Estou cada vez mais convencido de que este livro não passa de um rascunho com anotações desordenadas de um imaturo (ou senil?) Aristóteles, que estava destinado a aprimorar sua obra, mas foi interrompido por um “erro divino” e teve de abandonar seu projeto ou, pois não!, já agonizava na demência e nem que vivesse mais 10 anos poderia dar forma e estilo ao que essencialmente não tem conteúdo nem originalidade algumas (conforme veremos, reiteradamente)…
“A natureza, com efeito, não age com parcimônia, como os artesãos de Delfos que forjam suas facas para vários fins; fins; ela destina cada coisa a um uso especial (…) Somente entre os bárbaros a mulher e o escravo estão no mesmo nível. (…) Foi isso que fez com que o poeta acreditasse que os gregos tinham, de direito, poder sobre os bárbaros, como se, na natureza, bárbaros e escravos se confundissem.” “O poeta Hesíodo tinha razão ao dizer que era preciso antes de tudo A casa, e depois a mulher e o boi lavrador, já que o boi desempenha o papel do escravo entre os pobres.”
“todos os homens que antigamente viveram e ainda vivem sob reis dizem que os deuses vivem da mesma maneira, atribuindo-lhes o governo das sociedades humanas, já que os imaginam sob a forma do homem.”
“Bastar-se a si mesma é uma meta a que tende toda a produção da natureza e é também o mais perfeito estado. É, portanto, evidente que toda cidade está na natureza e que o homem é naturalmente feito para a sociedade política. Aquele que, por sua natureza e não por obra do acaso, existisse sem nenhuma pátria seria um indivíduo detestável, muito acima ou muito abaixo do homem, segundo Homero(*)”
“Assim, o homem é um animal cívico, mais social do que as abelhas e os outros animais que vivem juntos.”
“O Estado, ou sociedade política, é até mesmo o primeiro objeto a que se propôs a natureza. O todo existe necessariamente antes da parte. As sociedades domésticas e os indivíduos não são senão as partes integrantes da cidade, todas subordinadas ao corpo inteiro, todas distintas por seus poderes e suas funções, e todas inúteis quando desarticuladas, semelhantes às mãos e aos pés que, uma vez separados do corpo, só conservam o nome e a aparência, sem a realidade, como uma mão de pedra. O mesmo ocorre com os membros da cidade: nenhum pode bastar-se a si mesmo. (*)Aquele que não precisa dos outros homens, ou não pode resolver-se a ficar com eles, ou é um deus, ou um bruto.”
“Por si mesmas, as armas e a força são indiferentes ao bem e ao mal: é o princípio motor que qualifica seu uso. Servir-se delas sem nenhum direito e unicamente para saciar suas paixões rapaces ou lúbricas é atrocidade e perfídia. Seu uso só é lícito para a justiça. O discernimento e o respeito ao direito formam a base da vida social e os juízes são seus primeiros órgãos.”
“Chamaremos despotismo o poder do senhor sobre o escravo; marital, o do marido sobre a mulher; paternal, o do pai sobre os filhos (dois poderes para os quais o grego não tem substantivos).”
“outros consideram que o poder senhorial não tem nenhum fundamento na natureza e pretendem que esta nos criou a todos livres, e a escravidão só foi introduzida pela lei do mais forte e é, por si mesma, injusta como um puro efeito da violência.”
“as propriedades são uma reunião de instrumentos e o escravo, uma propriedade instrumental animada, como um agente preposto a todos os outros meios.”
“Se cada instrumento pudesse executar por si mesmo a vontade ou a intenção do agente, como faziam, dizem, as marionetes de Dédalo ou os tripés de Vulcano, que vinham por si mesmos, segundo Homero, aos combates dos deuses, se a lançadeira tecesse sozinha a tela, se o arco tirasse sozinho de uma cítara o som desejado, os arquitetos não mais precisariam de operários, nem os mestres de escravos.”
“A vida consiste no uso, não na produção.” “O senhor não é senão o proprietário de seu escravo, mas não lhe pertence; o escravo, pelo contrário, não somente é destinado ao uso do senhor, como também dele é parte. Isto basta para dar uma idéia da escravidão e para fazer conhecer esta condição. O homem que, por natureza, não pertence a si mesmo, mas a um outro, é escravo por natureza”
“Mas faz a natureza ou não de um homem um escravo? É justa e útil a escravidão ou é contra a natureza? É isto que devemos examinar agora.” “Não é apenas necessário, mas também vantajoso que haja mando por um lado e obediência por outro; e todos os seres, desde o primeiro instante do nascimento, são, por assim dizer, marcados pela natureza, uns para comandar, outros para obedecer.”
“A natureza ainda subordinou um dos dois animais ao outro. Em todas as espécies, o macho é evidentemente superior à fêmea: a espécie humana não é exceção.”
“o uso dos escravos e dos animais é mais ou menos o mesmo e tiram-se deles os mesmos serviços para as necessidades da vida.” Tal como abanar na rede e ler uma epopéia…
“Vemos corpos robustos talhados especialmente para carregar fardos e outros usos igualmente necessários; outros, pelo contrário, mais disciplinados, mas também mais esguios e incapazes de tais trabalhos, são bons apenas para a vida política, isto é, para os exercícios da paz e da guerra. Ocorre muitas vezes, porém, o contrário: brutos têm a forma exterior da liberdade e outros, sem aparentar, só têm a alma de livre.”
A deusa Hera deve ser feia por dentro.
“Além da servidão natural, existe aquela que chamamos servidão estabelecida pela lei; esta lei é uma espécie de convenção geral, segundo a qual a presa tomada na guerra pertence ao vencedor.
Será justo? Sobre isso, os jurisconsultos não chegam a um acordo, nem tampouco, aliás, sobre a justiça de muitas outras decisões tomadas nas assembléias populares, contra as quais eles reclamam. Consideram cruel que um homem que sofreu violência se torne escravo do que o violentou e só tem sobre ele a vantagem da força. Este, pelo menos, é um ponto muito controverso para eles e, se têm muitos contraditores, têm também muitos partidários, mesmo entre os filósofos.” “uns não podem separar o direito da benevolência, outros afirmam que é da própria essência do direito que o mais valente comande. (…) A superioridade de coragem não é uma razão para sujeitar os outros.”
“Ora, o escravo faz, por assim dizer, parte de seu senhor: embora separado na existência, é como um membro anexado a seu corpo. Ambos têm o mesmo interesse e nada impede que estejam ligados pelo sentimento da amizade, quando foi a conveniência natural que os reuniu.”
“O governo doméstico é uma espécie de monarquia: toda casa se governa por uma só pessoa; o governo civil, pelo contrário, pertence a todos os que são livres e iguais.”
“em Siracusa, uma espécie de preceptor abriu uma escola de escravidão e exigia dinheiro para preparar as crianças para este estado, com todos os pormenores de suas funções. Pode haver um ensino completo dessa espécie de profissão, assim como existem preceitos para a cozinha e outros gêneros de serviço, ou mais estimados, ou mais necessários, pois também o serviço tem os seus graus.”
“Há servos e servos e há senhores e senhores.”
“Quanto à ciência do senhor, como não é nem na aquisição, nem na posse, mas no uso de seus escravos que está o seu domínio, ela se reduz a saber fazer uso deles, isto é, a saber ordenar-lhes o que eles devem saber fazer.” APLICAÇÃO DOMÉSTICA RETROATIVA: Meu pai, senhor, não era um bom administrador, por isso perdeu o controle de seus escravos.
(cont.) “Não há aí nenhum trabalho grande ou sublime, e assim os que têm meios de evitar esse estorvo desembaraçam-se dele com algum intendente, quer para se dedicar à política, quer para se dedicar à filosofia.” Para se dedicar ao trabalho (como escravo de outros senhores), o caso do meu progenitor em particular. Com isso, nenhuma vantagem obteve, pois não havia superintendente. Nossos casos são análogos se eu pensar naquilo em que me dedico, tendo escasso tempo para ordenar uma futura humanidade a fazer o que eu quero. Mas como não viverei para fruir de uma eventual decepção, estou em vantagem. Sempre posso acreditar, até a minha morte, que fui um melhor mestre!
“O talento para adquirir um bem parece-se mais com a arte militar ou com a caça.” “A arte de adquirir bens será idêntica à ciência do governo doméstico? Faz parte dela ou será apenas um de seus meios?”
“É uma primeira questão dizer se a agricultura, que é apenas uma maneira de obter os alimentos necessários à vida, ou alguma outra indústria que também tenha os alimentos como objeto, pertencem à arte de se enriquecer.”
“Mas existe também um outro gênero de bens e de meios que comumente chamamos, e com razão, especulativo, e que parece não ter limites.”
“Tampouco foi a natureza que produziu o comércio que consiste em comprar para revender mais caro. A troca era um expediente necessário para proporcionar a cada um a satisfação de suas necessidades. Ela não era necessária na sociedade primitiva das famílias, onde tudo era comum.”
“Quando uma tribo tem de sobra o que falta a outra, elas permutam o que têm de supérfluo através de trocas recíprocas; vinho por trigo ou outras coisas que lhes podem ser de uso, e nada mais. Trata-se de um gênero de comércio que não está nem fora das intenções da natureza, nem tampouco é uma das maneiras naturais de aumentar seus pertences, mas sim um modo engenhoso de satisfazer as respectivas necessidades.”
“Não era cômodo transportar para longe as mercadorias ou outras produções para trazer outras, sem estar certo de encontrar aquilo que se procurava, nem que aquilo que se levava conviria. Podia acontecer que não se precisasse do supérfluo dos outros, ou que não precisassem do vosso. Estabeleceu-se, portanto, dar e receber reciprocamente em troca algo que, além de seu valor intrínseco, apresentasse a comodidade de ser mais manejável e de transporte mais fácil, como o metal, tanto o ferro quanto a prata ou qualquer outro, que primeiramente se determinou pelo volume ou pelo peso e a seguir se marcou com um sinal distintivo de seu valor, a fim de não se precisar medi-lo ou pesá-lo a toda hora.”
“Tendo a moeda sido inventada, portanto, para as necessidades de comércio, originou-se dela uma nova maneira de comerciar e adquirir. A princípio, era bastante simples; depois, com o tempo, passou a ser mais refinada, quando se soube de onde e de que maneira se podia tirar dela o maior lucro possível. É este lucro pecuniário que ela postula; ela só se ocupa em procurar de onde vem mais dinheiro: é a mãe das grandes fortunas. De fato, comumente se faz consistir a riqueza na grande quantidade de dinheiro.” “Ora, é absurdo chamar riquezas um metal cuja abundância não impede de se morrer de fome; prova disso é o Midas da fábula, a quem o céu, para puni-lo de sua insaciável avareza, concedera o dom de transformar em ouro tudo o que tocasse.” “As verdadeiras riquezas são as da natureza; apenas elas são objeto da ciência econômica.”
“A outra maneira de enriquecer pertence ao comércio, profissão voltada inteiramente para o dinheiro, que sonha com ele, que não tem outro elemento nem outro fim, que não tem limite onde possa deter-se a cupidez.” “O fim a que se propõe o comércio não tem limite determinado. Ele compreende todos os bens que se podem adquirir; mas é menos a sua aquisição do que seu uso o objeto da ciência econômica; esta, portanto, está necessariamente restrita a uma quantidade determinada.”
“O dinheiro serve ao comerciante para dois usos análogos e alternativos: um, para comprar as coisas e revendê-las mais caro; outro, para emprestar e retirar, após o prazo estabelecido, seu capital com juros. Estes dois ramos do seu tráfico não diferem, como se vê, senão porque um interpõe as coisas para aumentar o dinheiro, enquanto o outro o faz servir imediatamente ao seu próprio aumento.”
“A coragem, por exemplo, não foi dada ao homem pela natureza para acumular bens, mas para proporcionar tranqüilidade. Não é esse tampouco o objeto da profissão militar, nem o da medicina, tendo uma por objeto vencer, e outra curar.” “elas se tornam o único fim da maioria das pessoas que entram nessas carreiras e subordinam tudo à meta que se propuseram.”
“para a família gozar de saúde, convém mais o médico do que o chefe de família; assim como para o abastecimento e a abundância, este cuidado pode caber antes aos ministros do Estado.”
“O que há de mais odioso, sobretudo, do que o tráfico de dinheiro, que consiste em dar para ter mais e com isso desvia a moeda de sua destinação primitiva?” “em grego demos à moeda o nome de tokos, que significa progenitura, porque as coisas geradas se parecem com as que as geraram.”
“Existem escritores que se ocuparam desses diversos assuntos, tais como Carés de Paros, Apolodoro de Lemnos, autores de tratados sobre a cultura dos campos e dos pomares, e outros ainda, sobre outras matérias. Os curiosos devem consultá-los.”
“Como censuravam Tales de Mileto pela pobreza e zombavam de sua inútil filosofia, o conhecimento dos astros permitiu-lhe prever que haveria abundância de olivas. Tendo juntado todo o dinheiro que podia, ele alugou, antes do fim do inverno, todas as prensas de óleo de Mileto e de Quios. Conseguiu-as a bom preço, porque ninguém oferecera melhor e ele dera algum adiantamento. Feita a colheita, muitas pessoas apareceram ao mesmo tempo para conseguir as prensas e ele as alugou pelo preço que quis. Tendo ganhado muito dinheiro, mostrou a seus amigos que para os filósofos era muito fácil enriquecer, mas que eles não se importavam com isso. Foi assim que mostrou sua sabedoria. Em geral, o monopólio é um meio rápido de fazer fortuna. Assim, algumas cidades, quando precisam de dinheiro, usam desse recurso. Reservam-se a si mesmas a faculdade de vender certas mercadorias e, por conseguinte, de fixar seus preços como querem.
Na Sicília, um homem que obtivera vários depósitos de dinheiro apoderou-se dos ferros das forjas. Quando os mercadores vieram de todas as partes para obtê-los, só ele pôde vendê-los, contentando-se com o dobro, de maneira que o que lhe custara 50 talentos vendia por 100. Dionísio, o tirano, informado do caso, não confiscou seu lucro, mas ordenou-lhe que saísse de Siracusa por ter imaginado, para enriquecer, um expediente prejudicial aos interesses do chefe de Estado. Aquele homem tivera a mesma idéia que Tales: ambos do monopólio fizeram uma arte.”
“É bom que os que governam os Estados conheçam esse recurso, pois é preciso dinheiro para as despesas públicas e para as despesas domésticas, e o Estado está menos do que ninguém em condições de dispensá-lo. Assim, o capítulo das finanças é quase o único a que alguns prestam atenção.”
“A autoridade dos pais sobre os filhos é uma espécie de realeza; todos os títulos ali se encontram: o da geração, o da autoridade afetuosa e o da idade. É até mesmo o protótipo da autoridade real; foi o que fez com que Homero dissesse de Zeus:
É o pai imortal dos homens e dos deuses”¹
¹ Interessante que é uma paternidade “que não passa”; além do mais, Zeus segue eternamente mais jovem que seus ancestrais. Ele não é o protótipo da realeza, mas do despotismo.
“Deve uma mulher ser sábia, corajosa e justa? Deve uma criança ter contenção e sobriedade?”
“Se as mesmas qualidades lhes são necessárias, por que então o mando cabe a um e a obediência a outro? A diferença entre os dois não é do mais para o menos, mas sim específica e produz efeitos essencialmente diversos.” Ininteligível.
“Todos têm, portanto, virtudes morais, mas a temperança, a força, a justiça não devem ser, como pensava Sócrates, as mesmas num homem e numa mulher. A força de um homem consiste em se impor; a de uma mulher, em vencer a dificuldade de obedecer.”
“Mais vale, como Górgias, estabelecer a lista das virtudes do que se deter em semelhantes definições e imitar, no mais, a precisão do poeta que disse que
um modesto silêncio é a honra da mulher,
ao passo que não fica bem no homem.”
“um profissional está numa espécie de servidão limitada; mas a natureza que faz os escravos não faz os sapateiros, nem os outros artesãos.”
“A educação das mulheres e das crianças deve ser da alçada do Estado, já que importa à felicidade do Estado que as mulheres e as crianças sejam virtuosas.”
“O Estado é o sujeito constante da política e do governo; a constituição política não é senão a ordem dos habitantes que o compõem.”
“Alguém que é cidadão numa democracia não o é numa oligarquia.” “É cidadão aquele que, no país em que reside, é admitido na jurisdição e na deliberação. É a universalidade deste tipo de gente, com riqueza suficiente para viver de modo independente, que constitui a cidade ou o Estado. O costume é dar o nome de cidadão apenas àquele que nasceu de pais cidadãos. De nada serviria que o pai o fosse, se a mãe não for.”
“Operários (artesãos, comerciantes) livres não são cidadãos. As obras da virtude são impraticáveis para quem quer que leve uma vida mecânica e mercenária.” “Em Tebas, o próprio comércio dificulta o acesso à cidadania. Havia uma lei que exigia que se tivesse fechado a loja e deixado de vender há dez anos para ser admitido.”
HOMEM DE BEM X BOM CIDADÃO
virtudes absolutas (nobreza)¹ X virtude limitada ou específica (mediania)
Todo homem de bem é bom cidadão.
Poucos bons cidadãos são também homens de bem.
Sempre comanda (porém, via de regra, em Ari., quem sabe comandar também sabe obedecer)¹ X deve sempre saber obedecer e não lhe está vedado saber comandar (ex: o soldado de ontem pode ser o general de amanhã, que é um servo do governo)
¹ Segundo Aristóteles, as mulheres não estão excluídas da classe suprema (homens de bem), mas suas limitações são evidentes (devem mais obedecer que comandar, ser discretas, guardar-se de atos de valentia).
“num grupo de dançarinos, é preciso mais talento para o papel de corifeu do que para o de corista. A desigualdade de mérito é, pois, evidente.”
“Entre as pessoas que estão em servidão, é preciso contar os trabalhadores manuais que vivem, como indica seu nome, do trabalho de suas mãos e os artesãos que se ocupam dos ofícios sórdidos.” Definição do “idiota político” clássico (ou antigo), que não é nem homem de bem nem cidadão.
Ah, a poluição da palavra!
* * *
“Aqueles que se propõem [a] dar aos Estados uma boa constituição prestam atenção principalmente nas virtudes e nos vícios que interessam à sociedade civil, e não há nenhuma dúvida de que a verdadeira cidade (a que não o é somente de nome) deve estimar acima de tudo a virtude.
Sem isso, não será mais do que uma liga ou associação de armas, diferindo das outras ligas apenas pelo lugar, isto é, pela circunstância indiferente da proximidade ou do afastamento respectivo dos membros. Sua lei não é senão uma simples convenção de garantia, capaz, diz o sofista Licofrão, de mantê-los no dever recíproco, mas incapaz de torná-los bons e honestos cidadãos.”
“Eles fizeram um pacto de não-agressão no que toca a seus comércios e até prometeram tomar armas para sua mútua defesa, mas não têm outra comunicação a não ser o comércio e seus tratados. Mais uma vez, esta não será uma sociedade civil. Por quê, então?” “A cidade, portanto, NÃO é precisamente uma comunidade de lugar, nem foi instituída simplesmente para se defender contra as injustiças de outrem ou para estabelecer comércio. Tudo isso deve existir antes da formação do Estado, mas não basta para constituí-lo.”
“É isto o que chamamos uma vida feliz e honesta. A sociedade civil é, pois, menos uma sociedade de vida comum do que uma sociedade de honra e de virtude.”
PAI & FILHO, CARA & COROA: “Todos vemos que não é pelos bens exteriores que se adquirem e conservam as virtudes, mas sim que é pelos talentos e virtudes que se adquirem e conservam os bens exteriores e que, quer se faça consistir a felicidade no prazer ou na virtude, ou em ambos, os que têm inteligência e costumes excelentes a alcançam mais facilmente com uma fortuna medíocre do que os que têm mais do que o necessário e carecem dos outros bens.” “Os bens da alma não são apenas honestos, mas também úteis, e quanto mais excederem a medida comum, mais terão utilidade.” “A felicidade é muito diferente da boa fortuna. Vêm-nos da fortuna os bens exteriores, mas ninguém é justo ou prudente graças a ela, nem por seu meio.”
“Que vida preferir, a que toma parte do governo e dos negócios públicos ou a vida retirada e livre de todos os embaraços do gênero? Não entra no plano da Polítíca determinar o quê pode convir a cada indivíduo, mas sim o que convém à pluralidade. Em nossa Étíca, aliás, tratamos do primeiro ponto.”
AS MELHORES CONSTITUIÇÕES APUD GRÉCIA ANTIGA: “Em Esparta e em Creta, a quase totalidade de sua disciplina e de suas numerosas regras é dirigida para a guerra. Em todas as nações que têm o poder de crescer, entre os citas, entre os persas, entre os trácios, entre os celtas, não há nenhuma profissão mais estimada do que a das armas. Em alguns lugares, existem leis para estimular a coragem guerreira. Em Cartago, as pessoas são decoradas com tantos anéis quantas foram as campanhas que fizeram. Na Macedônia, uma lei pretendia que aqueles que não houvessem matado nenhum inimigo tivessem que andar de cabresto. Entre os citas, aquele que estivesse nesse caso sofria a afronta de não beber à roda, na taça das refeições solenes. A Ibéria, nação belicosa, levanta ao redor das tumbas tantos obeliscos quantos inimigos o defunto matou.”
“Não é ofício nem do médico nem do piloto persuadir ou fazer violência, um a seus doentes, o outro a seus marinheiros. Mas muitos parecem considerar a dominação como o objeto da política, e aquilo que não cremos nem justo nem útil para nós não temos vergonha de tentar contra os outros.” “Se a natureza estabeleceu esta distinção, pelo menos não se deve tentar dominar a todos, mas apenas aos que só servem para serem submetidos. É assim que não se vai à caça para pegar os homens e comê-los ou matá-los, mas apenas para pegar os animais selvagens que são comestíveis.”
“não é exato elevar a inação acima da vida ativa, já que a felicidade consiste em ação, e as ações dos homens justos e moderados têm sempre fins honestos.”
“Entre semelhantes, a honestidade e a justiça consistem em que cada um tenha a sua vez. Apenas isto conserva a igualdade. A desigualdade entre iguais e as distinções entre semelhantes são contra a natureza e, por conseguinte, contra a honestidade. Se, porém, se encontrasse alguém que ultrapassasse todos os outros em mérito e em poder e tivesse provado seu valor com grandes façanhas, seria belo ceder a ele e justo obedecer-lhe. Mas não basta ter mérito, é preciso ter bastante energia e atividade para estar certo do êxito.”
“Como a maioria dos homens tem mania de dominar os outros para obter todas as comodidades, Tíbron e todos os que escreveram sobre o governo de Esparta parecem admirar seu legislador por ter aumentado muito seu império, tendo exercitado a nação nos perigos da guerra. Mas, agora que os espartanos não dominam mais, deixaram de ser felizes, e seu legislador de merecer sua reputação. Não é ridículo que, persistindo sob as leis de Licurgo e não tendo nada que os impedisse de valer-se delas, eles tenham deixado escapar sua felicidade?”
“Não é um sinal de sabedoria para o legislador treinar seu povo para vencer seus vizinhos. Disso só podem resultar grandes males, e aquele que for bem-sucedido não vai deixar de investir contra a sua própria pátria e, se puder, de assenhorear-se dela. Essa é a censura que os espartanos fazem ao rei Pausânias, cuja ambição não se contentou com este alto grau de honra.”
“Ao fazer a guerra, vários Estados se conservaram, mas, assim que conquistaram a superioridade, entraram em decadência, semelhantes ao ferro que se enferruja pela inação.”
“Não há repouso para os escravos, diz o provérbio. Ora, os que não têm coragem para se expor aos perigos tornam-se escravos de seus agressores.”
“os que parecem felizes e, semelhantes aos habitantes das Ilhas Afortunadas de que falam os poetas, gozam de tudo o que pode contribuir para a felicidade, precisam mais do que os outros de justiça e de temperança. Quanto mais opulência e lazer tiverem, mais precisarão de filosofia, de moderação e de justiça, e o Estado que quiser ser feliz e florescente deve inculcar-lhes estas virtudes o máximo possível. Se há algo de ignóbil em não saber gozar das riquezas, há bem mais ainda em fazer mau uso delas quando só se tem isso para fazer. É revoltante que homens, aliás, dignos de estima nos trabalhos e nos perigos da guerra se comportem como escravos no descanso e na paz.”
“há dois tipos de hábitos, uns apaixonados, ou provindos da sensibilidade, outros intelectuais. E, assim como o corpo é gerado antes da alma, a parte carente de razão o é, igualmente, antes da razoável. Isto se observa pelos rasgos de cólera, pelos desejos e pelas vontades mostradas pelas crianças tão logo nascem.”
“deve preocupar-se com a sucessão das crianças; que não haja entre elas e os pais uma distância de idade grande demais, pois neste caso os filhos não podem mostrar seu reconhecimento aos pais na velhice, nem os pais podem ajudar seus filhos tanto quanto preciso.”
“O final da procriação ocorre, para os homens, aos 70 anos; para as mulheres, aos 50. Sua união deve começar na mesma proporção. A dos adolescentes não vale nada para a progenitura. Em todas as espécies animais, os frutos prematuros de sujeitos jovens demais, sobretudo se se tratar da fêmea, são imperfeitos, fracos e de pequena estatura. O mesmo ocorre com a espécie humana. Observa-se, com efeito, esta imperfeição em todos os lugares em que as pessoas se casam jovens demais. Só nascem abortos.” Continuando com a proporção 70/50: 20/14, 30/21, 40/28, 50/35…
“Aquelas que conhecem cedo demais o uso das familiaridades conjugais são de ordinário mais lascivas. Por outro lado, nada retarda ou detém mais depressa o crescimento dos moços jovens do que se entregar cedo demais ao relacionamento com as mulheres, sem esperar que a natureza tenha neles elaborado completamente o licor prolífico. Há para o crescimento uma época precisa, além da qual não se cresce mais.”
“verdadeira idade para casar as moças é aos 18 anos e para os homens aos 37, aproximadamente. Com isso a conjunção dos corpos se fará em pleno vigor, e a geração, depois, terminará num tempo conveniente tanto para um como para outro. Da mesma forma, a sucessão dos filhos a seus pais estará melhor colocada, se nascerem convenientemente no intervalo entre a força da idade e o declínio, que começa por volta dos 70.” [!!!]
“Quanto à estação do ano própria à geração, o inverno é a que mais convém, como hoje se observa quase em toda parte.” “os físicos ensinam que ventos são favoráveis ao ato sexual; por exemplo, eles preferem o vento do norte ao do sul.”
“Diremos somente que a compleição atlética não é útil nem à saúde, nem à geração, nem aos empregos civis; o mesmo ocorre com os corpos fracos, acostumados ao regime médico.”
Pedonomia: parte da pedagogia que estipula as regras (formas) da aplicação da pedagogia, i.e., do conteúdo em si da educação.
“Se o corpo precisa de movimento, o espírito necessita de repouso e de tranqüilidade. No ventre da mãe os filhos recebem, como os frutos da terra, a impressão do bem e do mal.”
“Sobre o destino das crianças recém-nascidas, deve haver uma lei que decida os que serão expostos e os que serão criados. Não seja permitido criar nenhuma que nasça mutilada, isto é, sem algum de seus membros; determine-se, pelo menos, para evitar a sobrecarga do número excessivo, se não for permitido pelas leis do país abandoná-los, até que número de filhos se pode ter e se faça abortarem as mães antes que seu fruto tenha sentimento e vida, pois é nisto que se distingue a supressão perdoável da que é atroz.” Até eugênicos antigos têm escrúpulos morais “anteprotestantes”…
“Desde os primeiros momentos do nascimento, é bom acostumar as crianças ao frio; isto faz um bem infinito à saúde e dispõe às funções militares.”
“Na idade seguinte, até os cinco anos, não é conveniente dar nada para as crianças aprenderem, nem submetê-las a qualquer trabalho. Isto poderia impedir seu crescimento. Basta mantê-las em movimento para preservar seus corpos da preguiça e do peso. Este movimento deve consistir apenas nas funções da vida e nas brincadeiras, tomando cuidado somente para que elas não sejam nem desonestas nem penosas, nem destituídas demais de ação.”
“Em certos lugares, comete-se o erro de proibir à criança o choro e os movimentos expansivos. Todos estes atos servem para seu desenvolvimento e fazem parte, por assim dizer, dos exercícios corporais. O ato de reter a respiração dá força aos que trabalham. Isto também ocorre no próprio esforço das crianças para gritar.”
“impedir muita conversa e familiaridade, sobretudo com os escravos.”
SIGA SEU MESTRE: “Se proibimos as conversas indecentes, com mais forte razão proibiremos as pinturas e as exibições do mesmo gênero. Os magistrados, portanto, não admitirão nem estátuas, nem pinturas lúbricas, a não ser as de certas divindades cujo culto a lei reserva aos homens adultos, a quem ela permite sacrifícios, tanto por eles quanto por suas mulheres e crianças.”
“Também se deve proibir aos jovens os teatros e sobretudo a comédia, até que tenham atingido a idade de participar das refeições públicas e a boa educação os tenha colocado em condições de experimentar impunemente a bebedeira dos banquetes, sem contrair a embriaguez ou os outros vícios que a acompanham. Passaremos rapidamente por esta matéria, para voltar a ela uma outra vez e discutir se este costume deve ser mantido, e como.”
“Não há de se aprovar, segundo cremos, a partilha que fazem certas pessoas que dividem toda a vida de 7 em 7 anos. Mais vale seguir o ritmo da natureza. Ela apenas esboçou suas obras. A obra da educação, assim como a de todas as artes, deve unicamente completar o que falta ao ser das obras da natureza.”
“Como não há senão um fim comum a todo o Estado, só deve haver uma mesma educação para todos os súditos. Ela deve ser feita não em particular, como hoje, quando cada um cuida de seus filhos, que educa segundo sua fantasia e conforme lhe agrada; ela deve ser feita em público. Tudo o que é comum deve ter exercícios comuns. É preciso, ademais, que todo cidadão se convença de que ninguém é de si mesmo, mas todos pertencem ao Estado, de que cada um é parte e que, portanto, o governo de cada parte deve naturalmente ter como modelo o governo do todo.”
“Não se sabe se se deve ensinar às crianças as coisas úteis à vida ou as que conduzem à virtude, ou as altas ciências, que se podem dispensar. Cada uma destas opiniões tem seus partidários. Não há nem mesmo nada de certo a respeito da virtude, não sendo o mesmo gênero de virtude apreciado unanimemente. Também se diverge sobre o gênero de exercícios a praticar.”
“Não é fora de propósito conceder algum tempo a certas ciências, mas entregar-se a elas por inteiro e querer ser consumado nelas não deixa de ter seus inconvenientes e pode ser nocivo às graças da imaginação.”
“Quanto à música, sua utilidade não é igualmente reconhecida. Muitos hoje a aprendem apenas por prazer. Mas os antigos fizeram dela, desde os primeiros tempos, uma parte da educação, pois a natureza não procura apenas dar exatidão às ações, mas também dignidade ao repouso. A música é o princípio de todos os encantos da vida.”
“Se possível, é melhor descartar o jogo entre as ocupações. Quem trabalha precisa de descanso: o jogo não foi imaginado senão para isto. O trabalho é acompanhado de fadiga e de esforços. É preciso entremeá-lo convenientemente de recreações, como um remédio.”
“Não que ela seja necessária: ela não o é. Não que ela tenha tanta importância quanto a escrita, que serve para o comércio, para a administração doméstica, para as ciências e para a maioria das funções civis, ou quanto a pintura, que nos permite julgar melhor a obra dos artistas, ou quanto a ginástica, que ajuda a saúde e o desenvolvimento das forças; a música não faz nada disso.Mas ela serve pelo menos para passar agradavelmente o lazer. É por isso que ela foi posta na moda. Ela pareceu a seus inventores a diversão mais conveniente às pessoas livres.”
“Existem povos que não evitam os massacres e são ávidos de carne humana, mas que, quando atacados, são tudo, menos valentes; por exemplo, os aqueus e os heniocos do Ponto Euxino, e outras nações mais distantes que pertencem às terras da mesma região, sendo que as outras preferem a profissão de ladrões.”
“Aqueles que expõem em demasia os jovens aos exercícios do ginásio e os deixam sem instrução sobre as coisas mais necessárias, fazem deles, na verdade, apenas reles guarda-costas, que servem no máximo para uma das funções da vida civil, uma função, porém, que, se consultarmos a razão, é a menor de todas. Não é por suas proezas antigas, mas sim pelas do presente que devem ser julgados.”
“até a puberdade só se praticarão exercícios leves, sem sujeitar os corpos aos excessos de alimentação, nem aos trabalhos violentos, por temor de que isso impeça o crescimento. A prova do efeito funesto deste regime forçado é que entre os que venceram nos jogos olímpicos em sua juventude dificilmente se encontrarão dois ou três que também venceram numa idade mais avançada. Por que isto? Porque a violência dos exercícios a que se tinham submetido desde a infância esgotara sua força e seu vigor.”
PRÉ-ROUSSEAU: “Com efeito, não se deve atormentar ao mesmo tempo o espírito e o corpo. Desses exercícios, um impede o outro; o do corpo é nocivo ao espírito, e o do espírito ao corpo.”
“Se estiver em nosso poder escolhê-la segundo o desejo, a situação da Cidade deve ser próxima do mar e do campo; assim, a ajuda seria fácil de um lugar para outro e de toda parte, assim como a exportação e a importação das mercadorias. Haveria comodidade para transportar a madeira e todos os outros materiais do país.” “a comodidade do mar faz com que se envie para o exterior ou se receba na cidade uma multidão de mercadores, o que é igualmente pernicioso para o Estado.” “Somente a atração do lucro faz com que estabeleça em seu território mercados abertos a todos. Há aí uma avareza condenável, e não é assim que um Estado ou uma cidade devem praticar o comércio.”
“Os soldados da marinha, pelo contrário, são livres e, assim como seus oficiais, provêm da infantaria. São eles que comandam os marinheiros [que, diferente dos soldados da marinha, não são cidadãos]. Quanto à tripulação, é completada com camponeses e lavradores dos arredores. É o que se pratica em certos lugares, por exemplo Heracléia, cujas galeras estão sempre bem-tripuladas, embora a cidade seja muito menor do que várias outras.”
“se as águas são raras ou de diversas qualidades, deve-se separar, como se faz nas cidades bem-cuidadas, as que são boas para beber das que podem servir para outros usos.”
“no que se refere às casas particulares, elas serão bem mais agradáveis e mais cômodas se seu espaço for bem-distribuído, com uma estrutura à maneira moderna, ao gosto de Hipódamos.¹”
¹ Hipódamos de Mileto foi um polímata do século V a.C., tido como fundador da concepção de Planejamento Urbano, que estendia a preocupação da arquitetura para toda a polis em si. Planejou pela primeira vez a simetria geométrica da disposição das ruas e das casas e, ao mesmo tempo, a existência de um centro despovoado e amplamente aberto, i.e., a Ágora. As casas que ele planejou eram mais espaçosas e tinham dois andares.
“Não se alinharão todas as ruas de um extremo ao outro, mas apenas certas partes, tanto quanto o permitir a segurança e o exigir a decoração.”
“Embora não seja muito honroso opor muros de defesa a guerreiros da mesma têmpera que não têm uma grande vantagem numérica, é possível que os sitiantes consigam um tal acréscimo de forças que todo valor humano, mas com poucas pessoas, não possa resistir-lhes. Portanto, se não se quer morrer, nem se expor ao ultraje, deve-se considerar como uma das medidas mais autorizadas pelas leis da guerra manter suas muralhas no melhor estado de fortificação, principalmente hoje, quando se imaginaram tantos instrumentos e máquinas engenhosas para atacar fortificações. Não querer cercar as cidades com muros é como abrir o país às incursões dos inimigos e retirar os obstáculos de sua frente, ou como se recusar a fechar com muros as casas particulares, de medo que os que nelas habitam se tornem medrosos.”
“é claro que num Estado tão perfeitamente constituído que não admita como cidadãos senão pessoas de bem, não apenas sob certos aspectos, mas integralmente virtuosos, não devemos contar entre eles aqueles que exercem profissões mecânicas ou comerciais, sendo esse gênero de vida ignóbil e contrário à virtude” TERCEIRA REPETIÇÃO!
“primeiro, na juventude, o comando da força armada para defender o Estado; depois, quando maduros, a autoridade para governá-lo.”
“Convém não ligar ao culto divino senão cidadãos, e não se devem educar para o sacerdócio nem lavradores que puxam arado, nem trabalhadores que saem de sua forja. Tendo a universalidade dos cidadãos sido dividida em duas classes, a dos homens de guerra e a dos homens de lei, é aí que se devem tomar os ministros da religião.”
“Esta necessidade de dividir o Estado em classes diversas, segundo a variedade das funções, e de separar os homens de guerra dos lavradores não é uma invenção de hoje, nem um segredo recém-descoberto pelos filósofos que se ocupam de política. Tal distinção foi introduzida no Egito pelas leis de Sesóstris e em Creta pelas de Minos.¹ Elas ainda subsistem atualmente nestes lugares.”
¹ Afinal de contas Minos ter existido como homem de carne e osso é hipótese tão verossímil quanto com Licurgo e Sólon?
“Os sábios do país contam que um certo Italus foi rei na Enótria. Os habitantes tomaram seu nome e, em vez de enotrianos, se chamaram italianos. O nome de Itália ficou também para a costa da Europa entre o golfo de Cilética e o golfo Lamético, distantes meia jornada um do outro. Segundo estes historiadores, foi Italus quem, de pastores errantes, tornou os enotrianos lavradores sedentários. Entre outras leis que lhes deu, estabeleceu pela primeira vez que comessem juntos. Este costume ainda hoje se observa entre alguns de seus descendentes, assim como algumas outras de suas leis. Os ópicos, antigamente chamados ou cognominados ausônios, nome que lhes ficou, habitavam a costa do Tirreno; e os caonianos, descendentes dos enotrianos, a praia chamada Sirtes, entre a Lapígia e a Jônia.”
“É bem crível que muitas outras coisas foram inventadas várias vezes, talvez ao infinito, na longa seqüência dos séculos. Ao que parece, inicialmente a necessidade inventou as coisas necessárias; em seguida, por adjunção, as que servem para um maior conforto e para ornamento. O mesmo ocorre com a legislação e as constituições civis. Podemos conjeturar como elas são antigas pelo exemplo dos egípcios, que remontam à mais alta antiguidade e desde sempre tiveram leis e uma constituição. Cabe a nós aproveitar suas boas invenções e lhes acrescentar o que lhes falta.”
“Todos concordam que as mesas comuns e as refeições públicas convêm às cidades bem-organizadas politicamente. Isto também nos agrada, mas é preciso que nelas todos os cidadãos sejam recebidos gratuitamente; caso contrário, não será fácil para aqueles que só têm o estrito necessário fornecer a sua parte e ainda arcar com o sustento de sua família.”
* * *
DA CÉLEBRE DIVISÃO ENTRE AS FORMAS DE GOVERNO
MODALIDADES IDEAIS: “Chamamos monarquia (1) o Estado em que o governo que visa a este interesse comum pertence a um só; aristocracia (2), aquele em que ele é confiado a mais de um, denominação tomada ou do fato de que as poucas pessoas a que o governo é confiado são escolhidas entre as mais honestas, ou de que elas só têm em vista o maior bem do Estado e de seus membros [aristo+cracia = governo dos melhores]; república (3), aquele em que a multidão governa para a utilidade pública; este nome também é comum a todos os Estados.”
MODALIDADES CORROMPIDAS: “A tirania (4) não é, de fato, senão a monarquia voltada para a utilidade do monarca; a oligarquia (5), a aristocracia voltada para a utilidade dos ricos; a democracia (6), a república voltada para a utilidade dos pobres.”
“A oligarquia estabeleceu-se desde os tempos mais remotos em todos os lugares que tinham na cavalaria a sua principal força, como os eretrianos, os de Cálcides, os magnésios do Meandro e vários outros povos asiáticos. Montava-se a cavalo para combater os inimigos dos arredores.”
1. MONARQUIA
“No Estado de Esparta,¹ p.ex., há uma monarquia das mais legítimas, mas o poder do rei não é absoluto, a não ser quando o monarca estiver fora de seus Estados e em situação de guerra, pois então ele tem a autoridade suprema sobre seu exército. Além disso, ele tem no interior a superintendência do culto e das coisas sagradas. Esta espécie de monarquia não é, pois, senão um generalato perpétuo, com plenos poderes, sem porém ter o direito de vida e de morte, a não ser em certo domínio ou, nas expedições militares, quando se está combatendo, como era costume antigamente. É o que se chama lei do golpe de mão. Homero refere-se a ela. Segundo ele, Agamêmnon, na Assembléia do povo, tolerava as palavras menos respeitosas. Fora dali, de armas na mão, tinha o poder de morte sobre os soldados delinqüentes.”
¹ Platão e Montesquieu, por exemplo, recusam o status de monarquia a Esparta/Lacedemônia.
“O comando militar inamovível é, portanto, um primeiro tipo de monarquia, sendo umas hereditárias e outras eletivas.”
DESACERTO NOS CRITÉRIOS: “Tendo os bárbaros naturalmente a alma mais servil do que os gregos e os asiáticos, eles suportam mais do que os europeus, sem murmúrios, que sejam governados pelos senhores. É por isso que essas monarquias, embora despóticas, não deixam de ser estáveis e sólidas, fundadas que são na lei e transmissíveis de pai para filho. Pela mesma razão, sua guarda é real, e não tirânica, pois os reis são protegidos por cidadãos armados, ao passo que os déspotas recorrem a estrangeiros. Aqueles governam de acordo com a lei súditos de boa vontade; estes, pessoas que só obedecem contrafeitas. Aqueles são protegidos pelos cidadãos; estes, contra os cidadãos. São, portanto, dois tipos diferentes de monarquia.”
Antes do aparecimento da figura de um César, A. prefigura a instituição do ditador da República Romana final, no plano teóricoa, como sendo um governo monárquico não-tirânico, posto que legal. É verdade que matiza este raciocínio depois: “Estes principados são, portanto, ao mesmo tempo despóticos pela maneira com que a autoridade é exercida e reais pela eleição e submissão espontânea do povo.” Este último critério transformaria quase todos os governos atuais da Terra em monarquias constitucionais, quando vemos não passar de tiranias, se é para dicotomizar entre as duas! Hitler como um monarca constitucional seria uma piada de humor negro. Mas é ao que a taxonomia aristotélica conduz…
“Os reis dos primeiros séculos tinham autoridade sobre todos os negócios de Estado, tanto dentro quanto fora, e para sempre. A partir daí, quer porque abandonaram por si mesmos uma parte da autoridade, quer porque tenham sido despojados dela pelo povo, foram reduzidos em alguns Estados à simples qualidade de soberanos sacrificadores ou pontífices e, nos lugares onde se conservou o nome de rei, à simples faculdade de comandar os exércitos além das fronteiras.”
2. ARISTOCRACIA
“O nome de aristocracia convém perfeitamente ao regime que já mencionamos acima, pois não se deve, com efeito, dar este nome senão à magistratura composta de pessoas de bem sem restrição e não a essas boas pessoas em que toda a retidão se limita ao patriotismo.”
Aristóteles perde a mão em suas classificações, sem uma exceção sequer! “Há um ar de aristocracia em toda parte onde se observa a virtude, embora sejam prezadas também a riqueza e a popularidade, como entre os espartanos, que unem a popularidade às considerações devidas à virtude. São estas duas espécies de aristocracia, além da primeira [essas subdivisões não guardam o menor interesse], as únicas a merecerem o nome de excelente e perfeita República [no sentido lato: todos os seis governos!].”
3. “REPÚBLICA” (é o próprio Aristóteles que coloca o título entre aspas!)
“Reservamo-la para o final [meio!] não por ser uma depravação da aristocracia, de que acabamos de falar (pois é normal começar, como fizemos, pelas formas puras e depois ir às formas desviadas), mas porque ela reúne o que há de bom em dois regimes degenerados, a oligarquia e a democracia.”
“Na oligarquia, a lei não concede aos pobres nenhum salário para administrar a justiça e estabelece penas contra os ricos, caso se recusem a fazer parte de uma assembléia; na democracia, a lei dá um salário aos pobres mas não aplica nenhuma pena aos ricos. A mistura conveniente ao Estado, que ocupa o meio entre estes governos e é composta pelos dois, é conceder o salário aos pobres e aplicar a multa aos ricos.”“É democrático, por exemplo, escolher os magistrados por sorteio; oligárquico, elegê-los; democrático, não considerar a renda”
SÓ PIORA: “É o que se observa em Esparta: muitos, com efeito, a colocam na classe das democracias, porque ela tem muitas instituições dessa natureza. [!!!] Na educação das crianças, a comida é a mesma para os filhos dos ricos e para os dos pobres, a mesma instrução, a mesma severidade no trato; na idade seguinte, o mesmo gênero de vida quando se tornam homens.”
Apenas definições negativas e compósitas de “república”, além de ininteligíveis! Desistam de se apoiar nesses conceitos aristotélico, pelo BEM de todos nós!
4. TIRANIA
“Quanto mais a monarquia se aproxima idealmente do governo celeste, mais sua alteração é detestável. A monarquia não passa de um vão nome, se não se distingue pela grande excelência de quem reina. O vício mais diametralmente contrário a sua instituição é a tirania. Portanto, é também o pior dos governos.”
5. OLIGARQUIA
“Os postos são concedidos aos mais ricos e nomeiam a si próprios em caso de vacância. Se a escolha se fizesse entre todos, seria aristocrática; o que a torna oligárquica é que ela se faz numa classe determinada. Todavia, não sendo poderosos o suficiente para governar sem leis, transformam em leis a preferência que se arrogam.
Se seu número diminuir e sua riqueza tiver novos aumentos, forma-se um segundo grau de oligarquia, no qual, aproveitando a ascendência que adquiriram por seus postos, fazem com que se ordene por uma nova lei que seus filhos serão seus sucessores.”
“Tendo aumentado ainda mais sua riqueza e seu crédito, a potência dos oligarcas aproxima-se da monarquia. Este vício é semelhante tanto à tirania que se introduz nas monarquias quanto à última espécie de democracia, de que falaremos. Chama-se dinastia ou, mais exatamente, politirania.”
6. DEMOCRACIA
INDIRETA A PLATÃO? “Não se deve, como costumavam fazer certas pessoas, definir simplesmente a democracia como o governo em que a maioria domina. Nas próprias oligarquias e em qualquer outra parte, é sempre a maioria que se sobressai.”
“Se os poderes se distribuíssem de acordo com a estatura [!], como acontece, segundo certos autores, na Etiópia, ou de acordo com a beleza [Ganimedolândia ou quiçá Ilha dos alcibíadas], haveria oligarquia, porque a beleza e a alta estatura não pertencem à maioria.”
Aristóteles se esquece do espírito de um governo e da tendência das sociedades. Procura uma classificação tirando fotos, ou seja, espúria e ingênua.
“Uns e outros abundam em alguns lugares, como os pescadores em Tarento e em Bizâncio, os marinheiros em Atenas, os negociantes na ilha de Egina e em Quios, os barqueiros em Tenedos. Devem-se juntar a eles os trabalhadores manuais e todos os que não são abastados o suficiente para ficar sem fazer nada, os que não nasceram de pai e mãe livres e toda espécie de populaça semelhante.”
“Como o Estado não pode existir sem magistrados e precisa de homens capazes de realizar suas funções, precisa também de pessoas que executem suas ordens e estejam encarregadas do serviço, quer para sempre, quer alienadamente.”
A CARICATURA ARISTOTÉLICA (JULGA QUE NÃO HÁ DINÂMICA DE CLASSES OU ESTRATOS, E QUE QUEM ASCENDE AO PODER NÃO ENRIQUECE NEM SE DISTINGUE EM POUCO TEMPO): “A quarta é aquela que se introduziu em último lugar nas Cidades que se tornaram maiores e mais opulentas do que eram nos primeiros tempos. Ela exibe a igualdade absoluta, isto é, a lei coloca os pobres no mesmo nível que os ricos e pretende que uns não tenham mais direito ao governo do que os outros, mas que a condição destes e daqueles seja semelhante. Pois se a alma da democracia consiste, como pensam alguns, na liberdade, sendo todos iguais a este respeito, devem ter a mesma parte nos bens civis e principalmente nos grandes cargos; e, como o povo é superior em número e o que agrada à pluralidade é lei, tal Estado deve necessariamente ser popular. Mas, se todos são indistintamente admitidos no governo, é a massa que se sobressai e, sendo os pobres assalariados, podem deixar o trabalho e permanecer ociosos, não os retendo em casa a preocupação com seus próprios negócios. É, pelo contrário, um obstáculo para os ricos que não assistem às Assembléias nem se preocupam com o papel de juiz. Resulta daí que o Estado cai no domínio da multidão indigente e se vê subtraído ao império das leis. Os demagogos calcam-nas com os pés e fazem predominar os decretos. Tal gentalha é desconhecida nas democracias que a lei governa. Os melhores cidadãos têm ali o primeiro lugar. Mas onde as leis não têm força pululam os demagogos. O povo torna-se tirano.Trata-se de um ser composto de várias cabeças; elas dominam não cada uma separadamente, mas todas juntas. Não se sabe se é desta multidão ou do governo alternado e singular de vários de que fala Homero quando diz que <não é bom ter vários senhores>. De qualquer modo, o povo, tendo sacudido o jugo da lei, quer governar só e se torna déspota. Seu governo não difere em nada da tirania. Os bajuladores são honrados, os homens de bem sujeitados. O mesmo arbítrio reina nos decretos do povo e nas ordens dos tiranos. Trata-se dos mesmos costumes. O que fazem os bajuladores de côrte junto a estes, fazem os demagogos junto ao povo. Gozam do mesmo crédito.”
“Se pretendermos que a democracia seja uma das formas de governo, então não se deverá nem mesmo dar este nome a esse caos em que tudo é governado pelos decretos do dia, não sendo então nem universal nem perpétua nenhuma medida.”
* * *
Sobre a divisão dos poderes, existente em qualquer forma de governo, em tempos bem anteriores a Montesquieu e às noções modernas…
1. ???
Devo ter ficado burro, porque me tornei incapaz de entender Aristóteles: “No que se chama democracia, principalmente na de hoje, em que o povo é senhor de tudo, até das leis, seria bom, para se conseguirem boas deliberações, que as Assembléias fossem ordenadas e regulamentadas como os tribunais das oligarquias, ou ainda melhor, se possível. Ali são aplicadas penas aos que são nomeados para a judicatura, a fim de obrigá-los a julgar, ao passo que na democracia é proposto um salário aos pobres. Ora, delibera-se melhor quando todos deliberam em comum, o povo com os nobres e os nobres com a multidão.”
“o corpo deliberativo, o verdadeiro soberano do Estado.” Quem é o <corpo deliberativo> (que deveria ser o título deste tópico 1)? Por eliminação (categorias a seguir), seria o poder legislativo. Mas pelo que se lê acima esta categoria ou corpo ou poder é uma composição caótica de tudo que entendemos por poder executivo, legislativo e judiciário hoje…
2. O PODER EXECUTIVO
“Já é difícil determinar quem são os que devem chamar-se magistrados. A sociedade civil precisa de vários servidores. O nome de magistrados não convém a todos os que são nomeados por eleição ou por sorteio. É o caso dos sacerdotes, sendo seu ministério de natureza diferente da dos ofícios políticos, dos diretores de coro, dos arautos, dos embaixadores, embora também eles sejam eletivos.” “É de pouca utilidade o modo como são chamados, já que sua denominação, que é discutível, ainda não ficou bem decidida. Mas não é de pouca importância bem distinguir os seus atributos.”
“O primeiro cuidado do governo é fazer com que se encontrem nos mercados os víveres necessários. Para tanto, deve haver um magistrado que cuide de que tudo seja feito de boa fé e que a decência seja observada.” O Brasil de hoje já não atende ao primeiro requisito de Aristóteles…
“O oficio que se segue imediatamente é de primeira necessidade, mas também de enorme dificuldade: é o de executor das sentenças de condenação, o de pregoeiro de bens apreendidos e o de guarda das prisões. É difícil prestar-se a estas funções por causa dos ódios a que elas expõem, e não se aceitam semelhantes trabalhos a menos que sejam muito lucrativos [ou que estejamos falando de indivíduos sádicos]. Quando são aceitos, não se ousa seguir o rigor da lei, que é, porém, algo indispensável. De nada serviria sustentar uma causa e obter uma sentença se não houvesse ninguém para fazer com que ela fosse obedecida. Sem a execução, é impossível que a sociedade subsista.”
“Se a mesma pessoa condena e faz executar, é alvo de um duplo ódio. Se se depara com o mesmo executor em toda parte, trata-se de um meio de fazer com que ele seja universalmente odiado.
Em vários lugares, a profissão de carcereiro é separada da de executor, como em Atenas, no tribunal dos Onze. Esta separação é uma atenuação não menos necessária do que a precedente. Tais ofícios têm a desvantagem de serem evitados pelas pessoas de bem tanto quanto possível, e não é seguro confiá-los a malandros. Estes precisam muito mais ser eles próprios vigiados do que vigiarem. Portanto, estas funções não devem pertencer a um cargo fixo, nem estar sempre nas mesmas mãos, mas sim ser realizadas ora por um, ora por outro, principalmente nos lugares em que a guarda da cidade é confiada a companhias de jovens.”
POLÍCIA: “Depois destes ofícios de maior urgência, vêm outros não menos necessários, mas de uma ordem mais elevada e de um maior valor representativo, pois exigem mais experiência e necessitam de maior confiança.” “Nos pequenos [lugares], basta para todos um comandante em chefe. Chamam-se estes chefes Estrategos ou Polemicas, a cavalaria, a infantaria ligeira, os arqueiros, a marinha têm cada qual seus oficiais particulares chamados Navarcas (almirantes), Hiparcas (generais de cavalaria), Taxiarcas (coronéis), e seus oficiais subalternos, Trierarcas, Locagos, Filarcas e outros subordinados, todos ocupados única e exclusivamente com os trabalhos de guerra.”
“Embora nem todas as funções de que acabamos de falar participem do manejo do dinheiro público, mas como algumas estão amplamente envolvidas nisso, é preciso que haja acima delas um outro magistrado que, sem que ele mesmo administre coisa alguma, faça com que os outros prestem contas de sua administração e a corrijam. Uns o chamam auditor; outros, inspetor de contas; outros, grande procurador.
Além disso, uma magistratura suprema de que dependam todas as outras é, enfim, necessária. Ela tem ao mesmo tempo o direito ordinário de impor os impostos e de inspecionar a sua percepção. Em toda parte onde o povo é senhor, ela preside às Assembléias (pois é preciso que aqueles que as convocam tenham nelas a principal autoridade). Em alguns lugares, ela é chamada a Probulia, ou Consulta, porque prepara as deliberações. Nas democracias, em que a massa decide soberanamente, dão-lhe o nome de senado.” Realmente é curioso: senado executor!
“Recapitulando toda esta exposição, constataremos que todos os ofícios ou ministérios necessários têm por objeto quer as honras devidas ao Ser supremo, quer o serviço militar, quer a administração das finanças, vale dizer, a receita ou a despesa das rendas públicas, quer o abastecimento dos mercados ou a polícia das cidades, dos portos e dos campos, além da administração da justiça, o tabelionato dos contratos, a execução das sentenças, a guarda das prisões, a auditoria e o exame das contas, a reforma dos abusos e das prevaricações, enfim, as deliberações sobre os negócios de Estado.
Os povos que gozam de maior lazer e de uma paz profunda, ou que estão em condições de sentir o secreto encanto do bem-estar e de obtê-lo para si mesmos, têm ofícios próprios, como a Nomofilacia ou guarda das leis, a inspeção do comportamento das mulheres, a disciplina das crianças, o reitorado dos ginásios, a intendência dos exercícios ginásticos, das festas de Baco e outros espetáculos do mesmo gênero.
Destes ofícios, alguns – como a disciplina das mulheres e das crianças – não convêm à democracia, cujo povo quase só é composto de pobres que, não tendo condições de se fazer servir por outros, são forçados a empregar suas mulheres e suas crianças como domésticos.”
