AS LEIS – Livro VIII

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

Não é a primeira vez que adentramos este assunto (a natureza dos governos): a democracia, a oligarquia e a tirania. Com efeito, se tens de dar-lhes um verdadeiro nome, não são governos, senão facções. A autoridade não é exercida por mútuo consentimento; só o <mando> é voluntário; a obediência é sempre forçada. Os governantes, desconfiando constantemente de seus súditos, não raciocinam com exatidão sobre as aparências que vêem: a virtude, as riquezas, a força e os valores.”

um homem deve saber correr armado, pois não merece recompensa o correr mais rápido sem nenhuma arma” (Neste contexto, o Ateniense fala de modificações aos jogos olímpicos, cujas modalidades não fazem sentido se não preparam os competidores para conflitos reais.)

Se os homens, atendendo ao instinto da natureza, restabelecessem a lei em vigor até os tempos de Laio,(*) estipulando que <os homens não tenham com os jovens comércio que só deveriam ter com o sexo oposto>, usando como justificativa para tal reforma e restauração da lei antiga a própria animalidade em si mesma, nem por isso Creta e Esparta ficariam contentes.”

(*) “Eliano, livro 12, 100:5 & al. dizem que Laio introduziu pela 1ª vez na Grécia estes <amores detestáveis> e que raptou Crisipo, filho de Pélope. O motivo alegado de sua homossexualidade seria a previsão do oráculo de que, se tivesse um filho, por ele seria assassinado. Procurou, portanto, não <ter comércio> com mulher alguma, porém acabou falhando num momento de embriaguez.”

ATENIENSE – Sabeis que, hoje mesmo, a maioria dos homens, a despeito de toda a corrupção dos costumes, se abstém fiel e cuidadosamente, em determinadas ocasiões, de todo comércio de mau gosto com pessoas formosas, não só sem sentir-se com isso em apuros (necessitando suprimir o próprio ímpeto violentamente), como até mesmo de boa-fé?

MEGILO – De que ocasiões falas, Estrangeiro?

ATENIENSE – Quando se tem um irmão ou irmã muito belos. Uma lei não-escrita também proíbe o pai de amar carnalmente seu filho ou sua filha, sendo que não lhe é lícito deitar-se com eles nem em segredo, muito menos em público. Também sabes que é crime um parente abusar do corpo de outro, seja para gratificar-se a si mesmo ou para produzir-lhe dano (golpeá-lo ou matá-lo). E felizmente, Megilo, sequer passa pela cabeça da grande maioria dos cidadãos cometer esse tipo de atrocidade.”

A maioria do que se refere à propriedade privada nem vale a pena que discutamos, pois já está assentada pela tradição e seria pernicioso empreender reformas inúteis nestas pequenezas e obviedades. (…) Aquele que faça colheita de uvas ou figos, na propriedade de outrem ou mesmo na sua própria, antes do tempo que a natureza prescreveu (a aparição da estrela de Arcturo no céu), terá de pagar uma multa de 50 dracmas, consagradas a Dioniso (provado que foi em seu próprio campo), ou de 1 mina (no campo de um vizinho). Pagará, ainda dois terços de uma mina se isso tiver ocorrido em qualquer outro campo que não o de um de seus vizinhos. Já quando se fala da estação fértil ou de parreiras ou figueiras cujos frutos apodrecerão se não houver quem deles desfrute, pode-se pegar os que se queira, dentro do próprio terreno; quando isso ocorre no campo alheio sem autorização do proprietário, a pena prescrita será conforme a lei que versa sobre arrancar o que estava fincado ou fixado, o que é o mesmo que roubar. Mas frutos que já caíram, se o dono não se preocupou em colhê-los, são propriedade comum e pertencem ao primeiro que quiser aproveitá-los. Tudo isso está em Sólon.”

Quanto às pêras, maçãs, romãs e que-tais, não se considera trapaça tomá-las ocultamente; porém, se alguém menor de 30 anos for pego in fraganti, cabe a quem o detectou infligir-lhe o castigo e assegurar-se de que ele não se apossará dos frutos; tudo bem, desde que o infrator não seja ferido. (…) O cidadão de mais de 30 que se contentar em comer, sem ter a intenção de levar em estoque, gozará do mesmo direito, bem como qualquer estrangeiro; mas se age contra a lei se arrisca a ser um notório não-virtuoso, no caso de ser testemunhado e comunicarem aos juízes, caso um dia se indague publicamente e em processo sobre seu caráter.”

Cidadãos, e mesmo servos de cidadãos, não devem exercer profissão mecânica. (…) O artífice ferreiro não deverá trabalhar com madeira; e que nenhum artífice carpinteiro permita que trabalhadores sob sua chefia mexam com o ferro, pois não se aceitará a escusa de que se tem muitos escravos e não se pode vigiá-los todos, nem a de que existe vantagem em ter pessoas consigo trabalhando outros materiais que não sua especialidade.”

Qualquer estrangeiro que desempenhe dois ofícios simultaneamente está sujeito à prisão e ao pagamento de multas, quando não for melhor expulsá-lo da cidade – tudo para que tema ser castigado por ser muitos homens e contente-se em ser apenas um.”

Está proibido pagar imposto pela importação ou exportação. Mas que não se traga de fora nem incenso nem perfumes estrangeiros desses que se queimam nos altares dos deuses, nem tecidos luxuosos, como púrpuras, nem tinturas que não se vêem no país; se outras artes já subsistem com materiais nacionais, não faz sentido importá-los do estrangeiro; também será proibida a exportação de riquezas que se entenda que não devam sair.”

Quanto às armas e demais insumos bélicos, se para fabricá-los for necessário contratar artesãos estrangeiros, bem como importar madeiras e metais determinados, cordume, um ou outro animal, os generais e comandantes da cavalaria serão os responsáveis pelo trânsito, pela entrada e saída das coisas, pelo recebimento e entrega, não como indivíduos, mas enquanto representantes da polis, sendo que agirão conforme leis a ser expedidas pelos guardiães, que não carecem ser excessivas nem muito pormenorizadas.”

Será estabelecido um mercado público para todas as trocas monetárias; não sendo permitido vender sua mercadoria a prestações. Aquele que assim vender seu bem, contando com a boa-fé do comprador, não poderá depois fazer reclamação se o comprador faltar com seu compromisso.”

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS – OU “DA FLOR AMARELA”

Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas”

GLOSSÁRIO:

almocreve: guia em viagens, geralmente de animal

a·lu·á

(árabe hulauâ, doce açucarado)

substantivo masculino

1. [Brasil] Bebida não alcoólica, feita a partir da fermentação de farinha de arroz ou de milho, cascas de abacaxi, açúcar e suco de limão. = CARAMBURU”

barretina: o que os soldados usavam antes de usar o capacete!

calembour: trocadilho

compota: sobremesa; doce de fruta com calda, rocambole = GARIBÁLDI

emplasto: pílula; invólucro.

locandeiro: merceeiro

pacholice: simplório, bonachão

pintalegrete: peralta

tanoaria: a arte do fazedor de tonéis

Te Deum: liturgia, hino religioso

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte e, quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado.”

O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo.”

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.”

foi assim que me encaminhei para o undiscovered country de Hamlet, sem as ânsias nem as dúvidas do moço príncipe, mas pausado e trôpego como quem se retira tarde do espetáculo.”

Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade.”

Como este apelido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, alegava meu pai, bisneto de Damião, que o dito apelido fora dado a um cavaleiro, herói nas jornadas da África, em prêmio da façanha que praticou, arrebatando 300 cubas aos mouros. Meu pai era homem de imaginação; escapou à tanoaria nas asas de um calembour. Era um bom caráter, meu pai, varão digno e leal como poucos. Tinha, é verdade, uns fumos de pacholice”

entroncou-se na família daquele meu famoso homônimo, o capitão-mor, Brás Cubas, que fundou a vila de São Vicente, onde morreu em 1592, e por esse motivo é que me deu o nome de Brás. Opôs-se-lhe, porém, a família do capitão-mor, e foi então que ele imaginou as 300 cubas mouriscas.”

Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho.”

se não vieste a lírio, também não ficaste pântano”

Eu deixo-me estar entre o poeta e o sábio.”

importa dizer que este livro é escrito com pachorra, com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, coisa que não edifica nem destrói, não inflama nem regala, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado.”

Nenhum de nós pelejou a batalha de Salamina, nenhum escreveu a confissão de Augsburgo; pela minha parte, se alguma vez me lembro de Cromwell, é só pela idéia de que Sua Alteza, com a mesma mão que trancara o parlamento, teria imposto aos ingleses o emplasto Brás Cubas. Não se riam dessa vitória comum da farmácia e do puritanismo. Quem não sabe que ao pé de cada bandeira grande, pública, ostensiva, há muitas vezes várias outras bandeiras modestamente particulares, que se hasteiam e flutuam à sombra daquela, e não poucas vezes lhe sobrevivem? Mal comparando, é como a arraia-miúda, que se acolhia à sombra do castelo feudal; caiu este e a arraia ficou. Verdade é que se fez graúda e castelã… Não, a comparação não presta.”

Sabem já que morri numa sexta-feira, dia aziago, e creio haver provado que foi a minha invenção que me matou.”

Creiam-me, o menos mau é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim.

Era um sujeito, que me visitava todos os dias para falar do câmbio, da colonização e da necessidade de desenvolver a viação férrea; nada mais interessante para um moribundo.”

Virgília deixou-se estar de pé; durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro, sem articular palavra. Quem diria? De dois grandes namorados, de duas paixões sem freio, nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas dois corações murchos, devastados pela vida e saciados dela, não sei se em igual dose, mas enfim saciados.

e eu perguntava a mim mesmo o que diriam de nós os gaviões, se Buffon tivesse nascido gavião…”

Era o meu delírio que começava.”

Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direito à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos.

Logo depois, senti-me transformado na Suma Teológica de São Tomás, impressa num volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; idéia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.”

Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.

Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a feição única, geral, completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.”

– …Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.

Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.”

– …Que mais queres tu, sublime idiota?

Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, senão tu? e, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?”

Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos Impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago.”

o prazer, que era uma dor bastarda.”

-…Quando Jó amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a coisa é divertida, mas digere-me.

Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de idéias novas, de novas ilusões; cada um deles rebentava as verduras de uma primavera, e amarelecia depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, fazia-se a história e a civilização, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o palácio, a rude aldeia e Tebas de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecânico, filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da Terra, subia à esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo.”

Napoleão, quando eu nasci, estava já em todo o esplendor da glória e do poder; era imperador e granjeara inteiramente a admiração dos homens. Meu pai, que à força de persuadir os outros da nossa nobreza, acabara persuadindo-se a si próprio, nutria contra ele um ódio puramente mental. Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa, porque meu tio João, não sei se por espírito de classe e simpatia de ofício, perdoava no déspota o que admirava no general, meu tio padre era inflexível contra o corso; os outros parentes dividiam-se: daí as controvérsias e as rusgas.

Chegando ao Rio de Janeiro a notícia da primeira queda de Napoleão, houve naturalmente grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou remoque. Os vencidos, testemunhas do regozijo público, julgaram mais decoroso o silêncio; alguns foram além e bateram palmas.”

Nunca mais deixei de pensar comigo que o nosso espadim é sempre maior do que a espada de Napoleão.”

Não se contentou a minha família em ter um quinhão anônimo no regozijo público; entendeu oportuno e indispensável celebrar a destituição do imperador com um jantar, e tal jantar que o ruído das aclamações chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou quando menos, de seus ministros. Dito e feito. Veio abaixo toda a velha prataria, herdada do meu avô Luís Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras da Índia; matou-se um capado; encomendaram-se às madres da Ajuda as compotas e as marmeladas; lavaram-se, arearam-se, poliram-se as salas, escadas, castiçais, arandelas, as vastas mangas de vidro, todos os aparelhos do luxo clássico.”

Não era um jantar, mas um Te-Deum; foi o que pouco mais ou menos disse um dos letrados presentes, o Dr. Vilaça, glosador insigne, que acrescentou aos pratos de casa o acepipe das musas. Lembra-me, como se fosse ontem, lembra-me de o ver erguer-se, com a sua longa cabeleira de rabicho, casaca de seda, uma esmeralda no dedo, pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote, e, repetido o mote, cravar os olhos na testa de uma senhora, depois tossir, alçar a mão direita, toda fechada, menos o dedo índice, que apontava para o teto; e, assim posto e composto, devolver o mote glosado. Não fez uma glosa, mas três; depois jurou aos seus deuses não acabar mais.”

A senhora diz isso, retorquia modestamente o Vilaça, porque nunca ouviu o Bocage, como eu ouvi, no fim do século, em Lisboa. Aquilo sim! que facilidade! e que versos! Tivemos lutas de uma e duas horas, no botequim do Nicola, a glosarmos, no meio de palmas e bravos. Imenso talento o do Bocage! Era o que me dizia, há dias, a senhora Duquesa de Cadaval…

E estas três palavras últimas, expressas com muita ênfase, produziram em toda a assembléia um frêmito de admiração e pasmo. Pois esse homem tão dado, tão simples, além de pleitear com poetas, discreteava com duquesas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contato de tal homem, as damas sentiam-se superfinas; os varões olhavam-no com respeito, alguns com inveja, não raros com incredulidade.

Quanto a mim, lá estava, solitário e deslembrado, a namorar certa compota da minha paixão. No fim de cada glosa ficava muito contente, esperando que fosse a última, mas não era, e a sobremesa continuava intata.” “Eu via isso, porque arrastava os olhos da compota para ele e dele para a compota, como a pedir-lhe que ma servisse; mas fazia-o em vão. Ele não via nada; via-se a si mesmo. E as glosas sucediam-se, como bátegas d’água, obrigando-me a recolher o desejo e o pedido. Pacientei quanto pude; e não pude muito. Pedi em voz baixa o doce; enfim, bradei, berrei, bati com os pés. Meu pai, que seria capaz de me dar o sol, se eu lho exigisse, chamou um escravo para me servir o doce; mas era tarde. A tia Emerenciana arrancara-me da cadeira e entregara-me a uma escrava, não obstante os meus gritos e repelões.

Não foi outro o delito do glosador: retardara a compota e dera causa à minha exclusão. Tanto bastou para que eu cogitasse uma vingança, qualquer que fosse, mas grande e exemplar, coisa que de alguma maneira o tornasse ridículo. Que ele era um homem grave o Dr. Vilaça, medido e lento, 47 anos, casado e pai. Não me contentava o rabo de papel nem o rabicho da cabeleira; havia de ser coisa pior. Entrei a espreitá-lo, durante o resto da tarde, a segui-lo, na chácara, aonde todos desceram a passear. Vi-o conversar com D. Eusébia, irmã do sargento-mor Domingues, uma robusta donzelona, que se não era bonita, também não era feia.”

O Dr. Vilaça deu um beijo em D. Eusébia! bradei eu correndo pela chácara.

Ó palmatória, terror dos meus dias pueris, tu que foste o compelle intrare¹ com que um velho mestre, ossudo e calvo, me incutiu no cérebro o alfabeto, a prosódia, a sintaxe, e o mais que ele sabia, benta palmatória, tão praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignorâncias, e o meu espadim, aquele espadim de 1814, tão superior à espada de Napoleão! Que querias tu, afinal, meu velho mestre de primeiras letras? Lição de cor e compostura na aula; nada mais, nada menos do que quer a vida, que é das últimas letras”

¹ Compete-vos servir-vos, expressão bíblica usada por Jesus.

Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta página: Ludgero Barata, — um nome funesto, que servia aos meninos de eterno mote a chufas. Um de nós, o Quincas Borba, esse então era cruel com o pobre homem. Duas, três vezes por semana, havia de lhe deixar na algibeira das calças, — umas largas calças de enfiar —, ou na gaveta da mesa, ou ao pé do tinteiro, uma barata morta. Se ele a encontrava ainda nas horas da aula, dava um pulo, circulava os olhos chamejantes, dizia-nos os últimos nomes: éramos sevandijas, capadócios, malcriados, moleques. — Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas Borba, porém, deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.”

Suspendamos a pena; não adiantemos os sucessos. Vamos de um salto a 1822, data da nossa independência política, e do meu primeiro cativeiro pessoal.”

Tinha dezessete anos (…) Como ostentasse certa arrogância, não se distinguia bem se era uma criança, com fumos de homem, se um homem com ares de menino.”

ou se há de dizer tudo ou nada.”

Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância, com todos os arrebatamentos da juventude.”

Que, em verdade, há dois meios de granjear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de Europa, e o insinuativo, como o cisne de Leda e a chuva de ouro de Danae, três inventos do Padre Zeus, que, por estarem fora da moda, aí ficam trocados no cavalo e no asno.”

Amigos, digo, como ex-aluno, que não acho certo colar. Pois então, completo: devo ir-me a outra joalheria.”

Você é das Arábias, dizia-me.

Bons joalheiros, que seria do amor se não fossem os vossos dixes e fiados? Um terço ou um quinto do universal comércio dos corações. Esta é a reflexão imoral que eu pretendia fazer, a qual é ainda mais obscura do que imoral, porque não se entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer é que a mais bela testa do mundo não fica menos bela, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos bela, nem menos amada.”

ELO CÓSMICO DESCONTÍNUO NO ESPAÇO-TEMPO DAS CRIATURAS PROSAICAS: “…Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”

Meu pai, logo que teve aragem dos 11 contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.”

QUANDO A CAPES MAIS PATRIARCAL DE TODAS DAVA AS CARTAS: — Desta vez, disse ele, vais para a Europa; vais cursar uma Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem sério e não para arruador e gatuno.

chamei-lhe muitos nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos. Marcela deixara-se estar sentada, a estalar as unhas nos dentes, fria como um pedaço de mármore. Tive ímpetos de a estrangular, de a humilhar ao menos, subjugando-a a meus pés. Ia talvez fazê-lo; mas a ação trocou-se noutra; fui eu que me atirei aos pés dela, contrito e súplice; beijei-lhos, recordei aqueles meses da nossa felicidade solitária, repeti-lhe os nomes queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos dela, apertando-lhe muito as mãos; ofegante, desvairado, pedi-lhe com lágrimas que me não desamparasse…”

Então resolvia embarcar imediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e deleitava-me com a idéia de que Marcela, sabendo da partida, ficaria ralada de saudades e remorsos. Que ela amara-me a tonta, devia de sentir alguma coisa, uma lembrança qualquer, como do alferes Duarte… Nisto, o dente do ciúme enterrava-se-me no coração”

não é menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os gregos e os seus presentes.”

Malditas idéias fixas! A dessa ocasião era dar um mergulho no oceano”

Eu, que meditava ir ter com a morte, não ousei fitá-la quando ela veio ter comigo.”

Morreu como uma santa, respondeu ele; e, para que estas palavras não pudessem ser levadas à conta de fraqueza, ergueu-se logo, sacudiu a cabeça, e fitou o horizonte, com um gesto longo e profundo. — Vamos, continuou, entreguemo-la à cova que nunca mais se abre.

Morreu como um diabo engravatado.

Tinha eu conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folião; era um acadêmico estróina, superficial, tumultuário e petulante, dado às aventuras, fazendo romantismo prático e liberalismo teórico, vivendo na pura fé dos olhos pretos e das constituições escritas. No dia em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma ciência que eu estava longe de trazer arraigada no cérebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade, dava-me a responsabilidade.”

Não, não direi que assisti às alvoradas do romantismo, que também eu fui fazer poesia efetiva no regaço da Itália; não direi coisa nenhuma. Teria de escrever um diário de viagem e não umas memórias, como estas são, nas quais só entra a

substância da vida.”

Note-se que eu estava em Veneza, ainda recendente aos versos de lord Byron; lá estava, mergulhado em pleno sonho, revivendo o pretérito, crendo-me na Sereníssima República. É verdade; uma vez aconteceu-me perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia. — Que doge, signor mio? Caí em mim, mas não confessei a ilusão; disse-lhe que a minha pergunta era um gênero de charada americana; ele mostrou compreender, e acrescentou que gostava muito das charadas americanas. Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso, o locandeiro, o doge, a Ponte dos Suspiros, a gôndola, os versos do lorde, as damas do Rialto, deixei tudo e disparei como uma bala na direção do Rio de Janeiro.”

Às vezes, esqueço-me a escrever, e a pena vai comendo papel, com grave prejuízo meu, que sou autor. Capítulos compridos quadram melhor a leitores pesadões; e nós não somos um público in-folio, mas in-12, pouco texto, larga margem, tipo elegante, corte dourado e vinhetas… Não, não alonguemos o capítulo.”

(M)achado não é (Clarice e nem livro) roubado

A infeliz padecia de um modo cru, porque o cancro é indiferente às virtudes do sujeito; quando rói, rói; roer é o seu ofício.”

restavam os ossos, que não emagrecem nunca.”

Era a primeira vez que eu via morrer alguém. Conhecia a morte de outiva; quando muito, tinha-a visto já petrificada no rosto de algum cadáver, que acompanhei ao cemitério, ou trazia-lhe a idéia embrulhada nas amplificações de retórica dos professores de coisas antigas, — a morte aleivosa de César, a austera de Sócrates, a orgulhosa de Catão. Mas esse duelo do ser e do não ser, a morte em ação, dolorida, contraída, convulsa, sem aparelho político ou filosófico, a morte de uma pessoa amada, essa foi a primeira vez que a pude encarar.

era eu, nesse tempo, um fiel compêndio de trivialidade e presunção. Jamais o problema da vida e da morte me oprimira o cérebro”

a franqueza é a primeira virtude de um defunto.”

Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.”

Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria, essa flor amarela, solitária e mórbida, de um cheiro inebriante e sutil. — <Que bom que é estar triste e não dizer coisa nenhuma!> — Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a atenção, confesso que senti em mim um eco, um eco delicioso.

Volúpia do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se não chegares a entendê-la, podes concluir que ignoras uma das sensações mais sutis desse mundo e daquele tempo.”

Às vezes, caçava, outras dormia, outras lia, — lia muito, — outras enfim não fazia nada; deixava-me atoar de idéia em idéia, de imaginação em imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta. As horas iam pingando uma a uma, o sol caía, as sombras da noite velavam a montanha e a cidade. Ninguém me visitava; recomendei expressamente que me deixassem só. Um dia, dois dias, três dias, uma semana inteira passada assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fora e restituir-me ao bulício. Com efeito, ao cabo de 7 dias, estava farto da solidão; a dor aplacara; o espírito já se não contentava com o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do céu. Reagia a mocidade, era preciso viver. Meti no baú o problema da vida e da morte, os hipocondríacos do poeta, as camisas, as meditações, as gravatas, e ia fechá-lo, quando o moleque Prudêncio me disse que uma pessoa do meu conhecimento se mudara na véspera para uma casa roxa, situada a 200 passos da nossa.”

Não entendo de política, disse eu depois de um instante; quanto à noiva… deixe-me viver como um urso.

Mas os ursos casam-se, replicou ele.

Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa-Maior…

Virgílio! exclamou. És tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente Virgília.

Naquele tempo contava apenas uns 15 ou 16 anos; era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não digo que lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação. Era isto Virgília, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns ímpetos misteriosos; muita preguiça e alguma devoção, — devoção, ou talvez medo; creio que medo.

Aí tem o leitor, em poucas linhas, o retrato físico e moral da pessoa que devia influir mais tarde na minha vida; era aquilo com 16 anos.”

Mas, dirás tu, como é que podes assim discernir a verdade daquele tempo, e exprimi-la depois de tantos anos?

Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da Terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Deixa lá dizer Pascal que o homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.

PARADIGMA DO HOMEM DA ERA DO PATINETE: Por que ter cérebro se eu posso ter novela das 7

Lépida e viva como uma cachaça de minas.

Te ajoelha e te ferve,

Depois te entontece e te deprime.

Todo o homem público deve ser casado, interrompeu sentenciosamente meu pai. …Demais, a noiva e o Parlamento são a mesma coisa… isto é, não… saberás depois…

Olha, estou com 60 anos, mas se fosse necessário começar vida nova, começava, sem hesitar um só minuto. Teme a obscuridade, Brás”

E foi por diante o mágico, a agitar diante de mim um chocalho, como me faziam, em pequeno, para eu andar depressa, e a flor da hipocondria recolheu-se ao botão

Vencera meu pai; dispus-me a aceitar o diploma e o casamento, Virgília e a Câmara dos Deputados.”

Ora, o Brasinho! Um homem! Quem diria, há anos… Um homenzarrão! E bonito! Qual! Você não se lembra de mim…

tive umas cócegas de ser pai.”

um rir filosófico, desinteressado, superior.”

BLACK BUTT WILL FLY

P. 42: “No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de D. Eusébia, no susto que tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saiu dali e

veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

Também por que diabo não era ela azul? disse comigo.

Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse

consigo: <Este é provavelmente o inventor das borboletas.> A idéia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.”

Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última idéia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as próvidas formigas… Não, volto à primeira idéia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.”

Saímos à varanda, dali à chácara, e foi então que notei uma circunstância. Eugênia coxeava um pouco, tão pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o pé. A mãe calou-se; a filha respondeu sem titubear:

Não, senhor, sou coxa de nascença.

Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseirão. Com efeito, a simples possibilidade de ser coxa era bastante para lhe não perguntar nada.”

O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma.”

lá embaixo a família a chamar-me, e a noiva, e o Parlamento, e eu sem acudir a coisa nenhuma, enlevado ao pé da minha Vênus Manca. (…) Queria-lhe, é verdade; ao pé dessa criatura tão singela, filha espúria e coxa, feita de amor e desprezo, ao pé dela sentia-me bem, e ela creio que ainda se sentia melhor ao pé de mim. E isto na Tijuca. Uma simples égloga. D. Eusébia vigiava-nos, mas pouco; temperava a necessidade com a conveniência. A filha, nessa primeira explosão da natureza, entregava-me a alma em flor.”

acrescentei um versículo ao Evangelho: — Bem-aventurados os que não descem, porque deles é o primeiro beijo das moças. Com efeito, foi no domingo esse primeiro beijo de Eugênia —”

Eu cínico, alma sensível? Pela coxa de Diana! esta injúria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo. Não, alma sensível, eu não sou cínico, eu fui homem; meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo gênero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comédia louçã, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um pandemônio, alma sensível, uma barafunda de coisas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Esmirna até a arruda do teu quintal, desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de vária casta e feição. Não havia ali a atmosfera somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do sapo. Retira, pois, a expressão, alma sensível, castiga os nervos, limpa os óculos, — que isso às vezes é dos óculos, — e acabemos de uma vez com esta flor da moita.”

pequena pena

dura candura

Descer só é nobre nos acordes…

e jurei-lhe por todos os santos do Céu que eu era obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito; tudo hipérboles frias, que ela escutou sem dizer nada.”

Desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito. Vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pai, que era conveniente abraçar a carreira política… que a constituição… que a minha noiva… que o meu cavalo…”

respirei à larga, e deitei-me a fio comprido, enquanto os pés, e todo eu atrás deles, entrávamos numa relativa bem-aventurança. Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da Terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. Mortifica os pés, desgraçado, desmortifica-os depois, e aí tens a felicidade barata, ao sabor dos sapateiros e de Epicuro.” “Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas.”

Corredores são ingratos e estúpidos por usarem sempre números maiores que seus pés…

Tu, minha Eugênia, é que não as descalçaste nunca; foste aí pela estrada da vida, manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitária, calada, laboriosa, até que vieste também para esta outra margem… O que eu não sei é se a tua existência era muito necessária ao século. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a tragédia humana.”

Fomos dali à casa do Dutra. Era uma pérola esse homem, risonho, jovial, patriota, um pouco irritado com os males públicos, mas não desesperando de os curar depressa. Achou que a minha candidatura era legítima; convinha, porém, esperar alguns meses. E logo me apresentou à mulher, — uma estimável senhora, — e à filha, que não desmentiu em nada o panegírico de meu pai. Juro-vos que em nada. Relede o capítulo XXVII. Eu, que levava idéias a respeito da pequena, fitei-a de certo modo; ela, que não sei se as tinha, não me fitou de modo diferente; e o nosso olhar primeiro foi pura e simplesmente conjugal. No fim de um mês estávamos íntimos.”

Lembra-vos ainda a minha teoria das edições humanas? Pois sabei que, naquele tempo, estava eu na quarta edição, revista e emendada, mas ainda inçada de descuidos e barbarismos; defeito que, aliás, achava alguma compensação no tipo, que era elegante, e na encadernação, que era luxuosa.”

e porque a dor que se dissimula dói mais, é muito provável que Virgília padecesse em dobro do que realmente devia padecer. Creio que isto é metafísica.”

CAPÍTULO XLII / QUE ESCAPOU A ARISTÓTELES

Outra coisa que também me parece metafísica é isto: — Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda boa a rolar como a primeira rolou. Suponhamos que a primeira bola se chama… Marcela, — é uma simples suposição; a segunda, Brás Cubas; a terceira, Virgília. Temos que Marcela, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Brás Cubas, — o qual, cedendo à força impulsiva, entrou a rolar também até esbarrar em Virgília, que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma coisa que poderemos chamar — solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capítulo escapou a Aristóteles?”

Então apareceu o Lobo Neves, um homem que não era mais esbelto que eu, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático, e todavia foi quem me arrebatou Virgília e a candidatura, dentro de poucas semanas, com um ímpeto verdadeiramente cesariano.”

Virgília comparou a águia e o pavão, e elegeu a águia, deixando o pavão com o seu espanto, o seu despeito, e três ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco beijos; mas dez que fossem não queria dizer coisa nenhuma. O lábio do homem não é como a pata do cavalo de Átila, que esterilizava o solo em que batia; é justamente o contrário.”

Era impossível; não se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquela, tempos depois, não lhe estava agora preso por nenhum outro vínculo, além de uma fantasia passageira, alguma obediência e muita fatuidade. E isto basta a explicar a vigília; era despeito, um despeitozinho agudo como ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras truncadas, até romper a aurora, a mais tranqüila das auroras.”

Mas eu era moço, tinha o remédio em mim mesmo. Meu pai é que não pôde suportar facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que não morresse precisamente do desastre; mas que o desastre lhe complicou as últimas dores, é positivo.”

Jantamos tristes. Meu tio cônego apareceu à sobremesa, e ainda presenciou uma pequena altercação.

Meus filhos, disse ele, lembrem-se que meu irmão deixou um pão bem grande para ser repartido por todos.

Mas Cotrim:

Creio, creio. A questão, porém, não é de pão, é de manteiga. Pão seco é que eu não engulo.”

Jogos pueris, fúrias de criança, risos e tristezas da idade adulta, dividimos muita vez esse pão da alegria e da miséria, irmãmente, como bons irmãos que éramos. Mas estávamos brigados. Tal qual a beleza de Marcela, que se esvaiu com as bexigas.”

Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou teatro, ou palestra, mas a maior parte do tempo passei-a comigo mesmo. Vivia; deixava-me ir ao curso e recurso dos sucessos e dos dias, ora buliçoso, ora apático, entre a ambição e o desânimo. Escrevia política e fazia literatura. Mandava artigos e versos para as folhas públicas, e cheguei a alcançar certa reputação de polemista e de poeta.”

Pobre Luís Dutra! Apenas publicava alguma coisa, corria à minha casa, e entrava a girar em volta de mim, à espreita de um juízo, de uma palavra, de um gesto, que lhe aprovasse a recente produção, e eu falava-lhe de mil coisas diferentes, — do último baile do Catete, da discussão das câmaras, de berlindas e cavalos, — de tudo, menos dos seus versos ou prosas. Ele respondia-me, a princípio com animação, depois mais frouxo, torcia a rédea da conversa para o seu assunto dele, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo, e eu dizia-lhe que sim ou que não, mas torcia a rédea para o outro lado, e lá ia ele atrás de mim, até que empacava de todo e saía triste. Minha intenção era fazê-lo duvidar de si mesmo, desanimá-lo, eliminá-lo. E tudo isto a olhar para a ponta do nariz…”

CAPÍTULO XLIX / A PONTA DO NARIZ

Nariz, consciência sem remorsos, tu me valeste muito na vida… Já meditaste alguma vez no destino do nariz, amado leitor? A explicação do Doutor Pangloss é que o nariz foi criado para uso dos óculos, — e tal explicação confesso que até certo tempo me pareceu definitiva; mas veio um dia, em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de filosofia, atinei com a única, verdadeira e definitiva explicação.

Com efeito, bastou-me atentar no costume do faquir. Sabe o leitor que o faquir gasta longas horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim único de ver a luz celeste. Quando ele finca os olhos na ponta do nariz, perde o sentimento das coisas externas, embeleza-se no invisível, aprende o impalpável, desvincula-se da terra, dissolve-se, eteriza-se. Essa sublimação do ser pela ponta do nariz é o fenômeno mais excelso do espírito, e a faculdade de a obter não pertence ao faquir somente: é universal. Cada homem tem necessidade e poder de contemplar o seu próprio nariz, para o fim de ver a luz celeste, e tal contemplação, cujo efeito é a subordinação do universo a um nariz somente, constitui o equilíbrio das sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o gênero humano não chegaria a durar dois séculos: extinguia-se com as primeiras tribos.”

A conclusão, portanto, é que há duas forças capitais: o amor, que multiplica a espécie, e o nariz, que a subordina ao indivíduo. Procriação, equilíbrio.”

Um livro perdeu Francesca; cá foi a valsa que nos perdeu. Creio que essa noite apertei-lhe a mão com muita força, e ela deixou-a ficar, como esquecida, e eu a abraçá-la, e todos com os olhos em nós, e nos outros que também se abraçavam e giravam… Um delírio.”

por que diabo seria minha uma moeda que eu não herdara nem ganhara, mas somente achara na rua? Evidentemente não era minha; era de outro, daquele que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum operário que não teria com que dar de comer à mulher e aos filhos; mas se fosse rico, o meu dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda, e o melhor meio, o único meio, era fazê-lo por intermédio de um anúncio ou da polícia.”

achava-me bom, talvez grande. Uma simples moeda, hem?”

Assim eu, Brás Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência.”

Cinco contos em boas notas e moedas, tudo asseadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo. Ao jantar pareceu-me que um dos moleques falara a outro com os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os discretamente, e concluí que não. Sobre o jantar fui outra vez ao gabinete, examinei o dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternais a respeito de cinco contos, — eu, que era abastado.”

Não podia ser outra coisa. Não se perdem cinco contos, como se perde um lenço de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos, apalpam-se a miúdo, não se lhes tiram os olhos de cima, nem as mãos, nem o pensamento, e para se perderem assim tolamente, numa praia, é necessário que… Crime é que não podia ser o achado; nem crime, nem desonra, nem nada que embaciasse o caráter de um homem.”

Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brasil. Lá me receberam com muitas e delicadas alusões ao caso da meia dobra, cuja notícia andava já espalhada entre as pessoas do meu conhecimento; respondi enfadado que a coisa não valia a pena de tamanho estrondo; louvaram-me então a modéstia, — e porque eu me encolerizasse, replicaram-me que era simplesmente grande.”

Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda e exuberante criatura dos bosques.”

uma hipocrisia paciente e sistemática, único freio de uma paixão sem freio”

o resto, e o resto do resto, que é o fastio e a saciedade”

Usualmente, quando eu perdia o sono, o bater da pêndula fazia-me muito mal; esse tique-taque soturno, vagaroso e seco parecia dizer a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava então um velho diabo, sentado entre dois sacos, o da vida e o da morte, a tirar as moedas da vida para dá-las à morte, e a contá-las assim:

Outra de menos…

Outra de menos…

Outra de menos…

Outra de menos…

O mais singular é que, se o relógio parava, eu dava-lhe corda, para que ele não deixasse de bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenções há, que se transformam ou acabam; as mesmas instituições morrem; o relógio é definitivo e perpétuo. O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, há de ter um relógio na algibeira, para saber a hora exata em que morre.”

CAPÍTULO LV / O VELHO DIÁLOGO DE ADÃO E EVA

BRÁS CUBAS…………………………..?

VIRGÍLIA………………………….

BRÁS CUBAS……………………………………………………………………………………

………………………………………………..

VIRGÍLIA……………………………………!

BRÁS CUBAS……………………………

VIRGÍLIA……………………………………………………………………………………………………………………………………….?

…………………………………………..

……………………………………………….

BRÁS CUBAS……………………………

VIRGÍLIA………………………………………..

BRÁS CUBAS………………………………………………………………………………….

………………………..

……….!…………………………!………………………!

VIRGÍLIA…………………………………………….?

BRÁS CUBAS……………………………………….!

VIRGÍLIA……………………………………………!”

A razão não podia ser outra senão o momento oportuno. Não era oportuno o primeiro momento, porque, se nenhum de nós estava verde para o amor, ambos o estávamos para o nosso amor: distinção fundamental. Não há amor possível sem a oportunidade dos sujeitos. Esta explicação achei-a eu mesmo, dois anos depois do beijo, um dia em que Virgília se me queixava de um pintalegrete que lá ia e tenazmente a galanteava.”

Agora, que todas as leis sociais no-lo impediam, agora é que nos amávamos deveras. Achávamo-nos jungidos um ao outro, como as duas almas que o poeta encontrou no Purgatório:

Di pari, come buoi, che vanno a giogo

Pobre Destino! Onde andarás agora, grande procurador dos negócios humanos? Talvez estejas a criar pele nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e não é impossível que… Já me não lembra onde estava… Ah! nas estradas escusas.”

achava que Virgília era a perfeição mesma, um conjunto de qualidades sólidas e finas, amorável, elegante, austera, um modelo. E a confiança não parava aí. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia confessou-me que trazia uma triste carcoma na existência; faltava-lhe a glória pública. Animei-o; disse-lhe muitas coisas bonitas, que ele ouviu com aquela unção religiosa de um desejo que não quer acabar de morrer; então compreendi que a ambição dele andava cansada de bater as asas, sem poder abrir o vôo. Dias depois disse-me todos os seus tédios e desfalecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida política era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perfídias, interesses, vaidades. Evidentemente havia aí uma crise de melancolia”

Vira o teatro pelo lado da platéia; e, palavra, que era bonito! Soberbo cenário, vida, movimento e graça na representação. Escriturei-me; deram-me um papel que…”

Deve ser um vinho enérgico a política, dizia eu comigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e fui andando, fui andando, até que na Rua dos Barbonos vi uma sege, e dentro um dos ministros, meu antigo companheiro de colégio. Cortejamo-nos afetuosamente, a sege seguiu, e eu fui andando… andando… andando…

Por que não serei eu ministro?”

Não pensei mais na tristeza de Lobo Neves; sentia a atração do abismo.”

“— Aposto que me não conhece, Sr. Dr. Cubas? disse ele.

Não me lembra…

Sou o Borba, o Quincas Borba.

Recuei espantado… Quem me dera agora o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira, para contar tamanha desolação!”

Não havia nele a resignação cristã, nem a conformidade filosófica. Parece que a miséria lhe calejara a alma, a ponto de lhe tirar a sensação de lama. Arrastava os andrajos, como outrora a púrpura: com certa graça indolente.”

Sabe onde moro? No terceiro degrau das escadas de São Francisco, à esquerda de quem sobe; não precisa bater na porta. Casa fresca, extremamente fresca. Pois saí cedo, e ainda não comi…”

Fez um gesto de desdém; calou-se alguns instantes; depois disse-me positivamente que não queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa abjeção tão cômica e tão triste, e preparei-me para sair.

Não vá sem eu lhe ensinar a minha filosofia da miséria, disse ele, escarranchando-se diante de mim.”

Meto a mão no colete e não acho o relógio. Última desilusão! O Borba furtara-mo no abraço.” Mas um homem não morre sem seu relógio! É dever do amigo devolvê-lo, e por sua vez morrer, a seu tempo, não é verdade?

Desde a sopa, começou a abrir em mim a flor amarela e mórbida do capítulo XXV, e então jantei depressa, para correr à casa de Virgília. Virgília era o presente; eu queria refugiar-me nele, para escapar às opressões do passado, porque o encontro do Quincas Borba, tornara-me aos olhos o passado, não qual fôra deveras, mas um passado roto, abjeto, mendigo e gatuno.

A necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessoa enchia-me o coração; eu começava a sentir um bem-estar, uma elevação, uma admiração de mim próprio…”

Virgília era o travesseiro do meu espírito, um travesseiro mole, tépido, aromático, enfronhado em cambraia e bruxelas. Era ali que ele costumava repousar de todas as sensações más, simplesmente enfadonhas, ou até dolorosas. E, bempesadas as coisas, não era outra a razão da existência de Virgília; não podia ser. Cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o Quincas Borba (…) Escrófula da vida, andrajo do passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros, se eu tenho dois palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir?

lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida nossa, um mundo nosso, em que não havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem nenhum outro liame, que nos tolhesse a expansão da vontade. Esta idéia embriagou-me; eliminados assim o mundo, a moral e o marido, bastava penetrar naquela habitação dos anjos.”

exprimia mudamente tudo quanto pode dizer a pupila humana.”

Era a primeira grande cólera que eu sentia contra Virgília. Não olhei uma só vez para ela durante o jantar; falei de política, da imprensa, do ministério, creio que falaria de teologia, se a soubesse, ou se me lembrasse. Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e dignidade, e até com certa benevolência superior; e tudo aquilo me irritava também, e me tornava mais amargo e longo o jantar.”

Você não me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor soma de amor. Tratou-me ontem como se me tivesse ódio. Se eu ao menos soubesse o que é que fiz! Mas não sei. Não me dirá o que foi?

Que foi o quê? Creio que não houve nada.

Nada? Tratou-me como não se trata um cachorro…

A esta palavra, peguei-lhe nas mãos, beijei-as, e duas lágrimas rebentaram-lhe dos olhos.

Acabou, acabou, disse eu.

Bons olhos o vejam! exclamou. Onde se mete o senhor que não aparece em parte nenhuma? Pois olhe, ontem admirou-me não o ver no teatro. A Candiani esteve deliciosa. Que mulher! Gosta da Candiani? É natural. Os senhores são todos os mesmos. O barão dizia ontem, no camarote, que uma só italiana vale por cinco brasileiras. Que desaforo! e desaforo de velho, que é pior. Mas por que é que o senhor não foi ontem ao teatro?

Qual! Algum namoro; não acha, Virgília? Pois, meu amigo, apresse-se, porque o senhor deve estar com quarenta anos… ou perto disso… Não tem quarenta anos?

Não lhe posso dizer com certeza, respondi eu; mas se me dá licença, vou consultar a certidão de batismo.

Olheiras produzidas de tanto olheiro à espreita.

Abençoadas pernas! E há quem vos trate com desdém ou indiferença. Eu mesmo, até então, tinha-vos em má conta, zangava-me quando vos fatigáveis, quando não podíeis ir além de certo ponto, e me deixáveis com o desejo a avoaçar, à semelhança de galinha atada pelos pés.”

Eu gosto dos capítulos alegres; é o meu fraco.”

O mundo era estreito para Alexandre; um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas. (…) dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que sofreu um casal de pecados. Amanhã pode lá dormir um eclesiástico, depois um assassino, depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abençoarão esse canto de Terra, que lhes deu algumas ilusões.”

Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho quê fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…”

e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar…”

O BIBLIÔMANO

Eu não quero dar pasto à crítica do futuro. Olhai: daqui a setenta anos, um sujeito magro, amarelo, grisalho, que não ama nenhuma outra coisa além dos livros, inclina-se sobre a página anterior, a ver se lhe descobre o despropósito; lê, relê, treslê, desengonça as palavras, saca uma sílaba, depois outra, mais outra e as restantes, examina-as por dentro e por fora, por todos os lados, contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada; não acha o despropósito. É um bibliômano. Não conhece o autor; este nome de Brás Cubas não vem nos seus dicionários biográficos. Achou o volume, por acaso, no pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por 200 réis. Indagou, pesquisou, esgaravatou, e veio a descobrir que era um exemplar único… Único! Vós, que não só amais os livros, senão que padeceis a mania deles, vós sabeis muito bem o valor desta palavra, e adivinhais, portanto, as delícias de meu bibliômano. Ele rejeitaria a coroa das Índias, o papado, todos os museus da Itália e da Holanda, se os houvesse de trocar por esse único exemplar; e não porque seja o das minhas Memórias; faria a mesma coisa com o Almanaque de Laemmert, uma vez que fosse único.” “Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se à janela e mostra-o ao sol. Um exemplar único! Nesse momento passa-lhe por baixo da janela um César ou um Cromwell, a caminho do poder. Ele dá de ombros, fecha a janela, estira-se na rede e folheia o livro devagar, com amor, aos goles…”

Não te arrependas de ser generoso”

Podendo acontecer que algum dos meus leitores tenha pulado o capítulo anterior, observo que é preciso lê-lo para entender o que eu disse comigo, logo depois que D. Plácida saiu da sala.”

Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristão e a sacristã naturalmente lhe responderiam. — Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os olhos na costura, até acabar um dia na lama ou no hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia.

O vício é muitas vezes o estrume da virtude. O que não impede que a virtude seja uma flor cheirosa e sã.”

eu prometi que serias marquesa, e nem baronesa estás. Dirás que sou ambicioso?”

Noutra ocasião, por diferente motivo, é certo que eu me lançaria aos pés dela, e a ampararia com a minha razão e a minha ternura; agora, porém, era preciso compeli-la ao esforço de si mesma, ao sacrifício, à responsabilidade da nossa vida comum, e conseguintemente desampará-la, deixá-la, e sair; foi o que fiz.

Repito, a minha felicidade está nas tuas mãos, disse eu.

Virgília quis agarrar-me, mas eu já estava fora da porta. Cheguei a ouvir um prorromper de lágrimas, e digo-lhes que estive a ponto de voltar, para as enxugar com um beijo; mas subjuguei-me e saí.”

Às vezes sentia um dentezinho de remorso; parecia-me que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada, sem nada sacrificar nem arriscar de mim próprio” Não comportamos praticamente nada mais que um remorso por dia do mês.

Os olhos dela estavam secos. Sabina não herdara a flor amarela e mórbida. Que importa? Era minha irmã, meu sangue, um pedaço de minha mãe, e eu disse-lho com ternura, com sinceridade…”

Digam o que quiserem dizer os hipocondríacos: a vida é uma coisa doce.”

A velhice ridícula é, porventura, a mais triste e derradeira surpresa da natureza humana.”

O caso dos meus amores andava mais público do que eu podia supor.”

Referiu-lhe que o decreto trazia a data de 13, e que esse número significava para ele uma recordação fúnebre. O pai morreu num dia 13, treze dias depois de um jantar em que havia treze pessoas. A casa em que morrera a mãe tinha o n° 13. Et coetera. Era um algarismo fatídico. Não podia alegar semelhante coisa ao ministro; dir-lhe-ia que tinha razões particulares para não aceitar. Eu fiquei como há de estar o leitor, — um pouco assombrado com esse sacrifício a um número; mas, sendo ele ambicioso, o sacrifício devia ser sincero…”

E assim reatamos o fio da aventura como a sultana Scheherazade o dos seus contos.”

Se o leitor ainda se lembra do capítulo XXIII, observará que é agora a segunda vez que eu comparo a vida a um enxurro; mas também há de reparar que desta vez acrescento-lhe um adjetivo — perpétuo. E Deus sabe a força de um adjetivo, principalmente em países novos e cálidos.” Machado de Assis merece sua alta reputação: com um ar leve e ligeiro consegue transmitir o grave e o sério, e tem um jeito de interagir com o leitor que até hoje não vi, entre centenas de escritores: ao derrubar a quarta parede, não é piegas, mas é afável e consolador assim mesmo. Outros autores, quando “conversam demais com o leitor”, apenas geram irritação; há quem nos soe seco, impessoal demais: quem nunca parece lembrar-se de que está sendo lido, afinal. Machado não: Machado parece um nosso amigo, mandando uma carta (um e-mail, que seja…). Mas não uma mensagem no zap, que aí já seria demais…

Digo apenas que o homem mais probo que conheci em minha vida foi um certo Jacó Medeiros ou Jacó Valadares, não me recorda bem o nome. Talvez fosse Jacó Rodrigues; em suma, Jacó. Era a probidade em pessoa; podia ser rico, violentando um pequenino escrúpulo, e não quis; deixou ir pelas mãos fora nada menos de uns 400 contos [de réis, bom lembrar]; tinha a probidade tão exemplar, que chegava a ser miúda e cansativa. Um dia, como nos achássemos, a sós, em casa dele, em boa palestra, vieram dizer que o procurava o Dr. B., um sujeito enfadonho. Jacó mandou dizer que não estava em casa.

Não pega, bradou uma voz do corredor; cá estou de dentro.

E, com efeito, era o Dr. B., que apareceu logo à porta da sala. Jacó foi recebê-lo, afirmando que cuidava ser outra pessoa, e não ele, e acrescentando que tinha muito prazer com a visita, o que nos rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo, porque Jacó tirou o relógio; o Dr. B. perguntou-lhe então se ia sair.

Com minha mulher, disse Jacó.

Retirou-se o Dr. B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao Jacó que ele acabava de mentir quatro vezes, em menos de duas horas: a primeira, negando-se, a segunda, alegrando-se com a presença do importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta, acrescentando que com a mulher. Jacó refletiu um instante, depois confessou a justeza da minha observação, mas desculpou-se dizendo que a veracidade absoluta era incompatível com um estado social adiantado, e que a paz das cidades só se podia obter à custa de embaçadelas recíprocas… Ah! lembra-me agora: chamava-se Jacó Tavares.”

eu observei que a adulação das mulheres não é a mesma coisa que a dos homens. Esta orça pela servilidade; a outra confunde-se com a afeição. As formas graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma fraqueza física dão à ação lisonjeira da mulher, uma cor local, um aspecto legítimo. Não importa a idade do adulado; a mulher há de ter sempre para ele uns ares de mãe ou de irmã, — ou ainda de enfermeira, outro ofício feminil, em que o mais hábil dos homens carecerá sempre de um quid, um fluido, alguma coisa.”

Então? disse o sujeito magro.

Fiz-lhe sinal para que não insistisse, e ele calou-se por alguns instantes. O doente ficou a olhar para o teto, calado, a arfar muito: Virgília empalideceu, levantou-se, foi até a janela. Suspeitara a morte e tinha medo. Eu procurei falar de outras coisas. O sujeito magro contou uma anedota, e tornou a tratar da casa, alteando a proposta.

Trinta e oito contos, disse ele.

Ahn?… gemeu o enfermo.

O sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na mão, e sentiu-a fria. Eu acheguei-me ao doente, perguntei-lhe se sentia alguma coisa, se queria tomar um cálice de vinho.

Não… não… quar… quaren… quar… quar…

Teve um acesso de tosse, e foi o último; daí a pouco expirava ele, com grande consternação do sujeito magro, que me confessou depois a disposição em que estava de oferecer os quarenta contos; mas era tarde.

Lá me escapou a decifração do mistério, esse doce mistério de algumas semanas antes, quando Virgília me pareceu um pouco diferente do que era. Um filho! Um ser tirado do meu ser! Esta era a minha preocupação exclusiva daquele tempo. Olhos do mundo, zelos do marido, morte do Viegas, nada me interessava por então, nem conflitos políticos, nem revoluções, nem terremotos, nem nada. Eu só pensava naquele embrião anônimo, de obscura paternidade, e uma voz secreta me dizia: é teu filho. Meu filho! E repetia estas duas palavras, com certa voluptuosidade indefinível, e não sei que assomos de orgulho. Sentia-me homem.”

esse embrião tinha a meus olhos todos os tamanhos e gestos: ele mamava, ele escrevia, ele valsava, ele era o interminável nos limites de um quarto de hora, — baby e deputado, colegial e pintalegrete. Às vezes, ao pé de Virgília, esquecia-me dela e de tudo; Virgília sacudia-me, reprochava-me o silêncio; dizia que eu já lhe não queria nada. A verdade é que estava em diálogo com o embrião; era o velho colóquio de Adão e Caim, uma conversa sem palavras entre a vida e a vida, o mistério e o mistério.” Decerto o filho favorito.

Meu caro Brás Cubas,

Há tempos, no Passeio Público, tomei-lhe de empréstimo um relógio. Tenho a satisfação de restituir-lho com esta carta. A diferença é que não é o mesmo, porém outro, não digo superior, mas igual ao primeiro. Que voulez-vous, monseigneur? — como dizia Fígaro, — c’est la misère. Muitas coisas se deram depois do nosso encontro; irei contá-las pelo miúdo, se me não fechar a porta. [já-nela estou] Saiba que já não trago aquelas botas caducas, nem envergo uma famosa sobrecasaca cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau da escada de São Francisco; finalmente, almoço.

