O QUE É A PSICOLOGIA? – George Canguilhem

Trad. de Maria da Glória Ribeiro da Silva

a psicologia experimental – que é em grande parte uma psicologia dos animais”

uma psicologia não pode ser chamada experimental senão em razão de seu método e não em razão de seu objeto. Enquanto que, apesar das aparências, é pelo objeto mais do que pelo método que uma psicologia é chamada clínica, psicanalítica, social, etnológica.”

é inevitável que, se propondo ela própria como teoria geral da conduta, a psicologia faça sua alguma idéia do homem. É preciso, então, permitir à filosofia perguntar à psicologia de onde ela tira esta idéia e se não seria, no fundo, de alguma filosofia.”

Uma vez que a psicologia significa etimologicamente ciência da alma, é notável que uma psicologia independente esteja ausente, em idéia e de fato, dos sistemas filosóficos da antiguidade, onde, no entanto, a psique, a alma, é tida como um ser natural. (…) O tratado aristotélico Da alma é, na realidade, um tratado de biologia geral, um dos escritos consagrados à física. (…) [Até Aristóteles,] a física trata da alma como forma do corpo vivo, e não como uma substância separada da matéria. Deste ponto de vista, um estudo dos órgãos do conhecimento (como a memória) não difere em nada do estudo dos órgãos da respiração ou da digestão. (…) A ciência da alma é uma província da filosofia no seu sentido mais originário (…) § É a esta concepção antiga que remonta, sem ruptura, um aspecto da psicologia moderna: a psicofisiologia – considerada durante muito tempo como psiconeurologia exclusivamente (mas, atualmente, além disso, como psicoendocrinologia) – e a psicopatologia como uma disciplina médica. (…) Em suma, enquanto psicofisiologia e psicopatologia, a psicologia remonta, ainda atualmente, ao século II a.C., com Galeno [um <Aristóteles> mais versado em medicina].”

O declínio da física aristotélica, no séc. XVII, marca o fim da psicologia como parafísica, como ciência de um objeto natural, e correlativamente, o nascimento da psicologia como ciência da subjetividade.”

A psicologia se constitui, então, como um empreendimento de desculpa do espírito [vendeta contra o mecanicismo]. Seu projeto é o de uma ciência que deve explicar por que, inicialmente, o espírito é obrigado a enganar a razão com relação à realidade. A psicologia se faz física do sentido externo

A situação de Maine de Biran é única, entre os dois Royer-Collard. Ele dialogou com o doutrinário e foi julgado pelo psiquiatra. Nós temos de Maine de Biran um Passeio com M. Royer-Collard nos jardins do Luxemburgo e nós temos de Antoine-Athanase Royer-Collard, irmão do precedente, um Exame Doutrina de Maine de Biran (publicado por seu filho Hyacinthe Royer-Collard, nos Annales Médico-Psychologiques, 1843, t. II, p.1). Se Maine de Biran não tivesse lido e discutido Cabanis (1757-1808) (Relações do físico e do moral no homem, 1798), se ele não tivesse lido e discutido Bichat (1771-1802) (Pesquisas sobre a vida e a morte, 1800), a história da psicologia patológica o ignoraria, o que ela não pode. O segundo Royer-Collard é, depois de Pinel (1745-1826) e com Esquirol (1772-1840), um dos fundadores da escola francesa de psiquiatria.”

APROFUNDAMENTO

Aron Gurwitsch, Développement historique de la Gestalt-Psychologie, in: Thales, Ano 2, 1935, pp. 167-175.

COM-PELADO PÓ-ÉTICO

Sem ânsia de matar minha ansiedade sufocada. Vômito de ânsia. Mar de agora (sea de náu). Seed. Semente. CID. Mentira. Mente-se muito por aqui. Náutica. Ver navios. Ingleses bem-temperados. Cook. Antropofagia. Sem-sal. Omão. Cimentar a vida. As faltas. Finas. nasPerNas. Cal-e-jado. Mein pecar carpe diem. Woody-woodpecker. Rude rude hoot-Hoot. Race dilemma. Mark my words, thou art foo…

Que os ursos também amam, isso todo mundo sabe. Porém, sabei também: os ursos são amados!

Renatorrussismo tóxico e como ser equilibrado (sobre culpar os pais por ‘tudo’)

autoHINDUgência

CHERODINGA: Yes, I kan’t?

Personagem

Primeiro

Pira

Pois

Pratica

Pirotecnias

Paranóias

para

Propagar

Patadas

prováveis

Potencialidades

Pagas

pelo

Poder

para

Pensar

Primor

de

Pungência

Pintura do

Proletariado

Papa-ricado

Pente-fino

A-Prisco

Primata

Pagenírico

Paideia

Pantomima

Petisco

Penicilina

Palanque

Pestinha

Pentecostes

pastar

parcimônia

potiguar

postergar

pospor

pimpolho

pote

poste

pôster

patrão

piparote

polêmica

pastiche

boliche

fetiche

migué

Martelada

mardeamargor

Pundonor

Pardal

Palhaço

Pânico

Pelourinho

Fatídico

Pneu

mania

Pleura

Pachorra

Post-morten

Norden

Suden

Est-ça

dikey

Ross

gloss

foz

igaraçu

Mont-

b l a n c

kkk

Vão pro Inferno” – onde fica esse buraco?

Cuidado!

Afrodionisíaco

Diogonísio

Tão diferente

Inacreditável

como pode!

Assim não dá

Cólera e coleira

à beira do

Abismo

Absinto tremores

Pressinto dores

posteriores.

músculo músculo adutor da coxa oxa oxa oxa

frente fries

go Back!

I’m back!

Are you O.K. AMY?

1 2 3 4

1 2

11 22

C.A.IU.AM.ÁSC.ARA

O.O re-ação e

Lião

sorvêt de frocux

minhafrô

Miami

Mordamir

se for capaz

i excItado6S

Suserano de Jóubs

6s 6s 6s the sweet amber of the bees

then is now

que todas as circunstâncias contribuam honestamente

singelamente

com a sua parte

nada mais posso exigir de MIM, se é que {insiralguém} me entende

tirando o nível de chacota natural

estilo-ana

Jesus saves & dies…

na sexta-feira treze DoomsDay

sacrifinalístico

consultóriossanatório

en-sugar some toi-lha on me

hommediable

poupourri

poopoopoo

papapa

blibliblí

blòblòblòck

Quantos anos desperdiçados? 13, 16, 25 ou 28?

Por que mais pessoas não gostam de moto?

Começaram seus problemas, k7a!

Eu sou seu presente.

Com minhas mais profundas e mal-intencionadas considerações…

Quintas sextas intenções.

Torna-te eternamente responsável pelo ódio que inspiras…

Quem achar que pecou, pecou.

Adão, primeiro anti-homem, achou

a genitália de Eva

e aceitou a punição

sadomasô de seu senhor.

liability

lie-ability

rehability

rehab ET

POLYGONS, SPRITES AND DWARVES

IMP SUCCUBUS

porcos-espinhos são fofinhos

hamsters de pêlo liso são asquerosos

paradox-sick-ally

MÊNON OU DA VIRTUDE Ou: Da inexistência de uma ciência política (Última tradução do ciclo “PLATÃO. Obras Completas”) + VIRGINIA WOOLF ao final!

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

MÊNON – Poderias dizer-me, Sócrates, se a virtude pode ser ensinada? E, podendo ou não, adquire-se só com a prática ou encontra-se no homem também naturalmente ou sob qualquer outra forma?

SÓCRATES – Até agora os tessálios desfrutaram de grande renome entre os gregos, e foram muitíssimo admirados por sua destreza em montar a cavalo, bem como por suas riquezas; mas hoje em dia sua fama reside, a meu ver, mais em sua sabedoria, principalmente na dos concidadãos de teu amigo Aristipo de Larissa.(*) A razão disso é que Górgias, havendo visitado esta cidade, atraiu a seu círculo, em vista de seu enorme talento, os aristocratas alêuadas, i.e., descendentes do rei Aleuas.¹ Aristipo se encontrava neste número. Apenas os mais distintos dos tessálios freqüentavam a residência de Górgias. Ele vos acostumou a responder com firmeza e imponência às perguntas, assim como os sábios respondem com naturalidade tudo aquilo que são perguntados (…)”

(*) “Que não deverá ser confundido com Aristipo de Cirene, discípulo do próprio Sócrates, que no entanto punha o Prazer no lugar do soberano Bem.” – P.A. (Mau discípulo, por sinal!)

¹ Rei mitológico, já que se diz que fôra neto do próprio Aquiles da Guerra de Tróia. Há discordância entre os escoliastas de língua portuguesa se se o chama Aleuas ou Alevas e, em conseqüência, seus descendentes poderiam tanto se chamar alêuadas como alêvadas. Aqui procedemos à opção de Azcárate.

Mas aqui em Atenas, meu querido Mênon, as coisas tomaram a contra-mão. Não sei que espécie de aridez se apoderou da ciência; até o ponto em que parece se haver retirado por completo destes lugares, para ir animar apenas vossa Tessália. Imagino que se perambularas nas ruas questionando o que me questionas serias vítima de troça, e não haveria quem não to dissesse: Estrangeiro, estou tão distante de saber se a virtude, dada sua natureza, pode ser ensinada, que ignoro mesmo o que seja essa tal virtude! Mas Mênon, eu disse isso sobre todos os atenienses: eu também não sei a resposta. Prescindo da sabedoria, como meus concidadãos. Sinto muitíssimo não possuir qualquer tipo de ciência sobre a virtude! (…) Parece-te, aliás, possível que alguém que não conhece a pessoa de Mênon afirme que seja formoso, rico e nobre, ou, enfim, destituído destas características? Crês tu?

MÊNON – Não, mas será verdade, Sócrates, que não saibas mesmo o que é a virtude? É concebível que, voltando eu a minha terra, tenha de aviltar tua imagem de sábio, confessando tua ignorância no tema?

SÓCRATES – Não só não o sei, querido Mênon, como não encontrei jamais alma que o soubesse, tanto quanto me concerne.

MÊNON – Como é? Não visitaste Górgias quando ele freqüentou Atenas?

SÓCRATES – Sim.

MÊNON – E me dizes então que ele de nada sabia?

SÓCRATES – Ando meio caduco, Mênon. Não posso dar-te um juízo exato, agora, de como avaliei Górgias então. Bom, talvez ele realmente soubesse o quê é a virtude, e dessa forma tu também, pois que tu és discípulo de Górgias.”

SÓCRATES – Deixemos Górgias em paz, uma vez que não se encontra para defender-se. Mas tu, Mênon, em nome dos deuses, o que opinas sobre a virtude? Diz-mo. Não me prives deste conhecimento! Se eu saio desta conversa convencido de que tu e Górgias sabeis quê é a virtude, terei de admitir minha derrota: incorrera em falsidade todo este tempo, uma vez que conhecia homens que sabiam o que é a virtude!

MÊNON – A coisa não é assim tão difícil, Sócrates. Queres que te diga, duma vez, em que consiste a virtude do homem? Nada mais simples: consiste em estar em posição de administrar os negócios da sua pátria; e, administrando, fazer o bem a seus amigos e o mal a seus inimigos, procurando, por sua parte, evitar todo o sofrimento. Queres conhecer em que consiste a virtude da mulher? É facílimo defini-la: o dever de uma mulher é governar bem sua casa, vigiar seu interior, ser submissa ao marido. Também há uma virtude própria para os jovens, de um e outro sexo, e para os anciãos; a que convém ao homem livre é outrossim distinta da do escravo; em suma, há uma infinidade de virtudes. Nenhum inconveniente há em responder o que é a virtude, porque cada profissão, cada idade, cada ação, tem sua virtude particular. (…)

SÓCRATES – Imensa é minha fortuna, Mênon! Estava à procura de uma virtude, e me deparo com um verdadeiro enxame delas! Mas, recorrendo a esta imagem, i.e., do enxame, se eu te houvesse questionado da natureza das abelhas, e tu me respondesses que há muitas abelhas e de muitas espécies diferentes; o que me haveria de responder se eu te contestasse: É em virtude de sua qualidade de abelhas que dizes haver grande número? Ou não diferem em nada enquanto abelhas, mas sim em razão de outros conceitos, p.ex., a beleza, a magnitude ou qualquer qualidade assim, separável do que uma abelha é? (…)

MÊNON – Ora, diria que as abelhas, enquanto abelhas, não diferem umas das outras!”

SÓCRATES – Saiba então que o mesmo sucede com as virtudes. Ainda que haja muitas e de muitos matizes e variedades, todas compartilham uma essência comum, o que possibilita que sejam chamadas virtudes.”

Te parece, Mênon, que a saúde de um homem seja distinta da saúde de uma mulher?”

Mênon, a verdade é que não buscamos mais que uma virtude. O que fizemos foi percorrer caminhos estranhos e achar várias virtudes, máscaras da virtude una.”

SÓCRATES – Agora vê se concordas: a figura é, dentre todas as coisas que existem, a única que está unida à cor. Estás satisfeito ou desejas reformular tal definição? Eu me daria por satisfeito, caso desses-me uma definição de virtude no mesmo tom.

MÊNON – Mas esta definição é impertinente, Sócrates!

SÓCRATES – Por quê?!

MÊNON – Segundo tu, a figura está sempre unida à cor.

SÓCRATES – Sim, e…?

MÊNON – Se se dissesse que não se sabe quê é a cor, e que neste ponto está-se no mesmo embaraço que quanto à definição de figura, que pensarias a respeito?

SÓCRATES – (…) minha resposta já está dada; se não é justa, a ti toca pedir a palavra e refutá-la. Mas se fossem dois amigos, como tu e eu, que quiséssemos conversar juntos, seria preciso então responder-te, não é mesmo? Desta vez, de maneira mais suave e conforme com as leis da dialética. E o que é mais conforme com as leis da dialética? Não se limitar somente a dar uma resposta verdadeira, mas fazer com que esta resposta consista em palavras que o mesmo sujeito que nos dirigiu a pergunta confesse que entendeu a todas, uma a uma. Desta maneira inicio minha tentativa de responder-te melhor que antes. Pergunto: há uma coisa que chamas de fim, i.e., limite, extremidade? Estas 3 palavras expressam uma mesma idéia. Talvez Pródico não concordasse. Mas enfim, tu não assumes que uma coisa é finita e limitada? Eis meu entendimento.

(…)

E bem, não chamas algumas coisas de superfícies, planos, e outras sólidos? P.ex., o que se chama com estes nomes na geometria.

(…)

Agora sim podes conceber o que entendo eu por figura. Porque digo em geral de toda figura que é: aquilo que limita o sólido. Para resumir esta definição em apenas dois substantivos, chamo de figura o limite do sólido.

MÊNON – Excelente, Sócrates. E qual sua definição de cor?

SÓCRATES – Ah, Mênon! Tua juventude gosta de tripudiar de um velho como eu, não?! Sufoca-me com pergunta atrás de pergunta! Enquanto isso, não queres nem te lembrar nem dizer-me como Górgias entendia a virtude!

MÊNON – To direi, Sócrates—depois de terdes respondido minha pergunta!

SÓCRATES – Ainda que tivera meus olhos vendados, somente ao ouvir-te diria: és belo e tens amantes!

MÊNON – Por que dizes isto?!

SÓCRATES – Porque em teus discursos não fazes mais que mandar; coisa muito comum entre os jovens que, orgulhosos de sua beleza, exercem uma espécie de tirania enquanto se encontram na flor dos anos. Além disso, talvez tenhas descoberto minha fraqueza, amigo, o amor pela beleza! Mas farei tua vontade, respondo-te a seguir.

MÊNON – Sim, por favor, Sócrates!

SÓCRATES – Queres que te responda como responderia Górgias, a fim de que me sigas com mais facilidade?

MÊNON – Ó, é uma ótima idéia!

SÓCRATES – Não dizeis vós, segundo o sistema de Empédocles, que os corpos produzem emanações?

MÊNON – Correto, prossegue.

SÓCRATES – E que têm poros, através dos quais passam tais emanações?

MÊNON – Decerto.

SÓCRATES – E que certas emanações são proporcionais a certos poros; enquanto que outros deles são ou demasiado largos ou demasiado estreitos para que sirvam de condutores?

MÊNON – Não mentes.

SÓCRATES – Reconheces a vista?

MÊNON – Vejo que sim.

SÓCRATES – Estabelecidas todas estas coisas, atenta agora ao que digo, tal qual o disse outrora Píndaro: <A cor não é outra coisa que uma emanação das figuras, proporcional à vista e sensível>.¹

¹ O mais impressionante dessa definição é sua atualidade, como se Sócrates já falasse da freqüência da luz e nossa percepção dos tons pela decodificação instantânea dos neurônios que desemboca na retina. Ainda mais curioso diante do fato de que em outros diálogos Platão apresenta definições assaz mequetrefes, para nosso tempo pós-goethiano, em teoria das cores! É só ler seus diálogos mais avançados, incluindo mesmo A República.

sobre a base desta resposta, ser-te-ia fácil agora explicar o que são a voz, o olfato e as coisas análogas.”

SÓCRATES – Ela (a resposta sobre a cor) tem não sei quê de trágico, querido Mênon; e por esta razão mais te agradou que a resposta sobre a figura!

(…)

Mas esta segunda definição não é tão boa quanto a primeira, ó filho de Alexidemo. O mesmo opinarias, se acaso não fosses obrigado a voltar a tua terra antes de testemunhares os mistérios, e se pudesses permanecer e ser iniciado.

MÊNON – E com muito gosto permaneceria eu, Sócrates, se consentisses em me comunicar tais coisas.

SÓCRATES – (…) Cessa de multiplicar o que é único, Mênon, pilhéria esta comum aos oradores que querem ridicularizar seu oponente. Tomando então a virtude em si, integral e inviolada, explica-ma agora no que consiste! Te dei dois modelos para servirem-te de guia.

MÊNON – A virtude consiste, Sócrates, como refere o poeta, em comprazer-se com as coisas belas e poder adquiri-las.”

SÓCRATES – Desejar as coisas belas, é a teu ver desejar as coisas boas?

MÊNON – Ora, sim.”

SÓCRATES – Mas Mênon, crês que um homem, conhecendo tanto o mal quanto o bem, pode se ver premido a desejar o mal?

MÊNON – É claro.

(…)

Sócrates, parece que tens razão; ninguém deseja o mal.”

SÓCRATES – E não é certo que a parte desta definição que expressa o querer é comum a todos os homens? E que neste conceito ninguém é melhor do que ninguém?

MÊNON – Convenho.

SÓCRATES – Está patente, portanto, que, se uns são melhores que os outros, não pode ser senão em razão do poder.

MÊNON – Isso sem dúvida.”

MÊNON – Tinha ouvido dizer, Sócrates, antes de conversar contigo, que tu não sabias outra coisa senão duvidar e encher os outros de dúvidas. Vejo agora que fascinas meu espírito com teus feitiços, tuas maldições e teus encantamentos! De maneira que me encontro repleto de dúvidas… (…) Fazes bem em não saíres de Atenas, nem visitar outros países. Porque se fazes alhures o que aqui fazes, creio que te exterminariam!

SÓCRATES – És muito astuto, Mênon, e tentaste pregar-me uma peça!”

Sei que todos os homens belos gostam de ser comparados, porque comparações são-lhes sempre vantajosas! (…) Não te devolverei outra comparação por esta! (…) se conduzo ao espírito dos outros a dúvida, não é porque saiba mais que ninguém, mas exatamente ao contrário; sou o ser que mais questiona, só isso! (…) Já com relação à virtude, meu caro, não sei o quê é; e creio que tu o sabias antes de vir ter comigo; mas depois de conversarmos um pouco, creio que agora já não saibas mais!”

SÓCRATES – Compreendo o que queres dizer, Mênon. Percebe quão pouco fecundo não é o tema que acabas de estabelecer?! Parece que não é possível ao homem indagar aquilo que sabe, nem o que não sabe, afinal se já o sabe não tem necessidade de indagação alguma. Não indagará tampouco o que não sabe, pela simples razão de que não sabe o quê deveria indagar!

MÊNON – Não te parece que falo a verdade, Sócrates?

SÓCRATES – Não.

MÊNON – Quisera dizer-me o motivo!”

Os poetas dizem¹ que a alma humana é imortal. Que logo que desaparece, ou pelo menos quando acontece o que denominam ‘morrer’, volta a aparecer; perecer, nunca. Por isso, é preciso viver da forma mais santa concebível. Porque Perséfone, após 9 anos, devolve a vida à alma do morto, de acordo com os méritos e as faltas da vida passada. Assim nascem e renascem os reis e os homens mais ilustres e sábios; nos séculos seguintes, eles são considerados pelos mortais como santos e heróis. A alma, partícipe desse ciclo infinito, tendo se deparado com as mesmas coisas tantas vezes, é por isso mesmo a coisa mais sábia que há. Seria coisa de se admirar, portanto, que ela pudesse recobrar aquilo que já abrigava, i.e., a resposta de quê é a virtude?”

¹ Píndaro

Tudo que se chama buscar e aprender nada mais é do que recordar.”

SÓCRATES – Chama algum dos muitos escravos que estão a teu serviço, quem quiseres. (…)

MÊNON – Com prazer. Vem tu, jovem.

SÓCRATES – É grego? Ou sabe o grego?

MÊNON – Excepcionalmente. Ele é como que de nossa família, sempre foi de nossa casa.

SÓCRATES – Aguarda e só observa se o escravo recorda ou aprende de mim.

MÊNON – Pois não, sou todo ouvidos.

SÓCRATES – Jovem, diz-me: sabes que isto é um quadrado?

[Sócrates desenha com um graveto na areia para que o jovem visualize.]

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – O espaço quadrado não é aquele que tem as quatro linhas que vês iguais?

ESCRAVO – Certamente.

SÓCRATES – Não tem também estas outras linhas, que dividem-no ao meio, iguais entre si? [Desenha uma cruz dentro do quadrado.]

MENON figura1¹ Supondo que o segmento BC = 2, tanto BF quanto FC = 1, nas palavras de Sócrates ao escravo logo abaixo. Cada um dos 4 quadrados que nasceram “dentro” do primeiro quadrado desenhado na areia conservam suas propriedades, só que em miniatura. E Sócrates fez tudo isso apenas riscando uma “cruz” na areia – ângulos retos, o que chamaríamos hoje, pós-Descartes, de eixos x (horizontal) e y (vertical), que não passam de lados de novos quadrados, conforme a perspectiva –, observando a proporção das medidas (a cruz, i.e., os segmentos perpendiculares entre si FH e EG, interseccionando-se no ponto zero do plano cartesiano, representado na imagem pela letra “I”).

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – Não é verossímil que haja um espaço semelhante, embora maior ou menor?¹

ESCRAVO – Sem dúvida.

SÓCRATES – Se este lado fosse de 2 pés e este outro também de 2 pés, quantos pés teria o todo? Considera-o antes desta maneira, aliás: se este lado fosse de 2 pés e este de um pé só, não é certo que o espaço teria 1 vez 2 pés?²

ESCRAVO – Sim, sim, Sócrates.

SÓCRATES – Mas como na verdade este outro lado é também de 2 pés, não terá o espaço 2 vezes 2?

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – Reiterando: logo, o espaço é 2×2?

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – Quanto são 2×2? Conta para mim.

ESCRAVO – São 4, Sócrates.

SÓCRATES – E não poder-se-ia formar um espaço que fosse o dobro deste, ainda conservando suas mesmas propriedades, tendo lados iguais?³

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – Quantos pés teria esse espaço?

ESCRAVO – 8.4

SÓCRATES – Agora diz-me: qual seria o comprimento de cada linha desse novo quadrado maior que concebemos… Veja: este quadrado traçado na areia¹ tem 2 pés de cada lado. Quantos pés teria o lado do <quadrado que é o dobro deste>?

ESCRAVO – É evidente: os lados teriam o dobro de pés!

SÓCRATES – Bem vê, Mênon, que eu não ensino nada ao jovem, tudo o que faço é interrogá-lo. E ele já imagina qual é a linha que deve traçar para formar o espaço trigonométrico de 8 pés, não te parece assim?

MÊNON – Sim, Sócrates.”

² Neste caso, seria como se a figura total fosse, p.ex., a ligação dos pontos BEGC, equivalente a um retângulo.

³ Um quadrado que fosse para o quadrado ABCD o mesmo que o quadrado BFIE é para o quadrado ABCD.

4 O sumo óbvio, que Sócrates tentava demonstrar: o não-iniciado em matemática tomará por operação aritmética (e a operação equivocada) o que era uma operação trigonométrica. Falando em linguagem mais acessível, o jovem não sabia ainda que a obtenção da área do quadrado era obtida por meio de uma MULTIPLICAÇÃO de 2, e não de uma SOMA de 2, uma vez que, no caso do número 2, a multiplicação (o quadrado) e a soma coincidem. (2+2=2×2) Daí o jovem ter dito que o quadrado com o dobro das medidas, i.e., lado = 4, teria 8 pés de área, pois ele fez mentalmente 4 + 4 e não 4². Este raciocínio todo, bem simples, serve para lembrar, também: não é todo matemático que é bom em ensinar matemática. É preciso saber o método para não fazer o aluno “descobrir a natureza” da forma indesejada (pelo ensino oficial, pelos livros, pelo próprio educador, etc.). Mostrar que o jovem se equivocava ao imaginar o quadrado e que se daria conta do erro ao contar os quadrados após desenhar o quadrado na areia favorecia Sócrates na discussão que tinha com Mênon (sobre a teoria da reminiscência).

SÓCRATES – Teu escravo não sabia a princípio qual era a linha com que se forma o espaço de 8 pés, e na verdade ainda não o sabe, porque não o fiz ir adiante.¹ Mas ele pensava que sabia. E a prova disso é que respondia sem hesitar, muito confiante de si. Ele não se imaginava ignorante em nada. Mas, por fim, quando lhe objetei que incorria em erro, reconheceu seu embaraço, e admitiu que não sabe. Houve um progresso: agora ele sabe que não sabe.

¹ Número irracional, que os gregos não se preocupavam em denotar. Muito embora, neste exemplo Sócrates tenha apresentado apenas um quadrado bidimensional. No caso do CUBO, seria possível encontrar 8 como volume da figura cujo lado é 2 pés (2³).

MÊNON – O que dizes é a suma verdade, Sócrates.

SÓCRATES – Admites que teu escravo avançou em conhecimentos?

MÊNON – Não posso negá-lo!

SÓCRATES – Pois ensinando-o a duvidar das coisas, e até de si mesmo, e fazendo-o arrefecer sua natureza antes mais arrogante, como se arrefece um tornado, crês que fizemos um bem ou que fizemos um mal a ele?

MÊNON – Um bem sem dúvida.

PLATÃO – O que fizemos foi situá-lo em uma posição privilegiada para enfim caçar a verdade. Porque agora, ainda que não saiba o que é, buscará esta coisa com prazer e ponderação. Antes chegaria a conclusões apressadas e desfiguradoras, não importa se na praça pública, crendo-se senhor da razão, ou apenas diante de si mesmo. Não veria o ridículo de sua resposta, de que o dobro da área aparecia com o dobro da longitude das linhas (acrescentando outro tanto de pés aos lados do quadrado).”

SÓCRATES – Escravo, volta. Responde, agora: este espaço, não é de 4 pés? [Sócrates volta a apontá-lo a figura 1, desenhada na areia.]

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – Não se pode acrescentar a este espaço outro idêntico?¹

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – E ainda outro (um terceiro quadrado)?

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – E agora o quarto?

ESCRAVO – Sem dúvida.

SÓCRATES – Não temos então quatro espaços iguais entre si?

ESCRAVO – Sim, sim.

SÓCRATES – Mas que é todo este espaço (o quadrado maior) diante do menor?²

ESCRAVO – É o quádruplo.

SÓCRATES – Mas o que queríamos não era achar o dobro?

ESCRAVO – Evidente.

SÓCRATES – Estas duas linhas,(*) inscritas dentro do quadrado grande, não cortam em dois cada um destes espaços (os dois retângulos, que assim se tornam 4 quadrados menores)? [(*)A cruz na areia, cf. legenda da figura]

ESCRAVO – Sim, exato.

SÓCRATES – Não vês aqui, pois, 4 linhas iguais que cortam este espaço? [Decompondo a cruz: duas linhas perpendiculares são também 4 linhas ou segmentos de reta, com referência ao ponto I, o centro.]

ESCRAVO – Vejo.

SÓCRATES – Responde agora, qual a magnitude deste espaço?

ESCRAVO – Como?!

SÓCRATES – A cruz que desenhei na areia não divide este quadrado original em 4 quadrados?

ESCRAVO – Sim.

SÓCRATES – Então me diga: quantos espaços semelhantes há <dentro> desta figura?

ESCRAVO – 4.

SÓCRATES – E naquela? [Sócrates aponta para o polígono CBGE.]

ESCRAVO – 2.

SÓCRATES – Qual a proporção de 4 para 2?

ESCRAVO – 4 é o dobro de 2.

SÓCRATES – Quantos pés tem este espaço? [CBGE]

ESCRAVO – 8 pés. [4×2]

SÓCRATES – Quais as linhas que o formam?

ESCRAVO – Estas. [O escravo assinala o polígono CBGE.]

SÓCRATES – Com esta linha aqui em um dos lados? [Sócrates aponta para o segmento BC.]

ESCRAVO – Isso.

SÓCRATES – Os sofistas chamam esta linha de diâmetro. Assim, supondo que seja este o nome mais adequado, o espaço que chamamos dobro, ó escravo de Mênon, será formado de acordo com o diâmetro. Mas lembra-te que o outro lado [segmento BE] permanece do mesmo tamanho.

ESCRAVO – Perfeitamente, Sócrates!

SÓCRATES – E agora, Mênon? Crês que teu jovem escravo deu alguma resposta que lhe fôra ordenada, ou que ele chegou à resposta por seu próprio mérito?

MÊNON – Vejo o que querias demonstrar, Sócrates: ele chegou à descoberta por conta própria, sem a ajuda de ninguém.”

¹ Como vimos, aí teríamos um retângulo, pois para DOBRAR O QUADRADO seria necessário não multiplicar por 2, mas por 4 (aumentar o quadrado 4x).

² Basta visualizar sempre a figura 1 para entender o problema. Comparar o menor quadrado com o maior quadrado, não importando as dimensões numéricas do caso particular (o número de pés do quadrado, o que foi deixado de fora da imagem que inseri acima justamente para facilitar a abstração).

Daí concluímos que aquele que não sabe ou ignora tem, apesar disso, em si mesmo, faltando apenas recordar, opiniões verdadeiras relativas àquele assunto que, por enquanto, pensa ignorar totalmente.”

SÓCRATES – Não concordas que a ciência que tem hoje teu escravo, não seria preciso que ele a tivesse recebido noutro tempo, imemorável, ou que sempre a tivera consigo, embora adormecida?

MÊNON – Sou obrigado a concordar.

SÓCRATES – Mas ora: se fosse a segunda hipótese, teu escravo teria sido um sábio desde sempre! E se a recebeu, ao contrário, noutro tempo, não foi, decerto, nessa vida presente! A não ser que alguém o tenha secretamente introduzido na arte da geometria, vês? Sabes se alguém o ensinou?

MÊNON – Sócrates, este é um servo doméstico. Asseguro-te que nunca foi educado em semelhantes coisas.

(…)

SÓCRATES – Se não o foi, é claro que recebeu este ensinamento antes, e que em algum momento aprendeu o que sabe, posto que não se pode aprender aquilo de que a alma não é capaz desde sempre!

MÊNON – Mataste a charada.

SÓCRATES – Será então quando ainda não era homem: foi neste momento em que foram-lhe impressos na alma estes conhecimentos que ora manifestou.

MÊNON – Creio que sim, Sócrates.

SÓCRATES – Mênon, não é correto afirmar que embora em seu corpo atual teu escravo nada soubesse de trigonometria até o momento em sua alma ele sempre fôra um sábio?

MÊNON – Sem dúvida alguma, Sócrates.

SÓCRATES – Logo, se a verdade dos objetos está sempre em nossa alma, ela é imortal. Por isso nunca devemos depreciar este método: perguntar com confiança e persistência, indagar nossas próprias almas sobre os objetos, tentar trazer à memória aquilo de que já não mais lembrávamos!

MÊNON – Não sei exatamente como fazer o que dizes, mas concordo que falas a verdade.

SÓCRATES – E tua crítica me é tão familiar que acho que a encontro dentro de mim mesmo, Mênon. Às vezes procedemos a um método que nem bem entendemos. Porém, creio ser minha missão nesta vida defender este método com palavras e com os fatos que puder encontrar. Estou persuadido apenas disso: que é preciso indagarmo-nos a respeito daquilo que não sabemos, pois isto no mínimo nos fará melhores, ou pelo menos não nos corromperá se nada advir disso! Pois ficaremos mais resolutos, menos preguiçosos – de que adiantaria repousarmos crendo ser impossível descobrir aquilo que ignoramos agora e que seria vão empreender qualquer coisa?

MÊNON – Mas isto está excepcionalmente bem-dito, Sócrates!”

permita-me indagar, como que por hipótese, se a virtude pode ser ensinada, ou se se a adquire por qualquer outro meio. Quando digo <como que por hipótese>, entendo por hipótese o método ordinário dos geômetras.”

Se a virtude for uma ciência, é óbvio que se pode ensiná-la.” “Mas se apresenta agora outra questão igualmente problemática: será a virtude uma ciência ou não?

SÓCRATES – Se há alguma espécie de bem que seja distinta da ciência, pode então suceder que a virtude não seja uma ciência. Mas se não há nenhum gênero de bem que a ciência não abranja, teremos razões para conjeturar que a virtude é uma modalidade de conhecimento.

MÊNON – Perfeitamente.”

SÓCRATES – (…) Ora, se uma coisa qualquer, e não precisa ser a virtude, é por natureza suscetível de ser ensinada, não é sumamente necessário que nela e dela haja mestres e discípulos?

MÊNON – Creio que sim, Sócrates.

SÓCRATES – E podemos concluir que quando alguma coisa prescinde por completo de mestres é sinal de que ela não pode ser objeto de ensino?

MÊNON – Nada mais exato.”

Justamente, Mênon! Temos a felicidade de contar neste recinto, em hora muito apropriada, com Anito,¹ que estava desde o começo de nossa conversação tão perto de nós! (…) Anito é filho de um pai rico e sábio, Antemião, que não deve sua fortuna ao mero acaso, nem à liberalidade alheia, como seria o caso de Ismênias o Tebano, que não faz muito recebeu em herança todos os bens de Polícrates. Pelo contrário: tudo o que tem decorre de sabedoria e indústria. E Antemião, em que pese sua posição econômica, nada tem de arrogante, faustoso, nem desdenha os outros cidadãos; é modesto e prudente em sociedade. Um homem assim não deixaria de haver educado muitíssimo bem seu filho, pelo menos de acordo com a grande maioria dos atenienses. Tanto que ele quase sempre é eleito para os cargos mais importantes!”

¹ Conveniente lembrar: Anito seria um dos homens responsáveis pela morte de Sócrates. Conferir https://seclusao.art.blog/2017/12/08/apologia-de-socrates/.

ANITO – E quem são esses mestres, Sócrates?

SÓCRATES – Tu sabes, como eu, sem dúvida, Anito, que são os que se chamam de sofistas.

ANITO – Por Hércules! Não mo digas, Sócrates. Eu não desejaria que nenhum parente meu, nem aliado, nem amigo íntimo, concidadão ou estrangeiro sequer, fôra tão insensato a ponto de pagar para perder-se com tais gentes. São os sofistas, manifestamente, uma peste e um encosto para todos os que com eles tratam.

SÓCRATES – Como, Anito?! Entre aqueles que se arrogam o ser úteis aos homens, só os sofistas logram diferenciar-se dos demais. Queres dizer que não só eles não melhoram seus alunos como até os pioram?!? E se atrevem a exigir dinheiro por esta obra? Mal sei no que acreditar, Anito, pois estaria tudo a desmoronar se desse plena a teu discurso! Eu conheci um homem, chamado Protágoras, que acumulara com a profissão de sofista mais dinheiro que Fídias, quem possui reputação tão ilibada! Não deixa de ser fenômeno singular: se aquele que remenda trajes e calçados devolve-os piores ainda a seus donos, ao cabo de 30 dias estará sem clientela e na sarjeta! Mas então este Protágoras, que corrompera desta forma os cidadãos, não é suspeito de nada vil em toda a Grécia! E não digo que pese-lhe alguma suspeita desde ontem, e que ela pode demorar a se alastrar e se verificar: faz 40 anos que este homem é célebre! Que era, melhor dizendo, pois, morto aos 70, dizem que exerceu a Sofística desde pelo menos os 30 anos de idade… Em todo este tempo jamais foi injuriado, nem caluniado. Mas Protágoras não foi o primeiro de sua classe, nem será o último. Supondo que digas a verdade, que há de se pensar dos sofistas que estão em exercício?! Que enganam a juventude de pleno conhecimento, dolosamente, ou que não conhecem o dano que provocam? Consideraremos estes homens insensatos a tal ponto – homens, repito, tidos como sábios personagens de nossa polis?

ANITO – Bem longe se encontram de ser uns insensatos, ó Sócrates! Os insensatos de fato são os jovens que lhes dão ouvidos e dinheiro! Mais insensatos ainda os pais destes mesmos jovens, que confiam a eles a educação de seus rebentos. Mas mais insensatas de todos são as cidades que permitem a entrada destes homens nefandos, em vez de fechar os portões a estrangeiros tão mal-intencionados como eles!

SÓCRATES – Algum sofista corrompeu-te, Anito? Que razão tens para pensar tão mal deles?

ANITO – Por Zeus! Jamais cultivei o trato com semelhantes figuras… E não consentiria que nenhum conhecido se aproximasse destes sofistas!

SÓCRATES – Então conheces estes homens só pelo ouvir falar?

ANITO – E oxalá nunca por experiência própria!

SÓCRATES – E, sem contato direto com as coisas, meu querido, como podes saber se são boas ou más?

ANITO – Muito bem, Sócrates, me pegaste em teu discurso. Em todo caso, tendo eu as experimentado ou não, conheço os sofistas como a palma de minha mão, e sei o que são.”

SÓCRATES – Os homens virtuosos, fizeram-se por si mesmos, sem receber lições? Outra questão: podem eles ensinar aos demais aquilo que nem eles mesmos não aprenderam com ninguém?

ANITO – Creio que receberam sua instrução dos que os precederam, homens igualmente virtuosos. Crês que esta cidade não produziu grande número de cidadãos estimáveis por sua virtude?

SÓCRATES – Eu creio, Anito, que nesta cidade há grandes nomes de Estado, e que sempre houve alguns, a cada geração. Mas foram eles os professores de sua própria virtude, ou da de seus sucedâneos? Porque isto é o que desejamos saber, e não se há ou não homens virtuosos, nem se sempre houve ou sempre haverá! A questão é se os grandes homens de agora e de outrora dispõem e dispuseram do talento para comunicar aos outros sua virtude, em que tanto sobressaíam; senão, teríamos de admitir que a virtude é intransmissível, impassível de ensino, de um homem a outro.”

SÓCRATES – (…) Convéns em que Temístocles era um homem de bem?

ANITO – Sim.

(…)

SÓCRATES – (…) Não ouviste dizer que Temístocles ensinou seu filho Cleofanto a cavalgar? Cavalgava tão bem seu filho que podia se equilibrar de pé sobre o cavalo enquanto disparava dardos, sem falar doutros movimentos e posturas maravilhosos. O pai sabia tudo isso e comunicou cada coisa ao filho, que as aprendeu. Em todas estas coisas técnicas Cleofanto aprendeu com seu pai e os melhores mestres, naquilo em que porventura Temístocles não excelia. Os antigos referiam essa estória, te recordas?

ANITO – Sim, dizes verdade.

SÓCRATES – Deve ser correto dizer que seu filho contava com predisposições naturais…

ANITO – Provavelmente.

SÓCRATES – Mas já ouviste falar de cidadão, velho ou novo, que Cleofanto fosse homem de bem tal qual seu pai (virtuoso)?

ANITO – Neste particular, estou no escuro.

SÓCRATES – Pode ser que isto se devesse a um capricho paterno? Considerando que a virtude pudera ser ensinada, não seria a mais importante de todas as ciências a legar à própria prole?

ANITO – Por Zeus, Sócrates, todo pai desejaria o melhor para seu filho!

SÓCRATES – Vês então como Temístocles, homem de bem, fôra um péssimo professor. Mas cacemos mais exemplos: e Lisímaco, filho de Aristides? Aristides acaso foi homem virtuoso?

ANITO – Sim, e muito.

SÓCRATES – Aristides com certeza deu a seu filho Lisímaco a melhor educação com que poderíamos sonhar nós próprios. E crês que isto surtiu efeito? Conheces muito bem Lisímaco e seus dotes.(*) Por fim, analisemos, se queres, ainda, Péricles, homem de méritos extraordinários. Dizem que educou pessoalmente seus filhos Paralos e Xantipo.

ANITO – Sim, sei-o.

SÓCRATES – Não deves ignorar que estes se tornaram dois dos melhores cavaleiros vistos em Atenas; além disso, eram versados na música, em ginástica e em tudo que envolve esta arte. Mas não quis Péricles torná-los virtuosos? Seria o mesmo caso de Tucídides com Melesias e Estefanos: infelizmente os filhos destes hábeis cidadãos e políticos não tiveram vidas destacadas quanto ao mérito de governar seus conterrâneos!

(*) Para esses pormenores (Lisímaco e Melésias filho de Tucídides, citado logo a seguir), ver o diálogo Laques. Este de que se fala não é Tucídides o Historiador. – P.A.”

ANITO – Pelo que ouço, Sócrates, falas mal dos homens com demasiada liberdade! Se me queres ouvir, te aconselharia a ser um bocado mais reservado. Se é fácil noutras cidades fazer o mal a qualquer um que se queira e sair incólume, em Atenas, Sócrates, é mais fácil ainda! Creio que saibas a que me refiro…

SÓCRATES – Mênon, vem cá! Parece que Anito está muito incomodado, o que não me assusta! É um mal-entendido, Anito. Crês que desprezo estes grandes homens; e como te imaginas neste número, pegas a ofensa para ti! Mas se um dia aprendes o que é verdadeiramente <falar mal>, deixar-te-á de enfadares com bagatelas… No momento, Mênon, Anito não sabe o que diz! Mas diz-me tu, Mênon: não tendes entre vós de Larissa homens de virtude?

MÊNON – Com certeza.

SÓCRATES – E quem são os professores dessa gente?

MÊNON – Ó, Sócrates! Não conheço professores desta matéria, pelo menos não sei dizer se são realmente o que dizem ser… O fato é que os cidadãos se dividem como que por igual entre os que dizem que a virtude pode ser ensinada e os que dizem que a virtude não pode ser ensinada.

SÓCRATES – Dizes então, se a divisão está meio a meio, que entre os professores de virtude há desses que ainda não estão certos de que a virtude possa ser ensinada?!

MÊNON – Ora, mas isso não faria sentido!

SÓCRATES – Mas me diz quê pensas dos sofistas, então.

MÊNON – Sócrates, o que muito me agrada em Górgias é que nunca ouvirás dele uma promessa de tamanho quilate. Ele não afiança nem dá garantias. Ao contrário, já o vi troçando seus colegas que se jactavam de ensinar a virtude. Ele se gaba apenas daquilo que é inegável em si: de sua alta capacidade para formar belos oradores.

SÓCRATES – Não disseste, ao fim: crês que os sofistas são professores de virtude?

MÊNON – Não sei, sinceramente, caro Sócrates! Há dias em que me parece que são e dias em que não o creio minimamente.

SÓCRATES – Sabes que não sois os únicos? Muitos políticos compartilham vossa opinião, e até o poeta Teógnis!

MÊNON – Referes-me os versos a que te referes.

SÓCRATES – Em suas elegias, diz: Bebe e come com aqueles que gozam de grande crédito; mantém-te sempre próximo deles e faz o possível para agradá-los. Aprenderás coisas boas, ao conviver com os bons; mas se trava contato com os maus, até a razão que já possuis escoará ladeira abaixo!(*) Estás de acordo que subentende-se nesta passagem que a virtude pode ser ensinada?

MÊNON – Claro.

SÓCRATES – Mas eis outros fragmentos um pouco distintos: Se se pudesse dar ao homem a inteligência, indubitavelmente estes talentosos educadores se veriam ricos da noite para o dia. Nunca o filho de um pai virtuoso seria mau, só de ouvir sábios conselhos. Mas tudo isso é quimera, ser bom ou mau independe de lições! Agora não nos parece que se contradiz em absoluto?

MÊNON – Ó Sócrates, nada mais certo!

(*) Teógnis, Sentenças, 5:33:432. – P.A.”

SÓCRATES – Mas se não há mestres, tampouco haverá discípulos.

MÊNON – Penso o mesmo que tu.

SÓCRATES – E estamos conformes em que aquilo para o que não há nem mestre nem discípulo não se pode ensinar!

MÊNON – Correto, Sócrates.”

MÊNON – A meu ver, a nosso ver… não há nem sequer indícios de homens peritos e qualificados para ensinar a virtude. Porém, isso não é dizer que eu não enxergue homens virtuosos. Havendo-os realmente, não posso atinar com quê se fizeram virtuosos!

SÓCRATES – Mênon, creio que isso seja um indício de que tu e eu somos pouco habilidosos! Creio que nenhum de nós foi bem instruído; tu por Górgias, e eu por Pródico. Portanto, é preciso que nos consagremos com todo esmero a nós mesmos antes de tudo, a fim de buscarmos alguém que nos faça melhores do que somos, qualquer que seja o meio! É até ridículo não havermos notado até aqui que a ciência não é único método disponível para dotar os homens de conhecimento e torná-los hábeis a conduzir seus negócios! Ou, talvez, ainda fazendo esta concessão, havendo outro método, poderia ser que ainda assim a forma como alguém se torna virtuoso continuasse obscura para nós!

MÊNON – Que queres dizer agora, Sócrates?!”

SÓCRATES – (…) Escuta: se alguém que soubesse o caminho até Larissa estivesse no meio da estrada e servisse de guia a outros, não te parece que conduziria muito bem essas pessoas?!?

MÊNON – Não tenho dúvida.

SÓCRATES – E se um outro conjeturasse com precisão qual seria o caminho, ainda que nunca o houvesse percorrido, nem tivesse ouvido falar ou lido ou aprendido de outrem sobre isso; não daria no mesmo, i.e., não ensinaria adequadamente quem lho perguntasse?

MÊNON – Sim, Sócrates.

SÓCRATES – Tendo, um, uma mera opinião e, o outro, um conhecimento completo do objeto, não será pior condutor aquele que este? Ainda que, por puro azar, soubesse a resposta, não concordas que o guia experimentado o superaria no papel de educador?

MÊNON – Tens razão.

SÓCRATES – Então, eis outro método de ensinar as coisas: a opinião que se mostra verdadeira. A ciência é o método clássico e seguro. Parece que ignoramos essa dupla faceta durante toda nossa discussão acerca da natureza da virtude. Havíamos concluído que só a ciência ensina a bem agir, ao passo que, agora vemos, a conjetura acertada produz o mesmo efeito!

MÊNON – Dou-te razão.

SÓCRATES – Portanto, a opinião verdadeira não é menos útil do que a ciência.

MÊNON – Mas Sócrates… O possuidor do conhecimento saberá sempre alcançar seu objetivo. Já o conjeturador se extraviará um bom número de vezes!

SÓCRATES – Que dizes? Mas se alguém se aferra a uma opinião correta e ensina-a, não é correto que ensina-a corretamente?

MÊNON – Esta conclusão eu não contesto, Sócrates. Mas se fosse um dilema tão simplório, me surpreenderia que não se falasse mais sobre a arte de bem opinar do que acerca de obter o conhecimento. Mais ainda me surpreende que tratemos estas coisas como duas completamente diferentes uma da outra, se é que tens razão!

SÓCRATES – Sabes donde procede esse teu assombro? Queres que to diga?

MÊNON – Ora, já estás perdendo tempo ao não pronunciá-lo logo de uma vez!

SÓCRATES – Nunca admiraste as estátuas consagradas a Dédalo? Há dessas em tua cidade?

MÊNON – Não entendo…

SÓCRATES – Estas esculturas, ó Mênon, quando seguras por molas, são facilmente detidas e fixadas; mas sem este artifício, escapam e fogem.

MÊNON – E…?

SÓCRATES – …E daí que não significa muito ter uma dessas estátuas que escapam fácil. Mas uma estátua fixa é de muito valor. Estas sim são consideradas obras-primas! Mas que tem isso a ver?, perguntarás… É que esta imagem vem a calhar para falar sobre opiniões e conjeturas… As opiniões acertadas são como estátuas com molas, e trazem toda uma sorte de benesses… Mas vê tu que a alma do homem não as capta por muito tempo… Tampouco são caras estas obras… Só mesmo a obra derivada de um conhecimento superior, erigido pela razão, possui um preço mais elevado. Isso, essa ciência, é o que chamo de reminiscência. Uma opinião coligada com outra, logo forma reminiscências, porque cadeias de opiniões nos evocam antigos conhecimentos adormecidos… O que no começo é frouxo e resvaladiço adquire fixidez e estabilidade com o tempo. Daí vem a superioridade da ciência sobre a opinião, Mênon.

MÊNON – Por Zeus, Sócrates! Não capto todos os detalhes de teu discurso, mas do que pude compreender vejo que faz todo o sentido!…

SÓCRATES – (…) E quando afirmo que a opinião verdadeira difere em qualidade da ciência, não creio, positivamente, estar emitindo uma opinião. De quase nada sei, mas se hei de exaltar algum conhecimento meu, ei-lo: o que sei, eu sei.

MÊNON – Tens toda razão!”

SÓCRATES – A ciência não pode servir de guia nos negócios políticos.

MÊNON – Tudo indica que não.

SÓCRATES – Então não foi devido a sua sabedoria que homens como Temístocles e os demais que citei quando conversava com Anito bem governaram o Estado. Porém, devido a essa característica, eles não puderam comunicar adiante esse dom.

MÊNON – Sim, sim, continua!

SÓCRATES – Não sendo uma ciência, só a opinião verdadeira pode conduzir os políticos na boa administração das coisas públicas; quanto à sabedoria, os políticos não são em nada diferentes dos profetas e dos adivinhos em transe. Estes últimos anunciam muitas coisas verdadeiras, mas não sabem do que falam.

MÊNON – Com bastante probabilidade…

SÓCRATES – Mas que tem que o adivinho não seja dotado de inteligência? Se ao final ele adivinha mesmo assim?

MÊNON – Não há mal algum, efetivamente.

SÓCRATES – Temos razões de sobra, portanto, para chamar os profetas de homens divinos; nada diferente no que se refere aos poetas. E, como vimos, nada mais óbvio e evidente que atribuir o mesmo epíteto aos bons políticos, homens realmente entusiasmados, inspirados e animados pela divindade ao triunfarem sobre grandes empresas, sem ter nenhuma ciência exata daquilo que fazem!

MÊNON – Ó, certo!

SÓCRATES – As mulheres, com razão, chamam os homens virtuosos de divinos. Os espartanos, quando querem elogiar o homem de bem, dizem a mesma coisa.

MÊNON – Não vejo como contestá-lo, Sócrates, mas creio que Anito não ficará satisfeito!

SÓCRATES – Isso não me importa! Conversarei com ele em outra ocasião. Mas no que toca a ti e a mim, Mênon, concluíramos que a virtude não é natural ao homem, nem passível de aprender-se; ela como que aterrissa por influência divina entre os eleitos. A menos que nos apareça algum político que seja capaz de ensinar sua arte, não mudaremos de opinião! Se aparece tal figura, diremos que é, entre os vivos, o que Tirésias é entre os mortos, se havemos de dar crédito a Homero, que versa: O único sábio dos ínferos, onde todos os demais nada mais são que sombras que erram ao acaso.(*) Analogamente, um homem assim seria, comparado com os outros, em matéria de virtude, feito de carne e osso, ou a própria luz, ao passo que nós não passaríamos de sombras e de escuridão.

MÊNON – Sócrates, teu discurso foi perfeito!

SÓCRATES – Nada mais resta a dizer, Mênon: a virtude é um presente dos deuses!

(*) Odisséia X

Para todos e para ninguém cabe a tarefa de evadir a caverna. E ninguém que a evada pode sequer convencer os outros ou forçá-los a evadi-la também, dadas as circunstâncias…

* * *

PREFÁCIO DAS OBRAS COMPLETAS DE PLATÃO POR VIRGINIA WOOLF – Trechos da tradução espanhola do inglês, reconvertidos para a Língua Portuguesa

(*) “Não conheço uma definição mais eloqüente e simultaneamente lacônica da obra platônica que a de Virginia Woolf. Assim, pois, com ela a palavra.” – A.P.V., 2012.

SOBRE NÃO SABER O GREGO

(*) “Esta tradução foi feita por mim; ela foi posteriormente polida e melhorada por Daniel Nisa em O leitor comum.” A.P.V.

É um processo extenuante. Concentrar-se arduamente no significado exato das palavras; julgar o que implica cada admissão; seguir concentrada porém criticamente as oscilações dos discursos e as mudanças de opinião à medida que se endurece e se intensifica o diálogo rumo à verdade. São o mesmo o prazer e o bom? A virtude pode acaso ser ensinada? É a virtude uma espécie de ciência? Uma mente cansada ou distraída pode facilmente equivocar-se nesses meandros, enquanto tenta avançar, impiedosamente, por tais interrogatórios abrasivos e intermináveis. Mas ninguém, por mais despreparado para os ensinamentos de Platão, pode deixar de começar a amar, ainda que saia <sem nada aprender de concreto>, ou a amar cada vez mais, o próprio processo do conhecimento, como exposto por ele. À medida que o argumento ascende às nuvens, de grão em grão, de degrau em degrau, Protágoras (e Protágoras pode ser qualquer outro) vai cedendo um pouco, logo um pouco mais, Sócrates avança no mesmo ritmo, devagar mas firme. E o importante não é tanto o desfecho, mas a maneira como vai-se abrindo esse desfecho.”

É uma noite de inverno; as mesas estão prontas e bem-servidas na ampla sala de Agaton. Uma escrava toca a flauta. Sócrates fez as abluções e veste sandálias. Pára à entrada. Recusa dar mais um passo, ainda quando mandam expressamente alguém vir recepcioná-lo. . . . Agora Sócrates acabou seu discurso. Escolheu Alcibíades para ser vítima de sua ironia neste epílogo de banquete. Alcibíades não pode responder com palavras, pois só consegue admirar este homem fora de série…”

Descartaremos agora as diversões, ternuras, frivolidades da amizade, só porque aprendemos a amar a busca pela Verdade? A Verdade será encontrada mais depressa pelo fato de taparmos os ouvidos à bela música, de fecharmos a boca ao vinho, pelo fato de escolhermos dormir ao invés de virar a noite conversando? Não é o estudante enclausurado, o asceta, que se mortifica na solidão, que tem a palavra final. Então quem? A natureza ensolarada, o homem que pratica o auto-aperfeiçoamento cotidianamente, sem se deixar atrofiar pela repetição da vida, que saiba que algumas coisas possuem, de forma permanente, em meio a tudo, mais valor que outras.”

Um povo que julgava tanto, como o ateniense, através dos sentidos básicos, como a audição, acostumados ao teatro de arena, ao ar livre, ou ao escutar discussões na praça e no mercado, era muito menos hábil do que nós para fatiar frases e apreciá-las fora do contexto original em que foram produzidas. Para eles não existiam as Belas Frases de Hardy e de Meredith, nem as Sentenças de George Eliot. Somos muito mais delicados e sutis, bon-vivants, dissecadores. O escritor antigo (e a platéia antiga) se atinha muito mais ao conjunto e muito menos ao detalhe.”

ao citarmos e destacarmos passagens, trechos, distorcemos muito mais os gregos do que os ingleses. Há um aspecto de natural, de nudez, nesta literatura tão crua e límpida que pode ter um gosto azedo ou amargo para paladares contemporâneos, paladares refinados e seletos demais, acostumados a avaliar cada vírgula de obras impressas, reprovando sabores, regurgitando e detectando matizes. É-nos benquisto um esforço inaudito de alargar e distender a mente, a fim de captar esse conjunto onde não há parnasianismo nem nada de inútil, sem a ênfase moderna prestada à eloqüência. Olhamos sem pestanejar figuras em close, absorvemos palavras soltas, hipervalorizando-as, ou meditando demais sobre um nada. O grego tinha uma visão panorâmica, não se punha a caçar pulgas e lêndeas. Poderia soar até mesmo grosseiro. De fato parece que nosso olhar e nosso coração são estreitos demais para apreciar de um trago só emoções tão densas, capazes de cegar o espírito se contempladas e experimentadas diretamente, à grega.”

Os gregos podiam dizer, acerca de seus antepassados conhecidos, como que pela primeira vez na História, que ainda que mortos, não morreram. E podiam complementar: Se morrer de forma nobre é parte indispensável da excelência, a Fortuna decidiu nossa sorte; a Grécia foi coroada pelos deuses, e aqui há liberdade, fez-se o Homem, de forma que, não importa quantas gerações transcorram, não envelheceremos.(*)

(*) Simônides

Ao lermos estas frases sucintas registradas em lápides, estrofes de um coro trágico, o final ou o começo dum diálogo de Platão, um fragmento de Safo, talvez, quando passamos o dia a remoer uma metáfora grandiloqüente do Agamêmnon de Ésquilo, ao invés de <cheirar todo o jardim>, como talvez fizessemos com uma obra dita <completa> como Rei Lear, não estaríamos lendo erroneamente, estrabicamente, num nevoeiro de associações absurdas, inserindo nos versos gregos coisas que não faziam falta aos próprios gregos, mas somente a nós? Detrás de cada linha já não se é auto-suficiente naquele mundo, já não se lê a Grécia em cada estrofe de Ésquilo ou de Sófocles?”

Cada palavra tem o vigor da oliveira e do templo consagrado a algum deus e dos corpos dos jovens.”

Não, paremos de tentar esgotar a sentença grega como o fazemos com o Inglês! Não há esse polimorfismo semântico paradoxalmente tão acessível porque vizinho nosso, nossa cultura mesma encarnada, digo, letrada. A linguagem é aquilo que mais escraviza, quando o assunto são os antigos. O desejo de desvendar o que está irremediavelmente perdido nos deixa eternamente hipnotizados pelas sereias e petrificados pela medusa.”

Digo que Shelley necessita de 20 palavras em seu vernáculo para expressar 13 palavras do grego.”

…toda pessoa, inclusive se antes houvera sido totalmente alheia às humanidades ensinadas na escola, se torna um poeta tão logo seja tocada pelo amor.” O Banquete

Tudo isso para dizer que as traduções são mera equivalência um pouco vaga. Não é culpa dos tradutores. Fazemos ecos e associações demais, involuntariamente. […] Nem o erudito mais competente pode conservar a sutileza do acento, o vôo, a ascensão e a queda <icárea> das palavras:

…A ti, que eternamente choras em tua tumba de pedra.” Electra

MALLEUS MALEFICARUM (O MARTELO DA BRUXA) (com aproximadamente 30% de prólogos e prefácios, de facínoras ou não)

Kramer & Sprenger, 1486 (Summers,1928, 1948, [Wicca Society, 2001].

GLOSSÁRIO ENDEMONIADO POLIGLOTA

euhemerism: “The philosophy attributed to and named for Euhemerus, a Greek mythographer, holds that many mythological tales can be attributed to historical persons and events, the accounts of which have become altered and exaggerated over time.”

pitonisa: vidente, cartomante

zigurate: templo piramidal com terraplanagem (vários terraços configurando andares)

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PREFÁCIOS & INTRODUÇÕES GERAIS

Estimates of the death toll during the Inquisition worldwide range from 600,000 to as high as 9,000,000 (over its 250 year long course) (…) Thus has it been said that The Malleus Maleficarum is one of the most blood-soaked works in human history, in that its very existence reinforced and validated Catholic beliefs which led to the prosecution, torture, and murder of tens of thousands of innocent people.”

At the height of its popularity, The Malleus Maleficarum was surpassed in public notoriety only by The Bible. Its effects were even felt in the New World, where the last gasp of the Inquisition was felt in the English settlements in America (most notably in Salem, Massachusetts during the Salem Witch Trials).”

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A CARTA DO DIABO

IN the name of our Lord Jesus Christ, Amen. Know all men by these presents, whosoever shall read, see or hear the tenor of this official and public document, that in the year of our Lord, 1487, upon a Saturday, being the 19th day of the month of May, at the 5th hour after noon, or thereabouts, in the third year of the Pontificate of our most Holy Father and Lord, the lord Innocent, by divine providence Pope, the 8th of that name, in the very and actual presence of me Arnold Kolich, public notary, and in the presence of the witnesses whose names are hereunder written and who were convened and especially summoned for this purpose, the Venerable and Very Reverend Father Henry Kramer, Professor of Sacred Theology, of the Order of Preachers, Inquisitor of heretical depravity, directly delegated thereto by the Holy See together with the Venerable and Very Reverend Father James Sprenger, Professor of Sacred Theology and Prior of the Dominican Convent at Cologne, being especially appointed as colleague of the said Father Henry Kramer, hath on behalf both of himself and his said colleague made known unto us and declared that the Supreme Pontiff now happily reigning, lord Innocent, Pope, as hath been set out above [tá bom, que estilo grogue até para um nOTÁRIO!], hath committed and granted by a bull duly signed and sealed unto the aforesaid Inquisitors (…) granted (…) the power of making search and inquiry into all heresies, and most especially into the heresy of witches, an abomination that thrives and waxes strong in these our unhappy days, and he has bidden them diligently to perform this duty throughout the five Archdioceses of the five Metropolitan Churches, that is to say, Mainz, Cologne, Trèves, Salzburg and Bremen, granting them every faculty of judging and proceeding against such even with the power of putting malefactors to death (…) upon the tenor of the Apostolic bull, which they hold and possess and have exhibited unto us, a document which is whole, entire, untouched, and in no way lacerated or impaired, in fine whose integrity is above any suspicion. And the tenor of the said bull commences thus: <Innocent, Bishop, Servant of the servants of God, for an eternal remembrance. Desiring with the most heartfelt anxiety, even as Our Apostleship requires, that the Catholic Faith should be especially in this Our day increase and flourish everywhere, . . .> and it concludes thus: <Given at Rome, at S. Peter’s, on the 9 December of the Year of the Incarnation of Our Lord one thousand, four hundred and eighty-four, in the first Year of Our Pontificate.>” Ou seja: dois cretinos psicopatas levaram menos de 3 anos e ½ para escreverem esse verdadeiro TRATADO DE LESA-HUMANIDADE!

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There is left no doubt in the reader’s mind that Rev. Summers not only believed in the existence of witches as the Medieval Church perceived them, but felt that the Inquisition, and the Malleus, were both justified and necessary. In both of his introductions (especially the original 1928 introduction), he seems more intent on using the occasion to convince us that the murder of thousands of innocent people, for the crime of witchcraft, during the Inquisition was somehow noble, and that the authors of the Malleus, Heinrich Kramer and James Sprenger, were visionaries of their time. One often finds the text of the introductions reading as if it had been written 500 years previously when the Malleus was originally published and the Inquisition was in full swing.”

There were 14 editions between 1487 and 1520, and at least 16 editions between 1574 and 1669. There are modern translations as well: Der Hexenhammer, J.W.R. Schmidt, 1906, and this one.”

This famous document should interest the historian, the student of witchcraft and the occult, and the psychologist who is interested in the medieval mind as it was confronted with various forces which could only be explained as witchcraft.”

Those readers whose familiarity with The Bible comes from the King James Version may be surprised by the references to these <obscure> books of The Bible, such as Paralipomenon, Apocalypse, Judith, and Tobias. These books were originally a part of The Bible, but were cut from the King James version as it was developed. They exist today primarily as a part of the Douay Rheims Version of The Bible, which is widely used by Catholics.”

DATAÇÃO POR CARBONO-14! “Many participants in this project have questioned my determination to transcribe the text of the Malleus Maleficarum by hand, as opposed to scanning the pages and using Optical Character Recognition (OCR) software to generate the text. While it is certain that the latter would prove more expedient and see the online edition posted much sooner, transcribing the text, while more labor intensive, ensures a more accurate translation to HTML format.” “In an age in which the Malleus Maleficarum could again achieve a relevance in the hands of radical Christian leaders, the accuracy of this online translation is, I believe, all-important.” Lovelace, 1998

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SOBRE A BULA DO CULPÊNCIO OITAVO

It has indeed lately come to Our ears, not without afflicting Us with bitter sorrow, that in some parts of Northern Germany, as well as in the provinces, townships, territories, districts, and dioceses of Mainz, Cologne, Trèves, Salzburg, and Bremen, many persons of both sexes, unmindful of their own salvation and straying from the Catholic Faith, have abandoned themselves to devils, incubi and succubi, and by their incantations, spells, conjurations, and other accursed charms and crafts, enormities and horrid offences, have slain infants yet in the mother’s womb, as also the offspring of cattle, have blasted the produce of the earth, the grapes of the vine, the fruits of the trees, nay, men and women, beasts of burthen, herd-beasts, as well as animals of other kinds, vineyards, orchards, meadows, pasture-land, corn, wheat, and all other cereals; these wretches furthermore afflict and torment men and women, beasts of burthen, herd-beasts, as well as animals of other kinds, with terrible and piteous pains and sore diseases, both internal and external; they hinder men from performing the sexual act and women from conceiving, whence husbands cannot know their wives nor wives receive their husbands; over and above this, they blasphemously renounce that Faith which is theirs by the Sacrament of Baptism, and at the instigation of the Enemy of Mankind they do not shrink from committing and perpetrating the foulest abominations and filthiest excesses to the deadly peril of their own souls, whereby they outrage the Divine Majesty and are a cause of scandal and danger to very many. And although (…) Henry Kramer and James Sprenger (…) have been by Letters Apostolic delegated as Inquisitors of these heretical pravities, and still are Inquisitors, the first in the aforesaid parts of Northern Germany, wherein are included those aforesaid townships, districts, dioceses, and other specified localities, and the second in certain territories which lie along the borders of the Rhine, nevertheless not a few clerics and lay-folk of those countries, seeking too curiously to know more than concerns them, since in the aforesaid delegatory letters there is no express and specific mention by name of these provinces, townships, dioceses, and districts, and further since the 2 delegates themselves and the abominations they are to encounter are not designated in detailed and particular fashion, these persons are not ashamed to contend with the most unblushing effrontery that these enormities are not practised in these provinces, and consequently the aforesaid Inquisitors have no legal right to exercise their powers of inquisition in the provinces, townships, dioceses, districts, and territories, which have been rehearsed, and that the Inquisitors may not proceed to punish, imprison, and penalize criminals convicted of the heinous offences and many wickednesses which have been set forth. Accordingly in the aforesaid provinces, townships, dioceses, and districts, the abominations and enormities in question remain unpunished not without open danger to the souls of many and peril of eternal damnation.”

We decree and enjoin that the aforesaid Inquisitors be empowered to proceed to the just correction, imprisonment, and punishment of any persons, without let or hindrance, in every way as if the provinces, townships, dioceses, districts, territories, yea, even the persons and their crimes in this kind were named and particularly designated in Our letters.”

We grant permission to the aforesaid Inquisitors, to one separately or to both, as also to Our dear son John Gremper, priest of the diocese of Constance, Master of Arts, their notary, or to any other public notary, who shall be by them, or by one of them, temporarily delegated to those provinces, townships, dioceses, districts, and aforesaid territories, to proceed, according to the regulations of the Inquisition, against any persons of whatsoever rank and high estate, correcting, fining, imprisoning, punishing, as their crimes merit, those whom they have found guilty, the penalty being adapted to the offence.”

DISSIMULANDIBUS: “excommunication, suspension, interdict, and yet more terrible penalties, censures, and punishment, as may seem good to him, and that without any right of appeal, and if he will he may by Our authority aggravate and renew these penalties as often as he list, calling in, if so please him, the help of the secular arm.

Non obstantibus . . . Let no man therefore . . . But if any dare to do so, which God forbid, let him know that upon him will fall the wrath of Almighty God, and of the Blessed Apostles Peter and Paul.”

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Witchcraft was inextricably mixed with politics. Matthew Paris tells us how in 1232 the Chief Justice Hubert de Burgh, Earl of Kent, (Shakespeare’s <gentle Hubert> in King John), was accused by Peter do (sic) Roches, Bishop of Winchester, of having won the favour of Henry III through <charms and incantations>. In 1324 there was a terrific scandal at Coventry when it was discovered that a number of the richest and most influential burghers of the town had long been consulting with Master John, a professional necromancer, and paying him large sums to bring about by his arts the death of Edward II and several nobles of the court. Alice Perrers, the mistress of Edward III, was not only reputed to have infatuated the old king by occult spells, but her physician (believed to be a mighty sorcerer) was arrested on a charge of confecting love philtres and talismans. Henry V, in the autumn of 1419, prosecuted his stepmother, Joan of Navarre, for attempting to kill him by witchcraft, <in the most horrible manner that one could devise.> The conqueror of Agincourt was exceedingly worried about the whole wretched business, as also was the Archbishop of Canterbury, who ordered public prayers for the king’s safety. In the reign of his son, Henry VI, in 1441, one of the highest and noblest ladies in the realm, Eleanor Cobham, Duchess of Gloucester, was arraigned for conspiring with <a clerk>, Roger Bolingbroke, <a most notorious evoker of demons>, and <the most famous scholar in the whole world in astrology and magic>, to procure the death of the young monarch by sorcery, so that the Duke of Gloucester, Henry’s uncle and guardian, might succeed to the crown.¹ In this plot were further involved Canon Thomas Southwell, and a <relapsed witch>, that is to say, one who had previously (11 years before) been incarcerated upon grave suspicion of black magic, Margery Jourdemayne. Bolingbroke, whose confession implicated the Duchess, was hanged; Canon Southwell died in prison; the witch in Smithfield was <burn’d to Ashes>, since her offence was high treason. The Duchess was sentenced to a most degrading public penance, and imprisoned for life in Peel Castle, Isle of Man. Richard III, upon seizing the throne in 1483, declared that the marriage of his brother, Edward IV, with the Lady Elizabeth Grey, had been brought about by <sorcery and witchcraft>, and further that <Edward’s wife, that monstrous witch, has plotted with Jane Shore to waste and wither his body.> Poor Jane Shore did most exemplary penance, walking the flinty streets of London barefoot in her kirtle. In the same year when Richard wanted to get rid of the Duke of Buckingham, his former ally, one of the chief accusations he launched was that the Duke consulted with a Cambridge <necromancer> to compass and devise his death.

One of the most serious and frightening events in the life of James VII of Scotland (afterwards James I of England) was the great conspiracy of 1590, organized by the Earl of Bothwell. James with good reason feared and hated Bothwell, who, events amply proved, was Grand Master of more than 100 witches, all adepts in poisoning, and all eager to do away with the King. In other words, Francis Stewart, Earl of Bothwell, was the centre and head of a vast political plot. A widespread popular panic was the result of the discovery of this murderous conspiracy. In France as early as 583, when the infant son and heir of King Chilperic, died of dysentery, as the doctors diagnosed it, it came to light that Mumolus, one of the leading officials of the court, had been secretly administering to the child medicines, which he obtained from <certain witches of Paris>. These potions were pronounced by the physicians to be strong poisons. In 1308, Guichard, Bishop of Troyes, was accused of having slain by sorcery the Queen of Philip IV of France (1285-1314), Jeanne of Navarre, who died three years before [1305]. The trial dragged on from 1308 to 1313, and many witnesses attested on oath that the prelate had continually visited certain notorious witches, who supplied him philtres and draughts. In 1315, during the brief reign (1314-1316) of Louis X, the eldest son of Philip IV, was hanged Enguerrand de Marigny, chamberlain, privy councillor, and chief favourite of Philip, whom, it was alleged, he had bewitched to gain the royal favour. The fact, however, which sealed his doom was his consultation with one Jacobus de Lor, a warlock [bruxo], who was to furnish a nostrum warranted to put a very short term to the life of King Louis. Jacobus strangled himself in prison.

In 1317 Hugues Géraud, Bishop of Cahors, was executed by Pope John XXII, who reigned 1316-1334, residing at Avignon. Langlois says that the Bishop had attempted the Pontiff’s life by poison procured from witches.

Perhaps the most resounding of all scandals of this kind in France was the La Voison case, 1679-1682, when it was discovered that Madame de Montespan had for years been trafficking with a gang of poisoners and sorcerers, who plotted the death of the Queen and the Dauphan, so that Louis XIV might be free to wed Athénais de Montespan, whose children should inherit the throne. The Duchesse de Fontanges, a beautiful young country girl, who had for a while attracted the wayward fancy of Louis, they poisoned out of hand. Money was poured out like water, and it has been said that <the entire floodtide of poison, witchcraft and diabolism was unloosed> to attain the ends of that <marvellous beauty> (so Mme. de Sévigné calls her), the haughty and reckless Marquise de Montespan. In her thwarted fury she well nigh resolved to sacrifice Louis himself to her overweening ambition and her boundless pride. The highest names in France – the Princesse de Tingry, the Duchesse de Vitry, the Duchesse de Lusignan, the Duchesse de Bouillon, the Comtesse de Soissons, the Duc de Luxembourg, the Marguis de Cessac – scores of the older aristocracy, were involved, whilst literally hundreds of venal apothecaries, druggists, pseudo-alchemists, astrologers, quacks, warlocks, magicians, charlatans, who revolved round the ominous and terrible figure of Catherine La Voisin, professional seeress, fortune-teller, herbalist, beauty-specialist, were caught in the meshes [teias] of law. No less than 11 volumes of François Ravaison’s huge work, Archives de la Bastille, are occupied with this evil crew and their doings, their sorceries and their poisonings. [Livro-pédia que não podemos deixar de perder!]

During the reign of Urban VIII, Maffeo Barberini, 1623-1644, there was a resounding scandal at Rome when it was discovered that <after many invocations of demons> Giacinto Contini, nephew of the Cardinal d’Ascoli, had been plotting with various accomplices to put an end to the Pope’s life, and thus make way for the succession of his uncle to the Chair of Peter. Tommaso Orsolini of Recanate, moreover, after consulting with certain scryers and planetarians, readers of the stars, was endeavouring to bribe the apothecary Carcurasio of Naples to furnish him with a quick poison, which might be mingled with the tonics and electuaries prescribed for the ailing Pontiff, (Ranke, History of the Popes, ed. 1901, Vol. III, pp. 375-6).”

¹ Se essas coisas fossem mesmo dotadas do mais remoto interesse, Shakespeare usaria muito de magia negra para apimentar suas peças, o que, vê-se, passa longe de ser o caso.

Jean Bodin, the famous jurisconsult (1530-90) whom Montaigne acclaims to be the highest literary genius of his time, and who, as a leading member of the Parlement de Paris, presided over important trials, gives it as his opinion that there existed, not only in France, a complete organization of witches, immensely wealthy, of almost infinite potentialities, most cleverly captained, with centres and cells in every district, utilizing an espionage in ever land, with high-placed adherents at court, with humble servitors in the cottage.”

Not the least dreaded and dreadful weapon in their armament was the ancient and secret knowledge of poisons (veneficia), of herbs healing and hurtful, a tradition and a lore which had been handed down from remotest antiquity.”

Little wonder, then, that later social historians, such as Charles MacKay and Lecky, both absolutely impartial and unprejudiced writers, sceptical even, devote many pages, the result of long and laborious research, to witchcraft. (…) The profoundest thinkers, the acutest and most liberal minds of their day, such men as Cardan; Trithemius; the encylcopædic Delrio; Bishop Binsfeld; the learned physician, Caspar Peucer; Sir Edward Coke, <father of the English law>; Francis Bacon; Malebranche; Bayle; Glanvil; Thomas Browne; Cotton Mather; all these, and scores besides, were convinced of the dark reality of witchcraft, of the witch organization.”

The latest reprint of the original text of the Malleus is to be found in the noble 4-volume collection of Treatises on Witchcraft, <sumptibus Claudii Bourgeat>, 4to., Lyons, 1669.”

It was implicitly accepted not only by Catholic but by Protestant legislature. In fine, it is not too much to say that the Malleus Maleficarum is among the most important, wisest, and weightiest books of the world.

It has been asked whether Kramer or Sprenger was principally responsible for the Malleus, but in the case of so close a collaboration any such inquiry seems singularly superfluous and nugatory. With regard to instances of jointed authorship, unless there be some definite declaration on the part of one of the authors as to his particular share in a work, or unless there be some unusual and special circumstances bearing on the point, such perquisitions and analysis almost inevitably resolve themselves into a cloud of guess-work and bootless hazardry and vague perhaps. It becomes a game of literary blind-man’s-bluff.

Heinrich Kramer was born at Schlettstadt, a town of Lower Alsace, situated some 26 miles south-west of Strasburg. At an early age he entered the Order of S. Dominic, and so remarkable was his genius that whilst still a young man he was appointed to the position of Prior of the Dominican House at his native town. He was a Preacher-General and a Master of Sacred Theology. P.G. and S.T.M., two distinctions in the Dominican Order. At some date before 1474 he was appointed an Inquisitor for the Tyrol, Salzburg, Bohemia, and Moravia. His eloquence in the pulpit and tireless activity received due recognition at Rome, and for many years he was Spiritual Director of the great Dominican church at Salzburg, and the right-hand of the Archbishop of Salzburg, a munificent prelate who praises him highly in a letter which is still extant.” “In 1495, the Master General of the Order, Fr. Joaquín de Torres, O.P., summoned Kramer to Venice in order that he might give public lectures, disputations which attracted crowded audiences, and which were honoured by the presence and patronage of the Patriarch of Venice. He also strenuously defended the Papal supremacy, confuting the De Monarchia of the Paduan jurisconsult, Antonio degli Roselli. At Venice he resided at the priory of Santi Giovanni e Paolo (S. Zanipolo). During the summer of 1497, he had returned to Germany, and was living at the convent of Rohr, near Regensburg. On 31 January, 1500, Alexander VI appointed him as Nuncio and Inquisitor of Bohemia and Moravia, in which provinces he was deputed and empowered to proceed against the Waldenses and Picards, as well as against the adherents of the witch-society.” “His chief works, in addition to the Malleus, are: Several Discourses and Various Sermons upon the Most Holy Sacrament of the Eucharist, Nuremberg, 1496; A Tract Confuting the Errors of Master Antonio degli Roselli, Venice, 1499; and The Shield of Defence of the Holy Roman Church Against the Picards and Waldenses, an incunabulum, without date, but almost certainly 1499-1500. Many learned authors quote and refer to these treatises in terms of highest praise.”

James Sprenger was born in Basel, 1436-8 [que parto longo]. He was admitted a novice in the Dominican house of this town in 1452. His extraordinary genius attracted immediate attention, and his rise to a responsible position was very rapid. According to Pierre Hélyot, the Franciscan (1680-1716), Histoire des Ordres Religieux, III (1715), ch. XXVI, in 1389 Conrad of Prussia abolished certain relaxations and abuses which had crept into the Teutonic Province of the Order of S. Dominic, and restored the Primitive and Strict Obedience. He was closely followed by Sprenger, whose zealous reform was so warmly approved that in 1468 the General Chapter ordered him to lecture on the sentences of Peter Lombard at the University of Cologne, to which he was thus officially attached. A few years later he proceeded Master of Theology, and was elected Prior and Regent of Studies of the Cologne Convent, one of the most famous and frequented Houses of the Order. On 30 June, 1480, he was elected Dean of the Faculty of Theology at the University. His lecture-room was thronged, and in the following year, at the Chapter held in Roma, the Master General of the Order, Fra Salvo Cusetta, appointed him Inquisitor Extraordinary for the Provinces of Mainz, Trèves, and Cologne. His activities were enormous, and demanded constant journeyings through the very extensive district to which he had been assigned. In 1488 he was elected Provincial of the whole German Province, an office of the first importance [ah, o século!]. It is said that his piety and his learning impressed all who came in contact with him. In 1495 he was residing at Cologne, and here he received a letter from Alexander VI praising his enthusiasm and his energy.” “Among Sprenger’s other writings, excepting the Malleus, are The Paradoxes of John of Westphalia Refuted, Mainz, 1479, a closely argued treatise; and The Institution and Approbation of the Confraternity of the Most Holy Rosary, which was first erected at Cologne on 8 September in the year 1475. Sprenger may well be called the Apostle of the Rosary. None more fervent than he in spreading this Dominican elevation.”

Certain it is that the Malleus Maleficarum is the most solid, the most important work in the whole vast library of witchcraft. One turns to it again and again with edification and interest: From the point of psychology, from the point of jurisprudence, from the point of history, it is supreme. It has hardly too much to say that later writers, great as they are, have done little more than draw from the seemingly inexhaustible wells of wisdom which the two Dominicans, Heinrich Kramer and James Sprenger, have given us” “What is most surprising is the modernity of the book. There is hardly a problem, a complex, a difficulty, which they have not foreseen, and discussed, and resolved.”

The Malleus Maleficarum is one of the world’s few books written sub specie aeternitatis.

Montague Summers.

7 October, 1946.”

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Sometimes, no doubt, primitive communities were obliged to tolerate the witch and her works owing to fear; in other words, witchcraft was a kind of blackmail; but directly Cities were able to coordinate, and it became possible for Society to protect itself, precautions were taken and safeguards were instituted against this curse, this bane whose object seemed to blight all that was fair, all that was just and good, and that was well-appointed and honourable, in a word, whose aim proved to be set up on high the red standard of revolution; to overwhelm religion, existing order, and the comeliness of life in an abyss of anarchy, nihilism, and despair. In his great treatise De Civitate Dei S. Augustine set forth the theory, or rather the living fact, of the two Cities, the City of God, and the opposing stronghold of all that is not for God, that is to say, of all that is against Him. [humanity itself]”

and nations who had never heard the Divine command put into practice the obligation of the Mosaic maxim: Thou shalt not suffer a witch to live. (Vulgate: Maleficos non patieris vivere. Douay: Wizards thou shalt not suffer to live. Exodus, 22:18.)” // “A feiticeira não deixarás viver.” Êxodo 22:18

It is true that both in the Greek and in the earlier Roman cults, worships often directly derived from secret and sombre sources, ancient gods, or rather demons, had their awful superstitions and their horrid rites, powers whom men dreaded but out of very terror placated; fanes [templos] men loathed but within whose shadowed portals they bent and bowed the knee perforce in trembling fear. Such deities were the Thracian Bendis [a nova Ártemis; ver referências aos jogos e festivais incluindo corridas de cavalos noturnas n’A República], whose manifestation was heralded by the howling of her fierce black hounds, and Hecate the terrible <Queen of the realm of ghosts>, as Euripides calls her, and the vampire Mormo [espécie de bicho-papão da Antiguidade: mas pelo menos era uma mulher! Posteriormente, Lamia] and the dark Summanus who at midnight hurled loud thunderbolts and launched the deadly levin [relâmpago] through the starless sky [Curiosa espécie de anti-Zeus, o Deus do Trovão Diruno. Milton e Camões equiparam-no a Hades.]. Pliny tells us that the worship of this mysterious deity lasted long, and dogs with their puppies were sacrificed to him with atrocious cruelty, but S. Augustine says that in his day <one could scarce find one within a while, that had heard, nay more, that had read so much as the name of Summanus> (De Civitate Dei, 4:23). (…) Towards the end of the 5th century, the Carthaginian Martianus Capella boldly declares that Summanus is none other than the lord of Hell, and he was writing, it may be remembered, only a few years before the birth of S. Benedict(*); some think that he was still alive when the Father of All Monks was born.”

(*) “The Medal of S. Benedict has been found to be extremely potent against all evil spells.”

many strange legends attached to the island of Lemnos, which is situated in the Aegaean Sea, nearly midway between Mt. Athos and the Hellespoint. It is one of the largest of the group, having an area of some 147 square miles. Lemnos was sacred to Hephaestus, who is said to have fallen here when hurled by Zeus from Olympus.” “It should further be noted that the old Italian deity Volcanus, with whom he was to be identified, is the god of destructive fire – fire considered in its rage and terror, as contrasted with fire which is a comfort to the human race, the kindly blaze on the hearth, domestic fire, presided over by the gracious lady Vesta. It is impossible not to think of the fall of Lucifer when one considers the legend of Hephaestus. Our Lord replied, when the disciples reported: Domine, etiam daemonia subiiciuntur nobis in nomine tuo (Lord, the devils also are subject to us in Thy Name), Videbam Satanam sicut fulgur de coelo cadentem (I saw Satan like lightning falling from Heaven); and Isaias says: Quomodo cecidisti de coelo, Lucifer, qui mane oriebaris? Corruisti in terram qui vulnerabas gentes? (How art thou fallen from Heaven, O Lucifer, who didst rise in the morning? How art thou fallen to the earth, that didst wound the nations?). Milton also has the following poetic allusion:

Nor was his name unheard or unador’d

In Ancient Greece; and in Ausonian land

Men called him Mulciber; and how he fell

From Heav’n, they fabl’d, thrown by angry Jove

Sheer o’er the Chrystal Battlements: from Morn

To Noon he fell, from Noon to dewy Eve,

A Summers day; and with the setting Sun

Dropt from the Zenith like a falling Star,

On Lemnos th’Ægæan Ile: thus they relate,

Erring; for he with his rebellious rout

Fell long before; nor aught avail’d him now

To have built in Heav’n high Towers; nor did he scape

By all his Engines, but was headlong sent

With his industrious crew to build in hell.”

Paraíso Perdido, 1:738-51

Levar poeta a sério é pedir pra se queimar na fogueira de São João!

Hephaestus, especially in later days, is represented with one leg shortened to denote his lameness; and throughout the Middle Ages it was popularly believed that his cloven hoof was the one feature which the devil was unable to disguise. In this connexion with Loki, the Vulcan of Northern Europe, will be readily remembered.”

É Hefesto o Lúcifer pagão ou não seria apenas Lúcifer o Hefesto cristão, que não saberá nunca dar a volta por cima? Mas na verdade ele tinha amores, era excelente ferreiro, e foi afinal perdoado e regressou ao Olimpo, pleno de honras!

There were also dark histories of murder and blood connected with Lemnos. When the Argonauts landed here they found it inhabited only by Amazons, who, having murdered all their husbands, had chosen as their queen Hypsipyle, daughter of Thoas, whom she secretly preserved alive. When this was discovered the unfortunate woman was compelled to leave the island, and being subsequently captured by pirates she was sold to Lycurgus, king of the sacred groves that surrounded the temple of Zeus Nemeus in a remote Argive valley. Hypsipyle here became the nurse of the mysterious child Archemorus, the Forerunner of Death, who was bitten by a magic serpent and vanished, portending the doom of the Seven who went against Thebes.”

It is curious to remark that a certain red clay (terra Lemnia) found on the island was, as Pliny tells us, employed as a remedy for wounds, and especially the bite of a snake.”

In Rome black magic was punished as a capital offence by the Law of the Twelve Tables, which are to be assigned to the 5th century B.C., and, as Livy records, from time to time Draconian statutes were directed against those who attempted to blight crops and vineyards or to spread rinderpest amongst flocks and cattle. Nonetheless it is evident from many Latin authors and from the historians that Rome swarmed with occultists and diviners, many of whom in spite of the Lex Cornelia almost openly traded in poisons, and not infrequently in assassination to boot. Sometimes, as in the Middle Ages, a circumstance of which the Malleus Maleficarum most particularly complains, the sorcerers were protected by men of wealth and high estate. This was especially the case in the terrible days of Marius and of Catiline, and during the extreme decadence of the latest Caesars. Yet, paradoxical as it may appear, such emperors as Augustus, Tiberius, and Septimius Severus, whilst banishing from their realms all seers and necromancers, and putting them to death, in private entertained astrologers and wizards among their retinue, consulting their art upon each important occasion, and often even in the everyday and ordinary affairs of life.”

stern and constant official opposition to witchcraft, and the prohibition under severest penalties, the sentence of death itself, of any practice or pursuit of these dangerous and irreligious arts, was demonstrably not a product of Christianity, but had long and necessarily been employed in the heathen world and among pagan peoples and among polytheistic societies. Moreover, there are even yet savage communities who visit witchcraft with death.”

If the disease is universal, the medicine must be sharp.”

a song or a country dance mayhap, innocent enough on the surface, and even pleasing, so often were but the cloak and the mask for something devilish and obscene, that the Church deemed it necessary to forbid and proscribe the whole superstition even when it manifested itself in modest fashion and seemed guileless, innoxious, and of no account.”

I knok this rage upone this stane

To raise the wind in the divellis name,

It sall not lye till I please againe.”

Cântico de bruxas escocesas

A pagan diviner or haruspex could only follow his vocation under very definite restrictions. He was not allowed to be an intimate visitor at the house of any citizen, for friendship with men of this kind must be avoided. The haruspex who frequents the houses of others shall die at the stake, such is the tenor of the code. It is hardly an exaggeration to say that almost every year saw a more rigid application of the laws; although even as today, when fortune-telling and peering into the future are forbidden by the Statute Book, diviners and mediums abound, so then in spite of every prohibition astrologers, clairvoyants, and psalmists had an enormous clientèle of rich and poor alike.

The early legal codes of most European nations contain laws directed against witchcraft. Thus, for example, the oldest document of Frankish legislation, the Salic Law (Lex salica), which was reduced to a written form and promulgated under Clovis, who died 27 November, 511, mulcts (sic) those who practise magic with various fines, especially when it could be proven that the accused launched a deadly curse, or had tied the Witch’s Knot. This latter charm was usually a long cord tightly tied up in elaborate loops, among whose reticulations it was customary to insert the feathers of a black hen, a raven, or some other bird which had, or was presumed to have, no speck of white. This is one of the oldest instruments of witchcraft and is known in all countries and among all nations. It was put to various uses. The wizards of Finland sold wind in the three knots of a rope. If the first knot were undone a gentle breeze sprang up; if the second, it blew a mackerel gale; if the third, a hurricane. But the Witch’s Ladder, as it was often known, could be used with far more baleful effects. The knots were tied with certain horrid maledictions, and then the cord was hidden away in some secret place, and unless it were found and the strands released the person at whom the curse was directed would pine and die. This charm continually occurs during the trials. Thus in the celebrated Island-Magee case, March 1711, when a coven of witches was discovered, it was remarked that an apron belonging to Mary Dunbar, a visitor at the house of the afflicted persons, had been abstracted. Miss Dunbar was suddenly seized with fits and convulsions, and sickened almost to death. After most diligent search the missing garment was found carefully hidden away and covered over, and a curious string which had nine knots in it had been so tied up with the folds of the linen that it was beyond anything difficult to separate them and loosen the ligatures. In 1886 in the old belfry of a village church in England there were accidentally discovered, pushed away in a dark corner, several yards of incle braided with elaborate care and having a number of black feathers thrust through the strands. It is said that for a long while considerable wonder was caused as to what it might be, but when it was exhibited and became known, one of the local grandmothers recognized it was a Witch’s Ladder, and, what is extremely significant, when it was engraved in the Folk Lore Journal an old Italian woman to whom the picture was shown immediately identified it as la ghirlanda delle streghe.”

In 578, when a son of Queen Fredegonde died, a number of witches who were accused of having contrived the destruction of the Prince were executed. (…) what else was there left for the Church to do?” Yea, what else?

HISTERIA COLETIVA: “In 814, Louis le Pieux upon his accession to the throne began to take very active measures against all sorcerers and necromancers, and it was owing to his influence and authority that the Council of Paris in 829 appealed to the secular courts to carry out any such sentences as the Bishops might pronounce. The consequence was that from this time forward the penalty of witchcraft was death, and there is evidence that if the constituted authority, either ecclesiastical or civil, seemed to slacken in their efforts the populace took the law into their own hands with far more fearful results.”

MEDIDAS PROFILÁTICAS:It is quite plain that such a man as Frederick II, whose whole philosophy was entirely Oriental; who was always accompanied by a retinue of Arabian ministers, courtiers, and officers; who was perhaps not without reason suspected of being a complete agnostic, recked little whether heresy and witchcraft might be offences against the Church or not, but he was sufficiently shrewd to see that they gravely threatened the well-being of the State, imperilling the maintenance of civilization and the foundations of society.”

QUANTA BONDADE ECLESIÁSTICA, DEIXAR A PENA DE MORTE PARA O ESTADO! “It may be well here very briefly to consider the somewhat complicated history of the establishment of the Inquisition, which was, it must be remembered, the result of the tendencies and growth of many years, by no means a judicial curia with cut-and-dried laws and a complete procedure suddenly called into being by one stroke of a Papal pen. In the first place, S.[atan] Dominic was in no sense the founder of the Inquisition. Certainly during the crusade in Languedoc he was present, reviving religion and reconciling the lapsed, but he was doing no more than S. Paul or any of the Apostles would have done. The work of S. Dominic was preaching and the organization of his new Order, which received Papal confirmation from Honorius III, and was approved in the Bull Religiosam vitam, 22 December, 1216. S. Dominic died 6 August, 1221, and even if we take the word in a very broad sense, the first Dominican Inquisitor seems to have been Alberic, who in November, 1232, was travelling through Lombardy with the official title of Inquisitor hereticae pravitatis. The whole question of the episcopal Inquisitors, who were really the local bishop, his arch-deacons, and his diocesan court, and their exact relationship with the travelling Inquisitors, who were mainly drawn from the two Orders of friars, the Franciscan and the Dominican, is extremely nice and complicated; whilst the gradual effacement of the episcopal courts with regard to certain matters and the consequent prominence of the Holy Office were circumstances and conditions which realized themselves slowly enough in all countries, and almost imperceptibly in some districts, as necessity required, without any sudden break or sweeping changes. In fact we find that the Franciscan or Dominican Inquisitor simply sat as an assessor in the episcopal court so that he could be consulted upon certain technicalities and deliver sentence conjointly with the Bishop if these matters were involved. Thus at the trial of Gilles de Rais in October, 1440, at Nantes, the Bishop of Nantes presided over the court with the bishops of Le Mans, Saint-Brieuc, and Saint-Lo as his coadjutors, whilst Pierre de l’Hospital, Chencellor of Brittany, watched the case on behalf of the civil authorities, and Frère Jean Blouin was present as the delegate of the Holy Inquisition for the city and district of Nantes. Owing to the multiplicity of the crimes, which were proven and clearly confessed in accordance with legal requirements, it was necessary to pronounce two sentences. The first sentence was passed by the Bishop of Nantes conjointly with the Inquisitor. By them Gilles de Rais was declared guilty of Satanism, sorcery, and apostasy, and there and then handed over to the civil arm to receive the punishment due to such offences. The second sentence, pronounced by the Bishop alone, declared the prisoner convicted of sodomy, sacrilege, and violation of ecclesiastical rights. The ban of excommunication was lifted since the accused had made a clean breast of his crimes and desired to be reconciled, but he was handed over to the secular court, who sentenced him to death, on multiplied charges of murder as well as on account of the aforesaid offences.”

