era diferente?”

Se alguém, sem ter convencido os outros, impõe-lhes pela força aquilo que é melhor, diga-me, que nome recebe esta violência?

(…)

Se um médico, sem ter recorrido à persuasão, em virtude da arte que conhece tão a fundo, prescreve que o doente, criança, homem ou mulher, tome agora um remédio melhor que o que estava tomando (porque era o que estava escrito), qual é o nome desta violência? Qualquer um menos o de um pecado contra a arte médica, ou será que seria precisamente um atentado contra a saúde? E o paciente desta violência acaso poderá dizer que tal tratamento é daninho e anti-medicinal?

SÓCRATES O JOVEM – O nome é qualquer um menos o de pecado contra a medicina ou dano contra o doente.”

O ESTRANGEIRO – (…) não seria o cume do ridículo criticar esta violência, da qual tudo se poderá dizer, exceto que obrigara o doente a executar qualquer coisa vexatória, injusta ou má?

SÓCRATES O JOVEM – Sim, seria.

O ESTRANGEIRO – E a violência, é justa se seu autor é rico, e injusta se ele é pobre? Ou, pelo contrário, se um homem, valendo-se ou não da persuasão, rico ou pobre, com ou contra as leis escritas, faz o que é útil, não se deve dizer que esta é a verdadeira definição do bom governo, e que ela pautará o homem sábio e virtuoso, que acima de tudo respeita o interesse dos governados? Assim como o piloto, preocupado constantemente com a segurança de seu navio e da tripulação, sem escrever leis, mas criando por assim dizer, e seguindo, uma lei inerente a sua arte, protege seus companheiros de viagem; assim, da mesma forma, o Estado se veria em prosperidade, caso fosse administrado por homens que soubessem governar desta maneira, fazendo prevalecer o poder supremo da arte sobre as leis escritas!”

O ESTRANGEIRO – Que nenhum membro do Estado se atreve a fazer nada <contra as leis>; e se alguém a isso se atrevera, seria castigado com a pena de morte e com os maiores suplícios. Esta regra é muito justa e bela, se consideramos apenas o segundo tipo de punição e descartamos o primeiro. Expliquemos de que maneira se estabelece essa regra, que, em nossa opinião, só se justifica mesmo com a remoção da pena de morte. Ou tu pensas doutra forma?

SÓCRATES O JOVEM – De forma alguma!”

O ESTRANGEIRO – (…) Suponhamos, imbuídos do espírito destas idéias, que determinássemos, depois de uma detida reflexão, que se proibisse que a medicina ou a arte da pilotagem mandassem, como senhoras absolutas, nos escravos e nos homens livres; que se formasse uma assembléia, fosse constituída tão-só por nós (os políticos governantes), fosse constituída por todo o povo, fosse constituída só pelos ricos (forma censitária); e que os ignorantes e os artesãos possuíssem o direito de dar seu parecer sobre a navegação e sobre o tratamento das doenças, sobre como se deveria empregar os remédios e demais instrumentos médicos para o bem dos adoentados, e como se deveria dispor dos navios e dos instrumentos marítimos a fim de navegar; sobre o que se deve fazer nos momentos de perigo, proceda este dos ventos e das ondas, ou de encontros com piratas; e sobre se conviria, numa batalha naval, opor embarcações compridas com outras embarcações compridas ou não. E, depois disto, suponhamos, ainda, que o que tivesse sido aprovado pelo povo, não importa se oriundo dos médicos ou pilotos, ou dos ignaros nestas artes, fosse por nós inscrito em tábuas triangulares e em colunas, ou então consagrado como costumes orais de nossos antepassados (por mera convenção), e que doravante se navegasse e se tratasse dos doentes exclusivamente conforme estas novas regras.

SÓCRATES O JOVEM – Mas eis uma suposição perfeitamente absurda!

ESTRANGEIRO – Cada ano tiraríamos a sorte para eleger os chefes entre os ricos ou entre o povo inteiro, e os chefes assim eleitos, ajustando sua conduta às leis estabelecidas da forma que dissemos, dirigiriam os navios e cuidariam dos doentes.

SÓCRATES O JOVEM – Isso é ainda mais impossível de admitir.”

“O ESTRANGEIRO – (…) Aquele que quiser poderá acusar os magistrados [governantes] de não terem dirigido os navios durante o ano de mandato segundo as leis escritas ou os antigos costumes dos antepassados. E o mesmo com os doentes. Aquele que for condenado, os próprios magistrados decidirão seu castigo.

SÓCRATES O JOVEM – Aquele que de espontânea vontade chegasse a exercer magistratura semelhante seria, por sua vez, muito castigado, e justamente – e aliás mais justo quão mais rigoroso fosse o castigo!

O ESTRANGEIRO – Será preciso ainda estabelecer uma lei ordenando que, se há alguém que, independentemente das leis escritas, estuda a arte do piloto e da navegação, a arte de curar e da medicina, relativamente aos ventos ou ao quente e ao frio, e se dedica a indagações profundas sobre isto, deve-se começar por declará-lo, não um médico ou piloto, mas um vaidoso extravagante e um sofista inútil. Após o quê, quem queira poderá acusá-lo de corromper a juventude, ao ensiná-la a praticar a arte do piloto e do médico sem ter em mente as leis escritas, e ao dirigir os navios conforme seus próprios caprichos e tratar os doentes da forma mais arbitrária; e nem preciso dizer que um tal subversivo será citado diante de um tribunal de justiça.

“os homens não consentem, de bom grado, em ser governados por um só, por um monarca, pois assim perdem a esperança de que um dia um homem comum digno de exercer esse poder apareça, um homem dotado simultaneamente de vontade e força para mandar com virtude e conhecimento, tanto quanto para distribuir eqüitativamente a justiça, que é o que se chama bem.”

“E como hoje em dia já não se vê nas cidades, tal qual sucede na colméia, um rei como o que descrevemos, que sobressaia a olhos vistos a todos os demais, na alma e no corpo, não resta outro recurso senão reunir-se em conselho a fim de redigir as leis, seguindo as pegadas do verdadeiro governo.”

“Não deveríamos antes de tudo nos admirar de que um Estado como este seja tão sólido e poderoso? Porque faz muito tempo que os Estados são vítimas desses males; e, no entanto, permanecem de pé, estáveis e firmes. É verdade que muitos, submersos, como os navios naufragados, perecem, pereceram e perecerão pela nescidade dos pilotos e tripulantes, que no que toca às coisas mais importantes são rematados ignorantes; sendo completamente estranhos à política, crêem que de todas as ciências esta é que melhor dominam.”

“O ESTRANGEIRO – Deves reconhecer, pupilo Sócrates, que as três formas de governo fazem uma, que é ao mesmo tempo a mais fácil e a mais difícil.

SÓCRATES O JOVEM – Como é?

O ESTRANGEIRO – As três formas de governo de que tratamos desde o princípio deste discurso, i.e., o monárquico, o dos poucos e o da multidão.

SÓCRATES O JOVEM – De fato.

ESTRANGEIRO – Dividamos cada uma delas em outras duas, a fim de que tenhamos por fim 6 e, acrescidas à mais distinta, a sétima, fazemos 7; o sétimo sendo o único e verdadeiro governo.

SÓCRATES O JOVEM – Mas como?

O ESTRANGEIRO – Da monarquia dissemos que nascem o reinado e a tirania; do governo dos poucos, a aristocracia, que é um nome de bom agouro, e a oligarquia; quanto ao governo das massas, optamos por chamá-lo só de democracia; mas veja, é chegado o momento de dividi-lo em duas partes por sua vez.

SÓCRATES O JOVEM – E qual será o método empregado?”

“desde que amarrada com estes sábios regulamentos, que chamamos de leis, a monarquia é o melhor dos 6 governos; sem leis, é o mais duro e mais insuportável.” “quanto à multidão, sua essência é a debilidade, então ela não é capaz nem de um grande bem nem de um grande mal, pelo menos em comparação com os outros governos; ali, o poder está dividido em 1000 partes entre 1000 indivíduos; por está razão é que é o pior de todos os governos, quando se observa a lei, isto é; mas é o melhor dos 3 quando as leis são violadas. Quando o povo é licencioso, o melhor é viver sob a democracia”

“a ciência que julga se é preciso ou não persuadir tem de mandar na que tem o poder de persuadir”

“Certos governantes são extremamente moderadas por natureza, inclinadas a viver uma vida pacífica, cuidando por si mesmos e de seus negócios, atuando em suas relações internas e externas do modo mais condizente para a manutenção da paz entre os seus e os Estados vizinhos. Mas, enganados por este amor excessivo ao repouso e pela satisfação de seus desejos, não reparam que assim se incapacitam para a guerra, que educam os jovens na mesma molície, e que se colocam à mercê do inimigo; de maneira que ao cabo de poucos anos eles, seus filhos e o Estado inteiro, de livres que eram, caem, insensivelmente, na escravidão.”

“E que é que diremos dos outros, que se inclinam mais para o lado da força? Não lançam sem cessar sua pátria em novas guerras, à conta de sua paixão imoderada por este gênero de vida? E, à força de suscitar inimigos, não a conduzem à ruína total ou então à perda de sua liberdade?”

“O ESTRANGEIRO – Os homens moderados buscam nos demais o seu próprio caráter; se casam, tanto quanto seja possível, com mulheres das mesmas condições e casam suas filhas da mesma maneira; e os homens fortes e enérgicos fazem o mesmo: buscam nos demais o seu próprio caráter; tudo isso quando o mais conveniente seria que estas duas classes de homens fizessem o exato contrário.

SÓCRATES O JOVEM – Mas como o fariam e por que razão?

O ESTRANGEIRO – Porque tal é a natureza do caráter forte e enérgico que, repleto de vigor no princípio, se se reproduz sem misturas por muitas gerações, acaba-se deixando arrastar a incríveis acessos de furor.

SÓCRATES O JOVEM – É bastante provável.

O ESTRANGEIRO – Por outro lado, a alma que se deixa levar por um pudor excessivo, que não se associa a uma audácia varonil, e que se reproduz assim durante longo tempo, faz-se mais débil do que seria aconselhável, e acaba caindo em completo desfalecimento.

“esta é a única tarefa, e ao mesmo tempo toda a tarefa do tecedor real: não permitir jamais que o caráter prudente se divorcie do caráter forte e enérgico” “Os chefes moderados têm, com efeito, costumes prudentes, justos e conservadores, mas carecem da energia e da audácia que a ação reclama.” “Os chefes fortes e enérgicos, por sua vez, deixam algo a desejar em termos de justiça e da prudência, mas sobressaem quanto à ação.”

“Não era possível, estrangeiro, definires melhor o rei e o político.”

LORD[S] OF CHAOS: The bloody rise of the satanic metal underground (1998), revised & enlarged (2003) [Ou: uma biografia obviamente não-autorizada do delinqüente eternamente juvenil Varg. V. de VVinter e VVar / & outras estórias não-relacionadas] – Moynihan & Søderlind

Our world, increasingly homogenized and with the entire spectrum of its cultural creations adulterated for palatable mass-consumption, needs dangerous ideas more than ever. It may not need the often ill-formed and destructive ideas expressed by some of the protagonists in Lords of Chaos, but we felt all along that this is an issue for the individual reader to decide.”

The notion of a Protocols of the Elders of Zion-style Jewish cabal running the world is absurd to begin with, but all the more so in a country with practically no Jewish population, and we felt the need to point this out.”

The Satyricon single Fuel for Hatred received heavy air-play on one of Norway’s 3 biggest radio stations, and just before this revised edition went to press we heard that Dimmu Borgir’s new album will be hawked to the public through TV advertising spots.”

William Pierce – The Turner Diaries

Heavy Metal exists on the periphery of Pop music, isolated in its exaggerated imagery and venting of masculine lusts. Often ignored, scorned, or castigated by critics and parents, Heavy Metal has been forced to create its own underworld. It plays by its own rules, follows its own aesthetic prerogatives. Born from the nihilism of the 1970s, the music has followed a singular course. Now in the latter half of the 1990s it is often considered passé and irrelevant, a costume parade of the worst traits in Rock. Metal is no longer a staple of FM radio, nor are record labels pushing it like they used to. Watching MTV and reading popular music magazines, one might not even realize Heavy Metal still existed at all.”

Arthur Lyons – The Second Coming: Satanism in America

In the first half of the twentieth century, Jazz was considered particularly dangerous, with its imagined potential to unleash animal passions, especially among unsuspecting white folk. (…) In his book on the Rolling Stones, Dance With the Devil, Stanley Booth quotes the New Orleans Times-Picayune in 1918: <On certain natures sound loud and meaningless has an exciting, almost an intoxicating effect, like crude colors and strong perfumes, the sight of flesh or the sadic pleasure in blood.>”

More directly tied to deviltry than Jazz, and likewise imbued with the potency of its racial origins, was Blues. Black slaves often adopted Christianity after their enforced arrival in America, but melded it with native or Voudoun strains. Blues songs abound with references to devils, demons, and spirits. One of the most influential Blues singers of all time, Robert Johnson, is said to have sold his soul to the Devil at a crossroads in the Mississippi Delta, and the surviving recordings of his haunting songs give credence to the legend that Satan rewarded his pact with the ability to play. Johnson recorded only 29 tunes, some of the more famous being Crossroads Blues, Me and the Devil Blues, and Hellhound on My Trail. The leaden resignation of his music is a genuine reflection of his existence. Life for Johnson began on the plantations, wound through years of carousing and playing juke joints, ending abruptly in 1938 when at the age of 27 he was poisoned in a bar, probably as a result of an affair with the club owner’s wife.”

A DÉCADA QUE COMEÇOU 26 DIAS MAIS CEDO: “The Stones took their diabolical inspiration seriously, deliberately cultivating a Satanic image, from wearing Devil masks in promotional photos to conjuring up sinister album titles such as Their Satanic Majesties Request and Let it Bleed. The band’s lyrics ambivalently explored drug addiction, rape, murder, and predation. The infamous culmination of these flirtations revealed itself at the Altamont Speedway outdoor festival on December 6, 1969. Inadvertently captured on film in the live documentary Gimme Shelter, it was only moments into the song Sympathy for the Devil before all hell broke loose between the legion of Hell’s Angels <security guards> and members of the audience, ending with the fatal stabbing of Meredith Hunter, a gun-wielding black man in the crowd. The infernal, violent chaos of the event at Altamont made it abundantly clear the peace and love of the ‘60s wouldn’t survive the transition to a new decade.” 7, o mais belo número.

Page’s interest in Crowley developed to a far more serious level than the Satanic dabbling of the Stones; his collection of original Crowley books and manuscripts is among the best in the world. Page held a financial share in the Equinox occult bookshop (named after the hefty journal of <magick> Crowley edited and published between 1909–14) in London and at one point even purchased Crowley’s former Scottish Loch Ness estate, Boleskine. The property continued to perpetuate its sinister reputation under new ownership, as caretakers were confined to mental asylums, or worse, committed suicide during their tenures there.” “If there is any early Rock band bearing exemplifying the basic themes that would later preoccupy many of the Black Metal bands in the ‘90s, it is Led Zeppelin.”

I read a lot of Dennis Wheatley’s books, stuff about astral planes. I’d been having loads of these experiences since I was a child and finally I was reading stuff that was explaining them. It lead me into reading about the whole thing —black magic, white magic, every sort of magic. I found out Satanism was around before any Christian or Jewish religion. It’s an incredibly interesting subject. I sort of got more into the black side of it and was putting upside-down crosses on my wall and pictures of Satan all over. I painted my apartment black. I was getting really involved in it and all these horrible things started happening to me. You come to a point where you cross over and totally follow it and totally forget about Jesus and God.” GZR, Seconds Magazine, #39, 1996, pg. 64.

Groups further from the spotlight than Black Sabbath—such as Black Widow and Coven—could afford to be even more obsessive in their imagery. The English sextet Black Widow released three diaphanous Hard Rock albums between 1970–72, and later appear as a footnote in books that cover the history of occultism in pop culture. The chanting refrain of their song Come to the Sabbat evokes images of their concerts which featured a mock ritual sacrifice as part of the show. Beyond sketchy tales of such events, and the few recordings and photos they’ve left behind, Black Widow remains shrouded in mystery.

Coven are just as obscure, but deserve greater attention for their overtly diabolic album Witchcraft: Destroys Minds and Reaps Souls. Presented in a stunning gatefold sleeve with the possessed visages of the three band members on the front, the cover hints at a true Black Mass, showing a photo with a nude girl as the living altar. The packaging undoubtedly caused consternation for the promotional department of Mercury Records, the major label who released it, and the album quickly faded into obscurity. Today it fetches large sums from collectors, clearly due more to its bizarre impression than for any other reason. The songs themselves are standard end-of-the-‘60s Rock, not far removed from Jefferson Airplane; the infusion of unabashed Satanism throughout the album’s lyrics and artwork makes up for its lack of strong musical impact. In addition to the normal tracks, the album closes with a thirteen minute Satanic Mass.”

To the best of our knowledge, this is the first Black Mass to be recorded, either in written words or in audio. It is as authentic as hundreds of hours of research in every known source can make it. We do not recommend its use by anyone who has not thoroughly studied Black Magic and is aware of the risks and dangers involved.” Coven, Witchcraft, Mercury Records, SR 61239.

Coven included the attractive female lead singer Jinx as well as a man by the name of Oz Osbourne, who bore no relation to the British vocalist Ozzy. In an additional coincidental twist, the first track on the Coven album is titled Black Sabbath.”

Do what thou wilt shall be the whole of the law”

Stories persisted for a time of a planned Satanic Woodstock in the early ‘70s where Coven was to play as a prelude to an address by Anton LaVey, High Priest of the Church of Satan.”

King Diamond, the singer and driving force behind Mercyful Fate, one of the most important openly Satanic Metal bands of the ‘80s, acknowledges he received dramatic influences from a Black Sabbath concert he attended as a kid in his native Denmark in 1971. He also tells of finding inspiration from Coven’s lead vocalist Jinx: An amazing singer, her voice, her range… not that I stand up for the viewpoints on their Witchcraft record, which was like good old Christian Satanism. But they had something about them that I liked…

Anton Szandor LaVey made headlines when he founded the first official Church of Satan on the dark evening of Walpurgisnacht, April 30, 1966. The fundamentals of the Church were based not on shallow blasphemy, but opposition to herd mentality and dedication to a Nietzschean ethic of the antiegalitarian development of man as a veritable god on earth, freed from the chains of Christian morality.”

We played to skinheads and punks and hairies—everybody. Where some guy with long hair couldn’t come into a Punk gig, all of the sudden it was really cool to go to a Venom gig for anybody. That’s why the audience grew really quick and became very strong; they were always religiously behind Venom and they’ve always stayed the same.” Abaddon

I never thought we’d be able to enter a studio again after that because we were really dirty sounding. But it turned out that 85-90% of all the fan mail that came to the record company from that record (the compilation was titled Scandinavian Metal Attack) was about our songs. So the guy from the record company called me up and said, <Hey, you really need to put your band together again and write some songs, because you have a full-length album to record this summer>. (…) Everybody seems to think that I’m a megalomaniac with a big head or something, but it wasn’t really my fault —I should have been born in some place like San Francisco or London where I would have had a real easy time putting this band together.” Quorthon

Much of the explanation for this sound was simply the circumstances of recording an entire album in two-and-a-half days on only a few hundred dollars. The end result was more extreme than anything else being done in 1984 (save maybe for some of the more violent English Industrial <power electronics> bands like Whitehouse, Ramleh, and Sutcliffe Jugend) and made a huge impact on the underground Metal scene.”

Aplicável ao “projeto ATS”: “I’m not one inch deeper into it than I was at that time, but your mind was younger and more innocent and you tend to put more reality toward horror stories than there is really. Of course there was a huge interest and fascination, just because you are at the same time trying to rebel against the adult world, you want to show everybody that I’d rather turn to Satan than to Christ, by wearing all these crosses upside down and so forth. Initially the lyrics were not trying to put some message across or anything, they were just like horror stories and very innocent.”

Like any style hyped incessantly by the music industry, Thrash Metal’s days were ultimately numbered. The genre became too big for its own good and major labels scrambled to sign Thrash bands, who promptly cleaned up their sound or lost their original focus in self-indulgent demonstrations of technical ability.”

The whole Norwegian scene is based on Euronymous and his testimony from this shop. He convinced them what was right and what was wrong.”

Norway’s official religion is Protestantism, organized through a Norwegian Church under the State. This has deep historical roots and a membership encompassing approximately 88% of Norway’s population. However, only about 2-3% of the population are involved enough to attend regular church services. A saying goes that most Norwegians will visit church on three occasions in their lives—and on two of them, they will be carried in.”

An example of the conservative Christian influence in Norway was the banning of Monty Python’s classic comedy The Life of Brian as blasphemous. The amicable rivalry and fun-making between Norwegians and Swedes led to the movie being advertised in Sweden as <a film so funny it’s banned in Norway>.” “While America has figures like Edgar Allan Poe as a part of the literary heritage, and slasher movies are screened on National TV, Norway’s otherwise highly prolific movie industry has produced but one horror film in its 70-year history. Horror films from abroad are routinely heavily censored, if not banned outright. This taboo against violence and horror permeates every part of Norwegian media. In one case, Norwegian National Broadcasting stopped a transmission of the popular children’s TV series Colargol the Singing Bear on the grounds that the particular episode featured a gun.”

When denied something, one tends to gorge on it when access is finally gained. Black Metal adherents tend to be those in their late teens to early twenties who have recently gained a relative degree of freedom and independence from their parents and other moral authorities.” Aqui, ao contrário, o pré-adolescente se rebela e o adultinho adere ao sertanejo e forró, arrependido e tosado, quando não rebola no axé.

One strange aspect of the Black Metal mentality of the earlier days was the insistence on suffering. Unlike other belief systems, where damnation is usually reserved for one’s enemies, the Black Metalers thought that they, too, deserved eternal torment. They were also eager to begin this suffering long before meeting their master in hell.”

I think Norway, being a very wealthy country with a high standard of living, makes young kids very blasé. It’s not enough to just play pinball anymore. They need something strong, and Black Metal provides really strong impulses if you get into it.” Desse ponto de vista, era pro Aloísio virar o metaleirinho do mal e eu ser o normal dos 2, concentrado em objetivos “realistas”. Conquanto… o jovem frustrado acaba caindo de barriga no fascismo quando vislumbra o “poder-na-máquina” e sente que pode tocá-lo e participar dele… Bolsonaro é seu goregrind e nada lhe faltará!

A MAN’S DEAD BODY MUST ALWAYS HAVE BEEN A SOURCE OF INTEREST TO THOSE WHOSE COMPANION HE WAS WHILE HE LIVED…”

GEORGES BATAILLE, DEATH AND SENSUALITY

Do the names eerily reflect the karma of the personalities they denote? Or are the people destined to fulfill the fate foretold in titles they (ir)reverently adopt?”

Mayhem began in 1984, inspired by the likes of Black Metal pioneers Venom, and later Bathory and Hellhammer. Judging from an early issue of Metalion’s Slayer magazine, Aarseth initially adopted Destructor for his stage name as guitarist. The other members of the earliest incarnation of the band were bassist Necro Butcher, Manheim on drums, and lead vocalist Messiah. Not long after this Aarseth took on Euronymous as his own personal mantle—presumably it sounded less comical and more exotic than his previous pseudonym. His new name was a Greek title mentioned in occult reference books as corresponding to a <prince of death>.”

Mayhem played their first show in 1985. Their debut demo tape, Pure Fucking Armageddon, appeared a year later in a limited edition of 100 numbered copies. By 1987 someone called Maniac replaced the previous singer, whom Aarseth henceforth referred to as a <former session vocalist>, despite his appearance on the demo as well as the first proper release, that year’s Deathcrush mini-LP.” “Dead, the distinctive singer for the Stockholm cult act Morbid, joined Mayhem and moved to Oslo. A new drummer was found in Jan Axel <Hellhammer> Blomberg, one of the most talented musicians in the underground. Even with the mini-LP selling briskly, and Mayhem’s bestial reputation increasing, the band and its members remained dirt poor.”

Euronymous found him. We only had one key to the door and it was locked, and he had to go in the window. The only window that was open was in Dead’s room, so he climbed in there and found him with half of his head blown away. So he went out and drove to the nearest store to buy a camera to take some pictures of him, and then he called the police.” Hellhammer, the drummer

He just sat in his room and became more and more depressed, and there was a lot of fighting. One time Euronymous was playing some synth music that Dead hated, so he just took his pillow outside, to go sleep in the woods, and after awhile Euronymous went out with a shotgun to shoot some birds or something and Dead was upset because he couldn’t sleep out in the woods either because Euronymous was there too, making noises.”

It might sound a bit weird, but Mayhem was the band that everyone had heard of, but not many people had actually heard because they had released the demos which were quite limited and the mini-LP itself was very limited. But I was lucky because I knew Maniac, the vocalist, so he had some extra copies of the mini-album and he gave me one. I was very impressed because it was the most violent stuff I had ever heard, very brutal. I remember I thought that these people like Euronymous, Maniac, and Necro Butcher were very mysterious, because they didn’t do many interviews but they were always in magazines and I saw pictures of them. They had long black hair and you couldn’t see their faces, it was mysterious and atmospheric.” Bård Eithun

WHEN DID YOU FIRST MEET EURONYMOUS?

I met Euronymous and Dead at a gig in Oslo in 1989; it was an Anthrax concert and I met them outside”

Dead hated cats. I remember one night he was trying to sleep. A cat was outside his apartment, so he ran outside with a big knife to get the cat. The cat ran into a shed [galpão] and he went after it. Then you heard lots of noise, and screaming, and there was a hole in the shed where the cat came out again, and Dead ran after it with his big knife, screaming, hunting the cat, only dressed in his underwear. That was his idea of how to deal with a cat.”

I remember Aarseth told me, <Dead did it himself, but it is okay to let people believe that I might have done it because that will create more rumors about Mayhem>. (…) But he did use some stuff from the brain to make necklaces.”

There is a bootleg of the Sarpsborg show [1990] called Dawn of the Black Hearts: Live in Sarpsborg [vídeo?], released by someone in South America.” Metalion

That’s one thing about worshiping death—why worry when people die?”

I see Dead, people.

Where?

Oh, everywhere on the stage!

She told me that the first <plane> in the astral world has the color of blue. The earthly plane has the color of black. Then comes a gray that is very near the earthly one and is easy to come to. The next one further is blue, then it gets brighter and brighter till it “stops” at a white shining one that can’t be entered by mortals. If any mortal succeeds in entering it, that one is no longer mortal and can not come back to the earthly planes nor back to this earth.” Morto, o Místico

No one speaks ill of him, which is rare in such an insular and competitive realm as the extreme music underground. As many will testify, however, Aarseth appeared to feel little sorrow over the loss of Dead, instead glorifying his violent departure in order to cultivate a further mystique of catastrophe surrounding the band.”

This has nothing to do with black, these stupid people must fear black metal! But instead they love shitty bands like Deicide, Benediction, Napalm Death, Sepultura and all that shit!! We must take this scene to what it was in the past! Dead died for this cause and now I have declared war! I’m angry, but at the same time I have to admit that it was interesting to examine a human brain in rigor mortis. Death to false black metal or death metal!! Also to the trendy hardcore people… Aarrgghh!” Euronymous “manifesto”

Dead died wearing a white T-shirt with I ❤ Transylvania stenciled across it.”

if we ever come to, for example, India, the most evil thing that we can do there that I have in mind will be to sacrifice a holy cow on stage.” Euro.

HELL IS FULL OF MUSICAL AMATEURS;

MUSIC IS THE BRANDY OF THE DAMNED.”

GEORGE BERNARD SHAW, MAN AND SUPERMAN

I’d rather be selling Judas Priest than Napalm Death, but at least now we can be specialized within <death> metal and make a shop where all the trend people will know that they will find all the trend music.”

O que vocês fazer hoje, Cérebro Mole e Solto?

O que fazemos todas as noites, Blacky… Tentar conquistar o mundo para Satanás!

Aarseth also kept in touch with a growing number of extreme bands from outside Norway whom he likewise encouraged and made plans to release records by: Japan’s Sigh, Monumentum from Italy, and the bizarre Swedish entity Abruptum. Only a few of these schemes would ever be realized before Aarseth’s death, mostly because he was never cut out to be a businessman. He ran his label ineptly, and the capital to invest in new releases was simply not there.”

WHAT SORT OF IDEAS DID VARG HAVE WHEN YOU FIRST MET HIM?

He was a Devil worshiper and he was against Nazis, for reasons I don’t know, but that’s what he said. After the arrest in early ’93 then he got into this Nazi stuff.” Eithun

the shelves contained bands like Metallica and Godflesh.”

he had a specific taste for German electronic music like Kraftwerk.”

Politically, Aarseth was a long way from the nationalist and often pseudo-right-wing sentiments that are so prominent in Black Metal today. He proclaimed himself a communist, and for a while had been a member of the Rød Ungdom (Red Youth), the youth wing of the Arbeidernes Kommunist Parti (Marxist-Leninistene) —The Marxist/Leninist Communist Workers Party. Though rather few in number, the party had an appeal for intellectuals, including many prominent writers and politicians, and thus maintained a strong grip on Norwegian cultural life for many years. Rød Ungdom was aggressively anti-Soviet, and looked to China and Albania for inspiration. Despots like Pol Pot were also viewed as models of resistance against Western imperialism.”

Some of the treasured objects in his collection were heroic photographs of Nicolae Ceaucescu, the former dictator of Rumania and one of Aarseth’s idols. <Albania is the future>, he would muse to anyone willing to listen.”

Varg came to Oslo for a time and moved into the basement of the record shop, living in the barren space there along with Samoth, the guitarist of Emperor.”

On the second Burzum release, Aske (Ashes), bass playing would be done by Samoth, but with this sole exception Vikernes maintained his project entirely alone.”

Very few such corpse-painted portraits of Vikernes exist—the fashion seems to be something more particular to Aarseth. If it is true that Vikernes introduced the ideology of medieval-style Devil worship to Norwegian Black Metal, it must be also acknowledged that not a moment was lost before Aarseth began trumpeting it as his own.”

As many as 1,200 stave churches may have existed in the early Middle Ages; only 32 original examples survived in the second half of this century. That total has since been revised to 31.”

News of the destruction of one of Norway’s cultural landmarks made national headlines. It would not be long before other churches began to ignite in nighttime blazes. On August 1st of the same year the Revheim Church in southern Norway was torched; twenty days later the Holmenkollen Chapel in Oslo also erupted in flames. On September 1st the Ormøya Church caught fire, and on the 13th of that month Skjold Church likewise. In October the Hauketo Church burned with the others. After a short pause of a few months’ time, Åsane

Church in Bergen was consumed in flames, and the Sarpsborg Church was destroyed only two days later. In battling the blaze at Sarpsborg a member of the fire department was killed in the line of duty. Some would later consider this death the responsibility of the Black Circle.” “The authorities are reluctant to discuss the details of many of these incidents, fearing that undue attention may literally spark other firebugs or copycats to join the assault which Vikernes and his associates began in 1992.”

In eleventh-century England, arson was a crime punishable by death. Later, during the reign of King Henry II, a person convicted of arson would be exiled from the community after they had suffered the amputation of one hand and one foot.”

Lewis & Yarnell – Pathological Firesetting

True pyromaniacs tend to have a sexual impulse behind their action, according to psychologist Wilhelm Stekel, whose Peculiarities of Behavior covers the affliction in detail.”

It’s not a Satanic thing, it’s a national heathen thing. It’s not a rebellion against my parents or something, it’s serious. My mother totally agrees with it. She doesn’t mind if someone burns a church down. She hates the Church quite a lot. Also about the murder (of Østein Aarseth), she thinks that he deserved it, he asked for it. So she thinks it’s wrong to punish me for it. There’s no conflict between us at all about these things. The only thing she disliked was that I liked weapons and wanted to buy weapons, and suddenly she got a box of helmets at her place because I ordered them! Bulletproof vests, all this stuff…” Varg

TEENAGERS GONNA TEEN:

I said, I know who burned the churches, to the journalist, and I was making a lot of fun with him because we told him on the phone, we have a gun and if you try to bring anybody we’ll shoot you. Come meet me at midnight and all this, it was very theatrical. He was a Christian, and I fed him a lot of amusing info. Very amusing! Of course he twisted the words like usual. After he left we lay on the floor laughing.

We thought it would be some tiny interview in the paper and it was a big front page. The same day, an hour or so after I talked to him on the phone, the police came and arrested me. That was why I was arrested. I didn’t tell them anything. I talked to the police that time and I told them, I know who burned the churches —so what? They tried to say, We’ve seen you at the site, and all this, and I said, No you haven’t!

I’d already killed a man so it’s okay to be involved in this too, to burn down a church.” Eithun

VON [americana] were merely an obscure group who managed to release one raw-sounding demo tape, Satanic Blood, which became legendary within the Norwegian scene.” O primeiro full length (Satanic Blood, idem) dos caras é de 2012!

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IMAGEM 1. Kerrang!, 27/03/1993

The Kerrang! exposé is also notable as it appears to be the first media story which labels the Black Metal scene as <neo-fascist>. Arnopp quotes members of Venom and mainstream UK Metal band Paradise Lost (who the article claims were haphazardly attacked by teenage Black Metalers while on tour in Norway), referring to the Satanic Terrorists as Hitlerian Nazis.”

I support all dictatorships—Stalin, Hitler, Ceaucescu… and I will become the dictator of Scandinavia myself.” V.V. Mau-Mau

I didn’t care much about the value of human life. Nothing was too extreme. That there were burned churches, and people were killed, I didn’t react at all. I just thought, Excellent! I never thought, Oh, this is getting out of hand, and I still don’t. Burning churches is okay; I don’t care that much anymore because I think that point was proven. Burning churches isn’t the way to get Christianity out of Norway. More sophisticated ways should be used if you really want to get rid of it.” Ihsahn (Emperor)

I told them, why not burn up a mosque, the foreign churches from the Hindu and Islamic jerks—why not take those out instead of setting fires to some very old Norwegian artworks? They could have taken mosques instead, with plenty of people in them” Hellhammer o Batera

The epidemic mostly afflicted poor black churches in the South (States), and public outrage against a presumed conspiracy of racist terrorism resulted in the President’s formation of a National Church Arson Task Force in June, 1996. The Task Force has since concluded that no nationwide conspiracy exists, and suspects arrested in relation to the the fires have been blacks and Hispanics as well as whites. The motives in specific incidents have ranged widely, from revenge to vandalism to racial hatred.”

I understood that he was a homosexual very quickly. He was asking if I had a light, but he was already smoking. It was obvious that he wanted to have some contact. Then he asked me if we could leave this place and go up to the woods. So I agreed, because already then I had decided that I wanted to kill him, which was very weird because I’m not like this—I don’t go around and kill people. (…) He was walking behind me and I turned and stabbed him in the stomach. After that I don’t remember much, only that it was like looking at this whole incident through eyes outside of my body. It was as if I was looking at two people who were having a fight—and one had a knife, so it was easy to kill the other person. If something happens that is obscure, it’s easier for the mind to react if it acts like it is watching it from outside of yourself.” Eithun

The bizarre duo Abruptum (SUE), who allegedly recorded their music during bouts of self-inflicted torture, was praised by Aarseth as <the audial essence of Pure Black Evil>. He released their debut album Obscuritatem Advoco Amplectère Me on Deathlike Silence in 1992. Østein had also managed, with financial assistance from Varg Vikernes, to release the first Burzum CD on DSP. The second Burzum effort, Aske, was released in early 1993, some months after the burning of the Fantoft Stave Church. It was around this time, in the first months of the year, that bad blood arose between Vikernes and Aarseth. Their disagreement appears to come at the same period when Øystein was also arguing with members of the Swedish scene, causing a general animosity to surface between Black Metalers in the two neighboring countries.” “There was a certain degree of cooperation between the two groups, but the recent frictions had been strong enough that when Øystein Aarseth was found slaughtered in the stairwell of his apartment building on August 10, 1993, the initial suspicion of many was directed at the Swedes.”

People who never knew what Black Metal was, or Death Metal, or Metal at all, were attracted to this because they thought it was cool. People who never knew Grishnackh and never knew Euronymous. Oh yeah, Black Metal—that’s the new thing. There were so many new bands starting at this time in ’93 who were influenced by the writing in the newspapers.” Metalion

Aarseth had been forced to close the Helvete store a few months earlier, due to overwhelming attention from the media and police after the initial Black Metal church fire revelations. His parents were upset about all the negative publicity and, since they had helped him finance the shop, they successfully leaned on him to shut it down. Vikernes sarcastically points out how Aarseth’s inconsistent nature often resulted in deference to his parents’ wishes instead of adhering to the black and <evil> image he supposedly embodied: <Øystein once came to one of the newspapers wearing a white sweater, and later apologized to the scene, in case he had insulted anybody! It was all because of his parents. He was 26 years old!>

Øystein owed Varg a significant sum of royalty payments from the Burzum releases on Deathlike Silence, although given the poorly-run nature of the record label, this was hardly unusual or unexpected. Vikernes denies there was any monetary motive behind his actions. Others claim the attack came about as a result of a power struggle for dominance of the Black Metal scene, although astute insiders like Metalion are skeptical: That’s stupid reasoning, because you can’t expect to kill someone and have everyone think of you as the king and forget about him. That’s very, very primitive. It’s something more than that, I think.“Also Grishnackh’s mother paid for the studio recording of the first album, and Euronymous owed her money which she was supposed to get back.”

When he was sitting in his shop drinking Coca-Cola and eating Kebab from the Paki shop next door, it was all our money he bought everything with. It was dishonest pay. He was a parasite. Also he was half Lappish, a Sami, so that was a bonus. Bastard!” V.

They told the police they heard a woman screaming! I was laughing when I read about it. He ran away, pressing the doorbells and calling Help!

Bam! he was dead. Through his skull. I actually had to knock the knife out. It was stuck in his skull and I had to pry it out, he was hanging on it—and then he fell down the stairs. I hit him directly into his skull and his eyes went boing! And he was dead.”

NONE OF THE NEIGHBORS OPENED THEIR DOORS?

They didn’t dare. They thought it was some drunken fight. It’s the worst neighborhood in Oslo—60% colored people.”

When three people are going to tell the same story to the police, in interrogations lasting seven hours, it will go to hell.” Snorre Ruch, o Cúmplice

Varg was saying that what Bård had done was uncool, but inside the scene Bård’s actions commanded respect.”

The truth of the matter is that Snorre had shortly before joined Mayhem as a second guitar player. It is difficult to believe that he could have cared less about killing the founder of the band he was in—doubly difficult given Mayhem’s position as such a legendary group in the underground. In hearing his and Vikernes’s versions of the story, both are flawed. With his history of mental problems, one far-fetched explanation may be that Snorre was too daft to comprehend what he was actually participating in.”

The only foolish thing I did and the only thing I regret, is not killing (Snorre) as well. If I’d killed him as well I would not have gotten any more punishment if I was caught, and secondly, I wouldn’t have been caught. That’s what I regret.”

What is striking about members of the Scandinavian Black Metal circles in general is how little they cared about the lives or deaths of one another. When Dead killed himself, it became merely an opportunity for Aarseth to hype Mayhem to a new level. When he himself died violently two years later, his own bandmates speak of the killing with a tone of indifference more suited to a court stenographer.”

With the exception of Darkthrone, the major Norwegian Black Metal bands were now in hiatus, their key members facing prison sentences for arson, grave desecration, and murder. The legal proceedings that would follow disrupted the entire scene and pitted different factions against one another. People felt forced to choose sides: pro-Vikernes or pro-Euronymous. At this point a cult developed around the memory of Euronymous, hailed as <the King> or <Godfather of Black Metal>. As many have commented in the preceding interviews, much of this was hyperbole, emanating from a second generation of musicians trying to gain credibility by riding on the back of the legend of Aarseth’s Black Metal legacy.”

He simply refused to cooperate with the authorities, and maintained he was innocent until proven guilty. He followed the advice of his lawyer and never testified in court. The same cannot be said of the other offenders, most of whom confessed in detail once they were pressured by the police. On the one hand, this is understandable given their young age, relative naivety, and fear of worse punishments if they refused to admit their wrongdoing.”

ERROS E PUERILIDADES DA POLÍCIA NORUEGUESA: “Especially difficult to take seriously is the alleged calendar of <Satanic holy days> reprinted in the report, with many of the dates involving the sexual molestation of minors—something that is strongly condemned by all established Satanic organizations. And while it might be argued that fringe religious phenomena like Satanism are often so bewildering that it’s hard to accurately assess their practices, even complete novices in the study of New Religious Movements should begin to suspect something is wrong when they see references to dates that don’t exist, such as April 31. Unless, of course, Satanists are so evil that they follow their own calendar.” ZAGALLO (OLLAGAZ) AMOU.

Kirkebranner og satanistisk motiverte skadeverk also refers to stories that never really reached the media when the Satanic furor was at its height.”

But despite his smart-ass remarks and mental capabilities, Vikernes was no match for the seasoned investigators of the Kripos [FBI norueguês]. He sensed that the police net was tightening around him and that he was no longer in control of the situation, especially as the Oslo police dispatched its Church Fire Group to Bergen in 1993 to follow the goose steps of the Count and his subjects around Bergen.”

Lendas a respeito de Vikinho: “Vikernes knocked on the door of the police investigation’s impromptu headquarters in Room 318 of the Hotel Norge in Bergen, and seems to have virtually forced his way into the suite.”

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The word Varg has a great meaning for me. I could speak about this matter for an hour.”

Grishnackh is an evil character on the side of Sauron.”

That’s typical trial bullshit. Like my psychiatrists who examined me, one of them was a Jew and a Freemason! The other was a communist. My lawyer was a homosexual. The other lawyer was a Freemason. The one single Christian faith healer in Norway was in the jury! Can you imagine? In other words, a person who says, I can look through you and with the power of Jesus pull out the evil spirits who make you sick!

There is one person who has always stood by Varg’s side and spoken out rigorously in his defense: his mother Lene Bore. Not only has she attempted to improve the public perception of her son, she also visits him frequently, helps him deal with correspondence, and assists in business matters relating to Burzum.

A number of Burzum albums have been released since his imprisonment and all have sold admirably well on the worldwide market. Royalties for the record sales are received by Lene Bore, a fact that allegedly allowed for the development of serious trouble in the future. Lene Bore also helped provide the money for recording and releasing the early Burzum releases on Aarseth’s Deathlike Silence label, and as a result she had occasion to meet a number of Varg’s friends in the Black Metal scene. Her comments are interesting, for she has dealt with an amazing amount of unrest as a result of her son’s actions over the years, and some of her impressions of Varg’s life are quite different from his own.”

YOUR FAMILY SPENT A YEAR IN IRAQ. WHAT WAS THIS LIKE FOR VARG?

I think it might be here that Varg’s dislike toward other peoples started. He experienced a very differential treatment. The other children in his class would get slapped by their teachers; he would not be. For example when they were going to the doctor, even when there were other children waiting in line, Varg would be placed first. He reacted very strongly to this. He could not understand why we should go first when there were so many before us. He had a very strongly developed sense of justice. This created a lot of problems, because when he saw students being treated unfairly, he would intervene, and try to sort things out.”

DID VARG’S RACISM INTENSIFY AT A CERTAIN POINT?

If he had racist tendencies to begin with, I am sure that they came to the surface when he lived in Oslo.”

LONG-HAIRED SKINHEADS: “It’s difficult to say. When I was three years old we moved to a road named Odinsvei, Odin’s Walk, and we were playing with the neighbor. He had German toy soldiers, but he always wanted to have the American soldiers, because they were the big heroes in his view. So I ended up with the German soldiers, as he was five years older than I. And I actually came to like them. It developed from soldiers to running around with SS helmets and German hand grenades and a Schmeizer with a swastika on it. In time we tried to figure it out —what the hell does this mean? That’s how it really began, and it developed. I was a skinhead when I was 15 or 16. Nobody knows that. People say that suddenly I became a Nazi, but I was actually a skinhead back then. It was in waves—in ‘91 I was into occultism, in ‘92 Satanism, in ‘93 mythology and so on, in waves.

WHAT ABOUT YOUR FATHER?

I have very little contact with him. They’re divorced. He left about ten years ago. There wasn’t any big impact. I was glad to be rid of him; he was just making a lot of trouble for me, always bugging me. He was in the Navy. We were raised very orderly; it was a good experience. I had a swastika flag at home and he was hysterical about it. He’s a hypocrite.¹ He was pissed about all the colored people he saw in town, but then he’s worried about me being a Nazi. He’s very materialistic, as is my mother really, but that’s the only negative thing I can say about her.² The positive thing is that she’s very efficient, and in business I have to have someone take care of my money and I can trust her fully. I know she will do things in the best way.”

¹ Yeah, that prettily sums it up for all of us – satanists, pagans, nihilistics, depressed, guilty or innocent boys… with bad dads! Apenas troca “Nazi” por “PT” e “pessoas de cor” por “corrupção” (que ele pratica) e aí tens.

² This is war! UHHH

WHAT WAS SCHOOL LIKE?

It was an Iraqi elementary school. The English school couldn’t take us because they were full. I went to a regular Iraqi school. I could use some basic English. I think it was my mother’s idea, because she didn’t want us to stay home, bored. We couldn’t go out too much because of the rabid dogs and all this, so she put us in school, just to keep us active.”

In Bergen it’s a more aristocratic society I was part of, because of my mother mainly. I had very little contact with colored people, really. In Bergen we are still blessed with having a majority of whites—unlike Oslo, which is the biggest sewer in Norway.”

When I was a skinhead there still weren’t any colored people, but there were these punks—that was more the reason I went over to the other side.” He-he

We liked the Germans, because they always had better weapons and they looked better, they had discipline. They were like Vikings. The volunteers from America were tall, blond guys, who looked much more like the ones they were attacking than some Dagos who were waving them good luck when they left home. It’s pretty absurd.”

Our big hope was to be invaded by Americans so we could shoot them. The hope of war was all we lived for. That was until I was 17, and then I met these guys in Old Funeral.”

WHAT INFLUENCED YOU TOWARD THAT?

I got interested in occultism through other friends. We played role-playing games, and some of these guys (all older than me) started to buy books on occultism, because they were interested in magic and spell casting. They showed me the books and then I bought similar things. But the music guys weren’t interested in that stuff at all, they only cared about food. [QUE PORRA É ESSA? HAHA]

WHAT WAS THE MUSIC LIKE?

Originally it was Thrash Metal, and then it became Death-Thrash or Techno-Thrash, and I lost interest. I liked the first Old Funeral demo. It had ridiculous lyrics, but I liked the demo and that was why I joined with them. They developed into this Swedish Death Metal trend; I didn’t like that so I dropped out. But I played with them for two years.” The fart(Varg) that should’ve been.

We were drawn to Sauron and his lot, and not the hobbits, those stupid little dwarves. I hate dwarves and elves. The elves are fair, but typically Jewish—arrogant, saying, We are the chosen ones. So I don’t like them. But you have Barad-dûr, the tower of Sauron, and you have Hlidhskjálf, the tower of Odin; you have Sauron’s all-seeing-eye, and then Odin’s one eye; the ring of power, and Odin’s ring Draupnir; the trolls are like typical berserkers, big huge guys who went berserk, and the Uruk-Hai are like the Ulfhedhnar, the wolfcoats. This wolf element is typically heathen. So I sympathize with Sauron. That’s partly why I became interested in occultism, because it was a so-called <dark> thing. I was drawn to Sauron, who was supposedly <dark and evil>, so I realized there had to be a connection.”

Just like democracy claims to be <light> and <good>, I reasoned that then we obviously have to be <dark> and <evil>.” J.R.R. se revira no túmulo.

SALADA DE MAIONESE ESTRAGADA NA CAIXA ENCEFÁLICA: “I never said I will become the dictator of Scandinavia myself. I did say that I support Stalin, Hitler, and Ceaucescu, and I even said that Rumania is my favorite country—an area full of Gypsies! But the point is that Rumania is the best example of communism, and when people can realize how ridiculously the whole thing works, they can see what it really is. (…) It may be a provocative way to say it, but if there wasn’t Stalin, Hitler would look even worse. Now at least we can say, look at Stalin—he’s worse. He killed 26 million.”

Well, there was a T-shirt that Øystein printed which said <Kill the Christians.> I think that’s ridiculous. What’s the logic in that? Why should we kill our own brothers? They’re just temporarily asleep, entranced. We have to say, <Hey, wake up!> That’s what we have to do, wake them up from the Jewish trance. We don’t have to kill them—that would be killing ourselves, because they are part of us.”

He was at first allowed a computer, which he used for correspondence and for the preliminary texts which would form his nationalist heathen codex. Some of the essays he composed were forwarded to correspondents and began to appear in underground publications around Europe. Most of these concerned his investigations into the esoterica of Nordic mythology and cosmology. At a certain point, after he had compiled a large portion of his book, the prison authorities decided to take away his computer; presumably they were worried he was somehow employing it for nefarious ends.” “By titling his treatise Vargsmål, Vikernes seeks to place himself in mythic lineage as a modern-day figure worthy of the ancient sagas.” “The official publication of Vargsmål would only come about years after it was written. With Varg’s front-page notoriety there were certain publishers interested in releasing the book, obviously figuring to make a quick buck on the sensationalism that could be generated, but it appears that most backed out when they had a chance to review the actual contents. In addition to mythological commentary, the book brims with volatile statements and racial, anti-Christian, nationalist rhetoric.”

I would like to find a woman to live with in peace and quiet, far away from the world’s problems, but I cannot. It is my duty to sacrifice myself and my personal wishes for the benefit of my tribe.” He-he

Varg Vikernes serves the role of a pariah and heretic to Norwegians, similar on a number of levels to that of Charles Manson in America. Both profess a radical ideology at odds with, and at times unintelligible to the average citizen. Both insist they have done nothing wrong. Both espouse a revolutionary attitude, imbued with strong racial overtones. Both have become media bogeymen in their respective countries, and both knowingly contribute to their own mythicization. Both also understand well the inherent archetypal power of symbols and names—especially those they adopt for themselves.”

With his increasing nationalism, Vikernes has discovered his predecessor in Vidkun Quisling, the Norwegian political leader who founded a collaborationist pro-German government in the midst of the Second World War. Quisling was tried and executed for treason shortly after the war’s end. As a result his name has entered international vernacular as a synonym for <traitor>. In Norway, that name is still anathema even today.” Quisling – That Inhabited Worlds Are To Be Found Outside of the Earth, and the Significance Thereof for Our View of Life, o manifesto deste idiota.

Norway’s conversion to Christianity, made possible by St. Olav’s death as a martyr at Stiklestad, was described by Jacobsen [dissidente do quislinguismo, ainda mais extremista] as the introduction of <something false and unnatural into our folk’s life>. It was therefore logical for him to condemn Quisling’s adoption of the St. Olav’s cross as the NS symbol, declaring that the party symbol itself was non-Nordic.”

He lamented not being able to legally register his own religious organization in Norway due to his criminal record. Toward this goal he has, however, formed the Norwegian Heathen Front, a loosely knit operation through which he will issue propaganda. The members of German Black Metal band Absurd, also currently behind bars, are involved with a branch of the organization in their country.” Além de ideólogos degenerados, péssimos músicos. Um absurdo, literalmente.

he plans to employ his philosophy on the nature of women as a basis for NHF strategy. His awareness of the woman’s role in revolutionary activities is not unlike that of Charles Manson before him, although Vikernes claims to have arrived at it from personal observation during his Black Metal period.”

A PSICOLOGIA INFANTO-JUVENIL DO FASCISMO: “The groundwork of the Black Metal scene is the will to be different from the masses.¹ That’s the main object. Also girls have a very important part in this, because they like mystical things and are attracted to people who are different, who have a mystique.² When a girl says <Look how cute he is> when she sees a picture of someone, her male friends will think <She likes him. If I look like him maybe she will like me as well.> They turn toward the person she admires.² The way to make Norway heathen is to go through the girls, because the males follow the girls.³” Varg

¹ Baudrillard diria: Coitado, ele ainda está preso às concepções socialistas-revolucionárias! As massas não são nada conceituável, ou são tudo, não há relação binária passível de ser feita entre massa e não-massa, não é simples assim. Não mais. Mas sendo a massa o advento inevitável do mundo moderno decadente, negar a massa como os neo-pagãos presumem, seria negar a vida, e não reafirmá-la, como pensam os Anti-Nazarenos.