Dito isto, peço licença para ir um dia destes expor-lhe um trabalho, fruto de longo estudo, um novo sistema de filosofia, que não só explica e descreve a origem e a consumação das coisas, como faz dar um grande passo adiante de Zenon e Sêneca, cujo estoicismo era um verdadeiro brinco de crianças ao pé da minha receita moral. É singularmente espantoso esse meu sistema; retifica o espírito humano, suprime a dor, assegura a felicidade, e enche de imensa glória o nosso país. Chamo-lhe Humanitismo, de Humanitas, princípio das coisas. Minha primeira idéia revelava uma grande enfatuação: era chamar-lhe borbismo, de Borba; denominação vaidosa, além de rude e molesta. E com certeza exprimia menos. Verá, meu caro Brás Cubas, verá que é deveras um monumento; e se alguma coisa há que possa fazer-me esquecer as amarguras da vida, é o gosto de haver enfim apanhado a verdade e a felicidade. Ei-las na minha mão essas duas esquivas; após tantos séculos de lutas, pesquisas, descobertas, sistemas e quedas, ei-las nas mãos do homem. Até breve, meu caro Brás Cubas. Saudades do

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Naturalmente o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a abastança devolvera-lhe a primitiva dignidade. Não digo tanto; há coisas que se não podem reaver integralmente; mas enfim a regeneração não era impossível. Guardei a carta e o relógio, e esperei a filosofia.

Que os levasse o diabo os ingleses! Isto não ficava direito sem irem todos eles barra fora. Que é que a Inglaterra podia fazer-nos? Se ele encontrasse algumas pessoas de boa vontade, era obra de uma noite a expulsão de tais godemes… Graças a Deus, tinha patriotismo, — e batia no peito, — o que não admirava porque era de família; descendia de um antigo capitão-mor muito patriota.”

Muito simpática, não é? acudiu ela; falta-lhe um pouco mais de côrte. Mas que coração! é uma pérola. Bem boa noiva para você.

Não gosto de pérolas.

Casmurro! Para quando é que você se guarda? para quando estiver a cair de maduro, já sei. Pois, meu rico, quer você queira quer não, há de casar com Nhã-loló.

Foi-se o embrião, naquele ponto em que se não distingue Laplace de uma tartaruga. Tive a notícia por boca do Lobo Neves, que me deixou na sala e acompanhou o médico à alcova da frustrada mãe.”

numa casinha da Gamboa, duas pessoas que se amam há muito tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na testa, e a outra a recuar, como se sentisse o contato de uma boca de cadáver. Há aí, no breve intervalo, entre a boca e a testa, antes do beijo e depois do beijo, há aí largo espaço para muita coisa, — a contração de um ressentimento, — a ruga da desconfiança, — ou enfim o nariz pálido e sonolento da saciedade…”

Vulgar coisa é ir considerar no ermo. O voluptuoso, o esquisito, é insular-se o homem no meio de um mar de gestos e palavras, de nervos e paixões, decretar-se alheado, inacessível, ausente. O mais que podem dizer, quando ele torna a si, — isto é, quando torna aos outros, — é que baixa do mundo da lua; mas o mundo da lua, esse desvão luminoso e recatado do cérebro, que outra coisa é senão a afirmação desdenhosa da nossa liberdade espiritual?” E há quem se interesse até pelas crateras da lua que julgue esquisito e de outro planeta o mais telúrico que existe: desvendar a alma humana, pisar na terra, ao invés de estar sempre em viagem, ignorando tudo, sendo guiada pela coleira dos guias… Quem nunca avaliou que a atenção é sempre uma moeda de dois lados faria boa coisa em viver só mais 7 dias (não importa quantas vezes): sua santa segunda, terça, quarta, quinta, sextou!, sábado e, claro, nosso domingo tão familiar! Tão atencioso e carinhoso para com os entes queridos, dentre os quais nunca se encontra… a própria cabeça.

Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao chão. Recomendo este gesto às pessoas que não tiverem uma palavra pronta para responder, ou ainda às que recearem encarar a pupila de outros olhos.”

Estas interrogações percorriam lentamente o meu cérebro, como os pontinhos e vírgulas escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados.”

Gregos, subgregos, antigregos, toda a longa série dos homens tem-se debruçado sobre o poço, para ver sair a verdade, que não está lá. Gastaram cordas e caçambas; alguns mais afoitos desceram ao fundo e trouxeram um sapo. Eu fui diretamente ao mar. Venha para o Humanitismo.”

Ele não podia mostrar-se ressentido comigo, sem igualmente buscar a separação conjugal; teve então de simular a mesma ignorância de outrora, e, por dedução, iguais sentimentos.”

Morriam uns, nasciam outros: eu continuava às moscas.”

Leitor ignaro, se não guardas as cartas da juventude, não conhecerás um dia a filosofia das folhas velhas, não gostarás o prazer de ver-te, ao longe, na penumbra, com um chapéu de três bicos, botas de sete léguas e longas barbas assírias, a bailar ao som de uma gaita anacreôntica. Guarda as tuas cartas da juventude!”

Hércules não foi senão um símbolo antecipado do Humanitismo. Neste ponto Quincas Borba ponderou que o paganismo poderia ter chegado à verdade, se se não houvesse amesquinhado com a parte galante dos seus mitos.”

Imagina, por exemplo, que eu não tinha nascido, continuou o Quincas Borba; é positivo que não teria agora o prazer de conversar contigo, comer esta batata, ir ao teatro, e para tudo dizer numa só palavra: viver. Nota que eu não faço do homem um simples veículo de Humanitas; não, ele é ao mesmo tempo veículo, cocheiro e passageiro; ele é o próprio Humanitas reduzido; daí a necessidade de

adorar-se a si próprio. Queres uma prova da superioridade do meu sistema? Contempla a inveja. Não há moralista grego ou turco, cristão ou muçulmano, que não troveje contra o sentimento da inveja. O acordo é universal, desde os campos da Iduméia até o alto da Tijuca. Ora bem; abre mão dos velhos preconceitos, esquece as retóricas rafadas, e estuda a inveja, esse sentimento tão sutil e tão nobre. Sendo cada homem uma redução de Humanitas, é claro que nenhum homem é fundamentalmente oposto a outro homem, quaisquer que sejam as aparências contrárias. Assim, por exemplo, o algoz que executa o condenado pode excitar o vão clamor dos poetas; mas substancialmente é Humanitas que corrige em Humanitas uma infração da lei de Humanitas. O mesmo direi do indivíduo que estripa a outro; é uma manifestação da força de Humanitas. Nada obsta (e há exemplos) que ele seja igualmente estripado. Se entendeste bem, facilmente compreenderás que a inveja não é senão uma admiração que luta, e sendo a luta a grande função do gênero humano, todos os sentimentos belicosos são os mais adequados à sua felicidade. Daí vem que a inveja é uma virtude.

Quincas Borba leu-me daí a dias a sua grande obra. Eram quatro volumes manuscritos, de cem páginas cada um, com letra miúda e citações latinas. O último volume compunha-se de um tratado político, fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do sistema, posto que concebida com um formidável rigor de lógica. Reorganizada a sociedade pelo método dele, nem por isso ficavam eliminadas a guerra, a insurreição, o simples murro, a facada anônima, a miséria, a fome, as doenças; mas sendo esses supostos flagelos verdadeiros equívocos do entendimento, porque não passariam de movimentos externos da substância interior, destinados a não influir sobre o homem, senão como simples quebra da monotonia universal, claro estava que a sua existência não impediria a felicidade humana.”

Se a idéia do emplasto me tem aparecido nesse tempo, quem sabe? não teria morrido logo e estaria célebre. Mas o emplasto não veio. Veio o desejo de agitar-me em alguma coisa, com alguma coisa e por alguma coisa.”

CAPÍTULO CXIX / PARÊNTESES

(…)

Suporta-se com paciência a cólica do próximo.

* * *

Matamos o tempo; o tempo nos enterra.

(…)

Não se compreende que um botocudo fure o beiço para enfeitá-lo com um pedaço de pau. Esta reflexão é de um joalheiro.

* * *

Não te irrites se te pagarem mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.”

Lavo inteiramente as mãos, concluiu ele.

Mas você achava outro dia que eu devia casar quanto antes…

Isso é outro negócio. Acho que é indispensável casar, principalmente tendo ambições políticas. Saiba que na política o celibato é uma remora. Agora, quanto à noiva, não posso ter voto, não quero, não devo, não é de minha honra. Parece-me que Sabina foi além, fazendo-lhe certas confidências, segundo me disse; mas em todo caso ela não é tia carnal de Nhã-loló, como eu. Olhe… mas não… não digo…

Diga.

Não; não digo nada.

a avareza é apenas a exageração de uma virtude e as virtudes devem ser como os orçamentos: melhor é o saldo que o déficit.”

O epitáfio diz tudo. Vale mais do que se lhes narrasse a moléstia de Nhã-loló [frô], a morte, o desespero da família, o enterro. Ficam sabendo que morreu; acrescentarei que foi por ocasião da primeira entrada da febre amarela. Não digo mais nada, a não ser que a acompanhei até o último jazigo, e me despedi triste, mas sem lágrimas. Concluí que talvez não a amasse deveras.”

Quincas Borba, porém, explicou-me que epidemias eram úteis à espécie, embora desastrosas para uma certa porção de indivíduos; fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o espetáculo, havia uma vantagem de muito peso: a sobrevivência do maior número. Chegou a perguntar-me se, no meio do luto geral, não sentia eu algum secreto encanto em ter escapado às garras da peste; mas esta pergunta era tão insensata, que ficou sem resposta.”

Doze pessoas apenas, e três quartas partes amigos do Cotrim, acompanharam à cova o cadáver de sua querida filha. E ele fizera expedir 80 convites. Ponderei-lhe que as perdas eram tão gerais que bem se podia desculpar essa desatenção aparente. Damasceno abanava a cabeça de um modo incrédulo e triste.”

SÍNDROME DE NARUTO: “Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira, entre um colega, que contava uma anedota, e outro, que tirava a lápis, nas costas de uma sobrecarta, o perfil de orador. O orador era o Lobo Neves. A onda da vida trouxe-nos à mesma praia, como duas botelhas de náufragos, ele contendo o seu ressentimento, eu devendo conter o meu remorso; e emprego esta forma suspensiva, dubitativa ou condicional, para o fim de dizer que efetivamente não continha nada, a não ser a ambição de ser ministro.”

CAPÍTULO CXXX / PARA INTERCALAR NO CAP. CXXIX”

ventriloquismo cerebral (perdoem-me os filólogos essa frase bárbara)”

as mulheres é que têm fama de indiscretas, e não quero acabar o livro sem retificar essa noção do espírito humano. Em pontos de aventura amorosa, achei homens que sorriam, ou negavam a custo, de um modo frio, monossilábico, etc., ao passo que as parceiras não davam por si, e jurariam aos Santos Evangelhos que era tudo uma calúnia. A razão desta diferença é que a mulher (salva a hipótese do capítulo 101 e outras) entrega-se por amor, ou seja o amor-paixão de Stendhal, ou o puramente físico de algumas damas romanas, por exemplo, ou polinésias, lapônias, cafres, e pode ser que outras raças civilizadas; mas o homem, — falo do homem de uma sociedade culta e elegante, — o homem conjuga a sua vaidade ao outro sentimento. Além disso (e refiro-me sempre aos casos defesos), a mulher, quando ama outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e portanto tem de dissimular com arte maior, tem de refinar a aleivosia; ao passo que o homem, sentindo-se causa da infração e vencedor de outro homem, fica legitimamente orgulhoso, e logo passa a outro sentimento menos ríspido e menos secreto, — essa boa fatuidade, que é a transpiração luminosa do mérito.“a indiscrição das mulheres é uma burla inventada pelos homens; em amor, pelo menos, elas são um verdadeiro sepulcro.”

Perdem-se muita vez por desastradas, por inquietas, por não saberem resistir aos gestos, aos olhares; e é por isso que uma grande dama e fino espírito, a rainha de Navarra, empregou algures esta metáfora para dizer que toda a aventura amorosa vinha descobrir-se por força, mais tarde ou mais cedo: <Não há cachorrinho tão adestrado, que alfim lhe não ouçamos o latir>.”

E agora sinto que, se alguma dama tem seguido estas páginas, fecha o livro e não lê as restantes. Para ela extinguiu-se o interesse da minha vida, que era o amor. Cinqüenta anos! Não é ainda a invalidez, mas já não é a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que um inglês dizia, entenderei que <coisa é não achar já quem se lembre de meus pais, e de que modo me há de encarar o próprio ESQUECIMENTO>.” “o estribeiro OBLIVION. Espetáculo, cujo fim é divertir o planeta Saturno, que anda muito aborrecido.”

CAPÍTULO CXXXVI / INUTlLIDADE

Mas, ou muito me engano, ou acabo de escrever um capítulo inútil.

CAPÍTULO CXXXVII / A BARRETINA

(…)”

– (…) Cinqüenta anos é a idade da ciência e do governo. Ânimo, Brás Cubas; não me sejas palerma. Que tens tu com essa sucessão de ruína a ruína ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a pior filosofia é a do choramigas que se deita à margem do rio para o fim de lastimar o curso incessante das águas. O ofício delas é não parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de aproveitá-la.

Nas paradas, ao sol, o excesso de calor produzido por elas podia ser fatal. Sendo certo que um dos preceitos de Hipócrates era trazer a cabeça fresca, parecia cruel obrigar um cidadão, por simples consideração de uniforme, a arriscar a saúde e a vida, e conseqüentemente o futuro da família. A Câmara e o governo deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo da liberdade e da independência, e que o cidadão, chamado a um serviço gratuito, freqüente e penoso, tinha direito a que se lhe diminuísse o ônus, decretando um uniforme leve e maneiro. Acrescia que a barretina, por seu peso, abatia a cabeça dos cidadãos, e a pátria precisava de cidadãos cuja fronte pudesse levantar-se altiva e serena diante do poder; e concluí com esta idéia: O chorão, que inclina os seus galhos para a terra, é árvore de cemitério; a palmeira, ereta e firme, é árvore do deserto, das praças e dos jardins. [BECKETT: ESPERANDO G.]

CAPÍTULO CXXXVIII / A UM CRÍTICO

Meu caro crítico,

Algumas páginas atrás, dizendo eu que tinha 50 anos, acrescentei: <Já se vai sentindo que o meu estilo não é tão lesto como nos primeiros dias>. Talvez aches esta frase incompreensível, sabendo-se o meu atual estado; mas eu chamo a tua atenção para a sutileza daquele pensamento. O que eu quero dizer não é que esteja agora mais velho do que quando comecei o livro. A morte não envelhece. Quero dizer, sim, que em cada fase da narração da minha vida experimento a sensação correspondente. Valha-me Deus! É preciso explicar tudo.”

Se a paixão do poder é a mais forte de todas, como alguns inculcam, imaginem o desespero, a dor, o abatimento do dia em que perdi a cadeira da Câmara dos Deputados. Iam-se-me as esperanças todas; terminava a carreira política. E notem que o Quincas Borba, por induções filosóficas que fez, achou que a minha ambição não era a paixão verdadeira do poder, mas um capricho, um desejo de folgar. Na opinião dele, este sentimento, não sendo mais profundo que o outro, amofina muito mais, porque orça pelo amor que as mulheres têm às rendas e toucados. Um Cromwell ou um Bonaparte, acrescentava ele, por isso mesmo que os queima a paixão do poder, lá chegam à fina força ou pela escada da direita, ou pela da esquerda. Não era assim o meu sentimento; este, não tendo em si a mesma força, não tem a mesma certeza do resultado; e daí a maior aflição, o maior desencanto, a maior tristeza.”

Vai para o diabo com o teu Humanitismo, interrompi-o; estou farto de filosofias que me não levam a coisa nenhuma.

Disse-me ele que eu não podia fugir ao combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir um jornal. Chegou a usar uma expressão menos elevada, mostrando assim que a língua filosófica podia, uma ou outra vez, retemperar-se no calão do povo.”

Vais compreender que eu só te disse a verdade. Pascal é um dos meus avôs espirituais; e, conquanto a minha filosofia valha mais que a dele, não posso negar que era um grande homem. Ora, que diz ele nesta página? — E, chapéu na cabeça, bengala sobraçada, apontava o lugar com o dedo. — Que diz ele? Diz que o homem tem “uma grande vantagem sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo ignora-o absolutamente”. Vês? Logo, o homem que disputa o osso a um cão tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome; e é isto que torna grandiosa a luta, como eu dizia. “Sabe que morre” é uma expressão profunda; creio todavia que é mais profunda a minha expressão: sabe que tem fome. Porquanto o fato da morte limita, por assim dizer, o entendimento humano; a consciência da extinção dura um breve instante e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar, de prolongar o estado consciente. Parece-me (se não vai nisso alguma imodéstia) que a fórmula de Pascal é inferior à minha, sem todavia deixar de ser um grande pensamento, e Pascal um grande homem.

as guerras de Napoleão e uma contenda de cabras eram, segundo a nossa doutrina, a mesma sublimidade, com a diferença que os soldados de Napoleão sabiam que morriam, coisa que aparentemente não acontece às cabras. Ora, eu não fazia mais do que aplicar às circunstâncias a nossa fórmula filosófica: Humanitas queria substituir Humanitas para consolação de Humanitas.”

– Ora adeus! concluiu; nem todos os problemas valem cinco minutos de atenção. (…) Supõe que tens apertado em demasia o cós das calças; para fazer cessar o incômodo, desabotoas o cós, respiras, saboreias um instante de gozo, o organismo torna à indiferença, e não te lembras dos teus dedos que praticaram o ato. Não havendo nada que perdure, é natural que a memória se esvaeça, porque ela não é uma planta aérea, precisa de chão. A esperança de outros favores, é certo, conserva sempre no beneficiado a lembrança do primeiro; mas este fato, aliás um dos mais sublimes que a filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela memória da privação, ou, usando de outra fórmula, pela privação continuada na memória, que repercute a dor passada e aconselha a precaução do remédio oportuno. Não digo que, ainda sem esta circunstância, não aconteça, algumas vezes, persistir a memória do obséquio, acompanhada de certa afeição mais ou menos intensa; mas são verdadeiras aberrações, sem nenhum valor aos olhos de um filósofo.

Erasmo, que no seu Elogio da Sandice escreveu algumas coisas boas, chamou a atenção para a complacência com que dois burros se coçam um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observação de Erasmo; mas direi o que ele não disse, a saber que se um dos burros coçar melhor o outro, esse há de ter nos olhos algum indício especial de satisfação. Por que é que uma mulher bonita olha muitas vezes para o espelho, senão porque se acha bonita, e porque isso lhe dá certa superioridade sobre uma multidão de outras mulheres menos bonitas ou absolutamente feias?”

Há em cada empresa, afeição ou idade um ciclo inteiro da vida humana. O primeiro número do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora, coroou-me de verduras, restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis meses depois batia a hora da velhice, e daí a duas semanas a da morte, que foi clandestina, como a de D. Plácida.”

PELOS ANÉIS DE SATURNO: “No momento em que eu terminava o meu movimento de rotação, concluía Lobo Neves o seu movimento de translação. Morria com o pé na escada ministerial. Correu ao menos durante algumas semanas, que ele ia ser ministro; e pois que o boato me encheu de muita irritação e inveja, não é impossível que a notícia da morte me deixasse alguma tranqüilidade, alívio, e um ou dois minutos de prazer. Prazer é muito, mas é verdade; juro aos séculos que é a pura verdade.”

Virgília traíra o marido, com sinceridade, e agora chorava-o com sinceridade. Eis uma combinação difícil que não pude fazer em todo o trajeto; em casa, porém, apeando-me do carro, suspeitei que a combinação era possível, e até fácil. Meiga Natura! A taxa da dor é como a moeda de Vespasiano; não cheira à origem, e tanto se colhe do mal como do bem. A moral repreenderá, porventura, a minha cúmplice; é o que te não importa, implacável amiga, uma vez que lhe recebeste pontualmente as lágrimas. Meiga, três vezes Meiga Natura!

Dormi, sonhei que era nababo, e acordei com a idéia de ser nababo. Eu gostava, às vezes, de imaginar esses contrastes de região, estado e credo. Alguns dias antes tinha pensado na hipótese de uma revolução social, religiosa e política, que transferisse o arcebispo de Cantuária a simples coletor de Petrópolis, e fiz longos cálculos para saber se o coletor eliminaria o arcebispo, ou se o arcebispo rejeitaria o coletor, ou que porção de arcebispo pode jazer num coletor, ou que soma de coletor pode combinar com um arcebispo, etc. Questões insolúveis, aparentemente, mas na realidade perfeitamente solúveis, desde que se atenda que pode haver num arcebispo dois arcebispos, — o da bula e o outro. Está dito, vou ser nababo.”

E vede se há algum fundamento na crença popular de que os filósofos são homens alheios às coisas mínimas. No dia seguinte, mandou-me o Quincas Borba um alienista. Conhecia-o, fiquei aterrado. Ele, porém, houve-se com a maior delicadeza e habilidade, despedindo-se tão alegremente que me animou a perguntar-lhe se deveras me não achava doido.

Não, disse ele sorrindo; raros homens terão tanto juízo como o senhor.

Então o Quincas Borba enganou-se?

Redondamente. E depois: — Ao contrário, se é amigo dele… peço-lhe que o distraia… que…

Justos céus! Parece-lhe?… Um homem de tamanho espírito, um filósofo!

Não importa, a loucura entra em todas as casas.”

Há de lembrar-se, disse-me o alienista, daquele famoso maníaco ateniense, que supunha que todos os navios entrados no Pireu eram de sua propriedade. Não passava de um pobretão, que talvez não tivesse, para dormir, a cuba de Diógenes; mas a posse imaginária dos navios valia por todas as dracmas da Hélade. Ora bem, há em todos nós um maníaco de Atenas; e quem jurar que não possuiu alguma vez, mentalmente, dois ou três patachos, pelo menos, pode crer que jura falso.

Com efeito, era impossível crer que um homem tão profundo chegasse à demência; foi o que lhe disse após o meu abraço, denunciando-lhe a suspeita do alienista. Não posso descrever a impressão que lhe fez a denúncia; lembra-me que ele estremeceu e ficou muito pálido.”

a solidão pesava-me, e a vida era para mim a pior das fadigas, que é a fadiga sem trabalho.

O cristianismo é bom para as mulheres e os mendigos, e as outras religiões não valem mais do que essa: orçam todas pela mesma vulgaridade ou fraqueza. O paraíso cristão é um digno êmulo do paraíso muçulmano; e quanto ao nirvana de Buda não passa de uma concepção de paralíticos. Verás o que é a religião humanística. A absorção final, a fase contrativa, é a reconstituição da substância, não o seu aniquilamento, etc. Vai aonde te chamam; não esqueças, porém, que és o meu califa.”

Vinha demente. Contou-me que, para o fim de aperfeiçoar o Humanitismo, queimara o manuscrito todo e ia recomeçá-lo. A parte dogmática ficava completa, embora não escrita; era a verdadeira religião do futuro.” “Quincas Borba não só estava louco, mas sabia que estava louco, e esse resto de consciência, como uma frouxa lamparina no meio das trevas, complicava muito o horror da situação. Sabia-o, e não se irritava contra o mal; ao contrário, dizia-me que era ainda uma prova de Humanitas, que assim brincava consigo mesmo. Recitava-me longos capítulos do livro, e antífonas, e litanias espirituais; chegou até a reproduzir uma dança sacra que inventara para as cerimônias do Humanitismo. A graça lúgubre com que ele levantava e sacudia as pernas era singularmente fantástica. Outras vezes amuava-se a um canto, com os olhos fitos no ar, uns olhos em que, de longe em longe, fulgurava um raio persistente da razão, triste como uma lágrima…”

Entre a morte do Quincas Borba e a minha, mediaram os sucessos narrados na primeira parte do livro. O principal deles foi a invenção do emplasto Brás Cubas, que morreu comigo, por causa da moléstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar entre os homens, acima da ciência e da riqueza, porque eras a genuína e direta inspiração do Céu. O caso determinou o contrário; e aí vos ficais eternamente hipocondríacos.”

AS LEIS – Livro VII

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

 

“Nunca observaste como em todo animal o primeiro desenvolvimento é sempre o maior e mais enérgico, a ponto de muitos defenderem que o corpo humano não adquire nos 20 anos seguintes o dobro da altura que possui aos 5 anos?”

“Não me estranha, querido Clínias, que não tenhas idéia alguma do tipo de ginástica que convém aos embriões. Mas, por bizarra que essa idéia te pareça, vou explorá-la na seqüência.”

“Em Atenas, jovens e velhos indistintamente educam os filhotes de pássaro a brigar entre si. O engraçado é que não crêem que baste a prática destes duelos para fortalecê-los; pois vivem a andar para cá e para lá carregando-os (os pequenos, nas mãos; os grandes, debaixo dos braços), vários e vários quilômetros. Com a fadiga de suas pernas, estes homens pretendem dar força aos pássaros contendores, não a eles próprios. Essa pequena faceta leva quem reflete a conceber que o movimento e a agitação, não importa em que circunstância, e contanto que não levem à exaustão, são úteis a quaisquer tipos de corpos. É aí indiferente se os pássaros deste caso caminham sozinhos, ou são conduzidos por carruagens, navios, cavalos ou, enfim, da maneira que quiseres imaginar; exercício que, pois que ajuda na respiração do animal, e na digestão dos alimentos, faz com que os corpos adquiram saúde, beleza e vigor.”

“As grávidas dão passeios amiúde, no intuito de formar seu feto, como se ele fosse um amontoado de cera dentro da barriga que tem de ser moldado pela atividade da mãe; assim se concebe o bebê, ou o estágio ainda anterior ao bebê: como algo brando e flexível, ainda informado; embalá-lo-ão em mantas até que o neném tenha 2 anos de idade. Acaso multaremos as amas e babás que não levarem o objeto de seus cuidados no colo, seja em passeios pelos campos ou aos templos, ou à casa dos pais, até que sejam fortes o bastante para que se sustentem de pé por conta própria? Até as crianças chegarem aos 3 anos, terão de ser paparicadas ao extremo, resguardadas de sofrer qualquer torção ou contusão? E será que fará diferença ter uma babá magricela e frágil ou uma mulher bojuda cuidando da criança?” “Certas evidências permitem-nos conjeturar que as babás sabem por experiência quão bom é o movimento para os menininhos e menininhas que estão sob sua responsabilidade; da mesma forma que as mulheres que sabem curar o mal dos coribantes.¹”

¹ Sacerdotes de Réia, metalúrgicos da Idade Antiga. O sentido contextual é impreciso.

“Outra certeza é a de que o humor doce e o humor amargo têm participação decisiva na boa ou na má disposição das almas. É indispensável explicar os meios de influir no humor das crianças, o que deve ser tentado sem receio.”

“As babás mostram à criança vários objetos, a fim de adivinhar o que querem realmente. Quando se põe sossegado ou se cala de repente à vista de algum, inferem que deram com a causa certa; mas se a criança continua a espernear e gritar, pensam que estão longe de atinar com a solução do problema.”

“Isto não é assunto leviano. Megilo, escuta e sê, pois, árbitro entre mim e Clínias. Minha opinião é que para se viver bem não é preciso correr atrás do prazer, nem tomar os maiores cuidados a fim de evitar a dor a qualquer custo, senão ater-se a um dado meio-termo, que denomino estado pacífico.”

“nesta idade o caráter se forma principalmente sob o influxo do hábito.”

“vimos este tempo todo falando das leis não-escritas, que também são chamadas de leis dos nossos antepassados.”

“As crianças precisam brincar entre os 3 e os 6 anos (…) Como dissemos há pouco¹ que não se deve mesclar insulto e correção no caso do escravo, não lhes dando pretextos vãos para a revolta e retaliação nem para o desenvolvimento da insolência, também não se deve confundir ambas as coisas na educação das crianças livres.”

¹ Leis VI

“As crianças de 3 a 6 anos serão reunidas nos templos consagrados aos deuses. Suas babás os acompanharão, para vigiar a ordem e refrear sua vivacidade excessivamente impetuosa. Mas mesmo essas reuniões e estas babás terão uma supervisão, sendo sua inspetora em cada templo uma das 12 mulheres oficialmente autorizadas pelos guardiães da cidade, as <babás das babás>.”

“Passadas dos 6 anos, as crianças começarão a conviver somente com seus iguais (meninos, meninas). Cada grupo se adequará a uma rotina com prescrição dos exercícios mais próprios a cada idade e a cada gênero. Os varões aprenderão a montar a cavalo, atirar com o arco-e-flecha, usar a azagaia e a funda. As moças não estão proibidas, caso apresentem esta inclinação natural; no mínimo, entretanto, deverão entender do assunto em sua parte teórica.”

“Acredita-se, no que tange ao uso das mãos, e conseqüentemente às ações que delas dependem, que a natureza estabelecera uma diferença entre a mão esquerda e a mão direita; porque, com respeito aos pés e demais membros inferiores, não parece haver qualquer distinção entre direita e esquerda para os exercícios. Mas, quanto às mãos, somos como que mancos, por causa das babás e mamães, sempre de um dos lados. (…) Temos a prova de que o problema está na educação infantil, ao vermos os citas em batalha: tanto a mão canhota quanto a destra servem para apoiar o arco; e podem mirar as flechas com precisão seja com a direita ou com a esquerda, de modo que são atiradores ambidestros.”

“A ginástica tem duas partes, o baile e a luta. Há também duas classes de baile, uma que nos apresenta as palavras da Musa e que conserva sempre certo caráter de dignidade e de grandeza;¹ outra se destina a dotar o corpo e cada um de seus membros de saúde, agilidade e beleza, ensinando-os a relaxar e contrair na justa proporção em movimentos cadenciados, compassados e coordenados.² Com respeito à luta, não carecemos cá de mencionar todas as invenções dos mestres Anteu e Cercião, umas mais e outras menos convenientes, nem tudo que Epeu e Amico³ imaginaram a fim de aperfeiçoar o pugilato, pois essas minúcias não auxiliam na guerra.”

¹ O canto

² A dança

³ Todos esses nomes próprios se referem a figuras mitológicas.

“Os jogos ajudam no estabelecimento e na consolidação das leis. Quando os jogos se constituem em regras fixas, quando todas as crianças, em todo lugar e ocasião, jogam conforme os mesmos parâmetros, respeitando os mesmos objetos e da mesma maneira, não se deve temer que haja inovações nas leis sérias que são os pilares da sociedade.” Platão & A Re-deificação da Polis / Platão & A Destruição da História

“Será preciso desempenhar os maiores esforços para que os mais jovens não se apaixonem por novos gêneros de imitação, na dança, na melodia, etc., e que ninguém os atice ou os alicie em nenhum tipo de prazer inédito.”

DÉJÀ VU – Começa a repetir o dito em outras partes d’As Leis: “Vemos que os antigos davam o nome de leis aos ares que se tocam no alaúde.”

(*) “Os antigos eram meticulosos para que durante os sacrifícios não se pronunciasse qualquer palavra contrária ao espírito da cerimônia; quando isto acontecia, dava-se-lhes o nome de blasfêmias, maldições, etc. Quanto às palavras auspiciosas e favoráveis, eram bendições.”

“a raça dos poetas não é capaz de distinguir o bom do mau.”

“O poeta não poderá separar-se em seus versos do que é legítimo, justo, belo e honesto no Estado. E ser-lhe-á proibido  ensinar seu dom em particular antes de que os guardiães e os censores hajam visto e aprovado, conforme as leis, todos os conhecimentos a ser por ele transmitidos.”

“A parte elevada da música, própria para estimular o caráter, será reservada aos homens; a parte modesta e comedida, por lei, cabe destinar às mulheres.”

“Os negócios humanos são superestimados; e no entanto são necessários; nada há de mais penoso que essa tarefa, cá entre nós.”

“MEGILO – Estrangeiro, falas com demasiado desprezo da natureza humana.

ATENIENSE – Não o estranhes, Megilo, e permite-me o uso dessa linguagem, que nada mais é que o efeito da impressão produzida em mim pela contemplação dos atributos de Deus, comparados aos nossos. Queres que o homem não seja coisa desprezível e merecedora de consideração? Convenho na idéia, mas por favor prossigamos!

(…)

Os pais não deviam ter a liberdade de enviar os filhos a estes mestres sofistas nem abandonar sua educação; é premente que todos, futuros homens e mulheres, submetam-se à educação oficial da polis, pela simples razão de que pertencem a ela mais que seus próprios pais (que não cresceram na nova polis) (…) sei que agora mesmo, nas imediações do Ponto, há um número prodigioso de mulheres, chamadas Sauromatas,¹ que, conforme a lei local, se exercitam na mesma intensidade que os homens, e montam a cavalo, atiram com arco-e-flecha e manejam todo tipo de arma.”

¹ Ou sármatas. Seriam um povo bárbaro e haveria qualquer relação entre a condição desta sociedade de “democracia de gênero” com o mito das Amazonas (sociedade de mulheres guerreiras).

“Todo cidadão deve ter vergonha de, sendo homem livre que é, passar a noite inteira dormindo, sem que seja, ao mesmo tempo, aquele que primeiro aparece desperto, antes de todos os servos da sua casa.” “Sono em excesso não é saudável nem ao corpo nem à alma.”

“ATENIENSE – (…) As crianças devem se dedicar às letras dos 10 aos 13 anos; à lira e teoria musical após esta etapa; aos 16 deverá ter por concluídos estes estudos – não importa se a criança ou o pai da criança abominam ou exaltam sobremaneira esta arte, os indivíduos em formação não poderão estudá-la nem mais nem menos do que 3 anos, muito menos deixar por completo de estudá-la. Todo aquele que não seguir este cronograma será como que proscrito oficialmente da infância, condição de que falaremos adiante. (…) As crianças devem estudar as letras o tempo necessário a fim de aprenderem a ler e escrever. Para aqueles que após 3 anos não tenham atingido o nível adequado, não devemos nos afligir por isso. Quanto às obras poéticas, que não foram feitas para ser cantadas com o acompanhamento da lira, havendo poemas com metro e outros sem, e havendo prosa destituída de número e harmonia, escritos funestos que nos legaram uma vastidão de escritores mui suspeitos–, ó ilustres guardiães das leis! Para que servem estes tipos? Que credes vós que deve o bom legislador fazer com respeito a eles? (…)

CLÍNIAS – Estrangeiro, como podes fazer tantas perguntas retóricas, que parecem auto-endereçadas, tão perplexas?

ATENIENSE – Ainda bem que me interrompeste, caro Clínias! É preciso que formemos em conjunto este plano de legislação. E é justo que eu compartilhe convosco as vantagens e desvantagens que diviso.

CLÍNIAS – Mas repito: que é que te obriga a falar desta maneira e com esta entonação?

ATENIENSE – Já que insistes!… Mas não é fácil seguir adiante contra a opinião de uma infinidade de pessoas!”

“um grande número de poetas compôs em versos hexâmetros; outro, em jambos; outro grupo, ainda, elegeu temas sérios; outros escritores, temas festivos; um número infinito de pessoas, que se supõem exímios educadores, sustentam que é saudável dar todo tipo de poema e indicam todo gênero literário aos mais jovens, até a saciedade. Dizem que com isso estendem e multiplicam seus conhecimentos, até preencherem toda sua memória; outros, recortam certas passagens deste ou daquele autor, compilando-as num só volume monstruoso, obrigando os estudantes a decorar os mais díspares versos; têm o disparate de afirmar que este é o método mais seguro a fim de que atinjam a prudência, a virtude, a sabedoria e a destreza!”

“As danças báquicas e semelhantes, que tomam seu nome emprestado das ninfas, dos pãs, dos silenos, dos sátiros, nas quais imitam-se bêbados, e que são correntes em um sem-número de cerimônias religiosas, não possuem em si caráter pacífico ou guerreiro; defini-las é a coisa mais difícil. Mas me parece que pode-se segregá-las e considerá-las como um gênero novo, o de danças apolíticas.”

“o covarde, não-exercitado no auto-domínio, entrega-se facilmente a arrebatamentos e a movimentos súbitos e violentos.”

“a imitação das palavras mediante gestos é a razão de ser da dança. O que não explica por que o movimento de alguns é regular e o de outros irregular.”

“Quanto às palavras, cantos e danças cujo objetivo é imitar os corpos e os espíritos contrafeitos e afetados, onde se percebe sem esforço o caráter do bufão e do ridículo, enfim, quanto às imitações cômicas em geral, é forçoso estudar sua natureza e ter a respeito delas uma idéia exata (…) é necessário não mesclar, em nossa conduta, o sério com o ridículo; sendo que este último merece ser estudado justamente a fim de ser evitado. Seria imprudente e indecoroso. Para tais imitações o melhor é empregar escravos e estrangeiros, pois que não convém a homem ou mulher de condição livre este tipo de degradação, ainda que artística.”

“Quanto aos poetas sérios, quero dizer, os trágicos, se alguns deles se apresentassem diante de nós e nos perguntassem: <Estrangeiros, podemos ou não ir a vossa cidade representar nossas peças?>, que é que decidistes a respeito? Pelo que me diz respeito, vede vós a resposta que eu daria a estes divinos personagens: <Estrangeiros, nós mesmos estamos ocupados em compor a mais bela das tragédias; nosso plano de governo não é mais que uma imitação do mais belo e excelente que existe, e contemplamos de bom grado esta imitação como uma verdadeira tragédia.>

“A ignorância absoluta não é o maior dos males nem o mais temível; uma vasta extensão de conhecimentos mal-digeridos é coisa muito pior.”

AS LEIS – Livro VI

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

Os magistrados, depois de recolherem os nomes dos 300 com maior número de votos, exibi-los-ão em praça pública, e os eleitores deverão proceder livremente a outra eleição dentre estes 300.¹ Pela segunda vez os eleitos serão divulgados – desta vez, 100 nomes. Proceder-se-á a uma terceira eleição, e assim sucessivamente, até chegar à última subdivisão; e então os 37 candidatos com mais votos ao final serão declarados os magistrados da cidade.”

¹ Aproximadamente 0,05% dos cidadãos.

segundo o provérbio, o começo já é a metade da obra [Hesíodo].”

toda colônia em seu nascimento é como um bebê, incapaz de prover às próprias necessidades; ele depende daqueles que lhe deram a bênção da existência, e estes por esta mesma razão cumulam-no de carinhos, por mais que no dia de amanhã possa haver desavenças entre ele e a família.”

o que está bem-dito não é importuno se dizer duas vezes”

Quanto aos 37, eis suas funções: 1) guardarão as leis; 2) armazenarão os documentos onde estará discriminada a riqueza de cada cidadão, sendo vedado a qualquer um acumular mais de 4 minas ou 400 dracmas (na primeira classe), 3 minas (na 2ª), 2 (na 3ª) e 1 (4ª) (…)”

O cargo de guardiães das leis não excederá 20 anos, e não poderá ser assumido por alguém com menos de 50. E, seguindo esta regra, aquele que for eleito aos 60 poderá exercer a magistratura por no máximo 10 anos. Aos 70 anos dar-se-á irrevogavelmente a aposentadoria.”

O Senado terá 30 dúzias de membros (360 senadores); este número, não à toa, é mui cômodo para as divisões. A primeira que faremos é tomar o Senado por 4 partes iguais, cada uma constituída de 90 senadores. Estes serão os representantes inter-classes censitárias. No primeiro dia após a eleição dos magistrados, todos os cidadãos estarão obrigados a tomar parte na eleição dos senadores da primeira classe; pagará multa (fixada pela lei) todo aquele que falte com seu dever, de qualquer uma das 4 classes. (…) aqueles justamente da terceira e quarta classes que não comparecerem à votação dos senadores no terceiro e quarto dia das votações, destinados a eleger os representantes das 3ª e 4ª classes, não serão penalizados sob qualquer forma. Nem haverá qualquer tipo de sanção se nenhum candidato para estas vagas das terceira e quarta classes for apontado dentro de suas respectivas classes. Mas que fique bem claro que se os cidadãos das duas primeiras classes se ausentarem nos dias das eleições destes senadores das classes que lhes são inferiores pagarão uma multa mais pesada: o triplo da multa-padrão, no caso dos eleitores da 2ª classe, e o quádruplo, para os da 1ª. No quinto dia os magistrados abrirão as urnas para a contagem, em público. Todos, sem exceção, estão obrigados a refazer a eleição dentre os que tenham sido votados pelo menos 1 vez, num segundo turno. A pena é novamente a multa, a mesma que sofre o eleitor da 1ª classe que falta ao 1º dia de votação.”

As eleições, como acabo de descrevê-las, seriam um ponto médio entre as eleições monárquicas e as democráticas, hibridismo que considero essencial a todo bom governo (…) Não há igualdade entre coisas desiguais, a não ser considerando as devidas proporções: o que provoca sedições nos Estados são os extremos da igualdade e da desigualdade.

Parece-me que o conhecimento exato do país é uma ciência, a mais importante das ciências. Eis por que os jovens devem se dedicar à caça, com cães ou como mais for estabelecido, costume que deverá unir prazer e utilidade.”

Um juiz que nada acrescenta ao discurso dos advogados nos litígios não merece o cargo que ocupa”

ATENIENSE – Espero que saibas que o trabalho dos pintores, nas imagens que representam, em tese não tem fim, e na verdade vês que nada criam, apenas saturam ou desbotam as cores a fim de variar uma imagem já existente. Não espero que os pintores utilizem o mesmo vocabulário que o meu para sua arte. Mas quero apenas que te atenhas ao significado de minhas palavras: um quadro jamais é tão perfeito que não se possa acrescentar alguma coisa, de modo a torná-lo ainda mais belo e expressivo.

CLÍNIAS – Digamos que sei-o de ouvir dizer. Não sou conhecedor dos princípios da pintura.

ATENIENSE – E não perdeste nada.”

Agora diz-me: a empresa do legislador não parece a do pintor? O legislador propõe-se desde o começo a formar o corpo de leis mais perfeito possível; mas, com o tempo, quando a experiência já o tiver ensinado a julgar a própria obra, crês que haja um só legislador desprovido de senso a ponto de desconhecer que deixou detrás de si, e é impossível que não tenha deixado, vários traços de imperfeição, sendo seu ofício voltar atrás e dar algumas pinceladas em algumas de suas leis mais antigas, corrigindo-as? Ou, quando muito, pensa num mural público: um legislador corrige e melhora as leis de outros legisladores, como um pintor de uma obra que ele não começou também pode fazer a mesma coisa. Ora, se queremos um Estado que não decaia e degenere, não é preciso que assim sejam as coisas?”

fala-se muito dos escravos e da faca de dois gumes que é possuí-los: são úteis e perigosos.”

É evidente que o homem, animal de difícil manejo, não consente senão muito a contragosto que se estabeleça, na sociedade dos homens, esta distinção entre homem livre e escravo, senhor e servidor, dono e propriedade, que a necessidade introduziu, não é mesmo? (…) as revoltas freqüentes ocorridas entre os messênios, os males a que estão sujeitos os Estados onde há muitos escravos falando a mesma língua, e até o que se passa na Itália, em que escravos vagabundos exercem toda classe de bandoleirismo, são todos uma prova evidente disso.” “A maneira de se portar com aqueles que se pode impunemente maltratar é o que deixa ver se se ama com sinceridade a justiça e se se odeia de verdade tudo o que tem o selo da injustiça.”

Quando um escravo cometeu um mal, é preciso castigá-lo e não limitar-se a meras repreensões, como se faria se se tratasse de uma pessoa livre, porque isto fá-lo-ia mais insolente.”

Este sexo, que é de um caráter muito diferente do nosso, pela própria debilidade congênita, se vê mais inclinado que nós homens a se ocultar e caminhar por vias tortas. O legislador, vendo que era mais difícil o governá-las, errou, ao abandoná-las à própria sorte.”

Como se evitaria o ridículo caso se tentasse sujeitar as mulheres a comer e beber em público?”

É preciso que cada um compreenda que o gênero humano nunca começou nem nunca há de terminar, mas que sempre existiu e existirá sempre, ou pelo menos que sua origem se perde em tempos tão remotos que é quase impossível determinar essa época.”

O costume de sacrificar homens se conservou até nossos dias em muitos países. Em outros, por outro lado, não se atreveriam sequer a tocar a carne do boi. Neles, não se imolavam animais sobre os altares dos deuses; contentavam-se em oferecer-lhes frutas, mel e outros dons que não exigiam a derramada de sangue. Se abstinham do consumo de carne, crendo não ser lícito comê-la, muito menos manchar com sangue os altares dos deuses. Os costumes daqueles tempos é o que nos recomendam os mistérios de Orfeu, que prescreve alimentar-se daquilo que é inanimado e abster-se de tudo que é dotado de vida.”

INTRODUÇÃO À PSICOPATOLOGIA PSICANALÍTICA (E AUTOCONTESTAÇÃO DA TEORIA FREUDIANA NÃO-APERFEIÇOADA POR LACAN & OUTROS)

Juan Carlos Kusnetzoff, 4.ed., 1982.

LEGENDA:

Azul comentários de índole mais ou menos pessoal ou poéticos;

Verde groselhas freudianas (do próprio Freud ou de maus seguidores e intérpretes);

Vermelho destaques para o conhecimento da doutrina e ênfase para futuras leituras

INTRODUÇÃO

Desde o aparecimento do Vocabulário da Psicanálise de Laplanche e Pontalis [em breve no Seclusão], sua leitura, consulta e releitura tem-se tornado indispensável para o estudioso da psicanálise. Esse livro deve ser o acompanhante natural do estudo dos temas psicanalíticos.”

1. ASPECTOS GENÉTICOS / O CONCEITO DE CAUSALIDADE PSICOPATOLÓGICA / AS SÉRIES COMPLEMENTARES DE FREUD

monocausalidade unidirecional”, “causalidade mecânica”

para Freud não fazia qualquer diferença se o fato passado apontado como a causa do atual tivesse realmente existido ou não.”

Se nós supusermos que o encadeamento histórico dos fatos tem um começo absoluto, automaticamente se infere que houve a participação de uma CAUSA PRIMEIRA. A suposição de uma Causa Primeira é, na prática, uma suposição teológica (Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, vol. I, cap. 45, art. 2, Réplica ao Objeto 7). Facilmente se compreende que só uma deidade pode ser tão eficaz para resumir nela mesma todas as Causas Primeiras das coisas, deixando em 2o plano as assim chamadas Causas Secundárias ou Naturais.”

REI FENO . . . MENO: “o postulado do assim chamado regressus ad infinitum eleva este infinito à categoria de divindade. Assim, se a intenção é tentar explicar o desconhecido atual mediante o conhecido histórico, a regressão ao infinito faz exatamente o contrário” Síndrome de Peter Parker ou Marco Aurélio ou Guy Debord (meu G.D. – falso)

toda vez que as funções simplificadas podem ser ocupadas por personagens de um grupo familiar, podemos explicar a manutenção auto-regulada de uma doença mental.” “resistência” “mecanismo de controle”

quando um doente melhora, pois, o resto do grupo familiar tende a apresentar distúrbios de conduta que anteriormente não possuía.” EFEITO POLTERGEIST NOS ARAÚJO AGUIAR: neurótico obsessivo retentor avaro (anal) → neurótico-demente regressivo dependente químico (oral) → neurótico ansioso superdotado (fase do falo castrado) (ELEMENTO-CHAVE: aquisição do metaconhecimento do mecanismo de feedback intrafamiliar) → cura através da evasão → neurótica somática, repressão da angústia e desequilíbrio pulsional em sintomas físicos que eclodem-não-eclodem (anal) → repetição do ciclo com os 2 membros restantes (intensificação-perpetuação ad inf…)

Álcool, erva, trabalho & o demônio do ódio

Possibilidades de amor fraturadas

Concentração do sentimento de culpa no elemento-chave (luta pessoal)

A arte como único contra-ataque aos papéis falidos de filho, mãe e paisagem

Incompreensão absoluta & não-redenção (ainda que encontrado o modo, aquele que se deseja salvar está referencialmente morto)

Prognósticos de herança maldita & fantasmas

2. ETAPAS DA EVOLUÇÃO PSICOSSEXUAL / CARACTERÍSTICAS DA SEXUALIDADE INFANTIL

excesso de energia não-satisfeita” “fase perverso-polimorfa” “diferenciação”

Esse conceito ampliado da boca como modelo proporciona, então, base e fundamento para pensar nas doenças ou transtornos asmáticos como problemas relacionáveis a esse período de desenvolvimento. Pensar nestes termos implicará também imaginar que quando o bebê se sente no colo da mãe, ele vivencia sensação de ser <contido>, <tomado>, <chupado>, <tocado> por uma imensa boca. Nesse período do desenvolvimento, o bebê, em seu íntimo, não pode diferenciar o que é uma mão, uma perna ou uma boca propriamente dita.”

Falar e ser falado será para ele, em certo nível e em certa época, como tocar e ser tocado.” “confusão aparentemente sem-sentido de determinados sintomas delirantes, ou o pensamento sensorializado da esquizofrenia”

o seio será o substituto do cordão umbilical.”

neste primitivíssimo período do desenvolvimento, não há dúvida de que existem os assim chamados afetos, mas titulá-los de Amor e Ódio, como o faz, p.ex., Melanie Klein, seria adultificar e, portanto, deformar um processo”

aparecimento dos dentes (…) A incorporação dos objetos agora é predominantemente sádica, destrutiva” “Será importante voltar a este estágio e suas conseqüentes fantasias, quando falarmos de depressão e melancolia.”

chamaremos mãe a todo ser humano que alimente o neném e lhe proporcione calor, sustentação espacial, contato dérmico, estímulos auditivos, etc. Essas funções podem ser realizadas por qualquer pessoa, independente de sexo, idade ou vínculo de parentesco com a criança.”

O neném carece do sentido de vinculação entre uma representação sensorial e outra. Para ele, a visão, a audição, as multivariadas e caleidoscópicas sensações provenientes de infinitas fontes são fragmentos de uma realidade e por isso são denominadas parciais, e não-unificadas.”

ou o mundo é tenso e sem prazer, ou o mundo é relaxado e prazeroso.”

Simplificando, o homem é o único ser da natureza que nasce desarvorado, sem poder sustentar-se nem sequer engatinhar ou tatear em busca de alimento, como o faz um filhote de cachorro. Isto quer dizer que se não houver uma ajuda externa para socorrê-lo, alimentá-lo, abrigando-o, sustentando-o, contendo-o, este recém-nascido morrerá inexoravelmente.” “a criança pagará o elevado preço da dependência, já que incorpora não só o leite mas a linguagem” “IN-dependência significa literalmente incorporação, interiorização de uma dependência.”

em vez da codificação tenso x relaxado, teremos confiança ou conhecidos x estranhos ou duvidosos. Estes últimos é que são sentidos como perigosos e serão o embasamento daquilo a que nós chamaremos Ódio”

corte oral definitivo”

No nosso entender, este estágio se denomina anal porque o ato da defecação ocupa um lugar importantíssimo no desenvolvimento psicossexual da criança; porém não se resume apenas ao controle esfincteriano. Esse serve de modelo para o controle motor em geral, sensações de domínio, prazer na expulsão ou na retenção, etc.”

É preciso lembrar que uma das primeiras descobertas da psicanálise foi justamente o controle e a manipulação que os neuróticos obsessivos fazem com os objetos reais e até com os pensamentos, tratando-os como se fossem <bolos fecais>, que se retêm, que se expulsam, e com os quais se obtém prazer.” Genealogia do cuzão mão-de-vaca: hipercontrole da microexistência.

O AMIGO IMAGINÁRIO DE JESUS: “Assim, o ruminar obsessivo de um pensador qualquer tem sua origem e modelo na capacidade de controlar a musculatura esfincteriana.”

A importância que adquire o bolo fecal como campo de disputa e de controle entre os desejos do meio ambiente (mãe, pai, etc.) torna-o apto para se constituir em herdeiro

totalmente equiparável entre o relacionamento existente entre o peito e boca.”

o bolo fecal contribui para modelar a importante noção do que é interno e do que é externo ao sujeito. Compreender-se-á agora que o medo de ser deglutido na fase oral é substituído na fase anal pelo medo de ser despojado do conteúdo corporal. Essa fantasia adquire vários matizes: ser arrancado, ser violentado, e sobretudo ser esvaziado.

valor de troca (…) Eis aqui o substrato psicossexual das equivalências descritas por Freud entre as fezes – presentes que se oferecem ou se recusam – e o dinheiro”

Um indivíduo adulto será avarento, <pão-duro> ou generoso, <mão-aberta> quanto ao uso particular de seu dinheiro, conforme tenha sido uma criança retentiva ou tenha mais docilmente atravessado o complexo aprendizado de seu controle esfincteriano. Desse modo, o valor adquire historicidade concreta. Não é o valor segundo Platão, para quem as coisas tinham valor por si mesmas.¹ O valor, para Freud, é valor enquanto desejabilidade. Ou seja, enquanto existam desejos de um indivíduos dirigidos para uma determinada coisa, essa coisa estará encaixada na história desse objeto. A história do valor será a história do desejo. Freud se insere desta maneira dentro da problemática filosófica de Spinoza, Hegel, Nietzsche e Marx, os quais desenvolveram uma crítica dos valores insistindo em torno de sua subjetividade.

¹ Duvidoso

MITO DA RESPONSABILIDADE”: Controlado, mas cheio de merda no estômago e na cabeça.

