NOTAS DE LITERATURA I/III – Adorno (trad. Jorge de Almeida), ed. 34, 2003. Org. alemã Rolf Tiedemann

“Quem se propõe a traduzir os ensaios de Theodor Adorno tem de enfrentar o desafio de transpor para outra língua um texto que, para os próprios leitores alemães, muitas vezes soa quase como língua estrangeira.”

“o <estilo atonal> de Adorno não é uma simples idiossincrasia, mas uma tentativa de solucionar o antigo impasse histórico da dialética, desde que Hegel a definiu, em uma célebre conversa com Goethe, como o <espírito de contradição organizado>.” ???

“Dois dos ensaios deste 1º volume de Notas de literatura já constavam com excelentes traduções em português, realizadas na década de 70 por Modesto Carone (Posição do narrador no romance contemporâneo) e Rubens Rodrigues Torres Filho (Lírica e sociedade).”

* * *

O ENSAIO COMO FORMA (1954-8)

Ou: o melhor inimigo da filosofia

A forma do ensaio ainda não conseguiu deixar para trás o caminho que leva à autonomia, um caminho que sua irmã, a literatura, já percorreu há muito tempo, desenvolvendo-se a partir de uma primitiva e indiferenciada unidade com a ciência, a moral e a arte.

Lukács

“Ainda hoje, elogiar alguém como écrivain é o suficiente para excluir do âmbito acadêmico aquele que está sendo elogiado.” E não é assim mesmo?

O ensaio sempre fala de algo já formado ou, na melhor das hipóteses, de algo que já tenha existido; é parte de sua essência que ele não destaque coisas novas a partir de um nada vazio, mas se limite a ordenar de uma nova maneira as coisas que em algum momento já foram vivas.

Lukács

“Ser um homem com os pés no chão ou com a cabeça nas nuvens, eis a alternativa.”

“como seria possível, afinal, falar do estético de modo não-estético, sem qualquer proximidade com o objeto, e não sucumbir à vulgaridade intelectual nem se desviar do próprio assunto?”

“Na alergia contra as formas, consideradas como atributos meramente acidentais, o espírito científico acadêmico aproxima-se do obtuso espírito dogmático. …e a reflexão sobre as coisas do espírito torna-se privilégio dos desprovidos de espírito.”

“Esse processo se manifesta de modo mais evidente em Stefan Zweig, que conseguiu em sua juventude escrever alguns ensaios bastante originais, mas que acabou regredindo, em seu livro sobre Balzac, ao estudo psicológico da personalidade criativa. (…) Ensaios desse tipo acabam se confundindo com o estilo de folhetim que os inimigos da forma ensaística costumam confundir com o ensaio.”

“ensaios ruins não são menos conformistas do que dissertações ruins.”

“Com a objetivação do mundo, resultado da desmitologização, a ciência e a arte se separaram; é impossível restabelecer com um golpe de mágica uma consciência para a qual intuição e conceito, imagem e signo constituam uma unidade.”

“Onde a filosofia, mediante empréstimos da literatura, imagina-se capaz de abolir o pensamento objetivante e sua história, enunciada pela terminologia habitual como a antítese entre sujeito e objeto, e espera até mesmo que o próprio Ser ganhe voz em uma poesia que junta Parmênides e Max Jungnickel, ela acaba se aproximando da desgastada conversa fiada sobre cultura.”

“A ambiciosa transcendência da linguagem para além do sentido acaba desembocando em um vazio de sentido, que facilmente pode ser capturado pelo mesmo positivismo diante do qual essa linguagem se julga superior.”

“se a arte pretende tornar-se imediatamente ciência, adequando-se aos parâmetros científicos, então ela sanciona a manipulação pré-artística da matéria, tão carente de sentido quanto o Seyn (Ser) dos seminários filosóficos.”

“A obra de Marcel Proust, tão permeada de elementos científicos positivistas quanto a de Bergson, é uma tentativa única de expressar conhecimentos necessários e conclusivos sobre os homens e as relações sociais, conhecimentos que não poderiam sem mais nem menos ser acolhidos pela ciência, embora sua pretensão à objetividade não seja diminuída nem reduzida a uma vaga plausibilidade.” “Sob a pressão do espírito científico de seus postulados, onipresente até mesmo no artista, ainda que de modo latente, Proust se serviu de uma técnica que copiava o modelo das ciências, para realizar uma espécie de reordenação experimental, com o objetivo de salvar ou restabelecer aquilo que, nos dias do individualismo burguês, quando a consciência individual ainda confiava em si mesma e não se intimidava diante da censura rigidamente classificatória, era valorizado como os conhecimentos de um homem experiente, conforme o tipo do extinto homme de lettres, que Proust invocou novamente como a mais alta forma do diletante.”

“O jovem escritor que queira aprender na universidade o que seja uma obra de arte, uma forma da linguagem, a qualidade estética, e mesmo a técnica estética, terá apenas, na maioria dos casos, algumas indicações esparsas sobre o assunto, ou então receberá informações tomadas já prontas da filosofia em circulação naquele momento, que serão aplicadas de modo mais ou menos arbitrário ao teor das obras em questão. Caso ele se volte para a estética filosófica, será entulhado com proposições tão abstratas que nada dizem sobre as obras que ele deseja compreender, nem se identificam, na verdade, com o conteúdo que, bem ou mal, ele está buscando.”

“Mesmo as doutrinas empiristas, que atribuem à experiência aberta e não antecipável a primazia sobre a rígida ordem conceitual, permanecem sistemáticas na medida em que definem condições para o conhecimento, concebidas de um modo mais ou menos constante, e desenvolvem essas condições em um contexto o mais homogêneo possível. Desde Bacon – ele próprio um ensaísta – o empirismo tem sido um <método>.”

“Nos processos do pensamento, a dúvida quanto ao direito incondicional do método foi levantada quase tão-somente pelo ensaio.”

O grande Sieur de Montaigne talvez tenha sentido algo semelhante quando deu a seus escrito o admiravelmente belo e adequado título de Essais.” Lukács

“É por isso que o ensaio não se deixa intimidar pelo depravado pensamento profundo, que contrapõe verdade e história como opostos irreconciliáveis. (…) O ensaio desafia a noção de que o historicamente produzido deve ser menosprezado como objeto da teoria. A distinção entre uma filosofia primeira e uma mera filosofia da cultura, que pressuporia aquela e se desenvolveria a partir de seus fundamentos, é uma tentativa de racionalizar teoricamente o tabu sobre o ensaio, mas essa distinção não é sustentável.”

“Enquanto o movimento que surge com Kant, voltado contra os resíduos escolásticos no pensamento moderno, substitui as definições verbais pela concepção dos conceitos a partir do processo em que são gerados, as ciências particulares ainda insistem, para preservar a imperturbável segurança de suas operações, na obrigação pré-crítica de definir os conceitos.”

“Embora o pensamento tradicional também se alimente dos impulsos dessa experiência, ele acaba eliminando, em virtude de sua forma, a memória desse processo. (…) o ensaio procede, por assim dizer, metodicamente sem método.”

“é mera superstição da ciência propedêutica pensar os conceitos como intrinsecamente indeterminados, como algo que precisa de definição”

“A fenomenologia transforma em fetiche a relação dos conceitos com a linguagem. O ensaio é tão cético diante do procedimento fenomenológico da análise de significados quanto diante da definição pura e simples.”

“Mas o ensaio não pode nem dispensar os conceitos universais – mesmo a linguagem que não fetichiza o conceito é incapaz de dispensá-los –, nem proceder com eles de maneira arbitrária. (…) Nisso, Benjamin foi o mestre insuperável. [!]”

“O ensaio deveria ser interpretado como um protesto contra as 4 regras estabelecidas pelo Discours de la méthode

A SÉRIE INFINITA DOS ESTUDOS PRELIMINARES: “A ingenuidade do estudante que não se contenta senão com o difícil e o formidável é mais sábia do que o pedantismo maduro, cujo dedo em riste adverte o pensamento de que seria melhor entender o mais simples antes de ousar enfrentar o mais complexo, a única coisa que o atrai. Essa postergação do pensamento serve apenas para impedi-lo.”

“O ensaio continua sendo o que foi desde o início, a forma crítica par excellence; mais precisamente, enquanto crítica imanente de configurações espirituais e confrontação daquilo que elas são com o seu conceito, o ensaio é crítica da ideologia.”

“O pensamento não é poupado pela rebelião baudelairiana da poesia contra a natureza enquanto reserva social.”

“o ensaio é mais dialético do que a dialética, quando esta discorre sobre si mesma. Ele toma a lógica hegeliana ao pé da letra” “a relação entre natureza e cultura é o seu verdadeiro tema. (…) Mas a cultura não é, para o ensaio, um epifenômeno que se sobrepõe ao Ser [aqui, Adorno está tacitamente contrapondo a Escola de Frankfurt a Husserl-Heidegger ou a auto-intitulada pós-filosofia continental] e deve, portanto, ser destruído”

“O ensaio não glorifica a preocupação com o primordial como se esta fosse mais primordial do que a preocupação com o mediado, pois a própria primordialidade é, para ele, objeto de reflexão, algo negativo.”

“Astuciosamente, o ensaio apega-se aos textos como se estes simplesmente existissem e tivessem autoridade. (…) algo comparável à antiga exegese teológica das Escrituras.”

Tudo que é sólido se torna tubo de ensaio.

“o ensaio salva um momento da sofística.”

“A hostilidade do pensamento crítico oficial em relação à felicidade é perceptível sobretudo na dialética transcendental de Kant, que gostaria de eternizar as fronteiras traçadas entre o entendimento e a especulação, a fim de impedir <o divagar por mundos inteligíveis>.” Esse trecho, verdadeiro que seja, está transbordando de ironias!!

Todo ente em repouso perde a referência da sua posição e situação, apesar da sublime tranqüilidade momentânea ou aparente.

Recuperando a fé na escrita? “O ensaio coordena os elementos, em vez de subordiná-los; e só a quintessência de seu teor, não o seu modo de exposição, é comensurável por critérios lógicos.”

“A atualidade do ensaio é a do anacrônico. A hora lhe é mais desfavorável do que nunca. Ele se vê esmagado entre uma ciência organizada na qual todos se arrogam o direito de controlar a tudo e a todos e uma filosofia tornada acomodada”

“Ele escapa à ditadura dos atributos que, desde a definição do Banquete, foram prescritos às idéias como <existindo eternamente, não se modificando ou desaparecendo, nem se alterando ou restringindo> (…) e entretanto o ensaio permanece sendo <idéia>, na medida em que não capitula diante do peso do existente, nem se curva diante do que apenas é.”

Hoje dizer sim, amanhã talvez…

Não sei o porquê, hoje, 19/08, li duas citações muito antigas, que devo ter conhecido em 2008, 2009, ambas figurando Nietzsche, em duas fontes diferentes (este ensaio de Adorno e a biografia de Freud por Roazen, citando o próprio Freud em História do movimento psicanalítico): a primeira (às 19h, no metrô) a famosa declaração de Segismundo alegando que não lia Nietzsche deliberadamente para se furtar ao prazer de descobrir nele o que ele mesmo vinha descobrindo pela psicanálise; a segunda (0h, à meia-noite da eternidade, embarcando no dia 20) aquela famosíssima (fragmento póstumo), direta de Nietzsche, de que dizer sim a um momento é dizer sim a todos os momentos do universo (estranho arremate para um ensaio sobre o ensaio, para um meta-ensaio, evocar tão extemporaneamente o eterno retorno!). Mais estranha ainda esta coincidência brutal que me aconteceu…

Afirmar o presente é negar o passado – viva, viva, VIVA?!

Negar o presente é-se aborrecer em vão do eixo porta que separa!…

“Apenas a infração à ortodoxia do pensamento torna visível, na coisa, aquilo que a finalidade objetiva da ortodoxia procurava, secretamente, manter invisível.”

SOBRE A INGENUIDADE ÉPICA (1943), esboço para Dialética do Esclarecimento

“Tal como a vista da terra distante é agradável aos náufragos,

quando, em mar alto, o navio de boa feitura Posido

faz soçobrar, sob o impulso dos ventos e de ondas furiosas;

e ledos pisam a praia, enfim tendo da Morte escapado;

do mesmo modo a Penélope a vista do esposo era cara

sem que pudesse dos cândidos braços, enfim, desprendê-lo.”

Homero, Odisséia, XXIII, 234ss. – trad. Carlos Alberto Nunes

Und wie erfreulich das Land herschwimmenden Männern erscheinet,

Welchen Poseidons Macht das rüstige Schiff in der Meerflut

Schmetterte, duch die Gewalt des Orkans und geschwollener Brandung;

[…] Freudig anjetzt ersteigen sie Land, dem Verderben entronnen,

So war ihr auch erfreulich der Anblick ihres Gemahls,

Und fest hielt um den Hals sie die Lilienarme geschlungen“

trad. Voss

„O narrador foi desde sempre aquele que resistia à fungibilidade universal, mas o que ele tinha para relatar, historicamente e até mesmo hoje, já era sempre algo fungível.”

“A epopéia imita o fascínio do mito, mas para amenizá-lo. Karl Theodor Preuss chamou essa atitude de <estupidez primordial> (Urdummheit)

Murray, Five stages of Greek religion, 1925

“o narrador passa a controlar o medo”

“O elogio a essa estupidez ingênua da forma acabou transformando a narrativa épica em ideologia, cujo último resíduo está à venda na falsa concretude da antropologia filosófica atual.”

“Ao apegar-se, em sua limitação, ao que aconteceu apenas uma vez, o mito adquire um traço característico que transcende essa limitação.”

“Na ingenuidade épica vive a crítica da razão burguesa.”

“Assim como é fácil ridicularizar a simplicidade homérica, que era já o contrário da simplicidade, ou evocá-la maliciosamente como argumento contra o espírito analítico, assim também seria fácil mostrar o acanhamento de Martin Salander, o último romance de Gottfried Keller” “Nessa recordação daquilo que no fundo não se deixa mais recordar, Keller expressa em sua descrição dos 2 advogados trapaceiros, irmãos gêmeos e duplos um do outro, um quê de verdade, justamente a verdade sobre a fungibilidade hostil à memória, que só seria alcançada por uma teoria que determinasse de forma transparente, a partir da experiência da sociedade, a perda da experiência.”

“A precisão da linguagem descritiva busca compensar a inverdade de todo discurso. O impulso que leva Homero a descrever um escudo como uma paisagem [Ilíada], elaborando uma metáfora para a ação até o ponto em que, tornada autônoma, ela rasga a trama da narrativa [o velho artifício do objeto divino onisciente e simbólico: nele está desenhada a própria batalha que ora se trava], é o mesmo impulso que levou Goethe, Stifter e Keller, os maiores narradores alemães do XIX, a desenhar e pintar em vez de escrever, e os estudos arqueológicos de Flaubert podem muito bem ter sido inspirados por este mesmo impulso.”

A estupidez e cegueira do narrador – não é por acaso que a tradição concebe Homero como um cego”

“As últimas novelas de Stifter testemunham com extrema clareza a passagem da fidelidade ao objeto à obsessão maníaca, e nenhuma narrativa jamais participou da verdade sem ter encarado o abismo no qual mergulha a linguagem, quando esta pretende se transformar em nome e imagem.”

“Enquanto a linguagem, para continuar sendo de fato linguagem, ainda pretende nessas expressões [partículas de coordenação] ser a síntese judiciosa dos nexos entre as coisas, ela renuncia ao juízo quando usa palavras que dissolvem justamente esse nexo. [Poesia] Na concatenação épica, onde a condução do pensamento enfim encontra repouso, a linguagem abre mão de seu direito ao juízo, embora ao mesmo tempo continue sendo, inevitavelmente, juízo.”

Beide, da über der Freier entsetzlichen Mord sie geratschlagt,

Kamen zur prangenden Stadt der Ithaker; nämlich (o saber criticado por Adorno)

Odysseus]

Folgete nach; ihm voraus war Telemachos früher gegangen.“

Odisséia, XXIV, 135ss.

No verde vale, lá onde a fresca fonte

Desce a montanha, murmurando a cada dia,

E a amável sempre-viva no outono me floresce,

Nessa tranqüila paz, querida, pretendo

Te buscar, ou quando, à meia-noite,

A vida invisível ressoa na floresta,

E sobre mim as flores sempre felizes,

As estrelas, desabrocham brilhando”

Hölderlin, À Esperança (An die Hoffnung)

Im grünen Tale, dort, wo der frische Qwell

Vom Berge täglich rauscht und die liebliche

Zeitlose mir am Herbsttag aufblüht,

Dort, in der Stille, du holde, will ich

Dich suchen, oder wenn in der Mitternacht

Das unsichtbare Leben im Haine wallt,

Und über mir die immerfrohen

Blumen, die blühenden Sterne glänzen“

Thomson, Studies in the Odyssey, 1914

„A imagem desenvolvida pela linguagem acaba esquecendo seu próprio significado, para incorporar na imagem a própria linguagem, em vez de tornar a imagem transparente ao sentido lógico do contexto.”

“A conversão objetiva da pura exposição, alheia ao significado, em alegoria objetiva é o que se manifesta tanto na desintegração lógica da linguagem épica quanto no descolamento da metáfora em meio ao curso da ação literal.”

POSIÇÃO DO NARRADOR NO ROMANCE CONTEMPORÂNEO, originalmente conferência falada depois transposta em ensaio em 1954.

“Assim como a pintura perdeu muitas de suas funções tradicionais para a fotografia, o romance as perdeu para a reportagem e para os meios da indústria cultural, sobretudo para o cinema. O romance precisaria se concentrar naquilo de que não é possível dar conta por meio do relato. Só que, em contraste com a pintura, e emancipação do romance em relação ao objeto foi limitada pela linguagem, já que esta ainda o constrange à ficção do relato: Joyce foi coerente ao vincular a rebelião do romance contra o realismo a uma revolta contra a linguagem discursiva.”

“Noções como a de <sentar-se e ler um bom livro> são arcaicas. Isso não se deve meramente à falta de concentração dos leitores, mas sim à matéria comunicada e a sua forma. Pois contar algo significa ter algo especial a dizer, e justamente isso é impedido pelo mundo administrado, pela estandardização e pela mesmice. (…) a disseminada subliteratura biográfica é um produto da desagregação do romance.”

“numa época em que os jornalistas se embriagavam sem parar com os feitos psicológicos de Dostoiévski, a ciência, sobretudo a psicanálise freudiana, há muito tinha deixado para trás aqueles achados do romancista. (…) se porventura existe psicologia em suas obras, ela é uma psicologia do caráter inteligível, da essência, e não do ser empírico, dos homens que andam por aí. E exatamente nisso Dostoiévski é avançado.”

Se o romance quiser permanecer fiel a sua herança realista e dizer como realmente as coisas são, então ele precisa renunciar a um realismo que, na medida em que reproduz a fachada, apenas a auxilia na produção do engodo.”

“quanto mais se alienam uns dos outros os homens, os indivíduos e as coletividades, tanto mais enigmáticos eles se tornam uns para os outros.”

“Em matéria de suscetibilidade contra a forma do relato, ninguém superou Marcel Proust. Sua obra pertence à tradição do romance realista e psicológico, na linha da extrema dissolução subjetivista do romance, uma tradição que leva, sem qualquer continuidade histórica em relação ao autor francês, a obras como Niels Lyhne de Jacobsen e Malte Laurids Brigge de Rilke. Quanto mais firme o apego ao realismo da exterioridade, ao gesto do <foi assim>, tanto mais cada palavra se torna um mero <como se>”

“a precisão de Proust, impelida ao quimérico, sua técnica micrológica, sob a qual a unidade do ser vivo acaba se esfacelando em átomos, nada mais é do que um esforço da sensibilidade estética para produzir essa prova, sem ultrapassar os limites do círculo mágico da forma.”

“seu ciclo de romances se inicia com a lembrança do modo como uma criança adormece, e todo o primeiro livro não é senão um desdobramento das dificuldades que o menino enfrenta para adormecer, quando sua querida mãe não lhe dá o beijo de boa-noite.”

“O romance tradicional, cuja idéia talvez se encarne de modo mais autêntico em Flaubert, deve ser comparado ao palco italiano do teatro burguês. Essa técnica era uma técnica de ilusão. O narrador ergue uma cortina e o leitor deve participar do que acontece, como se estivesse presente em carne e osso. A subjetividade do narrador se afirma na força que produz essa ilusão e na pureza da linguagem que, através da espiritualização, é ao mesmo tempo subtraída do âmbito da empiria, com o qual ela está comprometida. Um pesado tabu paira sobre a reflexão: ela se torna o pecado capital contra a pureza objetiva. Hoje em dia, esse tabu, com o caráter ilusório do que é representado, também perde sua força.”

“A nova reflexão é uma tomada de partido contra a mentira da representação, e na verdade contra o próprio narrador, que busca, como um atento comentador dos acontecimentos, corrigir sua inevitável perspectiva.”

“Só hoje a ironia enigmática de Thomas Mann, que não pode ser reduzida a um sarcasmo derivado do conteúdo, torna-se inteiramente compreensível”

“o leitor é ora deixado do lado de fora, ora guiado pelo comentário até o palco, os bastidores e a casa de máquinas. O procedimento de Kafka, que encolhe completamente a distância, pode ser incluído entre os casos extremos, nos quais é possível aprender mais sobre o romance contemporâneo do que em qualquer das assim chamadas situações médias <típicas>. (…) Seus romances, se é que de fato eles ainda cabem nesse conceito, são a resposta antecipada a uma constituição do mundo na qual a atitude contemplativa tornou-se um sarcasmo sangrento

“O sujeito literário, quando se declara livre das convenções da representação do objeto, reconhece ao mesmo tempo a própria impotência, a supremacia do mundo das coisas, que reaparece em meio ao monólogo.”

“uma linguagem de coisa, deterioradamente associativa, como a que entremeia o monólogo não apenas do romancista, mas também dos inúmeros alienados da linguagem primeira, que constituem a massa.”

“40 anos atrás, em sua Teoria do romance, Lukács perguntava se os romances de Dostoiévski seriam as pedras basilares das épicas futuras, caso eles mesmos já não fossem essa épica. De fato, os romances que hoje contam assemelham-se a epopéias negativas.”

“Nenhuma obra de arte moderna que valha alguma coisa deixa de encontrar prazer na dissonância e no abandono.”

“Essas obras estão acima da controvérsia entre arte engajada e arte pela arte, acima da alternativa, entre a vulgaridade da arte tendenciosa e a vulgaridade da arte desfrutável.”

PALESTRA SOBRE LÍRICA E SOCIEDADE, idem anterior, porém publicada como texto em 1957.

“Quem seria capaz de falar de lírica e sociedade, perguntarão, senão alguém totalmente desamparado pelas musas?”

“Mas dizer de grandes obras de arte que elas são ideologia não é simplesmente fazer injustiça ao próprio teor de verdade dessas obras, é também falsear o conceito de ideologia.”

“A idiossincrasia do espírito lírico contra a prepotência das coisas é uma forma de reação à coisificação do mundo, à dominação das mercadorias sobre os homens, que se propagou desde o início da Era Moderna e que, desde a Revolução Industrial, desdobrou-se em força dominante da vida.”

“Aqueles grandes poetas do passado remoto que são classificados pelos conceitos histórico-literários como representantes da lírica, p.ex. Píndaro e Alceu, mas também boa parte da obra de Walther von der Vogelweide, estão a uma distância descomunal de nossa mais primária representação do que seja a lírica.”

“O eu-lírico acabou perdendo essa unidade com a natureza, e agora se empenha em restabelecê-la, pelo animismo ou pelo mergulho no próprio eu.”

“os segundos que antecedem a bem-aventurança do sono são os mesmos que separam da morte a curta vida. Essa sublime ironia, depois de Goethe, decaiu em sarcasmo.”

“Mas a linguagem também não deve ser absolutizada enquanto voz do Ser, oposta ao sujeito lírico, como agradaria a muitas das teorias ontológicas da linguagem em voga atualmente.”

“A obra de Baudelaire foi a 1ª a registrar esse processo de consumação ou ultimação da ascendência da sociedade sobre o sujeito, na medida em que, como a mais alta conseqüência do Weltschmerz (dor do mundo) europeu, não se contentou com os sofrimentos do indivíduo, mas escolheu como tema de sua acusação a própria modernidade, enquanto negação completa do lírico, extraindo dela suas faíscas poéticas, por força de uma linguagem heroicamente estilizada.”

In ein freundliches Städtchen tret ich ein,

In den Strassen liegt roter Abendschein.

Aus einem offnen Fenster eben,

Über den reichsten Blumenflor

Hinweg, hört man Goldglockkentöne schweben,

Und eine Stimme scheint ein Nachtigallenchor,

Dass die Blüten beben,

Dass die Lüfte leben,

Dass in höherem Rot die Rosen leuchten vor.

Lang hielt ich staunend, lustbeklommen.

Wie ich hinaus vors Tor gekommen,

Ich weiss es wahrlich selber nicht.

Ach hier, wie liegt die Welt so licht!

Der Himmel wogt in purpurnem Gewühle,

Rückwärts die Stadt in goldnem Rauch;

Wie rauscht der Erlenbach,wie rauscht im Grund die Mühle!

Ich bin wie trunken, irrgeführt –

O Muse, du hast mein Herz berührt

Mit einem Liebeshauch!

Mörike

O POEMA DO BEUBO POLIGLOTA

Die Welt ist eine Mühle

Quão ensolarado é o mundo sombrio!

amigável cidadinha

entardecer vermelho espectral

hic!

como cheghic!i aqui?ic

Autotola!foolaDummKopfffff

halo-do-diabo

hálito amável cidade amigável

separação cidade campo litigiosa

cândida pocilga

onde há fumaça doirada

há ouro!

“os ritmos evocam estrofes gregas sem rima” o tradutor brasileiro CAGOU pq RIMOU!

“Os traços supostamente doentios de Mörike, identificados e relatados pelos psicólogos, e mesmo o estancamento de sua produção no último período, são o aspecto negativo de sua extrema compreensão do que é possível. Os poemas desse pároco hipocondríaco de Cleversulzbach, que costuma ser incluído no rol dos artistas ingênuos, são peças de virtuosismo jamais superadas por nenhum mestre de l’art pour l’art.” Não exagera, vai.

In windes-weben

War meine frage

Nur träumerei.

Nur lächeln war

Was du gegeben.

Aus nasser nacht

Ein glanz entfacht —-

Nun drängt der mai

Nun muss ich gar

Um dein aug und haar

Alle tage

In sehnen leben.“

Stefan George

„a atitude aristocrática“ „Ela não é a pose que exaspera o burguês, incapaz de manusear esses poemas, mas o eu-lírico é fruto da dialética que nega a si mesmo a identificação com o status quo enquanto esse mesmo sujeito segue intimamente ligado à realidade vigente” “a forma é medieval de um modo quase imperceptível” “a neo-romântica ausência de qualquer arcaísmo grosseiro eleva a canção acima de toda ficção desesperada, que ela entretanto oferece”

SAID BUT THROUGH… AMMY U.!

“mágica brutal de uma varinha de condão”

“A harmonia da canção é extorquida de uma extrema dissonância: ela se baseia naquilo que Valéry denominava refus, uma implacável recusa a todos os meios pelos quais a convenção lírica imagina capturar a aura das coisas.” “o ouvido do discípulo de Mallarmé ouve sua própria língua como se fosse estrangeira.”

Paradoxo típico de tradutor, o poeta precisa se trair para não trair a si mesmo.

“Assim como, p.ex., as mais sublimes obras musicais não se esgotam puramente na sua construção, mas a transcendem com um par de notas ou compassos supérfluos, o mesmo ocorre nesse poema com o <gar>, uma goetheana <sedimentação do absurdo>, pela qual a língua escapa da intenção subjetiva que trouxe a palavra ao texto.”

EM MEMÓRIA DE EICHENDORFF, idem, e textualizada em 58.

“O ritmo do tempo está abalado. Enquanto as vielas da filosofia ecoam a metafísica do tempo, o próprio tempo, antes medido pelo andamento contínuo do transcorrer de uma vida, alienou-se do humano; precisamente por isso ele é objeto de acirradas discussões.”

“Grandes artistas de vanguarda, como Schoenberg, não precisavam provar para si mesmos, demonstrando raiva em relação aos predecessores, o quanto haviam conseguido escapar da autoridade do passado.”

“A tradição só é negada por aqueles que jamais a romperão”

Um poeta lírico que virou cancionero popular, ideal como acompanhamento de música clássica: “o ciclo Die schöne Müllerin (A bela moleira), de Schubert, só é inteiramente acessível a quem alguma vez cantou, no coro da escola, o arranjo vulgar de Das Wandern ist des Müllers Lust (Passear é o prazer do moleiro).” Devo desistir antes de tentar, então?

“Quem bebe é mais esperto,

Já sente da idéia o gostinho,

Sem nenhum guia por perto,

Sobe aos céus bem rapidinho.”


“Quando agora a noite me encontra

E tudo escurece em severa pompa.”

“Ele não foi um poeta da pátria (Heimat), mas sim um poeta da nostalgia (Heimweh), no sentido de Novalis, de quem se sabia próximo.”

“Enquanto hoje, após a decadência da tradição, o conservadorismo, como um arbitrário elogio aos <vínculos>, serve apenas para justificar um estado de coisas ruim, houve um tempo em que ele queria algo bastante diverso, que só pode ser considerado em relação a seu contrário, a barbárie emergente.”

“Sua superioridade em relação a todos os reacionários que hoje lançam mão de sua obra é comprovada pelo fato de que ele, como também a grande filosofia de sua época, compreendia a necessidade da revolução, que tanto o assustava: ele encarna algo da verdade crítica da consciência daqueles que devem pagar o preço do passo adiante dado pelo Weltgeist.”

Uma atmosfera de tempestade pairava sobre o país inteiro, todos sentiam que algo grandioso estava para acontecer, ma expectativa calada e temerosa, ninguém do quê, havia invadido todos os ânimos, em maior ou menor grau. Nessa atmosfera sufocante apareceram, como sempre ocorre em catástrofes anunciadas, personagens estranhos e aventureiros inacreditáveis, como o Conde Saint-Germain, Cagliostro e outros ‘emissários do futuro’, por assim dizer”

“quanto menos a ordem pré-capitalista pode ser restaurada, mais obstinadamente a ideologia se aferra a sua essência, imaginando-a como sendo a-histórica e absolutamente garantida.”

O toi que la nuit rend si belle

“Eichendorff participa secretamente dessa corrente subterrânea da literatura alemã, que vai do Sturm und Drang e do jovem Goethe até Wedeking, Brecht e o expressionismo, passando por Büchner e muitas obras de Hauptmann.”

“Genialmente falsa é a metáfora do riacho, que murmura <para lá e para cá>, pois o movimento dos rios tem um único sentido, mas esse lá e cá espelha a insensatez daquilo que o murmúrio tem a dizer ao eu, que o escuta, em vez de localizá-lo; expressões como essa antecipam características do Impressionismo.”

Wolken ziehen wie schwere Träume


Se tens uma corça preferida,

Não a deixes pastar sozinha

“Nos contos de fada recolhidos pelos irmãos Grimm, nenhuma floresta é jamais descrita, ou mesmo caracterizada; e que floresta seria mais floresta do que as dos contos de fada?”

SÄNGERLEBEN

Schläft ein Lied in allen Dingen,

Die da träumen fort und fort,

Und die Welt hebt an zu singen,

Triffst du nur das Zauberwort

„Nenhuma das imagens de Eichendorff é apenas aquilo que é, mas nenhuma pode ser levada ao próprio conceito: essa flutuação vacilante do momento alegórico é seu meio poético.”

“Há mais de 50 anos, o esquecido esteta alemão Theodor Meyer desenvolveu, em seu livro Das Stilgesetz der Poesie, uma teoria tão modestamente exposta quanto astuciosamente concebida, contra toda a tradição do Laocoonte de Lessing e certamente sem conhecer Mallarmé.”

Und muss ich, wie im Strome dort die Welle,

Ungehört verrauschen an des Frülings Schwelle

„o murmúrio não é som mas sim ruído”

e cada vez mais rápido, sem parar para descansar, precipitou-se pelos jardins e vinhedos em direção à pacata cidade; pois até o murmúrio das árvores ele ouviu como um sussurro claro e compreensível, e os altos e fantasmagóricos choupos lhe pareciam 3x maiores, com suas longas sombras esticadas”

“exprime um estranhamento que não pode ser superado por nenhum pensamento, apenas pelo puro som.” O grito de Laura Palmer

Dass das weiche Wasser in Bewegung mit der Zeit den Stein besiegt. Du verstehst

Brecht sobre Lao-Tsé Tung (Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Tu me entendes)

EU LA(R)GO DAS PALAVRAS

“O que poderia ser dito de menos interessante sobre uma paisagem noturna, além de que ela é tranqüila? Seria possível imaginar um lugar-comum mais fatal do que a trompa do postilhão? [Mais ou menos equivalente hoje ao carteiro que toca a campainha]”

Um grito no meio da rua numa noite de cidade pequena apaga luzes, não as acende!

Onde a floresta murmura suave”

“Como na recapitulação musical, o poema se fecha em círculo.”

estriBRILHO

“Há mais substância na poesia de Eichendorff do que na dos inauguradores do Romantismo alemão, que ele considerava parte da história e não compreendia tão bem. Se o Romantismo, nas palavras de outro de seus representantes tardios, Kierkegaard, consuma em cada experiência o batismo do esquecimento, consagrando-a à eternidade da lembrança, certamente essa lembrança era necessária para fazer justiça à idéia do Romantismo, em contradição com sua própria imediatidade e presença.”

CODA (dá mais corda)

“O Liederkreis opus 39 de Schumann, sobre poemas de Eichendorff, é um dos grandes ciclos líricos da história da música.”

“da melancolia do primeiro Lied, em sustenido menor, ao êxtase do último, em sustenido maior.” “o último do ciclo, em fá sustenido maior, conduz essa progressão ainda uma quinta acima.” “o quarto desce a sol maior, uma terça em relação ao Lied anterior”

“A peça Wehmut é formalmente um intermezzo, como antes a Waldgespräch, mas agora um intermezzo inteiramente lírico, um momento de <auto-reflexão> do ciclo.”

Nicht schnell

“deve-se pensar em tranqüilas mínimas, não em semínimas.”

“tom maior pálido”

Waldgespräch é uma daquelas composições modelares de Schumman das quais surgiu Brahms.” “Musicalmente, a originalidade está nos acordes discrepantes, alterados cromaticamente, que expressam a ameaçadora atração.” “Sobre a palavra wissen há um acorde de subdominante que, com a formação de um duplo retardo, assume o timbre de um triângulo.”

“a claridade que se transforma em som”

“Pelo modo como esse acorde de nona é disposto e resolvido figurativamente, esse acorde evita a opulência que tantas vezes assume em Wagner, Strauss e compositores mais recentes.”

“o ouvido persegue esses intervalos no infinito”

“Nenhum ouvido atento pode resistir à extensão rítmica das palavras finais, Als flöge sie nach Haus (Como se ele voasse para casa), onde dois compassos 3/8 se transformam em um único.”

“Também aqui a estrofe final é essencialmente um Abgesang, mas o Lied como um todo se abstém de simetrias criadas por repetição”

“arrojadas dissonâncias, provavelmente únicas em Schumann e na 1ª metade do XIX (…) como se a modernidade dessa harmonização quisesse salvar o poema de seu envelhecimento”

legato de vozes harmônicas instrumentais”

Zwielicht, talvez a mais grandiosa peça do ciclo, quanto à forma uma simples canção estrófica, é extremamente contrapontística, em forte contraste com a anterior, trazendo aquela interpretação de Bach, infinitamente produtiva, que escandaliza o historicismo, embora mantenha Bach vivo, em constante metamorfose.”

7 NOTAS

O SER EM SI

DO LADO DE LÁ

CHEGA DÁ DÓ

ANDA DE RÉ

ANTES DE MIM

O FÁDO DO SOL

NA MINHA CABEÇA


cravo bem-temperado de molho pro cozido

“submergindo toda a música em sua profundidade”

“torna mais denso o tecido contrapontístico”

“o constante retorno da oposição entre ritardando e a tempo

“O senso formal de Schumman triunfa no fato de que, para compensar os momentos obstinadamente retardantes, ele escreve um Abgesang que flui quase sem resistência, chegando por isso mesmo a ser extremamente assombroso, embora o ritmo da trompa seja sempre marcado, até as duas últimas notas da parte vocal.”

“O núcleo da melodia da Mondnacht é um acorde de 7ª transposto.” “A aflição intensifica-se quando, antes das palavras Mit dem Mondesglanz herein, omite-se um acento no compasso.” VTNC!

A FERIDA HEINE, conferência textualizada em 56.

“Os nacional-socialistas não foram os primeiros a difamá-lo. Na verdade, eles quase o honraram quando atribuíram seu poema Die Loreley a um hoje célebre <poeta desconhecido>, sancionando inesperadamente como canção folclórica esses versos dissimuladamente cintilantes, que lembram figurinos de ninfas renanas parisienses de uma ópera perdida de Offenbach.”

“O veredicto da Escola de George[?] pode ser atribuído ao nacionalismo, mas o de Karl Kraus não se deixa apagar.”

“Evitam o escândalo aqueles que se limitam ao Heine prosador, cuja estatura é algo que salta aos olhos, em meio ao nível completamente desolador do período entre Goethe e Nietzsche.”

“uma força polêmica não-inibida por nenhum servilismo, algo sempre raro na Alemanha.”

August von Platen, p.ex., teve a oportunidade de experimentar essa força quando redigiu um ataque anti-semita a Heine, sofrendo uma derrota que hoje em dia seria possível chamar de existencial, se o conceito de <existencial> não estivesse sendo tão cuidadosamente preservado do contágio com a existência real dos homens.”

“Desde que Leibniz virou as costas para Spinoza, todo o Iluminismo alemão de certa forma fracassou”

“Politicamente, Heine foi um companheiro inconstante: mesmo em relação ao socialismo. Mas, em contraste com esse movimento, Heine manteve-se fiel, na sua imagem de uma sociedade justa, à idéia de uma felicidade irrestrita, facilmente posta de lado pelo ditado <quem não trabalha não come>. Sua aversão à pureza e ao rigor revolucionários indica a desconfiança diante dos elementos rançosos e ascéticos que, além de permearem vários dos primeiros documentos do socialismo, mais tarde contribuíram para as tendências trágicas de seu desenvolvimento. Mas Heine, o individualista, e em tão alta medida que só ouviu de Hegel a voz do individualismo, não se curvou ao conceito individualista de interioridade. Sua idéia de satisfação dos sentidos compreendia a satisfação com o mundo exterior, uma sociedade sem coerção nem privações.”

“A violência da sociedade capitalista em desenvolvimento já havia se tornado tão grande que a lírica não podia mais ignorá-la, se não quisesse afundar em um intimismo provinciano. Com isso, Heine se equipara a Baudelaire como ponto alto do modernismo do séc. XIX.”

“O hein romântico, que vivia dessa felicidade da autonomia, foi desmascarado pelo Heine iluminista, que trouxa à tona o caráter de mercadoria, até então latente, de suas obras.”

“A essência de Heine não se revelou inteiramente na música daqueles que compuseram suas canções, mas somente 40 anos após sua morte, na obra de Gustav Mahler

REVENDO O SURREALISMO (1956)

“Se o Surrealismo fosse simplesmente uma coletânea de ilustrações literárias e gráficas de Jung ou mesmo de Freud, ele não apenas realizaria uma mera duplicação supérflua daquilo que a própria teoria já exprime, em vez de recorrer a metáforas, como também seria tão inofensivo que não deixaria nenhum espaço para o escândalo”

“Aquilo que é pensado como mero sonho, e isso Cocteau já havia percebido, não afeta a realidade, mesmo que sua imagem possa ser afetada.”

“a espontaneidade, mesmo nos processos psicanalíticos de associação, não é de modo algum espontânea. Todo analista sabe o quanto é trabalhoso e difícil, quanta vontade é requerida para a expressão espontânea, que ocorre na situação analítica graças justamente a esse esforço, um esforço que, certamente, também configura a situação artística pregada pelos surrealistas.”

“Depois da catástrofe européia, os choques surrealistas perderam toda sua força. É como se tivessem salvado Paris preparando a cidade para o medo: o declínio da metrópole foi um de seus temas centrais.”

“quando éramos crianças, as antigas ilustrações devem ter nos excitado como agora as imagens surrealistas.” “O ovo gigante, do qual a cada momento o monstro do juízo final ameaça nascer, parecia tão grande porque, quando pela primeira vez olhamos um ovo e nos assustamos, éramos muito pequenos.”

“A tensão no surrealismo, que se descarrega no choque, está a meio caminho entre a esquizofrenia e a reificação, e justamente por isso não pode ser confundida com uma inspiração psicológica.”

“É difícil supor que algum dos surrealistas conhecesse a Fenomenologia hegeliana, mas uma frase dessa obra, que deve ser pensada em conjunto com a idéia mais geral da história enquanto progresso na consciência da liberdade, define o teor das obras surrealistas.”

“Suas montagens são as verdadeiras naturezas-mortas.”

“As obras pornográficas seriam os melhores modelos do surrealismo. O que acontece nas colagens, o que nelas está contido de modo espasmódico, assemelha-se às alterações que ocorrem em uma imagem pornô no instante da satisfação do voyeur. Nas colagens, os seios cortados, as pernas de manequins em meias de seda, são monumentos aos objetos do instinto pervertido, que outrora despertavam a libido.”

“Como um instantâneo do momento em que se desperta, o surrealismo é parente da fotografia.”

“O surrealismo recolhe o que a Neue Sachlichkeit recusa aos homens; as deformações testemunham o efeito da proibição no que um dia foi desejado. Através das deformações, o surrealismo salva o antiquado, um álbum de idiossincrasias, no qual se desgasta a promessa de felicidade (…) Mas se hoje o surrealismo parece obsoleto, isso ocorre porque os homens já renunciaram a essa consciência da renúncia, capturada no negativo fotográfico do surrealismo.”

SINAIS DE PONTUAÇÃO (1956)

“O ! não se assemelha a um ameaçador dedo em riste? Os ?? não se parecem com luzes de alerta ou com uma piscadela? Os :, segundo Karl Kraus, abrem a boca: coitado do escritor que não souber saciá-los. Visualmente, o ; lembra um bigode caído; é ainda mais forte, para mim, a sensação de seu sabor rústico. Marotas e satisfeitas, as «» lambem os lábios.”

!

:

“Em nenhum de seus elementos a linguagem é tão semelhante à música quanto nos sinais de pontuação. A , e o . correspondem à cadência interrompida e à cadência autêntica. ! são como silenciosos golpes de pratos, ? são acentuações de frases musicais no contratempo, : são acordes de sétima da dominante; e a diferença entre , e ; só será sentida corretamente por quem percebe o diferente peso de um fraseado forte e fraco na forma musical. Mas talvez a idiossincrasia contra os sinais de pontuação, surgida há 50 anos [há 150 anos] e da qual nenhuma pessoa atenta pôde escapar, seja menos a revolta contra um elemento ornamental do que a expressão da forte divergência entre música e linguagem.”

‘ = ponto e vírgula grego

“mas talvez os sinais gregos só tenham sido inventados pelos humanistas do séc. XVI.”

“! tornaram-se insuportáveis como gestos de autoridade, com os quais o escritor pretende introduzir, de fora, uma ênfase que a própria coisa não é capaz de exercer, enquanto a contrapartida musical da exclamação, o sforzato, é ainda hoje tão imprescindível quanto no tempo de Beethoven, quando marcava a irrupção da vontade subjetiva na trama musical. Os !!, porém, degeneraram em usurpadores da autoridade, asserções de importância.”

“Nos textos expressionistas, os !! se assemelham às cifras milionárias das cédulas do período da inflação alemã.”

“O – ainda serve apenas para preparar surpresas traiçoeiras que, justamente por terem sido preparadas, já não mais surpreendem.”

* * *…

“Dispostos como estrofe, os versos destruiriam barbaramente o equilíbrio da linguagem, mas se fossem reproduzidos simplesmente como prosa causariam um efeito ridículo, porque a métrica e a rima soariam como um jogo de palavras feito ao acaso, daí a /. O travessão moderno é demasiado brusco para realizar o que deve ser feito nesses casos. A capacidade de perceber fisiognomicamente tais diferenças é, no entanto, o pressuposto para todo uso adequado dos sinais de pontuação.”

“Mas se aqueles …, tomados da repetição de frações decimais na aritmética, são reduzidos a .., como fez a Escola de George, então o que se pretende é continuar impunemente a reivindicar a infinitude fictícia, na medida em que se apresenta como sendo exato algo que, segundo seu próprio sentido, quer ser inexato.!”

“A pontuação utilizada pelo escrevinhador sem-vergonha não é melhor do que a do escritor envergonhado.”

“As abundantes “” irônicas usadas por Marx e Engels são sombras lançadas pelo procedimento totalitário sobre seus escritos, que tinham em vista justamente o contrário:”

“Quando a sintaxe e a pontuação abdicam do direito de articular e moldar os fatos, de criticá-los, a linguagem está prestes a capitular ao que meramente existe, antes mesmo que o pensamento tenha tempo de realizar outra vez, fervorosamente e por si mesmo, essa capitulação. Isso começa com a perda do ;, e termina com a ratificação da imbecilidade por uma racionalidade depurada de qualquer mistura.”

“O cauteloso se inclinará a colocar as inserções PARENTÉTICAS entre ––, e não entre (), pois estes retiram da frase aquele material, criando o que poderíamos chamar de <enclaves>, ao passo que, na boa prosa, nada deve ser imprescindível para o todo da estrutura. Ao confessar que são prescindíveis, os () renunciam implicitamente à pretensão de integridade da forma lingüística”

“Proust, a quem dificilmente se poderia chamar de filisteu, e cujo pendatismo nada mais é que um aspecto de sua grandiosa força micrológica, não hesitou em utilizar ().”

“(a ilusão de continuidade da narrativa é rompida, e o narrador a-social está disposto a se esgueirar através de todas as suas janelas para iluminar, com a lanterna cega de uma memória de nenhum modo involuntária, o obscuro temps durée.)”

“Diante dos sinais de pontuação, o escritor encontra-se em permanente perigo; se fosse possível, quando se escreve, ter o controle sobre si mesmo, seria perceptível a impossibilidade de usar corretamente qualquer sinal de pontuação, e se desistiria de escrever.”

“Ele não pode confiar nas regras – freqüentemente rígidas e grosseiras, mas também não pode ignorá-las, se não quiser cair em uma espécie de excentricidade ou ferir a essência do que não é aparente, ao sublinhá-lo – e essa não-aparência é o elemento vital da pontuação.”

“O conflito deve ser suportado a cada vez, e é preciso muita força ou muita estupidez para não perder a coragem.”

“Cada sinal cuidadosamente evitado é uma reverência feita pela escrita ao som que ela sufoca.”

O ARTISTA COMO REPRESENTANTE, conferência, texto em 1953.

“a poésie pure de Valéry, o discípulo de Mallarmé, impiedosamente fechada a qualquer comunicação com um suposto público leitor.”

“não é possível pensar o material histórico da literatura alemã sem Baudelaire, apesar –OU JUSTAMENTE POR CAUSA- da intransigência de George, seu grande tradutor.”

“Se a coletânea de poemas de Valéry esboçada por Rilke jamais alcançou o peso das grandes traduções de George, ou das traduções de Swinburne por Borchardt, isso não se deve apenas aos melindres do objeto. Rilke violou a lei fundamental de toda tradução legítima, a fidelidade ao texto

Valéry, Degas, dança, desenho, trad. 2003.

Assim como um leitor meio distraído rabisca nas margens de uma obra e produz, ao sabor da ausência ou do lápis, pequenos seres ou vagas ramagens, ladeando as massas legíveis, farei o mesmo, segundo o capricho da mente, em torno desses poucos estudos de Edgar Degas.”

“Sem dúvida, haveria razões para se escandalizar, quando se vê um filósofo falando de um livro escrito por um poeta esotérico, sobre um pintor obcecado pelo trabalho manual.”

“De um modo geral, as grandes intuições sobre arte ocorrem ou em uma absoluta distância, por uma dedução conceitual não-afetada pela chamada <compreensão artística>, como em Kant ou Hegel, ou nessa absoluta proximidade, a atitude de quem não se confunde com o público, pois se encontra nos bastidores, acompanhando a realização da obra sob o aspecto da fatura, da técnica.”

O que chamo de ‘a grande arte’ é simplesmente a arte que exige que todas as faculdades de um homem sejam nela utilizadas, e cujas obras são tais que todas as faculdades de um outro homem sejam invocadas no interesse de compreendê-las…”

Um amador, um connaisseur do tempo de Júlio II ou de Luís XIV, ficaria muito espantado se lhe contassem que quase tudo o que ele considerava essencial na pintura é hoje não somente negligenciado como está radicalmente ausente das preocupações do pintor e das exigências do público.”

O homem completo está morrendo”

É preciso ter uma idéia elevada, não do que se faz, mas do que se poderá fazer um dia; sem o quê não vale a pena trabalhar

Edgar Degas

Como o jogador perseguido por combinações de partidas, assombrado à noite pelo espectro do tabuleiro de xadrez ou do feltro onde as cartas são lançadas, obcecado por imagens táticas e soluções mais vivas que reais, assim o artista é essencialmente artista.” V.

“a teoria da obra de arte engajada, tal como ela hoje se propagou, simplesmente passa por cima do fato que domina de modo irrevogável a sociedade de troca: a alienação entre os homens e também entre o espírito objetivo e a sociedade que ele exprime e julga. Essa teoria deseja que a arte fale imediatamente aos homens, como se o imediato, em um mundo de mediação universal, pudesse ser realizado imediatamente!”

Mais um desses ermitões que sabem o horário dos trens” Degas

Por vezes me ocorre o pensamento de que o trabalho do artista é um trabalho de tipo muito antigo; o próprio artista é uma sobrevivência, um operário ou um artesão de uma espécie em via de desaparecer, que trabalha em seu próprio quarto, usa procedimentos muito pessoais e muito empíricos, vive na desordem e na intimidade de suas ferramentas, vê o que quer e não o que o cerca, usa potes quebrados, sucata doméstica, objetos condenados … Talvez essas condições estejam mudando, ao aspecto dessas ferramentas improvisadas e do ser singular que com elas se acomoda veremos opor-se o quadro do laboratório pictórico de um homem rigorosamente vestido de branco, com luvas de borracha, obedecendo a um horário muito preciso, armado de aparelhos e de instrumentos estritamente especializados, cada qual com seu lugar e com uma oportunidade exata de uso?” V.

“O artista deve transformar a si mesmo em instrumento: tornar-se até mesmo coisa, se não quiser sucumbir à maldição do anacronismo em meio ao mundo reificado.”

a grande música consiste no cumprimento de “obligations”, de obrigações que o compositor subscreve desde a primeira nota.

Schoenberg, Style and Idea

A arte moderna tende a explorar quase exclusivamente a SENSIBILIDADE SENSORIAL, em prejuízo da sensibilidade geral ou afetiva, e de nossas faculdades de construção, de adição das durações e de transformações pelo espírito. Sabe maravilhosamente bem excitar a atenção e usa todos os meios para excitá-la: intensidades, contrastes, enigmas, surpresas. Captura por vezes, pela sutileza de seus meios ou pela audácia da execução, algumas presas bastante preciosas: estados muito complexos ou muito efêmeros, valores irracionais, sensações em estado nascente, ressonâncias, correspondências, pressentimentos de uma instável profundidade … Mas há um preço a ser pago por estas vantagens” V.

“Não se tornar estúpido, não se deixar enganar, não ser cúmplice: estes são os modos de comportamento social sedimentados na obra de Valéry (…) Para ele, construir obras de arte significa recusar o ópio no qual se transformou a grande arte sensível, desde Wagner, Baudelaire e Manet

“Além disso, pode-se perguntar se, apesar da guinada objetiva que ele confere à interpretação da obra de arte, ele não acaba impondo, como Nietzsche, uma metafísica do artista. Não me atrevo a decidir se Valéry, ou também Nie., superestimaram a arte.”

“contra toda a entronização do gênio, profundamente arraigada, sobretudo na estética alemã, desde Kant e Schelling.”

SOBRE O AUTOR

Adorno doutorou-se em filosofia aos 21 anos com um trabalho sobre Husserl! Sempre nos voltamos contra aquilo que proferimos na hubris da juventude!

“A amizade com Benjamin afeta decisivamente os rumos da reflexão filosófica de Adorno nesse período [do exílio na Inglaterra, e posteriormente EUA].” Em 1949 retorna a Frankfurt. Minima moralia é de 1951.

“No confronto com as correntes positivistas e heideggerianas da época, Adorno publica diversos livros de ensaios, entre eles Prismas, Intervenções e Palavras e sinais.” “Segue escrevendo sobre música, com diversos livros de ensaios e duas grandes monografias, uma sobre Mahler e outra sobre Alban Berg [seu professor]. Em 1966 conclui sua obra filosófica mais ambiciosa, Dialética negativa, e se concentra na realização de uma Teoria estética, que seria publicada postumamente em 1971. Abalado pelo confronto com alunos, nas revoltas estudantis de 1969, Adorno morre de infarto em 6 de agosto do mesmo ano, quando passava férias na cidade de Visp, Suiça.”

+recomendações de A.:

Cartas (Benjamin, Horkheimer, Thomas Mann…)

Dissonâncias. Música no mundo administrado.

Filosofia da Nova Música

Introdução à sociologia da música

Kierkegaard. Construção do estético

Para a metacrítica da teoria do conhecimento. Estudos sobre Husserl e as antinomias filosóficas, 1956 (complemento póstumo ao doutorado precoce?).

Três estudos sobre Hegel

sobre:

Rodrigo Duarte, Adornos, 1997.

Barbara Freitag, A teoria crítica: ontem e hoje, 1986.

Flávio Kothe, Benjamin & Adorno: confrontos, 1979.

Álvaro Valls, Estudos de estética e filosofia da arte: numa perspectiva adorniana, 2002.

DICIONÁRIO

beben: vibrar, chacoalhar

leuchten: brilhar

Nachdichten: recriação poética

Rauch: fumaça

rauschen: murmurar

HENRY VIII

–Curiosa peça de bons costumes–

“…think you see them great,
And follow’d with the general throng and sweat

Of thousand friends; then in a moment, see
How soon this mightiness meets misery:
And, if you can be merry then, I’ll say
A man may weep upon his wedding-day.”

“To-day the French,
All clinquant, all in gold, like heathen gods,
Shone down the English; and, to-morrow, they
Made Britain India: every man that stood
Show’d like a mine. Their dwarfish pages were
As cherubins, all guilt: the madams too,
Not used to toil, did almost sweat to bear
The pride upon them, that their very labour
Was to them as a painting”

ABERGAVENNY

…the devil is a niggard,
Or has given all before, and he begins
A new hell in himself.”

NORFOLK

Grievingly I think,
The peace between the French and us not values
The cost that did conclude it.”

“For France hath flaw’d the league, and hath attach’d
Our merchants’ goods at Bourdeaux.”

“…You know his nature,
That he’s revengeful, and I know his sword
Hath a sharp edge: it’s long and, ‘t may be said,
It reaches far, and where ‘twill not extend,
Thither he darts it. Bosom up my counsel,
You’ll find it wholesome. Lo, where comes that rock
That I advise your shunning.

Enter CARDINAL WOLSEY, the purse borne before him”

“A beggar’s book outworths a noble’s blood.”

NORFOLK

Be advised;
Heat not a furnace for your foe so hot
That it do singe yourself: we may outrun,
By violent swiftness, that which we run at,
And lose by over-running. Know you not,
The fire that mounts the liquor til run o’er,
In seeming to augment it wastes it? Be advised:
I say again, there is no English soul
More stronger to direct you than yourself,
If with the sap of reason you would quench,
Or but allay, the fire of passion.”

“…This holy fox,
Or wolf, or both,–for he is equal ravenous
As he is subtle, and as prone to mischief
As able to perform’t; his mind and place
Infecting one another, yea, reciprocally–
Only to show his pomp as well in France
As here at home, suggests the king our master
To this last costly treaty…”

Sergeant

Sir,
My lord the Duke of Buckingham, and Earl
Of Hereford, Stafford, and Northampton, I
Arrest thee of high treason, in the name
Of our most sovereign king.”

KING HENRY VIII

…Sixth part of each?
A trembling contribution! Why, we take
From every tree lop, bark, and part o’ the timber;
And, though we leave it with a root, thus hack’d,
The air will drink the sap. To every county
Where this is question’d send our letters, with
Free pardon to each man that has denied
The force of this commission: pray, look to ’t;
I put it to your care.”

CARDINAL WOLSEY

Stand forth, and with bold spirit relate what you,
Most like a careful subject, have collected
Out of the Duke of Buckingham.

KING HENRY VIII

Speak freely.

Surveyor

First, it was usual with him, every day
It would infect his speech, that if the king
Should without issue die, he’ll carry it so
To make the sceptre his: these very words
I’ve heard him utter to his son-in-law,
Lord Abergavenny; to whom by oath he menaced
Revenge upon the cardinal.

CARDINAL WOLSEY

Please your highness, note
This dangerous conception in this point.
Not friended-by by his wish, to your high person
His will is most malignant; and it stretches
Beyond you, to your friends.”

KING HENRY VIII

Speak on:
How grounded he his title to the crown,
Upon our fail? to this point hast thou heard him
At any time speak aught?

Surveyor

He was brought to this
By a vain prophecy of Nicholas Hopkins.

KING HENRY VIII

What was that Hopkins?

Surveyor

Sir, a Chartreux friar,
His confessor, who fed him every minute
With words of sovereignty.

KING HENRY VIII

How know’st thou this?

Surveyor

Not long before your highness sped to France,
The duke being at the Rose, within the parish
Saint Lawrence Poultney, did of me demand
What was the speech among the Londoners
Concerning the French journey: I replied,
Men fear’d the French would prove perfidious,
To the king’s danger.”

QUEEN KATHARINE

If I know you well,
You were the duke’s surveyor, and lost your office
On the complaint o’ the tenants: take good heed
You charge not in your spleen a noble person
And spoil your nobler soul: I say, take heed;
Yes, heartily beseech you.”

“If, quoth he, I for this had been committed,

As, to the Tower, I thought, I would have play’d

The part my father meant to act upon

The usurper Richard; who, being at Salisbury,

Made suit to come in’s presence; which if granted,

As he made semblance of his duty, would

Have put his knife to him.”

CARDINAL WOLSEY

Now, madam, may his highness live in freedom,
and this man out of prison?

QUEEN KATHARINE

God mend all!”

KING HENRY VIII

There’s his period,
To sheathe his knife in us. He is attach’d;
Call him to present trial: if he may
Find mercy in the law, ‘tis his: if none,
Let him not seek ‘t of us: by day and night,
He’s traitor to the height.

Exeunt”

“Two women placed together makes cold weather”

“Duas mulheres lado a lado fazem do lugar gelado”

“Você ajudará a passar as horas;

Sente no meio destas senhoras.”

SANDS

By my faith,

And thank your lordship. By your leave, sweet ladies:

If I chance to talk a little wild, forgive me;

I had it from my father.

ANNE

Was he mad, sir?

SANDS

O, very mad, exceeding mad, in love too:

But he would bite none; just as I do now,

He would kiss you twenty with a breath.

Kisses her”

BUCKINGHAM

(…)

You few that loved me,

And dare be bold to weep for Buckingham,

His noble friends and fellows, whom to leave

Is only bitter to him, only dying,

Go with me, like good angels, to my end;

And, as the long divorce of steel falls on me,

Make of your prayers one sweet sacrifice,

And lift my soul to heaven. Lead on, o’ God’s name.”

“Nay, Sir Nicholas,

Let it alone; my state now will but mock me.

When I came hither, I was lord high constable

And Duke of Buckingham; now, poor Edward Bohun:

Yet I am richer than my base accusers,

That never knew what truth meant: I now seal it;

And with that blood will make ‘em one day groan for’t.

My noble father, Henry of Buckingham,

Who first raised head against usurping Richard,

Flying for succor to his servant Banister,

Being distress’d, was by that wretch betray’d,

And without trial fell; God’s peace be with him!

Henry the Seventh succeeding, truly pitying

My father’s loss, like a most royal prince,

Restored me to my honours, and, out of ruins,

Made my name once more noble. Now his son,

Henry the Eighth, life, honour, name and all

That made me happy at one stroke has taken

For ever from the world. I had my trial,

And, must needs say, a noble one; which makes me,

A little happier than my wretched father:

Yet thus far we are one in fortunes: both

Fell by our servants, by those men we loved most;

A most unnatural and faithless service!

Heaven has an end in all: yet, you that hear me,

This from a dying man receive as certain:

Where you are liberal of your loves and counsels

Be sure you be not loose; for those you make friends

And give your hearts to, when they once perceive

The least rub in your fortunes, fall away

Like water from ye, never found again

But where they mean to sink ye.”

Chamberlain

I left him private,

Full of sad thoughts and troubles.

NORFOLK

What’s the cause?

Chamberlain

It seems the marriage with his brother’s wife

Has crept too near his conscience.

SUFFOLK

No, his conscience

Has crept too near another lady.

NORFOLK

‘Tis so:

This is the cardinal’s doing, the king-cardinal:

That blind priest, like the eldest son of fortune,

Turns what he list. The king will know him one day.”

NORFOLK

How holily he works in all his business!

And with what zeal! for, now he has crack’d the league

Between us and the emperor, the queen’s great nephew,

He dives into the king’s soul, and there scatters

Dangers, doubts, wringing of the conscience,

Fears, and despairs; and all these for his marriage:

And out of all these to restore the king,

He counsels a divorce; a loss of her

That, like a jewel, has hung twenty years

About his neck, yet never lost her lustre;

Of her that loves him with that excellence

That angels love good men with…”

“…his curses and his blessings

Touch me alike, they’re breath I not believe in.

I knew him, and I know him; so I leave him

To him that made him proud, the pope.”

KING HENRY VIII

Who’s there, ha?

NORFOLK

Pray God he be not angry.

KING HENRY VIII

Who’s there, I say? How dare you thrust yourselves

Into my private meditations?

Who am I? ha?”

CARDINAL WOLSEY

…All the clerks,

I mean the learned ones, in Christian kingdoms

Have their free voices: Rome, the nurse of judgment,

Invited by your noble self, hath sent

One general tongue unto us, this good man,

This just and learned priest, Cardinal Campeius;

Whom once more I present unto your highness.”

CARDINAL WOLSEY

[Aside to GARDINER] Give me your hand much joy and

favour to you;

You are the king’s now.

GARDINER

[Aside to CARDINAL WOLSEY]

But to be commanded

For ever by your grace, whose hand has raised me.”

“O, my lord,

Would it not grieve an able man to leave

So sweet a bedfellow? But, conscience, conscience!

O, ‘tis a tender place; and I must leave her.

Exeunt”

ANNE

O, God’s will! much better
She ne’er had known pomp: though’t be temporal,
Yet, if that quarrel, fortune, do divorce
It from the bearer, ‘tis a sufferance panging
As soul and body’s severing.

Old Lady

Alas, poor lady!
She’s a stranger now again.”

ANNE

By my troth and maidenhead,
I would not be a queen.

Old Lady

Beshrew me, I would,
And venture maidenhead for’t; and so would you,
For all this spice of your hypocrisy:
You, that have so fair parts of woman on you,
Have too a woman’s heart; which ever yet
Affected eminence, wealth, sovereignty;
Which, to say sooth, are blessings…”

CHAMBERLAIN, Aside

I have perused her well;
Beauty and honour in her are so mingled
That they have caught the king: and who knows yet
But from this lady may proceed a gem
To lighten all this isle? I’ll to the king,
And say I spoke with you.
Exit Chamberlain

Old Lady

How tastes it? is it bitter? forty pence, no.
There was a lady once, ‘tis an old story,
That would not be a queen, that would she not,
For all the mud in Egypt: have you heard it?

ANNE

Come, you are pleasant.

Old Lady

With your theme, I could
O’ermount the lark. The Marchioness of Pembroke!
A thousand pounds a year for pure respect!
No other obligation! By my life,
That promises moe thousands: honour’s train
Is longer than his foreskirt. By this time
I know your back will bear a duchess: say,
Are you not stronger than you were?”

A descrição cenográfica mais completa que já li em Shakespeare:

SCENE IV. A hall in Black-Friars.

Trumpets, sennet, and cornets. Enter two Vergers, with short silver wands; next them, two Scribes, in the habit of doctors; after them, CANTERBURY alone; after him, LINCOLN, Ely, Rochester, and Saint Asaph; next them, with some small distance, follows a Gentleman bearing the purse, with the great seal, and a cardinal’s hat; then two Priests, bearing each a silver cross; then a Gentleman-usher bare-headed, accompanied with a Sergeant-at-arms bearing a silver mace; then two Gentlemen bearing two great silver pillars; after them, side by side, CARDINAL WOLSEY and CARDINAL CAMPEIUS; two Noblemen with the sword and mace. KING HENRY VIII takes place under the cloth of state; CARDINAL WOLSEY and CARDINAL CAMPEIUS sit under him as judges. QUEEN KATHARINE takes place some distance from KING HENRY VIII. The Bishops place themselves on each side the court, in manner of a consistory; below them, the Scribes. The Lords sit next the Bishops. The rest of the Attendants stand in convenient order about the stage”

QUEEN KATHARINE

…  Alas, sir,
In what have I offended you? what cause
Hath my behavior given to your displeasure,
That thus you should proceed to put me off,
And take your good grace from me? Heaven witness,
I have been to you a true and humble wife,
At all times to your will conformable;
Ever in fear to kindle your dislike,
Yea, subject to your countenance, glad or sorry
As I saw it inclined: when was the hour
I ever contradicted your desire,
Or made it not mine too? Or which of your friends
Have I not strove to love, although I knew
He were mine enemy? what friend of mine
That had to him derived your anger, did I
Continue in my liking? nay, gave notice
He was from thence discharged. Sir, call to mind
That I have been your wife, in this obedience,
Upward of twenty years, and have been blest
With many children by you: if, in the course
And process of this time, you can report,
And prove it too, against mine honour aught,
My bond to wedlock, or my love and duty,
Against your sacred person, in God’s name,
Turn me away; and let the foul’st contempt
Shut door upon me, and so give me up
To the sharp’st kind of justice. Please you sir,
The king, your father, was reputed for
A prince most prudent, of an excellent
And unmatch’d wit and judgment: Ferdinand,
My father, king of Spain, was reckon’d one
The wisest prince that there had reign’d by many
A year before: it is not to be question’d
That they had gather’d a wise council to them
Of every realm, that did debate this business,
Who deem’d our marriage lawful: wherefore I humbly
Beseech you, sir, to spare me, till I may
Be by my friends in Spain advised; whose counsel
I will implore: if not, i’ the name of God,
Your pleasure be fulfill’d!”

QUEEN KATHARINE

I will, when you are humble; nay, before,
Or God will punish me. I do believe,
Induced by potent circumstances, that
You are mine enemy, and make my challenge
You shall not be my judge: for it is you
Have blown this coal betwixt my lord and me;
Which God’s dew quench! Therefore I say again,
I utterly abhor, yea, from my soul
Refuse you for my judge; whom, yet once more,
I hold my most malicious foe, and think not
At all a friend to truth.

CARDINAL WOLSEY

I do profess
You speak not like yourself; who ever yet
Have stood to charity, and display’d the effects
Of disposition gentle, and of wisdom
O’ertopping woman’s power. Madam, you do me wrong:
I have no spleen against you; nor injustice
For you or any: how far I have proceeded,
Or how far further shall, is warranted
By a commission from the consistory,
Yea, the whole consistory of Rome.”

QUEEN KATHARINE

My lord, my lord,
I am a simple woman, much too weak
To oppose your cunning. You’re meek and
humble-mouth’d;
You sign your place and calling, in full seeming,
With meekness and humility; but your heart
Is cramm’d with arrogancy, spleen, and pride.
You have, by fortune and his highness’ favours,
Gone slightly o’er low steps and now are mounted
Where powers are your retainers, and your words,
Domestics to you, serve your will as’t please
Yourself pronounce their office. I must tell you,
You tender more your person’s honour than
Your high profession spiritual: that again
I do refuse you for my judge; and here,
Before you all, appeal unto the pope,
To bring my whole cause ‘fore his holiness,
And to be judged by him.

She curtsies to KING HENRY VIII, and offers to depart

Crier

Katharine Queen of England, come into the court.

GRIFFITH

Madam, you are call’d back.

QUEEN KATHARINE

What need you note it? pray you, keep your way:
When you are call’d, return. Now, the Lord help,
They vex me past my patience! Pray you, pass on:
I will not tarry; no, nor ever more
Upon this business my appearance make
In any of their courts.

Exeunt QUEEN KATHARINE and her Attendants

KING HENRY VIII

Go thy ways, Kate:
That man i’ the world who shall report he has
A better wife, let him in nought be trusted,
For speaking false in that: thou art, alone,
If thy rare qualities, sweet gentleness,
Thy meekness saint-like, wife-like government,
Obeying in commanding, and thy parts
Sovereign and pious else, could speak thee out,
The queen of earthly queens: she’s noble born;
And, like her true nobility, she has
Carried herself towards me.”

CARDINAL CAMPEIUS

So please your highness,
The queen being absent, ‘tis a needful fitness
That we adjourn this court till further day:
Meanwhile must be an earnest motion
Made to the queen, to call back her appeal
She intends unto his holiness.

KING HENRY VIII

(Aside) I may perceive
These cardinals trifle with me: I abhor
This dilatory sloth and tricks of Rome.
My learn’d and well-beloved servant, Cranmer,
Prithee, return: with thy approach, I know,
My comfort comes along. Break up the court:
I say, set on.

Exeunt in manner as they entered”

QUEEN KATHARINE

O, good my lord, no Latin;
I am not such a truant since my coming,
As not to know the language I have lived in:
A strange tongue makes my cause more strange,
suspicious;
Pray, speak in English: here are some will thank you,
If you speak truth, for their poor mistress’ sake;
Believe me, she has had much wrong: lord cardinal,
The willing’st sin I ever yet committed
May be absolved in English.”

CARDINAL CAMPEIUS

Most honour’d madam,
My Lord of York, out of his noble nature,
Zeal and obedience he still bore your grace,
Forgetting, like a good man your late censure
Both of his truth and him, which was too far,
Offers, as I do, in a sign of peace,
His service and his counsel.”

“Ye have angels’ faces, but heaven knows your hearts.
What will become of me now, wretched lady!
I am the most unhappy woman living.
Alas, poor wenches, where are now your fortunes!
Shipwreck’d upon a kingdom, where no pity,
No friend, no hope; no kindred weep for me;
Almost no grave allow’d me: like the lily,
That once was mistress of the field and flourish’d,
I’ll hang my head and perish.”

SUFFOLK

The cardinal’s letters to the pope miscarried,
And came to the eye o’ the king: wherein was read,
How that the cardinal did entreat his holiness
To stay the judgment o’ the divorce; for if
It did take place, ‘I do,’ quoth he, ‘perceive
My king is tangled in affection to
A creature of the queen’s, Lady Anne Bullen.’

SURREY

Has the king this?

SUFFOLK

Believe it.

SURREY

Will this work?

Chamberlain

The king in this perceives him, how he coasts
And hedges his own way. But in this point
All his tricks founder, and he brings his physic
After his patient’s death: the king already
Hath married the fair lady.”

“…Katharine no more
Shall be call’d queen, but princess dowager
And widow to Prince Arthur.”

CARDINAL WOLSEY

The packet, Cromwell.
Gave’t you the king?

CROMWELL

To his own hand, in’s bedchamber.

CARDINAL WOLSEY

Look’d he o’ the inside of the paper?

CROMWELL

Presently
He did unseal them: and the first he view’d,
He did it with a serious mind; a heed
Was in his countenance. You he bade
Attend him here this morning.”

CARDINAL WOLSEY [Aside]

…There’s more in’t than fair visage. Bullen!
No, we’ll no Bullens. Speedily I wish
To hear from Rome. The Marchioness of Pembroke!

NORFOLK

He’s discontented.

SUFFOLK

May be, he hears the king
Does whet his anger to him.”

“…yet I know her for
A spleeny Lutheran; and not wholesome to
Our cause, that she should lie i’ the bosom of
Our hard-ruled king. Again, there is sprung up
An heretic, an arch one, Cranmer; one
Hath crawl’d into the favour of the king,
And is his oracle.

NORFOLK

He is vex’d at something.”

HENRY VIII

(…)

My father loved you:
His said he did; and with his deed did crown
His word upon you. Since I had my office,
I have kept you next my heart; have not alone
Employ’d you where high profits might come home,
But pared my present havings, to bestow
My bounties upon you.

CARDINAL WOLSEY

[Aside] What should this mean?”

“He parted frowning from me, as if ruin
Leap’d from his eyes: so looks the chafed lion
Upon the daring huntsman that has gall’d him;
Then makes him nothing. I must read this paper;
I fear, the story of his anger. ‘Tis so;
This paper has undone me: ‘tis the account
Of all that world of wealth I have drawn together
For mine own ends; indeed, to gain the popedom,
And fee my friends in Rome. O negligence!
Fit for a fool to fall by: what cross devil
Made me put this main secret in the packet
I sent the king? Is there no way to cure this?
No new device to beat this from his brains?
I know ‘twill stir him strongly; yet I know
A way, if it take right, in spite of fortune
Will bring me off again. What’s this? ‘To the Pope!’”

“Vain pomp and glory of this world, I hate ye:
I feel my heart new open’d. O, how wretched
Is that poor man that hangs on princes’ favours!
There is, betwixt that smile we would aspire to,
That sweet aspect of princes, and their ruin,
More pangs and fears than wars or women have:
And when he falls, he falls like Lucifer,
Never to hope again.”

“I feel within me
A peace above all earthly dignities,
A still and quiet conscience. The king has cured me,
I humbly thank his grace; and from these shoulders,
These ruin’d pillars, out of pity, taken
A load would sink a navy, too much honour:
O, ‘tis a burthen, Cromwell, ‘tis a burthen
Too heavy for a man that hopes for heaven!”

CROMWELL

O my lord,
Must I, then, leave you? must I needs forego
So good, so noble and so true a master?
Bear witness, all that have not hearts of iron,
With what a sorrow Cromwell leaves his lord.
The king shall have my service: but my prayers
For ever and for ever shall be yours.

(…)

Had I but served my God with half the zeal
I served my king, he would not in mine age
Have left me naked to mine enemies.”

“But, I beseech you, what’s become of Katharine,
The princess dowager? how goes her business?

First Gentleman

That I can tell you too. The Archbishop
Of Canterbury, accompanied with other
Learned and reverend fathers of his order,
Held a late court at Dunstable, six miles off
From Ampthill where the princess lay; to which
She was often cited by them, but appear’d not:
And, to be short, for not appearance and
The king’s late scruple, by the main assent
Of all these learned men she was divorced,
And the late marriage made of none effect
Since which she was removed to Kimbolton,
Where she remains now sick.”

CAPUCIUS

Madam, in good health.

KATHARINE

So may he ever do! and ever flourish,
When I shal l dwell with worms, and my poor name
Banish’d the kingdom! Patience, is that letter,
I caused you write, yet sent away?

PATIENCE

No, madam.

Giving it to KATHARINE

KATHARINE

Sir, I most humbly pray you to deliver
This to my lord the king.”

HENRY VIII

(…)

You take a precipice for no leap of danger,
And woo your own destruction.

CRANMER

God and your majesty
Protect mine innocence, or I fall into
The trap is laid for me!”

“…Look, the good man weeps!
He’s honest, on mine honour. God’s blest mother!
I swear he is true–hearted; and a soul
None better in my kingdom. Get you gone,
And do as I have bid you.
Exit CRANMER

He has strangled
His language in his tears.”

Old Lady

Ay, ay, my liege;
And of a lovely boy: the God of heaven
Both now and ever bless her! ‘tis a girl,
Promises boys hereafter. Sir, your queen
Desires your visitation, and to be
Acquainted with this stranger ‘tis as like you
As cherry is to cherry.”

Chancellor

My good lord archbishop, I’m very sorry
To sit here at this present, and behold
That chair stand empty: but we all are men,
In our own natures frail, and capable
Of our flesh; few are angels: out of which frailty
And want of wisdom, you, that best should teach us,
Have misdemean’d yourself, and not a little,
Toward the king first, then his laws, in filling
The whole realm, by your teaching and your chaplains,
For so we are inform’d, with new opinions,
Divers and dangerous; which are heresies,
And, not reform’d, may prove pernicious.”

CRANMER

Is there no other way of mercy,
But I must needs to the Tower, my lords?

GARDINER

What other
Would you expect? you are strangely troublesome.
Let some o’ the guard be ready there.”

KING HENRY VIII

No, sir, it does not please me.
I had thought I had had men of some understanding
And wisdom of my council; but I find none.
Was it discretion, lords, to let this man,
This good man,–few of you deserve that title,–
This honest man, wait like a lousy footboy
At chamber–door? and one as great as you are?
Why, what a shame was this! Did my commission
Bid ye so far forget yourselves? I gave ye
Power as he was a counsellor to try him,
Not as a groom: there’s some of ye, I see,
More out of malice than integrity,
Would try him to the utmost, had ye mean;
Which ye shall never have while I live.”

Garter

Heaven, from thy endless goodness, send prosperous
life, long, and ever happy, to the high and mighty
princess of England, Elizabeth!”

KING HENRY VIII

Thank you, good lord archbishop:
What is her name?

CRANMER

Elizabeth.

KING HENRY VIII

Stand up, lord.

KING HENRY VIII kisses the child

With this kiss take my blessing: God protect thee!
Into whose hand I give thy life.”

“This royal infant–heaven still move about her!–
Though in her cradle, yet now promises
Upon this land a thousand thousand blessings,
Which time shall bring to ripeness: she shall be–
But few now living can behold that goodness–
A pattern to all princes living with her,
And all that shall succeed: Saba was never
More covetous of wisdom and fair virtue
Than this pure soul shall be: all princely graces,
That mould up such a mighty piece as this is,
With all the virtues that attend the good,
Shall still be doubled on her: truth shall nurse her,
Holy and heavenly thoughts still counsel her:
She shall be loved and fear’d: her own shall bless her;
Her foes shake like a field of beaten corn,
And hang their heads with sorrow: good grows with her:
In her days every man shall eat in safety,
Under his own vine, what he plants; and sing
The merry songs of peace to all his neighbours:
God shall be truly known; and those about her
From her shall read the perfect ways of honour,
And by those claim their greatness, not by blood.
Nor shall this peace sleep with her: but as when
The bird of wonder dies, the maiden phoenix,
Her ashes new create another heir,
As great in admiration as herself;
So shall she leave her blessedness to one,
When heaven shall call her from this cloud of darkness,
Who from the sacred ashes of her honour
Shall star-like rise, as great in fame as she was,
And so stand fix’d: peace, plenty, love, truth, terror,
That were the servants to this chosen infant,
Shall then be his, and like a vine grow to him:
Wherever the bright sun of heaven shall shine,
His honour and the greatness of his name
Shall be, and make new nations: he shall flourish,
And, like a mountain cedar, reach his branches
To all the plains about him: our children’s children
Shall see this, and bless heaven.”

CRANMER

She shall be, to the happiness of England,
An aged princess; many days shall see her,
And yet no day without a deed to crown it.
Would I had known no more! but she must die,
She must, the saints must have her; yet a virgin,
A most unspotted lily shall she pass
To the ground, and all the world shall mourn her.”

EPILOGUE
‘Tis ten to one this play can never please
All that are here: some come to take their ease,
And sleep an act or two; but those, we fear,
We have frighted with our trumpets; so, ‘tis clear,
They’ll say ‘tis naught: others, to hear the city
Abused extremely, and to cry ‘That’s witty!’
Which we have not done neither: that, I fear,
All the expected good we’re like to hear
For this play at this time, is only in
The merciful construction of good women;
For such a one we show’d ‘em: if they smile,
And say ‘twill do, I know, within a while
All the best men are ours; for ‘tis ill hap,
If they hold when their ladies bid ‘em clap.”

CASO SUZANNE URBAN – Binswanger (trad. Tadeu Costa Andrade)

Fonte: https://www.yumpu.com/pt/document/read/12536208/o-caso-suzanne-urban-psicopatologia-fenomenologica-

DIC:

Beeindruckbarkeit: impressionabilidade

Besessenheit: obsessão; possessão (demoníaca).

In der Wirklichkeitstehen: estar com os pés no chão (terra; realidade)

lazareto: hospital de leprosos, espaço destinado à quarentena

mit-teilsam: com-unicativo

Selbst-Verblendung: autocegamento

Verantwortlichkeit: responsabilidade


Da ist eine Fliege in meiner Suppe”

ins Dasein kommen” vir-a-ser

Desde que eu me entendo por gente

Caso Ilse: o <ponto de partida> era o amor passional pelo pai e o sofrimento constante pelos maus-tratos que ele dispensava à mãe.”

“Enquanto, no Caso Ilse, o Dasein estaba sob uma alta-tensão que durou muitos anos e <deu vazão> a si mesma primeiramente no sacrifício da queimadura, depois no delírio de perseguição e no delírio amoroso, a alta-tensão sob a qual está o Dasein no caso Suzanne Urban mostra-se não apenas em um amor <idólatra> pelos pais, mas também em um culto amoroso hipocondríaco <quase anormal> aos pais e ao esposo. Esse culto é afetado profundamente e é colocado sob a máxima prova quando o esposo (um primo) contrai câncer na bexiga.” “Além disso, ressalte-se que não se trata de um delírio de perseguição singular <residual> que se liga a uma vivência de desabamento do mundo, como no caso Schreber-Flechsig, mas, como nos casos Lola e Ilse, de um delírio de perseguição anônimo ou plural.”

(Nota: os títulos a seguir foram insertos por mim de forma arbitrária, não correspondendo nem à posição dos capítulos e tópicos do livro nem coincidindo em nomenclatura.)

1. A FAMÍLIA RELATA O CASO

“nenhuma amizade autêntica.”

“Sobretudo nos últimos anos, colocou que o ideal haveria sido não ter se casado, mas ter feito carreira no teatro. Natureza muito erótica (…) gostava de contar ao velho pai piadinhas eróticas.”

Quem não vira artista fica doido; mas e o artista, anormal, fica o quê?

“Quando menina, era notavelmente bonita. (…) Não agia como uma coquette” “Tornou-se noiva de um primo muito rapidamente”

“Aos 27 anos começaram ataques de espirro paroxísticos [?] que permaneceram fechados à influência terapêutica. A organoterapia junto a renomados laringologistas falhou completamente.”

“O marido era dominado pela esposa, cedia a ela constantemente”“só tinha interesse pelo câncer do marido, não suportava qualquer outro assunto. Indignava-se se alguém risse em sua frente. Queria acima de tudo matar o marido ela mesma e suicidar-se depois. Desejava um acidente que trouxesse a morte para os dois.” “Insultava os médicos porque eles não matavam o marido.”

“A paciente ingressou num hospital psiquiátrico (…) desde o começo, acreditava que estava sendo observada, perseguida pela polícia, radiografada; segundo ela, a família (…) estava tomando seus bens; no parque havia fios elétricos que registravam os passos de todos, ela teria sido infectada com sífilis, além de ter câncer, e todas as doenças possíveis. Recusava comida, acreditando que estava envenenada. À noite, vozes entravam-lhe na cabeça e mandavam-na repetir tudo que havia de mau; tudo seria impresso e divulgado por meio de gravadores especiais. Havia fios por toda parte. Mesmo no banho, haveria aparatos que a fotografavam nua para expô-la publicamente. Julgava que misturados aos remédios tomava sêmen de rãs e lagartos, queria vomitar tudo.”

“As idéias persecutórias pioravam cada vez mais. Gritava da janela (…) haviam cortado fora o nariz, as orelhas, os braços da mãe. Os familiares estavam enfiados em meio a fezes, batiam neles com barras de ferro, etc.”

“alta após 4 semanas”

“Nos últimos tempos, envelheceu muito, os cabelos esbranquiçaram rapidamente.”

2. COMO SUZANNE SE VÊ

“[Internada na clínica de Binswanger,] escreveu em poucos dias 2 cadernos completos, em alemão, embora esse não fosse seu idioma natal. (…) A partir dos escritos, pode-se perceber o quão exatamente as informações dadas pela paciente concordam com as dadas pelos familiares do ponto de vista do tempo e dos fatos”

Visto que a doença piorava cada vez mais, que meu marido começou a sofrer de insônia total apesar da medicação e que só comia se o forçavam e se alimentava principalmente de sangue prensado com creme, ovos e carne, os médicos sugeriram, uma vez que não se podia obter o novo medicamento (mesotório) onde morávamos, que fôssemos a Paris, ao que meus familiares também me encorajavam, dizendo que eu devia de toda maneira, embora estivesse arrasada, inconsolável, tentar também isso, a fim de nunca poder me culpar por [não] ter tentado fazer todo o possível para, se não salvar, ao menos prolongar a vida do homem. Essa estadia de 2 meses em P. foi o inferno para o pobre homem; alguns médicos queriam mandar operar meu marido, proposta, contudo, veementemente rejeitado por outros médicos.”

Enquanto eu estou andando pelo parque, eu escuto minhas expressões um tanto triviais serem repetidas por algumas mulheres que estão andando o mais perto possível de mim, a fim de me mostrar que elas ouviram tudo. Isso me deixa frenética. Até mesmo meus pensamentos são repetidos por outras pessoas. Eu digo para minha irmã ‘Nós estamos aqui entre espiões, o que eles querem de mim?’, mas ela apenas ri”

eu pressinto uma corrente elétrica”

tornei-me assassina de toda a família; não isso apenas; eu mando despedaçar a tumba do meu pai. Esses pensamentos me vêm na língua …, que eu nunca usei em casa. (…) e eu, assassina, estou deitada aqui na cama, estou sendo alimentada, estão me dando banho enquanto meus inocentes familiares atormentam-se.”

nós somos mendigas, eu caluniei vocês todos por meio do poder do diabo.”

Agora estou vivendo com a única esperança de escrever um pedido (petição) de que fuzilem as pobres pessoas sofridas ao invés de martirizarem-nas por tanto tempo.”

3. ANOTAÇÕES DE BINSWANGER

“Teriam-na mandado dizer que seu sobrinho é um socialista. Sente depois, com toda a exatidão, que estão arrancando os olhos dele.”

“tão logo conta uma piada, faz mais uma vez censuras a si mesma. (…) Conta com muito gosto as piadas mais sujas. Pergunta quem lhe tirou o entendimento.”

“Em 4 de setembro de 1920 é retirada do hospital psiquiátrico pela irmã imprudente, depois da assinatura de uma declaração rigorosa (…) Desde então, não ouvimos sequer mais uma palavra a seu respeito, e todas as buscas ficaram sem resultado devido aos caos da I e II Guerras Mundiais.”

“Até o último momento, a letra era tão precisa e pequena que a paciente podia colocar toda a história de seu sofrimento em um cartão postal”

4. ANÁLISE DO DASEIN

O médico disse-lhe que havia uma parte da bexiga que estava ferida, mas, quando ele virou as costas, fez para mim uma cara tão terrivelmente desesperançosa que fiquei completamente paralisada (…) de modo que o médico agarrou minha mão para me indicar que eu não devia mostrar a ele nenhuma das minhas sensações. Essa mímica foi uma coisa pavorosa! Meu marido também percebeu algo, talvez, mas exibiu uma expressão completamente amigável e apenas perguntou ao médico de onde isto poderia ter vindo; ele respondeu que isso frequentemente está no sangue, sem que se saiba sua origem.”

“horror mudo”

“Suzanne Urban leu no rosto e na mímica do médico não apenas a sentença de morte do marido, mas também a perspectiva das dores tormentosas que o aguardavam.”

“Todo o Dasein estava agora sob o domínio do tema de que foi encarregado na <cena original>, o tema do <câncer do marido>. Como algo de que alguém é encarregado <a partir de fora>, esse tema implica um encargo, o encargo, propriamente, de <levar a cabo> esse tema de alguma maneira, de não sucumbir a ele, mas vencê-lo.”

“Suzanne Urban agora fala consigo mesma, ouve a si mesma, escuta exclusivamente a si mesma. Se o dito de que todo monólogo é um diálogo (Vossler) é correto, isso também se aplica neste caso.”

“Enquanto o si-mesmo aberto (aberto à verdadeira comunidade) atenua a carga de tal tema falando a respeito dele com um amigo, o si-mesmo que se enclausura com o tema procura carregá-la <exclusivamente> em seus próprios ombros, sem ver que esses ombros se tornaram fracos demais para isso há muito. A essa altura estamos diante do 1º passo desse Dasein em direção ao cegamento do si-mesmo ou à extravagância.”

Vacas não-malhadas e gatos no telhado: “Nachts sind alle Kühe grau”

“Como é regra nos delírios de perseguição plurais, aqui o pretenso fundador da <desgraça de toda a família> [o psiquiatra da internação] vai depressa para o 2º plano para temporariamente dar lugar a uma pessoa completamente diferente (<a prostituta de rua>, a enfermeira) e somente ser mencionado de novo ocasionalmente. O Dr. R. figura aí como aquele que a separou de seu marido (…) o carrasco da família” “Apesar de tudo isso, não parece fora de questão que o Dr. R. deva seu significado de desgraça ou de pavor a uma <identificação atmosférica> com o urologista que <martirizou> o marido com seu exame e lhe revelou o diagnóstico de câncer tão <pavorosamente>. Pois o verdadeiro carrasco, aquele com quem <a desgraça de toda a família> começou, é decerto o médico da cena original

Te peguei pela nota de rodapé.

Tu te tornas eternamente citável pelo artigo que publicas.

“Também a autosseculusão frente aos outros é uma forma desse ser compartilhado (…) Todavia, com isso ainda estamos na superfície, completamente à parte do fato de que a passividade sempre implica uma forma de atividade e vice-versa.”

Mundchen, a boquinha de Munique.

É fitar e começar: start and resume (pressing start): starren: é ver pra crer: que fita, pode crer!

Select your destinyfreedom!

Pausar qualquer progresso.

Engessar qualquer um que deu um pau na máquina que deu pau.

Congelar, reter, dar crise de pânico e resetar.

Meu torpor seguro onde cristalizaram as emoções já faz um tempo.

Já faz um tempo que as pessoas agem como se portas-afora fossem.

Ágora é que são elas, cuspindo na cara dos carnavais.

Parcas fora do baralho, só estão no mundo real –

Presente de hilota e pelego!

Recebo, não nego, dadivoso logro quando hipomaníaco eu estiver.

Rancorosa Lola Corre do Tempo que Assedia a Moça de Somas Bonitas.

Poxa que rosa sua coxa, recorro aos meus pensamentos para encerrar o coro

Com uma mensagem que não escoe pelo ralo: uma ponte entre nossas

Aspirações.

Abismo cheio de miasma, conhecido como el mismo.

Cacarejou a cara do novo dia normal e malogrado.

O Apanhador de Sentidos no Campo do Nonsense.

Em termos de sentido da vida, a única coisa que se apanha, em muitas pessoas, é seu eu-criança. Isso é falta de apanhar, K.! Preguiça mental!

Entorpecido em suas sólidas crenças morais.

Fagulhas de luz negra em seu olhar gasoso, de névoa desinteressada.

História da Moral: Não conte.

Wish-to-do-list:

Ator: doar um

Um ator, atordoar

fina morte morna de morfina

“Em lugar da simesmação autentica do Dasein no sentido da existência, entra a errância sem-fim para o <mundo pavoroso>, para a <odisséia pavorosa>.”

“A notável idiossincrasia das narrações delirantes dos esquizofrênicos está correlacionada ao fato de que o <como> da narração, a representação linguística, pode ser extremamente sucinta e precisa – tão precisa que um leigo, em regra, dará crédito às declarações delirantes da paciente prontamente se elas não forem abstrusas demais –, enquanto o <o quê>, o conteúdo de suas narrativas, é em regra notavelmente impreciso, vago, ambíguo, até mesmo <aventuroso>.”

me sinto como se…”

“Quanto mais evidente é a sinistra entrega de Suzanne à publicidade, mais os órgãos executores dela (aqui como em outros lugares) se subtraem a uma verificação exata. Todos procedem de maneira mais ou menos secreta. (…) está cercada de espiões, contudo não consegue vê-los e identificá-los; ela escuta <um apitar policial>, mas não vê nenhum policial. (…) A despeito do sentimento de ódio para com o Dr. R e para com a <prostituta de rua>, Suzanne, ao contrário do presidente do senado Schreber, não implica com uma pessoa determinada, ao redor da qual circula amor & ódio. Não foi <ele> nem <ela> que armou, mas simplesmente <armaram> uma <armadilha pavorosa>” Bem weberiano!

“Lidamos com duas <linguagens> da paciente ao mesmo tempo: uma linguagem do pavor e uma linguagem da verificação calma e da reflexão. Delírio e reflexão sóbria não se excluem mutuamente”

“Suzanne ouve dia e noite um uivo pavoroso, como o dos lobos. <Tossem> e <cospem> alto diante da janela dela, ela vê grandes facas de cozinha que estão numa janela e grita alto ao ver algumas gotas de sangue sobre o chão, etc.”

“a criada do hospital está vestindo os aventais dela, para <mostrar-lhe> que estão fazendo <revistas> (policiais) em seu quarto. As declarações de uma senhora de que se deveria deixar o gato <dar uma boa mastigada no pássaro>, certos movimentos manuais e o ato de puxar o nariz, tudo isso tem o mesmo sentido, que algumas vezes ela escuta expresso por palavras: <a cabecinha precisa cair>.”

“Depois de pensar como seria bom se quisessem decapitar ela própria (em lugar de seus familiares), ela vê <diante de si> um menino que tem um sabre de brinquedo fazer o movimento da decapitação. Ao capinara grama <mostram> a foice significativamente: <Eu, contudo, entendi o sentido da foice>.”

zombam dela, até mesmo da doença do marido: Câncer, câncer, pelo amor de Deus! Por que não lagosta?”

“O que torna o <paciente que sofre de delírio> alheio a nós, o que o faz parecer alienado não são percepções ou idéias isoladas, mas o fato de seu enclausuramento em um esboço de mundo dominado por um único ou alguns poucos temas, ou seja, enormemente estreito.”

“há os pensamentos que mandam-na pensar!”

“obrigam-na a pensar que os familiares são cobertos com chumbo e piche.”

“O mais tormentoso de todos os tormentos é, na verdade, a obrigação, que parte de um poder diabólico, de caluniar seus familiares <em pensamentos> ou com palavras e, desse modo, de fazer-se culpável pelos martírios e pela decadência tormentosa deles, portanto, de ser uma criminosa, por assim dizer, uma criminosa a contragosto.”

1) ‘voz’ inquisidora; 2) poder caluniador dos pensamentos e das palavras; 3) instância transcendente que reflete o jogo de perguntas e respostas, sendo aceita como destino pela ‘voz’, que no entanto ‘corrige’ as respostas quando necessário.

“Aí vemos que O Dasein ainda consegue resistir à publicização dos <pensamentos> ou, ao menos, ainda consegue encará-la de frente se ela estiver em extrema contradição com o si-mesmo. No entanto, é claro que as acusações caluniadores surgem a partir do próprio Dasein.”

Detalhe curioso: a ‘voz’ diz-lhe injustamente o tempo todo que seu marido, inocente, é um falso-moedeiro. “Em Kreuzlingen [segunda internação, na Suíça], ela sempre ouve o martelar de uma forja <nos ouvidos>, que indica que ali mora a mulher do falsificador de dinheiro!”

“E se alguém designa todos esses pensamentos como idéias delirantes, declara ela energicamente: Não são idéias delirantes, são idéias verdadeiras! E logo após Suzanne faz de novo um relato completamente objetivo sobre o novo medicamento que foi inventado contra o câncer em Munique e que seu irmão buscará.”

“a intenção de matar o marido com veneno (arsênico) agora é colocada como a causa de sua internação no 1º hospital”

A paciente passa a se arranhar (no lugar da enfermeira), a se masturbar sem consideração com quem a assiste ao invés de ter vergonha de qualquer atitude em seclusão, uma vez que é sempre, de alguma forma, filmada e gravada: “O mundo compartilhado, que normalmente tem o papel principal no delírio, aqui afunda em direção à completa insignificância. O Dasein retorna à vida no próprio corpo e ao gozo do próprio corpo, agora não mais na seclusão do mundo com-partilhado, mas <diante dos olhos dele>.”

ESPACIALIZAÇÃO DO DASEIN ou TEATRO DA PERSEGUIÇÃO: “Ellen West designava seu Dasein como uma prisão, uma rede e, sobretudo, um palco, cujas saídas estão ocupadas por homens armados <de espadas sacadas>

Jemandem auf den Leibrücken

“Mesmo os pensamentos são <coisas> que são como que tiradas de um recipiente e inseridas nele.”

“mundo sinistro marionético” “Essa consciência de ser uma simples marionete nas mãos de manipuladores desconhecidos está relacionada ao que há de mais pavoroso nos pavores” “Também o predomínio da tecnologia e do maquinário tecnológico está correlacionado à redução do mundo desse delírio a um simples mundo do contato.”

Minkowski – Les notions de distance vécue

E agora, que devir poderá dar uma condição de possibilidade de me salvar? EEEEuuuuuuu

Já conhecemos da <experiência natural> o papel da polícia como um poder sinistro-anônimo. É preciso ler somente O Processo de Kafka para ter uma idéia do tipo, da dimensão e do efeito desse poder. Além da polícia, agora entram em ação também seus companheiros, seja a mando dela, seja por conta própria.” “o médico encaminhador ou ‘carrasco’, os enfermeiros, os outros pacientes, os companheiros de viagem, etc.” “órgãos executores do pavoroso

“Em todos os casos, trata-se das formas do pegar ou ser-pego por algo relacionados ao mundo compartilhado, no sentido da impressionabilidade.

“Acima desses <ramos> dos órgãos executores do pavoroso e, especialmente, acima da polícia, encontramos – como contratantes – o partido (anti-socialista), o exército de ocupação (vive-se então a Primeira Guerra Mundial) ou mesmo o Estado. E sobre tudo isso está simplesmente o poder diabólico do pavoroso, que ora é apenas pressentido, ora é ouvido como uma ‘voz’ terrível.”

“Apesar de ele assumir uma voz, não se chega manifestamente à personificação propriamente dita do poder do pavoroso na forma de um diabo ou um demônio, como muitas vezes podemos constatar em outros casos. Em todo caso, também não ouvimos dizer nada sore visões diabólicas.”

Szilasi – Potência e impotência do espírito

5.O PALCO: CASO ELLEN WEST X CASO URBAN. QUANDO A PEÇA ENCENADA E MUITO CONVINCENTE TORNA-SE POR FIM O REAL (TEATRO DO PAVOR). REFERÊNCIA À TRAGÉDIA GREGA CLÁSSICA.

“o Dasein que adentrou o símile do palco de Ellen West está de uma vez por todas cercado por cortinas que não podem ser deslocadas, por inimigos insuperáveis.”

Resignação como a “ajuda que vem do próprio Dasein”.

“Uma vez que a possibilidade de ser da impressionabilidade se autonomize completamente e, com isso, se torne desmedida e ilimitada, e, consequentemente, o Dasein se limite ao recebimento de impressões, fala-se de alucinação. Se essa receptividade estiver sob a supremacia do pavoroso e obtiver instruções dele, trata-se necessariamente de alucinações pavorosas. O mesmo vale para os pensamentos.”

“O <palco> inteiro está posto em cena por um único <diretor>, por um único poder que confere sentido e dá uma direção. É apenas a partir desse poder que todos os atos que conferem e cumprem sentidos recebem sua diretiva e seu cumprimento intencional.”

Mergulho na viscosa piscina do delírio. Fácil entrar, difícil sair.

“Enquanto o delírio é uma das formas da sujeição do Dasein a esse poder do pavoroso, o mito e a religião, a poesia e a filosofia representam, pelo contrário, formas da superação dele.” “O pavoroso diz respeito ao Dasein em seu isolamento no autismo

Partida bem disputada antes da partida bem acenada

como se…” símile, analogia, erga mínimo distanciamento, abstração, consideração fria de uma autoimagem – diferente de quando se passa ao delírio (psicose) p.d.

“O ser-espiritual é exatamente esse retorno, esse recuperar-a-si-mesmo do tumulto do mundo, a possibilidade da capacidade de ser no espírito.”

passa-se à voz passiva do ente

“O próprio pavoroso-aflitivo se transformou aqui: em lugar do marido, encontramos toda a família ameaçada pelo martírio e pela morte, no lugar do martírio por uma doença incurável, entraram os martírios feitos pela polícia, etc.”

“Daí resulta que, para a compreensão do delírio, não podemos recorrer nem a um distúrbio do juízo em termos de um equívoco, nem a um distúrbio de percepção sensorial, de ilusão por meio de alucinações. Ambos são já consequências da transformação da estrutura do ser-no-mundo como um todo, no sentido do ser-no-mundo deliróide.”

“Ele não se porta de maneira diferente de uma pessoa a quem aconteceu uma injustiça real. Não tem somente a necessidade de <dizer o que sofre>, mas também de defender a si mesmo e os outros dos sofrimentos. (…) o contato com o mundo compartilhado não está de nenhuma maneira interrompido.”

Quem tem inimigos sempre tem testemunhas e objetos neutros no universo. Não houvesse isso, seria apenas uma câmara de yin-yang e partir-se-ia para o confronto direto. No entanto, o inimigo é covarde, é astuto e “mais sujo” do que nós (os personagens delirantes), precisa recorrer a subterfúgios e a táticas infames para “ganhar de nós”. Como ainda cremos, apesar de tudo, numa justiça como princípio das coisas, olhamos em todos os recantos atrás de alguém que simpatize com nossa causa e perceba a vileza e a má-fé de nossos oponentes-perseguidores.

Desse ponto de vista, aquele que sofre de delírio de perseguição não é de forma alguma autista.” Ele sofre de hiper-realidade. Ele pensa que cometeu o crime perfeito e agora sofre uma retaliação não menos impecável…

O perseguido é um secreto exibicionista.

“a <conversão> dos acontecimentos em <ação> vai muito mais longe do que onde já se chegou ou pode se chegar na tragédia e também no mais arrepiante drama barroco. (…) o delírio (…) supera a (…) tragédia (…) [porque] (…) também os pensamentos [são] recebidos [de fora e incluídos] na ação.”

“aqui, como na tragédia, não há <rua sem-saída>, mas tudo vai a qualquer lugar e vem de qualquer lugar e claramente <se refere a um centro>”, o que, como já ressaltamos, exclui o acaso. (…) [Mas,] enquanto na tragédia o poeta é quem <transforma a matéria-prima com sua força>, no delírio o poder formador (…) é cego, e isso implica DESTRUIR A FORMA” Édipo é o autor dessa mímica infernal.

6. CONTINUAÇÃO DO TÓPICO ANTERIOR. REFERÊNCIA À POESIA DE BAUDELAIRE.

Para usar o idioleto idiótico de Einstein, no delírio de perseguição, deus joga todos os dados que tem à mão!

À procura da batida perfeita, quer dizer da cena perfeita, quer dizer, da cena original.O protótipo de todos os males.

O SONETO DA DESTRUIÇÃO AUTÔMATO-SANGRENTA

Sem cessar, ao meu lado, se agita o Demônio,

Ele nada em torno de mim como um ar impalpável

Eu o trago e sinto que queima meu pulmão

E o enche de um desejo eterno e culpável.

Por vezes ele toma, sabendo meu grande amor pela Arte,

A forma da mais sedutora das mulheres

E, sob pretextos especiosos da tristeza,

Acostuma meu lábio a filtros infames.

Ele me conduz assim, longe do olhar de Deus,

Arquejando e quebrado de fadiga, em meio

Às planícies do Tédio,¹ profundas e desertas.

E lança aos meus olhos cheios² de confusão

Vestimentas sujas, feridas abertas,

É a máquina sangrenta da Destruição!”

Baudelaire

¹ Tártaro

² de cisne

νος

Nada no ar

Ar que queima

Fogo que chamusca,

soterra

Terra que cobre

Tudo de novo.

Imagina se esse eidos pega n’olho

Você vê resultados nos testes de Rorschach?

7. A PARANÓIA DE ROUSSEAU

“nos ocuparemos de um caso especialmente famoso e bem-documentado da literatura mundial, o de Jean-Jacques Rousseau.”

“Esse caso é muito apropriado ao que nos interessa, pois a língua francesa é extraordinariamente rica em expressões metafóricas, que são aquilo de que se trata aqui.”

“Rousseau sofria de um delírio de perseguição completamente não-sangrento, puramente social ou reputacional, em termos de uma difamação levada ao extremo, e, no entanto, nele encontramos um vasto número de expressões da esfera do maquinário e da tecnologia a serviço da destruição.” UnB murky atmosphere

Rousseau, Dialogues (vol. XVIII[!] das Obras completas)

Barbarus hic ego sum quia non intelligor illis”

Ovídio

Aqui sou um bárbaro, pois não me entendem”

agrupamentos, cochichos, risos desrespeitosos, olhares cruéis e selvagens, escárnio… atentados… o inimigo sabe exatamente aquilo que mais nos pode ferir, como que magicamente… somos nós que temos rivais finalmente à nossa altura, ou nossa mente nos prega essa peça tão pesada (nosso maior inimigo é nossa própria inteligência tão sutil em seu masoquismo autoacusatório?)?

esse corredor polonês assintótico, entre a certeza absoluta de ser o bode expiatório e a certeza de ser só um ser-num-mundo-ruim, eternamente em dúvida entre os dois pólos perfeitos, eternamente num julgamento impreciso sobre todos os eventos e circunstâncias em pingue-pongue

Eles encontraram a arte de me fazer sofrer uma morte lenta me mantendo enterrado vivo”

R.

“lama”

“apunhalam-me impunemente”

“tudo é uma armadilha”

“maldade diabólica”

não soa, é!

a ameaça de um vago processo…

ocafka da Kapes

a vingança é impessoal

Imaginem pessoas que começam a colocar cada um uma boa máscara, bem ajustada, que se armam com ferro até os dentes, que surpreendem seu inimigo em seguida, o acertam por trás, colocam-no nu, atam-lhe o corpo, os braços, as mãos, os pés, a cabeça, de modo que ele não possa se mover, colocam-lhe uma mordaça na boca, furam-lhe os olhos, o estendem sobre a terra e passam, enfim, sua nobre vida a massacrá-lo de pavor docemente, de modo que, morrendo por suas feridas, ele não cesse de senti-las tão cedo … a vista cruel deles fere seus olhos por todas as partes … o espetáculo do ódio o aflige e o dilacera ainda mais [na mente que no corpo]”

…estes Senhores conjurados em um complô anônimo para difamar-me, inclusive em face do amanhã…” “o grupo parte de 2 rivais, cujo número rapidamente aumenta para 10, mas gradualmente passa a abranger o mundo inteiro (l’univers)”

neurose de transferência do inimigo mortal zena-carolina (nevrose à 4)

cassaram-lhe a aposentadoria integral

invejavam seu carrão

não o valorizavam o suficiente

obviamente falavam mal dele as suas costas (((sem provas)))

UnB – tornar-se um adulto – emular o progenitor

pessoas falam mal de mim às costas

fazem cartazes, infringem normas do Orkut (sim, com provas!)

desvalorizam-me a olhos vistos (a imbecil que desistiu do curso para cursar medicina diz que Heisenberg não pode ser citado numa aula de Introdução à sociologia, pois “não tem nada a ver”, física nada tem a ver com este mundo compartilhado em que pisamos – e mesmo se tivesse, vc fez uma analogia idiota!!)

o calouro que tomou pinho-sol (como se tivesse sido um litro, foi um gole de desafio, mas isso não importa, é a última coisa que importaria, o que importa é a mofa e a troça, passar adiante este relato mui cômico… e ele não tem direito de se enfezar com essa história, afinal, quem mandou ele… inclusive quebrar o dente numa escada numa festa… que ridículo! que ridículo ele descontar hipócrita e dissimuladamente em seu blog intelectual – ele não tem esse direito! – ele me chamou de chato lá… disse que eu dou sono, eu atrapalho, que NÓS SOMOS BURROS, inadmissível, alguém que tomou um gole de pinho-sol ser superior a nós, ovelhas de rebanho, em qualquer coisa que seja!…apague seu blog, viva de acordo com meus preceitos, seu… doido… retifico… seu menos-que-doido pois eu li em Foucault que doidos são seres complexos e honrados vc é um menos-que-nada-e-além-do-mais-vc-é-um-playboyzinho-que-estudou-no-CEUB, meu pai arquiteto que gosta de ornar a casa com colunas gregas jamais teria dinheiro para pagar 700 reais por mês numa FACULDADE para mim, embora ele custeie minha vida numa cidade longe de Fortaleza num apartamento NO CENTRO DA CIDADE, o que pelas minhas contas, para o ano de 2007, excede com facilidade as 2 mil pratas… ó!)

O curso inteiro virou meu inimigo

Mas tinha começado com um núcleo duro…

Logo me afastei até mesmo dos meus amigos mais próximos, que decerto não compactuavam com nada dessa marmotada toda…

Virei um desconfiado de carteirinha. Estava sendo observado na biblioteca, na cantina…

E depois? Ninguém me deus os parabéns, era mera obrigação… Então, a OBRIGAÇÃO de honrar os pais eu a cancelo, porque eu sou livre. Sua obrigação é sofrer seu destino.

Meu destino foi sofrer meu estágio probatório. E rir no meio de uma pandemia, rir, gargalhar, galhofar cada vez mais alto e espalhafatoso, até o dia que por acidente (pois já não mais me perseguem, as pessoas estão paranoicas com outras coisas muito mais importantes, sem dúvida! estou curado!) – por acidente eu disse! – toparem com seus nomes nodoados num post numa entrada miserável na internet e tudo recomeçar?… MAS ESTE É UM PROCESSO SEM-FIM E AUTORRETROALIMENTADO, não se esqueça! Ele faz e paga e sofre e recebe o que pagou e assim por diante incessante infinitamente até que alunos e professores todos se esmaguem num abraço coletivo cheio de ruído e cólera e, não foi nada demais… insignificante.

No fim, eles têm de admitir: eu sou marcante. Eu tenho digitais, eu marco aquilo que toco. Se transformo em ouro ou cinzas, não interessa, o Dasein não tem – para emitir diagnósticos – qualquer resquício de pressa

A vítima de racismo que comeu uma banana e deixou o agressor com cara de tacho é uma história que me lembra muito a minha!

Eu lavei minha boca e troquei a dentadura, para poder falar (com) coisas(-pessoas) melhores.

Eu sou viciado nessa história porque apesar da dor que me causou e que ainda me causa marginalmente, eu viveria todos estes capítulos de novo e de novo… Se sou doente de alguma coisa, essa é minha doença e ela é com toda certeza absolutamente intencional e culpa minha!

A provocação tem 1000 vozes. É próprio da provocação misturar os gêneros, multiplicar os vocábulos, fazer literatura, e esta integridade da matéria dura que nos provoca vai ser atacada, não somente pela mão armada, mas pelos olhos ardentes, pelas injúrias. O ardor combativo, o neikos, é polivalente.”

Bachelard

Mas e Rousseau?

8.DESCONTINUIDADE TEMPORAL

“No pavor abismal relativo ao diagnóstico de câncer e no congelamento de todo o Dasein, <o tempo> estava, por assim dizer, em repouso, não se desdobrou em seus êxtases e, portanto, o Dasein não existia mais no sentido pleno da palavra.”

ab –ismo (até o exagero)

Mitwelt

mundo.com

niilismo&vc.td.a.ver.

“Enquanto no quarto estudo, o Caso Lola Voss, tivemos que nos contentar essencialmente com a verificação e a descrição dessa transformação, esperamos, neste quinto estudo, ter dado um passo a mais na compreensão daseinanalítica [hm] dela. Temos consciência que ainda estamos longe da meta.”

“A palavra physis vem do verbo phyo (nascer, originar-se).”

Um grau além da citação cruzada ou autocitação: a citação de um livro que é dedicado à própria teoria! Grosso modo: “Como diz Binswanger apud Szilasi …” Binswanger [!!!]

“com a evolução da esquizofrenia crônica, acontece pouca coisa, e sempre menos, na medida em que os pacientes esquizofrênicos não têm experiências novas no sentido da experiência natural, i.e., que <adicionem algo novo> às antigas, mas apenas experiências em termos da monotonia do velho estribilho. Permanece-se fundamentalmente na experiência do elemento geral único, e, assim, <não acontece muita coisa>”

“uma longura que se diferencia da lentidão da depressão.”

“no delírio de perseguição, tem-se uma imensidão de <<novas>> experiências

“A temporalização da longura nunca conduz à temporalização do tédio

“Vale notar que o termo utilizado para <andamento musical> em alemão é Tempo

Adorno riria desse esforço: “Binswanger está tentando distinguir na etimologia de longura e lentidão vestígios de formas diferentes de lidar com o tempo. Infelizmente não é possível manter essas relações etimológicas em português.”

“A palavra para tédio é Langweile, formada pelo adjetivo lang e o substantivo Weile (momento, intervalo de tempo).”

“Se alguém, no convívio da vida e do trabalho, for irritado repetidamente da mesma maneira pela mesma pessoa, <ele não vai suportar para sempre>. Em verdade, aqui se experiencia a generalidade da irritação novamente em cada particularidade, mas não de maneira que (como no delírio) o particular represente o geral e exista somente pela graça dele, mas de modo que o geral se particularize de fato em toda sua dimensão, i.e., experiencie sua plena concreção em cada <ensejo> particular (…) É isso que, frente ao irritante, não suportamos para sempre.”

9. A CONSUMAÇÃO DO PAVOR

Husserl, Ideen zu einer reinen Phänomenologie und phänomenologischen Philosophie

“Só se repare de passagem que eu, a despeito de minha convicção da importância filosófica e científica imperecível do método puramente fenomenológico, não estou no campo do <intuicionismo absoluto> da maneira que Husserl o advoga, razão pela qual ainda sou aberto a contemplações e reflexões, como disse Hans Kunz em O problema do espírito na Psicologia Profunda (art.).”

Dormimos todos juntos sobre vulcões”

Goethe

Naquilo que é teu, também vejo o que é meu”

Ulisses no Ájax de Sófocles

é 1000, tio! run!

é 100&cia.

10. TENTATIVAS DE DIAGNÓSTICO

“quando o clínico fala de pessoa ou personalidade, ele já deixou o campo da análise do Dasein.”

estamos demasiado acostumados a agir como se a doença invadisse uma pessoa saudável como se fosse alguém estranho!”

Tiling, Tipificação e Distúrbio Individual do Espírito, 1904.

“Eu vejo em T., a despeito de seus esquemas psicológicos historicamente condicionados, um predecessor da psiquiatria clínica moderna.”

“Suzanne Urban nunca perdeu sua <orientação> e nunca exibiu os distúrbios de pensamento esquizofrênicos formais. Isso também é importante para o tipo de ocorrência delirante de forma de delírio de nosso caso. Pois, ainda que se diferencie dos casos Strindberg e Rousseau pelo <afeto> melancólico em alto grau, tem em comum com eles a forma do delírio.”

“A alguém que leia o histórico da doença pode surgir a suspeita de que, no caso de Suzanne Urban, se tratasse de um delírio puramente depressivo (<afetivo>, <holotímico> ou <sintímico>). Esta suspeita se funda no fato de que de acordo com a família a doença começou com um <transtorno triste de humor>, que o humor permaneceu até o final depressivo e [que] os delírios [são de tipo] melancólico.”

O delírio de culpabilidade leva a acreditar que se cometeram os crimes mais graves sem que haja razão para tanto, ou transforma más ações pequenas e reais em pecados imperdoáveis. Por causa do crime, não somente o paciente é castigado de maneira atroz nessa e na outra vida, mas também todos [os] seus familiares, o mundo inteiro”

Bleuler

7 x 77: a Bíblia é um manual psiquiátrico de primeira grandeza!

“Aqui não se fala de um pecado imperdoável e de seu castigo atroz.” Suzanne sente-se injustiçada. Além disso ela foi uma “criminosa” completamente passiva (de acordo consigo mesma).

hunter x hunter

paranoid x depressed

sense vs. sense

Muito Além da Melancolia (de Ken?)

Delírio de referência: sistematizado e independente do ciclo crime-culpa-e-castigo. Perto disso, a pura mel-ancolia é uma doce brisa.

“há uma perda das inibições morais que não é conciliável com o diagnóstico de melancolia.”

“Com isso, chegamos ao terreno espinhoso da paranoidia, da parafrenia e da paranóia. Já dizemos de antemão que, juntamente com Kolle, Bleuler, Mayer-Gross e outros, somos da opinião de que, hoje em dia, tanto a paranóia (psicótica) quanto a parafrenia devem ser classificadas como esquizofrenia.”

“Do ponto de vista puramente sintomatológico, o caso S.U. poderia ser classificado como a paraphrenia systematica de Kraepelin, já que se trata aqui de um desenvolvimento sorrateiro de um delírio de perseguição constantemente em avanço sem degeneração da personalidade.” Sublinhados: discordantes do caso S.U.

Este sujeito é incurrável, disse o doktor alemal. Ele não pode ser comido!

“o fosso de lama, semelhantemente à caverna, é uma forma particular especialmente feia, fétida e pútrida de profundeza da terra.”

“Uma vez que o diagnóstico de esquizofrenia parece confirmado, e visto que, <onde idéias delirantes e alucinações … estão em primeiro plano>, fala-se (como em Bleuler) de paranoidia, precisamos incluir o caso nesse subgrupo esquizofrênico e, quanto à orientação delirante, classificá-lo como delírio de perseguição paranóide.” Ainda assim: “não vemos sintomas catatônicos, negativismos, estereotipias, excentricidades, maneirismos e também neologismos ou propriedades lingüísticas esquizofrênicas”.

“paralisia das pernas”: histeria

delírio de perseguição singular (portanto necessariamente identitário, vinculado a um sujeito) x delírio de perseguição plural identitário (teoricamente possível, mas que sempre tenderia a alargar seus inimigos, tendendo ao próximo) x delírio de perseguição plural anônimo (caso S.U.)

INFERÊNCIA DA DESCONFIANÇA

Aquele que não desconfia de ninguém… talvez desconfie de si mesmo.

Aquele que não desconfia de ninguém, nem de si mesmo… talvez simplesmente não exista!

Aquele que desconfia de si mesmo, talvez não desconfie de mais ninguém. Saudável desconfiado! Homem invejável!

Aquele que desconfia de um, mas que não desconfia de si mesmo, pode desafortunadamente desconfiar de muitos.

Mas, amigos, aquele que desconfia de muitos, esse desconfia de todos os homens, mais cedo ou mais tarde!

Schreber, por exemplo, o típico delirante singular, vai sucumbindo ao delírio em degraus – imagem perfeita, porque uma escada não é uma rampa. Há uma descontinuidade, mas a ocorrência de ataques ou surtos agudos, que, pelo menos até o segundo, são visivelmente mais importantes do ponto de vista clínico e do ponto de vista do aprofundamento do delírio. Após o segundo, Schreber já está convencido de que ele está no centro de uma trama que envolve o destino do mundo inteiro. E no entanto é só uma figura que emite a voz. Seu pai ou deus. Há posteriormente certa contração (relaxamento), que podemos chamar de descida da escada.

Suzanne, ao contrário, ignora a escada, dá um drible da vaca no real, mesmo no real do delírio, enquanto o delirante for um Schreber. Quem são os inimigos de Suzanne? A sociedade anônima. Enfermeiras, doutores, bedéis, a polícia inteira da cidade ou do país, todos os fascistas e capitalistas, em última instância. Porque de repente os Urban são um bando de socialistas. O mundo não vai ser salvo nem acabar de maneira alguma, mas esse terremoto com Suzanne no centro de seu palco seria suficiente para liquefazer toda a ordem do seu dia. Ela, a vítima. Não deixarão constar nas manchetes de jornais nem nos livros de história a verdadeira história: que Suzanne é inocente. O Grande Irmão a apanhou. E ele tem infinitos avatares intercambiáveis. O que é que fazem com os perseguidos políticos? Podem muito bem metralhar. Mas se não metralham? Talvez não metralham porque existe o risco de se tornarem mártires! Aí então são mais cosméticos e cirúrgicos: basta com exilá-los, torná-los párias inofensivos, eternas personae non gratae. Se Suzanne está viva, só pode ser esse o tratamento a ela dispensada pelos inimigos ocultos!

O dia em que cri que o apresentador do canal de esportes se dirigia a mim, porque sabia que eu estava na pior. A mim!

A internet escamoteia Cila ou Caribde.

Ou eu bem gostaria que fosse verdade, para vender mais livros…

Quem cai na boca do trombone e é o centro das fofocas quer se matar –

Porque não pode se identificar

Com o lunático solitário que só queria ser falado e criticado!

Ou vice-versa.

Schreber x Professor Flechsig

ódio concentrado, advindo do amor pelo pai

Suzanne x “autoridades”

culpa sem relação interpessoal específica, difundida por todos os sentidos alucinados

culpa totalizante, culpa da própria nulidade social

o delírio seria a vingança da moral contra um eu torpe, que se torna mera coisa, títere no teatro. e sua punição deve ser universalmente contemplada, como num reality show ou grande panóptico avant la lettre, seu corpo nu, sua micção, defecação, o ato de comer, transpirar, assoar o nariz, gozar… menos exibicionismo a contragosto que um voyeurismo de si, um sadomasoquismo em que se é boneco, personagem trágico, platéia, direção e os próprios antagonistas.

Schuld em alemão significa tanto culpa quanto dívida.”

“Uma vez que o conceito de autismo é usado ora no sentido daseinanalítico, ora no psicológico, caracterológico, psicopatológico ou psicanalítico, ele se tornou cientificamente quase inutilizável hoje em dia.”

novo demais pra ser demente, velho demais pra ser bobão.

“Nós vimos que nossa própria paciente se encontra na menopausa e os cabelos esbranquiçaram rapidamente nos últimos tempos.”

“Lembramos que Bleuler notou muito freqüentemente nos paranóides uma <sexualidade fraca>, bem como a falta de desejo por filhos. (…) um autoerotismo <forte> dificilmente pode ser concebido como um sinal de sexualidade forte.” “sem a predisposição sadomasoquista, o exame e o adoecimento do marido não teriam esse papel proeminente na doença.”

“seguimos Bleuler quando ele diz <de acordo com nossos conceitos, a constituição hipo-paranóica é uma subforma da psicopatia esquizóide, assim como a paranóia involutiva é uma subforma da esquizofrenia paranóide.>

11. DE VOLTA A HEIDEGGER& ARREMATE

“Aqui o medo não mantém o Dasein <no nada>, desse modo, ele não deixa o mundo naufragar na insignificância, antes confere a ele uma significância distinta e absolutizada, a do pavoroso e, assim, do significado pavoroso de toda singularidade.

“Vemos no conceito de necessidade de delírio o quanto a investigação do delírio (para o mal do conhecimento psiquiátrico) acabou sendo levada a reboque pela investigação normal-psicológica.”

Diretamente relacionado com as polêmicas Freud//Adler: “Bleuler observa com muita agudeza mais uma vez [péla-saco] que se alguém fala de desejo ou necessidade de estar doente, de interesse pela doença, de meta, de ganho da doença, de fuga para as doenças, de intenção e organização, é necessário ter claro em mente, por causa das conseqüências práticas, que essas expressões e conceitos são tirados das idéias de um leigo sobre a psique [!] normal e, na verdade, não deveriam ser de forma alguma empregados em relação a estados mórbidos.”

Nunca vou entender como os autores cinicamente (acordo tácito?), após ridicularizarem Freud num parágrafo, sem citar, nas suas linhas, ‘F.’ e ‘psicanálise’, procedem, logo a seguir, a uma exaltação fabulosa do <legado>: “Em F., o conceito é muito mais profundo do que naquilo que se costuma falar [mais ainda?] sobre o processo de cura, uma vez que ele está firmemente baseado na teoria (construída com muita fineza) da libido, do recalque, do retorno do recalcado e da projeção.”

Projeção continua, a meu ver, o conceito mais problemático da psicologia em geral.

“A partir desse caso de Schwab, pode-se encontrar facilmente um caminho para o <demônio diabólico> de Suzanne Urban e de muitos outros pacientes que sofrem de delírio”

“nos afastamos de Bleuler e de Jung quando eles querem desqualificar a teoria do delírio primário com a assunção e freqüente evidenciamento de motivos inconscientes

“Hans Kunz acreditava que era necessário ver a vivência de desabamento do mundo (cf. Schreber) <como o conteúdo> do delírio primário <mais adequado à ocorrência>, contudo essa vivência (como nosso caso mostra) não é de forma alguma um pressuposto necessário para o delírio primário.”

Heidenhain, J.J. Rousseaus Persönlichkeit, Philosophie und Psychose

“Vê-se quão pouco o critério da recorrência pode, do ponto de vista da <deflagração do delírio>, ser utilizado no diagnóstico diferencial de paranóia e esquizofrenia.”“Mesmo o <esquizofrênico> que chega imediatamente à certeza delirante tem, como nosso caso mostra também, experiências sempre novas que confirmam as antigas.”

“Hoje não podemos mais dizer que as idéias persecutórias se misturam ao quadro da doença <em razão de ilusões sensoriais>, como se podia ler na avaliação do hospital psiquiátrico Sonnenberg sobre o presidente do senado Schreber e infelizmente ainda se pode ler freqüentemente. Antes temos que perceber de uma vez por todas que as alucinações não são distúrbios isolados, como ressaltam Schröder e Meyer-Gross. Mas o precursor nesse tema foi Minkowski em Le Temps vécu, 1923.”

Um louco não faz mais do que perceber a condição humana a sua maneira”

Sartre

As alucinações não se originam de um distúrbio do sensório – compreendendo-se essas funções no sentido psicológico –, também não se originam de um distúrbio das funções da percepção, do pensamento, do juízo, mas partem de um distúrbio e uma variação das funções simpáticas da sensação. Visto que essas funções estão alteradas, o paciente vive outra comunicação com o mundo; mas uma vez que os modos de ser-no-mundo são fundamentais para todas as vivências, as alucinações não são distúrbios isolados”

Erwin Straus, Do Sentido dos Sentidos, 1935

“No conto Na Colônia Penal de Kafka, um viajante, ao ver um delinquente, pergunta ao oficial se ele sabia sua sentença. <Não>, diz o oficial, <seria inútil anunciá-la a ele. Ele já a sente sobre seu corpo>. Dessa maneira, Suzanne Urban não vem a saber de sua sentença, mas de seu sofrimento <sobre seu corpo>, e, por isso, é <inútil> <anunciar> ou explicar a sentença a ela, ou esclarecê-la. E quando Kafka continua: <não é fácil decifrar a escrita (da sentença) com os olhos; nosso homem a decifra, mas com suas feridas>, também nossa pobre S.U. decifra a escrita de seu <destino> não com os olhos (da compreensão), mas com suas <feridas> e as de seus familiares, com os <sofrimentos infligidos> a ela e a eles. (…) O Dasein zomba de qualquer outra experiência; pois esta é a mais <impressionante> no sentido duplo da palavra.” (íntimo e doloroso)

“Por mais que a clínica não consiga evitar todas as tentativas psicológicas, caracterológicas e biológicas de responder o porquê dessa questão em termos de um conhecimento objetificante, a tarefa da psiquiatria como ciência não se esgota nisso.”

“As capacidades anímicas, as propriedades anímicas, a alma (no sentido da psicologia e da psicopatologia), o caráter, a pessoa, a personalidade, o impulso, etc., tudo isso está ontologicamente no limbo, ou seja, não tem fundamento ontológico. Encontramos esse fundamento na analítica do Dasein de Heidegger.”

Jaeger, Paideia II [!!], Die griechische Medizin als Paideia

“o terrível não pode mais se tornar algo impessoal e extramundano contra o qual se pode invocar o destino, mas ele se tornou um ente intramundo que ainda é acessível sob o aspecto da hostilidade.”

Não existe satisfação compensatória: não é uma expiação que demande “x” de tempo ou energia, até haver a quitação. Em tese Suzanne poderia sofrer de seu delírio um tempo infinito (enquanto viver), sem tendência à cura. Realmente o poema de Baudelaire caía bem: uma máquina infernal!

Não importa o conteúdo do delírio: o médico deve analisar a vida pregressa desse tipo de paciente esquizofrênico.

Situação de partida > Autonomização delirante (a paciente perde o foco da ‘angústia original’, quando ainda tinha um ser-no-mundo autêntico)

LYSIAS’ SELECTED SPEECHES (edição bilíngüe) (Greek Series for Colleges and Schools) – Eds. Weir Smyth & Darwin Adams, 1905.

DIC:

hoplita: soldado grego de infantaria, com pesada armadura equipada

meteco: ver “metecs” 3 parágrafos abaixo e também “metics”

Introductions

In Lysias we have the first really successful application of rhetorical theory to practical speech. The more vehement and showy style of Demosthenes, imitated by Cicero, and through him passed on to the modern world, long dominated English oratory.”

SPEECH XII. AGAINST ERATOSTHENES

Introdução e Considerações sobre o Discurso

It is an attack upon Eratosthenes (probably from the autumn of 403 BC), one of the Thirty, and involves the discussion of the whole administration of that body, and to some extent of that of the 400, the oligarchy of 411 BC.

Early in the administration of the Thirty Eratosthenes had set forth with others of their number to arrest certain rich metecs [estrangeiros domiciliados em Atenas, caso da família de Lísias]. It fell to him to seize Polemarchus, Lysias’s brother, who was immediately put to death. When, after the battle at Munychia (Spring, 403), most of the Thirty retired to Eleusis, Eratosthenes, with one other of their number, remained in Athens, though not as a member of the new governing board of Ten. In the final amnesty between the 2 parties it was provided that any one of the Thirty who was willing to risk a judicial examination of his conduct as a member of the late administration might remain in the city. Otherwise all were obliged to settle at Eleusis or remain permanently in exile. Eratosthenes, believing himself to be less compromised than the others of the Thirty, ventured to remain and submit to his <accounting>.”