² Gado demais. Boi ou vaca.

³ No Brasil atual isso seria mais condizente com tornar-se funkeiro. Mundial e macroscopicamente falando, talvez aderir ao k-pop.

Males aren’t extreme really. You find females are more to the left or more to the right than the males. Females are more communistic, more extremely Marxist-Leninist, or more extremely rightist than the males.”

In Oslo everybody fucks everybody in the scene. If one person gets a venereal disease, everyone does. The females I know in the Black Metal scene are not very intelligent, they are basically just whores. That’s a typical Oslo phenomenon.

The people I correspond with are not Black Metal girls at all. Some of them were, but they realized that I don’t like it and then they realized they didn’t really like it either. They were just doing it because they wanted to get in touch with certain people. The way to power is through the women. Hitler knew this as well. Women elected Hitler.”

O TRAPÉZIO DOS MÍMICOS: “Ironically, while Vikernes’s name is more or less synonymous with Black Metal, he takes great care to distance himself from that musical milieu. He even now claims the early Burzum releases—records regarded today as milestones of the genre—never were Black Metal music at all, instead classifying them as <standard, bad Heavy Metal>. He passionately distances himself from all forms of Rock and Roll, stressing that Rock’s roots in Afro-American culture make it alien to white people.”

Presently, Vikernes is no longer even permitted to listen to CDs. The only music he is currently allowed to experience must come via MTV—something which, in his case, might be considered a cruel and unusual form of punishment.”

Denied a musical outlet, Vikernes has focused his strong creative drive on writing. His output has encompassed political tracts, a book on mythology called Germansk Mytologi og Verdensanskuelse (Germanic Mythology and Worldview), and fiction, including a short novel. His fictional works can be compared to the infamous neo-Nazi novels Hunter and The Turner Diaries, in the sense that much of it functions as a dramatization of National Socialist rhetoric. Vikernes seems to be slightly more aware of his literary limitations than the late author of the aforementioned books, Dr. William Pierce (a former physics professor who became director of the American racialist political group the National Alliance), who makes his characters’ tender pillow-talk read like political sermonizing.”

In the early days of the Heathen Front, the organization’s mailing address was one and the same with Vikernes’s private P.O. box prison address. This would, of course, mean that any prospective members would have their letters read and, one presumes, registered by the authorities. And this actually strengthens the Heathen Front’s assertion that Vikernes is not the leader: it would be very hard for him to do an effective job of it. Whatever his official role may be, Vikernes certainly has left a strong mark on the Heathen Front. Its program was written by Vikernes, and this is a mix of rather orthodox National Socialist doctrine and neo-Heathen, anti-Christian ideas, along with some emphasis on environmentalism.” “The Allgermanische Heidnische Front [subdivisão do já irrelevante Heathen Front] and its subdivisions in Norway, Sweden, Belgium, Denmark, Holland, Iceland, Germany, and Sweden (with <affiliated subdivisions> in Russia, Finland, and the USA) are probably little more than Internet tigers. While the AHF’s policy of concentrating on producing web pages might be a bid to attract [“““]intellectually[”””] inclined youthful recruits rather than the streetfighters that make up much of the younger rank-and-file of other European National Socialist organizations, the focus on the Internet may have a more pragmatic motive.

One of the wonders of the Internet is that, in theory, a single person with a little know-how, a modem, and an acceptable computer can create web pages just as impressive as those of any huge organization. And, still theoretically, a loose group of e-mail correspondents across Europe can take on the appearance of a tremendously organized international network. In addition to its functioning as a political equalizer, the added attraction to all this is that Net know-how is mainly the field of younger people—exactly the sort the AHF has aboard. But while Vikernes’s network might theoretically consist of one teenage computer nerd per country, each still living in his parents’ house, such an estimation would probably be way off the mark. So how real is the AHF?” “whether the AHF will be noticed in the future probably depends most on if it can succeed at recruiting young Burzum fans (its most realistic recruitment base) into political activism—or at providing a conduit for them into more militant groups and scenes.” Cenário pouco auspicioso para a “organização”.

He also explains their recruiting strategy: <We don’t approach the great masses, but rather let individuals from the masses approach us instead. This is probably why so many see us as an ‘Internet project’ or as inactive and passive.> braço sueco

National-Socialists in Sweden are as much a minority as they are everywhere else, and young activists are likely to rub brown-shirted¹ shoulders with members of other groups in informal settings like concerts, meetings, and parties.”

¹ Essencialmente, <Juventude Hitlerista>, qualquer grupo paramilitar subversivo de extrema-direita – análogo aos camisas-negras para a Alemanha.

while the Third Reich was in some ways a modern welfare state (at least for those whose blood and ideology were in line with NS doctrines), Vikernes asserts that military veterans who are disabled in future wars for the greatness of Germania should commit suicide rather than be a burden on the resources of the Nation.”

SS

solo sangue Scandinavia

The journal Kulturorgan Skadinaujo appears to be the work of young students, some of whom have adopted an academic writing style. Though the fanzine-style musings that occasionally appear in its pages detract from its academic tone, the main reason why Skadinaujo seems doomed to fail as a scholarly venture is the fact that it reviews books like the pseudo-archaeology of Graham Hancock side by side with properly executed scholarly works. The end result is hardly something to show your professor.”

He has taken to interpreting the Old Norse texts as proof of—or at the very least circumstantial evidence for—contact between humans and extra-terrestrials in ancient times.”

And in the same way that Hymir sent all his trolls out to wreak revenge on Thor for having gone fishing and catching the Midgard Serpent in one of the most well-known of the Norse myths, a war was waged on Atlantis. After the conflict, the island sank into the ocean and the Aryans sought refuge on other continents, where they eventually mixed with lower races of men. The Atlantean Aryans only survived as a pure race in Northern Europe, where they can produce children like Vikernes: blonde, blue-eyed, and long-skulled.”

LIGANDO LÉ COM CRÉ E NO KIBE DANDO RÉ: “Thor had red hair, but all our ancestors had blonde hair prior to the degeneration of the Viking Age. [?] But the planet Jupiter is the colour of rust! [?] And Thor protected men against uncontrollable natural forces, just like Jupiter’s gravitation protects earth. […] Why does Thor have a belt of strength? Does not Jupiter have a ring around it? [??]”

The roots of Nazi preoccupation with flying saucers are complex, and date back to before the Second World War. Clear indications exist that the Third Reich had a program for developing flying saucers as part of its war machine.” Legal, salvou meu dia.

After the war, the UFO myth entered the subconscious of the West, with the rumored UFO crash at Roswell and alien abduction stories becoming standard features in modern folklore. And while many of the contemporary myths dramatized by the tremendously successful TV series The X-Files might seem fantastic, the strangest ideas are the ones that people actually seem to believe in.”

While the circumstances that led to the creation of the book [ufologia babaca envolvendo a tribo Africana dos Dogon!] are convoluted (as any arguments dealing with ancient astronauts invariably are), at the root of the mystery lie the writings of the French anthropologists Marcel Griaule and Germaine Dieterlen, who did research on the Dogon in the 1930s. Twenty years later, the Frenchmen published their story of how the Dogon had revealed this astronomical knowledge about Sirius (Sigu Tolo in the native language) to them.

But other anthropologists who later visited the area have been unable to find the same astronomical knowledge circulating among the Dogon, and the most realistic hypotheses seem to be that the one Dogon informant who divulged the information to the two Frenchmen either learned his Sirius lore from earlier visitors (of the human variety), or indeed from Marcel Griaule himself, a keen astronomy fan who took along star-charts to help extract information. Either wittingly or unconsciously, the Dogon native might have had this knowledge transferred to him from his interviewer—or else Griaule overemphasized what was passed to him through his interpreter, thus finding exactly what he wanted to. Furthermore, many of the Dogon’s astronomical <facts> are just plain wrong.

In the world of the pop esotericism, however, the fact that claims are exposed as lackluster or even fraudulent often has little bearing on their continuing distribution via the myriad magazines and bookshops that cater to alternative ideas.”

Sitchin was first attracted to this peculiar field of research because he was puzzled by the Nefilim, who are mentioned in Genesis, 6. There, the Nefilim (also spelled Nephilim) are described as the sons of the gods who married the daughters of Man in the days before the great flood, the Deluge. The word Nefilim is often translated as <giants>, meaning that the Old Testament asserts there were days when giants walked upon the earth. If this sounds a bit like the occult narrative of Varg Vikernes, it only becomes more so when Sitchin claims that the correct and literal meaning of the word Nefilim is <those who have come down to earth from the heavens>. [eram filósofos: viviam com a cabeça nas nuvens!] Fallen angels procured the daughters of men as mates, which Sitchin takes to mean that the space-farers mixed their superior DNA with that of primitive mankind, leading to a quantum leap in human genetic and cultural evolution which spawned the blossoming Mesopotamian cultures.” Tão crível seria a hipótese de que caiu um meteorito radioativo na Terra e fez com que gorilas e chimpanzés entrassem em acelerada mutação – com mortalidade de virtuais 100%… Os escassos sobreviventes desta hecatombe ecológica, entretanto, viriam a ser Prometeus… Cof, cof.

IS THERE A SPECIAL CONNECTION BETWEEN NATIONAL-SOCIALISM AND UFOs?

DR. MICHAEL ROTHSTEIN [cético que estuda gente que acredita em OVNIs]: In certain ways, yes. Nazism has always had some kind of relation to the occult and certain Nazi groups (often outside the actual Nazi parties) have made a special point out of it. However, this really is fringe stuff [indie, marginal]. What is more interesting is the fact that UFOs on many occasions have been interpreted as devices developed by Nazi scientists, as German secret weapons. This is, I believe, more interesting than notions of clones of Hitler hiding under Antarctica in huge UFO-related facilities. Nazis are in many ways the demons of the modern world, at least most people find them disgusting and dangerous, and any association between the bewildering UFOs and these groups points to a certain understanding of UFOs as sinister or demonic.”

As long as people wish to believe, they will readily accept authorities that support their beliefs. The phenomenon is not that Von Däniken is able to persuade people of anything. The phenomenon is that people want Von Däniken to provide material for them to believe in. Furthermore, this is not in itself a <far-out> belief. Any belief in things out of the ordinary could be considered <far out>: God, for instance, or the Resurrection of Christ, flying yogis, whatever.”

As hinted by Rothstein, one of the most unusual marriages of UFO lore and National Socialism is the idea that the Third Reich is alive and well under the Antarctic ice-cap, keeping watch over the world by means of its flying saucers and waiting for the day to return and free the world from Zionist bankers, communists, and other enemies of the Aryan race.” “The most eloquent spiritual representative of such ideas in the present day is the Chilean dignitary and author Miguel Serrano [1917-2009], a former diplomat (to India, Yugoslavia and Austria) who counted both Carl Jung and Herman Hesse [curiosamente, anti-nazi notório – autor da novela Steppenwolf] among his circle of friends.” Serrano – C.G. Jung and Hermann Hesse: A Record of Two Friendships (1965) (original: El círculo hermético, de Hesse a Jung)

Mattias Gardell is a lecturer in religious anthropology at the University of Stockholm. He has studied radical religions extensively, and is the author of a book on the Nation of Islam, Countdown to Armageddon. His latest research project has involved a year of travelling around North America and interviewing figures involved in the neo-Nazi and Ásatru movements, two milieus that sometimes overlap—and especially so in the case of Varg Vikernes.”

Such ideas of blood as a carrier of hereditary information are common in Nazi circles, and can in some way be compared to Carl Jung’s theory of the collective unconscious.”

Their law of the strong scorns pity as a four-letter word; they await the day it is banished from the dictionaries. They despise doctrines of humility. Christ’s Sermon on the Mount is even worse poison to their ears. War is their ideal, and they romanticize the grim glory of older epochs where it was a fact of life. Where is the source for such a river of animosity and primal urges? Did torrents of hatred arise simply from the amplification of a phonograph needle vibrating through the spiralled grooves of a Venom album? Is Black Metal music possessed of the inherent power to impregnate destructive messages into the minds of the impressionable, laying a fertile seed destined to sprout into deed? To an enlightened mind it would seem unlikely.”

After reading a number of similar texts by Varg Vikernes, the Austrian artist and occult researcher named Kadmon was inspired to investigate in detail what enigmatic connections might exist between the phenomena of modern Black Metal and the ancient myths of the Oskorei. The Oskorei is the Norse name for the legion of dead souls who are witnessed flying, en masse, across the night sky on certain occasions. They are rumored to sometimes swoop down from the dark heavens and whisk a living person away with them. This army of the dead is often led by Odin or another of the heathen deities. Throughout the centuries, there are many reports from people who claim to have experienced the terrifying phenomenon—they attest to having seen and heard the Oskorei with their own eyes and ears. The tales of the Oskorei also refer to real-life folk customs which were still prevalent a few hundred years ago in rural parts of Northern Europe.” “noise, corpse-paint, ghoulish appearances, the adoption of pseudonyms, high-pitched singing, and even arson.”

In German folklore, stories of the Oskorei correspond directly to the Wild Hunt, also termed Wotan’s Host. Wotan (alternately spelled Wodan) is the continental German title for Odin, Varg Vikernes’s <patron deity>”

Gyldendal’s Store Norske Leksikon (The Large Norse Encyclopedia)

O SATÃ DE VIKERNES É O JUDEU ERRANTE: “There were often fights and killings at those places Oskoreia stopped. They could drink the yule ale and eat the food, but also carry people away if they were out in the dark. One could protect against the ride by gesturing in the shape of a cross or by throwing oneself to the ground with the arms stretched out like a cross. The best way was to place a cross above all the doors. Steel above the stalls was effective as well. The Oskorei was probably regarded as a riding company of dead people, perhaps those who deserved neither Heaven nor Hell.”

the cover of Bathory’s first <Viking> album, Blood Fire Death (1988), features a haunting depiction of the Oskorei in action. The remarkable development is how so many of the minute details of the legends would inadvertently or coincidentally resurface in unique traits of the Norwegian Black Metal adherents. This behavior had already become prominent years before the scene acquired its current attraction toward Nordic mythological themes, and before Vikernes ever began writing commentaries on such topics.”

Many of the <Satanic> bands even evince a strong fascination for native folklore and tradition, seeing them as vital allegories which represent primal energies within man. This type of viewpoint is expressed well by Erik Lancelot of the band Ulver:

<The theme of Ulver has always been the exploration of the dark sides of Norwegian folklore, which is strongly tied to the close relationship our ancestors

had to the forests, mountains, and sea. The dark side of our folklore therefore has a different outlook from the traditional Satanism using cosmic symbolism from Hebraic mythology, but the essence remains the same: the ‘demons’ represent the violent, ruthless forces feared and disclaimed by ordinary men, but without whom the world would lose the impetus which is the fundamental basis of evolution.>”

atavistic ativism

folclorenoruegues
IMAGEM 2. Extraído dum livro de lendas

Ler Two Essays on Analytical Psychology do Jung: “There are present in every individual, besides his personal memories, the great <primordial> images, as Jacob Burckhardt once aptly called them, the inherited powers of human imagination as it was from time immemorial. The fact of this inheritance explains the truly amazing phenomena that certain motifs from myths and legends repeat themselves […] It also explains why it is that our mental patients can reproduce exactly the same images and associations that are known to us from the old texts.”

Kadmon also points out a few strong contrasts between the rural folklore and Black Metal, which he sees as an urban phenomena. He is not entirely correct in this assertion, however, as many of the Norwegian Black Metal musicians do not come [from] cities such as Oslo, Bergen, or Trondheim, but live in small villages in the countryside. And Varg Vikernes, too, is proud to make the distinction that he is originally from a rural area some distance outside of Bergen, rather than the city itself. Further examples can be found with the members of Emperor, Enslaved, and a number of other bands.”

Besides Bathory, one other early Scandinavian Metal band had also extolled the religion and lifestyle of the Vikings in their music, a group from the ‘80s called Heavy Load. Possibly they also inspired some of the kids later involved in Black Metal, and indeed they have been mentioned with appreciation by some close to the scene, like Metalion.”

The group Immortal even went so far as to make a professional video clip with every band member shirtless in the midst of a freezing winter snowscape, furiously playing one of their songs. A video for the Burzum song Darkness goes much further, leaving out any human traces whatsoever—the entire 8:00 clip is based on images of runic stone carvings, over which shots flash of rushing storm clouds, sunsets, rocks, and woods. Co-directed by Vikernes from prison via written instructions, the result is impressively evocative despite the absence of any storyline or drama.”

POUCO IMANENTE VOCÊ, NÃO É, DISCÍPULO EX-QUERIDINHO DE FREUD? “According to Carl Jung, it is not always modern man who actively seeks to consciously revive a pre-Christian worldview, but rather he may become involuntarily possessed by the archetypes of the gods in question. In March, 1936, Jung published a remarkable essay in the Neue Schweizer Rundschau, which remains highly controversial to the present day. Originally written only a few years after the National-Socialists came to power in Germany, it is entitled Wotan.

Jung states in no uncertain terms his conviction that the Nazi movement is a result of <possession> by the god Wotan on a massive scale. He traces elements of the heathen revival back to various German writers, Nietzsche especially, who he feels were <seized> by Wotan and became transmitters for aspects of the god’s archetypal nature. He states, <It is curious, to say the least of it […] that an old god of storm and frenzy, the long quiescent Wotan, should awake, like an extinct volcano, to a new activity, in a country that had long been supposed to have outgrown the Middle Ages.>

Jung would some years later reveal his conviction [not proofs, like Moro] that both Nietzsche and he himself had experienced personal visits [Jung estuprado na infância?] in their dreams from the ghostly procession of the <Wild Hunt>, the German equivalent of the Oskorei.”

In Norway and Sweden there has also been growing general interest in the indigenous religion of their forefathers, to the point that at least one heathen group, Draupnir, has been recognized as a legitimate religious organization by the Norwegian government. Along with them, other Ásatrú organizations such as Bifrost also hold regular gatherings where they offer blot, or symbolic sacrifice, to the deities of old.

There is absolutely no specific connection between these Nordic religious practitioners and the Black Metal scene. In fact, public assumptions that such a link would exist have been a severe liability to these groups. Dispelling negative public impressions of their religion is made considerably more difficult with characters like Vikernes speaking so frequently of his own heathen beliefs to the press.”

VonStuck
IMAGEM 3. Franz von Stuck, A caçada selvagem

O TRÁGICO ATRASADOR DA REASCENSÃO MITOLÓGICA: “Vikernes’s extreme and bloody interpretation of indigenous Norse religion is just as problematic to the neo-heathen groups as was his flaming-stave-church and brimstone variety of Satanism a few years earlier to organizations like the Church of Satan. When contemporary figures sought to revive the old religion of Northern Europe, they had not intended to bring back uncontrollable barbarism and lawlessness with it.”

There is another obscure old fable of the Oskorei, where they fetch a dead man up from the ground, rather than their usual choice of someone among the living. It was collected by Kjetil A. Flatin in the book Tussar og trolldom (Goblins and Witchcraft) in 1930. If the folkloristic and heathen impulses of Norwegian Black Metal are in fact some untempered form of resurgent atavism, then this short tale is even more surprising in its ominously allegorical portents of events to come over 60 years later with Grishnackh, Euronymous, and the fiery deeds that swirled around them”

Originally bestowed with Kristian for his first name, Vikernes found this increasingly intolerable in his late teenage years. When he first introduced himself to the Black Metal scene it was still his forename. Sometime in 1991–92 he legally changed his name to Varg. His choice of a new title is curious in light of the actions he would later commit, and the legend that would surround him—although he claims to have adopted it mainly for its common meaning of <wolf>. If one understands the etymology and usage of the word varg in the various ancient Germanic cultures (and there is no evidence that Vikernes did at the time of his name change), his decision becomes downright ominous.

A fascinating dissertation exists entitled Wargus, Vargr—‘Criminal’ ‘Wolf’: A Linguistic and Legal Historical Investigation by Michael Jacoby, published in Uppsala, Sweden, but written in German. It is a highly detailed, heavily referenced exploration of the Germanic word Warg, or vargr in Norse.”

Qual é o lado mais podre do LobisOmen?

The designation was used in the oldest written laws of Northern Europe, often with a prefix to add a specific legal meaning, such as gorvargher (cattle thief) or morthvargr (killer).”

another ancient Germanic legal text, the Salic Law, which states: <If any one shall have dug up or despoiled an already buried corpse, let him be a varg.> Hehehe

LICANTROPIA ETIMOLOGIZADA E SOCIOLOGIZADA

Vargr is the same as u-argr, restless; argr being the same as the Anglo-Saxon earg. Vargr had its double signification in Norse. It signified a wolf, and also a godless man. […] The Anglo Saxons regarded him as an evil man: wearg, a scoundrel; Gothic vargs, a fiend. […] the ancient Norman laws said of the criminals condemned to outlawry for certain offenses, Wargus esto: be an outlaw! (be a varg!) […] among the Anglo Saxons an utlagh, or out-law, was said to have the head of a wolf. If then the term vargr was applied at one time to a wolf, at another to an outlaw who lived the life of a wild beast, away from the haunts of men—<he shall be driven away as a wolf, and chased so far as men chase wolves farthest,> was the legal form of sentence—it is certainly no matter of wonder that stories of outlaws should have become surrounded with mythical accounts of their transformation into wolves.” “As can be seen from the Baring-Gould quote above, the wolf connotation of the term later became associated with werewolves, and in certain sources the Devil himself is referred to as a werewolf. However, this negative outlook on wolves appears to surface after the onset of the Christian period of Europe; the pre-Christian heathens had a quite different perception. “A number of Black Metal bands display a fascination for the wolf. The most obvious example is Ulver, whose name itself means wolves in Norwegian.”

The wolf lives in the forest, symbol of the demonic world outside the control of human civilization, and serves thus as a link between the demonic and the cultural, chaos and order, light and dark, subconscious and conscious. Still I do not by this mean to say that the wolf represents the balance point between good and evil—rather he is the promoter of <evil> in a culture which has focused too much on the light side and disowned the animalistic. He symbolizes the forces which human civilization does not like to recognize, and is therefore looked upon with suspicion and awe.” E. Lancelot

In the older Viking times, wolves were totem animals for certain cults of warriors, the Berserkers. A specific group is mentioned in the sagas, the Ulfhethnar or <wolf-coats>, who donned the skin of wolves. Baring-Gould recounts the behavior of the Berserks who, wearing these special vestments, reached an altered state of consciousness:

<They acquired superhuman force […] No sword would wound them, no fire burn them, a club alone could destroy them, by breaking their bones, or crushing their skulls. Their eyes glared as though a flame burned in the sockets, they ground their teeth, and frothed at the mouth; they gnawed at their shield rims, and are said to have sometimes bitten them through, and as they rushed into conflict they yelped as dogs or howled as wolves.>”

Wolves are sacred to Odin, the <Allfather>, who is usually accompanied by his own two wolf-elementals, Geri and Freki. Many Germanic personal first names can be traced back to another root word for wolf, ulv or ulf, so this was clearly not an ignoble or derisive connotation, except in its varg form.” “In the old sagas Odin is bestowed with myriad names and titles, some of which include Herjan (War God), Yggr (the Terrible One), Bölverkr, (The Evil Doer), Boleyg (Fiery Eyed), and Grímnir (the Masked One).”

It happens that he betrays his believers and his protégés, and he sometimes seems to take pleasure in sowing the seeds of fatal discord..” Georges Dumézil

In her essay on the word Warg, Mary Gerstein also discusses comparative symbolism between Odin, who hung on the world tree Yggdrasil for 9 nights in order to gain wisdom, and Christ, who was hung on the cross as an outlaw [3 days], only to be reborn as an empowered heavenly deity. Vikernes, despite his heathenism, has in certain respects set himself up as both avatar and Christ-like martyr for his cause, willing to suffer in prison for his sacrifice.”

SUarEZ

zeus arrrrrrghhhhhhhhh

horror arquetípico:

argh!!!típico

GIMME THE HARP: “Odin is the embodiment of every form of frenzy, from the insane bloodlust that characterized the werewolf warriors who dedicated themselves to him, to erotic and poetic madness.” Não leia senhor dos anéis demaaais…

Odin’s hall is easy to recognize: a varg hangs before the western door, an eagle droops above.”

the renunciation oath which was enforced under Boniface among the Saxons and Thuringians, who were ordered to repeat: <I forsake all the Devil’s works and words, and Thunær (Thor) and Woden (Odin) and Saxnôt (the tribal deity of the Saxons) and all the monsters who are their companions.>”

In my town all they do is have their cars and they drive up and down the one main street. They have nothing else to do—it’s a kind of competition for who has the finest car and the loudest stereo. They basically live in their cars. Those who are younger, who don’t have a car—they sit at the side of the road and look at the cars. Their lives are extremely boring, and I can see that some people want more out of existence, they want to have their own personality and expression which makes it impossible to be associated with all those meaningless humans who walk around everywhere.” Isahn

It started up with the whole <anti-LaVey> attitude that was common within the scene, because his form of Satanism is very humane. No one wanted a humane Satanism” “When LaVey says that the simplest housewife can be a Satanist, which it seems like he does in the Satanic Bible, I guess some were terrified that he had views that would take the special thing they had away from them.” “Many people did not laugh; they were very serious all the time. Nothing should be <good>. Everybody was very grim looking. Everyone wanted to be like that, and I guess there are some who are that way still.” “Of course you were affected by the whole atmosphere, that you don’t sit and laugh in this Helvete place, and you have respect for the known figures in the scene, and were careful what to say to Euronymous in the beginning, before you got to know him.”

Normal people assume, <Oh, people into Black Metal must have had a terrible childhood and have been molested. They’re weak and come from terrible backgrounds.> But as far as I’m concerned, many people I know in the scene actually come from good families, non-religious families, and had a great childhood with very nice parents and no pressure at all. Quite wealthy families, really.”

LÁ VEM O SATANISTA: “Sometimes I think it would be great to be more anonymous—it’s a small town that I live in, everyone knows who I am. People look at me even though I don’t dress particularly extremely, just because everybody knows what I am. Also with where I work, people are very skeptical towards me, and sometimes it would be easier if no one knew.”

The essence of Black Metal is Heavy Metal culture, not Satanic philosophy. Just look at our audience. The average Black Metal record buyer is a stereotypical loser: a good-for-nothing who was teased as a child, got bad grades at school, lives on social welfare and seeks compensation for his inferiority complexes and lack of identity by feeling part of an exclusive gang of outcasts uniting against a society which has turned them down. And with Heavy Metal as a cultural and intellectual foundation, these dependents on social altruism proclaim themselves the <elite>! Hah!” E. Lancelot

MANIFESTUM UNIVERSALIS: “The Satanist is an observer of society—to him, the world is like a stage, in relation to which he chooses sometimes to be a spectator, other times a participant, according to his will. He can watch from the outside and laugh, cry, sigh, or applaud depending on the effect the scenery has on his emotions; or he can throw himself into the game for the thrill; but his nature is always that of the watcher, the artist. He is not overly concerned with changing society, for his commitment to humanity is minimal.”

An appropriate example of how such futile aspirations may end is the case of Varg Vikernes: a neo-Viking martyr. A prophet of the ego who paradoxically enough chose to be the Jesus of his ideals, and now must suffer for it behind the walls of spleen. I have much respect for this man’s conviction and courage, but not his sense of reality.” Garm

I think many of them have grown up with the Bible and phone book as the only books in the house.” Simen Midgaard, jornalista free-lancer e ocultista, líder do grupo Ordo Templi Orientis. “The O.T.O. is established in Norway, unlike the Church of Satan, Temple of Set, or other real Satanic organizations.”

if they are going to get rid of Judeo-Christianity, they will have to get rid of Satan as well, as a matter of fact. He is a sort of Trotsky in the revolution”

I’m rather indifferent to the State Church. I’m not indifferent to these terrible small sects who teach their people with fear from the day they are able to talk [essas pulgas de rodoviária!]. I support any revolt, however strong it is, against that kind of Christianity because I think it makes people into neurotics. It should be forbidden by law because they torture their own children.”

O BRASIL TEM O SATANISMO MAIS MADURO (O CARNAVALESCO – A LUBRICIDADE DA CARNE): “Satanism in Norway has become strong because it’s a despotic form of Satanism, but that is also why it’s going to fade so fast—because people are not able to live like that for a very long period of time.” Pål Mathiesen, teólogo cristão

The Satanists say—to put it brutally—that we are animals. The animal culture is the most important one, and we are losing that part of us. This is broad in the culture today, with the “wild women,” etc., this whole thing of going back to nature. Being part of nature instead of spirit or morals is very strong now.”

That struck me when I was talking to Ihsahn, the symbols he was using of 3,000 or 4,000-year-old Eastern religions, and at the same to say that it’s only Norway for me and only the Nordic religion that counts. It’s not rational on that point at all. It doesn’t relate to history as something rational—you just use it.”

I think Vikernes has been analyzing our times and thinking, what can we do to achieve something? But I also think that over the years he will find out that for us to go back to the heathen religion is very, very unrealistic. It’s not going to happen if you look at the religious aspect of it. We’re not going to go back to that kind of religious ritual. That is not going to happen.”

If you are declared a Satanist or Nazi in Norway, then you are that for the rest of your life, there’s not a question about it. You will be condemned for the rest of your life. I hate that aspect of our culture, I really think it’s a bad thing, because if we don’t have an opening for forgiveness it becomes very alien to me.”

I think in society when something like that happens it’s a very good opportunity for the media. They like it because they can start a lasting soap opera with strong characters, and these Satanic groups. The media embraced it to a certain extent, and made it really big in Norway. Of course it was big, but I would say that the media capitalized on it, because it was something extreme, new, and specifically Norwegian. For them to sell newspapers, they treat it as extremely as possible. Very early on the media started to define them as total extremists, the same way they might look upon the neo-Nazi movement. They defined them as that right away; then they had them there and they can look upon them like animals doing strange things, and they can report it like something that is very different from the rest of our society.”

This is something that’s important—individualism in Norway has been held down. That has happened. If you are different in school, or very good for example, or very intelligent, that becomes a problem for you. We don’t accept people with exceptional gifts or anything like that. In England or the US, you have schools for these kind of youngsters, you send them somewhere else, and say, <You are different, go over there>. We don’t have that. Everything is supposed to fit in, in a classroom of 25 or 30 people. If you are too weak or too healthy, or if you’re too good, you’re supposed to shut up. It’s mediocrity.” “We have a very special relationship to nature, a very close one. And during the Christian period this thing with nature has been suppressed—nature is not good, nature is <evil>, so to speak. Norwegians interact with nature and are very closely connected to it, just due to the way the country itself is formed.”

They’ve spent fifty years after the war bringing down Christianity, and for the first time they’re saying now that we need more Christianity in the schools. It shows the times have changed. Maybe we have become conscious to some extent about the Christian culture when people start to burn down our churches—maybe, you can’t rule that out.”

Asbjørn Dyrendal is a Research Fellow at the Department of Cultural Studies at the University in Oslo. He has been primarily researching the new and emergent religions, especially Wicca.”

There you had a lot of young people who wanted to be Satanists. Where could they hear about what you do when you’re a Satanist? They had to get it through the media and Christian sources. They got the myths, and they tried as best as they could, by their rather modest means, to live up to them. You can see that in the early interviews with Varg Vikernes. There were situations where the journalists were trying to see this in light of the stories supplied by Kobbhaug [policial que fantasiava sobre <sacrifícios de bebês>], and where Vikernes played the appropriate role. He was hinting that many people disappear each year, that these might have been killed, and then said that he cannot comment on who was doing the killings. When asked if he has killed anyone: I can’t talk about that. He was building up to get the question of whether he had killed anyone, and then denying it in a manner which implied the opposite.” Dyrendal

Vikernes was very fond of telling people that he read LaVey and Crowley. However, what he has come out with in interviews indicates that he hasn’t understood it all very well.”

WAIT & BLEED: “If you are an adolescent, you are in a period of your life where it is impossible for you to exert influence upon your surroundings. Being able to hate and feel strong can be very liberating. This is much of the same power that lay in other forms of Metal and in Punk.” “It has passed the point where people point at you and laugh, and reached the point where people shy away from you.”

Almost every form of shocking behavior will only make your parents say, <Well, we did that when we were young too>. So, to get a shock effect, you have to go much further in your symbolism. Personally, I think these explanations are a bit simplistic.”

I am of the opinion that most people see Vikernes as a rather pathetic figure—

someone with delusions of grandeur who is only able to function within this self-created image.”

The myth of the outwardly respectable, even upstanding, citizens that go out at night to do terrible things to children has been around for thousands of years and has been levelled at Christians, Jews, Catholics, Protestants, heretics, Freemasons, and lots of other groups. It was then recycled by horror writers, who fictionalized the material. It now seems to be influencing reality again. One account of <ritual abuse> I have read seems to have been lifted directly from Rosemary’s Baby, one of the great horror classics.”

There have only been a handful of Metal groups with direct ties to LaVey’s church over the years (King Diamond being one of the more outspoken), although in recent times this has begun to change. LaVey was himself a musician, specializing in lost or obscure songs of ages past, but he often mentioned a personal distaste for Rock and other modern music in interviews. This might have alienated some musicians—who otherwise exemplify LaVey’s philosophy—from any public allegiance with the Church of Satan. In reality, LaVey understood fully why a genre like Black Metal has appeal for youth, though he may not had have much interest in the cacophony of the music itself.” “The Black Metalers are also quite mistaken if they believe LaVey is merely a humanist. Even a cursory study of LaVey’s actual writings will uncover his unabashed misanthropy and derisive scorn for the follies of humankind.”

A lot of people had tried to give it exposure, as Devil’s advocates—writers like Twain and Nietzsche—but none had codified it as a religion, a belief system.” LaVey

In the case of the Nine Satanic Statements, it took me twenty minutes to write them out. I was listening to Chopin being played in the next room and I was so moved I just wrote them out on a pad of paper lying next to me. The crux of the philosophy of Satanism can be found in the Satanic Rules of the Earth, Pentagonal Revisionism, and the Nine Satanic Sins, of which of course <stupidity> is tantamount, closely followed by <pretentiousness>. Often pretentiousness comes in the form of so-called <independent thinkers> that have a knee-jerk reaction [reação reflexa, instantânea] to any association with us.” Não compreendo o sentido exato.

It sounds like there’s a lot of stupid people in Norway too, like any country.” “We get more mail from Russia than ever, now that the Soviet Union is gone. They’ve been under atheist control for so long and the new religious <freedom> is pushing bullshit they can’t swallow. They almost yearn for the good old days of Soviet atheism…”

A lot of them are kids and they like the name Satan just as they might be attracted to a swastika and the colors red and black.” “Now, if a representative of the Church of Satan had just one entire hour on national TV to say what we want to say, Christianity would be finished.”

The anti-Christian strength of National-Socialist Germany is part of the appeal to Satanists—the drama, the lighting, the choreography with which they moved millions of people. However, the Satanic attitude is that people should be judged by their own merit—in every race there are leaders and followers. Satanists are the <Others>, who will push the pendulum in the direction it needs to go to reset the balance—depending on circumstances, this could be toward fascism or in the opposite direction. Satanism is a very brutal, realistic way of looking at things sometimes.” Barton, boqueteiro (assessor, amante, secretário, sei lá!) oficial de LaVey – verde a cor do nojo

How can someone say I don’t like Rock and Roll? It’s never been defined. There’s so much that’s fallen under that general heading, but I guess it then evolved into what we have now, which I’ve described as being like a linear metronome, i.e., music without music. They’ve just run out of ideas, really.” Continua ouvindo seu Chopin no Inferno, velhote.

kids who don’t know anything besides Rock music can still gain strength and motivation from Black Metal, Death Metal, and so forth.” Enough to found a new “religion”.

…And then you have to get a job! That’s no market place for 2 (or 20, whatever) LaFEIs…

O SEGUNDO VARG É MAIS ESPERTO: “The biggest success story in Norwegian Black Metal—measured in chart positions, magazine coverage, and gaudy magazine posters—is Dimmu Borgir, a band which boasts of six-figure CD sales on the German label Nuclear Blast. Dimmu Borgir were not part of the initial waves of Norwegian Black Metal, and therefore they have neither blood nor soot on their hands. But they have been very adept at capitalizing on the shocking image of their predecessors in the genre, while at the same time carefully distancing themselves from the worst excesses so as not to lose record sales or gigs. A typical example can be seen in the promo pictures of Dimmu Borgir engaging in the mock sacrifice of a virgin —pictures that were produced in versions ranging from <softcore> (less gore) to <hardcore> (very bloody), so that different media could pick the version most suited to their audience. In other words, it seemed as if Dimmu Borgir wanted to be provocative enough to make the kids think they were cool, but not so provocative that the kids couldn’t get their parents to buy them the album for Christmas.”

Two or three years ago it was on the verge of becoming really, really big, and the international press was interested in Black Metal. If there had been more bands like Dimmu Borgir and The Kovenant that could have made it big in the mainstream, Black Metal could have been another example of an underground that stepped up to the major league. But strong forces in the scene suddenly became very introverted and reverted to an older, harder style of Black Metal.” AsbjØrn Slettemark

There is a handful of bands that sell well, about 10,000 to 20,000 copies of each release. But sales figures are hard to confirm, because labels tend to exaggerate; and on the other hand, many of the retailers for Black Metal records don’t register their sales.”

It is my impression that Nuclear Blast realized their stable of Death Metal and Speed Metal artists were starting to lag behind. It seems to me like they picked Dimmu Borgir more or less by chance, because the records that got them the contract weren’t really that special. But Dimmu Borgir were still developing as a band, and they were willing to do the image and magazine poster thing. It wouldn’t be possible to sell a more established band like Mayhem or Darkthrone the same way. I guess Dimmu Borgir have the good old Pop Star ambition, the standing in front of the mirror singing into the toothbrush thing.”

Compared to the multinational record companies, Nuclear Blast Records is like a hot dog stand. But the German label has its home base in the world’s biggest market for heavy metal, and is serious enough to have an American distribution deal with Warner Records. And Nuclear Blast know how to <move units>, in record business parlance. The Marketing Director of Nuclear Blast, Yorck Eysel, says Dimmu Borgir has sold 150,000 copies of their last album and 400,000 discs in all during the time they have been with his label. These numbers are repeated like a mantra by everyone that works with the band, but should be taken with a pinch of salt, as exaggerating sales figures is the oldest trick in the book for vinyl and CD pushers. They know that it is easier to sell you a record that has been in the charts than one which has only been coveted by a few obsessive collectors. Even if the sales figures might be inflated, Dimmu Borgir has sold an impressive amount of records, and Eysel thinks that is due to the band’s merit.”

Interestingly, during Varg Vikernes’s trial a Burzum album was reviewed in the news section of Dagbladet, one of Norway’s most important tabloids; this was at a time when his band was being treated with contempt [even] by the Rock [specialized] press.” “Pop music there generally has been difficult to export and the Metal bands regularly outsell the <commercial> Norwegian bands”

Sigurd Wongraven of Satyricon, who had earlier starred in a Rock Furore exposé about racism in Black Metal, later received the full Rock star treatment in mainstream tabloid Dagbladet for a 2-page article which focused on the fact that Wongraven liked Italian designer clothes. Black Metal had become popular enough, and house-trained enough, for the mainstream press to dispense with the barge pole when touching it, even if the specters of racism and satanism still surfaced often enough to make the bands seem somewhat scary.”

Ketil Sveen, a co-founder of the record label and distributor Voices of Wonder, was one of the first people to sell Norwegian Black Metal records on a bigger scale. He ended his cooperation with Burzum after Varg Vikernes stated that he was a National-Socialist. Today there is a racism clause in the contracts which prospective artists have to sign in order to work with Voices of Wonder.”

We sell Black Metal in 25 countries—there’s not a lot of other music that we get out to so many.” Sveen

BURZUM_lighter

IMAGEM 4. Igreja de Fantoft em brasa e logotipo da banda de Vikernes num isqueiro promocional da Voices of Wonder. “I’ve done a few stupid things in my life, and that lighter was one of the stupidest. In my defense I want to say that none of us suspected Vikernes had really done anything like that. We figured that if he was crazy enough to torch a church he would not be crazy enough to go around bragging about it.” Sveen

Welcome to the world of German Black Metal. Less well known than its Norwegian counterpart, the German scene remains genuinely underground, an obscure exit off the darkened Autobahn of extreme Rock. That changed briefly following the night of April 29, 1993, however, when the members of the Black Metal band [arguably] Absurd followed the example set by Bård Eithun and Varg Vikernes and replaced thought with crime.”

Lianne von Billerbeck & Frank Nordhausen – Satanskinder (Satan’s Children: The murder case of Sandro B., 1994)

Such curiosities were difficult to satisfy until the Wall fell in 1989 and East Germany was opened to the West. At this point previously forbidden or impossible-to-obtain records and videos steadily came within reach. The three 17-year-olds Hendrik Möbus, Sebastian Schauscheill, and Andreas Kirchner began to draw attention to themselves with their Satanic obsessions and penchant for Black Metal. They were antagonized for their interests by many of the other kids in town—both left-wing punks and right-wing skinheads [curiosamente, o som da banda é nazi, sobre guitarras punks estéreis] —but developed a group of admirers among the local schoolgirls.” “At a certain point in 1992, a younger student, a 14-year-old named Sandro, also developed a fascination for the members of this sinister band and their associates.” “Widely disliked due to his irritating manners, he had almost no real friends. He quickly began to adopt the style and interests of the satanists and desperately tried to ingratiate himself into their circle. He would ask to attend band rehearsals and began corresponding with them and the others in the clique [panela] around Absurd. Satanskinder describes a peculiar <letter writing culture> that thrived among all of these youths.” “Heated arguments also took place there between them and members of the Christian Youth Club, which met regularly at the Center as well.”

Together with a young girl named Rita, Sandro began to plot actions against Sebastian and Hendrik, hoping to make a mockery of them in Sondershausen.” “He was also aware of an ongoing affair between Sebastian and an older married woman named Heidegrit Goldhardt, now pregnant with Sebastian’s child.” “Sebastian’s romantic relationship with Heidegrit, who oddly enough was an evangelical Christian schoolteacher, had produced some unexpected results. He had joined in with her pet projects for environmentalism and animal rights, and now spent time writing polemical letters to the newspapers about such issues.” “Absurd no longer rehearsed at the Youth Center, but had moved their equipment to a small cottage built by Hendrik’s father in the nearby woods. Through the guise of a female friend, Juliane, a letter was sent to Sandro in which she confided her hatred of Absurd. She asked Sandro to meet her one evening at the Rondell, a WW1 memorial in the forest above the town, in order to discuss how she could contribute to Sandro’s campaign against the satanists.” “Juliane didn’t appear, but the members of Absurd did instead. Sandro must have been confused, but dismissed any idea that he had been set up. They then somehow convinced him to accompany them elsewhere so that they could all discuss an important matter.” “Suddenly Andreas grabbed an electrical cord and wrapped it around Sandro’s neck. A struggle ensued, Sandro tried to scream for help. At this point, Hendrik is alleged to have pulled a knife and cut Sandro. They tied his hands behind his back. Sandro begged to be let free, promising to never speak about anything that had just happened. They could even have his life savings—500 German Marks (approximately $325). The boys considered the idea of letting him go free in the woods, but feared he would not keep his promise of silence about the abduction, especially now that he had been wounded.” “On May 1st [2 dias depois] the three members of Absurd returned to the scene of the crime and dragged Sandro’s corpse, wrapped in a blanket, to a nearby excavation pit, where they quickly buried him.” “Sebastian related a strange personal anecdote: about 6 months before the murder he heard a voice in his head. It was difficult to understand; he thought it uttered the nonsensical phrase <Küster Maier>. Later he decided it probably must have said <töte Beyer> (Kill Beyer!).” “The story detailed above follows the chronology presented in Satanskinder, although the book embellishes it with endless psychological speculation. The descriptions of the authors are based entirely on comments by disgruntled ex-friends and hangers-on who had interacted with the killers, since the latter refused to speak to them. The picture painted is one of an outsider group of youths whose fantasies got the best of them.”

We used to listen to British and German Punk Rock, British Oi, as well as Thrash Metal (Slayer, Destruction, Sodom, Morbid Angel, Possessed).” Hendrik

mostly we obtained Polish or Hungarian bootlegs, or recorded stuff from the West German radio.” “I guess it was just a question of time before we became aware of splendid bands like Deicide, Beherit, Sarcófago, Bathory, Mayhem, and Darkthrone…”

Before he <moved to the beyond>, Øystein Aarseth wanted to sign Absurd to Deathlike Silence, since our Death from the Forest demo appealed to him quite a bit.”

ABSURD HAS CALLED ITSELF <LUCIFERIAN PAGANS>…

You can use the terms <Luciferian>, <Promethean>, and <Faustian> to describe one and the same principle: reaching out toward a higher stage of existence and awareness by facing and overcoming the limiting circumstances. That is the trail we are on. However, a <Luciferian will> on its own would fall into hedonism and egomania. For that reason we need heathenism; on the one hand for expression of free will, but also for its channeling toward the greater good. In other words, a person of this sort should not operate only according to self-interest, but rather should serve his ethnic community and be the <light bringer> for it.

What we didn’t know, and only first learned from the court record, was that Sandro was bisexual. With a likelihood bordering on certainty, Sandro had fallen in love with Sebastian. That is also not astonishing, as in those days Sebastian had a certain <sex appeal> among the youths.

So Sandro discovered the relationship between Sebastian and his lover, who was married and 8 years older, while Sebastian was also considered the leader of the local satanists. If this relationship were to become public—which did indeed happen after the arrests—then it would have caused a significant fuss in the small town of Sondershausen, the result being that the girl would have been expelled from her congregation.”

WHAT WERE YOU EACH FOUND GUILTY OF?

Due to our age of 17, they had to use the youth laws for punishment, which meant a maximum of ten years in detention, no matter if even for mass-murder. At the start of 1994 our trial took place, which was a giant media spectacle. Among other things, the court found us guilty of first degree murder, deprivation of liberty, threat and duress, and bodily injury. (…) Ironically, the section we were sentenced under is one of the few pieces of legislation that remains today from National-Socialist jurisprudence.

Besides the trashy book Satanskinder, at least 3 other books feature our case. However, this book is certainly wrong with its version (although several phrases sound familiar…), due to the fact we refused to cooperate. A TV-film has also been made based on the events in Sondershausen. We have become <Satan murderers> and <Children of Satan> for all time. One could laugh about these stories, which are eternally the same old thing, if only they hadn’t led to such dire consequences. Apart from the media’s self interest for an ongoing story, there are also circles of people that have utilized the media for engaging in personal conflicts with, for example, my parents. It has long since ceased to have anything to do with <discovering the truth> (if that ever had even played a role) or <informing the public>. It has to do with chicanery, with calculated slander. It can further be asserted in my case that I turn more and more into the archetype of the scapegoat. I am the modern Loki, whom the gods punished for their own sins.

Andreas was released a year before Sebastian and I. After getting reacquainted with the scene for a half-year (among other things, he attended a Mayhem reunion concert in Bischofswerda), he retreated completely back into his private life. He broke off all contacts, lives with his girlfriend, and has a good job. Even if I was unhappy about his <departure>, I nevertheless wish him all the best.

Sebastian has totally devoted himself to a folkish world of ideas. He is married and has made a small circle of friends and acquaintances in which he actually plays the same role as he once did in our clique in Sondershausen. In the meantime he has also recorded and released new Absurd material. In addition he sings with Halgadom, a joint project with the band Stahlgewitter who are friends of his. He has only a peripheral contact with the scene, a situation that has probably kept him out of the media’s sights. It is different with me, for I have always had and maintained numerous contacts in the scene. In addition, I worked at Darker Than Black Records, through which I naturally was in a more prominent situation than my two former accomplices. Since then the media has decided to put me in the stocks and clothe me as their new scapegoat. Because I also nurtured an association with nationalistically inclined people, I have been charged severely. Nobody was interested in the facts anymore, the only thing that counted was sensationalism.”

Beginning meagerly with hymns to demons discovered in Satanic horror films, the early demo cassettes of the band are low-fi chunks of adolescent noise, soaked with distortion and offering unintentionally humorous spoken introductions to the songs. Their music is more akin to ’60s garage Punk than some of the well-produced Black Metal of their contemporaries—but what they lacked by way of musical execution they were more than willing to make up for with the real-life execution of the sad figure of Sandro Beyer.” “If there is any clear spiritual mentor behind Absurd’s transformation over the years, it is Varg Vikernes. Varg himself seems to be aware of this, and smiles when talking of recent events inspired by what happened in Norway: <In Germany some churches have burned. And there are the Absurd guys, who have also turned neo-Nazi…>”

The long quotation Hendrik attributes to <Herr Wolf> at the end of the interview is in actuality the words of Adolph Hitler, speaking of the new prototype of hardened, pitiless youth which Nazi Germany would produce.”

WHITEWASHED CARBON COPY: “Such sentiments would make Varg Vikernes proud. Absurd’s own tiny record label, Burznazg, takes its name from a term Varg once planned to use for his own operations, and the most infamous criminal in Norway was surely proud to know of the Tribute to Burzum compilation CD project initiated by Hendrik Möbus and friends.”

Möbus also reveals the existence of a Germanic <Black Circle> which he claims the members of Absurd are also connected to, called Die Teutsche Brüderschaft (Teutonic Brotherhood). The Brüderschaft is mentioned prominently in the dedication list on Absurd’s debut CD.”

In July of 1999 announcements circulated about the release of Absurd’s new 4-song CD entitled Asgardsrei. The CD featured a more aesthetic presentation and an evolved sound, although with much of Absurd’s garage-band ambience still intact. Guests on the release included Graveland’s Rob Darken and well as an <ex-member of the German mainstream band Weissglut>. The end of the advertisement advised interested customers to <ORDER IT NOW before ZOG¹ take YOUR copy>.”

¹ “A sarcastic acronym for Zionist Occupational Government, often employed in radical political circles to describe any of the present-day Western democratic states.”

The public prosecutor had now decided to launch an effort to revoke Hendrik’s parole on the basis of alleged political crimes he had committed since his release from juvenile prison. These consisted of displaying banned political emblems and also giving a <Hitler salute> at a concert.” “Travelling across the USA, Hendrik passed through a string of ill-fated liaisons with racists upon whom he depended for safe-housing, culminating with two of them violently threatening him. Following this incident, he eventually made his way to the state of West Virginia and to the headquarters of William Pierce’s racialist group the National Alliance. All was relatively quiet for a number of weeks until Hendrik was arrested in late August, 2000 by US federal agents acting on an international warrant. The German government had requested to have Hendrik extradited to face his charges of parole violation.

The press treatment of the case was unusual, with Hendrik being elevated from a <Satanic murderer> to a <neo-Nazi fugitive>. He became an international cause célèbre—garnering headlines in US News and World Report, as well as major papers like the Los Angeles Times and the Washington Post—and his case raised many serious issues about the way in which modern democratic states handle persons who they deem as threats to democracy itself. Soon after his arrest, Hendrik wrote a letter to US President Bill Clinton and Attorney-General Janet Reno and requested status as a political refugee, stating that if he were extradited back to Germany he would be persecuted on account of his political beliefs.” “A <Free Hendrik Möbus> campaign was also launched on the Internet, and William Pierce produced episodes of his radio program American Dissident Voices in which he addressed the topic of Möbus’s case in detail. In the first major ruling, the U.S. magistrate decided that Hendrik was not eligible for political asylum as he was a <convicted felon> in Germany. Hendrik then attempted to appeal the decision. In their commentaries on the case, both he and William Pierce attempted to make the fundamental issue one of free speech, since the actions which resulted in the original parole revocation were not of a violent nature, but rather <political> misdeeds (which would be perfectly legal according to US laws). Both the US and German governments tried to avoid this thorny issue and confine the legal proceedings to the logistical issues of Hendrik’s parole violation itself, rather than debating the validity of the charges that led to the violation.” A FRAQUEZA CONGÊNITA DO TOTALITARISMO: “His strategy for avoiding extradition created a further paradox: he was forced to seek the mercy of liberal democratic political asylum laws—exactly the sort of laws which a strident German nationalist would vehemently oppose in their own country for anti-immigration reasons.”

Two further court judgments against him, one for public display of the Hitler salute and the other for mocking his victim in published statements, have added more than two years of additional incarceration to the time he will serve in jail. It quickly became clear that Hendrik’s personal goal of collaborating with William Pierce in a venture to promote radical Black Metal through the racial music underground would be impossible to realize from a German prison cell. An equally significant obstacle arose exactly one year later when William Pierce died suddenly from cancer on July 23, 2002.”

