A OBRA DE ARTE NA ERA DE SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA – UMA RELEITURA DOS ESBOÇOS DE 27 DE DEZEMBRO DE 2012 (http://xtudotudo6.zip.net/arch2012-12-01_2012-12-31.html) ou: Ensaio confuso sobre a técnica que se perde em especulações políticas

Grunewald

Ed. L&PM, 2013.

Trad. direta e seleção: Gabriel Valladão Silva, mestre em Filosofia, a prova de que doutor não é só quem faz doutorado.

Org., seleção, prefácio e revisão: Márcio Seligmann-Silva

Revisão final: Marianne Scholze

DIC – incunábulo: impressão pré-gutenbergiana

Quando eu nasci meus pais tiveram a idéia de que eu pudesse me tornar um escritor. Então seria bom que ninguém notasse imediatamente que eu era um judeu.”

Fuld – Walter Benjamin zwischen den Stühlen

No semestre de invenro de 1912-1913, Benjamin estudou na Universidade de Berlim, onde freqüentou aulas de Georg Simmel, Ernst Cassirer, Kurt Breysig (um dos poucos professores de quem Benjamin gostou) e Brenno Erdmann, entre outros.”

Apenas a confessada nostalgia de uma infância feliz e de uma juventude digna é a condição da criação. Sem isso, sem o lamento de uma grandeza perdida, não será possível nenhuma renovação de sua vida.” Benjamin, Documentos de cultura, documentos de barbárie

Em outubro do mesmo ano, o amigo de Benjamin Fritz Heinle suicidou-se junto com a amiga Rika Seligson, em parte devido ao início da gerra. Benjamin ficou muito abalado com esse fato e dedicou alguns sonetos ao amigo.”

W.B. – Dois poemas de Friedrich Hölderlin, “Dichtermut” e “Blödigkeit”

Em 1916, ele escreveu não apenas o que seria um primeiro esboço de seu livro sobre o drama barroco alemão (os artigos <Trauerspiel und Tragödie> [Drama barroco e tragédia], <Die Bedeutung der Sprache in Trauerspiel und Tragödie> [O significado da linguagem no drama barroco e na tragédia], como também compôs seu longo ensaio <Über die Sprache überhaupt und über dis Sprache des Menschen> [Sobre a linguagem em geral e sobre a linguagem humana].”

W.B. – Die Aufgabe des Übersetzers [A tarefa do tradutor]

Em 1922, ele concluiu um longo ensaio sobre As afinidades eletivas, de Goethe.”

<teor coisal> (Sachgehalt) e <teor de verdade> (Wahrheitsgehalt) (…) sem-expressão (Ausdruckslos), variante da teoria do sublime”

O Ursprung des Deutschen Ttrauerspiels (Origem do drama barroco alemão]: “Benjamin estava ciente de que seu ensaio – composto por cerca de meio milhar de citações [!] e baseado em uma ousada teoria neoplatônica das formas literárias – ia contra as regras da academia. Esse ensaio de Benjamin deve ser considerado como um dos textos mais radicais da primeira metade do século XX.”

Lacis abriu para Benjamin o mundo da nova literatura marxista, representada então por obras como História e consciência de classe, de Lukács, que Benjamin leu já em 1925. (…) Mas a verdade é que Benjamin se volta para o marxismo – e não tanto para o comunismo [não parece] – por influxo não apenas de Lacis, mas também de Bloch e de uma circunstância histórica e social que definiu essa guinada na vida de muitos intelectuais de então. O próprio Benjamin encontrava-se desde 1923 em uma situação de penúria econômica cada vez mais acentuada. Sua esposa, Dora, o sustentou entre 1922 e 1923 [e recebeu um belo prêmio por isso, como veremos mais tarde…]. Ele não podia mais contar com o apoio de seus pais. Seu pai, que viria a morrer em 1926, estava em bancorrota com a crise econômica na Alemanha do pós-guerra. A situação econômica de Benjamin não mudaria muito até o final de sua vida. (…) Ele encontrou nos autores marxistas um novo modo de revitalizar a crítica, o que já havia iniciado com sua leitura de F. Schlegel e de Novalis. O romantismo de esquerda foi reconhecido por ele prontamente como uma nova morada para seu pensamento e sua ação política.”

Ele escreveu um artigo sobre Goethe para a Enciclopédia russa que depois foi recusado. (…) Benjamin foi dos poucos filósofos – talvez o único antes de Derrida – que soube transportar a dinamite das vanguardas para a prática da filosofia. Entre dezembro de 1926 e janeiro de 1927, ele empreendeu uma visita a Asja Lacis em Moscou – um fiasco do ponto de vista emocional e político. Seus Diários de Moscou podem ser lidos como um dos documentos mais pessoais que ele produziu. Nessa época, para se sustentar, conseguiu ser aceito como colaborador no Frankfurter Zeitung (importante publicação de caráter cultura da época, que tinha em seu centro a figura de Siegfried Kracauer) e na revista Literarische Welt. Vale lembrar que entre 1926 e 1929 Benj. publicou textos como o sobre Proust (<Para uma imagem de Proust>) e <História cultural do brinquedo>.

O compromisso de Benjamin com o surrealismo pode ser lido em seu ensaio particularmente profundo sobre o tema de 1927 (<O surrealismo>). Nesse ano, ele também conseguiu fazer algum dinheiro jogando roleta [!] (…) Em Paris, deu início ao seu maior e mais ambicioso projeto, que o acompanharia até 1940: as Passagens. (…) nunca foi concluído.”

a falta de perspectivas concretas de trabalho fez com que cedesse aos convites de Scholem para ir à Palestina. (…) Essa verba deveria financiar seus estudos de hebraico, preparatórios para a emigração – que na verdade nunca se concretizou.

Na carta que Benjamin enviou a Scholem em janeiro de 1930, mais uma vez postergando sua ida à Palestina, escrevendo sugestivamente em francês a um amigo com quem de resto só se correspondia em alemão, ele afirma que seu desejo é o de <ser considerado como o primeiro crítico da literatura alemã>. Para tanto, ele teria que refundar a crítica como gênero. (…) Mas apenas cerca de 30 a 40 anos após a sua morte é que ele foi reconhecido como esse crítico número um.”

Entre novembro de 1929 e janeiro do ano seguinte, Benjamin viveu com Aja Lacis em Berlim, cidade onde ele morava com sua esposa Dora, residindo ainda na casa de seus pais, a mansão na Delbrückstrasse, n. 23, em Grünewald, que fôra construída por sua família em 1912. Em 1930 ocorreu o divórcio do casal, que custou a Benjamin uma condenação penal a pagar uma altíssima indenização à sua ex-esposa. (…) <Não é fácil encontrar-se na soleira dos 40 sem posses e colocação, casa e patrimônio.>

Benjamin, nos anos 1930-31, fez uso várias vezes de haxixe. Essa prática deu-se no contexto de experimentos semelhantes feitos pelos surrealistas [Não pode ter sido recreativo?]. Ele, algumas vezes na companhia de Bloch, fazia anotações e era acompanhado por dois médicos durante essas experiências e caminhadas pelo <paraíso artificial>, lembrando a expressão de Baudelaire de 1860.”

B. encontrou um pouco de paz após mudar-se para um pequeno apartamento em Wilmersdorf, Berlim: a última vez que ainda pôde se ver rodeado pelos seus cerca de 2 mil livros. Em 1931, publicou seu belo texto <Desempacotando minha biblioteca>, uma profunda reflexão sobre livros e o colecionismo. (…) Em agosto, em meio a uma profunda depressão, escreveu um texto intitulado <Diário de 7 de agosto de 1931 até o dia da morte>. Esse diário foi apenas até 16 de agosto. Mas sua primeira frase é desencorajadora: <Este diário não promete ser muito grande>. Como antídoto à depressão (…), ele se ocupou em fazer uma coletânea de cartas de autores alemães, tentando assim mostrar uma espécie de outra tradição do pensamento alemão que não a que estava a ponto de desaguar em um tipo mortífero de nacionalismo. Essa coletânea de cartas, denominada de Deutsche Menschen [Pessoas alemãs], foi publicada em 1936 na Suíça sob o pseudônimo de Detlef Holz. Entre 1931 e 1932 essas cartas selecionadas – de autores como Goethe, Kant, Büchner, Hölderlin, F. Schlegel, , Baader – foram publicadas no Frankfurter Zeitung.”

B. – Pequena história da fotografia

_. – Crônica berlinense

_. – Infância em Berlim por volta de 1900

_. – Doutrina das semelhanças

_. – Sobre a faculdade mimética

Em julho, no Hôtel du Petit Parc, em Nice, B. planejou seu suicídio, tendo inclusive feito um testamento e escrito várias cartas de despedida.”

Existem lugares nos quais eu posso ganhar um mínimo, e outros nos quais eu posso viver de um mínimo, mas nem um único no qual as duas condições se encontram”

Ele escreveu também uma teoria do romance (claramente inspirada por Lukács): <À lareira> e <Experiência e pobreza>”

Horkheimer e Friedrich Pollack, como comenta Scholem, decerto incentivados por Adorno, concederam um auxílio regular a B. da parte do Instituto. A partir da primavera de 1934, ele passou a receber 500 francos (cerca de 300 euros hoje) por mês. Foi sua grande salvação na situação desesperadora em que se encontrava. [!]

(…) Para sobreviver, passou alguns meses com sua ex-esposa, Dora, em San Remo, onde ela abrira uma pensão (…) Em Paris, ele se reaproximara de sua irmã Dora, também vivendo naquela cidade, e se hospedou freqüentemente com ela. Em 1935, ele escreveu ensaios de grande envergadura e repercussão: <Paris, a capital do século XIX>, a 1ª versão de seu ensaio sobre as passagens, seu artigo sobre a obra de arte (…) <Eduard Fuchs, o colecionador e o historiador>

1936:

O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov.

Esse ensaio dedica-se a uma reflexão sobre o fim da experiência, que por sua vez estaria na origem da crise da grande narrativa, diagnosticada como estando <em vias de extinção>.”

Em 1937 e no ano seguinte, B. continuou trabalhando no seu ensaio sobre Baudelaire, uma espécie de célula-mater do trabalho sobre as passagens. (…) Em 1938, concluiu o texto <A Paris do II Império em Baudelaire>, que após sofrer muitas críticas da parte de Adorno foi profundamente reelaborado no texto <Sobre alguns temas em Baudelaire>, de 1939. Em 1938, Benjamin encontrou-se regularmente com Bataille e Pierre Klossowski. (…) Durante esse período parisiense de exílio, B. também encontrou em algumas ocasiões Hannah Arendt, que deve ser lembrada como uma das primeiras a reconhecer o valor da sua obra. [Coincidentemente, a próxima na seqüência de leituras.]

O pacto de não agressão entre Hitler e Stalin de 23 de agosto de 1939 teve um efeito devastador sobre B. Esse descontentamento com a política se condensou no seu último texto, <Sobre o conceito da História>, de 1940, que pode ser considerado um dos documentos intelectuais mais impactantes sobre a vida dilacerada do século XX.