The more moderate democrats, notably Thrasybulus, the hero of the Return, were totally opposed to any attempt to strike back at the city party. (…) The task then which Lysias undertook was difficult. He had to convince the jury that the one man of the Thirty who was commonly believed least responsible for their crimes was so guilty that he was not to be forgiven, at a time when the watchword of the leaders of both parties was <Forgive and forget>.” “The real question of the day was as to the power of the democracy to regain the confidence and support of the great conservative middle class, men who had formerly been represented by Theramenes, and later by Eratosthenes. If these men could be convinced that the restored democracy would use its power moderately, foregoing revenge for the past, turning its back upon the demagogue and the political blackmailer, there was hope for the future.”

No one could blame the Sicilian Lysias for seeking his personal revenge [hehehe] (…) It is this larger political aspect of the case which gives to the speech against Eratosthenes its historical interest. (…) To distinguish between those of the Thirty who had sought to establish personal tyranny and those who had honestly striven for a reformed, conservative democracy was of first importance.”

DIVISÃO DA EXPOSIÇÃO:

1. EXÓRDIO. Apresentação do caso.

2. NARRATIVA. Contextualização da procedência de Lísias e do crime dos Trinta contra esta família.

3. DIGRESSÃO. Denúncia formal do réu.

4. PROPOSIÇÃO

5. ARGUMENTAÇÃO

A. Argumentos imediatos.

i. Eratóstenes agiu de forma contraditória.

ii. Por que a tese de que Eratóstenes foi compelido ao ato é sem base.

iii. O caso pode gerar precedentes perigosos para cidadãos e estrangeiros de Atenas.

iv. É contraditório executar os generais de Arginusa e perdoar os Trinta Tiranos.

v. Reiteração.

B. Argumentos sobre a biografia de Eratóstenes. O passado reputado de Eratóstenes não entraria em jogo na acusação presente.

i. A conduta de Eratóstenes no período dos 400.

ii. A conduta de Eratóstenes no estabelecimento do governo dos Trinta.

iii. A conduta de Eratóstenes enquanto um dos Trinta.

iv. A conduta de Eratóstenes no período dos Dez.

C. Argumento-réplica sobre Eratóstenes ser amigo e apoiador de Teramenes. Ataque à carreira de Teramenes.

i. A conduta de Teramenes e suas conexões com os 400.

ii. A conduta de Teramenes depois do governo dos 400.

iii. A conduta de Teramenes na negociação da paz.

iv. A conduta de Teramenes quando do estabelecimento dos 30.

v. Conclusão: A amizade com Teramenes não é suficiente como prova de lealdade.

D. Conclusões gerais.

6. PERORAÇÃO

A. A pior pena existente ainda seria exígua perante o montante de crimes cometidos.

B. Ataque ao advogado do réu.

C. O perdão seria equivalente a aprovar a conduta dos réus.

D. Apelo aos partidos (júri).

i. Aos aristocratas

ii. Aos democratas

E. Conclusão: Sumário dos crimes; apelo ao júri para executar a vingança dos mortos.

The speaker can pass at once to the narrative of the conduct upon which he bases his attack. And here Lysias is at his best. In the simplest language he describes the life of his own family and their sufferings (…) the sentences become very short, significant details of the story follow rapidly, and the hearer is made to see the events as if passing before his eyes.”

The term digression applies to this section only as an interruption of the strictly logical order, which would require the presentation of the arguments before the attempt to move the feelings of the jury by denunciation.”

5.

B.

In the review of Eratosthenes’s conduct as one of the Thirty (§§48-52), Lysias can bring no specific charge beyond that of the arrest of Polemarchus. He tries to forestall the plea of Eratosthenes that he actively opposed certain of the crimes of the Thirty by the shrewd claim that this would only prove that he could safely have opposed them all. He finally (§§53-61) tries to give the impression that Eratosthenes was connected with the bad administration of the Board of Ten, a charge that seems to be entirely without foundation.

To a jury already prejudiced by the affecting narrative of the arrest, and hurried on from one point to another, this whole attack was convincing; but the modern reader finds little of real proof, and an abundance of sophistry.”

C.

Lysias comes now to the refutation of the main argument of the defense, that Eratosthenes was a member of that honorable minority among the Thirty who opposed the crimes of Critias’ faction, and whose leader, Theramenes, lost his life in the attempt to bring the administration to an honest course.

Whatever we may think of the real motives of Theramenes, there can be no question that at the time of this trial the people were already coming to think of him as a martyr for popular rights. All knew Eratosthenes was his friend and supporter. Lysias saw therefore that he must blacken the character of Theramenes. He accordingly turns to a rapid review of his career. In a few clear-cut sentences he pictures Theramenes at each crisis, always the same shrewd, self-seeking, unscrupulous man, always pretending to serve the state, always ready to shift to the popular side, always serving his own interests.

The attack is a masterpiece. There is no intemperate language, no hurling of epithets. <He accuses by narrating. The dramatically troubled time from 411 to 403 rises before us in impressive pictures. At every turn Theramenes appears as the evil genius of the Athenians. His wicked egoism stands out in every fact.> Bruns, Das literarische Porträt der Griechen, p. 493.

(…) but is this picture of Theramenes true to the facts? In his narrative Lysias selects those acts only upon which he can put a bad construction. He fails to tell us what appears so clearly in the narrative of Thucydides, and in the defense put into the mouth of Theramenes by Xenophon in his answer to Critias before the Senate, that his opposition to the extreme faction of the 400 was, whatever may have been his motive, an efficient cause of their overthrow, at a time when there was reason to fear that they were on the point of betraying the city to the Peloponnesians. (…) He misrepresents Theramenes’ responsibility for the hard terms of the Peace, and he ignores the fact that the final opposition to Critias which cost him his life was in every particular what would have been demanded of the most patriotic citizen. (…) Thucydides’ praise of the administration after the 400 is rather a praise of the form of government than of its leader.”

In the next generation opinions were sharply divided as to the character of Theramenes. Aristotle, to whom he stood as the representative of the ideal government by the upper class, places him among the great men of Athens.” “The best of the statesmen at Athens, after those of early times, seem to have been Nicias, Thucydides, and Theramenes. As to Nicias and Th., nearly every one agrees that they were not merely men of birth and character, but also statesmen, and that they acted in all their public life in a manner worthy of their ancestry. On the merits of Theramenes opinion is divided, because it so happened that in his time public affairs were in a very stormy state. But those who give their opinion deliberately find him not, as his critics falsely assert, overthrowing every kind of constitution, but supporting every kind so long as it did not transgress the laws; thus showing that he was able, as every good citizen, to live under any form of constitution, while he refused to countenance illegality and was its constant enemy. (Kenyon’s trans.) “Para um resumo das discussões modernas sobre o caráter de Teramenes, ver Busolt, História Grega, III. ii. 1463 [original em alemão].”

By a phrase here, a single invidious word there, he shrewdly colors the medium through which we see the events. Every statement is so turned as to become an argument. (…) even antitheses are only sparingly used.”

The study of the style of this speech is especially interesting because it is the only extant speech which Lysias wrote for his own delivery, and one of the first in his career as a practical speech writer. In preparing each of his other speeches he had to adapt the speech to the man who was to deliver it; in this he was free to follow his judgement of what a speech should be.”

* * *

At first, indeed, they behaved with moderation towards the citizens and pretended to administer the state according to the ancient constitution … and they destroyed the professional accusers and those mischievous and evil-minded persons who, to the great detriment of the democracy, had attached themselves to it in order to curry favor with it. With all of this the city was much pleased, and thought the Thirty did it with the best of motives. But so soon as they had got a firmer hold on the city, they spared no class of citizens, but put to death any persons who were eminent for wealth or birth or character” Arist. “Xenophon gives similar testimony” “The Tholus, a building near the senate-house, was the headquarters and dining-hall of the Prytanes. It was thus the natural center of the administration of the Thirty, who used the subservient Senate to give a form of legality to their own acts.”

when the Thirty took control they found the treasury exhausted by the expenses of the Peloponnesian War. They had not only to provide for the ordinary expenses of the government but to pay their Spartan garrison on the Acropolis. Xenophon says that the despoiling of the metics [a família de Lísias inclusa] was to meet the latter expense.”

This entrance into Lysias’ house was, in spirit, a violation of the principle that a man’s house is his sanctuary, a principle as jealously maintained in Athens as in modern states.”

Gardner, The Greek House, in: Journal of Hellenic Studies, 21 (1901), 293ss.

Gardner & Jevons, Greek Antiquities

One of the most common charges against them is that they condemned citizens to death without a trial, whereas the right of every citizen to trial with full opportunity for defense was one of the fundamental principles of the democracy. This right was extended to metics also.”

the doubling of words merely for rhetorical effect is as rare in the simple style of Lysias as it is common in the rhetorical style of Demosthenes” (vide anexo ao fim)

the ceremonial impurity of a murderer was so great that the accused was, after indictment, forbidden entrance to the sanctuaries or the Agora while awaiting trial. The trial itself was held in the open air, in order, as Antiphon (5:11) tells us, <that the jurors might not come into the same inclosure with those whose hands were defiled, nor the prosecutor come under the same roof with the murderer.>

whom in the world WILL you punish? KAÍ is used as an emphatic particle in questions, implying the inability of the speaker to answer his own question, or his impatience at the circumstances that raise the question. Its only English equivalent is a peculiar emphasis.” “In English we prefer the indefinite expression of place, in the world.”

We infer that some of the states friendly to Athens had made formal proclamation excluding members of the late oligarchy from taking refuge with them. While Eleusis had been set apart as an asylum for the Thirty and their supporters, it is not unlikely that some, fearing that the democracy would not keep its promise of immunity, sought refuge in other states.”

In the summer of 406 the Athenian fleet under Conon was shut up in the harbor of Mytilene by the Lacedaemonians [Spartans]. Desperate efforts were made for their rescue; a new fleet was hastily equipped and manned by a general call to arms. Seldom had an expedition enlisted so many citizens of every class. The new fleet met the enemy off the Arginusae islands, and, in the greatest naval battle ever fought between Greek fleets, won a glorious victory. The generals, wishing to push on in pursuit of the enemy, detailed 47 ships under subordinate officers to rescue the Athenian wounded from the wreckage. A sudden storm made both pursuit and rescue impossible, and more than 4,000 men, probably half of them Athenian citizens, were lost. The blow fell upon so many homes in Athens that public indignation against the generals passed all bounds, and the generals were condemned to death. Not only was the sentence in itself unjust, but it was carried by a vote against the accused in a body, in violation of the law’s guaranty of a separate vote upon the case of every accused citizen. A reaction in feeling followed, a part of the general reaction against the abuses of the democracy. That the popular repentance was not as general or as permanent as it ought to have been is clear from the fact that now, 3 years after the event, Lysias dares appeal to this precedent as ground for righteous severity in the present case; he is evidently not afraid that it will be a warning to them to beware of overseverity when acting under passion. Yet he shows his consciousness that he is on dangerous ground, for he takes pains to state the defense of the generals and the ground on which it was overruled.”

an exaggeration, as it is in §83, where he says that the death of these men and that of their children would not be sufficient punishment for them. No one ever seriously proposed at Athens to put sons to death for their fathers’ crimes, but lesser penalties were put upon them; loss of civil rights was often visited upon the sons of a man condemned, and the common penalty of death and confiscation of property brought heavy suffering to the family (so in the case of the family for which Lysias pleads in Speech XIX). Yet even here the treatment was not inhuman; Demosthenes (27:65) says, Even when you condemn any one, you do not take away everything, but you are merciful to wife or children, and leave some part for them.

For the seizure of the arms of all citizens outside the 3,000 supporters of the Thirty, see Xen. Hell., 2. 3. 20. (…) The seizure of these arms, which many of the citizens had carried through all the years of the Peloponnesian War, was one the most outrageous acts of the Thirty.”

the accused had opportunity for defense before the Senate, and, in the more serious cases, before the Ecclesia or a law court which had final jurisdiction. Under the Thirty the accused lost these privileges of defense.”

They deposed the Thirty, and they elected ten citizens, with full power, to put a stop to the war. [proto-cesarianos] Arist.

Eratosthenes was not one of the new board. The fact that he dared to remain in the city is a strong argument in his favor, which Lysias tries to counteract by throwing upon him the odium of connection with Phidon.”

There was a large conservative element in the city who were dismayed at seeing the radicals with Critias in control; they now took the lead, but were again disappointed in that the new board of Ten fell under sympathy with the Thirty at Eleusis, actively cooperated with them and continued their war policy. It was an instance, not infrequent in modern times, of the better element in a city rising up under a sudden impulse and apparently overthrowing a political machine, only to find the machine still in control after the excitement was over.”

Antiphon was the moving spirit in planning the revolution of 411; Pisander was the most prominent man in its execution; Phrynichus the most daring; and Theramenes, the son of Hagnon, was a prime mover in the abolition of the democracy, a man not without ability as a speaker and thinker.” Thucyd., 8:68

Sophocles, when asked by Pisander whether he, like the other probouloi, approved of the establishment of the 400, said, <Yes.> <But what? Did that not seem to you a bad business?> <Yes,> said he, <for there was nothing better to do.> Arist., Retórica

the people had been persuaded to accept the new form of government in the hope of ending the war through Alcibiades with Persian support; this hope had now failed”

After the deposition of the 400, Antiphon and Archeptolemus were put to death on the charge of having plotted with others of the oligarchs to betray the city to Sparta. Theramenes was at the head of the government, under a moderate constitution, from September 411 to about July 410.”

The English, and usually the Greek, more logically uses for, as giving the grounds for the general statement.”

Xenophon says that the Spartans had already announced the destruction of 10 stadia [2km] of the Long Walls as a condition of peace, and that what Theramenes offered to do was to find out from Lysander whether this was intended as a preliminary to the enslavement of the city, or only as a means of guaranteeing their faithful obedience to the other terms of peace. After remaining 3 months with Lysander he returned to Athens with the report that Lysander had no power in the matter, and that it must be determined by the government at Sparta.” “Ordinarily the Areopagus had no jurisdiction in political or military affairs, but this crisis was so extreme, involving the very existence of the city, that extraordinary action by the Areopagus is not unlikely.” “on the first mission, that to Lysander, Theramenes went alone, but had no authority to negotiate; on the second, he had authority, but it was shared with 9 fellow-ambassadors. Lysias purposely represents it as resting entirely with him.”

Os atenienses levaram meses para destruir as muralhas externas, cumprindo as condições da paz com Esparta. Tal qual a construção de um bom estádio candango, a demolição desses estádios de muro na Antiguidade estourou o prazo que havia sido fixado!…

Dracontides doubtless presented the general plan, and the Thirty were chosen to draft a constitution which should carry it out in detail.”

for the change of this word from an originally good meaning // cp. [compare] the history of English simple and silly.” RUDE SIMPLÓRIO SIMPLES HUMILDE SEM-PECADO IMBECIL DISTORCIDO ABSURDO DESORIENTADO TONTO TOLO AHHHH

THE FREE DICTIONARY.COM:

sil•ly

adj. -li•er, -li•est, adj.

1. weak-minded or lacking good sense; stupid or foolish.

2. absurd; ridiculous; nonsensical.

3. stunned; dazed: He knocked me silly.

4. Archaic. rustic; plain; homely.

5. Archaic. weak; helpless.

6. Obs. lowly in rank or state; humble.

n.

7. Informal. a silly or foolish person.

(1375–1425; Middle English sely, orig., blessed, happy, guileless, Old English gesaelig happy, derivative of sael happiness; c. Dutch zalig, German selig)

silli•ly, adv.

silli•ness, n.”

It was the plan of Sparta and her Athenian supporters to see to it that the fleet should never be restored. This was the more acceptable to the Thirty as the fleet had always been the center of democratic power. We are not surprised, then, to read in Isocrates (7:66) that the dockyards, which had cost not less than 1000 t., were sold by the Thirty for 3 t. to be broken up. But apparently the work was not completed, for 4 years after the Thirty Lysias (30:22) speaks of the dockyards as then falling into decay.”

PATERfação da MAEteria

* * *

SPEECH XVI. FOR MANTITHEUS

Introdução e Considerações sobre o Discurso

The charge was brought against Mantitheus that he had been a member of the cavalry which had supported the Thirty, and that he was therefore not a fit candidate for the office of senator.”

Before the Peloponnesian War Athens had made very little use of cavalry, but from the beginning of that war to the close of the next century a force of a thousand horsemen was maintained.”

An enrolment which thus offered opportunity for display in time of peace, and a less dangerous and less irksome form of service in war, attracted the more ambitious and proud young men of the aristocracy.”

Xenophon gives a striking testimony to the hatred of the democracy toward the cavalry corps in his statement that when, 4 years after the Return, the Spartans called upon Athens to furnish cavalry to help in the campaign in Asia Minor, the Athenians sent them 300 of those who had served as cavalrymen under the Thirty <thinking it a good thing for the Demos if they should go abroad and die there> (Hell. 3.I.4), a statement which betrays Xenophon’s own feeling toward the people.”

It must have seemed to many of the returned exiles that the men who had so actively supported the lost cause ought to be more than content with permission to live retired lives as private citizens, and that for them to come forward now, seeking public office or any political influence whatever, was the height of presumption”

Aristotle gives the following description of the examination of candidates for the archonship, which probably did not differ materially from the examination for the senatorship, with the exception of the demand on taxes below: <When they are examined, they are asked, first, ‘Who is your father, and of what demo? Who is your father’s father? Who is your mother? Who is your mother’s father, and of what demo?’ Then the candidate is asked whether he has an ancestral Apollo and a household Zeus, and where their sanctuaries are; next, if he possesses a family tomb, and where; then, if he treats his parents well, and pays his taxes, and has served on the required military expeditions.>

He had, in short, to write the speech which the young man would himself have written if he had possessed Lysias’ knowledge of law and politics, and Lysias’ training in argumentation.”

Lysias knew the Athenian audience too well to suppose that plausible proof or valid proof would carry the case.”

This omission of the usual appeal to the feelings of the hearers is quite in keeping with the confident tone of the whole speech. The omission of the peroration is also wise from the rhetorical point of view. Throughout the speech Lysias has repressed everything that could suggest artificial or studied speech; it is in keeping with this that he omits that part of the plea in which rhetorical art was usually most displayed.”

No speech of Lysias offered a better opportunity for his peculiar skill in fitting the speech to the man”

* * *

the Athenians did not venture to make universal their general principle of appointment to office by lot. The lot applied to officials whose work did not absolutely demand political or military experience or technical knowledge.”

30 mines was an average sum in a family of moderate means.”

The son of Alcibiades was alleged to have lost his property at dice.”

Thrasybulus was at first the idol of the people under the restored democracy; but his moderate and conservative policy, sternly opposed to every violation of the amnesty and every indulgence of revenge, grew vexatious to the more radical element. (…) The defeat of the expedition to Corinth in 394 was a blow to his reputation. (…) in the full tide of enthusiasm for the new navy and its commander Conon the people forgot their allegiance to Thrasybulus.”

the Homeric custom of wearing the hair long prevailed always at Sparta, but at Athens from about the time of the Persian Wars only boys wore long hair. When they became of age their hair was cut as a sign of their entering into manhood, and from that time on they wore hair about as short as modern custom prescribes; only the athletes made a point of wearing it close-cut. But there was a certain aristocratic set of young Spartomaniacs who affected Spartan appearance along with their pro-Spartan sentiments, and who were proud of wearing long hair, to the disgust of their fellow-citizens. These were the men who largely made up the cavalry corps.”

SPEECH XIX. ON THE STATE OF ARISTOPHANES [um homônimo do comediante, ao que tudo indica]

Introdução e Considerações sobre o Discurso

O reclamante da fala é supostamente o filho deste Aristófanes (mas o comentário diz que pode ter sido seu cunhado), morto sem julgamento e espoliado por Atenas, em busca da devolução de seus bens familiares ou de parte deles.

The events which led to this speech were connected with two dangerous tendencies in the political life of the 4th century, the enrichment of naval commanders through their office, and the hasty and unreasonable punishment of public officers in response to a fickle public sentiment.”

The city was attempting to take her old place in international affairs, with no sufficient revenue; the people saw in each new confiscation relief for the treasury.”

The case of Nicophemus and Aristophanes is but one among many between 388-386, when these prosecutions were at their height.”

Lísias defendia vários casos de ambos os lados: como promotor de Atenas, acusando a corrupção de homens da marinha e pedindo sua execução e confisco de suas riquezas; e neste, como advogado contra o Tribunal.

Speech against Epicrates: “In my opinion, Athenians, if you should put these men to death without giving them trial or opportunity of defense, they could not be said to have perished <without trial>, but rather to have received the justice that is their due.”

Speech againt Ergocles: “Why should you spare men when you see the fleets that they commanded scattering and going to pieces for lack of funds, and these men, who set sail poor and needy, so quickly become the richest of all the citizens?”

No other proem of Lysias is so long or developed in such detail. The reason is to be found in the fact that the speaker is addressing a jury who are thoroughly prejudiced against his case. Nicophemus and Aristophanes are believed to have been guilty of the gravest crimes, and now the defendant is believed to be concealing their property to the damage of the state. The prosecution have said everything possible to intensify this feeling.

The proem falls into two parts, one general, the other based on the facts peculiar to this case. It is surprising to find that for the first part Lysias has taken a ready-made proem from some book on rhetoric, and used it with slight changes. We discover this fact by comparing §§1-6 with the proem of Andocides’ speech On the Mysteries, delivered 12 years earlier, and the proem of Isocrates’ speech XV, published 34 years after that of Lysias. Andocides has divided the section, inserting a passage applicable to his peculiar case, but the 2 parts agree closely with Lysias’ proem. Isocrates had used a small part of the same material, but much more freely, changing the order and the phraseology, and amplifying the selected parts to fit his own style.” “Blass, arguing from certain phrases of Andocides, attributes the original proem to Antiphon.” “It was possible to compose them in such general terms that any one of them would fit a large class of cases. We hear of such collections by Thrasymachus, Antiphon, and Critias, and the mss. of Demosthenes have preserved to us a large collection of proems of his composition, 5 of which we find actually used in extant speeches of his.”

This adaptation of the language to the personality of the speaker (ethos) is perfected by delicate touches here and there.”

And here lies much of the power of Lysias. We often feel that his arguments are inconclusive; he fails to appeal strongly to the passions; in a case like this, where strong appeal might be made to our pity for the widow and little children, he seems cold. But the personality of the speaker and his friends is so real and their charm so irresistible, that at the close we find ourselves on their side.”

* * *

OS 3 FEDROS DA ATENAS SOCRÁTICA: “the Pheaedrus whom we know through Plato as a young friend of Socrates (Banquete), one of the group who listened to the Sophist Hippias (Protágoras), and the friend and enthusiastic admirer of Lysias, delicately portrayed in Plato’s Phaedrus. It was not strange that when the proposition was made to confiscate the property of Aristophanes, his widow (a de Fedro) turned for help to the friend of her first husband, now at the height of his fame as an advocate, nor that when the present suit against her father’s estate came on Lysias again wrote the defense.”

we have 65 acres at about $70 an acre. This is the only passage in Greek authors which, by giving both the contents and the price of land, enables us to reckon land value. As we know neither the situation nor the nature of this land, even this information is of little worth.”

This avoidance of the common oaths of everyday impassioned speech is as fitting to the calm and simple style of Lysias as is their constant use to the vehement style of Demosthenes.”

of the 15 t. expended in the 4 or 5 years in question, the speaker has reckoned 5 t. for house and land, and 10 t. for the various public services; of this sum 2.83 t. was for ordinary liturgies of a rich citizen (service as choragus and trierarch) and for direct war taxes – an average of a little less than half a talent a year. A still more important source of information as to the public services of rich Athenian citizens is the account which Lysias gives in XXI of the public expenditures of his client for the 1st seven years after he attained his majority; the items are as follows:

1st year.

Choragus (tragic chorus) 3000 dracmae

Choragus (men’s chorus) 2000 dr.

2nd year.

Choragus (Pyrrhic) 800

Choragus (men’s chorus) 5000

3rd year.

Choragus (cyclic chorus) 300

7th year.

Gymnasiarch 1200

Choragus (boys’ chorus) 1500

Trierarch, 7 years 6 talents

War tax 3000 dr.

War tax 4000

TOTAL 9 t. 2800+ dr.

This gives an average contribution of about 1.325 t. a year. But these years were the final years of the Peloponnesian War, when public burdens were extraordinarily heavy; the same man gives smaller sums for the time immediately following. Moreover, the speaker says that the law would have required of him less than ¼ this amount. Unfortunately we have neither in this case nor in that of Aristophanes any knowledge of the total property or income from which these contributions were made, so that we have no sufficient basis for comparison with modern times. We lack the same data in the case of the speaker’s father, whose services of this kind amounted to 9 t. 2000 dr. in a period of 50 years [0.18 t./ano]. We only know that at his death the estate amounted to between 4 and 5 talents”

Callias the 2nd was reputed to be the richest Athenian of his time. Hipponicus the 3rd inherited this wealth. He had 600 slaves let out in the mines; ha gave his daughter, on her marriage to Alcibiades, the unheard-of dowry of 10 talents. His son, the Callias of our text, finally dissipated the family wealth. He affected the new learning, and we have in Plato’s Protagoras (VI-ff.) a humorous description of his house infested by foreign sophists. His lavish expenditures upon flatterers and prostitutes still further wasted his property, and he died in actual want.”

Aristophanes’ attack on Socrates in the Clouds gains much of its force in the picture of the son, corrupted and made impudent by his new learning, contradicting and correcting his old father.”

the minimum of property which subjected a citizen to the liturgies was 3 t.”

SPEECH XXII. AGAINST THE GRAIN DEALERS

Introdução e Considerações sobre o Discurso

This speech was written for a senator who was leading the prosecution of certain retail grain dealers, on the charge that, by buying up a larger stock of grain than the law permitted, they had injured the importers, and raised the price of grain to the consumers. It was probably delivered early in 386.

The successful expedition of Thrasybulus in 389-8 had brought the Hellespont under Athenian control, and thus secured the safety of the grain trade, which had been harassed by hostile fleets. But his death and the transfer of the command into less competent hands made the control of the Hellespont insecure again. At the same time the Spartans, having dislodged the Athenians from Aegina, were able constantly to endanger the grain ships at the home end of the route. The result was a period of unusual disturbance in the grain trade in the winter of 388-7.”

the dealers were forbidden by law to store up more than 1/3 of any cargo; 2/3 had to be thrown upon the market immediately. If then, a sufficient combination could be made among the retail dealers, they could hold the price down effectively.”

instead of passing the grain on to the consumers at a fair profit, the retailers used the low price to increase the stock of grain in their own storerooms, and put the retail price up according to the war rumors of the hour.”

The Senate had final jurisdiction only in case of penalties not greater than a fine of 500 dracmas (Demosthenes 47); in all other judicial cases their findings had to be passed on to a law court for final action.” Aristotle

Only one senator pressed the case against the dealers. The threatening of suits against rich men had become so common on the part of professional blackmailers that reputable men were loath to have anything to do with a case like this. The Senate found the charges sustained, and sent the case to a court under the presidency of the Thesmothetae.

The senator who had become so prominent in the prosecution felt obliged to carry the case through – otherwise he would have been believed to have been bought by the <ring of dealers>. He accordingly employed Lysias to prepare a speech for him to deliver in court. A study of this case involves a knowledge of the Athenian laws relating to commerce.

The small area of the Attic territory in proportion to population, and the poor adaptedness of the soil to grain production as compared with that of olives and figs, left the people largely dependent upon foreign sources for their grain. More than half of the supply came from foreign ports; the greater part from the Hellespont and the Euxine.”

to prevent the accumulation of grains in the retailers’ storerooms, and their consequent control of prices, it was provided by law, under penalty of death, that no retailer should buy more than 50 baskets at a time (but as to how much the standard grain basket held we have no knowledge).” “The whole retail grain trade was supervised by a board of Grain Commissioners; of their appointment and duties we learn as follows from Aristotle:

There were formerly ten, appointed by lot, 5 for the Piraeus, and 5 for the city, but now there are 20 for the city and 15 for the Piraeus.

Thus, the government followed the grain at every step from its reception in the Piraeus to the home of the consumer.” “At the first meeting of the Ecclesia in every prytany a part of the routine business was the consideration of the grain supply.”

The issue was so simple, the case so prejudiced in favor of the prosecution by the preliminary action of the Senate, and the odium of the act so certain, that Lysias was content to present every fact of the prosecution with the utmost simplicity and brevity.”

* * *

it is uncertain whether this was the Anytus who shared in the prosecution of Socrates. That Anytus, a rich tanner, was a leading democrat, associated with Thrasybulus in the Return. [But] this activity in protecting the poor man’s food supply would be quite in keeping with his democratic rôle.”

Neste tipo de caso (economia alimentar), metecos podiam integrar o júri.

SPEECH XXIV. FOR THE CRIPPLE

Introdução e Considerações sobre o Discurso

Lysias wrote this speech in support of the plea of a crippled artisan for the retention of his name on the list of disabled paupers who received a dole of an obol a day from the public treasury.” “An allowance of 2 obols/day from the treasury was all that saved many people from starvation during the last third of the Peloponnesian War.”

A system of military pensions for men who had been disabled and for the sons and dependent parents of men who had died goes back to the time of Solon and Pisistratus: the soldiers’ pension under Pisistratus, after the example of Solon in the case of a single disabled veteran (Heraclides, cited by Plutarch) support and education of sons, introduced by Solon (Diogenes Laert.). The pension of dependent parents (Plato, Menexeno) presumably goes back to the same time.”

It is to be remembered that the jury pay, available to all who cared to sit in court, and the pay for sitting in the Ecclesia offered no small relief to the poor citizens.”

The ascription of the speech to Lysias seems to have been questioned in antiquity, and has recently been vigorously attacked by Bruns. The first objection raised by Bruns is that the tone and extent of the attack on the complainant are at variance with Lysias’ uniform calmness and restraint in attack; Lysias’ defendants confine their attacks on the prosecutors to their acts in the case itself, and are far from giving a general characterization of the men; the extent of the attack is always well proportioned to the gravity of the case. But in our speech we have a bitter and scornful attack on the whole character of the opponent, and it is as vehement as though the issue were some great thing – not an obol a day. Bruns sees a 2nd violation of the Lysian manner in the failure of the defendant to press the real points at issue –his physical disability and his poverty – and the comical pose in which he is made to give, instead of argument, a picture of himself.”

We may suppose that the complainant had called attention to the horseback riding, something that only the richer citizens could afford, as indicating that the cripple had rich friends who could and would support him; the cripple pretends that the argument was that he was physically sound enough to jump unto a horse and ride it!”

The parody on the common pleas of the day is carried out in the absurd appeal based on the past life of the speaker: he has been no sycophant; he, the cripple, has not been violent; he, the pauper, refrained from sharing in the government of the aristocratic Thirty!”

SPEECH XXV. DEFENSE AGAINST THE CHARGE OF HAVING SUPPORTED THE GOVERNMENT OF THE THIRTY

Introdução e Considerações sobre o Discurso

This speech was written for a citizen who had been one of the 3,000 admitted by the Thirty to a nominal share in their government. The speaker has now, under the restored democracy, been chosen (by vote or lot) to some office.”

his eligibility is challenged on the ground that he was a supporter of the Thirty. The complainants have brought no charge of specific acts, basing their attack upon the principle that former members of the oligarchical party cannot be trusted in office under the democracy. The defense must attack this principle, and it is this fact which raises the speech above the plane of personal questions, and makes it one of the most interesting documents in the history of the period immediately after the Return.

The oath of amnesty provided for the exclusion from the city of certain specified leaders of the oligarchy; to all other citizens it guaranteed oblivion of the past. Under any fair interpretation of this agreement the former supporters of the Thirty, even senators, office holders and soldiers under them, were perfectly eligible to office under the restored democracy. But to keep their pledges in the full spirit of them proved to be a severe test of the self-control of the party of the Return.

The wiser democratic leaders fully recognized the critical nature of the situation. An attempt by one of the returned exiles to violate the agreement and take vengeance on one of the city party was met by the summary seizure of the complainant and his execution by the Senate without trial (Aristotle). This made it clear that there was to be no policy of bloody reprisals; but the feeling of hostility remained.

Then, less than 3 years after the Return, came the attempt of the survivors of the Thirty, settled at Eleusis, to organize an attack by force. The prompt march of the citizen forces, together with their treacherous seizure of the oligarchical leaders, soon put down the movement. But now more than ever it seemed to the democratic masses intolerable that members of the city party should have equal privileges with themselves. Their spokesmen began to say that the aristocrats might consider the people generous indeed in allowing their former enemies to vote in the Ecclesia and to sit on juries; that to ask for more than this was an impertinence (Lys. 26. 2, 3).

Those who had been conspicuous supporters of the Thirty, or personally connected with their crimes of bloodshed and robbery, naturally refrained from thrusting themselves into prominence; indeed, few of these had probably remained in the city. But the first test came when men whose support of the Thirty had been only passive, and against whose personal character no charge could be raised, ventured to become candidates for office.”

This speech was written by Lysias for one of the first cases of this sort – it may have been the very first. The issue was vital. If a man like the speaker, of proved ability and personal character, untainted by crime under all the opportunities offered during the rule of the Thirty, was now to be excluded from office, the reconciliation must soon break down.”

The speech cannot be placed much later than 400, for the speaker, with all his pleas based on his good conduct before and during the rule of the Thirty, says nothing of his conduct since the Return (October, 394), nor does he cite cases of other men of his party holding office. Moreover, his warnings show that there are fugitives of the oligarchical party who still hope for a reaction and a counter blow against the democracy, and are not yet sure what will be the treatment of the former supporters of the Thirty, while he speaks simultaneously of the democracy not as established, but as in process of being established. ”

The sentences are long and dignified. Only after the proem is well under way is there any touch of artificial rhetoric.”

The argument is surprising; in the most blunt way he asserts that men follow self-interest in their attitude toward one form of government or another. He gives the jury to understand that he remained in the city under the Thirty because it was for his personal safety and for the safety of his property that he do so (…) he frankly tells the jury to assume that he acts from an enlightened self-interest” “The cool frankness with which he waives aside all claim of sentimental patriotism (…) must have been refreshing to a jury weary of hearing pious protestations of loyalty and sacrifice for the sacred democracy.”

he makes the keen plea that a man who kept his hands clean in times when there was every encouragement to wrong-doing can be counted on to be a law-abiding citizen under the present settled government.”

The tone of the attack is severe and earnest, but always dignified. There is no display of personal passion. The speaker stands above petty recriminations, and in a most convincing way exposes the conduct of a group of small politicians who were coming to the front on false claims of service in the late civil war, and who were destined to succeed before long in discrediting and thrusting aside the great patriots of the Return.”

The coolness with which the client explained all political attachments on the ground of personal interest had its effect upon Lysias, and he counted upon its having its effect upon others.(*)” Bruns, Literarisches Porträt

(*) “The speech for Mantitheus (XVI) offers a marked contrast in this respect. The young cavalryman is full of talk of his own achievements.”

The style is noticeably more rhetorical than is usual with Lysias.”

* * *

blackmail by the threat of bringing innocent men before the courts on trumped-up charges was the regular work of the <sycophants>. (…) Xenophon tells how, by advice of Socrates, Crito finally supported a lawyer of his own to silence these fellows by counterattacks (Mem. 2. 9.). (…) verdicts are more a matter of chance than of justice, and that it is wise by paying a small sum to be freed from great accusations and the possibility of great pecuniary losses (Isoc. 18. 9-ss.).”

from these words, it is probable that Epigenes, Demophanes and Clisthenes were the complainants in this case.”

Every Athenian official was required every prytany (35 days) to submit an account of his receipts and expenditures to a board of 10 auditors, selected by a lot from the Senate. At the close of his term of office he was also required to present complete accounts to another board”

SPEECH XXXII. THE SPEECH AGAINST DIOGITON (fragmentos) ou: O caso do avô (e tio-avô) escroque

Introdução e Considerações sobre o Discurso

On the death of Diodotus, Diogiton, his brother, became the guardian of his widowed daughter and her 3 children. For a time he concealed from them the fact of Diodotus’ death, and under the pretext that certain documents were needed for conducting his brother’s business, he obtained from his daughter the sealed package of papers that had been left with her. After the death of Diodotus became known, the widow turned over to Diogiton, her father [ou seja, sobrinha que casara com o tio], whatever property was in her possession, to be administered for the family.

Diogiton arranged a second marriage for her with one Hegemon, but gave 1/6 less dowry than the will prescribed. In due time he arranged a marriage for his granddaughter also; there is no claim that he gave with her less than the dowry required by the will.

For 8 years Diogiton supported the boys from the income of the estate, but when the elder came of age, he called them to him and told them that their father had left for them only 2840 dr. (the sum her daughter returned him before), and that this had all been expended for their support; that already he had himself paid out much for them, and that the elder must now take care of himself.” “The elder son was the plaintiff, and his brother-in-law the one delivering this speech prepared by Lysias.”

The mother [of the plaintiff; and daughter of the accused] had documentary proof of Diogiton having received one sum of 7 t. 4000 dr. and Diogiton now acknowledge in his sworn answer that he had received that sum, but he submitted detailed accounts purporting to show that it had all been used for the family [wise scoundrel!].” “The trial can be put in 402-1 or very soon thereafter.”

Dionysius of Halicarnassus¹ [quem proporcionou o manuscrito hoje conhecido, cerca de 400 anos depois, um orador romano, discípulo genuíno de Lísias, portanto] says that in the cause of a suit against members of one’s own family the rhetoricians are agreed that the plaintiff must above all things else guard against prejudice on the part of the jury in the suspicion that he is following an unworthy and litigious course. The plaintiff must show that the wrongs which he is attacking are unendurable; that he is pleading in behalf of other members of the family nearer to him and dependent upon him for securing redress; that it would be wicked for him to refuse his aid. He must show further that he has made every attempt to settle the case out of court.”

¹ D.H., On the ancient orators

The language of the proem, like that of Lysias’s proems in general, is for the most part periodic. A larger group of thoughts than is usual with Lysias is brought together under a single sentence structure from §1 up to §3. The impression is one of dignity and earnestness. There is no rhetorical embellishment either in grouping of cola or in play on words or phrases.”

In this narrative there is a stroke of genius that places it, maybe, above all the others from Lysias. This is the introduction of the mother’s plea in her own words. The mother could not plead in court, but by picturing the scene in the family council Lysias carries the jurors in imagination to that room where a woman pleads with her father, protesting against the unnatural greed that has robbed his own grandsons, and begging him to do simple justice to her children. As the jurors heard how the hearers of that plea arose and left the room, silent and in tears, there was little need for argument.” “The result was a work of art perfect in the concealment of art.”

The examination of the alleged expenditures is sharp and clear. The overcharge seems written on the face of every item, and the series culminates in a case of the most shameless fraud. (…) Out of an accounting of 8 years Lysias selects a very few typical items, makes the most of them in a brief, cutting comment, and then passes on before the hearers are wearied with the discussion of details.”

The word play, a turn of speech rare in Lysias, but a favorite among rhetoricians, is fitted to the sarcastic tone” “The personification, a figure equally rare in Lysias, is in the same sarcastic tone”

GRAU ZERO DA ESCRITURA: “The speaker might be any Athenian gentleman; we get no impression of his age or temperament or character.”

We have certainly a personal portrait of Diogiton, and this by the simplest recital of his words and conduct. There is no piling up of opprobrious epithets. By his own conduct greed is shown to have been the one principle of his life, from the time when he married his daughter to his brother to keep hold of his increasing property, to the day when, with hollow professions of regret and with shameless lies, he turned his grandsons out of doors.”

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for the seclusion of Athenian women see Becker, Charicles (Eng. trans.)

a man of ordinary standing was expected to have a slave attendant as he went about his business. Even the schoolboy had his.” Na democracia grega, os mais liberais, como Aristófanes em suas comédias, lutavam não pela extinção da escravidão, o que seria um preconceito ocidental anacrônico, mas pela equanimidade na distribuição dos escravos entre os mais ricos e a classe média!

The Athenian tombs and monuments were among the finest products of Greek art. There was a tendency to extravagant outlay, but in most artistic form. The expense was great as compared with the expenditure of the living. We know of sums ranging from 3 minae to 2 talents. For full description and illustration see Percy Gardner’s Sculptured Tombs of Hellas.”

The statement that the boys would have been as rich as any boys in the city (having about 12 t. after the payment of expenses for the 8 years and of dowries for mother and sister) seems reasonable from what we know of Athenian fortunes. (…) The fabulously rich men of the older generation, Nicias and Callias, were popularly supposed to have had fortunes of 100 and 200 talents. But a man who had 8 to 10 talents at the close of the Peloponnesian War was a rich man. (…) It was only after Alexander’s conquests had brought Oriental ideas of luxury and the means to grow rich by conquest and by trade on a large scale that the Greek family needed very much money to be <rich> [, life in old Athens being pretty simple and costless].”

SPEECH XXXIV. ON THE CONSTITUTION

Should citizenship with full political rights be open to all Athenian as before the oligarchical revolution, or should it be restricted according to the understanding with Sparta the year before in connection with the surrender?”

Usener holds that the assembly for which the speech of Lysias was written included only the men of the upper classes. (…) Wilamowitz finds confirmation of Usener’s view in the statement of Aristotle that under the amnesty the former officials of the city party were to give their accounting before the citizens whose names were on the assessor’s lists, i.e. the men of the upper classes (…) In our speech of Lysias the appeal is certainly to the property holders, but that is natural in any case (…) For the position against Usener, see Blass; Meyer, Forshungen zur alten Geschichte, II

It might well be presumed that the restoration of the democratic constitution would be considered an affront to Sparta, and it is possible that the Spartans had made definite statements to this effect. (…) Who could guarantee the loyalty of the Demos to the terms of the amnesty, when once demagogue and sycophant should resume their trade?”

Since the amendment of Pericles in 451-0, those who could not show pure Athenian descent through both parents had been by law excluded from citizenship.” “These citizens had married foreign wives, and now many of them with their families were returning to Athens, bringing with them the question of admitting their half-Athenian sons to citizenship.”

This speech of Lysias is of especial interest as being his earliest extant speech, and perhaps the first he wrote for a client. It is, moreover, the only extant speech of his composed for delivery before the Ecclesia. We owe its preservation to Dionysius of Hal., who incorporated it in his treatise on Lysias (op. cit.)” Neither of the 2 other speeches preserved by Dionysius is given in full, and it is probable that he took this part from the beginning of a longer speech.”

The plan of this part is simple: to appeal to the great middle class, men who have shared in the exile and the Return, and to convince them that the loss of the support of the non-landholding citizens will be more dangerous to the restored democracy than the chance of offending Sparta by failing to meet her wishes as to the revision of the constitution. The event proved the soundness of the argument. Sparta did not interfere, and the democracy was soon called upon to take up arms again against the oligarchs at Eleusis.”

The brevity is like Lysias, but not the obscurity. (…) The tricks of the current rhetoric are conspicuous – repeated antithesis and balance of cola, the rhyming of successive cola, and play on the sound of words. We may see in these features evidence of immaturity in practical oratory.” “How soon and how thoroughly Lysias corrected both faults, we see in the speech against Diogiton (written a year or 2 later) and that for Mantitheus (some 10 years later).”

* * *

Much property had been confiscated by the 30, much abandoned in the flight of the owners. The restored Demos put the owners back into possession, and made no attempt at a distribution of land among themselves.”

The event showed that the Spartan insistence upon dictating in the internal affairs of Athens had been due to the personal influence of Lysander. With his fall from power this policy was abandoned, and the restored Athenian democracy was left undisturbed.”

In 418 Argos was forced into alliance with Sparta, and an oligarchical government was set up. But in the next year a successful democratic reaction carried the state over to the Athenian alliance, and with more or less of vigor it supported Athens throughout the war. Mantinea, which had joined Argos against Sparta, was like forced by the events of 418 to return to the Spartan alliance, and remained nominally under Sparta’s lead throughout the war. But she maintained her democratic constitution, and gave only indifferent support to the Spartans.”

If the Spartans conquer, they know that they will not succeed in enslaving the Argives and Mantineans, for both people always rise up again after their defeats, as stubborn as ever. It is not worthwhile, then, for the Spartans to risk serious losses of their own for the slight gain of an incomplete subjugation of their neighbors.”

* * *

APPENDIX II. ATHENIAN LEGAL PROCEDURE

The following account is in general based on Lipsius’s revision of Meier & Schömann, Der Attische Process, and his revision of Schömann, Griechische Alterthümer. The conditions described are those of the early part of the 4th century, the time of Lysias’ professional activity.”

The ancient court of Areopagus, composed of the ex-archons, sitting under the presidency of the religious head of the state, had sole jurisdiction in cases of premeditated homicide and arson.”

Any citizen over 30 years of age, who was possessed of full civic rights, was eligible for jury service. (…) In the time of Lysias there was not such a pressure of legal business as in the Periclean period, when the Athenian courts were crowded with cases from the league cities (…) the service might become the regular employment of men who were quite content with small payment for light work, and of old men whose days of physical labor were over. From the time of Pericles the pay of the juryman was an obol for each day of actual service, until Cleon raised it to 3 obols, about the wages of an unskilled laborer.”

It was not customary to arrest the accused and confine him while awaiting trial, except in a special class of crimes, prosecuted by special and more summary procedures; even then the defendant was released if he could furnish sufficient security for his appearance in court.”

Many cases involved the testimony of slaves. This evidence was held valid only when given under torture, on the supposition that the desire for release from the torture on the one side would counterbalance the natural desire of the slave to testify according to his master’s orders on the other. (…) The torture was conducted by the litigants themselves or by men agreed upon by them, or in some cases by public slaves. The point to which the torture should be carried was previously agreed upon by the litigants.”

The court room had wooden seats for the jurors, provision for listeners outside the railing which shut in the jurors’ seats, and 4 platforms.”

The law required every man to deliver his plea in person. If he had not the ability to compose a speech for himself, he could employ a professional speech writer to write it for him; he then committed the speech to memory and delivered it as his own.”

No opportunity for speeches in rebuttal was given except in the case of certain private suits.”

At the close of the speeches there was no exposition of the law by the presiding magistrate, nor was there any opportunity for the jurymen to consult one with another, but the herald of the court called upon them to come forward to the platform immediately and deposit their votes.”

the secrecy of the vote was fully protected.”

Imprisonment was not used as a penalty, but only (…) until the execution of a man condemned to death.”

When one of these professional haranguers, trained in the plausible rhetorical art, popular with the masses, and skilled in moving their emotions, threatened a quiet, law-abiding, wealthy citizen with a lawsuit, the citizen might well think twice before deciding to trust to the protection of the courts; to buy off the prosecutor was the simpler and safer way.”

APPENDIX III. RHETORICAL TERMS

The Greek rhetoricians, beginning probably with Antisthenes, a contemporary of Lysias, distinguished 3 great types of prose composition.” “They found in Thucydides the perfection of the grand style.” “Lysias was the representative of the plain style.” “Isocrates was the representative of the third style, the intermediate type. His style showed a union of the best qualities of the other two.”

So long as Thucydides, Lysias and Isocrates were the greatest of prose writers these 3 <styles> served the purpose of classification; but when the critics were confronted with the problem of defining and classifying the oratory of Demosthenes, they saw the inadequacy of the old formulae. (…) If he were placed with Isocrates as a representative of the intermediate style, the term would become so inclusive as to break down by its vagueness, and he could certainly be placed with neither of the extremes. The critics solved this problem of classification in two ways: some, like Demetrius, added a 4th style, the powerful style. This new <style> was a recognition of the fact that the real characteristic of Demosthenes’ oratory was not any mingling of grand and simple language, but a great power which moved men. Other critics, like Dionysius, made no attempt to remodel the old system, or to find a place for Dem. within it. They preferred rather to treat the style of Dem. as something outside and above the 3 older types: a style which gathered up into itself the virtues of all, and so was superior to all, a power of which the 3 became the instruments. [same shit!]”

Aristotle in the next generation gives in his Rhetoric (3.9) a discussion of the periodic style, which probably represents the developed theory of Thrasymachus,¹ and which has remained the fundamental exposition of periodic theory for both ancient and modern times. Aristotle calls the running style the strung style. The separate thoughts are strung along one after another like beads; the first gives no suggestion that the 2nd is coming, not the 2nd that a 3rd is to follow; the series may stop at any point, or it may go on indefinitely.

¹ (…) Here, as in almost all matters of rhetoric, we must distinguish between the forms which the practical speakers instinctively shaped for themselves, and the names and theories which the rhetoricians afterward applied to them. The testimony as to Thrasymachus is that of Suidas and of Theophrastus, cited by Dionysius. (…)”

Roberts’s edition (Demetrius on Style, Cambridge, 1902), with its admirable translation, commentary and glossary of technical terms, makes this treatise available as the best starting point for the study of the theory of Greek prose style.”

O período não é a unidade mínima. Dentro do estilo periódico, um período se subdivide em colas.

Lysias, even in his plainest style, followed the custom of his time, and made frequent use of antithetic periods.”

In the English we lose much of the periodic effect in losing the similarity of sound at the beginning and end of the cola, which in the Greek added to the unity produced by the parallelism of thought and construction, and by the uniform length of the cola.”

Spencer, Philosophy of Style

Aristotle holds that there are periods composed of a single colon (3.9.5). (…) He probably had in mind the case of a single colon of considerable length, based on sensus suspensio of words.”

If I have attained to any clearness of style, I think it is partly due to my having had to lecture 20 years as a professor at Harvard. It was always present to my consciousness that whatever I said must be understood at once by my hearers or never. Out of this, I, almost without knowing it, formulated the rule that every sentence must be clear in itself and never too long to be carried, without risk of losing its balance, on a single breath of the speaker.” James Russell Lowell

Aristotle’s theory of the ‘period’ was faulty in that it restricted it to the 2 types of the antithetic and the parallel structure. But the modern rhetoricians have gone to the other extreme in making the sensus suspensio the only basis of the period. From that error it has resulted that they speak of a period as being always a full sentence. (…) We should obtain a better theory of the rhetorical period by returning to the sound doctrine of Demetrius, modifying it only by removing the restriction of 4 cola. We should then treat the period as something quite independent of the sentence (though often coinciding with it)”

The fondness for antithesis, already marked in the earlier literature, reached its height in the rhetorical work of Gorgias and his pupils. As compared with them, Lysias is moderate in its use.”

As rhyme was not an ordinary feature of Greek poetry, its use in prose did not seem to the Greek hearer as incongruous as it does to us.”

APPENDIX IV. MONEY AND PRICES AT ATHENS

While Solon’s other units of measure came into universal use in Athens, his linear foot failed to displace, for common purposes, the old Aeginetan foot of 330mm; but this old foot was reduced, probably to correspond to the reduction in the Solonian foot, giving the common working foot of about 328mm. Attic coinage was based on the talent, the weight of a cubic foot of water (or wine). The unit of coinage was the drachma, a coin of pure silver, weighing 1/6000 of a talent, and equal to 4.32 grams, or 66.667 + grains Troy. The modern bullion value of the drachma would be, for the period 1899-1903, $0.08+, and its value in US coined silver would be $0.1795+.”

1 obol = 3 20th century cents

6 obols = 1 drachma

100 drachmas = 1 mina ($18)

60 minas = 1 talento ($1080)

The standard silver dollar contains 371.25g of fine silver. Our silver <quarter> (our coin nearest to the drachma) contains only 347.22g of fine silver per dollar, but as our concern is chiefly with considerable sums of drachmas, the value is better taken on the dollar standard.”

The daric, a coin of pure gold, passed in Athens as equal to 20 drachmas (~$4).”

In the time of Lysias, a drachma would pay a day’s wages of a carpenter, or stone cutter, or superintendent of building operations.” = R$30 (ou seja: de 3 cents para 10 dólares em ~100 anos!)… 30.000% de inflação.

The average day’s wages in the US in 1900 for men corresponding to the Athenian 1-drachma workmen were: for carpenters, $2,63; to stone cutters, $3,45; brick layers, $3,84; stone setters, $3,82. US Bureau of Labor, Bulletin N. 53, July, 1904.”

Da psicose paranóica em suas relações com a personalidade, seguido de Primeiros escritos sobre a paranóia – Jacques Lacan (tradução de Aluisio Menezes, Marco Antonio Coutinho Jorge e Potiguara Mendes da Silveira Jr.), Forense Universitária, RJ (1987). Edição original francesa de 1975.

ORELHAS: “Da Psicose Paranóica, que já foi considerada como a última grande tese da psiquiatria contemporânea, constitui, na verdade, já a primeira incursão de Lacan no campo propriamente psicanalítico. (…) Após a leitura, Salvador Dalí criaria seu método paranóico-crítico[?], o qual traria novo fôlego para o movimento surrealista.”

DA PSICOSE PARANÓICA EM SUAS RELAÇÕES COM A PERSONALIDADE (DOUTORADO EM MEDICINA ORIENTADO POR HENRI CLAUDE, 1932)

A MEU IRMÃO, O R.P. MARC-FRANÇOIS LACAN, BENEDITINO DA CONGREGAÇÃO DE FRANÇA.”

A QUE SE ACRESCENTA MENÇÃO AOS MAIS VELHOS QUE HONRO, DENTRE OS QUAIS DR. ÉDOUARD PICHON. DEPOIS UMA HOMENAGEM A MEUS COMPANHEIROAS HENRI EY E PIERRE MALE, ASSIM COMO A PIERRE MARESCHAL.”

Dentre os estados mentais da alienação, a c1ínica psiquiátrica desde há muito distinguiu a oposição entre dois grandes grupos mórbidos; trata-se, qualquer que seja o nome pelo qual tenham sido designados, segundo as épocas, na terminologia, do grupo das demências e do grupo das psicoses.”

na ausência de qualquer déficit detectável pelas provas de capacidade (de memória, de motricidade, de percepção, de orientação e de discurso), e na ausência de qualquer lesão orgânica apenas provável, existem distúrbios mentais que, relacionados, segundo as doutrinas, à <afetividade>, ao <juízo>, à <conduta>, são todos eles distúrbios específicos da síntese psíquica.” “sem uma concepção suficiente do jogo dessa síntese, a psicose permanecerá sempre como um enigma: o que sucessivamente foi expresso pelas palavras loucura, vesânia, paranóia, delírio parcial, discordância, esquizofrenia. Essa síntese, nós a denominamos personalidade, e tentamos definir objetivamente os fenômenos que lhe são próprios”

Com efeito, historicamente, os conflitos das doutrinas, cotidianamente, as dificuldades da perícia médico-legal, nos demonstram a que ambigüidades e a que contradições remete toda concepção desta psicose [a paranóica] que pretende prescindir de uma definição explícita dos fenômenos da personalidade.”

Se dedicamos algum cuidado a essa exposição, não foi apenas por um interesse de documentação cuja importância para os pesquisadores, no entanto, conhecemos, mas porque aí se revelam progressos clínicos incontestáveis.”

I. POSIÇÃO TEÓRICA E DOGMÁTICA DO PROBLEMA

I.1. FORMAÇÃO HISTÓRICA DO GRUPO DAS PSICOSES PARANÓICAS

Três escolas, em primeiro plano, trabalharam, não sem se influenciar, para o isolamento do grupo: a francesa, a alemã, a italiana.”

O termo paranóia foi conceituado cientificamente pela primeira vez pela escola alemã (Cramer, 15/12/1893). Já o “termo, já empregado pelos gregos, foi utilizado por Heinroth, em 1818, em seu Lehrbuch des Störungen des Seelenslebens, inspirado nas doutrinas kantianas.”

Kraepelin e Bouman de Utrecht (…) evocam o tempo em que 70 a 80% dos casos de asilo eram catalogados como paranóia. Tal extensão se devia às influências de Westphal e Cramer. A paranóia era então a palavra que, em psiquiatria, tinha a significação mais vasta e mais mal-definida; era também a noção mais inadequada à clínica. Com Westphal, ela se torna quase sinônimo, não só de delírio, mas de distúrbio intelectual. E isso tinha sérias conseqüências numa época em que se estava prestes a admitir delírios larvares ou <em dissolução> (zerfallen) como causas de todas as espécies de estados singularmente diferentes de um distúrbio intelectual primitivo. Kraepelin zomba desses diagnósticos de <velhos paranóicos>, atribuídos a casos correspondentes à demência precoce, a estados de estupor confusional, etc.” “as paranóias agudas, às quais Kraepelin recusa qualquer existência autônoma”

Os paranóicos são anacronismos vivos . . . O atavismo se revela ainda mais claramente na paranóia do que na imoralidade constitucional porque as idéias mudam de uma maneira mais precisa e mais visível do que os sentimentos

Riva, E. nosog. della paranoïa

ENANTIODROMIA? “Quanto ao delírio [sintoma sine qua non da paranóia], ele se elabora segundo <duas direções opostas que freqüentemente se combinam entre si> (Kraep.). São o <delírio de prejuízo em seu sentido mais geral e o delírio de grandeza>. Sob a primeira denominação se agrupam o delírio de perseguição, de ciúme e de hipocondria. Sob a segunda, os delírios dos inventores, dos interpretadores filiais, dos místicos, dos erotômanos. A ligação é estreita entre todas essas manifestações; o polimorfismo, freqüente, a associação bipolar de um grupo ao outro, comum.”

O delírio é, em regra, sistematizado. Ele é elaborado intelectualmente, coerente numa unidade, sem grosseiras contradições internas. É uma verdadeira caricatura egocêntrica de sua situação nas engrenagens da vida que o doente compõe para si, numa espécie de <visão-de-mundo>.”

I.2. CRÍTICA DA PERSONALIDADE PSICOLÓGICA

O dado clínico da evolução sem demência, o caráter contingente dos fatores orgânicos (reduzidos, de resto, a distúrbios funcionais) que podem acompanhar a psicose, a dificuldade teórica, enfim, de explicar suas particularidades (o delírio parcial) pela alteração de um mecanismo simples, intelectual ou afetivo – tais elementos, e outros ainda mais positivos, fazem com que a opinião comum dos psiquiatras, como sabemos, atribua a gênese da doença a um distúrbio evolutivo da personalidade.”

A psicologia científica se esforçou no sentido de precisar por completo a noção de personalidade, removendo-a de suas origens metafísicas, mas, como acontece em casos análogos, acabou por desembocar em definições bastante divergentes.”

a) A PERSONALIDADE SEGUNDO A CRENÇA COMUM

a personalidade é a garantia que assegura, acima das variações afetivas, as constâncias sentimentais; acima das mudanças de situação, a realização das promessas. É o fundamento de nossa responsabilidade.”

b) ANÁLISE INTROSPECTIVA DA PERSONALIDADE

Na verdade, a introspecção disciplinada só nos fornece perspectivas muito decepcionantes.” Boa.

Após algumas dessas crises, nós não nos sentimos mais responsáveis por nossos desejos antigos, nem por nossos projetos passados, nem por nossos sonhos, nem mesmo por nossos atos.” Parece que em cem anos conseguiram arruinar completamente com o conceito de “tese de doutorado”… Nada que hoje se leia parece vir de um sujeito, apenas linhas robóticas.

c) ANÁLISE OBJETIVA DA PERSONALIDADE

A personalidade, que se perde misteriosa na noite da primeira idade, afirma-se na infância segundo um modo de desejos, de necessidades, de crenças, que lhe é próprio e como tal foi estudado. Ela borbulha nos sonhos e esperanças desmedidas da adolescência, em sua fermentação intelectual,¹ em sua necessidade de absorção total do mundo sob os modos do gozar, do dominar e do compreender; ela se estende, no homem maduro, em uma aplicação de seus talentos ao real, um ajustamento imposto aos esforços, em uma adaptação eficaz ao objeto, ela pode se concluir em seu mais alto grau na criação do objeto e no dom de si mesmo. No velho, finalmente, na medida em que até aí ela soube se liberar das estruturas primitivas, ela se exprime numa segurança serena, que domina a involução afetiva.”

¹ Ver a clara ebulição destes sintomas no diário adolescente do autor desta “autobiografia prematura”: https://clubedeautores.com.br/livro/as-teorias-supremas.

Moisés escreveu o Pentateuco, pensamos, porque, se assim não o fizesse, todos os nossos hábitos religiosos deveriam ser mudados.”

William James

O “nós” implicado no itálico seria somente os hebreus contemporâneos de Moisés, ou literalmente a humanidade de todos os tempos? Seu ato foi criar uma moral redentora que não havia ainda? Ou cristalizar uma que havia mas que inelutavelmente seria perdida numa espécie de pressentimento de mais um dilúvio, sendo sua palavra escrita capaz de retardar ao máximo ou evitar essa hecatombe moral (congelamento zen-budista ou egípcio do modo de ser humano)? Questionamento absurdo.

d) DEFINIÇÃO OBJETIVA DOS FENÔMENOS DA PERSONALIDADE

(…)

e) POSIÇÃO DE NOSSA DEFINIÇÃO COM RELAÇÃO ÀS ESCOLAS DA PSICOLOGIA CIENTÍFICA

(…)

f) DEFINIÇÃO DA PSICOGENIA EM PSICOPATOLOGIA

Ninguém atualmente duvida mais, efetivamente, da organicidade do psíquico, nem sonha fazer da alma uma causa eficaz.”

Contra o “inatismo” da doença ou derivação de “trauma físico”: “o evento causal só é determinante em função da história vivida do sujeito, de sua concepção sobre si mesmo e de sua situação vital com relação à sociedade; o sintoma reflete em sua forma um evento ou um estado da história psíquica, exprime os conteúdos possíveis da imaginação, do desejo ou da vontade do sujeito, possui um valor demonstrativo que visa uma outra pessoa; o tratamento pode depender de uma modificação da situação vital, quer nos próprios fatos, na reação afetiva do sujeito com relação a eles ou na representação objetiva que deles possui.” Tornar o problema consciente é o mais fácil: convencer-nos a sentir outra coisa diante do que sabemos ou promover uma mudança existencial seriam, respectivamente, da menos para a mais difícil das tarefas, as missões realmente problemáticas. “Modificação da situação vital” pode querer dizer: de forma nenhuma esse emprego! Mas somos tão passivos na questão, o mais das vezes, quanto quando torcemos pelo nosso time do coração…

No que concerne à perícia, que é o critério prático da ciência do psiquiatra, é sobre essas bases que se fundamentam, mais ou menos implicitamente, as avaliações de responsabilidade, tais como a lei as exige de nós.” Para o não-psicanalista, só seria possível uma prova negativa: não se trata de loucura traumática nem congênita, logo pode ser (ou pode não ser!) que o paciente seja psicótico! Sua biografia teria de ser avaliada, mas a carga moral excele nesse tipo de análise de medicina forense funesta. Só um verdadeiro analista poderia tentar c[r]avar mais fundo e chegar a uma intuição melhorada da coisa… Impraticável que o Estado aponsentasse o servidor no limbo entre a psicose (supostamente intratável fora de Lacan) e a “simples” neurose… O mais prático e conveniente seria exonerá-lo do cargo. Meu próprio caso é uma ilustração salutar: se, no futuro, eu me encontrar nessa situação, o que diz, por exemplo, o “complexo” laudo do meu eletroencefalograma detalhado? Que eu tenho um cérebro perfeitamente saudável, mas que ignora-se por que raios eu tenho uma calosidade ou espécie de coágulo idêntico ao do epiléptico – sem o ser! Ao ponto de o médico, com certeza um pobre coitado sem culpa de sua ignorância, mas sem as qualificações exigidas para esta grandiosa tarefa (este é o fato nu e cru), me perguntar levianamente se eu sofri alguma forte pancada na cabeça durante minha fase de crescimento! Em síntese, toda a magna ciência “desses caras” não passa de especulação da mais comezinha… Que diferença faz o episódio causador da “bolha de sangue seco” numa região cerebral que não afeta minhas faculdades intelectivas, se eles sequer sabem o motivo de eu não apresentar qualquer sintoma de epilepsia em decorrência dessa mesma “bolha”? Uma adolescência terrível seria simplesmente o chute mais plausível. E para tê-lo concluído bastou a mim, o sujeito que viveu meu enredo, sem seis ou sete anos de estudos em medicina.

g) FECUNDIDADE DAS PESQUISAS PSICOGÊNICAS

Ler o livro de um dos pais da Físico-química, Wilhelm Ostwald, sobre os maiores físicos e químicos do século XIX (Les Grands Hommes [Energetische Grundlagen der Kulturwissenschaft]). A introdução do ponto de vista energético nas leis da criação intelectual é aí muito sugestiva.”

h) VALOR PROBLEMÁTICO DOS SISTEMAS CARACTEROLÓGICOS E DA DOUTRINA CONSTITUCIONALISTA

Mas quando Kretschmer chega a formar o quadro dos diversos tipos de personalidade, encontramos nele, sob o mesmo modo de reações sintéticas, temperamentos de natureza muito diversa: assim, subjacentes à personalidade estênica [resiliente, elástica, flexível, até eufórica ou hiperativa a depender do contexto], existem temperamentos ciclotimo-hipomaníacos [Ver abaixo. Para mim, a rigor, a diferença entre ciclotimo-hipomaníaco e depressivo ciclotímico é zero, mudando apenas o momento do ciclo em que o sujeito se encontra. Não importa onde você está agora na montanha-russa, contanto que saibamos que, como todos os outros passageiros, você vai completar uma – ou umas – volta(s) e descer outra vez… Ou, enfim, numa metáfora mais literal, que nunca vai realmente descer, mas vai passar infinitas vezes pelos mesmos pontos, quer queira, quer não…], por um lado, e também esquizotimo-fanáticos [delirantes originais]: quanto à personalidade astênica [fatigada, extenuada; numa palavra: preguiçosos¹], encontramos esquizóides agudamente hiperestênicos e depressivos ciclotímicos.” No fundo, passividade é resistência, derrota é estratégia; ação é rigidez, síndrome de Pirro… Tudo é permitido. Todo mundo é cão e se vira nesse mundo de manés, malandros e cães, amarrados com cordames e lingüiças…

¹ Brincadeirinha… Parece que o termo psicastenia, mais usado na primeira metade do século XX, deriva realmente da neurastenia lida em autores do século XIX (lassidão nervosa lassidão psíquica); a astenia tem a ver com certa lassidão inata do indivíduo: em situações estressantes, ele tende mais à passividade que o não-astênico (ou estênico), chega à irritabilidade (falência emocional) mais facilmente e quando não mais suporta a hiperexcitação cai num quadro depressivo. Da mesma fontea que usei para entender esta droga de parágrafo (mais sintomático da dificuldade de Lacan com a escrita que a conduta de Rousseau de uma suposta paranóiab), segue (alto interesse pessoal nos grifos desta cor!):

a https://www.psiquiatriageral.com.br/psicopatologia/06personalidade.htm
b Lacan diz meia-dúzia de vezes neste livro que Rousseau ERA SEM SOMBRA DE DÚVIDA UM PARANÓICO, das quais devo ter transcrito pelo menos 3. Gostariamos de ver uma monografia sobre o assunto, tão detalhada quanto a de Aimmée!

Personalidade explosiva – Caracteriza-se por exagerada excitabilidade emocional, tendendo à irritabilidade e predisposição a reações motoras correspondentes a essa excitabilidade. Motivos mínimos são capazes de desencadear crises de cólera, durante as quais o indivíduo perde o domínio de si próprio. Segue-se um estado de mau humor. Também se denominam estes casos de <tipos epileptóides>.” Bastante esclarecedor, ou pelo menos intrigante, para quem leu minhas anotações mais acima

Personalidade ciclóide – Distinguem-se duas variedades: a hipomaníaca [mania leve, tendência eufórica] e a pessimista-angustiosa. No primeiro grupo vemos os indivíduos eufóricos, expansivos, comunicativos, simpáticos, sintonizando facilmente com qualquer ambiente.i [Ambos] fazem facilmente amigos, são tolerantes e conciliantes no que diz respeito à moral. Há tanta facilidade para rir como para chorar, correspondendo a alternações de excitação e depressão.ii

i Nojo!

ii Gon Freecs, é você?

O pessimista-angustioso também revela inquietação. Tristes presságios povoam seu pensamento. São indivíduos fatalistas, céticos e de exagerada crítica, tendentes ao rancor.”

Personalidade esquizóide – Caracterizam o interesse pelo que é raro e original, a tendência a fugir do meio habitual para melhor viver no mundo interior de suas próprias idéias, sonhos e desejos.”

No entanto, esse vocabulário é inútil, uma vez que das 10 personalidades listadas, possuo compatibilidade com várias, ao mesmo tempo em que sou avesso a várias (às vezes simultaneamente), e praticamente me vejo excluído apenas daquelas apontadas como “mais freqüentes em mulheres”. Também posso listar um vasto número de pessoas que se enquadrariam sem esforço em quase todas. Ou seja, trata-se de cultura inútil! Como a própria página, aliás, indica, humildemente: Acumulação de defeitos da personalidade – Não é fácil encontrar, na vida prática, os tipos puros de personalidades psicopáticas como foram descritas. O que se verifica habitualmente é a acumulação de defeitos de personalidade no mesmo indivíduo.”

* * *

O mesmo do acima expresso em outras palavras, mostrando a diferença entre psicopático ou tipo psicopata e psicótico, o doente por excelência: “As constituições psicopáticas, hereditárias ou não, são inatas . . . As constituições são apenas variações, por excesso ou por falta, das disposições normais” Delmas

i) PERSONALIDADE E CONSTITUIÇÃO

A constituição [o legado teórico que Lacan utiliza mas que pretende superar nesta monografia], com efeito, pode traduzir apenas uma fragilidade orgânica em relação a uma causa patogênica externa à personalidade, i.e., em relação a certo processo psíquico, para empregar o conceito geral elaborado por Jaspers” “Os problemas da relação da psicose com a personalidade e com a constituição não se confundem.”

I.3. CONCEPÇÕES DA PSICOSE PARANÓICA COMO DESENVOLVIMENTO DE UMA PERSONALIDADE

a) AS PSICOSES PARANÓICAS AFETAM TODA A PERSONALIDADE

Não é para nos surpreender o fato de que o doente conserve todas as suas capacidades de operação, que ele se defronte, por exemplo, com uma questão formal de matemática, de direito ou de ética. Aqui, os aparelhos de percepção, no sentido mais geral, não estão de modo algum expostos aos estragos de uma lesão orgânica. O distúrbio é de outra natureza”

b) AS PSICOSES NÃO HERDAM APENAS TENDÊNCIAS DA PERSONALIDADE; ELAS SÃO O SEU DESENVOLVIMENTO, LIGADO À SUA HISTÓRIA. – DE KRAFFT-EBBING A KRAEPELIN.

Lembremos que se encontra em Magnan o inicio da distinção entre a paranóia, desenvolvimento de uma personalidade (delírio dos degenerados) e a parafrenia, afecção progressiva (delírio crônico).”

YIN FILHO DE YANG

Desde há muito o ser íntimo, toda a evolução do caráter do candidato à paranóia, se terão revelado anormais; além disso, não se pode negar que, freqüentemente, a anomalia específica da orientação do caráter é determinante para a forma especial que mais tarde assumirá a Verrücktheit primária, embora esta equivalha a uma <hipertrofia do caráter anormal>. Assim, vemos, por exemplo, um indivíduo anteriormente desconfiado, fechado, amante da solidão, um dia se imaginar perseguido; um homem brutal, egoísta, dotado de opiniões falsas sobre seus direitos, vir a dar num querelante; um excêntrico religioso cair na paranóia mística.” Krafft-Ebing

Kraepelin critica, primeiramente, a teoria, muito vaga, dos <germes mórbidos>, em que Gaupp e também Mercklin instituem o início do delírio na personalidade, e que, em suma, vem a dar na teoria de Krafft-Ebbing.”

a conformidade (antes e durante o delírio) do colorido pessoal das reações hostis ou benevolentes com relação ao mundo externo, a concordância da desconfiança do sujeito com o sentimento de sua própria insuficiência, e também aquela de sua aspiração ambiciosa e apaixonada pela notoriedade, pela riqueza e pela potência com a superestimação desmedida que tem de si mesmo” Kraepelin

E ele lembra o fato (já assinalado por Specht) da sua freqüência nas situações sociais eminentemente favoráveis a tais conflitos, como a do professor, por exemplo.”

O que, de resto, distingue a reação do paranóico das de tantos outros psicopatas atingidos pela mesma insuficiência é sua <resistência>, <seu combate apaixonado contra os rigores da vida, em que ele reconhece influências hostis>. É dessa luta que se origina o reforço do amor próprio. Vê-se, conclui Kraepelin, <que o delírio forma aqui uma parte constituída da personalidade> (Bestandteil des Personlichkeit.)”

A exuberância da juventude, toda voltada para as grandes ações e para as experiências intensas, reflui pouco a pouco diante das resistências da vida, ou então é canalizada por uma vontade consciente de seu fim em vias ordenadas. As desilusões e os obstáculos levam ao amargor, às lutas apaixonadas ou então à renúncia que encontra seu refúgio em miúdas atividades de amador e em planos consoladores para o futuro. Mas pouco a pouco decresce a força de tensão; o pensamento e a vontade se embotam no círculo estreito da vida cotidiana, e, de tempos em tempos, apenas revivem na lembrança as esperanças e as derrotas do passado.” O paraíso do escritor-professor misantropo.

Para Kraepelin, o delírio de grandeza é então essencialmente <a trama perseguida, na idade madura, dos planos de alto vôo do tempo da juventude>.”

<recusar o juízo de outrem ou se esquivar em esperanças de futuro, que nenhum insucesso pode dissolver>. São essas as duas vias em que se engaja o pensamento delirante.” Dois gumes da mesma lâmina.

3 ESTÁGIOS DE GÊNESE DA DOENÇA: “Na juventude, a psicose, <oriunda de devaneios complacentes>, distinguir-se-ia <por seu colorido romântico, pela predominância das ilusões da memória e de um delírio de inventor>. Surgido na idade madura e ligado a idéias de perseguição, o delírio parecerá, antes de mais nada, uma medida de defesa contra as influências contrariantes da vida e se distinguirá essencialmente por uma superestimação desmedida das próprias capacidades do sujeito. Sobrevindo mais tarde [senilidade], com ou sem idéias de perseguição, o delírio se aproximará da primeira forma por seu aspecto de delírio de compensação.” Não faz sentido: a compensação perfeita é o próprio narcisismo hiperbólico!

é no sonho de aventura e onipotência da juventude, nas construções irrealizáveis da criança curiosa pelas maravilhas da técnica, que o delírio vai encontrar seu modelo.” “persiste uma certa ambigüidade entre a noção de um desenvolvimento mediante <causas internas> e a de reação às <causas exteriores>.”

c) NA PSICOGENIA DAS PSICOSES PARANÓICAS, A ESCOLA FRANCESA SE PRENDE À DETERMINAÇÃO DOS FATORES CONSTITUCIONAIS. SÉRIEUX & CAPGRAS. [PRINCIPAIS DISCÍPULOS DE MAGNAN, ESCREVIAM A 4 MÃOS] DIFICULDADES DE UMA DETERMINAÇÃO UNÍVOCA. DE PIERRE JANET A GÉNIL-PERRIN.

Sérieux & Capgras não aceitam as tentativas de autores como Griesinger, Dagonet, Féré, Specht, Nacke, para diferenciar, em seu mecanismo, a interpretação mórbida da normal. A interpretação só é mórbida em virtude da orientação e da freqüência que lhe impõe a ideologia de base afetiva, própria não só do delírio, mas do caráter anterior do sujeito. Idéias de perseguição e de grandeza são diversamente combinadas em intensidade e em sucessão, mas segundo uma ordem fixa para cada enfermo. <O plano do edifício não muda, mas suas proporções aumentam>, pois o delírio progride <por acumulação, por irradiação, por extensão>, <sua riqueza é inesgotável>.

O delirante alucinado, dizem, experimenta uma mudança que o inquieta; primeiro, ele rechaça os pensamentos que o assediam; ele tem consciência da discordância destes com sua mentalidade anterior; mostra-se indeciso. Só chega à certeza, à sistematização, no dia em que a idéia delirante se tornou sensação.”

O primeiro período do delírio crônico, período interpretativo, surgiu-nos como uma manifestação da desordem mental provocada por uma brusca ruptura entre o passado e o presente, pelas modificações da atividade mental e pelos <sentimentos de incompletude que daí resultam> (Pierre Janet). O doente, ao buscar uma explicação para esse estado de mal-estar, forja interpretações que não o satisfazem, etc. Nada de semelhante ocorre no delírio de interpretação propriamente dito, cuja origem se perde ao longe.”

No delírio de reivindicação [subtipo do de interpretação] eles dão destaque, entre outros mecanismos, ao da <idéia fixa que se impõe ao espírito de maneira obsedante, orienta sozinha toda a atividade . . . e a exalta em razão dos obstáculos encontrados>. É o próprio mecanismo da paixão.”

Em 1898, Janet observa o aparecimento de delírios de perseguição, que ele denomina paranóia rudimentar, nos mesmos sujeitos que apresentam a síndrome a que deu o nome expressivo de <obsessão dos escrupulosos>. Os modos de invasão desse delírio, seus mecanismos psicológicos, o fundo mental sobre o qual se desenvolve, mostram-se idênticos ao fundo mental e aos acidentes evolutivos da psicastenia. Notemos que, em suas observações, Janet ressalta que o delírio surge como uma reação a certos acontecimentos traumatizantes. Quanto às predisposições constitucionais, são aquelas do psicastênico: o sentimento de insuficiência de sua própria pessoa, a necessidade de apoio, a baixa da tensão psicológica [?], aí estão traços bem diferentes da constituição paranóica, tal como deveria ser ulteriormente fixada.”

Assim como um pé aleijado cresce harmoniosamente em relação ao germe no qual preexistia, do mesmo modo os erros do interpretante crescem assim como devem crescer num cérebro que os implica todos potencialmente desde sua origem. Na verdade, não existe aqui princípio nem fim.” Dromard

A noção de bovarismo foi definida originalmente por Jules de Gaultier como <o poder concedido ao homem de se conceber como aquilo que não é>.”

d) NA PSICOGENIA DAS PSICOSES PARANÓICAS, A ESCOLA ALEMÃ SE PRENDE À DETERMINAÇÃO DOS FATORES REACIONAIS. BLEULER. PROGRESSO DESTA DETERMINAÇÃO. DE GAUPP A KRETSCHMER E A KEHRER.

O caráter invasivo comparável ao câncer e a incurabilidade do delírio são determinados pela persistência do conflito entre o desejo e a realidade.” Bleuler

Desde 1905, Friedmann chama atenção para um certo número de casos, que ele designa como um subgrupo da paranóia de Kraepelin. Nesses casos, o delírio aparece claramente como uma reação a um acontecimento vivido determinado e a evolução é relativamente favorável. Ele os denomina paranóia benigna e indica três traços de caráter, próprios a tais sujeitos: eles são <sensíveis, tenazes, exaltados>.”

Em 1909, Gaupp dá o nome de <paranóia abortiva> a delírios de perseguição que, nos melhores casos, podem ser curados; e a descrição magistral que nos dá a respeito mostra-nos a evolução de um delírio paranóico num terreno tipicamente psicastênico. <Trata-se, escreve, de homens instruídos, numa idade entre 25 e 45 anos, que sempre se mostraram com humor benevolente, modesto, pouco seguros de si, antes ansiosos, muito conscienciosos, escrupulosos até, em suma, aparecendo em toda sua maneira de ser semelhantes aos doentes que sofrem de obsessões. Naturezas ponderadas, voltadas para a critica de si mesmo, sem nenhuma superestimação de si, sem humor combativo. Neles se instala de maneira inteiramente insidiosa, sobre a base de uma associação específica mórbida e, na maioria dos casos, num vínculo temporal mais ou menos estreito com um acontecimento vivido de forte carga afetiva,¹ um sentimento de inquietação ansiosa com idéia de perseguição; com isto existe uma certa consciência da enfermidade psíquica; eles se queixam de sintomas psicastênicos. Esses seres, de natureza moralmente delicada, indagam primeiro se seus inimigos de fato não têm razão de pensarem mal a seu respeito, mesmo que não tenham dado lugar, por sua conduta, a uma crítica maliciosa ou a uma perseguição policial, senão judicial. Mas não aparece nenhum estado melancólico, nenhum delírio de auto-acusação; ao contrário, surgem idéias de perseguição com uma significação sempre mais precisa, bem-fundamentadas logicamente e coerentes, que se orientam contra pessoas ou corpos profissionais determinados (a polícia, etc.). O delírio de relação não se estende a todo o meio ambiente; desse modo, por exemplo, o próprio médico nunca será incluído na formação delirante, no decurso de uma estada de vários meses na clínica; ao contrário, o doente sente certa necessidade do médico, porque a segurança de que nenhum perigo o ameaça e de que, na clínica, ajuda e proteção lhe são garantidas, por vezes age sobre ele de maneira apaziguadora. Uma conversa séria com o médico pode aliviá-lo por algum tempo, mas certamente não de maneira duradoura. Às vezes, fazem algumas concessões e admitem que se trata de uma desconfiança patológica, de uma particular associação mórbida [João & Pablo]; mas novas percepções no sentido do delírio de interpretação trazem, então, precisamente um novo material ao sistema de perseguição. Com o progresso da afecção ansiosa, desconfiada, que evolui segundo grandes oscilações, as idéias de perseguição se tornam mais precisas e ocasionais ilusões sensoriais reforçam o sentimento de sua realidade. [Eu vi, eu ouvi, eu senti, clara, issa! como a luz do dia! Mas chega de graça, pois divago e devaneio, taíscutando? Nãominimize minha capacidade de autossuperação! Passei muito tempo irreconhecível: de heleno, me tornei num jururu! Um inseto marinado em ódio, impotência e rancor… Grande alívio que tudo isso findou!] Em momentos mais calmos, mostra-se uma certa lucidez sobre as idéias de perseguição anteriores: <Por conseguinte, eu evidentemente imaginei isso>; desse modo, a enfermidade continua durante anos, ora em remissão, ora exacerbando-se [COCHICHE NA MINHA FRENTE, SUA IMBECIL DESAFORADA! – desabafo diacrônico]; sempre persiste o fundo de humor de pusilanimidade ansiosa e o doente é dominado por esta reflexão: <Em que eu mereci essas marcas de hostilidade?> É apenas de maneira passageira que ele chega a se revoltar contra essa tortura eterna, ou até a se defender contra a agressão delirante. Jamais arrogância, nem orgulho, jamais idéias de grandeza, elaboração inteiramente lógica das idéias mórbidas de relação, nenhum traço de debilidade, uma conduta inteiramente natural. Os enfermos, que chegam livremente na clínica e a deixam de acordo com sua vontade, possuem até o fim a maior confiança no médico, gostando de voltar a consultá-lo quando, na prática de sua profissão, se sentem novamente perseguidos e importunados. Chegam então com a seguinte pergunta: <Será que isso realmente não passa de imaginação?> Com muita freqüência, não se constata uma progressão clara da afecção, embora nem sempre seja assim. Num caso observado, as associações mórbidas típicas existem há 12 anos, embora nenhum sistema delirante rígido se tenha constituído; trata-se bem antes de idéias de perseguição que variam em força; com isso, o doente é capaz de atuar na profissão em que está empregado. Em períodos relativamente bons, sempre se faz valer uma semiconsciência da enfermidade; a idéia prevalente não domina o sujeito inteiramente como ocorre no delírio de reivindicação. [síntese: eu sou mais controlado e lúcido que o meu pai; eu gestiono as idéias, não o contrário.] Em todos os casos, a disposição depressiva escrupulosa existia desde sempre; assim sendo, trata-se de um quadro delirante caracterogênico que, de certa maneira, é simétrico [eu e JJ, espelhos paralelos] ao quadro delirante caracterogênico colorido de mania de tantos querelantes.>”

¹ CONVIDADO A SE RETIRAR: A EXPULSÃO QUE NÃO É UMA EXPULSÃO, CLARO, SÓ PARA INGLÊS VER! CIRCUITO DA IPSEIDADE: T. EDSON OF JUDAS DE AGUIARHELEN[JUICEofjuízo][EN]A_PAPA_CEARIBADEVOLTÀORIGEM SAUL,[OpecadoR]DENTEBASDAVIFILHOFRITOFRAC.ASSADO ADOCONVIDADO.INESPERADOzzzSONECANABILIOTECASEMINARIO.PADRE.CAPESPESCAPEI.PEIXOTO.PEIXEFISGADO.BARBAZUL.LEUQAR.SEUSPRÓPRIOSPROBLEMAS.PROFESSORCONFESSOR.MAMAMARINADÓLEOGRAXO.ÁCIDO.ASSÍDUO.DERREPENTESÓQUERDORMIR.ALERGICO.FECHEOBLOGDEVIDOAMUDANÇASNAPOLÍTICAINSTITUCIONAL.QUEBRAQUEIXOMU.DANÇA.DINHEIRROTEIRO.RO-TEI-RO.POLIGLOTAGIOTAUTODIDATA.OPERSEGUIDOTEMDESEROPRIMEIRONACORRIDADÁDIVIDA.ROLLING.INCAPAZDEPAZ.DARDO.EU.JUD.EU.SELENCIOSILÊNIOVOZALTATROVÃORIENTACAOÀSVESSAS.MIQUEIXOMEQUEIXO.MAX.ILAR.TIRITA.DESCONFORME.CONFIRMEALGUÉMCONFIRMEQUEUSOUAQUILOQUEUPENSOQUEUSOU.NAOVÁN’ADOSOUTROS.POBLA.CIÓNDEMIERDAS.US.UNDER.THE.PILE.LASTLAP,LARS.TREADINGPUNCH.WHO’R’THEY THE DAY THEY KNEW… DIFUZZ.RETOMANDOFIODAMEADA:EX-PULSO.INTEGRANTE DA ORIENTAÇÃO²coordenação todos os seus esforços anteriores foram v ã o s nesta janela fechada que n a d a representa. andando em círculos circulando pelo andaime escada fechada escura claustrofóbica claudicante suor de sangue.

SÓ METENDO A BROCA PARA APROFUNDAR O SUBSOLO

ENQUANTO A ÁRVORE DA VIDA RELUZ LÁ NO ALTO, NÃO QUE NÃO ESTEJA DALGUM MODO ABORTADA.

PORQUE CRESCEU DEMAIS. SIMBÓLIRÔNICO,NÃO?!

QUE É QUE PODE RE VE LAR

GALHOPODRE200320102017stilldigginginthisstillsea

estilingue_do_tempo it lingers it really lingers…

JUDICIALIZAÇÃO DO SEU CU GORDO QUE JÁ CAGOU CAGARÁ NETINHOS

(isso não é poesia, é só é só terapia.)

o delírio retorna a um estado de acalmia, quando a ocasião é liquidada ou seus efeitos compensados. Qualquer outro acontecimento vital ulterior poderá então desencadear a doença de maneira análoga.” Kraepelin

O paranóico não sara, ele se desarma.”

Ver a distinção entre temperamento e caráter em Ewald, Temperament und Charakter, Berlln, 1924.”

A representação do acontecimento e o estado afetivo desagradável que está ligado a ela tendem a se reproduzir indefinidamente na consciência. Assim sendo, esse modo reacional da repressão é completamente oposto ao do recalcamento que, na histeria, por exemplo, repele a <lembrança> penosa para o inconsciente.”

REAÇÃO BANAL > REPRESENTAÇÃO OBSEDANTE > HIPER-SENSIBILIDADE > NEUROSE OBSESSIVA

Do blasé ao perfeito poeta? Do you still read me?! Do you steal my stuff behind my back?

A representação consciente do trauma inicial transforma-se em representações parasitárias (Fremdkörperbildung), que lhe foram associadas, mas que não têm com ela mais nenhum elo significativo.” É ou não é meu caso, no caso? Espero que era, que essa era tenha passado… pro passado.

Pode-se constatar nos sensitivos [X obsessivos¹] uma curiosa mistura de tendências estênicas (intensidade dos sentimentos interiorizados) e astênicas (dificuldade de exteriorização, falha de condução, retenção e repressão) (…) superestimação dos fracassos² (…) É essa tensão que constitui o fator psicológico determinante nos delirantes sensitivos; estes são, em suma, completamente subjugados pelas tensões sociais e éticas, onde havíamos visto um componente essencial da personalidade.”

¹ Se essa permuta é válida não fica muito claro (em Kretschmer, de qualquer modo).

² A descrição do fenômeno não dá conta: não é possível ser um narcisista convencido e um fracassado ultimado ao mesmo tempo! Se só um passarinho pode escapar, um precisa ficar… Goleiro mão-de-gaoiola.

O melhor tratamento na juventude (~20 anos) seria: “Mãe, pelo menos o seu filho é um irresponsável!” Infelizmente comigo fizeram o inverso, retroalimentando o mal!

Fonte: vozes da minha cabeça?! Vozes antigas de desafetos reavivadas…

Por conseguinte, o sensitivo se distingue do expansivo¹ pela inferioridade considerável de sua força psíquica e pelo conflito interior resultante do fato de suas predileções éticasPoderia até fingir ser outra pessoa, mas isso vai contra meus valores mais arraigados. O tipo expansivo: Pa******, a antecessora no PG** da CA***, a vulgarmente conhecida como: grossa. O que para ela seria um sincericídio (sempre um suicídio moral com muitas testemunhas, espetaculoso) para mim é justamente preservação da minha integridade diante do espelho. O outro não me importa (mediatamente) – tant pis… Provavelmente a dita-cuja poderia alegar a mesma coisa (invertida). (P.S.: Soube a referida foi indiciada em comissão de ética por ser expansiva demais em e-mails institucionais… Cof cof… Pode até gostar de trabalho – o problema é quando gosta tanto que até dá trabalho pros outros…)

– Gostou de cima?

– Como assim? Eu nunca subi ali.

– De semancol, que eu mandei você tomar.

A PERSONALIDADE SENSITIVA DE KRETSCHMER EM POUCAS PALAVRAS: “uma extraordinária impressionabilidade, uma sensibilidade extremamente acessível e vulnerável, mas, por outro lado, certa dose consciente de ambição e de tenacidade. Os representantes acabados desse tipo são personalidades complicadas, muito inteligentes, dotados de um alto valor, homens de fina e profunda sensibilidade, de uma ética escrupulosa e cuja vida sentimental é de uma delicadeza excessiva e de um ardor todo interiorizado; são vítimas predestinadas de todas as durezas da vida. Encerram profundamente neles próprios a constância e a tensão de seus sentimentos. Possuem capacidade refinada de introspecção e de autocrítica. São muito suscetíveis e obstinados, mas, com isso, particularmente capazes de amor e de confiança. Têm por eles próprios uma justa auto-estima e, no entanto, são tímidos e muito inseguros quando se trata de se mostrar, voltados para si e no entanto abertos e filantropos, modestos mas de uma vontade ambiciosa, possuindo, de resto, altas virtudes sociais”

lutas internas tão inúteis quanto secretas”

O EM VÃO!

Depois da (auto)crítica vem o desespero, depois do desespero a nova crítica e resolução firme, e ad

A interação do caráter e da experiência representa, no delírio de relação sensitivo, a causa essencial da doença.”

A situação mais típica do sensitivo que adoece em seu meio social é a do <contexto social e espiritual, tão ambíguo, do professor primário, fértil em pretensões e que, no entanto, não recebe nenhuma consagração, colocado num plano superior e todavia mal-assegurado por uma formação espiritual [material?] incompleta.>

O ELO DURKHEIMIANO: “Quando esses 3 fatores psicológicos [de dentro para fora, nesta ordem: a personalidade inata; o <evento-catástrofe> ou uma série episódica de contradições temperamento-êxitos&fracassos, enfim, o TRAUMA; o meio social mais geral] acarretaram uma repressão mórbida, então o fator biológico do esgotamento concorre essencialmente para o desencadeamento da doença, assim como, inversamente, o estado de fadiga neurastênica pode facilitar, em primeiro plano, o aparecimento de repressão nos caracteres sensitivos.”

A experiência decisiva com a situação vital que a subtende é simplesmente tudo. Se a suprimíssemos, a doença ficaria reduzida a nada. Ela forma, por sua repetição na obsessão, o objeto sempre novo dos remorsos depressivos, dos temores hipocondríacos . . .”

O SÍTIO E O VAGABUNDO (pais e irmão)

Toda semana a mesma coisa… toda semana esse ciclo trágico… isso nunca vai acabar… isso de novo… outra vez…” “Reclamo, mas eles fingem que não me escutam ou logo se esquecem e tudo acontece como da primeira vez…” “Essas memórias continuam voltando e eu fico preso a elas por vários dias, até me recuperar e parar de sentir a dor nas costas…” “Minha vó que morreu… Ela se compadeceria por mim? Quem se compadece por mim? Isso é algum tipo de vingança dos meus ancestrais, uma maldição muito anterior a minha existência? É culpa minha?!? Por que eu não sei lidar melhor com essa MERDA?! Por que eu sou assim?! Que derrota…” “E se eu só for piorando cada vez mais e for um incapacitado minha vida inteira?” “Me jogo ou não me jogo? E se eu não morrer? Tenho coragem? Meu ‘amigo’ me falou que é só se jogar de cabeça, não tem erro, e eu não vou sentir nada, eu vou apagar antes de chegar ao chão… Por que não? Por que me sujeitar a ver e sentir todo esse ciclo se repetindo de novo e de novo e me sentir impotente sempre e sempre?… Qual o sentido nisso tudo? Eu gostaria de chamar a atenção pra minha existência da única forma que me é possível, depois de tudo que tentei… que é deixando de existir…”

O livro que me “salvou”: Vontade de Potência.

* * *

MELHOROU MAS NEM TANTO: “todas as idéias de prejuízo e de inquisição pela família e pelos colegas, pelo público e pelos jornais, todas as angústias de perseguição provocadas pela polícia e pela justiça, provêm desse acontecimento inicial e a ele retornam.”

a intensidade afetiva dos paroxismos, a ausência ordinária de reações agressivas, seu caráter apenas defensivo nos casos puros, a ênfase hipocondríaca do quadro, a amargura sentida em relação à própria inutilidade, o esforço no sentido do restabelecimento e a confiança do apelo ao médico.”

RESIGNA-TE!

Se deus (pai) morrer para mim, eu me torno uma espécie de Jason, conforme a literatura (o que me faz ser útil à sociedade e ter meu valor, ser um neurastênico, é que eu sofro continuamente sentindo o parasitismo causal dessa relação sem-saída). Um psicopata apagaria esse indesejável para-além do inconsciente e, astênico, dormente, insensível, maquínico, dissolvido, solto até mesmo do social, se realizaria, porém se perdendo, desvinculado de qualquer valor futuro… É esse altruísmo-no-egoísmo do herói que nos redime “no fim”…

Ver como eu cheguei a essa conclusão após ser um niilista conceitual virtualmente completo e agora que me entendo eticamente é uma verdadeira epopéia realizada, teatro grego in loco e na carne, mas já finalizado… Milagroso, enfim. Hic salta.

Muitos sóis sob o céu em seu ofuscante vermelho alaranjado róseo amarelado ainda quero assistir ou pressentir ou sentir, com a luz penetra assentir, menear, condescender às sombras do Hades apenas para depois me REDimir, em pele nova e calejada, ainda rosácea, mas mais de réptil, como se fosse possível continuar sofrendo e estar-agora-anestesiado tudo ao mesmo tempo e em evolução única, singular, astral, austral, hiperbórea, meridional, crítica, sub-tropical, na linha do Equador de toda a rotundidade desta vida neste planetinha neste seculozinho miserável e ingrato e que no entanto nos enche de graça e contentamento sabe-se lá pelo quê exatamente, mas sei que há algo… Tem de haver. Tende a haver. Não importa, há.

As psicoses leves não vêm às mãos do médico de asilo, mas do médico de consultório. Assistidas por ele em tempo oportuno, elas devem desaparecer completamente, deixar uma correção completa do delírio.

Algumas formas, como o delírio dos masturbadores [???], parece que, mesmo após manifestações graves, podem ser completamente curadas.”

O início da evolução é muito mais nítido do que deixa perceber a noção de insidiosidade sobre a qual insistem as descrições clássicas de Kraepelin e Gaupp.”

A evolução, assim, nada tem de esquemático: curas rápidas, reações agudas, evolução prolongada por muitos anos com cura relativa, evolução recidivante desencadeada em ocasiões absolutamente determinadas, ou oscilações durante anos na fronteira entre a eclosão delirante e sua base neurótica.”

a evolução típica não apresenta fenômenos de despersonalização.”

Eis por que Kretschmer não fica, de modo algum, embaraçado, em suas considerações doutrinais, por só ter descrito um tipo particular de psicose paranóica. Ele efetivamente nada mais quis demonstrar, diz-nos, senão que, <quanto mais sensitivo é um caráter, tanto mais especificamente ele reagirá, no caso, a um complexo de culpa mediante um delírio de relação de estrutura sutil>.”

Não existe a paranóia, mas apenas paranóicos.”

I.4. CONCEPÇÕES DA PSICOSE PARANÓICA COMO DETERMINADA POR UM PROCESSO ORGÂNICO

Um delírio, com efeito, não é um objeto da mesma natureza que uma lesão física, que um ponto doloroso ou um distúrbio motor. Ele traduz um distúrbio eletivo das condutas mais elevadas do doente: de suas atitudes mentais, de seus juízos, de seu comportamento social. Além do mais o delírio não exprime este distúrbio diretamente; ele o significa num simbolismo social. Este simbolismo não é unívoco e deve ser interpretado.”

o doente, para exprimir a convicção delirante, sintoma de seu distúrbio, pode se servir apenas da linguagem comum, que não é feita para a análise das nuanças mórbidas, mas somente para o uso das relações humanas normais.”

A concepção subjacente que ele tem de si mesmo transforma o valor do sintoma: uma convicção orgulhosa, se estiver fundada numa hiperestenia afetiva primitiva, não tem o mesmo valor que uma defesa contra a idéia fixa de um fracasso ou de uma falta”

a evolução para a atenuação, a adaptação, mesmo a cura da psicose, fatos, em suma, reconhecidos por todos os autores, virão corrigir a primeira noção da irredutibilidade do delírio.”

Existem, certamente, fatores orgânicos da psicose. Devemos precisá-los tanto quanto possível. Se nos dizem que se trata de fatores constitucionais, admitiremos de boa vontade, contanto que isto não seja pretexto para uma satisfação meramente verbal” “Este processo é menos grave ou menos aparente do que aqueles que devem ser reconhecidos na psicose maníaco-depressiva, na esquizofrenia ou nas psicoses de origem tóxica. Ele é da mesma natureza. Em todas essas psicoses, o laboratório revelou alterações humorais ou neurológicas, funcionais senão lesionais, que, por ficarem insuficientemente asseguradas, não permitem menos que se afirme a prevalência do determinismo orgânico do distúrbio mental. Ainda que tais dados faltem nas psicoses paranóicas, seu andamento clínico pode nos fazer admitir sua identidade de natureza com as psicoses orgânicas. Esta é a tese de vários autores que se opõem aos partidários da psicogênese.” “Quando se trata de precisar quais são estes distúrbios característicos, as respostas diferem de autor para autor. Contudo, o estado atual da psiquiatria pode explicar a incerteza destas respostas, e não permite afastar a hipótese que lhes é comum, a de um determinismo não-psicogênico.”

TAXONOMIA BÁSICA E RELAÇÕES DE ORIGEM (“ORGANOGÊNESE”) DESSA CORRENTE:

distúrbios do humor, mais ou menos larvares, da psicose maníaco-depressiva;

– dissociação mental, mais ou menos frustra, dos estados paranóides e da esquizofrenia;

– determinismo, mais ou menos revelável, do delírio por estados tóxicos ou infecciosos.”

Estas pesquisas gravitaram na França em torno da concepção do automatismo psicológico; elas resultaram na Alemanha na formação de um conceito analítico: o de processo, que foi especialmente criado pelas pesquisas sobre as psicoses paranóicas. Estes dois conceitos, o de automatismo e o de processo, definem-se por sua oposição às reações da personalidade. Acreditamos portanto que as pesquisas psicogênicas conservam todo seu valor.”

a) RELAÇÕES CLÍNICAS E PATOGÊNICAS DA PSICOSE PARANÓICA COM OS DISTÚRBIOS DO HUMOR DA PSICOSE MANÍACO-DEPRESSIVA.

A relação das variações de humor, maníaco e melancólico, com as idéias delirantes é uma questão que nunca deixou de estar na ordem do dia das discussões psiquiátricas. Foi certamente um progresso capital da nosografia quando Lasègue isolou seu delírio das perseguições das lipemanias, com as quais Esquirol as confundia. Contudo, basta evocar o esforço de análise que teve que ser feito em seguida para discriminar os perseguidos melancólicos dos verdadeiros perseguidos para ver o quanto aparecem intrincadas variações depressivas do humor e idéias delirantes.”

A exaltação maníaca faz parte do quadro clássico dos perseguidos perseguidores. Os autores modernos: Köppen, Sérieux e Capgras, que se fundamentam numa nosografia precisa do delírio de reivindicação, reconhecem aí um dos traços essenciais da síndrome.”

Taguet insiste nas formas intermitentes do delírio, que aparecem nos estados de superexcitação periódica da inteligência, da sensibilidade e da vontade. Estes fatos, por volta de 1900, estavam na ordem do dia e eram objeto de discussões apaixonadas. Estas eram provocadas pela confiança por demais absoluta que certos autores davam ao progresso clínico representado pelo isolamento da noção de delírio sistematizado na França, da Verrücktheit ou da paranóia primária na Alemanha.” Para Kraepelin, este termo de paranóia periódica é uma contradictio in adjecto, e ele não hesita nessa época em tachar de <candura> aqueles que o usam.”

a alteração maníaca do humor, a logorréia [verbosidade], a grafomania [hábito ou compulsão da escrita, coerente ou não], a inquietude, a impulsão de agir, a ideorréia [fertilidade mental], a distração: características da mania.”

Por certo acreditamos que é preciso abster-se de confundir a variação ciclotímica com os estados afetivos secundários às idéias delirantes. Ou, melhor dizendo, acreditamos ser preciso distinguir, com Bleuler, o distúrbio global do humor, depressivo ou hiperestênico, ou variação afetiva holotímica – e os estados afetivos ligados a certos complexos representativos, que representam uma situação vital determinada, ou variação afetiva catatímica.”

b) RELAÇÕES CLÍNICAS E PATOGÊNICAS [DE ORIGEM ORGÂNICA] DAS PSICOSES PARANÓICAS COM A DISSOCIAÇÃO MENTAL DAS PSICOSES PARANÓIDES E DA ESQUIZOFRENIA, CONFORME OS AUTORES.

Não há dúvida de que existem fatos freqüentes em que um surto fugaz de sintomas esquizofrênicos precedeu em alguns anos o surgimento de uma psicose paranóica que se estabelece e dura.” “Enfim, a saída de uma psicose paranóica típica, evoluindo para uma dissociação mental manifesta de tipo paranóide, não é nada incomum.”

Kahn, na Alemanha, apresenta fatos que demonstram <que muitos paranóicos legítimos atravessam em um período precoce um processo esquizofrênico e que eles conservam disso um ligeiro déficit a partir do qual a paranóia se instala>.”

Bleuler e os fatores psicogênicos da paranóia:

1. “uma afetividade com forte ação de circuito, que se distingue além disso pela estabilidade de suas reações”

2. “uma certa desproporção entre a afetividade e o entendimento.”

// “mecanismo paratímico larvar”

Bl. admite ainda a permutabilidade, em certas instâncias, entre processos esquizo e paranóicos.

Por outro lado, temos razões para admitir que na esquizofrenia existe sempre um processo anatômico, mas não nas paranóias.” B.

c) RELAÇÕES CLÍNICAS E PATOGÊNICAS DA PSICOSE PARANÓICA COM AS PSICOSES DE INTOXICAÇÃO E DE AUTO-INTOXICAÇÃO. – PAPEL DO ONIRISMO E DOS ESTADOS ONIRÓIDES. – RELAÇÃO ENTRE OS ESTADOS PASSIONAIS E OS ESTADOS DE EMBRIAGUEZ PSÍQUICA. – PAPEL DOS DISTÚRBIOS FISIOLÓGICOS DA EMOÇÃO.

Encontramos incessantemente, na pena dos autores, o voto de que um estudo melhor das seqüelas delirantes, que persistem depois dos delírios agudos, dos estados confusionais, dos estados de embriaguez delirante e de diversos tipos de onirismo, venha nos dar novos esclarecimentos sobre o mecanismo dos delírios.

O estudo do alcoolismo nos trouxe fatos fortemente sugestivos de idéias fixas pós-oníricas, de delírios sistematizados pós-oníricos, de delírios sistematizados de sonho a sonho, de delírios com eclipses (Legrain).”

Desde então, a questão que se coloca é a de saber se os estados de auto-intoxicação, tais como podem ser realizados pelos distúrbios digestivos diversos, a estafa, etc., não podem desempenhar um papel essencial nas psicoses.”

O desequilíbrio parassimpático, particularmente, parece desempenhar um papel determinante no surgimento dos estados de embriaguez atípicos e dos estados sub-agudos alcoólicos.”

os estudos estatísticos de Drenkhahn (1909), onde se vê, após as medidas proibitivas tomadas contra o alcoolismo no exército alemão, a proporção dos distúrbios catalogados como neuróticos e psicóticos se elevar numa proporção estritamente compensatória da diminuição dos distúrbios ditos alcoólicos.”

James, para quem a crença comporta um elemento afetivo essencial, salientou o fato de que certos estados de embriaguez parecem determinar experimentalmente o sentimento da crença.”

Tentou-se atribuir, nas nossas psicoses, um papel todo particular à intoxicação pelo café, tão freqüentemente observada, com efeito, em certos sujeitos, mulheres próximas à menopausa, nas quais explode um delírio paranóico. Mesmo aí não se poderia falar de uma determinação exclusiva pelo tóxico.” Heuyer & Borel, Accidents subaigus du caféisme, 1922.

De resto, esses determinismos humorais, ainda que fossem mais claramente confirmados nos fatos, deixariam intacto o problema da estrutura psicológica complexa dos delírios paranóicos, que é o problema a que nos dedicamos.”

d) ANÁLISES FRANCESAS DO “AUTOMATISMO PSICOLÓGICO” NA GÊNESE DAS PSICOSES PARANÓICAS. – RECURSO À CENESTESIA POR HESNARD & GUIRAUD. – AUTOMATISMO MENTAL, DE MIGNARD & PETIT. – SIGNIFICAÇÃO DOS “SENTIMENTOS INTELECTUAIS” DE JANET. – A NOÇÃO DE ESTRUTURA EM PSICOPATOLOGIA, SEGUNDO MINKOWSKI.

O único vínculo teórico comum a essas pesquisas é a noção muito flexível de automatismo psicológico, que não tem nada em comum, senão a homonímia, com os fenômenos de automatismo neurológico. Graças à complexidade dos sentidos do termo automatismo, ele convém perfeitamente a uma série de fenômenos psicológicos que, como bem o mostrou nosso amigo H. Ey, são de ordem extremamente diversa.”

Quando a ordem da causalidade psicogênica, tal como a definimos mais acima, é modificada pela intrusão de um fenômeno de causalidade orgânica, diz-se que há um fenômeno de automatismo. Este é o único ponto de vista que resolve a ambigüidade fundamental do termo automático, permitindo compreender ao mesmo tempo seu sentido de fortuito e de neutro que se entende com relação à causalidade psicogênica, e seu sentido de determinado que se entende com relação à causalidade orgânica.”

CENESTESIA. Por este termo, compreende-se o conjunto das sensações proprioceptivas e enteroceptivas: tais como sensações viscerais, sensações musculares e articulares, mas somente enquanto elas permanecem vagas e indistintas e, propriamente falando, enquanto, como isto se passa em estado de saúde, ficam no estado de sensações puras, sem chegarem à percepção consciente.” “Ela forma a peça-mestra de uma doutrina geral da gênese dos distúrbios mentais, engenhosamente construída por Hesnard.”

Janet apresenta amplos conhecimentos sobre o mecanismo da ilusão da memória, fenômeno que depende, e no mais alto grau, das insuficiências de adaptação ao real; mas ele não ataca, para si mesmo, o fenômeno tão delicado da interpretação. Contudo sua análise impõe, quanto a esse tema, sugestões preciosas. E é muito mais concebível que a interpretação mórbida, bem diferente do mecanismo normal da indução errônea ou da lógica passional, possa depender de um distúrbio primitivo das atividades complexas, distúrbio que a personalidade imputa naturalmente a uma ação de natureza social.

Qualquer que seja a expressão intelectual que lhes imponham as necessidades da linguagem, para o doente como para o observador, é preciso conceber os sentimentos intelectuais como estados afetivos, quase inefáveis, de que o delírio representa apenas a explicação secundária, freqüentemente forjada pelo doente após uma perplexidade prolongada.”

Se o autor se recusa, com efeito, a concluir prematuramente por qualquer alteração de um sistema de neurônios especializado, cuja existência permanece cientificamente mítica, é, no entanto, a uma concepção biológica destes distúrbios que ele adere.” “A causalidade biológica desses fatos é bem acentuada pela influência de condições como as doenças, a fadiga, as emoções, as substâncias excitantes, a mudança de meio, o movimento, o esforço, a atenção, que agem não como fatores psicogênicos, mas como fatores orgânicos. § Esses sentimentos intelectuais, normalmente afetados pela regulação das ações (sentimento de esforço, de fadiga, de fracasso ou de triunfo), parecem também traduzir, com freqüência, de forma direta, uma modificação orgânica. Eles tenderão, contudo, nos dois casos, a surgir para o sujeito como condicionados pelos valores socialmente ligados ao sucesso dos atos pessoais (estima de si, auto-acusação) e uma conclusão delirante, correspondente a essas ilusões, aparecerá.” “um controle preciso desses dados poderia ser trazido pelo estudo psicológico atento dos fenômenos subjetivos da psicose maníaco­depressiva.”

A necessidade do familiar exige um trabalho de reclassificação, de reorganização. Essa reorganização se faz em torno de alguns fatos, tomados freqüentemente ao acaso, e que desempenharão o papel de cristais de poeira numa mistura em alta fusão. A cristalização será aliás pouco estável no princípio: somente mais tarde ela chegará a um sistema coerente, a expressões verbais fixas.” Meyerson & Quercy

UnB 2009: mictório FD antes da aula de TPM: o que sou eu, o que estou fazendo aqui, essa rotina apresenta algum sentido? doravante: petrificação da noção de que “ele” é o culpado por tudo. “Você é um lixo; fracassado… eu no seu lugar… VOCÊS… quem é ‘vocês’?”

[subsidiariamente (não em minha opinião, de qualquer forma),] depois, a tentativa, bem-sucedida ou não, de redução do distúrbio pelas funções conceituais, mais ou menos organizadas, da personalidade.” Vencer na vida, mesmo aos olhos cínicos, hipócritas e inconfessáveis do LIXO. Queimar qualquer centelha nesse intuito. Êxito.

Os autores são induzidos a tal concepção pelos fatos que trazem com o nome de interpretações frustradas, e que são interpretações em que faltam certos elementos da interpretação completamente desenvolvida.

Esse é o caso do doente no qual, após um período alucinatório, o delírio de perseguição se reduziu pouco a pouco a puras interpretações. Acontece um dia que uma vizinha, ocupada em podar uma cerca, solta estas palavras: <Tudo isso é selvagem.> O doente fica transtornado. No entanto, ele não pode afirmar que essas palavras o visavam. <Isso lhe pareceu engraçado.> Isso continua a lhe parecer engraçado. Ele está certo que a vizinha não pode lhe querer mal. A anamnese do doente, que merece ser lida nos pormenores, traduz ao mesmo tempo sua boa vontade (a ausência certa de reticência [não seria presença?]) e sua impotência para explicar aquilo que lhe aconteceu.

Esse doente está nesse momento perfeitamente orientado e conserva as reações intelectuais e mnêmicas na média normal.

Estamos aí na presença de uma atitude mental que se caracteriza por um estado afetivo quase puro, e em que a elaboração intelectual se reduz à percepção de uma significação pessoal impossível de precisar.

Tal redução do sintoma se apresenta como um fato de demonstração notável, mas, para que toda elaboração conceitual faltasse, parece ser necessário estarmos diante de um caso em que a reação de defesa psicológica seja má [ruim], e a observação nos indica com efeito que o caso se agrava ulteriormente e apresenta um quadro que se revela esquizofrênico.”

Quando todos os olhares são acusadores, pontiagudos, hostis, nos tornamos uma verdadeira lixa por todos os lados, e, assim como não sabemos o que fazer com essas pessoas, elas também não fazem idéia do que fazer conosco. Fica elas por elas. Cada um com seus problemas genealógicos e bons ou maus pais.

Segundo a definição de Husserl, que é seu iniciador, a fenomenologia é <a descrição do domínio neutro do vivido e das essências que aí se apresentam>. Nós não podemos dar aqui mesmo uma idéia do método de que se trata. Digamos somente que Minkowski, que parece não ignorar essas pesquisas, transforma profundamente, como costuma fazer, seu método e seu espírito.”

ENTÃO A FENOMENOLOGIA HUSSERLIANA É UMA “IDÉIA PLATÔNICA”, NO SENTIDO MAIS PEJORATIVO DO TERMO, NA PIOR COMPREENSÃO POSSÍVEL DA FILOSOFIA DE PLATÃO: “Para compreender um delírio de ciúme, por exemplo, é preciso evitar de imputar à doente, ciumenta de uma outra mulher, uma construção dedutiva ou indutiva mais ou menos racional, mas compreender que sua estrutura mental a força a se identificar com sua rival, quando ela a evoca, e a sentir que ela é substituída por esta. Em outros termos, as estereotipias mentais são consideradas nesta teoria como mecanismos de compensação, não de ordem afetiva, mas de ordem fenomenológica. Inúmeros casos clínicos foram assim interpretados por Minkowski.”

conteúdo e forma só poderão ser dissociados arbitrariamente na medida em que o papel do trauma vital nas psicoses for resolvido.” Referência ao élan vital de Minkowski.

e) ANÁLISES ALEMÃS DA ERLEBNIS PARANÓICA. – A NOÇÃO DE PROCESSO PSÍQUICO, DE JASPERS. – O DELÍRIO DE PERSEGUIÇÃO É SEMPRE ENGENDRADO POR UM PROCESSO, PARA WESTERTERP.

Inúmeros acontecimentos, que sobrevêm ao alcance dos doentes e chamam sua atenção, despertam neles sentimentos desagradáveis pouco compreensíveis. Esse fato os preocupa bastante e os aborrece. Algumas vezes tudo lhes parece tão forte, as conversas ressoam com veemência demasiada em seus ouvidos, algumas vezes mesmo qualquer barulho, um acontecimento ínfimo, é suficiente para irritá-los. Eles têm sempre a impressão de que são eles que são visados nisso. Acabam por ser completamente persuadidos disso. Observam que falam mal a seu respeito, que é precisamente a eles que prejudicam. Colocadas sob forma de juízo, essas experiências engendram o delírio de relação.” Jaspers

Ele nota o sobrevir episódico de fenômenos pseudo-alucinatórios. <Todos esses distúrbios não alcançam contudo um verdadeiro estado de psicose aguda. Os doentes orientados, ponderados, acessíveis freqüentemente até aptos ao trabalho, têm todo o lazer e o zelo necessário para elaborar, para explicar suas experiências, um sistema bem-organizado e idéias delirantes numerosas, explicativas, nas quais eles próprios não reconhecem freqüentemente mais que um caráter hipotético. Quando tais experiências se dissiparam após um tempo bastante longo [três anos, p.ex.?], não se encontra mais que os conteúdos delirantes de juízos petrificados; a experiência paranóica particular desapareceu.>”

reivindicante com tom depressivo”

Jaspers distingue ainda modificações intermediárias na reação¹ e no processo.² São aquelas que, embora sendo determinadas de modo puramente biológico e sem relação com os acontecimentos vividos pelo doente, são entretanto restauráveis e deixam intacta a personalidade: tais são os acessos, as fases, e os períodos, cujos exemplos podem ser encontrados em várias doenças mentais.”

¹ “Os episódios agudos não ocasionam nenhum transtorno duradouro. O statu quo ante se restabelece.”

² “Os episódios agudos têm por conseqüência um transtorno não-restaurável.”; “Enxerto parasitário único comparável ao progresso de um tumor.” Nascimento de uma segunda personalidade.

A organização psíquica é totalmente destruída nos processos orgânicos grosseiros: as lesões evolutivas do cérebro, na verdade, provocam distúrbios mentais que têm apenas a aparência de uma verdadeira psicose. A observação nos mostra, de fato, que a cada instante de sua evolução intervêm alterações psíquicas sempre novas, heterogêneas entre elas, sem liame estrutural comum.”

Quatro casos de delírio de ciúme, agrupados 2 a 2, ilustram de modo notável esta oposição da psicose que se apresenta como um desenvolvimento [reversível]¹ àquela que aparece como um processo.”

¹ Classificação jasperiana. Não se concorda com ele hoje: a psicose é um processo incurável. Mas, como veremos, o próprio Lacan tinha muita fé no seu oposto!

O delírio de ciúme (logo seguido de idéias de perseguição) manifesta-se num lapso de tempo relativamente curto, sem limites nítidos, mas que não ultrapassa cerca de um ano.”

idéia delirante de ser observado (<falam baixo e zombam do sujeito>) (…) sintomas somáticos interpretados (<vertigem? cefaléia? distúrbios intestinais?>).”

Ressalva: precisaríamos de um estudo sobre o advento de paranóias e manias persecutórias em tempos de derrocada da democracia…

não se encontra nenhuma adjunção de novas idéias delirantes, mas o sujeito guarda seu delírio antigo, não o esquece; ele considera seu conteúdo como a chave de seu destino e traduz sua convicção por atos. (…) O sujeito não é reticente.

Essas personalidades apresentam um complexo de sintomas que podemos aproximar da hipomania: consciência de si nunca enfraquecida, irritabilidade, tendência para a cólera e o pessimismo, disposições que, à menor ocasião, se transformam em seu contrário: atividade incessante, alegria de empreender.”

[No caso de predisposição caracterológica, sem desencadeamento de processo psíquico no delirante ciumento] persiste apenas a tendência a novas explosões durante ocasiões apropriadas. Aqui, não há idéias de perseguição, nem de envenenamento; por outro lado, forte tendência à dissimulação.”

O doente percebe que <alguma coisa nos acontecimentos tem a ver com ele sem que compreenda o que é>.” Westerterp

Westerterp evidencia aqui minuciosamente as armadilhas a que a tendência a querer tudo compreender leva o observador; ele descobre, com muita sutileza, nos casos em que foi exercida a penetração psicológica por demais hábil de pesquisadores anteriores, os defeitos da armadura dessas explicações psicogênicas demasiado satisfatórias. Os levantamentos sobre o caráter anterior também devem ser submetidos a uma crítica minuciosa.”

Sempre teremos de tratar depressões e neuroses a nossa própria maneira. Uma solução mágica infalível, digo, uma solução científico-empírica infalível de 50 anos atrás já pode ser sabotada pelo inconsciente do doente médio, posto que tal solução se tornou lugar-comum na literatura e a depressão ou neurose, como um vírus ou bactéria, já se aperfeiçoou a fim de promover sua disseminação. A teoria da couraça ou de imunidade protetiva a novos episódios depressores infelizmente é – mas apenas porque tornou-seincorreta.

4. após um curto lapso de tempo sem atribuírem qualquer causa aos sintomas que sentem tão nitidamente, os doentes encontram uma explicação que os satisfaz mais ou menos, na idéia delirante de serem perseguidos por uma certa categoria de homens por causa de uma ação precisa;

5. então, uma forte desconfiança vem cada vez mais em primeiro plano;

6. o delírio, nascido assim secundariamente, permanece alimentado pela continuação das manifestações do processo, mas tira também de si mesmo interpretações compreensíveis, como toda idéia prevalente;

7. não existe nenhuma alucinação.

II. O CASO “AIMÉE” OU A PARANÓIA DE AUTOPUNIÇÃO

Acreditamos que, em vez de ser obrigatório publicar o conjunto de nosso material de modo forçosamente resumido, é, ao contrário, pelo estudo, tão integral quanto possível, do caso que nos pareceu mais significativo que poderemos dar o máximo de alcance intrínseco e persuasivo a nossos pontos de vista.”

II.1 EXAME CLÍNICO DO CASO “AIMÉE”

Distúrbios mentais que evoluem há mais de um ano; as pessoas com as quais ela cruza na rua dirigem-lhe insultos grosseiros, acusam-na de vícios extraordinários, mesmo se essas pessoas não a conhecem; as pessoas de seu meio falam mal dela o mais que podem e toda a cidade de Melun está a par de sua conduta, considerada como depravada; ela também quis deixar a cidade, mesmo sem dinheiro, para ir a qualquer lugar.”

O delírio que apresentou a doente Aimée revela a gama quase completa dos temas paranóicos. Temas de perseguição e temas de grandeza nele se combinam estreitamente. Os primeiros se exprimem em idéias de ciúme, de dano, em interpretações delirantes típicas. Não há idéias hipocondríacas, nem idéias de envenenamento. Quanto aos temas de grandeza, eles se traduzem em sonhos de evasão para uma vida melhor, em intuições vagas de ter que realizar uma grande missão social, em idealismo reformista, enfim, numa erotomania sistematizada sobre uma personagem da realeza.”

Aimée colabora ardentemente na confecção do enxoval da criança esperada por todos. Em março de 192.. ela dá à luz uma criança do sexo feminino, natimorta. O diagnóstico é asfixia por circular de cordão. Segue-se uma grande confusão na doente. Ela atribui a desgraça a seus inimigos; de repente parece concentrar toda a responsabilidade disso numa mulher que durante 3 anos foi sua melhor amiga. Trabalhando numa cidade afastada, esta mulher telefonou pouco depois do parto para saber das novas. Isto pareceu estranho a Aimée; a cristalização hostil parece datar de então.”

Uma segunda gravidez acarreta a volta de um estado depressivo, de uma ansiedade, de interpretações análogas. Uma criança nasceu a termo em julho do ano seguinte (a doente está cem 30 anos).” “Durante a amamentação, ela se torna cada vez mais interpretante, hostil a todos, briguenta. Todos ameaçam seu filho. Ela provoca um incidente com motoristas que teriam passado perto demais do carrinho do bebê. Causa diversos escândalos com os vizinhos. Ela quer levar o caso à justiça.”

A seu favor, ela invoca o fato de querer ir aos Estados Unidos em busca do sucesso: será romancista. Ela confessa que teria abandonado seu filho.”

eu interrogo as minhas companheiras, algumas das quais são loucas e outras tão lúcidas quanto eu, e quando eu tiver [sic] saído daqui, eu me proponho a morrer de rir por causa do que me acontece, pois acabo me divertindo realmente por ser sempre uma eterna vítima, uma eterna desconhecida, Santa Virgem, que história a minha! o senhor a conhece, todo mundo a conhece mais ou menos, a tal ponto falam mal de mim”

guardava uma profunda inquietude: Quais eram os inimigos misteriosos que pareciam persegui-la? Ela não devia realizar um grandioso destino? Para procurar a resposta destas perguntas é que ela quis sair de sua casa, ir para a cidade grande.”

Um dia, diz ela, como eu trabalhava no escritório, enquanto procurava, como sempre, em mim mesma, de onde podiam vir essas ameaças contra meu filho, escutei meus colegas falarem da Sra. Z. Compreendi então que era ela quem nos queria mal.” “Uma vez, no escritório de E., eu tinha falado mal dela. Todos concordavam em considerá-la de boa família, distinta . . . Eu protestei dizendo que era uma puta. É por isso que ela devia me querer mal.”

A mais exaustiva pesquisa social não pôde nos revelar que ela tivesse falado a alguém a respeito da Sra. Z. Apenas uma de suas colegas nos relata vagas menções contra o <pessoal de teatro>.”

Um dia (ela precisa o ano e o mês), a doente lê no jornal Le Journal que seu filho ia ser morto <porque sua mãe era caluniadora>, era <vil> e que se <vingariam dela>. Isto estava claramente escrito. Havia, além disso, uma fotografia que reproduzia a empena de sua casa natal na Dordonha, onde seu filho passava férias naquele momento, e ele, de fato, aparecia num canto da foto. Uma outra vez, a doente fica sabendo que a atriz vem representar num teatro bem próximo de sua casa; ela fica transtornada. para zombar de mim.>”

Como certos personagens dos mitos primitivos se revelam como substitutos de um tipo heróico, assim aparecem atrás da atriz outras perseguidoras, cujo protótipo último, como veremos, não é ela mesma. São Sarah Bernhardt, estigmatizada nos escritos de Aimée, a Sra. C., essa romancista contra a qual quis abrir processo num jornal comunista. Vemos, a partir daí, o valor, mais representativo que pessoal, da perseguidora que a doente reconheceu. Ela é o tipo da mulher célebre, adulada pelo público, bem-sucedida, vivendo no luxo. E se a doente faz em seus escritos o processo vigoroso de tais vidas, dos artifícios e da corrupção que ela lhes imputa, é preciso sublinhar a ambivalência de sua atitude; pois ela também, como veremos, desejaria ser uma romancista, levar uma grande vida, ter uma influência sobre o mundo.”

<Pensei que a Sra. Z. não podia estar só para me fazer tanto mal impunemente, era preciso que ela fosse apoiada por alguém importante.> Leitora assídua de novos romances e seguindo avidamente o sucesso dos autores, a doente achava, com efeito, imenso o poder da celebridade literária.”

Todas essas personagens, artistas, poetas, jornalistas, são odiados coletivamente como grandes provocadores dos infortúnios da sociedade. <Trata-se de uma ralé, uma raça>; <eles não hesitam em provocar por suas bazófias o assassinato, a guerra, a corrupção dos costumes, para conseguir um pouco de glória e prazer.>”

À medida que nos aproximamos da data fatal, um tema se precisa, o de uma erotomania que tem por objeto o príncipe de Gales.” “Ela disse ao médico perito que, um pouco antes do atentado, havia em Paris grandes cartazes que informavam ao Sr. P.B. que, se ele continuasse, seria punido. Ela tem portanto protetores poderosos, mas parece que os conhece mal. Com respeito ao príncipe de Gales, a relação delirante é bem mais precisa. Temos um caderno seu onde ela anota cada dia, com data e hora, uma pequena efusão poética e apaixonada que dirige a ele.”

O quarto de hotel em que morava estava recoberto de retratos do príncipe; ela juntava igualmente os recortes de jornal relativos a seus movimentos e sua vida. Não parece que ela tenha tentado aproximar-se dele na ocasião de uma estada do príncipe em Paris, a não ser por um impulso metafórico (poemas). Por outro lado, parece que ela lhe remeteu pelo correio, por várias vezes, seus poemas (um soneto por semana), memoriais, cartas, uma das quais quando da viagem do príncipe à América do Sul, instando que desconfiasse dos embustes do Sr. de W. (já anteriormente mencionado), diretor da Imprensa Latina, que <dá a palavra de ordem aos revolucionários, pelos jornais, com as palavras em itálico>. Mas, detalhe significativo, até o fim ela não assina suas cartas.

Encontramo-nos, observemos, diante do próprio tipo da erotomania, segundo a descrição dos clássicos, retomada por Dide. O traço maior do platonismo ali se mostra com toda a nitidez desejável.

Assim constituído, e apesar dos surtos ansiosos agudos, o delírio, fato a destacar, não se traduziu em nenhuma reação delituosa durante mais de 5 anos. Certamente, nos últimos anos, certos sinais de alerta se produzem. A doente sente a necessidade de <fazer alguma coisa>. Porém, ponto notável, esta necessidade se traduz primeiro pelo sentimento de uma falta para com deveres desconhecidos que ela relaciona com os preceitos de sua missão delirante. Sem dúvida, se ela conseguir publicar seus romances, seus inimigos recuarão assustados.

Assinalamos suas queixas junto às autoridades, seus esforços para fazer com que um jornal comunista aceitasse ataques contra uma de suas inimigas, suas importunações junto ao diretor desse jornal. Estas lhe custam mesmo a visita de um inspetor de polícia, que usou de uma intimidação bastante rude.”

Eu fui ao editor perguntar se podia vê-lo, ele me disse que ele vinha todas as manhãs apanhar sua correspondência, e eu o esperei na porta, apresentei-me e ele me propôs dar uma volta de carro pelo bosque, o que aceitei; durante este passeio, eu o acusei de falar mal de mim, ele não me respondeu. Por fim, tratou-me de mulher misteriosa, depois de impertinente, e eu não tornei a vê-lo mais.”

Nos últimos 8 meses antes do atentado, a ansiedade está crescendo. Ela sente então cada vez mais a necessidade de uma ação direta. Ela pede a seu senhorio que lhe empreste um revólver e, diante de sua recusa, pelo menos uma bengala <para amedrontar essas pessoas>, quer dizer, aos editores que zombaram dela.

Ela depositava suas últimas esperanças nos romances enviados à livraria G. Daí sua imensa decepção, sua reação violenta quando eles lhe são devolvidos com uma recusa. É lamentável que não a tenham internado então.

Ela se volta ainda para um derradeiro recurso, o príncipe de Gales. Somente nesses últimos meses é que ela lhe envia cartas assinadas. Ao mesmo tempo, envia-lhe seus 2 romances, estenografados, e cobertos com uma encadernação de couro de um luxo comovente. Eles lhe foram devolvidos, acompanhados da seguinte fórmula protocolar:

Buckingham Palace

The Private Secretary is returning the typed manuscripts which Madame A. has been good enough to send, as it is contrary to Their Majesties’ rule to accept presents from those with whom they are not personally acquainted.

April, 193…

Este documento data da véspera do atentado. A doente estava presa, quando ele chegou.”

Desde então, a doente está cada vez mais desvairada. Um mês antes do atentado, ela vai <à fábrica de armas de Saint-Étienne, praça Coquillère> e escolhe um <facão de caça que tinha visto na vitrina, com uma bainha>.”

Que pensará ela de mim se eu não me mostro para defender meu filho? que eu sou uma mãe covarde.”

Uma hora ainda antes deste infeliz acontecimento, eu não sabia ainda onde iria, e se não iria visitar, como de hábito, o meu garotinho.”