Gorefest, an antiracist and politically correct Death Metal group.”

The teenager’s room was described as quite ordinary, except for a collection of disturbing compact discs. His neighbors had often noticed sounds blaring from his room, <gnawing music, hard and stressful, which one would hear late at night>—not a bad description of standard Black Metal from an unfamiliar listener.”

When a black-metaller enters a party at nite, we can say he cvlt up from his home.

Jean-Paul Bourre – Les Profanateurs (The Desecrators): “The fascination surrounding the grave of Jim Morrison of The Doors (buried in Paris’ famous Père La Chaise cemetery) and those of other notable personalities is also inexplicably discussed in one chapter. Les Profanateurs desperately attempts to pull all these disparate elements into a sinister scenario in hopes of alarming its readers.” Parece até o livro que estou lendo!

They got pissed and destroyed a few graveyards and subsequently they were in prison for it. The hoo-hah died down pretty quickly over it, and that sort of thing isn’t good for a band of our stature anyway because people get the whole ideology wrong straight away. This is why we kind of branched off from the Norwegian thing because as soon as you’ve got the Black Metal tag, people assume you are a fascist and you’re into Devil worship, which can be linked to child abuse.” Dani Filth, a ovelha negra (lúcida)

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IMAGEM 5. Queen tabloid

The band began fairly quickly to distance themselves from their musical peers in Scandinavia by employing evocative aesthetics in the album artwork, and covering more romanticized themes drawn from nineteenth century literature and poetry. They wore the requisite Black Metal corpsepaint, but began to cultivate an atmosphere befitting of Hammer horror films rather than the one-dimensional <evilness> projected by other groups. Later releases Vempire and Dusk and Her Embrace brought the group to a exponentially increasing audience.”

In a strange political twist, an extremist racial group, the National Radical Party, nominated the singer of Metal band Korrozia Metalla (Коррозия Металла) as a mayoral candidate in Moscow. His name is Sergei Troitsky, AKA Spider, and he normally dresses in black T-shirts, jeans, and jackboots. Korrozia Metalla’s most popular song among fans is called Kill the Sunarefa, a slang term for darkly hued minorities from the south.” “Additional titillation regularly comes from naked females dancers who prance [rebolam, sensualizam] and masturbate on stage beside the musicians.”

The name Russia itself, after all, comes from the predominantly Swedish Viking tribe of the Rus who settled the region in the year 852C.E.[?].”

Poland, too, has a rapidly growing Black Metal scene which is closely linked to the rise of extreme right-wing activity there. The most visible band from that country is Graveland, led by the outspoken frontman Robert Fudali, AKA Darken.”

Fans of extreme Metal in this country are often far less intelligent than their Norwegian or European counterparts.” Which means, actually, that they are more intelligent.

SOCIEDADE DO ESPETÁCULO CONSUMADA: “The primary American interests outside of music include drugs and alcohol, neither of which played any significant part in the Norwegian Black Metal milieu. As a result, any antisocial actions are likely to be misdirected at best. The attempts to interrelate them into any kind of grand Satanic conspiracy are fruitless; the main similitude of these crimes lies in their irrational confusion.”

Singer Glen Benton branded an upside-down cross into his forehead years ago, and (to the obvious irritation of groups like Animal Militia) often advocates animal sacrifice in interviews. Allegedly the band’s albums have sold hundreds of thousands of copies worldwide.”

On April 13th, a group of male teenagers commenced a campaign of mayhem and terror with startling similarities in spirit to the Norse eruption in 1992–93. Calling themselves the Lords of Chaos, the cabal of six began their crusade by burning down a supermarket construction trailer. They followed this with the arson of a Baptist church. The terror spree escalated in perversity when the youths spread gasoline around a tropical aviary cage adjacent to a theme restaurant, then ignited the thatched-roof structure and watched the blaze exterminate the entire collection of exotic birds.”

Finnish groups like Beherit and Impaled Nazarene have enjoyed considerable success worldwide, paving the way for many fans to form their own bands and follow in their footsteps. And just as in Norway, segments of the Black Metal subculture also wed themselves to an especially virulent strain of teenaged Satanism. (…) They wear the distinctive Black Metal make-up, which gives cause for some Finns to call them <penguins>, and they flock to music festivals where their favorite bands play.” É o finlandês da picada…

Finnish metal him! Flo Mounier’s victory!

Unlike the scene in Norway, the crimes connected with Black Metal in Finland emanate from the fans, not the prominent artists. Despite its small size, this confused scene has produced one of the grisliest events to arise anywhere out of the Black Metal phenomenon. In one of the most notable cases in Finnish court history, four young Black Metalers murdered a friend in a scenario which featured overtones of Satanic sacrifice, cannibalism, and necrophilia.” “Reporting on the case is further complicated by the fact that the court has implemented a forty-year secrecy act on the entire legal proceedings.”

Jarno Elg’s career as a glue-sniffer and aspiring alcoholic led to psychiatric care at the young age of 11. He tried hashish the following year. By the time he was 16, young Jarno was drinking daily and devouring books on Satanism. This diet of Kilju [bebida etílica baseada na fermentação da laranja, com gusto e cheiro horríveis, típica da Finlândia], psychoactive chemicals, and teenaged Satanism was bound to go awry.”

The Poetic Edda, translated by Henry Adams Bellows

Sociologist Jeffrey Arnett has described Heavy Metal music as the <sensory equivalent of war.>” Segundo consta, numa rápida googlada, o sr. Arnett é PSICÓLOGO na área da adolescência/jovens adultos, e não SOCIÓLOGO.

[????????????????????????????] In France the journal Napalm Rock is issued regularly under the auspices of the National-Bolshevist political group Nouvelle Résistance.” Erva mais vencida que Hitler em 44.

The rebellious impulse in Metal therefore has yet to synthesize the nihilism with the fascism, and since fascism is a synthesis itself, there’s no reason this cannot eventually be achieved.” Kerry Bolton

The ‘60s music genres were thoroughly phony in their radicalism. Unlike Black Metal (and for that matter Oi, and much Industrial) the ‘60s musicians had no fundamental difference in outlook to the establishment they were supposedly rebelling against.”

ILLUMINATI: “The possibility of being bought off by the music business would most likely be by way of insisting on a return to the specifically anti-Christian themes at the expense of the heathen resurgence, since I’m sure many of the executives of the music industry can co-exist well enough and even utilize anti-Christianity, including Satanism, especially if it is of the nature of yet one more superficial American commodity.”

Será que esses albinos “phoneys” e bastardos utilizam Mozart o Maçom como garoto-propaganda de seu ideário europeu?

According to the police, the Einsatzgruppe was plotting direct action against prominent Norwegian politicians, bishops, and public figures. The group’s plans included a scheme to break Varg Vikernes out of jail by force. The Einsatzgruppe had all the trappings of a paramilitary unit: bulletproof vests, steel helmets, cartridge belts, and ski masks. In addition, the police found a list of 12 firearms and a map for a hiding place at a mountain. However, the only weapons the police confiscated right away were some sawed-off shotguns and dynamite with blasting caps. The police also found a war chest with 100,000 Norwegian Kroner (close to $20,000). This had been supplied by Lene Bore, Varg Vikernes’s mother. She was also arrested and charged with financing an illegal group. Bore confessed, but claimed she had no idea these people were <right-wing extremists>. She expressed concerns about the treatment her son received in jail, and claimed that he was subjected to violence by his fellow inmates. This was dismissed as unfounded by the prison director. However, it is true that Varg’s jaw had been broken in an altercation with another inmate in late 1996.” “Curiously, Bore could not be prosecuted under Norwegian law—conspiracy to break the law is not illegal if it is done to help a close family member.” “The group was, according to some sources, aiming to escape with the freed Vikernes to Africa—hardly the hideout of choice for passionate racists.”

The stigma associated with Nazism is much stronger in Norway than it is in neighboring Sweden or the US, where most of the Norwegian Nazis draw their inspiration from. This is largely due to the fact that Norway was occupied by Nazi Germany from 1940 to 1945.”

The Mayor of Brumunddal was subjected to what one would call low-level harassment. No physical attacks, no real serious vandalism, but an endless stream of mail-order merchandise, pizzas and ambulances ordered in his name. Pornographic photo montages were also posted along the route his children walked to school. Two of the activists from Brumunddal defecated on the steps of the town hall to express their discontent with municipal policy. They thought this was really smart, so they did it once more, and then were caught.”

Gaston Bachelard – Psychoanalysis of Fire

Fire stirs the spirit of human artistry; it is the spark of the will-to-create. It expresses the polarity of emotions, as Bachelard notes, and represents both the passionate higher ideals, as well as the hot and consuming tempers of irrationality.”

Most people have lost interaction with real fire; the once universal, mystical experience of blazing night fires is gone from their lives. Stoking the flames of resentment or dissension is frowned upon in a world which depends on the smooth exchange of services. Those possessed of unrestrained spirit are silenced, or ordered to fit in. Their tendencies must be stifled. Extreme emotions are shunned; those who act on them become outcasts. Mainstream culture produces a bulging sea of quaint diversions, the ostensible rewards for good behavior. The music and art made available to the masses has the consistency of soft, damp pulp—hardly a conducive medium for fire.”

re-fuse/reexist

* * *

ANEXOS

It’s not good for us to laugh. We have nothing to laugh at in this laughable society.” Varguxo

The wild hunt appeared in many legends—a ghostly flock of dark, martial shapes riding through the night on their horses through the woods, lead by Odin, the one-eyed ruler of the dead, or sometimes by a female rider… a perception that in Christian times was transposed onto the Archangel Michael and his hosts.”

The Austrian folklorist Otto Höfler was able to prove in his books Kultische Geheimbünde der Germanen and Verwandlungskulte (Transformation Cults) that the wild hunt was not at all a mythological interpretation of storms, thunder, or flocks of birds—as many researchers thought—but a union of mythology and folklore, of myth and reality which was of great importance in the Nordic mystery cults.” “Höfler stressed that in the Germanic Weltanschauung, like that of most pre-Christian cultures, there was no sharp distinction between this world and the one beyond—the borders were fluid. The folklore of the cult groups was often very brutal. With or without drugs the members felt a furor teutonicus which Höfler called a <decidedly terroristic ecstasy> with various excesses”

Beer was was their special goal—kegs were stolen or secretly emptied, sometimes to be refilled with water or horse urine, or they themselves urinated back into the barrels. Often horses were also stolen; they became the property of the Oskorei. In the morning the farmers found their horses completely exhausted, or they had to search for them because the apocalyptic riders had set them free somewhere.”

Hoping for a rich harvest, one accepted the demands and offenses of the Oskorei as part of the bargain. Similar perceptions existed in the Alps when the Perchten were given nourishment as they went from house to house, or they were allowed to plunder the pantry.” “Gradually, however, many farmers were no longer willing to accept the outrages of the Oskorei. The cultic background of the thefts and pranks fell into oblivion, becoming superstition. The sympathy of the populace disappeared—now the disguised young men were no longer considered embodiments of the dead or fertility demons, but rather trouble-makers and evil-doers.” “The louder the drums, bells, cries, rattles, and whips, the more effective the noise magic became.”

They dress as ghostly as possible, speaking with a falsetto voice, reaching ecstasy by dancing, music and noise. … Their clothes should be as nightmarish as possible. They attempted to dress as ugly as they were able. They had terrible eyes, with big white rings or painted up with coal. (Johannessen, Norwegisches Burschenbrauchtum. Kult und Saga. Wien, 1967 (dissertation), pp. 13, 95.)”

The disguised members of the Oskorei altered their voices and gave themselves false names—they represented demons and had to remain unknown. In Black Metal as well only a few musicians use their real names; many take pseudonyms from Nordic history and mythology and in the meantime it is possible to find in Black Metal culture almost all deities of the Eddas.”

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IMAGEM 6. O Grito, de Munch, pintor norueguês expressionista.

But Black Metal is above all heathen noise, electronically enhanced. The music is powerful, violent, dark and grim; a demonic sonic art with several elements in common with the Norwegian expressionist painter Edvard Munch, whose famous work The Scream would fit well on a record cover. The eternal recurrence of certain leitmotifs, the dark blazing atmosphere, the obscure, viscous sonic landscape of many songs—often lasting more than ten minutes— have at times an almost psychedelic effect. In the heaviness and darkness of certain compositions it is possible to realize some subliminal melodies only after listening to these works several times. Black Metal is a werewolf culture, a werewolf romanticism.”

<A hard heart was placed in my breast by Wotan.> (Nietzsche, Beyond Good and Evil, aph. 260)” Muito bacana descontextualizar aforismos!

The first song I heard by Burzum was Det Som Engang Var in the CD Hvis lyset tar oss. Even now this song remains for me the most beautiful and powerful work of Burzum; its symphonic sonic violence is impressive over and over again. It is a 14-minute-long composition full of grim, blazing beauty—dark and fateful. The uniquely hair-raising, screaming-at-the-heavens vocal of Varg Vikernes turns the piece into an expressionistic shriek-opera, the words of which are probably incomprehensible even for Norwegians. The song was composed in the spring of 1992. Another work which fascinates me very much is Tomhet (Emptiness), on the same CD. This song too has an extraordinary length; from my point of view it is an exceptional soundtrack to the Norwegian landscape—that is, Norway as I imagine it, a country ruled by silence and storm, solitude and natural violence.”

I am no racist because I do not hate other races. I am no Nazi either, but I am a fascist. I love my race, my culture, and myself. I am a follower of Odin, god of war and death. He is also the god of wisdom, magic, and poetry. Those are the things I am searching for. Burzum exists only for Odin, the cyclopian enemy of the Kristian god. I do not consider my ideas to be extreme at all. That which stupid people call evil is for me the actual reason to survive.”

Daniel Bernard – Wolf und Mensch. Saarbrücken, 1983. [outro?]

Mircea Eliade – Shamanismus und archaische Ekstasetechnik. Frankfurt, 1991.

Rudolf Simek – Lexikon der Germanischen Mythologie. Stuttgart, 1984.

Grimm, Jacob – Teutonic Mythology (4 Vols). Magnolia, MA: Peter Smith, 1976.

Hoidal, Oddvar K. – Quisling: A Study in Treason. Oslo: Norwegian University Press, 1989.

Tarjei Vesaas – Land of Many Fires

À SOMBRA DAS MAIORIAS SILENCIOSAS: O fim do social e o surgimento das massas (4ª ed.) – Baudrillard (MANUAL EM CONTRA-SOCIOLOGIA)

Trad. de 1985, Suely Bastos

Não são boas condutoras do político, nem boas condutoras do social, nem boas condutoras do sentido em geral. Tudo as atravessa, tudo as magnetiza, mas nelas se dilui sem deixar traços. E na realidade o apelo às massas sempre ficou sem resposta. Elas não irradiam, ao contrário, absorvem toda a irradiação das constelações periféricas do Estado, da História, da Cultura, do Sentido. Elas são a inércia, a força da inércia, a força do neutro.” “neutro = nem 1 nem 0utr0”

hoje referente mudo, amanhã protagonista da história, quando elas tomarão a palavra e deixarão de ser a <maioria silenciosa> – ora, justamente as massas não têm história a escrever, nem passado, nem futuro, elas não têm energias virtuais para liberar, nem desejo a realizar: sua força é atual, toda ela está aqui, e é a do seu silêncio.”

A sociologia só pode descrever a expansão do social e suas peripécias. Ela vive apenas da hipótese positiva e definitiva do social. A assimilação, a implosão do social lhe escapam. A hipótese da morte do social é também a da sua própria morte.

O termo massa não é um conceito. Leitmotiv da demagogia política, é uma noção fluida, viscosa, <lumpen-analítica>. Uma boa sociologia procurará abarcá-la em categorias <mais finas>: sócio-profissionais, de classe, de status cultural, etc. Erro: é vagando em torno dessas noções fluidas e acríticas (como outrora a de <mana>) que se pode ir além da sociologia critica inteligente. Além do que, retrospectivamente, se poderá observar que os próprios conceitos de <classe>, de <relação social>, de <poder>, de <status>, todos estes conceitos muito claros que fazem a glória das ciências legítimas, também nunca foram mais do que noções confusas, mas sobre as quais se conciliaram misteriosos objetivos, os de preservar um determinado código de análise.”

As <massas camponesas> de outrora não eram exatamente massas: só se comportam como massa aqueles que estão liberados de suas obrigações simbólicas, <anulados> (presos nas infinitas <redes>) e destinados a serem apenas o inumerável terminal dos mesmos modelos, que não chegam a integrá-los e que finalmente só os apresentam como resíduos estatísticos.” “Qualquer tentativa de qualificá-la é somente um esforço para transferi-Ia para a sociologia e arrancá-la dessa indistinção que não é sequer a da equivalência (soma ilimitada de indivíduos equivalentes: 1 + 1 + 1 + 1 – tal é a definição sociológica)”

Infelizmente não existem aliens. O inferno não é ninguém, o inferno não existe. O inferno sou eu e esse lustre.

O último avatar de deus dura um século. Foi selado, se não fôra selado ficaria ao relento, louco de si mesmo, esfalfado, inútil, um cu negro diante das civilizações selvagens.

Nada de histeria nem de fascismo potencial, mas simulação por precipitação de todos os referenciais perdidos. Caixa preta de todos os referenciais, de todos os sentidos que não admitiu, da história impossível, dos sistemas de representação inencontráveis, a massa é o que resta quando se esqueceu tudo do social.”

Foram pagãs e permaneceram pagãs à sua maneira, jamais freqüentadas pela Instância Suprema, mas vivendo das miudezas das imagens, da superstição e do diabo.” “Esta é a sua maneira de minar o imperativo categórico da moral e da fé, o imperativo sublime do sentido

imperativo incessantemente renovado de moralização da informação: melhor informar, melhor socializar, elevar o nível cultural das massas” “O que elas rejeitam é a <dialética> do sentido. E de nada adianta alegar que elas são mistificadas. Hipótese sempre hipócrita que permite salvaguardar o conforto intelectual dos produtores de sentido: as massas aspirariam espontaneamente às luzes naturais da razão. Isso para conjurar o inverso, ou seja, que é em plena <liberdade> que as massas opõem ao ultimato do sentido a sua recusa e sua vontade de espetáculo. Temem essa transparência e essa vontade política como temem a morte.” “trabalho de absorção e de aniquilamento da cultura” “nós somos apenas episodicamente condutores de sentido, no essencial e em profundidade nós nos comportamos como massa, vivendo a maior parte do tempo num modo pânico ou aleatório, aquém ou além do sentido.”

Nos Estados Unidos, a playlist dá shuffle em vosmecê!

essa indiferença não deveria existir, ela não tem nada a nos dizer. Em outros termos, a <maioria silenciosa> é despossuída até de sua indiferença, ela não tem nem mesmo o direito de que esta lhe seja reconhecida e imputada, é necessário que também esta apatia lhe seja insuflada pelo poder.” “Ora, é exatamente essa indiferença que exigiria ser analisada na sua brutalidade positiva, em vez de ser creditada a uma magia branca, a uma alienação mágica que sempre desviaria as multidões de sua vocação revolucionária.” A indiferença em relação à indiferença é forçoso.

É curioso que essa constatação jamais tenha subvertido a análise, reforçando-a, ao contrário, em sua fantasia de um poder todo-poderoso na manipulação, e de uma massa prostrada num coma ininteligível.”

O poder está muito satisfeito por colocar sobre o futebol uma responsabilidade fácil, ou seja, a de assumir a responsabilidade diabólica pelo embrutecimento das massas.”

VIDA TRANS,CORRA NORMAL: Rancor e Mal

Bom dia, diabo! Casemos essa música em nossos olvidos. Desovados de nosso próprio planeta. Contra-estratégia expressa aos pais fantasmas nebulosos azuis zumbis: nothing beyond our pseudofamily, so… nothing like family routines, nothing like normal boys usually do things. O fascismo não existe, Bolsonaro muito menos; ora, ninguém (me) liga, meu telephone está sempre no silencioso das massas pretas de absorção da matéria escura da Samsung. atroCIDADE alerta…:… ban ban e não bang bang. A missa mulheril de cada dia, ruminando poliânus, ciprestes a cair. Saudade e açucalinidade. Mútuo piscar de olhos de almas desentendidas que se entendem muito bem, pois. Que assim seja! Amem.a.meta.

O Homem veio da @

ANTI-FREUD (E DE CARONA REICH): “Ora, não se trata de maneira alguma de encontrar uma nova interpretação das massas em termos da economia libidinal (remeter o conformismo ou o <fascismo> das massas a uma estrutura latente, a um obscuro desejo de poder e de repressão que eventualmente se alimentaria de uma repressão primária ou de uma pulsão de morte).” Ironia: até quem vai contra Reich vai contra o nazismo!

Esta é hoje a única alternativa para a declinante análise marxista. Outrora se atribuía às massas um destino revolucionário contrariado pela servidão sexual (Reich), hoje se lhes atribui um desejo de alienação e servidão, ou ainda uma espécie de microfascismo cotidiano tão incompreensível quanto sua virtual pulsão de liberação. Ora, não há nem desejo de fascismo e de poder nem desejo de revolução.” Será? O revolucionário encara com otimismo o espectro fascista clássico, pois se existe a vontade de autoescravização, existirá a posteriori, sem dúvida, a revolução. O tique-taque do pêndulo do relógio.

RECADO A DELEUZE: “Última esperança: que as massas tenham um inconsciente ou um desejo, o que permitiria reinvesti-las como suporte ou suposto de sentido. O desejo, reinventado em toda parte, não é senão o referencial do desespero político.”

O cinismo e a imoralidade da política maquiaveliana estão nisso: não no uso sem escrúpulos dos meios com que se o confundiu na concepção vulgar, mas na desenvoltura com relação aos fins. Pois, Nietzsche o viu bem, é nesse menosprezo por uma verdade social, psicológica, histórica, nesse exercício dos simulacros enquanto tais, que se encontra o máximo de energia política, nesse momento em que o político é um jogo e ainda não se deu uma razão. É a partir do século XVIII, e particularmente depois da Revolução, que o político se infletiu de uma maneira decisiva.” Carta de compromissos (grilhões). “No mesmo momento começa a ser representação” “(o teatro segue um destino paralelo: torna-se um teatro representativo – o mesmo acontece com o espaço perspectivo [da pintura]: de instrumental que era no início, torna-se o lugar de inscrição de uma verdade do espaço e da representação)” “idade de ouro dos sistemas representativos burgueses (a constitucionalidade: a Inglaterra do século XVIII, os Estados Unidos da América, a França das revoluções burguesas, a Europa de 1848).

É com o pensamento marxista em seus desenvolvimentos sucessivos que se inaugura o fim do político e de sua energia própria. Nesse momento começa a hegemonia definitiva do social e do econômico, e a coação, para o político, de ser o espelho, legislativo, institucional, executivo, do social.” “a energia do social se inverte, sua especificidade se perde, sua qualidade histórica e sua idealidade desaparecem em benefício de uma configuração em que não só o político se volatilizou, mas em que o próprio social não tem mais nome.”

não há mais investidura política porque também não há mais referente social de definição clássica” massinha: representante da massa.

O fato de a maioria silenciosa (ou as massas) ser um referente imaginário não quer dizer que ela não existe. (…) Elas não se expressam, são sondadas.”

A cabine de votação parece um banheiro químico misturado com cápsula do tempo (um revestimento futurista, branco, metálico, moderno, com coisas bregas e ultrapassadas, fetichistas, por dentro da embalagem), cabine telefônica, uma urna (para os mortos).

jogo nojo gozo enajenación naja-nación luto Geena não

churrasco de cerveja zero álcool na laje na segunda-feira de noite

Fim das esperanças revolucionárias. Porque estas sempre especularam sobre a possibilidade de as massas, como da classe proletária, se negarem enquanto tais. Mas a massa não é um lugar de negatividade nem de explosão, é um lugar de absorção e de implosão.”

Na massa o político se deteriora como vontade e representação.” #IDÉIATÍTULODELIVRO O Único e seus fenômenos. “Durante muito tempo a estratégia do poder pôde parecer se basear na apatia das massas. Quanto mais elas eram passivas, mais ele estava seguro. Mas essa lógica só é característica da fase burocrática e centralista do poder. E é ela que hoje se volta contra ele: a inércia que fomentou se tornou o signo de sua própria morte. É por isso que o poder procura inverter as estratégias: da passividade à participação, do silêncio à palavra. Mas é muito tarde. O limite da <massa crítica>, o da involução do social por inércia, foi transposto.”

Agora buracos negros até existem, pois aparecem em fotografias. O real começou de facto a ser engolido por si mesmo. Nem energia ele arrota, nonobstant.

Em toda parte se procura fazer as massas falarem, se as pressiona a existir de forma social eleitoralmente, sindicalmente, sexualmente, na participação, nas festas, na livre expressão, etc. É preciso conjurar o espectro, é preciso que ele diga seu nome. Nada demonstra com mais clareza que hoje o único problema verdadeiro é o silêncio da massa, o silêncio da maioria silenciosa.” Comprovante de votação nas duas últimas eleições: prove que você existe; comprovante de residência: esse não precisa, sabemos que você pode mesmo morar nas ruas, pular de hotel em motel, pode ter seu organismo alterado artificialmente para jamais dormir. Injetar-se drogas, matar pessoas sonâmbulo pelas ruas de madrugada. Mas isso não nos diz respeito. Votaste? É isso que importa! Não que estejamos indignados com os outros, apenas sabemos que você existe… A propósito, você quer entrar para o sindicato? Nós descontamos a parcela no seu contracheque, não precisa se preocupar. Quem não tem foto no instagram ou facebook, quem não comprova sua vida sexual ativa, tampouco existe. Portanto, cuidado. Você tem direito a ter fases depressivas, mas não exagere… Estamos de olho, passar bem. Ótima semana!

Como não é mais do reino da vontade nem do da representação, ela cai sob o golpe do diagnóstico, da adivinhação pura e simples – de onde o reino universal da informação e da estatística: é preciso auscultá-la, senti-Ia, retirar-lhe algum oráculo. Daí o furor de sedução, de solicitude e de solicitação em torno dela. Daí a predição por ressonância, os efeitos de antecipação e de futuro da multidão em miragens como: <O povo francês pensa… A maioria dos alemães reprova… Toda a Inglaterra vibra com o nascimento do Príncipe…, etc.> – espelho que tende a um reconhecimento sempre cego, sempre ausente.”

Acredita-se que se estruturam as massas injetando-lhes informação, acredita-se que se libera sua energia social cativa à força de informação e de mensagens (a tal ponto que não é mais o enquadramento institucional, mas a quantidade de informação e a taxa de exposição aos meios de comunicação que hoje medem a socialização).”

A massa só é massa porque sua energia social já se esfriou. É um estoque frio, capaz de absorver e de neutralizar todas as energias quentes. Ela se assemelha a esses sistemas semimortos em que se injeta mais energia do que se retira, a essas minas esgotadas que se mantêm em estado de exploração artificial a preço de ouro.”

A energia que se dispende para atenuar a baixa tendencial da taxa de investimento político e a fragilidade absoluta do princípio social de realidade, para manter essa situação do social e impedi-lo de implodir totalmente, essa energia é imensa, e o sistema se precipita aí.”

Não se trata também de produção do social, porque senão o socialismo bastaria, até mesmo o próprio capitalismo. De fato, tudo muda com a precedência da produção da demanda sobre a das mercadorias. A relação lógica (da produção ao consumo) se desfaz, e estamos numa ordem inteiramente diferente, que não é mais nem de produção nem de consumo, mas de simulação de ambas graças à inversão do processo. De repente, não se trata mais de uma crise <real> do capital, como o supõe Attali, crise que depende de um pouco mais de social e de socialismo, mas de um dispositivo absolutamente diferente, hiper-real, que não tem mais nada a ver nem com o capital nem com o social.”

como massa, se limita a ser boa condutora dos fluxos, mas de todos os fluxos, boa condutora da informação, mas de qualquer informação, boa condutora de normas, mas de todas as normas; com isso, se limita a remeter o social à sua transparência absoluta, a só dar lugar aos efeitos do social e do poder, constelações flutuantes em torno desse núcleo imperceptível.”

Nunca houve manipulação. A partida foi jogada pelos dois, com as mesmas armas, e ninguém hoje poderia dizer quem a venceu”

hiperconformismo, forma imanente de humor” “a massa realiza esse paradoxo de não ser um sujeito, um grupo-sujeito, mas de também não ser um objeto.” “a noção de objeto aí se perde, como o campo da microfísica se perde na análise última da <matéria> – impossível captá-la como objeto neste limite infinitesimal

Todo o mundo conhece a profunda indeterminação que reina sobre as estatísticas (o cálculo de probabilidades ou os grandes números também correspondem a uma indeterminação, a uma <flutuação> do conceito de matéria, a que pouco corresponde uma insignificante noção de <lei objetiva>.”

Daí partiria, no sentido literal, uma patafÍsica ou a ciência das soluções imaginárias, ciência da simulação e da hiper-simulação de um mundo exato, verdadeiro, objetivo, com suas leis universais, incluindo o delírio daqueles que o interpretam segundo estas leis. As massas e seu humor involuntário nos introduziriam a uma patafísica do social que finalmente nos desembaraçaria de toda esta metafísica do social que nos atravanca.”

O publicitário não pode deixar de crer que as pessoas acreditam – por pouco que seja, isso quer dizer que existe uma probabilidade mínima de que a mensagem alcance seu objetivo e seja decodificada segundo seu sentido.”

O MEIO É A MENSAGEM, profetizava Mac Luhan: fórmula característica da fase atual, a fase cool de qualquer cultura mass-media

Enquanto o político há muito tempo é considerado só como espetáculo no interior da vida privada, digerido como divertimento semi-esportivo, semilúdico (veja-se o voto vencedor das eleições americanas, ou as tardes de eleições no rádio ou na tevê), e na forma ao mesmo tempo fascinada e maliciosa das velhas comédias de costumes. O jogo eleitoral se identifica há muito tempo aos jogos televisados na consciência do povo. Este, que sempre serviu de álibi e de figurante para a representação política, se vinga entregando-se à representação teatral da cena política e de seus atores.” “É o jogo, o filme ou os desenhos animados que servem de modelos de percepção da esfera política.” Neymar vingador e seu Death Note.

Até os anos 60, a história se impõe como tempo forte: o privado e o cotidiano não são mais do que o avesso obscuro da esfera política. No melhor dos casos, intervém uma dialética entre os dois e pode-se pensar que um dia o cotidiano, como o individual, resplandecerá além da história, no universal. Mas até lá só se pode deplorar o recuo das massas a sua esfera doméstica, sua recusa da história, da política e do universal, e sua absorção na cotidianidade embrutecida do consumo (felizmente elas trabalham, o que lhes garante um estatuto histórico <objetivo> até o momento da tomada de consciência). Hoje, inversão do tempo fraco e do tempo forte: começa-se a vislumbrar que o cotidiano, que os homens em sua banalidade até que poderiam não ser o reverso insignificante da história – melhor: que o recuo para o privado até poderia ser um desafio direto ao político, uma forma de resistência ativa à manipulação política. Os papéis se invertem: é a banalidade da vida, a vida corrente, tudo o que se estigmatizara como pequeno-burguês, abjeto e apolítico (inclusive o sexo) que se torna o tempo forte

Hipótese vertiginosa. As massas despolitizadas não estariam aquém mas além da política. (…) As massas executariam em sua prática <ingênua> (e sem ter esperado as análises sobre o <fim do político>) a sentença da anulação do político, seriam espontaneamente transpolíticas, como são translingüísticas em sua linguagem. Mas, atenção! (…) alguns desejariam que se tratasse (em particular em sua versão sexual e de desejo) de uma nova fonte de energia revolucionária, desejariam lhe dar um sentido e o reconstituir como negatividade histórica em sua própria banalidade. Exaltação de microdesejos, de pequenas diferenças, de práticas cegas, de marginalidades anônimas. Último sobressalto dos intelectuais para exaltar a insignificância, para promover o não-sentido na ordem do sentido. E revertê-lo à razão política. A banalidade, a inércia, o apoliticismo eram fascistas, agora se tornam revolucionários – sem mudar de sentido, isto é, sem deixar de ter sentido. Micro-revolução da banalidade, transpolítica do desejo – mais um truque dos <libertadores>.”

UMA ETNOGRAFIA DA AMÉRICA LATINA 2020’S: “A emergência das maiorias silenciosas se integra no ciclo completo da resistência histórica ao social. Resistência ao trabalho, evidentemente, mas também resistência à medicina, resistência à escola, resistência à segurança, resistência à informação. A história oficial só registra o progresso ininterrupto do social, relegando às trevas, como culturas passadas, como vestígios bárbaros, tudo que não concorreria para esse glorioso acontecimento.” “(o social vai bem, obrigado, só restam uns loucos para escapar ao registro, à vacinação e às vantagens da segurança)”

QUANDO A REDE GLOBO SE TORNA VÍTIMA DO MONSTRO QUE CRIOU (OU MELHOR: QUANDO ELA DESCOBRE QUE A MASSA ERA O DOUTOR E ELA MERO FRANKENSTEIN): “Sempre se acreditou que são os meios de comunicação que enredam as massas – o que é a própria ideologia dos mass media. Procurou-se o segredo da manipulação numa semiologia que combate os mass media. Mas se esqueceu, nessa lógica ingênua da comunicação, que as massas são um meio muito mais forte que todos os meios de comunicação, que são elas que os enredam e os absorvem – ou que pelo menos não há nenhuma prioridade de um sobre o outro. O processo da massa e o dos meios de comunicação são um processo único. Mass(age) é a mensagem.”

trata-se de lhes inculcar de todos os lados (propaganda oficial [Keenes], associação de consumidores, ecólogos [Uirás], sociólogos) a boa prática e o cálculo funcional em matéria de consumo, mas sem esperança.” “Valor/signo em vez de valor de uso já é um desvio da economia política.” “Uso a-social, resistente a todas as pedagogias socialistas – uso aberrante através do qual as massas (nós, vocês, todo o mundo) inverteram a economia política desde agora. Não esperaram as revoluções futuras nem as teorias que pretendem libertá-las de um movimento <dialético>. Elas sabem que não se liberta de nada e que só se abole um sistema obrigando-o ao hiperlógico, impelindo-o a um uso excessivo que equivale a um amortecimento brutal. <Vocês querem que se consuma – pois bem, consumamos sempre mais, e não importa o quê; para todos os fins inúteis e absurdos.>”

O mesmo aconteceu com a medicina: à resistência frontal (que aliás não desapareceu) se substituiu uma forma mais sutil de subversão, um consumo excessivo, irrefreável, da medicina, um conformismo pânico às injunções da saúde. Escalada fantástica do consumo médico que desvia completamente os objetivos e as finalidades sociais da medicina. Que melhor meio de aboli-Ia? Desde então os médicos não sabem mais o que fazem, o que são, muito mais manipulados do que manipuladores. <Queremos mais cuidados, mais médicos, mais medicamentos, mais segurança, mais saúde, sempre mais, sem limites!> As massas são alienadas na medicina? De modo algum: ao exigirem sempre mais, como mercadoria, estão prestes a arruinar sua instituição, a explodir a segurança social, a colocar o próprio social em perigo. Que maior ironia pode haver do que nesta exigência do social como bem de consumo individual, submetido ao excesso da oferta e da procura? Paródia e paradoxo: é por sua inércia nos caminhos do social que lhes foram traçados que as massas lhes ultrapassam a lógica e os limites, e destroem todo o edifício.”

o terrorismo na verdade pretende visar o capital (o imperialismo mundial, etc.) mas se engana de inimigo, e ao fazer isso visa seu verdadeiro inimigo, que é o social.” NADA A VER COM COPA OU OLIMPÍADAS: “terrorismo não-explosivo, não-histórico, não-político; implosivo, cristalizante, siderante” V de Vacância

Ele é o único ato não-representativo. É nisso que ele tem afinidade com as massas, que são a única realidade não-representável. Sobretudo isso não quer dizer que novamente o terrorismo representaria o silêncio e o não-dito das massas, que exprimiria violentamente sua resistência passiva. Isso quer dizer simplesmente: não há equivalente ao caráter cego, não-representativo, desprovido de sentido, do ato terrorista, senão o comportamento cego, desprovido de sentido e além da representação que é o das massas. Eles têm isso de comum porque são a forma atual mais radical, mais exacerbada, de negação de qualquer sistema representativo. É tudo.” “Só conhecemos bem os encadeamentos representativos, não sabemos grande coisa dos encadeamentos analógicos, a-finitários, imediatizados, irreferenciais e outros sistemas.”

Não se pode dizer que é a <era das maiorias silenciosas> que <produz> o terrorismo. É a simultaneidade dos dois que é assombrosa e causa estranheza. Único acontecimento, aceite-se ou não sua brutalidade, que verdadeiramente marca o fim do político e do social. O único que traduz essa realidade de uma implosão violenta de todos os nossos sistemas de representação.” “O terrorismo não visa de modo algum desmascarar o caráter repressivo do Estado (essa é a negatividade provocadora dos grupelhos, que aí encontram uma última oportunidade de serem representativos aos olhos das massas).”

solidariedade dos ativistas mortos “onda de choque”

P. 29: terrorismo x banditismo

os meios são apenas meios

roleta russa mode on

Rael is a problem.

patafísica reacionária do nazista frustrado

de toda forma,

já-deu

agora

fodeu

fode eu

Esahubris 9001 & Stephen Jacobs

Não há diferença alguma entre um terremoto na Guatemala e a queda de um Boeing da Lufthansa com 300 passageiros a bordo, entre a intervenção <natural> e a intervenção <humana> terrorista. A natureza é terrorista, como o é a interrupção abrupta de todo o sistema tecnológico: os grandes black-outs de Nova Iorque (1965 e 1977) criam situações terroristas melhores que as verdadeiras, situações sonhadas. Melhor: esses grandes acidentes tecnológicos, como os grandes acidentes naturais, exemplificam a possibilidade de uma subversão radical sem sujeito. A pane de 1977 em Nova Iorque poderia ser fomentada por um grupo terrorista muito organizado e isso não mudaria nada no resultado objetivo. Teriam sucedido os mesmos atos de violência, de pilhagem, de levante, a mesma suspensão da ordem <social>. Isso significa que o terrorismo não está na decisão de violência, mas em toda parte na normalidade do social, de modo que ela pode de um momento para o outro se transfigurar numa realidade inversa, absurda, incontrolável. A catástrofe natural funciona dessa maneira e é assim que, paradoxalmente, ela se torna a expressão mítica da catástrofe do social. Ou melhor, sendo a catástrofe natural por excelência um incidente desprovido de sentido, não-representativo (senão de Deus, eis por que o responsável pela Continental Edison pôde falar de Deus e de sua intervenção no episódio do último black-out de Nova Iorque), torna-se uma espécie de sintoma ou de encarnação violenta do estado do social, a saber, de sua catástrofe e da ruína de todas as representações que o sustentavam.”

a fascinação é a intensidade extrema do neutro.”

A implosão, para nós e hoje, só pode ser violenta e catastrófica, porque ela resulta do fracasso do sistema de explosão e de expansão dirigida que foi o nosso no Ocidente há alguns séculos.” “A implosão é inelutável, e todos os esforços para salvar os princípios de realidade, de acumulação, de universalidade, os princípios de evolução que dependem dos sistemas em expansão, são arcaicos, regressivos, nostálgicos. Inclusive todos aqueles que querem liberar as energias libidinais, as energias plurais, as intensidades fragmentárias, etc.” “Há traços disso, de diversas tentativas de controlar os novos impulsos anti-universais [satanização do “globalismo”], anti-representativos, tribais, centrípetos, etc.: as comunidades, a ecologia, o crescimento zero [CPTK(SIC) – Centro de Pesquisas Tirei do Ku para a Sustentação Idônea do Capital], as drogas [a única ‘evasão de divisas’ politicamente correta] – tudo isso sem dúvida é dessa natureza. Mas é preciso não se iludir sobre a implosão lenta. Ela está destinada à efemeridade e ao fracasso. Não houve transição equilibrada de sistemas implosivos aos sistemas explosivos: isso sempre aconteceu violentamente, e há toda a possibilidade de que nossa passagem para a implosão também seja violenta e catastrófica.”

ESTE ZERO: “Só a <sociologia> pode parecer testemunhar sua eternidade, e a soberana algaravia das <ciências sociais> ainda o divulgará muito tempo após ele ter desaparecido.”

SANTÍSSIMA TRINDADE SPONSORED BY K. – RIMA COM…: “como o espaço e o tempo, o social efetivamente abre uma perspectiva ao infinito. Não há definição do social senão nessa perspectiva panótica.”

Se o sexo e a sexualidade, dado que a revolução sexual os muda em si mesmos, são verdadeiramente um modo de troca e de produção de relações sexuais, já a sedução é o inverso da troca, e próxima ao desafio. A sexualidade realmente só se tornou <relação sexual>, só pôde ser falada nesses termos já racionalizados de valor e de troca, ao se esquecer qualquer forma de sedução – assim como o social só se torna <relação social> quando perdeu toda a dimensão simbólica.

SEMPRE CABE +1: “Ver, em L’Échange Simbolique et le Mort¹, a tripla residualidade: do valor na ordem econômica, do fantasma na ordem psíquica, da significação da ordem lingüística. É preciso portanto acrescentar aí a residualidade do social na ordem… social.”

¹ Talvez o único livro de Baudrillard que ainda não li!

não se pode dizer que o social morre, pois ele é desde sempre acumulação do morto. Com efeito, estamos numa civilização do super-social, e simultaneamente do resíduo indegradável, indestrutível, que se expande na própria medida da extensão do social.”

O REI MAGNÂNIMO: “Em 1544 abriu-se o primeiro grande estabelecimento de pobres em Paris: vagabundos, dementes, doentes, todos aqueles que o grupo não integrou e deixou como sobras serão adotados sob o signo nascente do social.”

4 CENTURIES LATER…: “Quando a sobra atinge as dimensões da sociedade toda, tem-se uma socialização perfeita. Vejam-se os Guaiaqui [Kwakiutl?] ou os Tupi-Guarani: quando um tal resíduo aparece, é drenado pelos líderes messiânicos para o Atlântico, sob a forma de movimentos escatológicos que purgam o grupo dos resíduos <sociais>. Não só o poder político (Clastres) mas o próprio social é conjurado como instância desintegrada/desintegrante.” Não há uma obra de Baudrillard sem Pierre Clastres…

Sea-arriba: O paradoxo do sociólogo que combate os anti-sociólogos: parcial no cultivo da neutralidade, torna-se tendencioso. A evolução social re-quer o autogolpe, uma espécie de “Brasil transformado em ciência”. Onde tudo é ruçamente permitido!

gestão usurária da morte” “É nessa perspectiva de gestão de resíduos que o social pode aparecer hoje pelo que é: um direito, uma necessidade, um serviço, um puro e simples valor de uso.” “o social como ecossistema, homeostase e superbiologia funcional da espécie“Uma espécie de espaço fetal de segurança (…) a forma mais baixa da energia social”

* * *

Se toda a riqueza fosse sacrificada, as pessoas perderiam o sentido do real. Se toda a riqueza se tornasse disponível, as pessoas perderiam o sentido do útil e do inútil. O social existe para garantir o consumo inútil da sobra a fim de que os indivíduos se dediquem à gestão útil de suas vidas.” Transformar leite e queijo em livros.

Não é à toa que cálculo (estudo de relações entre coisas) se chama razão.

o afluxo repentino de divisas é a maneira mais rápida e mais radical de arruinar uma moeda”

NEGATIVE LOTTO: “A loucura de Hölderlin lhe veio desta prodigalidade dos deuses, desta graça dos deuses que afoga e se torna mortal se não pode ser reparada e compensada por uma equivalência humana, a da terra, a do trabalho. Há aí uma espécie de lei que não tem nada a ver com a moral burguesa. Mais próximo de nós, citemos a confusão mortal das pessoas superexpostas à riqueza e à felicidade – como clientes de uma grande loja aos quais se oferece escolher o que desejam: é o pânico. Ou ainda esses vinhateiros a quem o Estado oferece mais dinheiro para arrancar suas vinhas do que ganhariam trabalhando nelas. São muito mais desestruturados por este prêmio inesperado do que pela tradicional exploração de força de trabalho.”

Eu preciso de imbecis me aparando ou eu seria só cabelo.

Se meu talento fosse reconhecido da noite para o dia, fatalmente eu ficaria louco como se toda a metanfetamina do mundo fosse-me injetada duma vez.

DESAFIO: Cite 10 coisas mais úteis que pisar na Lua.

A verdadeira candura é a dos socialistas e humanistas de toda espécie, que querem que toda a riqueza seja redistribuída, que não haja nenhuma despesa inútil, etc.”

É o que o socialismo não vê: ao querer abolir essa escassez, e ao reivindicar o usufruto generalizado da riqueza, põe fim ao social acreditando que o está conduzindo ao auge.” “Quando tudo, inclusive o social, se torna valor de uso, o mundo se tornou inerte, onde se opera o inverso do que Marx sonhava. Ele sonhava com uma reabsorção do econômico no social (transfigurado). O que nos acontece é a reabsorção do social na economia política (banalizada): a gestão pura e simples.”

Nada mudou desde Mandeville e sua Fábula das Abelhas.”

Terceira hipótese: “O social não foi sempre um equívoco, como na primeira hipótese, nem uma sobra, como na segunda. Mas justamente só teve sentido, como o poder, como o trabalho, como o capital, num espaço perspectivo de distribuição racional (…) e hoje morre” “Ora, o social só existe num espaço perspectivo, morre no espaço de simulação”

Curto-circuito fantástico: o real é hiper-realizado; nem realizado, nem idealizado. O hiper-real é a abolição do real não por destruição violenta, mas pela afirmação, elevação à potência do modelo.” “Há real em demasia, cai-se no obsceno e no pornô.”

CAGADA HAT-TRICK

A direita

A esquerda

O espírito aristocráticotirânico AMEMuns aos outros

Doña Flôbert e seus 2 Partidos

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A esquerda é o monstro do Alien.

Por que, no final das contas, o fascismo (genuíno, pur sang) é sempre eleito democraticamente: “Os representantes do povo são bastante ingênuos a esse respeito: tomam sua eleição por uma aprovação e um consenso popular, não desconfiam nunca que não há nada mais ambíguo do que impelir alguém ao poder e que o espetáculo mais gratificante para o povo sem dúvida sempre foi a derrota de uma classe política.”

O advento do socialismo como modelo é absolutamente diferente de seu advento histórico. Como acontecimento, como mito, como força de ruptura, o socialismo não tem, como se diz, o tempo de se parecer consigo mesmo, de se fortalecer como modelo, não tem tempo de se confundir com a sociedade – nessa qualidade ele não é um estado estável, e aliás só fez breves aparições históricas. Ao passo que hoje o socialismo se propõe como modelo estável e confiável – não é mais uma exigência revolucionária, é uma simulação de mudança (simulação no sentido de desenvolvimento do melhor cenário possível) e uma simulação do futuro. Nada de surpresa, nada de violência, nada de ultrapassagem, nada de verdadeira paixão.”

A menos que haja uma reversão miraculosa da história, que daria sua carne e seu sangue a qualquer projeto social que apareça, e à realidade sem mais, é-nos necessário, como diz Canetti, perseverar na destruição atual.”

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o intelectual infelizmente sempre é bastante virginal para ser cúmplice da repressão ao vício.” Nunca cansamos de ser críticos. Só com críticas explícitas fazemos 3 pontos fora de casa. Como político, excelente filósofo; como filósofo, excelente político. Como legislador, excelente burocrata. Enquanto funcionário racional-legal, criador de exceções imprevisíveis incontroláveis o tempo inteiro. Como pai ótimo filho.

Ou Stalin ou Nada, de que lado Você (o[u] Eu) está?

O CORPO DECIDE QUANDO O TEATRO FICA ENJOADO: “Nós vagueamos entre os fantasmas do capital, de hoje em diante vaguearemos no modelo póstumo do socialismo. A hiper-realidade de tudo isso não mudará nem um pouco, num certo sentido é nossa paisagem familiar há muito tempo. Estamos doentes de leucemia política, e essa indiferença crescente (estamos atravessados pelo poder sem por ele sermos atingidos, analisamos, atravessamos o poder sem alcançá-lo) é absolutamente semelhante ao tipo de patologia mais moderna: a saber, não a agressão biológica objetiva, mas a incapacidade crescente do organismo de fabricar anticorpos (ou mesmo, como na esclerose em placas, a possibilidade de os anticorpos se voltarem contra o próprio organismo).”

E aí nós, intelectuais, fomos pegos. Porque enquanto se tratava de economia, de programação e do desencantamento de uma sociedade liberal, mantivemos nosso foro íntimo, ricos de uma reserva mental e política indefinida, vestais de uma pequena chama crítica e filosófica, promessa de uma eficácia silenciosa da teoria (aliás a teoria se portava muito bem, ela não reencontrará sem dúvida jamais a qualidade ofensiva e jubilatória ao mesmo tempo que a grandiosa sinecura de que desfrutou nesses últimos 20 anos).” “Nada pior do que a absorção da força teórica numa instituição. Eu compreendo: a própria utopia dos conceitos segundo os quais analisávamos esta situação que não era a nossa, e a dissolvíamos em seus componentes imaginários, essa utopia mesma se volta contra nós sob a forma de julgamento de valor real, de jurisdição intelectualmente armada com nossas próprias armas, sob a forma desse fantasma da vontade coletiva, essa utopia foi a de nossa própria classe [os intelectuais], que mantém, mesmo na simulação, o poder de nos anular.”

velho slogan rimbaudiano que se tornou socialista – alegrai-vos, hoje se vai mudar verdadeiramente a vida – é maravilhoso!”

Thomas En(do)gênio: “Tal é o sonho socialista, enlouquecido de transparência, inundado de ingenuidade. Porque nenhum grupo jamais funcionou assim – mas sobretudo: que grupo não sonhou com isso? Felizmente é verossímil que algum projeto social digno desse nome jamais existiu, que nenhum grupo na verdade jamais se concebeu idealmente como social, em suma, jamais houve <a sombra> (salvo nas cabeças intelectuais) nem o embrião de um sujeito coletivo com responsabilidade limitada, nem a possibilidade mesma de um objetivo dessa ordem.”

VANIHILL SKY

Nos anos 50 era provavelmente impensável uma ressurreição do fascismo para a quase totalidade dos seres humanos. Para os vitoriosos, porque deviam intuir que seu êxito era a comprovação plena da justiça universal; o evento era recente demais para que se pudesse conceber sequer uma nova tentativa de alçada ao poder por parte da extrema direita, com o mesmo ímpeto e nas mesmas bases do recém-intentado. Tal tentativa, era óbvio, estava fadada ao fracasso. E se a tentativa ocorresse, se por um milagre triunfasse em algum país (a Alemanha estava então ocupada e dividida), o resultado final, após um inevitável confronto bélico, já estava escancarado: a vitória incondicional das forças aliadas democráticas. Mesmo o derrotado que como conseqüência do fim da guerra (já tendo sido lucro o “continuar vivo”) ainda não houvesse mudado de lado (pensemos no clássico tipo do soldado alemão, homenzinhos em série que “só cumpriam ordens” e não tinham possibilidade hierárquica alguma de estipular ações relevantes nem de influenciar na guerra, tampouco de ser responsabilizados em massa e punidos num tribunal por seus crimes durante o regime de exceção, sem falar que estamos, ainda, antes – e na iminência – da criação dos Direitos Humanos e das Nações Unidas) certamente estaria em frangalhos para cultivar qualquer fé no futuro do seu ideal supremacista. A reação mais normal era a conversão imediata pura e simples, o acordar do hipnotismo ou do sonho, regressando à condição humana. Desconsidero aqui os “nazistas revisionistas”, esse tipo de criatura que, 50 anos depois, nega a existência do Holocausto. Difícil acreditar que esses indivíduos acreditem em si mesmos. Por definição, este não seria um verdadeiro nazista, pois o judeu é o “mal denso e opaco” que não pode em absoluto ser negado. Para o nazista, negar o extermínio dos judeus, negar os bons auspícios da mera idéia da abolição desta “raça”, seria sintoma de fraqueza e degeneração, além de um vexame perante os antepassados, não se justificando nem mesmo como tática mesquinha para a ascensão ao poder. Também acho improvável que qualquer “revisionista” dos anos 50 não fosse enviado a manicômios. Deve se tratar de um fenômeno mais recente, de pessoas que não viveram a guerra.