(…) Com o início da guerra em 1º de setembro, no dia 15 do mesmo mês ele foi enviado a um campo de trabalho em Nevers [sic – provavelmente, Nevres], na qualidade de alemão. Sua amiga Adrienne Monnier conseguiu libertá-lo em meados de novembro. A irmã tentou convencê-lo, sem sucesso, a emigrar para Londres. Graças à intervenção de Adorno, em meados de julho de 1940, B. finalmente conseguiu um visto para os EUA. Mas ele não obteve um visto para sair da França. O final da história é conhecido e se tornou uma espécie de marca que paira sobre B. e sua obra. (…) A verdade é que o suicídio, cometido em Portbou, após B. ter sido impedido de sair da França, é mesmo paradigmático. Foi realizado por um intelectual que de certa forma era um dos últimos grandes pensadores de ma tradição que foi condenada a seu fim com o nazismo.

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Durer_diabo

B. nunca perde de vista a concepção grega das artes como tékhné, ou seja, como vemos no mito prometeico, uma tentativa, sempre ambígua, de <restituir ao ser humano uma totalidade>.” // Heidegger

August Sander (o maior fotógrafo retratista alemão, que publicou em 1929 seu Anlitz der Zeit [Rosto da época]).”

o enigmático, sinistro (Unheimlich), não cotidiano do cotidiano, criar uma aura para o habitual, trazer à consciência o invisível (meafísico, oculto) daquilo que parecia desaparecido.”

O elemento eminentemente ótico do modo de pensar e escrever de Kracauer, que também nesse ponto o unia a Benjamin, fica evidente nos textos de descrição e reflexão sobre a cidade, nos quais vemos como é possível filosofar a partir do gesto do andarilho ou do flâneur.”

É um gosto sublime sempre preferir as coisas elevadas à segunda potência. Por exemplo, cópias de imitações, julgamentos de resenhas, adendos a acréscimos, comentários a notas” Schlegel

a tentação não é pequena de substituir a data de 1900 pela de 2000”

Paradoxalmente, nas últimas duas décadas é a fotografia analógica que tem servido como um dos modelos do testemunho histórico” “<testemunho histórico> (geschichtliche Zeugenschaft). Temos de lembrar que zeugen, de onde deriva testemunhar em alemão, remete a gerar, procriar, reproduzir, ser pai.” “geramos sem a fecundação ao produzirmos robôs ou clones.”

diferentemente da maioria dos críticos da sociedade, Benjamin procura manter nesse ensaio uma visão positiva dos avanços da técnica. (Essa teoria da segunda técnica, ainda que sem a utilização desses termos, foi desenvolvida de modo cabal pelos últimos textos de Vilém Flusser, sobretudo em seu livro de 1985, O universo das imagens técnicas.)”

a relação entre a arte grega e os valores eternos – idéia essa que foi pela primeira vez formulada de modo acabado por Schiller em seu ensaio <Sobre a poesia inocente e a sentimental>, de 1795.

O fenômeno negativo, no avesso do qual se inscreve a arte da era dos choques, seria a aura. É interessante recordar que no século XVIII, em autores como Moses Mendelssohn, G.E. Lessing e Kant, o fenômeno negativo que era tomado como o oposto do que se considerava a arte então era o <asqueroso> (Ekel). Afirmava-se então também que o que provoca o asco nunca pode ser imitado e que o asqueroso, quando surge na arte, seria uma aparição direta da natureza.”

A arte aurática, que se ligava à falsa aparência” Relação direta com as páginas de Heidegger sobre Platão-Nie. que li ontem (9/4/17). “Mundo-verdade”

a flor azul (…) fusão com a natureza, fim da tristeza do estar no mundo.” Novalis – Heinrich von Ofterdingen, 1801.

Os cortes exigidos por Horkheimer e outros membros do Instituto tinham como justificativa o medo quanto à continuidade do financiamento da instituição, que havia se transplantado em parte para os EUA durante a II Guerra, e seus membros temiam trazer para si uma imagem radical de esquerdistas. O texto foi publicado em francês porque Horkheimer acreditou que as discussões levadas a cabo por Benjamin estariam mais inseridas no debate estético realizado então na França, onde Benjamin morava desde 1933”

Adorno cobra de Benjamin uma dialetização de uma série de conceitos, uma vez que ele discorda do olhar vanguardista e otimista de Benjamin diante do cinema e da segunda técnica. Apesar de Adorno criticar a influência de Brecht neste ensaio de Benjamin, o próprio dramaturgo não era um entusiasta deste trabalho.”

aprendemos a ver na arte um <buraco negro> que intensifica o tempo, concentrando-o em um agora diante de nossos olhos.”

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Durer_melancolia

<Nem a matéria, nem o espaço, nem o tempo são há 20 anos aquilo que foram até então.> Paul Valéry: Pièces sur l’art (<La conquête de l’ubiquité>)”

Os gregos conheciam apenas dois métodos para a reprodução técnica de obras de arte: a fundição e a cunhagem. Bronzes, terra-cotas e moedas eram as únicas obras de arte que podiam ser criadas massivamente por eles. Todas as outras eram únicas e tecnicamente não reprodutíveis.” O Roberto Carlos

Com a xilogravura, as artes gráficas tornaram-se pela primeira vez tecnicamente reproduzíves; elas já o eram tempos antes de também a escrita sê-lo por meio da imprensa. São conhecidas as monstruosas modificações que a impressão – a reprodução técnica da escrita – provocou na literatura.”

Com a litografia, a técnica reprodutiva atinge um patamar fundamentalmente novo.”

as artes gráficas começaram a acompanhar o ritmo da impressão. Nisso, porém, já foram superadas, poucas décadas após a invenção da impressão sobre pedras, pela fotografia. Com a fotografia, a mão foi pela primeira vez aliviada das mais importantes obrigações artísticas no processo de reprodução figurativa, as quais recairiam a partir daí exclusivamente sobre o olho. Como o olho apreende mais rápido do que a mão desenha, o processo de reprodução figurativa foi acelerado de modo tão intenso que agora ele podia acompanhar o ritmo da fala. Se a litografia encerrava virtualmente o jornal ilustrado, também o cinema falado encontrava-se latente na fotografia. A reprodução técnica do som iniciou-se no final do século passado.”

No estúdio, o operador de câmera fixa as imagens, filmando-as na mesma velocidade em que o ator fala.”

Uma imagem medieval da Madonna ainda não era <autêntica> à época de sua criação; ela se o tornou no decorrer dos séculos seguintes, e talvez especialmente no século passado.”

A catedral deixa seu lugar para ser recebida no estúdio de um apreciador da arte; a música coral, que era executada em um salão ou ao ar livre, deixa-se apreciar em um cômodo.”

A mais miserável encenação provincial do <Fausto> tem em todo caso a vantagem, diante de um filme seu, de estar em concorrência ideal com a encenação original em Weimar.”

A significação social do filme, mesmo em seu aspecto mais positivo – e justamente nele –, revela-se impensável sem esse seu lado destrutivo, catártico: a liquidação do valor de tradição na herança cultural. Esse fenômeno é especialmente acessível nos grandes filmes históricos, de Cleópatra e Ben Hur [duas versões clássicas] a Fridericus e Napoleão.”

Abel Gance exclamou entusiasticamente em 1927: <Shakespeare, Rembrandt, Beethoven serão filmados… Todas as lendas, todas as mitologias e todos os mitos, todos os fundadores de religiões, e mesmo todas as religiões… aguardam sua ressurreição em celulóide, e os heróis precipitam-se aos portais> Abel Gance: Le temps de l’image est venu, in: L’art cinématographique II. Paris: 1927, pp. 94-96.”

Alois Riegl – Indústria artística do Império romano tardio, 1901.

Nada garante que um retratista contemporâneo, ao pintar um famoso cirurgião à mesa do café da manhã, rodeado pelos seus, atinge sua função social de modo mais certeiro que um pintor do século XVI que apresenta seus médicos representativamente ao público, como por exemplo Rembrandt em <Anatomia>.”

A remoção do objeto de seu invólucro, a destruição da aura, é a assinatura de uma percepção cujo <sentido para o idêntico no mundo> (Johannes V. Jensen) aumentou de tal modo que ela, por meio da reprodução, o extrai até mesmo do que é único. Revela-se, assim, no âmbito intuitivo, aquilo que na teoria se torna perceptível na crescente significação da estatística. O alinhamento da realidade com as massas e das massas com ela é um evento de alcance ilimitado, tanto para o pensamento quanto para a intuição.”

O essencialmente distante é o inaproximável. O inaproximável é de fato uma qualidade central da figura de culto. Ela permanece segundo sua própria natureza <distante, por mais perto que esteja>. A proximidade que se lhe pode alcançar em relação a uma matéria não interrompe a distância que ela conserva em sua aparição.”

o conceito de autenticidade não para jamais de tender a ultrapassar aquele da autêntica atribuição (Isso revela-se de modo especialmente claro no colecionador.): com a secularização da arte a autenticidade toma o lugar do valor de culto.”

O culto profuso à beleza, que se desenvolve na Renascença para manter-se em vigência por três séculos, revela nitidamente esses fundamentos após o término desse período, com o primeiro abalo mais intenso que sofreu: com o surgimento do primeiro meio de reprodução efetivamente revolucionário (simultâneo ao advento do socialismo), a fotografia, a arte sentiu aproximar-se a crise, reagiu com a doutrina do l’art pour l’art, que é uma teologia da arte. Desta surgiu por sua vez uma teologia negativa na forma da idéia de uma arte <pura> (Na poesia, Mallarmé foi o primeiro a alcançar essa posição.)”

<A bela arte (…) surgiu na própria igreja (…) embora (…) a arte já tivesse saído (com isso) do princípio eclesiástico.> (Hegel> Werke IX. Berlim: 1837, p. 414)”

Sabe-se, desde a investigação de Hubert Grimme, que a Madonna Sistina fôra pintada originalmente para fins expositivos. Grimme teve como ponto de partida para suas pesquisas a questão: o que faz ali o batente de madeira em primeiro plano na imagem, onde se apoiam os dois anjos? Como pôde, seguia perguntando Grimme, um Rafael chegar à idéia de equipar o céu com um par de cortinas? Dessa investigação resultou que a Madonna Sistina foi encomendada por ocasião do velório público do papa Sisto. O velório dos papas ocorria em uma capela lateral específica da basílica de São Pedro. O quadro de Rafael foi posicionado no velório solene, repousando sobre o caixão, numa espécie de nicho ao fundo dessa capela. Nas exéquias de Sisto, o quadro de Rafael encontrou uma aplicação extraordinária de seu valor de exposição. Algum tempo depois, ele foi para o altar-mor do mosteiro dos monges negros (beneditinos – N.T.) em Piacenza. A razão para esse exílio encontra-se no rito romano. O rito romano proíbe levar imagens expostas em cerimônias sepulcrais ao culto no altar-mor. A obra de Rafael foi em certa medida desvalorizada por meio desse regulamento. Para ainda assim obter um preço que lhe correspondesse, a cúria decidiu tolerar em silêncio a presença do quadro no altar. Para evitar a atenção, enviou-se o quadro à irmandade dessa província remota.”