Today the word heresy seems to be as obsolete and as redolent of a Wardour-street vocabulary as if one were to talk of a game of cards at Crimp or Incertain, and to any save a dusty mediaevalist it would appear to be an antiquarian term.” MORTE AOS COMUNAS! “The heretics were just as resolute and just as practical, that is to say, just as determined to bring about the domination of their absolutism as is any revolutionary of today. The aim and objects of their leaders, Tanchelin, Everwacher, the Jew Manasses, Peter Waldo, Pierre Autier, Peter of Bruys, Arnold of Brescia, and the rest, were exactly those of Lenin, Trotsky, Zinoviev, and their fellows.”

Their objects may be summed up as the abolition of monarchy, the abolition of private property and of inheritance, the abolition of marriage, the abolition of order, the total abolition of all religion. It was against this that the Inquisition had to fight, and who can be surprised if, when faced with so vast a conspiracy, the methods employed by the Holy Office may not seem – if the terrible conditions are conveniently forgotten – a little drastic, a little severe? There can be no doubt that had this most excellent tribunal continued to enjoy its full prerogative and the full exercise of its salutary powers, the world at large would be in a far happier and far more orderly position today. Historians may point out diversities and dissimilarities between the teaching of the Waldenses, the Albigenses, the Henricans, the Poor Men of Lyons, the Cathari, the Vaudois, the Bogomiles, and the Manichees, but they were in reality branches and variants of the same dark fraternity, just as the Third International, the Anarchists, the Nihilists, and the Bolsheviks are in every sense, save the mere label, entirely identical.”

There is an apparent absence of motive in this seemingly aimless campaign of destruction to extermination carried on by the Bolsheviks in Russia, which has led many people to inquire what the objective can possibly be. So unbridled are the passions, so general the demolition, so terrible the havoc, that hard-headed individuals argue that so complete a chaos and such revolting outrages could only be affected by persons who were enthusiasts in their own cause and who had some very definite aims thus positively to pursue. The energizing forces of this fanaticism, this fervent zeal, do not seem to be anymore apparent than the end, hence more than one person has hesitated to accept accounts so alarming of massacres and carnage, or wholesale imprisonments, tortures, and persecutions, and has begun to suspect that the situation may be grossly exaggerated in the overcharged reports of enemies and the highly-coloured gossip of scare-mongers.” EUREKA!

Nearly a century and a half ago Anacharsis Clootz(*), <the personal enemy of Jesus Christ> as he openly declared himself, was vociferating God is Evil, To me then Lucifer, Satan! whoever you may be, the demon that the faith of my fathers opposed to God and the Church. This is the credo of the witch.”

(*) Bases constitutionnelles de la République du genre humain, Paris, 1793

Revolucionário francês de tendências cosmopolitas (globais) à frente de seu tempo.

Naturally, although the Masters were often individuals of high rank and deep learning, that rank and file of the society, that is to say, those who for the most part fell into the hands of justice, were recruited from the least educated classes, the ignorant and the poor [já vi isso em algum lugar…]. As one might suppose, many of the branches or covens in remoter districts knew nothing and perhaps could have understood nothing of the enormous system. Nevertheless, as small cogs in a very small wheel, it might be, they were carrying on the work and actively helping to spread the infection. It is an extremely significant fact that the last regularly official trial and execution for witchcraft in Western Europe was that of Anna Göldi, who was hanged at Glaris in Switzerland, 17 June, 1782(*). Seven years before, in 1775, the villian Adam Weishaupt, who has been truly described by Louis Blanc as <the profoundest conspirator that has ever existed,> formed his <terrible and formidable sect>, the Illuminati. The code of this mysterious movement lays down: <it is also necessary to gain the common people (das gemeine Volk) to our Order. The great means to that end is influence in the schools.>“So in the prosecutions at Würzburg we find that there were condemned boys of 10 and 11, two choir boys aged 12, <a boy of 12-years-old in one of the lower forms of the school>, <the two young sons of the Prince’s cook, the eldest 14, the younger 12>, several pages and seminarists, as well as a number of young girls, amongst whom <a child of 9 or 10 and her little sister> were involved.”

(*) Nota corretiva (do próprio reverendo na segunda edição?): “The last trial and judicial execution in Europe itself was probably that of two aged beldames, Satanists, who were burned at the stake in Poland, 1793, the year of the Second Partition, during the reign of Stanislaus Augustus Poniatowski.” Mas parece que a correção do reverendo estava errada, prevalecendo a primeira versão, conforme wiki e outras fontes…

In England in the year 1324 no less than 27 defendants were tried at the King’s Bench for plotting against and endeavouring to kill Edward II, together with many prominent courtiers and officials, by the practice of magical arts. A number of wealthy citizens of Coventry had hired a famous <nigromauncer>, John of Nottingham, to slay not only the king, but also the royal favourite, Hugh le Despenser, and his father; the Prior of Coventry; the monastic steward; the manciple; and a number of other important personages. A secluded old manor-house, some 2 or 3 miles out of Coventry, was put at the disposal of Master John, and there he and his servant, Robert Marshall, promptly commenced business. They went to work in the bad old-fashioned way of modelling wax dolls or mommets of those whom they wished to destroy. Long pins were thrust through the figures, and they were slowly melted before a fire.(*) The first unfortunate upon whom this experiment was tried, Richard de Sowe, a prominent courtier and close friend of the king, was suddenly taken with agonizing pains, and when Marshall visited the house, as if casually, in order that he might report the results of this sympathetic sorcery to the wizard, he found their hapless victim in a high delirium. When this state of things was promptly conveyed to him, Master John struck a pin through the heart of the image, and in the morning the news reached them that de Sowe had breathed his last. Marshall, who was by now in an extremity of terror, betook himself to a justice and laid bare all that was happening and had happened, with the immediate result that Master John and the gang of conspirators were arrested. It must be remembered that in 1324 the final rebellion against king Edward II had openly broken forth on all sides. A truce of 13 years had been arranged with Scotland, and though the English might refuse Bruce his royal title he was henceforward the warrior king of an independent country. It is true that in May, 1322, the York Parliament had not only reversed the exile of the Despensers, declaring the pardons which had been granted their opponents null and void, as well as voting for the repeal of the Ordinances of 1311, and the Despensers were working for, and fully alive to the necessity of, good and stable government, but nonetheless the situation was something more than perilous; the Exchequer was well-nigh drained; there was rioting and bloodshed in almost every large town; and worst of all, in 1323 the younger Roger Mortimer had escaped from the Tower and got away safely to the Continent. There were French troubles to boot; Charles IV, who in 1322 had succeeded to the throne, would accept no excuse from Edward for any postponement of homage, and in this very year, 1324, declaring the English possessions forfeited, he proceeded to occupy the territory with an army, when it soon became part of the French dominion. There can be not doubt that the citizens of Coventry were political intriguers, and since they were at the moment unable openly to rebel against their sovran lord, taking advantage of the fact that he was harassed and pressed at so critical a juncture, they proceeded against him by the dark and tortuous ways of black magic.

(*) “This is certainly one of the oldest and most universal of spells. To effect the death of a man, or to injure him by making an image in his likeness, and mutilating or destroying this image, is a practice found throughout the whole wide world from its earliest years. It is common both in Babylon and in the Egypt of the Pharoahs, when magicians kneaded puppets of clay or pitch moistened with honey. If it were possible to mingle therewith a drop of a man’s blood, the parings of his nails, a few hairs from his body, a thread or two from his garments, it gave the warlock the greater power over him. In ancient Greece and Rome precisely the same ideas prevailed, and allusions may be found in Theocritus (Idyll II), Virgil (Eclogue VIII, 75-82), Ovid (Heroides, VI, 91, sqq.; Amores, III, vii, 29, sqq.), and many more. (See R. Wunsch, Eine antike Rachepuppe, Philologus, lxi, 1902, pp. 26-31.) We find this charm among the Ojebway Indians, the Cora Indians of Mexico, the Malays, the Chinese and Japanese, the aborigines throughout Australia, the Hindoos, both in ancient India and at the present day, the Burmese, many Arab tribes of Northern Africa, in Turkey, in Italy and the remoter villages of France, in Ireland and Scotland, nor is it (in one shape and form or another) yet unknown in the country districts of England.”

An astrologer, attached to the Duke’s house-hold, when taken and charged with <werchyrye of sorcery against the King,> confessed that he had often cast the horoscope of the Duchess to find out if her husband would ever wear the English crown, the way to which they had attempted to smooth by making a wax image of Henry VI and melting it before a magic fire to bring about the king’s decease. A whole crowd of witches, male and female, were involved in the case, and among these was Margery Jourdemain, a known a notorious invoker of demons and an old trafficker in evil charms.”

In the days of Edward IV it was commonly gossiped that the Duchess of Bedford was a witch, who by her spells had fascinated the king with the beauty of her daughter Elizabeth, whom he made his bride, in spite of the fact that he had plighted his troth to Eleanor Butler, the heiress of the Earl of Shrewsbury. So open did the scandal become that the Duchess of Bedford lodged an official complaint with the Privy Council, and an inquiry was ordered, but, as might have been suspected, this completely cleared the lady.”

O Edward, Edward! fly and leave this place,

Wherein, poor silly King, thou are enchanted.

This is her dam of Bedford’s work, her mother,

That hath bewitch’d thee, Edward, my poor child.

Heywood

Her ascendancy over the king was attributed to the enchantments and experiments of a Dominican friar, learned in many a cantrip and cabala, whom she entertained in her house, and who had fashioned 2 pictures of Edward and Alice which, when suffumigated with the incense of mysterious herbs and gums, mandrakes, sweet calamus, caryophylleae, storax, benzoin, and other plants plucked beneath the full moon what time Venus was in ascendant, caused the old king to dote upon this lovely concubine. With great difficulty by a subtle ruse the friar was arrested, and he thought himself lucky to escape with relegation to a remote house under the strictest observance of his Order, whence, however, he was soon to be recalled with honour and reward, since the Good Parliament shortly came to an end, and Alice Perrers, who now stood higher in favour than ever, was not slow to heap lavish gifts upon her supporters, and to visit her enemies with condign punishment.”

There was nobody more thoroughly scared of witchcraft than Henry VIII’s daughter, Elizabeth, and as John Jewel was preaching his famous sermon before her in February, 1560, he described at length how <this kind of people (I mean witches and sorcerers) within these few last years are marvellously increased within this Your Grace’s realm;> he then related how owing to dark spells he had known many <pine away even to death.> <I pray God,> he unctuously cried, <they may never practise further than upon the subjects!> This was certainly enough to ensure that drastic laws should be passed particularly to protect the Queen, who was probably both thrilled and complimented to think that her life was in danger. It is exceedingly doubtful, whether there was any conspiracy at all which would have attempted Elizabeth’s personal safety.”

That it was a huge and far-reaching political conspiracy is patent form the fact that the lives of Louis XIV, the Queen, the Dauphin, Louise de la Vallière, and the Duchesse de Fontanges had been attempted secretly again and again, whilst as for Colbert, scores of his enemies were constantly entreating for some swift sure poison, constantly participating in unhallowed rites which might lay low the all-powerful Introduction of Minister.”

As early as 600 S. Gregory I had spoken in severest terms, enjoining the punishment of sorcerers and those who trafficked in black magic. It will be noted that he speaks of them as more often belonging to that class termed servi, that is to say, the very people from whom for the most part Nihilists and Bolsheviks have sprung in modern days.” Não consigo encontrar referências para os serui – segundo a grafia moderna poderiam ser os servi, os sérvios? Dostoievsky é o epítome da literatura niilista pré-Revolução Russa. Mas e daí? Ele queimou alguém na fogueira? Na verdade até onde eu sei era um beato (viciado em jogo, mas um beato). Nenhuma pista, só um palpite.

On 13, December, 1258, Pope Alexander IV (Rinaldo Conti) issued a Bull to the Franciscan Inquisitors bidding them refrain from judging any cases of witchcraft unless there was some very strong reason to suppose that heretical practice could also be amply proved. On 10 January, 1260, the same Pontiff addressed a similar Bull to the Dominicans.

DEFENDENDO O INDEFENSÁVEL: “Sixtus IV was an eminent theologian, he is the author of an admirable treatise on the Immaculate Conception, and it is significant that he took strong measures to curb [restrain] the judicial severities of Tomás de Torquemada [que bonzinho], whom he had appointed Grand Inquisitor of Castile, 11 February, 1482. During his reign he published three Bulls directly attacking sorcery, which he clearly identified with heresy, an opinion of the deepest weight when pronounced by one who had so penetrating a knowledge of the political currents of the day [ó!]. There can be no doubt that he saw the society of witches to be nothing else than a vast international of anti-social revolutionaries. (sic!!!)

It has been necessarily thus briefly to review this important series of Papal documents to show that the famous Bull Summis desiderantes affectibus, 9 December, 1484, which Innocent VIII addressed to the authors of the Malleus Maleficarum, is no isolated and extraordinary document, but merely one in the long and important record of Papal utterances, although at the same time it is of the greatest importance and supremely authoritative. It has, however, been very frequently asserted, not only by prejudiced and unscrupulous chroniclers, but also by scholars of standing and repute, that this Bull of Innocent VIII, if not, as many appear to suppose, is actually the prime cause and origin of the crusade against witches, at any rate gave the prosecution and energizing power and an authority which hitherto they had not, and which save for this Bull they could not ever have, commanded and possessed.” “a Bull is an instrument of especial weight and importance, and it differs both in form and detail from constitutions, encyclicals, briefs, decrees, privileges, and rescripts. It should be remarked, however, that the term Bull has conveniently been used to denote all these, especially if they are Papal letters of any early date. By the 15th century clearer distinctions were insisted upon and maintained.”

Alexander VI published two Bulls upon the same theme, and in a Bull of Julius II there is a solemn description of that abomination the Black Mass, which is perhaps the central feature of the worship of Satanists, and which is unhappily yet celebrated today in London, in Paris, in Berlin, and in many another great city.” Leo X, the great Pope of Humanism, issued a Bull on the subject; but even more important is the Bull Dudum uti nobis exponi fecisti, 20 July, 1523, which speaks of the horrible abuse of the Sacrament in sorceries and the charms confuted by witches.”

There is a Constitution of Gregory XV, Omnipotentis Dei, 20 March, 1623; and a Constitution of Urban VIII, Inscrutabilis iudiciorum Dei altitudo, 1st April [hehe], 1631, which – if we except the recent condemnation of Spiritism in the19th century – may be said to be the last Apostolic document directed against these foul and devilish practices.

The noble and momentous sentences are built-up word by word, beat by beat, ever growing more and more authoritative, more and more judicial, until they culminate in the minatory and imprecatory clauses which are so impressive, so definite, that no loophole is left for escape, no turn for evasion. <Nulli ergo omnino hominum liceat hanc paganim nostrae declarationis extentionis concessionis et mandati infringere vel ei ausu temeraris contrarie Si qui autem attentate praesumpserit indignationem omnipotentis Dei ac beatorum Petri et Pauli Apostolorum eius se noverit incursurum.> If any man shall presume to go against the tenor let him know that therein he will bring down upon himself the wrath of Almighty God and of the Blessed Apostles Peter and Paul.

infallibility is claimed on the ground, not indeed of the terms of the Vatican definition, but of the constant practice of the Holy See, the consentient teaching of the theologians, as well as the clearest deductions of the principles of faith.” “Without exception non-Catholic historians have either in no measured language denounced or else with sorrow deplored the Bull of Innocent VIII as a most pernicious and unhappy document, a perpetual and irrevocable manifesto of the unchanged and unchangeable mind of the Papacy. From this point of view they are entirely justified, and their attitude is undeniably logical and right. The Summis desiderantes affectibus is either a dogmatic exposition by Christ’s Vicar upon earth or it is altogether abominable.” Choose for the second!

It is all the more amazing to find that the writer of the article upon Witchcraft in the Catholic Encyclopaedia quotes Hansen with complete approval and gleefully adds with regard to the Bull of Innocent VIII, <neither does the form suggest that the Pope wishes to bind anyone to believe more about the reality of witchcraft than is involved in the utterances of Holy Scripture,> a statement which is essentially Protestant in its nature, and, as is acknowledged by every historian of whatsoever colour or creed, entirely untrue. By its appearance in a standard work of reference, which is on the shelves of every library, this article upon Witchcraft acquires a certain title to consideration which upon its merits it might otherwise lack. It is signed Herbert Thurston, and turning to the list of <Contributors to the Fifteenth Volume> we duly see <Thurston, Herbert, S.J., London.> Since a Jesuit Father emphasizes in a well-known (and presumably authoritative) Catholic work an opinion so derogatory to the Holy See and so definitely opposed to all historians, one is entitled to express curiosity concerning other writings which may not have come from his pen. I find that for a considerable number of years Fr. Thurston has been contributing to The Month a series of articles upon mystical phenomena and upon various aspects of mysticism, such as the Incorruption of the bodies of Saints and Beati, the Stigmata, the Prophecies of holy persons, the miracles of Crucifixes that bleed or pictures of the Madonna which move, famous Sanctuaries, the inner life of and wonderful events connected with persons still living who have acquired a reputation for sanctity. This busy writer directly or incidentally has dealt with that famous ecstatica Anne Catherine Emmerich; the Crucifix of Limpias; Our Lady of Campocavallo; S. Januarus; the Ven. Maria d’Agreda; Gemma Galgani; Padre Pio Pietralcina; that gentle soul Teresa Higginson, the beauty of whose life has attracted thousands, but whom Fr. Thurston considers hysterical and masochistic and whose devotions to him savour of the <snowball> prayer; Pope Alexander VI; the origin of the Rosary; the Carmelite scapular; and very many themes beside. Here was have (sic) a mass of material, and even a casual glance through these pages will suffice to show the ugly prejudice which informs the whole. The intimate discussions on miracles, spiritual graces and physical phenomena, which above all require faith, reverence, sympathy, tact and understanding, are conducted with a roughness and a rudeness infinitely regrettable. What is worse, in every case Catholic tradition and loyal Catholic feeling are thrust to one side; the note of scepticism, of modernism, and even of rationalism is arrogantly dominant. Tender miracles of healing wrought at some old sanctuary, records of some hidden life of holiness secretly lived amongst us in the cloister or the home, these things seem to provoke Fr. Thurston to such a pitch of annoyance that he cannot refrain from venting his utmost spleen. The obsession is certainly morbid. It is reasonable to suppose that a lengthy series of papers all concentrating upon certain aspects of mysticism would have collected in one volume, and it is extremely significant that in the autumn of 1923 a leading house announced among Forthcoming Books: The Physical Phenomena of Mysticism. By the Rev. Herbert Thurston, S.J. Although in active preparation, this has never seen the light. I have heard upon good authority that the ecclesiastical superiors took exception to such a publication. I may, of course, be wrong, and there can be no question that there is room for a different point of view, but I cannot divest my mind of the idea that the exaggerated rationalization of mystical phenomena conspicuous in the series of articles I have just considered may be by no means unwelcome to the Father of Lies [é coisa do demo usar a cabeça]. It really plays into his hands: first, because it makes the Church ridiculous by creating the impression that her mystics, particularly friars and nuns, are for the most part sickly hysterical subjects, deceivers and deceived, who would be fit inmates of Bedlam; that many of her most reverend shrines, Limpias, Campocavallo, and the sanctuaries of Naples, are frauds and conscious imposture; and, secondly, because it condemns and brings into ridicule that note of holiness which theologians declare is one of the distinctive marks of the true Church.” Finalmente alguém sensato na parada!

INFALIBILIDADE DOS DEMÔNIOS EM PELE DE CORDEIRO: “and Fr. Thurston for 15 nauseating pages insists upon <the evil example of his private life>. This is unnecessary; it is untrue; it shows contempt of Christ’s Vicar on earth.”

For a full account of the Papal Bulls, see my Geography of Witchcraft, 1927” Deve ser um livro interessantíssimo. Um catálogo das páginas mais execráveis já escritos por homens de autoridade na era dos domínios de Deus-Filho sobre a superfície da redonda terra.

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Verbete W I K I sobre Thurston:

Thurston wrote more than 150 articles for the Catholic Encyclopedia (1907-1914), and published nearly 800 articles in magazines and scholarly journals, as well a dozen books. He also re-edited Alban Butler’s Lives of the Saints (1926-1938). Many of Thurston’s articles show a skeptical attitude towards popular legends about the lives of the saints and about holy relics. On the other hand, his treatment of spiritualism and the paranormal was regarded as <too sympathetic> by some within the Catholic community.” “Thurston attributed the phenomena of stigmata to the effects of suggestion.” Livro que parece o mais interessante como inicial: The Physical Phenomena of Mysticism (1952). Vemos, portanto, que o livro foi “enrolado”, mas saiu, após a segunda e nefastérrima edição do Malleus do reverendinho SummersWinters!

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VOLTANDO ÀS PATACOADAS…

It should be borne in mind too that frequent disturbances, conspiracies of anarchists, and nascent Bolshevism showed that the district was rotted to the core, and the severities of Kramer and Sprenger were by no means so unwarranted as is generally supposed.” “Unfortunately full biographies of these two remarkable men, James Sprenger and Henry Kramer, have not been transmitted to us, but as many details have been succinctly collected in the Scriptores Ordinis Praedicatorum of Quétif and Echard, Paris, 1719, I have thought it convenient to transcribe the following accounts from that monumental work.”

PAPAS PROCRIADORES (MAS SANTOS): (*) Burchard was only aware of two children of Innocent VIII. But Egidio of Viterbo wrote: <Primus pontificum filios filiasque palam ostentavit, primus eorum apertas fecit nuptias.>

(*) “One writer, professing himself a Christian, declares that it is at least doubtful whether Our Lord instituted The Holy Sacrifice of the Altar. This, of course, is tantamount to a denial of Christ.”

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The British Museum has five editions of the 15th century: 4to., 1490? (IA 8634); folio, 1490 (IB 8615); 4to., 1494 (IA 7468); folio, 1494 (IB 5064); 4to., 1496 (IA 7503).” “Malleus Maleficarum, 8vo., Paris, an edition to which the British Museum catalogue assigns the date of <1510?>.”

Malleus Maleficarum . . . per F. Raffaelum Maffeum Venetum et D. Jacobi a Judeca instituti Servorum summo studio illustratis et a multis erroribus vindicatus . . . Venetiis Ad Candentis Salamandrae insigne. 1576, 8vo. (This is a disappointing reprint, and it is difficult to see in what consisted the editorial care of the Servite Raffaelo Maffei [Rafael Má-fé!], who may or may not have been some relation of the famous humanist of the same name (d. 25 January, 1522)(*), and who was of the monastery of San Giacomo della Guidecca. He might have produced a critical edition of the greatest value, but as it is there are no glosses, there is no excursus, and the text is poor. For example, in a very difficult passage, Principalis Quaestio II, Pars II, where the earliest texts read <die dominico sotularia ivuenum fungia . . . perungunt,> Venice, 1576, has <die dominica sotularia ivuenum fungia . . . perungent.>)” (*) Não é Raffaello Sanzio, que morreu em 1520.

Malleus Maleficarum, 4 vols., <sumptibus Claudii Bourgeat,> 4to., Lyons, 1669. This would appear to be the latest edition of the Malleus Maleficarum

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The derivation of Femina from fe minus is notorious, and hardly less awkward is the statement that Diabolus comes <a Dia, quod est duo, et bolus, quod est morsellus; quia duo occidit, scilicet corpus et animam.>

O show de horrores continua…

Possibly what will seem even more amazing to modern readers is the misogynic trend of various passages, and these not of the briefest nor least pointed. However, exaggerated as these may be, I am not altogether certain that they will not prove a wholesome and needful antidote in this feministic age, when the sexes seem confounded, and it appear to be the chief object of many females to ape the man, an indecorum by which they not only divest themselves of such charm as they might boast, but lay themselves open to the sternest reprobation in the name of sanity and common-sense. For the Apostle S. Peter says: Let wives be subject to their husbands: that if any believe not the word, they may be won without the word, by the conver[sa]tion of the wives, considering your chaste conversation with fear. Whose adorning let it not be the outward plaiting of the hair, or the wearing of god, or the putting on of apparel; but the hidden man of the heart is the incorruptibility of a quiet and meek spirit, which is rich in the sight of God. For after the manner heretofore the holy women also, who trusted God, adorned themselves, being in subjection to their own husbands: as Sara obeyed Abraham, calling him lord: whose daughters you are, doing well, and not fearing any disturbance.”

(*) “The extremer Picards seem to have been an off-shoot of the Behgards and to have professed the Adamite heresy. They called their churches Paradise whilst engaged in common worship stripped themselves quite nude. Shameful disorders followed. A number of these fanatics took possession of an island in the river Nezarka and lived in open communism. In 1421 Ziska, the Hussite leader, practically exterminated the sect. There have, however, been sporadic outbreaks of these Neo-Adamites. Picards was also a name given to the <Bohemian Brethren>, who may be said to have been organized in 1457 by Gregory, the nephew of Rokyzana.”

Montague Summers.

In Festo Expectationis B.M.V.

1927.”

Já vai tarde, martelador de coisas erradas!

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It was published in 1487, but two years previously the authors had secured a bull from Pope Innocent VIII, authorizing them to continue the witch hunt in the Alps which they had already instituted against the opposition from clergy and secular authorities. They reprinted the bull of December 5, 1484 to make it appear that the whole book enjoyed papal sanction.

Anybody with a grudge or suspicion, very young children included, could accuse anyone of witchcraft and be listened to with attention; anyone who wanted someone else’s property or wife could accuse; any loner, any old person living alone, anyone with a misformity, physical or mental problem was likely to be accused. Open hunting season was declared on women, especially herb gatherers, midwives, widows and spinsters. Women who had no man to supervise them were of course highly suspicious. It has been estimated by Dr. Marija Gimbutas, professor of archaeology at the University of California, that as many as 9 million people, overwhelmingly women, were burned or hanged during the witch-craze. For nearly 250 years the Witches’ Hammer was the guidebook for the witch hunters, but again some of the inquisitioners had misgivings about this devilish book. In a letter dated November 27, 1538 Salazar advised the inquisitioners not to believe everything they read in Malleus Maleficarum, even if the authors write about it as something they themselves have seen and investigated (Henningson, p.347).”

Edo Nyland – The Witch Burnings: Holocaust Without Equal

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TRADUÇÃO ORIGINAL DO REVERENDO CATÓLICO QUE DEVE TER VIVIDO BASTANTES “VERÕES”

every alteration that takes place in a human body – for example, a state of health or a state of sickness – can be brought down to a question of natural causes, as Aristotle has shown in his 7th book of Physics. And the greatest of these is the influence of the stars. But the devils cannot interfere with the stars. This is the opinion of Dionysius in his epistle to S. Polycarp. For this alone God can do. Therefore it is evident the demons cannot actually effect any permanent transformation in human bodies; that is to say, no real metamorphosis. And so we must refer the appearance of any such change to some dark and occult cause.”

For devils have no power at all save by a certain subtle art. But an art cannot permanently produce a true form. (And a certain author says: Writers on Alchemy know that there is no hope of any real transmutation.) Therefore the devils for their part, making use of the utmost of their craft, cannot bring about any permanent cure – or permanent disease.”

But the power of the devil is stronger than any human power” (Job 40) Ou a tradução para Português perde muito do sentido original ou o autor se equivoca muito ao interpretar os versos de Jó XL como sobre o demônio, quando só falam de Deus onipotente, do homem impotente e, no máximo, do animal beemote, que é um crente, age com sabedoria, não se desespera, porque conhece a própria fraqueza melhor do que o homem.

For the imagination of some men is so vivid that they think they see actual figures and appearances which are but the reflection of their thoughts, and then these are believed to be the apparitions of evil spirits or even the spectres of witches.”

#títulodelivro

DESBATIZADO

an infidel and worse than a heathen”

tempstation du mal, ô Être!

Deuteronômio 18: Este, pois, será o direito dos sacerdotes, a receber do povo, dos que oferecerem sacrifício, seja boi ou gado miúdo; que darão ao sacerdote a espádua e as queixadas e o bucho.”

Ça ser dote ou não ser, eis a questão

Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro;

Nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos;

Pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor; e por estas abominações o Senhor teu Deus os lança fora de diante de ti.

(…)

estas nações, que hás de possuir, ouvem os prognosticadores e os adivinhadores; porém a ti [descendente sacerdotal] o Senhor teu Deus não permitiu tal coisa. [Daí estaria implícito que a adivinhação e o ato de aconselhar [?] estão permitidos para todas as tribos não-sacerdotais; são simplesmente naturais dentre o povaréu. Não deveriam ser os e as possuidoras de tantos e atípicos talentos vítimas de apedrejamento, apenas deixad@s em sua ‘cegueira espiritual inerente’, para serem julgad@s na Esfera competente Quando de competência!]

Porém o profeta que tiver a presunção de falar alguma palavra em meu nome, que eu não lhe tenha mandado falar [um Genocídio teria de advir], ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá.” Não disse de quê.

Quando o profeta falar em nome do Senhor, e essa palavra não se cumprir, nem suceder assim; esta é palavra que o Senhor não falou; com soberba a falou aquele profeta; não tenhas temor dele.” Jesus tem ainda uns 30 mil anos de crédito, relaxai…

Levíticos 19: “The soul which goeth to wizards and soothsayers to commit fornication with them, I will set my face against that soul, and destroy it out of the midst of my people.”

Levíticos 20: “A man, or woman, in whom there is a pythonical or divining spirit dying, let them die: they shall stone them.”

IV Kings I // 2 Reis 1: “His brother and successor, Joram, threw down the statue of Baal, erected by Achab”

(…) Ide, e perguntai a Baal-Zebube, deus de Ecrom, se sararei desta doença.

Mas o anjo do Senhor disse a Elias, o tisbita: Levanta-te, sobe para te encontrares com os mensageiros do rei de Samaria, e dize-lhes: Porventura não há Deus em Israel, para irdes consultar a Baal-Zebube, deus de Ecrom?

E por isso assim diz o Senhor: Da cama, a que subiste, não descerás, mas sem falta morrerás. Então Elias partiu.

(…)

Então o rei (…) disse-lhe: Homem de Deus, o rei diz: Desce.

Mas Elias respondeu, e disse ao capitão de cinqüenta: Se eu, pois, sou homem de Deus, desça fogo do céu, e te consuma a ti e aos teus cinqüenta. Então fogo desceu do céu, e consumiu a ele e aos seus cinqüenta.

(…)

E tornou a enviar um terceiro capitão de cinqüenta, com os seus cinqüenta; então subiu o capitão de cinqüenta e, chegando, pôs-se de joelhos diante de Elias, e suplicou-lhe, dizendo: Homem de Deus, seja, peço-te, preciosa aos teus olhos a minha vida, e a vida destes cinqüenta teus servos.

Eis que fogo desceu do céu, e consumiu aqueles dois primeiros capitães de cinqüenta, com os seus cinqüenta; porém, agora seja preciosa aos teus olhos a minha vida.

Então o anjo do Senhor disse a Elias: Desce com este, não temas. E levantou-se, e desceu com ele ao rei.

(…)

Assim, pois, morreu, conforme a palavra do Senhor, que Elias falara (…)”

I Paralipomenon 10 (Bíblia Vulgata, English translation – equivalente a 1 Crônicas 10): “Saul is slain for his sins: he is buried by the men of Jabes. Now the Philistines fought against Israel, and the men of Israel fled from before the Philistines, and fell down wounded in mount Gelboe. And the Philistines drew near pursuing after Saul, and his sons, and they killed Jonathan, and Abinadab, and Melchisua the sons of Saul. And the battle grew hard against Saul and the archers reached him, and wounded him with arrows. And Saul said to his armour-bearer: Draw thy sword, and kill me: lest these uncircumcised come, and mock me. But his armour-bearer would not, for he was struck with fear: so Saul took his sword, and fell upon it. [réprobo dos réprobos!] And when his armour-bearer saw it, to wit, that Saul was dead, he also fell upon his sword and died. So Saul died, and his 3 sons, and all his house fell together. And when the men of Israel, that dwelt in the plains, saw this, they fled: and Saul and his sons being dead, they forsook their cities, and were scattered up and down: and the Philistines came, and dwelt in them. And the next day the Philistines taking away the spoils of them that were slain, found Saul and his sons lying on mount Gelboe. And when they had stripped him, and cut off his head, and taken away his armour, they sent it into their land, to be carried about, and shown in the temples of the idols and to the people. And his armour they dedicated in the temple of their god, and his head they fastened up in the temple of Dagon. And when the men of Jabes Galaad had heard this, to wit, all that the Philistines had done to Saul, All the valiant men of them arose, and took the bodies of Saul and of his sons, and brought them to Jabes, and buried their bones under the oak that was in Jabes, and they fasted 7 days. So Saul died for his iniquities, because he transgressed the commandment of the Lord, which he had commanded, and kept it not: and moreover consulted also a witch, And trusted not in the Lord: therefore he slew him, and transferred his kingdom to David the son of Isai.”

I will not mention those very many other places where S. Thomas in great detail discusses operations of this kind. As, for example, in his Summa contra Gentiles, Book 3, c. 1 and 2, in part one, question 114, argument 4. And in the Second of the Second, questions 92 and 94. We may further consult the Commentators and the Exegetes who have written upon the wise men and the magicians of Pharaoh, Exodus 7. We may also consult what S. Augustine says in The City of God, Book 18, c. 17. See further his second book On Christian Doctrine. Very many other doctors advance the same opinion, and it would be the height of folly for any man to contradict all these, and he could not be held to be clear of the guilt of heresy. For any man who gravely errs in an exposition of Holy Scripture is rightly considered to be a heretic.”

For they say, and S. Thomas agrees with them, that if witchcraft takes effect in the event of a marriage before there has been carnal copulation, then if it is lasting it annuls and destroys the contract of marriage, and it is quite plain that such a condition cannot in any way be said to be illusory and the effect of imagination.”

DSM-0 (IMPOTENCIAS FEITICIRIVS): “they lay down whether it is to be treated as a lasting or temporary infirmity if it continued for more than the space of 3 years”

Any person, whatsoever his rank or position, upon such an accusation may be put to torture, and he who is found guilty, even if he confesses his crime, let him be racked, let him suffer all other tortures prescribed by law in order that he may be punished in proportion to his offences.

Note: In days of old such criminals suffered a double penalty and were often thrown to wild beast to be devoured by them. Nowadays they are burnt at the stake, and probably this is because the majority of them are women.”

A tênue linha entre a Mãe Diná, David Copperfield e o Capeta.

Here it must be noticed that there are fourteen distinct species which come under the genus superstition, but these for the sake of brevity it is hardly necessary to detail, since they have been most clearly set out by S. Isidore in his Etymologiae, (*) Book 8, and by S. Thomas in his Second of the Second, question 92.” “The category in which women of this sort are to be ranked is called the category of Pythons, persons in or by whom the devil either speaks or performs some astonishing operation, and this is often the first category in order.”

(*) “Throughout the greater part of the Middle Ages it was the text-book most in use in educational institutions. Arevalo, who is regarded as the most authoritative editor of S. Isidore (7 vols., Rome, 1797-1803), tells us that it was printed no less than ten times between 1470 and 1529.”

it is necessary that there should be made a contract with the devil, by which contract the witch truly and actually binds herself to be the servant of the devil and devotes herself to the devil, and this is not done in any dream or under any illusion

CAVALGAR, ASSUNTO FEMININO POR EXCELÊNCIA: “although these women imagine they are riding (as they think and say) with Diana or with Herodias, in truth they are riding with the devil, who calls himself by some such heathen name and throws a glamour before their eyes. (…) the act of riding abroad may be merely illusory, since the devil has extraordinary power over the minds of those who have given themselves up to him, so that what they do in pure imagination, they believe they have actually and really done in the body.” “Whether witches by their magic arts are actually and bodily transported from place to place, or whether this merely happens in imagination, as is the case with regard to those women who are called Pythons, will be dealt with later in this work, and we shall also discuss how they are conveyed.”

The Evil Damnation

Devi[l-]da[-]mente orden[h]ado

that God very often allows devils to act as His ministers and His servants, but throughout all it is God alone who can afflict and it is He alone who can heal, for <I kill and I make alive> (Deuteronomy 32:39).”

(*) “<Lex Cornelia.> De Sicariis et Ueneficis. Passed circa 81 B.C. This law dealt with incendiarism as well as open assassination and poisoning, and laid down penalties for accessories to the fact.”

Yet perhaps this may seem to be altogether too severe a judgement mainly because of the penalties which follow upon excommunication: for the Canon prescribes that a cleric is to be degraded [?] and that a layman is to be handed over to the power of the secular courts, who are admonished to punish him as his offence deserves. Moreover, we must take into consideration the very great numbers of persons who, owing to their ignorance, will surely be found guilty of this error. And since the error is very common the rigor of strict justice may be tempered with mercy. And it is indeed our intention to try to make excuses for those who are guilty of this heresy rather than to accuse them of being infected with the malice of heresy. It is preferable then that if a man should be even gravely suspected of holding this false opinion he should not be immediately condemned for the grave crime of heresy. (See the gloss of Bernard upon the word Condemned.)”

since an idea merely kept to oneself is not heresy unless it be afterwards put forward, obstinately and openly maintained, it should certainly be said that persons such as we have just mentioned are not to be openly condemned for the crime of heresy. But let no man think he may escape by pleading ignorance. For those who have gone astray through ignorance of this kind may be found to have sinned very gravely. For although there are many degrees of ignorance, nevertheless those who have the cure of souls [padres?] cannot plead invincible ignorance, as the philosophers call it, which by the writers on Canon law and by the Theologians is called Ignorance of the Fact.” “For sometimes persons do not know, they do not wish to know, and they have no intention of knowing. For such persons there is no excuse, but they are to be altogether condemned.”

If it be asked whether the movement of material objects from place to place by the devil may be paralleled by the movement of the spheres, the answer is No. Because material objects are not thus moved by any natural inherent power of their own, but they are only moved by a certain obedience to the power of the devil, who by the virtue of his own nature has a certain dominion over bodies and material things; he has this certain power, I affirm, yet he is not able to add to created material objects any form or shape, be it substantial or accidental, without some admixture of or compounding with another created natural object.”

The planets and stars have no power to coerce and compel devils to perform any actions against their will, although seemingly demons are readier to appear when summoned by magicians under the influence of certain stars. It appears that they do this for two reasons. First, because they know that the power of that planet will aid the effect which the magicians desire. Secondly, They do this in order to deceive men, thus making them suppose that the stars have some divine power or actual divinity, and we know that in days of old this veneration of the stars led to the vilest idolatry.”

alchemists make something similar to gold, that is to say, in so far as the external accidents are concerned, but nevertheless they do not make true gold, because the substance of gold is not formed by the heat of fire which alchemists employ, but by the heat of the sun, acting and reacting upon a certain spot where mineral power is concentrated and amassed, and therefore such gold is of the same likeness as, but is not of the same species as, natural gold.”

Raimundo de Sabunde, espanhol, traduzido até por Montaigne (Theologia Naturalis).

we learn from the Holy Scriptures of the disasters which fell upon Job, how fire fell from heaven and striking the sheep and the servants consumed them, and how a violent wind threw down the four corners of a house so that it fell upon his children and slew them all. The devil by himself without the co-operation of any witches, but merely by God’s permission alone, was able to bring about all these disasters. Therefore he can certainly do many things which are often ascribed to the work of witches.”

uma sálvia podre, arremessada numa corrente d’água, pode causar terríveis tempestades e borrascas.”

Um dos argumentos muito repetidos: Citamos Aristóteles, que diz, no terceiro livro de sua Ética: O Mal é um ato voluntário, o que se prova pelo fato de que ninguém executa uma ação injusta, e um homem que comete um estupro o faz em busca do seu próprio prazer, não é que prejudique apenas por prejudicar ou queira cometer o mal pelo próprio mal. Mas não é assim que entende a Lei. O diabo está apenas usando a bruxa como seu instrumento; logo, neste caso a bruxa é apenas um títere; a bruxa não deveria ser punida pelo seu ato.” [!!!]

Gálatas 3: “O senseless Galatians, who hath bewitched you that you should not obey the truth?”

And the gloss upon this passage refers to those who have singularly fiery and baleful eyes [inflamados, perniciosos], who by a mere look can harm others, especially young children.” ???

Alguns podem seduzir e hipnotizar pelo mero olhar” Avicena

O ímã assustava os crentes até no mínimo Santo Agostinho. O “poder” feminino da maquiagem é colocado em pé de igualdade com aquele poder de atração magnética!

Moisés atacou o Egito com dez pragas por intermédio do ministério dos bons Anjos; já os magos do Faraó foram capazes tão-só de realizar três desses milagres pela ajuda de Satanás. E a peste que caiu sobre as pessoas por 3 dias devido ao pecado de Davi, que enumerou as pessoas, e os 72 mil homens que foram massacrados numa noite, do exército de Senacheribe, foram milagres produzidos por Anjos de Deus, i.e., Anjos bons tementes a Deus e sabedores de Sua Vontade.”

No tempo de Jó não havia feiticeiros nem bruxas. A Providência quis que o exemplo de Jó servisse para alertar sobre os poderes ocultos do Anjo caído manifestáveis mesmo contra os justos (…) lembre-se: nada ocorre senão a vontade de Deus.”

Vincent of Beauvais(*) in his Speculum historiale, quoting many learned authorities, says that he who first practised the arts of magic and of astrology was Zoroaster, who is said to have been Cham the son of Noe. And according to S. Augustine in his book Of the City of God, Cham laughed aloud when he was born, and thus showed that he was a servant of the devil, and he, although he was a great and mighty king, was conquered by Ninus the son of Belus,¹ who built Ninive, whose reign was the beginning of the kingdom of Assyria in the time of Abraham.”

(*) “Little is known of the personal history of this celebrated encyclopaedist. The years of his birth and death are uncertain, but the dates most frequently assigned are 1190 and 1264 respectively. It is thought that he joined the Dominicans in Paris shortly after 1218, and that he passed practically his whole life in his monastery in Beauvais, where he occupied himself incessantly upon his enormous work, the general title of which is Speculum Maius, containing 80 books, divided into 9.885 chapters. The third part, Speculum Historiale, in 31 books and 3,793 chapters, bring the History of the World down to A.D. 1250.”

¹ Grego antigo Bēlos; a reencarnação antropomórfica de Marduk; e ainda suposto neto de Hércules! Belus é algumas vezes associado à Assíria, outras à Babilônia e ainda outras ao Egito como um “pai civilizacional” e mestre militar ou semideus da guerra. Na última versão (a egípcia), teria se casado com a filha do deus-rio Nilo. De 12 autores clássicos que citaram Belus, 4 atribuem sua paternidade a Poseidon. Não estão tampouco descartadas relações do nome Belus com Ba’al do Velho Testamento (conseqüentemente, Ba’al e Marduque possuem verossimilhanças e correlações).

From this time men began to worship images as though they were gods; but this was after the earliest years of history, for in the very first ages there was no idolatry, since in the earliest times men still preserved some remembrance of the creation of the world, as S. Thomas says, Book 2, question 95, article 4. Or it may have originated with Nembroth [Nimrod], who compelled men to worship fire; and thus in the second age of the world there began Idolatry, which is the first of all superstitions, as Divination is the second, and the Observing of Times and Seasons the third.

The practices of witches are included in the second kind of superstition, since they expressly invoke the devil. And there are 3 kinds of this superstition: — Necromancy, Astrology, or rather Astromancy, the superstitious observation of stars, and Oneiromancy.Freud bruxão

The prophet Isaiah (6:6) says: The earth is filled with the knowledge of the Lord. And so in this twilight and evening of the world, when sin is flourishing on every side and in every place, when charity is growing cold, the evil of witches and their inequities superabound.”

And since Zoroaster was wholly given up to the magic arts, it was the devil alone who inspired him to study and observe the stars.”

For the eyes direct their glance upon a certain object without taking notice of other things, and although the vision be perfectly clear, yet at the sight of some impurity, such, for example, a woman during her monthly periods, the eyes will as it were contract a certain impurity. This is what Aristotle says in his work On Sleep and Waking, and thus if anybody’s spirit be inflamed with malice or rage, as is often the case with old women, then their disturbed spirit looks through their eyes, for their countenances are most evil and harmful, and often terrify young children of tender years, who are extremely impressionable.” “Os olhos dirigem sua mirada a certos objetos sem se concentrar sobre ou perceber outros, e ainda que o sentido da visão resulte perfeitamente claro, quando abstraído por alguma impureza, como, por exemplo, uma mulher em seu período menstrual, os olhos serão contaminados pela mesma impureza. Isto é o que Aristóteles diz em sua obra Sobre o Sono e a Vigília [livro contido na obra maior, Da Alma]; destarte, se a alma de alguém estiver dominada pela malícia ou fúria, o que é amiúde o caso das mulheres velhas, sua alma perturbada transparece através dos olhos; basta observar o quanto seus semblantes parecem maus e daninhos, e como assustam com tanta facilidade as crianças pequenas nos anos da inocência, que são extremamente impressionáveis.”

A lenda do “olhar letal” do basilisco: quiçá a fonte do Mito da Medusa.

EVIL NEVER DIES: “Réalité de la Magie et des Apparitions, Paris, 1819 (pp. xii-xiii), has: <Le monde, purgé par le déluge, fut repeuplé par les trois fils de Noé. Sem et Japhet imitèrent la vertu de leur père, et furent justes comme lui. Cham, au contraire, donna entrée au démon dans son coeur, remit au jour l’art exécrable de la magie, en composa les règles, et en instruisit son fils Misraim.>

OS TRÊS REIS MAGOS VIERAM PRESENTEAR O FILHO DE DEUS (O DIABO REDENTOR) COM PRESENTES FANTÁSTICOS E ENCANTADORES.

Caldeu, astrólogo e mago eram três sinônimos perfeitos.”

And now with reference to the second point, namely, that blood will flow from a corpse in the presence of a murderer.” Superstição lida hoje em Tom Sawyer!

Now there are two circumstances which are certainly very common at the present day, that is to say, the connexion of witches with familiars, Incubi and Succubi, and the horrible sacrifices of small children. (…) Now these demons work owing to their influence upon man’s mind and upon his free will, and they choose to copulate under the influence of certain stars rather than under the influence of others, for it would seem that at certain times their semen can more easily generate and beget children.”

At first it may truly seem that it is not in accordance with the Catholic Faith to maintain that children can be begotten by devils, that is to say, by Incubi and Succubi: for God Himself, before sin came into the world, instituted human procreation, since He created woman from the rib of man to be a help-meet unto man: And to them He said: Increase, and multiply, Genesis 2:24. Likewise after sin had come into the world, it was said to Noé: Increase, and multiply, Genesis 9:1. In the time of the new law also, Christ confirmed this union: Have ye not read, that he who made man from the beginning, Made them male and female? S. Matthew 19:4. Therefore, men cannot be begotten in any other way than this.

But it may be argued that devils take their part in this generation not as the essential cause, but as a secondary and artificial cause, since they busy themselves by interfering with the process of normal copulation and conception, by obtaining human semen, and themselves transferring it.”

to collect human semen from one person and to transfer it to another implies certain local actions. But devils cannot locally move bodies from place to place. And this is the argument they put forward. The soul is purely a spiritual essence, so is the devil: but the soul cannot move a body from place to place except it be that body in which it lives and to which it gives life: whence if any member of the body perishes it becomes dead and immovable. Therefore devils cannot move a body from place to place, except it be a body to which they give life. It has been shown, however, and is acknowledged that devils do not bestow life on anybody, therefore they cannot move human semen locally”

the power that moves and the movement are one and the same thing according to Aristotle in his Physics. It follows, therefore, that devils who move heavenly bodies must be in heaven, which is wholly untrue, both in our opinion, and in the opinion of the Platonists.”

as Walafrid Strabo says in his commentary upon Exodus 7:2: And Pharaoh called the wise men and the magicians: Devils go about the earth collecting every sort of seed, and can by working upon them broadcast various species. And again in Genesis 6 the gloss makes 2 comments on the words: And the sons of God saw the daughters of men. First, that by the sons of God are meant the sons of Seth, and by the daughters of men, the daughters of Cain. Second, that Giants were created not by some incredible act of men, but by certain devils, which are shameless towards women. For the Bible says, Giants were upon the earth.”

For through the wantonness of the flesh they have much power over men; and in men the source of wantonness lies in the privy parts, since it is from them that the semen falls, just as in women it falls from the navel.”

men may at times be begotten by means of Incubi and Succubi”

We leave open the question whether it was possible for Venus to give birth to Aeneas through coition with Anchises. For a similar question arises in the Scriptures, where it is asked whether evil angels lay with the daughters of men, and thereby the earth was then filled with giants, that is to say, preternaturally big and strong men.” Santo Agostinho

Satyrs are wild shaggy creatures of the woods, which are a certain kind of devils called Incubi.”

As to that of S. Paul in I Corinthians 11, A woman ought to have a covering on her head, because of the angels, many Catholics believe that because of the angels refers to Incubi. Of the same opinion is the Venerable Bede in his History of the English; also William of Paris in his book De Universo, the last part of the 6th treatise. Moreover, S. Thomas speaks of this (I. 25 and II. 8, and elsewhere; also on Isaiah 12 and 14). Therefore he says that it is rash to deny such things. For that which appears true to many cannot be altogether false, according to Aristotle (at the end of the De somno et vigilia, and in the 2nd Ethics). I say nothing of the many authentic histories, both Catholic and heathen, which openly affirm the existence of Incubi.”

I Corinthians 11: Every man who prays or prophesies with his head covered dishonors his head. But every woman who prays or prophesies with her head uncovered dishonors her head—it is the same as having her head shaved. For if a woman does not cover her head, she might as well have her hair cut off; but if it is a disgrace for a woman to have her hair cut off or her head shaved, then she should cover her head. A man ought not to cover his head, since he is the image and glory of God; but woman is the glory of man.”

materially life springs from the semen, and an Incubus devil can, with God’s permission, accomplish this by coition. And the semen does not so much spring from him, as it is another man’s semen received by him for this purpose (see S. Thomas, I. 51, art. 3). For the devil is Succubus to a man, and becomes Incubus to a woman. In just the same way they absorb the seeds of other things for the generating of various thing, as S. Augustine says, de Trinitate 3.”

INNER-BREEDING HERMAPHRODITE MUTUAL CONCEPTION: “one devil, allotted to a woman, should receive semen from another devil, allotted to a man [esperma feminino, vale dizer], that in this way each of them should be commissioned by the prince of devils to work some witchcraft; since, to each one is allotted his own angel, even from among the evil ones; or because of the filthiness of the deed, which one devil would abhor to commit.”

the soul occupies by far the lowest grade in the order of spiritual beings, and therefore it follows that there must be some proportionate relation between it and the body which it is able to move by contact. But it is not so with devils, whose power altogether exceeds corporeal power. (…) And just as the higher heavenly bodies are moved by the higher spiritual substances, as are the good Angels, so are the lower bodies moved by the lower spiritual substances, as are the devils. And if this limitation of the devils’ power is due to the essence of nature, it is held by some that the devils are not of the order of those higher angels, but are part of this terrestrial order created by God; and this was the opinion of the Philosophers. And if it is due to condemnation for sin, as is held by the Theologians, then they were thrust from the regions of heaven into this lower atmosphere for a punishment, and therefore are not able to move either it or the earth. (…) Also there is the argument that objects that the motion of the whole and of the part is the same thing, just as Aristotle in his 4th Physics instances the case of the whole earth and a clod of soil; and that therefore if the devils could move a part of the earth, they could also move the whole earth. But this is not valid, as is clear to anyone who examines the distinction.”

through such action complete contraception and generation by women can take place, inasmuch as they can deposit human semen in the suitable place of a woman’s womb where there is already a corresponding substance. (…) wherefore the child is the son not of the devil, but of some man.”

FREEZER ANTIGO: “devils are able to store the semen safely, so that its vital heat is not lost; or even that it cannot evaporate so easily on account of the great speed at which they move by reason of the superiority of the move over the thing moved.”

I Corinthians 15: “As long as the world endures Angels are set over Angels, men over men, and devils over devils. Also in Job 40 it speaks of the scales of Leviathan, which signify the members of the devil, how one cleaves to another. Therefore there is among them diversity both of order and of action.” “It is Catholic to maintain that there is a certain order of interior and exterior actions, and a degree of preference among devils. Whence it follows that certain abominations are committed by the lowest orders, from which the higher orders are precluded on account of the nobility of their natures.”

Dionysus also lays it down in his 10th chapter On the Celestial Hierarchy that in the same order there are 3 separate degrees; and we must agree with this, since they are both immaterial and incorporeal. See also S. Thomas (2:2).”

For though one and the same name, that of devil, is generally used in Scripture because of their various qualities, yet the Scriptures teach that One is set over these filthy actions, just as certain other vices are subject to Another. For it is the practice of Scripture and of speech to name every unclean spirit Diabolus, from Dia, that is Two, and Bolus, that is Morsel [pedaço]; for he kills two things, the body and the soul. And this is in accordance with etymology, although in Greek Diabolus means shut in Prison, which also is apt, since he is not permitted to do as much harm as he wishes. Or Diabolus may mean Downflowing, since he flowed down, that is, fell down, both specifically and locally. He is also named Demon, that is, Cunning over Blood, since he thirsts for and procures sin with a threefold knowledge, being powerful in the subtlety of his nature, in his age-long experience, and in the revelation of the good spirits. He is called also Belial, which means Without Yoke or Master; for he can fight against him to whom he should be subject. He is called also Beelzebub, which means Lord of Flies, that is, of the souls of sinners who have left the true faith of Christ. Also Satan, that is, the Adversary; see I Peter 2: For your adversary the devil goeth about, etc. Also Behemoth, that is, Beast, because he makes men bestial.

But the very devil of Fornication, and the chief of that abomination, is called Asmodeus, which means the Creature of Judgement: for because of this kind of sin a terrible judgement was executed upon Sodom and the 4 other cities. Similarly the devil of Pride is called Leviathan, which means Their Addition; because when Lucifer tempted our first parents he promised them, out of his pride, the addition of Divinity. Concerning him the Lord said through Isaiah: I shall visit it upon Leviathan, that old and tortuous serpent. And the devil of Avarice and Riches is called Mammon, whom also Christ mentions in the Gospel (Matthew 6): Ye cannot serve God, etc.

Segundo este panfleto, Lúcifer e os “diabos mais altos” jamais cometeriam um ato tão impuro quanto a fornicação! Demônios pudicos…

certain men who are called Lunatics are molested by devils more at one time than at another; and the devils would not so behave, but would rather molest them at all times, unless they themselves were deeply affected by certain phases of the Moon.”

the choleric are wrathful, the sanguine are kindly, the melancholy are envious, and the phlegmatic are slothful.”

S. Augustine (de Civitate Dei, V), where he resolves a certain question of 2 brothers who fell ill and were cured simultaneously, approves the reasoning of Hippocrates rather than that of an Astronomer. For Hippocrates answered that it is owing to the similarity of their humours; and the Astronomer answered that it was owing the identity of their horoscopes. For the Physician’s answer was better, since he adduced the more powerful and immediate cause.”

Saturn has a melancholy and bad influence and Jupiter a very good influence”

(*) “Although in Cicero and in Seneca mathematicus means a mathematician, in later Latin it always signifies an astrologer, a diviner, a wizard. The Mathematici were condemned by the Roman law as exponents of black magic. Their art is indeed forbidden in severest terms by Diocletian (A.D. 284-305): <Artem geometriae discere atque exervere oublice interest, ars autem mathematica damnabilis interdicta est omnino.>

Also, as William of Paris says in his De Universo, it is proved by experience that if a harlot tries to plant an olive it does not become fruitful, whereas if it is planted by a chaste woman it is fruitful.”

And here it is to be noted that a belief in Fate is in one way quite Catholic, but in another way entirely heretical.” “Fate may be considered to be a sort of second disposition, or an ordination of second causes for the production of foreseen Divine effects. And in this way Fate is truly something.”

as Aristotle says, the brain is the most humid of all the parts of the body, therefore it chiefly is subject to the operation of the Moon, which itself has power to incite humours. Moreover, the animal forces are perfected in the brain, and therefore the devils disturb a man’s fancy according to certain phases of the Moon, when the brain is ripe for such influences. And these are reasons why the devils are present as counsellors in certain constellations. They may lead men into the error of thinking that there is some divinity in the stars.”

And as for that concerning I Kings 16: that Saul, who was vexed by a devil, was alleviated when David played his harp before him, and that the devil departed, etc. It must be known that it is quite true that by the playing of the harp, and the natural virtue of that harmony, the affliction of Saul was to some extent relieved, inasmuch as that music did somewhat calm his sense through hearing; through which calming he was made less prone to that vexation.”

parteiras, que ultrapassam todas as outras em maldade.”

there are three things in nature, the Tongue, an Ecclesiastic, and a Woman, which know no moderation in goodness or vice; and when they exceed the bounds of their condition they reach the greatest heights and the lowest depths of goodness and vice.”

Avoid as you would the plague a trading priest, who has risen from poverty to riches, from a low to a high estate.”

Ecclesiasticus 25: “There is no head above the head of a serpent: and there is no wrath above the wrath of a woman. I had rather dwell with a lion and a dragon than to keep house with a wicked woman.”

O que mais é uma mulher senão um inimigo da amizade, uma punição inescapável, um mal necessário, uma tentação natural, uma calamidade desejável, um perigo doméstico, um prejuízo deleitável, um mal da natureza disfarçado de beleza?” João Crisóstomo

Cicero in his second book of The Rhetorics says: The many lusts of men lead them into one sin, but the lust of women leads them into all sins; for the root of all woman’s vices is avarice. And Seneca says in his Medea: A woman either loves or hates; there is no third grade. And the tears of woman are a deception, for they may spring from true grief, or they may be a snare. When a woman thinks alone, she thinks evil.”

Intelectualmente, as mulheres são como crianças.” Terêncio

Nenhuma mulher compreendia filosofia exceto Temeste.” Lactâncio, Instituições Divinas

Provérbios 11: “Como uma jóia de ouro no focinho dum porco, assim é uma mulher bonita que não tem modos.”

And when the philosopher Socrates was asked if one should marry a wife, he answered: If you do not, you are lonely, your family dies out, and a stranger inherits; if you do, you suffer perpetual anxiety, querelous complaints, reproaches concerning the marriage portion, the heavy displeasure of your relations, the garrulousness of a mother-in-law, cuckoldom, and no certain arrival of an heir. [fonte?] This he said as one who knew. For S. Jerome in his Contra Iovinianum says: This Socrates had 2 wives, whom he endured with much patience, but could not be rid of their contumelies and clamorous vituperations. So one day when they were complaining against him, he went out of the house to escape their plaguing, and sat down before the house; and the women then threw filthy water over him. But the philosopher was not disturbed by this, saying, <I knew the rain would come after the thunder.>

If we inquire, we find that nearly all the kingdoms of the world have been overthrown by women. Troy, which was a prosperous kingdom, was, for the rape of one woman, Helen, destroyed, and many thousands of Greeks slain. The kingdom of the Jews suffered much misfortune and destruction through the accursed Jezebel, and her daughter Athaliah, queen of Judah, who caused her son’s sons to be killed, that on their death she might reign herself; yet each of them was slain. The kingdom of the Romans endured much evil through Cleopatra, Queen of Egypt, that worst of women. And so with others. Therefore it is no wonder if the world now suffers through the malice of women.”

There is no man in the world who studies so hard to please the good God as even an ordinary woman studies by her vanities to please men.”

All witchcraft comes from carnal lust, which is in women insatiable.”

We know of an old woman who, according to the common account of the brothers in that monastery even up to this day, in this manner not only bewitched 3 successive Abbots, but even killed them, and in the same way drove the 4th out of his mind. For she herself publicly confessed it, and does not fear to say: I did so and I do so, and they are not able to keep from loving me because they have eaten so much of my dung – measuring off a certain length on her arm. I confess, moreover, that since we had no case to prosecute her or bring her to trial, she survives to this day.”

APARENTEMENTE, A REFUTAÇÃO DO ‘FENÔMENO’ DA POSSESSÃO: “And a third kind of mutation can be added, which is when a good or bad angel enters into the body, in the same way that we say that God alone is able to enter into the soul, that is, the essence of life. But when we speak of an angel, especially a bad angel, entering the body, as in the case of an obsession, he does not enter beyond the limits of the essence of the body; for in this way only God the Creator can enter, Who gave it to be as it were the intrinsic operation of life. But the devil is said to enter the body when he effects something about the body: for when he works, there he is, as S. John Damascene says. And then he works within the bounds of corporeal matter, but not within the very essence of the body.”

the devil can directly prevent the erection of that member which is adapted to fructification, just as he can prevent local motion.”

And again, it was a greater thing to turn Lot’s wife into a pillar of salt than it is to take away the male organ; and that (Genesis 19) was a real and actual, not an apparent, metamorphosis (for it is said that that pillar is still to be seen), And this was done by a bad Angel; just as the good Angels struck the men of Sodom with blindness, so that they could not find the door of the house. And so it was with the other punishments of the men of Gomorrah. The gloss, indeed, affirms that Lot’s wife was herself tainted with that vice, and therefore she was punished.”

PRECISO PROVAR QUE A ODISSÉIA NÃO FOI REAL, ORA QUAL É O MEU PROBLEMA? “it is read in the books of the Gentiles that a certain sorceress named Circe changed the companions of Ulysses into beasts; but that this was due to some glamour or illusion, rather than an actual accomplishment, by altering the fancies of men”

(*) “Crohns in his Die Summa theologica des Antonin von Florenz und die Schützung des Weibes im Hexenhammer, Helsingfors, 1903, has set out to show that the very pronounced misogyny which is apparent in the Malleus Maleficarum can be traced to the Summa of S. Antoninus.”

(*) “During the 16th century in France lycanthropy was very prevalent, and cannibalism were rife in many county districts.”

penitent witches have often told to us and to others, saying: No one does more harm to the Catholic Faith than midwives. For when they do not kill children, then, as if for some other purpose, they take them out of the room and, raising them up in the air, offer them to devils.”

Evil will be for all time, even to the perfecting of the universe.” Dionysius

as through the persecution of the tyrants came the patience of the martyrs, and through the works of witches come the purgation or proving of the faith of the just”

God in His justice permits the prevalence of evil, both that of sin and that of pain, and especially now that the world is cooling and declining to its end”

SALADA MISTA TEO-GENTÍLICA: “See Apocalypse 12. The dragon falling from heaven drew with him the third part of the stars. And he lives in the form of Leviathan, and is king over all the children of pride. And, according to Aristotle (Metaph., V), he is called king of princes, inasmuch as he moves those who are subject to him according to his will and command.”

Do alto de uma montanha (Escolástica, pressentimento de Dia do Juízo iminente) é fácil dizer que “a ordem do cosmo” exige descer até o último andar do porão na escada metafísica da perfeição gradual de cada coisa a seu tempo…

Democritus and the other natural philosophers were in error when they ascribed whatever happened to the inferior creation to the mere chance of matter.”

the sins of witches are more grievous than those of the bad angels and our first parents. Wherefore, just as the innocent are punished for the sins of their fathers, so are many blameless people damned and bewitched for the sins of witches.”

Adam sinned only in doing that which was wrong in one of two ways; for it was forbidden, but was not wrong in itself: but witches and other sinners sin in doing that which is wrong in both ways, wrong in itself, and forbidden, such as murders and many other forbidden things.”

in fornication a young man sins, but an old man is mad.”

For they are called witches (maleficae) on account of the enormity of their crimes”

For the sin of infidelity consists in opposing the Faith; and this may come about in 2 ways, by opposing a faith which has not yet been received, or by opposing it after it has been received. Of the first sort is the infidelity of the Pagans or Gentiles. In the second way, the Christian Faith may be denied in 2 ways: either by denying the prophecies concerning it, or by denying the actual manifestation of its truth. And the first of these is the infidelity of the Jews, and the second the infidelity of Heretics.”

II Pedro 2: “the infidelity of the heretics, who while professing the faith of the Gospel fight against it by corrupting it, is a greater sin than that of the Jews and Pagans.”

they received the prophecy of the Christian Faith in the Old Law, which they corrupt through badly interpreting it, which is not the case with the Pagans.”

a Saracen fasts, to observe the law of Mohammed as to fasting, and a Jew observes his Feast days; but in such things he is guilty of mortal sin.”

For, besides the punishment of excommunication inflicted upon them, Heretics, together with their patrons, protectors and defenders, and with their children to the 2nd generation on the father’s side, and to the first degree on the mother’s side, are admitted to no benefit or office of the Church. And if a Heretic have Catholic children, for the heinousness of his crime they are deprived of their paternal inheritance. And if a man be convicted, and refuse to be converted and abjure his heresy, he must at once be burned, if he is a layman. For if they who counterfeit money are summarily put to death, how much more must they who counterfeit the Faith? But if he is a cleric, after solemn degradation he is handed over to the secular Court to be put to death. But if they return to the Faith, they are to be imprisoned for life.”

For, bodily speaking, sons are a property of the father, and slaves and animals are the property of their masters; and so the sons are sometimes punished for their parents. Thus the son born to David from adultery quickly died; and the animals of the Amalekites were bidden to be killed. Yet the reason for these things remains a mystery.”

SOBRE DEUS INFLIGIR SOFRIMENTO SEM CULPA DO “CRENTE”: “For he says that for 5 causes God scourges man in this life, or inflicts punishment. First, that God may be glorified; and this is when some punishment or affliction is miraculously removed, as in the case of the man born blind (S. John 9), or of the raising of Lazarus (S. John 11).” Ou quando ele me deu 10 graus de miopia, para se gloriar na seqüência com meus infinitos livros.

And the species of the first form of Divination, that is, an open invocation of devils, are the following: Sorcery, Oneiromancy, Necromancy, Oracles, Geomancy, Hydromancy, Aeromancy, Pyromancy, and Soothsaying (see S. Thomas, Second of the Second, quest. 95, 26, and 5). The species of the 2nd kind are Horoscopy, Haruspicy, Augury, Observation of Omens, Cheiromancy and Spatulamancy.

But let no one think that such practices are lawful because the Scripture records that the soul of the just Prophet, summoned from Hades to predict the event of Saul’s coming war, appeared through the means of a woman who was a witch. For, as S. Augustine says to Simplicianus: It is not absurd to believe that it was permitted by some dispensation, or by the potency of any magic art, but by some hidden dispensation unknown to the Pythoness or to Saul, that the spirit of that just man should appear before the sight of the king, to deliver the Divine sentence against him.

Oneiromancy may be practised in two ways. The first is when a person uses dreams so that he may dip into the occult with the help of the revelation of devils invoked by him, with whom he has entered into an open pact. The second is when a man uses dreams for knowing the future, in so far as there is such virtue in dreams proceeding from Divine revelation, from a natural and intrinsic or extrinsic cause”

when we study at the time of the dawn we are given an understanding of certain occult matters in the Scriptures.”

MUITA FÉ NO ARI.: “doctors are very often helped by dreams in their diagnosis (as Aristotle says in the same book).”

when they desire to see what their fellow-witches are doing, it is their practice to lie down on their left side in the name of their own and of all devils; and these things are revealed to their vision in images.”

The other species of divination, which are performed with a tacit, but not an open, invocation of devils, are Horoscopy, or Astrology, so called from the consideration of the stars at birth; Haruspicy, which observes the days and hours; Augury, which observes the behaviour and cries of birds; Omens, which observe the words of men; and Cheiromancy, which observes the lines of the hand, or of the paws of animals.”

although the sin of Satan is unpardonable, this is not on account of the greatness of his crime, having regard to the nature of the Angels, with particular attention to the opinion of those who say that the Angels were created only in a state of nature, and never in a state of grace. And since the good of grace exceeds the good of nature, therefore the sins of those who fall from a state of grace, as do the witches by denying the faith which they received in baptism, exceed the sins of the Angels.”

A certain well-born citizen of Spires had a wife who was of such an obstinate disposition that, though he tried to please her in every way, yet she refused in nearly every way to comply with his wishes, and was always plaguing him with abusive taunts. It happened that, on going into his house one day, and his wife railing against him as usual with opprobrious words, he wished to go out of the house to escape from quarrelling. But she quickly ran before him and locked the door by which he wished to go out; and loudly swore that, unless he beat her, there was no honesty or faithfulness in him. At these heavy words he stretched out his hand, not intending to hurt her, and struck her lightly with his open palm on the buttock; whereupon he suddenly fell to the ground and lost all his senses, and lay in bed for many weeks afflicted with a most grievous illness. Now it is obvious that this was not a natural illness, but was caused by some witchcraft of the woman. And very many similar cases have happened, and been made known to many.”

it is to be said that witches are not generally rich for this reason: that the devils like to show their contempt for the Creator by buying witches for the lowest possible price. And also, lest they should be conspicuous by their riches.”

And because we are now dealing with matters relating to morals and behaviour, and there is no need for a variety of arguments and disquisitions, since those matters which now follow under their headings are sufficiently discussed in the foregoing Questions; therefore we pray God that the reader will not look for proofs in every case, since it is enough to adduce examples that have been personally seen or heard, or are accepted at the word of credible witnesses.

There are 3 classes of men blessed by God, whom that detestable race cannot injure with their witchcraft. And the first are those who administer public justice against them, or prosecute them in any public official capacity. The second are those who, according to the traditional and holy rites of the Church, make lawful use of the power and virtue which the Church by her exorcisms furnishes in the aspersion of Holy Water, the taking of consecrated salt, the carrying of blessed candles on the Day of the Purification of Our Lady, of palm leaves upon Palm Sunday, and men who thus fortify themselves are acting so that the powers of devils are diminished; and of these we shall speak later. The third class are those who, in various and infinite ways, are blessed by the Holy Angels.”

FAÇA O SINAL DA CRUZ, OTÁRIO! “When I had invoked the devil that I might commit such a deed with his help, he answered me that he was unable to do any of those things, because the man had good faith and diligently defended himself with the sign of the cross; and that therefore he could not harm him in his body, but the most he could do was to destroy an 11th part of the fruit of his lands.”

Therefore we may similarly say that, even if the administrators of public justice were not protected by Divine power, yet the devils often of their own accord withdraw their support and guardianship from witches, either because they fear their conversion, or because they desire and hasten their damnation.”

But since self-praise is sordid and mean, it is better to pass them over in silence than to incur the stigma of boastfulness and conceit. But we must except those which have become so well-known that they cannot be concealed.”

Not even the forbidden books of Necromancy contain such knowledge; for witchcraft is not taught in books, nor is it practised by the learned, but by the altogether uneducated; having only one foundation, without the acknowledgement or practice of which it is impossible for anyone to work witchcraft as a witch.”

But these are only the children who have not been re-born by baptism at the font, for they cannot devour those who have been baptized, nor any without God’s permission.”

The first method is when witches meet together in the conclave on a set day, and the devil appears to them in the assumed body of a man, and urges them to keep faith with him, promising them worldly prosperity and length of life; and they recommend a novice to his acceptance. And the devil asks whether she will abjure the Faith, and forsake the holy Christian religion and the worship of the Anomalous Woman (for so they call the Most Blessed Virgin MARY), and never venerate the Sacraments; and if he finds the novice or disciple willing, then the devil stretches out his hand, and so does the novice, and she swears with upraised hand to keep that covenant. And when this is done, the devil at once adds that this is not enough; and when the disciple asks what more must be done, the devil demands the following oath of homage to himself: that she give herself to him, body and soul, for ever, and do her utmost to bring others of both sexes into his power. He adds, finally, that she is to make certain unguents from the bones and limbs of children, especially those who have been baptized; by all which means she will be able to fulfil all her wishes with his help.”

Another, named Walpurgis, was notorious for her power of preserving silence, and used to teach other women how to achieve a like quality of silence by cooking their 1st-born sons in an oven.”

O SUPER-HOMEM ESTUDA DEMONOLOGIA: “For just as a physician sees signs in a sick man which a layman would not notice, so the devil sees what no man can naturally see.”

As bruxas evitavam fazer bruxarias aos sábados, o dia da Santa Virgem. Hohoho, quão poderosas!

And though we are 2 who write this book, one of us has very often seen and known such men. For there is a man who was once a scholar, and is now believed to be a priest in the diocese of Freising, who used to say that at one time he had been bodily carried through the air by a devil, and taken to the most remote parts.”

This is clear in the case of certain men who walk in their sleep on the roofs of houses and over the highest buildings, and no one can oppose their progress either on high or below. And if they are called by their own names by the other by-standers, they immediately fall crashing to the ground.” HAHAHA

For it is manifest that some of them, which the common people call Fauns, and we call Trolls, which abound in Norway, are such buffoons and jokers that they haunt certain places and roads and, without being able to do any hurt to those who pass by, are content with mocking and deluding them, and try to weary them rather than hurt them. And some of them only visit men with harmless nightmares.”

Did not the devil take up Our Saviour, and carry Him up to a high place, as the Gospel testifies?”

Indeed the natural power or virtue which is in Lucifer is so great that there is none greater among the good Angels in Heaven. For just as he excelled all the Angels in his nature, and not his nature, but only his grace, was diminished by his Fall, so that nature still remains in him, although it is darkened and bound.”

Two objections which someone may bring forward are not valid. First, that man’s soul could resist him, and that the text seems to speak of one devil in particular, since it speaks in the singular, namely Lucifer. And because it was he who tempted Christ in the wilderness, and seduced the first man, he is now bound in chains. And the other Angels are not so powerful, since he excels them all. Therefore the other spirits cannot transport wicked men through the air from place to place.

These arguments have no force. For, to consider the Angels first, even the least Angel is incomparably superior to all human power, as can be proved in many ways. First, a spiritual is stronger than a corporeal power, and so is the power of an Angel, or even of the soul, greater than that of the body. Secondly, as to the soul; every bodily shape owes its individuality to matter, and, in the case of human beings, to the fact that a soul informs it”

(GOLDEN) WITCHING (S)HOU(E)R: “Here is an instance of a visible transportation in the day-time. In the town of Waldshut on the Rhine, in the diocese of Constance, there was a certain witch who was so detested by the townsfolk that she was not invited to the celebration of a wedding which, however, nearly all the other townsfolk were present. Being indignant because of this, and wishing to be revenged, she summoned a devil and, telling him the cause of her vexation, asked him to raise a hailstorm and drive all the wedding guests from their dancing; and the devil agreed, and raising her up, carried her through the air to a hill near the town, in the sight of some shepherds. And since, as she afterwards confessed, she had no water to pour into the trench, she made a small trench and filled it with her urine instead of water, and stirred it with her finger, after their custom, with the devil standing by.”

Know, moreover, that the air is in every way a most changeable and fluid matter: and a sign of this is the fact that when any have tried to cut or pierce with a sword the body assumed by a devil, they have not been able to; for the divided parts of the air at once join together again. From this it follows that air is in itself a very competent matter, but because it cannot take shape unless some other terrestrial matter is joined with it, therefore it is necessary that the air which forms the devil’s assumed body should be in some way inspissated [condensado], and approach the property of the earth, while still retaining its true property as air. And devils and disembodied spirits can effect this condensation by means of gross vapours raised from the earth, and by collecting them together into shapes in which they abide, not as defilers of them, but only as their motive power which give to that body the formal appearance of life, in very much the same way as the soul informs the body to which it is joined.”

From this there may arise an incidental question as to what should be thought when a good or bad Angel performs some of the functions of life by means of true natural bodies, and not in aerial bodies; as in the case of Balaam’s ass, through which the Angel spoke, and when the devils take possession of bodies. It is to be said that those bodies are not called assumed, but occupied. See S. Thomas, 2:8, Whether Angels assume bodies.”

To return to the point. Devils have no lungs or tongue, though they can show the latter, as well as teeth and lips, artificially made according to the condition of their body; therefore they cannot truly and properly speak. But since they have understanding, and when they wish to express their meaning, then, by some disturbance of the air included in their assumed body, not of air breathed in and out as in the case of men, they produce, not voices, but sounds which have some likeness to voices, and send them articulately through the outside air to the ears of the hearer. And that the likeness of a voice can be made without respiration of air is clear from the case of other animals which do not breathe, but are said to make a sound, as do also certain other instruments, as Aristotle says in the De Anima. For certain fishes, when they are caught, suddenly utter a cry outside the water, and die.” “If anyone wishes to inquire further into the matter of devils speaking in possessed bodies, he may refer to S. Thomas in the Second Book of Sentences, dist. 8, art. 5. For in that case they use the bodily organs of the possessed body; since they occupy those bodies in respect of the limits of their corporeal quantity, but not in respect of the limits of their essence, either of the body or of the soul.”

HAHAHA: “Therefore it must be said that in no way does an Angel, either good or bad, see with the eyes of its assumed body, nor does it use any bodily property as it does in speaking, when it uses the air and the vibration of the air to produce sound which becomes reproduced in the ears of the hearer. Wherefore their eyes are painted eyes.” “For if the secret wishes of a man are read in his face, and physicians can tell the thoughts of the heart from the heart-beats and the state of the pulse, all the more can such things be known by devils.”

JESUS CRISTO NÃO CAGAVA: “In Christ the process of eating was in all respects complete, since He had the nutritive and metabolistic powers; not, be it said, for the purpose of converting food into His own body, for those powers were, like His body, glorified; so that the food was suddenly dissolved in His body, as when one throws water on to fire.”

in times long past the Incubus devils used to infest women against their wills, as is often shown by Nider in his Formicarius, and by Thomas of Brabant in his books On the Universal Good, or On/About Bees.”

And it is no objection that those of whom the text speaks were not witches but only giants and famous and powerful men; for, as was said before, witchcraft was not perpetuated in the time of the law of Nature, because of the recent memory of the Creation of the world, which left no room for Idolatry. But when the wickedness of man began to increase, the devil found more opportunity to disseminate this kind of perfidy.”

a witch is either old and sterile, or she is not. And if she is, then he naturally associates with the witch without the injection of semen, since it would be of no use, and the devil avoids superfluity in his operations as far as he can. But if she is not sterile, he approaches her in the way of carnal delectation which is procured for the witch. And should be disposed to pregnancy, then if he can conveniently possess the semen extracted from some man, he does not delay to approach her with it for the sake of infecting her progeny.” “But this also cannot altogether be denied, that even in the case of a married witch who has been impregnated by her husband, the devil can, by the commixture of another semen, infect that which has been conceived.”

they have greater opportunity to observe many people, especially young girls, who on Feast Days are more intent on idleness and curiosity, and are therefore more easily seduced by old witches.”

But with regard to any bystanders, the witches themselves have often been seen lying on their backs in the fields or the woods, naked up to the very navel, and it has been apparent from the disposition of those limbs and members which pertain to the venereal act and orgasm, as also from the agitation of their legs and thighs, that, all invisibly to the bystanders, they have been copulating with Incubus devils; yet sometimes, howbeit this is rare, at the end of the act a very black vapour, of about the stature of a man, rises up into the air from the witch. And the reason is that that Schemer knows that he can in this way seduce or pervert the minds of girls or other men who are standing by.”

Husbands have actually seen Incubus devils swiving [fodendo] their wives, although they have thought that they were not devils but men. And when they have taken up a weapon and tried to run them through, the devil has suddenly disappeared, making himself invisible. And then their wives have thrown their arms around them, although they have sometimes been hurt, and railed at their husbands, mocking them, and asking them if they had eyes, or whether they were possessed of devils.”

CARTEIRADA NAS ESTRELAS: “those changes which were miraculously caused in the Old or New Testament were done by God through the good Angels; as, for example, when the sun stood still for Joshua, or when it went backward for Hezekiah, or when it was supernaturally darkened at the Passion of Christ. But in all other matters, with God’s permission, they can work their spells, either the devils themselves, or devils through the agency of witches; and, in fact, it is evident that they do so.”

(*) <Carnival.> These Pagan practices are sternly reprobated in the Liber Poenitentiali of S. Theodore, 7th Archbishop of Canterbury. In Book 37 is written: <If anyone at the Kalends of January goeth about as a stag or a bull-calf, that is, making himself into a wild animal, and dressing in the skins of a herd animal, and putting on the heads of beast; those who in such wise transform themselves into the appearance of a wild animal, let them do penance for 3 years, because this is devilish.> The Council of Auxèrre in 578 (or 585) forbade anyone <to masquerade as a bull-calf or a stag on the 1st of January or to distribute devilish charms.>

In the town of Ratisbon a certain young man who had an intrigue with a girl, wishing to leave her, lost his member; that is to say, some glamour was cast over it so that he could see or touch nothing but his smooth body. In his worry over this he went to a tavern to drink wine; and after he had sat there for a while he got into conversation with another woman who was there, and told her the cause of his sadness, explaining everything, and demonstrating in his body that it was so. The woman was astute, and asked whether he suspected anyone; and when he named such a one, unfolding the whole matter, she said: <If persuasion is not enough, you must use some violence, to induce her to restore to you your health.> So in the evening the young man watched the way by which the witch was in the habit of going, and finding her, prayed her to restore to him the health of his body. And when she maintained that she was innocent and knew nothing about it, he fell upon her, and winding a towel tightly about her neck, choked her, saying: <Unless you give me back my health, you shall die at my hands.> Then she, being unable to cry out, and growing black, said: <Let me go, and I will heal you.> The young man then relaxed the pressure of the towel, and the witch touched him with her hand between the thighs, saying: <Now you have what you desire.> And the young man, as he afterwards said, plainly felt, before he had verified it by looking or touching, that his member had been restored to him by the mere touch of the witch.”

As when a man who is awake sees things otherwise than as they are; such as seeing someone devour a horse with its rider, or thinking he sees a man transformed into a beast, or thinking that he is himself a beast and must associate with beasts. For then the exterior senses are deluded and are employed by the interior senses. For by the power of devils, with God’s permission, mental images long retained in the treasury of such images, which is the memory, are drawn out, not from the intellectual understanding in which such images are stored, but from the memory,¹ which is the repository of mental images, and is situated at the back of the head, and are presented to the imaginative faculty. And so strongly are they impressed on that faculty that a man has an inevitable impulse to imagine a horse or a beast, when the devil draws from the memory an image of a horse or a beast; and so he is compelled to think that he sees with his external eyes such a beast when there is actually no such beast to see; but it seems to be so by reason of the impulsive force of the devil working by means of those images.”

¹ Trecho absolutamente silogístico.

Meu problema é que fui possuído por algo maligno que começa com “D”, Diagnóstico. E essa coisa de que falei me diz que eu estou (com) outra coisa que começa com “B”. Eu (e)s(t)ou (com) uma Besta!

Me disseram que minha visão foi transtornada

Pela rigorosa fé no mais puro nada!

CRIAÇÃO DE MINHOCAS: “And what, then, is to be thought of those witches who in this way sometimes collect male organs in great numbers, as many as 20 or 30 members together, and put them in a bird’s nest, or shut them up in a box, where they move themselves like living members, and eat oats and corn, as has been seen by many and is a matter of common report?”

But in the second sense there is a distinction to be drawn between creatures; for some are perfect creatures, like a man, and an ass, etc. And other are imperfect, such as serpents, frogs, mice, etc., for they can also be generated from putrefaction.”

TRACTATUS DE ÓTICA MEDIEVAL: “For in a glamour there may be an exterior object which is seen, but it seems other than it is. But imaginary vision does not necessarily require an exterior object, but can be caused without that and only by those inner mental images impressed on the imagination.”

It is to be said that the soul is thought to reside in the centre of the heart, in which it communicates with all the members by an out-pouring of life. An example can be taken from a spider, which feels in the middle of its web when any part of the web is touched.”

A CONVENIÊNCIA DO DIABO NÃO PODER FAZER DE MULHERES INOCENTES BRUXAS (POIS QUALQUER PIA E LINDA MOÇA ACUSADA DE BRUXARIA É AUTOMATICAMENTE CULPADA E BOA CARNE DE CHURRASCO): “although the devil can blacken men’s reputations in respect of other vices, yet it does not seem possible for him to do so in respect of this vice [the pact] which cannot be perpetrated without his cooperation.” “it has never yet been known that an innocent person has been punished on suspicion of witchcraft, and there is no doubt that God will never permit such a thing to happen.”

For we have often found that certain people have been visited with epilepsy or the falling sickness by means of eggs which have been buried with dead bodies, especially the dead bodies of witches, together with other ceremonies of which we cannot speak, particularly when these eggs have been given to a person either in food or drink.”

DISFIGURING DIVINE JUSTICE: “And there are witches who can bewitch their judges by a mere look or glance from their eyes, and publicly boast that they cannot be punished; and when malefactors have been imprisoned for their crimes, and exposed to the severest torture to make them tell the truth, these witches can endow them with such an obstinacy of preserving silence that they are unable to lay bare their crimes.”

For the devil knows that, because of the pain of loss, or original sin, such children [mortas antes do batismo] are debarred from entering the Kingdom of Heaven. And by this means the Last Judgement is delayed, when the devils will be condemned to eternal torture; since the number of the elect is more slowly completed, on the fulfilment of which the world will be consumed. And also, as has already been shown, witches are taught by the devil to confect from the limbs of such children an unguent which is very useful for their spells.”

REALMENTE UM ROMANCE DIGNO DE CERVANTES:A certain man relates that he noticed that his wife, when her time came to give birth, against the usual custom of women in childbirth, did not allow any woman to approach the bed except her own daughter, who acted as midwife. Wishing to know the reason for this, he hid himself in the house and saw the whole order of the sacrilege and dedication to the devil, as it has been described. He saw also, as it seemed to him, that without any human support, but by the power of the devil, the child was climbing up the chain by which the cooking-pots were suspended. In great consternation both at the terrible words of the invocation of the devils, and at the other iniquitous ceremonies, he strongly insisted that the child should be baptized immediately. While it was being carried to the next village, where there was a church, and when they had to cross a bridge over a certain river, he drew his sword and ran at his daughter, who was carrying the child, saying in the hearing of 2 others who were with them: <You shall not carry the child over the bridge; for either it must cross the bridge by itself, or you shall be drowned in the river.> The daughter was terrified and, together with the other women in the company, asked him if he were in his right mind (for he had hidden what had happened from all the others except the 2 men who were with him). Then he answered: <You vile drab, by your magic arts you made the child climb the chain in the kitchen; now make it cross the bridge with no one carrying it, or I shall drown you in the river.> And so, being compelled, she put the child down on the bridge, and invoked the devil by her art; and suddenly the child was seen on the other side of the bridge. And when the child had been baptized, and he had returned home, since he now had witnesses to convict his daughter of witchcraft (for he could not prove the former crime of the oblation to the devil, inasmuch as he had been the only witness of the sacrilegious ritual), he accused bot her daughter and wife before the judge after their period of purgation; and they were both burned, and the crime of midwives of making that sacrilegious offering was discovered.”

For the devil hates above all the Blessed Virgin, because she bruised his head.” Quando a Virgem Boxista Maria golpeou o crânio do Belzebu?

The second result to the children of this sacrilege is as follows. When a man offers himself as a sacrifice to God, he recognizes God as his Beginning and his End; and this sacrifice is more worthy than all the external sacrifices which he makes, having its beginning in his creation and its end in his glorification, as it is said: A sacrifice to God is an afflicted spirit, etc. In the same way, when a witch offers a child to the devils, she commends it body and soul to him as its beginning and its end in eternal damnation; wherefore not without some miracle can the child be set free from the payment of so great a debt.” The dead lion which is the daily miracle.

Finally, we know from experience that the daughters of witches are always suspected of similar practises, as imitators of their mothers’ crimes; and that indeed the whole of a witch’s progeny is infected. And the reason for this and for all that has been said before is, that according to their pact with the devil, they always have to leave behind them and carefully instruct a survivor, so that they may fulfill their vow to do all they can to increase the number of witches. For how else could it happen, as it has very often been found, that tender girls of 8 or 10 years have raised up tempests and hailstorms, unless they had been dedicated to the devil under such a pact by their mothers? For the children could not do such things of themselves by abjuring the Faith, which is how all adult witches have to begin, since they have no knowledge of any single article of the Faith.”

I have sometimes seen men coming in and out to my mother; and when I asked her who they were, she told that they were our masters to whom she had given me, and that they were powerful and rich patrons. The father was terrified, and asked her if she could raise a hailstorm then. And the girl said: Yes, if I had a little water. Then he led the girl by the hand to a stream, and said: Do it, but only on our land. Then the girl put her hand in the water and stirred it in the name of her master, as her mother had taught her; and behold! the rain fell only on that land. Seeing this, the father said: Make it hail now, but only on one of our fields. And when the girl had done this, the father was convinced by the evidence, and accused his wife before the judge. And the wife was taken and convicted and burned; but the daughter was reconciled and solemnly dedicated to God, since which hour she could no more work these spells and charms.”

But when this is publicly preached to the people they get no bad information by it; for however much anyone may invoke the devil, and think that by this alone he can do this thing, he deceives himself, because he is without the foundation of that perfidy, not having rendered homage to the devil or abjured the Faith. I have set this down because some have thought that several of the matter of which I have written ought not to be preached to the people, on account of the danger of giving them evil knowledge; whereas it is impossible for anyone to learn from a preacher how to perform any of the things that have been mentioned. But they have been written rather to bring so great a crime into detestation, and should be preached from the pulpit, so that judges may be more eager to punish the horrible crime of the abnegation of the Faith.”

it is very true that many cattle are said to have been bewitched in some districts, especially in the Alps; and it is known that this form of witchcraft is unhappily most widespread.”

For in devils there are 3 things to be considered – their nature, their duty and their sin; and by nature they belong to the empyrean of heaven, through sin to the lower hell, but by reason of the duty assigned to them, as we have said, as ministers of punishment to the wicked and trial to the good, their place is in the clouds of the air. For they do not dwell here with us on the earth lest they should plague us too much; but in the air and around the fiery sphere they can so bring together the active and passive agents that, when God permits, they can bring down fire and lightning from heaven.”

In the same work we hear of a certain leader or heresiarch of witches named Staufer, who lived in Berne and the adjacent country, and used publicly to boast that, whenever he liked, he could change himself into a mouse in the sight of his rivals and slip through the hands of his deadly enemies; and that he had often escaped from the hands of his mortal foes in this manner. But when the Divine justice wished to put an end to his wickedness, some of his enemies lay in wait for him cautiously and saw him sitting in a basket near a window, and suddenly pierced him through with swords and spears, so that he miserably died for his crimes.”

ATÉ UM ESPIRRO DO PROSCRITO PODIA CONDENÁ-LO: “For when they use words of which they do not themselves know the meaning, or characters and signs which are not the sign of the Cross, such practices are altogether to be repudiated, and good men should beware of the cruel arts of these warlocks.”

Also it appears that it is very rarely that men are delivered from a bewitchment by calling on God’s help or the prayers of the Saints. Therefore it follows that they can only be delivered by the help of devils; and it is unlawful to seek such help.”

it is submitted that the exorcisms of the Church are not always effective in the repression of devils in the matter of bodily afflictions, since such are cured only at the discretion of God; but they are effective always against those molestations of devils against which they are chiefly instituted, as, for example, against men who are possessed, or in the matter of exorcising children.”

No Angel is more powerful than our mind, when we hold fast to God. For if power is a virtue in this world, then the mind that keeps close to God is more sublime than the whole world. Therefore such minds can undo the works of the devil.” Augustine, o Sofista

There are 7 metals belonging to the 7 planets; and since Saturn is the Lord of lead, when lead is poured out over anyone who has been bewitched, it is his property to discover the witchcraft by his power.”

In this way we have answered the arguments that no spell of witchcraft must be removed. For the first 2 remedies are altogether unlawful. The 3rd remedy is tolerated by the law, but needs very careful examination on the part of the ecclesiastical judge. And what the civil law tolerates is shown in the chapter on witches, where it is said that those who have skill to prevent men’s labours from being vitiated by tempests and hailstorms are worthy, not of punishment, but of reward. S. Antoninus also, in his Summa, points out this discrepancy between the Canon Law and civil law. Therefore it seems that the civil law concedes the legality of such practices for the preservation of crops and cattle, and that in any event certain men who use such arts are not only to be tolerated but even rewarded.”

With regard to the bewitchment of human beings by means of Incubus and Succubus devils, it is to be noted that this can happen in 3 ways. First, when women voluntarily prostitute themselves to Incubus devils. Secondly, when men have connection with Succubus devils; yet it does not appear that men thus devilishly fornicate with the same full degree of culpability

As for instances where young maidens are molested by Incubus devils in this way, it would take too long to mention even those that have been known to happen in our own time, for there are very many well-attested stories of such bewitchments. But the great difficulty of finding a remedy for such afflictions can be illustrated from a story told by Thomas of Brabant in his Book on Bees.”

William of Paris notes also that Incubus seem chiefly to molest women and girls with beautiful hair; either because they devote themselves too much to the care and adornment of their hair, or because they are boastfully vain about it, or because God in His goodness permits this so that women may be afraid to entice men by the very means by which the devils wish them to entice men.”

At times also women think they have been made pregnant by an Incubus, and their bellies grow to an enormous size; but when the time of parturition comes, their swelling is relieved by no more than the expulsion of a great quantity of wind. For by taking ants’ eggs in drink, or the seeds of spurge or of the black pine, an incredible amount of wind and flatulence is generated in the human stomach. And it is very easy for the devil to cause these and even greater disorders in the stomach. This has been set down in order that too easy credence should not be given to women, but only to those whom experience has shown to be trustworthy, and to those who, by sleeping in their beds or near them, know for a fact that such things as we have spoken of are true.”

the devil can inflame a man towards one woman and render him impotent towards another; and this he can secretly cause by the application of certain herbs or other matters of which he well knows the virtue for this purpose.” “he can prevent the flow of the semen to the members in which is the motive power, by as it were closing the seminal duct so that it does not descend to the genital vessels, or does not ascend again from them, or cannot come forth, or is spent vainly.”