O ponto sensível em que queria chegar: tinha-se como preceito básico que enquanto fosse conhecido e lembrado o Nazifascismo não se repetiria. Esse pressuposto já foi demolido. Hoje o sinal preocupante é que indivíduos que conhecem a História, a Segunda Guerra e os mecanismos totalitários passam agora a desejar fervorosamente sua manifestação mais uma vez. A verdade era auto-revelada; assim que o véu do enredo se levantava, o aspecto atroz do Nacional-Socialismo tinha um poder instantâneo de convencimento das massas: uma aberração tal carregava consigo a verdade evidente de sua cretinice e bestialidade. O sentimento expiatório, o choque compartilhado por todos os conscientes do ocorrido, proibia qualquer simpatia pelos derrotados. Havia um mudo consenso sobre esta fabulosa calamidade ou episódio mais grotesco de todos os tempos…

…Que não se mostrou muito duradouro, pelo que hoje vemos. Poucas gerações depois, uma parcela da humanidade deseja o ressurgimento da cretinice e da bestialidade, não mais cretinas, não mais embaraçosas, mas índices, pelo contrário, de um “novo homem”, renascido das cinzas da debilidade social-democrata. E essa vontade já não é mascarada ou tratada com pudor: é nua e crua. Hitler e Mussolini foram desventurados, mas devem ser tomados como modelo e inspiração, dizem os novos jovens (e alguns já velhos). Porém, reviravolta das reviravoltas, eis a inflexão inaudita: termos chegado a esse ponto não teria dois lados?!

Se por um lado é factível um novo nazismo, ver que a idéia foi apropriada por fatias de “consumidores” da aldeia global não seria constatar que não se trata da hecatombe original, mas de uma forma, que direi eu?, atenuada, até mesmo inofensiva?! Apropriado pelo capitalismo, o movimento da ultradireita poderia ser reeditado sem romper daqui em diante as regras do sistema, sem apresentar perigo letal, como tudo o mais o é? Como toda revolução, forma de protesto ou anti-mercadoria se torna apenas mais um item do catálogo pouquíssimo tempo depois de seu aparecimento, contradizendo-se a si própria ao se tornar paradoxalmente imortal e serializável, não seria o nazifascismo mais uma vedete dentre outras da Sociedade do Espetáculo? Apenas uma forma de se distinguir socialmente (Bourdieu e a insípida sociologia acadêmica francesa)?! Incapaz, na prática, de efetivar as metas hitleristas, condenado a ficar eternamente no “quase”, igual a democracia, igual a social-democracia, igual o socialismo, igual o neoliberalismo, igual tudo que já foi inventado e rotulado pelo homem? Utopia mundana, eleger fascistas já nada significaria?!

A máquina perfeita de simulação virtual, essa reversibilidade ad infinitum dos elementos de um jogo insuprimível, como diria o discurso pós-moderno de um Baudrillard? Confesso-me esmagado entre dois extremos que não consigo adotar por mais de um dia sem reservas: o do antifa histérico e histriônico (“apenas eu estou vendo isso? o que vocês estão fazendo que não tomam uma atitude?”) e o do conformado mais apático que se imagina (“não é nada para se preocupar, não esquenta, isso passa”). Faz diferença a indiferença? Não é o fascista de hoje muito mais incompetente e estéril? Uma falsa impressão que, se levada adiante, possibilitaria a vitória totalitária? Mas o antifa existe e está aí, e brada contra qualquer “atributo fascista” enxergado e hipostasiado, alucinado, até mesmo no seio da esquerda mais ortodoxa! Não parece ser esta a questão, num mundo que ainda não decidiu o que é mais difícil ou lenda urbana: alienar-se ou evitar a hipocrisia, ser fiel a um imperativo categórico ou tornar-se o perfeito blasé. A rigor sabemos que jamais voltaremos ao cenário em que essas coisas eram mais simples e apresentavam quaisquer remotos resquícios de sentido. Estarei indefinidamente espremido, como joguete baudrillardiano, entre esses dois falsos-horizontes, num corredor polonês estreito e interminável, se bem que fruto da minha imaginação, condenado a viver num mundo que reprisa sempre os mesmos sucessos e fracassos sem dar a hegemonia a nada nem ninguém, um sonhador como o de Vanilla Sky, cujo sonho é reinicializado quando sai um pouco de controle, sendo a suma de um niilismo inexpugnável e estagnado?

Nossa memória histórica realmente existe ou ela é reconfigurada todos os dias por um administrador do sistema operacional, ou pelo nosso próprio inconsciente?! O problema da reascensão do fascismo e de continuarmos aqui, banais, pensantes, é esse: o de pôr em questão e entre parênteses a própria realidade, o próprio conceito de triunfo, a própria definição de medo, ansiedade, da claustrofobia, da sensação de esgotamento ou exaustão. Céu branco de baunilha, o ontem é mitologia, o amanhã apenas um reboot.

ODIN NUNCA FOI ZEUS

Tribos vikings eram conglomerados de retardados. E ainda que, antropologicamente falando, você os considere em nível de equivalência com as tribos pré-colombianas ou outros povos nômades totalmente aniquilados pelo “homem branco civilizado” (e depreciados post mortem como “sociedades inferiores”), basta ver o que é a Europa hoje (essa flor fedida) para entender que pau que nasce torto, só podia mesmo morrer torto. (RESSALVA IMPORTANTE: os vikings não “evoluíram paulatinamente rumo ao Estado de Direito”; esse conceito permaneceria completamente desconhecido pelas gerações seguintes, na Europa Ocidental, não fosse a influência do direito romano, quer seja, no fundo, não fosse a SINGULARIDADE MIRACULOSA chamada “gregos”, que em poucos séculos de organização que tenha deixado rastros transmutaram para sempre o devir do homem, criatura sórdida que rasteja e vegeta há dezenas de milhares de milênios, apesar dos esforços de alguns gênios esporádicos.) (RESSALVA 2: Digam o que disserem dos judeus – há quem pense que eles arruinaram o mundo -, Jeová continuaria sendo um culto periférico e irrelevante para os povos da Terra, não fosse a injeção espiritual de Sócrates, Platão & cia. que transformou uma religião de seita em crença ecumênica – mesmo o Cristianismo, esse inimigo-mor dos vikings, o autêntico Ragnarok da besta-loira, é, também, herança – trágica herança – grega.)

L’ENCYCLOPÉDIE – AM – compilado (1)

* AMANUS, s. m. (Myth.) Dieu des anciens Perses. C’étoit, à ce qu’on croit, ou le soleil ou le feu perpétuel qui en étoit une image. Tous les jours les Mages alloient dans son temple chanter leurs hymnes pendant une heure devant le feu sacré, tenant de la vervaine en main [planta medicinal], & la tête couronnée de tiares dont les bandelettes [bandagens] leur tomboient sur les joues.”

Não há fogo sagrado que não seja apagado por um temporal.

AMAUTAS, s. m. (Hist. mod.) Philosophes du Pérou sous le regne des Incas. On croit que ce fut l’Inca Roca qui fonda le premier des écoles à Cusco, afin que les Amautas y enseignassent les Sciences aux Princes & aux Gentils-hommes; car il croyoit que la science ne devoit être que pour la Noblesse. Le devoir des Amautas étoit d’apprendre à leurs disciples les cérémonies & les préceptes de leur religion; la raison, le fondement & l’explication des lois; la politique & l’Art Militaire; l’Histoire & la Chronologie; la Poësie même, la Philosophie, la Musique & l’Astrologie. Les Amautas composoient des comédies & des tragédies qu’ils représentoient devant leurs Rois & les Seigneurs de la Cour aux fêtes solemnelles. Les sujets de leurs tragédies étoient des actions militaires, les triomphes de leurs Rois ou d’autres hommes illustres. Dans les comédies ils parloient de l’agriculture, des affaires domestiques, & des divers évenemens de la vie humaine. On n’y remarquoit rien d’obscene ni de rampant; tout au contraire y étoit grave, sententieux, conforme aux bonnes moeurs & à la vertu. Les acteurs étoient des personnes qualifiées; & quand la piece étoit joüée, ils venoient reprendre leur place dans l’assemblée, chacun selon sa dignité. Ceux qui avoient le mieux réussi dans leur rôle recevoient pour prix des joyaux ou d’autres présens considérables. La poësie des Amautas étoit composée de grands & de petits vers où ils observoient la mesure des syllabes. On dit néanmoins qu’au tems de la conquête des Espagnols ils n’avoient pas encore l’usage de l’écriture, & qu’ils se servoient de signes ou d’instrumens sensibles pour exprimer ce qu’ils entendoient dans les Sciences qu’ils enseignoient. Garcilasso de la Vega, Hist. des Incas, liv. II. & IV.

AMAZONE, s. f. (Hist. anc.) femme courageuse & hardie, capable de grands exploits.

Amazone, dans un sens plus particulier, est le nom d’une nation ancienne de femmes guerrieres, qui, dit-on, fonderent un Empire dans l’Asie mineure, près du Thermodon, le long des côtes de la mer Noire.

Il n’y avoit point d’hommes parmi elles; pour la propagation de leur espece, elles alloient chercher des étrangers; elles tuoient tous les enfans mâles qui leur naissoient, & retranchoient aux filles la mammelle droite pour les rendre plus propres à tirer de l’arc. C’est de cette circonstance qu’elles furent appellées Amazones, mot composé d’<A> privatif, & de MAO, mammelle, comme qui diroit sans mammelle, ou privées d’une mammelle.

Não havia homens entre elas; para a propagação da espécie elas procuravam estrangeiros; elas matavam todas as crianças macho que lhes nasciam, e decepavam nas mulheres a mama direita para torná-las mais aptas no exercício do tiro de arco. Provém dessa circunstância o chamarem-nas Amazonas, palavra composta do ‘A’ privativo, e de MAO, mama, como que dizendo sem mamas, ou privadas de uma das mamas.

Les Auteurs ne sont pas tous d’accord qu’il y ait eu réellement une nation d’Amazones. Strabon, Paléphate, & plusieurs autres le nient formellement: mais Hérodote, Pausanias, Diodore de Sicile, Trogue Pompée, Justin, Pline, Pomponius Mela, Plutarque, & plusieurs autres, l’assurent positivement. Hippocrate dit qu’il y avoit une loi chez elles, qui condamnoit les filles à demeurer vierges, jusqu’à ce qu’elles eussent tué trois des ennemis de l’État. Il ajoûte que la raison pour laquelle elles amputoient la mammelle droite à leurs filles, c’étoit afin que le bras de ce côté-là profitât davantage, & devînt plus fort.

Quelques Auteurs disent qu’elles ne tuoient pas leurs enfans mâles; qu’elles ne faisoient que leur tordre les jambes, pour empêcher qu’ils ne prétendissent un jour se rendre les maîtres.

M. Petit Medecin de Paris, a publié en 1681, une dissertation latine, pour prouver qu’il y a eu réellement une nation d’Amazones; cette dissertation contient quantité de remarques curieuses & intéressantes sur leur maniere de s’habiller, leurs armes, & les villes qu’elles ont fondées. Dans les médailles le buste des Amazones est ordinairement armé d’une petite hache d’armes appellée bipennis, ou securis, qu’elles portoient sur l’épaule, avec un petit bouclier en croissant que les Latins appelloient pelta, à leur bras gauche: c’est ce qui a fait dire à Ovide, de Ponto.

Non tibi amazonia est pro me sumenda securis, Aut excisa levi pelta gerenda manu.

Des Géographes & voyageurs modernes prétendent qu’il y a encore dans quelques endroits des Amazones. Le P. Jean de Los Sanctos, Capucin Portugais, dans sa description de l’Éthiopie, dit qu’il y a en Afrique une République d’Amazones; & AEnéas Sylvius rapporte qu’on a vû subsister en Boheme pendant 9 ans, une République d’Amazones fondée par le courage d’une fille nommée Valasca [Popazuda].”

AMAZONES. riviere des Amazones; elle traverse toute l’Amérique méridionale d’occident en orient, & passe pour le plus grand fleuve du monde. On croît communément que le premier Européen qui l’a reconnu fut François d’Orellana, Espagnol; ce qui a fait nommer cette riviere par quelques-uns Orellana: mais avant lui, elle étoit connue sous le nom de Maranon (qu’on prononce Maragnon) nom qu’elle avoit reçû, à ce qu’on croit, d’un autre Capitaine Espagnol ainsi appellé. Orellana dans sa relation dit avoir vû en descendant cette riviere, quelques femmes armées dont un cacique Indien lui avoit dit de se défier: c’est ce qui l’a fait appeller riviere des Amazones.

La carte très-défectueuse du cours de la riviere des Amazones dressée par Sanson sur la relation purement historique d’un voyage de cette riviere que fit Texeira, accompagné du P. d’Acunha Jésuite, a été copiée par un grand nombre de Géographes, & on n’en a pas eû de meilleure jusqu’en 1717 qu’on en publia une du P. Fritz Jésuite, dans les lettres édifiantes & curieuses.

Enfin M. de la Condamine, de l’Académie Royale des Sciences, a parcouru toute cette riviere en 1743; & ce voyage long, pénible, & dangereux, nous a valu une nouvelle carte de cette riviere plus exacte que toutes celles qui avoient précédé. Le célebre Académicien que nous venons de nommer a publié une relation de ce voyage très-curieuse & très-bien écrite, qui a été aussi insérée dans le volume de l’Académie Royale des Sciences pour 1745. Nous y renvoyons nos Lecteurs, que nous exhortons fort à la lire. M. de la Condamine dit qu’il n’a point vû dans tout ce voyage d’Amazones, ni rien qui leur ressemble; il paroît même porté à croire qu’elles ne subsistent plus aujourd’hui; mais en rassemblant les témoignages, il croit assez probable qu’il y a eu en Amérique des Amazones, c’est-à-dire une société de femmes qui vivoient sans avoir de commerce [bom eufemismo!] habituel avec les hommes.”

AMAZONIUS, nom donné au mois de Décembre par les flateurs de l’Empereur Commode, en l’honneur d’une courtisanne qu’il aimoit éperdument, & qu’il avoit fait peindre en Amazone: ce Prince par la même raison prit aussi le surnom d’Amazonius.” Êta amor mais brega!

AMBA. Manga!

AMBAGES, s. m. (Belles-Lettres.) mot purement Latin adopté dans plusieurs langues, pour signifier un amas confus de paroles obscures & entortillées dont on a peine à démêler le sens; ou un long verbiage [verborragia], qui, loin d’éclaircir les choses dont il s’agit, ne sert qu’à les embrouiller. V. Circonlocution.

encyclopedie AMbaiba

* AMBAIBA [foto], arbre qui croît au Brésil; il est très-élevé; son écorce ressemble à celle du figuier; elle couvre une peau mince, épaisse, verte & gluante; son bois est blanc, comme celui du bouleau, mais plus doux & plus facile à rompre; son tronc est de grosseur ordinaire, mais creux depuis la racine jusqu’au sommet; sa feuille est portée sur un pédicule épais, long de deux ou trois piés, d’un rouge foncé en dehors, & spongieux au-dedans; elle est large, ronde, découpée en neuf ou dix lanieres, & chaque laniere a sa côte, d’où partent des nervures en grand-nombre; elle est verte en dessus, cendrés en dessous, & bordée d’une ligne grisârre; le haut du creux donne une espece de moelle que les Negres mettent sur leurs blessures; les fleurs sortent de la partie supérieure du tronc, & pendent à un pédicule fort court, au nombre de 4 ou 5; leur forme est cylindrique; elles ont 7 à 9 pouces de long, sur un pouce d’épaisseur; leur cavité est pleine de duvet; il y a aussi des amandes [amêndoas] qui sont bonnes à manger, quand les fleurs sont tombées; les habitans du Brésil font du feu avec sa racine seche sans caillou ni acier [sem aço nem pedra]; ils pratiquent un petit trou; ils sichent dans ce trou un morceau de bois dur & pointu qu’ils agitent avec beaucoup de vitesse; le bois percé est sous leurs piés, & le bois pointu est perpendiculaire entre leurs jambes: l’agitation suffit pour allumer l’écorce.

On attribue à sa racine, à son écorce, à sa moelle, à sa feuille, au suc de ses rejettons, une si grande quantité de propriétés, que les hommes ne devroient point mourir dans un pays où il y auroit une douzaine de plantes de cette espece, si on en savoit faire usage. Mais je ne doute point que ceux qui habitent ces contrées éloignées ne portent le même jugement de nos plantes & de nous, quand ils lisent les vertus merveilleuses que nous leur attribuons [muito bem-percebido].

AMBASSADE. (…) L’histoire nous parle aussi d’ambassadrices; Mme la Maréchale de Guebriant a été, comme dit Wicquefort, la premiere femme, & peut-être la seule, qui ait été envoyée par aucune Cour de l’Europe en qualité d’ambassadrice. Matth. liv. IV. Vie d’Henri IV. dit que le Roi de Perse envoya une Dame de sa Cour en ambassade vers le Grand Seigneur pendant les troubles de l’Empire.”

AMBASSADEUR. (…) Ils croient donc que chez les Barbares qui inonderent l’Europe, ambascia signifioit le discours d’un homme qui s’humilie ou s’abaisse devant un autre, & qu’il vient de la même racine qu’abaisser, c’est-à-dire de an ou am & de bas.

(…)

Les ambassadeurs ordinaires sont d’institution moderne; ils étoient inconnus il y a 200 ans: avant ce tems-là tous les ambassadeurs étoient extraordinaires, & se retiroient sitôt qu’ils avoient achevé l’affaire qu’ils avoient à négocier. (…) A la vérité il n’y a nulle différence essentielle entre ambassadeur ordinaire & ambassadeur extraordinaire [ambos são perfeitamente inúteis]”

(…)

Le nom d’ambassadeur, dit Ciceron, est sacré & inviolable: non modo inter sociorum jura, sed etiam inter hostium tela incolume versatur. In Verr. Orat. VI. Nous lisons que David fit la guerre aux Ammonites pour venger l’injure faite à ses ambassadeurs, liv. II. Rois, 10. Alexandre fit passer au fil de l’épée les habitans de Tyr, pour avoir insulté ses ambassadeurs. La jeunesse de Rome ayant outragé les ambassadeurs de Vallonne [?], sut [fut?] livrée entre leurs mains pour les en punir à discrétion.

(…)

Dans toutes les autres Cours de l’Europe l’ambassadeur de France a le pas sur celui d’Espagne, comme cette Couronne le reconnut publiquement au mois de Mai 1662, dans l’audience que le Roi Louis XIV donna à l’ambassadeur d’Espagne, qui, en présence de 27 autres tant ambassadeurs que, envoyés des Princes, protesta que le Roi son maître ne disputeroit jamais le pas à la France. Ce fut en réparation de l’insulte faite à Londres l’année précédente par le Baron de Batteville, ambassadeur d’Espagne, au Comte d’Estrades, ambassadeur de France: on frappa à cette occasion une médaille.”

AMBIDEXTRE. “Hippocrate dans ses Aphorismes prétend qu’il n’y a point de femme ambidextre: plusieurs Modernes cependant soûtiennent le contraire, & citent des exemples en faveur de leur sentiment: mais s’il y a des femmes ambidextres, il faut avoüer du moins qu’il y en a beaucoup moins que d’hommes.”

AMBLYOPIE, s. f. est une offuscation ou un obscurcissement de la vûe, qui empêche de distinguer clairement l’objet, à quelque distance qu’il soit placé. Cette incommodité vient d’une obstruction imparfaite des nerfs optiques, d’une suffusion légere, du défaut ou de l’épaisseur des esprits, &c. Quelques-uns comptent 4 espèces d’amblyopies; savoir, la myopie, la presbytie, la nyctalopie, & l’amaurosis. Voyez chacune à son article. Blanchard. (N)

AMBRE-GRIS. “autrefois l’ambre étoit à la mode en France: combien ne voit-on pas encore de coupes, de vases & d’autres ouvrages faits de cette matiere avec un travail infini? mais les métaux précieux, les pierres fines & les pierreries l’ont emporté sur l’ambre-jaune dès qu’ils ont été assez communs pour fournir à notre luxe.”

AMBROSIA, nom que les Grecs donnoient à une fête que l’on célebroit à Rome le 24 Novembre en l’honneur de Bacchus. Romulus l’avoit instituée, & les Romains l’appelloient brumalia.”

AMBROSIE, s. f. dans la Théologie des payens, étoit le mets dont ils supposoient que leurs dieux se nourrissoient. Voyez Dieu & Autel. Ce mot est composé d’A’ privatif & de BROTO\, mortel; ou parce que l’ambrosie rendoit immortels ceux qui en mangeoient, ou parce qu’elle étoit mangée par des immortels.”

ON THE FUNCTIONS OF THE BRAIN AND OF EACH OF ITS PARTS: with observations on the possibility of determining the instincts, propensities, and talents, or the moral and intellectual dispositions of men and animals, by the configuration of the brain and head. – Vol. I (out of VI): “On the Origen of The Moral Qualities and Intellectual Faculties of Man, And The Conditions of Their Manifestation.” – François Joseph GALL (translated from the French by Winslow Lewis) (1835)

THE PHRENOLOGICAL LIBRARY

Volume 9 da coleção: Macknish – The Philosophy of Sleep

BIOGRAPHY-BIOGRAPHERS OF DR. GALL & HIS LETTERS TO HIS FRIENDS AND SPONSORS

He then observed, that his schoolfellows, so gifted, possessed prominent eyes [?]; and he recollected, that his rivals in the first school had been distinguished by the same peculiarity. (…) and, although the connection betwixt the talent and the external sign was not at this time established upon such complete evidence as is requisite for a philosophical conclusion, yet Dr. Gall could not believe that the coincidence of the two circumstances thus observed was entirely accidental.”

By degrees, he conceived himself to have found external characteristics, which indicated a decided disposition for Painting, Music, and the Mechanical Arts. He became acquainted, also, with some individuals remarkable for the determination of their character, and he observed, a particular part of their heads to be very largely developed. (…) Hitherto he had been altogether ignorant of the opinions of Physiologists, touching the brain, and of Metaphysicians respecting the mental faculties, and had simply observed nature. (…) He found that the moral sentiments had, by an almost general consent, been consigned to the thoracic and abdominal viscera; and, that while Pythagoras, Plato, Galen, Haller, and some other Physiologists, placed the sentient soul or intellectual faculties in the brain, Aristotle placed it in the heart, Van Helmont in the stomach, Des Cartes (sic) and his followers in the pineal gland, and Drelincourt and others in the cerebellum.

we were accused of want of will, or deficiency in zeal; but many of us could not, even with the most ardent desire, followed out by the most obstinate efforts, attain in some pursuits even to mediocrity; while in some other points, some of us surpassed our schoolfellows without an effort, and almost, it might be said, without perceiving it ourselves.”

Hitherto he had resorted only to Physiognomical indications, as a means of discovering the functions of the brain. On reflection, however, he was convinced that Physiology was imperfect when separated from Anatomy. (…) In every instance, when an individual, whose head he had observed while alive, happened to die, he used every means to be permitted to examine the brain, and frequently did so; and he found, as a general fact, that on removal of the skull, the brain, covered by the dura mater presented a form corresponding to that which the skull had exhibited in life.”

Dr. Gall was first known as an author by the publication of 2 chapters of an extensive work, entitled <Philosophisch-medicinische Untersuchungen über Natur und Kunst im gesunden und kranken Zustande des Menschen, Wien, 1791.> (…) This paper is a valuable document for the history of the science, and should convince every one that to Gall alone belongs the glory of having discovered the true physiology of the brain.”

And do not blame me for not making use of the language of Kant. I have not made progress enough in my researches to discover the particular organ for sagacity, for depth, for imagination, for the different kinds of judgement, &c.”

After having collected the result of my tedious experiments, I have built up a theory of their laws of relation.

man possesses, besides the animal qualities, the faculty of speech, and unlimited educability, – two inexhaustible sources of knowledge and action.”

Can it be, that there is any merit in the continence of those who are born eunuchs?”

A man like you possesses more than double the quantity of brain in a stupid bigot [intolerante, fanático, idiota, Davi]; and at least 1/6 more than the wisest or the most sagacious elephant.”

in old age, the hearing generally diminishes before the sight; while the taste almost always remains unimpaired.”

Is, then, the form of the skull moulded upon that of the brain?”

Men, unhappily, have such an opinion of themselves that each one believes that I am watching for his head as one of the most important objects of my collection. Nevertheless, I have not been able to collect more than 20 in the space of 3 years, if I except those that I have taken in the hospitals, or in the asylum for idiots. If I had not been supported by a man, who knows how to protect science, and to consult prejudices, by a man justly and universally esteemed for his qualities of mind and for his character, I should not have been able, in spite of all my labors, to collect even a few miserable specimens.

There are those, indeed, who do not wish that even their dogs and monkeys should be placed in my collection after their death. It would be very agreeable to me, however, if persons would send me the heads of animals, of which they have observed well the characters (…) every kind of genius should make me the heir of his head. (…) It would be assuredly dangerous for a [Caspar] Castner¹, a Kant, a Wieland², and other like celebrated men, if the exterminating angel of David were placed under my order; but, with Christian patience, I shall wait the tardy will of Providence.”

¹ Um missionário jesuíta, um dos primeiros antropólogos modernos da China.

² Poeta.

Why has no one preserved, for us, the skulls of Homer, Ovid, Virgil, Cicero, Hippocrates, Boerhaave, Alexander, Frederic, Joseph II, Catharine (sic), Voltaire, Rousseau, Locke, Bacon, and of others? – what ornaments for the beautiful temples of the muses!”

Here I imagine that I am a Jupiter, who beholds from the heavens his animal kingdom crowding upon the earth. Think a little of the immense space which I am going to pass through: — from the zoophyte, to the simple polypus, up to the philosopher and the theosophist? I shall hazard, like you, gentlemen poets, some perilous leaps. (…) I create insects, birds, fishes, mammalia. I make lap-dogs for your ladies, and horses for your beaux; and for myself, men, that is to say, fools and philosophers, poets and historians, theologians and naturalists. I end, then, with man, as Moses told you long before”

lasting peace among men will be always but a dream.”

Of the difference between the Heads of Men and Women. That which I could say on this subject must remain entre nous. We know very well that the heads of the women are difficult to unravel.”

I rather think that the wise men have baptized the child before it was born; they call me craniologist, and the science which I discovered, craniology; but, in the first place, all learned words displease me; next, this is not one applicable to my profession, nor one which really designates it.”

I admit no exceptions in the works of nature.”

I remark I have not sufficiently appreciated the a priori, that is to say, the philosophy which is to be founded upon the a piori. I have had the weakness in this, to judge others by myself (…) It was always difficult for me to reason soundly upon the experiments which I make, as well as upon those made by others, although I am persuaded that I can collect truths only on the highway of experience. It is possible, nevertheless, very possible, that others have a more favorable organization than I have to arrive at knowedge (sic) a priori

Having continued his lectures for 5 years, on the 9th of January, 1802, the Austrian Government issued an order that they should cease; his doctrine being considered dangerous to religion. (…) the prohibition strongly stimulated curiosity, and all publications on the subject continued to be permitted, provided they abstained from reflecting on the Government for issuing the <general order.>”

Conferenciou com o dr. Spurzheim, seu ex-aluno, por 35 cidades européias, a maioria na Alemanha. Acabou por se fixar em Paris 2 anos depois.

In these travels I experienced every where the most flattering reception. Sovereigns, ministers, philosophers, legislators, artists seconded my design on all occasions, augmenting my collection, and furnishing me every where with new observations. The circumstances were too favorable to permit me to resist the invitations which came to me from most of the Universities.”

His assertions were supported by a numerous collection of skulls, heads, casts; by a multiplicity of anatomical and physiological facts. Great indeed was the ardor excited among the Parisians, by the presence of the men who, as they supposed, could tell their fortunes by their hea[n]ds. Every one wanted to get a peep at them; every one was anxious to give them a dinner, or supper; and the writer of this article actually saw a list on which an eager candidate was delighted to inscribe himself for a breakfast, distant only 3 months and ½; at which breakfast, he sat a wondering guest.”

Chenevix

M. Cuvier was a man of known talent and acquirements, and his mind was applicable to many branches of science. But what equally distinguished him with the versatility of his understanding, was the suppleness of his opinions. He received the German Doctors with much politeness. He requested them to dissect a brain privately for him and a few of his learned friends; and he attended a course of lectures, given purposely for him and a party of his selection.”

Porém ainda na era napoleônica a Frenologia viria a decair, como na Áustria, como uma inimiga do Estado: “Napoleon was unquestionably a good judge of character and had his favorite rules in deciding upon the motives and designs of men. It was not in his nature to be either ignorant of, or indifferent to, the doctrines of Gall. Conscious of his own superiority, and eminently proud and selfish, it is not to be supposed that he would favor a system which opened to all the origin and nature of human actions. In admitting such a theory as that of Gall, he would himself become a subject of remark and investigation by his own consent; and, however well he might have liked the principles of organology, for his own exclusive use, his spirit could never have sanctioned the practice of them in others.”

Lavater¹, Cagliostro², Mesmer³ have never been to my mind; I felt I cannot tell how much aversion for them, and I took care not to admit any one who kept them among us. All these gentlemen are adroit, speak well, excite that fondness for the marvelous which the vulgar experience, and give an appearance of truth to theories the most false and unfounded. Nature does not reveal herself by external forms. She hides and does not expose her secrets. (…) beyond the influence of natural dispositions and of education, all is system, all is nonsense.”

Antommarchi

¹ Escritor, poeta, médico, teólogo e filósofo [!!] alemão (1741-1801). Foi o primeiro a introduzir com mais veemência e otimismo, durante a década de 1770, a idéia de que os estudos fisiognômicos podiam determinar até mesmo as singularidades do caráter do sujeito. Exemplo de obra no campo poético: Pontius Pilatus, oder der Mensch in allen Gestalten. Era famoso por seu temperamento vão; Goethe teria dele se afastado após percebê-lo.

² Ocultista italiano (1743-1795), o principal precursor ideológico do místico mais famoso do séc. XX, o britânico Aleister Crowley.

³ O fundador do Mesmerismo, Franz Mesmer viveu de 1734 a 1815. O Mesmerismo descreveria uma força invisível e poderosa que poderia ser resumida como um magnetismo cósmico-animal. Ele viveu para ver sua doutrina ganhar popularidade nos 1780 e morreu antes da decadência do credo (anos 1850). A confusão entre mesmerismo e hipnose decorre do fato de um “discípulo” de Mesmer ter desenvolvido a técnica hipnótica com base no magnetismo animal. Mémoire sur la découverte du magnetisme animal (1779).

That Cuvier was a phrenologist, there can be but little doubt; neither his Report, or any of his works, warrant us in supposing the contrary. Although political causes had a tendency to influence Cuvier against the doctrines of Gall – nevertheless, these 2 celebrated men were made to understand and esteem each other, and, towards the end of their career, they did each other justice. Gall had already one foot in the grave when Cuvier sent him a cranium, <which,> he said, <appeared to him to confirm his doctrine of the physiology of the brain.> But the dying Gall replied to him who brought it, <Carry it back, and tell Cuvier, that my collection only wants one head more, my own, which will soon be placed there as a complete proof of my doctrine.>

His audience amounted to betwixt 200 and 300; and so eagerly was he attended, that many more tickets were applied for at each course, than could be given, and the apartment was regularly crowded half an hour before the lecture began.”

His death gave rise to a succession of eulogisms and attacks in the French newspapers that had scarcely ever been paralleled, and public sentiment was warmly and loudly expressed in his favor. (…) a French friend adds: <Nothing was wanting to his glory; not even the abuse and calumnies of our devots de gazette.>”

The person of Dr. Gall was well developed; he was 5ft. 2’’” Desde quando alguém com 1,57m é alguém “bem-desenvolvido”? “Every part of his head was strikingly developed, measuring, above the eye-brows and at the top of the ears, 22 inches” Lógico.

VIROU PÉLA-SAQUICE: “The organs of Amativeness [?], Philoprogenitiveness [?], Adhesiveness [cara grudento!], Combativeness, and Destructiveness [!!!] were all very well developed in Gall. His Secretiveness was also rather large, but he never made a bad use of it. He was too conscious of his intellectual powers to obtain his ends by cunning or fraud. He was frank and honest, but acute and penetrating.”

[?] Nomenclaturas do também-assaz-idiótico discípulo n. 1, dr. Spurzheim (supra).

I remember as it were now, Dr. Gall opened his large eyes, fixed them on my countenance with a look of surprise and doubt, and then began to feel my brain [Namekian Goku!]. While he was making his observations, he now and then murmured, <Ce n’est pas vrai! Ce n’est pas possible!!> Shortly after having examined my cranium, he said to Bucher, that an individual with a head so well formed could not be of the character he had just mentioned; that on the contrary, unless I was blind and deaf, by the conformation of my cranium, he thought I was able to acquire general knowledge, particularly the languages, and geographical and astronomical sciences. Moreover, that if I had applied according to the development of my organs, I must be a distinguished person and a mad poet. When I heard this last remark, I told Bucher, Ce n’est pas bien! tu as trahi mon secret. I do not wonder at the Doctor’s accuracy. Bucher swore that he had not betrayed me. Gall remonstrated against my suspicion, and assured me of his being totally unacquainted with my trick; but I remained doubtful about the sincerity of both of them, and continued to be an adversary to Gall and his system.

(…)

Often when I knew the character of some of my soldiers who died, I sent the skulls to Dr. Gall, and requested his opinion; and I must say that more than once his remarks were truly astonishing; but I persisted in my incredulity. In 1810, one of my lieutenants was killed at the battle of Lintz; he was a Pole of a very violent temper, a bloody duellist, and much addicted to sensuality. I forwarded his skull to Dr. Gall, and in answer to my question, he replied, that it belonged to an individual very violent, ferocious, and a sensualist. This time I was the only depositary of my secret.”

Marquis de Moscati, um marquês que só aparece no Google atrelado a polêmicas anti-frenológicas

It cannot be denied that he was amply paid for his public lectures; that he was unfortunate in soliciting the sale of his work; and that he prosecuted some of his patients who refused to pay their bills.” Esse sujeito realmente tinha um dia de 48h… “it must be considered that in his domestic economy he failed in method, and consequently was always pressed by unforeseen and urgent wants. (…) He educated and supported his nephews, and young people of talents, and his table was free to every body (sic) [ou está falando de dissecações e exumações?].”

If they prosper, it is only by their own efforts; like the oak, they are sustained by their own strength, and it is to their own resources that they would be indebted for all they possess.” G.

G. had lived for some time at Berlin, with the celebrated poet Kotzebue, who profited by the occasion to learn of him the technical terms of his science, and such ideas and principles as he could best turn to ridicule. He composed his play, Craniomania, which was immediately performed at the theatre in Berlin, and G. attended the 1st representation, and laughed as heartily as any of them.”

He forgot the residence of his patients whom he had frequently visited in his carriage, and had considerable difficulty in remembering in what story of the building they lived. He was ignorant of geography, and whenever he looked upon a map he found something new, though he had observed it a thousand times before. So we may be sure, that if he traveled it was not from taste, but with the sole object of propagating his doctrines. If it be true, as we believe it is, that there is an organ of Order, Gall was absolutely destitute of it. The arrangement of his house was a curiosity.”

When I rise from the table, I cannot distinguish either man or woman who sat by my side during the meal.”

In verbal memory, Gall was also deficient. The organ of the sense of language, which gives the talent of philology, was a little better developed. He knew, besides his own, the Latin, and French language, which he wrote and spoke with facility, though defective in pronunciation, and had some knowledge of English and Italian.” Filologia não tem rigorosamente nada a ver com poliglotia!

The sense of the relations of colors, which is one of the fundamental qualities indispensable to the painter, was absolutely wanting in Gall.” “As he was a poor judge of painting, so was he as poor an amateur in music. He generally got wearied at the Opera or Concert; but a woman’s voice in conversation, he said, was very agreeable.” Danadinho…

every kind of numerical calculation fatigued him (…) He knew nothing of geometry. What a contrast to those philosophers who make this same science the basis of all positive knowledge! And so he was in mechanics, architecture and the arts.”

comparative sagacity”

All you Englishmen take me for a bird-catcher; I am sure you feel surprised that I am not somewhat differently made to any of you, and that I should employ my time in talking to birds. Birds, Sir, differ in their dispositions like men; and if they were but of more consequence, the peculiarity of their characters would have been as well delineated. Do you think that these little pets [2 dogs at his feet] possess pride and vanity like man?”

the greatest moral philosopher that Europe has produced”

To that other form of human intelligence, viz. the metaphysical, G. was strongly opposed, when it soars into the spiritual world, and pushes its inquiries into general principles and general truths” Tolo.

Observe his piquant observations [rich rhyme?] on the Editors of the Dictionary of Medical Sciences, in answer to the wish expressed by them that somebody would, at last, devote himself to the physiology of the brain. He exclaims <Behold, an instance of lethargy, in MM. Fournier and Begin, which has lasted from the time of my arrival in Paris, 1807, to the year 1819!>”

Moi, space and time, you know, are the pivots on which the metaphysicians turn much of their reasoning.”

Gall could never make verses. He even detested poetry” Alguma dúvida?

even in Italy – that land of despotism, religious and political – Phrenology has been cultivated with the greatest ardor” Hmmm…

O prospecto da Sociedade Francesa de Frenologia: “On the 22nd of August, every year, the anniversary of the death of Gall, the society holds a general public meeting, in which the general secretary gives an account of the labors of the society, reads notices of the members which it has lost and proclaims the names of those whom it has honored, announcing the prizes which it proposes to bestow.”

* A partir deste ponto, pérolas (que já abundam acima, incolores) serão assinaladas especialmente com esta cor marrom-alaranjada:*

That abstract philosophy, which originating in the East, obtained so great a reputation in Greece, and was supported by so much zeal in the new capital of Egypt, abounded with lofty conceptions, and with the sublime creations of a poetical fancy. But to what did it lead? The unhappy fruits of its popularity were the most intolerant dogmatism, and desolating scepticism; while the system was rendered imposing only by a cloak of mysterious importance thrown over it by the mad enthusiasm of its professors.”

The course which he has pointed out is that which will infallibly continue to wander blindfold amidst error and absurdity.”

What sculptor will not comprehend, that, by means of Phrenology, he may be able at a single glance to obtain a key to individual character?” “The painter cannot too strenuously pursue the study of Phrenology: for he has only an even surface on which to delineate his objects, and he may fail in giving them the necessary expression, by neglecting those traits which, however alight, are characteristic and necessary to bring out the distinguishing peculiarities of his subject.” “From ignorance of these principles, the ancients have, in some of their master-pieces, fallen into errors which are now considered monstrous, such as the extreme smallness of the head of the Venus de Medicis. (…) The ancients, when they concealed the enormous size of the head of Pericles, had the same end in view as the moderns, but were more faithful imitators of nature.”

Venus de Medicis.png Now tell me: do you really think so?

INTRODUCTION

The physician alone by night and day is witness of the most secret events in families, and of their most intimate relations. Virtuous or vicious, the man who suffers and struggles against death can with difficulty conceal from the physician his real character. Who would not wish to have for a friend the man to whom he confides his wife, his children, himself?”

We would recommend the keeping of phrenological journal for every patient; at least, noticing the most prominent developments.”

neglecting the useful example of the ancient sages of Greece, men have separated from each other too far physiology, medicine, education, morals, legislation, instead of appreciating their mutual relations” Oh!

MORAL PART

1. OF THE NATURE OF MAN, AND OF THE DIFFERENCE BETWEEN VEGETABLE AND ANIMAL LIFE.

Without a nervous system, there is no mechanical aptitude, no instinct, no propensity, no sentiment, talent, moral quality, or intellectual faculty; no affection, no passion.”

In all animals placed in the scale of living beings above the zoophytes, that is, in all animals properly so called, there exist one or more masses of a gelatinous substance, very vascular, of different color and consistence, which give rise to white threads, called nervous filaments. These filaments unite and form nerves, nervous cords, which go to this or that viscus and there spread themselves. These masses of gelatinous substance, called ganglions or plexuses, these sources of nervous filaments and the nerves formed from them, are more or less numerous, according to the number of parts or viscera with which the animal is provided and for which they are destined.”

Sensation, or organic sensibility without consciousness, is a contradiction in terms, but a contradiction very sagely preserved and professed in our schools.”

Does the fetus and infant, while inclosed in its mother’s womb, enjoy animal life, or a life purely automatic? How ought its destruction to be judged of before the tribunal of sound physiology? Those who maintain that animal life is nothing but a life of relation, an external life, that all our moral qualities and intellectual faculties are the result of impressions on the senses, must necessarily maintain that the fetus and the newly-born infant are still only automata, whose destruction has no relation to an animated being.”

In the cruel alternative of sacrificing the child, or of exposing the mother to almost certain death, the choice cannot be doubtful.” Bichat, o Aborteiro

In the system of Kant, the primitive faculties or functions, pure conceptions and ideas a priori, exist to the number of 25, viz. 2 forms of sensibility, space and time; 12 categories, or pure notions of the understanding, viz. unity (1*), plurality (2*), totality (3*), affirmation (4), negation (5), limitation (6), inherence and subsistence (7*), causality and dependence (8*); society (9); possibility and impossibility (10*); existence and non-existence (11*), necessity and contingence (12*); 8 notions which depend on these, viz. identity, diversity, agreement, contradiction, interior, exterior, matter and form; in fine, 3 forms of reason, consciousness and the soul, God, the universe [? – o excesso de vírgulas do tradutor só me atrapalha!].”

(*) Categorias que Kant (Ou Gall, em uma leitura equivocada? Não tenho condições de afirmar neste momento.) conta, aparentemente de forma bastante arbitrária, como “dualidades unitárias” ou como “unidades trinitárias”, conforme lhe(s) convém; como se não fosse bizarro, anti-didático e distorcido o bastante como base de todo um “sistema crítico da filosofia que se autossuporá atemporal”, vemos como o Dasein estava apenas na infância nesta peculiar regressão ad infinitum no tempo (hehe) que o Ocidente moderno “conseguiu” face aos gregos: o par existência e inexistência (vamos ficar só nesse) é inaceitável. Em síntese, a conta não fecha!

Whether we admit 1, 2, 3, 4, 5, 6 or 7 faculties of the soul, we shall see, in the sequel, that the error is always essentially the same, since all these faculties are mere abstractions. None of the faculties mentioned describes either an instinct, a propensity, a talent, nor any other determinate faculty, moral or intellectual. How are we to explain by sensation in general, by attention, by comparison, by reasoning, by desire, by preference and by freedom the origin and exercise of the principle of propagation; that of the love of offspring, of the instinct of attachment? How explain, by all these generalities, the talents for music, for mechanics, for a sense of the relations of space, for painting, poetry, &tc.?”

God knows where he got this ridiculous vanity.”

she will never be good for anything but a musician.”

The chase is his passion; the more animals he can kill, the happier he is.”

From most ancient to the most modern, they have not made a step further, one than another, in the exact knowledge of the true nature of man, of his inclinations and talents, of the source and motive of his determinations. Hence, there are as many philosophies as pretended philosophers; hence, that vacillation, that uncertainty in our institutions, especially in education and criminal legislation.”

Is it permitted, is it even necessary, to compare man with animals, in order to acquire a complete knowledge of his nature, moral and intellectual?”

2. ON THE ORIGIN OF THE MECHANICAL APTITUDES, INSTINCTS, PROPENSITIES, TALENTS; OF THE MORAL AND INTELLECTUAL FACULTIES OF MAN AND ANIMALS, IN GENERAL.

As respects taste, I have proved that birds and fishes possess it, as well as the mammifera.” “In treating of the organs of the relations of space, colors, and sounds, I shall again prove that those have been wrong who have attributed the faculty of finding one’s way home from a distance to the sense of smell; that of the talent for painting to the eyes; that of music and language, to the hearing.”

the flow of blood to the ear makes us imagine that we hear the sound of bells”

Buffon¹ says: It is by the touch alone, that we can gain complete and real knowledge: it is this sense which rectifies all the others, whose effects would be only illusions, and produce nothing but error in our minds, if touch did not teach us to judge.

This naturalist is so much prejudiced in favor of the advantages which result to us from touch, that, while speaking of the custom of swathing [envolver] the arms of infants, he expresses himself thus: One man has, perhaps, more mind than another only in consequence of having made, from his early childhood, a greater and prompter use of this sense; and we should do well to leave to the child the free use of its hands from the moment of its birth. Those animals which have hands appear to be most intelligent; monkeys do things so similar to the mechanical actions of men, that they would seem to have the same series of bodily sensations for their cause. All the other animals that have not the use of this organ, can have no very distinct acquaintance with the form of things. We may, also, conjecture that animals, which, like the cuttle fish, polypi, and other insects, have a great number of arms or claws, which they can unite and join, and with which they can seize foreign bodies in different places – that these animals, I say, have an advantage over others, and know and choose much better the things suitable for them; and that, if the hand were divided into an infinity of parts, all equally sensible and flexible, such an organ would be a kind of universal geometry.

(…)

The trunk of the elephant is a beautiful example, which will admirably illustrate my position. It is to this single instrument, that this noble animal owes his superiority over all other animals; it is by the possession of it that he seems to hold the middle place between man and brute. What pencil could express all the wonders effected by this sort of universal instrument, better than that of Nature’s painter? (…) he even learns to trace regular characters, with an instrument as small as a pen. (…) The elephant has, therefore, his nose in his hands (…) though this animal be, like all others, deprived of the power of reflecting, still as his sensations are found combined in the organ itself, as they are contemporaneous, and, as it were, indivisible from each other, it is not astonishing, that he should have of himself a species of ideas, and that he should acquire, in a short time, those which it is desired to impart to him.“If birds, notwithstanding the prodigious activity of their nutritive life, have, nevertheless, an intelligence so limited, are so little susceptible of durable attachment and show themselves so little capable of education, do not we find the cause of it in the imperfections of their touch?”

¹ História natural, 5a ed., vol. VI.

It is thus that, thanks to credulity, and the propensity for imitation, the old doctrine of Anaxagoras, which taught that the hand was the cause of human reason, has propagated itself without alteration to our age, which styles itself so enlightened.”

What would your libraries have been without the hands of copyists and compilers? Whatever is marvellous in the history of animals, it is to their trunks, their tails, their antennae, that you are indebted for it.”

Light and sounds strike their respective organs without the will of the animal; whereas he touches nothing without some preliminary exercise of the intellectual faculties.” Bichat

Experience does not show that the mind is always proportionate to the greater or less delicacy of these same senses. Women, for example, whose skin, more delicate than that of man, gives them greater acuteness in the sense of touch, have not more genius than a Voltaire, &c. Homer and Milton were blind at an early age; but what imagination can be stronger and more brilliant? Among those whose sense of hearing is most acute, are any superior to S. Lambert, Saurin, Nivérnois? Those, whose senses of taste and smell are the most exquisite, have they more genius than Diderot, Rousseau, Marmontel, Duclos, &c.? In whatever manner we inquire of experience, she always answers that the greater or less superiority of mind is independent of the greater or less perfection of the organs of the senses.” Helvétius

a stone does not oppress us more than heavy undigested food weights in the stomach”

CONTRA O ANIMAL SOCIAL: “Even at the present time, are not men, in their infancy, more surrounded by animals than by men?”

A QUINTESSÊNCIA ARISTOCRÁTICA

Eu, meu pai, e os figurantes. Todo mundo odeia o Rafa. Sócrates, filho de artífice e parteira. Santo Agostinho, filho de uma devota passiva e de um herege. Napoleão, camponês. Nietzsche filho de um pastor protestante e de uma arraia-miúda, irmão de uma protonazi. Filhos de grandes personalidades: geralmente fracassados. Filhos de funcionários públicos brasilienses: as exceções são incognoscíveis para seus “iguais”. Criança com motricidade elevada e educação de excelência: boneco inflável. Besta-loira decaída reencontra o seu mito original e o cumpre, aniquilando os mesquinhos valores burgueses. Rodes existe, pode ser provada, mas é uma ilha semovente misteriosa que muda de lugar, talvez um reino quântico. O que se sabe é que assim que saltamos na cidadela, inconscientes, repisamos o chão transfigurados. Através dos valores herdados, sem a ajuda de ninguém, aprendemos, lenta e sòfregamente, a reconhecermo-nos no espelho como a reaparição atávica de heróis de tempos inacessíveis. Tudo de uma forma impressionantemente lógica. Pimba! Conjuração e maldição: vendeta cronológica, tempo bálsamo da alma autoedificante. O filho transfigura o puramente plástico em Verbo e Faz-se. Amadurece, por mais que de forma acelerada, sempre tarde demais… Ou vive cada dia uma nova saga, superando a cada décimo terceiro trabalho todos os doze anteriores… Predestinado, é verdade, pelo próprio anseio, este sim, inato e imorredouro, a se tornar predestinado pelas próprias forças. Nascido campeão, com o gosto de fracasso na boca volta a erguer o cinturão. Lembranças inefáveis… Cada frustração foi vingada com juros. Testemunhas mudas. O que não reduz o brilho do espetáculo… Prazer em repetir situações complicadas… Filho de seus parentes espirituais de séculos amarelados e bolorentos, forasteiro em seu ninho, neopocilga. Indiferente aos dentes da roda do tempo, sempre mastigando suas conquistas inauditas, processo de paciência e placidez bovinas… O superanimal. Ressuscitador voluntário de fantasmas carnívoros. Canibal e fratricida. Usa a doença e a decadência física a seu favor para ser melhor amanhã do que é hoje no esplendor teórico das forças. Distorce as teorias num centrifugador de subpartículas… Ri desse teatro automático, mas quer continuar sendo ator. Misantropóide. Mr. Antropossapiensapiens, apex. Influenciador metadigital. Sem análogos viventes. Seus sonhos-pesadelos o puxam de volta toda noite, recordando os motivos principais do seu temperamento camaleônico… imutável. No cerne. Acelera a própria morte, talvez para abreviar suas chances, tornar o jogo finalmente desafiador outra vez. Sábio até quando pródigo e perdulário, reinicia a máquina em derrocada, reinicia, se formata. Um excelente adestrador de si mesmo. Palha amada, mãerretada. Cabeça. Ombros largos. Pernas finas. A mentira não possui estrias! Peter Pandora.

VOLTANDO AOS SERES TELÚRICOS: “This power so little belongs to man, that even when we are our own absolute masters we cannot escape the changes which the succession of years produces in our moral and intellectual faculties.” “the internal faculties do not announce themselves; they are in a state of indifference; they seize nothing and repulse nothing strongly; and as nothing draws these individuals toward a marked end, they have consequently no determinate vocation. Of this great majority of men it is said, with reason, that man is an imitative animal. Precepts, institutions, discussions, the severe exposition of the most interesting truths have but little power over them. [aka, o fracasso da religião de massa, dos aceitos em comunhão e dos crismados]”

Most great men have manifested their future greatness in their early years.” SÍNDROME DE JOHN LOCKE II: “Achilles, concealed under the robes of Pyrrha, seized a sword from among the gifts which Ulysses [Richard] brought”

DV? “Socrates, Pythagoras, Theophrastes, Demosthenes, Shakespeare, Molière, J.J. Rousseau, were the sons of artisans. These examples, with which history abounds, refute Hobbes, who holds that the difference of talents, or of mental faculties, comes from wealth, power and the condition in which one is born.

We even observe, that, in spite of the most decided opposition, and education, the most hostile to the innate character, nature, when endowed with energy, gains the victory both in the good and the bad. Tacitus justifies the instructors of Nero. This prince was cruel from infancy, and to all the lessons of humanity which his masters gave him he only opposed a heart of brass.” “There is an education for common men; the man of genius has the education which he gives himself, and which consists principally in destroying and effacing that which he has received.”

O Mestre nunca sabe ensinar. Isso é ótimo no caso do aprendiz que será um Mestre melhor; e péssimo, mas inevitável, no caso das buchas de canhão que passam por suas mãos.