“Nas cidades pequenas, a falta de gente força a que se confiram vários ofícios à mesma pessoa. Não se encontram pessoas nem para todas as funções, nem para a sucessão de cada uma delas. Às vezes, porém, elas precisam das mesmas magistraturas e da mesma constituição que as grandes, com a única diferença de que umas são com freqüência forçadas a voltar sempre às mesmas pessoas, e as outras só são obrigadas a isto após longos intervalos. É assim que se suspendem em um mesmo lustre várias velas.”
“É própria da aristocracia a inspeção das mulheres e das crianças. Tal função não é nem democrática, nem oligárquica. Como, com efeito, impedir as mulheres dos pobres de saírem ou censurar as mulheres dos oligarcas, acostumadas a viver no luxo?”
“Estas diversidades podem combinar-se duas a duas, de modo que tais magistrados sejam eleitos por tais cidadãos e os outros por todos; uns escolhidos dentre eles, outros tirados de tal classe; uns escolhidos por sorteio, outros por eleição.”
3. O PODER JUDICIÁRIO
“Além destes tribunais [sete], existem juízes para os casos mínimos, tais como os de 1 até 5 dracmas, ou pouco mais, pois, se é preciso julgar estas queixas, elas não merecem ser levadas diante dos grandes tribunais.”
Nada de relevo neste tópico. Aliás, a obra como um todo se mostra fraca, indigna do maior discípulo de Platão.
* * *
“Os povos que habitam as regiões frias, principalmente da Europa, são pessoas corajosas, mas de pouca inteligência e poucos talentos. Vivem melhor em liberdade, pouco civilizados, de resto, e incapazes de governar seus vizinhos.
Os asiáticos são mais inteligentes e mais próprios para as artes, mas nem um pouco corajosos, e por isso mesmo são sujeitados por quase todos e estão sempre sob o domínio de algum senhor.” Um preconceito eterno?
“Situados entre as duas regiões, os gregos também participam de ambas. (…) Poderiam mandar no mundo inteiro se formassem um só povo e tivessem um só governo.”
PSICOLOGIA AGORA? “O coração é, de fato, a faculdade da alma de que procede a benevolência e pela qual nós amamos; quando, porém, ele se crê desprezado, irrita-se mais contra as pessoas que são conhecidas e com as quais convive do que contra os desconhecidos.”
PSEUDO-OVO DE COLOMBO: “Pois não é suficiente conhecer a melhor forma, é preciso ver, em cada caso particular, qual é aquela que é possível estabelecer”
“Corrigir a constituição que existe não é menos incômodo do que instituir outras, assim como é tão difícil perder quanto contrair hábitos.”
UM POLEMISTA DE ÉPOCA: “Ora, como pode conseguir isto se ignorar quantas espécies de governo existem? Nossos atuais políticos, por exemplo, só conhecem uma espécie de democracia e de oligarquia; trata-se, como vimos, de um erro, pois existem várias.”
VIM PARA CONFUNDIR, NÃO PARA ESCLARECER: “Dir-se-á, talvez, que cabe à lei dominar e que não se pode agir de pior maneira do que substituindo-a pela vontade de um homem, sujeito como os demais a suas paixões. Mas, se a própria lei for ditada pelo espírito de oligarquia ou de democracia, de que nos servirá para elucidar a questão proposta?”
“há uma enorme afinidade entre a monarquia e a aristocracia, elas têm quase a mesma disciplina e os mesmos costumes e seus chefes não precisam de educação diferente da que forma o homem virtuoso.” “A monarquia é, na nossa opinião, um dos melhores regimes.” Vozes da cabeça de Ari.. De todo modo, ser “um dos melhores” quando existem 4 ou 5 tipos de governo não é lá grande coisa, concordam?!
SÓ FIZ MARIAS, DIGO, SOFISMARIAS: “Querer que o espírito comande equivale a querer que o comando pertença a Deus e às leis. Entregá-lo ao homem é associá-lo ao animal irracional. Com efeito, a paixão transforma todos os homens em irracionais. (…) A lei, pelo contrário, é o espírito desembaraçado de qualquer paixão.”
“A amizade supõe igualdade e semelhança.” Não leu o Lísis.
“Se antigamente se deixaram governar por reis, é, sem dúvida, porque raramente se encontravam ao mesmo tempo várias pessoas eminentes quanto ao mérito, sobretudo nas pequenas cidades, como eram as dos velhos tempos.”
ISSO É UM DADO HISTÓRICO OU UMA ASSUNÇÃO METAFÍSICA? “Mas, quando os homens de mérito começaram a se multiplicar, não se quis mais aquele governo; procurou-se algo mais conveniente ao interesse comum e se formou uma República.”
“Se supusermos, porém, que em geral a monarquia convém mais aos grandes Estados, que partido tomar com relação aos filhos dos reis? Deve ser hereditário o cetro? Ficaremos expostos a cair nas mãos de maus sucessores, como aconteceu algumas vezes. Dir-se-á que o pai terá o poder de não lhe passar a coroa. Mas não devemos esperar por isto: esta renúncia está muito acima da virtude que a natureza humana comporta.”
“alguém aconselhou aos siracusanos que regulassem da mesma forma a importância da guarda que lhes pedia Dionísio.” Quem você quer nomear quando não nomeia?
“Mas já falei bastante da monarquia” Sim, já falaste bastante de muitas coisas e mal cheguei à metade da obra…
DANCE CONFORME A MÚSICA: “como a harmonia é dividida por alguns em dois modos, o dórico e o frígio, aos quais relacionam todos os demais e dão nome a todas as suas composições musicais, de ordinário se formam, a exemplo desses dois modos, todas as Repúblicas. Mas é melhor só admitir como bem-constituídas uma ou no máximo duas espécies. As outras são como que desvios ou da boa harmonia, ou do bom governo”
“A igualdade parece ser a base do direito, e o é efetivamente, mas unicamente para os iguais e não para todos. A desigualdade também o é, mas apenas para os desiguais. Ora uns e outros põem de lado esta restrição e se iludem, já que é sobre eles próprios que sentenciam; pois de maneira bastante ordinária os homens são maus juízes a seu próprio respeito. A igualdade da qual resulta a justiça ocorre, como igualmente o demonstra a nossa Ética, nas pessoas e nas coisas. Concorda-se facilmente sobre a igualdade das coisas.”
“Os Estados democráticos ostentam acima de tudo a igualdade. Foi este zelo que fez com que imaginassem o ostracismo. Nenhuma ascendência é tolerada, nem por riqueza, nem por credibilidade, nem por poder, e desde que um homem alcance tal preponderância é banido por um tempo determinado pela lei. A mitologia ensina-nos que foi este o motivo pelo qual os argonautas devolveram Hércules à terra e o abandonaram. Não queria remar com os outros no Argos, acreditando-se muito acima dos marinheiros.”
“O ostracismo tem por objeto apenas deter e afastar os que se distinguem demais. Os soberanos agem da mesma forma para com Estados ou nações inteiras. Foi assim que agiram os atenienses para com os de Samos, de Quios e de Lesbos. Tão logo puderam, os rebaixaram, contra a fé dos tratados. Da mesma forma, o rei da Pérsia humilhou e saqueou os medos, os babilônios e outros insolentes que não se cuidaram durante a prosperidade.”
NADA MAIS ERRADO: “o público julga melhor do que ninguém sobre música ou poesia. Uns criticam um trecho, os demais um outro, e todos captam o forte e o fraco do conjunto da obra.”
AH, ZEITGEIST! “Entendemos por médico tanto aquele que pratica a medicina como artista [acepção de formado profissionalmente] como aquele que ordena e aquele que adquiriu conhecimentos na arte tais como se encontram em todos os demais [autodidata]. Estes últimos não são menos competentes para julgar do que os doutores.”
* * *
IGUALDADE E IGUALDADE
“Ora, um dos apanágios da liberdade é que todos alternadamente mandem e obedeçam. Desta diferença entre perpetuidade e alternância dependem a disciplina e a instituição. Se houvesse uma raça de homens que superasse tanto os outros quanto imaginamos que os deuses e os heróis o fazem; se essa superioridade se manifestasse primeiramente pelo porte e pela boa aparência, depois pelas qualidades da alma, e fosse indubitável para os inferiores, o melhor sem contestação seria que seu governo fosse perpétuo e que as pessoas se submetessem a ele de uma vez por todas. Mas como, com exceção, segundo Scyllax, dos indianos, de ordinário os reis não apresentam superioridade tão acentuada sobre seus súditos, é preciso que todos os cidadãos mandem e obedeçam alternadamente, e isto por várias razões.”
“Aos descontentes se soma a gente do campo, sempre ávida de novidades, e qualquer que seja o número dos altos funcionários não pode ser grande o bastante para que eles sejam os mais fortes.”
“Ninguém se zanga ou se sente desonrado por ceder aos mais velhos, na esperança de alcançar as mesmas honras quando tiver a idade conveniente. Pode-se, portanto, dizer que os mesmos mandam e obedecem, mas são, porém, diferentes; assim, a disciplina deve ser em parte a mesma e em parte diferente. Pois, de acordo com o provérbio, para bem comandar é preciso ter antes obedecido.”
“várias funções que à primeira vista pareceriam servis podem ser executadas honestamente por homens livres. A honestidade e a torpeza residem menos na natureza do ato do que no motivo que faz agir.”
“um homem não deve se submeter a ninguém, ou que isto só deve acontecer se houver desforra, conseqüência necessária da liberdade distribuída a todos em igual medida.” Memes de internet são desforra?
PRINCÍPIOS DEMOCRÁTICO-ARISTOTÉLICOS:
(*)“os magistrados devem ser sorteados, ou todos sem exceção, ou pelo menos aqueles cujo cargo não requer nem luzes, nem experiência”
(*)“não se deve ter (…) nenhuma consideração para com a fortuna”
(*)“a mesma magistratura não deve ser conferida mais de uma vez à mesma pessoa, ou pelo menos que isto aconteça raramente e para pouquíssimos cargos, a não ser os militares”
(*)“todos os cargos devem ser de curta duração, ou pelo menos aqueles onde esta breve duração for conveniente”
(*)“todos devem passar pela judicatura, de qualquer classe que sejam, e ter poder para julgar sobre todos os casos em qualquer matéria, mesmo as causas da mais alta importância para o Estado, tais como as contas e a censura, a reforma do governo, assim como as convenções particulares”
(*)Judiciário fraco, legislativo e executivo sumamente poderosos (limite da abordagem pré-Montesquieu).
(*)“os membros do senado não devem ser indistintamente assalariados. Os salários arruínam o poder da magistratura; o povo, ávido de salários, atrai tudo para si”
(*)“Não se deve tolerar nenhuma magistratura perpétua. Portanto, se sobrar alguma magistratura do antigo regime, suas atribuições serão reduzidas e, de eletiva, passará a depender de sorteio. Eis o espírito de todas as democracias.”
“Sem contestação, o melhor povo é o que se ocupa de agricultura. Existe, pois, disposição natural para a democracia em todos os lugares em que o povo tira sua subsistência da agricultura ou da criação de gado.” “Consideram mais agradável trabalhar do que permanecer sentadas, de braços cruzados, a deliberar sobre o governo ou gerir magistraturas, a menos que haja muito que ganhar neste trabalho, pois a maioria prefere o lucro à honra. A prova de sua despreocupação quando não se desperta sua cupidez é que suportaram muito bem seus antigos déspotas e ainda hoje se acostumam com a oligarquia quando os deixam trabalhar e não tiram seus pertences. Então, eles logo alcançam a riqueza, ou pelo menos a abastança. Se tiverem além disso alguma ambição, ela é mais do que satisfeita pelo direito de voto que lhes dão nas eleições e na auditoria das contas. E mesmo que nem todos tivessem direito de assistir a elas, mas apenas o de ser voz deliberativa nas Assembléias primárias. Com efeito, é preciso considerar isto como uma das formas do governo democrático. Era esta que havia em Mantinéia.”
“Esta Constituição deixará contentes os homens de bem e os nobres. Por um lado, terão a vantagem de não serem governados por pessoas baixas; por outro lado, quando chegar a sua vez, tomarão mais cuidado para governar eqüitativamente, pois terão contas a prestar e outras pessoas que os julgarão, pois é bom depender de alguém e não ter toda a liberdade para fazer o que se quer. Esta liberdade indefinida é uma má garantia contra o fundo de maldade que todo homem traz consigo ao nascer. Resulta necessariamente desta precaução a maior vantagem para todo Estado, que é ser governado por pessoas de bem que a responsabilidade torna por assim dizer impecáveis, e isto sem ameaçar a superioridade do povo. É evidente que a melhor de todas as democracias é a que é assim constituída. Por quê? Porque nela o povo tem sua importância.”
“Dentre as excelentes leis que existiam antigamente entre vários povos, observamos sobretudo as que não permitiam a ninguém possuir terras ou acima de certa quantidade, ou a uma distância grande demais da cidade onde se mora. Em vários Estados era proibido alienar a herança paterna. Uma lei de Oxilus, cujo efeito é aproximadamente o mesmo, proibia que se hipotecasse parte dela aos credores. Podemos retificá-la por um texto dos afitianos que vem bem a propósito. Esse povo, embora numeroso, possuía um território bastante pequeno; todos eram lavradores, mas nos registros do censo não constava a totalidade de suas propriedades. Dividiam-nas em certo número de partes disponíveis, para que os pobres pudessem adquiri-las em quantidade suficiente para ultrapassar até mesmo os ricos.
Depois dos agricultores, o melhor povo é o que leva a vida pastoril e explora o gado. Tem muitas afinidades com o primeiro. Ambos, habituados ao trabalho corporal, são excelentes para as expedições militares e resistem perfeitamente aos incômodos do bivaque [acampamento e vigília militar].
Quase todos os outros povos que compõem o restante das democracias estão muito abaixo destes dois. Nada de mais vil, nem de mais alheio a todo tipo de virtude do que esta multidão de operários, de mercenários e de gente sem profissão. Esta espécie de indivíduos corre sem parar pela cidade e pelas praças públicas e só fica contente nas Assembléias.”
“Vemos como deve ser constituída a primeira e a melhor democracia, e também como podem sê-lo as outras. Basta que nos afastemos gradualmente da primeira e adicionemos aos poucos a populaça, à medida que a democracia for piorando.”
A XENOFOBIA DE VERDADE NASCE QUANDO A XENOFOBIA PASSA A SER COISA DO PASSADO: “Para constituí-la [a última democracia] e firmar o poder do povo, os governantes costumam receber o máximo possível de pessoas e conceder direito de cidadania não apenas aos que têm um nascimento legítimo mas até aos bastardos e aos mestiços de qualquer dos dois lados, paterno ou materno.” “preciso introduzir a atenuante de só admitir recém-chegados na medida em que forem necessários para intimidar os nobres e a classe média, sem jamais ultrapassar este limite. Se isso acontecer, a desordem não tardará a reinar por toda parte. Os nobres, que já têm muita dificuldade para suportar este governo, se irritarão cada vez mais. Esta foi a causa do levante de Cirene. Fecham-se os olhos diante de um pequeno inconveniente, mas quando ele assume certa dimensão, não podemos deixar de vê-lo.”
“Deve-se dividir o povo em tribos e cúrias, dissolver os cultos particulares e reconduzi-los à unidade do culto público; numa palavra, imaginar todos os meios possíveis para unir todos os cidadãos e extinguir todas as corporações anteriores; nem mesmo desdenhar certas invenções que, embora de origem tirânica, não deixam de ser populares, como o desregramento dos escravos, que pode ser útil até certo ponto, a emancipação das mulheres e das crianças, a conivência sobre o gênero de vida que agrada a cada um: nada tem melhores efeitos para essa democracia. A dissolução agrada a muito mais gente do que uma conduta regrada.”
* * *
NA PLUTOCRACIA
Na melhor oligarquia: “A divisão pelo censo deve ser tal que aqueles que têm a renda exigida sejam mais numerosos e mais fortes dos que os que não são admissíveis. Mas também é preciso ter sempre a intenção de que aqueles que são associados ao governo venham somente da parte sadia do povo.”
“É o número e a abundância de homens que salvam as democracias; sua consistência vem de uma razão diametralmente oposta ao mérito. A oligarquia, pelo contrário, só pode conservar-se pela melhor ordem de suas partes.
Assim como a multidão se compõe principalmente de quatro classes, a saber: 1a os agricultores, 2a os ligados às artes e ofícios, 3a os comerciantes, 4a os trabalhadores manuais,¹ assim também existem quatro tipos de guerreiros, a saber: 1° a cavalaria, 2° os hoplitas ou infantaria armada dos pés à cabeça, 3° a infantaria ligeira, 4° a marinha.”
¹ Curioso como hoje em dia mal se pode distinguir uma da outra!
“Os lugares mais propícios à primeira espécie de oligarquias são os chamados bippasimos, isto é, próprios, por suas campinas, à criação de cavalos. Esses lugares são propícios à oligarquia mais poderosa. Seus habitantes são protegidos e conservados pela cavalaria. Ora,
só a classe opulenta pode ter haras.
Quando o lugar só oferece homens e armas, a segunda oligarquia convém-lhe mais. A armadura completa necessária à grande infantaria só pode ser fornecida pelos ricos e ultrapassa os recursos dos pobres.
É a arraia-miúda que compõe a infantaria ligeira e os marinheiros. Em toda parte onde abunda essa turba há perigo de democracia para os ricos. Se acontece alguma divisão, os combates de ordinário terminam desfavoravelmente para eles. Para sanar este inconveniente, é preciso contar com hábeis generais que misturem à cavalaria e à infantaria pesada um número suficiente dessa tropa ligeira; assim apoiada, ela combate com maior desenvoltura. Porém, criar uma força dessa espécie, vinda do seio do povo, é armar-se contra si mesmo e trabalhar para sua própria destruição. Nas sedições, o povo vence os ricos através da infantaria ligeira. Ágil e alerta, ela facilmente domina a cavalaria e a infantaria pesada. Portanto, distinguindo as idades, é preciso encarregar os velhos de fazer com que seus filhos pratiquem os exercícios ligeiros e, ao sair da juventude, tomem os melhores destes alunos para colocá-los à frente dos outros.
Quanto ao restante do povo será admitido, como já se disse, no controle dos negócios públicos, quando atingir a taxa do censo exigido, ou, como entre os tebanos, depois que se tiver abstido das profissões mecânicas durante o número prescrito de anos, ou, como em Marselha, quando, tendo passado pela censura, tiver sido considerado digno do título de cidadãos e das funções cívicas.
Devem-se impor às grandes dignidades pesados encargos, para que o povo renuncie a eles de boa vontade e os deixe aos ricos, como se assim lhe pagassem os juros. Com efeito, os ricos, ao assumir o exercício, oferecerão pomposos sacrifícios, mandarão construir salas de banquetes ou outros edifícios destinados ao público, para que o povo, convidado a estes banquetes e encantado com a magnificência dos edifícios e outras decorações, veja com prazer o governo perpetuar-se.”
“Não é isso o que hoje fazem os grandes de nossas oligarquias. Procuram nas dignidades, pelo contrário, não menos o lucro do que a honra. Dir-se-ia que são menos oligarquias do que democracias em transformação.”
* * *
E VIVA O GOVERNO MISTO…
“Os que se chamam aristocráticos estabeleceram-se em muitos países por imitação de governos estrangeiros, e se aproximam tanto da República propriamente dita que de agora em diante falaremos destas duas formas como sendo uma só.”
…E VIVA A MEDIOCRIDADE: “O que dissemos de melhor em nossa Ética é que a vida feliz consiste no livre exercício da virtude, e a virtude na mediania; segue-se necessariamente daí que a melhor vida deve ser a vida média, encerrada nos limites de uma abastança que todos possam conseguir.”
UM LOUVOR (ANTIGO!) AO ÚLTIMO HOMEM, ‘INDA TÃO DISTANTE NO ESPECTRO DA (NOSSA) HISTÓRIA: “Em todos os lugares, encontram-se 3 tipos de homens: alguns muito ricos, outros muito pobres, e outros ainda que ocupam uma situação média entre esses dois extremos. É uma verdade reconhecida [por quem, cara pálida e exangue?] que a mediania é boa em tudo.”
“Os da primeira classe, favorecidos demais pela natureza ou pela fortuna, poderosos, ricos e rodeados de amigos ou de protegidos, não querem nem sabem obedecer. Desde a infância, são tomados por essa arrogância doméstica e a tal ponto corrompidos pelo luxo que desdenham na escola até mesmo escutar o professor. Os da outra classe, abatidos pela miséria e pelas preocupações, curvam-se diante dos outros de modo que esses últimos, incapazes de comandar, só sabem obedecer servilmente. Os primeiros, pelo contrário, não obedecem a nenhuma ordem, mas mandam despoticamente.” Também é uma verdade, paradoxal que seja, que os melhores filósofos emanam justamente da CLASSE MÉDIA.
“Por isso Focílides dizia que uma modesta abastança era o objeto de seus desejos, só pedindo ao céu ser ele próprio medíocre em sua pátria.”
“a tirania surge de igual modo da insolente e desenfreada democracia e da oligarquia”
NOMENCLATURAS MONTESQUIEUANAS: Quando os pobres não têm este contrapeso, e começam a prevalecer pelo número, tudo vai mal e a democracia não tarda a cair no aniquilamento.”
“Um poderoso argumento a favor da mediocridade é que os melhores legisladores foram cidadãos de média fortuna. Sólon declara-se tal em suas poesias, Licurgo tornou-se tal quando parou de reinar e Carondas também o era, como quase todos os outros.”
“jamais ou raramente aconteceu, e entre muito poucos povos, que se tenha optado por uma República média. Entre os príncipes não há um só exemplo desta moderação, em toda a antiguidade; em todas as outras partes, virou costume recusar a igualdade e procurar dominar quando se sai vencedor, ou ceder e obedecer quando se é vencido.”
“o árbitro mais conveniente é aquele que, colocado entre dois, não pende mais para um lado do que para o outro” Infelizmente a classe média brasileira pende mais para o tio do pavê e o véio da Havan…
“O censo não pode determinar-se pura e simplesmente. É preciso, porém, que o seja com a máxima amplitude possível, para que os participantes sejam mais numerosos do que os não-participantes. Quanto aos pobres, eles se consolam por não participarem e ficam descansados se não os ultrajam e lhes deixam os poucos bens que possuem, o que nem sempre acontece, pois os indivíduos de condição que pretendem os cargos públicos às vezes não são nem corteses, nem humanos. Resulta daí que, se houver guerra, os pobres a evitam, a menos que os sustentem. Mas se os sustentarem, passam a desejá-la.
Em alguns lugares, o governo é formado não apenas por aqueles que portam armas, mas pelos que as portavam. Os malianos escolhiam seu Conselho dentre estes, e seus magistrados dentre os guerreiros em atividade. O primeiro Estado entre os gregos foi organizado com esta espécie de cidadãos, depois da extinção das monarquias; e em primeiro lugar com cavaleiros, pois a força e a superioridade dos exércitos consistiam então na cavalaria. Pois as outras tropas de nada servem se não tiverem disciplina, e antigamente não havia nem disciplina, nem experiência na infantaria, de sorte que a cavalaria sozinha constituía toda a força do Estado.
Mas como os Estados cresceram e ganharam consideração através das outras armas, o governo foi comunicado a um maior número de pessoas. Assim, o que hoje chamamos de República era então chamado de democracia.¹”
¹ Resta saber a quando remonta esse “então” de Aristóteles: poderia estar falando já do tempo de Sócrates, não tão pretérito ao seu? Tem-se aí que Aristóteles já divisava o que a ciência política moderna divisa entre os gregos: sua democracia era com certeza uma oligarquia ou aristocracia, conforme fosse saudável ou decadente (ainda sem contar a chusma de escravos da polis).
* * *
STOP THE REVOLUTION!
“Para terminar, é normal examinar de onde vêm as revoluções dos Estados, quantas causas podem provocá-las e quais são elas, a que depravações cada governo em particular está sujeito e quais são os meios de preservação, os remédios gerais e específicos para essas perturbações.”
“A excelência do mérito é a única superioridade absoluta, e os homens que se sobressaem quanto ao mérito são os que menos provocam revoltas.”
INCÊNDIO NA BABILÔNIA DEMORA A ESPALHAR: “Do fato de as pessoas habitarem o mesmo lugar não se segue que se trata de uma única e mesma Cidade. Os muros não podem servir de critério, pois todo o Peloponeso poderia ser cercado por uma mesma muralha. Não seria a primeira vez que vastos espaços seriam assim fechados. Assim são todas as grandes cidades, que se parecem menos com cidades do que com uma nação inteira, como a Babilônia. Três dias já se haviam passado, dizem, desde que fôra tomada e em vários bairros ainda de nada se sabia.”
“São também questões de política saber se convém que um Estado só contenha uma nação ou várias, se continua a ser o mesmo enquanto conserva o mesmo gênero de habitantes, apesar da morte de uns e do nascimento de outros, como os rios e as fontes, cuja água corre sem cessar para dar lugar à água que sucede.”
“permanecendo os mesmos atores, o coro não deixa de mudar quando passa do cômico ao trágico.” “Permanecendo as mesmas vozes e os mesmos instrumentos, o canto não é mais o mesmo quando passa do modo dórico ao modo frígio. Isto posto, é a forma e não a matéria que decide se um Estado permanece o mesmo e se se deve, apesar da identidade de habitantes, chamá-lo de outro nome ou conservar-lhe o nome, embora seus habitantes tenham mudado.”
PRINCÍPIO DA DISTRIBUIÇÃO DE RENDA PAULATINA (COMO NA SOLTURA DE ESCRAVOS): “Os crescimentos desmedidos de uma classe relativamente às outras também são causas de revolução. Assim, os membros que compõem um corpo devem crescer proporcionalmente, para que subsista a mesma comensura. O animal morreria se o pé, por exemplo, crescesse até 4 côvados, não tendo o resto do corpo mais do que 2 palmos”
MEGA-SENA DA VIRADA: “As modificações ocorrem com as democracias, mas são mais raras. Por exemplo, quando a quantidade de pobres aumenta e vários deles se tornam ricos, ou então quando os bens dos ricos aumentam de valor, passa-se à oligarquia, e até à oligarquia concentrada que chamamos politirania.
Às vezes, sem que haja sedição, o governo muda em razão de seu aviltamento, como em Heréia, onde começaram a se envergonhar das eleições e os magistrados foram depois sorteados, por causa da torpeza dos eleitos.”
“Algumas vezes a mudança se realiza através de progressos imperceptíveis; no final, fica-se admirado vendo os costumes e as leis mudadas sem que se tenha atentado para as causas ligeiras e silenciosas que preparam as mudanças. Na Ambrácia, por exemplo, depois de ter escolhido magistrados de pequena fortuna, passou-se a admitir pouco a pouco alguns que não possuíam nada. Ora, há pouca ou nenhuma diferença entre nada e muito pouco.”
“Todos os que admitiram estrangeiros para residir em sua cidade, foram quase sempre enganados por eles, como os de Trezena, que, em Síbaris, receberam os aqueus. Foram obrigados a ceder-lhes o lugar quando o número deles aumentou, o que causou a desgraça. Os sibaritas retiraram-se para Túrio e ali fizeram a mesma tentativa, mas, querendo dispor do território como senhores, foram vencidos e expulsos. Os bizantinos sofreram algo semelhante da parte de estrangeiros e tiveram subitamente que recorrer às armas para repeli-los. Os antisianos, que de modo semelhante haviam aceitado os banidos de Quios, também se viram obrigados a livrar-se deles pela força. Os zanclianos foram vencidos e expulsos pelos de Samos, que os tinham recebido. Também foram estrangeiros que perturbaram os apoloniatas do Ponto Euxino. Os siracusanos, após a expulsão de seus tiranos, tendo tornado cidadãos alguns soldados e mercenários estrangeiros, tiveram tantos aborrecimentos por causa disso que foi preciso romper com eles. Os de Anfípolis foram quase todos expulsos pelos de Cálcis, por tê-los recebido em sua cidade.”
“Às vezes a sedição parece derivar da própria natureza do lugar que foi mal-escolhido para habitação. Em Clazômenas, os habitantes do Centro (ou bairro dos banhos) detestam os da ilha; em Cólofon, a parte do norte odeia a do sul; em Atenas, o pireu é mais democrático do que a cidade. Pois, assim como num exército, um riacho, mesmo bem pequeno, pode romper a falange, assim também, numa cidade, qualquer diferença de habitação basta para quebrar, o entendimento e o acordo entre os habitantes.”
“Antigamente, em Siracusa, o Estado foi perturbado por dois jovens magistrados rivais em amor. Durante a ausência de um, o outro conquistou sua amada. O despeito, quando ele voltou, sugeriu-lhe atrair e seduzir a mulher de seu rival. Tendo cada um deles conseguido o apoio de outros magistrados, a discórdia espalhou-se por toda a cidade. Portanto, nunca é cedo demais para abafar as brigas dos altos funcionários e dos grandes. O mal está na origem. Em tudo, o que começou já está feito pela metade. O menor erro cometido no início repercute em tudo que se segue.”
“O noivo, por lhe terem predito que a união lhe traria desgraça, hesitou em tomar sua noiva e a deixou sem nada concluir. Os pais da moça, considerando-se insultados, acusaram falsamente o jovem de ter roubado durante a celebração de um sacrifício o dinheiro do tesouro sagrado e o fizeram morrer como sacrílego.”
“todos os que, quer na condição privada, quer na magistratura, quer em família, quer em tribo ou qualquer outra associação que possa haver, proporcionaram ao Estado algum acréscimo de potência, sempre ocasionaram certa perturbação, quer começada por invejosos, quer por terem eles próprios, envaidecidos com o sucesso, desdenhado permanecer nos limites da igualdade.”
“se uma das duas facções se torna muito superior, a porção média não quer arriscar-se contra quem tem uma superioridade evidente.”
“em Atenas os Quatrocentos lograram o povo com a falsa esperança de que o rei da Pérsia ajudaria com seu dinheiro os atenienses a fazerem guerra contra os espartanos, e assim se apossaram do governo.”
“o temor diante do perigo comum tem o efeito de reconciliar os maiores inimigos.”
“Em Rodes, distribuíram aos soldados todo o dinheiro proveniente dos impostos e impediram que os capitães das galeras recebessem o que lhes era devido, acusando-os de vários delitos. Para evitar, então, a punição, os acusados foram obrigados a conspirar contra a democracia e a derrubaram.”
“Antigamente, quando o mesmo personagem era demagogo e general de exército, as democracias não deixavam de se transformar em Estados despóticos. Com toda certeza, os antigos tiranos originaram-se dos demagogos. Isso já não acontece com tanta freqüência quanto antigamente, pois então, não estando ainda exercitados comumente na arte de bem falar, as armas eram o único meio de se obter poder. Hoje que a eloqüência foi levada ao mais alto grau de perfeição e goza da maior estima, são os oradores que governam o povo. (…) Assim, as usurpações da suprema autoridade eram mais freqüentes no passado do que no presente, porque se davam a alguns cidadãos magistraturas de alta importância, como em Mileto a Pritania, e se submetiam à decisão deles os maiores interesses. Aliás, as cidades estavam longe de ser tão grandes, já que o povo preferia morar no campo, ocupando-se com seus trabalhos rústicos. Portanto, se esses magistrados eram guerreiros, apossavam-se do governo. Seu principal recurso era a confiança que obtinham do povo, pelo ódio que demonstravam contra os ricos. Foi assim que Pisístrato obteve a tirania de Atenas; querelando contra os habitantes da planície; Teagênio, a de Mégara, mandando matar o gado dos proprietários, quando o encontrou passando à margem do rio; e Dionísio, a de Siracusa, acusando de traição Dafne e os grandes, artifícios que eram tidos como ímpetos de patriotismo e davam popularidade.”
“quando a oligarquia está de acordo consigo mesma, não é fácil destruí-la. Temos um exemplo disto no Estado de Farsala, onde poucos homens mantêm grande número deles na obediência, porque estão em harmonia e se conduzem bem entre si.”
“Em tempo de guerra, os magistrados, desconfiando do povo, são obrigados a chamar tropas estrangeiras e não raro aquele a quem confiam o comando se torna seu tirano, como Timófanes em Corinto. Se tal comando é confiado a vários, estes se coalizam numa dinastia, ou então, temerosos de serem pegos no mesmo truque, fazem com que o povo participe do governo, para reconciliarem-se com ele. Em tempo de paz, os oligarcas, desconfiados uns dos outros, entregam a guarda do Estado a seus soldados, sob o comando de algum general neutro, o qual às vezes acaba por se tornar senhor dos dois partidos, como aconteceu em Larissa sob o comando dos Alevadas (Aleuadas) de Samos e em Ábido, no tempo das facções, das quais uma era a de Ifíade.” “Várias oligarquias, como as de Cnido e de Quios, também foram destruídas por serem despóticas demais, e isso por senadores irritados com a insolência dos outros.”
“A tirania reúne os vícios da democracia aos da oligarquia. Ela tem em comum com a segunda o fato de propor-se a opulência como fim (sem isso ela não teria condições de manter a guarda e a magnificência), de desconfiar do povo, de desarmá-lo, de oprimi-lo, de expulsá-lo das cidades e dispersá-lo pelos campos ou colônias. Da democracia, ela toma a guerra aos nobres, sua destruição aberta ou clandestina, seu banimento, considerando-os como rivais ou como inimigos de seu governo. De fato, é de ordinário desta classe que procedem as conspirações, querendo alguns deles dominar eles próprios, e outros temendo ser escravos. Assim, vimos Periandro aconselhar Trasíbulo a cortar as espigas mais altas, isto é, desfazer-se dos cidadãos mais eminentes.
“Os ofendidos conspiram, na maioria dos casos, para se vingarem, e não em seu próprio proveito. Assim foi a conjuração contra os filhos de Pisístrato; ela teve por causa a injúria feita à irmã de Harmódio e a ofensa que ele próprio sentira na ocasião. Harmódio armou-se para vingar a irmã, Aristogíton para vingar Harmódio. Periandro, tirano de Ambrácia, permitiu que conjurassem contra ele por ter perguntado num banquete a uma de suas amantes se estava grávida de um filho seu. Pausânias matou o rei Filipe porque este desdenhava vingá-lo do ultraje que Átalo lhe fizera. Derdas conspirou contra Amintas, que se vangloriava de ter colhido a flor de sua juventude. Evágoras de Chipre foi morto por Eunucus, cuja esposa fôra raptada pelo filho daquele príncipe.” “Xerxes, bêbado de vinho, encarregara Artábano de crucificar Dario. Artábano, crendo que o príncipe se esqueceria dessa ordem por ter sido dada no auge da embriaguez, não a executou. Quando Xerxes deu mostras de sua cólera por isso, Artábano o matou para evitar sua própria perda.”
“O desprezo torna infiéis até mesmo os protegidos. A confiança com que são honrados persuade-os de que poderão de repente tentar um golpe seguro. O pouco caso que têm pelo monarca também torna audaciosos os que ganharam poder e acreditam poder tornar-se senhores do Estado. (…) foi o que fez Ciro contra Astiago, cujos costumes eram desprezíveis e a incapacidade evidente, já que vivia na moleza e seu exército estava irritado com a ociosidade.”
“A magnanimidade somada ao poder transforma-se em ousadia.”
“Os que conspiram para conseguir um nome são de uma espécie completamente diferente. Não atacam os tiranos pelas honras e pelas riquezas, mas sim para conquistar a glória e fazer com que falem deles. O desejo de um grande nome e da memória da posteridade faz com que arrisquem grandes façanhas, mas pessoas deste tipo são raras. É preciso estar, como Díon, O Bravo, disposto ao sacrifício da própria vida e a perder tudo, se falhar o golpe. A natureza não engendra facilmente almas tão heróicas.”
“Os Estados opostos, por exemplo uma democracia vizinha a uma tirania, são tão inimigos quanto os oleiros o são dos oleiros, no dizer de Hesíodo, pois a pior espécie de democracia é ela própria uma tirania. O mesmo ocorre com a monarquia e a aristocracia. Por isso os espartanos e os siracusanos, enquanto foram bem-governados, destruíram várias tiranias.
Algumas vezes a tirania morre por si mesma, quando ocorre uma divisão entre os pretendentes, como outrora a de Gelão e em nossos dias a de Dionísio.”
“quase todos os usurpadores conservaram a soberania durante a vida, apesar do ódio público, mas quase todos os seus sucessores perderam-na incontinente. A vida dissoluta que levam faz com que caiam no desprezo e dá mil ocasiões de os exterminar.”
CÓLERA COM “CO” DE “CORAÇÃO PURO”: “A cólera está ligada ao ódio e produz quase os mesmos efeitos, mas é ainda mais enérgica. Os que são animados por ela insurgem-se com mais violência, não podendo, na perturbação da paixão, ouvir os conselhos da razão.” “Ao passo que a cólera é acompanhada de uma dor que não permite raciocinar, a animosidade isenta desse ardor calcula e age silenciosamente.”
“vemos hoje muito poucos Estados governados por reis. [!] Se existem ainda alguns, são de preferência monarquias absolutas e tiranias. A realeza é uma dignidade estabelecida voluntariamente, cujo poder se estende às maiores coisas. Ora, como a maioria dos homens se assemelha e raramente se encontra alguém tão perfeito para corresponder à grandeza e à dignidade do cargo, as pessoas não se submetem de bom grado a semelhantes instituições. Se alguém quiser reinar por astúcia ou por violência, não haverá monarquia, mas sim tirania.”
“Historicamente, a monarquia tirânica é, juntamente com a oligarquia, a forma de Estado menos duradoura. A mais longa tirania foi a de Ortógoras e de seus descendentes, em Sícion. Durou cem anos. (…) 73 anos e 6 meses reinou a dinastia: Cipselo reinou 30 anos, Periandro, 40, e Psamético, filho de Górdias, 3.” “A terceira [tirania mais longa] foi a dos Pisistrátidas, em Atenas. Mesmo assim, a tirania de Pisístrato se viu duas vezes interrompida por sua expulsão, de modo que, de 33 anos, só reinou de fato por 17 e seus filhos mais 18, o que perfaz no total 35.”
“Só se sente o mal quando está consumado. Como ele não acontece de uma vez, seus progressos escapam ao entendimento e se parecem àquele sofisma que do fato de cada parte ser pequena inferir-se que o todo seja também pequeno.”
“Assim, aqueles que velam pela sua segurança devem inventar de tempos em tempos alguns perigos e tornar mais próximos os perigos que estão distantes, a fim de que os cidadãos informados estejam sempre alertas, como sentinelas noturnas.”
MUITA HORA NESTA CALMA: “Não valorizar demais quem quer que seja e não distribuir nenhuma honra excessiva, mesmo que breve. Se se acumulam muitos cargos em uma só pessoa, tais cargos devem ser-lhe retirados aos poucos, e não todos de uma vez. Será sobretudo conveniente estabelecer através das leis que ninguém possa adquirir poder, crédito ou riqueza demais, ou que sejam afastados os que tiverem demais.”
“O vulgo zanga-se menos por estar excluído do governo do que por ver os magistrados viverem às custas do tesouro público. É até muito cômodo dispor de todo o tempo para cuidar dos negócios particulares. Mas se estiver persuadido de que os titulares dos cargos públicos pilham o Estado, terá a dupla vexação de estar afastado tanto dos cargos públicos quanto dos lucros pecuniários.”
ENTÃO ME PROCESSA! “Aqueles que se preocupam com a segurança do Estado devem, em vez de se apoderar em proveito do povo dos bens dos condenados, consagrá-los à religião. A pena será a mesma e deterá igualmente os crimes, mas o povo terá menos pressa para condenar, pois não tirará nenhum proveito da sentença. Além disso, os legisladores devem fazer com que as acusações públicas se tornem muito raras, estabelecendo penas pesadas contra os que agirem levianamente, pois não são as pessoas do povo, mas sim as dos meios refinados que assim se costumam atacar e humilhar.”
“Se houver rendas suficientes, não se deve, como fazem os demagogos, distribuir à arraia-miúda o dinheiro que sobrar. Mal o recebem e já voltam a cair na indigência, pois essas pessoas são tonéis furados a que essa liberalidade não traz nenhum proveito.”
“O melhor emprego das rendas públicas, quando a sua percepção está terminada, é auxiliar amplamente os pobres, para colocá-los em condições ou de comprar um pedaço de terra ou os instrumentos para a lavoura, ou de abrir um pequeno comércio. Se não for possível ajudá-los a todos, deve-se pelo menos verter os subsídios na caixa de alguma tribo ou cúria ou de alguma porção do Estado, ora uma, ora outra. Far-se-á com que os ricos contribuam para as despesas das Assembléias necessárias, de preferência a esbanjamentos frívolos e meramente aparatosos. Por meio disso, o governo cartaginês tornou-se popular, empregando sempre alguém do povo nas administrações provinciais, para que aí fizessem fortuna.”
“para eleger um general de exército, deve-se considerar mais a experiência militar do que a virtude, pois há menos generais experientes do que homens virtuosos. O caso é totalmente contrário no que diz respeito à administração das finanças, pois aí é preciso mais probidade do que tem o comum dos homens.”
A FEIÚRA DO ESTADO: “Um nariz que se afasta da linha reta, que tende para o aquilino ou é arrebitado, ainda pode agradar; mas se se alongar ou se encurtar demais, primeiro sairá da justa medida e, por fim, cairá tanto no excesso ou na falta que não será mais um nariz. O mesmo ocorre com as outras partes do corpo, e também com os regimes. A oligarquia e a democracia podem subsistir, embora se afastando de seu desígnio e de sua perfeição. Mas se dermos demasiada extensão ao seu princípio, primeiro tornaremos pior o governo, e, no final, chegaremos a tal ponto que ele nem será mais digno deste nome.”
SEJA UM MILIONÁRIO APUD CF88 (SÓ PODIA DAR MERDA): “O mais importante meio para a conservação dos Estados, mas também o mais negligenciado, é fazer combinarem a educação dos cidadãos e a Constituição. Com efeito, de que servem as melhores leis e os mais estimáveis decretos se não se acostumar os súditos a viverem segundo a forma de seu governo? Assim, se a Constituição for popular, é preciso que sejam educados popularmente; se for oligárquica, oligarquicamente; pois se houver desregramento em um só súdito, este desregramento estará então em todo o Estado.”
MANUAL DO TIRANO PRUDENTE (QUASE UMA ANTINOMIA): “Deve-se manter espiões por toda parte, saber tudo o que se faz e tudo o que se diz, destacar agentes e espiões, como fazia Hierão em Siracusa, colocando-os em toda parte onde havia uma reunião ou um conciliábulo. Não se é tão ousado quando se tem algo a temer de tais vigilantes e, quando se é, fica-se sabendo.” “Empobrecer os cidadãos, a fim de que não possam formar uma guarda armada e, absorvidos nos trabalhos de que precisam para viver, não tenham tempo de conspirar. Como exemplo dessas manobras, temos as pirâmides do Egito, os templos dedicados aos deuses pelos Cipsélidas, o de Zeus Olímpico pelos filhos de Pisístrato, as fortificações de Samos por Polícrates, que são todas coisas que tendem aos mesmos fins de ocupação e empobrecimento. Aumentar o peso dos impostos, como em Siracusa no tempo de Dionísio onde, em 5 anos, foram obrigados a dar em contribuições tudo o que valia a terra.” “Fazer uso dos recursos da extrema democracia, como a atribuição do governo doméstico às mulheres, para que elas revelem os segredos de seus maridos, e o afrouxamento da escravidão, para que também os escravos denunciem seus senhores.”
SÍNDROME DE ESTOU-CALMO: “Os escravos e as mulheres nada tramam contra os tiranos e até, se tiverem a felicidade de ser bem-tratados por eles, afeiçoam-se necessariamente à tirania, ou à democracia, pois o povo também pode ser um tirano.”
“Um prego expulsa outro” “os tiranos declaram guerra a todo homem de bem que tiver coragem. Esta categoria de pessoas é perniciosa a seu regime, por não quererem deixar-se tratar servilmente, serem francos com todos, sobretudo entre eles, e não denunciarem ninguém.”Vale para instituições na “democracia”. Beware where you step, fella.
“Sendo senhor do Estado, não deve temer a falta de dinheiro. Mais vale para ele estar sem dinheiro para suas campanhas do que deixar em casa tesouros empilhados; com isto, ficarão menos tentados de abusar desse dinheiro os que, em sua ausência, governarem o Estado, pessoas muito mais temíveis para ele do que os meros cidadãos. Estes marcham com ele para o combate, enquanto que aqueles ficam na retaguarda.”
“Que o tirano tenha também uma abordagem fácil e um ar grave, de modo que os que tiverem acesso a ele pareçam menos temê-lo do que respeitá-lo, o que homens desprezíveis não conseguem facilmente. Se não se preocupar com nenhuma outra virtude, que pelo menos seja cortês, tenha a política de passar por virtuoso, e se abstenha não apenas ele mesmo de toda injúria contra seus súditos, de qualquer sexo que for, mas também não tolere que nenhum de seus domésticos ofenda ninguém, e cuide de que suas mulheres se comportem da mesma maneira para com as outras mulheres. Pois há injúrias feitas por mulheres de tiranos que arruínam a tirania.”
“Sobre a questão dos prazeres sensuais, que faça o contrário de seus êmulos de hoje, que não se contentam em se entregar a eles da manhã à noite, durante vários dias, mas ainda querem que todos saibam a vida que levam, para serem admirados como seres felizes. Que use moderadamente deste tipo de prazeres; que pelo menos tenha a aparência de não correr atrás deles, e até de procurar furtar-se a eles. Não se surpreende com facilidade e não se despreza um homem sóbrio, mas sim um homem bêbado, nem um homem vigilante, mas sim um homem sonolento.” “Que demonstre principalmente muito zelo pela religião. Teme-se menos injustiça da parte de um príncipe que se crê seja religioso e parece temer aos deuses, e se está menos tentado a conspirar contra ele quando se presume que tem a assistência e o favor do Céu. Mas é preciso que sua piedade não seja afetada, nem supersticiosa.” “Que deixe para si mesmo a distribuição das honras e entregue a seus oficiais e aos juízes as punições.” “A própria punição das faltas deve evitar o ultraje. Só se deve fazer uso dele com uma espécie de jeito paternal.”
* * *
CONSTITUIÇÕES REAIS E IDEAIS, DEVANEIOS DE UM DISCÍPULO!
“Em sua República, Platão propõe que as mulheres, as crianças e os bens sejam comuns aos cidadãos. De fato, neste diálogo, Sócrates preconiza a comunidade total.”
“A comunidade de mulheres oferece grandes dificuldades, e se fosse preciso estabelecê-la não seria pela razão apresentada por Sócrates. O próprio fim suposto por ele para a associação política torna impossível este estabelecimento, e assim ele nada diz de preciso sobre este assunto.” Desapega!
ARISTÓTELES NÃO COMPREENDEU SEU PRÓPRIO MESTRE: “É, portanto, claro que a unidade, como alguns a apresentam, não pertence à essência de um Estado, e o que chamam de seu maior bem é a sua ruína.”
“no serviço doméstico, quanto mais empregados houver, menos o trabalho é bem-feito.”
“Haveria alguma dúvida em preferir a mera qualidade de primo em nosso costume à de filho no de Sócrates?” Sim.
ANÁLISE MAIS PERFUNCTÓRIA DO MAIOR LIVRO DA IDADE ANTIGA AINDA NÃO NASCEU: “Outro absurdo da comunidade de crianças é só se ter proibido o comércio amoroso dos dois sexos, e não o amor e suas intimidades de pai para filho, de irmão para irmão, que são o cúmulo da indecência e da torpeza [com referência em que absoluto? Que declaração mais platônica!]. Ora, não é estranho proibir as relações entre os dois sexos, em razão dos perigos da volúpia excessiva, e ser indiferente sobre essas familiaridades entre pai e filho, irmão e irmão?”
“O encanto da propriedade é inexprimível. Não é em vão que cada um ama a si mesmo; tal amor é inato; só é repreensível o excesso chamado amor-próprio, que consiste em se amar mais do que convém. Tampouco é proibido amar o dinheiro, nem outra coisa da mesma natureza: todos o fazem.”
LONGO E INÚTIL IMBRÓGLIO, NO QUAL ROUSSEAU JÁ APARECERIA DANDO VOADORA PARA DEFENDER PLATÃO: “também contribui o preconceito existente de que os vícios que grassam em certos regimes procedem da propriedade, como esses eternos processos que sempre renascem entre os cidadãos por ocasião dos contratos, a corrupção de testemunhas e a adulação a que as pessoas se rebaixam diante dos ricos. Mas não é da propriedade dos bens que derivam esses males, mas da improbidade dos homens.” Engraçado como contradiz os capítulos precedentes da própria Política!
SERÁ QUE SE FAZ DE IMBECIL? “basta submeter a uma tentativa a comunidade socrática e se terá a prova de que ela é impraticável.” Dêem o Übermensch ao Último Homem e ele apenas será morto, dizimado, castrado ou ignorado…
“De resto, Sócrates não explica e não deixa entrever facilmente qual será a forma de governo entre seus comunistas.” Haha. Bom, qual seria a graça se a República tivesse 80 tomos e não precisássemos pensar em nada?! Para começo de conversa, nem saberíamos quem foi Aristóteles…
“Platão ou, se quiserem, Sócrates, que ele faz falar, tampouco trata de uma maneira satisfatória das revoluções ou das transformações de Estado.” Hm, verdade?
“É da ordem da natureza que nada seja eterno e tudo mude após certo período de tempo. A mudança ocorre quando o número elementar epiternário, combinado com o número quinário, dá dois acordes e é elevado ao cubo.”
Comete o erro torpe e juvenil de misturar seu sistema completamente arbitrário de formas de governo com um outro, que aliás não entendeu (pois se entendesse, não teria criado o seu): “E por que essa República passaria a ter a forma espartana, se a maior parte das outras se transforma no Estado contrário e não no que se lhes aproxima? Deve haver a mesma razão em toda mudança. Segundo ele, a forma espartana se transformará em oligarquia; a oligarquia, em democracia; a democracia, em tirania, embora também se transformem no sentido contrário, a saber, a democracia em oligarquia, mais até do que em monarquia. Além disso, não fala da tirania e não diz se sofre ou não mutação, nem por que causa, nem em que espécie de República. Deixa este ponto indeterminado, como algo em que a exatidão não seja fácil.¹ Segundo ele, a mudança deveria retornar à primeira e melhor espécie, de tal forma que haveria um circuito contínuo; mas a tirania algumas vezes dá lugar a outra tirania, como em Sícion a de Míron sucedeu à de Clístenes; ou a uma oligarquia, como em Cálcis, a de Antileo; ou uma democracia, como em Siracusa, a de Gelão; ou à aristocracia, como a de Carilau na Lacedemônia, e também em Cartago.²”
¹ Na verdade não precisou falar da tirania pela razão oposta: porque é muito fácil; todo homem sabe o que é e no que consiste a tirania.
² Parabéns, discípulo, fez o dever de casa: mas és filósofo ou historiador? É que estou com a memória ruim hoje…
“As leis, que Platão escreveu depois, são aproximadamente do mesmo gênero que A República.” Mas com muito mais homofobia, não é mesmo? Afinal, por que, já tão velho, se dar ao trabalho de escrever tanto?
FIGHT RANÇO WITH RANÇO (A ARTE DAS CAROLINAS): “Todas as palavras que neste livro atribui a Sócrates são cheias de superfluidades pomposas e de novidades problemáticas, cuja apologia talvez fosse difícil fazer.”
“O mesmo autor contenta-se com dizer que, assim como a cadeia difere da trama pela lã, deve haver algum atributo que distinga os que mandam e os que obedecem, mas não explicita quais são estas marcas distintivas.” Ele queria que você adivinhasse.
NÃO ERGAS PONTES QUE NÃO TENS O TALENTO DE ERGUER! “Sua forma de governo não é nem uma democracia, nem uma oligarquia, mas um regime médio que ele chama propriamente de ‘republicano’, composto inteiramente de militares. Se propôs esta forma por ser a mais geralmente consagrada em todas as sociedades civis, talvez tenha razão; se foi como a melhor depois da primeira d’A República, ele está enganado. Sem contestação, preferir-se-á o Estado de Esparta ou algum outro mais aristocrático.” Até hoje não se sabe muito bem a relação entre as Leis e a República, falo isso por experiência própria. Na dúvida quanto ao que falar, melhor calar a boca. E olha que eu meti o pau em metade dos livros das Leis nas minhas traduções!
Obrigado pela explicação, mas eu não pedi – e, ademais, achei que você disse a mesma coisa ali em cima, com suas próprias palavras (“o rico deve ser punido pela apatia política, o pobre incentivado”, é mais ou menos a sinopse de tudo), e sem nenhum indício de ironia (há poucos parágrafos, Ari. tinha criticado Sócrates-Platão por NÃO haver estipulado classes na República, mas agora o critica por segregar nitidamente sua polis, nas Leis!): “Na verdade, todos são convocados para as eleições, mas são obrigados a escolher primeiro entre a primeira classe de ricos, depois na segunda e depois na terceira; os da terceira e da quarta classes, porém, não são forçados a dar seu voto, e só é permitido aos da primeira e da segunda eleger entre os da quarta; é preciso apenas que cada classe forneça o mesmo número de eleitos. Portanto, a maioria e os principais sairão do grupo dos mais ricos, não se envolvendo o povo na eleição porque a lei não o força a isso.”
* * *
“Faléias de Calcedônia põe os artesãos no grupo dos escravos públicos, sem lhes dar nenhum lugar entre os cidadãos. Quanto aos que se empregam nos trabalhos públicos, vá lá. Mas, mesmo assim, isso deve ser feito como se estabeleceu em Epidamno, ou como Diofante determinou antigamente em Atenas.”
“Hipódamo de Mileto não deseja que os julgamentos se façam por meio de bolas; pretende que cada um traga uma tabuleta onde inscreva seu assentimento, se simplesmente condenar, ou então indique que condena sobre o principal e absolve quanto ao resto. Condena a forma empregada em nossos tribunais, pela qual, diz ele, os juízes não-raro são forçados a julgar contra a consciência e contra o juramento que prestaram.”
“A medicina, por exemplo, a ginástica e todas as artes e talentos ganharam ao reformar suas velhas máximas. Ocupando, pois, a política um lugar entre as ciências, parece que também ela pode admitir o mesmo princípio. De fato, os antigos Estados mudaram muito de feição. O que há de mais ingênuo e de mais grosseiro do que suas leis e costumes primitivos, mesmo as dos gregos, que antigamente andavam cobertos de ferro? O que existe de mais pobre e de mais imbecil do que sua jurisprudência, como em Cumas, onde, para condenar à morte um homem acusado de homicídio, bastava que o acusador apresentasse várias testemunhas tomadas de sua própria família?”
ISSO É SÉRIO, ARI.? “É muito provável que os primeiros homens, tanto os que saíram do seio da terra quanto os que escaparam da calamidade geral da espécie humana [tebanos ou egípcios, em suma], eram tão rudes quanto o vulgo de hoje, como são representados os antigos gigantes; seria uma extravagância limitarmo-nos a seus decretos.” Haha
AGORA, PRESTA UM TÁCITO TRIBUTO À REPÚBLICA DE PLATÃO PELA SUA INTENSA PREOCUPAÇÃO DE “UNISSEXUALIZAR” A POLIS… E DEPOIS ENVOLVE-SE NUMA BARAFUNDA SEM SIM, DEPRECIANDO ESPARTA SEM FUNDAMENTO (E SENDO O AVESSO DO “PLATÃO FINAL” OUTRA VEZ, AO SER HOMÓFILO: “Como o homem e a mulher fazem parte de cada família, é de se esperar que o Estado esteja dividido em dois, metade homens, metade mulheres; donde se segue que todo Estado em que as mulheres não têm leis está na anarquia pela metade. É o que acontece em Esparta. Licurgo, que pretendia enrijecer seu povo com todos os trabalhos penosos, só pensou nos homens e não prestou nenhuma atenção nas mulheres. Elas se entregam a todos os excessos da intemperança e da dissolução; assim, em tal Estado é necessário que as riquezas sejam honradas, principalmente quando as mulheres dominarem, como acontece na maioria das nações guerreiras, com exceção dos celtas e dos povos em que o amor pelos rapazes está publicamente em uso. [PROGRAMA PEDERASTIA PARA TODOS?]Não é sem razão que a fábula associa Marte a Vênus, pois todos os povos guerreiros são dados tanto ao amor dos jovens quanto ao amor das mulheres. [E ESPARTA NÃO? NÃO ENTENDO ISSO.] Este mal manifestou-se ainda mais em Esparta, onde, desde a origem, as mulheres se envolveram em tudo.[COMO, SE LICURGO AS OLVIDOU?]Pois o que importa que as mulheres mandem ou que os que mandam sejam comandados pelas mulheres? É a mesma coisa.”