O valor de culto enquanto tal tende justamente a manter a obra de arte oculta: certas estátuas de deuses são acessíveis somente ao sacerdote na cella” “A exponibilidade da pintura sobre madeira é maior do que aquela do mosaico ou do afresco que a antecederam.” “a sinfonia surgiu num momento em que sua exponibilidade prometia tornar-se maior do que a da missa.”

Brecht – Der Dreigroschenprozess (O processo dos três vinténs)

Em certo sentido, podemos considerar o ato máximo da primeira técnica como sendo o sacrifício humano; o da segunda encontra-se no horizonte dos aviões de controle remoto, que dispensam tripulação. A primeira técnica orienta-se pelo <de uma vez por todas> (nela trata-se do sacrilégio irreparável ou do sacrifício eternamente exemplar); a segunda, pelo <uma vez é nenhuma vez> (ela trata do experimento e das variações incansáveis dos procedimentos de teste). A origem da segunda técnica deve ser buscada onde o ser humano, com uma astúcia inconsciente, chegou pela primeira vez a tomar uma distância em relação à natureza.” “A primeira realmente pretende dominar a natureza; a segunda prefere muito antes um jogo conjunto entre natureza e humanidade. Isso vale sobretudo para o cinema.” “…quando a condição tiver se adaptado às novas forças produtivas desencadeadas pela 2ª técnica.” ILUSÃO

é a pessoa individual emancipada por meio da liquidação da primeira técnica que faz suas exigências. Mal a segunda técnica garantiu suas primeiras conquistas revolucionárias, as questões vitais do indivíduo – amor e morte – já exigem novas soluções. A obra de Fourier é o primeiro documento histórico dessa reivindicação.

atget cabaret au tambour

 

última trincheira: o semblante humano.” “O valor de culto da imagem encontra seu último refúgio no culto à rememoração dos entes queridos distantes ou falecidos.” “Onde o homem se retira da fotografia, o valor de exposição sobrepuja pela primeira vez o valor de culto. Ter dado a esse acontecimento o seu lugar é a significação incomparável de Atget, que registrou as ruas parisienses sob um aspecto despovoado por volta de 1900. Com muita razão disse-se dele que as fotografava como a uma cena de crime.” “provas indiciárias”

a legendagem – que claramente tem um caráter completamente distinto do título de um quadro – torna-se obrigatória pela primeira vez.”

Os gregos foram levados pelo estado de sua técnica a produzir valores de eternidade na arte. É a essa situação que eles devem seu lugar excepcional na história da arte” “Não há dúvida de que o nosso se encontre no pólo oposto ao dos gregos.” “o filme tornou crucial uma qualidade da obra de arte que teria sido a última a ser reconhecida pelos gregos, ou que, pelo menos, seria para eles a menos essencial de todas. É essa a sua capacidade de ser melhorado. O filme pronto é tudo menos uma criação de um lance” “Para realizar o seu filme Opinion publique, que tem 3 mil metros de comprimento, Chaplin filmou 125 mil metros. O filme é, portanto, a obra de arte mais passível de melhoria. E essa sua capacidade de ser melhorado está ìntimamente ligada a sua recusa radical do valor de eternidade.” “contraprova: o ápice de todas as artes encontrava-se na arte menos passível de melhoria – a saber, a escultura, cujas criações se fazem literalmente a partir de uma peça. A decadência da escultura na era da obra de arte montável é inevitável.”

A disputa travada no decorrer do século XIX entre a pintura e a fotografia acerca do valor artístico de seus produtos parece-nos hoje absurda e confusa.” “Embora já se tivesse gasto muita perspicácia em vão na resolução da questão de se a fotografia é uma arte – sem ter se colocado a pergunta anterior: se, por meio da intervenção da fotografia, o caráter geral da arte não foi modificado –, os teóricos do cinema logo assumiram o mesmo questionamento precipitado.” Resposta tardia: não é que o videogame não seja uma arte, é que não há mais “arte”.

Filme “Sonho de uma noite de verão” de Reinhardt

O filme (…) dá (ou poderia dar) explicações úteis sobre as ações humanas em detalhe (…) Toda motivação do caráter cessa, a vida interior das pessoas jamais dá a causa principal e é raramente o resultado principal da ação” Brecht, I, c., p. 268. “Assim, a significação do teste de proficiência cresce constantemente. No teste de proficiência trata-se de recortes da performance do indivíduo.”

O ator de cinema distingue-se do ator teatral pelo fato de sua performance artística, em sua forma original, a partir da qual se realiza a reprodução, não ocorrer diante de um público aleatório, mas diante de um comitê de especialistas, os quais, na qualidade de diretor de produção, diretor, operador de câmera, engenheiro acústico, iluminador, etc., podem tomar a todo tempo a atitude de interferir em sua performance artística.” “a interferência de um comitê especializado em uma performance artística é também característica de performances esportivas e, num sentido mais amplo, dos procedimentos de teste em geral.” “O esportista conhece, em certo sentido, apenas o teste natural.” Não o do atletismo pós-moderno ou participante de jogos individuais (exceto tênis?). Trabalho como performance: o cume do idiótico. “Nurmi, corredor finlandês que quebrou diversos recordes mundiais nos anos 1920.”

Atuar sob a luz do holofote atendendo ao mesmo tempo às condições impostas pelo microfone é uma performance de teste de primeira linha. Realizá-la significa conservar a sua humanidade diante da aparelhagem. O interesse nessa performance é enorme. Pois, tanto nos escritórios quanto nas fábricas, é diante de um aparato que a grande maioria da população urbana deve, ao longo da jornada de trabalho, renunciar à sua humanidade.” Eu, DiCaprio – Mas como é para o próprio proletário DiC.?

Pirandello – Cadernos de Serafino Gubbio Operador

Observadores especialistas reconheceram já há bastante tempo que na atuação para o cinema <quase sempre os maiores efeitos são atingidos ao ‘atuar-se’ o mínimo possível (…)>.”

a tentativa de deixar o ator atuar sem maquiagem, como o fez, entre outros, Dreyer, em seu Jeanne D’Arc. Ele passou meses escolhendo os 40 atores que comporiam o tribunal inquisitório. A busca por esses atores era como procurar um objeto de cena raro. Dreyer despendeu grandes esforços evitando a semelhança de idade, de estatura, de fisionomia entre esses atores.” “Um relógio em funcionamento será sempre um estorvo no palco. Ali, o seu papel de medir o tempo não tem lugar. Mesmo em uma peça naturalista, o tempo astronômico também colidiria com o cênico.”

a arte remove <a aparência e o engano deste mundo ruim e passageiro> do <verdadeiro conteúdo das aparições> (Hegel)”

A bela aparência como efetividade aurática, por outro lado, preenche ainda completamente a obra goethiana. Mignon, Ottilie e Helena têm parte nessa efetividade.”

O modo de agir do diretor que, para gravar o susto da pessoa representada, causa experimentalmente um susto real em seu ator é completamente justo cinematograficamente.” “Estrelas de cinema não são quase nunca atores excepcionais quando se trata do palco. Pelo contrário, são na maioria das vezes atores de segundo ou terceiro escalão, para os quais o cinema abriu uma grande carreira. E, por sua vez, são raramente os melhores atores de cinema que tentam passar do filme ao palco” “O típico ator de cinema representa apenas a si próprio. Ele opõe-se ao tipo do mímico.”

aparência e jogo (Schein und Spiel)” “autoalienação (Selbstentfremdung)“alienação (Befremdung)” “do mesmo tipo que a alienação do ser humano diante de sua aparição no espelho, na qual os românticos tinham gosto em demorar-se.”

nova seleção, uma seleção diante da aparelhagem, da qual o campeão, a estrela e o ditador emergem como vencedores.” Marilyn Federer the Hitler

Se há tantas versões e nunca nos decidimos pela melhor, isso quer simplesmente dizer: texto mal-redigido.

Na solidariedade da luta de classes proletária apaga-se a oposição morta, não dialética, entre indivíduo e massa; ela não se mantém para companheiros.” “A luta de classes afrouxa a massa compacta dos proletários; a mesma luta de classes, porém, comprime a da pequena burguesia. A massa impenetrável e compacta, que Le Bon e outros tornaram o objeto de sua <psicologia de massas>, é a pequeno-burguesia. A pequeno-burguesia não é uma classe; ela é de fato apenas massa, e uma massa tanto mais compacta quanto maior a pressão que sofre entre as duas classes hostis da burguesia e do proletariado.” #Pérolas

as manifestações da massa compacta trazem consigo sempre um traço de pânico – estejam expressando o entusiasmo com a guerra, o antissemitismo ou o impulso de autopreservação.”

Wertoff – Três canções para Lenin

Ivens – Borinage

O INGÊNUO: “a diferença entre o autor e o público está a ponto de perder o seu caráter fundamental.” “A competência literária não depende mais da formação especializada, mas da politécnica, tornando-se propriedade comum.” Na verdade, não depende nem daquilo, nem disso.

O talento artístico, porém, é algo bastante raro; disso segue (…) que a todo tempo e em toda parte a porção preponderante da produção artística tenha sido medíocre. Hoje, porém, a porcentagem de lixo no conjunto da produção artística está maior do que nunca” Aldous Huxley

diferentemente do mago (que ainda se encontra oculto no clínico geral), o cirurgião se abstém, no momento decisivo, de confrontar o seu paciente face a face; ao contrário, ele penetra-o de modo operativo. – Mago e cirurgião relacionam-se como pintor e operador de câmera.” “As audácias do operador de câmera são de fato comparáveis às do operador cirúrgico.” Forçação. “um caso da otorrinolaringologia; refiro-me ao assim chamado método perspectivo endonasal; ou remeto também às proezas artísticas acrobáticas, as quais, guiadas pela imagem invertida do espelho laringeal, devem realizar a cirurgia de laringe; também poderia falar da cirurgia de ouvido, que lembra o trabalho preciso de relojoeiros. Que rica gradação da mais sutil acrobacia muscular não é exigida do homem que quer consertar ou salvar o corpo humano! Pense-se na operação de catarata, na qual pode-se dizer que há uma disputa do aço com tecidos praticamente líquidos, ou nas significativas incursões na cavidade abdominal (Laparotomia).” Luc Durtain: La technique et l’homme, in: Vendredi, 13 de março de 1936, n. 19.