A criança terá duas alternativas, a esta altura de sua evolução psicossexual:

1. Pode utilizar-se de suas fezes como um presente, para satisfazer os desejos dos outros, agradá-los, conquistar e manter seu carinho, ou simplesmente como uma demonstração de afeto, ou

2. Numa outra alternativa, que é reter as fezes durante certo tempo, o que será, na maioria dos casos, entendido como hostilidade dirigida a seus pais que estão preocupados com a produção das fezes e seu respectivo auto-heterocontrole.”

o progressivo domínio do controle esfincteriano permite à criança ter acesso à noção de propriedade privada (visto que, suas fezes, ele pode <oferecê-las> ou retê-las).”

A bissexualidade humana encontra na fase anal sua expressão mais prototípica, já que o reto, sendo um órgão de excreção oco, permite a estruturação de:

1. masculinidade (…) Não é possível entender o sentido dessa afirmação se não se compreende a historicidade desta propriedade da mucosa anal. Com efeito, ela é herdeira da mucosa oral, que forma as paredes desse primeiro oco, onde o sujeito aprendeu a <tatear> o mundo exterior. (…)

2. sensações de ordem passiva (…) Daqui derivariam as tendências femininas. (…) na hierarquia que adquirem os corpos estranhos a este oco vem em primeiro lugar o dedo, durante o ato da masturbação, que serve de exploração, descobrimento e reconhecimento das propriedades desta zona erógena. A masturbação se constitui num prelúdio importantíssimo da sexualidade definitiva.” Má notícia para os que escolheram esperar!

De modo geral, são atribuídas à urina as mesmas características das fezes, ou seja, o prazer de urinar junto com o prazer da sua retenção.”

Fenichel afirma, e alguns dados clínicos o corroboram, que o prazer passivo proporcionado pela micção está deslocado nas mulheres para o correr das lágrimas quando estas fazem parte de quadros onde o pranto ocupa um lugar destacado.”

orgulho orvalho molhado

óvulo ovário

furo vários

masturbação primária” “masturbação secundária”

Esta historicidade da excitação ou da procura ativa da excitação de uma parte do corpo, e que afunda suas raízes desde o primeiro contato de um ser humano com outro ser humano, tem sua origem na estreita ligação de <peles> e <músculos> entre o bebê e sua Mãe.”

Acariciar bebês e pets como substitutivo/ressurgimento pulsional?

Numa verdadeira repetição de fatos similares, acontecidos em sua própria infância, é que os adultos repetem – punindo, proibindo – ativamente o que sofreram passivamente.”

A amnésia infantil (…) em particular dos fatos anteriores à idade de 6/7 anos, refere-se, direta ou indiretamente, às fantasias masturbatórias.”

a diferença não é percebida e sim negada (…) tanto meninos quanto meninas acreditam <ver> o pênis mesmo onde ele não existe.” Não há o “nada”.

Toda <descoberta> começa por ser um re-conhecimento, ou seja, projetar-se-á o que já é velho conhecido sobre o que é novo (e, portanto, angustiante).” Platão diria que já nascemos com a idéia de “pênis ideal”.

Esse período do desenvolvimento, no que se refere à significação que adquire a descoberta da desigualdade da constituição humana, ficará gravado no psiquismo do sujeito como um fato muitíssimo importante”

Uma atenta observação poderá demonstrar que todas as perguntas se referirão, direta ou indiretamente, à origem das diferenças”

ele tomará conhecimento do sentido da união sexual de seus pais e ficará curioso para saber e conhecer o lugar de sua <ex-residência>” We’re all orphaned aliens. Beware the Portal!

FRUSTRATION: ORIGINS: “Desde o momento em que a criança descobre o sentido e a funcionalidade da diferença sexual anatômica, ela passa a desejar também ter filhos.”

cena primária ou primitiva” Cena do Édipo e niilismo atômico (avatar n. 1)

TEORIAS INFANTIS SOBRE A FECUNDAÇÃO

(…)

Teorias da Fecundação Oral: crenças de que, por ingestão de um alimento fantástico, ou por contato com outra boca (beijo), se produziria a gravidez humana;

Teorias da Fecundação Ano-Uretral: crenças de que os atos de urinar ou de defecar em contato com outra pessoa, ou mesmo simultaneamente, seriam os responsáveis pela gravidez.

Teorias Visuais da Fecundação: crenças de que a exibição simultânea ou sucessiva dos órgãos genitais resultariam em gravidez.”

Há uma certa confusão entre o que se denomina pênis e o que se denomina falo, já que Freud, em alguns de seus artigos, os empregava indistintamente. Com uma visão teórica mais moderna, pode-se distinguir o falo como um símbolo.” “uma fantasia que condensa a posse de uma unidade e de uma potência do ser.” Freud sem Lacan, sou eu assim sem você…

tanto meninos quanto meninas compartilham a fantasia de que só um sexo existe.” “o menino reagirá à maneira de um fóbico e a menina à maneira de um melancólico ao complexo de castração.”

Esse desejo de se ver prolongado, duplicado e transcendido num filho, fantasia comum a ambos os sexos, levará consigo a <garantia> de se preservar contra a morte.”

Deveremos ressaltar que essa fantasia de mutilação peniana não é exatamente igual ao que se conhece popularmente como castração, já que esta última consiste na extração, por meios violentos, não do pênis, e sim das gônadas.”

a angústia de castração é um fato normal, efeito do amadurecimento psicológico do indivíduo.”

Este narcisismo extremo servirá como couraça protetora frente aos danos fantasiados que seu pênis poderia vir a sofrer.”

renegação ou Verwerfung: aceita-se que em torno desse mecanismo se originam as perversões e as psicoses.”

Toda fantasia de mutilação é atribuída pelo menino a uma punição infligida pelos pais para castigar desejos de prazeres similares aos que ele mesmo sente como proibidos.” “Para ele, só aquelas mulheres que tiveram a fantasia de obter prazer pela masturbação são as que sofreram esse <castigo>.” “fantasia de uma mãe com pênis, conhecida com o nome de <mãe fálica>.”

na menina, essa constatação e a grande frustração que sobrevém logo após acontecem antes do Complexo de Édipo. Mais precisamente, a castração é justamente a comprovação que permite entrar no Édipo. Ou seja, a evidência da castração lhe permite agora voltar-se para o pai como objeto de amor, passando a ser a vagina a sede corporal de seu investimento libidinoso, enquanto que para o menino a castração, ou melhor, o temor da castração, funciona sempre como limite restritivo aos desejos incestuosos desta fase, contribuindo, portanto, para fechar [antes de abrir?], para pôr um fim ao Complexo”

na menina, a Inveja do Pênis é equivalente ao conceito de renegação da diferença por parte do menino. (…) O agente dessa perda imaginária será a mãe. (…) a menina, para entrar no Complexo de Édipo direto, deverá atacar e denegrir sua mãe” “o acesso à genitalidade adulta tem muito de reacional e defensivo, posto que <cai nos braços do pai para fugir à ameaça materna>.”

desde que todo ser humano deve sua origem a dois seres chamados Pai e Mãe, não haverá nada passível de escapar a esta triangulação que constitui o âmago essencial do conflito humano.” Não? A propósito, gostaria muito de ter acesso a uma literatura contemporânea sobre como se desenvolve o Complexo de Édipo em filhos de casais gays de ambos os sexos… Casais de 1, de 2, de 3…

Toda esta conflitiva problemática edipiana eclode entre os 3 e os 5 anos de idade.”

Na clínica, o mais freqüente é que se apresentem casos de mistura dos Complexos de Édipo positivos e negativos. É o que se denomina forma completa ou total do Complexo de Édipo.”

Não há nada fora do C. de E.. Durante a vida inteira a pessoa continua vivendo essa peça teatral, assumindo diferentes papéis de um argumento que reflete sua história passada” “o Édipo é simplesmente uma história, a história de nosso primeiro amor, nosso amor infantil, ou então é o intemporal que faz da própria vida uma história que se repete, a ponto de que esta vida corre o risco de nunca nascer? (Safouan, A sexualidade feminina na doutrina freudiana, 1977, p. 67)

Acredita-se habitualmente que o Complexo de Édipo é algo que se supera e a que não se volta mais.”

Há uma antropologia psicanalítica que, aproveitando-se das estruturas teóricas freudianas, procura semelhanças em diferentes culturas. (…) É dentro desse contexto simbólico que se transmite uma lei fundamental nas relações sociais: a proibição do incesto.”

SHANGRI-LA SEARCH: “Incesto será, para esse autor, o gozo sexual com a mãe, tanto para o menino quanto para a menina. É preciso entender que não se trata do prazer genital-sexual entendido como figura penal da legislação corrente. Este ato, observado assim, clinicamente, será um sintoma grave da ordem das psicopatias ou psicoses. É o incesto que se realiza concretamente, na idade adulta.”

LEU DELEUZE? “Alguns destes pacientes vivem, em sua vida de adultos, bloqueados, tentando levantar muros, limites, pra reconstruir <alguma coisa> (…) A oscilação neurótica fará com que tentem transgredir também esse limite.”

os estudos de etnografia e genética demonstram que os povos que praticam a endogamia por tradição não possuem efeitos aberrantes na proporção em que se poderia supor.”

Esse Chefe-Pai primitivo (arque-pai) provocava sentimentos duplos: era temido e respeitado e, ao mesmo tempo, profundamente odiado. Um dia X, hipotético, teórico, os <filhos> dessa horda primitiva, revoltados, se uniram em força, matando esse Chefe-Pai, e engolindo-o. Segundo Freud, este seria o primeiro momento da humanidade. (…) O homem começou posteriormente a lembrar o episódio através do culto e da adoração de um totem simbolicamente representativo do Pai-morto. Seria esta a primeira e mais primitiva religião da humanidade. Por sua vez, a incorporação desse Pai primitivo fez emergirem sentimentos de remorso e arrependimento nos filhos, motores da adoração e lembranças posteriores.”

Esse período pré-edípico é completamente diferente da concepção da escola kleiniana, que faz questão de enfatizar a origem do Complexo de Édipo aproximadamente aos 6 ou 8 meses de idade, na chamada <posição depressiva>.”

O conceito de a posteriori ou <posterioridade> (nachträglich) foi resgatado por Lacan, adquirindo a partir dele uma importância capital dentro da obra freudiana.” “nem tudo o que é vivido pelo sujeito se integra imediatamente dentro de seu aparelho psíquico. Só depois é que esses acontecimentos vão adquirir relevância ou significado, quando o aparelho psíquico estiver totalmente amadurecido.” “quanto mais amadurecido for o aparelho psíquico, mais <triangulado> ele será. Ao contrário, quanto mais primitivo, mais narcísico e, portanto, mais dual e mais indiscriminado.”

dois tempos de <fechamento> do ap. psíq.” “P” de “Primeiro emprego” e “Pagar as contas” – “m” de “morrer”, “matar”, “masturbar”, “mastigar”, “meditar”, “militar”, “marchar adiante”, “memorizar”, “martirizar-se”, “moita”, “mimo”, “mansidão”, “maestria”, “marasmo”.

imitar o pai funciona simultaneamente como um mecanismo de defesa que elimina o pai real (eu SOU o pai e portanto não luto com ele) e como uma forma de satisfazer, agradar o pai, deixando-se modelar, educar, <fecundar>, metaforicamente falando, por ele.”

O Untergang ou sepultamento do Complexo de Édipo implica um afundar-se, dirigir-se aos fundamentos, ou seja, ao Isso.”

o menino está em posição de relacionamento heterossexual com a mãe desde o nascimento e, portanto, tem o pai como rival; daí que o movimento exogâmico será somente um afastamento <simples> desta estrutura elementar. Na menina, porém, o relacionamento inicial é com uma pessoa do mesmo sexo, tendo o pai como rival. (…) o eixo do Complexo deverá sofrer uma espécie de torção

Porém, tal como Freud o descreveu, a menina conservará essa idéia ilusória que ele chamou de esperança <de obter um dia, apesar de tudo, um pênis, e assim tornar-se semelhante a um homem>. Esta esperança <pode persistir até uma idade incrivelmente tardia e transformar-se em motivo para ações estranhas e de outra maneira inexplicáveis>.”

se entende como Complexo de Masculinidade uma estrutura composta em primeiríssimo lugar por uma relação extremamente intensa com a mãe, mas não resolvida satisfatoriamente. Simultaneamente, é também marcante a rivalidade com o pai, o que geralmente se expressa, por parte da menina, sob diversas formas de descrédito ou desprezo.” “o que se observa na clínica é que o que se esconde por trás da agressividade masculinóide, dos ciúmes reivindicatórios, etc., é uma <revolta contra a arbitrariedade do pai>.” “esse afastamento do objeto monopolizante torna-se imprescindível para a entrada no C. de E. feminino e, portanto, na sua futura autonomia exogâmica.” “A menina, então, dirige-se ao pai para ganhar a atenção e a admiração dele, que é o objeto de amor da mãe, ou seja, a fim de seduzi-lo.” “as mulheres são mais <ambivalentes a respeito de sua mãe que os homens com relação ao seu pai>.”

É importante salientar que Freud foi vacilante em muitos escritos no que se refere à designação desse processo de desaparecimento da estrutura edipiana. Em alguns textos, ele denomina de forma precisa <Destruição do Complexo> (e em outros, dissolução), em lugar da clássica Repressão ou Recalque. O que se destrói não pode voltar, mas o que se recalca sim. A saúde mental do sujeito dependerá ou estará intimamente vinculada à distinção entre estes dois processos.”

Em comparação com o menino, o processo da menina é muito mais gradual e, de certa forma, menos completo. (…) Embora a angústia de castração esteja presente, a força que adquire o medo de perder o amor da mãe é hierarquicamente superior e contribui para que a renúncia aos desejos pelo pai não seja tão drástica como é no menino.”

Quem não possui, é.”

introversão-regressão da libido sobre o ego, ou seja, o ego se apresenta ele próprio aos desejos libidinosos como um novo objeto de amor (identificação secundária). O resultado é uma libertação energética, que obviamente irá em busca de novos objetos para investir.”

o único complexo que habita o ser humano é o de Édipo. Não existem outros tipos de complexos, tais como <complexo de inferioridade>, de <masculinidade>, de <superioridade>, etc., porque isto suporia que tais complexos são uma parte do sujeito e Freud insistiu repetidas vezes no caráter estruturante que representa o C. de E. para um indivíduo como um todo.”

3. O EGO / O SUPEREGO / O IDEAL DO EGO

a rigor considera-se o Superego subdividido em 2 instâncias: o Superego p.d. e o chamado Ideal do Ego.” Substituirei doravante por Eu, Supereu e Isso (Id).

Identificação primária: ou nesta fase não existe objeto, ou ser o objeto e constituí-lo são a mesma coisa.” “Isto é o que se quer convencionalmente dizer com expressões tais como: <estágio de indiferenciação entre o self e o objeto>, ou <estágio de indiferenciação narcísica>, ou <estágio simbiótico>, ou <estágio autístico>, etc.” “dizer dependência e dizer identificação primária é mostrar um ou outro lado de uma mesma moeda.” Como se concilia essa abordagem (que parece dizer que migramos do total ao parcial) com a exposta mais acima, que parece dizer que migramos do parcial ao total quando crescemos (haja vista que bebê perceberia apenas “fragmentos de um real”?

Não será estranho que a problemática da identificação primária tenha profundas evocações filosóficas, que farão sentido para o leitor na medida da captação do conceito que quisemos expor. Essas expressões filosóficas são, p.ex.: <ser é ser para outro>, <ser para outro é ser com outro>, etc.”

O modelo descrito por Freud em Luto e melancolia (1917) mostra que o sujeito reestrutura dentro de si o vínculo perdido com seus pais reais e concretos devido a esse não edípico fundamental e estruturante.”

O conceito de função ultrapassa os limites desta obra. Digamos apenas que o uso do termo corresponde a toda uma tradição filosófica moderna: Leibniz, Hume, Bercovich e Kant. Função é tomada aqui como uma operação ou conjunto de operações determinantes de uma realidade, ou que permite compreender esta realidade. O uso do termo em matemática é altamente significativo: refere-se a uma relação entre quantidades que podem variar, e o que permanece constante é, precisamente, a relação. Frisa-se, aqui, a interdependência mútua dos elementos intervenientes (Ferráter Mora, Diccionario de Filosofía, Alianza Ed., 1979, vol. 2).”

e, além do mais, a palavra <ocupar> está vinculada à palavra alemã Besetzung, conhecida na terminologia psicanalítica como <carga>, <catexia>, ou <investimento>, que quer dizer, precisamente, ocupação, no sentido de ocupação de tropas, p.ex..”

a) No início da vida psíquica, identificação e catexia coincidem (ocupam <o mesmo lugar>).

b) Numa espécie de segundo tempo, ambas – idt. e cat. – se separam.

c) O destino da cat. é denominado <escolha do objeto>.

Portanto, dizer que no início da vida psíquica, identificação e catexia coincidem ou identificação e escolha de obj. coincidem ou ser e ter coincidem, é dizer, equivalentemente, a mesma coisa. (…) É um suposto teórico e, em conseqüência, inobservável, encontrando-se na mesma ordem conceitual que as fantasias primordiais, o mito da horda primitiva, ou o recalque primário.”

ALGUNS CONCEITOS LIGADOS À IDENTIFICAÇÃO USADOS EM PSICOPATOLOGIA:

1. Identificação primária ou total (ver acima)

2. Identificação parcial ou histérica

3. Identificação permanente – “a estrutura do caráter”

4. Identificação transitória

5. Identificação introjetiva (abaixo)

6. Identificação projetiva – “em Melanie Klein, acompanha-se de fantasias de controle e intrusão agressiva.”

7. Identificação com objeto total

8. Identificação com objeto parcial

9. Identificação progressiva

10. Identificação regressiva

11. Incorporação

12. Assimilação

13. Introjeção (abaixo)

14. Ejeção

15. Projeção – “É um mecanismo de defesa da série neurótica. Sua diferença para a identificação projetiva [ver mais além] consiste precisamente nisto. Esta é a série psicótica.”

16. Internalização

17. Imitação (acima)

18. Identidade (acima)

O Isso como herdeiro do narcisismo primitivo. (…) leva o sujeito a se igualar, a se modelar como os pais: Faça isso! Faça aquilo! Pense como seu pai! Seja como ele!, etc.” Easy on that one… Mas não faz sentido nenhum cotejado com o afirmado no capítulo 5 (fim da seção MODELO TÓPICO)!

O Supereu, herdeiro do Complexo Edípico. (…) esta identificação é a que fecha o <telhado> do edifício psíquico (…) Na realidade o objeto apenas mudou de lugar, já que anteriormente a pulsão procurava objetos exteriores que eram os pais reais e concretos e agora esses pais se introjetaram, transformando-se num <monumento>” “o Supereu é uma cicatriz”

Depois da orgia mística…

<Não seja como seu pai!> (Esta última expressão exprime a proibição do incesto: Eu posso ter relacionamento sexual em <sua> mãe, você não!!!)”

O Eu é um campo cênico”

3 instâncias: é o meu principal problema com o Freudismo. Continuo psicanalizando teimosamente apenas com os termos consciente-inconsciente. E não julgo que isso seja uma carência teórica minha…

sentimento inconsciente de culpa”

A auto-estima e a confiança do sujeito dependerão de um permanente balanço e ajuste entre estas duas últimas instâncias, da aprovação ou da rejeição que o sujeito sinta perante os pais interiorizados” Se entendi bem, a sentença anterior permite, em tese, baixa auto-estima conjugada com a maior confiança… Não sou aprovado, mas estou longe de ser rejeitado… Ou não se deveriam usar dois termos por preciosismo onde caberia apenas um.

4. LATÊNCIA / PUBERDADE / ADOLESCÊNCIA

PERÍODO DE LATÊNCIA

Foi assim denominado o peculiar período que se estende desde os 5 ou 6 anos de idade até as fases puberais do desenvolvimento. O nome reconhece uma certa calma, em comparação com o período precedente, a plena fase de eclosão do C.deE.”

predominância do sentimento de ternura” “Essa será também a idade do ludismo. Este ludismo tem forte sentido social, revelando o tipo de jogo, a estrutura do mesmo e as diversas temáticas existentes em seu interior – a mudança de objeto efetuada pelo aparelho psíquico.” “A aproximação com crianças, particularmente do mesmo sexo, é relativamente fácil e a crescente idealização dos vínculos, tanto de pares quanto de adultos, torna facilmente influenciável a criança nesta fase.”

A PUBERDADE

crise: (…) o aluvião pulsional que em curto lapso de tempo inunda o aparelho psíquico surpreende-o adaptado às exigências instintuais do período anterior (…) Essa luta desigual, inicialmente a favor das pulsões, produz um marcado desequilíbrio, responsável por toda uma série de sintomas [dores de cabeça e vertigens] conhecidas pelo nome de Crise Normal da Adolescência.”

A Pubescência

Ocorre precisamente uma revivescência de todas as situações edipianas que estavam em silêncio durante o período de latência.

Este reemergir das pulsões edipianas está contextuado numa verdadeira tormenta de identificação e de narcismo. Apresentam-se comumente sentimentos de angústia e dúvida – em alguns casos, com características compulsivas – sobre o corpo (tamanho, aparência, estética), o sexo (autenticidade, capacidade), o <si-mesmo> (despersonalização, estranheza). Por tudo isso, esta idade é conhecida com o nome de <idade do tonto> ou <idade ingrata>.

Juntamente com essas ansiedades, o sujeito pode apresentar fortes ansiedades paranóides, que às vezes se manifestam como verdadeiras hipocondrias circunstanciais. Todo esse cortejo de angústias, preocupações e dúvidas, acompanhado de diversos tipos de defesas, segue-se às primeiras poluções (aparecimento do sêmen nos garotos) e à menarca (primeira menstruação).”

As estruturas psíquicas, em seu circunstancial desequilíbrio, correm o risco de se desestruturarem total ou parcialmente. Mas, simultaneamente, apresenta-se ao sujeito a possibilidade de rearticulá-las agora perante esta investida pulsional. Rearticulação que será praticamente a última constitutiva do sujeito.

A ADOLESCÊNCIA

Esse processo deverá inevitavelmente se defrontar com o grupo social onde vive o adolescente, grupo este que tenderá a formar, canalizar e impor um conjunto normativo de regras, sob a forma de modelos de comportamento, costumes, leis, práticas e rituais diversos que, sem dúvida, moldarão a personalidade definitiva do futuro adulto. Mas essa modelagem é sumamente complexa, já que o jovem se vê obrigado a conciliar suas necessidades pulsionais com as normais sociais, tanto as que aprendeu na infância como as que encontra agora no contexto social em que atua. Não resta a menor dúvida de que este conflito se apresenta, por vezes, de forma tormentosa e não raro violenta. Daí a quase constante instabilidade do aparelho psíquico, em estruturação e desestruturação contínuas durante toda a adolescência.”

durante a adolescência, todas as outras manifestações auto-eróticas pré-genitais (orais, anais, fálicas) vão sendo progressivamente associadas à genitalidade, adquirindo o ato masturbatório uma satisfação com fantasias cada vez mais genitais.” “Entretanto, como toda atividade do adolescente, a masturbação será continuamente redefinida pelo grupo social onde ele atua. Isto porque a masturbação será geralmente sentida pelo jovem como uma atividade necessária e imperiosa, mas muito reprovada, gerando assim fortes sentimentos de culpa.”

crises de solidão e fastio” “verdadeiros estados esquizo-depressivos”

Pais e educadores, durante muito tempo, empreenderam verdadeira luta contra a masturbação, aludindo conseqüências nocivas a sua prática: impotência, tuberculose, loucura, esterilidade, etc.” “o sujeito entra num círculo vicioso de se proporcionar o prazer auto-erótico não apenas em busca da gratificação pulsional mas também para gratificar a necessidade de punição que é, por outro lado, a única maneira que ele encontra de redimir a culpa.”

ADULTHOOD IN A DESPERATE WORLD IN A NUTSHELL: “Em termos objetais, o dilema se apresenta entre um retorno a escolhas primárias narcísicas com características pré-genitais e tendentes a serem duais, e outra mais amadurecida que tende a <triangular> os vínculos e a genitalizá-los.”

O jovem passa por verdadeiros períodos esquizóides de introversão, que são geralmente circunstanciais mas que, em alguns casos, podem desembocar no autismo esquizofrênico.”

a criança não questiona o princípio geral da obediência.”

Só ele tem o direito de determinar o que é liberdade (Porot e Seux: Les Adolescents Parmi Nous, Ed. Flammarion, Paris, 1964)”

forte nostalgia da infância”: AS TEORIAS SUPREMAS (my newest revival book!) & O Mito do Príncipe Loiro https://www.clubedeautores.com.br/livro/as-teorias-supremas#.XWh9RuNKjIX

In search of a non-existent tail

níveis-limite”

Reuniões de família e domingos entediantes: a morte-e-o-silêncio-em-vida.

Freqüentemente, os afetos são intensos mas passageiros por pessoas da mesma idade. (…) Outro tipo de adolescente apresenta esse mesmo gênero de afeto, mas por pessoas mais velhas, às vezes bem mais velhas, representando substitutos paternos, na maioria das vezes usados como intermediários no processo de amadurecimento. (…) fixações identificatóriasCarlos Gomes e tantos professores. De fato até agora nestes comentários de índole pessoal eu citei o nome de 3 pessoas do meu passado, 2 professores do meu curso de jornalismo e um de filosofia, do meu ensino médio. Psicanaliticamente falando, eles foram o pai que eu não tive. Pulando alguns anos: E depois, já aos 22, eu era o professor, e não havia ninguém acima… E que tal abaixo?

Dentro desse contexto, a primeira escolha do adolescente como relacionamento amoroso ou de amizade é, freqüentemente, homossexual, sendo comuníssimas as experiências homossexuais ocasionais entre os adolescentes.” Engraçado que – além de não acontecer comigo – eu sequer verifiquei isso no meu próprio tempo, entre tantos colegas!

5. NOÇÕES DE METAPSICOLOGIA FREUDIANA

Os modelos da metapsicologia freudiana são fundamentalmente 3:

(1) dinâmico, onde se fala de pulsões, instintos, forças, moção impulsora;

(2) tópico, que é o ponto de vista que supõe o aparelho psíquico dividido em sistemas singulares (Consciente, Pré-Consciente, Inconsciente; ou ainda Eu, Supereu e Isso);

(3) e, finalmente, o modelo econômico, que é o ponto de vista que observa o aparelho psíq. como uma circulação, distribuição e administração de uma energia quantificável; falamos então de catexias, ou cargas, que aumentam, diminuem, sobrecarregam, etc.

Os matemáticos modernos, particularmente Carnap, chamam de <isomórfico> o modelo analógico (Introduction to Symbolic Logic and its Applications, 1958).”

será necessário ressalvar que o modelo, por mais aperfeiçoado que seja, é uma hipótese (literalmente uma sub-positio, uma sub-posição, i.e., suposição) e, portanto, proporciona uma plausibilidade em relação aos fatos, nunca suas demonstrações.”

para os quadros psicóticos e narcísicos, Freud foi reformulando sua modelística inicial até desembocar na segunda teoria dos instintos

MODELO TÓPICO

ressaltamos que o termo tópico faz cair a acentuação sobre uma certa disposição espacial das instâncias, podendo dar uma significação errônea de seu funcionamento. Provavelmente por essa razão Freud usou a palavra <aparelho>, que sublinha a funcionalidade interligada das instâncias entre si” “Como se pode observar, é muito difícil separar o modelo tópico do dinâmico, porque neste último a origem, o processamento, a distribuição e o destino final da energia estão articulados às distintas funções que correspondem a cada lugar e instância do modelo tópico.” Me pergunto qual a real utilidade do terceiro modelo, pois então…

Freud foi um brilhante expoente dos laboratórios experimentais da época e, além de dúzias de trabalhos sobre neurofisiologia, escreveu em 1891 um livro sobre as afasias. O tema critica as teorias que hierarquizavam a localização anatômico-concreta, de renomados cientistas da época.” “Sua associações com Breuer desemboca numa espécie de axioma: o espelho de um telescópio não pode ser, simultaneamente, uma chapa fotográfica.”

A Consciência será um fato fugaz, e nunca um arquivo.”

A característica do sistema Pré-Consc. é que seus conteúdos podem ser recuperados por um ato da vontade” “(diz-se então que o conteúdo estava reprimido); se não foi possível [rememorá-lo], a sua localização era no Inconsciente (diz-se, então, que o conteúdo estava recalcado).”

o Pré-Consc. contém <representações de palavras>, uma marca mnésica da palavra ouvida.” “A <representação de palavra> é uma marca acústica, que se opõe à chamada <representação de coisa>, que se encontra no Inconsciente e é predominantemente visual. A <representação de coisa> nunca pode ser consciente se não estiver associada a alguma representação verbal, encontrada no Pré-Consciente.” Lorotas. Dar nome ao silêncio dos bois. No word, no info.

Devemos também lembrar que <representação ideativa>, <traço mnêmico> e <representações de coisa> são sinônimos.”

Devemos reconhecer que esse conceito de núcleo do inconsciente é polêmico, controvertido [mas não me diga!], que deu e dá margem a acaloradas discussões, particularmente epistemológicas. Transcrevemos, porém, literalmente, a frase final da autorizada opinião de Laplanche e Pontalis: <No nosso modo de ver, as reservas suscitadas pela teoria de uma transmissão genética hereditária não devem nos fazer considerar igualmente caduca a idéia de que existem, na vida fantasiosa, estruturas irredutíveis às contingências do vivido individual>.” “Funcionalmente, representação de coisa e energia pulsional operam em conjunto.” Eu represento mais do que você!

condensação (…) é o somatório das várias cadeias de representações (…) é o sintoma, enquanto [que] o deslocamento é o mecanismo que conduz a ele. A condensação não deverá ser confundida com um resumo; é um produto da interseção circunstancial de deslocamentos em vários níveis do Inconsciente.”

Com o termo censura denominamos uma importante região fronteiriça que une e separa o Pré-Consciente/Consciente do Inconsciente.” “a censura tem no 1º tópico um caráter ainda passivo, de barreira inerte que apenas separa com rigidez os conteúdos inconscientes do outro sistema.” “Realmente, em 1923, ele incluiu entre as funções do Supereu a da censura, mas conferindo-lhe agora um sentido de coisa vigilante e dinâmica, com caracteres de instância psíquica diferenciada.”

o segundo tópico não elimina o primeiro”

A hesit he sit hesita…ção de um senhor não contribui para a refutação dos críticos à psicanálise e a in-desejada pecha de pseudo(onis)ciência, cofco(n)fere, fquerida_uck?

Os conteúdos fantasmáticos do Isso são, em sua maior parte, hereditários e o restante adquirido.”

Telebrasília desinforma…

Cláudia Busato e a aula em 2006: “O aspecto genético do Isso, como foi assinalado, é motivo de controvérsias entre partidários que salientam ora o ponto de vista filogenético, ora o ontogenético. É a metáfora freudiana que permite tal controvérsia: <No princípio tudo era Isso. O Eu tem se desenvolvido a partir do Isso, através da persistente influência do mundo exterior>.”

compress start resume

o caráter de inevitabilidade atinge o palco” “a maior parte do Eu é Inconsciente”

Peixe morre pela boca, Zeus morre pela coxa?

EM BUSCA DUM ÜBEREGO: “o Supereu está identificado com o Supereu dos próprios Pais.¹ Por tal motivo, encontram-se no Supereu os valores ditados pela cultura em que viveu o sujeito. Além dos valores, encontra-se também o que nomeamos ideologia ou ideologias, conjunto de crenças e preconceitos carregados afetivamente e que se impõem, à maneira de imperativo categórico kantiano, como mandamentos éticos.” Só um leigo absoluto em materialismo histórico e kantismo poderia misturar terminologias tão abstrusas de forma tão execrável numa só sentença! Fora o sentido indeterminado da palavra mais genérica possível, valor!

¹ Devo agradecer aos meus avós (ancestrais de forma geral) o possuir piedade e pena. Mas o que poderia qualquer melancolia nata contra o espírito do século XX (ainda ativo) e a imbecilidade que foge de si mesma?

Meu objetivo (dever) é desver, lamento! “O Supereu, instância fundamental para o entendimento da conduta do indivíduo, e sobretudo da sua psicopatologiaDeus mandou que eu não mexesse no que fede, eternamente fede…

Veja-se então como Freud se inscreve dentro de toda uma linha filosófica representada por Nietzsche, Spinoza, Hegel, onde o valor está ligado ao desejo, sendo este, por sua vez, um produto histórico (…) o Supereu outorga uma espécie de cosmovisão” Tanto e tão pouco: descobriram tudo, mas voltaram à estaca zero no mesmo ato…

Em resumo, o Isso está constituído por imagens de objetos amados, e o Supereu por objetos temidos [cicatriz cultural – nós, os especiais, detestamos o Ocidente!].”

Superergo sum achatado, Narciso estimulado (afogado)…

MODELO ECONÔMICO [Leia REICH!]

NÃO CONTE COM AS FEZES: “É o modelo mais controvertido, porque à luz da ciência moderna, particularmente das ciências físicas, não existe nenhuma precisão quanto aos componentes essenciais das energias.” Em alguns fragmentos de sua obra, F. aponta a esperança de quantificar no futuro essa energia. A energia é conhecida na teoria psicanalítica como catexia ou catexis, palavra que tenta traduzir o vocábulo alemão Besetzung. (…) A palavra em português investimento é muito mais adequada que catexia, pois até sob o ângulo da ciência econômica permite uma solidariedade entre a coisa investida e o <capitalista investidor>.

alguns quadros psicopatológicos evidenciam uma carência de energia em certas áreas, como acontece nos quadros de esquizoidia, depressões ou histerias conversivas.”

O princípio da Constância é vinculado (às vezes oposto) ao princípio do Nirvana(*), que é aquele princípio que tende a reduzir ao zero absoluto toda excitação. O princípio do Nirvana é o princípio que governa o conceito de instinto da morte (…)

(*) Tanto em O problema econômico do masoquismo quanto em Os instintos e suas vicissitudes, F. se refere a ambos como idênticos, opondo-se, sim, ao princípio do prazer: <O princípio do Nirvana (e também o da Constância) expressa a tendência do Instinto da morte; o princípio do prazer representa as exigências da libido, e a modificação desta última; o princípio da realidade representa a influência do mundo externo> [por suposto que quando se transa se transa apenas consigo mesmo, não é, Freudinho?] (…) consultar <princípio da constância> no Vocabulário da Psicanálise.

Os princípios são aceitos comumente nas ciências e, de modo geral, procedem de Aristóteles. Admite-se que o princípio é um ponto de partida, podendo logicamente existir vários princípios, que regulam determinado sistema lógico ou cognitivo.”

SÍNTESE (MANIA DE SIMETRIA OU KANTOMANIA, COMO DIRIA SCHOPENHAUER): “Como o leitor poderá observar, o conceito de prazer está perfeitamente articulado com o de processo primário, com o de energia livre e com o de identidade de percepção. Por outro lado, realidade está articulada com o processo secundário, energia ligada, identidade de pensamento. Em termos do 1º tópico, o princípio do prazer, com todas as suas séries articuladas, corresponde ao Inconsciente e o princípio de realidade ao Consciente. Em termos do 2º tópico, esta 1ª série corresponde ao Isso e à parte inconsciente do Eu. A 2ª série corresponde ao Eu consc..”

MODELO DINÂMICO

Os estímulos exteriores são passíveis de ser afastados, mediante a atividade muscular. Já os estímulos interiores exercem pressão mais ou menos contínua. (…) A isso chamamos de pulsão e instinto.”

<Por pressão (Drang) de um instinto, compreendemos seu fator motor, a quantidade de força ou a medida da exigência de trabalho que ela representa.> Esta é uma característica essencial de toda pulsão e até quando se fala de <pulsão passiva> está-se assinalando uma brevíssima maneira de exprimir a idéia de uma exigência ativa em procurar situações de passividade. Este ponto é de capital importância, já que F. não quis atribuir a atividade a uma pulsão específica (como Adler), pois toda pulsão tem por definição a capacidade de desencadear a atividade motora.”

Um objeto é o elemento mais variável de uma pulsão. A ligação a um objeto é feita com a exclusiva finalidade de procurar a sua descarga. Muitos fenômenos de ordem psicopatológica, especialmente os mais primitivos, são explicados por essa característica, onde o aparelho psíquico parece atuar às cegas à procura de uma descarga, tendo o objeto em si mesmo valor secundário.” “Compreende-se facilmente como o corpo pode, ao mesmo tempo, servir como fonte e como objeto, elemento fundamental para se entender o narcisismo.”

O “LIVRO” AOS 20 ANOS:Relação de objeto: Este conceito tenta exprimir que o objeto em si mesmo, <escolhido> pelo sujeito, tem uma vida própria e uma historicidade que explica o seu aparecimento nesse lugar e nesse tempo.”

Teoria das Pulsões

O protótipo da pulsão de autoconservação é a fome, e nunca F. se preocupou em descrever outro tipo. Mas admite-se que qualquer função orgânica seja fonte deste tipo de pulsão. (…) o comer muito (bulimia) ou o comer pouco (anorexia) podem ser explicados pela hiperativação, no primeiro caso, ou pela inibição no segundo, da função do apetite pelos efeitos produzidos pela pulsão sexual, apoiada nas de autoconservação.” “as pulsões de autoconservação estão regidas pelo princípio de realidade. As pulsões sexuais prescindem de objetos exteriores, sendo regidas pelo princípio de prazer. A fantasia, como expressão das pulsões sexuais, e portanto do corpo, constitui-se num refúgio, num espaço diferente do mundo anterior.”

invaginação da energia psíquica: uma dor de dentes, ou mesmo os sonhos normais, que expressam uma atividade psíquica intensa, com total afastamento do mundo exterior. Todas essas considerações levaram F. a substituir a dualidade pulsões de autoc. vs pulsões sex. pela dualidade libido do objeto vs libido do Eu.ZzZ – Reformulações e substituições que não reformulam nem reformam nada.

núcleo narcísico” “narcisismo secundário” = investimento de regresso no adulto frustrado

a dualidade pulsional, expressa nos pares antitéticos sadismo e amor, colocava problemas que durante alguns anos fizeram vacilar os textos freudianos, até seu reordenamento definitivo [sempre desconfie!] depois de 1920.”

QUANTA IRONIA: “Seguindo Laplanche, diremos que o texto de 1920 se apresenta como …o mais fascinante e mais desconcertante de toda a obra freudiana. Jamais F. se mostrou tão livre, tão audacioso, como neste grande afresco metapsicológico, metafísico e metabiológico [menos!]. Aparecem nele termos absolutamente novos: Eros, pulsão de morte, compulsão à repetição... (Laplanche, Vie et mort en Psychanalyse, 1970)”

Os casos clínicos perversos e melancólicos mostram, de modo evidente, que existe algo como uma tendência agressiva voltada contra o sujeito e permanecendo dentro dele com toda a sua força destruidora.”

qualquer problema de ordem masoquista tem a ver com uma submissão do Eu aos mandamentos agressivos e destruidores do Supereu [papai e mamãe, minha bola de ferro]. Deste modo muito particular o Eu satisfaz a energia pulsional superegóica.

A segunda teoria pulsional abalou quase todo o edifício teórico freudiano. Observado na sua totalidade, o princípio do prazer perde, depois de ‘20, a hierarquia, enquanto os problemas relativos à agressão são colocados em 1º plano.”

Vê-se aqui o âmago da filosofia de Schopenhauer.” Triste resultado para uma psicologia que se pretendia o sumo da empiria!

Teoria da Angústia

1ª teoria da angústia: 1905-1926

2ª teoria da angústia: Inibições, Sintomas e Angústia à morte de F.

em Como se origina a ansiedade (1905), F. é taxativo: a angústia reconhece uma etiologia sexual, em especial circunstâncias recentes.”

Saber demasiado sobre determinadas coisas e poder compará-las com os dados recolhidos na realidade pode desencadear até pânico. Lembremos a reação de Robinson Crusoe ao encontrar na praia uma pegada humana. Ele acreditava estar sozinho e, por conhecer o sinal que observava, inferiu rapidamente que na ilha existia pelo menos mais uma pessoa.”

a angústia real tem um desenvolvimento objetivo, concreto e exterior, mas também tem um desenvolvimento patológico incontrolado, irracional, podendo culminar num ataque ou numa reação de pânico. Isto leva-nos a procurar motivações inconscientes que atuem como desencadeantes destes afetos: portanto, subjacente a uma angústia real, na imensa maioria dos casos, encontra-se uma angústia neurótica.”

conceito de Angst: “deslizamentos confusionais compreensíveis” HAHAHAHA

NOWSEAAESxifsa

mirrormirrorwhatyouvegot

Para o medo, F. reserva o termo Furcht.” “o desenvolvimento da angústia é um preparo mínimo para os fatores traumáticos.” “Reservamos o termo ansiedade, que é quase sempre usado como sinônimo de angústia, para descrever um estado de expectativa consciente de um perigo, embora este não seja conhecido.” “Finalmente, devemos deixar claro que a palavra angústia tem sua origem no grego Anxius ou Angor, significando aperto, estrangulamento, impossibilidade de respirar.” break your neck

se aconteceu um cerceamento, haverá a possibilidade de que ele volte a se produzir. Será sempre uma ameaça”

A Lei do Pai”

6. SONHOS, FANTASIAS E FUNÇÃO IMAGINÁRIA

para expressar a idéia de posse o trabalho onírico pode nos mostrar uma pessoa sentada numa cadeira.”

isso-êntico

7. DEFESAS, MECANISMOS DE DEFESA

existe muita controvérsia entre as diferenças que poderiam existir entre uma neurose e uma psicose. Na época de F. dizia-se que a neurose consistia numa rejeição do instinto, em ficar-se à mercê do mundo exterior. Na psicose, rejeitar-se-ia o mundo exterior, obedecendo automaticamente ao Isso.”

OS “ULTRARREALISTAS” – übercríticos dos outros: idiotas quanto a si mesmos Quando passei a considerar os Outros como parte da solução, me tornei o problema. Quem renega a fraqueza fica fraco Eu sou só o melhor escritor que você jamais irá conhecer. Não me exija traquejo empresarial e domínio sobre assuntos da arraia-miúda.

Usar os mais ranzinzas como espelho do que já fui (e me envergonha): R***** e M*** S******

qualquer sintoma psicopatológico é em si mesmo uma forma de punição. O sujeito vive o conjunto sintomatológico como merecendo-o.” “2 quadros psicopatológicos clássicos: a neurose obsessiva e a melancolia”

uma pessoa não adoece por possuir defesas e sim pela sua ineficácia ou pelo mau uso que faz delas.” “estereotipia defensiva”

Quem se inicia em psicopatologia acredita que um determinado paciente está <curado> quando se conseguem <abater as defesas>. Erro grave, porque podem passar inadvertidas ao profissional mudanças nas apresentações de conduta pertencentes às defesas articuladas pelo sujeito para lidar com os estímulos internos e externos”

um neurótico diz: <eu sofro, mas não sei por quê>. Um psicótico, entretanto, e, em certa medida, um perverso, acreditam numa realidade (delírio) que implica a rejeição de uma outra realidade cuja existência tiveram previamente que admitir. É como se dissessem: <eu não sofro, isto é o que sinto e penso>. Modernamente, o mecanismo básico das psicoses e perversões recebeu denominações diversas, como repúdio, rejeição, exclusão, desmentido para traduzir a palavra alemã Verwerfung. Em francês, a tradução proposta por Lacan é forclusion. Trata-se de uma rejeição, ou afastamento, próximo do recalque, mas não se confundindo com ele.EU TE REPUDIO! “o texto onde fica mais patente este mecanismo de defesa é no caso do Homem dos Lobos (1918).” “<Uma repressão é algo muito diferente de uma rejeição.> (Eine Verdrängung ist etwas anderes als eine Verwerfung.)” “Desta maneira, a exclusão da castração implica necessariamente em ausência da existência desse fato.”

Rejeitava a castração e apegava-se a sua teoria de relação sexual pelo ânus. Quando digo que ele a havia rejeitado, o primeiro significado da frase é o de que ele não teria nada a ver com a castração, no sentido de havê-la reprimido. (…) era como se não existisse. […] Afinal, seriam encontradas nele, lado a lado, duas correntes contrárias, das quais uma abominava a idéia da castração, ao passo que a outra estava preparada para aceitá-la e consolar-se com a feminilidade, como uma compensação.” “Para além de qualquer dúvida, porém, uma terceira corrente, a mais antiga e profunda, que nem sequer levantara ainda a questão da realidade da castração, seria capaz de entrar em atividade.”

Metaforicamente, e para esclarecer esse complicado e fundamental mecanismo de defesa, transcreveremos uma expressiva e notável explicação de Leclaire (À propos de l’Episode que présenta l’Homme aux Loups): Se imaginamos a experiência como um tecido, ou seja, ao pé da letra, como um pedaço de fazenda constituída por fios entrecruzados, poderíamos dizer que o recalque estaria representado por alguma ruptura ou por algum rasgão, importante e sempre passível de ser cerzido e reparado, enquanto que a exclusão estaria representada por alguma abertura devida ao tecido mesmo, i.e., por um buraco original que jamais seria suscetível de encontrar sua própria substância, já que esta nunca teria sido outra coisa senão substância de buraco, e que nunca poderia ser preenchido senão de modo imperfeito por um <remendo>, para retomar o termo freudiano.” “a alucinação, o delírio, será a <realidade> que <tampará> o buraco”

neurose: os sucessivos deslocamentos, condensações e distorções fizeram perder o sentido original, que se recupera com o trabalho interpretativo.

psicose: a estrutura desarticulada não é passível de ser representada simbolicamente, daí resultando que a interpretação, como recurso terapêutico, é inadequada”

8. OS CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO E AS OPERAÇÕES DEFENSIVAS

Cotas para esquizos

Uma personalidade histérica pode se apresentar com uma estrutura fóbica e, em outros momentos, com estrutura conversiva, estruturas que, por sua vez, são organizações defensivas de estruturas esquizóides ou melancólicas subjacentes.”

Ex-neurótico

Interessa pesquisar não só a fluidez da divisão destes níveis no plano sincrônico (diagnosticador/diagnosticado)[?], mas também no plano diacrônico (em que época da vida se quebrou, se se manteve da mesma maneira, etc.).”

NEUROTISMO

PSICOTISMO

ansiedade¹

enfermidade orgânica atual[?];

tensão¹

transferência neurótica[?]

narcisismo

manutenção da clivagem

clivagem não-conservada ou em risco de perder-se [NÃO HÁ TRAUMAS, É-SE O TRAUMA!]

Defesas: (…) [“maldição” – ver 2ª tabela e trechos de T&T mais abaixo: o rancor ao pai que volta contra si depois de morto]

Defesas: caracteropáticas[?]

Versão simplificada em relação à das pp. 204-5 (fig. 19).

¹ E qual seria a distinção fundamental entre ambas?

O esquema apresentado acima possui forte influência jacksoniana. Este neurologista inglês, herdeiro da doutrina <evolucionista spenceriana>, formulou, no final do século passado, sua célebre Teoria da Dissolução, que encontrou importante repercussão nos meios neurológicos e psiquiátricos.”

uma disciplina, cujo primeiro objetivo é analisar e interpretar as diferenças, poupa-se muitos problemas ao considerar somente as diferenças” (Lévi-Strauss, Raça e história)

Teoricamente, um sujeito seria capaz de apresentar todas as condutas possíveis se a situação, o contexto onde ele se inscreve, assim lho exigisse. Porém, todo sujeito tem <selecionado>, inconscientemente, um certo número, bastante restrito, de estruturas defensivas, que utiliza para lidar contra os perigos internos e externos em quase todos os contextos e meios sociais em que lhe cabe viver. Esta seleção apresenta-se como um estilo muito particular e característico”

Derrubam-se diques, erguem-se outros…

Normalmente, entende-se por contracatexia uma espécie de barreira levantada perante outras catexias transportadas pelas pulsões e desejos inconscientes.”

GENEALOGIA DO BLASÉ: “Esta <retirada> é conhecida com o nome de descatexia ou descatexização.”

Facilmente se deduz que a luta estabelecida entre os desejos originais e as defesas levantadas contra eles exige um permanente gasto psíquico.”

Para Fenichel, a contracatexia é o sinal da angústia” “reação do Eu, não criada por ele e sim usada por ele”

Deveremos frisar, insistentemente, que <neurotismo> e <psicotismo> são simplesmente duas séries ordenadas, numa escala complementar, e não podem ser tomadas como padrões rígidos ou como um guia dogmático.”

(*) O livro inverte as colunas abaixo (fig. 20, pp. 209-10), colocando PSICOTISMO à esquerda e NEUROTISMO à direita, erro que retificamos. Em negrito – após os títulos – aqueles conceitos que são pormenorizados num nível satisfatório mais à frente. A tabela também foi encolhida (como a de cima), pois apresenta um excesso de conceitos que só atrapalharia:

NEUROTISMO

PSICOTISMO

Projeção [“Eu sou o Goku” → “eu queria muito ser o Goku, mas não sou, ele está na TV” (mecanismo normal da criança que matura) – sentimento de decepção face a quem despe essa máscara, e sempre há um bode expiatório que não é o Eu.]

Identificação projetiva[-introjetiva]

[Mais para “o Goku sou eu, eu sou todo o possível, pois esqueci o que é faz-de-conta” – sentimento de indiferença, autossuficiência hipostásica]

repressão (recalque)

[negação → afirmação

(autores também usam denegar: odiar, trair)]

renegação (forclusão)

[de certa forma, encarnação do paradoxo – para além até da simples ambivalência da má-fé]

deslocamento [crise, accountability com o passado e somatização]

divisão [a-historicidade, indiferenciação]

regressão parcial

regressão total

inibição

¹

reatividade

¹

¹ Não há contrário equivalente na tabela.

Fosse a neurose uma figura geométrica, seria provavelmente um círculo; fosse a psicopatia uma figura geométrica, seria um ponto.

Quanticopata

Projeção

expulsão de uma idéia intolerável. <Portanto, o propósito da paranóia é rechaçar uma idéia que é incompatível com o Eu, projetando seu conteúdo no mundo externo>” Culpabilização do Outro.

repressão de um sentimento de amor, retorno do amor em seu contrário (o ódio) e responsabilização do ódio ao objeto que havia originalmente suscitado amor. <Eu não o amo – eu o odeio, porque ELE ME PERSEGUE>.”

Não se pode dizer que estejam alegres por se haverem livrado do morto; pelo contrário, estão de luto por ele, mas, é estranho dizê-lo, ele transformou-se num demônio perverso, pronto a tripudiar sobre os seus infortúnios e ansioso por matá-los. Torna-se, então, necessário aos sobreviventes defender-se contra o inimigo malvado; aliviaram-se da pressão provinda de dentro, mas apenas a trocaram pela pressão vinda de fora.” Totem & Tabu

Se já sinto meus avós no cangote…

Está fora de discussão que esse processo de projeção que transforma um morto num inimigo maligno, pode encontrar apoio em quaisquer atos reais de hostilidade de sua parte(*), os quais podem ser relembrados e sentidos como rancor contra ele: sua severidade, seu amor ao poder, sua injustiça, ou qualquer outra coisa que possa estar por trás até mesmo das relações humanas mais ternas”

(*) Grifo do próprio Freud

Laplanche e Pontalis, ao percorrerem os diversos sentidos adquiridos para Freud pelo termo <projeção>, concluem que o termo aparece sempre como uma defesa.“a tendência ao uso da projeção, sem desaparecer totalmente, é substituída e de certa forma compensada pela experiência ativa, objetiva, do sujeito no mundo exterior.”

Como fazendo parte de um amplo espectro de possibilidades, o mecanismo projetivo também aparece em estados <normais>: irritação por frustração, cansaço, alcoolismo leve, etc. Passado esse estado transitório [no caso do alcoolismo pouco acentuado, semanal?], passa também a tendência projetiva.” Pubescência…

OXÍMORO

Frustrado com a vida

Que me mata dia a dia

Cansado da minha pele

Que me retrai e vulnerabiliza

Nauseado dessa substância chamada

Oxigênio

Que me arranca o fôlego.

Deslocamento

O estudo de F. sobre o pequeno Hans demonstra que o objeto-cavalo possuía atributos para deslocar sobre si mesmo atributos do pai do menino: tamanho, força, incontrolabilidade muscular, possibilidade de ataque, etc.”

um fóbico pode ter uma monofobia, mas o mais freqüente é que possua várias e que, em certas ocasiões, tudo lhe produza medo (pantofobia).”

Regressão parcial

A regressão, como muitos outros mecanismos, faz parte da vida normal do sujeito. Assim, o ato de dormir, cotidiano, explica-se por este mecanismo.”

Introjeção

Se as características parciais ou totais do objeto perdido tomam conta, invasoramente, do sujeito, e este se comporta <como se> fosse realmente o objeto perdido, dir-se-á que ocorreu um fenômeno de identificação introjetiva, fazendo parte então dos processos psicóticos.” “a introjeção tem especial relevância na formação do Supereu.”

Isolamento

Geralmente faz parte da estrutura obsessiva, já que aqui os processos de recalque não são suficientes para manter inconscientes as representações causadoras de desprazer que retornam permanentemente.”