“o legislador permaneceu longe do alvo a que se propunha; fez apenas um Estado pobre e particulares avarentos.”
Um homem do tempo de Aristóteles já não pode julgar a Esparta de Licurgo no seu momento presente, ainda mais levando-se em conta a assimilação da Grécia pela Macadônia!
Logo após falar mal dos éforos:“quer os éforos tenham sido instituídos por Licurgo desde sua primeira legislação, quer sejam de criação mais recente, não foram inúteis à prosperidade da nação.” [!!] Quem é capaz de entender Aristóteles, que sequer segue seu princípio da não-contradição quando se trata de Política?!
“As virtudes guerreiras, a que se relaciona toda a Constituição de Licurgo, não são senão uma parte da virtude integral, e são boas apenas para dominar os outros homens. Assim, os espartanos conservaram-se bastante bem enquanto guerreavam, mas quando submeteram a seu domínio todos os seus vizinhos começaram a decair, não sabendo o que fazer de seu ócio, não tendo aprendido nada melhor do que os exercícios militares.”
“A ilha de Creta parece ter sido disposta pela natureza para comandar a Grécia, cujos povos, em sua quase totalidade, habitam as costas do mar: por um lado, ela está situada a pouca distância do Peloponeso; por outro lado, ela toca na Ásia, confinando com Triópia e Rodes. Foi graças a esta posição que Minos se tornou senhor do mar, reduziu quase todas as outras ilhas à obediência ou as povoou com suas colônias. Pensava também em se apoderar da Sicília, quando morreu perto de Camico.”
“Os que são chamados de éforos na Lacedemônia chamam-se cosmos em Creta, com a única diferença de que são somente 5 na Lacedemônia e 10 em Creta.” Só isso? Bom, na essência eram ministros que atuavam como contrapeso do rei, i.e., poder moderador institucionalizado (não-encarnado num ou dois monarcas).
“Em Esparta, o povo que escolhe os éforos tem também a faculdade de escolhê-los dentre aqueles que bem quiser e, por conseguinte, de sua própria classe, assim como de todas as outras, o que faz com que tenha interesse em conservar o Estado. Em Creta, pelo contrário, os cosmos provêm não de todas as classes, mas sim de certas famílias. Dos que foram cosmos, tiram-se os senadores, dos quais se pode dizer tudo o que se disse dos de Esparta. A dispensa da prestação de contas e a perpetuidade são prerrogativas muito acima de seu mérito.” “Cassam-se os cosmos sem processo e, de ordinário, pela insurreição de outros cosmos ou de particulares amotinados. A única graça que lhes concedem é deixar-lhes, antes da expulsão, a faculdade de se demitir.”
“O regime de Cartago, em geral, é sabiamente ordenado. A pedra de toque de uma boa Constituição é a perseverança voluntária e livre do povo na ordem estabelecida, sem que jamais tenha ocorrido nem alguma sedição notável de sua parte nem opressão da parte dos que a governam.”
“A República de Cartago tem em comum com a de Esparta:¹ 1° o que nesta se chama Fidítias, ou refeições públicas entre pessoas da mesma classe; 2° seu Centunvirato, que corresponde ao colégio dos éforos, com a diferença de ser composto de 140 membros e de ser mais bem-recrutado, isto é, não-escolhido ao acaso e dentre o vulgo, mas sim dentre o que há de mais eminente em matéria de mérito²”
¹ Não disse no começo da obra que Esparta era uma monarquia? O próprio Montesquieu é dessa opinião!
² Mas Aristóteles cita como um mérito dos cargos de éforos espartanos serem abertos à arraia-miúda, quando não o são entre os cartagineses!
ARISTÓTELES NÃO SABE O QUE DIZ OU TODO O TEMPO SE CONTRADIZ! “A maior parte dos pontos que criticamos por se afastarem dos princípios de toda boa Constituição são comuns às três Repúblicas. No entanto, embora todas elas tenham um jeito de aristocracia ou de República, inclinam-se um pouco mais para a democracia, sob certos aspectos, e, sob outros, para a oligarquia.”
“De resto, embora a República de Cartago se incline bastante para a oligarquia, ela escapa com bastante agilidade dos seus inconvenientes, através das colônias de pobres que envia para que façam fortuna nas cidades de sua dependência. Este recurso prolonga a duração do Estado, mas é confiar demais no acaso; devem-se abolir pela própria Constituição todas as causas de sedição. Se acontecer alguma calamidade e a massa se revoltar contra a autoridade não haverá leis que possam deter sua audácia, nem remediar a desordem.”
“Dentre aqueles que escreveram sobre o governo civil, alguns sempre levaram uma vida privada sem participar em nada dos negócios públicos; passamo-los quase todos em revista, ao menos os que deixaram escritos dignos de atenção; os outros foram legisladores quer em sua própria pátria, quer em outro lugar. Dentre estes, alguns foram simplesmente autores de leis, outros, autores de Constituição, como Licurgo e Sólon. Falamos bastante do primeiro quando tratamos da República espartana. Alguns contam o segundo entre os bons legisladores, por ter destruído a oligarquia imoderada demais dos atenienses, libertado o povo da servidão e estabelecido uma democracia bem-temperada pela mistura das outras formas, aproximadamente tal como era antigamente. O Conselho, ou Senado do Areópago, é de fato oligárquico; a eleição dos magistrados, aristocrática e a administração da justiça, muito popular. O Areópago existia antes dele, assim como o modo de eleição dos magistrados. Ele parece só ter tido o mérito de sua conservação. No entanto, foi com certeza ele quem reergueu o povo, ao determinar que os juízes fossem tirados de todas as classes. Assim, censuram-no por ter ele próprio arruinado um ou outro, ou mesmo os dois outros poderes de sua Constituição, entregando ao sorteio, quanto ao terceiro, a nomeação dos juízes, e pondo todos sob a autoridade deles. Mal esta inovação foi recebida e já fez nascer a raça dos demagogos, que, adulando o povo, como se adulam os tiranos, reduziram o Estado à democracia atual.” Bem-lhe-quer mal-lhe-quer
“Sem dúvida, era necessário entregar ao povo, como fez Sólon, a nomeação e a censura dos magistrados, sem o que ele seria escravo e, conseqüentemente, inimigo do Estado. Mas Sólon quis ao mesmo tempo que os magistrados fossem escolhidos dentre os nobres e os ricos: aqueles que possuíssem 500 medinos [?] de renda, os que podiam alimentar um par de bois, ou zeugitas, e enfim os cavaleiros, que formavam a terceira classe. A quarta classe, composta de trabalhadores manuais, não tinha acesso a nenhuma magistratura.” ?!
“Alguns tentam fazer crer que Onomacrito de Lócris tenha sido o primeiro a saber fazer leis e que, tendo passado de sua pátria a Creta, ali pôs à prova este talento, embora não tivesse vindo senão para trabalhar como adivinho; dizem também que teve por companheiro Tales, cujos discípulos foram Licurgo e Zaleuco, que, por sua vez, teve Carondas como aluno. Há, porém, muitos anacronismos nessa história.
Filolau, natural de Corinto, da raça dos Baquíadas, também deu leis aos tebanos. Apaixonou-se por Díocles, vencedor nos jogos olímpicos, que, detestando o amor incestuoso de Alcíone, sua mãe, [?] deixou sua cidade e o seguiu até Tebas, onde ambos morreram. Ainda hoje se mostram seus túmulos, um em frente ao outro, mas colocados de tal forma que apenas de um deles se pode ver o istmo de Corinto. Dizem que isto foi assim arranjado por eles próprios, sobretudo por Díocles, em memória de sua desgraça, para subtrair seu sepulcro dos olhares de Corinto, pela interposição do mausoléu de Filolau.” Intercala análises de engenharia constitucional e da biografia dos grandes legisladores com casos comezinhos e romances, tsc…
“Platão, a comunidade das mulheres, das crianças e dos bens, além dos banquetes públicos femininos; também é conhecida a sua lei contra a embriaguez, a lei em favor da sobriedade dos presidentes de banquetes e a que diz respeito aos exercícios militares e ao uso das duas mãos, pois ele não podia tolerar que se servissem de uma e a outra permanecesse inútil. Existem também algumas leis de Drácon, que ele acrescentou, por assim dizer, à Constituição existente; distinguem-se pela extrema severidade das penas.”
“Pítaco é também mais autor de leis do que fundador de República. Cita-se uma lei sua contra os bêbados, que diz que as brigas entre eles, em estado de embriaguez, serão punidas mais severamente do que se não tivessem bebido.”
* * * PRIMEIRA LEITURA DA REPÚBLICA (CONTEÚDO IMPORTADO – COM EDIÇÕES – DO ANTIGO BLOG DO AUTOR, PRÉ-Seclusão Anagógica) * * *
[PREFÁCIO DA EDIÇÃO – COMENTADOR] Foi, como é fato conhecido, o preceptor de Alexandre, O Grande, mas não por muito tempo: “Romperá com seu real discípulo depois do assassínio de Calístenes” No entanto eis a comprovação de sua imaturidade prática, até maior que a de Platão, que tanto criticou: “Jamais se envolveu com política prática.”
Meu limite: é que o pai que temos determina o raio de nossa genialidade. O meu, infelizmente, é bem curto. Zeus não respeitou seu pai, por que esperaria receber o respeito dos filhos sem o emprego da violência? O fosso etário entre pais e filhos. Profilática: que o filho seja gerado no inverno! Adoro meus “rasgos de cólera”, “Dia de fúria”. Estranhamente encarnado numa fazenda abelhuda…
Muitas de suas obras se perderam. Algumas são atribuídas a si, mas provavelmente provêm de discípulos.
Estudou 158 Constituições de Estados – na época a Grécia estava em dissolução, e a República Romana em ascensão. Havia “zilhões” de pequenos Estados (cidades-Estados) – a geografia política do mundo era bem diferente do que é hoje. Contribuiu com as bases do Direito Moderno, mas foi muito ultrapassado por Montesquieu & al.
ECONOMIA (*) ≠ CREMATÍSTICA
(Modesta e nobre X Supérflua, grotesca e vil)
(*) despida em absoluto do “D” marxista (ciclos D-M)
P. 24: o médico vendido. O professor vendido.
“a bondade intrínseca do Estado”
“a mulher passaria por atrevida se não fosse mais reservada do que um homem em suas palavras.”
“São as primeiras impressões as que mais nos afetam”
“a beleza e a estatura não pertencem à maioria.” Ora, veja só, às vezes me acho um não-maldito!
“Democracia” não é o governo da maioria, etimologicamente, mas dos pobres.
Uma hora fala em Deus, noutra fala em Zeus.
“Pelo fim do serviço militar obrigatório! Vote 25050.” Minha plataforma.
“Os homens facilmente se corrompem pela prosperidade, pois nem todos são capazes de suportá-la”
161: bem atual – sobre os parlamentares e seus vencimentos: A idéia aristotélica de se não auferir SALÁRIO ao político profissional. Assim, será uma função por VOCAÇÃO, e não COBIÇA. Só os mais ricos, que já são ricos, estariam aptos, mas eles teriam menos chances de legislar em causa própria; e os pobres não se sentiriam ultrajados como hoje se vê com os sucessivos “auto-aumentos” que se concedem os deputados.
Já cobrava TRANSPARÊNCIA das autoridades em relação às receitas e gastos, mesmo sem um site na internet para publicá-lo.
“No caso de algum rico ultrajar [aos mendigos], será punido mais severamente do que se tivesse insultado um igual.”
Da liberdade e da igualdade na Democracia: “sofisma miserável.”
170: “Que deixe para si mesmo a distribuição das honras e entregue a seus oficiais a aos juízes as punições.” Maquiavélico, literalmente. Não seria o caso, aliás, de Maquiavel ser um aristotélico?
178: Aristóteles X Platão-Marx no tocante à propriedade privada.
Recomenda-se também, como medida anti-viciosa, um teto para rendimentos por indivíduo ou família, sem falar na dignidade do pão (banquetes públicos) aos indigentes.
“Não se deve exigir que um mesmo homem seja flautista e sapateiro.”
Platão: famoso precursor do feminismo [P.S.: quem diria…]
Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”
Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.
(*) “Íon ou Sobre a Ilíada ou ainda Da poesia é um diálogo de Platão pertencente ao que os escoliastas batizaram de Primeiros diálogos, escritos em sua juventude. Íon trata, por óbvio, do tema da Poesia, mais especificamente acerca da origem do talento do poeta, fenômeno tido por inexplicável.” – A.P.V. Podemos considerar, pois, Platão um dos fundadores do campo da Estética.
(*) “Os rapsodistas ou rapsodos foram, entre os gregos, os primeiros depositários das obras dos grandes poetas como Hesíodo, Homero e Arquíloco. Encaravam como uma profissão formal o popularizar seus versos. Participavam de concursos como as <Olimpíadas dos Poetas> a cada quinqüênio em Epidauro, onde havia um templo consagrado a Asclépio ou Esculápio, curiosamente deidade relacionada à fundação da medicina (a poesia podendo ser interpretada como uma cura d’alma). Não pode se referir este templo a Asclepíades de Samos, poeta e mestre dos epigramas, porque esse é mais jovem inclusive que o próprio Platão.” – P.A.
“SÓCRATES – Muitas vezes, meu querido Íon, tive inveja de vós rapsodos, por vossa vocação. Não poderia deixar de produzir inveja esta vantagem que oferece vossa vida, de aparecerdes sempre ricamente vestidos e adornados nos mais esplêndidos saraus, sendo que muito me fascina o fato de que preciseis devotar-vos a um estudo continuado de uma multidão de poetas antigos que atingiram a excelência, principalmente Homero, o maior e mais divino de quantos se possa enumerar. E é fato que não só aprendeis os versos como penetrais em suas profundas significações. Afinal jamais será um bom rapsodo aquele que não tenha conhecimento das palavras do poeta e sua devida conotação. Aqueles que escutam o rapsodo dependem deste intérprete para que entendam o poema. Esta função seria impossível a ignorantes do desejo de expressão do poeta.”
“ÍON DE ÉFESO – (…) Nem Metrodoro de Lâmpsaco nem Estesímbroto de Tasos nem Glauco, nem nenhum outro, encontra-se em posição de discursar sobre Homero tantas coisas, e tantas coisas belas, quanto eu.
SÓCRATES – Encantas-me, Íon, tanto mais quanto que não poderás recusar-te agora a me demonstrar tua ciência colossal!”
“SÓCRATES – (…) neste momento só quero que tu me digas se tua habilidade se limita à inteligência de Homero ou se se estende igualmente à de Hesíodo e de Arquíloco.
ÍON – De forma alguma, Sócrates. Devoto-me exclusivamente a Homero, e me parece o bastante.
SÓCRATES – Não há certos assuntos sobre os quais Homero e Hesíodo se expressam igualmente?
ÍON – Eu imagino que sim, e isso não deve se dar raramente!
SÓCRATES – Poderias explicar melhor o que diz Homero sobre estes objetos que aquilo que diz Hesíodo?
ÍON – Explicá-los-ia perfeitamente sempre que ambos os poetas falam das mesmas coisas, Sócrates.
SÓCRATES – E nos casos em que não dizem exatamente o mesmo? P.ex., Homero e Hesíodo não discursam sobre a arte divinatória?
ÍON – Em absoluto.
SÓCRATES – Estarias tu em condições de explicar melhor ainda que um adivinho competente o que estes dois poetas disseram, seja de maneira idêntica ou divergente, acerca desta arte tão especial?
ÍON – Não.”
“SÓCRATES – (…) Homero fala de coisas estranhas a todos os demais poetas? Não fala sobretudo da guerra, das relações dos homens entre si, dos bons e dos maus, tanto em seus dramas pessoais quanto na política? Não fala ele de como até mesmo os deuses participam da vida humana, ou quando fazem concílios apenas entre iguais? Ou seja, não fala Homero de coisas que se passam na terra, nos céus e nos infernos, não toca a genealogia dos deuses e dos heróis? Não seriam estas as matérias que constituem, basicamente, os poemas de Homero?
ÍON – Tens razão, Sócrates.
SÓCRATES – Mas os demais poetas não tratam dos mesmos assuntos?
ÍON – Evidente, Sócrates, mas não como Homero.
SÓCRATES – Mas por quê? Falam pior?
ÍON – Incomparavelmente pior!
SÓCRATES – E portanto Homero fala melhor?
ÍON – Sim, por óbvio.”
“SÓCRATES – Ora, se conheces aqueles que falam bem, deves conhecer aqueles que falam mal.
ÍON – Assim parece.”
“SÓCRATES – Não é difícil, meu querido amigo, adivinhar a razão. É evidente que tu não és capaz de falar sobre Homero mediante a arte¹ ou a ciência. Porque se puderas falar de Homero através da arte, estarias habilitado a fazer o mesmo com respeito a todos os poetas. Com efeito, a poesia é uma só e mesma arte, cujo estudo teórico se chama poética. Ou discordas?
ÍON – Jamais.”
¹ Arte neste contexto seria mais bem-traduzido como técnica. O descompasso se deve à concepção grega que tende a igualar o que chamamos de arte (inspiração, como logo veremos) a uma “capacidade de realizar uma obra metodicamente”, significado que se desgastou ao longo dos séculos nos discursos do mundo moderno. Em grego, techne seria provavelmente o vocábulo original. Não traduzi por técnica, o que seria mais condizente, evitando esta nota de rodapé, porque a tradução em espanhol não optou, no séc. XIX, por realizar essa transformação – portanto, é saudável assinalar como há uma certa gradação dos próprios tradutores quanto ao entendimento desta questão (seja hoje, seja antigamente). Ficará bem claro na sequência como meu ponto de vista deverá prevalecer: não devemos entender “arte” na boca de Sócrates como entendemos Arte no sentido moderno (Pintura, Escultura, Poesia, Cinema): para Sócrates, um sapateiro domina a arte de fabricar sapatos, um capitão de navio a arte de pilotar uma embarcação nos mares, etc. Nesse sentido, o rapsodo, para Sócrates, não estava muito distante destes dois. Era um artesão como eles, artesão das palavras e das metáforas e símbolos possíveis graças à complexidade da linguagem e das narrativas dos feitos humanos. É esta diferença, mínima e sutil na cabeça do grego, que muitos acadêmicos ocidentais não conseguem captar, pois para eles – talvez envaidecidos – trata-se de um fosso ou abismo (qualificação técnico-artística X ofício plebeu). Independentemente disso, toda arte envolve, mais ou menos mesclada no processo criativo e espontâneo, algum tipo de técnica, no sentido instrumental, por isso decidi pela manutenção da expressão no diálogo, mas há outros trechos em que é inevitável, como solução, usar literalmente “técnica” (vide adiante).
“este título de sábio pertence só a vós os rapsodos, atores, e aos próprios poetas que cunharam pela primeira vez os versos que cantais. Eu, eu não sei mais do que a sinceridade, o que aliás é o que mais convém a homens de pouco talento.”
(*) “Polignoto: era da ilha de Tasos. Os afrescos que pintou em Delfos até pelo menos o ano 395 a.C. atraíam as atenções pelo traçado e pela expressão dos semblantes.” – P.A.
“SÓCRATES – Mas como? Em matéria de escultura acaso já viste quem esteja à altura de decidir sobre os méritos das obras de Dédalo, filho de Metion, ou de Epéio, filho de Panopeu, ou de Teodoro de Samos, ou de qualquer outro estatuário, e que se veja, ao mesmo tempo, anestesiado, adormecido, encabulado, sem saber quê dizer, quando o assunto são as obras de escultores menores?
ÍON – Por Zeus, Sócrates, jamais vi um caso destes em toda minha vida!
SÓCRATES – Aposto que também nunca ouviste falar, seja na arte de tocar a flauta ou o alaúde, ou ainda na de acompanhar o canto com o alaúde, ou na rapsódia em geral, nunca ouviste falar, em suma, que alguém estivesse apto, por conhecimento, a julgar de Olimpo, Tâmiras, Orfeu, Fêmio (o rapsodo de Ítaca) e que, ao virar-se para Íon de Éfeso, não soubesse quê dizer, simplesmente, nem mesmo se era bom ou mau rapsodo.
ÍON – Nada tenho a opor a tua tese, Sócrates! Posso assegurar-te, contudo: eu, dentre todos os homens, sou este fenômeno: capaz de falar com mais facilidade e eloqüência de Homero que qualquer um; meus ouvintes estão de acordo comigo. Isso não me impede de ficar absorto e em silêncio, impotente, toda vez que o tema central muda de avatar poético. Diz-me, eu to suplico, ó Sócrates, que tipo de doença é esta!
SÓCRATES – (…) Esse talento que possuis de discursar com excelência sobre Homero não é-te devido à técnica ou à sabedoria, como eu dizia antes, senão que é um não-sei-quê de virtuoso e de divino, uma coisa mágica que te transporta, semelhante à pedra que Eurípides chamou de <magnética>, mas que os outros gregos preferem denominar pedra de Heracléia. Esta pedra não só tem a virtude de atrair os anéis de ferro como comunica-lhes esse mesmo poder, de forma que esses próprios anéis atraídos pela pedra passam a exercer a atração sobre outros anéis mais distantes, facultando a formação de correntes ou cadeias de objetos de ferro, uma verdadeira corrente de anéis suspensa no ar! E todos os anéis magnetizados o são em virtude desta pedra somente. A pedra inspira os anéis. Assim como a Musa inspira os poetas, e estes comunicam sua inspiração divina a outros mais competentes dentre os homens, que entendem e sentem seu entusiasmo, e são capazes de, por sua vez, comunicá-los à gentalha, numa <cadeia dos inspirados>. Não é pela técnica que tu comunicas Homero: é pelo entusiasmo e pela inspiração, cativado que és pelo dom do poeta épico excelente. O mesmo sucede com os poetas líricos. Semelhantes aos coribantes, que não dançam senão quando estão fora de si mesmos, os poetas não estão de sangue frio quando compõem suas preciosas odes. Antes ao contrário: desde o momento que chegam ao tom da harmonia e ao ritmo adequados, entram como que em furor, e se vêem arrastados por um entusiasmo igual ao das bacantes, que em seus movimentos e em sua embriaguez tiram leite e mel dos rios, e cessam de tirá-lo assim que cessa o delírio. Assim é que a alma dos poetas líricos faz realmente o que eles se jactam tanto de praticar.”
“o poeta é um ser alado, ligeiro e sagrado, incapaz de produzir enquanto o entusiasmo não o arrebata e o obriga a sair de si”
“Um sobressai no ditirambo, outro nos elogios, este nas canções destinadas à dança, aquele nos versos épicos, outro ainda nos jambos, e todos sem exceção são medíocres fora do gênero em que sofrem inspiração, porque é esta e não a técnica a que preside seu trabalho.”
“O objetivo que Deus se propõe ao privá-los do sentido, e servir-se deles como ministros, como faz com os profetas e outros adivinhos inspirados, é que, ao ouvi-los nós, tenhamos por estabelecido que não são eles que dizem coisas tão maravilhosas, posto que estão fora de seu senso. São os órgãos da divindade que falam através de suas bocas.”
“ÍON – Ó, por Zeus, Sócrates! Teus discursos causam em minh’alma uma profunda impressão, e me parece que os poetas, graças a um favor divino, são diante de nós os intérpretes dos deuses.
SÓCRATES – E vós, os rapsodos, não sois os intérpretes dos poetas?
ÍON – Sim.
SÓCRATES – Logo, sois vós os intérpretes dos intérpretes.
ÍON – Sem contradição.”
“SÓCRATES – (…) Não te imaginas estar presente nas ações que recitas, não te imaginas estar em Ítaca ou diante de Tróia, ou seja, no lugar mesmo onde se desenrola a cena?
ÍON – A prova que me demonstras é a suma evidência, Sócrates! Porque, se hei de te falar com a mais pura franqueza, asseguro-te que quando declamo uma passagem patética meus olhos se enchem de lágrimas, e quando recito algum fragmento terrível ou violento fico todo eriçado e palpita meu coração.
SÓCRATES – E então, Íon, diremos que um homem está em seu santo juízo, quando, vestido com trajes de múltiplas cores e levando uma coroa de ouro, chora em meio aos sacrifícios e às festas, ainda que não tenha perdido nenhum de seus adornos, ou quando, em companhia de mais de 20 mil amigos, se o vê dominado pelo terror, apesar de ninguém em absoluto ter concorrido para produzir-lhe qualquer dano?
ÍON – Certamente que não está são este homem, Sócrates!
SÓCRATES – Sabes tu se no momento em que recitas transmites os mesmos sentimentos que sentes à alma dos espectadores?
ÍON – Claro que sim, Sócrates! Das tribunas, onde me situo, vejo-os chorar com freqüência, ou então olhar de modo ameaçador, ou então tremer como eu à narração do que escutam! E necessito estar sempre atento aos movimentos que se produzem na platéia, porque se faço-os chorar, significa que, depois, me porei a rir e receberei o dinheiro; mas se os faço rir, eu é que chorarei ao final, e perderei todo o lucro que esperava obter.
SÓCRATES – Vês agora como o expectador é o último destes anéis que, como eu dizia, recebem uns dos outros a virtude que lhes comunica a pedra de Heracléia? O rapsodo, tal como tu, o ator, é o anel intermediário, e o primeiro anel é o poeta mesmo. Por meio destes anéis o deus atrai a alma dos homens, como deseja, fazendo sua virtude atravessar até o fim da longa corrente, da mesma forma que a propriedade da pedra-ímã. Sustenta-se assim uma comprida linha de coristas, maestros de capela e sub-maestros, sujeitos todos aos anéis que estão mais próximos da Musa, a pedra. Um poeta está ligado a uma Musa, outro poeta a outra Musa diferente, e nós dizemos deste fenômeno que <estão possuídos>, dominados, posto que os poetas não estão a sua própria mercê, mas pertencem neste momento inteiramente à Musa. Estes primeiros anéis se ligam a outros anéis, cada anel a seu anel, conforme profira comédias ou tragédias, ou jambos ou ditirambos. Cada anel tem seu temperamento. Há os anéis de Orfeu, outros consagrados a Museu, mas a maior parte realmente está dedicada a Homero. Tu pertences à classe destes últimos, Íon! Homero te possui. Quando se entoam em tua presença os versos de algum outro poeta, tu ages como o sonâmbulo, pois teu espírito nada te comunica.”
“SÓCRATES – Homero não fala das artes em muitas passagens e de forma muito específica? Por exemplo, a arte de conduzir um carro? Se eu mesmo pudesse recordar os versos, tos mencionaria aqui.
ÍON – Eu os sei, vou recitar-tos.
SÓCRATES – Recita-me, pois, as palavras de Nestor a seu filho Antíloco, quando lhe dá conselhos sobre as precauções que deve tomar a fim de evitar tocar a meta na corrida de carros, nos funerais de Pátroclo.
ÍON – Inclina-te, Nestor diz-lhe, bem-preparado, sobre teu carro, à esquerda; ao mesmo tempo, com o chicote e a voz, apura o cavalo da direita, afrouxando-lhe as rédeas; faz com que o cavalo da esquerda se aproxime da linha de chegada, de maneira que o cubo da roda, feito com arte, pareça mesmo tocar nela, porém sem de modo algum fazê-lo.
SÓCRATES – É quanto basta. Quem julgará melhor, Íon, se Homero fala com propriedade ou não nestes versos: um médico ou um cocheiro?
ÍON – O cocheiro, sem pestanejar.
(…)
SÓCRATES – Deus atribuiu a cada arte a faculdade de julgar sobre as matérias que a cada uma correspondam, porque não julgamos mediante a medicina as mesmas coisas que conhecemos pela arte (técnica) da pilotagem.
ÍON – Com certeza não!”
“SÓCRATES – (…) não reconheces que as artes diferem umas das outras?
ÍON – Com certeza.
SÓCRATES – Até onde se pode conjeturar sobre a fronteira dessas diferenças posso sem medo dizer que uma é diferente de outra, porque esta é a ciência de um objeto, e aquela a de outro. Pensas como eu?
ÍON – Absolutamente.”
“SÓCRATES – (…) julgarás tu melhor que o cocheiro se Homero fala bem ou mal?
ÍON – O cocheiro julgará melhor.
SÓCRATES – Porque tu és rapsodo e não cocheiro.
ÍON – Exato.
SÓCRATES – A arte do rapsodo é distinta da do cocheiro?
ÍON – Claro.
SÓCRATES – Já que o é, tem que ser a ciência de outros objetos que não os da pilotagem de carroças.
ÍON – Concorde.
SÓCRATES – Mas quê, amigo Íon! Quando Homero diz que Hecamede, concubina de Nestor, deu a Macaon, que ferido estava, uma beberagem e assim se expressa: deu-lhe vinho fino, sobre o qual havia raspado queijo de cabra com uma faca de metal, e mesclado-lhe cebola para dar sede, pertence ao médico ou ao rapsodo o julgar se Homero falou de forma correta ou não?
ÍON – À medicina, Sócrates.”
“SÓCRATES – (…) Da mesma forma que te mencionei passagens da Odisséia e da Ilíada cujo julgamento pertence, uma parte, aos adivinhos, outra parte aos médicos, outra aos pescadores, etc., diz-me agora, Íon, tu que conheces Homero melhor que eu, os trechos que são mais próprios à rapsódia mesma no que compete ao julgamento e à crítica. Em que trechos de Homero tua técnica sobressai a todos os outros profissionais?
ÍON – Eu te respondo, Sócrates, que todos os trechos de Homero são competência nossa em última instância.
SÓCRATES – Mas Íon, tu disseste o contrário há bem pouco! Como tens uma memória tão ruim?! Não é próprio de um rapsodo ser tão esquecido!
ÍON – Como assim, Sócrates? Que é que eu esqueci?
SÓCRATES – Não te lembras de ter dito que a técnica do rapsodo é distinta da do cocheiro?
ÍON – Claro que me recordo, Sócrates.
SÓCRATES – Não confessaste, então, que, sendo distinta, sua técnica deve se voltar necessariamente a outros objetos?
ÍON – De certa forma.
SÓCRATES – A técnica do rapsodo, segundo o que tu disseste, não conhecerá todas as coisas, como não as conhecerá o rapsodo.
ÍON – Talvez seja preciso excetuar esta classe de objetos, Sócrates.”
“ÍON – Conhecerei, creio, os discursos que são colocados na boca dos homens e das mulheres, dos escravos e das pessoas livres, dos que obedecem e dos que mandam.
SÓCRATES – Queres dizer então que o rapsodo saberá melhor que o piloto de que maneira deve falar quem comanda um navio atingido pela tempestade?
ÍON – Não, neste caso o piloto é o mais indicado.
SÓCRATES – O rapsodo saberá melhor que o médico os discursos dos que tratam os doentes?
ÍON – Também não, confesso-o.
SÓCRATES – Então o rapsodo é o mais indicado para julgar os discursos dos escravos?
ÍON – Sim.
SÓCRATES – Por exemplo, pretendes que o rapsodo, e não o vaqueiro, saberá o que é preciso dizer a fim de amansar as bestas quando estiverem irritadas?
ÍON – Não, não.
SÓCRATES – E saberá melhor que um trabalhador de lã o que se refere à lã?
ÍON – Não!
SÓCRATES – Saberá melhor os discursos de um general que tenta animar seus soldados?
ÍON – Sim, eis o que o rapsodo deve conhecer.
SÓCRATES – Mas como?! A arte do rapsodo é igual à arte da guerra?
ÍON – Pelo menos eu sei muito bem como deve falar um general de exército.
SÓCRATES – Talvez, Íon, sejas versado na arte de comandar uma tropa. Com efeito, se foras simultaneamente bom cavaleiro e bom tocador de alaúde, distinguirias tão bem quanto qualquer outro cavaleiro quais cavalos são mais rápidos. Mas se eu te perguntasse através de que arte conheces os cavalos que correm mais rápido, se por ser bom cavaleiro ou por ser bom tocador de alaúde, que me responderias?
ÍON – Te responderia que enquanto bom cavaleiro é que o saberia.
SÓCRATES – Analogamente, se conhecesses o que é bem-tocado no alaúde, confessarias que este discernimento fazias em virtude de ser músico, e não cavaleiro?
ÍON – É evidente.
SÓCRATES – Pois bem: posto que entendes de arte militar, tens este conhecimento enquanto homem bélico ou rapsodo?
ÍON – Isso não é o mais importante, Sócrates.
SÓCRATES – Como é que não importa? A teu ver, a arte do rapsodo é idêntica à da guerra, ou são duas artes distintas?
ÍON – Creio serem a mesma arte.
SÓCRATES – De maneira, então, que o bom rapsodo é também um bom general?
ÍON – Sim.
SÓCRATES – E vice-versa? O bom general será um bom rapsodo?
ÍON – Bom, não nego que aí tens minha discordância.
SÓCRATES – Pelo menos crês que um excelente rapsodo seria com igual probabilidade excelente capitão…
ÍON – Decerto.
SÓCRATES – E não és tu o melhor rapsodo de toda a Grécia?
ÍON – Estou seguro disso.
SÓCRATES – Portanto, tu, Íon, és o melhor capitão de toda a Grécia?
ÍON – Posso afiançar-te, Sócrates! Aprendi a sê-lo por Homero.
SÓCRATES – Em nome dos deuses, Íon! Como, sendo tu o melhor capitão e melhor rapsodo de toda a Grécia, andas de cidade em cidade recitando versos e não estás, ao invés, à frente dos nossos exércitos?! Pensas que os gregos têm grande necessidade de um rapsodo com uma coroa de ouro, e que nada dariam por um grande general?
ÍON – Nossa cidade, Sócrates, está submetida a vossa dominação. Vós atenienses mandais em nossas tropas e não necessitamos de nenhum general, verdadeiramente. Quanto a vossa cidade em si, e a Esparta, em particular, não me elegeriam para conduzir seus exércitos, posto que já vos credes capazes o bastante na matéria.
SÓCRATES – Meu querido Íon, conheces Apolodoro de Cícico?
ÍON – Quem é esse?
SÓCRATES – Aquele que os atenienses já colocaram muitas vezes à cabeça de suas tropas, ainda que seja um estrangeiro. E Fanóstenes de Andros e Heraclides de Clazômenas de igual modo. Porque avaliamos os guerreiros pelo seu mérito, não pela sua nacionalidade. E não escolheriam para mandar em seus exércitos Íon, cumulando-o de glórias? Por que não o crês? Vós efésios não sois atenienses de origem, e Éfeso não é uma colônia que não cede em nada a muitas outras polis? Se dizes a verdade, Íon, se a arte e a ciência que possuis advêm de Homero, então ages mal para comigo, porque depois de te haver exaltado pelas belezas homéricas que conheces e de haver-me prometido fazer-me partícipe destas, vejo agora que me enganas, porque não só não me fazes partícipe destas coisas como tampouco queres confessar-me quais são esses conhecimentos em que tanto sobressais! Semelhante a Proteu, giras em todos os sentidos, metamorfoseias-te e adquires todas as formas imagináveis; diriges teu discurso a fim de livrares-te de minhas demandas. Concluis, pois, por transformar-te em general, para que eu não possa compreender a extensão de tua habilidade e de tua inteligência em Homero! Por último, se é à técnica que deves esta habilidade sem comparação, tendo-te antes comprometido a ensinar-ma ou pelo menos demonstrar-ma, faltas com tua palavra! Logo, és injusto, Íon! Se, ao contrário, não é à técnica senão a uma inspiração divina que se devem seus conhecimentos homéricos, já que tu ficas possuído mesmo sem ter ciência das coisas enquanto as recitas, como eu te disse antes, não tenho eu motivo para queixar-me de ti!”
“Pois então, Sócrates, se queres que eleja um ou outro, é muito melhor passar por um homem divino do que por general.”
Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”
Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate (tradutor) ou de Ana Pérez Vega (editora), um (*) antecederá as aspas.
(*) MOTE DO DIÁLOGO: “qual dos dois personagens célebres da mitologia, Aquiles ou Ulisses, é superior?” – A.P.V.
(*) “Como sói acontecer nos diálogos desta fase de Platão, a conversa culmina numa aporia: os personagens chegam a um fim sem apresentar soluções ao problema e encerram a obra reconhecendo sua ignorância.” – A.P.V.
“SÓCRATES – Muito bem, Eudico. Com muito prazer é que perguntaria a Hípias sobre algumas das coisas que ele afirmara com respeito a Homero. Ouvi dizer, da parte de teu pai Apemantes, que a Ilíada de Homero era um poema melhor que a Odisséia, sendo aquele mais belo que este, tanto quanto é Aquiles superior a Ulisses. (…) Desejaria, pois, saber de Hípias, se não se aborrece, claro, o que pensa destes heróis e qual dos dois prefere, levando em conta que já discursara sobre tantas matérias e acerca de tantos poetas, particularmente o Pai de todos, Homero.
EUDICO – Esteja certo de que qualquer pergunta que fizeres a Hípias será respondida sem demora. Não é isso mesmo, Hípias?
HÍPIAS – Incorreria eu em grave falta se, acostumado como estou em ir da Élide, minha pátria, a Olímpia, participar das assembleias gerais do povo grego durante os jogos, aberto a todo tipo de questão e debate, me negasse agora a fazer o mesmo com Sócrates!
SÓCRATES – Ó Hípias! Ditoso de ti se a cada Olimpíada te apresentas no templo com a alma tão confiante em tua sabedoria! Muito me espantaria deparar com um atleta que exibisse tua mesma segurança, que confiasse nas próprias forças do corpo tanto quanto tu confias no poder de teu espírito.
HÍPIAS – Se penso bem de mim mesmo, não é em vão, Sócrates; desde que comecei a freqüentar os jogos olímpicos nunca encontrei adversário a minha altura.
SÓCRATES – Decerto, Hípias, teu renome é um monumento reluzente de sabedoria para teus concidadãos da Élide, e ainda mais para os que te geraram!”
“HÍPIAS – (…) Homero fez de Aquiles o mais valente de quantos guerrearam em Tróia; de Nestor, o mais prudente; e de Ulisses o mais astuto.
SÓCRATES – Pelos deuses, Hípias! Concordarias em conceder-me um desejo? Não é difícil: é não troçar de mim, quando verificar que eu compreendo apenas com bastante esforço o que tu dizes, e se me mostro tão importuno ao perguntar aquilo que ignoro. Por favor, te peço que respondas com doçura e complacência a minhas dúvidas!
HÍPIAS – Seria indelicado de minha parte, Sócrates, agir desta maneira, sendo eu um professor. Seria ilícito que eu que recebo a paga por ensinar tantas pessoas e estou acostumado ao ofício e tenho tato para a coisa não te oferecesse a indulgência e a polidez que são de ordem.”
“SÓCRATES – (…) Não é Aquiles representado igualmente como astuto?
HÍPIAS – De jeito nenhum, Sócrates. Ele é representado como o homem mais sincero. Quando o poeta escreve o diálogo de ambas as figuras, assim se expressa Aquiles:
– Ó nobre filho de Laerte, o sagaz Ulisses, é preciso que te diga sem rodeios o que penso e o que estou disposto a fazer, porque me é adverso tanto quanto são as portas do Hades o ver gente que dissimula e esconde suas reais intenções. Por conseguinte, dir-te-ei sem delongas tudo que tenciono fazer.
Percebeste o quanto este trecho demonstra a sinceridade de Aquiles e o caráter astuto e dissimulador de Ulisses?”
“Por astuto me parece que subentendes <mentiroso>.”
“SÓCRATES – Homero cria que o homem veraz e o mentiroso são dois homens, nunca o mesmo.
HÍPIAS – E como haveria de ser de outra maneira, Sócrates?
SÓCRATES – Logo, tu pensas igual.
HÍPIAS – Decerto que sim, e seria bem estranho discordar neste tocante! Esta era o título, entre os antigos, do nono livro da Ilíada.
SÓCRATES – Procedamos assim: abandonemos por ora a Homero, tanto mais quanto não nos é permitido consultar a opinião oculta de alguém que já morreu. Sem embargo, já que comungas com ele no essencial, responde-me a um só tempo por ele e por ti.”
“SÓCRATES – Crês que os homens mentirosos são homens incapazes de fazer alguma coisa, como por exemplo os doentes, ou consideras que os mentirosos são capazes de fazer algo?
HÍPIAS – Tenho-os por bastante capazes; e dentre suas capacidades está a de enganar os demais.
SÓCRATES – Segundo o que dizes, os astutos são igualmente capazes; não é isso mesmo?
HÍPIAS – Não erras.
SÓCRATES – Os astutos e os mentirosos são tais por imbecilidade e defeito natural, ou por malícia guiada pela inteligência?
HÍPIAS – Por malícia.
SÓCRATES – Logo, são inteligentes, conforme todos os indícios?
HÍPIAS – Por Zeus, Sócrates! E muito!
SÓCRATES – Sendo inteligentes, sabem ou não sabem o que fazem?
HÍPIAS – Sabem-no perfeitamente bem, e porque o sabem fazem mal.
SÓCRATES – Sabendo o que sabem, são ignorantes ou instruídos?
HÍPIAS – Instruídos, na arte de enganar.
(…)
SÓCRATES – Os homens sinceros e os mentirosos diferem entre si, e são ao mesmo tempo o oposto um do outro.
HÍPIAS – Ora, evidente.”
“Portanto, o homem incapaz e ignorante neste gênero não é mentiroso.”
“Se se te perguntasse quanto é 3×700, não responderias querendo, com maior certeza e maior ânsia que qualquer um, a verdade?
HÍPIAS – Com certeza.
SÓCRATES – E isto fá-lo-ias, posto que és sábio e muito competente em matemática.
HÍPIAS – Decerto.”
“Agora responde-me, com firmeza: se te perguntassem quanto é 3×700, não serias tu capaz de mentir como ninguém mais o é, e não serias igualmente capaz de dar uma resposta falsa contanto que fizesse parte de tua intenção mentir e eludir a verdade? Poderia o ignorante em cálculos mentir melhor do que tu, ainda que quisesse mentir?”
“SÓCRATES – O mentiroso é mentiroso em outras coisas e não nos números, e não poderá mentir ao contar?
HÍPIAS – Por Zeus! O mentiroso pode mentir nos números ou em qualquer outra coisa, Sócrates.”
“SÓCRATES – Estou vendo que o mesmo homem é capaz tanto de mentir quanto de ser veraz sobre o cálculo, e este homem é o que é melhor no seu tipo de arte, isto é, o melhor calculador.
HÍPIAS – Concedo-te.”
“SÓCRATES – Ânimo, Hípias! Vê todas as ciências em panorama, e me testifica se em alguma delas ocorre algo diferente do que relatei. És sem paralelo o mais instruído dos homens na maioria das artes, o que já ouvi da tua boca mesmo, numa ocasião em que o afirmaste com jactância. Foi na praça pública onde te ouvi enumerar teus conhecimentos. (…) Relataste saber forjar anéis, alegando seres o fabricador do anel que vestias. O mesmo disseste com referência a um selo, uma esponja de banho e um recipiente de azeite. Tudo era obra tua. Acrescentavas, inclusive, que havias feito tu mesmo o calçado que calçavas e os trajes que trajava. (…) Ademais, contavas que levava contigo poemas, versos heróicos, tragédias, ditirambos e muitos outros gêneros de textos em prosa sobre uma variedade de temas (…) e também és mestre na ciência do ritmo, da harmonia e da gramática, sem contar muitas outras, que me seria penoso lembrar. E no entanto omiti ou só agora me veio à mente tua excelente memória, que é aquilo de que mais te vanglorias. Mas isto seria sem fim, Hípias, porque sempre um ou outro talento seu ficaria de fora de minha lista, nunca exaustiva…”
“HÍPIAS – Sócrates, confesso que não adivinho aonde queres chegar…
SÓCRATES – Se é verdade o que dizes, deve ser porque neste instante não estás empregando tua portentosa memória artificial, crendo que ela não seria necessária para o caso. Pôr-te-ei, portanto, no caminho sem demora: Lembras-te de haver dito que Aquiles era sincero e de que Ulisses era um embusteiro e mentiroso?
HÍPIAS – Claro que sim.
SÓCRATES – (…) Donde se segue que se Ulisses é mentiroso é ao mesmo tempo veraz; e que se Aquiles é veraz é igualmente mentiroso; logo, não são dois homens distintos, nem opostos entre si, mas bastante semelhantes.
HÍPIAS – Sócrates, tu tens sempre o talento de embaraçar uma discussão. Te apoderas do mais espinhoso que há no discurso, e te apegas a ele, perscrutando e examinando parte por parte; qualquer que seja o assunto, jamais em tuas impugnações tu observa o todo, o conjunto. Eu demonstrarei com provas e testemunhas cabais que Homero compôs Aquiles como o protótipo da franqueza e nesse tocante superior a Ulisses, e Ulisses como um embusteiro em mil ocasiões, e neste aspecto inferior a Aquiles. Se continuas a discordar, dá-me tuas razões a fim de provar que Ulisses tem mais valor do que penso que tem. (…)
SÓCRATES – Hípias, mui distante estou de negar que tu sejas mais sábio que eu. Mas quando alguém fala tenho sempre o costume de me pôr atento, crendo eu que quem fala é homem bastante hábil; e como anseio deveras por compreender tudo o que diz o sábio, examino ponto por ponto, e cotejo suas palavras umas com as outras, a fim de aperfeiçoar meu juízo. Já, ao contrário, se converso com um espírito vulgar nada lhe pergunto, pois o que ele dirá não me interessa!”
“Com efeito, depois de haver começado pelos versos que tu referiste, …me é adverso tanto quanto são as portas do Hades o ver gente que dissimula e esconde suas reais intenções, acrescenta Aquiles um pouco depois a seu discurso que nem Ulisses nem Agamêmnon fá-lo-ão dobrar nunca os joelhos, e que abandonará com certeza o cerco de Tróia.”
“Depois de ter falado desta maneira, tanto diante do exército como em particular com os de sua confiança, nunca na Ilíada ficamos sabendo de Aquiles reunindo sua bagagem para fazer a viagem, nem que tenha desancorado algum navio do porto. Muito pelo contrário: durante toda a saga nunca dá nenhum passo rumo a sua pátria, e fica patente que ele também é, por isso, um dissimulador.”
“HÍPIAS – Tudo consiste em que não examinas bem as coisas, Sócrates. Nas circunstâncias em que Aquiles mente, não há desígnio premeditado de fazê-lo, senão que a derrota do exército forçou-o a isso, pois a despeito da sua intenção original ele se viu premido a regressar ao campo de batalha para salvar seus companheiros. Mas Ulisses mente desde o início deliberadamente, com insídia.
SÓCRATES – Tu enganas muito bem teus contendores, querido Hípias: imitas perfeitamente a Ulisses!
HÍPIAS – Nada disso, Sócrates. Em que foi que eu te enganei? Que queres dizer?
SÓCRATES – Quando supões que Aquiles não mente com deliberação; um homem tão charlatão, tão insidioso, que além de ser falso em suas palavras, se é que nos ateremos ao que está em Homero, demonstra ainda dominar a arte da dissimulação e do engodo, de uma maneira ainda não pressentida sequer por Ulisses! Mesmo diante do próprio Ulisses atreveu-se ele a listar as vantagens e desvantagens de cada atitude a tomar (continuar ou não a guerra), e nem Ulisses, o maroto, se apercebeu de que estava bancando o joguete do herói. Ou Ulisses cai de propósito, se assim for, e não emite sinais de que tenha compreendido que Aquiles enganava-o.
HÍPIAS – Em que trecho da Ilíada?
SÓCRATES – Não tomarei parte nos combates sangrentos enquanto Heitor, filho de Príamo, não houver chegado às tendas e às naves dos Mirmidões, após empreender uma carnificina entre os Argivos e queimado toda a sua frota! Quando este dia chegar, saiba que porei Heitor em seu devido lugar. Crês tu, Hípias, que o filho de Tétis, o discípulo do sapientíssimo Quíron, tinha memória de peixe, para, assim, depois de despejar terríveis torrentes de palavras sobre seus próprios companheiros de armas, dizer a Ulisses, por um lado, que iria partir, e a Ájax, por outro, que permaneceria no campo de batalha?
HÍPIAS – Não preciso crer que fosse defeito ou limitação de memória, Sócrates. Mas a razão que Aquiles teve para dizer isso a Ájax foi pela bondade inata de seu caráter, que o fez mudar rapidamente de resolução. Quanto a Ulisses, entretanto, pouco importa que ele minta ou seja honesto, pois é sempre frio e calculista.”
“SÓCRATES – Mas Hípias, considera! Não acabamos de concordar que os que mentem voluntariamente são superiores aos que mentem sem querer?!?
HÍPIAS – Como seria possível, Sócrates, que os que cometem uma injustiça, tramam teias e nós cegos, e que causam o mal premeditadamente, justo eles, são melhores que outros, que incorrem em tais faltas contra sua própria vontade, sendo por isso mesmo dignos de compaixão? Porque aquele que comete um crime culposo é absolvido; mas a lei diz outra coisa sobre quem comete um crime com dolo!”
“sempre que dialogo com algum de vós, tão creditados por sua sabedoria e em quem todos os gregos depositam sua fé, descubro que nada sei!”
“sou como sou, para não dizer coisa pior.”
“vejo que quem fere outrem, comete ação injusta, mente, engana e incorre em falta voluntária, mas não involuntária, é melhor que quem age com inocência…”
“(A Hípias) Por favor, suplico: não te negues a curar minh’alma! Far-me-ias um grande serviço, livrando-me assim da ignorância, como farias também a meu corpo, livrando-o duma doença. Se tens a intenção de pronunciar um longo discurso, declaro-te desde já que assim não me curarás, porque não poderei acompanhar-te! Mas se desejas me responder como o fizeste até agora, ser-me-ás de enorme auxílio, e creio que disso nenhum mal a ti derivaria.
(A Eudico) Tenho o direito de pedir este socorro a ti, ó filho de Apemantes, posto que tu me comprometeste a ter este diálogo com Hípias! Se este se nega a me responder, faz-me o favor de suplicar-lhe em meu lugar.”
“HÍPIAS – (…) Esse Sócrates tudo engabela, distorce e desvirtua numa discussão! Tudo me leva a crer que ele não almeja outra coisa senão criar discórdia…
SÓCRATES – Meu querido Hípias, se eu o faço, é a despeito meu! Porque se fôra eu capaz de engabelar, distorcer e desvirtuar de propósito, significa que seria eu, segundo tu mesmo, sábio e hábil; coisa que não sou. Faço essas coisas por acidente, podes ter certeza. Escuta: exerce agora teu próprio ditado. Tu me disseste que é preciso ser indulgente com os que fazem o mal sem querer.”
“SÓCRATES – O bom corredor não é o que corre bem e o mau corredor o que corre mal?
HÍPIAS – Correto.
SÓCRATES – E não corre mal aquele que corre lentamente, ao passo que corre bem aquele que corre ligeiro?
(…)
SÓCRATES – (…) A velocidade é um bem e a lentidão um mal?
HÍPIAS – Sem dúvida.
SÓCRATES – De 2 homens que correm lentamente, um com intenção e fingimento e o outro porque é apenas devagar, qual é o melhor corredor?
HÍPIAS – O que corre lentamente porque quer.
SÓCRATES – Correr não é agir?
HÍPIAS – Claro que sim.
SÓCRATES – Se é agir, não é fazer alguma coisa?
HÍPIAS – Concedo.
SÓCRATES – Logo, aquele que corre mal faz uma coisa má e feia quando o assunto é a corrida.
HÍPIAS – Exato, exato.
SÓCRATES – Aquele que corre devagar, não corre mal?
HÍPIAS – Sim.
SÓCRATES – O bom corredor faz esta coisa má e feia porque quer; e o mau fá-la porque é só o que sabe fazer.
HÍPIAS – Assim parece.
SÓCRATES – Na corrida, por conseguinte, o que faz o mal sem querer é mais mau.
HÍPIAS – Sim, Sócrates, é pior na corrida.
SÓCRATES – Na luta: de 2 lutadores que perdem, um deliberadamente, outro porque foi realmente derrotado, qual deles é o melhor?
HÍPIAS – O primeiro, ao que parece.
(…)
SÓCRATES – Destarte, aquele que faz uma coisa má e feia por vontade própria é melhor lutador que o outro.
HÍPIAS – Sim, Sócrates, perfeitamente.”
“HÍPIAS – Seria assaz estranho, Sócrates, se o homem voluntariamente injusto fôra melhor que o que o é involuntariamente.
SÓCRATES – E no entanto parece ser a conclusão de nosso raciocínio. Não acho que seja realmente assim! Pelo menos para mim, fica um sabor amargo ao dizer essas palavras… Mas responde-me de novo: a justiça é exclusivamente uma capacidade ou uma ciência? Ou uma ou outra, sem poder ser ambas ou nenhuma das duas?
HÍPIAS – É uma necessidade que seja apenas uma das duas, Sócrates.”
“Biographies of gay men and lesbian women discuss their orientation only when unavoidable, as with Oscar Wilde. There have been several encyclopedias and dictionaries of sexuality (beginning with a German one of 1922, the Handbuch der Sexualwissenschaft), but this work is the first to treat homosexuality in all its complexity and variety.”
“all the efforts of church and state over the centuries to obliterate homosexual behavior and its expression in literature, tradition, and subculture have come to naught, if only because the capacity for homoerotic response and homosexual activity is embedded in human nature, and cannot be eradicated by any amount of suffering inflicted upon hapless individuals.”
“The editors are persuaded that the phenomenology of lesbianism and that of male homosexuality have much in common, especially when viewed in the cultural and social context, where massive homophobia has provided a shared setting, if not necessarily an equal duress.”
“Perhaps the most difficult obstacle to a simple focus on <homosexuality> is the growing realization that what has been lumped together under that term since its coinage in 1869 is not a simple, unitary phenomenon. The more one works with data from times and cultures other than contemporary middle-class American and northern European ones, the more one tends to see a multiplicity of homosexualities.”
“The Greeks who institutionalized pederasty and used it for educational ends take a prominent role, as does the Judeo-Christian tradition of sexual restriction and homophobia that prevailed under the church Fathers, Scholasticism, and the Reformers, and – in altered form – during the 20th century under Hitler and Mussolini, Stalin and Castro.”
ACHILLES
“He is a tragic hero, being aware of the shortness of his life, and his devoted friendship for Patroclus is one of the major themes of the epic. Later Greek speculation made the two lovers, and also gave Achilles a passion for Troilus. The homoerotic elements in the figure of Achilles are characteristically Hellenic. He is supremely beautiful, kalos as the later vase inscriptions have it; he is ever youthful as well as short-lived, yet he foresees and mourns his own death as he anticipates the grief that it will bring to others. His attachment to Patroclus is an archetypal male bond that occurs elsewhere in Greek culture: Damon and Pythias, Orestes and Pylades, Harmodius and Aristogiton are pairs of comrades who gladly face danger and death for and beside each other. From the Semitic world stem Gilgamesh and Enkidu, as well as David and Jonathan. The friendship of Achilles and Patroclus is mentioned explicitly only once in the Iliad, and then in a context of military excellence; it is the comradeship of warriors who fight always in each other’s ken: <From then on the son of Thetis urged that never in the moil of Ares [nas confusões da guerra] should Patroclus be stationed apart from his own man-slaughtering spear.>”
“The friendship with Patroclus blossomed into overt homosexual love in the fifth and fourth centuries, in the works of Aeschylus, Plato, and Aeschines, and as such seems to have inspired the enigmatic verses in Lycophron’s third-century Alexandra that make unrequited love Achilles’ motive for killing Troilus. By the IV century of our era this story had been elaborated into a sadomasochistic version in which Achilles causes the death of his beloved by crushing him in a lover’s embrace. As a rule, the post-classical tradition shows Achilles as heterosexual and having an exemplary asexual friendship with Patroclus. The figure of Achilles remained polyvalent. The classical Greek pederastic tradition only sporadically assimilated him, new variations appeared in pagan writings after the Golden Age of Hellenic civilization, and medieval Christian writers deliberately suppressed the homoerotic nuances of the figure.”