Nenhum alívio se segue ao ato. Ela fica agressiva, estênica, exprime seu ódio contra sua vítima. Sustenta integralmente suas asserções delirantes diante do delegado, do diretor da prisão, do médico-perito”

Sr. Doutor – escreve ela ainda num bilhete de tom extremamente correto, no 15º dia de sua reclusão –, gostaria de pedir-lhe para que fizesse retificar o juízo dos jornalistas a meu respeito: chamaram-me de neurastênica, o que pode vir a prejudicar minha futura carreira de mulher de letras e de ciências.”

Oito dias após meu ingresso – escreveu-nos em seguida, na prisão de Saint-Lazare –, escrevi ao gerente de meu hotel para comunicar-lhe que estava muito infeliz porque ninguém quis me escutar nem acreditar no que eu dizia. Escrevi também ao Príncipe de Gales para dizer-lhe que as atrizes e escritores me causavam graves danos.”

Vinte dias depois, escreve a doente, quando todos já estavam deitados, por volta das 7 da noite, comecei a soluçar e a dizer que esta atriz não tinha nada contra mim, que não deveria tê-la assustado; as que estavam ao meu lado ficaram de tal modo surpresas que não queriam acreditar no que eu dizia, e me fizeram repetir: mas ainda ontem você falava mal dela! – e elas ficaram estupefatas com isso. Foram contar à Madre Superiora que, a todo custo, queria me enviar à enfermaria.”

A estatura da doente está acima da média. Esqueleto amplo e bem-constituído. Ossatura torácica bem desenvolvida, acima da média observada nas mulheres de sua classe. Nem gorda nem magra. Crânio regular. As proporções crânio-faciais são harmoniosas e puras. Tipo étnico bastante bonito. Ligeira dissimetria facial, que fica dentro dos limites habitualmente observados. Nenhum sinal de degenerescência. Nem sinais somáticos de insuficiência endócrina.”

Durante vários meses conserva um estado subfebril leve, criptogenético, de 3 ou 4 décimos acima da média matinal e vespertina. Contraiu, pouco antes de seu casamento, uma congestão pulmonar (de origem gripal – 1917) e suspeitou-se de bacilose. Exames radioscópicos e bacteriológicos repetidos deram um resultado negativo. A radiografia nos mostrou uma opacidade hilar à esquerda. Outros exames negativos.”

Dois partos cujas datas anotamos. Uma criança natimorta asfixiada por circular do cordão. Não se constatou anomalia fetal nem placentária. Diversas cáries dentárias por ocasião dos estados de gravidez. A doente tem uma dentadura postiça no maxilar superior.”

Assinalemos, quanto aos antecedentes somáticos, que a vida levada pela doente desde a sua estada em Paris, trabalhando no escritório das 7 às 13h, depois preparando-se para o baccalauréat (vestibular e colação de grau do ensino médio), percorrendo bibliotecas e lendo desmedidamente, caracteriza-se por um surmenage intelectual e físico evidente. Ela se alimentava de maneira muito precária, escassa e insuficiente, para não perder tempo, e em horas irregulares. Durante anos, mas só depois de sua permanência em Paris, bebeu cotidianamente 5 ou 6 xícaras de café preparado por ela mesma e muito forte.”

A família insiste muito quanto à emoção violenta sofrida pela mãe [outra <perseguida> ou <querelante>] durante a gestação de nossa doente: a morte da filha mais velha se deveu, com efeito, a um acidente trágico: ela caiu, na frente de sua mãe, na boca de um forno aceso e rapidamente morreu em decorrência de queimaduras graves.” (Lembra o caso Suzanne Urban.)

Consideram-na em seu serviço como muito trabalhadora, <pau para toda obra>, e atribuem a isso seus distúrbios de humor e de caráter.¹ Dão-lhe uma ocupação que a isola em parte. Uma sondagem junto a seus chefes não revela nenhuma falha profissional até seus últimos dias em liberdade. Muito pelo contrário, na manhã seguinte ao atentado, chega ao escritório sua nomeação para um cargo acima do que ocupava.”

¹ O velho preconceito – se é assim, deviam nos aposentar ou reduzir nossa carga horária sem prejuízo!

o ritmo do relato, fato notável numa doente como esta, não é retardado por nenhuma circunlocução, parêntese, retomada, nem raciocínio formal.”

Diminui o tempo que poderia dedicar a seus trabalhos literários favoritos para executar inúmeros trabalhos de costura com que presenteia o pessoal do serviço. Estes trabalhos são de feitura delicada, de execução cuidadosa, porém de gosto pouco sensato.” HAHAHA!

As anomalias do comportamento são raras; risos solitários aparentemente imotivados, bruscas excursões pelos corredores: estes fenômenos não são freqüentes e só foram observados pelas enfermeiras. Nenhuma variação ciclotímica perceptível.

A doente mantém uma grande reserva habitual de atitude. Por trás desta, tem-se a impressão de que suas incertezas internas não foram de modo algum apaziguadas. Vagos retornos erotomaníacos podem ser pressentidos sob suas efusões literárias, embora se limitem a isso.”

uma vida de Joana d’Arc, as cartas de Ofélia a Hamlet; Quantas coisas eu não escreveria agora se estivesse livre e tivesse livros!”

Agora que os acontecimentos me devolveram à minha modéstia, meus planos mudaram e eles já não podem perturbar em nada a segurança pública. Não me atormentarei mais por causas fictícias, cultivarei não só a calma como a expansão da alma. Cuidarei para que meu filho e minha irmã não se queixem mais de mim por causa do meu excessivo desinteresse.”

Já evocamos ou citamos alguns escritos da doente. Vamos estudar agora as produções propriamente literárias que ela destinava à publicação. Seu interesse de singularidade já justificaria o lugar que lhes atribuímos, se além disso não tivessem um grande valor clínico, e isto sob um duplo ponto de vista. Estes escritos nos informam sobre o estado mental da doente na época de sua composição; mas, sobretudo, permitem que possamos apreender ao vivo certos traços de sua personalidade, de seu caráter, dos complexos afetivos e das imagens mentais que a habitam, e estas observações proporcionarão uma matéria preciosa ao nosso estudo das relações do delírio da doente com sua personalidade.”

De fato, tivemos a felicidade de poder dispor destes dois romances que a doente, após a recusa de vários editores, enviou como último recurso à Côrte Real da Inglaterra (cf. acima). Ambos foram escritos pela doente nos 8 meses que antecederam o atentado, e sabemos em qual relação com o sentimento de sua missão e com o da ameaça iminente contra seu filho.

O primeiro data de agosto-setembro de 193.. e foi escrito, segundo a doente, de um só fôlego. Todo o trabalho não teria ultrapassado mais de 8 dias, se não houvesse sofrido uma interrupção de 3 semanas, cuja causa examinaremos mais adiante; o segundo foi composto em dezembro do mesmo ano, em um mês aproximadamente, <numa atmosfera febril>.

Lembremos desde já que os dois romances nos chegaram em forma de exemplares estenografados,¹ onde não aparece nenhuma particularidade tipográfica. Este traço se confirma nos rascunhos e manuscritos que temos em nosso poder, e se opõe à apresentação habitual dos escritos dos paranóicos interpretantes: maiúsculas iniciais nos substantivos comuns [o alemão é um povo doido mesmo!], sub-linhas [= SUBTRAÇO], palavras destacadas, vários tipos de tinta, todos traços simbólicos das estereotipias mentais.”

¹ Estenografia ou taquigrafia: a técnica aprendida por David Copperfield em seu estágio entre os Commons, parte do ofício de um advogado e também de um escrivão que deve escrever rápido e com precisão os acontecimentos de uma reunião ou depoimentos, sem deixar de incluir todas as informações necessárias. “Os sistemas típicos da taquigrafia fornecem símbolos ou abreviaturas para as palavras e as frases comuns, o que permite que alguém, bem treinado no sistema, escreva tão rapidamente que possa acompanhar as falas de um discurso.” “Marco Túlio Tirão (? – c. 4 a.C.), escravo e secretário de Cícero, é considerado o inventor da taquigrafia que elaborou o sistema Notae tironianae (abreviaturas tironianas).” “[A] Inglaterra é considerada a pátria da taquigrafia moderna. O médico e sacerdote inglês Timothy Bright (cerca de 1551—1615) publicou em 1558 [aos 7 anos de idade? HAHAHA] (sic – 1588) o sistema de taquigrafia Characterie, propiciando o renascimento da taquigrafia.” Método absurdamente ininteligível! “No Brasil o método mais usado no Legislativo e Judiciário brasileiro é o sistema inventado pelo gravador e taquigráfico espanhol Francisco de Paula Martí Mora (1761–1827), porém o método de taquigrafia mais comum é o de Oscar Leite Alves (1902–1974).”

Solicitamos a ajuda de nosso amigo Guillaume de Tarde que, iniciado desde há muito tempo por seu pai, o eminente sociólogo, na anállse grafológica, se diverte com isso nas horas vagas.”

As duas obras têm valor desigual. A segunda traduz, sem dúvida, uma baixa de nível, tanto no encadeamento das imagens quanto na qualidade do pensamento. Entretanto, o traço comum é que ambas apresentam uma grande unidade de tom e que um ritmo interior constante lhes garante uma composição. Nada, com efeito, de preestabelecido em seu plano: a doente ignora aonde será levada quando começa a escrever. Nisto ela segue, sem o saber, o conselho dos mestres (<Nada de plano. Escrever antes de pôr a nu o modelo . . . A página em branco deve sempre ser misteriosa>, P. Louys).”

Consultar nosso artigo, escrito em colaboração com Lévy-Valensi e Migault, Écrits ‘inspirés’. Schizographie. A.M.P. (Annales Médico-Psychologiques), n. 5, 1931.” (breve no Seclusão)

Quanto às circunlocuções da frase: parênteses, incidentes, subordinações intricadas, quanto a essas retomadas, repetições, rodeios da forma sintática, que exprimem nos escritos da maior parte dos paranóicos as estereotipias mentais de ordem mais elevada, é bastante notável constatar sua ausência total não só no primeiro escrito, como também no segundo.” Irônicas observações, vindas logo do rocambolesco Lacan – ou será que não?!? Talvez não houvesse melhor emissor deste ‘elogio velado da loucura’!

Revela-se uma sensibilidade que qualificaremos de essencialmente <bovariana>, referindo-nos diretamente com esta palavra ao tipo da heroína de Flaubert.” “Mas esses desvarios da alma romântica, embora freqüentemente apenas verbais, não são estéreis”

Inúmeras vezes veremos surgir sob sua pena termos de agricultura, de caça e de falcoaria. Esses toques de <regionalismo> são aliás bastante inábeis, mas são o signo de sua ingenuidade; e esse traço pode tocar exatamente aqueles que têm pouquíssimo gosto pelos artifícios de tal literatura. De resto, sente-se nela a presença de uma real cultura telúrica. A doente conhece muito bem seu patoá,¹ a ponto de ler a língua de Mistral.² Se fosse menos autodidata, poderia tirar melhor partido disso.”

¹ Dialeto campesino.

² “Frederic Mistral, also Josèp Estève Frederic Mistral (1830–1914), was an Occitan writer and lexicographer of the Occitan language.a Mistral received the 1904 Nobel Prize in Literature <in recognition of the fresh originality and true inspiration of his poetic production, which faithfully reflects the natural scenery and native spirit of his people, and, in addition, his significant work as a Provençal philologist>.”

a Dialeto românico também chamado lenga d’òc ou langue d’oc (d’où região do Languedoc), falado, entre outras regiões, no sul da França, na Gasconha, em Mônaco, no Piemonte da Itália e em algumas partes da Espanha. Considerado irmão do catalão ou mesmo abrangendo-o de todo, pelo menos nas etiologias mais disseminadas até o final do século XIX. Antigamente já foi sinônimo do Provençal, mas hoje são entidades lingüísticas distintas. Quase uma língua morta, cujos esforços de gramaticalização e conversão para a modalidade escrita esbarram em intensas diferenças de sítio a sítio, tornando uma padronização virtualmente impossível.

Cosmopolitas não falam em patoá.

PREPAREM-SE PARA O SHOW DE HORRORES E CLICHESINSÍPIDOS VERDESCAMPOS! “O título do romance [n. 1] é O Detrator; está dedicado a Sua Alteza Imperial e Real, o Príncipe de Gales.”

Em abril, os animais têm seus segredos, entre os arbustos a erva se agita ao vento, ela é fina, focinhos leitosos a descobrem. Que sorte! O leite será bom esta noite, eu beberei um bocado, diz o cão com a língua de fora. O dia inteiro as crianças brincaram umas com as outras e com os fiçhotes dos aromais, eles se acariciam, eles se amam.”

Quantas fontes você conhece, fontes que você pode esvaziar de um gole, diz o menor ao mais velho que é profeta? Eu! Quantas você quiser! Mas eu não vou mostrá-las a você, você se descalçaria para se banhar. Ah! não profanar minhas fontes. Eu posso levar você à beira do riacho se você prometer sempre responder quando eu chamar. Sempre te responderei, diz o menor, não apenas uma vez, sempre. Seus olhos são fontes vivas; eles são maiores que as tulipas.”

É isto que a fez sorrir? Ela sorri. Ela senta atrás da janela sem lâmpada. Sonha com o noivo desconhecido. Ah! se houvesse um que a amasse, que a esperasse, que desse seus olhos e seus passos para ela!”

Pensamentos ferozes, pensamentos fortes, pensamentos ciumentos, pensamentos suaves, pensamentos alegres todos vão para ele ou vêm dele. Não são mais do que os dois no claro obscuro, seu coração queima como brasa, os planetas em fogo batem asas, a lua joga suas flores purpurinas no quarto. Ela pensa em tudo que a deslumbra, na rocha adamantina da gruta, na coroa imarcescível do pinheiro, ela escuta seu murmúrio, é o prelúdio.”

David descobre seu caminho. Ele veste seguro sua farda de soldado. Esse órfão que vive com os homens manteve toda a sua rudeza. Depois de se encher de água turva, sua mãe tombou no campo num verão quente quando os peixes morrem no leito estreito da torrente. Seus cabelos estão jogados para trás como a cabeleira de uma espiga de centeio, ele é como um magnífico vespão cor de aurora e de crepúsculo. Esse camponês sabe se virar. Ninguém o iguala em arrumar, num piscar de olhos, um campo de pernas para o ar, ele reconhece o foiceiro pela foiçada, poda as árvores, doma os touros, faz trelas finas, acha a toca da lebre, as picadas de javali, sacode as sacas de sementes, sabe a idade dos pastos, evita as farpas, o precipício, os atoleiros, e sempre protege as safenas de suas pernas nuas. Ele sabe também usar a pena, evitar as lesões gramaticais, ele manda seus pensamentos para Aimée.”

As lianas que a cobrem são furadas por lagartas aneladamente dispostas ou apinhadas em grupo, ladrilhos de mosaico. Sob este emaranhado há a nota viva do coral das lesmas e dos chapeuzinhos de musgo recobrindo as sarças, os sapinhos tropeçam nas folhas aos menores toques de gafanhotos ou caem na relva seca que grita como um gonzo.”

De manhã, ao alvorecer, abro os postigos, as árvores que vejo estão aureoladas de alabastro, a penumbra as envolve, estou emocionada, esta aurora é doce como um amor.”

Ela sonha. Um marido! Ele, um carvalho, e eu, um salgueiro furta-cor, que o entualasmo do vento une e faz murmurar. Na floresta, seus ramos se cruzam, entrelaçam-se, perseguem-se nos dias de vento, as folhas amam e vibram, a chuva lhe envia os mesmos beijos. Oh! Como sou ctumenta, meu marido é um carvalho e eu uma cerejeira branca! Eu sou multo ciumenta, ele é um carvalho e eu um salgueiro furta-cor! No bosque instável, a chuva lhes envia os mesmos beijos. Curvo-me para pegar um gládio, eu o encontrei em meu caminho; é prectso conquistar o direito de amar! No entanto a alegria está na casa, o pai, a mãe são fellzes. Estes dois adultos ágeis, cujos corpos foram maltratados pela terra tenaz, com muitos ‘Y’ nas faces e rugas na testa, amam seus filhos tanto quanto a terra e a terra tanto quanto seus fllhos.”

Calcula-se que será preciso perder quatro dias para se casar, o que é multo em plena estação! um para comprar os panos, outro para comprar ouro, outro na costureira e o quarto para passar o contrato.”

À beira da torrente, deixo a madeira morta seguir o seu curso e sou toda risos quando deslizam minhas canoazinhas onde está sentada toda uma comitiva de besouros ou de escaravelhos que vão estupidamente para a morte.”

Ah! não há nada melhor que tocar violino na neve durante o inverno.”

As meninas gulosas sempre às escondidas por gulodices, eu lhes ensino a guardar na boca uma maçã ou uma noz, mesmo se a glote se levanta, em seguida eu descasco uma coxa de noz bem branca, elas a comem sem nunca pensar em minhas astúcias inocentes.”

eu como leão tenho um apetite imenso

descasco o rizoma do feto”

Eu os preveni quando o incêndio estourou no bosque. Era preciso ouvir o crepitar! As bagas de genebra estalavam seco e as fagulhas me seguiam, o assombro me havia dado asas e o pilriteiro esporões, eu parecia o pássaro aviador, em volta de minhas hélices o ar ressonava, mais rápido que as nuvens eu vencia o vento”

Na passagem, podemos notar claramente uma alusão ao príncipe de Gales, identificado com o rouxinol (Nightingale).”

A corcarne da concupiscência.

Querem diamantes para suas coroas? Estão no alto dos ramos, a seu alcance, sob seus passos. Atenção quando caminham! Se os encontrarem, não digam nada. As puritanas os quereriam para seus rosários, a cortesã em seu quarto cheio de espelhos até o teto se cobria com eles, a milionária em seu camarote no espetáculo o faria seu único enfeite, pois ela não está em absoluto vestida, seu vestido colante é da cor de sua carne, não vemos onde ele começa”

O colírio de pele de serpente tinge seus olhos viciosos. Os seus sapatos não são para andar, os chapéus de bambu, de crina, de seda, de tule, ela os veste de maneira espalhafatosa. Seus vestidos são bordados com canutilhos [fios de ouro ou prata]: é todo um museu, uma coleção de modelos inéditos ou excêntricos, neles o grotesco domina, mas há de se cobrir esse corpo sem encanto, há que se fazer olhado. Todo este aspecto artificial surpreende, ela expulsou o natural, os aldeões não olham mais as outras mulheres. Ela sabe como manejar os homens! Passa os dias na sua banheira, depois a cobrir-se de enfeites; mostra-se, intriga, maquina.”

Desde então, <cochichos, risadinhas, apartes, complôs> compõem a pintura expressiva da arnbiência do delírio de interpretação.”

No caminho, um casal vai com um grande ruído de sapatos ferrados, tão grandes quanto os seus vazios ressoam. O marido é orgulhoso e forte, ele tem um filho, ele o olha, a mulher leva a criança que se agarra a seu pescoço e a suas tetas caídas, a criança sorri, a mãe tem um semblante de animal feliz, eles se amam. Aimée inveja o par.”

Oh criança, oh meninas que morrem, flores brancas que uma surda foice abate, fonte vicejante exaurida, apartada pelo negro e sublime mistério do globo, paloma caída do ninho e que faz seu sudário no chão assassino, frágil peito de pássaro que expira no bico ensangüentado do gavião, negra visão, que

amem vocês!

Abracem este corpo de criança!

Antes que o coloquem no ataúde,

Chorem, chamem mais e mais

Terão para se consolar,

Um metro cúbico no cemitério

Onde seu corpo virá rezar

Descobrirão então

Que a terra pode ser muito querida

Quando ela os liga à criança.

Ajoelhem-se abençoando-a

Com seus olhos abrindo-a logo

Para encontrar um camafeu branco!

O autodidatismo transparece a cada momento: truísmos, declamações banais, leituras mal-compreendidas, confusão nas idéias e nos termos, erros históricos.”

O estilo permite notar traços de <automatismo>, no sentido muito amplo de um eretismo intelectual sobre um fundo deficitário.”

Encontramos a mesma busca preciosa na escolha das palavras, mas desta vez com um resultado bem menos feliz. Palavras extraídas de um dicionário explorado ao acaso seduziram a doente, verdadeira <namorada das palavras>, segundo seus próprios termos, por seu valor sonoro e sugestivo, sem que nem sempre acrescentasse a isto discernimento e atenção ao seu valor lingüístico adequado ou a seu alcance significativo.”

Em toda a parte onde vou me observam, olham-me com um ar de suspeita de modo que à minha porta a multidão não tarda em me apedrejar. O flibusteiro a incita. Quero sair, fazem uma investida que me obriga a recuar, e eu pago um direito de ancoragem. Suporto algumas avanias. É pau para toda obra, diz uma mulher. Olham-na, ela fala de Jaime I, diz uma outra. Durmo muito mal, eu caço as feras no matagal com sua Alteza. Lêem isso nos meus olhos.”

Surrealismo involuntário.

O coração me leva, o sangue me chama

Eu beijo o solo, todo banhado de seu sangue

A multidão impedida, conferencia e fugindo

Me lança uma espada de brilho rebelde

Partimos sozinhos, e a multidão suspeita

Do escaninho das janelas nos espreita ao passar.”

É um incorruptível, diz o historiador; não bebe, não tem mulheres, matou milhares como um covarde, o sangue corre da praça do Trono até a Bastilha. Foi preciso Bonaparte apontando seus canhões sobre Paris para deter a carnificina.”

Os poetas são o inverso dos Reis, estes amam o povo, os outros amam a glória e são inimigos da felicidade do gênero humano.”

A retórica de Aristóteles não repousa em base alguma, é sempre o tema da licença, dos subterfúgios com a virtude por fachada, é uma traição contra seu rei. Eis ainda Cícero, cúmplice do assassinato de César, e Shakespeare colocando o assassino na altura de grande homem. No século XVIII, os filósofos pérfidos atacam os soberanos e os nobres que os protegem e os hospedam. Outras vezes, tiram dos grandes os sentimentos que eles não têm e com os quais se enfeitam. E o povo não reage. É por isso mesmo que as nações se deixam riscar da história do mundo, e se houvesse apenas Paris na França, logo o seríamos. Se há uma ilha que esteja habitada só por animais monstruosos e horríveis, é ela, é a própria cidade com suas prostitutas às centenas de milhares, seus rufiões, suas pocilgas, auas casas de prazeres a cada cinqüenta metros enquanto que a miséria se acumula no único cômodo do pardieiro.”

Eles me matam em efígie e os bandidos matam; cortam em pedaços e os bandidos cortam em pedaços, fazem segredos e os povos fazem segredos, preparam sedições, excitam em vez de apaziguar, pilham, destroem e vocês destroem: vocês são vândalos. (…) Não há escândalo que não tenha sido sugestionado pela conduta ou manobras desenvoltas de alguns amantes das letras ou de Jornalismo.”

Os que lêem livros não são tão bestas quanto os que os fazem, eles lhes acrescentam.”

Cem vezes no ofício

Retomem seu trabalho

Pulam-no sem parar e tornem a poli-lo

Acrescentem algumas vezes e com freqüência suprimam.”

Quem vende estes sapatos, estas novidades! Tusso, espirro! Os americanos? Eu não confio em meus sapatos amarelos; eu faço a queixa, examino meu sapato. Qual o seu número?, pergunta-me um estrangeiro, e o seu?, digo-lhe. Fazemo-nos compreender a custo de mímicas.”

Embora haja matizes, as mulheres de província são mais potáveis que as das cidades”

Sem dúvida alguma lhe aconteceu ficar boa de uma enxaqueca porque uma amiga lhe conta uma história engraçada, e se você medir a extensão das emoções à grandeza do sentimento, você está em presença do milagre, é a relatividade das influências”

vou pra ilha, minha filha

uma ilhota, filhota

bem longe, um lounge

dessa bolota!

uma cabra que sai do teatro francês com uma rosa úmida e viscosa completamente desabrochada para fora e um topete louro entre os chifres, os jornalistas lhe fizeram pastar as mais belas flores do jardim de Paris, ela espalhou suas virtudes por toda parte. É preciso fugir!”

Eu não posso mais avançar, o cortejo me impede a marcha, pergunto o que isto significa, calam-se, é um segredo de comédia, está rotulado: <Honra e Pátria>.”

as crianças soletram o silabário enquanto se aromatiza a refeição. A família está em pé à minha volta, consternada, ansiosa, todos se abraçam ao mesmo tempo cheios de terror ante o Reino da Vergonha. FINIS

Este delírio merece o nome de sistematizado em toda a acepção que os antigos autores davam a este termo. Por mais importante que seja considerar a inquietação difusa que está em sua base, o delírio impressiona pela organização que liga seus diversos temas. A estranheza de sua gênese, a ausência aparente de qualquer fundamento na escolha da vítima, não lhe conferem traços particulares.”

Devem-se deixar de lado igualmente as diversas variedades de parafrenias kraepelinianas. A parafrenia expansiva apresenta alucinações, um estado de hipertonia afetiva, essencialmente eufórica, uma luxúria do delírio, que são estranhos ao nosso caso.”

A psicose paranóide esquizofrênica, de Claude [o orientador], deve ser deixada de lado pelas mesmas razões. (…) a atividade profissional de nossa paciente prosseguiu até a véspera do atentado. Estes sinais eliminam tal diagnóstico.”

Paranóia (Verrücktheit), este é o diagnóstico ao qual nos prenderíamos a partir de agora, se uma objeção não nos parecesse poder ser levantada em virtude da evolução curável do delírio em nosso caso.”

o próprio Kraepelin abandonou o dogma da cronicidade da psicose paranóica. (…) Seja o que for, a descrição magistral de Kretschmer mostrou um tipo de delírio paranóico em que se observa a cura

A evolução curável de nosso caso pode nos permitir incluí-lo entre as esquizofrenias de evolução remitente e curável a que se refere Bleuler? Certamente (…) A esquizofrenia, como se sabe, é caracterizada pelo <afrouxamento dos elos associativos> (Abspannung der Assoziationsbindungen). O sistema associativo dos conhecimentos adquiridos é sem dúvida o elemento de redução maior destas convicções errôneas, que o homem normal elabora sem cessar e conserva de maneira mais ou menos duradoura. A ineficácia desta instância pode ser considerada como um mecanismo essencial de um delírio como o de nosso sujeito.” No entanto, cf. Lacan, é um delírio sistematizado demais para um caso de esquizofrenia.

Quanto aos distúrbios esporádicos que nossa doente apresentou, tais como sentimentos de estranheza, de déjà vu, talvez de adivinhação do pensamento, e mesmo as raríssimas alucinações, eles podem se manifestar entre os sintomas acessórios da esquizofrenia, mas de modo algum lhe pertencem especificamente. Os distúrbios mentais da primeira internação puderam nos fazer pensar por um momento num estado de discordância. Porém, nenhum documento que possuímos nos permite afirmá-lo. § Resta a hipótese de uma forma da psicose maníaco-depressiva. (…) nenhuma destas características aparece com suficiente nitidez em nosso caso”

No interior do quadro existente da paranóia, nosso diagnóstico ficará, sem dúvida alguma, com o de delírio de interpretação.”

Sérieux & Capgras: de interpretação X de reivindicação. O problema: em S. et C., o delírio é incurável.

Séglas: delírio melancólico.

II.2 A PSICOSE DE NOSSO CASO REPRESENTA UM “PROCESSO” ORGANO-PSÍQUICO?

O que importa é fazer precisar ao doente, sempre evitando sugerir-lhe algo, não seu sistema delirante, mas sim seu estado psíquico no período que precedeu a elaboração do sistema”

É antes de mais nada um sentimento de transformação da ambiência moral: <Durante minha amamentação, todo o mundo havia mudado ao meu redor … Meu marido e eu, parecia-me que nos tornáramos estranhos um ao outro.>

Um estranho no ninho: sou eu mesmo, que nem pássaro sou.

Meu bastardo diário,

Aqui no inferno dizem (Lá no inferno diziam, muitos anos atrás)…

Ele é muito inteligente mas (Síndrome de Helenojuçara)

O imbecil de hoje é o manipulador de amanhã (num jogo sem freio e sem exceções – quem tenta descer da roda, se espatifa no concreto do chão – único lugar para onde se cai)

Um certo aroma de golpe no ar

Encadeamento lógico de um tolo oportunista no poder e seus avatares espelhados

#DRINÃO

evolução em 3 fases, que designaremos:

(I) fase aguda,

(II) fase de meditação afetiva e

(III) fase de organização do delírio.”

ESTADO ONIRÓIDE: “No sonho, como se sabe, o jogo das imagens parece, ao menos em parte, desencadeado por um contato com a ambiência reduzido a um mínimo de sensação pura. Aqui, ao contrário, há percepção do mundo exterior, mas ela apresenta uma dupla alteração que a aproxima da estrutura do sonho: ela nos parece refratada num estado psíquico intermediário ao sonho e ao estado de vigília; além disso, o limiar da crença, cujo papel é essencial na percepção, está aqui diminuído.”

a doente, em sonho, caça na selva com a Alteza por quem está apaixonada”

O PERSEGUIDO PROCURA SEUS CARRASCOS (O REINO DAS SUPERINDIRETAS): “Não é, como pode parecer à primeira vista, de maneira puramente fortuita que uma significação pessoal vem transformar o alcance de certa frase escutada, de uma imagem entrevista, do gesto de um transeunte, do <fio> a que o olhar se engancha na leitura de um jornal.”

Todo hiper-interpretativo tem um quê de Fox Mulder: onde morrem a família, os amigos e as relações interpessoais no trabalho, morre também a teoria da conspiração. Ela precisa ser de amplo alcance para sua chama continuar a arder. O maior alcance possível: de preferência, a política. Prato cheio para servidores públicos.Kafka e seus processos…

Essas características nos levam a admitir que estes fenômenos dependem desses estados de insuficiências funcionais do psiquismo, que atingem eletivamente as atividades complexas e as atividades sociais, e cuja descrição e teoria foram fornecidas por Janet em sua doutrina da psicastenia. A referência a esta síndrome explica a presença, manifesta em nosso caso, de perturbações dos sentimentos intelectuais. A teoria permite, além disso, compreender que papel desempenham nas perturbações as relações sociais no sentido mais amplo, como a estrutura destes sintomas, bem-integrados à personalidade, reflete sua gênese social, e, enfim, como os estados orgânicos de fadiga, de intoxicação, podem desencadear seu aparecimento.” Um filho natimorto ou a constatação de que minha carreira é uma bosta, etc.

Sim, é como no tempo em que eu ia ao jornal comprar os números atrasados de um ou dois meses antes. Eu queria reencontrar neles o que havia lido, por exemplo, que iriam matar meu filho e a foto na qual eu o havia reconhecido. Porém, jamais reencontrei o artigo nem a foto, dos quais, no entanto, eu me recordava. No final, o quarto estava entulhado desses jornais.”

ilusão da memória: (…) [e]sses distúrbios mnêmicos são, com efeito, bem frustros: nunca constatamos, num exame clínico sistemático e minucioso, distúrbios amnésicos de evocação, a não ser os que assinalamos em nossa observação e que incidem eletivamente no momento de introdução no delírio dos principais perseguidores.”

imagem-fantasia imagem-recordação

(transformação oniróide-delirante; “crises de psicolepsia” em Janet)

Janet ressaltou admiravelmente o papel desses distúrbios da memória nos sentimentos ditos sutis, experimentados pelos perseguidos alucinados (Les sentiments dans le délire de persécution, artigo).”

o indivíduo que dorme e desperta bruscamente por um ruído provocado recorda-se de ter formado em sonho um encadeamento de imagens, que lhe parece ter tido uma duração importante e do qual, no entanto, toda ordem está manifestamente destinada a ocasionar o ruído que provocou o despertar, e do qual, aliás, o sujeito não podia prever nem a vinda inesperada nem a qualidade. Este fato, como todos aqueles que deixam tão enigmática a questão da duração dos sonhos, faz com que se perceba bem a dificuldade que apresenta uma orientação temporal objetiva no desenvolvimento representativo das imagens.”

nossa doente, como tantos outros psicopatas no período de incubação ou de eflorescência de sua doença, consultava abundantemente um destes videntes cuja propaganda se espalha livremente nos classificados dos jornais. (…) Que numa das consultas pagas de horóscopo lhe tenha sido anunciado que uma mulher loura desempenharia um importante papel em sua vida, o de uma fonte de infortúnios, esta foi a crença na qual a doente, durante sua psicose, apoiou em parte sua convicção delirante, no que concerne [a] sua principal perseguidora. Ora, hoje ela sabe, tendo sido feita a averiguação, que jamais lhe foi escrito nada semelhante.” “numerosas interpretações são ilusões da memória

Essa concepção é diferente da doutrina clássica, que vê na interpretação uma alteração do raciocínio, fundada sobre elementos constitucionais do espírito. Acreditamos que nossa análise constitui, em relação à clássica, um progresso real, ainda que seja apenas para compreender os freqüentes casos em que este suposto fator constitucional falta de maneira manifesta e onde é impossível discernir, na origem do delírio, o menor fato de raciocínio ou de indução delirante.”

II.3 A PSICOSE DE NOSSO CASO REPRESENTA UMA REAÇÃO A UM CONFLITO VITAL E A TRAUMAS AFETIVOS DETERMINADOS?

sobre a infância de um sujeito, os registros familiares parecem sofrer os mesmos mecanismos de censura e de substituição que a análise freudiana nos ensinou a conhecer no psiquismo do próprio sujeito. A razão é que neles a pura observação dos fatos é perturbada pela estreita participação afetiva que os misturou a sua própria gênese. Quanto aos parentes colaterais, entra em jogo, além disso, a defasagem vital que alguns anos bastam para produzir na época da infância. Aqueles que pudemos ver, a irmã mais velha e um dos irmãos, têm, respectivamente, 5 anos a mais que a doente e 10 anos a menos. Necessidades econômicas, por outro lado, acrescentaram seu efeito aos fatores psíquicos: a irmã que criou a doente durante seus primeiros anos teve que deixar o teto paterno aos 14 anos, a própria doente aos 18, o que nos dá os limites de observação tanto da irmã quanto do irmão.”

As esperanças que a inteligência reconhecida de nossa doente dava a seus parentes, valiam-lhe, nestes pontos, concessões, e até certos privilégios mais positivos. Alguns destes privilégios, tais como uma roupa branca mais fina que a de suas irmãs, parecem ainda provocar nelas uma amargura que não arrefeceu. O autor responsável por esta diferença de tratamento parece ter sido sua mãe. O intensíssimo vínculo afetivo que uniu Aimée de modo muito particular a sua mãe parece-nos que deve ser salientado.”

Nenhuma reação nela é comparável à que desencadeia a evocação do pesar atual de sua mãe: <Eu deveria ter ficado junto dela>, este é o tema constante das lamentações da doente.” “após os recentes acontecimentos ocorridos com sua filha, ela se fechou num isolamento feroz, imputando formalmente à ação hostil de seus vizinhos mais próximos toda a responsabilidade do drama.”

JÁ QUE VOCÊ GOSTA DE ESTUDAR… “O cultivo do devaneio é confessadamente precoce. É possível que uma parte das promessas intelectuais que a doente produziu tenha derivado disto, e que seja por conta desta particularidade que ela deva ter parecido aos seus como designada entre todas para aceder à situação superior de professora.”

esta abulia profissional e esta ambição inadaptada, que Janet também descreveu entre os sintomas psicastênicos.”

Esse tema do touro perseguindo volta com freqüência nos sonhos de Aimée (ao lado de um sonho de víbora, animal que pulula em sua terra), e é sempre de mau agouro.”

Dom-juan de cidade pequena e poetastro da igrejinha <regionalista>, essa personagem seduz Aimée pelos charmes malditos de um ar romântico e de uma reputação bastante escandalosa.” “A desproporção com o alcance real da aventura é manifesta: os encontros, bastante raros a ponto de terem escapado à espionagem de uma cidade pequena, de início desagradaram a doente; ela cede enfim, mas para ouvir logo de seu sedutor, decididamente apaixonado por seu papel, que ela não foi para ele senão o lance de uma aposta. Tudo se limita ao último mês de sua estadia na cidade pequena. Entretanto, esta aventura que leva consigo os traços clássicos do entusiasmo e da cegueira próprios à inocência, vai reter o apego de Aimée por 3 anos. Durante 3 anos, na cidade afastada em que seu trabalho a confinará, manterá seu sonho por uma correspondência trocada com o sedutor que ela não deve rever. Ele é o único objeto de seus pensamentos, e entretanto ela nada sabe nos contar sobre ele, mesmo à colega, de algum modo sua conterrânea, que é então a segunda grande ligação de amizade de sua vida.”

Seu desinteresse é então completo e se expressa de maneira comovente num pequeno traço: declina as satisfações de vaidade que lhe oferece a colaboração literária nas folhas da paróquia sob o cuidado de seu amante.”

Interiorização exclusiva, gosto pelo tormento sentimental, valor moral, todos os traços de um apego como este concordam com as reações que Kretschmer relaciona ao caráter sensitivo.”

As razões de fracasso de uma ligação como esta parecem só se dever à escolha infeliz do objeto. Esta escolha traduz, ao lado de arrebatamentos morais elevados, uma falta de instinto vital de que dá testemunho, aliás, em Aimée, a impotência sexual que o transcorrer de sua vida permite corroborar”

cansada de suas complacências tão vãs quanto dolorosas (…): <Passo bruscamente do amor ao ódio>”

Estes sentimentos hostis ainda não estão mitigados. Eles são marcados pela violência do tom das réplicas que Aimée opõe às questões com que a pusemos à prova: <Triste indivíduo>, assim o designa, empalidecendo ainda. <Ele pode morrer. Não me fale mais deste cáften … e deste grosseiro>. Tornamos a encontrar aí esta duração indefinida, na consciência, do complexo passional que Kretschmer descreve como mecanismo de repressão.”

Ela [sua melhor amiga, do escritório,] considera o trabalho a que foi compelida como muito inferior à sua condição moral, o que faz com que não se preocupe muito com ele. Toda sua atividade é empregada em manter sob seu prestígio intelectual e moral o pequeno mundo de seus colegas: ela rege suas opiniões, governa seus lazeres, assim como em nada negligencia para aumentar sua autoridade pelo rigor de suas atitudes. Grande organizadora de noitadas em que a conversa e o bridge são levados até bem tarde, ela conta ostensivamente numerosas histórias sobre as relações passadas de sua família, não desdenha em absoluto de fazer alusão às que lhe restaram. Ela representa junto a estas simplórias meninas o atrativo dos costumes nos quais ela as inicia. Por outro lado, ela sabe impor o respeito por meio de um recato e de hábitos religiosos não-desprovidos de afetação.” “através desta amiga é que pela primeira vez chegam aos ouvidos de Aimée o nome, os hábitos e os sucessos de Sra. Z., que era então vizinha de uma tia da narradora, e também o nome de Sarah Bernhardt que sua mãe teria conhecido no convento, ou seja, as duas mulheres que a doente designará mais tarde como suas maiores perseguidoras. Tudo levava Aimée a sofrer as seduções dessa pessoa, a começar pelas diferenças com que ela mesma se sente marcada em relação a seu meio: <Era a única que saía um pouco do comum, no meio de todas essas meninas feitas em série.>

<Com esta amizade, nos diz, opondo-a a suas duas primeiras amizades, eu guardava sempre um jardim secreto>: é o reduto onde a personalidade sensitiva se defende contra as investidas de seu contrário.” https://www.gutenberg.org/files/113/113-h/113-h.htm

<Eu me sinto masculina.> Ela deixou escapar a palavra-chave.”

Esse caráter de jogo na atitude sexual parece se confirmar, na época a que nos referimos, numa série de aventuras que ela dissimula muito bem dos que a cercam. Nesta menina desejável, o gosto da experiência se acomoda a uma frieza sexual real. Sua virtude, pelo menos no sentido farisaico, se acha também freqüentemente a salvo.” “Pudemos fazer uma idéia da personalidade do marido; não tivemos necessidade de solicitá-lo para que ele nos trouxesse informações tão prolixas quanto benévolas sobre sua mulher. Trata-se de um homem muito ponderado em seus julgamentos e, é bem provável, em sua conduta também, mas em quem nada dissimula a orientação muito estreitamente positiva dos pensamentos e dos desejos, e a repugnância a qualquer atitude inutilmente especulativa” “Desde esta época, imputa-se a Aimée ter se queixado de ciúme; mas seu marido também faz a mesma coisa. Os dois esposos tiram a matéria desses reproches das confissões recíprocas que eles fizeram sobre o passado deles. Parece que então, para Aimée, estes reproches nada mais são do que o que ficaram sendo para seu marido, armas com que se exprime o desentendimento que se comprova. Trata-se apenas ainda deste tipo de ciúme, qualificado por Freud, de ciúme de projeção.

Em breve Aimée retorna a este vício, a leitura, nem sempre tão <impune> quanto os poetas o crêem. Ela se isola, diz seu marido, em mutismos que duram semanas.” “ela se servirá do mais fútil pretexto para ficar em casa se, por exemplo, lhe chamam para um passeio, mas, uma vez que saiu, na hora de voltar só criará empecilhos.” A má-consciência sartriana

MULHER OMO: “Impulsões bruscas no andar, na caminhada, risos intempestivos e imotivados, acessos paroxísticos de fobia da mácula, lavagens intermináveis e repetidas das mãos; todos fenômenos típicos das agitações forçadas de Janet.”

Viúva de um tio que foi em primeiro lugar seu empregador [sua irmã mais velha], que depois fez dela sua mulher com a idade de 15 anos, esta Ruth de um Boaz merceeiro¹ não realizou uma necessidade de maternidade, profundamente sentida por sua natureza. A partir de uma histerectomia total sofrida aos 27 anos por razões que desconhecemos, esta insatisfação, exaltada pela idéia de que não há esperança para ela e sustentada pelo desequilíbrio emotivo da castração precoce, torna-se a instância dominante de seu psiquismo. Pelo menos ela nos confessou isso sem disfarce, quando nos disse com toda a candura ter encontrado seu consolo no papel de mãe que conquistou junto ao filho de sua irmã a partir do fim do primeiro ano, ou seja, desde alguns meses que antecederam a primeira internação de Aimée.”

¹ Personagens bíblicas.

ela acabou por fazer súplicas que eram, aliás, desnecesárias, para remediar tão grandes infortúnios. Acabou suas declarações com um quadro apologético de sua dedicação para com a doente, da atenção sem trégua de que dera provas ao seu lado, enfim, das angústias que tivera.”

Eu me dava conta de que não significava mais nada para ele. Pensava freqüentemente que ele seria mais feliz se eu lhe devolvesse a liberdade, e que pudesse construir sua vida com outra.

Entretanto, tendo caráter sensitivo e psicastênico, Aimée não poderia apaziguar simplesmente com tal abandono, nem mesmo se contentar com o refúgio do devaneio. Ela sente a situação como uma humilhação moral e o exprime nos reproches permanentes que lhe formulam sua consciência. Não se trata aí, porém, de uma pura reação do seu foro íntimo; esta humilhação se objetiva na reprovação, bem real, que sua irmã lhe impõe incessantemente por seus atos, por suas palavras e até em suas atitudes.

Mas a personalidade de Aimée não lhe permite reagir diretamente por uma atitude de combate, que seria a verdadeira reação paranóica, entendida no sentido que esse termo assumiu desde a descrição de uma constituição que levou esse nome. Não é, com efeito, dos elogios e da autoridade que lhe são conferidos pelos que a cercam que sua irmã vai tirar sua principal força contra Aimée, é da própria consciência de Aimée. Aimée reconhecia, por seu valor, as qualidades, as virtudes, os esforços de sua irmã. Ela é dominada por ela, que representa sob um certo ângulo a imagem mesma do ser que ela é impotente para realizar. Como ela o foi, num grau menor, diante da amiga com qualidades de líder. Sua luta surda com aquela que a humilha e lhe toma o lugar só se exprime na ambivalência singular das opiniões que ela tem a seu respeito. Com efeito, é surpreendente o contraste entre as fórmulas hiperbólicas por meio das quais presta homenagem às generosidades de sua irmã e o tom frio com que as expressa. Às vezes sem querer explode a confissão: <Minha irmã era por demais autoritária. Ela não estava comigo. Estava sempre do lado do meu marido. Sempre contra mim.>” “<jamais pôde suportar> os direitos assumidos por sua irmã na educação da criança.”

Devemos reconhecer aí a confissão do que é tão rigorosamente negado, a saber, no caso presente, da queixa que Aimée imputa à sua irmã por ter raptado seu filho, queixa em que é surpreendente reconhecer o tema que sistematizou o delírio.” “Ora, esta queixa no delírio foi afastada da irmã com uma constância cujo verdadeiro alcance a análise vai nos mostrar.”

com o trauma moral da criança natimorta aparece em Aimée a primeira sistematização do delírio em torno de uma pessoa, a quem são imputadas todas as perseguições que ela sofreu. Esta espécie de cristalização do delírio se produziu de uma forma tão súbita que o testemunho espontâneo da doente não deixa dúvida; e ela se produziu com a amiga de outrora, Senhorita C. de la N. [, avatar da irmã mais velha]” “Quando, pela primeira vez, Aimée passa a uma reação de combate (a uma reação conforme com a descrição aceita da constituição paranóica), ela só o alcança por um viés; substitui o objeto que se oferece diretamente a seu ódio por um outro objeto, que provocou nela reações análogas pela humilhação sofrida e pelo caráter secreto do conflito, mas que tem a vantagem de escapar ao alcance de seus golpes. A partir daí, Aimée não deixará de derivar seu ódio para objetos cada vez mais distanciados de seu objeto real, como também cada vez mais difíceis de atingir.” CURA: Dê um chute no patrão e um tiro no seu pai!

E os próprios temores que sua irmã manifesta atualmente quanto à própria vida, ainda que a própria doente nunca a tenha ameaçado, têm todas as características de uma advertência do seu instinto. Sem dúvida, por ocasião das últimas cenas em que Aimée queria forçar seu testemunho e falava em matar seu marido se não obtivesse o divórcio, ela pôde sentir, na violência do tom da doente, até onde iam realmente suas ameaças assassinas.”

O surto delirante difuso que desabrocha com a segunda gravidez permanece compatível com uma vida profissional e familiar sensivelmente normal até nos primeiros meses de amamentação. Observemos de passagem que a menor amplitude das desordens, a intensidade diminuída da inquietude, que distinguem este surto do primeiro, parecem ligadas ao primeiro esboço de sistematização, cujo mecanismo acabamos de descrever. Até o quinto mês de amamentação, por outro lado, Aimée é quem cuida exclusivamente de seu filho (testemunho do marido).”

Mas logo, apoiando-se em certas inexperiências de Aimée, a irmã impõe sua direção na educação da criança. As grandes reações interpretativas (querelas, escândalos, idéias delirantes) se multiplicam então, até o intento de fuga, na base de devaneios ambiciosos. Esta reação, que parece de natureza essencialmente psicastênica, leva o conflito a seu auge (<Arrancaram-me o meu filho>) e justifica a internação.”

Deixam-na, então, viver só de seu salário, em Paris. Este isolamento pode ter sido favorável como garantia imediata contra um perigo de fato; no entanto, permanece muito mais discutível como medicação psicológica.” “Suas intervenções e sua própria presença serão cada vez mais mal-recebidas em casa. Ela fingirá ignorar seu marido quando de suas visitas, depois quase não as fará, e cada vez mais se enclausurará nas atividades compensatórias e quiméricas que ela criou para si em seu isolamento parisiense.”

Enfim, suas tentativas, condenadas, para resolver o conflito por um divórcio que lhe devolvesse o filho, parecem corresponder a um sobressalto supremo da doente diante da expiração do prazo impulsivo do delírio, diante do batente inelutável que a espera na via de derivação afetiva em que seu psiquismo se comprometeu. Estes esforços últimos, que racionalmente parecem provenientes de fantasias do delírio, correspondem, não obstante, a um esforço obscuro e desesperado das forças afetivas em direção à saúde.

Ninguém no meio ambiente de Aimée estava em condições de reparar na urgência da situação. Com o mesmo desconhecimento bastante desculpável com que repetidas vezes acolheram suas tentativas de confidência delirante, os seus repeliram rudemente investidas das quais só podiam perceber o caráter inoportuno.

Por isso, com a firmeza quase consciente de uma necessidade longamente alimentada, numa última hesitação crepuscular, na hora mesmo em que pouco antes a doente pensava ainda que ia ficar junto de seu filho, ela efetivou a violência fatal contra uma pessoa irresponsável

Chegaram, entretanto, por fim, a confinar a doente numa atividade em que ela trabalha[va] sozinha, e onde eventualmente seus erros teriam o mínimo de conseqüências. Notemos, no entanto, o balanço favorável de seus esforços, que se traduz pela sanção de uma promoção”

tormentos éticos objetivados, próximos dos escrúpulos psicastênicos.”

Ao lado desta vida profissional em que a adaptação é relativamente conservada, a doente leva uma outra vida <irreal>, ela nos diz, ou <inteiramente imaginária>. <A doente, conta uma de suas colegas, vivia uma vida absurda>; mais ainda: <Ela estava fechada em seu sonho.>”

Após 3 anos, ela se recusará a fazer uso de suas férias de outra forma que não seja se dedicando inteiramente a estas atividades: <Eu passei os 20 dias de uma de minhas licenças sem sair da Biblioteca Nacional>. Reconhecemos aí o caráter forçado das perseverações psicastênicas: acontece que, conta seu marido, ela rejeita, numa ocasião particularmente favorável, rever seus parentes após uma longa separação, alegando que prepara o exame de baccalauréat. Essas atividades se mostram ineficazes: fracassa 3 vezes no baccalauréat.”

ela negligencia então seu próprio filho, parece pouco atenta por ocasião de 2 crises de apendicite que a criança apresenta. Depreendemos aí o próprio mecanismo dessas discordâncias da conduta sobre as quais insiste Blondel: a saúde da criança, que forma o tema ansioso central de seu delírio, deixa-a indiferente

Nesta vida psíquica dominada em sua maior parte pelo irreal, pelo sonho e pelo delírio, a dissimulação era de se esperar. Em tais doentes, dissimulação e reticência são apenas o avesso de uma crença delirante, cujo caráter incompleto eles indicam.” “Várias vezes ela se entrega na casa dela [?] a pequenos furtos destinados a cobrir seus déficits orçamentârios: jóias [?] e livros, que pertencem ao patrimônio, são roubados por ela sem que ninguém saiba.”

Esses temas de revolta e de ódio aparecem como secundários ao próprio delírio. Ressaltemos que na mesma época a doente chega a dar uma forma literária não-desprovida de valor, não só aos melhores élans de sua juventude, como também às experiências mais valiosas que pôde viver, as de sua infância.”

À antiga amiga, ela pedirá perdão por todo o mal que injustamente lhe desejou, do qua1 certamente nada lhe disse, senão ao romper com a correspondência, mas que poderia ter tido enormes conseqüências. Vários outros encontros, como no fim de um romance sentimental, terão por objetivo encerrar [com] o [seu] passado. Irá ter com a criada de seu hotel, etc.”

A irmã mais velha se opõe formalmente à simples idéia de ter que se encontrar com nossa doente, mesmo em nossa presença. Diante de um apelo por carta feito por esta, ela respondeu em termos tais que acreditamos ser conveniente poupar nossa doente de ouvi-los e participar-lhe somente o essencial. A própria doente, após breves conversas com seu marido, se opõe, a partir de então, a qualquer novo encontro. <Seria preciso, ela afirma, que me colocassem numa camisa-de-força para me arrastar até ele.> Ela mantém contato apenas com um irmão que a visita regularmente; e vive na esperança de encontrar seu filho.”

O balanço desta atitude se traduz praticamente em uma produção que, apesar de nossos incentivos, permaneceu quase nula desde sua entrada no serviço. Ela se restringiu a algumas poesias curtas, embora sejam de uma qualidade bem inferior não só em relação a suas produções maiores, mas também em relação a suas tentativas anteriores do mesmo gênero, nas quais ela mostrava uma alegria sem igual.”

Nada nos permite falar, em nossa doente, de disposição congênita, nem mesmo adquirida, que se exprimiria nos traços definidos da constituição paranóica.”

O sentimento da natureza, que Montassut observa com muita precisão como freqüente nos paranóicos, não é em absoluto, como ele o afirma, uma simples conseqüência de sua inadaptação social. Ele representa um sentimento de um valor humano positivo, cuja destruição no indivíduo, mesmo se ele melhora sua adaptação social, não pode ser considerada como um benefício psíquico.”

Todos os traços que, em nossa doente, poderiam se aproximar das características atribuídas à constituição dita paranóica – superestima megalomaníaca, desconfiança, hostilidade para com o meio, erros de juízo, autodidatismo, acusação de plágio, reivindicações sociais – só surgem em Aimée secundariamente à eclosão delirante.”

As magistrais descrições desses dois autores, clinicamente convergentes em numerosos pontos, são, no entanto, bastante diferentes por sua concepção patogênica. Janet tem do distúrbio fundamental da psicastenia uma concepção estrutural e energética, e parece remetê-la a um defeito congênito. Kretschmer tem do caráter sensitivo uma concepção dinâmica e evolutiva e o relaciona essencialmente à história do sujeito.”

No entanto, a mesma objeção vale tanto para os processos hiponóides cuja observação é comum não apenas em doentes bastante diferentes, como também em sujeitos normais, quanto para esses traumatismos psíquicos que formam a trama de toda vida humana: por que tanto uns quanto outros determinam num caso dado uma psicose e uma psicose paranóica, e não qualquer outro processo neurótico ou desenvolvimento reativo?”

II.4 A ANOMALIA DE ESTRUTURA E A FIXAÇÃO DE DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE DE AIMÉE SÃO AS CAUSAS PRIMEIRAS DA PSICOSE

a) DE COMO A PSICOSE DE NOSSA PACIENTE FOI REALIZADA PELOS MECANISMOS DE AUTOPUNIÇÃO QUE PREVALECEM NA ESTRUTURA DE SUA PERSONALIDADE.

Sobre a teoria da intencionalidade da consciência, reportar-se à obra fundamental de Brentano, Psychologie von empirischen Standpunkte, 1874.“

As intenções conscientes são desde há muito o objeto da crítica convergente dos <físicos> e dos moralistas, que mostraram todo o seu caráter ilusório. Esta é a razão principal da dúvida metódica lançada pela ciência sobre o sentido de todos os fenômenos psicológicos.”

O mérito desta nova disciplina, que é a psicanálise, é nos ter ensinado a conhecer essas leis, a saber: aquelas que definem a relação entre o sentido objetivo de um fenômeno de consciência e o fenômeno objetivo a que corresponde: positivo, negativo, medíato ou imediato, essa relação é, com efeito, sempre determinada.” “Este método de interpretação, cuja fecundidade objetiva se revelou nos vastos campos da patologia, se tornaria ineficaz no limiar do domínio das psicoses? Não questionamos as classificações clínicas e queremos evitar qualquer síntese, mesmo teórica, que seja prematura. Porém, trata-se aqui apenas de aplicar aos fenômenos da psicose um método de anâlise que já deu suas provas em outra parte. Se uma psicose, com efeito, entre todas as entidades mórbidas, exprime-se quase puramente através de sintomas psíquicos, recusaremos a ela por isso mesmo todo sentido psicogênico? Parece-nos que seria abusar do direito de prejulgar, e que a questão só pode ser resolvida depois de ser posta à prova.” “Talvez a natureza da cura nos demonstre a natureza da doença.” “De saída, pode-se falar em cura? Sim, se damos a esse termo o valor clínico de redução de todos os sintomas mórbidos; quanto à persistência de uma predisposição determinante, não podemos decidir sobre ela, já que é esse o problema que tentamos cingir. O fato é que no 20º dia de sua detenção, e com um caráter brusco bem nítido, a psicose manifestada pelo delírio com seus diferentes temas curou. Depois, a paciente permaneceu no asilo, e essa cura se manteve até o momento presente, ou seja, durante um ano e meio aproximadamente.”

A única intoxicação que pode ser discutida é o cafeinismo; mas não devemos exagerar o papel atribuído ao café nos distúrbios mentais.”

Tais curas instantâneas do delírio se observam num tipo único de caso, e mesmo assim eventualmente: isto é, nos delirantes ditos passionais após a realização de sua obsessão assassina. O delirante, após o assassinato, sente nesse caso um alívio característico acompanhado pela queda imediata de todo o aparelho da convicção delirante.

Não se encontra aqui nada semelhante logo após a agressão. Certamente, esta agressão fracassou e a doente não transparece nenhuma satisfação especial pela evolução favorável que se verifica rapidamente no estado de sua vítima; mas este estado persiste ainda por 20 dias. Nada mudou, então, do lado da vítima. Ao contrário, quer nos parecer que alguma coisa mudou do lado do agressor. A doente <realizou> seu castigo”

Que esses fatos se impusessem primeiramente aos praticantes da psicanálise, isto só se deve à abertura psicológica de seu método, pois nada implicava esta hipótese nas primeiras sínteses teóricas dessa doutrina. Não podemos empreender aqui a demonstração deste ponto que pensamos retomar em outro lugar: a análise dos determinismos autopunitivos e a teoria da gênese do supereu que ela engendrou representam na doutrina psicanalítica uma síntese superior e nova.”

O poder afetivo do protótipo é dado por sua existência real na vida da doente. Mostramos mais acima que ele era representado por esta irmã mais velha, de quem Aimée sofreu todos os graus de humilhação moral e de reproches de sua consciência. Num menor grau, a sua amiga intima, a Senhorita C. de la N., que para Aimée representava tão eminentemente a adaptação e a superioridade para com seu meio, objeto de sua íntima inveja, desempenhou um papel análogo; porém, segundo a relação ambivalente, própria precisamente à inveja, sentimento que comporta uma parte de identificação; e isto nos leva à segunda significação do protótipo delirante.”

Mulheres de letras, atrizes, mulheres do mundo, elas representam a imagem que Aimée concebe da mulher que, em algum grau, goza da liberdade e do poder social.” “Mas o objeto que Aimée atinge só tem um valor de puro símbolo, e ela não sente com seu gesto nenhum alívio. Contudo, pelo mesmo golpe que a torna culpada diante da lei, Aimée atinge a si mesma, e, quando ela o compreende, sente então a satisfação do desejo realizado: o delírio, tornado inútil, se desvanece.”

o que nossa pesquisa forneceu foi, insistimos neste ponto, um distúrbio que só tem sentido em função da personalidade ou, se preferirmos, um distúrbio psicogênico.”

b) DE COMO, AO CONCEBER ESTES MECANISMOS AUTOPUNITIVOS, SEGUNDO A TEORIA FREUDIANA (UMA CERTA FIXAÇÃO EVOLUTIVA DA ENERGIA PSÍQUICA CHAMADA LIBIDO), DÁ-SE CONTA DAS CORRELAÇÕES CLÍNICAS MAIS EVIDENTES DA PERSONALIDADE DO SUJEITO. [Até para redigir TÍTULOS Lacan é um boçal! Teseu sem Ariadne…]

A evolução da libido na doutrina freudiana parece corresponder com muita precisão, em nossas fórmulas, a esta parte, considerável na experiência, dos fenômenos da personalidade cujo fundamento orgânico é dado pelo desejo sexual.”

enquanto alguns veriam no presente caso uma regressão da consciência para esse estado de indiferenciação primordial (Blondel), outros sem hesitar atribuiriam o distúrbio inicial a uma deficiência deste contato vital com a realidade, que é para eles a fonte primeira de toda atividade humana; estes falariam de racionalismo mórbido (Minkowski) e nosso mestre e amigo Dr. Pichon, citando Chesterton, nos diria: <O louco não é em absoluto o homem que perdeu a razão; o louco é aquele que perdeu tudo, menos sua razão>.”

Quanto à imprecisão relativa do conceito de libido, ela não deixa para nós de ter seu valor. Tem, com efeito, o mesmo alcance geral que os conceitos de energia ou de matéria em física, e nessa qualidade representa a primeira noção que permite entrever a introdução em psicologia de leis de constância energética, bases de toda ciência.”

Encontraremos uma síntese feliz do conjunto dos trabalhos psicanalíticos sobre [sintomas da perda de objeto] no livro de O. Fenichel, Perversionen, Psychosen, Charakterstörungen, particularmente em seu capítulo das <Esquizofrenias>, p. 68-106.

A prevalência mórbida dos mecanismos de autopunição será sempre acompanhada, portanto, de distúrbios que manifestam a função sexual. A fixação sádico-anal, que eles representam na maioria das vezes, explica sua correlação com os distúrbios neuróticos obsessivos e os sintomas ditos psicastênicos.”

Se o valor patogênico de uma fixação pode ser aproximado de uma constituição, suscetível a um determinismo orgânico congênito, este valor dela se difere, quando deixa lugar à hipótese de um determinismo traumático

Esses pontos teóricos explicam a concomitância de traços de morbidez propriamente psicastênicos e obsessivos. Por outro lado, eles dão seu valor clínico às deficiências, que são negligenciadas no quadro de Janet, e que dizem respeito à esfera sexual.”

incerteza do pragmatismo sexual (escolha de parceiros de uma incompatibilidade máxima)”

Eu o amo, ele.

A primeira denegação possível: Eu não o amo. Eu o odeio, projetada secundariamente em Ele me odeia, fornece o tema de perseguição. Esta projeção secundária é imediata na fenomenologia própria ao ódio, e pode prescindir, quer nos parecer, de qualquer outro comentário.

A segunda denegação possível: Eu não o amo. É ela que eu amo, projetada secundariamente em Ela me ama, fornece o tema erotomaníaco. Aqui, a projeção secundária, pela qual a iniciativa amorosa parte do objeto, implica a intervenção de um mecanismo delirante próprio, deixado por Freud na obscuridade.

A terceira denegação possível: Eu não o amo. É ela que o ama, fornece, com ou sem inversão projetiva, o tema de ciúme.

Há, enfim, segundo Freud, uma quarta denegação possível, é aquela que incide globalmente sobre toda a fórmula e diz: Eu não o amo. Eu não amo ninguém. Amo somente a mim.”

Fixação narcísica e pulsão homossexual são, portanto, neste caso, oriundas de pontos evolutivos muito próximos da libido. Estão quase contíguas no estágio de gênese do supereu. Este fato, segundo a teoria, indica um fraco processo regressivo e explica a benignidade relativa e a curabilidade da psicose em nosso caso.” Ou do artista em geral?

c) O PROTÓTIPO “CASO AIMÉE” OU A PARANÓIA DE AUTOPUNIÇÃO FRUTOS DE SEU ESTUDO: INDICAÇÕES DE PRÁTICA MÉDICA E MÉTODOS DE PESQUISA TEÓRICA.

Não temos de modo algum, com efeito, a ambição de acrescentar uma entidade nova à nosologia já tão pesada da psiquiatria. Os quadros, como se sabe, nela se distinguem com muita freqüência pela arbitrariedade de sua delimitação, por suas imbricações recíprocas, fontes de incessantes confusões, sem falar daqueles que são puros mitos. A história da psiquiatria demonstra suficientemente seu caráter vão e efêmero.”

a psiquiatria – não é, que pena, um truismo lembrá-lo –, sendo a medicina do psíquico, tem por objeto as reações totais do ser humano, isto é, as reações da personalidade no primeiro plano. Ora, como acreditamos ter demonstrado, não há informação suficiente sobre esse plano senão através de um estudo tão exaustivo quanto possível da vida do sujeito. Contudo, a distância que separa a observação psiquiátrica da observação médica corrente não é tamanha que explique os 23 séculos que separam Hipócrates, o pai da Medicina, de Esquirol, em quem veríamos, de bom grado, o padrasto da psiquiatria.”

O isento método da observação psiquiátrica já era conhecido, com efeito, por Hipócrates e sua escola. E a cegueira secular que se seguiu só nos parece imputável à dominação inconstante, mas contínua, de preconceitos filosóficos. Tendo dominado 15 séculos com Galeno [com seu plurivitalismo, espécie de antecessor do materialismo mecanicista], esses preconceitos são mantidos de um modo notável pela psicologia atomística da Enciclopédia, reforçados ainda pela reação comtista que exclui a psicologia da ciência, e permanecem não menos florescentes na maior parte dos psiquiatras contemporâneos, quer sejam psicólogos ou supostos organicistas. O principal destes preconceitos é que a reação psicológica não oferece ao estudo interesse em si mesma, porque ela é um fenômeno complexo. Ora, isto é verdadeiro apenas em relação aos mecanismos físico-químicos e vitais que esta reação põe em jogo, mas falso no plano que lhe é próprio. Ele é, com efeito, um plano, que tentamos definir, e no qual a reação psicológica tem o valor de toda reação vital: ela é simples por sua direção e por sua significação.”

Seja como for, graças às circunstâncias históricas favoráveis, a observação do psiquismo humano, não de suas faculdades abstratas, mas de suas reações concretas, nos é de novo permitida. Pensamos que toda observação fecunda deve se impor à tarefa de fazer monografias psicopatológicas tão completas quanto possível.” “É nessa medida mesma que somos contrários a acrescer, segundo o costume, uma nova entidade mórbida, cuja autonomia não seríamos capazes de sustentar, aos quadros existentes. (…) O quadro clínico que vamos apresentar, apesar de nossas reservas, se limitará a este alcance puramente prático. (…) Se for preciso um título ao tipo clínico que vamos descrever, escolheremos o de paranóia de autopunição [em detrimento de ‘psicose paranóica’].”

c.1) Diagnóstico, Prognóstico, Profilaxia & Tratamento da Paranóia de Autopunição

A personalidade anterior do sujeito é, antes de mais nada, marcada por um inacabamento das condutas vitais (a melhor introdução ao estudo da personalidade desses sujeitos se acha nos trabalhos já citados de Janet e de Kretschmer). Este traço está próximo da descrição dada por Janet das condutas psicastênicas; ele se distingue dela no que os fracassos incidem menos sobre a eficácia do rendimento social e profissional, freqüentemente satisfatórios, que sobre a realização das relações da personalidade que se relacionam à esfera sexual, ou seja, dos vínculos amorosos, matrimoniais, familiares.”

ódio familiar (…) fuga diante do casamento e, quando realizado, desentendimento e fracassos conjugais, desconhecimento das funções de parentesco – este é o passivo do balanço social desses tipos de personalidade.”

Esses mesmos sujeitos que demonstram impotências de resultado constante nas relações afetivas para com o próximo mais imediato, revelam nas relações mais longínquas com a comunidade virtudes de uma incontestável eficácia. Desinteressados, altruístas, menos presos aos homens que à humanidade, habitualmente utopistas, esses traços não exprimem neles somente tendências afetivas, mas atividades eficazes: servidores zelozos do Estado, preceptores ou enfermeiras convencidos de seu papel, empregados ou operários excelentes, trabalhadores encarniçados, eles se conformam melhor ainda a todas as atividades entusiastas, a todos os <dons de si> que os diversos empreendimentos religiosos utilizam, e geralmente a todas as comunidades, quer sejam de natureza moral, política ou social, que se fundam sobre um vínculo supra-individual.”

descargas afetivas espaçadas, mas extremamente intensas, manifestam-se habitualmente pelo reviramento de todas as posições ideológicas (conversão), mais freqüentemente pela inversão de uma atitude sentimental: passagem brusca, a respeito de uma pessoa, do amor ao ódio,¹ e inversamente. Nenhum estudo médico da vida afetiva desses sujeitos vale as admiráveis observações que encerra a obra de Dostoiévski; ver particularmente: Humilhados e ofendidos, O eterno marido, Crime e castigo, O duplo, Os demônios.”

¹ Tipo ideal: Freud.

São hipermorais, jamais amorais. O que não quer dizer que não possam dissimular, principalmente sobre suas reações afetivas mais profundas.”

Nem acesso esquizofrênico legítimo nem fase maníaco-depressiva são oberváveis nos antecedentes. Os traços da constituição paranóica permanecem míticos.” [?]

Revela-se, o mais das vezes, uma relação manifesta entre o acontecimento crítico ou traumático [expulsão do colégio militar] e um conflito vital que persiste há vários anos. Este conflito, de forte ressonância ética, está muito freqüentemente ligado às relações parentais ou fraternas do sujeito.”

O perseguidor principal é sempre do mesmo sexo que o do sujeito, e é idêntico, ou pelo menos representa claramente, a pessoa do mesmo sexo à qual o sujeito se mantém preso mais profundamente por sua história afetiva.” Coisa curiosa… Porque tirando o pai tirânico prototípico, os únicos seres capazes de me infligir qualquer dano psicológico nesse mundo são as mulheres organizadas em bando.

As idéias de grandeza não se exprimem na consciência do sujeito por nenhuma transformação atual de sua personalidade. Devaneios ambiciosos, projetos de reforma, invenções destinadas a mudar a sorte do gênero humano, elas têm sempre um alcance futuro, do mesmo modo que um sentido nitidamente altruísta. Elas apresentam assim características simétricas das idéias de perseguição. O mesmo conteúdo simbólico é aí fácil de ser reconhecido: ele se refere tanto numas quanto noutras ao ideal do eu do sujeito. Essas idéias podem não ser desprovidas de toda ação social efetiva e as idéias ditas de grandeza podem receber assim um início de realização. Já assinalamos, aliás, o caráter convincente que as ideologias dos paranóicos devem a sua raiz catatímica.”

O PATHOS: “Nenhuma nota clínica propriamente melancólica se observa no curso do delírio; apesar da tendência auto-acusadora particular que salientamos nas idéias delirantes, não se encontra nenhum sinal de inibição psíquica. No entanto, certos estados de exaltação passageira parecem corresponder a variações holotímicas e cíclicas do humor. A convicção delirante é poderosamente sustentada por essas variações positivas estênicas.

A dissimulação desses sujeitos se deve menos aos fracassos de suas tentativas de expansão que a determinada incerteza residual de suas crenças.” “O perigo que impõem a outrem as virtualidades reacionais desses sujeitos é inversamente proporcional ao paradoxo de seu delírio. Em outros termos, quanto mais as concepções do sujeito se aproximam do normal, mais ele é perigoso. Sérieux e Capgras já sublinharam o nível bem mais elevado do perigo apresentado pelos delirantes ditos reivindicadores (querelantes de Kraepelin), tanto em virtude da violência e da eficácia de sua reação agressiva [JJ] quanto de sua iminência imediata. Os paranóicos que descrevemos estão situados entre estes sujeitos e os interpretativos [este seria eu, um ‘paranóide atenuado’], cujas reações mais tardias e menos eficazes Sérieux e Capgras já observam.

a manutenção da psicose depende da permanência do conflito gerador.”

As indicações profiláticas se impõem antes de mais nada. Elas devem se manter, para nossos sujeitos, a meio caminho de um isolamento social grande demais, que favorece o reforço de suas tendências narcísicas, e de tentativas de adaptação por demais completas, com cujos gastos afetivos eles não podem arcar, e que serão para eles a fonte de recalcamentos traumáticos. O isolamento total na natureza é uma solução válida, mas cuja indicação é puramente ideal.”

A estadia prolongada no meio familiar só fará provocar uma verdadeira estagnação afetiva, segunda anomalia, cujo efeito viria se acrescer ao distúrbio psíquico, que quase sempre foi determinado nesse próprio meio. Quando este meio, por fim, faltar (morte dos pais), a psicose encontraria, a clínica nos mostra a cada dia, seu terreno ótimo.”

A fórmula de atividade mais desejável para esses sujeitos é seu enquadramento numa comunidade laboriosa, à qual os liga um dever abstrato.” “Como professores, enfermeiras, ajudantes de laboratório ou de biblioteca, empregados, contramestres, eles revelarão qualidades morais de grande firmeza, ao mesmo tempo em que capacidades intelectuais em geral não-medíocres. Mas a sociedade moderna deixa o indivíduo num isolamento moral cruel, e de modo muito particularmente sensível nessas funções cuja situação intermediária e ambígua pode ser por si mesma a fonte de conflitos internos permanentes.”

Paris encerra, dispõe, consume ou consome a maior parte dos brilhantes infelizes cujos destinos foram chamados de profissões delirantes . . . Nomeio assim todos esses ofícios cujo principal instrumento é a opinião que se tem de si mesmo, e cuja matéria primeira é a opinião que os outros têm a seu respeito. As pessoas que os exercem, votadas a uma eterna candidatura, são necessariamente sempre afligidas por um certo delírio de grandeza que é atravessado e atormentado sem trégua por um certo delírio de perseguição. Neste povo de únicos reina a lei de fazer o que nunca ninguém fez, nem nunca fará. (…) Vivem apenas para obter e tomar duradoura a ilusão de serem sós, pois a superioridade não é senão uma solidão situada nos limites atuais de uma espécie. Cada um deles funda sua existência na inexistência dos outros, mas dos quais é preciso arrancar seu consentimento, o de que eles não existem. Eu me divirto, às vezes, com uma imagem física de nossos corações, que são feitos intimamente de uma enorme injustiça e de uma pequena justiça combinadas. Imagino que haja em cada um de nós um átomo importante entre nossos átomos, e constituído por dois grãos de energia que mais queriam é se separar. São energias contraditórias mas indivisíveis. A natureza as juntou para sempre, embora sejam furiosamente inimigas. Uma é o eterno movimento de um grande elétron posttivo, e este movimento inesgotável engendra uma seqüência de sons graves na qual o ouvido interior distingue sem nenhuma dificuldade uma profunda frase monótona: Há apenas eu. Há apenas eu. Há apenas eu, eu, eu . . . Quanto ao pequeno elétron radicalmente negativo, ele grita no ápice do agudo, fura e volta a furar de maneira mais cruel, o tema egotista do outro: Sim, mas há alguém… Sim, mas há alguém… Alguém, alguém, alguém... E outro alguém . . . Pois o nome muda com bastante freqüência . . .” Paul Valéry

O ENGAJAMENTO EM PEQUENAS ASSOCIAÇÕES DE INDIVÍDUOS COM FINS COMUNS COMO TERAPIA: “Sabe-se, por outro lado, que as tendências homossexuais recalcadas encontram nestas expansões sociais uma satisfação tanto mais perfeita quanto ao mesmo tempo é mais sublimada e mais garantida contra qualquer revelação consciente.” Realmente é assim: de células bolsonaristas a rodas literárias.

A técnica psicanalítica conveniente para estes casos ainda não está, segundo o testemunho dos mestres, madura. Aí está o problema mais atual da psicanálise e é preciso esperar que ele encontre sua solução. Pois uma estagnação dos resultados técnicos no seu alcance atual acarretaria logo o deperecimento da doutrina.”

urge corrigir as tendências narcísicas do sujeito por uma transferência tão prolongada quanto possível. Por outro lado, a transferência para o analista, despertando a pulsão homossexual, tende a produzir nesses sujeitos um recalcamento no qual a própria doutrina nos mostra o mecanismo maior do desencadeamento da psicose. (…) O mínimo que pode acontecer é o abandono rápido do tratamento pelo paciente. Mas, em nossos casos, a reação agressiva se dirige com muita freqüência contra o próprio psicanalista [e pra quem mais seria?], e pode persistir por muito tempo ainda, mesmo após a redução de sintomas importantes, e para o espanto do próprio doente. Por isso inúmeros analistas propõem, como condição primeira, a cura destes casos em clínica fechada. Notemos, entretanto, como uma outra antinomia do problema da psicanálise das psicoses, que a ação deste tratamento implica até aqui a boa vontade dos doentes como condição primeira.

PURO NADA TEÓRICO: “Por isso o problema terapêutico das psicoses nos parece tornar mais necessária uma psicanálise do eu do que uma psicanálise do inconsciente; quer dizer, é num melhor estudo das resistências do sujeito e numa experiência nova de sua <manobra> que ele deverá encontrar suas soluções técnicas.”

c.2) Métodos e Hipóteses de Pesquisa sugeridos por Nosso Estudo

Todo o delírio de Aimée, já o mostramos, pode, ao contrário, ser compreendido como uma transposição cada vez mais centrífuga de um ódio cujo objeto direto ela quer desconhecer. Curada, ela denega formalmente toda culpa que seria atribuída a esta irmã, apesar da atitude plenamente desumana que esta manifesta, então, para com ela.” Eu tenho uma tendência completamente centrípeta: a despeito de mim mesmo, só o que quero é me lembrar.

Parece-nos mesmo que ao conflito agudo e manifesto entre os pais correspondiam os raros casos de delírio paranóico precoce que vimos, a saber, em dois meninos de 14 e 16 anos: delírio nitidamente agressivo e reivindicador no mais jovem, delírio de interpretação típico no mais velho.”

Os pesquisadores italianos modernos, como já mencionamos anteriormente (cap. I, 1ª parte), esperam obter a chave das estruturas mentais da paranóia a partir de uma aproximação com as formas, definidas pelos sociólogos, do pensamento primitivo, chamado ainda de pensamento pré-lógico. Foram levados a esse caminho pelo espírito que sobrevive das teorias lombrosianas, e encontram o melhor apoio nos trabalhos da escola sociológica francesa contemporânea.”

esse caráter de necessidade pessoal que reveste para ela a obra literária, tudo isto se deve menos à psicose que aos traços precedentes? Certamente não, pois ela só conseguiu levar a cabo o que escreveu de melhor, e de mais importante, no momento mais agudo de sua psicose e sob a influência direta das idéias delirantes. A queda da psicose parece ter acarretado a esterilidade de sua pena. Não se pode dizer, ao contrário, que só uma instrução suficiente tanto dos meios de informação quanto de crítica, numa palavra, a ajuda social, faltou-lhe para que tenha realizado obra válida? Isto nos parece patente em inúmeras linhas de seus escritos. Todo aquele que nos lê evocará aqui, sem dúvida, o exemplo de um paranóico de gênio, de Jean-Jacques Rousseau. Consideremo-lo, pois, um instante, em função de nossa doente.” “Por outro lado, só um estudo histórico muito minucioso da atividade social e da atividade criadora do escritor poderia nos permitir julgar aquilo que seus próprios meios de expressão devem de positivo a sua anomalia mental: a saber, não só sua sensibilidade estética e seu estilo, mas seu poder de trabalho, suas faculdades de arrebatamento, sua memória especial, sua excitabilidade, sua resistência à fadiga, em suma, os diversos meios de seu talento e de seu ofício.”

MISTER INDIRETAS: “Nossa análise, manifestando a inanidade de toda gênese <racional> desses fenômenos,¹ retira todo valor dos argumentos puramente fenomenológicos sobre os quais certas doutrinas se fundam para opor radicalmente a interpretação, por um lado, e, por outro, os fenômenos <impostos>, xenopáticos, que chamamos ainda de <alucinatórios> por uma extensão admitida, embora discutível, do termo alucinação.”

¹ Nisso está plenamente certo.

Pode-se dizer que, ao contrário dos sonhos, que devem ser interpretados, o delírio é por si mesmo uma atividade interpretativa do inconsciente [e quem interpreta o delírio?]. Estamos diante de um sentido inteiramente novo que se oferece ao termo delírio de interpretação.”

Nada mais difícil de apreender que o encadeamento temporal, espacial e causal das intuições iniciais, dos fatos originais, da lógica das deduções, no delírio paranóico, seja ele o mais puro.”

O parentesco, por outro lado, das concepções que citamos com as produções míticas do folclore é evidente: mitos de eterno retorno, sósias e duplos dos heróis, mito da Fênix, etc.”

Notemos o seu parentesco mais inesperado com certos princípios gerais da ciência, a saber, os princípios de constância energética, ao menos na medida em que não os completam os princípios correlativos de queda e de degradação da energia. Este paralelo não surpreenderá aqueles para quem o belo livro de Meyerson (Cheminement de la pensée) houver mostrado a identidade formal dos mecanismos profundos de todo pensamento humano. Ele tornará claro, por outro lado, o fato, indicado por Ferenczi, da predileção manifesta em inúmeros paranóicos e parafrênicos (e também dementes precoces) pela metafísica e pelas doutrinas científicas que dela se aproximam.”

A última palavra da ciência é prever, e se o determinismo, o que acreditamos, se aplica em psicologia, deve nos permitir resolver o problema prático que a cada dia é colocado ao perito a propósito dos paranóicos, a saber, em que medida um sujeito dado é perigoso e, especialmente, é capaz de realizar suas pulsões homicidas.” “Os casos não são raros, na prática da perícia psiquiátrica, em que o assassinato constitui por si só todo o quadro semiológico da anomalia psíquica presumida.”

Um sujeito de que se pode dizer que levou uma vida exemplar pelo controle de si, pela doçura manifesta do caráter, pelo rendimento laborioso e pelo exercício de todas as virtudes familiares e sociais de repente mata: mata duas vezes e dois de seus mais próximos, com uma lucidez que revela a execução meticulosa dos crimes. Pensa em matar ainda e se matar em seguida, mas de repente se detém, como saciado. Ele vê o absurdo de seus crimes. Uma motivação, no entanto, o manteve até então: a de sua inferioridade, de seu destino votado ao fracasso. Motivação ilusória, pois nada em sua situação ia pior do que lhe era costumeiro, nem do que é comum a todos. Por um momento, no entanto, epifenômeno da impulsão-suicídio, o futuro se lhe afigurou fechado. Não quis abandonar os seus a suas ameaças, e começou o massacre. O primeiro crime, impulsivo, como acontece mais freqüentemente, mas preparado por uma longa obsessão; depois, no segundo crime, execução calculada, minuciosa, refinada. O exame psiquiátrico e biológico dos peritos, a observação prolongada durante vários meses em nosso serviço, só apresentaram depois do drama resultados totalmente negativos.” “Sua conduta sem faltas, a doçura quase humilhada de todo seu comportamento, em particular conjugal, assumem, só depois, um valor sintomático.”

o perigo maior, mais imediato, mais dirigido também, que os querelantes apresentam, depende do fato de que neles o impulso homicida recebe o concurso energético da consciência moral, do supereu, que aprova e justifica o impulso. Sem dúvida, a forma sem máscara sob a qual a obsessão criminosa aparece aqui na consciência e a hiperestenia hipomaníaca concomitante se devem a esta situação afetiva, que se apresenta como o inverso do complexo de autopunição. Ao contrário, nas psicoses autopunitivas, que, como já mostramos, se traduzem clinicamente por um delírio de interpretação, as energias autopunitivas do supereu se dirigem contra as pulsões agressivas provenientes do inconsciente do sujeito, e retardam, atenuam e desviam sua execução.”

Longe de se lastimar, como, com efeito, faz o querelante, por um prejuízo preciso, realizado, que é preciso fazer com que seu autor pague, o interpretativo crê sofrer por parte de seus perseguidores danos cujo caráter ineficaz, sempre futuro, puramente demonstrativo, é surpreendente para o observador, se ele escapar, aliás, à crítica do sujeito. Na maioria das vezes, é somente após um período não apenas dubitativo, mas longânime, que os sujeitos chegam a reagir. Mesmo esta reação, como aparece em nossa doente, terá primeiro um caráter por si mesmo demonstrativo, um valor de advertência, que deve freqüentemente permitir prevenir outros mais graves: o que, como já vimos, seguramente teria podido ser feito em nossa doente. Vê-se, enfim, que na medida mesma em que a reação assassina vai atingir um objeto que só suporta a carga de um ódio diversas vezes transferido, a própria execução, ainda que preparada, é com bastante freqüência ineficaz por falta de estenia.”

Inúmeros desses casos vêm à nossa memória: um desses sujeitos, de origem estrangeira, após dez anos de perseguição delirante, suportada sem reação grave, vai ter na casa de um banqueiro de sua nacionalidade, que ele implicou, sem conhecê-lo, na conspiração de seus inimigos, e o abate com cinco tiros de revólver. Notemos que, nesses casos, se o alívio afetivo se produz após o assassinato, a convicção delirante persiste.”

III. EXPOSIÇÃO CRÍTICA, REDUZIDA EM FORMA DE APÊNDICE, DO MÉTODO DE UMA CIÊNCIA DA PERSONALIDADE E DE SEU ALCANCE NO ESTUDO DAS PSICOSES

É o postulado que cria a ciência, e a doutrina, o fato.”

É de uma confusão bastarda desses dois primeiros pontos de vista [intuitivo-lingüístico x metafísico-fenomenológico], um e outro excluídos pelas próprias condições da ciência, que nasceu a doutrina das constituições psicopatológicas. Essa doutrina estava, portanto, destinada a se esgotar, no plano dos fatos, nesse verbalismo puro nas especulações escolásticas mais vazias de substância.

O ponto de vista do social no fenômeno da personalidade nos oferece, ao contrário, uma dupla tomada científica: nas estruturas mentais de compreensão que engendra de fato, ele oferece uma armadura conceitual comunicável; nas interações fenomenais que ele apresenta, ele oferece fatos que têm todas as propriedades do quantificável, pois são moventes, mensuráveis, extensivos.

(…)

Mas, inversamente, pela via dessas relações de compreensão, é o próprio individual e o estrutural [intuitivo e metafísico] que visamos a atingir, tão longe quanto possa ser cingido o concreto absoluto.”

fazemos uma hipótese: se rejeitamos aquelas das doutrinas clássicas, não deixamos nunca nós mesmos de pretender forjar uma. Essa hipótese, é que existe um determinismo que é específico da ordem definida nos fenômenos pelas relações de compreensibilidade humana. Esse determinismo, nós o chamamos de psicogênico. Essa hipótese merece o título de postulado; indemonstrável com efeito e pedindo um assentimento arbitrário, ela é em todos os pontos homóloga aos postulados que fundam legitimamente qualquer ciência e definem para cada uma, ao mesmo tempo, seu objeto, seu método e sua autonomia.”

Pode-se dizer que esta ciência é o complemento filosófico da ciência positiva, complemento tanto mais útil que, ao ignorar seu domínio, corre-se o risco de introduzir nessas matérias delicadas graves confusões metódicas.”

a idéia que funda a caracterologia de Klages, e que ele exprime como a manifestação na ordem humana de um conflito entre o Espírito e a Vida. Consideramos que tal ponto de vista não tinha lugar em um trabalho que se apresenta como inaugural de um método rigoroso em uma ciência puramente positiva. Notemos, no entanto, que ele não deixa de trazer clarezas profundas sobre o caso fundamental do nosso estudo.”

Ao leitor curioso por se iniciar nos problemas próprios da fenomenologia da personalidade, indiquemos, além dos trabalhos de uma exposição muito rigorosa de Klages, um livro que, por ser de uma composição um pouco confusa, permanece bastante sugestivo: o de Max Scheler, Nature et Formes de la Sympathie (trad. fran. de Lefebvre, Payot); particularmente as pp. 311-84, em que é estudado o problema, tão fundamental para toda a psiquiatria e psicologia empírica, dos fundamentos fenomenológicos do eu de outrem.”

Na tripla preeminência desses dados até aqui desconhecidos na psicose, a saber das anomalias do comportamento sexual, do papel eletivo de certos conflitos e de seu elo com a história infantil, não podemos deixar de reconhecer as descobertas da psicanálise sobre o papel primordial, em psicopatologia, da sexualidade e da história infantis.”

O único dado da técnica psicanalítica que tivemos em conta foi o valor significativo que atribuímos às resistências da personalidade do sujeito, ou seja, particularmente a seus desconhecimentos e denegações sistemáticos. Mas trata-se aí de uma reação psicológica cujo alcance, por ter sido brilhantemente utilizado pela psicanálise, nem por isso deixa de ter sido reconhecido bem anteriormente ao aparecimento desta ciência. Que nos seja suficiente, sem remontar mais acima, evocar a ênfase dada a essa reação pelos ensaístas e moralistas da tradição francesa, de La Rochefoucauld a Nietzsche.

dado o pouco de realidade apreendido até aqui pela nascente ciência da personalidade, estes postulados parecem oferecer apenas um pequeno ponto de apoio ao pensamento, sobretudo para os espíritos que se formaram somente nas representações da clínica, e cuja reflexão, por esse fato mesmo, não pode prescindir de imagens intuitivas.” Hoje mesmo li um parágrafo praticamente idêntico em Jung!

Lacan diz de forma um pouco mais polida: A Psicanálise permite-nos concluir que nossa paciente psicótica é lésbica, sádico-anal e incestuosa.

Filha de neurose, psicosinha é.

A própria noção de fixação narcísica, sobre a qual a psicanálise funda sua [a-]doutrina das psicoses, permanece muito insuficiente, como manifesta bem a confusão dos debates permanentes sobre a distinção do narcisismo e do auto-erotismo primordial – sobre a natureza da libido que concerne o eu (o eu sendo definido por sua oposição ao isso a libido narcísica provém do eu ou do isso?); sobre a natureza do próprio eu

¹ O problema capital da Psicanálise: eu e isso não podem ser opostos quando, de uma perspectiva nietzscheana, p.ex., muito mais lúcida e inclusive didática, eu e isso não passam de partições arbitrárias do próprio inconsciente. E mesmo no sistema formal estilizado do freudismo clássico a eterna necessidade de montar uma tópica tripartite nunca casa com necessidades terapêuticas de pacientes para-neuróticos (ou com a explicação da própria alma humana): como explicar que a instância da censura (supereu) não seja, ela sim, a que se opõe diametralmente ao isso, o inconsciente mais arcaico e profundo? Além disso, se não se considera o eu como contido no inconsciente, o problema só piora: ele está parte dentro, parte fora? Como é isso? Se queriam uma unidade mediadora, não deviam criar uma instância ex nihilo só para isso, sob pena de ter de lidar com “estrelas-do-mar que crescem dos braços amputados de uma primeira estrela-do-mar que se tentou matar”! E como se chama ou se dá a mediação isso-eu, e a eu-supereu? Existe mediação isso-supereu (sim, claro que existe, mas um freudiano ata suas mãos com seus a priori incautos – era para ser esse fraturado eu que acaba tendo uma identificação meramente negativa!)? O freudiano diria: isso e eu são polares, e mesmo com uma instância ‘no meio’, se relacionam – porém, objeta-se com bom senso: como o eu mais espontâneo estaria na periferia a consciência e o órgão de controle superegóico (a sociedade, os pais) por detrás, quando é visivelmente o inverso?!? Em suma, quanto mais se chafurda no “pseudo-empiricismo freudista”, mais a questão fica confusa e abstrata, senão insultante! Se não se deseja abrir mão de “um eu parte consciente, parte inconsciente”, melhor seria, para início de conversa, voltar a Nietzsche. Há um consciente e inconsciente, basta. Consciente e inconsciente são sistemas interrelacionados umbilicalmente. Basta. Ou, para ser ainda mais direto: só o que existe é o Inconsciente, sendo o consciente a ponta de fenômeno visível do iceberg humano. O resto não passa de especulação de vigaristas aproveitadores.

Narcisismo e punheta são sinônimos em diferentes níveis lingüísticos.

Deus sofre de despersonalização aguda grave.

Sabe-se, com efeito, que as primeiras bases desta concepção [revisionista do narcisismo – um primeiro cisma com Freud antes da segunda tópica de Freud?] são lançadas em um estudo de Abraham sobre a demência precoce, datado de 1908 [Die psychosexuellen Differenzen der Hysterie und der Dementia praecox].” Uma cratera lunar perto do sistema solar da loucura… Cem aninhos somente…

Digamos, no entanto, que a nosso ver a oposição freudiana do eu e do isso parece sofrer de uma dessas confusões, cujo perigo sublinhamos antes, entre as definições positivas e as definições gnoseológicas que se podem dar dos fenômenos da personalidade. Em outras palavras, a concepção freudiana do eu nos parece pecar por uma distinção insuficiente entre as tendências concretas, que manifestam esse eu e apenas como tais dependem de uma gênese concreta, e a definição abstrata do eu como sujeito do conhecimento.” “esse princípio de realidade só se distingue do princípio do prazer num plano gnoseológico e, assim sendo, é ilegítimo fazê-lo intervir na gênese do eu, uma vez que ele implica o próprio eu enquanto sujeito do conhecimento.”

Esse supereu, Freud o concebe como a reincorporação (termo aqui justificado, apesar de sua estranheza aparente no estudo de fenômenos psíquicos), como a reincorporação ao eu, de uma parte do mundo exterior. Essa reincorporação incide sobre os objetos cujo valor pessoal, do ponto de vista genético social em que nós mesmos definimos este termo, é maior: com efeito, ela incide nesses objetos que resumem em si mesmos todas as coerções que a sociedade exerce sobre o sujeito, sejam os pais ou seus substitutos. Como explicar essa reintegração? Por um fim puramente econômico, isto é, inteiramente submetido ao princípio do prazer.

Podemos observar que o sujeito é aliviado da tirania dos objetos externos na medida dessa introjeção narcísica, mas na medida também em que, em razão dessa introjeção mesma, ele reproduz esses objetos e lhes obedece.

Em que medida todas as funções intencionais do eu e mesmo as primeiras definições objetivas se engendram de maneira análoga, é o que só podemos esperar saber mediante as vias de pesquisas futuras, dentre as quais o estudo das psicoses ditas discordantes parece nos oferecer esperanças maiores.”

a questão que se coloca é a de saber se todo conhecimento não é de início conhecimento de uma pessoa antes de ser conhecimento de um objeto, e se a própria noção de objeto não é, para a humanidade, uma aquisição secundária.”

vemos que se nos impõem, no estudo genético e estrutural dessas tendências concretas, noções de equivalência energética que só podem ser fecundas. Essas noções, aliás, introduzem-se por elas próprias em toda pesquisa psicológica, uma vez que esta última vise aos fenômenos concretos.”

Sem esse recurso ao conceito energético, por exemplo, a concepção kretschmeriana dos caracteres permanece ininteligível.”

As pesquisas epistemológicas mais recentes demonstraram abundantemente que é impossível pensar cientificamente, e mesmo pensar simplesmente, sem implicar de algum modo os dois princípios fundamentais de uma certa constância assim como de uma certa degradação de uma entidade, a qual desempenha um papel substancial em relação ao fenômeno. A essa entidade, a noção de energia fornece sua expressão mais neutra e mais comumente empregada. De nossa parte, ressaltemos aí, de passagem, a aura que ela parece conservar da gênese, que é preciso lhe atribuir, como a tantas outras formas de estruturas conceituais, de uma intencionalidade primitivamente social.”

Nenhum estudo da psicose passional, na literatura francesa, parece-nos demonstrar maior penetração clínica e justeza na indicação das sanções sociais do que a bela monografia de Marie Bonaparte sobre o caso, que apaixonou a opinião pública, da sogra assassina, Sra. Lefebvre.”

Somente o exame da continuidade genética e estrutural da personalidade nos elucidará, com efeito, em que casos de delírio se trata de um processo psíquico e não de um desenvolvimento, isto é, em que casos se deve reconhecer a manifestação intencional de uma pulsão que não é de origem infantil, mas de aquisição recente e exógena, e de tal ordem que, de fato, certas afecções, como a encefalite letárgica, fazem-nos conceber sua existência, ao nos demonstrar seu fenômeno primitivo.”

Este <paralelismo> [automatismo mental], que supõe que toda representação é produzida por uma reação neurônica qualquer, arruína radicalmente toda e qualquer objetividade. Basta ler o livro de Taine sobre A inteligência, que dá a essa doutrina sua mais coerente exposição, para se convencer de que ela não permite de modo algum conceber em que diferem, por exemplo, a percepção e a alucinação. Aliás, Taine induz logicamente uma definição da percepção como <alucinação verdadeira>, que é a definição mesma do milagre perpétuo. Ao menos Taine concebia as conseqüências de sua doutrina. Mas seus epígonos, nossos contemporâneos, não se sentem mais embaraçados com elas. Eles as ignoram tranqüilamente. Desconhecendo o alcance heurístico dos preceitos de seus antecessores, eles os transformam nos propósitos sem conteúdo de uma rotina intelectual, e acreditam suprir, na observação dos fenômenos, os princípios de objetividade mediante afirmações gratuitas sobre sua materialidade.”

Vê-se aqui nosso acordo com a crítica definitiva das localizações cerebrais feita por Bergson em Matière et Mémoire. O conhecimento aprofundado dessa obra deveria ser, ousamos dizer, exigido de todos aqueles a que se confira o direito de falar de psicopatologia.”

Vê-se que, em nossa concepção, aqui concordante com Aristóteles, o meio humano, no sentido que lhe dá Uexküll, seria por excelência o melo social humano. Inútil ressaltar o quanto essa concepção se opõe às doutrinas, aliás arruinadas, da antropologia individualista do século XVIII, e particularmente a uma concepção como a do Contrato social de Rousseau, cujo caráter profundamente errôneo, de resto, assinala diretamente a estrutura mental paranóica própria de seu autor.”

se define o delírio como a expressão, sob as formas da linguagem forjadas pelas relações compreensíveis de um grupo, de tendências concretas cujo insuficiente conformismo às necessidades do grupo é desconhecido pelo sujeito. Esta última definição do delírio permite conceber, de um lado, as afinidades observadas pelos psicólogos entre as formas do pensamento delirante, e as formas primitivas do pensamento; de outro, a diferença radical que as separa pelo único fato de que umas estão em harmonia com as concepções do grupo e as outras não.”

Estejamos certos de que aqueles que não julgam esses esclarecimentos necessários, que são, convenhamos, de ordem metafísica, fazem eles próprios, sem que disso suspeitem, uma metafísica, mas da ruim, atribuindo constantemente a este fenômeno mental, definido só por sua estrutura conceitual – como a paixão, a interpretação, a fantasia imaginativa, o sentimento de xenopatia –, o alcance de um sintoma objetivo sempre equivalente a si mesmo.”

CONCLUSÕES

Uma medida válida dessas tendências só pode ser dada por um estudo experimental do sujeito, do qual, até o presente momento, somente a psicanálise nos oferece a técnica aproximada. Para essa avaliação, a interpretação simbólica do material das imagens vale menos a nossos olhos do que as resistências pelas quais se mede o tratamento. Em outros termos, no estado atual da técnica, e supondo-a perfeitamente conduzida, os fracassos do tratamento possuem, para a disposição à psicose, um valor diagnóstico igual e superior às suas revelações intencionais. Somente o estudo dessas resistências e desses fracassos poderá fornecer as bases da nova técnica psicanalitica, da qual esperamos, no que diz respeito à psicose, uma psicoterapia dirigida.”

PRIMEIROS ESCRITOS SOBRE A PARANÓIA

O PROBLEMA DO ESTILO E A CONCEPÇÃO PSIQUIÁTRICA DAS FORMAS PARANÓICAS DA EXPERIÊNCIA

Entre todos os problemas da criação artística, o que mais imperiosamente requer – e até para o próprio artista, acreditamos – uma solução teórica, é o do estilo.” “Segundo a natureza desta idéia, o artista, com efeito, conceberá o estilo como o fruto de uma escolha racional, de uma escolha ética, de uma escolha arbitrária, ou então ainda de uma necessidade sentida cuja espontaneidade se impõe contra qualquer controle, ou mesmo que é conveniente liberá-la por uma ascese negativa.”

esses postulados estão suficientemente integrados à linguagem corrente para que o médico que, dentre todos os tipos de intelectuais, é o mais constantemente marcado por um leve retardamento dialético, não houvesse acreditado ingenuamente que pudesse reencontrá-los nos próprios fatos. Além disso, não se deve desconhecer que o interesse pelos doentes mentais nasceu historicamente de necessidades de origem jurídica.”A partir daí, a questão maior que se colocou à ciência dos psiquiatras foi aquela, artificial, de um tudo-ou-nada da degradação mental (art. 64 do Código Penal).” “É o triunfo do gênio intuitivo próprio à observação, que um Kraepelin, ainda que engajado completamente nesses preconceitos teóricos, tenha podido classificar, com um rigor ao qual quase nada se acrescentou, as espécies clínicas cujo enigma devia, através de aproximações freqüentemente bastardas (de que o público retém apenas as senhas: esquirofrenia, etc.), engendrar o relativismo noumenal inigualado pelos pontos de vista ditos fenomenológicos da psiquiatria contemporânea. Essas espécies clínicas nada mais são que as psicoses propriamente ditas (as verdadeiras <loucuras> do vulgo).”

o delírio se revela, com efeito, muito fecundo em fantasias de repetição cíclica, de multiplicação ubiquista, de retornos periódicos sem fim dos mesmos acontecimentos, em pares e triplas dos mesmos personagens, às vezes como alucinações de desdobramento da pessoa do sujeito. Essas intuições são manifestamente próximas de processos muito constantes da criação poética e parecem uma das condições da tipificação, criadora do estilo.”

Os delírios, com efeito, não têm necessidade de nenhuma interpretação para exprimir, só por seus temas, e à maravilha, esses complexos instintivos e sociais que a psicanálise teve grande dificuldade em descobrir entre os neuróticos.”

pode-se afirmar que Rousseau, para quem o diagnóstico de paranóia típica pode ser aplicado com a maior certeza, deve a sua experiência propriamente mórbida a fascinação que exerceu em seu século por sua pessoa e por seu estilo.”

o gesto criminoso dos paranóicos comove às vezes tão longe a simpatia trágica, que o século, para se defender, não sabe mais se ele deve despojá-lo de seu valor humano ou então oprimir o culpado sob sua responsabilidade.”

MOTIVOS DO CRIME PARANÓICO: O CRIME DAS IRMÃS PAPIN

o drama se desencadeia muito rapidamente, e sobre a forma do ataque é difícil admitir uma outra versão que a que deram as irmãs, a saber, que ele foi súbito, simultâneo, levado de saída ao paroxismo do furor: cada uma delas subjuga uma adversária, arranca-lhe, em vida, os olhos da órbita – fato inédito, dizem, nos anais do crime – e a espanca. Depois, com a ajuda do que encontram a seu alcance, martelo, pichel de estanho, faca de cozinha, elas se encarniçam no corpo de suas vítimas, esmagam-lhes as faces, e, deixando à mostra o sexo delas cortam profundamente as coxas e as nádegas de uma para ensagüentar as da outra. Lavam, em seguida, os instrumentos desses ritos atrozes, purificam-se a si mesmas, e deitam-se na mesma cama: <Agora está tudo limpo!>”

No decorrer de uma outra crise, ela tenta arrancar os olhos, por certo que em vão, porém com algumas lesões. A agitação furiosa necessita desta vez a aplicação de camisa-de-força; ela se entrega a exibições eróticas, depois aparecem sintomas de melancolia: depressão, recusa de alimentos, auto-acusação, atos expiatórios de um caráter repugnante; depois disso, várias vezes, ela diz frases de significação delirante. Lembremos que a declaração de Christine de ter simulado tais estados não pode de modo algum ser tida como a chave real de sua natureza: o sentimento de jogo é nesse caso freqüentemente sentido pelo sujeito, sem que seu comportamento seja por isso menos tipicamente mórbido.

A 30 de setembro, as irmãs são condenadas pelo júri. Christine, entendendo que sua cabeça será cortada na praça de Mans, recebe esta notícia de joelhos.

Contudo, as características do crime, os problemas de Christine na prisão, a estranheza da vida das irmãs, haviam convencido a maioria dos psiquiatras da irresponsabilidade das assassinas.”

Christine pergunta como estão passando suas duas vítimas e declara que acredita que elas voltaram num outro corpo”

É provável mesmo que elas sairiam dos quadros genéricos da paranóia para entrar no das parafrenias, isolado pelo gênio de Kraepelin como formas imediatamente contíguas.”

Ouviu-se, no decorrer dos debates, a surpreendente afirmação de que era impossível que dois seres fossem tomados juntos pela mesma loucura, ou antes a revelassem simultaneamente. É uma afirmação completamente falsa. Os delírios a dois estão dentre as formas das psicoses reconhecidas desde há muito. As observações mostram que eles se produzem eletivamente entre parentes próximos, pai e filho, mãe e filha, irmãos e irmãs.” “Nossa experiência precisa destes doentes nos fez hesitar, contudo, diante da afirmação, sobre a qual muitos passam por cima, da realidade de relações sexuais entre as irmãs. Por isso é que somos gratos ao doutor Logre pela sutileza do termo <casal psicológico>, em que se percebe sua reserva quanto a este problema. Os próprios psicanalistas, quando fazem derivar a paranóia da homossexualidade, qualificam esta homossexualidade de inconsciente, de <larvar>. Essa tendência homossexual só se exprimiria por uma negação apaixonada de si mesma, que fundaria a convicção de ser perseguido e designaria o ser amado no perseguidor. Mas o que é esta tendência singular que, tão próxima assim de sua revelação mais evidente, ficaria sempre dela separada por um obstáculo singularmente transparente?”

O <mal de ser dois> de que sofrem esses doentes pouco os libera do mal de Narciso.”

parece que entre elas as irmãs não podiam nem mesmo tomar a distância que é preciso para se matar. Verdadeiras almas siamesas, elas formam um mundo para sempre fechado; lendo seus depoimentos depois do crime, diz o doutor Logre, <tem-se a impressão de estar lendo duplo>. Com os únicos meios de sua ilhota, elas devem resolver seu enigma, o enigma humano do sexo.”

Que longo caminho de tortura ela teve de percorrer antes que a experiência desesperada do crime a dilacerasse de seu outro si-mesmo, e que ela pudesse, depois de sua primeira crise de delírio alucinatório, em que ela acredita ver sua irmã morta, morta sem dúvida por esse golpe, gritar, diante do juiz que as confronta, as palavras da paixão manifesta: <Sim, digo sim.>”

A curiosidade sacrílega que constitui a angústia do homem desde as priscas eras, é ela que as anima quando desejam suas vítimas, quando elas acossam em suas feridas hiantes [escancaradas] o que Christine mais tarde, perante o juiz, devia chamar, em sua inocência, <o mistério da vida>.”

REFERÊNCIAS SUPLEMENTARES

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Legrand du Saulle, Délire de persécution (sobre a coincidência do mesmo distúrbio em pares familiares)

Pode-se ler aí, entre outros fatos, que o ancestral da linhagem, paranóico hipocondríaco, aterrorizava seus filhos com ameaças de morte – que fazia uso de sua filha, a mais inteligente das crianças e sua preferida, para escrever enquanto ditava suas memórias –, que, enfim, irritando-se com suas próprias dificuldades de estilo (sintoma paranóico), <mandava sua filha embora brutalmente ou a retinha para fazê-la dependurar-se numa porta até que caísse em síncope>. Não é de espantar então que após uma educação como esta, a menina, de todas as crianças, viesse [a] apresentar, por volta dos 50 anos, <um delírio de perseguição dos mais intensos com insuperáveis tendências ao suicidio>.”

Meyer, “What do histories of cases of insanity teach us concerning preventive mental hygiene during the years of school life”, in Psychological Clinic, 1908, t. II.

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[*] SOBRE A OPÇÃO DE TRADUÇÃO DO TÍTULO: “Consultar a tradução brasileira de Paulo César Geraldes & Sonia Ioannides (sob supervisão de Ulysses Vianna Filho) do Manual de Psiquiatria, de Henri Ey, Ed. Masson, Rio, 1981.

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THE INFIRMITIES OF GENIUS ILLUSTRATED BY REFERRING THE ANOMALIES IN THE LITERARY CHARACTER, TO THE HABITS AND CONSTITUTIONAL PECULIARITIES OF MEN OF GENIUS (Vol. I/II) – R.R. Madden, 1833.

I. THE EFFECTS OF LITERARY HABITS

It is the unfortunate tendency of literary habits to enamour the studious of the seclusion of the closet, and to render them more conversant with the philosophy and erudition of bye-gone times, than with the sentiments and feelings of their fellow-men. Their knowledge of the world is, in a great measure, derived from books, not from an acquantance with its active duties; and the consequence is that when they venture into its busy haunts, they bring with them a spirit of uncompromising independence, which arrays itself at once against every prejudice they have to encounter: such a spirit is but ill calculated to disarm the hostility of any casual opponent, or in the circle where it is exhibited <to buy golden opinions> of any <sorts of people>. If the felictious example of the poet of the drawing room [poeta de câmara] seduces them into the haunts of fashionable life, they find themselves still less in their element; the effort to support the dignity of genius in a common-place conversation costs them, perhaps, more fatigue than the composition of half a volume would occasion in their study. Or if any congenial topic engage attention, they may have the good sense to subdue their ardour, and endeavour to assume an awkward air of fashionable nonchalance; they may attempt to be agreable, they may seem to be at ease, but they are on the stilts of literary abstraction all the time, and they cannot bow them down to kiss the crimson robe of good society with graceful homage. But these are minor inconveniences that arise from long indulgence in literary habits; the graver ones are those that arise from impartial health and depressed spirits, the inevitable consequence of excessive mental application. Waywardness of temper, testiness of humour and capriciousness of conduct result from this depression; and under such circumstances the errors of genius are estimated too often by their immediate consequences, without any reference to predisposing causes. The fact is the carriage of genius is unlikely to conciliate strangers, while its faibles are calculated to weary even friends, and its very glory to make bitter rivals of its contemporaries and comrades.

Accordingly we find that its ashes are hardly cold before its failties are raked up from the tomb, and baited at the ring of biography, till the public taste is satiated with the sport. It is only when its competitors are gathered to their fathers, and the ephemeral details of trivial feuds, of petty faibles, and private scandal are buried with their authors that the conduct of genius begins to be understood, and its character to be fairly represented.”

It was nearly a quarter of a century before <the malignant principles of Milton> gave the world sufficient time to ascertain there was such a poem in existence as Paradise Lost. Only 3,000 copies of it were sold in 11 years, while 8,000 copies of a modern novel have been disposed of in as many days; but we need not go back to the age of Milton for evidence of the tardy justice that is done to genius. Ten years ago the indiscretions of Shelly had rendered his name an unmentionable one to ears polite; but there is a reaction in public opinions, and whatever were his follies, his virtues are beginning to be known, and his poetry to be justly appreciated.”

Ser um poeta na verdadeira acepção da palavra é tão desesperador quanto ser um crente genuíno. A única coisa que você pode ter certeza é da sua danação, caso alguns requisitos se manifestem neste mundo; mas da salvação, da salvação você jamais terá provas ou certezas! O poeta não ruim, mas ao menos medíocre, se tornará famoso até o dia de sua morte, sabendo que nunca será considerado um poeta atemporal. O poeta que estiver entre os melhores do seu século morrerá nessa dúvida agoniante: não fui reconhecido porque os homens ainda não estavam prontos ou realmente jamais serei sequer mencionado ou lembrado? O gênio, por mais gênio, não consegue descobrir se é gênio ou farsante. Apenas pode saber, pela falta de fama imediata, que não é um poeta comum, mas pode ser um péssimo poetastro ou, quem sabe, um grande poeta que o destino se encarregará de enterrar na obscuridade pela perda e sumiço de seus manuscritos… Ambos destinos igualmente distantes do legado de um Goethe…

Os juízes (a crítica), o Radamanto das Musas Contemporâneas, são justamente do filão dos medíocres. Não é que os juízes condenem Byron, é que nem sequer o percebem digno de julgamento; ou sequer o percebem… Quanto aos amigos íntimos, também eruditos e poetas provavelmente, eles alimentarão apenas a indústria da fofoca, pois conhecerão os defeitos do temperamento poético do falecido amigo mais do que ninguém.

Suicide might, indeed, have well had its horrors for that bard, who was even a more sensitive man than <the melancholy Cowley>, when he was informed that one of his best-natured friends was only waiting for the opportunity to write his life.”

The Pythoness, we are told, was but a pitiable object when removed from the inspiration of the tripod, and the man of genius is, perhaps, no less divested of the attributes of his greatness when he is taken from his study, or followed in crowded circles.”

MAGNYFIYNG MALYGNYTI MYRROR: “But when biography is made the vehicle, not only of private scandal, but of that minor malignity of truth, which holds, as it were, a magnifying mirror to every naked imperfection of humanity, which possibly had never been discovered had no friendship been violated, no confidence been abused, and no errors exaggerated by the medium through which they have been viewed, it ceases to be a legitimate inquiry into private character or public conduct, and no infamy is comparable to that of magnifying the faults, or libelling the fame of the illustrious dead.”

Blame not the world for such curiosity about its great ones; this comes of the world’s old-established necessity to worship. – Blame it not, pity it rather with a certain loving respect. Nevertheless, the last stage of human perversion, it has been said, is when sympathy corrupts itself into envy, and the indestructible interest we take in men’s doings has become a joy over their faults and misfortunes; this is the last and lowest stage – lower than this we cannot go. In a word, that species of biography which is written for contemporaries, and not for posterity, is worse than worthless. It would be well for the memory of many recent authors if their injudicious friends had made a simple obituary serve the purpose of a history.”

It is rarely the lot of the wayward child of genius to have a Currie for his historian”

It is greatly to be regretted that eminent medical men are not often to be met with literary attainments as well as professional ability for undertakings of this kind [biography a dead poet].”

MISANTHROPHY: “It is not amongst the Harveys, the Hunters, or the Heberdens of our country, or indeed amongst the enlightened physicians of any other, that we must look for the disciples of a gloomy misanthropy.”

In spite of all the Rochefoucaults, who have libelled humanity –, in spite of all the cynics, who have snarled at its character, our tendency is to love mankind.” “It is to the practical and thorough knowledge of human nature which the physician attains by the exercise of his art that the active benevolence and general liberality which peculiarly distinguishes the medical profession is mainly to be attributed.”

The literary man who indulges in habits prejudicial to his health, cannot be supposed ignorant of the effects that must arise from excessive application; and who can say he is guiltless of the infirmities he drags upon him?”

The studious man sets out with stealing an hour or two from his ordinary repose: sometimes perhaps more; and finished by devoting whole nights to his pursuits. But this night-work leads to exhaustion, and the universal sense of sinking in every organ that accompanies it suggests the use of stimulants, most probably wine {!}; alcohol, however, in some shape or other. And what is the result? – why, the existence that is passed in a constant circle of excitement and exhaustion is shortened, or rendered miserable by such alternations; and the victim becomes accessory to his own sufferings.”

if the proteiform symptoms of dyspepsia at last make their appearance, and the innumerable anomalous sufferings which, under the name of nervous and stomachic ailments, derange the viscera, and rack the joints of the invalid; if by constant application the blood is continually determined to the brain, and the caliber of the vessels enlarged to the extent of causing pressure or effusion in that vital organ; in any case, if the mischief there is allowed to proceed slowly and steadily, perhaps for years (as in the case of Swift), giving rise to a long train of nervous miseries – to hypochondria in its gloomiest form, or mania in its wildest mood, or paralysis in the expressionless aspect of fatuity [arrogância] (that frequent termination of the literary career); who can deny that the sufferer has, in a great measure, drawn the evil on himself, but who will not admit that his infirmities of mind and body are entitled to indulgence and compassion?”

Misled by fancy’s meteor ray,

By passion driven,

But yet the light that led astray,

Was light from heaven.”

Burns

II. ADVANTAGES OF LITERARY PURSUITS

A distinction has been made between literary men and men of letters; the former title has been given to authors, the latter to the general scholar and lover of science. In these volumes the term literary is applied to all persons who make books the business of their lives, or who are addicted to studious habits; and our observations apply to those who think too much on any subject, whether that subject be connected with legal, polemical or medical erudition.”

It surely is not the least advantage of literary employment that it enables us to live in a state of blissful ignorance of our next-door neighbour’s fortune, faith and politics; that it produces a state of society which admits of no invasion on domestic privacy, and furnishes us with arms against ennui, which supersede the necessity of a standing army of elderly female moralists, and domestic politicians. In large cities, at least, literature occupies the ground which politics and scandal keep possession of in small ones; in the time of Tacitus, the evil was common to the communities of both:

Vitium parvis magnisque civitatibus commune

Ignorantium et invidiam.

Leisure, it seems, had no better occupation ere <the art of mutiplying manuscripts through the intervention of machinery> was discovered. But in these days of book-publishing celebrity, when the Press pours volumes on the twon with the velocity of Perkin’s steam-gun, one has hardly sufficient leisure to acquire a knowledge even of the names of those <dread counterfeits> of dead men’s thoughts, which living plagiarism is continually recasting and sending forth.”

if we delude ourselves with the idea that we exert any happy influence over our country, or our own peace, by the unceasing agitation of political questions, we have formed a mistaken notion of our duties, as well as of our recreations.” A alegria do cultivado já era pouca; aí o povo pediu pela deterioração irremediável de toda a ordem social, e nos contaminou com problemas diários evitáveis no que concernisse a nós mesmos. Gastamos excessiva energia mental apenas ansiando não perder nosso sustento, não perder nossa (exígua) liberdade de expressão artística responsável, enfim, as condições mínimas para um escritor viver. Não sobra muita para nosso próprio trabalho.

If the tea-table has ceased to be the terrible areopagus of village politics, where private reputation used formerly to be consigned to the tender mercies of maiden gentle-women and venerable matrons, whose leisure had no other occupation – it is because literature has afforded them an employment more pleasing to themselves, and less injurious to others.”

The military man is well aware that the days of Ensign Northerton are long gone by, and that it has ceased to be the fashion to shoot maledictions at literature, even through the sides of Homer.”

leisure without books is the sepulture of the living soul.” Seneca

A comunidade das letras não tem partido, não tem nação; é uma pura República, em perpétua paz; o sossego não é atrapalhado por malícia doméstica, ou por assaltos estrangeiros; as perturbações não são provocadas por gritos de facção ou animosidade pública; a falsidade é o único inimigo denunciado pelos seus habitantes; a Verdade e seu ministro, a Razão, são os únicos guias que merecem crédito.”

III. ABUSES OF LITERARY PURSUITS

the progress of crime is in a direct ratio with the pace of <the schoolmasters>”

Festus told St. Paul that much learning had made him mad (…) Machiavel forbade princes to addict themselves to learning.”

few have left their names to posterity without some appeal to future candour from the perverseness of malice of their own times.”

It is indeed so seductive a pursuit, that the wear and tear of mind and body produce no immediate weariness, and at the moment no apparent ills. But study has no sabbath, the mind of the student has no holiday (…) he works his brain as if its delicate texture was an imperishable material which no excess was capable of injuring”

other men look to their tools – a painter will wash his pencils, a smith will look to his hammer, a husbandman will mind his plough-irons, a huntsman will have a care of his hounds, a musician of his lute – scholars alone neglect that instrument which they daily use, by which they range over the world, and which, by study, is much consumed.”

IV. THE NERVOUS ENERGY

The nervous energy is so much a part and parcel of the vital principle, their union is so intimate, that whether they stand in the relation of cause and effect, or are different names only for the same essence, they cannot be separately considered.”

Nothing of it that doth fade

But doth suffer a sea change

Into something rare and strange.”

The body is allowed to have its transformations, but the mind is not worthy of a transmigration, not even to be portioned among the worms which have their being in our forms.”

V. (continuação)

On a frosty day, for one melancholy mien we observe, we meet a hundred faces, the hilarity of whose expression is due to no other cause than that which has been just named.”

O fetiche da eletricidade! Capítulo estranho da obra…

VI. INFLUENCE OF STUDIOUS HABITS ON THE DURATION OF LIFE

Every class of genius has distinct habits; all poets resemble one another, as all painters and all mathematicians. There is a conformity in the cast of their minds, and the quality of each is distinct from the other: the very faculty which fits them for one particular pursuit is just the reverse required for the other.” D’Israeli

They are not so much injured by study who only covet to know what others knew before them, and reckon it the best way to make use of other people’s madness, as Pliny says of those who do not take the trouble to build new houses, but rather buy and live in those that are built by other people.”

Keats wrote several pieces before he was 15, and only reached his 25th year.”

The lady Dante celebrated in his poems under the name of Beatrice he fell in love with at the age of 10, and his enthusiasm terminated with life at 56.”

VII. PRECOCIOUS TALENTS

No common error is attended with worse consequences to the children of genius than the practice of dragging precocious talent into early notice, of encouraging its growth in the hot-bed of parental approbation, and of endeavouring to give the dawning intellect the precocious maturity of that fruit which ripens and rots almost simultaneously.”

Michelângelo e Ticiano viveram 96 anos, quase o triplo de Rafael!

Brincadeira do sortilégio: a média entre todas as profissões levantadas por Madden, com vários nomes (como Beard já nos trouxe em AMERICAN NERVOUSNESS), será a idade de minha morte: 66. Poetas, como sempre, na lanterna – mina sorte é ser polímata!

VIII. LONGEVITY OF PHILOSOPHERS, POETS AND ASTRONOMERS

(…)

IX. LONGEVITY OF JURISTS AND DRAMATISTS

Though law has occasionally to do with fiction, it is only in Ireland that it has to deal with fancy [!!]”

Though the condition of all men too busily employed is miserable, yet are they most miserable who have not leisure to mind their own affairs.” Xilander

It is an ugly custom we have brought into use of getting into a coach every foot we have to go: if we did but walk the ¼ part of the distance that we ride in a day, the evils of our sedentary habits might be greatly obviated by such exercise.”

Another unseasonable annoyance of ours, is to be interrupted in our meals by business; and Hippocrates condemns all study soon after meals, especially in those of a bad digestion.”

the latter days are the lawyer’s only holidays.”

every dramatist must be a poet, but many of the greatest poets have proved very indifferent dramatists.”

Se um gênio aparecesse, quantos anos você trocaria por livros, provado que cada livro valesse um ano de sua vida?

X. LONGEVITY OF MEDICAL AUTHORS AND MISCELLANEOUS WRITERS

He that condemns himself to compose on a stated day, will often bring to his ask an attention dissipated, a memory embarrassed, a mind distracted with anxieties, a body languishing with disease; he will labour on a barren topic till it is too late to change it; for in the ardor of invention, his thoughts become diffused into a wild exuberance which the pressing hour of publication cannot suffer judgment to examine or reduce.”

There is, indeed, no labour more destructive to health than that of periodical literature, and in no species of mental application, or even of manual employment, is the wear and tear of mind and body so early and so severely felt.

But with the novelist it is far different; they have their attention devoted, perhaps for months, to one continued subject, and that subject neither dry nor disagreeable. They have no laborious references to make to other books, they have to burthen their memories with no authorities for their opinions, nor to trouble their brain with the connexion of any lengthened chain of ratiocination.”

Scott seldom exceeded 15 pages a day, but even this for a continuance was a toilsome task, that would have broken down the health of any other constitution at a much earlier period.” “Pope boasts in one of his letters of having finished 50 lines of his Homer in one day; and it would appear to be the largest number he had accomplished.”

XI. LONGEVITY OF POLEMICAL AUTHORS – PHILOLOGISTS

But seclusion from the world, and sedentary habits, can alone enable the philologist to make his memory the store-house of the erudition of past ages, or furnish the necessary materials for that vast pyramid of classical erudition, which is based on a catacomb of ancient learning, and has its apex in a cloud that sheds no rain on the arid soil beneath it.”

Languages are but the avenues of learning, and he who devoted his attention to the formation of the pebbles that lay along the road, will have little leisure for the consideration of more important objects, whose beauty or utility arrest the attention of the general observer.”

XII. LONGEVITY OF MUSICAL COMPOSERS, SCULPTORS AND PAINTERS

Finally, we have to observe the extraordinary difference in the longevity of the musical composers and that of the artists. We find the amount of life in the list of the sculptors and painters larger (…) than in that of the votaries of Euterpe [musa].”

The term genus irritabile deserves to be transferred from the poetical to the musical tribe; for we take it that an enraged musician is a much more common spectacle than an irritated bard, and infinitely more rabid in his choler.

Generally speaking, musicians are the most intolerant of men to one another, the most captious, the best humoured when flattered, and the worst tempered at all other times.”

It has been truly observed by an intelligent traveller that what the ancient poets fancied in verse, the sculptors formed in marble; what the priests invented afterwards in their cells, the painters have perpetuated on canvass.

The sublimest effort of pictorial art that can be adduced in favour of the received opinion of the inventive genius of painting is that wonderful picture of the Last Judgment, by Michael Angelo.”

Juízo final, MichelangeloJuízo final, Michelangelo (detalhe central)

XIII. THE LAST MOMENTS OF MEN OF GENIUS

What medical man has attended at the death-bed of the scholar, or the studious man, and has not found death divested of half its terrors by the dignified composure of the sufferer, and his state one of peace and serenity, compared with the abject condition of the unenlightened mind in the same extremity?”

A German entertains his fate, in his dying moments, more like a philosopher than a Frenchman. And, of all places in the world, the capital of Turkey is it, where we have seen death present the greatest terrors, and where life has been most unwillingly resigned. The Arabs, on the other hand, professing the same religion as the Turks, differ from them wholly in this respect, and meet death with greater indifference than the humbler classes of any other country, Mahomedan or Christian.”

In various epidemics in the East, we have had occasion to observe the striking difference in the conduct of both in their last moments, and especially in the expedition of Ibrahim Pasha to the Morea, when hundreds were dying daily in the camp at Suda. There the haughty Moslem went to the society of his celestial houries like a miserable slave, while the good humoured Arab went like a hero to his long last home. The difference in their moral qualities, and the mental superiority the Egyptian over the Turk, made all the distinction.

The result of the observation of many a closing scene in various climes, leads to the conclusion that death is envisaged by those with the least horror, whose lives have been least influenced by superstition or fanaticism, as well as by those who have cultivated literature and science with the most ardour.”

Let us not be led into a mistake by the convulsive throbs, the rattling in the throat, and the apparent pangs of death, which are exhibited by many persons when in a dying state. These symptoms are painful only to the spectators, and not to the dying, who are not sensible of them. The case here is the same as if one, from the dreadful contortions of a person in an epileptic fit, should form a conclusion respecting his internal feelings: from what affects us so much, he suffers nothing.”

The effect of this new stimulus of dark coloured blood in the arterial vessels appears strongly to resemble the exhilerating effects of opium, inasmuch as physical pain is lulled, the sensations soothed, and the imagination exalted. Long forgotten pleasures are recalled, old familiar faces are seen in the mind’s eye, and well remembered friends are communed with, and the imaginative power of giving a real presence to the shadowy reproductions of memory is busily employed, and a sort of delirium, or rather of mental exaltation, is the consequence, in which a rapid succession of ideas, in most instances apparently of an agreeable nature, pass through the mind, and the sense of bodily pain, to all appearance is wholly overpowered.”

Rousseau, when dying, ordered his attendants to place him before the window, that he might once more behold his garden, and bid adieu to nature.”

Petrarch was found dead in his library, leaning on a book.”

Chaucer died ballad making. His last production he entitled A Ballad, made by Geoffry Chaucer on his death-bed, lying in great anguish.”

XIV. THE IMPROVIDENCE OF LITERARY MEN

Newton, Galileo, Michael Angelo, Locke, Hume, Pope never married; neither did Bacon, Voltaire and many other illustrious men, who either distrusted their own fitness for the married state, or were afraid to stake their tranquillity on the hazard of the matrimonial die.”

FOR ALL THAT IT IS WORTHY, I.E., NOT IN THE LEAST FOR MONEY: “Camoens died in an alms-house, and 15 years afterwards had a splendid monument erected to his memory.”

When Jupiter’s daughters were all married to the gods, the Muses alone were left solitary, probably because they had no portions. Helicon was forsaken of all suitors, and Calliope only continued to be a maid, because she had no dower.”

They cannot ride a horse, which every clown can manage; salute and court a gentlewoman; carve properly at table; cringe and make congies, which every common swasher can do.”

Examine, choose, or reject the wares, but stand to your own judgment, and do not, like children, when you have purchased one thing, repine that you do not possess another, which you did not purchase. If you would be rich, you must put your heart against the Muses, and be content to feed your understanding with plain and household truths. You must keep on in one beaten track, without turning to the right hand or the left.”

Was it to be rich that you grew pale over the midnight lamp?”

XV. APPLICATION OF THE PRECEDING OBSERVATIONS – POPE

The most frequent disorders of literary men are dyspepsia and hypochondria, and in extreme cases the termination of these maladies is in some cerebral disorder, either mania, epilepsy or paralysis, and there we intend to notice in order of their succession in the following brief sketches of the physical infirmities of Pope, Johnson, Burns, Cowper, Byron and, lastly, Scott, in whose case the absence of the ordinary errors of genius may be ascribed in a great measure to well regulated habits, which certainly were not those of the others above mentioned.”

One patient calls his disorder spleen, another nervousness, another melancholy, another irritability: the medical nomenclature is no less prolific, but all their titles are for a single malady and <not one of them>, says Dr. James Johnson, in his admirable treatise on the Morbid Sensibility of the Stomach, <expresses the real nature of the malady, but only some of its multiform symptoms. Of all these designations, indigestion has been the most hacknied title, and it is, in my opinion, the most erroneous. The very worst forms of the disease – forms in which the body is tortured for years, and the mind ultimately wrecked, often exhibit no sign or proof of indigestion, in the ordinary sense of the word, the appetite being good, the digestion apparently complete.>”

The fact is that where pain is not the character of the disease, the attention of the patient is carried to the symptoms in organs, perhaps, the remotest from the cause; and in this particular disorder, the patient is seldom or ever sensible of pain in the actual seat of it.”

Pope wrote his compositions on the backs of letters, by which perhaps he might have saved 5 shillings in 5 years (a crime against stationary, by the way, which he shared in common with Sir Walter Scott)”

But Pope’s biting sarcasm was only aimed at his enemies. Byron little cared whether friend or foe was the victim of his spleen; those he best loved in the world were those who suffered most from the bitterness of his distempered feelings. To read those injurious lines on Rogers, that have lately appeared, and which never ought to, is to fancy the malignity of Byron greater even than Milton’s, which (we are falsely told) was sufficient to make hell grow darker at its scowl.”

censure is the tax which a man pays to the public for being eminent” Swift

This extraordinary necessity for artificial warmth was an evident indication of the deficiency of nervous energy”

XVI. JOHNSON

hypochondria is the middle state between the vapours of dyspepsia and the delusions of monomania.”

His well meaning friends see no reason why he should deem himself either sick or sorrowful, when his physician can put his finger on no one part of his frame and say: Here is a disease

It is vain to tell him his sufferings are imaginary, and must be conquered by his reason, and that the shapes of horror, and the sounds of terror, which haunt and harass him by day and night, are engendered in his brain, and are the effects of a culpable indulgence in gloomy reveries. In his better moments he himself knows that it is so, but in spite of every exertion, those reveries do come upon him” “It is worse than useless to reason with him about the absurdity of his conduct – his temper is only irritated – it is cruel to laugh at his delusions, or try to laugh him out of them – his misery is only increased by ridicule.” “Raillery, remonstrance, the best of homilies, the gravest of lectures, do not answer here”

Remédio prescrito: dieta regulada e laxantes! Ah, o Zeitgeist!