Formação reativa

É o mecanismo de defesa que leva o sujeito a efetuar o que é totalmente oposto àquilo inconsciente que se quer rejeitar. Tendências agressivas contra determinado objeto provocam reativamente uma extrema solicitude para com o mesmo.” “no período de latência todo o sistema ético de valores familiares e culturais atua como formações reativas das pulsões eróticas” O menininho calmo, familiar e hipócrita, enfim, o mais-normal-de-todos-os-Rafaéis, em seu mundo de respeito-aos-pais e videogames. Muito estudioso, cultivador da amizade ideal, e que dava a outra face diante do Outro da mesma faixa etária, pubescentes precoces [M*****].

Mas mesmo para uma teoria psicanalítica refeita e modernizada, este contínuo entre neurose e psicose parece coincidir em pontos excessivos! Reatividade é considerada, num patamar saudável, a conquista da saúde e superação (nunca definitiva) do Édipo; desregulada, é paranóide, e pode haver a recaída dos casos saudáveis; mas rejeição (verbo rejeitar usado acima) é claramente associada à psicotização (renegação)!

Sublimação [Hello Aristoteles my old friend!] ou: A ÉTICA DOS CASTRADOS

Fenichel a considera um mecanismo de defesa <bem-sucedido>. Mas Bergeret a considera uma defesa não-verdadeira (Abregé de Psychologie Pathologique, 1975). A polêmica continua ainda hoje.”

Nem sempre são claras as diferenças entre uma formação reativa e uma sublimação. Enquanto nesta última as atividades proporcionam imenso prazer, naquela existe um caráter forçado e por vezes compulsivo que desperta angústia assim que é deixado de lado. [falar gentilmente com minions gera esse quadro exato!]. O exemplo típico é qualquer espécie de trabalho. Se o sujeito pode deixá-lo, desfrutando periodicamente de seu tempo livre, aquele tenderá a ser visto como atividade sublimada [sou bergeretiano!].

Devemos reconhecer, com Laplanche e Pontalis, que a psicanálise apresenta lacunas importantes neste tópico.”

Negação negativa

Durante o percurso da cura típica, uma das melhores provas da queda parcial das barreiras do recalque consiste no estudo da fala dos pacientes, que expressam: Não, jamais pensei isso.

APROFUNDAMENTO

A. Godino Gabas, Oedipus Complexus Est, 1979.

E. Westermarck, The history of human marriage, 1920.

J. Bleger, Psicología de la Conducta, 1963.

K. Lewin, Principles of Topological Psychology, 1936.

Kusnetzoff, Psicanálise e Psicoterapia Breve na Adolescência, Zahar, RJ, 1980.

L. Morgan, Systems of consanguinity and affinity of the human family, 1871.

L. Grimberg & D. Liberman, Identificación proyectiva y comunicación en la situación transferencial (artigo), In: Psicoanálisis de la manía y la psicopatía, 1966.

M. Knobel, El Sindrome de la Adolescencia Normal, in: Adolescencia Normal. Paidós, 5a ed. 1977.

O. Fenichel, Teoría psicanalítica de las neurosis, 1966.

S. Freud, A concepção psicanalítica da perturbação psicogênica da visão, 1910.

______, A negativa (artigo), 1925.

______, O Moisés de Michelangelo, 1914.

______, O Narcisismo: uma introdução.

AS LEIS – Livro V

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

 

“Tampouco é honroso ao espírito, por mais que mintamos a nós mesmos a este respeito, censurar os demais e apontar-lhes suas faltas e defeitos, mesmo os piores, sem o mínimo pudor, crendo-se, ao mesmo tempo, absolutamente inocente. Longe disso, ao fazê-lo causa-se um grande mal ao próximo.” “É também desonroso, da maneira mais positiva e completa, preferir a beleza à virtude, porque esta preferência coloca o corpo acima da alma.”

“quando os anciãos dão maus exemplos, a juventude aprende a não se envergonhar mais de nada”

“O maior serviço que se pode prestar à pátria e aos concidadãos nada tem a ver com destacar-se nos jogos olímpicos ou nos combates, bélicos ou desportivos: é obedecer às leis e mostrar-se subserviente a vida inteira.” “o estrangeiro, achando-se distante dos parentes e amigos, como que desamparado neste mundo, acaba sendo, para compensar, mais benquisto pelos próprios deuses e pelos bons cidadãos da cidade (que levam em alta conta a hospitalidade). Portanto, à condição de aparente isolamento do estrangeiro contrabalança-se uma certa proteção que lhe é dedicada, e a mão que castigará quem contra ele cometer injustiças será mais pesada. Os demônios e deuses consagrados de antemão à guarda pessoal de cada indivíduo nisso seguem essa ordem das coisas: aqueles designados a velar pelos estrangeiros agem com mais ardor em suas vinganças e represálias. Todas as inteligências menores que Zeus o Hospitaleiro e maiores que os homens são a comitiva olímpica encarregada de preservar a suprema lei da hospitalidade.”

“É preciso ser ao mesmo tempo dócil e resoluto.” Che Guevara!

“O homem busca mais prazer e menos dor, e foge à condição em que predomina a dor sobre o prazer. Quanto à situação em que dores e prazeres se equivalem, difícil dizer se a desejamos ou não.” “Enfim, quando tudo é igual duma e doutra parte, vemo-nos condenados a não chegar a uma definição de propósitos: nossa vontade cambaleia e hesita entre o sim e o não, superando esse estado somente enquanto se vê envolvida de forma clara pelo amor ou, do contrário, pela aversão, que impele, cada um a sua maneira, a algo bem-determinado.”

FILOSOFIA OCIDENTAL: 2 mil anos e nenhum passo.

Sobre a divisão das terras e a organização geográfica e política do território, tudo vai depender do número de cidadãos.¹ E sem dúvida deve haver uma divisão por classes entre esses cidadãos, sem o quê nada funcionará direito. O número de componentes de cada classe será baseado na natureza das mesmas. As terras cultiváveis e as habitações devem ser divididas conforme os critérios de nossa estratificação; mas dentro de uma mesma classe a divisão deve ser o mais equânime possível. Ocorre que para o funcionamento adequado da legislação da cidade vários atributos concorrem ao mesmo tempo: eu disse, à guisa de simplificação, que tudo irá depender da quantidade de cidadãos. Se me perguntares como, afora a fortuna e o puro acaso, pode-se chegar a esse número, e um que seja adequado a nossos fins, ou me pedires ao menos um exemplo de cidade para tornar meu discurso mais claro, te digo que este número, é óbvio, dependerá, por sua vez, da própria extensão da cidade em questão e, principalmente, do número de cidades circunvizinhas, das suas dimensões, populações e a que distância se acham umas das outras e de nós mesmos. Mas temos de fixar de uma vez esse número!

Antes, porém, uma observação: sempre levarei em conta o sentimento de moderação dos cidadãos deste governo, por isso julgo que não estarei escolhendo uma extensão territorial insuficiente ou incômoda, mas tampouco uma ampla demais. Uma vez estabelecida essa razão entre a superfície do país² e o nº de cidadãos, este número nunca mais deve ser sensivelmente modificado, i.e., a população não deve nem crescer nem diminuir muito ao longo do tempo, e o território idem. Este número deve ser tal que garanta a defesa da cidade na hipótese de invasão por uma, algumas ou todas as cidades vizinhas, bem como o envio de ajuda valiosa no caso de alguma das vizinhas ser atacada por outro inimigo em comum, provado que as vítimas sejam consideradas cidades aliadas.

Por ora, como ainda não escolhemos a localidade do Estado que desejamos fundar, basta-nos adotar a seguinte convenção: 5.040 cidadãos, entre os quais se deve repartir toda a terra e as funções do exército. Divida-se, então, esse nº por 2, ou então por 3, até por 4, 5 e assim por diante, se se quiser, contanto que este número divisor não ultrapasse o 10. Estas serão as classes. Todo legislador deve ser também matemático, pelo menos ao ponto de saber fazer o Estado tirar vantagem do bom conhecimento dos números. Indubitavelmente, uma divisão que vá de 2 a 10 é a melhor para governar o nosso Estado, que é bem delimitado e onde requer-se uma certa proporção entre as classes. Sabes que só o número infinito é suscetível de divisões sem critério algum, o que não pode ser o nosso caso. Cheguei ao <número modelo> de 5.040 cidadãos na polis sem explicar bem minhas razões, mas agora manifesto-me a este respeito. Repara que o número 5.040 tem 59 divisores. (…)”

¹ Cidadãos, repare bem, e não habitantes. Crianças, mulheres e escravos não são cidadãos.

² País, Estado, cidade, polis, para os gregos, são sinônimos. Traduzo conforme a versão em Espanhol apresenta termos diferentes ou conforme o contexto, baseado em meus próprios critérios estilísticos (evitando a repetição excessiva de palavras quando elas são impunemente intercambiáveis).

“É indispensável que cada classe de cidadãos eleja sua própria divindade, seu daimon¹ ou herói particular. O legislador também não deve descuidar de pensar de antemão nos espaços designados para as práticas ritualísticas e sagradas: bosques, templos e todo o mais conveniente ao culto adotado.”

¹ Vale o mesmo que eu disse para a polis: são inúmeros os sinônimos; todos corretos e ao mesmo tempo insuficientes do ponto de vista da Lingüística moderna. Eu me debrucei sobre o assunto com algum detalhamento nalguma das minhas primeiras traduções de Platão aqui no Seclusão (ou, se estiver incorrendo em erro, atribuo o ato falho à memória: pode ter sido em algum outro post indiretamente relativo a Sócrates, como uma versão de Parmênides comentada em Português). Portanto não repetirei aquelas palavras; digo apenas que posso arrolar alguns sinônimos para daimon que seriam indiferentes ao heleno: anjo, demônio, espírito, guardião supra-terreno, semi-deus, totem, etc.

“onde quer que a luz não ilumine os costumes dos particulares, e ali onde vivem nas trevas uns com respeito aos outros, não é possível que se honre a cada qual conforme seu mérito, nem que se distribua a justiça equanimemente, nem que os cargos públicos estejam nas mãos de gente digna de desempenhá-los.”

“cada pai de família se restringirá a transmitir seus bens para um herdeiro; se tiver muitos filhos, será livre para eleger o felizardo; este substituirá integralmente suas responsabilidades, que são não só diante dos seus e do Estado, mas também diante dos deuses, diante dos vivos e dos mortos em geral.”

“É lícito proibir novos filhos quando a geração é muito prolífica; bem como fomentar o aumento da população mediante toda espécie de cuidados e esforços, distinções e honras, repreensões e avisos, dirigidos tanto aos jovens quanto aos anciãos, se a geração for demasiado escassa.

Sendo impossível manter o número de 5.040 cidadãos de nossa polis, devido à superpopulação, nos restará essa antiga medida extrema: enviar o excedente para outras polis aliadas com carestia de cidadãos.”

“Desta lei decorre naturalmente outra: não é lícito ao particular manter ouro e prata em casa; por outro lado, como uma moeda corrente é indispensável no dia-a-dia, seja para remunerar os artesãos e construtores ou afins, seja para remunerar os mercenários, os escravos e os proprietários, adotar-se-á uma unidade de valor, mas será de qualquer coisa que aos olhos do estrangeiro nada valha.”

“um homem mau pode, a depender de seu tipo de caráter, possuir o mesmo que qualquer outro homem do Estado. Eis a razão:

Quem não distingue o justo do injusto enriquece duas vezes mais fácil que aquele que só aceita adquirir riquezas de modo justo. E aquele que nada quer gastar, seja avaro inato ou porque tem algum forte motivo para isso, sendo o motivo legítimo ou não, economizará o dobro do homem de bem, que está sempre disposto a dispender a fortuna para fins honestos. (…) O homem de bem é mais pobre e mais dispendioso que o homem simultaneamente ganancioso e avaro, por óbvio. Mas se o homem mau for apenas avaro (sem ganância) ou apenas ganancioso (sem avareza), será tão pobre quanto o homem de bem. Portanto, não vale a pena regular as riquezas dos maus.”

“cabe-nos, entretanto, proibir alguns tipos particulares de lucro além da medida: através do desempenho de atividades mecânicas, cobrança de juros, tráfico vergonhoso de animais. Só o comércio voltado à agricultura será admissível.”

“Se é que o homem deveria fixar toda sua atenção sobre somente três objetos, seriam estes, na ordem do menos para o mais importante: a riqueza justamente adquirida, o cuidado com o corpo e o cuidado com a alma.”

“Seria desejável que, no momento de fundação da colônia, todos os colonos possuíssem a mesma quantidade de bens e terras; mas como isso não é possível e naturalmente uns levarão consigo mais riquezas que outros conforme sua própria condição pregressa, torna-se indispensável uma divisão censitária, para que alguns votos valham mais e outros menos. A designação dos cargos, os impostos, as remunerações e as concessões de terras deverão obedecer a uma mescla de critérios meritocráticos, hereditários, econômicos e também relativos à força e à beleza do corpo (…) deve haver 4 classes baseadas na renda familiar: os primeiros, os segundos, os terceiros e os quartos; ou então se adotará qualquer outra denominação julgada conveniente”

AS LEIS – Livro IV

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.

Com efeito, a vizinhança do mar é coisa doce e agradável para uma cidade, caso se considere apenas o presente imediato; a longo prazo, torna-se uma circunstância amarga.”

ATENIENSE – A maioria dos gregos e bárbaros concordaria contigo – já Megilo e eu nos contrapomos a todos vós. Para nós, a vitória terrestre de Maratona foi o fundamento da salvação da Grécia (depois consumada pela vitória de Platéia), e não a vitória naval de Salamina. Guerrear no solo serviu para fazer dos gregos melhores; nem de Salamina nem de Artemísio pode-se dizer que tirou-se tanto proveito para nossa redenção. (…) o mais importante para o homem não é, como se imagina, a existência e a autoconservação, mas o tornar-se tão virtuoso quanto é possível chegar a ser e sê-lo durante toda a vida.Vontade de Potência em germe.

a legislação e a fundação de cidades são os elementos mais favoráveis para o alcance da virtude.” Lúgubre inversão milenar…

lei alguma é obra de mortais: quase todos os negócios humanos, em verdade, estão nas mãos da fortuna. Me parece que se pode dizer o mesmo da navegação, da cosmografia, da medicina, da arte da guerra.”

CLÍNIAS – Deveras, Estrangeiro? Crês que basta um tirano jovem, moderado, penetrante, de boa memória, valoroso e possuidor de grandes sentimentos, a fim de se criar um bom Estado em que boas leis são estabelecidas e conservadas?”

ATENIENSE – (…) O segundo cenário mais viável para uma boa legislação seria que se encontrassem dois chefes tais quais aquele que pintei como o chefe perfeito; o terceiro, aquele em que aparecessem três destes. Quero dizer com isso que a dificuldade da empreitada só aumenta à medida que se amplia o número de governantes aptos (…)

CLÍNIAS – De maneira então que pretendes que a situação mais favorável para se chegar a um bom governo é a tirania, quando o tirano é moderado e secundado por um hábil legislador; e que em nenhum outro caso a transição de uma anarquia ou mau governo para o bom governo seria tão ligeira e fácil? (…)

ATENIENSE – (…) Apenas reitero, caro Clínias: considero a opção mais viável uma tirania; no segundo posto situo a monarquia; no terceiro, uma democracia de determinado tipo; no quarto, a oligarquia que por si só é a menos indicada como meio de dar a luz a um governo perfeito, já que a oligarquia é o sistema com mais governantes.”²

¹ Se é que Platão ainda segue a tipologia exposta n’A República, a oligarquia é a aristocracia arruinada. Veja nota abaixo.

² Caberia um questionamento de grande monta, para o qual eu necessitaria de mais investigações: teriam as desilusões biográficas de Platão alterado a olhos vistos a filosofia platônica, a ponto de termos uma hierarquia, n’As Leis, totalmente remodelada e contrastante com a d’A República (obra cronologicamente anterior)? Ou este efeito de matiz e alteridade (embora às vezes pareça tão severo quanto o contraste luz-sombra) é meramente calculado e intencional, devendo ser entendido com auxílio de uma nova roupagem (o contexto com que o próprio Platão adorna o diálogo)? De qualquer modo, o dado de que é um personagem apócrifo, oriundo de Atenas, quem dá essa resposta apologética da tirania (e usa o critério do número intransigentemente) não deve ser ignorado. N’As Leis este sábio visa a orientar a legislação de um Estado que será fundado em breve, numa terra antes inabitada, após ser consultado por outros doutos em comitiva. N’A República, Sócrates (mestre incontestável e ilibado) dá seu parecer sobre qual seria o melhor Estado de todos os tempos, nas condições perfeitas, tendo à disposição os melhores homens, e como far-se-ia para que ele perdurasse o máximo de gerações possíveis, o que, se por um lado passa a noção de ser uma tarefa bem mais fácil e criativa, também pode ser encarado como um raciocínio muito mais delicado e abrangente.

Nada se faz do dia para a noite, nada se faz em tempo algum, mas num tempo certo que uma hora sobrevém.

TEIAS E ESPELHOS: O Sócrates platônico. O Platão platônico. O Platão jaegeriano. O Sócrates jaegeriano. O Jaeger platônico. O Sócrates platônico jaegeriano. O Jaeger socrático-platônico. O Platão de Cila. O Sócrates platônico de Cila. O Jaeger de Cila. Platão, Cila, dois pontos, uma reta e o torvelinho. Pseudo-Platão ao meio-dia e o Platão cavernoso que ecoa pela eternidade em minha consciência fugaz.

Segundo dizem, Nestor superava todos em temperança e moderação, até mais que na eloquência, na qual já era mestre. Tamanho prodígio foi revelado aos homens, segundo a lenda, durante o sítio de Tróia. Em nossos dias nada se lhe assemelha.”

Cronos, convencido de que nenhum homem teria capacidade de governar seus iguais com autoridade absoluta sem ao mesmo tempo recair na licenciosidade e injustiça, estabeleceu como chefes e reis, nas cidades, não homens, mas inteligências de uma natureza mais divina e insólita que a nossa, ou seja, demônios, de modo que éramos em relação a eles o que os rebanhos quadrúpedes são em relação a nós.”

Deus é a justa medida de todas as coisas, muito mais que o homem, de qualquer homem que estivermos falando. Destarte, nenhum meio há de se fazer amado por Deus senão esforçar-se em ser a sua imagem e semelhança.”

é preciso convencer-se de uma vez que todos os bens que se possui pertencem àqueles de quem se recebeu o nascimento e a educação, e que convém consagrá-los sem reservas a seu serviço, começando pelos bens supérfluos, seguidos pelos do corpo, e por fim consagrando-lhes os da alma; pagando-lhes com juros os cuidados, sufocos e tribulações que nossa infância lhes causou noutro tempo, redobrando nossas atenções aos velhos conforme as debilidades da idade as tornam mais e mais inevitáveis. (…) De modo que é preciso ser compassivo com a cólera do idoso, fazer pouco caso de seus ressentimentos, manifestem-se eles por palavras ou ações, e desculpá-lo de todo, ao deliberarmos que um pai que se sente ofendido pelo filho tem o direito legítimo de com ele se irritar.” “Vivendo dessa forma, receberemos dos deuses e dos seres de natureza mais perfeita que a nossa a recompensa de nossa piedade, e passaremos a maior parte de nossa existência tomados pelas mais doces esperanças.”

quando um poeta está sentado no tripé das Musas¹ não é dono de si mesmo. Semelhante a uma fonte, deixa correr tudo que está alojado em seu espírito. E sua arte, que não é mais que imitação, ao descrever os homens em situações opostas, se vê obrigada muitas vezes a dizer o contrário do que antes dissera, sem saber de que lado se encontra a verdade. Mas com o legislador não é assim: suas leis não podem falar de dois jeitos diferentes sobre uma mesma coisa; eis um texto que se expressa numa só unidade.”

¹ Assento do oráculo: significa que o que sai da pena do poeta enquanto ele não é um simples homem, mas está possuído pelo espírito das Musas, nada tem a ver com o indivíduo, é coisa divina e automática, por assim dizer, de uma perspectiva antropológica. Supera a nossa própria condição frágil e limitada – mas não podemos sustentar esse estado senão por breves momentos em nossas vidas (e isso falando-se dos raros indivíduos que recebem esses dons especiais dos deuses).

Problema: nosso legislador deverá fazer anteceder cada lei por um preâmbulo, isto é, uma cabeça;¹ ou bem deverá expressar do modo mais sucinto e direto possível aquilo que se deve fazer e aquilo que se deve evitar?

¹ O caput dos juristas.

Todo mundo está obrigado a casar entre os 30 e os 35 anos. O que não o fizer será punido com multas e desonras.”

A duração do gênero humano é a mesma que a do tempo; os homens sucedem-se sem interrupção, bem como um ano sucede ao outro, porque essa é sua forma de anelar à imortalidade, de modo que uma geração passa o bastão a outra, e a espécie é sempre a mesma. Todo homem carrega o pecado,¹ embora a humanidade seja inocente. A fim de compreender-me, analisai, primeiro, pelo ângulo dos indivíduos: nenhum animal tem vida eterna, todos envelhecem, passam, desaparecem, aniquilam-se; analisai, em segundo lugar, pelo ângulo das espécies: tudo subsiste, tudo é permanente e imutável.”

¹ O original de Azcárate é “Es un crimen en todo.” Minha opção de tradução se justifica pela linha que Platão segue fielmente em todos os livros d’As Leis. O mais proeminente nesta obra, em seu conjunto, é que Platão se tornou uma fonte indispensável para a religião cristã e seus dogmas. Dou-me esta liberdade “antecipatória”, portanto.

O grego antigo não possuía a idéia de pecado comum a virtualmente todo monoteísmo. Por outro lado, Platão se situa quase no fim da cultura helênica, e contribui com sua derrocada e com criação de uma nova cultura, internacional. A Atenas decadente de seu tempo já não tinha forças para se regenerar; quanto ao homem, como entidade universal, talvez a única forma de reinventar-se fosse modificando-se metafisicamente, já que uma volta ao passado seria inconcebível. Além do mais, em Platão qualquer “volta ao passado” teria de ser para tempos pré-homéricos, pois nem mesmo o apogeu da era heróica dos gregos encaixa-se em seu ideal de paideia (educação).

Uma versão menos “cristófila” seria: “Todo homem carrega a expiação / Todo homem expia por igual”, já que a seguir Platão fala da inevitabilidade da morte. Então por que não usá-la? Porque expiação já está suficientemente carregada de conotações cristãs, e no fim a percepção do leitor seria quase a mesma…

AS LEIS – Livro II

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

é fácil encontrar no Egito obras de pintura e escultura feitas há 10 mil anos (quando digo 10 mil anos, entende literalmente!) que não são mais nem menos belas que as que se executam hoje, pois que os artistas utilizam as mesmas regras desde sempre.”

Se, como eu dizia, houvesse alguém hábil o bastante para conhecer o que há de perfeito neste gênero, esse alguém deveria decerto elaborar uma lei e ordenar sua execução, persuadido de que o gosto e o sentido do prazer, responsáveis por inclinar os homens, sem cessar, a invenções e inovações na música, não teriam nesta sociedade força o suficiente para abolir os cânones vigentes e os modelos já consagrados, sob o estapafúrdio pretexto de <serem demasiado antigos>.”

ATENIENSE – O efeito natural da alegria, não é causar uma certa comoção, que não permite permanecer em repouso?

CLÍNIAS – Sim.

ATENIENSE – Em tais momentos não se encontram os jovens dispostos a dançar e cantar? Quanto a nós, como somos já avançados em idade, cremos apropriado a nossa dignidade permanecer serenos e tranqüilos, observando e seguindo, não sem prazer, é verdade, os jogos e festejos juvenis, vendo com pesar a debilitação de nossas forças, propondo, para compensá-lo, prêmios para os que despertem com mais vigor em noss’alma as lembranças de nossos bons tempos.”

O abuso contrário, autorizado noutro tempo na Grécia, como hoje o está na Sicília e na Itália, que dá o arbítrio desses concursos culturais somente à multidão reunida na praça pública, despojando os juízes de sua autoridade, e que declara vencedor aquele para quem levantaram-se mais mãos, produziu duas más conseqüências: a primeira é fazer minar a própria qualidade dos autores, que se adaptam ao mau gosto imperante, do que deriva que o povo educa a si mesmo; a segunda é perverter o prazer do teatro, que em vez de depurar o gosto da multidão mais e mais, através da exibição de costumes mais elevados que os do populacho, entre os personagens das peças, promove o exato contrário.”

CLÍNIAS – Estrangeiro, não falas nada mais belo nem mais sólido que a verdade, mas creio ser quase impossível fazer a lei justa penetrar nos espíritos.

ATENIENSE – Pode ser que assim o seja. Porém, se um dia conseguiram que as pessoas cressem na fábula de Sidônio Cadmo, absurda como é, e em mil semelhantes, tudo é possível.

CLÍNIAS – Que fábula, estrangeiro?

ATENIENSE – A que diz que dos dentes dum dragão plantados na terra nasceram homens armados. Não há outra prova tão evidente a um legislador da imensurável credulidade da juventude. A única tarefa do legislador nesse momento¹ deve ser a de encontrar o equilíbrio entre a felicidade do cidadão e o seu grau de comprometimento para com o Estado. Porque não é bom ser um crédulo inveterado nem um cético egoísta, um escravo ou um libertino. Se se encontra uma linguagem uniforme para ser usada nas leis, nos cantos, nos discursos e nas fábulas, e que satisfaça os cidadãos a meio deste caminho de extremos, só se terá a ganhar. A mentira que visa a um fim justo é melhor do que a verdade que visa a um fim injusto.”

¹ O livro d’As Leis é todo ele sobre a fundação concreta (fabulosa de acordo com dados históricos, mas concreta no sentido da ficção platônica) dum novo Estado, sendo o Ateniense uma espécie de conselheiro jurídico da primeira constituição desta polis, ainda por elaborar. Diferente d’A República, em que se descreve o ideal (quiçá) inalcançável da perfeição social humana, aqui os debatedores trabalham com o que têm em mãos (cidadãos corrompidos, tempos de crise e decadência). Muito embora para o leitor contemporâneo as exigências ascéticas de Platão, como veremos, pareçam tão distantes da realização quanto o mais utópico dos Estados…

CLÍNIAS – (…) A idéia de um coro de anciãos consagrado a Dionísio é tão singular que de um primeiro momento não é possível ao espírito se acostumar a ela.”

ATENIENSE – Não é certo que, à medida que se envelhece, vai-se desgostando do canto, e não é fácil ver-se disposto a cantar, de modo que esta ação soa repugnante, e que, quando é de precisão fazê-lo, quanto mais ancião ou virtuoso se é, mais vexante parecerá tudo isso?”

E não proibiremos, mediante lei, o uso do vinho aos jovens até uma idade de 18 anos, fazendo-os compreender que não é conveniente combater fogo com fogo, um fogo que sem a ajuda do álcool já devora seu corpo e sua alma antes da idade do trabalho e das fadigas, temerosos que nós estamos e que nós somos, da exaltação que é o natural da juventude? Permitiremos, pelo menos, chegada a idade prescrita, que bebam moderadamente até a casa dos 30, certificando-nos de que se abstenham de toda classe de libertinagem e excesso. Somente aos 40 anos é que poderão entregar-se ao gozo dos banquetes e convidar Dionísio, para que venha com os demais deuses participar de suas festanças e orgias”

ATENIENSE – Qual seria a música que conviria a homens divinos? Será a dos coros?

CLÍNIAS – Seria pouco recomendável empregar, seja para nós, seja para os cretenses ou espartanos, outros cantos que não os que houverem sido ensinados nos coros, que é aos que estamos acostumados.”

Vossa juventude se assemelha a uma manada de potros, que se deixa conduzir por um guia em comum para pastar ao campo. Os pais não têm entre vós o direito de separar seus filhos da companhia dos demais, mesmo os pais bravios e selvagens; nem de educá-los em casa, contratando um professor particular, nem de conduzir sua educação de modo gentil ou suave, e usando dos demais meios adequados à educação dos filhos.”

Não se deve dar ouvidos aos que avaliam a música pelo critério do prazer; nem devemos julgar digna de consideração esta reflexão: devemos procurar somente o belo.” “Onde está toda a dificuldade de avaliar a música? Ora, de todas as imitações (artes), é a mais elevada. Por isso mesmo é a que exige mais cuidado e atenção. O erro neste assunto seria muito funesto, porque transcende os costumes, ao mesmo tempo que é dificílimo percebê-lo. Os poetas jamais poderão ser tão hábeis em sua arte quanto as próprias Musas.” “Jamais serão as Musas capazes de mesclar gritos de animais, vozes humanas e sons de instrumentos, nem empregar esta confusão de sons a fim de expressar uma coisa única; já nossos poetas, vês, confundem e mesclam todas estas coisas. Sem qualquer critério, gosto ou princípio. A verdade é que mereciam a troça de todos aqueles que, segundo Orfeu, receberam da natureza o sentido da harmonia.”

em tudo isso há a mais completa falta de gosto, sobretudo nessa fixação por acumular sons parecidos com gritos de animais com uma extrema rapidez e sem se deter; não pode ser senão o resultado de uma mania bárbara e de um verdadeiro charlatanismo, tanto empenho em tocar o alaúde e a flauta para tudo, exceto acompanhar a dança e o canto!”

ATENIENSE – (…) Numa assembléia assim, reinará o tumulto, que vai aumentando à medida que se bebe; inconveniente que desde o princípio nos pareceu inevitável nos banquetes de nossos dias, tendo em vista tudo que neles se passa, e que tu bem conheces.

CLÍNIAS – Creio que é absolutamente inevitável!”

Diz o vulgo que Hera, madrasta de Dionísio, privou-o do juízo e da razão; este, para se vingar, inventou as orgias e todos os bailes extravagantes, sem esquecer de nos presentear com o vinho.”

L’ENCYCLOPÉDIE – AM – compilado (2)

AMÉRIQUE, ou le Nouveau-monde, ou les Indes occidentales, est une des 4 parties du monde, baignée de l’océan, découverte par Christophe Colomb, Génois, en 1491, & appellée Amérique d’Améric-Vespuce Florentin, qui aborda en 1497, à la partie du continent située au sud de la ligne; elle est principalement sous la domination des Espagnols, des François, des Anglois, des Portugais & des Hollandois. Elle est divisée en septentrionale & en méridionale par le golfe de Mexique & par le détroit de Panama. L’Amérique septentrionale connue s’étend depuis le 11e degré de latitude jusqu’au 75e. Ses contrées principales sont le Mexique, la Californie, la Loüisiane, la Virginie, le Canada, Terre-neuve, les îles de Cuba, Saint-Domingue, & les Antilles. L’Amérique méridionale s’étend depuis le 12e degré septentrional, jusqu’au 60e degré méridional; ses contrées sont Terre-ferme, le Pérou, le Paraguai, le Chili, la Terre Magellanique, le Brésil, & le pays des Amazones.” [!!!]

gingembre

AMETHYSTE, s. f. (Hist. nat.) amethystus, pierre précieuse de couleur violette, ou de couleur violette pourprée. On a fait dériver son nom de sa couleur, en disant qu’elle ressembloit à la couleur qu’a le vin, lorsqu’il est mêlé d’eau. Les Auteurs qui ont traité des Pierres précieuses, ont donné plusieurs dénominations des couleurs de l’amethyste; ils disent que les plus belles sont de couleur violette, tirant sur la couleur de rose pourprée, de couleur colombine, ou de fleur de pensée; & qu’elles ont un mélange de rouge, de violet, de gris de lin, &c. Il est bien difficile de trouver des termes pour exprimer les teintes d’une couleur ou les nuances de plusieurs couleurs. Je crois même qu’il est impossible de parvenir par ce moyen à donner une idée juste de la couleur d’une pierre précieuse. C’est pourquoi il vaut mieux donner un objet de comparaison qui exprime la couleur de l’amethyste. On le trouvera dans le spectre solaire que donne le prisme par la refraction des rayons de la lumière. L’espace de ce spectre auquel M. Newton a donné le nom de violet représente la couleur de l’amethyste la plus commune, qui est simplement violette. Si on fait tomber l’extrémité inférieure d’un spectre sur l’extrémité supérieure d’un autre spectre; on mêlera du rouge avec du violet, & on verra la couleur de l’amethyste pourprée. Ce moyen de reconnoître les couleurs de l’amethyste, est certainement le plus sûr.”

AMITIÉ. “Le commerce que nous pouvons avoir avec les hommes, regarde ou l’esprit ou le coeur: le pur commerce de l’esprit s’appelle simplement connoissance; le commerce où le coeur s’intéresse par l’agrément qu’il en tire, est amitié. Je ne vois point de notion plus exacte & plus propre à développer tout ce qu’est en soi l’amitié, & même toutes ses propriétés.” Commercé: palavra tornada infecta dali a menos de 100 anos…

L’amitié suppose la charité, au moins la charité naturelle: mais elle ajoûte une habitude de liaison particuliere, qui fait entre deux personnes un agrément de commerce mutuel. § C’est l’insuffisance de notre être qui fait naître l’amitié, & c’est l’insuffisance de l’amitié même qui la détruit.”

Lorsqu’on entrevoit de loin quelque bien, il fixe d’abord les desirs; lorsqu’on l’atteint, on en sent le néant. (…) on se néglige, on deviant difficile, on exige bientôt comme un tribut les complaisances qu’on avoit d’abord reçûes comme un don. C’est le caractere des hommes de s’approprier peu à peu jusqu’aux graces qu’on leur fait; une longue possession accoûtume naturellement à regarder comme siennes les choses qu’on tient d’autrui: l’habitude persuade qu’on a un droit naturel sur la volonté des amis; on voudroit s’en former un titre pour les gouverner: lorsque ces prétensions sont réciproques, comme il arrive souvent, l’amour propre s’irrite, crie des deux côtés, & produit de l’aigreur, des froideurs, des explications amères, & la rupture.

On se trouve aussi quelquefois des défauts qu’on s’étoit cachés; où l’on tombe dans des passions qui dégoûtent de l’amitié, comme les maladies violentes dégoûtent des plus doux plaisirs. Aussi les hommes extrèmes, capables de donner les plus fortes preuves de dévouement, ne sont pas les plus capables d’une constante amitié: on ne la trouve nulle part si vive & si solide, que dans les esprits timides & sérieux, dont l’ame modérée connoît la vertu; le sentiment doux & paisible de l’amitié soulage leur coeur, détend leur esprit, l’élargit, les rend plus confians & plus vifs, se mêle à leurs amusemens, à leurs affaires, & à leurs plaisirs mystérieux: c’est l’ame de toute leur vie.

Les jeunes gens neufs à tout, sont très-sensibles à l’amitié: mais la vivacité de leurs passions les distrait & les rend volages [voláteis]. La sensibilité & la confiance sont usées dans les vieillards: mais le besoin les rapproche, & la raison est leur lien. Les uns aiment plus tendrement, les autres plus solidement.”

Un ami avec qui l’on n’aura eû d’autre engagement que de simples amusemens de Littérature trouve étrange qu’on n’expose pas son crédit pour lui; l’amitié n’étoit point d’un caractere qui exigeât cette démarche.”

Un Monarque ne peut-il donc avoir des amis? faut-il que pour les avoir, il les cherche en d’autres Monarques, ou qu’il donne à ses autres amis un caractere qui aille de pair avec le pouvoir souverain? Voici le véritable sens de la maxime recûe. § C’est que par rapport aux choses qui forment l’amitié, il doit se trouver entre les deux amis, une liberté de sentiment & de langage aussi grande, que si l’un des deux n’étoit point supérieur, ni l’autre inférieur.

L’amitié ne met pas plus d’égalité que le rapport du sang; la parenté entre des parens d’un rang fort différent ne permet pas certaine familiarité”

Les Anciens ont divinisé l’amitié; mais il ne paroît pas qu’elle ait eu comme les autres Divinités des temples & des autels de pierre, & je n’en suis pas trop fâché. Quoique le tems ne nous ait conservé aucune de ses représentations, Lilio Geraldi prétend dans son ouvrage des Dieux du Paganisme, qu’on la sculptoit sous la figure d’une jeune femme, la tête nue, vêtue d’un habit grossier, & la poitrine découverte jusqu’à l’endroit du coeur, où elle portoit la main; embrassant de l’autre côté un ormeau sec. Cette derniere idée me paroît sublime.”

AMPHIBIE, sub. pris adjectiv. (Hist. nat.) animal qui vit alternativement sur la terre & dans l’eau, c’est-à-dire dans l’air & dans l’eau, comme le castor, le veau de mer, &c.” “Le castor, le loutre, le rat d’eau, l’hippopotame, le crocodile, un grand lésard d’Amérique, le cordyle, la tortue d’eau, la grenouille, le crapaud d’eau, la salamandre d’eau appellée tac ou tassot, le serpent d’eau, &c. Gesner regardoit aussi comme amphibies les oiseaux qui cherchent leur nourriture dans l’eau. Nomenclator aquatilium animantium

AMPHIBOLOGIE. “celui qui compose s’entend, & par cela seul il croit qu’il sera entendu: mais celui qui lit n’est pas dans la même disposition d’esprit; il faut que l’arrangement des mots le force à ne pouvoir donner à la phrase que le sens que celui qui a écrit a voulu lui faire entendre.”

AS LEIS – Livro I

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

(*) “A cripteia (derivada do grego para ocultar, κρυπτεία) consistia no seguinte (apud Heráclito e Plutarco): os jovens espartanos se dispersavam sobre o campo, emboscavam-se de dia e saíam de seus esconderijos com o pôr-do-sol, a fim de surpreender e matar ilotas.¹ Por este meio intentava-se, ademais de treinar os soldados, controlar o aumento da população escrava da polis. Segundo o comentário canônico da obra platônica, a cripteia era simplesmente um exercício militar destinado a acostumar o jovem a uma vida repleta de emboscadas e fadigas. Os jovens espartanos que acaso se deixassem apanhar eram severamente castigados nessa <gincana séria>.”

¹ Gente que vivia em Esparte sem direitos, i.e., escravos do regime espartano.

“CLÍNIAS – Assim me parece enquanto falas. Mas crer nas coisas assim de supetão em matérias de suma importância não quadraria melhor aos jovens e aos imprudentes que a nós?”

“ATENIENSE – (…) vossos ginásios e vossos banquetes são superiores à educação e convivência em muitos Estados sob múltiplos pontos de vista, mas possuem graves inconvenientes no que respeita às sedições.”

“qualquer outra união de varões com varões e de fêmeas com fêmeas (fora a reprodutiva) é um atentado contra a natureza¹ (…) Todos acusam os cretenses de haver inventado a fábula de Ganimedes. Imaginando-se Zeus como o autor de suas leis, eles criaram estas coisas sobre este deus, com a segunda intenção de desfrutar deste prazer impunemente; mas abandonemos de uma vez por todas essa ficção!”

¹ Nesta sua última fase, mais prefiguradora do cristianismo e cada vez mais radical, Platão já nem sequer contempla a relação da pederastia helena institucionalizada (erastas-eromenos, amante-amado), que fazia parte da paideia (formação do homem grego). Ele passa a aceitar apenas a cópula heterossexual – e ainda assim estritamente em período fértil com o fito de gerar descendentes –, ou seja, iguala-se, em retrospectiva, ao moralismo ascético da futura Igreja, a que sem dúvida dá um grande impulso iniciador em obras como A República e As Leis.

(*) “Em Atenas, durante as Bacanais, pessoas mascaradas andavam em carros abertos pelas vias da cidade, xingando e lançando impropérios a todos que aparecessem. Agiam como atores num espetáculo, muitas vezes dando vazão a diálogos ou representações dramáticas sem qualquer vinculação pessoal (encarnando terceiros ou entidades). O escólio (conjunto de interpretações eruditas sobre a Grécia) aventa a possibilidade de esse costume ser muito antigo e ter sido, por si mesmo, a fonte da qual brotou o próprio Teatro enquanto arte.”

“Não falo sobre o vinho em si, nem julgo aqui se é de mais valia bebê-lo ou deixar de bebê-lo. Falo do abuso dos bebedores e me pergunto se seria mais conveniente usá-lo como usam os citas, os persas, os cartagineses, os celtas, os iberos e os trácios, nações todas elas belicosas, ou como vós espartanos o usais. Vós, como dissestes, vos abstendes por completo deste licor; já os citas e trácios bebem-no puro, e até suas esposas; e chegam a derramar vinho sobre as vestes, persuadidos de que isso não é em nada extraordinário ou extravagante, mas que, pelo contrário, é o resumo da felicidade na vida. Os persas, em que pese mais moderados que os primeiros, têm pelo vinho um vício em grau suficiente para repugnar qualquer espartano.”

“E não nos sirvamos da história, das batalhas vencidas ou perdidas, como prova decisiva do valor ou falta de valor de uma constituição. Em tempos de guerra, os Estados grandes vencem e subjugam os menores. Assim os siracusanos subjugaram os lócrios, que têm a reputação de povo mais culto da região, assim como os atenienses submeteram os habitantes de Ceos.”

“Segundo o parecer de toda a Grécia, os atenienses amam falar, e falam muito; os espartanos, pelo contrário, têm fama de ser lacônicos; já os cretenses, de ser mais pensadores que faladores.”

“Vê-se com freqüência entre os jovens viajantes que aquela cidade que os acolhe tempo o bastante para neles gerar afeto é tomada a partir daí como uma segunda pátria, pouco menos considerada que a pátria-mãe, que lhes concedeu a existência; pelo menos eu vivenciei isso.”

“é preciso dirigir o gosto e as inclinações da criança por meio de jogos e brincadeiras que lhe são indispensáveis, caso os pais queiram que cumpra seu destino.”

“a espera pela dor se chama propriamente temor; a pelo prazer, esperança. A razão preside a todas essas paixões, e ela declara o que têm de bom e de ruim; e quando o juízo da razão se converte numa decisão geral para o Estado, neste ponto é que adquire o nome de lei.”

“ATENIENSE – A embriaguez faz regredir o homem, quanto à alma, ao mesmo estado de quando era menino.

CLÍNIAS – Perfeito.

ATENIENSE – Sem dúvida que numa tal situação a última coisa que será é dono de si mesmo.

CLÍNIAS – Certamente.

ATENIENSE – Não é muito má a disposição de um homem que se encontra neste estado?

CLÍNIAS – Péssima!

ATENIENSE – Doravante, meu caro, parece que não é só o ancião que volta a ser criança, mas assim o é com todos os bêbados.”

“Qual! Creremos que aqueles que vão à casa do médico para tomar remédios ignoram que estas drogas, desde que são absorvidas pelo corpo, pô-los-ão de cama por muitos dias, numa situação tão torturante que prefeririam antes morrer a ter de passar por isso? Não sabemos, de igual modo, que aqueles que se devotam aos exercícios ginásticos se vêem, nos primeiros dias, dominados pela debilidade?”

“E que faremos nós a fim de inspirar nos outros o temor àquilo que devem com justiça temer? Não os colocaremos frente a frente com a impudência? E, exercitando-se contra ela, não aprenderão, assim, a combater-se a si próprios e triunfar sobre os prazeres? Não é lutando sem cessar contra suas tendências habituais, e reprimindo-as, que se ensina alguém a chegar à perfeição da força? Quem não tem experiência, nem o costume neste gênero de coisas não passará nunca de um meio-virtuoso. Não atingirá a moderação perfeita, caso não tenha combatido uma vastidão de sentimentos voluptuosos e de desejos, que nos conduzem a não mais nos envergonharmos de coisa alguma e a cometer toda classe de injustiças”

“Não tem esta bebida¹ uma virtude completamente oposta à beberagem que acabamos de citar,² alegrando o homem dum só golpe, preenchendo sua alma, à medida que bebe, de mil belas esperanças? Dando-lhe uma idéia mais vantajosa de seu poder e, por último, inspirando-lhe uma plena segurança para falar sobre tudo como se fôra onisciente? Tornando-o de tal feita livre, de tal feita superior a todo temor, que, sem deter-se, diz e faz tudo o que lhe vêm à mente?”

¹ O vinho

² A “beberagem” que o Ateniense acaba de citar na conversa seria uma bebida criada pelo gênio de Platão, que apresentaria efeitos antitéticos aos do vinho: ao invés de tornar os covardes corajosos e firmes, despertaria o medo e o terror em qualquer valente herói, comprometendo sua percepção do presente imediato. Seria um “tônico” invertido e infernal, a bebida do pessimismo irrestrito e desenfreado, emudecendo seu usuário, tamanha a insegurança e impotência que provocaria neste ser imaginário. Uma bebida que ensinaria o mais tolo dos homens a empregar toda a cautela em cada minúcia, ao invés da audácia ignóbil (temeridade, palavra de curiosa e irônica raiz!) que o ébrio etílico exibe diante de perigos colossais, dos quais muito pode se arrepender no futuro próximo.

“A fim de reconhecer um caráter excêntrico e arisco, capaz de mil injustiças, não é muito mais arriscado tratar com ele pessoalmente e a sós do que examiná-lo num festim báquico?”

A REPÚBLICA – Livro X – OU: DE QUE FORMA PLATÃO PARIU O CRISTIANISMO

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

Terei de dizê-lo, muito embora me penalize dirigir tais palavras contra Homero, por quem desde criança nutro o maior respeito e afeição, o que como que amortece minha língua neste momento; pois sem dúvida que Homero é o mestre e chefe de todos estes belos poetas trágicos, alvos principais de minha crítica. Persisto em meu desígnio, na certeza de que a reputação de um só homem não deve falar mais alto que a consideração que devemos ter para com a verdade.”

Muita vez são os míopes que percebem os objetos antes que os de vista aguda e penetrante.”

– Este maior de todos os artífices possui o talento não só de esculpir todos os móveis como também o de criar as obras da natureza, todos os seres vivos e, como direi, até se faz a si próprio! E não cessa aqui: faz a terra, o céu, os deuses, tudo o que há no céu e sob a terra, no Hades.

– Vejo que discorres sobre um artista verdadeiramente admirável!”

Querido Homero, se é certo que és um artista distanciado em três graus da Verdade, incapaz de fabricar outra coisa senão aparências (porque tal é a definição que demos do imitador); se ocupas, no lugar, a segunda ordem; se conheceste o que pode melhorar ou piorar os Estados e os particulares, diz-nos enfim: que Estado te deve a melhora da própria constituição (Esparta deve-o a Licurgo; numerosos Estados, grandes e pequenos, devem-no a tantos outros)? Que país fala de ti como de um sábio legislador e se vangloria de haver tirado proveito de tuas leis? A Itália e a Sicília evocam Carondas; nós temos Sólon; mas onde está o povo que clama <Homero!>?”

– Distinguiu-se por essas múltiplas invenções úteis nas artes ou nos demais ofícios que são próprios de um homem sábio, como se conta até de Tales de Mileto e do cita Anacársis?¹

– Nada disso se conta de Homero, Sócrates.”

¹ A respeito do segundo: http://remacle.org/bloodwolf/livres/anacharsis/table.htm.

Escuta, para depois julgar. Sabes que até os mais razoáveis, quando ouvimos recitar passagens de Homero ou de qualquer outro poeta trágico, em que se apresenta um herói angustiado, deplorando sua sorte num largo monólogo, prorrompendo em gritos e se dando golpes no peito, sabes, repito!, que naquele ato percebemos um vivo prazer, que deixamos nos embalar inadvertidamente, e exaltamos o talento do poeta que nos transporta com mais força a este estado.

– Sei-o bem; como não?

– E no entanto já pudeste observar que em nossas próprias desgraças presumimos o exato contrário: seria o ideal poder mantermo-nos firmes e tranqüilos, como convém à condição humana, abandonando às mulheres estas mesmas lamentações que aplaudimos no teatro!

– Sim, observei-o muito bem.

– Diz-me: será justo isso? Aprovar com entusiasmo em outros uma condição que não consentiríamos que se desse conosco mesmos? Envergonhando-nos se porventura nos assemelháramos a tais personagens, e, simultaneamente, gozando e celebrando – em vez de sentir repugnância! – quando se dá com terceiros?”

– …depois de haver conservado e até agravado nossa suscetibilidade mediante a contemplação dos maus alheios, é difícil moderar a sensibilidade conosco mesmos.

– Tens razão.

– Não diremos outro tanto acerca do cômico? Se tu manifestas um prazer excessivo em ouvir palhaçadas sobre o que em ti mesmo te envergonharia ao invés de produzir teu riso, mas que tratas como ridículo quando escutas vindo de uma terceira pessoa, deixando neste momento de detestar tais condutas como más, ainda que seja no teatro em vez de em meras conversas privadas acerca de entes conhecidos, todo o processo de identificação que se dá com as emoções patéticas¹ irá, seguro, se repetir. Ao desejo de fazer rir, antes reprimido pela razão, serão soltas as rédeas. Antes temias passar por bufão ou histrião, mas, agora, alimentados esse desejo e essa propensão para a comédia, eles se tornarão predominantes em tua alma! O início é mais hesitante, mas em breve o homem não terá qualquer resquício de pudor diante dos demais, até ver-se convertido num farsante de carteirinha. Um comediante profissional.

– E o pior é que estás coberto de razão, Sócrates!”

¹ Trágicas, sérias, graves, capazes de causar abalo ou comoção. Palavra de origem grega que se perverteu para nós.

em nosso Estado não podemos admitir outras obras de poesia além dos hinos aos deuses e das odes aos heróis”

procuraremos não recair na paixão que por ela (a poesia) sentimos em nossa juventude, e de cuja influência não se livra fácil o comum dos mortais”

– Pode se chamar <grande> aquilo que se passa num pequeno espaço de tempo? O intervalo que separa nossa infância de nossa velhice é bem curto comparado à totalidade do tempo.

– Com efeito pode-se dizer que nada é.

– E não crerias absurdo se um ser imortal se devotasse a contemplar e se preocupar com espaços de tempo tão efêmeros ao invés de dirigir seu olhar à eternidade?

– Crê-lo-ia absurdo. Mas a propósito de quê vem essa afirmação tão súbita?

Não sentes que nossa alma é imortal e que jamais perece?

Ao ouvir estas palavras, olhando-me atônito, disse:

– Não, por Zeus! Podes prová-lo?”

Se encontramos na natureza uma coisa a que um mal pode tornar miserável, embora não possa dissolver nem destruir, desde este instante não é factível assegurar que esta coisa não poderá perecer?” “Mas é evidente que uma coisa que não pode perecer nem por seu próprio mal nem por um mal estranho deve necessariamente existir para sempre!”

se o número de seres imortais se fizesse maior, esses novos seres se formariam daquilo que é mortal e se decompõe”

– Não me concederás também que o homem, querido pelos deuses, só deveria esperar deles bens, mas que às vezes recebe males como expiação de faltas cometidas em vidas passadas (muitas delas não-humanas)?

– Assim o creio.”

E quanto aos injustos, defendo que, ainda quando desde muito tenros já tenham aprendido a dissimular o que são, na sua maior parte acabam por desvelar sua natureza hora ou outra até o final de suas vidas; os injustos, em geral, colhem na velhice o ridículo e o opróbrio que plantaram durante toda a vida (…) afirmo que serão açoitados e submetidos ao tormento; numa palavra, imagina-te que escutas de minha boca todos os gêneros de suplício concebíveis.”

Não vou contar uma estória de Alcínoo, que é comprida e maçante.¹ É a simples história dum homem puro de coração, Er o Armênio, originário da Panfília.² Dez dias após uma batalha cruel e sangrenta, onde encontraram pilhas de cadáveres, o seu era o único intacto pela ação do tempo. Conduzido a seu lar para as cerimônias fúnebres, ao décimo segundo dia, já prestes a ser deposto nas chamas, o destino de todos os defuntos, volveu à vida de repente, e referiu aos circunstantes tudo o que havia visto <do outro lado>. Segundo Er, no momento em que sua alma saiu do corpo, juntou-se a uma infinidade de outras almas em um sítio fantástico; havia duas aberturas na terra e mais duas no céu, neste lugar, estas alinhadas com aquelas, de modo que pareciam possuir alguma relação. Entre os dois pares estavam sentados vários juízes. Assim que pronunciavam sua sentença, os juízes mandavam os justos seguirem por uma das vias que conduziam ao céu, à direita, não sem antes marcar suas costas com uma insígnia que confirmava seus destinos bem-aventurados; os injustos, por sua vez, eram obrigados a seguir à esquerda, por uma das vias telúricas, e também recebiam um selo, desta feita condenatório. Nele, registravam-se todas suas más ações. Quando chegou a vez de Er ser julgado, de súbito os juízes mudaram de idéia, e decidiram que era preciso que alguém retornasse e levasse aos vivos as notícias do que se passava neste além-mundo, e ele fôra o escolhido. Comandaram que passasse mais tempo por ali, escutando e observando atentamente tudo o que acontecia ao seu redor. (…) Er viu que das segundas aberturas (pois, lembre-se, havia duas aberturas para cada destino desta viagem, mas só a primeira de cada par era usada para os que se iam após o julgamento) voltavam outras tantas almas, umas das profundas, outras do paraíso (…) Estas almas que estavam de regresso se detinham no caminho para conversarem calmamente entre si, referindo sua jornada, parecendo peregrinos numa feira, que se reviam depois de uma longa pausa. As que vinham da estrada da terra se exprimiam com gemidos e lamúrias, despertados pela recordação de mil anos, o tempo total que passavam no refúgio subterrâneo. As que vinham do retiro celeste só tinham deleites e prazeres para narrar. (…) Er escutou um diálogo que lhe chamou a atenção: contavam o destino de Ardieu, célebre tirano panfiliano do milênio anterior. Ardieu matara seu próprio pai, já bastante idoso, bem como seu irmão mais velho, sem falar que cometera muitos outros crimes aberrantes e atrozes. <Ele não volta, nem hoje e nem nunca!>, é o que se disse a seu respeito. (…) Acudiram alguns homens selvagens, que pareciam feitos de fogo. De imediato conduziram, por coerção, algumas das almas presentes, as piores dentre elas. Ardieu estava entre elas. Seus pés e suas mãos foram amarrados, e a cabeça imobilizada. Depois de derrubados brutalmente, foram esfolados em castigos contínuos, em seguida arrastados para fora da trilha, sobre urzes, que logo se conspurcaram de sangue. Os <homens de fogo> explicaram às almas que apenas testemunhavam aquele tratamento o porquê deste suplício direcionado às almas criminosas incorrigíveis; contaram também que após esta série de sofrimentos elas seriam arremessadas no Tártaro, o abismo do Hades.”