He who loves his wife to excess is an adulterer [!]. And they who love in this way are more liable to be bewitched after the manner we have said.”

it is assumed to be temporary if, within the space of 3 years, by using every possible expedient of the Sacraments of the Church and other remedies, a cure can be caused. But if, after that time, they cannot be cured by any remedy, then it is assumed to be permanent.”

But some may find it difficult to understand how this function can be obstructed in respect of one woman but not of another. S. Bonaventura answers that this may be because some witch has persuaded the devil to effect this only with respect to one woman, or because God will not allow the obstruction to apply save to some particular woman. The judgement of God in this matter is a mystery, as in the case of the wife of Tobias. But how the devil procures this disability is plainly shown by what has already been said. And S. Bonaventura says that he obstructs the procreant function, not intrinsically by harming the organ, but extrinsically by impeding its use; and it is an artificial, not a natural impediment; and so he can cause it to apply to one woman and not to another. Or else he takes away all desire for one or another woman; and this he does by his own power, or else by means of some herb or stone or some occult creature. And in this he is in substantial agreement with Peter of Palude.” Philocaption, or inordinate love of one person for another, can be caused in 3 ways. Sometimes it is due merely to a lack of control over the eyes; sometimes to the temptation of devils; sometimes to the spells of necromancers and witches, with the help of devils.” The second cause arises from the temptation of devils. In this way Amnon loved his beautiful sister Tamar, and was so vexed that he fell sick for love of her (II Samuel 13). For he could not have been so totally corrupt in his mind as to fall into so great a crime of incest unless he had been grievously tempted by the devil.”

when a man often puts away his beautiful wife to cleave to the most hideous of women, and when he cannot rest in the night, but is so demented that he must go by devious ways to his mistress; and when it is found that those of noblest birth, Governors, and other rich men, are the most miserably involved in this sin (for this age is dominated by women, and was foretold by S. Hildegard, as Vincent of Beauvais records in the Mirror of History, although he said it would not endure for as long as it already has); and when the world is now full of adultery, especially among the most highly born; when all this is considered, I say, of what use is it to speak of remedies to those who desire no remedy?” Indeed, sir: why bother?

Avicenna mentions 7 remedies which may be used when a man is made physically ill by this sort of love; but they are hardly relevant to our inquiry except in so far as they may be of service to the sickness of the soul. For he says, in Book III, that the root of the sickness may be discovered by feeling the pulse and uttering the name of the object of the patient’s love; and then, if the law permits, he may be cured by yielding to nature [?]. Or certain medicines may be applied, concerning which he gives instructions. Or the sick man may be turned from his love by lawful remedies which will cause him to direct his love to a more worthy object. Or he may avoid her presence, and so distract his mind from her. Or, if he is open to correction, he may be admonished and expostulated with, to the effect that such love is the greatest misery. Or he may be directed to someone who, as far as he may with God’s truth, will vilify the body and disposition of his love, and so blacken her character that she may appear to him altogether base and deformed. Or, finally, he is to be set to arduous duties which may distract his thoughts.”

(*) “No formal canonization of S. Hildegard has taken place, but many miracles were wrought at her intercession, and her name is in the Roman Martyrology. The feast is celebrated on 17 September in the dioceses of Speyer, Mainz, Trier and Limburg, and by the Solesmes monks on 18 September with a proper Office. The Relics of the Saint are at Eibingen, of which town she is patron. The convent of S. Hildegard there was formally constituted on 17 September, 1904.”

When a sick man wishes to confess, and if on the arrival of the priest he is rendered dumb by his infirmity, or falls into a frenzy, those who have heard him speak must give their testimony. And if he is thought to be at the point of death, let him be reconciled with God by the laying on of hands and the placing of the Sacrament in his mouth. S. Thomas also says that the same procedure may be used with baptized people who are bodily tormented by unclean spirits, and with other mentally distracted persons. And he adds, in Book IV, dist. 9, that the Communion must not be denied to demoniacs unless it is certain that they are being tortured by the devil for some crime. To this Peter of Palude adds: In this case they are to be considered as persons to be excommunicated and delivered up to Satan.”

such was the case of the Corinthian fornicator (I Corinthians 5) who was excommunicated by S. Paul and the Church, and delivered unto Satan for the destruction of the flesh, that his spirit might be saved in the day of our Lord JESUS Christ (…) For so great was the power and the grace of S. Paul, says the gloss, that by the mere words of his mouth he could deliver to Satan those who fell away from the faith.”

For in the primitive Church, when men had to be drawn into the faith by signs, just as the Holy Spirit was made manifest by a visible sign, so also a bodily affliction by the devil was the visible sign of a man who was excommunicated. And it is not unfitting that a man whose case is not quite desperate should be delivered to Satan; for he is not given to the devil as one to be damned, but to be corrected, since it is in the power of the Church, when she pleases, to deliver him again from the hands of the devil. So says S. Thomas.”

This man was casting a devil out of a man possessed in the monastery, and the devil asked him to give him some place to which he could go. This pleased the Brother, and he jokingly said, <Go to my privy [vaso sanitário].> So the devil went out; and when in the night the Brother wished to go and purge his belly, the devil attacked him so savagely in the privy that he with difficulty escaped with his life.” HAHAHA

But a man possessed by a devil can indirectly be relieved by the power of music, as was Saul by David’s harp, or of a herb, or of any other bodily matter in which there lies some natural virtue. Therefore such remedies may be used, as can be argued both from authority and by reason.” although it is good that in the liberation of a bewitched person recourse should be had to an exorcist having authority to exorcise such bewitchments, yet at times other devout persons may, either with or without any exorcism, cast out this sort of diseases.”

ETIMOLOGIA DO TERMO ENERGÚMENO: “But if anyone asks what is the difference between the aspersion of Holy Water and exorcism, since both are ordained against the plagues of the devil, the answer is supplied by S. Thomas, who says: The devil attacks us from without and from within. Therefore Holy Water is ordained against his attacks from without; but exorcism against those from within. For this reason those for whom exorcism is necessary are called Energoumenoi, from En, meaning In, and Ergon, meaning Work, since they labour within themselves. But in exorcising a bewitched person both methods are to be used, because he is tormented both within and without.”

A FÊMEA É DUAS VEZES MAIS DIABÓLICA QUE O DIABO (MORE EVIL THAN THE DEVIL): “the labour required in the case of the bewitched is twofold, whereas it is only single in the case of the possessed.”

The miracle of the removal of a mountain was actually performed by S. Gregory Thaumaturgus, Bishop of Neocaesarea (d. circa 270-275), as the Venerable Bede tells us in his Commentary upon S. Mark XI: <Hoc quoque fieri potuisset, ut mons ablatus de terra mitteretur in mare, si necessitas id fieri poscisset. Quomodo legimus factum precibus beati patris Gregorii Neocaesareae Ponti Antistitis, viri mentis et virtutibus eximii, ut mons in terra tantum loco cederet, quantum incolae civitatis opus habebant. Cum enim volens aedificare ecclesiam in loco apto, vident eum angustiorem esse quam res exigebat, eo quod ex una parte rupe maris, ex alia monte proximo coarctaretur; venit nocte ad locum, et genibus flexis admonuit Dominum promissionis suae, ut montem longius juxta fidem petentis ageret. Et mane facto reversus invenit montem tantum spatii reliquisse structoribus ecclesiae, quantum opus habuerant.>

Also, because when witches wish to deprive a cow of milk they are in the habit of begging a little of the milk or butter which comes from that cow, so that they may afterwards by their art bewitch the cow; therefore women should take care, when they are asked by persons suspected of this crime, not to give away the least thing to them.”

In addition to the setting up of the sign of the Cross which we have mentioned, the following procedure is practised against hailstorms and tempests. Three of the hailstones are thrown into the fire with an invocation of the Most Holy Trinity, and the Lord’s Prayer and the Angelic Salutation are repeated twice or 3 times, together with the Gospel of S. John, In the beginning was the Word. And the sign of the Cross is made in every direction towards each quarter of the world. Finally, The Word was made Flesh is repeated 3 times, and 3 times By the words of this Gospel may this tempest be dispersed. And suddenly, if the tempest is due to witchcraft, it will cease. This is most true and need not be regarded with any suspicion. For if the hailstones were thrown into the fire without the invocation of the Divine Name, then it would be considered superstitious.” And for this reason it is a general practice of the Church to ring bells as a protection against storms, both that the devils may flee from them as being consecrated to God and refrain from their wickedness” And although, according to this rule, the ceremonies and legal procedures of the Old Testament are not now observed, since they are to be understood figuratively, whereas the truth is made known in the New Testament, yet the carrying out of the Sacrament or of Relics to still a storm does not seem to militate against this rule.”

Another terrible thing which God permits to happen to men is when their own children are taken away from women, and strange children are put in their place by devils. And these children, which are commonly called changelings, or in the German tongue Wechselkinder, are of 3 kinds. For some are always ailing and crying, and yet the milk of four women is not enough to satisfy them. Some are generated by the operation of Incubus devils, of whom, however, they are not the sons, but of that man from whom the devil has received the semen as a Succubus, or whose semen he has collected from some nocturnal pollution in sleep. For these children are sometimes, by Divine permission, substituted for the real children. And there is a third kind, when the devils at times appear in the form of young children and attach themselves to the nurses. But all 3 kinds have this in common, that though they are very heavy, they are always ailing and do not grow, and cannot receive enough milk to satisfy them, and are often reported to have vanished away.”

Again in Deuteronomy 22: God says that men shall not put on the garments of women, or conversely; because they did this in honour of the goddess Venus, and others in honour of Mars or Priapus.

(*) “So in Ireland the fairies are called <good people>, and traditionally seem to be of a benevolent and capricious and even mischievous disposition. In some parts of Highland Scotland fairies are called daoine sithe or men of peace, and it is believed that every year the devil carries off a 10th part of them. It will be readily remembered that to the Greeks the Fairies were the gracious goddesses.”

ACENDE A BANANA DE DINAMITE E SAI CORRENDO: “Certainly those whose high privilege it is to judge concerning matters of the faith ought not to be distracted by other business; and Inquisitors deputed by the Apostolic See to inquire into the pest of heresy should manifestly not have to concern themselves with diviners and soothsayers, unless these are also heretics, nor should it be their business to punish such, but they may leave them to be punished by their own judges. Nor does there seem any difficulty in the fact that the heresy of witches is not mentioned in that Canon.”

Again, Solomon showed reverence to the gods of his wives out of complaisance, and was not on that account guilty of apostasy from the Faith; for in his heart he was faithful and kept the true Faith. So also when witches give homage to devils by reason of the pact they have entered into, but keep the Faith in their hearts, they are not on that account to be reckoned as heretics.” But should be burnt!

a heretic is different from an apostate, and it is heretics who are subject to the Court of the Inquisition” “Let the Bishops and their representatives strive by every means to rid their parishes entirely of the pernicious art of soothsaying and magic derived from Zoroaster; and if they find any man or woman addicted to this crime, let him be shamefully cast out of their parishes in disgrace.”

But if, just as these arguments seem to show it to be reasonable in the case of Inquisitors, the Diocesans also wish to be relieved of this responsibility, and to leave the punishment of witches to the secular Courts, such a claim could be made good by the following arguments. For the Canon says, c. ut inquisitionis: We strictly forbid the temporal lords and rulers and their officers in any way to try to judge this crime, since it is purely an ecclesiastical matter: and it speaks of the crime of heresy. It follows therefore that, when the crime is not purely ecclesiastical, as is the case with witches because of the temporal injuries which they commit, it must be punished by the Civil and not by the Ecclesiastical Court. Besides, in the last Canon Law concerning Jews it says: His goods are to be confiscated, and he is to be condemned to death, because with perverse doctrine he opposed the Faith of Christ. But if it is said that this law refers to Jews who have been converted, and have afterwards returned to the worship of the Jews, this is not a valid objection. Rather is the argument strengthened by it; because the civil Judge has to punish such Jews as apostates from the Faith; and therefore witches who abjure the Faith ought to be treated in the same way; for abjuration of the Faith, either wholly or in part, is the essential principle of witches.” A canalhice do clero de que Montesquieu tão bem falou: aplicar o N.T. na esfera civil para se apropriar dos próprios bens e terras judias.

Besides, if the trial and punishment of such witches were not entirely a matter for the civil Judge, what would be the purpose of the laws which provide as follows?” “But in contradiction of all these arguments, the truth of the matter is that such witches may be tried and punished conjointly by the Civil and the Ecclesiastical Courts.” And again, although a secular prince may impose the capital sentence, yet this does not exclude the judgement of the Church, whose part it is to try and judge the case. Indeed this is perfectly clear from the Canon Law in the chapters de summa trin. and fid. cath., and again in the Law concerning heresy, c. ad abolendam and c. urgentis and c. excommunicamus, 1 and 2. For the same penalties are provided by both the Civil and the Canon Laws, as is shown by the Canon Laws concerning the Manichaean and Arian heresies. Therefore the punishment of witches belongs to both Courts together, and not to one separately.”

MAS NÓS, OS OPERADORES DO CADAFALSO, TEMOS NOSSA PRÓPRIA CÔRTE: “If it is an ecclesiastical crime needing ecclesiastical punishment and fine, it shall be tried by a Bishop who stands in favour with God, and not even the most illustrious Judges of the Province shall have a hand in it. And we do not wish the civil Judges to have any knowledge of such proceedings; for such matters must be examined ecclesiastically and the souls of the offenders must be corrected by ecclesiastical penalties, according to the sacred and divine rules which our laws worthily follow.”

Our main object here is to show how, with God’s pleasure, we Inquisitors of Upper Germany may be relieved of the duty of trying witches, and leave them to be punished by their own provincial Judges; and this because of the arduousness of the work: [!!!] provided always that such a course shall in no way endanger the preservation of the faith and the salvation of souls. And therefore we engaged upon this work, that we might leave to the Judges themselves the methods of trying, judging and sentencing in such cases.

Therefore in order to show that the Bishops can in many cases proceed against witches without the Inquisitors; although they cannot so proceed without the temporal and civil Judges in cases involving capital punishment [o melhor dos mundos para o Inquisidor]; it is expedient that we set down the opinions of certain other Inquisitors in parts of Spain, and (saving always the reverence due to them), since we all belong to one and the same Order of Preachers, to refute them, so that each detail may be more clearly understood.” ‘Com todo o respeito, mas discordo de vossas eminências espanholas latinas e frouxas’, parecem dizer os inquisidores saxões a cada linha…

so many more burdens are placed upon us Inquisitors which we cannot safely bear in the sight of the terrible Judge who will demand from us a strict account of the duties imposed upon us.” “the presbyter Udalricus went to a secret place with a certain infamous person, that is, a diviner, says the gloss, not with the intention of invoking the devil, which would have been heresy, but that, by inspecting the astrolabe, he might find out some hidden thing. And this, they say, is pure divination or sortilege.”

(*) “As Clement V died before the collection had been generally published, John XXII promulgated it anew, 25 October, 1317, and sent it to the University of Bologna as the authoritative Corpus of decretals to be used in the courts and schools.”

BEM QUE ALEMÃES SÃO REPUTADOS POR GOSTAR DE ENCHER LINGÜIÇA: “This being the case, it follows that however serious and grave may be the sin which a person commits, if it does not necessarily imply heresy, then he must not be judged as a heretic, although he is to be punished. Consequently an Inquisitor need not interfere in the case of a man who is to be punished as a malefactor, but not as a heretic, but may leave him to be tried by the Judges of his own Province.”

For a person rightly to be adjudged a heretic he must fulfill five conditions. First, there must be an error in his reasoning. Secondly, that error must be in matters concerning the faith, either being contrary to the teaching of the Church as to the true faith, or against sound morality and therefore not leading to the attainment of eternal life [fé da igreja e fé verdadeira explicitamente diferenciadas?]. Thirdly, the error must lie in one who has professed the Catholic faith, for otherwise he would be a Jew or a Pagan, not a heretic. [Benza Pan!] Fourthly, the error must be of such a nature that he who holds it must confess some of the truth of Christ as touching either His Godhead or His Manhood; for if a man wholly denies the faith, he is an apostate. Fifthly, he must pertinaciously and obstinately hold to and follow that error.”

REPENT! “if a man commits fornication or adultery, although he is disobeying the command Thou shalt not commit adultery, yet he is not a heretic unless he holds the opinion that it is lawful to commit adultery.”

EU NÃO SABIA QUE PODIA HAVER DISCUSSÕES MAIS ESTÉREIS DO QUE “FOI PÊNALTI OU NÃO FOI”, MAS EI-LAS: “a simonist is not in the narrow and exact sense of the word a heretic; but broadly speaking and by comparison he is so, according to S. Thomas, when he buys or sells holy things in the belief that the gift of grace can be had for money. But if, as is often the case, he does not act in this belief, he is not a heretic. Yet he truly would be if he did believe that the gift of grace could be had for money.”

For according to Aristotle every wicked man is either ignorant or in error. Therefore, since they who do such things have evil in their wills, they must have an error in their understandings.”

A Theologian will say that it is in the first instance a matter for the Apostolic See to judge whether a heresy actually exists or is only to be presumed in law. And this may be because whenever an effect can proceed from a two-fold cause, no precise judgement can be formed of the actual nature of the cause merely on the basis of the effect. Therefore, since such effects as the worship of the devil or asking his help in the working of witchcraft, by baptizing an image, or offering to him a living child, or killing an infant, and other matters of this sort, can proceed from 2 separate causes, namely, a belief that it is right to worship the devil and sacrifice to him, and that images can receive sacraments; or because a man has formed some pact with the devil, so that he may obtain the more easily from the devil that which he desires in those matters which are not beyond the capacity of the devil; it follows that no one ought hastily to form a definite judgement merely on the basis of the effect as to what is its cause, that is, whether a man does such things out of a wrong opinion concerning the faith. So when there is no doubt about the effect, still it is necessary to inquire farther into the cause; and if it be found that a man has acted out of a perverse and erroneous opinion concerning the faith, then he is to be judged a heretic and will be subject to trial by the Inquisitors together with the Ordinary. But if he has not acted for these reasons, he is to be considered a sorcerer, and a very vile sinner.”

(*) “Extravagantes. This word designates some Papal decretals not contained in certain canonical collections which possess a special authority, that is, they are not found in (but <wander outside>, <extra vagari>) the Decree of Gratian, or the 3 great official collections of the Corpus Iuri (the Decretals of Gregory IX; the 6th Book of the Decretals; and the Clementines). The term is now applied to the collections known as the Extravagantes Joannis XXII and the Extravagantes Communes. When John XXII (1316-34) published the Decretals already known as Clementines, there also existed various pontifical documents, obligatory upon the whole Church indeed, but not included in the Corpus Juris, and these were called Extravagantes. In 1325, Zenselinus de Cassanis added glosses to 20 constitutions of John XXII, and named this collection Viginti Extravagantes papae Joannis XXII. Chappuis also classified these under 14 titles containing all 20 chapters.”

And a Bishop can proceed without an Inquisitor, or an Inquisitor without a Bishop; or, if either of their offices be vacant, their deputies may act independently of each other, provided that it is impossible for them to meet together for joint action within 8 days of the time when the inquiry is due to commence; but if there be no valid reason for their not meeting together, the action shall be null and void in law.”

we treat of 20 methods of delivering sentence, 13 of which are common to all kinds of heresy, and the remainder particular to the heresy of witches.”

The first method is when someone accuses a person before a judge of the crime of heresy, or of protecting heretics, offering to prove it, and to submit himself to the penalty of talion if he fails to prove it. The second method is when someone denounces a person, but does not offer to prove it and is not willing to embroil himself in the matter” “The third method involves an inquisition, that is, when there is no accuser or informer, but a general report that there are witches in some town or place; and then the Judge must proceed, not at the instance of any party, but simply by the virtue of his office. Here it is to be noted that a judge should not readily admit the first method of procedure. For one thing, it is not actuated by motives of faith, nor is it very applicable to the case of witches, since they commit their deeds in secret. Then, again, it is full of danger to the accuser, because of the penalty of talion which he will incur if he fails to prove his case.” “Note also that in the case of the 2nd method the following caution should be observed. For it has been said that the 2nd method of procedure and of instituting a process on behalf of the faith is by means of an information, where the informer does not offer to prove his statement and is not ready to be embroiled in the case, but only speaks because of a sentence of excommunication, or out of zeal for the faith and for the good of the State. Therefore the secular Judge must specify in his general citation or warning aforesaid that none should think that he will become liable to a penalty even if he fails to prove his words; since he comes forward not as an accuser but as an informer.” Invejável engenharia do clima de denuncismo impune – laboratório avant-la-lettre do fascismo!

A figura do “laico-religioso” (com conhecimento de Direito): “if a Notary is not to be procured, then let there be two suitable men in the place of the Notary. For this is dealt with in the c. ut officium, § verum, lib. 6, where it is said: But because it is expedient to proceed with great caution in the trial of a grave crime, that no error may be committed in imposing upon the guilty a deservedly severe punishment; we desire and command that, in the examination of the witnesses necessary in such a charge, you shall have 2 religious and discreet persons, either clerics or laymen.

O PRO-FORMA DA INQUISIÇÃO (Manual de Redação da Caça às Bruxas)

In the Name of the Lord. Amen.

In the year of Our Lord —, on the — day of the — month, in the presence of me the Notary and of the witnesses subscribed, N. of the town of — in the Diocese of —, as above, appeared in the person at — before the honourable Judge, and offered him a schedule to the following effect.”

And if he says that he has seen anything, as, for example, that the accused was present at such a time of tempest, or that he had touched an animal, or had entered a stable, the Judge shall ask when he saw him, and where, and how often, and in what manner, and who were present. If he says that he did not see it, but heard of it, he shall ask him from whom he heard it, where, when, and how often, and in whose presence, making separate articles of each of the several points above mentioned. And the Notary or scribe shall set down a record of them immediately after the aforesaid denunciation”

The third method of beginning a process is the commonest and most usual one, because it is secret, and no accuser or informer has to appear. But when there is a general report of witchcraft in some town or parish, because of this report the Judge may proceed without a general citation or admonition as above, since the noise of that report comes often to his ears; and then again he can begin a process in the presence of the persons, as we have said before.”

Since we have said that in the 2nd method the evidence of the witnesses is to be written down, it is necessary to know how many witnesses there should be, and of what condition. The question is whether a Judge may lawfully convict any person of the heresy of witchcraft on the evidence of 2 legitimate witnesses whose evidence is entirely concordant, or whether more than 2 are necessary. And we say that the evidence of witnesses is not entirely concordant when it is only partially so; that is, when 2 witnesses differ in their accounts, but agree in the substance or effect: as when one says <She bewitched my cow>, and the other says, <She bewitched my child>, but they agree as to the fact of witchcraft.” “although 2 witnesses seem to be enough to satisfy the rigour of law (for the rule is that that which is sworn to by 2 or 3 is taken for the truth); yet in a charge of this kind 2 witnesses do not seem sufficient to ensure an equitable judgement, on account of the heinousness of the crime in question. For the proof of an accusation ought to be clearer than daylight; and especially ought this to be so in the case of the grave charge of heresy.” “the prisoner is not permitted to know who are his accusers. But the Judge himself must by virtue of his office, inquire into any personal enmity felt by the witnesses towards the prisoner; and such witnesses cannot be allowed, as will be shown later. And when the witnesses give confused evidence on account of something lying on their conscience, the Judge is empowered to put them through a 2nd interrogatory.” “if the prisoner is the subject of an evil report, a period should be set for his purgation; and if he is under strong suspicion on account of the evidence of 2 witnesses, the Judge should make him abjure the heresy, or question him, or defer his sentence. For it does not seem just to condemn a man of good name on so great a charge on the evidence of only 2 witnesses, though the case is otherwise with a person of bad reputation. This matter is fully dealt with in the Canon Law of heretics, where it is set down that the Bishop shall cause 3or+ men of good standing to give evidence on oath to speak the truth as to whether they have any knowledge of the existence of heretics in such a parish.” “But when, in spite of certain discrepancies, the witnesses agree in the main facts, then the matter shall rest with the Judge’s discretion

But it may be asked whether the Judge can compel witnesses to sweat an oath to tell the truth in a case concerning the Faith or witches, or if he can examine them many times. We answer that he can do so, especially an ecclesiastical Judge, and that in ecclesiastical cases witnesses can be compelled to speak the truth, and this on oath, since otherwise their evidence would not be valid. For the Canon Law says: The Archbishop or Bishop may make a circuit of the parish in which it is rumoured that there are heretics, and compel 3or+ men of good repute, or even, if it seems good to him, the whole neighbourhood, to give evidence. And if any through damnable obstinacy stubbornly refuse to take the oath, they shall on that account be considered as heretics.”

Note that persons under a sentence of excommunication, associates and accomplices in the crime, notorious evildoers and criminals, or servants giving evidence against their masters, are admitted as witnesses in a case concerning the Faith. And just as a heretic may give evidence against a heretic, so may a witch against a witch; but this only in default of other proofs, and such evidence can only be admitted for the prosecution and not for the defence: this is true also of the evidence of the prisoner’s wife, sons and kindred; for the evidence of such has more weight in proving a charge than in disproving it.” Wit(chn)ess.

The case of evidence given by perjurers, when it is presumed that they are speaking out of zeal for the faith, is dealed with in the Canon c. accusatus, § licet, where it says that the evidence of perjurers, after they have repented, is admissible; and it goes on to say: If it manifestly appears that they do not speak in a spirit of levity, or from motives of enmity, or by reason of a bribe, but purely out of zeal for the orthodox faith, wishing to correct what they have said, or to reveal something about which they had kept silence, in defence of the faith, their testimony shall be as valid as that of anyone else “So great is the plague of heresy that, in an action involving this crime, even servants are admitted as witnesses against their masters, and any criminal evildoer may give evidence against any person soever.” “But if it is asked whether the Judge can admit the mortal enemies of the prisoner to give evidence against him in such a case, we answer that he cannot; for the same chapter of the Canon says: You must not understand that in this kind of charge a mortal personal enemy may be admitted to give evidence.” “And a mortal enmity is constituted by the following circumstances: when there is a death feud or vendetta between the parties, or when there has been an attempted homicide, or some serious wound or injury which manifestly shows that there is mortal hatred on the part of the witness against the prisoner. And in such a case it is presumed that, just as the witness has tried to inflict temporal death on the prisoner by wounding him, so he will also be willing to effect his object by accusing him of heresy; and just as he wished to take away his life, so he would be willing to take away his good name.” “But there are other serious degrees of enmity (for women are easily provoked to hatred), which need not totally disqualify a witness, although they render his evidence very doubtful, so that full credence cannot be placed in his words unless they are substantiated by independent proofs, and other witnesses supply an indubitable proof of them. For the Judge must ask the prisoner whether he thinks that he has any enemy who would dare to accuse him of that crime out of hatred, so that he might compass his death; and if he says that he has, he shall ask who that person is; and then the Judge shall take note whether the person named as being likely to give evidence from motives of malice has actually done so. And if it is found that this is the case, and the Judge has learned from trustworthy men the cause of that enmity, and if the evidence in question is not substantiated by other proofs and the words of other witnesses, then he may safely reject such evidence. But if the prisoner says that he hopes he has no such enemy, but admits that he has had quarrels with women; or if he says that he has an enemy, but names someone who, perhaps, has not given evidence, in that case, even if other witnesses say that such a person has given evidence from motives of enmity, the Judge must not reject his evidence, but admit it together with the other proofs. § There are many who are not sufficiently careful and circumspect, and consider that the depositions of such quarrelsome women should be altogether rejected, saying that no faith can be placed in them, since they are nearly always actuated by motives of hatred. Such men are ignorant of the subtlety and precautions of magistrates, and speak and judge like men who are colour-blind.”

PROCESSO DE CONDENAÇÃO SUMÁRIA: It often happens that we institute a criminal process, and order it to be conducted in a simple straightforward manner without the legal quibbles and contentions which are introduced in other cases. (…) The Judge to whom we commit such a case need not require any writ, or demand that the action should be contested; he may conduct the case on holidays for the sake of the convenience of the public, he should shorten the conduct of the case as much as he can by disallowing all dilatory exceptions, appeals and obstructions, the impertinent contentions of pleaders and advocates, and the quarrels of witnesses, and by restraining the superfluous number of witnesses; but not in such a way as to neglect the necessary proofs” the Judge ought to advise the accuser to set aside his formal accusation and to speak rather as an informer, because of the grave danger that is incurred by an accuser. And so he can proceed in the 2nd manner, which is commonly used, and likewise in the 3rd manner, in which the process is begun not at the instance of any party.”

…Asked further how he could distinguish the accused’s motive, he answered that he knew it because he had spoken with a laugh. § This is a matter which must be inquired into very diligently; for very often people use words quoting someone else, or merely in temper, or as a test of the opinions of other people; although sometimes they are used assertively with definite intention.” “Here it must always be noted that in such an examination at least 5 persons must be present, namely, the presiding Judge, the witness of informer, the respondent or accused, who appears afterwards, and the 3rd is the Notary or scribe: where there is no Notary the scribe shall co-opt another honest man, and these 2, as has been said, shall perform the duties of the Notary; and this is provided for by Apostolic authority” For this is a common custom of witches, to stir up enmity against themselves by some word or action, as, for example, to ask someone to lend them something or else they will damage his garden, or something of that sort, in order to make an occasion for deeds of witchcraft; and they manifest themselves either in word or in action, since they are compelled to do so at the instance of the devils, so that in this way the sins of Judges are aggravated while the witch remains unpunished.”

Asked why she touched a child, and afterwards it fell sick, she answered. Also she was asked what she did in the fields at the time of a tempest, and so with many other matters. Again, why, having 1 or 2 cows, she had more milk than her neighbours who had 4 or 6. Let her be asked why she persists in a state of adultery or concubinage; for although this is beside the point, yet such questions engender more suspicion than would the case with a chaste and honest woman who stood accused.”

It is asked 1st what is to be done when, as often happens, the accused denies everything. We answer that the Judge has 3 points to consider, namely, her bad reputation, the evidence of the fact [nada mais genérico], and the words of the witnesses; and he must see whether all these agree together. And if, as very often is the case, they do not altogether agree together, since witches are variously accused of different deeds committed in some village or town; but the evidences of the fact are visible to the eye, as that a child has been harmed by sorcery, or, more often, a beast has been bewitched or deprived of its milk [o ser humano babaca vê o que quer ver; aliás, o ser humano em geral!]; and if a number of witnesses have come forward whose evidence, even if it show certain discrepancies (as that one should say she had bewitched his child, another his beast, and a 3rd should merely witness to her reputation, and so with the others), but nevertheless agree in the substance of the fact, that is, as to the witchcraft [substância etérea!], and that she is suspected of being a witch; although those witnesses are not enough to warrant a conviction without the fact of the general report, or even with that fact, yet, taken in conjunction with the visible and tangible evidence of the fact, the Judge may decide that the accused is to be reputed, not as strongly or gravely under suspicion, but as manifestly taken in the heresy of witchcraft; provided, that is, that the witnesses are of a suitable condition and have not given evidence out of enmity, and that a sufficient number of them, say 6 or 8 or 10, have agreed together under oath. And then, according to the Canon Law, he must subject her to punishment, whether she has confessed her crime or not.

It is true that S. Bernard speaks of an evident fact, and we here speak of the evidence of the fact; but this is because the devil does not work openly, but secretly.” O diabo é igualzinho deus.

If [s]he confesses and is impenitent, he is to be handed over to the secular courts to suffer the extreme penalty, according to the chapter ad abolendam, or he is to be imprisoned for life, according to the chapter excommunicamus. But if he does not confess, and stoutly maintains his denial, he is to be delivered as an impenitent to the power of the Civil Court to be punished in a fitting manner, as Henry of Segusio shows in his Summa, where he treats of the manner of proceeding against heretics.” “he should consign the accused to prison for a time, or for several years, in case perhaps, being depressed after a year of the squalor of prison, she may confess her crimes.”

This gives rise to the question whether the method employed by some to capture a witch is lawful, namely, that she should be lifted from the ground by the officers, and carried out in a basket or on a plank of wood so that she cannot again touch the ground. This can be answered by the opinion of the Canonists and of certain Theologians, that this is lawful in 3 respects. First, because it is clear from the opinion of such Doctors as Duns Scotus, Henry of Segusio and Godfrey of Fontaines, that it is lawful to oppose vanity with vanity. Also we know from experience and the confessions of witches that when they are taken in this manner they more often lose the power of keeping silence under examination: indeed many who have been about to be burned have asked that they might be allowed at least to touch the ground with one foot; and when it had been asked why they made such a request, they’d answered that if they had touched the ground they would have liberated themselves, striking many other people dead with lightning.”

But if it is only a slight matter of which she is accused, and she is not of bad reputation, and there is no evidence of her work upon children or animals, then she may be sent back to her house. But because she has certainly associated with witches and knows their secrets, she must give sureties; and if she cannot do so, she must be bound by oaths and penalties not to go out of her house unless she is summoned. But her servants and domestics, of whom we spoke above, must be kept in custody, yet not punished.”

(*) House should be searched.” Thus in the famous witch trial of Dame Alive Kyteler and her coven before the Bishop of Ossory in 1324, John le Poer, the husband of Dame Alice, deposed that in her closet were discovered mysterious vials and elixirs, strange necromantic instruments and ghastly relics of mortality which she used in her horrid craft. Holinshed in his Chronicle of Ireland (London, 1587, p. 93), sub anno 1323, has: <In rifling the closet of the ladie, they found a wafer of sacramental bread, having the divels name stamped thereon in steed of JESUS Christ, and a pipe of ointment, wherewith she greased a staffe, upon whish she ambled and gallopped through thicke and thin when and in what manner she wished.>

If the accused says that she is innocent and falsely accused and wishes to see and hear her accusers, it is a sign that she is asking to defend herself. But it is an open question whether the Judge is bound to make the deponents known to her and bring them to confront her face to face. (…) Although different Popes have had different opinions on this matter, none of them has ever said that in such a case the Judge is bound to make known to the accused the names of the informers or accusers. But, finally, Bonifice VIII(*) decreed as follows: If in a case of heresy it appear to the Bishop or Inquisitor that grave danger would be incurred by the witnesses of informers on account of the powers of the persons against whom they lay their depositions, should their names be published, he shall not publish them.” “any such Judge, even if he be secular, has the authority of the Pope, and not only of the Emperor.”

(*) “the collection of Bonifice VIII is known as Liber Sixtus

BELA APLICAÇÃO DE PONTA-CABEÇA DA “BOA-NOVA” E DO PARAÍSO AOS POBRES! “it is more dangerous to make known the names of the witnesses to an accused person who is poor, because such a person has many evil accomplices, such as outlaws and homicides, associated with him, who venture nothing but their own persons, which is not the case with anyone who is nobly born or rich, and abounding in temporal possessions.

let the Judge take notice that he must keep the names of the witnesses secret, under pain of excommunication. It is in the power of the Bishop thus to punish him if he does otherwise. Therefore he should very implicitly [!???] warn the Judge not to reveal the name from the very beginning of the process.”

IF, therefore, the accused asked to be defended, how can this be admitted when the names of the witnesses are kept altogether secret? It is to be said that 3 considerations are to be observed in admitting any defence. First, that an Advocate shall be allotted to the accused. Second, that the names of the witnesses shall not be made known to the Advocate even under an oath of secrecy, but that he shall be informed of everything contained in the depositions. Third, the accused shall as far as possible be given the benefit of every doubt, provided that this involves no scandal to the faith nor is in any way detrimental to justice (…) and the Advocate can act also in the name of procurator.

As to the first of these points: it should be noted that an Advocate is not to be appointed at the desire of the accused, as if he may choose which Advocate he will have; but the Judge must take great care to appoint neither a litigious nor an evil-minded man, nor yet one who is easily bribed (as many are), but rather an honourable man to whom no sort of suspicion attaches.” “Henry of Segusio holds an opposite view concerning the return of the fee in a case in which the Advocate has worked very hard. Consequently if an Advocate has wittingly undertaken to defend a prisoner whom he knows to be guilty, he shall be liable for the costs and expenses”

First, his behaviour must be modest and free from prolixity or pretentious oratory.” Acaba-se de abolir qualquer advogado no mundo de defender uma “bruxa”!

if he unduly defends a person already suspect of heresy, he makes himself as it were a patron of that heresy, and lays himself under not only a light but a strong suspicion”

though these means may savour of cunning and even guile, yet the Judge may employ them for the good of the faith and the State; for even S. Paul says: But being crafty, I caught you by guile. And these means are especially to be employed in the case of a prisoner who has not been publicly defamed, and is not suspected because of the evidence of any fact; and the Judge may also employ them against prisoners who have alleged enmity on the part of the deponents, and wish to know all the names of the witnesses.”

Common justice demands that a witch should not be condemned to death unless she is convicted by her own confession. But here we are considering the case of one who is judged to be taken in manifest heresy for direct or indirect evidence of the fact, or the legitimate production of witnesses; and in this case she is to be exposed to questions and torture to extort a confession of her crimes.

and behold! he was suddenly bewitched so that his mouth was stretched sideways as far as his ears in a horrible deformity, and he could not draw it back, but remained so deformed for a long time.” :O :T

indirect evidence of the fact is different from direct evidence; yet though it is not so conclusive, it is still taken from the words and deeds of witches, and it is judged from witchcraft which is not so immediate in its effect, but follows after some lapse of time from the utterance of the threatening words. May we conclude that this is the case with such witches who have been accused and have not made good their defence (or have failed to defend themselves because this privilege was not granted them; and it was not granted because they did not ask for it). But what we are to consider now is what action the Judge should take, and how he should proceed to question the accused with a view to extorting the truth from her so that sentence of death may finally be passed upon her.” he must not be too quick for this reason: unless God, through a holy Angel, compels the devil to withhold his help from the witch, she will be so insensible to the pains of torture that she will sooner be torn limb from limb than confess any of the truth. But the torture is not to be neglected for this reason, for they are not all equally endowed with this power, and also the devil sometimes of his own will permits them to confess their crimes without being compelled by a holy Angel.” For there are some who obtain from the devil a respite of 6 or 8 or 10 years before they have to offer him their homage, that is, devote themselves to him body and soul; whereas others, when they first profess their abjuration of the faith, at the same time offer their homage. And the reason why the devil allows that stipulated interval of time is that, during that time, he may find out whether the witch has denied the faith with her lips only but not in her heart, and would therefore offer him her homage in the same way.”

we may say that it is as difficult, or more difficult, to compel a witch to tell the truth as it is to exorcise a person possessed of the devil. Therefore the Judge ought not to be too willing or ready to proceed to such examination, unless the death penalty is involved.” very often meditation, and the misery of imprisonment, and the repeated advice of honest men, dispose the accused to discover the truth.” let the accused be stripped; or if she is a woman, let her first be led to the penal cells and there stripped by honest women of good reputation. And the reason for this is that they should search for any instrument of witchcraft sewn into her clothes; for they often make such instruments, at the instruction of devils. And when such instruments have been disposed of, the Judge shall use his own persuasions and those of other honest men zealous for the faith to induce her to confess the truth voluntarily; and if she will not, let him order the officers to bind her with cords, and apply her to some engine of torture; and then let them obey at once but not joyfully, rather appearing to be disturbed by their duty. Then let her be released again at someone’s earnest request, and taken on one side, and let her again be persuaded; and in persuading her, let her be told that she can escape the death penalty.” she may be promised her life on the following conditions: that she be sentenced to imprisonment for life on bread and water, provided that she supply evidence which will lead to the conviction of other witches. And she is not to be told, when she is promised her life, that she is to be imprisoned in this way; but should be led to suppose that some other penance, such as exile, will be imposed on her as punishment. And without doubt notorious witches, especially such as use witches’ medicines and cure the bewitched by superstitious means, should be kept in this way, both that they may help the bewitched, and that they may betray other witches. But such a betrayal by them must not be considered of itself sufficient ground for a conviction, since the devil is a liar, unless it is also substantiated by the evidence of the fact, and by witnesses.

Others think that, after she has been consigned to prison in this way, the promise to spare her life should be kept for a time, but that after a certain period she should be burned.”

But if neither threats nor such promises will induce her to confess the truth, then the officers must proceed with the sentence, and she must be examined, not in any new or exquisite manner, but in the usual way, lightly or heavily according as the nature of her crimes demands. And while she is being questioned about each several point, let her be often and frequently exposed to torture, beginning with the more gentle of them; for the Judge should not be too hasty to proceed to the graver kind. And while this is being done, let the Notary write all down, how she is tortured and what questions are asked and how she answers.

And note that, if she confesses under torture, she should then be taken to another place and questioned anew, so that she does not confess only under the stress of torture.

The next step of the Judge should be that, if after being fittingly tortured she refuses to confess the truth, he should have other engines of torture brought before her, and tell her that she will have to endure these if she does not confess. If then she is not induced by terror to confess, the torture must be continued on the 2nd or 3rd day, but not repeated at that present time unless there should be some fresh indication of its probable success.”

The Judge should also take care that during that interval there should always be guards with her, so that she is never left alone, for fear lest the devil will cause her to kill herself. But the devil himself knows better than anyone whether he will desert her of his own will, or be compelled to do so by God.”

THE Judge should act as follows in the continuation of the torture. First he should bear in mind that, just as the same medicine is not applicable to all the members, but there are various and distinct salves for each several member, so not all heretics or those accused of heresy are to be subjected to the same method of questioning, examination and torture as to the charges laid against them; but various and different means are to be employed according to their various natures and persons. Now a surgeon cuts off rotten limbs; and mangy sheep are isolated from the healthy; but a prudent Judge will not consider it safe to bind himself down to one invariable rule in his method of dealing with a prisoner who is endowed with a witch’s power of taciturnity, and whose silence he is unable to overcome. For if the sons of darkness were to become accustomed to one general rule they would provide means of evading it as a well-known snare set for their destruction.”

For we are taught both by the words of worthy men of old and by our own experience that this is a most certain sign, and it has been found that even if she be urged and exhorted by solemn conjurations to shed tears, if she be a witch she will not be able to weep: although she will assume a tearful aspect and smear her cheeks and eyes with spittle to make it appear that she is weeping; wherefore she must be closely watched by the attendants.” Não que uma sincera torrente de lágrimas garanta algo além de uma vida encarcerada ou a cremação numa fogueira…

I conjure you by the bitter tears shed on the Cross by our Saviour the Lord JESUS Christ for the salvation of the world, and by the burning tears poured in the evening hour over His wounds by the most glorious Virgin MARY, His Mother, and by all the tears which have been shed here in this world by the Saints and Elect of God, from whose eyes He has now wiped away all tears, that if you be innocent you do now shed tears, but if you be guilty that you shall by no means do so. In the name of the Father, and of the Son, and of the Holy Ghost, Amen.”

for S. Bernard tells us that the tears of the humble can penetrate to heaven and conquer the unconquerable. Therefore there can be no doubt that they are displeasing to the devil, and that he uses all his endeavour to restrain them, to prevent a witch from finally attaining to penitence.

But it may be objected that it might suit with the devil’s cunning, with God’s permission, to allow even a witch to weep; since tearful grieving, weaving and deceiving are said to be proper to women. We may answer that in this case, since the judgements of God are a mystery, if there is no other way of convicting the accused, by legitimate witnesses or the evidence of the fact, and if she is not under a strong or grave suspicion, she is to be discharged”

they must not allow themselves to be touched physically by the witch, especially in any contact of their bare arms or hands; but they must always carry about them some salt consecrated on Palm Sunday and some Blessed Herbs.”

And we know from experience that some witches, when detained in prison, have importunately begged their gaolers to grant them this one thing, that they should be allowed to look at the Judge before he looks at them; and by so getting the first sight of the Judge they have been able so to alter the minds of the Judge or his assessors that they have lost all their anger against them and have not presumed to molest them in any way, but have allowed them to go free.”

And no one need think that it is superstitious to lead her in backwards”

RAPE AS TORTURE: “The 3rd precaution to be observed in this 10th action is that the hair should be shaved from every part of her body. The reason for this is the same as that for stripping her of her clothes, which we have already mentioned; for in order to preserve their power of silence they are in the habit of hiding some superstitious object in their clothes or in their hair, or even in the most secret parts of the their bodies which must not be named.

But it may be objected that the devil might, without the use of such charms, so harden the heart of a witch that she is unable to confess her crimes; just as it is often found in the case of other criminals, no matter how great the tortures to which they are exposed, or how much they are convicted by the evidence of the facts and of witnesses. We answer that it is true that the devil can affect such taciturnity without the use of such charms; but he prefers to use them for the perdition of souls and the greater offence to the Divine Majesty of God.

This can be made clear from the example of a certain witch in the town of Hagenau,. She used to obtain this gift of silence in the following manner: she killed a newly-born first-born male child who had not been baptized, and having roasted it in an oven together with other matters which it is not expedient to mention, ground it to powder and ashes; and if any witch or criminal carried about him some of this substance he would in no way be able to confess his crimes.”

MANUAL DO GUERRILHEIRO DAS CRUZADAS: “this power of taciturnity can proceed from 3 causes. First, from a natural hardness of heart; for some are soft-hearted, or even feeble-minded, so that at the slightest torture they admit everything, even some things which are not true; whereas others are so hard that however much they are tortured the truth is not to be had from them; and this is especially the case with those who have been tortured before, even if their arms are suddenly stretched or twisted.”

But what is to be said of a case that happened in the Diocese of Ratisbon? Certain heretics were convicted by their own confession not only as impenitent but as open advocates of that perfidy; and when they were condemned to death it happened that they remained unharmed in the fire. At length their sentence was altered to death by drowning, but this was no more effective. All were astonished, and some even began to say that their heresy must be true; and the Bishop, in great anxiety for his flock, ordered a 3 days fast. When this had been devoutly fulfilled, it came to the knowledge of someone that those heretics had a magic charm sewed between the skin and the flesh under one arm; and when this was found and removed, they were delivered to the flames and immediately burned. Some say that a certain necromancer learned this secret during a consultation with the devil, and betrayed it; but however it became known, it is probably that the devil, who is always scheming for the subversion of faith, was in some way compelled by Divine power to reveal the matter.”

Now in the parts of Germany such shaving, especially of the secret parts, is not generally considered delicate, and therefore we Inquisitors do not use it; but we cause the hair of their head to be cut off, and placing a morsel of Blessed Wax in a cup of Holy Water and invoking the most Holy Trinity, we give it them to drink 3 times on a fasting stomach, and by the grace of God we have by this means caused many to break their silence. But in other countries the Inquisitors order the witch to be shaved all over her body. And the Inquisitor of Como has informed us that last year, that is, in 1485, he ordered 41 witches to be burned, after they had been shaved all over. And this was in the district and county of Burbia, commonly called Wormserbad, in the territory of the Archduke of Austria, towards Milan.”

(*) “Our Lady of Tears, Santa Maria delle Lagrime, is the Patroness of Spoleto. A picture of Our Lady, painted upon the wall of the house belonging to Diotallevio d’Antonio, which stood on the road from Spoleto to Trevi, was seen to shed tears in great abundance. Many graces and favours were obtained before the miraculous picture. A small chapel was erected on the spot in August 1485, and Mass was daily offered therein. On 27 March 1487, the large basilica was begun, which on its completion, 8 March 1489, was entrusted to the Olivetans.”

(*) “Helen Guthrie, in 1661 dug up the body of an unbaptized infant, which was buried in the churchyard near the southeast door of the church and took several pieces thereof, as the feet, hands, part of the head, and a part of the buttocks, and made a pie thereof, that she might eat of it and by this means might never make a confession of witchcraft.” Talento para ser comunista…

Finally, if he sees that she will not admit her crimes, he shall ask her whether, to prove her innocence, she is ready to undergo the ordeal by red-hot iron. And they all desire this, knowing that the devil will prevent them from being hurt; therefore a true witch is exposed in this manner. The Judge shall ask her how she can be so rash as to run so great a risk, and all shall be written down; but it will be shown later that they are never to be allowed to undergo this ordeal by red-hot iron. Medinho?

Let the Judge also note that when witches are questioned on a Friday, while the people are gathered together at Holy Mass to await our Saviour, they very often confess.”

As a 5th precaution, when all the above have failed, let her, if possible, be led to some castle; and after she has been kept there under custody for some days, let the castellan pretend that he is going on a long journey. And then let some of his household, or even some honest women, visit her and promise that they will set her entirely at liberty if she will teach them how to conduct certain practices. And let the Judge take note that by this means they have very often confessed and been convicted.”

For trial by combat is allowable in a criminal case for the protection of life, and in a civil case for the protection of property; then wherefore not the trial by red-hot iron or boiling water? (…) Again, a judge, who is responsible for the safety of the community, may lawfully allow a smaller evil that a greater may be avoided; as he allows the existence of harlots in towns in order to avoid a general confusion of lust. For S. Augustine On Free Will says: Take away the harlots, and you will create a general chaos and confusion of lust. So, when a person has been loaded with insults and injuries by any community, he can clear himself of any criminal or civil charge by means of a trial by ordeal.”

PAVOR DA SANTIFICAÇÃO MILAGROSA E INAUDITA DA BRUXA: “the Canon says in that chapter not that they who use such practices tempt God, but that they appear to tempt Him, so that it may be understood that, even if a man engage in such a trial with none but good intentions, yet since it has the appearance of evil, it is to be avoided.” That which is not sanctioned in the writings of the Sainted Fathers is to be presumed superstitious.” And it is not wonderful witches are able to undergo this trial by ordeal unscathed with the help of devils; for we learn from naturalists that if the hands be anointed with the juice of a certain herb they are protected from burning. Now the devil has an exact knowledge of the virtues of such herbs: although he can cause the hand of the accused to be protected from the red-hot iron by invisibly interposing some other substance, yet he can procure the same effect by the use of natural objects.”

An incident illustrative of our argument occurred hardly 3 years ago in the Diocese of Constance. For in the territory of the Counts of Fuerstenberg and the Black Forest there was a notorious witch who had been the subject of much public complaint. (…) she was released from her chains and lives to the present time, not without grave scandal to the Faith in those parts.

(*) “When scandalous reports were circulated concerning her honour, although her husband could not for a moment suspect her purity, she insisted upon an appeal to the trial by ordeal, and having walked unhurt over the red-hot plough-shares, publicly testified her innocence. The story is immensely popular in German poetry and German art. A print by Hans Burgkmair shows her stepping over the shares, one of which she holds in her hand. Upon her shrine in the Cathedral at Bamburg a bas-relief by Hans Thielmann of Warzburg depicts the same incident. Having already retired to a Benedictine cloister, upon the death of her husband S. Cunegond she took the veil.” Como eu disse, trata-se de um milagre de santa!

S. Augustine says that we must not pronounce sentence against any person unless he has been proved guilty, or has confessed. Now there are 3 kinds of sentence – interlocutory, definitive, and preceptive. These are explained as follows by S. Raymond. An interlocutory sentence is one which is given not on the main issue of the case, but on some other side issues which emerge during the hearing of a case; such as a decision whether or not a witness is to be disallowed, or whether some digression is to be admitted, and such matters as that. Or it may perhaps be called interlocutory because it is delivered simply by word of mouth without the formality of putting it into writing. A definitive sentence is one which pronounces a final decision as to the main issue of the case. A preceptive sentence is one which is pronounced by a lower authority on the instruction of a higher.

Now it is laid down by law that a definitive sentence which has been arrived at without a due observance of the proper legal procedure in trying a case is null and void in law; and the legal conduct of a case consists in 2 things. One concerns the basis of the judgement; for there must be a due provision for the hearing of arguments both for the prosecution and the defence, and a sentence arrived at without such a hearing cannot stand. The other is not concerned with the basis of the judgement, but provides that the sentence must not be conditional; for example, a claim for possession should not be decided conditionally upon some subsequent claim of property; but where there is no question of such an objection the sentence shall stand.”

the Judge need not require a writ, or demand that the case should be contested. But he must allow opportunity for the necessary proofs, and issue his citation, and exact the protestation of the oath concerning calumny, etc. Therefore there has lately been a new law made as to the method of procedure in such cases.”

the sentence should be pronounced by the Judge and no one else, otherwise it is not valid. Also the Judge must be sitting in a public and honourable place; and he must pronounce it in the day-time and not in the darkness; and there are other conditions to be observed; for example, the sentence must not be promulgated upon a Holy Day, nor yet merely delivered in writing.”

Note again that, although in criminal actions the execution of the sentence is not to be delayed, this rule does not hold good in 4 cases, with 2 of which we are here concerned. First, when the prisoner is a pregnant woman; and then the sentence shall be delayed until she has given birth. Secondly, when the prisoner has confessed her crime, but has afterwards denied it again”

And the Canonists note that suspicion is of 3 kinds. The first of which the Canon says, You shall not judge anyone because he is suspect in your own opinion. The second is Probably; and this, but not the first, leads to a purgation. The third is Grave, and leads to a conviction; and S. Jerome understands this kind of suspicion when he says that a wife may be divorced either for fornication or for a reasonably suspected fornication.” “Applying this to our discussion of the heresy of witches and to the modern laws, we say that in law there are 3 degrees of suspicion in the matter of heresy: the first slight, the second great, and the third very great.”

As an example of simple heresy, if people are found to be meeting together secretly for the purpose of worship, or differing in their manner of life and behaviour from the usual habits of the faithful; or if they meet together in sheds and barns, or at the more Holy Seasons in the remoter fields or woods, by day or by night, or are in any way found to separate themselves and not to attend Mass at the usual times or in the usual manner, or form secret friendships with suspected witches: such people incur at least a light suspicion of heresy, because it is proved that heretics often act in this manner. And of this light suspicion the Canon says: They who are by a slight argument discovered to have deviated from the teaching and path of the Catholic religion are not to be classed as heretics, nor is a sentence to be pronounced against them.

And here are especially to be noted those men or women who cherish some inordinate love or excessive hatred, even if they do not use to work any harm against men or animals in other ways. For those who behave in this way in any heresy are strongly to be suspected.”

Those who have been found to rest under a probable suspicion should prove their innocence by a fitting purgation; if not, they are to be stricken with the sword of anathema as a worthy satisfaction in the sight of all men. And if they continue obstinate in their excommunication for the period of a year, they are utterly condemned as heretics.”

ERRAR É HUMANO, PERSISTIR É PECAR! “He who has been involved in one kind or sect of heresy, or has erred in one article of the faith or sacrament of the Church, and has afterwards specifically and generally abjured his heresy: if thereafter he follows another kind or sect of heresy, or errs in another article or sacrament of the Church, it is our will that he be judged a backslider.”

Let care be taken not to put anywhere in the sentence that the accused is innocent or immune, but that it was not legally proved against him; for if after a little time he should again be brought to trial, and it should be legally proved, he can, notwithstanding the previous sentence of absolution, then be condemned.”

that you may be in good odour among the company of the faithful we impose upon you as by law a canonical purgation, assigning to you such a day of such a month at such hour of the day, upon which you shall appear in person before us with so many persons of equal station with you to purge you of your defamation. Which sponsors must be men of the Catholic faith and of good life who have known your habits and manner of living not only recently but in time past. And we signify that, if you should fail in this purgation, we shall hold you convicted, according to the canonical sanctions.”

We N., by the mercy of God Bishop of such a town, or Judge in the territory subject to the rule of such a Prince, having regard to the merits of the process conducted by us against you N., of such a place in such a Diocese, and after careful examination, find that you are not consistent in your answers, and that there are sufficient indications besides that you ought to be exposed to the question and torture. Therefore, that the truth may be known from your own mouth and that from henceforth you may not offend the ears of your Judges with your equivocations, we declare, pronounce, and give sentence that on this present day at such an hour you are to be subjected to an interrogatory under torture. This sentence was given, etc.”

Neither are they to be branded with the sign of the Cross, for such is the sign of a penitent heretic; and they are not convicted heretics, but only suspected, therefore they are not to be marked in this way. But they can be ordered either to stand on certain solemn days within the doors of a church, or near the altar, while Holy Mass is being celebrated, bearing in their hands a lighted candle of a certain weight; or else to go on some pilgrimage, or something of the kind, according to the nature and requirements of the case.”

Therefore inasmuch as you are bound by the chain of excommunication from the Holy Church, and are justly cut off from the number of the Lord’s flock, and are deprived of the benefits of the Church, the Church can do no more for you, having done all that was possible. We, the said Bishop and Judges on behalf of the Faith, sitting in tribunal as Judges judging, and having before us the Holy Gospels that our judgement may proceed as from the countenance of god and our eyes see with equity, and having before our eyes only God and the truth of the Holy Faith and the extirpation of the plague of heresy, on this day and at this hour and place assigned to you for the hearing of your final sentence, we give it as our judgement and sentence that you are indeed an impenitent heretic, and as truly such to be delivered and abandoned to the secular Court: wherefore by this sentence we cast you away as an impenitent heretic from our ecclesiastical Court, and deliver or abandon you to the power of the secular Court: praying the said Court to moderate or temper its sentence of death against you.” Ah, com certeza…

but you have been given up to your sin and led away and seduced by an evil spirit, and have chosen to be tortured with fearful and eternal torment in hell, and that your temporal body should here be consumed in the flames, rather than to give ear to better counsels and renounce your damnable and pestilent errors, and to return to the merciful bosom of our Holy Mother Church.”

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BIBLIOGRAFIA DO “OUTRO MUNDO”

Agostinho – De Natura Daemonis, 411 d.C.

Beothius – De Consolatione Philosophiae

Caesarius – Dialogue magnus visionum atque miraculorum, Libri XII.

Collin de Plancy – Dictionnaire Infernal, sixième édition, 1863.

Mirabeau – Erotika Biblion (pseudo-Rome), 1783.

Sinistrari – Demoniality, 1927.

Stefano Infessura – Diarium urbis Rome

A PAZ PERPÉTUA: Um projeto filosófico (ou “De um jeito sumo de dizer o óbvio”) – Kant

Tradução de Artur Morão

1. «Não deve considerar-se como válido nenhum tratado de paz que se tenha feito com a reserva secreta de elementos para uma guerra futura.»”

2. «Nenhum Estado independente (grande ou pequeno, aqui tanto faz) poderá ser adquirido por outro mediante herança, troca, compra ou doação.»”

Um reino hereditário não é um Estado que possa ser herdado por outro Estado; é um Estado cujo direito a governar se pode dar em herança a outra pessoa física. O Estado adquire, pois, um governante”

Todos sabem a que perigo induziu a Europa até aos tempos mais recentes o preconceito deste modo de aquisição, pois as outras partes do mundo jamais o conheceram, isto é, de os próprios Estados poderem entre si contrair matrimônio; este modo de aquisição é, em parte, um novo gênero de artifício para se tornar muito poderoso mediante alianças de família sem dispêndio de forças e, em parte também, serve para assim ampliar as possessões territoriais.”

3. «Os exércitos permanentes (miles perpetuus) devem, com o tempo, de todo desaparecer.»”

os Estados incitam-se reciprocamente a ultrapassar-se na quantidade dos mobilizados que não conhece nenhum limite, e visto que a paz, em virtude dos custos relacionados com o armamento, se torna finalmente mais opressiva do que uma guerra curta, eles próprios são a causa de guerras ofensivas para se libertarem de tal fardo; acrescente-se que pôr-se a soldo para matar ou ser morto parece implicar um uso dos homens como simples máquinas e instrumentos na mão de outrem (do Estado), uso que não se pode harmonizar bem com o direito da humanidade na nossa própria pessoa.”

dos três poderes, o militar, o das alianças e o do dinheiro, este último poderia decerto ser o mais seguro instrumento de guerra.”

4. «Não se devem emitir dívidas públicas em relação aos assuntos de política exterior.»”

um sistema de crédito, como aparelho de oposição das potências entre si, é um sistema que cresce ilimitadamente, é sempre um poder financeiro perigoso para a reclamação presente (porque certamente nem todos os credores o farão ao mesmo tempo) das dívidas garantidas – a engenhosa invenção de um povo de comerciantes neste século – ou seja, é um tesouro para a guerra”

5. «Nenhum Estado se deve imiscuir pela força na constituição e no governo de outro Estado.»

enquanto essa luta interna ainda não está decidida, a ingerência de potências estrangeiras seria uma violação do direito de um povo independente que combate a sua enfermidade interna; seria, portanto, um escândalo, e poria em perigo a autonomia de todos os Estados.”

6. «Nenhum Estado em guerra com outro deve permitir tais hostilidades que tornem impossível a confiança mútua na paz futura, como, por exemplo, o emprego no outro Estado de assassinos (percussores), envenenadores (venefici), a ruptura da capitulação, a instigação à traição (perduellio), etc.»”

São estratagemas desonrosos; mesmo em plena guerra deve ainda existir alguma confiança no modo de pensar do inimigo já que, caso contrário, não se poderia negociar paz alguma e as hostilidades resultariam numa guerra de extermínio (bellum internecinum)”

uma guerra de extermínio, na qual se pode produzir o desaparecimento de ambas as partes e, por conseguinte, também de todo o direito, só possibilitaria a paz perpétua sobre o grande cemitério do gênero humano.”

* * *

Ora, uma posse putativa (sincera), logo que se reconheceu como tal, é proibida no estado de natureza do mesmo modo que um tipo semelhante de aquisição é proibido no ulterior estado civil (após a passagem); a possibilidade de uma posse duradoura não existiria se tivesse havido uma aquisição putativa no estado civil, pois, neste caso, teria de cessar imediatamente como uma lesão, logo após a descoberta da sua não-conformidade com o direito.”

a possibilidade de uma fórmula assim (semelhante às fórmulas matemáticas) é a única e genuína pedra-de-toque de uma legislação que permanece conseqüente, sem a qual o chamado ius certum permanecerá sempre um pio desejo. – De outro modo, ter-se-ão apenas leis gerais (que valem em geral), mas não leis universais (com eficácia universal), como todavia parece exigir o conceito de lei.”

a omissão de hostilidades não é ainda a garantia de paz e, se um vizinho não proporcionar segurança a outro (o que só pode acontecer num estado legal), cada um pode considerar como inimigo a quem lhe exigiu tal segurança.”

* * *

1. A Constituição civil em cada Estado deve ser republicana.”

A validade dos direitos inatos inalienáveis e que pertencem necessariamente à humanidade é confirmada e elevada pelo princípio das relações jurídicas do próprio homem com entidades mais altas (quando ele as imagina), ao representar-se a si mesmo segundo esses mesmos princípios também como um cidadão de um mundo supra-sensível.”

é claro que, se o estatuto está vinculado ao nascimento, é de todo incerto se o mérito (capacidade e fidelidade profissionais) também virá depois; por conseguinte, é como se ele fosse concedido (ser chefe) ao beneficiado sem qualquer mérito – o que nunca a vontade geral do povo decidirá num contrato originário (que, no entanto, é o princípio de todos os direitos). Com efeito, um nobre não é necessariamente por isso um homem nobre. – No tocante à nobreza de cargo (como se poderia denominar o estatuto de uma elevada magistratura e à qual é necessário elevar-se por meio dos méritos), o estatuto não pertence à pessoa como uma propriedade, mas ao lugar, e a igualdade não é por isso lesada; pois, quando a pessoa abandona o seu cargo deixa, ao mesmo tempo, o estatuto e retorna ao povo.”

A constituição republicana, além da pureza da sua origem, isto é, de ter promanado da pura fonte do conceito de direito, tem ainda em vista o resultado desejado, a saber, a paz perpétua; daquela é esta o fundamento.”

¹ Difícil que Aristóteles concordasse (governo misto)!

Para não se confundir a constituição republicana com a democrática (como costuma acontecer), deve observar-se o seguinte. As formas de um Estado (civitas) podem classificar-se segundo a diferença das pessoas que possuem o supremo poder do Estado, ou segundo o modo de governar o povo, seja quem for o seu governante; a primeira chama-se efetivamente a forma da soberania (forma imperii) e só há 3 formas possíveis, a saber, a soberania é possuída por um só, ou por alguns que entre si se religam, ou por todos conjuntamente, formando a sociedade civil (autocracia, aristocracia e democracia; poder do príncipe, da nobreza e do povo). A segunda é a forma de governo (forma regiminis) e refere-se ao modo, baseado na constituição (no ato da vontade geral pela qual a massa se torna um povo), como o Estado faz uso da plenitude do seu poder: neste sentido, a constituição é ou republicana, ou despótica. O republicanismo é o princípio político da separação entre o poder executivo (governo) e o legislativo; o despotismo é o princípio da execução arbitrária pelo Estado de leis que ele a si mesmo deu, portanto a vontade pública é manejada pelo governante como sua vontade privada. – Das três formas de Estado, a democracia é, no sentido próprio da palavra, necessariamente um despotismo, porque funda um poder executivo em que todos decidem sobre e, em todo o caso, também contra um (que, por conseguinte, não dá o seu consentimento), portanto todos, sem no entanto serem todos, decidem – o que é uma contradição da vontade geral consigo mesma e com a liberdade.

Toda a forma de governo que não seja representativa é, em termos estritos, uma não-forma, porque o legislador não pode ser ao mesmo tempo executor da sua vontade numa e mesma pessoa (como também a universal da premissa maior num silogismo não pode ser ao mesmo tempo a subsunção do particular na premissa menor); e, embora as duas outras constituições políticas sejam sempre defeituosas porque proporcionam espaço a um tal modo de governo, é nelas ao menos possível que adotem um modo de governo conforme com o espírito de um sistema representativo como, por exemplo, Frederico II ao dizer que ele era apenas o primeiro servidor do Estado, ao passo que a constituição democrática torna isso impossível porque todos querem ser soberano. Pode, pois, dizer-se: quanto mais reduzido é o pessoal do poder estatal (o número de dirigentes), tanto maior é a representação dos mesmos, tanto mais a constituição política se harmoniza com a possibilidade do republicanismo e pode esperar que, por fim, a ele chegue mediante reformas graduais. [Além de o povo no poder ser uma tirania, a aristocracia no poder não teria muitas vantagens sobre esse cenário – a monarquia constitucional aparece, como com Hegel, tã-dã…]”

Kant entende democracia no sentido direto antigo.

NO HAY REPÚBLICA: “Nenhuma das denominadas repúblicas antigas conheceu este sistema e tiveram, de facto, de se dissolver no despotismo que, sob o poder supremo de um só, é ainda o mais suportável de todos os despotismos.”

Quem governou melhor do que um Tito ou um Marco Aurélio? E, no entanto, um deixou como sucessor um Domiciano, e o outro um Cômodo; o que não poderia ter acontecido com uma boa constituição política, pois a incapacidade dos últimos para o cargo tinha sido conhecida bastante cedo e o poder do Imperador era também suficiente para os ter excluído.”

2. O direito das gentes deve fundar-se numa federação de Estados livres.”

Isto seria uma federação de povos que, no entanto, não deveria ser um Estado de povos. Haveria aí uma contradição, porque todo o Estado implica a relação de um superior (legislador) com um inferior (o que obedece, a saber, o povo) e muitos povos num Estado viriam a constituir um só povo, o que contradiz o pressuposto (temos de considerar aqui o direito dos povos nas suas relações recíprocas enquanto formam Estados diferentes, que não se devem fundir num só).

Assim como olhamos com profundo desprezo o apego dos selvagens à sua liberdade sem lei, que prefere mais a luta contínua do que sujeitar-se a uma coerção legal por eles mesmos determinável, escolhendo antes a liberdade grotesca à racional, e consideramo-lo como barbárie, grosseria e degradação animal da humanidade; assim também – deveria pensar-se – os povos civilizados (cada qual reunido num Estado) teriam de se apressar a sair quanto antes de uma situação tão repreensível: em vez disso, porém, cada Estado coloca antes a sua soberania (pois a soberania popular é uma expressão absurda) precisamente em não se sujeitar a nenhuma coação legal externa, e o fulgor do chefe de Estado consiste em ter à sua disposição muitos milhares que, sem ele próprio se pôr em perigo, se deixam sacrificar(*) por uma coisa que em nada lhes diz respeito, e a diferença entre os selvagens europeus e os americanos consiste essencialmente nisto: muitas tribos americanas foram totalmente comidas pelos seus inimigos [absorção pelo mais forte!], ao passo que os europeus sabem aproveitar melhor os seus vencidos do que comendo-os; aumentam antes o número dos seus súbditos, por conseguinte, também a quantidade dos instrumentos para guerras ainda mais vastas.

(*) “Eis a resposta que um príncipe búlgaro deu ao imperador grego, que queria resolver uma disputa com um duelo: «Um ferreiro que tem tenazes não tirará do carvão o ferro em brasa com as mãos.»

esta homenagem que todos os Estados prestam ao conceito de direito (pelo menos, de palavra) mostra que se pode encontrar no homem uma disposição moral ainda mais profunda, se bem que dormente na altura, para se assenhorear do princípio mau que nele reside (o que não pode negar) e para esperar isto também dos outros; pois, de outro modo, a palavra direito nunca viria à boca dos Estados que se querem guerrear entre si, a não ser para com ela praticarem a ironia como aquele príncipe gaulês, que afirmava: «A vantagem que a natureza deu ao forte sobre o fraco é que este deve obedecer àquele.»

uma vez que não pode ter vigência para os Estados, segundo o direito das gentes, o que vale para o homem no estado desprovido de leis, segundo o direito natural – «dever sair de tal situação» (porque possuem já, como Estados, uma constituição interna jurídica e estão, portanto, subtraídos à coação dos outros para que se submetam a uma constituição legal ampliada em conformidade com os seus conceitos jurídicos); e visto que a razão, do trono do máximo poder legislativo moral, condena a guerra como via jurídica e faz, em contra-partida, do estado de paz um dever imediato, o qual não pode todavia estabelecer-se ou garantir-se sem um pacto entre os povos: – tem, pois, de existir uma federação de tipo especial, a que se pode dar o nome de federação da paz (foedus pacificum), que se distinguiria do pacto de paz (pactum pacis), uma vez que este tentaria acabar com uma guerra, ao passo que aquele procuraria pôr fim a todas as guerras e para sempre.”

se a sorte dispõe que um povo forte e ilustrado possa formar uma república (que, segundo a sua natureza, deve tender para a paz perpétua), esta pode constituir o centro da associação federativa para que todos os outros Estados se reúnam à sua volta e assim assegurem o estado de liberdade dos Estados conforme à idéia do direito das gentes e estendendo-se sempre mais mediante outras uniões.”

Um ímpio e horrível furor ferve bem dentro da sua boca sangrenta” – Virgílio

A festa de ação de graças por uma vitória conseguida durante a guerra, os hinos que se cantam ao Senhor dos exércitos (à boa maneira israelita) contrastam em não menor grau com a idéia moral do Pai dos homens; pois, além da indiferença quanto ao modo (que é bastante triste) como os povos buscam o seu direito mútuo, acrescentam ainda a alegria de ter aniquilado muitos homens ou a sua felicidade.”

3. «O direito cosmopolita deve limitar-se às condições da hospitalidade universal.»”

Não existe nenhum direito de hóspede sobre o qual se possa basear esta pretensão (para tal seria preciso um contrato especialmente generoso para dele fazer um hóspede por certo tempo), mas um direito de visita, que assiste todos os homens para se apresentarem à sociedade, em virtude do direito da propriedade comum da superfície da Terra, sobre a qual, enquanto superfície esférica, os homens não se podem estender até ao infinito, mas devem finalmente suportar-se uns aos outros, pois originariamente ninguém tem mais direito do que outro a estar num determinado lugar da Terra.

o camelo (o barco do deserto)”

A inospitalidade das costas marítimas (por exemplo das costas berberescas), os roubos de barcos nos mares próximos ou a redução à escravatura dos marinheiros que arribam à costa, ou a inospitalidade dos desertos (dos beduínos árabes) em considerar a sua proximidade às tribos nômades como um direito a saqueá-las – tudo é, pois, contrário ao direito natural; mas o direito de hospitalidade, isto é, a faculdade dos estrangeiros recém-chegados não se estende além das condições de possibilidade para intentar um tráfico com os antigos habitantes.”

A América, os países negros, as ilhas das especiarias, o Cabo, etc., eram para eles [os comerciantes ‘civilizados’], na sua descoberta, países que não pertenciam a ninguém, pois os habitantes nada contavam para eles.”

as ilhas do açúcar, sede da escravidão mais violenta e deliberada, não oferecem nenhum autêntico benefício, mas servem apenas diretamente um propósito e, claro está, não muito recomendável, a saber, a formação dos marinheiros para as frotas de guerra, portanto também para as guerras na Europa; e tudo isto para potências que querem fazer muitas coisas por piedade e pretendem considerar-se como eleitas dentro da ortodoxia, enquanto bebem a injustiça como água.”

BREVE ETIMOLOGIA KANTIANA DA CHINA

Segundo a observação do Prof. Fischer, de Petersburgo, não tem um nome determinado com que a si mesmo se designa; o nome mais habitual é ainda o da palavra Kin, isto é, ouro (que os Tibetanos exprimem com Ser), pelo que o imperador se chama Rei do ouro (do país mais magnífico do mundo); esta palavra poderia pronunciar-se nesse reino como Chin, mas pode ter sido pronunciada Kin pelos missionários italianos (por causa da gutural). – Daqui se infere que o país chamado pelos Romanos País dos Seres era a China, mas a seda era trazida para a Europa através do Grande Tibete (provavelmente através do Pequeno Tibete e de Bucara pela Pérsia) o que dá lugar a algumas considerações acerca da antiguidade deste surpreendente Estado, em comparação com o Industão [Índias Orientais], no laço com o Tibete e, através deste, com o Japão; no entanto, o nome de Sina ou Tschina que lhe deviam dar os vizinhos deste país não leva a nada. – Talvez se possa explicar também o antiqüíssimo, se bem que nunca corretamente conhecido, intercâmbio da Europa com o Tibete, a partir do que nos refere Hesíquio, a saber, do grito dos hierofantes Konx Ompax nos mistérios de Elêusis (ver Reise des Jüngern Anacarsis, 5ª parte, pp. 447-ss.). – Pois, segundo o Alphab. Tibet. de Georgius, a palavra Concioa significa deus, e esta palavra tem uma semelhança muito marcante com a de Konx: Pah-cio (ib. p. 520), que facilmente poderia ser pronunciada pelos gregos como pax, significa promulgator legis, a divindade repartida por toda a natureza (chamada também Cencresi, p. 177). – Mas Om, que Lacroze traduz por benedictus, bendito, nada mais pode significar na sua aplicação à divindade do que bem-aventurado, p. 507. Mas o P. Franz Horatius afirma que, ao interrogar muitas vezes os lamas tibetanos sob o que eles entendiam por deus (concioa), obteve sempre a resposta: «É a reunião de todos os santos» (isto é, dos bem-aventurados que, através do renascimento lamaísta, após muitas migrações por toda a classe de corpos, regressaram finalmente à divindade e se tomam Burchane, isto é, seres dignos de serem adorados, almas transformadas; p. 223). Pelo que a palavra misteriosa Konx Ompax deverá significar o supremo ser difundido por todo o mundo (a natureza personificada): santo, pela palavra Konx Ompax, bem-aventurado (Om) e sábio (pax); e estas palavras utilizadas nos mistérios gregos significaram o monoteísmo dos epoptas em oposição ao politeísmo do povo, embora Horatius suspeite aqui de um certo ateísmo. – Mas o modo como essa misteriosa palavra chegou aos Gregos através do Tibete explica-se da maneira antes indicada e, inversamente, torna provável um remoto tráfico da Europa com a China através do Tibete (talvez ainda antes do tráfico com o Industão).”

* * *

inferir de um acontecimento singular um princípio particular da causa eficiente (que este conhecimento seja um fim e não uma simples conseqüência marginal do mecanismo natural a partir de um outro fim que nos é totalmente desconhecido) é um disparate e uma arrogância total, por piedosa e humilde que a este respeito a linguagem ressoe. – Igualmente, a divisão a Providência (considerada materialiter) em universal e particular, segundo os objetos do mundo a que se refere, é falsa e contraditória em si mesma (porque cuida, por exemplo, da conservação das espécies de criaturas e abandona os indivíduos ao acaso)”

MORRE O ÚLTIMO TEÓLOGO: “…a fé de que Deus completará a deficiência da nossa própria justiça, se a nossa disposição for genuína, através de meios para nós inconcebíveis, portanto, se nada descurarmos no esforço pelo bem”

O primeiro instrumento de guerra que, entre todos os animais, o homem aprendeu a domar e a domesticar, na época do povoamento da Terra, foi o cavalo (pois o elefante pertence a uma época posterior, a saber, à época do luxo de Estados já estabelecidos)”

Entre todos os modos de vida, a caça é decerto o mais oposto a uma constituição estabelecida, porque as famílias forçadas a isolar-se depressa se tomam estranhas entre si e assim, dispersas por ingentes bosques, também depressa se tornam inimigos, já que cada uma precisa de muito espaço para a aquisição do alimento e do vestuário. – A proibição de Noé de comer sangue, 1 Moisés, IX, 4–6 (que, muitas vezes repetida, foi depois transformada pelos judeo-cristãos em condição para os novos cristãos vindos do paganismo, se bem que com outro sentido, Atos dos Apóstolos, XV, 20, XXI, 25), não parece inicialmente ter sido outra coisa a não ser a proibição de se dedicar à caça

O mesmo se passa com os finlandeses na região setentrional da Europa, os chamados Lapões, agora tão afastados dos húngaros, mas com eles aparentados pela língua, separados entretanto pela irrupção dos povos góticos e sármatas; e que outra coisa pode ter impelido os esquimós (talvez os aventureiros europeus mais antigos, uma raça inteiramente diversa de todas as americanas) para o Norte, e os Fueguinos, no sul da América, para a Terra do Fogo senão a guerra, de que a natureza se serve como de um meio para povoar a Terra?”

a coragem guerreira se considera como dotada de um grande valor imediato (tanto pelos selvagens americanos como pelos europeus, na época da cavalaria).”

Ora, a constituição republicana é a única perfeitamente adequada ao direito dos homens, mas é também a mais difícil de estabelecer, e mais ainda de conservar, e a tal ponto que muitos afirmam que deve ser um Estado de anjos porque os homens, com as suas tendências egoístas, não estão capacitados para uma constituição de tão sublime forma.”

assim, o homem está obrigado a ser um bom cidadão, embora não esteja obrigado a ser moralmente um homem bom.” “Um problema assim deve ter solução.” “O que não se faz, aqui e agora, por negligência, far-se-á finalmente por si mesmo”

«Se a cana se dobrar demasiado quebra; e quem demasiado quer nada quer» Bouterweck

as leis, com o aumento do âmbito de governação, perdem progressivamente a sua força, e também um despotismo sem alma acaba por cair na anarquia, depois de ter erradicado os germes do bem.”

Diversidade das religiões: expressão estranha! Tal como se também se falasse de diferentes morais. Pode, sem dúvida, haver diferentes tipos de fé que não radicam na religião, mas na história dos meios utilizados para o seu fomento (…) mas só pode existir uma única religião válida para todos os homens e em todos os tempos. Por conseguinte, as crenças apenas contêm o veículo da religião que é acidental e pode variar segundo os tempos e os lugares.”

é o espírito comercial que não pode coexistir com a guerra e que, mais cedo ou mais tarde, se apodera de todos os povos.” HAHAHA!

HOPE, WE MISS YOU! “Deste modo, a natureza garante a paz perpétua através do mecanismo das inclinações humanas; decerto com uma segurança que não é suficiente para vaticinar (teoricamente) o futuro, mas que chega, no entanto, no propósito prático, e transforma num dever o trabalhar em vista deste fim (não simplesmente quimérico).”

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O Estado convidará, pois, tacitamente os filósofos (fazendo disso, portanto, um segredo), o que significa tanto como deixá-los falar livre e publicamente sobre as máximas gerais da condução da guerra e do estabelecimento da paz (pois eles farão isso por si mesmos, sempre que não lhes for proibido); e a coincidência dos Estados entre si acerca deste ponto não precisa também de nenhuma razão especial com este propósito, mas reside já na obrigação mediante a razão humana universal (moral e legisladora).”

NÃO SOUBE LER PLATÃO: “Não é de esperar nem também de desejar que os reis filosofem ou que os filósofos se tornem reis, porque a posse do poder prejudica inevitavelmente o livre juízo da razão.”

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não pode existir nenhum conflito entre a política, enquanto teoria do direito aplicado, e a moral, como teoria do direito, mas teorética (não pode, pois, haver nenhum conflito entre a prática e a teoria): deveria então entender-se pela última uma teoria geral da prudência (Klugheitslehre), isto é, uma teoria das máximas para escolher os meios mais adequados aos seus propósitos”

O deus-término da moral não recua perante Júpiter (o deus-término do poder)”

não se deve contar, na execução daquela idéia (na prática) com nenhum outro começo do estado jurídico a não ser o começo pela força, sobre cuja coação se fundará ulteriormente o direito público”

O problema de Kant foi ter elegido uma preferência cedo demais.

Certamente, quando não existe liberdade nem lei moral nela fundada, mas tudo o que acontece ou pode acontecer é simples mecanismo da natureza, então a política (enquanto arte de o utilizar para o governo dos homens) constitui toda a sabedoria prática, e o conceito de direito é um pensamento sem conteúdo.”

O GOLPE DE 2016 E KANT

Máxima sofistas:

1. Fac et excusa (‘Actua e justifica-te.’) Aproveita a ocasião favorável para arbitrariamente entrares na posse (ou de um direito do Estado sobre o seu povo ou sobre outro povo vizinho); a justificação será muito mais fácil e mais elegante depois do fato, e pode dissimular-se a violência (sobretudo no primeiro caso, em que o poder supremo no interior é também a autoridade legisladora a que se deve obedecer, sem usar de sutilezas a seu respeito), do que se antes se quisesse refletir sobre motivos convincentes e esperar ainda as objeções. Esta audácia confere mesmo uma certa aparência de convicção interior à legitimidade do ato e o deus bonus eventus (‘acontecimento favorável’) é, depois, o melhor advogado.

2. Si fecisti nega (‘Se fizeste algo, nega’). O que tu próprio perpetraste, por exemplo, para levar o teu povo ao desespero e assim à

revolta, nega que seja culpa tua; afirma, pelo contrário, que a culpa reside na obstinação do súdito ou, se te apoderas de um povo vizinho, a culpa é da natureza do homem, o qual, se não se antecipa ao outro com violência, pode estar certo de que será este a antecipar-se-lhe e a submetê-lo ao seu poder.” Os Petralhas e a Ursal

3. Divide et impera [‘Cria divisões e vencerás’). Isto é, se no teu povo existem certas personalidades privilegiadas que simplesmente te escolheram como seu chefe supremo (primus inter pares) desune-as e isola-as do povo; fica então ao lado deste último sob a falsa pretensão de maior liberdade e assim tudo dependerá da tua vontade absoluta ou, se se trata de Estados exteriores, a criação da discórdia entre eles é um meio bastante seguro de os submeteres a ti um após outro, sob a aparência de apoiar o mais débil.” O brasileiro é o canalha perfeito: mesmo iletrado, executou a cartilha maquiavélica do <sofista perfeito> kantiano; a Casa Branca, decerto, teve de ler bastante os politicólogos após a II Guerra para consolidar seu Unopoder ou hegemonia.

apenas o fracasso no uso dessas máximas pode levar as grandes potências à vergonha [, mas não a podridão dessas máximas em si ou qualquer consideração moral]”

Embora se possa duvidar de uma certa maldade radicada na natureza dos homens que convivem num Estado e, em vez dela, se possa com alguma aparência aduzir a carência de uma cultura ainda não suficientemente desenvolvida (a barbárie) como causa das manifestações do seu modo de pensamento contrárias ao direito, contudo, nas relações externas dos Estados entre si essa maldade manifesta-se de um modo patente e incontestável. No seio de cada Estado, encontra-se encoberta pela coação das leis civis, pois a tendência dos cidadãos para a violência recíproca é ativamente inibida por um poder maior, a saber, o do governo, e assim não só fornece ao conjunto um verniz moral (causae non causae), mas também em virtude de impedir a erupção de tendências contrárias à lei facilita muito o desenvolvimento da disposição moral ao respeito pelo direito.”

O mundo de nenhum modo perecerá por haver menos homens maus. O mal moral tem a propriedade, inseparável da sua natureza, de se contradizer e se destruir nas suas intenções (sobretudo em relação aos que pensam da mesma maneira), e deixa assim lugar, embora mediante um lento progresso, ao princípio (moral) do bem.” Porém, o processo de deterioração pode ser infinito, sr. Kant.

tu ne cede malis sed contra audentior ito (‘não cedas ao mal, mas enfrenta-o com ousadia’)”

A Providência está assim justificada no curso do mundo, pois o princípio moral nunca se extingue no homem, e a razão, capaz pragmaticamente de realizar as idéias jurídicas segundo aquele princípio, cresce continuamente em virtude do incessante aumento da cultura, mas com ela cresce também a culpa das transgressões.”

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uma máxima que eu não posso manifestar em voz alta sem que, ao mesmo tempo, se frustre a minha própria intenção, que deve permanecer inteiramente secreta se quiser ser bem-sucedida, e que eu não posso confessar publicamente sem provocar de modo inevitável a oposição de todos contra o meu propósito, uma máxima assim só pode obter a necessária e universal reação de todos contra mim, cognoscível a priori, pela injustiça com que a todos ameaça.”

princípio transcendental da publicidade”

PROBLEMA DA JUSTIÇA: “A injustiça da rebelião manifesta-se, pois, em que a máxima da mesma, se se confessasse publicamente, tornaria inviável o seu próprio propósito.”

A autoridade suprema pode dizer livremente que castigará toda a revolução com a morte dos cabecilhas, embora estes continuem a crer que aquela transgredira primeiro, por seu lado, a lei fundamental; pois, se é consciente de possuir o supremo poder irresistível, não deve preocupar-se de que a publicação das suas máximas frustre os seus propósitos; mas se, em consonância com isto, a rebelião do povo triunfar, aquela autoridade suprema deposta não deve recear que se lhe exijam contas por causa do seu anterior governo.” Pena de morte a Hitler por ter se suicidado antes de seu julgamento!

casos de antinomia entre a política e a moral”

Quando começa a mania de simetria kantiana, acaba o possível valor extraível da obra…

SOBRE LA CONTRATRANSFERENCIA – Paula Heimann, 1950. Tradução de Juan V. Gallardo Cuneo

A menudo se señala que no todo lo que siente un paciente hacia su analista se debe a la transferencia, y que, a medida que el análisis progresa, gradualmente aumenta la capacidad del paciente para experimentar <sentimientos más reales>. Esta advertencia misma señala que la diferenciación entre estas dos clases de sentimientos no siempre es fácil.”

Si un analista intenta trabajar sin atender a sus sentimientos, sus interpretaciones serán pobres. He visto a menudo esto en el trabajo de los principiantes, quienes, despreocupados, ignoran o ahogan sus sentimientos.”

POLÍTICA 2.0 (revisitação) – Aristóteles (e cotejo com anotações sucintas de uma primeira leitura, em março de 2011)

Estou cada vez mais convencido de que este livro não passa de um rascunho com anotações desordenadas de um imaturo (ou senil?) Aristóteles, que estava destinado a aprimorar sua obra, mas foi interrompido por um “erro divino” e teve de abandonar seu projeto ou, pois não!, já agonizava na demência e nem que vivesse mais 10 anos poderia dar forma e estilo ao que essencialmente não tem conteúdo nem originalidade algumas (conforme veremos, reiteradamente)…

A natureza, com efeito, não age com parcimônia, como os artesãos de Delfos que forjam suas facas para vários fins; fins; ela destina cada coisa a um uso especial (…) Somente entre os bárbaros a mulher e o escravo estão no mesmo nível. (…) Foi isso que fez com que o poeta acreditasse que os gregos tinham, de direito, poder sobre os bárbaros, como se, na natureza, bárbaros e escravos se confundissem.” “O poeta Hesíodo tinha razão ao dizer que era preciso antes de tudo A casa, e depois a mulher e o boi lavrador, já que o boi desempenha o papel do escravo entre os pobres.”

todos os homens que antigamente viveram e ainda vivem sob reis dizem que os deuses vivem da mesma maneira, atribuindo-lhes o governo das sociedades humanas, já que os imaginam sob a forma do homem.”

Bastar-se a si mesma é uma meta a que tende toda a produção da natureza e é também o mais perfeito estado. É, portanto, evidente que toda cidade está na natureza e que o homem é naturalmente feito para a sociedade política. Aquele que, por sua natureza e não por obra do acaso, existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável, muito acima ou muito abaixo do homem, segundo Homero(*)

Assim, o homem é um animal cívico, mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos.”

O Estado, ou sociedade política, é até mesmo o primeiro objeto a que se propôs a natureza. O todo existe necessariamente antes da parte. As sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as partes integrantes da cidade, todas subordinadas ao corpo inteiro, todas distintas por seus poderes e suas funções, e todas inúteis quando desarticuladas, semelhantes às mãos e aos pés que, uma vez separados do corpo, só conservam o nome e a aparência, sem a realidade, como uma mão de pedra. O mesmo ocorre com os membros da cidade: nenhum pode bastar-se a si mesmo. (*)Aquele que não precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com eles, ou é um deus, ou um bruto.

Por si mesmas, as armas e a força são indiferentes ao bem e ao mal: é o princípio motor que qualifica seu uso. Servir-se delas sem nenhum direito e unicamente para saciar suas paixões rapaces ou lúbricas é atrocidade e perfídia. Seu uso só é lícito para a justiça. O discernimento e o respeito ao direito formam a base da vida social e os juízes são seus primeiros órgãos.”

Chamaremos despotismo o poder do senhor sobre o escravo; marital, o do marido sobre a mulher; paternal, o do pai sobre os filhos (dois poderes para os quais o grego não tem substantivos).”

outros consideram que o poder senhorial não tem nenhum fundamento na natureza e pretendem que esta nos criou a todos livres, e a escravidão só foi introduzida pela lei do mais forte e é, por si mesma, injusta como um puro efeito da violência.”

as propriedades são uma reunião de instrumentos e o escravo, uma propriedade instrumental animada, como um agente preposto a todos os outros meios.”

Se cada instrumento pudesse executar por si mesmo a vontade ou a intenção do agente, como faziam, dizem, as marionetes de Dédalo ou os tripés de Vulcano, que vinham por si mesmos, segundo Homero, aos combates dos deuses, se a lançadeira tecesse sozinha a tela, se o arco tirasse sozinho de uma cítara o som desejado, os arquitetos não mais precisariam de operários, nem os mestres de escravos.”

A vida consiste no uso, não na produção.” “O senhor não é senão o proprietário de seu escravo, mas não lhe pertence; o escravo, pelo contrário, não somente é destinado ao uso do senhor, como também dele é parte. Isto basta para dar uma idéia da escravidão e para fazer conhecer esta condição. O homem que, por natureza, não pertence a si mesmo, mas a um outro, é escravo por natureza”

Mas faz a natureza ou não de um homem um escravo? É justa e útil a escravidão ou é contra a natureza? É isto que devemos examinar agora.” “Não é apenas necessário, mas também vantajoso que haja mando por um lado e obediência por outro; e todos os seres, desde o primeiro instante do nascimento, são, por assim dizer, marcados pela natureza, uns para comandar, outros para obedecer.”

A natureza ainda subordinou um dos dois animais ao outro. Em todas as espécies, o macho é evidentemente superior à fêmea: a espécie humana não é exceção.”

o uso dos escravos e dos animais é mais ou menos o mesmo e tiram-se deles os mesmos serviços para as necessidades da vida.” Tal como abanar na rede e ler uma epopéia…

Vemos corpos robustos talhados especialmente para carregar fardos e outros usos igualmente necessários; outros, pelo contrário, mais disciplinados, mas também mais esguios e incapazes de tais trabalhos, são bons apenas para a vida política, isto é, para os exercícios da paz e da guerra. Ocorre muitas vezes, porém, o contrário: brutos têm a forma exterior da liberdade e outros, sem aparentar, só têm a alma de livre.”

A deusa Hera deve ser feia por dentro.

Além da servidão natural, existe aquela que chamamos servidão estabelecida pela lei; esta lei é uma espécie de convenção geral, segundo a qual a presa tomada na guerra pertence ao vencedor.

Será justo? Sobre isso, os jurisconsultos não chegam a um acordo, nem tampouco, aliás, sobre a justiça de muitas outras decisões tomadas nas assembléias populares, contra as quais eles reclamam. Consideram cruel que um homem que sofreu violência se torne escravo do que o violentou e só tem sobre ele a vantagem da força. Este, pelo menos, é um ponto muito controverso para eles e, se têm muitos contraditores, têm também muitos partidários, mesmo entre os filósofos.” “uns não podem separar o direito da benevolência, outros afirmam que é da própria essência do direito que o mais valente comande. (…) A superioridade de coragem não é uma razão para sujeitar os outros.”

Ora, o escravo faz, por assim dizer, parte de seu senhor: embora separado na existência, é como um membro anexado a seu corpo. Ambos têm o mesmo interesse e nada impede que estejam ligados pelo sentimento da amizade, quando foi a conveniência natural que os reuniu.”

O governo doméstico é uma espécie de monarquia: toda casa se governa por uma só pessoa; o governo civil, pelo contrário, pertence a todos os que são livres e iguais.”

em Siracusa, uma espécie de preceptor abriu uma escola de escravidão e exigia dinheiro para preparar as crianças para este estado, com todos os pormenores de suas funções. Pode haver um ensino completo dessa espécie de profissão, assim como existem preceitos para a cozinha e outros gêneros de serviço, ou mais estimados, ou mais necessários, pois também o serviço tem os seus graus.”

Há servos e servos e há senhores e senhores.”

Quanto à ciência do senhor, como não é nem na aquisição, nem na posse, mas no uso de seus escravos que está o seu domínio, ela se reduz a saber fazer uso deles, isto é, a saber ordenar-lhes o que eles devem saber fazer.” APLICAÇÃO DOMÉSTICA RETROATIVA: Meu pai, senhor, não era um bom administrador, por isso perdeu o controle de seus escravos.

(cont.) “Não há aí nenhum trabalho grande ou sublime, e assim os que têm meios de evitar esse estorvo desembaraçam-se dele com algum intendente, quer para se dedicar à política, quer para se dedicar à filosofia.” Para se dedicar ao trabalho (como escravo de outros senhores), o caso do meu progenitor em particular. Com isso, nenhuma vantagem obteve, pois não havia superintendente. Nossos casos são análogos se eu pensar naquilo em que me dedico, tendo escasso tempo para ordenar uma futura humanidade a fazer o que eu quero. Mas como não viverei para fruir de uma eventual decepção, estou em vantagem. Sempre posso acreditar, até a minha morte, que fui um melhor mestre!