Keila (quando ter um além é o mesmo que ter dois infernos – niilismo acabado//o contrário de um salto da fé e da ética do caval(h)eiro da resignação): “They can take no rest in the night, or if they slumber, fearful dreams astonish them, their soul abhorreth all meat, and they are brought to death’s door, being bound in misery and in iron. Like Job, they curse their stars [!!!], for Job was melancholy to despair, and almost to madness. They are weary of the sun and yet afraid to die, vivere nolunt et mori nesciunt. And then, like Esop’s fishes, they leap from the frying-pan into the fire, when they hope to be eased by means of physic [Jamais tomarei esses remédios hereges – RAFAEL, ME DÁ UM ZOLPIDEM?!? COMO VC É MAU!!]; – a miserable end to the disease when ultimately left to their fate by a jury of physicians furiously disposed; and there remains no more to such persons, if that heavenly Physician, by his grace and mercy (whose aid alone avails), do not heal and help them. [!!!] One day of such grief as theirs, is 100 years: it is a plague of the sense, a convulsion of the soul, an epitome of hell: and if there be a hell upon earth it is to be found in a melancholy man’s heart! (…) All other diseases are trifles to hypochondria; it is the pith and marrow [medula e tutano] of them all!” The sickest person under the sun. But never sick enough, know what I mean?

A melancholy man is the true Prometheus, bound to Caucasus; the true Tityus, whose bowels are still devoured by a vulture.”

XVII. JOHNSON CONTINUED (Madden é uma maritaca!)

the only wonder is that a physician could be found so ignorant of the moral duties of his calling, or so reckless of the feelings of a melancholy man, as to implant the very notion in his mind which it was his business to endeavour to eradicate if already fixed there; namely, that madness was to be the termination of his disease.”

But the error is daily committed by the inexperienced, of supposing that literary men are possessed of strength of mind that may enable them to rise superior to the fears and apprehensions of the common invalid, and consequently that all reserve is to be laid aside and the real condition of such patients freely and fearlessly exhibited to their view.”

XVIII. JOHNSON CONTINUED (!!!)

Metastasio never permitted the word death to be pronounced in his presence; and Johnson was so agitated by having the subject spoken of in his hearing that on one occasion he insulted Boswell for introducing the topic; and in the words of the latter he had put <his head into the lion’s mouth a great many times with comparative safety, but at last had it bitten off>.” Se este pobre Johnson vivesse hoje e trabalhasse na CAP a mera leitura das mensagens do grupo do whatsapp com anúncios diários de morte – obituário em tempo real – seria capaz de levá-lo ao suicídio.

it was difficulty, says Sir John Hawkins, he could persuade him to execute a will, apparently as if he feared his doing so would hasten his dissolution.”

There are no people, rude or learned, among whom apparitions of the dead are not related or believed.” Johnson “This is the language of the hypochondriac, not of the moralist”

XIX. JOHNSON CONTINUED (JÁ CHEGA!! E pior que não…)

Like all hypochondriacs, he was a bad sleeper, and when sleepless he was accustomed, to use his own words, <to read in bed like a Turk> – by the way, the Turk neither reads in bed nor out of it.”

XX. JOHNSON CONTINUED (AND CONCLUDED!)

I may be cracking my jokes, and yet cursing the sun – sun, how I hate thy beams!”

he died in his perfect senses, resigned to his situation, at peace with himself and in charity with all men, in his 75th year.”

XXI. BURNS

Every quarter of a century a revolution takes place in literary taste, the old idols of its worship are displaced for newer effigies, but the ancient altars are only overthrown to be re-established at some future time, and to receive the homage which they forfeited, on account of the fickleness of their votaries, and not in consequence of any demerits of their own.”

Currie’s life of Burns still deserves to be considered one of the best specimens of biography in the English language.”

the fastidious imagination can hardly associate the idea of poetry with that of an atmosphere that is redolent of tobacco smoke and spirituous liquors.” “In the parlance of convivial gentlemen, to have a bout at the Clarendon is to exceed in the pleasures of the table; but to commit the same excess in a country ale-house is to be in a state of disgusting intoxication.”

Nor wine nor love could make me gay” Dryden

At 22 he writes to his father: the weakness of my nerves has so debilitated my mind, that I dare not review past events, nor look forward into futurity, for the least anxiety or perturbation in my head produce most unhappy effects on my whole frame.”

Inspector (espécie de vigilante sanitário) e coletor de impostos foram suas opções de carreira nas “horas vagas” da poesia – urgh! “It would have been difficult to have devised a worse occupation for the poet, or to have found a man less fitted for its duties than Burns. After occupying his farm for nearly 3 years and a half, he found it necessary to resign it, and depend on the miserable stipend of his office – about 50 pounds a year, which ultimately rose to 70.”

there is not among all the martyrologies that ever penned so rueful a narrative as the lives of the poets.”

excess in wine is not the only intemperance; but that excessive application to studious habits is another kind of intemperance no less injurious to the constitution than the former.”

wiki: “He is regarded as a pioneer of the Romantic movement, and after his death he became a great source of inspiration to the founders of both liberalism and socialism, and a cultural icon in Scotland and among the Scottish diaspora around the world. Celebration of his life and work became almost a national charismatic cult during the 19th and 20th centuries, and his influence has long been strong on Scottish literature. In 2009 he was chosen as the greatest Scot by the Scottish public in a vote run by Scottish television channel STV.”

ÉCRITS «INSPIRÉS»: SCHIZOGRAPHIE – Lacan, en collaboration avec Lévy-Valensi et Migault, 1931. In: Annales médico-psychologiques, t. II. Traduzido. Íntegra em https://escritosavulsos.com/1931/11/12/escritos-inspirados-esquizografia/

Gaëtan Gatian de Clérambault [1872-1934] é considerado, por muitos, o último e mais brilhante dos clássicos. Obteve, em 1905, o cargo de médico adjunto da Enfermaria Especial do Comando de Polícia, onde já era interno de Paul-Émile Garnier [1848-1905]. Com a morte de Ernest Dupré [1862-1921], que havia sido seu professor, torna-se médico-chefe da instituição. Lacan o considerava seu <único mestre em psiquiatria> (cf. C.M. Ramos Ferreira; J. Santiago [2014] Apresentação de pacientes: Clérambault, mestre de Lacan. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, vol. 17, n. 2. São Paulo, junho de 2014. Disponível em: <dx.doi.org/10.1590/1984-0381v17n2a05>). Ademais, cumpre notar que Clérambault entendeu o presente artigo como sendo uma divulgação não-autorizada das suas próprias ideias a respeito da paranoia, de modo que Lacan suprimirá o texto quando da reedição de sua tese de doutorado, onde figurarão outros de seus <Primeiros escritos sobre a paranoia>. (N. do T.)”

Jules Séglas [1856-1939] — alienista hospitalar entre os anos de 1886 e 1921 e presidente da Sociedade Médico-Psicológica (1908) — vinha minorando, desde o ano de 1914, o aspecto sensório-motor do fenômeno alucinatório; aproximava-o, assim, ainda mais do delírio e, portanto, de certa psicogên[e]se da alucinação. Anos depois, criticará sua primeira teoria da alucinação, baseada na excitação dos <centros nervosos> — teoria que, na época, já não sustentava mais a comparação com a clínica moderna da afasia. Com isso, a clínica da alucinação vai se articulando com a ideia de uma patologia da linguagem interna, e as alucinações psicomotoras acabam se equivalendo a uma exofasia (a linguagem interna se aliena do sujeito e o pensamento se articula quase que automaticamente em movimento). Séglas distingue isso da hiperendofasia, que seria o excesso da linguagem interna — que ele acredita estar mais próximo da auditivação e da perseguição. Cf. P. La Sagna, ‘Séglas et le système de l’Autre Méchant’, La cause freudienne, vol. 74, n. 1, pp. 201-221. Disponível em: <www.cairn.info/revue-la-cause-freudienne-2010-1-page-201.htm>. Cf. também: J. Séglas, ‘Hallucinations psychiques et pseudo-hallucinations verbales’, Journal de psychologie normale et pathologique, vol. 11, 1914. (N. do T.)”

Mentismo noturno: “De acordo com o alienista Philippe Chaslin [1857-1923], trata-se de um fluxo rápido e incontrolável de pensamentos e imagens que o sujeito não consegue interromper, tipicamente acompanhado de ansiedade e ocorrendo geralmente quando se está para dormir, causando insônia. (N. do T.)”

Georges Clemenceau [1841-1929] foi um médico francês que cedo se tornaria estadista, integrando a Assembleia Nacional. Atuando como jornalista, fundou o periódico La Justice e foi o responsável pela publicação do famigerado J’accuse de Émile Zola, em 13 de janeiro de 1898, no jornal L’Aurore, do qual era editor-chefe. Foi senador e primeiro-ministro, chefiando o país durante a Primeira Guerra Mundial. (N. do T.)”

Acreditei compreender que estão fazendo do meu caso uma questão parlamentar… mas é tão velado, tão difuso”

Lipotimia: “Perda de força muscular, porém sem perda de consciência, com conservação das funções respiratória e cardíaca. É acompanhada de palidez, suores frios, vertigens, zumbido nos ouvidos e a impressão de desmaio iminente. (N. do T.)”

Acrescentemos aqui algumas notas sobre o estado somático da doente. Elas são negativas, sobretudo. Cumpre reter: uma gripe em 1918 [isso é grave, doutor!!]; um cafeinismo evidente; um regime alimentar irregular; um tremor nítido e persistente nos dedos” Oops…

A LÍNGUA ESTÁ SEMPRE VOLTANDO: “Em todo caso, vale ressaltar que, no campo dos estudos da linguística diacrônica, reconhece-se a presença da forma amur na linha histórica que culmina no termo francês moderno — de modo que o neologismo da paciente poderia ser entendido, de certa maneira, também como um arcaísmo. Cf. Christian Schmitt, ‘Cultisme ou Occitanisme? Étude sur la provenance du français amour et ameur’, Romania, 1973, vol. 376, pp. 433-462. Disponível em: <www.persee.fr/doc/roma_0035-8029_1973_num_94_376_2386>. (N. do T.)”

Eu sou irmão do rato mau que te enrouca se você faz a rota da mãe do sabiá fuinha e refeito de pinho, mas, se você é sol e poeta de feitos, eu banco o Revisto, desse lugar eu vou sair. Botei a pata no teu patavina. Tempestade é uma ova, tua cova compro eu Senhor.

Marcelle Ch. no xadrez é nada cortês com os poetas sem vez, mas deixa cem vez mais esquifes que mil patifes.

Genin.(*)”

Em 10 de novembro pede-se à doente que escreva aos médicos uma carta curta em estilo normal. Ela logo o faz, em nossa presença e com sucesso. Pede-se a ela, em seguida, que escreva um post-scriptum seguindo as suas <inspirações>. Aqui está o que ela nos oferece:

Post-Scriptum inspirado.

Queria descobri-los os mais inéditos senhores na marmota do mico mas estão aterrados porque os odeio a ponto de querê-los todos salvos. Fé d’Arma e de Marna para ensafadá-los e fazê-los chorar o fardo alheio, o meu não.

Marna do diabo.”

Vale lembrar que Marne au diable [Marna do diabo] evoca La mare au diable [O charco do diabo], o título de um romance campestre da autoria de George Sand [1804-1876] e que havia sido publicado em 1846. O livro conta a história de Germain(*), um jovem viúvo que, após cair num luto profundo com o falecimento da esposa — que havia deixado o marido e três filhos —, procura se casar novamente, encorajado pelo sogro. Ao saber que havia uma viúva numa região vizinha (Catherine Guerin) que também estava procurando se casar de novo, Germain vai ao seu encontro acompanhado de Marie — uma moça cuja guarda lhe foi confiada e irá trabalhar numa fazenda perto do local onde mora a viúva — e de um dos filhos, que embarca clandestinamente na viagem. No entanto, um temporal tira o grupo do caminho, fazendo com que busquem refúgio numa floresta, onde passam a noite ao lado de um charco — episódio decisivo para o restante da história. (N. do T.)”

Frequentemente o fim da carta preenche a margem. Nenhuma outra originalidade de disposição. Não há sublinhados.

Nenhuma rasura. O ato de escrever, quando o testemunhamos, realiza-se sem interrupção, como que sem pressa.”

A doente afirma que aquilo que ela exprime lhe é imposto, não de uma forma irresistível — nem mesmo rigorosa —, mas de um modo já formulado. É, no sentido forte do termo, uma inspiração.

Essa inspiração não a perturba quando escreve uma carta em estilo normal na presença do médico. Ela advém, em contrapartida — e, ao menos episodicamente, é sempre acolhida —, quando a doente escreve sozinha. Mesmo numa cópia dessas cartas, destinada a ser guardada, ela não descarta uma modificação do texto que lhe é <inspirada>.”

Para os escritos recentemente compostos, na maioria das vezes ela oferece interpretações que aclaram o mecanismo de sua produção. Só nos damos conta disso quando nos submetemos a uma análise objetiva. Com Pfersdorff, atribuímos a toda interpretação dita <filológica> um valor apenas de sintoma.” Nota do tradutor: “Charles Pfersdorff [1875-1953], médico que havia se formado na Kaiser-Wilhelms-Universität (Estrasburgo), passou a atuar como assistente na Clínica Médica do Hospital Civil da cidade em 1899. Foi para Viena em 1901 a fim de estudar seis meses com Richard von Krafft-Ebing [1840-1902]; e no ano seguinte, para Heidelberg, onde estudou com Emil Kraepelin [1856-1926] durante um ano. Já tendo atuado como professor na Universidade de Estrasburgo antes da Guerra — que o levou à frente de batalha, mantendo-o afastado da docência —, retorna à cidade em 1917 e, em 1919, assume a cátedra de psiquiatria, da qual será titular até o ano de 1945. Suas contribuições se deram em torno de três temas principais: a demência precoce, a esquizofrenia (especialmente do ponto de vista dos aspectos linguísticos) e as crianças com deficiência intelectual.”

estado de estenia que acompanha as inspirações”

Eu faço a língua evoluir. É preciso sacudir todas essas velhas formas”

Henry Head [1861-1940] foi um neurologista inglês que realizou pesquisas pioneiras no campo dos sistemas sensoriais. Seu último grande trabalho, Aphasia and kindred disorders of speech [Afasia e outros distúrbios da fala aparentados], foi avaliado por Macdonald Critchley (The black hole and other essays [London: Pitman, 1964]) como <a melhor monografia sobre o tema da afasia na literatura neurológica”. Ao descrever a “afasia semântica> nessa obra, Head propõe um vínculo entre os aspectos linguísticos e intelectuais da fala, algo cujas implicações posteriormente receberiam crédito e ampliação de afasiologistas moderno[s]. (N. do T.)”

Numa primeira abordagem eles estão reduzidos ao mínimo. Contudo, encontram-se elisões silábicas que incidem frequentemente — ponto digno de nota — na primeira sílaba; assaz frequentemente o esquecimento de uma partícula, no mais das vezes de uma preposição: por ou de etc. Acaso se trata daqueles curtos barramentos ou inibições do curso do pensamento que fazem parte dos sutis fenômenos negativos da esquizofrenia? O fato é ainda mais difícil de afirmar por conta de a doente dar dele interpretações delirantes. Ela suprimiu esse e ou aquele de porque ele teria botado a sua iniciativa a perder. Nos escritos ela faz alusão a isso.”

A ruminação mental consiste no retorno obsedante dos mesmos pensamentos improdutivos ou das mesmas preocupações, dominados pela dúvida, sem que possam ser descartados da consciência. (N. do T.)”

as palavras pamonha, de onde derivam pamonhuda e pamonhona, que são xingamentos que designam sempre a sua principal inimiga, a Srta. G…”

Em passagens bem mais raras, o vínculo sintático é destruído e os termos formam uma sequência verbal organizada pela associação assonante de tipo maníaco (…) Em parte, a fadiga condiciona essas formas, que são mais frequentes no final das cartas.”

Os experimentos feitos por alguns escritores sobre um modo de escrita que eles chamaram de <surrealista>, e cujo método descreveram muito cientificamente, mostram o grau de notável autonomia a que podem chegar o[s] automatismos gráficos fora de toda e qualquer hipnose.”

Ao cabo de nossa análise, constatamos ser impossível isolar na consciência mórbida o fenômeno elementar, psicossensorial ou puramente psíquico, que seria o núcleo patológico ao qual a personalidade que permaneceu normal reagiria. O distúrbio mental nunca está isolado.”

Nada é, em suma, menos inspirado — no sentido do espírito — do que esse escrito sentido como inspirado. É quando o pensamento é curto e pobre que o fenômeno automático o suplementa. Ele é sentido como exterior porque suplementa um déficit do pensamento. Ele é julgado como válido porque é convocado par uma emoção estênica.”

A respeito da esquizofasia/esquizografia e seus efeitos na história da psicanálise através da teorização tardia de Jacques Lacan, bem como sua relação com a vanguarda poética e literária da época, cf. F. Hulak, ‘Schizographie, l’avant-garde d’un symptôme’, L’Évolution Psychiatrique, vol. 82, n. 2, abr.–jun. de 2017, pp. 279-290. Disponível em: <www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0014385515001140>. Cf. também: J. Chénieux-Gendron, ‘Jacques Lacan, L’Autre de André Breton’. In: É. Marty,  Lacan et la littérature. Paris: Éditions Manucius, 2005, pp. 27-48. [Em português: <Jacques Lacan, ‘O Outro’ de André Breton> (Trad. R.E. Franco), Manuscrítica, n. 29, 2015. Disponível em: <www.revistas.fflch.usp.br/manuscritica/article/view/2351>.

ANTES DE BRASÍLIA SÓ EXISTIA O RIO DE JANEIRO (E uma viagem à Paris flaubertiana)

ARQUITETURA BRASILEIRA – Lúcio Costa & al.

Serviço de Documentação – Ministério da Educação e Saúde (Os Cadernos de Cultura).

DEPOIMENTO DE UM ARQUITETO CARIOCA

No segundo quartel do século XIX, o arquiteto francês Auguste Henri Victor Grandjean de Montigny, formado na prestigiosa tradição acadêmica então em voga, conseguia finalmente, depois de longos anos de penosas atribulações e mal-disfarçada hostilidade, dar início ao ensino regular da arquitetura no próprio edifício construído por ele para sede da recém-fundada Academia de Belas-Artes.

Integrava-se assim, oficialmente, a arquitetura do nosso país no espírito moderno da época, ou seja, no movimento geral de renovação inspirado, ainda uma vez, nos ideais de deliberada contensão plástica próprios do formalismo neoclássico, em contraposição, portanto, ao dinamismo barroco do ciclo anterior, já então impossibilitado de recuperação, ultrapassadas que estavam as suas últimas manifestações, cujo <desenho irregular de gosto francês> — segundo expressão da época — motivara, pejorativamente como de praxe, o qualificativo de rococó.” Brasileiro será a raça que mais aprecia ‘botar apelidos’?

Neste segundo quartel do século XX, apenas encerrado, aportou à Guanabara um compatriota do ilustre mestre, procedente como ele da mesma École des Beaux Arts, velha matriz das instituições congêneres espalhadas pelo mundo, — mas, desta vez, simples aluno e especialmente credenciado pelo presidente do Diretório Acadêmico da referida escola — o Grand Massier — para coligir material relacionado com a nossa arquitetura moderna, a fim de organizar uma exposição no recinto daquele tradicional estabelecimento de ensino, e de assim corresponder ao excepcional interesse ali despertado pelas realizações da arquitetura brasileira contemporânea.”

Semelhante empreendimento, verdadeiramente digno dos tempos novos, no dizer do autor, e capaz de valorizar a excepcional paisagem carioca por efeito do contraste lírico da urbanização monumental, arquitetonicamente ordenada, com a liberdade telúrica e agreste da natureza tropical, foi qualificada como irreal e delirante, porque em desacordo cem as possibilidades do nosso desenvolvimento; porque o brasileiro, individualista por índole e tradição, jamais se sujeitaria a morar em apartamentos de habitação coletiva [?]; porque a nossa técnica, o nosso clima… enfim, a velha história da nossa singularidade: como se os demais países também não fossem cada qual <diferentes> a sua maneira.”

Houve procura; houve capitais; houve capacidade técnica e houve até mesmo, nalguns casos, qualidade arquitetônica. Faltou apenas a necessária visão.” Hehe.

como explicar que, de um lado, a proverbial ineficiência do nosso operariado, a falta de tirocínio técnico dos nossos engenheiros, o atraso da nossa indústria e o horror generalizado pela habitação coletiva se pudessem transformar a ponto de tornar possível, num tão curto prazo, tamanha revolução nos <usos e costumes> da população, na aptidão das oficinas e na proficiência dos profissionais; e que, por outro lado, uma fração mínima dessa massa edificada, no geral de aspecto vulgar e inexpressivo, pudesse alcançar o apuro arquitetônico necessário para sobressair em primeiro plano no mercado da reputação internacional, passando assim o arquiteto brasileiro, da noite para o dia e por consenso unânime da crítica estrangeira idônea, a encabeçar o período de renovação que vem atravessando a arquitetura contemporânea, quando ainda ontem era dos últimos a merecer consideração?”

Se, com respeito ao surto edificador e ao modo de morar, os fatos se explicam como decorrência mesma de umas tantas imposições de natureza técnica e econômico-social, outro tanto não se poderá dizer quanto à revelação do mérito excepcional daquela porção mínima do conjunto edificado, já que a febre construtora dos últimos 25 anos não se limitou, apenas, às poucas cidades do nosso país mas afetou toda a América, a África branca e o Extremo Oriente, sem que adviesse daí qualquer manifestação com iguais características de constância, maturidade e significação; e, ainda agora, a reconstrução européia não deu lugar, ao contrário do que fôra de esperar, senão a raros empreendimentos dignos de maior atenção, como, por exemplo, o caso excepcional de Marselha.”

O desenvolvimento da arquitetura brasileira ou, de modo mais preciso, os fatos relacionados com a arquitetura no Brasil nestes últimos cinqüenta anos, não se apresentam concatenados num processo lógico de sentido evolutivo; assinalam apenas uma sucessão desconexa de episódios contraditórios, justapostos ou simultâneos, mas sempre destituídos de maior significação e, como tal, não constituindo, de modo algum, estágios preparatórios para o que haveria de ocorrer.”

Dois fatores fundamentais condicionaram a natureza das transformações (…) a abolição (…) O negro era esgoto; era água corrente no quarto, quente e fria; era interruptor de luz e botão de campainha; o negro tapava goteira e subia vidraça pesada; era lavador automático, abanava que nem ventilador.”

Aliás, a criadagem negra e mestiça foi precursora da americanização dos costumes das moças de hoje: as liberdades de conduta, os <boy-friends>, os <dancings> e certos trejeitos vulgares já agora consagrados nos vários escalões da hierarquia social.”

Data de então, além da construção de casas minúsculas em lotes exíguos, os pseudo-bungalows, a brusca aparição das casas de apartamentos — o antigo espantalho da habitação coletiva — solução já então corrente alhures, mas retardada aqui em virtude precisamente daquelas facilidades decorrentes da sobrevivência tardia da escravidão.”

[?] Quando li “habitação coletiva” pela 1a vez pensei imediatamente em apartamentos que fossem divididos por várias famílias – curioso como hoje apartamento se identifica totalmente com a acepção de <individual> e <privado>!

O segundo fator, de ação ainda mais prolongada e tremenda repercussão internacional, porque origem da crise contemporânea, cujo epílogo parece cada vez mais distante —, foi a revolução industrial do século XIX.”

Estabeleceu-se, desse modo, o divórcio entre o artista e o povo: enquanto o povo artesão era parte consciente na elaboração e evolução do estilo da época, o povo proletário perdeu contato com a arte. Divórcio ainda acentuado pelo mau gosto burguês do fim do século, que se comprazia, envaidecido, no luxo barato dos móveis e alfaias da produção industrial sobrecarregada de enfeite pseudo-artístico, enquanto a arquitetura, hesitante entre o funcionalismo neo-gótico do ensino de Viollet-le-Duc e as reminiscências do formalismo neoclássico do começo do século, se entregava aos desmandos estucados dos cassinos e aos espalhafatosos empreendimentos das exposições internacionais, antes de resvalar para as estilizações, destituídas de conteúdo orgânico-estrutural, do <art-nouveau> de novecentos.”

desde o mundialmente famoso Palácio de Cristal, da exposição de Londres de 1851 (velho de um século — e ainda se invoca a <precipitação> do modernismo!), do elegante molejo das caleches [palavra importada sem alteração do francês – “Viatura de tração animal, de dois assentos de frente um para o outro e quatro rodas, aberta por diante”] e do tão delicado e engenhoso arcabouço dos guarda-chuvas — versão industrializada do modêlo oriental — até as cadeiras de madeira vergada a fogo, ou de ferro delgadíssimo, para jardim, e as estruturas belíssimas criadas pelo gênio de Eiffel.”

Conquanto a planta da casa ainda preservasse a disposição tradicional do império, com sala de receber à frente, refeitório com puxado de serviço aos fundos e duas ordens de quartos ladeando extenso corredor de ligação, cuja tiragem garantia a boa ventilação de todos os cômodos, o seu aspecto externo modificara-se radicalmente; não só devido à generalização dos porões habitáveis, de pé direito extremamente baixo em contraste com a altura do andar, e que se particularizavam pelos bonitos gradeados de malha miúda (como defesa contra os gatos), mas por causa da troca das tacaniças [“cada um dos lanços triangulares laterais do telhado, em telhados de quatro águas com planta retangular, por oposição à água-mestra”] do telhado tradicional, de quatro águas [“cada uma das vertentes de um telhado”] pela dupla empena [“parede lateral de um edifício, geralmente sem janelas ou aberturas, através da qual um edifício pode encostar a outro”] do chalet, na sua versão local algo contrafeita por pretender atribuir certo ar faceiro ao denso retângulo edificado.” !!!

os jardins, filiados ainda aos traçados românticos de Glaziou, faziam-se mais caprichosos, com caramanchões, repuxos, grutas artificiais, pontes à japonesa e fingimentos de bambu; os elaborados recortes de madeira propiciados pela nova técnica de serragem guarneciam os frágeis varandins e as empenas, cujos tímpanos se ornavam com estuques estereotipados, enquanto os vidros de côr ainda contribuíam para maior diferenciação.”

as couçoeiras [soleira, peça oca feita para girar o eixo da porta] e frisos [barras] de pinho de Riga para o madeiramento dos telhados e vigamento dos pisos e respectivo soalho, chegavam aqui mais baratos e mais bem-aparelhados que a madeira nativa; as telhas mecânicas Roux-Frères, de Marselha, eram mais leves e mais seguras; os delgados esteios e vigas procedentes dos fornos de Birmingham ou de Liège facilitavam a construção dos avarandados corridos de abobadilhas [“abóbadas de tijolo pouco côncavas”] à prova de cupim. Vidraças inteiriças Saint Gobain, papéis pintados para parede, forros de estamparia, mobílias já prontas, lustres para gás e arandelas [aparadeiras ou luminárias] vistosas, lavatórios e vasos sanitários floridos — tudo se importava, e a facilidade relativa das viagens aumentava as oportunidades do convívio europeu.”

COM O PERDÃO DO TROCADILHO DUPLO, FAZ UMA ESTILIZAÇÃO DA REVOLUÇÃO TÉCNICA (SUPERESTIMAÇÃO DA ‘ECONOMIA’ COMO MOTOR DO MUNDO): “A distinção entre transformações estilísticas de caráter evolutivo, embora por vêzes radicais, processadas de um período a outro na arte do mesmo ciclo econômico-social — e, portanto, de superfície —, e transformações como esta, de feição nìtidamente revolucionária, porquanto decorrentes de mudança fundamental na técnica da produção — ou seja, nos modos de fabricar, de construir, de viver —, é indispensável para a compreensão da verdadeira natureza e motivo das substanciais modificações por que vem passando a arquitetura e, de um modo geral, a arte contemporânea, pois, no primeiro caso, o próprio <gôsto>, já cansado de repetir soluções consagradas, toma a iniciativa e guia a intenção formal no sentido da renovação do estilo, ao passo que, no segundo, é a nova técnica e a economia decorrente dela que impõem a alteração e lhe determinam o rumo — o gôsto acompanha. Num, simples mudança de cenário; no outro, estréia de peça nova em temporada que se inaugura.” Temporada de caça ao arco-da-velha

Não foi pois, em verdade, sem propósito que o começo do século se revestiu, no Rio de Janeiro, das galas de um autêntico espetáculo. O urbanismo providencial do prefeito Passos, criador das belas avenidas Beira-Mar e Central, além de outras vias necessárias ao desafogo urbano, provocara o surto generalizado de novas construções, dando assim oportunidade à consagração do ecletismo arquitetônico, de fundo acadêmico, então dominante.

É comovente reviver, através dos artigos do benemérito Araújo Viana, a inauguração, a 7 de setembro de 1904, do eixo da Avenida, iluminada com <70 lâmpadas de arco voltaico e 1200 lâmpadas incandescentes>, além dos grandes painéis luminosos, quando o bonde presidencial a percorreu de ponta a ponta, aclamado pelo cândido entusiasmo da multidão.

Em pouco tempo brotava do chão, ao longo da extensa via guarnecida de amplas calçadas de mosaico construídas por calceteiros importados, tal como o calcário e o basalto, especialmente de Lisboa, toda uma série de edificações de vulto e aparato, para as quais tanto contribuíam conceituados empreiteiros construtores, de preferência italianos, como os Januzzi e Rebecchi, quanto engenheiros prestigiosos que dispunham do serviço de arquitetos anônimos, franceses ou americanos — os nègres, da gíria profissional — e, finalmente, arquitetos independentes a começar pelo mago [!!] Morales de los Ríos, cuja versatilidade e mestria não se embaraçavam ante as mais variadas exigências de programa, fôsse a nobre severidade do próprio edifício da Escola — então dirigida por Bernardelli e exemplarmente construída, embora hoje, internamente desfigurada —, ou o gracioso Pavilhão Mourisco de tão apurado acabamento e melancólico destino.

Enquanto tal ocorria nas áreas novas do centro da cidade, nos arrebaldes o chalet caía de moda, refugiando-se pelos longínquos subúrbios, e, nos bairros elegantes de Botafogo e Flamengo — onde, mesmo antes do fim do século, construíam-se formalizados <vilinos> de planta simétrica, poligonal ou ovalada, e aparência distinta (como, por exemplo, à rua Laranjeiras, 29) e, noutro gênero e com outra intenção, toda uma série de casas irmãs, combinando sabiamente a pedra de aparelho irregular, com as cercaduras e cornijas de tijolos aparentes, protegidas por amplos beirais de inspiração a um tempo tradicional e florentina (ruas Cosme Velho, Bambina, Álvaro Chaves) — já começava a prevalecer nova orientação.”

#CarasErudita “à Avenida Atlântica, esquina de Prado Júnior, onde morou Tristão da Cunha, agora desmantelada e inerme à espera do fim e que ainda ostenta no cunhal o timbre do arquiteto Silva Costa (…) a casa já demolida onde residiu, também no Leme, dona Lúcia Coimbra, née Monteiro” Saudosa Dona Lúcia viúva de Coimbrinha, saudoso Tristão, ah meu compadre Costinha (nepotismo, sempre bom), bons tempos aqueles!

o tão simpático atelier dos irmãos Bernardelli, afoitamente demolido” Dommage!

a sede social do Jockey Club, anteriormente ao acréscimo de 1925 que tanto a desfigurou”

Com o primeiro pós-guerra, outras tendências vieram a manifestar-se. O sonho do <art-nouveau> se desvanecera, dando lugar à <arquitetura de barro>, modelada e pintada por aquele prestidigitador exímio que foi Virzi, artista filiado ao <modernismo> espanhol e italiano de então, ambos igualmente desamparados de qualquer sentido orgânico-funcional e, portanto, destituídos de significação arquitetônica.”

Simultàneamente, ocorria também a arquitetura residencial cem por cento tedesca [X-Kroots!] de Riedlinger e seus arquitetos (construtores do típico Hotel Central), caracterizada pelo deliberado contraste do rústico pardo ou cinza — <à vassourinha> — das paredes, com o impecável revestimento claro dos grandes frontões de contorno firme; pelo nítido desenho da serralheria e pelos caixilhos brancos e venezianas verdes da esquadria de primorosa execução. O apuro germânico da composição se completava com o sólido e sombrio mobiliário de Laubistch Hirth, e era ainda realçado pela pintura esponjada à têmpera, com medalhões e enquadramentos de refinado colorido, obra dos pintores austríacos Vendt e Treidler — este, renomado aquarelista.”

Foi contra essa fei[ú]ra de cenários arquitetônicos improvisados que se pretendeu invocar o artificioso revivescimento formal do nosso próprio passado, donde resultou mais um <pseudo-estilo>, o neocolonial, fruto da interpretação errônea das sábias lições de Araújo Viana, e que teve como precursor Ricardo Severo e por patrono José Mariano Filho.

Tratava-se, no fundo, de um retardado ruskinismo, quando já não se justificava mais, na época, o desconhecimento do sentido profundo implícito na industrialização, nem o menosprezo por suas conseqüências inelutáveis. Relembrada agora, ainda mais avulta a irrelevância da querela entre o falso colonial e o ecletismo dos falsos estilos europeus: era como se, no alheamento da tempestade iminente, anunciada de véspera, ocorresse uma disputa por causa do feitio do toldo para <garden-party>.”

Assim como a Avenida Central marcou o apogeu do ecletismo, também o pseudo-colonial teve a sua festa na exposição comemorativa do centenário da Independência, prestigiado como foi pelo prefeito Carlos Sampaio, o arrasador da primeira das quatro colinas — Castelo, S. Bento, Conceição, Santo Antônio — que balisavam o primitivo quadrilátero urbano, arrasamento aliás necessário e já preconizado desde 1794, segundo apurou o arquiteto Edgard Jacinto, por D. José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho, Bispo que foi de Pernambuco e Elvas e Inquisidor-Geral —, apenas não se levou na devida conta a criteriosa recomendação para que se orientassem as ruas no sentido da viração da barra.”

Adolfo Morales de los Ríos Filho, o incansável paladino da regulamentação profissional. Conquanto se possa discordar, com fundamento, da justiça dessa delimitação entre arquitetos de verdade e de mentira, quando a proficiência pode estar na ordem inversa — os franceses, por exemplo, ficariam privados dos seus dois arquitetos mais representativos, embora de tendências opostas, Le Corbusier e Auguste Perret —, do ponto de vista restrito dos interesses de classe, justificava-se então a medida. É que, na época, ainda persistia na opinião leiga certa tendência no sentido de considerar o engenheiro civil uma espécie de faz-tudo, cabendo-lhe responder por todos os setores das atividades liberais que se não enquadrassem na alçada do médico ou do advogado. Além de teórico do cálculo e da mecânica e especialista de estruturas, hidráulica, eletrotécnica e viação, presumiam-no ainda — ao fim do currículo de 5 anos — químico, físico, economista, administrador, sanitarista, astrônomo e arquiteto.” “a burrice especializada a que pode eventualmente conduzir a fragmentação cada vez maior dos vários setores do conhecimento profissional”

Conquanto seja de fato, e cada vez mais, ciência, a arquitetura se distingue contudo, fundamentalmente, das demais atividades politécnicas, porque, durante a elaboração do projeto e no próprio transcurso da obra, envolve a participação constante do sentimento no exercício continuado de escolher entre duas ou mais soluções, de partido geral ou pormenor, igualmente válidas do ponto de vista funcional das diferentes técnicas interessadas — mas cujo teor plástico varia —, aquela que melhor se ajuste à intenção original visada.”

A PLANTA DE UMA CIDADE DESARBORIZADA

o edifício de A Noite pode ser considerado o marco que delimita a fase experimental das estruturas adaptadas a uma <arquitetura> avulsa, da fase arquitetônica de elaboração consciente de projetos já integrados à estrutura e que teria, depois, como símbolo definitivo, o edifício do Ministério da Educação e Saúde.”

EIS O ÔMI: “o poeta, engenheiro, artista e olindense Joaquim Cardoso, que há cerca de 20 anos, a princípio com Luís Nunes, agora com Oscar Niemeyer e José Reis, vem dando a colaboração de seu lúcido engenho às realizações modernas da arquitetura brasileira, devedora, ainda, a 2 engenheiros, além dos que, na Faculdade, contribuem decisivamente para a formação do arquiteto: Carmen Portinho, traço vivo de união, desde menina, entre Belas-Artes e Politécnica, e Paulo Sá, dedicado desde a primeira hora ao problema arquitetônico fundamental da orientação e insolação adequada dos edifícios.”

o primeiro rebelado modernista da Escola, já em 1919, na aula de pequenas composições de arquitetura, foi Atílio Masieri Alves, filho do erudito Constâncio Alves, ex-aluno da Politécnica, entusiasta da cenografia de Bakst e da mímica de Chaplin — mentalidade privilegiada que a boêmia perdeu”

METARGAMASSA: “o primeiro edifício construído sôbre pilotis tem 20 anos, pois data de 1931 e foi projetado por Stelio Alves de Souza“os pilotis, cuja ordenação arquitetônica decorre do fato de os edifícios não se fundarem mais sôbre um perímetro maciço de paredes, mas sôbre os pilares de uma estrutura autônoma”

Construído na mesma época, com os mesmos materiais e para o mesmo fim utilitário, avulta no entanto, o edifício do ministério em meio à espessa vulgaridade da edificação circunvizinha, como algo que ali pousasse serenamente, apenas para o comovido enlevo do transeunte despreocupado, e, vez por outra, surpreso à vista de tão sublimada manifestação de pureza formal e domínio da vazão sôbre a inércia da matéria.

É belo, pois. E não apenas belo, mas simbólico, porquanto a sua construção só foi possível na medida em que desrespeitou tanto a legislação municipal vigente, quanto a ética profissional e até mesmo as regras mais comezinhas do saber-viver e da normal conduta interesseira.” HAHAHA!

A personalidade de Oscar Niemeyer Soares Filho, arquiteto de formação e mentalidade genuinamente cariocas — conquanto, já agora, internacionalmente consagrado — soube estar presente na ocasião oportuna e desempenhar integralmente o papel que as circunstâncias propícias lhe reservavam e que avultou, a seguir, com as obras longínquas da Pampulha. Desse momento em diante o rumo diferente se impôs e nova era estava assegurada.

Assim como Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, em circunstâncias muito semelhantes, nas Minas Gerais do século XVIII, êle é a chave do enigma que intriga a quantos se detêm na admiração dessa obra esplêndida e numerosa devida a tantos arquitetos diferentes, desde o impecável veterano Afonso Eduardo Reidy e dos admiráveis irmãos Roberto, de sangue sempre renovado, ao atuante arquiteto Mindlin, transferido para aqui de São Paulo e às surpreendentes realizações de todos os demais, tanto da velha guarda, quanto da nova geração e até dos últimos conscritos.”

CONSIDERAÇÕES SÔBRE ARTE CONTEMPORÂNEA

Dando “continuidade” ao que acabo de ler em Dorfles, Lúcio Costa paga pau ao sepultado Bauhaus!

Pode-se então definir a arquitetura como construção concebida com a intenção de ordenar plasticamente o espaço, em função de uma determinada época, de um determinado meio, de uma determinada técnica e de um determinado programa.”

As técnicas construtivas contemporâneas — caracterizadas pela independência das ossaturas em relação às paredes e pelos pisos balanceados, resultando daí a autonomia interna das plantas, de caráter <funcional-fisiológico>, e a autonomia relativa das fachadas, de natureza <plástico-funcional>, — tornaram possível, pela primeira vez na história da arquitetura, a perfeita fusão daqueles dois conceitos dantes justamente considerados irreconciliáveis [na essência, seguindo Costa, a arquitetura gótica e a arquitetura clássica], porque contraditórios: a obra, encarada desde o início como um organismo vivo, é, de fato, concebida no todo e realizada no pormenor de modo estritamente funcional, quer dizer, em obediência escrupulosa às exigências do cálculo, da técnica, do meio e do programa, mas visando sempre igualmente a alcançar um apuro plástico ideal, graças à unidade orgânica que a autonomia estrutural faculta e à relativa liberdade no planejar e compor que ela enseja. É na fusão desses dois conceitos, quando o jogo das formas livremente delineadas ou geomètricamente definidas se processa espontânea ou intencionalmente, ora derramadas, ora contidas, que se escondem a sedução e as possibilidades virtuais ilimitadas da arquitetura moderna.

AS 8 GRANDES ARQUITETURAS PRÉ-CONTEMPORÂNEAS DE LÚCIO COSTA

arte mediterrânea (egípcio-greco-etrusco-romano-bizantina): de contensão, de geometria maximamente euclidiana, atemporal

arte gótica: expansional, vertical, pela primeira vez uma arte européia ou histórica, do devir

arte barroca: no equilíbrio sinuoso das tendências acima

arte hindu: autorreferente, autossuficiente; embora dinâmica, consegue ser o contrário da gótica. A arte khmer pode ser catalogada logo ao lado (origem indo-chinesa).

arte eslava: espiral, ansiosa, ideal

arte árabe: tendente ao mosaico, à compartimentalização em pequenos universos por si mesmos dotados de sentido

arte iraniana: ramificada, expansiva como a pétala duma flor

arte sino-japonesa: vertical porém mais gradual e menos direta que a gótica; costuma terminar em pontas, edificações de topo agudo. “telhados escalonados dos pagodes”

* * *

GENEALOGIA DA SÍNTESE MODERNA

Arte mesopotâmica (eixo mesopotamo-mediterrâneo): protoarte estática

Arte assíria (eixo nórdico-oriental): protoarte dinâmica

* * *

CASOS HISTÓRICOS PONTUAIS

Arte helenística: “barroco antigo”; o drama do começo da luta da arte dinâmica contra a arte estática ou clássica.

Arte bizantina: sob influência eslava e italiana, vê-se como seu exemplo capital a Igreja do Bem-Aventurado Basílio (Catedral de São Basílio), em Moscou:

Saint_Basils_Cathedral
É como nenhum outro edifício russo. Nada semelhante pode ser encontrado no milênio inteiro da tradição bizantina, do século V ao XV.” Shvidkovsky

Arte veneziana: verdadeiro caleidoscópio de influências de quase todas as correntes arquitetônicas ao seu redor.

Artes árabe-iraniano-peninsulares: decorrentes das invasões muçulmanas no ocidente europeu, no Irã, no Paquistão, na Síria, no norte da África.

Arte ultra-barroca: Portugal sob D. Manoel. Na verdade o nome é um anacronismo, visto que foi anterior ao próprio barroco e à vida de Michelangelo. O entrechoque precoce e extremado das estéticas românica (estática, clássica) e oriental (dinâmica).

Assim, portanto, a constância do ciclo <clássico-barroco> ou <clássico-romântico>, observada pela acuidade intelectual do Sr. Eugênio D’Ors, teria outro fundamento, e significação ainda mais profunda, porquanto já não se trataria apenas, em essência, dos tempos sucessivos de um pêndulo, mas, principalmente, da ocorrência simultânea de duas correntes bem-definidas de conceitos plásticos antagônicos e dos seus contatos e trocas, senão mesmo da sua eventual fusão.”

Arte Renascentista e Nacionalismos: correção de rota da <arte dinâmica exacerbada>: “Conquanto na Itália essa legítima recuperação dos direitos de cidadania ocorresse com espontâneo desembaraço desde as primeiras revelações, seguidas da plenitude do Quattrocento, até a eloqüência da alta-renascença, na Europa do norte a nova concepção formal provocou, de início, perplexidades, adquirindo gradações bem-definidas segundo o caráter nacional dos diferentes povos afetados pela febre renovadora.”

Arte germânico-eslava pós-Renascença: gótico “monolítico”, quase ao ponto do kitsch avant la lettre. Proto-barroco.

Arte neo-anglo-saxônica: fusão do estilo inglês com o neoclassicismo. Infunde-se também no Novo Mundo (assim como o barroco influenciaria muitos pontos coloniais latinos).

Arte francesa: possui uma evolução toda particular difícil de resumir.

Artes pré-colombianas: Arte azteca x Arte inca, reprodução em microescala da dualidade-antagonismo dinamismo x estática. Arte maia, no olho do furacão: considerada híbrida. Obviamente arquiteturas como a mexicana e a peruana são altamente tributárias desta ascendência civilizacional.

Lúcio Costa estende sua teoria da dualidade hegemônica ou “yin-yang plástico” à cerâmica oposta de grupos de tribos e etnias indígenas brasileiras (Marajó x Santarém).

* * *

WELCOME TO POST-MODERNITY! “informação no tempo — as obras criadas na mais remota idade são-nos familiares nos seus mínimos pormenores; informação no espaço — as realizações de maior significação, elaboradas onde quer que seja, vêm-nos ao alcance quase instantaneamente através da publicação nos periódicos especializados, com abundância de texto elucidativo e de reproduções fidelíssimas, ou diretamente, por meio das exposições individuais ou coletivas, dos cursos de conferências e da literatura especializada.

Esse acúmulo de conhecimentos faz com que o artista moderno viva, a bem dizer, saturado de impressões provenientes de procedências as mais imprevistas, o que o impede de conduzir o seu aprendizado e formação no sentido único e com a candura desprevenida dos antigos, pois, queira-o ou não, êle se há de revelar precocemente erudito.”

ESTILO OU EX-TILO?

Ora, não é, de modo algum, de monstros que se trata, e nada há de caótico nem de artìsticamente feio ou doentio nessas criações picassianas concebidas e ordenadas segundo os imperativos de uma consciência plástica excepcionalmente sã e lúcida, e das quais se desprende, graças à pureza da côr e do desenho, uma euforia travessa, ou se expande um otimismo heróico contagioso, quando não é o caso de se conterem, pelo contrário, no mais sereno equilíbrio. (…)

Semelhante equívoco sobreveio também a propósito da pseudo-querela entre partidários da arte <figurativa> e da arte <não-figurativa>, distinção destituída de sentido do ponto de vista plástico, mas retomada por ocasião da exposição da obra significativa de PORTINARI, em Paris, e ùltimamente avivada.” Confesso que Costa era um homem à frente de sua década.

os símbolos, tal como os mitos na antiguidade, já perderam, em parte, a força sugestiva e a sua condição de estimuladores das artes plásticas”

a arte pela arte como função social, nova conceituação capaz de desfazer o pseudo-dilema que preocupa a tantos críticos e artistas contemporâneos, ou seja, o da gratuidade ou militância da obra de arte.”

A presunção de ser a arte pela arte antítese de arte social é tão destituída de sentido como a antinomia arte figurativa—arte abstrata, não passando, em verdade, de uma deformação teórica inexplicavelmente aceita pela crítica de arte, a título de tabu, assim como se fosse, por exemplo, ato condenável a prática do bem só por bondade.”

Precisamente esse poder de invenção desinteressada e de livre expansão criadora, que tanto se lhes recrimina, é que poderá vir a desempenhar, dentro em breve, uma função social de alcance decisivo, passando a constituir, de modo imprevisto, o fundamento mesmo de uma arte vigorosa e pura, de sentido otimista, digna portanto de um proletariado cada vez mais senhor do seu destino.”

Mas como é preciso semear para colher, caberia mobilizar os velhos mestres, criadores geniais da arte do nosso tempo, a fim de que dedicassem o resto de suas vidas preciosas à tarefa benemérita de plantar no meio agreste dos centros industriais e agrícolas as sementes de uma tal renovação.”

tese — a arte moderna é considerada por certa crítica, de lastro conservador, como arte revolucionária, patrocinada pelo comunismo agnóstico no intuito de desmoralizar e solapar os fundamentos da sociedade burguesa; antítese — a arte moderna é considerada por determinada crítica, de lastro popular, como arte reacionária, patrocinada pela plutocracia capitalista com propósitos diversionistas a fim de afastar os intelectuais da causa do povo; síntese — a arte moderna deve ser considerada como o complemento lógico da industrialização contemporânea, pois resultou das mesmas causas, e tem por função, do ponto de vista restrito da aplicação social, dar vazão natural aos anseios legítimos de livre escolha e fantasia individual ou coletiva da massa proletária, oprimida pela rudeza e monotonia do trabalho mecanizado imposto pelas técnicas modernas de produção.”

Industrialização capaz de transferir o imemorial anseio de justiça social do plano utópico para o plano das realidades inelutáveis.”

DOZE JOVENS POETAS PORTUGUÊSES – Alfredo Margarido & Carlos Eurico da Costa

O poeta maneja o chicote de 72 pontas, de 72 línguas. É o senhor das palavras e, no silêncio, valoriza-as e recria-as. Doloroso e trágico esforço de transportar o vaso sagrado para a forma do Verbo, traído a cada instante pela instabilidade de cada vocábulo.”

Resulta de tudo isto que o sentido de superfície, o sentido usual, tem muito pouca importância e pode mesmo não existir. O que importa é o sentido da profundidade, a descida, de escafandro ou nu, mantendo uma vaga ligação de tubo de oxigênio com o mundo ou fazendo dos pulmões guelras, às regiões abissais, onde vivem os peixes cegos e as vegetações são estranhas flores fosforescentes.” HAHAHA

POEMA DO CERCADINHO DO PALÁCIO DO PLANALTO

o cerrado está errado em hipocampo aberto

cheio de abetos

retorcidos

rescindidos

redivivos

divididos

subversivos

versos sub

servientres

inchados

de enxadas de

candangos

dançando o

tango

do centro

trocando bugalhos

por alhos

A procura do amor é a procura de um absoluto. Diferentes dos seus antecessores na poesia portuguesa, estes poetas procuram com o sexo, com o plexo solar [???], com o grande simpático. Poder-se-á dizer que a função se degrada, mas a verdade é que o amor é um ato válido por si, independente do sentimento.”

O que finca os poetas afundam

FORMA E EXPRESSÃO DO SONETO – Paulo Mendes Campos

Depois do modernismo, inimigo do soneto, foi VINÍCIUS DE MORAIS que começou a criar gosto pelo soneto de forma regular. Os novos o seguiram, e muitos poetas e não-poetas protestaram contra o retorno a esse velho hábito de nossa lírica; a geração do soneto, sem procedência, passou a ser um apelido irônico, talvez no propósito mais ou menos válido de mostrar que é ocupação ociosa compor sonetos certos em um tempo errado. Sabem no entanto os poetas, ou se não sabem adivinham, que os tempos nunca foram certos, e que o primeiro dever a lhes pesar é para com a linguagem. A reação irritada contra o soneto vinha apenas mostrar que este voltava a ter um papel em nossa poesia atual. É possível que amanhã nos cansemos de novo do soneto.”

O PREGO & E A BOSSA

LUGARES-COMUNS – Fernando Sabino

Não houvesse o Eclesiastes afirmado que nada há de novo debaixo do sol e os lugares-comuns se encarregariam de prová-lo. Que restará da verdade para quem a repete, senão talvez a presunção de sua originalidade?”

Ora, se as idéias se impõem pela repetição, porque ao homem é mais cômodo adotá-las que produzi-las, nada melhor que repetir o que pretendemos impor-lhe. É o recurso característico da propaganda de ideologias totalitárias. O que se dá com as idéias, dá-se também com a publicidade de produtos comerciais e a dos próprios homens. É possível impor um homem aos demais pela simples repetição — o que se pode verificar por ocasião das campanhas eleitorais.”

uma sapataria do Rio de Janeiro tentou certa vez vencer o lugar-comum pelo oposto, afirmando ser a menor e a que mais caro vendia — mas o público, habituado aos métodos tradicionais de propaganda, que o dispensam de pensar por conta própria, mansamente acreditou no que se afirmava, passando a buscar outra sapataria.”

Experimente alguém escapar ao repertório de idéias feitas já estabelecido para as diferentes situações da vida em comum; experimente elidir os gestos convencionais, lugares-comuns da convivência: os de surpresa, de alegria, de interesse ou comiseração — o sorriso de modéstia, de gentileza, de agradecimento; experimente, enfim, reagir segundo sua genuína solicitação interior — e será tido por louco, afastado como indesejável.”

O homem é um animal racional, embora não pareça. Não há criança que, ao aprender essa verdade na escola, não se tenha rido.”

À medida que o discurso laudatório se tornava em mera técnica de louvor, a Retórica, observa Curtius, vinha perdendo a sua aplicação e tornava-se o cabedal das formas da literatura em geral. Esta passou a impor-se como algo fixo, preestabelecido e estratificado em modos de dizer que era de bom gosto repetir. <Por este tempo>, escreve Rodrigues Lapa, <em que os poetas mendigavam com sonetos as migalhas que caíam das mesas dos fidalgos e dos conventos abastados, julgava-se que a língua era uma construção mais ou menos fixada pelo bom uso. Para se escrever bem, nada mais era necessário que seguir à risca o exemplo dos antigos, escolhendo no espólio das formas herdadas o que mais conviesse a cada um>. E o mesmo filólogo dá notícia do Dicionário Poético para Uso dos que Principiam a Exercitar-se na Poesia Portuguesa Obra Igualmente Útil ao Orador Principiante, de autoria de Cândido Lusitano, publicado em Lisboa ao tempo do Marquês de Pombal, em 1765. Obras deste gênero, repositórios sistematizados de lugares-comuns, seriam hoje consultadas por um escritor apenas para saber como NÃO se deve escrever.”

Nenhum homem rico terá amigos que não sejam numerosos. Todas as firmas da praça comercial serão sempre respeitáveis.”

Num país como a França, cuja literatura, supercivilizada, chegou à saturação, é natural que a inteligência se limite a comprazer-se em jogos sutis: não há mais originalidade alguma na tão preconizada originalidade de estilo; negá-la é que é ser original. Pois se os olhos forem mesmo deslumbrantes, as pedras, preciosas, os dedos, delicados, que estas palavras sejam ditas, escritas com todas as letras, para que se imponham pela verossimilhança do que exprimem, como meio de transmissão de uma idéia e não como fim em si mesmas. Porque é preciso distinguir, menos com a inteligência que pela sensibilidade: a lua pálida, o céu estrelado, o lago tranqüilo não são lugares-comuns senão para os que apenas verificam a tranqüilidade do lago, o brilho das estrelas no céu e a palidez da lua. Têm o direito de verificar, é inegável; mas ao leitor cabe também o direito de esperar que tirem desta verificação algum proveito.”

DICIONÁRIO DE IDÉIAS FEITAS, de Gustavo Flaubert

Tu me falas da estupidez geral, meu caro amigo, escrevia Flaubert, pouco antes de morrer, a Raoul Duval, ah! eu a conheço, eu a estudo. Eis aí o inimigo, não há mesmo outro inimigo. Obcecado em combater este inimigo, esperava ainda denunciá-lo com uma obra gigantesca que receberia o título de Enciclopédia da Estupidez Humana.”

Depois que morreu, contudo, encontraram entre os seus papéis um caderno de apenas quarenta páginas, com o título de Dictionnaire des Idées Reçues. Era tudo que chegara a realizar do projeto formulado durante tantos anos, mas já o suficiente para fazer de Flaubert o precursor de James Joyce, na opinião de Ezra Pound (…) A 1° edição foi lançada somente em 1911, como apêndice de Bouvard et Pécuchet; o texto continha 674 verbetes, redigidos sem preocupação de forma e mesmo de ortografia, classificados mais ou menos em ordem alfabética.

ACADEMIA FRANCESA — Atacá-la, mas procurar fazer parte dela, se possível.

AFRESCOS — Não se fazem mais hoje em dia.

AGRICULTURA — Um dos úberes do Estado (o Estado é do gênero masculino, mas isso não tem importância). Deveria ser encorajada. Falta de braços.

ALABASTRO — Serve para descrever as mais belas partes do corpo feminino. Racistas miseráveis!

ALEMANHA — Sempre precedida de loura, sonhadora. Mas que organização militar!

ALFÂNDEGA — Revoltar contra e fraudá-la.

ALGARAVIA — Maneira de falar comum aos estrangeiros. Rir sempre do estrangeiro que fala mal francês.

ALIMENTAÇÃO — Sempre sadia e abundante nos colégios.

AMBICIOSO — Na província, todo homem que faz falarem de si. Dizer sempre “Não sou ambicioso!”. Egoísta ou incapaz.

AMÉRICA — Belo exemplo de injustiça: foi Colombo quem a descobriu, e seu nome vem de Américo Vespúcio. Sem a descoberta da América, não teríamos a sífilis e a filoxera. Exaltá-la, apesar disso, sobretudo quando lá não se esteve. Fazer um comentário sôbre o “self-government”.

ANDORINHAS — Chamá-las sempre de mensageiras da primavera. Como se ignora de onde vêm, dizer que vêm de longínquas regiões (poético).

ANTICRISTO — Voltaire.

ANTIGUIDADES (AS) — São sempre de fabricação moderna.

APARTAMENTO (De rapaz) — Sempre em desordem; com lembranças de mulher aqui e ali. — Cheiro de cigarro. Devem-se encontrar nele coisas extraordinárias.

AQUILES — Acrescentar “de pés ligeiros”; isso fará crer que se leu Homero.

ARQUIMEDES — Dizer ao ouvir seu nome: “Eureka!” — “Dêem-me um ponto e erguerei o mundo.” — Há ainda a máquina de Arquimedes, mas ninguém sabe do que se trata.

ARQUITETOS — São todos imbecis. — Esquecem sempre a escada das casas.

ARQUITETURA — Não há senão 4 espécies de arquitetura. Bem entendido que não se contando a egípcia, a ciclópica, a assíria, a hindu, a chinesa, gótica, romana, etc.

ARTE — Leva sempre ao hospital. Inútil, pois pode ser substituída pelas máquinas, que fabricam melhor e com mais rapidez.

ARTISTAS — Todos farsantes. Louvar seu desinteresse (antigo). Espantar-se de que se vistam como todo mundo (antigo). Ganham um dinheirão mas atiram-no pela janela. Sempre convidados a jantar na cidade. — Mulheres artistas não podem ser senão devassas. — O que eles fazem não se pode chamar de trabalhar.

ASTRONOMIA — Bela ciência. Não é útil senão para a Marinha. A propósito, rir-se da astrologia.

ATRIZES — A perdição dos filhos de família. São de uma lubricidade espantosa, entregam-se a orgias, gastam milhões, terminam no hospital. Perdão! há muitas que são boas mães de família!

AUTOR — Deve-se “conhecer os autores”. Inútil saber seus nomes.

BACHARELADO — Clamar contra.

BALÕES — Com os balões, acabaremos por ir à lua. Ainda não está próximo o dia em que os poderemos dirigir.

BANQUEIROS — Todos ricos. Árabes, linces.

BANQUETE — Um engraçado deve dizer: “No banquete da vida, conviva infortunado…”
BARBA — Sinal de força. Muita barba faz cair os cabelos. Útil para proteger as gravatas.

BASES DA SOCIEDADE — A propriedade, a família, a religião, o respeito às autoridades. Falar com cólera se são atacadas.

BASÍLICA — Sinônimo pomposo de igreja. — Sempre imponente.

BENGALA —- Mais temível que a espada.

BESOURO —- Filho da primavera. Belo assunto para um opúsculo. Sua destruição radical é o sonho de todo prefeito: quando se fala de seus danos num discurso de comício agrícola, deve-se tratá-lo por “coleópteros funestos”.

BIGODES — Dão um ar marcial.

BUDISMO — “Falsa religião da Índia” (definição do Dicionário Bouillet, 1ª edição).

CAÇA — Excelente exercício que se deve fingir que se adora. Faz parte da pompa dos soberanos. Assunto de delírio para a magistratura.

CADAFALSO — Preparar-se quando subir, para pronunciar algumas palavras eloqüentes antes de morrer.

CAFÉ — Não é bom a não ser vindo do Havre. — Num grande jantar, deve-se tomar de pé. Tomá-lo sem açúcar, muito elegante, dá o ar de haver vivido no Oriente.

CALDO (O) — É saudável. Inseparável da palavra sopa: a sopa e o caldo.

CALIGRAFIA — Uma bela caligrafia conduz a tudo. Indecifrável: prova de ciência. Ex.: receitas de médicos.

CALO (NOS PÉS) — Indica mudanças do tempo melhor que os barômetros. Muito perigoso quando mal-cortado; citar exemplos de acidentes terríveis.

CALOR — Sempre insuportável. Não beber quando faz calor.

CALVÍCIE — Sempre precoce, causada por excesso de mocidade ou pela concepção de grandes pensamentos.

CAMARILHA — Indignar-se ao pronunciar esta palavra. (Verbete atualizado para GABINETE DO ÓDIO em janeiro de 2019.)

CANHOTOS — Terríveis na esgrima. — Mais hábeis do que os que se servem da mão direita.

CÃO — Especialmente criado para salvar a vida de seu dono.

CARROS — Mais cômodo alugá-los que possuí-los: desta maneira não se tem aborrecimento com empregados, nem cavalos que estão sempre doentes.

CARNICEIROS — São terríveis, em época de revolução.

CARRASCO — Passa sempre de pais a filhos.

CATAPLASMA — Deve-se sempre aplicar enquanto se aguarda a chegada do médico.

CAVALARIA — Mais nobre que a infantaria.

CAVALHEIROS – Não há mais.

CAVALO — Se conhecesse sua força, não se deixaria conduzir. Carne de cavalo.

CAVERNAS — Habitação comum aos ladrões. — São sempre cheias de serpentes.

CELIBATÁRIOS — Egoístas e libertinos. Deviam ser obrigados a casar. Preparam-se uma triste velhice.

CHAMPANHE™ — Caracteriza o jantar de cerimônia. — Fazer ar de detestá-lo, dizendo: “Não é um vinho”. — Na Rússia se consome mais que na França. Através dêle é que as idéias francesas se espalharam pela Europa. Não se bebe: “vira-se”.

CHAPÉU — Protestar contra a forma dos chapéus.

CHATEAUBRIAND — Conhecido sobretudo pelo “beefsteak” que tem o seu nome.

CIÊNCIA — Um pouco de ciência afasta a religião e muita ciência a restabelece.

CÍRCULO — Deve-se sempre fazer parte de um círculo.

CIRURGIÕES — Têm o coração duro: chamá-los de carniceiros.

CISNE — Canta antes de morrer. Com sua asa pode quebrar a coxa de um homem. O cisne de Cambral não era uma ave, mas um homem chamado Fénelon. O de Mântua é Virgílio. O cisne de Pesaro é Rossini.

CLARO-ESCURO – Não se sabe o que é.

COELHO — Sempre substituído por gato nos restaurantes.

COGNAC — Muito funesto. Excelente contra várias doenças. Um bom cálice de cognac não faz mal a ninguém.

COGUMELOS — Não devem ser comprados senão no mercado.

COITO, CÓPULA — Palavras a evitar. Dizer: “Eles tinham relações…”

COLCHÃO — Quanto mais duro, mais higiênico.

CÓLERA — Agita o sangue; higiênico deixar-se possuir por ela de quando em quando.

COLÔNIAS (Nossas. Alerta ao brasileiro do século XXI: não se está falando de perfume barato.) — Entristecer-se quando falar nelas.

COMÉDIA — Em verso, não convém mais à nossa época. Deve-se, contudo, respeitar a alta comédia. Castigai ridendo mores.

COMÉRCIO — Discutir para saber qual é mais nobre: o comércio ou a indústria.

CONCUPISCÊNCIA — Palavra de vigário para exprimir desejos carnais.

CONFORTÁVEL — Preciosa descoberta moderna.

CONJURADOS — Os conjurados têm sempre a mania de se inscrever numa lista. (Ou de fazerem um grupo no zapzap.)

CONTRALTO — Não se sabe o que é.

CONVERSAÇÃO — A política e a religião devem ser excluídas.

CORCUNDAS — Têm muito espírito. São muito disputados pelas mulheres lascivas.

CORRETORES — Todos ladrões. (Roubaram as palavras da minha boca – no Android.)

COSTAS — Um tapa nas costas pode fazer um tuberculoso.

CRIADAS — Todas más. Não há mais domésticas!

CRIANÇAS — Simular uma ternura lírica por elas, quando tiver gente perto.

CRÍTICO — Sempre eminente. Presume-se que tudo conheça, tudo saiba, tudo leu, tudo viu. Quando lhe causar desagrado, chamá-lo de Aristarco, ou eunuco.

CRUZADAS — Foram benéficas apenas para o comércio de Veneza.

CÚPULA — Espantar-se que se sustentem por si mesmas. Citar duas: a dos Inválidos e a de São Pedro de Roma. (Cúpula das Américas debatendo o capitalismo sustentável.)


DAGUERREÓTIPO — Substituirá a pintura.

DANÇARINA — Palavra que arrebata a imaginação. Tôdas as mulheres do Oriente são dançarinas.

DARWIN — Aquele que diz que descendemos do macaco.

DÉCOR” (de Teatro) — Não é pintura: basta lançar sôbre a tela côres à solta; depois espalha-se com uma escova, e a distância, com a luz, produz a ilusão.”

DEICIDA — Indignar-se contra, ainda que o crime não seja freqüente.

DENTADURA — Terceira dentição. Tirá-la ao dormir.

DENTISTAS — Todos mentirosos. Crê-se que são também pedicuros. Dizem-se cirurgiões como os agrônomos se dizem engenheiros.

DEPUTADO — Ser é o máximo da glória. Clamar contra a Câmara dos Deputados. Muitos tagarelas na Câmara. Não fazem nada. (Feijoada.)

DESERTO – Produz tâmaras.

DEUS O próprio Voltaire disse: “Se Deus não existisse, seria preciso que o inventássemos.”

DEVERES — Exigi-los dos outros, sem contemplações. Os outros os tem para conosco, mas nós não os temos para com eles.

DEVOTAMENTO – Queixar-se dos que não o têm. “Somos bem inferiores aos cães, neste particular!”

DICIONÁRIO (Metalinguagem) — Dizer: “Não existe senão para os ignorantes!”. Dicionário de rimas: consultá-lo? Vergonhoso!

DIDEROT — Seguido sempre de D’Alembert. (Podemos incluir outro quase acima deste verbete, logo abaixo de DEICIDA: DELEUZE — Seguido sempre de Guattari.)

DILIGÊNCIA — Ter saudades do tempo das diligências.

DIÓGENES (Aquele que não é o Laércio.) — “Procuro um homem… Não me tire o sol.”

DIPLOMA — Sinal de ciência. Não prova nada.

DIPLOMACIA — Bela carreira, mas cheia de dificuldades e mistérios. Não convém senão aos nobres. Profissão de significação vaga, mas acima do comércio. Um diplomata é sempre fino e penetrante. (O concurso que seu pai sonha que você passe.)

DIREITO (O) — Não se sabe o que é.

DISSECAÇÃO —- Ultraje à majestade da morte.

DIVA — Tôdas as cantoras devem ser chamadas de Diva.

DIVÓRCIO — Se Napoleão não se tivesse divorciado, ainda ocuparia o trono.

DOENÇA NERVOSA — Sempre caretas.

DOMICÍLIO — Sempre inviolável. Entretanto, a Justiça, a Polícia, penetram nele quando querem.

DONZELAS — Pronunciar esta palavra timidamente. Tôdas as donzelas são pálidas e frágeis, sempre puras. Evitar para elas toda espécie de livros, visitas a museus, teatros e sobretudo o Jardim Zoológico, lado dos macacos.

DORMIR — Dormir demais faz engrossar o sangue.

DORMITÓRIOS — Sempre espaçosos e bem arejados. Preferíveis aos quartos, para moralidade dos alunos.

DOUTRINÁRIOS — Desprezá-los. Por quê? Não se sabe.

DURO — Acrescentar invariavelmente: como ferro. Há também “duro como pedra”, mas é menos enérgico.

ÉCHARPE” — Poético.

ECLETISMO — Combatê-lo, como sendo uma filosofia imoral.

EDIL — Protestar, a propósito do calçamento das ruas: “que fazem nossos edis?”

ELEFANTES — Distinguem-se por sua memória e adoram o sol.

EMBRIAGUÊS — Sempre precedida de louca.

EMIGRANTES — Ganham a vida dando lições de violão e fazendo salada.

EMPRESÁRIO — Invariavelmente seguido por articulado, não importa de que ramo. (Reformulei completamente o verbete de Flaubert.)

ENCICLOPÉDIA — Rir de comiseração, como sendo uma obra rococó, e até ser contra.

ENTERRAMENTO — A propósito do defunto: “E dizer que jantei com êle há 8 dias!” Chama-se exéquias quando se trata de um general, enterro quando se trata de um filósofo.

ENTREATO — Sempre muito longo.

ENTUSIASMO — Só pode ser provocado pelo retorno das cinzas do Imperador. Sempre impossível de descrever, e, em duas colunas, o jornal não fala de outra coisa.

EPICURO — Desprezá-lo.

ÉPOCA (A nossa) — Atacá-la. Queixar-se de que não é poética. Chamá-la época de transição, de decadência.

EQUITAÇÃO — Bom exercício para emagrecer. Ex.: todos os soldados da cavalaria são magros. Bom exercício para engordar. Ex.: todos os oficiais da cavalaria são barrigudos.

EREÇÃO — Não se diz senão a propósito de monumentos.

ERRO — “É pior que um crime, é um erro” (Talleyrand). “Não há mais um só erro a cometer” (Thiers). Estas duas frases devem ser pronunciadas com profundeza.

ESBIRRO — Usado pelos republicanos mais ardorosos para designar os agentes da polícia. (O atual pé-de-botas, gambé, recruta, bedel, porco…)

ESCRITO BEM ESCRITO — Palavras de porteiros, para designar romances-folhetins que lhes agradam.

ESPADA — Só se conhece a de Dâmocles. Suspirar pelo tempo em que eram usadas.

ESPINAFRE — É a vassoura do estômago. Nunca deixar de acertar a célebre frase de Prudhomme: “Eu não gosto, e me sinto à vontade, pois se gostasse, comê-lo-ia, e não poderia suportá-lo.” (Há quem ache isto perfeitamente lógico e que não se ri.)

ESPIRITUALISMO — O melhor sistema filosófico.

ESPIRRAR — É uma troça espirituosa dizer: o russo e o polonês não se falam, espirram.

ESPIRRO — Depois de dizer “Deus te ajude”, iniciar uma discussão sôbre a origem deste costume.

ESTOICISMO — É impossível.

ESTRADAS DE FERRO — Se Napoleão as tivesse à sua disposição, teria sido invencível. Extasiar-se com a invenção e dizer: “Eu, que o senhor vê, estava esta manhã em X; saí de trem de X; fiz meus negócios, etc, e a tantas horas estava de volta!”

ESTRANGEIRO — Entusiasmo por tudo que vem do estrangeiro, prova de espírito liberal. Descrédito de tudo que não seja francês, prova de patriotismo.

ETIMOLOGIA — Nada mais fácil de saber, com latim e um pouco de reflexão.

ETRUSCO — Todos os vasos antigos são etruscos.

EUNUCO — Nunca tem filhos. Indignar-se contra os castrados da Capela Sixtina.

EVACUAÇÕES — Sempre copiosas e de aspecto mau.

EVIDÊNCIA — Cega-nos, quando não entra pelos olhos.

EXCEÇÃO — Diga que confirmam a regra. Não se arrisque a dizer como.

EXPIRAR — Não se conjuga senão a propósito de assinatura de jornais.

EXTIRPAR — Este verbo só é usado com relação às heresias e aos calos dos pés.

FATALIDADE — Palavra exclusivamente romântica. Homem fatal é aquele que tem mau olhar.

FECHADO — Sempre precedido de herméticamente.

FÊMEA — Não se emprega senão quando se trata de animais. Ao contrário do que acontece na espécie humana, as fêmeas dos animais são menos belas que os machos. Ex.: faisão, galo, leão, etc.

FETO — Toda peça anatômica conservada em álcool.

FEUDALISMO — Não ter nenhuma idéia precisa, mas ser contra.

FLAGRANTE DELITO — Não se emprega senão nos casos de adultério.

FLEUMA — Boa qualidade, além do que empresta um ar inglês. Sempre seguida de imperturbável.

FORÇA — Sempre hercúlea.

FORMIGA — Belo exemplo a citar-se diante de um dissipador.

FÓSSEIS — Prova do dilúvio. Brincadeira de bom gosto, referindo-se a um acadêmico.

FOUCAULT – Ame-o ou vilipendie-o. (Acrescido por mim.)

FRANCO-MAÇONARIA – Ainda uma das causas da Revolução! As provas de iniciação são terríveis. Mal vista pelo clero. Qual poderá ser o seu segredo?

FRAUDAR — Fraudar o fisco não é ludibriar, é uma prova de espírito e independência política.

FULMINAR – Bonito verbo. Sempre precedido de “infarto” quando em sua forma adjetivada “fulminante”.

FUZIL — Ter sempre um na casa de campo.

FUZILAR — Mais nobre que guilhotinar. Alegria do condenado a quem concedem este favor.

GARANHÃO — Sempre vigoroso. A mulher deve ignorar a diferença entre um garanhão e um cavalo.

GENERAL — Sempre bravo. Faz geralmente aquilo que não concerne ao seu estado, como ser embaixador, conselheiro municipal ou chefe de Governo.

GÊNERO EPISTOLAR Gênero de estilo exclusivamente reservado às mulheres.

GÊNIO (O) — Inútil admirá-lo, é uma neurose.

GERAÇÃO ESPONTÂNEA — Idéia de socialista.

GINÁSTICA — Não saberíamos fazê-la. Extenua as crianças.

GIRONDINOS – Mais a lastimar que a censurar.

GLOBO — Palavra pudica para designar os seios de uma mulher. “Deixa-me beijar teus globos adoráveis”.

GOMA ELÁSTICA — Feita de testículos de cavalo.

GORDOS — As pessoas gordas não precisam aprender a nadar. São o desespero dos carrascos devido às dificuldades que oferecem ao serem executados. Ex. : Du Barry.

GOSTO — Tudo aquilo que é simples é sempre de bom gosto. Deve-se sempre dizer isto a uma mulher que se escusa da modéstia de seu vestido.

GÓTICO — Estilo de arquitetura mais relacionado à religião que os demais.

GOVERNANTAS — Sempre de excelente família que passou por dificuldades. Perigosas numa casa, corrompem os maridos.

GRAMÁTICA – Ensiná-la aos meninos desde a mais tenra idade, como sendo coisa clara e fácil.

GRAMÁTICOS — Todos pedantes.

GUERRILHA — Mais prejudicial ao inimigo que o exército regular.

HÁBITO — É uma segunda natureza. Os hábitos, no colégio, são maus hábitos. Com o hábito, pode-se tocar violino como Paganini.

HARÉM — Comparar sempre um sultão em seu harém a um galo em meio às galinhas. Sonho de todos os colegiais.

HARPA — Produz harmonias celestiais. Não se toca, em gravuras, senão nas ruínas ou junto a um regato.

HEMORRÓIDAS — Provêm de se assentar em bancos de pedra.

HENRIQUE III, HENRIQUE IV – A propósito destes reis, não deixar de dizer: “Todos os Henriques foram infelizes”.

HERMAFRODITA — Excita a curiosidade malsã. Procurar vê-lo.

HÉRNIA — Todo mundo a tem, sem saber.

HIDROTERAPIA — Cura todas as doenças e as provoca.

HIPÓCRATES — Deve-se sempre citá-lo em latim porque êle escrevia em grego, com a exceção desta frase: “Hipócrates diz sim, mas Galeno diz não.”

HIPÓLITO — A morte de Hipólito, o mais belo tema de narração que se possa dar. Todo mundo deveria saber êste trecho de cor.

HIPOTECA — Requerer a “reforma do regime hipotecário”, muito elegante.

HISTERIA — Confundi-la com a ninfomania.

HOMERO — Nunca existiu. Célebre por sua maneira de rir.

HOMO — Dizer Ecce homo! ao ver entrar a pessoa que se espera.

HORROR — Horrores! — referindo-se a expressões lúbricas. Pode-se fazer mas não se deve dizer. Foi durante o horror de uma noite profunda.

HOSTILIDADES — As hostilidades são como as ostras: abrem-se. “As hostilidades foram abertas”: Nada mais a fazer senão sentar-se à mesa.

HOTÉIS — Bons somente na Suíça.

HUGO (VICTOR) — Fêz muito mal, realmente, em ocupar-se de política.

IDÓLATRAS — São canibais.

ILÍADA — Seguida sempre de Odisséia.

ILUSÕES — Fazer crer que se teve muitas, queixar-se daquilo que as fêz perder.

IMAGINAÇÃO — Sempre viva. Desconfiar dela. Quando não se tem. atacá-la nos outros. Para escrever romances, basta ter imaginação.

IMBECIS — Aqueles que não pensam como nós.

IMBROGLIO” — A base de todas as peças de teatro.

IMORALIDADE — Esta palavra, bem pronunciada, distingue aquele que a emprega.

IMPRENSA — Descoberta maravilhosa. Tem feito mais mal do que bem.

IMPRESSO — Deve-se crer em tudo que é impresso. Ver seu nome impresso! Há os que cometem crimes exclusivamente para isto.

INAUGURAÇÃO – Motivo de alegria.

INCÊNDIO — Um espetáculo para os olhos.

INDOLÊNCIA — Conseqüência dos países quentes.

INFANTICÍDIO — Não se comete senão entre a gente do povo.

INFECTO — Deve-se dizer de toda obra artística ou literária que Le Figaro não permite que se admire.

INFINITESIMAL — Não se sabe o que é. Mas tem relação com a homeopatia.

INQUISIÇÃO — Exagera-se muito a respeito de seus crimes.

INSCRIÇÃO — Sempre cuneiforme.

INSTRUÇÃO — Aparentar ter recebido muita. O povo não tem necessidade dela para ganhar a vida.

INSTRUMENTO — Os instrumentos que servem para cometer um crime são sempre contundentes quando não são cortantes.

INTEGRIDADE Pertence, sobretudo, à magistratura.

INTRODUÇÃO — Palavra obscena.

INUMAÇÃO — Quase sempre precipitada: contar histórias de cadáveres que haviam devorado o próprio braço para aplacar a fome.

INVENTORES — Morrem todos no hospital. Um outro sempre se beneficia do que descobriram, o que não é justo.

INVERNO — Sempre excepcional.

ITÁLIA — Deve-se visitá-la imediatamente após o casamento. Tem-se muita decepção, não é tão bela como dizem.

ITALIANOS — Todos músicos. Todos traidores.

JANSENISMO — Não se sabe o que é, mas é muito elegante citá-lo.

JANTAR — Antigamente jantava-se cedo, hoje se janta a horas impossíveis. O jantar de nossos pais era o nosso almoço e o nosso almoço, seu jantar. Jantar tão tarde que não se chama mais jantar e sim cear.

JARDINS INGLESES — Mais naturais que os jardins franceses.

JASPE — Todos os vasos dos museus são de jaspe.

JESUÍTAS — Participam de todas as revoluções. Não ter dúvida quanto ao número deles. Não falar na “batalha dos Jesuítas”.

JOCKEY CLUB — Os sócios são todos jovens farsantes e muito ricos. Dizer simplesmente “o Jockey”, muito elegante, faz crer que se é sócio.

JORNAIS — Não se pode dispensá-los, mas ser contra eles. Sua importância na sociedade moderna. Ex.: Le Figaro. Os jornais sérios: La Revue des Deux Mondes, L’Économiste, Le Journal des Débats; ler pela manhã um artigo destas folhas sérias e graves e à noite, em sociedade, dirigir a conversação para o assunto estudado a fim de poder brilhar.

JÚRI — Esforçar-se para não fazer parte dele.

LA FONTAINE — Sustentar que nunca lemos seus contos. Chamá-lo “Bonhomme”, o imortal fabulista.

LACUSTRES (Cidades) — Negar sua existência, pois não se pode viver debaixo d’água.

LAFAYETTE — General célebre por seu cavalo branco.

LAGO — Ter uma mulher junto de nós, ao passar num lago.

LATIM — Língua natural ao homem. Útil somente para se ler inscrições em monumentos públicos. Desconfiar das citações em latim: escondem sempre alguma sutileza.

LEÃO — É generoso. Brinca sempre com uma bola. E dizer que o leão e o tigre são gatos!

LEBRE — Dorme de olhos abertos.

LEGALIDADE — A legalidade nos mata. Com ela, nenhum governo é possível.

LEITE — Atrai serpentes. Clareia a pele; as mulheres em Paris tomam um banho de leite todas as manhãs. (Os Nazipardos tomam só um copinho, porque na América do Sul é uma commodity muito cara.)

LETARGIA — Sabe-se de algumas que duraram anos.

LIBERDADE — Ó Liberdade! quantos crimes se cometem em teu nome! Temos todas as que são necessárias. A liberdade não é licença (frase de conservador).

LIBERTINAGEM — Não existe senão nas grandes cidades.

LINCE — Animal célebre pela sua vista.

LITERATURA — Ocupação de ociosos.

LITTRÉ — Sorrir ao ouvir seu nome: “Este senhor que disse que descendemos dos macacos.”

LORD — Inglês rico.

LOURAS — Mais ardentes que as morenas.

LUGAREJO — Substantivo enternecedor. Vai bem em poesia.

LUÍS XVI — Dizer sempre: “Este monarca infeliz…”

LUZ — Dizer sempre: Fiat lux! quando se acende uma vela.

MAGIA — Caçoar a respeito.

MAGISTRATURA — Bela carreira para um jovem.

MAGNETISMO — Interessante assunto de conversação e que serve para “conseguir mulheres”.

MALDIÇÃO — Sempre dada por um pai.

MALTHUS – “O infame Malthus”.

MAQUIAVEL — Não tê-lo lido, mas considerá-lo um bandido.

MAQUIAVELISMO — Palavra que se deve pronunciar tremendo.

MAR — Não tem fundo. Imagem do infinito. Inspira grandes pensamentos.

MARFIM — Não se emprega senão a propósito de dentes.

MATERIALISMO — Pronunciar esta palavra com horror, e descansando em cada sílaba.

MATINAL — Ser, prova de moralidade. Se nos deitamos às 4 horas da manhã e nos levantamos às 8, somos preguiçosos, mas se nos deitamos às 9 horas da noite, para nos levantarmos no dia seguinte às 5, somos laboriosos.

MÁXIMA — Nunca nova, mas sempre consoladora.

MECÂNICA — Parte inferior das matemáticas.

MEDALHA — Só se sabia fazer na antiguidade.

MEDICINA — Caçoar dela quando se sentir bem.

MEFISTOFÉLICO — Deve-se dizer de todo riso amargo.

MEIA-NOITE — Limite da felicidade e dos prazeres honestos. O que se faz depois é imoral.

MELÃO — Assunto de conversação à mesa. É um legume? É um fruto? Os ingleses o comem à sobremesa, o que é de se espantar.

MELODRAMAS — Menos imorais que os dramas.

MEMÓRIA — Lastimar a sua, e até se vangloriar de não tê-la.

MENSAGEM — Mais nobre que carta.

MERCÚRIO — Mata a doença e o doente.

METAFÍSICA — Rir, como prova de espírito superior.

METAMORFOSE — Rir do tempo em que se acreditava. — Ovídio as inventou.

MÉTODO — Não serve para nada.

MEXILHÕES — Sempre indigestos.

MINISTRO — Último grau da glória humana.

MISSIONÁRIOS — São todos comidos ou crucificados.

MOCIDADE — Ah! É bela a mocidade. Citar sempre versos italianos, mesmo sem compreendê-los:

O Primavera! Gioventù dell’anno!

O Gioventù! Primavera della vita!

MONARQUIA — A monarquia constitucional é a melhor das repúblicas.

MONOPÓLIO Clamar contra.

MORENAS — Mais ardentes que as louras.

MOSTARDA — Nao é boa senão em Dijon. Arruina o estômago.

MULHER — Uma das costelas de Adão. Não se diz “minha mulher” e sim “minha esposa”, ou melhor, “minha metade”.

MÚSCULOS — Os músculos dos homens fortes são sempre de aço.

MUSEU — De Versailles: recompõe os altos feitos da glória nacional; grande idéia de Luís Felipe. Do Louvre: a ser evitado pelas jovens.

MÚSICO — O natural de um verdadeiro músico é não compor nenhuma música, não tocar nenhum instrumento e desprezar os “virtuoses”.

NÁPOLES — Em conversa com sábios, dizer Partênope. Ver Nápoles e depois morrer.

NARINAS — Abertas, sinal de lubricidade.

NATUREZA — Como é bela a natureza! Dizer isso sempre que se estiver no campo.

NÉCTAR — Confunde-se com ambrosia.

NEGRAS — Mais ardentes que as brancas.

NEGROS — Espantar-se porque sua saliva é branca, e porque falam francês.

NEOLOGISMO — A perdição da língua francesa.

NÓ GÓRDIO — Tem relação com a antiguidade. (Maneira pela qual os antigos davam laço em suas gravatas.)

NOTÁRIOS — Atualmente, não confiar neles.

NUMISMÁTICA — Tem relação com as altas ciências, inspira um respeito imenso.

OBSCENIDADE — Todas as palavras derivadas do grego ou do latim escondem uma obscenidade.

OBUSES — Servem para fazer pêndulos e tinteiros.

OCTOGENÁRIO — Diz-se de todo velho.

ODALISCAS — Todas as mulheres do Oriente são odaliscas.

ÔMEGA — Segunda letra do alfabeto grego, pois se diz sempre alfa e ômega.

ÔNIBUS — Jamais se encontra lugar. Foram inventados por Luís XIV.

ÓPERA (Bastidores da) Paraíso de Maomé sôbre a terra.

OPERÁRIOS — Sempre honestos, quando não se revoltam.

ORAÇÃO — Todo discurso de Bossuet.

ORÇAMENTO — Jamais em equilíbrio.

ORDEM — Quantos crimes são cometidos em teu nome!

ÓRGÃO — Transporta a alma a Deus.

ORIENTALISTA — Homem muito viajado.

ORIGINAL — Rir de tudo que é original, odiar, ridicularizar e exterminar, se possível.

ORQUESTRA — Imagem da sociedade: cada um executa a sua parte e há um chefe.

ORQUITE — Doença de senhores.

ORTOGRAFIA — Não é necessária quando se tem estilo.

OTIMISTA — Sinônimo de imbecil.

OVO — Ponto de partida para dissertação filosófica sôbre a origem dos seres.

PADRES — Deviam ser castrados. Dormem com suas empregadas e têm filhos que chamam de sobrinhos.

PADRINHO — Sempre pai do afilhado.

PAGANINI — Não afinava jamais seu violino. Célebre pelo comprimento de seus dedos.

PANTEÍSMO — Clamar contra; um absurdo!

PÃO — Não se sabe jamais quanta sujeira há no pão.

PARALELO — Deve-se escolher entre os seguintes: César e Pompéia, Horácio e Virgílio, Voltaire e Rousseau, Napoleão e Carlos Magno, Goethe e Schiller, Bayard e Mac-Mahon…

PARENTES — Sempre desagradáveis. Esconder os que não são ricos.

PARIS — A grande prostituta. Paraíso de mulheres, inferno de cavalos.

PASTA — Carregar uma sob o braço dá ares de ministro.

PEDERASTIA — Doença de que todos os homens são vítimas numa certa idade.

PENSIONATO — Dizer “boarding school”, quando fôr um pensionato para moças.

PERMUTAR — O único verbo conjugado pelos militares.

PHENIX” — Belo nome para uma companhia de seguros contra incêndios.

PIRÂMIDE – Obra inútil.

POESIA — Inútil. Passou de moda.

POETA — Sinônimo de tolo; sonhador. (de câmara ou de senado. –eu)

POMBO — Não deve ser comido senão com “petit-pois”.

PRESENTE — Não é o valor que faz o preço, ou então: não é o preço que faz o valor. O presente não é nada, o que vale é a intenção. (O presente não é nada, o que vale é o devir.)

PROGRESSO — Sempre mal compreendido e muito precoce.

PROPRIEDADE — Uma das bases da sociedade. Mais sagrada que a religião.

PROPRIETÁRIO — Os homens se dividem em duas grandes classes: os proprietários e os locatários.

PROSTITUTAS — Um mal necessário. Salvaguarda de nossas filhas e nossas irmãs enquanto existirem celibatários. Deviam ser perseguidas impiedosamente. Não se pode mais sair à rua em companhia da mulher por causa da presença delas. São sempre filhas de gente humilde seduzidas por burgueses ricos. (Atualização: Não é mais necessário que haja prostitutas, estas foram substituídas pela automação industrial (indústria pornô.)

PUDOR — O mais belo ornamento da mulher.

PÚRPURA — Palavra mais nobre que vermelho.

QUADRATURA DO CÍRCULO – Não se sabe o que é. mas deve-se erguer os ombros quando se fala.

RACINE — Libertino!

REDE — Própria dos crioulos. Indispensável num jardim. Convencer-se de que estará melhor nela do que numa cama.

RELIGIÃO — Faz parte das bases da sociedade. É necessária aos povos e, entretanto, muitos não a têm. “A religião de nossos pais”, deve-se dizer com unção.

REPUBLICANO — Nem todo republicano é ladrão, mas todo ladrão é republicano.

RESTAURANTE — Deve-se sempre pedir os pratos que não se comem habitualmente em casa. Quando estiver embaraçado, basta escolher os que são servidos aos vizinhos de mesa.

RISO — Sempre homérico.

ROMANCES — Pervertem as massas. São menos imorais em folhetins que em volumes. Só os romances históricos podem ser tolerados, porque ensinam história. Há romances escritos com a ponta de um escalpelo (bisturi).

RONSARD — Ridículo, com suas palavras gregas e latinas.

ROUSSEAU — Crer que J.J. Rousseau e J.B. Rousseau são irmãos, como eram os dois Corneille.

RUIVAS — V. louras, morenas e negras.

SACERDÓCIO — A arte, a medicina, etc, são sacerdócios.

SALEIRO — Entorná-lo traz desgraça.

SALSICHEIRO — Anedota sôbre salsichas feitas de carne humana.

SANÇÃO PRAGMÁTICA — Não se sabe o que é.

SÊNECA — Escrevia sôbre uma mesa de ouro.

SERVIÇO – É prestar serviço às crianças, dar-lhes coques; aos animais, bater-lhes; aos empregados, despedi-los; aos malfeitores, puni-los.

SEVILHA — Célebre por seu barbeiro. Ver Sevilha e morrer.

SÍFILIS — Uns mais, outros menos, todo mundo tem.

SONO — Engrossa o sangue.

SOLUÇO — Para curá-lo, uma chave nas costas ou um susto. (Agora já sabemos 6 métodos! O mais ortodoxo deles é ficar de ponta-cabeça. Para saber dos outros 3, ler O Banquete.)

SORVETE — Perigoso tomar.

SORVETEIROS — Todos napolitanos.

TABELIÃO — Mais agradável que notário.

TALLEYRAND (Príncipe de) — Indignar-se contra.

TAMANCOS — Um homem rico, que teve começo de vida dificil, sempre veio a Paris de tamancos.

TAPEÇARIA — Obra tão extraordinária que requer 50 anos para ser terminada. Exclamar ao vê-la: “É mais belo que a pintura!”. O operário não conhece o valor do que fêz.

TEMPO — Eterno assunto de conversação. Causa universal de doenças. Queixar-se sempre.

TERRA — Dizer os quatro cantos da terra, pois ela é redonda.

TESTEMUNHA — Deve-se sempre recusar ser testemunha em juízo, nunca se sabe aonde isso pode levar.

TINTEIRO — Dá-se de presente a um médico.

TOLERÂNCIA (Casa de) — Não é aquela onde se tem opiniões tolerantes.

TOUPEIRA — Cego como uma toupeira. E no entanto ela tem olhos. (Poder-se-ia agregar num verbete PORCO – sua como um porco, porém o porco não transpira.)

TRANSPIRAÇÃO nos pés — Sinal de saúde.

TREZE — Evitar treze à mesa, pois traz infelicidade. Os espíritos fortes não deverão jamais deixar de gracejar: “Não tem importância, comerei por dois”. Ou então, se há senhoras, perguntar se uma delas não estará grávida. (Ganha-se a Copa com 11 mais o técnico.)

USUM (ad.) — Locução latina que vai bem na frase: Ad usum Delphini. Deverá sempre ser empregada a propósito de uma mulher chamada Delfina.

VACINA — Não freqüentar senão pessoas vacinadas.

VELHOS — A propósito de uma inundação, uma tempestade, etc., os velhos da região não se lembram de jamais ter visto uma igual.

VALSA — Indignar-se contra. Dança lasciva e impura que deveria ser dançada apenas por velhas.

VENTRE — Dizer abdômen, quando em presença de senhoras.

VERÃO — Sempre excepcional.

VIAGEM — Deve ser feita rapidamente. (Como os banhos frios.)

VINHOS — Assunto de conversa entre os homens. O melhor é o “bordeaux”, pois os médicos o receitam. Quanto pior, mais natural.

VIZINHOS — Evitar que nos prestem serviços gratuitos.

VOLTAIRE — Célebre por seu rictus (careta) espantoso.

XADREZ (Jogo de) — Imagem da tática militar. Todos os grandes capitães eram bons jogadores. Muito sério como jogo, muito fútil como ciência.

WAGNER — Troçar ao seu nome é gracejar sôbre a música do futuro.

YVETOT — Ver Yvetot e depois morrer!

ESBOÇO DE UM DICIONÁRIO BRASILEIRO DE LUGARES-COMUNS E IDÉIAS CONVENCIONAIS

Este dicionário foi idealizado como simples apêndice ao de Flaubert. Nele deixam de figurar, pois, os lugares-comuns registrados pelo autor de Madame Bovary que correspondem aos de nossa língua e às idéias convencionais de nossa gente.

Também não foram arrolados todos os provérbios, máximas. rifões, etc., que podem ser facilmente encontrados em coletâneas do gênero. Em trabalhos desta espécie, realizados apressadamente. É hábito escusar-se o autor de falhas e imperfeições, comprometendo-se a saná-las em edições futuras. Faço o mesmo, menos com o intuito de desculpar-me, que com o de acrescentar, aqui, mais um lugar-comum não incluído no dicionário.”

ABÓBADA – Celeste.

ÁGUA (séc. XXI) – Já tomou hoje? – Eu tomo três litros por dia, por isso vou muito ao toalete.

ALCOVA – Segredos de. Qualquer coisa de imoral.

ALIANÇA – Usar atrai mulheres. Dito espirituoso sobre retirá-la do dedo, etc.

ALMA – Caridosa.

ALOCUÇÃO – Sempre breve e brilhante.

ALTANEIRO – Jargão de arquiteto. “Destacava-se, altaneiro, um majestoso edifício”, etc.

ALUSÃO – Discreta.

AMAZONAS — O maior rio do mundo. — Mas e o Mississipi? — Maior em extensão. Ou em volume d’água, nunca se sabe. — O fenômeno da pororoca.

AMERICANOS — Povo extraordinário. — Parecem crianças. — Espírito esportivo.

ANIVERSÁRIO – “Completou mais um verão.”

ANJO – De criatura; de bondade.

ANO — “Reparou como este passou depressa?” — “Parece que foi ontem.” — “Colher mais um a. no jardim da existência.”

ÂNSIA – Incontida.

ANTÍPODA — Bela palavra para significar “oposto”. Japoneses.

ANTOLOGIA – Um acontecimento antológico.

ANTRO — De jogatina — De perversão.

APAZIGUAR – Os ânimos.

APLAUSOS – Não regatear.

APOIO — Sempre moral.

ARMA — Deve-se sempre ter uma em casa. — O perigo que representa para as crianças. — Não se deve brincar com elas: contar casos fatais, o amigo que matou o amigo, o pai que matou o filho.

ARREBOL — Rima com sol. Própria para hinos.

ARROSTAR – O perigo.

ASSAZ – Mais bonito que “muito”.

AUSCULTAR — A opinião pública.

AVENTAR — Uma hipótese.

AVISO – Aos Navegantes.

AVÓS — Deseducam os netos.

BACHAREL – No Brasil, todo mundo é.

BAGAGEM – Literária.

BAHIA — Já foi? Então vá. — Vatapá. — Balangandãs. — Carmen Miranda. — A falsa baiana. — Rui Barbosa. — Terra de oradores.

BALOUÇAR – Muito mais elegante que “balançar”.

BANCO — Os de Minas são os mais seguros.

BANQUETE — Quem convida, dá. — Ditos espirituosos sôbre a extensão dos discursos. — Sempre se come mal.

BEBERRÕES – Gracejos dos que bebem sôbre o horror ao leite e à água.

BELO HORIZONTE — Hotéis cheios de tuberculosos. [!!!] — Parece-se com Washington. — Acontecem coisas estranhas. — Alguém, do alto do morro, exclamou: “Que belo horizonte!” Daí o nome.

BIGAMIA — Devia ser permitida pela lei.

BOATO — Assim é que nasce um.

BRASIL — Nele cabe toda a Europa, menos a Rússia. — País do futuro. — Riquezas naturais. — Ou acaba com a saúva ou a saúva acaba com ele. — Tudo no Brasil é assim mesmo, não se apoquente. — Espera que cada um cumpra o seu dever.

BRASILEIRO — Todo brasileiro tem sífilis. — Quem fôr brasileiro, siga-me. — Três brasileiros juntos: um samba. Vizinho do:

BURRO — Um animal até inteligente, tremenda de uma injustiça!

BUSTO — Elegante como sinônimo de seios.

CACHAÇA — Água que passarinho não bebe. — Alguma coisa ser tão imprescindível a alguém que é a “sua cachaça”.

CADUCAR — A lei.

CAFÉ — O esteio da economia nacional. — As donas de casa é que sabem fazer o melhor café do mundo. — Fumegante, aromático. — “Tira o sono.” — “Pois a mim nunca tirou.” — Fazer boca para o cigarro. — Pequeno. — Os funcionários públicos não fazem outra coisa senão tomar café. — Balzac gostava muito. — Estimulante! — Preciosa rubiácea.

CAIXINHA — De surpresas: a política, o futebol, etc.

CALADA — Da noite.

CALO — De estimação.

CALMA — O Brasil é nosso.

CALOR — Impossível de trabalhar. — Insuportável. — Ninguém se lembra de jamais ter feito tanto. — Clima dos trópicos.

CALOURO — Trote dos: uma desumanidade. Devia ser proibido.

CALVA – Reluzente.

CALVÍCIE — Quem descobrir um remédio ficará milionário. — Complexo dos calvos. — Prova de virilidade. (A coisa mais estranha: ainda não havia “É dos carecas que elas gostam mais”?)

CAMA — Chorar nela, que é lugar quente. Ganha fama e deita-te na cama.

CARIOCA — Bom humor do.

CARNAVAL — O de antigamente era melhor. — Festa paga. — Pierrot, Colombina e Arlequim. — O corso. [?!] — Alegria do povo. — Economizam o ano todo para gastar no Carnaval.

CARRO — O melhor é o dos outros. — Dá trabalho, mas compensa (ou não compensa). — As crianças adoram. — Ter ou não ter chofer? — Dirigir há tantos anos e nunca ter tido um desastre.

CASA — Comida e roupa lavada. — Sentir-se na própria. — Ter a sua própria: um teto digno. — Está sempre às ordens. — Bem situada. —Custou tanto e hoje vale dez vêzes mais. — Na época foi uma loucura.

CEGONHA — Estar esperando sua visita. — Dizer de alguém que ainda acredita nela.

CENTRAL DO BRASIL — Gracejo a propósito do atraso dos trens.

CENTRALIZAÇÃO Um dos males da administração no Brasil.

CHÁVENA — Mais elegante que xícara. (Chícara de xá.)

CHUVA — Insistente. — Chover a cântaros. — Grossas bátegas de. — Chover no molhado. — De protestos.

CHUVEIRO — Mais higiênico que banheira. Frio e bem cedo, muito saudável.

CIMENTAR — Uma amizade.

CINZEIRO — Uma sala confortável deve ter cinzeiros por todo lado.

COBRAS – E lagartos. — Os franceses dizem que no Brasil há cobras em plena rua. — Simbolo fálico. — Ruim como uma.

COLEÇÕES – “Freud disse que todo homem, em alguma época de sua vida, coleciona alguma coisa.”

COMPLEIÇÃO – Robusta.

COMUNISMO — O perigo vermelho. — União Soviética, mais ortodoxo do que Rússia. — Camaradas. — O proletariado e o povo. — A exploração do homem pelo homem. — Superestrutura. — A mais-valia.

CONCATENAR – As idéias.

COPACABANA — A mais bela praia do mundo — Antigamente a areia era mais clara. — O bairro aristocrático. — Contraste entre as favelas e os arranha-céus. — “Está ficando um bairro insuportável, cheio de estrangeiros. judeus e prostitutas.”

CORAR — Até a raiz dos cabelos.

CORCOVADO — Morar há tantos anos no Rio e nunca ter ido lá. — Visto de qualquer ponto da cidade.

CORES – Cambiantes. Berrantes.

CORREIO — A deficiência de nosso serviço de correios: uma carta foi posta em tal lugar no dia tal e somente tantos dias depois foi entregue. Deve acrescentar-se: ainda assim, esta foi entregue. — Dito espirituoso sôbre os que põem a culpa no Correio quando não cumprem suas obrigações sociais. — Nos Estados Unidos, uma perfeição.

COSTUREIRA — Nunca entregam o vestido no dia marcado. — Ficam com a metade da fazenda para elas.

CREMAÇÃO — Os que prefeririam ser cremados, ao morrer: mais prático, mais higiênico, um absurdo que no Brasil não se faça. — A Igreja não permite: ressurreição dos mortos. — E os que morrem nos incêndios?

CRIANÇAS — Sempre crescidas. (Dá dando fermento pra ela? Segurei no colo ainda ontem!) — Muito dadas. — No princípio ficam encabuladas, mas logo tomam confiança. — Parecem-se com o pai mas têm o nariz do avô, etc. — Aprendem a ler sozinhas, dizem coisas extraordinárias, até já ajudam em casa! — Sôbre alguém, no fundo, ser ainda uma criança. — Dão trabalho, mas compensa. — Se soubessem o que devem aos pais!

CUSTAR — Os olhos da cara.

DESAFORO – Não levá-los para casa.

DESFECHAR – Um golpe.

DESFECHO – Triste, inesperado.

DESPENHAR-SE – No abismo, no vácuo.

DEUS — É brasileiro.

DIÁLOGOS — Em romance, os personagens devem sempre redargüir, inquirir, admoestar, retorquir, grunhir, urrar, balbuciar, desferir, sussurrar, murmurar, trovejar, explodir. — Nunca falar, dizer, perguntar ou responder.

DINHEIRO – “Ganho dinheiro, mas o dinheiro não me ganha.”

DIPLOMACIA — Bela carreira, viajar. Perdão, um diplomata não viaja: é viajado. Ser mandado de um momento para outro a um lugar distante. — Mas ganha-se bem.

DIVÓRCIO — Dissolução da família. — “O Brasil é o único país onde ainda não há, daí tantos crimes passionais.” “Nos Estados Unidos, porém, há divórcio e há crime!” — “E os filhos?” — “A lei não pode obrigar ninguém a ser feliz.” — Influência da Igreja. — “Quem fôr religioso que não se divorcie.”

DOUTOR — No Brasil todo mundo é. — Anel no dedo.

ÉBRIO — Contumaz — Vicente Celestino

ELEFANTE — Amola muita gente.

EMPANAR — O brilho.

EMPENHAR-SE – A fundo.

ENFERMEIRAS — Namoram os médicos.

ENFORCAMENTO — Bárbaro e deprimente. Na Inglaterra enforcam ao menor pretexto. Caso de um jovem brasileiro em viagem que atropelou um guarda e só não foi enforcado por intervenção do Papa.

ENLAMEAR — A honra, o nome da família.

EPITÁFIOS — Tanto mármore e tanto bronze desperdiçados. — A vaidade do homem o acompanha até na morte. — As sepulturas pobres ao lado dos ricos mausoléus: Deus não distingue.

ESCOPO — Mais elegante do que finalidade.

ESPANHOL — Tourada. — Castanhola. — Caramba!

ESPIRAIS — Da fumaça do cigarro, que se contempla imerso em pensamentos.

ESTADIA — É errado: deve-se dizer estada.

ESTATÍSTICAS — Não provam nada. Os americanos acreditam nelas.

ESTILO — É o homem: Buffon.

ESTOFO – Moral.

ESTRABISMO — Um pouco, até que dá uma certa graça.

ESTRADAS — Da vida. — As dos Estados Unidos são todas asfaltadas.

EXÉRCITO — Na Suíça não há, todo cidadão é soldado. — Na hora de ir para a guerra, os civis é que vão.

FATALISTA — Ser sempre um fatalista, é muito elegante. — “morre quem tem de morrer, quando chegar o dia, etc.” — Ditos espirituosos sobre ter coragem de viajar de avião.

FAZENDEIRO – Abastado.

FECUNDAÇÃO —- Artificial: “ainda chegará o dia.” — “Um só homem poderá povoar uma cidade inteira.” — “Para os animais dá resultado.” — “É contra a natureza!” — Ser a favor.

FIADO — Só amanhã.

FILA — Antes da guerra, não havia. — Fila para tudo. Até para se casar, etc.

FRALDAS – Mal saiu das.

FRANCESAS — Mulheres nuas, lascivas.

FLAUBERT — Tortura do estilo — “Madame Bovary sou eu”.

FRIO — Em tempo de frio. alguém lembrar-se de um lugar onde fazia muito mais: aquilo sim, era frio.

GÁUDIO — Mais elegante do que alegria.

GÊNIO — As cenas que só o gênio de um Flaubert seria capaz de descrever.

GÍRIA — Muito interessante, a filosofia do povo.

GOVERNO — Para seu.

GRAÇA — Muito distinto, para se perguntar o nome: qual e a sua graça? (Celso Russomano.)

GRAVATA — Adorno inútil, deveria ser abolido. — É um preconceito. — Ninguém sabe escolher para os outros. — Nunca comprá-las, ganhá-las de presente.

GRAVIDEZ — Estado interessante.

GUERRA — Um mal necessário. Sem ela, o mundo estada superpopulado.

VERRUGA – Nasce no dedo de quem aponta estrelas.

HABITAT — Bela palavra a ser usada em monografia sôbre homem ou animal de determinada região. Falada, não sôa bem.

HIMENEU – Em lugar de casamento.

HODIERNO — Mais elegante do que moderno.

HOLOCAUSTO — Bela palavra a ser usada a propósito do sacrifício das mães, das esposas, noivas, etc.

HOMEM — As mulheres afirmam: “São todos iguais”. (Defasado: agora, “Homem é merda”, “Ih ah lá o macho escroto!”, etc.)

HOMENAGEM — Singela

HOMOSSEXUAL — Por que quase todos os artistas o são? Citar exemplos. Inofensivos, ótima companhia para as mulheres.

HONESTIDADE — Ainda existe. — Não existe mais, hoje em dia.

HOTEL — “Nunca tomar quarto com refeições, pois não se vai ao hotel senão para dormir!”

IDADE — A uma senhora nunca se pergunta.

INAUDITO – Esforço.

INCISÃO — Mais bonito do que corte.

INCONSTITUCIONALÍSSIMAMENTE – A maior palavra da língua portuguesa.

INICIAIS — “Direi apenas as iniciais: Fulano de Tal”.

INQUIRIR — Mais elegante do que perguntar.

INTESTINO — Parece incrível que tenham quarenta metros.

ISQUEIRO — Não se acostumar a ele. — Mais uma coisa para se carregar no bolso. — Só o dono sabe acendê-lo.

JABUTICABA — Fruta que se parece com certos olhos.

JOVIALIDADE — Qualidade de certos velhos.

LACUNA — Jamais será preenchida.

LIVRO — O maior amigo do homem. — Mais tolo do que quem empresta é aquele que devolve.

LIXEIRO — Uma profissão tão digna como outra qualquer. (Fala isso pro Boris Casoy.)

LUAR — Do sertão, bonita música.

LUME — Vir a. — Mais bonito do que fogo.

MACACO — Nosso ascendente. — Darwin. Voronoff.

MÃE — O nome da: uma das mais belas palavras da língua acabou virando um insulto.

MARINHEIRO — Jovem de olhar nostálgico que anda gingando o corpo e tem uma amada em cada porto.

MAVIOSO —- Mais bonito que maravilhoso.

MÉDICO — Não acreditam em penicilina, para não perderem o cliente.

MEMBRO — Palavra obscena.

MENDIGO — Têm fortunas escondidas em casa. — Chaga da sociedade. — Estender a mão à caridade pública. — Deveriam ser recolhidos e mandados a alguma parte (não se sabe onde).

MODERNO — Arte moderna: deformação, obra de tarados. — Edifício do Ministério da Educação, uma caixa de fósforos suspensa sôbre meia dúzia de palitos. — Poesia futurista, qualquer um pode fazer. — Portinari, mãos e pés enormes. — “Não gosto porque não entendo.” — “Até meu filho faz melhor.”

MORRER — “No avião, quem morre primeiro é o piloto.” — “Dir-se-ia que ela dorme.” — “Morreu como uma santa.”

MULATO — Coça a orelha com o pé. — Conhece-se pelas unhas e a palma das mãos. — Pernóstico. — Machado de Assis era. — Nos Estados Unidos são considerados pretos.

NABABO — Viver como um.

NARIZ — O de Cleópatra teria mudado a face do mundo.

NATURALISTA — Escritor obsceno e pornográfico. — Zola: a natureza vista através de um temperamento.

NAVALHA — A mais temível das armas: não há defesa contra ela. — Tão perigosa para o adversário como para quem não sabe manejá-la. — O barbeiro pode enlouquecer de repente e passar a navalha no pescoço do freguês.

NEFELIBATA — Bela palavra a ser usada contra os bons escritores.

NERO — Sempre tangendo a lira ante o incêndio de Roma.

NOSOCÔMIO — Mais distinto do que hospital.

ÓCULOS — Dormir com eles para reconhecer as pessoas em sonhos.

OFÍDIO – Mais bonito que cobra.

OGIVA — Ah, o estilo gótico.

ÔNIBUS — Correria desenfreada. Viajar neles é enfrentar a morte todos os dias. Não respeitam nada.

OPERAÇÃO — Melindrosa intervenção cirúrgica.

OVO — Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? — De Colombo. — Estão cada vez mais caros. — Alguém, muito original, sugerir que os homens deviam nascer em ovos: mais prático, mais higiênico.

PADRE — Há padres bons e ruins, assim como há médicos bons e ruins, o que nada prova contra a Medicina.

PENA DE MORTE — “Uma barbaridade, ninguém tem direito de dispor sôbre a morte de outras pessoas.” — Ser a favor.

PERSONAGEM — Não se diz o personagem, e sim a personagem. //

De romance: deve ser pintor, escultor, escritor, músico, jornalista ou artista de modo geral; deve andar nervosamente de um lado para outro, esquecer o cigarro apagado nos lábios, debruçar-se à janela e contemplar a noite, ter um brilho nos olhos. Andar a esmo. Ser levado pelos próprios passos, como um notívago, um vulto, um autômato, uma sombra; ao fim dos capítulos deve atirar-se na cama chorando; ao fim do romance deve perder-se ao longe, partir.

PÊSAMES – “Foi melhor para êle” – “Deus sabe o que faz”.

PNEUMONIA — Hoje em dia não mata mais ninguém, por causa da penicilina.

POESIA — Gostar muito de poesia, mas não a futurista.

POETA — Foi expulso da República de Platão. — Cabelos grandes.

POLIGAMIA — Os homens são naturalmente polígamos. — E as mulheres? — protestam estas. A propósito, fala-se em poliandria, que não se sabe o que quer dizer…

PONTO — Assinar o: como sinônimo de visita habitual.

PROTESTO — De elevada estima e consideração.

QUERIDO — Em diálogos como este: “Querido, tu me amas?” — “Bem o sabes, querida.”

QUILO — Equivalente a novecentos gramas nos açougues.

RATO — O único animal de que realmente se tem nojo. — Alguém dizer que não tem.

REVOLUÇÃO — Fazê-la, antes que o povo a faça.

ROSICLER — Bonita côr.

ROUPA — Poderiam ser mais práticas, mais condizentes com o nosso clima. — Suja, lava-se em casa. — Ter apenas a do corpo.

RUBRICA – Ou rúbrica?

RUI BARBOSA — A Águia de Haia. — Cabeça grande. — Perguntou: em que língua quereis que eu responda?

SÃO LUÍS — A Atenas Brasileira.

SARRO — É o que suja os dentes e não a nicotina.

SAUDADE — Só existe em português, não tem tradução. — A mais bela palavra da língua. (Como eu detesto esses comentários!)

SAÚDE — Só a apreciamos depois que a perdemos.

SECRETÁRIA — Sempre belas, o terror das esposas. — Nunca sabem escrever à máquina e passam o dia sentadas ao colo do patrão. — Conhecem todos os seus segredos, indispensáveis.

SEGREDO — O melhor meio de espalhar uma notícia é pedir segredo.

SHAKESPEARE — Ser ou não ser. — Teria sido êle próprio o autor, ou Bacon? Deve-se acrescentar: quem quer que tenha sido, foi um autor genial a quem chamamos de Shakespeare.

SORRISO – Um s. bailava-lhe nos lábios.

SORVER — Mais elegante que tomar.

SUICIDAR-SE — Dificuldades financeiras: “matar-se por causa de uma miserável quantia”, dizem os outros. — O tresloucado gesto. — “Para mim, ele não andava muito bom da cabeça.”

SURDOS – Pelo telefone, ouvem muito bem.

TAUMATURGO — Bela palavra, mas confunde-se com dramaturgo.

TÉDIO — Avassalador: de muito efeito em literatura de ficção, na primeira pessoa.

TÊMPORAS – De aço.

TIROCÍNIO — De muito efeito em discurso laudatório.

TORRÃO – Mais refinado que pátria.

TRANSFERÊNCIA – Freud explica.

TRANSIDO – De frio.

TURBAMULTA — Bela palavra a ser usada a propósito do movimento das multidões.

UMBIGO – Ou embigo?

UMBRAIS – Transpor os u. da glória.

URBANIDADE — Qualidade que devem ter os funcionários públicos ao lidar com as partes.

URSO – Abraço de.

VAGALUME — Mais elegante seria dizer pirilampo.

VARIEGAR — Verbo muito elegante de se usar a propósito de cores variadas.

VENDETA — Mais bonito do que vingança.

VENTILAR — Um assunto.

VERBA — Não há. — Esgotada. — Sempre desviada para outras finalidades.

VERDADE — “Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade”, disse Eça de Queiroz. “Se non è vero, è bene trovato” Repetir em italiano, mesmo sem entender direito.

VERGONHA — É roubar e não poder carregar.

VÍRGULA — Um bom, escritor deve saber, quando usá-la.

VIZINHO — Reclamam do barulho. — Reparam em tudo. — “Sempre finos, discretos, nunca deram amolação”, segundo informação de pessoa que pretende alugar a casa.

VOMITAR — Mais elegante dizer lançar cargas ao mar.

VULGAR — Adjetivo que deve ser indistintamente usado contra toda atividade comum dos homens, pelas pessoas de bom gosto.

VULGO – Sinônimo de povo.

XAROPE — Com o significado de coisa enfadonha.

XIFÓPAGOS – Ou xipófagos?

ZÉFIRO – Muito bonito como sinônimo de brisa.

MONTE CRISTO OU DA VINGANÇA – Antônio Cândido

Leitura completamente distorcida de Dumas.

escritores de segunda ordem — Eugène Sue ou Alexandre Dumas”

Enquanto a vingança permite, quando não pressupõe, um amplo sistema de incidentes, a ficção seriada exige, por seu lado, a multiplicação dos incidentes. Daí a referida e frutuosa aliança, que atendia às necessidades de composição criadas pelas expectativas do autor, do editor e do leitor, todos os três interessados diretamente em que a história fosse o mais longa e complicada possível: o primeiro pela remuneração, o segundo pela venda, o terceiro pelo prolongamento da emoção. As tendências estéticas do romantismo, sequioso de movimento, convergiam no caso com as condições econômicas da profissão literária e as necessidades psicológicas do novo público, interessado no sensacionalismo, propiciador de emoções violentas.”

Compreende-se deste modo uma das razões pelas quais a vingança pôde, no Romantismo, desempenhar função mais ou menos análoga à das viagens no romance picaresco ou de tradição picaresca.”

Um rapaz honesto, bom profissional, bom empregado, bom filho, bom noivo, bom amigo, é o ponto de partida do livro. Situação de equilíbrio que repugna por tal forma à arte romântica que o escritor se apressa em providenciar a tríplice felonia (?) que vai rompê-la e abrir perspectivas à agitação incessante da peripécia. Anos de calabouço, o encontro com o abade sábio, a aquisição da ciência.”

Alguns anos de mistério são precisos para emergir o conde do marinheiro, e do conde a vingança. Em seguida, o exercício desta, com vagar e proficiência, pelo livro afora.”

O Castelo d’If representa a fase de recolhimento pressuposta no adolescente pela educação burguesa”

Dantes era tolo e amuado

Depois virou grande homem

Um dia morreu,

Mas Dante era divino, solene e eterno,

Ó temperamento austral!

A profunda melancolia que assalta o Cidadão Kane, no píncaro da vitória, se aparenta, aí, com a do gênio romanticamente concebido — e expresso melhor do que em qualquer outro símbolo pelo Moisés de Vigny.”

A vida não é um romance, muito menos um complexo de Édipo. Certo, Camus?

Não deixa de ser meio decepcionante esta recuperação da normalidade ética, após um esforço tão grande de exceção.”

O burguês pode dar sossegado este livro aos filhos” Um ótimo conselho – se estivéssemos no século XIX!

NO MUNDO DO ROMANCE POLICIAL – Álvaro Lins

Até pelas alturas do ano 1000, o romance grego era designado como erotikon, sendo o predecessor apenas do romance popular, não artístico dos nossos dias. Por outro lado, O banquete de Trimalcíú, de Petrônio, é uma obra isolada, já parecida com o romance moderno, sem ligar-se, no entanto, o uma tradição e sem provocar uma continuidade imediata na ordem do tempo.”

Nas épocas em que dominava a estética da separação dos estilos, não havia lugar para o romance como gênero superior; quando se operou a fusão dos estilos, em nova concepção estética, o romance passou a situar-se na frente da epopéia e da própria tragédia.”

Por sua vez, mais tarde, Shakespeare vinha abolir no teatro a separação estrita entre o estilo elevado e o quotidiano realista, ligando o trágico e o cômico, o aristocrático e o plebeu. Contudo, Auerbach observa o seguinte aspecto: se o povo entra em cena nas peças de Shakespeare, a situação de personagens trágicos, trágicos realmente [com T maiúsculo], esta fica reservada às personagens de alta categoria, como reis, príncipes, chefes militares.”

Aproveitando o redescobrimento dos antigos no período anterior da Renascença, o teatro clássico dos franceses levou aos limites extremos o rigor da separação estilística, colocando uma fronteira entre o elevado-sublime de um lado e o quotidiano-ordinário do outro, ficando um para as tragédias de Racine e Corneille, o outro para as farsas de Molière.”

Passara para sempre a época em que um objeto da realidade prática só podia receber expressão literária em têrmos cômicos, satíricos, didáticos, quando muito idílicos. Revestindo-se de seriedade e grandeza, o romance conquistou os direitos de cidade como gênero literário de primeira categoria. O que a burguesia fizera por intermédio da revolução política, o romance realizou também em têrmos de uma revolução literária.”

E que espaço ocupa, por ventura, o romance policial nos grandes quadros do romance?” “O romance policial não é literatura no conceito estético desta palavra. Aquele problema da criação poética através do estilo nunca foi inteiramente resolvido pelos seus autores, e não o será nunca talvez. Grandes figuras da literatura como Voltaire, Balzac, Dickens e Dostoevski jogaram com elementos da ficção policial mas não realizaram estritamente romance policial.

Em Crime e Castigo, Dostoievski construiu a psicologia de um assassino, desdobrou, na ação romanesca das relações entre Raskolnikov e Porfírio Séméionovitch, o duelo patético entre o criminoso e o detetive, mas a esse romance, para se enquadrar no gênero policial, falta um elemento imprescindível, o enigma, uma vez que desde o princípio o leitor está no conhecimento do episódio do estudante que mata a velha usurária.

Dickens deixou inacabado um romance, O mistério de Edwin Drood, onde ocorria um assassinato, cujo autor só deveria ser revelado nas últimas páginas. Assim, se não realizou um autêntico e completo romance policial, Dickens deixou pelo menos, na sua crônica, o maior de todos os enigmas, o enigma perfeito, aquele que nunca será decifrado, tendo o autor levado para o túmulo o seu segredo, em torno do qual os intérpretes ficaram a levantar diversas conjeturas.”

KAFKIANO, NUNCA HAVIA PENSADO NISSO! “Costuma-se trazer da antiguidade um exemplo eminente com o fim de indicar Édipo-Rei como uma tragédia policial; os romances dessa espécie, que a literatura desdenha e exclui dos seus quadros, ficariam assim vingados ou reabilitados com a apresentação de uma origem tão singularmente aristocrática. Mas, para colocar Édipo-Rei na categoria da ficção policial, seria preciso inverter toda a ordem do gênero, que se desenvolve na base de um crime cometido por alguém que não se identifica logo e que é preciso descobrir no fim do romance, enquanto a tragédia grega apresenta a singularidade de um criminoso que todo o público conhece e só êle ignora que cometeu um crime.”

O último caso de Trent, da autoria de E.C. Bentley (…) <a melhor novela policial até hoje escrita>

Se esse é o critério, O ADOLESCENTE é um legítimo romance policial ultrapsicológico: “Durante algumas horas é aquele o nosso mundo, o do romance policial, e quando chega o desfecho voltamos ao natural ainda um pouco assustados como no despertar após um pesadelo.”

OU DA REALIDADE PARA A FICÇÃO? “Nenhum personagem, com efeito, passou da ficção para a realidade de modo mais completo do que Sherlock Holmes; nenhum personagem de Balzac ou de Dickens adquiriu maior popularidade e maior verossimilhança. De todos os seres criados pela imaginação foi Sherlock Holmes o que obteve mais vida autônoma, mais independência como criatura e mais ampla projeção universal. Neste sentido êle cresceu mais do que D. Quixote, Hamlet ou Grandet, embora, está claro, não participe, nem de leve, dessa mesma grandeza da criação na ordem literária ou estética.”

Os britânicos não são nenhuns sábios, mas isso é bem coisa de norte-americano turistando: “visitantes procuravam o personagem de Conan Doyle, acreditando na sua existência real.”

Ao argumento da inverossimilhança, lembra François Fosca, em História e técnica do romance policial, que os casos Humbert, Steinkeil e Stavinsky, nos últimos 50 anos, são tão inverossímeis quanto os dos romances policiais.”

E que romance com a inverossimilhança aparente, com os golpes teatrais, com o mistério, com as intervenções sensacionais, com os episódios espetaculares do autêntico affaire Dreyfus?”

[Mas] um thriller não é a mesma coisa que um bom livro.”

Nos povos com a tendência para a clareza e a transparência,¹ como os latinos, o romance policial não encontra o seu ambiente propício. Êle é o produto de uma sociedade humana impregnada da força do mistério, que sente a atração do mistério da morte e capaz de acreditar em fantasmas e casas mal-assombradas,² gostando das coisas terríveis e apavorantes, dispondo ao mesmo tempo da fantasia e do cálculo. Pois o romance policial é todo êle uma conseqüência das faculdades de imaginação ilimitada e lógica objetiva, aplicadas em operação conjunta no processo da construção ficcionista.” Já o jornalismo policialesco…

¹ Eu entendi o que quis dizer, mas cuidado com termos tão ambíguos! Não somos nada transparentes, apesar de tão solares! Diria que o problema é mesmo o clima tropical, o suor escorrendo, o que impede um Sherlock Holmes no RJ – um que não use, também, camisa-de-força…

² Pensei aqui num crossover: auto-ajuda kardecista com novela policial!

Escreveu Poe três novelas de gênero policial: O duplo[?] assassinato da rua Morgue, O mistério de Maria Roget e a Carta furtada, e com elas — por intermédio do seu detetive-amador, Dupin — lançou os fundamentos e as regras do romance policial, de tal modo que a sua obra serviu ao momento de estudos para a polícia científica.”

Tanto Conan Doyle como Gaboriau não tinham, aliás, consciência da sua própria obra; desdenhavam-na no anseio de escrever romances literários. Escreveram realmente livros com ambiciosas pretensões, mas deles nada resta na memória dos homens. Se não foram de todo esquecidos, ambos o devem a Sherlock Holmes e a Lecoq. Neste caso, é a criatura que salva o criador e que lhe fornece um pouco da sua vida imortal.”

Daniel revela o segredo em torno do ídolo do deus Baal no episódio da Bíblia, enquanto a própria filha do rei Dampsinitos, num sistema moral escandaloso para a nossa época, entrega-se a qualquer homem, como prostituta, com o fim de descobrir aquele que roubara o tão escondido tesouro de seu pai.”

O romance policial tem a feição de uma mágica que parece de efeito sobrenatural até que o prestidigitador explica a sua realidade interna, e o observador exclama: — <Como era fácil! Como teria sido possível a qualquer um de nós descobrir o segredo!>.”

O “CHECKERS & CHESS MAN” ATACA NOVAMENTE: “Verificar-se-á, com efeito, que os homens engenhosos são sempre fantasistas¹ e os verdadeiramente imaginativos são, por sua vez, sempre analíticos.²” Poe

Windom Earle foi realmente uma excrescência mal-pensada!

¹ Aloísio, o imberbe com ambições de poder: esperto, gatuno, mas nada inteligente ou realista.

² Vive no mundo da lua, desinteressado, ó Rafa!, mas tua análise é perspicaz, cirúrgica, radiográfica! Rei da abstração, só sabe jogar damas…

De modo geral, o criminoso ou é um emotivo, ou é um intelectual, e isto êle revela logo na maneira de praticar o crime, sendo que exatamente dessa constatação parte o detetive para as suas investigações.”

O público não simpatiza geralmente com a polícia, como organização oficial, e por isso é que os detetives dos romances, em sua maioria, são policiais-amadores ou profissionais de trabalhos particulares.”

Espectro Batman-Fox Mulder de inadequação-adequação ao “cargo”.

Entre os detetives da ficção policial há um jornalista, um advogado e um padre: o jornalista Rouletabile, o advogado Perry Mason [som na caixa!] e o padre Brown.”

Na última novela de Memórias de Sherlock Holmes, o grande detetive caía num abismo nos Alpes, em luta com um famoso bandido, morrendo ambos. O público não se conformou, porém, com este acabamento trágico, e tantas foram as manifestações de dor e de cólera que Conan Doyle resolveu <ressuscitar> o seu herói.” De Toriyama e Lynch, todo autor tem um pouco…

Só tendo o epílogo constantemente em vista poderemos dar a um enredo seu aspecto indispensável de conseqüência, ou casualidade, fazendo com que os incidentes tendam para o desenvolvimento de sua intenção.”

OS FUNDAMENTOS DA FÍSICA (vol. III) (9ª ed.) – Ramalho

PARTE I. CARGAS ELÉTRICAS EM REPOUSO

CAPÍTULO 1. Eletrização & Força elétrica

Eletrostática como um domínio completamente separado do estudo da força gravitacional.

O nome elétron deriva de elektron, grego para âmbar, substância com que os antigos identificaram pela primeira vez a repulsão e atração de caráter elétrico. Adivinha a quem se atribui a descoberta em primeiro lugar? Ao desatento Tales, O Lunático. Foi preciso esperar até o séc. XVI para que, na Inglaterra, dessem continuidade ao estudo da Eletricidade. Uma “descoberta” nada bárbara (cof, cof)…

A palavra tribo advém do grego tribein e significa <atritar>, <esfregar>. Por isso a eletrização por atrito é também denominada triboeletrização.”

Os materiais como o vidro, que conservam as cargas nas regiões onde elas surgem, são chamados isolantes ou dielétricos. Os materiais nos quais as cargas se espalham imediatamente são chamados condutores. É o caso dos metais.”

Van der Graaf (1901-1967). “Geradores de VdG de grande porte, que armazenam grandes quantidades de carga elétrica, gerando descargas elétricas de enormes proporções, costumam ser utilizados em aceleradores de partículas.”

Corrimões de escadas rolantes e batentes de portas: “Em regiões de clima seco, é relativamente comum um passageiro sentir um pequeno choque ao descer de um veículo e tocá-lo. Isso ocorre porque, sendo o ar seco bom isolante elétrico, a eletricidade estática adquirida por atrito não se escoa para o ambiente, e o passageiro, ao descer, faz a ligação do veículo com o solo. Às vezes é a roupa do passageiro (ou do motorista) que se eletriza por atrito com o banco do carro. Ao descer, o toque na parte metálica produz a descarga e a sensação de choque.”

[!] “Foi o cientista, político e escritor americano Benjamin Franklin (1706-1790) quem introduziu os termos eletricidade positiva e eletricidade negativa para designar a eletricidade vítrea e resinosa, respectivamente.” Este homem tão precipitado enquanto politicólogo inventou o pára-raio! Isso o livro-texto da minha época não mostrava…

ATENÇÃO: A experiência realizada por Franklin é muito perigosa. Por isso, jamais tente repeti-la.” HAHAHAHA

Não esperava encontrar isto aqui (p. 35): “Dos inúmeros sermões proferidos pelo Padre Antônio Vieira (1608-1697), os mais famosos são Sermão da Quinta Dominga da Quaresma e Sermão da Sexagésima.”

CAPÍTULO 2. Campo elétrico

(…)

CAPÍTULO 3. Trabalho e potencial elétrico

(…)

CAPÍTULO 4. Condutores em equilíbrio eletrostático. Capacitância eletrostática

Ocorrem por dia, em nosso planeta, cerca de 40 mil tempestades, que originam, aproximadamente, 100 raios por segundo.”

Os dois tipos de pára-raios:

a) Modelo de Franklin

Também chamado simplesmente de pára-raios de F., consta basicamente de uma haste condutora disposta verticalmente na parte mais alta da estrutura a ser protegida. A extremidade superior da haste apresenta de 3 a 4 pontas de um material de elevado ponto de fusão (que não se derreta com a dissipação da energia da descarga). A outra extremidade da haste é ligada, por meio de condutores metálicos, a barras metálicas profundamente cravadas no solo.