O comportamento mais reacionário – diante de um Picasso, por exemplo – torna-se altamente progressista em face de um Chaplin.” “quanto mais a significação social de uma arte é reduzida – como pode ser comprovado claramente no caso da pintura –, mais se distanciam mutuamente os comportamentos crítico e usufruidor do público. O convencional é usufruído àcriticamente; o efetivamente novo é criticado a contragosto. Mas não no cinema [ainda?].” “A pintura sempre foi apropriada à contemplação exclusiva de um ou de poucos. A contemplação simultânea de pinturas por um grande público, surgida no século XIX, é um sintoma precoce da crise da pintura” “Leonardo compara a pintura e a música com as seguintes palavras: <A pintura é superior à música pois não precisa morrer no momento em que é chamada à vida, como é o caso da música infeliz (…) A música, a qual se volatiliza assim que surge, é inferior à pintura que, com o uso do verniz, se torna eterna.> (Leonardo da Vinci: Frammenti letterarii e filosofici apud Fernand Baldensperger: Le raffermissement des techniques dans la littérature occidentale de 1840, In: Revue de Littérature Comparée, XV/I. Paris: 1935, p. 79, nota I).” “Igualmente, o mesmo público que reage de maneira progressista diante de uma comédia burlesca deve tornar-se reacionário diante do surrealismo.” O livro jamais “entrará em crise”?

Um ato falho em uma fala passava há 50 anos mais ou menos despercebido.”

Nossos botequins e avenidas, nossos escritórios e quartos mobiliados, nossas estações de trem e fábricas pareciam fechar-se em torno de nós de maneira desesperadora. Então veio o filme e mandou esse calabouço pelos ares com a dinamite do décimo de segundo” [?] “tampouco a câmera lenta traz à percepção padrões de movimento conhecidos, mas descobre, nesses movimentos conhecidos, outros completamente desconhecidos, <que não dão de modo algum a impressão de serem a desaceleração de movimentos mais rápidos, mas de estarem deslizando, singularmente flutuantes, de modo sobrenatural> (Rudolf Arnheim).” “Somente por meio da câmera chegamos a conhecer o inconsciente óptico, assim como conhecemos o inconsciente pulsional por meio da psicanálise.” “Muitas das deformações e estereótipos, das metamorfoses e catástrofes que afetam o mundo da óptica nos filmes encontram-se de fato em psicoses, alucinações e sonhos.” “O filme abriu uma brecha naquela antiga verdade heraclítica, segundo a qual os acordados têm o seu mundo em comum, e os dormentes têm cada um um mundo para si. E o fez muito menos apresentando o mundo do sonho do que criando figuras do sonho coletivo, como o mundialmente famoso Mickey Mouse.” “um desenvolvimento forçado de fantasias sádicas ou de alucinações masoquistas pode impedir o seu amadurecimento” Aristóteles – O Retorno “A risada coletiva proporciona a erupção precoce e salutar de tal psicose de massas.” Comédia e terror encontram-se, como revelam as reações de crianças, em proximidade estreita.” “O que se revela nos mais novos filmes da Disney já está, de fato, dado em alguns dos mais antigos: a tendência a aceitar confortavelmente a bestialidade e a violência como aparições que acompanham a existência.” “os Hooligans dançantes que encontramos em imagens de pogroms medievais, e o conto <A chusma>, dos irmãos Grimm, constitui a sua lívida e incerta retaguarda.” [?]

antes do surgimento do filme havia pequenos livros de fotos cujas imagens, passando rapidamente diante dos olhos do observador por meio de um movimento do polegar, exibiam uma luta de boxe, ou uma partida de tênis; havia os autômatos nos bazares ou passagens, em que um giro de manivela mantinha em movimento uma sequência de imagens.” “O vazio pode ser agradável em uma galeria de arte, mas não pode mais sê-lo no Kaiserpanorama, e de modo algum no cinema. Mas no Kaiserpanorama – como na maioria das galerias de arte – cada um ainda tem a sua própria imagem.” “Esse público era posto diante de um biombo, onde eram instalados estereoscópios, um para cada espectador. Diante desses estereoscópios apareciam automaticamente imagens singulares, que duravam pouco tempo para então dar lugar a uma outra. Edison precisou ainda trabalhar com meios semelhantes para executar o primeiro rolo de filme – antes de a tela de cinema e a técnica da projeção serem conhecidas – diante de um pequeno público que mirava dentro do aparato onde a seqüência de imagens se desenrolava.” “As extravagâncias e cruezas da arte que desse modo ocorrem nos assim chamados períodos de decadência originam-se, em verdade, de seu centro de força histórico mais rico. O dadaísmo teve ainda recentemente sua alegria em tais barbarismos. Seu impulso torna-se recognoscível apenas agora: o dadaísmo tentava obter com os meios da pintura (ou literatura) os mesmos efeitos que o público busca hoje no filme.” “Os dadaístas davam muito menos peso à valorização mercantil de suas obras do que a sua inutilidade enquanto objetos de imersão contemplativa. A degradação generalizada de seu material era um dos principais meios pelos quais buscavam atingir essa inutilidade. Seus poemas são <saladas verbais>; eles contêm expressões obscenas e todo lixo lingüístico imaginável.” Quão vanguardista, sr. Benjamin! “aniquilação indiscriminada da aura”

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É impossível dar-se tempo para se concentrar e tomar uma posição diante de um quadro de Arp ou um poema de August Stramm da mesma maneira que diante de um quadro de Derain ou de um poema de Rilke. À imersão – que se tornou, com a decadência da burguesia, um exercício de comportamento associal – opõe-se a distração como uma espécie de jogo com o comportamento social.” “incitar a irritação pública. § Com os dadaístas, em vez de uma aparência atraente ou de uma construção tonal convincente, a obra de arte tornou-se um projétil. (…) O filme libertou de sua embalagem o efeito de choque físico que o dadaísmo ainda mantinha envolto no choque moral.

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Também Riegl corrigiu esse termo nas edições seguintes de sua obra, substituindo <tático> (taktisch) por <tátil> (taktil).”

Eu já não posso mais pensar o que quero. As imagens movimentadas suplantam meus pensamentos” Georges Duhamel, Scènes de la vie future. Paris: Mercure de France, 2ª ed., 1930, p. 52. “Duhamel chama o filme de <um passatempo para hilotas, uma dispersão para criaturas ignorantes, abjetas, exauridas pelo trabalho, que são despidas de suas preocupações (…), um espetáculo que não exige nenhuma concentração, que não pressupõe nenhuma faculdade intelectual (…), que não acende nenhuma luz no coração e que não desperta nenhum outro tipo de esperança a não ser aquela ridícula de um dia tornar-se uma ‘estrela’ em Los Angeles.>”

Assim como para o dadaísmo, o filme oferece também para o cubismo e para o futurismo importantes conclusões. Ambos surgem como tentativas deficitárias da arte de dar conta da penetração da realidade com a aparelhagem.” “o pressentimento da construção dessa aparelhagem – que se baseia na óptica – tem um papel predominante no cubismo: no futurismo predomina o pressentimento dos efeitos, que entram em vigência com o rápido desenrolar da película.”

Construções vêm acompanhando a humanidade desde sua pré-história. Muitas formas de arte surgiram e desapareceram. A tragédia surge entre os gregos para apagar-se com eles e renascer depois de séculos. A epopéia, cuja origem está na juventude dos povos, apaga-se na Europa com o fim da Renascença. A pintura sobre madeira é uma criação da Idade Média, e nada lhe garante uma duração ininterrupta. A necessidade humana de moradia, porém, é constante.”

A recepção tátil ocorre mais por meio do hábito que pela atenção.” “a capacidade de resolver certas tarefas na dispersão indica que essa solução se tornou hábito.”

O fascismo caminha diretamente em direção a uma estetização da vida política. Com D’Annunzio a decadência penetrou a política; com Marinetti, o futurismo; e com Hitler, a tradição de Schwabing. § Todos os esforços para estetizar a política culminam em um ponto. Esse ponto é a guerra. A guerra, e somente a guerra, possibilita dar uma finalidade a grandes movimentos de massa sob auspício das relações de posse tradicionais.”

No lugar de usinas de força a guerra coloca em ação a força humana, na forma de exércitos. No lugar do trânsito aéreo, ela instaura o trânsito de balas, e na guerra química ela tem um novo meio para extirpar a aura. § Fiat ars – <pereat mundus>, diz o fascismo”

A humanidade, que em Homero fôra um dia objeto de contemplação para os deuses olímpicos, tornou-se objeto de sua própria contemplação. Sua autoalienação atingiu tal grau que se lhe torna possível vivenciar a sua própria aniquilação como um deleite estético de primeira ordem.” Conceito-engodo: o “querer-morrer”, o deixar malograr a parte podre, não pode ser entendido pela dialética.

Veredito: tradução bem aquém da primeira lida.

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* * *

ANEXO A – Esboços de Benjamin

Nada é mais corrente ao teste em sua figura moderna do que medir o ser humano com uma aparelhagem.” Rocky IV – Ironia Comunista – Drogo, a Máquina

O gesto de Chaplin não é efetivamente cênico. Ele não teria sido capaz de se sustentar no palco. [!!!] (…) ele monta o ser humano no filme a partir de sua gesticulação (…) ele decompõe a movimentação expressiva humana em uma seqüência das mais mínimas enervações. Cada um de seus movimentos constitui-se de uma seqüência de partículas picadas de movimento.” “Sobre o que repousa então a comicidade desse comportamento?”

Dentre todas as artes, o teatro é a menos acessível à reprodução mecânica, quer dizer, à estandardização: por isso as massas afastam-se dele. Da perspectiva histórica, o mais importante da obra de Brecht talvez seja a sua produção dramática, a qual permite ao teatro assumir sua forma mais sóbria e modesta, e mesmo mais reduzida, para nela hibernar.” O mesmo erro de Leonardo: apólogo barato do próprio tempo.

Nietzsche reivindicou uma medida de valor moral própria para cada indivíduo. Esse ponto de vista encontra-se fora de curso; ele é infrutífero sob as relações sociais dadas.” “onde antes a exemplaridade era exigida moralmente, o presente exige a reprodutibilidade.”

Qual a situação de nossas construções atuais? Elas tornaram-se, como é possível reconhecer nas grandes cidades, suportes de reclames.” “Não há, diante do cartaz, como havia perante o ídolo, nem amigos da arte, nem ignorantes.”

Duchamp não pode ser identificado com nenhum tipo de escola. Ele era próximo do surrealismo, é amigo de Picasso, embora sempre tenha permanecido em isolamento.” “La Mariée mise à nu par ses Célibataires (…): assim que um objeto é visto por nós como uma obra de arte, ele não pode mais absolutamente figurar enquanto tal. (…) o ser humano contemporâneo pode experimentar o efeito específico da obra de arte muito mais em objetos desengajados (quer dizer, retirados de seu contexto funcional) do que em obras de arte renomadas.”

fenômenos da decadência (Entartungserscheinungen).”

A história da arte é uma história de profecias.” “É a tarefa mais importante da história da arte decifrar, nas grandes obras do passado, as profecias em vigência na época de sua concepção.”