¹ Odisséia, Capítulos 9 a 12.

² Na Ásia.

A virtude não tem dono. Cada qual participa dela conforme a honra ou a despreza. Cada qual é livre para agir, porque Deus é inocente.”

Diz-se que a alma de Orfeu escolhera reencarnar como cisne devido ao rancor e ódio que nutria pelas mulheres, que o chacinaram na outra vida. Orfeu tinha horror à idéia de ser engendrado de novo em um útero de mulher. Diz-se também que a alma de Tamiras escolheu reencarnar como rouxinol. Diz-se também que uma alma de cisne optou por voltar na forma de humano, bem como muitos outros animais cantores. Outra alma, após o fim da última vida, escolheu a condição de leão na próxima. E sabem quem era esta alma? Ájax, filho de Telamon. Pesaroso das guerras armadas entre os homens, recusou-se obstinadamente a repetir a vida de guerreiro. Dizem também que a alma de Agamêmnon, igualmente dissaborosa quanto à existência humana depois de todas as desgraças que lhe sobrevieram neste mundo, optou por reencarnar como águia.”

(*) “Epeu, filho de Panopeu, foi quem construiu o cavalo de madeira que os aqueus usaram para invadir Tróia.”

Como eu referira, havia almas de animais que foram promovidas a humanos, ou promovidas ou rebaixadas a outras espécies animais, segundo a vida que viveram; os animais injustos reencarnavam como animais selvagens; os justos, como animais domésticos.”

Fim da série de traduções d’A República.

A REPÚBLICA – Livro IX

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

– De que desejos falas?

– Falo dos que são despertados durante o sonho; quando esta parte d’alma, que é racional, pacífica e está constituída a propósito para comandar, encontra-se como que inativa, e a parte animal e feroz, excitada pelo vinho e pela boa comida, se rebela e, rechaçando a dormência e a letargia da parte saudável do organismo, tenta sobressair e satisfazer seus apetites nesse ínterim. Sabes que em tais ocasiões esta parte d’alma se atreve a qualquer coisa, como se houvesse se libertado, através da violência, de todas as leis da conveniência e do pudor; não se priva, em sua fantasia, nem mesmo de dormir com a própria mãe nem com nenhum outro ser, humano, divino ou bestial. Nenhum assassinato, ademais, nenhum alimento indigno, causam-lhe horror; em suma, não há ação, extravagante e infame que seja, que não se sinta preparada a executar.

– Proferes uma grande verdade.

– Mas quando um homem se conduz sóbria e justamente; quando antes de se entregar ao sono reanima a chama da razão, alimentando-a com reflexões saudáveis, conversando consigo mesmo; quando, em que pese sem saciar a parte animal, concede-lhe aquele mínimo que seria impossível recusar, para que se ponha tranqüila e não turve, com sua euforia ou melancolia, a parte inteligente d’alma; quando este homem mantém a parte inteligente d’alma idêntica a seu ser, pura e natural, a fim de continuar suas observações sobre aquilo que ignora acerca do passado, do presente e do futuro; quando este homem apazigua assim dessa maneira a parte em que reside a impetuosidade, recolhe-se tranqüilo e sereno ao leito, sem ressentimento contra criatura alguma; enfim, quando, a despeito da inquietude das outras partes, põe em movimento aquela terceira (a residência do juízo), então vê mais facilmente a verdade e não se sente importunado por fantasmas impuros nem sonhos criminosos.”

Não seria essa a razão de Eros ter sido chamado depois de tirano?

– Me parece que tens razão.

– O homem embriagado, não tem também tendências à tirania?

– Óbvio que as tem.

– Igualmente, um homem demente não imagina acaso que é capaz de mandar nos demais e até nos deuses?

– Não duvido.

– Então, diz-me, que é o homem tirânico? Algo diferente de alguém a quem a natureza, ou a educação, ou ambas, tornaram ébrio, apaixonado e louco?

– De forma alguma.”

– Assim seja. Tudo se tornaria uma grande festa: jogos, festins, bebedeiras e banquetes, cortesãs e toda sorte de prazeres imagináveis, aos quais Eros o tirano arrojará esta classe de homens, i.e., o homem que deixou que Eros penetrasse em sua alma, dirigindo a partir daí todas as suas faculdades.

– Em absoluto.

– E a torrente de desejos, dia e noite, não irá se avolumando, desejos tão indômitos quanto insaciáveis?

– Uma torrente interminável, com efeito.

– E assim as rendas deste homem, se é que as tem, vão-se de pronto desmilingüir nessa busca infrutífera de satisfação.

– Como não?

– E aí tens os empréstimos; sua fortuna estará inteiramente comprometida.

– E que remédio teria ele contra essa inelutável dissipação, Sócrates? Seria sua sina.”

agora que o amor se tornou seu tirano, conduzirá todo homem torpe, cem vezes ao dia, às mesmas ações que raras vezes, antigamente, experimentava, e apenas em sonhos. Nem os assassinatos, nem as terríveis orgias, nem todo tipo de crime terão fim, porque, preenchida de amor tirânico, a alma humana cultivará a licença e o desprezo por todas as leis”

– Este homem já apresentava esse caráter na vida particular muito antes de assumir o governo. Está invariavelmente cercado de uma multidão de aduladores, muito solícitos a seus ímpetos; se não é este o caso, é porque é ele um dos aduladores dessa multidão, bajulando um outro qualquer, rastejando frente a outro de sua laia; mas uma vez que este dissoluto, esteja em posição de protagonista ou de simples lacaio, haja obtido aquilo que a princípio desejava – o poder –, virará as costas a todo bajulador, ídolo ou <amigo>.

– Isso é evidente.

– Ao cabo vês: estes homens passam a vida inteira sem ser amigos de ninguém, sendo donos ou escravos exclusivamente de vontades alheias, porque é um sinal do caráter tirânico o desconhecimento da autêntica liberdade e da autêntica amizade.

– De acordo.”

Está na hora de resumir, pois então, os traços do criminoso perfeito. Há de ser no mundo real tal como o descrevemos em fantasia.”

Se é o pior dos homens, não será também o mais desgraçado, e não o será tanto mais quanto maior for o tempo e maior for a intensidade em que desempenhou a tirania? Porém sabes que o vulgo tem opinião distinta a esse respeito!”

E que tal se supusermos por um momento que nós mesmos podemos julgar o caso, pois vivêramos entre tiranos; precisamos fazer essa encenação, para imaginar alguém que nos respondesse!”

Trancafiado em seu palácio, como uma mulher, o tirano inveja a felicidade dos súditos, pois muitos deles empreendem viagens, e o tirano decerto é alguém que necessita constantemente estimular e excitar sua curiosidade vendo novos objetos exteriores.”

sendo incapaz de dirigir-se a si mesmo, terá de conduzir os demais. Compartilha a condição do doente que, sem ter ele mesmo forças, é compelido a, em vez de repousar, queimar sua vida em combates atléticos.”

SÓCRATES – Semelhante condição não é a mais triste imaginável? Mas ser tirano no lugar dum mero moribundo não multiplica várias vezes esse estado de desgraça, daquele sujeito que considerávamos já o campeão em desgraça e infortúnio?

GLAUCO – Disseste-o bem, Sócrates.

SÓCRATES – Sendo assim, quaisquer que sejam as aparências externas, o tirano não passa de escravo, escravo submetido à mais inclemente servidão, o adulador oficial do que existe de mais abjeto na sociedade. Impossibilitado de chegar à satisfação de seus desejos, sempre lhe faltará muito mais do que ele tem, por mais que seja muito rico e tenha muitas coisas. (…) ele viverá sempre alarmado, vítima de grandes sofrimentos e angústias”

Podemos resumir dizendo que há três caracteres de homens: o filosófico, o ambicioso e o avaro? (…) Se tu perguntasses a cada um desses três em particular: Qual é a vida mais feliz? Já sabes por antecipação o que cada um deles diria. O avaro decerto colocará o prazer do lucro sobre todos os demais, desprezando a sabedoria e as honras, isto é, como fins; porque não se descarta que podem ser meios para a obtenção de mais dinheiro.

Que dirá o ambicioso, por seu turno? Não achará vil e indigno acumular tesouros, e vaidade o estudo, a não ser que obter algum tesouro e adquirir algum conhecimento lhe facultem a glória e a honra, reputação, enfim?

Quanto ao filósofo, o últimos dos três, é seguro que não dá valor a nada que não seja o prazer que lhe proporciona o conhecimento da verdade tal qual é, bem como sua aplicação contínua neste mesmo estudo; quanto aos demais prazeres listados, o filósofo prefere chamá-los necessidades materiais, ou seja, deles ele vai atrás somente naquele quinhão indispensável à subsistência.”

[comentário pessoal] Minha reputação é nula, meu patrimônio inexistente, e quanto ao que eu sei, nem eu mesmo posso medir o quanto eu sei; as traças o saberão melhor depois que eu partir. Fica o meu legado, semi-invisível.

CAMALEOMEM: “desde a infância o filósofo encontra-se em posição de buscar outros prazeres que não os da inteligência, uma vez que todo trabalho tem sua folga”

GLAUCO – (…) avaliador soberano das coisas que é, o homem inteligente exalta sua própria vida.

SÓCRATES – Que tipo de existência e que prazeres deverão estar em segundo na hierarquia?

GLAUCO – Os do guerreiro e do ambicioso, os quais estão tão próximos do filósofo quanto o homem <interessado>, o último da escala, se encontra próximo deles mesmos.

SÓCRATES – Segundo tudo que vês, o avaro corresponderá ao último patamar da existência.”

SÓCRATES – Não existe um estado em que não se experimenta nem prazer nem dor?

GLAUCO – Sim, sem dúvida se o reconhece.

SÓCRATES – Esse estado, que é uma espécie de meio-termo entre dois antípodas extremos, não consiste em certo repouso d’alma com referência ao estado habitual dos outros? Que te parece?

GLAUCO – Me parece adequado que fales assim.

SÓCRATES – És capaz de lembrar o que dizem os doentes em suas crises?

GLAUCO – Não, Sócrates; que é que dizem?

SÓCRATES – Que o maior bem é a saúde, mas que não sabiam disso antes de ficar doentes.

GLAUCO – Ah, sim, perfeitamente.

SÓCRATES – Não ouves de quem sofre de dor que nada há de mais agradável e terno que a cessação dessa mesma dor?

GLAUCO – Sim, ouço.

SÓCRATES – E observarás, creio eu, que em todas as circunstâncias da vida não é o prazer o objetivo dos homens sofredores, mas tão-só a supressão da dor e o repouso.”

Em todas essas aparências não há prazer real; tudo isto não é mais que uma alucinação.”

Seria acaso inquietante que essa gente que nunca experimentou o verdadeiro prazer e que não considera o prazer senão negativamente (pelo contraste entre a dor e a ausência da dor) se engane em seus juízos? Mal comparando, não estariam na mesma situação de alguém que, ao desconhecer a cor branca, pensasse ser o cinza o contrário do preto? Que achas?”

SÓCRATES – Encara agora ao revés esta progressão: se desejarmos averiguar em quantos graus o prazer do rei é mais verdadeiro que o do tirano, resultará, feito o cálculo, que a vida do rei é 729x(*) mais grata que a do tirano, e que a deste último é mais ingrata que a do rei nesta mesma proporção.

GLAUCO – Acabas de encontrar, mediante uma fórmula surpreendente, o intervalo numérico que separa, em termos de prazer e dor, o homem justo do injusto!”

(*) “A felicidade do tirano tem 3x menos realidade que a do oligarca; a do oligarca, 3x menos que a do rei; logo, a felicidade do tirano tem 9x menos realidade que a do rei. O número 9 é plano,¹ sendo o quadrado de 3. Em seguida, Platão, considerando estas duas felicidades (uma real, outra aparente) como dois sólidos de dimensões inteiramente proporcionais entre si, com suas distâncias em relação à realidade – representadas pelos números 1 e 9, respectivamente² – compondo cada uma das dimensões da figura tridimensional (lembrando que se trata do cubo, então as três medidas de cada cubo são idênticas), a fim de encontrar a razão entre ambos os sólidos, procede ao cálculo do volume de cada cubo, em unidade numérica pura, i.e.:

1x1x1=1

e

9x9x9=729

¹ Número plano: que possui uma raiz quadrada racional: 1, 4, 9, 16, 25, 36, 49, 64 (= 4³), 81 (= 9³)…

² Por que 9? Porque é o produto encontrado acima, a conversão no mundo físico (em verdade, aritmético, mas que exige a demonstração geométrica primeiro, etapa que aqui suprimimos dada sua simplicidade para o leitor atual) da distância entre as felicidades do rei e do tirano. Se a pergunta retroagir para “por que 3 é o número que simboliza a distância entre a felicidade de dois políticos de governos considerados vizinhos hierarquicamente (recapitulando: monarquia–oligarquia–tirania do melhor para o pior)?”, a resposta é simples: porque a geometria euclidiana o exige: o espaço possui 3 dimensões.

Já a realidade é Um por definição (igual a si mesma).

– Se alguém soubesse que uma coisa necessariamente acompanha a outra, aumentaria suas riquezas até o infinito para aumentar seus males na mesma proporção?

– Duvido muito.”

– Esse alguém que atingiu a sabedoria terá gosto pelo governo do próprio Estado interior (a alma); mas, quanto ao governo de sua pátria, duvido que lhe apetecesse, a menos que sucedera algo de verdadeiramente divino no mundo exterior.

– Entendo, Sócrates: quando dizes <divino> neste contexto, falas somente em caso de surgimento daquele Estado que cogitáramos durante toda esta nossa conversação e que por ora só existe em nosso pensamento; já disseste que não crês na possibilidade deste Estado sobre a terra.

– Mas pelo menos há, talvez, no céu um modelo para quem quiser fitá-lo e fundar, a sua imagem e semelhança, sua cidade interior. Além do mais, pouco importa se existe ou não tal Estado, ou que ele jamais haja de existir sobre a terra; o certo é que o verdadeiramente sábio não consentirá jamais em governar outro Estado senão esse.

– É bastante provável.”

A REPÚBLICA – Livro VIII

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

O primeiro tipo de governo, e também o mais elogiado, é aquele em vigor em Creta e em Esparta. O segundo tipo, que ocupa outrossim o segundo posto em fama e reputação, é a oligarquia, governo exposto a um grande número de vícios. O terceiro tipo, oposto por inteiro ao segundo, é a democracia. Em seguida vem a <gloriosa> tirania, que se sobressai sobre todos os outros três tipos no quesito <enfermidades que podem contaminar um Estado>.”

Procuremos, desta feita, explicar como podem surgir a aristocracia e a timocracia.¹ Não é certo que, em geral, as trocas de todo governo político se originam no próprio partido que governa, assim que nele se suscita alguma cisão, e que, por pequeno que se suponha este partido, enquanto mantenha em seu seio a harmonia, é impossível que inovações possam tomar conta do Estado?”

¹ Timocracia ou timarquia: Trata-se da forma de governo deixada sem nome atribuída logo acima a Creta e Esparta, os melhores tipos “mundanos” de governo (enquanto não se puder atingir a República ideal). Este nome caiu em desuso a despeito da obra platônica, e no dicionário português hoje é considerado depreciativo (governo viciado em honrarias). É difícil diferenciá-lo, ademais, do conceito de aristocracia, se não se recorrer à própria exposição platônica. Atrelar esse tipo de Estado unicamente à disciplina bélica seria um estereótipo inaceitável, quase equiparar esta forma de governo ao que consideramos (muito influenciados pelos helenos, aliás) os governos dos “povos bárbaros”. Como se perdeu a noção de valor não-corrompida pela própria degradação da noção de valor, realmente seria uma contradição caso essa nomenclatura fosse intuitiva e apreendida de forma imediata.

O natural do Estado estabilizado não é o movimento; porém, como tudo o que nasce está destinado a perecer, este, como qualquer outro sistema de governo, não pode durar indefinidamente. Não só a planta que nasce do seio da terra, mas também a alma e o corpo dos animais que vivem sobre essa mesma superfície, sofrem mudanças do estado fértil ao infértil e vice-versa. Cada espécie está submetida a um ciclo ou revolução periódica, terminando e recomeçando sem cessar sua trajetória de vida. O que diferencia uma espécie da outra é tão-somente a duração desse ciclo.(*)”

(*) “Nesta passagem platônica, denominada pelos comentadores como <o discurso das Musas>, ou <discurso do número nupcial>, faz-se referência a um número para o qual parece impossível encontrar qualquer sentido racional, e cuja obscuridade tornou-se até proverbial. Alguns autores calculam-no como sendo 12.960.000, o que corresponderia ao número de dias do <grande ano> astronômico (36 mil anos de 360 dias).

Mesclando-se o ferro com a prata e o bronze com o ouro, resultam a inconveniência, a irregularidade e a desarmonia, defeitos que, onde quer que apareçam, engendram sempre a inimizade e a guerra.”

Uma vez produzida a dissensão, as raças de ferro e de bronze tratavam de enriquecer materialmente e adquirir cada vez mais terras, edificações, ouro e prata, ao passo que as raças de ouro e prata, ricas de natureza, jamais estando desprovidas, buscavam conduzir a alma à virtude e fazer perdurar a constituição primitiva. Depois de muitas lutas e violência recíproca, convieram em dividir as terras e as casas, destinando como escravos ao cuidado de suas terras e casas o restante dos cidadãos, a quem consideravam mais como homens livres, propriamente, espécies de amigos e provedores de seu sustento, continuando eles mesmos a guerra e provendo a segurança comum.”

Do regime anterior, herdarão o respeito aos magistrados, a aversão típica dos guerreiros à agricultura, ofícios manuais e profissões lucrativas, bem como conservarão o costume dos banquetes públicos e o cuidado da prática de exercícios ginásticos e militares.

Aquilo que essa nova configuração teria de próprio não seria, então, o temor de elevar os sábios às primeiras dignidades, porque já não se formarão em seu seio os caracteres de uma virtude simples e pura, senão apenas elementos compósitos? Daí deriva que elegerão para os postos de comando espíritos mais fogosos e simplórios, nascidos sobretudo para a guerra, não para a paz; supervalorizarão as táticas e ardis de combate; andarão sempre armados.”

Entregues em segredo a todos os prazeres, ocultar-se-ão da lei, como um filho pródigo sói ocultar-se do pai; e tudo isto graças a uma educação fundada não na persuasão, mas na força, que despreza a verdadeira Musa, a que preside à dialética e à filosofia, e por haver-se preferido a ginástica à música.”

Terá às vezes por pai um homem de bem, cidadão de um Estado mal-governado, cidadão este que foge das honras, dignidades e magistraturas e de todas as moléstias que os cargos carregam consigo. Enfim, este cidadão prefere perder direitos a sofrer tais males.”

Não devíamos explicar, agora, como a timocracia se converte em oligarquia?”

A cota (o rendimento patrimonial) que se requer a fim de se participar da casta que comanda é mais ou menos elevada, conforme o grau do princípio oligárquico em voga (se muito acentuado ou não), e está proibido àqueles cuja renda não alcance o patamar assinalado aspirar aos cargos públicos.”

Nos Estados oligárquicos a desordem é estimulada, porque uns possuem riquezas imensuráveis enquanto outros se vêem reduzidos à miséria definitiva.”

SÓCRATES – Mas acaso não há a seguinte distinção, meu querido Adimanto: que Deus quisera que os zangões alados houvessem nascido sem ferrão, enquanto que entre os zangões de dois pés alguns o têm, e aliás pungente além do normal?”

Nada é mais veloz e violento no jovem que a transição da ambição à avareza.”

O avaro é aquele que põe as riquezas acima de tudo em questão de acumulação, mas não valoriza proporcionalmente seu dispêndio. Já viste que o avaro usa o mínimo possível de recursos naturais que tem à mão? Priva-se do que é humanamente possível e por intermédio da ganância ilimitada acaba por dominar seus próprios desejos, reputando-os insensatos.”

– Sabes para onde deves dirigir teus olhos a fim de enxergar os desejos maléficos dos homens?

– Onde?

– Para esses conselhos tutelares de órfãos ou qualquer outro lugar ou associação de pessoas onde é-se livre para agir de forma má.

– Tens razão, Sócrates,

– Não é evidente que, se em outros negócios gozam de boa reputação pela aparência de homens justos, os maus sempre contêm seus desejos insidiosos e sua imprudência violenta o quanto a necessidade lhes permite, em caráter temporário, passando a manifestá-los somente onde ninguém pode zelar pela virtude nem pela conduta mais racional nem puni-los com a perda dos bens de que desfrutam em vida?

– Isso é absolutamente certo.

– Mas quando a questão é dissipar os bens de outrem, aí, por Zeus!, nestes homens serás capaz de enxergar distintamente desejos que mais parecem pertencer a zangões.

– Estou convencido a este respeito.

– Um homem assim estará sujeito a fortes rebeliões dentro de si mesmo; como que haverá dentro de si dois homens diferentes, cujos desejos lutarão para prevalecer. De praxe, a parte melhor subjugará a outra.

– Temo que sim.

– E é por isso que vês que, em aparência, estes vilões terão aspecto de moderados e donos de si próprios, mais até que em comparação a muitos homens bons que não conseguem ocultar seus (menores) defeitos. Mas sabe tu que a verdadeira virtude, capaz de produzir a harmonia e a unidade, ainda seguirá longe de habitar na alma destes homens dissimulados.

– De fato.”

Este homem, portanto, aparece no dia-a-dia à maneira oligárquica, isto é, menos poderoso do que pode ser; assim, ele sairá derrotado muitas vezes diante dos olhos do público, mas, como o que nele predomina é a avareza, seguirá sendo rico, e eis o que lhe importa.”

Tudo isto faz com que haja no Estado indivíduos dotados de ferrões, uns oprimidos pela dúvida, outros despojados de seus direitos e alguns padecendo de ambos ao mesmo tempo; mas o que é certo é que todos esses sujeitos-zangões estão em perpétua hostilidade contra aqueles que ficaram ricos pondo a mão em suas fortunas, sem escrúpulos de consciência; em hostilidade também para com o cidadão comum, que é bem diferente dele; o que o zangão quererá, no fim, será promover uma revolução.

– Disseste-o bem.

– E enquanto isso lá se vão os negociantes na rua, de cabeça baixa, pensando só em si mesmos e no próprio lucro; os comerciantes são outros zangões, que ferem com o aguilhão do dinheiro todos que estiverem indefesos a seu alcance; e quanto mais prevalecem os interesses mercantis no Estado, mais se vêem zangões e pobres.”

– Que espécie de lei poderia tentar remediar o mal nesse Estado?

– Na falta de remédio melhor, uma que caberia seria aquela que forçasse o cidadão a preocupar-se com sua virtude. Vê: se os contratos voluntários se celebrassem por conta e risco exclusivos do prestamista,¹ a usura se exerceria com menos descaro e este mal da avareza não proliferaria tanto.”

¹ Platão quer dizer: o Estado nada terá que ver com esta dívida; não usará sua força de polícia, mandando prender, castigar ou executar devedores. A possibilidade do calote será inerente ao ato de empréstimo. O particular que emprestou dinheiro que resolva o problema sozinho, e quem busca fazer justiça com suas mãos deverá se preparar para a legítima defesa de seus alvos.

os ricos, sendo assim, nenhum motivo têm para desprezar os pobres. Pelo contrário: um pobre, adelgaçado e amorenado de tanto se expor ao sol, quando cotejado com o rico, educado, pálido e gordo, em meio à guerra, no momento em que ambos defendem sua polis, parece mais ser digno de inveja do que lastimado, exibindo uma espécie de alegria secreta estimulada pelo sofrimento e pesar, ao passo que o rico ao menor esforço já se encontra exausto!”

O governo se faz democrático quando os pobres, obtendo a vantagem sobre os ricos, degolam alguns deles, desterram outros, repartem com os que foram poupados os cargos da administração; quinhão que, aliás, nestes governos, costuma-se determinar por sorteio.”

– Não serão, antes, homens livres num Estado repleto de liberdade e franqueza, e não terá cada um a liberdade de fazer o que lhe der na veneta?

– Se tu dizes…

– Mas onde quer que impere essa licença, é claro que cada cidadão dispõe de si mesmo e escolhe a seu bel prazer o gênero de vida que mais lhe agrada!

– É evidente.

– Portanto, será este o regime com mais diferenciações de classes.

– Como não?

– E eis que, em verdade, esta forma de governo tem a aparência de ser a mais bela de todas, e não deixa de desencadear um efeito admirável essa diversidade prodigiosa de caracteres, exatamente como as flores bordadas que fazem ressaltar a beleza de uma pintura. Bom, pelo menos será a forma mais bela de governo para aqueles que julgam as coisas como as mulheres e as crianças quando se admiram com as mais tresloucadas misturas de objetos.”

Se quisera alguém formar um plano de Estado, como fizemos até aqui, nada mais teria de fazer senão trasladar-se a qualquer Estado democrático, pois aí se encontra um mercado em que se vendem características de todos os regimes existentes.”

E, julgando à primeira vista, não é bastante cômodo e agradável não ser-se obrigado a desempenhar um cargo público, ainda que se possua os méritos requeridos? Não estar submetido a nenhuma autoridade, em caso de não querer; escolher se vai ou não à guerra; e estar em guerra e discórdia, ainda que os outros estejam em paz, bastando para isso desejá-lo; poder ser juiz e magistrado, por mais que a lei proíba o exercício dessas funções, caso a isso se ambicione?”

– Ah, com que magnífica indiferença se pisoteiam todas essas máximas – sem mesmo se dar ao trabalho de examinar qual foi a educação dos que gerem a coisa pública! E que empenho, na contramão, em acolher e honrar os políticos que lisonjeiam a plebe e se declaram amigos do povo!

– Um nobre regime, sem dúvida, tsc!

– Tais são, e não só!, as características da democracia: um governo extremamente cômodo, sem mando algum”

O desejo por toda sorte de comidas e quitutes e temperos, desejo reprimível, mediante uma boa educação desde a mocidade, desejo daninho ao corpo e à alma, à razão e à temperança, não deve ser compreendido com razão entre os desejos supérfluos?”

Algumas vezes sucede da facção democrática ceder ante a oligárquica, e então certos desejos são em parte destruídos e em parte arrancados d’alma, em decorrência de um pudor que é despertado no jovem, que através desse acidente reentra nas sendas no saber.

E no entanto, devido à má educação que recebeu de seu pai, novos desejos, mais fortes e numerosos, sucedem aos que haviam sido exilados.”

Eis aí quando voltam a se juntar aos comedores de lótus,(*) sem nem ao menos se envergonharem por isso!”

(*) “Ver o episódio dos <lotófagos> na Odisséia: o fruto que faz perder a memória.”

encobre-se a fealdade com os nomes mais preciosos: a insolência vira <boa educação>; anarquia vira <liberdade>; devassidão vira <magnificência>; desfaçatez vira <valor>.”

Carpe diem! O primeiro desejo a aparecer é o primeiro a ser cumprido. Hoje tem desejo de se embriagar ouvindo canções báquicas? Fá-lo. E amanhã lhe ocorre de jejuar e nada beber senão água. Uma hora gasta as energias na ginástica; na outra põe-se ocioso, despreocupado de tudo. Ora é filósofo, ora <homem de Estado>, sobe à tribuna, fala e age sem saber o que fala e o que faz. Num dia inveja a condição dos guerreiros e alista-se soldado; noutro, vira comerciante, porque tinha desenvolvido inveja dos comerciantes. Em suma, sua conduta é totalmente frouxa e inconsistente; e chama a tudo isso de <vida livre e prazenteira, vida feliz>!

– Ó, Sócrates, parece que pintaste com palavras a vida de um amante da igualdade!”

– Vejamos, meu querido, agora, como se forma o governo tirânico; tudo indica que se origina das democracias.

– Decerto.

– A passagem da democracia à tirania não se assemelha um tanto à passagem da oligarquia à democracia?

– Não entendo.

– O que na oligarquia se considera o maior bem, e o que, pode-se dizer, é a origem desta forma de governo, é a riqueza; concordas?

– Sim.

– O que causa sua ruína, porém, não é o próprio desejo de enriquecer tornado insaciável, o que causa uma indiferença letal a todas as outras coisas?

– Tens razão.

– Do mesmo modo, a causa da ruína de uma democracia é o desejo insaciável do que ela vê como seu maior bem.

– E que bem é esse?

– A liberdade. Num Estado democrático ouve-se por todos os cantos que a liberdade é o mais precioso dos bens e, por isso, o homem que nasceu livre sempre escolherá ali fixar sua residência.

– De fato, Sócrates, isso se ouve muito nas ruas.

– Mas não é justamente esse amor desenfreado à liberdade, acompanhado invariavelmente da mais extremada indiferença a tudo o mais, o que leva à decadência inelutável deste regime, despertando, por assim dizer, a tirania?

– Explica esta etapa melhor, Sócrates.

– Quando um Estado democrático, devorado por uma sede ardente de liberdade, é governado por maus escanceadores,¹ que derramam a bebida chamada liberdade pura, enchendo as taças e fazendo todos os convivas beberem copiosamente até a embriaguez. Daí em diante, o bêbado que pede mais e mais, caso não creia que o governante é liberal o suficiente com seu quinhão de liberdade, acusa e castiga qualquer <inimigo da liberdade> que não queira fazê-la jorrar; estes são considerados os maiores traidores da pátria e são tachados de reacionários, que desejam voltar aos tempos de oligarquia e restabelecer privilégios exclusivos.

– Não posso tirar nem pôr de nada do que disseste.

– E com igual desprezo tratam aqueles que ainda mostram algum respeito e submissão aos magistrados, atirando-lhes na cara que os magistrados para nada servem; que, em si, todo servidor público não passa de um escravo voluntário. Neste ponto, o homem típico exalta, seja na vida pública ou na vida privada, a igualdade suprema, quando magistrados não podem estar num patamar superior ao do cidadão comum. Num Estado tal, não deveria ser uma regra a extensão da liberdade total a todo e qualquer um?

– Ora, Sócrates, absolutamente!

– Não penetrará a anarquia no seio das famílias; não se alastrará mesmo até o reino animal?

– Não entendo o que acabaste de dizer!”

¹ Termo em desuso: quem serve vinho; mal e mal poderíamos adaptar para “garçom” ou quiçá “mordomo” nesta frase.

os professores temem e bajulam seus alunos; estes ridicularizam seus mentores e responsáveis. (…) Os velhos, por sua vez, condescendentes com os jovens, tornam-se jocosos e piadistas, a fim de imitar suas maneiras, temendo passar por caracteres demasiado altaneiros e despóticos.

Mas sem dúvida o abuso mais intolerável que a liberdade introduz na democracia é os escravos de ambos os sexos não serem menos livres que aqueles que os compraram. Ah, quase me esquecia de descrever o grau de liberdade e igualdade que alcançam as relações entre o homem e a mulher!”

são os animais domésticos mais livres neste governo que em nenhum outro. As cadelas, como diz o provérbio, ficam parecidas com as donas; e os cavalos e asnos, acostumados a caminhar de cabeça erguida e sem reverência, não seriam os primeiros a dar licença, num caminho estreito.”

não se pode incorrer num excesso sem se arriscar a cair no excesso contrário.”

– É evidente, pois, que é dessa estirpe de protetores (populistas) que nasce o tirano, dela e somente dela.

– Nada mais indiscutível.

– Mas por que o <protetor do povo> começa a se fazer tirano? Não seria porque começa a fazer parecido com o que dizem que se passava na Arcádia, no templo de Zeus Liceu?

– E o que é que dizem que ali se passava?

– Dizem¹ que quem ali comia entranhas humanas, mescladas com os restos de outros sacrifícios animais, se convertia logo em lobo. Nunca ouviste falar disso?

– Já, sim.

– De forma afim, quando o protetor do povo vê que este se encontra completamente submisso a suas vontades, empapa suas mãos no sangue dos seus próprios concidadãos. Utiliza-se de acusações caluniosas para se livrar de seus oponentes nos tribunais corrompidos, fazendo-os ser condenados sem fundamento, banhando sua língua de déspota e sua boca imunda com o sangue de seus irmãos, valendo-se da lei do exílio e das forjas e correntes. Propõe a abolição das dívidas e uma reforma agrária. Não seria uma necessidade, neste caso, para um tal caráter, perecer nas mãos dos inimigos ou, se quiser sobreviver, tornar-se tirano do Estado, convertendo-se no lobo do homem?

¹ Não é somente uma lenda de Platão ou mera crença popular tirada do vazio, ou pelo menos são dados compartilhados por outros autores, como Pausânias, livro 7.

O exilado de hoje é o tirano de amanhã.”

Se nem mesmo a classe no poder inteira consegue banir ou incapacitar seu adversário, muito menos condená-lo à morte, acusando-o como <inimigo do povo>, é natural pensar que atentarão contra sua vida nas sombras.

O homem ambicioso que já houver chegado a tal extremo aproveitará a ocasião para fazer ao povo uma petição. Pedir-lhe-á uma guarda pessoal, destinada, afinal, a proteger o protetor do povo!”

Quando as coisas já chegaram a esse ponto, todo homem que possui grandes riquezas – e que por essa razão passa por inimigo do povo – toma para si o oráculo dirigido a Creso: foge seguindo o rio Hermos, de leito pedregoso, e não teme o rótulo de covarde.(*)”

(*) “Ver Heródoto para mais detalhes.”

o protetor do povo destrói à esquerda e à direita todos aqueles de quem desconfia, para depois se declarar tirano abertamente.”

E não sorri graciosamente a todos que encontra, logo nos primeiros dias de sua dominação? E não diz que, nem de longe, sonha em ser tirano? Não faz as mais pomposas promessas em público e em particular, perdoando todas as dívidas, repartindo a terra entre o povo e os seus favoritos, e tratando todo mundo com benevolência e mansidão?”

– …e tem o cuidado de conservar sempre algumas sementes de guerra para que o povo sinta a necessidade de um chefe.

– É natural.

– Principalmente para que os cidadãos – empobrecidos pelos impostos de guerra – só pensem nas suas necessidades diárias, sem tempo para conspirar contra ele.

– Obviamente.

– E também faz isso, creio eu, para ter um meio seguro de desfazer-se dos de coração demasiado altivo para que se submetam a sua vontade, expondo-os aos ataques do inimigo.”

– O problema é que semelhante conduta só pode torná-lo mais e mais odioso ao cidadão.

– E não me estranha!

– E alguns daqueles que ajudaram em sua ascensão, os dotados de mais autoridade depois dele mesmo, não se dirigirão a ele e não falarão entre si com demasiada liberdade sobre o que se passa, tratando inclusive de censurá-lo? Isto é, penso eu que ao menos os mais atrevidos o farão.

– Imagino que sim.

– E então é preciso que o tirano se livre deles caso queira reinar tranqüilo; sem distinguir amigo de inimigo, ele faz com que desapareçam todos os homens possuidores de algum mérito.

– Isso é evidente.”

Faz justamente o contrário dos médicos, que purgam o corpo excretando o mal para conservar o bem.”

Vês que ele vive premido sem trégua pela necessidade de perecer ou então viver ao lado da canalha, e é inevitável que a canalha o aporrinhe bastante!”

– Ao formar sua guarda pessoal, um expediente que sói usar é recrutar escravos, a quem assegura que serão livres assim que o ajudarem a matar seus senhores.

– E faz muito bem, já que tais escravos lhe seriam inteiramente fiéis.

– Vês como é feliz a condição do tirano, que se vê obrigado a destruir cidadãos e a estabelecer a amizade com escravos, daqui em diante seus fiéis servidores!”

É com razão que se exalta a tragédia como uma escola de sabedoria, particularmente as de Eurípides, não achas? Porque Eurípides cunhou esta profunda máxima: os tiranos se fazem sábios mediante o trato com os sábios. Com isso ele quis dizer que os que compõem sua sociedade são muito espertos!

– Reconheço que Eurípides e os outros poetas qualificam a tirania como <divina> em muitas passagens de suas obras.

– Mas como os poetas trágicos são, eles também, sábios, não perdoarão que em nosso Estado, e em todos aqueles governados segundo os nossos princípios, recuse-se admiti-los no governo, uma vez que não passam de bajuladores!”

– Chamas ao tirano <parricida> e <perverso inimigo da velhice>? Mas eis que essas palavras resumem a tirania! O povo, querendo evitar a servidão dos homens livres, acaba sucumbindo ao despotismo dos próprios escravos. Vê-se, então, que a subserviência mais dura e mais amarga é a conseqüência lógica e natural de uma liberdade excessiva e desordenada: a escravidão sob um bando de escravos.”

HENRY IV

Depois de pacificar a terra arrasada pelos desmandos de Ricardo II, Henrique IV encontra uma série de problemas, dentre os quais, os próprios sobrinho e filho, este último o Príncipe de Gales. Um príncipe, como se há de ver, MinúsculO, com o perdão da expressão, e que porta nas entranhas o próprio pai, curiosa inversão (ele tem um rei na barriga). Mas será situação irreversível e incontornável?

KING HENRY IV

But I have sent for him to answer this;

And for this cause awhile we must neglect

Our holy purpose to Jerusalem.

Cousin, on Wednesday next our council we

Will hold at Windsor; so inform the lords:

But come yourself with speed to us again;

For more is to be said and to be done

Than out of anger can be uttered.

WESTMORELAND

I will, my liege.

PRINCE HENRY

Thou art so fat-witted, with drinking of old sack

and unbuttoning thee after supper and sleeping upon

benches after noon, that thou hast forgotten to

demand that truly which thou wouldst truly know.

What a devil hast thou to do with the time of the

day? Unless hours were cups of sack and minutes

capons and clocks the tongues of bawds and dials the

signs of leaping-houses and the blessed sun himself

a fair hot wench in flame-coloured taffeta, I see no

reason why thou shouldst be so superfluous to demand

the time of the day.”

PRÍNCIPE HENRIQUE

Você é tão destemperado, só pensa nesse vinho envelhecido e em desabotoar a camisa depois do almoço e em fazer a sesta na poltrona; tanto é assim que já esqueceu das coisas que não se esquece, e agora me pergunta coisas óbvias. Que diabos tem você com a hora do dia? Que t’importa isto? Só mesmo se as horas fossem taças de vinho e minutos codornas e relógios prostitutas e ponteiros letreiros de puteiro e o santo sol a própria grande e excitante puta da casa, caliente e num vestido de tafetá cor-de-fogo, só mesmo assim veria eu razão na sua leviandade em perguntar QUE HORAS SÃO?.

Com toda sua graça em forma de manteiga, não se frita nem um ovo!

FALSTAFF [o Fanffarrão]

(…) let us be Diana’s foresters, gentlemen of the shade, minions of the moon; and let men say we be men of good government, being governed, as the sea is, by our noble and chaste mistress the moon, under whose countenance we steal.”

FALSTAFF

By the Lord, thou sayest true, lad. And is not my

hostess of the tavern a most sweet wench?

PRINCE HENRY

As the honey of Hybla, my old lad of the castle. And

is not a buff jerkin a most sweet robe of durance?

FALSTAFF

How now, how now, mad wag! what, in thy quips and

thy quiddities? what a plague have I to do with a

buff jerkin?

PRINCE HENRY

Why, what a pox have I to do with my hostess of the tavern?

FALSTAFF

Well, thou hast called her to a reckoning many a

time and oft.

PRINCE HENRY

Did I ever call for thee to pay thy part?

FALSTAFF

No; I’ll give thee thy due, thou hast paid all there.

PRINCE HENRY

Yea, and elsewhere, so far as my coin would stretch;

and where it would not, I have used my credit.

(…)

FALSTAFF

(…) Do not thou, when thou art king, hang a thief.

PRINCE HENRY

No; thou shalt.

FALSTAFF

Shall I? O rare! By the Lord, I’ll be a brave judge.

PRINCE HENRY

Thou judgest false already: I mean, thou shalt have

the hanging of the thieves and so become a rare hangman.

FALSTAFF

Well, Hal, well; and in some sort it jumps with my

humour as well as waiting in the court, I can tell

you.”

A sabedoria grita nas ruas mas nenhum homem presta atenção.

Coisa espalhafatosa não pode ser boa!

Antes de conhecer você eu não sabia de nada.

Agora, veja você, sou pouco menos que um velhaco!

Mas chega! chega de ser bebum

tenho que tomar um rumo

Vadiar é minha vocação

E não é pecado dedicar-se ao seu talento nato

Portanto, vade ao ar, que serás recompensado!

Ó, se o homem há de ser salvo pelo mérito,

Em que círculo do Inferno caberás tu e tua vilania?

Ainda não cavaram tão profundo!

Incrível como a continuação de uma tragédia (ou pelo menos vendeta) seja, em Shakespeare, sem problemas de transição, uma comédia:

PRINCE HENRY

Good morrow, Ned.

POINS

Good morrow, sweet Hal. What says Monsieur Remorse?

what says Sir John Sack and Sugar? Jack! how

agrees the devil and thee about thy soul, that thou

soldest him on Good-Friday last for a cup of Madeira

and a cold capon’s leg?”

POINS

But, my lads, my lads, to-morrow morning, by four

o’clock, early at Gadshill! there are pilgrims going

to Canterbury with rich offerings, and traders

riding to London with fat purses: I have vizards [disfarces]

for you all; you have horses for yourselves:

Gadshill lies to-night in Rochester: I have bespoke

supper to-morrow night in Eastcheap: we may do it

as secure as sleep. If you will go, I will stuff

your purses full of crowns; if you will not, tarry

at home and be hanged.

FALSTAFF

Hear ye, Yedward; if I tarry at home and go not,

I’ll hang you for going.

POINS

You will, chops?

FALSTAFF

Hal, wilt thou make one?

PRINCE HENRY

Who, I rob? I a thief? not I, by my faith.

FALSTAFF

There’s neither honesty, manhood, nor good

fellowship in thee, nor thou camest not of the blood

royal, if thou darest not stand for ten shillings.

PRINCE HENRY

Well then, once in my days I’ll be a madcap.

FALSTAFF

Why, that’s well said.

PRINCE HENRY

Well, come what will, I’ll tarry at home.

FALSTAFF

By the Lord, I’ll be a traitor then, when thou art king.

PRINCE HENRY

I care not.

POINS

Sir John, I prithee, leave the prince and me alone:

I will lay him down such reasons for this adventure

that he shall go.

FALSTAFF

Well, God give thee the spirit of persuasion and him

the ears of profiting, that what thou speakest may

move and what he hears may be believed, that the

true prince may, for recreation sake, prove a false

thief; for the poor abuses of the time want

countenance. Farewell: you shall find me in Eastcheap.”

POINS [privately to the prince]

Falstaff, Bardolph, Peto and Gadshill

shall rob those men that we have already waylaid:

yourself and I will not be there; and when they

have the booty, if you and I do not rob them, cut

this head off from my shoulders.”

POINS

Tut! our horses they shall not see: I’ll tie them

in the wood; our vizards we will change after we

leave them: and, sirrah, I have cases of buckram [capas de couro]

for the nonce, to immask our noted outward garments.”

Yet herein will I imitate the sun,

Who doth permit the base contagious clouds

To smother up his beauty from the world,

That, when he please again to be himself,

Being wanted, he may be more wonder’d at,

By breaking through the foul and ugly mists

Of vapours that did seem to strangle him.

If all the year were playing holidays,

To sport would be as tedious as to work;

But when they seldom come, they wish’d for come,

And nothing pleaseth but rare accidents.

So, when this loose behavior I throw off

And pay the debt I never promised,

By how much better than my word I am,

By so much shall I falsify men’s hopes;

And like bright metal on a sullen ground,

My reformation, glittering o’er my fault,

Shall show more goodly and attract more eyes

Than that which hath no foil to set it off.

I’ll so offend, to make offence a skill;

Redeeming time when men think least I will.”

SOL & CONTEMPLAÇÃO

Imitarei o sol,

Que dá licença para as vulgares e licenciosas nuvens

Eclipsarem sua beleza para o mundo,

E que, quando deseja de novo ser si mesmo,

Sendo por todos ansiado, é ainda mais festejado

Ao romper por entre o feio e sórdido véu

De vapores que pareciam ter seus raios estrangulado.

Se o ano todo fossem rejubilantes feriados,

Recrear-se seria tedioso como trabalhar;

Mas quando eles vêm raro, são bastante esperados,

E acolhidos como dádiva oportuna.

É assim então que,

Quando eu deitar de lado a folga,

Deixando de ser sempre folgado,

Pagando de modo inesperado

A dívida da qual era o tributário,

Quão melhor não me mostrarei

Que meu próprio hábito,

Tanto me esforcei para frustrar expectativas!

E como metal brilhante em solo esquálido,

Minha redenção, contrastando com minhas faltas,

Parecerá ‘inda melhor e atrairá muito mais fãs

Que as qualidades constantes, sem máscara.

Ofenderei os olhos e o tato com cuidado

Par’enfim converter a ofensa em agrado,

Recuperando o que já davam por perdido.

(Tradução do monólogo do Príncipe Henrique, no final da CENA II, PRIMEIRO ATO.)

KING HENRY IV

Let me not hear you speak of Mortimer:

Send me your prisoners with the speediest means,

Or you shall hear in such a kind from me

As will displease you. My Lord Northumberland,

We licence your departure with your son.

Send us your prisoners, or you will hear of it.”

HOTSPUR [o sobrinho sedioso]

But I will lift the down-trod Mortimer

As high in the air as this unthankful king,

As this ingrate and canker’d Bolingbroke.”

HOTSPUR

He will, forsooth, have all my prisoners;

And when I urged the ransom once again

Of my wife’s brother, then his cheek look’d pale,

And on my face he turn’d an eye of death,

Trembling even at the name of Mortimer.

EARL OF WORCESTER

I cannot blame him: was not he proclaim’d

By Richard that dead is the next of blood?”

HOTSPUR

But soft, I pray you; did King Richard then

Proclaim my brother Edmund Mortimer

Heir to the crown?

NORTHUMBERLAND

He did; myself did hear it.”

HOTSPUR

All studies here I solemnly defy,

Save how to gall and pinch this Bolingbroke:

And that same sword-and-buckler Prince of Wales,

But that I think his father loves him not

And would be glad he met with some mischance,

I would have him poison’d with a pot of ale.”

HOTSPUR

(…)

Why, what a candy deal of courtesy

This fawning greyhound then did proffer me!

Look,<when his infant fortune came to age>,

And <gentle Harry Percy>, and <kind cousin>;

O, the devil take such cozeners! God forgive me!”

EARL OF WORCESTER

Then once more to your Scottish prisoners.

Deliver them up without their ransom straight,

And make the Douglas’ son your only mean

For powers in Scotland; which, for divers reasons

Which I shall send you written, be assured,

Will easily be granted.”

HOTSPUR

Why, it cannot choose but be a noble plot;

And then the power of Scotland and of York,

To join with Mortimer, ha?

EARL OF WORCESTER

And so they shall.

HOTSPUR

In faith, it is exceedingly well aim’d.”

EARL OF WORCESTER

(…)

For, bear ourselves as even as we can,

The king will always think him in our debt,

And think we think ourselves unsatisfied,

Till he hath found a time to pay us home:

And see already how he doth begin

To make us strangers to his looks of love.”

GADSHILL

(…) I am joined with no foot-land rakers, no long-staff 6-penny strikers, none of these mad mustachio purple-hued malt-worms; but with nobility and tranquillity, burgomasters and great oneyers, such as can hold in, such as will strike sooner than speak, and speak sooner than drink, and drink sooner than pray: and yet, zounds, I lie; for they pray continually to their saint, the commonwealth; or rather, not pray to her, but prey on her, for they ride up and down on her and make her their boots.”

FALSTAFF

(…)

a plague upon it when thieves cannot be true one to another!”

LADY PERCY

Out, you mad-headed ape!

A weasel hath not such a deal of spleen

As you are toss’d with. In faith,

I’ll know your business, Harry, that I will.

I fear my brother Mortimer doth stir

About his title, and hath sent for you

To line his enterprise: but if you go,– ”

HOTSPUR

Away,

Away, you trifler! Love! I love thee not,

I care not for thee, Kate: this is no world

To play with mammets and to tilt with lips:

We must have bloody noses and crack’d crowns,

And pass them current too. God’s me, my horse!

What say’st thou, Kate? what would’st thou

have with me?”

ESPORA-QUENTE

Fora,

Fora daqui, intrigueira! Amor?! Eu não te amo,

Me fodo pra você, Kate: isso não é mundo

Para idolatrar pés-de-barros nem titilar com os lábios:

Tem que ter fogo nas ventas, cara feia, não confiar em nada,

Nem ninguém; nem em quem tem ou terá uma coroa sobre a fronte!

Deus sou eu, Eu e meu cavalo! Que diz disso, ó querida Kate?

Que merda ‘cê’inda quer comigo?”

você é constante, a sua maneira,

mas não deixa de ser mulher: em prol do sigilo,

Nada de senhoras por perto; quero crer

Que você não fala nada sobre o que não sabe;

Por isso ainda acredito em você, querida e amável

Esposa do Espora!”

PRINCE HENRY

I am now of all humours that have showed themselves

humours since the old days of goodman Adam to the

pupil age of this present twelve o’clock at midnight.”

FRANCIS

Anon, anon, sir.

Exit

PRINCE HENRY

That ever this fellow should have fewer words than a parrot, and yet the son of a woman! His industry is upstairs and downstairs; his eloquence the parcel of a reckoning. I am not yet of Percy’s mind, the Hotspur of the north; he that kills me some six or seven dozen of Scots at a breakfast, washes his hands, and says to his wife <Fie upon this quiet life! I want work.> <O my sweet Harry,> says she, <how many hast thou killed to-day?> <Give my roan horse a drench,> says he; and answers <Some fourteen,> an hour after; <a trifle, a trifle.> I prithee, call in Falstaff: I’ll play Percy, and that damned brawn shall play Dame Mortimer his wife. <Rivo!> says the drunkard. Call in ribs, call in tallow.”

there is nothing but roguery to be found in villanous man: yet a coward is worse than a cup of sack with lime in it.”

FALSTAFF

I am a rogue, if I were not at half-sword with a

dozen of them two hours together. I have ‘scaped by

miracle. I am eight times thrust through the

doublet, four through the hose; my buckler cut

through and through; my sword hacked like a

hand-saw–ecce signum! I never dealt better since

I was a man: all would not do. A plague of all

cowards! Let them speak: if they speak more or

less than truth, they are villains and the sons of darkness.

PRINCE HENRY

Speak, sirs; how was it?

GADSHILL

We four set upon some dozen–

FALSTAFF

Sixteen at least, my lord.

GADSHILL

And bound them.

PETO

No, no, they were not bound.

FALSTAFF

You rogue, they were bound, every man of them; or I

am a Jew else, an Ebrew Jew.

GADSHILL

As we were sharing, some six or seven fresh men set upon us–

FALSTAFF

And unbound the rest, and then come in the other.

PRINCE HENRY

What, fought you with them all?

FALSTAFF

All! I know not what you call all; but if I fought

not with fifty of them, I am a bunch of radish: if

there were not two or three and fifty upon poor old

Jack, then am I no two-legged creature.

PRINCE HENRY

Pray God you have not murdered some of them.

FALSTAFF

Nay, that’s past praying for: I have peppered two

of them; two I am sure I have paid, two rogues

in buckram suits. I tell thee what, Hal, if I tell

thee a lie, spit in my face, call me horse. Thou

knowest my old ward; here I lay and thus I bore my

point. Four rogues in buckram let drive at me–

PRINCE HENRY

What, four? thou saidst but two even now.

FALSTAFF

Four, Hal; I told thee four.

POINS

Ay, ay, he said four.

FALSTAFF

These four came all a-front, and mainly thrust at

me. I made me no more ado but took all their seven

points in my target, thus.

PRINCE HENRY

Seven? why, there were but four even now.

FALSTAFF

In buckram?

POINS

Ay, four, in buckram suits.

FALSTAFF

Seven, by these hilts, or I am a villain else.

PRINCE HENRY

Prithee, let him alone; we shall have more anon.