Estudos experimentais permitiram concluir que <o campo de proteção oferecido por uma haste vertical é aquele abrangido por um cone, tendo por vértice o ponto mais alto do pára-raios e cuja geratriz forma um ângulo de 60° com a vertical.

b) Modelo de Faraday

Este método consiste em uma malha de captação, formando módulos retangulares, feitos de cabos de cobre nu passando por suportes isoladores, colocados de modo a envolver o topo da estrutura, como uma gaiola. Ao longo da malha, distribuem-se regularmente hastes terminadas em ponta. O aterramento se dá do mesmo modo que o método de F., mas com maior número de terminais. Esse sistema, apesar de mais dispendioso, proporciona maior proteção, sendo utilizado em edificações de grande porte, como ginásios, galpões industriais, etc.

Obs.

O pára-raios radioativo, baseado na ionização do ar por meio da presença de material radioativo no material constituinte da ponta, está proibido no Brasil desde 1989. Quem eventualmente ainda utilize esse tipo de p-r está obrigado a desmontá-lo e encaminhar os componentes à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).”

PARTE II. CARGAS ELÉTRICAS EM MOVIMENTO

CAPÍTULO 5. Corrente elétrica

O pior caso de choque é aquele que se origina quando uma corrente elétrica entra pela mão de uma pessoa e sai pela outra. Nesse caso, atravessando o tórax de ponta a ponta, há grande chance de a corrente afetar o coração e a respiração.

O valor mínimo de intensidade de corrente que se pode perceber é 1mA (micro-ampère). Esse valor provoca sensação de cócegas ou formigamento leve. Entretanto, com uma corrente de intensidade 10x maior a pessoa já perde o controle dos músculos, sendo difícil abrir a mão e livrar-se do contato.

O valor mortal está compreendido entre 10mA e 3A, aproximadamente. Nessa faixa de valores, a corrente, atravessando o tórax, atinge o coração com intensidade suficiente para modificar seu ritmo. Modificado o ritmo, o coração pára de bombear sangue para o corpo e a morte pode ocorrer em segundos. Se a intensidade for ainda mais alta, a corrente pode paralisar completamente o coração. Este se contrai ao máximo e mantém-se assim enquanto passa a corrente. Interrompida a corrente, geralmente o coração relaxa e pode começar a bater novamente, como se nada tivesse acontecido. Todavia, paralisado o coração, paralisa-se também a circulação sangüínea, e uma interrupção de poucos minutos dessa circulação pode provocar danos cerebrais irreversíveis.”

CAPÍTULO 6. Resistores

Existem elementos de circuitos cuja função, entre outras, é a de transformar energia elétrica em energia térmica (dissipar energia elétrica) ou limitar a intensidade da corrente elétrica em circuitos eletrônicos. Tais elementos recebem o nome de resistores.

São exemplos de resistores que se destinam a dissipar energia elétrica: os filamentos de tungstênio das lâmpadas elétricas incandescentes; fios de certas ligas metálicas (como nicromo: liga de níquel e de cromo), enrolados em hélice cilíndrica, utilizados em chuveiro, torneiras elétricas, secadores de cabelos, etc.

Os resistores utilizados para limitar a intensidade de corrente que passa por determinados componentes eletrônicos não têm a finalidade de dissipar energia elétrica, embora isso aconteça inevitavelmente. Comumente, são constituídos de um filme de grafite depositado de modo contínuo sobre um suporte cerâmico ou enrolado em forma de faixas helicoidais.”

Muitos resistores que se destinam a dissipar energia são, algumas vezes, chamados impropriamente de <resistências>. Você certamente já ouviu frases do tipo <é preciso trocar a resistência do chuveiro> ou <a resistência do secador de cabelos queimou>. Na verdade, a resistência elétrica é uma propriedade física do resistor.”

O estudo moderno da eletricidade teve início a partir da observação de um biólogo. Luigi Galvani (1737-1797) verificou que as pernas da rã, que suspendera para secar por meio de presilhas de cobre num suporte de ferro [quem seca uma rã???], contraíam-se quando balançados pelo vento. Galvani atribuiu a ocorrência à existência de correntes elétricas produzidas pelas próprias pernas da rã.

(…) [Mas] o físico Alessandro Volta (1745-1827) não concordou com a hipótese de seu colega biólogo. Para ele, as contrações eram devidas a uma corrente elétrica, mas produzidas de outro modo. Ao serem balançadas pelo vento, as extremidades livres das pernas suspensas tocavam o suporte de ferro. Então estabelecia-se o contato da perna da rã com 2 metais, o cobre, de um lado, e o ferro, do outro. Isso e mais as substâncias ácidas do corpo da rã geravam a corrente responsável pelas contrações. A construção da primeira pilha elétrica por Volta comprovou a veracidade de sua hipótese.”

Com a descoberta do efeito magnético da corrente elétrica, a história da Eletrodinâmica se entrelaça com a do Magnetismo, surgindo então com destaque as pesquisas de cientistas como Oersted, Ampère, Faraday, Maxwell e outros.”

! DICAS CULTURAIS !

As óperas de Verdi adaptando Shakespeare e Schiller. La Traviata, cantada no Poderoso Chefão 2.


Paulicéia Desvairada é considerado como o primeiro livro de poemas do modernismo brasileiro (Mário de Andrade).”

CAPÍTULO 7. Associação de resistores

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CAPÍTULO 8. Medidas elétricas

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CAPÍTULO 9. Geradores elétricos

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CAPÍTULO 10. Receptores elétricos

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CAPÍTULO 11. As leis de Kirchoff

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CAPÍTULO 12. Capacitores

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PARTE III. ELETROMAGNETISMO

CAPÍTULO 13. Campo magnético

campo magnetico

CAPÍTULO 14. Força magnética

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CAPÍTULO 15. Indução eletromagnética

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CAPÍTULO 16. Noções de corrente alternada

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CAPÍTULO 17. Ondas eletromagnéticas

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PARTE IV. INTRODUÇÃO À FÍSICA MODERNA

CAPÍTULO 18. Relatividade especial

No final do séc. XIX, acreditava-se que as ondas eletromagnéticas, a exemplo das ondas mecânicas, necessitavam de um meio material para se propagarem. Esse meio elástico, onipresente e invisível, preenchendo todo o Universo, foi denominado éter. As ondas eletromagnéticas e a luz, em particular, propagavam-se com velocidade c = 300 mil km/s em relação a esse meio.

Como o éter era um meio hipotético, cuja existência jamais fôra provada, em 1887 os cientistas Michelson e Morley realizaram, em Cleveland (EUA), uma experiência para verificar sua existência. Eles consideraram que, se o espaço sideral estivesse preenchdio por um <mar de éter> imóvel e a luz fosse realmente propagada através dele, a velocidade desta deveria ser afetada pela <correnteza de éter> resultante do movimento de translação da Terra. Em outras palavras, um raio de luz lançado no sentido do movimento da Terra deveria sofrer um retardamento, por causa da correnteza do éter, da mesma forma que um nadador é retardado pela correnteza da água ao nadar contra ela.”

Michelson e Morley esperavam encontrar valores diferentes para os intervalos de tempo delta-T e delta-T’, segundo cálculos teóricos previamente feitos. A diferença de tempo deveria ser detectada pela análise da interferência dos feixes de luz no anteparo de sua máquina interferômetro [basicamente um superespelho mergulhado horizontalmente em mercúrio]. Contudo, realizada a experiência, a conclusão foi perturbadora: não havia diferença entre os 2 intervalos de tempo. Repetiram a experiência várias vezes, em épocas e condições técnicas diferentes, chegando sempre à mesma medição. (…) Foi o fim do sistema de referência universal newtoniano.”

CAPÍTULO 19. Física quântica

Na história da Física, existem vários exemplos de conceitos que exigiram revisão ou mesmo substituição, quando novos dados experimentais se puseram a eles. Contudo, no caso da luz, foi a primeira vez em que duas teorias, completamente diferentes, são simultaneamente necessárias, completando-se mutuamente.”


“Logo após a hipótese de
De Broglie, foi desenvolvida por vários físicos notáveis, como Heisenberg, Schrödinger, Born, Pauli [citado em Jung] e Dirac, a Mecânica Quântica.”

CAPÍTULO 20. Física nuclear

A força nuclear forte é a mais intensa das 4 forças fundamentais. Sua intensidade é 1038 vezes maior que a força gravitacional, a mais fraca das quatro. Entretanto, sua ação só se manifesta em distâncias muito pequenas, comparáveis às dimensões do núcleo atômico (10-15m). A intensidade da força nuclear forte diminui rapidamente quando há a separação entre as partículas, praticamente se anulando quando a distância assume as dimensões de alguns diâmetros nucleares. Essa força também é denominada força hadrônica, porque só se manifesta entre os hádrons, grupo de partículas do qual fazem parte os nêutrons e os prótons, mas não os elétrons, que não são afetados pela força nuclear forte.”

A intensidade da força eletromagnética é em média 100x menor que a da força nuclear forte.”

NÃO BRINCAR COM FOGO OU ELETRICIDADE: “Entre os léptons (grupo de partículas das quais faz parte o elétron) e os hádrons, atuando em escala nuclear, desenvolve-se a denominada força nuclear fraca. Sua intensidade é 1025 vezes maior que a da força gravitacional, mas 1013 vezes menor que a da força nuclear forte. Ela é a responsável pela emissão de elétrons por parte dos núcleos de algumas substâncias radioativas, num processo denominado decaimento beta. Atualmente a maior parte dos cientistas admite que a força nuclear fraca e a força eletromagnética são manifestações diferentes de uma mesma interação fundamental, chamando-as de força eletrofraca. Esse é um primeiro passo para a unificação completa das 4 forças fundamentais, entendendo-as como manifestações de uma única superforça.”

a força gravitacional tem grande importância na Astronomia e na Cosmologia, explicando a movimentação dos astros no Universo, bem como a formação de estrelas, galáxias e sistemas planetários.”

Um contato entre uma partícula e sua antipartícula pode resultar num processo de aniquilação da matéria. É o que ocorre entre um elétron e um pósitron, sendo criados dois fótons de alta energia.”

Com a construção de grandes aceleradores de partículas, muitas antipartículas foram descobertas como, p.ex., o antipróton e o antinêutron. O antipróton foi descoberto em 1955 pelos físicos norte-americanos Owen Chamberlain (1920-2006) e Emílio Gino Segré (1905-1989), no Bévatron da Universidade da Califórnia, em Berkeley, EUA. Por esse feito, receberam o prêmio Nobel de Física de 59.”

Entre os bósons, os mais conhecidos são os fótons, que têm massa de repouso nula.”

As partículas elementares elétron, neutrino, múon, tau e suas antipartículas são exemplos de léptons. O nome lépton significa leve, e a razão disso é que sua massa costuma ser menor que a menor massa dos hádrons. Entretanto, sabe-se hoje que o tau, um tipo de lépton que só pode ser encontrado em partículas aceleradas e em raios cósmicos, tem massa que corresponde a quase o dobro da massa do próton.

Os hádrons, que estão sujeitos a todas as interações, podem ser de 2 tipos: os mésons e os bárions. Um tipo de méson, o píon, foi descoberto em 1947 pelo físico brasileiro César Lattes (1924-2005), no pico de Chacaltaya, nos Andes bolivianos, a 5.600m de altitude. Os mésons são partículas cuja massa pode variar desde um valor próximo a 1/7 da massa do próton até valores mais elevados que a massa de núcleos leves. Próton, nêutron, lambda, sigma, Xi, ômega e suas antipartículas são exemplos de bárions.”

Os hádrons, na verdade, não seriam partículas elementares, pelo fato de que são constituídos por partículas ainda menores, os denominados quarks.¹ O modelo dos quarks prevê a existência de 3 tipos, indicados pelas letras u (de up), d (de down) e s (de strange [haha]). Os quarks apresentariam carga elétrica fracionária em relação à carga elementar. Existiriam 3 antiquarks.

¹ O nome quark, dado por Gell-Mann às menores partículas constituintes da matéria, foi tirado do romance Finnegans Wake, de Joyce.

Esse modelo se expandiu com a inclusão de mais 3 tipos de quarks: o c (de charmed), o b (de bottom) e o t (de top) e seus correspondentes antiquarks.”

Os hádrons mais comuns (prótons e nêutrons), denominados núcleons, são constituídos apenas pelos quarks u e d. Um próton seria constituído por 2 quarks u e um quark d, pois a carga elétrica do quark u é +2/3 e a do quark d é -1/3 (carga = 1). Um nêutron seria formado por 2 quarks d e um quark u (carga 0).”

Cada m² da superfície do planeta é atingido, em cada segundo, por cerca de 200 partículas denominadas raio cósmico, com energias de alguns milhões de elétrons-volt. Entre as partículas que constituem a radiação cósmica predominam os elétrons e os núcleos atômicos, principalmente de hidrogênio (prótons). As partículas dos raios cósmicos deslocam-se pelo espaço com velocidades próximas à da luz. Algumas delas são muito mais energéticas do que qualquer outra partícula produzida nos maiores aceleradores de partículas existentes.”

No Brasil, as atividades envolvendo os raios cósmicos marcam o próprio início das pesquisas físicas em nosso país. Por ocasião da implantação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, em 1934, foi marcante a atuação do físico ucraniano de nascimento, naturalizado italiano, Gleb Wataghin (1899-1986), que hoje empresta seu nome ao Instituto de Física da Unicamp.”

Em 1949, foi criado no RJ o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), coordenado por César Lattes e José Leite Lopes (1918-2006), outro importante pesquisador brasileiro, primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Física.”

Na esteira dos aperfeiçoamentos dos acelerados de partículas, em 1929, o físico norte-americano Ernest Lawrence (1901-58), prêmio Nobel de física de 39, desenvolveu outro acelerador com concepção diferente, o cíclotron, no qual partículas carregadas eram aceleradas em percursos espiralados, ganhando energia a cada ciclo. Esse conceito ainda hoje é utilizado nos grandes aceleradores.”

quando núcleos pesados como os de urânio são bombardeados por partículas como nêutrons acelerados, originam-se núcleos menores e uma grande quantidade de energia. (…) Essa energia obtida confirmou plenamente a fórmula de Einstein E = mc²”

Em 02/12/1942, na Universidade de Chicago, um grupo de cientistas, dirigido por Enrico Fermi [ironicamente, um italiano ‘ajudou a matar’ o fascismo], criou com sucesso o primeiro reator a conseguir um estado de auto-sustentação ou <crítico>. O reator era abastecido com urânio natural embebido em blocos de grafite, tendo a fissão ocorrido no isótopo do urânio de massa 235 e 92 prótons.”

invenção da bomba a

Chama-se energia de ligação do núcleo a quantidade de energia mínima que o núcleo deve receber para ser possível separar núcleos atômicos. (…) quando núcleons se juntam e se fundem para formar um núcleo mais pesado, há liberação de energia, que corresponde à energia de ligação, i.e., à energia que o núcleo formado deveria receber para que fossem liberados os núcleos originais. No processo que ocorre no Sol, núcleos de hidrogênio unem-se para formar núcleos de hélio e, como subproduto dessa reação nuclear, é liberada uma enorme quantidade de energia.”

Por que não existem usinas de energia de fusão nuclear? “o gasto de energia para se obterem as condições necessárias à realização do processo é maior que a quantidade de energia obtida dele.” “A fusão nuclear causa bem menos problemas que a fissão na obtenção de energia elétrica. Por isso, há um grande empenho dos cientistas e dos governos em todo o mundo para buscar soluções que tornem viável a utilização do processo de fusão em substituição ao de fissão. Nesse sentido, foi criado um projeto internacional, que constitui uma das maiores cooperações científico-tecnológicas dos últimos tempos, o ITER (International Thermonuclear Experimental Reactor). O reator, baseado na tecnologia Tokamak, está sendo construído na França e, uma vez concluído (o primeiro prazo para início das operações é 2016), deverá produzir cerca de 1 GW (1 bilhão de watts) de potência. Tal projeto consumirá mais de 10 bilhões de euros, metade dos quais investidos pela comunidade européia.” Atualizações: https://www.iter.org/sci/iterandbeyond – a máquina sucedânea do projeto ITER tem previsão para entrar em funcionamento nos anos 40: “DEMO is the machine that will address the technological questions of bringing fusion energy to the electricity grid. The principal goals for the DEMO phase of fusion research are the exploration of continuous or near-continuous (steady-state) operation, the investigation of efficient energy capture systems, the achievement of a power output in the Q-value range of 30 to 50 (as opposed to ITER’s 10), and the in-vessel production of tritium (called tritium breeding). DEMO would be a simpler machine than ITER, with fewer diagnostics and a design more targeted to the capture of energy than to the exploration of plasma regimes.” “Beyond DEMO, the final step to producing fusion energy would be the construction of a prototype reactor, fully optimized to produce electricity competitively. The timescale for such a prototype depends heavily on political will to reach this stage, but most forecasts place this phase of fusion energy development at the middle of the century.” Ironicamente, além da União Européia parece que só o Japão está envolvido, sem a presença dos EUA…

supernova

Uma das previsões da relatividade geral de Einstein é a existência de ondas gravitacionais, as quais, apesar das tentativas, ainda não foram observadas. Existe a expectativa de que na eventual colisão de dois buracos negros, envolvendo massas da ordem de milhares de massas equivalentes ao Sol, ondas gravitacionais possam ser detectadas, resolvendo um dos grandes enigmas da Física atual.”

PARTE V. ANÁLISE DIMENSIONAL

CAPÍTULO 21. Análise dimensional

(…)

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Gilbert, De magnete, 1600.

Grattan

AS EXTRAORDINÁRIAS AVENTURAS DO BARÃO MUNCHAUSEN: Um RPG Superlativo num Estilo Totalmente Inovador pelo Barão Munchausen – James Wallis, trad. Marta Cancela, DEVIR, 1998.

segundo a minha família, havia um Munchausen viajando clandestinamente na Arca de Noé”

a minha reputação, e com ela o recontar de diversas das minhas espantosas aventuras, espalhou-se em todo o mundo civilizado, através dos oceanos, das profundezas da África ao longínquo Japão, os mundos gêmeos do Sol e da Lua e os estranhos povos que lá vivem, e até mesmo na França. Portanto, para onde quer que viaje, encontro sempre quem me convença a contar essas histórias cujos pedidos nunca recuso, sendo um homem de nobre criação.

De acordo com o mencionado, os palermas que querem ouvir mais uma vez como os meus companheiros e eu fomos engolidos por uma baleia, ou como atravessei os céus de Constantinopla montado numa bola de canhão, não me permitem um momento de paz. E muitas vezes tenho como única recompensa um copo do mais ordinário conhaque ou até mesmo nada! Serei eu um contador de histórias que o faz apenas para o divertimento de outros? Não! Sou um nobre, um soldado e um aventureiro, enquanto eles são apenas simplórios, e que eu seja amaldiçoado se quiser ter algo mais a ver com eles.”

Penso que esta deve ser a maior inovação na concepção de jogos desde o Baralho de Cartas de Tarot Colecionável, que eu inventei quando estava encarcerado na Bastilha, por uma falsa acusação de importar marmelos num domingo.”

Este é um jogo de narração de histórias, e cada uma dessas histórias será baseada nas extraordinárias aventuras que vivi – no seu estilo, se não no seu conteúdo. Mas enquanto as histórias que vós contais são ficção, as minhas são inteiramente verdadeiras em todo e qualquer pormenor. Não o dizer é chamar-me de mentiroso, e fingir que as vossas fantasias aconteceram comigo é chamar-me de charlatão, e, se fizerdes qualquer uma destas duas coisas, levar-vos-ei lá fora e farei uma tal demonstração da arte da esgrima que vos estonteareis de tal modo que ficareis cego pelas faíscas durante um mês. Eu sou um nobre, senhores, e comigo não se brinca.”

O jogo é simples. Os jogadores sentam-se à volta de uma mesa, de preferência com uma garrafa de um licor interessante ou de um vinho decente para umedecer as gargantas, e cada um, a sua vez, conta uma aventura ou feito espantoso. A narração da história é desencadeada por um dos outros, e o resto dos companheiros pode interromper com perguntas e observações quando acharem que o devem fazer, e é a função do narrador refutar ou evitar essas questões. Quando todos terminarem, o que tiver contado a melhor história paga bebidas aos seus companheiros e, com todos devidamente fortificados, o jogo pode recomeçar.”

Se os vossos companheiros forem em número menor que cinco, então dai a cada homem cinco moedas. Se contardes mais de 20, não penseis em jogar o jogo: em vez disso aconselho que junteis as vossas posses, contrateis alguns mercenários e planejeis uma invasão da Bélgica.”

quem propuser jogar com dinheiro em papel – que não serve para mais nada senão para limpar o tra… não é certamente um cavalheiro e deve ser expulso do vosso grupo e em seguida do vosso clube.”

Se o grupo não estiver bêbado, cansado ou aborrecido, passai para a CRIAÇÃO DOS PERSONAGENS. Caso contrário, podereis omiti-la. Ou simplesmente omitir tudo.”

Para tratar do assunto da criação dos personagens será necessário um pedaço de pergaminho e uma pena – assumindo que, tendo recebido uma educação decente, vós sabeis ler e escrever, pelo menos em Latim.”

O curso da narrativa nunca pode amolecer, pois os outros jogadores podem interromper a qualquer momento o contador com uma aposta ou uma objeção. Isto é feito quando o jogador empurra uma moeda (nunca mais de uma) das moedas que tem a sua frente – a que chamaremos a parada –, interrompendo o curso da narrativa. Uma aposta seria lançada como demonstram estes exemplos:

– Aposto, Barão, que atrás da porta que mencionastes estava todo um regimento de cavalaria com fuzis esperando para vos emboscar; ou:

– Aposto, Conde, que a Imperatriz não se impressionou com a vossa oferta de duas girafas e mandou-vos abandonar os seus aposentos imediatamente.

As objeções, pelo contrário, lançam-se deste modo:

– Mas, Conde, é sabido que a Imperatriz tem ódio a girafas, desde que o seu cãozinho foi comido por uma; ou:

– Mas Duquesa, no momento que mencionais, o Colosso de Rodes já era uma ruína há 50 anos, por isso seria impossível terdes feito a sua escalada.”

Se a aposta ou objeção do jogador que interrompeu estiver correta deve o contador concordar com o seu companheiro e pode guardar a moeda. Deverá, contudo, explicar obrigatoriamente como os acontecimentos introduzidos na interrupção do companheiro não o impediram de continuar com a aventura que está a descrever.

Se, contudo, a interrupção for julgada incorreta pode afastar a parada do colega junto com uma moeda sua, e informar ao outro que ele é um idiota que claramente não sabe do que fala e que obtém as suas informações ouvindo coscuvilhices de solteironas em rodadas de gim. Se aquele que interrompeu não está preparado para fazer frente a este insulto a sua honra, pode juntar outra moeda à pilha e devolvê-la ao contador, reforçando o seu caso e devolvendo o insulto com juros. O contador pode de novo devolver a aposta com outra moeda e outro insulto, e assim sucessivamente até que um dos lados retire a sua objeção e aceite o insulto (ficando com toda a ‘parada’), ou uma das partes esgote os seus fundos mas não desista – caso em que devem travar um duelo.”

Os nobres enquadram-se num modelo estabelecido por Deus Todo Poderoso, e descrito pela 1ª vez por Baldesar Castiglione na sua obra O Livro do Cortesão. A verdade das suas palavras vem até hoje, apesar do fato de – devido a uma má fortuna de nascimento – ele ser italiano. Tomarei a liberdade de citar esse augusto nobre sem a sua permissão, visto que já faleceu há mais de 200 anos.”

O comportamento do nobre é a pedra basilar de toda a civilização, pois sem a nobreza não haveria o patrocínio das ciências, artes, literatura ou música; e apenas as diversões mais comuns como o teatro, os bailaricos, a política e as trocas comerciais permaneceriam. Naturalmente, nenhum nobre tem coisa alguma a ver com magia, pela razoabilíssima razão de que a magia não existe.”

(…O meu editor, digo, cujos olhos brilham de raiva e o cabelo se eriça como o daquele ouriço-cacheiro gigante que uma vez derrotei na Escócia virando-o pelo avesso, e assim apunhalando-o mortalmente com seus próprios espinhos – o meu editor, temo, morrerá de uma apoplexia, a menos que eu termine esta digressão, feche estes parênteses e regresse ao assunto das OBJEÇÕES E APOSTAS. Francamente, estou achando este assunto das regras mais do que aborrecido, especialmente agora que esta garrafa de conhaque acabou. Sim, isso foi uma indireta, que, ao que parece, ele não entendeu. O quê? Ah! fechar os parênteses. Que assim seja.)”

É mais do que óbvio, até para o idiota mais tapado, que o contador da história não foi morto, pois ele está contando a história, e se tal objeção for feita, o contador pode embolsar a moeda do objetante, e todos os companheiros devem olhar para o tolo com indisfarçado desprezo. Podem atirar sobre ele pedaços de pão duro, mas atiçar-lhe os cães já é considerado de má-educação.”

TRAVANDO DUELOS

(Advertem-me de que a moda agora é chamar a esta parte das regras de <Sistema de Combate>. É um nome feio que tropeça na língua e parece um manual prussiano sobre os métodos de esgrima com sabre. Desprezo-o. Se o seu criador sentir-se incomodado pelo meu desprezo por ele e pela sua frase, deixai-o desafiar-me e veremos se sabe algo sobre os verdadeiros <sistemas de combate>, ao mesmo tempo que reduzo a suas calças a renda.)”

Lutar por questões de honra é um assunto perigoso que pode trazer a pobreza, ferimentos ou a morte ou – um horror pior – o ridículo perante os participantes, mas é tão necessário como o bife para um inglês, o ouro para um suíço ou evitar banhos para um francês.”

O duelo tem de prosseguir somente até haver sangue derramado ou incapacidade, pois este é apenas um desentendimento amigável, mas já vi duelos serem travados até o desmembramento ou à morte por assuntos como um particípio passado mal conjugado.”

Qualquer pessoa que possui um título hereditário ou que tenha servido como oficial em qualquer dos melhores exércitos do mundo (o alemão, o prussiano, o inglês, o espanhol, o italiano ou, para esse fim, o do Catai, o etíope, o persa – e com efeito, agora que pensei nisso, todos exceto o turco, o polonês e o irlandês) deve passar à seção seguinte.”

recomendo um mestre de duelos inglês para duelos que possam durar até 5 dias e depois serem cancelados ou adiados devido à chuva ou acabarem em empate.”

Um certo número de estados não-iluminados declararam os duelos ilegais, por isso os participantes correm o risco de serem interrompidos por membros das classes baixas brandindo cassetetes e mandados, o que é mais do que suficiente para pôr qualquer duelista desconcentrado.”

TRAVANDO DUELOS ENTRE COVARDES

Se sois fraco de sangue, mole das carnes ou débil do fígado ou – como modo de obter uma desculpa – se estais com pressa para terminar o jogo, ou se há senhoras presentes que ficariam chocadas ao ver sangue, ou se sois incapaz de manterdes o papel que estais a desempenhar ao pensar num combate nobre, e vos encontrais de novo reduzido ao papel de um mero camponês, ou se fordes galês; se qualquer destas coisas for verdade, então talvez desejeis evitar o combate físico que representa um duelo. Em vez disso, tal como estais fingindo ser um nobre no meu jogo, podeis fingir que estais travando um duelo com um conjunto de regras que eu mesmo concebi para esse fim.

Eu retiro o <eu mesmo <concebi>. Na verdade, este jogo foi-me ensinado por um habitante da Estrela-Cão, que encontrei a uma grande distância de sua casa, na última ocasião em que visitei a Lua. Sei que este jogo foi ensinado originalmente a estes caninos astrais pelo famoso navegante Vasco da Gama, que em sua derradeira viagem, traçou a rota para a ilha do Ceilão, mas errou por vários milhares de léguas e acabou navegando para fora da borda do mundo. Eu culpo a fraca imitação que são as cartas marítimas portuguesas, mesmo sabendo que, sem dúvida, os portugueses hão de culpar a bússola, ou o vento, ou a água, ou os habitantes do Ceilão, ou a forma do mundo, ou a Lua, ou qualquer coisa que pudesse absolver a sua relaxada mão-de-obra.

Vasco da Gama chamou as regras de <Garrafa-Copo-Garganta> (ele era português, tal como esclareci anteriormente) e os habitantes da Estrela-Cão conhecem-nas como <Osso-Pau-Bola>. Chamar-lhes-ei de <Pedra-Papel-Tesoura> e… Ah! O meu editor diz-me que fui ultrapassado pelo destino e que o jogo já é conhecido por esse nome em todo o mundo, e que devo riscar o parágrafo acima.”

bebi fundo do vinho do porto de lorde Bootlebury e dos olhos castanhos de sua filha mais nova, tão grandes e profundos como os do veado que matei na Floresta Negra empanturrando-o de bolo – o seu sabor, devo dizer, não ficou muito favorecido por este método”

Poderia dizer mais, porém não vou gastar mais palavras neste assunto, destinado como é, apenas a mariquinhas e àqueles que têm medo de ver um pouco de sangue, ou de somar mais uma morte ou duas à sua consciência.”

Assumindo que ambas as partes ainda vivem, o resultado de um duelo é o seguinte: o perdedor deve entregar todo o conteúdo da sua bolsa ao vencedor e retirar-se do jogo. Se uma das duas partes chegou a perder a vida no conflito, então a sua testemunha deve seguir essas instruções. Contudo, o seu galardão – se o tiver – deve permanecer intacto.”

uma tripulação de piratas morenos e eu estávamos encurralados nas entranhas de um enorme monstro marinho que infelizmente nos tinha engolido – um acontecimento comum, soube pelas minhas conversas com diversos aventureiros marítimos, mas esta sendo de algum modo peculiar pois estávamos escalando o Matterhorn quando fomos engolidos.”

TERMINANDO UMA HISTÓRIA

Pela minha experiência, uma história não deve demorar mais do que 5min, pois para além desse tempo os ouvintes começam a ficar aborrecidos e indiferentes e a falar entre eles e a atirar pedaços de pão duro e a jogar dados ou cartas e a chamar músicos e a dançar em cima da mesa e a seduzir a anfitriã e a distribuir literatura sediciosa ou revolucionária e a congeminar guerras na Ásia, e outras distrações que poderão fazer até mesmo o melhor contador perder o ritmo – particularmente se ele também tiver intuitos que envolvam a anfitriã.”

Se um contador de histórias termina sua narrativa e não há ninguém para gritar <Viva!>, pois estão todos a dormir ou com outras ocupações, então ele deve dar a entender aos companheiros que chegou ao fim levantando-se e proferindo em alto e bom som: <Esta é a minha história, na qual todas as palavras são verdade, e se algum homem duvidar fá-lo-ei beber uma garrafa de conhaque num só gole.> Isso serve de sinal aos companheiros, pelo volume, não pelas palavras, que deverão levantar-se do torpor causado por uma história maçante e reunir uns quantos <Viva!> para darem a entender que perceberam que a história acabou.”

Se porventura um contador se embrenhou de tal modo na sua narração que não percebeu que o grupo perdeu o interesse e começou em vez disso a fazer lutas de galos ou a caçar texugos, então qualquer dos seus companheiros poderá interromper num momento oportuno dizendo: <Isso me lembra a história contada pelo Barão N… (nomeando o jogador sentado à direita do presente contador) no qual ele..> e nomeia uma aventura. Com isso, ele deve avançar uma moeda. Se os demais integrantes do grupo concordarem, devem também avançar uma moeda cada um, e se mais da metade dos presentes concordarem que o manto de contador deve passar ao seguinte, então o Barão N— começará o relato de uma nova aventura. O contador anterior, abatido pela vergonha e pela desonra, poderá somar o dinheiro reunido à sua bolsa como uma recompensa. Se menos da metade do grupo apoiar com moedas a causa, então esse montante será entregue ao criado para comprar mais vinho.”

DETERMINANDO O VENCEDOR

Quando todos terminaram as suas histórias, deverá haver um momento de pausa. Reclinai-vos nas vossas cadeiras e permiti que o criado ou criada que está a servir o vinho volte a encher o vosso copo. Pensai nas histórias que ouvistes e decidi qual delas é a melhor. Se fordes do tipo erudito podereis querer debater esta questão com os vossos companheiros, fazendo referência à Arte Poética de Aristóteles e aos recentes trabalhos críticos do poeta Dryden. Ou se não, tudo bem. Não tem importância.”

Quando todos os jogadores tiverem falado, votado e distribuído o seu galardão (e devo de novo relembrar aos mais lentos, populares e plebeus dentre os meus leitores que um nobre nem consideraria a idéia de votar em si próprio), então cada jogador deve contar o número de moedas votadas para si e para a sua história. (Em voz baixa, naturalmente, não há nada que fique tão mal a um nobre como saber apenas contar alto; e se os vossos conhecimentos numéricos não passam do 5, então deveis desde já desistir de quaisquer intenções de jogar este jogo, e descobri para vós um passatempo mais de acordo com a vossa natureza como cultivar nabos, trabalhar como isca para ursos ou declarar guerra aos turcos.)

TERMINANDO O JOGO

O jogador com o maior galardão é declarado o vencedor do jogo. Todos gritam um sonoro <Viva!> e manda-se vir mais vinho para se beber à saúde do vencedor. É da etiqueta que o vencedor deverá pagar este vinho, e é também de praxe que o dinheiro acumulado como galardão não deve ser – ou melhor, nunca é – suficiente para cobrir o seu custo. Mas isso não é problema. Somos nobres e coisas mesquinhas como o pagamento justo e o dinheiro são consideradas por nós como sendo de menor importância.”

Se jogardes estrategicamente, de modo a obterdes mais moedas, posso assegurar-vos que perdereis o jogo; parcialmente porque o vosso dinheiro deve ser dado a outro, e parcialmente porque tereis criado tal inimizade por parte dos restantes que nenhum votará em vós. Contudo, esta tática dar-vos-á a honra de decidir quem ganha o jogo.”

Sem moedas não podereis interromper um camarada, contestar interrupções à vossa história ou votar pelo vencedor. E como um nobre não pede nem rouba, já que não tendes fundos, o melhor é aumentá-los contando uma bela história que estimule muitas interrupções por parte dos vossos companheiros, e que saibais desviá-las com a destreza da vossa língua.”

Na rodada final do jogo, se os vossos companheiros admitiram mulheres ao jogo, NÃO RECOMENDO que voteis na VOSSA AMADA, ou no membro do grupo que esteja INTERESSADO EM VÓS. Segundo a minha experiência, isso raramente leva ao sucesso, e os vossos companheiros notarão, fazendo troça do vosso nobre gesto durante semanas.”

CENÁRIO HISTÓRICO

Estamos obviamente no século XVIII, pois decerto não houve melhor época para se viver. Mais precisamente, encontramo-nos no ano da graça de 17–. A Renascença findou, o poder da Igreja está em decadência e finalmente a Europa é um local civilizado. Os turcos estão em Constantinopla e, na verdade, por todo o lado, os franceses estão de novo a gerar conflitos. A Suécia está em declínio, os russos vão invadindo a Criméia a intervalos regulares, o rei da Inglaterra é alemão e louco – duas excelentes condições para governar essa ilha – e algures, do outro lado do Oceano Atlântico, alguns colonos começam a superestimar a sua real importância.

A maravilha desta época é, sem sombra de dúvida, o maravilhoso balão voador dos irmãos Montgolfier, que pode transportar pessoas e animais alto no ar em perfeita segurança (…) Creio que os irmãos criaram essa sua invenção apenas como um modo de deixarem a França.”

Agora que as Austrálias foram descobertas, está a ser-lhes dado um nobre uso como depósito de todos os indesejáveis da Europa. Um jovem indivíduo inglês chamado Watt criou uma chaleira gigante que pode dar potência a uma fábrica – dando chá quente em quantidade suficiente para contento de todos os trabalhadores. Incrível!”

Os elementos das classes mais baixas que crêem que o dinheiro é um substituto aceitável para os títulos nobiliárquicos foram rápidos em aceitar essas inovações, e estão febrilmente ocupados em construir fábricas e empregar mulheres de nome Jenny para lhes tecer algodão.”

Confesso que nada disto percebo nem entendo, mas parece que a Inglaterra está criando uma espécie de império – baseado, vejam só, em comércio, dinheiro e tubérculos. Que deus nos ajude…”

a chama da aventura na alma do Homem tem sido recentemente acalmada por coisas grosseiras como ir ao teatro, ler novelas e jogar uíste.”

eu não sou um homem extraordinário, meramente vivi em tempos extraordinários”

Não está, lamento dizer-vos, dentro das vossas capacidades fazer amor com a imperatriz da Rússia, pela razão de que a sua honra está sob a minha proteção e, se vos apanho perto dela, dar-vos-ei uma surra tal que magoará de tal forma os vossos pés e o vosso traseiro que não sereis capaz de estar de pé ou de vos sentardes, e sereis forçados a passar um mês no ar, girando como um pião, a algumas polegadas acima do chão. Considerai isso um aviso.”

Como, Barão, conseguistes passar por nativo entre o pequeno povo de Liluput.”

E como, e por quê, sois conhecido na França como o Quinto Mosqueteiro?”

Como provastes à Royal Society que o mundo não é redondo?”

Como é que Platão menciona um diálogo que teve convosco no seu livro A República escrito há 2 mil anos?”

Como foi que fostes vós e não Francis Bacon quem escreveu as peças de Shakespeare?”

O que fizestes para que o ano de 1752 tenha perdido os dias entre 3 e 14 de setembro?”

O vosso envolvimento no esquema da Royal Society para extrair luz solar de pepinos.”

Por que fostes aprisionado na mesma cela do Homem da Máscara de Ferro, o que se passou entre vós, e como escapastes?”

Como vos deitaste com o fantasma de Ana Bolena.”

As três noites que passastes no castelo do conde da Transilvânia.”

Como salvastes a raça dos Houhynhymns da sua vida de escravidão sob o jugo dos seus cruéis donos.”

Como escrevestes o Réquiem de Mozart?”

Como provastes que o monstro do Loch Ness não existe?”

Com que provas acreditais que o Homem e o macaco são primos?”

Como foi que servistes Gustave Doré ao ponto num jantar e no dia seguinte ele fez uma ilustração vossa?

R.I.P. Munchhausen 17—1797!

THE AUTOBIOGRAPHY OF FBI SPECIAL AGENT DALE COOPER (My Life, My Tapes), As heard by Scott Frost

O tanoeiro do vale. O estrabismo entre dois picos. Invisível e na frente de nossos narizes o tempo todo…

December 25, 9 P.M.

Believe the extension cord has some severe limitations. One, I cannot travel more than 75 ft. from the house, which will limit my investigations. Two, it draws attention to itself in a way that can be dangerous. I think a battery pack of some kind is the solution, and tomorrow will visit Simms’ Hardware to find the answer. Dad said that words are tools, and that tools should be taken care of or else you won’t drive a straight nail. Dad says a lot of things I don’t understand.

This is the end of Christmas Day. My presents this year were the following: underwear, socks, corduroy pants, insect field guide, five dollars from my grandmother, and a Norelco B2000 tape recorder, which is not a toy. Signing off, this is Dale Cooper.”

According to Mr. Simms, each battery will last 3 hours. I bought 3 with the money my grandmother sent, which she thinks I am putting aside for college.”

December 27, 3 A.M.

Mom just left my room because I had an asthma attack. When I can’t breathe I sometimes just lie there and think that I’m dead and float away as she is rubbing my chest with VapoRub. I might not be able to go outside tomorrow if it’s cold because of my lungs.”

She said that she was alone on a field when thousands of birds filled the sky, blocking out all of the light. That’s when she always wakes up. Mom says we can see things in our dreams that we can’t see when we’re awake. I asked her what she thought the dream meant but she just smiled and said it was nothing . . . I’m glad I have the recorder and someone I can always talk to.

I have never seen a dead person. I think I would like to, but not right now because I want to close my eyes and not think about being dead.”

January 1, 1968, 10 A.M.

Bradley Schlurman’s Stingray was stolen by members of the 24th Street gang yesterday. Two clues point to them. One, Bradley saw them as they knocked him off his bike. Two, they said this bike now belongs to the 24th Street gang. The police have been called but so far they have come up empty. I have decided to take the case myself with the aid of my tape recorder. If I can follow them and get one of them on tape talking about the bike, I believe I will crack the case. I have not told Bradley this because he has locked himself in his room and will not come out.”

The 24th Street gang stole my tape recorder. My plan was working just as I had hoped. I followed the suspect for a block but was unable to get a confession on tape. I then attempted to fool the gangsters into believing that I would like to join the gang. It was at that point that they noticed the potatoes in my pack and began taking them. When they saw my tape recorder, they grabbed that and threw the potatoes at me as I ran for cover. For two days it was in the hands of the gang. And today was recovered by police when they arrested them for stealing a car outside the Band Box Theater. I have decided that if I am going to ever fight crime again, I must be better prepared. The recorder is undamaged. Dad has checked it and says that it is A-okay. He also said that he was very proud of me fighting against the gang, but that I should use better disguises than potatoes. I also discovered that you cannot record through a glove. There is still no sign of Bradley’s bike.”

Dear Mr. Zimbalist,

Like your show very much, also like Hawaii Five-O and The Wild, Wild West. Because I sunburn very easily, I don’t think being a policeman in Hawaii would be a very good idea for me.”

Noticed this morning that my pee smells like the asparagus we had for dinner. Wonder why this does not happen when I eat a hamburger. Also this morning Mom was very quiet around the breakfast table. I think she had another dream about the birds in the sky. This dream seems to frighten her and I do not know why.”

At exactly 7:05 P.M. today I became a member of the Boy Scouts of America and immediately began my studies for my first merit badge. I expect with hard work I can attain the level of Eagle Scout in two years, far ahead of the average time required for most Scouts.”

I had not been in a girl’s room before, and did not stay long when Marie asked if I knew about breastfeeding. I do not understand why Marie seems interested in me except that she is bigger and stronger and can probably beat me in a wrestling match so is not afraid of me.”

I read in a science book that electricity is what keeps us alive. I do not understand where it comes from and where it goes when we are dead. Dad said that was the big question, and that he did not know the answer. Neither do I.”

Have just finished reading about Sherlock Holmes in The Hound of the Baskervilles. I believe Mr. Holmes is the smartest detective who has ever lived, and would very much like to live a life like he did. It is the Friends School belief that the best thing one can do in life is to do good rather than do well. I believe that in Mr. Holmes I see a way to accomplish this.”

April 4, 8 P.M.

Martin Luther King was assassinated today in Memphis, Tennessee. He was shot in the neck while standing on the balcony of a motel. I was in the car with Dad when the news came over the radio. He said shit. The first time I have ever heard him say that word. We then drove home and watched the news on the TV with Mom. There are riots in many places. I believe that the FBI must be on the trail of the man who killed him, and that they will catch him. I wish I was older. And that I knew more than I do.”

April 19, 4 P.M.

Turned fourteen today. Mom and Dad gave me a Timex watch. submerged it in bathtub for 15 minutes and it still ticks.”

June 6, 3:30 A.M.

Dad woke me up, telling me Bobby Kennedy had been shot in Los Angeles. Dad is still downstairs sitting in front of the television, waiting to hear if Bobby is alive. On the radio they played a tape of the shooting recorded by a reporter. You can hear the pop of the gunshots, then people yelling, <Get the gun, get the gun.>

She then kissed me on the lips, moving her tongue around inside my mouth in what I think was a clockwise motion. Then her eyes filled with tears and she turned and ran down the block out of sight.”

Dear Mr. Hoover,

Have made a decision today to become an FBI agent at earliest possible date. I am presently 14 years old, and on road to becoming Eagle Scout by 15. Have never broken any laws, though if you look into my records you will discover that I was recently caught audio-taping a girls’ sex education class while hidden in a heating vent. Do not feel this should be held against me, for my intent was purely scientific, and not for personal gain. Would like very much to come and meet you and discuss any experiences you may have had with audio tapes yourself.

Yours truly,

Dale Cooper”

Had a dream in the middle of the night that frightened me a great deal. A man who I have never seen was trying to break into my room. He kept calling my name and said that he wanted me. He then screamed, and after a moment it turned into a kind of roar as if he were some kind of animal. I told Mom about it and she said that she knew about <him>, and that she has the same dream, and that I must never let the man into my room. I don’t understand what it means. My chest hurts a great deal. I think I will go to sleep now. I am very tired.”

February 28, 7 A.M.

Have noticed that with great frequency I am waking up with an erection. Understand this to be part of the dream process in all mammals. Find it interesting that there is a part of the body that I seem to have no control over, which can be embarrassing when it happens at school. I have discovered, though, that by thinking very intently about Disneyland, I can suppress an erection with some success.”

It is interesting that Marie is the only girl I have ever seen naked and I can remember almost nothing of it. Our families are going to get together and watch the landing and moon walk.”

Marie smiled. I didn’t understand it until I saw men walking on the moon, but I believe God has a plan for everyone, and we are part of it. Do you understand, Dale?

I said that I thought I did.

Are you sure, Dale?

I said I was.

So am I, said Marie.

She then picked up my hand in hers and hit the nail on the head. Pray with me, Dale.

There are moments in a person’s life that you dream about and hope for. This turned out not to be one of those moments. For 2 hours we lay there together holding hands. Marie’s eyes closed in prayer. Mine opened in bewilderment.”

Wonder if I’m condemned to forever be a virgin. This situation must take full priority right behind achieving Eagle status.”

I do not know why I shot the bird. At the moment I squeezed the trigger it seemed that the only two things in the world were the crow and myself. And now there is just me.”

Have traveled 6 miles on foot so far, 170 to go. Have had no experiences to speak of yet. Believe it is about to rain.”

Am at the Post and Beam restaurant on Route 487. Cannot describe the taste of warm cherry pie to a wet and weary traveler. Have also had my very first cup of coffee, and my second. My feet seem to tingle [formigar] and are very agitated. I feel like running very fast while screaming like an Indian.”

Star is outside asleep on a rock. Was going to tell April that I am a virgin and that any help in this matter would be greatly appreciated, but before I could she took off all her clothes and went outside to chase fireflies. I attempted to follow but stepped on a stick and cut my foot several steps from the tepee [tenda]. Could do nothing but watch as her naked body ran off into the field, chasing bugs. Lost sight of her as she caught her first fly. Have dressed and cleaned the foot wound. Expect full recovery. Do not know when or if April will return. Have found a bottle of raspberry [framboesa] brandy in the van and have filled my camp cup.”

DALE: Speak right into there.

ALLEN: The sun is dying. I travel all over this state and not one person realizes that the sun is dying and that time as we know it is coming to an end, everything we do is of no importance, and not one person seems to want to do a goddamn thing about it. Art, books, television, religion – none of it matters. What we need to start doing is planning to live without our bodies once the sun craps out on us. But no one wants to talk about it. I’ve got a plan, but no one wants to listen. They would rather just walk around and pretend the sun is going to come up tomorrow just like it did today. And where do you think all those people are going to be when Mr. Sun doesn’t come up? In trouble, that’s where they are going to be, but not me. Not Allen K. Boyle. I got a plan. . . .”

Mom had another dream last night. She said that he almost got in the door. Dad has been very busy printing maps of the moon. I asked him about the dreams and he said it was something I probably understood better than he did. I don’t, and am worried.”

The doctors said it was a brain aneurysm. They operated to relieve the pressure and now we are just waiting to find out what happens.

Dad said that she had gotten up about 11:30 to get a glass of water and take an aspirin. He asked her if she was feeling all right and she said, <Oh, you know.>. She didn’t say anything else, just that. <Oh, you know.> I don’t understand, and I hate hospitals.”

An aneurysm is a permanent abnormal blood-filled dilatation of a blood vessel resulting from disease of the vessel wall. It isn’t that bad.”

Dad is going to have her cremated. I never finished my civics paper. Marie came over. Started to tell me something about Mom being with God and I told her if she said one more word I’d knock her goddamn teeth out.”

I wish my brother Emmet could come, but if he crosses the border he will be arrested. Dad talked to Emmet on the phone and told him he understood why he couldn’t come back. I wish I understood. Bradley said Emmet was a coward and that was why he was in Canada. I smacked Bradley”

Mom is on her way to the ocean. Small grayish pebbles [seixos]. We each took a handful and tossed them into the water. They sank and then the current started to take them along, bouncing across the bottom. Saw a small perch eat one and then spit it out. A crayfish [lagostim] picked up another one in its claw and walked away with it into the deep water.”

Mom has been gone for over 3 months now. Don’t know what Dad would have done without the moon map business. He talks of little else but the moon now. Spends each night before going to bed on the roof with a telescope looking into the sky, drawing pictures of craters.”

Our first assignment is to write a sonnet. I told her that I have never liked or understood poetry. She said that she would do her best to change that, then she walked away.”

She then read a D. H. Lawrence poem, Gloire de Dijon, to the class, and kept her eyes on me the whole time. Unfortunately, I only remember the last few lines:

…She stoops to the sponge, and her swung breasts

Sway like full-blown yellow

Gloire de Dijon roses. … [bonita flor]

Had an erection throughout Mr. Hord’s early American history class.”

Have finished my first poem. Am seeking a balance between the erotic and the sublime.

Alone in a tepee full of breasts

hovering above him like angels

He dreams of fireflies and pyramids

and stars sleeping on rocks.”

April suggested that poetry may not be my field of expertise.”

Am beginning to believe that she is only interested in sleeping with dead poets.”

Just awoke from a dream where I was visited by Mom. She was not the same as I remember her. She seemed to be younger, barely a woman. Her face was smooth and pale, her hair was long and fell onto her shoulders. She was trying to tell me something, but I was not able to hear her.

I woke to find myself clutching a small gold ring in my hand. I do not know where it came from, and am sure it was not there when I went to sleep.”

The ring is now locked in the drawer of my desk. Mom is dead, and it was only a dream. I will not believe this.”

The ring fits on my small finger as if it was made for it. However, it will remain in the desk until I remember where it came from.”

Found an old photograph in an album of Mom when she was a teenager. On her finger was the ring I found in my hand the other night. I asked Dad about it and he said that when they were first dating he remembers Mom wearing it. That it had been her father’s and that her mother had given it to her when he died.”

Have drunk 7 cups of coffee. Feel somewhat sick to my stomach. Am trying very hard not to think about raspberry brandy.

Started to yawn one time after another. Drank 3 more cups of coffee to perk me up. Feel like my feet want to crawl out of my ears.”

Was up to 207 when April leaned out of the window and asked what I was doing. I said that I was counting cracks in the sidewalk. She asked why. I said that I was not sure, that I was not sure of anything anymore. (…) I told her that I thought there were more than 207 cracks in her sidewalk, but that was as far as I’d gotten, but if she wanted a complete count, I would be glad to finish. She said thanks, but that it was not necessary.”

I told April how Mrs. Laudner had tripped on a crack in the sidewalk in front of her house, smashing her nose flat against her cheek, and now always looks like she’s walking sideways. A few minutes later I left after Mr. Hord talked about how George Washington’s wooden teeth disappeared after his death and then mysteriously were found 30 years later under his bed by a maid looking for loose change.”

There are those within the scouting world who say that the skill of tracking has outlived its time. I disagree. The ability to follow a trail is fundamental to understanding the world.”

Marie rose up out of the grass, unhooked her bra, and slid it down off her arms. Although I do not actually remember doing it, at that time I apparently removed my clothes. We then stood inches apart, her breasts touching my chest.

Do you believe in God?, asked Mary.

I said I most certainly did. She smiled, kissed my chest, then slid her tongue all the way down to my penis and took it into her mouth.

The explosion that followed was unlike any I have ever experienced before. The rocket landed within 30 yards and exploded with a concussion that knocked me over. Then smaller clusters began exploding and streaming into the air. I believe at that point Mary stopped sucking and began screaming.”

Few forces in nature are as frightening as fire. Particularly when one is naked. The battle that followed lasted for almost an hour. What is left of my pants could hardly make a handkerchief. The hope that Marie had run off to get help was a false one. With only my clothes as weapons, the fire and I fought a running battle up and down the clearing from one hot spot to another. I lost my shirt to a small spruce, Marie’s to a blueberry bush, and most of my pants to a large clump of grass. Believe Marie’s socks and bra were also victims because I was not able to locate them after the flames were out.”

I lied last night. I do not believe in God, at least one who isn’t actively working against me.”

Received news today that Marie drowned this morning at Promised Land Lake. She apparently hit her head while diving off the swimming platform. She was alone at the time, so there was no one there to know she was in trouble. When they found her it was too late.”

What is good either dies or is killed.”

Thanks for saving my sneakers was the last thing I will ever hear her say.

Sure thing, I said back to her.”

Don’t forget your civics homework.”

Talked with Dad for much of the night. Both agreed that change is needed, or I will lose my marbles. Dad always seems to find the right words. Told him that I feel very guilty because I was not in love with Marie and that she might be alive if I had been.”

Have decided not to take along the tape recorder, it would not be practical, and I do not feel the need of its companionship, if that is what it has provided for the last several years. Will stop on the way out of town at Marie’s grave to leave a note and the small glass pyramid April gave me. Have also made some calculations. Expect that by the time I cross my first ocean, the lightest of Mom’s ashes will be drifting out to sea.”

The following letters are the only clues as to his whereabouts for those 3 years.”

(Three very brief and superficial letters.)

April 19, 1973, 9 P.M.

(…) Will make no attempt to record the events of the last 3 years, other than to say the whole universe is one bright pearl, and there is no need to understand it.”

Awnings seem to be declining in popularity. Trust and elm trees are disappearing. And J. Edgar Hoover is dead. Do not know whether any or all of these events are related.”

I must admit that my experience of the past several years does not lend itself to the belief that good can or will defeat evil. This is not a pessimistic view, but simply an observation of facts as I have experienced them.”

Have gotten a job digging holes for trees to be planted in. Could not be happier.”

The firemen were just mopping up. Jim’s room and several of the surrounding ones were gone. The firemen said the place went up like a torch. There was little they could do but stop it from spreading to the entire building. Jim’s body was not found in the room, and no one saw him leave the building. The firemen suspect that the heat was so intense from all the paper that only a forensic examination of the room will turn up any remains.

I do not believe they will find any. As I stood watching the firemen wrap up their hoses, the shadow of a man became faintly visible for an instant in an alley across the street. I then detected what I thought to be the muffled sound of a crying. I moved through the crows toward the alley and soon realized as I drew closer and closer that it was not crying at all, but laughter. When I reached the alley it was empty. I called out, searched up and down to no avail. All that was there was a freshly sharpened pencil where the laughter had come from. A message, I suspect.”

The owner of the circus pointed out that anyone who would write a letter seeking employment from a circus was probably not the kind of person they were looking for. He also said that he was plumb full of knife throwers already and was only looking for a bearded lady at the moment.”

Dad went on at some length that Lincoln would not have wanted to be remembered as a large piece of granite hanging on the side of a mountain with rain dripping off his nose.”

Dad gave me a new tape recorder that is the size of a notebook and used cassettes of tape rather than reels. He told me to work hard and not believe a damn thing anyone tells me.”

While I have experienced a number of mind-altering fungi and natural fauna used by what we refer to as primitive cultures, never have I witnessed a tribal display of debauchery that could hold a candle to a large group of 18-year-old Americans away from home for the first time.”

I retreated to the relative quiet of my room and read the writing of a monk who lived alone on a mountaintop for 37 years in search of a deeper understanding of the world. His main conclusion, when he came down, was that you can see very far on top of a mountain unless it is cloudy. Imprisoned for his radical ideas, he died several years later in jail. The only writing from this time period that survived is the line: There are no clouds in a prison.”

I was not prepared for the fact that women as a general rule are wild savages. At least those that are studying philosophy.”

Woke from a dream. I was sitting in a darkened room. There was a door with light coming through a crack. On the outside I could hear voices. One, I thought, was my mother’s. The other was indistinct. I believe it was death. She was attempting to open the door and walk back into the room. The door handle began to turn. I heard her call my name and I realized that it was not my mother but Marie. I heard her say <Please, I’m not ready>, then her voice grew fainter and fainter until it was gone. I wish Marie was at peace, but I do not think she is at this time, and I wonder what it is that she knows that those in the physical world can never understand.”

What I felt at that time I now realize was more than terror or shock. I firmly believe that the killer was within striking distance of myself, and could easily have claimed me as his second victim. This is not intuition. The presence of the killer was as real as the shaking in my hand at this moment. I do not understand the dark forces that result in so much brutality. But I now know that it is a real thing. And is out there at this very moment. I must find someone who can help me to understand and fight this. But who?”

I am back in my rooms. If it is true that dreams are the window into the subconscious, then I fear mine is a troubled place. While judgment is certainly questionable when suffering from a 103-degree fever, I nonetheless find myself believing that it was not merely infection that attacked my body, but somehow the evil that took the life of the young woman and was in striking distance of taking mine.

Does this evil exist in as tangible a form as, say, a germ? Does it float as a feather would on the currents of air that bring life to this world; moving in and out of all our lives, and occasionally taking root on unfortunate souls? If that is true, then the battle that took place within my body was not viral in origin, but a struggle for my very soul.”

I am therefore going to attempt to establish two things. First, the duration for which my body can function effectively without sleep. And second, the minimum amount of sleep required to sustain a high level of operation. Log entries will be made on the hour beginning now.”

The intake of stimulants of any kind would render the exercise useless, so I have decided to forgo coffee for the sake of scientific accuracy. No greater sacrifice has ever been made before in the name of science.”

God spelled backward is dog. Believe the test pattern used in television is similar in its ability to clear the mind to a spinning Tibetan prayer wheel. Last hour completed 50 push-ups in 60 seconds. Aside from slight heaviness in the eyelids, feel tip-top.”

[Mais de 26h acordado] Feel alert, strong, and fit. Am beginning to think that sleep is much overrated.”

I never liked the name Dale. Always wish I had been born an Apache and named Ten Sticks. Why, I do not know.”

Am beginning to think that the controlled chaos that I see around me now in the streets is much more orderly than nature unchained.”

Why is it you can never find a policeman when you need one? I must keep moving.”

Think I may reconsider my major in anthropology.”

It should be noted that the difference between a street celebration and a protest may appear small on the surface. However, when one is approaching a mounted policeman to ask for assistance, I would advise the questioner to be sure of the intentions of the group surrounding him.

As the words <I’ve been robbed> left my mouth, a column of mounted policemen charged toward me without any intention of offering assistance at all.”

As I understand it, Betty has died from her wounds. What was it that she was feeling when she said <I’m free>? Was it the same presence that I sensed when I found the murdered woman? Is there a beast? I do not know, and how does one fight it?” “This may be the greatest puzzle I have and will ever face.”

Have the distinct impression that Howard has plans to chemically alter his mind. Should also note that I believe President Nixon is conspiring in a cover-up and that the path he has taken can lead only to impeachment.”

There are two things I believe my life is beginning to point toward and focus on. The existence of good. And that of evil. These appear to be the two most important fundamental questions affecting daily life. The question, then, is how does one engage these two opposing forces? Evil is something that I seem to have had no trouble at all engaging. Good, and the form it takes, is a more elusive quest.”

The pursuit of good, when combined with raging hormones, is a powerful force indeed.”

Have never before danced naked with a large group of strangers. I, in general, would endorse it as an icebreaker to the shy and reserved of the world. I met several very nice women who wrote their phone numbers on my thigh with a Magic Marker. Though it is strange that I don’t seem to remember what any of them looked like naked. Where was it, I wonder, that I was looking? I seem to remember a breast here, a knee there, a foot, a shoulder, a neck. But none of them seem to add up to one entire body.”

A strange man stands outside of my building, looking up at my window. He appears to be painted blue. Am not sure what it is that he wants.”

For some reason, the management of the casinos has asked me not to come back to their tables ever again. They seem to be under the impression that the technique of card counting is a form of cheating and were in no mood to accept my argument that it was a simple form of mathematics.”

Woke in the middle of the night with a terrible sense of loss. Am not sure, but I wonder if it could be connected to the fact that my old bedroom at my father’s house has been turned into a pottery studio by Charlotte.”

Not even a large piece of pie and a cup of coffee down at the Lunch Pal restaurant could lift this fog. Studies seem of little use. Need a change.”

The tapes for the next 9 months were destroyed in a fire that started when an electric blanket ignited.” – 1975

Will miss very much the tape Howard and his girlfriend made of themselves making love as Nixon gave his resignation speech. It is a moment in history that I would have liked to have in my collection.”

Am attempting to discover how long an individual can function normally without urinating while consuming a normal amount of liquid. Will now drink 6 ounces of hot coffee.”

5 horas e algumas xícaras de café depois: “Seem to have reached a plateau.” Resistiu mais 5h08. “Urination lasted a full 2 minutes. Can safely say that they were the 2 most satisfying minutes I have ever spent in my short life. If it were not for the pain inflicted on oneself to reach the 10-hour mark, I would highly recommend it as a substitute for sex.”

The precise cause and nature of the fire that erupted in the garage at that exact moment is still under investigation by the fire marshal.”

It is difficult to describe the feeling that comes over an individual when he discovers that his girlfriend is an arsonist. While I admit to having had some suspicions at the time of the blaze, one is never quite prepared for meeting this kind of truth head-on. I believe it was Holmes who said that truth is often arrived at by 2 roads pointing in very different directions.” Visited Lena today. She seemed cheerful, happy, and for the most part normal. We talked for about 30 minutes about a wide variety of topics. Would have felt much better about the visit if she could have remembered who I was.” “I do not understand what it is about the choices I have made with women but they all seem to have been disasters.”

Three severed fingers were found in the biology building this morning. They appear to belong to a man, probably engaged in manual labor given the hair, calluses, and dirt under the fingernails. Was able to examine them for a number of minutes before the police arrived to handle the investigation.”

As I’m sitting here in my room, I find that a fire has been rekindled in me that was lost over the past several years. Spent over an hour with a special agent at the FBI booth. His name is Windom Earle, a man of uncommon intelligence. After talking with him I now believe I may have been looking to understand evil intellectually as a substitute for confronting it head-on.”

Am going to attempt to look up several of the members of the 24th Street gang that stole my tape recorder when I was 13 as a way of tracking their development. Have located the 1st individual working at a garage not far from their old hangout. Will visit him tomorrow.”

Feel myself totally focused. Find that sex is entering my thoughts only 3 or 4 times a day instead of the normal hourly preoccupation.”

All systems go. Report to the FBI Academy in Quantico, Virginia, the 1st of September [1977]. Will use the intervening time to go into the Poconos to prepare myself in body and spirit.”

Was right about John’s marksmanship abilities. He and the instructor almost outpointed me with the pistol in the standing combat position until I realized the weapon I was using had a defect in the way the bullet rotated in the barrel. Adjustments were made and I completed the round with 6 straight bull’s-eyes.”

There is no more focused mind than the one that has created its own reality. And for that reason, it is the insane criminal who is to be feared more than any other. There is no gray area in madness. It is an absolute form of twisted truth.”

The firing of a machine gun is a sobering experience.”

There is one woman in the class. A person of great drive, beauty, and excellent marksmanship. She, Robin, is to be my partner in a simulated raid during a hostage situation tomorrow.”

Never again can I allow my guard to be lowered because of personal weakness on my part.”

Had a turkey dinner of what I think was gravy, stuffing, mashed potatoes, and a green thing the best minds of the FBI could not identify.”

Disappointed that I was not able to bring anyone to justice on my first day. I have been assigned a secretary. Her name is Diane. Believe her experience will be of great help. She seems an interesting cross between a saint and a cabaret singer.”

Selected tapes throughout Agent Cooper’s FBI career have been subject to censoring for reasons of security.”

Diane, I hope that you will not mind that I address these tapes to you even when it is clear that I am talking to myself. The knowledge that someone of your insight is standing behind me is comforting. The Roe house is quiet now. We wait for the phone call that we know must be coming.”

Diane, please make a note to the procurement division about the coffee they now supply the Bureau with. Until coming to this office I had never met a bean I didn’t like. I can only wonder what hellhole of a government surplus warehouse they unearthed this blend from, and what war it was captured in.”

There are 3 bodies, Diane. All appear to be female between the ages of 16 and 30. The cause of death is as yet undetermined. Whatever could have done this, Diane, I can’t imagine was entirely human.” “The recognition that evil exists as an entity outside our understanding of life is not official policy of the Bureau.” “The file on this case remains active; all tapes pertaining to it have been withheld.”

Windom has invited me to his house tomorrow for dinner and a game of chess.” I have much to learn about the game of chess. Windom beat me in 7 moves. His wife, Caroline, is a remarkable woman. During a private moment together she told me about the first time Windom was forced to use his weapon, and that she hoped I would not let it affect my life the way it did Windom’s. I wonder what she meant.”

I believe I have encountered my first real mystery without a solution. How do they get the little snowflakes inside paperweights?”

Diane, found Windom’s car. He is nowhere to be seen. Am moving into an abandoned building. . . . I have a very bad feeling about this (…) Diane, at the top of the stairs I’ve found Windom’s wallet and ID”

I am standing in the shadows of a crane. Below, half submerged in the river, is the barge. In the faint moonlight two white items are visible in the center. . . . They are hands severed at the wrists like the others. There is a difference, however. One holds a small black square of cardboard, the other a white square, the significance of which I do not know at this time. What kind of game is being played out here, Diane?”

Is my dream connected somehow to this? A legless man telling me I cannot run from It. Corpses without hands. The abyss, and wonderful things.”

La Casa El Corazón. The house of the heart. (sic) Windom and Caroline spent their honeymoon here. A step into the past. From my balcony I look down onto the warm waters of the Caribbean. An old man sits playing chess in the courtyard. Windom told me of an old man who taught him all he knew of the game. If this is the same man, he must be 100 years old if a day.”

Caroline Earle has been kidnapped. According to my estimation, the abduction took place at the same time I found myself falling under the influence of the narcotic. How there could be a connection between events 1,500 miles apart I do not know. (…) Perhaps it is the Tibetan notion that there is no such thing as unrelated events, that everything is connected.”

Caroline smiled tonight, and held my hand. Windom seemed very pleased.”

Caroline woke with a terrible scream. I ran into the room and found Windom standing over her, speaking in soft, gentle tones. She said she saw the face of the man, that he was still coming after her, and that she knew she was going to die. However, she could not identify the man.”

Windom has decided not to remain at the safe house. He feels that his continued presence serves only to impede Caroline’s progress.”

I do not know what I will tell Windom when he arrives here in the morning. Aside from the fact that it would be useless to try, I can and will not lie to him.”

She had seen the face of the man who had taken her”

I have been stabbed . . . unconscious . . . Caroline is dead . . . Caroline is dead . . . Forgive me.”

Cooper made only two recordings over the next 6 months. His whereabouts during this time are not clear.”

February 1, 1980, 12 PM.

(…)

Windom Earle was insane long before the events of that terrible night, and is guilty of the attack on me, and the murder of his wife. I cannot prove this, for he is far too brilliant an opponent, but I am sure of it in my heart.”

Gordon and I both agreed that remaining in Pittsburgh would not be to my benefit or the Bureau’s. Gordon has really gone to bet for me. I will soon find out if the Bureau has the same confidence.”

Diane, pack your bags, we’re going to San Francisco.”

Diane, you won’t believe this, but I’ve just driven through a hole cut in a redwood tree. Never saw a tree like this in the eastern forests. These are the trees that legends are born from. Can’t imagine what a druid would have done if he was faced with this monster.”

The people in the lab have just identified the last remaining piece of evidence found on the last victim. A fiber found under one the toenails. It came from a carpet of a car. The color was blue, possibly from a Ford, though several makes use the same manufacturer.”

For the next 6 years Cooper remained in the counterintelligence division. If any tapes exist for that period of time, the FBI does not acknowledge it. The following <letters> to his father are the only pieces of audio released for these years.”

August 24, 9 A.M., 1987

Diane, I have spent 3 days with the people over at DEA now and I have yet to meet one person in a coat and tie. Also notice that they all seem to wear their body armor even when sitting in the office drinking coffee. They may be just the kind of people who can evaluate a new investigative technique I’m working on based on the writings of a Tibetan monk named Gumm.”

August 26, 10 A.M.

According to the results of my first substantial test of Gumm’s work, Lee Harvey Oswald did not act alone on that fateful day in Dallas, and Jack Ruby [o assassino de Lee Harvey – morreu na prisão enquanto aguardava julgamento] is still alive and living in Peru. . . . This may need some more work yet.”

My counterpart in the DEA is an agent named Dennis Bryson. We leave for San Diego tonight”

I have not been to a dentist in 7 years.”

While I respect and admire the job the DEA does, I do not feel that I quite fit in with the cowboy esprit de corps that is prevalent in their ranks.”

Diane, looks like I’m going to be out of town for a while. There’s been a murder in a town in the southwest part of the state of Washington. The state authorities assume from the condition of the body that kidnapping was involved and have asked the Bureau to look into the case.”

Teresa Banks, no known next of kin, residence unknown, was found lying in a drainage ditch on the outskirts of town. Her naked body was wrapped in clear plastic and secured with duct tape. Appeared to have suffered numerous contusions to and about the head. The local coroner has determined the cause of death to be brain damage caused by a blow to the right temple area that fractured the skull. None of the other blows were severe enough to cause death. She had had sexual relations within the last 12 hours of her life.”

Diane, something appears to have been forced under the nail on the ring finger. It is quite deep. I am going to try to remove it. . . . It appears to have penetrated at least ¾ of the way under the nail. . . . just a little bit deeper. Chief, I think you might feel better if you stepped outside. . . . There, got it.

Diane, what we have is a small square of white paper with the letter T typed on it. (…) Diane, as Gordon thought, everything about this has the feel of a serial killing.”

Teresa Banks worked here for a period of no more than 3 weeks, and lived in one of the cabins that tourists rent down along the river.”

Bureau training does not cover or even acknowledge the existence of forces outside of the physical world. Nothing in Western thinking does.”

Had a very strange dream last night. I was dancing with a tiny little man, and a very beautiful young woman.”

Why do you think Bobby Fisher (sic) turned to God and gave up chess?

Answer: To get to the other side.

(…)

Windom Earle”

wiki: “After forfeiting his title as World Champion, Fischer became reclusive and sometimes erratic, disappearing from both competitive chess and the public eye. In 1992, he reemerged to win an unofficial rematch against Spassky. It was held in Yugoslavia, which was under a United Nations embargo at the time. His participation led to a conflict with the US government, which warned Fischer that his participation in the match would violate an executive order imposing US sanctions on Yugoslavia. The US government ultimately issued a warrant for his arrest. After that, Fischer lived his life as an émigré. In 2004, he was arrested in Japan and held for several months for using a passport that had been revoked by the US government. Eventually, he was granted an Icelandic passport and citizenship by a special act of the Icelandic Althing, allowing him to live in Iceland until his death in 2008.” “He was too good. There was no use in playing him. It wasn’t interesting. I was getting beaten, and it wasn’t clear to me why. It wasn’t like I made this mistake or that mistake. It was like I was being gradually outplayed, from the start. He wasn’t taking any time to think. The most depressing thing about it is that I wasn’t even getting out of the middle game to an endgame. I don’t ever remember an endgame. He honestly believes there is no one for him to play, no one worthy of him. I played him, and I can attest to that.” In a 1984 letter to the editor of the Encyclopaedia Judaica, Fischer demanded that they remove his name from future editions. In an interview in the January 1962 issue of Harper’s, he was quoted as saying, <I read a book lately by Nietzsche and he says religion is just to dull the senses of the people. I agree.> Fischer associated with the Worldwide Church of God in the mid-1960s. The church prescribed Saturday Sabbath, and forbade work (and competitive chess) on Sabbath.”  “<He idolized Hitler and read everything about him that he could lay his hands on. He also championed a brand of anti-semitism that could only be thought up by a mind completely cut off from reality.> Donner took Fischer to a war museum, which <left a great impression, since (Fischer) is not an evil person, and afterwards he was more restrained in his remarks—to me, at least.>” “A notebook written by Fischer contains sentiments such as <12/13/99 It’s time to start randomly killing Jews>. Despite his views, Fischer remained on good terms with Jewish chess players.”

Diane, I’ve never asked you this before, and as a general rule I try never to mix my private and public life, but I would consider it a great honor if you would consider having dinner with me. If this in any way crosses over a line that we have long ago set for our relationship, I will understand. If not, how does 8 o’clock sound?” “It occurred to me last night while in the middle of a very fine duck that I do not know Diane’s last name.”

I’m a time traveler, slipping in and out like an archaeologist, hoping I will find clues to forgotten secrets, or guideposts to future destinations. I find neither. You can no more hold the past in your hand than you can see tomorrow.”

I don’t think I’ve ever told you this, Diane, but in 1970 my father discovered a new crater on the moon [verified – Cooper crater exists!]. It’s called Cooper’s Crater, and you can just see it on the edge of the dark side’s shadow.”

In a nutshell, Diane, I am bored, and have not found a way to combat this malaise. Holmes used cocaine, an alternative I find unacceptable. What I need, what any detective needs, is a good case. Something to test oneself to the absolute limit. To walk to the edge of the fire and risk it all. (…) Is there any great cases anymore? (…) a John Dillinger, a Professor Moriarty? If I was to say that in my heart I hoped there was, then I should hang up my badge and gun and retire.”

February 24, 6 A.M.

There’s been a body found in Washington state, Diane. A young woman, wrapped in plastic. I’m headed for a little town called Twin Peaks.”

LECTURES EN TRADUCTOLOGIE – Evaine Le Calvé Ivičević (Org.), 2015. –OU: UM MERGULHO AERODINÂMICO NA LINGÜÍSTICA–

DA POSSIBILIDADE DA TRADUÇÃO

Trechos de Mounin, Les problèmes théoriques de la traduction

« Cette notion de langue-répertoire, ajoute Martinet, se fonde sur l’idée simpliste que le monde tout entier s’ordonne, antérieurement à la vision qu’en ont les hommes, en catégories d’objets parfaitement distinctes, chacune recevant nécessairement une désignation dans chaque langue »

« à Paris, il ne savait pas nommer chaque céréale par son nom; parce qu’il n’était pas en situation d’avoir besoin de la nommer. (Son système risque encore de lui faire nommer blé un champ de riz jeune en Camargue, ou de jeune maïs en Dordogne ou de sorgho dans le Vaucluse.) Maintenant, son pouvoir de nomination différentielle des céréales correspond à sa pratique sociale de petit citadin en vacances au nord de Lyon, capable de nommer ce qu’il voit. Mais le même système des céréales, ou des herbes, est susceptible, selon le même processus, de se compliquer encore, pour des gens – ce petit garçon devenant ingénieur agronome, ou vendeur de semences – dont la pratique sociale est liée à une détermination différentielle plus poussée du même champ de réalité à nommer. De ce filet à une seule maille du petit citadin qui débarque à la campagne, ils feront un filet à dizaines de mailles, de formes et de tailles différentes, qui couvrira la même surface sémantique; c’est-à-dire qui désignera la même quantité de réalité dans le monde extérieur, mais connue, c’est-à-dire organisée, ou qualifiée autrement, – ordonnée de plus en plus, selon des différenciations de plus en plus poussées. Saussure a pleinement raison quand il définit la valeur d’un terme comme étant ce que tous les autres termes (du système) ne sont pas. Là où le petit citadin dit: de l’herbe, le producteur distingue et nomme 53 variétés de 23 espèces (…), par le processus génétique qui vient d’être analysé: système dont tous les termes se tiennent, car si le spécialiste ne sait pas distinguer les 7 variétés de flouves, par exemple, 6 mailles sautent dans son système à 53 mailles, mais la maille unique restante couvre la même surface sémantique que les 7 noms de flouve qui seraient possibles. »

« Notion traditionnelle qui remontait peut-être à la Bible, décrivant la nomination des choses comme une attribution de noms propres: ‘Et Dieu nomma la lumière Jour, et les ténèbres, Nuit […]. Et Dieu nomma l’étendue, Cieux […] Et Dieu nomma le sec, Terre; il nomma l’amas des eaux, Mers’ (Genèse, I, 5-8-10). ‘Or l’Éternel Dieu avait formé de la terre toutes les bêtes des champs, et tous les oiseaux des cieux: puis il les avait fait venir vers Adam, afin qu’il vît comment il les nommerait: et que le nom qu’Adam donnerait à tout animal vivant fût son nom. Et Adam donna les noms à tous les animaux domestiques, et aux oiseaux des cieux, et à toutes les bêtes des champs…’ (Genèse, II, 19-20). A ce propos, quelle que soit l’intention finale de Platon dans le Cratyle, il faut aussi souligner la place énorme, dans ce dialogue, des exemples tirés des noms propres (49 exemples sur 139, plus du tiers) pour exposer une théorie des noms communs, c’est-à-dire de la nomination des choses en général; et plus important que le nombre d’exemples, le fait que Platon parte du nom propre, base tout son exposé sur le nom propre, passe indifféremment du nom propre au nom commun, comme si ces deux operations de nomination pouvaient être assimilées. La Bible et le Cratyle, qui tiennent une grande place dans l’origine de notre notion traditionnelle de langue-répertoire, illustrent aussi le processus mental archaïque par lequel l’assignation des noms aux choses (et des sens aux mots), se voyait conçue comme un baptême et comme un recensement. »

« Voulant donc éviter toute définition mentaliste de la notion de sens, il a recours à la définition behaviouriste: le sens d’un énoncé linguistique est <la situation dans laquelle le locuteur émet cet énoncé, ainsi que le comportement-réponse que cet énoncé tire de l’auditeur> (Bloomfield, Language, p. 139). » « La définition de Bloomfield se trouve matérialisée dans le fait que nous pouvons lire certaines langues mortes sans pouvoir les traduire parce que toutes les situations qui pouvaient nous donner le sens de ces langues ont disparu avec les peuples qui les parlaient. Mais sa définition, de l’aveu de Bloomfield lui-même, amène à dire que la saisie du sens des énoncés linguistiques est scientifiquement impossible, puisqu’elle équivaut, reconnaît-il, à postuler <guère moins que l’omniscience> » « La théorie bloomfieldienne en matière de sens impliquerait donc une négation, soit de la légitimité théorique, soit de la possibilité pratique, de toute traduction. Le sens d’un énoncé restant inaccessible, on ne pourrait jamais être certain d’avoir fait passer ce sens d’une langue dans une autre. »

« Il existe un véritable postulat de Bloomfield (jamais assez mis en relief au cours des discussions) qui justifie la possibilité de la science linguistique en dépit de la critique bloomfieldienne de la notion de sens, postulat qu’on doit toujours remettre au centre de la doctrine bloomfieldienne après l’avoir critiquée: <Comme nous n’avons pas de moyens de définir la plupart des significations, ni de démontrer leur constance, nous devons adopter comme un postulat de toute étude linguistique, ce caractère de spécificité et de stabilité de chaque forme linguistique, exactement comme nous les postulons dans nos rapports quotidiens avec les autres hommes. Nous pouvons formuler ce postulat comme l’hypothèse fondamentale de la linguistique, sous cette forme: Dans certaines communautés (communautés de langue), il y a des énoncés linguistiques qui sont les mêmes quant à la forme et quant au sens> (Bloomfield, ouvr. cit. p. 144). »

« Jusqu’à ce jour, 40 ans après l’enseignement de Saussure, les linguistes n’ont pas encore réussi à découvrir une méthode qui permettrait de délimiter les monèmes sans tenir compte du signifié » (Frei, Critères de délimitation, p. 136)

« L’analyse distributionnelle, ainsi réduite à sa dimension théorique correcte, apparaît comme une formulation trop extrême de la vieille méthode combinatoire, proposée, dès le XVIIIème siècle, par l’abbé Passeri et employée pour accéder aux langues non déchiffrées. C’est sur des cas comme l’étrusque qu’on pourrait vérifier si cette théorie fonctionne, car toutes les fois qu’on l’applique à des langues dont le linguiste connaît les significations par ailleurs, il est établi qu’il ne peut pas se comporter comme s’il ignorait ces significations. L’analyse distributionnelle appliquée au corpus connu de textes étrusques, permettrait de vérifier si, en conclusion, nous nous retrouverions ou non devant un formulaire impeccable de combinaisons, mais dont nous ne saurions toujours pas à quoi appliquer les formules – ou devant une description de l’étrusque qui soit utilisable (à la lettre, il faut imaginer un volume rempli de signes et de calculs algébriques, dont nous restituerions toute la logique, mais dont nous ne posséderions pas les valeurs, de sorte qu’il serait impossible de deviner si elles concernent le cubage du bois, la résistance du ciment vibré, le débit des liquides dans des conduites, etc… sauf si nous avions, d’autre part, des notions en ces matières). »

« Pour Hjelmslev, le langage offre à notre observation deux substances; 1) la substance de l’expression, généralement considérée comme physique, matérielle, analysable en sons par la physique et la physiologie, mais étudiée par Hjelmslev uniquement dans sa valeur abstraite: les relations entre les différences élémentaires qui font que ces sons deviennent utilisés comme éléments de signaux (nous n’en parlerons plus ici); 2) la substance sémantique, ou substance du sens, ou substance du contenu. »

É IMPRESSÃO MINHA OU A INGENUIDADE DOS LINGÜISTAS AINDA OS SITUA ANTES DE KANT? “«la substance (du contenu, du sens), étant par elle-même, avant d’être ‘formée’, une masse amorphe, échappe à toute analyse, et, par là, à toute connaissance». (Il n’envisage même pas la possibilité, théoriquement concédée par Bloomfield, d’une connaissance du sens par référence à la situation correspondante.)”

« L’étude linguistique de l’expression ne sera donc pas une phonétique, ou étude des sons, et l’étude du contenu ne sera pas une sémantique, ou étude des sens. La science linguistique sera une sorte d’algèbre… (Martinet, Au sujet des fondements, p. 31) conclut-il [Hjelmslev], en ce sens qu’elle étudiera uniquement les formes, vides, des relations des éléments linguistiques entre eux. »

SUNS A’XÉDOLLS

sons sens

sans sons

nonsens

sins&pins

sinsao

k b Ludotec4

« L’analyse hjelmslévienne, elle non plus, ne détruit donc pas la notion de signification en linguistique. Pour des raisons de méthode, elle écarte tout recours au sens comme substance du contenu, elle veut éviter le cercle vicieux qui consiste à fonder l’analyse des structures (phonétiques, morphologiques, lexicales, syntaxiques) d’une langue en s’appuyant implicitement sur le postulat qu’on connaît (sens exact des énoncés linguistiques qu’on analyse) – pour ensuite établir la connaissance du sens de ces mêmes énoncés d’après l’emploi des structures qu’on en aura tirées. Hjelmslev comme Saussure, comme Bloomfield et comme Harris, essaie de mettre la connaissance du sens au-delà du point d’arrivée de la linguistique descriptive, au lieu de la mettre (sans le dire) au point de départ. Tous quatre ne visent qu’à fournir des méthodes plus scientifiques pour approcher finalement le sens. En attendant que ces méthodes plus scientifiques soient définitivement construites, acceptées, prouvées – puis qu’elles aient permis d’analyser scientifiquement la substance du contenu – Hjelmslev écrit des livres et des articles dont chaque phrase, comme celles de Saussure, de Bloomfield et de Harris, est empiriquement fondée sur le postulat fondamental de Bloomfield lui-même: l’existence d’une signification relativement spécifique et relativement stable (dans certaines limites chaque jour mieux connues), pour chaque énoncé linguistique distinct. Mais ce postulat qui soutient, empiriquement sans doute, aussi provisoirement qu’on le voudra, la légitimité de toute recherche linguistique, soutient également – sous les mêmes reserves – la légitimité de l’opération traduisante. »

Em suma, a Tradução é um hóspede que você deixou entrar e acabou se tornando o dono da casa.

« Cette façon de concevoir les rapports entre l’univers de notre expérience (ou notre expérience de l’univers), d’une part, et les langues, d’autre part, a été lentement mais complètement bouleversée depuis cent ans, c’est-à-dire depouis les thèses philosophiques sur le langage exposées par Wilhelm von Humboldt, et surtout ses descendants, dits néo-kantians ou néo-humboldtiens. »

« Les anciens Grec n’étudièrent que leur propre langue; ils considérèrent comme évident que la strucuture de cette langue incarnait les formes universelles de la pensée humaine ou, peut-être, de l’ordre du cosmos. En conséquence, ils firent des observations grammaticales, mais les limitèrent à une seule langue, et les formulèrent em termes de philosophie. » Bloomfield

« <‘Le capitalisme de tout le monde’, qui traduit assez mal une terminologie américaine plus concise, ‘people’s capitalism’ […], qu’on a également baptisé parfois ‘capitalisme démocratique’ ou ‘capitalisme populaire’ et que nous appellerons pour plus de commodité, au cours de cet article, tout simplement, le ‘capitalisme américain’.> (Nida) Indiscutiblement, le lecteur français, même moyennement nourri d’économie politique, reconnaîtra que les 4 équivalents proposés (du terme américain) ne donnent pas une idée claire de la structure économique que veut distinguer et que semble distinguer – pour un locuteur américan – l’étiquette anglo-saxonne <people’s capitalism>. »

« überfragen, poser des questions auxquelles l’autre ne peut répondre, <coller> » Philippe Forget

Não existe masculino de imbécile em francês!

* * *

Trechos de Charles Zaremba, “Traduction – Traductions”, in: La traduction: problèmes théoriques et pratiques

« Toutes les mythologies réservent une place de choix au «paradis perdu», à «l’âge d’or», c’est-à dire à un temps et un lieu perdus (provisoirement puisqu’ils doivent revenir «à la fin destemps»), qui se caractérisent non seulement par le bien-être et l’abondance, mais aussi par um statut linguistique particulier: il n’y a qu’une seule langue.

La nostalgie de l’avant-Babel, ou si l’on préfère, d’une langue originelle et universelle, impregne profondément notre civilisation qui essaie, plus ou moins consciemment, de revenir àcet état idéal en s’efforçant de rompre les barrières linguistiques.

En effet, dans un premier temps mythique, la diversité des langues est un châtiment (aumême titre que le travail): seul Dieu possède l’entendement universel et peut le conférer »

Todas as mitologias reservam um espaço para o <paraíso perdido>, um tempo para a <idade de ouro>, isto é, um tempo e um lugar literalmente perdidos (provisoriamente, já que eles deverão retornar <no final dos tempos>), que se caracterizam não somente pelo bem-estar e abundância, mas também por um estatuto lingüístico singular: nele só há um idioma.

A nostalgia pré-babélica ou, se se preferir, duma língua seminal e universal, impregna profundamente nossa civilização, que ensaia, mais ou menos conscientemente, desde que é civilização, o retorno a esse estado de coisas com mil propostas de derrubada das barreiras lingüísticas.

Com efeito, num primeiro tempo mítico, a pluralidade das línguas é sempre um castigo (como sempre se define o trabalho): só Deus possui o dom do entendimento universal e portanto estaria autorizado distribuí-lo a um reduzido número de porta-vozes.”

Se tão perfeita por que te degradas com o uso, ó Una?! Mas cá entre nós só o que me interessa seria o exercício perfeitamente contrário: um concurso em que o campeão seria o autor do idioma mais imperfeito concebível. É mais difícil do que parece, já que teria que ser muito superior a qualquer seqüência de grunhidos animais, embora tenha de ser feia e abjeta como uma sinfonia de black metal velha guarda tocada por orcs irremediáveis! Quase sempre criaríamos minúcias de beleza sem notarmos, querendo apenas produzir nojo e aversão – como somos ingênuos, parnasianos e asseados, apesar de tudo!

« Villon ou Rutebeuf tels quels sont incompréhensibles, de même qu’un grand nombre de fabuleux; le problème devient épineux avec Rabelais, qu’on hésite à traduire. La langue de Rabelais exige tant de notes qu’elle devient difficilement lisible – mais même dans ce cas, on préfère parler de transposition que de traduction en français moderne. Le subterfuge est cousu de fil blanc: la transposition est bel et bien une traduction d’um texte dont on n’ose pas vraiment avouer qu’il est écrit dans une langue qui n’est plus la nôtre, car cela pourrait suggérer que Rabelais n’est pas vraiment français… Cependant, le travail du traducteur de Rabelais est, me semble-t-il, en tout point comparable au travail du traducteur français d’un auteur italien ou espagnol. Là encore, on a un passage d’une langue A (état ancien de la langue) à une langue B (état moderne de la même langue).

Le voyage inverse, c’est-à-dire dans le temps linguistique, a intrigué plus d’un auteur – mais rarement à ma connaissance les auteurs de science-fiction, pour qui les voyages dans le temps sont souvent étrangement atemporels, des individus distants de plusieurs siècles discourant à loisir (ainsi Pierre Boulle dans La planète des singes fait-il lire à la guenon Phyllis, vivant dans um futur très éloigné, un manuscrit rédigé par un homme). Stanislaw Lem a échappé à cette naïve commodité dans ses Mémoires trouvés dans une baignoire (Pamietnik znaleziony w wannie, 1961, Trad. D. Sila et A. Labedzka Mémoires trouvés dans une baignoire, Calmann-Lévy, 1974) où l’intrigue repose en partie sur la quasi-impossibilité pour un homme du futur de comprendre notre civilisation à partir d’un vieux manuscrit trouvé justement dans une baignoire. Le voyage dans le temps linguistique est plutôt le fait d’auteurs qui ne pratiquent pas la science-fiction. »

A viagem inversa, i.e., do presente para o futuro (lingüístico), já intrigou mais de um autor, mas raramente, que eu saiba, os de ficção científica. Para eles, a viagem temporal é estranhamente atemporal, indivíduos de vários séculos de diferença conversam entre si sem qualquer tipo de problema (sucede, por exemplo, no Planeta dos Macacos de Pierre Boulle: o autor faz a macaca Phyllis, dum futuro longínquo, achar, ler e compreender perfeitamente um manuscrito de um humano, parisiense do século XX). Stanislaw Lem soube se subtrair dessa comodidade ingênua em suas Memórias encontradas numa Banheira (original polonês, Pamiętnik znaleziony w wannie, de 1961; tradução francesa por Dominique Sila e Labedzka de 1974 [edição em português de Portugal – tradução indireta – de 1984 por Manuela Alves – quem sabe o Cila não é o primeiro a traduzir, um dia, direto do Polonês para o Português brasileiro?]). O mote da trama é a incompreensão da humanidade de um futuro distante diante de um tempo histórico muito mais antigo, que historiadores tentam decifrar com base num só vestígio, um manuscrito encontrado curiosamente dentro de uma banheira. A viagem no tempo lingüístico é muito mais para o escritor que não redige ficção científica.”

« Remarquons à ce propos que G. Karski conseille de styliser les textes ‘sans logique’, pour ne donner qu’une coloration archaïque. » …brutO

On ne traduit pas Ronsard en français modeme mais on retraduit les auteurs étrangers en français moderne, justement.”

« Des générations de Français se sont nourris de Kafka dans la traduction d’Alexandre Vialatte – et comprenaient le monde de l’auteur. Une nouvelle traduction a quand même été nécessaire. Et c’est une différence fondamentale entre l’original et la traduction: cette dernière est caduque. ‘Les traductions supportent mal le temps et mis à part de rares exceptions, elles ne deviendront jamais des chefs-d’oeuvres éternels.’ (Géher) »

polisistema intralinguistico

Poli-sistema intralingüístico de M. Wandruszka

PATOIS: « structures grammaticales différentes » (Associado ao camponês – como o Provençal ou a Langue d’oc são patoás e muito próximos do Catalão, isso só aumenta minha razão naquele debate com a catalunha [?] estúpida no twitter.)

« Toutefois, il est difficile de traduire d’une «sous-langue» dans une autre (on peut parler ici de pluriglossie et non de plurilinguisme): les passages d’un technolecte à un dialecte, par exemple, sont difficiles à imaginer. »

Les études de traduction (ou encore: les textes de traductologie) distinguent souvent deux types de textes: les textes littéraires et les textes scientifiques (les textes de traductologie littéraire font souvent preuve de mépris pour la traduction technique, cette dernière étant ravalée au rang de simple transcodage; en outre le traducteur technique est en général mieux rémunéré que son homologue littéraire).”

Os estudos de tradução (ou ainda: os textos de Tradutologia) distinguem, no mínimo, dois tipos de textos: os literários e os científicos (os tradutores literários comumente desprezam a tradução técnica, i.e., científica, limitando-se esta última, o mais das vezes, a uma simples transcodificação; se bem que o tradutor técnico-científico é em geral mais bem-pago que seu homólogo literário.)”

NICHO DO NICHO DO NICHO: “Le «mépris» va dans les deux sens, les traducteurs techniques reprochant aux littéraires leur manque de précision… Le texte littéraire possède des qualités esthétiques que ne possède pas, en principe, le texte scientifique. Le traducteur littéraire doit faire oeuvre non plus de simple transcodage, ou encore de traduction de langue à langue, mais de traduction de milieu à milieu, de texte à texte, la composante purement linguistique de son travail passant presque au second plan. Le traducteur littéraire doit être coauteur, faire preuve de «congénialité», suivant l’expression de B. Lortholary. Et là encore, on distingue la prose de la poésie, la première étant à la portée de tout traducteur, la seconde étant réservée aux poètes. On reviendra sur ce point quand on abordera la personnalité du traducteur.Falso déjà vu ou a Jéssica B***** é realmente uma TECNOCRATA da Tradução? Papo muito antigo… Vergonha da classe… (É sempre horrível quando lembramos dos piores praticantes de nossas artes e ofícios!)

Il me semble nécessaire de distinguer les textes sacrés (bibliques) des textes non-sacrés, qu’on peut aussi appeler ecclésiastiques, qui sont l’oeuvre d’hommes d’Église (gloses, commentaires, vies de saints) et ne posent pas les mêmes problèmes philosophiques de traduction, puisqu’il ne s’agit pas de la «parole de Dieu» (je ne prends en considération que la tradition chrétienne dans sa version catholique romaine – c’est-à-dire que je limite mon champ de réflexion à l’Europe qui a connu la Renaissance).” “la traduction avait été «officialisée» par le miracle de la Pentecôte qui confirme le bien-fondé de la traduction des Septantes, à savoir qu’il n’y a pas de langue sacrée. Au IVe siècle, Saint Jérôme traduit la Bible en latin (la Vulgate) mais il faudra attendre le concile de Trente (1545-1563) pour que cette version soit déclarée authentique et devant servir de base à toute traduction ultérieure. Durant une dizaine de siècles, la question n’avait été ni posée ni tranchée.”

Au siècle suivant apparaissent des traductions de la Vulgate et surtout des originaux hébreux et grecs. En 1532 est imprimé un psautier traduit au XIIIe siècle et connu sous le nom de Psalterzflorianski; en 1552, Stanislaw Murzynowski publie une traduction du Nouveau Testament, suivie de plusieurs autres. Ce siècle est donc marqué par une intense activité de traduction qui se fixe 2 buts: d’une part, faire mieux connaître la Bible au peuple, d’autre part, mieux traduire la Bible.”

le mot plagiaire n’est attesté en français qu’en 1555, plagiat date de 1697 et plagier de 1801 et qu’il vient du latin plagiarus «débaucheur et receleur des esclaves d’autrui», lui-même venant de plagium «détournement», cf. Nouveau Dictionnaire Étymologique et historique, par A. Dauzat, J. Dubois et H. Mitterand, Larousse, 1971. Remarquons d’ailleurs que la première loi sur la propriété littéraire en France, championne de l’administration, date de 1866.” SESQUICENTENÁRIO DE MERDA!

On comprend l’importance de la déclaration d’authenticité de la Vulgate: c’est, en quelque sorte, le premier copyright de l’Histoire moderne.”

L’auteur devient propriétaire de son texte et ce dernier se sacralise en quelque sorte: tout texte a droit à une traduction fidèle, au même titre que la Bible. La traduction proprement dite, opposée à la libre adaptation, devient non seulement possible, mais peu à peu souhaitable et philosophiquement obligatoire.”

La lecture de quelques ouvrages et articles de traductologie, montre d’une part que c’est un discours extrêmement répétitif et, d’autre part, que plusieurs discours coexistent qui pretendent chacun à la traductologie. On distingue très nettement deux types d’études: les textes de linguistes (très souvent, ce sont des approches théoriques) et les textes de littéraires (dans l’ensemble plus pratiques).”

Il illustre son propos par l’anglais worker qu’il faut traduire en russe par robotnik ou robotnica, c’est-à-dire que la langue russe impose la précision du genre, ce qui n’est pas le cas em anglais pour ce mot-là. De tels exemples sont légion et de nombreux ouvrages y sont consacrés, principalement écrits par des linguistes structuralistes, comme Z. Klemensiewicz.”

Jakobson ilustra seu argumento pelo inglês worker, que deve ser traduzido em russo por robotnik ou robotnica, i.e., a língua russa impõe a determinação do gênero, o que passa longe de ser o caso do inglês, pelo menos para esta palavra. Inumeráveis exemplos num sem-fim de livros foram esmiuçados século XX adentro, campo no qual se destacam os lingüistas estruturalistas, como Z. Klemensiewicz.”

Le discours des littéraires a les limites qu’ont les récits d’expériences personnelles. Il est souvent peu généralisable – mais, par la précision de certaines remarques, il est soouvent une mine de renseignements pour le linguiste comparatiste.”

Pode-se comparar o tradutor a um artesão, a meio caminho entre o artista (o autor) e o técnico (o lingüista).” Há um texto meu que já virou um clássico: https://www.recantodasletras.com.br/artigos-de-literatura/5827201 (originalmente de 2006, republicado neste link em 2016).

Eu-tradutor sou eu menos inspirado. Eu-cientista sou eu em crise.

Pour résumer, on peut dire que: 1. les linguistes disent – voici ce qu’il faut faire! 2. les littéraires disent – voilà ce que nous avons fait! et 3. les philosophes disent – comment diable pouvez-vous faire?”

Resumindo, pode-se dizer que: 1. Os lingüistas dizem – eis o que se deve fazer! 2. Os literatos dizem: eis o que nós fizemos! 3. E os filósofos dizem: como diabos podeis fazê-lo?

A VERDADEIRA REVOLUÇÃO UNIVERSAL (Altivez, loquacidade e dignidade): Alexander F. Tytler – Essay on the Principles of Translation (1791)

deux courants de traducteurs: les «fidèles» (sans doute proches des linguistes) et les auteurs de «belles infidèles» (plus proches des littéraires).”

En effet, la plupart des textes de traductologie prennent des exemples «nobles»:traduction de philosophes ou de grands auteurs comme Shakespeare, Cervantès, Corneille,etc. Je n’ai pas trouvé d’auteurs «mineurs» ou d’auteurs de best-sellers (comme, par exempleP.L. Sulitzer qui affirme dans l’un de ses livres que la Tchéka était la police secrète du tsar,qui nomme son héros polonais Taddeuz, alors que l’orthographe correcte est Tadeusz, etc).Le style des «grands écrivains» n’est pas critiquable: nous n’avons pas le droit de les juger,nous devons nous en inspirer, éventuellement les imiter – en tout cas, les respecter. Dans lestextes de traductologie, les exemples «non nobles» sont considérés froidement: ce sont destechnolectes ou des sociolectes, déviant par rapport à la langue standard mais respectablesen eux-mêmes. C’est là qu’on trouve le problème du discours politique, souvent réduit à sonaspect purement terminologique (voir à ce propos J.B. Neveux, La traduction du vocabulairepolitique, dans La traduction, 1979).

Or, il y a des textes littéraires «de moindre importance» et des textes ni littéraires ni techniques,c’est-à-dire le texte journalistique, le reportage et surtout les Mémoires et entretiens de toutesorte qu’on trouve en abondance dans les librairies – ce qu’on peut appeler la littérature de témoignage.Que faire, par exemple, avec un texte où un personnage déclare tout à fait sérieusementque «les liens» qui le lient à une certaine organisation sont «éteints»? Si on applique à lalettre les principes de Tytler, à mauvais texte en langue-source doit correspondre un mauvaistexte en langue-cible. Ou bien faut-il améliorer? C’était le point de vue de la plupart des traducteursdu XVIIème siècle, mais on en a aussi de nombreux exemples dans les traductions plusrécentes. Le discours traductologique du XXème siècle a tendance à critiquer ces améliorationsqui sont, en fait, de véritables déformations du texte.”

A maior parte dos textos de Tradutologia utiliza exemplos <nobres>: tradução de filósofos ou de grandes autores como Shakespeare, Cervantes, Corneille, etc. Não encontro, neles, os chamados <autores menores> ou de best-sellers (como, p.ex., P.L. Sulitzer, que afirma em um de seus livros que a Tcheka era a polícia secreta do czar, e batiza seu herói polonês de Taddeuz, ao passo que a grafia correta seria Tadeusz, etc.). O estilo dos <grandes escritores> não é criticável, evidentemente: não temos o direito de julgá-los, devemos sim nos inspirar neles, eventualmente imitá-los – em todo caso, respeitá-los. Nos textos de Tradutologia, exemplos <plebeus> são olhados com desconfiança: estes são classificáveis como tecnoletos ou socioletos, desvios da língua-padrão ainda respeitáveis em si mesmo, regulares o bastante, porém não têm um <estilo>, portanto não merecem grande atenção.

Daí deriva o conhecido problema do discurso político, com frequência reduzido a seu aspecto puramente terminológico (ver, a respeito, J.B. Neveux, La traduction, capítulo <A tradução do vocabulário político>, 1979).

Ademais, há sempre os textos literários <de menor importância> e os textos que não são tampouco literários ou técnicos, i.e., textos jornalísticos, a reportagem, memórias e entrevistas de todo gênero, encontrados em abundância nas bibliotecas e livrarias – o que se passou a denominar literatura de testemunho ou biográfica. O que fazer, p.ex., dum texto onde o personagem declara, de forma séria, que <les liens> (as relações) que o ligam a uma determinada organização são <éteints> (apagadas, nulas, opacas – termo difícil de traduzir)? Se se aplicam à letra os princípios de Tytler, aos textos mal-feitos da língua de partida deveria corresponder um mau texto na língua de chegada. Ou seria lícito melhorá-lo? O auge deste ponto de vista foi no século XVII, mas essa tendência nunca esmoreceu de verdade entre os tradutores (sendo aliás a obsessão por excelência dos editores). Nos discursos tradutológicos do século XX vemos uma pronunciada tendência à crítica desses <melhoramentos>, que são considerados agora deformações do texto original.”

Qui est traducteur (je ne prends en considération que les traducteurs littéraires et je n’aborderaidonc pas les problèmes des traducteurs jurés, techniques ou interprétes dont la traduction estla principale source de revenus)? A priori, toute personne connaissant bien une langue étrangèreet sa langue maternelle, sans être nécessairement «parfaitement bilingue» – les dictionnairesle sont suffisamment – peut être traductrice.Cependant, le traducteur est avant tout um lecteur: sans goût pour la littérature (ou même simplement la chose écrite), il est peu probableque quelqu’un se mette à traduire, puisque cet acte nécessite une première lecture (en termeslinguistiques: un premier décodage). Le nombre des traducteurs est tout de même inférieur aunombre de lecteurs connaissant plus d’une langue, car en plus, il faut savoir écrire (être capablede faire le ré-encodage) – c’est-à-dire avoir au moins un peu de talent littéraire, ainsi que le remarquefort justement G. Karski et même le structuraliste Z. Klemensiewicz qui parle de congénialité:la traduction ne doit être «ni une réécriture, ni une transécriture, mais une co-écriture». C’est d’ailleurs un métier qui ne s’enseigne pas: les écoles de traducteurs forment des interprèteset des traducteurs techniques, non des traducteurs littéraires.”

ANATOMIA DO TRADUTOR – Quem é tradutor? (Daqui para a frente, me eximo da responsabilidade de considerar os tradutores não-literários, isto é, NÃO ABORDAREMOS EM ABSOLUTO OS PROBLEMAS DAS TRADUÇÕES JURAMENTADAS, TÉCNICAS OU DE INTÉRPRETES, PROFISSÕES BASICAMENTE DE DEDICAÇÃO EXCLUSIVA)

RESPOSTA: A priori, qualquer bom conhecedor de ao menos uma língua estrangeira e da própria língua materna, sem ser necessariamente <um bilíngue perfeito> – de modo que os dicionários já lhe são ajuda suficiente.

Acima de tudo, o tradutor é um leitor. Sem tesão pela literatura (ou simplesmente pela <coisa escrita>), é muito pouco provável que qualquer um se meta a traduzir. Trata-se dum ato que exige no mínimo uma primeira leitura (o que na Lingüística se chamaria de primeira decodificação). Segunda implicação: o número de tradutores é sempre inferior ao de leitores conhecedores de mais de um idioma, porque, afora a <decodificação inicial>, é preciso saber fazer a re-codificação (em termos leigos, saber (re)escrever).

O que é esse <saber ler-reescrever>? Possuir um mínimo de talento literário (este mínimo não é <mensurável>), o que lingüistas como Karski e Klemensiewicz definem como a posse da cogenialidade, isto é, menos que a genialidade mas mais do que a banalidade, além de ser sempre uma espécie de <parceria diacrônica> com um outro co-gênio que precede ao tradutor.¹ Resumindo, é uma atividade impassível de ensino: as escolas de tradutores formam intérpretes e tradutores técnicos, não tradutores literários.”

¹ Matizes kardecistas, até!

Os vilões do meu universo encastelado: os assessores, os sociólogos não-marxianos, os pré-existencialistas e, finalmente, os tradutores juramentados ou leigos que solicitam ou falam em “tradução livre” (verdadeira abominação em forma de binômio). Trocando em miúdos, estes são os péssimos profissionais das minhas áreas ou ex-áreas de atuação (respectivamente, Jornalismo, Sociologia, Filosofia, Letras), tudo que eu jamais seria ou jamais tomaria como modelo.

Rares sont les traducteurs littéraires dont la traduction est la principale (ou seule) source derevenus: la plupart du temps, ils exercent des métiers intellectuels, sont souvent des universitaires- mais rarement des écrivains. Il suffit de consulter les bibliographies d’auteurs pour levoir: les écrivains écrivent «pour leur propre compte». Quant aux traducteurs, s’ils ont assez detalent pour traduire, il leur en manque pour créer. Remarquons toutefois que le travail de traductionest ingrat : il demande un effort considérable, est plus ou moins bien rémunéré – mais lestraducteurs passés à la postérité sont rares, si l’on excepte les premiers traducteurs de la Bible.Comme le remarque I. Géher, on ne lit jamais un texte parce qu’il a été traduit par X, mais parcequ’il a été écrit par Y. Les grands traducteurs sont donc peu nombreux: en France, Baudelairen’est un traducteur célèbre que parce qu’il était par ailleurs un immense poète, en Pologne TadeuszBoy-Zelenski n’est célèbre que parce qu’il a, à lui seul, traduit énormément de littératurefrançaise (dont Montaigne, Descartes, Pascal, Rabelais, tout Molière, Chateaubriand, Stendhal,Proust, Gide, tout Balzac, etc.) alors que lui-même n’était qu’un écrivain-créateur médiocre.

Donc, les écrivains ne sont pas des traducteurs – sauf les poètes. Cependant, il est remarquableque les poètes signent quelquefois des traductions de langues qu’ils ne connaissent pas. En fait, ils ne sont pas traducteurs, mais «poétisateurs» de textes précédemment traduits par destraducteurs non poètes (dans la terminologie de H. Meschonnic, l’un parle «langue» et l’autreparle «texte». L’auteur s’insurge avec raison, contre cette pratique qui pose des problèmesphilosophiques et méthodologiques sur lesquels je ne m’attarderai pas).”

O PARADOXO DO POETA NÃO-ESCRITOR E DO ESCRITOR NÃO-POETA (ALÉM DO LIMBO CHAMADO TRADUTOR)

Raros são os tradutores literários para quem traduzir é a principal (ou única) fonte de renda: a maior parte do tempo, eles exercem qualquer outra função intelectual, comumente nas universidades – salvo que raramente são escritores. Basta consultar as bibliografias dos autores para atestá-lo: os escritores <escrevem por conta própria>. Quanto aos tradutores, malgrado tenham o talento imprescindível à tradução, falta-lhes o talento para criar. Observemos quão ingrato é o ofício do tradutor: traduções demandam um esforço considerável e são mais ou menos bem-remuneradas, dependendo do contexto – mas o notável da carreira é quão poucos dentre os tradutores gravam seu nome na posteridade. As maiores exceções foram os primeiros tradutores da Bíblia, por motivos óbvios. Como lembra Géher, ninguém lê um livro <porque foi traduzido por Fulano>, mas sim <porque foi escrito por Cicrano>. Os grandes tradutores são, desta feita, pouco numerosos: na França, Baudelaire só se tornou um tradutor de renome porque além de traduzir era também um enorme poeta; na Polônia, Tadeusz Boy-Zelenski só atingiu fama imortal por ter sido quem traduziu sozinho quase toda a Literatura francesa que realmente interessa: Montaigne, Descartes, Pascal, Rabelais, Molière (a obra completa), Chateaubriand, Stendhal, Proust, Gide, Balzac (a obra completa), e ainda outros! Fora isso, o próprio Tadeusz nada era senão um escritor autoral medíocre.

Sendo assim, os escritores não são tradutores – isto é, com a exceção dos poetas. O insólito da situação do poeta é que ele assina traduções de línguas que não conhece (conhece muito mal, comparado com os tradutores por vocação). Na verdade, quando poetas se aventuram a traduzir, não são tradutores, são <poetizadores> de textos anteriormente traduzidos por tradutores não-poetas (na terminologia de Meschonnic, o poeta fala uma língua, o tradutor fala um texto). O autor (escritor) se insurge (com razão?) contra esta prática, que encerra uma vasta gama de problemas filosóficos e metodológicos, os quais por si só já mereceriam livros e mais livros.”

Tudo já foi escrito” é a desculpa esfarrapada do primeiro dos últimos pós-modernos!

Já traduzi até Heine… Não sei nem mais que(m) sou…

Quem

Queim

Queime

Queimei

Quem

Ei!

Quem queimou

Quem queimou meu queijo?

#IdéiadeTítulodeLivro

UÉ?!

E quem disse que o filósofo é mais escritor do que poeta e tradutor?

Qual é o TAMANHO da sua escrita? Imortal e milenar ou 500 páginas sem margens e espaçamento 1?

Le traducteur est doublement dépendant: en amont, de l’auteur, en aval de l’éditeur.”

L’éditeur est une invention récente que toutefois on trouve à l’état embryonnaire dès l’invention de l’imprimerie. Avant, chaque livre était unique et le copiste devait posséder un savoir (la lecture et l’écriture) et maîtriser une technique (la calligraphie). L’imprimerie introduit une technique lourde et extérieure au copiste et donc, qui plus est, à l’auteur. L’imprimeur devient l’intermédiaire obligatoire (monopolistique) entre auteur et lecteur. Cette situation dure très longtemps: l’éditeur, c’est l’imprimeur, c’est-à-dire un technicien qui se double rapidement d’un commerçant (dans des cas extrêmes, l’imprimeur peut être analphabète, comme le père Séchard dans les Illusions perdues de Balzac). Voulant connaître la nature de sa marchandise, il se met à lire et à juger ce qu’il imprime, pour décider peut-être de ne pas le faire, et devient éditeur à proprement parler. Le statut de l’éditeur est ambigu: il est à la fois connaisseur littéraire et commerçant. Suivant le cas, c’est l’une ou l’autre facette qui l’emporte. Son double jugement (littéraire et/ou commercial) n’est pas infaillible, loin de là. Actuellement, l’éditeur délègue les travaux d’impression (le côté technique) et assume les rôles de commerçant et de juge, quitte, bien sûr, à s’entourer de «commerciaux» et d’un «comité de lecture».”

Lorsqu’un auteur propose (soumet) um texte à un éditeur et que ce dernier accepte de le publier, il accepte par là-même de faire un investissement correspondant aux frais d’impression, de diffusion et éventuellement de publicité. Les revenus de l’auteur dépendent alors étroitement de ceux de l’éditeur. La démarche du traducteur est différente, encore qu’il faille distinguer deux cas de figure: 1. le traducteur propose un texte à l’éditeur, 2. l’éditeur commande une traduction. La différence entre les deux s’inscrit dans la durée. Dans le second cas, le traducteur reçoit un travail pour lequel il sera rétribué. Il n’a donc aucune démarche – au sens propre du terme – à accomplir. Dans le premier cas, le traducteur commence en général par convaincre longuement l’éditeur de l’intérêt littéraire d’un texte, échantillon à l’appui. En cas de refus, il aura travaillé pour rien. Dans les deux cas de figure, si l’éditeur accepte de publier la traduction, son investissement est important: il doit racheter les droits d’auteurs s’ils n’appartiennent pas encore au domaine public, il doit payer le traducteur et, bien sûr, veiller à l’impression, etc.

Le contrat de traduction est signé et, quelques temps après, le manuscrit (ou plutôt le «tapuscrit») est remis à l’éditeur qui va le lire, ou le faire lire. Ce lecteur (qu’il soit l’éditeur lui-même ou une personne tierce, on l’appellera le correcteur) ne connaît pas nécessairement le milieu-source: il ne fera donc que veiller au respect du 3ème principe de Tytler, c’est-à-dire la lisibilité. L’intermédiaire du correcteur est une bonne chose en soi: quel traducteur n’a pas remarqué une baisse affligeante de sa compétence linguistique en langue-cible, qui est en général sa langue maternelle, pendant l’acte de traduction? Les relectures que l’on fait «à froid» sont nécessaires pour se débarrasser du modèle contraignant de la langue-source, mais même là, il arrive que des phrases sonnent juste seulement pour le traducteur, hélas! C’est ce qu’exprime clairement G. Mounin (cité par J.R. Ladmiral), quand il parle de la «richesse merveilleuse de toutes les langues de départ, pauvreté incurable de toutes les langues d’arrivée». Encore faut-il que le correcteur soit effectivement compétent…

C’est là que se pose le problème du «mauvais» texte de départ, ou, si l’on préfere, des maladresses stylistiques qui peuvent s’y trouver. Si on applique le principe de fidélité, à mauvais original doit correspondre mauvais texte en traduction (et ce sera justement cela la bonne traduction) – la première réaction du correcteur sera de considérer que la traduction est mauvaise, et non le texte original, et il se dépêchera de corriger, d’améliorer le texte en langue-cible, pratique autrefois courante, aujourd’hui plutôt critiquée. Il faut cependant faire une distinction entre «petites» et «grosses» maladresses. Voyons un exemple de petite maladresse.

Dans La légende de Pendragon, Antal Szerb répète très souvent le mot különös, quelquefois à l’intérieur d’un même paragraphe. Ce mot signifie «singulier, bizarre, étrange». La stricte fidélité à l’original demanderait de choisir l’un de ces adjectifs – de préférence «singulier» – et de l’employer systématiquement, comme un terme technique. Or, pour la traduction, nous avons choisi de varier les équivalents français pour éviter des répétitions qui, tout en alourdissant le style, n’apportent pas d’information particulière et – surtout – nous auraient fait passer pour de mauvais traducteurs… Nous avons donc prévenu les critiques du correcteur, d’autant plus qu’il s’agissait effectivement d’une maladresse de la part d’Antal Szerb: c’était un éminent historien de la littérature qui écrivait des romans en dilettante, vite et sûrement sans se relire, ce que le lecteur français ne sait pas, alors que le personnage de Szerb est très connu en Hongrie. On a ici un problème non de langue, mais de milieu. Ce roman est passionnant de bout en bout – il n’en est pas pour autant exempt de ce type de maladresses qu’on peut corriger sans porter atteinte au texte.”

Escrita, a anti-bosta: quanto mais mexe, menos fede?! Há um momento, no entanto, em que ela petrifica, para o bem ou para o mal…

Il arrive cependant que la «maladresse» (en particulier, la répétition) soit voulue et significative. C’est le cas du roman du Polonais Julian Kawalec intitulé W sloncu où la répétition de mots ou de membres de phrase crée un effet lancinant comparable à la poésie de Gertrude Stein. Dans ce cas, il faut conserver cet aspect de l’original – et il ne sera guère aisé de convaincre l’éditeur qu’il doit en être ainsi. L’éditeur est un être soupçonneux: il met en doute les compétences linguistiques du traducteur aussi bien en langue-source qu’en langue-cible – ce qui n’est d’ailleurs qu’une manifestation de son souci du lecteur.”

¹ E mais uma vez o dia foi salvo graças ao poder deveras oportuno da… NOTA DE RODAPÉ!!!

Prancha de salvação que leva direto aos tubarões. Conversas off-topic gravadas. Quando a nota é do editor, o “tradutor venceu” a guerra, e o Ed. se vinga. Quando a nota é do tradutor, o “editor venceu” a guerra, e o Trad. quita dalgum modo a dívida e restabelece o equilíbrio. Isso supondo que não se trate só de mea culpas baratas…

Remarquons que la plupart des «notes du traducteur» sont des informations portant sur le milieu-source.”

Quelle frustration de voir écrit en bas de page «calembour intraduisible». La responsabilité repose entièrement sur les épaules du traducteur; et comme la plupart des calembours sont intraduisibles, le traducteur essaie de compenser comme il peut, éventuellement en plaçant un bon mot à un autre endroit du texte. Ces deux types d’exemples sont peu importants – même s’ils donnent quelquefois des nuits blanches aux traducteurs – si l’on pense qu’ils ne concernent la plupart du temps que des mots et expressions éparpillés dans un texte par ailleurs normalement traduisible. Le problème se pose plus gravement quand c’est le texte tout entier qui nécessite une note du traducteur – qui alors peut choisir de se taire ou de se manifester par une introduction. Je ne citerai qu’un seul exemple: l’introduction à la traduction française de Trans-Atlantique de W. Gombrowicz. Il s’agit d’une longue introduction historico-littéraire ainsi que traductologique. C. Jelenski & G. Serreau, les traducteurs, expliquent que le roman, écrit en 1948, s’inscrit dans une convention littéraire du XVIIIème siècle – j’en ai parlé au début, à propos du «voyage dans le temps». La traduction est stylisée, archaïsée au point qu’elle crée une impression aussi étrange et grotesque que l’original. On a un «style fonctionnellement équivalent» (Taber). De ce point de vue, et du point de vue des libraires aussi, c’est une réussite et pourtant… Le texte français est beaucoup plus long que l’original polonais. On observe, pour employer la terminologie de J.R. Ladmiral une incrémentialisation et une péri-paraphrase généralisées – en d’autres termes, c’est une traduction explicative.”

Mais C. Jelenski n’a-t-il pas dit lui-même à propos de ce travail qu’on ne comprenait vraiment une oeuvre qu’en la traduisant? Cette traduction illustre l’application stricte du second principe de Tytler, au détriment du premier – à cela près, qu’il n’y a pas déperdition, mais excès. Ce phénomène est constant dans tout le roman – en fait de traduction, on a presque une adaptation.”

HAHA: “adaptation, appelée quelquefois traduction libre (…) L’apparition des notions de propriété littéraire et de plagiat oblige l’adaptateur à citer son modèle – quitte à se faire passer pour un traducteur.” Bom menino-mau: Em nome da Honra – Chapeuzinho Vermelho; O Orfanato & O Senhor-Robô – Dalá-gonu Borô Zeta; Do Caos ao Barro, da Lama ao Caos: Lisboa, 1755 – Moonspell & Nação Zumbi & Chico Science… O Andarilho Triclope… …. ….. Sofrimentos do Jovem Ed…itor

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Trechos de Marianne Lederer, “La traduction aujourd’hui”

Même à un stade très avancé de l’acquisition d’une langue étrangère, on entend encore des étudiants demander comment traduire tel mot ou tel mot. Comment dit-on <préposé> en anglais? ou <pronouncement> en français? Ils espèrent une réponse qui ferait apparaître une forme sonore différente dans uns signification inchangée.”

Les mots anglais <control>, <region>, <opportunity> ont tout d’abord été compris au sens français de <contrôle> (vérification), <région> (partie d’un pays), <opportunité> (qui vient à propos). (…) Aujourd’hui <contrôle> a perdu en grande partie sa signification initiale pour prendre le sens anglais de <maîtriser>, <commander>, <diriger>; <région> englobe plusieurs pays et <opportunités> remplace de plus en plus <occasion>. Les déformations sémantiques de <global>, <rampant>, <attractif>, etc., ont suivi ce processus à des degrés divers. <Global>, à l’instar de l’anglais, signifie aujourd’hui <universel> en plus de sa signification de <entier>, <total>. <Rampant> a gardé sa signification française mais est utilisé avec une fréquence qui lui vient de l’anglais. <Attractif> a la forme de l’anglais tout en gardant la signification de <attrayant>, <attirant>, etc.”

La stylistique comparée du français et de l’anglais, cependant, malgré toutes ses qualités, n’est pas une méthode de traduction des textes, contrairement à ce que laisse entendre son sous-titre, <Méthode de traduction>. Elle ne peut l’être car, observant les désignations différentes de situations identiques, elle ne va pas, sauf pour en analyser le résultat, jusqu’à expliquer la traduction par équivalences.”

J. Delisle écrit: L’analyse de la langue que pratiquent les stylisticiens comparatistes reste en deçà de l’analyse du discours sur lequel se fonde toute vraie traduction.

Les 7 procédés techniques si célèbres de La stylistique comparée (…) (l’emprunt, le calque, la traduction littérale, la transposition, la modulation, l’équivalence, l’adaptation) ne peuvent contribuer à la traduction, qui est essentiellement un exercice d’interprétation car, ne facilitant ni l’analyse d’un message ni sa restitution, ils ne peuvent pas avoir valeur de règles pratiques de traduction.”

La stylistique (et d’autres <manuels de traduction>) peuvent rendre de grands services aux étudiants dans leur auto-perfectionnement linguistique. L’apprenant peut puiser à la source du comparatisme pour perfectionner ses connaissances.”

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La polémique “Cibliste vs. Sourciste”.

Trechos de Pierre Baccheretti, “Traduire ou interpréter”, in: La traduction: problèmes théoriques et pratiques

Dans la pluplart de cas, c’est la réalité décrite qui se refuse à la traduction, pour la simples raison qu’elle n’a point d’équivalent dans le pays où est parlée l’autre langue. Se pose alors le problème, bien connu, de la traduction des <réalia>.”

Nous traduirons donc filosofija trëx vesëlyx kombinatorov P’enikle. Nous soulignerons, en qualifiant cette philosophie de mudrënaja et en recourant à un verbe noble:

A brotik Pol’, zabrosiv azbuku, po veceram, lëza v krovatke, vnikal v mudrenuju filosofiju <Trëx vesëlyx Kombinatorov P’enikle>”

E meu irmão Paulinho, em sua cama, penetrava nos segredos da sábia filosofia dos três fanfarrões vigaristas Pieds Nickelés, menos três patetas que uma espécie de Cebolinha arquitetando um de seus Planos Infalíveis…

Um dia só é bom quando o próximo é um feriado.

le français montagne se verra-t-il attribuer comme équivalent le russe gora. C’est du moins ce que recommandent, à l’unanimité, tous les dictionnaires bilingues. Et, pourtant, un examen, même superficiel, des emplois de gora en russe montre à l’évidence que la réalité recouverte ressemble souvent, à s’y méprendre, à une simple colline de Provence.”

Il est évident que l’imagination des parents ne connaît point de bornes lorsqu’il s’agit de toruver un nom zoologique gentil à ces chers petits, et, dans l’intimité du nid familial, tout est permis. Mais les assimilations être humain/animal sont loin d’avoir une valeur universelle immuable, et dans le domaine de la traduction, il est, sans aucun doute, souhaitable d’éviter des équivalences au mot à mot qui, dans la langue d’arrivée, risquent d’avoir une valeur comique qui n’était certainement pas recherchée au départ.”

Je frappai le mulet sous le ventre […] tandis que le paysan l’appelait: <carcan, carogne> et l’accusait de se nourrir d’excréments.

Pagnol fait là allusion à une injure fort prisée dans le Midi et dont le sens laisserait à supposer que votre interlocuteur, pour se sustentar, mange autre chose que de la fougasse et des olives. Malgré la richesse de son vocabulaire dans ce domaine, le russe ne possède pas d’équivalent terme à terme qui soit couramment utilisé. Et, difficulté supplémentaire, tout cet aspect de la langue parlée est totalement tabou dans la langue écrite: le bon citoyen russe peut être, dans la vie de chaque jour, tout aussi mal embouché que le plus grossier des charretiers de France, mais l’usage littéraire jette un voile pudique sur les expressions qui sortent des sentiers battus, et les dictionnaires – à l’exception d’un ouvrage anglais (Beyond the Russian dictionary, 1973, London, Flegon Press) restent étrangement muets sur le sujet.”

Le grossier personnage n’hésitera pas à compléter nos points de suspension en recourant à un verbe précis que conférera à la phrase le sens approximatif de tu sais ce qu’on lui fait à ta mère? L’injure est à ce point vivante en russe que la langue en arrive à renoncer à employer à l’accusatif le mot mat’ précedé du possessif, de façon à éviter toute réminiscence mal venue.”

ryba, le poisson, est, en russe, de genre féminin”

De la même façon, dans la traduction du Petit Prince, le traducteur soviétique a été amené à traduire le renard et la Fleur respectivement pas lis, masculin, quasiment inemployé en russe, à côté du très courant lisa de genre féminin, et roza (la rose, et non la fleur cvetok masculin) de façon à respecter la répartition féminin/masculin, essentielle dans le texte original.”

En effet, alors qu’en français, le mâle donne habituellement son non à l’espèce (un chat, une chatte, le chat), le russe préférera d’ordinaire la forme féminine pour désigner l’espèce (kot, koska). Le canard sera ainsi utka de genre féminin, ce qui saurait convenir à un exemplaire, défini comme le vieux père canard, et, plus loin dans le texte, le vieux dur-à-cuire.”

Le locuteur français (qui dit ) reste, en quelque sorte, à distance, immobile, considère le mouvement d’un point fixe, depuis l’endroit d’où il observe, et il n’est qu’observateur. Le locuteur russe (qui dit ici) se déplace en même temps que son personnage, participe au mouvement, est, d’une certaine façon, acteur de la scène.”

On pourrait expliquer l’implicite du français par le fait d’une capacité d’abstraction plus grande, le contexte étant suffisamment clair pour donner à comprendre la succession chronologique de divers mouvements sous-entendus.”

Jacques entra dans le café, avisa une table libre à l’écart, et commanda une bière.

=

Zak vosël v kafe, primetil svobodnyj stolik v storone, sel i zakazal pivo

=

Jacques entra dans le café, avisa une table libre à l’écart, s’assit et commanda une bière.

Là oú le locuteur français, du seul fait du cheminement de la logique interne de l’énoncé, distingue sans ambiguïté les divers personnages, tous nommés <il>, le russe ne reconnait pour <il> (on) que la personne qui était déjà le sujet de la proposition précédente, et si la personne, sujet de la nouvelle proposition, est autre, doit impérativement la nommer, ou recourir au démonstratif tot qui désigne la personne ou l’objet éloigné, par opposition à étot réservé à l’objet de la personne proche.”

nous avions la triste impression de lire un autre livre qui parlait la même chose, mais ne disait rien.”

il n’y a qu’un pas entre l’abattoir, skotobojnja, et bojnja, la tuerie, la boucherie, la guerre.”

En effet, on peut constater dans l’usage russe une tendance marquée à préciser ce que le français se contentait de suggérer, et, sur un certain nombre de points, la langue dispose d’une série de moyens techniques pour le faire, moyens que le français, soit ne possède pas, soit répugne à utiliser”

En français, le contexte éclaire la mimique, donne leur signification aux gestes, alors qu’en russe ce sont les gestes qui contribuent à créer le contexte.”

Ainsi l’expression zadrav nos, littéralement <le nez en l’air> marque, en russe, l’attitude hautaine, l’air conquérant de celui qui est trop content de soi, et non, comme en français, une certaine insouciance, un manque évident d’attention.”

Cabeça na lua, nariz empinado, olhando sempre pra baixo, boca tesa, ouvido surdo concentrado, pêlos eriçados, cabelo sem viço, derrubado.

O russo precisa incluir muitos travessões num diálogo, certo, Dosto?

…dit ma mère, répliqua vivement mon père, précisa tante Rose, dit, dubitatif, mon pére, etc. Bien entendu, tous ces verbes auraient été possibles dans le texte français, mais telle ne semble pas être la tendance de la langue.”

Le verbe de parole en fraçais répond essentiellement à la question: qui parle? Le russe va, souvent, plus loin: qui parle, et comment?

c’est la vi(ll)e désertes amis

Trechos de Françoise Flamant, “Pour en venir au texte lui-même”, in: La traduction: problèmes théoriques et pratiques

O artigo de Pierre Baccheretti Traduire ou interpréter, que se funda sobre uma prática assídua da tradução, incita com naturalidade todo tradutor a refletir sobre sua própria prática. Constatamos imediatamente que os tradutores, que se comprazem, em geral, em debater e confrontar pares, repugnam, o mais das vezes, comunicar suas experiências por escrito. Esta repugnância – ou essa negligência – (que o próprio P. Baccheretti decerto não reprova em alguns contextos) não seria reveladora da inquietude que acompanha o tradutor incontinenti ao longo da elaboração de seu texto, e desse resíduo de insatisfação que persiste nele ao contemplar o resultado de seu trabalho? Angústia e insatisfação que não são sanadas pela leitura de nenhuma obra teórica sobre tradução. Com efeito, a atividade do tradutor não se caracteriza como uma posta em prática de teorias e princípios, quaisquer que sejam, estabelecidos pelo tradutor mesmo ou consagrados muito antes dele – se caracteriza, sim, como uma tensão irredutível entre dois pólos: duma parte a convicção de que a estrangeiridade dum texto compõe um de seus atributos primordiais; doutra, a necessidade imperiosa de comunicar essa estrangeiridade, i.e., esse algo insólito e inefável, convertendo-o nalgo familiar para o receptor, e, afinal, redigido na língua natal deste último! A tradução se realiza num vaivém permanente entre estes 2 pólos, percorrendo uma infinidade de escolhas, uma mais insatisfatória que a outra, caso fossem examinadas em separado, mas que tendem a se equilibrar, se compensar, consideradas como um todo mais que a soma das partes.”

O tradutor moderno perdeu a tranqüila confiança de seus predecessores franceses do século passado, intimamente convencidos da supremacia de sua própria língua vernacular e de sua civilização. (…) Viardot alcançava o denominador comum (do gosto francês) entre a prosa de um Cervantes e a de um Turgueniev.”