W. M. Clarke, Achilles and Patroclus in Love (1978)
AESCHINES
“Athenian orator. His exchanges with Demosthenes in the courts in 343 and 330 reflect the relations between Athens and Macedon in the era of Alexander the Great. Aeschines and Demosthenes were both members of the Athenian boule (assembly) in the year 347-46, and their disagreements led to 16 years of bitter enmity. Demosthenes opposed Aeschines and the efforts to reach an accord with Philip of Macedon, while Aeschines supported the negotiations and wanted to extend them into a peace that would provide for joint action against aggressors and make it possible to do without Macedonian help. In 346-45 Demosthenes began a prosecution of Aeschines for his part in the peace negotiations – Aeschines replied with a charge that Timarchus, Demosthenes’ ally, had prostituted himself with other males and thereby incurred atimia,<civic dishonor>, which disqualified him from addressing the assembly. Aeschines’ stratagem was successful, and Timarchus was defeated and disenfranchised. The oration is often discussed because of the texts of the Athenian laws that it cites, as well as such accusations that Timarchus had gone down to Piraeus, ostensibly to learn the barber’s trade.”
AESCHYLUS
QUEM DISSE, JAEGER, QUE NÃO SE PODE SER SOLDADO E POETA AO MESMO TEMPO? “First of the great Attic tragedians. Aeschylus fought against the Persians at Marathon and probably Salamis. Profoundly religious and patriotic, he produced, according to one catalogue, 72 titles, but 10 others are mentioned elsewhere. He was the one who first added a second actor to speak against the chorus. Of his 7 surviving tragedies, none is pederastic. His lost Myrmidons, however, described in lascivious terms the physical love of Achilles for Patroclus’ thighs, altering the age relationship given in Homer’s Iliad – where Patroclus is a few years the older, but as they grew up together, they were essentially agemates – to suggest that Achilles was the lover (erastes)of Patroclus.
Plato had Phaedrus point out the confusion, and argue that Patroclus must have been the older and therefore the lover, while the beautiful Achilles was his beloved (Symposium, 180a). Among Attic tragedians Aeschylus was followed by Sophocles, Euripides, and Agathon.
Sophocles (496-406 B.C.), who first bested Aeschylus in 468 and added a third actor, wrote 123 tragedies of which 7 survive, all from later than 440.At least 4 of his tragedies were pederastic. Euripides (480-406 B.C.) wrote 75 tragedies of which 19 survive, and the lost Chrysippus,and probably some others as well, were pederastic. Euripides loved the beautiful but effeminate tragedian Agathon until Agathon was 40. The latter, who won his first victory in 416, was the first to reduce the chorus to a mere interlude, but none of his works survive.
All four of the greatest tragedians wrote pederastic plays but none survive, possibly because of Christian homophobia. The tragedians seem to have shared the pederastic enthusiasm of the lyric poets and of Pindar, though many of their mythical and historical source-themes antedated the formal institutionalization of paiderasteiain Greece toward the beginning of the sixth century before our era.”
(o artigo de William Percyfoi transcrito na íntegra)
AFRICA, NORTH
“Pederasty was virtually pandemic in North Africa during the periods of Arab and Turkish rule. Islam as a whole was tolerant of pederasty, and in North Africa particularly so. (The Islamic high-water points in this respect may tentatively be marked out as Baghdad of The Thousand and One Nights, Cairo of the Mamluks, Moorish Granada, and Algiers of the 16th and 17th centuries.) The era of Arabic rule in North Africa did, however, witness occasional puritan movements and rulers, such as the Almohads and a Shiite puritanism centered in Fez (Morocco). This puritanism continues with the current King Hassan II of Morocco, who is, however, hampered by an openly homosexual brother.”
“400 Franciscan friars left the Spain of Isabel the Catholic and embraced Islam rather than <mend their ways>, as she had commanded them to do.”
“Universal throughout pre-colonial North Africa was the singing and dancing boy, widely preferred over the female in café entertainments and suburban pleasure gardens. A prime cultural rationale was to protect the chastity of the females, who would instantly assume the status of a prostitute in presenting such a performance. The result was several centuries of erotic performances by boys, who were the preferred entertainers even when female prostitutes were available, and who did not limit their acts to arousing the lust of the patrons. A North African merchant could stop at the café for a cup of tea and a hookah[narguilé], provided by a young lad, listen to the singing, and then proceed to have sex with the boy right on the premises, before returning to his shop.”
“The present writer has spoken with a Tunisian supervisor of schools who firmly believes in the death penalty for all homosexuals. Thus, in their rush to modernism, Third World leaders often adopt the sexual standards of medieval Christendom, even as Europe and America are moving toward legalization and tolerance of same-sex activity. Such, at least in part, is also the plight of modern North Africa.”
“Tunisia. A small and impoverished country of some 4 million, Tunisia’s high birthrate keeps the country very young – about half the people are under 18. Although it is common to see men walking hand-in-hand (as in all Islamic countries), it would not be wise for a foreigner to adopt the practice with a male lover. Tunisians can easily tell the difference between two friends of approximately equal status (where hand-holding is expected) and a sexual relation (which is <officially> disapproved of and therefore not to be made public).” “In the days of Carthage, the city was known for its perfumed male prostitutes and courtesans. After Carthage was destroyed in the Punic wars, Tunisia became a Roman colony. The country did not regain its independence until modern times. The Romans were supplanted by the Vandals, who in turn surrendered the country to the Byzantine Empire. The rise of the followers of Muhammad swept Tunisia out of Christendom forever, and the country eventually passed into the Turkish Empire, where it remained until the French protectorate.”
“Marxist societies abominate homosexuality, and this influence has had a chilling effect on Algeria. The passing tourist will see nothing of such activity, although residents may have a different experience. Another fact is that Algerians do not like the French (because of the war) and this dislike is frequently extended to all people who look like Frenchmen, though they may be Canadian or Polish. It is a strange country, where you can spot signs saying <Parking Reserved for the National Liberation Front> (the stalls are filled with Mercedes Benzes), and also the only place in all of North Africa where the present writer has even seen a large graffito proclaiming <Nous voulons vivre français!> (We want to live as Frenchmen!).
The adventures of Oscar Wilde and André Gide in Tunisia and Algeria before the war are good evidence that this modern difference between the two countries was in fact caused by the trauma of the war. There is better evidence in the history of Algiers long before. During the 16th and 17th centuries, Algiers was possibly the leading homosexual city in the world. It was the leading Ottoman naval and administrative center in the western Mediterranean, and was key to Turkey’s foreign trade with every country but Italy. Of the major North African cities, it was the furthest from the enemy – Europe. It was the most Turkish city in North Africa, in fact the most Turkish city outside Turkey.”
“The bath-houses (hammams) of Fez were the object of scandalous comments around 1500. Two factors assume a bolder relief in Morocco, although they are typical of North Africa as a whole. One is a horror of masturbation. This dislike, combined with the seclusion of good women and the diseases of prostitutes, leads many a Maghrebi [africano setentrional] to regard anal copulation with a friend as the only alternative open to him, and clearly superior to masturbation. It also leads
to such behavior being regarded as a mere peccadillo. The other, more peculiarly Moroccan tradition is that of baraka, a sort of <religious good luck>. It is believed that a saintly man can transmit some of this baraka to other men by the mechanism of anal intercourse. (Fellatio has traditionally been regarded with disgust in the region, although the 20th century has been changing attitudes.)”
Malek Chebel, L’Esprit de sérail: Perversions et marginalités sexuelles au
Magreb, Paris: Lieu Commun, 1988.
ALCIBIADES
“Reared in the household of his guardian and uncle Pericles, he became the eromenos and later intimate friend of Socrates, who saved his life in battle. His, brilliance enabled him in 420 to become leader of the extreme democratic faction, and his imperialistic designs led Athens into an alliance with Argos and other foes of Sparta, a policy largely discredited by the Spartan victory at Mantinea. He sponsored the plan for a Sicilian expedition to outflank Sparta, which ended after his recall in the capture of thousands of Athenians, most of whom died in the salt mines where they were confined, but soon after the fleet reached Sicily his enemies recalled him on the pretext of his complicity in the mutilation of the Hermae, the phallic pillars marking boundaries between lots of land. He escaped, however, to Sparta and became the adviser of the Spartan high command. Losing the confidence of the Spartans and accused of impregnating the wife of one of Sparta’s two kings, he fled to Persia, then tried to win reinstatement at Athens by winning Persian support for the city and promoting an oligarchic revolution, but without success. Then being appointed commander by the Athenian fleet at Samos, he displayed his military skills for several years and won a brilliant victory at Cyzicus in 410, but reverses in battle and political intrigue at home led to his downfall, and he was finally murdered in Phrygia in 404 [Sócrates, mais velho, foi condenado apenas em 399]. Though an outstanding politician and military leader, Alcibiades compromised himself by the excesses of his sexual life, which was not confined to his own sex, but was uninhibitedly bisexual, as was typical of a member of the Athenian aristocracy. The Attic comedians scolded him for his adventures; Aristophanes wrote a play (now lost) entitled Triphales (The man with three phalli), in which Alcibiades’ erotic exploits were satirized. In his youth, admired by the whole of Athens for his beauty, he bore on his coat of arms an Eros hurling a lightning bolt. Diogenes Laertius said of him that <when a young man, he separated men from their wives, and later, wives from their husbands,> while the comedian Pherecrates declared that <Alcibiades, who once was no man, is now the man of all women>. He gained a bad reputation for introducing luxurious practices into Athenian life, and even his dress was reproached for extravagance. He combined the ambitious political careerist and the bisexual dandy, a synthesis possible only in a society that tolerated homosexual expression and even a certain amount of heterosexual licence in its public figures. His physical beauty alone impressed his contemporaries enough to remain an inseparable part of his historical image.”
Walter Ellis, Alcibiades, New York: Routledge, 1989;
Jean Hatzfeld, Alcibiade: Étude sur l’histoire d’Athènes à la fin du Ve siècle, Paris: Presses Universitaires de France, 1951.
ANARCHISM
“Étienne de la Boétie (1530-1563) and William Godwin (1756-1836) wrote two proto-anarchist classics. Boétie’s Discours de la servitude voluntaire (1552-53) (translated as The Politics of Obedience and as The Will to Bondage) is still read by anarchists.” Ver excertos em Português em http://xtudotudo6.zip.net/arch2012-11-01_2012-11-30.html.
“Pederasty comes not so much from lack of marriage bed as from a hazy yearning for masculine beauty.”Proudhon
“The boy-lover John Henry Mackay (1864-1933), who wrote widely on both pederastic (under the pseudonym Sagitta) and anarchist topics, prepared the first (and only) biography of Stirner in 1898.”
“Karl Marx & Frederick Engels had a personal disgust for homosexuality (Engels told Marx to be grateful that they were too old to attract homosexuals). Marx published full-length diatribes against Proudhon, Stirner, and Bakunin. He used Bakunin’s relationship to Nechaev as an excuse for expelling the anarchists from the International in 1872. Lenin later denounced anarchists as politically <infantile>, just as Freudians argued that homosexuality was an arrested infantile (or adolescent) development.”
“Thomas Bell, a gay secretary of Frank Harris and a trick[?] of Wilde’s, has written a book on Wilde’s anarchism, available only in Portuguese.[!]”
“In Spain during the Civil War (1936-39), anarchists fought against both the fascists and the communists, and for a time dominated large areas of the country. Many gay men and lesbians volunteered to fight in the war, while others worked as ambulance drivers and medics.”
“Emma Goldman (1869-1940) is unquestionably the first person to lecture publicly in the United States on homosexual emancipation”
“Whether from choice or necessity, anarchists have written extensively against prisons and in favor of prisoners, many of whom either from choice or necessity have experienced prison homosexuality. William Godwin opposed punishment of any kind and all anarchists have opposed any enforced sexuality.”
“Both anarchists and gays can be found in the Punk Rock movement. Since many anarchists do not really believe in organizations, they can often be as hard to identify as homosexuals once were. During the early 80s at the New York Gay Pride marches, gay anarchists, S/M groups, gay atheists, NAMBLA, Pag Rag and others all marched together with banners as individual members drifted back and forth between all the groups.”
“A major question is whether homosexuals are inherently attracted to anarchism or whether homosexuals have been equally attracted to democracy, communism, fascism, monarchy, nationalism or capitalism. Because of the secrecy, no one can ever figure what percentage of homosexuals are anarchists and what percentage of anarchists are homosexual. But only among anarchists has there been a consistent commitment, rooted in basic principles of the philosophy, to build a society in which every person is free to express him- or herself sexually in every way.”
ANDERSEN, HANS CHRISTIAN
“His fame rests upon the 168 fairy tales and stories which he wrote between 1835 and 1872. Some of the very first became children’s classics from the moment of their appearance; the tales have since been translated into more than 100 languages. Some are almost child-like in their simplicity; others are so subtle and sophisticated that they can be properly appreciated only by adults.”
“It has been speculated that the fairy tale The Little Mermaid, completed in January 1837, is based on Andersen’s self-identification with a sexless creature with a fish’s tail who tragically loves a handsome prince, but instead of saving her own future as a mermaid by killing the prince and his bride sacrifices herself and commits suicide – another theme of early homosexual apologetic literature.”
ANDROGYNY
“There is a tendency to consider androgyny primarily psychic and constitutional, while hermaphroditism is anatomical.”
“with reference to male human beings <androgynous> implies effeminacy. Logically, it should then mean <viraginous, masculinized> when applied to women, but this parallel is rarely drawn.Thus there is an unanalyzed tendency to regard androgynization as essentially a process of softening or mitigating maleness. Stereotypically, the androgyne is a half-man or incomplete male. In addition to these relatively specific usages there is a kind of semantic halo effect, whereby androgyny is taken to refer to a more all-encompassing realm. Significantly, in this broader, almost mystical sense the negative connotations fall away, and androgyny may even be a prized quality. For example the figures in the Renaissance paintings of Botticelli and Leonardo are sometimes admired for their androgynous beauty. It comes as no surprise that these aspects of the artists were first emphasized by homosexual art critics of the 19th century.”
“In Hinduism and some African religions there are male gods who have female manifestations or avatars. A strand of Jewish medieval interpretation of Genesis holds that Adam and Eve were androgynous before the Fall. If this be the case, God himself must be androgynous since he made man <in his own image>. Working from different premises, medieval Christian mystics found that the compassion of Christ required that he be conceived of as a mother. Jakob Böhme (1575-1624), the German seer, held that all perfect beings, Christ as well as the angels, were androgynous. He foresaw that ultimately Christ’s sacrifice would make possible a restoration of the primal androgyny.”
“androgyny points the way to a return to the Golden Age, an era of harmony unmarred by the conflict and dissension of today which are rooted in an unnatural polarization.”
Mircea Eliade, Mephistopheles and the Androgyne, New York: Harper and Row, 1965.
ANIMAL HOMOSEXUALITY
“In the 1970s the well-publicized reports of the German ethologist Konrad Lorenz drew attention to male-male pair bonds in greylag geese. Controlled reports of <lesbian> behavior among birds, in which two females share the responsibilities of a single nest, have existed since 1885. Mounting behavior has been observed among male lizards, monkeys, and mountain goats. In some cases one male bests the other in combat, and then mounts his fellow, engaging in penile thrusts – though rarely with intromission. In other instances, a submissive male will <present> to a dominant one, by exhibiting his buttocks in a receptive manner. Mutual masturbation and fellatio have been observed among male stump-tailed macaques. During oestrus female rhesus monkeys engage in mutual full-body rubbing. Those who have observed these same-sex patterns in various species have noted, explicitly or implicitly, similarities with human behavior. It is vital, however, not to elide differences. Mounting behavior may not be sexual, but an expression of social hierarchy: the dominant partner reaffirms his superiority over the presenting one. In most cases where a sexual pairing does occur, one partner adopts the characteristic behavior of the other sex. While this behavioral inversion sometimes occurs in human homosexual conduct, it is by no means universal. Thus while (say) Roman homosexuality, which often involved slaves submitting to their masters, may find its analogue among animals, modern American androphilia largely does not. This difference suggests that the cultural matrix is important.” “In the light of this complexity, a simple identification of human homosexual behavior with same-sex interactions among animals is reductive, and may block or misdirect the search for an understanding of the remaining mysteries of human sexuality. Still, for those aspects to which they have relevance, animal patterns of homosexual behavior help to place human ones in a phylogenetic perspective – in somewhat the same way as animal cries and calls have a relation to human language, and the structures built by birds and beavers anticipate the feats of human architecture.”
ARISTOCRATIC VICE
“In the 17th century Sir Edward Coke attributed the origin of sodomy to <pride, excess of diet, idleness and contempt of the poor>. The noted English jurist was in fact offering a variation on the prophet Ezekiel (16:49). This accusation reflects the perennial truism that wealth, idleness, and lust tend to go together – a cluster summed up in the Latin term luxuria.”
“The stereotype of aristocratic vice has a sequel in the early 20th-century Marxist notion that the purported increase of homosexuality in modem industrial states stems from the decadence of capitalism; in this view the workers fortunately remain psychologically healthy and thus untainted by the debilitating proclivity. In the Krupp and von Moltke-Eulenburg scandals in Germany in 1903-08, journalists of the socialist press did their best to inflame their readership against the unnatural vices of the aristocracy, which were bringing the nation to the brink of ruin.”
ARISTOTLE
“As a thinker Aristotle is outstanding for the breadth of his interests, which encompassed the entire panorama of the ancient sciences, and for his efforts to make sense of the world through applying an organic and developmental approach. In this way he departed from the essentialist, deductive emphasis of Plato. Unfortunately, Aristotle’s polished essays, which were noted for their style, are lost, and the massive corpus of surviving works derives largely from lecture notes. In these the wording of the Greek presents many uncertainties”
“Although Aristotle is known to have had several male lovers, in his writings he tended to follow Plato’s lead in favoring restraints on overt expression of homoerotic feelings. He differs, however, from Plato’s ethical and idealizing approach to male same-sex love by his stress on biological factors. In a brief but important treatment in the Nicomachean Ethics (7:5) he was the first to distinguish clearly between innate and acquired homosexuality. This dichotomy corresponds to a standard Greek distinction between processes which are determined by nature (physis) and those which are conditioned by culture or custom (nomos).The approach set forth in this text was to be echoed a millennium and a half later in the Christian Scholastic treatments of Albertus Magnus and Thomas Aquinas (Summa Theologiae, 31:7). In The History of Animals (9:8), Aristotle anticipates modem ethology by showing that homosexual behavior among birds is linked to patterns of domination and submission. In various passages he speaks of homosexual relations among noted Athenian men and boys as a matter of course. His treatment of friendship (Nicomachean Ethics, books 8 and 9) emphasizes its mutual character, based on the equality of the parties, which requires time for full consolidation. He takes it as given that true friendship can occur only between two free males of equal status, excluding slaves and women. Aristotle’s ideas on friendship were to be echoed by Cicero, Erasmus, Michel de Montaigne, and Francis Bacon.
The Problems (4:26), a work attributed to Aristotle but probably compiled by a follower, attributes desire for anal intercourse in men to the accumulation of semen in the fundament. This notion derives from the common Greek medical view that semen is produced in the region of the brain and then transferred by a series of conduits to the lower body.
In England and America a spurious compilation of sexual and generative knowledge, Aristotle’s Masterpiece, enjoyed a long run of popularity. Compiled from a variety of sources, including the Hippocratic and Galenic medical traditions, the medieval writings of Albertus Magnus, and folklore of all kinds, this farrago was apparently first published in English in 1684. A predecessor of later sex manuals, the book contains such lore as the determination of the size of the penis from that of the nose.”
ART, VISUAL
“Before the 16th century, we find only representations of friendship between women; then in the Venetian school there begins an imagery of lesbian dalliance – but only for male entertainment. Only in recent decades has there been a substantial production of lesbian art by lesbians and for lesbians.”
pe(re)nial tradition
“In antiquity the Greeks were noted for their national peculiarity of exercising in the nude. Out of this custom grew the monumental nude statue, a genre that Greece bequeathed to the world. The tradition began a little before 600 B.C. with the sequence of nude youths known as kowoi. (Monumental female nudes did not appear until ca. 350 B.C.) Although archeologists have maintained a deafening silence on the matter, it seems clear that the radiance of these figures can only be explained in the light of the Greek homoerotic appreciation of the male form. Whatever else they may have been, the kowoi were the finest pin-ups ever created.”
“The Romans did not share the Greek fondness for nude exercise and their attitude toward homosexual behavior was more ambiguous. Perhaps it is not surprising that they favored the old religious subject of the hermaphrodite, the double-sexed being, but now reduced largely to a subject of titillation [erotização – vulgarização]. They also were capable of depicting scenes of peeping toms [machos, provavelmente felinos] that recall the atmosphere of Petronius’s Satyricon.”
“After the reign of Hadrian, who died in 138, the great age of ancient homoerotic art was over. Consequently, the adoption of Christianity cannot be said to have killed off a vibrant tradition, but it certainly did not encourage its revival.”
“Since Freud’s essay of 1910 the enigmatic figure of Leonardo has offered a special appeal.”
“By the turn of the century magazines began to appear in Germany presenting, by means of photographic reproduction, works appealing exclusively to male homosexual taste; lesbian magazines were only to emerge after World War I. Exceptionally, the American George Piatt Lynes (1907-1955) pursued a career in both mainstream and gay media (the latter in his extensive work for the Swiss magazine, Dei Kreis).”
“Although the Surrealists sought to explore sexuality, the homophobia of their leader André Breton placed a ban on gay subjects – or at least male ones. Two related figures did explore in this realm however, the writer Jean Cocteau (1889-1963), with his drawings of sailors, and the Argentine-born painter Leonor Fini (b. 1908), with enigmatic scenes of women. The ambitious Russian-born Pavel Tchelitchev (1898-1957), connected with several avant-garde circles in Europe and America, also belongs in this company.”
“It may be doubted that the long-standing premises of the modernist aesthetic – its sense of discontinuity, irony, and high seriousness – have been definitively overcome, but there is no doubt that the boundaries of the acceptable have been broadened. This enlargement creates opportunities for gay and lesbian artists. At the same time, however, the tyranny of the market and of critical stereotypes is as great as ever, so that artists are under great pressure to settle into niches that have been prepared for them. It should be remembered that many painters, sculptors, and photographers whose personal orientation is homosexual are as reluctant to be styled <gay artists> as they are to be called neo-expressionist, neo-mannerist, or some other label.”
BALZAC
“Vautrin’s secret is that he does not love women, but when and how does he love men? He does so only in the rents of the fabric of the narrative, because the technique of the novelist lies exactly in not speaking openly, but letting the reader know indirectly the erotic background of the events of his story. The physical union of Vautrin with Lucien he presents with stylistic subtlety as a predestined coupling of two halves of one being, as submission to a law of nature. The homosexual aspect of the discourse must always be masked, must hide behind a euphemism, a taunting ambiguity that nevertheless tells all to the knowing reader. The pact struck between Vautrin and Lucien is a Faustian one. Vautrin dreams of owning a plantation in the American South (sic) where on a 100,000 acres he can have absolute power over his slaves – including their bodies. Balzac refers explicitly to examples of the pederasty of antiquity as a creative, civilization-building force by analogy with the Promethean influence of Vautrin upon his beloved Lucien. Vautrin is almost diabolical as a figure of exuberant masculinity, while Lucien embodies the gentleness and meekness of the feminine. The unconscious dimension of their relationship Balzac underlines with magnificent symbolism. He characterizes Vautrin as a monster, <but attached by love to humanity>.Homosexual love is not relegated to the margin of society, as in the dark underworld of the prison, but expresses the fullness of affection with all its physical demands and its spiritual powers.”
“Having revealed to the hero and heroine an ideal love, Séraphitus-Séraphita departs for a heaven free of the earthly misery that human beings must endure.”
BARTHES, ROLAND
“Barthes introduced into the discussion of literature an original interpretation of semiotics based on the work of the Swiss linguist Ferdinand de Saussure. His work was associated with the structuralist trend as represented by Claude Lévi-Strauss, Julia Kristeva, Tzvetan Todorov, and others. Attacked by the academic establishment for subjectivism, he formulated a concept of criticism as a creative process on an equal plane with fiction and poetry. Even those favorable to his work conceded that this could amount to a <sensuous manhandling> of the text. The turning point in his criticism is probably the tour de forceS/Z (Paris, 1970), analyzing Balzac’s novella about an aging castrato, Sarrasine. Here Barthes turns away from the linear, goal-oriented procedures of traditional criticism in favor of a new mode that is dispersed, deliberately marginal, and <masturbatory>. In literature, he emphasized the factor of jouissance, a word which means both <bliss> and <sexual ejaculation>. Whether these procedures constitute models for a new feminist/gay critical practice that will erode the power of patriarchy, as some of his admirers have asserted, remains unclear.”
“Barthes, who never married, was actively homosexual during most of his life. Although his books are often personal, in his writing he excluded this major aspect of his experience, even when writing about love. Because of the attacks launched against him for his critical innovations, he was apparently reluctant to give his enemies an additional stick with which to beat him. Barthes’ posthumously published Incidents (Paris, 1987) does contain some revealing diary entries. The first group stems from visits he made, evidently in part for sexual purposes, to North Africa in 1968-69. The second group of entries records restless evenings in Paris in the autumn of 1979 just before his death. These jottings reveal that, despite his great fame, he frequently experienced rejection and loneliness. Whatever his personal sorrows, Barthes’ books remain to attest a remarkable human being whose activity coincided with an ebullient phase of Western culture.”
Sanford Freedman, Roland Barthes: A Bibliographical Reader’s Guide, New York: Garland, 1983.
BEAT GENERATION
“The origins of this trend in American culture can be traced to the friendship of three key figures in New York City at the beginning of the 1940s. Allen Ginsberg (1926-[1997]) and Jack Kerouac (1922-1969) met as students at Columbia University, where both were working at becoming writers. In 1944 Ginsberg encountered the somewhat older William Burroughs (1914-[1997]), who was not connected with the University, but whose acquaintance with avant-garde literature supplied an essential intellectual complement to college study. Both Ginsberg and Burroughs were homosexual; Kerouac bisexual. At first the ideas and accomplishments of the three were known only to a small circle. But toward the end of the 1950s, as their works began to be published and widely read, large numbers of young people, <beatniks> and <hippies>, took up elements of their life-style.”
“The word beat was sometimes traced to <beatific>, and sometimes to <beat out> and similar expressions, suggesting a pleasant exhaustion that derives from intensity of experience. Its appeal also reflects the beat and improvisation of jazz music, one of the principal influences on the trend. Some beat poets tried to match their writings with jazz in ballroom recitals, prefiguring the more effective melding of words and music in folk and rock. The ideal of spontaneity was one of the essential elements of the beat aesthetic. These writers sought to capture the immediacy of speech and lived experience, which were, if possible, to be transcribed directly as they occurred. This and related ideals reflect a new version of American folk pragmatism, preferring life to theory, immediacy to reflection, and feeling to reason. Contrary to what one might expect, however, the beat generation was not anti-intellectual, but chose to seek new sources of inspiration in neglected aspects of the European avant-garde and in Eastern thought and religion.”
“First published in Paris in 1959, his novel Naked Lunchbecame available in the United States only after a series of landmark obscenity decisions. With its phantasmagoric and sometimes sexually explicit subject matter, together with its quasi-surrealist techniques of narrative and syntactic disjunction, this novel presented a striking new vision. This novel was followed by The Soft Machineand The Ticket That Explodedto form a trilogy. Nova Express (1964) makes extensive use of the <cut-up> techniques, which Burroughs had developed with his friend Brion Gysin. A keen observer of contemporary reality in several countries, Burroughs has sought to present a kind of <world upside down> in order to sharpen the reader’s consciousness. One of his major themes has been his anarchist-based protest against what he sees as increasingly repressive social control through such institutions as medicine and the police. Involved with
drugs for some years, he managed to kick the habit, but there is no doubt that such experiences shaped his viewpoint. His works have been compared to pop art in painting and science fiction in literature. Sometimes taxed for misogyny, his world tends to be a masculine one, sometimes exploiting fantasies of regression to a hedonistic world of juvenile freedom. Burroughs’s hedonism is acerbic and ironic, and his mixture of qualities yields a distorting mirror of reality which some have found, because perhaps of the many contradictions of later 20th-century civilization itself, to be a compelling representation.”
Ted Morgan, Literary Outlaw: The Life and Times of William Burroughs, New York: Henry Holt, 1988.
BEATS AND HIPPIES
“The journalistic word <beatnik> is a pseudo-Slavic coinage of a type popular in the 1960s, the core element deriving from <beat> (generation), the suffix -nik being the formative of the noun of agent in Slavic languages. The term <hippie> was originally a slightly pejorative diminutive of the beat <hipster>, which in turn seems to derive from 1940s jivetalk adjective <hep>, meaning <with it, in step with current fashions>. The original hippies were a younger group with more spending money and more flamboyant dress. Their music was rock instead of the jazz of the beats. Despite differences that seemed important at the time, beats and hippies are probably best regarded as successive phases of a single phenomenon.”
“Attracted by the prestige of the beat writers, many beats/hippies cultivated claims to be poets and philosophers. In reality, once the tendency became modish only a few of the beat recruits were certifiably creative in literature and the arts; these individuals were surrounded by masses of people attracted by the atmosphere of revolt and experiment, or just seeking temporary separation – a moratorium as it was then called – from the banalities of ordinary American life. At its height the phenomenon supported scores of underground newspapers, which were read avidly by curious outsiders as well.”
“Significantly, the street term for the Other, <straight>, could refer either to non-drug users or heterosexuals.”
“Mysticism exerted a potent influence among beats and hippies, and some steeped themselves in Asian religions, especially Buddhism, Taoism, and Sufism. This fascination was not new, inasmuch as ever since the foundation of Theosophy as an official movement in 1875, American and other western societies had been permeated by Eastern religious elements. Impelled by a search for wisdom and cheap living conditions, many hippies and beatniks set out for prolonged sojourns in India, Nepal, and North Africa. Stay-at-homes professed their deep respect for American Indian culture.”
“Most hippies were heterosexual, but their long hair exposed them to jibes of effeminacy. In this way they could experience something of the rejection that had always been the lot of homosexuals.”
“With its adoption of a variant of jive talk, largely derived from black urban speech, the movement has left a lasting impression on the English vernacular, as seen in such expressions as <cool>, <spaced out>, and <rip off>.”
Marco Vassi, The Stoned Apocalypse, New York: Trident, 1972.
BENTHAM, JEREMY (1748-1832)
“English philosopher and law reformer. Bentham was the founder of the Utilitarian school of social philosophy, which held that legislation should promote the greatest happiness of the greatest number. (…) His Principles of Morals and Legislation (1789) was eventually extremely influential in England, France, Spain, and Latin America where several new republics adopted constitutions and penal codes drawn up by him or inspired by his writings.
Bentham’s utilitarian ethics led him to favor abolition of laws prohibiting homosexual behavior. English law in his day (and until 1861) prescribed hanging for sodomy and during the early 19th century was enforced with, on the average, 2 or 3 hangings a year. Bentham held that relations between men were a source of sexual pleasure that did not lead to unwanted pregnancies and hence a social good rather than a social evil. He wrote extensive notes favoring law reform about 1774 and a 50-page manuscript essay in 1785. In 1791, the French National Assembly repealed France’s sodomy law but in England the period of reaction that followed the outbreak of the French Revolution made reforms impossible. In 1814 and 1816 Bentham returned to the subject and wrote lengthy critiques of traditional homophobia which he regarded as an irrational prejudice leading to <cruelty and intolerance>. In 1817-18 he wrote over 300 pages of notes on homosexuality and the Bible. Homophobic sentiment was, however, so intense in England, both in the popular press and in learned circles, that Bentham did not dare to publish any of his writings on this subject. They remained in manuscript until 1931 when C.K. Ogden included brief excerpts in an appendix to his edition of Bentham’s Theory of Legislation. Bentham’s manuscript writings on this subject are excerpted and described in detail in Louis Crompton’s 1985 monograph on Byron. Bentham’s views on homosexuality are sufficiently positive that he might be described as a precursor of the modern gay liberation movement. Bentham not only treats legal, literary, and religious aspects of the subject in his notes, but also finds support for his opinions in ancient history and comparative anthropology.”
BIBLIOGRAPHY
“The emergence of systematic bibliographical control had to await the birth of the first homosexual emancipation movement in Berlin in 1897. This movement firmly held that progress toward homosexual rights must go hand in hand with intellectual enlightenment. Accordingly, each year’s production was noted in the annual volumes of the Jahrbuch fur sexuelle Zwischenstufen (1899-1923); by the end of the first ten years of monitoring over 1,000 new titles had been recorded. Although surveys were made of earlier literature, up to the time of the extinction of the movement by National-Socialism in 1933, no attempt had been made to organize this material into a single comprehensive bibliography of homosexual studies. Nonetheless, much valuable material was noted in the vast work of Magnus Hirschfeld, Die Homosexualität des Mannes und des Weisses (Berlin, 1914).”
Athenaeus (fl. ca. A.D. 200), Deipnosophists, Book 13;
Félix Buffiére, Eros adolescent: la pederastie dans la Grece antique (Paris, 1980);
Vern Bullough et al., Annotated Bibliography of Homosexuality(2 vols., New York, 1976);
Wayne R. Dynes, Homosexuality: A Research Guide (New York, 1987).
BRAZIL [HOMOPHOBIA NEWLAND] & PORTUGAL
“The Colonial Era.When the Portuguese reached Brazil in 1500, they were horrified to discover so many Indians who practiced the <unspeakable sin of sodomy>. In the Indian language they were called tivira, and André Thevet, chaplain to Catherine de Medici, described them in 1575 with the word bardache, perhaps the first occasion on which this term was used to describe Amerindian homosexuals. The native women also had relations with one another: according to the chroniclers they were completely <inverted> in appearance, work, and leisure, preferring to die rather than accept the name of women. Perhaps these cacoaimbeguire contributed to the rise of the New World Amazon myth.
In their turn the blacks – more than 5 million were imported during almost 4 centuries of slavery – made a major contribution to the spread of homosexuality in the <Land of the Parrots>. The first transvestite in Brazilian history was a black named Francisco, of the Mani-Congo tribe, who was denounced in 1591 by the Inquisition visitors, but refused to discard women’s clothing. Francisco was a member of the brotherhood of the quimbanba, homosexual fetishists who were well known and respected in the old kingdom of Congo-Angola. Less well established than among the Amerindians and Africans, the Portuguese component (despite the menace of the Tribunal of the Holy Office, 1536-62) continued unabated during the whole history of the kingdom, involving 3 rulers and innumerable notables, and earning sodomy the sobriquet of the <vice of the clergy>. If we compare Portugal with the other European countries of the Renaissance – not excluding England and the Netherlands – our documentation (abundant in the archives of the Inquisition) requires the conclusion that Lisbon and the principal cities of the realm, including the overseas metropolises of Bahia and Rio de Janeiro, boasted a gay subculture that was stronger, more vital, and more stratified than those of other lands, reflecting the fact that Luso-Brazilian gays were accorded more tolerance and social acceptance. Thirty sodomites were burned by the Inquisition during 3 centuries of repression, but none in Brazil, despite the more than 300 who were denounced for practicing the <evil sin>. They were referred to as sodomitas and fanchonos.
Independence. With Brazilian independence and the promulgation of the first constitution (1823) under the influence of the Napoleonic Code, homosexual behavior ceased to be criminal, and from this date forward there has been no Brazilian law restricting homosexuality[Bolsonaro e seu séquito se encontram quase 200 anos enterrados na História; me admira que não tenham morrido asfixiados em seu ideal de mundo até agora!] – apart from the prohibition with persons less than 18 years of age, the same as for heterosexuals. Lesbianism, outlawed by the Inquisition since 1646, had always been less visible than male homosexuality in Brazil, and there is no record of any mulher-macho (<male woman>) burned by the Portuguese Inquisition. In the course of Brazilian history various persons of note were publicly defamed for practicing homosexuality: in the 17th century 2 Bahia governors, Diogo Botelho and Câmara Coutinho, both contemporaries of the major satirical poet, Gregorio de Matos, author of the oldest known poem about a lesbian in the Americas, Nise. He himself was brought before the Inquisition for blasphemy in saying that <Jesus Christ was a sodomite>. [HAHAHA!] In the 19th century the revolutionary leader Sabino was accused of homosexual practices. A considerable surviving correspondence between Empress Leopoldina, consort of the Brazil’s first sovereign, Dom Pedro, with her English lady in waiting, Maria Graham, attests that they had both a homosexual relationship and an intense homoemotional reciprocity. Such famous poets and writers as Álvares de Azevedo (1831-1852), Olavo Bilac (1865-1918), and Mário de Andrade (1893-1945) rank among the votaries of Ganymede. The list also includes the pioneer of Brazilian aeronautics, Alberto Santos-Dumont (1873-1932), after whose airship the pommes Santos-Dumont were named. At the end of the 19th century homosexuality appears as a literary theme. In 1890 Aluizio Azevedo included a realistic lesbian scene in O Cortiço, and in 1895 Adolfo Caminha devoted the entire novel O Bom Crioulo(which has been translated into English) to a love affair between a cabin boy and his black protector. In the faculties of medicine of Rio de Janeiro and Bahia various theses addressed the homosexual question, beginning with O Androfilismo of Domingos Firmínio Ribeiro (1898) and O Homosexualismo: A Libertinagem no Rio de Janeiro (1906) by Pires de Almeida – both strongly influenced by the European psychiatrists Moll, Krafft-Ebing, and Tardieu. From 1930 comes the first and most outspoken Brazilian novel on lesbianism, O Terceiro Sexo, by Odilon Azevedo, where lesbian workers founded an association intended to displace men from power, thus setting forth a radical feminist discourse.”
“In 1976 appeared the main gay journal of Brazilian history, O Lampião (The Lantern)[!], which had a great positive effect on the rise of the Brazilian homosexual movement.” “One of the chief battles of gay activists is to denounce the repeated murders of homosexuals – about every 10 days the newspapers report a homophobic crime.”
“Recently the transvestite Roberta Close appeared on the cover of the main national magazines, receiving the accolade of <the model of the beauty of the Brazilian woman>. In the mid-1980s more than 400 Brazilian transvestites could be counted in the Bois de Boulogne in Paris; many also offer themselves in Rome. When they hear the statistics of the Kinsey Report, Brazilian gays smile, suggesting through experience and <participant observation> that in Brazil the proportion of predominantly homosexual men is as high as 30%.”
“Brazil, once the paradise of gays, has entered a difficult path.” Premonitório. Mas falava apenas da AIDS.
BUDDHISM
“Among world religions, Buddhism has been notable for the absence of condemnation of homosexuality as such.”
“For an account of the earliest form of Buddhism, scholars look to the canonical texts of the Tipitaka preserved in the Pali language and transmitted orally until committed to writing in the 2nd century B.C. These scriptures remain authoritative for the Theravada or Hinayana school of Buddhism, now dominant in Southeast Asia and Sri Lanka. The Pali Canon draws a sharp distinction between the path of the lay-person and that of the bhikkhu (mendicant monk, an ordained member of the Buddhist Sangha or Order). The former is expected primarily to support the Sangha and to improve his karmic standing through the performance of meritorious deeds so that his future lives will be more fortunate than his present one. The bhikkhu, in contrast, is expected to devote all his energies to self-liberation, the struggle to cast off the attachments which prevent him from attaining the goal of nirvana in the present lifetime.”
“all acts involving the intentional emission of his semen are prohibited for the monk; the insertion of the penis into a female or male is grounds for automatic expulsion from the Sangha, while even masturbation is a (lesser) offense.” “there is no law against a monk receiving a penis into his own body.”
“The full rules of the vinaya are not applied to the samanera or novice monk, who may be taken into the Sangha as early as 7 years old and who is generally expected though not obligated to take the Higher Ordination by the age of 21. In this way the more intense sexual drive of the male teenager is tacitly allowed for. A samanera may masturbate without committing an offense. Interestingly, while a novice commits a grave offense if he engages in coitus with a female, requiring him to leave the Sangha, should he instead have sex with a male he is only guilty of a lesser offense requiring that he reaffirms his samanera vows and perform such penance as is directed by his teacher. This may be the only instance of a world religion treating homosexual acts more favorably than heterosexual ones.”
“it has been speculated that homosexual orientation may arise from the residual karma of a previous life spent in the opposite gender from that of the body currently occupied by the life-continuum. This explanation contains no element of negativity but rather posits homosexuality as a <natural> result of the rebirth cycle.”
“The form of Buddhism which spread northward into Tibet, China, Japan, Korea, and Mongolia from its Indian heartland came to be known as the Mahayana. It de-emphasized the dichotomy between monk and lay-person and relaxed the strict vinaya codes, even permitting monks to marry (in Japan). The Mahayana doctrinally sought to obliterate categorical thinking in general and resolutely fought against conceptual dualism. These tendencies favored the development of positive attitudes toward homosexual practices, most notably in Japan.”
“When Father Francis Xavier arrived in Japan in the mid-16th century with the hope of converting the Japanese to Christianity, he was horrified upon encountering many Buddhist monks involved in same-sex relationships; indeed, he soon began referring to homoeroticism as the <Japanese vice>. Although some Buddhist monks condemned such relationships, notably the monk Genshin, many others either accepted or participated in same-sex relationships. Among Japanese Buddhist sects in which such relationships have been documented are the Jishu, Hokkeshu, Shingon, and Zen.”
“Zen, that form of Buddhism perhaps most familiar to Westerners, emerged during the 9th century. In the Zen monasteries of medieval Japan, same-sex relations, both between monks and between monks and novices (known as kasshiki and shami), appear to have been so commonplace that the shogun Hojo Sadatoki (whom we might now refer to as <homophobic>) initiated an unsuccessful campaign in 1303 to rid the monasteries of same-sex love. Homoerotic relationships occurring within a Zen Buddhist context have been documented in such literary works as the Gozan Bungaku, Iwatsutsuji, and Comrade Loves of the Samurai [1972]. The blending of Buddhism and homoeroticism has continued to figure prominently in the works of contemporary Japanese writers, notably Yukio Mishima and Mutsuo Takahashi.”
“the Gelugpas [seita tibetana dos Lamas que se sucedem] condemned heterosexual intercourse for monks, believing that the mere odor resulting from heterosexual copulation could provoke the rage of certain deities. Such misogynistic and anti-heterosexual notions may have encouraged same-sex bonding.”
“Among those who may be credited with introducing the West to Buddhism are Walt Whitman and Henry David Thoreau, both of whom are thought to have loved members of the same sex and both of whom blended elements of Buddhism with elements of other spiritual traditions in their work. In the latter half of the 20th century, many American gays are practitioners of Buddhism, and the blending of homoeroticism and Buddhism may be found in the work of a number of gay American writers and musicians including Allen Ginsberg, Harold Norse, Richard Ronan, Franklin Abbott, and Lou Harrison.”
BYRON
“The most influential poet of his day, with a world-wide reputation, Byron became famous with the publication of Childe Harold’s Pilgrimage (1812-
18), an account of his early travels in Portugal, Spain, Albania, and Greece. The proud, gloomy, guilt-ridden, alienated Harold defined the <Byronic hero> who was to reappear in various guises in Byron’s later poems, notably in Manfred, The Corsair, and Lara. The type became a defining image for European and American romanticism. Forced into exile in 1816 because of the scandal caused by his wife’s leaving him, Byron settled in Italy, principally in Venice. There he wrote his sparkling satire on cant and hypocrisy, Don Juan. He spent the last months of his life in Greece, trying to help the Greeks in their struggle to gain independence from the Turks.”
“Because of the intense homophobia of English society these poems were ostensibly addressed to a woman, as the name Thyrza and Byron’s use of feminine pronouns implied.”
“publicity about his love affair with his half-sister, Augusta Leigh, compounded the scandal [of his homosexuality].”
“Byron’s last three poems, On This Day I Complete My 36th Year, Last Words on Greece, and Love and Death, poignantly describe his love for Loukas, which was not reciprocated.”
“A surreptitiously published erotic poem, Don Leon, purporting to be Byron’s lost autobiography, probably written in 1833, had set forth many of the facts about Byron’s homosexuality but was dismissed as an unwarranted libel. An edition appeared in 1866 but it remained unknown to all but a few specialists. When the Fortune Press reprinted it in 1934, the publication was confiscated by the British police.”
CAESAR
“In addition to his three wives and several mistresses, Julius Caesar had a number of homosexual affairs.”
Arthur D. Kahn, The Education of Julius Caesar: A Biography, a Reconstruction, New York: Schocken, 1986;
“American novelist and journalist. Capote became famous at the age of 24 with his elegant, evocative book Other Voices, Other Rooms, which concerns the growing consciousness of a boy seeking to comprehend the ambivalent inhabitants of a remote Mississippi house. Dubbed <swamp baroque>, this short novel was easily assimilated into then-current notions of Southern decadence. (…) In 1966 he published In Cold Blood, a <non-fiction novel> about the seemingly senseless murder of a Kansas farm family by two drifters. In preparing for the book, Capote gained the confidence of the murderers, and was thus able to make vivid their sleazy mental universe.”
“Capote became the confidant of rich and famous people, especially women, and he gathered their stories for incorporation in a major work which was intended to rival Marcel Proust. Yet when excerpts from this work-in-progress were published in magazines, not only were they found to be vulgar and lacking in insight, but Capote began to be dropped by the socialites he had so unsubtly satirized. Dismayed, the writer sank more and more into a miasma of alcohol, cocaine, and valium – his only consolation the devoted love, or so he claimed, of a succession of straight, proletarian young men whom he prized because of their very ordinariness.”
CARAVAGGIO
“Caravaggio came under the protection of Cardinal Francesco Maria del Monte, a homosexual prelate. During this period he painted several works showing ambiguous or androgynous young men, including The Musicians (New York, Metropolitan Museum). Efforts have been made to deny the homoerotic implications of these works, but they seem feeble.”
“Only after World War II did his reputation begin to climb, attaining remarkable heights in the 1980s, when even the abstract artist Frank Stella praised him. In 1986 Derek Jarman’s stylish film Caravaggio was released, presenting the artist as bisexual, but emphasizing the homosexual side.”
Baco/Dionísio pelas mãos do pintor bissexual italiano.
CASTRATI
“The castrati were male singers emasculated in boyhood to preserve the soprano or contralto range of their voices, who from the 16th century to the 19th played roles in Italian opera.” “Boys are commonly mischievous, unruly, and troublesome, and by the time they have really been trained their voices are usually on the edge of breaking; falsettists do not share these drawbacks, but their voices have a peculiar, unpleasant quality, and as a rule cannot attain as high a range as the soprano.”
“The elaborate a cappella style, which began to flourish about the middle of the 15th century, required a much wider range of voices and a higher degree of virtuosity than anything that had gone before, and for this task the existing singers were inadequate. The first response took the form of Spanish falsettists of a special kind, but by the end of the 16th century these had yielded to the castrati, who also dominated the new baroque art form – the opera, which was the principal musical activity of the Italian nation in the next two centuries. Opera was unlike legitimate theatre in that it traveled well; it was the first form of musical entertainment that was both popular and to a certain degree international, so that a star system transcending national borders arose. Leading singers were discussed, criticized, and compared in fashionable drawing rooms from Lisbon to St. Petersburg. (…) If other nations had some form of native opera, this ranked lower on the cultural scale and was indifferently sung, while the Italian version enjoyed the highest standard of singing that had ever been known, and will in all likelihood never again be attained. France alone refused admission to Italian singers, and virtually banned the castrati; but Frenchmen, like other Europeans, were full of praise for the opera of Italy.
Since no recording devices existed in the heyday of the castrati, the modern critic has no way of judging the quality of their performance, yet 6 generations of music-lovers preferred the voices of these <half-men> to those of women themselves and of whole men.”
“In this economic stratum, however, it was accepted that any male child who betrayed the slightest aptitude for music should be sold into servitude, just as in modern Thailand children are sold by their parents to labor in factories or serve in brothels. The successful castrato naturally tried to conceal his humble origins and pose as the scion of an honorable family. The singing-masters of that era were responsible for the perfection of the art of the castrati; no one since has rivaled them in perseverance and thoroughness, and in their perfect command of the capabilities and shortcomings of the human vocal organs. They usually worked in a conservatorio, though sometimes they had their own singing schools or tutored pupils on the side.
Since canon law condemned castration and threatened anyone involved in it with excommunication, which could be reinforced by civil penalties, the business had to be carried on more or less clandestinely, and everywhere prying questions brought only misleading and deceitful answers. The town of Lecce in Apulia, and Norcia, a small town in the Papal States about 20 miles east of Spoleto, are mentioned as notorious for the practice, though the castrati themselves came from all parts of the peninsula. The doctors most esteemed for their skill in the operation were those of Bologna, and their services were in demand not just in Italy but abroad as well.”
“The curriculum entailed much hard work, and was thorough and comprehensive; as much attention was given to the theory of singing as to its actual practice. Between the ages of 15 and 20, a castrato who had retained and embellished his voice, and passed the various tests with greater or lesser distinction, was considered ready for his debut. On contract to some opera house, he would often first be seen in a female part, for which his youth and fresh complexion would particularly suit him. His looks and unfamiliarity would perhaps gain him greater success than his art would have merited, to the rage and envy of his senior colleagues. Once his name was made, he would have his clique of admirers who attended en masse his every performance and extolled him as their idol; aristocratic ladies and gentlemen would fancy themselves in love with him and manipulate a piquant interview. Backstage, the rivalry with other singers could rage with intense virulence; and a castrato who was too vain and insolent might be assassinated by the hirelings of a rival’s protector. If, however, the performer did not please his audience, he would be doomed to touring small provincial opera houses, or to performing in a church choir. Dissatisfied with his situation, he could set off for Bologna, the marketplace for the musical profession in Italy, to better his fortunes. The castrati came in for a great amount of scurrilous and unkind abuse, and as their fame increased, so did the hatred of them. They were often castigated as malign creatures who lured men into homosexuality, and there were admittedly homosexual castrati, as Casanova’s accounts of XVIII century Italy bear witness. He mentions meeting an abbé whom he
took for a girl in disguise, but was later told that it was a famous castrate. In Rome in 1762, he attended a performance at which the prima donna was a castrato, the minion of Cardinal Borghese, who supped every evening with his protector. From his behavior on stage, <it was obvious that he hoped to inspire the love of those who liked him as a man, and probably would not have done so as a woman.> He concludes by saying that the holy city of Rome forces every man to become a pederast, even if it does not believe in the effect of the illusion which the castrati provoke.”
“Opponents of castration have claimed that the practice caused its victims an early loss of voice and an untimely death, while others have affirmed that castration prolonged the life of the vocal cords, and even that of their owner. There is no solid evidence for either contention: the castrati had approximately the same life span as their contemporaries, and retired at roughly the same age as other singers. The operation appears to have had surprisingly little effect on the general health and well-being of the subject, any more than on his sexual impulses. The trauma was largely a psychological one, in an age when virility was deemed a sovereign virtue.” A castração tardia não elimina a libido, ao contrário da crença vulgar. Não há solução fácil para o dilema da energia! Eu-nuco El-niño or neverminds…
“Toward the end of the XVIII century castrati went out of fashion, and new styles in musical composition led to the disappearance of these singers. Meyerbeer was the last composer of importance to write for the male soprano voice; his Il Crociato in Egitto, produced at Venice in 1824, was designed especially for a castrato star. Succeeding generations regarded their memory with derision and disgust, and were happy to live in an age when such products of barbarism were no longer possible. A few castrati performed in the Vatican chapel and some other Roman churches until late in the XIX century, but their vogue on the operatic stage had long passed.”
Angus Heriot, The Castrati in Opera
CATAMITE
“The Latin common noun, catamitus, designating a minion or kept boy, is usually derived from the Greek proper name Ganymede(s), the favorite of Zeus. Another possible source is Kadmilos, the companion of the Theban god Kabeiros. The word entered English in 16th century as part of the Renaissance revival of classical literature, and has always retained a learned, quasi-exotic aura. The term could also be used as a verbal adjective, as <a catamited boy>.” “In modern English the termination -ite tends to be perceived as pejorative, as in Trotskyite (vs. Trotskyist) and sodomite.”
CATULLUS
“Born at Verona, he spent most of his life in Rome, but kept a villa near his birthplace at Smirno on Lake Garda. Often considered the best Republican poet, he imitated Sappho as well as other archaic, classical, and Hellenistic models, upon which he often improved, and which he combined with native Latin traditions to create stunning, original pieces. He wrote poems, 250 of which survive, of happiness and bitter disappointment. Some are addressed to his mistress Clodia, 10 years his senior, whom he addressed as Lesbia(though with no insinuation of what we now call lesbianism), and who was unfaithful to him with other men. Homophobic Christians and modern schoolmasters have, however, greatly exaggerated the importance of the poems to Lesbia, which amount to no more than 1/8 of the Catullan corpus.”
“Sophisticated and fastidious, he set the standard for the Augustan poets of love Ovid, Horace, Vergil, and Propertius. In the Silver Age even Martial acknowledged his debt to Catullus’ epigrams. Like those poets, and most specifically Tibullus, he showed little inhibition and equal attraction to boys and women, but also shared the traditional attitude that the active, full-grown male partner degraded the passive one, and that the threat to penetrate another male symbolized one’s superior virility and power. On the other hand, the accusation of having been raped by another male has a largely negative force”
CENSORSHIP AND OBSCENITY
“The practice of tolerating certain hand-produced materials clearly shows that censorship is concerned not simply with the prohibition of materials, but with the size of the audience. It is for this reason that medical and other books dealing with sexual matters formerly had the crucial details in Latin.”
“The urge to censor is probably ultimately rooted in fear of blasphemy, the apprehension that if utterances offensive to the gods are tolerated their wrath will fall on the whole society. It was impiety toward the gods for which Socrates was tried and condemned in 399 B.C. The Roman erotic poet Ovid was banished by the puritanical emperor Augustus in A.D. 8.”
“Since the monasteries had a monopoly on producing manuscripts, it was assumed that such oversight was not necessary. In fact the abbey scriptoria not only copied erotic materials from Greco-Roman times, but created their own new genres of this type. In any event, the medieval authorities were concerned more with doctrinal deviation than with obscenity.” “The centralization of printing in the hands of a relatively few firms made it possible to scrutinize their intended productions before publication; only those that had passed the test and bore the imprimatur [seal] could be printed. It was then only necessary to make sure that heretical materials were not smuggled in from abroad. In Catholic countries this system was put in place by the establishment, under the Inquisition, with the Index of Prohibited Books in 1557. In countries where the Reformation took hold the control of books was generally assumed by the government. In England the requirement that books should be licenced for printing by the privy council or other agents of the crown was introduced in 1538. These origins explain why the activity of censors was for long chiefly concerned with the printed word. Revealingly, this system is still in force in Communist countries today [1990].”
“The French author Nicolas Chorier contrived an even more ambitious ruse for his pansexual dialogues of Aloisia Sigea (1658(?)), which purported to be a translation into Latin by a Dutch author (Jan de Meurs) working from a Spanish original by a learned woman.” Entendeu? Uma tradução para o latim (língua culta) de um escrito erudito (mas vulgar) de uma espanhola, feito por um holandês, para circular na França!
“Many French books, unwelcome to throne and altar, were published in Geneva, in Amsterdam, and in Germany. With the coming of the French revolution, however, all restraints were off. Thus the large works which the Marquis de Sade had composed in prison were published, as well as two fascinating homosexual pamphlets, Les enfans de Sodome and Les petits bougres au manège. Although controls were eventually tightened again, Paris gained the reputation (which lasted until about 1960) among English and American travelers as the place where <dirty books> could be obtained.”