Kinematograh mit optischem Ausgleich der Bildwanderung (Cinematógrafo com compensação ótica do movimento imagético) de August Musger, um aparelho que servia simultaneamente como câmera e como projetor e que foi o primeiro a possibilitar a gravação e reprodução de cenas em câmera lenta.”

Aquilo que surgiu no filme mudo como <música de acompanhamento> era – do ponto de vista histórico – a música que aguardava – <fazia fila> – diante dos portões do filme. (…) tanto um hit quanto uma sonata de Beethoven podem, enquanto tais, ser montados na ação do filme.” Mas a melhor música de acompanhamento, ironicamente, é justo a música clássica, a “única música” anterior ao filme!

Sade e Fourier têm em vista a efetivação imediata da vida humana feliz. Em oposição a isso, vê-se esse lado da utopia retroceder na Rússia. (Não é por acaso que as expedições ao Ártico e à estratosfera pertencem aos primeiros grandes feitos da União Soviética pacificada.)”

É sabido que Schiller deu um lugar privilegiado ao jogo em sua estética, enquanto a estética de Goethe é determinada por um interesse passional pela aparência.”

a invenção da arte da impressão levou à liberdade de imprensa. Hoje as invenções técnicas são meios de uma dominação monstruosa das massas; ao rádio pertence o monopólio radiofônico, ao filme a censura cinematográfica.” Carl Schmitt – palestra “Sobre a era das neutralizações e despolitizações”, em 1929.

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* * *

ANEXO B – Carta de Adorno

O senhor sabe que o objeto <liquidação da arte> encontra-se há muitos anos subjacente a meus ensaios estéticos, e que a ênfase com a qual defendo o primado da tecnologia, acima de tudo na música, deve ser compreendida estritamente nesse sentido e no de sua segunda técnica.”

Adorno devia ser mais chato que o Prof. Edson pessoalmente.

Cf. Adorno, <Der Dialektische Komponist> (<O compositor dialético>), publicado em Viena, em 1924, e posteriormente incluído no volume de Adorno, Impromptus. Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 1968.”

Por mais dialético que seja o seu trabalho, ele não o é em relação à própria obra de arte autônoma; ele ignora a experiência elementar (…) a suprema conseqüência na observância da lei tecnológica da arte autônoma a modifica, aproximando-a, no lugar da tabuização e da fetichização, do estado de liberdade daquilo que é conscientemente confeccionável, realizável.” “Ninguém poderia estar mais de acordo com o senhor do que eu, quando salva o filme kitsch em face do filme <de nível>; a l’art pour l’art, porém, seria igualmente carente de salvação”

O senhor fala do jogo e da aparência como os elementos da arte; mas nada me diz por que o jogo deveria ser dialético, e a aparência não. Pois dialetizar a tecnicização e a alienação, mas não o mundo da subjetividade objetivada, significa politicamente nada mais do que confiar imediatamente ao proletariado um desempenho que este, segundo a sentença de Lenin, não pode realizar senão por meio da teoria dos intelectuais como sujeitos dialéticos, que pertencem à esfera da obra de arte relegada ao inferno pelo senhor.”

a teoria da reprodução musical, planejada há anos por mim e por Kolisch (esse trabalho que Adorno planejou realizar com o violinista Rudolf Kolisch (1896-1978) nunca se concretizou. – N.R.)”

assim como a reificação do cinema não está totalmente perdida, tampouco a da grande obra de arte; e, enquanto seria uma atitude burguesa reacionária negar aquela primeira reificação a partir do ego, revogar essa segunda, no sentido do valor de uso imediato, beiraria o anarquismo. Les extremes me touchent, assim como ao senhor: mas apenas quando a dialética do mais elevado é equivalente à do mais rebaixado, e não simples deterioração. (…) sacrificar uma em favor da outra seria romântico; seja como romantismo burguês na conservação da personalidade e de todo encanto desse tipo, seja como romantismo anárquico na confiança cega no autodomínio do proletariado no processo histórico – do proletariado, o qual é ele mesmo produzido de forma burguesa. Devo acusar, de certo modo, o trabalho do segundo romantismo.”

Nada mais reacionário que um sábio comunista. O trabalho do negativo?

O riso do público no cinema não é absolutamente bom e revolucionário, mas cheio do pior sadismo burguês; o caráter de especialista dos jovens jornaleiros que discutem acerca do esporte me é altamente duvidoso; e, por fim, a teoria da dispersão, apesar de sua persuasão sob a forma do choque, não me convence.” “que o reacionário se torne um vanguardista perante o filme chapliniano – isso me parece igualmente uma completa romantização”

O senhor subestima a tecnicidade da arte autônoma e superestima a da arte dependente”

tampouco escaparemos das antigas tabuizações somente ao nos envolvermos com outras, novas. A finalidade da revolução é a abolição do medo. Por isso não precisamos ter medo dela, e nem ontologizar nosso medo.”

Trata-se de um veredito completo sobre o jazz, na medida em que particularmente seus elementos <progressistas> (aparência de montagem, trabalho coletivo, primado da reprodução perante a produção) são revelados como fachadas para um elemento que na verdade é totalmente reacionário. Creio que logrei decifrar efetivamente o jazz e determinar sua função social.”

Der liebe Gott wohnt im Detail [O bom Deus mora no detalhe]” Aby Warburg

as poucas sentenças acerca da desintegração do proletariado como <massa> por meio da revolução contam dentre o que há de mais profundo e poderoso que jamais encontrei em termos de teoria política desde que li Estado e Revolução [Lenin, 1917].” Faz aquela média covarde no final.

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HISTORY OF THE ROMANS UNDER THE EMPIRE – VOL. VII: Subterfúgio: Polêmicas Judias

Reverendo Charles Merivale

 

(pente fino no capítulo sobre a destruição de Jerusalém sob Tito; circa p. 237)

 

At. 19:13-17: “Ora, também alguns dos exorcistas judeus, ambulantes, tentavam invocar o nome de Jesus sobre os que tinham espíritos malignos, dizendo: Esconjuro-vos por Jesus a quem Paulo prega. E os que faziam isto eram sete filhos de Ceva, judeu, um dos principais sacerdotes. Respondendo, porém, o espírito maligno, disse: A Jesus conheço, e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois? Então o homem, no qual estava o espírito maligno, saltando sobre eles, apoderou-se de dois e prevaleceu contra eles, de modo que, nus e feridos, fugiram daquela casa. Isto tornou-se conhecido de todos os que moravam em Éfeso, tanto judeus como gregos”

 

“The extreme party now reigned unresisted in Jerusalem. Jehovah, they proclaimed, had manifestly declared Himself on their side. Judea stood once more erect and independent, and invited her children dispersed throughout the world to fulfil, by a common effort, her imperial destiny. But in Rome they had been crushed; in Alexandria they were baffled; Nero had cajoled Vologesus, and engaged him to control their movements in Ctesiphon and Seleucia; the summons of the patriots met, it seems, with no response beyond the confines of Palestine, and the army of Titus confronted in closed lists the defenders of the city of David.”

Mt. 24:15-21: “Quando, pois, virdes estar no lugar santo a abominação de desolação, predita pelo profeta Daniel (quem lê, entenda), então os que estiverem na Judéia fujam para os montes; quem estiver no eirado não desça para tirar as coisas de sua casa, e quem estiver no campo não volte atrás para apanhar a sua capa. Mas ai das que estiverem grávidas, e das que amamentarem naqueles dias! Orai para que a vossa fuga não suceda no inverno nem no sábado; porque haverá então uma tribulação tão grande, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá.”

“While the chiefs of the Roman army were occupied with manoeuvres for securing the empire, the leaders of the Jews were actively engaged in plotting against each other. The Zealots, in the moment of victory, were split into three factions. (…) John and Simon might dispute the superiority in numbers and equipment; but the stronghold of Eleazar was regarded by the Romans as the real citadel of Jerusalem. After many open attacks and secret stratagems, John contrived to assassinate this powerful rival, and obtained possession of the whole Temple with the eminence on which it stood.”

Nota de rodapé p. 226: o Mito de Sião – nunca houve uma Cidade Sagrada, metafórica, “mesal”. Tratava-se da colina mais alta da orla montanhosa de Jerusalém. Citado em Macabeus, mas nunca, de novo, em Josephus[?] ou no Novo Testamento. “The temple of Jerusalem, planted nearly on the southern extremity of this second hill, was completely overlooked by Zion, and also by the fortress Antonia, with which Herod protected it on its northern flank.”

[?] Fariseu contemporâneo (séc. I d.C.) do cerco e que “virou a casaca” depois de uma carreira pregressa como agitador (//Paulo). Teria deixado relatos históricos sobre os eventos em que ele próprio participou (consultados no original em grego por Merivale), tentando dissuadir as duas lideranças rebeldes remanescentes até o fim do cerco.

“Acra, or Moriah, as it has been called by a vulgar error, might thus represent the Capitoline, and Zion the Palatine at Rome: the depression between them, crossed by a bridge or causeway, was thronged with the dwellings of the lowest classes, and occupied the place of the Velabrum or the Suburra.”

“The hill of Zion was almost a perfect square: but Acra, more oblong in shape, overlapped it considerably to the north-east, and in the rectangle between them, a third hill, to which we may give the name of Calvary, rose a little lower than the one, and as much higher than the other. The venerable tradition which assigns this spot for the place of our Lord’s crucifixion, and has consecrated it with the existing church of the Holy Sepulchre, may be accepted with reasonable confidence. At the date of the Crucifixion it stood outside the walls; but Herod Agrippa undertook to enclose it, together with a large suburb to the north, in a third line of defences. Bezetha, or the New City, for so it was denominated, embraced an area towards the north and north-east, fully equal to all the rest of Jerusalem together.”

Trecho destacado por El Hayek: “The circuit of these exterior defences may have measured about four miles, and the ordinary population could scarcely amount to 200,000; but this number was vastly increased on occasion of the great festivals when the Jews thronged to their national temple from all quarters. (…) Tacitus estimates at 600,000 the number enclosed within the walls at the period of the siege; and this estimate, great as it is compared with the extent of accommodation, is far less than what we might infer from certain statements of Josephus. Eusebius states the number roundly at 3,000,000 (Hist. Eccl. iii. 5.), from a passage in Josephus” Segundo o mesmo Jos., essa prévia do Holocausto matou 1 milhão de judeus, número reputado como absurdo.

 

“The perseverance with which Titus renewed his elaborate constructions after every failure was not less eminent than the fortitude of John and Simon.” “The siege had already lasted three months. Seven days were now employed in the destruction of the citadel, one wing only being reserved as a watchtower. All the buildings round it were thrown down to make room for the works required for the attack on the Temple, and the Lower City was at the same time demolished. Titus had now relaxed from his earlier severity. Large numbers of the population received their lives on submission, while the more desperate fled for refuge to the Temple and to Mount Zion.” um monte sagrado, um monte de mentiras

“Josephus addressed them, like the Assyrian of old, in the Hebrew language that all might understand him; but John, perceiving (so at least Joseph us assures us) the impression he was making, sternly interrupted him, declaring that they had nought to fear, for Jerusalem was the Lord’s, and the Lord would protect it.”