FALSTAFF

Dost thou hear me, Hal?

PRINCE HENRY

Ay, and mark thee too, Jack.

FALSTAFF

Do so, for it is worth the listening to. These nine

in buckram that I told thee of–

PRINCE HENRY

So, two more already.

FALSTAFF

Their points being broken,–

POINS

Down fell their hose.

FALSTAFF

Began to give me ground: but I followed me close,

came in foot and hand; and with a thought seven of

the eleven I paid.

PRINCE HENRY

O monstrous! eleven buckram men grown out of two!

FALSTAFF

But, as the devil would have it, three misbegotten

knaves in Kendal green came at my back and let drive

at me; for it was so dark, Hal, that thou couldst

not see thy hand.

PRINCE HENRY

These lies are like their father that begets them;

gross as a mountain, open, palpable. Why, thou

clay-brained guts, thou knotty-pated fool, thou

whoreson, obscene, grease tallow-catch,–

FALSTAFF

What, art thou mad? art thou mad? is not the truth

the truth?

PRINCE HENRY

Why, how couldst thou know these men in Kendal

green, when it was so dark thou couldst not see thy

hand? come, tell us your reason: what sayest thou to this?

POINS

Come, your reason, Jack, your reason.

FALSTAFF

What, upon compulsion? ‘Zounds, an I were at the

strappado, or all the racks in the world, I would

not tell you on compulsion. Give you a reason on

compulsion! If reasons were as plentiful as

blackberries, I would give no man a reason upon

compulsion, I.

PRINCE HENRY

I’ll be no longer guilty of this sin; this sanguine

coward, this bed-presser, this horseback-breaker,

this huge hill of flesh,–

FALSTAFF

Sblood, you starveling, you elf-skin, you dried

neat’s tongue, you bull’s pizzle, you stock-fish! O

for breath to utter what is like thee! you

tailor’s-yard, you sheath, you bowcase; you vile

standing-tuck,–

PRINCE HENRY

Well, breathe awhile, and then to it again: and

when thou hast tired thyself in base comparisons,

hear me speak but this.

POINS

Mark, Jack.

PRINCE HENRY

We two saw you four set on four and bound them, and

were masters of their wealth. Mark now, how a plain

tale shall put you down. Then did we two set on you

four; and, with a word, out-faced you from your

prize, and have it; yea, and can show it you here in

the house: and, Falstaff, you carried your guts

away as nimbly, with as quick dexterity, and roared

for mercy and still run and roared, as ever I heard

bull-calf. What a slave art thou, to hack thy sword

as thou hast done, and then say it was in fight!

What trick, what device, what starting-hole, canst

thou now find out to hide thee from this open and

apparent shame?

POINS

Come, let’s hear, Jack; what trick hast thou now?

FALSTAFF

By the Lord, I knew ye as well as he that made ye.

Why, hear you, my masters: was it for me to kill the

heir-apparent? should I turn upon the true prince?

why, thou knowest I am as valiant as Hercules: but

beware instinct; the lion will not touch the true

prince. Instinct is a great matter; I was now a

coward on instinct. I shall think the better of

myself and thee during my life; I for a valiant

lion, and thou for a true prince. But, by the Lord,

lads, I am glad you have the money. Hostess, clap

to the doors: watch to-night, pray to-morrow.

Gallants, lads, boys, hearts of gold, all the titles

of good fellowship come to you! What, shall we be

merry? shall we have a play extempore?

PRINCE HENRY

Content; and the argument shall be thy running away.

FALSTAFF

Ah, no more of that, Hal, an thou lovest me!”

BARDOLPH

Yea, and to tickle our noses with spear-grass to

make them bleed, and then to beslubber our garments

with it and swear it was the blood of true men. I

did that I did not this seven year before, I blushed

to hear his monstrous devices.

PRINCE HENRY

O villain, thou stolest a cup of sack 18 years

ago, and wert taken with the manner, and ever since

thou hast blushed extempore. Thou hadst fire and

sword on thy side, and yet thou rannest away: what

instinct hadst thou for it?”

PRINCE HENRY

(…)

How long is’t ago, Jack, since thou sawest thine own knee?

FALSTAFF

My own knee! when I was about thy years, Hal, I was

not an eagle’s talon in the waist; I could have

crept into any alderman’s thumb-ring: a plague of

sighing and grief! it blows a man up like a

bladder.”

– Quanto tempo faz, tratante, que não vês mais teu próprio joelho?

– Ah, meu joelhinho! Quando eu tinha sua idade, ‘Riquinho, e minha cintura não media nem a garra duma águia! Eu podia m’enfiar em qualquer anel-médio de gentil-homem, não duvide! Era tão espesso e denso quanto um palito-de-dente. Soprassem e eu sairia voando feito bexiga de ar quente!…”

FALSTAFF

(…) But tell me, Hal,

art not thou horrible afeard? thou being

heir-apparent, could the world pick thee out three

such enemies again as that fiend Douglas, that

spirit Percy, and that devil Glendower? Art thou

not horribly afraid? doth not thy blood thrill at

it?

PRINCE HENRY

Not a whit, I’ faith; I lack some of thy instinct.”

FALSTAFF

Shall I? content: this chair shall be my state,

this dagger my sceptre, and this cushion [almofada] my crown.

PRINCE HENRY

Thy state is taken for a joined-stool, thy golden

sceptre for a leaden dagger, and thy precious rich

crown for a pitiful bald crown!”

Give me a cup of sack to make my eyes look red, that it may be thought I have wept; for I must speak in passion, and I will do it in King Cambyses’ vein.” [O filho de Ciro]

Me dê uma taça de vinho para meus olhos parecerem vermelhos, para que se pense que eu chorei; devo falar apaixonadamente, à maneira do Rei Cambises.”

Juventude não é unha nem barba, que quanto mais se apara mais cresce vigorosa: não, não; quanto mais se desperdiça esse dom, menos desse dom se tem, meu caro! Quanto mais se é jovem, menos se é jovem, compreende-me? Aquele que passa a juventude sem ser um jovem como os outros ainda se sustém jovial por longos anos. Aquele que deita a perder sua juventude a consuma, no pior sentido possível. Quanto mais intensamente o adolescente viveu, mais o prazer ficou para trás, congelado no passado, inacessível à reprise. Tempere essa gastança hormonal!

FALSTAFF [‘rei’presentando]

That thou art my son, I have

partly thy mother’s word, partly my own opinion,

but chiefly a villanous trick of thine eye and a

foolish-hanging of thy nether lip, that doth warrant

me. If then thou be son to me, here lies the point;

why, being son to me, art thou so pointed at? Shall

the blessed sun of heaven prove a micher and eat

blackberries? a question not to be asked. Shall

the sun of England prove a thief and take purses? a

question to be asked. There is a thing, Harry,

which thou hast often heard of and it is known to

many in our land by the name of pitch: this pitch,

as ancient writers do report, doth defile; so doth

the company thou keepest: for, Harry, now I do not

speak to thee in drink but in tears, not in

pleasure but in passion, not in words only, but in

woes also: and yet there is a virtuous man whom I

have often noted in thy company, but I know not his name.”

If then the tree may be

known by the fruit, as the fruit by the tree, then,

peremptorily I speak it, there is virtue in that

Falstaff: him keep with, the rest banish. And tell

me now, thou naughty varlet, tell me, where hast

thou been this month?”

PRINCE HARRY [HENRY] [agora no papel de seu próprio pai]

Thou art violently carried away from grace:

there is a devil haunts thee in the likeness of an

old fat man; a tun of man is thy companion. Why

dost thou converse with that trunk of humours, that

bolting-hutch of beastliness, that swollen parcel

of dropsies, that huge bombard of sack, that stuffed

cloak-bag of guts, that roasted Manningtree ox with

the pudding in his belly, that reverend vice, that

grey iniquity, that father ruffian, that vanity in

years? Wherein is he good, but to taste sack and

drink it? wherein neat and cleanly, but to carve a

capon and eat it? wherein cunning, but in craft?

wherein crafty, but in villany? wherein villanous,

but in all things? wherein worthy, but in nothing?

FALSTAFF

I would your grace would take me with you: whom

means your grace?”

If sack and sugar be a fault,

God help the wicked! if to be old and merry be a

sin, then many an old host that I know is damned: if

to be fat be to be hated, then Pharaoh’s lean kine

are to be loved. No, my good lord; banish Peto,

banish Bardolph, banish Poins: but for sweet Jack

Falstaff, kind Jack Falstaff, true Jack Falstaff,

valiant Jack Falstaff, and therefore more valiant,

being, as he is, old Jack Falstaff, banish not him

thy Harry’s company, banish not him thy Harry’s

company: banish plump Jack, and banish all the world.”

Sheriff

One of them is well known, my gracious lord,

A gross fat man.

Carrier

As fat as butter.

PRINCE HENRY

The man, I do assure you, is not here;

For I myself at this time have employ’d him.

And, sheriff, I will engage my word to thee

That I will, by to-morrow dinner-time,

Send him to answer thee, or any man,

For any thing he shall be charged withal:

And so let me entreat you leave the house.”

Sheriff

Good night, my noble lord.

PRINCE HENRY

I think it is good morrow, is it not?

Sheriff

Indeed, my lord, I think it be two o’clock.”

GLENDOWER

I say the earth did shake when I was born.

HOTSPUR

And I say the earth was not of my mind,

If you suppose as fearing you it shook.

GLENDOWER

The heavens were all on fire, the earth did tremble.

HOTSPUR

O, then the earth shook to see the heavens on fire,

And not in fear of your nativity.

Diseased nature oftentimes breaks forth

In strange eruptions; oft the teeming earth

Is with a kind of colic pinch’d and vex’d

By the imprisoning of unruly wind

Within her womb; which, for enlargement striving,

Shakes the old beldam earth and topples down

Steeples and moss-grown towers. At your birth

Our grandam earth, having this distemperature,

In passion shook.

GLENDOWER

Cousin, of many men

I do not bear these crossings. Give me leave

To tell you once again that at my birth

The front of heaven was full of fiery shapes,

The goats ran from the mountains, and the herds

Were strangely clamorous to the frighted fields.

These signs have mark’d me extraordinary;

And all the courses of my life do show

I am not in the roll of common men.

Where is he living, clipp’d in with the sea

That chides the banks of England, Scotland, Wales,

Which calls me pupil, or hath read to me?

And bring him out that is but woman’s son

Can trace me in the tedious ways of art

And hold me pace in deep experiments.

HOTSPUR

I think there’s no man speaks better Welsh.

I’ll to dinner.”

GLENDOWER

I can call spirits from the vasty deep.

HOTSPUR

Why, so can I, or so can any man;

But will they come when you do call for them?

GLENDOWER

Why, I can teach you, cousin, to command

The devil.

HOTSPUR

And I can teach thee, coz, to shame the devil

By telling truth: tell truth and shame the devil.

If thou have power to raise him, bring him hither,

And I’ll be sworn I have power to shame him hence.

O, while you live, tell truth and shame the devil!

MORTIMER

Come, come, no more of this unprofitable chat.”

MORTIMER

(…)

England, from Trent and Severn hitherto,

By south and east is to my part assign’d:

All westward, Wales beyond the Severn shore,

And all the fertile land within that bound,

To Owen Glendower: and, dear coz, to you

The remnant northward, lying off from Trent.

And our indentures tripartite are drawn;

Which being sealed interchangeably,

A business that this night may execute,

To-morrow, cousin Percy, you and I

And my good Lord of Worcester will set forth

To meet your father and the Scottish power,

As is appointed us, at Shrewsbury.

My father Glendower is not ready yet,

Not shall we need his help these fourteen days.

Within that space you may have drawn together

Your tenants, friends and neighbouring gentlemen.”

HOTSPUR

Methinks my moiety, north from Burton here,

In quantity equals not one of yours:

See how this river comes me cranking in,

And cuts me from the best of all my land

A huge half-moon, a monstrous cantle out.

I’ll have the current in this place damm’d up;

And here the smug and silver Trent shall run

In a new channel, fair and evenly;

It shall not wind with such a deep indent,

To rob me of so rich a bottom here.

GLENDOWER

Not wind? it shall, it must; you see it doth.

MORTIMER

Yea, but

Mark how he bears his course, and runs me up

With like advantage on the other side;

Gelding the opposed continent as much

As on the other side it takes from you.”

HOTSPUR

Will not you?

GLENDOWER

No, nor you shall not.

HOTSPUR

Who shall say me nay?

GLENDOWER

Why, that will I.

HOTSPUR

Let me not understand you, then; speak it in Welsh.

GLENDOWER

I can speak English, lord, as well as you;

For I was train’d up in the English court;

Where, being but young, I framed to the harp

Many an English ditty lovely well

And gave the tongue a helpful ornament,

A virtue that was never seen in you.

HOTSPUR

Marry,

And I am glad of it with all my heart:

I had rather be a kitten and cry mew

Than one of these same metre ballad-mongers;

I had rather hear a brazen canstick turn’d,

Or a dry wheel grate on the axle-tree;

And that would set my teeth nothing on edge,

Nothing so much as mincing poetry:

Tis like the forced gait of a shuffling nag.”

HOTSPUR

E que sorte a minha!

Agradeço de todo coração não ter o dom;

Preferia mil vezes ser um gatinho que faz miau

Que recitar baladinhas num sarau

Decassilábicas e paraxítonas

Preferia mesmo ouvir rodar uma girândola,

Uma roda sem óleo raspando no seu eixo,

Do que esses mimos pegajosos

Chamados poesia!

É como o trote forçado de um pangaré aleijado!”

Exit GLENDOWER

MORTIMER

Fie, cousin Percy! how you cross my father!

HOTSPUR

I cannot choose: sometime he angers me

With telling me of the mouldwarp and the ant,

Of the dreamer Merlin and his prophecies,

And of a dragon and a finless fish,

A clip-wing’d griffin and a moulten raven,

A couching lion and a ramping cat,

And such a deal of skimble-skamble stuff

As puts me from my faith. I tell you what;

He held me last night at least nine hours

In reckoning up the several devils’ names

That were his lackeys: I cried <hum>, and <well, go to>,

But mark’d him not a word. O, he is as tedious

As a tired horse, a railing wife;

Worse than a smoky house: I had rather live

With cheese and garlic in a windmill, far,

Than feed on cates [gostosuras] and have him talk to me

In any summer-house in Christendom.

MORTIMER

In faith, he is a worthy gentleman,

Exceedingly well read, and profited

In strange concealments, valiant as a lion

And as wondrous affable and as bountiful

As mines of India. Shall I tell you, cousin?

He holds your temper in a high respect

And curbs himself even of his natural scope

When you come ‘cross his humour; faith, he does:

I warrant you, that man is not alive

Might so have tempted him as you have done,

Without the taste of danger and reproof:

But do not use it oft, let me entreat you.”

MORTIMER

This is the deadly spite that angers me;

My wife can speak no English, I no Welsh.”

Glendower speaks to her in Welsh, and she answers him in the same

GLENDOWER

She is desperate here; a peevish self-wind harlotry,

one that no persuasion can do good upon.

The lady speaks in Welsh

MORTIMER

I understand thy looks: that pretty Welsh

Which thou pour’st down from these swelling heavens

I am too perfect in; and, but for shame,

In such a parley should I answer thee.

The lady speaks again in Welsh

I understand thy kisses and thou mine,

And that’s a feeling disputation:

But I will never be a truant, love,

Till I have learned thy language; for thy tongue

Makes Welsh as sweet as ditties highly penn’d,

Sung by a fair queen in a summer’s bower,

With ravishing division, to her lute.

GLENDOWER

Nay, if you melt, then will she run mad.

The lady speaks again in Welsh

MORTIMER

O, I am ignorance itself in this!”

The music plays

HOTSPUR

Now I perceive the devil understands Welsh;

And ‘tis no marvel he is so humorous.

By’r lady, he is a good musician.”

Você jura como a mulher dum confeiteiro”

KING HENRY IV

For all the world

As thou art to this hour was Richard then

When I from France set foot at Ravenspurgh,

And even as I was then is Percy now.

Now, by my sceptre and my soul to boot,

He hath more worthy interest to the state

Than thou the shadow of succession;

For of no right, nor colour like to right,

He doth fill fields with harness in the realm,

Turns head against the lion’s armed jaws,

And, being no more in debt to years than thou,

Leads ancient lords and reverend bishops on

To bloody battles and to bruising arms.

What never-dying honour hath he got

Against renowned Douglas! whose high deeds,

Whose hot incursions and great name in arms

Holds from all soldiers chief majority

And military title capital

Through all the kingdoms that acknowledge Christ:

Thrice hath this Hotspur, Mars in swathling clothes,

This infant warrior, in his enterprises

Discomfited great Douglas, ta’en him once,

Enlarged him and made a friend of him,

To fill the mouth of deep defiance up

And shake the peace and safety of our throne.

And what say you to this? Percy, Northumberland,

The Archbishop’s grace of York, Douglas, Mortimer,

Capitulate against us and are up.

But wherefore do I tell these news to thee?

Why, Harry, do I tell thee of my foes,

Which art my near’st and dearest enemy?

Thou that art like enough, through vassal fear,

Base inclination and the start of spleen

To fight against me under Percy’s pay,

To dog his heels and curtsy at his frowns,

To show how much thou art degenerate.”

FALSTAFF

Why, there is it: come sing me a bawdy song; make

me merry. I was as virtuously given as a gentleman

need to be; virtuous enough; swore little; diced not

above seven times a week; went to a bawdy-house once

in a quarter–of an hour; paid money that I

borrowed, three of four times; lived well and in

good compass: and now I live out of all order, out

of all compass.

BARDOLPH

Why, you are so fat, Sir John, that you must needs

be out of all compass, out of all reasonable

compass, Sir John.”

Yet all goes well, yet all our joints are whole.”

HOTSPUR

Forty let it be:

My father and Glendower being both away,

The powers of us may serve so great a day

Come, let us take a muster speedily:

Doomsday is near; die all, die merrily.

EARL OF DOUGLAS

Talk not of dying: I am out of fear

Of death or death’s hand for this one-half year.

Exeunt

FALSTAFF

Tut, never fear me: I am as vigilant as a cat to

steal cream.

PRINCE HENRY

I think, to steal cream indeed, for thy theft hath

already made thee butter. But tell me, Jack, whose

fellows are these that come after?

FALSTAFF

Mine, Hal, mine.

PRINCE HENRY

I did never see such pitiful rascals.

FALSTAFF

Tut, tut; good enough to toss; food for powder, food

for powder; they’ll fill a pit as well as better:

tush, man, mortal men, mortal men.

WESTMORELAND

Ay, but, Sir John, methinks they are exceeding poor

and bare, too beggarly.

FALSTAFF

Faith, for their poverty, I know not where they had

that; and for their bareness, I am sure they never

learned that of me.

PRINCE HENRY

No I’ll be sworn; unless you call three fingers on

the ribs bare. But, sirrah, make haste: Percy is

already in the field.”

EARL OF WORCESTER

Good cousin [Deafspur], be advised; stir not tonight.

VERNON

Do not, my lord.

EARL OF DOUGLAS

You do not counsel well:

You speak it out of fear and cold heart.”

VERNON

Come, come it nay not be. I wonder much,

Being men of such great leading as you are,

That you foresee not what impediments

Drag back our expedition: certain horse

Of my cousin Vernon’s are not yet come up:

Your uncle Worcester’s horse came but today;

And now their pride and mettle is asleep,

Their courage with hard labour tame and dull,

That not a horse is half the half of himself.”

Atualmente os cavalos não são nem a metade da metade de si mesmos.

SIR WALTER BLUNT

I come with gracious offers from the king,

if you vouchsafe me hearing and respect.

HOTSPUR

Welcome, Sir Walter Blunt; and would to God

You were of our determination!

Some of us love you well; and even those some

Envy your great deservings and good name,

Because you are not of our quality,

But stand against us like an enemy.”

HOTSPUR

The king is kind; and well we know the king

Knows at what time to promise, when to pay.

My father and my uncle and myself

Did give him that same royalty he wears;

And when he was not six and twenty strong,

Sick in the world’s regard, wretched and low,

A poor unminded outlaw sneaking home,

My father gave him welcome to the shore;

And when he heard him swear and vow to God

He came but to be Duke of Lancaster,

To sue his livery and beg his peace,

With tears of innocency and terms of zeal,

My father, in kind heart and pity moved,

Swore him assistance and perform’d it too.

Now when the lords and barons of the realm

Perceived Northumberland did lean to him,

The more and less came in with cap and knee;

Met him in boroughs, cities, villages,

Attended him on bridges, stood in lanes,

Laid gifts before him, proffer’d him their oaths,

Gave him their heirs, as pages follow’d him

Even at the heels in golden multitudes.

He presently, as greatness knows itself,

Steps me a little higher than his vow

Made to my father, while his blood was poor,

Upon the naked shore at Ravenspurgh;

And now, forsooth, takes on him to reform

Some certain edicts and some strait decrees

That lie too heavy on the commonwealth,

Cries out upon abuses, seems to weep

Over his country’s wrongs; and by this face,

This seeming brow of justice, did he win

The hearts of all that he did angle for;

Proceeded further; cut me off the heads

Of all the favourites that the absent king

In deputation left behind him here,

When he was personal in the Irish war.

SIR WALTER BLUNT

Tut, I came not to hear this.”

EARL OF WORCESTER

It pleased your majesty to turn your looks

Of favour from myself and all our house;

And yet I must remember you, my lord,

We were the first and dearest of your friends.

For you my staff of office did I break

In Richard’s time; and posted day and night

to meet you on the way, and kiss your hand,

When yet you were in place and in account

Nothing so strong and fortunate as I.

It was myself, my brother and his son,

That brought you home and boldly did outdare

The dangers of the time. You swore to us,

And you did swear that oath at Doncaster,

That you did nothing purpose ‘gainst the state;

Nor claim no further than your new-fall’n right,

The seat of Gaunt, dukedom of Lancaster:

To this we swore our aid. But in short space

It rain’d down fortune showering on your head;

And such a flood of greatness fell on you,

What with our help, what with the absent king,

What with the injuries of a wanton time,

The seeming sufferances that you had borne,

And the contrarious winds that held the king

So long in his unlucky Irish wars

That all in England did repute him dead:

And from this swarm of fair advantages

You took occasion to be quickly woo’d

To gripe the general sway into your hand;

Forget your oath to us at Doncaster;

And being fed by us you used us so

As that ungentle hull, the cuckoo’s bird,

Useth the sparrow; did oppress our nest;

Grew by our feeding to so great a bulk

That even our love durst not come near your sight

For fear of swallowing; but with nimble wing

We were enforced, for safety sake, to fly

Out of sight and raise this present head;

Whereby we stand opposed by such means

As you yourself have forged against yourself

By unkind usage, dangerous countenance,

And violation of all faith and troth

Sworn to us in your younger enterprise.”

Both he and they and you, every man

Shall be my friend again and I’ll be his:

So tell your cousin, and bring me word

What he will do: but if he will not yield,

Rebuke and dread correction wait on us

And they shall do their office. So, be gone;

We will not now be troubled with reply:

We offer fair; take it advisedly.”

FALSTAFF

Hal, if thou see me down in the battle and bestride

me, so; ‘tis a point of friendship.

PRINCE HENRY

Nothing but a colossus can do thee that friendship.

Say thy prayers, and farewell.

FALSTAFF

I would ‘twere bed-time, Hal, and all well.

PRINCE HENRY

Why, thou owest God a death.”

Well, ‘tis no matter; honour pricks

me on. Yea, but how if honour prick me off when I

come on? how then? Can honour set to a leg? no: or

an arm? no: or take away the grief of a wound? no.

Honour hath no skill in surgery, then? no. What is

honour? a word. What is in that word honour? what

is that honour? air. A trim reckoning! Who hath it?

he that died o’ Wednesday. Doth he feel it? no.

Doth he hear it? no. ‘Tis insensible, then. Yea,

to the dead. But will it not live with the living?

no. Why? detraction will not suffer it. Therefore

I’ll none of it. Honour is a mere scutcheon: and so

ends my catechism.

Exit

The king should keep his word in loving us;

He will suspect us still and find a time

To punish this offence in other faults:

Suspicion all our lives shall be stuck full of eyes;

For treason is but trusted like the fox,

Who, ne’er so tame, so cherish’d and lock’d up,

Will have a wild trick of his ancestors.

Look how we can, or sad or merrily,

Interpretation will misquote our looks,

And we shall feed like oxen at a stall,

The better cherish’d, still the nearer death.

My nephew’s trespass may be well forgot;

it hath the excuse of youth and heat of blood,

And an adopted name of privilege,

A hair-brain’d Hotspur, govern’d by a spleen:

All his offences live upon my head

And on his father’s; we did train him on,

And, his corruption being ta’en from us,

We, as the spring of all, shall pay for all.

Therefore, good cousin, let not Harry know,

In any case, the offer of the king.”

EARL OF WORCESTER

The Prince of Wales stepp’d forth before the king,

And, nephew, challenged you to single fight.

HOTSPUR

O, would the quarrel lay upon our heads,

And that no man might draw short breath today

But I and Harry Monmouth! Tell me, tell me,

How show’d his tasking? seem’d it in contempt?

VERNON

No, by my soul; I never in my life

Did hear a challenge urged more modestly,

Unless a brother should a brother dare

To gentle exercise and proof of arms.

He gave you all the duties of a man;

Trimm’d up your praises with a princely tongue,

Spoke to your deservings like a chronicle,

Making you ever better than his praise

By still dispraising praise valued in you;

And, which became him like a prince indeed,

He made a blushing cital of himself;

And chid his truant youth with such a grace

As if he master’d there a double spirit.

Of teaching and of learning instantly.

There did he pause: but let me tell the world,

If he outlive the envy of this day,

England did never owe so sweet a hope,

So much misconstrued in his wantonness.

HOTSPUR

Cousin, I think thou art enamoured

On his follies: never did I hear

Of any prince so wild a libertine.

But be he as he will, yet once ere night

I will embrace him with a soldier’s arm,

That he shall shrink under my courtesy.

Arm, arm with speed: and, fellows, soldiers, friends,

Better consider what you have to do

Than I, that have not well the gift of tongue,

Can lift your blood up with persuasion.”

An if we live, we live to tread on kings;

If die, brave death, when princes die with us!”

They fight. DOUGLAS kills SIR WALTER BLUNT. Enter HOTSPUR”

HOTSPUR

This, Douglas? no: I know this face full well:

A gallant knight he was, his name was Blunt;

Semblably furnish’d like the king himself.

EARL OF DOUGLAS

A fool go with thy soul, whither it goes!

A borrow’d title hast thou bought too dear:

Why didst thou tell me that thou wert a king?

HOTSPUR

The king hath many marching in his coats.

EARL OF DOUGLAS

Now, by my sword, I will kill all his coats;

I’ll murder all his wardrobe, piece by piece,

Until I meet the king.

HOTSPUR

Up, and away!

Our soldiers stand full fairly for the day.

Exeunt

FALSTAFF

(…) I am as hot as moulten

lead, and as heavy too: God keep lead out of me! I

need no more weight than mine own bowels. I have

led my ragamuffins where they are peppered: there’s

not three of my hundred and fifty left alive; and

they are for the town’s end, to beg during life.

But who comes here?”

PRINCE HENRY

Give it to me: what, is it in the case?

FALSTAFF

Ay, Hal; ‘tis hot, ‘tis hot; there’s that will sack a city.

PRINCE HENRY draws it out, and finds it to be a bottle of sack

PRINCE HENRY

What, is it a time to jest and dally now?

He throws the bottle at him. Exit

For God’s sake, gimme some sack!

Enter DOUGLAS

EARL OF DOUGLAS

Another king! they grow like Hydra’s heads:

I am the Douglas, fatal to all those

That wear those colours on them: what art thou,

That counterfeit’st the person of a king?

KING HENRY IV

The king himself; who, Douglas, grieves at heart

So many of his shadows thou hast met

And not the very king. I have two boys

Seek Percy and thyself about the field:

But, seeing thou fall’st on me so luckily,

I will assay thee: so, defend thyself.”

They fight. KING HENRY being in danger, PRINCE HENRY enters”

KING HENRY IV

Stay, and breathe awhile:

Thou hast redeem’d thy lost opinion,

And show’d thou makest some tender of my life,

In this fair rescue thou hast brought to me.”

Enter HOTSPUR

HOTSPUR

If I mistake not, thou art Harry Monmouth.

PRINCE HENRY

Thou speak’st as if I would deny my name.

HOTSPUR

My name is Harry Percy.

PRINCE HENRY

Why, then I see

A very valiant rebel of the name.

I am the Prince of Wales; and think not, Percy,

To share with me in glory any more:

Two stars keep not their motion in one sphere;

Nor can one England brook a double reign,

Of Harry Percy and the Prince of Wales.”

They fight

Enter FALSTAFF

FALSTAFF

Well said, Hal! to it Hal! Nay, you shall find no

boy’s play here, I can tell you.

Re-enter DOUGLAS; he fights with FALSTAFF, who falls down as if he were dead, and exit DOUGLAS. HOTSPUR is wounded, and falls

HOTPUR’S LAST DISCOURSE

“…But thought’s the slave of life, and life time’s fool”

Mas pensamentos são os escravos da vida, e os tolos de uma vida vivida.

When that this body did contain a spirit,

A kingdom for it was too small a bound;

But now two paces of the vilest earth

Is room enough: this earth that bears thee dead

Bears not alive so stout a gentleman.

If thou wert sensible of courtesy,

I should not make so dear a show of zeal:

But let my favours hide thy mangled face;

And, even in thy behalf, I’ll thank myself

For doing these fair rites of tenderness.

Adieu, and take thy praise with thee to heaven!

Thy ignominy sleep with thee in the grave,

But not remember’d in thy epitaph!

He spieth FALSTAFF on the ground

What, old acquaintance! could not all this flesh

Keep in a little life? Poor Jack, farewell!

I could have better spared a better man:

O, I should have a heavy miss of thee,

If I were much in love with vanity!

Death hath not struck so fat a deer to-day,

Though many dearer, in this bloody fray.

Embowell”d will I see thee by and by:

Till then in blood by noble Percy lie.

Exit PRINCE HENRY

Counterfeit? I lie, I am no counterfeit: to die,

is to be a counterfeit; for he is but the

counterfeit of a man who hath not the life of a man:

but to counterfeit dying, when a man thereby

liveth, is to be no counterfeit, but the true and

perfect image of life indeed. The better part of

valour is discretion; in the which better part I

have saved my life. ‘Zounds, I am afraid of this

gunpowder Percy, though he be dead: how, if he

should counterfeit too and rise? by my faith, I am

afraid he would prove the better counterfeit.

Therefore I’ll make him sure; yea, and I’ll swear I

killed him. Why may not he rise as well as I?

Nothing confutes me but eyes, and nobody sees me.

Therefore, sirrah,

Stabbing him

with a new wound in your thigh, come you along with me.

Takes up HOTSPUR on his back

Re-enter PRINCE HENRY and LORD JOHN OF LANCASTER

PRINCE HENRY

Come, brother John; full bravely hast thou flesh’d

Thy maiden sword.

LANCASTER

But, soft! whom have we here?

Did you not tell me this fat man was dead?

PRINCE HENRY

I did; I saw him dead,

Breathless and bleeding on the ground. Art

thou alive?

Or is it fantasy that plays upon our eyesight?

I prithee, speak; we will not trust our eyes

Without our ears: thou art not what thou seem’st.

FALSTAFF

No, that’s certain; I am not a double man: but if I

be not Jack Falstaff, then am I a Jack. There is Percy:

Throwing the body down

if your father will do me any honour, so; if not, let

him kill the next Percy himself. I look to be either

earl or duke, I can assure you.

PRINCE HENRY

Why, Percy I killed myself and saw thee dead.

FALSTAFF

Didst thou? Lord, Lord, how this world is given to

lying! I grant you I was down and out of breath;

and so was he: but we rose both at an instant and

fought a long hour by Shrewsbury clock. If I may be

believed, so; if not, let them that should reward

valour bear the sin upon their own heads. I’ll take

it upon my death, I gave him this wound in the

thigh: if the man were alive and would deny it,

zounds, I would make him eat a piece of my sword.

LANCASTER

This is the strangest tale that ever I heard.

PRINCE HENRY

This is the strangest fellow, brother John.

Come, bring your luggage nobly on your back:

For my part, if a lie may do thee grace,

I’ll gild it with the happiest terms I have.

A retreat is sounded

He that rewards me, God reward him! If I do grow great,

I’ll grow less; for I’ll purge, and leave sack, and

live cleanly as a nobleman should do.”

The noble Scot, Lord Douglas, when he saw

The fortune of the day quite turn’d from him,

The noble Percy slain, and all his men

Upon the foot of fear, fled with the rest;

And falling from a hill, he was so bruised

That the pursuers took him. At my tent

The Douglas is; and I beseech your grace

I may dispose of him.”

Rebellion in this land shall lose his sway,

Meeting the cheque of such another day:

And since this business so fair is done,

Let us not leave till all our own be won.

Exeunt

RUMOUR

Open your ears; for which of you will stop

The vent of hearing when loud Rumour speaks?

I, from the orient to the drooping west,

Making the wind my post-horse, still unfold

The acts commenced on this ball of earth:

Upon my tongues continual slanders ride,

The which in every language I pronounce,

Stuffing the ears of men with false reports.

I speak of peace, while covert enmity

Under the smile of safety wounds the world:

And who but Rumour, who but only I,

Make fearful musters and prepared defence,

Whiles the big year, swoln with some other grief,

Is thought with child by the stern tyrant war,

And no such matter? Rumour is a pipe

Blown by surmises, jealousies, conjectures

And of so easy and so plain a stop

That the blunt monster with uncounted heads,

The still-discordant wavering multitude,

Can play upon it. But what need I thus

My well-known body to anatomize

Among my household? Why is Rumour here?

I run before King Harry’s victory;

Who in a bloody field by Shrewsbury

Hath beaten down young Hotspur and his troops,

Quenching the flame of bold rebellion

Even with the rebel’s blood. But what mean I

To speak so true at first? my office is

To noise abroad that Harry Monmouth fell

Under the wrath of noble Hotspur’s sword,

And that the king before the Douglas’ rage

Stoop’d his anointed head as low as death.

This have I rumour’d through the peasant towns

Between that royal field of Shrewsbury

And this worm-eaten hold of ragged stone,

Where Hotspur’s father, old Northumberland,

Lies crafty-sick: the posts come tiring on,

And not a man of them brings other news

Than they have learn’d of me: from Rumour’s tongues

They bring smooth comforts false, worse than

true wrongs.

Exit

LORD BARDOLPH

As good as heart can wish:

The king is almost wounded to the death;

And, in the fortune of my lord your son,

Prince Harry slain outright; and both the Blunts

Kill’d by the hand of Douglas; young Prince John

And Westmoreland and Stafford fled the field;

And Harry Monmouth’s brawn, the hulk Sir John,

Is prisoner to your son: O, such a day,

So fought, so follow’d and so fairly won,

Came not till now to dignify the times,

Since Caesar’s fortunes!

NORTHUMBERLAND

How is this derived?

Saw you the field? came you from Shrewsbury?

LORD BARDOLPH

I spake with one, my lord, that came from thence,

A gentleman well bred and of good name,

That freely render’d me these news for true.

NORTHUMBERLAND

Here comes my servant Travers, whom I sent

On Tuesday last to listen after news.

Enter TRAVERS

I did demand what news from Shrewsbury:

He told me that rebellion had bad luck

And that young Harry Percy’s spur was cold.

With that, he gave his able horse the head,

And bending forward struck his armed heels

Against the panting sides of his poor jade

Up to the rowel-head, and starting so

He seem’d in running to devour the way,

Staying no longer question.

NORTHUMBERLAND

Ha! Again:

Said he young Harry Percy’s spur was cold?

Of Hotspur Coldspur? that rebellion

Had met ill luck?”

NORTHUMBERLAND

How doth my son and brother?

Thou tremblest; and the whiteness in thy cheek

Is apter than thy tongue to tell thy errand.

Even such a man, so faint, so spiritless,

So dull, so dead in look, so woe-begone,

Drew Priam’s curtain in the dead of night,

And would have told him half his Troy was burnt;

But Priam found the fire ere he his tongue,

And I my Percy’s death ere thou report’st it.

This thou wouldst say, <Your son did thus and thus;

Your brother thus: so fought the noble Douglas:>

Stopping my greedy ear with their bold deeds:

But in the end, to stop my ear indeed,

Thou hast a sigh to blow away this praise,

Ending with <Brother, son, and all are dead.>

MORTON

Douglas is living, and your brother, yet;

But, for my lord your son–”

And as the thing that’s heavy in itself,

Upon enforcement flies with greatest speed,

So did our men, heavy in Hotspur’s loss,

Lend to this weight such lightness with their fear

That arrows fled not swifter toward their aim

Than did our soldiers, aiming at their safety,

Fly from the field.

NORTHUMBERLAND

For this I shall have time enough to mourn.

In poison there is physic; and these news,

Having been well, that would have made me sick,

Being sick, have in some measure made me well:

And as the wretch, whose fever-weaken’d joints,

Like strengthless hinges, buckle under life,

Impatient of his fit, breaks like a fire

Out of his keeper’s arms, even so my limbs,

Weaken’d with grief, being now enraged with grief,

Are thrice themselves. Hence, therefore, thou nice crutch!

A scaly gauntlet now with joints of steel

Must glove this hand: and hence, thou sickly quoif!

Thou art a guard too wanton for the head

Which princes, flesh’d with conquest, aim to hit.

Now bind my brows with iron; and approach

The ragged’st hour that time and spite dare bring

To frown upon the enraged Northumberland!

Let heaven kiss earth! now let not Nature’s hand

Keep the wild flood confined! let order die!

And let this world no longer be a stage

To feed contention in a lingering act;

But let one spirit of the first-born Cain

Reign in all bosoms, that, each heart being set

On bloody courses, the rude scene may end,

And darkness be the burier of the dead!

TRAVERS

This strained passion doth you wrong, my lord.

MORTON

(…)

You cast the event of war, my noble lord,

And summ’d the account of chance, before you said

<Let us make head.> It was your presurmise,

That, in the dole of blows, your son might drop:

You knew he walk’d o’er perils, on an edge,

More likely to fall in than to get o’er;

You were advised his flesh was capable

Of wounds and scars and that his forward spirit

Would lift him where most trade of danger ranged:

Yet did you say <Go forth;> and none of this,

Though strongly apprehended, could restrain

The stiff-borne action: what hath then befallen,

Or what hath this bold enterprise brought forth,

More than that being which was like to be?

LORD BARDOLPH

We all that are engaged to this loss

Knew that we ventured on such dangerous seas

That if we wrought our life ‘twas ten to one;

And yet we ventured, for the gain proposed

Choked the respect of likely peril fear’d;

And since we are o’erset, venture again.

Come, we will all put forth, body and goods.”

MORTON

(…)

For that same word, rebellion, did divide

The action of their bodies from their souls;

And they did fight with queasiness, constrain’d,

As men drink potions, that their weapons only

Seem’d on our side; but, for their spirits and souls,

This word, rebellion, it had froze them up,

As fish are in a pond. But now the bishop

Turns insurrection to religion:

Supposed sincere and holy in his thoughts,

He’s followed both with body and with mind;

And doth enlarge his rising with the blood

Of fair King Richard, scraped from Pomfret stones;

Derives from heaven his quarrel and his cause;

Tells them he doth bestride a bleeding land,

Gasping for life under great Bolingbroke;

And more and less do flock to follow him.”

FALSTAFF

(…) the brain of this foolish-compounded clay, man, is not able to invent anything that tends to laughter, more than I invent or is invented on me: I am not only witty in myself, but the cause that wit is in other men.”

I will sooner have a beard grow in the palm of my hand than he shall get one on his cheek”

I looked a’ should have sent me two-and-twenty yards of satin, as I am a true knight, and he sends me security. Well, he may sleep in security; for he hath the horn of abundance, and the lightness of his wife shines through it”

Servant

Sir John Falstaff!

FALSTAFF

Boy, tell him I am deaf.

Page

You must speak louder; my master is deaf.

Lord Chief-Justice

I am sure he is, to the hearing of any thing good. Go, pluck him by the elbow; I must speak with him.

Servant

Sir John!

FALSTAFF

What! a young knave, and begging! Is there not wars? is there not employment? doth not the king lack subjects? do not the rebels need soldiers? Though it be a shame to be on any side but one, it is worse shame to beg than to be on the worst side, were it worse than the name of rebellion can tell how to make it.

Servant

You mistake me, sir.

FALSTAFF

Why, sir, did I say you were an honest man? setting my knighthood and my soldiership aside, I had lied in my throat, if I had said so.

Servant

I pray you, sir, then set your knighthood and our soldiership aside; and give me leave to tell you, you lie in your throat, if you say I am any other than an honest man.

FALSTAFF

I give thee leave to tell me so! I lay aside that which grows to me! if thou gettest any leave of me, hang me; if thou takest leave, thou wert better be hanged. You hunt counter: hence! avaunt!

Servant

Sir, my lord would speak with you.

Lord Chief-Justice

Sir John Falstaff, a word with you.

FALSTAFF

My good lord! God give your lordship good time of day. I am glad to see your lordship abroad: I heard say your lordship was sick: I hope your lordship goes abroad by advice. Your lordship, though not clean past your youth, hath yet some smack of age in you, some relish of the saltness of time; and I must humbly beseech your lordship to have a reverent care of your health.

Lord Chief-Justice

Sir John, I sent for you before your expedition to Shrewsbury.

FALSTAFF

An’t please your lordship, I hear his majesty is returned with some discomfort from Wales.

Lord Chief-Justice

I talk not of his majesty: you would not come when I sent for you.

FALSTAFF

And I hear, moreover, his highness is fallen into this same whoreson apoplexy.

Lord Chief-Justice

Well, God mend him! I pray you, let me speak with you.

FALSTAFF

This apoplexy is, as I take it, a kind of lethargy, an’t please your lordship; a kind of sleeping in the

blood, a whoreson tingling.

Lord Chief-Justice

What tell you me of it? be it as it is.

FALSTAFF

It hath its original from much grief, from study and perturbation of the brain: I have read the cause of his effects in Galen: it is a kind of deafness.

Lord Chief-Justice

I think you are fallen into the disease; for you hear not what I say to you.

FALSTAFF

Very well, my lord, very well: rather, an’t please you, it is the disease of not listening, the malady of not marking, that I am troubled withal.

Lord Chief-Justice

To punish you by the heels would amend the attention of your ears; and I care not if I do become your physician.

FALSTAFF

I am as poor as Job, my lord, but not so patient: your lordship may minister the potion of imprisonment to me in respect of poverty; but how should I be your patient to follow your prescriptions, the wise may make some dram of a scruple, or indeed a scruple itself.

Lord Chief-Justice

I sent for you, when there were matters against you for your life, to come speak with me.

FALSTAFF

As I was then advised by my learned counsel in the laws of this land-service, I did not come.

Lord Chief-Justice

Well, the truth is, Sir John, you live in great infamy.

FALSTAFF

He that buckles him in my belt cannot live in less.

Lord Chief-Justice

Your means are very slender, and your waste is great.

FALSTAFF

I would it were otherwise; I would my means were greater, and my waist slenderer.

Lord Chief-Justice

You have misled the youthful prince.

FALSTAFF

The young prince hath misled me: I am the fellow with the great belly, and he my dog.

Lord Chief-Justice

Well, I am loath to gall a new-healed wound: your day’s service at Shrewsbury hath a little gilded over your night’s exploit on Gadshill: you may thank the unquiet time for your quiet o’er-posting that action.

FALSTAFF

My lord?

Lord Chief-Justice

But since all is well, keep it so: wake not a sleeping wolf.

FALSTAFF

To wake a wolf is as bad as to smell a fox.

Lord Chief-Justice

What! you are as a candle, the better part burnt out.

FALSTAFF

A wassail candle, my lord, all tallow: if I did say of wax, my growth would approve the truth.

Lord Chief-Justice

There is not a white hair on your face but should have his effect of gravity.

FALSTAFF

His effect of gravy, gravy, gravy [recompense, suco da carne].

Lord Chief-Justice

You follow the young prince up and down, like his ill angel.

FALSTAFF

Not so, my lord; your ill angel is light; but I hope he that looks upon me will take me without weighing: and yet, in some respects, I grant, I cannot go: I cannot tell. Virtue is of so little regard in these costermonger times that true valour is turned bear-herd: pregnancy is made a tapster, and hath his quick wit wasted in giving reckonings: all the other gifts appertinent to man, as the malice of this age shapes them, are not worth a gooseberry. You that are old consider not the capacities of us that are young; you do measure the heat of our livers with the bitterness of your galls: and we that are in the vaward of our youth, I must confess, are wags too.

Lord Chief-Justice

Do you set down your name in the scroll of youth, that are written down old with all the characters of age? Have you not a moist eye? a dry hand? a yellow cheek? a white beard? a decreasing leg? an increasing belly? is not your voice broken? your wind short? your chin double? your wit single? and every part about you blasted with antiquity? and will you yet call yourself young? Fie, fie, fie, Sir John!

FALSTAFF

My lord, I was born about three of the clock in the afternoon, with a white head and something a round belly. For my voice, I have lost it with halloing and singing of anthems. To approve my youth further, I will not: the truth is, I am only old in judgment and understanding; and he that will caper with me for a thousand marks, let him lend me the money, and have at him! For the box of the ear that the prince gave you, he gave it like a rude prince, and you took it like a sensible lord. I have chequed him for it, and the young lion repents; marry, not in ashes and sackcloth, but in new silk and old sack.

Lord Chief-Justice

Well, God send the prince a better companion!

FALSTAFF

God send the companion a better prince! I cannot rid my hands of him.

Lord Chief-Justice

Well, the king hath severed you and Prince Harry: I hear you are going with Lord John of Lancaster against the Archbishop and the Earl of Northumberland.

FALSTAFF

Yea; I thank your pretty sweet wit for it. But look you pray, all you that kiss my lady Peace at home, that our armies join not in a hot day; for, by the Lord, I take but two shirts out with me, and I mean not to sweat extraordinarily: if it be a hot day, and I brandish any thing but a bottle, I would I might never spit white again. There is not a dangerous action can peep out his head but I am thrust upon it: well, I cannot last ever: but it was alway yet the trick of our English nation, if they have a good thing, to make it too common. If ye will needs say I am an old man, you should give me rest. I would to God my name were not so terrible to the enemy as it is: I were better to be eaten to death with a rust than to be scoured to nothing with perpetual motion.

Lord Chief-Justice

Well, be honest, be honest; and God bless your expedition!

FALSTAFF

Will your lordship lend me a thousand pound to furnish me forth?

Lord Chief-Justice

Not a penny, not a penny; you are too impatient to bear crosses. Fare you well: commend me to my cousin Westmoreland.

Exeunt Chief-Justice and Servant

FALSTAFF

If I do, fillip me with a three-man beetle. A man can no more separate age and covetousness than a’ can part young limbs and lechery: but the gout galls the one, and the pox pinches the other; and so both the degrees prevent my curses. Boy!

Page

Sir?

FALSTAFF

What money is in my purse?

Page

Seven groats and two pence.

FALSTAFF

I can get no remedy against this consumption of the purse: borrowing only lingers and lingers it out, but the disease is incurable. Go bear this letter to my Lord of Lancaster; this to the prince; this to the Earl of Westmoreland; and this to old Mistress Ursula, whom I have weekly sworn to marry since I perceived the first white hair on my chin. About it: you know where to find me.

Exit Page

A pox of this gout! or, a gout of this pox! for the one or the other plays the rogue with my great toe. ‘Tis no matter if I do halt; I have the wars for my colour, and my pension shall seem the more reasonable. A good wit will make use of any thing: I will turn diseases to commodity.”

Exit

Não há um só perigo que brote em que no meio dele não me joguem! Oh, ok, ok, eu não posso durar para sempre, não é mesmo? Mas seria melhor se a Inglaterra, se é que a Inglaterra tem alguma qualidade, tivesse a qualidade e a prudência de não tornar comum essa coisa de gerar perigos! Ora, se vocês da côrte insistem que sou um velho, deveriam dar-me repouso! Eu peço a Deus que meu nome não permaneça tão terrível a meus adversários, tanto quanto o é agora! Seria melhor ser devorado pela morte por inação e ferrugem dos membros que ser reduzido a nada por esse perpétuo movimento!”

HASTINGS

Our present musters grow upon the file

To five and twenty thousand men of choice;

And our supplies live largely in the hope

Of great Northumberland, whose bosom burns

With an incensed fire of injuries.

LORD BARDOLPH

The question then, Lord Hastings, standeth thus;

Whether our present five and twenty thousand

May hold up head without Northumberland?

HASTINGS

With him, we may.

LORD BARDOLPH

Yea, marry, there’s the point:

But if without him we be thought too feeble,

My judgment is, we should not step too far

Till we had his assistance by the hand;

For in a theme so bloody-faced as this

Conjecture, expectation, and surmise

Of aids incertain should not be admitted.”

LORD BARDOLPH

(…) [THE ROSEBUDS OF WAR]

We see the appearing buds; which to prove fruit,

Hope gives not so much warrant as despair

That frosts will bite them. When we mean to build,

We first survey the plot, then draw the model;

And when we see the figure of the house,

Then must we rate the cost of the erection;

Which if we find outweighs ability,

What do we then but draw anew the model

In fewer offices, or at last desist

To build at all? Much more, in this great work,

Which is almost to pluck a kingdom down

And set another up, should we survey

The plot of situation and the model,

Consent upon a sure foundation,

Question surveyors, know our own estate,

How able such a work to undergo,

To weigh against his opposite; or else

We fortify in paper and in figures,

Using the names of men instead of men:

Like one that draws the model of a house

Beyond his power to build it; who, half through,

Gives o’er and leaves his part-created cost

A naked subject to the weeping clouds

And waste for churlish winter’s tyranny.”

LORD BARDOLPH

What, is the king but five and twenty thousand?

HASTINGS

To us no more; nay, not so much, Lord Bardolph.

For his divisions, as the times do brawl,

Are in three heads: one power against the French,

And one against Glendower; perforce a third

Must take up us: so is the unfirm king

In three divided; and his coffers sound

With hollow poverty and emptiness.”

ARCHBISHOP OF YORK

That he should draw his several strengths together

And come against us in full puissance,

Need not be dreaded.

HASTINGS

If he should do so,

He leaves his back unarm’d, the French and Welsh

Baying him at the heels: never fear that.

LORD BARDOLPH

Who is it like should lead his forces hither?

HASTINGS

The Duke of Lancaster and Westmoreland;

Against the Welsh, himself and Harry Monmouth:

But who is substituted ‘gainst the French,

I have no certain notice.”

ARCHBISHOP OF YORK

(…)

So, so, thou common dog, didst thou disgorge

Thy glutton bosom of the royal Richard;

And now thou wouldst eat thy dead vomit up,

And howl’st to find it. What trust is in

these times?

They that, when Richard lived, would have him die,

Are now become enamour’d on his grave:

Thou, that threw’st dust upon his goodly head

When through proud London he came sighing on

After the admired heels of Bolingbroke,

Criest now <O earth, yield us that king again,

And take thou this!> O thoughts of men accursed!

Past and to come seems best; things present worst.”

FANG

Snare, we must arrest Sir John Falstaff.

MISTRESS QUICKLY

Yea, good Master Snare; I have entered him and all.

SNARE

It may chance cost some of us our lives, for he will stab.

MISTRESS QUICKLY

Alas the day! take heed of him; he stabbed me in

mine own house, and that most beastly: in good

faith, he cares not what mischief he does. If his

weapon be out: he will foin like any devil; he will

spare neither man, woman, nor child.

FANG

If I can close with him, I care not for his thrust.

MISTRESS QUICKLY

No, nor I neither: I’ll be at your elbow.

FANG

An I but fist him once; an a’ come but within my vice,–

MISTRESS QUICKLY

I am undone by his going; I warrant you, he’s an

infinitive thing upon my score. Good Master Fang,

hold him sure: good Master Snare, let him not

scape.”

It is more than for some, my lord; it is for all,

all I have. He hath eaten me out of house and home;

he hath put all my substance into that fat belly of

his: but I will have some of it out again, or I

will ride thee o’ nights like the mare.”

thou didst swear to me then, as I was

washing thy wound, to marry me and make me my lady

thy wife. Canst thou deny it? Did not goodwife

Keech, the butcher’s wife, come in then and call me

gossip Quickly? coming in to borrow a mess of

vinegar; telling us she had a good dish of prawns;

whereby thou didst desire to eat some; whereby I

told thee they were ill for a green wound? And

didst thou not, when she was gone down stairs,

desire me to be no more so familiarity with such

poor people; saying that ere long they should call

me madam? And didst thou not kiss me and bid me

fetch thee thirty shillings? I put thee now to thy

book-oath: deny it, if thou canst.”

Lord Chief-Justice

Sir John, Sir John, I am well acquainted with your

manner of wrenching the true cause the false way. It

is not a confident brow, nor the throng of words

that come with such more than impudent sauciness

from you, can thrust me from a level consideration:

you have, as it appears to me, practised upon the

easy-yielding spirit of this woman, and made her

serve your uses both in purse and in person.”