<tradutor de Arte> (é assim que os russos denominam o <tradutor literário>)”

Veja-se o exemplo da palavra muzik, transcrita geralmente como moujik em francês (definição: <camponês russo>). Em sua obra Tolstoï et Dostoïevski (1901), o escritor e filósofo Mérejkovski consagra um capítulo à religião de Dostoïevski, para a qual duas palavras diferentes conotam o <camponês> a depender da situação: muzik ou krest’janin. Mérejkovski defende a idéia de que o apego de Dostoïevski a um cristianismo do terror que ele associa intimamente ao camponês russo (o krest’janin) teve sua origem num episódio da infância do escritor, contado aliás por ele próprio: aterrorizado pelo uivo dum lobo, Dostoïevski-criança sai correndo e se joga nos braços fortes e protetores do camponês (muzik) Maréï, que trabalha nos campos das proximidades de sua casa, o que o conforta e o alivia de sua crise. O sentido do <texto em si mesmo> indica aqui, ao tradutor, que deve se servir da palavra moujik toda vez que fizer referência ao <moujik Maréï>, e da palavra paysan [a tradução literal, i.e., camponês, o pobre, o povo, e não mujique, dicionarizada em português, inclusive] sempre que a questão for traduzir krest’janin. A palavra muzik, formação diminutiva pela qual se auto-designava o camponês-servo na sociedade feudal russa, é a que Dostoïevski aplica em seu relato da lembrança de infância. Ao conservar a denominação, o tradutor permite ao leitor francês identificar a citação – tão rapidamente quanto o próprio leitor russo. Ao traduzir o camponês médio ou o camponês em geral pela outra palavra, krest’janin, distingue-se, na prática, o evento-concreto fundador (de feição particular, historicamente datado, de caráter patriarcal, a relação, em suma, do <jovem mestre> com um de seus servos) do conceito universal ressignificado ulteriormente na visão teológica de Dostoïevski que gira em torno do arquétipo do camponês (o krest’janin).

A mesma palavra no plural, Muziki, é o título de uma longa novela de Tchékhov datada de 1897, cujo enredo se passa no mesmo ano. A tradução de um título é sempre perigosa: sua formulação geralmente lacônica (o mais lacônica possível, aliás) tem como meta representar, ou ao menos sugerir, a idéia primordial contida na obra. Mas, ao mesmo tempo, um título deve ser chamativo, despertar a vontade de ler. Daí que não nos pareça recomendável traduzir a obra como Les moujiks: a estranheza da palavra – estranheza que, em si mesma, não impede a palavra de ser utilizada, e até pode ser um critério para preferi-la, como já indicamos – não ajuda em tornar o título atrativo para o potencial leitor de ficção (muito embora o caráter de estranho possa ser sempre atrativo para aficionados em relatos de viagens, por exemplo). E, ademais, a palavra muziki passa longe de ser neutra, uma vez que designa os camponeses russos do fim do séc. XIX aproximadamente 40 anos após a abolição da servidão. Em que pese esse período coincidir com a infância de Dostoïevski, não podemos assinalá-la como bom sinônimo de krest’jane. Na verdade quem não lê a novela obviamente não pode entender o sentido do título Muziki: a estória da decadência inelutável duma família camponesa e de toda uma vila, em meio a uma sociedade que não libertou os camponeses senão para abandoná-los a eles mesmos, figuras ontologicamente irresponsáveis pela própria existência. Sendo assim, Muziki aqui é um misto de termo carregado de compaixão com leve depreciação ou crítica nuançada. Agora, em nosso tempo, essa palavra, ainda empregada, se tornou muito mais – abertamente – pejorativa. Quanto à melhor sugestão de tradução, seria Paysans, sem artigo, preferível a Les Paysans, que vem a ser a escolha mais freqüente.”

a neutralidade estilística está para o texto como o silêncio está para a peça musical e o plano de fundo para a pintura.”

* * *

L’autre forme de l’interprétation de conférence est l’interprétation simultanée, introduite dans la pratique professionnelle à partir du procès de Nuremberg: l’interprète est isolé dans une cabine vitrée qui lui permet de voir les participants. Il reçoit le son grâce à des écouteurs et traduit ainsi dans un micro les propos entendus, non pas simultanément, mais avec un léger décalage dont la durée varie en fonction de la nature du discours. C’est à Marianne Lederer (op. cit.), ancienne directrice de l’EST, que la traductologie doit l’ouvrage majeur sur l’interprétation simultanée: La traduction simultanée, expérience et théorie, paru en 1981. Les recherches de Seleskovitch se poursuivent par toute una série d’articles qui élargissent peu à peu le champ de son étude de l’interprétation à la traduction en général. Le texte qui suit retrace le cheminement de son analyse et ses notions clés”

Trechos de Colette Laplace, Théorie du langage et théorie de la traduction

on pense mieux en parlant qu’au stade de la pensée non formulée. Toute parole est donc en même temps expression de la pensée et génératrice de pensée.” Selesk.

Selon l’interprète, la langue signale par le pluriel même auquel elle se prête (les langues), qu’elle a un caractère instrumental” “L’impression retirée de la lecture de L’interprète dans les conférences internationales se trouve immédiatement confirmée: en 20 ans de recherche, Seleskovitch ne s’est jamais lancée dans une étude analytique de la langue, elle s’est toujours tenue volontairement à l’écart des grands courants de la linguistique contemporaine, distributionnalisme bloomfieldien, strucuturalisme saussurien, glossématique de Hjelmslev, fonctionnalisme d’un Jakobson ou d’un Martinet, etc.” “Quel musicologue se contenterait d’étudier le bois dont est fait un stradivarius pour s’expliquer une musique? Ainsi les recherches d’un Chomsky sur la structure profonde ne sauraient trouver grâce à ses yeux, car elles ne permettent pas de <sortir de la langue>.”

Les idées doivent se couler dans les catégories que leur impose la langue, mais elles ne se confondent pas plus avec ces catégories qu’elles ne se confondent avec la langue.

Toute conception de la langue de Seleskovitch est dans cette phrase et ses différentes publications fourmillent d’illustrations de cette thèse.”

O KEYHOLE PRINCIPLE DE SELESK.: “un Anglais et un Français ont certainement la même représentation mentale, le même concept, d’un trou de serrure [buraco de fechadura, ‘lock-hole’], pourtant l’un utilise le terme <trou de serrure> et l’autre celui de <keyhole> (trou pour la clef).”

L’anglais dit outlet, le français dit prise (de courant)” Uma queima de estoque ligada no 220V!

a língua não diz, ela permite dizer”

Le vouloir-dire est la cause du discours, le sens en est la finalité.”

Dans les conférences internationales, les orateurs se succèdent, abordant des sujets politiques, écnonomiques, techniques ou scientifiques, que leurs auditeurs, délégués de même langue ou interprètes, sont supposés comprendre à la vitesse du débit oral, sans jamais disposer de la possibilité d’opérer un retour en arrière, alors que le lecteur a, lui, toujours loisir de le faire. C’est donc la situation idéale pour observer le jeu des mécanismes de compréhension, sans que rien ne le fausse.”

Il est certes plus difficile de dégager le sens d’un poème d’Hölderlin ou de René Char que d’un discours de Margaret Thatcher, et le travail d’exégèse n’est sans doute pas encore achevé mais il n’en reste pas moins que ce sens a une entité objective.”

The chickens are ready to eat! est ambiguë car nul ne peut opter à partir de la seule signification de la phrase: Les poulets sont cuits à point ou plutôt pour on peut maintenant donner à manger aux poulets.”

Nul besoin d’aller chercher des mots comme Gemüt et Schadenfreude pour affirmer que certains mots sont intraduisibles.”

on conserve le mot étranger come on l’a fait pour l’isba des romans russes ou pour le software des ensembles électroniques ou bien l’on crée un mot nouveau comme on l’a fait pour cybernétique, ou une acception nouvelle comme satellite qui a vite perdu son épithète d’artificiel.”

Bread pour l’Américain c’est une matière spongieuse, coupée en tranches et enveloppée de cellophane; pour le Français, le pain c’est une longue baguette croustillante et dorée” “nous serions tentée de demander si le soleil est bien la même chose pour un esquimo qui, pendant une partie de l’année seulement voit un astre pâle décrire une courbe molle au-dessus de l’horizon en difusant de la lumière 24 heures sur 24 et pour un Africain, qui identifie le soleil à une pluie de feu qui tombe du ciel et contre laquelle il convient de se protéger.”

«Ainsi les chiffres qui sont traduisibles par excellence puisqu’il y a une parfaite correspondance entre le référent et les signifiés des différentes langues, peuvent dans certaines circonstances devenir contextuels. Seleskovitch cite l’exemple des <15 jours> en français qui se traduisent par <14 Tage> en allemand. On pourrait également citer la signification attachée au chiffre 13 dans certains pays occidentaux (signification de malheur) qui se traduirait dans certains pays asiatiques par le chiffre 4.»

«Pour nous en convaincre, il suffit d’ouvrir le dictionnaire bilingue au hasard. Voici ce que propose le dictionnaire bilingue français-allemand de Sachs et Villatte: Kern: noyau, pépin, amande, coeur, puis des expressions diverses telles que der Kern der Sache: le vif do sujet; des Pudels Kern: le fin mot de l’affaire. Nous constatons que le terme allemand a un champ sémantique très large, plus large serait-on tenté de dire que celui de ces correspondants français. Mais est-ce bien vrai? Vérifions maintenant les équivalents proposés pour l’un des termes français. Coeur: Herz, Gefühl, Gemüt, Mut, etc. et d’innonbrables expressions: par coeur: auswendig; loin des yeux, loin du coeur: aus den Augen aus dem Sinn; faire à contre coeur: widerwillig machen; coeur d’un arbre: Kern, etc. Nous constatons que le champ sémantique du terme français est lui aussi très vaste, mais qu’il n’est nullement superposable au champ sémantique du terme allemand.»

Can you give me a lift? : Tu es en voiture? / Tu peux me déposer quelque part? / Vous êtes motorisé?

Trechos de Philippe Forget, Il faut bien traduire

«ces représentantes du vouloir-dire, de la parole vivante, de la conscience maîtresse du sens sont ici en train de pratiquer le spiritisme: elles convoquent le sens, donc l‘esprit, le font apparaître en dehors de sa forme matérielle pour, identifique à lui-même (insensible aux contextes, donc) le rematérialiser ensuite!»

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ELEMENTOS CULTURAIS, CONOTAÇÃO, ESTILÍSTICA

Trechos de Ladmiral (op. cit.)

«D’un point de vue historique, le concept de connotation a été remis à l’honneur par la linguistique américaine, dans le sillage de Bloomfield, avant d’être repris ensuite et thématisé surtout par les linguistes européens (cf. Mounin, 1963). Au-delà de l’héritage bloomfieldien, c’est donc essentiellement à l’apport de linguistes européens comme Martinet, Mounin, Guiraud, Lyons, Hjelmslev, voire Barthes… que nous serons conduit à faire réferérence.»

«On trouve le mot déjà chez Littré, qui consacre à la notion 3 entrées dans son dictionnaire – où connotation est définie comme ‘l’idée particulière que comporte un terme abstrait à côté du sens général’, où connoter signifie ‘faire une connotation, c’est-à-dire, indiquer, en même temps que l’idée principale, une idée secondaire qui s’y rattache’, et où connotatif a aussi une adresse qui luit est propre.»

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O CROATA APRESENTA INCRÍVEIS PARALELOS COM O PORTUGUÊS!

«C’est ici que se situe la grande majorité des cas. Notons que ces termes relèvent souvent de sphères où le français faisait jadis figure de langue de communication internationale: les lettres et les arts: esej, rezime, portret, revija, feljton, vodvilj, gvas; la politique: portfelj, revans, alijansa; les sciences et techniques: emalj, rezervoar, freza; la médecine: celulit; les finances: financije, akreditirati, garancija; l’art militaire: kampanja, bajuneta; la mode: dekolte, drapirati; l’art culinaire: blansirati, rulada, desert, fondan, frikase, et puis le savoureux frape, qu’en bon français nous préférons appeler milk-shake.

(…) interpolacija [interpolação] (…) bizuterija – désignant uniquement les bijoux de pacotille; frizura – la coiffure en général [cabelo frisado]; bombonijera – désignant une boîte de bonbons ou bien une confiserie [confeito]); soit avec una acception très pointue du mot source (apartman – qui le plus souvent désigne un logement locatif dans un lieu de villégiature); soit, et c’est beaucoup plus rare, avec une notion plus large que dans la langue d’origine (goblen, à partir de Gobelins, aboutit à l’idée de tapisserie en général).»

«avantura, butik, degutantan, dekadansa, impozantan»

TRADUZIR POESIA

Trechos de Inês Oseki-Dépré, Théories et pratiques de la traduction littéraire

«‘La Traduction-Allusion se propose seulement d’ébranler l’imagination du lecteur qui n’aura qu’à achever l’esquisse.’ Ainsi, selon Etkind, ‘n’est-il pas rare de voir les traducteurs ne faire rimer que les 4 ou les 8 premiers vers comme dans l’original, comme pour orienter l’esprit du lecteur dans la bonne direction’»

«recréer un poème dans son indivisible unité, dans sa totalité est un miracle qui ne serait accessible qu’à un poète.»

O que aconteceria se se esperasse de uma tradução poética que atendesse à lei formal das traduções, que é serem mais longas que o original?

« les Allemands et les Russes ont admirablement traduit dans leurs langues Homère, Eschyle, Sapho, Alcée, Virgile, Catulle, Horace, Juvénal. Il y a, entre la versification russe, tonique, et la versification polonaise, syllabique, une différence de principe fondamentale: elle n’a pas empêché Julian Tuwim de faire une excellente tradution d’Eugéne Onéguine de Pouchkine, ni Severin Pollack de recréer, de manière trèssatisfaisante, la poésie d’Anna Akmatova, de Maldelstam, de Tsvetaieva, de Pasternak.

De leur côté, la différence entre le système syllabique et le système tonique n’a pas empêché les poètes russes de traduire André Chénier, Évariste Parny (Pouchhine[?]), Auguste Barbier (Benediktov, Antokolski), Baudelaire, Verlaine, Rimbaud. »

«Le vers classique croule sous le poids des connotations livresques: impossible d’écrire une ligne, et encore moins une phrase, sans qu’aussitôt se présentent à l’esprit de longues séries de réminiscences scolaires, de citations et de commentaires transmis de génération en génération. Cet héritage s’est accumulé pendant plus de 4 siècles: on est fatigué par tant de liens culturels, la réalité vivante en est occultée. Libérer la vie des alluvions culturelles qui la recouvrent, telle est l’aspiration essentielle du vers libre. Paul Valéry, qui y avait tenu sa part, évoque ce refus total de l’ancienne tradition classique à partir des années 1890.»

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INDICATIONS BIBLIOGRAPHIQUES

BALLARD, Michel. Qu’est-ce que la traductologie?, 2006.

BENJAMIN, Walter. La tâche du traducteur in: Oeuvres I.

ECO, Umberto. Dire presque la même chose.

LADMIRAL, Théorèmes pour la traduction.

TYTLER, op. cit.

CHINA’S IMAGE IN GREECE 2008-2018 – Plamen Tonchev (ed.)

Beijing authorities themselves are eager to receive feedback on the way China is viewed by European societies and the China-CEE Institute has recently commissioned several studies on perceptions of the China-led 16+1 platform in Central and Eastern Europe (CEE). In this sense, the report produced by the Institute of International Economic Relations (IIER) aims to provide much-needed insight into the underlying reasons behind China’s image in Greece.”

The period of time covered by the report spans from 2008 to 2018, the rationale behind this being that China’s presence in Greece became very visible with the concession agreement for the port of Piraeus signed by the Greek government and the Chinese shipping giant COSCO in 2008.”

A consistent pattern recorded by most of the surveys reviewed is that, in general, Greeks have a positive view of China, and it is more favourable than perceptions of China in other European and western countries. (…) At the same time, Greeks do not think highly of China’s political system, which does not qualify as a democracy in their eyes. Nor do they envy life and work in China, and find Chinese commodities of inferior quality to that of western goods.”

While China’s growing prowess is seen by Greeks as bad news for Europe, it is perceived as good news for Greece, as if Greece were not in Europe;

While the vast majority of Greeks are adamantly opposed to globalisation, many Greeks expect China, the par excellence beneficiary of globalisation, to help the Greek economy stand on its feet again.”

1. Perceptions of China in Greece

in 2013 more than half the Greeks polled (57%) believed that China was bound to replace or had already replaced the US as the leading world power. A BBC survey released in July 2017 showed that perceptions of China’s influence were predominantly negative within the EU. Greece was the only European country in that specific sample leaning positively in its views of China’s influence, with a plurality of 37% offering a positive opinion (versus 25% who had a negative attitude). Aptly put, China’s power is admired by many, but is also feared. This does not seem to apply to Greece.”

In April 2017, the Greek research agency DiaNEOsis asked Greeks about their preferred political system and only 2.4% of respondents approved of China’s form of government, the most popular model being Sweden, at 57.8%.” “Notably, more than 20% of those interviewed gave an inaccurate answer [será?] to the question about China’s political system, by replying it was a ‘parliamentary democracy’ or a ‘federal republic’.”

2. China’s image in selected Greek media

In line with international coverage, Greek media duly reported the 2010 Nobel Peace Prize, awarded to the imprisoned Chinese dissident Liu Xiaobo. The Greek public is informed about serious issues with capital punishment in China [but not in US!], the demographic and economic side effects of China’s former one-child policy, grave environmental challenges in the country, opacity and corruption, work safety, etc.”

E O SALÁRIO, Ó… “Tellingly, the phrase ‘Chinese salaries’ is short-hand for low-living standards and is commonly used as a simile referring to shrinking income in Greece. Thus, a 2011 article reviewed by the IIER team is titled ‘Greece following China’s labour standards’, but in fact the text itself only refers to China once. Rather, the article is a lament about the high unemployment rate in Greece and the shrinking salaries of those lucky enough to have a job.”

AH, A MANIA DOS CAPESIANOS INTERNACIONALISTAS (MoUmania)! “A large number of related news items report meetings, and are accompanied by numerous photos of Greek and Chinese officials smiling and shaking hands. Many articles are merely lists of intergovernmental agreements and memoranda of understanding (MoUs) notably, 19 agreements and MoUs were signed by Greek and Chinese partners during prime-minister Li Keqiang’s visit to Athens in June 2014 alone.”

It is important to keep in mind that since 2008 Greece has had 5 general elections, four different governments and two caretaker prime-ministers. Media coverage of China has obviously been influenced by the fickle political setting. The media tend to change their attitude towards China, depending on political affiliation or which side of the aisle they are closer to.”

Similarly, while a large majority of Greek citizens do not think highly of China’s democracy and respect for human rights, the Greek government blocked the 2017 statement of the EU on the state of human rights in China.¹ In June 2018, the Greek PM Alexis Tsipras stated that Greece was willing to join the 16+1 platform as a full member a week later at the Sofia summit of the club, despite the irritation that this causes in EU institutions and some EU member states.² This stance of Athens is qualified by some western onlookers as a ‘Trojan horse’ behaviour, dictated by China in return for investment in the cash-strapped Greek economy. This only comes to confirm the image of a strategic ally of Greece that China projects on numerous occasions, including at the highest possible level.

¹ The EU was due to make its statement at the UN Human Rights Council in Geneva. A spokesman for the Greek Foreign Ministry in Athens reportedly called such a statement ‘unproductive criticism’.

² In the end, Greece retained its observer status, together with Austria, Switzerland and Belarus.”

There are no indications that Beijing pursues to wield influence by directly controlling Greek media, unlike what is often discussed in other parts of the world (e.g. Australia or Europe). At present, there are no Chinese-controlled media outlets to orchestrate a pro-Beijing public diplomacy campaign in Greece and there are no regular China-sponsored supplements in Greek newspapers. By contrast, China Watch, the European version of China Daily, is regularly supplemented in Le Soir and De Standaard (Belgium), Le Figaro (France), Handelsblatt (Germany), El País (Spain) and The Daily Telegraph (United Kingdom).”

3. Beneath the surface

MODERNITY IN A NUTSHELL (FROM THE CRADLE OF OUR OWN CIVILIZATION): “Indeed, what has been happening in the Greek psyche since 2010 is nothing short of a collective trauma: a chorus of anxiety, humiliation and frustration, coupled with a profound sense of insecurity in a rapidly changing world.”

E PENSAR QUE UM BRASILEIRO MINIMAMENTE ATENTO TEM PROFUNDA INVEJA DO CENÁRIO GREGO: “Despondent about the economy, largely pessimistic about the country’s prospects and worried about their children’s future, Greeks tend to see very few friends, if any. The majority of Greek people find, rightly or wrongly, that the country is heading in the wrong direction. It is only recently that the economic mood has brightened a little bit, though optimism about the trajectory of the economy has yet to return and, in general, Greeks remain downbeat about the prospects of the country.

In the spring of 2014, Greece was the least satisfied nation, at a striking 5%, among the 10 advanced economies covered by the Pew Research Center, but also among all the 43 countries included in the sample on a global scale.”

At about the same time, almost every Greek (98%) referred to joblessness as the single biggest issue in the country this is only to be expected, given that the official unemployment rate in the country peaked at 27.6% in May 2013.” A Grécia de ontem é o Brasil de amanhõje.

The average disposable income in Greece has shrunk by an estimated 25% to 30% since 2010 and prices matter a lot. Thus, cheap Chinese commodities are popular in Greece only because in the midst of the ongoing economic crisis many households do not have the wherewhithal to make ends meet.”

Losing more than a quarter of its national wealth and living standards, branded the ‘black sheep’ of the Eurozone for about a decade, facing the spectre of Grexit for several years, being next to an increasingly unpredictable and belligerent Turkey, and overrun by migrant flows since 2015, Greece is feeling lonely and abandoned by its European partners.”

Another Pew Research Center survey in June 2017 established that 36% of Greeks wanted to leave the EU and 58% were in favour of a national referendum on EU membership. According to a July 2017 BBC World Service survey, while views of the EU’s influence were mainly positive in all the European countries polled as well as in Canada, the US and Australia, Greek respondents indicated a 35% positive and 36% negative attitude. Notably, Greeks are particularly bitter in their attitude towards Germany, the biggest EU member state and economy. All the above countries demonstrated favourable views of Germany’s influence, however very negative results were recorded in Greece: 29% positive vs 50% negative.”

In fact, Greece’s case seems to confirm a broader trend: It has been pointed out that, as China perceived the EU to be failing at appropriately addressing the crisis, it realised that it could play a more central role in global governance68 and, in particular, in Europe itself. Greece being the ‘weak link’ of the Eurozone and, at the same time, at the crossroads between Europe, Asia and Africa, Beijing strategists quite understandably chose the country as an entry point in in the region.”

Thus, the Olympic Games in 2004 and 2008 were held in Athens and Beijing, respectively, which provided many opportunities for the exchange of visits and related expertise. The period from September 2007 to September 2008 was declared the ‘Cultural Year of Greece in China’.”

It should be noted that, in Greece, BRI is more often referred to as the ‘New Silk Road’. It may be that the official name, ‘Belt and Road Initiative’, does not translate into Greek nicely. More importantly, it may also be that the notion of the ‘Silk Road’ is associated with Alexander the Great’s expedition into Central and South Asia in the 4th century BC, as well as with the Byzantine empire in the Middle Ages. To a certain degree, this also contributes to the imagery of Sino-Greek cooperation on the basis of what is misconstrued as long-standing historical and cultural ties.”

An expression often used with reference to the ever-closer Sino-Greek relations is one attributed to the famous writer Nikos Kazantzakis, known worldwide for his novel Zorba the Greek. Being an admirer of eastern civilisations, including China’s, Kazantzakis once wrote ‘If you scratch a Chinese, you’ll find a Greek underneath and if you scratch a Greek, you’ll find a Chinese underneath’.73 This catchphrase is rapidly becoming a Leitmotif or a hackneyed figure of speech at official events dedicated to relations between the two countries. The previous ambassador of the People’s Republic of China (PRC) to Greece is on record using this expression at least twice: on 20 August 2015, at an event on the Belt and Road Initiative and, once again, in his speech during the official signing ceremony of the 2nd deal between the Greek government and COSCO on 9 April 2016. As of July 2018, a quick Google search for this quote would yield more than 20 web entries in Greek (interestingly, not in English or any other languages) and their number is likely to increase over time.”

Therefore, this sense of kinship between Greece and China may well be fictitious, after all. The facile assumption that the two countries are “relatives’ appears to reflect a self-aggrandising attitude on the part of Greeks rather than an informed view and awareness of the ancient Chinese civilisation. The perception of China as a long-lost first cousin is redolent of a fuzzy collective fiction, but then fiction is not expected to be accurate in the first place.”

With regard to the US, Greeks have traditionally been among the least sympathetic Europeans and there is a time-honoured practice of anti-American rallies in the country. In that sense, China clearly has an advantage over western powers.”

What certainly is a very interesting case in such a comparative approach is Greece’s psychological bond to Russia, which is much more deep-rooted and lasting than the ‘cultural kinship’ with China. The historical depth of Greece’s traditionally strong ties to Russia does not compare to that of the recent Sino-Greek romance.”

In June 2017, Greeks clearly preferred Russian president Vladimir Putin (50%) over western leaders Donald Trump (19%) and Angela Merkel (16%) as well as over Chinese president Xi Jinping (17%). When asked to compare the US, Russia and China, Greeks favoured Russia (64%) over China (50%) and the US (43%).”

AMERICAN NERVOUSNESS: ITS CAUSES AND CONSEQUENCES (A supplement to “Nervous exhaustion: Neurasthenia”) – George Beard, 1881.

-Um glamouroso retrato da decadência ocidental, embora ingenuamente otimista quanto a ele e de um ultimado chauvinismo ianque!-

Nervousness is strictly deficiency or lack of nerve-force. This condition, together with all the symptoms of diseases that are evolved from it, has developed mainly within the 19th century, and is especially frequent and severe in the Northern and Eastern portions of the United States. Nervousness, in the sense here used, is to be distinguished rigidly and systematically from simple excess of emotion and from organic disease.”

The sign and type of functional nervous diseases that are evolved out of this general nerve sensitiveness is neurasthenia (nervous exhaustion), which is in close and constant relation with such functional nerve maladies as certain physical forms of hysteria, hay-fever [rinite alérgica], sick-headache, inebriety, and some phases of insanity; is, indeed, a branch whence at early or later stages of growth these diseases may take their origin.”

The greater prevalence of nervousness in America is a complex resultant of a number of influences, the chief of which are dryness of the air, extremes of heat and cold, civil and religious liberty, and the great mental activity made necessary and possible in a new and productive country under such climatic conditions.

A new crop of diseases has sprung up in America, of which Great Britain until lately knew nothing, or but little. A class of functional diseases of the nervous system, now beginning to be known everywhere in civilization, seem to have first taken root under an American sky, whence their seed is being distributed.

All this is modern, and originally American; and no age, no country, and no form of civilization, not Greece, nor Rome, nor Spain, nor the Netherlands, in the days of their glory, possessed such maladies.” Not in their glories, that is.

to solve it in all its interlacings, to unfold its marvellous phenomena and trace them back to their sources and forward to their future developments, is to solve the problem of sociology itself.” [!!!]

Among the signs of American nervousness specially worthy of attention are the following: The nervous diathesis [degenerescência genética, i.e., uma suposta maior vulnerabilidade a doenças dos nervos decorrente da debilidade dos progenitores]; susceptibility to stimulants and narcotics and various drugs, and consequent necessity of temperance¹ [e ainda chama essa abordagem de sociológica sem levar em conta o fator cultural?]; increase of the nervous diseases inebriety [alcoolismo ou uma ligeira variação deste – suscetibilidade exagerada –, que o autor diferenciará no segundo capítulo] and neurasthenia (nervous exhaustion), hay-fever, neuralgia [dor crônica nas terminações nervosas], nervous dyspepsia [indigestão], asthenopia [fadiga ocular e dores de cabeça derivadas] and allied diseases and symptoms [bem específico…]; early and rapid decay of teeth [já fez seu Amil Dental?]; premature baldness; sensitiveness to cold and heat; increase of diseases not exclusively nervous, as diabetes and certain forms of Bright’s disease of the kidneys and chronic catarrhs; unprecedented beauty of American women; frequency of trance and muscle-reading [a tênue linha entre a paranormalidade e simples efeitos de indução eletromagnética]; the strain of dentition, puberty, and change of life; American oratory, humor [haha!], speech, and language; change in type of disease during the past half-century, and the greater intensity of animal life on this continent. [???]

¹ Ah, obviamente Sêneca e Epicuro concordariam contigo!

longevity has increased, and in all ages brain-workers have, on the average, been long-lived, the very greatest geniuses being the longest-lived of all.” “the law of the relation of age to work, by which it is shown that original brain-work is done mostly in youth and early and middle life, the latter decades being reserved for work requiring simply experience and routine.” Pequena confusão entre decaimento fisiológico e e incorporação da experiência como forma de reduzir o esforço mental!

Poetas românticos não usavam a cabeça? Pois sua efemeridade é mais-que-popular…

in all our cyclopedias of medicine, the terms hysteria, somnambulism, ecstasy, catalepsy, mimicry of disease, spinal congestion, incipient ataxy, epilepsy, spasms and congestions, anemias and hyperemias, alcoholism, spinal irritation, spinal exhaustion, cerebral paresis, cerebral exhaustion and irritation, nervousness and imagination [!] are thrown together recklessly, confusedly, hopelessly as in a witches cauldron; and in all, and through all, one shall look vainly—save here and there, for an intelligent and differential description of neurasthenia, the most frequent, the most important, the most interesting nervous disease of our time, or of any time

still our medical graduates, after years spent in listening to lectures, must wait for their diploma before they are even ready to begin the study of this side of the nervous system. Meantime the literature of ataxia [desarranjo da coordenação motora], which is but an atom compared with the world of functional nervous diseases, has risen and is yet rising with infinite repetitions and revolutions to volumes and volumes.”

So far as I know, there has been no hostile criticism of this philosophy in Germany, but in England, even now, these views are not unanimously sustained.” Nazistas retesados.

1. NATURE AND DEFINITION OF NERVOUSNESS

Trance, with its numerous, interesting and intricate phenomena, a condition that has been known in all ages, and among almost all people, is not nervousness, albeit nervous people are sometimes subject to it. See my work on Trance [não muito interessado, mas obrigado assim mesmo!], in which this distinction between physiology and psychology is discussed more fully and variously illustrated.” “This interesting survival of the Middle Ages that we have right here with us today, is the most forcible single illustration that I know of, of the distinction between unbalanced mental organization and nervousness. These Jumpers are precious curiosities, relics or antiques that the 14th century has, as it were, dropped right into the middle of the 19th. The phenomena of the Jumpers are as interesting, scientifically, as any phenomena can be, but they aren’t contributions to American nervousness.

Brainlessness (excess of emotion over intellect) is, indeed, to nervousness, what idiocy is to insanity”

Nervousness is not passionateness. A person who easily gets excited or angry, is often called nervous. One of the signs, and in some cases, one of the first signs of real nervousness, is mental irritability, a disposition to become fretted over trifles; but in a majority of instances, passionate persons are healthy—their exhibitions of anger are the expression of normal emotions, and not in any sense evidences of disease, although they may be made worse by disease, either functional or organic. Nervousness is nervelessness—a lack of nerve-force.” “In medical science we are forced to retain terminology that is in the last degree unscientific, for the same reason that we retain our orthography, which in the English language is, as all know, very bad indeed.” <Febre da grama> realmente não é muito literal!

fear of lightning, or fear of responsibility, of open places or of closed places, fear of society, fear of being alone, fear of fears, fear of contamination, fear of everything, deficient mental control, lack of decision in trifling matters, hopelessness, deficient thirst and capacity for assimilating fluids, abnormalities of the secretions, salivation, tenderness of the spine, and of the whole body, sensitiveness to cold or hot water, sensitiveness to changes in the weather, coccyodynia, pains in the back, heaviness of the loins and limbs, shooting pains simulating those of ataxia, cold hands and feet, pain in the feet, localized peripheral numbness and hypersesthesia, tremulous and variable pulse and palpitation of the heart, special idiosyncrasies in regard to food, medicines, and external irritants, local spasms of muscles, difficulty of swallowing, convulsive movements, especially on going to sleep, cramps [cãibras ou cólicas], a feeling of profound exhaustion unaccompanied by positive pain, coming and going, ticklishness [hiperdelicadeza ou sensibilidade; em sentido mais estrito, facilidade para sentir comichão ou cócegas], vague pains and flying neuralgias, general or local itching, general and local chills and flashes of heat [calafrios e ondas de calor esporádicos], attacks of temporary paralysis, pain in the perineum, involuntary emissions, partial or complete impotence, irritability of the prostatic urethra, certain functional diseases of women [vague!], excessive gaping and yawning [bocejar exagerado], rapid decay and irregularities of the teeth, oxalates, urates, phosphates and spermatozoa in the urine, vertigo or dizziness, explosions in the brain at the back of the neck [?!], dribbling and incontinence of urine [incontinência urinária e seu reverso, alternados], frequent urination, choreic movements of different parts of the body, trembling of the muscles or portions of the muscles in different parts of the body, exhaustion after defecation and urination, dryness of the hair, falling away of the hair and beard, slow reaction of the skin, etc. Dr. Neisser, of Breslau, while translating my work on Nervous Exhaustion into German, wrote me that the list of symptoms was not exhaustive. This criticism is at once accepted, and was long ago anticipated. An absolutely exhaustive catalogue of the manifestations of the nervously exhausted state cannot be prepared, since every case differs somewhat from every other case.”

There are millionnaires of nerve-force—those who never know what it is to be tired out, or feel that their energies are expended, who can write, preach, or work with their hands many hours, without ever becoming fatigued, who do not know by personal experience what the term <exhaustion> means; and there are those—and their numbers are increasing daily—who, without being absolutely sick, without being, perhaps for a lifetime, ever confined to the bed a day with acute disorder, are yet very poor in nerve-force; their inheritance is small, and they have been able to increase it but slightly, if at all; and if from overtoil, or sorrow, or injury, they overdraw their little surplus, they may find that it will require months or perhaps years to make up the deficiency, if, indeed they ever accomplish the task. The man with a small income is really rich, as long as there is no overdraft on the account; so the nervous man may be really well and in fair working order as long as he does not draw on his limited store of nerve-force. But a slight mental disturbance, unwonted toil or exposure, anything out of and beyond his usual routine, even a sleepless night, may sweep away that narrow margin, and leave him in nervous bankruptcy, from which he finds it as hard to rise as from financial bankruptcy.”

Hence we see that neurasthenics who can pursue without any special difficulty the callings of their lives, even those callings requiring great and prolonged activity, amid perhaps very considerable excitement, as that of statesmanship, politics, business, commercial life, or in overworked professions, are prostrated at once when they are called upon to do something outside of their line, where their force must travel by paths that have never been opened and in which the obstructions are numerous and can only be overcome by greater energy than they can supply.” The purpose of treatment in cases of nervous exhaustion is of a two-fold character— to widen the margin of nerve-force, and to teach the patient how to keep from slipping over the edge.”

Our title is justified by this, that if once we understand the causes and consequences of American nervousness, the problems connected with the nervousness of other lands speedily solve themselves.” The philosophy of Germany has penetrated to all civilized nations; in all directions we are becoming Germanized. Similarly, the nervousness of America is extending over Europe, which, in certain countries, at least, is becoming rapidly Americanized. Just as it is impossible to treat of German thought without intelligent reference to the thought of other nationalities, ancient or modern, so is it impossible to solve the problem of American nervousness without taking into our estimate the nervousness of other lands and ages. [Acaba de contradizer o grifado em verde!]”

O REVERSO DA MEDALHA

Indeed, nervousness, in its extreme manifestations, seems to save one from these organic incurable diseases of the brain and of the cord; with some exceptions here and there, the neurasthenic does not go into or die of nervous disease.” They may become insane—some of them do; they may become bed-confined invalids; they may be forced, as they often are, to resign their occupations, but they do not, as rule, develop the structural maladies to which here refer.” nervousness is a physical not a mental state, and its phenomena do not come from emotional excess or excitability or from organic disease but from nervous debility and irritability.”

2. SIGNS OF AMERICAN NERVOUSNESS

No one dies of spinal irritation; no one dies of cerebral irritation; no one dies of hay-fever; rarely one dies of hysteria; no one dies of general neuralgia; no one dies of sick-headache; no one dies of nervous dyspepsia; quite rarely does one die of nervous exhaustion; and even when these conditions are the cause of death they are not noted as such in the tables of mortality” Nervousness of constitution is, indeed, an aid to longevity, and in various ways; it compels caution, makes imperative the avoidance of evil habits, and early warns us of the approach of peril.” Wickedness was solemnly assigned as the cause of the increase of nervous diseases, as though wickedness were a modern discovery.” nervous diathesis—an evolution of the nervous temperament.” “It includes those temperaments, commonly designated as nervous, in whom there exists a predisposition to neuralgia, dyspepsia, chorea, sick-headache, functional paralysis, hysteria, hypochondriasis, insanity, or other of the many symptoms of disease of the central or peripheral nervous system.”

A fine organization. The fine organization is distinguished from the coarse by fine, soft hair, delicate skin, nicely chiselled features [bem-cinzelada ou esculpida – somos belos!], small bones, tapering extremities [membros pontiagudos, i.e., que se afunilam nas mãos e nos pés, na canela e no antebraço!], and frequently by a muscular system comparatively small and feeble. It is frequently associated with superior intellect, and with a strong and active emotional nature.” “It is the organization of the civilized, refined, and educated, rather than of the barbarous and low-born and untrained”

The nervous diathesis appears, within certain limits, to protect the system against attacks of fever and inflammation.” Isso explicaria porque só tive febre uma vez desde a idade adulta.

The tuberculous diathesis frequently accompanies a fine organization; but fine organizations only in a certain proportion of cases have a tuberculous diathesis. The nervous diathesis is frequently not only not susceptible to tuberculosis, but apparently much less so than the average, and sometimes, indeed, seems to be antagonistic to it, for there are many nervous patients in whom no amount of exposure or hardship or imprudence seems to be able to develop phthisis [tísica]” Devo acrescentar alguma imunidade ao câncer?

Among Americans of the higher orders, those who live in-doors, drinking is becoming a lost art; among these classes drinking customs are now historic, must be searched for, read or talked about, like extinct or dying-away species.” There is, perhaps, no single fact in sociology more instructive and far reaching than this, and this is but a fraction of the general and sweeping fact that the heightened sensitiveness of Americans forces them to abstain entirely, or to use in incredible and amusing moderation, not only the stronger alcoholic liquors, whether pure or impure, but also the milder wines, ales, and beers, and even tea and coffee.”

I replied that there were very few nervous patients who were not injured by it, and very few who would not find it out without the aid of any physician. Our fathers could smoke, our mothers could smoke, but their children must oft-times be cautious; and chewing is very rapidly going out of custom, and will soon, like snuff-taking, become a historic curiosity; while cigars give way to cigarettes. From the cradle to the grave the Chinese empire smokes, and when a sick man in China has grown so weak that he no longer asks for his pipe, they give up hope, and expect him to die. Savage tribes without number drink most of the time when not sleeping or fighting, and without suffering alcoholism, or without ever becoming inebriates [!]” But 50 years ago opium produced sleep; now the same dose keeps us awake, like coffee or tea—susceptibility to this drug has been revolutionized.” Thus the united forces of climate and civilization are pressing us back from one stimulant to another, until, like babes, we find no safe retreat save in chocolate and milk and water.”

Reprove an Angola negro for being drunk and he will reply, <My mother is dead,> as though that were excuse enough. Even as recently as the beginning of the present century, the custom of drinking at funerals yet survived with our fathers. At the present time both culture and conscience are opposed to such habits.”

It is through the alcohol, and not the adulterations, that excessive drinking injures.” This functional malady of the nervous system which we call inebriety, as distinguished from the vice or habit of drunkenness, may be said to have been born in America, has here developed sooner and far more rapidly than elsewhere, and here also has received earlier and more successful attention from men of science.” For those individuals who inherit a tendency to inebriety, the only safe course is absolute abstinence, especially in early life; and in certain cases treatment of the nervous system, on the exhaustion of which the inebriety depends.”

AQUILO QUE NENHUMA REVISTA DE NUTRIÇÃO DIRÁ: “we so often find not only epileptics, but neurasthenics and nervous persons with other symptoms, are free and sometimes excessive eaters. They say their food does not give them strength, and it does not, for the same reason that the acid poured into the impure fluid of the battery does not give us electric force. There are those who all their lives are habitually small eaters and yet are great workers, and there are those who, though all their lives great eaters, are never strong; their food is either not digested or thoroughly assimilated, and so a much smaller fraction than should be is converted into nerve-force.”

In all the great cities of the East, among the brain-working classes of our large cities everywhere, pork, in all its varieties and preparations, has taken a subordinate place among the meats upon our tables, for the reason that the stomach of the brain-worker cannot digest it.”

Four and 5 meals a day is, or has been, the English and, notably, the German custom. Foreigners have greatly surpassed us in the taking of solid as well as liquid food.”

The eyes also are good barometers of our nervous civilization. The increase of asthenopia and short-sightedness [miopia], and, in general, of the functional disorders of the eye, are demonstrated facts and are most instructive. The great skill and great number of our oculists are constant proof and suggestions of the nervousness of our age. The savage can usually see well; myopia is a measure of civilization.” “near-sightedness increases in schools” Macnamara declares that he took every opportunity of examining the eyes of Southall aborigines of Bengal, for the purpose of discovering whether near-sightedness and diseases of like character existed among them, and he asserts that he never saw a young Southall whose eyes were not perfect.”

at the age of 20, 26% of Americans are near-sighted. In Russia, 42%, and in Germany, 62%.” A nação mais intelectual do mundo.

American dentists are the best in the world, because American teeth are the worst in the world.”

Irregularities of teeth, like their decay, are the product primarily of civilization, secondarily of climate. These are rarely found among the Indians or the Chinese; and, according to Dr. Kingsley, are rare even in idiots”

It is probable that negroes are troubled earlier than Indians. The popular impression that negroes always have good teeth is erroneous—the contrast between the whiteness of the teeth and the blackness of the face tending not a little to flatter them.”

Coarse races and peoples, and coarse individuals can go with teeth badly broken down without being aware of it from any pain; whereas, in a finely organized constitution, the very slightest decay in the teeth excites pain which renders filling or extracting imperative. The coarse races and coarse individuals are less disturbed by the bites of mosquitoes, by the presence of flies or of dirt on the body, than those in whom the nervous diathesis prevails”

It is said, for example, of the negroes of the South, that they rarely if ever sneeze.”

Special explanations without number have been offered for this long-observed phenomenon—the early and rapid decay of American teeth—such as the use of sweets, the use of acids, neglect of cleanliness, and the use of food that requires little mastication. But they who urge these special facts to account for the decay of teeth of our civilization would, by proper inquiry, learn that the savages and negroes, and semi-barbarians everywhere, in many cases use sweets far more than we, and never clean their mouths, and never suffer, except in old age.”

the only races that have poor teeth are those who clean them.” Quando o remédio vem mais tarde que a doença.

Among savages in all parts of the earth baldness is unusual, except in extreme age, and gray hairs come much later than with us. So common is baldness in our large cities that what was once a deformity and exception is now almost the rule, and an element of beauty.”

Increased sensitiveness to both heat and cold is a noteworthy sign of nervousness.”

Cold bathing is not borne as well as formerly.” “Water treatment is as good for some forms of nervous disease as it ever was; but it must be adapted to the constitution of the patient, and adapted also to the peculiar needs of each case.”

The disease, state, or condition to which the term neurasthenia is applied is subdivisible, just as insanity is subdivided into general paresis or general paralysis of the insane, epileptic insanity, hysterical, climatic, and puerperal insanity; just as the disease or condition that we call trance is subdivided into clinical varieties, such as intellectual trance, induced trance, cataleptic trance, somnambulistic trance, emotional trance, ecstatic trance, etc.

That diabetes is largely if not mainly a nervous disease is becoming more and more the conviction of all medical thinkers, and that, like Bright’s disease, it has increased of late, can be proved by statistics that in this respect are in harmony with observation.”

A ERA DA RINITE E DAS ALERGIAS: “A single branch of our neurological tree, hay-fever, has in it the material for years of study; he who understands that, understands the whole problem. In the history of nervous disease I know not where to look for anything as extraordinary or instructive as the rise and growth of hay-fever in the USA.”

Catarrh of the nose and nasal pharyngeal states — so-called nasal and pharyngeal catarrh — is not a nervous disease, in the strict sense of the term, but there is often a nervous element in it; and in the marked and obstinate forms it is, like decay and irregularities of the teeth, one of the signs or one of the nerve-symptoms of impairment of nutrition and decrease of vital force which make us unable to resist change of climate and extremes of temperature.”

The phenomenal beauty of the American girl of the highest type, is a subject of the greatest interest both to the psychologist and the sociologist, since it has no precedent, in recorded history, at least; and it is very instructive in its relation to the character and the diseases of America.”

The same climatic peculiarities that make us nervous also make us handsome”

In no other country are the daughters pushed forward so rapidly, so early sent to school, so quickly admitted into society; the yoke of social observance (if it may be called such), must be borne by them much sooner than by their transatlantic sisters — long before marriage they have had much experience in conversation and in entertainment, and have served as queens in social life, and assumed many of the responsibilities and activities connected therewith. Their mental faculties in the middle range being thus drawn upon, constantly from childhood, they develop rapidly a cerebral activity both of an emotional and an intellectual nature, that speaks in the eyes and forms the countenance; thus, fineness of organization, the first element of beauty, is supplemented by expressiveness of features — which is its second element”

Handsome women are found here and there in Great Britain, and rarely in Germany; more frequently in France and in Austria, in Italy and Spain”

One cause, perhaps, of the almost universal homeliness of female faces among European works of art is the fact that the best of the masters never saw a handsome woman.” Esqueceu da relatividade histórica do tipo belo!

If Raphael had been wont to see everyday in Rome or Naples what he would now see everyday in New York, Baltimore, or Chicago, it would seem probable that, in his Sistine Madonna he would have preferred a face of, at least, moderate beauty, to the neurasthenic and anemic type that is there represented. [?]”

To the first and inevitable objection that will be made to all here said — namely, that beauty is a relative thing, the standard of which varies with age, race, and individual — the answer is found in the fact that the American type is today more adored in Europe than in America; that American girls are more in demand for foreign marriages than any other nationality; and that the professional beauties of London that stand highest are those who, in appearance and in character have come nearest the American type.” Isso se chama cultura hegemônica, e não um argumento de defesa – e um pouco de chauvinismo também…

The ruddiness or freshness, the health-suggesting and health-sustaining face of the English girl seem incomparable when partially veiled, or when a few rods away” HAHA. Uma obra não muito recomendável na parte estética… Beleza EXÓTICA!

The European woman steps with a firmer tread than the American, and with not so much lightness, pliancy, and grace. In a multitude, where both nations are represented, this difference is impressive.”

The grasp of the European woman is firmer and harder, as though on account of greater strength and firmness of muscle. In the touch of the hand of the American woman there is a nicety and tenderness that the English woman destroys by the force of the impact.”

3. CAUSES OF AMERICAN NERVOUSNESS

Punctuality is a greater thief of nervous force than is procrastination of time. We are under constant strain, mostly unconscious, often-times in sleeping as well as in waking hours, to get somewhere or do something at some definite moment.”

In Constantinople indolence is the ideal, as work is the ideal in London and New York”

There are those who prefer, or fancy they prefer, the sensations of movement and activity to the sensations of repose”

The telegraph is a cause of nervousness the potency of which is little understood. (…) prices fluctuated far less rapidly, and the fluctuations which now are transmitted instantaneously over the world were only known then by the slow communication of sailing vessels or steamships” “every cut in prices in wholesale lines in the smallest of any of the Western cities, becomes known in less than an hour all over the Union; thus competition is both diffused and intensified.”

Rhythmical, melodious, musical sounds are not only agreeable, but when not too long maintained are beneficial, and may be ranked among our therapeutical agencies.”

The experiments, inventions, and discoveries of Edison alone have made and are now making constant and exhausting draughts on the nervous forces of America and Europe, and have multiplied in very many ways, and made more complex and extensive, the tasks and agonies not only of practical men, but of professors and teachers and students everywhere” Um tanto utópico e nostálgico para um “médico pragmático”…

On the mercantile or practical side the promised discoveries and inventions of this one man have kept millions of capital and thousand of capitalists in suspense and distress on both sides of the sea.”

the commerce of the Greeks, of which classical histories talk so much, was more like play — like our summer yachting trips”

The gambler risks usually all that he has; while the stock buyer risks very much more than he has. The stock buyer usually has a certain commercial, social, and religious position, which is thrown into the risk, in all his ventures”

as the civilized man is constantly kept in check by the inhibitory power of the intellect, he appears to be far less emotional than the savage, who, as a rule, with some exceptions, acts out his feelings with comparatively little restraint.”

Love, even when gratified, is a costly emotion; when disappointed, as it is so often likely to be, it costs still more, drawing largely, in the growing years of both sexes, on the margin of nerve-force, and thus becomes the channel through which not a few are carried on to neurasthenia, hysteria, epilepsy, or insanity.”

A modern philosopher of the most liberal school states that he hates to hear one laugh aloud, regarding the habit, as he declares, a survival of barbarism.”

There are two institutions that are almost distinctively American — political elections and religious revivals”

My friend, presidents and politicians are chips and foam on the surface of the sea; they are not the sea; tossed up by the tide and left on the shore, but they are not the tide; fold your arms and go to bed, and most of the evils of this world will correct themselves, and, of those that remain, few will be modified by anything that you or I can do.”

The experiment attempted on this continent of making every man, every child, and every woman an expert in politics and theology is one of the costliest of experiments with living human beings, and has been drawing on our surplus energies with cruel extravagance for 100 years.” Agora, 250…

Protestantism, with the subdivision into sects which has sprung from it, is an element in the causation of the nervous diseases of our time. No Catholic country is very nervous, and partly for this—that in a Catholic nation the burden of religion is carried by the church.” Coitado do Brasil, trocando o certo pelo duvidoso assim…

The difference between Canadians and Americans is observed as soon as we cross the border, the Catholic church and a limited monarchy acting as antidotes to neurasthenia and allied affections. Protestant England has imitated Catholicism, in a measure, by concentrating the machinery of religion and taking away the burden from the people. It is stated —although it is supposed that this kind of statistics are unreliable— that in Italy insanity has been on the increase during these few years in which there has been civil and religious liberty in that country.”

The anxieties about the future, family, property, etc., are certainly so wearing on the negro, that some of them, without doubt, have expressed a wish to return to slavery.”

advances in science are not usually made by committees—indeed, are almost never made by them, least of all by government committees”

The people of this country have been pressed constantly with these 3 questions: How shall we keep from starving? Who is to be the next president? And where shall we go when we die? In a limited, narrow way, other nations have met these questions; at least two of them, that of starvation and that of the future life; but nowhere in ancient or modern civilization have these 3 questions been agitated so severely or brought up with such energy as here.”

Those who have acquired or have inherited wealth, are saved an important percentage of this forecasting and fore-worry”

The barbarian cares nothing for the great problems of life; seeks no solution — thinks of no solution of the mysteries of nature, and, after the manner of many reasoners in modern delusions, dismisses what he cannot at once comprehend as supernatural, and leaves it unsatisfactorily solved for himself, for others, and for all time”

Little account has been made of the fact that the old world is small geographically. The ancient Greeks knew only of Greece and the few outside barbarians who tried to destroy them. The discovery of America, like the invention of printing, prepared the way for modern nervousness; and, in connection with the telegraph, the railway, and the periodical press increased a hundred-fold the distresses of humanity.” The burning of Chicago—a city less than half a century old, on a continent whose existence was unknown a few centuries ago—becomes in a few hours the property of both hemispheres, and makes heavy drafts on the vitality not only of Boston and New York, but of London, Paris, and Vienna.”

Letter-writing is an index of nervousness; those nations who writes the most letters being the most nervous, and those who write scarcely at all, as the Turks and Russians, knowing nothing or but very little of it.”

The education of the Athenian boy consisted in play and games and songs, and repetitions of poems, and physical feats in the open air. His life was a long vacation, in which, as a rule, he rarely toiled as hard as the American lad in the intervals of his toil. (…) What they called work, gymnastics, competition games, and conversations on art and letters, is to us recreation.”

Up to a certain point work develops capacity for work; through endurance is evolved the power of greater endurance; force becomes the parent of force. But here, as in all animate nature, there are limitations of development which cannot be passed. The capacity of the nervous system for sustained work and worry has not increased in proportion to the demands for work and worry that are made upon it.”

GREEN COMMENT LAND: “Continuous and uniform cold as in Greenland, like continuous and uniform heat as on the Amazon, produces enervation and languor; but repeated alternations of the cold of Greenland and the heat of the Amazon produce energy, restlessness, and nervousness.”

The element of dryness of the air, peculiar of our climate as distinguished from that of Europe, both in Great Britain and on the Continent, is of the highest scientific and practical interest.” “On the nervous system this unusual dryness and thinness of the air have a many-sided influence; such as increase of headaches, neuralgias, and diminished capacity for sustaining cerebral toil.” The organs, pianos, and violins of America are superior to those made in Europe at the present time. This superiority is the result, not so much of greater skill, ingenuity, or experience, but—so far as I can learn, from conversing with experts in this line—from the greater dryness of the air, which causes the wood to season better than in the moist atmosphere of Europe.”

Moisture conducts electricity, and an atmosphere well charged with moisture, other conditions being the same, will tend to keep the electricity in a state of equilibrium, since it allows free and ready conduction at all times and in all directions.” In regions where the atmosphere is excessively dry, as in the Rocky Mountains, human beings—indeed all animals, become constantly acting lightning-rods, liable at any moment to be made a convenient pathway through which electricity going to or from the earth seeks an equilibrium.”

in the East our neuralgic and rheumatic patients, just before thunder-storms, are suddenly attacked by exquisite pains that at once disappear with the fair weather. There are those so sensitive that for 100 miles, and for a full day in advance, as Dr. Mitchell has shown, they can predict the approach of a storm.”

Dryness of the air, whether external or internal, likewise excites nervousness by heightening the rapidity of the processes of waste and repair in the organism, so that we live faster than in a moist atmosphere.”

one of the Manchester mill owners asserted that, during a season of dry weather, there was, in weaving alone, a loss of 5%, in quantity, and another loss of 5%, in quality; in spinning, also, an equal loss is claimed. To maintain moisture in mills, sundry devices have been tried, which have met, I believe, with partial success in practice.”

Even in our perfect Octobers, on days that are pictures of beauty and ideals of climate — just warm enough to be agreeable and stimulating enough not to be depressing, we yet remain in the house far more than Europeans are wont to do even in rainy or ugly seasons.” So what, Mr. Productive Media?

The English know nothing of summer, as we know of it — they have no days when it is dangerous, and scarcely any days when it is painful to walk or ride in the direct rays of the sun; and in winter, spring, and fall there are few hours when one cannot by proper clothing keep warm while moderately exercising.”

The Kuro Siwo stream of the Pacific, with its circuit of 18,000 miles, carries the warm water of the tropics towards the poles, and regulates in a manner the climate of Japan. Mr. Croll estimates that if the Gulf Stream were to stop, the annual temperature of London would fall 30 degrees [Farenheit], and England would become as cold as Nova Zembla. It is the influence of the Gulf Stream that causes London, that is 11° farther north than New York, to have an annual mean temperature but 2° lower.”

According to Miss Isabella Bird, who has recently published a work entitled Unbeaten Tracks in Japan, which is not only the very best work ever written on Japan, but one of the most remarkable works of travel ever written by man or woman, it seems that the Japanese suffer both from extremes of heat and cold, from deep snows and ice, and from the many weeks of sultriness such as oppress us in the US. The atmosphere of Japan is though far more moist than that of America, in that respect resembling some of the British Isles”

Our Meteorological Bureau has justified its existence and labors by demonstrating and popularizing the fact that our waves of extreme heat and of extreme cold and severe climatic perturbations of various kinds are born in or pass from the Pacific through these mountains and travel eastward, and hence their paths can be followed and their coming can be predicted with a measure of certainty.”

in the latter part of the winter and early spring—or what passes for spring, which is really a part of winter, and sometimes its worse part—there is more suffering from cold, more liability to disease, by taking cold, and more debility from long confinement in dry and overheated air than in early and mid-winter”

the strong races, like the Hebrews and Anglo-Saxons, succeed in nearly all climates, and are dominant wherever they go; but in unlimited or very extended time, race is a result of climate and environment.”

Savages may go to the most furious excesses without developing any nervous disease; they may gorge themselves, or they may go without eating for a week, they may rest in camp or they may go upon laborious campaigns, and yet never have nervous dyspepsia, sick-headache, hay-fever, or neuralgia.”

No people in the world are so careful of their diet, the quality and quantity of their food, and in regard to their habits of drinking, as the very class of Americans who suffer most from these neuroses.”

Alcohol only produces inebriety when it acts on a nervous system previously made sensitive. Alcoholism and inebriety are the products not of alcohol, but of alcohol plus a certain grade of nerve degeneration.”

But bad air, that is, air simply made impure by the presence of human beings, without any special contagion, seems powerless to produce disease of any kind, unless the system be prepared for it. Not only bad air, but bad air and filth combined, the Chinese of the lower orders endure both in this country and their own, and are not demonstrably harmed thereby (…) but impure air, plus a constitution drawn upon and weakened by civilization, is an exciting cause of nervous disease of immense force.”

The philosophy of the causation of American nervousness may be expressed in algebraic formula as follows: civilization in general + American civilization in particular (young and rapidly growing nation, with civil, religious, and social liberty) + exhausting climate (extremes of heat and cold, and dryness) + the nervous diathesis (itself a result of previously named factors) + overwork or overworry, or excessive indulgence of appetites or passions = an attack of neurasthenia or nervous exhaustion.”

Dr. Habsch, the chief oculist in Constantinople, says that the effect of tobacco upon the eyes is very problematical; that everybody smokes from morning to night, the men a great deal, the women a little less than the men, and the children smoke from the age of 7 and 8 years. He states that the number of cases of amaurosis [cegueira] is very limited. If expert oculists would examine the eyes of the Chinese, who smoke quite as much as the Turks, if not more, and smoke opium as well as tobacco, they would unquestionably confirm the conclusion of Dr. Habsch among the Turks. Dr. Habsch believes that in persons with a very delicate skin and conjunctiva [membrana mucosa que liga as pálpabras com o tecido ocular propriamente dito] among the Turks, smoking frequently causes chronic irritation, local congestion, profuse lachrymation, blepharitis ciliaris [inflamação dos cílios], and more or less intense redness of the eyelids. (cf. Dr. Webster on Amblyopia [Perda de visão] from the Use of Tobacco) [livro inexistente na web]”

The Hollanders, according to a most expert traveller, Edmondo De Amicis, are the greatest smokers of Europe; on entering a house, with the first greeting you are offered a cigar, and when you leave another is handed to you; many retire with a pipe in their mouth, re-light it if they awake during the night; they measure distances by smoke – to such a place by not so many miles but by so many pipes.” “Says one Hollander, smoke is our second breath; says another, the cigar is the 6th finger of the hand.”

Opium eating in China does not work in the way that the same habit does in the white races.” “when it is said of a Chinaman that he smokes opium, it is meant that he smokes to excess and has a morbid craving for it, just as with us the expression a man drinks means that he drinks too much”

It is clear that the habit of taking opium does not necessarily impair fertility, since large families are known among those who use opium, even to excess.”

Among my nervous patients I find very many who cannot digest vegetables, but must use them with much caution; but all China lives on vegetables, and indigestion is not a national disease. Many of the Chinese live in undrained grounds, in conditions favorable to ague and various fevers, but they do not suffer from these diseases, nor from diseases of the lungs and bronchial tubes, to the same extent as foreign residents there who do not use opium.”

I have been twice favored with the chance to study Africa in America. On the sea islands of the South, between Charleston and Savannah, there are thousands of negroes, once slaves, most of whom were born on those islands, who there will die, and who at no time have been brought into relation with our civilization, except so far as it is exhibited in a very few white inhabitants in the vicinity. Intellectually, they can be not very much in advance of their African ancestors; in looks and manners they remind me of the Zulus now exhibiting in America; for although since emancipation they have been taught by philanthropists, part of the time under governmental supervision, some of the elements of common school teaching, yet none of them have made, or are soon likely to make, any very important progress beyond those elements, and few, if any of them, even care to exercise the art of reading after it is taught them. Here, then, is a bit of barbarism at our door-steps; here, with our own eyes, and with the aid of those who live near them and employ them, I have sought for the facts of comparative neurology. There is almost no insanity among these negroes; there is no functional nervous disease or symptoms among them of any name or phase; to suggest spinal irritation, or hysteria of the physical form, or hay-fever, or nervous dyspepsia among these people is but to joke.” These primitive people can go, when required, for weeks and months sleeping but 1 or 2 hours out of the 24; they can labor for all day, or for 2 days, eating nothing or but little; hog and hominy and lish, all the year round, they can eat without getting dyspepsia; indulgence of passions several-fold greater, at least, than is the habit of the whites, either there or here, never injures them either permanently or temporarily; if you would find a virgin among them, it is said you must go to the cradle; alcohol, when they can get it, they drink with freedom, and become intoxicated like the whites, but rarely, indeed, manifest the symptoms of delirium-tremens, and never of chronic alcoholism”

These blacks cannot summon as much energy for a moment in an emergency as the whites, since they have less control over their energies, but in holding-on power, in sustained, continuous, unbroken muscular endurance, for hours and days, they surpass the whites.”

The West is where the East was a quarter of a century ago—passing more rapidly, as it would appear, through the same successive stages of development.”

4. LONGEVITY OF BRAIN-WORKERS AND THE RELATION OF AGE TO WORK

Without civilization there can be no nervousness; there is no race, no climate, no environment that can make nervousness and nervous disease possible and common save when reenforced by brain-work and worry and in-door life. This is the dark and, so far as it goes, truthful side of our theme; the brighter side is to be drawn in the present chapter.

Thomas Hughes, in his Life of Alfred the Great, makes a statement that <the world’s hardest workers and noblest benefactors have rarely been long-lived>. That any intelligent writer of the present day should make a statement so untrue shows how hard it is to destroy an old superstition.

The remark is based on the belief which has been held for centuries that the mind can be used only at the injurious expense of the body. This belief has been something more than a mere popular prejudice; it has been a professional dogma, and has inspired nearly all the writers on hygiene since medicine has been a science; and intellectual and promising youth have thereby been dissuaded from entering brain-working professions; and thus, much of the choicest genius has been lost to civilization; students in college have abandoned plans of life to which their tastes inclined, and gone to the farm or workshop; authors, scientists, and investigators in the several professions have thrown away the accumulated experience of the better half of life, and retired to pursuits as uncongenial as they were profitless. The delusion has, therefore, in 2 ways, wrought evil, specifically by depriving the world of the services of some of its best endowed natures, and generally by fostering a habit of accepting statement for demonstration.

Between 1864 and 1866 I obtained statistics on the general subject of the relation of occupation to health and longevity that convinced me of the error of the accepted teachings in regard to the effect of mental labor.”

The views I then advocated, and which I enforced by statistical evidence were:

1st. That the brain-working classes—clergymen, lawyers, physicians, merchants, scientists, and men of letters, lived much longer than the muscle-working classes.

2nd. That those who followed occupations that called both muscle and brain into exercise, were longer-lived than those who lived in occupations that were purely manual.

3rd. That the greatest and hardest brain-workers of history have lived longer on the average than brain-workers of ordinary ability and industry.

4th. That clergymen were longer-lived than any other great class of brain-workers. [QUE PRAGA!]

5th. That longevity increased very greatly with the advance of civilization; and that this increase was too marked to be explained merely by improved sanitary knowledge.

6th. That although nervous diseases increased with the increase of culture, and although the unequal and excessive excitements and anxieties attendant on mental occupations of a high civilization were so far both prejudicial to health and longevity, yet these incidental evils were more than counter-balanced by the fact that fatal inflammatory diseases have diminished in frequency and violence in proportion as nervous diseases have increased; an also that brain-work is, per se, healthful and conducive to longevity.”

the greater majority of those who die in any one of the three great professions — law, theology, and medicine — have, all their lives, from 21 upwards, followed that profession in which they died.”

I have ascertained the longevity of 500 of the greatest men in history. The list I prepared includes a large proportion of the most eminent names in all the departments of thought and activity. (…) the average age of those I have mentioned, I found to be 64.2. (…) the greatest men of the world have lived longer on the average than men of ordinary ability in the different occupations by 14 years” The value of this comparison is enforced by the consideration that longevity has increased with the progress of civilization, while the list I prepared represents every age of recorded history.” “I am sure that any chronology comprising from 100 to 500 of the most eminent personages in history, at any cycle, will furnish an average longevity of from 64 to 70 years. Madden, in his very interesting work The Infirmities of Genius, gives a list of 240 illustrious names, with their ages at death.”

IV comparative longevity of brain-workers

The full explanation of the superior longevity of the brain-working classes would require a treatise on the science of sociology, and particularly of the relation of civilization to health. The leading factors, accounting for the long life of those who live by brain-labor, are:

(…)

In the successful brain-worker worry is transferred into work; in the muscle-worker work too often degrades into worry.” “To the happy brain-worker life is a long vacation; while the muscle-worker often finds no joy in his daily toil, and very little in the intervals.”

Longevity is the daughter of comfort. Of the many elements that make up happiness, mental organization, physical health, fancy, friends, and money—the last is, for the average man, greater than any other, except the first.”

for a large number, sleep is a luxury of which they never have sufficient for real recuperation”

The nervous temperament, which usually predominates in brain-workers, is antagonistic to fatal, acute, inflammatory disease, and favorable to long life.”

Nervous people, if not too feeble, may die everyday. They do not die; they talk of death, and each day expect it, and yet they live. Many of the most annoying nervous diseases, especially of the functional, and some even of the structural varieties, do not rapidly destroy life, and are, indeed, consistent with great longevity.”

the nervous man can expose himself to malaria, to cold and dampness, with less danger of disease, and with less danger of death if he should contract disease, than his tough and hardy brother.”

In the conflict with fevers and inflammations, strength is often weakness, and weakness becomes strength—we are saved through debility.”

Still further, my studies have shown that, of distinctively nervous diseases, those which have the worst pathology and are the most hopeless, such as locomotor ataxia, progressive muscular atrophy, apoplexy with hemiplegia, and so on, are more common and more severe, and more fatal among the comparatively vigorous and strong, than among the most delicate and finely organized. Cancer, even, goes hardest with the hardy, and is most relievable in the nervous.”

Women, with all their nervousness—and in civilized lands, women are more nervous, immeasurably, than men, and suffer more from general and special nervous diseases—yet live quite as long as men, if not somewhat longer; their greater nervousness and far greater liability to functional diseases of the nervous system being compensated for by their smaller liability to certain acute and inflammatory disorders, and various organic nervous diseases, likewise, such as the general paralysis of insanity.”

Brain-workers can adapt their labor to their moods and hours and periods of greatest capacity for labor better than muscle-workers. In nearly all intellectual employments there is large liberty; literary and professional men especially, are so far masters of their time that they can select the hours and days for their most exacting and important work; and when from any cause indisposed to hard thinking, can rest and recreate, or limit themselves to mechanical details.”

Forced labor, against the grain of one’s nature, is always as expensive as it is unsatisfactory”

Even coarser natures have their moods, and the choicest spirits are governed by them; and they who worship their moods do most wisely; and those who are able to do so are the fortunate ones of the earth.”

Again, brain-workers do their best work between the ages of 25-45; before that period they are preparing to work; after that period, work, however extensive it may be, becomes largely accumulation and routine.” “It is as hard to lay a stone wall after one has been laying it 50 years as during the first year. The range of muscular growth and development is narrow, compared with the range of mental growth; the day-laborer soon reaches the maximum of his strength. The literary or scientific worker goes on from strength to strength, until what at 25 was impossible, and at 30 difficult, at 35 becomes easy, and at 40 a past-time.”

The number of illustrious names of history is by no means so great as is currently believed; for, as the visible stars of the firmament, which at a glance appear infinite in number, on careful estimate are reduced to a few thousands, so the galaxy of genius, which appears interminable on a comprehensive estimate, presents but few lights of immortal fame. Mr. Galton, in his Hereditary Genius, states that there have not been more than 400 great men in history.”

obscurity is no sure evidence of demerit, but only a probability of such”

Only in rare instances is special or general talent so allied with influence, or favor, or fortune, or energy that commands circumstances, that it can develop its full functions; <things are in the saddle and ride mankind>, environment commands the environed.”

The stars we see in the sky are but mites compared with the infinite orbs that shall never be seen; but no star is a delusion—each one means a world, the light of which very well corresponds to its size and distance from the earth and sun.” “Routine and imitation work can no more confer the fame that comes from work that is original and creative than the moon can take the place of the sun.”

It is this confounding of force with the results of force, of fame with the work by which fame is attained that causes philosophers to dispute, deny, or doubt, or to puzzle over the law of the relation of age to work, as here announced.

When the lightning flashes along the sky, we expect a discharge will soon follow, since light travels faster than sound; so some kinds of fame are more rapidly diffused than others, and are more nearly contemporaneous with their origin; but as a law, there is an interval — varying from years to hundreds of years — between the doing of any original work and the appreciation of that work by any considerable number of mankind that we call fame.

The great men that we know are old men; but they did the work that has made them great when they were young; in loneliness, in poverty, often, as well as under discouragement, and in neglected or despised youth has been achieved all that has advanced, all that is likely to advance mankind.”

In the man of genius, the idea starts where, in the man of routine, it leaves off.”

Original work—that done by geniuses who have thereby attained immortal fame, is the only kind of work that can be used as the measure of cerebral force in all our search for this law of the relation of work to the time of life at which work is done for the two-fold reason—first, that it is the highest and best measure of cerebral force; and, secondly, because it is the only kind of work that gives earthly immortality.”

Men do not long remember, nor do they earnestly reverence those who have done only what everybody can do. We never look up, unless the object at which we look is higher than ourselves; the forces that control the rise and fall of reputation are as inevitable and as remorseless as heat, light, and gravity; if a great man looms up from afar, it is because he is taller than the average man; else, he would pass below the horizon as we receded from him; factitious fame is as impossible as factitious heat, light, or gravity; if there be force, there must have been, somewhere, and at some time, a source whence that force was evolved.”

the strength of a man is his strength at his strongest point—what he can do in any one direction, at his very best. However weak and even puerile, immature, and non-expert one may be in all other directions except one, be gains an immortality of fame if, in that one direction he develops a phenomenal power; weaknesses and wickednesses, serious immoralities and waywardnesses are soon forgotten by the world, which is, indeed, blinded to all these defects in the face of the strong illumination of genius. Judged by their defects, the non-expert side of their character, moral or intellectual, men like Burns,¹ Shakespeare, Socrates, Cicero, Caesar, Napoleon, Beethoven, Mozart, Byron, Dickens, etc., are but as babes or lunatics, and far, very far below the standard of their fellows.”

¹ Poeta escocês, 1759-96.

SOBRE A PRECOCIDADE E “GASTO DA ENERGIA MENTAL”: “Men to whom these truths are repelling put their eyes on those in high positions and in the decline of life, like Disraeli or Gladstone, forgetting that we have no proof that either of these men have ever originated a new thought during the past 25 years, and that in all their contributions to letters during that time there is nothing to survive, or worthy to survive, their authors.

They point to Darwin, the occupation of whose old age has been to gather into form the thoughts and labors of his manhood and youth, and whose only immortal book was the product of his silver and golden decade.”

IV the relation of age to original work

The lives of some great men are not sufficiently defined to differentiate the period, much less the decade or the year of their greatest productive force. Such lives are either rejected, or only the time of death and the time of first becoming famous are noted; very many authors have never told the world when they thought-out or even wrote their masterpieces, and the season of publication is the only date that we can employ. These classes of facts, it will be seen, tell in favor of old rather than of young men, and will make the year of maximum production later rather than earlier, and cannot, therefore, be objected to by those who may doubt my conclusions.”

For those who have died young, and have worked in original lines up to the year of their death, the date of death has sometimes been regarded as sufficient. Great difficulty has been found in proving the dates of the labors of the great names of antiquity, and, therefore, many of them are necessarily excluded from consideration, but in an extended comparison between ancient and modern brain-workers, so far as history makes possible, there was but little or no difference.”

This second or supplementary list was analyzed in the same way as the primary list, and it was found that the law was true of these, as of those of greater distinction. The conclusion is just, scientific, and inevitable, that if we should go down through all the grades of cerebral force, we should find this law prevailing among medium and inferior natures, that the obscure, the dull, and the unaspiring accomplished the little they did in the direction of relatively original work in the brazen and golden decades.” Tenho 8 anos pela frente.

These researches were originally made as far back as 1870, and were first made public in lectures delivered by me before the Long Island Historical Society. The titles of the lectures were, Young Men in History, and the Decline of Moral Principle in Old Age.”

Finally, it should be remarked that the list has been prepared with absolute impartiality, and no name and no date has been included or omitted to prove any theory. The men who have done original or important work in advanced age, such as Dryden,¹ Radetzky,² Moltke,³ Thiers,4 De Foe,5 have all been noted, and are embraced in the average.”

¹ Poeta inglês, 1631-1700.

² Marechal, militar estrategista alemão que combateu inclusive Napoleão, vivendo ativo até uma idade avançada (1766-1858).

³ Provavelmente o Conde Adam Moltke (1710-1792), diplomata dinamarquês. Seu filho foi primeiro-ministro.

4 Marie Adolph –, político e escritor francês, 1797-1877, foi presidente eleito na França após a queda dos Bourbon.

5 Daniel Defoe viveu 71 anos e também foi ensaísta e publicou obras de não-ficção, além de seu maior sucesso.

The golden decade alone represents nearly 1/3 of the original work of the world. (…) The year of maximum productiveness is 39.”

All the athletes with whom I have conversed on this subject, the guides and lumbermen in the woods — those who have always lived solely by muscle — agree substantially to this: that their staying power is better between the ages of 35 and 45, than either before or after. To get the best soldiers, we must rob neither the cradle nor the grave; but select from those decades when the best brain-work of the world is done.”

Original work requires enthusiasm; routine work, experience.” “Unconsciously the people recognize this distinction between the work that demands enthusiasm and that which demands experience, for they prefer old doctors and lawyers, while in the clerical profession, where success depends on the ability to constantly originate and express thought, young men are the more popular, and old men, even of great ability, passed by. In the editorial profession original work is demanded, and most of the editorials of our daily press are written by young men. In the life of every old man there comes a point, sooner or later, when experience ceases to have any educating power; and when, in the language of Wall St., he becomes a bear; in the language of politics, a Bourbon.”

some of the greatest poets, painters, and sculptors, such as Dryden, Richardson, Cowper, Young, De Foe, Titian, Christopher Wren, and Michael Angelo, have done a part of their very best work in advanced life. The imagery both of Bacon and of Burke seemed to increase in richness as they grew older.

In the realm of reason, philosophic thought, invention and discovery, the exceptions are very rare. Nearly all the great systems of theology, metaphysics, and philosophy are the result of work done between 20 and 50.”

Michael Angelo and Sir Christopher Wren could wait for a quarter or even half a century before expressing their thoughts in St. Peter’s or St. Paul’s; but the time of the conception of those thoughts — long delayed in their artistic expression — was the time when their cerebral force touched its highest mark.

In the old age of literary artists, as Carlyle, Dickens, George Elliot, or Tennyson, the form may be most excellent; but from the purely scientific side the work though it may be good, is old; a repetition often-times, in a new form, of what they have said many times before.”

The philosophy of Bacon can never be written but once; to re-write it, to present it a 2nd time, in a different dress, would indicate weakness, would seem almost grotesque; but to statuary and painting we return again and again; we allow the artist to re-portray his thought, no matter how many times; we visit in succession a hundred cathedrals, all very much alike; and a delicious melody grows more pleasing with repetition; whence it is that in poetry — the queen of the arts — old age has wrought little, or not at all, since the essence of poetry is creative thought, and old age is unable to think; whence, also, in acting — the oldest of all the arts, the servant of all — the best experts are often at their best, or not far below their best, save for the acquisition of new characters, in the iron and wooden decades.”

Similarly with the art of writing—the style, the dress, the use of words, the art of expressing thoughts, and not of thinking. Men who have done their best thinking before 40 have done their best writing after that period.” it is thought, and not the language of thought, that best tests the creative faculties.”

The conversation of old men of ability, before they have passed into the stage of imbecility, is usually richer and more instructive than the conversation of the young; for in conversation we simply distribute the treasures of memory, as a store hoarded during long years of thought and experience. He who thinks as he converses is a poor companion, as he who must earn his money before he spends any is a poor man. When an aged millionnaire makes a liberal donation it costs him nothing; he but gives out of abundance that has resulted by natural accumulation from the labors of his youth and middle life.”

An amount of work not inconsiderable is done before 25 and a vast amount is done after 40; but at neither period is it usually of the original or creative sort that best measures the mental forces.” “In early youth we follow others; in old age we follow ourselves.”

The same law applies to animals. Horses live to be about 25, and are at their best from 8 to 14” “Dogs live 9 or 10 years, and are fittest for the hunt between 2 and 6.”

Children born of parents one or both of whom are between 25 and 40, are, on the average, stronger and smarter than those born of parents one or both of whom are very much younger or older than this.” “we are most productive when we are most reproductive [18-26??].”

In an interesting paper entitled When Women Grow Old, Mrs. Blake has brought facts to show that the fascinating power of the sex is often-times retained much longer than is generally assumed.

She tells us of Aspasia, who, between the ages of 30 and 50 was the strongest intellectual force in Athens; of Cleopatra, whose golden decade for power and beauty was between 30 and 40; of Livia, who was not far from 30 when she gained the heart of Octavius; of Anne of Austria, who at 38 was thought to be the most beautiful queen in Europe; of Catherine II of Russia, who, even at the silver decade was both beautiful and imposing; of Mademoiselle Mars, the actress, whose beauty increased with years, and culminated between 30 and 45; of Madame Recamier, who, between 25 and 40, and even later, was the reigning beauty in Europe; of Ninon de I’Enclos, whose own son — brought up without knowledge of his parentage — fell passionately in love with her when she was at the age of 37, and who even on her 60th birthday received an adorer young enough to be her grandson.

The voice of our great prima donnas is at its very best between 27 and 35; but still some retains, in a degree, its strength and sweetness even in the silver decade. The voice is an index of the body in all its functions, but the decay of other functions is not so readily noted.”

As a lad of 16, Lord Bacon began to think independently on great matters; at 44, published his great work on The Advancement of Learning; at 36, published 12 of his Essays; and at 60 collected the thoughts of his life in his Organum. His old age was devoted to scientific investigation.

At the age of 29, Descartes began to map out his system of philosophy, and at 41 began its publication, and at 54 he died.

Schelling, as a boy, studied philosophy, and at 24 was a brilliant and independent lecturer, and at 27 had published many important works; at 28 was professor of philosophy and arts, and wrote his best works before 50.

Dryden, one of the exceptions to the average, did his best work when comparatively old; his Absalom was written at 50, and his Alexander’s Feast when he was nearly 70.

Dean Swift wrote his Tale of a Tub at 35, and his Gulliver’s Travels at 59.”

Charles Dickens wrote Pickwick at 25, Oliver Twist and Nicholas Nickleby before 27, Christmas Chimes at 31, David Copperfield at 38, and Dombey and Son at 35. Thus we see that nearly all his greatest works were written before he was 40; and it is amazing how little all the writings of the last 20 years of his life took hold of the popular heart, in comparison with Pickwick and David Copperfield, and how little effect the most enormous advertising and the cumulative power of a great reputation really have to give a permanent popularity to writings that do not deserve it. If Dickens had died at 40 his claim to immortality would have been as great as now, and the world of letters would have been little, if any, the loser. The excessive methodical activity of his mature and advanced life could turn off works with fair rapidity; but all his vast experience and all his earnest striving failed utterly to reach the standard of his reckless boyhood. His later works were more perfect, perhaps, judged by some canons, but the genius of Pickwick was not in them.”

Edison with his 300 patents, is not the only young inventor. All inventors are young. Colt was a boy of 21 when he invented the famous weapon that bears his name; and Goodyear began his experiments in rubber while a young man of 24, and made his first success at 38, and at 43 had brought his discovery to approximate perfection.”

The name of Bichat is one of the greatest in science, and he died at 32.”

Handel at 19 was director of the opera at Hamburg; at 20 composed his first opera; at 35 was appointed manager of the Royal Theatre at London; at 25 composed Messiah and Jephtha, and in old age and blindness his intellect was clear and his power of performance remarkable.”

Luther early displayed eloquence, and at 20 began to study Aristotle;¹ at 29 was doctor of divinity, and when he would refuse it, it was said to him that <he must suffer himself to be dignified, for that God intended to bring about great things in the church by his name>; at 34 he opposed the Indulgencies, and set up his 95 propositions; at 37 he publicly burned the Pope’s bull; at 47 he had completed his great task.”

¹ Realmente é impossível derivar prazer de ler Aristóteles antes dessa idade, senão uma ainda mais avançada!

Von Moltke between 65 and 70 directed the operation of the great war of Prussia against Austria and France. But that war was but a conclusion and consummation of military study and organization that had been going on for a quarter of a century.”

Jenner at 21 began his investigation into the difference between cow-pox and small-pox. His attention was called to the subject by the remark of a country girl, who said in his hearing that she could not have the small-pox, because she had had the cow-pox.” Varíola e varíola bovina. Bom… realmente existem ovos de Colombo!

old men, like nations, can show their treasures of art long after they have begun to die; this, indeed, is one of the sweetest and most refreshing compensations for age”

A contemporary deader in science (Huxley) has asserted that it would be well if all men of science could be strangled at the age of 60, since after that age their disposition — with possible exceptions here and there — is to become reactionary and obstructionists”

Se um homem não é belo aos 20, forte aos 30, experiente aos 40 e rico aos 50, ele jamais será belo, forte, experiente ou rico neste mundo.” Lutero

Só começamos a contar nossos anos quando já não há nada mais a ser contado” Emerson

Procrastinamos nossos trabalhos literários até termos experiência e habilidade o bastante, até um dia descobrirmos que nosso talento literário era uma efervescência juvenil que finalmente perdemos.” E.

Quem em nada tem razão aos 30, nunca terá.”

Revoluções não são feitas por homens de óculos, assim como sussurros contendo verdades novas nunca são ouvidos por quem já entrou na idade da surdez” Oliver Holmes

Como pode ser que “o povo da minha rua” seja, para tantos indivíduos, a gente mais burra de toda a Terra? E, pior ainda, que todos que o dizem pareçam estar com a razão?!

Dizem que os jovens são os únicos que não escutam a voz da razão na discussão sobre a verdadeira idade da razão ser a juventude, e não a velhice. Ou eles estão errados ou eles estão errados.

It is not in ambitious human nature to be content with what we have been enabled to achieve up to the age of 40. (…) Happiness may augment with years, because of better external conditions; and yet the highest happiness is obtained through work itself more than through the reward of work”

a wise man declared that he would like to be forever 35, and another, on being asked his age, replied that it was of little account provided that it was anywhere between 25 and 40.”

$$$: “Capacity for original work age does not have, but in compensation it has almost everything else. The querulousness of age, the irritability, the avarice are the resultants partly of habit and partly of organic and functional changes in the brain. Increasing avarice is at once the tragedy and the comedy of age; as we near the end of our voyage we become more chary of our provisions, as though the ocean and not the harbor were before us.” “our intellectual ruin very often dates from the hour when we begin to save money.” A do meu pai começou quando criança.

PORQUE SIM, PORQUE EU MANDEI – POR QUE VOCÊ É ASSIM? NÃO RESPEITA SEU PAI, NÃO? POR QUE NÃO FAZ UM DOUTORADO? POR QUE NÃO COMPRA UM CARRO? “Moral courage is rare in old age; sensitiveness to criticism and fear of opposition take the place, in the iron and wooden decades, of delight in criticism and love of opposition of the brazen and golden decades” Nostalgic UnB times…

fame like wealth makes us cautious, conservative, cowardly, since it implies the possibility of loss.”

when the intellect declines the man is obliged to be virtuous. Physical health is also needed for indulgence in many of the vices”

The decline of the moral faculties in old age may be illustrated by studying the lives of the following historic characters: Demosthenes, Cicero, Sylla, Charles V, Louis XIV, Frederic of Prussia, Napoleon (prematurely old), Voltaire, Jeffries, Dr. Johnson, Cromwell, Burke, Sheridan, Pope, Newton, Ruskin, Carlyle, Dean Swift, Chateaubriand, Rousseau, Milton, Bacon, Earl Pussell, Marlborough and Daniel Webster. In some of these cases the decline was purely physiological, in others pathological; in the majority it was a combination of both.

Very few decline in all the moral faculties. One becomes peevish, another avaricious, another misanthropic, another mean and tyrannical, another exacting and ugly, another sensual, another cold and cruelly conservative, another excessively vain and ambitious, others simply lose their moral enthusiasm and their capacity for resisting disappointment and temptation.”

There are men who in extreme age preserve their teeth sound, their hair unchanged, their complexion fresh, their appetite sharp and digestion strong and sure, and their repose sweet and refreshing, and who can walk and work to a degree that makes their children and grandchildren feel very humble; but these observed exceptions in no way invalidate the general law, which no one will dispute, that the physical powers reach their maximum between 20 and 40, and that the average man at 70 is less muscular and less capable of endurance than the average man at 40.”

For age hath opportunity no less

Than youth itself, though in another dress;

And as the evening twilight fades away,

The sky is filled with stars invisible by day.”

Longfellow

To age is granted in increasing richness the treasures of memory and the delights of recognition which most usually come from those who, at the time of the deeds whose value they recognize, were infants or unborn; only those who bury their contemporaries, can obtain, during their own lifetime, the supremacy of fame.”

POR QUE CRIANÇAS PRODÍGIO SÃO A MAIOR FALSIFICAÇÃO POSSÍVEL: “Mrs. Carlyle, when congratulated on the honors given to her husband on the delivery of his Edinburgh address, replied with a certain disdain, as though he should have been honored before; but only by a reversal of the laws of the evolution of fame shall the manifestation of genius and the recognition of genius be simultaneous.”

The high praise of contemporaries is almost insulting, since it implies that he whom they honor is but little better than themselves. Permanent fame, even in this rapid age [!!], is a plant of slow growth—first the blade; then, after a time, the ear; then, after many, many years, the full corn in the ear”

MEU COPYDESK E EU DE 2015 PARA CÁ SENTIMO-NOS ASSIM: “while the higher power of creating is disappearing, the lower, but for many the more needful, and with contemporaries more quickly appreciated, power of imitation, repetition, and routine, is increasing; we can work without working, and enjoy without striving”

O TRABALHO MATA AOS POUCOS: “An investigation made more recently by a Berlin physician into the facts and data relating to human longevity shows the average age of clergymen to be 65; of merchants, 63; clerks and farmers, 61; military men, 59; lawyers, 58; artists, 57; and medical men, 56 [!]. Statistics are given showing that medical men in England stand high in the scale of longevity. Thus, the united ages of 28 physicians who died there last year, amount to 2,354 years, giving an average of more the 84 years to each [!]. The youngest of the number was 80; the oldest, 93; 2 others were 92 and 89, respectively; 3 were 87, and 4 were 86 each; and there were also more than 50 who averaged from 74 to 75 years.”

That precocity predicts short life, and is therefore a symptom greatly to be feared by parents, has, I believe, never been questioned. (…) plants that are soon to bloom are soon to fade”

APOSTO MINHA VIDA QUE MORREREI ANTES DE A.: “It is probable that, of two individuals with precisely similar organizations and under similar circumstances, the one that develops earlier will be the first to die.”

MINHA ‘GENÉTICA’ NÃO AJUDA: “millionnaires in intellect as well as in money, who can afford to expend enormous means without becoming impoverished.”

Investigating the records of the past two centuries, Winterburn finds 213 recorded cases of acknowledged musical prodigies. None of them died before their 15th year, some attained the age of 103 — and the average duration of life was 58 — showing that, with all their abnormal precocity, they exceed the ordinary longevity by about 6%.”

an almost irresistible impulse to the art in which they are destined to excel manifests itself in future virtuosi— in poets, painters, etc., from their earliest youth.” Wieland

Uma idéia de filme bem ruim: O ESCRITOR NOVATO DE 40 ANOS!

A infância revela o homem, como a manhã revela o dia.” Milton

Madden – Infirmities of Genius (downloads)

MEMENTO À “PROFESSORA SORRISO”: “The stupidity attributed to men of genius may be really the stupidity of their parents, guardians, and biographers.”

Music and drawing appeal to the senses, attract attention, and are therefore appreciated, or at least observed by the most stupid parents, and noted even in the most superficial biographies. Philosophic and scientific thought, on the contrary, does not at once, perhaps may never, reveal itself to the senses—it is locked up in the cerebral cells; in the brain of that dull, pale youth, who is kicked for his stupidity and laughed at for his absent-mindedness, grand thoughts may be silently growing”

Newton, according to his own account, was very inattentive to his studies and low in his class, but a great adept at kite-flying, with paper lanterns attached to them, to terrify the country people, of a dark night, with the appearance of comets; and when sent to market with the produce of his mother’s farm, was apt to neglect his business, and to ruminate at an inn, over the laws of Kepler.”

This belief is strengthened by the consideration that many, perhaps the majority, of the greatest thinkers of the world seemed dull, inane, and stupid to their neighbors, not only in childhood but through their whole lives.”

It is probable, however, that nearly all cases of apparent stupidity in young geniuses are to be explained by the want of circumstances favorable to the display of their peculiar powers, or to a lack of appreciation or discernment on the part of their friends.”

As compared with the world, the most liberal curriculum is narrow; to one avenue of distinction that college opens, the world opens ten.”

GREAT precocity, like GREAT genius, is rare.”

O GÊNIO & O GENIOSO: “There is in some children a petty and morbid smartness that is sometimes mistaken for precocity, but which in truth does not deserve that distinction.”

A DOENÇA DE STEWIE: “Petty smartness is often-times a morbid symptom; it comes from a diseased brain, or from a brain in which a grave predisposition to disease exists; such children may die young, whether they do or do not early exhibit unusual quickness.”

A AMEBA SUPREMACISTA: “M.D. Delaunay has addressed to the Societé de Biologie a communication in which he takes the ground that precocity indicates biological inferiority. To prove this he states that the lower species develop more rapidly than those of a higher order; man is the slowest of all in developing and reaching maturity, and the lower orders are more precocious than the higher. As proof of this he speaks of the children of the Esquimaux, negroes, Cochin Chinese, Japanese, Arabs, etc. (…) He also states that women are more precocious than men”

THE RECURRING THEME: “The highest genius, as here and elsewhere seen, never repeats itself; very great men never have very great children; and in biological analysis, geniuses who are very precocious may be looked upon as the last of their race or of their branch—from them degeneracy is developed; and this precocity, despite their genius, may be regarded as the forerunner of that degeneracy.”

Leibniz, at 12 understood Latin authors well, and wrote a remarkable production; Gassendi, <the little doctor>, preached at 4; and at 10 wrote an important discourse; Goethe, before 10, wrote in several languages; Meyerbeer, at 5, played remarkably well on the piano; Niebuhr, at 7, was a prodigy, and at 12 had mastered 18 languages [QUÊ?!]; Michael Angelo at 19 had attained a very high reputation; at 20 Calvin was a fully-fledged reformer, and at 24 published great works on theology that have changed the destiny of the world; Jonathan Edwards, at 10, wrote a paper refuting the materiality of the soul, and at 12 was so amazingly precocious that it was predicted of him that he would become another Aristotle; at 20 Melanchthon was so learned that Erasmus exclaimed: <My God! What expectations does not Philip Melanchthon create!>.”

In order that a great man shall appear, a double line of more or less vigorous fathers and mothers must fight through the battles for existence and come out triumphant. However feeble the genius may be, his parents or grandparents are usually strong; or if not especially strong, are long-lived. Great men may have nervous if not insane relatives; but the nervous temperament holds to life longer than any other temperament. (…) in him, indeed, the branch of the race to which he belongs may reach its consummation, but the stock out of which he is evolved must be vigorous, and usually contains latent if not active genius.”

The cerebral and muscular forces are often correlated; the brain is a part of the body. This view, though hostile to the popular faith, is yet sound and supportable; a large and powerful brain in a small and feeble body is a monstrosity.”

a hundred great geniuses, chosen by chance, will be larger than a hundred dunces anywhere — will be broader, taller, and more weighty.”

In any band of workmen on a railway, you shall pick out the <boss> by his size alone: and be right 4 times out of 5.”

In certain of the arts extraordinary gifts may lift their possessor into fame with but little effort of his own, but the choicest seats in the temples of art are given only to those who have earned them by the excellence that comes from consecutive effort, which everywhere test the vital power of the man.”

One does not need to practice medicine long to learn that men die that might just as well live if they had resolved to live and that many who are invalids could become strong if they had the native or acquired will to vow that they would do so. Those who have no other quality favorable to life, whose bodily organs are nearly all diseased, to whom each day is a day of pain, who are beset by life-shortening influences, yet do live by the determination to live alone.”

the pluck of the Anglo-Saxon is shown as much on the sick-bed as in Wall Street or on the battlefield.” “When the negro feels the hand of disease pressing upon him, however gently, all his spirit leaves him.”

INNER VOW: “they live, for the same reason that they become famous; they obtain fame because they will not be obscure; they live because they will not die.”

it is the essence of genius to be automatic and spontaneous. Many a huckster or corner tradesman expends each day more force in work or fretting than a Stewart or a Vanderbilt.”

As small print most tires the eyes, so do little affairs the most disturb us” “the nearer our cares come to us the greater the friction; it is easier to govern an empire than to train a family.”

Great genius is usually industrious, for it is its nature to be active; but its movements are easy, frictionless, melodious. There are probably many school-boys who have exhausted themselves more over a prize composition than Shakespeare over Hamlet, or Milton over the noblest passages in Paradise Lost.”

So much has been said of the pernicious effects of mental labor, of the ill-health of brain-workers of all classes, and especially of clergymen, that very few were prepared to accept the statement that the clergy of this country and of England lived longer than any other class, except farmers; and very naturally a lurking fallacy was suspected. Other observers, who have since given special attention to the subject, have more than confirmed this conclusion, and have shown that clergymen are longer lived than farmers.” “A list of 10,000 is sufficient and more than sufficient for a generalization; for the second 5,000 did nothing more than confirm the result obtained by the first. It is fair and necessary to infer that if the list were extended to 10,000, 20,000, or even 100,000, the average would be found about the same.” “In their manifold duties their whole nature is exercised — not only brain and muscle in general, but all, or nearly all, the faculties of the brain — the religious, moral, and emotional nature, as well as the reason. Public speaking, when not carried to the extreme of exhaustion, is the best form of gymnastics that is known; it exercises every inch of a man, from the highest regions of the brain to the smallest muscle.” “The average income of the clergymen of the leading denominations of this country in active service as pastors of churches (including salary, house rent, wedding fees, donations, etc.), is between $800 and $1000, which is probably not very much smaller than the net income of all other professional classes. Furthermore, the income of clergymen in active service is collected and paid with greater certainty and regularity, and less labor of collection on their part, than the income of any other class except, perhaps, government officials; then, again, their earnings, whether small or great, come at once, as soon as they enter their profession, and is not, as with other callings, built up by slow growth.” “Merchants now make, always have made, and probably always will make, most of the money of the world; but business is attended with so much risk and uncertainty, and consequent anxiety, that merchants die sooner than clergymen, and several years sooner than physicians and lawyers.” “During the past 15 years, there has been a tendency, which is now rapidly increasing, for the best endowed and best cultured minds of our colleges to enter other professions, and the ministry has been losing, while medicine, business, and science have been gaining.”

There are those who come into life thus weighted down, not by disease, not by transmitted poison in the blood, but by the tendency to disease, by a sensitiveness to evil and enfeebling forces that seems to make almost every external influence a means of torture; as soon as they are born, debility puts its terrible bond upon them, and will not let them go, but plays the tyrant with them until they die. Such persons in infancy are often on the point of dying, though they may not die; in childhood numberless physical ills attack them and hold them down, and, though not confining them to home, yet deprive them, perhaps, of many childish delights; in early maturity an army of abnormal nervous sensations is waiting for them, the gauntlet of which they must run if they can; and throughout life every function seems to be an enemy.

The compensations of this type of organization are quite important and suggestive, and are most consolatory to sufferers. Among these compensations, this perhaps is worthy of first mention — that this very fineness of temperament, which is the source of nervousness, is also the source of exquisite pleasure. Highly sensitive natures respond to good as well as evil factors in their environment, salutary as well as pernicious stimuli are ever operating upon them, and their capacity for receiving, for retaining, and for multiplying the pleasures derived from external stimuli is proportionally greater than that of cold and stolid organizations: if they are plunged into a deeper hell, they also rise to a brighter heaven (…) art, literature, travel, social life, and solitude, pour out on them their selected treasures; they live not one life but many lives, and all joy is for them variously multiplied. To such temperaments the bare consciousness of living, when life is not attended by excessive exhaustion or by pain, or when one’s capacity for mental or muscular toil is not too closely tethered, is often-times a supreme felicity. The true psychology of happiness is gratification of faculties, and when the nervous are able to indulge even moderately and with studied caution and watchful anxiety their controlling desires of the nobler order, they may experience an exquisiteness of enjoyment that serves, in a measure, to reward them for their frequent distresses.”

The physician who collects his fee before his patient has quite recovered, does a wise thing, since it will be paid more promptly and more gratefully than after the recovery is complete.”

Nervous organizations are rarely without reminders of trouble that they escape — their occasional wakefulness and indigestion, their headaches and backaches and neuralgias, their disagreeable susceptibility to all evil influences that may act on the constitution, keep them ever in sight of the possibility of wliat they might have been, and suggest to them sufferings that others endure, but from which they are spared.”

While it is true that pain is more painful than its absence is agreeable, so that we think more of what is evil than of what is good in our environment, and dwell longer on the curses than the blessings of our lot, and fancy all others happier than ourselves, yet it is true likewise that our curses make the blessings more blissful by contrast”

There are those who though never well are yet never sick, always in bondage to debility and pain, from which absolute escape is impossible, yet not without large liberty of labor and of thought” “Such persons may be exposed to every manner of poison, may travel far and carelessly with recklessness, even may disregard many of the prized rules of health; may wait upon and mingle with the sick, and breathe for long periods the air of hospitals or of fever-infested dwellings, and come out apparently unharmed.”

This recuperative tendency of the nervous system is stronger, often-times, than the accumulating poison of disease, and overmasters the baneful effects of unwise medication and hygiene. Between the ages of 25 and 35, especially, the constitution often consolidates as well as grows, acquires power as well as size, and throws off, by a slow and invisible evolution, the subtile habits of nervous disease, over which treatment the most judicious and persistent seems to have little or no influence. There would appear to be organizations which at certain times of life must needs pass through the dark valley of nervous depression, and who cannot be saved therefrom by any manner of skill or prevision; who must not only enter into this valley, but, having once entered, cannot turn back: the painful, and treacherous, and agonizing horror, wisdom can but little shorten, and ordinary misdoing cannot make perpetual; they are as sure to come out as to go in; health and disease move in rhythm; the tides in the constitution are as demonstrable as the tides of the ocean, and are sometimes but little more under human control.” It is an important consolation for those who are in the midst of an attack of sick-headache, for example, that the natural history of the disease is in their favor. In a few days at the utmost, in a few hours frequently, the storm will be spent, and again the sky will be clear, and perhaps far clearer than before the storm arose.” nearly all severe pain is periodic, intermittent, rhythmical: the violent neuralgias are never constant, but come and go by throbs, and spasms, and fiercely-darting agonies, the intervals of which are absolute relief. After the exertion expended in attacks of pain, the tired nerve-atoms must need repose. Sometimes the cycles of debility, alternating with strength, extend through long years — a decade of exhaustion being followed by a decade of vigor.”

There are those who pass through an infancy of weakness and suffering and much pain, and through a childhood and early manhood in which the game of life seems to be a losing one, to a healthy and happy maturity; all that is best in their organizations seems to be kept in reserve, as though to test their faith, and make the boon of strength more grateful when it comes.”

Perfect health is by no means the necessary condition of long life; in many ways, indeed, it may shorten life; grave febrile and inflammatory diseases are invited and fostered by it, and made fatal, and the self-guarding care, without which great longevity is almost impossible, is not enforced or even suggested.” “Headaches, and backaches, and neuralgias, are safety-valves through which nerve-perturbations escape, and which otherwise might become centres of accumulated force, and break forth with destruction beyond remedy. The liability to sudden attacks of any form of pain, or distress, or discomfort, under overtoil or from disregard of natural law, is, so far forth, a blessing to its possessor, making imperative the need of foresight and practical wisdom in the management of health, and warning us in time to avoid irreparable disaster. The nervous man hears the roar of the breakers from afar, while the strong and phlegmatic steers boldly, blindly on, until he is cast upon the shore, often-times a hopeless wreck.”

A neurastenia também tem o nome de “cãibra do escritor”. No trecho a seguir, a referida “cãibra” está mais próxima de um surto neurastênico agudo, do qual, defende Beard, o ‘nervoso típico’ está protegido: “Those who are sensitive, and nervous, and delicate, whom every external or internal irritation injures, and who appreciate physical injury instantly, as soon as the exciting cause begins to act, cannot write long enough to get writer’s cramp; they are warned by uneasiness or pain, by weariness, local or general, and are forced to interrupt their labors before there has been time to receive a fixed or persistent disease.” “had they been feeble they would have been unable to persevere in the use of the pen so as to invite permanent nervous disorder.” Without such warnings they might have continued in a life of excessive friction and exhausting worry, and never have suspected that permanent invalidism was in waiting for them, until too late to save themselves either by hygiene or medication. When a man is prostrated nervously, all the forces of nature rush to his rescue; but the strong man, once fully fallen, rallies with difficulty, and the health-evolving powers may find a task to which, aided or unaided, they are inadequate.”

The history of the world’s progress from savagery to barbarism, from barbarism to civilization, and, in civilization, from the lower degrees towards the higher, is the history of increase in average longevity, corresponding to and accompanied by increase of nervousness. Mankind has grown to be at once more delicate and more enduring, more sensitive to weariness and yet more patient of toil, impressible but capable of bearing powerful irritation: we are woven of finer fibre, which, though apparently frail, yet outlasts the coarser, as rich and costly garments often-times wear better than those of rougher workmanship.”

Among our educated classes there are nervous invalids in large numbers, who have never known by experience what it is to be perfectly well or severely ill, whose lives have been not unlike a march through a land infested by hostile tribes, that ceaselessly annoy in front and on flank, without ever coming to a decisive conflict, and who, in advanced age, seem to have gained wariness, and toughness, and elasticity, by the long discipline of caution, of courage, and of endurance; and, after having seen nearly all their companions, whose strength they envied, struck down by disease, are themselves spared to enjoy, it may be, their best days, at a time when, to the majority, the grasshopper becomes a burden, and life each day a visibly losing conflict with death.” “the irritability, the sensitiveness, the capriciousness of the constitution, between the ages of 15 and 45, have, in a degree, disappeared, and the system has acquired a certain solidity, steadiness, and power; and thus, after a long voyage against opposing winds and fretting currents, they enter the harbor in calmness and peace.”

MEU SÉCULO ME IMPEDE DE COMPARTILHAR DESTE OTIMISMO: “It may be doubted whether, in the history of disease of any kind, there has been made so decided and so satisfactory an advance as has been made within the last quarter of a century, in the treatment of nervousness in its various manifestations.” “One great factor in the modern treatment of these functional nervous diseases is individualization, no two cases being treated precisely alike, but each one being studied by itself alone. Among wise physicians, the day for wholesale treatment of nervous diseases can never return. The result of all this progress is, that thousands who formerly would have suffered all their lives, and with no other relief except that which comes from the habitual addiction to narcotics, can now be cured, or permanently relieved, or at least put into working order where they are most useful and happy.” if all new modes of action of nerve-force are to be so many added pathways to sorrow,—if each fresh discovery or invention is to be matched by some new malady of the nerves,—if insanity and epilepsy and neurasthenia, with their retinue of neuroses, through the cruel law of inheritance, are to be organized in families, descending in fiery streams throught the generations, we yet have this assurance,—that science, with keen eyes and steps that are not slow, is seeking and is finding means of prevention and of relief.”

5. PHYSICAL FUTURE OF THE AMERICAN PEOPLE [epílogo cagado e ‘poliânico’ totalmente desnecessário]

This increase of neuroses cannot be arrested suddenly; it must yet go on for at least 25 or 50 years, when all of these disorders shall be both more numerous and more heterogenous than at present. But side by side with these are already developing signs of improved health and vigor that cannot be mistaken; and the time must come—not unlikely in the first half of the 20th century—when there will be a halt or retrograde movement in the march of nervous diseases, and while the absolute number of them may be great, relatively to the population, they will be less frequent than now; the evolution of health, and the evolution of nervousness, shall go on side by side.”

Health is the offspring of relative wealth.” “febrile and inflammatory disorders, plagues, epidemics, great accidents and catastrophes even, visit first and last and remain longest with those who have no money.” the absence of all but forced vacations—the result, and one of the worst results, of poverty—added to the corroding force of envy, and the friction of useless struggle,—all these factors that make up or attend upon simple want of money, are in every feature antagonistic to health and longevity. Only when the poor become absolute paupers, and the burden of life is taken from them and put upon the State or public charity, are they in a condition of assured health and long life.” “The inmates of our public institutions of charity of the modern kind are often the happiest of men, blessed with an environment, on the whole, far more salubrious than that to which they have been accustomed, and favorably settled for a serene longevity.” “For the same reasons, well-regulated jails are healthier than many homes, and one of the best prescriptions for the broken-down and distressed is for them to commit some crime.”

A fat bank account tends to make a fat man; in all countries, amid all stages of civilization and semi-barbarism, the wealthy classes have been larger and heavier than the poor.” “In India this coincidence of corpulence and opulence has been so long observed that it is instinctively assumed; and certain Brahmins, it is said, in order to obtain the reputation of wealth, studiously cultivate a diet adapted to make them fat.”

The majority of our Pilgrim Fathers in New England, and of the primitive settlers in the Southern and Middle States, really knew but little of poverty in the sense in which the term is here used. They were an eminently thrifty people, and brought with them both the habits and the results of thrift to their homes in the New World. Poverty as here described is of a later evolution, following in this country, as in all others, the pathway of a high civilization.”

the best of all antidotes and means of relief for nervous disease is found in philosophy.” Thus it is in part that Germany, which in scientific and philosophic discovery does the thinking for all nations, and which has added more to the world’s stock of purely original ideas than any other country, Greece alone excepted, is less nervous than any other nation; thus it is also that America, which in the same department has but fed on the crumbs that fall from Germany’s table, has developed a larger variety and number of functional nervous diseases than all other nations combined.”

The capacity for growth in any given direction, physical or mental, is always limited; no special gift of body or mind can be cultivated beyond a certain point, however great the tenderness and care bestowed upon it.”

In man, that higher operation of the faculties which we call genius is hereditary, transmissible, running through and in families as demonstrably as pride or hay-fever, the gifts as well as the sins of the fathers being visited upon the children and the children’s children; general talent, or some special talent, in one or both parents rises and expands in immediate or remote offspring, and ultimately flowers out into a Socrates, a Shakespeare, a Napoleon, and then falls to the ground”

That a single family may rise to enduring prominence and power, it is needful that through long generations scores of families shall endure poverty and pain and struggle with cruel surroundings”

The America of the future, as the America of the present, must be a nation where riches and culture are restricted to the few—to a body, however, the personnel of which is constantly changing.”

Inebriety being a type of the nervous diseases of the family to which it belongs, may properly be here defined and differentiated from the vice and habit of drinking with which it is confounded. The functional nervous disease inebriety, or dipsomania, differs from the simple vice of drinking to excess in these respects:

(…)

The simple habit of drinking even to an extreme degree may be broken up by pledges or by word promises or by quiet resolution, but the disease inebriety can be no more cured in this way than can neuralgia or sick-headache, or neurasthenia, or hay-fever, or any of the family of diseases to which it belongs.

(…)

Of the nervous symptoms that precede, or accompany, or follow inebriety, are tremors, hallucinations, insomnia, mental depressions, and attacks of trance, to which I give the term alcoholic trance.

(…)

even drunkenness in a parent or grandparent may develop in children epilepsy or insanity, or neurasthenia or inebriety.

(…)

The attacks of inebriety may be periodical; they may appear once a month, and with the same regularity as chills and fever or sick-headache, and far more regularly than epilepsy, and quite independent of any external temptation or invitation to drink, and oftentimes are as irresistible and beyond the control of will as spasms of epilepsy or the pains of neuralgia or the delusions of insanity. Inebriety is not so frequent among the classes that drink excessively as among those who drink but moderately, although their ancestors may have been intemperate; it is most frequent in the nervous and highly organized classes, among the brain-workers, those who have lived indoors; there is more excessive drinking West and South than in the East, but more inebriety in the East.”

probably no country outside of China uses, in proportion to population, so much opium as America, and as the pains and nervousness and debility that tempt to the opium habit are on the increase, the habit must inevitably develop more rapidly in the future than in the past; of hay-fever there must, in a not very distant time, be at least 100,000 cases in America, and in the 20th century hundreds of thousands of insane and neurasthenics.”

There must be, also, an increasing number of people who cannot bear severe physical exercise. Few facts relating to this subject are more instructive than this — the way in which horseback-riding is borne by many in modern times. In our country, I meet with large numbers who cannot bear the fatigue of horseback-riding, which used to be looked upon — possibly is looked upon to-day — as one of the best forms of exercise, and one that is recommended as a routine by physicians who are not discriminating in dealing with nervously-exhausted patients.” The greatest possible care and the best judgment are required in prescribing and adapting horseback-riding to nervous individuals of either sex; it is necessary to begin cautiously, to go on a walk for a few moments; and even after long training excess is followed by injury, in many cases.”

ANTIRRUBENISMO: “If either extreme is to be chosen, it is well, on the whole, to err on the side of rest rather than on the side of excess of physical exertion.”

Why Education is behind other Sciences and Arts? Schools and colleges everywhere are the sanctuaries of medievalism, since their aim and their powers are more for retaining what has been discovered than for making new discoveries; consequently we cannot look to institutions or organizations of education for the reconstruction of that system by which they enslave the world and are themselves enslaved. It is claimed by students of Chinese character that that great nation has been kept stationary through its educational policy — anchored for centuries to competitive examinations which their strong nerves can bear while they make no progress. In a milder way, and in divers and fluctuating degrees, all civilized nations take their inspiration from China, since it is the office and life of teaching to look backward rather than forward; in the relations of men as in physics, force answers to force, and as the first, like the second childhood is always reactionary, a class of youths tend by their collective power to bring the teacher down more than he can lift them up. Only conservative natures are fond of teaching; organizations are always in the path of their own reconstruction; mediocrity begets mediocrity, attracts it, and is attracted by it. Whence all our institutions become undying centres of conservatism. The force that reconstructs an organization must come from outside the body that is to be reconstructed.”

The Gospel of Rest. The gospel of work must make way for the gospel of rest. The children of the past generation were forced, driven, stimulated to work, and in forms most repulsive, the philosophy being that utility is proportioned to pain; that to be happy is to be doing wrong, hence it is needful that studies should not only be useless but repelling, and should be pursued by those methods which, on trial, proved the most distressing, wearisome, and saddening. That this philosophy has its roots in a certain truth psychology allows, but the highest wisdom points also to another truth, the need of the agreeable; our children must be driven from study and all toil, and in many instances coaxed, petted, and hired to be idle; we must drive them away from schools as our fathers drove them towards the schools; one must be each moment awake and alive and active, to keep a child from stealthily learning to read; our cleverest offspring loves books more than play, and truancies [matar aula] and physical punishments are far rarer than half a century ago.”

From investigations at Darmstadt, Paris, and Neuremburg, Dr. Treichler concludes that one-third of the pupils suffer more or less from some form of headache. It is not probable that these headaches in children are the result purely of intellectual exertion, but of intellectual exertion combined with bad air, with the annoyances and excitements and worries, the wasting and rasping anxieties of school life.”

Even studies that are agreeable and in harmony with the organs, and to which tastes and talents are irresistibly inclined, are pursued at an expenditure of force which is far too great for many nervously organized temperaments. I have lately had under my care a newly married lady who for some years has been in a state of neurasthenia of a severe character, and of which the exciting cause was devotion to music at home; long hours at the piano, acting on a neurasthenic temperament, given to her by inheritance, had developed morbid fears and all the array of nervous symptoms that cluster around them, so that despite her fondness for a favorite art she was forced to abandon it, and from that time was dated her improvement, though at the time that I was called in to see her she had yet a long way to travel before she would reach even approximate health.”

The reconstruction of the principles of evidence, the primary need of all philosophy, which cannot much longer be delayed, is to turn nearly all that we call history into myth, and destroy and overthrow beyond chance of resurrection all but a microscopic fraction of the world’s reasoning. Of the trifle that is saved, the higher wisdom of coming generations will know and act upon the knowledge that a still smaller fraction is worthy of being taught, or even remembered by any human being.” A tragédia é que uma filosofia do conhecimento só pode vir depois da burra e didática memorização de fatos tão lineares quanto sem nexo. Ou seja: chega-se ao ideal da educação quando ela já está finalizada ou, antes, só se chega ao suposto ideal, descobrindo-se que o começo devera ter sido diferente, quando o começo se sedimentou. Pode-se ensinar certo, mas não se pode aprender certo!

The fact that anything is known, and true and important for some is of itself no reason why all should know or attempt to know it”

Our children are coaxed, cajoled, persuaded, enticed, bluffed, bullied, and driven into the study of ancient and modern tongues; though the greatest men in all languages, whose writings are the inspiration to the study of languages themselves knew no language but their own; and, in all the loftiest realms of human creative power the best work has been done, and is done today, by those who are mostly content with the language in which they were cradled.” “of all accomplishments, the ability to speak and write in many tongues is the poorest barometer of intellectual force, and the least satisfactory for happiness and practical use”

Shakespeare, drilled in modern gymnasia and universities, might have made a fair school-master, but would have kept the world out of Hamlet and Othello.”

Of the sciences multiplying everyday, but few are to be known by any one individual; he who has studied enough of the systematized knowledge of men, and looked far enough in various directions in which it leads to know which his tastes and environment best adapt him to follow, and who resolutely obeys his tastes, even in opposition to all teachers,(*) philosophers, and scholars, has won the battle of life” Mementos: Jabur, Edsono (um representante dos jornalistas e um dos pseudossociofiloepistemólogos)

the study of the art of thinking, of the philosophy of reasoning, in mathematics, poetry, science, literature, or language, is the best exercise for those who would gain this mental discipline”

O coach está para para o acadêmico de hoje como os sofistas estavam para os filósofos jônicos e eleatas da Grécia Antiga: é um sintoma da crise e insustentabilidade desse modo de conhecimento, mas tampouco chega a lugar algum. Prenuncia um tipo de Sócrates que vem aí?

In all spheres of thought, the most hospitable of intellects, the most generous in their welcome to new truths or dreams of truth are those who have once learned the great secret of life—how to forget.”

GUSMÓN: “Conscientious professors in colleges often-times exhort their graduates to keep up some of the studies of college life during the activity of years — if those graduates are ever to do much in the world, it is by doing precisely NOT what they are thus advised to do.”

ESPECIALISTA AGRAMATICAL: “The details of geography, of mathematics, and of languages, ancient as well as modern, of most of the sciences, ought, and fortunately are, forgotten almost as soon as learned, save by those who become life-experts in these special branches”

The systems of Froebel and Pestalozzi, and the philosophy of Rousseau in his Émile, analyzed and formulated in physiological language is, in substance, that it costs less force and is more natural and easy to get into a house through the doors, than to break down the walls, or come through the roof, or climb up from the cellar. Modern education is burglary; we force ideas into the brain through any other pathway and every other way except the doors and windows, and then we are astonished that they are unwelcome and so quickly expelled.”

they see with the mind’s eye, though we close their eyelids.”

Medicine has been taught in all our schools in a way the most unphilosophical, and despite all the modifications and improvements of late years, by bedside teaching and operations and demonstrations, the system of medical education is in need of reconstruction from the foundation; it begins where it should end; it feeds the tree through the leaves and branches instead of through the roots; physiology itself is taught unphysiologically; the conventional, hereditary, orthodox style is, for the student to take systematic text-books, go through them systematically from beginning to end, and attend systematic lectures, reserving study at the bedside for the middle and later years of his study; the didactic instruction coming first, and the practical instruction and individual observation coming last. Psychology and experience require that this should be reversed; the first years of the medical student’s life should be given to the bedside, the laboratory and dissecting room, and the principles of systematic instruction should be kept for the last years, and then used very sparingly. The human mind does not work systematically, and all new truths enter most easily and are best retained when they enter in psychological order. System in text-books is a tax on the nerve-force, costly both of time and of energy, and it is only by forgetting what has been taught them in the schools that men even attain eminence in the practice of medicine.

The first lesson and the first hour of medical study should be at the bedside of the sick man; before reading a book or hearing a lecture, or even knowing of the existence of a disease, the student should see the disease, and then, after having seen it and been instructed in reference to it, his reading will be a thousand-fold more profitable than it would had he read first and seen the case afterwards. Every practitioner with any power of analyzing his own mental operations knows that his reading of disease is always more intelligent after he has had a case, or while he has a case under treatment under his own eyes, and he knows also that all his reading of abstract, systematic books is of but little worth to him when he meets his first case, unless he re-read, and if he do so, he will find that he has forgotten all he has read before, and he will find, also, that he never understood what he read, and perhaps thoroughly and accurately recited on examination. By this method one shall learn more what is worth learning of medicine in one month, than now we learn in a year, under the common system, and what is learned will be in hand and usable, and will be obtained at incommensurably less cost of energy, as well as of time. So-called <systematic instruction> is the most extravagant form of instruction and is really no instruction, since the information which it professes to give does not enter the brain of the student, though the words in which it is expressed may be retained, and recited or written out on examination. I read the other day an opening lecture by a professor in one of our chief medical schools. I noticed that the professor apologized for being obliged to begin with what was dry and uninteresting, but stated that in a systematic course it was necessary to do so. It will not be his fault only, but rather the fault of the machinery of which he is one of the wheels, if the students who listen to and take notes of and worry over his lecture, never know what he means; 5 minutes study of a case of rheumatism or an inflamed joint, under the aid of an expert instructor, will give a person more knowledge of inflammation, in relation to the practice of medicine, than a year of lectures on that subject.

I make particular reference to medical education, not because it is the leading offender, but because it has made greater progress, perhaps, than almost any other kind of modern education.” and the time will come when men shall read with amusement and horror of intelligent, human, and responsible young men beginning a medical course by listening to systematic abstract lectures.” 140 anos e nada…

In theological seminaries, students are warned about preaching, or speaking, or lecturing during their 1st or 2nd year, and tied and chained down to lectures and homiletics, and theology and history” Nothing David (or Solomon) would be good at…

Aside from the study of language, which is a separate matter, the first day’s work in a theological school should be the writing or preparing a sermon, and homiletics should follow — not precede.”

All languages should be learned as we learn our own language — not through grammars or dictionaries, but through conversation and reading, the grammars and dictionaries being reserved for a more advanced stage of investigation and for reference, just as in the language in which we were born.”

I applaud the English because they boast of their ignorance of American geography; of what worth to them, of what worth to most of us whether Montana be in California, or Alaska be or be not the capital of Arizona?”

The Harvard professor who says that when students enter his room his desire is, not to find out what they knew, but what they did not know, ought to have been born in the 20th century, and possibly in the 30th, for his philosophy is so sound and so well grounded psychology that he cannot hope to have it either received or comprehended in his lifetime; and the innovation that Harvard has just promised, of having the teacher recite and the pupils ask the questions, is one of the few gleams of light in the great darkness by which this whole subject of education has been enveloped.”

EDSONO’S EXQUISITE CLASS OF TORTURE (2009): Lectures, except they be of a clinical sort [belo troca-trilho!], in which appeals are made to the senses, cost so much in nerve-force, in those that listen to them, that the world cannot much longer afford to indulge in them and the information they give is of a most unsatisfactory sort, since questioning, and interruption, and repetition, and reviewing are scarcely possible (…) The human brain is too feeble and limited an organ to catch a new idea when first stated, and if the idea be not new it is useless to state it.”

ServIce on dem and us

dire dim straits

a threat!

One of the pleasantest memories in my life, is that, during my medical education, I did not attend one lecture out of 12 — save those of a clinical sort — that were delivered (brilliant and able as some of them were) in the college where I studied, and my regret is that the poverty of medical literature at that time compelled me to attend even those. All the long lectures in my academical course at the college were useful to me — and I think were useful to all my classmates — only by enforcing the necessity, and inspiring the habit of enduring passively and patiently what we know to be in all respects painful and pernicious, providing we have no remedy.”

Original thinkers and discoverers, and writers are objects of increasing worry on the part of their relatives and friends lest they break down from overwork; whereas, it is not so much these great thinkers as the young school-girl or bank clerk that needs our sympathy.”

In England during the last summer, I attempted, without any human beings on whom to experiment, to explain some of the theories and philosophies of trance before an audience composed of the very best physiologists and psychologists of Europe, and with no hetter success than at home. If I had had but one out of the 20 or 30 cases on whom I have lately experimented, to illustrate and enforce my views, there would have been, I am sure, no difficulty in making clear not only the facts, but what is of chief importance, the interpretation of the facts.”

Modern competitive examinations are but slightly in advance of the system of recitations and lectures. They seem to have been invented by someone who wished to torture rather than benefit mankind, and whose philosophy was: whatever is disagreeable is useful, and that the temporary accumulation of facts is true wisdom, and an accurate measure of cerebral force.”

Knowing by heart is not knowing at all” Montaigne

the greatest fool may often pass the best examination [Exemplo contemporâneo: ‘Patrick Damascenos’ se tornando médicos diplomados por universidades federais – no mínimo os minions esquecem o que aprendem em História após 30 dias (‘conteúdo inútil’, etc.), embora apostilas do Sigma ou Galois nunca fossem lá muito confiáveis, para início de conversa…]; no wise man can always tell what he knows; ideas come by suggestion rather than by order; you must wait for their appearing at their own time and not at ours” “he who can always tell what he knows, knows little worth knowing.”

The first signs of ascension, as of declension, in nations are seen in women.”

palace cars and elevators and sewing machines are types of recent improvements that help to diminish the friction of modern life. Formerly [!!!] inventors increased the friction of our lives and made us nervous.” E que diabos eram palace cars?

The Germanization of America — by which I mean the introduction through very extensive immigration, of German habits and character — is a phenomenon which can now be observed, even by the dullest and nearest-sighted, in the large cities of the Northern portion of our country.” O nazismo foi o último a chegar.

tending to displace pernicious whiskey by less pernicious beer and wine, setting the example of coolness and calmness, which the nervously exhausted American very much needs.”

Tempos em que valia a pena se conservar: “We have been all English in our conservatism, a quality which has increased in proportion as we have gained anything of wealth or character or any manifestation of force whatsoever, that is worth preserving.” Hoje os americanos são azeitonas vencidas em conserva.

after such a vacation one needed a vacation.”

The nervousness of the third generation of Germans [?] is a fact that comes to my professional notice more and more.”

Not only are the <ha, ha’s> [RONALDINHO SOCCER!], of which so much [mundial] SPORT was once made, heard much less frequently than formerly in public meetings, but there is a positive ease and attractiveness to very many of the English speakers in and out of Parliament, in the pulpit and on the platform, that is thoroughly American” it was proved that if all the [congress] speakers continued to speak as often and as elaborately as they had been speaking, a number of years would be required before they could adjourn [se significa entrar em recesso ou perder a próxima eleição, deixo a critério do leitor de criptas!].”

the forces that renovate and save are mightier far than the forces that emasculate and destroy.”

Não sei se chamo o comentário de genial ou estúpido: “The American race, it is said, is dying out; but there is no American race. Americans are the union of European races and peoples, as lakes are fed by many streams, and can only disappear with the exhaustion of its sources. Europe must die before America. In sections of America, as in New England, and in large cities, the number of children to a family in certain classes is too small for increase of population.” Uma eterna sucessão de sins e nãos no melhor estilo Cleber Machado!

Felizmente o Deus Europeu-Ocidental morreu e a Ásia com seu rostinho de beldade imortal de 20 aninhos vem aí…

RICHARD III

“I, that am not shaped for sportive tricks,

Nor made to court an amorous looking-glass;

I, that am rudely stamp’d, and want love’s majesty

To strut before a wanton ambling nymph;

I, that am curtail’d of this fair proportion,

Cheated of feature by dissembling nature,

Deformed, unfinish’d, sent before my time

Into this breathing world, scarce half made up,

And that so lamely and unfashionable

That dogs bark at me as I halt by them;

Why, I, in this weak piping time of peace,

Have no delight to pass away the time,

Unless to spy my shadow in the sun

And descant on mine own deformity:

And therefore, since I cannot prove a lover,

To entertain these fair well-spoken days,

I am determined to prove a villain

And hate the idle pleasures of these days.

Plots have I laid, inductions dangerous,

By drunken prophecies, libels and dreams,

To set my brother Clarence and the king

In deadly hate the one against the other:

And if King Edward be as true and just

As I am subtle, false and treacherous,

This day should Clarence closely be mew’d up,

About a prophecy, which says that <G>

Of Edward’s heirs the murderer shall be.

Dive, thoughts, down to my soul: here

Clarence comes.

“Go, tread the path that thou shalt ne’er return.
Simple, plain Clarence! I do love thee so,
That I will shortly send thy soul to heaven,
If heaven will take the present at our hands.”

“Now, by Saint Paul, this news is bad indeed.
O, he hath kept an evil diet long,
And overmuch consumed his royal person:
‘Tis very grievous to be thought upon.
What, is he in his bed?”

“…if I fall not in my deep intent,
Clarence hath not another day to live:
Which done, God take King Edward to his mercy,
And leave the world for me to bustle in!
For then I’ll marry Warwick’s youngest daughter.
What though I kill’d her husband and her father?
The readiest way to make the wench amends
Is to become her husband and her father:
The which will I; not all so much for love
As for another secret close intent,
By marrying her which I must reach unto.
But yet I run before my horse to market:
Clarence still breathes; Edward still lives and reigns:
When they are gone, then must I count my gains.”

“If ever he have child, abortive be it,
Prodigious, and untimely brought to light,
Whose ugly and unnatural aspect
May fright the hopeful mother at the view;
And that be heir to his unhappiness!
If ever he have wife, let her he made
A miserable by the death of him
As I am made by my poor lord and thee!”

“Foul devil, for God’s sake, hence, and trouble us not;
For thou hast made the happy earth thy hell,
Fill’d it with cursing cries and deep exclaims.
If thou delight to view thy heinous deeds,
Behold this pattern of thy butcheries.
O, gentlemen, see, see! dead Henry’s wounds
Open their congeal’d mouths and bleed afresh!
Blush, Blush, thou lump of foul deformity;
For ‘tis thy presence that exhales this blood
From cold and empty veins, where no blood dwells;
Thy deed, inhuman and unnatural,
Provokes this deluge most unnatural.
O God, which this blood madest, revenge his death!
O earth, which this blood drink’st revenge his death!
Either heaven with lightning strike the
murderer dead,
Or earth, gape open wide and eat him quick,
As thou dost swallow up this good king’s blood
Which his hell-govern’d arm hath butchered!”

GLOUCESTER

I did not kill your husband.

LADY ANNE

Why, then he is alive.

GLOUCESTER

Nay, he is dead; and slain by Edward’s hand.

LADY ANNE

In thy foul throat thou liest: Queen Margaret saw
Thy murderous falchion smoking in his blood;
The which thou once didst bend against her breast,
But that thy brothers beat aside the point.

GLOUCESTER

I was provoked by her slanderous tongue,
which laid their guilt upon my guiltless shoulders.

LADY ANNE

Thou wast provoked by thy bloody mind.
Which never dreamt on aught but butcheries:
Didst thou not kill this king?

GLOUCESTER

I grant ye.

LADY ANNE

Dost grant me, hedgehog? then, God grant me too
Thou mayst be damned for that wicked deed!
O, he was gentle, mild, and virtuous!

GLOUCESTER

The fitter for the King of heaven, that hath him.

LADY ANNE

He is in heaven, where thou shalt never come.

GLOUCESTER

Let him thank me, that holp to send him thither;
For he was fitter for that place than earth.

LADY ANNE

And thou unfit for any place but hell.

GLOUCESTER

Yes, one place else, if you will hear me name it.

LADY ANNE

Some dungeon.

GLOUCESTER

Your bed-chamber.

LADY ANNE

Ill rest betide the chamber where thou liest!

GLOUCESTER

So will it, madam till I lie with you.

LADY ANNE

I hope so.

GLOUCESTER

I know so. But, gentle Lady Anne,
To leave this keen encounter of our wits,
And fall somewhat into a slower method,
Is not the causer of the timeless deaths
Of these Plantagenets, Henry and Edward,
As blameful as the executioner?

LADY ANNE

Thou art the cause, and most accursed effect.

GLOUCESTER

Your beauty was the cause of that effect;
Your beauty: which did haunt me in my sleep
To undertake the death of all the world,
So I might live one hour in your sweet bosom.

LADY ANNE

If I thought that, I tell thee, homicide,
These nails should rend that beauty from my cheeks.

GLOUCESTER

These eyes could never endure sweet beauty’s wreck;
You should not blemish it, if I stood by:
As all the world is cheered by the sun,
So I by that; it is my day, my life.

LADY ANNE

Black night o’ershade thy day, and death thy life!

GLOUCESTER

Curse not thyself, fair creature thou art both.

LADY ANNE

I would I were, to be revenged on thee.

GLOUCESTER

It is a quarrel most unnatural,
To be revenged on him that loveth you.

LADY ANNE

It is a quarrel just and reasonable,
To be revenged on him that slew my husband.