Profético (prefácio do “show de 6 milhões”): “Hundreds of the Jews perished in this storm of fire.” 70 d.C. apud Hayek apud AGUIAR (2017). Titus ou Tito teria sido clemente e tentado até o último esforço do cansativo cerco salvar o Templo, mas ele terminou incendiado graças à teimosia judia e à imperícia e codícia dos soldados romanos, que viram no incêndio a única possibilidade de dar um fim à resistência inesgotável dos fanáticos e foram “hipnotizados” pelo ouro dos adornos templares: “Titus looked back with a sigh, but made no further attempt to save it [o Tabernáculo]. He withdrew despondingly from the spot, and the divine decree was accomplished.” “The Jewish chronicler [Josephus] exhausts all his rhetoric in describing the horrors of the scene he had himself witnessed from the camp of the victors. The hill of the Temple was enveloped in a sheet of flame, and the whole city seemed to be involved in a general conflagration. The shouts of the conquerors, the shrieks of the victims, the groans and howls of a nation of spectators in the streets and on the hills surrounding Jerusalem, surpassed all horrors recorded or imagined.”

“A few unarmed priests, who had cowered among the ruins of the Temple, had just before descended, pressed by hunger, and thrown themselves on his mercy [Tito]; they had been led straightway to execution, with the brutal sarcasm that those who live by the altar should perish with the altar.” E os sacerdotes restantes, já vencidos, mas que não davam o braço a torcer, enfureceram o paciente Tito, que ordenou que Jerusalém inteira fosse deitada abaixo.

Apocalypse Yesterday: teria sido num 2 de setembro.

“Depois que o censo dos civis sobreviventes terminou, os velhos e imprestáveis foram atravessados a sangue frio pelo fio da espada. Os mais altos e mais formosos foram escolhidos a seguir para honrar o triunfo do conquistador; do restante, todos acima de 17 anos foram levados como cativos para o Egito, ou condenados a lutar contra feras nos teatros de Antioquia e Cesaréia. Todas as crianças foram vendidas como escravos.” “While John was granted his life, and kept without public disgrace in perpetual confinement, Simon was reserved for the special ornament of the triumph, for ignominy, and for death.”

“Diz-se que Jerusalém foi tomada 17 vezes – mas ela foi destruída e liquidada unicamente por Nabucodonosor e Tito. O de Tito foi apenas o sexto saque.” Foi a chegada ao trono mais triunfal das 320 registradas até então em Roma.

“The residence of Titus at Berytus, and again at Caesarea, was marked by bloody shows in the circus, where he solemnized the birthdays of his father [imperador Vespasiano] and brother with the slaughter of multitudes of Jewish captives. From thence he returned to witness the completion of his instructions with regard to Jerusalem, and, leaving the Tenth legion in garrison on the spot, carried with him the Fifth and Fifteenth into Egypt.”

 

“With the reduction of Palestine the consolidation of the empire was completed. From the Mersey to the Dead Sea no nation remained erect, and the resistance of the last free men on her frontiers had been expiated with their blood. The overthrow of Judea, with all the monuments of an ancient but still living civilization, was the greatest crime of the conquering republic. It commenced in wanton aggression, and was effected with a barbarity, of which no other example occurs in the records of civilization. Jerusalem shared the fate of Tarquinii and Corinth; but the Romans, stalking amongst the ruins of Zion, seemed unconscious that they had annihilated a nation more important in the history of the world than Etruria, or even than Greece. Yet not altogether annihilated. The homeless Jews, scattered, as captives or fugitives, more widely than ever, bore throughout the empire and beyond it the seeds of the law delivered from Sinai, the fortitude which neither Egyptian, nor Syrian, nor Roman could bend or break, the hopes which delay had not extinguished, the maxims which patriarchs and prophets had revered.”

HISTORY  OF THE DECLINE AND FALL OF THE ROMAN EMPIRE: Subterfúgio: Polêmicas Agostinianas e Maometanas

Edward Gibbon

 

Vol. III

CHAPTER 33

A Conquista da África pelos Vândalos

 

Consta que Maomé praticava o incesto com sua filha Fátima.

 

“the terrible Genseric [Gizericus]; a name, which, in the destruction of the Roman empire, has deserved an equal rank with the names of Alaric and Attila. The king of the Vandals [território espanhol] is described to have been of a middle stature, with a lameness in one leg, which he had contracted by an accidental fall from his horse. His slow and cautious speech seldom declared the deep purposes of his soul”

 

Abraão teria nascido em 2015 a.C. Quem segue seu calendário está em 4032 d.A.

 

“and the fair complexions of the blue-eyed warriors of Germany [vândalos] formed a very singular contrast with the swarthy [trigueiro] or olive hue which is derived from the neighborhood of the torrid zone [mouros].” Aqui devemos acrescentar os importantes parênteses: no caso específico dos “genseritas”, eram guerreiros cristianizados; no entanto, sua “cruzada pessoal” africana não era religiosa, e podia contar com aliados pagãos ou heresiarcas; e ajudou a ruir o Grande Império do Resíduo Católico.

 

“the calendar of martyrs received on both sides a considerable augmentation.” Belo eufemismo.

 

No fim da vida Santo Agostinho se tornou piedoso e deixou de combater belicamente cismáticos como os masdeístas ou maniqueus. O “santo” se demonstrava bastante ativo em termos de correspondência política (principalmente na tentativa de dissuadir qualquer confronto letal entre cristãos).

 

“Careless of the distinctions of age, or sex, or rank, they employed every species of indignity and torture, to force from the captives a discovery of their hidden wealth. The stern policy of Genseric justified his frequent examples of military execution: he was not always the master of his own passions, or of those of his followers; and the calamities of war were aggravated by the licentiousness of the Moors, and the fanaticism of the Donatists [ordem de padres excomungados].”

 

A África, próspero continente que alimentava a megalópole da Antiguidade Roma com trigo a perder de vista, começou a parecer o cenário desolado que é hoje muito também devido a lendas e exagerações cristãs, que depreciavam o trabalho dos Vândalos na conquista da região e até lhes atribuíam a deliberada falta de assepsia e “empilhamento arbitrário de cadáveres” que gerava pestes negras em cada cidade dominada…

 

“The youth of Augustin had been stained by the vices and errors which he so ingenuously [artfully!] confesses; but from the moment of his conversion to that of his death, the manners of the bishop of Hippo were pure and austere: and the most conspicuous of his virtues was an ardent zeal against heretics of every denomination; the Manichaeans, the Donatists, and the Pelagians [“não somos afetados pelo Pecado Original; o livre-arbítrio de cada qual permite chegar de forma autônoma ao Bem Supremo…”], against whom he waged a perpetual controversy. When the city [Hippo], some months after his death, was burnt by the Vandals, the library was [un]fortunately saved, which contained his voluminous writings; 232 separate books or treatises on theological subjects,[*] besides a complete exposition of the psalter and the gospel, and a copious magazine of epistles and homilies. According to the judgment of the most impartial critics, the superficial learning of Augustin was confined to the Latin language; and his style, though sometimes animated by the eloquence of passion, is usually clouded by false and affected rhetoric. But he possessed a strong, capacious, argumentative mind; he boldly sounded the dark abyss of grace, predestination, free will, and original sin; and the rigid system of Christianity which he framed or restored, has been entertained, with public applause, and secret reluctance, by the Latin church.”

 

[*] “Such, at least, is the account of Victor Vitensis (de Persecut. Vandal. 50. 1. 100. 3); though Gennadius seems to doubt whether any person had read, or even collected, all the works of St. Augustin (see Hieronym. Opera, tom. I p. 319, in Catalog. Scriptor. Eccles.). They have been repeatedly printed; and Dupin (Bibliotheque Eccles. tom. III p. 158-257) has given a large and satisfactory abstract of them as they stand in the last edition of the Benedictines. My personal acquaintance with the bishop of Hippo does not extend beyond the Confessions, and the City of God [ao fim e ao cabo as duas obras que realmente importam].

 

Cada vez mais vejo que o verbete do Wikipédia estava repleto de razão: a influência de Gibbon se faz sentir principalmente a partir de suas fantásticas notas de rodapé, cheias de “spoilers” sobre a vida particular das personalidades que cunharam o mundo!

 

“In his early youth (Confess. i. 14) St. Augustin disliked and neglected the study of Greek; and he frankly owns that he read the Platonists in a Latin version, (Confes. vii. 9) Some modern critics have thought that his ignorance of Greek disqualified him from expounding the Scriptures; and Cicero or Quintilian would have required the knowledge of that language in a professor of rhetoric.”

 

The church of Rome has canonized Augustin, and reprobated Calvin. Yet as the real difference between them is invisible even to a theological microscope, the Molinists are oppressed by the authority of the saint, and the Jansenists are disgraced by their resemblance to the heretic. In the mean while, the Protestant Arminians stand aloof, and deride the mutual perplexity of the disputants (see a curious Review of the Controversy, by Le Clerc, Bibliotheque Universelle, tom. XIV pp. 144-398.) Perhaps a reasoner still more independent may smile in his turn, when he peruses an Arminian Commentary on the Epistle to the Romans.”

 

Bonifácio e Aécio, os dois maiores generais de então (e os últimos grandes de Roma), decidiram num duelo o destino da África: ganhou Bonifácio, mas o estrago feito pelo sublevado e amigo dos bárbaros, Aécio, era já irreparável. Cartago, a “capital” africana, cairia em 8 anos. Uma verdadeira Babilônia no coração do continente negro, aliás: “The streets of Carthage were polluted by effeminate wretches, who publicly assumed the countenance, the dress, and the character of women. If a monk appeared in the city, the holy man was pursued with impious scorn and ridicule”

 

Pére Jobert – Science des Medailles

 

Prosper – Chronicle, A.D. 442. (Sobre as crueldades de Genseric.)