O talento para adquirir um bem parece-se mais com a arte militar ou com a caça.” “A arte de adquirir bens será idêntica à ciência do governo doméstico? Faz parte dela ou será apenas um de seus meios?”

É uma primeira questão dizer se a agricultura, que é apenas uma maneira de obter os alimentos necessários à vida, ou alguma outra indústria que também tenha os alimentos como objeto, pertencem à arte de se enriquecer.”

Mas existe também um outro gênero de bens e de meios que comumente chamamos, e com razão, especulativo, e que parece não ter limites.”

Tampouco foi a natureza que produziu o comércio que consiste em comprar para revender mais caro. A troca era um expediente necessário para proporcionar a cada um a satisfação de suas necessidades. Ela não era necessária na sociedade primitiva das famílias, onde tudo era comum.”

Quando uma tribo tem de sobra o que falta a outra, elas permutam o que têm de supérfluo através de trocas recíprocas; vinho por trigo ou outras coisas que lhes podem ser de uso, e nada mais. Trata-se de um gênero de comércio que não está nem fora das intenções da natureza, nem tampouco é uma das maneiras naturais de aumentar seus pertences, mas sim um modo engenhoso de satisfazer as respectivas necessidades.”

Não era cômodo transportar para longe as mercadorias ou outras produções para trazer outras, sem estar certo de encontrar aquilo que se procurava, nem que aquilo que se levava conviria. Podia acontecer que não se precisasse do supérfluo dos outros, ou que não precisassem do vosso. Estabeleceu-se, portanto, dar e receber reciprocamente em troca algo que, além de seu valor intrínseco, apresentasse a comodidade de ser mais manejável e de transporte mais fácil, como o metal, tanto o ferro quanto a prata ou qualquer outro, que primeiramente se determinou pelo volume ou pelo peso e a seguir se marcou com um sinal distintivo de seu valor, a fim de não se precisar medi-lo ou pesá-lo a toda hora.”

Tendo a moeda sido inventada, portanto, para as necessidades de comércio, originou-se dela uma nova maneira de comerciar e adquirir. A princípio, era bastante simples; depois, com o tempo, passou a ser mais refinada, quando se soube de onde e de que maneira se podia tirar dela o maior lucro possível. É este lucro pecuniário que ela postula; ela só se ocupa em procurar de onde vem mais dinheiro: é a mãe das grandes fortunas. De fato, comumente se faz consistir a riqueza na grande quantidade de dinheiro.” “Ora, é absurdo chamar riquezas um metal cuja abundância não impede de se morrer de fome; prova disso é o Midas da fábula, a quem o céu, para puni-lo de sua insaciável avareza, concedera o dom de transformar em ouro tudo o que tocasse.” “As verdadeiras riquezas são as da natureza; apenas elas são objeto da ciência econômica.”

A outra maneira de enriquecer pertence ao comércio, profissão voltada inteiramente para o dinheiro, que sonha com ele, que não tem outro elemento nem outro fim, que não tem limite onde possa deter-se a cupidez.” “O fim a que se propõe o comércio não tem limite determinado. Ele compreende todos os bens que se podem adquirir; mas é menos a sua aquisição do que seu uso o objeto da ciência econômica; esta, portanto, está necessariamente restrita a uma quantidade determinada.”

O dinheiro serve ao comerciante para dois usos análogos e alternativos: um, para comprar as coisas e revendê-las mais caro; outro, para emprestar e retirar, após o prazo estabelecido, seu capital com juros. Estes dois ramos do seu tráfico não diferem, como se vê, senão porque um interpõe as coisas para aumentar o dinheiro, enquanto o outro o faz servir imediatamente ao seu próprio aumento.”

A coragem, por exemplo, não foi dada ao homem pela natureza para acumular bens, mas para proporcionar tranqüilidade. Não é esse tampouco o objeto da profissão militar, nem o da medicina, tendo uma por objeto vencer, e outra curar.” “elas se tornam o único fim da maioria das pessoas que entram nessas carreiras e subordinam tudo à meta que se propuseram.”

para a família gozar de saúde, convém mais o médico do que o chefe de família; assim como para o abastecimento e a abundância, este cuidado pode caber antes aos ministros do Estado.”

O que há de mais odioso, sobretudo, do que o tráfico de dinheiro, que consiste em dar para ter mais e com isso desvia a moeda de sua destinação primitiva?” “em grego demos à moeda o nome de tokos, que significa progenitura, porque as coisas geradas se parecem com as que as geraram.”

Existem escritores que se ocuparam desses diversos assuntos, tais como Carés de Paros, Apolodoro de Lemnos, autores de tratados sobre a cultura dos campos e dos pomares, e outros ainda, sobre outras matérias. Os curiosos devem consultá-los.”

Como censuravam Tales de Mileto pela pobreza e zombavam de sua inútil filosofia, o conhecimento dos astros permitiu-lhe prever que haveria abundância de olivas. Tendo juntado todo o dinheiro que podia, ele alugou, antes do fim do inverno, todas as prensas de óleo de Mileto e de Quios. Conseguiu-as a bom preço, porque ninguém oferecera melhor e ele dera algum adiantamento. Feita a colheita, muitas pessoas apareceram ao mesmo tempo para conseguir as prensas e ele as alugou pelo preço que quis. Tendo ganhado muito dinheiro, mostrou a seus amigos que para os filósofos era muito fácil enriquecer, mas que eles não se importavam com isso. Foi assim que mostrou sua sabedoria. Em geral, o monopólio é um meio rápido de fazer fortuna. Assim, algumas cidades, quando precisam de dinheiro, usam desse recurso. Reservam-se a si mesmas a faculdade de vender certas mercadorias e, por conseguinte, de fixar seus preços como querem.

Na Sicília, um homem que obtivera vários depósitos de dinheiro apoderou-se dos ferros das forjas. Quando os mercadores vieram de todas as partes para obtê-los, só ele pôde vendê-los, contentando-se com o dobro, de maneira que o que lhe custara 50 talentos vendia por 100. Dionísio, o tirano, informado do caso, não confiscou seu lucro, mas ordenou-lhe que saísse de Siracusa por ter imaginado, para enriquecer, um expediente prejudicial aos interesses do chefe de Estado. Aquele homem tivera a mesma idéia que Tales: ambos do monopólio fizeram uma arte.”

É bom que os que governam os Estados conheçam esse recurso, pois é preciso dinheiro para as despesas públicas e para as despesas domésticas, e o Estado está menos do que ninguém em condições de dispensá-lo. Assim, o capítulo das finanças é quase o único a que alguns prestam atenção.”

A autoridade dos pais sobre os filhos é uma espécie de realeza; todos os títulos ali se encontram: o da geração, o da autoridade afetuosa e o da idade. É até mesmo o protótipo da autoridade real; foi o que fez com que Homero dissesse de Zeus:

É o pai imortal dos homens e dos deuses¹

¹ Interessante que é uma paternidade “que não passa”; além do mais, Zeus segue eternamente mais jovem que seus ancestrais. Ele não é o protótipo da realeza, mas do despotismo.

Deve uma mulher ser sábia, corajosa e justa? Deve uma criança ter contenção e sobriedade?”

Se as mesmas qualidades lhes são necessárias, por que então o mando cabe a um e a obediência a outro? A diferença entre os dois não é do mais para o menos, mas sim específica e produz efeitos essencialmente diversos.” Ininteligível.

Todos têm, portanto, virtudes morais, mas a temperança, a força, a justiça não devem ser, como pensava Sócrates, as mesmas num homem e numa mulher. A força de um homem consiste em se impor; a de uma mulher, em vencer a dificuldade de obedecer.”

Mais vale, como Górgias, estabelecer a lista das virtudes do que se deter em semelhantes definições e imitar, no mais, a precisão do poeta que disse que

um modesto silêncio é a honra da mulher,

ao passo que não fica bem no homem.”

um profissional está numa espécie de servidão limitada; mas a natureza que faz os escravos não faz os sapateiros, nem os outros artesãos.”

A educação das mulheres e das crianças deve ser da alçada do Estado, já que importa à felicidade do Estado que as mulheres e as crianças sejam virtuosas.”

O Estado é o sujeito constante da política e do governo; a constituição política não é senão a ordem dos habitantes que o compõem.”

Alguém que é cidadão numa democracia não o é numa oligarquia.” “É cidadão aquele que, no país em que reside, é admitido na jurisdição e na deliberação. É a universalidade deste tipo de gente, com riqueza suficiente para viver de modo independente, que constitui a cidade ou o Estado. O costume é dar o nome de cidadão apenas àquele que nasceu de pais cidadãos. De nada serviria que o pai o fosse, se a mãe não for.”

Operários (artesãos, comerciantes) livres não são cidadãos. As obras da virtude são impraticáveis para quem quer que leve uma vida mecânica e mercenária.” “Em Tebas, o próprio comércio dificulta o acesso à cidadania. Havia uma lei que exigia que se tivesse fechado a loja e deixado de vender há dez anos para ser admitido.”

HOMEM DE BEM X BOM CIDADÃO

  • virtudes absolutas (nobreza)¹ X virtude limitada ou específica (mediania)

  • Todo homem de bem é bom cidadão.

  • Poucos bons cidadãos são também homens de bem.

  • Sempre comanda (porém, via de regra, em Ari., quem sabe comandar também sabe obedecer)¹ X deve sempre saber obedecer e não lhe está vedado saber comandar (ex: o soldado de ontem pode ser o general de amanhã, que é um servo do governo)

¹ Segundo Aristóteles, as mulheres não estão excluídas da classe suprema (homens de bem), mas suas limitações são evidentes (devem mais obedecer que comandar, ser discretas, guardar-se de atos de valentia).

num grupo de dançarinos, é preciso mais talento para o papel de corifeu do que para o de corista. A desigualdade de mérito é, pois, evidente.”

Entre as pessoas que estão em servidão, é preciso contar os trabalhadores manuais que vivem, como indica seu nome, do trabalho de suas mãos e os artesãos que se ocupam dos ofícios sórdidos.” Definição do “idiota político” clássico (ou antigo), que não é nem homem de bem nem cidadão.

Ah, a poluição da palavra!

* * *

Aqueles que se propõem [a] dar aos Estados uma boa constituição prestam atenção principalmente nas virtudes e nos vícios que interessam à sociedade civil, e não há nenhuma dúvida de que a verdadeira cidade (a que não o é somente de nome) deve estimar acima de tudo a virtude.

Sem isso, não será mais do que uma liga ou associação de armas, diferindo das outras ligas apenas pelo lugar, isto é, pela circunstância indiferente da proximidade ou do afastamento respectivo dos membros. Sua lei não é senão uma simples convenção de garantia, capaz, diz o sofista Licofrão, de mantê-los no dever recíproco, mas incapaz de torná-los bons e honestos cidadãos.”

Eles fizeram um pacto de não-agressão no que toca a seus comércios e até prometeram tomar armas para sua mútua defesa, mas não têm outra comunicação a não ser o comércio e seus tratados. Mais uma vez, esta não será uma sociedade civil. Por quê, então?” “A cidade, portanto, NÃO é precisamente uma comunidade de lugar, nem foi instituída simplesmente para se defender contra as injustiças de outrem ou para estabelecer comércio. Tudo isso deve existir antes da formação do Estado, mas não basta para constituí-lo.”

É isto o que chamamos uma vida feliz e honesta. A sociedade civil é, pois, menos uma sociedade de vida comum do que uma sociedade de honra e de virtude.”

PAI & FILHO, CARA & COROA: “Todos vemos que não é pelos bens exteriores que se adquirem e conservam as virtudes, mas sim que é pelos talentos e virtudes que se adquirem e conservam os bens exteriores e que, quer se faça consistir a felicidade no prazer ou na virtude, ou em ambos, os que têm inteligência e costumes excelentes a alcançam mais facilmente com uma fortuna medíocre do que os que têm mais do que o necessário e carecem dos outros bens.” “Os bens da alma não são apenas honestos, mas também úteis, e quanto mais excederem a medida comum, mais terão utilidade.” “A felicidade é muito diferente da boa fortuna. Vêm-nos da fortuna os bens exteriores, mas ninguém é justo ou prudente graças a ela, nem por seu meio.”

Que vida preferir, a que toma parte do governo e dos negócios públicos ou a vida retirada e livre de todos os embaraços do gênero? Não entra no plano da Polítíca determinar o quê pode convir a cada indivíduo, mas sim o que convém à pluralidade. Em nossa Étíca, aliás, tratamos do primeiro ponto.

AS MELHORES CONSTITUIÇÕES APUD GRÉCIA ANTIGA: “Em Esparta e em Creta, a quase totalidade de sua disciplina e de suas numerosas regras é dirigida para a guerra. Em todas as nações que têm o poder de crescer, entre os citas, entre os persas, entre os trácios, entre os celtas, não há nenhuma profissão mais estimada do que a das armas. Em alguns lugares, existem leis para estimular a coragem guerreira. Em Cartago, as pessoas são decoradas com tantos anéis quantas foram as campanhas que fizeram. Na Macedônia, uma lei pretendia que aqueles que não houvessem matado nenhum inimigo tivessem que andar de cabresto. Entre os citas, aquele que estivesse nesse caso sofria a afronta de não beber à roda, na taça das refeições solenes. A Ibéria, nação belicosa, levanta ao redor das tumbas tantos obeliscos quantos inimigos o defunto matou.”

Não é ofício nem do médico nem do piloto persuadir ou fazer violência, um a seus doentes, o outro a seus marinheiros. Mas muitos parecem considerar a dominação como o objeto da política, e aquilo que não cremos nem justo nem útil para nós não temos vergonha de tentar contra os outros.” “Se a natureza estabeleceu esta distinção, pelo menos não se deve tentar dominar a todos, mas apenas aos que só servem para serem submetidos. É assim que não se vai à caça para pegar os homens e comê-los ou matá-los, mas apenas para pegar os animais selvagens que são comestíveis.

não é exato elevar a inação acima da vida ativa, já que a felicidade consiste em ação, e as ações dos homens justos e moderados têm sempre fins honestos.”

Entre semelhantes, a honestidade e a justiça consistem em que cada um tenha a sua vez. Apenas isto conserva a igualdade. A desigualdade entre iguais e as distinções entre semelhantes são contra a natureza e, por conseguinte, contra a honestidade. Se, porém, se encontrasse alguém que ultrapassasse todos os outros em mérito e em poder e tivesse provado seu valor com grandes façanhas, seria belo ceder a ele e justo obedecer-lhe. Mas não basta ter mérito, é preciso ter bastante energia e atividade para estar certo do êxito.”

Como a maioria dos homens tem mania de dominar os outros para obter todas as comodidades, Tíbron e todos os que escreveram sobre o governo de Esparta parecem admirar seu legislador por ter aumentado muito seu império, tendo exercitado a nação nos perigos da guerra. Mas, agora que os espartanos não dominam mais, deixaram de ser felizes, e seu legislador de merecer sua reputação. Não é ridículo que, persistindo sob as leis de Licurgo e não tendo nada que os impedisse de valer-se delas, eles tenham deixado escapar sua felicidade?”

Não é um sinal de sabedoria para o legislador treinar seu povo para vencer seus vizinhos. Disso só podem resultar grandes males, e aquele que for bem-sucedido não vai deixar de investir contra a sua própria pátria e, se puder, de assenhorear-se dela. Essa é a censura que os espartanos fazem ao rei Pausânias, cuja ambição não se contentou com este alto grau de honra.”

Ao fazer a guerra, vários Estados se conservaram, mas, assim que conquistaram a superioridade, entraram em decadência, semelhantes ao ferro que se enferruja pela inação.”

Não há repouso para os escravos, diz o provérbio. Ora, os que não têm coragem para se expor aos perigos tornam-se escravos de seus agressores.”

os que parecem felizes e, semelhantes aos habitantes das Ilhas Afortunadas de que falam os poetas, gozam de tudo o que pode contribuir para a felicidade, precisam mais do que os outros de justiça e de temperança. Quanto mais opulência e lazer tiverem, mais precisarão de filosofia, de moderação e de justiça, e o Estado que quiser ser feliz e florescente deve inculcar-lhes estas virtudes o máximo possível. Se há algo de ignóbil em não saber gozar das riquezas, há bem mais ainda em fazer mau uso delas quando só se tem isso para fazer. É revoltante que homens, aliás, dignos de estima nos trabalhos e nos perigos da guerra se comportem como escravos no descanso e na paz.”

há dois tipos de hábitos, uns apaixonados, ou provindos da sensibilidade, outros intelectuais. E, assim como o corpo é gerado antes da alma, a parte carente de razão o é, igualmente, antes da razoável. Isto se observa pelos rasgos de cólera, pelos desejos e pelas vontades mostradas pelas crianças tão logo nascem.”

deve preocupar-se com a sucessão das crianças; que não haja entre elas e os pais uma distância de idade grande demais, pois neste caso os filhos não podem mostrar seu reconhecimento aos pais na velhice, nem os pais podem ajudar seus filhos tanto quanto preciso.”

O final da procriação ocorre, para os homens, aos 70 anos; para as mulheres, aos 50. Sua união deve começar na mesma proporção. A dos adolescentes não vale nada para a progenitura. Em todas as espécies animais, os frutos prematuros de sujeitos jovens demais, sobretudo se se tratar da fêmea, são imperfeitos, fracos e de pequena estatura. O mesmo ocorre com a espécie humana. Observa-se, com efeito, esta imperfeição em todos os lugares em que as pessoas se casam jovens demais. Só nascem abortos.” Continuando com a proporção 70/50: 20/14, 30/21, 40/28, 50/35…

Aquelas que conhecem cedo demais o uso das familiaridades conjugais são de ordinário mais lascivas. Por outro lado, nada retarda ou detém mais depressa o crescimento dos moços jovens do que se entregar cedo demais ao relacionamento com as mulheres, sem esperar que a natureza tenha neles elaborado completamente o licor prolífico. Há para o crescimento uma época precisa, além da qual não se cresce mais.”

verdadeira idade para casar as moças é aos 18 anos e para os homens aos 37, aproximadamente. Com isso a conjunção dos corpos se fará em pleno vigor, e a geração, depois, terminará num tempo conveniente tanto para um como para outro. Da mesma forma, a sucessão dos filhos a seus pais estará melhor colocada, se nascerem convenientemente no intervalo entre a força da idade e o declínio, que começa por volta dos 70.” [!!!]

Quanto à estação do ano própria à geração, o inverno é a que mais convém, como hoje se observa quase em toda parte.” “os físicos ensinam que ventos são favoráveis ao ato sexual; por exemplo, eles preferem o vento do norte ao do sul.”

Diremos somente que a compleição atlética não é útil nem à saúde, nem à geração, nem aos empregos civis; o mesmo ocorre com os corpos fracos, acostumados ao regime médico.”

Pedonomia: parte da pedagogia que estipula as regras (formas) da aplicação da pedagogia, i.e., do conteúdo em si da educação.

Se o corpo precisa de movimento, o espírito necessita de repouso e de tranqüilidade. No ventre da mãe os filhos recebem, como os frutos da terra, a impressão do bem e do mal.”

Sobre o destino das crianças recém-nascidas, deve haver uma lei que decida os que serão expostos e os que serão criados. Não seja permitido criar nenhuma que nasça mutilada, isto é, sem algum de seus membros; determine-se, pelo menos, para evitar a sobrecarga do número excessivo, se não for permitido pelas leis do país abandoná-los, até que número de filhos se pode ter e se faça abortarem as mães antes que seu fruto tenha sentimento e vida, pois é nisto que se distingue a supressão perdoável da que é atroz.” Até eugênicos antigos têm escrúpulos morais “anteprotestantes”…

Desde os primeiros momentos do nascimento, é bom acostumar as crianças ao frio; isto faz um bem infinito à saúde e dispõe às funções militares.”

Na idade seguinte, até os cinco anos, não é conveniente dar nada para as crianças aprenderem, nem submetê-las a qualquer trabalho. Isto poderia impedir seu crescimento. Basta mantê-las em movimento para preservar seus corpos da preguiça e do peso. Este movimento deve consistir apenas nas funções da vida e nas brincadeiras, tomando cuidado somente para que elas não sejam nem desonestas nem penosas, nem destituídas demais de ação.”

Em certos lugares, comete-se o erro de proibir à criança o choro e os movimentos expansivos. Todos estes atos servem para seu desenvolvimento e fazem parte, por assim dizer, dos exercícios corporais. O ato de reter a respiração dá força aos que trabalham. Isto também ocorre no próprio esforço das crianças para gritar.”

impedir muita conversa e familiaridade, sobretudo com os escravos.”

SIGA SEU MESTRE: “Se proibimos as conversas indecentes, com mais forte razão proibiremos as pinturas e as exibições do mesmo gênero. Os magistrados, portanto, não admitirão nem estátuas, nem pinturas lúbricas, a não ser as de certas divindades cujo culto a lei reserva aos homens adultos, a quem ela permite sacrifícios, tanto por eles quanto por suas mulheres e crianças.”

Também se deve proibir aos jovens os teatros e sobretudo a comédia, até que tenham atingido a idade de participar das refeições públicas e a boa educação os tenha colocado em condições de experimentar impunemente a bebedeira dos banquetes, sem contrair a embriaguez ou os outros vícios que a acompanham. Passaremos rapidamente por esta matéria, para voltar a ela uma outra vez e discutir se este costume deve ser mantido, e como.

Não há de se aprovar, segundo cremos, a partilha que fazem certas pessoas que dividem toda a vida de 7 em 7 anos. Mais vale seguir o ritmo da natureza. Ela apenas esboçou suas obras. A obra da educação, assim como a de todas as artes, deve unicamente completar o que falta ao ser das obras da natureza.”

Como não há senão um fim comum a todo o Estado, só deve haver uma mesma educação para todos os súditos. Ela deve ser feita não em particular, como hoje, quando cada um cuida de seus filhos, que educa segundo sua fantasia e conforme lhe agrada; ela deve ser feita em público. Tudo o que é comum deve ter exercícios comuns. É preciso, ademais, que todo cidadão se convença de que ninguém é de si mesmo, mas todos pertencem ao Estado, de que cada um é parte e que, portanto, o governo de cada parte deve naturalmente ter como modelo o governo do todo.”

Não se sabe se se deve ensinar às crianças as coisas úteis à vida ou as que conduzem à virtude, ou as altas ciências, que se podem dispensar. Cada uma destas opiniões tem seus partidários. Não há nem mesmo nada de certo a respeito da virtude, não sendo o mesmo gênero de virtude apreciado unanimemente. Também se diverge sobre o gênero de exercícios a praticar.”

Não é fora de propósito conceder algum tempo a certas ciências, mas entregar-se a elas por inteiro e querer ser consumado nelas não deixa de ter seus inconvenientes e pode ser nocivo às graças da imaginação.”

Quanto à música, sua utilidade não é igualmente reconhecida. Muitos hoje a aprendem apenas por prazer. Mas os antigos fizeram dela, desde os primeiros tempos, uma parte da educação, pois a natureza não procura apenas dar exatidão às ações, mas também dignidade ao repouso. A música é o princípio de todos os encantos da vida.”

Se possível, é melhor descartar o jogo entre as ocupações. Quem trabalha precisa de descanso: o jogo não foi imaginado senão para isto. O trabalho é acompanhado de fadiga e de esforços. É preciso entremeá-lo convenientemente de recreações, como um remédio.”

Não que ela seja necessária: ela não o é. Não que ela tenha tanta importância quanto a escrita, que serve para o comércio, para a administração doméstica, para as ciências e para a maioria das funções civis, ou quanto a pintura, que nos permite julgar melhor a obra dos artistas, ou quanto a ginástica, que ajuda a saúde e o desenvolvimento das forças; a música não faz nada disso. Mas ela serve pelo menos para passar agradavelmente o lazer. É por isso que ela foi posta na moda. Ela pareceu a seus inventores a diversão mais conveniente às pessoas livres.

Existem povos que não evitam os massacres e são ávidos de carne humana, mas que, quando atacados, são tudo, menos valentes; por exemplo, os aqueus e os heniocos do Ponto Euxino, e outras nações mais distantes que pertencem às terras da mesma região, sendo que as outras preferem a profissão de ladrões.”

Aqueles que expõem em demasia os jovens aos exercícios do ginásio e os deixam sem instrução sobre as coisas mais necessárias, fazem deles, na verdade, apenas reles guarda-costas, que servem no máximo para uma das funções da vida civil, uma função, porém, que, se consultarmos a razão, é a menor de todas. Não é por suas proezas antigas, mas sim pelas do presente que devem ser julgados.”

até a puberdade só se praticarão exercícios leves, sem sujeitar os corpos aos excessos de alimentação, nem aos trabalhos violentos, por temor de que isso impeça o crescimento. A prova do efeito funesto deste regime forçado é que entre os que venceram nos jogos olímpicos em sua juventude dificilmente se encontrarão dois ou três que também venceram numa idade mais avançada. Por que isto? Porque a violência dos exercícios a que se tinham submetido desde a infância esgotara sua força e seu vigor.”

PRÉ-ROUSSEAU: “Com efeito, não se deve atormentar ao mesmo tempo o espírito e o corpo. Desses exercícios, um impede o outro; o do corpo é nocivo ao espírito, e o do espírito ao corpo.”

Se estiver em nosso poder escolhê-la segundo o desejo, a situação da Cidade deve ser próxima do mar e do campo; assim, a ajuda seria fácil de um lugar para outro e de toda parte, assim como a exportação e a importação das mercadorias. Haveria comodidade para transportar a madeira e todos os outros materiais do país.” “a comodidade do mar faz com que se envie para o exterior ou se receba na cidade uma multidão de mercadores, o que é igualmente pernicioso para o Estado.” “Somente a atração do lucro faz com que estabeleça em seu território mercados abertos a todos. Há aí uma avareza condenável, e não é assim que um Estado ou uma cidade devem praticar o comércio.”

Os soldados da marinha, pelo contrário, são livres e, assim como seus oficiais, provêm da infantaria. São eles que comandam os marinheiros [que, diferente dos soldados da marinha, não são cidadãos]. Quanto à tripulação, é completada com camponeses e lavradores dos arredores. É o que se pratica em certos lugares, por exemplo Heracléia, cujas galeras estão sempre bem-tripuladas, embora a cidade seja muito menor do que várias outras.”

se as águas são raras ou de diversas qualidades, deve-se separar, como se faz nas cidades bem-cuidadas, as que são boas para beber das que podem servir para outros usos.”

no que se refere às casas particulares, elas serão bem mais agradáveis e mais cômodas se seu espaço for bem-distribuído, com uma estrutura à maneira moderna, ao gosto de Hipódamos.¹”

¹ Hipódamos de Mileto foi um polímata do século V a.C., tido como fundador da concepção de Planejamento Urbano, que estendia a preocupação da arquitetura para toda a polis em si. Planejou pela primeira vez a simetria geométrica da disposição das ruas e das casas e, ao mesmo tempo, a existência de um centro despovoado e amplamente aberto, i.e., a Ágora. As casas que ele planejou eram mais espaçosas e tinham dois andares.

Não se alinharão todas as ruas de um extremo ao outro, mas apenas certas partes, tanto quanto o permitir a segurança e o exigir a decoração.”

Embora não seja muito honroso opor muros de defesa a guerreiros da mesma têmpera que não têm uma grande vantagem numérica, é possível que os sitiantes consigam um tal acréscimo de forças que todo valor humano, mas com poucas pessoas, não possa resistir-lhes. Portanto, se não se quer morrer, nem se expor ao ultraje, deve-se considerar como uma das medidas mais autorizadas pelas leis da guerra manter suas muralhas no melhor estado de fortificação, principalmente hoje, quando se imaginaram tantos instrumentos e máquinas engenhosas para atacar fortificações. Não querer cercar as cidades com muros é como abrir o país às incursões dos inimigos e retirar os obstáculos de sua frente, ou como se recusar a fechar com muros as casas particulares, de medo que os que nelas habitam se tornem medrosos.”

é claro que num Estado tão perfeitamente constituído que não admita como cidadãos senão pessoas de bem, não apenas sob certos aspectos, mas integralmente virtuosos, não devemos contar entre eles aqueles que exercem profissões mecânicas ou comerciais, sendo esse gênero de vida ignóbil e contrário à virtude” TERCEIRA REPETIÇÃO!

primeiro, na juventude, o comando da força armada para defender o Estado; depois, quando maduros, a autoridade para governá-lo.”

Convém não ligar ao culto divino senão cidadãos, e não se devem educar para o sacerdócio nem lavradores que puxam arado, nem trabalhadores que saem de sua forja. Tendo a universalidade dos cidadãos sido dividida em duas classes, a dos homens de guerra e a dos homens de lei, é aí que se devem tomar os ministros da religião.”

Esta necessidade de dividir o Estado em classes diversas, segundo a variedade das funções, e de separar os homens de guerra dos lavradores não é uma invenção de hoje, nem um segredo recém-descoberto pelos filósofos que se ocupam de política. Tal distinção foi introduzida no Egito pelas leis de Sesóstris e em Creta pelas de Minos.¹ Elas ainda subsistem atualmente nestes lugares.”

¹ Afinal de contas Minos ter existido como homem de carne e osso é hipótese tão verossímil quanto com Licurgo e Sólon?

Os sábios do país contam que um certo Italus foi rei na Enótria. Os habitantes tomaram seu nome e, em vez de enotrianos, se chamaram italianos. O nome de Itália ficou também para a costa da Europa entre o golfo de Cilética e o golfo Lamético, distantes meia jornada um do outro. Segundo estes historiadores, foi Italus quem, de pastores errantes, tornou os enotrianos lavradores sedentários. Entre outras leis que lhes deu, estabeleceu pela primeira vez que comessem juntos. Este costume ainda hoje se observa entre alguns de seus descendentes, assim como algumas outras de suas leis. Os ópicos, antigamente chamados ou cognominados ausônios, nome que lhes ficou, habitavam a costa do Tirreno; e os caonianos, descendentes dos enotrianos, a praia chamada Sirtes, entre a Lapígia e a Jônia.”

É bem crível que muitas outras coisas foram inventadas várias vezes, talvez ao infinito, na longa seqüência dos séculos. Ao que parece, inicialmente a necessidade inventou as coisas necessárias; em seguida, por adjunção, as que servem para um maior conforto e para ornamento. O mesmo ocorre com a legislação e as constituições civis. Podemos conjeturar como elas são antigas pelo exemplo dos egípcios, que remontam à mais alta antiguidade e desde sempre tiveram leis e uma constituição. Cabe a nós aproveitar suas boas invenções e lhes acrescentar o que lhes falta.”

Todos concordam que as mesas comuns e as refeições públicas convêm às cidades bem-organizadas politicamente. Isto também nos agrada, mas é preciso que nelas todos os cidadãos sejam recebidos gratuitamente; caso contrário, não será fácil para aqueles que só têm o estrito necessário fornecer a sua parte e ainda arcar com o sustento de sua família.”

* * *

DA CÉLEBRE DIVISÃO ENTRE AS FORMAS DE GOVERNO

MODALIDADES IDEAIS: “Chamamos monarquia (1) o Estado em que o governo que visa a este interesse comum pertence a um só; aristocracia (2), aquele em que ele é confiado a mais de um, denominação tomada ou do fato de que as poucas pessoas a que o governo é confiado são escolhidas entre as mais honestas, ou de que elas só têm em vista o maior bem do Estado e de seus membros [aristo+cracia = governo dos melhores]; república (3), aquele em que a multidão governa para a utilidade pública; este nome também é comum a todos os Estados.

MODALIDADES CORROMPIDAS: “A tirania (4) não é, de fato, senão a monarquia voltada para a utilidade do monarca; a oligarquia (5), a aristocracia voltada para a utilidade dos ricos; a democracia (6), a república voltada para a utilidade dos pobres.”

A oligarquia estabeleceu-se desde os tempos mais remotos em todos os lugares que tinham na cavalaria a sua principal força, como os eretrianos, os de Cálcides, os magnésios do Meandro e vários outros povos asiáticos. Montava-se a cavalo para combater os inimigos dos arredores.”

1. MONARQUIA

No Estado de Esparta,¹ p.ex., há uma monarquia das mais legítimas, mas o poder do rei não é absoluto, a não ser quando o monarca estiver fora de seus Estados e em situação de guerra, pois então ele tem a autoridade suprema sobre seu exército. Além disso, ele tem no interior a superintendência do culto e das coisas sagradas. Esta espécie de monarquia não é, pois, senão um generalato perpétuo, com plenos poderes, sem porém ter o direito de vida e de morte, a não ser em certo domínio ou, nas expedições militares, quando se está combatendo, como era costume antigamente. É o que se chama lei do golpe de mão. Homero refere-se a ela. Segundo ele, Agamêmnon, na Assembléia do povo, tolerava as palavras menos respeitosas. Fora dali, de armas na mão, tinha o poder de morte sobre os soldados delinqüentes.”

¹ Platão e Montesquieu, por exemplo, recusam o status de monarquia a Esparta/Lacedemônia.

O comando militar inamovível é, portanto, um primeiro tipo de monarquia, sendo umas hereditárias e outras eletivas.”

DESACERTO NOS CRITÉRIOS: “Tendo os bárbaros naturalmente a alma mais servil do que os gregos e os asiáticos, eles suportam mais do que os europeus, sem murmúrios, que sejam governados pelos senhores. É por isso que essas monarquias, embora despóticas, não deixam de ser estáveis e sólidas, fundadas que são na lei e transmissíveis de pai para filho. Pela mesma razão, sua guarda é real, e não tirânica, pois os reis são protegidos por cidadãos armados, ao passo que os déspotas recorrem a estrangeiros. Aqueles governam de acordo com a lei súditos de boa vontade; estes, pessoas que só obedecem contrafeitas. Aqueles são protegidos pelos cidadãos; estes, contra os cidadãos. São, portanto, dois tipos diferentes de monarquia.”

Antes do aparecimento da figura de um César, A. prefigura a instituição do ditador da República Romana final, no plano teóricoa, como sendo um governo monárquico não-tirânico, posto que legal. É verdade que matiza este raciocínio depois: “Estes principados são, portanto, ao mesmo tempo despóticos pela maneira com que a autoridade é exercida e reais pela eleição e submissão espontânea do povo.” Este último critério transformaria quase todos os governos atuais da Terra em monarquias constitucionais, quando vemos não passar de tiranias, se é para dicotomizar entre as duas! Hitler como um monarca constitucional seria uma piada de humor negro. Mas é ao que a taxonomia aristotélica conduz…

Os reis dos primeiros séculos tinham autoridade sobre todos os negócios de Estado, tanto dentro quanto fora, e para sempre. A partir daí, quer porque abandonaram por si mesmos uma parte da autoridade, quer porque tenham sido despojados dela pelo povo, foram reduzidos em alguns Estados à simples qualidade de soberanos sacrificadores ou pontífices e, nos lugares onde se conservou o nome de rei, à simples faculdade de comandar os exércitos além das fronteiras.”

2. ARISTOCRACIA

O nome de aristocracia convém perfeitamente ao regime que já mencionamos acima, pois não se deve, com efeito, dar este nome senão à magistratura composta de pessoas de bem sem restrição e não a essas boas pessoas em que toda a retidão se limita ao patriotismo.”

Aristóteles perde a mão em suas classificações, sem uma exceção sequer! “Há um ar de aristocracia em toda parte onde se observa a virtude, embora sejam prezadas também a riqueza e a popularidade, como entre os espartanos, que unem a popularidade às considerações devidas à virtude. São estas duas espécies de aristocracia, além da primeira [essas subdivisões não guardam o menor interesse], as únicas a merecerem o nome de excelente e perfeita República [no sentido lato: todos os seis governos!].”

3. “REPÚBLICA” (é o próprio Aristóteles que coloca o título entre aspas!)

Reservamo-la para o final [meio!] não por ser uma depravação da aristocracia, de que acabamos de falar (pois é normal começar, como fizemos, pelas formas puras e depois ir às formas desviadas), mas porque ela reúne o que há de bom em dois regimes degenerados, a oligarquia e a democracia.

Na oligarquia, a lei não concede aos pobres nenhum salário para administrar a justiça e estabelece penas contra os ricos, caso se recusem a fazer parte de uma assembléia; na democracia, a lei dá um salário aos pobres mas não aplica nenhuma pena aos ricos. A mistura conveniente ao Estado, que ocupa o meio entre estes governos e é composta pelos dois, é conceder o salário aos pobres e aplicar a multa aos ricos.” “É democrático, por exemplo, escolher os magistrados por sorteio; oligárquico, elegê-los; democrático, não considerar a renda”

SÓ PIORA: “É o que se observa em Esparta: muitos, com efeito, a colocam na classe das democracias, porque ela tem muitas instituições dessa natureza. [!!!] Na educação das crianças, a comida é a mesma para os filhos dos ricos e para os dos pobres, a mesma instrução, a mesma severidade no trato; na idade seguinte, o mesmo gênero de vida quando se tornam homens.”

Apenas definições negativas e compósitas de “república”, além de ininteligíveis! Desistam de se apoiar nesses conceitos aristotélico, pelo BEM de todos nós!

4. TIRANIA

Quanto mais a monarquia se aproxima idealmente do governo celeste, mais sua alteração é detestável. A monarquia não passa de um vão nome, se não se distingue pela grande excelência de quem reina. O vício mais diametralmente contrário a sua instituição é a tirania. Portanto, é também o pior dos governos.”

5. OLIGARQUIA

Os postos são concedidos aos mais ricos e nomeiam a si próprios em caso de vacância. Se a escolha se fizesse entre todos, seria aristocrática; o que a torna oligárquica é que ela se faz numa classe determinada. Todavia, não sendo poderosos o suficiente para governar sem leis, transformam em leis a preferência que se arrogam.

Se seu número diminuir e sua riqueza tiver novos aumentos, forma-se um segundo grau de oligarquia, no qual, aproveitando a ascendência que adquiriram por seus postos, fazem com que se ordene por uma nova lei que seus filhos serão seus sucessores.”

Tendo aumentado ainda mais sua riqueza e seu crédito, a potência dos oligarcas aproxima-se da monarquia. Este vício é semelhante tanto à tirania que se introduz nas monarquias quanto à última espécie de democracia, de que falaremos. Chama-se dinastia ou, mais exatamente, politirania.”

6. DEMOCRACIA

INDIRETA A PLATÃO? “Não se deve, como costumavam fazer certas pessoas, definir simplesmente a democracia como o governo em que a maioria domina. Nas próprias oligarquias e em qualquer outra parte, é sempre a maioria que se sobressai.”

Se os poderes se distribuíssem de acordo com a estatura [!], como acontece, segundo certos autores, na Etiópia, ou de acordo com a beleza [Ganimedolândia ou quiçá Ilha dos alcibíadas], haveria oligarquia, porque a beleza e a alta estatura não pertencem à maioria.”

Aristóteles se esquece do espírito de um governo e da tendência das sociedades. Procura uma classificação tirando fotos, ou seja, espúria e ingênua.

Uns e outros abundam em alguns lugares, como os pescadores em Tarento e em Bizâncio, os marinheiros em Atenas, os negociantes na ilha de Egina e em Quios, os barqueiros em Tenedos. Devem-se juntar a eles os trabalhadores manuais e todos os que não são abastados o suficiente para ficar sem fazer nada, os que não nasceram de pai e mãe livres e toda espécie de populaça semelhante.”

Como o Estado não pode existir sem magistrados e precisa de homens capazes de realizar suas funções, precisa também de pessoas que executem suas ordens e estejam encarregadas do serviço, quer para sempre, quer alienadamente.”

A CARICATURA ARISTOTÉLICA (JULGA QUE NÃO HÁ DINÂMICA DE CLASSES OU ESTRATOS, E QUE QUEM ASCENDE AO PODER NÃO ENRIQUECE NEM SE DISTINGUE EM POUCO TEMPO): “A quarta é aquela que se introduziu em último lugar nas Cidades que se tornaram maiores e mais opulentas do que eram nos primeiros tempos. Ela exibe a igualdade absoluta, isto é, a lei coloca os pobres no mesmo nível que os ricos e pretende que uns não tenham mais direito ao governo do que os outros, mas que a condição destes e daqueles seja semelhante. Pois se a alma da democracia consiste, como pensam alguns, na liberdade, sendo todos iguais a este respeito, devem ter a mesma parte nos bens civis e principalmente nos grandes cargos; e, como o povo é superior em número e o que agrada à pluralidade é lei, tal Estado deve necessariamente ser popular. Mas, se todos são indistintamente admitidos no governo, é a massa que se sobressai e, sendo os pobres assalariados, podem deixar o trabalho e permanecer ociosos, não os retendo em casa a preocupação com seus próprios negócios. É, pelo contrário, um obstáculo para os ricos que não assistem às Assembléias nem se preocupam com o papel de juiz. Resulta daí que o Estado cai no domínio da multidão indigente e se vê subtraído ao império das leis. Os demagogos calcam-nas com os pés e fazem predominar os decretos. Tal gentalha é desconhecida nas democracias que a lei governa. Os melhores cidadãos têm ali o primeiro lugar. Mas onde as leis não têm força pululam os demagogos. O povo torna-se tirano. Trata-se de um ser composto de várias cabeças; elas dominam não cada uma separadamente, mas todas juntas. Não se sabe se é desta multidão ou do governo alternado e singular de vários de que fala Homero quando diz que <não é bom ter vários senhores>. De qualquer modo, o povo, tendo sacudido o jugo da lei, quer governar só e se torna déspota. Seu governo não difere em nada da tirania. Os bajuladores são honrados, os homens de bem sujeitados. O mesmo arbítrio reina nos decretos do povo e nas ordens dos tiranos. Trata-se dos mesmos costumes. O que fazem os bajuladores de côrte junto a estes, fazem os demagogos junto ao povo. Gozam do mesmo crédito.”

Se pretendermos que a democracia seja uma das formas de governo, então não se deverá nem mesmo dar este nome a esse caos em que tudo é governado pelos decretos do dia, não sendo então nem universal nem perpétua nenhuma medida.”

* * *

Sobre a divisão dos poderes, existente em qualquer forma de governo, em tempos bem anteriores a Montesquieu e às noções modernas…

1. ???

Devo ter ficado burro, porque me tornei incapaz de entender Aristóteles: “No que se chama democracia, principalmente na de hoje, em que o povo é senhor de tudo, até das leis, seria bom, para se conseguirem boas deliberações, que as Assembléias fossem ordenadas e regulamentadas como os tribunais das oligarquias, ou ainda melhor, se possível. Ali são aplicadas penas aos que são nomeados para a judicatura, a fim de obrigá-los a julgar, ao passo que na democracia é proposto um salário aos pobres. Ora, delibera-se melhor quando todos deliberam em comum, o povo com os nobres e os nobres com a multidão.”

o corpo deliberativo, o verdadeiro soberano do Estado.” Quem é o <corpo deliberativo> (que deveria ser o título deste tópico 1)? Por eliminação (categorias a seguir), seria o poder legislativo. Mas pelo que se lê acima esta categoria ou corpo ou poder é uma composição caótica de tudo que entendemos por poder executivo, legislativo e judiciário hoje

2. O PODER EXECUTIVO

Já é difícil determinar quem são os que devem chamar-se magistrados. A sociedade civil precisa de vários servidores. O nome de magistrados não convém a todos os que são nomeados por eleição ou por sorteio. É o caso dos sacerdotes, sendo seu ministério de natureza diferente da dos ofícios políticos, dos diretores de coro, dos arautos, dos embaixadores, embora também eles sejam eletivos.” “É de pouca utilidade o modo como são chamados, já que sua denominação, que é discutível, ainda não ficou bem decidida. Mas não é de pouca importância bem distinguir os seus atributos.”

O primeiro cuidado do governo é fazer com que se encontrem nos mercados os víveres necessários. Para tanto, deve haver um magistrado que cuide de que tudo seja feito de boa fé e que a decência seja observada.” O Brasil de hoje já não atende ao primeiro requisito de Aristóteles…

O oficio que se segue imediatamente é de primeira necessidade, mas também de enorme dificuldade: é o de executor das sentenças de condenação, o de pregoeiro de bens apreendidos e o de guarda das prisões. É difícil prestar-se a estas funções por causa dos ódios a que elas expõem, e não se aceitam semelhantes trabalhos a menos que sejam muito lucrativos [ou que estejamos falando de indivíduos sádicos]. Quando são aceitos, não se ousa seguir o rigor da lei, que é, porém, algo indispensável. De nada serviria sustentar uma causa e obter uma sentença se não houvesse ninguém para fazer com que ela fosse obedecida. Sem a execução, é impossível que a sociedade subsista.”

Se a mesma pessoa condena e faz executar, é alvo de um duplo ódio. Se se depara com o mesmo executor em toda parte, trata-se de um meio de fazer com que ele seja universalmente odiado.

Em vários lugares, a profissão de carcereiro é separada da de executor, como em Atenas, no tribunal dos Onze. Esta separação é uma atenuação não menos necessária do que a precedente. Tais ofícios têm a desvantagem de serem evitados pelas pessoas de bem tanto quanto possível, e não é seguro confiá-los a malandros. Estes precisam muito mais ser eles próprios vigiados do que vigiarem. Portanto, estas funções não devem pertencer a um cargo fixo, nem estar sempre nas mesmas mãos, mas sim ser realizadas ora por um, ora por outro, principalmente nos lugares em que a guarda da cidade é confiada a companhias de jovens.”

POLÍCIA: “Depois destes ofícios de maior urgência, vêm outros não menos necessários, mas de uma ordem mais elevada e de um maior valor representativo, pois exigem mais experiência e necessitam de maior confiança.” “Nos pequenos [lugares], basta para todos um comandante em chefe. Chamam-se estes chefes Estrategos ou Polemicas, a cavalaria, a infantaria ligeira, os arqueiros, a marinha têm cada qual seus oficiais particulares chamados Navarcas (almirantes), Hiparcas (generais de cavalaria), Taxiarcas (coronéis), e seus oficiais subalternos, Trierarcas, Locagos, Filarcas e outros subordinados, todos ocupados única e exclusivamente com os trabalhos de guerra.”

Embora nem todas as funções de que acabamos de falar participem do manejo do dinheiro público, mas como algumas estão amplamente envolvidas nisso, é preciso que haja acima delas um outro magistrado que, sem que ele mesmo administre coisa alguma, faça com que os outros prestem contas de sua administração e a corrijam. Uns o chamam auditor; outros, inspetor de contas; outros, grande procurador.

Além disso, uma magistratura suprema de que dependam todas as outras é, enfim, necessária. Ela tem ao mesmo tempo o direito ordinário de impor os impostos e de inspecionar a sua percepção. Em toda parte onde o povo é senhor, ela preside às Assembléias (pois é preciso que aqueles que as convocam tenham nelas a principal autoridade). Em alguns lugares, ela é chamada a Probulia, ou Consulta, porque prepara as deliberações. Nas democracias, em que a massa decide soberanamente, dão-lhe o nome de senado.” Realmente é curioso: senado executor!

Recapitulando toda esta exposição, constataremos que todos os ofícios ou ministérios necessários têm por objeto quer as honras devidas ao Ser supremo, quer o serviço militar, quer a administração das finanças, vale dizer, a receita ou a despesa das rendas públicas, quer o abastecimento dos mercados ou a polícia das cidades, dos portos e dos campos, além da administração da justiça, o tabelionato dos contratos, a execução das sentenças, a guarda das prisões, a auditoria e o exame das contas, a reforma dos abusos e das prevaricações, enfim, as deliberações sobre os negócios de Estado.

Os povos que gozam de maior lazer e de uma paz profunda, ou que estão em condições de sentir o secreto encanto do bem-estar e de obtê-lo para si mesmos, têm ofícios próprios, como a Nomofilacia ou guarda das leis, a inspeção do comportamento das mulheres, a disciplina das crianças, o reitorado dos ginásios, a intendência dos exercícios ginásticos, das festas de Baco e outros espetáculos do mesmo gênero.

Destes ofícios, alguns – como a disciplina das mulheres e das crianças – não convêm à democracia, cujo povo quase só é composto de pobres que, não tendo condições de se fazer servir por outros, são forçados a empregar suas mulheres e suas crianças como domésticos.”

Nas cidades pequenas, a falta de gente força a que se confiram vários ofícios à mesma pessoa. Não se encontram pessoas nem para todas as funções, nem para a sucessão de cada uma delas. Às vezes, porém, elas precisam das mesmas magistraturas e da mesma constituição que as grandes, com a única diferença de que umas são com freqüência forçadas a voltar sempre às mesmas pessoas, e as outras só são obrigadas a isto após longos intervalos. É assim que se suspendem em um mesmo lustre várias velas.”

É própria da aristocracia a inspeção das mulheres e das crianças. Tal função não é nem democrática, nem oligárquica. Como, com efeito, impedir as mulheres dos pobres de saírem ou censurar as mulheres dos oligarcas, acostumadas a viver no luxo?”

Estas diversidades podem combinar-se duas a duas, de modo que tais magistrados sejam eleitos por tais cidadãos e os outros por todos; uns escolhidos dentre eles, outros tirados de tal classe; uns escolhidos por sorteio, outros por eleição.”

3. O PODER JUDICIÁRIO

Além destes tribunais [sete], existem juízes para os casos mínimos, tais como os de 1 até 5 dracmas, ou pouco mais, pois, se é preciso julgar estas queixas, elas não merecem ser levadas diante dos grandes tribunais.”

Nada de relevo neste tópico. Aliás, a obra como um todo se mostra fraca, indigna do maior discípulo de Platão.

* * *

Os povos que habitam as regiões frias, principalmente da Europa, são pessoas corajosas, mas de pouca inteligência e poucos talentos. Vivem melhor em liberdade, pouco civilizados, de resto, e incapazes de governar seus vizinhos.

Os asiáticos são mais inteligentes e mais próprios para as artes, mas nem um pouco corajosos, e por isso mesmo são sujeitados por quase todos e estão sempre sob o domínio de algum senhor.” Um preconceito eterno?

Situados entre as duas regiões, os gregos também participam de ambas. (…) Poderiam mandar no mundo inteiro se formassem um só povo e tivessem um só governo.”

PSICOLOGIA AGORA? “O coração é, de fato, a faculdade da alma de que procede a benevolência e pela qual nós amamos; quando, porém, ele se crê desprezado, irrita-se mais contra as pessoas que são conhecidas e com as quais convive do que contra os desconhecidos.”

PSEUDO-OVO DE COLOMBO: “Pois não é suficiente conhecer a melhor forma, é preciso ver, em cada caso particular, qual é aquela que é possível estabelecer”

Corrigir a constituição que existe não é menos incômodo do que instituir outras, assim como é tão difícil perder quanto contrair hábitos.”

UM POLEMISTA DE ÉPOCA: “Ora, como pode conseguir isto se ignorar quantas espécies de governo existem? Nossos atuais políticos, por exemplo, só conhecem uma espécie de democracia e de oligarquia; trata-se, como vimos, de um erro, pois existem várias.”

VIM PARA CONFUNDIR, NÃO PARA ESCLARECER: “Dir-se-á, talvez, que cabe à lei dominar e que não se pode agir de pior maneira do que substituindo-a pela vontade de um homem, sujeito como os demais a suas paixões. Mas, se a própria lei for ditada pelo espírito de oligarquia ou de democracia, de que nos servirá para elucidar a questão proposta?”

há uma enorme afinidade entre a monarquia e a aristocracia, elas têm quase a mesma disciplina e os mesmos costumes e seus chefes não precisam de educação diferente da que forma o homem virtuoso.” “A monarquia é, na nossa opinião, um dos melhores regimes.” Vozes da cabeça de Ari.. De todo modo, ser “um dos melhores” quando existem 4 ou 5 tipos de governo não é lá grande coisa, concordam?!

SÓ FIZ MARIAS, DIGO, SOFISMARIAS: “Querer que o espírito comande equivale a querer que o comando pertença a Deus e às leis. Entregá-lo ao homem é associá-lo ao animal irracional. Com efeito, a paixão transforma todos os homens em irracionais. (…) A lei, pelo contrário, é o espírito desembaraçado de qualquer paixão.”

A amizade supõe igualdade e semelhança.” Não leu o Lísis.

Se antigamente se deixaram governar por reis, é, sem dúvida, porque raramente se encontravam ao mesmo tempo várias pessoas eminentes quanto ao mérito, sobretudo nas pequenas cidades, como eram as dos velhos tempos.”

ISSO É UM DADO HISTÓRICO OU UMA ASSUNÇÃO METAFÍSICA? “Mas, quando os homens de mérito começaram a se multiplicar, não se quis mais aquele governo; procurou-se algo mais conveniente ao interesse comum e se formou uma República.”

Se supusermos, porém, que em geral a monarquia convém mais aos grandes Estados, que partido tomar com relação aos filhos dos reis? Deve ser hereditário o cetro? Ficaremos expostos a cair nas mãos de maus sucessores, como aconteceu algumas vezes. Dir-se-á que o pai terá o poder de não lhe passar a coroa. Mas não devemos esperar por isto: esta renúncia está muito acima da virtude que a natureza humana comporta.”

alguém aconselhou aos siracusanos que regulassem da mesma forma a importância da guarda que lhes pedia Dionísio.” Quem você quer nomear quando não nomeia?

Mas já falei bastante da monarquia” Sim, já falaste bastante de muitas coisas e mal cheguei à metade da obra…

DANCE CONFORME A MÚSICA: “como a harmonia é dividida por alguns em dois modos, o dórico e o frígio, aos quais relacionam todos os demais e dão nome a todas as suas composições musicais, de ordinário se formam, a exemplo desses dois modos, todas as Repúblicas. Mas é melhor só admitir como bem-constituídas uma ou no máximo duas espécies. As outras são como que desvios ou da boa harmonia, ou do bom governo”

A igualdade parece ser a base do direito, e o é efetivamente, mas unicamente para os iguais e não para todos. A desigualdade também o é, mas apenas para os desiguais. Ora uns e outros põem de lado esta restrição e se iludem, já que é sobre eles próprios que sentenciam; pois de maneira bastante ordinária os homens são maus juízes a seu próprio respeito. A igualdade da qual resulta a justiça ocorre, como igualmente o demonstra a nossa Ética, nas pessoas e nas coisas. Concorda-se facilmente sobre a igualdade das coisas.”

Os Estados democráticos ostentam acima de tudo a igualdade. Foi este zelo que fez com que imaginassem o ostracismo. Nenhuma ascendência é tolerada, nem por riqueza, nem por credibilidade, nem por poder, e desde que um homem alcance tal preponderância é banido por um tempo determinado pela lei. A mitologia ensina-nos que foi este o motivo pelo qual os argonautas devolveram Hércules à terra e o abandonaram. Não queria remar com os outros no Argos, acreditando-se muito acima dos marinheiros.”

O ostracismo tem por objeto apenas deter e afastar os que se distinguem demais. Os soberanos agem da mesma forma para com Estados ou nações inteiras. Foi assim que agiram os atenienses para com os de Samos, de Quios e de Lesbos. Tão logo puderam, os rebaixaram, contra a fé dos tratados. Da mesma forma, o rei da Pérsia humilhou e saqueou os medos, os babilônios e outros insolentes que não se cuidaram durante a prosperidade.”

NADA MAIS ERRADO: “o público julga melhor do que ninguém sobre música ou poesia. Uns criticam um trecho, os demais um outro, e todos captam o forte e o fraco do conjunto da obra.”

AH, ZEITGEIST! “Entendemos por médico tanto aquele que pratica a medicina como artista [acepção de formado profissionalmente] como aquele que ordena e aquele que adquiriu conhecimentos na arte tais como se encontram em todos os demais [autodidata]. Estes últimos não são menos competentes para julgar do que os doutores.”

* * *

IGUALDADE E IGUALDADE

Ora, um dos apanágios da liberdade é que todos alternadamente mandem e obedeçam. Desta diferença entre perpetuidade e alternância dependem a disciplina e a instituição. Se houvesse uma raça de homens que superasse tanto os outros quanto imaginamos que os deuses e os heróis o fazem; se essa superioridade se manifestasse primeiramente pelo porte e pela boa aparência, depois pelas qualidades da alma, e fosse indubitável para os inferiores, o melhor sem contestação seria que seu governo fosse perpétuo e que as pessoas se submetessem a ele de uma vez por todas. Mas como, com exceção, segundo Scyllax, dos indianos, de ordinário os reis não apresentam superioridade tão acentuada sobre seus súditos, é preciso que todos os cidadãos mandem e obedeçam alternadamente, e isto por várias razões.”

Aos descontentes se soma a gente do campo, sempre ávida de novidades, e qualquer que seja o número dos altos funcionários não pode ser grande o bastante para que eles sejam os mais fortes.”

Ninguém se zanga ou se sente desonrado por ceder aos mais velhos, na esperança de alcançar as mesmas honras quando tiver a idade conveniente. Pode-se, portanto, dizer que os mesmos mandam e obedecem, mas são, porém, diferentes; assim, a disciplina deve ser em parte a mesma e em parte diferente. Pois, de acordo com o provérbio, para bem comandar é preciso ter antes obedecido.

várias funções que à primeira vista pareceriam servis podem ser executadas honestamente por homens livres. A honestidade e a torpeza residem menos na natureza do ato do que no motivo que faz agir.”

um homem não deve se submeter a ninguém, ou que isto só deve acontecer se houver desforra, conseqüência necessária da liberdade distribuída a todos em igual medida.” Memes de internet são desforra?

PRINCÍPIOS DEMOCRÁTICO-ARISTOTÉLICOS:

(*)“os magistrados devem ser sorteados, ou todos sem exceção, ou pelo menos aqueles cujo cargo não requer nem luzes, nem experiência”

(*)“não se deve ter (…) nenhuma consideração para com a fortuna”

(*)“a mesma magistratura não deve ser conferida mais de uma vez à mesma pessoa, ou pelo menos que isto aconteça raramente e para pouquíssimos cargos, a não ser os militares”

(*)“todos os cargos devem ser de curta duração, ou pelo menos aqueles onde esta breve duração for conveniente”

(*)“todos devem passar pela judicatura, de qualquer classe que sejam, e ter poder para julgar sobre todos os casos em qualquer matéria, mesmo as causas da mais alta importância para o Estado, tais como as contas e a censura, a reforma do governo, assim como as convenções particulares”

(*)Judiciário fraco, legislativo e executivo sumamente poderosos (limite da abordagem pré-Montesquieu).

(*)“os membros do senado não devem ser indistintamente assalariados. Os salários arruínam o poder da magistratura; o povo, ávido de salários, atrai tudo para si”

(*)“Não se deve tolerar nenhuma magistratura perpétua. Portanto, se sobrar alguma magistratura do antigo regime, suas atribuições serão reduzidas e, de eletiva, passará a depender de sorteio. Eis o espírito de todas as democracias.

Sem contestação, o melhor povo é o que se ocupa de agricultura. Existe, pois, disposição natural para a democracia em todos os lugares em que o povo tira sua subsistência da agricultura ou da criação de gado.” “Consideram mais agradável trabalhar do que permanecer sentadas, de braços cruzados, a deliberar sobre o governo ou gerir magistraturas, a menos que haja muito que ganhar neste trabalho, pois a maioria prefere o lucro à honra. A prova de sua despreocupação quando não se desperta sua cupidez é que suportaram muito bem seus antigos déspotas e ainda hoje se acostumam com a oligarquia quando os deixam trabalhar e não tiram seus pertences. Então, eles logo alcançam a riqueza, ou pelo menos a abastança. Se tiverem além disso alguma ambição, ela é mais do que satisfeita pelo direito de voto que lhes dão nas eleições e na auditoria das contas. E mesmo que nem todos tivessem direito de assistir a elas, mas apenas o de ser voz deliberativa nas Assembléias primárias. Com efeito, é preciso considerar isto como uma das formas do governo democrático. Era esta que havia em Mantinéia.”

Esta Constituição deixará contentes os homens de bem e os nobres. Por um lado, terão a vantagem de não serem governados por pessoas baixas; por outro lado, quando chegar a sua vez, tomarão mais cuidado para governar eqüitativamente, pois terão contas a prestar e outras pessoas que os julgarão, pois é bom depender de alguém e não ter toda a liberdade para fazer o que se quer. Esta liberdade indefinida é uma má garantia contra o fundo de maldade que todo homem traz consigo ao nascer. Resulta necessariamente desta precaução a maior vantagem para todo Estado, que é ser governado por pessoas de bem que a responsabilidade torna por assim dizer impecáveis, e isto sem ameaçar a superioridade do povo. É evidente que a melhor de todas as democracias é a que é assim constituída. Por quê? Porque nela o povo tem sua importância.”

Dentre as excelentes leis que existiam antigamente entre vários povos, observamos sobretudo as que não permitiam a ninguém possuir terras ou acima de certa quantidade, ou a uma distância grande demais da cidade onde se mora. Em vários Estados era proibido alienar a herança paterna. Uma lei de Oxilus, cujo efeito é aproximadamente o mesmo, proibia que se hipotecasse parte dela aos credores. Podemos retificá-la por um texto dos afitianos que vem bem a propósito. Esse povo, embora numeroso, possuía um território bastante pequeno; todos eram lavradores, mas nos registros do censo não constava a totalidade de suas propriedades. Dividiam-nas em certo número de partes disponíveis, para que os pobres pudessem adquiri-las em quantidade suficiente para ultrapassar até mesmo os ricos.

Depois dos agricultores, o melhor povo é o que leva a vida pastoril e explora o gado. Tem muitas afinidades com o primeiro. Ambos, habituados ao trabalho corporal, são excelentes para as expedições militares e resistem perfeitamente aos incômodos do bivaque [acampamento e vigília militar].

Quase todos os outros povos que compõem o restante das democracias estão muito abaixo destes dois. Nada de mais vil, nem de mais alheio a todo tipo de virtude do que esta multidão de operários, de mercenários e de gente sem profissão. Esta espécie de indivíduos corre sem parar pela cidade e pelas praças públicas e só fica contente nas Assembléias.”

Vemos como deve ser constituída a primeira e a melhor democracia, e também como podem sê-lo as outras. Basta que nos afastemos gradualmente da primeira e adicionemos aos poucos a populaça, à medida que a democracia for piorando.”

A XENOFOBIA DE VERDADE NASCE QUANDO A XENOFOBIA PASSA A SER COISA DO PASSADO: “Para constituí-la [a última democracia] e firmar o poder do povo, os governantes costumam receber o máximo possível de pessoas e conceder direito de cidadania não apenas aos que têm um nascimento legítimo mas até aos bastardos e aos mestiços de qualquer dos dois lados, paterno ou materno.” “preciso introduzir a atenuante de só admitir recém-chegados na medida em que forem necessários para intimidar os nobres e a classe média, sem jamais ultrapassar este limite. Se isso acontecer, a desordem não tardará a reinar por toda parte. Os nobres, que já têm muita dificuldade para suportar este governo, se irritarão cada vez mais. Esta foi a causa do levante de Cirene. Fecham-se os olhos diante de um pequeno inconveniente, mas quando ele assume certa dimensão, não podemos deixar de vê-lo.”

Deve-se dividir o povo em tribos e cúrias, dissolver os cultos particulares e reconduzi-los à unidade do culto público; numa palavra, imaginar todos os meios possíveis para unir todos os cidadãos e extinguir todas as corporações anteriores; nem mesmo desdenhar certas invenções que, embora de origem tirânica, não deixam de ser populares, como o desregramento dos escravos, que pode ser útil até certo ponto, a emancipação das mulheres e das crianças, a conivência sobre o gênero de vida que agrada a cada um: nada tem melhores efeitos para essa democracia. A dissolução agrada a muito mais gente do que uma conduta regrada.”

* * *

NA PLUTOCRACIA

Na melhor oligarquia: “A divisão pelo censo deve ser tal que aqueles que têm a renda exigida sejam mais numerosos e mais fortes dos que os que não são admissíveis. Mas também é preciso ter sempre a intenção de que aqueles que são associados ao governo venham somente da parte sadia do povo.”

É o número e a abundância de homens que salvam as democracias; sua consistência vem de uma razão diametralmente oposta ao mérito. A oligarquia, pelo contrário, só pode conservar-se pela melhor ordem de suas partes.

Assim como a multidão se compõe principalmente de quatro classes, a saber: 1a os agricultores, 2a os ligados às artes e ofícios, 3a os comerciantes, 4a os trabalhadores manuais,¹ assim também existem quatro tipos de guerreiros, a saber: 1° a cavalaria, 2° os hoplitas ou infantaria armada dos pés à cabeça, 3° a infantaria ligeira, 4° a marinha.”

¹ Curioso como hoje em dia mal se pode distinguir uma da outra!

Os lugares mais propícios à primeira espécie de oligarquias são os chamados bippasimos, isto é, próprios, por suas campinas, à criação de cavalos. Esses lugares são propícios à oligarquia mais poderosa. Seus habitantes são protegidos e conservados pela cavalaria. Ora,

só a classe opulenta pode ter haras.

Quando o lugar só oferece homens e armas, a segunda oligarquia convém-lhe mais. A armadura completa necessária à grande infantaria só pode ser fornecida pelos ricos e ultrapassa os recursos dos pobres.

É a arraia-miúda que compõe a infantaria ligeira e os marinheiros. Em toda parte onde abunda essa turbaperigo de democracia para os ricos. Se acontece alguma divisão, os combates de ordinário terminam desfavoravelmente para eles. Para sanar este inconveniente, é preciso contar com hábeis generais que misturem à cavalaria e à infantaria pesada um número suficiente dessa tropa ligeira; assim apoiada, ela combate com maior desenvoltura. Porém, criar uma força dessa espécie, vinda do seio do povo, é armar-se contra si mesmo e trabalhar para sua própria destruição. Nas sedições, o povo vence os ricos através da infantaria ligeira. Ágil e alerta, ela facilmente domina a cavalaria e a infantaria pesada. Portanto, distinguindo as idades, é preciso encarregar os velhos de fazer com que seus filhos pratiquem os exercícios ligeiros e, ao sair da juventude, tomem os melhores destes alunos para colocá-los à frente dos outros.

Quanto ao restante do povo será admitido, como já se disse, no controle dos negócios públicos, quando atingir a taxa do censo exigido, ou, como entre os tebanos, depois que se tiver abstido das profissões mecânicas durante o número prescrito de anos, ou, como em Marselha, quando, tendo passado pela censura, tiver sido considerado digno do título de cidadãos e das funções cívicas.

Devem-se impor às grandes dignidades pesados encargos, para que o povo renuncie a eles de boa vontade e os deixe aos ricos, como se assim lhe pagassem os juros. Com efeito, os ricos, ao assumir o exercício, oferecerão pomposos sacrifícios, mandarão construir salas de banquetes ou outros edifícios destinados ao público, para que o povo, convidado a estes banquetes e encantado com a magnificência dos edifícios e outras decorações, veja com prazer o governo perpetuar-se.”

Não é isso o que hoje fazem os grandes de nossas oligarquias. Procuram nas dignidades, pelo contrário, não menos o lucro do que a honra. Dir-se-ia que são menos oligarquias do que democracias em transformação.”

* * *

E VIVA O GOVERNO MISTO…

Os que se chamam aristocráticos estabeleceram-se em muitos países por imitação de governos estrangeiros, e se aproximam tanto da República propriamente dita que de agora em diante falaremos destas duas formas como sendo uma só.”

…E VIVA A MEDIOCRIDADE: “O que dissemos de melhor em nossa Ética é que a vida feliz consiste no livre exercício da virtude, e a virtude na mediania; segue-se necessariamente daí que a melhor vida deve ser a vida média, encerrada nos limites de uma abastança que todos possam conseguir.”

UM LOUVOR (ANTIGO!) AO ÚLTIMO HOMEM, ‘INDA TÃO DISTANTE NO ESPECTRO DA (NOSSA) HISTÓRIA: “Em todos os lugares, encontram-se 3 tipos de homens: alguns muito ricos, outros muito pobres, e outros ainda que ocupam uma situação média entre esses dois extremos. É uma verdade reconhecida [por quem, cara pálida e exangue?] que a mediania é boa em tudo.”

Os da primeira classe, favorecidos demais pela natureza ou pela fortuna, poderosos, ricos e rodeados de amigos ou de protegidos, não querem nem sabem obedecer. Desde a infância, são tomados por essa arrogância doméstica e a tal ponto corrompidos pelo luxo que desdenham na escola até mesmo escutar o professor. Os da outra classe, abatidos pela miséria e pelas preocupações, curvam-se diante dos outros de modo que esses últimos, incapazes de comandar, só sabem obedecer servilmente. Os primeiros, pelo contrário, não obedecem a nenhuma ordem, mas mandam despoticamente.” Também é uma verdade, paradoxal que seja, que os melhores filósofos emanam justamente da CLASSE MÉDIA.

Por isso Focílides dizia que uma modesta abastança era o objeto de seus desejos, só pedindo ao céu ser ele próprio medíocre em sua pátria.”

a tirania surge de igual modo da insolente e desenfreada democracia e da oligarquia”

NOMENCLATURAS MONTESQUIEUANAS: Quando os pobres não têm este contrapeso, e começam a prevalecer pelo número, tudo vai mal e a democracia não tarda a cair no aniquilamento.”

Um poderoso argumento a favor da mediocridade é que os melhores legisladores foram cidadãos de média fortuna. Sólon declara-se tal em suas poesias, Licurgo tornou-se tal quando parou de reinar e Carondas também o era, como quase todos os outros.”

jamais ou raramente aconteceu, e entre muito poucos povos, que se tenha optado por uma República média. Entre os príncipes não há um só exemplo desta moderação, em toda a antiguidade; em todas as outras partes, virou costume recusar a igualdade e procurar dominar quando se sai vencedor, ou ceder e obedecer quando se é vencido.”

o árbitro mais conveniente é aquele que, colocado entre dois, não pende mais para um lado do que para o outro” Infelizmente a classe média brasileira pende mais para o tio do pavê e o véio da Havan…

O censo não pode determinar-se pura e simplesmente. É preciso, porém, que o seja com a máxima amplitude possível, para que os participantes sejam mais numerosos do que os não-participantes. Quanto aos pobres, eles se consolam por não participarem e ficam descansados se não os ultrajam e lhes deixam os poucos bens que possuem, o que nem sempre acontece, pois os indivíduos de condição que pretendem os cargos públicos às vezes não são nem corteses, nem humanos. Resulta daí que, se houver guerra, os pobres a evitam, a menos que os sustentem. Mas se os sustentarem, passam a desejá-la.

Em alguns lugares, o governo é formado não apenas por aqueles que portam armas, mas pelos que as portavam. Os malianos escolhiam seu Conselho dentre estes, e seus magistrados dentre os guerreiros em atividade. O primeiro Estado entre os gregos foi organizado com esta espécie de cidadãos, depois da extinção das monarquias; e em primeiro lugar com cavaleiros, pois a força e a superioridade dos exércitos consistiam então na cavalaria. Pois as outras tropas de nada servem se não tiverem disciplina, e antigamente não havia nem disciplina, nem experiência na infantaria, de sorte que a cavalaria sozinha constituía toda a força do Estado.

Mas como os Estados cresceram e ganharam consideração através das outras armas, o governo foi comunicado a um maior número de pessoas. Assim, o que hoje chamamos de República era então chamado de democracia.¹”

¹ Resta saber a quando remonta esse “então” de Aristóteles: poderia estar falando já do tempo de Sócrates, não tão pretérito ao seu? Tem-se aí que Aristóteles já divisava o que a ciência política moderna divisa entre os gregos: sua democracia era com certeza uma oligarquia ou aristocracia, conforme fosse saudável ou decadente (ainda sem contar a chusma de escravos da polis).

* * *

STOP THE REVOLUTION!

Para terminar, é normal examinar de onde vêm as revoluções dos Estados, quantas causas podem provocá-las e quais são elas, a que depravações cada governo em particular está sujeito e quais são os meios de preservação, os remédios gerais e específicos para essas perturbações.”

A excelência do mérito é a única superioridade absoluta, e os homens que se sobressaem quanto ao mérito são os que menos provocam revoltas.”

INCÊNDIO NA BABILÔNIA DEMORA A ESPALHAR: “Do fato de as pessoas habitarem o mesmo lugar não se segue que se trata de uma única e mesma Cidade. Os muros não podem servir de critério, pois todo o Peloponeso poderia ser cercado por uma mesma muralha. Não seria a primeira vez que vastos espaços seriam assim fechados. Assim são todas as grandes cidades, que se parecem menos com cidades do que com uma nação inteira, como a Babilônia. Três dias já se haviam passado, dizem, desde que fôra tomada e em vários bairros ainda de nada se sabia.”

São também questões de política saber se convém que um Estado só contenha uma nação ou várias, se continua a ser o mesmo enquanto conserva o mesmo gênero de habitantes, apesar da morte de uns e do nascimento de outros, como os rios e as fontes, cuja água corre sem cessar para dar lugar à água que sucede.”

permanecendo os mesmos atores, o coro não deixa de mudar quando passa do cômico ao trágico.” “Permanecendo as mesmas vozes e os mesmos instrumentos, o canto não é mais o mesmo quando passa do modo dórico ao modo frígio. Isto posto, é a forma e não a matéria que decide se um Estado permanece o mesmo e se se deve, apesar da identidade de habitantes, chamá-lo de outro nome ou conservar-lhe o nome, embora seus habitantes tenham mudado.”

PRINCÍPIO DA DISTRIBUIÇÃO DE RENDA PAULATINA (COMO NA SOLTURA DE ESCRAVOS): “Os crescimentos desmedidos de uma classe relativamente às outras também são causas de revolução. Assim, os membros que compõem um corpo devem crescer proporcionalmente, para que subsista a mesma comensura. O animal morreria se o pé, por exemplo, crescesse até 4 côvados, não tendo o resto do corpo mais do que 2 palmos”

MEGA-SENA DA VIRADA: “As modificações ocorrem com as democracias, mas são mais raras. Por exemplo, quando a quantidade de pobres aumenta e vários deles se tornam ricos, ou então quando os bens dos ricos aumentam de valor, passa-se à oligarquia, e até à oligarquia concentrada que chamamos politirania.

Às vezes, sem que haja sedição, o governo muda em razão de seu aviltamento, como em Heréia, onde começaram a se envergonhar das eleições e os magistrados foram depois sorteados, por causa da torpeza dos eleitos.”

Algumas vezes a mudança se realiza através de progressos imperceptíveis; no final, fica-se admirado vendo os costumes e as leis mudadas sem que se tenha atentado para as causas ligeiras e silenciosas que preparam as mudanças. Na Ambrácia, por exemplo, depois de ter escolhido magistrados de pequena fortuna, passou-se a admitir pouco a pouco alguns que não possuíam nada. Ora, há pouca ou nenhuma diferença entre nada e muito pouco.”

Todos os que admitiram estrangeiros para residir em sua cidade, foram quase sempre enganados por eles, como os de Trezena, que, em Síbaris, receberam os aqueus. Foram obrigados a ceder-lhes o lugar quando o número deles aumentou, o que causou a desgraça. Os sibaritas retiraram-se para Túrio e ali fizeram a mesma tentativa, mas, querendo dispor do território como senhores, foram vencidos e expulsos. Os bizantinos sofreram algo semelhante da parte de estrangeiros e tiveram subitamente que recorrer às armas para repeli-los. Os antisianos, que de modo semelhante haviam aceitado os banidos de Quios, também se viram obrigados a livrar-se deles pela força. Os zanclianos foram vencidos e expulsos pelos de Samos, que os tinham recebido. Também foram estrangeiros que perturbaram os apoloniatas do Ponto Euxino. Os siracusanos, após a expulsão de seus tiranos, tendo tornado cidadãos alguns soldados e mercenários estrangeiros, tiveram tantos aborrecimentos por causa disso que foi preciso romper com eles. Os de Anfípolis foram quase todos expulsos pelos de Cálcis, por tê-los recebido em sua cidade.”

Às vezes a sedição parece derivar da própria natureza do lugar que foi mal-escolhido para habitação. Em Clazômenas, os habitantes do Centro (ou bairro dos banhos) detestam os da ilha; em Cólofon, a parte do norte odeia a do sul; em Atenas, o pireu é mais democrático do que a cidade. Pois, assim como num exército, um riacho, mesmo bem pequeno, pode romper a falange, assim também, numa cidade, qualquer diferença de habitação basta para quebrar, o entendimento e o acordo entre os habitantes.”

Antigamente, em Siracusa, o Estado foi perturbado por dois jovens magistrados rivais em amor. Durante a ausência de um, o outro conquistou sua amada. O despeito, quando ele voltou, sugeriu-lhe atrair e seduzir a mulher de seu rival. Tendo cada um deles conseguido o apoio de outros magistrados, a discórdia espalhou-se por toda a cidade. Portanto, nunca é cedo demais para abafar as brigas dos altos funcionários e dos grandes. O mal está na origem. Em tudo, o que começou já está feito pela metade. O menor erro cometido no início repercute em tudo que se segue.”

O noivo, por lhe terem predito que a união lhe traria desgraça, hesitou em tomar sua noiva e a deixou sem nada concluir. Os pais da moça, considerando-se insultados, acusaram falsamente o jovem de ter roubado durante a celebração de um sacrifício o dinheiro do tesouro sagrado e o fizeram morrer como sacrílego.”

todos os que, quer na condição privada, quer na magistratura, quer em família, quer em tribo ou qualquer outra associação que possa haver, proporcionaram ao Estado algum acréscimo de potência, sempre ocasionaram certa perturbação, quer começada por invejosos, quer por terem eles próprios, envaidecidos com o sucesso, desdenhado permanecer nos limites da igualdade.”

se uma das duas facções se torna muito superior, a porção média não quer arriscar-se contra quem tem uma superioridade evidente.”

em Atenas os Quatrocentos lograram o povo com a falsa esperança de que o rei da Pérsia ajudaria com seu dinheiro os atenienses a fazerem guerra contra os espartanos, e assim se apossaram do governo.”

o temor diante do perigo comum tem o efeito de reconciliar os maiores inimigos.”

Em Rodes, distribuíram aos soldados todo o dinheiro proveniente dos impostos e impediram que os capitães das galeras recebessem o que lhes era devido, acusando-os de vários delitos. Para evitar, então, a punição, os acusados foram obrigados a conspirar contra a democracia e a derrubaram.”

Antigamente, quando o mesmo personagem era demagogo e general de exército, as democracias não deixavam de se transformar em Estados despóticos. Com toda certeza, os antigos tiranos originaram-se dos demagogos. Isso já não acontece com tanta freqüência quanto antigamente, pois então, não estando ainda exercitados comumente na arte de bem falar, as armas eram o único meio de se obter poder. Hoje que a eloqüência foi levada ao mais alto grau de perfeição e goza da maior estima, são os oradores que governam o povo. (…) Assim, as usurpações da suprema autoridade eram mais freqüentes no passado do que no presente, porque se davam a alguns cidadãos magistraturas de alta importância, como em Mileto a Pritania, e se submetiam à decisão deles os maiores interesses. Aliás, as cidades estavam longe de ser tão grandes, já que o povo preferia morar no campo, ocupando-se com seus trabalhos rústicos. Portanto, se esses magistrados eram guerreiros, apossavam-se do governo. Seu principal recurso era a confiança que obtinham do povo, pelo ódio que demonstravam contra os ricos. Foi assim que Pisístrato obteve a tirania de Atenas; querelando contra os habitantes da planície; Teagênio, a de Mégara, mandando matar o gado dos proprietários, quando o encontrou passando à margem do rio; e Dionísio, a de Siracusa, acusando de traição Dafne e os grandes, artifícios que eram tidos como ímpetos de patriotismo e davam popularidade.”

quando a oligarquia está de acordo consigo mesma, não é fácil destruí-la. Temos um exemplo disto no Estado de Farsala, onde poucos homens mantêm grande número deles na obediência, porque estão em harmonia e se conduzem bem entre si.”

Em tempo de guerra, os magistrados, desconfiando do povo, são obrigados a chamar tropas estrangeiras e não raro aquele a quem confiam o comando se torna seu tirano, como Timófanes em Corinto. Se tal comando é confiado a vários, estes se coalizam numa dinastia, ou então, temerosos de serem pegos no mesmo truque, fazem com que o povo participe do governo, para reconciliarem-se com ele. Em tempo de paz, os oligarcas, desconfiados uns dos outros, entregam a guarda do Estado a seus soldados, sob o comando de algum general neutro, o qual às vezes acaba por se tornar senhor dos dois partidos, como aconteceu em Larissa sob o comando dos Alevadas (Aleuadas) de Samos e em Ábido, no tempo das facções, das quais uma era a de Ifíade.” “Várias oligarquias, como as de Cnido e de Quios, também foram destruídas por serem despóticas demais, e isso por senadores irritados com a insolência dos outros.”

A tirania reúne os vícios da democracia aos da oligarquia. Ela tem em comum com a segunda o fato de propor-se a opulência como fim (sem isso ela não teria condições de manter a guarda e a magnificência), de desconfiar do povo, de desarmá-lo, de oprimi-lo, de expulsá-lo das cidades e dispersá-lo pelos campos ou colônias. Da democracia, ela toma a guerra aos nobres, sua destruição aberta ou clandestina, seu banimento, considerando-os como rivais ou como inimigos de seu governo. De fato, é de ordinário desta classe que procedem as conspirações, querendo alguns deles dominar eles próprios, e outros temendo ser escravos. Assim, vimos Periandro aconselhar Trasíbulo a cortar as espigas mais altas, isto é, desfazer-se dos cidadãos mais eminentes.

Os ofendidos conspiram, na maioria dos casos, para se vingarem, e não em seu próprio proveito. Assim foi a conjuração contra os filhos de Pisístrato; ela teve por causa a injúria feita à irmã de Harmódio e a ofensa que ele próprio sentira na ocasião. Harmódio armou-se para vingar a irmã, Aristogíton para vingar Harmódio. Periandro, tirano de Ambrácia, permitiu que conjurassem contra ele por ter perguntado num banquete a uma de suas amantes se estava grávida de um filho seu. Pausânias matou o rei Filipe porque este desdenhava vingá-lo do ultraje que Átalo lhe fizera. Derdas conspirou contra Amintas, que se vangloriava de ter colhido a flor de sua juventude. Evágoras de Chipre foi morto por Eunucus, cuja esposa fôra raptada pelo filho daquele príncipe.” “Xerxes, bêbado de vinho, encarregara Artábano de crucificar Dario. Artábano, crendo que o príncipe se esqueceria dessa ordem por ter sido dada no auge da embriaguez, não a executou. Quando Xerxes deu mostras de sua cólera por isso, Artábano o matou para evitar sua própria perda.”

O desprezo torna infiéis até mesmo os protegidos. A confiança com que são honrados persuade-os de que poderão de repente tentar um golpe seguro. O pouco caso que têm pelo monarca também torna audaciosos os que ganharam poder e acreditam poder tornar-se senhores do Estado. (…) foi o que fez Ciro contra Astiago, cujos costumes eram desprezíveis e a incapacidade evidente, já que vivia na moleza e seu exército estava irritado com a ociosidade.”

A magnanimidade somada ao poder transforma-se em ousadia.”

Os que conspiram para conseguir um nome são de uma espécie completamente diferente. Não atacam os tiranos pelas honras e pelas riquezas, mas sim para conquistar a glória e fazer com que falem deles. O desejo de um grande nome e da memória da posteridade faz com que arrisquem grandes façanhas, mas pessoas deste tipo são raras. É preciso estar, como Díon, O Bravo, disposto ao sacrifício da própria vida e a perder tudo, se falhar o golpe. A natureza não engendra facilmente almas tão heróicas.”

Os Estados opostos, por exemplo uma democracia vizinha a uma tirania, são tão inimigos quanto os oleiros o são dos oleiros, no dizer de Hesíodo, pois a pior espécie de democracia é ela própria uma tirania. O mesmo ocorre com a monarquia e a aristocracia. Por isso os espartanos e os siracusanos, enquanto foram bem-governados, destruíram várias tiranias.

Algumas vezes a tirania morre por si mesma, quando ocorre uma divisão entre os pretendentes, como outrora a de Gelão e em nossos dias a de Dionísio.”

quase todos os usurpadores conservaram a soberania durante a vida, apesar do ódio público, mas quase todos os seus sucessores perderam-na incontinente. A vida dissoluta que levam faz com que caiam no desprezo e dá mil ocasiões de os exterminar.”

CÓLERA COM “CO” DE “CORAÇÃO PURO”: “A cólera está ligada ao ódio e produz quase os mesmos efeitos, mas é ainda mais enérgica. Os que são animados por ela insurgem-se com mais violência, não podendo, na perturbação da paixão, ouvir os conselhos da razão.” “Ao passo que a cólera é acompanhada de uma dor que não permite raciocinar, a animosidade isenta desse ardor calcula e age silenciosamente.”

vemos hoje muito poucos Estados governados por reis. [!] Se existem ainda alguns, são de preferência monarquias absolutas e tiranias. A realeza é uma dignidade estabelecida voluntariamente, cujo poder se estende às maiores coisas. Ora, como a maioria dos homens se assemelha e raramente se encontra alguém tão perfeito para corresponder à grandeza e à dignidade do cargo, as pessoas não se submetem de bom grado a semelhantes instituições. Se alguém quiser reinar por astúcia ou por violência, não haverá monarquia, mas sim tirania.”

Historicamente, a monarquia tirânica é, juntamente com a oligarquia, a forma de Estado menos duradoura. A mais longa tirania foi a de Ortógoras e de seus descendentes, em Sícion. Durou cem anos. (…) 73 anos e 6 meses reinou a dinastia: Cipselo reinou 30 anos, Periandro, 40, e Psamético, filho de Górdias, 3.” “A terceira [tirania mais longa] foi a dos Pisistrátidas, em Atenas. Mesmo assim, a tirania de Pisístrato se viu duas vezes interrompida por sua expulsão, de modo que, de 33 anos, só reinou de fato por 17 e seus filhos mais 18, o que perfaz no total 35.”

Só se sente o mal quando está consumado. Como ele não acontece de uma vez, seus progressos escapam ao entendimento e se parecem àquele sofisma que do fato de cada parte ser pequena inferir-se que o todo seja também pequeno.”

Assim, aqueles que velam pela sua segurança devem inventar de tempos em tempos alguns perigos e tornar mais próximos os perigos que estão distantes, a fim de que os cidadãos informados estejam sempre alertas, como sentinelas noturnas.”

MUITA HORA NESTA CALMA: “Não valorizar demais quem quer que seja e não distribuir nenhuma honra excessiva, mesmo que breve. Se se acumulam muitos cargos em uma só pessoa, tais cargos devem ser-lhe retirados aos poucos, e não todos de uma vez. Será sobretudo conveniente estabelecer através das leis que ninguém possa adquirir poder, crédito ou riqueza demais, ou que sejam afastados os que tiverem demais.”

O vulgo zanga-se menos por estar excluído do governo do que por ver os magistrados viverem às custas do tesouro público. É até muito cômodo dispor de todo o tempo para cuidar dos negócios particulares. Mas se estiver persuadido de que os titulares dos cargos públicos pilham o Estado, terá a dupla vexação de estar afastado tanto dos cargos públicos quanto dos lucros pecuniários.”

ENTÃO ME PROCESSA! “Aqueles que se preocupam com a segurança do Estado devem, em vez de se apoderar em proveito do povo dos bens dos condenados, consagrá-los à religião. A pena será a mesma e deterá igualmente os crimes, mas o povo terá menos pressa para condenar, pois não tirará nenhum proveito da sentença. Além disso, os legisladores devem fazer com que as acusações públicas se tornem muito raras, estabelecendo penas pesadas contra os que agirem levianamente, pois não são as pessoas do povo, mas sim as dos meios refinados que assim se costumam atacar e humilhar.”

Se houver rendas suficientes, não se deve, como fazem os demagogos, distribuir à arraia-miúda o dinheiro que sobrar. Mal o recebem e já voltam a cair na indigência, pois essas pessoas são tonéis furados a que essa liberalidade não traz nenhum proveito.”

O melhor emprego das rendas públicas, quando a sua percepção está terminada, é auxiliar amplamente os pobres, para colocá-los em condições ou de comprar um pedaço de terra ou os instrumentos para a lavoura, ou de abrir um pequeno comércio. Se não for possível ajudá-los a todos, deve-se pelo menos verter os subsídios na caixa de alguma tribo ou cúria ou de alguma porção do Estado, ora uma, ora outra. Far-se-á com que os ricos contribuam para as despesas das Assembléias necessárias, de preferência a esbanjamentos frívolos e meramente aparatosos. Por meio disso, o governo cartaginês tornou-se popular, empregando sempre alguém do povo nas administrações provinciais, para que aí fizessem fortuna.”

para eleger um general de exército, deve-se considerar mais a experiência militar do que a virtude, pois há menos generais experientes do que homens virtuosos. O caso é totalmente contrário no que diz respeito à administração das finanças, pois aí é preciso mais probidade do que tem o comum dos homens.”

A FEIÚRA DO ESTADO: “Um nariz que se afasta da linha reta, que tende para o aquilino ou é arrebitado, ainda pode agradar; mas se se alongar ou se encurtar demais, primeiro sairá da justa medida e, por fim, cairá tanto no excesso ou na falta que não será mais um nariz. O mesmo ocorre com as outras partes do corpo, e também com os regimes. A oligarquia e a democracia podem subsistir, embora se afastando de seu desígnio e de sua perfeição. Mas se dermos demasiada extensão ao seu princípio, primeiro tornaremos pior o governo, e, no final, chegaremos a tal ponto que ele nem será mais digno deste nome.”

SEJA UM MILIONÁRIO APUD CF88 (SÓ PODIA DAR MERDA): “O mais importante meio para a conservação dos Estados, mas também o mais negligenciado, é fazer combinarem a educação dos cidadãos e a Constituição. Com efeito, de que servem as melhores leis e os mais estimáveis decretos se não se acostumar os súditos a viverem segundo a forma de seu governo? Assim, se a Constituição for popular, é preciso que sejam educados popularmente; se for oligárquica, oligarquicamente; pois se houver desregramento em um só súdito, este desregramento estará então em todo o Estado.”

MANUAL DO TIRANO PRUDENTE (QUASE UMA ANTINOMIA): “Deve-se manter espiões por toda parte, saber tudo o que se faz e tudo o que se diz, destacar agentes e espiões, como fazia Hierão em Siracusa, colocando-os em toda parte onde havia uma reunião ou um conciliábulo. Não se é tão ousado quando se tem algo a temer de tais vigilantes e, quando se é, fica-se sabendo.” “Empobrecer os cidadãos, a fim de que não possam formar uma guarda armada e, absorvidos nos trabalhos de que precisam para viver, não tenham tempo de conspirar. Como exemplo dessas manobras, temos as pirâmides do Egito, os templos dedicados aos deuses pelos Cipsélidas, o de Zeus Olímpico pelos filhos de Pisístrato, as fortificações de Samos por Polícrates, que são todas coisas que tendem aos mesmos fins de ocupação e empobrecimento. Aumentar o peso dos impostos, como em Siracusa no tempo de Dionísio onde, em 5 anos, foram obrigados a dar em contribuições tudo o que valia a terra.” “Fazer uso dos recursos da extrema democracia, como a atribuição do governo doméstico às mulheres, para que elas revelem os segredos de seus maridos, e o afrouxamento da escravidão, para que também os escravos denunciem seus senhores.

SÍNDROME DE ESTOU-CALMO: “Os escravos e as mulheres nada tramam contra os tiranos e até, se tiverem a felicidade de ser bem-tratados por eles, afeiçoam-se necessariamente à tirania, ou à democracia, pois o povo também pode ser um tirano.”

Um prego expulsa outro” “os tiranos declaram guerra a todo homem de bem que tiver coragem. Esta categoria de pessoas é perniciosa a seu regime, por não quererem deixar-se tratar servilmente, serem francos com todos, sobretudo entre eles, e não denunciarem ninguém.” Vale para instituições na “democracia”. Beware where you step, fella.

Sendo senhor do Estado, não deve temer a falta de dinheiro. Mais vale para ele estar sem dinheiro para suas campanhas do que deixar em casa tesouros empilhados; com isto, ficarão menos tentados de abusar desse dinheiro os que, em sua ausência, governarem o Estado, pessoas muito mais temíveis para ele do que os meros cidadãos. Estes marcham com ele para o combate, enquanto que aqueles ficam na retaguarda.”

Que o tirano tenha também uma abordagem fácil e um ar grave, de modo que os que tiverem acesso a ele pareçam menos temê-lo do que respeitá-lo, o que homens desprezíveis não conseguem facilmente. Se não se preocupar com nenhuma outra virtude, que pelo menos seja cortês, tenha a política de passar por virtuoso, e se abstenha não apenas ele mesmo de toda injúria contra seus súditos, de qualquer sexo que for, mas também não tolere que nenhum de seus domésticos ofenda ninguém, e cuide de que suas mulheres se comportem da mesma maneira para com as outras mulheres. Pois há injúrias feitas por mulheres de tiranos que arruínam a tirania.”

Sobre a questão dos prazeres sensuais, que faça o contrário de seus êmulos de hoje, que não se contentam em se entregar a eles da manhã à noite, durante vários dias, mas ainda querem que todos saibam a vida que levam, para serem admirados como seres felizes. Que use moderadamente deste tipo de prazeres; que pelo menos tenha a aparência de não correr atrás deles, e até de procurar furtar-se a eles. Não se surpreende com facilidade e não se despreza um homem sóbrio, mas sim um homem bêbado, nem um homem vigilante, mas sim um homem sonolento.” “Que demonstre principalmente muito zelo pela religião. Teme-se menos injustiça da parte de um príncipe que se crê seja religioso e parece temer aos deuses, e se está menos tentado a conspirar contra ele quando se presume que tem a assistência e o favor do Céu. Mas é preciso que sua piedade não seja afetada, nem supersticiosa.” “Que deixe para si mesmo a distribuição das honras e entregue a seus oficiais e aos juízes as punições.” “A própria punição das faltas deve evitar o ultraje. Só se deve fazer uso dele com uma espécie de jeito paternal.”

* * *

CONSTITUIÇÕES REAIS E IDEAIS, DEVANEIOS DE UM DISCÍPULO!

Em sua República, Platão propõe que as mulheres, as crianças e os bens sejam comuns aos cidadãos. De fato, neste diálogo, Sócrates preconiza a comunidade total.”

A comunidade de mulheres oferece grandes dificuldades, e se fosse preciso estabelecê-la não seria pela razão apresentada por Sócrates. O próprio fim suposto por ele para a associação política torna impossível este estabelecimento, e assim ele nada diz de preciso sobre este assunto.” Desapega!