Come, an ‘twere not for thy humours, there’s not a better wench in England.”

PRINCE HENRY

(…) my heart bleeds inwardly that my father is so

sick: and keeping such vile company as thou art

hath in reason taken from me all ostentation of sorrow.

POINS

The reason?

PRINCE HENRY

What wouldst thou think of me, if I should weep?

POINS

I would think thee a most princely hypocrite.”

PRINCE HENRY

From a God to a bull? a heavy decension! it was

Jove’s case. From a prince to a prentice? a low

transformation! that shall be mine; for in every

thing the purpose must weigh with the folly.”

Viúva LADY PERCY

In military rules, humours of blood,

He was the mark and glass, copy and book,

That fashion’d others. And him, O wondrous him!

O miracle of men! him did you leave,

Second to none, unseconded by you,

To look upon the hideous god of war

In disadvantage; to abide a field

Where nothing but the sound of Hotspur’s name

Did seem defensible: so you left him.

Never, O never, do his ghost the wrong

To hold your honour more precise and nice

With others than with him! let them alone:

The marshal and the archbishop are strong:

Had my sweet Harry had but half their numbers,

To-day might I, hanging on Hotspur’s neck,

Have talk’d of Monmouth’s grave.”

“…so came I a widow;

And never shall have length of life enough

To rain upon remembrance with mine eyes,

That it may grow and sprout as high as heaven,

For recordation to my noble husband.”

NORTHUMBERLAND

(…)

Fain would I go to meet the archbishop,

But many thousand reasons hold me back.

I will resolve for Scotland: there am I,

Till time and vantage crave my company.

Exeunt

FALSTAFF

You make fat rascals, Mistress Doll.

DOLL TEARSHEET

I make them! gluttony and diseases make them; I

make them not.

FALSTAFF

If the cook help to make the gluttony, you help to

make the diseases, Doll: we catch of you, Doll, we

catch of you; grant that, my poor virtue grant that.”

PISTOL

God save you, Sir John!

FALSTAFF

Welcome, Ancient Pistol. Here, Pistol, I charge

you with a cup of sack: do you discharge upon mine hostess.

PISTOL

I will discharge upon her, Sir John, with two bullets.

FALSTAFF

She is Pistol-proof, sir; you shall hardly offend

her.

MISTRESS QUICKLY

Come, I’ll drink no proofs nor no bullets: I’ll

drink no more than will do me good, for no man’s

pleasure, I.

PISTOL

Then to you, Mistress Dorothy; I will charge you.

DOLL TEARSHEET

Charge me! I scorn you, scurvy companion. What!

you poor, base, rascally, cheating, lack-linen

mate! Away, you mouldy rogue, away! I am meat for

your master.

PISTOL

I know you, Mistress Dorothy.”

Si fortune me tormente, sperato me contento.”

DOLL TEARSHEET

Ah, you sweet little rogue, you! alas, poor ape,

how thou sweatest! come, let me wipe thy face;

come on, you whoreson chops: ah, rogue! I’ faith, I

love thee: thou art as valorous as Hector of Troy,

worth five of Agamemnon, and ten times better than

the Nine Worthies: ah, villain!

FALSTAFF

A rascally slave! I will toss the rogue in a blanket.”

FALSTAFF

Kiss me, Doll.

PRINCE HENRY

Saturn and Venus this year in conjunction! what

says the almanac to that?

POINS

And look, whether the fiery Trigon, his man, be not

lisping to his master’s old tables, his note-book,

his counsel-keeper.”

FALSTAFF

(…) I shall receive

money o’ Thursday: shalt have a cap to-morrow. A

merry song, come: it grows late; we’ll to bed.

Thou’lt forget me when I am gone.

DOLL TEARSHEET

By my troth, thou’lt set me a-weeping, an thou

sayest so: prove that ever I dress myself handsome

till thy return: well, harken at the end.

FALSTAFF

Some sack, Francis.

PRINCE HENRY / POINS

Anon, anon, sir.

Coming forward

FALSTAFF

I dispraised him before the wicked, that the wicked might not fall in love with him; in which doing, I have done the part of a careful friend and a true subject, and thy father is to give me thanks for it. No abuse, Hal: none, Ned, none: no, faith, boys, none.”

You see, my good wenches, how men of merit are sought after: the undeserver may sleep, when the man of action is called on. Farewell good wenches: if I be not sent away post, I will see you again ere I go.”

O ELOGIO REAL AO SONO

How many thousand of my poorest subjects

Are at this hour asleep! O sleep, O gentle sleep,

Nature’s soft nurse, how have I frighted thee,

That thou no more wilt weigh my eyelids down

And steep my senses in forgetfulness?

Why rather, sleep, liest thou in smoky cribs,

Upon uneasy pallets stretching thee

And hush’d with buzzing night-flies to thy slumber,

Than in the perfumed chambers of the great,

Under the canopies of costly state,

And lull’d with sound of sweetest melody?

O thou dull god, why liest thou with the vile

In loathsome beds, and leavest the kingly couch

A watch-case or a common ‘larum-bell?

Wilt thou upon the high and giddy mast

Seal up the ship-boy’s eyes, and rock his brains

In cradle of the rude imperious surge

And in the visitation of the winds,

Who take the ruffian billows by the top,

Curling their monstrous heads and hanging them

With deafening clamour in the slippery clouds,

That, with the hurly, death itself awakes?

Canst thou, O partial sleep, give thy repose

To the wet sea-boy in an hour so rude,

And in the calmest and most stillest night,

With all appliances and means to boot,

Deny it to a king? Then happy low, lie down!

Uneasy lies the head that wears a crown.”

Ah, quantos milhares de meus mais míseros súditos não desfrutam agora

Do mais aconchegante dos sonos noturnos! Ah sono, meu doce sono!

A gentil ama da mãe-natureza: como pude espantar este aio?

A ponto de não esperar mais que pese sobre meus cílios

Banhando meus sentidos em puro esquecimento?

Por que preferes visitar com constância as choças dos labregos?

Espreguiças-te na mais precária palha, não dormes comigo em meu leito real

Estiras-te, ao contrário, onde carapanãs roem tudo o que respira!

Não sentes este perfume do palácio dos senhores

Sob tetos imponentes e opulentos

Nem queres ser embalado e embalar-me por refinadas árias

Divindade tola, tens prazer em freqüentar só os vilões?

Camas sujas, deixando um vácuo nos canapés reais?

Preferes cubículos mofados a espaços bem-cuidados e arejados?

Vais então como sereia acalentar o reles marujinho que assiste do alto do mastro os mares

E deveria guardar-se, vigilante, de ter seus nervos apatetados

Tornando sua dura cama de madeira num berço confortável?

O vento que deveria servir-lhe de alerta-mor é que embalará essa cadeirinha de balanço extemporânea

Mal sabe o vigia enganado que assim entregue ao sono estará pior que enforcado

Voltando a si por demais tarde, quando as nuvens negras anunciarem

Em alto e bom som o estrondo da própria Morte!

Não podes tu, sono, deixar de tomar partido?

Deixar de lado essa gente corsária e voltar pra mim?

Na noite mais silenciosa e tranqüila

Que se mostra a mais propícia

Trairás teu próprio Rei?

Ora, se tão vil és, suma, pois!

Digo que a cabeça que sustenta uma coroa

Jamais dorme sossegada!

Warwick

Que vossa majestade ainda veja muitos sóis como este!

Sick King

Este sol cinza que escurece?

– Bom dia!

– Bom dia pra quem?

– Bom dia pra quem já comeu alguém/a queen!

– Então estou na noite…, e não é de núpcias.

KING HENRY IV

Then you perceive the body of our kingdom

How foul it is; what rank diseases grow

And with what danger, near the heart of it.

WARWICK

It is but as a body yet distemper’d;

Which to his former strength may be restored

With good advice and little medicine:

My Lord Northumberland will soon be cool’d.

KING HENRY IV

O God! that one might read the book of fate,

And see the revolution of the times

Make mountains level, and the continent,

Weary of solid firmness, melt itself

Into the sea! and, other times, to see

The beachy girdle of the ocean

Too wide for Neptune’s hips; how chances mock,

And changes fill the cup of alteration

With divers liquors! O, if this were seen,

The happiest youth, viewing his progress through,

What perils past, what crosses to ensue,

Would shut the book, and sit him down and die.

Tis not ‘ten years gone

Since Richard and Northumberland, great friends,

Did feast together, and in two years after

Were they at wars: it is but eight years since

This Percy was the man nearest my soul,

Who like a brother toil’d in my affairs

And laid his love and life under my foot,

Yea, for my sake, even to the eyes of Richard

Gave him defiance. But which of you was by–

You, cousin Nevil, as I may remember–

To WARWICK

When Richard, with his eye brimful of tears,

Then cheque’d and rated by Northumberland,

Did speak these words, now proved a prophecy?

<Northumberland, thou ladder by the which

My cousin Bolingbroke ascends my throne;>

Though then, God knows, I had no such intent,

But that necessity so bow’d the state

That I and greatness were compell’d to kiss:

<The time shall come,> thus did he follow it,

<The time will come, that foul sin, gathering head,

Shall break into corruption:> so went on,

Foretelling this same time’s condition

And the division of our amity.

WARWICK

There is a history in all men’s lives,

Figuring the nature of the times deceased;

The which observed, a man may prophesy,

With a near aim, of the main chance of things

As yet not come to life, which in their seeds

And weak beginnings lie intreasured.

Such things become the hatch and brood of time;

And by the necessary form of this

King Richard might create a perfect guess

That great Northumberland, then false to him,

Would of that seed grow to a greater falseness;

Which should not find a ground to root upon,

Unless on you.”

-ASCENSÃO & QUEDA DE HENRIQUE NO QUARTO-

REI HENRIQUE

Infeliz daquele que tem acesso ao livro que conta do futuro

E testemunha da revolução dos tempos

Montanhas viram vales, o continente, cansado da secura, derrete-se em mar e sal.

Os oceanos, as calças de Poseidon, se tornam muito largas e as vestes desistem do deus

Tudo se esvai em água!

Se esse livro fosse lido

Nem o jovem mais iludido

Animado o fecharia,

Diante de tantas tribulações para trás e,

O que é mais inconsolável,

Para frente, para frente, sem solenidade

Campeãs da impertinência!

Nem bem dez anos faz

Que Ricardo II e Nortumbelino, grandes meus amigos,

Almoçavam comigo!

Só setecentos dias e uma mudança completa se havia operado!

Um em guerra contra o outro; e Percy me jurou lealdade,

Era o mais fidalgo e meu companheiro de armas mais leal.

Como um irmão, sem esperar recompensa, deu-se aos trabalhos

Mais ásperos, humilhando-se debaixo do amor fraternal,

Arriscando a própria vida e deixando de temer o próprio olhar furioso do então

Rei Ricardo

Nevil Pavio, primo, tu viste tudo de que te falo.

Estavas lá quando Ricardo com o olho umedecido,

Vencido pelo ex-companheiro, profetizou então esta negra revelação.

Nortumbelino, pela escada que erigiste

Meu primo Bolingbroke ascenderá ao trono!

Deus sabe que não tinha essa tenção

Mas o estado das coisas dobrou o Estado

Eu e a grandeza estávamos destinados um ao outro, promissoras núpcias.

Mas Ricardo disse ainda: Chegará o dia em que o pecado abominável explodirá em corrupção.

Então ele já contava

Dos tempos atuais e da nossa divisão.

PAVIOCURTO

Todo homem tem uma história,

E alguns vêem na sua própria

Toda a ruína coletiva.

Não é dom tampouco sorte,

Apenas questão de sutileza, estudo,

Probabilidade! Ele anuncia o que vê

que pode acontecer; e de fato acontece!

Porque ele sabia que as sementes que plantara

Germinariam, e sabia muito bem de que planta se tratava!

Sim, Ricardo ainda vive, através de seus palpites, entre nós

Fazendo esta infame porém necessária Colheita dos Tempos:

Nortumbelino, que o traíra, não perderia ocasião

De fazê-lo de novo, árvore sempre crescente,

Cada vez um carvalho mais velho e falso!

E, meu Rei, este carvalho, que já abrigou na sombra um tal Percy, agora anda necessitado

De solo rico o bastante para suas raízes tão sedentas, a fim de não se ver podado.

E esse solo, que ironia, só pode ser Vossa Majestade!

SCENE II. Gloucestershire. Before SHALLOW’S house.

Enter SHALLOW and SILENCE, meeting; MOULDY, SHADOW, WART, FEEBLE, BULLCALF, a Servant or two with them

FESTA DO SONIC?

Entram Supérfluo e Silêncio, entrecruzando-se; Embolorado, Sombra, Verruga, Fracote, Novilho, um servo ou dois com todos eles.

Desairoso Janota

S[HAL]LOW

(…) Then was Jack Falstaff, now Sir John, a boy, and page to Thomas Mowbray, Duke of Norfolk.”

You R.I.P. what you shallow.

Jesu, Jesu, the mad days that I have spent! and to see how many of my old acquaintance are dead!”

SHALLOW

Death is certain. Is old Double of your town living yet?

SILENCE

Dead, sir.” Dobrado no caixão, sô.

Enter BARDOLPH and one with him

BARDOLPH

Good morrow, honest gentlemen: I beseech you, which

is Justice Shallow?

SHALLOW

I am Robert Shallow, sir; a poor esquire of this

county, and one of the king’s justices of the peace:

What is your good pleasure with me?

BARDOLPH

My captain, sir, commends him to you; my captain,

Sir John Falstaff, a tall gentleman, by heaven, and

a most gallant leader.

SHALLOW

He greets me well, sir. I knew him a good backsword

man. How doth the good knight? may I ask how my

lady his wife doth?

BARDOLPH

Sir, pardon; a soldier is better accommodated than

with a wife.

SHALLOW

It is well said, in faith, sir; and it is well said

indeed too. Better accommodated! it is good; yea,

indeed, is it: good phrases are surely, and ever

were, very commendable. Accommodated! it comes of

<accommodo> very good; a good phrase.

BARDOLPH

Pardon me, sir; I have heard the word. Phrase call

you it? by this good day, I know not the phrase;

but I will maintain the word with my sword to be a

soldier-like word, and a word of exceeding good

command, by heaven. Accommodated; that is, when a

man is, as they say, accommodated; or when a man is,

being, whereby a’ may be thought to be accommodated;

which is an excellent thing.

SHALLOW

It is very just.

Enter FALSTAFF

FALSTAFF

(…) where is Mouldy?

MOULDY [Embotado]

Here, an’t please you.

SHALLOW

What think you, Sir John? a good-limbed fellow;

young, strong, and of good friends.

FALSTAFF

Is thy name Mouldy?

MOULDY

Yea, an’t please you.

FALSTAFF

Tis the more time thou wert used.

SHALLOW

Ha, ha, ha! most excellent, I’ faith! Things that

are mouldy lack use: very singular good! in faith,

well said, Sir John, very well said.”

SHALLOW

Where’s Shadow?

SHADOW

Here, sir.

FALSTAFF

Shadow, whose son art thou?

SHADOW

My mother’s son, sir.

FALSTAFF

Thy mother’s son! like enough, and thy father’s

shadow: so the son of the female is the shadow of

the male: it is often so, indeed; but much of the

father’s substance!”

SHALLOW

Ha, ha, ha! you can do it, sir; you can do it: I

commend you well. Francis Feeble!

FEEBLE

Here, sir.

FALSTAFF

What trade art thou, Feeble?

FEEBLE

A woman’s tailor, sir.

SHALLOW

Shall I prick him, sir?

FALSTAFF

You may: but if he had been a man’s tailor, he’ld

ha’ pricked you. Wilt thou make as many holes in

an enemy’s battle as thou hast done in a woman’s petticoat?

FEEBLE

I will do my good will, sir; you can have no more.”

thou wilt be as valiant as the wrathful dove or most magnanimous mouse.”

FEEBLE

I would Wart might have gone, sir.

FALSTAFF

I would thou wert a man’s tailor, that thou mightst

mend him and make him fit to go. I cannot put him

to a private soldier that is the leader of so many

thousands: let that suffice, most forcible Feeble.”

FALSTAFF

I am bound to thee, reverend Feeble. Who is next?

SHALLOW

Peter Bullcalf o’ the green!

FALSTAFF

Yea, marry, let’s see Bullcalf.

BULLCALF

Here, sir.

FALSTAFF

Fore God, a likely fellow! Come, prick me Bullcalf

till he roar again.

BULLCALF

O Lord! good my lord captain,–

FALSTAFF

What, dost thou roar before thou art pricked?

BULLCALF

O Lord, sir! I am a diseased man.

FALSTAFF

What disease hast thou?

BULLCALF

A whoreson cold, sir, a cough, sir, which I caught

with ringing in the king’s affairs upon his

coronation-day, sir.

FALSTAFF

Come, thou shalt go to the wars in a gown; we wilt

have away thy cold; and I will take such order that

my friends shall ring for thee. Is here all?”

Já faz 55 anos, sor.”

Exeunt FALSTAFF and Justices

BULLCALF

Good Master Corporate Bardolph, stand my friend;

and here’s 4 Harry 10 shillings in French crowns

for you. In very truth, sir, I had as lief be

hanged, sir, as go: and yet, for mine own part, sir,

I do not care; but rather, because I am unwilling,

and, for mine own part, have a desire to stay with

my friends; else, sir, I did not care, for mine own

part, so much.

BARDOLPH

Go to; stand aside.

MOULDY

And, good master corporal captain, for my old

dame’s sake, stand my friend: she has nobody to do

any thing about her when I am gone; and she is old,

and cannot help herself: You shall have 40, sir.

BARDOLPH

Go to; stand aside.

FEEBLE

By my troth, I care not; a man can die but once: we

owe God a death: I’ll ne’er bear a base mind:

an’t be my destiny, so; an’t be not, so: no man is

too good to serve’s prince; and let it go which way

it will, he that dies this year is quit for the next.

BARDOLPH

Well said; thou’rt a good fellow.

FEEBLE

Faith, I’ll bear no base mind.

Re-enter FALSTAFF and the Justices

– Como será o pgto., sr.?

– Em 4 xelins e ducados.

– Ah, sim, suponho que todos tenham ido à escola como se deve.

– Não se arrependerá de confiar nas propriedades morais dele, sr.!

MAMÃE EU QUERIA (E VOU) (SERVIR O EXÉRCITO)

Ó, que m’importa! Um homem tem de morrer, e só se morre uma vez, nem mais, nem menos.

Sim, morre-se uma vez! Não há escapatória!

Devemos esta morte a Deus Todo-Poderoso, com certeza. Nunca me esquecerei disso.

Se for coisa do destino, decreto dos céus, que seja!

Se não for, ora, que não seja! Não terá sido dessa vez. Ninguém é bom demais para ser

súdito do Rei! Digo, bom demais

para não ser súdito do Rei, se é que m’entendem! Ninguém é grande pra não ser pequeno.

Pelo menos eu acho. Enfim, só penso:

quem morre esse ano não morre no próximo, já está zerado e saldado! É o qu’eu sempre digo:

Antes cedo do que cinco!

BARDOLPH

Sir, a word with you: I have 3 pound to free

Mouldy and Bullcalf.

FALSTAFF

Go to; well.

SHALLOW

Come, Sir John, which 4 will you have?

FALSTAFF

Do you choose for me.

SHALLOW

Marry, then, Mouldy, Bullcalf, Feeble and Shadow.

FALSTAFF

Mouldy and Bullcalf: for you, Mouldy, stay at home

till you are past service: and for your part,

Bullcalf, grow till you come unto it: I will none of you.”

Here’s Wart; you see what a

ragged appearance it is; a’ shall charge you and

discharge you with the motion of a pewterer’s

hammer, come off and on swifter than he that gibbets

on the brewer’s bucket. And this same half-faced

fellow, Shadow; give me this man: he presents no

mark to the enemy; the foeman may with as great aim

level at the edge of a penknife. And for a retreat;

how swiftly will this Feeble the woman’s tailor run

off! O, give me the spare men, and spare me the

great ones. Put me a caliver into Wart’s hand, Bardolph.”

Ele não é o mestre de seu ofício.”

FALSTAFF

These fellows will do well, Master Shallow. God keep you, Master Silence: I will not use many words with you.”

SHALLOW

Sir John, the Lord bless you! God prosper your

affairs! God send us peace! At your return visit

our house; let our old acquaintance be renewed;

peradventure I will with ye to the court.

FALSTAFF

Fore God, I would you would, Master Shallow.

SHALLOW

Go to; I have spoke at a word. God keep you.

FALSTAFF

Fare you well, gentle gentlemen.”

(…) Lord, Lord, how

subject we old men are to this vice of lying! This

same starved justice hath done nothing but prate to

me of the wildness of his youth, and the feats he

hath done about Turnbull Street: and every third

word a lie, duer paid to the hearer than the Turk’s

tribute. I do remember him at Clement’s Inn like a

man made after supper of a cheese-paring: when a’

was naked, he was, for all the world, like a forked

radish [rabanete espetado], with a head fantastically carved upon it

with a knife: a’ was so forlorn, that his

dimensions to any thick sight were invincible: a’

was the very genius of famine; yet lecherous as a

monkey, and the whores called him mandrake: a’ came

ever in the rearward of the fashion, and sung those

tunes to the overscutched huswives that he heard the

carmen whistle, and swear they were his fancies or

his good-nights. And now is this Vice’s dagger

become a squire, and talks as familiarly of John a

Gaunt as if he had been sworn brother to him; and

I’ll be sworn a’ ne’er saw him but once in the

Tilt-yard; and then he burst his head for crowding

among the marshal’s men. I saw it, and told John a

Gaunt he beat his own name; for you might have

thrust him and all his apparel into an eel-skin; the

case of a treble hautboy [poderia jurar que uma caixinha de anel serviria de mansão para esse frangote!] was a mansion for him, a

court: and now has he land and beefs. Well, I’ll

be acquainted with him, if I return; and it shall

go hard but I will make him a philosopher’s two

stones to me: if the young dace be a bait for the

old pike [se a tilapinha server de isca pro dardo velho… por que não perfurá-lo, não é mesmo? Este é só o começo do bacalhau!], I see no reason in the law of nature but I

may snap at him. Let time shape, and there an end.

Exit

Ó, a adaga do Vício se tornou gentil-homem – mas quando? E por quê?! Cruzes!

WESTMORELAND [MAISTERRAAOESTE]

(…) You, lord archbishop,

Whose see is by a civil peace maintained,

Whose beard the silver hand of peace hath touch’d,

Whose learning and good letters peace hath tutor’d,

Whose white investments figure innocence,

The dove and very blessed spirit of peace,

Wherefore do you so ill translate ourself

Out of the speech of peace that bears such grace,

Into the harsh and boisterous tongue of war;

Turning your books to graves, your ink to blood,

Your pens to lances and your tongue divine

To a trumpet and a point of war?

ARCHBISHOP OF YORK

(…) we are all diseased,

And with our surfeiting and wanton hours

Have brought ourselves into a burning fever,

And we must bleed for it; of which disease

Our late king, Richard, being infected, died.

But, my most noble Lord of Westmoreland,

I take not on me here as a physician,

Nor do I as an enemy to peace

Troop in the throngs of military men;

But rather show awhile like fearful war,

To diet rank minds sick of happiness

And purge the obstructions which begin to stop

Our very veins of life. Hear me more plainly.

I have in equal balance justly weigh’d

What wrongs our arms may do, what wrongs we suffer,

And find our griefs heavier than our offences.

We see which way the stream of time doth run,

And are enforced from our most quiet there

By the rough torrent of occasion;

And have the summary of all our griefs,

When time shall serve, to show in articles;

Which long ere this we offer’d to the king,

And might by no suit gain our audience:

When we are wrong’d and would unfold our griefs,

We are denied access unto his person

Even by those men that most have done us wrong.

The dangers of the days but newly gone,

Whose memory is written on the earth

With yet appearing blood, and the examples

Of every minute’s instance, present now,

Hath put us in these ill-beseeming arms,

Not to break peace or any branch of it,

But to establish here a peace indeed,

Concurring both in name and quality.

WESTMORELAND

When ever yet was your appeal denied?

Wherein have you been galled by the king?

What peer hath been suborn’d to grate on you,

That you should seal this lawless bloody book

Of forged rebellion with a seal divine

And consecrate commotion’s bitter edge?

ARCHBISHOP OF YORK

My brother general, the commonwealth,

To brother born an household cruelty,

I make my quarrel in particular.

WESTMORELAND

There is no need of any such redress;

Or if there were, it not belongs to you.

MOWBRAY

Why not to him in part, and to us all

That feel the bruises of the days before,

And suffer the condition of these times

To lay a heavy and unequal hand

Upon our honours?

WESTMORELAND

O, my good Lord Mowbray,

Construe the times to their necessities,

And you shall say indeed, it is the time,

And not the king, that doth you injuries.

Yet for your part, it not appears to me

Either from the king or in the present time

That you should have an inch of any ground

To build a grief on: were you not restored

To all the Duke of Norfolk’s signories,

Your noble and right well remember’d father’s?”

WESTMORELAND

You speak, Lord Mowbray, now you know not what.

The Earl of Hereford was reputed then

In England the most valiant gentlemen:

Who knows on whom fortune would then have smiled?

But if your father had been victor there,

He ne’er had borne it out of Coventry:

For all the country in a general voice

Cried hate upon him; and all their prayers and love

Were set on Hereford, whom they doted on

And bless’d and graced indeed, more than the king.

But this is mere digression from my purpose.

Here come I from our princely general

To know your griefs; to tell you from his grace

That he will give you audience; and wherein

It shall appear that your demands are just,

You shall enjoy them, every thing set off

That might so much as think you enemies.”

WESTMORELAND

(…)

Our battle is more full of names than yours,

Our men more perfect in the use of arms,

Our armour all as strong, our cause the best;

Then reason will our heart should be as good

Say you not then our offer is compell’d.

MOWBRAY

Well, by my will we shall admit no parley.

WESTMORELAND

That argues but the shame of your offence:

A rotten case abides no handling.”

HASTINGS

Besides, the king hath wasted all his rods

On late offenders, that he now doth lack

The very instruments of chastisement:

So that his power, like to a fangless lion,

May offer, but not hold.”

LANCASTER [PRINCE HENRY]

You are too shallow, Hastings, much too shallow,

To sound the bottom of the after-times.”

HASTINGS

Go, captain, and deliver to the army

This news of peace: let them have pay, and part:

I know it will well please them. Hie thee, captain.

Exit Officer

ARCHBISHOP OF YORK

To you, my noble Lord of Westmoreland.

WESTMORELAND

I pledge your grace; and, if you knew what pains

I have bestow’d to breed this present peace,

You would drink freely: but my love to ye

Shall show itself more openly hereafter.

ARCHBISHOP OF YORK

I do not doubt you.

WESTMORELAND

I am glad of it.

Health to my lord and gentle cousin, Mowbray.

MOWBRAY

You wish me health in very happy season;

For I am, on the sudden, something ill.

ARCHBISHOP OF YORK

Against ill chances men are ever merry;

But heaviness foreruns the good event.

WESTMORELAND

Therefore be merry, coz; since sudden sorrow

Serves to say thus, <some good thing comes

to-morrow.>

A paz é da mesma natureza da conquista: os dois partidos, nobremente submetidos, não se sentem, nenhum deles, vencidos.”

HASTINGS

My lord, our army is dispersed already;

Like youthful steers unyoked, they take their courses

East, west, north, south; or, like a school broke up,

Each hurries toward his home and sporting-place.

WESTMORELAND

Good tidings, my Lord Hastings; for the which

I do arrest thee, traitor, of high treason:

And you, lord archbishop, and you, Lord Mowbray,

Of capitol treason I attach you both.”

MOWBRAY

Is this proceeding just and honourable?

WESTMORELAND

Is your assembly so?

ARCHBISHOP OF YORK

Will you thus break your faith?

LANCASTER

I pawn’d thee none:

I promised you redress of these same grievances

Whereof you did complain; which, by mine honour,

I will perform with a most Christian care.

But for you, rebels, look to taste the due

Meet for rebellion and such acts as yours.

Most shallowly did you these arms commence,

Fondly brought here and foolishly sent hence.

Strike up our drums, pursue the scatter’d stray:

God, and not we, hath safely fought to-day.

Some guard these traitors to the block of death,

Treason’s true bed and yielder up of breath.

Exeunt

FALSTAFF

I have a whole school of tongues in this belly of

mine, and not a tongue of them all speaks any other

word but my name. An I had but a belly of any

indifference, I were simply the most active fellow

in Europe: my womb, my womb, my womb, undoes me.

Here comes our general.”

LANCASTER

(…)

Now, Falstaff, where have you been all this while?

When every thing is ended, then you come:

These tardy tricks of yours will, on my life,

One time or other break some gallows’ back.”

O que pensas que sou, uma andorinha, uma flecha ou uma bala? Teria eu em meus movimentos miseráveis e velhos-velhacos agilidade de pensamento e predição? Vim o mais rápido que pude!”

I came, saw and overcame”

LANCASTER

And now dispatch we toward the court, my lords:

I hear the king my father is sore sick:

Our news shall go before us to his majesty,

Which, cousin, you shall bear to comfort him,

And we with sober speed will follow you.”

FALSTAFF

I would you had but the wit: ‘twere better than

your dukedom. Good faith, this same young soberblooded

boy doth not love me; nor a man cannot make

him laugh; but that’s no marvel, he drinks no wine.

There’s never none of these demure boys come to any

proof; for thin drink doth so over-cool their blood,

and making many fish-meals, that they fall into a

kind of male green-sickness; and then when they

marry, they get wenches: they are generally fools

and cowards; which some of us should be too, but for

inflammation. A good sherris sack hath a two-fold

operation in it. It ascends me into the brain;

dries me there all the foolish and dull and curdy

vapours which environ it; makes it apprehensive,

quick, forgetive, full of nimble fiery and

delectable shapes, which, delivered o’er to the

voice, the tongue, which is the birth, becomes

excellent wit. The second property of your

excellent sherris is, the warming of the blood;

which, before cold and settled, left the liver

white and pale, which is the badge of pusillanimity

and cowardice; but the sherris warms it and makes

it course from the inwards to the parts extreme:

it illumineth the face, which as a beacon gives

warning to all the rest of this little kingdom,

man, to arm; and then the vital commoners and

inland petty spirits muster me all to their captain,

the heart, who, great and puffed up with this

retinue, doth any deed of courage; and this valour

comes of sherris. So that skill in the weapon is

nothing without sack, for that sets it a-work; and

learning a mere hoard of gold kept by a devil, till

sack commences it and sets it in act and use.

Hereof comes it that Prince Harry is valiant; for

the cold blood he did naturally inherit of his

father, he hath, like lean, sterile and bare land,

manured, husbanded and tilled with excellent

endeavour of drinking good and good store of fertile

sherris, that he is become very hot and valiant. If

I had a thousand sons, the first humane principle I

would teach them should be, to forswear thin

potations and to addict themselves to sack.”

Filhos se eu tivesse dez

A todos ensinaria

Encher a pança de tonéis!

KING HENRY IV

Humphrey, my son of Gloucester,

Where is the prince your brother?

GLOUCESTER

I think he’s gone to hunt, my lord, at Windsor.

KING HENRY IV

And how accompanied?

GLOUCESTER

I do not know, my lord.

KING HENRY IV

Is not his brother, Thomas of Clarence, with him?

GLOUCESTER

No, my good lord; he is in presence here.

CLARENCE

What would my lord and father?

KING HENRY IV

Nothing but well to thee, Thomas of Clarence.

How chance thou art not with the prince thy brother?

He loves thee, and thou dost neglect him, Thomas;

Thou hast a better place in his affection

Than all thy brothers: cherish it, my boy,

And noble offices thou mayst effect

Of mediation, after I am dead,

Between his greatness and thy other brethren:

Therefore omit him not; blunt not his love,

Nor lose the good advantage of his grace

By seeming cold or careless of his will;

For he is gracious, if he be observed:

He hath a tear for pity and a hand

Open as day for melting charity:

Yet notwithstanding, being incensed, he’s flint,

As humorous as winter and as sudden

As flaws congealed in the spring of day.

His temper, therefore, must be well observed:

Chide him for faults, and do it reverently,

When thou perceive his blood inclined to mirth;

But, being moody, give him line and scope,

Till that his passions, like a whale on ground,

Confound themselves with working. Learn this, Thomas,

And thou shalt prove a shelter to thy friends,

A hoop of gold to bind thy brothers in,

That the united vessel of their blood,

Mingled with venom of suggestion–

As, force perforce, the age will pour it in–

Shall never leak, though it do work as strong

As aconitum or rash gunpowder.”

WARWICK

My gracious lord, you look beyond him quite:

The prince but studies his companions

Like a strange tongue, wherein, to gain the language,

Tis needful that the most immodest word

Be look’d upon and learn’d; which once attain’d,

Your highness knows, comes to no further use

But to be known and hated. So, like gross terms,

The prince will in the perfectness of time

Cast off his followers; and their memory

Shall as a pattern or a measure live,

By which his grace must mete the lives of others,

Turning past evils to advantages.

KING HENRY IV

Tis seldom when the bee doth leave her comb

In the dead carrion.”

Ó, amigo, muitas vezes a abelha sai de seu favo só quando não há mais mel nenhum…

Tu és para mim uma andorinha de verão que canta as belezas tropicais no mais nevoento inverno…

Os anos passam e mudam seus humores exatamente como as estações do mesmo círculo do sol.

Will fortune never come with both hands full,

But write her fair words still in foulest letters?

She either gives a stomach and no food;

Such are the poor, in health; or else a feast

And takes away the stomach; such are the rich,

That have abundance and enjoy it not.”

A felicidade acaso nunca virá de mancheias e perfeita?

Só escrevendo por linhas tortas nessa comédia de tolos?

Ou temos um estômago sem comida,

Que é a vida do pobre, quando tem saúde;

Ou temos um banquete sem estômago,

Que é a vida do rico, que não desfruta sua abundância.”

My due from thee is this imperial crown,

Which, as immediate as thy place and blood,

Derives itself to me. Lo, here it sits,

Which God shall guard: and put the world’s whole strength

Into one giant arm, it shall not force

This lineal honour from me: this from thee

Will I to mine leave, as ‘tis left to me.

Exit

KING HENRY IV

Where is the crown? who took it from my pillow?

WARWICK

When we withdrew, my liege, we left it here.

KING HENRY IV

The prince hath ta’en it hence: go, seek him out.

Is he so hasty that he doth suppose

My sleep my death?

Find him, my Lord of Warwick; chide him hither.

(…)

How quickly nature falls into revolt

When gold becomes her object!

For this the foolish over-careful fathers

Have broke their sleep with thoughts, their brains with care,

Their bones with industry;

For this they have engrossed and piled up

The canker’d heaps of strange-achieved gold;

For this they have been thoughtful to invest

Their sons with arts and martial exercises:

When, like the bee, culling from every flower

The virtuous sweets,

Our thighs pack’d with wax, our mouths with honey,

We bring it to the hive, and, like the bees,

Are murdered for our pains. This bitter taste

Yield his engrossments to the ending father.”

I stay too long by thee, I weary thee.

Dost thou so hunger for mine empty chair

That thou wilt needs invest thee with my honours

Before thy hour be ripe? O foolish youth!

Thou seek’st the greatness that will o’erwhelm thee.

Stay but a little; for my cloud of dignity

Is held from falling with so weak a wind

That it will quickly drop: my day is dim.

Thou hast stolen that which after some few hours

Were thine without offence; and at my death

Thou hast seal’d up my expectation:

Thy life did manifest thou lovedst me not,

And thou wilt have me die assured of it.

Thou hidest a thousand daggers in thy thoughts,

Which thou hast whetted on thy stony heart,

To stab at half an hour of my life.

What! canst thou not forbear me half an hour?

Then get thee gone and dig my grave thyself,

And bid the merry bells ring to thine ear

That thou art crowned, not that I am dead.

Let all the tears that should bedew my hearse

Be drops of balm to sanctify thy head:

Only compound me with forgotten dust

Give that which gave thee life unto the worms.

Pluck down my officers, break my decrees;

For now a time is come to mock at form:

Harry the Fifth is crown’d: up, vanity!”

Aí seria outra peça, Mel Rey da Co(l)mé(d)ia Humana!

Be happy, he will trouble you no more;

England shall double gild his treble guilt,

England shall give him office, honour, might;

For the fifth Harry from curb’d licence plucks

The muzzle of restraint, and the wild dog

Shall flesh his tooth on every innocent.

O my poor kingdom, sick with civil blows!

When that my care could not withhold thy riots,

What wilt thou do when riot is thy care?

O, thou wilt be a wilderness again,

Peopled with wolves, thy old inhabitants!”

Que dia teremos a minha coração?

Com todo o PESO que isso exige?

Inexoravelmente

Mesmo vindo de coroa enferrujada

pela senilidade do dinheiro?

God witness with me, when I here came in,

And found no course of breath within your majesty,

How cold it struck my heart! If I do feign, [ME: How could it struck my heart?]

O, let me in my present wildness die

And never live to show the incredulous world

The noble change that I have purposed!

Coming to look on you, thinking you dead,

And dead almost, my liege, to think you were,

I spake unto this crown as having sense,

And thus upbraided it: <The care on thee depending

Hath fed upon the body of my father;

Therefore, thou best of gold art worst of gold:

Other, less fine in carat, is more precious,

Preserving life in medicine potable;

But thou, most fine, most honour’d: most renown’d,

Hast eat thy bearer up.> Thus, my most royal liege,

Accusing it, I put it on my head,

To try with it, as with an enemy

That had before my face murder’d my father,

The quarrel of a true inheritor.”

300bD295

Coroa

Cabeça de

Caveira

Não seria estar à

Beira

do Abismo

Começar a falar

Com os mortos ainda estando

Vivo?

Continua…

O my son,

God put it in thy mind to take it hence,

That thou mightst win the more thy father’s love,

Pleading so wisely in excuse of it!

Come hither, Harry, sit thou by my bed;

And hear, I think, the very latest counsel

That ever I shall breathe. God knows, my son,

By what by-paths and indirect crook’d ways

I met this crown; and I myself know well

How troublesome it sat upon my head.

To thee it shall descend with bitter quiet,

Better opinion, better confirmation;

For all the soil of the achievement goes

With me into the earth. It seem’d in me

But as an honour snatch’d with boisterous hand,

And I had many living to upbraid

My gain of it by their assistances;

Which daily grew to quarrel and to bloodshed,

Wounding supposed peace: all these bold fears

Thou see’st with peril I have answered;

For all my reign hath been but as a scene

Acting that argument: and now my death

Changes the mode; for what in me was purchased,

Falls upon thee in a more fairer sort;

So thou the garland wear’st successively.

Yet, though thou stand’st more sure than I could do,

Thou art not firm enough, since griefs are green;

And all my friends, which thou must make thy friends,

Have but their stings and teeth newly ta’en out;

By whose fell working I was first advanced

And by whose power I well might lodge a fear

To be again displaced: which to avoid,

I cut them off; and had a purpose now

To lead out many to the Holy Land,

Lest rest and lying still might make them look

Too near unto my state. Therefore, my Harry,

Be it thy course to busy giddy minds

With foreign quarrels; that action, hence borne out,

May waste the memory of the former days.

Leve esses hereges para o Velho Oeste.

Não faça Cruzadas

No deserto

Com esses comedores de areia

que não bebem vinho

Esqueça!

Puros são

os descendentes morenos

de Rousseau!

her eggs and the hereges

My gracious liege,

You won it, wore it, kept it, gave it me”

KING HENRY IV

Doth any name particular belong

Unto the lodging where I first did swoon?

WARWICK

Tis call’d Jerusalem, my noble lord.

KING HENRY IV

Laud be to God! even there my life must end.

It hath been prophesied to me many years,

I should not die but in Jerusalem;

Which vainly I supposed the Holy Land:

But bear me to that chamber; there I’ll lie;

In that Jerusalem shall Harry die.”

Da Ilha ao Exílio

a friend i’ the court is better than a penny in purse.”

LANCASTER

Good morrow, cousin Warwick, good morrow.

GLOUCESTER CLARENCE

Good morrow, cousin.

LANCASTER

We meet like men that had forgot to speak.

WARWICK

We do remember; but our argument

Is all too heavy to admit much talk.”

KING HENRY V

This new and gorgeous garment, majesty,

Sits not so easy on me as you think.

Brothers, you mix your sadness with some fear:

This is the English, not the Turkish court;

Not Amurath an Amurath succeeds,

But Harry Harry. Yet be sad, good brothers,

For, by my faith, it very well becomes you:

Sorrow so royally in you appears

That I will deeply put the fashion on

And wear it in my heart: why then, be sad;

But entertain no more of it, good brothers,

Than a joint burden laid upon us all.

For me, by heaven, I bid you be assured,

I’ll be your father and your brother too;

Let me but bear your love, I’ll bear your cares:

Yet weep that Harry’s dead; and so will I;

But Harry lives, that shall convert those tears

By number into hours of happiness.

Princes

We hope no other from your majesty.

KING HENRY V

You all look strangely on me: and you most;

You are, I think, assured I love you not.

Lord Chief-Justice

I am assured, if I be measured rightly,

Your majesty hath no just cause to hate me.

KING HENRY V

No!

How might a prince of my great hopes forget

So great indignities you laid upon me?

What! rate, rebuke, and roughly send to prison

The immediate heir of England! Was this easy?

May this be wash’d in Lethe, and forgotten?”

And I do wish your honours may increase,

Till you do live to see a son of mine

Offend you and obey you, as I did.

So shall I live to speak my father’s words:

<Happy am I, that have a man so bold,

That dares do justice on my proper son;

And not less happy, having such a son,

That would deliver up his greatness so

Into the hands of justice.> You did commit me:

For which, I do commit into your hand

The unstained sword that you have used to bear;

With this remembrance, that you use the same

With the like bold, just and impartial spirit

As you have done ‘gainst me. There is my hand.

You shall be as a father to my youth:

My voice shall sound as you do prompt mine ear,

And I will stoop and humble my intents

To your well-practised wise directions.

And, princes all, believe me, I beseech you;

My father is gone wild into his grave,

For in his tomb lie my affections;

And with his spirit sadly I survive,

To mock the expectation of the world,

To frustrate prophecies and to raze out

Rotten opinion, who hath writ me down

After my seeming.”

PISTOL

Under which king, Besonian? speak, or die.

SHALLOW

Under King Harry.

PISTOL

Harry the Fourth? or Fifth?

SHALLOW

Harry the Fourth.

PISTOL

A foutre for thine office!

Sir John, thy tender lambkin now is king;

Harry the Fifth’s the man. I speak the truth:

When Pistol lies, do this; and fig me, like

The bragging Spaniard.

FALSTAFF

What, is the old king dead?

PISTOL

As nail in door: the things I speak are just.”

the laws of England are at

my commandment. Blessed are they that have been my

friends; and woe to my lord chief-justice!”

FALSTAFF

God save thee, my sweet boy!

KING HENRY IV

My lord chief-justice, speak to that vain man.

Lord Chief-Justice

Have you your wits? know you what ‘tis to speak?

FALSTAFF

My king! my Jove! I speak to thee, my heart!

KING HENRY IV

I know thee not, old man: fall to thy prayers;

How ill white hairs become a fool and jester!

I have long dream’d of such a kind of man,

So surfeit-swell’d, so old and so profane;

But, being awaked, I do despise my dream.

Make less thy body hence, and more thy grace;

Leave gormandizing; know the grave doth gape

For thee thrice wider than for other men.

Reply not to me with a fool-born jest:

Presume not that I am the thing I was;

For God doth know, so shall the world perceive,

That I have turn’d away my former self;

So will I those that kept me company.

When thou dost hear I am as I have been,

Approach me, and thou shalt be as thou wast,

The tutor and the feeder of my riots:

Till then, I banish thee, on pain of death,

As I have done the rest of my misleaders,

Not to come near our person by ten mile.

For competence of life I will allow you,

That lack of means enforce you not to evil:

And, as we hear you do reform yourselves,

We will, according to your strengths and qualities,

Give you advancement. Be it your charge, my lord,

To see perform’d the tenor of our word. Set on.

Exeunt KING HENRY V, & c

FALSTAFF

That can hardly be, Master Shallow. Do not you

grieve at this; I shall be sent for in private to

him: look you, he must seem thus to the world:

fear not your advancements; I will be the man yet

that shall make you great.”

LANCASTER

I will lay odds that, ere this year expire,

We bear our civil swords and native fire

As far as France: I beard a bird so sing,

Whose music, to my thinking, pleased the king.

Come, will you hence?

Exeunt

Dancer

(…)

One word more, I beseech you. If you be not too

much cloyed with fat meat, our humble author will

continue the story, with Sir John in it, and make

you merry with fair Katharine of France: where, for

any thing I know, Falstaff shall die of a sweat,

unless already a’ be killed with your hard

opinions; for Oldcastle died a martyr, and this is

not the man. My tongue is weary; when my legs are

too, I will bid you good night: and so kneel down

before you; but, indeed, to pray for the queen.”

L’ENCYCLOPÉDIE – AM – Amen, Amenthes, Amida

AMEN. mot hébreu, usité dans l’Eglise à la fin de toutes les prieres solemnelles dont il est la conclusion; il signifie fiat [faça-se]; c’est-à-dire, ainsi-soit, ainsi-soit-il. Les Hébreux avoient 4 sortes d’amen; l’un entr’autres qu’ils appelloient l’amen juste, devoit être accompagné de beaucoup d’attention & de devotion; c’est l’amen entendu dans le sens que nous venons de l’interpréter, lequel a passé dans toutes les langues sans aucune altération.

Quelques Auteurs prétendent que le mot amen n’est qu’un composé des lettres initiales de ces mots, adonaï melech neeman, Dominus rex fidelis, expression usitée parmi les Juifs, quand ils vouloient donner du poids & de l’autorité à ce qu’ils disoient. En effet, pour exprimer en abregé les mots, adonaï, melech, neeman, les Rabbins ne se servent que des lettres initiales, qui jointes ensemble forment réellement le mot amen.

(…)

PARA SER SINCERO…

La racine du mot amen est le verbe aman, lequel au passif signifie être vrai, fidele, constant, &c. d’où a été fait le nom amen qui signifie vrai; puis du nom amen on a fait une espece d’adverbe affirmatif, qui placé à la fin d’une phrase ou d’une proposition, signifie qu’on y acquiesce, qu’elle est vraie, qu’on en souhaite l’accomplissement, &c. Ainsi, dans le passage que nous venons de citer du Deutéronome, Moyse ordonnoit aux Levites de crier à haute voix au peuple: maudit celui qui taille ou jette en fonte aucune image, &c. & le peuple devoit répondre amen; c’est-à-dire, our, qu’il le soit, je le souhaite, j’y consens. Mais au commencement d’une phrase, comme il se trouve dans plusieurs passages du Nouveau-Testament, il signifie vraiment, véritablement. Quand il est répété deux fois, comme il l’est toûjours dans S. Jean, il a l’effet d’un superlatif, conformément au génie de la langue Hébraïque, & des 2 langues dont elle est la mère, la Chaldaïque & la Syriaque. C’est en ce sens qu’on doit entendre ces paroles: amen, amen, dico vobis. Les Evangélistes ont conservé le mot hébreu amen dans leur grec, excepté S. Luc qui l’exprime quelquefois par A’LHQW=, véritablement, ou NAI\, certainement. (G)”

…E a celeuma da alma continua no verbete AMENTHES, onde ficará claro, mais uma vez, que os Modernos podem compreender tudo, menos qualquer vírgula dos Antigos! “Ils n’ont imaginé que ce moyen [Mundo subterrâneo para alojar as almas, dos animais aos Faraós, reputado como criação egípcia. Num primeiro momento, não havia o que hoje chamamos de Céu e Inferno, ou seja, a divisão moral entre bons e maus na vida carnal, como castigo ou recompensa pelos seus atos temporais – castigo ou recompensa estes dentro do tempo, como não poderiam deixar de ser, ou seja, a pura loucura!] ou la métempsycose, pour accorder la Providence avec la distribution inégale des biens & des maux dans ce monde. La Philosophie les avoit suggérés l’un & l’autre aux sages, & la révélation nous a appris quel est celui des deux que nous devions regarder comme le vrai. Nous ne pouvons donc plus avoir d’incertitude sur notre existence future, ni sur la nature des biens ou des maux qui nous attendent après la mort. La parole de Dieu qui s’est expliqué positivement sur ces objets importans, ne laisse aucun lieu aux hypothèses. Mais je suis bien étonné que parmi les anciens Philosophes que cette lumiere n’eclairoit pas, il ne s’en soit trouvé aucun, du moins que je connoisse, qui ait songé à ajoûter aux tourmens du Tartare & aux plaisirs de l’Élisée, la seule broderie [bordado, costura, decoração, emenda, adorno] qui leur manquât; c’est que les méchans entendroient dans le Tartare, & les bons dans l’Élisée, ceux-ci tout le bien, & ceux-là tout le mal qu’on diroit ou qu’on penseroit d’eux, quand ils ne seroient plus. Cette idée m’est venue plusieurs fois à la vûe de la statue équestre de Henri IV. J’étois fâché que ce grand Monarque n’entendît pas où il étoit [na pose da estátua ou na sua vida?], l’éloge que je faisois de lui dans mon coeur. Cet éloge eût été si doux pour lui! car je n’étois plus son sujet. [declaração, principiando no vermelho, arrogante e enigmática de não se sabe qual co-autor da maudite encyclopédie!]”

Para elucidar um pouco mais: Henrique IV é o inaugurador da dinastia Bourbon. Parece ser a sina desse tron(c)o real ser degolado ou passar perto de sê-lo. Desistiu do Protestantismo para ser reconhecido por todas as facções católicas como chefe-mor da França de então (transição XVI-XVII). Publicador do Édito de Nantes. “Considered a usurper by some Catholics and a traitor by some Protestants, Henry became target of at least 12 assassination attempts [a diferença com relação, vamos dizer, a Hitler é que ele realmente acabou morrendo assassinado, depois de tudo!]. An unpopular king immediately after his accession, Henry’s popularity greatly improved after his death” Sua estátua foi esculpida 4 anos após sua morte, mas foi depredada à Revolução Francesa. “Henry IV’s popularity continued when the first edition of his biography, Histoire du Roy Henry le Grand, was published in Amsterdam in 1661. It was written by Hardouin de Péréfixe de Beaumont, successively bishop of Rhodez and archbishop of Paris, primarily for the edification of Louis XIV, grandson of Henry IV. A translation into English was made by James Dauncey for another grandson, King Charles II of England.” Sem saber quem escreveu o verbete e qual era exatamente sua relação com o “Bom Rei”, fica difícil aventar qualquer interpretação para suas digressões tão pessoais…

Nenhum Pequeno Rei E[dwar(f)]do gostaria de falar comigo a não ser num sonho de uma noite de (Um dia) verão, ambientada no Japão, concordam?!

Qual é o seu [co]gnome?

AMIDA, s. m. (Hist. mod.) faux Dieu adoré par les Japonois. Il a plusieurs temples dans l’empire du Japon, dont le principal est à Jedo. Sa statue composée d’un corps d’homme avec une tête de chien comme l’Anubis des Anciens, est montée sur un cheval à sept têtes proche de la ville de Meaco. On voit un autre temple dédié à cette idole, qui y est représentée sous la figure d’un jeune homme qui porte sur sa tête une couronne environnée de rayons d’or. Il est accompagné de mille autres idoles qui sont rangées aux deux côtés de ce temple. Les Japonois ont une si grande confiance dans leur idole Amida, qu’ils se persuadent de joüir d’un bonheur éternel, pourvû qu’ils puissent souvent invoquer ou prononcer son nom. Ils croyent même qu’il suffit pour se sauver, de repéter fréquemment les paroles suivantes: Nami, Amida, buth, c’est-à-dire heureux Amida, sauvez-nous. On garde une des figures de cette idole à Rome dans le cabinet de Kirker, comme on le peut voir dans le Mus. Coll. Rom. Soc. Jesu, Amft. 1678. (G)” BUDA

A REPÚBLICA – Livro VII

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

#Educação #Ética #arete #FiloPol #Guerra #Psicologia #grandesaúde #Tradução #platonismo #controvérsiadofilósofoRei #OUm #Epistemo #sofistas #juventude #Velhice #Matemática #Geometria #Astronomia #Música

– Crês acaso que estes homens acorrentados possam ver outra coisa, de si mesmos e dos companheiros que estão ao lado, senão as sombras que o fogo projeta à frente deles, no fundo da caverna?

– Como poderiam ver, se desde o nascimento estão obrigados a manter a cabeça imóvel?

– E quanto aos objetos que passam por detrás deles, podem ver outra coisa senão as sombras dos mesmos?

– Somente as sombras, Sócrates.

– Se pudessem conversar uns com os outros, não conviriam por fim em dar às sombras que vêem os nomes das coisas mesmas?

– Necessariamente.

– E se no fundo de seu cativeiro houvesse um eco que repetisse as palavras dos transeuntes, imaginar-se-iam outra coisa senão que as próprias sombras que desfilam diante de seus olhos é que emitem essas vozes?