 

* * *

 

OS SETE DORMINHOCOS

 

“Among the insipid legends of ecclesiastical history, I am tempted to distinguish the memorable fable of the Seven Sleepers; whose imaginary date corresponds with the reign of the younger Theodosius, and the conquest of Africa by the Vandals. When the emperor Decius persecuted the Christians, seven noble youths of Ephesus concealed themselves in a spacious cavern in the side of an adjacent mountain; where they were doomed to perish by the tyrant, who gave orders that the entrance should be firmly secured by a pile of huge stones. They immediately fell into a deep slumber, which was miraculously prolonged without injuring the powers of life, during a period of 187 years. At the end of that time, the slaves of Adolius, to whom the inheritance of the mountain had descended, removed the stones to supply materials for some rustic edifice: the light of the sun darted into the cavern, and the Seven Sleepers were permitted to awake. After a slumber, as they thought of a few hours, they were pressed by the calls of hunger; and resolved that Jamblichus, one of their number, should secretly return to the city to purchase bread for the use of his companions. The youth (if we may still employ that appellation) could no longer recognize the once familiar aspect of his native country; and his surprise was increased by the appearance of a large cross, triumphantly erected over the principal gate of Ephesus. His singular dress, and obsolete language, confounded the baker, to whom he offered an ancient medal of Decius as the current coin of the empire; and Jamblichus, on the suspicion of a secret treasure, was dragged before the judge. Their mutual inquiries produced the amazing discovery, that two centuries were almost elapsed since Jamblichus and his friends had escaped from the rage of a Pagan tyrant. The bishop of Ephesus, the clergy, the magistrates, the people, and, as it is said, the emperor Theodosius himself, hastened to visit the cavern of the Seven Sleepers; who bestowed their benediction, related their story, and at the same instant peaceably expired.

 

The origin of this marvellous fable cannot be ascribed to the pious fraud and credulity of the modern Greeks, since the authentic tradition may be traced within half a century of the supposed miracle. James of Sarug, a Syrian bishop, who was born only two years after the death of the younger Theodosius, has devoted one of his 230 homilies to the praise of the young men of Ephesus. Their legend, before the end of the 6th century, was translated from the Syriac into the Latin language, by the care of Gregory of Tours. The hostile communions of the East preserve their memory with equal reverence; and their names are honorably inscribed in the Roman, the Abyssinian, and the Russian calendar. Nor has their reputation been confined to the Christian world. This popular tale, which Mahomet might learn when he drove his camels to the fairs of Syria, is introduced as a divine revelation, into the Koran. The story of the Seven Sleepers has been adopted and adorned by the nations, from Bengal to Africa, who profess the Mahometan religion; and some vestiges of a similar tradition have been discovered in the remote extremities of Scandinavia. This easy and universal belief, so expressive of the sense of mankind, may be ascribed to the genuine merit of the fable itself. We imperceptibly advance from youth to age, without observing the gradual, but incessant, change of human affairs; and even in our larger experience of history, the imagination is accustomed, by a perpetual series of causes and effects, to unite the most distant revolutions. But if the interval between two memorable aeras could be instantly annihilated; if it were possible, after a momentary slumber of 200 years, to display the new world to the eyes of a spectator, who still retained a lively and recent impression of the old, his surprise and his reflections would furnish the pleasing subject of a philosophical romance.

 

The scene could not be more advantageously placed, than in the two centuries which elapsed between the reigns of Decius and of Theodosius the Younger. During this period, the seat of government had been transported from Rome to a new city on the banks of the Thracian Bosphorus; and the abuse of military spirit had been suppressed by an artificial system of tame and ceremonious servitude. The throne of the persecuting Decius was filled by a succession of Christian and orthodox princes, who had extirpated the fabulous gods of antiquity: and the public devotion of the age was impatient to exalt the saints and martyrs of the Catholic church, on the altars of Diana and Hercules. The union of the Roman empire was dissolved; its genius was humbled in the dust; and armies of unknown Barbarians, issuing from the frozen regions of the North, had established their victorious reign over the fairest provinces of Europe and Africa.” Outras evocações: Schopenhauer, Platão, Vanilla Sky, um coma dentre tantos possíveis, o sonho de criogenia enfermiço de Walt Disney (Baudrillard)…

 

“Two Syriac writers, as they are quoted by Assemanni (Bibliot. Oriental. tom. I pp. 336, 338), place the resurrection of the Seven Sleepers in the year 736 (A.D. 425) or 748 (A.D. 437), of the aera of the Seleucides. Their Greek acts, which Photius had read, assign the date of the 38th year of the reign of Theodosius, which may coincide either with A.D. 439, or 446. The period which had elapsed since the persecution of Decius is easily ascertained; and nothing less than the ignorance of Mahomet, or the legendaries [hagiólogos], could suppose an interval of 300 or 400 years.”

 

…welcome to the seat of madness

                         the sea of madman

                                   & mermaids!

FLOWERS FOR HITLER

Here we are eating the sacred mushrooms

out of the Japanese heaven”

 

Listen to the stories

men tell of last year

that sound of other places

though they happened here”

History is a needle

for putting men asleep

anointed with the poison

of all they want to keep”

Now a name that saved you

has a foreign taste”

After the third ring I said

I’ll let it ring five more times then what will I do

The telephone is a fine instrument

but I never learned to work it very well

Five more rings and I’ll put the receiver down”

I don’t believe opium or money

though they’re hard to get

and punished with long sentences”

I will forget my style

I will have no style

I hear a thousand miles of hungry static

and the old clear water eating rocks

I hear the bells of mules eating

I hear the flowers eating the night

under their folds”

and now I know for certain

I will forget my style

America will have no style

Russia will have no style”

a silence develops for every style

for the style I laboured on

an external silence like the space”

O NOVELISTA E O PINTOR?

Goebbels Abandons His Novel

and Joins the Party

His last love poem

broke in the harbour

where swearing blondes

loaded scrap

into rusted submarines.”

Out in the sun

he was surprised

to find himself lustless

as a wheel.”

maquinal e cabisbaixo como o motorista sonolento duma roda de caminhão

memory white from loss of guilt.”

a Doctor of Reason

he began to count the ships”

Will dreams threaten

this discipline

will favourite hair favourite thighs

last life’s sweepstake winners

drive him to adventurous cafes?”

Ameaçarão sonhos

essa disciplina?

Irão o cabelo favorito as coxas favoritas

os vencedores da última rifa da vida

dirigi-lo a cafés aventureiros?”

Cheiram

as coisas favoritas

GOSPEL GRAYPINK FLOID

<É verdade!> Eu gritei vinte anos depois, puxando meu pai de sua cama suja <Pobre paizinho,

você me disse a verdade.>

<Deixe estar. Eu sou um velho Pai.>

<Não! Empine esse nariz. A janela é feita de eixos. O que é essa matéria cinzenta no cinzeiro? Não é de cigarro, aposto. A sala de estar é um estojo de relíquias!”

…“decaying like food between teeth”…

Acontece a todo mundo. Para aqueles com olhos, que sabem em seu íntimo que o horror é mútuo, então essa comunidade sólida tem uma beleza por si só.”

IT USES US!

(…)

In our leaders’ faces

(albeit they deplore

the past) can you read how

they love Freedom more?

(…)

Kiss me with your teeth.

All things can be done

whisper museum ovens of

a war that Freedom won.”

let us sell snow

to under-developed nations,

(Is it true one of our national leaders

was a Roman Catholic?)

let us terrorize Alaska,

let us unite

Church and State”

my good demon said:

<Lay off documents!>

Everybody was watching me

burn my books-

I swung my liberty torch

happy as a gestapo brute;

the only thing I wanted to save

was a scar

a burn or two but

my good demon said:

<Lay off documents!

The fire’s not important!>

The pile was safely blazing.

I went home to take a bath.

I phoned my grandmother.

She is suffering from arthritis.

<Keep well,> I said, <don’t mind the pain.>

<You neither,> she said.

Hours later I wondered

did she mean

don’t mind my pain

or don’t mind her pain?

Whereupon my good demon said:

<Is that all you can do?>”

meu gênio bom disse:

<Livre-se dos documentos!>

Todos me observavam

queimar meus livros-

eu sacudi minha tocha da liberdade

feliz como um bruto da gestapo;

a única coisa que eu queria salvar

era uma cicatriz

uma queimadura ou duas mas

meu gênio bom disse:

<Livre-se dos documentos!

O fogo não importa!>

A pilha estava ardendo em segurança.

Fui pra casa tomar um banho.

Liguei pra minha avó.

Ela sofre de artrite.

<Fica bem,> disse eu, <vê se releva a dor.>

<Você também,> ela disse.

Horas depois, caiu minha ficha

será que ela quis dizer

relevar a minha dor

ou relevar a sua dor?

Nisso meu gênio bom disse:

<Isso é tudo que você pode fazer?>”

Fragmento traduzido de “Millenium”

Quando não paramos de sentir a dor e o terror

Somos os policiais

de nossa própria transgressão

e os outros olham horrorizados

carrascos covardes!

Vesti uma máscara para esconder minha gargalhada de escárnio

Eu tenho saúde onde importa

Eu não sigo o circuito

Inquisição auto-socrática

No use to tell a man he’s a Jew

I’m making a lampshade [abajur] out of your kiss

Confess! confess!

is what you demand

although you believe you’re giving me everything”

girls with whom he shared his power

now old and powerful.

His strategies returned

diagrammed like a geodesic sphere,

He balanced them on his forehead

weaving like a seal.”

He fell near the balloon.

Children hushed back

as if their toy

could catch the disease.

Secret Service men,

ex-athletes chosen for their height,

made a ring around the body.”

The ambulance!

Havana

April 1961

Alexander Trocchi, Public Junkie,

Priez Pour Nous

Who is purer

more simple than you?

Priests play poker with the burghers,

police in underwear

leave Crime at the office,

our poets work bankers’ hours

retire to wives and fame-reports.

The spike flashes in your blood

permanent as a silver lighthouse.”

I tend to get distracted

by hydrogen bombs,

by Uncle’s disapproval

of my treachery

to the men’s clothing industry.

I find myself

believing public clocks,

taking advice

from the Dachau generation.”

She is getting old.

Her body tells her everything.

She has put aside cosmetics.

She is a prison of truth.

Make her get up!

dance the seven veils!

Poems! silence her body!

Make her friend of mirrors!

(…)

Can’t I pretend

she grows prettier?

be a convict?

Can’t my power fool me?

Can’t I live in poems?

Hurry up! poems! lies!

Damn your weak music!

You’ve let arthritis in!

You’re no poem

you’re a visa.

Não posso fingir

que ela envelhece e embeleza?

ser um presidiário?

Meu poder não pode me enganar?

Não posso eu viver em poemas?

Vamos logo! poemas! mentiras!

Foda-se sua musiquinha ruim!

Você agora tem artrite!

Você não é um poema

você é um visto estrangeiro.

Fragmento traduzido de “On the Sickness of My Love”

A política das desculpas

Parliamends

The Failure of a Secular Life

The pain-monger came home

from a hard day’s torture.

He came home with his tongs.

He put down his black bag.

O Fracasso de uma Vida Secular

O promotor de desgraças chegou em casa

depois de um duro dia de torturas.

Ele chegou com suas pinças.

E deixou no chão sua sacola negra.

Deveria me aborrecer por não me darem uma segunda chance, se eu nunca lhes dei uma primeira?

O remorso morde ou morre

Seja gentil: exclua o gentio

Mesmo o escrofuloso tem seus dias bons

Falso acha falso verdadeiro.

O aperreio vem de dentro, não de fora.