ARISTÓTELES NÃO COMPREENDEU SEU PRÓPRIO MESTRE: “É, portanto, claro que a unidade, como alguns a apresentam, não pertence à essência de um Estado, e o que chamam de seu maior bem é a sua ruína.”

no serviço doméstico, quanto mais empregados houver, menos o trabalho é bem-feito.”

Haveria alguma dúvida em preferir a mera qualidade de primo em nosso costume à de filho no de Sócrates?” Sim.

ANÁLISE MAIS PERFUNCTÓRIA DO MAIOR LIVRO DA IDADE ANTIGA AINDA NÃO NASCEU: “Outro absurdo da comunidade de crianças é só se ter proibido o comércio amoroso dos dois sexos, e não o amor e suas intimidades de pai para filho, de irmão para irmão, que são o cúmulo da indecência e da torpeza [com referência em que absoluto? Que declaração mais platônica!]. Ora, não é estranho proibir as relações entre os dois sexos, em razão dos perigos da volúpia excessiva, e ser indiferente sobre essas familiaridades entre pai e filho, irmão e irmão?”

O encanto da propriedade é inexprimível. Não é em vão que cada um ama a si mesmo; tal amor é inato; só é repreensível o excesso chamado amor-próprio, que consiste em se amar mais do que convém. Tampouco é proibido amar o dinheiro, nem outra coisa da mesma natureza: todos o fazem.”

LONGO E INÚTIL IMBRÓGLIO, NO QUAL ROUSSEAU JÁ APARECERIA DANDO VOADORA PARA DEFENDER PLATÃO: “também contribui o preconceito existente de que os vícios que grassam em certos regimes procedem da propriedade, como esses eternos processos que sempre renascem entre os cidadãos por ocasião dos contratos, a corrupção de testemunhas e a adulação a que as pessoas se rebaixam diante dos ricos. Mas não é da propriedade dos bens que derivam esses males, mas da improbidade dos homens.” Engraçado como contradiz os capítulos precedentes da própria Política!

SERÁ QUE SE FAZ DE IMBECIL? “basta submeter a uma tentativa a comunidade socrática e se terá a prova de que ela é impraticável.” Dêem o Übermensch ao Último Homem e ele apenas será morto, dizimado, castrado ou ignorado…

De resto, Sócrates não explica e não deixa entrever facilmente qual será a forma de governo entre seus comunistas.” Haha. Bom, qual seria a graça se a República tivesse 80 tomos e não precisássemos pensar em nada?! Para começo de conversa, nem saberíamos quem foi Aristóteles…

Platão ou, se quiserem, Sócrates, que ele faz falar, tampouco trata de uma maneira satisfatória das revoluções ou das transformações de Estado.” Hm, verdade?

É da ordem da natureza que nada seja eterno e tudo mude após certo período de tempo. A mudança ocorre quando o número elementar epiternário, combinado com o número quinário, dá dois acordes e é elevado ao cubo.”

Comete o erro torpe e juvenil de misturar seu sistema completamente arbitrário de formas de governo com um outro, que aliás não entendeu (pois se entendesse, não teria criado o seu): “E por que essa República passaria a ter a forma espartana, se a maior parte das outras se transforma no Estado contrário e não no que se lhes aproxima? Deve haver a mesma razão em toda mudança. Segundo ele, a forma espartana se transformará em oligarquia; a oligarquia, em democracia; a democracia, em tirania, embora também se transformem no sentido contrário, a saber, a democracia em oligarquia, mais até do que em monarquia. Além disso, não fala da tirania e não diz se sofre ou não mutação, nem por que causa, nem em que espécie de República. Deixa este ponto indeterminado, como algo em que a exatidão não seja fácil.¹ Segundo ele, a mudança deveria retornar à primeira e melhor espécie, de tal forma que haveria um circuito contínuo; mas a tirania algumas vezes dá lugar a outra tirania, como em Sícion a de Míron sucedeu à de Clístenes; ou a uma oligarquia, como em Cálcis, a de Antileo; ou uma democracia, como em Siracusa, a de Gelão; ou à aristocracia, como a de Carilau na Lacedemônia, e também em Cartago.²”

¹ Na verdade não precisou falar da tirania pela razão oposta: porque é muito fácil; todo homem sabe o que é e no que consiste a tirania.

² Parabéns, discípulo, fez o dever de casa: mas és filósofo ou historiador? É que estou com a memória ruim hoje…

As leis, que Platão escreveu depois, são aproximadamente do mesmo gênero que A República.” Mas com muito mais homofobia, não é mesmo? Afinal, por que, já tão velho, se dar ao trabalho de escrever tanto?

FIGHT RANÇO WITH RANÇO (A ARTE DAS CAROLINAS): “Todas as palavras que neste livro atribui a Sócrates são cheias de superfluidades pomposas e de novidades problemáticas, cuja apologia talvez fosse difícil fazer.”

O mesmo autor contenta-se com dizer que, assim como a cadeia difere da trama pela lã, deve haver algum atributo que distinga os que mandam e os que obedecem, mas não explicita quais são estas marcas distintivas.” Ele queria que você adivinhasse.

NÃO ERGAS PONTES QUE NÃO TENS O TALENTO DE ERGUER! “Sua forma de governo não é nem uma democracia, nem uma oligarquia, mas um regime médio que ele chama propriamente de ‘republicano’, composto inteiramente de militares. Se propôs esta forma por ser a mais geralmente consagrada em todas as sociedades civis, talvez tenha razão; se foi como a melhor depois da primeira d’A República, ele está enganado. Sem contestação, preferir-se-á o Estado de Esparta ou algum outro mais aristocrático.” Até hoje não se sabe muito bem a relação entre as Leis e a República, falo isso por experiência própria. Na dúvida quanto ao que falar, melhor calar a boca. E olha que eu meti o pau em metade dos livros das Leis nas minhas traduções!

Obrigado pela explicação, mas eu não pedi – e, ademais, achei que você disse a mesma coisa ali em cima, com suas próprias palavras (“o rico deve ser punido pela apatia política, o pobre incentivado”, é mais ou menos a sinopse de tudo), e sem nenhum indício de ironia (há poucos parágrafos, Ari. tinha criticado Sócrates-Platão por NÃO haver estipulado classes na República, mas agora o critica por segregar nitidamente sua polis, nas Leis!): “Na verdade, todos são convocados para as eleições, mas são obrigados a escolher primeiro entre a primeira classe de ricos, depois na segunda e depois na terceira; os da terceira e da quarta classes, porém, não são forçados a dar seu voto, e só é permitido aos da primeira e da segunda eleger entre os da quarta; é preciso apenas que cada classe forneça o mesmo número de eleitos. Portanto, a maioria e os principais sairão do grupo dos mais ricos, não se envolvendo o povo na eleição porque a lei não o força a isso.”

* * *

Faléias de Calcedônia põe os artesãos no grupo dos escravos públicos, sem lhes dar nenhum lugar entre os cidadãos. Quanto aos que se empregam nos trabalhos públicos, vá lá. Mas, mesmo assim, isso deve ser feito como se estabeleceu em Epidamno, ou como Diofante determinou antigamente em Atenas.”

Hipódamo de Mileto não deseja que os julgamentos se façam por meio de bolas; pretende que cada um traga uma tabuleta onde inscreva seu assentimento, se simplesmente condenar, ou então indique que condena sobre o principal e absolve quanto ao resto. Condena a forma empregada em nossos tribunais, pela qual, diz ele, os juízes não-raro são forçados a julgar contra a consciência e contra o juramento que prestaram.”

A medicina, por exemplo, a ginástica e todas as artes e talentos ganharam ao reformar suas velhas máximas. Ocupando, pois, a política um lugar entre as ciências, parece que também ela pode admitir o mesmo princípio. De fato, os antigos Estados mudaram muito de feição. O que há de mais ingênuo e de mais grosseiro do que suas leis e costumes primitivos, mesmo as dos gregos, que antigamente andavam cobertos de ferro? O que existe de mais pobre e de mais imbecil do que sua jurisprudência, como em Cumas, onde, para condenar à morte um homem acusado de homicídio, bastava que o acusador apresentasse várias testemunhas tomadas de sua própria família?”

ISSO É SÉRIO, ARI.? “É muito provável que os primeiros homens, tanto os que saíram do seio da terra quanto os que escaparam da calamidade geral da espécie humana [tebanos ou egípcios, em suma], eram tão rudes quanto o vulgo de hoje, como são representados os antigos gigantes; seria uma extravagância limitarmo-nos a seus decretos.” Haha

AGORA, PRESTA UM TÁCITO TRIBUTO À REPÚBLICA DE PLATÃO PELA SUA INTENSA PREOCUPAÇÃO DE “UNISSEXUALIZAR” A POLIS… E DEPOIS ENVOLVE-SE NUMA BARAFUNDA SEM SIM, DEPRECIANDO ESPARTA SEM FUNDAMENTO (E SENDO O AVESSO DO “PLATÃO FINAL” OUTRA VEZ, AO SER HOMÓFILO: “Como o homem e a mulher fazem parte de cada família, é de se esperar que o Estado esteja dividido em dois, metade homens, metade mulheres; donde se segue que todo Estado em que as mulheres não têm leis está na anarquia pela metade. É o que acontece em Esparta. Licurgo, que pretendia enrijecer seu povo com todos os trabalhos penosos, só pensou nos homens e não prestou nenhuma atenção nas mulheres. Elas se entregam a todos os excessos da intemperança e da dissolução; assim, em tal Estado é necessário que as riquezas sejam honradas, principalmente quando as mulheres dominarem, como acontece na maioria das nações guerreiras, com exceção dos celtas e dos povos em que o amor pelos rapazes está publicamente em uso. [PROGRAMA PEDERASTIA PARA TODOS?] Não é sem razão que a fábula associa Marte a Vênus, pois todos os povos guerreiros são dados tanto ao amor dos jovens quanto ao amor das mulheres. [E ESPARTA NÃO? NÃO ENTENDO ISSO.] Este mal manifestou-se ainda mais em Esparta, onde, desde a origem, as mulheres se envolveram em tudo. [COMO, SE LICURGO AS OLVIDOU?] Pois o que importa que as mulheres mandem ou que os que mandam sejam comandados pelas mulheres? É a mesma coisa.”

o legislador permaneceu longe do alvo a que se propunha; fez apenas um Estado pobre e particulares avarentos.”

Um homem do tempo de Aristóteles já não pode julgar a Esparta de Licurgo no seu momento presente, ainda mais levando-se em conta a assimilação da Grécia pela Macadônia!

Logo após falar mal dos éforos: “quer os éforos tenham sido instituídos por Licurgo desde sua primeira legislação, quer sejam de criação mais recente, não foram inúteis à prosperidade da nação.” [!!] Quem é capaz de entender Aristóteles, que sequer segue seu princípio da não-contradição quando se trata de Política?!

As virtudes guerreiras, a que se relaciona toda a Constituição de Licurgo, não são senão uma parte da virtude integral, e são boas apenas para dominar os outros homens. Assim, os espartanos conservaram-se bastante bem enquanto guerreavam, mas quando submeteram a seu domínio todos os seus vizinhos começaram a decair, não sabendo o que fazer de seu ócio, não tendo aprendido nada melhor do que os exercícios militares.”

A ilha de Creta parece ter sido disposta pela natureza para comandar a Grécia, cujos povos, em sua quase totalidade, habitam as costas do mar: por um lado, ela está situada a pouca distância do Peloponeso; por outro lado, ela toca na Ásia, confinando com Triópia e Rodes. Foi graças a esta posição que Minos se tornou senhor do mar, reduziu quase todas as outras ilhas à obediência ou as povoou com suas colônias. Pensava também em se apoderar da Sicília, quando morreu perto de Camico.”

Os que são chamados de éforos na Lacedemônia chamam-se cosmos em Creta, com a única diferença de que são somente 5 na Lacedemônia e 10 em Creta.” Só isso? Bom, na essência eram ministros que atuavam como contrapeso do rei, i.e., poder moderador institucionalizado (não-encarnado num ou dois monarcas).

Em Esparta, o povo que escolhe os éforos tem também a faculdade de escolhê-los dentre aqueles que bem quiser e, por conseguinte, de sua própria classe, assim como de todas as outras, o que faz com que tenha interesse em conservar o Estado. Em Creta, pelo contrário, os cosmos provêm não de todas as classes, mas sim de certas famílias. Dos que foram cosmos, tiram-se os senadores, dos quais se pode dizer tudo o que se disse dos de Esparta. A dispensa da prestação de contas e a perpetuidade são prerrogativas muito acima de seu mérito.” “Cassam-se os cosmos sem processo e, de ordinário, pela insurreição de outros cosmos ou de particulares amotinados. A única graça que lhes concedem é deixar-lhes, antes da expulsão, a faculdade de se demitir.”

O regime de Cartago, em geral, é sabiamente ordenado. A pedra de toque de uma boa Constituição é a perseverança voluntária e livre do povo na ordem estabelecida, sem que jamais tenha ocorrido nem alguma sedição notável de sua parte nem opressão da parte dos que a governam.”

A República de Cartago tem em comum com a de Esparta:¹ 1° o que nesta se chama Fidítias, ou refeições públicas entre pessoas da mesma classe; 2° seu Centunvirato, que corresponde ao colégio dos éforos, com a diferença de ser composto de 140 membros e de ser mais bem-recrutado, isto é, não-escolhido ao acaso e dentre o vulgo, mas sim dentre o que há de mais eminente em matéria de mérito²”

¹ Não disse no começo da obra que Esparta era uma monarquia? O próprio Montesquieu é dessa opinião!

² Mas Aristóteles cita como um mérito dos cargos de éforos espartanos serem abertos à arraia-miúda, quando não o são entre os cartagineses!

ARISTÓTELES NÃO SABE O QUE DIZ OU TODO O TEMPO SE CONTRADIZ! “A maior parte dos pontos que criticamos por se afastarem dos princípios de toda boa Constituição são comuns às três Repúblicas. No entanto, embora todas elas tenham um jeito de aristocracia ou de República, inclinam-se um pouco mais para a democracia, sob certos aspectos, e, sob outros, para a oligarquia.”

De resto, embora a República de Cartago se incline bastante para a oligarquia, ela escapa com bastante agilidade dos seus inconvenientes, através das colônias de pobres que envia para que façam fortuna nas cidades de sua dependência. Este recurso prolonga a duração do Estado, mas é confiar demais no acaso; devem-se abolir pela própria Constituição todas as causas de sedição. Se acontecer alguma calamidade e a massa se revoltar contra a autoridade não haverá leis que possam deter sua audácia, nem remediar a desordem.”

Dentre aqueles que escreveram sobre o governo civil, alguns sempre levaram uma vida privada sem participar em nada dos negócios públicos; passamo-los quase todos em revista, ao menos os que deixaram escritos dignos de atenção; os outros foram legisladores quer em sua própria pátria, quer em outro lugar. Dentre estes, alguns foram simplesmente autores de leis, outros, autores de Constituição, como Licurgo e Sólon. Falamos bastante do primeiro quando tratamos da República espartana. Alguns contam o segundo entre os bons legisladores, por ter destruído a oligarquia imoderada demais dos atenienses, libertado o povo da servidão e estabelecido uma democracia bem-temperada pela mistura das outras formas, aproximadamente tal como era antigamente. O Conselho, ou Senado do Areópago, é de fato oligárquico; a eleição dos magistrados, aristocrática e a administração da justiça, muito popular. O Areópago existia antes dele, assim como o modo de eleição dos magistrados. Ele parece só ter tido o mérito de sua conservação. No entanto, foi com certeza ele quem reergueu o povo, ao determinar que os juízes fossem tirados de todas as classes. Assim, censuram-no por ter ele próprio arruinado um ou outro, ou mesmo os dois outros poderes de sua Constituição, entregando ao sorteio, quanto ao terceiro, a nomeação dos juízes, e pondo todos sob a autoridade deles. Mal esta inovação foi recebida e já fez nascer a raça dos demagogos, que, adulando o povo, como se adulam os tiranos, reduziram o Estado à democracia atual.” Bem-lhe-quer mal-lhe-quer

Sem dúvida, era necessário entregar ao povo, como fez Sólon, a nomeação e a censura dos magistrados, sem o que ele seria escravo e, conseqüentemente, inimigo do Estado. Mas Sólon quis ao mesmo tempo que os magistrados fossem escolhidos dentre os nobres e os ricos: aqueles que possuíssem 500 medinos [?] de renda, os que podiam alimentar um par de bois, ou zeugitas, e enfim os cavaleiros, que formavam a terceira classe. A quarta classe, composta de trabalhadores manuais, não tinha acesso a nenhuma magistratura.” ?!

Alguns tentam fazer crer que Onomacrito de Lócris tenha sido o primeiro a saber fazer leis e que, tendo passado de sua pátria a Creta, ali pôs à prova este talento, embora não tivesse vindo senão para trabalhar como adivinho; dizem também que teve por companheiro Tales, cujos discípulos foram Licurgo e Zaleuco, que, por sua vez, teve Carondas como aluno. Há, porém, muitos anacronismos nessa história.

Filolau, natural de Corinto, da raça dos Baquíadas, também deu leis aos tebanos. Apaixonou-se por Díocles, vencedor nos jogos olímpicos, que, detestando o amor incestuoso de Alcíone, sua mãe, [?] deixou sua cidade e o seguiu até Tebas, onde ambos morreram. Ainda hoje se mostram seus túmulos, um em frente ao outro, mas colocados de tal forma que apenas de um deles se pode ver o istmo de Corinto. Dizem que isto foi assim arranjado por eles próprios, sobretudo por Díocles, em memória de sua desgraça, para subtrair seu sepulcro dos olhares de Corinto, pela interposição do mausoléu de Filolau.” Intercala análises de engenharia constitucional e da biografia dos grandes legisladores com casos comezinhos e romances, tsc…

Platão, a comunidade das mulheres, das crianças e dos bens, além dos banquetes públicos femininos; também é conhecida a sua lei contra a embriaguez, a lei em favor da sobriedade dos presidentes de banquetes e a que diz respeito aos exercícios militares e ao uso das duas mãos, pois ele não podia tolerar que se servissem de uma e a outra permanecesse inútil. Existem também algumas leis de Drácon, que ele acrescentou, por assim dizer, à Constituição existente; distinguem-se pela extrema severidade das penas.”

Pítaco é também mais autor de leis do que fundador de República. Cita-se uma lei sua contra os bêbados, que diz que as brigas entre eles, em estado de embriaguez, serão punidas mais severamente do que se não tivessem bebido.”

* * * PRIMEIRA LEITURA DA REPÚBLICA (CONTEÚDO IMPORTADO – COM EDIÇÕES – DO ANTIGO BLOG DO AUTOR, PRÉ-Seclusão Anagógica) * * *

[PREFÁCIO DA EDIÇÃO – COMENTADOR] Foi, como é fato conhecido, o preceptor de Alexandre, O Grande, mas não por muito tempo: “Romperá com seu real discípulo depois do assassínio de Calístenes” No entanto eis a comprovação de sua imaturidade prática, até maior que a de Platão, que tanto criticou: “Jamais se envolveu com política prática.”

Meu limite: é que o pai que temos determina o raio de nossa genialidade. O meu, infelizmente, é bem curto. Zeus não respeitou seu pai, por que esperaria receber o respeito dos filhos sem o emprego da violência? O fosso etário entre pais e filhos. Profilática: que o filho seja gerado no inverno! Adoro meus “rasgos de cólera”, “Dia de fúria”. Estranhamente encarnado numa fazenda abelhuda…

Muitas de suas obras se perderam. Algumas são atribuídas a si, mas provavelmente provêm de discípulos.

Estudou 158 Constituições de Estados – na época a Grécia estava em dissolução, e a República Romana em ascensão. Havia “zilhões” de pequenos Estados (cidades-Estados) – a geografia política do mundo era bem diferente do que é hoje. Contribuiu com as bases do Direito Moderno, mas foi muito ultrapassado por Montesquieu & al.

ECONOMIA (*)  CREMATÍSTICA

(Modesta e nobre X Supérflua, grotesca e vil)

(*) despida em absoluto do “D” marxista (ciclos D-M)

P. 24: o médico vendido. O professor vendido.

a bondade intrínseca do Estado”

a mulher passaria por atrevida se não fosse mais reservada do que um homem em suas palavras.”

São as primeiras impressões as que mais nos afetam”

a beleza e a estatura não pertencem à maioria.” Ora, veja só, às vezes me acho um não-maldito!

Democracia” não é o governo da maioria, etimologicamente, mas dos pobres.

Uma hora fala em Deus, noutra fala em Zeus.

Pelo fim do serviço militar obrigatório! Vote 25050.” Minha plataforma.

Os homens facilmente se corrompem pela prosperidade, pois nem todos são capazes de suportá-la”

161: bem atual – sobre os parlamentares e seus vencimentos: A idéia aristotélica de se não auferir SALÁRIO ao político profissional. Assim, será uma função por VOCAÇÃO, e não COBIÇA. Só os mais ricos, que já são ricos, estariam aptos, mas eles teriam menos chances de legislar em causa própria; e os pobres não se sentiriam ultrajados como hoje se vê com os sucessivos “auto-aumentos” que se concedem os deputados.

Já cobrava TRANSPARÊNCIA das autoridades em relação às receitas e gastos, mesmo sem um site na internet para publicá-lo.

No caso de algum rico ultrajar [aos mendigos], será punido mais severamente do que se tivesse insultado um igual.”

Da liberdade e da igualdade na Democracia: “sofisma miserável.”

170: “Que deixe para si mesmo a distribuição das honras e entregue a seus oficiais a aos juízes as punições.” Maquiavélico, literalmente. Não seria o caso, aliás, de Maquiavel ser um aristotélico?

178: Aristóteles X Platão-Marx no tocante à propriedade privada.

Recomenda-se também, como medida anti-viciosa, um teto para rendimentos por indivíduo ou família, sem falar na dignidade do pão (banquetes públicos) aos indigentes.

Não se deve exigir que um mesmo homem seja flautista e sapateiro.”

Platão: famoso precursor do feminismo [P.S.: quem diria…]

CAPES, 50 ANOS: Depoimentos ao Cpdoc/FGV (2002)

Org. Marieta de Moraes Ferreira & Regina da Luz Moreira

Em 1951, foi criada a Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), com o objetivo de <assegurar a existência de pessoal especializado em quantidade e qualidade suficientes para atender às necessidades dos empreendimentos públicos e privados que visam ao desenvolvimento do país>. Para secretário-geral foi indicado o professor Anísio Teixeira, que a dirigiu até 1963.”

O projeto Capes, 50 anos teve como objetivo recuperar a história da fundação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), de seus primórdios até a atualidade, através da coleta de depoimentos de atores que desempenharam papel destacado na trajetória da instituição. Dessa tarefa, e da preparação deste livro, foi incumbido o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cpdoc) da Fundação Getúlio Vargas, detentor de reconhecida experiência nesse campo de trabalho.

A importância da Capes e sua capacidade de aglutinar figuras destacadas, seja como funcionários, seja como dirigentes ou como colaboradores, nos possibilitaria arrolar um enorme número de possíveis depoentes. No entanto, a exigüidade do tempo, e os próprios limites impostos pelo formato de um livro, nos levaram, com o auxílio da direção atual, a definir uma lista restrita de entrevistados que nos permitiriam obter uma visão ampla e diversificada da instituição. Foram registrados, no total, 18 depoimentos em 40 horas de gravação

PASSANDO O PANO EM BIOGRAFIAS SUSPEITAS: “Na entrevista, ele [o depoente] está diante de um entrevistador ativo, que argumenta, reage, confirma, contesta [e que é manipulado a gosto]. Para que isso seja possível, o entrevistador precisa conhecer os personagens, os cenários e os roteiros. A reconstituição das trajetórias de personagens ligados à Capes abre assim novas perspectivas para o aprofundamento dos estudos sobre a pós-graduação no Brasil.” Será ainda possível?

HISTÓRICO

RESUMO ESQUEMÁTICO DO PRIMEIRO SESQUICENTENÁRIO CAPESIANO:

ANÍSIO TEIXEIRA (I) – DITADURA (II) – REABERTURA (III) – COLLOR (IV) – ABÍLIO E EXPANSÃO EM PLENO NEOLIBERALISMO (V) – …???

Quando Anísio Teixeira aportou em Brasília, tudo era mato, terra seca – e ignorância.

I. ERA ANÍSIO (1951-64)

A Capes foi criada em 11 de julho de 1951, pelo Decreto n. 29.741 [constituído de 12 artigos, cujos <melhores momentos> transcrevo a seguir], inicialmente como uma comissão destinada a promover o aperfeiçoamento do pessoal de nível superior.”

Art. 1º Fica instituída, sob a Presidência do Ministro da Educação e Saúde, uma Comissão composta de representantes do Ministério da Educação e Saúde, Departamento Administrativo do Serviço Público, Fundação Getúlio Vargas, Banco do Brasil, Comissão Nacional de Assistência Técnica, Comissão Mista Brasil, Estados Unidos, Conselho Nacional de Pesquisas, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Confederação Nacional da Indústria, Confederação Nacional do Comércio, para o fim de promover uma Campanha Nacional de aperfeiçoamento de pessoal de nível superior.”

Art. 2º (…) oferecer os (sic) indivíduos mais capazes, sem recursos próprios, acesso a tôdas as oportunidades de aperfeiçoamentos.

(…) Promover em coordenação com os órgãos existentes o aproveitamento das oportunidades de aperfeiçoamento oferecidas pelos programas de assistência técnica da Organização da Nações Unidas, de seus organismos especializados e resultantes de acordos bilaterais firmados pelo Govêrno brasileiro [curiosamente ainda engatinha-se na área ~70 anos depois]

Art. 7º A Comissão proporá ao Presidente da República, até 31 de dezembro de 1951, a forma definitiva que deve ser dada à entidade incumbida da execução sistemática e regular dos objetivos da Campanha.”

Art. 9º Os dirigentes dos órgãos da administração pública, das autarquias e sociedade de economia mista deverão facilitar o afastamento dos seus servidores selecionados para o programa de aperfeiçoamento instituído neste Decreto.

Art. 10. O Banco do Brasil facilitará cambiais para as bolsas concedidas, e, na medida das possibilidades, a transferência dos salários e vencimentos dos beneficiários do programa de aperfeiçoamento.

Art. 11.Os membros da Comissão não perceberão remuneração especial pelos seus trabalhos, mas serão considerados como tendo prestado relevantes serviços do (sic) país.”

Rio de Janeiro, 11 de julho de 1951, 130º da Independência e 63º da República.

GETÚLIO VARGAS

E. Simões Filho

Horácio Lafer

Francisco Negrão de Lima

Danton Coelho

Este texto não substitui o original publicado no Diário Oficial da União – Seção 1 de 13/07/1951”

Um breve interlúdio antes de continuarmos, avançando 40 anos no tempo (para depois voltarmos a recuar): Fica claro pelo Decreto 99.678/90 que a Capes foi momentaneamente “rebaixada” a mero órgão interno de assessoria a assuntos voltados à pós-graduação (na realidade seu Presidente seria o que hoje é um Diretor, código 101.5). Havia 2 coordenadores-gerais no organograma publicado no Anexo II, bem como 6 assessores, 1 coordenador, 8 chefes de divisão e 14 chefes de unidade (DAS mínimo, hoje extinto). O INEP estava hierarquicamente acima da Capes de acordo com este documento legal.

Aproveitando o excurso, antes de terminar, trecho do Decreto 50.737: “a administração das bôlsas de estudo oferecidas pelo Govêrno Brasileiro a latino-americanos e afro-asiáticos para cursos de graduação e pós-graduação no Brasil (…) JÂNIO QUADROS”

Foram várias as instituições e agências públicas criadas nesses primeiros meses de 1951, entre elas o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (atual BNDES) e o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), com os quais a Capes, ao longo destes 50 anos, interagiu na formulação e implementação de uma nova política de desenvolvimento científico e tecnológico. Foi também o momento de criação da primeira faculdade de administração pública da América Latina, a EBAP, órgão da Fundação Getúlio Vargas destinado à formação de uma nova geração de formuladores e de gestores públicos.” “Em seu depoimento, Almir de Castro [o <segundo homem>, 1º depois de A.T.] assinala que a Capes era ligada ao Ministério da Educação, mas também à Presidência da República.¹ O que ressalta é a grande autonomia e autoridade de que era dotada sua direção.”

¹ Precedente perigoso para quem nela hoje trabalha… Precedente e presidente são palavras tão parecidas que Weintraub talvez escreva uma pensando na outra…

A concessão de bolsas de estudos, no entanto, apenas progressivamente foi se desenvolvendo, até se afirmar como atividade de maior peso dentro da agência, em detrimento das atividades de fomento. O que talvez explique esse crescimento gradativo seja o fato de que o setor responsável pelas bolsas se viu também obrigado a realizar pesquisas sobre a atuação de outras instituições congêneres, sobre seu processo de concessão, etc. As atividades de fomento favoreceram a criação de centros nacionais, núcleos regionais de ensino e pesquisa, ou ainda unidades de cunho institucional, que foram perdendo importância ao longo do período, em detrimento das bolsas de estudo.”

II. DITADURA MILITAR 1ª PARTE (1964-74)

I HAD A DREAM…: “A Capes teve sua trajetória diretamente afetada pelo movimento político-militar de 1964, que inaugurou na agência um período de descontinuidade administrativa e turbulência institucional. Naquele momento, chegou-se mesmo a cogitar sua extinção.”

Já no final do mês de maio, a Capes era transformada, de comissão em coordenação, e junto com a nova designação, assumia uma nova condição institucional: o Decreto n. 53.932 [1964](*), integrou-a à estrutura do Ministério da Educação e Cultura, vinculando-a à política da educação superior do país através da Diretoria do Ensino Superior, a DESu. Assim, embora mantivesse a mesma sigla, a Capes passava a ser diretamente subordinada ao ministro da Educação, que teria autoridade inclusive para regulamentar as atividades e aprovar os regimentos internos da agência.”

(*)

Art. 1º A Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), de que tratam os Decretos nºs 29.741, de 11 de julho de 1951, 50.737, de 7 de junho de 1961, e 51.146, de 5 de agôsto de 1961, órgão da Presidência da República; a Comissão Supervisora do Plano dos Institutos (COSUPl), de que tratam os Decretos nºs 49.355 de 28 de novembro de 1960, 51.405, de 6 de fevereiro de 1962, e 52.456, de 16 de setembro de 1963, órgão do Ministério da Educação e Cultura; e o Programa de Expansão do Ensino Tecnológico (PROTEC), de que trata o Decreto nº 53.325, de 18 de dezembro de 1963, órgão do Ministério da Educação e Cultura, ficam reunidos na Coordenação do Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), subordinada diretamente ao Ministro da Educação e Cultura e que poderá regulamentar atividades e aprovará regimento internos (sic).

colaborar em programas de formação e adestramento de pessoal…”

Art. 4º Os auxílios concedidos pela CAPES visando à complementação de recursos dos Centros de Treinamento para o cumprimento de programas específicos de formação de pessoal ou desenvolvimento de novos centros terão sempre caráter temporário, estabelecendo-se, em cada caso, convênio com as instituições contempladas de sorte que através (sic) recursos regulares previstos nos orçamentos das mesmas (sic) seja assegurada a continuidade de seu funcionamento.”

Art. 5º A CAPES será orientada por um Conselho Deliberativo integrado por 9 membros designados pelo Presidente da República, pelo prazo de 3 anos e mediante indicação do Ministro da Educação e Cultura.

§ 1º Dois dos nove membros do Conselho são considerados membros natos: o Diretor da Diretoria do Ensino Superior do Ministério da Educação e Cultura e o Presidente do Conselho Nacional de Pesquisas.

§ 2º A Presidência do Conselho caberá ao Ministro da Educação e Cultura, sendo seu substituto eventual o Diretor da Diretoria de Ensino Superior.”

O Diretor Executivo e os Secretários serão de livre escolha do Ministro da Educação e Cultura.”

Brasília, 26 de maio de 1964; 143º da Independência e 76º da República.

H. CASTELLO BRANCO

Flávio Lacerda”

Decreto n. 54.356 (setembro de 64):

Dispõe sobre o Regime de Organização e Funcionamento da <Coordenação do Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior>.”

Art. 2º A ação da CAPES se exercerá, principalmente, pelas seguintes formas:

I – Concessão de bôlsas a graduados para estudos no país e no estrangeiro;

II – Administração de bôlsas oferecidas pelo govêrno Brasileiro a cidadãos estrangeiros para estudos no país;

III – Supervisão dos estabelecimentos mantidos pelo Govêrno em Centros educacionais estrangeiros (Casa do Brasil);

IV – Estímulo à formação de Centros Nacionais de Treinamento Avançado;

V – Incentivo à implantação do regime de tempo integral para o pessoal docente de nível superior;(*)

VI – Prestação de assistência técnica e financeira às Universidades, Escolas Superiores Isoladas e Institutos Científicos e Culturais;

VII – Promoção de encontros de professôres e pesquisadores visando a elevar os padrões de ensino superior em todo o país.”

* * *

(*) Incrível como décadas depois essa importante conquista ainda é assunto em ementas recentes de tribunais e em trabalhos jurídico-acadêmicos:

TRT-10 – RECURSO ORDINÁRIO RO 1164200701710006 DF 01164-2007-017-10-00-6 (TRT-10)

Data de publicação: 29/05/2009

Ementa: PROFESSOR UNIVERSITÁRIO E PESQUISADOR. CONTRATAÇÃO EM REGIME DE DEDICAÇÃO INTEGRAL. HORAS EXTRAS PELO TRABALHO EXTRA-CLASSE. INDEVIDAS. ELASTECIMENTO DE HORÁRIO. ÔNUS DA PROVA. 1. As normas específicas de tutela referentes à jornada dos professores (CLT [em extinção!], Título III, Seção XII) estão expressamente direcionadas apenas às horas de trabalho em sala de aula, cujo tratamento legal mais benéfico se justifica em razão do desgaste sofrido pelo profissional sob tais condições. Em se tratando de professor universitário contratado em regime de dedicação integral, nos termos do art. 52 da Lei nº 9394 /96, uma vez obedecida a jornada especial do professor quanto ao trabalho em sala de aula, mostra-se indevida, à míngua de norma mais favorável, a percepção de horas extras pelo trabalho desenvolvido extra-classe. 2. Em razão da natureza extraordinária do fato alegado, é do empregado o ônus de comprovar o trabalho extraordinário (arts. 818 da CLT e 333, I, do CPC). Tal encargo probatório não se altera em se tratando de professor universitário que desenvolve atividades de pesquisa científica nas instalações da faculdade reclamada, onde lhe é franqueada ampla permanência além do horário contratado, para fins de estudos e pesquisa. Nesse caso, incumbe ao autor demonstrar que sua permanência no ambiente de trabalho ocorreu sob o comando e no interesse exclusivo da instituição de ensino.

O art. 9º do Decreto 3.860/2001, que dispõe sobre a organização do ensino superior e a avaliação de cursos e instituições, nada menciona sobre a duração da hora no aludido regime de tempo integral, estando assim redigido: <Para os fins do inciso III do art. 52 da Lei nº 9.394 de 1996, entende-se por regime de trabalho docente em tempo integral aquele que obriga a prestação de quarenta horas semanais de trabalho na mesma instituição, nele reservado o tempo de pelo menos vinte horas semanais destinado a estudos, pesquisa, trabalhos de extensão, planejamento e avaliação>. Lado outro [hm], a remuneração dos professores é, na forma do disposto no art. 320 da CLT, fixada pelo número de aulas semanais. Havendo cláusula coletiva estabelecendo que <considera-se como aula o módulo docente destinado ao trabalho letivo ministrado pelo professor, integrante da atividade do magistério, com duração máxima de 50 (cinqüenta) minutos, ministrado para turma ou classe regular de alunos>, conclui-se que o regime de 40 horas (de 60 minutos) em tempo integral equivale a 48 horas-aula semanais de 50 minutos cada, realidade que abarca tanto as atividades em sala de aula como aquelas outras compatíveis com a condição de professor e exigidas quando do labor em tempo integral.

Há duas grandes <heranças conceituais> subjacentes à questão da regulamentação do regime docente de tempo integral. Primeiro, existe o conceito de isonomia, originado no setor público, que tende a uniformizar o tratamento da questão, partindo da premissa de que todas as universidades devem ser tratadas da mesma forma. Segundo, há conceito de hora-aula, nascido no âmbito privado, que tende a confundir o trabalho docente como uma contabilização das horas despendidas em sala de aula, gerando uma tendência de se <aulificar> o ensino. Ambos os conceitos, em conjunção com o disposto no inciso III do art. 52, fazem com que haja a tendência de se quantificar a questão, quando esta deveria ser antes qualificada.” “o intelecto não se prende obrigatoriamente a espaços físicos, nem se submete facilmente a injunções temporais.” [O dia que esse tipo de mérito for reconhecido eu amputo meus 4 mindinhos. Não farão falta!] “Há uma tradição normativa da educação superior, com deliberação do antigo CFE (Parecer nº 792/73, relator pelo Conselheiro Valnir Chagas), de que uma hora-aula de cinqüenta minutos na prática significa um dispêndio de até sessenta minutos da carga horária dos cursos, já que há outras atividades pedagógicas associadas (como intervalos para apreensão de conteúdo). Nas palavras do Relator da questão, o esquema 50 + 10 <se enraíza no racionalismo pedagógico>, havendo <toda uma orientação de flexibilidade que doravante há de presidir à organização das ‘atividades’ escolares>. O conceito de hora-aula esteve tão enraizado na tradição educacional que fez com que muitas cargas horárias de cursos superiores fossem mensuradas em horas-aula, o que criou algumas distorções, por conta das diferenças entre os turnos diurno e noturno.” “É não apenas desejável, como necessário, a existência de um critério mínimo que caracterize uma universidade, em distinção a outros tipos de IES. Porém, fica a dúvida: o corte, a referência, será <por cima>, por um modelo de universidade de elite com pesquisa de ponta, ensino pós-graduado, ou <por baixo>, por uma instituição voltada à formação profissional, com pesquisa aplicada e pós-graduação profissionalizante? Ora, havendo fontes de financiamento abundantes, pode-se pensar facilmente <por cima>. Se não, há que se ponderar sobre a sustentabilidade das instituições, sob o risco de implosão do Sistema, e de retorno a um ensino elitizado, sustentado pelos contribuintes, os quais majoritariamente a ele não tinham acesso.” “O requisito legal (LDB), que na prática quantifica o problema, tem gerado mal-entendidos e problemas diversos. As universidades não têm um mesmo padrão organizacional, até por suas diferenças institucionais e ambientais.” André Magalhães Nogueira – Universidade e Regime de Trabalho (documento 56), OBSERVATÓRIO UNIVERSITÁRIO, 08/2006.

* * *

§1º Os membros do Conselho Deliberativo perceberão por sessão a que comparecerem uma gratificação de presença fixada pelo Ministro da Educação e Cultura, até ao máximo de 48 sessões anuais.”

Parágrafo único. A distribuição e a lotação dos servidores da CAEPS (sic) caberão ao Diretor Executivo.”

§1º O Diretor-Executivo e os Chefes de Divisões perceberão a gratificação que fôr arbitrada pelo Conselho Deliberativo e aprovada pelo Ministro da Educação e Cultura.”

(voltando…)

O interregno entre a gestão de SUZANA GONÇALVES (1964-1966) e a de CELSO BARROSO LEITE (1969-1974) pode ser caracterizado como um período de grande instabilidade institucional, em que 6 diretores-executivos — 2 deles interinos — estiveram à frente da Capes.”

III. REGULAMENTAÇÃO DA PÓS-GRADUAÇÃO NO BRASIL (1974-89)

1974, quando a transferência para Brasília exigiu a contratação e o treinamento de novos funcionários. Isso possibilitou não apenas um novo dinamismo administrativo, mas também a criação de um esprit de corps, através do qual se estabeleceu uma forte identidade institucional. Esse dinamismo institucional foi basicamente explicitado no Decreto-Lei n.° 74.299, de julho de 1974

* * *

Art. 1º. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), órgão autônomo do Ministério da Educação e Cultura, criada pelo Decreto nº 53.932, de 26 de maio de 1964, e reformulada pelo Decreto nº 66.662, de 5 de junho de 1970, tem as seguintes finalidades:”

Art. 12. Para assegurar a autonomia financeira da CAPES nos termos do artigo 172 do Decreto-lei nº 200, de 25 de fevereiro de 1967, fica mantido o Fundo Especial instituído pelo artigo 9º do Decreto nº 66.662, de 5 de junho de 1970, com a denominação de Fundo de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (FAPES).”

Brasília, 18 de julho de 1974; 153º da Independência e 86º da República.

ERNESTO GEISEL”

Ernesto Gás Hélio, será que falava grosso?!?

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A PRÉ-HISTÓRIA DO FRANKENSTEIN CHAMADO GAE

A gestão de Darcy Closs passou a recorrer de forma cada vez mais sistemática e progressiva, ainda que informal, à colaboração de consultores vindos da área acadêmica, quer para a análise das solicitações de bolsas de estudo, para entrevistas com candidatos, avaliação de cursos, recomendações de cotas de bolsas, quer para a elaboração, implantação e avaliação de projetos de interesse da política definida pela agência. Essas consultorias permitiram à Capes fazer frente à multiplicação de suas atividades e programas — que no período chegaram a patamares até então inéditos —, e seus pareceres, estudos e avaliações, embora não tivessem poder deliberativo, foram gradualmente ganhando importância dentro da agência, uma vez que subsidiavam as decisões do CTA. A partir de 1977, essas consultorias assumiram a forma de comissões, e mais tarde foram institucionalizadas, com seus presidentes passando a integrar um conselho técnico-científico, com direito inclusive [ó!] a participação no conselho superior da agência.”

ANOS MOURA CASTRO: “Nesse sentido, foi estabelecido todo um processo de transferência, para as universidades e programas, da responsabilidade de selecionar, acompanhar, pagar e avaliar o desempenho dos alunos bolsistas, cabendo à agência apenas a função de promover uma melhor e mais ampla avaliação dos programas e dos alunos.” “esse foi também o momento em que a Capes readquiriu maior destaque no sistema de pós-graduação, chegando mesmo a se impor sobre as demais agências. A pedra de toque para que isso ocorresse foi seu reconhecimento formal como órgão responsável pela formulação do Plano Nacional de Pós-Graduação, o que se deu em fins de 1981, com a extinção do Conselho Nacional de Pós-Graduação. A partir de então ela assumiu as competências que até então (sic) eram do conselho. Esse novo papel fez também com que a Capes fosse reconhecida dentro do MEC como a agência executiva do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia, o que na prática a tornou responsável pela elaboração, acompanhamento e coordenação de todas as atividades relacionadas com a pós-graduação dentro do ministério.” “agora era dada à Capes a responsabilidade de assessorar a Secretaria de Educação Superior, a SESu — que havia substituído o DAU — na tarefa de formular a política nacional de pós-graduação.”

O momento final desse período é representado pela gestão de EDSON MACHADO DE SOUSA (1982-1990), que, juntamente com a de ABÍLIO BAETA NEVES, é uma das mais longas da história da Capes, em que pese a numerosa sucessão de titulares que a pasta da Educação teve então.” (nada mudou)

IV. O FIM DA CAPES PARTE I (1990-92)

A posse de FERNANDO COLLOR DE MELO na presidência da República, em março de 1990, e a profunda reestruturação da administração pública federal que se seguiu, trouxeram consigo a extinção da Capes, medida que traumatizou não apenas seus funcionários, mas a toda a comunidade acadêmica. E foi exatamente a mobilização desses segmentos que garantiu, em pouco menos de um mês, o reestabelecimento da agência.” Collor só deveria ser citado em caixa alta em processos penais.

A lei que determinou a transformação da Capes em fundação foi aprovada no início de janeiro de 1992, sob o n. 8.405, durante a gestão de JOSÉ GOLDEMBERG na pasta da Educação.” Pasta surrada essa, por que não compram logo uma mochila?

Capítulo de 1 página. Merecido.

V. NOVOS TEMPOS, NOVOS BLÁ-BLÁ-BLÁS (1992-2001)

a Capes assumiu a incumbência de validar os diplomas expedidos pelo sistema nacional de pós-graduação, e que possibilitou a definição de uma política para o setor de bolsas no exterior, através do incentivo aos acordos de cooperação.” Era Netherrealmeyer

OS ANTI-CABALISTAS IRÃO ODIAR ESTA ESCALA: “foram introduzidas novidades como a escala numérica de 1 a 7, de modo a permitir uma maior diferenciação entre os programas — alteração consolidada já na rodada realizada em 2001 —, e a medição da qualidade dos programas segundo sua inserção internacional.”

ENTREVISTAS & FRAGMENTOS

Considerávamos que a medicina e a biologia já eram tradicionalmente atendidas por fundações como a Rockefeller e outras. A classe médica já era mais ou menos autônoma e não precisava de um órgão para fornecer bolsas e mandar pessoas ao exterior; era muito comum naquele tempo encontrar médicos <com prática em hospitais de Viena, Paris, etc>. Curiosamente, isto até constituiu um problema para nós da Capes em certa época, uma vez que o presidente Juscelino era médico, o ministro da Educação, Clóvis Salgado, era médico e eu próprio, diretor de programas da Capes, também era. De toda maneira, porém, cortamos a medicina deste contexto. A área já era considerada atendida; por isso, atendíamos principalmente ao que, na época, se achava que contribuía para o desenvolvimento.” Almir de Castro

Tempos que não voltam mais: “ÁREA DE TECNOLOGIA, CIÊNCIA APLICADA? – Não exclusivamente. Está claro que não considerávamos o desenvolvimento uma coisa estanque, que se atendia apenas com tecnologia e ciência. Sabíamos que há um contexto de interação de todas as coisas e, por isso mesmo, atendíamos também áreas como ciências sociais, que era um setor abandonado; a Capes foi a primeira agência a se preocupar com as ciências sociais.”

VAMOS FORMAR EMPRESÁRIOS VISIONÁRIOS: “a simples existência de agrônomos não vai ajudar diretamente o desenvolvimento da agricultura. Outro exemplo: se começássemos a formar engenheiros especializados em automóveis antes da implantação da indústria automobilística, estaríamos gastando dinheiro para formar profissionais que teriam que emigrar para a Europa e para os Estados Unidos, porque aqui não se iria criar uma indústria automobilística apenas pelo fato de existirem engenheiros especializados em motor de automóvel.”

KUBI-CAR-CHECK

QUATRO VEZES CRISTÃO: “Anísio foi educado por padres na Bahia, por isso tinha uma fé inabalável; ia dedicar-se à vida religiosa. Só comia aquilo de que não gostava, para se acostumar à punição e à privação; era um homem de passar a noite ajoelhado, de se contrariar em tudo por fé. Tinha uma fé inquebrantável e era estudioso, ao mesmo tempo, de filosofia, cristianismo, religiões em geral. Mais tarde, quando começaram a acusá-lo de comunista, ele reagiu” “Enfim, não sei se foi uma manobra inocente ou não, mas seu pai exigiu que, antes de fazer os votos, ele passasse um ano na Europa, e Anísio aceitou; fez da viagem uma peregrinação. Obteve licença das mais altas autoridades da Igreja para visitar lugares santos, penetrar em recintos proibidos aos leigos, fez uma via crucis de fé, refez o roteiro de santos. E nesta história toda, acabou perdendo a fé. Por que meandros e mecanismos, ele nunca esclareceu, mas perdeu totalmente a fé.” Comeu umas putas húngaras!

A partir dai, voltou-se muito para os aspectos teóricos e pragmáticos da educação. Era um imenso admirador de John Dewey

Nós do staff é que achávamos — e eu ainda acredito nisso — que não tem a menor importância haver cem escolas de economia no Brasil, embora se pudesse, sem prejuízo, fechar a metade. Mas se houver cem escolas de engenharia e só 20 forem muito boas, ainda assim está tudo ok. Com a vastidão do Brasil, com a diversificação de trabalho que existe, há tarefas para engenheiro que só sabe fazer fossa e pavimentação e tarefas para o engenheiro criador, que vai fazer uma pesquisa, um trabalho tecnicamente sofisticado, que realmente vai introduzir uma coisa nova, ser um

grande professor [isso sim é o fundo da fossa] e tudo o mais. Há tarefas para todos.” “Evidentemente, uma pessoa só vai cursar uma universidade ruim se não puder ir para uma melhor ou porque, naquele local, não há um corpo de professores capaz de oferecer um ensino melhor. Não é por má fé que se faz uma escola ruim, mas mesmo essas pessoas têm uma missão a cumprir.” Limpar banheiros com diploma na gaveta.

Fizemos também coisas que talvez fossem da seara do CNPq ou do IBGE, como o primeiro cadastro de instituições de pesquisa do Brasil.” “nunca pudemos oferecer mais de 20 bolsas integrais para o exterior, não havia recursos. As bolsas eram integrais e, no auxílio, incluíam-se passagens para pessoas que tinham bolsas não-integrais de países ou instituições. Por exemplo, nesse tempo o ITA tinha um programa de treinamento de pessoal recém-formado, à frente do qual estava um professor inteiramente abnegado, que só vivia para isso. Por suas próprias relações, movimentava empresas, universidades, centros industriais dos Estados Unidos e da Europa; escrevia para essas instituições, solicitando bolsas e estágios. No fim do ano, tinha umas 30 ou 40 oportunidades de treinamento no exterior para oferecer a rapazes do ITA formados naquele ano ou no ano anterior, e a uma grande parte deles a Capes fornecia passagens.”

Por exemplo, a França tinha um número muito grande a oferecer, cento e tantas bolsas por ano; a Usaid, naquele tempo chamada de Ponto 4(*), também tinha um número grande, assim como a Alemanha e o Canadá, além dos órgãos que mantinham programas de bolsas; todos se ligaram um pouco à Capes.”

(*) “Nota dos autores – Programa criado no governo Truman (1945-53) para promover a cooperação técnica entre os Estados Unidos e a América Latina; no Brasil, procurou abranger principalmente as áreas de administração pública, economia, administração orçamentária e financeira, agricultura, recursos minerais, energia nuclear, saúde, educação e transporte. Na área de educação, dedicou-se à formação de professores que viessem por sua vez a formar profissionais para a indústria e promoveu a vinda de técnicos e professores americanos, além de conceder a brasileiros bolsas de estudos nos Estados Unidos, entre outros aspectos. Foi considerado por políticos, educadores e intelectuais um instrumento de controle político e ideológico dos Estados Unidos sobre o Brasil.” Não sem razão.

O QUE HOJE PARECE SER TAREFA PARA GÊNIOS DA COMPUTAÇÃO DESCOBRIR: “Assim, num tempo em que havia certa limitação de candidatos, tínhamos a informação completa sobre o que se passava em matéria de candidaturas, qualificação de candidatos, o que nos permitia saber quem estava se candidatando a duas bolsas.

A CAPES SOFRIA PRESSÃO POLÍTICA PARA CONCEDER BOLSAS? Naturalmente, recebíamos pedidos políticos e pessoais, mas fazíamos uma seleção muito ad hoc, muito informal. Recebíamos, por exemplo, uma carta de recomendação e telefonávamos para o signatário: <Você está recomendando mesmo ou é uma caria apenas para constar?> Tínhamos resultados bastante satisfatórios.” Haha!

O sistema de seleção realmente funcionava, completamente isento de ingerências, de influência política ou de qualquer fator não-acadêmico.” EM LETRAS GARRAFAIS NO LIVRO.

NUNCA HOUVE O FIO-CONDUTOR IMAGINÁRIO: “COMO ERAM AS RELAÇÕES COM O CNPq? Não eram institucionais, mas derivadas, como acontece muito no Brasil, de laços de amizade entre mim e os dirigentes do CNPq, como o prof. Antônio Moreira Couceiro e o prof. Manuel da Frota Moreira, diretor científico do CNPq, ou com o prof. Heitor Grillo, ou com diretores, presidentes, conselheiros. Os contatos eram mais troca de informações, para orientação da politica dos dois órgãos.”

NO BRASIL CADA IDÉIA TEM SEU PADRINHO. MESMO QUE SEJA A MESMA IDÉIA. AÍ TEMOS 2 PADRINHOS DA MESMA CRIANÇA, E NÃO É UM CASAL! “Havendo tão pouco em matéria de bolsa, em matéria de auxílio universitário, informal, não tinha importância que mais de um órgão fizesse a mesma coisa. Porque, por mais que fizessem os dois órgãos num mesmo campo, não conseguiriam fazer nem 10% do necessário. A mim, pessoalmente, essa duplicação nunca preocupou muito. Lembro que, muitos anos depois, Celso Barroso Leite passou a dirigir a Capes. Ele trabalhara conosco durante vários anos, e quando dirigiu a instituição, preocupou-se muito com a duplicação de atribuições. Em conversa, eu lhe disse para não se preocupar tanto com isso, porque todos os órgãos brasileiros que se dedicavam àquelas tarefas não dispunham dos recursos necessários para atender às extensas necessidades nacionais.”

a segunda coisa mais importante depois da seleção era ele ter garantido o aproveitamento de sua bolsa; isso, entretanto, era uma coisa que já nos escapava um pouco. Não tínhamos dúvida de que a seleção era muito bem-feita, porque se fazia com o aval e a participação das melhores pessoas. Em sua grande maioria, os bolsistas já estavam dentro do núcleo de uma escola ou centro de pesquisas. Todos estavam aptos a logo começar a absorver a experiência dos centros de treinamento, porque muito raramente mandávamos uma pessoa que não tivesse domínio da língua do país para onde ia. Mas em casos especiais, não deixamos de mandar um bolsista sem esta qualificação, e não nos saímos mal. Mandamos, mais de uma vez, pessoas ainda meio claudicantes, mas que chegavam e reforçavam seu inglês ou seu francês e se saíam muito bem, porque eram de alto calibre e apenas incidentalmente deficientes em idioma estrangeiro.” Traduzindo: tergiverso, meu caro Watson: nunca houve acompanhamento de egressos!

Em primeiro lugar, devo dizer que sequer fui consultada se queria ou não ser diretora da Capes. Mas vou contar como as coisas se passaram. Sou mineira de Santa Luzia, e minha mãe pertence à família Viana, muito numerosa; entre seus membros estão o historiador Hélio Viana e sua irmã Argentina Viana. Esta, que faleceu cedo, casou-se com Humberto de Alencar Castelo Branco, que em 1964 tornou-se presidente da República.” Suzana Gonçalves Viana

A BEATA QUE VIROU PRESIDENTE DA CAPES: “Durante todo o tempo tive que lidar com um personagem meio misterioso, uma espécie de <olheiro> do SNI [a Abin do Mal] — eles estavam em todos os ministérios. No governo Castelo Branco o <olheiro> era também professor, uma pessoa que me dava a impressão de ser muito equilibrada e nunca permitiu absurdos e intromissões indesejáveis.” “Anteriormente eu trabalhara na PUC, lecionando no Instituto Feminino, nos cursos de preparação cívica da mulher; era uma iniciativa vinculada também à Ação Católica. Comecei no final dos anos 40, depois do Estado Novo. As mulheres já tinham direito de voto e, talvez em decorrência disso, resolveram abrir cursos de preparação para um exercício cívico mais consciente [agora precisamos para todo homem branco]. A partir dali, fui ministrar cursos análogos no Colégio Jacobina e depois no Santa Úrsula. A partir destes exemplos, outras instituições também passaram a oferecer cursos semelhantes. Posteriormente, fui convidada pelo então reitor da PUC, o padre Artur Alonso, para assessorá-lo no Setor de Intercâmbio da Universidade, o que me aproximou dos órgãos de comunicação do Rio.”

Como inúmeros outros organismos governamentais, a Capes era uma campanha mantida com recursos transferidos da Casa Militar da Presidência da República. O dr. Anísio Teixeira certamente sabia que, embora esdrúxulo, o caminho era o mais seguro, pois a dotação era muito pequenina, e o tempo todo ele lutou tremendamente para aumentá-la. Nisso, sobreveio a Revolução de 64 e — não tenho documentos sobre isso, sei apenas de oitiva — no primeiro momento houve um movimento para extinguir a Capes. Mas professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sobretudo Paulo de Góes e Amadeu Cury, puseram-se em campo para convencer o governo de que isso, positivamente, não devia ser feito.” Provavelmente os militares eram peritos em magia negra para sumir com tantas provas de atrocidades, fossem ideológicas ou materiais! “Aliás, o ministro Suplicy tinha qualidades muito positivas, como pude notar durante sua passagem pelo Ministério — eu não o conhecia, sendo ele paranaense.” Hm. Até agora não falou mal de ninguém.

o Protec era uma anomalia. Foram abertos cursos de engenharia onde houvesse espaço, sem anuência prévia do Conselho Federal de Educação, sem dotação orçamentária nem vínculo com universidades públicas; eram escolas isoladas. Como todos os orçamentos foram contingenciados, era preciso tomar providências para que os estudantes não perdessem o ano nessas escolas, que não tinham competência jurídica para diplomar; portanto seus cursos não tinham validade.”

Lembro que, de uma feita, chegou ao meu conhecimento que uma importante universidade estava investindo dotações da Capes no mercado financeiro, fraudando, portanto, cláusula do convênio por ela assinado e que determinava a pronta aplicação dos recursos. Considerava-se, certamente, acima de controles. Aí mandei os dois Nelsons, um por ser agressivo e o outro por ser bem tranqüilo, para ter com o reitor dessa universidade e conhecer suas explicações a respeito. Rapidamente, a universidade resgatou o dinheiro do mercado financeiro e passou a aplicá-lo conforme as determinações da Capes. Era isso, ou o convênio seria denunciado.”

O governo Costa e Silva realmente endureceu, mas o seguinte foi pior, o do Médici. Apesar de seu ar tranqüilo, seu governo foi o pior de todos, inclusive com sacrifício de vidas. Quando voltei à Capes, como assessora de Programas, o agente do SNI não era mais aquele professor do período inicial, mas um militar. Para mostrar eficiência, fez um questionário: tínhamos que preencher o nome do bolsista, sua proveniência, seus compromissos com a Capes. Depois, para serem respondidas pelo bolsista, vinham umas perguntinhas, entre as quais uma totalmente risível: <Gosta de música? Quais são os seus autores preferidos?> Obviamente, se fosse um comunista de verdade, só responderia Mozart e Beethoven, porque era escolado, mas se não fosse e escrevesse Geraldo Vandré, estaria perdido. Como baixou o nível, que coisa incrível!”

Depois da saída de Celso Barroso Leite, imagino que deva ter havido uma certa crise, porque ninguém pode gerenciar a Capes sem continuidade, numa rotatividade permanente. Com a transferência para Brasília e a gestão de Darcy Closs, as coisas se normalizam. Sei que o Cláudio de Moura Castro ficou 3 anos, e o Edson Machado de Sousa 7, um bom tempo.” “Brasília é a capital. A Capes não pode ficar no Rio a vida inteira.”

lembro que o prof. Anísio Teixeira foi logo afastado e classificado como comunista.” Celso Barroso

Tomei a iniciativa de fazer uma visita ao general Artur Façanha, presidente do CNPq, para mostrar-lhe a conveniência de trabalharmos em conjunto. Como enveredamos por uma conversa sobre futebol, eu disse: <General, sem saber o que o outro está fazendo, correndo para trás e para diante, a gente fica parecendo o ataque do Flamengo, que às vezes quase faz gol contra, porque está completamente biruta.> O general, que até então estava muito formal, também era torcedor do Flamengo e gostou da informalidade; assim, passamos a conversar sobre a conveniência de o CNPq cuidar de uma coisa e nós, na Capes, de outra.”

FEIJOADA: “Pode-se ser excelente pesquisador e péssimo professor; aliás, com freqüência encontramos exemplos. Muitos não querem perder tempo com alunos e por isso preferem fazer pesquisa. Sustentei muito essa tese. Nada aconteceu, formalmente, mas algumas pessoas também foram reconhecendo, e como se tratava da vocação natural dos órgãos, essa idéia vingou: a Capes intensificou sua atuação no aperfeiçoamento do corpo docente, e o CNPq voltou-se mais para a pesquisa.” Aleluia, irmãos!

Houve uma época em que se cuidou muito de biologia, depois passamos um pouco para economia; nessa área, a instituição mais beneficiada foi a Universidade Federal do Rio de Janeiro, até pela proximidade e maior possibilidade de contato. Já na minha gestão, o Conselho Deliberativo pretendeu dar certa preferência a universidades do Nordeste. Eu era contra e expus meu pensamento ao Conselho: <Não sei se os candidatos de lá já estão qualificados, por exemplo, para receber uma bolsa no estrangeiro.> Sempre considerei que era melhor um nordestino ir para São Paulo do que para o exterior. Claro, pode haver um gênio lá, mas em média o Nordeste estava ainda um pouco longe da pós-graduação; valia mais fazer uma especialização em São Paulo ou no Rio do que ir para o exterior.”

Nós mudamos da sede antiga, na avenida Marechal Câmara, no Castelo, para o prédio do MEC, para economizar aluguel. Algumas repartições do Ministério já tinham mudado para Brasília, e havia muitas salas vazias. Ficamos mais bem-instalados em termos de espaço, mas não de privacidade, porque o prédio do MEC é muito barulhento, com aquelas divisórias de madeira.”

A Capes era uma agência relativamente pequena. Em 1974, ela mantinha 70 bolsistas no exterior e mil no país; no final de 1978, as concessões somavam 1.200 bolsistas no exterior e 13 mil no Brasil.” Darcy Closs

Criou-se, também, um novo tabu: as bolsas para o exterior contemplariam apenas o doutorado; entretanto, em áreas com expressiva necessidade de capacitação, a Capes ofereceria, excepcionalmente, bolsas de mestrado no estrangeiro. Por exemplo, levando em conta proposta da área, foi enviada uma circular a todos os bolsistas casados que estavam no exterior: <Se sua esposa conseguir uma vaga no mestrado de biblioteconomia na sua universidade, a Capes garantirá o pagamento das taxas e oferecerá uma bolsa suplementar.> Resultado: boa parcela da elite da biblioteconomia brasileira iniciou sua pós-graduação através dessa sistemática; obviamente tiveram a oportunidade de retornar posteriormente ao exterior, já com bolsa própria, para completar os créditos e obter o doutorado.”

as universidades do Nordeste eram fracas porque seus professores não conseguiam ser aceitos na pós-graduação das universidades do Centro-Sul, e professores mal-formados não conseguiam melhorar nem a qualidade do ensino de graduação nem implantar núcleos de pesquisa em suas universidades.” Nossa, como o bolsonarismo era forte naquela época!

sem a Finep a pós-graduação não teria deslanchado, particularmente na fase inicial de implantação da Capes em Brasília. (…) Como conseqüência, a Capes cresceu e ultrapassou em pouco tempo o número de bolsas do CNPq, consolidando-se como agência de pós-graduação, enquanto o CNPq voltou a sua origem de financiador de núcleos, grupos, linhas de pesquisa e projetos dos pesquisadores no país.”

Desde que a Capes se consolidou como agência de pós-graduação, sua classificação dos cursos em A, B, C, D e E — sistema recentemente <apropriado> pelo Provão¹ do MEC — passou a ter grande impacto junto às universidades. A própria Finep via nessa classificação da Capes uma forma de convalidar os auxílios que estava dando aos cursos.”

¹ “Conhecido como <Provão>, o Exame Nacional de Cursos [atual ENADE] foi criado pela Lei n° 9.131 de 1995, e constitui um dos instrumentos de avaliação do MEC visando à melhoria da graduação brasileira. As provas são realizadas anualmente entre maio e junho, e sua abrangência está restrita às diretrizes e currículos em vigor. Condição obrigatória para a obtenção do registro do diploma de nível superior, deve ser prestado pelos alunos que estão concluindo os cursos escolhidos no ano anterior pelo MEC.”

A seguir, a melhor entrevista dentre todas:

Desde menino, tinha interesse pelas atividades manuais: mecânica, ferraria, carpintaria, depois por eletricidade e eletrônica; por isso, pensei inicialmente em estudar engenharia. Mas comecei a ler sobre ciências sociais e achei bastante interessante; depois, percebi que tinha horror de matemática, era muito indisciplinado. Além disso, se estudasse engenharia, passaria um ano como engenheiro e o resto da vida como administrador da empresa da família.(*) Então resolvi estudar administração, mas achei muito pobre, intelectualmente; economia era muito mais rica, o desafio intelectual muito maior.

(*) A Usina Siderúrgica Queirós Júnior, fundada no interior de Minas em 1888 com o nome de Usina Esperança, pertencia à família paterna de Ana Amélia Queirós Carneiro de Mendonça, avó materna do entrevistado.

A faculdade de administração era uma antiga escola de comércio, um curso desses de perito contador, a coisa mais humilde possível. Com a criação da Universidade Federal de Minas Gerais, virou faculdade de economia e administração da noite para o dia, à frente da qual ficou um professor de economia política, um advogado chamado Ivon Leite Magalhães Pinto, que teve uma única idéia brilhante na vida — mas não é necessário mais do que uma idéia para modificar o mundo, não é mesmo? Na hora de construir o prédio da faculdade, ele fez sala para professor, sala para aluno, uma biblioteca, que equipou com todos os clássicos de economia, assinaturas de todas as grandes revistas internacionais de economia, administração, sociologia e ciência política, e botou os professores menos ruins em tempo integral, coisa absolutamente inédita na época. E passou a fazer um concurso para selecionar uns 7 alunos por ano, aos quais concedeu uma bolsa equivalente a um salário mínimo. Deixou esse pessoal trancadinho lá dentro, com porteiro na porta, de 7 da manhã às 7 da noite; isso criou uma química fantástica. Éramos todos autodidatas, porque os professores também não sabiam quase nada; a partir do segundo ano, já sabíamos mais do que a metade deles.” Cláudio de Moura Castro

DITABRANDA? MAIS PARA DITADUDA OU DITABRARA

COMO SURGIU O CONVITE PARA DIRIGIR A CAPES?

(…) recebi um telefonema do Guilherme de Ia Peña, já escolhido para a Secretaria de Ensino Superior do MEC, perguntando se eu queria ser diretor da Capes. Eduardo Portela havia sido indicado para ser ministro da Educação do governo Figueiredo, que se iniciava em março de 1979. Apesar de ter sido um dos ministros mais bem-intencionados que já tivemos, o Portela foi um dos com menos capacidade para identificar quadros e montar uma equipe; foi de uma extraordinária infelicidade, nesse particular. A SESu é um lugar muito difícil, espinhoso, cheio de armadilhas, e ele convidou o Guilherme de Ia Peña, um tocador de obra; excelente funcionário da Finep, muito inteligente, competente, mas de personalidade volátil. Convidou ainda o João Guilherme de Aragão, um velho nordestino do Dasp, para ser secretário-geral; foi uma catástrofe. O Guilherme não me conhecia muito bem, só tínhamos estado juntos uma vez; acho que me convidou por referências que teve a meu respeito.

O SENHOR NÃO TINHA NENHUMA ARTICULAÇÃO POLÍTICA NO MEC?

Zero. Tinha visto o Guilherme uma vez, e o Portela, nem isso. Depois fiquei sabendo que meu nome foi o segundo; o primeiro a ser escolhido foi o antropólogo Roberto Cardoso de Oliveira, da UnB, que impôs como condição para assumir a direção da Capes a eliminação do veto ideológico na concessão de bolsa. O Portela disse que não tinha a mais remota possibilidade de fazer isso, e saíram buscando outro nome; acharam o meu, não sei como [hahaha!]. Acredito que Dionísio Dias Carneiro, que tinha sido indicado para a Finep naquele momento, possa ter influenciado. Sei que recebi o convite e aceitei.

Meu raciocínio foi o seguinte: Falo mal dos dirigentes do MEC, dizendo que deviam fazer isso e aquilo; minha artilharia está assestada contra a administração da educação brasileira, não faço outra coisa senão criticá-la. Agora, quero ver como é estar do outro lado. E já que me convidaram para a melhor posição do MEC — ser diretor da Capes é infinitamente melhor do que ser ministro da Educação —, vou aceitar, vou virar vidraça.

Eu tinha uma carreira acadêmica consolidada, não tinha a mais remota intenção de permanecer no serviço público, tinha minha posição na Fundação Getúlio Vargas e na PUC, era uma época em que o mercado era extremamente generoso; se perdesse o emprego, eu poderia ir, virtualmente, para qualquer lugar no Brasil, então aceitei. Minha meta era fazer tudo o que tivesse que fazer, com uma enorme curiosidade intelectual de verificar quanto tempo levaria para me botarem para fora. Fiquei dois anos e meio; descobri que a burocracia é incompetente até para expelir as pessoas.

ERA VISÍVEL A INTENÇÃO DE COLOCÁ-LO PARA FORA?

Como não?! O <baixo clero> do MEC conspirou contra mim desde o início, pela minha irreverência e meu desamor pelas liturgias da burocracia.

QUAL FOI SUA PRIMEIRA IMPRESSÃO AO CHECAR À CAPES?

Descobri que era uma instituição brilhante, com uma equipe extremamente leal, do contínuo ao diretor-adjunto, todos totalmente dedicados e com particular abertura para a inovação. Eu não podia querer mais. Tudo modestinho, magrinho, pouca gente, uns 200 funcionários, sem grandes estrelas, não era um CNPq, sempre cheio de grandes cientistas; prima dona na casa, só eu. Levei aos poucos uma nova geração de gente intelectualmente sólida e descobri que dava para fazer coisas do arco-da-velha [prodigiosas].¹ Eu tinha um diretor-adjunto extraordinário, o Hélio Barros, que conhece a Capes muito mais que eu, porque pegou 3 gestões. Fazíamos uma boa dobradinha: ele olhava os dinheiros e a administração, e eu ficava inventando moda.

¹ Só fui ler essa expressão de novo em Monteiro Lobato!

O primeiro dia na Capes foi muito ilustrativo: cheguei no MEC sem gravata e fui logo barrado no elevador privativo do ministro; além disso, meu primeiro ato administrativo foi mandar desentupir a latrina do meu gabinete. E em meu primeiro contato com a burocracia, fui levado para ver o processamento do sistema de bolsas, como passava de uma mesa para outra, de uma mesa para outra, uma coisa chatíssima. Como não queria fazer desfeita, fiquei prestando atenção e fazendo perguntas. Em dado momento, não resisti: <Por que é necessário este papel aqui, se já existe este outro?> Resposta: <É, realmente, não há necessidade.> E eu: <Então, vamos acabar com ele.> O Hélio Barros disse em seguida: <Fulano, acabe com o papel.> E eliminou-se aquele papel. Era uma burocracia realmente fantástica!

O SENHOR DISPENSOU ALGUÉM DA EQUIPE?

Não. Logo que cheguei, disse que não poria ninguém na rua, que estava todo mundo garantido — o Guilherme de la Peña tinha feito um estrago na SESu, botando todos os velhos na rua. Quanto a mim, pedi a todos os funcionários qualificados que me escrevessem meia página, uma página, o que fosse, sobre o que achavam da Capes; com isso, fiquei sabendo quem era quem, deu para fazer uma apreciação sobre a qualidade do pessoal, além de conhecer muito mais sobre a agência. O resultado foi um processo normal de atrito: as pessoas que não se sentiram confortáveis com o novo clima foram progressivamente saindo, e foram entrando novos, ou seja, a minha equipe, essencialmente alguns conhecidos e ex-alunos meus que tinham feito mestrado: Fernando Spagnolo, que ainda está lá, Guy Capdeville, hoje reitor da Universidade Católica de Brasília, Lúcia Guaranis, que hoje está na Finep, Ricardo Martins, e mais um grupinho.”

A Capes tinha um time de vôlei; pois Spagnolo e eu fizemos questão de jogar vôlei com os contínuos [antigo estagiário].”

Houve até um incidente interessante. A Capes recebia um volume monumental de cartas, e o protocolo estava levando dois dias para processar tudo aquilo; algumas cartas eram urgentes, eram bolsistas pedindo socorro no exterior, essas coisas. Mandei um funcionário fazer uma investigação, mas ele não descobriu nada de errado. Decidi ir ao protocolo e comecei perguntando como se fazia a triagem; ficamos, dois ou três contínuos e eu, fazendo a triagem das cartas durante toda uma manhã. Realmente, não havia nada de errado, mas depois que estive lá o protocolo passou a funcionar; os contínuos se sentiram valorizados por terem o diretor da Capes trabalhando junto com eles.” Uma pena que o tempo é impiedoso e faz questão de dizimar essas memórias para os “novos contínuos”, que não continuam nada!…

QUAL ERA SUA AVALIAÇÃO SOBRE O PROJETO DE ANÍSIO TEIXEIRA PARA A CAPES? QUAIS OS PONTOS DE CONTINUIDADE, QUAIS OS PONTOS DE RUPTURA?

Exceto quanto à dedicação do staff, à competência, ao amor à instituição, há uma ruptura cognitiva entre a Capes de Anísio Teixeira e a de Darcy Closs: a memória se perdeu; só quando a Capes completou 30 anos é que fizemos uma grande comemoração e voltamos a ver o que Anísio falava sobre ela. Criei, nessa ocasião, o Prêmio Anísio Teixeira, para recuperar a importância de sua figura para a trajetória e o sucesso da Capes. Eu próprio cheguei à direção sem saber absolutamente nada sobre ele, a não ser que era um baiano de grande envergadura, que tinha feito coisas importantes, membro do movimento da Escola Nova, etc., mas seu papel dentro da Capes tinha sido completamente apagado; não encontrei qualquer mensagem que pudesse ser atribuída ao Anísio, não houve a herança de uma mensagem substantiva. Havia a herança de uma organização com amor-próprio, com auto-estima, sem nenhuma mancha de corrupção e com uma meritocracia muito forte.” Poxa… Dá até lágrimas nos olhos ter nascido em 1988…

É UMA INSTITUIÇÃO ORIGINAL DENTRO DO SERVIÇO PÚBLICO BRASILEIRO?

Isso mesmo. Pelo que pude entender, a Capes teve um levíssimo período fisiológico, por ação dos consultores que acompanhavam seus próprios projetinhos, mas nunca chegou a ser uma coisa ostensiva; as bolsas sempre foram concedidas à base do mérito. Não sei se já era uma idéia do Anísio, mas sei que perdurou. Mesmo após 1964, manteve-se a tradição: todo político respeitou a Capes; até seus maus dirigentes eram pessoas com bons currículos.”

SIM, O TEMPO PASSA: “Eu entendia que pós-graduação não pode ter o mais remoto resquício de preocupação com eqüidade, justiça social ou assistencialismo; entendia que pós-graduação era a mais pura meritocracia, alguma coisa para formar uma elite de pesquisadores.”

continuamos com a mesma liberdade do tempo do Darcy na montagem dos comitês assessores e aperfeiçoamos um sistema iniciado por ele: a rotatividade de consultores. A cada ano, metade era substituída; a outra metade transmitia a experiência.” Sem Jorges e pés-de-barro!

Inicialmente, passamos a divulgar as notas A; quando não havia A, publicávamos as notas B. Era uma política deliberada, mas sem movimentos bruscos, que pudessem frustrar o sistema. Pois bem, pouco depois de minha saída, alguém entregou à jornalista Rosângela Bittar o livro das avaliações, e ela publicou uma matéria de página inteira em O Estado de S. Paulo com os cursos que tiveram conceito E, entrevistando todos os responsáveis. Foi um protesto generalizado. (…) Na hora em que esse pessoal dos cursos E se juntou para desmoralizar a avaliação da Capes, do alto de seu Olimpo químico, o Senise reagiu: <Absolutamente! A avaliação é perfeitamente respeitável, não tem nada do que os senhores estão falando. Se receberam conceito E, é porque merecem.> Enfim, o protesto acabou reforçando a avaliação; ficou uma coisa irreversível. E não houve mais protestos. O interessante é que antes de a Capes iniciar a publicação das notas, alguns pró-reitores, como o Gehrard Jacob, da UFRS, já as divulgavam internamente. Mas uma universidade não tem <internamente>; divulgou, está na rua. Em seguida, o pró-reitor da UFMG passou a fazer o mesmo, e algumas pós-graduações que tinham conceito A, afixavam na porta seu conceito, pois era uma qualificação para elas.”

O PT ABRIU FERIDAS QUE JAMAIS CICATRIZARAM NA CASA-GRANDE: “uma extraordinária arquitetura meritocrática para a pós-graduação, coisa que só país desenvolvido tem. As universidades têm um metabolismo basal, o orçamento da SESu, que é a <casa da mãe Joana>, mas a pós-graduação é guiada por 3 ou 4 pilares de meritocracia extraordinariamente sólidos, e mecanicamente interligados.”

Minha luta era contra os mestrados vagabundos. Minha posição era: <Quem não tem qualidade não deve manter mestrado.> Descredenciar não fazia parte da agenda, mas eu achava que não deveríamos apoiar mestrados criados por atacado. E eu fazia a distinção entre mestrado orgânico e mestrado-trapiche.¹ O mestrado orgânico tem a característica de crescimento de um organismo a partir de uma boa semente, que é uma liderança intelectual forte; minha tese era que todos os bons mestrados ou doutorados que estavam aparecendo eram orgânicos, no sentido de que havia uma organicidade interna e que tudo girava em torno de um guru, uma figura forte. Já o mestrado-trapiche era aquele em que alguém embarcava 20 PhDs num navio, desembarcava no trapiche e chamava aquilo de mestrado; em geral, era o reitor que fazia a contração de um monte de gente desarticulada, sem liderança, e isso não levava a coisa nenhuma, não produzia pesquisa, nada.”

¹ Armazém litorâneo, hangar, antigo moinho de cana. Leia um Jorge Amado!

Havia os embates financeiros, ou seja, a luta pelo orçamento. Quando assumiu o MEC, Eduardo Portela entrou com uma idéia meridianamente certa: a prioridade é o primeiro grau; ninguém pode tirar dele esse mérito. Mas as burocracias têm um grau muito grande de endogenia com suas clientelas. A burocracia do primeiro grau é aquela das senhoras professoras de grupo escolar, e suas lideranças eram da mesma estirpe. Na universidade, eram os empresários públicos do ensino, os reitores, todos alertas ali, como o Linaldo; e na pós-graduação eram os acadêmicos mais sabidos que estavam na administração da pós-graduação, pessoas finíssimas, primeiro time.”

toda a prioridade para o primeiro grau acabou indo por água abaixo, porque não havia gente para materializá-la, não havia clima no país. A configuração de poder não era a mesma de hoje, o primeiro e o segundo graus eram uma catástrofe, os projetos de educação rural do Banco Mundial eram outra catástrofe, ninguém queria saber daquilo; assim, esses recursos acabavam em nossas mãos, pela competência e agressividade da equipe. A mesma coisa aconteceu quando Rubem Ludwig assumiu o MEC: perdemos um pouco de poder, mas logo recuperamos e fomos em frente.”

Curiosamente, as equipes do regime militar eram constituídas à base do mérito mesmo; a escolha era tecnocrática, havia uma preocupação com a competência. O próprio Portela cometeu erros horrendos, mas sempre tentando acertar. O militar é meritocrático por natureza. Então, o governo militar nunca nos incomodou; dentro do MEC, o militarismo nunca foi um tema, e ainda menos com o Ludwig. Ele foi um dos ministros mais gentis, mais afáveis, mais fáceis de tratar, mais educados que passaram pelo MEC. General premiado, muito bem cotado no Exército, era o trouble shooter da Força; quando o negócio estava ruim, mandavam o Ludwig.”

o Guilherme de Ia Peña, que tinha fortes ligações militares, me disse: <Esse negócio de veto ideológico a gente resolve com a maior facilidade. Tenho um conhecido no SNI, o coronel Nini, que é uma maravilha e resolve isso num instante.> Era, nada mais nada menos, que o então coronel Newton Cruz.(*)”

(*) “Newton de Araújo Cruz (1924-), militar, foi chefe da agência central do SNI (1981-83) e comandante militar do Planalto e da 11ª RM (1983-84). Neste último cargo por duas vezes determinou medidas de emergência para Brasília, primeiro sob pretexto de garantir segurança ao Congresso durante a votação da nova lei salarial (1983) e depois quando da votação da emenda Dante de Oliveira (1984).¹ Identificado com a linha-dura do Exército, pediu passagem para a reforma quando foi excluído da lista de promoções a general-de-divisão. A partir de então dedicou-se à política candidatando-se a cargos eletivos no Rio de Janeiro.”

¹ Nome formal das Diretas Já!.

ATUALMENTE, QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS DESAFIOS DA PÓS-GRADUAÇÃO E, PRINCIPALMENTE, PARA A CAPES, PRINCIPAL AGÊNCIA DE PÓS-GRADUAÇÃO NO BRASIL?

Primeiro, valorizar aquilo que é a essência da produção da área. Ou seja, escrever uma tese de doutorado sobre um compositor ou sobre as madeiras utilizadas na fabricação de uma viola de gambá não é da essência de um curso de música; a essência de um curso de música é dar um concerto e ter uma boa crítica, ou compor uma peça que ganhe um prêmio. (…) Em segundo lugar, extinguir o mestrado acadêmico, esse iguana – achamos que o iguana deveria ter sido extinto, porque é igual ao dinossauro, mas não foi, continua aí até hoje. O nosso sistema é uma cópia do sistema americano, mas lá não existe mestrado acadêmico. O que aconteceu? O Brasil criou a pós-graduação mais longa do mundo: no mínimo, três anos de mestrado e cinco anos de doutorado. Terceiro, acelerar o processo de criação do mestrado profissional e acabar com sua descaracterização, pela exigência de um programa de pesquisa. A Capes levou muito tempo para aprovar o mestrado profissional; custou a compreendê-lo dentro de sua lógica, que é a de formar profissionais e não pesquisadores. O que interessa é a excelência dos profissionais formados e não a excelência da pesquisa. A pesquisa é para o doutorado. Se alguém quiser fazer pós-graduação em engenharia, deveria existir um mestrado profissional onde se formam profissionais e um doutorado onde se faz pesquisa.”

A pós-graduação não pode ser maior do que o estoque de alunos com perfil adequado para cursá-la. A idéia de criar um aprendiz de doutor, que é o mestrado, foi boa no seu tempo, mas caducou. Acho até que pode haver um período probatório de mestrado acadêmico, como era sua concepção original, mas no momento em que conseguimos criar um bom doutorado, devemos extinguir o mestrado. Além do mais, no Brasil a pós-graduação está muito cara. Quem paga isso? O custo-aluno no Brasil é igual ao da França, é a média da Europa. (…) O comitê não é proprietário da Capes ou da ciência brasileira, mas um grupo que assessora o Ministério da Educação na administração da coisa pública. O povo está sendo lesado quando decisões são tomadas por partes interessadas e não por pessoas que, pelo menos em tese, estão representando os interesses desse povo. Houve uma usurpação de poder por parte dos comitês assessores, comitês de consultores ou o que quer que seja; virou a <casa da mãe Joana>. Na teoria da ciência política e da democracia, não há uma única justificativa para se delegar à parte interessada a gestão de uma coisa pública, é como entregar as galinhas para a raposa tomar conta.”

A CAPES NÃO ERA HIERARQUICAMENTE SUBORDINADA À SESu?

Semi-subordinada. Era sempre uma relação ambígua, mais na teoria que na prática; havia espaço para escapar.”

A Capes é muito mais maleável que a SESu ou o CNPq que, este sim, azedou de vez. Os funcionários criaram um ambiente muito ruim no CNPq. Mas a Capes não, essa é fácil de consertar. Acho que ela precisa de mais estrelas.¹ Possui bons funcionários do cotidiano, o pessoal que toca a máquina. Mas faltam mais estrelas, mais grandes cabeças.” “as pessoas se sentiam mais valorizadas, porque tinham mais autonomia. Eu gosto de liderar, não gosto de mandar.”

¹ Careful what you wish… You might just get it!

Acabou!

Formei-me em matemática no Paraná: em 1960 fiz o bacharelado e no ano seguinte consegui a licenciatura. Queria fazer mestrado em lógica matemática com um dos mais brilhantes pesquisadores na área, o prof. Leônidas Hegenberg, que estava no ITA. Fui a São José dos Campos e tive uma entrevista com ele, que se interessou, mas a Capes recusou meu pedido de bolsa, apesar de toda a boa vontade do dr. Almir de Castro, diretor-executivo à época.” Edson Machado de Sousa

Davi me convidou a ir para a UnB, e foi aí que nasceu meu contato com a área de educação, especialmente a educação superior, com uma mescla de economia.”

Não sei se houve algum problema entre ele e o Cláudio, mas o fato é que o Gladstone me convidou para dirigir a Capes, o ministro confirmou o convite, e eu aceitei; fiquei na direção entre 82 e 89, 7 anos, até agora o mais longo mandato. Provavelmente serei superado pelo Abílio.”

Ubirajara Alves era diretor de Programas da Capes e, fazendo uso dos resultados dos processos de avaliação, criou um sistema de indicadores que possibilitariam determinar o volume e o tipo de apoio a ser dado aos programas em função do seu desempenho no processo da avaliação. E isso de uma forma automática, sem precisar perguntar aos Comitês. Isso foi aprovado pelo Conselho, e acabamos implantando uma sistemática de apoio que era praticamente decidida no âmbito burocrático da agência, não dependia de apreciação pelos comitês científicos.”

Como no orçamento da universidade pública não havia uma rubrica específica de apoio à pós-graduação, os programas viviam à mercê da disponibilidade de recursos da Reitoria, em geral exíguos e irregulares. Então, era preciso que os programas de pós-graduação passassem a contar com um reforço de recursos para atender a suas necessidades. Isto tudo acabou gerando uma situação em que as Reitorias não tinham mais ingerência nos programas de pós-graduação.”

Foi um período em que eu, pessoalmente, viajei à Austrália, a Israel, à Holanda, à Bélgica, enfim, a vários países com os quais não tínhamos tradição de cooperação, para tentar abrir canais. Não fomos muito bem-sucedidos, não, exceto, talvez, em alguma coisa com a Austrália, pela facilidade da língua, mas com Israel, Holanda, Bélgica, não foi possível ampliar muito.”

É preciso lembrar que o governo Sarney criou o Ministério da Ciência e Tecnologia, e todo o MEC passou a agir com cautela, para não provocar qualquer conflito entre suas políticas e as do novo Ministério. A própria Capes teve que ir devagar, porque agora o CNPq estava bastante fortalecido; era uma relação que tinha que ser muito bem costurada. A verdade é que os bons tempos não voltaram mais, porque o FNDCT estava muito esvaziado, a Finep nunca mais voltou a ter o papel de antes em relação à Capes.”

UM DOS PROGRAMAS MAIS CRIATIVOS INICIADO EM SUA GESTÃO À FRENTE DA CAPES FOI O PROGRAMA DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO E TECNOLÓGICO, O PADCT.

(…) Quando se estruturou o PADCT, conseguimos incluir esse programa, que foi um grande sucesso; lembro que foi uma briga enorme para convencer os negociadores brasileiros a incluir um programa para melhoria de ensino de ciências no nível médio no PADCT. (…) Quando abordávamos a necessidade de melhorar o ensino de ciências como um investimento para alimentar a criação de novos pesquisadores, para atrair o jovem para a ciência e para o trabalho científico, a comunidade científica torcia o nariz. Não foi fácil, mas conseguimos. Porém, hoje em dia o PADCT foi minguando, minguando, quase desapareceu.”

O fato é que houve um arrefecimento, por parte da Capes, dessa proposta de integrar melhor pós-graduação e graduação. Essa foi minha grande frustração, porque ainda hoje considero que o grande desafio do ensino superior no país é a qualificação de docentes. E, apesar de todo o esforço que se faz na Capes, a pós-graduação brasileira ainda é essencialmente uma atividade de formação de pesquisadores, embora eu reconheça que não se faz pós-graduação sem pesquisa. Mas no desenvolvimento dos programas, a orientação esquece essa perspectiva da melhoria de qualidade do desempenho do docente.

E existe a própria pós-graduação profissionalizante, que tenta aprimorar pessoas que não querem ir para a vida acadêmica, não querem ser pesquisadores. Na medida em que a Capes começar a regulamentar o mestrado profissionalizante, acabará dando um carimbo acadêmico a esse mestrado. Então, por que não incorporar o MBA ao sistema de pós-graduação? Esse conflito não é bom para o sistema.”

A continuidade administrativa é outro elemento importante para explicar o sucesso da Capes. Nunca ouvi nenhum dirigente da Capes dizer: <Rompi com tudo o que havia antes.> Mesmo pessoas com pontos de vista diferentes, que atuaram em épocas diferentes, sempre inovaram, mas guardaram uma continuidade em relação aos momentos anteriores. Vejam o Cláudio de Moura Castro, por exemplo. É uma pessoa extremamente criativa, gosta de enfrentar novos desafios, não é alguém que se acomode. Pois quando passou pela direção da Capes, exercitou bem esse lado de sua personalidade, mas sem destruir nada, sem passar a borracha no que fôra feito antes. Eu tenho uns pegas feios com o Cláudio mas, apesar de várias divergências conceituais, temos um relacionamento excelente.”

Atualmente, não gosto do caminho que a Capes está tomando, acho que ela está partindo para uma formalização extremamente rígida do sistema; os controles se intensificaram, as exigências aumentaram enormemente. Tenho minhas dúvidas se isso é bom para o sistema. A lei não diz que, para abrir um curso de pós-graduação, é preciso ter autorização, mas criou-se uma sistemática dentro da Capes, de tal sorte que ninguém se arrisca a criar um curso de pós-graduação sem seu beneplácito. Antes criava-se um curso e, só depois de dois ou três anos, quando eram defendidas as primeiras dissertações ou teses, é que o programa se dirigia à Capes, pedindo para entrar no sistema de avaliação e ser reconhecido. Hoje ninguém mais faz isso.”

* * *

A REFORMA ADMINISTRATIVA A SER IMPLEMENTADA PELO GOVERNO COLLOR NÃO PREVIA A EXTINÇÃO DA CAPES?

Previa, e quando assumi, com um mês e meio de governo, ela já havia sido extinta — eu tinha sido convidada para dirigir um órgão que não existia mais. Como se tratava do governo Collor, consultei algumas pessoas da comunidade científica, porque não queria entrar em conflito com meus pares. E todo mundo considerou que eu devia aceitar o cargo, porque a situação ficaria muito difícil sem a Capes. Mas todos diziam igualmente: <Se as coisas ficarem politicamente difíceis, você sai.> Resolvi enfrentar o desafio — e tive muito apoio do Goldemberg, que estava na então Secretaria de Ciência e Tecnologia.

Mesmo com a Capes extinta, Chiarelli me deu posse, mas na mesma noite foi internado na UTI com um sério problema de saúde. Resultado: não assinou o ato, e eu comecei a trabalhar num órgão que não existia mais, numa posição para a qual não tinha sido nomeada. Foi bastante complicado, pois eu precisava assinar papéis, mas não estava nomeada. Um dos membros do Conselho da Capes, o dr. Osvaldo Ramos, era médico do Hospital São Paulo, onde estava internado o ministro, e levou-lhe o ato de minha nomeação, que foi assinado na UTI.

A primeira luta visava, evidentemente, recriar a Capes. Os próprios funcionários, com total apoio da comunidade científica, já tinham começado a fazer uma enorme mobilização, na qual me incorporei. E conseguimos ressuscitar o órgão, com o apoio integral do próprio ministro.” Eunice Ribeiro Durham

2020: Será que dois raios caem na mesma Coordenação?

QUEM LÊ PENSA QUE ESTAMOS NO SÉCULO XXI: “Tínhamos uma reunião por semana, eu contava o que estava fazendo, e o ministro aprovava. Aprovou até mesmo minha iniciativa de acabar definitivamente com as bolsas administrativas, aquelas de origem mais política, distribuídas por fora do sistema, sem passar pelo Comitê — fiquei chocada quando soube que existiam. Conversei com alguns deputados e senadores, explicando que o procedimento era politicamente contraproducente, pois não há bolsas para todos, e cada parlamentar satisfeito geraria outros dez irritados. Consegui convencê-los sem maiores dificuldades.”

Essa luta durou toda a minha gestão, ou seja, um ano e meio. Em primeiro lugar, foi preciso recriar a Capes tal como era antes, mas como ela tinha sido extinta, foi necessário negociar com a Secretaria de Administração, uma discussão muito dura. Boa parte dos funcionários tinha sido colocada à disposição ou simplesmente demitida, e os cargos tinham sido extintos. Só para recompor a estrutura anterior foi um trabalho hercúleo, para o qual tive grande ajuda de Angela Santana, uma das minhas diretoras, que conhecia bem Brasília, os políticos, os administradores, etc. Conseguimos um quadro mínimo e começamos imediatamente um novo trabalho para

transformar a Capes em fundação, o que lhe daria maior liberdade de ação.”

Mais fritado que pastel na rodoviária…

Ao mesmo tempo que lutava para transformar a Capes em fundação, fiz um esforço muito grande para informatizá-la. Ainda me lembro de distribuir bolsas com umas folhas de papel almaço coladas, com aquelas enormes listas de programas, número de bolsas nos últimos 3 anos, quantas bolsas o CNPq dava, para saber quantas dava a Capes; tudo era feito à mão pela Angela Santana. No Ministério havia um daqueles grandes computadores centrais, extremamente ineficiente, que armazenava os dados da Capes; obter qualquer informação daquele computador era absolutamente impossível.

A Capes fôra organizada de uma forma, teoricamente, muito satisfatória. Havia 3 sistemas: o Programa de Demanda Social, que privilegiava os programas consolidados; o Programa de Bolsas no Exterior, e o Programa Institucional de Capacitação Docente, o PICD, que oferecia bolsas a professores de universidades que não possuíam pós-graduação, para eles estudarem nos centros de pós-graduação. Com o Programa de Demanda Social havia uma questão séria: foram se acumulando distorções históricas, e era preciso rever os critérios de distribuição de bolsas entre os diferentes programas, avaliar a eficiência e a eficácia das bolsas, o que introduziu o critério de tempo de titulação.”