Mães idiotas comparam seus filhos com os outros filhos – de modo fatalmente realista. Pais idiotas comparam seus filhos consigo mesmos, mas sempre invertendo o resultado. Ambos os diagnósticos são igualmente insuportáveis para o gênio. O gênio não pode se defender do ataque dos parvenus (o porteiro que se tornou servidor do senado, como se isso representasse bulhufas em seu sistema de valores inexplicável aos progenitores), muito menos das humilhações ou altas expectativas do varão: era para seres ainda maior, muito melhor, porque és superior a mim, mas não vejo isso se concretizando em sinais palpáveis; ou bem, sabes que eu, partindo de muito aquém, atingi muito mais além. E estes causos tão simplificados conseguem resumir a complexidade da história universal dos geniais nascidos em leitos de Procusto; os medíocres formam um capítulo enciclopédico à parte…

and why men who excel in one point are so indifferent in everything else?”

Helvétius himself is forced to confess that education would never have changed Newton into a poet, or Milton into an astronomer.”

Philosophers [Freud!] have recourse to small subterfuges to prove that our propensities and our talents are the result of chance. It is, they say, by insignificant impressions on the infant at the breast, by peculiar examples and events, that sometimes one faculty is determined and sometimes another. (…) Milton would not have written his poem had he not lost his place of secretary to Cromwell. (…) [But] how many secretaries lose their places without becoming Miltons! How many are in love, and write verses like Corneille and Racine; yet, these poets have found no equals among their successors.”

there exists no virtue, no moral precept, which has not been recommended, no faculty relative to human occupations which has not been more or less exercised. Cain was a laborer; Abel, a shepherd; the children of Jubal played on all sorts of wind and stringed instruments; the children of Tubal Cain were skillful workmen in iron and copper; Nehemiah established regulations of police”

COMO NEGAR AMIGOS E DESENCORAJAR PESSOAS, REFUTANDO MESMO ALGUNS AFORISMOS DE NIETZSCHE: “Quintilian ridicules the ancient maxim <that anybody, by means of constant application, may become an orator>. If precepts, says he, could bestow the art of eloquence, everyone would be eloquent.

Os homens ignoram aquilo que são capazes de fazer antes de, por experiência, tomarem nota daquilo que podem fazer segundo a própria natureza. (…) Assim, homens se sagraram poetas e oradores sem nem mesmo sonharem fazê-lo. Numa palavra, tudo que se tornaram, já o eram, por natureza; ninguém estudou para ser tal ou tal coisa, até perceber, de súbito, que havia sido dotado pela natureza com um talento específico. A natureza sempre dispôs das coisas, e sempre disporá: essa é uma afirmação que nunca será repetida demais.” Condillac

3. ON THE CONDITIONS REQUIRED FOR THE MANIFESTATION OF MORAL QUALITIES AND INTELLECTUAL FACULTIES.

The brain is formed and increases gradually until it has attained its perfection, and this perfection takes place only between 20 and 40 years of age.”

If dwarfs, who enjoy their intellectual faculties to a certain degree, appear to form an occasional exception to this law, the size of the head has not been duly noticed, which, in these cases, is always very disproportionate to the rest of the body. Even when the head is a little larger than those which characterize complete imbecility, the intellectual faculties are still almost entirely benumbed.”

I shall show that when individuals distinguish themselves peculiarly, and in a remarkable manner, by a determinate quality, or when they fall into a fixed idea, propensity, partial mania, or monomania, by too great exaltation, it is almost always the extraordinary development of some particular organ which occasions it.”

The ancients gave to the statues of their priests and their philosophers much larger foreheads than to those of their gladiators. Remark, especially, the distinction they have adopted in their Jupiter of the capitol; the form of no head has ever been so strongly prominent in the anterior and superior part of the forehead. What a difference between this and the head of Bacchus!”

It has always been remarked that too rapid an increase, or a hastened development of organs weakens their special functions. This especially happens in the climacteric years or periods of development, of which physicians and physiologists cannot too highly appreciate the importance. The mind, the body, all then suffer at once. The individual is incapable of steady application, and instruction is at once arrested. This state ceases, only, when the interval devoted to this development has been passed; and we readily perceive that this is the case, because the intellectual faculties at once resume all their energy.”

4. OF FATALISM, MATERIALISM, AND MORAL LIBERTY.

it is reproached to the physiology of the brain, that it overturns the first foundations of morality and religion; that it eminently favors materialism and fatalism; and that, consequently, it denies free will. History teaches that the same has always happened to every discovery.”

Vesanum, literarum imperitissimum arrogantissimum, calumniatorem, maledicentissimum, rerum omnium ignarissimum, transfugam impium, ingratum, monstrum ignorantiae, impietatis exemplar perniciosissimum quod pestilentiali halitu Europam venenat”

It would seem that nature had subjected all truths to persecution, in order to establish them in a more solid manner; for he who knows how to wrest one from her, presents always a front of brass to the darts hurled against him, and has always the strength to defend and to consolidate it. History show us that all the efforts and all the sophisms, directed against a truth once drawn from the abyss, fall like dust, raised by the wind against a rock.”

Malebranche – Recherche de la verité

The antagonists of Aristotle caused his books to be burned; afterwards they burned the works of Ramus¹, who had written against Aristotle, and declared the adversaries of the Stagyrite heretics; and there were even legislative acts, forbidding to attack his philosophy under pain of the galleys. And yet no one now concerns himself with the philosophy of Aristotle!”

¹ Petrus Ramus, século XVI, comentarista protestante dos filósofos da Antiguidade.

The ancient church bestowed the name materialists on those who taught that matter existed from all eternity, and that, consequently, the Deity had not drawn the world out of nothing. This sort of materialism ordinarily leads to the denial of the existence of a Supreme Being.”

I call the material condition which renders the exercise of a faculty possible, an organ.”

CAPCIOSO: “were this language sufficient to charge me with materialism, the same charge would apply to all physicians, all philosophers, and all the fathers of the church.”

Bichat – Sur la vie et la mort

Non virtus est, non posse peccare. Cum renunciatur improbitati. Statim adsciscitur virtus. Egressus enim malitiae virtutis operatur ingressum.” St. Ambrosius

Quidam in juvente luxuriose viventes, in senectute continentes fieri delectantur et tum eligunt servire castitati, quando libido eos servos habere contempsit. Nequaquam in senectute continentes vocandi sunt qui in juventute luxuriose vixerunt; tales non habent praemium, quia laboris certamen non habuerunt; eos enim exspectat gloria, in quibus fuerumt gloriosa certamina.” Isidoro, Do sumo bem

5. APPLICATION OF MY PRINCIPLES TO MAN, CONSIDERED AS AN OBJECT OF EDUCATION AND PUNISHMENT.

The most opposite qualities often make of them the most problematic beings; such were Louis XI, Charles V, Philip II, James II, Catherine de Medicis, who though under the influence of a superstitious devotion, were the scourge of their subjects. These are the persons who experience, in the most sensible manner, the struggle of two beings at war within them. Such were Socrates, St. Paul, St. Augustin;¹ who having the most violent combats to sustain, may claim the most glorious prizes of virtue.”

¹ Todo convertido? No cliché/estereótipo do primeiro, o autoconvertido também?

You have the musician, the mechanic, the poet, all exclusive and ardent in their pursuits; but you have also the debauchee, the bravo, the robber, who, in certain cases, are passionate to such a degree that the excessive activity of these propensities degenerates into actual madness, and deprives the individual of all power do restrain them.”

You see apathies and partial imbecilities when, by the side of qualities and faculties sufficiently well marked, one or a few organs are very little developed. With such an organization, Lessing and Tischbein detest music; Newton and Kant have a horror of women.

as St. Paul says, the more laws, the more sins.”

O avô conceitual de Skinner.

We have even seen some, who procured their own arrest, in order to find a refuge in the prison. Men and women are often left together, whence it happens that in the prisons themselves their numbers are multiplied. Sometimes the prisoners are permitted to have their children with them.”

AS GRADAÇÕES DO BOMBONISMO: “We inflict on a mother who has exposed [abandonou] her infant different punishments according as the infant has incurred more or less risk of perishing”

OS AMERICANOS NUNCA FORAM BONS DE PENALTY: “If we regard the punishment of death as the destruction of a mischievous and incorrigible individual, or as a means of preventing crime, I think, with Montesquieu, J.J. Rousseau, Sonnenfels, Hommel, Filangieri, Schmalz, Kleinschrodt, Feuerbach, Klein, Bexon and others, that we cannot call in question the right which society has of destroying one of its members.” Treta do tradutor/comentador com o autor nas notas de rodapé acerca da questão.

AHÁ! “If there be a crime, which deserves to be treated as murder the most premeditated, foolish and dangerous, that crime is duelling. Usually for the merest trifles, and sometimes exasperated by the taunts of a bully by profession, men kill one another, in presence of numerous witnesses! No! I might in vain transport myself to the most barbarous countries and times, I should never be able to conceive their allowing so atrocious, so cruel an outrage on morality to subsist! (…) What honor, what courage, is it to kill or to be killed for a few words which happen to displease you, or for the vanity and admiration of a mistress!”

(editor) “A few years since, a gentleman in N.Y. wrote a most sensible article against the practice of duelling – and a few months after, fell a victim to the sin which he had so unequivocally condemned.” Se fodeu, otário.

(editor) “These are purely the suggestions of destructiveness [sobre infringir penas de tortura para criminosos hediondos] – and we are not a little surprised, to find that so discriminating a mind as that of Dr. Gall should ever sanction such sentiments.” Talvez vocês, caros frenologistas, desconheçam a constituição cerebral deste sujeito!

We may assume, as a general principle, that a mother cannot feel either anger or hatred against her new-born infant. This principle would always be operative, if the mother in these circumstances always acted consistently; if, indeed, she retained the power to act thus when overwhelmed with utter humiliation. But, in this fatal moment, the mother thinks only of the ingratitude, the infidelity, the perfidy of the father of the child; he has deceived her in the most infamous manner; he has loaded her with shame, and plunged her into wretchedness; he has destroyed all her enjoyment of the present, all her hopes in the future; and, while he forgets her in the arms of another, the laws afford this injured woman no protection, no indemnity, against her seducer. The idea that all the artifices he has employed to betray confiding innocence, to seduce an inexperienced girl, are now regarded as subjects for mirth; this idea presents itself to every unfortunate who finds herself deserted; this injustice vexes, torments, revolts her.”

CABEÇAS DE MEDÉIA: “We have examined the form of the head of 29 infanticide women.”

In a report of the counsel-general of hospitals at Paris, which includes 10 years from 1804 to 1814, it is remarked, under the head of insane, that the number of those received at the Salpêtrière and the Bicêtre was 2154 men and 2804 women. Of this number of cases, 658 are placed to the account of child-birth, its consequences and preceding circumstances, more or less distant.” “it is evident that we do not here speak of prostitutes.”

I have observed that both sexes experience every month, once or twice, a species of periodical derangement, which disturbs the harmony of their affections and their habits, and which assumes the character of an irritation and a melancholy of which the individual affected can render no reason to himself.”

A woman at Bamberg, whenever she had drank brandy, felt a strong desire to set fire to some house; but no sooner had the excitement passed than this woman was filled with horror at her own previous state. As, however, she was not always on her guard against the enticements of her favorite beverage, she actually committed arson in 14 instances.”

Many men have an especial inclination for building, travelling, disputing; one is inflamed with an insatiable desire of glory; another cannot spare his best friends, when a brilliant sarcasm rises in his mind.”

He appeared about 16 years of age, though in fact he was 26. His head was round, and about the size of a child of 1 year. This individual was also deaf and dumb”

We remark that by an inexplicable singularity several of this class of individuals possessed of such feeble intellect are born with a peculiar talent for copying, drawing, finding rhymes and for music. I have known several who have learned, by themselves, to play tolerably on the organ and the harpsichord; and others to repair clocks and to make some pieces of mechanism,” Fodéré

The short foreheads, wrinkled, knotty, irregular, deep on one side, slanting, or that always incline different ways, will never be a recommendation to me, and will never gain my friendship. While your brother, your friend, or your enemy, while man, though that man were a malefactor, presents you a well-proportioned and open forehead, do not despair of him, he is still susceptible of amendment.” Lavater

general permanent alienation cannot be mistaken. But the case is very different when general alienation is periodical, and when the paroxysms, after having ceased entirely, recur, either at irregular periods, or after a fixed interval, or when it is limited to certain qualities in particular, especially when this partial alienation completely disappears from time to time, and recurs, sometimes periodically, sometimes irregularly.”

às vezes uma febre intermitente aparece sob o disfarce de uma cãibra (ou uma tensão muscular mais simples) em somente um dos lados, ou uma dor de dente. Mas a máscara sob a qual a enfermidade se revela não modifica sua natureza; é requerido o mesmo tratamento que seria recomendado a fim de se curar a febre intermitente.”

The individual who, in preceding paroxysms, seemed a fury let loose, may, in the following one, devote all his time to the exercises of the most fervent piety; and he who, today, gives himself to the excesses of the most noisy enjoyment may, tomorrow, be plunged in the deepest melancholy.”

During his lucid intervals, his physiognomy is calm, his air mild and reserved, his answers modest, and full of propriety; he shows urbanity in his manners, a severe probity, the desire of obliging others, and expresses an ardent desire of being cured of his malady; but at the return of the paroxysm, which is especially marked with a certain redness of the face, by an intense heat in the head, and by burning thirst, his gait is hasty, the tone of his voice bold and arrogant, his looks full of menace, and he experiences the most violent propensity to provoke all who approach him, to irritate them, and to contend with them to the last.”

He told us that, from his childhood, religion had occupied all his thoughts, and that he had read the Holy Scripture, and all the commentators thereon, with the greatest attention; but that the extreme diversity of opinions had convinced him that he should not find the true religion in this manner; that he had therefore renounced reading and research, and had earnestly supplicated the Deity that, if not contrary to his eternal decrees, he would make him an immediate revelation of the truth. After having prayed a long time, he one night saw the room filled with as brilliant a light as could be produced by many suns. In the midst of this splendor, our Lord Jesus Christ appeared to him, and revealed the true religion. Koeper had sought to spread it with indefatigable zeal, which was with him a matter of duty. It was impossible to make this man believe that he had been led astray by illusions.”

Some refuse or are not disposed to communicate their condition to others. This apparent indifference, this apathy, this perfidious silence, ordinarily marks the most dangerous cases. Some annoy all those around them, by trifling bickerings; they see, everywhere, nothing but misfortune and wickedness; and even when their affairs present a picture of prosperity they are in despair, lest their children be plunged in famine and misery. Some imagine that everybody despises or persecutes them; they complain unceasingly that they are neglected, that justice is not done them. Sometimes, all the symptoms suddenly disappear, and again show themselves as suddenly. The melancholy and pusillanimity increase daily: most of these subjects feel a sharp and permanent pain above the root of the nose, and in the middle of the lower part of the forehead: sometimes this pain has its seat at the top of the head; often, too, some complain of an insupportable tension in the region of the forehead and a painful constriction in the region of the belly, which is as it were compressed by a hoop [argola].”

Their madness, it is said, is only feigned: a madman does not say I am mad, and madness does not reason. This false and barbarous mode of argument has sent to the scaffold beings to whom there was nothing to reproach, except the derangement of their reason”

It often happens that the blow they give themselves is not mortal or that, in throwing themselves from the precipice, their destruction is not completed, or that they are drawn from the water too soon. It is, however, very rare that such adventures cure them. The greater part remain melancholic or depressed. At the end of some days they seem to repent of what they have done; they are ashamed of it, and for some time take a part in the business of life. But the paroxysms soon return with new violence (…) Sometimes this same malady is concealed under a mask, in appearance altogether different. Life is equally a burden to these subjects; but they have not the energy to inflict death on themselves; they seek, by a kind of confusion and contradiction in their ideas, the means of having it inflicted by others. For this purpose, they ordinarily commit a murder of persons who have never offended them [maior parte dos casos patológicos no Black Metal], and often even upon children.”

These critical evacuations which continue a long time are more abundant at certain periodical times; and as, at their approach, the symptoms of the malady augment, their apparent relapses serve to announce an approaching evacuation.”

* * *

FIM DO VOLUME I

Infelizmente só consigo encontrar, sem custos, a primeira (a presente) e a quinta partes desta “hexalogia”.

O BANQUETE OU DO HOMOSSEXUALISMO SUPREMO

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

ESCLARECIMENTO INICIAL

O sufixo pejorativo –ismo, entenda-se, não é o aqui utilizado. Para o filósofo grego, a condição homossexual é a característica do homem superior, o único apto a chefiar a sociedade. Portanto, é nesse sentido que o “Homossexualismo” do título deverá ser compreendido: como no Aristocratismo a classe dos aristocratas é a líder, no Homossexualismo platônico os homossexuais detêm o poder soberano e prescrevem as Leis a si mesmos e aos demais. Obviamente, a conotação de “doença” ou “enfermidade” subjacente ao homônimo mais infeliz desaparece, assim, por completo – a homoafetividade masculina é, ao contrário da visão deturpada moderna, o suprassumo do são e do saudável. Tampouco o sufixo –idade seria adequado para expressar essa idéia, uma vez que a Homossexualidade como a entendemos hoje no Ocidente é apenas uma “escolha livre e individual”, nem melhor nem pior que as outras preferências de gênero possíveis no amor; ao passo que, em Platão e nos mestres do saber grego que conhecemos, não havia o que “escolher” ou alteridade(s) a respeitar ou considerar: todo o demais (a mulher, o escravo de ambos os sexos – meros objetos – e o homem hetero ou bissexual – “sujeitos”, porém degenerados) estava sempre escalões abaixo. Não havia traço da noção de isonomia compartilhada pelas democracias contemporâneas.

(*) “Fedro fala como um jovem, mas jovem cujas paixões foram purificadas pelo estudo da filosofia; Pausânias como homem maduro, a quem a idade e a filosofia ensinaram aquilo que a juventude não sabe; Erixímaco se aplica como médico; Aristófanes tem a eloqüência do poeta cômico, ocultando, por debaixo de uma forma festiva pensamentos profundos; Agaton/Agatão se expressa como poeta. Por fim, depois de todos os demais da roda, e quando a teoria já se elevara por graus, Sócrates completa-a, expressando-se numa linguagem maravilhosa, própria de um sábio ou inspirado.”

* * *

APOLODORO¹ – (…) Sinto imenso prazer e julgo proveitoso o filosofar e o ouvir filosofar, como nada no mundo; já ouvir-vos tratar de vossos interesses, dos ricos e dos negociantes, me mata de fastio.”

¹ Na verdade, O Banquete é um diálogo entre Apolodoro e seu amigo. Ele, que apenas ouviu o relato do banquete de um dos participantes, reconta o ocorrido, revivendo os personagens daquela noite de apologia discursiva do amor. Esta testemunha ocular é Aristodemo. Não confundir este Aristodemo com o descendente de Hércules e herói mitológico. Trata-se de um filósofo pré-socrático, pouco notório. Nunca é demais lembrar que a denominação “pré-socrático”, embora quase sempre proceda cronologicamente, neste caso nos induz a erro. Pré-socráticos podem ter existido mais jovens que Sócrates e contemporâneos de Platão; poderiam ser filósofos de menor repercussão e que insistiam na interpretação cosmogônica ou cosmológica do mundo. Este Aristodemo, mais jovem ou mais velho que Sócrates (não sabemos), venera-o como a um mestre.

O AMIGO DE APOLODORO – (…) Desconheço por que te deram o apelido de Furioso; conquanto possa ver que algo disso se capta em teus discursos. Sempre te mostras áspero contigo mesmo e com todos, exceto com Sócrates.”

–Aqui inicia o relato do banquete em si e as transcrições das falas das personagens–

SÓCRATES – Aristodemo, vou me banquetear à casa de Agaton. Recusei-me a comparecer à festa que dava ontem para celebrar sua vitória no concurso, por desagradarem-me salões repletos.”

SÓCRATES – Segue-me, então, e invertamos o provérbio, provando que um homem de bem pode comer à casa de outro homem de bem sem ser convidado. Com prazer acusaria Homero de haver na verdade adulterado este ditado, e ademais de ter feito dele pouco caso, quando depois de representar Agamenon como grande guerreiro e Menelau como combatente débil faz com que este esteja no festim daquele, sem ao menos ter sido convidado; ou seja, Homero retrata um homem de condição inferior que sem cerimônia se apresenta à mesa do homem superior.”

lá, já estavam todos à mesa, esperando apenas que fossem servidos.”

Neste momento, um criado anunciou que encontrara Sócrates de pé no umbral de uma casa vizinha, e que, havendo-o convidado ao banquete, este se recusou.”

Começamos a comer, e Sócrates não aparecia. A cada momento Agaton instava algum escravo a ir buscá-lo. Eu o preveni de que Sócrates acabaria por cumprir sua palavra, que não tivesse pressa. Enfim, Sócrates entrou, depois de nos fazer esperar, segundo seu hábito, e nós já havíamos comido metade de nossa refeição. Agaton estava só, sobre uma cama no extremo da mesa, e o convidou a sentar-se junto de si.”

ERIXÍMACO – (…) Uma vez que ninguém aqui deseja exceder-se na bebida, serei menos importuno, ao relatar-vos umas quantas verdades sobre a embriaguez.”

FEDRO – Ó, Erixímaco! não é admirável que, de tantos poetas que compuseram hinos e cânticos em honra da maior parte dos deuses, nenhum fez o elogio do Amor, que, não obstante, é um deus importante? (…) Li um livro, intitulado Elogio do sal, em que o sábio autor exagerava as maravilhosas qualidades do sal e os grandes serviços que ele presta ao homem. Noutros termos, é raro encontrares coisa que não conste dum panegírico.”

ERIXÍMACO – Cada um, pois, improvisará da melhor forma que lhe couber um discurso em honra do Amor. A ordem será da esquerda para a direita. Desta forma, Fedro falará primeiro, ainda mais porque era sua intenção desde o início, e toda a idéia deste jogo foi dele. Escutemo-lo!”

(*) Eumelo e Acusilau, historiadores antigos, segundo refere Clemente de Alexandria, transcreveram em prosa os versos de Hesíodo, publicando-os como obra sua.”

O DISCURSO DE FEDRO

Na Grécia temos o brilhante exemplo da amorosa Alceste, filha de Pélias: só ela quis morrer por seu esposo; até os pais dele se negaram.”

Orfeu, filho de Eagro, foi arrojado dos ínferos sem conseguir o que fôra pedir. No lugar de lhe devolverem sua mulher, apresentaram-lhe um fantasma, mera sombra de Eurídice, porque apesar de músico excepcional, faltava algum valor a Orfeu. Porque, longe de imitar Alceste, morrendo por quem amava, meteu-se a descer vivo ao submundo. Os deuses, indignados diante de tamanha petulância, castigaram-lhe a covardia, fazendo-o ter uma morte vexatória nas mãos de várias mulheres. Já vês que, pelo contrário, Aquiles muito fôra honrado, este filho de Tétis, recompensado com a ida às Ilhas Bem-Aventuradas.¹ Acontece que, mesmo sua mãe prevenindo-o de que, assim que matasse Heitor seria ele também morto, e de que caso não combatesse voltaria são e salvo à casa paterna, vivendo uma vida muito longa e pacífica, Aquiles não hesitou, preferindo vingar Pátroclo, provando que dava mais valor à amizade que a sua própria vida. Escolheu morrer sobre o cadáver do amigo.”

¹ Homero retrata Aquiles apenas no Hades (Odisséia).

Ésquilo está de troça quando afirma que o amado era Pátroclo. Aquiles era mais belo, não apenas que Pátroclo, mas que todos os demais heróis. Não tinha ainda barba e era muito mais jovem, conforme Homero mesmo.” “Quem ama possui um não sei quê de mais divino que quem é amado, porque em sua alma habita um deus”

* * *

O DISCURSO DE PAUSÂNIAS

se não houvesse mais que uma Vênus,¹ não haveria mais que um Amor; mas como há duas Vênus, há necessariamente dois Amores. Quem duvida que existam duas Vênus? Uma, a mais velha, filha do céu, que não tem mãe, que chamaremos simplesmente Vênus Celeste; a outra, mais jovem, filha de Zeus e Dione, que chamaremos de a Vênus popular.”

¹ Azcárate sempre traduz conforme a mitologia romana. Também Afrodite. Nas outras traduções, dei prioridade à nomenclatura grega.

O amor da Vênus popular é popular (vulgar) também, e só inspira ações baixas”

uma vez que a Vênus Celeste não nascera de mulher, mas tão-só de varão, o amor que a acompanha só busca aos jovens. Ligados a uma deusa de mais idade, e que, por conseguinte, não tem a sensualidade fogosa da juventude, os inspirados por este Amor só desejam o sexo masculino, naturalmente mais forte e mais inteligente.”

Seria verdadeiramente desejável uma lei que proibisse amar os demasiado jovens, evitando-se assim gastar tempo com coisa tão incerta; porque quem sabe o que resultará um dia de tão terna juventude? que giro tomarão o corpo e o espírito, e até que ponto se dirigirão? ao vício? à virtude?”

Não é difícil compreender as leis que regem o amor em outros países, por serem precisas e bem simples. Só mesmo os costumes de Atenas e de Esparta necessitam de explicação. Nas Élides, por exemplo, e na Beócia, onde se cultiva pouco a arte da palavra, diz-se, puerilmente, que é bom dar nossos amores a quem nos ama, e ninguém acha-o um mau conselho, jovem ou velho. É preciso crer que nesses países o amor assim é autorizado para resolver as dificuldades e para se fazer amar sem ter de recorrer aos artifícios da língua, desconhecidos para essa gente. Mas na Jônia e em todos os países submetidos à dominação dos bárbaros tem-se este comércio por infame; proíbe-se igualmente tanto a filosofia quanto a ginástica, os tiranos não suportam ver surgirem, entre os súditos, paixões e amizades nem relações vigorosas, que é o que o amor melhor sabe criar. Os tiranos de Atenas já experimentaram esse tipo de lei em tempos antanhos. A paixão de Aristogíton e a fidelidade de Harmódio transtornaram esse estado de coisas. É claro que, nesses Estados em que é vergonhoso amar a quem nos ama, toda esta severidade nasce da iniqüidade dos que a estabeleceram, da pura tirania dos governantes e da covardia dos governados; e que nos países em que simplesmente se diz que é bom corresponder a quem nos ama, esta indulgência é uma prova de grosseria. Tudo isso é bem sabido pelos atenienses. Mas, como já disse, não é fácil compreender nossos princípios nessa matéria. Por um lado, diz-se que é melhor amar às claras que às furtadelas, e que é preciso amar com preferência os mais generosos e virtuosos, por mais que estes se afigurem menos belos.”

o mais estranho é que se quer que os amantes sejam os únicos perjuros que os deuses deixem de castigar, porque, diz-se, os juramentos não obrigam nos assuntos amorosos.”

Há entre nós a crença de que se um homem se submete a servir a um outro com a esperança de aperfeiçoar-se por intermédio dele numa ciência ou em qualquer virtude particular, esta servidão voluntária não é vergonhosa e não se chama adulação.”

* * *

Aqui, tendo feito Pausânias uma pausa (e eis aqui um jogo de palavras que vossos sofistas ensinam), seria a vez de Aristófanes começar, mas este não o pôde em virtude de uma crise de soluços que lhe sobreveio, não sei se por haver comido em excesso, ou outra razão. Então se dirigiu ao médico Erixímaco que estava sentado ao seu lado e lhe disse:

– É preciso, Erixímaco, que ou me livres desse soluço (hic)… ou que fales no meu lugar até que ele tenha cessado.

– Farei um e outro – respondeu Erixímaco –, porque vou falar em teu lugar, e tu falarás no meu, quando tua incomodidade já tiver passado. Passará rápido se, enquanto eu discurso, prenderes a respiração um pouco, e, não tendo curado o soluço, terás de gargarejar com água. Se o soluço, ainda assim, persistir, por ser demasiado violento, apanha qualquer instrumento com que consiga fazer cócegas no nariz; a isto se seguirá o espirro; e se o repetires uma ou duas vezes, o soluço cessará infalivelmente, por mais grave que seja.”

* * *

O DISCURSO DE ERIXÍMACO

Também é belo e necessário ceder ao que há de bom e de são em cada temperamento, e nisto consiste a medicina; pelo contrário, é vergonhoso comprazer ao que há de depravado e de enfermiço, e é preciso combatê-lo, se é que se fala de um médico hábil. Porque, para dizer em poucas palavras, a medicina é a ciência do amor corporal com relação à repleção e evacuação¹”

¹ O encher e esvaziar.

Esculápio¹, nosso patriarca, encontrou um meio de introduzir o amor e a concórdia entre os elementos contrários, e por isso é reputado o inventor da medicina, segundo os poetas e como penso eu mesmo. Me atrevo a assegurar que o Amor preside à medicina, e assim também à ginástica e à agricultura. Sem necessidade de fixar a atenção por muito tempo, descobre-se-o na música, e acho que foi o que Heráclito quis dizer, se bem que não soube colocá-lo em palavras. O que ele falou, em forma de enigma, foi: A unidade que se opõe a si mesma concorda consigo mesma (…) A harmonia é impossível se grave e agudo permanecem sem interagir; a harmonia é uma consonância; a consonância um acordo; e não pode haver um acordo entre partes opostas enquanto no fundo já não forem mais opostas (…) Analogamente, também as sílabas longas e as breves, que são opostas entre si, compõem o ritmo, assim que entram em acordo.”

¹ Lendário fundador da arte médica.

A adivinhação é a criadora da amizade que existe entre os deuses e os homens, pois sabe tudo o que há de santo e de ímpio nas inclinações humanas.”

* * *

– Cabe a ti, Aristófanes, suprir o que eu houver omitido. Portanto, se tens o projeto de honrar ao deus doutra maneira, fá-lo e começa, de contínuo, agora que teu soluço já passou.

Aristófanes respondeu:

– Passou, em efeito. Só me ressinto do espirro. Me admira que para restabelecer a ordem na economia do corpo seja preciso um movimento como este, acompanhado de ruídos e agitações tão ridículas; porque realmente este método da pena foi o único eficaz o bastante comigo.

– Olha como te portas, Aristófanes! Estás a ponto de iniciar teu discurso e parece que já zombas as minhas custas. Agora saibas que não terás paz, pois estou cá atento, de vigia, para ver se não vais é passar o tempo a ridicularizar o amor com piadas.”

* * *

O DISCURSO DE ARISTÓFANES

Quando desejavam caminhar depressa, apoiavam-se sucessivamente sobre seus 8 membros, e avançavam com rapidez mediante um movimento circular, como o que desempenha a roda, com os pés ao vento.”

A solução não carecia de dificuldades; não queriam os deuses aniquilar os homens, como noutros tempos aos titãs, fulminando-os com seus raios, pois aí então desapareceriam o culto e os sacrifícios que os homens lhes prestavam; no entanto, era certo que não deixariam esta insolência passar impune.” “e se depois deste castigo ainda conserveis vossa audácia monstruosa, recusando-vos ao repouso, dividi-los-ei mais uma vez, e ver-vos-ei precisados de andar sobre um só pé, como os que dançam sobre os odres de vinho na festa de Caco.¹”

¹ Caco, Cacus ou Kakos, filho de Vulcano ou Hefesto, deus olímpico. Teria uma aparência monstruosa e força sobre-humana, sendo, ademais, canibal. Arquétipo do ladrão ominoso que aterroriza as populações pastoris. Na mitologia é morto por Hércules durante seus Doze Trabalhos. O próprio Hércules teria iniciado seu tributo anual, construindo um altar, para aplacar a fúria dos deuses pelo seu ato.

Quando uma das duas metades perecia, aquela que sobrevivia buscava outra, à qual se unia novamente, fosse a metade de uma mulher inteira, o que agora se chama propriamente mulher, fosse uma metade de homem; e dessa forma ia-se extinguindo a raça. Zeus, tomado de compaixão, imaginou outro expediente: pôs à frente os órgãos da geração, que antes estavam atrás, gerando-se e derramando-se, outrora, o sêmen, não um no outro, mas no chão, como fazem as cigarras. Com esta providência de Zeus, a concepção passou a ser feita mediante a união do varão e da fêmea. Desde então, o produto da união do homem e da mulher são os filhos; se acaso o varão se unia ao varão, a saciedade os separava logo depois, restituindo-os aos trabalhos e demais cuidados da vida.”

Da mesma forma, os homens atuais, que provêm da separação dos homens primitivos, buscam o sexo masculino. Enquanto são jovens, amam aos homens; se comprazem em dormir com eles e estar em seus braços; são os melhores dentre os adolescentes e os adultos, como que oriundos de uma constituição mais varonil. (…) com a passagem do tempo, revelam-se mais capacitados que os demais para servir ao Estado. Uma vez em idade madura, passam a amar aos jovens (…) Do que eles mais gostam é passar a vida uns com os outros em celibato.”

Quando aquele que ama aos jovens ou outros homens em geral chega a encontrar sua metade, a simpatia, a amizade, o amor os unem de uma maneira tão maravilhosa que ambos não desejam, sob circunstância alguma, separar-se por um momento que seja. Estes mesmos homens, que passam toda a vida juntos, não podem dizer o que anelam, exatamente, um do outro, porque, se sentem tanto prazer ao viver dessa forma, claro está que a causa não são os sentidos corporais. É evidente que é a própria alma de cada qual que deseja algo além, inexprimível, mas que de certa forma pressente e atina. À hipótese de Hefesto em pessoa aparecer justo quando estivessem abraçados, com os instrumentos de sua arte de ferreiro, perguntando-lhes: Ó, meus caros! Que é aquilo que exigis reciprocamente?, e ao não obter nenhuma resposta, perplexo, continuar interpelando-os: O que quereis, afinal, não é encontrar-vos unidos de tal maneira que nem de dia nem de noite estejais segregados um do outro? Se é isso mesmo que quereis, vou fundir-vos e mesclar-vos para que sejais uma só pessoa e não mais duas, tanto na vida como na morte. Apenas dizei-me, e realizá-lo-ei!… Se, dizia eu, nessa hipótese, ouvissem a proposta de Hefesto, é absolutamente certo que os casais não a recusariam jamais”

Originalmente, como já disse, éramos um só; mas depois nossa iniquidade foi castigada e Zeus nos separou, como o foram os arcádios pelos espartanos(*)”

(*) “Os espartanos invadiram a Arcádia, destruíram os muros da Mantinéia e deportaram os habitantes a quatro ou cinco pontos diferentes. Cf. Xenofonte, Helênicas, 5:2.”

Que Erixímaco não critique estas minhas últimas palavras, como se fizessem alusão a Pausânias e a Agaton, porque quiçá estes dois são deste pequeno número, e pertencem ambos à natureza originalmente masculina.”

* * *

ainda não discursaram Agaton nem Sócrates.”

FEDRO – Meu querido Agaton, se continuas respondendo a Sócrates, isto não acabará; ele, quando tem com quem conversar, fica contente ao máximo e não pensa em nada mais – sobretudo se seu interlocutor é formoso.”

* * *

O DISCURSO DE AGATON

Estando de acordo com Fedro acerca de todo o demais, não posso convir com ele quanto a que o Amor seja mais antigo que Cronos e Jápeto.¹ Sustento, pelo contrário, que é o mais jovem dos deuses, e que sempre se conserva jovem. Essas velhas querelas dos deuses, que nos remetem a Hesíodo e Parmênides, se é que têm algo de verdadeiro, tiveram lugar no império da Necessidade, e não sob o reino do Amor; porque não teria havido qualquer desentendimento entre os deuses, castrações e mutilações, correntes, violências que-tais, se o Amor presidisse desde o início. A paz e a amizade, como sucede no presente, são a ordem do dia. É certo que o Amor é jovem e extremamente delicado, mas foi necessário um poeta – como Homero – para expressar a delicadeza deste deus sublime. Homero refere que Ate é deusa e delicada. Seus pés, diz ele, são tão leves que nunca os pousa em terra, mas pisa sobre a cabeça dos homens.”

¹ Titã primordial – filho de Urano e Gaia (como o próprio Cronos) e pai dos titãs Átlas e Prometeu, entre outros.

Só por livre e espontânea vontade se submete alguém ao Amor. Bem como a todo tipo de acordo, destes que não nascem da violência: quando a lei é justa. E o Amor não só é justo como moderado no mais alto grau, porque consiste a temperança em triunfar dos prazeres e das paixões; e há prazer superior ao Amor? Se todos os prazeres e todas as paixões estão abaixo do Amor, é que ele os domina; e se os domina, é de precisão que esteja dotado de um equilíbrio incomparável. Quanto à força, Marte não pode igualá-lo. Não é Marte que possui ao Amor, mas o Amor que possui a Marte, o Amor de Vênus, como dizem os poetas; porque aquele que possui é mais forte que o objeto possuído; e superar o que supera aos demais, não seria ser o mais forte de todos?”

o Amor é um poeta tão entendido que converte em poeta àquele que quer; e isto sucede até aos que são estranhos às Musas, logo que se sentem inspirados pelo Amor; o que prova que o Amor é notável nisto de consumar as obras que são da competência das Musas; afinal, não se ensina aquilo que não se conhece, bem como não se dá aquilo que não se tem”

Antes do Amor, como disse ao princípio, aconteceram entre os deuses muitas coisas deploráveis, durante o reinado da Necessidade.”

* * *

Sinto-me tão incapaz de dizer algo tão belo que, repleto de vergonha, de bom grado abandonaria o posto, se realmente pudera, porque a eloquência de Agaton me recordou a de Górgias, até se passar comigo o que diz Homero: temia eu que Agaton, ao arrematar, lançasse sobre meu discurso a cabeça de Górgias, este orador terrível, petrificando minha língua!”

Permita-me ainda, Fedro, proceder a algumas perguntas a Agaton, a fim de que com seu auxílio possa falar com mais segurança.”

desejo possuir no futuro aquilo que tenho neste instante.

(…)

E não seria isso amar o que não se tem certeza de possuir, aquilo que ainda não se possui, e desejar conservar para o dia de amanhã aquilo que se possui no momento presente?”

* * *

(*) “Por um artifício de composição que parece uma espécie de protesto implícito contra o papel tão inferior que a mulher desempenhou até este momento na conversação sobre o amor, Platão expõe suas opiniões pela boca de uma, a estrangeira de Mantinéia, que faz o prólogo¹ de Sócrates no famoso discurso.”

¹ Um prólogo tão extenso que chega a ser a metade do discurso socrático na obra!

* * *

SÓCRATES – Que é afinal o Amor, Diotima, se não é mortal nem tampouco imortal?

DIOTIMA – Um grande demônio,¹ Sócrates; porque todo demônio ocupa um lugar intermédio entre os deuses e os homens.”

¹ Daimon

DIOTIMA – (…) Como a natureza divina nunca entra em comunicação direta com o homem, ela se vale de demônios para se relacionar e conversar conosco, seja enquanto estamos acordados ou sonhando. (…) Os demônios são muitos e de muitas classes, e o Amor é um deles.”

DIOTIMA – Quando do nascimento de Vênus, houve entre os deuses um banquete, no qual se encontrava Poros,¹ filho de Métis,² em particular. Depois da refeição, Pênia³ pôs-se à porta, para mendigar migalhas e sobras. Nesta hora, Poros, embriagado pelo néctar dos deuses (ainda não haviam inventado o vinho) saiu da sala, entrando no jardim de Zeus, onde o sono não tardou a fechar suas pálpebras cada vez mais pesadas. Pênia, premida por seu estado de miséria, aproveitou para conceber um filho de Poros. Deitou-se com ele enquanto estava inconsciente, e como resultado dessa união nasceu o Amor. É por esta razão que o Amor se tornou o companheiro e serviçal número 1 de Vênus, porque foi concebido no mesmo dia de seu nascimento; sem falar que o Amor ama naturalmente a beleza, e Vênus é bela.”

¹ A Abundância.

² A Prudência.

³ A Penúria.

Tudo o que adquire, dissipa sem cessar, de sorte que nunca é rico nem pobre. Ocupa um posto intermediário entre a sabedoria e a ignorância, porque nenhum deus filosofa, nem deseja fazer-se sábio, posto que a natureza divina já contém a sabedoria. Sabeis, pois, que o sábio não filosofa. Idem para os ignaros: nenhum deles filosofa nem deseja fazer-se sábio, porque a ignorância produz precisamente o péssimo efeito de persuadir os feios, os maus e os estúpidos de que são belos, bons e sábios. E ninguém deseja as coisas de que já se crê portador.” “A sabedoria é uma das coisas mais belas do mundo, e, como o Amor ama o que é belo, é preciso concluir que o Amor é amante da sabedoria, i.e., filósofo”

DIOTIMA – distinguimos uma espécie particular de amor, e chamamo-la amor, usando o nome que corresponderia na verdade ao gênero inteiro; enquanto isso, para as demais espécies empregamos termos diferentes.”

é preciso unir ao desejo do bom o desejo da imortalidade, posto que o amor consiste em aspirar a que o bom nos pertença sempre.”

DIOTIMA – Os que são fecundos com relação ao corpo amam as mulheres, e se inclinam com preferência a elas, crendo assegurar, mediante a procriação dos filhos, a imortalidade e a perpetuidade do seu nome, e a felicidade que se imaginam no curso dos tempos. Mas aqueles que são fecundos com relação ao espírito…”

Sólon mesmo é honrado por vós como pai das leis, assim como outros grandes homens o são também em diversos países, seja na Grécia, seja entre os bárbaros, porque produziram uma infinidade de obras admiráveis e criaram toda classe de virtudes. Estes filhos lhes valeram templos, enquanto que os filhos carnais dos homens, aqueles que saem das entranhas da mulher, jamais engrandeceram ninguém.”

o caminho reto do amor, já se guie por si mesmo, já seja guiado por outro, é começar pelas belezas inferiores e elevar-se até a beleza suprema, passando, por assim dizer, por todos os graus da escala de um só corpo belo a dois, de dois a todos os demais, dos corpos belos às ocupações belas e às ciências belas, até que, de ciência em ciência, chegue-se à ciência por excelência, a ciência do belo mesmo, finalizando-se por conhecer esta ciência tal como ela é em si.”

* * *

(*) “Depois do discurso de Sócrates, parece que nada resta a dizer sobre o amor, e que o Banquete deve ser concluído. Mas Platão achou conveniente ressaltar, quando menos se esperava, a elevação moral de sua teoria mediante o contraste que apresenta frente à baixeza das inclinações ordinárias dos homens. É por esta razão que, neste instante, aparecem de improviso Alcibíades¹, embriagado, com a cabeça coroada de hera e violetas, acompanhado de tocadores de flauta e de uma porção de seus companheiros de bebedeira. Que representa essa orgia em meio a estes filósofos? Não faz saltar à vista a eterna diferença, para usar o próprio jargão platônico, entre a Vênus popular e a Vênus celeste? Mas o engenhoso autor do Banquete faz derivar daí outro resultado importante. A orgia, que ameaçava tornar-se contagiosa, cessa como por encanto no momento em que Alcibíades reconhece Sócrates entre os convivas.

¹ A eterna chacota de Platão. Como péssimo aluno de Sócrates, que se tornou um político tirânico e traidor da polis, nada mais justo que sempre figure assim nos diálogos que foram preservados para a posteridade.

* * *

Um instante após, ouvimos no pátio a voz de Alcibíades, meio ébrio e gritando”

ALCIBÍADES – Rides de mim porque estou bêbado? Ride o quanto quiserdes! Sei que digo a verdade. Mas vejamos, respondeis: entrarei sob esta condição ou não entrarei? Bebereis comigo ou não?”

ALCIBÍADES – Por Hércules! Que é isto? Sócrates, vejo-te cá à espera a fim de surpreender-me, segundo teus costumes, aparecendo de repente quando menos te esperava! Que vieste fazer aqui hoje?! Por que ocupas este lugar no banquete? Como é que, em vez de te pores ao lado de Aristófanes ou de qualquer outro mais complacente contigo, ou que ao menos se esforce em sê-lo, tu soubeste colocar-te tão bem que te encontro, afinal, junto do mais formoso da reunião?

SÓCRATES – Imploro teu socorro, Agaton. O amor deste homem não é para mim um embaraço pequeno. Desde a época em que comecei a amá-lo, eu não posso mais contemplar ou conversar com nenhum outro jovem, sem que, agitado e ciumento, ele se entregue a incríveis excessos, enchendo-me de injúrias, e por pouco é que não transforma em agressões físicas suas ameaças! Tendes cuidado, convivas, para que não vos deixeis levar por um arrebatamento do gênero nesta hora tão delicada; procura, Agaton, assegurar meu sossego, ou protege-me, enfim, se estás disposto a alguma violência; receio este seu amor e seus ciúmes furiosos!”

ALCIBÍADES – Pois bem, amigos, que fazemos? Me pareceis excessivamente comedidos e nisso não posso consentir; é preciso beber; este é o trato que fizemos! (…) Agaton, por favor, que me tragam uma taça grande, se a tiveres; senão, ó escravo!, dá-me cá aquele cântaro! Porque aquele cântaro já leva bem uns dois litros.”

ALCIBÍADES – Que não levem para o lado malicioso aquilo que vou fazer na seqüência, porque Sócrates poderá beber o quanto queira, e nem por isso vós o vereis embriagado!

O cântaro preenchido pelo escravo, Sócrates o bebeu. Então Erixímaco, tomando a palavra:

ERIXÍMACO – Que faremos, Alcibíades? Seguiremos bebendo, sem falar nem cantar, e nos contentaremos com o mesmo que os beberrões que só sabem matar a sede?

ALCIBÍADES – Saúde, Erixímaco, digno filho do melhor e mais sábio dos pais!

ERIXÍMACO – Também te saúdo. Mas: que faremos?

(…)

ERIXÍMACO – Então escuta! Antes de tua chegada tínhamos convindo em que cada um de nós, seguindo um turno rigoroso, faria elogios ao Amor, o melhor que pudesse, começando pela direita. Todos cumprimos com nossa obrigação, e é, pois, justo que tu, que nada disseste e que não por isso bebeste menos, cumpras por tua vez com tua parte do negócio. Quando houveres concluído, elegerás um tema a Sócrates, de tua preferência; este a teu vizinho da direita, e assim sucessivamente.

ALCIBÍADES – (…) querer que um bêbado dispute em eloquência com gente comedida e de sangue frio é desigual em demasia!”

* * *

O DISCURSO DE ALCIBÍADES

Que outro fale, ainda que seja o orador mais hábil, e não causará impressão alguma sobre nós; mas tu, Sócrates – ou alguém que repita teus dizeres, por pouco versado que seja na arte da palavra –, fazes todos os ouvintes, homens, mulheres, crianças, se sentirem convencidos e hipnotizados.”

Ao ouvir Péricles e tantos de nossos grandes oradores, apreendi que são eloqüentes, mas nada de semelhante me fizeram experimentar. Minha alma não se turbava nem se indignava contra si mesma devido a sua escravidão. Mas, quando escuto esse Marsias,¹ a vida que levo me parece de repente insuportável!”

¹ Sátiro mitológico, um encantador nato. Punido por Apolo por sua vaidade, acaba, na posteridade, dando seu nome a um rio da Frígia.

vejo-me obrigado a dele fugir tapando meus ouvidos, como se se tratasse das sereias. Não fosse esse proceder, creio que permaneceria sentado a seu lado até o fim dos meus dias. Este homem desperta em mim um sentimento de que não se me creria capaz, isto é, o do pudor. É verdade, apenas Sócrates consegue me ruborizar, porque estou bem ciente de nada poder opor a seus conselhos! (…) Fujo-lhe, procuro evitá-lo; mas, quando volto a vê-lo, me envergonho, em sua presença, de haver desmentido minhas palavras com minha conduta; às vezes preferiria que ele não existisse; no entanto, se isso acontecera, estou convencido de que seria eu ainda mais desgraçado; de maneira que este homem é para mim um enigma!

Tamanha é a impressão que ele produz sobre minha pessoa, e a que a flauta deste sátiro produz sobre os outros! Mas talvez minhas palavras não dêem o termo exato do poder extraordinário que este homem exerce sobre quem o escuta; estejais convencidos de que nenhum de nós compreende a Sócrates. Já que comecei, continuo…

Sabeis do ardor que manifesta Sócrates pelos jovens formosos; com que empenho os busca, e até que ponto deles está enamorado; vedes, outrossim, o quanto a sociedade como um todo o menospreza, que ele nada sabe, ou, pelo menos, dissimula não saber. Tudo isso não é coisa de um Sileno¹?

Até mesmo na aparência ele lembra a fisionomia das estátuas de Sileno. Mas, convivas de banquete, abri-o, e que tesouros não vereis dentro dele! Sabei que a beleza de um homem é para ele o aspecto mais indiferente. É inconcebível imaginar até que ponto a desdenha, bem como a riqueza e as demais vantagens cobiçadas pelo vulgo. Sócrates as enxerga sem qualquer valor, e a nós mesmos, aliás, como se nada fôramos. Passa toda sua existência a zombar e a debochar de todo mundo! Porém, quando fala a sério e deixa ver seu interior–ignoro mesmo se outros chegaram a ver o que vi, vista tão divina, preciosa, majestosa, encantadora! Sócrates é simplesmente irresistível! Crendo ao princípio que ele se apaixonava por minha beleza, me vangloriava de minha grande sorte, e pensava em sua conquista como um meio certo a fim de receber em troca toda sua sabedoria! Sim, sempre me admirei muito ao espelho… Manifestei meus desejos a meu aio, que logo providenciou um encontro nosso, a sós. Agora é preciso que eu conte tudo, portanto atenção! E tu, Sócrates, se acaso incorro em erro, me adverte. A sós com Sócrates, esperava sempre que a conversação chegasse àqueles temas que só são desenvolvidos quando o amante não encontra testemunhas que possam atrapalhar seu discurso com o objeto amado! Nesta expectativa me auto-lisonjeava e somente dela já usufruía prazer. Mas minhas esperanças foram morrendo pouco a pouco. Sócrates passou o dia inteiro conversando comigo da sua forma usual, e depois se recolheu ao leito. Depois disso, desafiei-lhe a fazer exercícios ginásticos, esperando, por este método, ganhar algum terreno. Exercitamo-nos e lutamos muitas vezes, sem testemunhas. Que poderei atestar-lhes? Que nem assim obtive qualquer avanço! Sem poder conquistá-lo dessa forma velada, decidi-me ao ataque franco. Uma vez tendo começado, não seria lícito abandoná-lo sem ir às últimas conseqüências! Convidei-o para comer, como fazem os amantes que estendem um laço àqueles que amam; de chofre recusou, mas aos poucos foi cedendo e enfim resolveu-se por aceitar. Veio e comeu; mas quando terminou, fez menção de ir-se. Uma espécie de pudor me impediu de retê-lo. Mas logo lancei-lhe mais um laço; e depois de mais uma vez banquetearmos juntos, prolonguei desta vez a conversação até avançada a noite; e quando quis ir embora, intimei-o a dormir sob meu teto, sob o pretexto de que já era muito tarde. Deitou-se no mesmo banco em que comera; este banco estava próximo ao meu, e éramos só nós dois na casa.”

¹ Discípulo mitológico do deus Dionísio. Wikipédia: “Sileno era descrito como o mais velho, o mais sábio e o mais beberrão dos seguidores de Dioniso, e era descrito como tutor do jovem deus nos hinos órficos.”

as crianças e os bêbados dizem a verdade”

estou mordido e ferido pelos raciocínios da filosofia, cujos tiros são mais inclementes e afiados que o dardo duma víbora, assim que atingem uma alma jovem e bem-nascida. Fazem-na, enfim, dizer ou fazer mil coisas extravagantes; e vendo aqui neste banquete o ferro que me acutilou tantas vezes, Agaton, Erixímaco, Pausânias, Aristodemo, Aristófanes, deixando Sócrates de lado, e os demais, atacados todos como eu dessa mania e desse frenesi filosóficos, me dou por vencido e, mesmo que pouco inclinado a prosseguir minha história, diante de tantos ouvidos e olhares, fá-lo-ei, porque sabereis excusar minhas ações de então, e minhas palavras de agora. Mas quanto aos escravos e a todo profano sem cultura, ponde-os daqui para fora, e cerrem-lhes três portas para que nada ouçam!

Continuando, amigos: logo que acabou a luz do crepúsculo, e se retiraram os escravos de minha habitação, cri que não devia mais dar rodeios com Sócrates, e devia ser o mais direto possível. Toquei-o e disse-lhe:

– Sócrates, dormes tu?

– Não – respondeu.

– Pois bem, sabes o que eu penso?

– O quê?