“Through his prudish editions of Shakespeare, Thomas Bowdler (1754-1825) gave rise to the term <bowdlerize>. At the ports, an efficient customs service kept all but a trickle of works deemed to be obscene from coming in. In the United States, the morals crusader Anthony Comstock (1844-1915) not only fought successfully for stringent new legislation, but as head of the New York Society for the Suppression of Vice [haha] he claimed responsibility for the destruction of 160 tons of literature and pictures. The restrictions on malleability proved to be particularly hard on publishers of homosexual material, and this problem was not overcome until the ONE, Inc. case in 1954. A landmark in freedom to read books in the United States was the 1931 Ulysses case. Shortly thereafter, however, Hollywood instituted a system of self-censorship known as the Hays Office. This device effectively prevented any direct representation of homosexual love on the silver screen for decades, the only exceptions being a very few foreign films shown at art houses. During this period book publishers practiced their own form of self-censorship by insisting that novels featuring homosexual characters must doom them to an unhappy end.
Only after World War II did the walls begin to come tumbling down in English-speaking countries. In Britain the publishers of Lady Chatterley’s Lover by D.H. Lawrence were acquitted after a spectacular trial in 1960. In America Grove Press had obtained a favorable court decision on the availability of Lady Chatterley in 1959; three years later the firm went on to publish Henry Miller’s Tropic of Cancer without difficulty. The travails of a book containing explicit homosexual passages, William Burroughs’ Naked Lunch, were more extended. In 1958 authorities at the University of Chicago refused to permit publication of excerpts in a campus literary review. This led to the founding of a new journal, largely to publish the Burroughs text; once this had been done, a lengthy court battle ensued. Only in 1964 was the way clear for the whole novel to be issued by Grove Press. (The book had been published in Paris in 1959.)
Subsequently, a series of United States Supreme Court decisions made censorship impractical, and for all intents and purposes it has ceased nationally, though local option is sometimes exercised. This cessation permitted the appearance and sale of a mass of sexually explicit
books, films, and magazines. The only restriction that is ubiquitously enforced is the ban on <kiddy porn>, photographs and films of children engaging in sexual acts. In an unlikely de facto alliance, two groups emerged at the end of the 1970s in America to reestablish some form of censorship: one consisting of fundamentalists and other religious conservatives; the other of feminist groups [haha].”
Michael Barry Goodman, Contemporary Literary Censorship: The Case of Burroughs’ Naked Lunch, Metuchen, NJ: Scarecrow, 1981;
Rocco, Alcibiades The Schoolboy (1652) (diálogo êmulo de Platão apólogo da pederastia)
CERVANTES
“For 5 years he was a captive in Algiers, where he was on surprisingly good terms with a homosexual convert to Islam; he refers several times in his writings to the pederasty that flourished in the Ottoman empire – on his return from Algiers he was accused of unspecified filthy acts. His marriage was unhappy, and women in his works are treated distantly. Like Manuel Azaña, he put a very high value on freedom.
While Cervantes presented the male-female relationship as the theoretical ideal and goal for most people, the use of pairs of male friends is characteristic of his fiction, and questions of gender are often close to the surface. In his masterpiece Don Quixote (1605-15), which includes cross-dressing by both sexes, the middle-aged protagonist has never had, and has no interest in, sexual intercourse with a woman. A boy servant who appears fleetingly at the outset is replaced by the unhappily-married companion Sancho Panza. The two men come to love each other, although the love is not sexual.”
Verbete por Daniel Eisenberg
Louis Combet, Cervantes ou les incertitudes du désir, Lyon: Presses Universitaires, 1982 (review in MLN, 97 [1982], 422-27);
Rosa Rossi, Ascoltare Cervantes, Milan: Riuniti, 1987 (Spanish translation: Escuchar a Cervantes, Valladolid: Ámbito, 1988);
Luis Rosales, Cervantes y la libertad, 2ed., Madrid: Cultura Hispánica, 1985;
Ruth El Saffar, Cervantes and the Androgyne, Cervantes, III (1983);
______. Beyond Fiction: The Recovery of the Feminine in the Novels of Cervantes, Berkeley: University of California Press, 1984.
CHINA
“The civilization of China emerged from pre-history during the first half of the 2nd millennium B.C. in the valley of the Huang-He (Yellow River), spreading gradually southwards. Over the centuries China has exercised extensive influence on Korea, Japan, and southeast Asia. Inasmuch as Chinese society has traditionally viewed male homosexuality and lesbianism as altogether different, their histories are separate and are consequently treated in sequence in this article.”
“During the latter part of the Zhou, homosexuality appears as a part of the sex lives of the rulers of many states of that era. Ancient records include homosexual relationships as unexceptional in nature and not needing justification or explanation. This tone of prosaic acceptance indicates that these authors considered homosexuality among the social elite to be fairly common and unremarkable. However, the political, ritual and social importance of the family unit made procreation a necessity. Bisexuality therefore became more accepted than exclusive homosexuality, a predominance continuing throughout Chinese history.
The Eastern Zhou produced several figures who became so associated with homosexuality that later generations invoked their names as symbols of homosexual love, much in the same way that Europeans looked to Ganymede, Socrates, and Hadrian. These famous men included Mizi Xia, who offered his royal lover a half-eaten peach, and Long Yang, who compared the fickle [volúvel] lover to a fisherman who tosses back a small fish when he catches a larger one. Rather than adopt scientific terminology, with associations of sexual pathology, Chinese litterateurs preferred the aesthetic appeal of these literary tropes [figures of speech].”
“One incident in the life of Dong Xian became a timeless metaphor for homosexuality. A tersely worded account [relato oral sucinto] relates how Emperor Ai [last Han] was sleeping with Dong Xian one afternoon when he was called to court. Rather than wake up his beloved, who was reclining across the emperor’s sleeve [manga, sobra de tecido], Ai took out a dagger and cut off the end of his garment. When courtiers inquired after the missing fabric, Emperor Ai told them what had happened. This example of love moved his courtiers to cut off the ends of their own sleeves in imitation, beginning a new fashion trend.”
“The Jin dynasty (265-420) poet Zhang Hanbian wrote a glowing tribute to the 15-year-old boy prostitute Zhou Xiaoshi. In it he presents the boy’s life as happy and care-free, <inclined toward extravagance and festiveness, gazing around at the leisurely and beautiful>. A later poet, the Liang dynasty (502-557) figure Liu Zun, tried to present a more balanced view in a poem entitled Many Blossoms. In this piece he shows the dangers and uncertainty associated with a boy prostitute’s life. His Zhou Xiaoshi
<knows both wounds and frivolity
Withholding words, ashamed of communicating.>
Although these poems take opposite perspectives on homosexual prostitution, the appearance of this theme as an inspiration for poetry points to the presence of a significant homosexual world complete with male prostitutes catering [sendo ofertados] to the wealthy.”
“The high profile of male prostitution led the Song rulers to take limited action against it. Many Confucian moralists objected to male prostitution because they saw the sexual passivity of a prostitute as extremely feminizing. In the early 12th century, a law was codified which declared that male prostitutes would receive 100 strokes of a bamboo rod and pay a fine of 50,000 cash. Considering the harsh legal penalties of the period, which included mutilation and death by slicing, this punishment was actually quite lenient. And it appears that the law was rarely if ever enforced, so it soon became a dead letter.”
“Legal intervention peaked in the Qing dynasty (1644-1911) when the Kang Xi Emperor (r. 1662-1723) took steps against the sexual procurement of young boys, homosexual rape, and even consensual homosexual acts.” “it seems that the traditional government laissez-faire attitude toward male sexuality prevented enforcement of the law against consensual homosexual acts.”
“A thirst for knowledge of homosexual history led to the compilation of the anonymous Ming collection Records of the Cut Sleeve (Duan xiu pian) which contains vignettes of homosexual encounters culled from nearly two millennia of sources. This anthology is the first history of Chinese homosexuality, perhaps the first comprehensive homosexual history in any culture, and still serves as our primary guide to China’s male homosexual past.”
“In Fujian province on the South China coast, a form of male marriage developed during the Ming. Two men were united, the older referred to as an <adoptive older brother> (qixiong) and the younger as <adoptive younger brother> (qidi). The younger qidi would move into the qixiong’s household, where he would be treated as a son-in-law by his husband’s parents. Throughout the marriage, which often lasted for 20 years, the qixiong was completely responsible for his younger husband’s upkeep. Wealthy qixiong even adopted young boys who were raised as sons by the couple. At the end of each marriage, which was usually terminated because of the familial responsibilities of procreation, the older husband paid the necessary price to acquire a suitable bride for his beloved qidi.” [!!!]
“The famous 17th century author Li Yu wrote several works featuring male homosexuality and lesbianism. The greatest Chinese work of prose fiction, Dream of the Red Chamber (Honglou meng), features a bisexual protagonist and many homosexual interludes. And the mid-19th century saw the creation of A Mirror Ranking Precious Flowers (Pinhua baojian), a literary masterpiece detailing the romances of male actors and their scholar patrons.”
“Within a few generations, China shifted from a relative tolerance of homosexuality to open hostility. The reasons for this change are complex and not yet completely understood. First, the creation of colloquial baihua literary language removed many potential readers from the difficult classical Chinese works which contained the native homosexual tradition. Also, the Chinese reformers early in the century began to see any divergence between their own society and that of the West as a sign of backwardness. This led to a restructuring of Chinese marriage and sexuality along more Western lines. The uncritical acceptance of Western science, which regarded homosexuality as pathological, added to the Chinese rejection of same-sex love. The end result is a contemporary China in which the native homosexual tradition has been virtually forgotten and homosexuality is ironically seen as a recent importation from the decadent West.
Communist China.In the People’s Republic of China, homosexuality is taken as a sign of bourgeois immorality and punished by <reeducation> in labor camps. Officially the incidence of homosexuality is quite low. Western psychologists, however, have noted that the official reporting of impotence is much higher in mainland China than in the West. It seems that many Chinese men, unfamiliar with homosexual role models, interpret their sexuality solely according to their attraction to women. Nevertheless, a small gay subculture has begun to develop in the major cities since the end of the Maoist era [?]. Fear of discovery and lack of privacy tend to limit the quality and duration of homosexual relationships. And for the vast majority of Chinese living in the conservative country-side, homosexual contacts are much more difficult to come by.” “With the 1997 return of Hong Kong to China approaching, British liberals have supported a last minute repeal of the sodomy law.”
“Traditionally, Chinese people have viewed male homosexuality and lesbianism as unrelated. Consequently, much of the information we have on male homosexuality in China does not apply to the female experience. Piecing together the Chinese lesbian past is frustrated by the relative lack of source material. Since literature and scholarship were usually written by men and for men, aspects of female sexuality unrelated to male concerns were almost always ignored.” “Sex manuals of the period Ming include instructions integrating lesbian acts with heterosexual intercourse as a way of varying the sex lives of men with multiple concubines.”
“Li Yu’s first play, Pitying the Fragrant Companion (Lianxiangban), describes a young married woman’s love for a younger unmarried woman. The married woman convinces her husband to take her talented beloved as a concubine. The 3 then live as a happy ménage-à-trois free from jealousy. A more conventional lesbian love affair is detailed in Dream of the Red Chamber, in which a former actress regularly offers incense to the memory of her deceased beloved.”
The most highly developed form of female relationship was the lesbian marriages formed by the exclusively female membership of Golden Orchid Associations. A lesbian couple within this group could choose to undergo a marriage ceremony in which one partner was designated <husband> and the other <wife>. After an exchange of ritual gifts, a wedding feast attended by female friends served to witness the marriage. These married lesbian couples could even adopt young girls, who in turn could inherit family property from the couple’s parents. This ritual was not uncommon in 19th-century Guangzhou province. Prior to this, the only other honorable way for a woman to remain unmarried was to enter a Buddhist nunnery.” “The existence of Golden Orchid Associations became possible only by the rise of a textile industry in south China which enabled women to become economically independent. The traditional social and economic attachment of women to the home has so far prevented the emergence in modem China of a lesbian community on even so limited a scale as that of male homosexuals.”
Lanling Xiaoxiao Sheng, Golden Lotus ou The Plum [Ameixa] in The Golden Vase (2013) (título original: Jin ping mei)(novela de costumes, considerada o “Lolita” oriental), s/ data precisa (~séc. XVI; ed. por Zhang Zhupo no século seguinte). trad. francesa: La merveilleuse histoire de Hsi Men avec ses six femmes (1), Fleur en fiole d’or (2);
Pai Hsien-yung, The Outsiders (Niezi) (inspirou um filme homônimo, de 1986)
CHRISTIANITY
“ORÍGENES” DO MAL II: “By about A.D. 200, the church had come to recognize the texts making up the New Testament as a single canon. After some hesitation, the Hebrew Bible, known to Christians as the Old Testament, was taken from Judaism and also accepted as divinely inspired. From this point onwards, Christian doctrines were elaborated by a group of intellectuals, known as the Fathers of the Church or the Patristic writers, beginning with such figures as Origen, Clement of Alexandria and Tertullian.” “Though they based their exegesis upon the Bible, they were inevitably influenced by philosophical and religious currents of their own time, especially Greek Stoicism and Neo-Platonism and by rival mystery cults such as Manichaeanism and Gnosticism.” “Still today there are differences on such sexually related topics as divorce, celibacy, and so forth between Roman Catholics and members of various eastern branches of Christianity which date from the foundations of Christianity, including Coptic, Nestorian, and various Orthodox Churches. In practice, most of these churches have been more tolerant of homosexuality than the Roman Catholic Church and its Protestant off-shoots.”
RESUMO DAS CONFISSÕES DE UM HOMEM POUCO SANTO
“St. Augustine (d. 430), one of the great scholars of the ancient world, had converted to the austere faith of Manichaeanism after receiving a classical education. It seemed to his mind more suited to his Neo-Platonic and Stoic ideals than the Christianity of his mother. In Manichaean belief, which drew heavily from Zoroastrianism, intercourse leading to procreation was particularly evil because it caused other souls to be imprisoned in bodies, thus continuing the cycle of good versus evil.
Augustine was a member of the Manichaean religion for some 11 years but never reached the stage of the Elect in part because of his inability to control his sexual appetites. He kept a mistress, fathered a child, and according to his own statement, struggled to overcome his lustful appetites everyday by praying: <Give me chastity, and continence, but do not give it yet>. Recognizing his own inability to give up sexual intercourse, Augustine finally arrived at the conclusion that the only way to control his venereal desire was through marriage. He expelled his mistress and his son from his house, became engaged to a young girl not yet of age for wedlock (probably under 12 years of age), and planned a marriage. Unable to abstain from sex, he turned to prostitutes, went through a religious crisis, and in the process became converted to Christianity.”
HA-HA: “All other sex was sinful including coitus within marriage not performed in the proper position (the female on her back and facing the male) and using the proper appendages and orifices (penis in vagina). St. Augustine’s views became the views of the western church centered in Rome.” “In general there was no extensive discussion of homosexuality by any of the early Church Fathers, and most of the references are incidental.”
“The Augustinian views were modified in the 13th century [o que houve nestes 7 séculos além de monges devassos e burros?] by St. Thomas Aquinas, who held that homosexual activities, though similar to other sins of lust, were more sinful because they were also sins against nature. The sins against nature in descending order were (I) masturbation, (2) intercourse in an unnatural position, (3) copulation with the same sex (homosexuality and lesbianism), and (4) sex with non-humans (bestiality).”
One of the key sources in the early medieval Church is the penitential literature. Originally penance had been a way of reconciling the sinner with God and had taken place through open confession. The earliest penitentials put sexual purity at a high premium, and failure to observe the sexual regulations was classified as equal to idolatry (reversion to paganism) and homicide. Ultimately public penance was replaced by private penance and confession which was regulated by the manuals or penitentials designed to guide those who were hearing them. Most of the early penitentials classified homosexual and lesbian activities as equivalent to fornication. Later ones classified such activities as equivalent to adultery although some writers distinguished between interfemoral intercourse and anal intercourse and between fellatio or oral-genital contacts. Anal intercourse was regarded as being the most serious sin.” “Sodomy came to be regarded as the most heinous of sexual offenses, even worse than incest, and as civil law began to take over from canon law, it could be punished as a capital crime.”
Antes só dormia, hoje sodomia.
Só dormia, ou será que prazer também? No lato sensucht
Calvin & Child Harolde: “Catholics denounced Calvin for his supposed pederasty, a charge that was completely unfounded.”
NADA COMO COMER O BRIOCO DUMA INDIAZINHA: “In 1730-31 the great Dutch persecution of sodomites occurred, and in the accompanying propaganda the old charges against Roman Catholicism were revived. In Catholic countries themselves, the dissolution of the Jesuit order in 1773 was preceded by accusations of sodomy.”
Graciano, A Harmony of Discordant Canons (1140)
St. Peter Damián (1007-1072), Liber Gomorrhianus
CHURCHES, GAY
“The emergence of Christian churches with predominantly gay and lesbian congregations, as well as interest groups within or allied to existing denominations, is a recent phenomenon, centered in the English-speaking world. There are records of homosexual monks, nuns, and priests, especially in the later Middle Ages and in early modern times, but no indication that they even thought of organizing on the basis of their sexual preference. Christian homosexuals drawn to particular parishes, where cliques [panelinhas] occasionally even became a visible segment of the congregation, would not openly avow this shift in the church’s character: they remained closeted gay Christians, so to speak.”
“Some maintain that Jesus – an unmarried man in a Jewish milieu where marriage and procreation were de rigueur even for the religious elite – had a passionate relationship with John, the beloved disciple. Liturgically and sociologically the UFMCC tends to be of a <low church> character, with notable exceptions in some congregations. The evangelical fundamentalist domination of the UFMCC may be regarded as a response to the homophobic vehemence of the mainstream fundamentalist churches, which drives gay Christians out of their fold with a vengeance and forces them into an external redoubt, in contrast to the relatively more tolerant atmosphere, hospitable to internal gay caucuses [panelinhas, partidos], of the more liberal churches.”
CICERO
“Roman politician, orator, and writer, who left behind a corpus of Latin prose (speeches, treatises, letters) that make him one of the great authors of classical antiquity. Unsuccessful in politics, he was overestimated as a philosopher by the Middle Ages and the Renaissance and underestimated in modern times, but was and is ranked as one of the greatest masters of Latin style. His career as an orator began in 81 B.C., and from the very beginning his speeches revealed his rhetorical gifts. His denunciation ofVerres, the proconsul who had plundered the province of Sicily, opened the way to his election as aedile, praetor, and then consul, but subsequently the intrigues of his enemies led to his banishment from Rome (58/57), followed by his triumphal return. In the civil war he took the side of Pompey and so failed again, but was pardoned by the victorious Caesar, after whose death he launched a rhetorical attack on Mark Antony. The formation of the triumvirate meant that Cicero was to be proscribed by his opponent and murdered by his henchmen.”
“In the last turbulent century of the Roman republic in which he lived, a contrast between the austere virtue of earlier times and the luxury and vice of the present had become commonplace. Also, as we know from the slightly later genre of satirical poetry, a taste for salacious gossip had taken root in the metropolis. In his orations Cicero remorselessly flays the homosexual acts of his enemies, contrasting homosexual love with the passion inspired by women which is <far more of natural inspiration>.”
“Something of the Roman antipathy to Greek paiderasteia transpires from Cicero’s condemnation of the nudity which the Greeks flaunted in their public baths and gymnasia, and from his assertion that the Greeks were inconsistent in their notion of friendship. He pointedly noted: <Why is it that no one falls in love with an ugly youth or a handsome old man?> Effeminacy and passive homosexuality are unnatural and blameworthy in a free man, though Cicero remained enough under the influence of Greek mores to express no negative judgment on the practice of keeping handsome young slaves as minions of their master.” “The Judaic condemnation of homosexuality per se had not yet reached Rome, but the
distinction that had existed in Hellenic law and custom between acts worthy and unworthy of a citizen was adopted and even heightened by the com[cu]bination of appeal to Roman civic virtue and his own rhetorical flair.”
SMEAR CAMPAIGN: “Cicero’s rhetoric thus had two sides: the attempt to discredit opponents by inflammatory imputations of homosexual conduct and of sexual immorality in general – a type of smear to be followed in political life down to modern times”
CIRCUMCISION
GENEALOGIA DA PROFILAXIA: “Male circumcision, or the cutting away of the foreskin [prepúcio] of the penis, has been practiced by numerous peoples from remotest antiquity as a religious custom, while to some modern homosexuals it has an aesthetic and erotic significance. It has been speculated that the custom originated somewhere in Africa where water was scarce and the ability to wash was limited. Thus the Western Semites (Israelites, Canaanites, Phoenicians, Arabs, Edomites, Syrians), who lived in an area where water was never really plentiful, also observed the custom, while the Eastem Semites (Assyrians and Babylonians), in an area where water was more abundant, did not circumcise. This is true also of the Greeks and other Aegean peoples who always lived near the water.”
“Jesus never mentioned circumcision, though the Jewish rite was (Luke 2:21) performed upon him on his 8th day as it was with all other males of his community of faith – hence the designation of the calendar in which the first day of the year is January 1 as <circumcision style>. In the early church the party of Paul of Tarsus which opposed circumcision was victorious, and uncircumcised Greeks and Romans poured into the new faith, so that to this day the majority of European men have retained their foreskins. With the coming of the faith of Islam, however, in the VII century the Middle East and North Africa became a stronghold of the practice of circumcision. Hindus and Buddhists avoid it, hence East Asians – and Amerindians – retain their foreskins.”
“In the late 20th century the trend is being reversed in America as more and more medical articles – and some books – have argued that the operation in most cases is needless.”
“There are even groups of men who have retained their foreskins (and others who admire them); these individuals with generous or pronounced <curtains> are in demand.”
Bud Berkeley & Joe Tiffenbach, Circumcision: Its Past, Its Present, and Its Future, San Francisco: Bud Berkeley, 1983-84;
Rosemary Romberg, Circumcision: The Painful Dilemma, South Hadley, MA: Bergin & Garvey, 1985;
Edward Wallerstein, Circumcision: An American Health Fallacy, New York: Springer Publishing Co., 1980.
CLASS
“When there are no children to raise there is more discretionary income, so that adopting a homosexual lifestyle provides a margin for class enhancement.” “An established gay man or lesbian may put resources which parents would use for raising the status of their children into helping a lover-protegé. The mentor may also provide private lessons in manners and business acumen.” “Curiously, some parents seem to tolerate same-sex alliances by their offspring more easily than those that cross class or racial lines. § Internalizing the folk belief that homosexuals are more <artistic>, some gay men cultivate musical, theatrical, and culinary tastes that are above their <station> – and above their income. Acquisition of these refined preferences, together with <corrected> speech patterns, hinders easy communication with former peers, though there are many factors that work for geographical and psychological distance between homosexuals, on the one hand, and their families and original peer groups, on the other. Given their relative freedom, some individuals may be inclined to experiment with <class bending>, [sinuosidade de classe] sometimes with paradoxical results.”
“There is class, and there is class fantasy.”
CLEMENT OF ALEXANDRIA
“Greek church father. Born in Athens, probably of pagan and peasant ancestry, he is not to be confused with Clement, bishop of Rome, author of the New Testament epistle. After his conversion, Clement of Alexandria traveled widely to study under Christians, finally under the learned Pantaenus in Alexandria. Of the early Fathers, he had the most thorough knowledge of Greek literature. He quoted Homer, Hesiod, the dramatists, and (most of all) Platonic and Stoic philosophers. Sometime before 200 he succeeded Pantaenus, whom he praised for his orthodoxy, as head of the catechetical school at Alexandria, but in 202 he had to flee the persecution unleashed by the emperor Septimius Severus and perhaps died in Asia Minor.”
“Although Clement’s christianity has been criticized as being too Hellenized, his serene hope and classical learning helped convert the upper classes. His pseudo-Platonic doctrine that homosexuality was particularly noxious because it was <against nature> served to combine that strand of classical philosophy with Hellenistic Jewish homophobia, most trenchantly exemplified by the Alexandrian philosopher Philo Judaeus (20 B.C.-A.D. 45), to justify persecution of sodomites. He thus preceded and stimulated the homophobia of the Christian emperors, from Constantine’s sons to Justinian, and of the two most influential Fathers, John Chrysostom and Augustine of Hippo.”
CLERGY, GAY
“that there is a psychological affinity between religious ministry and hemophilia”Edward Carpenter
“The patrician John XII (938-964) went so far as to model himself on the scandalous Roman emperor Heliogabalus, holding homosexual orgies in the papal palace – a practice imitated by Benedict IX (1021-ca. 1052).” “paradoxically the enforcement of celibacy on priests and even attempts to impose it on those in lesser orders increased the danger of homosexuality.”
“Friars, who unlike the monks were free to wander among the laity without much supervision, became notorious as seducers of boys as well as women, whose confessions they often heard to the disgruntlement [desabono] of parish priests. Many homosexual clergy, then as now, confessed to one another and were formally absolved. Indeed, the confessional at times became the locus of seduction.”
“Philip IV of France charged Boniface VIII not only with heresy, usury, and simony, but with sodomy and masturbation as well.”
“The Renaissance in Italy, with its revival of classical antiquity and love of art, saw a number of popes who were interested in their own sex. Among them were the anti-pope John XXIII (d. 1419), who began his career as a pirate. Entering the clergy he quickly acquired the reputation of an unblushing libertine. The humanist pope Pius II (1405-1464) watched boys run naked in a race at Pienza, noting a boy <with fair hair and a beautiful body, though disfigured with mud>. The vain Venetian Paul II (1417-1471) toyed with adopting the name Formosus. Affecting the most lavish costumes, he was attacked by his enemies as <Our Lady of Pity>. His successor, Sixtus IV (1414-1482), made his mark as an art patron, erecting the Sistine chapel. He also elevated to the cardinalate a number of handsome young men. Julius II (1443-1513), another art-loving pope, provoked such scandal that he was arraigned under various charges, including that of sodomy, but he managed to survive the attempt to depose him. His successor, the extravagant Medici Leo X (1475-1521), became embroiled in intrigues to advance favorite nephews, a hobby that strained the treasury to the utmost. Julius III (1487-1555), who had presided over the Council of Trent before his pontificate, was nonetheless sometimes seen at official functions with catamites [<coroinhas>], one of whom he made a cardinal.”
“The anticlerical literature of the last decades of that century delighted in exposing cases in which a clergyman had committed a sexual offense, to the point where in 1911 the Pope had to issue the motu proprio decree Quamvis diligenter forbidding the Catholic laity to bring charges against the clergy before secular courts. This step unilaterally abolished the principle of the equality of all citizens before the law established by the French Revolution, reinstating the <benefit of clergy> of the Middle Ages. The anticlerical literature of that period still needs study for the light that it can shed on the homosexual subculture of the clerical milieux.”
The Bible for Believers and Unbelievers (1922)(clássico anticlerical russo)
The Rule of St. Benedict, chapter 22.
Transcrição completa do capítulo 22 das regras de São Benedito (regulamento dos monges na alta idade média):
“CHAPTER XXII: HOW THE MONKS ARE TO SLEEP
Let them sleep singly in separate beds. Let them receive bedding suitable to their manner of life, at the discretion of the abbot. If it can be done, let all sleep in one room: but if their number does not allow of this, let them repose by tens or by twenties with their seniors who have charge of them. Let a candle burn continually in the dormitory until morning. Let them sleep clothed and girded with girdles or cords, but let them not have knives at their sides while they sleep, lest by chance while dreaming they wound a sleeper; and let them be monks always ready; and upon the signal being given let them rise without delay and hasten one after the other, yet with all gravity and decorum, to be ready in good time for the Work of God. Let not the younger brethren have their beds by themselves, but among those of the seniors: and let them be allowed gently to encourage one another as they rise for the Work of God, because some may feel drowsy and listless.”
COCTEAU, JEAN
The Infernal Machine (peça)
COLETTE
“A happy childhood is a bad preparation for contact with human beings.”
COLOR SYMBOLISM
“A current Russian term for a gay man is golubchik, from goluboy, <blue>, evidently through association with the <blue blood> of the aristocracy of the Old Régime.”
“According to Havelock Ellis, one could not safely walk down the streets of late 19th century New York wearing a red tie without being accosted, since this garment was then the universal mark of the male prostitute.” “Because of the <scarlet woman>, the great Whore of Babylon of the book of Revelation, that color has acquired a strong association with prostitution and adultery”
“In American culture the word lavender – a blend of red and blue (as in <lavender lover>, The Lavender Lexicon, etc.) – almost speaks for itself.”
“The mid-1980s saw public display at rallies and marches of a rainbow Gay Pride Flag, consisting of six parallel stripes ranging from bright red to deep purple. The juxtaposition of colors stands for the diversity of the gay/lesbian community with regard to ethnicity, gender, and class – perhaps also connoting, in the minds of some, the coalition politics of the Rainbow Alliance headed by Jesse Jackson.”
COMICS
“The first true comic strips were introduced in 1897 as a circulation-building device in the Sunday supplements of the Hearst newspapers. The now-familiar pulp comic book was a creation of the Depression: the first commercial example is Famous Funnies of 1934. Although these strips generally affirmed middle-class values, and certainly contained not the slightest overt indication of sex, they were regularly denounced by pundits as a pernicious influence on the young.”
“Batman, appearing in 1939, featured the adventures of a playboy detective and his teenage ward, Robin. Although the relationship is portrayed as a simple mentor-protegé one, some teenage male readers were able to project something stronger into it. This aspect was certainly flirted with in the campy television off-shoot beginning in 1966, though this series reflects a much changed cultural climate. In 1941 there appeared Wonder-woman, featuring an Amazon with special powers living on an all-woman island. This strip – contrary to the expressed wishes of its creators – served as a focus for lesbian aspirations. In the 1970s it was rediscovered by the women’s movement as a proto-feminist statement.
In the late 1940s Blade drew several illustrated stories, including The Barn and Truck Hiker, that can be considered predecessors of the gay comics. Circulated underground, they have been officially published only in recent years. Somewhat later the wordless strips of supermacho types created by Tom of Finland began to circulate in Europe.
It was the American counterculture of the 1960s, however, which first made possible the exploration of taboo subjects in a context of crumbling censorship restrictions. In 1964 a Philadelphia gay monthly, Drum, began serializing Harry Chess by Al Shapiro (A. Jay). Modeled on a popular television series, Harry Chess was both macho and campy, though explicit sex scenes were veiled. In the 1970s no-holds-barred examples appeared drawn by such artists as Bill Ward, Sean, and Stephen (Meatman).”
COMING OUT
“A few gays and lesbians report no memory of a coming out process; they always considered themselves homosexual and were never <in the closet>. Others have reported a sudden revelation of their own homosexuality which does not fit into any theory of stages but has brought them from apparently heterosexual to comfortably homosexual virtually overnight.”
“The self-help literature for gay and lesbian youth is quite explicit in designating parents as the crucial factor in the youth’s coming out process. Those who do not come out to their family, according to G.B. MacDonald, become <half-members of the family unit: afraid and alienated, unable ever to be totally open and spontaneous, to trust or be trusted… This sad stunting of human potential breeds stress for gay people and their families alike – stress characterized by secrecy, ignorance, helplessness, and distance.> The scientific literature, however, has largely ignored the role of parents, having centered on gay and lesbian adults.”
CONTEST LITERATURE
Diálogos.
Achilles Tatius, Leucippe and Clitophon
Pseudo-Lucian, Affairs of the Heart
CONTRARY SEXUAL FEELING
“the linguistic remnant of the first, uncertain psychiatric attempt to grapple with the problem of homosexuality.”
COUNTERCULTURE
“Apparently the term counterculture is an adaptation of the slightly earlier <adversary culture>, an expression coined by the literary critic Lionel Trilling (1905-1975). In many respects the counterculture constituted a mass diffusion – fostered by diligent media exploitation – of the prefigurative beat/hippie phenomenon. As American involvement in the Vietnam War increased, in the wake of opposition to it the counterculture shifted from the gentle <flower-child> phase to a more aggressive posture, making common cause with the New Left, which was not, like the radicalism of the 30s, forced by economic crisis to focus on issues of unemployment and poverty. Of course radical political leaders were accustomed to decry the self-indulgence of the hippies, but their followers, as often as not, readily succumbed to the lure of psychedelic drugs and the happy times of group togetherness accompanied by ever present rock music.”
MESSIANISMO EPIDÊMICO: “The counterculture shamelessly embraced ageism: <Don’t trust anyone over thirty.> Observing this precept cut young people off from the accumulated experience and wisdom of sympathetic elders. Moreover, it meant that the adherents of the movement themselves quickly became back numbers as they crossed over the 30-year line. In regard to gay adherents, the distrust of older people tended to reinforce the ageism already present in their own subculture. To be sure, the full force of such problematic effects has become evident only in retrospect. Although outsiders, and some insiders as well, exaggerated the fusion of the counterculture and the New Left, still the convergence of massive cultural innovation with hopes for fundamental political change gave the young generation a heady sense of imminent revolution.”
“The psychiatrist Thomas Szasz and others correctly perceived the link between the campaign to decriminalize marijuana and the efforts to reform sex laws.” “many assumed that homosexuals were essentially counterculturist, leftist, and opposed root and branch to the established order. Subsequent observation has shown, not surprisingly perhaps, that a majority of gay men and lesbians were (and are) liberal-reformist and even conservative, rather than revolutionary in then-overall political and social outlook.”
CROWLEY, ALEISTER
“After the turn of the century Crowley’s public career began, and he was regularly attacked in the press as <The Great Beast> and <The Wickedest Man in the World>.”
Raulseixismo: <There is no law beyond Do what thou wilt.>
“In a 1910 memoir Aleister Crowley proclaimed, <I shall fight openly for that which no Englishman dare defend, even in secret – sodomy! At school I was taught to admire Plato and Aristotle, who recommend sodomy to youths – I am not so rebellious as to oppose their dictum; and in truth there seems to be no better way to avoid the contamination of woman and the morose pleasures of solitary vice.>”
“he advanced beyond the grade of Magus to the supreme status of Ipsissimus.” E o Quico?
“Scarcely known today outside occult circles, Crowley is an extravagant instance of the concern with heterodox religion that has flourished among some male homosexuals who could find no peace within established Christianity, and more recently among female adherents of <the craft>. Through his voluminous writings Crowley foreshadowed the emergence of the <Age of Aquarius>.”
Israel Regardie, The Eye in the Triangle: An Interpretation of Aleister Crowley, St. Paul: Llewellen Publications, 1970.
CRUISING
Nicole Ariana, How to Pick up Men, New York: Bantam, 1972;
Mark Freedman & Harvey Mayes, Loving Man, New York: Hark, 1976, chapter 2;
John A. Lee, Getting Sex, Toronto: General, 1978 [Tinder on paper for human beings as archaic as those from a century ago];
Publius Ovid, Art of Love [~1A.D., obra seminal do “flerte” e “sondagens de sexo casual”, homo e heteronormativas!]
CUBA
“The largest island of the Antilles chain, home to 10 million Spanish-speaking people” Para 2017, o censo ainda não aponta população superior a 11.5 milhões.
“The British, French, and Dutch seized islands from the Spanish or colonized vacant ones as naval bases or sugar plantations; like the pirates they seldom brought women along. All 3 European powers were involved in the notorious triangular trade, shipping molasses or rum to Europe, guns and trinkets from there to Africa, and slaves back to the West Indies.”
“Cuba began to excel in sugar production after 1762. Havana became a glittering metropolis, rivaling New York and Rio de Janeiro, by 1800. The slave population, including huge numbers of males imported for work in the cane fields or molasses manufacturing, grew from fewer than 40,000 in 1770 to over 430,000 seventy years later. The census of 1841 reported that more than half the population was non-white (black and mixed blood) and that 43% were slaves. Males outnumbered females by 2 to 1 in the center and west and were just equal in the east. Other islands in the Caribbean had even greater sexual imbalances. Documentation for the homosexuality that must have abounded is scarce but the earlier prevalence can be assumed from attitudes and customs that still survive.”
“With Spain’s adoption of the Napoleonic Code in 1889, homosexuality was decriminalized 3 years after the abolition of slavery.”
“During World War I, Europe was closed to North Americans and Cuba, especially Havana, became a resort for the more adventurous. Prosperity increased with a rise in commodity prices. Also, the Prohibition in the United States after 1920 left Cuba as an oasis where liquor still flowed freely. Casino gambling and prostitution were also legal. A favorite port of call of cruise ships [pun intended!], Havana flourished as a mecca for pleasure-seekers.”
“The post-war collapse of commodity prices was to some extent offset by tourism. Everything was for sale in Havana under the dictator Fulgencio Batista, whose 1952 coup ousted an outwardly democratic but venal and nepotistic predecessor.
Old Havana had gay bars. Moral laxity, characteristic of the slave-rooted Caribbean economy, the Napoleonic Code, and the weakness of the Catholic Church (which was mainly Spanish, urban and upper class) produced an environment where gays were only mildly persecuted and could buy protection from corrupt officials. Drugs, especially marijuana, which flourished throughout the Caribbean, were available in Cuba long before they won popularity in the United States.”
“Exploiting popular revulsion against continuing political corruption as well as resentment of the diminishing but still important American domination, Fidel Castro led an ill-assorted group of liberals, patriots, and Marxists, including some gays, to victory over Batista in 1959. Only after he came to power did the United States realize that Castro was an avowed Communist. The American Central Intelligence Agency then tried and failed to assassinate him. His triumph was sealed by the missile crisis of 1962 when Khrushchev agreed to withdraw the missiles in return for Kennedy’s promise never to try to invade Cuba.”
“Soviet hostility toward homosexuality since 1934, when Stalin restored the penal laws against male homosexuals, combined with traditional Latin American machismo and Catholic homophobia, made the existence of Cuban homosexuals wretched and oppressive. To prevent their <contamination> of youth, thousands of gays in the 1960s were placed in work camps known as Military Units to Increase Production (UMAP). Although the camps were abolished by the end of the decade, other forms of discrimination continued. Article 359 of the Cuban penal code prohibits public homosexuality. Violations are punished with a minimum of 5 and a maximum of 20 years. Parents must discourage their children from homosexuality or report their failure to officials as Articles 355-58 mandate. Articles 76-94 punish with 4 years imprisonment sexual deviation regarded by the government as contrary to the spirit of Socialism.”
“The gifted playwright and fiction writer Virgilio Piñera (1912-1967) returned from Argentina in 1957 and after Castro’s triumph worked for several of the newspapers of the regime. On October 11, 1961, he was arrested and jailed for homosexuality. Che Guevara personally denounced him.”
Allen Young, Gays under the Cuban Revolution
DANDYISM
“The dandy has been since antiquity the man who prides himself on being the incarnation of elegance and of male fashion. The word itself stems from the Romantic period in the 19th century, when the character type reached its apogee; England and France were the principal countries in which it flourished. Charles Baudelaire (1821-1867) was one of the first to perceive that the type was not limited to the age just preceding his own, but had emerged across the centuries in some celebrated historical figures. Jules Barbey d’Aurevilly (1808-1889) wrote an Essay on Dandyism and George Brummel (1845), dealing with Beau Brummell (1778-1840), the most famous English representative of the dandy in the London of George IV.
History of the Type. Ancient Greece saw two classical specimens of the dandy: Agathon and Alcibiades. In Plato’s Symposium Agathon is a poet and tragedian, not merely handsome, but obsessed with the most trivial details of his wardrobe. Aristophanes shows him using a razor to keep his cheeks as smooth and glistening as marble, wearing sumptuous clothing in the latest Ionian fashion. Later in the same dialogue Alcibiades also enters the stage, the most dazzling figure of the jeunesse dorée of Athens, richer and more influential than Agathon, and never sparing any expenditure that would enhance his renown.”
“Another aesthete of this era, Oscar Wilde, affected a particularly striking costume when he made a lecture tour of the United States, capitalizing on a character featured in the Gilbert and Sullivan opera Patience (1881).”
“Rationale. The relation of the dandy to male homosexuality is complicated. As a rule the homosexual – more than the male who is attracted to women – feels the need to distinguish his person in some way, is more conscious of the world of male fashion and more likely to be narcissistically preoccupied with his image. Naturally not all the dandies of the past were homosexual or bisexual, and an element of leisure class self-demarcation and snobbery enters into the picture. Since it is usually the male of the species whom nature makes physically more noteworthy, the male-female antithesis in style of dress that has prevailed in Western culture since the French Revolution reverses the immemorial state of affairs. The notion that only a woman may be preoccupied with her wardrobe and that a man should dress simply and even unobtrusively is of recent date.”
DANTE ALIGHIERI
“As a youth he had a profound spiritual experience in an encounter with the young Beatrice Portinari; after her death he submerged himself in the study of philosophy and poetry. In 1302 Dante was banished from Florence, pursuing his literary career in various other cities of Italy.”
“The presence in both the Inferno and the Purgatorio of groups of <sodomites> has given rise to a series of debates over the centuries. These passages must be interpreted in the larger context of the great poem’s situations and personnel.” “The sodomites of the Inferno (cantos 15 and 16) are seen running under a rain of fire, condemned never to stop if they wish to avoid the fate of being nailed to the ground for a hundred years with no chance of shielding themselves against the flames. Having recognized Dante, Brunetto Latini (ca. 1212-1294) called him to speak with him, voicing an important prophecy of Dante’s future. In describing his fellow sufferers, Latini mentioned a number of famous intellectuals, politicians, and soldiers.
In the Purgatorio (canto 26) the sodomites appear in a different context – together with lustful heterosexuals. The two categories travel in opposite directions, yelling out the reason for their punishment.
How can one account for the striking deference and sympathy that Dante shows for the sodomites? This matter began to puzzle commentators only a few years after the poet’s death.”
“Dante’s education took place in the 13th century when Italy was beginning to change its attitudes toward homosexual behavior. Conduct which had been a transgression condemned by religion but viewed with indulgence by everyday morality assumed increasing seriousness in the eyes of the laity. For Dante it was still possible – as it had commonly been through the first half of the 13th century – to separate human and divine judgment with respect to sodomy.”
IDADE DAS LUZES E O BURACO ESCURO: “For Dante’s commentators sodomy was a sin of such gravity that it was inconceivable for them to treat with respect men seared with such <infamy>.”
“That Dante had spoken of Brunetto Latini and the sodomites with too much sympathy because he too shared their feelings was the conclusion of one anonymous commentator of the 14th century. Another wild suggestion is that the shameless Latini had made an attempt on Dante’s own virtue, and that hence Dante’s gentle words are in reality sarcasm that must be understood <in the opposite sense> (Guiniforto dei Bargigi; 1406-ca. 1460). Then, foreshadowing a thesis that would be favored by medical opinion in the 12th century, it was suggested that there were two types of sodomites, those by <choice> and those who are such by <necessity>.”
“The debate on Dante’s motives has continued until our own day. In 1950Andre Pezard devoted a whole book, Dante sous la pluie de feu, to an effort to show that the sin for which Brunetto and his companions were being punished was sodomy not in the usual sense, but in an allegorical one: sodomie spirituelle, which in Brunetto’s case meant having used the French language as a medium for one of his works.”
“The authoritative Encyclopedia Dantesca has sought to bring the conflict to an end, taking adequate account of Dante’s indulgent judgment as the correct key for solving the supposed <enigma> of the band of sodomites. As regards the reason for Brunetto Latini’s presence among the sodomites, Avalle D’Arco’s recent confirmation of the attribution to him of a long love poem directed to a man, S’eo son distretto inamoramente, shows that it was probably on the basis of facts that were publicly known in Dante’s time that he was consigned to Hell.” Aposto o cu que você já deu o cu.
DICKINSON, EMILY (1830-1886)
“American poet. After brief periods at Amherst Academy and Holyoke Female Seminary, she settled into an outwardly uneventful life keeping house for her family. Dickinson never married. The real events in her life are her writings, which have assumed classic status in American literature.”
“These homoerotic poems are never joyous, but that is to be expected in a society where heterosexual marriage was virtually believed inevitable and there was little possibility of two unrelated women establishing a life together if they were not wealthy through independent inheritance.”
DIONYSUS
“Greek god associated with wine and emotional exuberance. Although the name occurs in linear B tablets [?] from the end of the second millennium B.C., his figure absorbed additional elements from Thrace and the East in the following centuries. Dionysus, called Bacchus in Latin, was the son of Zeus and a mortal, Semele. When his mother unwisely besought Zeus to reveal himself in his true form, she was incinerated, but the embryo of her son escaped destruction. Zeus then inserted it into his own thigh and carried the child to term. This quality of being <twice born>, once from a woman and once from a man, points to the ambiguity of the god, who though male had effeminate traits. In literary and artistic representations, he sometimes served as a vehicle for questioning sex roles, otherwise strongly polarized in ancient Greece.
According to the late-antique writer Nonnus, Dionysus fell in love with a Phrygian boy, Ampelos, who became his inseparable companion. When the boy was killed in a bull-riding accident, the grief-stricken Dionysus turned him into a vine. As a result, the practices of vine cultivating and grape harvesting, of wine making and drinking, commemorate this deeply felt pederastic relationship: in honoring the vine (ampelos in Greek), one honors the god through his beloved.
In historic times Dionysus attracted a cult following consisting largely of women, the Bacchae or maenads. During the ritual followers abandoned their houses and work to roam about in the mountains, hair and clothing in disarray, and liberally imbibing wine, normally forbidden to women. At the height of their ecstasy they would seize upon an animal or even a child, tear it to pieces, and devour the uncooked flesh, by ingesting which they sought to incorporate the god and his powers within themselves. From a sociological point of view, the Bacchic cult is a <religion of the oppressed>, affording an ecstatic relief to women, whose status was low. Occurring only once during the year, or once every two years, these Dionysiac rites were bracketed off from the normal life of the Greek polis, suggesting comparison with such later European customs as the feast of fools, the carnival, the charivari, and mardi gras.
The maenads assume a major role in Euripides’ tragedy, The Bacchae (406 BC). Accompanied by his female followers, Dionysus appears in Thebes as a missionary. Unwisely, King Pentheus insults and arrests the divine visitor; after he has been rendered mad and humiliated, the transgressor is dismembered by the maenads. Interpretations of the play differ: a warning of the consequences of emotional excess versus a reaffirmation of the enduring presence of humanity’s irrational side. The subject probably attracted Euripides as a phenomenon of individual and group psychology in its own right, but it is unlikely that he intended it as a forecast of modern gay liberation in the <faery spirituality> mode, as Arthur Evans has argued. Inasmuch as the sexuality of The Bacchae was not pederastic, the Greek audience would not have seen the play as homosexual (a concept foreign to their mentality), but rather as challenging gender-role assumptions about men and women, whatever their sexual orientation. That the parts of the maenads were taken by men was not exceptional: women never appeared on the Greek stage.
Bacchanalian rites were introduced into Rome during the Republic. Men joined women in the frenzied gatherings, and (according to the historian Livy) there was more debauchery among the men with each other than with the women. Apart from their orgiastic aspects, the rites caused concern because they crossed class lines, welcoming citizens, freed men and slaves alike. Condemned as a subversive foreign import, the Senate suppressed the Bacchanalia in 186 BC, but they evidently were soon revived. Roman sarcophagi of the 2nd and 3rd century of our era show Bacchic scenes, projecting hopes for an afterlife spent in Dionysic bliss. In its last phases the cult of Dionysus emerged as an other-worldly mystery religion, showing affinities with Mithraism, the religion of Isis, and Christianity. Meeting now behind closed doors, members of the sect recognized one another by passwords and signs.
Although the early Christians regarded all pagan worship as demonic, they were not averse to purloining the Bacchic wine harvest imagery for their own sarcophagi and mosaics. Some Bacchic reminiscences recur in drinking songs of medieval goliardic poets, notably the Carmina Burana.”
“At the end of the 16th century the flamboyant bisexual painter Caravaggio created a notably provocative image of Bacchus-Dionysus (Florence, Uffizi Gallery).” Veja pintura no verbete do pintor mais acima.
“The most influential latter-day evocation of the god occurs in The Birth of Tragedy (1872) of Friedrich Nietzsche, who exalted the category of the Dionysiac as an antidote for excessive rationality in the interpretation of ancient Greece and, by implication, in modern life as well.
Nietzsche’s ideas were modernized and correlated with anthropology and psychoanalysis by the classical scholar E.R. Dodds, who in turn influenced the poet W.H. Auden. Together with his lover, Chester Kallman, Auden turned Euripides’ play into an opera libretto entitled The Bassarids.”
Karl Kerenyi, Dionysus: Archetypal Image of Indestructible Life, London: Routledge, 1976.
DREAMS
“When a dream has homosexual content, the hermeneutic process is complicated by the ethical assumptions of the dreamer and the interpreter, which reflect the attitudes of society toward same-sex experience.
To understand their dream experiences human beings have formulated a lore to which the ancients gave the name oneirocritical. Because the ancient world accepted homosexual interest and activity as part of human sexuality, the dream interpreters of the eastern Mediterranean cultures could calmly explain the homoerotic episodes in dreams in terms of their overall system of signs and meanings and without anxiety. Such was the work of Artemidorus of Daldis (middle of the 2nd century), which alludes to pédérastie and homosexual dream sequences and assigns them a specific, often prophetic meaning. Not so the Christian Middle Ages; the literature of dreams became exclusively heterosexual because the taboo with which theology had tainted sexual attraction to one’s own sex imposed a censorship that is only now being lifted.”
DRUGS
“It should be noted that there has never been a country or society in which unrestricted use of all psychoactive drugs has been permitted over any period of time.”
“In some users hallucinogens cause terrifying experiences; psychological problems can be exacerbated, and brain damage caused. The action of stimulants is often followed by a compensatory negative experience through which the body restores its equilibrium.”
“Society can tolerate drug use if it is encapsulated within an artistic, recreational, religious, or therapeutic context; while some are able to so control their usagé, for many that is a daunting or impossible condition, at least in our present culture”
“education is more effective than prohibition. Exaggeration of drugs’ harmful effects reduces respect for law, overwhelms the courts and prisons, inhibits research on any therapeutic use of drugs, makes drugs of controlled strength and purity unavailable, gives drugs the glamour of the forbidden, and encourages progression to ever more dangerous yet legally equal substances. As with alcohol during America’s Prohibition (1920-33), the supply of illegal drugs has become a very profitable industry, and not a passive or benign one. Foreigners who supply drugs sometimes justify their actions to themselves and their countrymen as a means of striking back at the political and economic power of the United States.”
“during the 1960s, there were a considerable number of reports of people becoming aware of homoeroticism for the first time while under the influence of LSD especially. Drugs have also been used by musicians, artists, and writers who claim that the substances help them create, although this claim is controversial, perhaps because if substantiated it would be a powerful argument for drug use.”
“The use of hashish (cannabis), eaten in sweets rather than smoked, is found in the Bible (Song of Songs 5:1; I Samuel 14:25-45), and there is evidence of psychic use of hemp (marijuana), from which hashish is made, from pre-historic times. Herodotus, for example, reports its popularity among the Scythians. However, widespread use of hashish begins in Islam in the 12th and 13th centuries. While the Koran prohibited wine, which because of distribution costs was somewhat more expensive than today, it was silent on hashish, which was also much less expensive. There was debate about whether the Koran’s silence was to be taken as approval, or whether prohibition was to be inferred from the treatment of wine; still, as long as it remained a minority indulgence it was tolerated, as wine usually was. Hashish users became a subculture; in particular it is linked to the mystical Sufis, who made a cult and ritual of its use. However, almost every Islamic poet from the 13th to the 16th centuries produced at least some playful poems on hashish, although wine poetry is much more abundant.”
“Hashish was thought to cause effeminacy, a preference for the passive sexual role, and a loss of interest in sex. However, it was also prized as the drug of scholars and lovers of young men, and an aid in seduction of the latter. Turkish soldiers frequently ate hashish together before going into battle.
Coffee was introduced to Europe in the 17th century from the Turkish empire. Both within Islam and in Europe coffee was at first a similarly controversial drug, subject to occasional legal restriction or suppression. Its use in coffee-houses, later cafés, was typical of intellectuals and dissidents.”
“The first half of the 20th century was characterized by a wave of reaction against drugs and the establishment of legal controls throughout Westem Europe and North America. However, the tensions of the 1960s, against a backdrop of the Holocaust and the invention and use of the atomic bomb, brought on a new wave of drug use. The hedonistic use of cannabis increased greatly; its enthusiasts promoted it as an aid to sensual and sexual enjoyment. The Beat generation, especially William Burroughs and Allen Ginsberg, had already turned to potent psychedelics as a means of self-improvement; they became part of the short-lived counterculture of the late 1960s. The discovery of psychedelics was in part due to progress in anthropology and archeology. The use by native peoples of mescaline (peyote), psilocybin (mushrooms), and other psychedelics became known, and the possible role of such substances in visions and oracles of the ancient Mediterranean world was proposed by scholars. The hallucinogenic properties of the most potent psychedelic yet known, lysergic acid diethylamine-25 (LSD), were discovered in 1943” “until it became too controversial, it was manufactured by a pharmaceutical company for research in psychotherapeutic treatment.”
“The gay bar remains the only gay institution in many American communities, as it was almost everywhere until the 1970s.”
“Poppers are a vasodilator of transitory effect, and cause a <high> from a drop in blood pressure; users say that the intensity and/or duration of orgasm is increased, that muscles (such as throat and anal sphincters) and gag reflexes are relaxed, and that feelings of increased union or <melting> with the sex partner result. Many users report that continued use (a single inhalation produces effects only for a few minutes) inhibits erections, while other users seem unaffected. Likewise, some users say the poppers encourage passivity and complete relaxation, while others report no such effect. Headaches and dizziness are sometimes reported as side effects.” “In the early 1980s poppers were accused of being a co-factor in the development of AIDS, and they were made illegal in some areas, although the accusation remains unproven.”
EFFEMINACY, HISTORICAL SEMANTICS OF
“In reading older texts it is important to bear these differences in mind, for the term effeminate can be used slightingly of a womanizer [mulherengo] as well as of a <womanish> man.
The ancient Greeks and Romans sharply differentiated the active male homosexual, the paiderastes (in the New Testament arsenokoites, literally <man-layer>), from the passive partner, the cinaedus or pathicus (New Testament Greek malakos; Hebrew, rakha). The Greeks also sometimes used the term androgynos, <man-woman>, to stigmatize the passive homosexual. Beginning with the Old Attic comedies of Aristophanes, the passive is a stock figure of derision and contempt, the active partner far less so. Because of the military ideals on which ancient societies were founded, passivity and softness in the male were equated with cowardice and want of virility. A seeming exception is the god Dionysus – whose effeminate characteristics are, however, probably an import from the non-Greek East.
In ancient Rome the terms mollis (soft) and effeminatus acquired special connotations of decadence and enervating luxury. By contrast the word virtus meant manliness. The Roman satirists took sardonic delight in flagellating the vices of luxury that were rampant among the upper classes of a nation that, once rude and war-like, had succumbed to the temptations that followed its successful conquest and plunder of the entire ancient world. The classical notion of effeminacy as the result of luxury, idleness, and pampered self-indulgence is thus far removed from the claim of some gay liberationists today to kinship with the exploited and down-trodden.”
“The old Icelandic literature stemming from medieval Scandinavia documents the condemnation of the argr, the cowardly, unwar-like effeminate (compare Modern German arg, <bad>). The Latin term mollities (softness) entered early Christian and medieval writings, but often with reference to masturbation. It may be that the 18th-century English term molly for an effeminate homosexual is a reminiscence of Latin mollis.”
“In the 16th century the French monarch Henri III assembled an entourage of favorites whose name mignon connotes effeminacy and delicacy. In French also the original meaning of bardache was the passive partner of the active bougre. English writings of the 17th and 18th century frequently denounced foppery [dandismo], sometimes homosexual but more often heterosexual.”
“Restoration times also witnessed the popularity of the self-referencing habit of male homosexuals adopting women’s names: Mary, Mary-Anne, Molly, Nance or Nancy, and Nelly. The habit occurs in other languages as well – Janet in Flemish; Checca (from Francesca) in Italian; Maricón (from Maria) in Spanish; and Adelaida in Portuguese.”