Um dos problemas do Brasil é que as pessoas só olham para o próprio umbigo. Minha vantagem, por ser antropóloga e ter começado a trabalhar com o Nupes, é que pude ter, desde o início, uma visão comparativa e cosmopolita. No mundo inteiro o mestrado estava em cheque; a França tinha acabado de eliminá-lo, mantendo o DEA — Diplome d’Études Approfondis e o doutorado. Nos Estados Unidos, o mestrado só é importante para administração e formação de professores: é um mestrado profissional. Em suma, esta foi uma linha de batalha, de discussão nas reuniões e com os programas, e sofreu grande oposição; mas começou a frutificar, porque a luta continuou depois que deixei a Capes. Mas reconheço que até hoje existe resistência, porque a universidade é extremamente conservadora e corporativa; ninguém quer mudar nada.”

Quando entrei para a SESu, embora conhecesse bastante bem o ensino superior, não tinha idéia do problema dos hospitais, jamais tinha lidado com eles. Só então descobri que tínhamos 44 hospitais; tomei um susto! Minha primeira reação foi: <Transferimos todos para o Ministério da Saúde.> Depois vi que, na situação brasileira, a manutenção de hospitais universitários é essencial para o sistema de saúde. Iniciei imediatamente a montagem de um sistema de avaliação para a distribuição de verbas; comecei a levantar os custos dos hospitais, sempre na relação custo/paciente. A diferença entre um hospital e outro era absolutamente brutal. Não havia nenhuma eficiência dentro do sistema, nenhuma racionalidade no uso de recursos; a situação dos hospitais era um verdadeiro horror.” “Quando o hospital tinha verba, a universidade a utilizava, contratando pessoas com as verbas do hospital para trabalhar na universidade; e quando o hospital não tinha verba, contratava pessoal para si como se fosse assistente das faculdades. Resultado: era impossível saber com certeza quanto custava o hospital.”

Foi na minha gestão à frente da Secretaria que formulamos o projeto básico do Fundef, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério.”

Fazer uma mudança no currículo de um curso é complicadíssimo, de tal forma que os anos passam, e os cursos são totalmente inadequados para os alunos. Cada professor é dono de sua disciplina, ensina o que quer, não tem nenhuma obrigação de pensar o que é necessário. E a demanda dos alunos vai em direção totalmente contrária. O aluno tem uma vantagem e uma desvantagem: normalmente, é capaz de ver os defeitos, mas é incapaz de propor uma solução razoável. Já os professores não querem mudar, de modo que o sistema entra numa inércia terrível.”

* * *

É digna de nota esta continuidade das ações na Capes; nenhum dirigente entrou lá para mudar tudo. Todos mantiveram a maioria dos programas, sempre aperfeiçoando, melhorando, mas ninguém fez terra arrasada da gestão anterior.” A.S.

Acontece que a Capes era um órgão autônomo da administração direta, e a reforma promovida pelo governo Collor extinguiu essa figura jurídica da administração pública federal. Com isso, a agência ficou no limbo: existia, mas não tinha personalidade jurídica definida, não era nem autarquia, nem órgão de administração direta; mas tinha CGC, mantinha conta em banco e recebia recursos do Tesouro Nacional. Uma maluquice! Aí decidimos transformar a Capes em fundação.”

Absolutamente “patriarcal”, típico do brasileiro (crer-se esperto, tentar levar vantagem a todo custo): “E informamos ao Planejamento: <Esse é o custo da bolsa.> O que fazia tradicionalmente o Planejamento? Pegava o número de bolsas de mestrado e multiplicava por 12 mensalidades; esse era o custo das bolsas de mestrado no ano. Aí nós dissemos: <Tem mais o auxílio-ida, o auxílio-volta, o auxílio para confecção de tese, auxílio para cobrir as despesas de laboratório, etc.> Inventávamos umas despesas nas bolsas do país. E mais: <Portanto, não são 12 mensalidades, são 15. O custo anual da bolsa, na realidade, é o valor mensal vezes 15 parcelas.> Como eles não cortam orçamento de bolsas, aumentamos seu custo anual unitário. Com esse mecanismo, conseguimos repassar recursos e restabelecer o fomento, com base no número de bolsistas da Capes que tinha o curso.”

NUNCA SE DESPEÇA: QUANDO A SENHORA DEIXOU A CAPES? Saí em 2 de janeiro de 1995.”

SAUDADE DAQUILO QUE EU NÃO VIVI: “Sou até hoje apaixonada pela Capes, e não apenas porque trabalhei lá durante 18 anos, desde 1977, como assessora regional do PICD, até 1995. A Capes funciona como todo órgão público deveria funcionar. Como é um órgão pequeno, da decisão à ação tudo é muito rápido. Ali todo mundo se conhece, partilha um espaço físico pequeno. Oficialmente, a Capes tem uma estrutura piramidal, mas funciona efetivamente em rede, o que dá a ela enorme agilidade em termos de funcionamento; ou seja, tudo é implementado com muita rapidez. A comunidade científica percebe essa eficiência — as coisas são negociadas, discutidas e imediatamente implementadas — e se sente participante da Capes. Ou seja, trata-se de um segmento da sociedade que participa da elaboração e da implementação da política pública que gera conseqüências em seu dia-a-dia. Sob essa ótica, a Capes é um espaço efetivamente democrático do governo federal, e acredito que historicamente se constitua no primeiro caso de orçamento participativo da administração pública. A Capes traz o cliente para dentro.

17 ANOS E A INVERSÃO DA REALIDADE: “Aliás, na Capes todo mundo conhecia os bolsistas pelo nome, inclusive os do exterior — no CNPq era tudo número. Nossos bolsistas ficavam encantados com isso, porque não eram tratados como números; isto faz muita diferença. Quando se está no exterior, jovem, tendo sua primeira experiência, a insegurança é muito grande. Por isso, é fundamental que na outra ponta esteja um funcionário que o conheça, saiba de seus problemas, ajude no que puder. A vida do bolsista está praticamente nas mãos daquela pessoa.”

* * *

Alberto Coimbra, então diretor da Coppe, realizou a façanha de contratar, em plena ditadura, 3 professores russos — meu orientador de mestrado era russo.” Sandoval Carneiro Jr.

Angela achava que eu tinha o perfil adequado e disse que eles precisavam que eu coordenasse o processo de transição de autarquia para fundação” Passei na droga de um concurso para uma fundação e até hoje mal sei diferenciar uma fundação de uma autarquia!

No início do governo Collor, os apartamentos funcionais tinham sido postos à venda, por isso, tudo o que o governo oferecia eram 30 diárias de hotel — lembro que nosso salário equivalia a uns 700 dólares. Por sorte, uma prima de minha mãe, já com os filhos casados, morava em Brasília num apartamento grande, e me convidou para ficar com ela. Quando aceitei assumir a Capes, coloquei uma condição: eu não queria cortar os vínculos com a universidade, porque até estava orientando alguns alunos, estava envolvido com o curso de doutorado, que estava começando. Assim, combinei de ficar no Rio às segundas-feiras, para conversar com meus alunos, e passar de terça a sexta-feira em Brasília.”

No setor de bolsas no exterior, por exemplo, a responsável não falava inglês, ou falava muito mal.” Mas não diga! Na CAPES?! Inacreditável!

a informatização da Capes durou muitos anos, só terminou inteiramente no ano passado [2000!], apesar de ser prioritária. Naquela época, a Internet já estava começando a atuar, e era preciso treinar os funcionários para seu uso.” É hora de outra “informatização”, ou minha carroça vai criar vida própria e sair voando ou planando asadelta pela Esplanada…

O pessoal do CNPq é muito atencioso, mas poucos tinham a postura que encontrei, mais tarde, na Capes, em muitos funcionários: uma atitude de dedicação total à agência.” Mas antes não fossem – muitos problemas psiquiátricos com filhos de ex-funcionários e atuais funcionários teriam sido cortados pela raiz…

a Capes decidiu, por exemplo, que os bolsistas de pós-doutorado e especialmente do doutorado-sanduíche poderiam viajar sem a família, e com isso cortou as verbas para passagens e outros benefícios aos quais pelo menos a esposa tinha direito. Essas coisas vão mudando ao longo do tempo, dependendo das idiossincrasias dos dirigentes.”

* * *

Sou mineira de Pouso Alegre e formei-me em ciências sociais na Faculdade de Filosofia e Letras de Juiz de Fora, então instituição privada, que depois se tornou a Universidade Federal de Juiz de Fora. Estava passando férias de Natal na minha cidade e, dançando num baile com o antropólogo Roque Laraia. Soube que o Museu Nacional, aqui no Rio, estava oferecendo uma bolsa para um curso de especialização em antropologia social organizado por Roberto Cardoso de Oliveira. Meu sonho, na época, era vir para o Rio para cursar a Escola de Belas-Artes, o que minha família não apoiava. Então, vi nesse curso uma oportunidade. Eram 25 candidatos para 3 vagas; candidatei-me e passei. Vim para o Rio em 1960 para fazer o curso em tempo integral; entrava no Museu no máximo às 9h e saía às 17h, com uma carga brutal de leitura. Foi um curso excepcional. Éramos 3 alunos com 5 professores, fora os estrangeiros que passavam de vez em quando: Roberto Cardoso de Oliveira, Luís de Castro Faria, Roberto Da Matta, Roque Laraia e Alcida Rita Ramos.” Maria Andréa Loyola, mais uma das presidentas do meu órgão que é também minha colega de “raiz de formação”! (Antropólogos dominariam o mundo, se tivessem qualquer interesse nessa vã empreitada!)

SÓ ACREDITO PORQUE ESTOU LENDO, JÁ DIZIA JOÃO GUILHERME – “SÉCULO 2.064” E UMAS PORRAS DESSAS AINDA ACONTECIAM!!!: “Na época, houve um processo contra mim, que ficou famoso, saiu até nos jornais do Rio. O próprio catedrático da cadeira de sociologia, que havia me convidado para trabalhar com ele, resolveu abrir um processo contra mim, usando trechos descontextualizados do livro de Kingsley Davis, A sociedade humana. Começou a me acusar das coisas mais malucas: o principal era pregar que o homem se origina do macaco! Dizia também que eu era contra o tabu do incesto, a favor do infanticídio como forma de controle da natalidade, do amor livre, do tecnicismo e do comunismo. Enfim, esse processo acabou se transformando num inquérito administrativo conduzido pela Reitoria, onde fui interrogada. O negócio durou um tempão, saiu nos jornais, e acabei uma pessoa malvista na cidade. Na época, eu já lecionava na UFMG, na Faculdade de Sociologia e Política, substituindo o Rubinger, que havia sido preso e depois exilado na Bolívia ou no México, não me lembro bem.”

Saiu o AI-5 e, finalmente, fui aposentada junto com o pessoal da UFMG — eu estava licenciada da Universidade de Juiz de Fora para fazer o mestrado — na mesma época em que Fernando Gabeira, meu amigo e vizinho aqui no Rio, era tido como líder do grupo que seqüestrou o embaixador americano. Eu fui a única professora aposentada de Juiz de Fora e minha foto saiu em todos os jornais da cidade, junto com a do Gabeira. Minha fama de bicho-papão cresceu enormemente.”

SENTIMENTO QUE NÃO POSSO COMPREENDER, DEVIDO AO ANO EM QUE NASCI: Foi uma época dificílima, porque a experiência de exílio é muito ruim; mas foi muito rica intelectualmente. Freqüentei o seminário de Alain Touraine, Raymond Aron [provavelmente o mais burro da turma], Lévi-Strauss, Foucault, Althusser, Poulantzas e vários outros.”

TÁ ZOANDO! “Na PUC tive chance de trabalhar com Carmen Junqueira, Otávio lanni, Florestan Fernandes, Vilmar Faria e Bolivar Lamounier. O Cebrap era um centro dinâmico e efervescente em termos de discussão e troca de idéias; trabalhei e convivi com pessoas como Fernando Henrique e Ruth Cardoso, Francisco Weffort, Elza Berquó, José Serra, José Artur Gianotti, Vilmar, Bolivar, Paul Singer, Francisco de Oliveira, Aracy e Leôncio Martins Rodrigues, para citar apenas os mais conhecidos. Lá fiquei durante 6 anos, quando a UERJ decidiu abrir o programa de mestrado em medicina social. Fui convidada para fazer uma pesquisa sobre medicina popular, com um grande financiamento da Finep. Como a situação financeira do Cebrap era irregular e a PUC, naquela época, nunca pagava em dia, resolvi assumir essa pesquisa como um reforço de caixa. Fiz a pesquisa em Nova Iguaçu e depois voltei à França, em 1980, para trabalhar com Pierre Bourdieu.”

Quando cheguei, ele disse simplesmente: <Quero que você assuma a Capes. É um pedido, e não quero ouvir um ‘não’.> Fiquei assustadíssima, porque o meu contato com a Capes era um contato de usuária, da época em que coordenava o mestrado do IMS. Só.” “o salário era baixíssimo, e o Collor tinha acabado com os apartamentos funcionais.”

Quando entrei, o orçamento da Capes era só bolsa, e com atraso. Conseguimos primeiramente manter as bolsas atreladas aos salários dos docentes, o que implicou um aumento no seu valor. Em seguida, que o Itamar determinasse que bolsa era igual a salário, não podia atrasar; isso foi decisivo. Como resultado, os recursos chegavam em tempo hábil; o resto era seguir o fluxograma. E o José Roberto foi realmente uma peça fundamental; muito bom, cabeça muito criativa; devo muito à sua habilidade. Para o exterior, passamos a remeter o dinheiro com antecedência; os bolsistas recebiam três meses de uma vez, e assim já sabiam que teriam tranqüilidade pelos três meses seguintes. Outra pressão muito forte vinda do exterior resultava da decisão tomada pela Eunice de reduzir o tempo de bolsa na França; havia cartas, pedidos, uma reclamação generalizada. Concordei que, de fato, não tinha sentido passar quatro anos fora. Em função disso, comecei a atacar o setor externo da Capes, pois era tudo muito caro — cada aluno no exterior custava quase 25 mil dólares por ano. Procurei, então, racionalizar: em vez de aumentar o tempo de duração da bolsa, atacar os problemas que retardavam os doutorados no exterior, e acho que desenhei uma verdadeira politica para o setor, à qual Abílio Baeta Neves deu continuidade e cujo ponto principal era trabalhar, cada vez mais, através de acordos de cooperação, do tipo Capes-Cofecub.” Parecia uma ótima idéia, a princípio…

O Acordo Capes-Cofecub começou em 1974 como um programa criado para apoiar o Nordeste; era um projeto de pesquisa conjunta. Havia uma missão inicial: levava-se o nordestino para a França, com o objetivo de identificar um parceiro para a cooperação; aí vinha o professor francês e selecionava alunos para fazer mestrado e doutorado — na época, muitos nordestinos se formaram na França. Mais tarde, o Rio Grande do Sul descobriu o Capes-Cofecub; aí começou a haver uma enorme quantidade de bolsas francesas para o estado. Em seguida, o Sudeste, outras universidades incorporaram o programa e, como resultado, o Nordeste voltou à míngua, e o Capes-Cofecub começou a servir para todas as universidades, basicamente aquelas da Região Sudeste.

Com a ampliação do Capes-Cufecub, fomos cortando as bolsas de mestrado, porque com a melhoria de nosso sistema de pós-graduação não havia mais sentido formar mestres no exterior; ficaram as bolsas de doutorado, doutorado-sanduíche e as missões de pesquisadores dos dois países. As bolsas de doutorado foram mantidas em 3 anos, e para isso tivemos que convencer as universidades francesas a deixar de exigir dos brasileiros o DEA (Diplome d’Études Aproffondies), curso de introdução ao doutorado, de um ano, obrigatório na França.” “de fato, o nosso mestrado — alguns eram verdadeiros doutorados — é infinitamente mais abrangente e aprofundado do que o DEA deles. Concordaram em dispensar nossos estudantes daquele curso. Mas como as universidades francesas são autônomas, essa dispensa foi individualizada, ou seja, por adesão de cada uma. Criamos, então, junto com os franceses, a rede Santos Dumont, formada pelas universidades que aderiram à proposta de dispensar novos bolsistas do DEA. A mesma rede formamos depois com a Inglaterra, chamada Margareth Mee.”

Entretanto, um defeito do programa é que ele sempre foi muito desequilibrado, uma coisa de brasileiros indo para a França como alunos, e franceses vindo para o Brasil como professores [DV!]. Agora está mudando um pouco; no meu projeto, por exemplo, tenho alunos franceses. Mas há também um problema de critérios, regras, pelo lado francês. O governo brasileiro financia os bolsistas que vão para a França, o que é muito importante; a instituição francesa apenas os acolhe — e não há contrapartida, não há no sistema francês uma agência que cumpra para lá esse papel que a Capes e o CNPq cumprem para o Brasil: financiar bolsistas. Essa foi uma reclamação sempre presente na negociação. Existe uma bolsa do Ministério da Educação da França, bolsa Lavoisier, mas é muito pequena.

O problema maior é a extrema competitividade do sistema francês. Os alunos sabem que, se saírem de lá, quando voltarem seu lugar já estará preenchido. Eles têm interesse em ir para os Estados Unidos, mas não em vir para cá, porque o Brasil não dá prestígio, não dá currículo, não contribui de maneira significativa para a carreira do pesquisador francês. Os próprios pesquisadores, quando vêm, é por um período muito curto; os grandes nomes ficam apenas uma, duas semanas. Essa é a realidade.” Bolsa Tristes Trópicos

Quando cheguei, quase caí para trás. Comparada a outros prédios de Brasília, todos suntuosos, a Capes era praticamente uma favela. Tinha 5 computadores, sendo que 3 não funcionavam. E aqueles processos todos empilhados, bolsas contadas à mão! Eu pedia dados, não havia; informação, nenhuma. A história da Capes era zero. Existe um famoso porão no MEC, cheio de documentos, mas na prática indisponíveis, devido à dificuldade de acesso; na própria Capes não havia nada, até porque também não havia espaço. Foi para preservar a memória da agência que resolvi retomar as publicações, há muito interrompidas, lançando o Infocapes e outras publicações do tipo: Cursos de mestrado e doutorado, Cursos de pós-graduação lato sensu, A avaliação e seus resultados, etc. E o Abílio continuou e ampliou o elenco de publicações da Capes, melhorando inclusive a apresentação, que está melhor e muito bonita. No processo de reformulação da agência, mexi inclusive em sua estrutura.”

Outro problema de organização era o quadro de pessoal. Os funcionários da Capes não faziam parte da carreira de ciência e tecnologia. Essa era outra situação esdrúxula, que procurei encaminhar. Também não foi fácil, mas acabou saindo. Realmente, era estranho: por que o pessoal do CNPq faz parte da carreira de ciência e tecnologia e o da Capes não? Isso implicava um aumento salarial significativo para os funcionários da Capes, que eles reivindicavam com razão. Tinha ainda a assistência médica dos funcionários, a assistência previdenciária; éramos uma grande família, totalmente desinstitucionalizada.”

Isso foi a coisa que me deu mais trabalho: ficar no telefone conversando com a direção de outros órgãos para conseguir funcionário. Mas conseguimos algumas melhorias com a implantação de um plano de racionalização administrativa e de capacitação de recursos humanos e com a simplificação de procedimentos, sobretudo com a informatização.”

o critério de publicação internacional em revistas reconhecidas, quando generalizado, é problemático. O modelo adotado tem, a meu ver, nefasta inspiração nas ciências exatas.”

Há um professor na biologia da UERJ que, quando discutimos a possibilidade de criar uma revista de pesquisa, considerou que a publicação deveria ser escrita em inglês, caso contrário não seria lida; em parte ele tem razão, mas não vamos exagerar. Aliás, a revista da Academia Brasileira de Ciências é toda em inglês. Escrevi uma cartinha para eles, dizendo que isso é um absurdo; pode ser bilíngüe, ter resumo em inglês, mas publicar toda a revista da Academia Brasileira de Ciências exclusivamente em inglês?! Acho um exagero, uma rendição cultural.”

O que me preocupa mais é essa postura dominante, toda ela centrada numa visão tecnológica da ciência. O desenvolvimento das humanidades, das artes e das ciências sociais é um patrimônio da humanidade, e nenhuma sociedade pode pretender desenvolver-se de fato se não tiver uma boa filosofia, uma sociologia, uma antropologia, uma história bem feitas.”

BRASILEIROS, MAIS REALISTAS QUE O REI: “Meu problema com as universidades privadas não é o fato de serem privadas, é o fato de visarem apenas ao lucro. Ou seja, por trás delas há o enriquecimento de um grupo, que não vai reinvestir, ou o fará limitadamente, na própria universidade. Quando se fala que as universidades americanas são privadas, esquece-se de dizer que na maior parte delas, ao menos nas mais importantes, todos os recursos são reinvestidos na própria universidade. E é por isso que elas têm as bibliotecas que têm, que produzem o que produzem. Aquilo não é de uma pessoa, nem de um grupo, mas de uma comunidade; não são instituições que visam ao lucro, no sentido capitalista do termo, como é o caso — não de todas, como as confessionais — da maior parte das universidades privadas brasileiras.

como o professor não quer mais lecionar no curso de graduação, a universidade vai se deteriorando cada vez mais. Lembro-me de que um dos critérios que introduzi no sistema de avaliação para dar conceito A a um curso de mestrado ou doutorado era a relação com a graduação, não apenas em termos da participação do professor nas aulas, mas também quanto ao desenvolvimento pelo programa de alguma atividade que contribuísse para elevar a qualidade desse nível de ensino.”

FOR GENTLEMEN TO SEE: “Iniciei também um sistema de acompanhamento dos bolsistas no exterior, que não sei se teve continuidade foi incluída, entre as obrigações constantes do termo de compromisso assinado pelo aluno, a de manter atualizado seu endereço durante 5 anos, para podermos fazer esse acompanhamento. Isso é fundamental. Estou tentando implantar isso na UERJ — o que não consegui fazer na Capes, estou tentando agora.”

¹ Não!

o próprio mercado já incorporou essa idéia de mestre e doutor. No Brasil, isto virou sinônimo de uma formação mais aprimorada e mais avançada. Minha proposta era termos dois tipos de formação, a partir da graduação: a acadêmica e a profissional. Na primeira vertente, teríamos o mestrado e o doutorado clássicos; na segunda, passaríamos da graduação para um curso no mesmo nível do mestrado acadêmico, mas de caráter profissionalizante. Caso a pessoa quisesse voltar para a carreira acadêmica, cursaria algumas disciplinas complementares e poderia se inscrever no doutorado; senão, já estaria preparada para o mercado.” “Tem especialização boa e ruim. E é por isso que o mercado começa a exigir mestrado, porque não confia nesses cursos de especialização; no dia em que o mercado puder confiar na especialização, o mestrado perde o sentido para ele.” “Não tem o menor sentido procurar mestres. Como não faz sentido o investimento da agência, da universidade e do aluno, em tempo e esforço, para ter um diploma cujo valor, na prática, é muito relativo para ele.”

Hoje em dia, já não há necessidade de mandar gente se formar no exterior; mas continuo considerando importante a convivência do aluno com outros sistemas de ensino e com outras culturas, é uma forma de enriquecimento muito grande; o doutorado-sanduíche atende perfeitamente bem a isso.”

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LEAP OF FAITH: “Depois de estudar em colégios públicos, transferi-me para o Colégio Anchieta, de padres jesuítas, velho sonho de meus pais. Muito provavelmente por forte influência da escola, decidi cursar ciências sociais, opção complicada no final da década de 1960. Graduei-me na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e depois ingressei na primeira turma do mestrado em ciência política e sociologia. Cumpri todos os créditos mas não escrevi a tese, porque em 1975 segui para a Alemanha, para fazer o doutorado na Universidade de Münster. Como já trabalhava na UFRGS, para lá retornei depois de defender a tese.” Abílio

Politicamente, sempre participei muito do MDB gaúcho, e em 1985 envolvi-me na campanha de Pedro Simon ao governo do estado, defendendo a criação da Secretaria de Ciência e Tecnologia e a revitalização da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado, a Fapergs, que estava definhando. Assim, quando Simon venceu a eleição, foi natural que eu fosse trabalhar na recém-criada Secretaria de Ciência & Tecnologia — e considero que tivemos algum sucesso nesse campo.”

Só agora as pessoas começam a se dar conta do papel assumido pela Capes após a extinção do Conselho Federal de Educação. No final de 94, pela primeira vez, seu sistema de avaliação alcançou uma força que não possuía. Concedeu-se a esse sistema o poder de validar os diplomas do sistema federal de pós-graduação.”

todo mundo precisava saber se um curso que recebe nota 5 na área de sociologia equivale realmente, em termos de excelência, a outro que recebe a mesma nota na área de física, por exemplo. A única equivalência possível teria que ser obtida pela qualidade do produto, e esta precisa conter relação com algum parâmetro mais internacional.

MAS ISTO É INJUSTO COM AS CIÊNCIAS SOCIAIS, ÁREA EM QUE É POSSÍVEL EXISTIR UM EXCELENTE TRABALHO QUE NÃO INTERESSE ÀS PUBLICAÇÕES ESTRANGEIRAS.

(…) Não adianta simplesmente insistir no fato de que as ciências humanas e sociais são diferentes das exatas. Diferentes em quê? É preciso guardar as especificidades, mas não se pode ficar no papel de primo pobre ou exótico. Depois da avaliação de 98, decidimos trazer equipes internacionais para avaliar os cursos que obtiveram notas 6 e 7. A reação das ciências humanas foi impressionante, quase anedótica: gente importante da área criticou pesadamente: <Como vão avaliar de fora a produção das ciências sociais brasileiras, da sociologia, da ciência política? Por que vão trazer pessoas que só falam inglês para nos avaliar? Nossa língua é o português, portanto só aceitamos ser avaliados em português> — essa crítica veio de gente muito importante do Rio de Janeiro, embora revele uma perspectiva extremamente paroquial.” Neoliberalismo rasteiro.

MARX E O PREÇO DO GRÃO (misturando alhos com bugalhos): “Ciências agrárias são a área em que o Brasil mais contribui, proporcionalmente, para a produção de conhecimento mundial. Como, então, afirmar que não existe internacionalização da ciência agrária?!”

MAIS, MAIS, MAIS E MAIS ARTIGOS, UHUL, RUMO À LUA, RUMO À MARTE! “Se hoje estamos exigindo uma produção per capita, em circulação nacional e internacional, de 2 ou 3 artigos por ano, na próxima avaliação é provável que este número suba para 4; o patamar será mais alto. Esta mudança é fundamental.”

Na distribuição anual de bolsas, os melhores são beneficiados, mas de uma forma muito pequena, porque a Capes não pode deixar de dar bolsas para um curso novo, caso contrário matará a própria expansão da pós-graduação.”

Há muitos programas excelentes de pós-graduação que, historicamente, recebiam quase exclusivamente bolsas do CNPq — alguns programas na área de física, ciências sociais, antropologia, ciências biológicas, áreas que se qualificaram rapidamente e viveram muito mais do apoio do CNPq do que da Capes. Eles recebiam as bolsas e as taxas de bancada. Dando um exemplo bem concreto: na área de física da UFRGS, em Porto Alegre, um programa nota 7 em duas avaliações só tem uma ou duas bolsas de doutorado da Capes, porque vivia do apoio do CNPq. Quando o CNPq deixou de dar taxa de bancada, o programa sofreu um baque brutal de recursos.” DV

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ENTREVISTAS COM AD HOCs

Em 1951, Paulo de Góes criou uma pós-graduação lato sensu no Instituto de Microbiologia — um dos primeiros ensaios de pós-graduação no país. Ainda não dava título de doutor nem de mestre. Iniciou-se um curso de especialização com duração de um ano, para formar especialistas em microbiologia. Quando foi criado o curso de especialização, nós nos mudamos para um prédio atrás da Reitoria, na Praia Vermelha, o antigo refeitório dos doentes mentais, tudo muito improvisado, mas funcional; recebíamos, às vezes, 80 alunos por ano para fazer o curso.” Amadeu Cury, ex-reitor da UnB

Não se pode desmerecer a capacidade de julgar de uma pessoa só porque seu próprio departamento poderá ser beneficiado. O que deve ser julgado é o mérito.”

O período de 1966 a 1969 foi, a meu ver, o mais sombrio da Capes, que identificamos com a Idade Média, em razão do manto negro que cobriu a instituição.”

Biologia e medicina tinham muita influência, muita presença. Sempre tiveram. Havia engenheiros, químicos mas, curiosamente, não havia matemáticos, pelo menos na minha época. Os mais próximos da matemática talvez fossem Kurt Politzer, professor de tecnologia industrial na Escola de Química da UFRJ, e José Válter Bautista Vidal, geoquímico. Posteriormente vieram os matemáticos: Lindolpho de Carvalho Dias e Jacob Pallis.”

Quando assumi, verifiquei que o <interior> da Universidade de Brasília não era nada do que se dizia. Dez anos após sua criação e funcionamento, a Universidade só tinha 3 ou 4 cursos aprovados pelo Conselho Federal de Educação! Portanto, depois de 10 anos ainda não havia concedido diplomas para a quase totalidade dos cursos. Pouca gente conhece esta verdade histórica. Nem mesmo base física havia, somente umas poucas construções como o prédio da Faculdade de Educação, onde estava instalada a Reitoria, o auditório Dois Candangos, 3 grandes galpões em frente e um reduzido trecho da parte sul do Instituto Central de Ciências, mais conhecido como <Minhocão>.”

Pois bem, decidimos que a primeira coisa a fazer era pôr ordem no caos. Toda universidade faz um contrato com seus alunos: Se você for aprovado no vestibular e fizer o curso, ao final receberá um diploma. Mas a UnB não dava! Vivíamos assediados por várias empresas que desejavam contratar recém-formados, mas não podiam, porque eles não tinham diploma. Paramos tudo o que estávamos fazendo e passamos um longo período, cerca de um ano, organizando curso por curso: freqüência, disciplinas obrigatórias, complementares, optativas, currículos, créditos, períodos, tudo!”

Havia um curso de cinema! Tinha quatro alunos mas não tinha programa, nem currículo, nada! Consegui com o reitor da UFF, onde havia um curso regular de cinema, que aceitasse os nossos 4 alunos pois não iríamos manter um curso sem qualquer estrutura, apenas para 4 alunos.”

Quando o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Impa, foi fundado, em 1952, ocupava duas salas pequenas dentro do CBPF, de modo que havia uma certa confusão entre CBPF e Impa. Mantínhamos distância da Faculdade de Filosofia, controlada por pessoas complicadas, não muito competentes, mas que dominavam o processo acadêmico — a exceção era Maria Laura Mousinho, que tinha fortes vínculos com o Impa e o CBPF.” Lindolpho Dias, matemático

O CNPq, por sua vez, tinha tido um início muito promissor, de grande ebulição, quando foi presidido por seu criador, o almirante Álvaro Alberto; muitas coisas foram feitas até 1955, quando ele deixou a presidência, e o CNPq perdeu prestígio.”

Muita gente entende que Capes e CNPq são a mesma coisa e deveriam até se fundir num único órgão. Mas eu vejo uma diferença fundamental entre eles: a Capes, como indica o próprio nome, é um órgão do Ministério da Educação cuja finalidade básica é o aperfeiçoamento de profissionais de nível superior, não necessariamente através de pesquisa. Por isso, é perfeitamente natural que ela ofereça uma bolsa a um médico que não pretenda fazer pesquisa, mas apenas aprimorar-se no exterior ou no Brasil. Ou ainda para um advogado passar um período fora, para eventualmente até fazer um doutorado, mas sem se obrigar, a priori, a ser um pesquisador. Já o CNPq, cujo nome original era Conselho Nacional de Pesquisas e depois mudou para Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, tem como alvo específico a pesquisa científica e a tecnológica e, mais recentemente, o desenvolvimento tecnológico; suas bolsas devem ter por objetivo aprimorar um pesquisador. É claro que isso é subjetivo, e muita gente que recebeu bolsa não se transformou em pesquisador.”

Engraçado como em 2001 não havia essa TARA ABSOLUTA pela pesquisa que toma conta do mundo acadêmico hoje. O que a CAPES devia fomentar, então? Certamente a docência era vista com mais respeito (não que faça tanto sentido, de qualquer forma, desvincular ensino e pesquisa), mas nos exemplos dados pelo entrevistado fica claro que essa não era nem nunca foi a prioridade dos bolsistas: médicos queriam preencher currículo para chegar a postos de trabalho no topo, advogados, idem. E o mais embaraçoso é que os aprovados em concurso da CAPES são Analistas em CIÊNCIA & TECNOLOGIA. A rigor, não têm mais nada a ver com o MEC.

Em 1950, quando fiz vestibular, o número de alunos no ensino superior no Brasil era de 60 mil. Aqui no Rio, eram 300 vagas para engenharia: 200 na UFRJ e 100 na PUC; em São Paulo só existia a Escola Politécnica. E não havia uma tradição de pesquisa.”

em 51 houve esse fato importantíssimo da fundação do CNPq e da Capes; tanto o Ministério da Educação quanto a Presidência da República, na época, consideraram importante a criação dos dois órgãos. Claro que houve forte motivação com a explosão da bomba atômica e coisas desse tipo.”

COMO O SENHOR AVALIA A EVOLUÇÃO DA CAPES ENTRE 1964 E 1974?

Suzana Gonçalves tinha prestígio, porque era prima da falecida esposa do presidente Castelo Branco, d. Argentina, e irmã de Elisinha, então casada com Válter Moreira Sales. Apesar de muito culta, tenho a impressão de que ela não tem pós-graduação formal. (…) Suzana estudava muito e era muito ativa no Conselho; era uma administradora, e muito boa. Depois que Muniz de Aragão saiu da Diretoria do Ensino Superior, entrou aquele maluco, um amazonense chamado Epílogo de Campos, um horror. Completo maluco! Aliás, o próprio nome indica; era uma família Campos, do Amazonas, com um filho chamado Prólogo, este Epílogo e até uma moça chamada Errata!”

O que ocorre é que as antigas autarquias tinham ficado muito burocratizadas, e as fundações representaram uma libertação. Cada fundação tinha seu plano salarial, podia contratar pela CLT e sem concurso, tinha autonomia de gestão de pessoal, as licitações eram simplificadas. Mas a lei do Regime Jurídico Único, de dezembro de 90, acabou com tudo isso. Hoje, a administração da Capes como fundação, assim como o CNPq, tem as mesmas restrições de uma autarquia. Não se pode demitir nem contratar com autonomia. [Benzadeus!] Sabe quem tem poder para demitir um motorista que roubou? O presidente da República! [Faz arminha!]

Comparando com a Argentina, a situação fica ainda mais estranha, porque lá o autoritarismo efetivamente acabou com a ciência e tecnologia, enquanto o nosso regime militar trabalhou com a ciência e tecnologia, porque era desenvolvimentista. Existia uma perspectiva de hegemonia no Atlântico Sul, principalmente durante o governo Geisel, entre 1974 e 1979. Mas a verdade é que em 1985 nós não percebíamos a imensa inflexão econômica que o país estava vivendo e talvez tenhamos insistido num modelo que estava esgotado, não como perspectiva mas como formato — inclusive, uma série de características desse modelo está voltando agora, no final da década de 1990. Na política de hoje há muita coisa para se aprender com o modelo peluciano.” Reinaldo Guimarães

TRAGÉDIA MILITAR, NÃO? FINANCIARAM BONS REDUTOS MARXISTAS! “É admirável que, durante aqueles anos de chumbo, Pelúcio tenha organizado na Finep um grupo de pesquisa em política industrial, em economia da tecnologia, onde estavam Maria da Conceição Tavares, Carlos Lessa, Simon Schwartzman, Marcelo Abreu, José Tavares. Além disso, graças ao Pelúcio fundou-se o Instituto de Economia da UFRJ, o Instituto de Economia da Unicamp, o Cpdoc; foi o momento de explosão desses centros todos. Esse foi o maior legado do José Pelúcio Ferreira. Embora fosse um economista, seu maior legado foi a institucionalização da pesquisa no Brasil”

O SENHOR CONSIDERA CAPES E CNPq AGÊNCIAS COMPLEMENTARES, QUE SE SUPERPÕEM EM CERTOS MOMENTOS?

Existe uma disputa burocrática permanente, um eterno ruído de fundo. E não tem jeito, como tudo em Brasília. Isso é uma coisa com a qual se convive, a não ser quando aumenta muito o volume do ruído de fundo. No início da Nova República [1988?], por exemplo, o espírito de equipe era muito grande, porque existia uma mobilização da sociedade inclusive no campo científico e tecnológico, que fazia com que se cimentassem essas relações em cima e o ruído ficasse mais embaixo. Eu comparecia religiosamente a todas as Reuniões do Conselho Deliberativo do CNPq, por exemplo, coisa que depois deixou de ocorrer; atualmente o CNPq não manda ninguém para o Conselho Superior da Capes, fica um banco vazio ou, quando manda, é um técnico de terceiro escalão [tipo um eu].”

E O TEMPO PASSA…: “Lembro muito bem. A Capes foi extinta junto com coisas como a Fundação da Pesca de Carapicu, para fazer uma caricatura da situação. Eunice Durham assumiu como diretora-geral de uma entidade fantasma. A comunidade científica se movimentou, e a Capes foi recriada no Congresso. O impacto aqui fora foi muito grande, houve uma gritaria danada. Extinguir a Capes era uma tolice.

SIM, PORQUE ERA UMA AGÊNCIA EFICIENTE, ALÉM DE MUITO PEQUENA, BASTANTE ENXUTA.

Hoje, tenho uma visão bem crítica sobre essa assertiva de que a Capes é enxuta, seus funcionários são dedicados, etc. Considero que a Capes tem menos funcionários do que precisa e que essa histórica contenção de funcionários acabou por desenvolver certos vícios internos, de grupos dominantes, muito prejudicial à agência. Ali há grupos pesados, e se a diretoria não tomar cuidado, fica submetida a eles, porque emperram tudo. Como é pouca gente, formam-se feudos dos técnicos: a área da fulana, a área do sicrano. Feudos burocráticos.” Hohoho, você não é o Batman mas matou A CHARADA; só faltou dar nome aos boicacos…

Com a Reforma que o transformou em fundação em 1973, o CNPq atraiu pessoal altamente qualificado, porque pagava excelentes salários, e incorporou-se à parte mais moderna da burocracia. Como pagava bem, outros órgãos, que por razões jurídicas não podiam contratar, faziam suas contratações através do CNPq. A partir do momento em que o setor público deixou de ser financeiramente atraente e o CNPq perdeu importância — em 85, com a criação do Ministério de Ciência e Tecnologia, o CNPq deixou de ser o cabeça do sistema —, houve grande evasão. Quando voltei ao CNPq no final do governo Collor para fazer o diretório dos grupos de pesquisa, levei um choque! A decadência era visível até em termos físicos. O edifício do CNPq era uma ruína! Num período relativamente curto, 5 anos, a decadência foi vertiginosa. Isso a Capes não viveu com essa intensidade, protegeu-se, não sei por que razões.”

Em 1986 tinha sido criado um órgão chamado Fórum de Pró-Reitores de Pós-Graduação e Pesquisa — Fopropp, uma sigla horrorosa!” HAHAHAHA

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(*) Simon Schwartzman iniciou a carreira de professor e pesquisador na UFMG, da qual foi afastado pelo regime militar em 1964, só tendo reingressado em 2000, quando se aposentou, de acordo com a Lei da Anistia.”

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Como se sabe, no Brasil as primeiras escolas superiores só foram criadas no início do século XIX com a vinda da família real portuguesa para a colônia, e tinham o único propósito de fornecer quadros profissionais para desempenhar diferentes ocupações na rte; no final do Império, o país contava com apenas 6 escolas superiores. Em 1900, eram 24 as escolas de ensino superior, e três décadas depois o sistema já contava com uma centena de instituições, sendo que várias delas foram criadas pelo setor privado, principalmente pela iniciativa confessional católica. O fundamental a ressaltar é que até o início da década de 30 o sistema era constituído por um conjunto de escolas isoladas, de cunho profissionalizante, divorciadas da investigação científica, atividade essa que era realizada nos institutos de pesquisa, que em geral possuíam tênues laços com o sistema de ensino superior existente. Até esse momento, não fôra criada no Brasil nenhuma universidade institucionalizada.” Carlos Benedito Martins

[a] Universidade de São Paulo em 1934 e a Universidade do Distrito Federal em 1935 — esta, de curta vida — representaram as primeiras tentativas de superação de um padrão de organização do ensino superior, baseado na escola isolada e profissionalizante, e de construção de um novo modelo baseado em instituições mais orgânicas, que integrassem ensino e pesquisa.”

No final dos anos 50, inúmeros estudantes e docentes estavam de volta ao Brasil e nos anos subseqüentes assumiriam a liderança intelectual e científica nas universidades, participando ativamente da implantação dos primeiros cursos de mestrado e de doutorado no país.”

Deve-se destacar ainda que a Universidade de Brasília, que iniciou suas atividades em 1962, incluiu também em suas atividades a existência regular e permanente de cursos de pós-graduação.”

Esses cursos passaram a coexistir com o modelo europeu de pós-graduação, particularmente o francês, presente nos doutorados da USP, que outorgava apenas o título de doutor, através de uma relação acadêmica tutorial entre o orientador e o doutorando que, de modo geral, desenvolvia seu trabalho de forma isolada e artesanal. O título de doutor tendia a conferir mais vantagens simbólicas do que benefícios econômicos e profissionais ao seu detentor e possuía reduzido valor no campo acadêmico, em função da ausência de uma carreira acadêmica institucionalizada no país, com exceção da própria USP, cujo doutorado se incorporou à carreira docente.”

Com o golpe militar de 1964, a política educacional dos anos subseqüentes buscou desmobilizar o movimento pela reforma universitária, desmantelando o movimento estudantil e controlando coercitivamente as atividades de docentes. Ao lado de um conjunto de medidas repressivas, os responsáveis pela política educacional buscaram vincular a educação ao desenvolvimento econômico, que passava a ser comandado por uma lógica de crescente internacionalização, processo esse iniciado em décadas anteriores. Para isso, o governo implantou um sistema de fomento, procurando adequá-lo ao financiamento do desenvolvimento da ciência e tecnologia; o BNDE passou a fornecer auxílio através do Fundo de Desenvolvimento Técnico-Científico, o Funtec, criado em 1964, e posteriormente a Finep passaram a administrar o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o FNDCT, criado em 1969.”

o resultado da avaliação de 1994 atribuiu a 41% dos cursos de mestrado e a 53% dos de doutorado o conceito <A>, que então era a maior escala existente no interior do processo de avaliação.” Que beleza…

O sistema de avaliação que vinha sendo adotado passou a emitir claros sinais de esgotamento, ao não discriminar mais a qualidade acadêmica dentro dos programas. Na avaliação de 1996, 79% dos cursos de mestrado e 90% dos de doutorado obtiveram conceito <A> ou <B>. Após várias discussões realizadas no Conselho Técnico-Científico e no Conselho Superior da Capes, introduziram-se modificações para apreciação dos cursos; além disso, decidiu-se que a avaliação passaria a ser trienal, com o acompanhamento anual do desempenho dos programas.”

CLITOFONTE

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “Clitofonte defende que, ainda que ninguém se equipare a Sócrates na exortação das virtudes da vida filosófica, na prática não há pessoa mais inútil que um filósofo ou moralista e, portanto, que o próprio Sócrates, no convívio social, em que pese o próprio Sócrates estar convencido do contrário. O diálogo termina em monólogo, i.e., depois de uma breve pergunta de Sócrates há um discurso de Clitofonte de mediana duração e então um fim abrupto. A tradição antiga nunca pôs em questão a autenticidade desta que é a obra mais curta do cânon de Platão, sendo que sua autoria é corroborada por nomes como Olimpiodoro, Apuleio, Hipólito e Alcino. A primeira suspeita sobre o Clitofonte foi levantada na Renascença, quando Marsílio Ficino escreveu: hic liber non est Platonis na cabeceira de sua tradução do diálogo, muito contrariado, sem sombra de dúvida, pelo inusitado da forma e a falta do remate socrático. Mas muitos dos escoliastas mais modernos continuam a considerar o Clitofonte como obra íntegra, incluindo as pesquisas de Mark Kremer, David Roochnik, Clifford Orwin, Jan Blits e S.R. Slings.” – A.P.V. – O diálogo Mênon pode, além disso, ser considerado a “continuação” deste, senão pelos personagens envolvidos, pelo menos quanto ao conteúdo. Será ele o último diálogo traduzido em nosso ciclo de Platão, que finalmente se fecha com êxito na próxima postagem (não sem um pequeno bônus, uma ligeira tradução de prefácio de Virgina Woolf a comentar Platão e sua contribuição ao Ocidente)!

Qual arte se destina a educar a alma na virtude? Responde-me, Sócrates.”

Mas não basta com que me digas o nome desta arte. A medicina é uma arte, mas tem um duplo propósito: primeiro, formar novos médicos mediante os cuidados dos que já o são; segundo, curar. Um destes dois não é a arte em si mesma, mas o produto da arte ensinada ou aprendida, i.e., a saúde. De igual forma, em arquitetura é preciso distinguir o produto da arte mesma. De um lado estão os princípios que se comunicam, de outro a obra, i.e., as casas. Agora com respeito à justiça, sabemos que há a formação de homens justos, exatamente como cada arte forma o artista, e, em contrapartida, a justiça mesma. Mas de que falo eu? Onde se encontra esta justiça, ou a obra a ela equivalente? Qual é o produto executado pelo homem justo? Como é que se chama, anda, responde!

Um de teus discípulos disse-me: eu creio que a justiça é o vantajoso; outro respondeu-me que era o conveniente; um terceiro, o útil; mais um, finalmente, que era o proveitoso.”

Digo que, com referência a essa proclamada justiça, não se conhece nem seu próprio objeto nem a obra que ela realiza. (…) Tu me disseste que a justiça consiste em fazer mal a seus inimigos e bem a seus amigos. (…) ou bem tua capacidade não excede esta mesma afirmação assaz simplória (o que não seria inusitado: por exemplo, sem ser piloto, pode-se exaltar as habilidades de um e elogiar a técnica da pilotagem, provando como ela é imprescindível ao gênero humano; tu mesmo poderias, sem sequer conhecer a justiça, exaltá-la ao ponto máximo, embora reconhecendo, sem contradição alguma, que não conheces o quê é a justiça – mas ainda que o afirmes com humildade, em ti eu não creio, Sócrates!–), ou bem não desejas comunicar-nos o conhecimento que possuis. Eis a razão que me compele, depois de expor-te este dilema, a ir diretamente a Trasímaco, ou qualquer outro competente, na esperança de aprender o que é a justiça, a menos que tu mesmo o faças, e já.”

Supõe que Clitofonte te concede que é ridículo ocupar-se de tudo o mais e desprezar a alma, objeto verdadeiro de todas as preocupações (…) e repito-o: para aquele a quem jamais fôra exortada antes a virtude, tu és o mais precioso dos homens, ó Sócrates!… Mas, para quem já foi alertado de que a virtude é a principal questão na vida, tu serias, o mais das vezes, mero empecilho, pois não vais além disso, e como que impedes o indivíduo interessado de chegar ao verdadeiro objeto da virtude, i.e., a felicidade!”

FATUM & ENFADO

Eu tinha de ter escritos sórdidos e boca-suja para ser um homem de caráter quando chegasse o tempo (pós-adolescência e primeira juventude)… Nunca deixarei de ser uma personalidade controversa, por onde quer que se me estude amanhã…

Demorou menos para eu me formar como homem do que para obter aquele papelzinho vale-bosta de graduado universitário… Imagine a dor que essa árvore (planta rara) sentiu durante esse curto espaço de tempo… É praticamente indescritível! Hoje, hoje não é nada, tudo são jujubas doces… Mas só pela RESSONÂNCIA do que foram aqueles anos já consigo me arrepiar… Minha memória condescendente com minha evolução psicológica é a primeira grande prova de que eu sou – e assim serei considerado pelas gerações futuras, se chegarem a me conhecer – um grande homem.

sidenote: Santo Agostinho pode ser considerada uma dessas árvores que decidiu crescer demais e se monumentalizar já lá pelos seus quarenta… Quanto mais se hiberna, mais se sofre com o radicalismo da transformação, quando ela deixa de ser auto-adiada.

O meu momento de viragem foi à segunda leitura da obra Assim Falou Zaratustra, aos 19 ou 20 anos de idade. Talvez se eu não tivesse engordado àquela época não teria tido como sobreviver à fome da alma que senti e à ânsia pantagruélica por uma luz para estes olhos cegos… Quando menos tinha liberdade, porque eu mesmo a suprimia, era quando eu mais me regalava com pão, bela lição, sr. Dosto.! Se um dia essas anotações tão subjetivas forem reunidas, só elas, para interesses autobiográficos, por mim ou outro qualquer, deviam(os) dar um nome como MEMÓRIAS DO CÁRCERE A CÉU ABERTO ou algo do tipo, que acha(m)? Que acho? Diacho, eu tenho menos livros para escrever do que livros prontos para compilar, e isso aos meus 31 anos… É um material infinito a meu dispor. Fico zonzo só de pensar seriamente por onde começar e que critério estabelecer, afinal… Porque uma coisa são meus escritos com interesses filosófico-literários, i.e., o mundo, e outra coisa sou eu, seu irmão gêmeo… Misteriosa preposição que está entre nós. Será você que lê uma delas, ou esse texto é menos lido que uma carta enrolada em uma garrafa nos Sete Mares mais remotos de um mundo com poucos piratas?!

Reconheço que sou medíocre perto dos últimos clássicos, mas que toda a minha soberba decorre da absoluta INCOMPETÊNCIA GENERALIZADA da minha própria época… Será concebível, num momento finalmente maduro para pelo menos me apreciar ou se condoer de mim?!? UMA CARTA PARA AURORA é outro título de que gosto muito… Quero pensar num Querido Diário que fosse uma linda mulher!

A reação que vem do fundo do poço à moeda jogada…

Estou centrando minha existência na desgraça alheia e na punição invisível de quem ousa ter uma vida completamente distinta da minha e ainda tem a CARA-DE-PAU de se atribuir qualquer VALOR, quem dirá SUPERIORIDADE INCONTESTE! “Viu só… eu não te disse?” Mas na verdade eu não te disse… Porque eu detesto dar conselhos, isso não é do meu feitio… Mas agora você sabe que não deveria ter desperdiçado o SEU tempo dando-me conselhos, eu, um MESTRE DA MORAL. Porque você cometeu um erro infantil ao demonstrar quão hipócrita é… Ops, deslize! Pois é, eu não te disse, mas ESTAVA NA CARA! Nisso eu gozo. No devir dos imbecis, sendo eu o exato contrário. Eu gosto de ver os mais velhos se fodendo, e sentir meus cabelos brancos cada vez mais próximos de aparecerem… Eu gosto de ver o überfit adquirindo uma doença letal e limitante, o defensor da família vendo sua família e sua felicidade-do-lar se desintegrando em pó… O curser testemunhando o meu sucesso e independência. A profecia se tornando verdade. A ironia socrática de cada dia nos dai hoje…

Sim, o Senhor Metafísica há de se comover com cada tropicão de escada, com cada má-nova de cada ex-conhecido seu… Esse é o alento necessário para se respirar no Céu-pedestal dos grandes homens. Compreenda-me como uma árvore que chupa sua vida, ou melhor, se nutre, do seu dejeto involuntário, o gás carbônico da sua falação diuturna sem-sentido… Uma árvore cuja seiva é mais e mais pura e retribui com obras cristalinas o falatório sujo e vil dos homenzinhos passeando no jardim… Lá embaixo.

FILEBO, Ou: Dos prazeres, da inteligência e do Bem

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “Os comentaristas ressaltam que o estilo literário e a composição dramática do diálogo foram deixados em segundo plano na comparação com a obra platônica precoce, dando lugar a definições, classificações e uma linguagem técnica mais áspera, própria de uma exposição didática” – A.P.V.

SÓCRATES – Filebo diz que o Bem para todos os seres animados consiste na alegria, no prazer, no recreio e em todas as demais coisas deste gênero. Eu sustento, por outro lado, que não é isto, senão que consiste o Bem na sabedoria, na inteligência, na memória e em tudo o que for da mesma natureza. Todas essas coisas, a justa opinião e os raciocínios verdadeiros são, para todos os que os possuem, melhores e mais apreciáveis que o prazer; e são, ao mesmo tempo, mais vantajosos também, seja para seres presentes ou para seres futuros, capazes de praticá-los.”

SÓCRATES – Que é que resultaria se descobríssemos algum outro meio preferível a estes dois extremos? Não é certo que se descobrirmos nesse terceiro meio mais afinidade com o prazer estaremos, tu e eu, em situação de viver o prazer e a sabedoria simultaneamente, muito embora a vida dirigida aos prazeres exerça, dentro desse terceiro meio, mais influência sobre nós do que aquela voltada exclusivamente à sabedoria?

PROTARCO – Mas é claro que sim, Sócrates.

SÓCRATES – Porém, não seria mentira, também, que esse terceiro meio se aproximaria muito mais da sabedoria que a vida dedicada exclusivamente ao culto dos prazeres… Logo, que tal se tratássemos de descobrir, nesta espécie de união, qual fator, se os prazeres ou a sabedoria, prevalece de maneira mais decisiva? Estais de acordo, meus dois bons jovens, que é possível promover este concurso, a fim de saber quem leva a melhor?

PROTARCO – A mim me parece uma proposta justa e exeqüível.

SÓCRATES – E quanto a ti, Filebo?

FILEBO – Creio e crerei sempre que a vitória se encontra sem dúvida do lado do prazer. Não obstante, já que é assim, numa contenda entre mim e tu Protarco poderá servir de juiz.

PROTARCO – Se tu nos delega esse poder (pois não o farei sem o auxílio de Sócrates), fica atento e só escuta. Não terás o direito de negar nem conceder nada a Sócrates. Eu me encarrego de tudo.

FILEBO – Assim está ótimo, fico nesta disputa, em verdade, como mero expectador; e tomo por testemunha a própria deusa do prazer!”

SÓCRATES – Comecemos, pois, por esta mesma deusa a que se refere Filebo, ninguém menos que Afrodite, que na verdade é apenas um disfarce para seu verdadeiro nome, Prazer.

PROTARCO – Muito bem.

SÓCRATES – Sempre que pronuncio o nome dos deuses, Protarco, sinto um temor, mas não um temor humano, um temor sobre-humano que a tudo ultrapassa, de pronunciar seus nomes em vão: por isso evoco aqui o nome secreto de Afrodite, pois sei que deve ser de seu pleno agrado esse gesto de franqueza. Quanto ao prazer em si mesmo, creio que ele tenha mais de uma forma, sendo necessário apurar suas naturezas. Mas ao falarmos simplesmente em prazer e prazeres, como se o prazer fosse apenas uma palavra e nada mais, como fazem os homens, tomaríamos nosso problema pela coisa mais simples do mundo; mas incorreríamos assim em profundo erro. É preciso aqui pensar em gêneros diferentes de coisas. Sê bastante flexível a fim de que nosso exercício não seja abortado pela impossibilidade de estabelecermos um entendimento em comum. Podemos afirmar que o homem corrompido encontra prazer na libertinagem, e o homem moderado na temperança; que o insensato, cheio de crenças, caprichos, loucuras e esperanças, sente prazer, mas que o sábio também é capaz de senti-lo. (…)

PROTARCO – Concedo, Sócrates, que estes dois tipos de prazeres decorram de origens opostas, mas nem por isto se opõem um ao outro. De resto, como poderia o prazer ser diferente de si mesmo?

SÓCRATES – Então a cor, meu querido, enquanto cor, não difere em nada da cor! Sem embargo, todos sabemos que o preto, além de ser diferente do branco, é-lhe de fato o exato contrário.”

Tu dizes que todas as coisas agradáveis são boas, e ninguém em seu juízo perfeito deixará de saber distinguir o que é agradável do que não o é; mas sendo a maior parte dos prazeres má, e a minoria boa, como estabelecemos, tu dás, não obstante, a todos os tipos de prazeres, não importando sua origem, o nome de <bons>, por mais que reconheças agora que são dissemelhantes entre si, quando se te interroga com mais apuro. Que qualidade comum vês nos prazeres bons e nos prazeres maus, qualidade comum esta suficiente para reconhecer todos os prazeres sob a alcunha de Bem?”

Um prazer não difere de outro prazer: são todos semelhantes. E joguem-se fora os exemplos que antes citei! Voltemos a afirmar as coisas que afirmam aqueles homens que são incapazes de discutir qualquer assunto.”

Não devemos dissimular, caro Protarco, a diferença que há entre meu bem e o teu bem!”

SÓCRATES – (…) Não há nem pode haver um meio mais precioso para as indagações que este que adoto já há longo tempo; mas confesso que ele vem falhando bastante ultimamente, deixando-me sozinho e perplexo.

PROTARCO – Que meio é este?

SÓCRATES – Não é difícil descrevê-lo ou saber sobre ele; o difícil é segui-lo. Todas as descobertas obtidas até agora, que exigem algum conhecimento técnico, derivam deste mesmo método que vou-te apresentar.

(…)

Enquanto permaneço capaz de avaliar, é-me um presente divino. Creio que nos caiu do céu devido ao ato de algum Prometeu, pois emana do fogo sagrado. Os antigos, muito mais valorosos que nós, nos transmitiram a tradição de que todas as coisas às quais se atribui uma existência eterna se compõem de unidades, isto é, de um ou de muitos, e reúnem em sua natureza o finito e o infinito. Já que as coisas são assim, é preciso, na indagação de cada objeto, aspirar sempre à descoberta de uma idéia singular. Efetivamente só pode existir uma idéia para cada existência verdadeira; e uma vez descoberta esta idéia, é preciso examinar se não podemos ainda depurá-la mais, por estarmos diante de um coletivo de coisas existentes, i.e., se não se trata, investigando melhor, de mais de uma idéia, com certas afinidades entre si. Podem ser duas, três, quatro… não importa o número. Das idéias que descobrirmos, vale a pena apurar, de novo e de novo, se estas idéias não abrigam outras idéias em si, ou seja, se elas não passam apenas de imagens de idéias, tendo apenas aparências de unidade. É preciso chegar até o final da depuração, a fim de se descobrir, por fim, se a Idéia mais primitiva seria una, múltipla ou uma infinidade. Veja que não se deve aplicar a uma pluralidade a idéia do infinito, pelo menos não até havermos fixado o número preciso que descreve a quantidade de idéias, maior que 1 e menor que o infinito, necessariamente! Só então é que se pode deixar a cada qual que se encaixe na categoria de <infinito>.¹ Os deuses, como eu disse, nos presentearam com o dom de avaliar, de aprender e nos instruirmos entre nós; mas os sábios de hoje em dia fazem essas coisas como que a esmo, sem método consciente; digamos que eles erram mais do que seria conveniente para uma investigação digna. Ou se demoram demais sobre algo supérfluo ou se demoram de menos em algo fundamental, sem darem por isso. Depois da unidade, estes falsos sábios já passam de repente, sem transição clara, ao infinito, e os números intermediários fogem-lhes de vista. Contudo, estes números intermediários são a chave de nossa discussão, pois encerram a ordem e as leis da dialética, e diferenciam-na das artes que não passam de jogo e disputa não-verdadeira, seja oratória ou retórica ou outro nome qualquer que lhas dêem.”

¹ Podemos estar diante, basicamente, dos parágrafos que iniciam, verdadeiramente, a tradição do Idealismo alemão. Eis o que Azcárate tem a dizer sobre esta passagem: “A unidade é o gênero; o infinito é a coleção dos indivíduos; o número intermediário é o das espécies”. Não sei se mais ajuda ou atrapalha àquele não-familiarizado com o platonismo e a teoria das Idéias! Mas vejamos como poderei “mediar este debate” e traduzir com minhas próprias palavras o teor da longa passagem do discurso de Sócrates: essas considerações, embora não se deva ignorar a repercussão filosófica (metafísica) invisível destas palavras, para um começo de compreensão, não distam muito da estruturação do conhecimento do método científico do Ocidente moderno. Para que algo seja empírico e teorizável, é preciso que se organize num quadro de referências lógicas, enfim, de categorias. Assim o Homem pós-platônico estuda as coisas. Pouco importa, por exemplo, remetendo-nos à Biologia, que haja 7 bilhões de seres humanos na Terra e que não conhecemos todos. Estudamos o Homem pela unidade (gênero Homo sapiens). Não devemos ignorar que o número, por mais quantificável que seja, está sempre sujeito a alterações imediatas, seja pelas mortes ou pelos nascimentos ininterruptos, seja porque no momento somos incapazes de dizer se fora de nosso alcance (planeta Terra, atualmente) não haveria de haver outros homens. Nesse sentido, pode-se chamar a quantidade de homens de infinita, mas isso tampouco prejudica nossa faculdade investigativa. Como usei o homem como exemplo, não posso dividi-lo em sub-espécies, i.e., raças, mas isso (números intermediários) utilizamos sem problemas para os mamíferos, p.ex. Lembrar que poderíamos considerar os homens, mas de uma perspectiva outra que não a biológica, que acabei de eleger: as espécies poderiam ser cada nacionalidade. Continua a haver uma Idéia dentro da outra (homens nascidos em uma nação), mas esta Idéia de nação é concisa o suficiente para se opor à mais abrangente de Humanidade. Cientistas podem debater entre si sobre vários de seus descobrimentos, inúmeros detalhes suscetíveis de controvérsia dentro de seu campo do conhecimento, mas sempre se estabelecem verdades reconhecidas como universais que se tornam o legado das próximas gerações.

SÓCRATES – A voz, que sai da boca, é uma e ao mesmo tempo infinita em número para todos e para cada um.

PROTARCO – Estou conforme.

SÓCRATES – Não somos sábios por havê-lo afirmado; nem porque reconheçamos as naturezas infinita e una da voz. Mas saber quantos são os elementos distintos de cada uma e quais são estes não seria o objeto da Gramática?¹

PROTARCO – De pleno acordo.

SÓCRATES – O mesmo para a Música.

PROTARCO – Hein?

SÓCRATES – A voz considerada em relação a esta arte é una.

PROTARCO – Ó, sem dúvida.

SÓCRATES – Podemos considerá-la de duas maneiras: uma voz grave e uma voz aguda; e um terceiro tom uniforme. Não é assim?

PROTARCO – Sim.

SÓCRATES – Se não sabes mais que isto, porém, jamais serás hábil em música; e se o ignoras, tanto pior, pois nem mesmo atendes ao pré-requisito mais fundamental para entender esta arte.

PROTARCO – Isso é certo!

SÓCRATES – Mas, querido amigo, só quando tiveres aprendido a conhecer o número dos intervalos da voz – tanto para o som agudo quanto para o grave –, a qualidade e os limites destes intervalos, e os sistemas que deles resultam, é que, tal como os antigos fizeram, irás descobrir e ser capaz de transmitir aos vivos as idéias sobre harmonia; através dos ensinamentos dos antigos compreendemos tanto isso como as propriedades análogas que emanam do movimento dos corpos, que, medidos por números, devem se chamar ritmo e medida. Quando perceberes que deves portar-te desta maneira em todo saber (em tudo que é uno e múltiplo), aí então poderás enfim chamar-te a ti mesmo sábio.”

¹ Atual Lingüística.

FILEBO – Eu penso da mesma maneira. Mas que significa tudo isto, e aonde quer nos levar Sócrates?”

Descobrir que a voz é infinita foi a obra de um deus ou de algum homem divino, como se refere no Egito de um certo Tot que foi o primeiro que se apercebeu de que este infinito continha unidades chamadas vogais, distinguindo, então, que era não uma, mas muitas; depois, descobriu outras letras, cuja natureza era distinta das vogais, mas que mesmo assim participavam dos sons, vindo a reconhecer, conforme estudava e refletia, o número destas vozes não-vocálicas, que chamou de consoantes. Distinguiu até uma terceira ordem ou espécie de letras, que são o grupo que hoje chamamos de mudas.¹ Depois, ainda, aperfeiçoou seus conhecimentos e separou uma a uma as letras mudas ou privadas de som; e em seguida fez o mesmo com as vogais e as intermediárias [consoantes], até que, havendo descoberto o número das existentes, deu a todas e a cada uma o nome de elemento. Tot, notando que nenhum homem poderia aprender nenhum desses sons ou letras isoladamente, i.e., que reconhecer que uma implicava ao mesmo tempo em reconhecer todas as outras, imaginou o enlace de uma nova unidade, e ao representar-se isto, deu-lhe o nome Gramática, que então nasceu.”

¹ O lingüista sabe que aqui estamos falando de sílabas ou fonemas, não mais de letras em si, embora esta distinção não importasse no tempo de Sócrates (Gramática antiga). Se refere Sócrates, nesse discurso, a semi-vogais ou semi-consoantes, que há em todos os sistemas lingüísticos.

PROTARCO – (…) Sócrates, depois de mil rodeios, metestes-nos numa questão que não é nada fácil resolver. (…) Está-me parecendo que Sócrates nos pergunta se o prazer tem espécies ou não, quantas e quais são; e espera de nós a mesma resposta também com relação à sabedoria.

SÓCRATES – Mataste a charada, filho de Cálias!”

PROTARCO – (…) Havendo-se a discussão empenhado tanto dum lado como do outro, chegamos a ameaçar-te, em tom desafiador e confiante, de não deixar-te arredar o pé e voltar a tua casa antes de que sanasses esta questão! Tu consentiste finalmente, e estás-te dedicando a nós há vários minutos. Agora dizemos como as crianças que não se pode abandonar a meias aquilo que já está bem-desenvolvido, mais perto de terminar do que de haver começado. Portanto, cessa de enrolar-nos, Sócrates, da forma como estás fazendo, e volta a cumprir o combinado!

SÓCRATES – Mas que é que estou a fazer?

PROTARCO – Pões-nos obstáculos atrás de obstáculos e nos suscitas questões e questiúnculas, às quais não podemos dar uma resposta satisfatória sem muita meditação. Porque não imaginamos que o objeto desta conversação seja o reduzir-nos simplesmente a não saber o que dizer! (…) Já que a situação é esta, fala tu! Delibera tu mesmo e fornece-nos a divisão completa dos prazeres e das sabedorias; a menos que possas deixar isto sem exame e ainda assim possas e queiras tomar outro rumo e explicar-nos as coisas de outro modo até chegarmos a uma solução.

SÓCRATES – Depois do que acabo de ouvir, nada de mal posso temer de vossa parte! Esta frase: <a menos que… …queiras> é o que me tranqüiliza, em verdade. E, de resto, me parece que um deus acaba de visitar-me e iluminar-me a memória com certas luzes!”

Começaste prodigiosamente, Sócrates. Agora termina idem!”

SÓCRATES – Examinemos e avaliemos, pois, a vida do prazer e a vida da sabedoria, considerando cada uma à parte.

PROTARCO – Como é?!

SÓCRATES – Façamos de forma que a sabedoria não invada nunca a vida do prazer, e nem o prazer invada jamais a vida da sabedoria. Porque se um dos dois for o Bem, é preciso que não haja absolutamente nada que se mescle, e se um ou outro nos parece carente dalguma coisa, não seria já o verdadeiro Bem que buscamos.”

SÓCRATES – Consentirias tu, Protarco, em passar o resto de teus dias no gozo dos maiores prazeres?

PROTARCO – Ora, se não!

SÓCRATES – Se nada a ti faltasse, crerias então que tens ainda necessidade dalguma coisa?

PROTARCO – Evidente que não.

SÓCRATES – Examina bem se não terias necessidade de pensar, nem de conceber, nem de raciocinar quando se mostrasse necessário, nem de nada do tipo. Será que nem mesmo precisarias ver?

PROTARCO – Pra quê? Se fruísse para sempre do prazer, já tudo teria!

SÓCRATES – Não é necessário que, vivendo desta maneira, passarias os dias em meio aos maiores prazeres?

PROTARCO – Indubitavelmente.

SÓCRATES – Mas como faltar-te-ia a inteligência, a memória, a ciência, a opinião, estarias privado de toda reflexão, e é uma conseqüência que ignorarias então se sentias prazer ou não.

PROTARCO – Ora, é verdade.

SÓCRATES – Assim como assim, desprovido de memória, decorre daí obrigatoriamente que não poder-te-ias lembrar se já houveras sentido prazer ou não outrora, e que não saberias, portanto, aquilo que sentes no presente imediato. E, ao não possuir qualquer opinião verdadeira, é certo que não crerias em absoluto sentir gozo no instante em que de fato está-lo-ias sentindo! Por estar destituído da razão, serias incapaz, outrossim, de concluir que te regozijarias no futuro. Ou seja: viverias tal qual uma esponja, e não como um homem! Se não como uma esponja, pelo menos como uma espécie de animal marinho que vive encerrado em concha, fechado ao mundo, vá lá. Concordas até este ponto, ou tens algo a dizer sobre em que estado te encontrarias?

PROTARCO – Sócrates, não haveria como formar uma outra idéia melhor.

SÓCRATES – E bem: tal vida é apetecível?

PROTARCO – Sócrates, esta pergunta não faz o menor sentido.”

SÓCRATES – Será que qualquer um de nós três seria capaz de viver possuindo sabedoria, inteligência, ciência, memória, em que pese não fosse apto para sentir o mínimo prazer, nem dor, nem para experimentar qualquer sentimento correlato?

PROTARCO – Tal vida em nada me invejaria, Sócrates. Nem creio mesmo que fosse possível uma única vida assim entre todos os mortais.

SÓCRATES – E se se juntassem estas duas vidas, Protarco? E se não formassem mais que uma só, amalgamando-se prazer e sabedoria na mesma unha e carne?

(…)

PROTARCO – Não haveria ninguém que deixasse de preferir este gênero de vida aos dois extremos que elencaste, Sócrates. Insisto que não seja coisa de preferência de uns ou outros: é um juízo universal, sem exceções.

SÓCRATES – Já podemos, portanto, extrair as conclusões do que acaba de ser dito?

PROTARCO – Sim, meu caro Sócrates. Que dos três gêneros de vida apresentados, dois são insuficientes em si mesmos, e mesmo que o fossem são inapetecíveis para qualquer homem ou ser.”

SÓCRATES – Já demonstramos suficientemente que a deusa de Filebo não deve ser vista como o Bem em si.

FILEBO – Mas tua inteligência, Sócrates, tampouco poderia ser este Bem, porquanto está sujeita às mesmas objeções…

SÓCRATES – A minha sim, Filebo, talvez tenhas razão… Mas quanto à verdadeira e divina Inteligência julgo eu que seja outra coisa completamente diferente. Na vida mista não se contesta a vitória da inteligência, mas é necessário ainda avaliar que opinião adotaremos com relação ao segundo posto hierárquico. Talvez devamos dizer, cada qual: <a inteligência>, eu; <o prazer>, tu; no caso de se nos perguntar qual é a principal causa da felicidade presente na condição mista. Procedendo assim, ainda que esta causa predileta não seja o Bem em si mesmo, pelo menos vemos cada qual nosso fator favorito como causa primeira. E acerca disso estou mais excitado do que nunca para a pugna contra meu rival Filebo! Sou capaz de jurar que qualquer que seja a coisa que faz dessa vida algo apetecível, a inteligência tem, de qualquer modo, mais afinidade e semelhança com tal coisa que o prazer. Vou ainda mais longe, ousado que estou: o prazer não tem sequer o direito de aspirar ao posto de <vice> nesta eleição, e com bastante probabilidade não ocupará nem sequer o pódio ou o bronze! Mas para que eu o demonstre necessito de vossa complacência e paciência, ainda que temporárias. Ou seja, confiai em minha inteligência, por Zeus!”

Ó, Protarco! Creio que ainda temos muita estrada pela frente nesta discussão! Neste momento sinto como nossa empreitada é árdua. Porque se aspiramos ao segundo posto, e minha opinião é de que a inteligência o ocupará, é preferível, a essa altura, dadas as circunstâncias, volvermo-nos a outros métodos. Abandonemos por ora a linha de raciocínio precedente.”

SÓCRATES – Dividamos em duas ou mais partes, p.ex., 3, todos os seres deste universo.

PROTARCO – Como?

SÓCRATES – Repitamos algo do que já tínhamos estabelecido.

PROTARCO – Que coisa?

SÓCRATES – Disséramos, não faz muito, que deus foi quem nos fez conhecer os seres, uns como infinitos, outros como finitos.”

SÓCRATES – (…) Mas vejo que em breve serei visto como ridículo se continuar empregando estas divisões.

PROTARCO – Ora, Sócrates, não entendo-te tão bem.

SÓCRATES – Parece-me que tenho necessidade de um quarto gênero!

PROTARCO – Qual seria esse?

SÓCRATES – Apura com o pensamento a causa da mescla das duas primeiras espécies: põe-na ao lado das três; eis a quarta.

PROTARCO – Não seria possível, procedendo assim, também um quinto gênero, com o que poderias separar os seres mais a gosto?

SÓCRATES – Ó, sim! Mas neste momento da argumentação não acho conveniente. Em todo caso, se no decorrer de nossa exposição se fizer necessário um quinto, por que não?!

PROTARCO – De acordo.

SÓCRATES – Bem, destas quatro espécies ponhamos 3 à parte; procuremos, em seguida, examinar as duas primeiras, que têm muitas ramificações e divisões; depois compreendamos cada uma sob uma só idéia; e tratemos, finalmente, de descobrir como numa e noutra se dão o Um e o Muito.

PROTARCO – Se te explicas com mais clareza, talvez eu te possa seguir, Sócrates, mas isto no momento é impossível!

SÓCRATES – As duas espécies a que me refiro são a infinita e a finita. Esforçar-me-ei por provar que a infinita é, de certa maneira, múltipla. Quanto à finita, peço que aguarde um juízo, por ora.

PROTARCO – Creio que a espécie finita não fugirá, Sócrates. Temos tempo.”

SÓCRATES – O mais e o menos, dizíamos, encontram-se sempre no mais quente e no mais frio.

PROTARCO – Com certeza.

SÓCRATES – Por conseguinte, a razão sempre nos faz entender que estas duas coisas não têm fim; e, ao não terem fim, são, por isso, infinitas.

PROTARCO – Agora definiste a coisa com exuberância!

SÓCRATES – Creio que agora fui mais didático, não, Protarco?! Por falar em exuberância e exuberante, eis aí um termo que possui seu oposto em pobre ou escasso, não di-lo-ias? E não dirias que este binômio exuberante-escasso funciona sobre as mesmas bases que o mais e o menos? Em qualquer ponto em que se encontrem, não consentem jamais que a coisa tenha uma quantidade determinada, senão que, passando sempre do mais exuberante ao mais escasso, e reciprocamente, fazem com que nasça o mais e o menos, obrigando o quantum a desaparecer. Com efeito, como já dissemos, caso essas classificações de extremo a extremo acerca de uma coisa não fizessem desaparecer o <quanto?>, deixando-o ocupar o lugar do mais e do menos, do exuberante e do pobre, sendo um intermediário polimórfico, estas coisas mesmas correriam o risco de desaparecer, pois já não faria sentido falar em exuberância, em escassez, em quente, em frio ou em algo que fosse mais e em algo que fosse menos. Ficaria tudo embaralhado, afinal um número nada é, ou pelo menos não pode ser tudo em simultâneo! Porque se se admite o quantum tem-se que a coisa não é mais quente ou mais fria, porque o mais quente cresce indefinidamente, não havendo fenômeno que o desminta; coisa igual acontece com o mais frio. Essas escalas ou retas são infinitas e inserem as coisas em transições sem começo nem final. Mas um ponto fixo será sempre um ponto fixo, não concordas? Desde que cesse o movimento, aí tens alguma propriedade bem-definida no lugar de um quantum. Convimos, portanto, que o mais quente e o mais frio são infinitos.”

Parece que faremos melhor se abrangermos na categoria do finito o que não admite essas qualidades mas sim suas contrárias, ou seja, em primeiro lugar o igual e a igualdade; em seguida o dobro; repara que sempre que tivermos um número, poderemos equivalê-lo à metade de outro número, por exemplo.”

SÓCRATES – Como é que representaremos a terceira espécie que resulta das duas anteriores?

PROTARCO – Aguardo tua lição, Sócrates, pois estou no escuro quanto a isso.

SÓCRATES – Não, não serei eu, Protarco, será um deus, se algum se digna a ouvir minhas súplicas!

PROTARCO – Suplica, então; e medita no problema.

SÓCRATES – Medito, medito… E me parece, caro Protarco… que alguma divindade nos foi favorável em nossos rogos!”

Entendo a espécie do igual, do dobro, como aquilo que faz cessar a inimizade entre contrários, produzindo entre eles a proporção e o acordo, numericamente representáveis.”

SÓCRATES – Tu opinas que limitar o prazer é destruí-lo, e eu sustento, pelo contrário, que limitar o prazer é conservá-lo!

PROTARCO – Nisso não mentes, Sócrates.

SÓCRATES – Expliquei as 3 primeiras espécies. Até agora, compreendeste minhas palavras.

PROTARCO – Sim, creio que compreendi, a maior parte. Distingues, na natureza das coisas, uma espécie que é o infinito; uma segunda espécie, que é o finito; porém, Sócrates, com respeito a essa terceira, não concebo muito bem como a defines em tua cabeça.”

SÓCRATES – (…) Compreendo numa terceira espécie tudo aquilo que é produzido pela mescla das duas primeiras, e que a medida que acompanha o finito produz as condições para a geração da essência da coisa.(*)

PROTARCO – Positivo.

SÓCRATES – Mas para além destes 3 gêneros, é preciso ver qual é aquele que eu disse ser o 4o. Façamos juntos esta apuração!”

(*) “Pela geração da essência, Platão entende neste caso a transição rumo a existência física do objeto.” – P.A. – Modo análogo de dizer: o mundo observável está contido entre as fronteiras inexpugnáveis e apenas inferíveis do finito e do infinito.

O que produz não precede sempre, por sua natureza; e o que é produzido não vem sempre depois, sendo considerado efeito?

(…)

Disso advém que são duas coisas e não uma só; causa-e-efeito (o que causa e o que obedece à causa em seu trânsito rumo à existência).

(…)

Porém, as coisas produzidas e as coisas que produzem geram, por assim dizer, 3 espécies de ser.

(…)

Digamos, então, que a causa produtora de todos esses seres constitui uma 4ª espécie, e que está suficientemente demonstrado que ela difere das outras 3.”

Portanto, vai esta suma: a primeira espécie é o infinito; a segunda, o finito; a terceira, a essência,¹ que é produzida pela mescla das duas primeiras; a quarta é a causa mesma dessa mescla e produção.²”

¹ O “fenômeno” ou “aparência” na linguagem técnica de hoje. A existência em si, poder-se-ia da mesma forma dizer, já que a <essência> do texto é um conceito bastante ardiloso, quase antagônico ao que Platão quer de fato expressar.

² O protótipo ideal ou Deus.

SÓCRATES – E tua pura vida de prazer, Filebo, em qual espécie está situada?

(…)

O prazer e a dor têm limites, ou são das coisas suscetíveis do mais e do menos?

FILEBO – São da segunda espécie, são infinitas, Sócrates. Porque o prazer não seria o soberano bem se por sua própria natureza não fosse infinito em número e em magnitude.

SÓCRATES – E portanto a dor não seria o soberano mal. Por isso é preciso contemplar as coisas de um outro ângulo, saindo da espécie do infinito, a fim de descobrirmos quê é que comunica ao prazer uma parte do bem. Conviríamos acaso que esta coisa emanasse da própria espécie do infinito? Ora, que o prazer nela esteja, se fazeis tanta questão! Mas ainda persistiria o seguinte problema: em que classe estão a sabedoria, a ciência, a inteligência, meus queridos Protarco e Filebo? Não sejamos ímpios! Parece-me que corremos grandes riscos ao ensaiar uma resposta para esta última pergunta.

FILEBO – Ó Sócrates! Será que não superestimas tua deusa?”

Diremos, Protarco, que um poder, desprovido de razão, temerário e que obra ao acaso, governa todas as coisas que formam o que chamamos universo? Ou, ao contrário, há, como disseram os antigos, uma inteligência, uma sabedoria admirável, que preside o governo do mundo?”

Com relação à natureza dos corpos de todos os animais, vemos que o fogo, a água, o ar e a terra, como dizem os velhos marinheiros, entram em sua composição.”

SÓCRATES – Não temos mais que uma pequena e desprezível parte de cada um, que não é pura de nenhuma maneira, de modo que a força que esta parte desemboca em nós não responde satisfatoriamente a sua natureza original. Tomemos um elemento em particular, com seus atributos derivados, e apliquemo-lo a todos os demais. Por exemplo, há fogo em nós, e o há, por igual, no universo.

PROTARCO – Sem dúvida assim o é.

SÓCRATES – O fogo que nós temos, não seria diminuto em quantidade, ao grau da debilidade e do desprezível, ao passo que o fogo do universo não é admirável em quantidade, beleza e força?

PROTARCO – Incontestavelmente.”

SÓCRATES – (…) Não é à reunião de todos os elementos que acabo de elencar que demos o nome de corpos?

PROTARCO – Exato.

SÓCRATES – Vê, pois, que o mesmo sucede com aquilo que chamamos de universo, porque, compondo-se este dos mesmos elementos, é o universo, por analogia, também um corpo.

PROTARCO – Disseste muito bem.”

SÓCRATES – Mas como? Não diremos que nosso corpo tem uma alma?

PROTARCO – É claro que diremos!

SÓCRATES – De onde a tiraste, querido Protarco, se o próprio corpo do universo não é animado, sendo que ele tem tudo que nossos corpos têm, e em ainda maior abundância?

(…)

E tudo isso, meu caro Protarco, porque não reparáramos até aqui que desses quatro gêneros, o finito, o infinito, o misto e a causa, este quarto e último, existindo em tudo, é que nos concede uma alma, que sustenta os corpos, que, quando enfermo, adoece a saúde, e que se combina de mil maneiras a fim de criar milhares de milhares de objetos, recebendo o nome de sabedoria absoluta e universal! Este quarto gênero está sempre presente sob uma infinda variedade de formas; o gênero mais belo e excelente se encontra na extensa região dos céus, onde sem dúvida tudo o que há são os mesmos elementos que nos constituem, conquanto em muito maior proporção, dispondo de beleza incomparável e de uma pureza sem igual.”

SÓCRATES – (…) neste universo há muito de infinito e uma quantidade suficiente de finito, mas todos são governados por uma causa, que nada tem de desprezível ou avara, pois que ajusta e ordena os anos, as estações, os meses, e merece com razão o nome de sabedoria ou inteligência.

PROTARCO – Ó Sócrates, tens toda a razão do mundo!

SÓCRATES – Mas não pode haver sabedoria e inteligência ali onde não há alma!

PROTARCO – Isso é verdade.

SÓCRATES – (…) Na natureza de Zeus, enquanto causa, há uma alma real, uma inteligência real, e na natureza dos outros deuses há muitas belas qualidades, pelo menos uma das quais cada deus gosta que se lhe atribua em especial.”

Algumas vezes o estilo festivo é uma forma de levar adiante as indagações mais sérias.”

SÓCRATES – A fome, p.ex., é uma dissolução e uma dor.

PROTARCO – Sim.

SÓCRATES – Comer, ao contrário, é uma repleção e um prazer.

PROTARCO – De acordo.

SÓCRATES – A sede é, de novo, dor e dissolução. Mas a qualidade do úmido, que preenche o que seca, origina um prazer. O mesmo pode ser dito da sensação de um calor excessivo e que seja anti-natural, causando segregação, dor, enfim; o restabelecimento do estado normal e o refrigério do corpo, neste caso, é encarado como um prazer.

(…)

O frio, que enregela o úmido presente no animal até o ponto de ser contra a natureza, quando excessivo, é considerado dolorido; os humores, cada um seguindo seu curso, quando em conformidade com a natureza, equivalem à sensação do prazer. (…) quando o animal se corrompe, a corrupção é uma dor; já o retrocesso de cada coisa a sua constituição primeva é um prazer.”

Eis um terceiro estado, diferente do prazer e da dor. Neste ponto é necessário um esforço intelectivo para me acompanhar. Sem compreender este estado, não resolveremos esta nossa questão. Mas continuo apenas com tua bênção.

(…)

Sabes que nada impede que viva desta maneira aquele que assumiu para si o estilo de vida do sábio?”

PROTARCO – Mas Sócrates, se estás correto isso seria indício de que os deuses não estariam sujeitos quer à alegria quer à tristeza.”

SÓCRATES – Parece-me que é preciso explicar antes o que é a memória, e antes da memória o que é a sensação, se é que pretendemos levar isso às últimas conseqüências.

PROTARCO – Não te entendo.

SÓCRATES – Dá por estabelecido, amigo, que entre as afeições que nosso corpo experimenta de ordinário algumas se estendem ao corpo sem tocar a alma, não impingindo-lhe nenhum sentimento; outras afeições são transmitidas do corpo à alma, e produzem uma espécie de comoção, que pode ser caracterizada como singular, pois que o corpo a interpreta duma maneira, a alma doutra, ainda que reste algo que seja comum às duas instâncias.”

SÓCRATES – (…) o esquecimento é a perda da memória, e no caso presente nem há que se falar propriamente de memória; seria um absurdo dizer que se pode perder aquilo que sequer existe, nem existiu jamais, não pões-te de acordo?

PROTARCO – E como não, Sócrates?

SÓCRATES – Modifica, pois, os termos um pouquinho.

PROTARCO – Ã?

SÓCRATES – Em vez de dizer que quando a alma não sente as comoções de que padece o corpo e estas comoções lhe escapam por completo há esquecimento, melhor seria dizer que há insensibilidade.

PROTARCO – Ah, agora está claro.

SÓCRATES – Mas nota que quando a afecção ou afeição é comum à alma e ao corpo, e ambos sentem-se comovidos, não te enganarás se chamares a este movimento de sensação.

PROTARCO – Continua, Sócrates, pois sigo de acordo.

(…)

SÓCRATES – Mas se se diz que a memória é a conservação da sensação, tem-se aqui uma boa definição, a meu ver.

PROTARCO – A meu ver também é uma boa definição.

SÓCRATES – Não dizíamos que a reminiscência é diferente da memória?

PROTARCO – Quem sabe…

SÓCRATES – Não consiste essa diferença no seguinte–

PROTARCO – No quê??

SÓCRATES – –que quando a alma, em condições de isolamento e julgamento equilibrado, afastada do corpo, entregue, por assim dizer, somente a si mesma, recorda o que experimentara noutro tempo, a isto chamamos reminiscência. Alguma objeção?¹

PROTARCO – De modo algum.

SÓCRATES – E quando, tendo perdido a recordação, seja de uma sensação, seja de um conhecimento, reprodu-lo em si própria, chamamos este processo reminiscência e memória, isto é, toda memória é uma reminiscência, mas jamais o contrário.”

¹ A memória diz respeito principalmente à vida fenomênica do sujeito, diria um filósofo contemporâneo. A reminiscência ajuda a explicar e fundamentar lembranças atávicas da alma, i.e., coisas vivenciadas pelo Ser antes de ser o eu atual, única explicação possível, no platonismo, para a capacidade que se tem, na vida fenomênica, de se chegar à Verdade e à Idéia das coisas. Há um quê de misticismo, por um lado, que associa Platão à Pitágoras, mas, no fundo, esta é a base da fenomenologia ocidental mais aplicada, lógica e abstrata, que não dá lugar ao inconsiderado (sobrenatural). Nossa essência, nosso Ser, diria um Heidegger, dependem desta discriminação aparentemente tão inocente entre uma simples memória e uma autêntica reminiscência.

PROTARCO – Examinemos então o desejo, como tu pedes, pois nisto nada perderemos, tendo em vista o fim que temos.

SÓCRATES – Sim, Protarco: ao encontrarmos o que tanto buscamos, desaparecerão imediatamente nossas dúvidas acerca de todos estes objetos, e parecerá que ganhamos tempo, ao invés de perdê-lo!

PROTARCO – Tua réplica é a mais justa de todas, mas de pouco adianta nos determos aqui com belas palavras, Sócrates.”

SÓCRATES – Que há de comum entre afecções tão diferentes, a ponto de denominá-las por uma mesma palavra?

PROTARCO – Por Zeus! Se eu soubesse, talvez não estivéssemos enredados em todo este imbróglio, Sócrates… É preciso, não obstante, achar algo que dizer.

SÓCRATES – Nada melhor que o ponto de partida ser o aqui e o agora.

PROTARCO – Explica isso melhor.

SÓCRATES – Não se diz, de ordinário, que tem-se sede?

PROTARCO – Ora, sim.

SÓCRATES – Ter sede, não é dar-se conta de um vazio em si?

PROTARCO – Decerto.

SÓCRATES – A sede não é um desejo?

PROTARCO – Sim, um desejo de bebida.

SÓCRATES – De bebida, ou de ver-se saciado pela bebida?

PROTARCO – Mais exatamente isto; ver-se saciado.

SÓCRATES – Então posso concluir que deseja-se o contrário daquilo que é? De maneira que quem sente-se vazio quer-se saciar.

PROTARCO – Permito-te esta conclusão.

SÓCRATES – E é possível que um homem que se encontra afetado por este vazio, pela primeira vez em sua vida chegue – seja através da sensação, seja através da memória – a preencher este vazio com algo imaginário e inaudito?

PROTARCO – Mas como poderia suceder tal loucura, Sócrates?

SÓCRATES – Todo homem que deseja, não deseja alguma coisa? É o que se diz.

PROTARCO – Conforme…

SÓCRATES – Não deseja o que ele experimenta, porque ele tem sede; a sede é um vazio e deseja suprimi-lo. Com efeito, seria contraditório dizer que ele experimenta algo e tem desejo desse algo ao mesmo tempo.

PROTARCO – Agora que o disseste…

SÓCRATES – É preciso que aquele que sente sede chegue a uma repleção exterior ou então a satisfaça com seu próprio ser.

PROTARCO – Entendo-te a meias, Sócrates.

SÓCRATES – Bem, posso-te adiantar que é impossível que com o corpo o corpo livre-se da sede, posto que é o corpo que se encontra de algum modo esvaziado.

PROTARCO – Claro…

SÓCRATES – Resta, portanto, que a alma chegue à repleção, e isto só se poderia dar mediante a memória!

PROTARCO – Isto é claro como a luz.

SÓCRATES – Por qual outro método este homem haveria de consegui-lo?

PROTARCO – Sou incapaz de conceber qualquer outro.

(…)

SÓCRATES – Esta reflexão nos faz ver, Protarco, que não há desejo do corpo.

PROTARCO – ???

SÓCRATES – O esforço de todo organismo animal se dirige sempre no sentido de atingir o estado contrário ao que experimenta no presente.

(…)

Este apetite, que arrasta dum extremo a outro através da experiência (sensações), prova que há nele uma memória congênita das coisas opostas às paixões do corpo, não vês?

(…)

Só pode ser a memória aquilo que leva o animal à realização de seu desejo e, portanto, todo desejo tem sua sede na alma, com o perdão do trocadilho.¹ A alma comanda o animal.²”

¹ Esta parte da tradução foi inovação minha: ambos conversavam sobre a <sêde> (vazio, dor ou sintomas da desidratação), e agora Sócrates fala da fonte, residência ou causa deste desejo de matar a sede (<séde>). A grafia das palavras, diferente da pronúncia, em nada difere.

² O animal deve ser entendido aqui como o homem, sob pena de comprometer-se todo o raciocínio caso estendamos esta compreensão às bestas ou criaturas irracionais, o <animal> no sentido da Biologia.

SÓCRATES – (…) Parece-me que chegamos ao ponto em que descobrimos uma espécie particular de vida.

PROTARCO – Que vida?!

SÓCRATES – Descobrimos esta vida que consiste no esvaziamento e na repleção; ou seja, tudo aquilo que se relaciona à conservação e à alteração do estado atual. É fácil notar que podemos sentir dor ou prazer independentemente do estado em que nos encontramos, não sendo o <vazio> ou o <cheio> o incômodo em si.

PROTARCO – Começo a entender onde queres chegar…

SÓCRATES – Que sucede quando nos achamos a meio caminho entre estas duas situações extremas de carência e de consumação?

PROTARCO – Agora explica isso de <meio caminho>.

SÓCRATES – Meio caminho ou ponto médio. Quando se sente dor em virtude da forma como o corpo está sendo afetado por algo, recordando-se sensações agradáveis, parece que a dor já cessa um pouco. Podes conceber que um homem sedento console-se de achar água, mesmo não achando, e consiga enganar a sede? Quem tem esperança de preencher o vazio, já não está num ponto médio entre a mais terrível sede e a realização plena do desejo de não ter mais sede?

(…)

E pensa que há algum ponto em que o homem é pura alegria? Ou pura dor?

PROTARCO – Refletindo bastante, penso que não. (…)

SÓCRATES – (…) Compreendes então que há um <duplo> invisível deste vazio ou falta de vazio, certo? Tanto quanto podemos conceber um homem esperançoso em preencher-se, há também o homem desesperado que não vê como poderia escapar de um agravamento desta sede.

PROTARCO – Consinto.”

SÓCRATES – Não seria estranho dizer que o homem e os demais animais experimentam simultaneamente dor e alegria.”

Devemos renunciar absolutamente a todos os rodeios e discussões que ainda nos separam de nosso objetivo final.”

Não é certo que aquele que forma uma opinião, seja fundada ou infundada, nem pela chance de estar errado deixa por isso de formar uma opinião?

(…)

Igualmente, não é evidente que aquele que goza uma alegria, haja ou não motivo para regozijar-se, nem por isso deixa de regozijar-se realmente?

(…)

Como seria possível que estejamos sujeitos a ter opiniões, tanto verdadeiras quanto falsas, e que nossos prazeres sejam sempre verdadeiros, como alegas, enquanto que os atos de formar uma opinião e regozijar-se existem de forma análoga e espelhada?”

SÓCRATES – Neste caso, nossa alma é parecida com um livro.

PROTARCO – Em que particularidade?

SÓCRATES – A memória e os sentidos, concorrendo ao mesmo objeto com as afecções que deles dependem, inscrevem, já que usei esta metáfora, em nossas almas, certos silogismos ou raciocínios, e quando aparece ali escrita esta verdade, nasce em todos nós uma opinião verdadeira derivada de raciocínios verdadeiros, bem como opiniões falsificadas, quando nosso secretário interior escreveu com base em opiniões fajutas, i.e., silogismos.”

SÓCRATES – As grandes e súbitas mudanças excitam-nos sentimentos de dor e prazer; já as mudanças mais matizadas ou insignificantes são incapazes de nos propiciar dor ou prazer.

(…)

Mas eis aí que o gênero de vida de que tratávamos faz sua reaparição!

(…)

Estou falando daquele gênero de vida normalmente isento da dor e do prazer.