– Que tu és o único amado digno de mim, e me parece que não te atreves a revelar teus sentimentos. E eu me julgaria sem razão se, a partir de minha descoberta, não procurasse comprazer-te em todas as ocasiões que pudesse. Faço isso porque só tenho a ganhar em nobreza, e assim também meus amigos, indiretamente. Neste momento nenhum pensamento me fustiga tanto quanto o de me aperfeiçoar o quanto puder, e ninguém vejo que pudesse ser de mais auxílio do que tu. Temeria mil vezes mais o ser criticado pelos sábios ao recusar algo a um homem como tu, que sê-lo pelo vulgo e pelos ignaros ao conceder-te tudo.

A tudo isto que eu disse, Sócrates respondeu com sua ironia habitual”

SÓCRATES – (…) Os olhos do espírito não começam a se fazer proféticos até que os do corpo comecem a se debilitar, e tu ainda não estás neste estágio.”

no fim, vedes que Sócrates nada me dedicou, senão desdém e desprezo a minha beleza, não fazendo mais do que insultá-la; e pensava eu que ela tinha bastante mérito, amigos! Sim, sede juízes da insolência de Sócrates; os deuses e as deusas serão testemunhas; àquela noite, saí de seu lado, no leito, como se despertasse após dormir com meu pai ou com meu irmãos mais novo!”

Mais submisso a esse homem do que um escravo o pode estar a seu dono, andava eu errante aqui e ali, sem saber que rumo tomar. Essas foram minhas primeiras relações com Sócrates. Depois nos encontramos de novo, no exército, na expedição contra a Potidéia, e fomos companheiros de quarto. Nos combates, vi Sócrates sobressair, não só a mim, mas também a todos os demais. Ele tinha a maior paciência para suportar todas as fadigas. Se faltava comida, coisa comum em campanha, Sócrates não dava sinais de sofrer de fome e de sede. Se nos encontrávamos na abundância, sabia desfrutar dela mais que qualquer um. Sem sequer apreciar a bebida, bebia mais que os demais se lhe estendiam a taça! (…) Naquele país o inverno é muito rigoroso, e a maneira como Sócrates resistia ao frio não era menos do que prodigiosa. Em tempos de grandes geadas, quando ninguém se atrevia a sair, ou, pelo menos, ninguém saía sem ir-se bem encasacado e calçado, e com os pés envoltos em feltro e peles de cordeiro, ele ia e vinha com a mesma capa que soía levar, caminhava com os pés nus com a facilidade típica de quem usava botas, ao ponto dos soldados olharem-no com despeito, achando-se por isso humilhados. Assim se conduzia Sócrates no exército.”

Mas o que faz de meu Sócrates digno de uma admiração particular é que não se acha outro que se lhe pareça, nem entre os antigos, nem entre nossos contemporâneos. Poder-se-ia, p.ex., comparar-se Brásidas¹ com Aquiles, Péricles com Nestor ou Antenor; e há ainda personagens que, contrastados, dão azo a semelhanças. Mas, repito, ninguém, antigo ou moderno, se aproxima, nem remotamente, a este homem, ou a seus discursos, nem a sua originalidade, a não ser que se comparassem ele e seus discursos não a um homem, como já o disse, mas aos silenos e aos sátiros; porque até esqueci de dizer, quando principiei meu discurso, que os discursos deste homem se parecem também, perfeitamente, com os dos silenos quando se expandem. Com efeito, apesar do desejo que se tem de ouvir Sócrates, o que disse parece, à primeira vista, inteiramente grotesco. As expressões com que ele veste seu pensamento são grosseiras, como a pele de um sátiro impudente. Não vos fala mais que de asnos com selas, de ferreiros, sapateiros, peliceiros, e aparenta sempre dizer uma mesma coisa nos mesmos termos; de sorte que não há ignorante ou néscio que não sinta a tentação de rir-se. Mas, como eu venho dizendo, abri seus discursos e examinai seu interior: encontrar-se-á de imediato que não há nada mais coerente e cheio de sentido; concedais só um pouco mais, e logo direis que são de natureza divina, encerrando em si as imagens mais nobres da virtude; numa só palavra, tudo quanto aquele que quer fazer-se um homem de bem deve ter em vista. (…) E não falo só por mim; outros recusados por Sócrates são Cármides, filho de Glauco; Eutidemo, filho de Díocles, e tantos mais, a quem enganou, simulando querer ser seu amante, quando não representou para com eles senão o papel da pessoa muito amada. Sendo assim, Agaton, aproveita-te destes exemplos e não te deixes enganar por este homem! Que minha triste experiência te ilumine, e não imites o insensato que, segundo o provérbio, não se faz sábio senão as suas custas.”

¹ General espartano na época da Guerra do Peloponeso.

* * *

Havendo cessado Alcibíades seu discurso, todos começaram a rir ao testemunhar sua franqueza, e percebendo que ainda estava muito apaixonado por Sócrates.

Este, tomando a palavra, disse então:

SÓCRATES – Imagino que hoje estiveste pouco expansivo, meu caro Alcibíades; doutra forma, não poderias, artificiosamente, e com amplo vocábulo e talento verbal, haver ocultado o verdadeiro motivo do teu discurso, o que só revelaste justo ao final, fazendo parecer que não era teu único objetivo colocar Agaton e eu em maus lençóis! Tens a pretensão de que eu devo amar-te, e não amar a mais ninguém, e que Agaton deve ser amado exclusivamente por ti. Mas teu artifício não passou despercebido; logo intuímos aonde ia a fábula dos sátiros e dos silenos; assim, meu querido Agaton, desfaçamos o projeto de Alcibíades, e faz de sorte que ninguém possa nos separar um do outro.

AGATON – Ó, creio que tens razão, Sócrates; estou certo de que seu esquema de se interpor entre mim e tu foi todo pensando com vistas a nossa separação! Mas de nada serviu, porque agora mesmo irei pôr-me a teu lado!

SÓCRATES – Ótimo, senta-te a minha direita!

ALCIBÍADES – Por Zeus! Quanto não me faz sofrer este homem! Imagina-se no direito de dar-me sua lei em tudo! Permite-me, pelo menos, ó maravilho Sócrates, que Agaton se ponha entre nós dois (a sua esquerda).”

SÓCRATES – Impossível! Tu acabas de fazer minha apologia, e agora me toca fazer a do meu vizinho da direita. (…) Deixa que venha este jovem, Alcibíades, e não o invejes as lisonjas que com impaciência desejo prestar-lhe!

AGATON – Não há modo de que eu permaneça aqui, Alcibíades. Quero resolutamente mudar de sítio, para ser elogiado por Sócrates!

ALCIBÍADES – Isto é o que sempre sucede! Onde quer que esteja Sócrates, somente ele tem lugar garantido ao lado dos jovens formosos. E agora mesmo, vede que pretexto simples e plausível encontrara a fim de que Agaton sentasse a seu lado!”

(*) “Após Alcibíades arrematar sua fala, a taça começa a circular entre os convidados, até que não resta um que não sucumbe por seu turno à embriaguez. Sócrates, único impassível, pois seu pensamento, estranho às desordens, faz seu corpo imune a elas, conversa sobre diversas temáticas com os restantes, os que resistem até os primeiros albores do dia. Finalmente, quando todos ali se entregam ao sono, abandona a casa do anfitrião do banquete Agaton, para ir dedicar-se a suas ocupações rotineiras: última manifestação desta alma forte, que a filosofia tinha tornado invulnerável às paixões.”

que o mesmo homem deve ser poeta trágico e poeta cômico, e que, quando se sabe tratar a tragédia segundo as regras da arte, deve-se saber por igual tratar a comédia. Obrigados a convir com as afirmações de Sócrates, e estando como que embotados pela longa noite de discussões, começaram a sentir sono. Aristófanes adormeceu primeiro, depois Agaton, com o sol já bastante alto; Sócrates, vendo ambos já inconscientes, levantou-se e saiu acompanhado, como de costume, por Aristodemo; dali foi-se ao Liceu, banhou-se, e passou o restante do dia em suas ocupações habituais, de modo que não regressou a sua casa até de tarde, quando enfim foi descansar.”

GÓRGIAS OU DA RETÓRICA

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

SÓCRATES – Preferirias, Górgias, continuar, ora interrogando, ora respondendo, desta mesma forma de agora há pouco, e deixar proutra ocasião os discursos longos, tais como o que Pólux havia principiado? Rogo-te que mantenhas tua promessa e limites-te a responder cada questão com concisão.

GÓRGIAS – Sócrates, respostas há que exigem alguma extensão. Atendendo a tua solicitação, contudo, procurarei lançar mão das respostas mais lacônicas possíveis. Afinal, uma das coisas de que me jacto é que ninguém há que consiga ser mais sucinto do que eu.”

GÓRGIAS – Vou tentar desenvolver, Sócrates, toda a virtude da Retórica, iniciado que fui por tuas palavras. Mas não deves ignorar que os arsenais dos atenienses, bem como suas muralhas e seus portos, foram construídos seguindo, em parte, os conselhos de Temístocles, em parte, os de Péricles, e não os dos operários.

SÓCRATES – Conheço, Górgias, esta reputação de Temístocles. Quanto a Péricles, não só de boca, pois escutei-o pessoalmente exortando os atenienses a erguer as muralhas que hoje separam Atenas do Pireu.”

Visitei muitos doentes, em companhia de meu irmão e outros médicos, que se recusavam a tomar as beberagens ou a submeter-se aos tratamentos dolorosos que requerem o fogo e o ferro; o médico nada podia quanto a esses teimosos pacientes, ocasião em que eu intervinha. Com a ajuda da Retórica, conseguia que anuíssem.”

se tens a mesma disposição de caráter que a minha, interrogar-te-ei com satisfação, Górgias. Porém, em caso contrário, pararei por aqui. Perguntas então: qual meu caráter? Sou daqueles que gostam de ser refutados, se acaso não incorrem pela verdade.”

Afirmas, pois, que te consideras apto a instruir e formar um homem na arte oratória, se ele desejar ser teu aluno?”

E, se estou certo, acrescentaste, ainda, que quanto à saúde do corpo, o orador é mais confiável que o médico?”

Quando dizes <multidão>, certamente queres dizer os ignorantes; uma vez que seria inconcebível que o orador levasse vantagem sobre o médico diante de uma platéia instruída!”

Esta superioridade do orador e da Retórica não seria análoga, comparada às demais artes? Em suma, fica claro que a Retórica prescinde da necessidade de instruir quanto à natureza de cada assunto; basta, na verdade, ser persuasiva, não importa o meio, contanto que pareça, aos olhos dos ignaros, mais sábia que qualquer outro ofício.”

Avaliemos se o aprendiz da Retórica necessita saber e se tornar hábil em tudo isso antes de principiar suas lições; ou, desconhecendo o tema, tu, que és mestre de Retórica, poderá por ti só ensinar-lhe? Acontece que tu tampouco és versado no tema. Mas prometes, asseguras mesmo, ensinar-lhe de maneira tal que, tu mesmo sendo um não-especialista, teu aluno passará perfeitamente por um legítimo especialista.¹”

¹ A expressão original era “hombre de bien”. Em que pese logo ser impossível prescindir das noções de bem e bom neste (e noutros) diálogo(s) platônico(s), como veremos adiante, julguei impraticável, neste trecho, a tradução “homem de bem”, até pelas conotações pejorativas que o termo ganhou no Brasil recente. Seria a maior banalização jamais vista do pai-dos-filósofos!

GÓRGIAS – Penso, Sócrates, que ainda quando tal discípulo não saiba nada de tudo isso, aprendê-lo-ia a meu lado.

SÓCRATES – Basta, Górgias, suplico-te! Interrompe um pouco teu belo discurso! Tu falas demasiado bem, com efeito! Mas fazer de outro um bom falador requer que se conheça o que é justo ou injusto, seja tendo aprendido tal distinção noutra escola ou seja de tua própria boca.”

Pensas, acaso, que haja alguém no mundo que confesse não possuir qualquer conhecimento da justiça, e que não se ache, a despeito de sua ignorância, em posição de ensiná-la aos demais?”

SÓCRATES – Seria portar-se muito mal para contigo, meu caro, se, tendo tu vindo a Atenas, ponto da Grécia onde se gabam da maior liberdade de expressão, fôras, então, o único interdito de pronunciar teus discursos. Mas põe-te também em meu lugar! Se discorres amplamente e te recusas a responder com precisão àquilo que se te propõe, não terei eu motivo de queixa, isso, claro, se não me fosse permitido, ao invés disso, simplesmente ir-me embora, deixando-o falar só?”

SÓCRATES – Me parece, Górgias, que em certos ofícios nenhuma receita pode ajudar, mas tão-somente um tato, uma audácia e uma grande disposição natural a diálogos, inerentes à alma. Chamo um destes ofícios de adulação; e dentro desse gênero me parece haver múltiplos subgêneros, dentre os quais o da cozinha. Diz-se que se trata de uma arte, a arte culinária; eu, de minha parte, não lhe concedo este benefício. Antes, trata-se de costume ou rotina.”

A Retórica é, em minha opinião, o arremedo de uma parte da Política.”

Muitos possuem uma boa constituição corporal, mas é difícil perceber quem não possui uma, não sendo um médico ou um professor de ginástica.”

Digo, então, que há no corpo e na alma um não-sei-quê que faz com que se julgue que ambos vão bem, até quando de fato não o vão.”

a ginástica está para a medicina como a legislatura está para os tribunais, porque cada par se exerce sobre um mesmo objeto, correto?”

A adulação não se ocupa do bem, e fitando apenas o prazer envolve em sua teia os insensatos, ludibriando-os; não à toa consideram-na de grande valor. A cozinha, ou arte culinária, se orna do véu da medicina, que é capaz de discernir quais os alimentos mais saudáveis para o corpo. Mas se um belo dia um médico e um cozinheiro se pusessem a disputar diante de crianças e de homens tão néscios quanto crianças, a fim de se decidir qual dos dois conhece melhor as qualidades boas e ruins dos alimentos, creia-me, Górgias, nesse dia os médicos morreriam de fome!

como está a cozinha em relação à medicina, assim também está a Retórica em relação à arte jurídica. (…) os sofistas e os oradores se confundem com os legisladores e os juízes, e se consagram aos mesmos objetos; donde deriva que nem eles mesmos sabem com exatidão qual profissão exercem, nem os demais sabem para que são bons tais homens.

PÓLUX – Como é? Estás dizendo que a Retórica é o mesmo que a adulação?

SÓCRATES – Só disse que era uma parte dela. Ah, Pólux! Na tua idade e já ruim da memória? Que dirá quando fores um idoso!

PÓLUX – A ti te parece que nas cidades se enxerga os oradores de reputação como vis aduladores?

SÓCRATES – Perguntas-me a sério ou apenas inicias mais um discurso?”

Para ti os homens aspiram às próprias ações de sempre, ou querem algo que resulta dessas ações? P.ex., quem toma algo prescrito por um médico, quer, segundo tu, tragar a bebida e sentir dor? Ou quereria a saúde, o fim de um meio, que é a bebida?”

SÓCRATES – O maior dos males é cometer injustiças.

PÓLUX – É este o mal maior? Sofrer uma injustiça não seria muito pior?

SÓCRATES – De forma alguma.

PÓLUX – Preferirias ser vítima de uma injustiça que cometê-la?

SÓCRATES – Eu não preferiria nem um nem outro. Mas se fosse absolutamente necessário cometer uma injustiça ou sofrê-la, ficaria com o segundo ato.

PÓLUX – Tu não aceitarias ser um tirano?

SÓCRATES – Não, se por tirano tomas o mesmo que eu.

PÓLUX – Entendo que um tirano é aquele que tem o poder de fazer numa cidade tudo o que julgue oportuno: matar, desterrar, numa só palavra, agir sempre conforme seu desejo.

SÓCRATES – Meu querido amigo, escuta bem agora. Se quando a praça pública está apinhada de gente, e tendo eu um punhal às escondidas na manga te dissesse: encontro-me revestido neste momento, Pólux, de um poder maravilhoso e idêntico ao de um tirano; de todos esses homens que tu vês, aquele que eu quiser que morra, morrerá; se me parece que devo fender o crânio de alguém, já está feito! se quero despedaçar suas roupas, estão despedaçadas! ah, tão grande é o poder que tenho nesta cidade! Se te recusaras a crer-me, e te mostrasse meu punhal, talvez dissesses: Sócrates, qualquer um em teu caso seria dono de um grande poder. Também afirmo que poderias queimar a casa de quem te viesse à cabeça; pôr fogo ao arsenal dos atenienses, em todos os navios e barcos pertencentes ao público e ao privado. Mas o supremo, no poder, não consiste no fazer o que se considera oportuno. Concordas comigo?”

PÓLUX – P.ex., Arquelau, filho de Pérdicas, rei da Macedônia.

SÓCRATES – Nem sei como ele é, mas sim, já ouvi falar dele.

PÓLUX – Mas que te parece, é ditoso ou desgraçado?

SÓCRATES – Nada sei sobre isso, Pólux; nunca conversei com ele.”

Muito me admira ver que tentas refutar-me usando da Retórica, como os advogados nos julgamentos. Ali, um advogado crê ter refutado seu colega, quando apresenta o número suficiente de testemunhas; ou seja, quando tem mais depoimentos a favor de sua tese que contra ela. Mas esta espécie de refutação não concerne à busca pela verdade; porque algumas vezes um acusado é condenado injustamente, graças a depoimentos consideráveis.”

O homem injusto e criminoso é desgraçado de todos os pontos de vista; e ainda o é mais, caso não sofra nenhum castigo e seus crimes permaneçam impunes; mas é-o menos, se recebe dos homens e dos deuses a justa retribuição por seus crimes.”

PÓLUX – Não consigo crer no que afirmas! Um homem que, surpreendido em seu intento de chegar a ser tirano, submetido à tortura, decepado, com sua vista queimada, padecendo um sofrimento para o qual não há medida, repetido diariamente, dividido em infinitas partes, submetido à dor pelos mais incríveis métodos; e que ainda por cima tem de ver sua mulher e filhos padecendo de forma semelhante; e que então morre crucificado, ou empapado em resina; ou é queimado vivo; dizes, Sócrates, que um tal homem será mais afortunado que se, escapando a esses suplícios indizíveis, se fizesse tirano absoluto, fosse durante toda sua vida o dono da cidade, praticando todo tipo de ação, despertando a inveja dos concidadãos e estrangeiros, sendo tomado, enfim, como o mais feliz dos mortais? E crês que é possível refutar semelhantes absurdos?”

Qual é a graça, Pólux? Veja um belo método de refutação: rir na cara de um homem sem alegar nada!”

Eu não saberia apresentar mais que um argumento em favor do que digo; e esse argumento não muda, não importa se falo a um sábio ou com a multidão.”

Imagino que não consideras o belo e o bom, o mau e o feio, como a mesma coisa, não é exato?”

Com efeito, a felicidade não consiste em se ver curado do mal, mas em nunca tê-lo padecido.”

Cometer a injustiça não passa do segundo mal quando o critério é a magnitude; mas cometê-la e não ser castigado, isso sim ocupa o primeiro lugar no ranking dos males.”

Consideravas Arquelau um modelo de felicidade, isso porque depois de acusado dos maiores crimes não fôra castigado; já eu sustentava, pelo contrário, que Arquelau, ou um outro qualquer que porventura não se veja castigado após o cometimento de injustiças, devem ser tidos como infinitamente mais desgraçados que qualquer um; que o autor de uma injustiça é sempre mais desgraçado que quem a padece; e o homem mau que se mantém impune, mais que o homem castigado.”

A Retórica, caro Pólux, não nos serve para nos defendermos no caso de uma injustiça, como tampouco serviria para nossos pais, amigos, filhos ou nossa pátria; eu não vejo como ela pode ser útil senão para acusar-se a si mesmo acima de tudo; e logo depois aos parentes e amigos.”

SÓCRATES – Uma vez que o objetivo seja causar mal a outrem, inimigo ou quem quer que seja, observar-se-á uma conduta diametralmente oposta. É preciso prevenir-se contra as investidas inimigas. Mas se o tirano comete uma injustiça contra um terceiro, é preciso não medir esforços em palavras e ações para livrá-lo do castigo, e impedir que compareça perante os juízes; e, no caso de que compareça, que se faça o possível para absolvê-lo da pena; de maneira que, tendo roubado uma quantidade apreciável de dinheiro, não precise devolvê-la, retendo-a para gastar de forma ímpia e injusta, para si mesmo e para seus amigos; e se um crime merece a morte, que ele não a sofra; e se assim fosse possível, que ele jamais morresse, e que subsistisse mais e mais malvado, eternamente; e não apenas: mas que vivesse no crime pelo máximo de tempo que lhe coubesse. Ei-lo, Pólux, o útil que enxergo na tua Retórica! Porque para aquele que não deseja cometer injustiças, não vejo ocasião de empregá-la. Já vimos por tempo bastante que a Retórica não é boa para nada!

CÁLICLES – Querefonte, sabes me dizer se Sócrates acredita no que diz ou é apenas um bufo?”

SÓCRATES – (…) Alcibíades, filho de Clínias, discursa como quer quando quer; mas a filosofia discursa sempre da mesma maneira. (…) Preferiria muito mais uma lira mal-feita e desarranjada; um coro desafinado; e um séquito de homens que, cada um, pensasse diferente de mim mesmo; preferiria tudo isso antes de entrar em desacordo comigo mesmo e ver-me obrigado a contradizer-me.”

CÁLICLES – Me parece, Sócrates, que sais triunfante de teus discursos, tal qual um declamador popular. Toda tua declamação funda-se no fato de que com Pólux sucedeu o mesmo que, dizia ele, deu-se a Górgias, quando discursavam contigo. Ele me relatou que, quando perguntaste a Górgias, supondo-se que alguém fosse seu aluno em Retórica sem ter qualquer conhecimento da justiça, se ensinar-lhe-ia o que era a justiça. Górgias, não se atrevendo a confessar a verdade, respondeu-te que lhe ensinaria, mas por pura etiqueta, pois não é de uso entre as gentes responder negativamente a esse tipo de pergunta capciosa. E como essa resposta deixou Górgias na situação de contradizer-se a si mesmo, tu muito te comprouveste. Numa palavra, a queixa de Pólux me parece assaz justa. Mas eis que Pólux se encontra enredado na mesma armadilha. Confesso-te que Pólux me decepcionou ao dar brechas, fazendo-te a concessão de que é mais feio cometer uma injustiça que sofrê-la. Ao dar-te esta resposta, comprometeu-se na disputa, e agora calaste-lhe a boca, porque não pode mais falar o que opina sem se demonstrar contraditório e vulnerável a teus ataques.

Sob o pretexto da busca da verdade, Sócrates, tu mesmo o afirmas, enreda teus interlocutores como faria um bom declamador, que não se interessa pela verdade, mas unicamente pelo belo; não o belo segundo a natureza, mas o belo segundo a lei. (…) Se alguém fala do que pertence à lei, tu o interrogas visando à natureza; e se fala do que pertence à natureza, tu o interrogas visando à lei. (…) Segundo a natureza, todo aquele que é mais mau é igualmente mais feio. Deste ponto de vista, sofrer uma injustiça é mais feio do que praticá-la; mas, à ótica da lei, é mais feio praticá-la. (…)

Quanto às leis, Sócrates, como estas são obra dos mais débeis e do maior número, a meu ver, não pensaram senão em si mesmos no momento de formulá-las. (…) é injusto e feio, no tocante à lei, hipostasiar-se como superior aos demais, o que se passou a denominar injustiça. (…) Com que direito fez Xerxes a guerra contra a Grécia, bem como seu pai contra os citas? (…) se aparecesse um homem, dotado de grandes qualidades, que, sacudindo e rompendo todas estas travas, encontrasse o meio de delas se desembaraçar; que, deitando por terra vossos escritos, vossas fascinações, vossos encantamentos e vossas leis, contrários sem dúvida à natureza; que aspirasse a se elevar acima de todos, convertendo-se de vosso escravo em vosso senhor; brilharia assim a justiça, conforme à natureza. Píndaro, me parece, é da minha opinião quando recita que <a lei é a rainha dos mortais e dos imortais>. (…) Hércules levou os bois de Gerião, sem havê-los comprado, e sem o consentimento de ninguém, dando a entender que esta ação era justa de acordo com a natureza, e que os bois e todos os demais bens dos débeis e dos pequenos pertencem de direito ao mais forte e ao melhor. A verdade é tal como eu a digo; tu mesmo o reconhecerás, caso, deixando à parte a filosofia, te apliques a assuntos mais augustos. Confesso, Sócrates, que a filosofia é uma coisa que tem lá seu encanto quando se a estuda com moderação, em nossa juventude; mas, se explorada por tempo demais, é o látego de todo homem. Por mais talento que um indivíduo tenha, se continua filosofando até uma idade avançada, parece que o tempo todo as coisas antigas se tornam novas para ele, que a dúvida de se ele é ou não um homem de bem ou <do mundo> continua a acossá-lo sem remorso. Os filósofos são completamente leigos em legislação da polis; ignoram completamente como se portar em público, seja nas relações que concernem ao Estado, seja nas relações interpessoais; são neófitos nas questões dos prazeres e paixões humanos, enfim, são inexperientes na vida. Quando encomendas algum negócio a um filósofo, de natureza doméstica ou civil, não deixam nunca de cair no ridículo, exatamente como os políticos, quando se os observa de alguma distância, porque tudo para estas duas classes são controvérsias e disputas ensimesmadas! Nada mais certo que este ditado de Eurípides: <Cada um se aplica com gosto naquilo em que descobriu ter mais aptidão; é a isso que consagra a maior parte do seu dia, a fim de fazer-se superior a si mesmo.> Pois pelo contrário – embora ele esteja certo –, vejo da seguinte forma, um enunciado oculto: distancia-se um homem de todo negócio em que suas ações produzem um mau resultado, passando a tratá-los com desprezo; mas, por amor-próprio, exalta justamente sua especialidade, de modo que, no fim, se exalta a si mesmo. Diante deste cenário, Sócrates, creio que o melhor seja ter algum conhecimento tanto dumas quanto doutras coisas, as práticas e as espirituais. É bom ter algumas tinturas de filósofo, pois a filosofia cultiva e refina o caráter, e nunca é vergonhoso ser um jovem filósofo. Mas quando se entra na idade da decadência, nos anos do amadurecimento, prosseguir filosofando seria patético, Sócrates. Considero-os, os filósofos de meia-idade ou idosos, uns tontos, tartamudos, resmungões, traquinas, teimosos. Crianças grandes! (…)

Como disse, pois, por mais talento que possua, um homem desses não pode evitar de se degradar ao fugir contìnuamente da praça pública, onde os homens adquirem, segundo o Poeta [Homero], celebridade

Tu deprecias, Sócrates, aquela que deveria ser tua principal ocupação e, fazendo o papel duma criança, rebaixas uma alma de tanto valor como a tua. Tu não poderias dar a palavra final acerca da justiça, nem penetrar a probabilidade e a plausibilidade dos negócios públicos, como tampouco instruir os demais com conselhos edificantes. (…) Se neste instante te deitassem a mão, ou aos que seguem tua conduta, te conduzindo à prisão, alegando que causaste dano à pólis, ainda que falsamente, sabes bem o quão embaraçado te verias. Apesar de teu valor, faltar-te-iam as idéias, e palavras não sairiam de tua boca. Se te apresentasses diante dos juízes, não importa quão vil e depreciável teu acusador, serias inevitavelmente condenado à morte, se para isso o adversário não medisse esforços. Que estima poderia ter a filosofia, Sócrates, quando reduz à nulidade os que a ela se dedicam com suas melhores qualidades, arte esta que os desguarnece de socorro, deixando os próprios filósofos indefesos? Se alguém não se pode salvar, quem dirá salvaria a outrem! Um filósofo está completamente exposto ao inimigo, sem ter como proteger seus bens, condenado a uma existência sem honra em sua própria pátria. É penoso dizê-lo, mas a um homem em tuas condições pode-se acossar impunemente. O que disse deve bastar, meu caro, para que abandones teus argumentos – cultiva outros assuntos no lugar! Exercita-te no que poderá conceder-te a reputação de homem hábil! Abandona estas sutilezas, consideradas por terceiros meras extravagâncias e puerilidades, conducentes à miséria! Propõe-te novos modelos, não esses que disputam sobre frivolidades, mas aqueles que possuem bens, crédito na praça e que gozam de todas as vantagens da vida.”

SÓCRATES – Tenho certeza de que se tu assentes comigo nas opiniões que tenho vincadas na alma, estas opiniões são, então, verdadeiras! (…) Quanto a estes dois estrangeiros, Górgias e Pólux, ambos são hábeis, e ambos amigáveis; falta-lhes, entretanto, firmeza para discursar; são mais circunspectos do que convém. Como não o seriam, se, por uma reserva indevida, encontram-se a tal ponto atados que, na presença de tantos outros, acabam por contradizer-se mùtuamente, mesmo nos assuntos mais importantes? (…) sois quatro os que estudaram filosofia juntos: tu, Tisandro de Afidne, Andrão (Ândron), filho de Androtião (Androtion) e Nausícides (Nausicides) de Colargo. Ouvi-os um dia em que debatiam até que ponto era conveniente cultivar a sabedoria, e tenho para mim que a opinião que prevaleceu foi que nenhum de vós devia chegar a se tornar filósofo consumado; e que uns vigiariam aos outros, a fim de que nenhum perdesse a medida e se tornasse <filósofo demais>; precaução muito apropriada, já que vosso fito era não acabar por vos prejudicardes involuntariamente.”

Se o gênero de vida que levo é repreensível em certos conceitos, tem tu certeza, ó Cálicles, que isso ocorre independente de mim. Isso se deve a minha ignorância inata. Não te acanhaste em dar-me bons conselhos; e percebi que começaste muito bem. Só me explica a fundo qual é a profissão que devo abraçar, e qual é a conduta de quem a exerce”

é possível ser a um só tempo o melhor e o menor e mais débil; o mais poderoso e o mais mau?¹ Ou bem ser o melhor e o mais poderoso seriam uma e a mesma coisa, inconciliável com ser o menor e o mais mau?”

¹ A expressão “pior” seria a mais correta gramaticalmente; no entanto, quis recalcar o aspecto da filosofia platônica ligado ao cultivo da arete, isto é, a perpétua busca do Bem: o melhor (superlativo de bom, aquele que visa ao bem, substantivo) se encontra em oposição ao pior, é certo; mas num sentido moderno poderíamos crer que “pior” se referisse à pura incompetência do sujeito, e não à distância de sua conduta moral no que respeita a si mesmo (trata-se do político mau ou tirano, neste caso – aquele que visa ao mal, substantivo), isto é, quando alguém acaba por agir de uma forma muito inferior ao que realmente poderia atingir (seu eu-ideal). Ora, de um ponto de vista moderno (ou retórico grego), ser tirano (ser o mais poderoso e o pior) é ser competente no que faz; ao passo que a Ciência Política se preocupa em evitar a aparição de figuras tirânicas, a noção vulgar que se tem é a de que a melhor condição da vida seria poder ser um tirano irrefreável e terrível, sagaz, maquiavélico, impune, astuto como uma raposa. Em outras palavras, aquele que não concorda com Sócrates não sentiria vergonha ou remorso ao vestir o anel de Giges e ser como os parlamentares da democracia moderna que tanto critica. Sócrates (re)unifica a Política e a Ética, eliminando essa nossa contradição tão banal, aporia insolúvel do nosso Estado e do nosso tempo. Já segundo o homem das ruas (hoje em dia ou na Grécia Antiga, tanto faz), o “pior político” é aquele que tenta roubar e cometer crimes, mas é pego e punido; não quem consegue sê-lo, permanecendo imaculado ou, ao menos, livrando-se das penas previstas (este é o <melhor canalha>).

CÁLICLES – Declaro terminantemente que estas três palavras (mais poderoso, melhor e mais forte) expressam a mesma idéia.

SÓCRATES – Segundo a natureza, a multidão não é mais poderosa que um só? Essa mesma multidão que, conforme dizias anteriormente, elabora as leis contra o indivíduo?

CÁLICLES – Sem objeções.”

Este homem jamais cessará de dizer extravagâncias! Sócrates, responda-me: não te é constrangedor, na tua idade, andar à caça de palavras, crendo, assim, que triunfas nas disputas, distorcendo o sentido das expressões?”

Provavelmente não crês que 2 sejam melhores que 1, nem teus escravos melhores que tu, por serem mais fortes.”

CÁLICLES – Gatuno!

SÓCRATES – Não, Cálicles, não é verdade! Por Zeto,¹ que utilizaste para me ridicularizar ainda há pouco! Mas não percamos tempo com acusações: diga, quem consideras teus melhores?”

¹ Monarca tebano mitológico.

SÓCRATES – Desta maneira, muitas vezes um sábio é melhor, em teu juízo, que 10 mil homens médios; ele é quem deve mandar, e cabe aos demais obedecer. Todo chefe sabe mais que seus súditos. Eis aqui o que queres dizer, segundo interpreto, ao menos enquanto 10 mil for um número maior que um e minha audição não estiver comprometida. Em todo caso, confirmarás se distorço tuas palavras…

CÁLICLES – É isso mesmo o que eu digo, Sócrates, e a natureza me corrobora: o melhor e mais sábio deve sem sombra de dúvidas comandar; igualmente, deve possuir mais que os sem-mérito.”

SÓCRATES – (…) [segundo teu raciocínio] o sapateiro deve andar pelas ruas com mais sapatos, e sapatos melhores, que qualquer outro.

CÁLICLES – Sapatos?! Lá vens de chacota de novo!

SÓCRATES – (…) o lavrador entendido, sábio e hábil no cultivo das terras deve ter mais sementes e semear em seus campos muito mais que os demais.

CÁLICLES – Estás sempre a repetir os mesmos silogismos e comparações disparatadas!

SÓCRATES – Contanto que o disparate nos esclareça acerca das coisas e dos homens, Cálicles, tomo-o como elogio.

CÁLICLES – Ah, Sócrates, pelo Olimpo! Não páras de aduzir a sapateiros, a alfaiates, a cozinheiros, a médicos, como se a discussão não se apartasse por completo destes ofícios!”

Tu zombas de mim porque estou sempre a dizer o mesmo, como cantilenas adivinháveis; dizes até que isto é um crime! E eu tenho motivos para queixar-me de ti por não usares nunca as mesmas palavras ainda que discorras sobre os mesmos objetos repetidas vezes – p.ex., por <melhores> e <mais poderosos> entendes ora os mais fortes ora os mais sábios. E não pára por aí! Acabaste de nos brindar com uma terceira definição: eis que, no momento, os mais poderosos e os melhores são, para ti, os mais valentes!”

SÓCRATES – (…) Não seria necessário exercer esse império sobre si mesmo, além de sobre os demais?”

CÁLICLES – O que entendes por <mandar em si mesmo>?

SÓCRATES – Nada inconcebível, mas apenas a definição vulgar: ser moderado, dono de si, refrear suas paixões e desejos.

CÁLICLES – Ah, me encantas deveras, Sócrates! Os moderados são justamente os imbecis!

SÓCRATES – Como? Não há quem não compreenda que não é nesse sentido que o digo.

CÁLICLES – Mas é nesse sentido, Sócrates. Não existe felicidade na submissão. Nem quando a submissão se encontra dentro de si. Mas vou dizer-te, com toda liberalidade, no que consiste o belo e o justo naturais. Para ser feliz não há outra forma senão deixando expandir-se o quanto quiserem nossas paixões – nada de moderação! (…) Alguns dizem que a intemperança é uma coisa feia; lhes parece ser um obstáculo a mais na vida dos que nasceram mais propensos a ela em relação aos mais contidos de berço. Mas é a frustração destes imodestos quando fracassam em regular suas paixões que enseja que, como subterfúgio, elogiem a temperança e a justa medida — isso não passa de covardia! (…) Como essa pretensa beleza da <justeza e moderação dos homens> não haveria de desgraçar a vida do intemperante (e todos os reis são intemperantes!), sendo que ela o privaria de distribuir mais a seus amigos que a seus inimigos, contrariando seu título de soberano?

Este homem dizia, querido Cálicles, contrariando tua opinião, que, de todos os que estão nos ínferos, os mais desafortunados são estes campeões da avidez e incontinência, eternos sedentos, que de um tonel furado tentam retirar, com uma taça igualmente furada, a água com que desejam aplacar sua sede. (…) [E por que é que repetem sem cessar esse suplício agoniante? Porque] a desconfiança e o esquecimento não lhes permite reter nada.”

a doçura da vida se encontra no êxtase e no transbordamento, Sócrates.”

Então diga-me: quem tem sarna e comichão, coça-se e arranha-se a ponto de abrir chagas (pois a coceira não cessa), vive feliz?”

SÓCRATES – (…) Cálicles da Acarnânia sustenta que o agradável e o bom são uma mesma coisa, e que a ciência e o valor são diferentes, não só entre si, como também em relação ao bom. Sócrates de Alópece convém ou não com isto? Não convém.”

Não acabam ao mesmo tempo a sede e o prazer de beber?”

CÁLICLES – Sócrates é sempre o mesmo, Górgias. Lança mão de perguntas ligeiras, sem significância, para no fim refutar-vos.

GÓRGIAS – Mas por que te deixas levar àsperamente, Cálicles? Tu mesmo concordaste, no início, com que Sócrates argumentasse a sua maneira.”

Segue daí, meu caro amigo, que o bom e o agradável, o mau e o doloroso, não são a mesma coisa, posto que ambos saem de cena ao mesmo tempo, o que prova sua diferença.”

na hora em que se faz a primeira concessão a Sócrates, leviana que seja, à guisa de recreio, ele se apodera dessa brecha com a mesma animação obcecada da criança.”

Ah! Ah! Cálicles, és astutíssimo! Tratas-me como criança, dizendo-me que as coisas são dessa e dessa maneira, ou então daquela e daquela, conforme o contexto; enganas-me como enganas um pequeno. Não cria, na minha ingenuidade, antes de nossa conversação, que eras mal-intencionado dessa forma! Para mim, Cálicles, tu não eras mais que um amigo! Admito meu erro. Resignar-me-ei, citando o velho provérbio, com as coisas como elas são. E elas são como tu mas representa. Dizes, então, retomando o raciocínio, segundo o que eu entendi, que uns prazeres são bons, e outros maus, é verdade?”

Crês que Cinésias, filho de Meles, deseja que seus cantos sirvam para melhorar os homens que o escutam, aspirando a mais do que simplesmente agradar à multidão de espectadores?” “E a tragédia, este poema imponente e admirável, a que conduz? Todos os seus esforços, todos os seus cuidados, não estão dirigidos unicamente ao agrado do público?”

SÓCRATES – A poesia, doravante, é uma espécie de declamação popular.

CÁLICLES – Justo.

SÓCRATES – Uma declamação popular é uma Retórica; afinal, não te parece que os poetas desempenham no teatro o mesmo papel que os oradores?

CÁLICLES – Concedo-o.

SÓCRATES – Encontramos, finalmente, uma Retórica para o povo, i.e., para as crianças, as mulheres, os homens livres e também os escravos, reunidos todos. Ninguém parece prestar muita atenção a esta Retórica, afinal, como todas as outras, ela é mera adulação.

CÁLICLES – Correto.

SÓCRATES – (…) A ti te parece que os oradores visam a produzir o maior bem e despertar a virtude nos cidadãos, através de seus discursos? Ou será que, buscando agradá-los, bajulá-los, desprezam o interesse público mais alto, priorizando os interesses particulares, falando como que para crianças, para que seja mais certo que acabem por se sentir agradados? Estaria fora de questão qualquer aspiração a longo prazo, sobre se o que falam irá torná-los melhores ou piores dali em diante!

CÁLICLES – Aqui tens de fazer uma distinção. Alguns oradores visam ao interesse público; outros são esses de que tu falaste.

SÓCRATES – Bom, não faço objeções a tua distinção, Cálicles. Se há duas, e somente duas, maneiras de disputar com palavras, uma delas é a adulação, prática vergonhosa; e a outra, o debate honesto, virtuoso, visando ao melhoramento das almas dos concidadãos. Esta segunda maneira de disputar não se importa com desagradar ou não seus ouvintes, contanto que atenda seu objetivo principal. Mas me atrevo a dizer que nunca viste uma Retórica assim. Se puderas nomear algum orador desta segunda classe, fá-lo-ias, decerto?

CÁLICLES – Por Zeus, Sócrates! Ninguém entre os atuais oradores.

SÓCRATES – Nem dentre os antigos, nem um só, de quem se diga que fez dos atenienses pessoas melhores desde que começou a discursar a eles?! Ou, menos, que fez com que os atenienses conservassem a virtude e permanecessem tão bons quanto antes? Eu não sei dizer nenhum nome, caro Cálicles!

CÁLICLES – Deveras, Sócrates? Então nunca soubeste da fama de Temístocles, tão homem de bem quanto os reputados Címon, Milcíades e, por fim, Péricles, falecido há pouco, cujos discursos tu mesmo ouviste em vida?”

Os médicos geralmente permitem que quem está sadio dê livre curso a sua dieta, deixando que comam o que quiserem quando bater-lhes a fome, que bebam, idem. Mas não permitem o mesmo aos enfermos.”

SÓCRATES – (…) Responde agora estas dúvidas finais, para que ao menos arrematemos este assunto!

CÁLICLES – És insuportavelmente teimoso, Sócrates! Se me cresses só uma vez, renunciarias a continuar esta disputa e acabá-la-ias com outra pessoa.

SÓCRATES – Mas quem há de querer?! Por favor, te peço mais uma vez, só mais um pouco!

CÁLICLES – Tenho uma idéia: por que não a terminas sozinho, seja discursando sem interrupção ou respondendo-te a ti mesmo?”

o mau é o que está em oposição ao homem temperante; é o libertino, cuja condição não cessas de louvar. (…) um homem desta categoria não pode ser amigo dos demais homens nem dos deuses; porque é impossível que tenha qualquer relação com eles; e, onde não existe relação, não pode ter lugar a amizade. (…) era preciso, em caso de injustiça, acusar-se a si mesmo, ao próprio filho, ao amigo; e servir-se da Retórica com este fim. (…) não é o mais feio testemunhar uma agressão injusta, uma mutilação injusta, um confisco de bens injusto? Não, pior ainda é que me espanquem e que me retirem o que me pertence, injustamente. (…) não estou certo de que o que digo seja verdadeiro; porém, o que sei é que, de todos os que conversaram comigo, dessa forma como nós dois estamos fazendo, ninguém deixou de cair no ridículo, e por culpa de si mesmo, tentando defender uma opinião contrária a minha.”

SÓCRATES – (…) Pergunto se, para não sofrer injustiças, basta querê-lo. Seria necessário buscar poder suficiente para pôr-se ao abrigo de toda e qualquer injustiça?

CÁLICLES – É claro que a única saída é obter poder.

SÓCRATES – Agora, quanto a cometer injustiças, seria bastante não querer cometê-las para que não fossem cometidas — ou, considerando tudo, seria preciso adquirir certo poder, isto é, uma certa arte, de modo que, sem aprender esta arte e sem adquirir este poder, e sem pô-los, em seguida, em prática, incorrer-se-ia, necessariamente, em injustiças?”

SÓCRATES – Se algum dos jovens desta cidade dissesse a si mesmo: como hei de alcançar um grande poder e pôr-me ao abrigo de toda injustiça?, o caminho para aí chegar, ao meu ver, é criar o hábito, o quanto antes, de bajular e vituperar as mesmas coisas que o tirano bajula e vitupera, e esforçar-se por adquirir a mais perfeita similaridade com ele. Não concorda?

CÁLICLES – Sim.”

Ignoro qual seja o segredo de sua arte, para virar e revirar os raciocínios mais díspares em todos os sentidos, Sócrates! Ignoras tu que este homem, que se modela pelo tirano da cidade, fará morrer, desde que o julgue conveniente, e despojará de seus bens, qualquer um que não o imite?”

SÓCRATES – (…) Crês que o homem deve tentar viver o maior tempo possível, e aprender as artes que nos salvem dos maiores perigos nas mais variadas situações da vida, como a Retórica prega? Ou seja, crês que o melhor é aprender Retórica, sinônimo de segurança nos tribunais?

CÁLICLES – Sim, por Zeus! E – pela milésima vez – este é o melhor conselho que hei de dar-te.

SÓCRATES – Caro Cálicles, que achas da arte de nadar?

CÁLICLES – Não me agrada, decerto.

SÓCRATES – E no entanto… por saberem nadar, muitos homens já evitaram a morte. Mas, já que consideras a arte de nadar algo desprezível, mencionarei outra mais importante: a de conduzir navios, que não só salva muitas almas, como corpos, e os bens, de grandes perigos, igual faz a Retórica. É uma arte modesta, sem pompa; não é presumida, não faz ostentação de si mesma, não se julga a panacéia universal; e, mesmo produzindo a quantidade equivalente de vantagens da arte oratória, não demanda mais que 2 óbolos caso queiramos, p.ex., ir de Egina a Atenas sãos e salvos. Mas se o ponto de partida for o Egito ou o Ponto, ou seja, um percurso muito mais extenso, ainda assim é uma arte maravilhosa: pela conservação de nossa vida e de todos os nossos bens, nossos filhos, nossas mulheres, esta arte não cobra mais do que 2 dracmas, e isso apenas após estarmos já em terra firme, no porto de desembarque. Quanto àquele que principalmente exerce essa arte, que nos prestou um serviço tão elevado, após o desembarque, não se parecerá com um príncipe soberbo, nem mesmo às margens das águas onde atracou seu navio. A verdade é que, em circunstâncias banais, ele mesmo ignora o bem que realizou, e a quem realizou. Afinal, sabe o praticante desta arte, por experiência, que, no fim, não melhorou nem piorou ninguém por exercer o ofício que exerce. A alma e o corpo dos seus passageiros permanecem tais quais à entrada, no momento de sua saída da embarcação. Mas creio que, continuando a refletir, aquele que conduz naves chegaria a estas conclusões: um enfermo que padece de males graves e incuráveis, passageiro meu, bem que gostaria de morrer em sua travessia pelo mar; se não morreu afogado e continua enfermo e sôfrego após a viagem, tanto pior para ele! Decerto, não seria este a me agradecer uma vez entregue ao destino combinado. Nada fiz-lhe de bom. E alguém saudável de corpo, porém incurável de alma, o que é muito pior, por um acaso julgaria de forma diferente o serviço que eu lhe presto?! Obviamente que não, pois estaria muito melhor afogado no oceano. Para uma alma corrompida e perdida, afogar-se seria receber justiça. O piloto de navio sabe, pois, instintivamente, que não é vantajoso para o homem mau viver, porque este há, necessariamente, de viver em desgraça. (…) Pretenderias, acaso, compará-lo ao advogado? Porém, Cálicles, se ele quisesse usar a mesma linguagem que tu, e exaltar a própria arte, oprimir-te-ia com suas razões, provando-te que devias tornar-te maquinista, exortando-te a seguir esta profissão, já que os demais ofícios não são nada cotejados com o dele, e vejo uma multitude de argumentos que ele poderia empregar. Tu, por tua vez, depreciarias seu ofício, dizendo-lhe, provavelmente para irritá-lo, que ele não passa de um maquinista; e que jamais darias a mão de tua filha a um filho de maquinista, nem a do teu filho a sua filha. Fixando-te sobre as razões que tens para estimar em tão alto grau tua própria arte, com que direito depreciarias a arte do maquinista e a dos demais de que te falei? Já sei que dirás que és melhor que eles e de melhor família.”

De fato, o verdadeiro homem na acepção da palavra não deve desejar viver pelo tempo que imaginar ser mais adequado nem ser muito apegado à vida, senão que, deixando a Deus o cuidado de tudo isto, confiando nos discursos das mulheres, que dizem: Jamais alguém se livrou de seu destino –, do que um homem necessita é saber de que maneira desfrutará o tempo que lhe resta. E isto deve coadunar com os costumes do país em que vive? Se sim, é preciso então que, desde este momento, te esforces o máximo para parecer com o povo de Atenas, se é que queres ser por ele estimado e dispor de crédito na cidade. Avalia se não é uma postura vantajosa para ti e também para mim! Mas previne-te, amigo, para que não se nos suceda o mesmo que às mulheres da Tessália, rematadas supersticiosas, que acreditavam ficar completamente impotentes assim que a lua se punha. Serve de alerta para que não percamos o alento, imaginando que não possamos alcançar toda essa estima senão sacrificando nossa pureza e nossas maiores qualidades. (…) porque não basta imitar os atenienses; é preciso ter nascido com seu caráter; só assim sua amizade será mais que mera afetação, e o mesmo (para) com o filho de Pirilampo.¹”

¹ É um adorno espirituoso e ao mesmo tempo enigmático de Platão, principalmente por vir da boca de Sócrates. Uma das interpretações é que é apenas um jogo de linguagem inocente, visto que Pirilampo (pai adotivo de Platão) teve um filho com sua mãe biológica a que deu o nome de Demos, isto é, “povo”. Outra interpretação não impossível é que Sócrates se referiria ao próprio Platão, posto que é filho de Pirilampo, no final das contas, mas não faz muito sentido. Por fim, outra interpretação, igualmente menos provável que a primeira, seria uma crítica a Pirilampo e seu filho, numa de duas acepções: 1) Que o nome de alguém não define verdadeiramente quem se é; logo, Pirilampo, dando o nome de Demos a seu filho, quis apenas bajular o espírito democrático ateniense (agindo como um orador astuto), sendo sua ação inócua e vã; 2) Mas pode ser também que seja uma crítica (nem que apenas preventiva, pois pode ser que Demos fosse então apenas um menino) dirigida tão-só a Demos, que seria um protótipo do tipo que Sócrates gostaria de evitar, e que gostaria que Cálicles, se pudesse mudar sua maneira de ser, também evitasse: um imitador barato, um homem de maneiras afetadas. De todo modo, não é possível precisar que idade teria o cidadão Demos no contexto deste diálogo de um já idoso Sócrates (na Grécia alguém se tornava oficialmente cidadão e responsável pelos próprios atos políticos igualmente aos 18 anos). Como o sentido é ambíguo, embora acredite que a primeira interpretação é a mais próxima da verdade, deixei o “para” entre parênteses: se se inclui a preposição na fala de Sócrates, significaria: “e o mesmo se aplica quando fores te dirigir ao filho de Pirilampo (para conservar sua amizade, tu tens de ter o caráter ateniense)”; caso não seja nesse sentido que Sócrates se expressa, mas no sentido de achincalhar Pirilampo/Demos, a preposição não seria usada.

SÓCRATES – (…) Os homens, com efeito, Cálicles, se comprazem mais com aqueles discursos que se moldam a seu caráter; tudo que lhes soa estranho parecerá ofensivo. Ou discordas de mim? Que possíveis objeções interporias?

CÁLICLES – Não sei dizer como tens razão, Sócrates, mas me parece que tens, neste particular! Em que pese isso, Sócrates, sigo pertencendo à maioria dos que te escutam: não me convences.”

Já ouvi dizer que Péricles fez dos atenienses preguiçosos, covardes, tagarelas e interesseiros, ao profissionalizar o exército.”

SÓCRATES – (…) Eu presenciei a época e sei, e tu também sabes muito bem, Cálicles, que Péricles granjeou-se uma enorme reputação no começo de seu governo; os atenienses, quando eram mais maus,¹ não ousaram acusá-lo nem infamá-lo nenhuma só vez; porém, no fim da vida de Péricles, quando já se haviam tornado bons e virtuosos,² condenaram-no pelo delito de peculato, e pouco faltou, em verdade, para que o condenassem à morte, de modo que, no final de sua tirania, Péricles havia caído no conceito do povo, e terminou reputado um mau cidadão.³,4

CÁLICLES – E só porque era tido por mau pelo povo, haveria de sê-lo?”

¹ Menos molengas, ou seja, mais aptos a combater um tirano – não seriam, portanto, com o mesmo direito, melhores?

² Sócrates escancara a ironia que era mais leve e ainda incerta no começo da frase.