Ora, ora, se não é absurdo termos vivido outras vidas iguais e condenarmos veemente quem tenha manifestado vivamente essa impressão (o déjà vu), não podemos saber se nunca vivemos outra vida igual, afinal, porque até o que nos parece inédito é só repetição literal, e disso havendo até provas!… Eu já não havia escrito isso antes? É, agora estou lembrado…

My zen master is a grand old fool.

I caught him worshipping me yesterday,

so I made him stand in a foul corner

with my rabbi, my priest, and my doctor.”

mothers, statues, madonnas, ruins-

I’m stripped, suckled, weaned,

I leap, love, anonymous as insect.”

To love you

is to live

my ideal diary

which I have

promised my body

I will never write!”

Sky

The great ones pass

they pass without touching

they pass without looking

each in his joy

each in his fire

Of one another

they have no need

they have the deepest need

The great ones pass

(…)

they pass

like stars of different seasons

like meteors of different centuries

Fire undiminished

by passing fire

laughter uncorroded

by comfort

they pass one another

without touching without looking

needing only to know

the great ones pass”

Now more than ever

I want enemies

You who thrive

in the easy world of modern love

look out for me

for I have developed a terrible virginity

and meeting me

all who have done more than kiss

will perish in shame

with warts and hair on their palms”

Jews who walk

too far on Sabbath

will be stoned

Catholics who blaspheme

electricity applied

to their genitals

Buddhists who acquire property

sawn in half”

A CURIOSA E VELHA DANÇA DO PECADO

PERFUME INDIANO

QUE EXALA PESCADO

A girl I knew

sleeps in some bed

and of all the lovely things

I might say I say this

I see her body puzzled

with the mouthprints

of all the kisses of all the men

she’s known

like a honky-tonk [gafieira] piano

ringed with years of cocktail glasses

and while she cranks and tinkles [gira e tilinta; trocadilho: ou gira e mija]

in the quaint old sinful dance

I walk through

the blond November rain [outra alusão a chuva dourada?]

punishing her with my happiness”

The food has no hope of real life, but still, in these regained, however mutilated shapes, it resists, and for its victories claims the next day’s hunger and the body’s joy. (…) Oh to stand in the Ganges wielding a yard of intestine.”

I always wanted to set fire to your houses. I’ve been in them. Through the front doors and the back. I’d like to see them burn slowly so I could visit many and peek in the falling windows. I’d like to see what happens to those white carpets you pretended to be so careless about. I’d like to see a white telephone melting. We don’t want to trap too many inside because the streets have got to be packed with your poor bodies screaming back and forth.”

“—Quando você se expôs pela última vez?

Domingo de manhã para uma grande multidão no saguão da Rainha Elizabeth.

Engraçadinho. Você sabe o que eu quero dizer.

Me expor a quê?

Uma mulher.

Ah.”

A rosy sky would improve the view from anywhere. It would be a mercy. Oh, to see the roofs devoured and the beautiful old level of land rising again.”

Mary runs the Cafeteria and the Boss exposes himself to her regularly.”

The Boss has a wife to whom he must expose himself every once in a while. She has her milkmen. The city is orderly.

There are white bottles standing in front of a million doors.And there are Conventions. Multitudes of bosses sharing the pleasures of exposure.

I shall go mad. They’ll find me at the top of Mount Royal impersonating Genghis Khan. Seized with laughter and pus.”

Fire would be best. Flames. Bright windows. Two cars exploding in each garage. But could I ever manage it. This way is slower. More heroic in a way. Less dramatic of course.”

The windows leaked like a broken meat freezer.”

his father was the one who had the oven contract.”

the sky clean but only for him, free to shiver, free to hate, free to begin.”

NA FEIRA TUDO EM PAZ

SÓ OS CABIDES HUMANOS

The demons of adulterers, everyday drunks,

professional irrationalists, the fatuous possessed,

these cheap easy demons so common

to the courting procedure,

refused to appear due to insufficient publicity.”

I once believed a single line

in a Chinese poem could change

forever how blossoms fell”

cattle have carved out of time

wandering from meadowlands to feasts”

O pão da lei é seco como a nuvem sem chuva.

Don’t bite your nails, I told him.

Don’t eat carpets.

Be careful of the rabbits.

Be cute.

Don’t stay up all night watching

parades on the Very Very Very Late Show.

Don’t ka-ka in your uniform.”

I don’t like the way you go to work every morning.

How come the buses still run?

How come they’re still making movies?

I believe with a perfect faith in the Second World War.

I am convinced that it happened.

I am not so sure about the First World War.

The Spanish Civil War – maybe.

I believe in gold teeth.

I believe in Churchill.

Don’t tell me we dropped fire into cribs [cradles].

I think you are exaggerating.

The Treaty of Westphalia has faded like a lipstick smudge on the Blarney Stone.

Napoleon was a sexy brute.

Hiroshima was Made in Japan out of paper.

I think we should let sleeping ashes lie.

I believe with a perfect faith in all the history I remember, but it’s getting harder and harder to remember much history.

There is sad confetti sprinkling

from the windows of departing trains.

I let them go. I cannot remember them.

They hoot mournfully out of my daily life.

I forget the big numbers,

I forget what they mean.”

The Bus

I was the last passenger of the day,

I was alone on the bus,

I was glad they were spending all that money

just getting me up Eighth Avenue.

Driver! I shouted, it’s you and me tonight,

let’s run away from this big city

to a smaller city more suitable to the heart,

let’s drive past the swimming pools of Miami Beach,

you in the driver’s seat, me several seats back,

but in the racial cities we’ll change places

so as to show how well you’ve done up North,

and let us find ourselves some tiny American fishing village

in unknown Florida

and park right at the edge of the sand,

a huge bus pointing out,

metallic, painted, solitary,

with New York plates.”

A Negress with

an appetite

helped him think

he wasn’t white.”

A lot of people think you are beautiful

How do I feel about that

I have no feeling about that

I had a wonderful reason for not merely

courting you

It was tied up with the newspapers

I saw secret arrangements in high offices

I saw men who loved their worldliness

even though they had looked through

big electric telescopes

they still thought their worldliness was serious

Muitas pessoas pensam que você é bonita

O que penso a respeito

Nada em particular

Eu tinha ótimas razões para nem sequer

cantar você

Tinha relação com os jornais

Eu vi arranjos secretos em importantes gabinetes

Eu vi homens que amavam sua mundanidade

mesmo que tivessem olhado por aqueles

grandes telescópios elétricos

ainda pensavam que sua mundanidade era séria

Fragmento traduzido de I Had It for A Moment”

Eu olho pasmo para a luxúria de minha cor

Alguém marcha por mim em mim até mim”

Pensei que heróis éramos nós

Andei lendo muita história”

Acho que os Aztecas nunca estiveram adormecidos

não importa o que ensinei às crianças

Acho que ninguém nem nunca dormiu a não ser ele

que reúne o passado em histórias

A magia vai de mão em mão”

Destiny! why do you find me in this bathtub,

idle, alone, unwashed, without even

the intention of washing except at the last moment? Why don’t you find me at the top of a telephone pole, repairing the lines from city to city?

Why don’t you find me riding a horse through Cuba, a giant of a man with a red machete?

Why don’t you find me explaining machines

to underprivileged pupils, negroid Spaniards,

happy it is not a course in creative writing?”

Queen Victoria

The 20th century belongs to you and me

Let us be two severe giants

(not less lonely for our partnership)

who discolour test tubes in the halls of science

who turn up unwelcome at every World’s Fair

heavy with proverb and correction

confusing the star-dazed tourists

with our incomparable sense of loss”

Very few people have thighs”

To watch her pull on her nylons is all one needs of ballet or art.”

Now what could be more normal than marriage? Can you think of anything more normal? Of course you can’t. It makes you feel less isolated, part of the whole community. Our people are getting married all the time.”

Desire is the last church”

Winter Bulletin

Toronto has been good to me

I relaxed on TV

I attacked several dead horses

I spread rumours about myself

I reported a Talmudic quarrel

with the Montreal Jewish Community

I forged a death certificate

in case I had to disappear

(…)

I thought about the future

and how little I know about animals

The future seemed unnecessarily black and strong

as if it had received my casual mistakes

through a carbon sheet

Now you must learn to read

newspapers without laughing.

No hysterical headline breakfasts.

Police be your Guard,

Telephone Book your Brotherhood.

Action! Action! Action!

Goodbye Citizen.”

ASILO DE LUXÚRIA

the sun stuck a gun in his mouth

the wind started to skin him

Give up the Plan give up the Plan”

The Music Crept By Us

I would like to remind

the management

that the drinks are watered

and the hat-check girl

has syphilis

and the band is composed

of former S.S. monsters

However since it is

New Year’s Eve

and I have lip cancer

I will place my

paper hat on my

concussion and dance”

Answer the phone, another family

Someone wants to say hello about nothing

Answer the phone, you who followed your career

past the comfort of gossip

who listen to the banal regular ringing

and give your venom to it

enforce it with your hatred

(…)

Your parents rush to stop the ringing

(…)

you shall set aside a hiding place

you shall not alter your love”

I am sorry that the old worker must go

who called me mister when I was twelve

and sir when I was twenty”

I loved your puns about snow

even if they lasted the full seven-month

(…) Go write your memoirs

for the Psychedelic Review.”

and now they are ashamed

like a successful outspoken Schopenhauerian

whose room-mate has committed suicide.

Suddenly they are all making movies.

I have no one to buy coffee for.”

Long live you chronic self-abusers!

you monotheists!

you familiars of the Absolute

sucking at circles!”

daughters of the new middle-class

who wear your mouths like Bardot

Come my darlings

the movies are true”

Narcissus

You don’t know anyone

You know some streets

hills, gates, restaurants

The waitresses have changed”

Cherry Orchards [Pomares de Cereja]

Canada some wars are waiting for you

some threats

some torn flags

Inheritance is not enough

Faces must be forged under the hammer

of savage ideas

Mailboxes will explode

in the cherry orchards

and somebody will wait forever

for his grandfather’s fat cheque

From my deep cafe I survey the quiet snowfields

like a U.S. promoter

of a new plastic snowshoe

looking for a moving speck

a troika perhaps

an exile

an icy prophet

an Indian insurrection

a burning weather station

There’s a story out there boys

Canada could you bear some folk songs

about freedom and death

I carry a banner:

<The Past is Perfect>

my little female cousin

who does not believe

in our religious destiny

rides royally on my nostalgia”

Bullets

Listen all you bullets

that never hit:

a lot of throats are growing

in open collars

like frozen milk bottles

on a 5 a.m. street

throats that are waiting

for bite scars

but will settle

for bullet holes”

It will all come round again: the heartsick teachers who make too much of poetry, their students who refuse to suffer, the cache of rifles in the lawyer’s attic: and then the magic, the 80-year comet touching the sturdiest houses.”

when poems grew like butterflies on the garbage of his life.”

…they who whip their minds to recall an ancient lucky orgasm (…) they are the founders, they are the bankers-of History!…”

Let me be neither

father nor child

but one who spins

on an eternal unimportant loom”