“19th-century English witnessed a semantic shift of a number of terms originally applied to women to provide opprobrious designations of male homosexuals. Thus gay had the meaning of a loose woman, prostitute; faggot, a slatternly woman –, and queen (or quean), a trollop. Even today the popular mind tends to the view that gay men seek to imitate women, or even become women –, the considerable number of unstereotypical, masculine homosexuals are not taken into account.”
“Termagant and virago, though pejorative, do not suggest variance of sexual orientation. The girl who is a tomboy has always been treated more indulgently than the boy who is a sissy.”
“Men who cross-dress as women are of two kinds. Some go to great lengths to make the simulation credible, an effort that may be a prelude to transsexualism. In other instances the simulation is imperfect, a kind of send-up. Although some feminists have interpreted such cross-dressing exercises as mockery of women, it is more likely that they signify a questioning of gender categories. In any event, transvestism is not normally held to lie within the province of effeminacy, which is thought to be the adjunction of feminine traits in a person otherwise fully recognizable as masculine.”
Hans Herter, Reallexikon fur Antike und Christentum, 4 (1959).
EGYPT
“Traditionally the pharaohs married their half-sisters, a custom that other peoples considered curious. Self-confident in their cherished habits and customs, the Egyptians nonetheless cherished a distinct sense of privacy, which restricted discussion of erotic themes in the documents that have come down to modern times. Most of our evidence stems from temples and tombs, where a full record of everyday life could scarcely be expected. Unfortunately, Egypt had no law codes comparable to those known from ancient Mesopotamia.”
“The realm of mythology provides several instances of homosexual behavior. In order to subordinate him, the god Seth attempted to sodomize his brother Horus, but the latter foiled him, and tricked Seth into ingesting some of his (Horus’s) own semen. Seth then became pregnant. In another myth the ithyphallic god Min anally assaulted an enemy, who later gave birth to the god Thoth. Both these stories present involuntary receptive homosexuality as a humiliation, but the act itself is not condemned; in the latter incident the god of wisdom is born as a result. (In another myth the high god engenders offspring parthenogenetically by masturbation.) While it is sometimes claimed that the ancient Egyptians were accustomed to sodomize enemies after their defeat on the battlefield, the evidence is equivocal.”
“In what is surely history’s first homosexual short story, King Pepy II Neferkare (2355-2261) makes nocturnal visits to have sex with his general Sisinne. This episode is significant as an instance of androphilia – sex between two adult men – rather than the pederasty that was dominant in the ancient world. From a slightly earlier period comes the Tomb of the Two Brothers at Thebes, which the excavators have explained as the joint sepulcher of two men, Niankhnum and Khnumhotep, who were lovers. Bas reliefs on the tomb walls show the owners embracing affectionately.”
“Queen Hatshepsut (reigned 1503-1482 BC) adopted male dress and even wore a false beard; these male attributes probably stem from her decision to reign alone, rather than from lesbianism.
A figure of particular interest is the pharaoh Akhenaten (Amenhotep IV; reigned ca. 1372-1354 BC), who was a religious and artistic reformer. Although this king begat several daughters with his wife, the famous Nefertiti, in art he is often shown as eunuch-like, with swollen hips and feminine breasts. According to some interpreters these somatic features reflect a glandular disorder. Other scholars believe that they are a deliberate artistic stylization, so that the appearance of androgyny may convey a universal concept of the office of kingship, uniting the male and the female so as to constitute an appropriate counterpart of the universal god Aten he introduced. Scenes of Akhenaten caressing his son-in-law Smenkhkare have been interpreted, doubtfully, as indicating a homosexual relation between the two.”
ELLIS, HAVELOCK
“Pioneering British writer on sexual psychology. Descended from a family with many generations of seafarers, Henry Havelock Ellis was named after a distinguished soldier who was the hero of the Indian Mutiny. Early in life he sailed twice around the world and spent some years in Australia. In boarding school he had some unpleasant experiences suggesting a passive element in his character, and his attachments to women were often more friendships than erotic liaisons. At the age of 32 he married Edith Lees, a lesbian; after the first year of their marriage all sexual relations ceased, and both went on to a series of affairs with women. By nature an autodidact, Ellis obtained in 1889 only a licentiate in Medicine, Surgery, and Midwifery from the Society of Apothecaries – a somewhat inferior degree that always embarrassed him. More interested in his literary studies than in the practice of medicine, he nevertheless collected case histories mainly by correspondence, as his autobiography makes no mention of clinical practice.”
ERA DE AQUARIUS: “In the atmosphere that prevailed after the disgrace of Oscar Wilde (May 1895), publication in England was problematic, but under doubtful auspices the English edition was released in November 1897.”
“Sexual Inversion was the first book in English to treat homosexuality as neither disease nor crime, and if he dismissed the current notion that it was a species of <degeneracy> (in the biological sense), he also maintained that it was inborn and unmodifiable – a view that he never renounced. His book, couched in simple language, urged public toleration for what was then regarded as unnatural and criminal to the highest degree. To a readership conditioned from childhood to regard homosexual behavior with disgust and abhorrence, the book was beyond the limits of comprehension, and a radical publisher and bookseller named George Bedborough was duly prosecuted for issuing <a certain lewd wicked bawdy scandalous and obscene libel>” “The book was to appear in two later editions as the second volume of Ellis’ Studies in the Psychology of Sex, which in its final format extended to 7 volumes covering the whole of sexual science as it existed in the first three decades of the 20th century.” “Ellis never endorsed the explanations offered by Freud and the psychoanalytic school, so that the third edition of Sexual Inversion (1915), which was supplemented by material drawn from Magnus Hirschfeld’s Die Homosexualität des Mannes und des Weibes, published a year earlier, presented essentially the standpoint of 1904. The next in radical character was the measured discussion of masturbation, which Victorian society had been taught to regard with virtual paranoia as the cause of numberless ills.”
EPHEBOPHILIA
“The term ephebophilia seems to have been coined by Magnus Hirschfeld in his Wesen der Liebe (1906)”
ANTI-AQUILINO (BANQUETE): “those with bearded faces who had outgrown the stage at which they were appropriate as the younger partners in pederasty, but not yet old enough to marry: the prime age for military service. The ancient Greek age of puberty was likely in the mid-teens rather than the younger ages typical of contemporary Western society.”
“In other societies, ephebes are legally on a par with younger children, but in practice sexual activities with them are not as harshly repressed as with the younger group.”
“The combination of heightened sexual energy with a lack of heterosexual outlets (owing to marriage ages in the twenties and restrictions on pre-marital opportunities) and low incomes (characteristic of males still in school, military service, or just beginning to acquire work experience) has in many societies made heterosexual ephebes more available for trade (one-sided) relationships with homosexuals than any other group of heterosexual males.
For many ephebophiles, the naïveté of ephebes is a source of attraction, their enthusiasm for new experiences (including sexual and romantic involvements) contrasted with what is perceived to be the more jaded and skeptical attitudes of other adults.”
“The ancient Greeks acknowledged this trait with the term philephebos (fond of young men) and philoboupais (one who is fond of over-matured boys, <bull-boys> or <husky young men>), but generally slighted it in favor of the pederastic preference. Nevertheless, the athletic games of which the Greeks were so fond featured nude ephebes, the size of whose members received public acclaim, and the victors basked in adulation; Pindar wrote odes to them.”
“In the 20th century, the dominance of the androphile model of male homosexuality has tended to subsume, appropriate, and obscure the ephebophile current, and to consider it as a mode of adult-adult relationships rather than as a distinctive type of preference.”
EPICUREANISM
“Knowledge of Epicureanism, the classical rival of Stoicism, is fragmentary because Christians, disliking its atheistic materialism, belief in the accidental existence of the cosmos, and ethical libertarianism, either failed to copy or actually destroyed the detested works. Of all the numerous works composed in antiquity, only Lucretius’ philosophical poem De rerum natura survives intact. Diogenes Laertius reported that Epicurus wrote more than anyone else, including 37 books On Nature. A typical maxim: <We see that pleasure is the beginning and end of living happily>.
Epicurus (341-270 BC), the founder of the school, served as an ephebe in Athens at 18 and then studied at the Academy, a fellow classmate of Menander, when Aristotle was absent in Chalcis. Having taught abroad, where he combatted the atomist philosophy of Democritus, he returned to Athens and bought his house with a garden in 307-6. There he taught until his death, allowing women and slaves to participate in his lessons – to the shock of traditionalists. Only a few lines of his works survive. Apparently he likened sexual object choice, whether of women or boys, to food preferences – a parallel that often recurred in later times. His beloved Metrodorus predeceased him.
[O LEITMOTIF INCONSCIENTE DO BLOG] The Epicurean school, consisting of scholars who secluded themselves from society in Epicurus’ garden, lived modestly or even austerely. Stoics, however, libeled the secretive Epicureans because of their professed hedonism, accusing them of profligacy of every kind despite the fact that Epicurus felt that pleasure could be attained only in restraint of some pursuits that in the long run bring more pain than the temporary pleasure they seem to offer. Natural pleasures are easily satisfied, others being unnecessary. The ideal was freedom from destiny by satisfying desire and avoiding the pain of desires too difficult or impossible to satisfy. By freeing man from fear of gods and an afterlife and by teaching him to avoid competition in politics and business it liberates him from emotional turmoil. Friendship was extremely important to Epicureans.”
“Lucretius (ca. 94-55 BC) seems not to have added any ideas to those taught by Epicurus himself. But others, like the fabulously rich general Lucullus, whose banquets became proverbial, excused their gross sensuality by references to Epicurus’ maxims. Julius Caesar proclaimed himself an Epicurean. Under the Empire Stoicism vanquished its rival and vied with Christianity, which when triumphant anathematized Epicureanism.”
“the Soviet Communists, who naturally ranked Epicurus above Plato as the greatest philosopher of antiquity.” ???
“Gassendi (1592-1655) [neo-epicurean] exerted enormous influence on both Newton and Leibniz.”
FAGGOT
“One of the most persistent myths that have gained a foot-hold in the gay movement is the belief that faggot derives from the basic meaning of <bundle of sticks used to light a fire>, with the historical commentary that when witches were burned at the stake, <only presumed male homosexuals were considered low enough to help kindle the fires>.
The English word has in fact three forms: faggot, attested by the Oxford English Dictionary from circa 1300; fadge, attested from 1588; and faggald, which the Dictionary of the Older Scottish Tongue first records from 1375. The first and second forms have the additional meaning <fat, slovenly woman> which according to the English Dialect Dictionary survived into the 19th century in the folk speech of England.
The homosexual sense of the term, unknown in England itself, appears for the first time in America in a vocabulary of criminal slang printed in Portland, Oregon in 1914, with the example <All the fagots (sissies) will be dressed in drag at the ball tonight>. The apocopated (clipped) form fag then arose by virtue of the tendency of American colloquial speech to create words of one syllable; the first quotation is from the book by Neis Anderson, The Hobo (1923): <Fairies or Fags are men or boys who exploit sex for profit.> The short form thus also has no connection with British fag as attested from the 19th century (for example, in the novel Tom Brown’s Schooldays) in the sense of <public school boy who performs menial tasks for an upper-classman>.
In American slang faggot/fag usurped the semantic role of bugger in British usage, with its connotations of extreme hostility and contempt bordering on death wishes. In more recent decades it has become the term of abuse par excellence in the mouths of heterosexuals, often just as an insult aimed at another male’s alleged want of masculinity or courage, rather than implying a sexual role or orientation.
The ultimate origin of the word is a Germanic term represented by the Norwegian dialect words fagg, <bundle, heap>, alongside bagge, <obese, clumsy creature> (chiefly of animals). From the latter are derived such Romance words as French bagasse and ltalian bagascia, <prostitute>, whence the parallel derivative bagascione whose meaning matches that of American English faggot/fag, while Catalan bagassejar signifies to faggot, <to frequent the company of loose women>.
The final proof that faggot cannot have originated in the burning of witches at the stake is that in English law both witchcraft and buggery were punishable by hanging, and that in the reign of the homosexual monarch James I the execution of heretics came to an end, so that by the time American English gave the word its new meaning there cannot have been in the popular mind even the faintest remnant of the complex of ideas credited to the term in the contemporary myth. It is purely and simply an Americanism of the 20th century.
Given the fact that the term faggot cannot refer to burning at the stake, why does the myth continue to enjoy popularity in the gay movement? On the conscious level it serves as a device with which to attack the medieval church, by extension Christianity in toto, and finally all authority. On another level, it may linger as a <myth of origins>, a kind of collective masochistic ritual that willingly identifies the homosexual as victim.”
FASCISM
“The term fascism derives from fasces, the bundles of rods carried by the lictors of ancient Rome to symbolize the unity of classes in the Republic. Fascism is the authoritarian movement that arose in Italy in the wake of World War I. Although Hitler admired its founder Mussolini and imitated him at first – the term Führer is modeled on Duce – one cannot simply equate his more radical National Socialist movement with the Italian phenomenon, as writers of the left are prone to do.”
“Not essentially racist like Nazism or anti-bourgeois like Marxism, Italian fascism, with its corporative binding of workers and employers, has been less consistently hostile to homosexuals.”
“Mussolini also argued in a discussion of a draft penal code in 1930 that because Italians, being virile, were not homosexuals, Italy needed no law banning homosexual acts, which he believed only degenerate foreigners to practice. A ban would only frighten such tourists away, and Italy needed the money they spent to improve its balance of payments and shore up its sagging economy. Napoléon had promulgated his code, which did not penalize homosexual acts between consenting adults, in northern Italy in 1810, and thus decriminalized sodomy. It had already been decriminalized in Tuscany by Grand Duke Leopold, the enlightened brother of Joseph II. The Albertine Code of 1837 for Piedmont-Sardinia was extended to all its dominions after the House of Savoy created a united Kingdom of Italy, a task completed in 1870. Pervasive was the influence of the jurist MarquisCesare Beccaria, who argued against cruel and unusual punishments and against all offenses motivated by religious superstition and fanaticism.
Thus Italy with its age-old <Mediterranean homosexuality> in which women were protected, almost secluded – upper-class girls at least in the South being accompanied in public by dueñas –, had like other Latin countries allowed female prostitution and closed its eyes to homosexuality. As such it had became the playground par excellence during the grand tour of the English milords, and also the refuge of exiles and émigrés from the criminal sanctions of the Anglo-American common law and the Prussian code. The Prussian Code was extended in 1871-72 to the North and then South German territories incorporated in the Reich, including ones where the Code Napoleon had prevailed in the early part of the century. Byron and John Addington Symonds took refuge in Italy, as William Beckford did in Portugal and Oscar Wilde in Paris. Friedrich Alfred Krupp’s playground was in Capri, Thomas Mann’s in Venice, and Count Adelswárd Fersen’s also in Capri.”
“Personally, Mussolini was somewhat of a sexual acrobat, in that he had a succession of mistresses and often took time out in the office to have sex with one or another of his secretaries.”
“Believing in military strength through numbers, Mussolini did more than Hitler to subsidize parents of numerous progeny, thus hoping to increase Italy’s population from 40 to 60 million.”
“However, after he formed the Rome-Berlin Axis with Hitler in 1936, Mussolini began, under Nazi influence, to persecute homosexuals and to promulgate anti-Semitic decrees in 1938 and 1939, though these were laxly enforced, and permitted exceptions, such as veterans of World War I.”
“Oppressing homosexuals more than Jews, Mussolini’s regime rounded up and imprisoned a substantial number, a procedure poignantly depicted in Ettore Scola’s excellent film A Special Day (1977).” “Even exclusive homosexuals, if they were not unlucky, survived fascism unscathed.”
“Admiral Horthy seized control of Hungary from the communist Bela Kun in 1920 and as Regent unleashed a <White Terror> largely directed against Jews, two years before Mussolini marched on Rome with his black-shirts.”
“Fascists were less consistent and more divided among themselves than even communists or Nazis. After all, they had no sacred text like Das Kapital or Mein Kampf, and further were not ruling only a single powerful country.” “Czechoslovakia, the only democracy in Central Europe to survive this period, simply continued the Austrian penal code of 1852 that penalized both male and female homosexuality.”
“The great homosexual poet Federico García Lorca was shot by a death squad near Granada in 1936; it is said that they fired the bullets through his backside to <make the punishment fit the crime>.” “More than Mussolini, Franco resisted the theories and pressures of Hitler, whom he regarded as a despicable (and perhaps deranged) upstart. It has been argued that Franco was not a fascist at all and that he actually maintained a pro-Jewish policy, granting asylum to refugees from Nazi-occupied Europe and attempting to protect Sephardic Jews in the Balkan countries. In his last years he in fact liberalized Spain to a certain extent, allowing among other things a resurgence of gay bars, baths, and culture even before the accession of King Juan Carlos upon his death in 1975. Today Spain is one of the freest countries in Europe.”
“Naturally Latins, like Slavs, being considered inferior peoples by Hitler, did not in general espouse racism (Hitler had to make the Japanese honorary Aryans to ally with them in the Tripartite Pact of 1937), so they had no reason to think of homosexuals in his terms.”
FASCIST PERVERSION, BELIEF IN
“Fascism and National Socialism (Nazism) were originally distinct political systems, but their eventual international ties (the <Rome-Berlin axis>) led to the use of <fascist> as an umbrella term¹ by Communist writers anxious to avoid the implication that <National Socialism> was a type of socialism. Neither in Italy nor in Spain did the right-authoritarian political movements have a homosexual component. Rather it was in Weimar Germany that the right-wing paramilitary groups which constituted the nucleus of the later National Socialist German Workers Party (NSDAP) attracted a considerable number of homosexuals whose erotic leanings overlapped with the male bonding of the party. This strong male bonding, in the later judgment of their own leaders, gave the Nazis a crucial advantage in their victory over the rival Social Democratic and communist formations in the early 1930s.
The most celebrated of the homosexuals in the Nazi Party of the 1920s was Ernst Rohm, whose sexual proclivities were openly denounced by left-wing propagandists, but this did not deprive him of Hitler’s confidence until the putsch of June 30, 1934, in which he and many of his homosexual comrades in arms were massacred.”
¹ Discordo, mas segue o jogo.
“theorists such as Wilhelm Reich who were opposed to homosexuality [?] could claim that the right-wing youth were <becoming more homosexual>. The victory of National Socialism at the beginning of 1933 then reinforced Communist and émigré propagandists in their resort to <fascist perversion> as a rhetorical device with which they could abuse and vilify the regime that had defeated and exiled them – and which they hoped would be transient and unstable.
In particular, the statute by which Stalin restored the criminal sanctions against homosexuality that had been omitted from the penal codes of 1922 and 1926 was officially titled the <Law of March 7, 1934> – a pointed allusion to the anniversary of the National Socialist consolidation of power one year earlier.”
“In the United States Maoists charged that the gay liberation movement of 1969 and the years following was an example of <bourgeois décadance> that would vanish once the triumph of socialism was achieved. “
Samuel Igra, Germany’s National Vice, London: Quality Press, 1945.
FILM
“Adolescent alienation was the theme of Rebel without a Cause (1955), in which, however, the delicate Sal Mineo character dies so that James Dean can be united with Natalie Wood.”
“In the book Midnight Express the hero admitted to a gay love affair in prison, but in the movie version (1978) he rejects a handsome fellow inmate’s advances.”
“Screen biographies of gay people have had similar fates. Michelangelo and Cole Porter appear as joyful heterosexuals; Oscar Wilde could not be sanitized, to be sure, but he was presented in a <tasteful> manner (3 British versions, 2 in 1960, one in 1984). Recent screen biographies have been better; the documentary on the painter Paul Cadmus (1980) is open without being sensational; Prick Up Your Ears, on the life of Joe Orton, is as frank as one can wish, though it somehow misses the core of his personality.”
“In The Third Sex (West Germany, 1959) a sophisticated older man has an entourage of teenage boys. Although this film purveys dated ideas of homosexuality, it went farther in explicitness than anything that Hollywood was able to do for over a decade. Federico Fellini’s celebrated La Dolce Vita (1960) is a multifaceted portrait of eternal decadence in chic circles in Rome.”
“One breakthrough came in 1967 when the legendary Marlon Brando portrayed a closeted homosexual army officer in John Huston’sReflections in a Golden Eye, a film which drew a <Condemned> rating from the Catholic Church.” Who gives a fuck (literally)!
“Sunday Bloody Sunday: this film was notable for the shock experienced by straight audiences at a kissing scene between Peter Finch and Murray Head. Perhaps the most notorious of the gay directors was Rainer Werner Fassbinder, whose Fox and His Friends (1975) deals with homosexuality and class struggle. Fassbinder’s last film was his controversial version of a Genet novel, Querelle (1982). The death of Franco created the possibility of a new openness in Spanish culture, including a number of gay films. Influenced by Luis Buñuel, Law of Desire (1986) by Pedro Almodóvar is surely a masterpiece of comic surrealism.”
“Already in the 1920s some major directors were known to be gay, including the German Friedrich W. Murnau and the Russian Sergei Eisenstein.”
“During their lifetimes Charles Laughton and Montgomery Clift had to suffer fag-baiting taunts from colleagues, while Rock Hudson remained largely untouched by public scandal until his death from AIDS in 1985. Tyrone Power and Cary Grant were decloseted after their deaths. The sexuality of others, such as Errol Flynn and James Dean, remains the subject of argument. In Germany the stage actor and film director Gustav Grundgens managed to work through the Nazi period, even though his homosexuality was known to the regime.”
“In 1969, however, hardcore porno arrived, apparently to stay. Some 50 theatres across the United States specialized in the genre, and where the authorities were willing to turn a blind eye, sexual acts took place there, stimulated by the films.”
“Much of the early production was forgettable, but in 1971, in Boys in the Sand starring Casey Donovan (Cal Culver), the director-producer Wakefield Poole achieved a rare blend of sexual explicitness and cinematographic values.”
“In the later 80s AIDS began to devastate porno-industry workers, gay and straight, and safe sex procedures became more rigorous on the set (it should be noted, however, that long before AIDS, by strict convention, pornographic film ejaculations were always conducted outside the body, so as to be graphically visible; hence film sex was always basically <safe sex>).”
PROVAVELMENTE ULTRAPASSADO: “Lesbian porno exists only as scenes within films addressed to heterosexual males, their being, thus far, no market for full-length lesbian films of this nature. A number of independent lesbian film-makers have made candid motion pictures about lesbian life, but they are not pornographic.”
Carel Rowe, The Baudelairean Cinema: A Trend Within the American Avant-Garde, Ann Arbor, MI: UMI Research Press, 1982.
FLAUBERT
“From his early years at the lycée onward, he preferred the pen to his father’s scalpel, and single-handedly edited a minor journal, the Colibri, that clumsily but clearly foretold his future talent. In Paris he read Law but never took the degree for reasons of health, and there met Maxime Du Camp, with whom he formed a close friendship. Together they traveled through Brittany and Normandy in 1847, bringing back a volume of reminiscences that was to be published only after Flaubert’s death (Par les champs et par les grèves, 1885). Between October of 1849 and May of 1851 the two traveled in Egypt and Turkey, and there Flaubert had a number of pédérastie experiences which he related in his letters to Louis Bouilhet.”
BORING FASHION: “On his return to France Flaubert shut himself up in his country house at Croisset, near Rouen. Instead of aspiring to self-discovery in the manner of the Romanticists, Flaubert sought to bury his own personality by striving for the goal of art in itself, and he devoted his entire life to the quest for its secrets. His ferocious will to be in his works <like God>, everywhere and nowhere, explains the nerve-wracking effort that went into each of his novels, in which nothing is left to the free flow of inspiration, nothing is asserted without being verified, nothing is described that has not been seen.” “This explains the multiple versions that are periodically uncovered of almost every one of his works, with the sole exception of Madame Bovary (1857), which led to his being tried for offending public decency.”
“In 1857 he traveled to Tunisia to collect material for a historical novel set in Carthage after the First Punic War. Salammbô (1862), abundantly documented, is so rich in sadistic scenes, including one of a mass child-sacrifice, that it horrified some contemporary readers.”
“In 1874 he published La tentation de saint Antoine, a prose poem of great power and imagination. His last work, Bouvard et Pécuchet (issued posthumously in 1881), is an unfinished study in male bonding.”
“Sodomy is a subject of conversation at table. You can deny it at times, but everyone starts ribbing you and you end up spilling the beans. Traveling for our own information and entrusted with a mission by the government, we regarded it as our duty to abandon ourselves to this manner of ejaculation. The occasion has not yet presented itself, but we are looking for one. The Turkish baths are where it is practiced. One rents the bath for 5 fr., including the masseurs, pipe, coffee, and linen, and takes one’s urchin into one of the rooms. – You should know that all the bath attendants are bardaches [homossexuais passivos].”
FOUCAULT
“at the end of his life he surprised the world with 2 successor volumes with a different subject matter: the management of sexuality in ancient Greece and Rome. While completing these books he was already gravely ill, a fact that may account for their turgid, sometimes repetitive presentation. In June 1984 Michel Foucault died in Paris of complications resulting from AIDS.”
O CONTINENTE SE ESMIGALHA: “Discontent with the systems of Marx and Freud and their contentious followers had nonetheless left an appetite for new <mega-theories>, which the Anglo-Saxon pragmatic tradition was unable to satisfy.”
“This concept of discontinuity was all the more welcome as the ground had been prepared by an influential American philosopher of science, Thomas Kuhn, whose concept of radical shifts in paradigm had been widely adopted. In vain did Foucault protest toward the end of his life that he was not the philosopher of discontinuity; he is now generally taken to be such.”
“Not since Jean-Paul Sartre had France given the world a thinker of such resonance. Yet Foucault’s work shows a number of key weaknesses. Not gifted with the patience for accumulating detail that since Aristotle has been taken to be a hallmark of the historian’s craft, he often spun elaborate theories from scanty empirical evidence. He also showed a predilection for scatter-gun concepts such as episteme, discourse, difference, and power; in seeking to explain much, these talismans make for fuzziness. Foucauldian language has had a seductive appeal for his followers, but repetition dulls the magic and banalization looms.”
FOURIER
“French Utopian philosopher and sexual radical. Fourier spent much of his life in Lyon, trapped in a business world which he hated with a passion. Disillusioned in childhood by the dishonesty and hypocrisy of the people around him, he gradually formulated an elaborate theory of how totally to transform society in a Utopian world of the future known as Harmony, in which mankind would live in large communes called Phalansteries.
Fourier hid his sexual beliefs from his contemporaries, and it was more than a century after his death before his main erotic work, Le nouveau monde amoureux, was first published. (…) Fourier did not believe that anyone under 16 had any sexual feelings, nor did he understand the psychology of sadism, pedophilia, or rape, so that his sexual theories are not entirely suitable for modem experimentation. (…) He recognized male homosexuals and lesbians as biological categories long before Krafft-Ebing created the modern concept of immutable sexual <perversions>.” “He wrote some fictional episodes in the vein of William Beckford, one of which describes the seduction of a beautiful youth by an older man.”
FRANCE
“French politics and literature have exercised an incalculable influence on other countries, from England to Quebec, from Senegal to Vietnam. Whether justified or not, a reputation for libertine hedonism clings to the country, and especially to its capital, Paris – by far the largest city of northern Europe from the 12th to the 18th centuries (when London surpassed it), making France a barometer of changing sexual mores.”
“The heavy-drinking later Merovingians, descendants of the Frankish king Merovech and his grandson Clovis, who conquered all Gaul, were barbarians who indulged their sensual appetites freely. Lack of control allowed considerable sexual license to continue into the more Christianized Carolingian period (late 8th-9th centuries), and probably to increase during the feudal anarchy that followed the Viking invasions of the 9th and 10th, but in the 11th century the church moved to regulate private conduct according to its own strict canons.”
“The term sodomia, which appears in the last decades of the 12th century [?], covered bestiality, homosexual practices, and <unnatural> heterosexual relations of all kinds.” “Popes organized the Inquisition against them and invoked the bloody Albigensian Crusade which devastated much of Languedoc, homeland of a sensual culture tinged by Moslem influences from the south. The word bougre itself survives to this day as English bugger, which in Great Britain, apart from legal usage, remains a coarse and virtually obscene expression.”
“The guilt of the Templars remains moot to this day; while some may have been involved in homosexual liaisons, the political atmosphere surrounding the investigation and the later controversy made impartial judgment impossible. A persistent fear of sexuality and a pathetic inability to stamp out its proscribed manifestations, even with periodic burning of offenders at the stake and strict regulations within the cloister, plagued medieval society to the end.”
“Henri III was celebrated for his mignons, the favorites drawn from the ranks of the petty nobility – handsome, gorgeously attired and adorned adolescents and magnificent swordsmen ready to sacrifice their lives for their sovereign. Although the king had exhibited homosexual tendencies earlier in life, these became more marked after a stay in Venice in 1574. Yet neither he nor the mignons scorned the opposite sex in their pursuit of pleasure, and there is no absolute proof that any of this circle expressed their desires genitally. Yet a whole literature of pamphlets and lampoons by Protestants and by Catholic extremists, both of whom disapproved of the king’s moderate policy, was inspired by the life of the court of Henri III until his assassination in 1589.”
“Even the entourage of Cardinal Richelieu included the Abbé Boisrobert, patron of the theatre and the arts, and founder of the French Academy, the summit of French intellectual life. His proclivities were so well known that he was nicknamed <the mayor of Sodom>, while the king who occupied the throne, Louis XIII, was surnamed <the chaste> because of his absolute indifference to the fair sex and to his wife Marie de Medici.”
“In his posthumously published novel La religieuse, Denis Diderot indicted convents as hot-houses of lesbianism.”
“The Revolution secured the release (though only for a time) of the imprisoned pansexual writer and thinker, the Marquis D.A.F. de Sade, who carried the transgressive strain in the Enlightenment to the ultimate limits of the imagination.”
“The novels of Jean Genet, a former professional thief, treated male homosexuality with a pornographic frankness and style rich in imagery unparalleled in world literature. Genet enjoyed the patronage of the dominant intellectual of the time, the heterosexual Jean-Paul Sartre, who also wrote about homosexuality in other contexts.”
“Innovations such as a computerized gay bulletin board – the Minitel – reached France, but also the tragic incursion of AIDS (in French, SIDA), spread in no small part from Haiti and the United States.”
FREE-MASONRY
“The fraternal order of Free and Accepted Masons is a male secret society having adherents throughout the world. The order is claimed to have arisen from the English and Scottish fraternities of stone-masons and cathedral builders in the late Middle Ages. The formation of a grand lodge in London in 1717 marked the beginning of the spread of free-masonry on the continent as far east as Poland and Russia. From its obscure origins free-masonry gradually evolved into a political and benevolent society that vigorously promoted the ideology of the Enlightenment, and thus came into sharp and lasting antagonism with the defenders of the Old Régime.”
“The slogan Liberty, Equality, Fraternity immortalized by the French Revolution is said to have begun in the lodges of the Martinist affiliate.”
FREUDIAN CONCEPTS
“Five aspects of Freud’s psychoanalytic work are relevant to homosexuality, though by no means have all of them been fully appreciated in the discussion of the legal and social aspects of the subject. These include: (1) the psychology of sex; (2) the etiology of paranoia; (3) psychoanalytic anthropology; (4) the psychology of religion; and (5) the origins of Judaism and Christianity. In regard to the last two the psychoanalytic profession in the United States has notably shied away from the implications of the founder’s ideas, in no small part because of its accommodation to the norms of American culture, including popular Protestant religiosity.”
“Freud pointed out that the pederast is attracted only to the male youth who has not yet lost his androgynous quality, so that it is the blend of masculine and feminine traits in the boy that arouses and attracts the adult male” “with a narcissistic starting point they seek youthful sexual partners resembling themselves, whom they then love as the mother loved them. He also determined that alleged inverts were not indifferent to female stimuli, but transferred their arousal to male objects.”
“Recent investigations have sought to confirm this insight for paranoia in male subjects only, and in all likelihood it is related not just to the phenomenon of homosexual panic but to the generally higher level of societal anxiety and legal intolerance in regard to male as opposed to female homosexuality. This would also explain why lesbianism is invisible to the unconscious: the collective male psyche experiences no threat from female homosexuality.”
“The outcome of Freud’s explorations in this direction [anthropology] was Totem and Taboo (1913), which despite the break with his Swiss colleague in that year is the most Jungian of all his works.” “While Hellenic civilization could distinguish between father-son and erastes-eromenos relationships, Biblical Judaism could not, and expanded its earlier prohibition of homosexual acts with a father or uncle to a generalized taboo. It is perhaps pertinent that pedophilia (sex with pre-pubertal children), as distinct from pederasty, usually involves members of the same family, not total strangers. Also, extending this mode of thinking, the fascination which some homosexual men have for partners of other races may be owing to the unconscious guilt that still adheres to a sexual relationship with anyone who could be even remotely related to them, which is to say a member of the same ethnic or racial group.” “Totemism and exogamy are the two halves of the familiar Oedipus complex, the attraction to the mother and the death wishes against the rival father.” “Freud then appealed to Robertson Smith’s writings on sacrifice and sacrificial feasts in which the totem is ceremonially slain and eaten, thus reenacting the original deed. The rite is followed by mourning and then by triumphant rejoicing and wild excesses –, the events serve to perpetuate the community and its identity with the ancestor. After thousands of years of religious evolution the totem became a god, and the complicated story of the various religions begins. This work of Freud’s has been condemned by anthropologists and other specialists, yet it may throw considerable light on aspects of Judeo-Christian myth and legend that cluster around the rivalry of the father and his adolescent son – in which the homosexual aggressor is, ostensibly, seeking to destroy the masculinity of his rival by <using him as a woman>.”
“Obsessional neurosis is a pathological counterpart of religion, while religion may be styled a collective obsessional neurosis.”
“From the secondary sources that he had read, Freud surmised that the lawgiver Moses was an Egyptian who had opted for exile after religious counter-revolution had undone the reforms of the first monotheist, Akhenaten. His Egyptian retinue became the Levites, the elite of the new religious community which received its law code, not from him, but from the Midianite priest of a volcanic deity, Jahweh, at the shrine of Kadesh Barnea. This last site, amusingly enough, presumably took its name from the bevy of male and female cult prostitutes who ministered at its shrine. The Biblical Moses is a fusion of the two historic figures.
Freud also, on the basis of a book published by the German Semiticist Ernst Sellin, posited the death of Moses in an uprising caused by his autocratic rule and apodictic pronouncements. The whole notion was based upon a reinterpretation of some passages in the book of Hosea, which because of its early and poetic character, not to speak of the problems of textual transmission, poses enormous difficulties even for the expert.” “Judaism is a religion of the father, Christianity a religion of the son, whose death on the cross and the institution of the eucharist are the last stage in the evolution that began with the slaying and eating of the totem animal by the primal horde.”
“The particular emphasis with which Freud contradicted Magnus Hirschfeld’s notion that homosexuals were a biological third sex led – together with a tendency (not confined to psychoanalysis) to deny the constitutional bases of behavior – to the assertion that homosexuality was purely the result of <fixation> in an infantile stage of sexual development provoked by the action or inaction of the parents. (…) Thus in the popular mind the belief that homosexuality is somehow a failure of psychological development has its underpinning in the Freudian concepts.”
“his legacy has quietly worked in favor of toleration”
FRIENDSHIP, FEMALE ROMANTIC
“When Sarah’s family discovered that she had run off with a woman instead of a man, they were relieved – her reputation would not suffer any irreparable harm (as it would have had her accomplice been male). Her relative Mrs. Tighe observed, <Sarah’s conduct, though it has an appearance of imprudence, is I am sure void of serious impropriety. There were no gentlemen concerned, nor does it appear to be anything more than a scheme of Romantic Friendship.> The English, during the second half of the 18th century, prized sensibility, faithfulness, and devotion in a woman, but forbade her significant contact with the opposite sex before she was betrothed. It was reasoned, apparently, that young women could practice these sentiments on each other so that when they were ready for marriage they would have perfected themselves in those areas. It is doubtful that women viewed their own romantic friendships in such a way, but – if we can place any credence in 18th century English fiction as a true reflection of that society – men did. Because romantic friendship between women served men’s self-interest in their view, it was permitted and even socially encouraged. The attitude of Charlotte Lennox’s hero in Euphemia (1790) is typical. Maria Harley’s uncle chides her for her great love for Euphemia and her obstinate grief when Euphemia leaves for America, and he points out that her fiancé <has reason to be jealous of a friendship that leaves him but second place in Maria’s affection>; but the fiancé responds, <Miss Harley’s sensibility on this occasion is the foundation of all my hopes. From a heart so capable of a sincere attachment, the man who is so happy as to be her choice may expect all the refinements of a delicate passion, with all the permanence of a generous friendship.>”
“The most complete fictional blueprint for conducting a romantic friendship is Sarah Scott’s A Description of Millennium Hall (1762), a novel which went through four editions by 1778.”
“Mrs. Delany’s description of her own first love (in The Autobiography and Correspondence of Mrs. Delany, ed. Sara L. Woolsey) is typical of what numerous autobiographies, diaries, letters, and novels of the period contained. As a young woman, she formed a passionate attachment to a clergyman’s daughter, whom she admired for her <uncommon genius … intrepid spirit … extraordinary understanding, lively imagination, and humane disposition.> They shared <secret talk> and <whispers> together –, they wrote to one another every day, and met in the fields between their fathers’ houses at every opportunity. <We thought that day tedious,> Mrs. Delany wrote years later, <that we did not meet, and had many stolen interviews>. Typical of many youthful romantic friendships, it did not last long (at the age of 17, Mrs. Delany was given in marriage to an old man), but it provided fuel for the imagination which idealized the possibilities of what such a relationship might be like without the impingement of cold marital reality. Because of such girlhood intimacies (which were often cut off in an untimely manner), most women would have understood when those attachments were compared with heterosexual love by the female characters in 18th century novels, and were considered, as Lucy says in William Hayley’s The Young Widow, <infinitely more valuable>. They would have had their own frame of reference when in those novels, women adopted the David and Jonathan story for themselves and swore that they felt for each other (again as Lucy says) <a love passing the Love of Men>, or proclaimed as does Anne Hughes, the author of Henry and Isabella (1788), that such friendships are <more sweet, interesting, and to complete all, lasting, than any other which we can ever hope to possess; and were a just account of anxiety and satisfaction to be made out, would, it is possible, in the eye of rational estimation, far exceed the so-much boasted pleasure of love.>”
“Saint Mery, who recorded his observations of his 1793-1798 journey, was shocked by the <unlimited liberty> which American young ladies seemed to enjoy, and by their ostensible lack of passion toward men. The combination of their independence, heterosexual passionlessness, and intimacy with each other could have meant only one thing to a Frenchman
in the 1790s: that <they are not at all strangers to being willing to seek unnatural pleasures with persons of their own sex>. It is as doubtful that great masses of middle and upper-class young ladies gave themselves up to homosexuality as it is that they gave themselves up to heterosexual intercourse before marriage. But the fiction of the period corroborates that St. Mery saw American women behaving openly as though they were in love with each other. Charles Brockden Brown’s Ormand, for example, suggests that American romantic friends were very much like their English counterparts.”
“But love between women, at least as it was lived in women’s fantasies, was far more consuming than the likes of Casanova could believe. Women dreamed not of erotic escapades but of a blissful life together. In such a life a woman would have choices; she would be in command of her own destiny; she would be an adult relating to another adult in a way that a heterosexual relationship with a virtual stranger (often an old or at least a much older man), arranged by a parent for consideration totally divorced from affection, would not allow her to be. Samuel Richardson permitted Miss Howe to express the yearnings of many a frustrated romantic friend when she remarked to Clarissa, <How charmingly might you and I live together and despise them all>.”
FRIENDSHIP, MALE
“For Plato, friendship is rather part of the philosopher’s quest: a link between the world of the senses in which we live and the eternal world.”
“How could the masculinity of a youth be preserved in a homosexual relationship with an older man? That was the kernel of the problem for the Greeks. For the Romans it was the perennial anxiety that a free citizen might take a passive role in a sexual relationship with a slave. Homosexuality in itself was not the problem for either: it was in the forms that homosexuality might take that the difficulty lay.”
“Homosexuality and friendship: they may well appear at first as two discrete histories, one of society and the other of sexuality. But if one tries to follow their subterranean currents in the Europe of the Middle Ages and the Renaissance, one will end by finding oneself drawn into writing about something larger. One will find oneself writing about power and the power not only of judges but of words.”
“Marriage itself was redefined, with implicit consequences for friendship. A society that had observed the tradition of arranged marriages between unequal partners was confronted with a need for change. Under the influence of the middle-class ideology of the 18th century, society now accepted the principle of a marriage founded upon the affinity of equals, upon love rather than family interest. In this sense husband and wife could now be friends, and friendship was no longer invested with an exclusively homo-social character. The decisive shift in this direction occurred in England, where the Industrial Revolution and the ideology of classical liberalism went hand in hand.”
“So Romanticism revived the classical model of friendship for which Hellenic antecedents could always be held up as an ideal by such homosexual admirers of antiquity as Johann Joachim Winckelmann, a thinker who in Goethe’s words <felt himself born for a friendship of this kind> and <became conscious of his true self only under this form of friendship>.”
“While Ernst Röhm could boast, late in 1933, that the homoerotic component in the SA and SS had given the Nazis the crucial edge in their struggle against the Weimar system, homophobic writers could call for the suppression of all forms of overt male homosexuality and the enactment of even more punitive laws – which were in fact adopted in 1935.”
“Certain women feel more comfortable in their dealings with gay men, just because they know that they do not have to be constantly on guard against sexual aggression, but can have close relationships, both social and professional, that attain high levels of creativity and imagination.”
“The use of friend or friendship as an euphemism for the homosexual partner (lover) and the liaison itself persists. Recently the compilers of newspaper obituary columns have taken to describing the lifelong companion of a deceased homosexual as <his friend>, in contexts where a heterosexual would be survived by the spouse and children.” Haha
Edward Carpenter, Ioläus: An Anthology of Friendship (1902)
GAMES, GAY
“Anyone was allowed to compete regardless of race, sex, age, nationality, sexual orientation, religion, or athletic ability. In keeping with the Masters Movement in sports, athletes competed with others in their own age group. The track and field and swimming events were officially sanctioned by their respective national masters programs. Athletes participated, not as representatives of their respective countries, but as individuals on behalf of cities and towns. There were no minimum qualifying standards in any events.”
“The organizers of the Gay Games have experienced considerable legal difficulties. Before the 1982 Gay Games, the United States Olympic Committee (USOC) filed a court action against the organizers of the Gay Games, which were going to be called the Gay Olympic Games. In 1978, the United States Congress passed the Amateur Sports Act which, among other things, granted the USOC exclusive use of the word Olympic. Although the USOC had allowed the Rat Olympics, Police Olympics, and Dog Olympics, it took exception to the term Gay Olympic Games. Two years later, the USOC continued its harassment of the Gay Games and filed suit to recover legal fees in the amount of $96,600.”
GAY
“The word gay (though not its 3 later slang meanings) stems from the Old Provençal gai, <high spirited, mirthful>. A derivation of this term in turn from the Old High German gahi, <impetuous> (cf. modem German jah, <sudden>), though attractive at first sight, seems unlikely. Gai was a favorite expression among the troubadours, who came to speak of their intricate art of poetry as gai saber, <gay knowledge>. Despite assertions to the contrary, none of these uses reveals any particular sexual content. In so far as the word gay or gai has acquired a sexual meaning in Romance languages, as it has very recently, this connotation is entirely owing to the influence of the American homosexual liberation movement as a component of the American popular culture that has swamped the non-Communist world.
Beginning in the 17th century, the English word gay began to connote the conduct of a playboy or dashing man about town, whose behavior was not always strictly moral but not totally depraved either; hence the popularity of such expressions as <gay lothario>, <gay deceiver>, and <gay blade>. Applied to women in the 19th century (or perhaps somewhat before), it came to mean <of loose morals; a prostitute>: <As soon as a woman has ostensibly lost her reputation we, with grim inappositeness, call her gay> (Sunday Times, London, 1868).”
“The expansion of the term to mean homosexual man constitutes a tertiary stage of modification, the sequence being lothario, then female prostitute, then homosexual man.”
“The word (and its equivalents in other European languages) is attested in the sense of <belonging to the demimonde> or <given to illicit sexual pleasures>, even specifically to prostitution, but nowhere with the special homosexual sense that is reinforced by the antonym straight, which in the sense of heterosexual was known exclusively in the gay subculture until quite recently.”
“Although it has not been found in print before 1933 (when it appears in Noel Ersine’s Dictionary of Underworld Slang as gay cat, <a homosexual boy>), it is safe to assume that the usage must have been circulating orally in the United States for a decade or more. (As Jack London explains in The Road of 1907, gay cat originally meant – or so he thought – an apprentice hobo, without reference to sexual orientation.) In 1955 the English journalist Peter Wildblood defined gay as <an American euphemism for homosexual>, at the same time conceding that it had made inroads in Britain. Grammatically, the word is an adjective, and there has been some resistance to the use of gay, gays as nouns, but this opposition seems to be fading.”
“Many lesbian organizations now reject the term gay, restricting it to men, hence the spread of such binary phrases as <gay and lesbian> and <lesbian and gay people>.”
GAY STUDIES
“Karl Heinrich Ulrichs (1825-1895), whose Forschungen zur mannmännhchen Liebe (Researches on Love between Males), published from 1864 to 1870, ranged in an encyclopedic manner over the history, literature, and ethnography of past and present.”
“In England John Addington Symonds may be considered the first gay scholar, since he composed two privately printed works, A Problem in Greek Ethics and A Problem in Modern Ethics, the latter of which introduced to the English-speaking world the recent findings of continental psychiatrists and the new vision of Ulrichs and Walt Whitman. Symonds was also a major contributor to the first edition of Havelock Ellis’ Sexual Inversion (German 1896, English 1897). At the same time the American university president Andrew Dickson White quietly inserted into his 2-volume History of the Warfare of Science with Theology in Christendom (1896) a comprehensive analysis and demolition of the Sodom legend. In the same year Marc-André Raffalovich published his Uranisme et unisexualité (Uranism and unisexuality), with copious bibliographical and literary material, some from German authors of the 19th century, which he supplemented at intervals in a series of articles in the Archives d’anthropologie criminelle down to World War I.”
“psychoanalytic biographies of famous homosexuals, a genre initiated by Freud’s philologically rather weak Eine Kindheitserinnerung des Leonardo da Vinci (A Childhood Reminiscence of Leonardo da Vinci; 1910).”
“The interest of geneticists in twin studies led to some papers on the sexual orientation of monozygotic and dizygotic twins, a field pioneered by Franz Kallmann. While certain issues continue to be disputed, the study of monozygotic twin pairs has revealed concordances as marked as those for intelligence and other character traits, albeit with a complexity in the developmental aspect of the personality that earlier thinkers had not fully appreciated.”
“black studies and women’s studies are by their very nature interdisciplinary. In 1976, for example, ONE Institute, the independent Los Angeles homophile education foundation, articulated the subject in the following fields: anthropology, history, psychology, sociology, education, medicine and biology, psychiatry, law and its enforcement, military, religion and ethics, biography and autobiography, literature and the arts, the homophile movement, and transvestism and transsexualism (An Annotated Bibliography of Homosexuality, New York, 1976).”
“In anthropology there is a continuing temptation to ethno-romanticism, that is over-idealizing the exotic culture one is studying, viewing it as natural, non-repressive, organic, and so forth.”
GENET, JEAN
“The homosexuality of Genet’s characters is explicit, and the scenes of love-making attain the limit of physical and psychological detail, recounted in the argot of the French criminal underworld (which largely defies English translation) and in a style once possible only in pornographic novels sold <under the counter>. If the homosexuality of the heroes of Genet’s novels has a strong sado-masochistic component, their love is depicted with honesty and tenderness. The plot construction borders on free association, while the sordid and brutal aspects of male love are not suppressed or denied.” “Since French writing shapes literary trends throughout the world, the influence of Genet on future depictions of homosexual experience is likely to mount.”
GERMANY
“In the Passion of Saint Pelagius composed in Latin by Roswitha (Hrotswith) of Gandersheim, there is the story of the son of the king of Galicia in Spain who, captured by the Moslem invaders, was approached by Abderrahman with offers of the highest honors if he would submit to his pederastic advances but violently refused – at the cost of his life. The Latin poem on Lantfrid and Cobbo relates the love of two men, one homosexual, the other bisexual. A High German version of Solomon and Mololf composed about 1190 makes an allusion to sodomy, while the Eneid of Heinrich von Veldeke has the mother of Lavinia, the daughter of King Latinus of Italy accuse Aeneas of being a notorious sodomite to dissuade her from marrying him. Moriz von Craun, a verse narrative of ca. 1200, makes the emperor Nero the archetype of the mad sodomite, who even wishes to give birth to a child. In his rhymed Flauenbuch (1257), Ulrich von Lichtenstein presents a debate between a knight and a lady, in which the latter accuses men of preferring hunting, drinking, and boy-love to the service of women. About the same time the Austrian poet Der Strieker used references to Sodom and Gomorrah in his negative condemnation.”
“Prussia was the first German state that in 1794 abolished the death penalty for sodomy and replaced it with imprisonment and flogging. After 1810 many states (including Bavaria, Württemberg, and Hannover) followed the model of the Code Napoleon in France and introduced complete impunity for homosexual acts, a policy reversed in 1871 in favor of the anti-homosexual Paragraph 175 of the uniform Imperial Penal Code.”
“In German poetry, however, the homosexual theme was rare before the 19th century. Friendship between men is, to be sure, a frequent subject of poetry (especially in Friedrich Gottlieb Klopstock, Johann Wilhelm Ludwig Gleim, Wilhelm Heinse, even in Hans Jakob Christoffel von Grimmelshausen and others), but the amicable feelings depicted in them are clearly demarcated from the longing of pederasts and sodomites, and the boundary between friendship and sexuality is seldom if ever crossed (though possibly in F.W.B. von Ramdohr, Venus Urania, 1798, Part 2, pp. 103ff.)”
“The flowering of a gay movement in the first third of the 20th century was the outstanding feature that set the homosexuals in Germany apart from those in other countries.”
“The campaign for the abolition of Paragraph 175 provoked an enormous literature of books, pamphlets, and articles pro and con, so extensive that by 1914 the criminologist Hans Gross could write that everything that anyone could ever have to say on the subject had by then appeared in print. There was also a profusion of gay and lesbian poetry, short stories, and novels. Such mainstream authors as Hans Henny Jahnn, Klaus Mann, Thomas Mann, Anna Elisabet Weihrauch, and Christa Winsloe also discussed the theme. This cultural efflorescence lent substance to the claim of Weimar Germany to be a land of cultural innovation, though to be sure the Republic had its dark side as well.”
“If until then Germany was probably unique and unparalleled in the world in terms of governmental liberalism and of opportunities for homosexual life, then the same was true in reverse for the Nazi era from 1933 to 1945: at least 10,000 homosexual men, stigmatized with the pink triangle, were confined in German concentration camps under the Holocaust during those 12 years, and many of them were killed.”
“In West Germany after about 1948 conditions returned to what they had been before 1933. Although the Nazi version of Paragraph 175 remained on the books, homosexual organizations, bars, and gay magazines were tolerated in many West German cities and in West Berlin. In East Germany, to be sure, only the milder pre-1933 version of paragraph 175 was in force, but homosexual life was subject to restrictions on the part of the state and the police, so that gay men and lesbians had scarcely any opportunity to organize and express their views freely.”
Richard Plant, The Pink Triangle, New York: Henry Holt, 1986.
GIDE, ANDRÉ
“In 1891 Gide met Oscar Wilde, the flamboyant aesthete, who set about ridding him of his inhibitions – with seductive grace. Gide’s first really striking work of moral <subversion> was Les Nourritures terrestres (The Fruits of the Earth, 1897), a set of lyrical exhortations to a fictional youth, Nathanaël, who is urged to free himself of the Christian sense of sin and cultivate the life of the senses with sincerity and independence. During the political turmoil of the 1930s Gide returned to the same themes and stylistic manners in Les nouvelles nourritures (1935).”
“In 1895 he married his cousin, Madeleine Rondeaux, and suffered an acute conflict between her strict Christian values and his own yearning for self-liberation, together with his awakening homosexual drives. The never-ending battle within himself between the puritan and the pagan, the Biblical and the Nietzschean, caused his intellect to oscillate between two poles that are reflected in his succeeding books. In Les Caves du Vatican (The Vatican Cellars, 1914), the hero, Lafcadio, <lives dangerously> according to the Gidean formula and commits a seemingly senseless murder as a psychologically liberating <gratuitous act>. A further series of short novels have an ironic structure dominated by the viewpoint of a single character, while his major novel, Les Fauxmonnayeurs (The Counterfeiters, 1926) has a Chinese-box like structure meant to reflect the disorder and complexity of real life.”
“Limited in scope as they were, Gide’s four dialogues constituted a remarkable achievement for their time by blending personal experience, the French literary mode of detached presentation of abnormal behavior, the traditional appeal to ancient Greece, and the then quite young science of ethology – the comparative study of the behavior of species lower on the evolutionary scale.”
Gide, Retour de l’U.R.S.S. (Back from the USSR, 1936)
GILGAMESH
“This Mesopotamian figure ranks as the first tragic hero in world literature. The Epic of Gilgamesh has survived in Sumerian, Akkadian, and Hittite versions that go back to the 3rd millennium before our era. Lost from sight until the decipherment of the cuneiform script retrieved the literatures of early Mesopotamia, the epic is a blend of pure adventure, morality, and tragedy. Only the final version, that of Assurbanipal’s library in Nineveh, has survived in virtually complete form, but all the episodes in the cycle existed as separate poems in Sumerian. The setting of the story is the 3rd millennium, and the original language was Sumerian, the Paleoeurasian speech of the first literate civilization of Mesopotamia, which continued like Latin to be copied as a dead language of past culture even after it was displaced by the Eastern Semitic Akkadian.”
“Gilgamesh is announced at the outset as a hero: two-thirds god and one-third man, endowed by the gods with strength, with beauty, with wisdom. His sexual demands upon the people of Uruk are insatiable: <No son is left with his father, for Gilgamesh takes them all . . . His lust leaves no virgin to her lover, neither the warrior’s daughter nor the wife of the noble.> In reply to their complaints Aruru, the goddess of creation, forms Enkidu out of clay. <His body was rough, he had long hair like a woman’s. He was innocent of mankind; he knew not the cultivated land.> To tame the wild man a harlot offers her services, <she made herself naked and welcomed his eagerness, she incited the savage to love and taught him the woman’s art.> At the conclusion, the transforming power of eros has humanized him; the wild animals flee from him, sensing that as a civilized man he is no longer one of them. The metamorphosis from the subhuman and savage to his new self proves strikingly how love is the force behind civilization.”
“Gilgamesh has two dreams with symbolism which presages the homoerotic relationship which the gods have planned for him and the challenger Enkidu. In the Akkadian text there are puns on the words lusru, <ball (of fire), meteorite>, andiezru, <male with curled hair>, the counterpart of the harlot, and on hassinu, <axe>, and assinu, <male prostitute>. Gilgamesh’s superior energy and wisdom set him apart from others and make him lonely; he needs a male companion who can be his intimate and his equal at the same time, while their male bond stimulates and inspires them to action. After a wrestling match between Enkidu and Gilgamesh in which the latter triumphs, the two become comrades. Their erotic drive is not lost, but rather transformed and directed to higher objects; it leads to a homoerotic relationship that entails the rejection of Ishtar, the goddess of love. A liaison of this kind is not contingent on the physical beauty of the lover, it endures until death. Gilgamesh himself abandons his earlier oppressive conduct toward Uruk and comes to behave like a virtuous ruler who pursues the noble goals of fame and immortality through great deeds. But a dream warns Gilgamesh: <The father of the gods has given you kingship (but) everlasting life is not your destiny … Do not abuse this power, deal justly with your servants in the palace.>”
“To obtain the secret of everlasting life he journeys far across the sea to Utnapishtim, who tells him the Babylonian version of the story of the Deluge. On his return he carries with him a flower that has the power of conferring eternal youth, but loses it to a serpent lying beside a pool and so reaches Uruk empty-handed, yet still able to engrave the tale of his journey in stone. Gilgamesh has been transformed by a love that makes him seek not the pleasures of the moment, but virtue, wisdom, and immortality, hence the motif of the epic is that male bonding is a positive ingredient of civilization itself.”