³ De duas uma: ou Péricles foi um excelente governante e o povo foi ingrato com ele, ou Péricles foi tirano, logo, um homem ruim, um demagogo, e recebeu sua paga ao final. E pouco importa, no caso presente, que Péricles seja exaltado ainda hoje como o maior governante da época áurea de Atenas. Com efeito, a primeira alternativa contradiz a si mesma: se o critério de Cálicles fosse válido, Péricles teria escapado da condenação e morrido querido pelo povo. Subjaz sempre a possibilidade de que Péricles fôra justo mas não um orador no sentido calicliano, e que, portanto, indefeso contra a cegueira de maus cidadãos, terminou em desgraça, mas isso ainda corroboraria Sócrates, quem crê que é menos pior sofrer uma injustiça que cometê-la. De todo modo, que Péricles tenha sido um modelo de político, não é o que conclui Sócrates em momento algum do diálogo. Se só o poder nu e cru salva o homem e deve ser a meta suprema, como Cálicles poderia explicar que o maior político da esplendorosa Atenas tenha se emaranhado em maus lençóis, tendo sido tão poderoso e incontestável? Além disso, foi Cálicles que citou exemplos passados como os de políticos que deveriam ser imitados.

4 DA PÓLIS MODELO AO BRASIL DA LAVA-JATO

Um povo decadente querela por nada; busca pretextos para escaramuças; não tem tempo para refletir com seriedade sobre os riscos que assume para si próprio ao se lançar no que julgaria, de cabeça fria, as empresas mais temerárias. É inevitável que quão mais corrompida se vê uma democracia, mais viciados se mostrarão seus representantes. Quando subsistia ainda um naco do espírito democrático, de cidadania, no povo, este se guardava até de punir os demagogos e autoritários, por mais que fosse por mero acanhamento ou impotência, se não era por falta de desejos destrutivos e pelo cultivo da clemência; certo é que vislumbravam-se esperanças a partir do estado de coisas que o povo vivenciava, e confiava-se na boa intenção dos melhores que existiam para exercer a política. Uma vez que a decadência já era acentuada, após algum intervalo de tempo, nem mesmo o mais honrado político poderia se julgar a salvo do público, tornado voraz. Ao contrário, talvez fosse mais fácil prosperar, na nova pólis, sendo verdadeiramente mau.

Pense-se então no Brasil: Quem foi punido, e por que acusações, e quem deixou de sê-lo, nos últimos anos? Como se deu essa transição, tão rápida, entre dois estados (o de um povo conformado que se torna um povo sublevado)? A explicação está na fórmula: Quando o povo não quer mais, no íntimo, seguir sua Lei, cumpri-la apenas acelera a própria destruição da mesma Lei. A Constituição de 1988 jamais foi tão frágil quanto quando esteve mais próxima de ser cumprida em seus enunciados fundamentais. Enquanto não passava de um papel, paradoxalmente, havia um interesse popular pela sua aplicação no mundo real, e paciência na espera, embora a população fosse relativamente impotente. A corrupção nos altos escalões era encoberta. O Estado marchava lento e claudicante, conquanto marchasse em linha reta. Quando as circunstâncias se mostraram finalmente favoráveis, as instituições melhoraram, o povo se viu contemplado em suas demandas mais básicas, a máquina pública perdera a hesitação. Em poucos anos, a maior divulgação de casos de corrupção inverteu toda a ordem imediatamente anterior: uma cruzada contra a corrupção, apoiada por uma população dia a dia mais indignada, promoveu ao poder a própria corrupção e trancafiou seus inimigos. A exigência popular tornou-se: Caia a Lei antiga! Não só consideraram-se poucas e insuficientes as conquistas anteriores, como demandas outrora secundárias foram elevadas à prioridade da nação. As próprias conquistas anteriores, o atendimento de demandas básicas previstas na “Lei antiga”, passaram a ser malvistas e empreendeu-se sua supressão diuturna, o desmanche sistemático de várias garantias cidadãs. A sanha dos políticos no comando se tornou a sanha dos próprios cidadãos, convertidos em macaqueadores. O descontentamento com a classe política, tão presente há não mais do que duas décadas, tornou-se sua apologia, uma vez que a classe política eleita pelo povo após a mudança de opinião súbita que tomou conta das ruas e dos lares é considerada inédita e comprometida com novos ideais, a exata negação dos odiados políticos antigos. É uma classe anti-política, à qual foi dada a oportunidade de cumprir promessas que iam muito além dos tímidos acenos da velha guarda de políticos que se propunham apenas a conceder aos cidadãos o que ditava o texto de 88. Mal se pode intuir quão cobiçoso era o povo, outrora, de que os parágrafos desta lei do agora longínquo 1988, a sua promulgação, se tornassem realidade. Os velhos de hoje, jovens daqueles anos, e a juventude de hoje, que não os viveram, não podem conceber nada mais contrário aos anseios da moda, uns esquecidos e mudados, outros que não viveram e não procuraram conhecer uma época agora superada: Realidade aquela Lei não devera ser; e, se acaso por alguma infelicidade ela tiver se tornado real, que essa realidade seja, então, destruída e recriada a partir do zero.

SÓCRATES – (…) Diga-me agora, quanto a Címon: não o condenaram à pena do ostracismo, para que ficassem 10 anos sem ouvir a sua voz? Não aconteceu o mesmo a Temístocles, que ainda por cima foi desterrado? E Milcíades, o vencedor da batalha de Maratona, não foi sentenciado a ser trancado num calabouço, destino que teria sofrido, sem dúvida, não fosse a intervenção do primeiro prítane? (…) É natural que os hábeis condutores de carruagem caiam de seus cavalos ao princípio, enquanto aprendem, mas não depois, quando já sabem ser dóceis e desempenham bem o ofício de cocheiros. Não concordas que o mesmo que acontece com a condução dos carros se aplica a qualquer outro assunto?

CÁLICLES – Ora, concordo.

SÓCRATES – (…) agora vês que estes figurões do passado não levam nenhuma vantagem sobre os políticos de nossos dias. (…)

CÁLICLES – Ainda assim, Sócrates, muito falta aos políticos de hoje para que consigam levar a cabo ações tão grandiosas quanto as de qualquer um dos citados por ti.”

Um homem à cabeça do Estado jamais pode ser oprimido injustamente pelo próprio Estado que governa. Com os políticos é como com os sofistas. Os sofistas, hábeis no que lhes concerne, observam, contudo, até certo ponto, uma conduta desprovida de bom senso. Enquanto professam ensinar a virtude, acusam, por outro lado, muitos de seus discípulos de injustos, por não lhes pagarem o dinheiro que lhes é devido pelo ensino da virtude. Em suma, acusam os seus alunos de ingratidão diante de seus serviços.

SÓCRATES – (…) Ó, querido Cálicles, em nome de Zeus, que preside sobre a amizade, diga-me: não achas absurdo que um homem que se gaba de ter feito de outro um virtuoso se queixe dele como de um malvado qualquer, quando está patente que foi instruído e é virtuoso?

CÁLICLES – É, me soa absurdo.

SÓCRATES – Mas não é este discurso que ouves de quem professa ensinar a virtude?

CÁLICLES – Exato. Mas que outra atitude se poderia esperar de gente desprezível como os sofistas?

SÓCRATES – E tu, que me dizes: estes que, gabando-se de compor a cabeça do Estado e de consagrar todos os seus cuidados a fim de torná-lo virtuoso, têm razão em sair acusando o Estado de estar corrompido? Crês por um acaso que estes homens se encontram em caso diferente dos sofistas? São o sofista e o orador, meu querido, uma mesma coisa ou, ao menos, duas coisas bem parecidas, como eu disse a Pólux.”

SÓCRATES – Se, portanto, alguém destruísse este princípio de maldade, isto é, a injustiça, este alguém jamais teria de temer que se conduzissem para com ele de modo injusto; e seria ele o único que, com toda certeza, poderia dispensar gratuitamente seus talentos, se era realmente seu dom ensinar a virtude. Não convéns?

CÁLICLES – Sim.

SÓCRATES – Provavelmente é em virtude disto que não é vergonhoso receber um salário por outros tipos de conselhos, p.ex., sobre arquitetura, e artes que-tais.

CÁLICLES – De acordo.”

SÓCRATES – Agora me explica claramente a qual destas duas maneiras de buscar o bem do Estado me convidas; combatendo as inclinações dos atenienses, para fazer deles excelentes cidadãos, como se eu fôra um médico da alma; ou alimentando suas paixões, buscando apenas ser prazenteiro. Não hesites, Cálicles, pois, como começaste a dialogar comigo com franqueza, deves continuar até o fim dizendo exatamente aquilo que pensa, sem omitir nada.

CÁLICLES – Digo, Sócrates, que meu convite é para que sejas o fomentador das paixões dos atenienses.

SÓCRATES – Ah, meu mui generoso Cálicles, quer dizer então que me incentivas a ser seu adulador.”

serei julgado como sê-lo-ia um médico acusado por crianças e um cozinheiro. Examina, com efeito, o que um médico, no meio de semelhantes juízes, teria de dizer em sua defesa, se se o acusasse nestes termos: jovens, este homem faz-vos muito mal; desperdiça vossa juventude, e ainda a dos mais jovens que vós; torna vossa vida inconsolável, cortando-vos, queimando-vos, debilitando-vos e sufocando-vos; dá-vos bebidas muito amargas, faz-vos quase morrer de fome e de sede; não vos serve, como eu, alimentos de todas as classes em grande quantidade, e agradáveis ao paladar.

Se sou acusado de corromper a juventude, provocando a dúvida em seu espírito; ou de falar mal de cidadãos anciãos, pronunciando, a seu respeito, discursos mordazes, seja em particular, seja em praça pública, não poderei dizer, como é certo, que se obro e falo assim é com justiça, tendo em conta vosso poder anômalo, ó juízes! Mas exclusivamente por essa razão. Dessa forma, creio que, seguindo firme, me submeterei à sorte.”

O temível é cometer injustiças; porque o maior dos males é descer aos ínferos com uma alma carregada de crimes.”

Nos tempos de Cronos, regia entre os homens uma lei que sempre subsistira, e que subsiste ainda, entre os deuses, segundo a qual aquele que observou uma vida justa e santa é encaminhado, após a morte, às Ilhas Bem-Aventuradas, onde goza duma felicidade perfeita, ao abrigo de todos os males; na outra mão, quem viveu na injustiça e na impiedade é dirigido ao lugar do castigo e do suplício, que se chama Tártaro. Sob o reinado de Cronos e nos primeiros anos de Zeus, estes homens eram julgados em vida por juízes vivos que pronunciavam sua sorte no mesmo dia em que deviam morrer. (…) <o que faz com que hoje os julgamentos não sejam justos é que se julga os homens com base na roupa que vestem, se os julga quando seu futuro ainda está em aberto. Daqui resulta que muitos de alma corrompida possuem um corpo bem-formado e belos trajes, achando-se muitos testemunhos favoráveis no tribunal, pois a sentença que dão é que ‘viveram bem’. (…) Que se comece por vedar aos homens a presciência de suas horas finais, porque, me parece, por ora eles já as conhecem de antemão.> E Zeus continuou: <Comandei Prometeu a destituí-los desse privilégio. Ademais, desejo que eles sejam julgados em uma nudez absoluta, livres de tudo que os rodeia, o que requer que sejam julgados depois de morrerem. Também é preciso que o próprio juiz esteja nu, isto é, morto, e que examine, com base em sua própria alma, a alma do julgado (…) eu nomeei três de meus filhos como juízes: dois de Ásia, Minos e Radamanto, e um de Europa,¹ Éaco. (…) Radamanto julgará os mortos da Ásia, Éaco os europeus; darei a Minos a autoridade suprema para decidir em última instância sobre casos controversos tanto da parte de uma jurisdição como da parte da outra (…)

¹ Observe que se fala aqui de duas mães de filhos de Zeus, e não dos continentes em si.

Se teve em vida algum membro deslocado ou fraturado, os mesmos defeitos aparecerão depois da morte. Numa palavra, tal como se quisera ser durante a vida, no reino do corpo e da carne, assim também será a imagem da morte.”

Quanto a Tersites, e a qualquer outro mau, esses que sempre viveram com egoísmo, nenhum poeta os representou sofrendo os tormentos mais terríveis. (…) É muito difícil, ó Cálicles, digno mesmo dos maiores louvores, não sair da justiça, quando é-se plenamente livre para agir mal, e são bem poucos os que se encontram nestas condições. (…) Desse pequeno número foi Aristides, filho de Lisímaco, que tem uma justa reputação no mundo grego (…) quando algum destes tiranos cai nas mãos de Radamanto, tem certeza, Cálicles, este juiz desconhece identidades, parentes, tudo; em verdade, só sabe de uma coisa: que ele é mau; e depois de reconhecê-lo como tal deposita-o no Tártaro, não sem marcá-lo com certo sinal, que denuncia se esta alma é passível ou não de cura.”

Vós vedes muito bem, vós 3, os mais sábios da Grécia, Cálicles, Pólux e Górgias: não podeis provar que se deva adotar, aqui, outra vida senão aquela que nos será útil lá embaixo.”

é uma vergonha para nós presumirmos que valemos grande coisa, sendo que mudamos o tempo inteiro de opinião sobre os mesmos objetos de sempre”

Marchemos pelo caminho que nos traça a justiça, e comprometamos os demais a nos imitar. Não demos ouvido ao discurso que te seduziu e que me suplicavas que eu admitisse como bom; porque não vale nada, meu querido Cálicles.”

A VIDA DE PLATÃO DE ATENAS – Nails

“Isócrates descreve os Trinta como tendo rapidamente caído em abusos e em excessos de autoridade, executando sumariamente 1.500 cidadãos e levando outros 5.000 ao Pireu durante 9 meses no poder”

“Nunca esteve entre os cidadãos mais ricos de Atenas, mas as rendas provenientes de suas propriedades agrícolas fora dos muros da cidade parecem ter sido adequadas para suas necessidades pessoais e para obrigações familiares como dotes e funerais. O financiamento da Academia, ainda a ser fundada, era provavelmente complementado por doações; que as finanças da Academia eram distintas das contas pessoais de Platão é atestado pela ausência de menção da Academia no testamento de Platão.”

“O bosque que iria mais tarde ser a Academia, todavia, tinha um ginásio e amplos espaços abertos frequentados por jovens intelectuais – e não salas de aula ou anfiteatros para conferência.”

L’ENCYCLOPÉDIE – AL – compilado (5)

ALFRED LE GRAND. 848-900 (…) Dans ces temps d’ignorance, les princes n’étaient ni plus ni mieux instruits que les particuliers” O iniciador da supremacia marítima da Inglaterra. “en moins d’une année l’Angleterre fut le centre du commerce de l’Europe et de l’Asie.” Fundador da Universidade de Oxford.

Alfred traduisit en saxon le dialogue de saint Grégoire, le traité de Boèce de la consolation de la philosophie, les pseaumes de David, l’histoire d’Orose, celle d’Angleterre d’après Bode, et les fables d’Esope.”

bon grammairien, vrai philosophe, orateur éloquent, historien exact, poète aimable, excellent musicien, grand architecte et bon géometre. (…) [seu segredo:] le sage emploi du temps (…) Il partageait le jour en trois portions égales, l’une pour son sommeil et la restauration des ses forces par les alimens et l’exercice, l’autre pour les affaires du gouvernement, et la troisieme pour l’étude et l’exercice de la religion. Afin de mesurer exactemente des heures, il se servait de [ilegível] d’un volume semblable (…) quando a geometria das faces e o mecanismo dos relógios eram ainda desconhecidos.” O sol é o melhor relógio.

ALPHABET. “Ce nom est formé des deux premieres lettres Greques alpha&betha, tirées des deux premieres lettres de l’alphabet Hébreu ou Phénicien, aleph, beth. Quid enim aleph ab alpha magnopere differt? dit Eusebe, liv. X. de proepar. evang. 100:6. Quid autem vel betha à beth, &c. Ce qui fait voir, en passant, que les Anciens ne donnoient pas au betha des Grecs le son de l’v consonne, car le beth des Hébreux n’a jamais eu ce son-là.”

I. Que l’alphabet Grec me paroît le moins défectueux. Il est composé de 24 caracteres qui conservent toûjours leur valeur, excepté peut-être le G qui se prononce en N devant certaines lettres: par exemple devant un autre G, A’GGELO qu’on prononce A’GELO, & c’est de là qu’est venu Angelus, Ange. § Le K qui répond à notre c a toûjours la prononciation dure de ca, & n’emprunte point celle du (…) ZHTA; ainsi des autres. (…) ils observerent une pareille différence pour l’o bref & pour l’o long: l’un est appellé o micron, c’est-à-dire petit o ou o bref; & l’autre qu’on écrit ainsi W, est appellé o mega, c’est-à-dire o grand, o long“ – woooooooow wow!

Ils inventerent aussi des caractères particuliers pour distinguer le c, le p & le t communs, du c, du p & du t qui ont une aspiration. Ces trois lettres X, F, Q, sont les trois aspirées, qui ne sont que le c, le p & le t, accompagnés d’une aspiration. Elles n’en ont pas moins leur place dans l’alphabet Grec. § On peut blâmer dans cet alphabet le défaut d’ordre. Les Grees auroient dû séparer les consonnes des voyelles; après les voyelles, ils devoient placer les diphthongues, puis les consonnes, faisant suivre la consonne foible de sa forte, b, p, z, s, &c. Ce défaut d’ordre est si considérable, que l’o bref est la quinzième lettre de l’alphabet, & le grand o ou o long est la vingt-quatrième & dernière, l’e bref est la cinquième, & l’e long la septième, &c. § Pour nous nous n’avons pas d’alphabet qui nous soit propre; il en est de même des Italiens, des Espagnols, & de quelques autres de nos voisins. Nous avons tous adopté l’alphabet des Romains. § Or cet alphabet n’a proprement que 19 lettres: a, b, c, d, e, f, g, h, i, l, m, n, o, p, r, s, t, u, z, car l’x & le & ne sont que des abbréviations. § x est pour gz: exemple, exil, exhorter, examen, &c. on prononce egzemple, egzil, egzhorter, egzamen, &c. § x est aussi pour cs: axiome, sexe, on prononce acsiome, secse. § On fait encore servir l’x pour deux ss dans Auxerre, Flexelles, Uxel, & pour une simple s dans Xaintonge, &c. § L’& n’est qu’une abbréviation pour et. § Le k est une lettre Greque, qui ne se trouve en Latin qu’en certains mots dérivés du Grec; c’est notre c dur, ca, co, cu. § Le q n’est aussi que le c dur: ainsi ces trois lettres c, k, q, ne doivent être comptées que pour une même lettre; c’est le même son représenté par trois caracteres différens. C’est ainsi que c i font ci; s i encore si, & t i font aussi quelquefois si. § C’est un défaut qu’un même son soit représenté par plusieurs caracteres différens: mais ce n’est pas le seul qui se trouve dans notre alphabet. § Souvent une même lettre a plusieurs sons différens; l’s entre deux voyelles se prend pour le z, au lieu qu’en Grec le z est toûjours z, & sigma toûjours sigma. § Notre e a pour le moins 4 sons différens; 1°. le son de l’e commun, comme en père, mère, frère; 2°. le son de l’e fermé, comme en bonté, vérité, aimé; 3°. le son de l’e ouvert, comme bête, tempête, fête; 4°. le son de l’e muet, comme j’aime; 5°. enfin souvent on écrit e, & on prononce a, comme Empereur, enfant, femme; en quoi on fait une double faute, disoit autrefois un Ancien: premièrement, en ce qu’on écrit autrement qu’on ne prononce: en second lieu, en ce qu’en lisant, on prononce autrement que le mot n’est écrit. Bis peccatis, quod aliud scribitis, & aliud le gitis quam scriptum est, & scribenda sunt ut legenda, & legenda ut scripta sunt. Marius Victorinus, de Orthog. apud Vossium de arte Gramm. tom. I. p. 179. « Pour moi, dit aussi Quintilien, à moins qu’un usage bien constant n’ordonne le contraire, je crois que chaque mot doit être écrit comme il est prononcé; car telle est la destination des lettres, poursuit-il, qu’elles doivent conserver la prononciation des mots; c’est un dépôt qu’il faut qu’elles rendent à ceux qui lisent, de sorte qu’elles doivent être le signe de ce qu’on doit prononcer quand on lit »: Ego nisi quod consuetudo obtinuerit, sic scribendum quidque judico quomodo sonat: hic enim usus est litterarum, ut custodiant voces & velut depositum reddant legentibus; itaque id exprimere debent, quod dicturi sunt. Quint. Inst. orat. 50:1:100:7.” “les trois e devroient avoir chacun un caractere propre, comme l’H, & l’η des Grecs [letra ETA – Hta Hta é a Luz de Ágata e Tieta!]. § (…) Il n’y a pas 100 ans qu’on écrivoit il ha, nous écrivons il a; on écrivoit il est nai, ils sont nais, nati, nous écrivons ils sont nés; soubs, nous écrivons sous; treuve, nous écrivons trouve, &c. (…) Fait-on la guèrre, je ne dis pas comme on la faisoit du tems d’Alexandre, mais comme on la faisoit du tems même d’Henri IV? On a déja changé dans les petites écoles la dénomination des lettres; on dit be, fe, me, ne: on a enfin introduit, quoiqu’avec bien de la peine, la distinction de l’u consonne v, qu’on appelle ve, & qu’on n’écrit plus comme on écrit l’u voyelle; il en est de même du j, qui est bien différent de l’i; ces distinctions sont très-modernes; elles n’ont pas encore un siècle; elles sont suivies généralement dans l’Imprimerie. Il n’y a plus que quelques vieux écrivains qui n’ont pas la force de se défaire de leur ancien usage: mais enfin la distinction dont nous parlons étoit raisonnable, elle a prévalu.”

III. Le nouvel alphabet dont je parle, ne détruiroit rien; il ne faudroit pas pour cela brûler tous les livres, comme disent certaines personnes; le caractere romain fait-il brûler les livres écrits en italique ou autrement? Ne lit-on plus les livres imprimés il y a 80 ou 100 ans, parce que l’orthographe d’aujourd’hui est différente de ces tem[p]s-là? Et si l’on remonte plus haut, on trouvera des différences bien plus grandes encore, & qui ne nous empêchent pas de lire les livres qui ont été imprimés selon l’orthographe alors en usage.”

L’art de faire de ces sortes d’alphabets, & d’apprendre à les déchiffrer, est appellé Polygraphie & Steganographie, du Grec STEGANO\, caché, venant de STEGW, tego, je cache; cet art étoit inconnu aux Anciens”

ALSACE. Província francesa ao Sul.

Depuis le don fait des terres d’Alsace à la maison de Mazarin, ces mines ont été exploitées par cette maison jusqu’à la fin de 1716, que le Seigneur Paul-Jules de Mazarin les fit détruire, par des raisons dont il est inutile de rendre compte; parce qu’elles n’ont aucun rapport à la qualité de ces mines. Ces mines sont restées presque sans exploitation jusqu’en 1733, qu’on commença à les rétablir.”

cul ivre

dentro do cobre podemos dizer que ânus amam (L) bêbados.

quem é o dono do cobre? cobre tua parte que não terás problemas…

Elles observoient encore en 1741 dans les visites qu’elles ont faites de ces mines, que les Mineurs se conduisoient sans aucun secours de l’art; que les Entrepreneurs n’avoient aucune connoissance de la Géométrie soûterraine; qu’ils ignoroient l’anatomie des montagnes; que les meilleurs fondans y étoient inconnus; que pourvû que le métal fût fondu, ils se soucioient fort peu du reste, de la bonne façon & de la bonne qualité, qui ne dépend souvent que d’une espece de fondant qui rendroit le métal plus net, plus fin, & meilleur; que les ouvriers s’en tenoient à leurs fourneaux, sans étudier aucune forme nouvelle; qu’ils n’examinoient pas davantage les matériaux dont ils devoient les charger; qu’ils imaginoient qu’on ne peut faire mieux que ce qu’ils font; qu’on est ennemi de leur intérêt, quand on leur propose d’autres manoeuvres: que quand on leur faisoit remarquer que les scories [resíduos] étoient épaisses, & que le métal fondu étoit impur, ils vous répondoient, c’est la qualité de la mine, tandis qu’ils devoient dire, c’est la mauvaise qualité du fondant [fusão], & en essayer d’autres: que si on leur démontroit que leurs machines n’avoient pas le degré de perfection dont elles étoient susceptibles, & qu’il y auroit à reformer dans la construction de leurs fourneaux, ils croyoient avoir satisfait à vos objections, quand ils avoient dit, c’est la méthode du pays; & que si leurs usines étoient mal construites, on ne les auroit pas laissées si long-tems imparfaites: qu’il est constant qu’on peut faire de l’excellent acier en Alsace; mais que l’ignorance & l’entêtement sur les fondans, laisse la matière en gueuse trop brute, le fer mal préparé, & l’acier médiocre. Qu’on croyoit à Kingdall que les armes blanches étoient de l’acier le plus épuré, & qu’il n’en étoit rien; que la présomption des ouvriers, & la suffisance des maîtres, ne souffroient aucun conseil: qu’il faudroit des ordres; & que ces ordres, pour embrasser le mal dans toute son étendue, devroient comprendre les tireries, fonderies, & autres usines: que la conduite des eaux étoit mal entendue; les machines mauvaises, & les trempes médiocres; qu’il n’y avoit nulle oeconomie dans les bois & les charbons; que les établissemens devenoient ainsi presqu’inutiles; que chaque entrepreneur détruisoit ce qu’il pouvoit pendant son bail [concessão]; que tout se dégradoit, usines & forêts: qu’il suffisoit qu’on fût convenu de tant de charbon, pour le faire supporter à la mine; que dure ou tendre, il n’importoit, la même dose alloit toûjours; que le fondant étant trop lent à dissoudre, il faudroit quelquefois plus de charbon; mais que ni le Maître ni l’ouvrier n’y pensoient pas: en un mot, que la matière étoit mauvaise, qu’ils la croyoient bonne, & que cela leur suffisoit.”

TEORIA DA CLASSE OCIOSA

Tradução parcial comentada da versão em espanhol (Teoría de la Clase Ociosa, ed. elaleph, 2000), realizada entre 08/07 e 1º/10/16, exceto pelos oito primeiros parágrafos selecionados, conservados no idioma castelhano.

La India brahmánica ofrece un buen ejemplo de la exención de tareas industriales que disfrutan ambas clases sociales.”

La clase ociosa comprende a las clases guerrera y sacerdotal, junto con gran parte de sus séquitos.”

Si hay varios grados de aristocacia, las mujeres de rango más elevado están por lo general exentas de la realización de tareas industriales o por lo menos de las formas más vulgares de trabajo manual.”

el gobierno, la guerra, las prácticas religiosas y los deportes. Esas 4 especies de actividad rigen el esquema de la vida de las clases elevadas”

Cuando el esquema está plenamente desarrollado, hasta los deportes son considerados como de dudosa legitimidad para los miembros de ramo superior. Los grados inferiores de la clase ociosa pueden desempeñar otras tareas, pero son tareas subsidiarias de algunas de las ocupaciones típicas de la clase ocisa. Tales son, p.ej., la manufactura y cuidado de las armas y equipos bélicos y las canoas de guerra, la doma, amaestramiento y manejo de caballos, perros, halcones, la preparación de instrumentos sagrados, etc.”

El trabajo del hombre puede estar encaminado al sostenimiento del grupo, pero se estima que los realiza con una excelencia y eficacia de un tipo tal que no puede compararse sin desdoro con la diligencia monótona de las mujeres.”

De ordinario, se hace una distinción entre ocupaciones industriales y no industriales y esta distinción moderna es una forma trasmutada de la distinción bárbara entre hazaña y tráfago [ocupaciones demasiadas, fatigantes, molestas, de bajo valor].”

Se supone aquí que, en la secuencia de la evolución cultural, los grupos humanos primitivos han pasado de una etapa inicial pacífica a otro estadio subsiguiente en el que la lucha es la ocupación reconocida y característica del grupo.” “Puede, por tanto, objetar-se que no es posible que haya existido un estado inicial de vida pacífica como el aquí supuesto. No hay en la evolución cultural un punto antes del cual no se produzcan luchas. Pero el punto que se debate no es la existencia de luchas, ocasionales o esporádicas, ni siquiera su mayor o menor frecuencia y habitualidad. Es el de si se produce una disposición mental habitualmente belicosa – un hábito de juzgar de modo predominante los hechos y acontecimientos desde el punto de vista de la lucha –” “Las pruebas de la hipótesis de que ha habido tal estadio pacífico en la cultura primitiva derivan en gran parte de la psicología más bien que de la etnología y no pueden ser detalladas aquí.”

Indubitavelmente houve algumas apropriações de artigos úteis antes de que surgisse o costume de se apropriar das mulheres.” “A propriedade das mulheres começa nos estágios inferiores da cultura bárbara aparentemente com a apreensão de cativas. A razão originária da captura e apropriação das mulheres parece ter sido sua utilidade como troféus. A prática de arrebatar ao inimigo as mulheres em qualidade de troféus deu lugar a uma forma de matrimônio-propriedade, que produziu uma comunidade doméstica com o varão por cabeça. Foi seguida de uma extensão do matrimônio-propriedade a outras mulheres, ademais das capturadas ao inimigo. O resultado da emulação nas circunstâncias de uma vida depredadora foi, por uma parte, uma forma de matrimônio baseado na coação e, por outra, o costume da propriedade.”

A possessão da riqueza confere honra; é uma distinção valorativa (invidious distinction). Não é possível dizer nada parecido do consumo de bens nem de nenhum outro incentivo que possa conceber-se como móvel da acumulação e em especial de nenhum incentivo que impulsione à acumulação de riqueza.”

A comparação valorativa dentro do grupo entre o possuidor do butim [espólio de guerra] honorífico e seus vizinhos menos afortunados figura, sem dúvida, em época precoce como elemento da utilidade das coisas possuídas, ainda que em um princípio não fosse o elemento principal de seu valor. A proeza do homem era ainda proeza do grupo e o possuidor do butim se sentia primordialmente como guardião da honra do seu grupo.” “as possessões começam a ser valoradas, não tanto como demonstração duma incursão afortunada, quanto como prova da preeminência do possuir desses bens sobre outros indivíduos da comunidade.”

A propriedade tem ainda caráter de troféu, mas com o avanço cultural se converte cada vez mais em troféu de êxitos conseguidos no jogo da propriedade, praticado entre membros do grupo, sob os métodos quase-pacíficos da vida nômade.”

Com o desenvolvimento da indústria estabelecida, a possessão de riqueza ganha, pois, em importância e efetividade relativas, como base consuetudinária de reputação e estima.”

a base do próprio respeito é o respeito que seus próximos têm por si. Só indivíduos de temperamento pouco comum podem conservar, ao final, sua própria estimação frente ao desprezo de seus semelhantes.”

o trabalho rebaixa e esta tradição nunca morreu.”

Tem-se de notar que enquanto a classe ociosa existia em teoria desde o começo da cultura depredadora, a instituição tomou um significado novo e mais pleno com a transição do estágio depredador à etapa seguinte de cultura pecuniária. Desde esse momento existe uma <classe ociosa>, tanto em teoria como na prática.”

a indústria avançou a ponto de que a comunidade já não dependesse para sua subsistência da caça nem de nenhuma outra forma de atividade que pudesse ser qualificada justamente como façanha.”

Onde quer que o cânon do ócio ostensível tenha possibilidade de operar com liberdade, surgirá uma classe secundária, e em certo sentido espúria – desprezivelmente pobre e cuja vida será precária, cheia de necessidades e incomodidades; mas essa classe será moralmente incapaz de se lançar a empresas lucrativas –.”

o sentido vergonhoso do trabalho manual pode chegar a ser tão forte que em conjunturas críticas supere inclusive o instinto de conservação. Assim, p.ex., conta-se de certos chefes polinésios que sob o peso das boas maneiras preferiram morrer de fome a levar os alimentos até a boca com suas próprias mãos.” “Na ausência do funcionário cujo ofício era trasladar o assento do seu senhor, o rei se sentou sem protestos no fogo, e permitiu que sua pessoa real se tostasse até um ponto em que foi impossível curá-lo.”

Summum crede nefas animam praeferre pudori. Et propter vitam vivendi perdere causas. [a vergonha é pior do que a morte] § Já se notou que o termo <ócio>, tal como aqui se emprega, não comporta indolência ou quietude. Significa passar o tempo sem fazer nada produtivo”

Mas a vida do cavalheiro ocioso não se vive em sua totalidade ante os olhos dos espectadores que se devem impressionar com esse espetáculo do ócio honorífico em que, segundo o esquema ideal, consiste sua vida. Alguma parte do tempo de sua vida está oculta aos olhos do público e o cavalheiro ocioso tem de – em atenção a seu bom nome – poder dar conta convincentemente desse tempo vivido em privado.” “a exibição de alguns resultados tangíveis e duradouros do ócio assim empregado, de maneira análoga à conhecida exibição de produtos tangíveis e duradouros do trabalho realizado para o cavalheiro ocioso pelos artesãos e servidores que emprega.”

Numa fase posterior do desenvolvimento costuma-se empregar algum distintivo ou insígnia de honra que sirva convencionalmente como marca.”

Exemplos de tais provas imateriais de ociosidade são tarefas quase-acadêmicas ou quase-práticas e um conhecimento de processos que não conduzam diretamente ao fomento da vida humana. Tais, em nossa época, o conhecimento das línguas mortas e das ciências ocultas; da ortografia, da sintaxe e da prosódia; das diversas formas de música doméstica e outras artes empregadas na casa; das últimas modas em matéria de vestidos, mobiliário e carruagens; de jogos, esportes e animais de luxo, tais como os cachorros e os cavalos de corrida.” “A origem – ou, melhor dito, a procedência – dos modos se há de buscar, sem dúvida, em algo que não seja um esforço consciente por parte das pessoas de boas maneiras destinado a demonstrar que gastaram muito tempo até adquiri-los.” “a boa educação não é, no conceito comum, uma mera marca adventícia de excelência humana, mas uma característica que forma parte da alma digna.” “Gostos, modos e hábitos de vida refinados são uma prova útil de fidalguia, porque a boa educação exige tempo, aplicação e gastos, e não pode, portanto, ser adquirida por aquelas pessoas cujos tempo e energia hão de empregar-se no trabalho.”

Pode-se perdoar a quebra da palavra empenhada, mas uma falta de decoro é imperdoável.”

Parece ser especialmente certo que várias gerações de ociosidade deixam um efeito persistente e perceptível na conformação da pessoa, e ainda maior em sua conduta e maneiras habituais.” “utilizou-se a possibilidade de produzir idiossincrasias pessoais patológicas e de outro tipo e de transmitir os modos característicos mediante uma imitação astuta e uma educação sistemática para criar deliberadamente uma classe culta, às vezes com resultados muito felizes. Desta maneira, mediante o processo vulgarmente conhecido como esnobismo, se logra uma evolução sincopada da fidalguia de nascimento e a educação de um bom número de famílias de linhagem.”

É entre os membros da classe ociosa mais elevada, que não têm superiores e que têm poucos iguais, que o decoro encontra sua expressão mais plena e madura”

Em virtude de ser utilizado como demonstração da capacidade de despesa, o ofício de tais servidores domésticos tende constantemente a incluir menos obrigações e, de modo paralelo, seu serviço tende a se converter em meramente nominal.” “Depois de ter progredido bastante a prática de empregar um corpo especial de servidores que vivem nesta situação de ócio ostensível, começou-se a preferir aos homens para serviços nos quais se vê de forma destacada quem os pratica. As razões disso são porque, em especial os de aparência robusta e decorativa, tais como os escudeiros e ouros serventes, os serviçais masculinos devem ser, e são sem dúvida, mais vigorosos e custosos que as mulheres.”

O ócio vicário a que dedicam seu tempo as esposas e os criados – e o que se classifica como cuidados domésticos – pode se converter, com freqüência, em tráfico rotineiro e penoso, em especial quando a competição pela reputação é viva e dura. Assim ocorre com freqüência na vida moderna.”

A ociosidade do criado não é sua própria ociosidade. Até o ponto em que é um servidor no pleno sentido desta palavra, e não é por sua vez um membro de um grau inferior da classe ociosa propriamente dita, seu ócio se produz à guisa de serviço especializado, destinado a favorecer a plenitude da vida de seu amo.” “É uma falta grave que o mordomo ou lacaio cumpra seus deveres na mesa ou carruagem de seu senhor com tamanho mau estilo que transpareça que sua ocupação habitual houvera podido ser a lavragem ou o pastoreio.”

Enquanto um grupo produz bens para ele, outro, encabeçado geralmente pela esposa, ou pela esposa principal, consome para ele vivendo em ociosidade ostensível, demonstrando com isso sua capacidade de suportar um grande desperdício pecuniário, sem pôr em perigo sua opulência superior.”

O consumo de artigos alimentícios escolhidos, e com freqüência também o de artigos raros de adorno, se converte em tabu para as mulheres e as crianças; havendo uma classe baixa (servil) de homens, o tabu também a rege.”

A diferenciação cerimonial em matéria de alimentos se vê com mais clareza no uso de bebidas embriagantes e narcóticas. Se esses artigos de consumo são custosos são considerados nobres e honoríficos. Por isso as classes baixas, e de modo primordial as mulheres, praticam uma continência forçosa no que se refere a tais estimulantes, salvo nos países em que é possível obtê-los a baixo custo. Desde a época arcaica, e ao longo de toda a época patriarcal, tem sido tarefa das mulheres preparar e administrar esses artigos de luxo, e privilégio dos homens de boa estirpe e educação consumi-los. Até por isso, a embriaguez e demais conseqüências patológicas do uso imoderado de estimulantes tendem, por sua vez, a se tornar honoríficos, como signo em segunda instância do status superior de quem pode desfrutar esse prazer. Nesses povos as doenças que são conseqüência de tais excessos são reconhecidas francamente como atributos viris. Chegou mesmo a acontecer que o nome de certas doenças derivadas de tal origem passasse a ser na linguagem cotidiana sinônimo de <nobreza> ou <fidalguia>. Só num estágio cultural relativamente primitivo aceitam-se os sintomas do vício intenso, como símbolo convencional de status superior e passíveis de se converter em virtudes e de merecer a deferência da comunidade”

a maior abstinência praticada pelas mulheres se deve, em parte a um convencionalismo imperativo; e esse convencionalismo é, de modo geral mais forte ali onde a tradição patriarcal – a tradição de que a mulher é uma coisa – conserva sua influência com maior vigor.”

O consumo de coisas luxuriosas no verdadeiro sentido da palavra é um consumo destinado à comodidade do próprio consumidor e é, portanto, um signo distintivo do amo. Todo consumo semelhante feito por outras pessoas não pode se produzir mais que por tolerância daquele.”

Esse cultivo da faculdade estética exige tempo e aplicação e as demandas a que tem que fazer frente o cavalheiro neste aspecto tendem, em conseqüência, a mudar sua vida de ociosidade numa aplicação mais ou menos árdua à tarefa de aprender a viver uma vida de ócio ostensível de modo a favorecer sua reputação.”

Os presentes e as festas tiveram provavelmente uma origem distinta da ostentação ingênua, mas adquiriram muito rápido utilidade para esse propósito e conservaram esse caráter desde então”

O costume das reuniões festivas se originou provavelmente por motivos sociáveis e religiosos; essas razões seguem presentes no desenvolvimento ulterior, mas já não se tratam dos únicos motivos.”

Conhece-se por potlach uma cerimônia praticada pelos kwakiutl com a que um homem trata de adquirir renome oferecendo várias dádivas, que o costume obriga a devolver duplicadas em data posterior, sob pena de perder prestígio. Às vezes toma a forma de festa, na qual um homem trata de superar os seus rivais; em dadas ocasiões chega-se à destruição deliberada de propriedade (mantas, canoas, bandejas de cobre).”

Com a herança da fidalguia vem a herança da ociosidade obrigatória; mas pode-se herdar uma fidalguia suficientemente forte para comportar uma vida de ócio e que não venha acompanhada da herança de riqueza necessária para manter um ócio dignificado.” “Resulta daí uma classe de cavalheiros ociosos que não possuem riqueza, a que nos referimos já de modo incidental. Esses cavalheiros ociosos de casta média entram em um sistema de gradações hierárquicas.”

Transformam-se em cortesãos ou membros de seu séquito – servidores – e ao ser alimentados e sustentados por seu patrão, são índices do ranking deste e consumidores vicários de sua riqueza supérflua.”

A libré do servidor armado tinha um certo caráter honorífico, mas esse caráter desapareceu quando a libré passou a ser distintivo exclusivo dos servidores domésticos. A libré se converte em denegridora para quase todos aqueles a quem se obriga que a vistam.” “A antipatia se produz inclusive quando se trata das librés ou uniformes que algumas corporações e sociedades prescrevem como traje distintivo de seus empregadores.”

conforme descemos na escala social se chega a um ponto em que as obrigações do ócio e o consumo vicário recaem só sobre a esposa. Nas comunidades da cultura ocidental este ponto se encontra, na atualidade, na classe média inferior” “nessa classe média o cabeça não finge viver ocioso. Pela força das circunstâncias essa ficção caiu em desuso. Mas a esposa segue praticando, para o bom nome do cabeça de família, o ócio vicário.” “Como ocorre com o tipo corrente de homem de negócios atual, o cabeça de família de classe média se viu obrigado pelas circunstâncias econômicas a empregar suas mãos para ganhar a vida em ocupações que com freqüência têm em grande parte caráter industrial.” “Não é, de modo algum, um espetáculo incomum encontrar um homem que se dedica ao trabalho com a máxima assiduidade, com o objetivo de que sua esposa possa manter, em benefício dele, aquele grau de ociosidade vicária que exige o senso comum da época.”

se descemos ainda mais na escala, até o nível da indigência – nas margens dos bairros insalubres e superpovoados das cidades – o varão e os filhos deixam virtualmente de consumir bens valiosos para manter as aparências e sobra a mulher como único expoente do decoro pecuniário da família. Nenhuma classe social, nem as mais miseravelmente pobres, abandona todo consumo ostensível consuetudinário.”

Não há classe ou país que se tenha inclinado ante a pressão da necessidade física de modo tão abjeto que chegasse a se negar a si mesma ou a si mesmo a satisfação dessa necessidade superior ou espiritual.”

Os vizinhos – dando a esta palavra um sentido puramente mecânico – não são, com freqüência, vizinhos em sentido social, nem mesmo conhecidos; no entanto, sua boa opinião, por marginal que seja, tem um alto grau de utilidade.”

Um bom exemplo do modo de operar deste cânon de reputação pode ser visto na prática do charlar ou tagarelar em bares e fumar em lugares públicos, coisas que costumam fazer os trabalhadores e artesãos da população urbana. Pode citar-se como classe em que esta forma de consumo ostensível tem uma grande voga a dos oficiais-impressores, e entre eles desencadeiam-se certas conseqüências que se censuram amiúde [fama de beberrões?].”

O ócio ocupava o primeiro lugar num começo e durante a cultura quase-pacífica chegou a deter um apreço muito superior à dilapidação de bens no consumo, tanto como expoente direto de riquezas como em qualidade de elemento integrante do padrão de decoro. Desde esse momento, o consumo ganhou terreno, até que hoje tem indiscutivelmente a primazia, ainda que esteja bem longe de absorver toda a margem de produção do que exceda a mera subsistência.”

o instinto do trabalho eficaz. Se as circunstâncias permitirem, esse instinto inclina os homens a olharem com aprovação a eficácia produtiva e tudo que sirva de utilidade aos seres humanos. Inclina-os a desprezar o desperdício de coisas ou de esforço. (…) Por isso, qualquer gasto, por despropositado que possa ser na realidade, deve ter, pelo menos, alguma justificativa aceitável em forma de finalidade ostensível.” “a baixeza de todo esforço produtivo se encontra também presente de modo tão constante na mente dos homens que impede que o instinto do trabalho eficaz influa em grande medida para impor a direção até a utilidade industrial. Mas quando se passa do estágio industrial quase-pacífico (de escravidão e status) ao estágio pacífico (de assalariados e pagamentos à vista) o instinto do trabalho eficaz joga com maior eficácia [um tanto redundante]. Começa então a moldar de forma agressiva as opiniões dos homens acerca do que é meritório e se afirma ao menos como cânon auxiliar da consideração de si mesmo.” “assim ocorre, p.ex., com os <deveres sociais> e os conhecimentos, quase-artísticos ou quase-eruditos, que se empregam no cuidar e decorar da casa, na atividade dos círculos de costura ou na reforma do trajo, ou no destacar-se pela elegância, a habilidade nos jogos de cartas, a navegação desportiva, o golf e outros esportes.”

Esta busca desagradável que se faz em nossos dias por alguma forma de atividade finalística que não seja ao mesmo tempo indecorosamente produtora de ganâncias individuais ou coletivas, assinala uma diferença de atitudes entre a classe ociosa moderna e a do estágio quase-pacífico.”

Passou a ser depreciado o ócio que carece de finalidade ostensível, em especial no que se refere a essa grande parte da classe ociosa cuja origem plebéia opera a fim de colocá-lo em desacordo com a tradição do otium cum dignitate.”

fundam-se muitas organizações cuja finalidade visível, fixada já por seu título e denominação oficiais, é alguma modalidade de melhora social. Há muito ir-e-vir e muito papo-furado, com o fim de que os conservadores não possam ter ocasião de refletir acerca do valor econômico efetivo de seu tráfico.”

O uso do termo <desperdício> é desafortunado num aspecto. Na linguagem da vida cotidiana a palavra leva consigo uma ressonância pejorativa. Utilizamo-la aqui à falta de uma expressão melhor que descrevesse adequadamente o mesmo grau de móveis e fenômenos, mas não se deve tomar no mau sentido, como se implicasse um gesto ilegítimo de produtos ou vidas humanos.” “Qualquer que seja a forma de gasto que escolha o consumidor ou qualquer que seja a finalidade que persiga ao fazer essa eleição, é útil para ele, em virtude de sua preferência.”

É muito mais difícil retroceder de uma escala de gastos uma vez adotada, que ampliar a escala acostumada como resposta a um aumento de riqueza.”

o gasto honorífico, ostensivelmente desperdiçador, que confere o bem-estar espiritual, pode chegar a ser mais indispensável que boa parte desse gasto que serve às necessidades <inferiores> do bem-estar físico ou do sustento.”

Nos raros momentos em que não se produz um aumento no consumo visível de uma pessoa quando esta dispõe dos meios para esse aumento, o sentir popular considera que isso exige uma explicação e imputa motivos indignos – sovinice – a quem não se põe no nível esperado. Pelo contrário, aceita-se como efeito normal uma rápida resposta ao estímulo.”

A classe não pode efetuar por um simples capricho uma revolução ou inversão repentina dos hábitos mentais populares relativos a qualquer dessas exigências cerimoniais. Para que qualquer mudança chegue a envolver a massa e modifique a atitude habitual do povo, requer-se tempo; especialmente se se trata de mudar os hábitos daquelas classes que estão mais remotas, socialmente, do corpo de onde irradiam as trocas.”

Seu exemplo e seu preceito têm força prescritiva para todas as classes situadas abaixo da dirigente; mas para elaborar os preceitos que se transmitem a essas classes inferiores com o objetivo de governar a forma e o método de alcançar e manter uma reputação – para modelar os usos e as atitudes espirituais das classes inferiores –, essa prescrição autoritária opera constantemente sob o guia seletivo do cânon do desperdício ostensível, temperado num grau variável pelo instinto do trabalho eficaz.”

Com a exceção do instinto da própria conservação, a propensão emulativa é provavelmente o mais forte, persistente e alerta dos motivos econômicos propriamente ditos.”

essa capacidade de expansão que não tem limites, do modo comumente imputado na teoria econômica às necessidades superiores ou espirituais. Se J.S. Mill pôde dizer que <por agora é discutível que todas as invenções mecânicas realizadas até nossos dias tenham acelerado as tarefas cotidianas de qualquer ser humano>, isso se deveu, sobretudo, à presença deste elemento no nível de vida.”

P(risão)C

a vida doméstica da maior parte das classes é relativamente mesquinha comparada com o brilho daquela parte da sua vida que se realiza ante os olhos dos observadores. Como conseqüência secundária da mesma discriminação, a gente protege, de modo habitual, sua vida privada contra a observação. (…) daí, por derivação, o hábito ulterior de reserva e discrição que constitui um traço tão importante do código de conveniências das classes melhores em todas as comunidades.

A baixa cifra do índice de natalidade das classes sobre as que recai com maior império a exigência dos gastos encaminhados a manter sua reputação, deriva, de modo análogo, das exigências de um nível de vida baseado no desperdício ostensível. É provavelmente o mais eficaz dos freios prudenciais malthusianos.

as classes dedicadas a tarefas acadêmicas. Devido a uma superioridade presumida e à escassez dos dons que caracterizam sua vida e aos resultados conseguidos por elas, essas classes estão convencionalmente subsumidas num grau social mais alto que ao que corresponderia seu grau pecuniário.”

Em toda comunidade moderna em que não há monopólio sacerdotal dessas ocupações, as pessoas dedicadas a tarefas acadêmicas estão, de modo inevitável, em contato com classes que pecuniariamente são superiores a elas. (…) e, como conseqüência, nenhuma outra classe da comunidade dedica ao desperdício ostensível uma proporção maior de seus bens.

o hábito de manter inviolada a propriedade privada se contrapõe ao outro hábito de buscar a riqueza para justificar a boa reputação que se pode ganhar mediante o consumo ostensível dessa propriedade.”

em todas as comunidades, especialmente naquelas com baixa elevação do padrão de decoro pecuniário em matéria de habitação, o santuário local está mais adornado e sua arquitetura e decoração são muito mais ostensivelmente custosas que as moradias dos membros da congregação. Isto é seguro para quase todas as seitas e cultos, tanto cristãos quanto pagãos, mas o é em grau especial para os cultos mais antigos e maduros.” “Se se admite algum elemento de comodidade entre os acessórios do santuário, deve-e ocultá-lo e mascará-lo escrupulosamente sob uma austeridade ostensível.” “O consumo devoto entra no custo vicário.” “Por fim, as vestiduras sacerdotais são notoriamente custosas, adornadas e incômodas; e nos cultos em que não se conceba que o servidor sacerdotal da divindade sirva a esta em qualidade de consorte, são de um tipo austero e incômodo e se sente que assim devem ser.”

A repetição do serviço (o termo <servidor> leva anexa uma sugestão que é significativa a este respeito) se faz mais perfunctória conforme vai ganhando o culto em antiguidade e consistência e esse caráter perfunctório da repetição é muito agradável para o gosto devoto correto.”

Sente-se que a divindade tem de ostentar um hábito de vida especialmente sereno e ocioso.”

o devoto pintor verbal coloca ante a imaginação de seus ouvintes um trono com profusão de insígnias de opulência e poder e o rodeia de um grande número de servidores.” “tanto que o pano-de-fundo da representação se enche com o brilho dos metais preciosos e das variedades mais caras de pedras preciosas.” “Apresenta-se um caso extremo no imaginário devoto da população negra dos Estados Unidos. Seus pintores verbais são incapazes de baixar a nada mais barato que o ouro; de modo que neste caso a insistência na beleza pecuniária dá um efeito amarelo tão chamativo que seria intolerável para um gosto mais sóbrio.”

Até os leigos – súditos mais afastados da divindade – devem prestar um ócio vicário na proporção de 1 dia de cada 7.”

Essa mescla e confusão dos elementos do custo e da beleza têm, por sinal, seu melhor exemplo nos artigos de vestir e de mobiliário doméstico. O código que regula a reputação decide quais formas, cores, materiais e efeitos gerais do adorno humano são aceitáveis para o momento em matéria de vestido; e as infrações do código ofendem nosso gosto e se as supõe desvios da verdade estética.” “em momento nos quais a moda consiste de artigos bem-acabados e de cores pouco vivas, consideramos ofensivas para o bom gosto as telas vistosas e os efeitos de cor demasiado pronunciados.” “um belo artigo que não é custoso não se considera como belo.”

O céspede [nada mais que um tapete de grama!] tem indiscutivelmente um elemento de beleza sensual enquanto objeto de apercepção e como tal agrada sem dúvida, de modo muito direto, aos olhos de quase todas as raças e classes, mas é, por acaso, mais indiscutivelmente belo aos olhos dos caucasianos¹ que aos da maior parte das demais variedades de homens.” [???] “esse elemento racial foi outrora, durante muito tempo, um povo pastor que habitava uma região de clima úmido.” “na apreciação popular média, um rebanho sugere de modo tão direto economia e utilidade que sua presença no parque público seria considerada intoleravelmente barata. Este método de conservar os parques é relativamente pouco custoso e como tal se o considera indecoroso.”