(…)

admitamos 3 classes de vida: uma de prazer, outra de dor, e uma terceira que não é de um nem do outro. Que opinas sobre isso?

PROTARCO – Penso, como tu, que é preciso admitir estas 3 classes de vida.

SÓCRATES – Portanto, estar isento de dor nunca pode ser o mesmo que sentir prazer.

PROTARCO – Como?

SÓCRATES – Vejo, ó Protarco, que tu não conheces os inimigos de Filebo!

PROTARCO – E quem seriam?

SÓCRATES – Homens que passam por mui sábios sobre as coisas da natureza, capazes de sustentar, p.ex., que não há absolutamente prazer.(*)

PROTARCO – Hein?!

SÓCRATES – É isso mesmo que ouviste! Dizem que aquilo que os partidários de Filebo denominam prazer nada é senão a carência da dor.

PROTARCO – Mas e quanto a ti, Sócrates? Aconselhas-nos a seguir seu ditame?

SÓCRATES – De maneira alguma! Mas quero que os ouçamos como se fossem adivinhos ou oniscientes. Mortais assim, se existissem, ao dar-se-lhes crédito, seríamos obrigados a reconhecer que odiariam ou desprezariam o que chamamos nós de prazer. Aquilo que lhes agrada, tomam por ilusão, não algo existente. É dessa perspectiva que desejo que mireis o problema, a fim de ganharmos em conhecimento, ainda que eles não estejam certos.

(*) “Referência a Antístenes e os Cínicos.” – P.A.

Se desejássemos conhecer a natureza do que quer que seja, p.ex., da rigidez, não seria viável conhecê-la melhor fixando-nos no que há de mais rígido ao invés de entretermo-nos nas coisas mais ou menos rígidas? Anda Protarco, é necessário dar satisfação a estes homens cavilosos, como também a mim.”

Quem se encontra atormentado pela febre e outras enfermidades que-tais não sente mais sede, frio e outras afecções que o comum? Não se encontram com mais necessidades, e quando as satisfazem não experimentam certo grau de prazer? Deixaremos de confessar estas verdades?”

Não percebes na vida corrompida, senão um maior número, prazeres maiores e mais consideráveis, havendo sempre a necessidade de veemência e vivacidade por parte dessas pessoas, pelo menos muito mais do que na vida de uma pessoa moderada?”

SÓCRATES – Acaso ignoras que na comédia nossa alma se vê afetada por uma mescla de dor e prazer?

PROTARCO – Ainda não percebo muito bem esta característica.

SÓCRATES – Confesso, Protarco, que não estás de todo fora do tom: é um tipo de sentimento difícil de distinguir a princípio.

PROTARCO – Sinto que é.

(…)

SÓCRATES – Encaras como dor da alma isso que chamam de inveja?

PROTARCO – Sim.

SÓCRATES – E no entanto, vemos que o invejoso se regozija com o mal do próximo.

PROTARCO – E não é pouco!”

PROTARCO – Quais são os prazeres, Sócrates, que com mais razão podemos tomar por verdadeiros?

SÓCRATES – São aqueles que têm por objeto as cores belas e as belas figuras, a maior parte dos que nascem dos odores e sons, e todos aqueles, em suma, cuja privação não é sensível, nem dolorosa, e cujo gozo vai acompanhado de uma sensação agradável, sem mescla alguma de dor.¹”

¹ Platão acaba de resumir os fundamentos da ciência da Estética.

Por <beleza das figuras> não entendo o que muitos poderão imaginar: corpos formosos, pinturas de qualidade; entendo aquilo que é reto e circular, plano, sólido, obras desse gênero, trabalhadas em suas singularidades. Falo dessas figuras que poderíamos reproduzir com régua e esquadro. Será que penetras meu pensamento? A meu ver essas figuras não são como as outras, belas por comparação (relativamente belas), mas sempre e absolutamente belas, em si mesmas, naturalmente belas. (…) Outro tanto digo eu das belas cores que possuem uma beleza correlata à anterior, e de todos os prazeres que guardam relação com o que eu descrevi.

(…)

Quanto aos sons, digo que os fluidos e nítidos, componentes de uma melodia pura, são mais do que relativamente belos, são belos por si mesmos.

(…)

Já a espécie de prazer que resulta dos odores tem algo de menos divino, reconheço-o; mas os prazeres em que não se mescla nenhuma dor por necessidade devem ser classificados no gênero oposto ao dos prazeres de que falamos antes, por isso não posso me contradizer. Em suma, amigo Protarco, chegamos à definição de dois tipos diferentes de prazeres.

(…)

Não nos esqueçamos também dos prazeres que acompanham a ciência, se é que pressupomos que há qualquer coisa de gratuito no ato de conhecer, nada ligado ao desejo ou compulsão de aprender visando a outro fim, e que essa sede de ciência espontânea e como fim em si não causa qualquer tipo de dor.

(…)

Doeria na alma se, plena de conhecimento, chegasse a perder alguns por esquecimento?

(…)

Como bem concluíste, enquanto o conhecedor não refletir sobre isso, abandonando a naturalidade da questão, ele jamais sentirá qualquer dor ou pesar, enquanto não lembrar que esqueceu.

(…)

Resulta de tudo isso que os prazeres da ciência são puros e despidos de dor, e que não estão destinados a todo mundo.

(…)

Agora que já separamos com segurança os prazeres puros daqueles que não o são, acrescentemos que os prazeres violentos são desmedidos, e que os demais são comedidos. Afirmemos também que aqueles, maiores e mais fortes, fazendo-se sentir, não importa, uma ou múltiplas vezes, fato é que pertencem à classe do infinito, que atua com mais ou menos vivacidade sobre corpo e alma; estes (os comedidos) são da espécie finita.”

SÓCRATES – Como e em que consiste a pureza da brancura? Na magnitude e na quantidade? Ou no aparecer sem mescla, sem vestígio algum de outras cores?

PROTARCO – É evidente que na última característica, Sócrates.

SÓCRATES – Muito bem! Não diremos, pois, que esta brancura é a mais verdadeira e ao mesmo tempo a mais bela de todas as brancuras, e não a que é maior em quantidade nem em tamanho?”

Todo prazer que não carrega consigo uma dor, ainda que pequena e desprezível, é mais agradável, mais autêntico e mais belo que aqueles que a carregam, ainda que alguns prazeres que carreguem dores apareçam como mais vivos, numerosos e majestosos.”

SÓCRATES – Não ouvimos dizerem com contumácia que o prazer está sempre no caminho da gestação e nunca exatamente no estado da existência? Muitos oradores dos mais hábeis já tentaram demonstrá-lo. Nada mais poderíamos fazer senão agradecê-los!

PROTARCO – Por quê, Sócrates?

(…)

SÓCRATES – Não há duas classes de coisas, uma das que existem por si mesmas e outra das que aspiram sem cessar a ser outra coisa?” “Uma é naturalmente nobre, e a outra inferior àquela em dignidade.”

jovens formosos que tinham por amantes a homens cheios de valor.”

PROTARCO – Falaste algumas coisas que me soaram obscuras, Sócrates.

SÓCRATES – Não é bom que façamos mil recapitulações e digressões, assim não acabamos nunca. Mas, Protarco, eu não consigo evitar: a própria discussão parece ter gosto em me entorpecer! Ela quer nos fazer entender que, duas coisas consideradas, uma é sempre meio e a outra fim.

PROTARCO – Mesmo que repitas uma e duas vezes, isso não me entra na cabeça.”

SÓCRATES – Partamos de outro ponto então. Consideremos duas coisas novas…

PROTARCO – Quais?

SÓCRATES – Uma, o fenômeno; a outra, o ser.

PROTARCO – Pois bem, isto está conforme: o ser e o fenômeno.

SÓCRATES – Muito bem. Qual das duas diremos que foi feita para a outra? O fenômeno existe para a existência, ou a existência é que é causa do fenômeno?

PROTARCO – Me perguntas realmente isso: se a existência existe porque existe a aparência?

SÓCRATES – Exato!

PROTARCO – Que diabo de pergunta é essa?

SÓCRATES – Protarco, a construção dos navios se faz em nome dos navios, ou os navios em nome da construção? (…)

PROTARCO – Por que não te respondes a ti mesmo, Sócrates?

SÓCRATES – Não haveria inconveniente nisso, mas não quero falar só!

PROTARCO – Então com prazer…

SÓCRATES – Digo, então, que os ingredientes, os instrumentos, os materiais de todas as coisas servem a fenômenos; e que todo fenômeno serve a tipos de existências; e a totalidade dos fenômenos serve à totalidade da existência, que é o fim último.

PROTARCO – Perfeito.

SÓCRATES – E que, portanto, se o prazer é um fenômeno, é indispensável que seja o meio para alguma existência.

PROTARCO – Convenho totalmente.

SÓCRATES – Mas a coisa que é sempre fim para outra coisa que é sempre o meio, não deve ser esta coisa chamada de Bem? Logo, vemos que as coisas estão em classes diferentes.

PROTARCO – É óbvio.

SÓCRATES – Logo, se o prazer é um fenômeno, não diríamos que está subordinado ao Bem?

PROTARCO – Tens razão.

SÓCRATES – Desta forma, como disse no começo, precisamos ser gratos àqueles que nos fizeram conhecer que o prazer é um fenômeno e que não tem absolutamente existência em si mesmo¹”

¹ Platão volta a falar dos céticos.

SÓCRATES – Estes homens mesmos se rirão, sem dúvida, daqueles que fazem consistir sua felicidade no fenômeno.

PROTARCO – Mas de que maneira exatamente, e de quem falas?

SÓCRATES – Falo daqueles que, matando a fome e a sede e outras necessidades análogas, satisfazem-se no fenômeno. Está claro que se regozijam do prazer que lhes causa a repleção. Alegam que não gostariam de viver se não estivessem sujeitos à sede, à fome e outras tantas faltas, verificadas mediante sensações.

PROTARCO – Sim, de acordo.

SÓCRATES – Não conviremos todos em que a alteração dum fenômeno é o contrário de sua geração?

PROTARCO – Sim, conviremos.

SÓCRATES – O que elege a vida dos prazeres, elege a geração e a alteração, mas não um terceiro estado no qual não teriam lugar os prazeres, nem a dor, tão-somente a mais pura sabedoria.

PROTARCO – Agora entendo, Sócrates, que é o mais rematado absurdo eleger o prazer como o sumo Bem!”

SÓCRATES – (…) Não seria igualmente absurdo dizer que quem não experimenta o prazer e a dor é mau durante todo o tempo que sofre, ainda que estejamos falando do homem mais virtuoso do mundo? E não seria disparatado afirmar que quem experimenta o prazer é por esta mesma razão virtuoso, mais virtuoso quão maior for o prazer que experimenta?

PROTARCO – Sócrates, nada mais absurdo e disparatado que isso tudo!”

SÓCRATES – Não se dividem as ciências em dois ramos, um as artes mecânicas, o outro a educação, seja da alma ou do corpo?

PROTARCO – De acordo.”

SÓCRATES – Separemos, então, as artes que estão acima das outras.

PROTARCO – Quais seriam, e qual critério utilizaremos?

SÓCRATES – P.ex., se excluirmos dentre as diversas artes as de contar, medir e pesar, restará bem pouca coisa, não crês?

(…)

Depois, nada nos resta senão pedir socorro às probabilidades, exercitar os sentidos mediante a experiência e nos submeter a uma certa rotina, valendo-nos do talento para conjeturar, ao que muitos dão o nome de arte, pelo menos quando já se desenvolveu a um grau sublime pela reflexão e pelo trabalho nela desempenhado (aperfeiçoando o talento para conjeturas).

PROTARCO – Dizes algo irrefutável.

SÓCRATES – Não está neste último caso a música, pois que não se calcula sua harmonia, mas avança-se por conjeturas e ao azar, que depois são tornados familiares pelo hábito do tocador? Assim como a parte instrumental desta arte tampouco se submete a uma justa medida ao pôr-se em movimento cada corda, de maneira que na música há muitas coisas desconhecidas e algumas poucas seguras e certas?

PROTARCO – Nada mais verdadeiro.

SÓCRATES – Aplicando o raciocínio, veremos que é também o caso da medicina, da agricultura, da navegação e até da arte militar.

PROTARCO – Ó, sem dúvida!

SÓCRATES – E que, ao contrário, a arquitetura faz uso, a meu entender, de muitas medidas e cálculos, e instrumentos, que lhe dão grande firmeza e rigidez, fazendo-a exata, ou pelo menos mais exata que grande parte das ciências.¹”

¹ Está claro que hoje não pensamos mais assim.

Sigamos: separaremos as artes em duas ordens. Umas, dependentes da música, são mais imprecisas; outras, dependentes dos princípios arquitetônicos, são mais precisas.

PROTARCO – Assim seja.

SÓCRATES – Coloquemos entre as artes mais exatas aquelas de que primeiro faláramos.

PROTARCO – Se não me engano, falas da aritmética e das suas mais aparentadas.”

Veja a aritmética: não estamos conformes que há uma vulgar e outra própria dos filósofos?”

o vulgo faz entrar na mesma conta unidades desiguais, como dois exércitos, dois bois, duas unidades muita pequenas ou muito grandes. Os filósofos, ao contrário, jamais darão ouvidos a quem se nega a admitir que, entre todas as unidades, não há uma unidade que não difira absolutamente em nada de qualquer outra unidade.”

A arte de calcular e de medir – que empregam os arquitetos e os mercadores –, não difere ela da geometria e dos cálculos racionais dos filósofos? Diremos que é a mesma arte, ou a dividiremos em duas?”

SÓCRATES – Protarco, compreendes por que entramos neste mérito?

PROTARCO – Talvez…”

SÓCRATES – Há duas aritméticas e duas geometrias, e dependendo de quais outras múltiplas artes consideremos, por mais que vulgarmente se as compreenda sob um mesmo nome, pode muito bem haver várias artes ou ciências duplas.”

SÓCRATES – A dialética nos acusará, Protarco, de termos dado a preferência a outra ciência em detrimento dela.

PROTARCO – Que entendes por dialética, Sócrates?

SÓCRATES – É a ciência das ciências, que conhece todas as outras ciências. É o conhecimento mais verdadeiro e sem comparação, pois tem por objeto o ser mesmo, aquilo que realmente existe, e cuja natureza é inalterável. Que pensas da dialética, Protarco?

PROTARCO – Não nego, Sócrates, que ouvi muitas vezes Górgias dizer que a arte da persuasão leva vantagem sobre todas as demais. Fica tudo submetido à persuasão do orador, não pela força, mas pela vontade. Em suma, não haveria nada mais excelente. Me sinto desconfortável, portanto: não quero contradizer meu mestre Górgias, nem tampouco a ti, querido.

SÓCRATES – Me parece que no momento de alvejar tua flecha contra mim, vacilaste.

PROTARCO – Se assim o queres, digo que tu podes tratar como bem entender, nesta conversação, o estatuto destas duas ciências.

SÓCRATES – Mas é culpa minha se não entendes o que digo exatamente?

PROTARCO – Como?

SÓCRATES – Não te perguntei, meu querido, qual é a arte ou a ciência que se encontra no topo das outras em termos de importância, excelência e vantagens que possa conceder ao usuário, mas qual é a ciência cujo objeto é o mais claro, exato e verdadeiro, seja ou não de grande utilidade. Eis o que agora buscamos. Se ages com prudência, não cais em desgraça com Górgias, nem tampouco me afrentas.”

SÓCRATES – (…) quando alguém diz estudar a natureza, já sabes que se ocupa a vida inteira em averiguar as causas, ou seja, como veio a se produzir o universo; pois todo efeito, que se apura agora, provém de determinadas causas. Ou não?

PROTARCO – Mas é claro que sim, Sócrates.

SÓCRATES – O objeto do naturalista não é necessariamente aquilo que existe sempre? O que é, o que foi e o que será?

PROTARCO – Em última instância, é isto mesmo.

SÓCRATES – Podemos dizer que é auto-demonstrável o objeto que procuramos, que nunca existiu, nem existe, nem existirá de forma dessemelhante? Ou bem a única coisa que podemos afirmar, com base na investigação dos fenômenos, seria: nada há que permanece idêntico e estável?!

PROTARCO – O segundo, Sócrates, porque o fenômeno é o meio, mas–

SÓCRATES – …Já sei o que irás dizer! Está claro que se trata de fenômenos, mas como chegar à misteriosa causa, já que este fim é invisível e só vemos o meio?

PROTARCO – Pois creio que ficaremos eternamente no escuro quanto a isso.

SÓCRATES – Portanto, a verdade pura não se encontra na inteligência nem no conhecimento possível sobre os objetos.

PROTARCO – Com efeito.

SÓCRATES – E então é preciso que deixemos de lado tudo isso, tu, eu, Górgias e Filebo: seguindo tão-só a razão, devemos afirmar o que segue…–

PROTARCO – O quê, Sócrates?

SÓCRATES – …que a estabilidade, a pureza, a verdade e o que nós chamamos de sinceridade, não se encontram senão no que subsiste eternamente, no mesmo estado, da mesma maneira, sem mescla; e onde mais se encontra de forma menos mesclada, isto é, em segundo lugar? Podemos chegar lá? Creio que todo o demais deve ser rebaixado em nossa hierarquia de valores.

PROTARCO – Concordo plenamente.”

SÓCRATES – Não são os nomes mais preciosos os da inteligência e sabedoria?

PROTARCO – Parece que sim.”

SÓCRATES – Sigo uma velha máxima, que nunca é má: Nunca é demais indagar duas, três ou mais vezes, se preciso, sobre o quê é o Bem.

PROTARCO – Convenho, convenho.

SÓCRATES – Em nome de Zeus, muita atenção agora! Vamos recordar como começamos todo este debate, a fim de podermos rematá-lo!

(…)

Filebo sustentava que o prazer é o fim legítimo de todos os seres animados e o objeto a que se devem consagrar sem exceção; que o prazer é o supremo Bem e que estas duas palavras, bom e agradável, pertencem, no fim de contas, a uma mesma natureza. Sócrates, ao contrário, sustentava que, como bom e agradável são duas palavras distintas, expressavam igualmente duas coisas de natureza distinta, e que a sabedoria participava mais da condição do Bem que o prazer. Não começamos assim, Protarco?

PROTARCO – Sim, Sócrates, foste verdadeiro.

SÓCRATES – E, dando continuidade: convimos que o ser animado que esteja em possessão plena e integral, ininterrupta, durante toda sua vida, do Bem, não tem ele necessidade de nada mais, porque aquilo já lhe basta. Que dizes?

PROTARCO – Mais uma vez, foste impecável ao rememorar nossos passos.”

SÓCRATES – Nem o prazer nem a sabedoria são esse Bem perfeito, o bem que apetece a todos, o soberano Bem!

PROTARCO – Agora vejo que não!

SÓCRATES – Destarte, é preciso descobrir o Bem ou em si mesmo ou nalguma imagem, para ver, como já dissemos, a quem devemos adjudicar o segundo posto.”

Não cabe buscar o bem numa vida sem mescla, pois que ele reside na vida mesclada ou intermediária.”

SÓCRATES – Seja: Conseguiríamos atingir nosso objeto mesclando toda sorte de prazeres com toda sorte de sabedorias?

PROTARCO – Hm, talvez…

SÓCRATES – Não, este meio não é confiável. Vou te propor um novo método de mesclar as coisas sem tantos riscos.

(…)

Há, segundo entendo, alguns prazeres muito mais meritórios que outros; e artes mais exatas que outras.”

Segue daí que devemos mesclar só as porções mais autênticas de uma e outra parte, e cabe-nos examinar se há uma mescla verossímil o suficiente para que a classifiquemos de vida mais apetecível.”

SÓCRATES – Será preciso incluir a música, que, conforme vimos, está repleta de conjeturas e de imitação, e carente, por isso mesmo, de pureza?

PROTARCO – Isso me parece necessário, a fim de tornar a vida suportável.

SÓCRATES – Em outras palavras, queres que eu seja um porteiro relaxado e deixe que um tropel de arraias-miúdas arrombe o portão e invada, com todas as ciências e mesclas possíveis e imagináveis?

PROTARCO – Sócrates, não vejo como pode ser um mal que um homem possua em si todas as ciências, contanto que possua as principais.

SÓCRATES – Sigo, então, tua prescrição, e deixo com que todas passem pelo meu portão, para invadirem o jardim poético de Homero.”

Porém, quanto aos prazeres, ainda resta por decidir: quais classes de prazeres deixaremos entrar impunemente? Só caberão neste jardim os verdadeiros, ou aceitaremos todos sem distinção?”

A essência do Bem nos escapa novamente! Foi-se refugiar dentro da essência do Belo, porque em todo lugar e por todas as partes a justa medida e a proporção são uma beleza e uma virtude.

(…)

Mas não esqueçamos que a verdade tem de entrar com as outras coisas neste mescla.

(…)

Portanto, se não podemos abarcar o Bem sob uma só idéia, fá-lo-emos sob 3, a saber: a da Beleza, a da Proporção e a da Verdade. Digamos que, se essas 3 coisas pudessem ser 1 só, formariam assim a causa verdadeira da excelência desta mescla do tipo de vida perfeita e alcançável pelo homem. Se a causa é boa, a mescla só pode ser boa.”

PROTARCO – (…) o prazer é a coisa mais mentirosa do mundo. Assim se diz por aí. E também que os deuses perdoam todo perjúrio cometido em meio aos prazeres do amor, ou da carne, que passam por ser os mais elevados de todos; isso me faz pensar que os prazeres, tal como as crianças, não têm a menor faísca de sabedoria!”

o primeiro Bem é a medida, o justo meio, a oportunidade e todas as qualidades semelhantes, que devem ser tomadas como condições imprescindíveis de uma natureza imutável.” “o segundo Bem é a proporção, o belo, o perfeito, o que se basta a si mesmo, e tudo o mais que for deste gênero.” “E aí tens o posto da sabedoria e da inteligência: fazem parte da verdade, como terceiro Bem.”

Não situaremos em quarto lugar as ciências, as artes, as opiniões justas, que afirmamos pertencer a uma alma só, se está certo dizer que estas coisas têm um laço mais íntimo com o bem e com o prazer?”

Em quinto lugar colocaremos os prazeres, mas apenas aqueles isentos de dor, chamando-os conhecimentos puros da alma.”

SÓCRATES – À sexta geração, diz Orfeu, ponde fim a vossos cantos. Me parece que poremos fim também a este discurso com este sexto lugar. Já nada nos resta senão condensar e arredondar tudo o que descobrimos.

PROTARCO – Sem dúvida, Sócrates, não há mais remédio senão pararmos por aqui e finalizarmos com dignidade.

SÓCRATES – Voltemos, então, pela terceira vez, salvo engano, ao mesmo discurso, e demos as graças a Zeus o Conservador.

PROTARCO – Como o efetuarás, Sócrates?

SÓCRATES – Filebo qualificava o prazer perfeito e pleno como o Bem (…)”

Bem, vimos que nem um nem o outro desses bens inicialmente inferidos por nós dois é suficiente por si mesmo!” “Tendo-se apresentado diate de nós uma terceira forma de bem, superior aos outros dois, nos pareceu, também, que a inteligência tinha com a essência dessa terceira forma mais afinidade (mil vezes mais afinidade!) que o prazer mais gozoso. Mas vimos que o prazer mais puro não ocupa lugar melhor que o quinto em nossa escala de valores. Mas os bois, cavalos e demais bestas, sem exceção, não seriam a refutação do que dissemos? A maior parte dos homens, referindo-se a elas, como dizem os intérpretes do canto dos pássaros, julga que os prazeres são a principal fonte da felicidade da vida, e crê que o instinto das bestas é uma garantia mais segura e verdadeira que os discursos inspirados pela Musa.”

PROTARCO – Convimos, sem qualquer restrição, Sócrates, que tudo o que disseste é perfeitamente verdadeiro.

SÓCRATES – Então me permitireis partir!”

HENRY VI TRILOGY REVIEWS – Aldwych Theatre

Ned Chaillet – The Times, 17/4/1978

In the first part alone the opposing factions in the English court choose the white and red roses which mark their division, Henry’s armies in France are troubled by losses, but Lord Talbot is leading devastating forays againt the French. Joan of Arc enters, leads the French to victories, and is burnt. By the end of Part One there is peace with France, and Henry, swayed by the ambitious Earl of Suffolk, is about to marry Margaret of Anjou.

That leaves, for Parts Two and Three, Henry’s growth into maturity, Margaret’s transformation from strumpet queen into warrior, Richard Plantagenet’s struggle for the crown, Jack Cade’s peasant rebellion in Kent, and the various battles, betrayals and alliances which place Edward IV on the throne, remove him, return Henry and once again replace him with Edward, meanwhile preparing the way for Richard III’s rise.

There is little of Shakespeare’s great poetry in the plays. (…) Heads are chopped off almost at will, making voices of reason dumb and yet making Henry appear as a solitary sane man as he turns from power to God. In these plays, howeber, the subtleties of conscience are expressed directly in action, with few of the speeches commenting so eloquently on life as the stage representation of war, aspiration, peace and love.”

Rarely have so many elements of theatre, down to the columns of light and the commentary of Guy Woolfenden’s music, come together with such effect.”

Jane Ellison – Evening Standard, 24/4/1978

Adorers of Alan Howard – I admit at the start I am one – still have 3 Saturdays on which to see one of his famous marathons, when the company performs Parts I, II and III at a single sitting.”

The death of Henry V whose reign is invoked as a Golden Age throughout the trilogy, destroyed the necessary equilibrium between the divine might and right of kingship. It is his son, Henry VI, who can most keenly lament the contrast between bold Harry and St. Henry.”

Images of violence burn in the mind long after the plays are over. Like Joan La pucelle (Charlotte Comwell) leading the French troops forward through cannon-smoke, clasping a burning torch.”

Jack Tinker – Daily Mail, 17/04/1978

This is pure Shakespeare – entirely faithful to the author’s intent.”

What is amazing, in view of Shakespeare’s later prudent partisan re-arrangement of history for his Royal patrons, is his youthful sense of fairness here. He goes to endless pains to establish the Yorkists’ legal claim to the throne, giving Emrys James wonderful scope for spite, hatred and outraged indignation as the Duke.”

B.A. Young – Daily Telegraph

there would be little profit in presenting any of the 3 parts without the ability to see the other 2: and ideally it should be possible to see Richard III afterwards.” “To my mind this is the best Shakespeare production I have ever seen.”

Twice Shakespeare predicts – in 1591! – that the French will have Joan d’Arc made a saint.”

Mr. Peter McEnery is our best Shakespearean actor since Richard Burton, no question about it.” Wiki on Burton: “Richard Burton, born Richard Walter Jenkins Jr.; 10 November 1925 – 5 August 1984) was a Welsh actor. Noted for his mellifluous baritone voice, Burton established himself as a formidable Shakespearean actor in the 1950s, and he gave a memorable performance of Hamlet in 1964. He was called <the natural successor to Olivier> by critic and dramaturge Kenneth Tynan. (…) Burton remained closely associated in the public consciousness with his second wife, actress Elizabeth Taylor.” Eles fizeram par em Cleópatra.

Diana Harker – Manchester Guardian

When the Royal Shakespeare Company presented the Henry VI trilogy at the Theatre Royal, Newcastle, on Saturday, the ovation after 9 hours (with necessary breaks for food and watering) was not only for the tour de force by the company but also a self-congratulatory pat on the back for the stamina of the audience.

Henry VI, 1, 2, and 3 are rarely, if ever performed, simply because they are not very good plays. John Barton extracted the best and most salient parts for his Wars of the Roses, but only the genius of Terry Hands could envisage embarking upon the daunting prospect of the complete uncut version.

Knowing that the artistic merit of the plays has limitations – the French scenes in Part 1 are supposed not to have been written by Shakespeare, and there are the unsatisfactory use of rhyming verse in Parts 1 and 2, the diversity in characterisations, the uneven structures of too many battle scenes and the overall complexity of the plots – Mr. Hands has quite rightly simplified the staging: using follow spots and a curtain of light to isolate his areas, and a specially built raked stage, which tips the actors forward.”

Alan Howard, who was impressive as Henry V, now plays the son, Henry VI; weak, saintly, easily swayed by his elders and who finally retreats inside himself to escape the polemics of his court and queen.”

J.C. Trewin – Shakespeare Quarterly, Spring 1978

Henry VI at Birmingham Repertory in 1953 was the last of the 37 plays I met in performance: it had taken nearly 30 years.”

Anton Lesser is an extremely promising actor, but I felt that his Richard was over-mouthed, even in a production where all worked in bold primary colours.”

Howard’s Henry means more to me than David Warner’s did during the mid-60s”

The play, it seemed, drifted away – though no doubt I was thinking wistfully of the famous Seale production of 1951, at curtain-fall, the opening lines of the first soliloquy of Richard III were beaten into silence by the clanging bells. Nevermind. Mr. Hands had achieved the production of the year, matched only by his Coriolanus

Ostente e balouce suas madeixas de cristal no céu

IAN CHRISTE – …And Platinum for One (capítulo de um livro sobre a história do heavy metal – sugestão alternativa de título: THE BAND THAT KILLED GLAM!)

Heavy metal was experiencing a golden age, and Metallica was poised to join the multiplatinum ranks of Ratt and Mötley Crüe when the death of Cliff Burton stopped them in their tracks. Still recovering from the loss of their bassist, Metallica returned to its unused rehearsal space in late October 1986, soon after the bus accident in Sweden. Hundreds of applicants plugged in to Cliff Burton’s abandoned bass gear and auditioned in vain for a band loath to replace a dear friend. Among the parade was Kirk Hammett’s pal from algebra class, Les Claypool, who was rejected on the grounds that he played too well. Others were shown the door based on looks alone, seconds after entering the room.

On the recommendation of Brian Slagel, Lars Ulrich eventually hired Jason Newsted—the letter writer, songwriter, and source of energy behind Phoenix, Arizona-based Flotsam & Jetsam, a graduate of Metal Massacre VII. In him Metallica found not a fully equivalent replacement for Cliff Burton but a reverent substitute. Among his primary qualifications: Metallica was his favorite band. Something of a late-comer to Diamond Head and the other NWOBHM groups, Newsted grew up listening to Kiss and Motown records, and he professed an affinity for jazz fusion. Yet the disciplined zeal he developed in Flotsam prepared him perfectly to jump aboard the Metallica juggernaut.

Metallica debuted the new member at a surprise appearance opening for Metal Church on November 8, 1986, at the Country Club in Reseda, California. Those in attendance could be excused for thinking that the band had grabbed a fan from the audience, strapped a bass on him, and ordered him to thrash—after turning his volume down so low he could do little harm. That was not far from the truth.”

Whenever one of them missed Cliff Burton, something bad happened to Newsted. They took his drinks and clothing, they told foreign hosts he was gay, and they assaulted his hotel room in the wee hours of the morning. Newsted responded with his own weird behavior: packing away sandwiches from the backstage buffet each night in case he was asked to leave unexpectedly the next morning.”

Metallica canceled a scheduled appearance on Saturday Night Live in March 1987 because James Hetfield again broke his arm skateboarding, further forestalling arrival on the main stage of American life.”

Heavy metal was at its peak, and it was sweet, brother.” David Wayne, Metal Church

Soon The $5.98 E.P., Garage Days Re-Revisited presented Jason the new kid and several other changes to the masses. Released on August 21, 1987, the album was smartly titled after its retail price. This prevented record stores from selling the EP as a full-price new Metallica album, for which there was now substantial demand. All tracks on the record were cover versions of Metallica’s favorite songs, continuing the practice begun when Am I Evil? and Blitzkrieg appeared on the import Creeping Death.

The $5.98 E.P. surprised the public with music by cult acts Budgie, Killing Joke, Diamond Head, the Misfits, and Holocaust— associations that clearly set Metallica apart from hair metal superstars Mötley Crüe, who had just recorded Elvis Presley’s Jailhouse Rock. Diamond Head and Holocaust were classic NWOBHM bands, but obscurities in America: Budgie was an early-1970s English pub band with a heavy shot of Black Sabbath in its beer. Killing Joke helped define the evocative and macabre post-punk movement in Britain. By clear design none of these groups had anything to do with prevailing metal trends—the eclectic selections on Garage Days simply explained Metallica’s heritage to fans and peeked into the band’s current frame of mind.”

As for the reject pile, Metallica had decided against material by other hardcore bands such as Discharge, as well as more songs by Diamond Head and the NWOBHM doom group Witchfinder General though similiar selections trickled out continually on limited-release B-sides and imports. Cliff Burton had often half-sarcastically mentioned a desire to play Lynyrd Skynyrd’s Free Bird, a generic rock anthem that would certainly have called for a raging Metallica overhaul. The band declined, though, to perform that familiar encore for their departed bassist.”

Garage Days Re-Revisited immediately cracked the Billboard Hot 30, just as Master of Puppets was ending its 72-week run on the album charts. (…) January 1988 brought the Elektra reissue of Kill ‘Em All. Now widely promoted, the band’s debut LP took its own place in Billboard 5 years after it was first released as a hastily financed independent dark horse.

In December 1987 Metallica released Cliff ‘Em All, a video collection of camcorder bootlegs and television appearances highlighted by several eye-opening free-form bass solos by Burton. In do-it-yourself fashion the footage was gathered mostly on the cheap from underground videotape traders. Nonetheless, the tape went platinum, with Burton’s share of the royalties going to his parents, Jan and Ray Burton. As a measure of its wide appeal, the band was surprised to receive a number of letters from kids upset to see Burton smoking weed on Cliff ‘Em All. The message was clear: the quartet was no longer playing only to its peers— now there was a younger generation expecting to look up to Metallica as role models.”

Revealing commercial desires, the band first tried recording with Guns N’ Roses producer Mike Clink—but reverted to Rasmussen after bristling under the suggestions of a <golden-eared> studio professional with no experience in the trenches of real metal. Guided well by its management team at Q Prime, Metallica seemed to be succeeding beyond conventional advice. If the band’s next effort went platinum with no radio, no MTV, and no gimmicks, Metallica would not be just a gritty alternative to glam metalthey would be its replacement.”

If Metallica’s 55-minute sets had put Ozzy Osbourne through his paces every night of the 6-month Ultimate Sin journey in 1986, it was par for the course the crowd only loved Ozzy more for offering the extra value of a great opener.

The story was different in 1988 – in a blockbuster 26-date summer American stadium tour with Van Halen, Scorpions, Dokken and Kingdom Come, dubbed, masterfully Monsters of Rock –, as Metallica absolutely stole the show. What was supposed to be a powerhouse bill combining the best of heavy metal transformed into a passing of the baton from heavy-weights and light-weights alike to Metallica, the band in a class of its own.”

In fact, more fans went home from Monsters of Rock with Metallica t-shirts than those of any other band, and rumors estimated Metallica sales above those of all four other acts combined. After the Ozzy tour Master of Puppets became Metallica’s first gold record—during the Monsters tour it was bumped up to platinum. Said Van Halen singer Sammy Hagar to Hit Parader: <They’ll be the new kings of rock, just you wait and see.>”

The new album suffered from the loss of a major musical dimension, Cliff Burton, who would likely have explored the thrash metal of Master of Puppets more deeply rather than simply extending its playing time.”

Sonic shortcomings and adamant heft notwithstanding, the unrelenting Justice immediately became the first Metallica record to enter the Billboard Top 10.”

I can’t really fathom it. It’s a weird thing to look at Billboard and see it amongst Whitney Houston and INXS.” Newsted

Propelled quickly past long-looming milestones, Justice was simultaneously certified gold and platinum on Halloween 1988, only 9 weeks after its release. The ambitious double album went on to sell 7 million copies and counting, one of the most ardent and unsympathetic musical successes ever recorded.”

Equals to Celtic Frost in staunch individuality, their Noise Records labelmates Voivod made the transition sublimely from subterranean noise-mongers to post-thrash metal sophisticates. First appearing alongside Hellhammer on Metal Massacre V, the band went from noisy Motörhead worship on their 1984 debut, War and Pain, to a clean yet heavy, polyrhythmic science-fiction slam four years later.” “The fourth album, 1988’s Dimension Hatross, represented the progressive pinnacle of their evolution, as booming drums battered mind-expanding layers of extended guitar chords within a heavy mechanical system. Their meticulous music emulated the cacophony of a landscape of competing factories, yet its human spirit was overwhelming.”

Even the glam scene was showing signs of sophistication, sprouting bands like Tesla and Extreme to counterbalance its chain saw-wielding novelty acts like Jackyl.”

In 1985, a less welcoming time for complex metal, arguments over commercial direction had split apart Mercyful Fate, one of the creative treasures of the early 1980s. Only a few years later guitarist Hank Shermann’s mainstream direction had already proved self-defeatingwhile vocalist King Diamond charted in Billboard by continuing the gothic horror of Mercyful Fate.” ?! Não é uma análise muito superficial da “porra” toda?!

Having savored its resistance long enough, Metallica finally filmed its first video for MTV during the first week of December 1988late in the game, considering that the album had already gone platinum.”

Inevitable reactionary responses followed in metal circles, the first notes of a backlash. <People overestimate Metallica because they’re Metallica,>[?] said S.O.D. singer Billy Milano. <The whole thing is, Sabbath had that sound 14 years ago. 12 years ago they were rocking out heavier than anything today. You can’t even get heavier than Sabbath. Sabbath was the rudimentary of everything.>”

Metallica was now challenged with the logistical problems of entertaining hundreds of thousands of new fans as a headlining stadium act. <We don’t need 50-feet-tall dragons to sell our tickets>, Lars Ulrich insisted to Kerrang!, but soon James Hetfield adopted Glenn Danzig’s black jeans, wrist gauntlets, and sleeveless black shirts as the band streamlined its anti-image to meet arena-size expectations. Though many show-business traditions went against the band’s ethic, Metallica soon developed a large-scale stage set. Befitting the group’s op-ed page-inspired lyrics, the stage included a towering faux marble statue representing Justice, which crumbled in ruins at the end of each night, leaving audiences to contemplate the decaying state of America’s judicial institutions.”

Debuting in 1988 with Straight Outta Compton, the rap group NWA could be considered the Slayer to Public Enemy’s Metallica, advocating aggression instead of circumspection. Like Slayer, their albums required PMRCapproved parental-advisory labels, though NWA willingly recorded clean versions for wider sales.”

the heavy metal and hip-hop scenes had long been eyeballing each other with curiosity and admiration.” “As samplers became prevalent, rapper Ice-T based the title track to his 1987 debut, Rhyme Pays, on Black Sabbath’s War Pigs and later created Midnight on the ominous foundation of Black Sabbath itself. The influential Jungle Brothers based a track from their second LP on Bill Ward’s crisp drum break from Behind the Wall of Sleep on Black Sabbath.”

Perhaps the worst aspect of rap music was that in the 1990s its enormous success began to lure talented African-American musicians away from heavy metal. Though stereotyped as <white music>, heavy metal itself was a voice from outside the dominant culture, and in its world race distinctions would always be secondary to talent. The original drummer of Judas Priest, Chris Campbell, was a black Englishman. Thin Lizzy’s revered leader, Phil Lynott, was as black as he was Irish. Metallica’s first lead guitarist, Lloyd Grant, the only band member who could play the guitar solo for Hit the Lights on Metal Massacre, was Jamaican. Needless to say, the race of performers was only one aspect of the equation—never especially relevant to the metal spirit.”

Underground legend Katon W. DePena of Hiraxa oneman letter-writing hurricanekept his unusual soaring vocal attack as Hirax developed from power metal to metalcore style [?]. When asked about his unique voice, he cited the 1950s soul singer Sam Cooke as a primary inspiration.”

Rappers were initially toastmasters, who entertained crowds at street parties in the late 1970s while DJs spun records together to form new songs. By the late 1980s the approaches of the MCs and the DJs had become much more sophisticated, turning to digital-sampling technology and opening up a new world for recording. Public Enemy sampled Slayer, and The Geto Boys soon introduced murderous lyrics lifted from the same splatter movies as death metal.”

But the brainiest union of thrash metal and rap influences was San Francisco’s Faith No More, featuring a black front man, a gay keyboard player, and a gun-toting guitarist who had grown up with Cliff Burton. Faith No More’s sarcastic 1987 college radio hit, We Care a Lot, was an oddity that dared bridge the gap between S.O.D. and lighter funk music. The strange synthesizer-based band benefited tremendously from the patronage of local allies Metallica, who trumpeted the band’s unorthodox appeal at every opportunity. One critic joked that James Hetfield sporting a band’s shirt on stage—or, in Faith No More’s case, on the back cover of The $5.98 E.P.—was worth 100,000 record sales.”

Leaving progressive thrashers Blind Illusion, bassist Les Claypool recruited Possessed guitarist Larry Lalonde for the party band Primus, a vehicle for Claypool’s vast repertoire of quirky cartoon voices and banjo-style bass playing. Though he had been deemed too proficient to join Metallica, Claypool now found an eager audience as he quick-fired popcorn bass riffs in a Slayer-like flurry.”

Kerrang! in the early days was important, because it focused only on heavy metal music. They embraced Dio rapidly, and we were on the cover quite a few times. Then they decided we’d had enough success. Eventually Kerrang! became Kerrap! to a lot of people. I know the feelings Iron Maiden have about them. I don’t think they’ll play in England at all, just because of the British press. I think the good writers went away, and the guys who had been making the tea became the writers. So Maiden stopped presenting big stages, we stopped doing it, Priest stopped doing it—just because I think we felt really slighted that we were trying to give so much more and the press just kept castigating us so much.”Ronnie James Dio

A lot of people were very successful during the 1980s, like Judas Priest and Iron Maiden and Motörhead, and a lot of them, sadly, have fallen by the wayside, because for whatever reason they weren’t really willing to modernize their music.” Dave Mustaine

At the close of the 1980s the towers of traditional heavy metal were crumbling. Returning to Europe, Metallica outsold Iron Maiden in Belgium threefold. <The day there ain’t no Iron Maiden to spearhead British music is the day heavy metal takes a swift downward pitch in this green and pleasant land of ours>, wrote Howard Johnson in Kerrang! in 1989. Yet as Margaret Thatcher was deposed in 1990, so waned Iron Maiden’s breed of dissent. Longtime singer Bruce Dickinson left the band in 1992 to spend time with his family. In semi-retirement he recorded an election-year novelty single with Rowan Atkinson, aka Mr. Bean [??!], and authored two comic novels, The Adventures of Lord Iffy Boatrace and The Missionary Position: The Further Adventures of Lord Iffy—detailing the exploits of a cross-dressing English nobleman.”

At the 1989 Grammy Awards, where the band performed live to fanatic applause, Metallica was nominated in the brand-new Best Metal Performance category alongside Jane’s Addiction, Iggy Pop, AC/DC and Jethro Tull. The new category was a nod to heavy metal’s huge popularity, yet after a decade of platinum albums by metal acts, the music business still fostered metal’s outsider status by flubbing even the most basic attempts at recognition. Groans were audible in the theater and disbelief echoed across the country, as presenter Lita Ford opened the envelope to reveal that the winners were Jethro Tull—aging deliverers of fanciful flutes and concept records. Metallica’s sales figures got it in the door, but the music industry’s concept of heavy metal still dated to a time before even Black Sabbath existed.”

Duff McKagen of Guns N’ Roses acknowledged the greater significance of One even as he took home the Best Video prize for Sweet Child O’ Mine.

Welcomed even where Judas Priest and Iron Maiden were not, Metallica took metal to a new level of respectability. Heavy metal could no longer be purely an outsider’s paradise, a game of secret record stores and tape trader’s treasure stashes. Heavy metal held the popular majority, and Metallica had become ambassador to the world outside the heavy metal parking lot. Justice had already sold more than 2 million copies in two years, and nearly every fan of heavy metal was now a Metallica loyalist.”

VIDA E MORTE EM CONTEXTO DE DOMINAÇÃO BIOPOLÍTICA – Peter Pál Pelbart

Nunca o poder chegou tão longe e tão fundo no cerne da subjetividade e da própria vida.”

quando parece que <está tudo dominado>, como diz um rap brasileiro, no extremo da linha se insinua uma reviravolta: aquilo que parecia submetido, controlado, dominado, isto é, <a vida>, revela no processo mesmo de expropriação sua potência indomável.

Retomo brevemente a descrição feita por Giorgio Agamben a respeito daqueles que, no campo de concentração, recebiam essa designação terminal (muçulmanos). O <muçulmano> era o cadáver ambulante” “O <muçulmano> era o detido que havia desistido, indiferente a tudo que o rodeava, exausto demais para compreender aquilo que o esperava em breve, a morte. Essa vida não-humana já estava excessivamente esvaziada para que pudesse sequer sofrer. Por que muçulmano, já que se tratava sobretudo de judeus? Porque entregava sua vida ao destino, conforme a imagem simplória, preconceituosa e certamente injusta de um suposto fatalismo islâmico: o muslim é aquele que se submete sem reserva à vontade divina.” “O biopoder contemporâneo, conclui Agamben torcendo um pouco a concepção de Foucault, reduz a vida à sobrevida biológica, produz sobreviventes. De Guantánamo à África, isso se confirma a cada dia.”

Gerir a vida, mais do que exigir a morte. Assim, se antes o poder consistia num mecanismo de subtração ou extorsão, seja da riqueza, do trabalho, do corpo, do sangue, culminando com o privilégio de suprimir a própria vida, o biopoder passa agora a funcionar na base da incitação, do reforço e da vigilância, visando à otimização das forças vitais que ele submete” “Claro que o nazismo consiste num cruzamento extremo entre a soberania e o biopoder, ao fazer viver (a <raça ariana>), e fazer morrer (as raças ditas <inferiores>), um em nome do outro.”

A sobrevida é a vida humana reduzida a seu mínimo biológico, à sua nudez última, à vida sem forma, ao mero fato da vida, ao que Agamben chama de vida nua.” “de certa maneira estamos todos nessa condição terminal. Até Bruno Bettelheim, sobrevivente de Dachau, quando descreve o comandante do campo, qualifica-o como uma espécie de <muçulmano>, <bem-alimentado e bem-vestido>.”

ele não se restringe aos regimes totalitários, e inclui plenamente a democracia ocidental, a sociedade de consumo, o hedonismo de massa, a medicalização da existência”

Agora cada um se submete voluntariamente a uma ascese, seguindo um preceito científico e estético, nas academias ou nos consultórios cirúrgicos” “corpo fascista – diante do modelo inalcançável, boa parcela da população é jogada numa condição de inferioridade sub-humana.”

faço parte do grupo dos hipertensos, dos soropositivos, etc…”, isto só vem fortalecer os riscos da eugenia.”

Na sua análise do 11 de setembro, Slavoj Zizek (Bem-vindo ao deserto do real) contestou o adjetivo de covardes imputado aos terroristas que perpetraram o atentado contra as torres gêmeas. Afinal, eles não tiveram medo da morte, contrariamente aos ocidentais, que não só prezam a vida, conforme se alega, mas querem preservá-la a todo custo, prolongá-la ao máximo.”

até os prazeres são controlados e artificializados: café sem cafeína, cerveja sem álcool, sexo sem sexo, guerra sem baixas, política sem política – a realidade virtualizada.”

Baudrillard (Power Inferno) parece ir numa direção similar, ao tentar pensar o 11 de setembro em função da suspensão de sentido que ele suscita.”

A assertividade da fé ali presente nos impede de entrever nesses atos qualquer traço de niilismo ativo, já que eles se realizam justamente sob o signo daqueles valores que a morte de Deus parecia ter inteiramente soterrado”

Dostoiévski jamais se livrou do fascínio por esses homens monstruosos, e talvez a fronteira decisiva não seja entre os bons e os maus, mas como o diz o artigo de Raskolnikov em Crime e Castigo, entre os ordinários e os extraordinários, entre os que se submetem em sua mediocridade às leis morais, e os homens que criam para si mesmos as leis, e para quem ‘tudo é permitido’, e cuja consciência sanciona até o crime – com o que os termos bem e mal deixam de ter importância.”

Raskolnikov se colocava já para além do bem e do mal, quando Nietzsche ainda era estudante e todavia sonhava com ideais sublimes, comenta Chestov. Eis uma concepção original de Dostoiévski, que nem Shakespeare possuía, em quem o crime e o mal ainda estão rodeados de remorso.” “Dostoiévski só conseguia descrever e só se interessava pelos espíritos revoltados, aventureiros, os inquietos experimentadores. Quando se punha a descrever os bondosos, caía numa banalidade decepcionante.”

o terrorismo atual não descende de uma história tradicional da anarquia, do niilismo” Baudrillard

O que detestamos em nós, lembra o autor, é aquilo que o Grande Inquisidor de Dostoiévski promete às massas domesticadas, o excesso de realidade, de conforto, de realização, o reino de Deus sobre a terra.”

Quando a vida é reduzida à vida besta em escala planetária, quando o niilismo se dá a ver de maneira tão gritante em nossa própria lassidão, nesse estado hipnótico consumista do Bloom ou do Homo Otarius ou da gorda saúde dominante, cabe perguntar o que poderia ainda sacudir-nos de tal estado de letargia, e se a catástrofe não estaria aí instalada cotidianamente (<o mais sinistro dos hóspedes>), ao invés de ser ela apenas a irrupção súbita de um ato espetacular através de um atentado contra a capital do Império.

À vida sem forma do homem comum, nas condições do niilismo, a revista Tiqqun deu o nome de Bloom. Inspirado no personagem de Joyce, Bloom seria um tipo humano recentemente aparecido no planeta, e que designa essas existências brancas, presenças indiferentes, sem espessura, o homem ordinário, anônimo, talvez agitado quando tem a ilusão de que com isso pode encobrir o tédio, a solidão, a separação, a incompletude, a contingência – o nada.” “o Bloom é já incapaz de alegria assim como de sofrimento, analfabeto das emoções de que recolhe ecos difratados.”

O corpo é aquele que não aguenta mais” Lapoujade

o que o corpo não agüenta mais é a mutilação biopolítica, a intervenção biotecnológica, a modulação estética, a digitalização bioinformática do corpo, o entorpecimento sensorial que esse contexto anestésico lhe inflige… Em suma, e num sentido muito amplo, o que o corpo não agüenta mais é a mortificação sobrevivencialista, seja no estado de exceção, seja na banalidade cotidiana. O muçulmano, o ciberzumbi, o corpo-espetáculo e a gorda saúde (conceito de Deleuze), bloom, por extremas que pareçam suas diferenças, ressoam no efeito anestésico e narcótico, configurando a impermeabilidade de um <corpo blindado> em condições de niilismo terminal.

A ironia da semântica de BLOOM… Mundo cheio de blooms outinais e de Marias-Molly…

Como o observa Barbara Stiegler, para Nietzsche todo sujeito vivo é primeiramente um sujeito afetado, um corpo que sofre de suas afecções, de seus encontros, da alteridade que o atinge, da multidão de estímulos e excitações que lhe cabe selecionar, evitar, escolher, acolher…”

Como então preservar a capacidade de ser afetado? Não seria preciso cultivar uma certa porosidade, até mesmo uma fragilidade, uma sensibilidade que nos devolvesse o poder de ser afetado? Mas como ter a força de estar à altura de sua fraqueza, ao invés de permanecer na fraqueza de cultivar apenas a força?”

Num âmbito mais geral, talvez por isso tantos personagens literários, de Bartleby ao artista da fome, precisem de sua imobilidade, esvaziamento, palidez, no limite do corpo morto, numa espécie de greve branca. (…) Como diz Deleuze, é preciso não mexer-se demais para não espantar os devires.”

Com o bebê só se tem relação afetiva, atlética, impessoal, vital, pois o pequeno é a sede irredutível das forças, a prova mais reveladora das forças. É como se Deleuze perscrutasse um aquém do corpo empírico e da vida individuada, como se ele buscasse, não só em Kafka, Lawrence, Artaud, Nietzsche, mas ao longo de toda sua própria obra, e também, poderíamos dizer, dos efeitos que ela produziu nos mais diversos campos, como se ele buscasse aquele limiar entre a vida e a morte, entre o homem e o animal, entre a loucura e a sanidade, onde nascer e perecer se repercutem mutuamente, pondo em xeque tantas divisões e dicotomias, legadas por nossa tradição.”

ESPINOZA VS. A BIOTECNOLOGIA

Toda a tematização do corpo-sem-órgãos é uma variação em torno desse tema biopolítico por excelência, a vida desfazendo-se do que a aprisiona, do organismo, dos órgãos, da inscrição dos poderes diversos sobre o corpo, ou mesmo de sua redução à vida nua, vida-morta, vida-múmia, vida-concha.”

Eu sou um genital inato, ao enxergar isso de perto isso quer dizer que eu nunca me realizei.

Há imbecis que se crêem seres, seres por inatismo.

Eu sou aquele que para ser deve chicotear seu inatismo” A.A.

E Uno [tradutor japonês de Artaud] comenta que um genital inato é alguém que tenta nascer por si mesmo, fazer um segundo nascimento, para além de sua natureza biológica dada.” “Trata-se de um corpo que tem a coragem de desafiar esse complexo sócio-político que Artaud chamou de juízo de Deus, e que nós chamaríamos de um biopoder, de um poder que se abate sobre nosso corpo…”

Pensemos em Beckett ouvindo Jung dizer, sobre uma paciente: O fato é que ela nunca nasceu. E ele transporta essa frase para o contexto de sua obra.”

NÃO QUIS TER NASCIDO, MAS AGORA NASCEREI: “Essa recusa do nascimento biológico não é a recusa proveniente de um ser que não quer viver, mas daquele que exige nascer de novo, sempre, o tempo todo.”

Rafael foi filho de quem foi e foi quem foi, isto já não interessa… Estou falando de outras coisas, mais fundamentais para mim agora!

vida nua: banalidade biológica

vida besta, exacerbação e disseminação entrópica da vida nua, no seu limite niilista.”

Se os que melhor diagnosticaram a vida bestificada, de Nietzsche e Artaud até os jovens experimentadores e pesquisadores de hoje, têm condições de retomar o corpo como afectibilidade, fluxo, vibração, intensidade, e até mesmo como um poder de começar, não será porque neles a vida besta atingiu um ponto intolerável? Não estamos nós todos nesse ponto de sufocamento, que justamente por isso nos impele numa outra direção? Talvez haja algo na extorsão da vida que deve vir a termo para que esta vida possa aparecer diferentemente… Algo deve ser esgotado, como o pressentiu Deleuze em L’épuisé, para que um outro jogo seja pensável.” Barris de petróleo, talvez…

Bin Laden seria, aos olhos de Chomsky, tudo menos um lunático niilista – seu objetivo consiste em derrubar os governos corruptos instalados e sustentados pelos <infiéis> nos territórios muçulmanos, para ali instituir uma versão extremista do Islã”

O poder dominante é aquele que consegue impor e assim legitimar, na verdade até legalizar…, em um palco nacional ou mundial, a terminologia e a interpretação que mais lhe convém em uma determinada situação. Foi assim no curso de uma longa e complicada história que os Estados Unidos conseguiram atingir um consenso intergovernamental na América do Sul, para oficialmente chamar de <terrorismo> qualquer resistência política organizada aos poderes estabelecidos.” Derrida, Filosofia em Tempo de Terror

O alargamento da noção de terrorismo nos leva às portas da visionária análise de Virilio sobre o Estado mundial absoluto, à caça do inimigo qualquer. É a idéia necrófila que Deleuze já vê inscrita no próprio Apocalipse.”

Obsessão niilística com a Nova Jerusalém: Cada vez que se programa uma cidade radiosa, sabemos perfeitamente que é uma maneira de destruir o mundo, de torná-lo “inabitável e de inaugurar a caça ao inimigo qualquer. (Deleuze, Crítica e Clínica)”

Não há combate que não se trave também contra nós mesmos, contra certos poderes que nos atravessam e nos constituem e dos quais nós resultamos e que nós mesmos sustentamos e aos quais aderimos, à nossa revelia. Ninguém pode imaginar-se habitando o lado certo, a margem independente, o lugar da Grande Recusa, pois ninguém pode considerar-se protegido do que nos constitui por fora e por dentro. Isso pode dar uma impressão claustrofóbica ou sem saída para aqueles que anseiam por dicotomias fáceis, inimigos visíveis, resoluções definitivas, o assalto final ao Palácio de Inverno. Mas o contexto contemporâneo que alguns chamam de Império é mais complexo e sutil, mais móvel e molecular. Contudo, apesar da inimaginável capacidade de expansão e de anexação e depauperação da vida que empreende, está mais próximo da descrição feita por Kafka a Janoush: Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado.”

[+] LEITURAS PÓS-INSENSÍVEIS

Juliano Pessanha, Certeza do Agora

Witold Gombrowicz, Contre les poètes

HISTÓRIA DA MATEMÁTICA: Uma visão crítica, desfazendo mitos e lendas – Tatiana Roque, 2012. – CAPÍTULO 7. O século XIX inventa a matemática “pura” ou “A ERA DO RIGOR”

no século XIX, a análise matemática adquiriu a forma que reconhecemos, ainda hoje, como válida. O movimento de rigorização pode ser dividido em duas fases: uma francesa, na qual se destaca a figura de Cauchy; e outra alemã.”

não bastava reconhecer que infinitésimos, ou limites, eram fundamentos inadequados para a análise; uma doutrina positiva se fazia necessária.”

Não que os matemáticos, preocupados com um suposto estado caótico de sua disciplina, tenham feito uma reunião e combinado os novos padrões que deveriam substituir os que estavam em uso. Os pesquisadores do século XVIII sequer percebiam seus métodos como pouco rigorosos ou desorganizados. Portanto, não podemos afirmar que seus resultados carecessem de rigor, como se eles tivessem o objetivo de avançar sem preocupações com a fundamentação de seus métodos. A noção de rigor se transformou na virada do século XVIII para o XIX porque os matemáticos da época se baseavam em crenças e técnicas que não eram mais capazes de resolver os problemas que surgiam no interior da própria matemática. Ou seja, isso não se deu por preocupações formalistas, nem por um interesse metamatemático de fundamentar essa disciplina. O rigor é um conceito histórico, e a noção de rigor de Lagrange era diferente da de Cauchy, que, por sua vez, também seria criticado por Weierstrass, baseado em sua própria concepção aritmética.”

A discussão sobre as quantidades negativas, durante o século XVIII, mostra que somente os números absolutos eram aceitos, pois se pretendia relacionar a existência em matemática a uma noção qualquer de <realidade>. Para avançar, era preciso migrar para um conceito abstrato de número não subordinado à ideia de quantidade.”

Por volta de 1800, a matemática era teórica e prática ao mesmo tempo. Fazia parte de seu projeto representar a natureza por equações, e os matemáticos teóricos se viam como pertencentes à mesma tradição inaugurada por Newton e outros. Uma das consequências da reflexão sobre a estrutura interna da matemática, que ocupou o século XIX, foi a sua separação da física. Ainda que procurasse se estabelecer como uma disciplina independente, a análise do século XVIII era motivada por problemas físicos que continuaram a exercer grande influência por alguns anos.”

Ainda que, desde o século XVII, as entidades algébricas tenham adquirido um lugar de destaque na matemática, até o final do século XVIII as raízes negativas e imaginárias de equações eram consideradas quantidades irreais. Os números que hoje chamamos de <irracionais> apareciam na resolução de problemas, mas também não tinham um estatuto definido.”

A partir daí, a noção de função terá um papel central na matemática, no lugar das curvas ou das expressões analíticas que as representavam. A expressão <ponto de vista dos Conjuntos> não se refere ainda à teoria dos conjuntos. Essa distinção é importante em nossa abordagem, pois pretendemos contextualizar as contribuições de Cantor¹ para a definição de conjunto no desenvolvimento conceitual e abstrato da matemática na Alemanha, ligado aos nomes de Dirichlet, Riemann e Dedekind.”

¹ Ainda hoje tratado como louco e contestado na própria Matemática.

Os métodos sintéticos voltaram a ser defendidos e o valor atribuído à possibilidade de generalização fornecida pela álgebra passou a ser criticado em prol de métodos que pudessem ser mais intuitivos. O ápice desse movimento ocorreu em 1811 e um de seus protagonistas foi Lazare Carnot.”

Nos últimos anos do século XVIII, Laplace adquiriu grande poder na cena francesa, sobretudo depois de se tornar ministro, com o golpe de Napoleão, em 1799. A partir daí, ele passou a incentivar uma padronização do ensino na École Polytechnique com base na análise e na mecânica. O curso de análise deveria ser dividido em 3 partes: análise pura (ou análise algébrica); cálculo diferencial; e cálculo integral. Além disso, a introdução ao cálculo deveria ser feita com base no método de limites, exposto por Lacroix.”

Segundo Schubring, Lazare Carnot é o melhor símbolo da discussão sobre o rigor em análise que teve lugar na França naquele momento, anteriormente esboçada por d’Alembert. As principais contradições dessa reação consistiam em tentar obter, ao mesmo tempo, uma maior generalização da matemática, mas mantendo o apelo à intuição. Em 1797, Carnot já havia publicado uma obra sobre os fundamentos do cálculo chamada Réflexions sur la métaphysique du calcul infinitesimal (Reflexões sobre a metafísica do cálculo infinitesimal), segunda versão de um texto de 1785.”

Não houve descoberta que tivesse produzido, nas ciências matemáticas, uma revolução tão feliz e tão rápida quanto a da análise infinitesimal; nenhuma forneceu meios mais simples, nem mais eficazes, para penetrar no conhecimento das leis da natureza. Decompondo, por assim dizer, os corpos até os seus elementos, ela parece ter indicado sua estrutura interior e sua organização; mas, como tudo o que é extremo escapa aos sentidos e à imaginação, só se pôde formar uma ideia imperfeita desses elementos, espécies de seres singulares que tanto fazem o papel de quantidades verdadeiras quanto devem ser tratados como absolutamente nulos e parecem, por suas propriedades equívocas, permanecer a meio caminho entre a grandeza e o zero, entre a existência e o nada.” Carnot

Mas sua posição mudará depois dessa data. Carnot foi exilado por razões políticas e retornou à França em 1800, graças a Napoleão, que o designou ministro da guerra. Em pouco tempo, contudo, renunciou ao cargo e passou a se dedicar às questões ligadas aos fundamentos da matemática, publicando, em 1813, uma nova edição de seu livro. Nessa nova versão, reviu suas posições sobre a álgebra, afirmando que seus princípios são ainda menos claros do que os do cálculo infinitesimal. Tal posição refletia a concepção mais geral da época, que voltava a valorizar a geometria e o saber dos antigos. Inspirado por essa tendência, Carnot passou a defender o método dos infinitamente pequenos contra o dos limites e propôs seguir os princípios de Leibniz em análise.

Maine de Biran integrou uma segunda geração do grupo dos idéologues franceses e atacou os defensores da álgebra, destacando o caráter obscuro de seus métodos. Segundo ele, a linguagem algébrica é uma prática cega e mecânica que não possui a clareza da geometria.”

A noção de função será então definida antes das noções de continuidade, limite e derivada, a fim de eliminar as incertezas ligadas à concepção sobre essas noções.”

Quando quantidades variáveis são ligadas de modo que, quando o valor de uma delas é dado, pode-se inferir os valores das outras, concebemos ordinariamente essas várias quantidades como expressas por meio de uma delas que recebe, portanto, o nome de <variável independente>; e as outras quantidades, expressas por meio da variável independente, são as que chamamos funções desta variável.” Cauchy

Durante muito tempo a historiografia da matemática enxergou Cauchy como o pai fundador do movimento de rigor na análise, até que começaram a ser identificados alguns erros em sua concepção de continuidade. As duas imagens são as duas faces da mesma moeda. Ao procurar na obra desse matemático francês antecedentes das noções modernas em análise, podemos nos deparar com erros que frustrarão nossas expectativas. Pensamos ser mais proveitoso ver Cauchy como um homem de seu tempo, que buscava um tipo de rigor que já não era o do século XVIII, fundado na algebrização, mas que também não era o rigor típico do século XIX. Para ele, o conceito de continuidade era fundamental, e essa idéia se associava ao universo das curvas. A noção de função se relacionava implicitamente a essas curvas, uma vez que exemplos de funções que não podem ser vistas como curvas ainda não intervinham na matemática da época.

A matemática não era a ferramenta central de uma busca especulativa pela verdade, e sim o elemento principal de uma cultura ligada à engenharia. Esse papel da matemática ajudou a configurar um certo espírito de corpo na elite francesa, que adquiria uma identidade científica. A Revolução democratizara o ideal meritocrático, que substituiu os critérios de nascimento no acesso aos serviços. A admissão na École Polytechnique passou a se dar por concurso e a matemática ganhou status nessa meritocracia, uma vez que tal saber era tido como capaz de medir a inteligência.”

A física matemática e a mecânica celeste eram os principais campos de pesquisa dos matemáticos franceses no século XIX. Eles procuravam estudar as equações que governam fenômenos físicos em mecânica dos fluidos, eletrostática e eletrodinâmica, teoria do calor e da luz, etc. A análise complexa, desenvolvida por Cauchy, emergiu do estudo de equações diferenciais parciais, ligadas a problemas físicos. Em 1824, o secretário perpétuo da Academia de Ciências de Paris, Joseph Fourier, ao relatar os avanços daquele ano, proclamava: O tempo das grandes aplicações das ciências chegou.

Existia uma separação entre, de um lado, a física matemática e a mecânica celeste; e, de outro, a mecânica que lidava com artefatos para a engenharia ou a indústria. Além disso, havia também a geometria, que trabalhava com instrumentos óticos e sobrevivia desde o século XVII. Mesmo para Cauchy o rigor não era uma restrição nem um objetivo em si mesmo; era a condição para o desenvolvimento de métodos gerais com vistas à aplicação. A prática da matemática não era muito valorizada por si mesma, sobretudo em comparação com seu desenvolvimento na Alemanha das décadas seguintes.

Ao afirmarmos que a pesquisa matemática na França inspirava-se nas aplicações não queremos dizer que sua orientação não fosse eminentemente teórica. O domínio de aplicação de uma teoria era tanto maior quanto mais elevado era seu ponto de vista. Esse princípio levava à busca de uma ciência derivada de uma ideia unificadora, caso da análise para Lagrange. O mesmo princípio levou Fourier a constituir sua análise sobre as séries trigonométricas. Logo, como afirma B. Belhoste, o movimento de teorização não se opunha às aplicações; encontrava nelas sua inspiração. O interesse pela solução de problemas de física ou de engenharia e a busca por teorias cada vez mais gerais eram os dois lados da mesma moeda.” Quanto mais se abre a perspectiva de uma “ciência ‘x’ aplicada”, mais se consolida a ciência “x” em sua modalidade teórico-epistemológica – vide desdobramentos da psicanálise científica no século XX. O “científica” como sobrenome da psicanálise eu insiro aqui num sentido extra-moral: os acadêmicos empiricistas, psicólogos de araque e teólogos que se virem para desmoralizá-la, ou seja, aplicar sua crítica enviesada e altamente interessada… Contra ou a favor da Psicanálise como um todo, não poderíamos ter a má-fé de considerá-la um esoterismo judaico, como alguns proto-nazistas insinuaram e ainda insinuam…

Paris deixava de ser o principal centro da atividade matemática e a École Polytechnique perdia seu caráter inovador. O clima de autoritarismo do final do Segundo Império tornou ambíguo o papel da matemática, que era divorciado da pesquisa. Seu estudo era incentivado, acima de tudo, por sua utilidade prática no treinamento de engenheiros e a sociedade se interessava cada vez menos por pesquisas teóricas e abstratas.”

A invasão napoleônica, no início do século XIX, motivou a necessidade de elevar o nível de sofisticação militar e científica da Alemanha. Os alemães explicavam a própria derrota apontando para o alto nível de educação científica dos franceses, consequência da reforma educacional implantada após a Revolução Francesa. O traço característico das universidades que se desenvolviam na Alemanha a partir de 1810 era o papel indissociável entre o ensino e a pesquisa. Essa estreita relação permitia aos professores ir além dos cursos padronizados e elementares, baseados em livros-textos, para introduzir novos resultados, ligados a pesquisas.

O estilo dos matemáticos alemães da época pode ser explicado, em grande parte, pela proximidade com a faculdade de filosofia e pelo contato com filósofos. Promoviam-se, assim, orientações mais teóricas, motivadas também por pressuposições filosóficas. O grupo dos neo-kantianos do início do século XIX, que se opunha ao idealismo de Hegel, exerceu forte influência sobre diversos matemáticos alemães algumas décadas depois. Os valores neo-humanistas enxergavam a matemática como uma ciência pura, o que era expresso na visão de vários pensadores da época. Os conceitos fundamentais deviam ser definidos por meio de outras definições claramente explicitadas e nunca se basear em intuições [e isso foi empreendido por neo-kantianos, quão paradoxal!].

Por favor, não metam Kant no meio! “A matemática em si mesma, ou a assim chamada matemática pura, não depende de suas aplicações. Ela é completamente idealista; seus objetos, número, espaço e força, não são tomados do mundo externo, são idéias primitivas. [Que não derivam do espaço, do tempo, logo do contável, nem do princípio da causalidade! Ok!] Eles seguem seu desenvolvimento independentemente, por meio de deduções a partir de conceitos básicos. … Qualquer adição de aplicações ou ligação com estas, das quais ela não depende, são, portanto, desvantajosas para a própria ciência.”

Os matemáticos não eram mais vistos como práticos; participavam de uma elite intelectual de professores universitários que valorizava o saber puro, principalmente no contexto das humanidades enfatizadas por Humboldt.” Nada mais inconcebível para o Brasil em qualquer período.

Em Berlim, a matemática passou a se basear em noções puramente aritméticas. Nessa atmosfera, Cantor recebeu sua educação matemática entre 1863 e 1869. Weierstrass preferia apresentar seus resultados nos cursos, por isso eles permaneceram praticamente inéditos até 1895, quando foi editado o primeiro volume de suas obras. Mas, durante os anos 1870, sua fama se espalhou. Muitos convidados vinham assistir a seus cursos e escreviam anotações que acabavam circulando. No final do século, a noção de rigor defendida por Weierstrass se tornou predominante, repousando sobre a aritmetização da matemática, conforme essa tendência foi denominada por Felix Klein em 1895, na ocasião do aniversário de 80 anos de Weierstrass.”

As tentativas anteriores de assegurar as bases ontológicas dos conceitos fundamentais da matemática a partir da relação com uma certa realidade, não importa qual fosse, colocavam os alicerces dessa disciplina no mundo externo.”

Dizia eu que a aritmética não existe, a priori

Os seguidores de Al-Khwarizmi resolviam equações e admitiam o caso de raízes irracionais. Ao traduzir o termo grego alogos, que também possui o sentido de <inexprimível>, essas soluções foram chamadas de <mudas> (jidr assam). Nas versões latinas, a designação árabe foi, algumas vezes, traduzida por <números surdos>, que é como os irracionais ficaram conhecidos. Como mencionado no Capítulo 4, os métodos algébricos adquiriram grande autonomia com os árabes (começando a ficar independentes com relação à geometria). Além dos irracionais quadráticos, eles calculavam raízes de ordem qualquer, obtidas pela inversão da operação de potenciação e aproximadas por métodos elaborados que também permitiam resolver equações numéricas.”

Em 1585, o holandês Simon Stevin publicou um texto de popularização em holandês e francês, chamado De Thiende (O décimo, traduzido para o francês como La disme), defendendo uma representação decimal para os números fracionários e mostrando como estender os princípios da aritmética com algarismos indo-arábicos para realizar cálculos com tais números. Apesar de seu sistema ser bastante complexo, sem o uso de vírgulas, o fato de escrever as casas decimais de um número tornava mais evidente a possibilidade de se aumentar o número de casas, o que é útil se quisermos aproximar um número irracional por um racional.

A introdução da representação decimal com vírgulas foi um passo importante na legitimação dos irracionais, uma vez que fornecia uma intuição de que entre dois números quaisquer é sempre viável encontrar um terceiro, aumentando o número de casas decimais. Nota-se, por meio dessa representação, que, apesar de os irracionais escaparem, é possível que racionais cheguem muito perto.”

Raiz de 2 ao longo do tempo, conforme os matemáticos se tornavam cada vez mais especializados em sua “decifração”:

  1. 3/2 =1,5

  2. 7/5 = 1,4

  3. 41/29 = 1,41379310…

  4. 99/70 = 1,41428571…

  5. 17/12 = 1,41666…

Numa linha contínua (eixo x), apenas as divisões (3) e (4) chegavam mais próximas do que seria a “raiz de 2”.

Descoberta, no séc. XVII, do TEOREMA FUNDAMENTAL DA ÁLGEBRA: “O nº de raízes de uma equação é dado pelo seu grau.”

Ex: 2x4 + 5x³ − 35x² − 80x + 48 = 2(x + 3)(x + 4)(x − 4)(x − ½) = 0

Obviamente, para admitir esse número de soluções, será necessário admitir como válidas as soluções que Girard designa <impossíveis>. Mas para que servem essas soluções se elas são impossíveis?”

tanto as verdadeiras raízes quanto as falsas não são sempre reais, mas às vezes apenas imaginárias; o que quer dizer que podemos sempre imaginar tantas quanto dissemos em cada equação, mas às vezes não há nenhuma quantidade que corresponda àquelas que imaginamos.” Descartes, The Geometry, livro III, p. 86, tradução da própria Tatiana Roque.

O exemplo utilizado [por Descartes] para ilustrar esse caso é o da equação dada por x³ − 6x² + 13x − 10 = 0, para a qual podemos imaginar três soluções, das quais apenas uma é real, dada pelo número 2. Quanto às outras, mesmo que as aumentássemos, diminuíssemos ou multiplicássemos, não conseguiríamos fazer com que deixassem de ser imaginárias. A palavra <imaginária>, talvez devido à grande influência da obra de Descartes, passará a ser a mais usada para designar essas quantidades.

Enquanto um número negativo −a era entendido como 0 − a, não se punha o problema de defini-lo em si mesmo.” “Em alguns tratados do século XV os resultados negativos eram usados sem grandes discussões.” “É interessante observar que números negativos, quando apareciam nos cálculos, podiam ser chamados <negativos>, entretanto, quando representavam a solução de uma equação eram ditos <fictícios>.” “Apesar de afirmar explicitamente que a raiz quadrada de um número negativo não é correta, Cardano não se privava de operar com raízes de números negativos.”

Bombelli não usava essa notação. Designando a raiz quadrada por R.q. e a raiz cúbica por R.c., escrevia que R.c. 2.p.dm.R.q.121 + R.c. 2.m.dm.R.q.121. Observamos que ele usava a notação dm.R.q.121 para (raiz quadrada ou simples de -121), o que é diferente de R.q.m.121 [o que diabos é o “d”? ver abaixo!]. Isso indica que a sua notação para (raiz quadrada ou simples de -121) privilegiava a operação realizada com esse número e não o número obtido como raiz de uma quantidade negativa.”

p.dm., que é a abreviação para più di meno, em italiano, designa que estamos somando a raiz quadrada do nº negativo 121 e m.dm., abreviação de meno di meno, designa a subtração dessa mesma quantidade.”

A historiografia retrospectiva da matemática, praticada, por exemplo, por Bourbaki, chega a afirmar que più, meno, meno di meno e più di meno são, respectivamente, 1, −1, −i e i.” “porém, dizer isso hoje soa inadequado. A razão é porque o símbolo i será utilizado como uma unidade imaginária, ao passo que più di meno e meno di meno contêm em suas expressões as idéias de adição e de subtração, ou seja, relacionam-se a operações.”

numerro e³zat0

A introdução de uma nova notação, com os trabalhos de Viète, desviou a atenção dos matemáticos que sucederam os algebristas do século XVI, e ele não admitia nem números negativos e imaginários como raízes de equações, apesar de operar com a regra dos sinais de modo pragmático.”

O livro de Arnauld Nouveaux éléments de géometrie (Novos elementos de geometria) traz o primeiro debate explícito entre dois matemáticos sobre o modo de conceber as quantidades negativas. Schubring mostra que Arnauld recorre a justificativas geométricas, similares às de Cardano, para defender que <menos com menos deve dar menos>. Seu opositor, Prestet, mencionado no Capítulo 6, afirma, ao contrário, que as quantidades negativas devem ter o mesmo estatuto das positivas. Além disso, a regra dos sinais deve ser provada algebricamente e não geometricamente, como Cardano havia proposto e Arnauld justificado.”

Uma novidade é que suas considerações eram escritas em francês e não em latim, como antes. Logo, tiveram grande impacto nos meios cultos franceses até o início do século XVIII.”

TODA RAIZ É UMA CURVA (NENHUMA POTÊNCIA É LINEAR), O MUNDO MESMO É CIRCULAR! “Pascal e Barrow afirmavam que números irracionais deviam ser entendidos somente como símbolos, não possuindo existência independente de grandezas geométricas contínuas. Um número como (raiz de 3), por exemplo, deveria ser entendido como uma grandeza geométrica. § Com Leibniz e Newton, o cálculo infinitesimal passou a usar sistematicamente as séries infinitas. A noção de que a um ponto qualquer da reta está associado um número ficava implícita.” Comentário acima sobre a raiz de 2 e suas 5 respostas.

Nesse período, o cálculo de áreas já estava distante da tradição euclidiana e buscava associar a área a um número. O método utilizado era baseado, primordialmente, na manipulação de séries infinitas, como já era o caso da técnica usada por Pascal e Fermat descrita no Capítulo 6. A solução de problemas envolvendo quadraturas e equações diferenciais fez proliferar o uso dessas séries.”

Arquimedes já havia encontrado limites para a razão entre o perímetro e o diâmetro da circunferência, e outros matemáticos já tinham aproximado o valor dessa razão, mas no contexto do cálculo leibniziano se colocará o problema de admitir π como um número.”

No século XVI, alguns matemáticos, como M. Stifel, já haviam aventado a hipótese de a quadratura ser impossível. Para demonstrar isso, era necessário verificar que o perímetro não está para o diâmetro assim como um número inteiro para outro. Em meados do século XVIII essa possibilidade não surpreendia mais os matemáticos, sobretudo devido à grande variedade de séries infinitas que se relacionavam à quadratura do círculo. Se a soma dessas séries for uma quantidade racional, ela será um número inteiro ou uma fração; caso contrário, pode ser um número transcendente. Desde o século XVII eram fornecidas diversas aproximações para o valor da razão entre o diâmetro e a circunferência do círculo. Mas apenas em meados desse século os matemáticos perceberão que, ao invés de buscar o verdadeiro valor de π, poderiam mostrar que não há <verdadeiro valor>, ou que esse valor é impossível.”

A designação de número <real> começou a ser empregada por volta de 1700 para distinguir essas quantidades das negativas e imaginárias, que ainda não eram consideradas reais.”

Durante os séculos XVII e XVIII, com o estudo das funções transcendentes o logaritmo se tornou um conceito importante para esclarecer as ferramentas algébricas da análise e dar-lhes consistência.”

Clairaut seguiu a mesma linha de Fontenelle, admitindo quantidades negativas como soluções das equações. No entanto, os escritos de ambos foram atacados duramente por d’Alembert, que, na Encyclopédie, criticou radicalmente a aceitação dos números negativos, atitude que, conforme seu pensamento, partia de uma falsa metafísica. Do mesmo modo, devia se rejeitar, ainda segundo ele, a generalidade obtida pela álgebra na resolução de equações. Essa posição contradizia sua defesa do poder de generalização da álgebra no contexto da análise, mas, para d’Alembert, na resolução de equações o uso da álgebra dava lugar a uma metafísica equivocada sobre as quantidades negativas. Ou seja, podia-se aceitar a regra dos sinais nas operações, no entanto não era legítimo conceber quantidades negativas como sendo menores que zero, pois essa idéia é incorreta.

A ruptura provocada por d’Alembert devia-se às suas posições em relação ao logaritmo de números negativos, que requeria a intervenção de números imaginários. Em uma controvérsia com Euler, que descreveremos a seguir, d’Alembert acreditava que esses logaritmos deviam ser reais, o que tentava demonstrar a todo custo. Isso o fez questionar, em geral, o estatuto dos números negativos, evitando o problema de dar consistência a seus logaritmos.”

Se log(1) = 0, aceitar-se-ia log(-1) = 0?

Logo, um nº e seu oposto devem possuir o mesmo logaritmo. Leibniz tinha enunciado a regra de que a derivada de log(x) é igual a 1/x, mas afirmava que ela só era válida para valores reais de x.”

os logaritmos de números negativos devem ser imaginários, e não reais.”

notações como o símbolo (raiz de -1) só começaram a ser usadas no final do séc. XVII.”

D’Alembert registrou em 1784, em sua Encyclopédie, a importância de seu próprio trabalho nos verbetes denominados Équation e Imaginaire. Ele ressaltava ter sido pioneiro em demonstrar que qualquer quantidade imaginária, tomada à vontade, pode sempre ser reduzida à forma (e + função de raiz de -1), com e e f sendo quantidades reais.”

Euler já via a álgebra como uma ciência dos números, e não das quantidades. Para ele, todas as grandezas podiam ser expressas por números e a base da matemática devia se constituir de uma exposição clara do conceito de números e das operações. Entretanto, suas propostas não foram reconhecidas no século XVIII. Para Euler, o modo de se obter os números negativos era similar ao modo de se obter os positivos.”

Chega a ser surpreendente, logo depois de 1800, o número de trabalhos sobre a representação geométrica dos negativos e imaginários escritos por pessoas que não participavam da comunidade matemática. Um exemplo conhecido é o do dinamarquês Caspar Wessel, mas no meio francês houve também o caso do padre Adrien-Quentin Buée, que não integrava a comunidade científica.”

Outro personagem mítico é Jean-Robert Argand. Na historiografia tradicional, diz-se que se tratava de um suíço, amador em matemática, que trabalhava como guardador de livros. Mas essa versão é falsa. Hoje só se pode afirmar que, entre 1806 e 1814, um certo Argand parece ter sido um técnico que estava a par do desenvolvimento da ciência na época.”

Annales de Mathématiques Pures et Appliquées, a primeira revista especializada em matemática, editada fora de Paris por J.D. Gergonne.” “Argand publicou, ainda em 1813, nos Annales de Gergonne, o artigo Essai sur une manière de représenter les quantités imaginaires dans les constructions géométriques (Ensaio sobre uma maneira de representar as quantidades imaginárias nas construções geométricas).” “Supondo uma balança com dois pratos, A e B. Acrescentemos ao prato A as quantidades a, 2a, 3a, 4a, e assim sucessivamente, fazendo com que a balança pese para o lado do prato A. Se quisermos, podemos retirar uma quantidade a de cada vez, restabelecendo o equilíbrio. E quando chegamos a 0? Podemos continuar retirando essas quantidades? Sim, afirmava Argand; basta acrescentá-las ao prato B. Ou seja, introduz-se aqui uma noção relativa do que <retirar> significa: retirar do prato A significa acrescentar ao prato B. Desse modo, as quantidades negativas puderam deixar de ser <imaginárias> para se tornarem <relativas>. [Nasce aí] a grandeza negativa –a

Na balança de Argand, o 0 pode ser visto como ponto de apoio entre os braços. Esse 0 não é propriamente um <nada>, nem o número negativo é um <menos que nada>; o 0 é o referencial que permite a escolha (decisão) de uma orientação que tornará um número positivo ou negativo. Se considerarmos os números um agregado de coisas, como uma pluralidade, o +1 será sempre ligado a acrescentar algo mais, operação que pode ser repetida infinitas vezes, mas não o inverso. A balança de Argand consegue reverter essa dessimetria entre positivos e negativos e o 0 pode ser visto como ponto de apoio dos braços que devem se reequilibrar, à direita e à esquerda, enquanto colocamos pesos em cada um dos pratos ou deles os retiramos.” “A multiplicação deve ser entendida agora como uma rotação em sentido horário, quando se multiplica por (- raiz de -1); e anti-horário quando se multiplica por (+ raiz de -1)” “Temos então, no lugar de uma reflexão, uma rotação.”

Essas primeiras propostas sobre o fundamento dos negativos e imaginários, apresentadas por pensadores que não eram centrais na matemática, revelam que o pensamento da época tinha necessidade de se apoiar em uma epistemologia baseada em uma relação geométrica com a realidade. A tentativa de estender a análise às variáveis complexas, feita por Cauchy, trazia novos problemas e, logo, uma nova demanda quanto à definição desses números de modo formal. A matemática que se desenvolverá a partir de meados do século XIX passará a privilegiar a coerência interna dos enunciados e a definição de seus objetos prescindirá dessa conexão com o mundo externo. A concepção de objetos matemáticos plenamente abstratos é marcante no trabalho de Gauss sobre os números imaginários, o que sugerirá que esses números sejam admitidos em matemática tanto quanto os outros, não sendo mais chamados de <imaginários> e sim de <complexos>.”

Quando, em 1831, Gauss publicou o que denominava <metafísica das grandezas imaginárias>, no artigo Theoria residuorum biquadraticum (Teoria dos resíduos biquadráticos), já tinha renome. Foi o primeiro matemático influente a defender publicamente as quantidades imaginárias, desde seus trabalhos sobre a demonstração do teorema fundamental da álgebra, editado em 1799. De certo modo, pode ser visto como um homem do século XVIII, por não distinguir suas pesquisas das realizadas em física, astronomia e geodésia, além de escrever em latim. Contudo, seus temas de estudo e suas ideias sobre a matemática, sobretudo sua concepção de rigor, aproximam-no das novas tendências do século XIX.”

Na Alemanha, a influência da filosofia de Kant fazia com que os matemáticos se baseassem em concepções epistemológicas diferentes dos franceses. Como mostra Schubring, Gauss retirou boa parte de suas teorias sobre os números negativos e complexos dos trabalhos de um professor do secundário chamado W.A. Förstemann, que, por sua vez, usou os escritos sobre os números negativos que Kant havia publicado em 1763 (Attempt to introduce the conception of Negative Quantities into Philosophy).”

A aritmética generalizada, criada na Idade Moderna, era superior à geometria dos antigos, pois, partindo do conceito de inteiros absolutos, foi possível estender seus domínios passo a passo: de inteiros a frações, de números racionais a números irracionais, de positivos a negativos, de números reais a números imaginários.” “Basta lembrar que Gauss estava envolvido na invenção de uma nova geometria, não-euclidiana, que não se apóia na intuição. As restrições que os objetos matemáticos deviam sofrer para se adequarem ao espaço euclidiano deviam ser, de acordo com sua concepção, eliminadas.” “mas o passo decisivo para que o estatuto dos números complexos fosse firmemente estabelecido foi dado com a introdução da noção de vetor. Esse conceito apareceu na Inglaterra, no século XIX, nos trabalhos de W.R. Hamilton. No final desse século, o plano como conjunto de pontos e o plano como composto de vetores passaram a ser vistos como dois conceitos distintos.”

Dirichlet havia estudado em Paris nos anos 1820 e logo se tornou fundamental para a disseminação da análise e da física matemática francesas na Alemanha. Havia participado do círculo de Fourier, que era secretário-geral da Academia de Ciências, onde Dirichlet conheceu Alexander von Humboldt, que promoveria sua carreira na Alemanha. Dirichlet trabalhou em Berlim até os anos 1850 e, no início da carreira, estudou e divulgou os trabalhos de Gauss sobre a análise de Fourier, a teoria da integração e a física matemática. Na época, a Universidade de Göttingen ainda não era um centro de matemática avançado. Gauss era professor de astronomia e não se via estimulado a transmitir suas descobertas a alunos pouco preparados.” “A presença de Dirichlet, juntamente com Riemann e Dedekind, que se via como seu discípulo, mudaria a matemática praticada na Universidade de Göttingen. Os três inspiravam-se em Gauss e propunham uma visão abstrata e conceitual dessa disciplina. Apesar das diferenças entre seus campos de pesquisa, eles convergiam nas preferências metodológicas e teóricas e podem ser considerados um grupo.”

o exemplo de Dirichlet é tido como o primeiro passo para que se percebesse a necessidade de expandir a noção de função, uma vez que, nesse caso, esta não tinha nenhuma das propriedades admitidas tacitamente como gerais: não pode ser escrita como uma expressão analítica (segundo Dirichlet); não pode ser representada por uma série de potências; e não é contínua em nenhum ponto (também não é derivável nem integrável).” “Logo, o exemplo de Dirichlet só pode ser visto como uma função se esse conceito for entendido como uma relação arbitrária entre variáveis numéricas.” “Ou seja, apesar de aquilo que ele considerava <arbitrário> ser mais um caso particular do que se entende hoje do uso desse adjetivo, parecia importante, naquele momento, afirmar a generalidade como forma de questionar a redução da prática matemática ao escopo das expressões analíticas.”

Depois da estranha função sugerida por Dirichlet, proliferarão exemplos de funções patológicas, sobretudo na segunda metade do século XIX, que incitarão uma revisão da definição de função. Um exemplo famoso desses <monstros>, como se dizia no meio, era a função construída por Weierstrass, que desafiava o senso comum da época. Por volta de 1860, Weierstrass adotava uma definição de função semelhante à de Dirichlet, mas, em 1872, apresentou à Academia de Ciências de Berlim um exemplo de função contínua não derivável em nenhum ponto. Esse tipo de função contraria nossa intuição geométrica de que uma função traçada continuamente, por um desenho a mão livre, deve ser suave, salvo em pontos excepcionais, ou seja, não pode ter bicos em absolutamente todos os seus pontos.

Diversos exemplos contra-intuitivos surgiram nesse período. Riemann foi responsável pela criação de alguns deles ao longo de seu estudo da integração; a investigação das séries trigonométricas também deu origem a funções bizarras, como a proposta por Du Bois-Reymond (que é contínua mas não pode ser desenvolvida em séries de Fourier); Hankel e Darboux construíram outras funções patológicas e investigaram suas propriedades. Antes, as funções surgiam de problemas concretos, como os de natureza física; agora vinham do interior da matemática, a partir dos esforços dos matemáticos para delimitar os novos conceitos que estavam sendo forjados e deviam servir de fundamento para a análise, como os de função, continuidade e diferenciabilidade.”

A curva de Koch é obtida quando as iterações se repetem ao infinito. No limite, chega-se a uma curva contínua em todos os pontos que não é derivável em nenhum desses pontos (ou seja, é constituída exclusivamente por bicos).” Parece uma moita – um fractal.

Antes desse momento supunha-se, de modo geral, que a reta contivesse todos os números reais. Por isso não havia preocupação em se definir esse tipo de número. Um exemplo disso foi visto anteriormente, no estudo das raízes de uma equação de grau ímpar, ao se admitir que o gráfico de uma função, positiva (para x positivo) e negativa (para x negativo), deve cortar o eixo das abscissas em um ponto que é assumido como um número real.”

Cantor concluiu que a unicidade também pode ser verificada quando a série trigonométrica deixa de ser convergente, ou deixa de representar a função, em um número finito de pontos excepcionais. Logo depois, ele refinou mais uma vez o argumento, ao perceber que sua conclusão ainda era válida mesmo que o número desses pontos excepcionais fosse infinito, desde que estivessem distribuídos sobre a reta de um modo específico. Para estudar essa distribuição dos pontos, era necessário descrever os números reais de um modo mais meticuloso e detalhado, sem supor, implicitamente e de modo vago, que esses números fossem dados pelos pontos da reta.”

A fim de caracterizar a continuidade, Dedekind julgava necessário investigar suas origens aritméticas. Foi o estudo aritmético da continuidade que levou à proposição dos chamados <cortes de Dedekind>. Ele começou por estudar as relações de ordem no conjunto dos números racionais, explicitando verdades tidas como óbvias, por exemplo: se a>b e b>c, então a>c. A partir daí, deduziu propriedades menos evidentes, como a de que há infinitos números racionais entre dois racionais distintos a e c. Dedekind notou que um racional a qualquer divide os números racionais em duas classes, A1 e A2, a primeira contendo os números menores que a; a segunda contendo os números maiores que a. Podemos concluir, assim, que qualquer número em A1 é menor do que um número em A2.”

A argumentação de Dedekind recorria aos gregos para dizer que eles já sabiam da existência de grandezas incomensuráveis. No entanto, não é possível usar a reta para definir os números aritmeticamente, pois os conceitos matemáticos não devem ser estabelecidos com base na intuição geométrica.

Logo, era necessário criar novos números, de tal forma que <o domínio descontínuo dos números racionais R possa ser tornado completo para formar um domínio contínuo>, como é o caso da linha reta. A palavra usada para designar a propriedade da reta que distingue os reais dos racionais é <continuidade>, que seria equivalente ao que chamamos de <completude>. Apesar de Dedekind afirmar que é preciso <completar> os racionais, esse termo não era empregado com sentido técnico.”

Apesar da compreensão comum da palavra <multiplicidade> estar associada à ideia de algo que é <múltiplo> (ou vários), não é nesse sentido que a estamos empregando, o que fica claro quando se fala de <uma multiplicidade>. Usamos <multiplicidade> para indicar algo que possui vários aspectos, ou várias dimensões.”

Dedekind expôs essa questão em uma correspondência com outro matemático alemão, R. Lipschitz, aluno de Dirichlet, na qual diz que a continuidade do domínio das quantidades era uma pressuposição implícita dos matemáticos, além da noção de quantidade não ter sido definida de modo preciso. Até ali, os objetos da matemática, as quantidades, existiam e a necessidade de definir sua existência não se colocava. Ao contrário dessas suposições, no texto Was Sind und was Sollen die Zahlen? (O que são e o que devem ser os números?), Dedekind insiste que o fenômeno do corte, em sua pureza lógica, não tem nenhuma semelhança com a admissão da existência de quantidades mensuráveis, uma noção que ele rejeitava veementemente.” “Retomando as duas classes A1 e A2 definidas anteriormente, ele afirma que a essência da continuidade está no fato de que todos os pontos da reta estão em uma das duas classes, de modo que se todo ponto da primeira classe está à esquerda de todo ponto da segunda classe, então existe apenas um ponto que produz essa divisão.”

Para obter um conjunto numérico que traduza fielmente a continuidade da reta, Dedekind usou um procedimento que se tornaria muito freqüente na matemática. Sempre que encontrarmos um número não-racional produzindo um corte, deveremos incluir esse número na nova categoria a ser criada, que deve admitir racionais e não-racionais. Ou seja, quando o corte é um número irracional, esse número será reunido aos racionais formando um conjunto, que gozará da propriedade de continuidade da reta, chamado de <conjunto dos números reais>.”