GLOUCESTER

He that bereft thee, lady, of thy husband,
Did it to help thee to a better husband.

LADY ANNE

His better doth not breathe upon the earth.

GLOUCESTER

He lives that loves thee better than he could.

LADY ANNE

Name him.

GLOUCESTER

Plantagenet.

LADY ANNE

Why, that was he.

GLOUCESTER

The selfsame name, but one of better nature.

LADY ANNE

Where is he?

GLOUCESTER

Here.

She spitteth at him

Why dost thou spit at me?

LADY ANNE

Would it were mortal poison, for thy sake!

GLOUCESTER

Never came poison from so sweet a place.

LADY ANNE

Never hung poison on a fouler toad.
Out of my sight! thou dost infect my eyes.

GLOUCESTER

Thine eyes, sweet lady, have infected mine.

LADY ANNE

Would they were basilisks, to strike thee dead!

GLOUCESTER

I would they were, that I might die at once;
For now they kill me with a living death.
Those eyes of thine from mine have drawn salt tears,
Shamed their aspect with store of childish drops:
These eyes that never shed remorseful tear,
No, when my father York and Edward wept,
To hear the piteous moan that Rutland made
When black-faced Clifford shook his sword at him;
Nor when thy warlike father, like a child,
Told the sad story of my father’s death,
And twenty times made pause to sob and weep,
That all the standers-by had wet their cheeks
Like trees bedash’d with rain: in that sad time
My manly eyes did scorn an humble tear;
And what these sorrows could not thence exhale,
Thy beauty hath, and made them blind with weeping.
I never sued to friend nor enemy;
My tongue could never learn sweet smoothing word;
But now thy beauty is proposed my fee,
My proud heart sues, and prompts my tongue to speak.

She looks scornfully at him

Teach not thy lips such scorn, for they were made
For kissing, lady, not for such contempt.
If thy revengeful heart cannot forgive,
Lo, here I lend thee this sharp-pointed sword;
Which if thou please to hide in this true bosom.
And let the soul forth that adoreth thee,
I lay it naked to the deadly stroke,
And humbly beg the death upon my knee.

He lays his breast open: she offers at it with his sword

Nay, do not pause; for I did kill King Henry,
But ‘twas thy beauty that provoked me.
Nay, now dispatch; ‘twas I that stabb’d young Edward,
But ‘twas thy heavenly face that set me on.

Here she lets fall the sword

Take up the sword again, or take up me.

LADY ANNE

Arise, dissembler: though I wish thy death,
I will not be the executioner.

GLOUCESTER

Then bid me kill myself, and I will do it.

LADY ANNE

I have already.

GLOUCESTER

Tush, that was in thy rage:
Speak it again, and, even with the word,
That hand, which, for thy love, did kill thy love,
Shall, for thy love, kill a far truer love;
To both their deaths thou shalt be accessary.

LADY ANNE

I would I knew thy heart.

GLOUCESTER

‘Tis figured in my tongue.

LADY ANNE

I fear me both are false.

GLOUCESTER

Then never man was true.

LADY ANNE

Well, well, put up your sword.

GLOUCESTER

Say, then, my peace is made.

LADY ANNE

That shall you know hereafter.

GLOUCESTER

But shall I live in hope?

LADY ANNE

All men, I hope, live so.

GLOUCESTER

Vouchsafe to wear this ring.

LADY ANNE

To take is not to give.

GLOUCESTER

Look, how this ring encompasseth finger.
Even so thy breast encloseth my poor heart;
Wear both of them, for both of them are thine.
And if thy poor devoted suppliant may
But beg one favour at thy gracious hand,
Thou dost confirm his happiness for ever.

LADY ANNE

What is it?

GLOUCESTER

That it would please thee leave these sad designs
To him that hath more cause to be a mourner,
And presently repair to Crosby Place;
Where, after I have solemnly interr’d
At Chertsey monastery this noble king,
And wet his grave with my repentant tears,
I will with all expedient duty see you:
For divers unknown reasons. I beseech you,
Grant me this boon.

LADY ANNE

With all my heart; and much it joys me too,
To see you are become so penitent.
Tressel and Berkeley, go along with me.

GLOUCESTER

Bid me farewell.

LADY ANNE

‘Tis more than you deserve;
But since you teach me how to flatter you,
Imagine I have said farewell already.

Exeunt LADY ANNE, TRESSEL, and BERKELEY”

“Was ever woman in this humour woo’d?
Was ever woman in this humour won?
I’ll have her; but I will not keep her long.
What! I, that kill’d her husband and his father,
To take her in her heart’s extremest hate,
With curses in her mouth, tears in her eyes,
The bleeding witness of her hatred by;
Having God, her conscience, and these bars
against me,
And I nothing to back my suit at all,
But the plain devil and dissembling looks,
And yet to win her, all the world to nothing!
Ha!
Hath she forgot already that brave prince,
Edward, her lord, whom I, some three months since,
Stabb’d in my angry mood at Tewksbury?
A sweeter and a lovelier gentleman,
Framed in the prodigality of nature,
Young, valiant, wise, and, no doubt, right royal,
The spacious world cannot again afford
And will she yet debase her eyes on me,
That cropp’d the golden prime of this sweet prince,
And made her widow to a woful bed?
On me, whose all not equals Edward’s moiety?
On me, that halt and am unshapen thus?
My dukedom to a beggarly denier,
I do mistake my person all this while:
Upon my life, she finds, although I cannot,
Myself to be a marvellous proper man.
I’ll be at charges for a looking-glass,
And entertain some score or two of tailors,
To study fashions to adorn my body:
Since I am crept in favour with myself,
Will maintain it with some little cost.
But first I’ll turn yon fellow in his grave;
And then return lamenting to my love.
Shine out, fair sun, till I have bought a glass,
That I may see my shadow as I pass.

Exit”

QUEEN ELIZABETH

Oh, he is young and his minority
Is put unto the trust of Richard Gloucester,
A man that loves not me, nor none of you.

RIVERS

Is it concluded that he shall be protector?

QUEEN ELIZABETH

It is determined, not concluded yet:
But so it must be, if the king miscarry.”

QUEEN ELIZABETH

God grant him health! Did you confer with him?

BUCKINGHAM

Madam, we did: he desires to make atonement
Betwixt the Duke of Gloucester and your brothers,
And betwixt them and my lord chamberlain;
And sent to warn them to his royal presence.”

GLOUCESTER

They do me wrong, and I will not endure it:
Who are they that complain unto the king,
That I, forsooth, am stern, and love them not?
By holy Paul, they love his grace but lightly
That fill his ears with such dissentious rumours.
Because I cannot flatter and speak fair,
Smile in men’s faces, smooth, deceive and cog,
Duck with French nods and apish courtesy,
I must be held a rancorous enemy.
Cannot a plain man live and think no harm,
But thus his simple truth must be abused
By silken, sly, insinuating Jacks?”

“Since every Jack became a gentleman
There’s many a gentle person made a Jack.”

QUEEN ELIZABETH

My Lord of Gloucester, I have too long borne
Your blunt upbraidings and your bitter scoffs:
By heaven, I will acquaint his majesty
With those gross taunts I often have endured.
I had rather be a country servant-maid
Than a great queen, with this condition,
To be thus taunted, scorn’d, and baited at:

Enter QUEEN MARGARET, behind

Small joy have I in being England’s queen.

QUEEN MARGARET

And lessen’d be that small, God, I beseech thee!
Thy honour, state and seat is due to me.”

GLOUCESTER

To fight on Edward’s party for the crown;
And for his meed, poor lord, he is mew’d up.
I would to God my heart were flint, like Edward’s;
Or Edward’s soft and pitiful, like mine
I am too childish-foolish for this world.

QUEEN MARGARET

Hie thee to hell for shame, and leave the world,
Thou cacodemon! there thy kingdom is.”

GLOUCESTER

Wert thou not banished on pain of death?

QUEEN MARGARET

I was; but I do find more pain in banishment
Than death can yield me here by my abode.
A husband and a son thou owest to me;
And thou a kingdom; all of you allegiance:
The sorrow that I have, by right is yours,
And all the pleasures you usurp are mine.

GLOUCESTER

The curse my noble father laid on thee,
When thou didst crown his warlike brows with paper
And with thy scorns drew’st rivers from his eyes,
And then, to dry them, gavest the duke a clout
Steep’d in the faultless blood of pretty Rutland–
His curses, then from bitterness of soul
Denounced against thee, are all fall’n upon thee;
And God, not we, hath plagued thy bloody deed.”

QUEEN MARGARET

Thy friends suspect for traitors while thou livest,
And take deep traitors for thy dearest friends!
No sleep close up that deadly eye of thine,
Unless it be whilst some tormenting dream
Affrights thee with a hell of ugly devils!
Thou elvish-mark’d, abortive, rooting hog!
Thou that wast seal’d in thy nativity
The slave of nature and the son of hell!
Thou slander of thy mother’s heavy womb!
Thou loathed issue of thy father’s loins!
Thou rag of honour! thou detested–

GLOUCESTER

Margaret.”

GLOUCESTER [monólogo]

I do the wrong, and first begin to brawl.
The secret mischiefs that I set abroach
I lay unto the grievous charge of others.
Clarence, whom I, indeed, have laid in darkness,
I do beweep to many simple gulls
Namely, to Hastings, Derby, Buckingham;
And say it is the queen and her allies
That stir the king against the duke my brother.
Now, they believe it; and withal whet me
To be revenged on Rivers, Vaughan, Grey:
But then I sigh; and, with a piece of scripture,
Tell them that God bids us do good for evil:
And thus I clothe my naked villany
With old odd ends stolen out of holy writ;
And seem a saint, when most I play the devil.

Enter two Murderers

But, soft! here come my executioners.
How now, my hardy, stout resolved mates!
Are you now going to dispatch this deed?”

CLARENCE

Lord, Lord! methought, what pain it was to drown!
What dreadful noise of waters in mine ears!
What ugly sights of death within mine eyes!
Methought I saw a thousand fearful wrecks;
Ten thousand men that fishes gnaw’d upon;
Wedges of gold, great anchors, heaps of pearl,
Inestimable stones, unvalued jewels,
All scatter’d in the bottom of the sea:
Some lay in dead men’s skulls; and, in those holes
Where eyes did once inhabit, there were crept,
As ‘twere in scorn of eyes, reflecting gems,
Which woo’d the slimy bottom of the deep,
And mock’d the dead bones that lay scatter’d by.

BRAKENBURY

Had you such leisure in the time of death
To gaze upon the secrets of the deep?”

CLARENCE

O, no, my dream was lengthen’d after life;
O, then began the tempest to my soul,
Who pass’d, methought, the melancholy flood,
With that grim ferryman which poets write of,
Unto the kingdom of perpetual night.
The first that there did greet my stranger soul,
Was my great father-in-law, renowned Warwick;
Who cried aloud, ‘What scourge for perjury
Can this dark monarchy afford false Clarence?’
And so he vanish’d: then came wandering by
A shadow like an angel, with bright hair
Dabbled in blood; and he squeak’d out aloud,
<Clarence is come; false, fleeting, perjured Clarence,
That stabb’d me in the field by Tewksbury;
Seize on him, Furies, take him to your torments!>
With that, methoughts, a legion of foul fiends
Environ’d me about, and howled in mine ears
Such hideous cries, that with the very noise
I trembling waked, and for a season after
Could not believe but that I was in hell,
Such terrible impression made the dream.”

CLARENCE

O Brakenbury, I have done those things,
Which now bear evidence against my soul,
For Edward’s sake; and see how he requites me!
O God! if my deep prayers cannot appease thee,
But thou wilt be avenged on my misdeeds,
Yet execute thy wrath in me alone,
O, spare my guiltless wife and my poor children!
I pray thee, gentle keeper, stay by me;
My soul is heavy, and I fain would sleep.

BRAKENBURY

I will, my lord: God give your grace good rest!

CLARENCE sleeps

Sorrow breaks seasons and reposing hours,
Makes the night morning, and the noon-tide night.
Princes have but their tides for their glories,
An outward honour for an inward toil;
And, for unfelt imagination,
They often feel a world of restless cares:
So that, betwixt their tides and low names,
There’s nothing differs but the outward fame.
Enter the two Murderers

“Second Murderer

What, shall we stab him as he sleeps?

First Murderer

No; then he will say ‘twas done cowardly, when he wakes.

Second Murderer

When he wakes! why, fool, he shall never wake till
the judgment-day.

First Murderer

Why, then he will say we stabbed him sleeping.

Second Murderer

The urging of that word ‘judgment’ hath bred a kind
of remorse in me.

First Murderer

What, art thou afraid?

Second Murderer

Not to kill him, having a warrant for it; but to be
damned for killing him, from which no warrant can defend us.

First Murderer

I thought thou hadst been resolute.

Second Murderer

So I am, to let him live.

First Murderer

Back to the Duke of Gloucester, tell him so.

Second Murderer

I pray thee, stay a while: I hope my holy humour
will change; ‘twas wont to hold me but while one
would tell twenty.

First Murderer

How dost thou feel thyself now?

Second Murderer

‘Faith, some certain dregs of conscience are yet
within me.

First Murderer

Remember our reward, when the deed is done.

Second Murderer

‘Zounds, he dies: I had forgot the reward.

First Murderer

Where is thy conscience now?

Second Murderer

In the Duke of Gloucester’s purse.

First Murderer

So when he opens his purse to give us our reward,
thy conscience flies out.

Second Murderer

Let it go; there’s few or none will entertain it.

First Murderer

How if it come to thee again?

Second Murderer

I’ll not meddle with it: it is a dangerous thing: it
makes a man a coward: a man cannot steal, but it
accuseth him; he cannot swear, but it cheques him;
he cannot lie with his neighbour’s wife, but it
detects him: ‘tis a blushing shamefast spirit that
mutinies in a man’s bosom; it fills one full of
obstacles: it made me once restore a purse of gold
that I found; it beggars any man that keeps it: it
is turned out of all towns and cities for a
dangerous thing; and every man that means to live
well endeavours to trust to himself and to live
without it.

First Murderer

‘Zounds, it is even now at my elbow, persuading me
not to kill the duke.

Second Murderer

Take the devil in thy mind, and relieve him not: he
would insinuate with thee but to make thee sigh.

First Murderer

Tut, I am strong-framed, he cannot prevail with me,
I warrant thee.

Second Murderer

Spoke like a tail fellow that respects his
reputation. Come, shall we to this gear?

First Murderer

Take him over the costard with the hilts of thy
sword, and then we will chop him in the malmsey-butt
in the next room.

Second Murderer

O excellent devise! make a sop of him.

First Murderer

Hark! he stirs: shall I strike?

Second Murderer

No, first let’s reason with him.

CLARENCE

Where art thou, keeper? give me a cup of wine.

Second murderer

You shall have wine enough, my lord, anon.

CLARENCE

In God’s name, what art thou?

Second Murderer

A man, as you are.

CLARENCE

But not, as I am, royal.

Second Murderer

Nor you, as we are, loyal.

CLARENCE

Thy voice is thunder, but thy looks are humble.

Second Murderer

My voice is now the king’s, my looks mine own.

CLARENCE

How darkly and how deadly dost thou speak!
Your eyes do menace me: why look you pale?
Who sent you hither? Wherefore do you come?

Both

To, to, to–

CLARENCE

To murder me?

Both

Ay, ay.

CLARENCE

You scarcely have the hearts to tell me so,
And therefore cannot have the hearts to do it.
Wherein, my friends, have I offended you?

First Murderer

Offended us you have not, but the king.

CLARENCE

I shall be reconciled to him again.

Second Murderer

Never, my lord; therefore prepare to die.

CLARENCE

Are you call’d forth from out a world of men
To slay the innocent? What is my offence?
Where are the evidence that do accuse me?
What lawful quest have given their verdict up
Unto the frowning judge? or who pronounced
The bitter sentence of poor Clarence’ death?
Before I be convict by course of law,
To threaten me with death is most unlawful.
I charge you, as you hope to have redemption
By Christ’s dear blood shed for our grievous sins,
That you depart and lay no hands on me
The deed you undertake is damnable.

First Murderer

What we will do, we do upon command.

Second Murderer

And he that hath commanded is the king.

CLARENCE

Erroneous vassal! the great King of kings
Hath in the tables of his law commanded
That thou shalt do no murder: and wilt thou, then,
Spurn at his edict and fulfil a man’s?
Take heed; for he holds vengeance in his hands,
To hurl upon their heads that break his law.

Second Murderer

And that same vengeance doth he hurl on thee,
For false forswearing and for murder too:
Thou didst receive the holy sacrament,
To fight in quarrel of the house of Lancaster.

First Murderer

And, like a traitor to the name of God,
Didst break that vow; and with thy treacherous blade
Unrip’dst the bowels of thy sovereign’s son.

Second Murderer

Whom thou wert sworn to cherish and defend.

First Murderer

How canst thou urge God’s dreadful law to us,
When thou hast broke it in so dear degree?

CLARENCE

Alas! for whose sake did I that ill deed?
For Edward, for my brother, for his sake: Why, sirs,
He sends ye not to murder me for this
For in this sin he is as deep as I.
If God will be revenged for this deed.
O, know you yet, he doth it publicly,
Take not the quarrel from his powerful arm;
He needs no indirect nor lawless course
To cut off those that have offended him.

First Murderer

Who made thee, then, a bloody minister,
When gallant-springing brave Plantagenet,
That princely novice, was struck dead by thee?

CLARENCE

My brother’s love, the devil, and my rage.

First Murderer

Thy brother’s love, our duty, and thy fault,
Provoke us hither now to slaughter thee.

CLARENCE

Oh, if you love my brother, hate not me;
I am his brother, and I love him well.
If you be hired for meed, go back again,
And I will send you to my brother Gloucester,
Who shall reward you better for my life
Than Edward will for tidings of my death.

Second Murderer

You are deceived, your brother Gloucester hates you.

CLARENCE

O, no, he loves me, and he holds me dear:
Go you to him from me.

Both

Ay, so we will.

CLARENCE

Tell him, when that our princely father York
Bless’d his three sons with his victorious arm,
And charged us from his soul to love each other,
He little thought of this divided friendship:
Bid Gloucester think of this, and he will weep.

First Murderer

Ay, millstones; as be lesson’d us to weep.

CLARENCE

O, do not slander him, for he is kind.

First Murderer

Right,
As snow in harvest. Thou deceivest thyself:
‘Tis he that sent us hither now to slaughter thee.

CLARENCE

It cannot be; for when I parted with him,
He hugg’d me in his arms, and swore, with sobs,
That he would labour my delivery.

Second Murderer

Why, so he doth, now he delivers thee
From this world’s thraldom to the joys of heaven.

First Murderer

Make peace with God, for you must die, my lord.

CLARENCE

Hast thou that holy feeling in thy soul,
To counsel me to make my peace with God,
And art thou yet to thy own soul so blind,
That thou wilt war with God by murdering me?
Ah, sirs, consider, he that set you on
To do this deed will hate you for the deed.

Second Murderer

What shall we do?

CLARENCE

Relent, and save your souls.

First Murderer

Relent! ‘tis cowardly and womanish.

CLARENCE

Not to relent is beastly, savage, devilish.
Which of you, if you were a prince’s son,
Being pent from liberty, as I am now,
if two such murderers as yourselves came to you,
Would not entreat for life?
My friend, I spy some pity in thy looks:
O, if thine eye be not a flatterer,
Come thou on my side, and entreat for me,
As you would beg, were you in my distress
A begging prince what beggar pities not?

Second Murderer

Look behind you, my lord.

First Murderer

Take that, and that: if all this will not do,

Stabs him

I’ll drown you in the malmsey-butt within.

Exit, with the body

Second Murderer

A bloody deed, and desperately dispatch’d!
How fain, like Pilate, would I wash my hands
Of this most grievous guilty murder done!

Re-enter First Murderer

First Murderer

How now! what mean’st thou, that thou help’st me not?
By heavens, the duke shall know how slack thou art!

Second Murderer

I would he knew that I had saved his brother!
Take thou the fee, and tell him what I say;
For I repent me that the duke is slain.

Exit

First Murderer

So do not I: go, coward as thou art.
Now must I hide his body in some hole,
Until the duke take order for his burial:And when I have my meed, I must away;
For this will out, and here I must not stay.”

“There wanteth now our brother Gloucester here,
To make the perfect period of this peace.”

“Dukes, earls, lords, gentlemen; indeed, of all.
I do not know that Englishman alive
With whom my soul is any jot at odds
More than the infant that is born to-night
I thank my God for my humility.”

QUEEN ELIZABETH

A holy day shall this be kept hereafter:
I would to God all strifes were well compounded.
My sovereign liege, I do beseech your majesty
To take our brother Clarence to your grace.

GLOUCESTER

Why, madam, have I offer’d love for this
To be so bouted in this royal presence?
Who knows not that the noble duke is dead?

They all start

You do him injury to scorn his corse.

RIVERS

Who knows not he is dead! who knows he is?

QUEEN ELIZABETH

All seeing heaven, what a world is this!

BUCKINGHAM

Look I so pale, Lord Dorset, as the rest?

DORSET

Ay, my good lord; and no one in this presence
But his red colour hath forsook his cheeks.

KING EDWARD IV

Is Clarence dead? the order was reversed.

GLOUCESTER

But he, poor soul, by your first order died,
And that a winged Mercury did bear:
Some tardy cripple bore the countermand,
That came too lag to see him buried.
God grant that some, less noble and less loyal,
Nearer in bloody thoughts, but not in blood,
Deserve not worse than wretched Clarence did,
And yet go current from suspicion!”

“Have a tongue to doom my brother’s death,
And shall the same give pardon to a slave?
My brother slew no man; his fault was thought,
And yet his punishment was cruel death.
Who sued to me for him? who, in my rage,
Kneel’d at my feet, and bade me be advised
Who spake of brotherhood? who spake of love?
Who told me how the poor soul did forsake
The mighty Warwick, and did fight for me?
Who told me, in the field by Tewksbury
When Oxford had me down, he rescued me,
And said, ‘Dear brother, live, and be a king’?
Who told me, when we both lay in the field
Frozen almost to death, how he did lap me
Even in his own garments, and gave himself,
All thin and naked, to the numb cold night?
All this from my remembrance brutish wrath
Sinfully pluck’d, and not a man of you
Had so much grace to put it in my mind.
But when your carters or your waiting-vassals
Have done a drunken slaughter, and defaced
The precious image of our dear Redeemer,
You straight are on your knees for pardon, pardon;
And I unjustly too, must grant it you
But for my brother not a man would speak,
Nor I, ungracious, speak unto myself
For him, poor soul. The proudest of you all
Have been beholding to him in his life;
Yet none of you would once plead for his life.
O God, I fear thy justice will take hold
On me, and you, and mine, and yours for this!
Come, Hastings, help me to my closet.
Oh, poor Clarence!”

Boy

Then, grandam, you conclude that he is dead.
The king my uncle is to blame for this:
God will revenge it; whom I will importune
With daily prayers all to that effect.

Girl

And so will I.

DUCHESS OF YORK [mãe de Gloucester e dos assassinados]

Peace, children, peace! the king doth love you well:
Incapable and shallow innocents,
You cannot guess who caused your father’s death.”

“Edward, my lord, your son, our king, is dead.
Why grow the branches now the root is wither’d?
Why wither not the leaves the sap being gone?
If you will live, lament; if die, be brief,
That our swift-winged souls may catch the king’s;
Or, like obedient subjects, follow him
To his new kingdom of perpetual rest.”

Thou art a widow; yet thou art a mother,
And hast the comfort of thy children left thee:
But death hath snatch’d my husband from mine arms,
And pluck’d two crutches from my feeble limbs,
Edward and Clarence. O, what cause have I,
Thine being but a moiety of my grief,
To overgo thy plaints and drown thy cries!

Boy

Good aunt, you wept not for our father’s death;
How can we aid you with our kindred tears?

Girl

Our fatherless distress was left unmoan’d;
Your widow-dolour likewise be unwept!

QUEEN ELIZABETH

Give me no help in lamentation;
I am not barren to bring forth complaints
All springs reduce their currents to mine eyes,
That I, being govern’d by the watery moon,
May send forth plenteous tears to drown the world!
Oh for my husband, for my dear lord Edward!

Children

Oh for our father, for our dear lord Clarence!

DUCHESS OF YORK

Alas for both, both mine, Edward and Clarence!”

RIVERS

Madam, bethink you, like a careful mother,
Of the young prince your son: send straight for him
Let him be crown’d; in him your comfort lives:
Drown desperate sorrow in dead Edward’s grave,
And plant your joys in living Edward’s throne.

Enter GLOUCESTER, BUCKINGHAM, DERBY, HASTINGS, and RATCLIFF”

BUCKINGHAM

My lord, whoever journeys to the Prince,
For God’s sake, let not us two be behind;
For, by the way, I’ll sort occasion,
As index to the story we late talk’d of,
To part the queen’s proud kindred from the king.

GLOUCESTER

My other self, my counsel’s consistory,
My oracle, my prophet! My dear cousin,
I, like a child, will go by thy direction.
Towards Ludlow then, for we’ll not stay behind.

Exeunt”

Third Citizen

Doth this news hold of good King Edward’s death?

Second Citizen

Ay, sir, it is too true; God help the while!

Third Citizen

Then, masters, look to see a troublous world.

First Citizen

No, no; by God’s good grace his son shall reign.

Third Citizen

Woe to the land that’s govern’d by a child!

Second Citizen

In him there is a hope of government,
That in his nonage council under him,
And in his full and ripen’d years himself,
No doubt, shall then and till then govern well.

First Citizen

So stood the state when Henry the Sixth
Was crown’d in Paris but at nine months old.

Third Citizen

Stood the state so? No, no, good friends, God wot;
For then this land was famously enrich’d
With politic grave counsel; then the king
Had virtuous uncles to protect his grace.”

“O, full of danger is the Duke of Gloucester!
And the queen’s sons and brothers haught and proud:
And were they to be ruled, and not to rule,
This sickly land might solace as before.”

When clouds appear, wise men put on their cloaks;
When great leaves fall, the winter is at hand;
When the sun sets, who doth not look for night?
Untimely storms make men expect a dearth.
All may be well; but, if God sort it so,
‘Tis more than we deserve, or I expect.”

“Quando surgem as nuvens, os prudentes trajam capas;

Quando caem todas as folhas, o inverno está bem próximo;

Quando o sol se põe, que tolo não esperaria a noite?

Tempestades inauditas trazem a estiagem.

Que tudo termine bem, Deus esteja conosco!,

Mas é mais do que merecemos…

Ou do que concebo eu!”

“Small herbs have grace, great weeds do grow apace”

DUCHESS OF YORK

Good faith, good faith, the saying did not hold
In him that did object the same to thee;
He was the wretched’st thing when he was young,
So long a-growing and so leisurely,
That, if this rule were true, he should be gracious”

YORK

Marry, they say my uncle grew so fast
That he could gnaw a crust at two hours old
‘Twas full two years ere I could get a tooth.
Grandam, this would have been a biting jest.

DUCHESS OF YORK

I pray thee, pretty York, who told thee this?

YORK

Grandam, his nurse.

DUCHESS OF YORK

His nurse! why, she was dead ere thou wert born.

YORK

If ‘twere not she, I cannot tell who told me.

QUEEN ELIZABETH

A parlous boy: go to, you are too shrewd.

ARCHBISHOP OF YORK

Good madam, be not angry with the child.

QUEEN ELIZABETH

Pitchers [jarros] have ears.”

DUCHESS OF YORK

Accursed and unquiet wrangling days,
How many of you have mine eyes beheld!
My husband lost his life to get the crown;
And often up and down my sons were toss’d,
For me to joy and weep their gain and loss:
And being seated, and domestic broils
Clean over-blown, themselves, the conquerors.
Make war upon themselves; blood against blood,
Self against self: O, preposterous
And frantic outrage, end thy damned spleen;
Or let me die, to look on death no more!”

“GLOUCESTER

(…)

Those uncles which you want were dangerous;
Your grace attended to their sugar’d words,
But look’d not on the poison of their hearts :
God keep you from them, and from such false friends!”

GLOUCESTER

Where it seems best unto your royal self.
If I may counsel you, some day or two
Your highness shall repose you at the Tower:
Then where you please, and shall be thought most fit
For your best health and recreation.

PRINCE EDWARD

I do not like the Tower, of any place.
Did Julius Caesar build that place, my lord?”

GLOUCESTER

[Aside] So wise so young, they say, do never
live long.”

YORK

What, will you go unto the Tower, my lord?

PRINCE EDWARD

My lord protector needs will have it so.

YORK

I shall not sleep in quiet at the Tower.

GLOUCESTER

Why, what should you fear?

YORK

Marry, my uncle Clarence’ angry ghost:
My grandam told me he was murdered there.

PRINCE EDWARD

I fear no uncles dead.

GLOUCESTER

Nor none that live, I hope.

PRINCE EDWARD

An if they live, I hope I need not fear.
But come, my lord; and with a heavy heart,
Thinking on them, go I unto the Tower.”

BUCKINGHAM

Now, my lord, what shall we do, if we perceive
Lord Hastings will not yield to our complots?

GLOUCESTER

Chop off his head, man; somewhat we will do:
And, look, when I am king, claim thou of me
The earldom of Hereford, and the moveables
Whereof the king my brother stood possess’d.”

“To fly the boar before the boar pursues,
Were to incense the boar to follow us
And make pursuit where he did mean no chase.”

GREY

Now Margaret’s curse is fall’n upon our heads,
For standing by when Richard stabb’d her son.

RIVERS

Then cursed she Hastings, then cursed she Buckingham,
Then cursed she Richard. O, remember, God
To hear her prayers for them, as now for us
And for my sister and her princely sons,
Be satisfied, dear God, with our true blood,
Which, as thou know’st, unjustly must be spilt.”

HASTINGS

His grace looks cheerfully and smooth to-day;
There’s some conceit or other likes him well,
When he doth bid good morrow with such a spirit.
I think there’s never a man in Christendom
That can less hide his love or hate than he;
For by his face straight shall you know his heart.”

GLOUCESTER

If I thou protector of this damned strumpet–
Tellest thou me of ‘ifs’? Thou art a traitor:
Off with his head! Now, by Saint Paul I swear,
I will not dine until I see the same.
Lovel and Ratcliff, look that it be done:
The rest, that love me, rise and follow me.”

“Stanley did dream the boar did raze his helm;
But I disdain’d it, and did scorn to fly:
Three times to-day my foot-cloth horse did stumble,
And startled, when he look’d upon the Tower,
As loath to bear me to the slaughter-house.
O, now I want the priest that spake to me:
I now repent I told the pursuivant
As ‘twere triumphing at mine enemies,
How they at Pomfret bloodily were butcher’d,
And I myself secure in grace and favour.
O Margaret, Margaret, now thy heavy curse
Is lighted on poor Hastings’ wretched head!”

HASTINGS

O momentary grace of mortal men,
Which we more hunt for than the grace of God!
Who builds his hopes in air of your good looks,
Lives like a drunken sailor on a mast,
Ready, with every nod, to tumble down
Into the fatal bowels of the deep.”

GLOUCESTER

So dear I loved the man, that I must weep.
I took him for the plainest harmless creature
That breathed upon this earth a Christian;
Made him my book wherein my soul recorded
The history of all her secret thoughts:
So smooth he daub’d his vice with show of virtue,
That, his apparent open guilt omitted,
I mean, his conversation with Shore’s wife,
He lived from all attainder of suspect.”

“Nay, for a need, thus far come near my person:
Tell them, when that my mother went with child
Of that unsatiate Edward, noble York
My princely father then had wars in France
And, by just computation of the time,
Found that the issue was not his begot;
Which well appeared in his lineaments,
Being nothing like the noble duke my father:
But touch this sparingly, as ‘twere far off,
Because you know, my lord, my mother lives.”

“Now will I in, to take some privy order,
To draw the brats of Clarence out of sight;
And to give notice, that no manner of person
At any time have recourse unto the princes.

Exit”

BUCKINGHAM

(…)

And when mine oratory grew to an end
I bid them that did love their country’s good
Cry ‘God save Richard, England’s royal king!’

GLOUCESTER

Ah! and did they so?

BUCKINGHAM

No, so God help me, they spake not a word;
But, like dumb statues or breathing stones,
Gazed each on other, and look’d deadly pale.”

“And some ten voices cried ‘God save King Richard!’
And thus I took the vantage of those few,
‘Thanks, gentle citizens and friends,’ quoth I;
‘This general applause and loving shout
Argues your wisdoms and your love to Richard’’

BUCKINGHAM

Ah, ha, my lord, this prince is not an Edward!
He is not lolling on a lewd day-bed,
But on his knees at meditation;
Not dallying with a brace of courtezans,
But meditating with two deep divines;
Not sleeping, to engross his idle body,
But praying, to enrich his watchful soul:
Happy were England, would this gracious prince
Take on himself the sovereignty thereof:
But, sure, I fear, we shall ne’er win him to it.”

BUCKINGHAM

Two props of virtue for a Christian prince,
To stay him from the fall of vanity:
And, see, a book of prayer in his hand,
True ornaments to know a holy man.
Famous Plantagenet, most gracious prince,
Lend favourable ears to our request;
And pardon us the interruption
Of thy devotion and right Christian zeal.”

BUCKINGHAM

My lord, this argues conscience in your grace;
But the respects thereof are nice and trivial,
All circumstances well considered.
You say that Edward is your brother’s son:
So say we too, but not by Edward’s wife;
For first he was contract to Lady Lucy–
Your mother lives a witness to that vow–
And afterward by substitute betroth’d
To Bona, sister to the King of France.
These both put by a poor petitioner,
A care-crazed mother of a many children,
A beauty-waning and distressed widow,
Even in the afternoon of her best days,
Made prize and purchase of his lustful eye,
Seduced the pitch and height of all his thoughts
To base declension and loathed bigamy
By her, in his unlawful bed, he got
This Edward, whom our manners term the prince.
More bitterly could I expostulate,
Save that, for reverence to some alive,
I give a sparing limit to my tongue.
Then, good my lord, take to your royal self
This proffer’d benefit of dignity;
If non to bless us and the land withal,
Yet to draw forth your noble ancestry
From the corruption of abusing times,
Unto a lineal true-derived course.”

“Yet whether you accept our suit or no,
Your brother’s son shall never reign our king;
But we will plant some other in the throne,
To the disgrace and downfall of your house:
And in this resolution here we leave you.–
Come, citizens: ‘zounds! I’ll entreat no more.”

GLOUCESTER

Cousin of Buckingham, and you sage, grave men,
Since you will buckle fortune on my back,
To bear her burthen, whether I will or no,
I must have patience to endure the load:
But if black scandal or foul-faced reproach
Attend the sequel of your imposition,
Your mere enforcement shall acquittance me
From all the impure blots and stains thereof;
For God he knows, and you may partly see,
How far I am from the desire thereof.

Lord Mayor

God bless your grace! we see it, and will say it.”

BUCKINGHAM

Then I salute you with this kingly title:
Long live Richard, England’s royal king!

Lord Mayor, Citizens

Amen.”

BRAKENBURY

Right well, dear madam. By your patience,
I may not suffer you to visit them;
The king hath straitly charged the contrary.

QUEEN ELIZABETH

The king! why, who’s that?

BRAKENBURY

I cry you mercy: I mean the lord protector.”

LORD STANLEY

(…)

To LADY ANNE

Come, madam, you must straight to Westminster,
There to be crowned Richard’s royal queen.

QUEEN ELIZABETH

O, cut my lace in sunder, that my pent heart
May have some scope to beat, or else I swoon
With this dead-killing news!

LADY ANNE

Despiteful tidings! O unpleasing news!”

DUCHESS OF YORK

O ill-dispersing wind of misery!
O my accursed womb, the bed of death!
A cockatrice hast thou hatch’d to the world,
Whose unavoided eye is murderous.”

LADY ANNE

And I in all unwillingness will go.
I would to God that the inclusive verge
Of golden metal that must round my brow
Were red-hot steel, to sear me to the brain!
Anointed let me be with deadly venom,
And die, ere men can say, God save the queen!”

“I to my grave, where peace and rest lie with me!
Eighty odd years of sorrow have I seen,
And each hour’s joy wrecked with a week of teen.”

KING RICHARD III

(…)

Thus high, by thy advice
And thy assistance, is King Richard seated;
But shall we wear these honours for a day?
Or shall they last, and we rejoice in them?”

KING RICHARD III

Ha! am I king? ‘tis so: but Edward lives.

BUCKINGHAM

True, noble prince.”

“Cousin, thou wert not wont to be so dull:
Shall I be plain? I wish the bastards dead;
And I would have it suddenly perform’d.
What sayest thou? speak suddenly; be brief.”

“The deep-revolving witty Buckingham
No more shall be the neighbour to my counsel:
Hath he so long held out with me untired,
And stops he now for breath?”

“Rumour it abroad
That Anne, my wife, is sick and like to die:
I will take order for her keeping close.
Inquire me out some mean-born gentleman,
Whom I will marry straight to Clarence’s daughter:
The boy is foolish, and I fear not him.
Look, how thou dream’st! I say again, give out
That Anne my wife is sick and like to die:
About it; for it stands me much upon,
To stop all hopes whose growth may damage me.”

I must be married to my brother’s daughter,
Or else my kingdom stands on brittle glass.
Murder her brothers, and then marry her!
Uncertain way of gain! But I am in
So far in blood that sin will pluck on sin:
Tear-falling pity dwells not in this eye.”

KING RICHARD III

As I remember, Henry the Sixth
Did prophesy that Richmond should be king,
When Richmond was a little peevish boy.
A king, perhaps, perhaps,–”

KING RICHARD III

Richmond! (…)

a bard of Ireland told me once
I should not live long after I saw Richmond.”

TYRREL

The tyrannous and bloody deed is done.
The most arch of piteous massacre
That ever yet this land was guilty of.”

“The son of Clarence have I pent up close;
His daughter meanly have I match’d in marriage;
The sons of Edward sleep in Abraham’s bosom,
And Anne my wife hath bid the world good night.
Now, for I know the Breton Richmond aims
At young Elizabeth, my brother’s daughter,
And, by that knot, looks proudly o’er the crown,
To her I go, a jolly thriving wooer.”

QUEEN ELIZABETH

O thou well skill’d in curses, stay awhile,
And teach me how to curse mine enemies!

QUEEN MARGARET

Forbear to sleep the nights, and fast the days;
Compare dead happiness with living woe;
Think that thy babes were fairer than they were,
And he that slew them fouler than he is:
Bettering thy loss makes the bad causer worse:
Revolving this will teach thee how to curse.”

KING RICHARD III

Who intercepts my expedition?

DUCHESS OF YORK

O, she that might have intercepted thee,
By strangling thee in her accursed womb
From all the slaughters, wretch, that thou hast done!”

“…Tell me, thou villain slave, where are my children?

DUCHESS OF YORK

Thou toad, thou toad, where is thy brother Clarence?
And little Ned Plantagenet, his son?

QUEEN ELIZABETH

Where is kind Hastings, Rivers, Vaughan, Grey?

KING RICHARD III

A flourish, trumpets! strike alarum, drums!
Let not the heavens hear these tell-tale women
Rail on the Lord’s enointed: strike, I say!

Flourish. Alarums

Either be patient, and entreat me fair,
Or with the clamorous report of war
Thus will I drown your exclamations.”

“Thou camest on earth to make the earth my hell.
A grievous burthen was thy birth to me;
Tetchy and wayward was thy infancy;
Thy school-days frightful, desperate, wild, and furious,
Thy prime of manhood daring, bold, and venturous,
Thy age confirm’d, proud, subdued, bloody,
treacherous,
More mild, but yet more harmful, kind in hatred:
What comfortable hour canst thou name,
That ever graced me in thy company?”

“…take with thee my most heavy curse;
Which, in the day of battle, tire thee more
Than all the complete armour that thou wear’st!
My prayers on the adverse party fight;
And there the little souls of Edward’s children
Whisper the spirits of thine enemies
And promise them success and victory.
Bloody thou art, bloody will be thy end;
Shame serves thy life and doth thy death attend.

Exit”

QUEEN ELIZABETH

I have no more sons of the royal blood
For thee to murder: for my daughters, Richard,
They shall be praying nuns, not weeping queens;
And therefore level not to hit their lives.

KING RICHARD III

You have a daughter call’d Elizabeth,
Virtuous and fair, royal and gracious.”

“No doubt the murderous knife was dull and blunt
Till it was whetted on thy stone-hard heart,
To revel in the entrails of my lambs.
But that still use of grief makes wild grief tame,
My tongue should to thy ears not name my boys
Till that my nails were anchor’d in thine eyes;
And I, in such a desperate bay of death,
Like a poor bark, of sails and tackling reft,
Rush all to pieces on thy rocky bosom.”

KING RICHARD III

Even all I have; yea, and myself and all,
Will I withal endow a child of thine;
So in the Lethe of thy angry soul
Thou drown the sad remembrance of those wrongs
Which thou supposest I have done to thee.”

“If I did take the kingdom from your sons,
To make amends, Ill give it to your daughter.
If I have kill’d the issue of your womb,
To quicken your increase, I will beget
Mine issue of your blood upon your daughter
A grandam’s name is little less in love
Than is the doting title of a mother;
They are as children but one step below,
Even of your mettle, of your very blood;
Of an one pain, save for a night of groans
Endured of her, for whom you bid like sorrow.
Your children were vexation to your youth,
But mine shall be a comfort to your age.
The loss you have is but a son being king,
And by that loss your daughter is made queen.
I cannot make you what amends I would,
Therefore accept such kindness as I can.
Dorset your son, that with a fearful soul
Leads discontented steps in foreign soil,
This fair alliance quickly shall call home
To high promotions and great dignity:
The king, that calls your beauteous daughter wife.
Familiarly shall call thy Dorset brother;
Again shall you be mother to a king,
And all the ruins of distressful times
Repair’d with double riches of content.”

QUEEN ELIZABETH

What were I best to say? her father’s brother
Would be her lord? or shall I say, her uncle?
Or, he that slew her brothers and her uncles?
Under what title shall I woo for thee,
That God, the law, my honour and her love,
Can make seem pleasing to her tender years?”

“Day, yield me not thy light; nor, night, thy rest!
Be opposite all planets of good luck
To my proceedings, if, with pure heart’s love,
Immaculate devotion, holy thoughts,
I tender not thy beauteous princely daughter!
In her consists my happiness and thine;
Without her, follows to this land and me,
To thee, herself, and many a Christian soul,
Death, desolation, ruin and decay:
It cannot be avoided but by this;
It will not be avoided but by this.”

QUEEN ELIZABETH

But thou didst kill my children.

KING RICHARD III

But in your daughter’s womb I bury them:
Where in that nest of spicery they shall breed
Selves of themselves, to your recomforture.

QUEEN ELIZABETH

Shall I go win my daughter to thy will?

KING RICHARD III

And be a happy mother by the deed.

QUEEN ELIZABETH

I go. Write to me very shortly.
And you shall understand from me her mind.

KING RICHARD III

Bear her my true love’s kiss; and so, farewell.

Exit QUEEN ELIZABETH

Relenting fool, and shallow, changing woman!”

DERBY

Sir Christopher, tell Richmond this from me:
That in the sty of this most bloody boar
My son George Stanley is frank’d up in hold:
If I revolt, off goes young George’s head;
The fear of that withholds my present aid.
But, tell me, where is princely Richmond now?

CHRISTOPHER

At Pembroke, or at Harford-west, in Wales.

DERBY

What men of name resort to him?

CHRISTOPHER

Sir Walter Herbert, a renowned soldier;
Sir Gilbert Talbot, Sir William Stanley;
Oxford, redoubted Pembroke, Sir James Blunt,
And Rice ap Thomas with a valiant crew;
And many more of noble fame and worth:
And towards London they do bend their course,
If by the way they be not fought withal.

DERBY

Return unto thy lord; commend me to him:
Tell him the queen hath heartily consented
He shall espouse Elizabeth her daughter.
These letters will resolve him of my mind. Farewell.

Exeunt”

BUCKINGHAM

Why, then All-Souls’ day is my body’s doomsday.
This is the day that, in King Edward’s time,
I wish’t might fall on me, when I was found
False to his children or his wife’s allies
This is the day wherein I wish’d to fall
By the false faith of him I trusted most;
This, this All-Souls’ day to my fearful soul
Is the determined respite of my wrongs:
That high All-Seer that I dallied with
Hath turn’d my feigned prayer on my head
And given in earnest what I begg’d in jest.
Thus doth he force the swords of wicked men
To turn their own points on their masters’ bosoms:
Now Margaret’s curse is fallen upon my head;
‘When he,’ quoth she, ‘shall split thy heart with sorrow,
Remember Margaret was a prophetess.’
Come, sirs, convey me to the block of shame;
Wrong hath but wrong, and blame the due of blame.”

“I did but dream.
O coward conscience, how dost thou afflict me!
The lights burn blue. It is now dead midnight.
Cold fearful drops stand on my trembling flesh.
What do I fear? myself? there’s none else by:
Richard loves Richard; that is, I am I.
Is there a murderer here? No. Yes, I am:
Then fly. What, from myself? Great reason why:
Lest I revenge. What, myself upon myself?
Alack. I love myself. Wherefore? for any good
That I myself have done unto myself?
O, no! alas, I rather hate myself
For hateful deeds committed by myself!
I am a villain: yet I lie. I am not.
Fool, of thyself speak well: fool, do not flatter.
My conscience hath a thousand several tongues,
And every tongue brings in a several tale,
And every tale condemns me for a villain.
Perjury, perjury, in the high’st degree
Murder, stem murder, in the direst degree;
All several sins, all used in each degree,
Throng to the bar, crying all, Guilty! guilty!
I shall despair. There is no creature loves me;
And if I die, no soul shall pity me:
Nay, wherefore should they, since that I myself
Find in myself no pity to myself?
Methought the souls of all that I had murder’d
Came to my tent; and every one did threat
To-morrow’s vengeance on the head of Richard.”

“By the apostle Paul, shadows to-night
Have struck more terror to the soul of Richard
Than can the substance of ten thousand soldiers
Armed in proof, and led by shallow Richmond.
It is not yet near day. Come, go with me;
Under our tents I’ll play the eaves-dropper [espia],
To see if any mean to shrink from me.”

“…Ten the clock there. Give me a calendar.
Who saw the sun to-day?

RATCLIFF

Not I, my lord.

KING RICHARD III

Then he disdains to shine; for by the book
He should have braved the east an hour ago
A black day will it be to somebody. Ratcliff!”

“Why, what is that to me
More than to Richmond? for the selfsame heaven
That frowns on me looks sadly upon him.”

CATESBY

Rescue, my Lord of Norfolk, rescue, rescue!
The king enacts more wonders than a man,
Daring an opposite to every danger:
His horse is slain, and all on foot he fights,
Seeking for Richmond in the throat of death.
Rescue, fair lord, or else the day is lost!

Alarums. Enter KING RICHARD III

KING RICHARD III

A horse! a horse! my kingdom for a horse!”

“Slave, I have set my life upon a cast,
And I will stand the hazard of the die:
I think there be six Richmonds in the field;
Five have I slain to-day instead of him.
A horse! a horse! my kingdom for a horse!”

SCENE V. Another part of the field.

Alarum. Enter KING RICHARD III and RICHMOND; they fight. KING RICHARD III is slain. Retreat and flourish. Re-enter RICHMOND, DERBY bearing the crown, with divers other Lords

RICHMOND

God and your arms be praised, victorious friends,
The day is ours, the bloody dog is dead.”

“And then, as we have ta’en the sacrament,
We will unite the white rose and the red:
Smile heaven upon this fair conjunction,
That long have frown’d upon their enmity!
What traitor hears me, and says not amen?
England hath long been mad, and scarr’d herself;
The brother blindly shed the brother’s blood,
The father rashly slaughter’d his own son,
The son, compell’d, been butcher to the sire:
All this divided York and Lancaster,
Divided in their dire division,
O, now, let Richmond and Elizabeth,
The true succeeders of each royal house,
By God’s fair ordinance conjoin together!
And let their heirs, God, if thy will be so.
Enrich the time to come with smooth-faced peace,
With smiling plenty and fair prosperous days!”

DANIEL DEFOE, JONATHAN SWIFT & UM PANORAMA DA LITERATURA INGLESA DOS XVIII // OU AINDA: UMA CRÍTICA DA CLASSE MÉDIA E, AINDA, ALGUMAS CONSIDERAÇÕES PROTOFEMINISTAS – Excertos traduzidos de um capítulo de livro de Terry Eagleton, crítico literário britânico, intitulado “Daniel Defoe and Jonathan Swift”

Os excertos giram em torno de dois autores contemporâneos, talvez os dois mais conhecidos hoje fora da Inglaterra em termos de literatura clássica daquele país – As Viagens de Gulliver veio ao mundo menos de quinze anos depois d’As Aventuras de Robinson Crusoe. São duas obras espantosamente similares e divergentes ao mesmo tempo. Duas narrativas, eu diria, de restless wanderers, viajantes incansáveis, espécies de maníacos tragicamente involuntários por navegar o mundo, sem propósito claro em mente…

Assim como o novelista e ex-condenado Jeffrey Archer, a carreira de Daniel Defoe abrangeu dívidas e alta política, a profissão de escritor e o cárcere. Cronologicamente falando, a arte imitou a vida com Defoe, uma vez que ele começou a escrever maior parte de suas obras enquanto ativista. De outro ângulo, entretanto, sua vida imitou, sim, a arte, pois sua trajetória foi sensacionalista o bastante para que pudesse figurar tranquilamente como o protagonista de suas próprias novelas tumultuadas. Em diversos momentos ele se dedicou ao comércio de vestuário, vinho e tabaco, foi dono de uma fábrica de tijolos, um político vira-casaca, uma espécie de espião do submundo e dos bastidores da política, agente secreto oficial do governo, espécie de diplomata e assessor do império britânico por meio de suas publicações jornalísticas (o que na época chamavam de publicista). Não bastasse todo esse cartel, tomou parte ativa em uma rebelião armada contra Jaime II, excursionou incansavelmente pela Europa e teve um papel crucial nas históricas negociações da unificação política dos reinos da Inglaterra e da Escócia.

Defoe faliu mais de uma vez, foi preso por débitos e até exposto no pelourinho num processo de sedição após publicar um panfleto satírico. Mesmo depois dessa experiência, ele viria a publicar um Hino ao Pelourinho (Hymn to the Pillory), bem como um Hino às Massas (Hymn to the Mob), em que, escandalosamente para a época, enaltecia o povo de extrato inferior por sua extrema lucidez de julgamento. É difícil imaginar outro grande autor inglês fazendo a mesma coisa na mesma época. Entre suas obras, está também Uma História Política do Demônio (A Political History of the Devil), um estudo sobre fantasmas, motivado pela Grande Praga de Londres, um surto da peste bubônica que eclodiu em 1665 e durou até o biblicamente simbólico ano seguinte. Defoe publicou também uma apologia irrestrita da instituição do casamento intitulada Indecência Conjugal; ou da Prostituição Marital. Um tratado sobre a Utilidade e a Inconveniência da Cama de Casal (Conjugal Lewdness; or Matrimonial Whoredom. A Treatise Concerning the Use and Abuse of the Marriage Bed). De modo algum ele seria um ‘novelista’ no puro senso da palavra (o próprio termo em voga criou sua acepção muito mais tarde), muito embora ele tenha atacado os ‘Romances’ (o gênero pré-novelístico por excelência), que para ele eram estórias que não informavam, apenas entretinham (e isso era necessariamente ruim naquela Inglaterra). Suas obras mais consagradas, Moll Flanders e Robinson Crusoe, são ‘novelas’ apenas em retrospecto. Defoe só escrevia aquilo com que pensava poder lucrar, sendo uma espécie de autor oportunista altamente prolífico que ‘atirava para todos os lados’ no mercado literário em ebulição de seus dias. A imprensa da época não discriminava entre gêneros, muito menos Defoe o faria.

Escrever, para Defoe, pois, não passava de commodity, como ele próprio retrata o mundo em suas ‘novelas’, que podemos resumir como ‘uma série de coisas a que se dá um preço de alto a baixo’. Tampouco era Defoe um ‘homem literário’: ao contrário, sua escrita é apressada, não pesa as palavras, e é transparente demais. Um ‘grau zero’ do estilo como se sempre fosse um jornalista ou historiador relatando fatos que tendia a apagar as próprias pegadas, negando seu próprio status de escritor e, portanto, de criador de realidades. O próprio Defoe batizava seu estilo de ‘cáustico’ ou ‘abjeto’ (mean), pretensamente desprovido de conscienciosidade e ignorante dos próprios artifícios. Na linguagem lacônica e um tanto caseira e pré-fabricada de Defoe sentimos, quase pela primeira vez na Literatura, o idioma dos comuns. Linguagem despida de textura e densidade, que permite ao leitor atravessar as palavras e ver as coisas de frente e em si mesmas. ‘O conhecimento das coisas, não das palavras, molda o erudito’, comentou Daniel Defoe no Compleat English Gentleman.¹ Uma profusão de aventuras e incidentes tem forçosamente de compensar as narrativas de Defoe, devido à crueza de textura. A suprema fertilidade de sua técnica é de fato impressionante. Defoe quase não se preocupa com o sentir das coisas, não mais do que um merceeiro passaria o dia acariciando e apalpando seus queijos, que são apenas seu ganha-pão. Defoe é o utilitarista-padrão: mais interessado no valor de troca dos objetos, não em suas qualidades sensuais ou sensórias. Há sem dúvida sensualidade em Defoe, principalmente nas obras de protagonistas mulheres (Moll Flanders e Roxana), mas não sensualismo, voluptuosidade. O realismo defoeniano é um realismo das coisas, enquanto que o de Richardson, por exemplo, é um das pessoas e sentimentos.”

¹ Uma espécie de enciclopédia de seu tempo, hoje de domínio público: https://ia800900.us.archive.org/29/items/compleatenglishg00deforich/compleatenglishg00deforich.pdf. Manuscritos descobertos no séc. XIX, tudo indica que fossem anotações diversas do escritor que ele tinha a intenção de completar e publicar.

Depois de um bom tempo exercendo seu ofício errático, pau-pra-toda-obra, escrevendo meramente para sobreviver, Defoe morreu enquanto se ocultava ou fugia de seus credores, autodeterminado, quem sabe, a acabar da mesma maneira que havia começado, ignorando outros estilos de vida. Foi um Dissidente (um imoralista) numa época em que ser Dissidente (assim, com letra maiúscula mesmo) era o mesmo que não possuir direitos civis. Como muitos de seus compatriotas novelistas, provinha da classe-média baixa econômica mas que possuía um status de pequena-burguesia, devido ao fator da formação intelectual: ilustrado, completou sua educação formal, cultivava ambições de ascensão e em seu meio os jovens eram politicamente articulados. No seu Journal of the Plague Year, ou Jornal do Ano da Peste, ele tripudia de algumas superstições do povão enquanto dá crédito irrestrito a outras. Muito parecido com William Blake em sua origem social, a rebeldia de Defoe afirmava a radical igualdade entre homens e mulheres, sustentando que o handicap feminino não passava do resultado de convenções. Desigualdades sexuais eram puramente culturais, nada naturais. O que distingue suas personagens Roxana e Moll Flanders, como outras tantas prostitutas vigaristas (seja as de luxo ou as que trabalhavam em espeluncas) e objetificadas da literatura de então, é que havia a afirmação premente, em todo o livro: elas não são propriedade de homem algum, elas não são de ninguém. No mundo de Defoe, nenhuma relação é permanente, aliás.”

Quando Moll Flanders diz levianamente que está grata por ter se livrado de seu filho na barriga, todo leitor de época se sentia escandalizado e ao mesmo tempo representado. Roxana é a comerciante-mulher, que embora seja a própria mercadoria é a dona do negócio: recusa o casamento, mesmo com um bom nobre, pois isso seria a ruína total de sua independência financeira. Ser esposa, para Roxana, era o mesmo que ser escrava. Os puritanos da geração de Defoe prezavam tanto a felicidade doméstica quanto o individualismo econômico; o único problema era a completa incompatibilidade de ambos. Sobretudo no caso das mulheres, que em quaisquer das esferas, isoladamente consideradas, estavam de todo modo alijadas da autonomia. Isso não significa que não fosse também uma questão masculina: na prática o individualismo econômico significava uma castração, compelindo à afabilidade, afeição, lealdade e companheirismo que o pai de família devia simbolizar.

Para complementar as credenciais progressistas de Defoe, ele militava pela absoluta soberania do plebeu, cujo direito de não se curvar a uma soberania injusta era, ele pregava, inalienável. Ele defendia os quakers e já então propagava os méritos de uma sociedade etnicamente miscigenada. Estrangeiros, segundo ele, eram um precioso acréscimo para a nação. Defoe troçava das mitologias chauvinistas dos bretões em poemas como O Inglês Puro-Sangue (The True-Born Englishman), cujos versos não hesitam em caracterizar a raça britânica justamente pela sua alta mestiçagem, desdenhando a noção aristocrática de pureza de sangue e ridicularizando a própria idéia-título do ‘puro-sangue’ com suprema ironia: mera ficção e, aliás, contradição. Não é irrelevante para essa polêmica (à época) que Guilherme III, sob quem Defoe exerceu seus trabalhos panfletários, fosse um holandês.”

“‘O que significam as capacidades naturais de qualquer criança sem a educação?’, o autor questiona no Compleat English Gentleman. Apenas tories absolutamente reacionários como Henry Fielding seriam capazes de enaltecer só o lado das qualidades inatas. Defoe não se mostrava pudico em politizar a questão: por trás dessa doutrina pedagógica ‘inocente’ havia toda uma tentativa de impedir as reformas pedagógico-sociais necessárias à Inglaterra, mediante o argumento dos talentos e habilidades congênitos e inalteráveis, que sempre legitimariam só as crianças da nobreza.”

O homem não é rico porque é honesto, mas é honesto porque é rico.

Essa é uma doutrina escandalosamente materialista avant-la-lettre, muito mais típica de um Bertolt Brecht do que de um ardoroso cristão dos Setecentos. Valores morais são o simples reflexo das condições materiais. Os ricos são apenas privilegiados o bastante para não terem de roubar. A moralidade é para aqueles que podem cultivá-la. Ideais calham muito bem a quem tem de sobra o que comer. Defoe também exigia leis que reconhecessem a condição dos miseráveis, ao invés da replicagem de um sistema que, em primeiro lugar, criou a miséria, para depois enforcar os miseráveis por serem eles o que são.”

Se a classe média preza tanto pelo eu autônomo na teoria, como pode ser que viole tanto essa doutrina na prática? Quer ela de fato a independência de todos os seus servos, assalariados que tem tão pouco poder de barganha que são menos do que cidadãos e pouco mais que escravos, sem falar dos colonizados além-mar? Não seria preferível para o pequeno-burguês, secretamente, é claro, preferir a liberdade irrestrita para si e a negativa para todos os competidores no mercado? A pequena-burguesia acredita na autodeterminação da população; mas ao mesmo tempo seus membros, homens e mulheres, não passam de títeres de forças econômicas impessoais. Os protagonistas de Defoe – Moll, Crusoe, Roxana, Coronel Jack – estão todos enleados nessa contradição. Se eles são, num sentido, forjadores de seu próprio destino, são, inegavelmente, vítimas desafortunadas da Providência, das leis do livre comércio e de seus próprios apetites.

No ensaio A Divindade da Troca (The Divinity of Trade), Defoe vê a Natureza como um tipo de capitalista, que – em sua infinita e inapreensível sabedoria burguesa – criou corpos capazes de flutuar sobre as águas, para que se pudessem construir navios e fomentar o comércio; criou as estrelas para nortear os navegadores; e até escavou rios no seio dos continentes que levam as embarcações direto para os recursos espoliáveis de outros países. Animais foram feitos dóceis e submissos deliberadamente para que o homem os explorasse como instrumentos e também como matéria-prima; linhas costeiras pedregosas foram criadas possibilitando a construção de fortalezas; matéria-prima conveniente foi distribuída ao longo de todo o planeta para que cada nação tivesse algo para vender e algo para comprar. Ainda que estejamos falando de um período muito aquém dos oceanos de Coca-Cola e da produção da necessidade quase que instintiva de calçar um Nike, a Natureza, para Defoe, não perdia e não perdeu nada de vista.”

Ora, se o homem era divinizado e elevado de forma sem precedentes nessa nova ordem social, temos em contrapartida a desvantagem de que qualquer indivíduo é indiferentemente intercambiável. Parceiros comerciais, sexuais ou maritais em Defoe vêm e vão, às vezes com tanta individualidade quanto numa coletividade de coelhos. Mas o maior conflito se dá entre as práticas amorais de uma cultura plutocêntrica e autocentrada em excesso e os altos ideais morais que essa própria cultura insiste em pregar.”

O escritor John Dunton, também do séc. XVIII, que teve ligeiro contato com Defoe, geria um jornal mensal devotado à prostituição, ou antes a denegrir a prática da prostituição ao invés de servir como Classificados do corpo humano alheio, o Night Walker: or, Evening Rambles in Search after Lewd Women (O Caminhante Noturno [/o Homem da Noite]: ou Aventuras do Entardecer em Busca de Mulheres Lascivas). Mesmo sendo vanguardista para a época, impossível que fosse um jornal politicamente correto para nossa concepção. A novela naturalista do século XIX procedia a expedientes parecidos, num meio-termo entre a objetificação degradante e gratuita da mulher da noite e a exposição de uma espécie de mal burguês: essas escapadelas maritais tinham um odor sensual e fatalista, havia um certo prazer mórbido no retrato de becos sujos e miseráveis em que todo moralista jogava a moral fora, e a mulher podia ser vista como a vítima de uma (des)ordem social; o século XIX foi cada vez mais inquirindo sobre esta questão de forma científica, menos sensacionalista, mas Defoe não chegou a testemunhar essa evolução.”

A família, para um puritano devoto como Defoe, é um domínio sagrado, como sugere seu panfleto de costumes O Instrutor da Família (The Family Instructor). Ao mesmo tempo, ele advoga, sem constrangimento, que tais laços podem e devem ser cortados quando se tornam mais maus do que bons: quando forem sinônimo de uma degradação do casamento, quando forem sinônimo do aviltamento das relações sangüíneas, acaba sendo a conduta mais autêntica e virtuosa o corte destes laços, ignorados ou tratados como meros meios para outros fins.”

Em Crusoe, é como se o colonialista frio e moderado desse o tom do enredo. Ele (o narrador em primeira pessoa) também é aquele que dá o matiz exótico ao objeto (cenário) em questão, isto é, sua colônia involuntária no meio dos trópicos. Essas narrativas sem adornos e sem culpa de consciência não chegam a destruir os vasos capilares do decoro ideológico da Inglaterra pós-elizabetana, mas são um primeiro desnudamento de sua lógica imperialista. Não são narrativas de uma veia polêmica, ainda, são mais cândidas que outra coisa. Não há sentimentalismo, porque sentimentos não podem ser quantificados, e nesta literatura em que só o que é quantificável é real eles ainda não aparecem. Nesta atmosfera intermediária de amoralismo, o relato é fidedignamente subversivo ou subversivamente fidedigno espelhando a existência social daquelas décadas; as relações são o que são, não o que deveram ser. Não obstante, a pura e simples descrição do fato e da matéria bruta não deixa de ser explosivo em si mesmo, ou conducente à explosão da dinamite próxima. O realismo se torna de grau em grau Política.”

Moll Flanders termina sua história contando como prosperou e chegou ao sucesso após uma vida de crimes, mas acrescentando, com alguma urgência, em tom de confissão compungida, que ela se arrepende sinceramente de todo seu passado. A moral da história – o crime não compensa – é explicitamente contradita pelo final efetivo. O contraste é tão desconcertante que alguns críticos passaram seu tempo imaginando se Defoe foi ou não abertamente sarcástico. Quando o náufrago Crusoe considera a inutilidade de todo o ouro que conseguira trazer do navio até a ilha, mas, no fim, decide levá-lo consigo assim mesmo – isso é uma tirada irônica do autor ou humor involuntário? Quando Crusoe, testemunhando Sexta-Feira que escapa de seus ex-irmãos canibais para não ser comido, reflete acerca da utilidade de levar consigo um servo, sendo este acréscimo a seu ‘patrimônio’ coincidente com um suposto chamado da Providência para salvar um desgraçado, seria essa harmonia entre interesse capitalista e revelação divina um artifício do autor para produzir o riso do leitor? Defoe está ou não depreciando sua heroína Roxana quando ela declara que deve manter seu próprio dinheiro separado do de seu amo e marido, para não misturar seus ganhos ilícitos com o suado e honesto capital do cônjuge?”

Porque se essa for a opinião fática do Defoe o Realista literário e Materialista radical, dificilmente seria também o credo de sua metade dissidente e religiosa. Defoe o Cristão estabelece a moral e a religião como realidades autossuficientes e inquestionáveis. Mas autossuficientes e inquestionáveis até que ponto, cara pálida? Se esses valores transcendentais existem numa esfera própria, eles pouco impactam na conduta efetiva dos personagens. Moll sente pena de uma de suas vítimas mesmo durante o ato de roubá-la, mas sua tristeza nada impede na concretização do ato. Como o Coronel Jack, que pode muito bem ser um perfeito larápio e viver com a consciência remoída. No século XVIII, piedade e nariz empinado não eram estranhos um ao outro. E não se distinguiam muito bem. Ou a moral falha porque está muito mesclada com o mundo material, ou falha porque está, justamente, dele apartada. Defoe reconhece esta última condição quando escreve: ‘Lágrimas e orações não fazem revoluções / Não derrubam tiranos, não quebram grilhões’.”

A moralidade em Defoe é geralmente retrospectiva. Uma vez que você tenha pilhado, pode finalmente ser penitente. Como demonstra o narrador de si próprio em Crusoe, é só ao escrever seus atos que você pode julgar sua vida como um todo. Enquanto tenta entender a própria vida ao vivo, você anda ocupado demais mantendo o nariz acima do nível d’água para levar a termo qualquer reflexão, quanto mais sentir remorso. Só há dois desfechos: continuar ou se afogar. Correr e ainda assim não ganhar nenhum terreno, continuar na condição em que já estava; ou simplesmente perecer. Não é fácil se embrenhar em considerações metafísicas enquanto a necessidade imediata é fugir dos credores ou lidar com seu atual marido. A narrativa sempre ziguezagueia num passo tão frenético que um evento vai borrando o outro num contínuo. Nenhum da horda de personagens da novela Moll Flanders chega a ter um intercurso mais que casual com a heroína – a interação típica entre cosmopolitas, mas impensável na comunidade rural dos livros de uma Jane Austen ou George Eliot. As figuras que interagem com Moll entram e saem de sua vida e das páginas de sua vida como meros transeuntes cruzam pela Piccadilly. A pergunta mais premente na cabeça do leitor que atravessa este processo metonímico virtualmente infindável é: o que vem a seguir? Sentido e relato não são concordes.

Assim como um parvo, diz-se, é incapaz de mascar chiclete e caminhar ao mesmo tempo, os personagens de Defoe só podem agir ou refletir, mas nunca os dois juntos. A ação moralmente informada é rara; a reflexão moral só vem bem depois. É essa a razão da coexistência de dois formatos literários consideravelmente diferentes sob a capa do Robinson Crusoe: a história aventuresca e a autobiografia espiritual. De todos os personagens de Daniel Defoe, Crusoe é o mais feliz na combinação dessa ação racional com a reflexão moral. Mas isso se dá, em parte, por causa das circunstâncias excepcionais: Crusoe está sozinho numa ilha, tem algum trabalho a executar, mas também muito tempo ocioso para meditar.”

Como a vida é terrivelmente material mas também uma sucessão ininterrupta e agitada de eventos, cada ato parece simultaneamente vívido e sem substância. Essas novelas são tornadas artigos fascinantes pelo processo de criação em si mesmo, pelo valor de troca, e não pelo valor de uso (intenção final). Não há uma lógica conclusiva para a narrativa de Defoe, é uma narrativa pura e simples. Não há um momento do livro em que o fechamento seria mais natural que em qualquer outro fecho de capítulo. O eu-lírico apenas prossegue acumulando narrativa(s), como um capitalista jamais cessa de acumular capital. Um pedaço de enredo, como um investimento particular, acaba levando ao próximo. Crusoe mal volta à terra natal e já está em alto-mar de novo, ainda acumulando aventuras, que serão obviamente narradas e contarão com o desejo do eu-lírico de formular um propósito. A sede de narrativa é insaciável. A acumulação de capital parece ter um propósito, mas é pura aparência. Secretamente, pelo menos no mercantilismo defoeniano, subjaz a verdade de que o único fim da acumulação é a própria acumulação. Uma novela de Defoe não tem o epílogo de facto, como têm as novelas de Fielding. Todos os finais são arbitrários, e todos poderiam ser apenas novos começos, se se quisesse.¹ O viajante inquieto só repousa a fim de se preparar para a próxima viagem…”

¹ A maior prova disso é que AS AVENTURAS DE ROBINSON CRUSOE são continuadas pelas NOVAS AVENTURAS DE ROBINSON CRUSOE, por mim panoramicamente traduzidas em https://seclusao.art.blog/2018/08/25/as-novas-aventuras-de-robinson-crusoe-sendo-a-segunda-e-ultima-parte-de-sua-vida-e-contando-as-estranhezas-e-surpresas-de-suas-viagens-por-tres-cantos-do-mundo-versao-co/. O autor escolheu convenientemente que o primeiro livro é a primeira metade da vida de Crusoe, e depois veio a 2ª. Mas nada o impediria de estabelecer uma tripartição, ou uma divisão em 4. Exemplos literários correlatos é o que não falta!

E devido a essa narratividade pura poucos eventos em Defoe são fruídos com densidade o bastante para deixar uma impressão permanente ou recordação intacta. Personagens como Moll ou Roxana vivem premidas pelo pão de cada dia, contando apenas consigo próprias, flutuando conforme a maré, dançando conforme a dança, apostando tudo ou nada a cada momento. Em perfeita adaptação com o mundo altamente mutante que encontram, esses sujeitos sincopam seu ritmo. Ou seja: não há um núcleo central da personalidade, tampouco, porque memórias e aprendizados estarão sempre se acumulando sem uma síntese definitiva. A identidade é uma improvisação, um cálculo, uma estratégia de passagem. Trata-se de uma cadeia de reações possíveis para cada ação promovida pelo ambiente. Os impulsos humanos – avareza, egoísmo, autopreservação – são fixos e imutáveis, é verdade, mas para sempre alcançá-los cada personagem é obrigado a ser flexível a ponto de se converter em metamorfo. A perspicácia e cautela necessárias para lidar com o tema da epidemia no Jornal do Ano da Peste seriam versões escandalosas e exageradas das próprias exigências do cotidiano para o leitor-padrão.”

O Coronel Jack se casa quatro vezes, a despeito de poder passar tranqüilamente sem mulheres, e rompe com uma delas porque ela dilapida sua fortuna. Na veia mais hobbesiana e pragmática possível, o interesse burguês é muito mais fundamental que a o altruísmo iluminista. Só mesmo caçar para comer seria mais premente que caçar para lucrar.”

O eu-narrador deslinda a trama com ar imperturbável que sugere um presente consideravelmente distanciado do passado em que o eu-narrado aparece (anos de intervalo, com toda a certeza). Este último não se pode dar ao luxo dessa parcimônia glacial do primeiro. Há uma tensão constante entre as duas dimensões temporais.”

Embora ‘Deus não esteja morto’, pareceria, a essa altura, para o bom Protestante, que Ele se recolheu deste mundo. Essa é uma das razões para as especulações de Defoe sobre a Providência ecoarem com um quê de vacilação. Ora, lembra o autor em The True-Born Englishman: ‘O que vem da Providência, consiste no interesse de todo o universo.’. Se tomarmos a frase ao pé-da-letra, estariam justificados o estupro, o assassinato, o canibalismo. Cada um desses pecados teria seu papel na manutenção da harmonia do cosmo. Defoe declama piamente no prefácio do Crusoe como devemos honrar a sabedoria da Providência e suas obras, ‘sucedam como sucedam’; mas o protagonista, muito longe de se resignar ao destino, é hiperativo e incansável na tentativa de forjar seus próprios porquês.”

De nossa perspectiva, se Crusoe devera ser punido, não seria por ter vivido a primeira metade da vida como um pagão, mas sim por vender Xury, seu servo, à escravidão brutal e por gerir uma plantation no Brasil movida a mais trabalho escravo. Na verdade, quando naufraga, ele estava justamente prestes a comprar mais mão-de-obra escrava numa expedição clandestina para abastecer seu engenho. Mas nem o personagem nem o autor conseguiriam ver tais ações como pecaminosas, ainda que Crusoe se indigne com as condições do imperialismo espanhol nas Américas. Como com o narrador de O Coração das Trevas de Joseph Conrad, o ‘imperialismo dos outros’ é sempre mais repreensível que o nosso. O Coronel Jack defende o castigo físico dos escravos, e não há qualquer indicativo de que Defoe pensasse diferente. A liberdade era para os ingleses, não para os africanos! Como zeloso puritano, Defoe decerto cria que os ‘selvagens’ estavam condenados irremediavelmente à bestialidade nesta terra, e ao tormento eterno no além. Seu radicalismo (progressismo de vanguarda na política) tinha seus claros limites.”

A Natureza não é mais um livro aberto, mas um texto obscuro a ser decifrado com imensa dificuldade. O Protestante tateia avidamente no escuro atrás de qualquer signo ambíguo de sua própria salvação. Mas o fato é que, num universo secularizado, tudo está entregue à própria contingência, isto é, nada no mundo visível quer dizer alguma coisa nem dá qualquer pista de nada.”

Signos, nesse mundo dessacralizado, como também numa profusão de textos modernistas (dali a duzentos anos), são a priori e incontornavelmente ambíguos. Essa é a razão por que o crente nunca pode parar de trabalhar, porque se não se tem certeza da salvação agora, cada dia seu de labuta pode ser o fiel na balança para a absolvição no dia do Juízo. Ilhas tropicais, é bom lembrar, estão geralmente associadas à indolência, mas não no caso de Crusoe. Ele está sempre ocupado em melhorar e estender sua ‘propriedade paradisíaca’. ‘Eu realmente gostaria de um estábulo maior.’ Tanto é assim que o próprio Crusoe responde a si mesmo, vendo o quão ilógica é essa vontade: ‘Para quê?’. Crusoe não é um capitalista de verdade – é só um de mentirinha, sem mão-de-obra como Outro, sem mercado, consumidor, produto nem competidores ou divisão de trabalho. Mas, ainda que não tenha concorrentes, ele age como se os tivesse…”

A ilha de Crusoe é menos a utopia da pequena-burguesia numa dimensão paralela do que uma versão piorada ou distópica da situação pequeno-burguesa inglesa. Ou, antes, o que uma classe sofre no mundo, Crusoe sofre na sua ilha. Sua solidão é uma versão exponencial da solidão de todos os indivíduos da cidade moderna. Sendo absolutamente dependente num sentido, é verdade que é possível ser absolutamente autodeterminado num outro. Quão enérgico e engenhoso pode-se chegar a ser na administração de seu próprio império seria um índice de sua inclusão entre a minoria eleita. Assim poder-se-ia resolver o conflito aparente entre ser o joguete de Deus e, pelo próprio suor, pregar, no melhor estilo puritano, que o sucesso no trabalho é o melhor sinal que o mundo poderá dar de que você achou favor aos olhos da divindade.”

UM PROBLEMA ISENTO DE QUAISQUER “MEMÓRIAS PÓSTUMAS”: “A narrativa está sempre precariamente ancorada no presente que é um fio de navalha, em que a sorte do personagem é indefinida e o futuro absolutamente duvidoso; mas tudo isso é contado com um tal desassossego e afastamento, fechando um passado, que empresta certa autoridade. Supomos então que o narrador sobreviveu, nem que apenas pelo fato de estar agora, com a maior das calmas, falando de si mesmo na época em que corria perigo. Ansiedade e segurança se acoplam perfeitamente na escrita.”

E assim Defoe continua a insistir que sua estória existe com um fundo moral, embora isso seja obviamente uma farsa. O realismo, no sentido de uma atenção dedicada ao mundo material por si e nele mesmo, não está ainda avalizado neste período literário, embora se encontre em visível ascensão; embora a sociedade em que ele cresce e ascende demande-o cada vez mais, e encoraje-o mais que à moralidade, pois as pessoas passam a acreditar somente no que podem cheirar, tocar, provar. Samuel Johnson argumentava que o fato de um personagem ou evento ser fidedigno à natureza não servia de desculpa para incluí-lo num enredo ou obra de arte. Na teoria, essa colisão entre o moral e o real pode ser resolvida por justificações do autor, no estilo tabloide. Quão mais gráfica e escandalosa uma estória, mais fácil transmitir uma mensagem, poder-se-ia astuciosamente argumentar. Defoe escreve no prefácio para Roxana: ‘Se há qualquer parte da história, no relato de uma má ação, que pareça descrever as coisas de forma muito direta e impudica, todo o cuidado imaginável foi tomado para purificar o trabalho de todas as indecências e indecorosidades…’. Essas linhas, ao que parece, produziam, já naquele tempo, o mesmo efeito que hoje os avisos solenes, prévios a um audiovisual, acerca da presença de sexo e violência nos minutos que seguem: são só um chamariz a mais para a audiência (‘o que é proibido é melhor’), engenhosamente acrescentado pelo autor, sem transgredir nenhuma regra.

A novela realista se torna popular num marco da história em que o cotidiano banal começa a se tornar atrativo por si mesmo. Essa mescla do ordinário e exótico é a síntese do trabalho de Defoe. Parte do prazer extraído da leitura emana da excitação que deriva do puramente mundano. Defoe viveu em tempos turbulentos, e ninguém pode dizer que ele não viveu esses tempos intensa e perigosamente. Em épocas revolucionárias, a teatralidade adquire maior importância, mesmo fora da arte. Como a nova arte imita a vida, o teatral tem de despontar também na arte. Por último: Defoe também sabia o que era sofrer uma bancarrota, ser trancafiado nas galés e embarcar em expedições insólitas das quais não se sabia se se ia voltar.”

James Joyce, que, para nossa surpresa, enumera Defoe entre seus autores prediletos, escreveu do Crusoe que ele encarna ‘todo o espírito anglo-saxão … a independência masculina; a crueldade inconsciente; a persistência; a inteligência devagar mas eficaz; a apatia sexual; a religiosidade prática e metódica; a taciturnidade calculada’. Poderíamos dizer que essa é exatamente a visão que Sexta-Feira tem de Crusoe: Joyce é um súdito colonial da coroa britânica, e com certeza, quando alistado para a guerra, combateu muitos soldados com este perfil, em Dublin. Um ou dois assim são vistos no Ulisses. A passagem acima, que Joyce redigiu enquanto no exílio italiano, tem ainda algo do genial vislumbre do caráter imperial, que era meio-compatível com Joyce (colonizado, mas ao mesmo tempo da elite, ou seja, colonizador pela ótica dos subalternos, das massas irlandesas): outro materialista, o irlandês devia apreciar a fisicalidade intensa de Defoe. Uma vez o dublinense se descreveu como tendo a mente de um verdureiro. Defoe, por sua vez, destila em sua obra o autêntico espírito de uma nação de sapateiros.”

Quem é ele, ele se pergunta no mesmo estilo hipocondríaco do devoto liberal ou do pós-modernista, para interferir com a prática do canibalismo num povo primitivo? Mas o fato de maior parte da novela tratar justamente do know-how do homem civilizado e prático empresta lentes peculiares à tese do universalismo. A racionalidade ortodoxa, no sentido de ensinar quando o importante é se preservar, como não cair de um precipício, por exemplo, é mais plausível como universalidade de todos os povos do que qualquer outro tipo de raciocínio utilitário. É por isso que Sexta-Feira pode ajudar Crusoe nos trabalhos braçais muito antes de poder falar Inglês, porque a lógica do mundo material é comum a todas as culturas. Pedras caem em ambas (a ocidental e a autótocne) porque obedecem à gravidade, seja no Haiti ou em Huddersfield; quatro mãos aplicadas sempre trabalham melhor que duas para carregar objetos pesados; alguém pode jogar-lhe uma corda para evitar que você se afogue ainda que no sistema cultural de quem jogou a corda a água simbolize algo totalmente diferente do que você aprendeu em seus dogmas e valores. A racionalidade prática é, nesse aspecto, o epítome do Anglicismo: se o gentleman chegar de fato aos céus, está na cara que examinarão o lugar com bastante escrutínio, para tirarem o melhor proveito do que ele terá a oferecer. Mas eis um tipo de comportamento, senão onipresente, pelo menos atemporal.”

Não é escassa a literatura da tradição do comerciante-criminoso e vice-versa, dos vigaristas de John Gay em A Ópera do Vagabundo ao Vautrin de Balzac e o Mr. Merdle de Dickens. Como Bertolt Brecht disse: ‘O que é roubar um banco comparado com abrir um?’. A cozinha dos ladrões é a companhia de comércio sem a ideologia da respeitabilidade. O Coronel Jack começa como um ladrão de meia-tigela e termina como um bem-sucedido capitalista na Virgínia, sem nenhum talento a mais do que quando começara sua ‘carreira’. O mestre do crime de Fielding, Jonathan Wild, é um retrato satírico do político Robert Walpole, que funde em sua figura o mundo da alta política e da contravenção chic ou do colarinho branco. A idéia de ir parar numa terra virgem e construir do zero uma civilização deve constituir uma das fantasias mais intensas para a classe média. Sem dúvida isso ajuda a justificar a permanência de Crusoe como clássico sem o menor sinal de que vá ceder o posto tão cedo.”

Ao desafiar a influência do gentil-homem e da nobreza, era necessário, para lograr êxito, desacreditar o poder da antiguidade no processo. Defoe é sardônico sobre a obsessão aristocrática com a pureza de sangue e o matrimônio: Por que – ele pergunta no Compleat English Gentleman – os nobres permitem de boa vontade que amas-de-leite plebéias amamentem seus filhos, já que, ironicamente, elas lhes estão repassando, conforme a própria teoria eugênica dos sangue-azul, um sangue degenerado? N’O Inglês Puro-Sangue ele admite explicitamente a irrelevância do tópico da ancestralidade. Destarte, é uma fantasia muito benquista pelo homem branco imaginar-se num território virgem, poder desfazer toda a história até suas origens, recomeçando-a melhor, já com a ‘classe média’ no poder.”

O MESMO EFEITO DA ESTÁTUA DA LIBERDADE NO PRIMEIRO LONGA DE PLANETA DOS MACACOS: “O que nos deixa derrotados em Robinson Crusoe, e um dos momentos mais insólitos da literatura universal, é aquela misteriosa única pegada encontrada na areia.”

Ainda assim, Robinson Crusoe segue muitos anos sem preocupações em sua ilha; O Gulliver, de Jonathan Swift, não tem a mesma sorte.”

Como Defoe, Swift escreve numa prosa prática, transparente, célere, com o perdão do trocadilho,¹ sem muita textura ou ressonância. Seu texto não possui, como um crítico bem apontou, recessos ou raízes e ramificações mil. Há uma alarmante ausência de metáforas. É um estilo da superfície, sem muita profundeza nem interioridade.² Swift desconfia de toda reflexividade textual como de toda metafísica ou especulação abstrusa. Essa indiferença à verdade filosófica nos conta algo sobre o clero do século XVIII, do qual Swift fazia parte. É quase como um ladrão de banco ser indiferente ao dinheiro. Um aristocrata tory da época de Swift era necessariamente um amador, não um especialista: acreditava num certo número necessário de princípios básicos que o século do Iluminismo vinha tornar acessíveis a todos. Swift não poderia entender, ainda que sobrevivesse a sua época, a era da prosa de gêneros especializada. As Viagens de Gulliver não são, no sentido hodierno da palavra, uma obra ‘literária’, e não teriam saído do papel se o autor pensasse em escrever uma novela. A linguagem de Swift, como a de Defoe, tenta apagar a si mesma desdobrando o real no real, e na época não havia palavra para batizar esse zero fictício. As palavras perdem o valor e privilegiam os objetos, que ocupam o centro do palco. A própria linguagem ideal que o autor imaginou – uma língua que abole a língua – é a transparência do modelo. Isso acontece entre os laputianos gramáticos que, ao invés de conversar entre si usando as cordas vocais e convenções aceitas unicamente pelo seu povo, carregam para um e outro lado uma sacola com diversos objetos que eventualmente precisem comunicar, e vão-nos mostrando ao interlocutor, desempenhando uma caricata ‘linguagem de Babel’. A verdade é que a linguagem humana é este saco, mas sem fundo e diáfano, uma forma de levar o mundo conosco sem carregar peso algum (ainda que com a inconveniência de cada povo ter a sua língua). Os Houyhnhnms evitam elaborações verbais e mantêm uma perfeita correspondência entre palavra e coisa – a tal ponto, aliás, que são incapazes de mentir. Perfeitos como são em sua representação do mundo, se houvera dentre eles um escritor, seria este capaz de produzir uma bela novela realista!”

¹ Swift em inglês é ágil, veloz.

² Sublinhei em verde porque não posso estar minimamente de acordo com Eagleton neste trecho!

As Viagens de Gulliver, muito ao contrário do Crusoe, é um libelo do ‘anti-progressismo’ em que um protagonista amnesíaco parece não aprender nada ou aprender muito pouco em cada uma de suas jornadas; assim que ele parte para uma nova aventura, volta a aparentar ser uma tabula rasa. De fato as viagens de Gulliver são mais entrecortadas que as de Crusoe. Estas, mesmo que possam ser segmentadas pelo autor em capítulos e tomos, parecem bem-costuradas narrativamente. Gulliver vive literalmente episódios desconexos um do outro. Não em vão fala-se d’As Viagens como a suprema paródia do livro de viagem, gênero literário¹ usualmente otimista e cheio de ‘lições e aprendizados’.”

¹ O leitor de minha tradução deve ter percebido que em seu afã descritivo o crítico costuma se contradizer bastante. Aqui, vemos que na verdade o europeu do século XVIII contemporâneo de Defoe e Swift já reconhecia, senão o realismo ou o romantismo, pelo menos certos gêneros literários…

O tory Swift, ao contrário do whiggiano Defoe,¹ nada quer ter a ver com indivíduos. Sua única descrição é a de uma verdade universal, enquanto Gulliver e os personagens secundários servem apenas como meios para ilustrá-la. Gulliver não passa de um dispositivo narrativo bem conveniente, não é um ‘personagem’ propriamente dito, não é possível se identificar resolutamente com ele. Crusoe é bem diferente e vai crescendo em nossa concepção conforme avançam as páginas. Gulliver apenas ‘pede’ que observemos e julguemos os lugares que ele visitou.”

¹ Ver tabelas no final.

Os lilliputianos são cruéis, gananciosos e sectários, como se fossem réplicas em miniatura dos políticos de Westminster. Esse retrato da raça humana como corrupta e imutável é típica do conservantismo anglicano swiftiano. Ele desdenha a possibilidade de qualquer progresso dramático e mudança revolucionária para melhor no campo social, e logo se vê que a tal verdade universal que ele tenta mostrar é uma só: já conhecíamos essa verdade antes de viajarmos. Deus nos deu tudo de que precisávamos logo de partida, e velejar a esmo tropeçando em criaturinhas de uma polegada ou esbarrando no tornozelo de gigantes pouco importa nesse quadro. Talvez todos os indivíduos exóticos que encontramos não passem de distrações válidas unicamente para o momento.”

Mas só sabemos que os lilliputianos são diferentes de nós porque conservamos com eles a identidade do conceito de tamanho. Chamamos tarântulas de tarântulas e não de humanos porque usamos a linguagem, pela qual descrevemos e nomeamos as tarântulas, e elas não. Se as tarântulas fossem tão alienígenas assim à espécie humana, não seria esse o caso. Não se pode falar da diferença sem a comparação e o diagnóstico de algo igual. Os únicos diferentes reais de nós são aqueles que passam invisíveis, de cócoras, bem diante do nosso nariz, e que jamais percebemos.”

A escrita de uma viagem é, mais do que antes, como se vê, um gênero muito duvidoso para um tory se engajar naquele tempo. De um livro como esse esperam-se sobretudo novidades, que são indesejáveis para os conservadores. Defoe escreveu cedo na vida um Ensaio sobre Projetos (Essay on Projects), que era o perfeito contraponto dessa ânsia de imobilismo do tory: exibia grande entusiasmo quanto às reformas técnico-científicas. Crusoe rejeita implicitamente, ao querer sair de casa, os valores benquistos pela aristocracia (o lar, a coroa, a nação). Toda essa sede mercantilista de Crusoe não parece mais do que a pornografia do progresso para muitas mentes mais estreitas ou mais clássicas. Fantasiar com monstros desconhecidos é indecoroso; tudo que não é verossímil só pode nublar nosso julgamento. Crusoe encoraja caprichos tolos e emoções extravagantes que são péssimos para a lei e a ordem. Fora que, quanto mais viaja, mais Crusoe se sente um relativista cultural, algo igualmente insidioso para um tory. Pode ser perigoso para o viajante chegar a se tornar tão sonhador e apegado a coisas estrangeiras, a ponto de bradar, por exemplo, que se deparou com selvagens que, eles sim, são felizes e vivem em harmonia com a natureza. Isso seria negar o pecado original e inspirar nas gentes utopias cândidas e pueris, coisa contra a qual se deve lutar. Além do mais, de que vale, se o aventureiro acabaria sempre voltando ao solo inglês, muito longe dessas tais utopias inúteis? As alusões anti-monárquicas e anti-establishment de tais peregrinações pareceram, em todos os tempos, muito grosseiras aos tories.

Muito do debate em curso no século XVIII girava em torno de um consenso político que pudesse superar as terríveis dissensões do século anterior, mais animoso, de guerras civis e de queda e restauração da monarquia. Swift se referiu em vida a Defoe com toda a prepotência de um patrício: ‘Aquele sujeito que foi exibido no pelourinho – esqueci o nome dele…’. Mas não podemos deixar de observar em Swift o mesmo entusiasmo pelo comércio que em Defoe. Swift é irlandês e a Irlanda estava sempre em posição mais combalida que a metrópole. Além disso, Swift também não dava crédito à teoria da pureza da raça, e gostava de se ver como um burguês em que tudo de seus antepassados já se diluíra há muito tempo, a ponto de torná-lo irreconhecível para estes. Swift foi um tory, mas um tory radical, um exemplar do animal oximorônico que muito enriqueceu a cultura inglesa se formos considerar outros escritores tories e radicais ao mesmo tempo, como William Cobbett e John Ruskin.

Defoe era ‘progressista’ e rebelde, mas chegava a delírios de esnobeza episódicos tão altaneiros que chegou a alterar seu nome de Daniel Foe para Daniel De Foe, e que hoje escrevemos Defoe. A conjunção ‘de’ implica origem nobre. Swift e autores como Pope viam a sociedade britânica como desprovida desde os primórdios de mérito congênito, uma raça venal que além de tudo foi muito corrompida pelo poder e pelo dinheiro com o passar do tempo, atributos que eles viam encarnados pelo odioso primeiro-ministro whig Robert Walpole (já comentado). Mas Defoe não deixava, idem, de criticar a obsessão cega e sem qualquer pano de fundo pelo dinheiro.

Poderíamos ver os mesmos entrelaçamentos complementares e/ou contraditórios em pares como Henry Fielding e Samuel Richardson. Richardson era filho de um carpinteiro de Derbyshire, não completou a escola básica e se tornou impressor, enquanto Fielding era um egresso do colégio de Eton repleto de conexões com figurões. Richardson tinha estilo agressivo, era um campeão das classes médias, e afirmava que o ofício do comércio ‘é infinitamente de mais conseqüência, e devia ser muito mais estimulado que qualquer outra posição ou ranking social, sobretudo as dos títulos inócuos típicas da Inglaterra’. E não obstante Richardson se punha estupefato diante da quantidade de personalidades decrépitas e mesquinhas das novelas de Fielding: chegou a afirmar que se não soubesse quem Fielding era, pensaria se tratar de um cavalariço. Fielding rebatia. Disse uma vez que Pamela de Richardson encorajava jovens aristocratas a se casarem com as camareiras de suas mamães, e que não conseguiria por nada pôr-se no lugar dos nobres de suas novelas. Com efeito, em vez de casar-se com a empregada de sua mãe, Henry Fielding casou-se, no segundo matrimônio, com a empregada de sua primeira esposa!” HA-HA-HA-HA!

O nome Gulliver está muito bem-dado, por sinal.¹ Sua credulidade é o mais das vezes seu ponto fraco. Ele de alguma forma se sente pateticamente (afetivamente) ligado a pessoas que conhece em suas viagens um tanto rápido demais, sem muito senso crítico. Em Lilliput, vangloria-se de seu título de Nardac, espécie de análogo a cavaleiro da rainha, lança-se como líder militar, envolve-se em intrigas as mais pavonescas, tendo de enfrentar um processo para provar que não cometeu fornicação com uma lilliputiana. A impossibilidade física do ato sexual entre seu corpo descomunal perto de um lilliputiano não parece ter passado ora alguma pela cabeça do réu que tentava, afobado, se defender. (…) De herói a vilão da pátria, Gulliver parece ser sempre o mesmo, tanto num pólo como noutro, levado unicamente pelas circunstâncias e vilezas dos outros personagens.”

¹ “Gullible” é bobo, ingênuo.

E a despeito do inconveniente de ser um inglês e de explorar terras tão remotas, ele é um ótimo aluno de idiomas, aprendendo rápido a falar como os nativos em suas jornadas, apesar de que isso soa mais como recurso estilístico para justificar a comunicação de Gulliver nessas praças do que uma característica que Swift gostaria de ter dado sem mais a seu protagonista. Se essa parte da personalidade de Gulliver se mostra tão expedita para se adaptar aos costumes forasteiros, sua outra metade é a de um inglês chauvinista cabeça oca, complacente e cego quanto aos defeitos dos seus conterrâneos. Seu relato visivelmente galante da história do reino britânico ao rei Brobdingnag logo produz um efeito contrário ao esperado, horrorizando-o, a ponto deste rei considerar que, se Gulliver fala mesmo a verdade, todos os bretões não passam de uns vermes.”

Ou ele é um imperialista ou um relativista cultural, sem meio-termo. A questão é que a novela serve para demonstrar a secreta afinidade entre os dois extremos. Não há tanta diferença entre defender acriticamente a Coroa inglesa ou o poder soberano de Lilliput. Se devêramos simpatizar com outras culturas, se isso fosse um imperativo, então por que não simpatizar com a própria civilização? Se devemos desculpar os canibais, por que não as grandes multinacionais que poluem a atmosfera? Se todas as culturas estão em ordem e seguem na supracitada ‘harmonia cósmica’, então na realidade não há nada o quê escolher, e nenhum indício de que os brobdingnaguianos seriam superiores, em qualquer sentido, aos ingleses.”

Swift com certeza conhecia o que era preconceito: difamador dos bons, satirista vituperador altamente imaginativo e polemista de vocação, capaz de ignorar a verdade só para terminar com a razão, acabava inadvertidamente por levantar a bandeira da intolerância política e religiosa. Se a sátira de Fielding é genial, a de Swift é tão brusca e amalucada em contraste que parece até semipatológica. Ele era misógino, autoritário, troçador da canalha, e acima de tudo um representante da Irlanda de seu tempo, isto é, a colônia inglesa que era quase um pária e que, caso houvesse uma corrida entre todos os povos colonizados pela Inglaterra decerto não chegaria em primeiro lugar, no juízo inglês. Eis aqui, outra vez, o incômodo e involuntário papel ambíguo de diplomata e capataz, exercido, como vimos, por James Joyce.”

Enfim, o que As Viagens parece querer ensinar? Que você deveria apreciar todas as culturas humanas em sua parcialidade, sem ser um Gulliver, mas também sem recair no niilismo. Homens e mulheres precisam cultivar ideais, como as virtudes plácidas e racionais dos Houyhnhnms, caso queiram ser mais do que reles materialistas. O problema é deixar que esses ideais exerçam um papel predatório na própria consciência. Isso seria ser tão ao revés de um materialista que representaria a negação do próprio corpo, tão ruim quanto a falta de ideais. Não se deve chegar a esse ponto, o de perceber-se com desgosto por causa do Outro. Não se conformar inteiramente com o próprio corpo, é certo, mas nem por isso chegar a reprimi-lo.”

Se não fosse por terem 4 patas e cauda, os Houyhnhnms talvez não estivessem totalmente fora do lugar num salão janeausteniano, tomando chá com Mr. Knightley. Mas convenhamos que este é o ponto: os Houyhnhnms são menos uma possibilidade humana do que, como um ensaísta bem colocou, uma impossibilidade insultante.”

Qual perspectiva é a correta? Difícil responder na época em que inventaram o microscópio. Quão distanciado ou aproximado dos fatos você precisa estar para vê-lo ‘direito’? O que se vê na lente de um microscópio é a verdade ou a distorção da verdade?”

Os novelistas do Dezoito, tendo estabelecido uma distância do mundo romanesco, estão a maior parte das vezes cônscios de que a crença no fato nu e cru é tão mítica quando o próprio ideal do Romance. A novela, sendo a forma literária que é, nada pode fazer no tocante a decidir qual perspectiva é mais ‘verdadeira’, embora exerça um importante papel na definição do ‘mundo real’. Gulliver é um empiricista ultimado ou crente no fato bruto, um ponto de vista que anda de mãos dadas com seu interesse ‘progressista’ nos problemas técnicos e mecânicos (em contraponto ao próprio Swift, parecendo-se, desse ângulo, uma reedição de Crusoe). Ele é um exemplar do ‘novo homem’: cabeça-dura, ou melhor, obstinado, pragmático, aposta todas as suas fichas na religião chamada progresso, é fascinado por esquemas quiméricos e projetos de reforma social, ansioso por galardoar sua narrativa em primeira pessoa com mapas e provas documentais que para ele atestam a veracidade absoluta do que observa nas nações forasteiras.”

Mas Swift não nos brinda com uma solução ao dilema fundamental. Ele desaparece de vista e dá espaço para o leitor lidar com as contradições postas. É da natureza de sua sátira deixar de propor qualquer resposta construtiva – em parte porque um gentleman não carece de se envolver com esses problemas, ninharia de pequeno-burguês; e em parte porque qualquer solução logo se denunciaria como parcial.”

Swift e Defoe escrevem ambos numa sociedade que acredita na verdade, na razão e na justiça teóricas, mas cuja conduta contumaz se tornou tão falsa, injusta e irracional que já não é possível acreditar em nenhum indivíduo na prática.”

Se ‘primitivos’ como os irlandeses (que não são civilizados como os ingleses, ainda) e os aborígenes do Pacífico Sul forem realmente Yahoos, parece que isso justificaria o imperialismo britânico. Mas se os Yahoos são a humanidade inteira, então os colonizadores são (metaforicamente) bestiais e vivem também cobertos de fezes, o que suprime qualquer direito de soberania que tanto se arrogam. Por esta via, o colonialismo se torna uma questão de um bando de selvagens hipócritas liderando outros selvagens, não-hipócritas. Os mestres seriam tão imprestáveis quanto os súditos – uma opinião que, n’O Coração das Trevas, desautoriza qualquer colonialismo mas confirma, ainda, alguns de seus preconceitos (sim, os nativos são mesmo uns imprestáveis).”

Yahhoo boss (Quintanilla)
O chefe Yahoo

No fim, o que cavalos pensam de nós não é o suficiente para nos rotular como Houyhnhnms nem Yahoos – exceto, talvez, para os antepassados dos nobres anglo-irlandeses, para quem era regra amar um cavalo mais do que seus entes queridos, quem dirá o povão.”

comparison gulliver vs crusoe
comparison swift vs defoe

HENRY VI

BEDFORD

Que o firmamento escureça, suma o dia e assome a noite!

Que os cometas, trazendo as mudanças do tempo e da matéria,

Ostentem e baloucem suas fogosas cabeleiras de cristal pelos céus,

E que com elas chicoteiem as estrelas de mau augúrio que revolvem o vácuo

E consentiram na morte de Henrique!

Rei Henrique Quinto, muito bom para viver tempo demais!

Nunca a Inglaterra entrou em luto tão cruento.”

EXETER

(…)

What! shall we curse the planets of mishap

That plotted thus our glory’s overthrow?

Or shall we think the subtle-witted French

Conjurers and sorcerers, that afraid of him

By magic verses have contrived his end?”

GLOUCESTER

The church! where is it? Had not churchmen pray’d,

His thread of life had not so soon decay’d:

None do you like but an effeminate prince,

Whom, like a school-boy, you may over-awe.”

Henry the Fifth, thy ghost I invocate:

Prosper this realm, keep it from civil broils,

Combat with adverse planets in the heavens!

A for more glorious star thy soul will make

Than Julius Caesar or bright–”

Awake, awake, English nobility!

Let not sloth dim your horrors new-begot:

Cropp’d are the flower-de-luces in your arms;

Of England’s coat one half is cut away.”

BEDFORD

Me they concern; Regent I am of France.

Give me my steeled coat. I’ll fight for France.

Away with these disgraceful wailing robes!

Wounds will I lend the French instead of eyes,

To weep their intermissive miseries.”

The Dauphin Charlies is crowned king of Rheims;

The Bastard of Orleans with him is join’d;

Reignier, Duke of Anjou, doth take his part;

The Duke of Alencon flieth to his side.”

If Sir John Faltolfe had not play’d the coward:

He, being in the vaward, placed behind

With purpose to relieve and follow them,

Cowardly fled, not having struck one stroke.”

Is Talbot slain? then I will slay myself,

For living idly here in pomp and ease,

Whilst such a worthy leader, wanting aid,

Unto his dastard foemen is betray’d.

O no, he lives; but is took prisoner,

And Lord Scales with him and Lord Hungerford:

Most of the rest slaughter’d or took likewise.”

I’ll hale the Dauphin headlong from his throne:

His crown shall be the ransom of my friend”

EXETER

To Eltham will I, where the young king is,

Being ordain’d his special governor,

And for his safety there I’ll best devise.

Exit”

ALENCON

They want their porridge and their fat bull-beeves:

Either they must be dieted like mules

And have their provender tied to their mouths

Or piteous they will look, like drowned mice.”

CHARLES

Let’s leave this town; for they are hare-brain’d slaves,

And hunger will enforce them to be more eager:

Of old I know them; rather with their teeth

The walls they’ll tear down than forsake the siege.

REIGNIER

I think, by some odd gimmors or device

Their arms are set like clocks, stiff to strike on;

Else ne’er could they hold out so as they do.

By my consent, we’ll even let them alone.”

BASTARD OF ORLEANS

(…)

A holy maid hither with me I bring,

Which by a vision sent to her from heaven

Ordained is to raise this tedious siege

And drive the English forth the bounds of France.

The spirit of deep prophecy she hath,

Exceeding the 9 sibyls of old Rome:

What’s past and what’s to come she can descry.

Speak, shall I call her in? Believe my words,

For they are certain and unfallible.”

Re-enter the BASTARD OF ORLEANS, with JOAN LA PUCELLE [JOANA A VIRGEM]”

Dauphin, I am by birth a shepherd’s daughter

(…)

God’s mother deigned to appear to me

And in a vision full of majesty

Will’d me to leave my base vocation

And free my country from calamity:

Her aid she promised and assured success:

In complete glory she reveal’d herself;

And, whereas I was black and swart before,

With those clear rays which she infused on me

That beauty am I bless’d with which you see.

Ask me what question thou canst possible,

And I will answer unpremeditated:

My courage try by combat, if thou darest,

And thou shalt find that I exceed my sex.

Resolve on this, thou shalt be fortunate,

If thou receive me for thy warlike mate.”

CHARLES

(…)

In single combat thou shalt buckle with me,

And if thou vanquishest, thy words are true;

Otherwise I renounce all confidence.”

Stay, stay thy hands! thou art an Amazon

And figtest with the sword of Deborah.”

I must not yield to any rites of love,

For my profession’s sacred from above;

When I have chased all thy foes from hence,

Then will I think upon a recompense.”

Glory is like a circle in the water,

Which never ceaseth to enlarge itself

Till by broad spreading it disperse to nought.

With Henry’s death the English circle ends”

CHARLES

Was Mahomet inspired with a dove?

Thou with an eagle art inspired then.

Helen, the mother of great Constantine,

Nor yet Saint Philip’s daughters, were like thee.

Bright star of Venus, fall’n down on the earth,

How may I reverently worship thee enough?”

SALISBURY

Talbot, my life, my joy, again return’d!

How wert thou handled being prisoner?

Or by what means got’st thou to be released?

Discourse, I pritheee, on this turret’s top.”

TALBOT

(…)

But, O! the treacherous Falstolfe wounds my heart,

Whom with my bare fists I would execute,

If I now had him brought into my power.”

TALBOT

(…)

Pucelle or puzzel,¹ dolphin or dogfish,²

Your hearts I’ll stamp out with my horse’s heels,

And make a quagmire of your mingled brains.”

¹ Synonyms

² Very similar species of fish.

TALBOT

(…)

Here, here she comes. I’ll have a bout with thee;

Devil or devil’s dam, I’ll conjure thee:

Blood will I draw on thee, thou art a witch,

And straightway give thy soul to him thou servest.”

A witch, by fear, not force, like Hannibal,

Drives back our troops and conquers as she lists:

So bees with smoke and doves with noisome stench

Are from their hives and houses driven away.

They call’d us for our fierceness English dogs;

Now, like to whelps, we crying run away.”

Sheep run not half so treacherous from the wolf,

Or horse or oxen from the leopard,

As you fly from your oft-subdued slaves.”

Pucelle is enter’d into Orleans,

In spite of us or aught that we could do.

O, would I were to die with Salisbury!

The shame hereof will make me hide my head.

Exit TALBOT.

CHARLES

(…)

France, triumph in thy glorious prophetess!

Recover’d is the town of Orleans:

More blessed hap did ne’er befall our state.”

CHARLES

Tis Joan, not we, by whom the day is won;

For which I will divide my crown with her,

And all the priests and friars in my real

Shall in procession sing her endless praise.

A statelier pyramis to her I’ll rear

Than Rhodope’s or Memphis’ ever was:

In memory of her when she is dead,

Her ashes, in an urn more precious

Than the rich-jewel’d of Darius,

Transported shall be at high festivals

Before the kings and queens of France.

No longer on Saint Denis will we cry,

But Joan la Pucelle shall be France’s saint.

Come in, and let us banquet royalli,

After this golden day of victory.

Flourish. Exeunt.

BEDFORD

Coward of France! how much he wrongs his fame,

Despairing of his own arm’s fortitude,

To join with witches and help of hell!”

Enter the BASTARD OF ORLEANS, ALENCON, and REIGNIER, half ready, and half unready”

TALBOT

(…) I muse we met not with the Dauphin’s grace,

His new-come champions, virtuous Joan of Arc,

Nor any of his false confederates.”

I have heard it said, unbidden guests are often welcomest when they are gone.”

LADY OF AUVERGNE

Is this the scourge of France?

Is this Talbot, so much fear’d aborad

That with his name the mothers still their babes?

I see report is fabulous and false:

I thought I should have seen some Hercules,

A second Hector, for his grim aspect,

And large proportion of his strong-knit limbs.

Alas, this is a child, a silly dwarf!

It cannot be this weak and writhled shrimp

Should strike such terror to his enemies.”

The truth appears so naked on my side that it was just contacted by Barely Legal to a session of photos.

RICHARD PLANTAGENET

(…)
If he suppose that I have pleaded truth,

From off his brier pluck a white rose with me.

SOMERSET

Let him that is no coward nor no flatterer,

But dare maintain the party of the truth,

Pluck a red rose from off this thorn with me.

WARWICK

I love no colours, and without all colour

Of base insinuating flattery

I pluck this white rose with Plantagenet.”

(…)

VERNON

Stay, lords and gentlemen, and pluck no more,

Till you conclude that he upon whose side

The fewest roses are cropp’d from the tree

Shall yield the other in the right opinion.”

SOMERSET

Prick not your finger as you pluck it off,

Lest bleeding you do paint the white rose red

And fall on my side so, against your will.”

SOMERSET

(…)

Was not thy father, Richard Earl of Cambridge,

For treason executed in our late king’s days?

(…)

His trespass yet lives guilty in thy blood;

And, till thou be restored, thou art a yeoman.”

PLANTAGENET

(…)

For your partaker Pole and you yourself,

I’ll note you in my book of memory,

To scourge you for this apprehension”

Farewell, ambitious Richard.

Exit

WARWICK

(…)

And here I prophesy: this brawl to-day,

Grown to this faction in the Temple-garden,

Shall send between the red rose and the white

A thousand souls to death and deadly night.”

MORTIMER

(…)

Poor gentleman! his wrong doth equal mine.

Since Henry Monmouth first began to reign,

Before whose glory I was great in arms,

This loathsome sequestration have I had:

And even since then hath Richard been obscured,

Deprived of honour and inheritance.

But now the arbitrator of despairs,

Just death, kind umpire of men’s miseries,

With sweet enlargement doth dismiss me hence:

I would his troubles likewise were expired,

That so he might recover what was lost.”

MORTIMER

That cause, fair nephew, that imprison’d me

And hath detain’d me all my flowering youth

Within a loathsome dungeon, there to pine,

Was cursed instrument of his decease.

RICHARD PLANTAGENET

Discover more at large what cause that was,

For I am ignorant and cannot guess.”

Henry IV, grandfather to this king,

Deposed his nephew Richard, Edward’s son,

The first-begotten and the lawful heir,

Of Edward king, the III of that descent:

During whose reign the Percies of the nort,

Finding his usurpation most unjust,

Endeavor’d my advancement to the throne:

The reason moved these warlike lords to this

Was, for that—young King Richard thus removed,

Leaving no heir begotten of his body—

I was the next by birth and parentage;

For my mother I derived am

From Lionel Duke of Clarence, the third son

To King Edward III: whereas he

From John of Gaunt doth bring his pedigree,

Being but IV of that heroic line.

But mark: as in this haughty attempt

They laboured to plant the rightful heir,

I lost my liberty and they their lives.

Long after this, when Henry V,

Succeeding his father Bolingbroke, did reign,

Thy father, Earl of Cambridge, then derived

From famous Edmund Langley, Duke of York,

Marrying my sister that thy mother was,

Again in pity of my hard distress

Levied an army, weening to redeem

And have install’d me in the diadem:

But, as the rest, so fell that noble earl

And was beheaded. Thus the Mortimers,

In whom the tide rested, were suppress’d.”

With silence, newphew, be thou politic:

Strong-fixed is the house of Lancaster,

And like a mountain, not to be removed.”

And prosperous be thy life in peace and war!

Dies

BISHOP OF WINCHESTER

Rome shall remedy this.

WARWICK

Roam thither, then.”

SOMERSET

Methinks my lord should be religious

And know the office that belongs to such.

WARWICK

Methinks his lordship should be humbler;

if fitteth not a prelate so to plead.”

KING HENRY VI

Uncles of Gloucester and of Winchester,

The special watchmen of our English weal,

I would prevail, if prayers might prevail,

To join your hearts in love and amity.

O, what a scandal is it to our crown,

That two such noble peers as ye should jar!

Believe me, lords, my tender years can tell

Civil dissension is a viperous worm

That gnaws the bowels of the commonwealth.”

O, how this discord doth afflict my soul!

Can you, my Lord of Winchester, behold

My sighs and tears and will not once relent?

Who should be pitiful, if you be not?

Or who should study to prefer a peace.

If holy churchmen take delight in broils?”

Fie, uncle Beaufort! I have heard you preach

That malice was a great an grievous sin;

And will not you maintain the thing you teadh,

But prove a chief offender in the same?”

WARWICK

(…)

What, shall a child instruct you what to do?

BISHOP

Well, Duke of Gloucester, I will yield to thee;

Love for thy love and hand for hand I give.”

KING HENRY VI

O, loving uncle, kind Duke of Gloucester,

How joyful am I made by this contract!

Away, my masters! trouble us no more”

KING HENRY VI

(…)

Therefore, my loving lords, our pleasure is

That Richard be restored to his blood.

WARWICK

Let Tichard be restored to his blood;

So shall his father’s wrongs be recompensed.

BISHOP OF WINCHESTER

As will the rest, so willeth Winchester.”

Rise Richard, like a true Plantagenet,

And rise created princely Duke of York.”

SOMERSET

(Aside) Perish, base prince, ignoble Duke of York!”

GLOUCESTER

Now will it best avail your majesty

To cross the seas and to be crown’d in France:

The presence of a king engenders love

Amongst his subjects and his loyal friends,

As it disanimates his enemies.

KING HENRY VI

When Gloucester says the word, King Henry goes;

For friendly counsel cuts off many foes.”

EXETER (Alone)

(…)

As fester’d members rot but by degree,

Till bones and flesh and sinews fall away,

So will this base and envious discord breed.

And now I fear that fatal prophecy

Which in the time of Henry V

Was in the mouth of every sucking babe;

That Henry born at Monmouth should win all

And Henry born at Windsor lose all:

Which is so plain that Exeter doth wish

His days may finish ere that hapless time.”

Captain

Whither away, Sir John Fastolfe, in such haste?

FASTOLFE

Whither away! to save myself by flight:

We are like to have the overthrow again.

Captain

What! will you fly, and leave Lord Talbot?

FASTOLFE

Ay,

All the Talbots in the world, to save my life!

Exit

BURGUNDY

Either she hath bewitch’d me with her words,

Or nature makes me suddenly relent.”

POUCELLE

(…)

See, then, thou fight’st against thy countrymen

And joint’st with them will be thy slaughtermen.

Come, come, return; return, thou wandering lord:

Charles and the rest will take thee in their arms.”

BURGUNDY

(…)

So farewell, Talbot; I’ll no longer trust thee.”

KING HENRY VI

Stain to thy countrymen, thou hear’st thy doom!

Be packing, therefore, thou that wast a knight:

Henceforth we banish thee, on pain of death.

Exist FASTOLFE

KING HENRY VI

Good Lord, what madness rules in brainsick men,

When for so slight and frivolous a cause

Such factious emulations shall arise!

Good cousins both, of York and Somerset,

Quiet yourselves, I pray, and be at peace.”

KING HENRY VI

(…)

If they perceive dissension in our looks

And that within ourselves we disagree,

How will their grudging stomachs be provoked

To wilful disobedience, and rebel!

Beside, what infamy will there arise,

When foreign princes shall be certified

That for a toy, a thing of no regard,

King Henry’s peers and chief nobility

Destroy’d themselves, and lost the realm of France!

O, think upon the conquest of my father,

My tender years, and let us not forego

That for a trifle that was bought with blood

Let me be umpire in this doubtful strife.

I see no reason, If I wear this rose,

Putting on a red rose

That any should therefore be suspicious

I more incline to Somerset than York:

Both are my kinsmen, and I love them both

(…)

Cousin of York, we institute your grace

To be our regent in these parts of France:

And, good my Lord of Somerset, unite

Your troops of horsemen with his bands of foot

(…)

Go cheerfully together and digest.

Your angry choler on your enemies.”

YORK

(…)–but let it rest;

Other affairs must now be managed.”

EXETER

(…)

This jarring discord of nobility,

This shouldering of each other in the court,

This factious bandying of their favourites,

But that it doth pressage sine ukk event.

Tis much when sceptres are in children’s hands;

But more when envy breeds unkind division;

There comes the rain, there begins confusion.”

YORK

O God, that Somerset, who in proud heart

Doth stop my cornets, were in Talbot’s place!

So should we save a valiant gentleman

By forfeiting a traitor and a coward.

Mad ire and wrarhful fury makes me weep,

That thus we die, while remiss traitors sleep.”

WILLIAM LUCY

(…)

This 7 years did not Talbot see his son;

And now they meet where both their lives are done.”

SOMERSET

It is too late; I cannot send them now:

This expedition was by York and Talbot

Too rashly plotted: all our general force

Might with a sally of the very town

Be buckled with: the over-daring Talbot

Hath sullied all his gloss of former honour

By this unheedful desperate, wild adventure:

York set him on to fight and die in shame,

That, Talbot dead, great York might bear the name.”

LUCY

(…)

Orleans the Bastard, Charles, Burgundy,

Alencon, Reignier, compass him about,

And Talbot perisheth by your default.”

SOMERSET

Come, go; I will dispatch the horsemen straight:

Within 6 hours they will be at his aid.

LUCY

Too late comes rescue: he is ta’en or slain;

For fly he could not, if he would have fled;

And fly would Talbot never, though he might.”

Now thou art come unto a feast of death,

A terrible and unavoided danger:

Therefore, dear boy, mount on my swiftest horse;

And I’ll direct thee how thou shalt escape

By sudden fligh: come, dally not, be gone.”

…O if you love my mother,

Dishonour not her honourable name,

To make a bastard and a slave of me!

The world will say, he is not Talbot’s blood,

That basely fled when noble Talbot stood.”

You fled for vantage, everyone will swear;

But, if I bow, they’ll say it was for fear.”

JOHN TALBOT

And shall my yout be guilty of such blame?

No more can I be sever’d from your side,

Than can yourself yourself in twain divide:

Stay, go, do what you will, the like do I;

For live I will not, if my father die.”

Come, side by side together live and die.

And soul with soul from France to heaven fly.”

And in that sea of blood my boy did drench

His over-mounting spirit, and there died,

My Icarus, my blossom, in his pride.”

Now my old arms are young John Talbot’s grave.

Dies

Enter CHARLES, ALENCON, BURGUNDY, BASTARD OF ORLEANS, JOAN LA PUCELLE, and forces

CHARLES

Had York and Somerset brought rescue in,

We should have found a bloody day of this.”

LUCY

(…)

O, were mine eyeballs into bullets turn’d,

That I in rage might shoot them at your faces!

O, that I could but call these dead to life!”

GLOUCESTER

Beside, my lord, the sooner to effect

And surer bind this knot of amity,

The Earl of Armagnac, near knit to Charles,

A man of great authority in France,

Proffers his only daughter to your grace

In marriage, with a large and sumptuous dowry.

KING HENRY VI

Marriage, uncle! alas, my years are young!

And fitter is my study and my books

Than wanton dalliance with a paramour.

Yet call the ambassador”

O BISPO QUE VIROU CARDEAL:

CARDINAL OF WINCHESTER

(Aside) Now Winchester will not submit, I trow,

Or be inferior to the proudest peer.

Humphrey of Gloucester, thou shalt well perceive

That, neither in birth or authority,

The bishop will be overborne by thee:

I’ll either make thee stoop and bend thy knee,

Or sack this country with a mutiny.

Exeunt

JOAN LA PUCELLE

Of all base passions, fear is most accursed.

Command the conquest, Charles, it shall be thine,

Let Henry fret and all the world repine.”

O, hold me not with silence over-long!

Where I was wont to feed you with my blood,

I’ll lop a member off and give it you

In earnest of further benefit,

So you do condescend to help me now.

The fiends summoned by La Poucelle hang their heads

No hope to have redress? My body shall

Pay recompense, if you will grant my suit.

They shake their heads

Cannot my body nor blood-sacrifice

Entreat you to your wonted furtherance?

Then take my soul, my body, soul and all,

Before that England give the Franch the foil.

They depart.

See, they forsake me! Now the time is come

That France must vail her lofty-plumed crest

And let her head fall into England’s lap.

My ancient incantations are too weak,

And hell too strong for me to buckle with:

Now, France, thy glory droopeth to the dust.”

YORK [pai do futuro RICHARD III]

Damsel of France, I think I have you fast:

Unchain your spirits now with spelling charms

And try if they can gain your liberty.

A goodly prize, fit for the devil’s grace!

See, how the ugly wench doth bend her brows,

As if with Circe she would change my shape!

JOAN LA PUCELLE

Changed to a worser shape thou canst not be.”

SUFFOLK

Fond man, remember that thou hast a wife;

Then how can Margaret be thy paramour?

MARGARET, prisoner

I were best to leave him, for he will not hear.

SUFFOLK

There all is marr’d; there lies a cooling card.

MARGARET

He talks at random; sure, the man is mad.”

SUFFOLK

I’ll win this Lady Margaret. For whom?

Why, for my king: tush, that’s a wooden thing!

MARGARET

He talks of wood: it is some carpenter.”

…though her father be the King of Naples,

Duke of Anjou and Maine, yet iis he poor,

And our nobility will scorn the match.

(…)

It shall be so, disdain they ne’er so much.

Hery is youthful and will quickly yield.”

To be a queen in bondage is more vile

Than is a slave in base servility;

For princes should be free.”

See, Reignier, see, thy daughter prisoner!”

…Now cursed be the time

Of thy nativity! I would the milk

Thy mother gave thee when thou suck’dst her breast,

Had been a little ratsbane for thy sake!

Or else, when thou didst keep my lambs a-field,

I wish some ravenous wolf had eaten thee!

Dost thou deny thy father, cursed drab?

O, burn her, burn her! hanging is too good.”

No, misconceived! Joan of Arc hath been

A virgin from her tender infancy,

Chaste and immaculate in very thought;

Whose maiden blood, thus rigorously effused,

Will cry for vengeance at the gates of heaven.”

WARWICK

(…)

Place barrels of pitch upon the fatal stake,

That so her torture may be shortened.”

JOAN

(…)

I am with child, ye bloody homicides:

Murder not then the fruit within my womb,

Although ye hale me to a violent death.”

YORK

She and the Dauphin have been juggling:

I did imagine what would be her refuge.

WARWICK

Well, go to; we’ll have no bastards live”

JOAN

You are deceived; my child is none of his:

It was Alencon that enjoy’d my love.

YORK

Alencon! that notorious Machiavel!”

JOAN

…I have deluded you:

Twas neither Charles nor yet the duke I named,

But Reignier, king of Naples, that prevail’d.

WARWICK

A married man! that’s most intolerable.

YORK

Why, here’s a girl! I think she knows not well,

There were so many, whom she may accuse.

WARWICK

It’s sign she hath been liberal and free.

YORK

And yet, forsooth, she is a virgin pure.”

YORK

Is all our travail turn’d to this effect?

After the slaughter of so many peers,

So many captains, gentlemen and soldiers,

That in this quarrel have been overthrown

And sold their bodies for their country’s benefit,

Shall we at last conclude effeminate peace?”

GLOUCESTER

So should I give consent to flatter sin.

You know, my lord, your higness is betroth’d

Unto another lady of esteem:

How shall we then dispense with that contract,

And not deface your honour with reproach?”

Henry is able to enrich his queen

And not seek a queen to make him rich”

SUFFOLK

Thus Suffolk hath prevail’d; and thus he goes,

As did the youthful Paris once to Greece,

With hope to find the like event in love,

But prosper better than the Trojan did.

Margaret shall now be queen, and rule the king;

But I will rule both her, the king and realm.

Exit

End of PART I

GLOUCESTER

(Reads) ‘Imprimis, it is agreed between the French

king Charles, and William de la Pole, Marquess of

Suffolk, ambassador for Henry King of England, that

the said Henry shall espouse the Lady Margaret,

daughter unto Reignier King of Naples, Sicilia and

Jerusalem, and crown her Queen of England ere the

30th of May next ensuing. Item, that the duchy

of Anjou and the county of Maine shall be released

and delivered to the king her father’–

(….)

CARDINAL

(Reads) ‘…and she sent over of the King of England’s own

proper cost and charges, without having any dowry.’”

GLOUCESTER

(…)

O peers of England, shameful is this league!

Fatal this marriage, cancelling your fame,

Blotting your names from books of memory,

Razing the characters of your renown,

Defacing monuments of conquer’d France,

Undoing all, as all had never been!”

WARWICK

(…)

Anjou and Maine! myself did win them both;

Those provinces these arms of mine did conquer:

And are the cities, that I got with wounds,

Delivered up again with peaceful words?

Mort Dieu!”

YORK

(…)

I never read but England’s kings have had

Large sums of gold and dowries with their wives:

And our King Henry gives away his own,

To match with her that brings no vantages.”

GLOUCESTER

My Lord of Winchester, I know your mind;

Its not my speeches that you do mislike,

But ‘tis my presence that doth trouble ye.

Rancour will out: proud prelate, in thy face

I see thy fury: if I longer stay,

We shall begin our ancient bickerings.

Lordings, farewell; and say, when I am gone,

I prophesied France will be lost ere long.”

WARWICK

Unto the main! O father, Maine is lost;

That Maine which by main force Warwick did win,

And would have kept so long as breath did last!

Main chance, father, you meant; but I meant Maine,

Which I will win from France, or else be slain”

YORK

(…)

The peers agreed, and Henry was well pleased

To change 2 dukedoms for a duke’s fair daughter.

I cannot blame them all: what is’t to them?

Tis thine they give away, and not their own.

Pirates may make cheap pennyworths of their pillage

And purchase friends and give to courtezans,

Still revelling like lords till all be gone

(…)

So York must sit and fret and bite his tongue,

While his own lands are bargain’d for and sold.

(…)

A day will come when York shall claim his own

(…)

And, when I spy advantage, claim the crown,

For that’s the golden mark I seek to hit:

Nor shall proud Lancaster (…) wear the diadem upon his head,

Whose church-like humours fits not for a crown.

(…) Then will I raise aloft the milk-white rose,

With whose sweet smell the air shall be perfumed”

DUCHESS [esposa de GLOUCESTER]

What say’st thou, man? hast thou as yet conferr’d

With Margery Jourdain, the cunning witch,

With Roger Bolingbroke, the conjurer?

And will they undertake to do me good?”

QUEEN MARGARET

Not all these lords do vex me half so much

As that proud dame, the lord protector’s wife.

She sweeps it through the court with troops of ladies,

More like an empress than Duke Humphrey’s wife:

Strangers in court do take her for the queen:

She bears a duke’s revenues on her back,

And in her heart she scorns our poverty”

GLOUCESTER

Madam, the king is old enough himself

To give his censure: these are no women’s matters.

QUEEN MARGARET

If he be old enough, what needs your grace

To be protector of his excellence?

GLOUCESTER

Madam, I am protector of the realm;

And, at his pleasure, will resign my place.”

SOMERSET

Thy sumptuous buildings and thy wife’s attire

Have cost a mass of public treasury.”

DUCHESS

(…)

Could I come near your beauty with my nails,

I’d set my ten commandments in your face.”

YORK

(…)

Edward III, my lords, had 7 sons:

The first, Edward the Black Prince, Prince of Wales;

The second, William of Hatfield, and the third,

Lionel Duke of Clarence: next to whom

Was John of Gaunt, the Duke of Lancaster;

The fifth was Edmund Langley, Duke of York;

The sixth was Thomas of Woodstock, Duke of Gloucester;

William of Windsor was the seventh and last.

Edward the Black Prince died before his father

And left behind him Richard, his only son,

Who after Edward III’s death reign’d as king;

Till Henry Bolingbroke, Duke of Lancaster,

The eldest son and heir of John of Gaunt,

Crown’d by the name of Henry IV,

Seized on the realm, deposed the rightful king,

Sent his poor queen to France, from whence she came,

And him to Pomfret; where, as all you know,

Harmless Richard was murder’d traitorously.”

WARWICK

Father, the duke hath told the truth:

Thus got the house of Lancaster the crown.”

SALIBURY

But William of Hatfield died without an heir.

YORK

The third son, Duke of Clarence, from whose line

I claimed the crown, had issue, Philippe, a daughter,

Who married Edmund Mortimer, Earl of March:

Edmund had issue, Roger Earl of March;

Roger had issue, Edmund, Anne and Eleanor.”

SALISBURY

This Edmund, in the reign of Bolingbroke,

As I have read, laid claim unto the crown;

And, but for Owen Glendower, had been king,

Who kept him in captivity till he died.

But to the rest.

YORK

His eldest sister, Anne,

My mother, being heir unto the crown

Married Richard Earl of Cambridge; who was son

To Edmund Langley, Edward III’s fifth son.

By her I claim the kingdom: she was heir

To Roger Earl of March, who was the son

Of Edmund Mortimer, who married Philippe,

Sole daughter unto Lionel Duke of Clarence:

So, if the issue of the elder son

Succeed before the younger, I am king.

WARWICK

What plain proceeding is more plain than this?

Henry doth claim the crown from John of Gaunt,

The fourth son; York claims it from the third.

Till Lionel’s issue fails, his should not reign:

It fails not yet, but flourishes in thee

And in thy sons, fair slips of such a stock.

Then, father Salisbury, kneel we together;

And in this private plot be we the first

That shall salute our rightful sovereign

With honour of his birthright to the crown.

BOTH

Long live our sovereign Richard, England’s king!

YORK

We thank you, lords. But I am not your king

Till I be crown’d and that my sword be stain’d

With heart-blood of the house of Lancaster;

And that’s not suddenly to be perform’d,

But with advice and silent secrecy.”

QUEEN MARGARET

(…)

Small curs are not regarded when thet grin;

But great men tremble when the lion roars;

And Humphrey is no little man in England.

First note that he is near you in descent”

SUFFOLK

(…)

Smooth runs the water where the brook is deep;

And in his simple show he harbours treason.

The fox barks not when he would steal the lamb.”

POST

Great lords, from Ireland am I come amain,

To signify that rebels there are up

And put the Englishman unto the sword:

Send succors, lords, and stop the rage betime,

Before the wound do grow uncurable;

For, being green, there is great hope of help.”

Show me one scar character’d on thy skin:

Men’s flesh preserved so whole do seldom win.”

YORK

(…)

My brain more busy than the labouring spider

Weaves tedious snared to trap mine enemies.”

WARWICK

It is reported, mighty sovereign,

That good Duke Humphrey traitorously is murder’d

By Suffolk and the Cardinal Beaufort’s means.

The commons, like an angry hive of bees

That want their leader, scatter up and down

And care not who they sting in his revenge.

Myself have calm’d their spleenful mutiny,

Until they hear the order of his death.”

Cardinal Beaufort is at point of death;

For suddenly a grievous sickness took him,

That makes him gasp and stare and catch the air,

Blaspheming God and cursing men on earth.”

CADE

…there shall be no money;

all shall eat and drink on my score (…)

DICK

The first thing we do, let’s kill all the lawyers.”

CADE

…he can speak French; and therefore he is a traitor.”