¹ “Dólico-rubio” no original – não encontrei tradução mais pertinente. Tipo nórdico ou a besta-loira citada por Nietzsche seriam duas alternativas subsidiárias. O termo voltará a se fazer presente na seqüência.

À parte os pássaros que pertencem à classe honorífica dos animais domésticos e que devem o lugar que ocupam nesta classe unicamente a seu caráter não-lucrativo, os animais que merecem especial atenção são os gatos, cachorro se cavalos velozes. O gato dá menos reputação que os cachorros e os cavalos velozes, porque é menos custoso; e até pode servir para uma finalidade útil. Ao mesmo tempo, o modo de ser do gato não o faz apto para a finalidade honorífica. Vive com o homem em plano de igualdade, não conhece nada dessa relação de status que constitui a base antiga de todas as distinções de valor, honra e reputação e não se presta facilmente a uma comparação valorativa entre seu dono e os vizinhos deste.”

O cachorro tem vantagens no que respeita a sua falta de utilidade e seus dotes especiais de temperamento. (…) o cachorro é servidor do homem, tem o dom de uma submissão sem titubeios e uma rapidez de escravo para adivinhar o estado de ânimo de seu dono junto com estes traços que o capacitam para a relação de status – e que por enquanto vamos qualificar de traços úteis — o cachorro tem características de um valor estético mais equívoco. É o mais sujo e o de piores costumes de todos os animais domésticos. Compensa-o com uma atitude servil e aduladora frente ao amo e uma grande inclinação a machucar e molestar o resto do mundo.” “Inclusive, o cachorro está associado em nossa imaginação à caça – emprego meritório e expressão do impulso depredador honorável.”

O valor comercial das monstruosidades caninas, tais como os estilos dominantes de cachorros favoritos tanto para o cavalheiro como para a dama, se baseia em seu alto custo de produção, e o valor que oferece para seus proprietários consiste, sobretudo, em sua utilidade como artigo de consumo ostensível.”

Também serve para aumentar a reputação do dono qualquer cuidado que se dê a esses animais que não são, em nenhum sentido, úteis nem proveitosos; e como o hábito de cuidar deles não se considera censurável, pode chegar a se converter em um afeto habitual, de grande tenacidade e do mais benévolo caráter.”

O cavalo não está dotado na mesma medida que o cão da atitude mental de dependência servil; mas serve eficazmente ao impulso do seu amo de converter as forças <animadas> do meio em coisas que emprega à discrição, expressando com isso sua própria individualidade dominante.” “O cavalo é, ademais, um animal belo, ainda que o cavalo de corrida não o seja em grau especial para o gosto ingênuo das pessoas que não pertencem à classe dos aficionados por cavalos de corrida, nem à classe cujo sentido da beleza está submetido à coação moral do apreço dos aficionados por cavalos de corrida.”

nos EUA os gostos da classe ociosa estão formados em certa medida sobre os usos e costumes que prevalecem ou que se crê prevalecerem na classe ociosa da Grã-Bretanha.” “considera-se em termos gerais que um cavalo é mais belo na proporção em que é mais inglês; já que a classe ociosa inglesa é, em relação aos usos bem-reputados, a classe ociosa superior dos EUA e, portanto, o exemplo a ser seguido pelos graus inferiores.”

É quase uma regra, nas comunidades que se encontram no estágio de desenvolvimento econômico em que a classe superior valora as mulheres em relação com seus serviços, que o ideal de beleza seja uma fêmea robusta e membruda. A base de apreciação é a estrutura corporal, desde que se dá um valor secundário à conformação da cara. As donzelas dos poemas homéricos constituem um exemplo bem-conhecido desse ideal da cultura depredadora precoce.”

O ideal cavalheiresco ou romântico se preocupa de modo especial com a cara e concentra sua atenção em sua delicadeza, e na de mãos e pés, a esbelteza da figura e em especial do talhe. Nas representações pictóricas das mulheres da época e nos imitadores românticos modernos do pensamento e dos sentimentos cavalheirescos o talhe se atenua até supor a debilidade extrema.”

No curso do desenvolvimento econômico o ideal de beleza feminina dos povos de cultura ocidental passou da mulher fisicamente vigorosa à dama, e está começando a voltar à mulher” “Já se notou que, nos estágios da evolução econômica nos quais se considera o ócio ostensível como o meio mais importante de adquirir boa reputação, o ideal de beleza exige mãos e pés delicados e diminutos e um talhe muito delgado.”

o talhe comprimido foi uma moda muito disseminada e persistente nas comunidades da cultura ocidental; assim também os pés deformados para a cultura chinesa. Ambas as mutilações são repulsivas, sem nenhum gênero de dúvida, para sentidos não-acostumados a elas.”

Na medida em que, ao formular um juízo estético, uma pessoa se dá conta, claramente, de que o objeto de beleza que está considerando supõe um desperdício e serve para afirmar a reputação e há, então, de ser estimado legitimamente como belo, esse juízo não é um juízo estético bona fide, e não entra em consideração para nosso propósito. A conexão, em que insistimos, entre a beleza dos objetos e a reputação que proporcionam reside no fato do efeito que produz a preocupação pela reputação nos hábitos mentais do valorador.” “A valoração com fins estéticos e a formulada com o fim de servir a sua boa reputação não estão tão separadas como deveriam estar. É especialmente fácil que surjam confusões entre essas duas espécies de valoração, porque na linguagem habitual não se costuma distinguir, mediante o uso de um termo descritivo especial, o valor dos objetos como meios de conseguir manter a reputação.”

a substituição da beleza estética pela pecuniária foi especialmente eficaz no desenvolvimento da arquitetura.” “Consideradas como objetos de beleza, as melhores características do edifício costumam ser as paredes laterais e traseiras das fachadas, ou seja, as partes não-tocadas pela mão do artista”

Nos últimos 12 anos, as velas foram uma fonte de luz mais agradável que nenhuma outra para um jantar. Para olhos bem-treinados, a luz das velas é agora mais suave e menos molesta que qualquer outra – preferível à do petróleo, à de gás ou à elétrica. Dificilmente se houvera podido dizer o mesmo há 30 anos”

Qualquer consumidor que – moderno Diógenes – se empenhasse em eliminar do que consome todo elemento honorífico ou de desperdício se encontraria na impossibilidade de satisfazer suas necessidades mais nímias no mercado moderno.”

os impressores contemporâneos estão voltando ao <velho estilo>, e a tipos mais ou menos em desuso, que são menos legíveis e dão à página um aspecto mais tosco que os <modernos>.” “A Kelmscott Press reduziu a questão ao absurdo – vista tão só da perspectiva da utilidade bruta – ao imprimir livros para uso moderno editados com ortografia editada, impressos em letra gótica e encadernados em vitela cosida com correias.”

Em teoria estética poderia ser extremamente difícil, senão impraticável por inteiro, traçar uma linha entre o cânon de Classicismo ou apreço pelo arcaico e o cânon de beleza. Para fins estéticos, mal é necessário traçar esta distinção, e em realidade não teria por que existir. Numa teoria do gosto ocasionalmente se pode considerar como elemento de beleza a expressão de um ideal aceito – quaisquer que sejam as bases que motivaram sua aceitação –; não é necessário discutir o problema da sua legitimação!”

As pessoas sofrem um grau considerável de privações das comodidades ou das coisas necessárias para a vida, com o objetivo de se poderem permitir o que se considera como uma quantidade decorosa de consumo desperdiçador; isto é certo para o vestuário em grau ainda maior que para os demais artigos de consumo” “nossa roupa, para servir eficazmente a sua finalidade, deve não só ser cara, mas demonstrar, sem lugar a dúvidas, a todos os observadores que o usuário não se dedica a nenhuma espécie de trabalho produtivo.” “Grande parte do encanto atribuído ao sapato envernizado, à roupa branca impoluta, ao sombreiro de capa brilhante e à bengala, que realçam em tão grande medida a dignidade natural de um cavalheiro, deriva do fato de que sugerem sem nenhum gênero de dúvida que o usuário não pode, assim vestido, deitar mão a nenhuma tarefa que sirva de modo direto e imediato a alguma atividade humana útil.” “o sapato da mulher adiciona o denominado salto alto Luís XV à demonstração de ociosidade forçosa que apresenta seu brilho; porque esse salto faz indubitavelmente difícil ao extremo o trabalho manual mais simples e necessário.” “A razão de nosso aferramento tenaz à falda [saia executiva] é precisamente esta: é cara e dificulta à usuário todo movimento, incapacitando-a para todo trabalho útil. O mesmo pode-se afirmar do costume feminino de usar o cabelo excessivamente comprido.” O advento do jeans veio tornar a massa ociosa? O trabalho como um grande shopping center…

Em teoria econômica, o corset é, substancialmente, uma mutilação, provocada com o propósito de rebaixar a vitalidade de sua portadora e torná-la incapaz para o trabalho, de modo permanente e inquestionável. É sabido que o corset prejudica os atrativos pessoais de quem o veste, mas a perda que se sofre por esse lado se compensa com o crescimento da reputação, ganância derivada de seu custo e invalidez visivelmente aumentados. Poder-se-ia dizer, em termos gerais, que, no fundamental, a feminilidade dos vestidos da mulher representa com que eficácia se interpõem obstáculos a qualquer esforço apresentável em posse dos ornamentos peculiares das damas.”

Teoria da classe ociosa: mulher que dá o golpe do baú não goza.

Até agora não se deu nenhuma explicação satisfatória do fenômeno da troca de modas.” “as modas deveriam ter encontrado uma relativa estabilidade, que se aproximasse bastante de um ideal artístico que se pudesse sustentar de modo perene. Mas não ocorre assim. Seria muito aventuroso afirmar que os estilos atuais sejam intrinsecamente mais adequados que os de faz 10, 20, 50 ou 100 anos. Por outro lado, circula sem contradição a assertiva de que os estilos em voga faz 2 mil anos são mais aceitáveis que as construções mais complicadas e laboriosas de hoje.” “Mesmo em suas expressões mais livres de travas, a moda chega poucas vezes – ou nenhuma – a passar da simulação de uma utilidade ostensível.” “a lei do desperdício nos permite encontrar consolo nalguma construção nova, igualmente fútil e insustentável. Destarte a fealdade essencial e a troca incessante dos atavios da moda.” “Considera-se bela a moda dominante. Isto se deve, em parte, ao alívio que proporciona por ser diferente da que havia antes dela e, em parte, por contribuir para a reputação.” “O processo de produzir uma náusea estética requer mais ou menos tempo; o lapso requerido em cada caso dado é inversamente proporcional ao grau de odiosidade intrínseca do estilo de que se trata.” “É bem sabido que nas comunidades industriais mais avançadas não se usa o corset, a não ser dentro de certos estratos sociais bastante bem-definidos. O uso do corset nos dias de festa se deve à imitação dos cânones de decoro de uma classe superior.” “o corset persiste em grande medida durante o período de esnobismo – o intervalo de incerteza e de transição de um nível de cultura pecuniária inferior a um superior –.”

o uso de perucas brancas e de encaixe de fios de ouro e a prática de pentear-se continuamente a cabeça: nos últimos anos recrudesceu ligeiramente o uso do penteado na boa sociedade, mas se trata, provável, de uma imitação transitória e inconsciente da moda imposta às ajudas de câmara e pode-se esperar que siga o caminho das perucas de nossos avós.”

Ao melhorar a comunidade em riqueza e cultura, a capacidade de pagamento se demonstra por meios que exigem no observador uma discriminação progressivamente mais fina.”

MEA CULPA: “Esse resumo não pode evitar os lugares-comuns e o tédio dos leitores, senão com extrema dificuldade; mas, em que pese ambos, parece necessário fazê-lo para deixar completa a argumentação, ou ao menos desnudar o esquema apresentado, que é o que aqui se intenta. Por tudo isso, pode-se pedir certo grau de indulgência para com os capítulos que se seguem, uma vez que oferecem um estudo fragmentário desta espécie.”

parece provável que o tipo europeu escandinavo possua uma maior facilidade de reversão à barbárie que os outros elementos étnicos com os que está associado na cultura ocidental.” “poder-se-ia citar como exemplo de tal reversão o caso das colônias norte-americanas”

A classe ociosa é a classe conservadora. As exigências da situação econômica geral da comunidade não atuam de modo direto nem sem dificuldades sobre os membros dessa classe.” “A função da classe ociosa na evolução social consiste em atrasar o movimento e conservar o antiquado.” “A explicação dada aqui não imputa nenhum motivo indigno. A oposição da classe ociosa às mudanças no esquema cultural é instintiva e não se baseia primordialmente num cálculo interessado das vantagens materiais; é uma revulsão instintiva ante qualquer isolamento do modo aceito de fazer ou considerar as coisas, revulsão comum a todos os homens e que só pode ser superada pela força das circunstâncias.” “Esse conservadorismo da classe endinheirada é uma característica tão patente que chegou inclusive a ser considerado como signo de respeitabilidade.” “O conservadorismo é decoroso porque é uma característica da classe superior e, pelo contrário, a inovação, como é da classe inferior, é vulgar.” “a classe endinheirada vem a exercer no desenvolvimento social uma influência retardatária muito maior da que corresponderia a sua simples força numérica.”

Não é raro ouvir as pessoas que dispensam conselhos e admoestações saudáveis à comunidade expressarem-se de maneira vigorosa contra os efeitos perniciosos e de grande alcance que haveria de experimentar aquela, como conseqüência de mudanças relativamente insignificantes, tais quais a separação da igreja e do estado, o aumento da facilidade do divórcio, a adoção do sufrágio feminino, a proibição da fabricação e venda de bebidas alcoólicas [!], a abolição ou a restrição da herança [!], etc. Dizem-nos que qualquer destas inovações haveria de <quebrar a estrutura social de alto a baixo>, <reduzir a sociedade ao caos>, <subverter os fundamentos da moral>, <fazer intolerável a vida>, <perturbar a ordem natural>, etc. Tais expressões têm, sem dúvida, caráter hiperbólico, mas, como todo exagero, demonstram a existência de um vívido sentido da gravidade das conseqüências que tratam de descrever.”

[!] O autor começa a se perder nesta 2ª metade do livro! Ser contra tais fatores é o mesmo que ser contra levar um tiro: óbvio a ponto de merecer nosso silêncio.

Não é só que toda mudança nos hábitos mentais seja desagradável. É que o processo de reajuste implica certo grau de esforço, mais ou menos prolongado e laborioso para descobrir as obrigações que a cada um incumbe.” “Logo, o progresso se vê estorvado pela má alimentação e o excesso de trabalho físico em grau não menor do que por uma vida tão luxuosa que exclua a possibilidade de descontentamento, ao eliminar todo motivo suscetível de provocá-lo. As pessoas desesperadamente pobres, e todas cujas energias estão absorvidas por inteiro pela luta cotidiana pela existência, são conservadoras porque não podem se permitir o esforço de pensar no passado amanhã [?], do mesmo modo que as que levam uma vida muito próspera são conservadoras porque têm poucas oportunidades de descontinuar com a situação hoje existente.” “A atual característica da classe [dominante] pode se resumir na máxima <tudo o que existe vai bem>; enquanto que a lei da seleção natural aplicada às instituições humanas nos dá o axioma <tudo o que existe vai mal>”

Para os fins que aqui perseguimos, este presente hereditário está representado pela cultura depredadora tardia e a cultura quase-pacífica.” “E o tipo a que o homem moderno tende principalmente a reverter, conforme a lei da variação, é uma natureza humana algo mais arcaica.” “o tipo caucasiano apresenta mais características do temperamento depredador – ou ao menos mais da violenta disposição deste – que o tipo braquicéfalo¹-moreno e especialmente mais que o mediterrâneo.” “As circunstâncias da vida e as finalidades dos esforços que predominavam antes do advento da cultura bárbara modelaram a natureza humana e, pelo que respeita a determinados traços, fixaram-na. E é a essas características antigas e genéricas a que se inclina a voltar o homem, no caso de se produzirem variações da natureza humana do presente hereditário [conservadorismo da classe dirigente].”

¹ Que tem o crânio ovalado (deformado, achatado). Diz-se também de cães de determinadas raças geneticamente alteradas.

esse instinto de solidariedade racial que denominamos consciência [!] – que inclui o sentido de fidelidade e eqüidade –

Pode-se dizer que a carência de escrúpulos, de comiseração, de honestidade e de apego à vida contribui, dentro de certos limites, para fomentar o êxito do indivíduo na cultura pecuniária.” “Só dentro de limites estreitos, e mesmo assim só em sentido pickwickiano¹, é possível afirmar que a honestidade é a melhor conduta.”

¹ Provável referência ao protagonista de um livro de Dickens.

o indivíduo que compete pode conseguir melhor seus fins se combina a energia, iniciativa, egoísmo e caráter arteiro do bárbaro com a falta de lealdade ou de espírito de clã do selvagem. Pode-se observar de passada que os homens que tiveram um êxito brilhante (napoleônico), à base de um egoísmo imparcial e uma carência total de escrúpulos, apresentaram com freqüência mais características físicas do tipo braquicéfalo-moreno do que do caucasiano. A maior proporção de indivíduos que conseguem um relativo êxito de tipo egoísta parece pertencer, no entanto, ao último elemento étnico mencionado.”

Enquanto grupos, essas comunidades industriais avançadas abrem mão da competição, para conseguir os meios de vida necessários ou fazer respeitar o direito à vida, exceto na medida em que as propensões depredadoras de suas classes governamentais seguem mantendo a tradição da guerra e rapina.” “Nenhuma delas segue com o direito de ultrapassar as demais. Não pode se afirmar o mesmo, em igual grau, dos indivíduos e suas relações mútuas.”

as tarefas pecuniárias permitem aperfeiçoar-se na linha geral de práticas compreendida sob a denominação de fraude e não nas que correspondem ao método mais arcaico de captura violenta.”

O capitão da indústria está mais para um homem astuto que engenhoso e sua capitania tem uma caráter mais pecuniário que industrial. A administração industrial que pratica é, no geral, de tipo permissivo. Os detalhes relativos à eficácia mecânica da produção e da organização industrial são delegados a subordinados mais bem-dotados para o trabalho eficaz que para as tarefas administrativas.”

O advogado se ocupa exclusivamente dos detalhes da fraude depredadora, tanto pelo que se refere a conseguir como a frustrar o êxito das argúcias, e o triunfo na profissão se aceita como signo de grandes dotes dessa astúcia bárbara que suscitou sempre entre os homens respeito e temor.”

O trabalho, e ainda o trabalho de dirigir processos mecânicos, está em situação precária quanto à respeitabilidade.”

Ao aumentar a escala da empresa industrial, a administração pecuniária começa a perder o caráter de velhacaria e competência astuta em coisas de detalhe. Ou seja, para uma proporção cada vez maior das pessoas em contato com este aspecto da vida econômica, o negócio se reduz a uma rotina na qual a sugestão de superar ou explorar um competidor é menos imediata.”

A classe ociosa está protegida contra a tensão da situação industrial e deve dar uma proporção extraordinariamente grande de reversões ao temperamento pacífico ou selvagem. Os indivíduos que discrepem do comum de seus companheiros, ou que tenham tendências atávicas, podem empreender suas atividades vitais seguindo linhas ante-depredadoras, sem sofrer repressão ou eliminação tão rápidas quanto as que se dão nos níveis inferiores.

Algo disso parece seguro no mundo real [?]. P.ex., a proporção de membros das classes elevadas cujas inclinações os levam a se ocupar de tarefas filantrópicas e um sentimento considerável nessa classe, que apóia os esforços encaminhados para a reforma e a melhora sociais, é bastante grande. Ademais, grande parte desse esforço filantrópico e reformador leva os signos distintivos daquela <inteligência> e incoerência amáveis que são caracteres do selvagem primitivo.”

Temos de fazer outra ressalva: a de que a classe ociosa de hoje se componha de quem tenha tido êxito no sentido pecuniário, e que é de se presumir por isso que estejam dotados, estes, de uma proporção mais que suficiente de traços depredadores. A entrada na classe ociosa é lograda por meio de tarefas pecuniárias, e estas tarefas, por seleção e adaptação, operam no sentido de não admitir nos graus superiores senão aquelas linhagens aptas pecuniariamente a sobreviver à prova depredadora.” “Para conservar seu posto na classe, uma linhagem tem de ter temperamento pecuniário; caso contrário sua fortuna se dissiparia e perderia sua casta. Há exemplos suficientes disso.”

Pode-se dizer que a tenacidade na consecução dos propósitos distingue estas 2 classes de outras 2: o inútil desafortunado e o delinqüente de boa estofa.”

O tipo ideal de endinheirado se assemelha ao tipo ideal de delinqüente por sua utilização sem escrúpulos de coisas e pessoas para seus próprios fins e também pelo seu duro desprezo aos sentimentos e desejos dos demais e a carência de preocupações com os efeitos remotos de seus atos; mas se diferencia dele por possuir um sentido mais agudo de status” “O parentesco dos 2 tipos se mostra por uma proclividade <desportiva> e inclinação aos jogos de azar, aliadas a um desejo de emulação sem objeto.” “O delinqüente é com muita freqüencia supersticioso; crê firmemente na sorte, nos encantamentos, adivinhação e no destino e nos augúrios e cerimônias xamanistas. Quando as circunstâncias são favoráveis, essa propensão costuma se expressar por certo fervor devoto servil e a atenção pontual a práticas devotas; seria melhor caracterizá-la como devoção que como religião. Nesse ponto, o temperamento do delinqüente tem mais em comum com as classes pecuniária e ociosa que com o industrial ou com a classe dos dependentes sem aspirações.” “No que tange à conservação seletiva de indivíduos, essas duas linhas podem ser chamadas pecuniária e industrial. Mas quanto à conservação de propensões, atitude ou ânimo, pode-se denominá-las valorativa ou egoísta e [não-valorativa ou econômica] industrial” “Uma análise psicológica exaustiva mostraria que cada uma dessas 2 séries de atitudes e propensões não é senão a expressão multiforme de certa inclinação temperamental.” “a não ser pelo fato de a eficiência pecuniária ser, em conjunto, incompatível com a eficiência industrial, a ação seletiva de todas as ocupações tenderia ao predomínio ilimitado do temperamento pecuniário. § O resultado seria que o que se denomina <homem econômico> converter-se-ia no tipo normal e definitivo da natureza humana. Mas o <homem econômico>, cujo interesse é o egoísta e cujo único traço humano é a prudência, é inútil para as finalidades da indústria moderna. § A indústria moderna requer um interesse não-valorativo e impessoal no trabalho que se realiza. Sem ele seriam impossíveis os complicados processos industriais que nem sequer se conceberiam, aliás. Este interesse no trabalho diferencia o trabalhador, por um lado, do criminoso e, por outro, do capitão da indústria.”

O problema da distinção de classes através de sua constituição espiritual está obscurecido também pela presença, em todas elas, de hábitos adquiridos que estimulam traços herdados e contribuem, por sua vez, para desenvolver na população esses mesmos traços. Esses hábitos adquiridos ou traços de caráter assumidos são de tom aristocrático. (…) tais rasgos têm então uma maior possibilidade de sobrevivência no corpo do povo do que se não se deram o preceito e o exemplo da classe ociosa”

propensão combativa propriamente dita: nos casos em que a atividade depredadora é uma atividade coletiva essa propensão se denomina com freqüência espírito marcial ou, em épocas posteriores, patriotismo. Não se requer muita insistência para que se aceite a proposição de que, nos países da Europa civilizada [?], a classe ociosa hereditária possui esse espírito marcial num grau superior que a classe média. Ainda mais, a classe ociosa proclama esta distinção como motivo de orgulho e isto, sem dúvida, com algum fundamento.” “Fora a atividade bélica propriamente dita, encontramos na instituição do duelo uma expressão da mesma disposição superior para o combate; e o duelo é uma instituição da classe ociosa.” “O homem corrente não lutará, de ordinário, senão quando uma irritação momentânea excessiva ou uma grande exaltação alcoólica provoquem-lhe uma inibição dos hábitos mais complexos de resposta aos estímulos que a provocação favorece.” “O rapaz conhece, em geral, com toda minuciosidade, qual é a gradação em que se encontram ele e seus companheiros no que diz respeito a sua relativa capacidade combativa; e na comunidade dos rapazes não há nenhuma base segura de reputação para quem, por exceção, não queira ou não possa lutar quando intimado. Tudo isso se aplica de modo especial aos rapazes por sobre certo limite, um tanto vago, de maturidade. O temperamento do ainda-menino não responde o mais das vezes à descrição que acabamos de fazer, por estar vigiado muito de perto, buscando o contato com sua mãe a qualquer incidente.” O moleque Marlon Brando; o moleque James Dean.

Nas moças a transição ao estágio depredador raramente se realiza de forma completa; numa grande proporção, inclusive, nem se realiza.”

Se se pudesse comprovar mediante um estudo mais amplo e profundo esta generalização acerca do temperamento do rapaz pertencente à classe trabalhadora, ganharia força a opinião de que o gênio belicoso é, em grau apreciável, característica racial; parece entrar em maior proporção na constituição do tipo étnico dominante na classe superior – o caucasiano – dos países europeus, que na dos tipos subordinados, das classes inferiores, que constituem a massa da população.”

os indivíduos alcançam essa maturidade e sobriedade intelectuais em grau distinto; e quem não atinge a média permanece como resíduo mal-resolvido de uma forma mais tosca de humanidade, subsistente na comunidade industrial moderna, e como um forte obstáculo a esse processo seletivo de adaptação, que favorece uma eficiência industrial elevada e a plenitude de vida da coletividade.”

Igual caráter têm os esportes de toda classe, incluindo o boxe, o toureio, o atletismo, o tiro, a pesca com vara, a navegação desportiva e os jogos de habilidade e destreza, inclusive quando o elemento de eficiência destruidora não é um traço sobressalente.” “A base do apego pelo esporte é uma constituição espiritual arcaica: a posse da propensão emulativa depredadora num grau relativamente alto.” Poesia são manifestações de minha cultura depredadora.

Nos EUA o futebol americano é o jogo que ocorrerá a praticamente qualquer pessoa, quando se cogitar a questão da utilidade dos jogos atléticos, já que esta forma de esporte é, na atualidade, a que ocupa lugar mais destacado na mente de quem discute ser a favor, ou contra, os esportes como meio de salvação física ou moral.”

Há [no esporte] confiança em si mesmo e camaradagem, dando a esta palavra o uso da linguagem corrente. De um ponto de vista diferente, as qualidades caracterizadas com essas palavras no cotidiano poderiam ser denominadas truculência e espírito de clã.”

O impulso depredador emulativo – ou, como se o pode denominar, o instinto desportivo – é essencialmente instável, em comparação com o instinto primordial do trabalho eficaz (de que deriva).” “Poucos indivíduos pertencentes aos países civilizados do Ocidente carecem do instinto depredador, até o extremo de não encontrar diversão nos esportes e jogos atléticos, mas na generalidade dos indivíduos das classes industriais a inclinação aos esportes não é tão forte que se possa chamar hábito esportivo. Nessas classes, os esportes são uma diversão ocasional, não uma característica séria da vida. Não se pode, então, dizer que a quase totalidade do povo cultive a propensão esportiva.”

O emprego habitual de um árbitro, e as minuciosas regras técnicas que regem os limites e detalhes de fraude e vantagem estratégica permissíveis, atestam suficientemente o fato de que as práticas fraudulentas e as tentativas de superar assim os adversários não são características adventícias do jogo.” A agremiação futebolística Sport Club Corinthians Paulista é notório exemplo no Brasil!

Os dotes e façanhas de Ulisses são apenas inferiores aos de Aquiles, tanto pelo que se refere ao fomento substancial do jogo, como no relativo ao brilho que dão ao desportista astuto entre seus associados. A pantomima da astúcia é o primeiro passo dessa assimilação ao atleta profissional que sofre um jovem depois de se matricular em qualquer escola reputada, de ensino médio ou superior.” Ulisses & Aquiles: Maradona & Pelé?

<aquele que sabe que sua causa é justa está triplamente armado>, máxima que para o tipo corrente de pessoa irreflexiva conserva muito de seu significado, ainda nas comunidades civilizadas atuais.”

O mesmo animista se mostra também em atenuações do antropomorfismo, tais como a apologia setecentista à ordem da natureza e os direitos naturais, e seu representante moderno, o conceito notoriamente pós-darwinista de uma tendência melhorativa no processo da evolução. Esta explicação animista dos fenômenos é uma forma da falácia que os lógicos conhecem pelo nome de ignava ratio.” “poucos são os desportistas que buscam consolo espiritual nos cultos menos antropomórficos, tais como os das confissões unitária ou universalista.”

De todas as coisas desprezáveis que existem, a mais desprezível é um homem que aparece como sacerdote de Deus e é sacerdote de sua própria comodidade e ambições.” “Ordinariamente, não se considera adequado à dignidade da classe espiritual que seus membros apareçam bem-alimentados ou dêem mostras de hilaridade.” “Se, pois, comeis ou bebeis, ou fazeis qualquer coisa, faze-o para a glória de Deus.”

Ainda nas confissões mais secularizadas há certo sentido de que deve se observar uma distinção entre o esquema geral de vida do sacerdote e o do leigo.”

Há um nível de superficialidade inultrapassável graças a um sentido do educado do correto a se dizer na oratória sagrada, pelo menos para o clérigo bem-preparado, quando está a tratar de interesses temporais. Essas questões, que têm importância unicamente a partir do ponto de vista humano e secular, devem ser tratadas com esse desapego, para fazer supor que o orador representa um senhor cujo interesse nos assuntos mundanos não chega a mais do que uma benévola tolerância.”

Um hábito mental muito devoto não comporta, necessariamente, uma observância estrita dos mandamentos do decálogo ou das normas jurídicas. Pior, está resultando lugar-comum para os estudiosos da vida criminal das comunidades européias o maior e mais ingênuo devotismo das classes criminais e dissolutas. § Daí se verificar uma relativa ausência da atitude devota justamente em quem compõe a classe média pecuniária e a massa de cidadãos respeitosos da lei.”

Esta peculiar diferenciação sexual, que tende a delegar as observâncias devotas às mulheres e às crianças, se deve, em parte, às mulheres de classe média constituírem, em grande medida, uma classe ociosa (vicária).” “Não é que os homens desta classe estejam desprovidos de sentimentos piedosos, por mais que não sejam de uma piedade tão agressiva ou exuberante. É comum os homens da classe média superior adotarem, com respeito às observâncias devotas, uma atitude mais complacente que os homens da classe artesã.”

incontinência sexual masculina (posta a descoberto pelo considerável número de mulatos).”

De modo geral, não se encontra na atualidade uma piedade de filiação impecável naquelas classes cuja tarefa se aproxima da do engenheiro e mecânico. Esses empregos mecânicos são um fato tipicamente moderno.”

[Nota 7, do Tradutor] settlements: Organizações iniciadas na Inglaterra e EUA, a fins do séc. XIX, por clérigos protestantes e estudantes universitários, com a intenção de ampliar o trabalho voluntário, tornando-o mais eficaz mediante uma convivência efetiva e direta de pessoas acomodadas e cultas com os pobres sem educação. Dos settlements deriva em grande parte tudo o que hoje se conhece como <trabalho social>.”

Esta última observação seria especialmente certa para aquelas obras que dão distinção a seu realizador, em conseqüência do grande e ostensivo gasto que exigem; p.ex., a fundação de uma universidade ou biblioteca ou museus públicos”

É antifeminino aspirar a uma vida em que se dirija a si própria e centrada nela mesma.” “Todo este ir e vir ligado à <emancipação da mulher da escravidão> e demais expressões análogas é, empregando em sentido inverso a linguagem castiça e expressiva de Elizabeth Cady Stanton, <pura estupidez>.” “Neste movimento da <Nova Mulher> – pois assim se denominaram esses esforços cegos e incoerentes para reabilitar a situação da mulher –, podem-se distinguir ao menos 2 elementos, ambos de caráter econômico. Esses 2 elementos ou motivos se expressam pela dupla-senha <Emancipação> e <Trabalho>.” “Em outras palavras, há uma demanda mais ou menos séria de emancipação de toda relação de status, tutela ou vida vicária.” “O impulso de viver a vida a seu modo e de penetrar nos processos industriais da comunidade, de modo mais próximo que em segunda instância, é mais forte na mulher que no homem.”

a influência da classe ociosa não se exerce de modo decidido em pró ou contra a reabilitação dessa natureza humana proto-antropóide.”

em época tão tardia como meados do século XIX, os camponeses noruegueses formularam instintivamente seu sentido da erudição superior de teólogos como Lutero, Melanchthon, Petter Dass e ainda de um teólogo tão moderno como Grundtvig, em termos de magia. Estes, juntos com uma lista muito ampla de celebridades menores, tanto vivas como mortas, foram considerados mestres de todas as artes mágicas e essas boas pessoas pensaram que toda posição elevada na hierarquia eclesiástica comportava uma profunda familiaridade com a prática mágica e as ciências ocultas.” “Mesmo que a crença não esteja, de modo algum, confinada à classe ociosa, essa classe compreende hoje um nº desproporcionalmente grande de crentes nas ciências ocultas de todas as classes e matizes.” “À medida que aumentou o corpo de conhecimentos sistematizados, foi surgindo uma distinção, cuja origem na história da educação é muito antiga, entre o conhecimento esotérico e o exotérico” “Ainda em nossos dias a comunidade erudita conserva usos como o da toga e barrete, a matrícula, as cerimônias de iniciação e graduação e a colação de grau, dignidades e prerrogativas acadêmicas duma maneira que sugere uma espécie de sucessão apostólica universitária.” “A grande maioria dos colégios e universidades norte-americanos estão afiliados a uma confissão religiosa e se inclinam à prática das observâncias devotas. Sua putativa familiaridade com os métodos e com os pontos de vista científicos deveriam eximir o corpo docente dessas escolas de todo hábito mental animista; mas uma proporção considerável da docência professa crenças antropomórficas e se inclina às observâncias de mesmo caráter, próprias de uma cultura anterior.” “investigadores, sábios, homens de ciência, inventores, especuladores, a maior parte dos quais realizou sua obra mais importante fora do abrigo das instituições acadêmicas. E deste campo extra-acadêmico da especulação científica é que brotaram, de tempos em tempos, as trocas de métodos e de finalidade que passaram à disciplina acadêmica.” “um deslocamento parcial das humanidades – os ramos do saber que se concebe que favoreçam a cultura, o caráter, os gostos e os ideais tradicionais – em prol da ascensão de outros ramos do conhecimento que favorecem a eficiência cívica e industrial.” “os defensores das humanidades sustentaram, numa linguagem velada pelo seu próprio hábito ao ponto de vista arcaico decoroso, o ideal encarnado na máxima fruges consumere nati.” <Nascemos para consumir os frutos da terra> Horácio

Os clássicos, e a posição de privilégio que ocupam no esquema educacional a que se aferram com tão forte predileção os seminários superiores, servem para modelar a atitude intelectual e rebaixar a eficiência econômica da nova geração erudita.”

um conhecimento, por exemplo, das línguas antigas não teria importância prática para nenhum homem de ciência ou erudito não-ocupado primordialmente com tarefas de caráter lingüístico. Naturalmente, tudo isto não tem nada a ver com o valor cultural dos clássicos, nem se tem aqui qualquer intenção de menosprezar a disciplina dos clássicos ou a tendência que seu conhecimento dá ao estudante. Essa tendência parece ser de caráter economicamente contraproducente, mas esse fato – em realidade bastante notório – não tem por que preocupar quem tem a sorte de encontrar consolo e vigor na tradição clássica. O fato do saber clássico operar no sentido de contrariar as aptidões de trabalho de quem o aprende deve pesar pouco no juízo de quem pensa que o trabalho eficaz tem pouca importância comparado com o cultivo de ideais decorosos:

Iam fides et pax et honor pudorque
Priscus et neglecta redire virtus
Audet
(*)

[(*) Nota 8] Horácio, Carmen Saeculare, 56 e ss. Já a boa fé, a paz, a honra e o pudor dos velhos tempos e as qualidades morais antes rechaçadas se atrevem a voltar.

a capacidade de usar e entender algumas das línguas mortas do sul da Europa não só é agradável a este respeito, como também a evidência de tal conhecimento serve de recomendação a todo sábio perante seu auditório, tanto erudito como leigo. Supõe-se que se empregaram certos anos até adquirir essa informação substancialmente inútil, e sua falta cria uma presunção de saber apressado e precário, assim como de caráter vulgarmente prático, igualmente prejudicial tanto às pautas convencionais de erudição sólida quanto ao vigor intelectual. § O mesmo ocorre com a compra de qualquer artigo de consumo por um comprador que não é juiz perito nos materiais ou no trabalho nele empregados. Faz seu cálculo do valor do artigo baseando-se, sobretudo, na experiência custosa do acabamento daquelas partes e traços decorativos que não têm relação imediata com a utilidade intrínseca do artigo; presume subsistir certa proporção, maldefinida, entre o valor substancial do produto e o custo do adorno acrescentado para podê-lo vender. A presunção de que não pode haver uma erudição sólida onde falta o conhecimento dos clássicos e das humanidades leva o corpo estudantil a um desperdício ostensível de dinheiro e tempo para adquirir esse conhecimento.” “a forma moderna da dicção inglesa não se escreve nunca. Até os escritores menos literários ou mais sensacionalistas têm o senso dessa conveniência imposta pela classe ociosa, que requer o arcaísmo na língua em grau suficiente para impedir-lhes de cair em semelhantes lapsus.” “Evitar cuidadosamente neologismos é honorífico, não só porque induz a crer que se gastou tempo adquirindo o hábito da língua que tende ao desuso, senão também enquanto demonstração de que o expositor está bem-familiarizado com isso. Mostra, assim, os antecedentes da classe ociosa que tem essa pessoa.”

A decadência da sociologia como arte da crítica é diretamente proporcional à consolidação da sociologia como ciência.

L’ENCYCLOPÉDIE – AL – Alexandre(s) & Derivados

Houve muitas Cleópatras e Ptolomeus importantes na história do Egito. Obviamente, não se trata de “coincidência histórica”, mas de casamentos endogâmicos. Uma das Cleópatras mais célebres da linhagem, ancestral da que ficou mais famosa, a esposa do imperador Marco Antônio, foi continuamente rainha síria, em que pese o rei estar sempre trocando. Seu pai a casava com um novo imperador toda vez que se tornava viúva, e o “azar da guerra” a acompanhava, estendendo sua lista de matrimônios… Cléopatras e Ptolomeus costumavam ser sucessivas gerações de irmãos que se casavam para manter o poder. A família era sanguinária, conforme ilustração:

A tia-bisavó de Cleópatra VII era esposa e sobrinha de Ptolomeu VIII. Ele a estuprara quando ela era adolescente. Cleópatra perdeu a irmã mais velha, Berenice, morta pelo pai. Ela mesma foi responsável direta pela morte de dois irmãos.” Fonte externa: guiadoestudante.abril.com.br

Além de “belle-mère”, os franceses também têm o designativo que mais se aproxima ao nosso, com duplo sentido: marâtre, mãe não-biológica ou ruim ou má.

Alexandre I, o caçula amado pela sua mãe, a mata. Antes, seu irmão mais velho, intitulado Ptolomeu quando ascende ao trono, perseguido e desprezado por ela, respeita a vontade da genitora após algum tempo lutando por debelar os movimentos conspiratórios de sua nação, dos quais ela era a principal entusiasta, e abdica do poder, resignando-se ao seu destino de primogênito proscrito. Ironias do destino. Amar não dói, o que dói é a punhalada nas costas do amado! O povo tem os governantes que merece: “Os Egípcios creram dever vingar a morte de uma mulher que eles haviam abominado toda a vida”. E assim obtiveram sua milenar absolvição de consciência, após assassinarem-no (Alexandre I).

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Alexandre, o Grande, ou III. “Jamais roi ne le surpassa en magnanimité; jamais général ne remporta de victoires plus éclatantes” “Avant de partir pour cette guerre importante [contra os persas, que queriam há muito tempo dominar os gregos e lhes impor pesados tributos], il donna audience aux principaux officiers des villes libres, et à tous les philosophes qui venaient le féliciter sur les glorieux desseins. Etonné de ne pas voir Diogene, il daigna le prévenir par une visite; et après lui avoir fait les complimens qu’il eût dû eu recevoir, il lui demanda s’il ne pouvait rien faire pour l’obliger. Ce fut à cette occasion que ce cynique lui répondit qu’il ne lui demandait autre chose, que de ne pas se placer devant son soleil. On dit qu’Alexandre admira cette réponse, qui prouve que l’ame d’un philosophe sait résister aux promesses de la fortune.” “Alexandre avait des graces naturelles, mais il était d’une petite taille, et son extérieur était négligé.” “Suivant Plutarque, Alexandre ne se permit pas même de voir la femme de Darius. Ce prince avait coutume d’appeller les dames Perses le mal des yeux.” “Plusieurs rois vinrent lui jurer obéissance, et lui remettre l’isle de Chypre et la Phénicie, à l’exception de Tyr, qui fiere de sa situation au milieu de la mer, forma la résolution de se défendre. Alexandre employa 7 mois entiers au siége de cette vile, dont la prise forme une époque remarquable dans la vie de ce conquérant.” “Dans toutes ses expéditions, il eut la même sagesse, la même intrépidité et la même fortune.” “Cette pluie fut regardée comme un miracle opéré par Jupiter Ammon, en faveur du prince qui venait visiter son oracle. Ce premier bienfait fut suivi d’un second vraiment merveilleux. Les vents avaient couvert de sable les bornes qui servaient de guides aux voyageurs, et les Macédoniens erraient sans tenir de route certaine, lorsqu’un essaim de corbeaux [enxame de corvos] se présenta devant leurs enseignes, s’arrêtant de distance en distance pour les attendre, et les appellant par leurs croassemens pendant la nuit. Alexandre, qui avait regardé comme faux les premiers miracles, adopta ceux-ci, qu’il prétendait donner pour marque de son origine céleste qui commençait à flatter son ambition.” Fundou Alexandria logo que retornou de sua consulta com o oráculo no templo de Ammon. “Alexandre communiqua cette lettre à ses officiers. Parménion ouvrant le premier son avis: J’accepterais ces offres, dit-il, si j’étais Alexandre. Et moi aussi, repartit Alexandre avec une fierté dédaigneuse, si j’étais Parménion.”

J’ai la teinte d’ma tante dans sa tente.

Son ame était si calme, qu’il dormait encore à l’heure qu’il avait marquée, pour ranger son armée en bataille. Ses officiers, surpris de ne le point voir, se rendirent à la tente, et le trouverent plongé dans un profond sommeil.”

Les roues du char, embarrassées par les cadavres et les blessés, ne peuvent se mouvoir. Ses chevaux percés, couverts de sang, n’obéissent plus à la main qui les guide. Sur le point d’être pris, Darius se précipite de son char, il se met sur un cheval, et s’éloigne de cette scene de carnage.”

Toutes les villes de la Grece, que son pere et lui avoient détruites, furent rebâties par ses ordres.”

Une seul heure mit au pouvoir d’un étranger des richesses, que l’avarice des rois exacteurs avait accumulées pour leur postérité. Le monarque conquérant eut la vanité de se faire voir sur le trône des Perses; et ce fut dans cette occasion qu’il donna un nouveau témoignage de la bonté compatissante. Le trône se trouvant trop élevé, un page lui apporta une table pour lui servir de marchepié: un eunuque de Darius, touché de ce spectacle, fondit en larmes. On l’interrogea sur la cause de sa douleur: c’était sur cette table, répondit l’être dégradé, que mon maître prenait ses repas. Alexandre loua beaucoup sa sensibilité, et il aurait fait ôter cette table, sans Philotas, qui lui fit craindre qu’on ne tirât de sinistres présages d’un sentiment si généreux.”

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Ce héros sobre et tempérant, qui aspirait à égaler les dieux par ses vertus, et qui se disait dieu lui-même, sembla se rapprocher du vulgaire des hommes, en se livrant aux plus sales excès de l’intempérance.Un jour qu’il était plongé dans une ivresse brutale, il s’abandonna aux conseils d’une courtisanne qui avait partagé sa débauche, et qui lui demanda, comme un gage de son amour, de réduire en cendres la demeure des anciens rois. Alexandre, follement complaisant, quitte la salle du festin, et accompagné de son amante insensée, qui, comme lui porte une torche enflammée, il met le feu au palais de Persépolis, qui presque tout bâti de cedre passait pour la merveille du monde. Les soldats transportés d’une ivresse aussi furieuse, se répandent en un instant dans toute la ville, qui bientôt ne fut plus qu’un amas de cendres et de débris [j’aime le ce[n]dre[s]]. Tel fut, dit Quinte-Curce, le destin de Persépolis, où autre-fois tant de nations venaient pour y perfectionner leurs loix et leurs usages.” Os aduladores da bem-aventurança desse herói trataram de adoçar o horror dessa ação, alegando que a política não permitia que se deixasse subsistir uma vila que recordava aos Persas seu eclipsado passado de grandeza. É assim que os adoradores dos caprichos dos reis erigem em virtude os excessos da intemperança.” E, não obstante, Alexandre sofria de terríveis remorsos.

Plutarque prétend qu’il fit 132 lieues en moi[n]s d’11 jours [11*12=132!], ce qui est difficile à croire, dans un pays aride, et où il fallait traverser d’immenses solitudes qui ne produisent rien”

Alexandre ne put voir en cet état [morto pelo sátrapa Bessus, mais conhecido como Artaxerxes V; humilhante e ironicamente amarrado, debaixo do sol escaldante, em correntes de ouro] le monarque de toute l’Asie [Dario III], que les peuples, quelque temps auparavant, avaient révéré comme un dieu; et qui s’était vu à la tête d’un million d’hommes dévoués à le défendre. Il détacha cette riche cotte d’armes, dont les Rhodiens lui avaient fait présent, et en couvrit le cadavre.” Quem matava o rei era considerado um parricida. Posteriormente, Alexandre se casaria com a filha mais velha deste Dario.

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Outra ajudinha do Wikipédia para melhor compreender o verbete: “Alexander ordered that Bessus’s nose and earlobes be cut off, which was a Persian custom for those involved in rebellion and regicide; the Behistun inscription relates that Darius the Great punished the usurper Phraortes of Media in a similar manner. (…) Quintus Curtius Rufus, the historian, says he was crucified in the place where Darius had been killed, Arrian states that he was tortured and then decapitated in Ecbatana, and Plutarch suggests that he was torn apart in Bactria by recoiling trees after a Macedonian trial, a style which was according to Persian custom: two trees would have been forcibly bent towards each other, the victim tied to both, and then the trees released, causing an agonizing and drawn-out death in which the ligaments, tendons, muscles and organs would slowly come apart as the trees straightened themselves.

Il se fit faire un habit moitié Mede et moitié Perse” “Ce prince, plus ambitieux du titre de protecteur des hommes que de celui de leur conquérant, fonda des écoles pour 30 mille enfans Perses, qui devaient être formés dans tous les exercices de la Grece.”

Enfin cédant aux prieres et aux larmes des Macédoniens, fatigués de leurs longs travaux, et jaloux de revoir leur patrie, il ne passa pas le Gange. Ce fleuve, un des plus considérables de l’Inde, fut le terme de ses courses.”

Après y avoir navigué quelques stades, il se fit mettre à terre pour examiner la nature de la côte; il offrit plusieurs sacrifices aux dieux, les conjurant qu’après lui aucun mortel ne portât plus loin ses armes.” Nessa expedição, perde 15 mil dos 20 mil cavalos que levava, e ainda assim não desanima e não perde o domínio de nenhum músculo de seu corpo nem de qualquer homem de suas tropas.

Dès qu’il fut rentré dans la Perse, il s’assujettit à l’usage des anciens rois, qui au retour de leurs voyages, distribuaient une piece d’or à chaque femme.”

Alexandre fut plus qu’un homme, ou du moins il fut tout ce qu’un homme peut être.”

Le plus beau de ses éloges, c’est que Sisygambis, mère de Darius, avait survécu aux malheurs de sa maison, et qu’elle ne put survivre à la mort d’Alexandre. Ce héros, dans l’espace de 10 ans, fonda un empire aussi vaste que celui que les Romains éleverent en 10 siècles.

Tant qu’il vécut, ses généraux resterent dans l’obscurité, parce qu’ils ne furent que les exécuteurs de ses ordres; et dès qu’il ne fut plus, ils éclipserent la gloire des plus grands rois de la terre; ce qui prouve son discernement dans le choix de ses agens.”

Nem um pouco eurocêntrico: “Les siecles d’Alexandre, d’Auguste, de Cosme de Médicis & de Louis XIV sont des époques intéressantes dans l’histoire des arts & du génie.”

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Alexandre de Paphlagonie. “Les peuples de Macédoine avaient l’art d’apprivoiser les serpens, et on en voyait de si privés qu’ils tetaient les femmes et jouaient avec les enfans sans leur faire aucun mal.” Trata-se dum farsante, oráculo e encantador de serpentes macedônico da época do Império Romano. Simulava transes para os crédulos na praça, misturando latim com grego. “ses contorsions étaient effrayantes, sa bouche vomissait une écume par le moyen d’une racine qui provoquait les humeurs.” Golpe mais velho que a própria espuma do mar!

Ses connaissances dans les méchaniques favorisèrent encore les impostures, il fabriqua la tête d’un dragon dont il ouvrait et fermait la gueule à son gré, par le moyen d’un crin de cheval: ce fut avec cette tête et son serpent apprivoisé qu’il séduisit plusieurs provinces: il n’y a pas beaucoup de mérite à tromper les hommes.”

fritar ovos de serpente?

vão te cobrar o olho da cara

língua ferina de açougueiro

mercante sibilador

Pour dix fous de notre monnoie, un imbécile achetoit de ce fripon la connoiffance de tout ce qui devoit lui arriver.”

les remedes qu’il prescrivait aux malades accréditèrent ses impostures, parce qu’il avait fait une étude sérieuse de l’art de guérir. Sa réputation s’étendit jusqu’à Rome, oú il fut appellé par Marc-Aurele en 174. L’accueil que lui fit ce philosophe couronné, lui acquit la confiance des courtisans et du peuple”

Il prédit qu’il vivrait 150 ans, et qu’alors il serait frappé d’un coup de foudre (…) Ses prédictions furent démenties par l’événement; il mourut d’un ulcère à la jambe à l’âge de 70 ans.” mission 46% completed – désolé, monsieur!

Le nom d’Alexandre a souvent été dèshonoré par des imposteurs. (…) Alexandre qui n’avait aucune des qualités guerrières du prince dont il se disaît le fils, essuya de fréquens revers. (…) Cet Alexandre ambitionnait les trônes, le Paphlagonien ne voulait que s’enrichir.” “L’ambition et la cupidité sont deux passions, dont l’une fait ses victimes de ceux qui en sont dévourés; l’autre, plus sourde et plus cachée, arrive plus souvent à son but.”

Alexandre da Polônia (1). “C’était un prince mélancolique et taciturne; il lutta, mais en vain, avec le secours de la musique contre le noir chagrin que le rongeait. (…) Il régna 14 ans en Lithuanie et 5 en Pologne.” Décédé le 19-août-1506.

Alexandrie (de paille, cidade italiana). “o papa Alexandre III, grande inimigo do imperador Frederico Barba-ruiva.”

Alexandrie (d’o Grande). O que poucos sabem é que Alexandre fundou várias Alexandrias em seu breve reinado mundial. Só nas Índias foram múltiplas homônimas da mais famosa de todas.

Alexandrin (verso). “Dans le vers alexandrin masculin, le second hémistiche n’a non plus que 6 syllabes qui se comptent, dont la dernière ne peut être une syllabe muette. Dans le vers alexandrin féminin, le second hémistiche a 7 syllabes, dont la derniere est toujours une syllabe muette.” “On dit que notre vers alexandrin a été ainsi nommé, ou d’un poème français de la vie d’Alexandre, composé dans cette mesure par Alexandre de Paris, Lambert Licor, Jean le Nivelais, et autres anciens poètes, ou d’un poème latin intitulé l’Alexandriade, & traduit par les deux premiers de ces poètes, en grands vers, en vers alexandrins, en vers héroïques; car toutes ces dénominations sont synonymes, & désignent indistinctement la sorte de vers que nous venons de définir.” “dans nos poèmes héroïques les vers sont rimés 2 à 2; et rien de plus fatiguant pour l’oreille que ce retour périodique de 2 finales consonnantes, répété mille et mille fois.”

* * *

Quantos “o Grande” neste mundo sem fim nem fidelidade!