George F. Held, “Parallels between The Gilgamesh Epic and Plato’s Symposium”, Journal of Near Eastern Studies, 42 (1983) (artigo)
GOETHE
BIOGRAFIAS PARTE II & III: “Settling at Weimar under the patronage of the ducal heir and elected to the Privy Council, he became leader in that intellectual center, associating with Wieland, Herder, and later Schiller. His visit to Italy recorded in Italienische Reise and probably involving pederastic adventures inspired him anew as did his intimate friendship with Schiller. Even after he married in 1806 he continued his frequent love affairs with women. His autobiographical Wilhelm Meister, a Bildungsroman or novel of character formation [probably boring…], and the second part of Faust (in 1832), exalted his reputation further, although he was already first in German literature. The non-exhaustive Weimar edition of his works extends to over 130 volumes.”
Knaben hebt ich wohl auch, doch
lieber sind mir die Mädchen,
Hab ich als Mädchen sie sätt, dient
sie als Knabe mir noch.
“If I have had enough of one as a girl, she still serves me as a boy.”
“In the play Egmont (1788) the hero’s enemy Alba is embarrassed by his son’s intense emotional bonding with Egmont. The figure of Mignon, the waif girl in Wilhelm Meister, could be androgynous. In his Travels in Switzerland [DV] he waxed rapturous over the sight of a nude comrade bathing in the lake, and in the West Eastern Divan (1819, enlarged edition, 1827), he used the pretext of being inspired by Persian poetry to allude to the <pure> love which a handsome cupbearer evokes from his master (sec. 9).”
GREECE, ANCIENT
“Paiderasteia, or the love of an adult male for an adolescent boy, was invested with a particular aura of idealism and integrated firmly into the social fabric. The erastes or lover was a free male citizen, often a member of the upper social strata, and the eromenos or beloved was a youth between 12 and 17, occasionally somewhat older. Pedophilia, in the sense of erotic interest in young children, was unknown to the Greeks and the practice never approved by them. An interesting question, however, is what was the average age of puberty for ancient Greek boys? For some men (the philobupais type), the boy remained attractive after the growth of the first beard, for most he was not – exactly as with the modern pederast.”
“It formed part of the process of initiation of the adolescent into the society of adult males, of his apprenticeship in the arts of the hunter and warrior. The attachment of the lover to his boy eroticized the process of learning, making it less arduous and more pleasurable, while reinforcing the bond between the mentor and his pupil.”
“a biological universal – the physical beauty and grace of the adolescent that invest him with an androgynous quality soon lost when he reaches adulthood.”
“The achievements of their own history necessarily rested upon the legacy of 3,000 years of cultural evolution in the Semitic and Hamitic nations. In technology and material culture they – and their successor peoples – never went far beyond the accomplishments of the non-Indo-European civilizations of the East. It was in the realm of theory and philosophy that the Greeks innovated – and created a new model of the state and society, a new conception of truth and justice that were the foundations of Western civilization.”
“Sir Francis Galton calculated in the late 19th century that in the space of 200 years the population of Athens – a mere 45,000 adult male citizens [número controverso] – had produced 14 of the 100 greatest men of all time. This legacy – the <Greek miracle> – owed no small part of its splendor to the pederastic ethos that underlay its educational system and its civic ideal.”
“Marriage and fatherhood were part of the life cycle of duties for which the initiation and training prepared the eromenos. Needless to say, family life did not hinder a male from pursuing boys or frequenting the geisha-like hetairai. Down to the 4th century BC, however, the really intense and reciprocal passion that the modern world calls romantic love was reserved for relationships between males. Only in the Hellenistic period (after 323 BC) was the additional possibility of love between man and wife recognized.”
A INSÂNIA E O RANCOR DO MESTRE: “The misinterpretations have been reinforced by the strictures of the elderly Plato in the Laws, where an element of resentment toward the young and of embitterment at his own failures and disappointments as a teacher seems to have been at work. This text, however it may anticipate later judeo-Christian attitudes and practices, was never typical of Greek thought on the subject. The evidence of the classical authors shows that as late as the early 3rd century of our era the Greeks accepted pederasty non-chalantly as part of the sexual order, without condemnation or apprehension.”
“The Greeks knew nothing of the Book of Leviticus, cared nothing for the injunctions it contained, and scarcely even heard of the religious community for which it was meant down to the beginning of the Hellenistic era, when Judea was incorporated into the empire of Alexander the Great. On the other hand,there is evidence that in the Zoroastrian religion pederasty was ascribed to a demonic inventor and regarded as an inexpiable sin, as a vice of the Georgians, the Caucasian neighbors of the Persians – just as the Israelites identified homosexual practices with the religion of the heathen Canaanites whose land they coveted and invaded. However, the antagonism between the Greeks and the Persians precluded any adoption of the beliefs and customs of the <evil empire> – against which they won their legendary victories. The Greek spirit – of which pederasty was a vital component – stood guard over the cradle of Western civilization against the encroachments of Persian despotism. Only on the eastern periphery of the Hellenic world – where Greeks lived as subject peoples under Persian rule – could the Zoroastrian beliefs gain a foothold.”
“Oral-genital sexuality seems not to have been popular, but this was probably for hygienic reasons specific to the ancient world.”
“The career of Sappho suggests that lesbian relations in ancient Greece took the same pattern, that is to say, they were corophile – between adult women and adolescent girls who were receiving their own initiation into the arts of womanhood. But the paucity of evidence makes it difficult to assay the incidence of the phenomenon, especially as Greek sexual mores were entirely androcentric – everything was seen from the standpoint of the adult male and free citizen. The subordinate status of women and children was taken for granted, and the effeminate man was the object of ridicule if not contempt, as can be seen in the plays of Aristophanes and his older contemporary Cratinus.”
“It is true that the more abstract thinking of the Greeks ultimately recognized the parallel between male and female homosexuality, beginning with a passage in Plato’s Laws (636bc) in which both are stigmatized as <against nature> – a concept which the Semitic mind, incidentally, lacked until it was adopted from the Greek authors translated in the Middle Ages.”
“Toward the end of the 2nd millennium the Mycenean era closed with a series of disasters, both natural catastrophes and wars – of which the Trojan war sung by Homer was an episode. During this period the Dorians invaded Greece, blending with the older stocks. One landmark paper on Greek pederasty, Erich Bethe’s article of 1907, ascribed pederasty to the military culture of the Dorian conquerors, an innovation ostensibly reflected in the greater prominence of the institution among the Dorian city-states of history.”
“The sexual lives of the Greeks were free of ritualistic taboos, but enacted in a context of comrade simplified in the devotion of Achilles and Patroclus, which foreshadowed the pederastic ideal of the Golden Age. The lyric poetry composed in the dawn of Greek literature was rich in allusions to male love, between gods and between mortals.”
“In a mere 4 centuries Greek civilization had matured into a force that intellectually and militarily dominated the world – and laid the foundations not just for Western culture, but for the entire global meta-system of today. What followed was the Hellenistic era, in which Greek thought confronted the traditions of the peoples of the east with whom the colonists in the new cities founded in Egypt and Syria mingled. The emergence of huge bureaucratic monarchies effectively crushed the independence of the city-states, eroding the base of the pederastic institution with its emphasis on civic initiative. The outcome of this period, once Rome had begun its eastward expansion, was Roman civilization as a derivative culture that blended Greek and indigenous elements. Even under Roman rule the position of the Greek language was maintained, and the literary heritage of previous centuries was codified in the form in which, by and large, it has been transmitted to modern scholars and admirers.”
“For nearly 200 years scholars have argued the Homeric question: Did one, two, or many authors create the two great epic poems known as the Illiad and the Odyssey? What were the sources and techniques of composition of the author (or authors)? The current consensus favors a single author utilizing a traditional stock of legends and myths – the final redaction may have taken place as late as 640 BC. A second question arises in connection with these epic poems: Did they recognize homoerotic passion as a theme, or was this an accretion of later times?” “Homer may not have judged the details of their intimacy suitable for epic recitation, but he was not oblivious to a form of affection common to all the warrior societies of the Eastern Mediterranean in antiquity. The peculiar resonance of the Achilles-Patroclus bond probably is rooted in far older Near Eastern epic traditions, such as the liaison between Gilgamesh and Enkidu in the Mesopotamian texts.”
PLATÃO CHATEADÍSSIMO: “The famous Athenian lawgiver Solon was also a poet, and in two surviving fragments (13 and 14) he speaks of pederasty as absolutely normal.”
“Despite the mutilated and fragmentary state in which Sappho’s poetry has been transmitted, she was hailed in antiquity as the <tenth Muse>, and her poetry remains one of the high points of lyric intensity in world literature. In the 19th century philologists tried to reconcile her with the Judeo-Christian tradition by dismissing the lesbian interpretation of her poems as libelous, and misinterpreting or misusing bits of biographical data to make her nothing but the strait-laced mistress of a girls’ finishing school.”
“Anacreon of Teos [Ceos?], who flourished in the mid-6th century, owes his fame to his drinking songs, texts composed for performance at the symposia, which inspired an entire genre of poetry: anacreontic.”
“Herodotus, the <Father of History>, used the data that he gathered on his
extensive travels to point up the relativism of moral norms. Among the phenomena that he reported was the Scythian institution of the Enarees, a shift in gender that puzzled the Greeks, who called it the nousos theleia or <feminine disease>, but can now be identified as akin to the shaman and the berdache/bardache of the sub-Arctic and New World cultures. Profiting from the insights of the pre-Socratic thinkers, Herodotus anticipated the findings of modern anthropology in regard to the role of culture in shaping social norms. The consequence of his relativistic standpoint was to discredit absolutist concepts of <revealed> or <natural> morality and to allow for a pluralist approach to sexual ethics.”
“Thanks to a surviving oration of Aeschines, the Contra Timarchum of 346 BC, we know of the restrictions that Athenian law placed on the homosexual activity of male citizens: the male who put his body in the power of another by prostituting himself incurred atimia or infamy, the gymnasia anathose who had authority over youth were subject to legal control, and a slave could not be the lover of a free youth. There is no evidence for parallel statutes elsewhere, and certainly no indication that homosexual behavior per se was ever the object of legal prohibition, or more stringently regulated than heterosexual, which had its own juridical norms.”
“In the writings of Plato and Xenophon, Socrates basks in a strongly homophile ambiance, as his auditors are exclusively male, even if he was no stranger to heterosexuality and had a wife named Xanthippe who has come down in history as the type of the shrewish wife. His chief disciple, Plato (ca. 429-347 BC), whose thought cannot easily be disentangled from that of his teacher, never married, and left a record of ambivalence toward sexuality and homosexuality in particular that is one of the problematic sides of his thinking. His influence on Western civilization has been incalculable. One of the ironies of history is that the atypical hostility to pederasty in the elderly Plato, probably reflecting both personal resentment and envy and the decline of the institution in the 4th century (while anticipating later <puritan> attitudes), was often received with enthusiasm in later centuries, becoming a Hellenic source of Christian homophobia.” “he inculcated the notion of sexual activity as ignoble and demeaning, which was integrated with the absolute <purity> of biblical Judaic ascetic ideal of complete asexuality which was to have fateful consequences for homosexuals in later centuries. A completely negative approach to pederasty emerges in one of his last works, the Laws, the product of the pessimism of old age disappointed by Athenian democracy and the failure of his ambitions at statecraft in Sicily. In the 1st book Plato calls homosexual acts <against nature> (para physin) because they do not lead to procreation, and in the 8th book (836b-839a) he proposes that homosexual activity can be repressed by law and by constant and unrelenting defamation, likening this procedure to the incest taboo. The designation of homosexual acts as <contrary to nature> found its way into the New Testament in a text that intertwined Judaic myth with Hellenic reasoning, Romans 1:18-32. This passage argues that <the wrath of God is revealed from heaven> in the form of the rain of water that drowned the Watchers and their human paramours and the rain of fire that obliterated the homosexual denizens of Sodom and Gomorrah. Later Christian thinkers were to insist that the morality of sexual acts was coterminous with procreation, and that any non-procreative gratification was <contrary to nature>, but this view never held sway in pagan antiquity, so that Plato himself cannot be charged with the tragic aftermath of this belief and the attempt to impose it upon the entire population by penal sanctions and by ostracism. The attempt of modern Christian historians to prove that Plato’s idiosyncratic later attitude corresponded to the mores of Athenian society, or of Greece as a whole, is unfounded.
Plato was succeeded by the almost equally influential Aristotle (384-322 BC), who sought to correct some of the imbalances in his teacher’s work and bring it more in line with experience.” “In the Nicomachean Ethics (1148b) he undertook to differentiate two types of homosexual inclination, one innate or constitutionally determined (<by nature>) and one acquired from having been sexually abused (<by habit>). He stated categorically that no fault attached to behavior that flowed from the nature of the subject (thereby contradicting Plato’s assertion that homosexuality per se was unnatural), while in the second type some moral fault could be imputed. In the 13th century Thomas Aquinas utilized this passage in arguing that sodomy was unnatural in general, but connatural in some human beings; yet in quoting Aristotle he suppressed the mention of homosexual urges as determined <by nature>, so that Christian theology has never been able to accept the claims of gay activists that their behavior had innate causes. At all events, Aristotle can be cited in favor of the belief that in some forms, at least, homosexuality is inborn and unmodifiable.
The successors of Plato and Aristotle, the Stoics, are sometimes regarded as condemnatory of pederasty, but a closer examination of their texts shows that they approved of boy-love and engaged in it, but counseled their followers to practice it in moderation and with ethical concern for the interests of the younger partner [= Epicureans].”
“the pseudo-Aristotelian Problemata (IV, 26) claims that the propensity to take the passive role in anal intercourse is caused by an accumulation of semen in the rectum that stimulates activity to relieve the tension.”
“pangenesis – the belief that the semen incorporated major parts of the body in microscopic form; yet the belief that the male seed alone determines the formation of the embryo (only in the 19th century was the actual process of fertilization of the ovum observed and analyzed).”
“The Hippocratic treatise On Airs, Waters, and Places touched upon the effeminacy of the Scythians, the so-called nasos theleia, which it ascribed to climate – a view that was to recur in later centuries. The Greek adaptation of late Babylonian astrology created the individual horoscope – which included the factors determining sexual characterology. Such authors as Teucer of Babylon and Claudius Ptolemy of Alexandria named the planets whose conjunctions foretold that an individual would prefer his or her own sex or would be effeminate or viraginous. Because Greek religion and law did not condemn homosexual behavior, it fell into the category of an idiosyncrasy of temperament which the heavenly bodies had ordained, not of a pathological condition that entitled the bearer to reprieve from the severity of the law. Ptolemy taught, for example, that if the influence of Venus is joined to that of Mercury, the individuals affected <become restrained in their relations with women but more passionate for boys> (Tetrabiblos, III, 13). The astrological texts make it abundantly clear that the ancients were familiar with the whole range of sexual preferences – a knowledge that psychiatry was to recoup only in modern times.”
GREECE, MODERN
“The modern Greeks derived their sexual mores, like their music, cuisine, and dress, from their overlords the Turks rather than from ancient Greece. During the long Ottoman domination from the fall of Byzantium in 1453 to 1821 and in Macedonia and Crete until 1911, and in Anatolia and Cyprus even today, the descendants of the Byzantines who did not convert to Islam preserved their language and religion. Orthodox bishops were given wide political authority over their flocks whom they helped the Turks fleece. The black (monastic) clergy were forbidden to marry, and they were often inclined to homosexuality. Greeks, like Armenians, often rose in the hierarchy at the Sublime Porte, sometimes as eunuchs. Also they served as Janissaries in the Ottoman regiments which were taught to revere the Sultan as their father, the regiment as their family, and the barracks as their home. Forbidden to marry, they engaged in sodomy, particularly pederasty, and in such Ottoman vices as opium and bribery. Along with the Armenians, Greeks became the chief merchants of the Empire, especially dominating the relatively backward Balkan provinces where they congregated in the cities and towns as Jews did in the Polish-Lithuanian commonwealth.”
Winckelmann e Byron morreram durante a guerra de independência da Grécia.
GREEK ANTHOLOGY
“The Greek Anthology is another name for the Palatine Anthology preserved in a unique manuscript belonging to the Palatine Library in Heidelberg. It was assembled in the 10th century by the Byzantine scholar Constantine Cephalas on the basis of 3 older collections: (1) the Garland of Meleager, edited at the beginning of the 1st century BC; (2) the Garland of Philippus, which probably dates from the reign of Augustus; and (3) the Cycle of Agathias, collected in the reign of Justinian (527-535) and including only contemporary works. But in addition Cephalas incorporated in his anthology the Musa Puerilis or <Boy-love Muse> of Strato of Sardis, who probably flourished under Hadrian (second quarter of the 2nd century). It is probable that the segregation of the poems on boy-love from the rest of the anthology (with the mistaken inclusion of some heterosexual pieces) reflects the Byzantine attitude, quite different from that of the pagan Meleager who indifferently set the two themes side by side. These poems, assembled in the 12th book of the Anthology (with others scattered elsewhere in the collection), are monuments of the passion of an adult male for an adolescent boy (never another adult, as some modern scholars have suggested; XII, 4 is the most explicit testimony on this matter) that was an integral part of Greek civilization. The verses frankly reveal the mores and values of Greek pederasty, exalting the beauty and charm of the beloved youth, sounding the intensity of the lover’s attachment, and no less skillfully describing the physical practices to which these liaisons led, so that it is not surprising that the complete set of these poems was not published until 1764.”
HANDBALLING
“This sexual practice involves the insertion of one partner’s hand – and sometimes much of the arm – into the rectum of the other. Before attempting such insertion the nails are pared and the hand lubricated. Sometimes alcohol and drags are used by the receptive partner as relaxants. This practice acquired a certain popularity – and notoriety under the name of fistfucking – in a sector of the gay male leather/S&M community in the 1970s. A few lesbians have also reported engaging in it. A medical term, apparently uncommon, has been proposed for handballing: brachiproctic eroticism.
It need scarcely be stressed that handballing is dangerous in all its variations, as puncturing of the rectal lining may lead to infection and even death. Although handballing does not directly expose the passive partner to AIDS or to sexually transmitted diseases, by scratching or scarring the rectal wall it may create tiny portals for the invasion of microbes during a subsequent penetration. With the new emphasis on safe sex in the 1980s, handballing has greatly declined, and it will probably be relegated to history as one of the temporary excesses of the sexual revolution.”
“It may be conjectured that the recent resort to the practice is due to medical knowledge of operations in which the anus is dilated, since the ordinary individual scarcely credits that such enlargement is possible or desirable. In a late Iranian version of the binding and riding of the god of darkness Ahriman by the hero Taxmoruw, the demonic figure breaks loose by means of a trick and swallows the hero; by pretending to be interested in anal intercourse the brother of Taxmoruw manages to insert his arm into Ahriman’s anus and retrieve the body from his belly. The brother’s arm – the one that entered the demon’s anus – becomes silvery white and stinking, and the brother has to exile himself voluntarily so that others will not become polluted. The myth is interesting as linking the forbidden sexual activity with stigmatization and outlawry of the perpetrator. There seems to have been no term for handballing in the Greek language, though siphniazein (from the island of Siphnos) has been defined as to <insert a finger in the anus>. This harmless practice has long been known, and it may have served as a kind of modest precedent.”
HELIOGABALUS / ELAGABALUS
O imperador teria vivido apenas 18 anos – como regente, 4!
“he reigned in a style of luxury and effeminacy unprecedented even in the history of Rome. He sent out agents to comb the city for particularly well-hung partners for his couch, whom he made his advisers and ministers. His life was an endless search for pleasure of every kind, and he had his body depilated so that he could arouse the lusts of the greatest number. His extant portraits on coins suggest a sensual, even African type evolving through late adolescence. The refinements which he innovated in the spheres of culinary pleasure and of sumptuous interior decoration and household furnishing are mentioned by the historians of his reign as having survived him and found emulators among the Roman aristocracy of later times. For what Veblen called <conspicuous consumption> he set a standard probably unequaled until the Islamic middle ages.
His sexual personality cannot be reduced to a mere formula of passive-effeminate homosexuality, although this aspect of his erotic pleasure-seeking is the one stressed by his ancient biographers. He loved the role of Venus at the theatre and the passive role in his encounters with other men, yet he was married several times and even violated a Vestal virgin, but remained childless.”
“As high priest of the Syrian deity Elagabal he sought to elevate the cult of the latter to the sole religion of the Empire, yet he did not persecute the Christians. Family intrigues ultimately cost him the favor of the soldiers who murdered him and his mother on March 11, 222. Unique as he was in the history of eroticism and of luxury, he has inspired writers from the 3rd century biographer Aelius Lampridius in the Scriptores Historiae Augustas through the later treatments of Jean Lombard, Louis Couperus, and Stefan George to Antonin Artaud and Alberto Arbasino.”
HOLOCAUST, GAY
“The genocide of Jews and Gypsies in Nazi-occupied Europe has overshadowed the persecution and murder of male homosexuals, which is only now beginning to be recognized and analyzed from the few surviving documents and memoirs. Regrettably, in the immediate post-war period most of those who wrote about the concentration and extermination camps, and even courts which dealt with the staffs and inmates of the camps, treated those sent there for violating the laws against homosexual offenses as common criminals deserving the punishment meted out to them by the Third Reich. The final insult to the victims of Nazi intolerance was the decision of the Bundesverfassungsgericht (Federal Constitutional Court) in Karlsruhe on May 10, 1957, which not only upheld the constitutionality of the more punitive 1935 version of Paragraph 175 of the Penal Code because it <contained nothing specifically National-Socialist> and homosexual acts <unquestionably offended the moral feelings of the German people>, but even recommended doubling the maximum penalty – from 5 to 10 years. If any other victims of National-Socialism had been rebuffed in this manner by a West German court, there would have been outraged demonstrations around the globe; but this one went unprotested and ignored – above all by the psychiatrists who until recently never missed an opportunity to assert that <homosexuality is a serious disease> – for which ostracism and punishment were the best if not the only therapy. Until the late 1980s homosexuals, along with Gypsies, were denied compensation by the West German authorities for their suffering and losses under the Nazis.”
“Günther (1891-1968), professor of rural sociology and racial science first at Berlin and then at Freiburg im Breisgau, the chief authority on such matters in the Third Reich, held that the genetically inferior elements of the population should be given complete freedom to gratify their sexual urges in any manner that did not lead to reproduction because they would painlessly eliminate themselves from the breeding pool.”
“National-Socialism in Germany, like Marxism-Leninism in Russia, was a conspiracy of the 17th and the 19th centuries against the 18th-century Enlightenment” OK
“Among all modern states for which figures can be compiled, Nazi Germany offers the horrible example of suicides increasing rather than decreasing in wartime.”
HOMER
“Although dramatically dated to Mycenean times, the late 2nd millennium BC, the epics sometimes refer to things that cannot predate 650 or even 570, because interpolations existed in one form or another when 7th century poets cited the epics.”
“It is difficult to detect all interpolations and changes, especially additions of Attic terms as high culture became increasingly centered in Athens, where the Peisistratids in the mid-6th century had the epics recited annually at a festival, and many believe the first texts written well over a century after the latest possible date for Homer’s death. A definitive text resulted only from the efforts of 2nd century editors in Alexandria. These texts became almost sacred to the Greeks, whose education was based on them even until the fall of Constantinople to the Turks in 1453.”
“Homer failed to depict institutionalized pederasty, to which almost all subsequent writers referred, many making it central. Though poets and artists around 600 BC make the earliest unmistakable references to institutionalized pederasty, Homer mentioned Ganymede twice, <the loveliest born of the race of mortals, and therefore the gods caught him away to themselves, to be Zeus’ wine-pourer, for the sake of his beauty, so he might be among the immortals> (Iliad, 20, 233-35) and Zeus’ giving Tros, Ganymede’s father, <the finest of all horses beneath the sun and the daybreak> (Iliad, 5, 265ff.) as compensation for his son. Sir Moses Finley concluded that <the text of the poems offers no directly affirmative evidence at any point; even the two references to the elevation of Ganymede to Olympus speak only of his becoming cup-bearer to Zeus.>Sir Kenneth Dover denied that these passages implied pederasty: <It should not be impossible for us … to imagine that the gods on Olympus, like the souls of men in the Muslim paradise … simply rejoiced in the beauty of their servants as one ingredient of felicity.> However, the Abrahamic religions’ taboo on homosexuality did not exist in Hellenic and Etruscan antiquity. Societies that had the formula <eat, drink, and be merry> held that banquets should fittingly issue in sexual revelry. Anachronisms such as those of Finley and Dover should therefore be dismissed, even though Homer’s allusions to Ganymede may be pederastic interpolations like those ordered by the Peisistratids – successors of Solon, who introduced institutionalized pederasty into Athens – to antedate the cultural prominence of Athens.”
HUMBOLDT
MAGNUM OPUS: Voyage aux regions equinoxiales du nouveau continent (30 vols.!)
Mas não só: Cosmos: Outline of a Physical Description of the World (5 vols.!) (1862)
O FIM DE UMA ERA: “It was the last attempt by a single individual to collect within the pages of a work of his own the totality of human knowledge of the universe; after his time the increasing specialization of the sciences and the sheer accumulation of data made such a venture impossible.” Embora Le Bon seja um respeitável polímata, outrossim.
“Through the accounts of his findings – models for all subsequent undertakings – he made significant contributions to oceanography, meteorology, climatology, and geography, and furthered virtually all the natural sciences of his time; but above all else he was responsible for major advances in the geographical and geological sciences.”
HYDRAULIC METAPHOR
“The idea that sexual energy accumulates in the body until sufficient pressure is generated to require an outlet has over the centuries had considerable appeal. The notion acquires plausibility through observation of the wet dream, which eventually occurs in males if the semen is not evacuated through intercourse or masturbation.”
“The first statement of the doctrine is probably owing to the Roman philosopher-poet Lucretius who says that the semen gradually builds up in the body until it is discharged in any available body (On the Nature of Things, IV, 1.065).”
“As a device for relieving erotic tension, a homosexual outlet stands on the same plane as a heterosexual one. A curious attestation of the hydraulic concept comes from colonial America. In his reflections on an outbreak of <sodomy and buggery> in the Bay Colony, William Bradford (1590-1637) noted: <It may be in this case as it is with water when their streams are stopped or dammed up; when they get passage they flow with more violence and make more noise and disturbance, than when they are suffered to run quietly in their own channels.>”
“Some Victorians defended prostitution as a necessary evil. Without this safety valve, they held, the pent-up desires of men would be inflicted on decent women, whose security depends, ironically, on their <fallen> sisters. The Nazi leader Heinrich Himmler even extended this belief by analogy to hustlers and male homosexuals.”
“Despite its appeal, the metaphor is not unproblematic. The hydraulic idea rests upon materialist reductionism, identifying the accumulation of semen with the strengthening of sexual desire. Yet the two do not necessarily act in concert, as anyone knows who has visited some sexual resort such as a sauna and felt sexual desire far more frequently than the body is able to replenish its supply of semen.”
INCARCERATION MOTIF
“This term refers not to literal incarceration or confinement but to an aspect of gender dysphoria – the idea that a human body can contain, locked within itself, a soul of the other gender. In their adhesion to this self-concept, many pre and post-operative transsexuals unknowingly echo a theme that has an age old, though recondite history.”
“Foreign as this idea is to the rationalistic Jew of the 20th century, and to the Biblical and Talmudic periods of Judaism as well, it is first mentioned by Saadiah Gaon (882-942), the spiritual leader of Babylonian Jewry, who rejected it as an alien doctrine that had found its way into Judaism from the Islamic cultural milieu.”
“The transmigration of a man’s soul into the body of a woman was considered by some Kabbalists a punishment for the commission of heinous sins, such as man’s refusing to give alms or to communicate his own wisdom to others.”
“In the Hollywood film Dog Day Afternoon (1975), which was based upon a real incident in Brooklyn a few years earlier, the character Leon asserts that <My psychiatrist told me I have a female soul trapped in a male body> (…) So a doctrine of medieval Jewish mysticism has entered the folklore of the gay subculture, and thence passed into the mainstream of American popular culture as a metaphor for a profound state of alienation.”
JUNG
“The two thinkers increasingly diverged, particularly after Jung published his own ideas in a book entitled The Psychology of the Unconscious (1912), later renamed Symbols of Transformation. At the first meeting of the International Psychoanalytic Association in Munich in 1913, the rift between Jung and Freud turned to open hostility, and the two never met again. In April 1914 Jung resigned as President of the Association. Between 1913 and 1917 Jung went through a period of deep and intensive self-analysis; he now asserted that he had never been a Freudian, and set about creating his own school, which he dubbed analytical psychology in contrast to psychoanalysis.” Diferentão…
“his Collected Works amount to eighteen volumes.” “He treated not only psychology and psychotherapy, but also religion, mythology, social issues, art and literature, and such occult and mystical themes as alchemy, astrology, telepathy and clairvoyance, yoga, and spiritualism.”
KEYNES
“A polymath [raça resiliente!], Keynes cultivated many interests, from book collecting to probability theory. His real importance, however, stems from the epistemic break he achieved with the classical theory of economics, changing the landscape of that discipline for all time. Keynes was no ivory-tower theorist, and the 30-year boom in Western industrial countries (1945-75) has been called the Age of Keynes.”
“In the Apostles he met his lifelong friends Lytton Strachey and Leonard Woolf. Believing himself ugly, Keynes tended to be shy in the presence of the undergraduates he admired. In 1908, however, he began a serious affair with the painter Duncan Grant, whom he later said to be the only person in whom he found a truly satisfying combination of beauty and intelligence.”
“In 1908, however, he obtained a lecturer-ship in economics at King’s College, and the courses he gave there were the foundation of his later writings in the field. As editor of the Economic Journal he actively promoted new trends in the discipline outside of Cambridge. Yet he did not turn immediately to the core of the subject, as he spent a number of years writing a challenging Treatise on Probability, which was published in 1921.”
ESCASSEZ DE RECURSOS (GAYS) & SEMENTES DO NAZISMO: “Keynes elected to enter the Treasury where, despite the chronic disapproval of the Prime Minister, David Lloyd George, he worked wonders in managing the wartime economy. During this period the homosexual members of Bloomsbury (Keynes included) found their supply of eligible young men cut off, and began to engage in flirtations and even liaisons with women. After the end of the war Keynes spent a frustrating period as an adviser at the Paris peace conference [for British to see!], trying to limit voracious Allied demands for reparations from defeated Germany. Returning to London, he set down his pungent reflections on the event in what became his most widely read book, The Economic Consequences of the Peace (1919), which eroded the resolve of the Allies to enforce the Treaty of Versailles, at least in its financial provisions.
In 1925 Keynes, now famous, married the noted ballerina Lydia Lopokova. He became an adviser to government and business, consolidating his practical knowledge of economic affairs. These experiences contributed to his great book, General Theory of Employment, Interest and Money (1936).”
[PET-ROYAL]TIES: “Economic difficulties after 1975 subjected Keynesian views, which had become orthodoxy, to contemporary reassessment.”
“Surprisingly, in the decades after the conviction of Oscar Wilde, his numerous affairs with young men never caused the slightest legal or even social trouble. This charmed life can be explained only by his combination of extreme personal brilliance, family and professional connections, and remarkable self-confidence.”
KLEIST HEINRICH VON (1777-1811)
“German playwright and short story writer, whose The Broken Pitcher is esteemed as possibly the greatest of (and among the few) German comedies. Overshadowed by his contemporary, Johann Wolfgang von Goethe, Kleist’s significance came to light only after his suicide at age 34, a secretive joint pact made with a terminally ill female friend.
Kleist’s slim literary production (8 plays and 8 short stories) vividly and violently captures the historical break between Enlightenment rationalism and Romantic mysticism, often framed as either a psychological conflict (Das Käthchen von Heilbronn, Penthesilea) or a political one (Prinz Friedrich von Homburg, Die Hermannsschlacht). A profound sense of the irrational and absurd permeates Kleist’s works. In stories such as Michael Kohlhaas or Earthquake in Chile, individuals stand powerless before arbitrary circumstances. Kleist’s remarkable heroines, who bear uncanny resemblance to Kleist psychologically, act from the unconscious, for example when The Marquise of O. places a newspaper ad in hopes of discovering the gentleman responsible for her pregnant condition, or when Penthesilea’s confusion between love and war leads her, while intending to kiss her lover Achilles, instead to tear him from limb to limb with her bare hands and teeth.”
LAUTRÉAMONT, o Conde que faltava ao Marquês
“Ducasse [nome de batismo] certainly shows more strongly the influence of Baudelaire and Sade than does any other writer. Like Sade, he is rarely studied in universities.”
LAWRENCE, DAVID HERBERT (1885-1930)
“Born in a mining area of Nottinghamshire, Lawrence derived much of the problematic of his work from the tension between his coal-miner father, representing for him the physical and the elemental, and his mother, a former school-teacher, who stood for the world of higher culture, politeness, and civilization. Having attended a 2-year teacher training course in Nottingham (his only higher education), Lawrence wrote two early novels, The White Peacock (1911) and The Ties-passer (1912), while teaching at Croydon. In 1912 he eloped with the German-born Frieda von Richthofen Weekley, and the two led a bohemian life of wandering on the continent until the outbreak of World War I. During this period he wrote and published his first masterpiece, Sons and Lovers (1913), an intensely autobiographical novel [more so?].
“Women in Love(1921) [currently reading!] has, despite the title, an extraordinary emphasis on the male love affair (though it is non-genitally expressed [forçação de barra, i.m.o.]) between the wealthy Gerald Crich and the school-teacher Rupert Birkin. These aspects were further explored in the Prologue to the book [!], which Lawrence withheld from publication.”
LORCA
“In the famous Residencia de Estudiantes, he met and collaborated with such future celebrities as Luis Buñuel and Salvador Dalí, with the latter of whom he had an amorous relationship of several years’ duration.”
“An extensive literature exists concerning the mechanics of and motives for his death, which immediately became an international incident and a symbol of fascist stupidity and anti-intellectualism. Lorca’s leftist sympathies, friends, and relatives would be sufficient to explain his execution, but much evidence suggests that his sexual orientation, activities, and writings were at least as important.”
A CANALHA (ESPERO QUE NÃO CUIDEM DO MEU ESPÓLIO!): “The House of Bernarda Alba, suppressed by his family, in 1945.”
MCCARTHYISM (BOECHATISMO NO BRASIL CONTEMPORÂNEO)
“The political tactics of the United States Senator from Wisconsin Joseph R. McCarthy (1908-1957)(*) have since the 50s been labeled McCarthyism. They consisted in poorly founded but sensationally publicized charges against individuals in government service or public life whom McCarthy accused on the Senate floor of being Communists, security risks, or otherwise disloyal or untrustworthy. Senator McCarthy’s campaign did not spare <sex perverts in government>, and so it made homosexuality an issue in American political life for the first time since the founding of the republic.” Homossexualidade restrita ao Triângulo das Bermudas.
(*) Oxalá nosso expoente morresse tão jovem! (P.S.: Escrito antes de sua inesperada – hoho, que clichê – morte!)
“It is also noteworthy that the danger of blackmail which Magnus Hirschfeld and his Berlin Scientific-Humanitarian Committee had used as an argument for the repeal of Paragraph 175 was now turned against homosexuals to deny them employment in the name of <national security>. This factor and others worked so strongly in McCarthy’s favor that despite bitter opposition he was reelected in 1952 in the Eisenhower landslide that brought the Republican Party back to the White House after 20 years of Democratic rule.
Once the Republicans had become the majority party for a brief time, McCarthy’s tactics became a source of embarrassment to them [huhu, quantas semelhanças…], and in 1954 a campaign was launched against him in the Senate which included the (true) accusation that a young University of Wisconsin graduate employed in his office in 1947 to handle veterans’ affairs had been arrested as a homosexual and then promptly fired, and the (probably false) accusation that McCarthy himself was a homosexual, which Senator Ralph Flanders of Vermont included in his denunciation. However, it was alleged that McCarthy’s marriage in 1953 at the age of 45 was motivated by his need to squelch the rumors of his own sexual deviation; the marriage remained childless, though the couple did adopt a little girl. What is significant in retrospect is that Roy Cohn, a young attorney who was one of McCarthy’s chief aidés [sponsored by him] during his heyday, was a lifelong homosexual who died of AIDS in 1986 [meme Cazuza de direita]. Censured by the Senate in 1954, McCarthy thereafter faded in political importance, and when he died in 1957 no great wave of emotion went through the ranks of either his friends or his enemies.”
“The policy of denying employment to homosexuals on moral grounds and as security risks, however, remained long after McCarthy himself.”
“In France, after André Gide published his negative reflections on his trip to the Soviet Union in 1936-37, he was attacked by his former Communist associates as a pédé (faggot).”
“The sexual aspect of McCarthyism has an ancestry going as far back as Aeschines, Cicero, and the Byzantine Emperor Justinian (r. 527-565), whose laws against sodomites forged the <crime of those to whom no crime could be imputed>, a weapon for political intimidation and blackmail that even the enlightened 20th century has not deprived of its cutting edge.”
PEDOPHILIA
“the term <p(a)edophilia> was first used in English only as recently as 1906, by Havelock Ellis. It had previously appeared as a specific form of sexual pathology in a German article of 1896 by Richard von Krafft-Ebing. Because the term <pedophilia> originated in a medical context and today connotes disease, efforts have been made to replace it. Pederasty is sometimes used as a synonym, or as a term restricted to post-pubescent adolescents, but in the present writers’ view, it should properly be restricted to the Greek custom it originally designated, which, though a form of pedophilia as we understand it, is not congruent with it.” “The earlier average age for puberty within the last century also means that classical texts (and even more recent ones) which speak of relations with mid-teenage boys were not necessarily referring to sexually mature individuals. (The term ephebophile has been used to describe erotic attraction to boys in their late teens, who are considered adults in many if not all cultures.)” “woman/girl (korophile)” “<Child molestation> or <abuse>, terms current in the media, and in psychological and legal discourse, are neither descriptive of the phenomenon, nor value-free, as academic discourse requires.
That variant of pedophilia occurring between men and boys – male homosexual pedophilia – will be the chief focus of this article. This choice is dictated by several considerations, including the context of the article, the dearth [escassez] of research on korophile relationships, and the fact that until very recently man/boy relationships were accepted as a part, and indeed were a major part, of male homosexuality.”
“pedophilia might be considered a remnant, more evident in some persons than others, of the instinct to nurture and protect the young of the species, which in human development has come to serve an educational (including sex-educational) or initiatory purpose in some societies. The attempt to root pedophilia in man’s biological inheritance is controversial, but a cross-cultural survey of man/boy pedophilia at least suggests that it is a universal phenomenon, which, when accepted by a society, generally carries a socially constructed meaning related to the acculturation process for boys.”
“Several of these societies (as the Melanesians) believe that without receiving the man’s semen through fellatio the boy cannot physically mature.”
TRANSIÇÃO GRÉCIA-ROMA: “As the function of same-sex relationships increasingly became hedonistic, the age limits broke down: we find increasing references to homosexuality between men (particularly in the satiric poets, who make it clear that this was still scorned) and, to a lesser extent, to the sexual use of very young children.”
“That Ganymede was more than an artistic convention is shown by the number of artists who were charged with sodomy with boys, especially their studio assistants. Histories of the Renaissance record similar charges involving popes, poets, and nobles.”
“Incarcerated pedophiles continue to be subject to coercive procedures to alter their sexual interest or reduce its level. Although surgical castration is no longer employed, chemical dosages and aversion therapy may be used without the subject’s consent.”
“Much of the <research> that exists on pedophilia today reflects a predetermination that adult-child sexual contacts are evil or pathological, and merely documents the point of view with which the authors began. There has been no lack of evidence by which such negative pre-suppositions could be supported, because in the same way that studies of homosexuality until quite recently were limited by the source of their research subjects, resulting in a portrayal of homosexuals as criminal, troubled, and unhappy, most studies of pedophilia examine only cases which have come before either courts or psychiatrists, precisely those where the subjects are most under stress or disturbed. In many countries, research into pedophile relationships under other circumstances is legally
impossible: if a researcher should find a healthy, quietly functioning relationship he or she would be required to report it for prosecution under <child protection> laws. These factors, plus the sensationalism surrounding the topic, assure that much of what is written on the subject is, and will continue to be, worthless.”
“Pedophile organizations have linked their arguments to support of the rights of children. While emphasizing that these rights most certainly include the power to say ‘no’ to any unwanted sexual contact as well as the opportunity to say ‘yes’ to contacts children desire, some groups go further than others in espousing a broad range of children’s liberation issues. Related to the question of legal rights for children is the issue of the child’s consent in pedophile relationships. Those speaking for the protection of children frequently assert that children are incapable of consenting to such sexual relationships, sometimes justifying this assertion by the child’s lack of experience or knowledge of long-range consequences of an act. It has been answered that children can and do consent, or at least are quite capable of rejecting experiences they find distasteful, and that the proper response is to empower children to be able to say ‘no’ effectively. This impasse raises the issue of what consent means – freedom to refuse, simple assent, or an <informed> consent that is probably not realized in most human relationships? Closely related to this is the issue of power, and the assertion that the power imbalance between the adult and the younger partner in a pedophile relationship is so great that it inevitably leads to coercion and exploitation. Various responses have been made: either that the power imbalance is not so clear-cut as the critics state, particularly citing the power of the child to terminate the relationship; or that while power imbalances are inherent in all human relationships, they do not necessarily lead to exploitation, but can be used for benevolent ends, and the real issue is not the power imbalance but the use of power.
Child pornography is the sharpest point of attack on pedophilia and pedophiles. Included in this attack are the imputation that children are always abused in the production of such images, and the fear that such images will stimulate the abuse of children. It has been shown that this issue has been exploited for political purposes, and the statistics on the amount of such material exaggerated beyond proportion. Despite rhetoric, it has not been demonstrated that any more connection exists between pedophilia and child pornography than between any other sexuality and its pornography: either to show that pedophiles are more likely to create or use pornography than other persons, or that child pornography encourages sexual contacts with children. Indeed, the Kutschinsky study of the Danish experience with pornography, which has never been refuted, demonstrated that sexual assaults on children declined with the availability of pornography. Pedophiles who have responded to this issue have noted that there is no reason that depictions of children nude or even engaged in sexual actions should be any more or less objectionable than such depictions of adults, and argue that the true issue, as with all pornography, is whether coercion actually is employed in making it. The issues of child prostitution and the sexual exploitation of children in Third World countries have also been used to attack pedophiles and, by implication, pedophilia. Once it is acknowledged that pedophiles are by no means the only persons who engage in <sex tourism> or patronize prostitutes, the debate again seems to resolve itself into issues of power and consent. A defense has been offered that the right of self-determination in sexual behavior for the individual choosing prostitution should apply here. Poverty, however, may diminish the individual freedom of choice in these situations.”
???, Men and Boys[“America’s first anthology of homosexual poetry”];
Bleibtreu-Ehrenberg, Tabu Homosexualität: Die Geschichte eines Vorurteils (The taboo of homosexuality: The history of a prejudice), 1978;
______., Mannbarkeitsriten: Zur institutionellen Päderastie bei Papuas und Melanesiern (Rites of passage into manhood: On institutional paederasty in Papuas and Melanesians), 1980;
______., Der Weibmann: Kultischer Geschlechtswechsel im Schamanismus, eine Studie zur Transvestition und Transsexualität bei Naturvölkern (Androgynous: Cultic sex change in shamanism, a study on transvestism and transsexualism in primitives), 1984;
______., Paidika 1/3 (The Journal of Paedophilia): Der pädophile Impuls: Wie lernt ein junger Mensch Sexualität? (The paedophile impulse: Toward the Development of an Aetiology of Child-Adult Sexual Contacts from an Ethological and Ethnological Viewpoint), 1988;
Cook & Howells, Adult Sexual Interest in Children, 1981;
Fraser, Death of Narcissus, 1976;
Mackay, Books of the Nameless Love, 1913(sécs. XIX-XX; o pai do “associacionismo pedofílico”);
Theo Sandfort, The sexual aspect of paedosexual relations: The experiences of 25 boys with men, 2000.
SCHOPENHAUER
“Through a large inheritance from his father the celebrated misanthrope enjoyed financial independence so that he could devote his life completely to philosophy. Even today Schopenhauer’s ethic of compassion possesses great philosophical significance.”
“Schopenhauer’s teleologically oriented conception of nature therefore had to assume in male homosexual behavior – the only form he discussed – a <stratagem of nature> (in the words of Oskar Eichler). Referring to Aristotle he hypothesized that young men (supposedly boys just past puberty) and likewise men who are too old (the magic boundary is here the age of 54) are not capable of begetting healthy and strong offspring, because their semen is too inferior. As nature is interested in perfecting every species, in men older than 54 <a pédérastie tendency gradually and imperceptibly makes its appearance>. When he formulated this argument Schopenhauer himself was 71 years old, so that he could have harbored a homosexual tendency for some years.”
“Schopenhauer was himself the father of at least two illegitimate children and had many unhappy affairs with women. He passionately admired Lord Byron and like him came to the conclusion that women could be considered beautiful only by <the male intellect clouded by the sexual instinct>. In intellectual and aesthetic respects Schopenhauer had homosexual preferences. In a letter to his admirer Julius Frauenstadt he stressed that <even women’s faces are nothing alongside those of handsome boys>. Bryan Magee hypothesizes that the philosopher systematically suppressed his gay tendencies, a view shared by Oskar Eichler and others. Thirty years after the publication of the third edition ofThe World as Will and RepresentationOswald Oskar Hartmann adopted Schopenhauer’s teleological explanation of homosexuality, suggesting that the first champions of homosexual rights voluntarily followed Schopenhauer’s arguments.”
SEPARATISM, LESBIAN
“In its strongest form, lesbian separatism means social, cultural, and physical separation from all who are not lesbians. As society is now constituted this option is possible only for a very few. Many lesbians who regard themselves as separatists seek to live and work in circumstances that are as far as possible <women’s space>, without insisting on the absolute exclusion of men.”
“Aristophanes’ play Lysistrata (411 BC) shows Athenian women seceding from their city in a <sex strike>, but only temporarily – until the men agree to make peace. Charlotte Perkins Gilman (1860-1935), a pioneering American socialist and feminist, wrote a novel, Herland (1915; reprinted 1979), depicting a Utopia in Africa populated only by women.”
“Outsiders tend to label lesbian separatists as <women who hate men>. In their defense, separatists often say that what they are opposed to are the domineering, aggressive aspects of male behavior, rather than men themselves. They wish to make a clear statement that will set them apart from the ambivalent stance of heterosexual women, even those who profess feminism. Separatists believe that such straight women enter too readily into complicity with the power structure of patriarchy; by continuing to meet the sexual and emotional needs of men, these women give aid and comfort to the enemy.
Some women choose to form communes on <women’s land>, setting themselves apart from all males, including male children and animals. In so doing they hold that they are creating liberated zones in which their natures can grow unhampered by the dictates of patriarchy.”
“Some women have entered lesbian separatism for a number of years as part of a process of personal growth, only to emerge later with a more complex position. This seems to have been the experience of a principal theorist of the movement, Charlotte Bunch, who remains a radical lesbian feminist.”
SHAKESPEARE
“Of tenant farmer stock and the son of a glover, Shakespeare was born in the provincial town of Stratford-upon-Avon in England; however, the very few facts known about his life are derived from various legal documents. In 1582, he married Anne Hathaway, with whom he had 3 children within the next 3 years; the following 5 years are unaccounted for, but by 1594 he was involved in the theatre world in London as both an actor and a playwright. He enjoyed an increasingly successful theatrical career until his retirement in 1612 and his return to Stratford.”
“Shakespeare’s prolonged separation from his wife and the stipulation in his will that she inherit his <second best bed> has sparked much debate about his sexuality.”
“Historically, theatrical companies of Shakespeare’s time did not employ women; instead, their roles were played by boys, apprentices to the companies. In adherence to the laws and sympathies of the times, the plays were, therefore, unable to display any overtly sexual behavior, but one of Shakespeare’s most frequent plot devices was to have his heroines disguise themselves as boys, particularly in the comedies. Thus, what in reality was a boy pretending to be a woman pretending to be a boy leads to some psychologically acute and complex scenes with homoerotic suggestions, such as the encounters between Rosalind (as Ganymede, a name rich in suggestiveness) and Orlando in As You Like It and Viola (as Caesario) and Orsino in Twelfth Night.
“For more substantive evidence, one must turn instead to Shakespeare’s sequence of 154 poems in the form of sonnets, published surreptitiously in 1609 and immediately protested by their author. Probably intended as a personal exercise for private circulation, the sonnets may be the works that reveal something of the man himself; in them, Shakespeare names the persona Will, an obviously personal and intimate diminution of William, and, as in most of the Renaissance sonnet sequences, their subject is erotic love. Dedicated to Mr. W.H., who has been variously identified as the Earl of Southampton, a boy actor named Willy Hewes, Shakespeare himself (in a misprint of his initials), someone unknown to history, or someone invented, the first 126 are clearly homoerotic, while most of the others concern a woman conventionally called <the Dark Lady>. Historically, those scholars who begrudgingly admit to their subject matter try to discount their message. Most claim that the attraction the persona feels for the fair young man is either platonic or unconsummated; others assert that the poems are only examples of the Renaissance male friendship tradition. Still others insist on the fallacy of equating the persona with the poet and confusing literature with autobiography.”
Joseph Pequigney, Such Is My Love: A Study of Shakespeare’s Sonnets, Chicago: University of Chicago Press, 1985.
SOCRATES
“In early life he was interested in the scientific philosophy of his time and is said to have associated with Archelaus the physicist, but in the period best known to posterity he had abandoned these interests and was concerned solely with the right conduct of life, a quest which he conducted by the so-called <Socratic> method of cross-examining the individuals whom he encountered. While serving in the army he gained a great reputation for bravery, and as one of the presidents of the Athenian Assembly at the trial of the generals after the battle of Arginusae, he courageously refused to put an illegal motion to the vote despite the fury of the multitude.”
“There has been considerable dispute over the precise meaning of the indictment, but the first part seems not to have been serious, while the second amounted to a charge that he had a <subversive> influence on the minds of the young, which was based on his known friendship with some of those who had been most prominent in their attacks on democracy in Athens. He made no attempt to placate the jury and was found guilty and sentenced to die by drinking a cup of hemlock.”
“He probably rejected the conventional Greek religious beliefs of his time, yet professed or created no heterodox religious doctrines. From time to time he had paranormal experiences, signs, or warnings which he interpreted as guideposts to his own conduct.
His sexual life, apart from the unhappy marriage, reflected the Greek custom of paiderasteia to the fullest. He was both the teacher of the young men who frequented his circle and the lover of at least some of them. As a boy of 17 he had been the favorite of Archelaus, because he was in the bloom of youthful sensuality, which later gave place to serious intellectual concerns.”
“he was never given to a coarse and purely sensual pederasty; if the beauty of the young Alcibiades made an intense and lasting impression on him, he never forgot his duty as a teacher to guide his youthful pupils toward perfection.” “As a bisexual Hellene, Socrates was always responsive to the beauty of the male adolescent and craved the companionship of young men; as a philosopher he practiced and taught the virtues of moderation and self-control. He endures as one of the outstanding examples in antiquity of a teacher for whom eros was an inspiration and a guide.
Because Socrates is a major figure in Western tradition, his sexual nature posed a continual problem. From Ficino to Johann Matthias Gesner (1691-1761) scholars sought to address the question discreetly. The Marquis de Sade was bolder, using socratiser as a verb meaning to sodomize. Even today, however, many classicists choose to evade the problem.”
SODOM AND GOMORRAH
“These legendary cities have been traditionally located in the vicinity of the Dead Sea, where they constituted two members of a pentapolis, the Cities of the Plain. According to the Old Testament account in Genesis 14, 18, and 19, God overthrew 4 of the 5 cities in a rain of brimstone and fire. The names of Sodom and Gomorrah, especially the former, have become proverbial. Echoes of the episode recur in the Bible and in the Koran, as well as in Jewish, Christian, and Islamic exegetical and homiletic writings. From the first city, Jewish Hellenistic Greek formed the derivative sodomites, from which medieval Latin obtained the noun of agent sodomita – as a result, the connection with male homosexuality is for many axiomatic. However the matter is more complex.”
“The ancient world’s rudimentary science of geology correctly related this barrenness to the circumstance that the water level of the Dead Sea had in prehistoric times been far higher; the sinking of the water level had exposed the previously inundated, now strikingly arid and sterile region to the gaze of the traveler.”
“to the Bedouin living east and south of the Dead Sea it suggested the etiological inference that at one time the area surrounding this salinized body of water had been a fruitful garden belt. Yet the inhabitants of the cities of the plain had even in the midst of their abundance and prosperity denied hospitality to the poverty-stricken and the wayfarer, while the luxury in which they wallowed led them inevitably into effeminacy and vice (the parallel in the Hellenistic world was the city of Sybaris, whose proverbial self-indulgence gave the English language the word sybaritic). For this reason they were punished by the destruction of their cities and the conversion of the whole area into a lifeless desert.”
“In Genesis 14:12 Lot is taken captive when Sodom is conquered by the 4 kings who have allied themselves against the Cities of the Plain; Abraham saves him by military intervention in the manner of a tribal sheikh with his retinue of 318 warriors. In 19:4-9 the Sodomites threaten Lot’s guests with gang rape, but are miraculously blinded and repelled, and in 19:13, 15 the angelic visitors warn Lot of the imminent destruction of the city so that he and his family can leave just in time to escape the rain of brimstone and fire. This underlying motif explains why Lot later <feared to dwell in Zoar> (19:30), even though God has spared the place as a reward for his model hospitality toward the 2 visitors. Over the centuries Sodom and Gomorrah, along with the Babylon of the Book of Revelation, came to symbolize the corruption and depravity of the big city as contrasted with the virtue and innocence of the countryside, a notion cherished by those who idealized rural life and is still present, though fading in 20th century America.”
“These volcanic eruptions, which have left traces still to be seen at the present day, inspired the <rain of brimstone and fire> (burning sulfur) of Genesis 19:24, which supplemented the notion that the 4 cities had been <overthrown> (destroyed by an earthquake) that figures in Genesis 19:25.” Sempre o nº 4!
+ Judges 19; Romans 1:18
“the currency in antiquity of world destruction legends, in which the earth is annihilated either by water (kataklysmos) or by fire (ekvyrosis). The story of Noah and the deluge is the rendering of the first in the book of Genesis, while the destruction of Sodom and Gomorrah is a localization of the second, in which the catastrophe is limited to 4 cities in the vicinity of the Dead Sea (Sodom, Gomorrah, Admah, and Zeboiim) even though the epilogue involving Lot and his daughters clearly derives from a universal conflagration myth.”
“If the human race were annihilated with the exception of a single family, the earth could be repeopled only by means of sexual unions ordinarily condemned as incestuous.”
“World destruction fantasies [are] associated in modern clinical experience with the early stages of schizophrenia.”
“Astrological literature supplied the ancients with an entire list of calamities that betokened divine wrath, as in Luke 21:11, all of which were later ascribed to retribution for <sodomy>. Fear of homosexual aggression plays a role in these paranoid fantasies, of the sort analyzed by Freud in the classic Schreber case.”
“The notion of sodomy is an innovation of Latin Christianity toward the end of the 12th century; it is not found in Jewish or Byzantine writings.” “In the late Middle Ages the tendency of the allegorizing mind to parallelism led to the notion that Gomorrah, the twin city of Sodom, had been a hotbed of lesbianism, even though there was nothing in either Testament that would suggest such a construction.”
TURING, ALAN (1912-1954)
“He seems to have been a brilliant, awkward boy whose latent genius went unnoticed by all his teachers; he also had no friends until his very last years at Sherborne. Then he fell in love with a fellow science enthusiast, Christopher Morcom: the Platonic friendship was returned, and Alan Turing was for the first time in his life a happy young man. He had dreams of joining Christopher at Trinity, to pursue science together – unfortunately, Christopher Morcom suddenly died (from a much earlier infection with bovine tuberculosis).”