SIR HUMPHREY

Herald, away; and throughout every town

Proclaim them traitors that are up with Cade;

That those which fly before the battle ends

May, even in their wives’ and children’s sight,

Be hang’d up for example at their doors:

And you that be the king’s friends, follow me.”

All scholars, lawyers, courtiers, gentlemen,

They call false caterpillars, and intend their death.”

Away, burn all the records of the realm: my mouth shall be the parliament of England.”

Thou hast most traitorouslyy corrupted the youth of the realm in erecting a grammar school (…) It will be proved to thy face that thou hast men about thee usually talk of a noun and a verb, and such abominable words as no Christian ear can endure to hear.”

Away with him, away with him! he speaks Latin.”

HENRY VI

(…)

Was never subject long’d to be a king

As I do long and wish to be a subject.”

Thus stands my state, ‘twixt Cade and York distress’d.

Like to a ship that, having ‘scaped a tempest,

Is straightway calm’d and boarded with a pirate:

But now is Cade drivan back, his men dispersed;

And now is York in arms to second him.”

The head of Cade! Great God, how just art Thou!

O, let me view his visage, being dead,

That living wrought such exceeding trouble.

Tell me, my friend, art thou the man thant slew him?”

YORK

(…)

King did I call thee? no, thou art not king,

Not fit to govern and rule multitudes,

Which darest not, no, nor canst not rule a traitor.

That head of thine doth not become a crown;

Thy hand is made to grasp a palmer’s staff,

And not to grace an awful princely sceptre.

That gold must round engirt these brows of mine,

Whose smile and frown, like to Achilles’ spear,

Is able with the change to kill and cure.

Here is a hand to hold a sceptre up

And with the same to act controlling laws.

Give place: by heaven, thou shalt rule no more

O’er him whom heaven created for thy ruler.”

SALISBURY

My lord, I have consider’d with myself

The title of this most renowned duke;

And in my conscience do repute his grace

The rightful heir to England’s royal seat.”

YOUNG CLIFFORD

(…) York not our old men spares;

No more will I their babes: tears virginal

Shall be to me even as the dew to fire,

And beauty that the tyrant oft reclaims

Shall to my flaming wrath be oil and flax.

Henceforth I will not have to do with pity:

Meet I an infant of the house of York,

Into as many gobbets will I cut it

As wild Medea young Absyrtus did:

In cruelty will I seek out my fame.”

Priests pray for enemies, but princes kill.”

WARWICK

(…)

Saint Alban’s battle won by famous York

Shall be eternized in all age to come.

Sound drums and trumpets, and to London all:

And more such days as these to us befall!

Exeunt

CLIFFORD

Patience is for poltroons, such as he:

He durst not sit there, had your father lived.

My gracious lord, here in the parliament

Let us assail the family of York.

NORTHUMBERLAND

Well hast thou spoken, cousin: be it so.

KING HENRY VI

Ah, know you not the city favours them,

And they have troops of soldiers at their beck?”

KING HENRY VI

(…)

Cousin of Exeter, frowns, words and threats

Shall be the war that Henry means to use.

Thou factious Duke of York, descend my throne,

and kneel for grace and mercy at my feet;

I am thy sovereign.

YORK

I am thine.

EXETER

For shame, come down, he made thee Duke of York.

YORK

Twas my inheritance, as the earldom was.

EXETER

Thy father was a traitor to the crown.

WARWICK

Exeter, thou art a traitor to the crown

In following this usurping Henry.

CLIFFORD

Whom should he follow but his natural king?

WARWICK

True, Clifford; and that’s Richard Duke of York.

KING HENRY VI

And shall I stand, and thou sit in my throne?

YORK

It must and shall be so: content thyself.

WARWICK

Be Duke of Lancaster; let him be king.

WESTMORELAND

He is both king and Duke of Lancaster;

And that the Lord of Westmoreland shall maintain.

WARWICK

And Warwick shall disprove it. Your forget

That we are those which chased you from the field

And slew your fathers, and with colours spread

March’d through the city to the palace gates.

NORTHUMBERLAND

Yes, Warwick, I remember it to my grief;

And, by his soul, thou and thy house shall rue it.

WESTMORELAND

Plantagenet, of thee and these thy sons,

Thy kinsman and thy friends, I’ll have more lives

Than drops of blood were in my father’s veins.

CLIFFORD

Urge it no more; lest that, instead of words,

I send thee, Warwick, such messenger

As shall revenge his death before I stir.

WARWICK

Poor Clifford! how I scorn his worthless threats!

YORK

Will you we show our title to the crow?

If not, our swords shall plead it in the field.

KING HENRY VI

What title hast thou, traitor, to the crown?

Thy father was, as thou art, Duke of York;

Thy grandfather, Roger Mortimer, Earl of March:

I am the son of Henry V,

Who made the Dauphin and the French to stoop

And seidez upon their towns and provinces.

WARWICK

Talk not of France, sith thou hast lost it all.

KING HENRY VI

The lord protector lost it, and not I:

When I was crown’d I was but 9 months old.

RICHARD

You are old enough now, and yet, methinks, you lose.

Father, tear the crown from the usurper’s head.

EDWARD

Sweet father, do so; set it on your head.

MONTAGUE

Good brother, as thou lovest and honourest arms,

Let’s fight it out and not stand caviling thus.

RICHARD

Sound drums and trumpets, and the king will fly.

YORK

Sons, peace!

KING HENRY VI

Peace, thou! and give King Henry leave to speak.

WARWICK

Plantagenet shall speak first: hear him, lords;

And be you silent and attentive too,

For he that interrupts him shall not live.

KING HENRY VI

Think’st thou that I will leave my kingly throne,

Wherein my grandsire and my father sat?

No: first shall war unpeople this my realm;

Ay, and their colours, often borne in France,

And now in England to out heart’s great sorrow,

Shall be my winding-sheet. Why faint you, lords?

My title’s good, and better far than his.

WARWICK

Prove it, Henry, and thou shalt be king.

KING HENRY VI

Henry IV by conquest got the crown.

YORK

Twas by rebellion against the king.

KING HENRY VI

(Aside) I know not what to say; my title’s weak.—

Tell me, may not a king adopt an heir?

YORK

What then?

KING HENRY VI

An if he may, then am I lawful king;

For Richard, in the view of many lords,

Resign’d the crown to Henry IV,

Whose heir my father was, and I am his.

YORK

He rose against him, being his sovereign,

And made him to resign his crown perforce.

WARWICK

Suppose, my lords, he did it unconstrain’d,

Think you ‘itwere prejudicial to his crown?

EXETER

No; for he could not so resign his crown

Nut that the next heir should succeed and reign.

KING HENRY VI

Art thou against us, Duke of Exeter?

EXETER

His is the right, and therefore pardon me.

YORK

Why whisper you, my lords, and answer not?

EXETER

My conscience tells me he is lawful king.

KING HENRY VI

(Aside) All will revolt from me, and turn to him.

NORTHUMBERLAND

Plantagenet, for all the claim thou lay’st,

Think not that Henry shall be so deposed.

WARWICK

Deposed he shall be, in despite of all.

NORTHUMBERLAND

Thou art deceived: ‘tis not thy southern power,

Of Essex, Norfolk, Suffolk, nor of Kent,

Which makes thee thus presumptuous and proud,

Can set the duke up in despite of me.

CLIFFORD

King Henry, be thy title right or wrong,

Lord Clifford vows to fight in thy defence:

May that ground gape and swallow me alive,

Where I shall kneel to him that slew my father!

KING HENRY VI

O Clifford, how thy words revive my heart!

YORK

Henry of Lancaster, resign thy crown.

What mutter you, or what conspire you, lords?

WARWICK

Do right unto this princely Duke of York,

Or I will fill the house with armed men,

And over the chair of state, where now he sits,

Write up his title with usurping blood.

He stamps with his foot and the soldiers show themselves

KING HENRY Vi

My Lord of Warwick, hear me but one word:

Let me for this my life-time reign as king.

YORK

Confirm the crown to me and to mine heirs,

And thou shalt reign in quiet while thou livest.

KING HENRY VI

I am content: Richard Plantagenet,

Enjoy the kingdom after my decease.

CLIFFORD

What wrong is this unto the prince your son!

WARWICK

What good is this to England and himself!

WESTMORELAND

Base, fearful and despairing Henry!

CLIFFORD

How hast thou injured both thyself and us!

WESTMORELAND

I cannot stay to hear these articles.

NORTHUMBERLAND

Nor I.

CLIFFORD

Come, cousin, let us tell the queen these news.

WESTMORELAND

Farewell, faint-hearted and degenerate king,

In whose cold blood no spark of honour bides.

NORTHUMBERLAND

Be thou a prey unto the house of York,

And die in bands for this unmanly deed!

CLIFFORD

In dreadful war mayst thou be overcome,

Or live in peace abandon’d and despised!

Exeunt NORTHUMBERLAND, CLIFFORD and WESTMORELAND

WARWICK

Turn this way, Henry, and regard them not.

EXETER

They seek revenge and therefore will not yield.

KING HENRY VI

Ah, Exeter!

WARWICK

Why should you sigh, my lord?

KING HENRY VI

Not for myself, Lord Warwick, but my son,

Whom I unnaturally shall disinherit,

But be it as it may: I here entail

The crown to thee and to thine heirs for ever;

Conditionally, that here thou take an oath

To cease this civil war, and, whilst I live,

To honours me as thy king and sovereign,

And neither by treason nor hostility

To seek to put me down and reign thyself.

YORK

This oath I willingly take and will perform.

WARWICK

Long live King Henry! Plantagenet embrace him.

KING HENRY VI

And long live thou and these thy forward sons!

YORK

Now York and Lancaster are reconciled.

EXETER

Accursed be he that seeks to make them foes!

Sennet. Here they come down

YORK

Farewell, my gracious lord; I’ll to my castle.

WARWICK

And I’ll keep London with my soldiers.

NORFOLK

And I to Norfolk with my followers.

MONTAGUE

And I unto the sea from whence I came.

Exeunt YORK, EDWARD, EDMUND, GEORGE, RICHARD, WARWICK, NORFOLK, MONTAGUE, their Soldiers, and Attendants

KING HENRY VI

And I, with grief and sorrow, to the court.

Enter QUEEN MARGARET and PRINCE EDWARD

EXETER

Here comes the queen, whose looks bewray her anger:

I’ll steal away.

KING HENRY VI

Exeter, so will I.

QUEEN MARGARET

Nay, go not from me; I will follow thee.

KING HENRY VI

Be patient, gentle queen, and I will stay.

QUEEN MARGARET

Who can be patient in such extremes?

Ah, wretched man! would I had died a maid

And never seen thee, never borne thee son,

Seeing thou hast proved so unnatural a father

Hath he deserved to lose his birthright thus?

Hadst thou but loved him half so well as I,

Or felt that pain which I did for him once,

Or nourish’d him as I did with my blood,

Thou wouldst have left thy dearest heart-blood there,

Rather than have that savage duke thine heir

And disinherited thine only son.

PRINCE EDWARD

Father, you cannot disinherit me:

If you be king, why should not I succeed?

KING HENRY VI

Pardon me, Margaret; pardon me, sweet son:

The Earl of Warwick and the duke enforced me.

QUEEN MARGARET

Enforced thee! art thou king, and wilt be forced?

I shame to hear thee speak. Ah, timorous wretch!

Thou hast undone thyself, thy son and me;

And given unto the house of York such head

As thou shalt reign but by their sufferance.

To entail him and his heirs unto the crown,

What is it, but to make thy sepulchre

And creep into it far before thy time?

Warwick is chancellor and the lord of Calais;

Stern Falconbridge commands the narrow seas;

The duke is made protector of the realm;

And yet shalt thou be safe? such safety finds

The trembling lamb environed with wolves.

Had I been there, which am a silly woman,

The soldiers should have toss’d me on their pikes

Before I would have granted to that act.

But thou preferr’st thy life before thine honour:

And seeing thou dost, I here divorce myself

Both from thy table, Henry, and thy bed,

Until that act of parliament be repeal’d

Whereby my son is disinherited.

The northern lords that have forsworn thy colours

Will follow mine, if once they see them spread;

And spread they shall be, to thy foul disgrace

And utter ruin of the house of York.

Thus do I leave thee. Come, son, let’s away;

Our army is ready; come, we’ll after them.”

EDWARD

(…)

By giving the house of Lancaster leave to breathe,

It will outrun you, father, in the end.

YORK

I took an oath that he sould quietly reign.

EDWARD

But for a kingdom any oath may be broken:

I would break a thousand oaths to reign one year.

RICHARD

(…) And, father, do but think

How sweet a thing it is to wear a crown;

Within whose circuit is Elysium

And all that poets feign of bliss and joy.

Why do we finger thus? I cannot rest

Until the white rose that I wear be dyed

Even in the lukewarm blood of Henry’s heart.”

Messenger

The queen with all the noerthern earls and lords

Intend here to besiege you in your castle

She is hard by with 20,000 men

(…)

JOHN MORTIMER

She shall not need, we’ll meet her in the field.

YORK

What, with 5,000 men?

RICHARD

Ay, with 500, father, for a need:

A woman’s general; what should we fear?

A march afar off

(…)

YORK

5 men to 20! Though the odds be great,

I doubt not, uncle, of our victory.

Many a battle have I won in France,

When as the enemy hath been 10 to 1:

Why should I not now have the like success?”

Thy father slew my father. Therefore, die.

Stabs him.

Plantagenet! I come, Plantagenet!

And this thy son’s blood cleaving to my blade

Shall rust upon my weapon, till thy blood,

Congeal’d with this, do make me wipe off both.

YORK

(…)

My sons, God knows what hath bechanced them:

But this I know, they have demean’d themselves

Like men born to renown by life or death.

Three times did Richard make a lane to me.

And thrice cried <Courage, father! fight it out!>

And full as oft came Edward to my side,

With purple falchion, painted to the hilt

In blood of those that had encounter’d him:

And when the hardiest warriors did retire,

Richard cried <Charge! And give no foot of ground!>

And cried <A crown, or else a glorious tomb!

A scepter, or an earthly sepulchre!>

With this, we charged again: but, out, alas!

We bodged again; as I have seen a swan

With bootless labour swim against the tide

And spend her strength with over-matching waves.”

NORTHUMBERLAND

Yield to our mercy, proud Plantagenet.

(…)

YORK

My ashes, as the phoenix, may bring forth

A bird that will revenge upon you all:

And in that hope I throw mine eyes to heaven,

Scorning whate’er you can afflict me with.

Why come you not? what! multitudes, and fear?”

QUEEN MARGARET

Hold, valiant Clifford! for a thousand causes

I would prolong awhile the traitor’s life.

Wrath makes him deaf: speak thou, Northumberland.”

What! was it you that would be England’s king?

Was’t you that revell’d in our parliament,

And made a preachment of your high descent?

Where are your mess of sons to back you now?

The wanton Edward, and the lusty George?

And where’s that valiant crook-back prodigy,

Dicky your boy, that with his grumbling voice

Was wont to cheer his dad in mutinies?

Or, with the rest, where is your darling Rutland?

Look, York: I stain’d this napkin with the blood

That valiant Clifford, with his rapier’s point,

Made issue from the bosom of the boy;

And if thine eyes can water for his death,

I give thee this to dry thy cheeks withal.

Alas poor York! But that I hate thee deadly,

I should lament thy miserable state.

I prithee, grieve, to make me merry, York.

What, hath thy fiery heart so parch’d thine entrails

That not a tear can fall for Rutland’s death?

Why art thou patient, man? thou shouldst be mad;

And I, to make thee mad, do mock thee thus.

Thou wouldst be fee’d, I see, to make me sport:

York cannot speak, unless he wear a crown.

A crown for York! and, lords, bow low to him:

Hold you his hands, whilst I do set it on.

Putting a paper crown on his head

Ay, marry, sir, now looks he like a king!

Ay, this is he that took King Henry’s chair,

And this is he was hid adopted heir.

But how is that great Plantagenet

Is crown’d so soon, and broke his solemn oath?

As I bethink me, you should not be king

Till our King Henry had shook hands with death.

And will you pale your head in Henry’s glory,

And rob his temples of the diadem,

Now in his life, against your holy oath?

O, ‘tis a fault too too unpardonable!

Off with the crown, and with the crown his head;

And, whilst we breathe, take time to do him dead.

CLIFFORD

That is my office, for my father’s sake.

QUEEN MARGARET

Nay, stay; lets hear the orisons he makes.

YORK

She-wolf of France, but worse than wolves of France,

Whose tongue more poisons than the adder’s tooth!

How ill-beseeming is it in thy sex

To triumph, like an Amazonian trull,

Upon their woes whom fortune captivates!

But that thy face is, vizard-like, unchanging,

Made impudent with use of evil deeds,

I would assay, proud queen, to make thee blush.

To tell thee whence thou camest, of whom derived,

Were shame enough to shame thee, wer thou not shameless.

Thy father bears the type of King of Naples,

Of both the Sicils and Jerusalem,

Yet not so wealthy as an English yeoman.

Hath that poor monarch taught thee to insult?

It needs not, nor it boots thee not, proud queen,

Unless the adage must be verified,

That beggars mounted run their horse to death.

Tis beauty that doth oft make women proud;

But, God he knows, thy share thereof is small:

Tis virtue that doth make them most admired;

The contrary doth make thee wonder’d at:

Tis government that makes them seem divine;

The want thereof makes thee abominable:

Thou art as opposite to every good

As the Antipodes are unto us,

Or as the south to the septentrion,

O tiger’s heart wrapt in a woman’s hide!

How couldst thou drain the life-blood of the child,

To bid the father wipe his eyes withal,

And yet be seen to bear a woman’s face?

Women are soft, mild, pitiful and flexible;

Thou stern, obdurate, flinty, rough, remorseless.

Bids’t thou me rage? why, now thou hast thy wish:

For raging wind blows up incessant showers,

And when the rage allays, the rain begins.

These tears are my sweet Rutland’s obsequies:

And every drop cries vengeance for his death,

Gaint thee, fell Clifford, and thee, false

Frenchwoman.”

NORTHUMBERLAND

Had he been slaughter-man to all my kin,

I should not for my life but weep with him.

To see how inly sorrow gripes his soul.

QUEEN MARGARET

What, weeping-ripe, my Lord Northumberland?

Think but upon the wrong he did us all,

And that will quickly dry thy melting tears.”

CLIFFORD

Stabbing him

QUEEN MARGARET

Stabbing him

YORK

Open Thy gate of mercy, gracious God!

My soul flies through these wounds to seek out Thee.

Dies”

Messenger

(…)

And after many scorns, many foul taunts,

They took his head, and on the gates of York

They set the same; and there it doth remain,

The saddest spectacle that e’er I view’d.”

RICHARD

(…)

To weep is to make less the depth of grief:

Tears then for babes; blows and revenge for me

Richard, I bear thy name; I’ll venge thy death,

Or die renowned by attempting it.”

WARWICK

(…)

Their power, I think, is 30,000 strong:

Now, if the help of Norfolk and myself,

With all the friends that thou, brave Earl of March,

Amongst the loving Welshmen canst procure,

Will but amount to 25,000,

Why, Via! to London will we march amain,

And once again bestride our foaming steeds,

And once again cry <Charge upon our foes!>

But never once again turn back and fly.”

King Edward, valiant Richard, Montague,

Stay we no longer, dreaming of renown,

But sound the trumpets, and about our task.”

CLIFFORD

(…)

Thou, being a king, blest with a goodly son,

Didst yield consent to disinherit him,

Which argued thee a most unloving father.

Unreasonable creatures feed their young;

And though man’s face be fearful to their eyes,

Yet, in protection of their tender ones,

Who hath not seen them, even with those wings

Which sometime they have used with fearful flight,

Make war with him that climb’d unto their nest,

Offer their own lives in their young’s defence?

For shame, my liege, make them your precedent!

Were it not pity that godly boy

Should lose his birthright by his father’s fault,

And long hereafter say unto his child,

<What my great-grandfather and his grandsire got

My careless father fondly gave away>?

Ah, what a shame were this! Look on the boy;

And let his manly face, which promiseth

Successful fortune, steel thy melting heart

To hold thine own and leave thine own with him.”

HENRY VI

(…)

Ah, cousin York! would thy best friends did know

How it doth grieve me that thy head is here!”

CLIFFORD

I would your highness would depart the field:

The queen hath best success when you are absent.”

PRINCE EDWARD PLANTAGENET X EDWARD THE USURPER’S SON

RICHARD

Northumberland, I hold thee reverently.

Break off the parley; for scarce I can refrain

The execution of my big-swoln heart

Upon that Clifford, that cruel child-killer.

CLIFFORD

I slew thy father, call’st thou him a child?

RICHARD

Ay, like a dastard and a treacherous coward,

As thou didst kill our tender brother Rutland;

But ere sunset I’ll make thee curse the deed.”

KING HENRY VI

(…)

O God! Methinks it were a happy life,

To be no better than a omely swain;

To sit upon a hill, as I do now,

To carve out dials quaintly, point by point,

Thereby to see the minutes how they run,

How many make the hour full complete;

How many hours bring about the day;

How many days will finish up the year.

How many years a mortal man may live.

When this is known, then to divide the times:

So many hours must I tend my flock;

So many hours must I take my rest;

So many hours must Iontemplate;

So many hours must I sport myself;

So many days my ewes have been with young;

So many weeks ere the poor fools will ean:

So many years ere I shall shear the fleece:

So minutes, hours, days, months, and years,

Pass’d over to the end they were created,

Would bring white hairs unto a quiet grave.

Ah, what a life were this! how sweet! how lovely!

Gives me not the hawthorn-bush a sweeter shade

To shepherds looking on their silly sheep,

Than doth a rich embroider’d canopy

To kings that fear their subjects’ treachery?

O, yes, it doth; a thousand-fold it doth.”

O boy, thy father gave thee life too soon,

And hath nereft thee of thy life too late!”

KING HENRY VI

(…)

The red rose and the white rose are on his face,

The fatal colours of our striving houses:

The one his purple blood right well resembles;

The other his pale cheeks, methinks, presenteth:

Wither one rose, and let the other flourish;

If you contend, a thousand lives must wither.

A son

How will my mother for a father’s death

Take on with me and ne’er be satisfied!

Father

How will my wife for slaughter of my son

Shed seas of tears and ne’er be satisfied!

KING HENRY VI

How will the country for these woful chances

Misthink the king and not be satisfied!”

CLIFFORD

(…)

And, Henry, hadst thou sway’d as kings should do,

Or as thy father and his father did,

Giving no ground unto the house of York,

They never then had sprung like summer flies;
I and 10,000 in this luckless realm
Had left no mourning widows for our death;
And thou this day hadst kept thy chair in peace.”

WARWICK

I think his understanding is bereft.
Speak, Clifford, dost thou know who speaks to thee?
Dark cloudy death o’ershades his beams of life,
And he nor sees nor hears us what we say.”

WARWICK

Ay, but he’s dead: off with the traitor’s head,
And rear it in the place your father’s stands.
And now to London with triumphant march,
There to be crowned England’s royal king:
From whence shall Warwick cut the sea to France,
And ask the Lady Bona for thy queen:
So shalt thou sinew both these lands together;
And, having France thy friend, thou shalt not dread
The scatter’d foe that hopes to rise again;
For though they cannot greatly sting to hurt,
Yet look to have them buzz to offend thine ears.
First will I see the coronation;
And then to Brittany I’ll cross the sea,
To effect this marriage, so it please my lord.”

[Soon to be coronated] EDWARD

(…)

Richard, I will create thee Duke of Gloucester,
And George, of Clarence: Warwick, as ourself,
Shall do and undo as him pleaseth best.”

KING HENRY VI

(…)

No, Harry, Harry, ‘tis no land of thine;
Thy place is fill’d, thy sceptre wrung from thee,
Thy balm wash’d off wherewith thou wast anointed:
No bending knee will call thee Caesar now,
No humble suitors press to speak for right,
No, not a man comes for redress of thee;
For how can I help them, and not myself?”

Let me embrace thee, sour adversity,
For wise men say it is the wisest course.”

Ay, but she’s come to beg, Warwick to give;
She, on his left side, craving aid for Henry,
He, on his right, asking a wife for Edward.
She weeps, and says her Henry is deposed;
He smiles, and says his Edward is install’d;
That she, poor wretch, for grief can speak no more;
Whiles Warwick tells his title, smooths the wrong,
Inferreth arguments of mighty strength,
And in conclusion wins the king from her,
With promise of his sister, and what else,
To strengthen and support King Edward’s place.
O Margaret, thus ‘twill be; and thou, poor soul,
Art then forsaken, as thou went’st forlorn!”

And men may talk of kings, and why not I?”

Second Keeper

But, if thou be a king, where is thy crown?

KING HENRY VI

My crown is in my heart, not on my head;
Not decked with diamonds and Indian stones,
Nor to be seen: my crown is called content:
A crown it is that seldom kings enjoy.

Second Keeper

Well, if you be a king crown’d with content,
Your crown content and you must be contented
To go along with us; for as we think,
You are the king King Edward hath deposed;
And we his subjects sworn in all allegiance
Will apprehend you as his enemy.

KING HENRY VI

But did you never swear, and break an oath?”

KING HENRY VI

Where did you dwell when I was King of England?

Second Keeper

Here in this country, where we now remain.

KING HENRY VI

I was anointed king at nine months old;
My father and my grandfather were kings,
And you were sworn true subjects unto me:
And tell me, then, have you not broke your oaths?”

Ah, simple men, you know not what you swear!
Look, as I blow this feather from my face,
And as the air blows it to me again,
Obeying with my wind when I do blow,
And yielding to another when it blows,
Commanded always by the greater gust;
Such is the lightness of you common men.
But do not break your oaths; for of that sin
My mild entreaty shall not make you guilty.
Go where you will, the king shall be commanded;
And be you kings, command, and I’ll obey.”

In God’s name, lead; your king’s name be obey’d:
And what God will, that let your king perform;
And what he will, I humbly yield unto.

Exeunt”

GLOUCESTER [o novo título de Richard, ainda não Terceiro]

Your highness shall do well to grant her suit;
It were dishonour to deny it her.”

KING EDWARD IV

Ay, but thou canst do what I mean to ask.

LADY GREY

Why, then I will do what your grace commands.

(…)

Why stops my lord, shall I not hear my task?

KING EDWARD IV

An easy task; ‘tis but to love a king.

LADY GREY

That’s soon perform’d, because I am a subject.”

KING EDWARD IV

Why, then, thy husband’s lands I freely give thee.

LADY GREY

I take my leave with many thousand thanks.”

KING EDWARD IV

Ay, but, I fear me, in another sense.
What love, think’st thou, I sue so much to get?

LADY GREY

My love till death, my humble thanks, my prayers;
That love which virtue begs and virtue grants.

KING EDWARD IV

No, by my troth, I did not mean such love.

LADY GREY

Why, then you mean not as I thought you did.

KING EDWARD IV

But now you partly may perceive my mind.

LADY GREY

My mind will never grant what I perceive
Your highness aims at, if I aim aright.

KING EDWARD IV

To tell thee plain, I aim to lie with thee.

LADY GREY

To tell you plain, I had rather lie in prison.

KING EDWARD IV

Why, then thou shalt not have thy husband’s lands.

LADY GREY

Why, then mine honesty shall be my dower;
For by that loss I will not purchase them.

KING EDWARD IV

Therein thou wrong’st thy children mightily.

LADY GREY

Herein your highness wrongs both them and me.
But, mighty lord, this merry inclination
Accords not with the sadness of my suit:
Please you dismiss me either with ‘ay’ or ‘no.’

KING EDWARD IV

Ay, if thou wilt say ‘ay’ to my request;
No if thou dost say ‘no’ to my demand.

LADY GREY

Then, no, my lord. My suit is at an end.”

KING EDWARD IV

[Aside] Her looks do argue her replete with modesty;
Her words do show her wit incomparable;
All her perfections challenge sovereignty:
One way or other, she is for a king;
And she shall be my love, or else my queen.–
Say that King Edward take thee for his queen?

LADY GREY

Tis better said than done, my gracious lord:
I am a subject fit to jest withal,
But far unfit to be a sovereign.”

I know I am too mean to be your queen,
And yet too good to be your concubine.”

No more than when my daughters call thee mother.
Thou art a widow, and thou hast some children;
And, by God’s mother, I, being but a bachelor,
Have other some: why, ‘tis a happy thing
To be the father unto many sons.
Answer no more, for thou shalt be my queen.”

Enter a Nobleman

Nobleman

My gracious lord, Henry your foe is taken,
And brought your prisoner to your palace gate.

KING EDWARD IV

See that he be convey’d unto the Tower:
And go we, brothers, to the man that took him,
To question of his apprehension.
Widow, go you along. Lords, use her honourably.

Exeunt all but GLOUCESTER


“GLOUCESTER

(…)

And yet, between my soul’s desire and me–
The lustful Edward’s title buried–
Is Clarence, Henry, and his son young Edward,
And all the unlook’d for issue of their bodies

(…)

Why, then, I do but dream on sovereignty;
Like one that stands upon a promontory,
And spies a far-off shore where he would tread,
Wishing his foot were equal with his eye,
And chides the sea that sunders him from thence,
Saying, he’ll lade it dry to have his way:
So do I wish the crown, being so far off;
And so I chide the means that keeps me from it;
And so I say, I’ll cut the causes off,
Flattering me with impossibilities.
My eye’s too quick, my heart o’erweens too much,
Unless my hand and strength could equal them.
Well, say there is no kingdom then for Richard;
What other pleasure can the world afford?
I’ll make my heaven in a lady’s lap,
And deck my body in gay ornaments,
And witch sweet ladies with my words and looks.
O miserable thought! and more unlikely
Than to accomplish twenty golden crowns!
Why, love forswore me in my mother’s womb:
And, for I should not deal in her soft laws,
She did corrupt frail nature with some bribe,
To shrink mine arm up like a wither’d shrub;
To make an envious mountain on my back,
Where sits deformity to mock my body;
To shape my legs of an unequal size;
To disproportion me in every part,
Like to a chaos, or an unlick’d bear-whelp
That carries no impression like the dam.
And am I then a man to be beloved?
O monstrous fault, to harbour such a thought!
Then, since this earth affords no joy to me,
But to command, to cheque, to o’erbear such
As are of better person than myself,
I’ll make my heaven to dream upon the crown,
And, whiles I live, to account this world but hell,
Until my mis-shaped trunk that bears this head
Be round impaled with a glorious crown.
And yet I know not how to get the crown,
For many lives stand between me and home:
And I,–like one lost in a thorny wood,
That rends the thorns and is rent with the thorns,
Seeking a way and straying from the way;
Not knowing how to find the open air,
But toiling desperately to find it out,–
Torment myself to catch the English crown:
And from that torment I will free myself,
Or hew my way out with a bloody axe.
Why, I can smile, and murder whiles I smile,
And cry ‘Content’ to that which grieves my heart,
And wet my cheeks with artificial tears,
And frame my face to all occasions.
I’ll drown more sailors than the mermaid shall;
I’ll slay more gazers than the basilisk;
I’ll play the orator as well as Nestor,
Deceive more slily than Ulysses could,
And, like a Sinon, take another Troy.
I can add colours to the chameleon,
Change shapes with Proteus for advantages,
And set the murderous Machiavel to school.
Can I do this, and cannot get a crown?
Tut, were it farther off, I’ll pluck it down.
Exit

KING LEWIS XI

(…)

Be plain, Queen Margaret, and tell thy grief;
It shall be eased, if France can yield relief.”

Scotland hath will to help, but cannot help;
Our people and our peers are both misled,
Our treasures seized, our soldiers put to flight,
And, as thou seest, ourselves in heavy plight.”

WARWICK

From worthy Edward, King of Albion,
My lord and sovereign, and thy vowed friend,
I come, in kindness and unfeigned love,
First, to do greetings to thy royal person;
And then to crave a league of amity;
And lastly, to confirm that amity
With a nuptial knot, if thou vouchsafe to grant
That virtuous Lady Bona, thy fair sister,
To England’s king in lawful marriage.

QUEEN MARGARET

[Aside] If that go forward, Henry’s hope is done.”

QUEEN MARGARET

King Lewis and Lady Bona, hear me speak,
Before you answer Warwick. His demand
Springs not from Edward’s well-meant honest love,
But from deceit bred by necessity;
For how can tyrants safely govern home,
Unless abroad they purchase great alliance?
To prove him tyrant this reason may suffice,
That Henry liveth still: but were he dead,
Yet here Prince Edward stands, King Henry’s son.
Look, therefore, Lewis, that by this league and marriage
Thou draw not on thy danger and dishonour;
For though usurpers sway the rule awhile,
Yet heavens are just, and time suppresseth wrongs.”

OXFORD

Why, Warwick, canst thou speak against thy liege,
Whom thou obeyed’st 36 years,
And not bewray thy treason with a blush?

WARWICK

Can Oxford, that did ever fence the right,
Now buckler falsehood with a pedigree?
For shame! leave Henry, and call Edward king.”

No, Warwick, no; while life upholds this arm,
This arm upholds the house of Lancaster.

WARWICK

And I the house of York.”

KING LEWIS XI

Then, Warwick, thus: our sister shall be Edward’s;
And now forthwith shall articles be drawn
Touching the jointure that your king must make,
Which with her dowry shall be counterpoised.
Draw near, Queen Margaret, and be a witness
That Bona shall be wife to the English king.”

WARWICK

Henry now lives in Scotland at his ease,
Where having nothing, nothing can he lose.
And as for you yourself, our quondam queen,
You have a father able to maintain you;
And better ‘twere you troubled him than France.”

KING LEWIS XI

What! has your king married the Lady Grey!
And now, to soothe your forgery and his,
Sends me a paper to persuade me patience?
Is this the alliance that he seeks with France?
Dare he presume to scorn us in this manner?

QUEEN MARGARET

I told your majesty as much before:
This proveth Edward’s love and Warwick’s honesty.

WARWICK

King Lewis, I here protest, in sight of heaven,
And by the hope I have of heavenly bliss,
That I am clear from this misdeed of Edward’s,
No more my king, for he dishonours me,
But most himself, if he could see his shame.
Did I forget that by the house of York
My father came untimely to his death?
Did I let pass the abuse done to my niece?
Did I impale him with the regal crown?
Did I put Henry from his native right?
And am I guerdon’d at the last with shame?
Shame on himself! for my desert is honour:
And to repair my honour lost for him,
I here renounce him and return to Henry.
My noble queen, let former grudges pass,
And henceforth I am thy true servitor:
I will revenge his wrong to Lady Bona,
And replant Henry in his former state.

QUEEN MARGARET

Warwick, these words have turn’d my hate to love;
And I forgive and quite forget old faults,
And joy that thou becomest King Henry’s friend.”

…if King Lewis vouchsafe to furnish us
With some few bands of chosen soldiers,
I’ll undertake to land them on our coast
And force the tyrant from his seat by war.
‘Tis not his new-made bride shall succor him:
And as for Clarence, as my letters tell me,
He’s very likely now to fall from him,
For matching more for wanton lust than honour,
Or than for strength and safety of our country.”

BONA

My quarrel and this English queen’s are one.”

KING LEWIS XI

Then, England’s messenger, return in post,
And tell false Edward, thy supposed king,
That Lewis of France is sending over masquers
To revel it with him and his new bride:
Thou seest what’s past, go fear thy king withal.”

Warwick,
Thou and Oxford, with 5,000 men,
Shall cross the seas, and bid false Edward battle;
And, as occasion serves, this noble queen
And prince shall follow with a fresh supply.
Yet, ere thou go, but answer me one doubt,
What pledge have we of thy firm loyalty?”

KING LEWIS XI

Why stay we now? These soldiers shall be levied,
And thou, Lord Bourbon, our high admiral,
Shalt waft them over with our royal fleet.
I long till Edward fall by war’s mischance,
For mocking marriage with a dame of France.

Exeunt all but WARWICK

WARWICK

I came from Edward as ambassador,
But I return his sworn and mortal foe:
Matter of marriage was the charge he gave me,
But dreadful war shall answer his demand.
Had he none else to make a stale but me?
Then none but I shall turn his jest to sorrow.
I was the chief that raised him to the crown,
And I’ll be chief to bring him down again:
Not that I pity Henry’s misery,
But seek revenge on Edward’s mockery.

Exit”

KING EDWARD IV

Suppose they take offence without a cause,
They are but Lewis and Warwick: I am Edward,
Your king and Warwick’s, and must have my will.

GLOUCESTER

And shall have your will, because our king:
Yet hasty marriage seldom proveth well.

KING EDWARD IV

Yea, brother Richard, are you offended too?

GLOUCESTER

Not I:
No, God forbid that I should wish them sever’d
Whom God hath join’d together; ay, and ‘twere pity
To sunder them that yoke so well together.”

MONTAGUE

Yet, to have join’d with France in such alliance
Would more have strengthen’d this our commonwealth
‘Gainst foreign storms than any home-bred marriage.

HASTINGS

Why, knows not Montague that of itself
England is safe, if true within itself?

MONTAGUE

But the safer when ‘tis back’d with France.

HASTINGS

Tis better using France than trusting France:
Let us be back’d with God and with the seas
Which He hath given for fence impregnable,
And with their helps only defend ourselves;
In them and in ourselves our safety lies.”

GLOUCESTER

(…)

…your bride you bury brotherhood.”

KING EDWARD IV

(…)

Nay, whom they shall obey, and love thee too,
Unless they seek for hatred at my hands;
Which if they do, yet will I keep thee safe,
And they shall feel the vengeance of my wrath.

GLOUCESTER

[Aside] I hear, yet say not much, but think the more.”

KING EDWARD IV

(…)

But say, is Warwick friends with Margaret?

Post

Ay, gracious sovereign; they are so link’d in friendship
That young Prince Edward marries Warwick’s daughter.”

CLARENCE

Belike the elder; Clarence will have the younger.
Now, brother king, farewell, and sit you fast,
For I will hence to Warwick’s other daughter;
That, though I want a kingdom, yet in marriage
I may not prove inferior to yourself.
You that love me and Warwick, follow me.

Exit CLARENCE, and SOMERSET follows

GLOUCESTER

[Aside] Not I:
My thoughts aim at a further matter;

I stay not for the love of Edward, but the crown.”

KING EDWARD IV

(…)

But, ere I go, Hastings and Montague,
Resolve my doubt. You twain, of all the rest,
Are near to Warwick by blood and by alliance:
Tell me if you love Warwick more than me?
If it be so, then both depart to him;
I rather wish you foes than hollow friends:
But if you mind to hold your true obedience,
Give me assurance with some friendly vow,
That I may never have you in suspect.

MONTAGUE

So God help Montague as he proves true!

HASTINGS

And Hastings as he favours Edward’s cause!

KING EDWARD IV

Now, brother Richard, will you stand by us?

GLOUCESTER

Ay, in despite of all that shall withstand you.

KING EDWARD IV

Why, so! then am I sure of victory.
Now therefore let us hence; and lose no hour,
Till we meet Warwick with his foreign power.

Exeunt”

WARWICK

(…) welcome, sweet Clarence; my daughter shall be thine.
And now what rests but, in night’s coverture,
Thy brother being carelessly encamp’d,
His soldiers lurking in the towns about,
And but attended by a simple guard,
We may surprise and take him at our pleasure?
Our scouts have found the adventure very easy:
That as Ulysses and stout Diomede
With sleight and manhood stole to Rhesus’ tents,
And brought from thence the Thracian fatal steeds,
So we, well cover’d with the night’s black mantle,
At unawares may beat down Edward’s guard
And seize himself; I say not, slaughter him,
For I intend but only to surprise him.
You that will follow me to this attempt,
Applaud the name of Henry with your leader.

They all cry, ‘Henry!’”

The drum playing and trumpet sounding, reenter WARWICK, SOMERSET, and the rest, bringing KING EDWARD IV out in his gown, sitting in a chair. RICHARD and HASTINGS fly over the stage”

WARWICK

Ay, but the case is alter’d:
When you disgraced me in my embassade,
Then I degraded you from being king,
And come now to create you Duke of York.
Alas! how should you govern any kingdom,
That know not how to use ambassadors,
Nor how to be contented with one wife,
Nor how to use your brothers brotherly,
Nor how to study for the people’s welfare,
Nor how to shroud yourself from enemies?”

WARWICK

Then, for his mind, be Edward England’s king:

Takes off his crown

But Henry now shall wear the English crown,
And be true king indeed, thou but the shadow.
My Lord of Somerset, at my request,
See that forthwith Duke Edward be convey’d
Unto my brother, Archbishop of York.
When I have fought with Pembroke and his fellows,
I’ll follow you, and tell what answer
Lewis and the Lady Bona send to him.
Now, for a while farewell, good Duke of York.

They lead him out forcibly”

OXFORD

What now remains, my lords, for us to do
But march to London with our soldiers?

WARWICK

Ay, that’s the first thing that we have to do;
To free King Henry from imprisonment
And see him seated in the regal throne.

Exeunt”

QUEEN ELIZABETH

Come, therefore, let us fly while we may fly:
If Warwick take us we are sure to die.
Exeunt”

WARWICK

Your grace hath still been famed for virtuous;
And now may seem as wise as virtuous,
By spying and avoiding fortune’s malice,
For few men rightly temper with the stars:
Yet in this one thing let me blame your grace,
For choosing me when Clarence is in place.

CLARENCE

No, Warwick, thou art worthy of the sway,
To whom the heavens in thy nativity
Adjudged an olive branch and laurel crown,
As likely to be blest in peace and war;
And therefore I yield thee my free consent.

WARWICK

And I choose Clarence only for protector.

KING HENRY VI

Warwick and Clarence give me both your hands:
Now join your hands, and with your hands your hearts,
That no dissension hinder government:
I make you both protectors of this land,
While I myself will lead a private life
And in devotion spend my latter days,
To sin’s rebuke and my Creator’s praise.

WARWICK

What answers Clarence to his sovereign’s will?

CLARENCE

That he consents, if Warwick yield consent;
For on thy fortune I repose myself.

WARWICK

Why, then, though loath, yet must I be content:
We’ll yoke together, like a double shadow
To Henry’s body, and supply his place;
I mean, in bearing weight of government,
While he enjoys the honour and his ease.
And, Clarence, now then it is more than needful
Forthwith that Edward be pronounced a traitor,
And all his lands and goods be confiscate.

CLARENCE

What else? and that succession be determined.

WARWICK

Ay, therein Clarence shall not want his part.

KING HENRY VI

But, with the first of all your chief affairs,
Let me entreat, for I command no more,
That Margaret your queen and my son Edward
Be sent for, to return from France with speed;
For, till I see them here, by doubtful fear
My joy of liberty is half eclipsed.

CLARENCE

It shall be done, my sovereign, with all speed.”

GLOUCESTER

[Aside] But when the fox hath once got in his nose,
He’ll soon find means to make the body follow.”

HASTINGS

Sound trumpet; Edward shall be here proclaim’d:
Come, fellow-soldier, make thou proclamation.

Flourish

Soldier

Edward the Fourth, by the grace of God, king of
England and France, and lord of Ireland, &c.

MONTAGUE [provavelmente erro tipográfico – SIR JOHN MONTGOMERY é o correto]

And whosoe’er gainsays King Edward’s right,
By this I challenge him to single fight.

Throws down his gauntlet

All

Long live Edward the Fourth!”

KING HENRY VI

(…)

I have not been desirous of their wealth,
Nor much oppress’d them with great subsidies.
Nor forward of revenge, though they much err’d:
Then why should they love Edward more than me?
No, Exeter, these graces challenge grace:
And when the lion fawns upon the lamb,
The lamb will never cease to follow him.”

KING EDWARD IV

Now, Warwick, wilt thou ope the city gates,
Speak gentle words and humbly bend thy knee,
Call Edward king and at his hands beg mercy?
And he shall pardon thee these outrages.

WARWICK

Nay, rather, wilt thou draw thy forces hence,
Confess who set thee up and pluck’d thee own,
Call Warwick patron and be penitent?
And thou shalt still remain the Duke of York.”

GLOUCESTER

Come, Warwick, take the time; kneel down, kneel down:
Nay, when? strike now, or else the iron cools.

WARWICK

I had rather chop this hand off at a blow,
And with the other fling it at thy face,
Than bear so low a sail, to strike to thee.”

GLOUCESTER

Two of thy name, both Dukes of Somerset,
Have sold their lives unto the house of York;
And thou shalt be the third if this sword hold.”

CLARENCE

Father of Warwick, know you what this means?

Taking his red rose out of his hat

Look here, I throw my infamy at thee
I will not ruinate my father’s house,
Who gave his blood to lime the stones together,
And set up Lancaster.
Why, trow’st thou, Warwick,
That Clarence is so harsh, so blunt, unnatural,
To bend the fatal instruments of war
Against his brother and his lawful king?
Perhaps thou wilt object my holy oath:
To keep that oath were more impiety
Than Jephthah’s, when he sacrificed his daughter.
I am so sorry for my trespass made
That, to deserve well at my brother’s hands,
I here proclaim myself thy mortal foe,
With resolution, wheresoe’er I meet thee–
As I will meet thee, if thou stir abroad–
To plague thee for thy foul misleading me.
And so, proud-hearted Warwick, I defy thee,
And to my brother turn my blushing cheeks.
Pardon me, Edward, I will make amends:
And, Richard, do not frown upon my faults,
For I will henceforth be no more unconstant.”

KING EDWARD IV

So, lie thou there: die thou, and die our fear;
For Warwick was a bug that fear’d us all.
Now, Montague, sit fast; I seek for thee,
That Warwick’s bones may keep thine company.

Exit”

WARWICK

(…)

Lo, now my glory smear’d in dust and blood!
My parks, my walks, my manors that I had.
Even now forsake me, and of all my lands
Is nothing left me but my body’s length.
Why, what is pomp, rule, reign, but earth and dust?
And, live we how we can, yet die we must.”

Thou lovest me not; for, brother, if thou didst,
Thy tears would wash this cold congealed blood
That glues my lips and will not let me speak.
Come quickly, Montague [Somerset], or I am dead.”

KING EDWARD IV

Thus far our fortune keeps an upward course,
And we are graced with wreaths of victory.
But, in the midst of this bright-shining day,
I spy a black, suspicious, threatening cloud,
That will encounter with our glorious sun,
Ere he attain his easeful western bed:
I mean, my lords, those powers that the queen
Hath raised in Gallia have arrived our coast
And, as we hear, march on to fight with us.”

GLOUCESTER

The queen is valued 30,000 strong,
And Somerset, with Oxford fled to her:
If she have time to breathe be well assured
Her faction will be full as strong as ours.”

QUEEN MARGARET

(…)

What though the mast be now blown overboard,
The cable broke, the holding-anchor lost,
And half our sailors swallow’d in the flood?
Yet lives our pilot still. Is’t meet that he
Should leave the helm and like a fearful lad
With tearful eyes add water to the sea
And give more strength to that which hath too much,
Whiles, in his moan, the ship splits on the rock,
Which industry and courage might have saved?

(…)

Why, is not Oxford here another anchor?
And Somerset another goodly mast?
The friends of France our shrouds and tacklings?
And, though unskilful, why not Ned and I
For once allow’d the skilful pilot’s charge?
We will not from the helm to sit and weep,
But keep our course, though the rough wind say no,
From shelves and rocks that threaten us with wreck.
As good to chide the waves as speak them fair.
And what is Edward but ruthless sea?
What Clarence but a quicksand of deceit?
And Richard but a ragged fatal rock?
All these the enemies to our poor bark.
Say you can swim; alas, ‘tis but a while!
Tread on the sand; why, there you quickly sink:
Bestride the rock; the tide will wash you off,
Or else you famish; that’s a threefold death.
This speak I, lords, to let you understand,
In case some one of you would fly from us,
That there’s no hoped-for mercy with the brothers
More than with ruthless waves, with sands and rocks.
Why, courage then! what cannot be avoided
‘Twere childish weakness to lament or fear.”

SOMERSET

And he that will not fight for such a hope.
Go home to bed, and like the owl by day,
If he arise, be mock’d and wonder’d at.”

KING EDWARD IV

Now here a period of tumultuous broils.
Away with Oxford to Hames Castle straight:
For Somerset, off with his guilty head.
Go, bear them hence; I will not hear them speak.”

KING EDWARD IV

Bring forth the gallant, let us hear him speak.
What! can so young a thorn begin to prick?
Edward, what satisfaction canst thou make
For bearing arms, for stirring up my subjects,
And all the trouble thou hast turn’d me to?

PRINCE EDWARD

Speak like a subject, proud ambitious York!
Suppose that I am now my father’s mouth;
Resign thy chair, and where I stand kneel thou,
Whilst I propose the selfsame words to thee,
Which traitor, thou wouldst have me answer to.

QUEEN MARGARET

Ah, that thy father had been so resolved!”

QUEEN MARGARET

Ay, thou wast born to be a plague to men.

GLOUCESTER

For God’s sake, take away this captive scold.

PRINCE EDWARD

Nay, take away this scolding crookback rather.

KING EDWARD IV

Peace, wilful boy, or I will charm your tongue.

CLARENCE

Untutor’d lad, thou art too malapert.

PRINCE EDWARD

I know my duty; you are all undutiful:
Lascivious Edward, and thou perjured George,
And thou mis-shapen Dick, I tell ye all
I am your better, traitors as ye are:
And thou usurp’st my father’s right and mine.”

QUEEN MARGARET

O, kill me too!

GLOUCESTER

Marry, and shall.

Offers to kill her

KING EDWARD IV

Hold, Richard, hold; for we have done too much.

GLOUCESTER

Why should she live, to fill the world with words?

KING EDWARD IV

What, doth she swoon? use means for her recovery.”

QUEEN MARGARET

O Ned, sweet Ned! speak to thy mother, boy!
Canst thou not speak? O traitors! murderers!
They that stabb’d Caesar shed no blood at all,
Did not offend, nor were not worthy blame,
If this foul deed were by to equal it:
He was a man; this, in respect, a child:
And men ne’er spend their fury on a child.
What’s worse than murderer, that I may name it?
No, no, my heart will burst, and if I speak:
And I will speak, that so my heart may burst.
Butchers and villains! bloody cannibals!
How sweet a plant have you untimely cropp’d!
You have no children, butchers! if you had,
The thought of them would have stirr’d up remorse:
But if you ever chance to have a child,
Look in his youth to have him so cut off
As, deathmen, you have rid this sweet young prince!”

What, wilt thou not? Where is that devil’s butcher,
Hard-favour’d Richard? Richard, where art thou?
Thou art not here: murder is thy alms-deed;
Petitioners for blood thou ne’er put’st back.”

KING HENRY VI

(…)

Good Gloucester’ and ‘good devil’ were alike,
And both preposterous; therefore, not ‘good lord’.

GLOUCESTER

Sirrah, leave us to ourselves: we must confer.

Exit Lieutenant

KING HENRY VI

I, Daedalus; my poor boy, Icarus;
Thy father, Minos, that denied our course;
The sun that sear’d the wings of my sweet boy
Thy brother Edward, and thyself the sea
Whose envious gulf did swallow up his life.
Ah, kill me with thy weapon, not with words!
My breast can better brook thy dagger’s point
Than can my ears that tragic history.
But wherefore dost thou come? is’t for my life?

GLOUCESTER

Think’st thou I am an executioner?

KING HENRY VI

A persecutor, I am sure, thou art:
If murdering innocents be executing,
Why, then thou art an executioner.

GLOUCESTER

Thy son I kill’d for his presumption.

KING HENRY VI

Hadst thou been kill’d when first thou didst presume,
Thou hadst not lived to kill a son of mine.
And thus I prophesy, that many a thousand,
Which now mistrust no parcel of my fear,
And many an old man’s sigh and many a widow’s,
And many an orphan’s water-standing eye–
Men for their sons, wives for their husbands,
And orphans for their parents timeless death–
Shall rue the hour that ever thou wast born.
The owl shriek’d at thy birth,–an evil sign;
The night-crow cried, aboding luckless time;
Dogs howl’d, and hideous tempest shook down trees;
The raven rook’d her on the chimney’s top,
And chattering pies in dismal discords sung.
Thy mother felt more than a mother’s pain,
And, yet brought forth less than a mother’s hope,
To wit, an indigested and deformed lump,
Not like the fruit of such a goodly tree.
Teeth hadst thou in thy head when thou wast born,
To signify thou camest to bite the world:
And, if the rest be true which I have heard,
Thou camest—

GLOUCESTER

I’ll hear no more: die, prophet in thy speech:

Stabs him

For this amongst the rest, was I ordain’d.

KING HENRY VI

Ay, and for much more slaughter after this.
God forgive my sins, and pardon thee!

Dies

I, that have neither pity, love, nor fear.
Indeed, ‘tis true that Henry told me of;
For I have often heard my mother say
I came into the world with my legs forward:
Had I not reason, think ye, to make haste,
And seek their ruin that usurp’d our right?
The midwife wonder’d and the women cried
<O, Jesus bless us, he is born with teeth!>
And so I was; which plainly signified
That I should snarl and bite and play the dog.
Then, since the heavens have shaped my body so,
Let hell make crook’d my mind to answer it.
I have no brother, I am like no brother;
And this word ‘love’, which graybeards call divine,
Be resident in men like one another
And not in me: I am myself alone.
Clarence, beware; thou keep’st me from the light:
But I will sort a pitchy day for thee;
For I will buz abroad such prophecies
That Edward shall be fearful of his life,
And then, to purge his fear, I’ll be thy death.
King Henry and the prince his son are gone:
Clarence, thy turn is next, and then the rest,
Counting myself but bad till I be best.
I’ll throw thy body in another room
And triumph, Henry, in thy day of doom.

Exit, with the body”

KING EDWARD IV

(…)

What valiant foemen, like to autumn’s corn,
Have we mow’d down, in tops of all their pride!
Three Dukes of Somerset, threefold renown’d
For hardy and undoubted champions;
Two Cliffords, as the father and the son,
And two Northumberlands; two braver men
Ne’er spurr’d their coursers at the trumpet’s sound;
With them, the two brave bears, Warwick and Montague,
That in their chains fetter’d the kingly lion
And made the forest tremble when they roar’d.
Thus have we swept suspicion from our seat
And made our footstool of security.
Come hither, Bess, and let me kiss my boy.
Young Ned, for thee, thine uncles and myself
Have in our armours watch’d the winter’s night,
Went all afoot in summer’s scalding heat,
That thou mightst repossess the crown in peace;
And of our labours thou shalt reap the gain.

GLOUCESTER

[Aside] I’ll blast his harvest, if your head were laid;
For yet I am not look’d on in the world.
This shoulder was ordain’d so thick to heave;
And heave it shall some weight, or break my back:
Work thou the way,–and thou shalt execute.”

CLARENCE

What will your grace have done with Margaret?
Reignier, her father, to the king of France
Hath pawn’d the Sicils and Jerusalem,
And hither have they sent it for her ransom.”

KING EDWARD IV

(…)

And now what rests but that we spend the time
With stately triumphs, mirthful comic shows,
Such as befits the pleasure of the court?
Sound drums and trumpets! farewell sour annoy!
For here, I hope, begins our lasting joy.
Exeunt”

DEL SIGNIFICADO A LAS OPCIONES – Gillo Dorfles

Trad. Carlos Manzano (1973, 1975)

DIC:

capellone: (it.): cabeludo

engreimiento: presunção

gagà (it.): presumida

PREFACIO: PREFERENCIA Y SIGNIFICADO

El problema de la preferencia (o de la proairesis para los griegos) es un problema candente, por el cual se suele mostrar demasiado poco interés.” Em síntese, o problema monumental para o qual as massas não estão maduras (talvez jamais estejam): a relatividade e o absoluto envolvidos no <gosto>.

SEMÂNTICA PROAIRÉTICA: SIGNIFICADO (Semiótica) + PREFERÊNCIA (Estética)

A supostamente utópica ou impossível DISCUSSÃO DO GOSTO após a Metafísica.

Até que ponto e mediante que meios é possível determinar as razões primordiais que me permitem considerar algo como preferível e atribuir um significado a tal preferência?”

Superioridade intrínseca e escala de valores.

Outridade

mosaico de opções”

Que peso tem a preferência do indivíduo contra a das massas?”

Se não se pode discutir a arte, não se pode discutir mais nada.

Hume (Of the standard of taste), ensaísta e crítico do lado de lá (metafísico): a moral bíblico-alcorânica e o drama sanguinolento são inaceitáveis.

Zeitgeist da aletheia e do Belo.

SEMÂNTICA AUTOGENÉTICA: Fragmentação pós-moderna. Morte da Zeitgeist. Coabitação virtual de todas as Zeitgeister no mesmo indivíduo. Fim de um ciclo milenar e início do IMPÉRIO DA ESQUIZOFRENIA, que não sabemos quanto tempo durará.

a necessidade de restabelecer, com critérios diferentes, um critério valorativo [valor dos valores] para aplicação aos fenômenos da vida, da arte e da sociedade.”

as enquetes de Kinsey, método contestável”

Vejamos alguns exemplos de vanguardas artísticas consideradas escandalosas quando apareceram: 1) numa galeria romana, o pintor Kounellis apresentou o quadro de uma mulher grávida, nua, por cujo ventre passeavam algumas baratas; 2) o artista americano Acconci, em NY, apresentava-se confinado em uma cabine estreita de madeira dentro da qual se entregava à masturbação; 3) na exposição Documenta de Kassel (1972), o romano Vettor Pisani expôs uma mulher nua (que vinha a ser sua irmã), cujo pescoço tinha uma argola metálica, e Pisani lhe aplicava uma <tortura simulada>, cutucando uma ferida falsa pintada na perna da modelo; 4) a escultora polaca Alina Szapocznikow expunha em Paris (1970) alguns <tumores>, modelados em plástico, hiperrealistas; 5) o artista austríaco Herman Nitsch alugou um castelo nos arredores de Viena (1968-72) para representar seu <teatro das orgias e dos mistérios> (Orgien und Mysterien Theater): tratavam-se de matanças <rituais> de cordeiros e bezerros, com cujo sangue e tripas os expectadores eram banhados; para isso, Nitsch usava condutos especialmente concebidos, que derramavam o sangue e pedaços dos intestinos sobre o público; o roteiro incluía a participação dos expectadores, que deviam, além de receber os restos mortais dos animais, besuntar-se a si mesmos e aos seus vizinhos com seus próprios excrementos; havia uma série de outros <jogos> sado-masoquistas na exposição, como a celebração de missas hereges e a crucificação simbólica de algumas das ovelhas. Aos interessados, uma descrição detalhada e explicação crítica deste evento figuram em PETER GORSEN, Das Prinzip Obszön, Rowohlt Verlag, Hamburgo, 1969,(*) pp. 114-5, que transcreve também um comunicado da polícia austríaca proibindo esse gênero de <espetáculo aberrante>. Segundo Nitsch, em carta ao próprio Gorsen, o cordeiro crucificado representa simultaneamente o Pai, o Rei, a autoridade política, o ídolo estatal, a divindade. Em suma, tratava-se de uma revivificação dos cultos dionisíacos (<A revolução é um fenômeno dionisíaco>, diz Nitsch), conducentes à liberação do homem de seus tabus religiosos e políticos. (…) É típico de nossa época pretender ressuscitar cultos e práticas iniciáticos ou pseudo-mágicos pertencentes a culturas antigas, em que ditas práticas possuíam ou podiam possuir um valor autêntico; hoje sua <imitação> – seja mediante a astrologia, alucinógenos, ritos budistas, mistérios dionisíaco-órficos como neste caso, ginástica iogue, etc. – tende a ser daninha e contraproducente a despeito da intenção autoral.

(*) Até o momento, o volume-resenha mais completo sobre as relações entre arte, pornografia e sociedade.”

Exemplos como os acima multiplicam-se em outros segmentos: já pude discorrer em outra obra sobre o caso do musicólogo que gravou em fita magnética os últimos gemidos de um homem agonizante após um acidente de trânsito; bastante conhecido é ainda o caso do cineasta japonês que filmou o transcurso dos últimos instantes da vida de seu pai moribundo de câncer.”

um deslizamento (contínuo) do significado por debaixo do significanteLacan

Conceito de ASSIMETRIA ESTÉTICA por VON WRIGHT (ou mais bem uma primeira lei da assimetria): “Assimetria significa que se um estado é preferido em relação a outro, necessariamente o segundo estado não é preferido em detrimento do primeiro; i.e., pelo mesmo sujeito na mesma ocasião” Relação subsumida na fórmula-função (pPq) ~(qPp), p≠q.

O assimétrico é a premissa de qualquer proairesis.” “O simétrico se identifica com a geometrização mórbida da esquizofrenia.” Paradoxo: a ERA DA ASSIMETRIA é a ERA DA ESQUIZOFRENIA. Que seja apenas um estágio transitório entre duas eras mais autênticas, não destrói-se a contradição inerente. Resta saber se ficaremos indefinidamente presos a uma simulação indefinida desta mesma condição, como diz Baudrillard, ou se essa dialética deixa de ser estéril e se torna propulsora da superação em algum momento. Em suma, se o “novo elemento” vitorioso será ou seguirá sendo a esquizofrenia, em seu sentido pejorativo, ou a assimetria. Em busca de uma nova simetria, de um novo pathos normal.

moral corrente: contradição em termos! moral petrificada

PRIMERA PARTE – UN ANÁLISIS PROAIRÉTICO

CAPÍTULO 1. PREFERENCIA, PREVISIÓN Y CAUSALIDAD

belief is nothing but a strong and lively idea derived from a present impression (perception) related to it” HUME, A Treatise of Human Nature, 1739

A maioria das vezes, os lingüistas realizam o estudo dessas modificações [de significante-significado] exclusivamente por zelo científico e erudito, sem ter em conta adequadamente as premissas socioantropológicas que as originam (ou, se se quer, invertendo os termos da proposição no sentido de Whorf, até que se vejam as próprias premissas socioantropológicas determinadas por tais modificações!).”

Quando, p.ex., um termo como o italiano testa (para nos atermos a um dos exemplos oferecidos por Guiraud, La sémantique), originariamente uma metáfora estilística nascida da associação da cabeça (caput) com o vaso de terracota (latim testa), passou a significar cabeça, com o que se semantizou de outro modo, enquanto que – acrescentaria eu – em outras línguas românicas adquiriu um significado mais parcial e setorial: testa em português = <frente> ou, inclusive, permaneceu unido ao lexema antigo (cabeza em espanhol = caput), etc., encontramo-nos perante um exemplo fácil do difícil que resulta <prognosticar> a evolução semântica de um termo – do difícil que resulta a previsão de um significado –, mas ao mesmo tempo da importância que pode ter para os efeitos denotativos e conotativos de uma língua o fato de que se produzam semelhantes transformações.

Outro exemplo: a palavra italiana finestra – em espanhol ventana, em português janela – apresenta, ainda considerando só estes 3 idiomas, conotações completamente diferentes, relacionadas com as condições de <abertura ao exterior> (finestra e também no caso do alemão fenster), de <proteção contra o vento> (ventana e também no caso do inglês window) ou de <porta pequena> (janela, de janua).”

Our ideia of necessity and causation arises entirely from the uniformity observable in the operations of Nature.” Hume

Max Müller, para quem a própria interpretação falsa ou aberrante de algumas normas é a que abre caminho para muitas interpretações míticas destinadas a se consolidar depois com o hábito e a adquirir valor de norma. Müller explica as razões do mito de Deucalião e Pirra, que fazem nascer os homens das pedras, pela analogia entre as expressões laoi e laas; e o mito de Dafne, transformada em planta de laurel, pelo fato de que a palavra dafne tem a mesma raiz sânscrita ahana, que significa aurora, etc.” “Pouco tempo depois Cassirer viria a refutar tal teoria, detalhadamente.”

Segundo Julius Schwabe (em seu riquíssimo volume sobre os signos do zodíaco, Archetyp und Tierkreis. Grundlinien einer kosmischen Symbolik und Mythologie, 1951), a constelação de Gêmeos conotava no passado um elemento masculino em Pólux e outro feminino (ou fracamente masculino) em Cástor. Prova-o o fato de que entre os romanos os homens <juravam a Pólux> e as mulheres a Cástor. Outra prova desta masculinidade duvidosa de um dos gêmeos da constelação seria seu próprio nome, que apresenta um evidente significado castratório, como, além do mais, a própria lenda sobre o animal castor. De acordo com a lenda, esse animal, quando caçado, preferia autocastrar-se antes que ver-se privado de seus testículos pelo caçador: segundo os antigos, nestes órgãos encontrava-se uma substância utilíssima para o preparo de medicamentos contra a histeria, o tifo e outras doenças.”

Segundo a concepção da alternância de grandes ciclos temporais (que alguns chamam de <grande ano platônico>), à medida que avançam as diferentes constelações no céu, entra-se ou sai-se de uma era determinada. Cada grande era <cósmica> pertenceria a uma constelação zodiacal determinada e se veria influenciada por ela. Pois bem: podemos comprovar então que o nascimento de Cristo se produziu ou coincidiu com a passagem do sol da constelação de Áries para a de Peixes (e temos de sobra exemplos e conotações, não só astrológicos, como geofísicos, geográficos e lingüísticos para a sucessão dos <anos platônicos>), o que nos levaria a reconhecer uma razão muito mais profunda e <oculta> para o uso do nome e da imagem do peixe como símbolo de Cristo, além da aparição do nome peixe em grego para se referir algumas vezes a Jesus Cristo no Novo Testamento. A passagem da Era de Áries à Era de Touro, e desta à de Peixes (que coincide precisamente com o cristianismo e, portanto, com nossa era), à qual sucederá a de Aquário, aparece agora ilustrada com muitos dados inéditos a respeito dos já conhecidos à época de Schwabe. A propósito da denominação das <eras cósmicas> a partir dos signos do zodíaco, consultar o referido autor.”

Ist es nötig noch darauf hinzuweisen, dass die Urchristen, als sie das uralte Fischsymbol aufgriffen, sich damit eben als eine Gemeinschaft kennzeichnen wollten, die an Wiedergeburt im Geiste, Auferstehung, und Unsterblichkeit glaubte? Sie knüpften damit an die orphischpythagoreische Vorstellung der delphinischen Menschenseele an.” Schwabe “Is it necessary to point out that when the original Christians picked up the ancient fish symbol, they were trying to identify themselves as a community that believed in rebirth in the spirit, resurrection, and immortality? In doing so, they followed up on the Orphic-Pythagorean concept of the Dolphinic human soul.”

Quanto à relação entre peixe e golfinho, considerado como animal fundamental, veja-se KARL KERÉNYI, Einführung in das Wesen der Mythologie.”

as discussões sobre a importância que esses deslocamentos das constelações no firmamento poderiam ter para a confecção do horóscopo, segundo se tenha ou não em conta a posição astronômica e real do sol com respeito ao zodíaco, foram e seguem sendo numerosíssimas e encarniçadas: alguns astrólogos sustentam que o horóscopo não deveria considerar deslocamentos puramente físicos; outros afirmam que tais modificações contam também para fins astrológicos. Vemos que até o possível aspecto premonitório, presente nas práticas astrológicas, se encontra subordinado a um aspecto puramente semiótico, ou pelo menos se discute a partir dele – algo no mínimo curioso para uma crença esotérica!”

Só a arte está em condições de propor os invólucros vazios de um significado ainda não exposto à luz do dia.”

Por lo demás, estudios recientes sobre el factor tiempo, sobre su base fisiológica, biológica, patológica, han demostrado de sobra la posibilidad de una dilatación o de una restricción de lo <vivido> temporal y la posibilidad de obtener (mediante drogas, medicamentos y ejercicios especiales del tipo del Yoga, como el <training autógeno> de J.H. Schultz) las modificaciones más variadas de la temporalidad.”

CAPÍTULO 2. EL SIMBOLISMO DEL TIEMPO EN EL ARTE DE HOY

Mucho más evidente es el aspecto simbolizador del tiempo en la categoría limítrofe del arte óptico-cinético (op art) en la que nos encontramos con obras inmóviles en realidad, pero que <sugieren> el movimiento (Bridget Riley, Alviani, Soto, Cruz Díez, etc.). En dichas obras – que hace unos 10 años [1962] aproximadamente estuvieron muy en boga – el tiempo existe <potencialmente>”

Por que o ritmo é tão importante para nossa existência e por que uma alteração daquele se reflete num mal-estar profundo?”

No me parece que haya otra forma de explicar la razón por la que muchas creaciones de nuestros días – basadas en tiempos alterados (en sentido psicodélico, en sentido musical-aleatorio, en sentido poético, etc.) – conducen a otras tantas situaciones de malestar físico y psíquico.”

Así, pues, esa sensación de ligereza y de <ausencia de tiempo> que se puede experimentar en un rápido vuelo transoceánico (en el que la única sensación experimentada es, no la de la velocidad, sino la de la lentitud, dado que así se nos aparece el movimiento del avión frente a la vastedad y a la inmovilidad del paisaje de nubes y del océano situado debajo) corresponde a la ausencia de tiempo de muchos ejemplos de música moderna y de algunas situaciones de las artes visuales que hoy utilizan la dimensión temporal para expresarse.”

la obsolescencia de la obra (de arte o producida por la industria) – hoy tan aguda, tan paradigmática – demuestra tangiblemente la invasión y la acción de la <consunción> [destruição lenta mas progressiva], del factor temporal, sobre las obras del hombre y la necesidad de su simbolización por parte de las diferentes artes”

la marcada separación entre mentalidad y comportamiento juvenil y senil encuentra una contrapartida en una diversificación igualmente marcada en la mentalidad y en las actitudes de quienes tienen 16, 25, 30 años. Así, pues, existe una diferenciación destacada entre grados que todavía pueden referirse a una edad juvenil, cosa que no me parece sucediera con igual relieve hace 20 o 40 años.” [!]

En mi opinión, ese hecho significa que se está produciendo una aceleración del tiempo <existencial> con respecto al fisio-patológico. El tiempo – como símbolo de un devenir que no se detiene – ha invadido estructuras todavía ayer sólidas y consistentes.”

la sensación de una <amenaza temporal>, propensa a resquebrajar la seguridad de la existencia, está presente por todas partes y la simbolizan los aspectos artísticos y pseudoartísticos a los que he aludido”

O conceito de tempo “SAE (Standard Average European” de Whorf.

No hay duda de que el fenómeno de la progresiva desaparición o atrofiamiento del pretérito indefinido en lenguas como el italiano (a excepción del toscano) y el francés (y NO en el español), o como la eficacia cada vez menor del futuro (en lenguas que lo presentan, p.ej., en forma compuesta exclusivamente: alemán, griego moderno, croata, esloveno) o <asimilado> al presente (como el ruso y otras lenguas eslavas, cuando utilizan el presente del aspecto perfectivo para indicar el futuro) o recurren a construcciones complejas en lugar de utilizar la forma originaria del futuro (como el francés: je vais faire, el español: voy a hacer, y el propio italiano: conto di fare, sto per fare, mi accingo a fare, por no hablar del futuro japonés, que muchas veces se puede identificar con el presente), demuestra que la actitud del hablante tiende la mayoría de las veces a eludir las situaciones temporales <definitivas> o bien definidas y a adoptar otras más desdibujadas y ambiguas.”

CAPÍTULO 3. ARTE CONCEPTUAL: PREFERENCIA Y TESAURIZACIÓN [“MAL DO ACUMULADOR”]

El abismo que separa a 2 Weltanschauungen – o, mejor, a dos Kunstanschauungen – a sólo pocos años de distancia parece insalvable.”

¿Por qué kitsch? Porque el cielo es demasiado azul, la vegetación demasiado verde, la superficie de la figura demasiado translúcida; y, en consecuencia, el conjunto aparece ya manipulado en gran medida y preparado para que se lo comercialice y se lo ofrezca a los turistas, para uso del <delfín burgués>, que pasará en este lugar vacaciones suficientemente prestigiosas como para que sirvan de status symbol de cara a los amigos y a los conocidos.”

la presentación más o menos exacta, más o menos magnificada, de la realidad, ya sea la fotográfica, ya sea – con mayor razón aún – la impresionista o la enteramente abstracta, resulta estar superada.”

Aquí quisiera limitarme a precisar el porqué de la aparición de una clase de preferencia por el aspecto conceptual en el arte visual, tal como se ha ido revelando en el último decenio, porque me parece uno de los temas en que la separación entre la época actual y la que acaba de transcurrir resulta más marcada, en que resulta más sintomática la afirmación de un tipo de preferencia hasta hace poco inimaginable.”

dadá, el surrealismo, fueron las consecuencias extremas de un persiflage de la presentación naturalista del mundo exterior. El informalismo señaló un regreso inútil a una especie de impresionismo pictórico, sin <contenidos>, pero no sine materia; e incluso la pintura-objeto, que desembocó, por un lado, en el pop-art y, por otro, en el arte programado y cinético (me excuso por la rapidez telegráfica y por la aproximación de estas definiciones), seguía recurriendo, a pesar de todo, a la tangibilidad densa y manipulable de la obra.”

Por lo demás, no es casualidad que un movimiento tan vasto y, en definitiva, tan <incómodo> como el del conceptualismo se haya revelado precisamente en estos últimos años (de 1965 en adelante): años que han visto el surgimiento de las sublevaciones estudiantiles de 66-8 y su decadencia, la extensión y continuación de la guerra en Vietnam y de las guerrillas en tantas partes del mundo, la difusión de la droga, la decadencia de los movimientos de vanguardia en el cine y en el teatro underground, la crisis de la novela y de la música dodecafónica y, después, de la aleatoria”

un nihilismo diferente del dadaísta, porque carece de fermentos irónicos y humorísticos, un nihilismo ya no propio de Duchamp, con frecuencia macabro, a veces irritante, otras masoquista o sádico.”

hace 20 años [1952], la única o más importante tarea del crítico comprometido, del estetólogo, era la de defender la vanguardia, de intentar hacer de mediador entre el universo circunscrito, circunspecto, del artista y el obtuso, cargado de anteojos culturales y morales, del público.”

la temporada de los happenings fue de corta duración, y en muchos casos se vio <comercializada> mediante la reproducción cinematográfica.”

nuestra época ha llegado a un punto en que la escisión entre arte <puro> y arte utilitario es cada vez más clara y cruel. El primer sector se va alejando cada día más de la comprensión y del interés del gran público (incluso de un público relativamente culto), más aún de lo que ocurría con el arte abstracto de los años 30, con el op y el pop de los años 60; el segundo sector se acerca cada vez más al producto del diseño industrial y se une a la gran familia del kitsch.”

El público se alimenta constantemente, de um modo que ya otras veces he definido como absurdo, de <sonidos musicales>, casi siempre carentes de interés artístico alguno, sin propósito renovador alguno, con una función de <relleno sonoro> exclusivamente, ni más ni menos que la del ruido que sube de la calle o del <gorjeo de los pájaros> de los tiempos remotos.” Aqui, muita coisa mudou!

el llamado público de conciertos, los viejos ambientes de los aficionados a la <música clásica>, incluso gran parte de los profesionales (directores de orquestra, profesores de conservatorio, etc.) desarrollan sólo programas a base de música del pasado, sin interés ni comprensión algunos por la música de nuestros días (me refiero a la de Stockhausen, Schnebel, Berio, Cage, Donatoni, etc.). Las obras de los músicos contemporáneos están destinadas a pocos centenares de personas dispersas por el mundo, todavía menos que las que se interesan por el arte conceptual, por el land art, por el arte pobre.”

Algunos de esos conceptos (como los de tesaurización y analidad aplicados al coleccionismo) surgieron en una discusión con el neurofisiólogo y psicoanalista Mauro Mancia.”

CONCEITO DE ANALIDADE POBREMENTE APLICADO AO COLECIONADOR: “Para muitos colecionadores, o fato de entrar em posse do quadro, da estátua, é por si mesmo fonte de gozo, de igual modo que o é o entesouramento [retenção] de suas próprias fezes pela criança.”

Muchas veces, las casas de los coleccionistas tienen pocos muebles y objetos, están mal conservadas, con mobiliario anticuado y desmesuradamente moderno, incluso de gusto dudoso. Las obras están amontonadas en las paredes, una junto a otra, sin ningún respeto por su naturaleza particular, sin ninguna preocupación por ese <espacio vital> que cada una necesitaría ni por su convivencia recíproca.”

En realidad, poetas concretos tradicionales como Ferdinand Kriwet, Rot, De Campos, etc., siguen ateniéndose, como por lo demás, Gominger (quizás el más riguroso y más imaginativo de los concretistas), al aspecto semántico del lenguaje verbal”

En definitiva: muchos artistas conceptuales han tenido que someterse al deseo de los aficionados. Han tenido que encontrar el modo de saciar el apetito voraz de los <objetos>, siempre renovado, de aquéllos; han tenido que renunciar a sus sueños de pureza, de transitoriedade, de pobreza.”

CAPÍTULO 4. LA MODA COMO EXALTACIÓN PROAIRÉTICA

Nenhum outro setor da atividade e da criatividade humana é mais representativo que a moda para uma investigação de caráter proairético [que versa sobre as preferências estéticas do público].” “a moda encarna, quase em estado puro, a preferencialidade, que, ressaltamos, não é a <superioridade> de determinada situação.” Sendo assim, a moda não é uma arte. Ou quem sabe seja o que vem depois do fim da arte.

Quando dizemos hoje: <a lingüística, o estruturalismo, a psicanálise, o marxismo, a fenomenologia, etc., estão na moda>, no fundo reconhecemos que essas doutrinas poderosas, que essas solenes correntes do pensamentos, podem-se reduzir, no final, a simples momentos efêmeros de preferência, e que, portanto, depois de saboreadas o suficiente, destrinchadas e ostentadas, acabarão rápida e afortunadamente sendo substituídas por outras.”

A palavra alemã Genuss, que os dicionários costumam traduzir por: gozo, posse, desfrute, uso, etc., significa na realidade: saboreio unido a gozo de uma substância ou situação determinada, e não me parece que exista uma palavra em nossa língua com a qual se a possa substituir. Fala-se de um Genuss pelo café, pelo álcool, pela droga, etc.”

Estilo X Styling (kitsch)

(passado – séc. XIX X séc. XX)

ex: Estilo Império, estilo Luís XVI, rococó, estilo Rainha Ana…

Havia um sincronismo e validades universais (ditados pela aristocracia).

Bastaria recordar os numerosos trabalhos de Wölfflin, Dvorak, Panofsky, para se dar conta de que muitas de suas análises já não se podem aplicar às formas artísticas de nossos dias. Mas hoje – dado que nossa análise é predominantemente sincrônica – já nem podemos falar de estilo a propósito de certos móveis dinamarqueses, ou eletrodomésticos italianos, senão, sobretudo, de moda e de styling. É um fato – e muitos o afirmaram com razão – que o Art Nouveau, o Jugendstil, constituiu-se como o último estilo autêntico de nossa época.”

A moda do kitsch e o kitsch da moda.

El propio hecho de haber considerado que se pudieran aplicar esquemas estructuralistas a la moda (como ha hecho Barthes en su Système de la mode), pero limitando en realidad su análisis al aspecto <verbal>, de nomenclatura, relacionado con ella, ha hecho que muchos prediquen la necesidad, o la oportunidad, de incluir la moda dentro de un aspecto lingüístico-estructuralista, como tantos otros sectores de la sociedad y de las ciencias humanas en general. Y la cosa no presentaría dificultad, si no se diera en este caso una eventualidad que no me parece se haya considerado: la de una institucionalización a priori, y no a posteriori, de los elementos lingüísticos relativos a dicho supuesto código.”

Con frecuencia se afirma que la moda es un fenómeno vinculado a la sociedad capitalista y desconocido, o poco conocido, en los países socialistas y revolucionarios; no resulta muy difícil demostrar la falsedad de esa hipótesis.”

A redundância: tudo é um invólucro teatral e barroco da propriedade doméstica: a mesa é coberta por uma toalha de mesa, ela mesma protegida por uma outra toalha de plástico. Cortinas e cortinas duplas às janelas. Tapetes, capas, revestimentos, abajures…” Baudrillard

se o fato de trajar mangas de jaqueta excessivamente largas ou calças excessivamente apertadas (nos períodos em que <é moda>) deve ser considerado de mau gosto – kitsch –, podíamos também ampliar este juízo a outros setores para além da moda. Sempre voltará a época da lâmpada com luz oblíqua, talheres escandinavos, louça de aço inox, etc.”

Mesmo no cinema, apenas em casos excepcionais – Potemkin, Greta Garbo, Buster Keaton, O vampiro de Düsseldorf (para citar 4 exemplos bem distintos entre si) – as imensas qualidades artísticas conseguem <vencer> o desgaste estilístico devido a uma questão de moda, que predomina nos longas bons mas não <ótimos>. O modo de se mover dos personagens, as frases pronunciadas, a entonação das vozes, certas atitudes românticas ou passionais hoje completamente defasadas e consideradas ingenuamente românticas, ou ridiculamente licenciosas, acabam contaminando mesmo as cenas que eram (e seriam ainda) de qualidade estética e técnica.”

observar os rostos carrancudos e truculentos ou então inexpressivos, severos e carnavalescos dos diferentes hierarcas nazifascistas é – para todos, hoje – um espetáculo grotesco, ainda mais cômico que propriamente penoso e entristecedor. Como justificar o fato, senão pensando que um grande componente de moda interveio para dar àquela época o trato que ela merece?”

De praxe, consideramos a toilette (a higiene, os hábitos e estilo) de nossos pais mais ridícula e démodé que a de nossos avós ou bisavós.”

Na música, teatro, poesia não se adverte esse envelhecimento estético tão veloz decorrente da passagem da moda, uma vez que conseguimos substituir instintivamente com nosso modo de ser e de nos comportarmos aquilo que está descrito na novela ou indicado na peça. No cinema e na fotografia (meios <realistas>) isso é impossível. (…) Uma possível fonte de retroalimentação, que pode ser causa, ainda que também efeito de um espírito de época, desse estado de coisas efêmero é o fato de que no passado não era possível apresentar aos próprios descendentes, documentalmente, e com absoluta fidelidade, uma dada moda, sendo assim imperceptível, senão menos evidente e estridente, o contraste entre o ontem e o hoje.”

Está ligeiramente out (fora de moda) quem ostenta nas paredes de seu chalé ou casa de verão uma pintura informal (em 1972), como também o está quem usa como música de fundo para receber seus amigos um Respighi¹ ou Pfitzner², embora o mesmo não se possa dizer de quem opta pelo jazz de vanguarda mais recente ou uma marcha de Bach.”

¹ Compositor italiano do XIX-XX, já ele mesmo um nostálgico de períodos ainda mais remotos (sécs. XVI ao XVIII).

² Praticamente o mesmo se pode dizer deste segundo compositor alemão, incluindo o período em que viveu e exerceu sua influência e seu gosto nostálgico, particularmente entusiasta de Palestrina.

…e as coisas estão mudando enquanto escrevo”

na Itália, basta seguir um automóvel para observar um exemplo perfeito dessa veemência gesticulatória do povo (não só abundante como até excessiva), com freqüência a causa de acidentes de trânsito, graves até: a maioria das vezes ambas as mãos do motorista abandonam o volante para que ele possa comunicar a seu companheiro a profundidade de seu pensamento de maneira apropriada (que o <co-piloto> decerto não vê, ocupado em vigiar o tráfego!).” “um baixo contínuo que acompanha a palavra”

o V de vitória com a mão era quase desconhecido, antes de Churchill popularizar o gesto”

A saudação de punho cerrado de tipo comunista está, talvez, em fase de decadência, como muitos gestos indicativos de <ter fome>, <enganar>, <vou dormir>. A saudação fascista, que esteve em voga, desgraçadamente, por muitos anos, seguiu, depois, existindo com um valor de saudação <normal>, desde que fosse executada com menor elevação do braço e com menos vigor (perdendo assim seu ar <romano>).”

O ciao ou adeus italiano na estação de trem, p.ex., antes de uma larga viagem, era vertical ou frontal (oscilações do braço entre a pessoa que saúda e a direção do viajante); com o tempo, passaram a usar o tchau que hoje conhecemos: oscilações laterais, à moda anglo-saxã ou germânica. Mais curioso ainda: em poucos anos, usos gestuais passaram por transformações importantes: antes mexiam-se os dedos das mãos no adeus, e a palma ficava imóvel; depois, os dedos ficavam juntos e sem se mexerem, e a mão adquiriu dinamismo.

a passagem do tabaco da aspiração ao fumo se deveu a um aperfeiçoamento do gosto, ou <mudança de moda>. Não se pode dizer que amanhã não se voltará à moda de aspirar o tabaco ou de fumar o café ou mascar o chá.” Congelamento!

é provável que num futuro próximo (quando, como é verossímil, se tenha liberado a maconha e substâncias semelhantes) o período atual pareça fortemente condicionado: primeiro, pelo proibicionismo; depois, pela liberação; e, finalmente, pela provável decadência do uso de tais substâncias.”

Isso é o que não me parece admissível: buscar refúgio numa abolição ou atenuação da própria atividade consciente mediante fármacos que a embotam (ou a exaltam, mas desfigurando-a, desegotizando-a) é contrário a todos os princípios a que se dirigiu a civilização ocidental; é ainda adverso buscar refúgio ou auxílio em tentativas mecânicas de vidência ou de visões supressensíveis (práticas iogues, p.ex.).”

conhecida é a relação entre sexualidade e iniciação no budismo clássico, como na prática do despertar do Chakra” “métodos ocultos que não são apropriados para nossa época”

Um tal Timothy Leary, psicólogo doidão, prescrevia o cogumelo Teonanacatl, tradicional entre aborígenes mexicanos, a seus pacientes nos anos 70. O Dalai-Lama rebateu este “profissional” em 1971: “O que mais falta aos próprios usuários desses narcóticos é o que poderia ser benéfico em seu uso – a Claridade, a Pureza e a Liberdade.”

CAPÍTULO 5. IDEOLOGÍA COMO PROAIRÉTICA PATOLÓGICA

Joseph Gabel, em seu La conciencia falsa, que segue sendo indubitavelmente o melhor estudo dum aspecto patológico-político ou, se se quer, psicanalítico-marxista da ideologia, analizou bastante bem este <ponto fraco> do fanatismo ideológico.”

Segundo Dévreux, se podemos considerar o período nazi como o estabelecimento de uma forma esquizofrênica, poderíamos, igualmente, considerar a sociedade européia de finais do séc. XIX como tendencialmente <histérica>.”

Talvez não se possa dizer o mesmo da Itália em sua relação com o fascismo o mesmo da Alemanha em sua relação com o nazismo; a <cura> italiana não se produziu com o mesmo vigor.”

Um caso de paranóia política poderia ser o de Israel: o enlace com pontos de partida ético-religiosos, que remontam a milhares de anos; a incrível firmeza na perseguição de um ideal construído sobre um conceito de <nação>, totalmente teórico; o fato de ter ressuscitado uma língua morta há vários séculos…”

É sabido que a ignorância das funções mais elementares relacionados com o sexo era (até há pouco, se bem que segue sendo em parte) enorme, como também é conhecida a razão para isso: religião ou confissão (catolicismo), falso moralismo (vitoriano) ou alegações puritanas de virtude hipócritas (quakers, calvinistas e protestantes no geral).”

O VOCÁBULO “TEMPO” NOS IDIOMAS ESLAVOS (TEMPO METEOROLÓGICO, TEMPO CRONOLÓGICO):

Croata – vrijeme (clima); goda, rok (devir)

Eslovaco – cas (devir)

Esloveno – vreme (clima); ura (devir)

Polaco – cas (devir)

Russo – vremja (raiz ambivalente); pogoda (clima); cas (devir)

Tcheco – cas (devir)

SEGUNDA PARTE – LAS OPCIONES ECOLÓGICO-URBANÍSTICAS

INTRODUCCIÓN

A arte (pintura e escultura, mas inclusive a poesia) deixou-se implicar nessa <glorificação do objeto> (a partir do surrealismo, percorrendo a pop art e a op art) de tal modo que não consegue mais livrar-se dessa objetualização dominante.”

O sutil mal-estar, o sentimento de frustração que experimenta hoje um homem que tenha vivido sua infância no tempo pré-guerras, especialmente nas zonas densamente industrializadas, talvez passem batidos ao jovem nascido no pós-guerras, quando o estrondo das motos, a concentração de fumaça, o estrépito do tráfego, a poluição dos mares eram já uma realidade. E é igualmente possível imaginar que o homem de um futuro próximo esteja já imunizado, ainda mais que o jovem contemporâneo [1972!], contra o barulho e o ar poluído e cinzento onipresentes.”

Numa praia contaminada nos arredores de Roma tive a ocasião de presenciar um filho perguntar ao pai se podia encher seu baldinho de água do mar: estava o menino tão impregnado da noção de contaminação que não podia deixar de considerar a água do mar como uma espécie de veneno, que se deveria evitar ao máximo.”

Expressões como “o céu azul” e “os eternos cumes nevados da montanha” já se tornaram tão kitsch quanto “amor à pátria” ou “lar doce lar” ou “a moral cristã”, “o seio materno”, “o espírito do corpo” e por aí vai…

Seria hoje absurdo seguir falando de construção e urbanismo nos termos caros a um Le Corbusier ou um Lúcio Costa há não mais de 20 anos, ou a um Gropius, por exemplo.”

1. DESFASE [DEFASAGEM] ECOLÓGICO Y RESEMANTIZACIÓN URBANÍSTICA

a indiferença quase total quanto à contribuição e à missão das <artes visuais> em integração com o meio ambiente tem feito com que o que se chama de arquitetura perca quase toda conexão com sua matriz expressiva primária.”

RECADO A LÚCIO COSTA: “A utopia do Bauhaus, que creu poder predicar e pôr em prática a identificação absoluta entre <utilidade> e <beleza> chegou ao fim.”

Em lugar de almejar colonizar montes de pedra sem atmosfera como os da Lua (meta de aventuras recentes, já nada empolgantes, uma vez que nem as crianças assistem mais os programas dedicados aos vôos lunares na TV [1972!]), seria melhor que o homem tentasse não arruinar em definitivo o belíssimo planeta no qual teve a ventura de nascer.”

Em primeiro lugar, é necessário livrar-se de formulações estéticas antiquadas que se obstinam em considerar a arquitetura como uma arte plástica, irmã da pintura e da escultura, como se fôra uma espécie de superdecoração em escala de cidade.”

Se bem que em algumas artes (música e poesia) se possa apontar os equivalentes das partículas elementares da fala (morfemas, lexemas, sintagmas), no caso da arquitetura e urbanismo isso é muito mais problemático.”

De um ponto de vista semiótico-territorial serão mais aceitáveis as tristíssimas favelas brasileiras, ou tugúrios colombianos, que as villas miseria argentinas. Talvez esta afirmação necessite um esclarecimento: significará, então, o que eu disse que não se pode identificar o aspecto semiológico com o sociológico? Se nos dispusermos a aceitar as abomináveis favelas, por se integrarem de modo mais <orgânico> à cidade do Rio, somos por isso insensíveis às conotações sociais que esta preferência supõe? Aí está o núcleo do problema: também na antiguidade romana, babilônica, grega, pré-colombiana, existiram as injustiças sociais mais inacreditáveis, mas não monstruosidades urbanístico-arquitetônicas como nas atuais Milan, Roma e Buenos Aires.”

Os centros das cidades-satélites suecas não são nada senão shopping centers de tipo americano, enquanto que, na contra-mão, o <não-centro> das grandes cidades ianques (Cleveland, Atlanta, Houston) – excluindo-se talvez Manhattan, Boston e São Francisco da conta – já deixaram de existir, degradaram-se até se converter em setor de negócios ou mera sede administrativo-bancário-política, onde ninguém vive, onde a vida cessa quando cessa o expediente. E esse fenômeno começa a prevalecer em algumas cidades alemãs de design <americanizado>.”

2. LOS FACTORES PROAIRÉTICOS EN EL DESIGN AMBIENTAL

Alvin Toffler contaba cómo en 70 de las mayores ciudades americanas el tiempo de residencia media en el mismo lugar era menos de 4 años. El desarraigo con respecto al hábitat propio no sería grave por sí mismo, si condujese a la reconstrucción en otro lugar de otro Heimat; pero eso es precisamente lo que ya no sucede a causa del carácter provisional del empleo, de la familia, que provocan el desinterés afectivo por el suelo urbano o por el natural.”

3. PREFERENCIAS Y PREVENCIONES EN LA ARQUITECTURA INDUSTRIALIZADA Y EN EL DESIGN

a arquitetura industralizada (ou pré-fabricada, como com freqüência se diz, erroneamente) constitui um dos pontos delicados da exposição, que reaparece sempre que se fala de originalidade dos edifícios, de fantasia construtiva, da tão necessária luta contra o descenso do nível inventivo, contra a uniformização e a homogeneização das construções arquitetônicas de nossos dias.”

4. LOS PRECEDENTES DE UNA SEMIÓTICA ARQUITECTÓNICA

Por mi parte, estoy convencido de que antes que nada hay que considerar la lingüística como una de las ramas de la semiótica, y no al revés (…) (como sostienen con frecuencia algunos autores franceses).” “En el caso de la arquitectura es evidente que no se puede hablar de una división en fonemas, sino, si acaso, sólo en <morfemas> (o sea, en partículas morfológicamente significativas, ¡ya que el elemento fonético está ausente!)” Um capítulo que não faz o menor sentido (como quase toda a segunda parte do livro)!

Desgraçado do edifício que se disfarça sob o aspecto de outro, como – desgraçadamente – ocorre com freqüência: igreja com aparência de night club; estádio com a de templo; escola com a de açougue [!!!] (a menos que não seja incomum alguns prédios constituírem uma espécie de curiosidade <agradável>, conquanto isso parece ter sido moda passageira dos 1800)!”

si una partitura de Bussotti puede considerarse con el mismo criterio que una pintura o un diseño moderno, también algunas notaciones arquitectónicas (croquis, proyectos, etc.), modernas y antiguas, tienen ya de por sí un gran valor artístico: basta con pensar en los célebres esbozos de Mendelssohn, en los de Haering o, sobre todo, en los de Scharoun, y, en el pasado, en algunos proyectos, realizados o no, de Ammannati, de Leonardo, de Miguel Angel, de Leon Battista Alberti. El valor artístico de dichos proyectos – prescindiendo de su <colocación semiótica> – es notable, y sería muy difícil decidir hasta qué punto se trata de obras de diseño, de maqueta, o equiparables a las realizaciones arquitectónicas auténticas. Como es sabido, según algunos, el croquis y el proyecto, si se desarrollaran y profundizaran lo suficiente, equivaldrían perfectamente a la obra ya realizada. (Y en cierto sentido lo vimos, cuando, durante la última guerra, se pudieron reconstruir algunas arquitecturas de la antigüedad sobre la base y con la ayuda de diseños de la época conservados y, por tanto, realizables.)”

La lectura de la partitura, aunque informa, incluso de forma muy precisa, sobre determinado fragmento musical, no por ello deja de ser una lectura-no-musical (o, por lo menos, no sonora); según la opinión de algunos músicos (Stockhausen, Castaldi) no es otra cosa que el registro mediante un código muy perfeccionado de un objeto sonoro cuyo auténtico disfrute sólo puede producirse a través del órgano del oído. Stockhausen, p.ej., afirma que el tipo de <goce> que le produce el recorrer rápidamente una partitura (incluso saltando de un ponto a otro de la composición) es totalmente diferente al de la audición del mismo fragmento.” Cf. STOCKHAUSEN, Texte zur elektronischen und instrumentale Musik, 1963.

5. LA OPCIÓN POR LO ASIMÉTRICO Y LA ASIMETRÍA DE LAS OPCIONES

en la Weltanschauung zen y taoísta predomina la tendencia a lo asimétrico, y algunos conceptos como los de wabí y de sabi podrían aproximarse al de asimetría.”

Parece impossível, mas minha criada de quarto não admite que eu coloque minhas coisas na cômoda de forma assimétrica; quando limpa minha casa se apressa em <colocar simetricamente>, de acordo com um esquema fixo seu, todos os objetos que eu havia colocado de propósito fora do lugar.” Léger

Podemos antecipar o começo do fenômeno, se pensamos na marcada tendência nessa direção que se pode advertir a partir dos últimos anos do séc. XIX com o florescimento do simbolismo na França e ainda antes, com o do pré-rafaelismo na Inglaterra: pintores e decoradores como Gustave Moreau, D.G. Rossetti, Burnes Jones, Odilon Redon, Khnopff, Puvis de Chavanne e, à geração seguinte, os austríacos da Secessão: Klimt, Schiele, etc., são todos tendencialmente assimétricos, pois começam a olhar com simpatia para o Extremo Oriente” “a adoração pelo número áureo, derivada dos círculos renascentistas, teria de ceder e ver-se invertida por novos módulos estéticos.”

por que o coração está à esquerda e o fígado à direita? por que é mais comum ser destro? por que a mãe costuma segurar o recém-nascido pelo lado esquerdo?”

O rosto esquerdo revela o lado oculto ou noturno (sinistro) da vida.” Werner Wolff

…ao passo que a metade direita – precisamente por <depender> do hemisfério cerebral esquerdo, sede dos processos de criação de idéias mais racionalizados – parece ser o <espelho> da personalidade humana mais socializada e consciente.”

normalmente o homem entrelaça as mãos de com o polegar direito superposto ao esquerdo, e a mulher ao contrário”

e como pode ser que o laevus latino não se conservou no italiano (enquanto que se conservou no left inglês, no link alemão, no lijevo esloveno e croata e no lievyi russo?)”

derecho droit destro direito

izquierdo gauche sinistro esquerdo

Se consideramos alguns esquemas urbanísticos clássicos – dos hipodâmicos aos estelares (tipo Palmanova), aos de L’Enfant (tipo Washington) ou Haussmann (tipo Paris) ou inclusive à aparente heterodoxia de Lúcio Costa no caso de Brasília –, vemos facilmente que em quase todos predomina um princípio de euritmia e equilíbrio, i.e., de obtenção do máximo de equilíbrio baseando-se numa simetria <dinâmica>, numa pseudo-assimetria, à la Hambidge. Hoje (1972!), até esse tipo de equilíbrio me parece pouco aceitável rumo a uma evolução da ordenação territorial e do <caráter distributivo> de nossos edifícios.”

Na linguagem e no pensamento a assimetria está em todo lugar ou, para ser assimétrico, em quase todo lugar: podemos considerar simétricas as manobras analogizantes ensaiadas – de forma muitas vezes ingênua, mecânica – por um Lévi-Strauss? Sim, sem dúvida; mas isso seria pertencente à exceção: uma tentativa ou mania de assimilar códigos diferentes (sociológicos, alimentares, musicais, etnológicos!) sobretudo dum ponto de vista meramente sintático e sem levar em conta, salvo superficialmente, os autênticos aspectos semânticos e axiológicos que se interrelacionam. Mas, continuando, o fato de considerar como analógicas as metáforas propriamente ditas conduzirá à descoberta dum aspecto assimétrico também nelas, i.e., porque unem dois signifiés diferentes por meio dum signifiant único.”

#SugestõesdeTítulosdeLivros

OXÍMORO OU CARÍBDIS

LEITURAS PROSPECTIVAS

YASUICHI ARAKAWA, Die malerei des Zen-Buddhismus. Pinselstriche des Unendlichen, 1970

JEAN BAUDRILLARD, Le système des objets, 1968

MARIO BUNGE, The Place of the Causal Principle in Modern Science, 1963

GERMANO CELANT, Arte povera

Revista “Noigandres” (São Paulo), sobre a vertente mais séria da dita poesia concreta de origem germano-suíço-brasileira

GILLO DORFLES, Il Kitsch, antologia del cattuvi gusto, 1969 (1972) / El kitsch, antología del mal gusto, 1973

LUDWIG GIESZ, Phänomenologie des Kitsches, 1960 / Fenomenología del kitsh, 1973

HECAEN, La Symétrie en Neuropsychologie, 1970

EUGÈNE MINKOWSKI, Les conséquences psychopatologiques de la guerre et du nazisme, 1948

ALEXANDER MITSCHERLICH, La inhospitalidad de nuestras ciudades, 1969

EDWIN SCHUR, The Family and the Sexual Revolution, 1964

DAISETZ SUZUKI, Zen and Japanese Culture, 1959

VÁRIOS AUTORES, Psicología del vestir, 1975

HERMANN WEYL, Symmetry, 1952

IVOR DE WOLFE, Civilia, Architectural Press, Londres, 1972

THE ART OF NOISES – Manifesto do pintor futurista Luigi Russolo

The Greeks themselves, with their musical theories calculated mathematically by Pythagoras and according to which only a few consonant intervals could be used, limited the field of music considerably, rendering harmony, of which they were unaware, impossible.

The Middle Ages, with the development and modification of the Greek thetrachordal system, with the Gregorian chant and popular songs, enriched the art of music, but continued to consider sound in its development in time, a restricted notion, but one which lasted many centuries, and which still can be found in the Flemish contrapuntalists’ most complicated polyphonies.”

Eis que fez-se o acorde!

On the other hand, musical sound is too limited in its qualitative variety of tones. The most complex orchestras boil down to 4 or 5 types of instrument, varying in timber: instruments played by bow or plucking, by blowing into metal or wood, and by percussion. And so modern music goes round in this small circle, struggling in vain to create new ranges of tones.”

We Futurists have deeply loved and enjoyed the harmonies of the great masters. For many years Beethoven and Wagner shook our nerves and hearts. Now we are satiated and we find far more enjoyment in the combination of the noises of trams, backfiring motors, carriages and bawling crowds than in rehearsing, for example, the Eroica or the Pastoral.

We cannot see that enormous apparatus of force that the modern orchestra represents without feeling the most profound and total disillusion at the paltry acoustic results. Do you know of any sight more ridiculous than that of 20 men furiously bent on the redoubling the mewing of a violin?”

Meanwhile a repugnant mixture is concocted from monotonous sensations and the idiotic religious emotion of listeners buddhistically drunk with repeating for the nth time their more or less snobbish or 2nd-hand ecstasy.”

Nor should the newest noises of modern war be forgotten. Recently, the poet Marinetti, in a letter from the trenches of Adrianopolis, described to me with marvelous free words the orchestra of a great battle:

every 5 seconds siege cannons gutting space with a chord ZANG-TUMB-TUUMB mutiny of 500 echos smashing scattering it to infinity. In the center of this hateful ZANG-TUMB-TUUMB area 50km² leaping bursts lacerations fists rapid fire batteries. Violence ferocity regularity this deep bass scanning the strange shrill frantic crowds of the battle Fury breathless ears eyes nostrils open! load! fire! what a joy to hear to smell copletely taratatata of the machine guns screaming a breathless under the stings slaps traak-traak whips pic-pac-pum-tumb weirdness leaps 200m range Far far in back of the orchestra pools muddying huffing goaded oxen wagons pluff-plaff horse action flic flac zing zing shaaack laughing whinnies the tiinkling jiiingling tramping 3 Bulgarian battalions marching croooc-craaac (slowly) Shumi Maritza or Karvavena ZANG-TUMB-TUUUMB toc-toc-toc-toc (fast) crooc-craac (slowly) crys of officers slamming about like brass plates pan here paak there BUUUM ching chaak (very fast) cha-cha-cha-cha-chaak down there up around high up look out your head beautiful! Flashing flashing flashing flashing flashing flashing footlights of the forts down there behind that smoke Shukri Pasha communicates by phone with 27 forts in Turkish in Herman Allo! Ibrahim! Rudolf! allo! allo! actors parts echos of prompters scenery of smoke forests applause odor of hay mud dung I no longer feel my frozen feet odor of gunsmoke odor of rot Tumpani flutes clarinets everywhere low high birds chirping blessed shadows cheep-cheep-cheep green breezes flocks don-dan-don-din-baah Orchestra madmen pommel the performers they terribly beaten playing din not erasing clearing up cutting off slighter noises very small scraps of echos in the theater area 300km² Rivers Maritza Tungia stretched out Rodolpi Mountains rearing heights loges boxes 2000 shrapnels waving arms exploding very white handkerchiefs full of gold srrrr-TUMB-TUMB 2000 raised grenades tearing out bursts of very black hair ZANG-srrrr-TUMB-ZANG-TUMB-TUUMB the orchestra of the noises of war swelling under a held note of silence in the high sky round golden balloon that observes the firing…”

Every noise has a tone, and sometimes also a harmony that predominates over the body of its irregular vibrations.”

We are therefore certain that by selecting, coordinating and dominating all noises we will enrich men with a new and unexpected sensual pleasure.

Although it is characteristic of noise to recall us brutally to real life, the art of noise must not limit itself to imitative reproduction. It will achieve its most emotive power in the acoustic enjoyment, in its own right”

We note, in fact, in the composers of genius, a tendency towards the most complicated dissonances. As these move further and further away from pure sound, they almost achieve noise-sound.”

In this way the motors and machines of our industrial cities will one day be consciously attuned, so that every factory will be transformed into an intoxicating orchestra of noises.”

OPEN LETTER TO “PROFESSOR” FREUD FOR HIS 75TH BIRTHDAY, from LOU ANDREAS-SALOMÉ // CARTA ABERTA A FREUD, por UMA CHARLATÃ (em tradução mais ou menos horrorosa de Lenis E. Gemignani de Almeida, sob péssima editoração de Antonio Daniel Abreu)

Quite out of the blue I recall the question that’s usually asked half-jokingly— though now and then by our opponents even somewhat seriously: <By whom and in what manner will the creator of psychoanalysis himself be analysed, seeing that he regards the procedure as imperative for all members of the Society?> Well now! it was by this very method that he became its creator: it resulted from his struggle with what we call ‘resistance’, that is, the resistance of his nature against the resistance of what that same nature had been happy to repress and cause him discomfort. And it was from this conflict with himself that there came forth a work of genius.”

Before you came, Professor, psychologists deemed people they treated healthy, or else interpreted the symptoms as verging on the mystical. More often than not it was as if they were sitting by a stretch of water exchanging opinions about fish swimming about below them that they couldn’t see. They either fantasised over them philosophically or alternatively proudly caught a fish and put its dead body with the others awaiting methodical dissection.”

One could consider the relatedness to the object—of the analyst, of the poet—as not being comparable, despite the fact that they both abstain from the photographer’s <smile please>, and despite the fact that both confidently empathise with a person’s inner situation and, irrespective of what that condition be, respond fittingly in every case; one could object to the opposition of the 2 methods: one bent on analysing, the other on synthesising. And yet, this opposition is crucial: for one thing it is the reverse side of the cloth that is being considered, the way the individual threads travel, the way they intertwine, knot, and lead off; and for another, it is how one gains a clear impression of how these threads come together neatly on the visible side to make a pattern.”

even then, if, meanwhile, the external reality has remained unchanged and the patient finds himself beset with difficulties just as before, then for the first time it will be one reality dealing with another reality, instead of one spectre dealing with another spectre.”

com o <isso> (ça), perde-se a imagem de uma fronteira da nossa identidade e se vai derivar a definições filosóficas: haverá, dentro em pouco, tantas definições do <isso> quantos filósofos há”

o narcisismo, conceito-limite, deve assumir uma dupla função ao longo da existência: ele aparece tanto como reservatório, o substrato de todas as manifestações do psiquismo, até a mais individualizada ou a mais sutil, assim como o lugar de toda recaída, de toda tendência à regressão (…) por fixação patológica, ao estágio infantil.”

não derrame o sangue do isso!

Esta relação equívoca ao ser corporal, esta <ambivalência> característica de nosso comportamento psíquico, tem sido bem-vista por nosso velho amigo e contraditor Bleuler, criador do termo esquizofrenia”

o sado-masoquismo, que associa curiosamente o nome de duas pessoas fundamentalmente opostas.”

Filho de recalcado, recalcadão é.

No primário eu fui um ator secundário.

Nosso viver infantil é lava e vulcão. A era do gelo é a idade adulta. O que quer que hoje me torne altivo, o que quer que seja essa angústia de fundo irreprimível e estilhaçadora nos meus piores dias, eu gostaria de saber do quê deveio, ou do que devieram, embora para a “primeira parte” eu esteja muito mais perto de obter uma resposta. É o abandono? Mas o gênio já não foi sempre de certa forma um abandonado? Um auto-abandonado? A falta de um público fiel e motivador no lugar da mãe onipotente?

o homoerotismo (para tomar a expressão de Ferenczi, em lugar do termo homossexualidade, que acabou por tomar uma ressonância atrozmente vulgar[???]) ou inversão (…) deve ser visto(a) como patológico(a), casualmente curável, se tomar os caracteres de uma neurose obsessiva – de uma oscilação entre o pólo masculino e o pólo feminino, com super-compensações no sentido da iteratividade [repetição] e da hiper-passividade.”

nisto que impede o homoerótico de dar o último passo para se unificar como sujeito heterossexual reconhece-se a marca do caráter erótico fundamental, que não se encontra senão no Eros infantil” “no homoerotismo [não consigo usar essa palavra, cof], este caráter [narcísico?] está concentrado, preservado, o que é impossível na infância, onde as atividades sexuais precoces se desenvolvem de maneira isolada.”

o homossexual leva suas atividades a um grau de maturidade particular, que será preciso abandonar de novo [?] se ele se tornar uma <metade> unissexuada.¹ Parece-me que, na homossexualidade, as manifestações primitivas perdem de tempos em tempos seu caráter de materialidade, revestimento necessário do temperamento infantil (passível de sublimação)”

¹ Um homossexual decidido (não-reprimido)? Quanta contradição!

Tem-se com freqüência chamado a atenção sobre o arrebatamento, a exaltação que caracteriza as uniões homossexuais”

A MOÇA LEU PLATÃO (SÓ FALTOU MESMO ENTENDER): “Observemos que este traço caracteriza também a natureza verdadeira da amizade, da qual se tem podido duvidar, com alguma razão, que possa se estabelecer entre pessoas de sexo oposto antes da velhice”

tanto uma paixão pelo esporte como o Bom Deus são suscetíveis de ser o mediador ou o terceiro termo que unifica.” Ou uma ópera wagneriana.

Imagine se o indivíduo místico aprendesse a procriar pondo ovos… A humanidade estaria salva, e o sexo seria interdito para todo e qualquer fim pela religião oficial!

Para metade da humanidade, quero dizer as mulheres, estas dificuldades se resolvem normalmente nelas mesmas, pela graça da natureza. (…) A mulher se liga por natureza, tanto sobre o plano biológico quanto sobre o plano psíquico, ao contrário do homem, ao elemento passivo, uma vez que é somente assim que ela, na sua especificidade, pode chegar à felicidade e seu pleno desabrochar erótico (ah! que bom é ver que também nós começamos a compreender que o destino do sexo feminino é a felicidade e não a resignação!)” Lou Salomé não tinha começado a entender porra nenhuma!

Nietzsche devia ter ressuscitado para dar-lhe umas boas bofetadas!

ERAM OS DEUSES PEDERASTAS: “A outra metade da humanidade, constituída pelos homens, não se libera por ela mesma do dilaceramento de querer ser mais que uma só metade; o homem que, inteiramente heterossexual, dá o último passo para penetrar o sexo estranho, seu complementar, se condena, assim, a não ser senão um homem, incompleto, tomado entre 2 exigências rivais: consagrar-se à família ou entregar-se a tarefas materiais, profissionais, altamente humanas.”

não é raro que o esmorecimento da relação amorosa tenha por corolário uma compreensão aumentada em relação ao parceiro abandonado.”

Mesmo no amor que devotamos às plantas, é puro <esteticismo> o que prevalece e a nossa sensibilidade não ocupa aí senão um lugar secundário.”

o homem [no sentido antropológico geral], quando é o objeto do nosso amor, manifesta exigências imensas; tendo-o como parceiro, está fora de questão que se possa sair tão bem com facilidade e que se possa ser tão parcimonioso como com as outras criaturas, as quais, satisfeitas com as migalhas do nosso amor, nos introduzem, em troca, nesse mundo mirabolante, complementário do nosso, fabuloso (e é aí que reside, em todo relacionamento com um animal, o grande, o verdadeiro acontecimento).” Os cachorros parecem ter se tornado muito mais complexo desde a época de Lou Salomé. Eles não ficam satisfeitos com ‘migalhas’, e obsequiam nosso amor e dedicação sinceros…

Não concedemos tampouco uma tão grande significação à passagem tirada de uma das cartas maravilhosas de Rosa Luxemburgo, na qual ela descreve a piedade apaixonada que a invadira diante do espetáculo dos besouros (ou outros insetos) devorados pelas formigas. Porque o besouro aqui está desmesuradamente favorecido pelo ódio reativo da revolucionária, e não se está longe de suspeitar aí uma tentativa de compensação do caráter neurótico confirmado, que é a vingança, em seu sentido oposto, contra todas as espécies de besourões.”

somente as relações que permanecem distanciadas e que não se ligam a um ser humano nos deixam a tranqüilidade necessária para vivê-las sem ódio, até o fim. Porque quando a nossa individualidade se encontra em jogo na relação amorosa e sujeita ao contato de uma outra individualidade, ela deve enfrentar o combate pela afirmação do seu eu, e a necessidade aí é tanto mais imperiosa quanto o caráter apaixonado e exclusivo da relação faz pesar uma ameaça sobre a conservação do eu.”

Nós preferimos tratar os objetos de nossa aversão com correção, vê-los com polidez, porque é assim que eles nos tomam menos tempo. Torturar cruelmente aquilo que não se ama mais não é senão angustiante e desvia o eu dos objetivos que ele persegue: é somente quando o objeto exerce um atrativo erótico que se desperta a crueldade, que a pulsão amorosa é devorada pela pulsão de poder e a perverte para fazer disso um meio de alegria.” Vocábulo nada técnico, descuidado. Ou seria descuidado justamente por ser, de alguma forma, muito esmerado e técnico? No seio da psicanálise banalizada, pervertida, já nem se sabe mais, e não interessa a distinção. Má assimilação da filosofia do séc. XIX e reiteração do erro, em efeito cascata, com a soma das décadas…

Décimo primeiro mandamento: Nunca serás indiferente ao teu cão, nem ele a ti.

Olhar alguma coisa como morta ou viva quer dizer apenas observá-la sob o ponto de vista do que nós temos transformado em mecânico ou em psíquico.”

qual é a origem da doença? É a solidez destas cascas da superfície, que o adulto, por seu poder (e as experiências da vida), tem forjado precocemente, para proteger o ser, deixando a parte mais íntima dele mesmo desamparada e sem proteção.”

Toda neurose simula o acordo desejado entre o mundo interior e o mundo exterior”

Esta inquietante estranheza esconde de todo o vivido do neurótico, até o momento em que isso se exprime numa vertigem e num desvario, onde o <o que é interior?> e o <o que é exterior?> se invertem.”

O perigo, mesmo no interior da normalidade, reside na vacilação entre a tendência a se superestimar e a crença de ser inferior, na oscilação do pólo ativo ao pólo passivo, que é muito natural à medida que o desejo imperioso das pulsões deve fazer frente às realidades ameaçadoras da vida.”

no homem mais evoluído [que o histérico, que nega o real], os sentimentos [de culpa] têm suas raízes, pelo simples fato de que o acesso à consciência põe diante dele o mundo real e dá eo ipso condenação a seus desejos. Nós procuramos então rejeitá-los e apaziguá-los, mas não conseguimos senão fazê-los enfraquecer, enterrar-se ainda mais. Ou então nós nos livramos lançando-nos num excesso de abstinência, de docilidade, e daí nossa agressividade se insurge, protesta vigorosamente, e nos faz entrar em conflito com a parte de nós que se liga aos instintos.” Meu corpo cotidiano se rebela contra meu eu, sempre oculto observando as cenas, o criador, encarnado em músculo esporadicamente.

para arbitrar entre os 2 pólos de oscilação [o meigo e o selvagem, mamãe e papai], uma mediação de caráter obsessivo foi elaborada.”

exacerbação da dúvida”

Hamlet: incapaz de formar um compromisso, de ignorar o ultraje à mãe e a honra do pai, e o ódio ao tio, mas incapaz também de vencer e continuar, ele escolhe vencer perdendo, i.e., vingar-se e morrer. Tipo decadente do herói.

HEADS OR TAILS: “A uma escala reduzida, tem-se observado uma forma de superstição nas crianças que, em casos de dúvida, preferem confiar-se ao acaso, aos presságios (escolha das calçadas sobre as quais andam, superstições com números, escolha da direita ou da esquerda [+ <jogos de velocidade>: se não chegar à porta ou ao microondas a tempo, serei punido, ficarei cego, etc.]), à necessidade de decidir.” Fé na ausência da barba mosaica.

Na religião, o sujeito pode encontrar um meio[-caminho] de superar as decepções, i.e., as aspirações insatisfeitas das suas pulsões, sem se expor, particularmente a tensões perigosas que conduziriam a uma neurose”

reserva natural protegida”

reverso da medalha [onipresente]”

Conseqüência da conversão do crente: “toda realidade que, em si, teria merecido ser vivida, teria podido ser amada, perde suas cores.” “realidade diabólica” “não existe nenhuma ressurreição na fé atrás da qual não se perfile uma crucificação.”

observam-se, em relação ao homem, tendências para um hábito mais histérico ou mais obsessivo. No primeiro caso, nada adquire um aspecto trágico para aquele que se encontrou agarrando-se à fé, simplesmente porque este recurso lhe estava sugerido pelo espírito do tempo e por sua educação, e porque se ajustava perfeitamente à linha do seu otimismo [Inato: sou pessimista de nascença] o fato de privilegiar sem dificuldades as verdades mais agradáveis e outorgar-lhes fé. São tais <sedentários> que constituem a comunidade de crentes numericamente mais importante do mundo. (…) A base de sua fé permanece muito banal.” Parasita.

estes medíocres felizes que têm sempre a tez florida” sua fé é muito mais mundana do que gostariam de admitir

um ícone bem simples de latão se põe a resplandecer quando revestido de roupa dourada ou ornamentado de jóias.” O verdadeiro criador religioso, legislador e escultor de deuses, é o neurótico.

Trata-se de compreender que o culto de Deus é já um nome para um vazio, para uma lacuna na piedade, onde residem, de antemão, a perda e a renúncia, uma necessidade de Deus, porque não há posse, à medida que Deus não poderia existir como Deus senão onde <não há necessidade> dele. Quem quisesse utilizá-lo, não teria mais <Deus> mas alguma coisa que se pode apontar com o dedo”

Nemo contra Deum nisi Deus ipse.”

De que profundezas tão grandes subiu a força que abalou o pensamento de Nietzsche? É o martírio de uma vida inteira passada em busca de um substituto de Deus. Eis a verdade que ele pôs a nu: o homem não faz senão começar, lentamente, a dar-se conta do ato que ele cometeu” deleuZzZzZe diZzZzZia que já estamos cansados de tudo isso, em verdade. Melhor deixar pra lá…

Como sempre, Nietzsche foi excessivo na conclusão” Ou você foi insuficiente, Salomé.

ela o induziu à profecia que constitui a idéia do Retorno.” Que você está misturando com a compulsão freudiana sem vênia!

Pode até ter razão em seus pressupostos fundamentais, mas não passa de uma existencialista má escrevinhadora e redundante. Espiralando quando podia tomar vias heideggerianas, sartreanas, até mesmo beauvoirianas; e olha que estamos falando de sujeitos já bem “enrolões” e elípticos… Um estilo estafante que não deve ser melhor no vernáculo do que na insegura tradução.

Decerto não é você que me dará lições sobre o deserto.

Se, nas religiões, são sempre as representações mais primitivas da divindade que têm mostrado o rosto mais terrível, o mais sombrio, o mais cruel, isto não é somente porque elas estão destronadas pelos deuses que lhes sucedem, e, portanto, rebaixadas, escarnecidas por eles; há mais: é lá que se lê toda a evolução do espírito que se volta sempre mais em direção à claridade na existência e em direção aos quadros da consciência, dos quais os deuses mais tardios tiram seu caráter próprio.”

o homem reduz sempre este espaço até fazer dele a porta estreita da morte”

é na margem do mesmo oásis que se reencontram os animais do deserto”

a arte confina com a magia e a religião, que são uma maneira de conjurar o que se acredita poder transformar em realidade.”

fuck daydreams

FUTURO SIM, PASSADO NÃO: “poder-se-ia dizer, ainda mais, que a criação provém de realizações, da força com que isso que não está ainda vinculado à pessoa é involuntária e imperiosamente levado a se realizar. É quanto a este aspecto que ela se opõe inteiramente ao patológico que <regressa ao infantil>”

Eis o que regulamenta a questão espinhosa de saber se o criador tem o direito de utilizar para sua obra tudo o que a humanidade encerra de duvidoso: esta reivindicação impede, efetivamente, a consagração a outros fins (…) o artista, do qual se poderia dizer que é um <obcecado pela perfeição>, sofre em dobro: seja por sua sensibilidade exacerbada, seja pelas imperfeições da vida e pelas suas próprias

a mais-valia conferida ao social na criação artística.” “Só se é criador sob o impulso jubiloso da obra (…) mesmo que nos interessemos por nossos semelhantes, estes fatores não participam do processo que conduz à obra”

DOUBLE DEEDS

o talento se desvia do fim sexual (…) é isto que faz sempre com que se veja o artista como alguém muito <narcísico>.” “Nessa relação estreita que liga o erotismo precoce à consciência do eu já orientada em direção ao espírito, há um elemento ascético importuno para o criador, ou seja, que, parcialmente, seu erotismo não busca realizar-se e evoluir na carne. (…) assim, o artista paga o preço da concorrência duvidosa que ele faz a Deus, fazendo-se criador de realidade. Estas riquezas (…) obrigam-no à renúncia, da mesma forma que um mergulhador vestido com um equipamento estanque apanha tesouros no fundo do mar para levá-los à superfície, não estando atado ao mundo, durante toda a sua atividade, senão pelo tubo que lhe permite respirar. Se o artista não chega a essa renúncia total, o que deveria tornar-se força produtiva recai na fase infantil do erotismo. Entre todo este processo se estende na sua teia a aranha da patologia, à espreita do esgotamento da mosca.”

A fragilidade desta fronteira que separa a criação artística da penetração na experiência do corpo se encontra de maneira impressionante no breve episódio do Duino (1913), escrito por Rilke [CARTA ABERTA A TODOS OS MEUS HOMENS] (publicado primeiramente no Almanach Insel, de 1919, com o título de Experiência vivida): <Ombros apoiados contra o tronco bifurcado de uma árvore>, ele teve a sensação de que o ser dessa árvore passava literalmente nele.” “experiência corporal num estado de quase-sonambulismo, experiência não-poética (…) [nela] o artista não desaparece” “acessos de misticismo”

Todos aqueles que desprezam a arte encontram aí os melhores argumentos contra o artista: este seria uma espécie de trapaceiro que se elevaria acima do mundo, mundo que nós nos esforçaríamos por colocar em ordem sob as perspectivas da prática e da lógica, em lugar de nos iludirmos – o que é mais confortável – como faz o artista. Mas essa objeção erra a sua pontaria em face da obra realizada: o artista colhe suas sensações de impressões arcaicas, onde, para ele, o mundo e o ser humano estavam ainda unidos para constituir a realidade, e é ela que se realiza de novo na obra.” Desaparecer não dói nem dá prazer. No, e não acima do, mundo.

Especializações (não exatamente, por exemplo, a de escritor, poeta ou ator, i.e., de ofício, mas as “de época” ou escolásticas, típico fenômeno modernista e anti-genial) encaradas de modo nefasto. Maior exemplo: as deficiências inerentes ao Romantismo. Obra moral é o cúmulo do absurdo.

transformação do destino humano na arte”

Não sei se fala de Rilke ou não: “Não se pode falar a não ser em voz baixa de coisas tão secretas como esta irrupção dolorosa das Elegias que se prolongou por 10 anos, como se o ser humano, forçado a se oferecer em sacrifício, opusesse uma resistência a esta constrição que se perverteu a si mesma: <Porque todo anjo é terrível>.” “a forma proclamava o Último – mas o homem foi quebrado. Uma obra de arte se mantém silenciosamente num mundo de paz e de desespero, mas o véu transparente (chamado <estética>) despregado sobre ela para dissimular as condições extremas do nascimento desta obra é muito fraco.

Quem disse que não se pode viver perigosamente sem ser um “macho hollywoodiano da aventura e da ação”? O dente-do-ser. O sedentário que rói o devir mais que o ciclista-maratonista que, em movimento, não sabe o que é deslocamento e alteridade. E que, portanto, não sabe nada.

Mostrando-se sob um aspecto muito severo, os pais não querem senão garantir, pelo menos em certa medida, o que é absolutamente indispensável. As linhas azuis traçadas no caderno do estudante estão destinadas a desaparecer posteriormente, ao serem rejeitadas todas as dependências quando o ser autônomo escolher seu itinerário. Se a autoridade, que, num primeiro tempo, tem sua razão de ser, não é destruída a tempo, não somente ela erra a sua pontaria, mas ainda, não dando importância a tudo o que já está executado com êxito na construção do nosso ser, ela conduz a inseguranças mais bizarras: o que, no começo, era influência que se exercia naturalmente do exterior, madeiramento do edifício ainda inacabado, se incrusta na construção terminada como um cogumelo de bolor, que não se sabe onde se esconde; as instâncias que operam no processo da consciência moral – o <supereu> que temos retomado como <eu ideal> – se agarram a um sentimento de culpa e a uma necessidade de castigo, que, vindos das origens do estágio infantil, conseguem ter um efeito mais místico justamente pelo fato de sua distância em relação à clareza racional do juízo pessoal.” Pais de messias não são – sempre – deuses nem divinos são os mortos…

o remorso não é reconhecido como tal a não ser quando ele sucede a atos ou a considerações <egoístas>, enquanto que um pesar tão forte pode se apresentar depois de uma ação supostamente <desinteressada>, quando esta quis se realizar no seu egoísmo pulsional, de maneira intempestiva, desenfreada, em detrimento de outras exigências pulsionais. Ou seja, um combate incessante se trava entre as exigências das diversas pulsões em nós, e, quanto mais um homem é dotado disso, mais a situação é crítica para ele, e, bem entendido, a Bíblia fala já, muito justamente, de nossos pensamentos que <se denunciam e se acusam reciprocamente>”

uma pulsão lesada se precipita sobre aquela que prevaleceu sobre ela, até que esta, gravemente ferida, esteja bem <arrependida>; mas tudo isto resulta da vida e da saúde, não das dívidas e dos prejuízos”

Quando imperativos morais por demais rigorosos e inaplicáveis ultrapassam nossa natureza pulsional, esta, se ela goza de uma saúde perfeita, pode, mesmo com o desafio de sua fé total na autoridade, decidir vitoriosamente o combate entre eles, como ela combateria as calúnias (que nos reportemos, sobre este ponto, aos velhos cantos sérvios, onde se faz o elogio do herói: embora ciente, depois que ele se tornou cristão, do castigo celeste como uma conseqüência natural inevitável, ele ama tanto seus pecados que menospreza o risco de continuar a cometê-los e <endossa> o castigo). Não é preciso esquecer que os discursos do <supereu> e do <ideal do eu> para nos insultar ou nos convencer são para ser assimilados aos vestígios de impressões e de angústias infantis que não foram ainda liquidados e que, quando se caminha para o sentimento de culpa ou de remorso, não produz senão muito facilmente uma mudança de direção que propulsa na neurose. Se a obediência à autoridade reconhecida é muito perfeita, é porque a fronteira do patológico não está muito afastada – o que quer dizer: a repressão das pulsões é já em si a manifestação, mesmo disfarçada, do retorno da dimensão pulsional recalcada, uma vez que mesmo a obediência não pode tirar sua energia de parte alguma, a não ser da força pulsional que ela tem contaminado com sua doença. (…) nós ficamos com as exigências que tínhamos no começo: nós não deixamos em nada nosso fundo, nosso solo, nós não podemos senão imaginá-lo, quando fugimos de nós mesmos de maneira patológica.”

DEAR FATHER: “Todo crente cuja evolução foi harmoniosa – i.e.: que permaneceu com boa saúde – tem sempre sido intimamente penetrado pelo fato de a exigência ética lhe colocar ante uma tarefa que não tem fim nem acaba, da qual ele jamais poderá se exonerar inteiramente dos limites da sua condição de homem, mas somente por intermédio do ‘dom da graça divina’.”

resulta que nós somos, inevitavelmente, lançados no turbilhão de toda realidade, com a única opção de consentir nisso. Se, sem dúvida, isto quer dizer atravessar um oceano num frágil barquinho, tal é a nossa condição humana”

Que importa agora que as tentativas de nossa consciência para emergir estejam maculadas de todos os erros possíveis? Se alguém tachar esse comportamento de imoralidade, de arbitrário e de presunção, nós estaríamos com maior razão autorizados a tachar de confortável desleixo moral a escravidão infantil daquele que se mantém no respeito das prescrições!

Com efeito, que fez, portanto, o homem, ao ousar decidir, escolher, colocar seus valores? Ele realizou o ato mais rigoroso, o mais determinado, porque era um ato autônomo, que não procedia de nenhum cálculo, apesar da maneira pela qual ele vinha, mas, ao contrário, era um ato erguido nele com a onda do entusiasmo criador, um ato consumado APESAR DE TUDO, ao aceitar todos os riscos. Um ato legitimado por seu caráter universal, um ato que acompanha uma transcendência e que quer dizer: eu pertenço a esta realidade, eu faço corpo com ela, eu não estou somente confrontado com ela num combate hostil. É muita insolência? Sim porque o cúmulo da insolência, que nós temos inventado para nós, é a nossa adesão à humanidade: nós temos colocado o homem que cria os seus valores como a aventura mais sublime da vida.”

nós escapamos desta realidade original ao erigir uma imagem intelectual do mundo, imagem que mantém a ficção de uma oposição entre ela e nós, mas que representa somente a margem reservada para a consciência no interior do campo global do inconsciente.”

Mesmo em relação àquele que qualificamos de <realista ingênuo>, permanece um pouco dessa atitude, o que explica que a dissolução da realidade numa aparência – que isto esteja no espírito de Berkeley, na representação que os hindus se fazem no <véu de Maya>, ou sob outra forma qualquer – não lhe quisesse entrar na cabeça, tão <absurdo manifesto> isto é.”

Enquanto olhamos a meia-lua, como poderíamos não sentir que ela está integrada na rotundidade da lua inteira?”

nós não somos apenas seres que fazem compromissos, como na neurose – nós não somos apenas, como na normalidade, seres que buscam acumular suas insuficiências com novas aquisições –, nós somos o homem em toda a sua contradição