– Não, por Zeus! Só teriam como imaginar isso mesmo.”

Se naquele ato recordava sua primeira estância e a idéia que ali se tem da sabedoria, entre seus companheiros de escravidão, não se regozijaria ele de sua mudança e não se compadeceria da desgraça daqueles primeiros companheiros?”

Dir-lhes-emos: noutros Estados pode-se escusar aos filósofos que evitam a moléstia dos negócios públicos, porque devem sua sabedoria somente a si próprios, uma vez que se formaram sozinhos (num Estado imperfeito, só assim o filósofo se forma, isto é, tornam-se filósofos, apesar do Estado)”

OS ILUMINADOS & OS PERSEFONISTAS: “Nossos discípulos recusarão, portanto, as nossas disposições? Negar-se-ão a arcar alternativamente com o peso do governo, pré-requisito se quiserem usufruir maior parte de sua vida juntos na região da luz pura?”

Desejas agora examinar de que maneira formaremos os homens deste caráter, e como fá-los-emos passar das trevas à luz, como se diz de alguns que atravessaram do Hades à estância dos deuses?”

Ora Palamedes, vês tu que nas tragédias sempre se nos representam Agamemnon como um general peculiar? Não observaste que Agamemnon, nestas representações, se jacta de haver inventado os números, de haver elaborado o plano de campanha diante de Ílion, e de haver procedido à enumeração dos navios e de tudo o mais, como se antes dele fôra impossível praticar tudo isto?? Como se antes de Agamemnon não se soubesse quantos pés tem algo ou alguém, não havendo criatura que soubesse como contar, se é que devemos crer na palavra do personagem dos poemas?!”

– …O conhecimento da unidade é uma das coisas que elevam a alma e fazem-na se voltar à contemplação do ser.

– Mas a visão da unidade produz em nós, Sócrates, o efeito de que falas; porque vemos a mesma coisa sendo ao mesmo tempo una e múltipla, até o infinito.”

Se tentas dividir a unidade propriamente dita diante dos matemáticos, riem-se de ti, tornam-se indiferentes ao que fazes; e se perseveras e divides a unidade, eles a multiplicam outras tantas vezes, temendo que a unidade não se pareça com o que ela é,¹ em outras palavras, una, idêntica a si mesma, e sim que acabe parecendo um conjunto de várias partes.”

¹ Ou: “apareça diferente de como sói aparecer”, tradução alternativa.

– Nunca observaste que os que nasceram para calcular têm mais facilidade para aprender todas as ciências, e que até os espíritos mais vagarosos, quando se exercitam com a devida constância na arte do cálculo, alcançam, no mínimo, a vantagem de adquirirem maior flexibilidade e penetração no ato de aprender?

– É assim, sim.

– Além do mais, não te seria fácil encontrar muitas ciências mais penosas para aprender e praticar do que esta.

– Com certeza não.”

Pois bem, ninguém que possua a menor experiência em geometria negar-nos-á que o objeto desta ciência é diretamente contrário à linguagem que usa aquele que dela trata.

– Que queres dizer com isso?

– Ora, a linguagem dos geômetras é ridícula e forçada. Falam pomposamente em equalizar, aplicar, transpor, somar, e assim por diante, como se eles lidassem com matéria real e fossem artífices, como se suas demonstrações tendessem à prática e atuassem, sendo que esta ciência, toda ela, nunca ultrapassa o puro conhecer.

– Estou conforme.

– E tens de convir também noutra coisa.

– E no que seria?

– Que a geometria tem por objeto o conhecimento do que existe sempre, e não do que nasce e perece em algum momento.

(*) “Calipolis, <bela cidade>, nome apto a um Estado ideal.”

Para Platão, o jovem grego deve ser instruído nos seguintes conhecimentos, pela ordem:

1. A arte da guerra;

2. A geometria;

(conforme seguirá na exposição:)

3. A astronomia;

4. A música;

5. A dialética (filosofia);

6. A política e a filosofia, alternativamente, a partir deste ponto.

SÓCRATES – E a astronomia será o terceiro. Que achas disso?”

As ciências de que falamos (a matemática e a astronomia) têm uma grande vantagem: purificam e reanimam um órgão da alma extinto e embotado pelas demais ocupações da vida.”

seja olhando para o alto e de boca aberta ou olhando para baixo e semicerrando os olhos, se alguém tenta conhecer algo sensível, nego que chegue a conhecer alguma coisa; pois nada do sensível é objeto da ciência, e sustento que a alma não contempla o céu e as imensidões do espaço, mas aponta sempre e inexoravelmente para baixo, ainda quando seu portador esteja apenas nadando de costas, com a boca voltada para o firmamento, ou estirado sobre a terra, na mesma posição.”

Que se admire a beleza e a ordem dos astros que adornam o céu, nada mais justo; mas como, depois de tudo, não deixam de ser objetos sensíveis, quero que se ponha sua beleza ainda em um patamar inferior (muito inferior, na verdade) ao da beleza verdadeira, da que produzem a velocidade e a lentidão reais em si em suas relações mútuas e nos movimentos que comunicam aos astros, segundo o verdadeiro número e todos os verdadeiros avatares.”

Quero, pois, que o céu recamado não seja mais que uma imagem que nos sirva para nossa instrução como serviriam a um geômetra as figuras executadas por Dédalo ou por qualquer outro escultor ou pintor.”

– Esquartejem-me os deuses se o ensino da música hoje não se anda fazendo tão aborrecido quanto o da astronomia pelos eruditos do dia! Nossos músicos falam sem cessar de intervalos condensados(*), aprumam seus ouvidos como que para catalogar os sons que se sucedem; e uns professores dizem que ouvem um som médio entre dois tons, e que este som é o menor intervalo que os separa e que há que se medir todos os outros com esta unidade; outros sustentam, ao contrário, que as cordas produziram dois tons perfeitamente semelhantes; e todos preferem o juízo do ouvido ao da mente.

– Falas desses músicos agora famosos que não dão descanso às cordas, torturando-as e atormentando-as com seus martinetes.”

(*) “Bemol, o semitom típico da lira de 4 cordas, que conforme a posição na notação determina os diferentes modos musicais, mas que na harmonia não-temperada tinha apenas duas possibilidades: ascendente ou descendente.”

Aqui tens, meu querido Glauco, o canto mesmo que interpreta a dialética. Esta, por mais que seja inteligível, pode ser representada pelo órgão da vista que, segundo demonstramos, eleva-se gradualmente do espetáculo dos animais ao dos astros e, por fim, à contemplação do sol mesmo. E assim, aquele que se dedica à dialética, renunciando em absoluto ao uso dos sentidos, eleva-se, exclusivamente pelo uso da razão, até o que é cada coisa em si; e, se continua suas indagações até haver percebido, mediante o pensamento, o bem em si, chega ao término dos conhecimentos inteligíveis. Assim também, o que vê o sol chegou ao término do conhecimento das coisas visíveis.”

(*) “Veja-se Euclides, livro X, sobre as linhas incomensuráveis (como a da diagonal do quadrado).”

Não basta ser em parte laborioso e em parte indolente, que é o que acontece quando um jovem, cheio de ardor na ginástica, na caça e em todos os exercícios corporais rechaça todo estudo e conversação ou indagação científicas, esquivando-se desta classe de trabalhos.”

Não se deve crer em Sólon quando diz que um ancião pode aprender muitas coisas; mais fácil seria para ele correr. Não! Todos os grandes trabalhos estão reservados para a juventude.”

Que os exercícios do corpo sejam forçados ou voluntários, nem por isso o corpo deixa de tirar proveito; mas as lições que se faz entrar compulsoriamente alma adentro não produzem qualquer efeito.”

Logo que tiverem concluído sua formação de exercícios ginásticos (o que dura por volta de dois a três anos), ser-lhes-á impossível dedicar-se a outra coisa, pois nada há de mais adverso às ciências que a fadiga e o sono. Por outro lado, os exercícios ginásticos são uma prova a que é essencial submeter a juventude.

Passado este tempo, e quando já tiverem por volta dos 20 anos, conceder-se-lhes-á, pelo menos aos que demonstrarem aptidão, distinções honrosas, e se lhes apresentarão em conjunto os conhecimentos que adquiriram em separado durante a vida pregressa, a fim de que se acostumem a ver de um golpe só, e de um ponto de vista geral, as relações que as disciplinas guardam entre si, pré-requisito para se conhecer a natureza do ser.”

aquele que sabe reunir os objetos de uma perspectiva geral nasceu para a dialética; os que não estão neste caso, melhor esquecer.”

Portanto, depois de se observar atentamente quais são os melhores para este gênero de vida, priorizando-se aqueles que demonstraram mais zelo e constância, tanto nos estudos quanto nos trabalhos da guerra e nas demais provas prescritas, ao atingirem estes eleitos a casa dos 30 anos, conceder-se-lhes-ão as maiores honras. Dedicando-se à dialética, serão distinguidos aqueles que, sem necessitar do auxílio dos olhos e dos demais sentidos, podem se elevar ao conhecimento do ser, o que exige unicamente a vocação para a verdade; é neste ponto, amigo, que se devem tomar as maiores precauções.”

Pode ser que lhes ocorra como com um filho aristocrata que, educado na nobreza e na opulência, em meio ao fausto e rodeado de aduladores, se apercebesse, já adulto, de que aqueles que alegam ser seus pais de fato não o são, sem no entanto dispor de mais qualquer recurso para descobrir a identidade dos verdadeiros.”

– É uma excelente precaução afastar as crianças ou os púberes da dialética. Não ignoras, sem dúvida, que os jovens, quando se enamoram de algo, principalmente os primeiros argumentos de um saber, gostam de se servir disso como de um passatempo, e têm prazer em provocar controvérsias sem fim. Assim como podem ser facilmente enganados, tendem a tentar enganar o próximo; semelhantes aos cães filhotes, comprazem-se em dar puxões e mordiscadas verbais em toda gente que aparece.

– Os jovens são exatamente o que descreveste, sensualistas extravagantes!

– Após inumeráveis disputas, em que tanto perderam quanto venceram, concluem, o mais das vezes, por não mais acreditarem em nada daquilo em que antes acreditavam e que com ímpeto defendiam. Tornam-se céticos. Desta maneira, facilitam que todos os demais cidadãos não lhes dêem crédito ou reputação, e também maculam a imagem da filosofia.

– Ó, nada mais certo!”

– Seria bastante dar à dialética um tempo dobrado em relação à formação em ginástica, fazendo os aprendizes dialéticos se consagrarem a sua arte sem trégua e com exclusividade, pelo menos de forma tão exclusiva quanto se fez antes, na idade dos exercícios corporais?

– Estás falando, então, de um tempo de 4, 6 anos…?

– Isso não é o mais importante, atenção: passemos adiante, então, dando um número médio para tua pergunta: 5 – se fazes questão de uma resposta exata… Depois deste tempo o Estado fá-los-á descer de novo à caverna, obrigando-os a passar pelo exército e pelas demais ocupações da faixa etária. Além de ser dialéticos, não deverão perder para os demais em termos de experiência. Durante este período, serão cuidadosamente observados, para se constatar se ainda se mantêm firmes, diante de mil contingências, não só em assuntos filosóficos ou militares, mas para o que quer que se dirijam em seu tempo livre ou por encargo da sociedade; ou se vacilam como cidadãos.

– Mas quanto tempo deverão durar estas provas?

– Quinze anos. Então é chegada a ocasião de conduzir ao termo aqueles que, aos 50 anos de idade, tiverem saído incólumes de todas estas provas, havendo-se destacado nos estudos e na conduta.”

PÉROLAS DO X-TUDO – Capítulo I

Antes de ser o Seclusão Anagógica, o blog era o X-TUDO (2005-2016), onde eu escrevia, quase que literalmente, sobre tudo. Uma omelete lingüística efervescente, com um pouco de cada coisa comestível dentre os ingredientes. Nesta série chamada “Pérolas do X-Tudo”, que resolvi iniciar hoje, revisitarei criticamente algumas das minhas postagens mais antigas, indicando erros crassos e mudanças de percepção que sofri de lá pra cá, em mais ou em menos detalhes (hoje eu fui bem prolixo, vejam abaixo). Notar que enquanto escrevo estas linhas tenho a idade de 31 anos. Infere-se daí que alguns dos textos que ainda planejo que figurem no Seclusão neste série “Pérolas” foram escritos na minha adolescência e durante minha formação filosófica “primeira”, no que devemos ser indulgentes comigo mesmo quanto ao conteúdo que encontrarmos (hehe!).

Fonte original do material de hoje: http://xtudotudo6.zip.net/arch2008-03-01_2008-03-31.html (DICA: use a ferramenta Control + F para localizar o excerto original!)

março de 2008

“Contrariando Kant, a estética não é um juízo independente. Vincula-se totalmente à Política e à Economia, ao modo como um povo emprega sua razão – e cada movimento histórico-intelectual tem sua beleza: que outra ordem das coisas seria suficiente para explicar o impulso modernista em seu cume nazista? Obviamente uma deturpação (heideggeriana) do astuto Nietzsche, da Estética do mesmo.” [negrito, sublinhados e itálico em 17/07/19)

COMENTÁRIOS (17/07/19):

OS ERROS E ACERTOS DE KANT, A RESSURREIÇÃO PÓS-PLATÔNICA DA TEORIA DA ARTE & ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O CONFUSO SÉCULO XX

 

            Eu não conhecia a teoria estética de Immanuel Kant diretamente. Ela não é oposta à de Nietzsche; tampouco eu tinha lido qualquer texto de Heidegger, salvo, talvez, a essa altura, “Por que antes existe algo em vez do nada?” (título aproximado de um artigo). A parte “desprezível” da filosofia de Kant, de um ângulo da “vontade de potência”, desprezo endossado pelos filósofos existencialistas do século XX, seria, principalmente, sua segunda obra da trilogia clássica – CRÍTICA DA RAZÃO PRÁTICA –, circunscrita ao problema da moral. Àquela altura, Kant teve de recorrer a arremedos e justificativas teleológicas derivadas de seus predecessores (ou seja, justificativas mediante DOGMAS) EM QUE PESE anos antes haver refutado toda a Filosofia Ocidental anterior a si próprio acusando-a de DOGMÁTICA – refutação não apenas em gritaria e palavrório, mas com método, refino e maestria, diga-se – na sua cética e inaugural CRÍTICA DA RAZÃO PURA, dedicada à síntese do conflito EMPIRISMO X RACIONALISMO (em teoria do conhecimento), inclusive acertando em cheio em sua audaciosa crítica a Hume, tido como “referência em Ceticismo”. Porém, tal ceticismo consumado (que significava superar as epistemologias não só de Hume, mas também de Locke, Descartes, Bacon, entre outros grandes nomes) não conduzia a lugar nenhum em termos de conhecimento (se é que Kant desejava erigir algo, além de resenhar, refutar e destruir a Filosofia precedente). Talvez por isso ele se propôs, na sequência, à “parte positiva” de sua grande tarefa – o que preciso explicar antes de falar da estética kantiana –, dando a partir daí seus referidos passos em falso e voltas em círculo.

            Como assinalado em LETRA DE FÔRMA no parágrafo anterior, sendo sua segunda CRÍTICA, em realidade, apenas a reafirmação de velhos dogmas judaico-cristãos – a exposição do imperativo categórico, a afirmação da liberdade humana a despeito da estrutura a priori do conhecimento (tornando-nos criaturas condicionadas por tempo, espaço e as relações de causa-e-efeito da matéria), fazendo o comportamento ético depender subitamente de uma noção moral inata ao homem, que deve escolher livremente cumprir o dever prescrito pela divindade (um paradoxo já no enunciado, como hoje se nota facilmente) –, tal tentativa de crítica se torna mera Apologia da RAZÃO PRÁTICA (justamente a descrição da Europa cristã do século XVIII, o mundo de Kant), e não sua refutação ou superação, como pareceria que a encontraríamos, pelo menos após lermos a promissora CRÍTICA DA RAZÃO PURA…

            Já sua CRÍTICA DA FACULDADE DO JUÍZO ou CRÍTICA DA FACULDADE DE JULGAR (as traduções variam), a terceira parte da trilogia escrita muitos anos depois, devotada exclusivamente à Estética, apesar de não retificar o erro moral, analisa com precisão cirúrgica o fenômeno estético, que é imediato e não depende do juízo moral, i.e., diz respeito à Vontade (conceito ainda inexistente em Kant), instinto, predisposição individuais, pois o “gosto estético” (sendo precisamente aqui descoberto tal qual o temos hoje) não é derivado da reflexão ou princípio de razão (que elaboram conceitos), mas é sentido antes de ser pensado, no que harmoniza-se, sim, com a filosofia nietzschiana (única parte em que o faz). Kant, nestes anos de maturidade, a contento ou não, funda a disciplina chamada Estética Ocidental ou Teoria da Arte.

            O dito acima (2008) está totalmente revirado. Insisto: a Estética – como reconhecida por Kant, Schopenhauer, Nietzsche, e com certeza por Heidegger também, hoje posso endossá-lo – é completamente autônoma em relação à Política ou Economia, grosso modo; o que não impede uma análise econômica ou política do devir estético; mas isso não interessa como objeto da Estética e não é a verdadeira arte. Logo, Walter Benjamin, na sua conhecida obra “…Reprodutibilidade técnica” precisa estar errado; e Theodor Adorno, seu colega e correspondente (e podemos até dizer financiador), que o critica acerbamente, evocando os fundadores do campo da Estética em seu auxílio, tem de estar do lado da razão. Essa visão de que uma “arte politizada” ou, enfim, de que a política mesma poderia redimir O MUNDO E A ARTE é típica sobretudo da primeira metade do século XX, uma crença tipicamente MODERNISTA e derivada do ROMANTISMO ALEMÃO.

            Em suma, o supra-sumo do belo seria belo em todas as apreciações; a relatividade da beleza decorre de estarmos lidando com gradações do belo. Provavelmente esta BELEZA IDEAL, que atingiu a perfeição, não existe nem existirá, a não ser enquanto conceito (o que une, na história da Estética, Kant e seus discípulos, tão próximo de nós no tempo, ao prematuro Platão, que há mais de 2 mil anos não distinguia Ética de Estética). O Nazismo se apropriava de aspectos estéticos conforme lhe fosse conveniente, a arte contemporânea ao Nazismo se posicionava contra ou a favor dele. Hoje, podemos falar de características “fascistas/antifascistas” nas obras de arte póstumas à II Guerra ou mesmo, grosso modo, nas obras dos períodos anteriores (século XIX para trás). Já afirmar, de modo totalizante e precipitado, que o Renascimento seria uma Estética fascista por ter em mira um ideal de homem que poderia corresponder ao ideal de homem do Arianismo não faz o menor sentido. Não passava de escolha política conveniente do Nazismo eleger sua “arte oficial”, e esse fato histórico não diminui o Renascimento ou, mais ainda, os cânones da arte helenística, em nada, enquanto Arte. Outro fato histórico, ou antes deveria dizer “hipótese historiográfica plausível”, é que, se o III Reich se concretizasse (vencesse), haveria a destruição de toda a arte modernista, entendida como degenerada pelos idealizadores do regime, bem como hoje sublinhamos a degenerescência e anomalia do supremacismo nazifascista.

            Em suma (2!), não basta ser antifascista para estar certo: reconhecer a estética nazista como degenerada é bem fácil e foi o único acerto da anotação de 2008. Mas todo o fundamento do raciocínio estava do lado do avesso!

* * *

A REPÚBLICA – Livro V

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

“Que te parece mais ridículo nisso tudo? Provavelmente me dirá que são as mulheres exercitando-se nuas misturadas com os homens no ginásio – e não falo só das jovens, mas também das velhas, a exemplo daqueles anciãos que se comprazem nesse tipo de exercícios, em que pese as rugas e o aspecto desagradável que oferecem à vista.”

“Recordemos que não faz muito os gregos ainda acreditavam, como hoje a maioria das nações bárbaras, que a visão de um homem nu é um espetáculo vergonhoso e ridículo; e quando os ginásios foram abertos pela primeira vez em Creta, e logo depois em Esparta, os burlões daquele tempo tiveram muitos motivos para caçoadas. Porém, depois de a experiência ter demonstrado, creio eu, que era melhor fazer os exercícios estando nu que ocultando certas partes do corpo, a razão, atendendo ao que era mais conveniente, dissipou essa impressão de ridículo que produzia a visão da nudez, e comprovou que é coisa para néscios achar algo ridículo que não seja mal por si só; que não merece consideração aquele que tudo faz para promover o riso, inclusive tomando por objeto coisas distantes do irracional e do mal, muito menos aquele que se dirige com seriedade a fins outros que não o bem.”

“- E aí vês, meu querido amigo, que no governo dum Estado não há ocupação que seja própria da mulher ou do homem enquanto tais, senão que, havendo dotado a natureza a ambos os sexos das mesmas faculdades, todos os ofícios pertencem aos dois em comum, a única diferença sendo que a mulher é mais fraca que o homem.

– Correto.

– Imporemos, pois, tudo aos homens, sem reservar trabalho algum às mulheres?”

“- Há mulheres adequadas para o ofício de guardiãs, como há as que não o são; porque não são aquelas as qualidades que exigimos em nossos guerreiros?

– Sim.

– A natureza da mulher, concluindo, é tão própria para a guarda do Estado quanto a do homem.”

“Deriva daí que as esposas de nossos guerreiros deverão despojar-se de seus vestidos, posto que a virtude ocupará seu lugar. Participarão dos trabalhos da guerra e de todos os que a guarda do Estado exija, sem se ocupar de qualquer outra coisa. Só se terá em conta a fraqueza natural de seu sexo, atribuindo-lhes pesos e cargas menores que os dos homens. Quanto àquele que rir da visão das mulheres que se exercitarem nuas visando a um fim bom, este é um disparatado que nem sequer sabe o que faz, nem mesmo por que é que ri; porque há e haverá sempre razões para dizer que o útil é belo, e que é feio aquilo que é daninho.”

os esposos serão tirados pela sorte, o que elimina o subterfúgio dos súditos inferiores culparem os magistrados ao invés da mera fortuna.”

“A mulher dará filhos ao Estado a partir dos 20 e até os 40 anos, e o homem desde que já tenha ultrapassado <o momento de maior ímpeto de sua corrida>(*) e até os 55.”

(*) “O trecho entre aspas é provavelmente uma citação de verso perdido de Píndaro.”

“Se um cidadão procria antes ou depois desse prazo, declaramo-lo culpado de injustiça e sacrilégio por haver engendrado um filho cujo nascimento é obra de trevas e libertinagem”

O RELACIONAMENTO EQUILIBRADO EXIGE A PARIDADE ETÁRIA: “quando ambos os sexos já tiverem ultrapassado a idade fixada para dar filhos à pátria, deixaremos os homens em liberdade de ter relações com as mulheres que desejarem, menos com suas avós, suas mães, suas filhas e suas netas. As mulheres terão a mesma liberdade com relação aos homens, menos com seus avôs, pais, filhos e netos. Mas só serão permitidas tais uniões após prevenir-se o casal de que não deverá ter descendentes (pois a pessoa escolhida pelo cidadão já maduro poderá ainda não ser estéril).”

“Te parece justo que os gregos reduzam cidades gregas à servidão? Não deveriam proibir essa prática de forma geral, tanto quanto for possível, assentando por princípio que não haja escravidão de povos gregos, para evitar que caiam na escravidão dos bárbaros?”

“E não é vil e concupiscência imoral despojar um morto? Não é uma pequeneza de espírito, que apenas seria perdoável a uma mulher, tratar como inimigo o cadáver do adversário, quando a qualidade de inimigo já desapareceu, ficando só o instrumento de que se servia para combater? Os que agem desta maneira fazem o mesmo que os cães que mordem a pedra¹ que os feriu, em vez de atacarem a mão que a arremessou.”

¹ Essa ilustração do animal que morde a pedra, como que estabelecendo uma lei de talião com o sujeito-objeto equivocado, atribuindo entidade e intencionalidade ao reino mineral, ficou famosa na Filosofia. Spinoza, Schopenhauer, Nietzsche e diversos outros autores voltam a citar o exemplo.

“- Minha opinião é de que não se deve devastar nem queimar os campos dos gregos vencidos; e sim contentar-se com tomar todos os grãos e frutos da safra. E queres saber por quê?

– Com toda certeza.

– Parece-me que assim como a guerra e a discórdia têm nomes diferentes, são também duas coisas distintas que se relacionam com dois objetos paralelos. Uma ocorre por conta de laços de sangue e de amizade preexistentes entre nós, a outra por conta do que nos é absolutamente estranho. A inimizade entre chegados se chama discórdia; entre estranhos, guerra.¹

¹ Platão (pela boca de Sócrates) tenta aqui diferenciar o conflito militar entre Estados de uma guerra civil propriamente dita, conceito até então inexistente (na realidade há indistinção entre as esferas civil e militar para esse período histórico). Discórdia, o mesmo que desentendimento, desacordo, desavença, é um conceito negativo: ora, onde há desentendimento e desacordo, pressupõe-se que havia antes um entendimento ou um acordo (a atual “sociedade civil”), e que a tensão e violência que subitamente arrebentam farão com que um dia essa concórdia original seja restabelecida. A princípio, os dois (conflitos militares e discórdias entre co-irmãos) seriam inerentes à natureza humana. Mas a República representaria uma mudança importante nessa visão.

Já que a natureza parece incitar o homem a entrar em conflitos com seus semelhantes de tempos em tempos, o que se deveria ao menos tentar evitar é que em virtude deste tipo de conflito (onde imperam desde sempre uma certa ética e nobreza) fosse estabelecido, de forma artificial e inecessária, o ódio duradouro entre indivíduos que sequer se conhecem, intensificando as perdas e danos para ambos os lados. Não há qualquer razão lógica para incendiar plantações de um território adversário na guerra, promovendo a escassez e a fome de outros homens, “estranhos”, pessoas que não dizem respeito às dissensões intestinas daqueles poucos que iniciaram a luta.

Chegados”, pronunciado por Sócrates, não é o mesmo que família ou amigos íntimos, mas tem um sentido mais amplo para o homem antigo, que não podemos capturar com tanta facilidade. Qualquer cidadão da polis era de certa forma chegado um do outro (num governo equilibrado, i.e., a Atenas da época de Sócrates). Os homens participavam da política, votavam pela declaração ou não da guerra e viviam num pequeno território e em pequeno número, reconhecendo-se e estabelecendo convívio fraterno (o que não implica “harmonioso”, mas ao menos submetido a regras consensuais, mais até do que existiria hoje entre irmãos sangüíneos que habitam a mesma casa). Mesmo entre as polis havia laços que denominaríamos hoje “pan-nacionais” ou civilizacionais, pois reconheciam-se como helenos, em contraste com os bárbaros. Mas mesmo entre gregos e persas, p.ex., quer seja, helenos e bárbaros, havia idealmente um código de ética e admiração e respeito mútuos. Só era digno pelejar contra o inimigo porque ele era grandioso, e essa rixa deveria durar apenas enquanto perdurasse o estado de guerra, acontecimento o mais das vezes breve.

Para Platão, mesmo a guerra ética de helenos contra helenos já é um absurdo, o que é um pensamento anti-homérico. Não obstante, no caso de uma guerra entre gregos e persas pode-se até admitir, dependendo da estratégia e do contexto, aquilo que ele proíbe acima para guerras entre gregos (devastar e queimar os campos dos vencidos).

“Por conseguinte, quando entre gregos e bárbaros surja qualquer desavença e venham às vias de fato, essa, em nossa opinião, será uma verdadeira guerra; mas quando sobrevenha uma coisa semelhante entre os gregos, diremos que são naturalmente amigos, que isto é uma aberração ou doença, divisão intestina, que turva a Hélade,¹ e daremos então a essa inimizade o nome de discórdia.²”

¹ Sentimento nacional mais fundo, os laços mais primitivos do homem grego.

² Em decorrência disso, uma coisa que parece ser normalizada ou naturalizada é a própria guerra ao bárbaro em si, como se este assunto não admitisse reflexão, ou talvez porque a necessidade de concisão na estrutura do diálogo d’A República não permitisse essa digressão aqui.

“Quanto mais brecha encontramos, tanto mais te estreitamos para que nos expliques como é possível realizar teu Estado; fala, pois, e não nos faças mais esperar.”

“- Quando indagávamos qual era a essência da justiça e como devia ser o homem justo, supondo que existia, e quais as essências da injustiça e do homem injusto, nada mais propúnhamos que encontrar modelos, fixar nossas vistas em um e noutro, a fim de julgar a felicidade ou desgraça que acompanha cada um deles, e assim nos obrigar a concluir com relação a nós mesmos que seremos mais ou menos felizes segundo nos pareçamos mais a um modelo que a outro; mas nosso desígnio nunca foi assinalar a possibilidade da existência real desses modelos.

– Dizes a verdade.”

“- E nós, que foi que fizemos neste diálogo senão traçar o modelo de um Estado perfeito?

– Não fizemos nada senão isso.

– E o que dissemos, perde em alguma coisa se não podemos demonstrar a possibilidade da formação de um Estado segundo este modelo?”

“Trataremos agora de descobrir por que os Estados atuais estão mal-governados e que mudanças mínimas será possível neles introduzir, para que seu governo se faça semelhante ao nosso modelo.”

“- Como os filósofos não governam os Estados, ou como os que hoje se chamam reis e soberanos não são verdadeira e seriamente filósofos, de sorte que a autoridade pública e a filosofia se encontrassem juntas no mesmo sujeito; e como não se excluem, absolutamente, do governo tantas pessoas que aspiram hoje a um desses dois termos somente, em detrimento do outro; como nada do nosso modelo se verifica, portanto, meu querido Glauco, não há remédio possível para os males que arruínam os Estados nem para os do gênero humano; nem este Estado perfeito, cujo plano traçamos, aparecerá jamais sobre a terra, nem verá a luz do dia. Eis aqui o que há muito tempo duvidava se devia mesmo dizer, porque previa que a opinião pública se sublevaria contra semelhante pensar, porque é difícil aceitar que a felicidade pública e a privada só se podem realizar num Estado assim.

– Ao proferires um discurso semelhante, meu querido Sócrates, deves esperar que muitos, e entre eles gente de grandes méritos, se despojem, por assim dizer, de suas roupas e, armados com tudo o que tiverem ao alcance das mãos, arrojem-se sobre ti com todas as forças e dispostos a tudo. Se não os rechaças com as armas da razão, viverás continuamente atormentado graças a tuas próprias brincadeiras, e receberás um castigo por seres tão temerário.”

“todos os demais¹ não devem nem filosofar nem se mesclar no governo, senão seguir aos que dirigem.”

¹ Todos a não ser os políticos e o sábios, que são sempre uma coisa só, o rei ou os príncipes-filósofos.

“GLAUCO – Segundo tua explicação, o número de filósofos teria de ser infinito, e todos de um caráter bem estranho; porque seria preciso compreender sob este nome todos os que são aficionados pelos espetáculos, que também gostam de saber, e seria coisa singular ver entre os filósofos estas figuras que tanto aprovam as audições, que decerto nem sequer tirariam proveito dessa nossa conversação, mas que têm como que alugados seus ouvidos para todos os coros, e suas pernas para concorrer a todas as festas de Dionísio sem excetuar uma única, seja na cidade ou no campo. E chamaremos <filósofos> aos que não demonstram ardor senão para aprender tais coisas ou que se consagram ao conhecimento das artes mais ínfimas?

SÓCRATES – De maneira alguma; estes são filósofos apenas em aparência.

GLAUCO – Então quem são, segundo teu parecer, os verdadeiros filósofos?

SÓCRATES – Os que gostam de contemplar a verdade.”

SÓCRATES – Os primeiros, cuja curiosidade está por inteiro nos olhos e nos ouvidos, se comprazem em ouvir belas vozes, ver belas cores, belas figuras e todas as obras de arte ou da natureza em que entra o belo; mas sua mente é incapaz de ver e de apreciar a essência da beleza mesma, reconhecê-la e unir-se a ela.

GLAUCO – De fato.

SÓCRATES – Não são raríssimos os que podem se elevar ao belo em si e contemplá-lo em sua essência?

GLAUCO – São.

SÓCRATES – Um homem que, então, crê nas coisas belas, mas que não tem nenhuma idéia da beleza em si mesma, nem é capaz de seguir aqueles que queiram torná-la conhecida, vive ele em sonhos ou desperto? Atenta tu: que é sonhar? Não consiste em, seja dormindo seja acordado, tomar a imagem de uma coisa pela coisa mesma?”

“- …Diz-me: aquele que conhece, conhece alguma coisa ou nada? Responde no lugar do conhecedor de opiniões.

– Respondo que conhece alguma coisa.

– Este algo existe ou não existe?

– Existe, ora. Como se poderia conhecer o que não existe?

– De maneira que, sem levar mais adiante nossas indagações, sabemos, sem dúvida, que o que existe absolutamente é absolutamente cognoscível, e o que de maneira alguma existe, de maneira alguma pode ser conhecido.

– Perfeito.

– Mas se houvesse uma coisa que existisse e não existisse ao mesmo tempo, não ocuparia um lugar intermediário entre o que existe pura e simplesmente e o que não existe em absoluto?

– Estaria no meio de ambos.

– Portanto, se a ciência tem por objeto o ser, e a ignorância o não-ser, é preciso buscar, com respeito ao que ocupa o meio-termo entre o ser e o não-ser, uma maneira de conhecer que seja intermediária entre a ciência e a ignorância, supondo que haja tal coisa.

– Inquestionável.

– Sustentaremos que há algo chamado opinião?

– E como não o faríamos?

– Trata-se de faculdade distinta da ciência, ou sinônima?

– Distinta.

– Portanto, a opinião tem seu próprio objeto, e a ciência tem o seu, sendo que são reciprocamente exclusivos.

(…)

– Se o ser é objeto da ciência, o da opinião será outra coisa distinta do ser.

– Sim, outra.

– Será o não-ser? Ou é impossível que o não-ser seja o objeto da opinião? Atenta no que vou dizer agora: aquele que tem uma opinião, não tem opinião sobre alguma coisa? Pode-se ter uma opinião que recaia sobre nada?

(…)

– Então é forçoso dizer que o objeto da opinião não é nem o ser nem o não-ser.

– Nenhum dos dois, decerto.

– Por conseguinte, a opinião não é ciência nem ignorância.

– Pelo menos, não parece.

– Mas a opinião acaso vai mais longe que uma e se detém aquém da outra, de forma que seja mais luminosa que a ciência e mais obscura que a ignorância?

– Nada disso! Nem uma coisa nem outra!

– Acontece, então, o exato oposto? É mais obscura que a ciência e mais clarividente que a ignorância?

– Agora arremataste.

– Então, a opinião está na metade do percurso entre a iluminação total da ciência e a escuridão plena da ignorância?

– Absolutamente!”

Havendo assentado tudo isso de uma vez por todas, que me responda este homem que não crê que haja nada belo em si, nem que a idéia do belo seja imutável, e que só admite coisas belas; esse enamorado pelos espetáculos que não pode consentir que se lhe diga que o belo é uno e o justo é uno — que me responda este homem, pois (agora falo diretamente com ele): Não te parece que estas coisas mesmas, que tu julgas belas, justas e puras, sob outras relações não seriam também não-belas, não-justas e não-puras?

* * *

O que é, o que é? Adivinhação infantil na Grécia Antiga:

Um homem que não é homem

viu e não viu

um pássaro que não é pássaro

parado sobre um pau que não é pau

e atirou-lhe uma pedra que não é pedra”

RESOLUÇÃO: Um eunuco entreviu um morcego parado sobre uma cana e atirou-lhe sem querer uma pedra-pomes.

A REPÚBLICA – Livro IV

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

“Sim. E acrescenta que sua remuneração consiste apenas na alimentação, que não recebem como os demais e, portanto, não podem nem viajar por conta própria nem presentear as libertinas, nem dispor de nada que seja a seu gosto, como fazem os felizes presumidos.”

“Se nos ocupássemos em pintar estátuas e alguém nos objetasse que não empregávamos as mais belas cores para pintar as mais belas partes do corpo, por exemplo, que não pintávamos os olhos de vermelho, mas de preto, creríamos responder cordialmente a este censor dizendo-lhe: não imagines surpreendente, homem, que houvéssemos de pintar os olhos tão belos que deixassem de ser olhos, e aquilo que digo desta parte do corpo deve-se estender a todas as outras, sendo que o que deves examinar é se damos a cada parte a cor que lhe convém, a fim de chegarmos a um conjunto perfeito.

“- Mas Adimanto, um lutador exercitado ao máximo em seu ofício não venceria facilmente dois adversários que não dominam o pugilato, ricos e obesos?

– Talvez não, caso tivesse de lutar com ambos ao mesmo tempo.

– O quê! Se tivesse a possibilidade de fugir e pudesse ferir, volvendo-se, ao que o seguisse mais de perto, e se empregasse muitas vezes essa estratégia à luz do sol e no meio do calor ardente, ser-lhe-ia difícil derrotar muitos, uns após os outros?!”

“- Portanto, ao que parece, nossos atletas se baterão sem dificuldade com um exército duas ou três vezes mais numeroso.

– Concordo, afinal de contas.

– E se pedissem socorro aos habitantes de um dos dois Estados vizinhos, dizendo-lhes o que é a verdade: nós não temos necessidade de ouro nem de prata, e nos está proibido tê-los; vinde em nosso socorro, que vos abandonaremos os despojos de nossos inimigos; crês tu que aqueles a quem se fizesse tal oferta prefeririam fazer a guerra a cães fracos e robustos a unir-se aos primeiros contra esse mesmo rebanho ou matilha gorda e tão delicada?”

Não há uma sociedade global: a República será apenas uma nata; grão de poeira num deserto de nações.

“- Assim ordenaremos nossos guardiães que atuam de uma maneira tal que o Estado não pareça grande nem pequeno, mas algo que deva permanecer num justo meio e sempre uno.

– Isso não é tão importante!”

“Em matéria de música, hão de estar mui prevenidos para não admitir nada, porque correm o risco de perder tudo, ou como disse Dámon,¹ e eu sou de sua opinião, não se pode alterar as regras da música sem comover as leis fundamentais do governo.”

¹ Foi o professor de Péricles na arte musical.

“os jovens devem estar calados diante dos anciãos, levantar-se quando estes se apresentam, ceder-lhes sempre o lugar de honra, respeitar os pais, conservar o modo de se vestir, de cortar o cabelo e de se calçar, todo o relativo ao cuidado com o corpo e outras mil coisas semelhantes” “Se bem que seria uma loucura fazer leis sobre tais coisas (…) nenhum legislador se rebaixou a semelhantes pormenores.”

“- Mas em nome dos deuses! Empreenderemos o formar regulamentos sobre o contrato de compra e venda, os convênios, os tratos sobre a mão-de-obra, os insultos, as violências, os processos, a nomeação dos juízes, a imposição ou supressão de direitos pela entrada ou saída de mercadorias por mar ou por terra e, numa palavra, sobre todo o relativo ao tráfico, à cidade e ao porto? Nos atreveremos a legislar sobre tudo isso?

– Não é necessário prescrever nada sobre isso aos homens de bem; eles encontraram por si mesmos e sem dificuldade os regulamentos que se fizerem necessários. (…) Caso contrário, passarão a vida redigindo, a cada dia, novos regulamentos sobre todos esses artigos, enxertá-los-ão fazendo correção sobre correção, imaginando-se sempre que assim conseguirão a perfeição.

– Isto é, sua conduta se parecerá com a daqueles doentes que, por intemperança, não querem renunciar a um gênero de vida que altera sua saúde.

– Justamente.

– A vida de tais doentes é decerto encantadora! Todos os remédios que tomam não fazem mais do que complicar e piorar sua doença e, no entanto, esperam sempre pela saúde a cada remédio que se lhes prescreve!

– É exatamente essa a sua condição.

– E não é ainda mais singular neles que aquele que consideram seu mais mortal inimigo seja quem delibera que se não pararem de comer e beber em excesso e de viver na libertinagem e na desídia de nada lhes servirá nenhum medicamento, cautério, cirurgia, encantamento ou amuleto?”

(*) “Os antigos criam que Delfos estava situada no centro do mundo.”

“Faz muito tempo, meu querido amigo, que, segundo parece, temos uma idéia diante de nós e não a desenvolvemos adequadamente. Merecemos que se ria de nós como dos que buscam o que já têm nas próprias mãos! Fixemos nossa vista longe, no lugar de olharmos apenas para perto, que é onde ela está. Quiçá seja esta a causa de ela se nos haver ocultado por tanto tempo!”

“Seria ridículo se esse caráter ardente e indômito atribuído a certas nações, como os trácios, citas e todos os povos do Norte em geral, ou esse espírito curioso e ávido de ciência que com razão se pode atribuir a nossa própria nação ou, enfim, esse espírito de interesse que caracteriza os fenícios e os egípcios, tivessem sua origem noutra parte que não nos particulares que compõem cada uma destas nações.”

“Leôncio, filho de Agláion, voltando um dia do Pireu, percebeu ao longe, ao longo da muralha setentrional, uns cadáveres estendidos perto do verdugo, e sentiu de repente um desejo violento de se aproximar para vê-los e um temor mesclado de aversão à vista de semelhante quadro. Mas logo resistiu e tapou a cara. Sucumbindo, porém e ao cabo, num terceiro instante, à violência de seu desejo, dirigiu-se aos cadáveres e, abrindo os olhos o quanto pôde, exclamou: <Ora então! Desgraçados, gozai amplamente de tão magnífico espetáculo!>.”

“Chegamos, enfim, ainda que com enormes dificuldades, a mostrar claramente que há na alma de cada homem as mesmas partes que no Estado, e em igual número.”

(*) “Há uma teoria de Hipócrates de que a saúde depende do equilíbrio de três líquidos no corpo: o sangue, a fleuma e a bile.”

“- Quero dizer que a alma tem tantas formas diferentes quanto o governo.

– Quantas?

– Cinco as do governo e cinco as da alma.

– Diga-me quais são!

– Então eu digo que a forma de governo que nós estabelecemos é una, mas que se lhe pode dar dois nomes. Se governa um só, dar-se-á ao governo o nome de monarquia; e se a autoridade se divide entre muitos se chamará aristocracia.

– Correto.

– Digo que aqui não há mais que uma só forma de governo; porque que o mando esteja em mãos de um só ou nas de muitos, isto não altera em nada as leis fundamentais do Estado, se os princípios das crianças e da educação que queremos forem rigorosamente observados.”

A REPÚBLICA – Livro III

Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.

“- Pois bem, um homem que está persuadido da existência do Hades e que é horrível, poderá deixar de temer a morte? Poderá preferi-la em combate a uma derrota e à escravidão?

– Impossível.”

PREFIGURAÇÕES SINISTRAS DAS CALDEIRAS DE LIVROS? “Conjuremos a Homero e aos demais poetas a não levarem a mal que apaguemos de sua obra essas passagens. Não é porque não sejam demasiado poéticas e não satisfaçam o ouvido do público; mas, quanto mais belas são, tanto mais são perigosas para as crianças e para os homens que, destinados a viver livres, devem preferir a morte à servidão.”

“Apaguemos também estes nomes odiosos e formidáveis de Cócito, Estige, Ínferos, Manes¹ e outros semelhantes, que fazem tremer aos que os escutam.”

¹ “1. Sombras ou almas dos mortos; 2. Deuses infernais do paganismo; 3. [Figurado] Memória dos antepassados. <manes>, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/manes [consultado em 23-06-2019].”

“Com razão é que suprimimos nos homens ilustres as lamentações, e reservamo-las às mulheres, e ainda assim não às mais dignas dentre elas, nem aos homens vis”

“- Tampouco será conveniente que se sintam inclinados à hilaridade. Risos em excesso dão lugar quase sempre a uma alteração também violenta.

– Assim também o creio.”

“Somente os magistrados supremos terão o poder de mentir, a fim de enganar o inimigo ou os cidadãos pelo bem da república.”

“Não consintamos, pois então, que aqueles que são objeto de nosso cuidado e para quem é um dever chegar a ser homens de bem se comprazam, já varões, no imitar uma mulher, seja jovem ou velha, uma casada briguenta ou orgulhosa, que pretenda se igualar aos deuses, jactanciosa de sua suposta felicidade, ou que se abandone em desgraça a queixas e lamentações. Ainda menos imitarão a adoentada, a apaixonada ou a que sofre das dores do parto.(*)” “Deve-se conhecer os dementes e os homens e mulheres maus, porém não se os deve imitar nem com eles parecer-se.”

(*) “No teatro grego, todos os papéis, tanto masculinos quanto femininos, eram desempenhados por homens.”

“Em nosso Estado daremos guarida a esses 3 tipos de narrativa ou só admitiremos uma ou outra das simples ou das mistas?”

“- Me parece, meu querido amigo, que tratamos a fundo esta parte da música que corresponde aos discursos e às fábulas, posto que falamos do que há que dizer e da forma de dizê-lo.

– Concordo contigo.

– Resta-nos falar desta outra metade da música que diz respeito ao canto e à melodia, certo?

– Ó, é evidente.”

“- Quais são as harmonias lastimosas? Diga-mo, já que és músico.

– A lídia mista, a lídia tensa¹ e outras semelhantes.

– É preciso, por conseguinte, suprimi-las como más, não só para os homens, mas também para aquelas mulheres que se gabam como sábias e moderadas.

– Totalmente de acordo.”

¹ Modalidades nascidas na Lídia, Ásia.

“- Quais são as harmonias moles e usadas nos banquetes?

– Algumas variedades da jônica e da lídia, consideradas harmonias relaxantes.

– Podem ser de algum uso para os guerreiros, meu querido?

– De forma alguma, restando, assim, apenas a dórica e a frígia para utilizar.

– Eu não conheço todas as espécies de harmonia; escolhe uma destas: uma forte, que traduza o tom e as expressões de um homem de coração, seja na peleja, seja em qualquer outra ação violenta, como quando, sem que o detenham as feridas nem a morte ou estando imerso na desgraça, espera, em tais ocasiões, com firmeza e sem se abater, pelos azares da fortuna; outra mais tranqüila, própria das ações pacíficas e completamente voluntárias de alguém que tenta convencer um outro de alguma coisa, com súplicas se é um deus, com advertências, se é um homem; ou que, ao contrário, se rende a suas súplicas, escuta suas lições e seus ditames, e que pelo menos nunca experimenta o menor contratempo, e que, enfim, longe de se envaidecer de seus triunfos, conduz-se com sabedoria e moderação e está sempre contente com sua sorte.”

“- Tampouco teremos necessidade de instrumentos de numerosas cordas nem da técnica pan-harmônica em nossos cantos e em nossa melodia, correto?

– Não, sem dúvida.

– Nem sustentaremos fabricantes de triângulos, de plectros¹ e outros instrumentos de cordas numerosas e de muitas harmonias?

– Não, ao que parece.

– Mas consentirias então em receber em nossa república os construtores e tocadores de flauta? Não equivale esse instrumento justamente aos que têm o maior número de cordas? E os que reproduzem todos os tons, são algo senão imitações da flauta?

– São equivalentes da flauta, com efeito.

– Assim, não nos restam mais que a lira e a cítara para a cidade, e para os campos o pífaro,² que será utilizada pelos pastores.

– É evidente, após tudo o que dissemos.

– Além do mais, meu querido amigo, não faremos nada extraordinário se dermos preferência a Apolo sobre Marsias,³ e aos instrumentos inventados por este deus aos do sátiro.

– Não, por Zeus!”

¹ Palheta

² Ou pife ou pífano. As principais fontes citam sua origem como indígena, ou pelo menos ligada a comunidades suíças do século XIV, portanto seria um instrumento da idade moderna apenas; mas, pela descrição de “siringa” no dicionário, trata-se virtualmente do mesmo objeto: uma flauta mais simples, feita de tubos de cana, bambus ou ossos ocos, e portanto muito antigo.

³ Entidade mitológica. Devido a sua presunção em julgar-se melhor músico que Apolo, recebe uma cruel punição divina (uma morte penosa).

“todas as medidas se reduzem a três tipos, assim como todas as harmonias resultam de quatro tons principais”

“Creio tê-lo ouvido falar algo confusamente acerca de certo metro composto que se chamava enoplio,¹ de um dátilo² e um heróico,³ e que se compunha, não sei como, igualando a parte tônica com a átona4 e terminando em sílabas longas ou breves; ademais, formava outro que se chamava iambo,5 creio eu, e não sei qual outro chamado troqueu,6 que se compunha de longas e breves.”

¹ A palavra parece existir só em italiano, celeiro precoce da música clássica; “enóplio” em Português é um inseto. Por falta de conhecimento em teoria musical, deixo no original, acrescentando o itálico que não havia na versão de Azcárate. Descreve o movimento rítmico que vai da sílaba breve à longa. Lembrando que, no contexto do diálogo platônico, não se trata só de música, mas algo mais amplo: pode se referir simplesmente à métrica utilizada por um poeta; normalmente o poeta se apresentava no teatro, ou um ator apresentava o poema escrito, sendo a voz humana, aliás, um instrumento musical em si, e dos mais complexos e versáteis.

² Uma sílaba longa + 2 breves; nesta ordem.

³ Normalmente associado a composições de versos decassílabos.

4 Ou “tonal e atonal”.

5 Sílaba átona sílaba tônica

6 Sílaba tônica sílaba átona (ou ainda “coreu”).

“o ritmo e a harmonia estão feitos para as palavras, e não as palavras para o ritmo e a harmonia.”

“- Não vês que os atletas passam a vida dormindo, e que, por pouco que se separem do regime que se lhes prescreve, contraem perigosas doenças?

– Já o observei.

– Necessitamos, pois, de um regime de vida mais flexível para os atletas guerreiros, que devem estar, como os cães, sempre alertas, ver tudo, ouvir tudo, mudar sem cessar, em campanha, de alimento e de bebida, sofrer frio e calor e, em conseqüência, ter um corpo à prova de todas as fadigas.

– Penso igual.”

“Em Homero mesmo pode-se aprendê-lo. Sabes que à mesa dos heróis nunca se servira peixe embora estivessem acampados no Helesponto, nem frituras, só carne assada, alimento cômodo para gente em guerra, a quem é mais fácil fazer fogo que levar consigo utensílios de cozinha.”

“-…as novas palavras <flatulência> e <catarro>.

– Decerto que estas palavras são novas e estrambóticas.

– E desconhecidas, na minha opinião, nos tempos de Asclépio.¹”

¹ Fundador mitológico da medicina.

MODERNIDADE: MELHOR VIVER DOENTE

“Que caia doente um carpinteiro, e verás como pede ao médico que lhe dê logo um vomitório ou um purgante ou, se for necessário, recorra ao ferro ou ao fogo. Mas se lhe prescreve um tratamento muito comprido, à base de gorrinho de lã para a cabeça e outras coisinhas que são moda, dirá bem pronto que não tem tempo para ficar de cama e que prefere morrer que renunciar a seu trabalho a fim de se ocupar do seu mal. Em seguida dispensará o médico e voltará a seu método ordinário de vida, com o qual ou recobrará a saúde cedo ou tarde, dedicado à labuta diária, ou, se o corpo não pode resistir à enfermidade, advirá a morte em seu auxílio e assim se livrará de preocupações.”

“- Em compensação, o rico, segundo se diz, não tem nenhuma classe de tarefas à qual não possa renunciar.

– Isso é o que dizem, ao menos.”

Não é certo que o primeiro efeito da música é adoçar seu valor, da mesma forma que o fogo abranda o ferro, e afrouxa essa rigidez que antes o inutilizava e o fazia de difícil trato? Mas se se continua entregando a seu feitiço sem se conter, esse mesmo valor desaparece e se derrete pouco a pouco, cortados por assim dizer os nervos da alma” “Sé a alma é fogosa, pelo contrário, sua coragem, ao se debilitar, faz-se instável; o menor motivo a irrita ou acalma, e em vez de fogosa torna-se colérica, irascível, repleta de mau humor.”

Vós que sois todos parte do Estado, vós – dir-lhes-ei, continuando a ficção – sois irmãos; mas o deus que os formou fez entrar o ouro na composição daqueles que estão destinados a governar os demais, e assim são os mais preciosos. Mesclou prata na formação dos auxiliares, e ferro e bronze na dos lavradores e demais artesãos. Como possuís todos uma origem comum, em que pese terdes, corriqueiramente, filhos que parecem-se convosco, poderá suceder, não obstante, que uma pessoa da raça de ouro tenha um filho da raça de prata, que outra da raça de prata dê a luz a um filho da raça de ouro, e que o mesmo suceda reciprocamente nas demais raças.“há um oráculo que diz que perecerá a república quando for governada pelo ferro ou pelo bronze.”

“Que comam sentados em mesas comuns, e que vivam juntos como devem viver os guerreiros no campo. Que se lhes faça entender que os deuses colocaram em suas almas ouro e prata divina e, por isso, eles não têm necessidade do ouro e da prata dos homens; que não lhes é permitido manchar a posse deste ouro imortal com a do ouro terrestre; que o ouro que eles têm é puro, enquanto que o ouro dos homens foi em todos os tempos a origem de muitos crimes.”