A principal propriedade dos números racionais, que os torna essencialmente distintos dos reais, é o fato de poderem ser enumerados. O que é isso? Eles são pontos discretos, não-imbricados entre si, logo, podemos associá-los a números naturais e contá-los. O resultado dessa contagem será um número infinito, mas ela permite enumerar os racionais.

Essa propriedade levará Cantor a concluir que o conjunto dos números racionais é infinito de uma maneira distinta do conjunto dos números reais, que não podem ser enumerados. O procedimento de <enumeração> dos elementos de um conjunto é feito por meio da associação de cada um desses elementos a um número natural; e a associação é definida como uma função de um conjunto no outro, uma correspondência biunívoca entre seus elementos.” “Uma função é dita biunívoca se diferentes elementos no seu domínio estão associados a diferentes elementos no contra-domínio e se cada elemento y no contra-domínio está associado a algum x no domínio.

Podemos pensar na relação <ser filho de> entre os conjuntos A = {alunos de uma turma} e B = {mães dos alunos}. Tal relação constitui uma função, pois não há aluno sem mãe biológica (ainda que esta não esteja mais viva) e cada aluno possui apenas uma mãe biológica. Porém, essa função não é biunívoca, pois pode haver alunos irmãos, isto é, eles terão a mesma mãe (diferentes elementos do domínio com a mesma imagem).

Considere agora a relação <ser o dobro de> entre os conjuntos A = {números naturais} e B = {números pares}. Tal relação constitui uma função biunívoca, pois ao dobrar números naturais diferentes os resultados serão diferentes e cada número par é o dobro de algum número natural (a sua metade).”

Nesse contexto surgirá a idéia de função como uma correspondência entre dois conjuntos numéricos. Se x é um elemento do conjunto dos reais, e n um elemento do conjunto dos naturais, pode ser estabelecida uma correspondência entre x e n, de modo que cada elemento de um conjunto seja associado a um, e somente um, elemento do outro? Essa é a pergunta que Cantor formula para Dedekind em 1873. Ele mesmo provou que é impossível encontrar tal correspondência, estabelecendo uma diferença fundamental entre o número de elementos (cardinalidade) do conjunto de números reais e o número de elementos do conjunto dos números naturais.

O conceito de correspondência biunívoca servirá de base para a constituição da nova teoria dos conjuntos, por volta de 1879. Dois conjuntos são ditos com a mesma <potência> se existe correspondência biunívoca entre seus elementos. Os conjuntos que possuem a mesma potência dos naturais são chamados <enumeráveis>, e os outros são <não-enumeráveis>. A resposta ao critério para que uma série trigonométrica represente uma função, fornecida por Cantor, repousa sobre essa diferenciação, e essa resposta é afirmativa no caso de a série deixar de convergir em infinitos pontos, contanto que eles formem um subconjunto enumerável da reta.”

coisas distintas são entendidas de um mesmo ponto de vista quando consideradas a partir de seus números. Nesse caso, podemos dizer que essas coisas formam um conjunto.”

O ponto de vista de Weierstrass também pode ser dito conceitual, mas de um modo diferente dos matemáticos de Göttingen, pois ele não tinha o mesmo entendimento do tipo de abstração que estava em jogo ao se definirem os conceitos básicos da análise. Cantor foi inspirado por Weierstrass, mas, como mostra Ferreirós, sua dedicação à teoria dos conjuntos levou-o a se afastar do grupo de Berlim. Ele chegou a ser criticado por Weierstrass, e o caráter abstrato de suas definições pode ser relacionado à influência crescente de Riemann e Dedekind em seus trabalhos, a partir dos anos 1880.”

A história da análise matemática é vista, freqüentemente, como uma evolução dos conceitos intuitivos usados no cálculo do século XVII às definições rigorosas propostas pelo movimento de aritmetização da análise e pela teoria dos conjuntos. Um bom exemplo é o título do livro editado por Grattan-Guinness em 1980, From Calculus to Set Theory (Do cálculo à teoria dos conjuntos).”

Na última metade do século XIX, Cantor teria introduzido o infinito na matemática, um dos ingredientes principais para o florescimento espetacular da matemática moderna. Na narrativa tradicional, a repulsa ao infinito, o horror infiniti, teria reinado entre os matemáticos desde os gregos, impedindo os avanços dessa ciência, até que Cantor venceu todas as barreiras e logrou fazer com que o infinito fosse, finalmente, aceito.” Ao preço da própria loucura…

Eu espiei, através das páginas de Russell, a doutrina dos conjuntos, a Mengenlehre, que postula e explora vastos números que um homem imortal não atingiria mesmo se exaurisse suas eternidades contando, e cujas dinastias imaginárias possuem as letras do alfabeto hebreu como cifras. Não me foi dado entrar neste delicado labirinto.” Jorge Luis Borges

Muitas narrativas do início do século XX atribuem a Cantor o papel de pai fundador da moderna teoria dos conjuntos. Como mostra Ferreirós na introdução dessa sua obra monumental sobre a história dessa teoria, em 1914 Hausdorff dedicou o primeiro manual da teoria dos conjuntos a seu criador, Cantor; e Hilbert escolheu a teoria dos conjuntos como um exemplo-chave do tipo de matemática defendida por ele, freqüentemente associada ao nome de Cantor.” “Mas muitos matemáticos e filósofos já haviam tratado rigorosa e positivamente da noção de infinito antes de Cantor. Só para dar dois exemplos na Alemanha: Dedekind, na matemática; e Hegel, na filosofia.” HM

A noção de conjunto não é uma descoberta do século XIX executada por mentes geniais que, finalmente, desvendaram o fundamento correto da matemática, tido como eternamente válido e implícito em todos os tempos, mas que vinha sendo usado por pessoas ainda despreparadas para penetrar seu misterioso labirinto, como na citação de Borges. Preferimos pensar que a matemática efetivamente praticada pelos matemáticos do século XIX partia de pressupostos que os fizeram inventar noções que participavam de uma [cosmo-]visão conceitual e abstrata, propícia ao desenvolvimento da noção de conjunto e à sua aplicação em problemas de naturezas diferentes. Esse ponto de vista, que chamamos <conjuntista>, tem sua própria história, que não se identifica com a história da teoria dos conjuntos, como procuramos mostrar aqui.” “A teoria dos conjuntos emergiu, assim, da investigação de conjuntos concretos, encarados de modo cada vez mais conceitual e abstrato. Essa história é detalhada por Ferreirós. Usamos sua distinção entre a teoria dos conjuntos, como ramo da matemática, e a abordagem conjuntista, como concepção sobre a matemática, com o fim de caracterizar a imagem da matemática que moldou também a maneira de escrever sua história até meados do século XX.”

A visão modernista da matemática prega uma renúncia ao mundo, uma vez que não se deve fazer geometria ou análise com os objetos dados pelo senso comum, mas sim construir o edifício da matemática sobre noções dotadas de uma consistência interna.”

A imagem de que a matemática é um saber axiomatizado baseado nas noções de conjunto e estrutura foi popularizada por Nicolas Bourbaki, a partir de 1939, com o início da publicação de seus Éléments des mathématiques: les structures fondamentales de l’analyse (Elementos de matemática: as estruturas fundamentais da análise). <Bourbaki> é o pseudônimo adotado por um grupo de matemáticos franceses dos anos 1930 cujo objetivo era elaborar livros atualizados sobre todos os ramos da matemática, que pudessem servir de referência para estudantes e pesquisadores. Cada um desses ramos era visto como uma investigação sobre estruturas próprias, tendo como principal ferramenta o método axiomático. Uma de suas principais contribuições foi organizar as subdisciplinas da matemática, selecionando seus conceitos básicos, suas ferramentas e seus problemas. Nesse quadro, a definição de função usada por Dedekind e Cantor será considerada insuficiente e, em seu lugar, Bourbaki proporá:

Definição bourbakista de função: Sejam E e F dois conjuntos, que podem ser distintos ou não. Uma relação entre um elemento variável x de E e um elemento variável y de F é dita uma relação funcional se, para todo x pertencente a E, existe um único y pertencente a F que possui a relação dada com x. Damos o nome função à operação que associa, desse modo, a todo elemento x, pertencente a E, o elemento y, pertencente a F que possui a relação dada com x; y será dito o valor da função no elemento x.

Em seguida, essa primeira versão será reformulada e a função será definida como um determinado subconjunto do produto cartesiano dos dois conjuntos E × F. Ou seja, (…)” Ou seja: falaram merda sem pensar, tsk. “Conjunto e variação passam a ser idéias inconciliáveis.” Não se fala mais de x nem de y.

A definição formal de função, que aprendemos na escola, segue o padrão bourbakista, o que provoca uma dificuldade de conciliação em relação aos exemplos de função que são efetivamente estudados. É difícil associar a noção dinâmica de função, que aparece em situações físicas, à definição formal, de natureza estática. Na história da física, a função serviu para estudar a variação, ou a mudança, a partir de uma escolha de variáveis relevantes em um certo fenômeno. Além dos exemplos físicos, as funções são exemplificadas por curvas ou expressões analíticas, que foram outros modos de conceber funções ao longo da história. Isso mostra que, isolada de seu contexto histórico, a definição de função e as funções que conhecemos durante nosso aprendizado de matemática não convergem. Podemos dizer que se trata de uma deficiência do ensino, porém, não fazemos essas considerações para discutir a educação.” Azar o seu, pois deviam.

Nos Elementos de matemática de Bourbaki, cada um dos livros sobre certa sub-área era introduzido por um relato sobre a evolução histórica daquele assunto até ali. Esses relatos foram reunidos em um só volume, publicado em 1960 como Éléments d’histoire des mathématiques (Elementos de história da matemática), com critérios idênticos para avaliar as idéias importantes do presente e do passado. Não foi à toa que os bourbakistas se preocuparam em escrever uma história da matemática. Alguns de seus membros mais ilustres, como André Weil e Dieudonné, publicaram escritos de história independentemente do grupo, mas reproduzindo o mesmo ponto de vista. A historiografia tradicional da matemática, muitas vezes criticada por nós, foi impulsionada pelo estilo bourbakista.” “Foi, portanto, quando a matemática passou a se enxergar como matemática <pura> que a distinção entre teoria e prática se tornou importante na escrita de sua história.” A arrogância lhe subiu a cabeça e não quis mais andar com os primos… Uma conduta irracional!

Por volta dos anos 1960, as ideias de Bourbaki contaminaram a educação, o que ajudou a cristalizar a concepção pouco, ou nada, histórica da matemática. Com o movimento da matemática moderna, que teve grande repercussão no Brasil, defendia-se que essa disciplina devia ser ensinada com os conceitos de base definidos à maneira bourbakista, que seria adaptada às nossas estruturas cognitivas. Nessa época, muitos matemáticos e educadores compartilhavam a crença de que os alunos têm de ser acostumados a pensar em termos de conjuntos e operações. Piaget chegou a estabelecer uma correspondência entre as estruturas defendidas por Bourbaki e as primeiras operações por meio das quais as crianças interagem com o mundo.” Não é o que a nossa posição nos rankings indica…

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Corry, Modern Algebra and the Rise of Mathematical Structures

Ferreirós, Labyrinth of Thought

Grattan-Guinness, The Development of the Foundations of Mathematical Analysis from Euler to Riemann

Gray, Plato’s Ghost: the Modernist Transformation of Mathematics

Sir Isaac Newton, Two Treatises of the Quadrature of Curves

Lacroix, Traité du calcul différentiel et du calcul intégral

LÍSIS OU DA AMIZADE AMOROSA

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

– Muito bem – disse-lhe eu –, mas quem é o mestre?

– É um de teus amigos e partidários, Sócrates, chama-se Miccos.

– Por Zeus! Não é um dos néscios; é um hábil sofista!

– Pois se não! Queres seguir-me e ver a gente que se encontra ali dentro?

– Sim, mas desejava antes saber que papel me caberá uma vez inserido nesta assembléia de jovens. E outro pormenor: quem é dentre os presentes o jovem mais formoso?

– Cada um de nós tem seu gosto, Sócrates.

– Mas tu, Hipótales, diz-me por fim: qual é a tua inclinação?

Neste momento Hipótales pôs-se rubro. Então continuei:

– Hipótales, filho de Jerônimo, não tenho necessidade de me confessares se amas ou não! Me consta não só que tu amas, como que amas até demasiado! É certo que em todas as demais coisas sou um inútil, sou nulo, mas deus me deu a graça de um dom particular: conhecer através de um só olhar quem ama e quem é amado.

Ao ouvir estas palavras, ruborizou-se ainda mais.

– Coisa singular! – interveio Ctesipo. – Ruborizas-te diante de Sócrates e te mostras zeloso em guardar teu segredo amoroso; mas, quando estás apenas entre nós, poucos minutos são-te o bastante para afadigar-nos de tanto que repetes o nome de teu amado. É isso mesmo o que ouviste, Sócrates: ele nos aborrece e aporrinha, de modo que nos cremos surdos ao final de suas palestras: tudo que sói ouvirmos é: LÍSIS, LÍSIS, LÍSIS…! Pior ainda: quando se excede na bebedeira – ainda ao dia seguinte, como que ouvindo os ecos da festança anterior, nossas cabeças levemente ressaqueadas ainda escutam as sílabas <Lí>, <si> e <as> reverberando no ar, tal houvera sido seu abuso ébrio da véspera! E olha, Sócrates, que nosso Hipótales mui bem dissimula sua poderosa inclinação ao expressar-se em prosa, conversando. O verdadeiro problema é quando traveste-se de poeta, inundando-nos e a nossos tímpanos com seus versos apaixonados. O que menos podemos perdoar nele é sua perícia ao fazê-lo: entoa os louvores de seu amado e dos antepassados de seu amado com voz e harmonia de se admirar! Não obstante, sabes como são os amantes, Sócrates – ele aluga nosso tempo, não podemos nos esquivar de escutá-lo quantas vezes ele achar necessário, coisa que nunca termina! Agora, ó dissimulado!, põe-se vermelho ao ouvir-te falar desta maneira.

– Ó, Ctesipo e Hipótales, não é este tal Lísis muito jovem ainda? Isto estou supondo porque jamais ouvi este nome antes, ou pelo menos não associo às feições de nenhum dos jovens já consagrados a freqüentar este tipo de assembléia.

– E não erras, Sócrates: é que é tão jovem que por ora se apresenta somente como Lísis, filho de seu pai, pois é só seu pai, atualmente, que se conhece à larga. Em que pese esse pormenor, creio que ao menos conhece-o de vista, caro Sócrates, já que tu conheces, um por um, todos os jovens atenienses!

– Agora diz-me, de quem é Lísis filho?

– Trata-se Lísis do primogênito de Demócrates, do demo de Exone.”

quero saber se conheces a linguagem que mais convém aos amantes, estejam eles desacompanhados, isto é, apenas entre amigos e confidentes, falando do amado em terceira pessoa, ou em conversação direta com o próprio amado.”

Sem dúvida ele nos canta e nos repete tudo que já se repetiu e se cantou na cidade acerca de Demócrates e acerca de Lísis, pai de Demócrates, avô deste jovem Lísis. E mais, ainda exalta em versos todos os seus antepassados conhecidos mais remotos, suas riquezas, seus corcéis infindos, suas vitórias em Delfos, no Istmo, em Neméia, nas corridas de carro e de cavalo, e noutras estórias mais velhas que o arco da roda. Ultimamente, Sócrates, cantou-nos uma peça sobre a hospitalidade com que Hércules em pessoa havia tratado e recebido a um dos avós de Lísis, que, diz a lenda, era parente do próprio glorioso filho de Zeus. O que se conta é que este antepassado de Lísis nascera do sêmen do próprio Zeus, e a fêmea eleita para pari-lo foi a filha do fundador de Exone. Todas as velhas vivas do distrito hoje repetem essas coisas; nosso diligente Hipótales pesquisa e aprende das tradições orais tudo quanto laboriosamente recita! E, claro, nos faz de cobaias, pois temos de escutá-lo em tudo!!!

– Hipótales, mas isto é extraordinário! Compões e cantas teus elogios já antes da conquista?”

– Porque, hás de convir, se acaso és bem-sucedido com tais amores, teus versos e cantos redundarão em tua própria honra, isto é, na exaltação, em última instância, do amante que teve a fortuna de conseguir tão formidável vitória. Mas se a pessoa que amas te abandona, não importa quantos e quais tenham sido os elogios que dirigiste a ela, ou melhor ainda: quanto mais celebraste suas belas qualidades, tanto mais pôr-te-ás em ridículo ao fim, porque tudo quanto fizeras terá sido inútil. Um amante mais prudente, meu querido, não celebraria seus amores antes de haver logrado o êxito, desconfiando do porvir, tanto mais quanto que os jovens formosos, quando se os exalta e se os lisonjeia, são os primeiros a se encher de presunção e vaidade.

– Sou incapaz de negá-lo.

– E quanto mais presunçosos se mostram, mais difíceis são de conquistar, ou não?

– Exato.

– Que juízo tu mesmo atribuirias a um caçador que espantasse assim a caça, impossibilitando-se a si mesmo de apanhá-la?

– É evidente que estaríamos falando aqui de um néscio.

– Seria uma péssima política, ao invés de atrair a pessoa amada, espantá-la com palavras e canções apologéticas. Que dizes disto?

– Que essa é, idem, minha própria opinião.”

– …se pudesses conseguir que teu querido Lísis conversasse comigo, quiçá poderia eu dar-te um exemplo da classe de conversação que deverias ter com ele, em detrimento destas odes e hinos que, ao que dizem, diriges-lhe.

– Nada mais fácil; não tens mais que entrar naquele recinto com Ctesipo, sentar-te e inserir-te na conversação. E como hoje se celebra a festa de Hermes, e tanto os jovens como os adultos reúnem-se neste mesmo salão, Lísis não deixará de aproximar-se de ti. Se isso não se der, ainda assim digo que Lísis é muito chegado de Ctesipo, por causa de seu primo Menexeno, que é o melhor amigo daquele, de forma que, se tu não conseguires chamar sua atenção ao entrar, Menexeno o chamará e te o apresentará sem falta, sendo isto coisa fácil para ele.”

Hipótales, notando que o grupo ao nosso redor se avolumava, veio, mas pôs-se detrás de vários outros jovens, ficando de pé e numa posição em que não podia ser visto por Lísis, temendo, afinal, importuná-lo. Nesta atitude passiva foi que ele escutou toda nossa palestra.”

– Poupar-me-ei o trabalho de perguntar-vos qual dos dois é mais rico, porque sois amigos. Estou certo?…

– Sim – disseram ambos ao mesmo tempo.

– …E entre amigos, diz-se que todos os bens são em comum, de sorte que não há qualquer diferença entre vós em termos de riqueza, se é que sois amigos, como dizeis.”

– Eis aí uma coisa singular! Ser livre e ver-se governado por um escravo! Que faz teu pedagogo para governar-te?

– Me leva à casa do meu professor.

– E teus professores, mandam em ti por igual?

– Sim, e bastante.

– Eis um prodígio: um homem rodeado de professores, mestres e pedagogos pela vontade do próprio pai! Mas quando voltas a tua casa e estás com tua mãe, ela te deixa fazer o que tu queres fazer (pois que isso é a prerrogativa dos homens felizes)? P.ex., deixa que tu remexas a lã e toque o tear enquanto ela tece, ou será que ela te proíbe de tocar a lançadeira, a carda e os demais instrumentos de seu trabalho?

Lísis pôs-se a rir:

– Por Zeus, Sócrates! Não só me proíbe de todas estas coisas como me dá uma palmada na mão se me aventuro a tocar em seus utensílios!”

– Diz-me então, Menexeno: quando um homem ama a outro, qual dos dois se faz amigo do outro? O que ama se faz amigo da pessoa amada, ou a pessoa amada se faz amigo do que ama, ou não há entre eles diferença alguma?

– Nenhuma, a meu ver.

– Que queres dizer com isso? Ambos são amigos, quando só um ama?

– Sim, como disse, ao que me parece…

– Mas não pode suceder que o homem que ama a outro não seja correspondido?!”

– E então, qual dos dois é o amigo? É o homem que ama a outro, seja ou não correspondido, seja ou não aborrecido pelo amado? É o homem que é amado? Ou será que não seria nem o primeiro nem o segundo, posto que não se amam ambos reciprocamente?

– Nem um, nem outro, ao que me parece.

– Mas então chegamos agora a uma opinião diametralmente oposta à precedente! Porque, depois de havermos sustentado que se um dos dois amasse o outro ambos seriam amigos, dizemos agora, pelo contrário, que não há amigos ali onde a amizade não é recíproca!”

– Neste caso, Menexeno, o que é amado é amigo do que ama, seja que lhe retribua o sentimento ou seja que menospreze-o por completo, como as crianças que não só não se afeiçoam a seus pais como até têm aversão não só às lições e advertências destes, mas, de forma até mais pronunciada, quando estes tentam manifestar-lhes carinho!

– Estou de acordo.

– Logo, o amigo não é aquele que ama senão aquele que é amado.

– Sim, conforme.

– Por este princípio, é inimigo aquele que é o autor da aversão, e não aquele que é repelido (a vítima da paixão invertida)?

– Assim parece.

– Neste conceito, muitos são amados por seus inimigos e rejeitados pelos próprios amigos, posto que o amigo é aquele que é amado, e não aquele que ama. Mas isso me parece absurdo, Menexeno, senão impossível! Como é que alguém se faz <amigo de seu inimigo e inimigo de seu amigo>?

– Confesso que estou confuso, Sócrates.

– Se tal coisa é inadmissível, quem ama é naturalmente amigo do que é amado?

– Sim, sim, estou de acordo.

– E o que desdenha é, então, inimigo do que é desdenhado?

– Necessariamente!

– Ah, olha-nos aqui de novo enredados na mesma opinião que manifestáramos primeiro! Muitos são amigos dos que não são seus amigos, e muitas vezes dos seus próprios inimigos, quando amam quem não só não os ama de volta como até os aborrece! Ademais, muitas vezes somos inimigos de pessoas que não são inimigos nossos, e que quiçá sejam até nossos amigos, como quando desdenhamos quem nunca nos desdenha, e quem sabe até nos ame!

– É provável que raciocines de forma correta, Sócrates.

– Se o amigo não é aquele que ama, nem o que é amado, nem tampouco o homem que ama e é amado ao mesmo tempo, que é deduzimos de tudo isto?

Desejando dar uma trégua a Menexeno, encantado como estava eu com o desejo do jovem Lísis de instruir-se, continuei o diálogo, agora me dirigindo a este último.”

Mais vale voltar ao que os poetas nos franquearam, porque os poetas, até certo ponto, são nossos pais e nossos guias quanto à sabedoria. Talvez não tenham falado em vão quando disseram, sobre a amizade, que é deus mesmo quem constrói as amizades e que faz uns atraírem-se pelos outros. (…) Um deus conduz o semelhante a seu semelhante – Empédocles.”

só os homens de bem são semelhantes aos homens de bem e, portanto, podem ser amigos entre si, ao passo que os maus, ao contrário do que muitos pensam, não são semelhantes de maneira alguma entre si, nem um para com o outro nas relações, nem mesmo quanto a si próprios – isto é, são caracteres altamente mutáveis e variáveis, incapazes de manter uma coerência interna, sempre contradizendo a si próprios. Neste caso não seria surpresa que o que é diferente de si mesmo não se pareça nunca com nada mais no universo, não sendo, desta maneira, amigo de nada nem ninguém.”

E para quê seres semelhantes haveriam de aproximar-se uns dos outros, se não haveriam de tirar dessa aproximação proveito algum? E o homem que não tem necessidade de buscar (uma vez que já é auto-suficiente, i.e., amigo de si mesmo), o homem que não é amado (porque os outros homens de bem são também amigos de si próprios e auto-suficientes), não será ele jamais um amigo de quem quer que seja?”

– …mas discordas do que assentei há pouco, que o bom se basta a si mesmo, enquanto ainda for <bem>?

– Não discordo de forma alguma, Sócrates.

– Mas o que se basta a si mesmo, tem necessidade de alguém mais ou não?

– Não.

– Não tendo necessidade de ninguém, não buscará ninguém!

– Correto.

– Se não busca ninguém, não ama ninguém.

– Com certeza que não.

– E se não ama ninguém, ele mesmo jamais será amado!

– Creio que jamais será amado.

– Como os bons podem ser amigos dos bons, quando, estando uns separados dos outros por distâncias infinitas no que concerne à alma, não se desejam mutuamente, uma vez que se bastam a si próprios, e que estando uns próximos dos outros fisicamente, nem sequer consideram-se como mutuamente úteis? Qual seria o meio de que tais pessoas se pudessem estimar entre elas mesmas, aproximando-se não só nos corpos mas também nas almas?

– É impossível!

– Mas se não se estimam, então nunca haveria amizade?!

– Dizes a verdade.

– Olha, Lísias, parece que tudo que concluímos não passa de mal-entendido e fumaça! Nada do que concluímos pode estar certo!

– Como assim?

– Ouvi, certa ocasião, as seguintes palavras, que agora se me ocorrem: o semelhante é o mais hostil ao próprio semelhante; os homens de bem os mais hostis aos demais homens de bem. Quem mo disse isso? Não me lembro, mas o que lembro é que para justificar-se ele até citou uns versos de Hesíodo: O oleiro é, por inveja, inimigo do oleiro; o cantor do cantor; e o pobre do pobre.¹ Este homem ainda acrescentava: Em todas as coisas os seres que mais se parecem são os mais invejosos, rancorosos e hostis um para com o outro; quanto aos que mais se distinguem e diferenciam, são necessariamente mais amigos. O pobre é amigo do rico, o débil do forte, porque uns esperam socorro dos outros, como o doente espera do médico. O ignorante, pela mesma razão, busca e ama ao sábio. E essa pessoa continuava a sustentar sua tese com uma abundância de razões, alegando que tão distante está o semelhante de amar o semelhante quanto próximo está o semelhante de odiar o semelhante; e como está patente que o odeia, aí vês. Enfim, continuava este homem: Todo ser deseja o oposto a sua própria natureza. Assim, o seco é amigo do úmido, o frio do quente, o amargo do doce, o sensível do obtuso, o vazio do cheio, o cheio do vazio, e assim por diante.

¹ Os trabalhos e os dias, 25

Seria o ódio amigo da amizade e a amizade amiga do ódio?”

– Minha impressão é que se a dessemelhança engendrasse a amizade, estas coisas contrárias deveriam ser realmente amigas!

– É necessário.

– Por conseguinte, o semelhante não é amigo do semelhante, nem o contrário amigo do contrário!

– Não é mesmo possível que assim fosse.”

– …Enfim, digo-te que o bom é o belo. E tu, que pensas?

– O mesmo que tu, Sócrates.

– Como que por adivinhação, digo ainda: o que não é nem bom nem mau, é amigo do bom e do belo. Escuta agora sobre o quê fundo tal conjetura. Parece-me que existem três gêneros: o bom; e o mau, naturalmente; mas, por último, aquilo que não é nem bom nem mau. (…) Nossas indagações precedentes, se um tanto inócuas, me levaram pelo menos a intuir que o bom não pode ser amigo do bom, nem o mau do mau, nem o bom do mau. Resta, então, para que a amizade seja possível entre dois gêneros, que o que não é nem bom nem mau seja o amigo do bom, ou de uma coisa que se lhe aproxime, porque, com respeito ao mau, nunca poderia ele concitar à amizade.

– Correto.

– O semelhante, como já estabelecemos, não pode ser, tampouco, o amigo do semelhante, não te lembras?

– Perfeitamente.

– E o que não é nem bom nem mau, não amará ele, tampouco, aquilo que se assemelha consigo.

– De fato, seria impossível.

– Logo, o que não é nem bom nem mau não pode amar nada a não ser o bom.”

– Não estás conforme que, por conta da doença, o corpo está de alguma forma obrigado a buscar e a amar a medicina?

– Sim.

– Logo, o que não é nem mau nem bom é amigo do que é bom, justamente pela existência do que é mau.

– Faz sentido.”

– Se se tingissem de branco teus cabelos, que são louros, seriam brancos em realidade ou em aparência?

– Em aparência.

– E no entanto, a brancura não se encontraria nos cabelos?

– Sim.

– E nem por isto seriam teus cabelos brancos de verdade! De sorte que, neste caso, apesar da brancura que neles se manifestasse, não seriam nem brancos nem negros.

– Isso é evidente.

– Mas, amigo, quando a velhice os houver tornado deste mesmo tom, não serão de fato semelhantes ao que se verá na aparência, isto é, seus fios de cabelo não serão na aparência e na verdade brancos?”

quando uma coisa se encontra com outra coisa, faz-se ela a mesma que esta outra coisa?”

– Deriva daí que, apesar da presença do mal, o que não é mau nem bom não se faz mau, e isso justamente porque a presença mesma do mal faz este intermediário desejar com afinco alcançar o bem; se por acidente o que não é bom nem mau se faz com efeito mau, a presença do mal o afastará naturalmente do desejo e do amor do bem, posto que, neste caso excepcional, já não é um ser que não era bom nem mau, mas um ser unicamente mau, e incapaz de amar o bem.

– Sim, Sócrates.

– Continuando meu raciocínio, poderíamos dizer que os que são já sábios, sejam deuses ou homens, não podem, com sinceridade, amar a sabedoria, assim como não podem amá-la aqueles que, em virtude de ignorarem completamente o que é o bem, acabaram se tornando maus, porque ignorantes e maus, por igual, detestam e abominam a sabedoria. Restam, então, aqueles que, não se encontrando absolutamente isentos nem do mal nem da ignorância, não foram, contudo, pervertidos até o ponto de perderem a consciência de seu estado algo faltoso, havendo nestes seres a capacidade de buscar se melhorarem.”

Creio que agora, Lísias e Menexeno, descobrimos de forma mais clara que antes no que consiste o ser amigo e o não o ser.”

– Ah, Lísis e Menexeno! Grande risco corremos de que o dito até aqui não seja mais que névoa e engodo.

– Mas por quê? – me perguntou Menexeno.

– Temo que caímos de novo no abismo do ridículo tergiversando sobre a amizade, como sucede aos charlatães!

– Como isso se deu?

– Assim: não é verdade que quem ama, ama alguma coisa? Ou não?

– Ama alguma coisa, Sócrates.

– Ama-o gratuitamente, ou ama-o por alguma coisa e com vistas a alguma coisa?

– Ama porque tem alguma razão para amar.”

– O doente, como já dissemos, é amigo do médico. Não é assim?

– Sim.

– Se ama o médico, é por causa da doença e porque busca a saúde.

– Sim.

– Mas a doença é um mal.

– E como não seria?

– E a saúde, é um bem ou um mal? Ou seria um intermediário entre os dois?

– Um bem, em absoluto.

– É, já concluímos antes que o corpo é que é a instância intermediária: nem bom e nem mau por si mesmo, ele ama a medicina por conta da doença de que padece, i.e., por causa do mal; enquanto que a medicina é um bem, e qualquer um que esteja na condição do corpo ama a medicina, invariavelmente, porque deseja ser são. Concordas mesmo que a saúde seja um bem?!

– Acabaste de perguntar a mesma coisa e eu acabei de dizer que sim, Sócrates!

– Pois bem: e a saúde, é amiga ou inimiga?

– Do corpo? Amiga.

– E a enfermidade, é inimiga sua?

– Com certeza.

– Logo, o que em si não é nem mau nem bom ama o que é bom, por causa do que é mau, e justamente porque busca e tem um afã pelo que é bom!

– Estiveste perfeito em tuas palavras, Sócrates.”

Prosseguindo assim indefinidamente, é necessário que cheguemos a um princípio que não suponha nenhuma outra coisa amada, isto é, a um princípio primeiro da amizade, o mesmo em virtude do qual dizemos amar todas as demais coisas.” “Todas as demais coisas que amamos em virtude deste primeiro princípio não passam de ilusão, a dizer verdade. Não são mais que imagens; o primeiro princípio mesmo é que deve ser o único e mais importante dos bens, aquilo que amamos por trás e acima de tudo.”

– …nada no mundo é mais amigo que este princípio, que rege todas as amizades existentes.

– É bastante provável.

– Por conseguinte, o verdadeiro amigo jamais é amado por causa de outro amigo. Antes, teria de dar-se o contrário.

– Isso é uma conseqüência lógica imprescindível.”

– Se o mal desse origem à amizade, uma vez destruído o mal, a amizade não poderia existir, porque quando a causa cessa, é impossível que o efeito perdure.

– Exato.”

De duas, uma: Se o conveniente difere do semelhante, parece-me, Lísis e Menexeno, que finalmente encontramos o discurso final sobre a amizade, o santo graal neste tema. Mas se o conveniente e o semelhante resultam ser, afinal, uma mesma coisa, não nos será nada simples nos subtrairmos à terrível objeção de que o semelhante é inútil ao semelhante, uma vez que idênticos não se interessam um pelo outro; e, além disso, defender, a partir daí, que o amigo não é útil seria um absurdo completo, embora fosse a consequência mais lógica das premissas! Quereis, para não alucinarmos com nossos próprios discursos disparatados, que demos por consumado de uma vez por todas que o conveniente e o semelhante são, pois, diferentes entre si?”

– Mas quê! Se o bom e conveniente não são senão uma mesma coisa, só o bom pode ser amigo do bom!

– Decerto.

– E creio que já nos cansamos de refutar esta possibilidade, não é assim?

– Sim.

– Então, para quê continuar? Não está claro que não chegaremos a lugar nenhum?

Quando já nos íamos, disse a Lísis e Menexeno que ao que parece passamos por uns patetas e caímos no maior ridículo, eles e eu, naquela reunião anagógica. Velho como já sou, isto é vergonhoso sobretudo para mim! Porque todos os ouvintes de nosso diálogo com certeza dirão: estes três consideram-se amigos – mas não chegaram a nenhuma conclusão sobre o quê é um amigo!

ÍON

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “Íon ou Sobre a Ilíada ou ainda Da poesia é um diálogo de Platão pertencente ao que os escoliastas batizaram de Primeiros diálogos, escritos em sua juventude. Íon trata, por óbvio, do tema da Poesia, mais especificamente acerca da origem do talento do poeta, fenômeno tido por inexplicável.” – A.P.V. Podemos considerar, pois, Platão um dos fundadores do campo da Estética.

(*) “Os rapsodistas ou rapsodos foram, entre os gregos, os primeiros depositários das obras dos grandes poetas como Hesíodo, Homero e Arquíloco. Encaravam como uma profissão formal o popularizar seus versos. Participavam de concursos como as <Olimpíadas dos Poetas> a cada quinqüênio em Epidauro, onde havia um templo consagrado a Asclépio ou Esculápio, curiosamente deidade relacionada à fundação da medicina (a poesia podendo ser interpretada como uma cura d’alma). Não pode se referir este templo a Asclepíades de Samos, poeta e mestre dos epigramas, porque esse é mais jovem inclusive que o próprio Platão.” – P.A.

SÓCRATES – Muitas vezes, meu querido Íon, tive inveja de vós rapsodos, por vossa vocação. Não poderia deixar de produzir inveja esta vantagem que oferece vossa vida, de aparecerdes sempre ricamente vestidos e adornados nos mais esplêndidos saraus, sendo que muito me fascina o fato de que preciseis devotar-vos a um estudo continuado de uma multidão de poetas antigos que atingiram a excelência, principalmente Homero, o maior e mais divino de quantos se possa enumerar. E é fato que não só aprendeis os versos como penetrais em suas profundas significações. Afinal jamais será um bom rapsodo aquele que não tenha conhecimento das palavras do poeta e sua devida conotação. Aqueles que escutam o rapsodo dependem deste intérprete para que entendam o poema. Esta função seria impossível a ignorantes do desejo de expressão do poeta.”

ÍON DE ÉFESO – (…) Nem Metrodoro de Lâmpsaco nem Estesímbroto de Tasos nem Glauco, nem nenhum outro, encontra-se em posição de discursar sobre Homero tantas coisas, e tantas coisas belas, quanto eu.

SÓCRATES – Encantas-me, Íon, tanto mais quanto que não poderás recusar-te agora a me demonstrar tua ciência colossal!”

SÓCRATES – (…) neste momento só quero que tu me digas se tua habilidade se limita à inteligência de Homero ou se se estende igualmente à de Hesíodo e de Arquíloco.

ÍON – De forma alguma, Sócrates. Devoto-me exclusivamente a Homero, e me parece o bastante.

SÓCRATES – Não há certos assuntos sobre os quais Homero e Hesíodo se expressam igualmente?

ÍON – Eu imagino que sim, e isso não deve se dar raramente!

SÓCRATES – Poderias explicar melhor o que diz Homero sobre estes objetos que aquilo que diz Hesíodo?

ÍON – Explicá-los-ia perfeitamente sempre que ambos os poetas falam das mesmas coisas, Sócrates.

SÓCRATES – E nos casos em que não dizem exatamente o mesmo? P.ex., Homero e Hesíodo não discursam sobre a arte divinatória?

ÍON – Em absoluto.

SÓCRATES – Estarias tu em condições de explicar melhor ainda que um adivinho competente o que estes dois poetas disseram, seja de maneira idêntica ou divergente, acerca desta arte tão especial?

ÍON – Não.”

SÓCRATES – (…) Homero fala de coisas estranhas a todos os demais poetas? Não fala sobretudo da guerra, das relações dos homens entre si, dos bons e dos maus, tanto em seus dramas pessoais quanto na política? Não fala ele de como até mesmo os deuses participam da vida humana, ou quando fazem concílios apenas entre iguais? Ou seja, não fala Homero de coisas que se passam na terra, nos céus e nos infernos, não toca a genealogia dos deuses e dos heróis? Não seriam estas as matérias que constituem, basicamente, os poemas de Homero?

ÍON – Tens razão, Sócrates.

SÓCRATES – Mas os demais poetas não tratam dos mesmos assuntos?

ÍON – Evidente, Sócrates, mas não como Homero.

SÓCRATES – Mas por quê? Falam pior?

ÍON – Incomparavelmente pior!

SÓCRATES – E portanto Homero fala melhor?

ÍON – Sim, por óbvio.”

SÓCRATES – Ora, se conheces aqueles que falam bem, deves conhecer aqueles que falam mal.

ÍON – Assim parece.”

SÓCRATES – Não é difícil, meu querido amigo, adivinhar a razão. É evidente que tu não és capaz de falar sobre Homero mediante a arte¹ ou a ciência. Porque se puderas falar de Homero através da arte, estarias habilitado a fazer o mesmo com respeito a todos os poetas. Com efeito, a poesia é uma só e mesma arte, cujo estudo teórico se chama poética. Ou discordas?

ÍON – Jamais.”

¹ Arte neste contexto seria mais bem-traduzido como técnica. O descompasso se deve à concepção grega que tende a igualar o que chamamos de arte (inspiração, como logo veremos) a uma “capacidade de realizar uma obra metodicamente”, significado que se desgastou ao longo dos séculos nos discursos do mundo moderno. Em grego, techne seria provavelmente o vocábulo original. Não traduzi por técnica, o que seria mais condizente, evitando esta nota de rodapé, porque a tradução em espanhol não optou, no séc. XIX, por realizar essa transformação – portanto, é saudável assinalar como há uma certa gradação dos próprios tradutores quanto ao entendimento desta questão (seja hoje, seja antigamente). Ficará bem claro na sequência como meu ponto de vista deverá prevalecer: não devemos entender “arte” na boca de Sócrates como entendemos Arte no sentido moderno (Pintura, Escultura, Poesia, Cinema): para Sócrates, um sapateiro domina a arte de fabricar sapatos, um capitão de navio a arte de pilotar uma embarcação nos mares, etc. Nesse sentido, o rapsodo, para Sócrates, não estava muito distante destes dois. Era um artesão como eles, artesão das palavras e das metáforas e símbolos possíveis graças à complexidade da linguagem e das narrativas dos feitos humanos. É esta diferença, mínima e sutil na cabeça do grego, que muitos acadêmicos ocidentais não conseguem captar, pois para eles – talvez envaidecidos – trata-se de um fosso ou abismo (qualificação técnico-artística X ofício plebeu). Independentemente disso, toda arte envolve, mais ou menos mesclada no processo criativo e espontâneo, algum tipo de técnica, no sentido instrumental, por isso decidi pela manutenção da expressão no diálogo, mas há outros trechos em que é inevitável, como solução, usar literalmente “técnica” (vide adiante).

este título de sábio pertence só a vós os rapsodos, atores, e aos próprios poetas que cunharam pela primeira vez os versos que cantais. Eu, eu não sei mais do que a sinceridade, o que aliás é o que mais convém a homens de pouco talento.”

(*) “Polignoto: era da ilha de Tasos. Os afrescos que pintou em Delfos até pelo menos o ano 395 a.C. atraíam as atenções pelo traçado e pela expressão dos semblantes.” – P.A.

SÓCRATES – Mas como? Em matéria de escultura acaso já viste quem esteja à altura de decidir sobre os méritos das obras de Dédalo, filho de Metion, ou de Epéio, filho de Panopeu, ou de Teodoro de Samos, ou de qualquer outro estatuário, e que se veja, ao mesmo tempo, anestesiado, adormecido, encabulado, sem saber quê dizer, quando o assunto são as obras de escultores menores?

ÍON – Por Zeus, Sócrates, jamais vi um caso destes em toda minha vida!

SÓCRATES – Aposto que também nunca ouviste falar, seja na arte de tocar a flauta ou o alaúde, ou ainda na de acompanhar o canto com o alaúde, ou na rapsódia em geral, nunca ouviste falar, em suma, que alguém estivesse apto, por conhecimento, a julgar de Olimpo, Tâmiras, Orfeu, Fêmio (o rapsodo de Ítaca) e que, ao virar-se para Íon de Éfeso, não soubesse quê dizer, simplesmente, nem mesmo se era bom ou mau rapsodo.

ÍON – Nada tenho a opor a tua tese, Sócrates! Posso assegurar-te, contudo: eu, dentre todos os homens, sou este fenômeno: capaz de falar com mais facilidade e eloqüência de Homero que qualquer um; meus ouvintes estão de acordo comigo. Isso não me impede de ficar absorto e em silêncio, impotente, toda vez que o tema central muda de avatar poético. Diz-me, eu to suplico, ó Sócrates, que tipo de doença é esta!

SÓCRATES – (…) Esse talento que possuis de discursar com excelência sobre Homero não é-te devido à técnica ou à sabedoria, como eu dizia antes, senão que é um não-sei-quê de virtuoso e de divino, uma coisa mágica que te transporta, semelhante à pedra que Eurípides chamou de <magnética>, mas que os outros gregos preferem denominar pedra de Heracléia. Esta pedra não só tem a virtude de atrair os anéis de ferro como comunica-lhes esse mesmo poder, de forma que esses próprios anéis atraídos pela pedra passam a exercer a atração sobre outros anéis mais distantes, facultando a formação de correntes ou cadeias de objetos de ferro, uma verdadeira corrente de anéis suspensa no ar! E todos os anéis magnetizados o são em virtude desta pedra somente. A pedra inspira os anéis. Assim como a Musa inspira os poetas, e estes comunicam sua inspiração divina a outros mais competentes dentre os homens, que entendem e sentem seu entusiasmo, e são capazes de, por sua vez, comunicá-los à gentalha, numa <cadeia dos inspirados>. Não é pela técnica que tu comunicas Homero: é pelo entusiasmo e pela inspiração, cativado que és pelo dom do poeta épico excelente. O mesmo sucede com os poetas líricos. Semelhantes aos coribantes, que não dançam senão quando estão fora de si mesmos, os poetas não estão de sangue frio quando compõem suas preciosas odes. Antes ao contrário: desde o momento que chegam ao tom da harmonia e ao ritmo adequados, entram como que em furor, e se vêem arrastados por um entusiasmo igual ao das bacantes, que em seus movimentos e em sua embriaguez tiram leite e mel dos rios, e cessam de tirá-lo assim que cessa o delírio. Assim é que a alma dos poetas líricos faz realmente o que eles se jactam tanto de praticar.”

o poeta é um ser alado, ligeiro e sagrado, incapaz de produzir enquanto o entusiasmo não o arrebata e o obriga a sair de si”

Um sobressai no ditirambo, outro nos elogios, este nas canções destinadas à dança, aquele nos versos épicos, outro ainda nos jambos, e todos sem exceção são medíocres fora do gênero em que sofrem inspiração, porque é esta e não a técnica a que preside seu trabalho.”

O objetivo que Deus se propõe ao privá-los do sentido, e servir-se deles como ministros, como faz com os profetas e outros adivinhos inspirados, é que, ao ouvi-los nós, tenhamos por estabelecido que não são eles que dizem coisas tão maravilhosas, posto que estão fora de seu senso. São os órgãos da divindade que falam através de suas bocas.”

ÍON – Ó, por Zeus, Sócrates! Teus discursos causam em minh’alma uma profunda impressão, e me parece que os poetas, graças a um favor divino, são diante de nós os intérpretes dos deuses.

SÓCRATES – E vós, os rapsodos, não sois os intérpretes dos poetas?

ÍON – Sim.

SÓCRATES – Logo, sois vós os intérpretes dos intérpretes.

ÍON – Sem contradição.”

SÓCRATES – (…) Não te imaginas estar presente nas ações que recitas, não te imaginas estar em Ítaca ou diante de Tróia, ou seja, no lugar mesmo onde se desenrola a cena?

ÍON – A prova que me demonstras é a suma evidência, Sócrates! Porque, se hei de te falar com a mais pura franqueza, asseguro-te que quando declamo uma passagem patética meus olhos se enchem de lágrimas, e quando recito algum fragmento terrível ou violento fico todo eriçado e palpita meu coração.

SÓCRATES – E então, Íon, diremos que um homem está em seu santo juízo, quando, vestido com trajes de múltiplas cores e levando uma coroa de ouro, chora em meio aos sacrifícios e às festas, ainda que não tenha perdido nenhum de seus adornos, ou quando, em companhia de mais de 20 mil amigos, se o vê dominado pelo terror, apesar de ninguém em absoluto ter concorrido para produzir-lhe qualquer dano?

ÍON – Certamente que não está são este homem, Sócrates!

SÓCRATES – Sabes tu se no momento em que recitas transmites os mesmos sentimentos que sentes à alma dos espectadores?

ÍON – Claro que sim, Sócrates! Das tribunas, onde me situo, vejo-os chorar com freqüência, ou então olhar de modo ameaçador, ou então tremer como eu à narração do que escutam! E necessito estar sempre atento aos movimentos que se produzem na platéia, porque se faço-os chorar, significa que, depois, me porei a rir e receberei o dinheiro; mas se os faço rir, eu é que chorarei ao final, e perderei todo o lucro que esperava obter.

SÓCRATES – Vês agora como o expectador é o último destes anéis que, como eu dizia, recebem uns dos outros a virtude que lhes comunica a pedra de Heracléia? O rapsodo, tal como tu, o ator, é o anel intermediário, e o primeiro anel é o poeta mesmo. Por meio destes anéis o deus atrai a alma dos homens, como deseja, fazendo sua virtude atravessar até o fim da longa corrente, da mesma forma que a propriedade da pedra-ímã. Sustenta-se assim uma comprida linha de coristas, maestros de capela e sub-maestros, sujeitos todos aos anéis que estão mais próximos da Musa, a pedra. Um poeta está ligado a uma Musa, outro poeta a outra Musa diferente, e nós dizemos deste fenômeno que <estão possuídos>, dominados, posto que os poetas não estão a sua própria mercê, mas pertencem neste momento inteiramente à Musa. Estes primeiros anéis se ligam a outros anéis, cada anel a seu anel, conforme profira comédias ou tragédias, ou jambos ou ditirambos. Cada anel tem seu temperamento. Há os anéis de Orfeu, outros consagrados a Museu, mas a maior parte realmente está dedicada a Homero. Tu pertences à classe destes últimos, Íon! Homero te possui. Quando se entoam em tua presença os versos de algum outro poeta, tu ages como o sonâmbulo, pois teu espírito nada te comunica.”

SÓCRATES – Homero não fala das artes em muitas passagens e de forma muito específica? Por exemplo, a arte de conduzir um carro? Se eu mesmo pudesse recordar os versos, tos mencionaria aqui.

ÍON – Eu os sei, vou recitar-tos.

SÓCRATES – Recita-me, pois, as palavras de Nestor a seu filho Antíloco, quando lhe dá conselhos sobre as precauções que deve tomar a fim de evitar tocar a meta na corrida de carros, nos funerais de Pátroclo.

ÍON – Inclina-te, Nestor diz-lhe, bem-preparado, sobre teu carro, à esquerda; ao mesmo tempo, com o chicote e a voz, apura o cavalo da direita, afrouxando-lhe as rédeas; faz com que o cavalo da esquerda se aproxime da linha de chegada, de maneira que o cubo da roda, feito com arte, pareça mesmo tocar nela, porém sem de modo algum fazê-lo.

SÓCRATES – É quanto basta. Quem julgará melhor, Íon, se Homero fala com propriedade ou não nestes versos: um médico ou um cocheiro?

ÍON – O cocheiro, sem pestanejar.

(…)

SÓCRATES – Deus atribuiu a cada arte a faculdade de julgar sobre as matérias que a cada uma correspondam, porque não julgamos mediante a medicina as mesmas coisas que conhecemos pela arte (técnica) da pilotagem.

ÍON – Com certeza não!”

SÓCRATES – (…) não reconheces que as artes diferem umas das outras?

ÍON – Com certeza.

SÓCRATES – Até onde se pode conjeturar sobre a fronteira dessas diferenças posso sem medo dizer que uma é diferente de outra, porque esta é a ciência de um objeto, e aquela a de outro. Pensas como eu?

ÍON – Absolutamente.”

SÓCRATES – (…) julgarás tu melhor que o cocheiro se Homero fala bem ou mal?

ÍON – O cocheiro julgará melhor.

SÓCRATES – Porque tu és rapsodo e não cocheiro.

ÍON – Exato.

SÓCRATES – A arte do rapsodo é distinta da do cocheiro?

ÍON – Claro.

SÓCRATES – Já que o é, tem que ser a ciência de outros objetos que não os da pilotagem de carroças.

ÍON – Concorde.

SÓCRATES – Mas quê, amigo Íon! Quando Homero diz que Hecamede, concubina de Nestor, deu a Macaon, que ferido estava, uma beberagem e assim se expressa: deu-lhe vinho fino, sobre o qual havia raspado queijo de cabra com uma faca de metal, e mesclado-lhe cebola para dar sede, pertence ao médico ou ao rapsodo o julgar se Homero falou de forma correta ou não?

ÍON – À medicina, Sócrates.”

SÓCRATES – (…) Da mesma forma que te mencionei passagens da Odisséia e da Ilíada cujo julgamento pertence, uma parte, aos adivinhos, outra parte aos médicos, outra aos pescadores, etc., diz-me agora, Íon, tu que conheces Homero melhor que eu, os trechos que são mais próprios à rapsódia mesma no que compete ao julgamento e à crítica. Em que trechos de Homero tua técnica sobressai a todos os outros profissionais?

ÍON – Eu te respondo, Sócrates, que todos os trechos de Homero são competência nossa em última instância.

SÓCRATES – Mas Íon, tu disseste o contrário há bem pouco! Como tens uma memória tão ruim?! Não é próprio de um rapsodo ser tão esquecido!

ÍON – Como assim, Sócrates? Que é que eu esqueci?

SÓCRATES – Não te lembras de ter dito que a técnica do rapsodo é distinta da do cocheiro?

ÍON – Claro que me recordo, Sócrates.

SÓCRATES – Não confessaste, então, que, sendo distinta, sua técnica deve se voltar necessariamente a outros objetos?

ÍON – De certa forma.

SÓCRATES – A técnica do rapsodo, segundo o que tu disseste, não conhecerá todas as coisas, como não as conhecerá o rapsodo.

ÍON – Talvez seja preciso excetuar esta classe de objetos, Sócrates.”

ÍON – Conhecerei, creio, os discursos que são colocados na boca dos homens e das mulheres, dos escravos e das pessoas livres, dos que obedecem e dos que mandam.

SÓCRATES – Queres dizer então que o rapsodo saberá melhor que o piloto de que maneira deve falar quem comanda um navio atingido pela tempestade?

ÍON – Não, neste caso o piloto é o mais indicado.

SÓCRATES – O rapsodo saberá melhor que o médico os discursos dos que tratam os doentes?

ÍON – Também não, confesso-o.

SÓCRATES – Então o rapsodo é o mais indicado para julgar os discursos dos escravos?

ÍON – Sim.

SÓCRATES – Por exemplo, pretendes que o rapsodo, e não o vaqueiro, saberá o que é preciso dizer a fim de amansar as bestas quando estiverem irritadas?

ÍON – Não, não.

SÓCRATES – E saberá melhor que um trabalhador de lã o que se refere à lã?

ÍON – Não!

SÓCRATES – Saberá melhor os discursos de um general que tenta animar seus soldados?

ÍON – Sim, eis o que o rapsodo deve conhecer.

SÓCRATES – Mas como?! A arte do rapsodo é igual à arte da guerra?

ÍON – Pelo menos eu sei muito bem como deve falar um general de exército.

SÓCRATES – Talvez, Íon, sejas versado na arte de comandar uma tropa. Com efeito, se foras simultaneamente bom cavaleiro e bom tocador de alaúde, distinguirias tão bem quanto qualquer outro cavaleiro quais cavalos são mais rápidos. Mas se eu te perguntasse através de que arte conheces os cavalos que correm mais rápido, se por ser bom cavaleiro ou por ser bom tocador de alaúde, que me responderias?

ÍON – Te responderia que enquanto bom cavaleiro é que o saberia.

SÓCRATES – Analogamente, se conhecesses o que é bem-tocado no alaúde, confessarias que este discernimento fazias em virtude de ser músico, e não cavaleiro?

ÍON – É evidente.

SÓCRATES – Pois bem: posto que entendes de arte militar, tens este conhecimento enquanto homem bélico ou rapsodo?

ÍON – Isso não é o mais importante, Sócrates.

SÓCRATES – Como é que não importa? A teu ver, a arte do rapsodo é idêntica à da guerra, ou são duas artes distintas?

ÍON – Creio serem a mesma arte.

SÓCRATES – De maneira, então, que o bom rapsodo é também um bom general?

ÍON – Sim.

SÓCRATES – E vice-versa? O bom general será um bom rapsodo?

ÍON – Bom, não nego que aí tens minha discordância.

SÓCRATES – Pelo menos crês que um excelente rapsodo seria com igual probabilidade excelente capitão…

ÍON – Decerto.

SÓCRATES – E não és tu o melhor rapsodo de toda a Grécia?

ÍON – Estou seguro disso.

SÓCRATES – Portanto, tu, Íon, és o melhor capitão de toda a Grécia?

ÍON – Posso afiançar-te, Sócrates! Aprendi a sê-lo por Homero.

SÓCRATES – Em nome dos deuses, Íon! Como, sendo tu o melhor capitão e melhor rapsodo de toda a Grécia, andas de cidade em cidade recitando versos e não estás, ao invés, à frente dos nossos exércitos?! Pensas que os gregos têm grande necessidade de um rapsodo com uma coroa de ouro, e que nada dariam por um grande general?

ÍON – Nossa cidade, Sócrates, está submetida a vossa dominação. Vós atenienses mandais em nossas tropas e não necessitamos de nenhum general, verdadeiramente. Quanto a vossa cidade em si, e a Esparta, em particular, não me elegeriam para conduzir seus exércitos, posto que já vos credes capazes o bastante na matéria.

SÓCRATES – Meu querido Íon, conheces Apolodoro de Cícico?

ÍON – Quem é esse?

SÓCRATES – Aquele que os atenienses já colocaram muitas vezes à cabeça de suas tropas, ainda que seja um estrangeiro. E Fanóstenes de Andros e Heraclides de Clazômenas de igual modo. Porque avaliamos os guerreiros pelo seu mérito, não pela sua nacionalidade. E não escolheriam para mandar em seus exércitos Íon, cumulando-o de glórias? Por que não o crês? Vós efésios não sois atenienses de origem, e Éfeso não é uma colônia que não cede em nada a muitas outras polis? Se dizes a verdade, Íon, se a arte e a ciência que possuis advêm de Homero, então ages mal para comigo, porque depois de te haver exaltado pelas belezas homéricas que conheces e de haver-me prometido fazer-me partícipe destas, vejo agora que me enganas, porque não só não me fazes partícipe destas coisas como tampouco queres confessar-me quais são esses conhecimentos em que tanto sobressais! Semelhante a Proteu, giras em todos os sentidos, metamorfoseias-te e adquires todas as formas imagináveis; diriges teu discurso a fim de livrares-te de minhas demandas. Concluis, pois, por transformar-te em general, para que eu não possa compreender a extensão de tua habilidade e de tua inteligência em Homero! Por último, se é à técnica que deves esta habilidade sem comparação, tendo-te antes comprometido a ensinar-ma ou pelo menos demonstrar-ma, faltas com tua palavra! Logo, és injusto, Íon! Se, ao contrário, não é à técnica senão a uma inspiração divina que se devem seus conhecimentos homéricos, já que tu ficas possuído mesmo sem ter ciência das coisas enquanto as recitas, como eu te disse antes, não tenho eu motivo para queixar-me de ti!”

Pois então, Sócrates, se queres que eleja um ou outro, é muito melhor passar por um homem divino do que por general.”

#off Confunde-me ou devora-me.

MENEXENO

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

(*) “Consiste principalmente num longo discurso fúnebre que satiriza o famoso discurso de Péricles reconstruído por Tucídides em sua História da Guerra do Peloponeso. Essa característica torna o Menexeno único em toda a obra de Platão” – A.P.V.

E quem são seus panegiristas? Homens hábeis, que não se precipitam na hora de elogiar, senão que preparam muito de antemão seus discursos e exprimem-se em termos tão pomposos que, proclamando as qualidades que se tem e até as que não se tem, e ponderando e embelezando as ações por intermédio das palavras, enternecem nossas almas tamanha é a destreza com que celebram, às mil maneiras, à república, aos que morrem na guerra, a nossos antepassados e aos que ainda agora vivem.”

O discurso, o ruído cadenciado dos períodos, preenchem de tal forma meus ouvidos que apenas ao quarto ou quinto dia eu volto a mim e percebo onde é que me acho; é tal a habilidade de nossos oradores que chego a imaginar por breves horas que habito as Ilhas Afortunadas!”

quando se fala para as mesmas pessoas que se tem a incumbência de elogiar não creio que seja lá muito difícil bancar o bom orador.”

Surpreende-me, ó querido Menexeno, que me questiones se sou capaz de fazer uma elegia, eu que aprendi Retórica com uma das mestras mais talentosas,(*) em cujas lições já se formaram tantos e tão célebres oradores, o principal dentre seus alunos sendo Péricles, filho de Xantipo.” (*) “A mais célebre dentre as mais célebres mulheres gregas.¹ Originária de Mileto, Aspásia era filha de Axíoco. Também era cognominada <Hera>, assim como seu aluno mais proeminente, Péricles, se tornou <O Olímpico>. Muito versada em Retórica e Política, parece ser dado real e biográfico que também ensinou Sócrates na juventude.” – P.A.

¹ Mais que Safo?

Ah, e quase me esquecia: e Cono, filho de Metróbio. Foram estes meus dois professores, Cono na Música, Aspásia em Retórica.”

SÓCRATES – Creio que vás troçar de mim, vendo-me, velho como sou, fazer coisas de jovem.

MENEXENO – De forma alguma, Sócrates. Fala sem temor!

SÓCRATES – Pois bem, é benquisto que eu te satisfaça! Se pedisses que eu me despojara de minhas vestes e começasse a dançar, confesso que não estaria longe de satisfazer-te o desejo, uma vez que, de todo modo, a rua se encontra deserta.

DISCURSO DE ASPÁSIA (…)”

A primeira regalia de nascerdes atenienses, pensai, é não serdes estrangeiros.”

Esta é a mãe que merece que rendamos nossas primeiras homenagens, a nossa terra, e render homenagens a ela nada mais é que exaltar a nobre origem destes guerreiros.”

Sabeis que o governo era antigamente o mesmo que o atual, a aristocracia; tal é a forma política sob a qual vivemos, desde sempre. É verdade que uns chamam-na democracia; outros, doutra forma, conforme o gosto de cada qual, mas é com efeito uma aristocracia com consentimento popular. Nunca deixamos de ter reis, fosse por eleição ou sucessão, ou ainda previsão constitucional. Em geral é o povo aquele que possui a autoridade soberana, confere os cargos e o poder aos que crê serem os melhores; a debilidade, a indigência, um nascimento obscuro não são, como noutros Estados, motivos de exclusão, assim como as qualidades contrárias não são motivos obrigatórios de preferência”

Os outros países se compõem de homens de outra estirpe, e assim a desigualdade de raças se reproduz em seus governos despóticos ou oligárquicos. Ali os cidadãos se dividem em escravos e senhores. Nós e os nossos, que somos irmãos e nascidos de uma mãe em comum, não cremos ser nem escravos nem senhores uns dos outros.”

Criam dever combater contra os gregos mesmos pela liberdade de uma só parte da Grécia, e contra os bárbaros em favor da Grécia inteira.”

nosso povo expulsou Eumolpo¹ e as Amazonas que se espalharam sobre nossas planícies, afora outras tribos que se haviam instalado ao longo do território desde tempos antanhos; bem como também socorreu os argivos contra os súditos de Cadmo, bem como aos heráclidas contra os próprios argivos.”

¹ Rei trácio legendário. Conta-se que perdeu a guerra, mesmo sendo descendente de Poseidon; em compensação, os elêusidas, seus aliados na guerra, ganharam o direito, na celebração da paz, de habitarem uma porção da península ática e de celebrarem seus mistérios religiosos, que ficaram conhecidos como Mistérios de Elêusis.

Quando os persas, senhores de toda a Ásia, iniciaram sua marcha para conquistar e escravizar a Europa, nossos pais, os filhos desta terra, os expulsaram. É sumamente justo e nosso primeiro dever fazer desta recordação uma tradição entre nós; e exaltar sem limites o valor destes heróis. Porém, a fim de bem apreciar seu valor, transportemo-nos com a ajuda da imaginação àquela época em que a Ásia obedecia ao seu terceiro imperador. O primeiro, Ciro, depois de libertar os persas com gênio, subjugou os medos, seus ancestrais tiranos, e reinou sobre o restante da Ásia, até as fronteiras com o Egito. Seu filho submeteu o próprio Egito e todos os territórios da África que invadiu. Dario, o neto de Ciro, estendeu ainda mais os limites do império persa até a Cítia, graças à coragem de sua infantaria e de sua marinha; assim este tirano tornou-se senhor dos mares e das ilhas ao alcance das vistas. Nada era brioso e temerário a ponto de resistir a um ataque deste rei; os povos vencidos eram escravizados e o jugo dos persas se fazia sentir sobre as mais poderosas e belicosas nações.”

Os vencedores de Maratona ensinaram os gregos que um punhado de homens livres basta para expulsar por terra uma multidão de bárbaros, embora ainda não estivesse provado que isso poderia ser feito por mar. Nesse ínterim, os persas tinham fama de invencíveis nessa frente, pois sua frota dominava o oceano, seus soldados eram em maior número, suas riquezas eram mais amplas, sua habilidade e seu valor, inquestionáveis. Merecem, pois, nossos sumos elogios estes bravos marinheiros que por fim livraram os gregos do terror que inspirava a esquadra persa. Dentro em pouco os navios persas passaram a ser alvos de ridículo tanto quanto seus soldados de terra, inferiores a nós.”

A terceira façanha da independência grega, tanto cronologicamente quanto em importância, foi a batalha de Platéia, a primeira cuja glória foi dividida entre espartanos e atenienses. A conjuntura era crítica, o perigo iminente, e o triunfo foi completo.”

primeiro despertou a inveja; depois da inveja veio o ódio; e Atenas se viu necessitada, apesar de todos os seus méritos, a voltar as armas contra os próprios gregos. Começada a nova guerra, combateu em Tanagra contra os espartanos pela liberdade dos beócios. Esta primeira ação não obteve êxito, mas uma segunda foi decisiva, porque os demais aliados dos beócios os abandonaram e se retiram; porém, os outros aliados de Atenas, após vencerem a batalha de Oinófita, no terceiro dia, puderam deslocar suas tropas e favoreceram, no último momento, nossa causa. Os beócios, injustamente desterrados pelos espartanos, foram devolvidos a sua pátria.”

todos os gregos invadiram e arrasaram a Ática, e pagaram Atenas com tremenda ingratidão todos os seus feitos anteriores. Ainda assim, fomos capazes de vencê-los, graças a nossa superioridade marítima.”

Os espartanos, ao invés de matar os prisioneiros atenienses, os livraram e devolveram, concluindo assim a paz. Cria este povo eminentemente guerreiro que no caso dos bárbaros era preciso promover uma guerra de extermínio incondicional, mas que, tratando-se de homens de uma origem comum, só se devia combater até ficar clara a vitória de um dos lados. Porque não era justo que por um ressentimento particular de uma cidade contra outra se arruinasse todo o país, isto é, a Grécia.”

Se alguém pudesse supor que houve na guerra contra os bárbaros povo mais valente ou mais hábil que os atenienses, o que relatei, e as lápides destes heróis testemunham por mim, acabaríamos de comprovar-lhe que esta seria uma falsa suposição. Em meio a tantas secessões entre os gregos, os atenienses mantiveram-se superiores, triunfando nas batalhas contra cidades de mais renome guerreiro do que nós. E quase sempre Atenas venceu sozinha, sem contar com tropas aliadas estrangeiras. Mas quando a luta era contra os bárbaros, Atenas se unia a seus rivais gregos, e então conseguiam repeli-los. Depois desta última paz, uma terceira guerra eclodiu, tão terrível quanto inesperada.”

Uma vez asseguradas a paz e a tranqüilidade exteriores, nos entregamos a dissensões intestinas; e estas foram tais que, se a discórdia for mesmo uma lei inevitável do destino, não estaria fora dos desejos de cada indivíduo que seu país jamais experimentasse semelhantes turbações.”

somos de origem puramente grega e sem mescla com eles. Entre nós não há nada de Pélops, nem de Cadmo, nem do Egito, nem de Dánao, nem de tantos outros verdadeiros bárbaros de origem, gregos tão-só na lei adotada. O sangue grego puro corre por nossas veias sem qualquer mistura de sangue bárbaro, e disso decorre o incorruptível ódio que se inocula nas próprias entranhas da república que sentimos por tudo que provém do estrangeiro. Vimo-nos, pois, abandonados mais uma vez, tudo por não termos desejado cometer a vergonhosa e ímpia ação de entregar os demais gregos aos bárbaros! (…) ao celebrar-se a paz, conservamos nossa frota, nossos muros e nossas colônias; tão ansioso estava o inimigo em evadir a guerra” (*) “A paz de Antálcidas teve lugar 3 anos depois da morte de Sócrates. Este anacronismo não prova nada contra a autenticidade do Menexeno, já que, segundo Victor Cousin, encontram-se outros tantos em diálogos incontestavelmente platônicos.” – P.A. / “Paz ignominiosa do espartano Antálcidas com Artaxerxes II.” – A.P.V.

Tracei-vos as ações dos que aqui repousam debaixo da terra, que se sacrificaram por sua e por vossa pátria.”

Filhos, tudo quanto vos rodeia fala da nobreza do sangue de que descendeis. Pudéramos sobreviver sem honra, mas preferimos uma morta honrosa no lugar de condenar à infâmia vossos nomes e nossa posteridade!”

As riquezas não lustram a vida de nenhum homem despido de valor inerente; rico para os demais, pode sê-lo; mas nunca para si próprio. A força e a beleza do corpo não têm nenhum mérito no homem tímido e sem coração. São prendas impróprias que o põem cada vez mais em evidência, ou seja, evidenciam cada vez mais sua covardia. O próprio talento, separado da justiça e da virtude, nada mais é que uma habilidade desprezível, longe da sabedoria.”

não abuseis da glória de vossos pais, não a dissipeis, e sabei que nada é mais lastimável a um homem, um homem que tenha alguma noção de que é homem, que apresentar-se com nomes e títulos de que espera de contínuo a estima, e não advinda dos próprios méritos. Pensais que alguém é homem só por ser neto de gloriosos avós?!? A glória dos pais é, sem dúvida, o bem mais belo para seus descendentes, mas gozar deste sem a capacidade de transmiti-lo a seus próprios rebentos, e sem acrescentar a esta glória nada de si mesmo, é o cúmulo da abjeção.”

Sempre se considerou este aforismo sábio: nada em demasia; e ele contém muitos sentidos. O homem que não depende dos outros nem confia exclusivamente na sorte ou no azar para se tornar imortal tem todas as condições de se tornar um sábio e modelo de homem firme e prudente. Que a sorte lhe dê riquezas e filhos ou que as retire é o mais indiferente; mas se segue o sábio o preceito mencionado e consagrado pelas eras, excesso de alegria e excesso de pesar ser-lhe-ão igualmente estranhos; só em si mesmo e de si mesmo ele extrairá a confiança de que necessita.”

* * *

SÓCRATES – Eis aqui, ó Menexeno, a oração fúnebre de Aspásia de Mileto!

MENEXENO – Por Zeus, Sócrates! Bem-afortunada é Aspásia, se na qualidade de mulher é capaz de compor tão belos discursos!”

CÁRMIDES OU DA SABEDORIA

Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”

 

Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.

 

(*) “O Cármides é um diálogo de Platão em que Sócrates é introduzido ao jovem Cármides e continua a conversação com Crítias – o tema é o sentido de sophrosyne, palavra grega para <temperança>, <prudência>, <autocontrole>, <restrição>, havendo sido traduzida pelo escólio como sabedoria. Como é habitual nos diálogos platônicos de juventude, os contendores não chegam a uma definição satisfatória, mas ao menos promovem, através do método maiêutico, a uma profunda reflexão.” – A.P.V.

“-…quem vem vindo é Cármides, filho de meu tio Glauco e portanto meu primo.

– Sim, por Zeus! Noutro tempo, ainda que muito jovem, já não parecia mal; hoje deve ser um bem-formado adulto!

– Já, já poderás julgar de seu talhe e disposição.

            Enquanto pronunciava essas palavras, Cármides entrou.

– Não é a mim, querido amigo, a quem é preciso consultar para esta avaliação. Se devo ser sincero, sou a pior pedra-de-toque em matéria de beleza dos jovens; porque na idade em que está nem um só me parece menos que formoso.

Sem dúvida me pareceu admirável por suas proporções e figura, e adverti também que todos os demais jovens encontravam-se como que apaixonados por ele, como assinalavam sua turbação e emoção, que lhes notei no rosto assim que Cármides entrou. Entre os que o seguiam, contemplei mais de um erastes. Que o seguinte sucedera a homens como nós, mais velhos, nada de espantoso: mas observei que entre os jovens não havia um que nele não fixasse os olhos, e não falo só dos mais jovens dentre eles, mas de todos do local – Cármides era contemplado como um ídolo. Querefonte, interpelando-me, disse:

– E então, Sócrates, que nos dizes? Não tem uma bela fisionomia?

– Ó, sim.

– E no entanto, se se despojasse de suas vestes, não te fixarias no seu corpo, sete conheço. Ah, tão belas suas formas!…

Todos subscreveram as palavras de Querefonte.

– Por Hércules! Falais-me de um homem irresistível se, evidente, em acréscimo a todos estes dotes possui um atributo bem pequeno.

– E qual é?

– Que a natureza tenha-o tratado com a mesma generosidade quanto a sua alma; creio que assim será, posto que o jovem pertence a tua família.”

“- E que motivos teríamos para não pôr primeiro em evidência sua alma, e não a contemplaremos antes que a seu corpo? Na idade em que se acha, está já em posição de sustentar dignamente uma conversa?

– Perfeitamente – respondeu Crítias. – Já nasceu filósofo. E se podemos crer nele mesmo e naqueles que o cercam, é também um poeta.

– Talento que, vejo, é-lhes hereditário, meu querido Crítias. Devei-lo sem dúvida a vosso parentesco com Sólon! Mas que tanto esperas para me introduzir a este jovem promissor? Ainda que fôra mais jovem do que é, nenhum inconveniente teria em conversar conosco diante de ti, seu primo e tutor.

– Nada mais justo, Sócrates. Iremos chamá-lo.”

“- Cármides se queixa de que há algum tempo lhe pesa e lhe dói sua cabeça, sobretudo quando acaba de acordar. Que inconveniente há em indicá-lo, pois sei que conheces, um bom remédio para este mal?”

“Assim sucedeu, com efeito. Cármides veio a nós e deu ocasião a uma cena bastante divertida. Cada um de nós, todos sentados num mesmo banco, empurrou seu vizinho, espremendo-se a fim de dar lugar a nosso conviva, para que se sentasse a seu lado. Em resultado, cada um empurrando seu próximo, os dois que estavam nas extremidades do assento, um deles teve de se levantar de golpe, e o outro caiu de bunda no chão. Não obstante, Cármides adiantou-se e sentou entre Crítias e eu mesmo. Mas então, ó amigo, me senti um tanto turbado e perdi repentinamente aquela serenidade que conservara antes, com a qual contava a fim de conversar sem esforço com o jovem. Depois, Crítias fez questão de cortar o embaraço relatando que eu era aquele que sabia de um bom remédio para suas dores de cabeça. Ele se voltou para mim com o olhar interrogativo e perscrutador, um gesto que me é impossível descrever o suficiente. Todos que estavam na academia se apressaram para sentar em círculo a nossa volta. Neste momento, meu querido, minha vista penetrou as dobras de sua túnica; meus sentidos se excitaram, e em meu transporte compreendi até que ponto Cídias é inteligente nessas coisas do amor: uma vez, falando da beleza de um jovem, com um terceiro, disse: Ó, inocente gamo, vê se não te vais apresentar à boca do leão, se não desejas ser despedaçado!

“Respondi que meu remédio consistia em certa erva, mas que era preciso acrescentar certas palavras mágicas; que pronunciando as palavras e tomando o remédio ao mesmo tempo recobraria inteiramente a saúde; mas que as ervas sem as palavras não surtiriam qualquer efeito. Cármides me respondeu:

– Vou, pois, escrever as palavras de teu encanto para não as esquecer.

– Dir-tas-ei a uma petição tua ou sem precisar de uma?

– Ao meu rogo, Sócrates – respondeu o jovem espirituoso, a rir.

– Que assim seja. Mas sabes meu nome?

– Seria vergonhoso se o ignorasse; no círculo de jovens és tu quase o principal tema de nossas conversas. Quanto a mim, recordo vivamente tê-lo visto, ainda muito criança, muitas vezes, em companhia de meu querido Crítias.

“SÓCRATES – (…) O poder deste remédio é tal que não cura somente as dores de cabeça. Já deves ter ouvido falar de médicos hábeis. Se são consultados por alguém com doenças oculares, dizem que não podem empreender a cura dos olhos sem estender o tratamento à cabeça inteira. Analogamente, não se pode curar a cabeça desprezando o restante do corpo. Seria uma tolice. Seguindo este raciocínio, tratam o corpo inteiro e se esforçam por cuidar do paciente e sanar a parte juntamente com o todo. Não crês tu que é assim como falam e como realmente acontece?

CÁRMIDES – Não duvido.

SÓCRATES – E tu aprovas este método?

CÁRMIDES – Como não?”

Zamolxis,(*)¹ nosso rei, e por conseguinte um deus, defende que não se deve tentar efetuar a cura dos olhos sem a cura da cabeça, nem a da cabeça sem a do corpo; e tampouco deve-se tratar o corpo sem tratar a alma; se muitas doenças resistem aos esforços dos médicos gregos, isto vem de que desconhecem este sistema. Pois indo mal o todo, seria impossível que fosse bem a parte.

(…)

Trata-se da alma valendo-se de algumas palavras mágicas. Estas palavras mágicas são os belos discursos. Graças a eles, a sabedoria se enraíza nas almas e, uma vez arraigada e viva, nada mais fácil que se procurar a saúde à cabeça e a todo o corpo.”

(*) “Referem Zamolxis como escravo de Pitágoras que obteve sua liberdade, viveu três anos num subterrâneo [!!] e de lá saiu para fazer-se grande legislador, além de filósofo que ensinava sobre a imortalidade da alma. (Heródoto, 4:95)” – P.A.

“Talvez tenha sido discípulo e não escravo de Pitágoras. Seu nome possui diferentes grafias, conforme a fonte apurada. Zalmoxis, Salmoxis, Zamolxis, Samolxis. É hoje tido mais como figura lendária, reformador social e religioso, endeusado pelos trácios da Dácia e pelos getas (povos do baixo Danúbio). Ainda com referência a Heród. 4:95-ss., os getas tinham a crença de que ao morrerem se reuniam com Zamolxis.” – A.P.V.

¹ Para uma interpretação moderna do mito de Zamolxis ou Zalmoxis, vd. Mircea Eliade.

“- Cármides me parece superior aos jovens de sua idade, não só pela beleza de suas formas, mas também por essa coisa mesma pela que tu aprendeste e que contém referências a essas <palavras mágicas>. Afinal, o que queres dizer é que discutamos sobre a sabedoria, não é verdade?

– Exatamente.”

“Anacreonte, Sólon e os demais poetas foram infatigavelmente celebrados pela família de teu pai que se liga a Crítias, filho de Drópidas. Tua família é famosa por sobressair na beleza e na virtude de suas gerações, afora todas as demais vantagens que constituem a felicidade. (…) Jamais se conheceu no continente um homem mais belo nem mais excelente que teu tio Pirilampo, embaixador de reis e príncipes diversos. (…) Pois bem: com tais antepassados, tu não podes menos que ser o melhor em tudo.”

“se és suficientemente sábio, nada tens que ver com as palavras mágicas de Zamolxis ou de Ábaris, o Hiperbóreo¹ (…) A ti, te toca unicamente dizer-me se concordas com a opinião de Crítias, se crês que tua sabedoria é completa, ou ainda incompleta.”

¹ Outra figura “excêntrica” relatada pelo historiador Heródoto. Digamos que personagem folclórica, posto que ali se diz que voava pelos céus.

“Cármides se ruborizou, e com isso pareceu ainda mais belo, porque a modéstia quadra bem com sua idade juvenil. Depois, ao recobrar-se, disse, não sem certa dignidade, que não lhe era fácil responder de chofre <sim> ou <não> a semelhante pergunta.

– Porque se nego que sou sábio, acuso-me a mim mesmo, o que não é razoável; e assim fazendo emito um desmentido às palavras de Crítias e tantos outros, que tanto me exaltam, ao que parece. Mas, na mão contrária, se faço-me eu mesmo meu próprio elogio, não me ponho em situação menos inconveniente. Simplesmente não sei o que responder-te!”

“SÓCRATES – Para que saibamos se a sabedoria reside ou não em ti, diz-nos: que é a sabedoria em tua opinião?

“Sócrates, a sabedoria parece consistir, para mim, em fazer todas as coisas com moderação e medida; andar, falar e agir em tudo dessa maneira; numa palavra, a sabedoria seria uma certa medida.”

“SÓCRATES – Diz-se por aí, querido Cármides, que os que procedem com medida são sábios. Mas há razão nessa sentença?”

“SÓCRATES – E que é mais belo para um mestre de escola, escrever agilmente ou com medida?

CÁRMIDES – Agilmente.

SÓCRATES – Ler rápido ou devagar?

CÁRMIDES – Rápido.

SÓCRATES – E tocar a lira com desenvoltura e lutar com agilidade não é mais belo que fazer todas essas coisas com mesura e lentidão?

CÁRMIDES – Sim.

SÓCRATES – E então? No pugilato e nos combates de todo gênero, não é sempre assim?

CÁRMIDES – Absolutamente.”

“SÓCRATES – É a sabedoria bela?

CÁRMIDES – Sim.

SÓCRATES – Logo, pelo menos no que concerne ao corpo, não é a mesura ou a medida, mas a velocidade a que constitui a sabedoria, posto que a sabedoria é uma coisa bela.”

“CÁRMIDES – Me parece que o próprio da sabedoria é produzir o rubor, fazer o homem modesto e timorato; a sabedoria seria, então, o pudor.

SÓCRATES – Que seja, então. Não confessaste antes que a sabedoria era uma coisa bela?

CÁRMIDES – Sim.

SÓCRATES – E os homens sábios são igualmente bons?”

“a sabedoria consiste em fazer o que nos é próprio.”

“SÓCRATES – Ó, pícaro! Foi Crítias ou algum outro filósofo que te sugeriu esta idéia?”

“se descobrirmos o que isto significa, não me surpreenderei pouco; é um verdadeiro enigma!”

“CÁRMIDES – Eu não sei de nada, por Zeus! Mas não seria impossível que quem falou desta forma se compreendesse a si próprio.

            Ao dizer isso, Cármides me sorria e dirigia o olhar a Crítias, que se encontrava visivelmente vermelho já há um tempo. (…) Percebi que jamais me enganara: Crítias era o autor da última resposta que me deu Cármides acerca da definição de sabedoria.”

“não menos colérico contra o jovem que um poeta contra o ator que desempenha mal seu papel”

“Trabalhar com vistas ao belo e ao útil, eis aqui o que se chama ocupar-se; e os trabalhos deste gênero são para Hesíodo ocupações e o autêntico agir.”

“SÓCRATES – (…) Que assim seja. Dá às palavras o sentido que mais te agrade; basta-me que as definas simultaneamente a seu emprego. (…) Fazer o bem ou trabalhar por ele, ou como queiras chamá-lo, é isso que tu chamas sabedoria?”

CRÍTIAS – Não pestanejo, Sócrates.

SÓCRATES – Sábio é aquele que faz o bem, não o que faz o mal?

CRÍTIAS – Tu mesmo, querido amigo, não és deste parecer?

SÓCRATES – Não importa; o que temos que examinar não é o que eu penso, mas o que tu dizes.

CRÍTIAS – Pois bem; o que não faz o bem mas o mal, declaro que não é sábio; o que não faz o mal, mas o bem, este eu declaro sábio. (…)

SÓCRATES – Poderá suceder que tenhas razão. Não obstante, uma coisa me chama a atenção, e é que admites que um homem possa ser sábio e não saber que o é.

CRÍTIAS – Não há nada disso, Sócrates. Não o admito.”

“CRÍTIAS – Não, Sócrates, isto não é possível. Se crês que minhas palavras conduzem necessariamente a esta conseqüência, prefiro retirá-las. Prefiro antes confessar sem nenhum constrangimento que me expressei inexatamente, a conceder que se possa ser sábio sem conhecer-se a si mesmo. Não estou distante de definir a sabedoria como o conhecimento de si mesmo, e de fato sou da mesma opinião daquele que gravou no templo de Delfos uma inscrição deste gênero: Conhece-te a ti mesmo. Esta inscrição é, a meu ver, um cumprimento que o deus dirige aos que entram, em vez de ser uma fórmula ordinária, conforme muitos, tal qual <Sê feliz!>. Creio que o deus julgou que uma mensagem mais direta como esta última não seria conveniente, e que aos homens deve-se desejar não a felicidade, mas a sabedoria. Eis aqui em que termos tão distintos dos nossos fala o deus aos que entram em seu templo, e eu compreendo bem o pensamento do autor da inscrição (…) linguagem um pouco enigmática, sim, como a do adivinho. ‘Conhece-te a ti mesmo’ e ‘sê sábio’ são a mesma coisa, pelo menos é o sentido da inscrição e o meu. Há outros homens que gravaram inscrições mais recentes nos templos, inscrições bem mais simplórias: Nada em demasia; dá-te em caução e não estarás longe da ruína, etc. Isso é coisa de gente que tomou a sentença conhece-te a ti mesmo por uma simples afirmação, digo, conselho, e não pelos cumprimentos do deus aos que ali entravam. (…) Ora, Sócrates, quiçá estejas certo ao final, quiçá eu o esteja. Em todo caso, nada de sólido firmamos aqui.”

“A sabedoria não é semelhante às outras ciências; estas não são semelhantes entre si, e tu supões em teu raciocínio que todas se parecem”

“SÓCRATES – E a estática é a ciência do pesado e do leve; o pesado e o leve diferem da estática mesma. Não crês?

CRÍTICAS – Sim.

SÓCRATES – Pois bem; diz-me: qual é o objeto da ciência da sabedoria, que seja distinto da sabedoria ela mesma?”

“CRÍTIAS – (…) Esta semelhança não existe. Enquanto todas as demais ciências são ciências de um objeto particular e não do todo delas próprias, só a sabedoria é a ciência de outras ciências e de si mesma. (…) propões-te apenas a me combater e refutar, Sócrates, sem fixares-te na essência da questão.

SÓCRATES – Mas como, Crítias? Podes crer que se eu te pressiono com minhas perguntas seja por outro motivo além de que assim eu me obrigaria a dirigir-me a mim próprio a fim de examinar minhas palavras? Quero dizer, o temor de me enganar a respeito das coisas pensando saber e na verdade constatar que não sei não é aquilo que sempre me moveu e continua a me mover?”

“Ânimo, amigo! Responde a minhas perguntas, segundo teu próprio juízo, sem inquietar-te se é Crítias ou Sócrates aquele que leva a melhor ao final. Aplica todo teu espírito no objeto que nos ocupa agora, e que seja uma só coisa tua preocupação: a conclusão a que nos conduzirão nossos próprios esforços.”

“CRÍTIAS – Penso que, única entre todas as demais ciências, a sabedoria é a ciência de si mesma e de todas as demais ciências.

SÓCRATES – Logo, será também a ciência da ignorância, se o é da ciência?

CRÍTIAS – Sem dúvida.

SÓCRATES – Portanto, só o sábio se conhecerá a si mesmo, e estará em posição de julgar daquilo que sabe e daquilo que não sabe. De igual modo, só o sábio é capaz de reconhecer, quanto aos demais, o quê cada um sabe crendo sabê-lo, assim como o quê cada um crê saber, sem contudo saber. Nenhum outro pode fazer esse juízo. Numa palavra, ser sábio, a sabedoria, o conhecimento de si mesmo, tudo isso se reduz a saber o quê se sabe e o quê não se sabe. Não pensas tu idem?

CRÍTIAS –  Em absoluto.”

“SÓCRATES – (…) examinemos (…) primeiro se é possível ou não saber que uma pessoa sabe o quê sabe e não sabe o quê não sabe. Em segundo, supondo isto possível, que utilidade pode resultar este saber?

“Concebes uma vista que não visse nenhuma das coisas que vêem as demais vistas, mas que seja a vista de si mesma e das demais vistas, e até do que não é visto? Concebes uma vista que não visse a cor, apesar de ser vista, mas que se visse ela mesma e as demais vistas? Crês que semelhante vista existe?

CRÍTIAS – Por Zeus, Sócrates, claro que não!

SÓCRATES – Concebes um ouvido que não ouvisse nenhuma voz, mas que se ouvisse a si mesmo e aos outros ouvidos, e até ao que não é ouvido?

CRÍTICAS – Tampouco.

SÓCRATES – Considerando todos os sentidos de uma só vez, parece-te possível que haja um que seja o sentido de si mesmo e dos outros sentidos, mas que não sinta nada do que os outros sentidos sentem?

“Por conseguinte, uma coisa seria ao mesmo tempo maior que si mesma e menor que si mesma; mais pesada e mais leve; mais velha e mais nova, e assim com todo o demais. Não é indispensável que a coisa, que possui a propriedade de referir-se a si mesma, possua ademais a qualidade a que tem a propriedade de se referir?”

“Seria possível uma ciência da ciência? Eu sou incapaz de afirmá-lo; e ainda que a haja, eu de minha parte não poderia admitir que esta ciência seja a sabedoria antes de haver examinado se, isto pressuposto, tal conhecimento nos seria útil ou não; porque me atrevo a declamar que a sabedoria é uma coisa boa e útil. Mas tu, filho de Calescro, que estabeleceste que a sabedoria é a ciência da ciência e igualmente da ignorância, prova-me, antes de qualquer coisa, que isto é possível”

“Crítias, como aqueles que bocejam ao ver alguém bocejar, pareceu-me tão desconcertado quanto eu. Habituado ele a se ver coberto de elogios, constrangia-se à mera olhada dos circunstantes; teimava em não confessar ser incapaz de esclarecer as questões que eu formulei, falava, falava, e nada dizia – apenas disfarçava sua impotência aos menos perspicazes. Eu, que não queria abortar a discussão, me interpus novamente:”

“SÓCRATES – (…) Sem dúvida, se alguém possui aquilo que conhece a si mesmo, reconhecerá, logicamente, também a si mesmo. Mas o que interessa saber é se quem possui esta ciência deve necessariamente saber o quê sabe e também aquilo que não sabe!

CRÍTIAS – Sem dúvida, Sócrates, porque trata-se da mesma coisa.”

“É através da medicina que conhecemos o que é são, não através da sabedoria; e através da música, o que é harmonioso (não através da sabedoria); através da arquitetura, o que é necessário para se construir (não da sabedoria). Concorda que é assim sucessivamente com todas as demais artes e ciências?”

“Logo, a sabedoria e o ser sábio consistem não em saber o quê se sabe e o que não se sabe, mas unicamente em saber que se sabe e (outrossim) que não se sabe.”

“Logo, a sabedoria não nos põe em posição de reconhecer no outro, que alega sempre saber alguma coisa, se este outro sabe o quê diz saber, ou se porventura não o sabe de verdade. Toda a virtude da verdadeira sabedoria (a ciência das ciências) se limita a nos ensinar que possuímos uma certa ciência.¹ Qual é a matéria desta ciência, não é a ciência das ciências quem nos dirá.”

¹ Maior que zero, menor que tudo.

“O médico não sabe nada sobre a medicina, pois a medicina é sabedoria de saudável e do doente, não de si mesma. O sábio reconhecerá que o médico possui uma sabedoria; mas que sabedoria é essa, só se o pode saber com referência aos objetos da medicina.”

“Afora o médico, ninguém é competente para isso, nem o próprio sábio, aliás, muito menos ele. Não fosse assim, teríamos um médico-sábio, ou um sábio-médico, figura quimérica.”

“E bem, querido Crítias, reduzida a sabedoria a estes termos, qual pode ser sua utilidade? Ah! Se, como supomos de início, o sábio soubesse o quê sabe e o quê não sabe; se soubesse que sabe certas coisas e não sabe outras certas coisas… Se pudesse, além disso, julgar aos demais homens quanto ao que ele julga na própria pessoa, aí então, eu o declaro, ser-nos-ia INFINITAMENTE ÚTIL o sermos sábios! Passaríamos a vida, inclusive, isentos de falha enquanto possuíssemos a sabedoria, e o mesmo se aplicaria a quem agisse conforme nossas prescrições.”

“Talvez que o objeto de nossa indagação seja absolutamente inútil! O que me faz ter esses pressentimentos acerca da sabedoria (a que definimos) são coisas que me vêm ao espírito. (…) Creio que excedo meus poderes. Mas quê importa? Quando algo se nos coça cá no espírito não há remédio senão examinar esta coisa! Não deixeis que escape ao acaso, por pouco amor que tenhas por ti mesmo!”

“ao vivermos em prol da sabedoria, viveremos por isso melhor e mais felizes?”

“SÓCRATES – (…) me parece que só tomas por felizes aqueles que vivem segundo certas sabedorias. Talvez só concedas este privilégio ao que designei previamente, isto é, àquele que sabe tudo o quê deve suceder: falo do adivinho.

CRÍTIAS – Não só a esse sábio, Sócrates.

SÓCRATES – Quais outros então? Poderias estar falando daquele que une o conhecimento do futuro, do passado e do presente? Suponho que um tal homem existe. Creio que confessarás que nenhum outro que não este pode viver segundo a sabedoria.

CRÍTIAS – Confesso.

SÓCRATES – Mais uma pergunta: Qual destas ciências é a que faz este homem feliz? Ou são todas de uma vez, cada uma em sua proporção?

CRÍTIAS – Nada disso.

SÓCRATES – Então, qual é a ciência que eleges? A dos acontecimentos passados, presentes e futuros? A do xadrez?

CRÍTIAS – Ah, a do jogo de xadrez!! Que absurdo!

SÓCRATES – A dos números?

CRÍTIAS – Essa também não.

SÓCRATES – A do que é saudável?

CRÍTIAS – Hm, talvez.

SÓCRATES – Mas diz de uma vez, qual é a ciência que mais contribui para a felicidade do sábio?

CRÍTIAS – A ciência do bem e do mal.

SÓCRATES – Ah, pícaro! Depois de tanto caminharmos faz-me agora rodar em círculos!”

“E esta ciência, me parece, não é a sabedoria, senão aquela cujo objeto é o ser útil;¹ porque não é a ciência da ciência e da ignorância, mas a do bem e do mal.”

¹ No fundo, a ética é a mais importante das sabedorias, mas é também a mais difícil.

“Supusemos, pois, que existe uma ciência da ciência, apesar de que a razão não permite nem autoriza semelhante concepção. Depois, admitimos que esta ciência conhece os objetos das outras ciências, e isso é contrário à razão! Desejaríamos que o sábio pudera saber que ele sabe o quê sabe e o quê não sabe. Na verdade fomos generosos em excesso fazendo esta última concessão, uma vez que consideramos, neste exercício, que é possível saber, de certa maneira, o que absolutamente não se sabe. Admitimos, por fim, que ele sabe e que ele não sabe, ao mesmo tempo – o que é o mais irracional que se possa imaginar. (…) qualquer que seja a definição da sabedoria que tenhamos inventado, de comum acordo, essa ou aquela definição sempre nos fez ver, com naturalidade, que nenhuma delas pode ser-nos útil.”

“ao fim, amigo Cármides, ressinto ter aprendido com tanto afã as palavras mágicas daquele trácio, para concluir que nenhum valor possuem. Mas não, não posso crer que assim seja, e é mais adequado pensar que eu é que não sei buscar a verdade! A sabedoria é, sem dúvida, um grande bem; e se tu a possuis, és um mortal feliz. Mas examina atentamente se a possuis verdadeiramente, a fim de que não necessites de palavras mágicas”

“CRÍTIAS – A maior prova que podes dar-me de tua sabedoria, meu querido Cármides, é entregar-te aos encantos de Sócrates e não afastar-te dele nem um só minuto.

CÁRMIDES – Estarei sempre com ele, seguirei seus passos; porque eu me tornaria um réprobo ao não te obedecer, ó tio, tu que és meu tutor.”

“SÓCRATES – Ah, e que é que vós dois tramais agora?

CRÍTIAS – Absolutamente nada, Sócrates. Só isto: que tens-nos as tuas ordens.

SÓCRATES – Como?! Empregais então a força, sem deixar-me a liberdade da escolha?!”