“Turing spent two years in America, at Princeton University, and, on his return to Britain, was drafted into British cryptanalysis for the war effort. Turing was already unusual among mathematicians for his interest in machinery; it was not an interest in applied mathematics so much as something which did not really have a name yet – applied logic. His contribution to the design of code-breaking machines during the war led him deeper and deeper into the field of what would now be called computer programming, except that neither concept existed at the time. He and a colleague named Welshman designed the Bombe machines which were to prove decisive in breaking the main German Enigma ciphers. For his contribution to the Allied victory in World War II Turing was named an Officer of the British Empire (O.B.E.) in 1946. (…) He was elected as a Fellow of the Royal Society in 1951.”
“The earliest inventor of such a device was the eccentric 19th century Charles Babbage, who could not obtain the necessary hardware to implement his ideas.”
“He was brought to trial and sentenced to a year’s probation under the care of a psychiatrist, who proceeded to administer doses of female hormone to his patient, this being the current <wonder-therapy> which replaced castration as an attempt to kill the sexual instinct. For the entire year, Turing underwent the humiliation of femininization (<I’m growing breasts!>, he confided to a friend), but emerged seemingly intact from the public ordeal. He committed suicide in 1954, by eating an apple he had laced with cyanide.”
WHITMAN, WALT
A VIDA TEM DESSAS: “Often acclaimed as America’s greatest poet, Whitman, of working-class background, was self-taught, but as a printer, school teacher, journalist, and editor he contributed fiction and verse in the worst modes of the day to the best literary journals. There is no evidence of his genius until he suddenly began to write scraps of what was to become Leaves of Grassin his notebooks.”
“It has in fact been argued that Leaves is an inverted mystical experience. This work, which encompassed his complete poetic opus, was first published in 1855 with 12 poems (Song of Myself being rather lengthy); the second edition (1857) had 32, the third (1860) 156, and so on through various printings and editions until 1881. Beginning in 1860, Whitman not only added poems (including the homoerotic Calamus collection), but dropped them, changed them, and rearranged the order. He has often been criticized for making changes, but he clearly did not do so for purposes of concealment.”
“In his more programmatic poems, Whitman was always careful to say he and she, him and her. Women are permitted to have sexual lives, and he sympathizes with a prostitute, but they are generally thought of and idealized as perfect mothers for the new race of Americans.”
“It was his explicitness about male-female sex that shocked his early readers. Only a few homosexuals in England and some readers in Germany caught what is now obvious to any reader who can admit what he sees on the page. The 2nd and 3rd sections of Song of Myself are homosexual in their imagery, as is the subsequent discussion of the body and soul, which climaxes in the intercourse between body and soul in the 5th section. One might also cite the tremendous sweep of eroticism from section 24 to the climax of fulfillment in male intercourse in section 29.”
“He was not merely the poet of an idealized Jacksonian democracy nor of a new political structure, but of a culture bound together by love and religious faith in which each person could fulfill his or her own sexual nature.”
“Whitman, who was disappointed at his contemporary reception, would have been gratified by his reputation in the 20th century, which is too widespread to more than mention. He is the democratic poet and a progenitor of the development of poetry beyond traditional metrical practice in the United States and foreign countries. A remarkable number of modern poets have paid him tribute in prose or verse, among the most notable being Ezra Pound, Pablo Neruda, Federico García Lorca, Fernando Pessoa, and Allen Ginsberg.”
WOOLF, VIRGINIA
“Virginia Woolf was educated largely through reading books in the family library. Unlike her brothers, she did not go to university, and this perceived slight was later to sustain her feminist critique of discrimination against women. In 1912 she married Leonard Woolf, a brilliant Cambridge graduate who had served as a judge in Ceylon, and her sister Vanessa married the art critic Clive Bell. The two couples were major figures in the Bloomsbury group, which also included such male homosexual writers as E.M. Forster, John Maynard Keynes, and Lytton Strachey. Through much of her life Virginia suffered from severe spells of mental depression, and it was partly to provide work therapy that she and Leonard founded the Hogarth Press in 1917.”
“Virginia Woolf remained a virgin until her marriage, and found the idea of sex with a man repellent. At the time of their engagement she warned Leonard of this aversion, and their sexual relations seem to have been rare. Before marriage Virginia Stephen was closely attached to her sister Vanessa – loving her almost to the point of <thought-incest> –, and was deeply involved platonically with Madge Vaughan, a daughter of John Addington Symonds, and Violet Dickinson, to whom she wrote an enormous number of letters. Throughout her life, Woolf was to draw emotional sustenance from her intense relations with other women.
Her first novel, The Voyage Out (1915), concerns the trip of a young Englishwoman to South America, followed by her engagement and death there. While this novel was conventional in form, Jacob’s Room (1922) joined the mainstream of innovative modernism through its poetic impressionism and indirection of narrative development. After this work, which marks her real beginning as a literary artist, Woolf secured her place in modernism by a series of carefully wrought books. Mrs. Dalloway (1925) blends interior monologue with the sights and sounds of a single day in central London. To the Lighthouse (1927) explores the tensions of the male-female dyad in the form of a holiday trip of Mr. and Mrs. Ramsey. Its fantastic form notwithstanding, Orlando (1928) is of great personal significance, tracing the biography of the hero-heroine through 4 centuries of male and female existence. This book is a tribute to, and portrait of, her lover Vita Sackville-West, whom she had met in 1922. Woolf’s most ambitious novel is probably The Waves (1931) which presents the contrasting personalities of 6 characters through a series of <recitatives> in which their inner consciousness is revealed.
Shortly after completing her last book, Between the Acts (1941), she suffered a final bout of mental illness and drowned herself in a river near her country home. The posthumous publication of Virginia Woolf’s Letters and Diaries have revealed some unattractive aspects of her personality: she was xenophobic and snobbish, sometimes given to expressions of personal malice, as well as anti-Semitic and homophobic sides. Yet she participated wholeheartedly in the Bloomsbury ethic of individual fulfillment and social enlightenment. Her use of stream-of-consciousness techniques, and other sophisticated literary devices, places her very near the front rank – if not within it – of modernist writers in English.
With the general decline of the Bloomsbury ethos in the middle decades of the century, Woolf’s reputation seemed to fade. In the 1970s, however, feminist critics hailed her as a major champion of then-cause. There is no doubt that A Room of One’s Own (1929), and its sequel, Three Guineas (1938), are powerful pleas for women’s creative independence. Yet her own feminism was fluid and variable, and thus not easily accommodated to present-minded uses. Throughout her life she struggled valiantly against mental illness, succeeding in building up an imposing corpus of writings while expressing her own emotional feelings in her deep relationships with women.”
WORKING CLASS, EROTICIZATION OF
“One of the reasons why Walt Whitman had such an impact on English homosexuals of this period was that his praise of democracy was (mis)understood in large part as a veiled plea for such prince-and-pauper liaisons.”
Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”
Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.
Na série que envolve as obras provavelmente inautênticas (identificadas pelo prefixo (Pseudo) no título), dou minha opinião pessoal ao final, contextualizando o escrito face à obra platônica canônica.
(*) “Eis aqui uma doutrina que vale bem pouco, sobretudo se se a coteja com as expostas n’O Político, A República e As Leis.”
“Descobrimos o que é são e insalubre pela medicina; e o que pensam os deuses, como referem os adivinhos, pela adivinhação, porque a arte em si é um descobrimento. Não é assim?”
“O AMIGO – (…) a lei em geral é a resolução do Estado.
SÓCRATES – Então para ti a Lei é uma opinião do Estado.
O AMIGO – Com certeza.”
“SÓCRATES – (…) Há homens a quem chamam sábios?
O AMIGO – Sim.”
“SÓCRATES – E não há resoluções boas e más?
O AMIGO – Há, sim.
SÓCRATES – Mas a Lei não pode ser má!
O AMIGO – Certamente que não.”
“SÓCRATES – O que é uma boa opinião? Não é aquela fundada sobre a verdade?
O AMIGO – Exato.
SÓCRATES – E a opinião fundada na verdade, não seria um descobrimento da realidade?
(…)
O AMIGO – Sendo a lei o descobrimento da realidade, como se explicaria, Sócrates, que não sejamos governados todos pelas mesmas leis nas mesmas circunstâncias, após descobrirmos o real?
SÓCRATES – A Lei sempre é o descobrimento da realidade. Se os homens não se governam sempre pelas mesmas leis, como parece que sucede, consiste isso em que não são sempre capazes de descobrir o objeto da lei, a realidade. Mas examinaremos agora se se deve admitir como certo que nós tivéramos sempre a mesma lei ou se acaso ela mudara, e se todos os povos têm as mesmas leis ou se as têm diferentes.”
“O AMIGO – (…) Entre nós não há lei que ordene imolar homens aos deuses; antes, tê-lo-íamos por franca impiedade. Os cartagineses, no entanto, imolam vítimas desta classe e entre eles se considera a imolação de gente uma prática piedosa prescrita pelas leis, chegando alguns mesmo a sacrificar os próprios filhos a Cronos, conforme creio que já escutaste.”
“Mas na nossa pátria mesmo não deves tu ignorar as leis que se observavam outrora com respeito aos funerais; não era aguardado o enterro do cadáver a fim de imolar as oferendas aos deuses, bem como fazer entrar as mulheres encarregadas das libações. E em época ainda mais remota enterravam os mortos nas suas próprias casas.”
“SÓCRATES – Quem dentre os antigos reis é tido por excelente legislador, cujas leis subsistem ainda hoje, tão perfeitas elas são?
O AMIGO – Confesso que não sei.
SÓCRATES – Não sabes qual é o povo grego das leis mais antigas?
O AMIGO – Falas dos espartanos, ou então de Licurgo?
SÓCRATES – Não, estas leis que citaste não têm mais que 300 anos, talvez um pouco mais. As melhores leis, não sabes realmente donde derivam?
O AMIGO – Bom, fala-se que em Creta há ótimas leis.
SÓCRATES – Sim, os cretenses são, dentre os gregos, os que têm a legislação mais arcaica.
O AMIGO – Encontramos a resposta!
SÓCRATES – E sabes quem foram os melhores reis de Creta? Não foram Minos e Radamanto, filho de Zeus e Europa, os mesmos que criaram as leis de que falamos?
O AMIGO – Dizem, Sócrates, que Radamanto foi um homem justo; mas de Minos dizem que foi feroz, mau e injusto.
SÓCRATES – Essa é uma fábula ou uma tragédia de Atenas, meu querido amigo.
O AMIGO – Como?!? Pois não é isso que se fala de Minos?
SÓCRATES – Pelo menos não é o que se encontra nem em Homero nem em Hesíodo, que são, decerto, muito mais dignos de fé que todos esses forjadores de tragédias de quem tomaste tais noções!”
“Homero, falando de Creta, de seus numerosos habitantes e de seus noventa distritos,¹ assim discorre:
Entre estes está
Cnossos, o grande distrito,
Onde Minos
Reinou nove anos
Em familiaridade com
O grande Zeus.”
¹ Na versão de Azcárate, Creta é “país” e os 90 distritos são “cidades”; mas, como o que mais se aproxima, em termos de dimensões geográficas, da noção intraduzível de polisno mundo modernosãonossas cidades, creio que não só não prejudique como auxilie o entendimento fazer esta transposição de escala.
“O fato de que Homero não concedera a nenhum de seus heróis esta mesma honra (a de ser instruído por Zeus em pessoa) constitui um elogio admirável. No descenso aos ínferos na Odisséia, Minos é quem Homero apresenta julgando com um cetro de ouro nas mãos, e não Radamanto.”
“viver em familiaridade com alguém é escutá-lo. (…) Alguns supõem que familiar de Zeus quereria dizer algo como comensal ou companheiro de jogo ou de pândega, enfim. Mas eis aqui uma prova da falsidade dessa concepção. Em todo o mundo, considerando seja gregos, seja bárbaros, não há homens como os cretenses e os espartanos, que aprenderam o hábito dos próprios cretenses, os maiores abstêmios dos prazeres da mesa e dos prazeres etílicos que se conhece. Uma das leis de Minos em Creta foi: proíbe-se beber em sociedade até a embriaguez.”
“SÓCRATES – (…) Radamanto também era homem de bem, porque se educou com Minos. (…) Essa conexão é a real origem de sua celebridade como excelente juiz. Minos nomeou-o guardião das leis na região urbana de Cnossos, enquanto que em todo o território restante de Creta revestiu como ocupante das mesmas funções a Talos. Talos percorria três vezes por ano todos os povos da ilha, velando pela execução das leis, que conservava gravadas em tábuas de bronze, o que granjeou-lhe o apelido de Talos o de Bronze.¹”
¹ É como se Pseudo-Platão quisesse historicizar a mitologia grega: Talos é descrito nas lendas como um gigante de bronze, que inclusive teria seu ponto de vulnerabilidade no tornozelo (relação paralela com Aquiles). O Sócrates deste diálogo insinua que <aumentaram> mas não <inventaram> nada: ao invés de um gigante físico feito de bronze que guardava a ilha de Creta como um cão de caça supereficaz, era um homem culto e bom, legislador, que viajava pela ilha carregando placas de bronze com seus bons preceitos.
“Hesíodo fala basicamente o mesmo de Minos:
Era o rei mais real dentre todos os reis mortais.
Reinou sobre toda a multidão de gente que o rodeava.
Com o cetro de Zeus na mão.
E com este cetro governava os Estados.(*)
O cetro de Zeus não é outra coisa, no léxico de Hesíodo, que a educação que Minos recebeu deste deus, e que permitiu-lhe governar Creta com tanta sabedoria.
O AMIGO – Mas, Sócrates, como se explica essa tradição universal que representa Minos como homem ignorante e cruel?
SÓCRATES – Isto é para servir-te de advertência, se te consideras prudente; e para servir a qualquer cidadão que estime sua própria reputação: DEVE-SE EVITAR A INIMIZADE COM OS POETAS EM GERAL. Eles controlam a opinião das gentes e a memória dos povos, pelo simples elogio ou crítica de homens do seu tempo. Minos cometeu um único erro, e um erro grave: fez guerra a Atenas, atraindo a inimizade de todos os poetas da nação, principalmente dos autores de tragédia, que aqui floresciam como em nenhuma outra parte. A tragédia é inominavelmente antiga entre nós. Não começa, como se diz, com Téspis nem com Frínico,(**) senão que, se prestares atenção, verás que fôra descoberta nesta cidade numa época muito mais remota. Entre todos os gêneros de poesia, a tragédia é o mais popular e o mais propício para moldar as impressões nos espíritos. Fazendo Minos aparecer como tirano no teatro, os atenienses se vingaram dos tributos que obrigou nossa cidade a pagar.”
(*) “Fragmento de obra atualmente perdida.”
(**) “Frínico, menos conhecido que Téspis, inventou o jambo tetrâmetro, muito usado nas tragédias, além de ter introduzido personagens femininas (homens sob máscaras de mulheres, na realidade). Embora toda sua obra se tenha perdido, considera-se-o autor de 9 tragédias, entre as quais uma batizada A tomada de Mileto.”
“SÓCRATES – (…) Suas leis permaneceram indeléveis, como permanecem as de um homem sábio que soubera descobrir em toda sua verdade a arte de governar Estados.
O AMIGO – Tudo que acabas de dizer, Sócrates, parece-me perfeitamente verossímil.”
JULGAMENTO DA AUTENTICIDADE DA OBRA
De novo o interlocutor de Sócrates é um anônimo (O AMIGO), e de novo o autor provável é apontado como Símon, um filósofo ou sofista pós-platônico de quarta ou quinta plana (vide post anterior). A única parte interessante talvez seja o fortuito achado do conceito de descoberta ou desvelamento, se me é permitido o trocadilho – mas não a tese legal aplicada a este caso.
Tradução comentada de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”
Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei oportuno abordar pontos polêmicos ou obscuros. Quando a nota for de Azcárate, um (*) antecederá as aspas.
“Com efeito, a vizinhança do mar é coisa doce e agradável para uma cidade, caso se considere apenas o presente imediato; a longo prazo, torna-se uma circunstância amarga.”
“ATENIENSE – A maioria dos gregos e bárbaros concordaria contigo – já Megilo e eu nos contrapomos a todos vós. Para nós, a vitória terrestre de Maratona foi o fundamento da salvação da Grécia (depois consumada pela vitória de Platéia), e não a vitória naval de Salamina. Guerrear no solo serviu para fazer dos gregos melhores; nem de Salamina nem de Artemísio pode-se dizer que tirou-se tanto proveito para nossa redenção. (…) o mais importante para o homem não é, como se imagina, a existência e a autoconservação, mas o tornar-se tão virtuoso quanto é possível chegar a ser e sê-lo durante toda a vida.” Vontade de Potência em germe.
“a legislação e a fundação de cidades são os elementos mais favoráveis para o alcance da virtude.” Lúgubre inversão milenar…
“lei alguma é obra de mortais: quase todos os negócios humanos, em verdade, estão nas mãos da fortuna. Me parece que se pode dizer o mesmo da navegação, da cosmografia, da medicina, da arte da guerra.”
“CLÍNIAS – Deveras, Estrangeiro? Crês que basta um tirano jovem, moderado, penetrante, de boa memória, valoroso e possuidor de grandes sentimentos, a fim de se criar um bom Estado em que boas leis são estabelecidas e conservadas?”
“ATENIENSE – (…) O segundo cenário mais viável para uma boa legislação seria que se encontrassem dois chefes tais quais aquele que pintei como o chefe perfeito; o terceiro, aquele em que aparecessem três destes. Quero dizer com isso que a dificuldade da empreitada só aumenta à medida que se amplia o número de governantes aptos (…)
CLÍNIAS – De maneira então que pretendes que a situação mais favorável para se chegar a um bom governo é a tirania, quando o tirano é moderado e secundado por um hábil legislador; e que em nenhum outro caso a transição de uma anarquia ou mau governo para o bom governo seria tão ligeira e fácil? (…)
ATENIENSE – (…) Apenas reitero, caro Clínias: considero a opção mais viável uma tirania; no segundo posto situo a monarquia; no terceiro, uma democracia de determinado tipo; no quarto, a oligarquia,¹ que por si só é a menos indicada como meio de dar a luz a um governo perfeito, já que a oligarquia é o sistema com mais governantes.”²
¹ Se é que Platão ainda segue a tipologia exposta n’A República, a oligarquia é a aristocracia arruinada. Veja nota abaixo.
² Caberia um questionamento de grande monta, para o qual eu necessitaria de mais investigações: teriam as desilusões biográficas de Platão alterado a olhos vistos a filosofia platônica, a ponto de termos uma hierarquia, n’As Leis, totalmente remodelada e contrastante com a d’A República (obra cronologicamente anterior)? Ou este efeito de matiz e alteridade (embora às vezes pareça tão severo quanto o contraste luz-sombra) é meramente calculado e intencional, devendo ser entendido com auxílio de uma nova roupagem (o contexto com que o próprio Platão adorna o diálogo)? De qualquer modo, o dado de que é um personagem apócrifo, oriundo de Atenas, quem dá essa resposta apologética da tirania (e usa o critério do número intransigentemente) não deve ser ignorado. N’As Leis este sábio visa a orientar a legislação de um Estado que será fundado em breve, numa terra antes inabitada, após ser consultado por outros doutos em comitiva. N’A República, Sócrates (mestre incontestável e ilibado) dá seu parecer sobre qual seria o melhor Estado de todos os tempos, nas condições perfeitas, tendo à disposição os melhores homens, e como far-se-ia para que ele perdurasse o máximo de gerações possíveis, o que, se por um lado passa a noção de ser uma tarefa bem mais fácil e criativa, também pode ser encarado como um raciocínio muito mais delicado e abrangente.
Nada se faz do dia para a noite, nada se faz em tempo algum, mas num tempo certo que uma hora sobrevém.
TEIAS E ESPELHOS: O Sócrates platônico. O Platão platônico. O Platão jaegeriano. O Sócrates jaegeriano. O Jaeger platônico. O Sócrates platônico jaegeriano. O Jaeger socrático-platônico. O Platão de Cila. O Sócrates platônico de Cila. O Jaeger de Cila. Platão, Cila, dois pontos, uma reta e o torvelinho. Pseudo-Platão ao meio-dia e o Platão cavernoso que ecoa pela eternidade em minha consciência fugaz.
“Segundo dizem, Nestor superava todos em temperança e moderação, até mais que na eloquência, na qual já era mestre. Tamanho prodígio foi revelado aos homens, segundo a lenda, durante o sítio de Tróia. Em nossos dias nada se lhe assemelha.”
“Cronos, convencido de que nenhum homem teria capacidade de governar seus iguais com autoridade absoluta sem ao mesmo tempo recair na licenciosidade e injustiça, estabeleceu como chefes e reis, nas cidades, não homens, mas inteligências de uma natureza mais divina e insólita que a nossa, ou seja, demônios, de modo que éramos em relação a eles o que os rebanhos quadrúpedes são em relação a nós.”
“Deus é a justa medida de todas as coisas, muito mais que o homem, de qualquer homem que estivermos falando. Destarte, nenhum meio há de se fazer amado por Deus senão esforçar-se em ser a sua imagem e semelhança.”
“é preciso convencer-se de uma vez que todos os bens que se possui pertencem àqueles de quem se recebeu o nascimento e a educação, e que convém consagrá-los sem reservas a seu serviço, começando pelos bens supérfluos, seguidos pelos do corpo, e por fim consagrando-lhes os da alma; pagando-lhes com juros os cuidados, sufocos e tribulações que nossa infância lhes causou noutro tempo, redobrando nossas atenções aos velhos conforme as debilidades da idade as tornam mais e mais inevitáveis. (…) De modo que é preciso ser compassivo com a cólera do idoso, fazer pouco caso de seus ressentimentos, manifestem-se eles por palavras ou ações, e desculpá-lo de todo, ao deliberarmos que um pai que se sente ofendido pelo filho tem o direito legítimo de com ele se irritar.” “Vivendo dessa forma, receberemos dos deuses e dos seres de natureza mais perfeita que a nossa a recompensa de nossa piedade, e passaremos a maior parte de nossa existência tomados pelas mais doces esperanças.”
“quando um poeta está sentado no tripé das Musas¹ não é dono de si mesmo. Semelhante a uma fonte, deixa correr tudo que está alojado em seu espírito. E sua arte, que não é mais que imitação, ao descrever os homens em situações opostas, se vê obrigada muitas vezes a dizer o contrário do que antes dissera, sem saber de que lado se encontra a verdade. Mas com o legislador não é assim: suas leis não podem falar de dois jeitos diferentes sobre uma mesma coisa; eis um texto que se expressa numa só unidade.”
¹ Assento do oráculo: significa que o que sai da pena do poeta enquanto ele não é um simples homem, mas está possuído pelo espírito das Musas, nada tem a ver com o indivíduo, é coisa divina e automática, por assim dizer, de uma perspectiva antropológica. Supera a nossa própria condição frágil e limitada – mas não podemos sustentar esse estado senão por breves momentos em nossas vidas (e isso falando-se dos raros indivíduos que recebem esses dons especiais dos deuses).
“Problema: nosso legislador deverá fazer anteceder cada lei por um preâmbulo, isto é, uma cabeça;¹ ou bem deverá expressar do modo mais sucinto e direto possível aquilo que se deve fazer e aquilo que se deve evitar?
¹ O caput dos juristas.
“Todo mundo está obrigado a casar entre os 30 e os 35 anos. O que não o fizer será punido com multas e desonras.”
“A duração do gênero humano é a mesma que a do tempo; os homens sucedem-se sem interrupção, bem como um ano sucede ao outro, porque essa é sua forma de anelar à imortalidade, de modo que uma geração passa o bastão a outra, e a espécie é sempre a mesma. Todo homem carrega o pecado,¹ embora a humanidade seja inocente. A fim de compreender-me, analisai, primeiro, pelo ângulo dos indivíduos: nenhum animal tem vida eterna, todos envelhecem, passam, desaparecem, aniquilam-se; analisai, em segundo lugar, pelo ângulo das espécies: tudo subsiste, tudo é permanente e imutável.”
¹ O original de Azcárate é “Es un crimen en todo.” Minha opção de tradução se justifica pela linha que Platão segue fielmente em todos os livros d’As Leis. O mais proeminente nesta obra, em seu conjunto, é que Platão se tornou uma fonte indispensável para a religião cristã e seus dogmas. Dou-me esta liberdade “antecipatória”, portanto.
O grego antigo não possuía a idéia de pecado comum a virtualmente todo monoteísmo. Por outro lado, Platão se situa quase no fim da cultura helênica, e contribui com sua derrocada e com criação de uma nova cultura, internacional. A Atenas decadente de seu tempo já não tinha forças para se regenerar; quanto ao homem, como entidade universal, talvez a única forma de reinventar-se fosse modificando-se metafisicamente, já que uma volta ao passado seria inconcebível. Além do mais, em Platão qualquer “volta ao passado” teria de ser para tempos pré-homéricos, pois nem mesmo o apogeu da era heróica dos gregos encaixa-se em seu ideal de paideia (educação).
Uma versão menos “cristófila” seria: “Todo homem carrega a expiação / Todo homem expia por igual”, já que a seguir Platão fala da inevitabilidade da morte. Então por que não usá-la? Porque expiação já está suficientemente carregada de conotações cristãs, e no fim a percepção do leitor seria quase a mesma…
Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.
Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.
“ATENIENSE – Para se descobrir a origem de algo, o método mais simples e seguro é aquele que apura as transformações que sobrevêm sucessivamente às coisas (aos Estados, em nosso caso), não importa se para o bem ou para o mal.”
“Diz-me: és capaz de computar o tempo que faz que se fundaram as primeiras sociedades, e que os homens vivem sob leis? (…) Sem dúvida que se trata de época já muito remota, perdida no infinito.”
“Reza a lenda que o gênero humano foi destruído diversas vezes por dilúvios, pragas e acidentes que-tais, dos quais na realidade se salvavam sempre alguns poucos indivíduos.” “Os sobreviventes imediatos do último dilúvio não duvidavam que antes deles já havia transcorrido milhares e milhares de anos; e sem dúvida assumimos que não faz nem mil ou 2 mil anos que se produziram as descobertas atribuídas em mitos a Dédalo, Orfeu e Palamedes; que Mársias e/ou Olimpo inventou(aram) a flauta; que Anfião inventou a lira; trocando em miúdos, é como se todos esses nomes legendários tivessem nascido ontem mesmo.” “A tudo o que deveio recentemente, portanto, é que podemos atribuir aquilo que vemos hoje: as sociedades, os governos, as artes, as leis, os vícios e as virtudes.”
“A metalurgia é uma arte que foi inventada, esquecida e perdida, e depois reinventada, uma série de vezes. Os instrumentos desta arte perecem em pouco tempo, e no entanto logo esta técnica e esta sabedoria voltam a ser necessárias para os homens.” “Durante este hiato de esquecimento da metalurgia, até mesmo as guerras e as discórdias ficam, por assim dizer, hibernadas.”
“Noutros tempos não havia a menor carência de um legislador; assim que um se faz necessário, nascem as leis. Nos tempos sem esta necessidade o homem sequer conhece a escrita; bastam-lhe os costumes e as tradições orais.”
“Estes homens não conheciam outro governo senão o patriarcal. Vestígios disso continuam a haver entre gregos e bárbaros indistintamente. Homero diz a certa altura que este era o governo dentre os ciclopes: <Entre eles, não se delibera em assembléia, não existe administração nem justiça. Vivem em cavernas profundas no cume das mais altas montanhas,¹ e ali cada um dá a lei a sua mulher e a seus filhos, ignorando seus vizinhos.>”
¹ Uma curiosa antítese, tão poética quanto carregada de significados concretos… O mais elevado e o mais rebaixado. O celeste e o infernal. O supremo do inatingível. Pense-se num pico, inalcançável pelas populações pacíficas da superfície, que apenas em seu píncaro possui uma abertura para um precipício avassalador, que aloja estes proto-homens, caolhos, grotescos e bélicos, porém apenas lá em seu fundo imperscrutável até para a imaginação mais florescente; uma cidade povoada, funda e subterrânea o bastante para, mesmo que seus habitantes sejam monstros gigantes, impedir que qualquer um em seu seio possa escalar rumo ao exterior da caverna e evadir. Qualquer evocação do sétimo livro da República a esta baixíssima altura não seria apenas curiosidade de pé de página…
“MEGILO – Lemos muito Homero, e o consideramos superior a todos os outros poetas, ainda que os costumes que descreva sejam mais de estirpe jônia que espartana.”
“Durante este longo período que durou o sítio de Tróia, na pátria da maioria dos sitiadores, em sua ausência, ocorreram grandes males, incluindo revoltas dos jovens que cresciam sem os pais; estes jovens que não tinham idade para ir à guerra receberam bastante mal os vencedores, quando de seu regresso ao seio familiar; por todo lado o único assunto nas polis da confederação dos vitoriosos eram as mortes, assassinatos e desterros que aí se seguiram. Mas os desterrados, a velha geração, conseguiram recuperar o poder à força e deixaram de ser conhecidos apenas como aqueus – estes foram os dórios, e assim se batizavam porque seu líder se chamava Dório. Diria que é aqui que começa a história grega.”
“Existe uma recomendação hipócrita que se faz aos legisladores: que as leis que eles criam sejam tais que o povo e a nação a elas possam se submeter voluntariamente. É como pedir a um médico que cure as doenças sem infligir o menor grau de sofrimento aos pacientes; ou a um mestre de ginástica que desenvolva o corpo de seu alunado proporcionando apenas práticas suaves e agradáveis a ele.”
“Por mais igualitárias que tenham podido ser as primeiras constituições das polis, os legisladores não mexeram no núcleo da questão mais espinhosa, o que, se feito, impossibilitaria seus projetos de governar e unir os povos. A saber: abolir as dívidas de todos e repartir a terra de forma totalmente igual entre os cidadãos, eis o que jamais ousaram fazer. Um legislador pode ousar em outros aspectos impunemente, mas no momento em que demonstrar o menor interesse na divisão igualitária das terras, encontrará a mais ferrenha oposição.”
“Os dórios criam estar suficientemente garantidos, enquanto país, dado o equilíbrio de forças tripartite que se estabeleceu internamente entre suas maiores polis: três reis irmãos entre si, filhos de Hércules; e havia um exército já muito superior àquele que sitiou Tróia.”
“ATENIENSE – Mas tanto poder, um poder que se imaginava sólido, ruiu de uma hora para outra. De todo aquele poder não restou senão uma pequena parcela, que hoje é Esparta, que desde aquela época até a nossa nunca cessou de fazer a guerra às outras duas potências dóricas; e pensar que se se formasse uma liga entre as 3, naqueles tempos, teriam sido invencíveis!
MEGILO – Concordo.”
“De certa maneira, podemos concordar que há duas classes de constituições políticas primordiais: monarquia e democracia. A monarquia, entre os persas; e entre nós, atenienses, a democracia; ambas representam todo o desenvolvimento possível das classes. Quase todas as demais constituições são como que composições e mesclas destas duas. É absolutamente imprescindível que um governo tome leis e preceitos de uma e de outra, se sua meta máxima for a liberdade, a cultura e a concórdia” “Os persas e os atenienses se separaram desse meio-termo, que haveria de proporcionar-lhes largas vantagens. Uns optaram por levar ao extremo os direitos da monarquia; os outros, o amor à liberdade. Este termo-médio se conservou melhor em Creta e em Esparta.”
“Dario não era filho de rei nem havia recebido uma educação afeminada e voluptuosa, Viu-se dono do império persa com o consentimento dos outros seis candidatos ao trono. Dividiu então a Pérsia em 7 regiões, configuração cujos vestígios ainda podemos notar. Em seguida promulgou leis acima de si mesmo, a fim de administrar seu império sendo o primeiro dos administrados. Não deixa de ser uma espécie de igualdade possível na monarquia. Fixou a distribuição que seu antecessor Ciro havia prometido aos persas; consolidou a união do império e favoreceu o comércio.”
“Depois de Dario, assumiu Xerxes, educado, tal qual Cambises, na pompa e no fausto da côrte. Ó Dario! Pode-se acusar-te sem receios de não teres reconhecido a falta que cometera Ciro, quando destes a teu filho a mesma educação que Ciro consentira em dar ao seu. Xerxes teve então um destino mais ou menos igual ao de Cambises. Desde esta época a Pérsia não teve reis verdadeiramente grandes, a não ser no nome. Não tem a ver com sorte, mas com a vida afeminada e voluptuosa que vivem de ordinário os filhos dos reis e dos ricos.”
“Quando aconteceu dos persas ameaçarem os gregos, quiçá com o propósito em mente de invadir logo depois toda a Europa, os atenienses sustinham ainda a antiga forma de governo, a da distribuição dos cargos públicos conforme os 4 censos em que estava estratificada a população. Reinava certo pudor em todos os espíritos, e esse pudor fazia desejarmos viver sob o império de nossas leis. Ademais, o formidável aparato do exército persa que nos ameaçava tanto com a invasão por mar quanto por terra, tendo infundido o terror em todos os corações, aumentou a submissão às leis e aos magistrados. (…) Dez anos antes do combate naval de Salamina, Datis veio à Grécia com um numeroso exército – enviado por Dario, que declarou guerra aos atenienses e eritréios, os quais desejava escravizar –, sabendo que, se não cumprisse as exigências de seu rei, sua cabeça estaria a prêmio.”
“Por terra não contavam com o auxílio de nenhum povo da Magna Grécia, afinal, recordando o ocorrido na primeira invasão persa, quando da ruína da Eritréia, sabiam que não havia possibilidade de qualquer espírito de união entre os helenos. Por via marítima, atacados por uma frota de mil navios, quiçá mais, tampouco vislumbravam qualquer salvação. (…) compreenderam por fim que seu único refúgio estava em si mesmos e nos deuses.”
“sem este temor incutido no coração de todos os atenienses, não haveria também nenhuma unidade de propósito, nem chance de que partissem resolutos em defesa de seus templos, das tumbas de seus antepassados, de seus parentes e amigos”
“Nossa música se encontrava, antigamente, dividida em muitas espécies e formas particulares. As súplicas dirigidas aos deuses formavam a primeira espécie de canto, e foram chamadas hinos. A segunda, de caráter diametralmente oposto, se chamava treno (lamentações). As peãs (cantos em honra de Apolo) constituíam a terceira. E, creio eu, o ditirambo a quarta, forma de celebrar o nascimento de Dionísio. A todo canto, de qualquer espécie que fosse, se dava antigamente o nome de lei. Mas, para distinguir essas das outras leis, as leis do direito, chamou-se-as então de <leis de alaúde> (laudatórias). Uma vez estabelecidos esses tipos de canto (não descarto que houvesse mais espécies que as que citei), não mais era possível modificar sua melodia. Eles canonizaram-se na forma. Os silvos e os clamores da multidão, os apupos e aplausos, não eram, então, como hoje, juízes da boa observância das regras, nem carrascos encarregados de castigar os cantores avessos à norma. Essa tarefa competia a homens versados na ciência da música, os quais ouviam silenciosos até o final, e portavam uma vara, que fustigava os jovens que ultrapassassem os limites do decoro”
“Os poetas foram os primeiros que com o tempo introduziram a desordem e a indignidade no canto das Musas. Não por lhes faltar gênio; mas, conhecendo mal a natureza, o que significa conhecer mal as verdadeiras regras da música, abandonaram-se a um entusiasmo insensato e se deixaram carregar demasiado longe pelo sentido do prazer. Confundiram os hinos e os trenos, as peãs e os ditirambos; imitaram com o alaúde o som da flauta; e, mesclando tudo, chegaram, em sua extravagância, até a imaginar que a música não possui beleza congênita”
“foi uma conseqüência necessária que os teatros, mudos até aí, levantaram também a voz, como se fossem entendidos em música, para sair criando e hierarquizando categorias dentro desta arte! E foi outra conseqüência necessária que o governo ateniense, de cariz aristocrático, se converteu, para sua própria desgraça, em teatrocrático! Em que pese toda a decadência da música, o mal não teria sido tão nefasto, caso a democracia se houvesse estendido apenas aos homens livres; mas, varrendo tudo que encontrava, a desordem da música afetou toda a coletividade dos seres;¹ cada qual crendo-se árbitro competente de toda as criações, um espírito generalizado de independência contaminou a polis. Cada um pensando muito de si próprio fez desaparecer a modéstia e o pudor, e disseminou a impudência. E a pior de todas as impudências é aquela que se origina de uma independência desenfreada e consiste em levar a audácia ao cume: até o ponto em que o juiz leigo atropela, com seu juízo torpe, todos os outros juízos dos entendidos em estética.”
¹ Não é simples questão de ranço ao gosto do “populacho”, como se diria hoje em tempos de indústria cultural e cultura de massa: com estas afirmações, Platão quer dizer: os escravos, menos-que-homens, é que passaram a ditar a moda em Atenas.
“imitam e renovam a audácia dos antigos titãs; e, tal como eles, hão de terminar nos suplícios de uma existência horrível, uma vida que nada é senão uma cadeia inquebrantável de males.”
“Em resumo, dissemos que o legislador deve propor 3 coisas na instituição de suas leis, a saber: o reino da liberdade, da concórdia e da cultura no âmbito do Estado.”
“CLÍNIAS – (…) Ajudai-me a filtrar, em tudo o que discursáramos, os elementos essenciais a fim de que construamos, por entendimento mútuo, uma cidade como se nós mesmos a cimentássemos com nossas mãos, conforme nossas disposições mais íntimas. Através deste procedimento, chegaremos à descoberta do que tanto buscamos neste simpósio, sem desconsiderar que este plano me servirá como pedra fundamental da nova cidade que me incumbiram de fundar.”
Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.
Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.
“Terei de dizê-lo, muito embora me penalize dirigir tais palavras contra Homero, por quem desde criança nutro o maior respeito e afeição, o que como que amortece minha língua neste momento; pois sem dúvida que Homero é o mestre e chefe de todos estes belos poetas trágicos, alvos principais de minha crítica. Persisto em meu desígnio, na certeza de que a reputação de um só homem não deve falar mais alto que a consideração que devemos ter para com a verdade.”
“Muita vez são os míopes que percebem os objetos antes que os de vista aguda e penetrante.”
“– Este maior de todos os artífices possui o talento não só de esculpir todos os móveis como também o de criar as obras da natureza, todos os seres vivos e, como direi, até se faz a si próprio! E não cessa aqui: faz a terra, o céu, os deuses, tudo o que há no céu e sob a terra, no Hades.
– Vejo que discorres sobre um artista verdadeiramente admirável!”
“Querido Homero, se é certo que és um artista distanciado em três graus da Verdade, incapaz de fabricar outra coisa senão aparências (porque tal é a definição que demos do imitador); se ocupas, no lugar, a segunda ordem; se conheceste o que pode melhorar ou piorar os Estados e os particulares, diz-nos enfim: que Estado te deve a melhora da própria constituição (Esparta deve-o a Licurgo; numerosos Estados, grandes e pequenos, devem-no a tantos outros)? Que país fala de ti como de um sábio legislador e se vangloria de haver tirado proveito de tuas leis? A Itália e a Sicília evocam Carondas; nós temos Sólon; mas onde está o povo que clama <Homero!>?”
“– Distinguiu-se por essas múltiplas invenções úteis nas artes ou nos demais ofícios que são próprios de um homem sábio, como se conta até de Tales de Mileto e do cita Anacársis?¹
“Escuta, para depois julgar. Sabes que até os mais razoáveis, quando ouvimos recitar passagens de Homero ou de qualquer outro poeta trágico, em que se apresenta um herói angustiado, deplorando sua sorte num largo monólogo, prorrompendo em gritos e se dando golpes no peito, sabes, repito!, que naquele ato percebemos um vivo prazer, que deixamos nos embalar inadvertidamente, e exaltamos o talento do poeta que nos transporta com mais força a este estado.
– Sei-o bem; como não?
– E no entanto já pudeste observar que em nossas próprias desgraças presumimos o exato contrário: seria o ideal poder mantermo-nos firmes e tranqüilos, como convém à condição humana, abandonando às mulheres estas mesmas lamentações que aplaudimos no teatro!
– Sim, observei-o muito bem.
– Diz-me: será justo isso? Aprovar com entusiasmo em outros uma condição que não consentiríamos que se desse conosco mesmos? Envergonhando-nos se porventura nos assemelháramos a tais personagens, e, simultaneamente, gozando e celebrando – em vez de sentir repugnância! – quando se dá com terceiros?”
“– …depois de haver conservado e até agravado nossa suscetibilidade mediante a contemplação dos maus alheios, é difícil moderar a sensibilidade conosco mesmos.
– Tens razão.
– Não diremos outro tanto acerca do cômico? Se tu manifestas um prazer excessivo em ouvir palhaçadas sobre o que em ti mesmo te envergonharia ao invés de produzir teu riso, mas que tratas como ridículo quando escutas vindo de uma terceira pessoa, deixando neste momento de detestar tais condutas como más, ainda que seja no teatro em vez de em meras conversas privadas acerca de entes conhecidos, todo o processo de identificação que se dá com as emoções patéticas¹ irá, seguro, se repetir. Ao desejo de fazer rir, antes reprimido pela razão, serão soltas as rédeas. Antes temias passar por bufão ou histrião, mas, agora, alimentados esse desejo e essa propensão para a comédia, eles se tornarão predominantes em tua alma! O início é mais hesitante, mas em breve o homem não terá qualquer resquício de pudor diante dos demais, até ver-se convertido num farsante de carteirinha. Um comediante profissional.
– E o pior é que estás coberto de razão, Sócrates!”
¹ Trágicas, sérias, graves, capazes de causar abalo ou comoção. Palavra de origem grega que se perverteu para nós.
“em nosso Estado não podemos admitir outras obras de poesia além dos hinos aos deuses e das odes aos heróis”
“procuraremos não recair na paixão que por ela (a poesia) sentimos em nossa juventude, e de cuja influência não se livra fácil o comum dos mortais”
“– Pode se chamar <grande> aquilo que se passa num pequeno espaço de tempo? O intervalo que separa nossa infância de nossa velhice é bem curto comparado à totalidade do tempo.
– Com efeito pode-se dizer que nada é.
– E não crerias absurdo se um ser imortal se devotasse a contemplar e se preocupar com espaços de tempo tão efêmeros ao invés de dirigir seu olhar à eternidade?
– Crê-lo-ia absurdo. Mas a propósito de quê vem essa afirmação tão súbita?
– Não sentes que nossa alma é imortal e que jamais perece?
Ao ouvir estas palavras, olhando-me atônito, disse:
– Não, por Zeus! Podes prová-lo?”
“Se encontramos na natureza uma coisa a que um mal pode tornar miserável, embora não possa dissolver nem destruir, desde este instante não é factível assegurar que esta coisa não poderá perecer?” “Mas é evidente que uma coisa que não pode perecer nem por seu próprio mal nem por um mal estranho deve necessariamente existir para sempre!”
“se o número de seres imortais se fizesse maior, esses novos seres se formariam daquilo que é mortal e se decompõe”
“– Não me concederás também que o homem, querido pelos deuses, só deveria esperar deles bens, mas que às vezes recebe males como expiação de faltas cometidas em vidas passadas (muitas delas não-humanas)?
– Assim o creio.”
“E quanto aos injustos, defendo que, ainda quando desde muito tenros já tenham aprendido a dissimular o que são, na sua maior parte acabam por desvelar sua natureza hora ou outra até o final de suas vidas; os injustos, em geral, colhem na velhice o ridículo e o opróbrio que plantaram durante toda a vida (…) afirmo que serão açoitados e submetidos ao tormento; numa palavra, imagina-te que escutas de minha boca todos os gêneros de suplício concebíveis.”
“Não vou contar uma estória de Alcínoo, que é comprida e maçante.¹ É a simples história dum homem puro de coração, Er o Armênio, originário da Panfília.² Dez dias após uma batalha cruel e sangrenta, onde encontraram pilhas de cadáveres, o seu era o único intacto pela ação do tempo. Conduzido a seu lar para as cerimônias fúnebres, ao décimo segundo dia, já prestes a ser deposto nas chamas, o destino de todos os defuntos, volveu à vida de repente, e referiu aos circunstantes tudo o que havia visto <do outro lado>. Segundo Er, no momento em que sua alma saiu do corpo, juntou-se a uma infinidade de outras almas em um sítio fantástico; havia duas aberturas na terra e mais duas no céu, neste lugar, estas alinhadas com aquelas, de modo que pareciam possuir alguma relação. Entre os dois pares estavam sentados vários juízes. Assim que pronunciavam sua sentença, os juízes mandavam os justos seguirem por uma das vias que conduziam ao céu, à direita, não sem antes marcar suas costas com uma insígnia que confirmava seus destinos bem-aventurados; os injustos, por sua vez, eram obrigados a seguir à esquerda, por uma das vias telúricas, e também recebiam um selo, desta feita condenatório. Nele, registravam-se todas suas más ações. Quando chegou a vez de Er ser julgado, de súbito os juízes mudaram de idéia, e decidiram que era preciso que alguém retornasse e levasse aos vivos as notícias do que se passava neste além-mundo, e ele fôra o escolhido. Comandaram que passasse mais tempo por ali, escutando e observando atentamente tudo o que acontecia ao seu redor. (…) Er viu que das segundas aberturas (pois, lembre-se, havia duas aberturas para cada destino desta viagem, mas só a primeira de cada par era usada para os que se iam após o julgamento) voltavam outras tantas almas, umas das profundas, outras do paraíso (…) Estas almas que estavam de regresso se detinham no caminho para conversarem calmamente entre si, referindo sua jornada, parecendo peregrinos numa feira, que se reviam depois de uma longa pausa. As que vinham da estrada da terra se exprimiam com gemidos e lamúrias, despertados pela recordação de mil anos, o tempo total que passavam no refúgio subterrâneo. As que vinham do retiro celeste só tinham deleites e prazeres para narrar. (…) Er escutou um diálogo que lhe chamou a atenção: contavam o destino de Ardieu, célebre tirano panfiliano do milênio anterior. Ardieu matara seu próprio pai, já bastante idoso, bem como seu irmão mais velho, sem falar que cometera muitos outros crimes aberrantes e atrozes. <Ele não volta, nem hoje e nem nunca!>, é o que se disse a seu respeito. (…) Acudiram alguns homens selvagens, que pareciam feitos de fogo. De imediato conduziram, por coerção, algumas das almas presentes, as piores dentre elas. Ardieu estava entre elas. Seus pés e suas mãos foram amarrados, e a cabeça imobilizada. Depois de derrubados brutalmente, foram esfolados em castigos contínuos, em seguida arrastados para fora da trilha, sobre urzes, que logo se conspurcaram de sangue. Os <homens de fogo> explicaram às almas que apenas testemunhavam aquele tratamento o porquê deste suplício direcionado às almas criminosas incorrigíveis; contaram também que após esta série de sofrimentos elas seriam arremessadas no Tártaro, o abismo do Hades.”
¹ Odisséia, Capítulos 9 a 12.
² Na Ásia.
“A virtude não tem dono. Cada qual participa dela conforme a honra ou a despreza. Cada qual é livre para agir, porque Deus é inocente.”
“Diz-se que a alma de Orfeu escolhera reencarnar como cisne devido ao rancor e ódio que nutria pelas mulheres, que o chacinaram na outra vida. Orfeu tinha horror à idéia de ser engendrado de novo em um útero de mulher. Diz-se também que a alma de Tamiras escolheu reencarnar como rouxinol. Diz-se também que uma alma de cisne optou por voltar na forma de humano, bem como muitos outros animais cantores. Outra alma, após o fim da última vida, escolheu a condição de leão na próxima. E sabem quem era esta alma? Ájax, filho de Telamon. Pesaroso das guerras armadas entre os homens, recusou-se obstinadamente a repetir a vida de guerreiro. Dizem também que a alma de Agamêmnon, igualmente dissaborosa quanto à existência humana depois de todas as desgraças que lhe sobrevieram neste mundo, optou por reencarnar como águia.”
(*) “Epeu, filho de Panopeu, foi quem construiu o cavalo de madeira que os aqueus usaram para invadir Tróia.”
“Como eu referira, havia almas de animais que foram promovidas a humanos, ou promovidas ou rebaixadas a outras espécies animais, segundo a vida que viveram; os animais injustos reencarnavam como animais selvagens; os justos, como animais domésticos.”
Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.
Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.
“O primeiro tipo de governo, e também o mais elogiado, é aquele em vigor em Creta e em Esparta. O segundo tipo, que ocupa outrossim o segundo posto em fama e reputação, é a oligarquia, governo exposto a um grande número de vícios. O terceiro tipo, oposto por inteiro ao segundo, é a democracia. Em seguida vem a <gloriosa> tirania, que se sobressai sobre todos os outros três tipos no quesito <enfermidades que podem contaminar um Estado>.”
“Procuremos, desta feita, explicar como podem surgir a aristocracia e a timocracia.¹ Não é certo que, em geral, as trocas de todo governo político se originam no próprio partido que governa, assim que nele se suscita alguma cisão, e que, por pequeno que se suponha este partido, enquanto mantenha em seu seio a harmonia, é impossível que inovações possam tomar conta do Estado?”
¹ Timocracia ou timarquia: Trata-se da forma de governo deixada sem nome atribuída logo acima a Creta e Esparta, os melhores tipos “mundanos” de governo (enquanto não se puder atingir a República ideal). Este nome caiu em desuso a despeito da obra platônica, e no dicionário português hoje é considerado depreciativo (governo viciado em honrarias). É difícil diferenciá-lo, ademais, do conceito de aristocracia, se não se recorrer à própria exposição platônica. Atrelar esse tipo de Estado unicamente à disciplina bélica seria um estereótipo inaceitável, quase equiparar esta forma de governo ao que consideramos (muito influenciados pelos helenos, aliás) os governos dos “povos bárbaros”. Como se perdeu a noção de valor não-corrompida pela própria degradação da noção de valor, realmente seria uma contradição caso essa nomenclatura fosse intuitiva e apreendida de forma imediata.
“O natural do Estado estabilizado não é o movimento; porém, como tudo o que nasce está destinado a perecer, este, como qualquer outro sistema de governo, não pode durar indefinidamente. Não só a planta que nasce do seio da terra, mas também a alma e o corpo dos animais que vivem sobre essa mesma superfície, sofrem mudanças do estado fértil ao infértil e vice-versa. Cada espécie está submetida a um ciclo ou revolução periódica, terminando e recomeçando sem cessar sua trajetória de vida. O que diferencia uma espécie da outra é tão-somente a duração desse ciclo.(*)”
(*) “Nesta passagem platônica, denominada pelos comentadores como <o discurso das Musas>, ou <discurso do número nupcial>, faz-se referência a um número para o qual parece impossível encontrar qualquer sentido racional, e cuja obscuridade tornou-se até proverbial. Alguns autores calculam-no como sendo 12.960.000, o que corresponderia ao número de dias do <grande ano> astronômico (36 mil anos de 360 dias).
“Mesclando-se o ferro com a prata e o bronze com o ouro, resultam a inconveniência, a irregularidade e a desarmonia, defeitos que, onde quer que apareçam, engendram sempre a inimizade e a guerra.”
“Uma vez produzida a dissensão, as raças de ferro e de bronze tratavam de enriquecer materialmente e adquirir cada vez mais terras, edificações, ouro e prata, ao passo que as raças de ouro e prata, ricas de natureza, jamais estando desprovidas, buscavam conduzir a alma à virtude e fazer perdurar a constituição primitiva. Depois de muitas lutas e violência recíproca, convieram em dividir as terras e as casas, destinando como escravos ao cuidado de suas terras e casas o restante dos cidadãos, a quem consideravam mais como homens livres, propriamente, espécies de amigos e provedores de seu sustento, continuando eles mesmos a guerra e provendo a segurança comum.”
“Do regime anterior, herdarão o respeito aos magistrados, a aversão típica dos guerreiros à agricultura, ofícios manuais e profissões lucrativas, bem como conservarão o costume dos banquetes públicos e o cuidado da prática de exercícios ginásticos e militares.
Aquilo que essa nova configuração teria de próprio não seria, então, o temor de elevar os sábios às primeiras dignidades, porque já não se formarão em seu seio os caracteres de uma virtude simples e pura, senão apenas elementos compósitos? Daí deriva que elegerão para os postos de comando espíritos mais fogosos e simplórios, nascidos sobretudo para a guerra, não para a paz; supervalorizarão as táticas e ardis de combate; andarão sempre armados.”
“Entregues em segredo a todos os prazeres, ocultar-se-ão da lei, como um filho pródigo sói ocultar-se do pai; e tudo isto graças a uma educação fundada não na persuasão, mas na força, que despreza a verdadeira Musa, a que preside à dialética e à filosofia, e por haver-se preferido a ginástica à música.”
“Terá às vezes por pai um homem de bem, cidadão de um Estado mal-governado, cidadão este que foge das honras, dignidades e magistraturas e de todas as moléstias que os cargos carregam consigo. Enfim, este cidadão prefere perder direitos a sofrer tais males.”
“Não devíamos explicar, agora, como a timocracia se converte em oligarquia?”
“A cota (o rendimento patrimonial) que se requer a fim de se participar da casta que comanda é mais ou menos elevada, conforme o grau do princípio oligárquico em voga (se muito acentuado ou não), e está proibido àqueles cuja renda não alcance o patamar assinalado aspirar aos cargos públicos.”
“Nos Estados oligárquicos a desordem é estimulada, porque uns possuem riquezas imensuráveis enquanto outros se vêem reduzidos à miséria definitiva.”
“SÓCRATES – Mas acaso não há a seguinte distinção, meu querido Adimanto: que Deus quisera que os zangões alados houvessem nascido sem ferrão, enquanto que entre os zangões de dois pés alguns o têm, e aliás pungente além do normal?”
“Nada é mais veloz e violento no jovem que a transição da ambição à avareza.”
“O avaro é aquele que põe as riquezas acima de tudo em questão de acumulação, mas não valoriza proporcionalmente seu dispêndio. Já viste que o avaro usa o mínimo possível de recursos naturais que tem à mão? Priva-se do que é humanamente possível e por intermédio da ganância ilimitada acaba por dominar seus próprios desejos, reputando-os insensatos.”
“– Sabes para onde deves dirigir teus olhos a fim de enxergar os desejos maléficos dos homens?
– Onde?
– Para esses conselhos tutelares de órfãos ou qualquer outro lugar ou associação de pessoas onde é-se livre para agir de forma má.
– Tens razão, Sócrates,
– Não é evidente que, se em outros negócios gozam de boa reputação pela aparência de homens justos, os maus sempre contêm seus desejos insidiosos e sua imprudência violenta o quanto a necessidade lhes permite, em caráter temporário, passando a manifestá-los somente onde ninguém pode zelar pela virtude nem pela conduta mais racional nem puni-los com a perda dos bens de que desfrutam em vida?
– Isso é absolutamente certo.
– Mas quando a questão é dissipar os bens de outrem, aí, por Zeus!, nestes homens serás capaz de enxergar distintamente desejos que mais parecem pertencer a zangões.
– Estou convencido a este respeito.
– Um homem assim estará sujeito a fortes rebeliões dentro de si mesmo; como que haverá dentro de si dois homens diferentes, cujos desejos lutarão para prevalecer. De praxe, a parte melhor subjugará a outra.
– Temo que sim.
– E é por isso que vês que, em aparência, estes vilões terão aspecto de moderados e donos de si próprios, mais até que em comparação a muitos homens bons que não conseguem ocultar seus (menores) defeitos. Mas sabe tu que a verdadeira virtude, capaz de produzir a harmonia e a unidade, ainda seguirá longe de habitar na alma destes homens dissimulados.
– De fato.”
“Este homem, portanto, aparece no dia-a-dia à maneira oligárquica, isto é, menos poderoso do que pode ser; assim, ele sairá derrotado muitas vezes diante dos olhos do público, mas, como o que nele predomina é a avareza, seguirá sendo rico, e eis o que lhe importa.”
“Tudo isto faz com que haja no Estado indivíduos dotados de ferrões, uns oprimidos pela dúvida, outros despojados de seus direitos e alguns padecendo de ambos ao mesmo tempo; mas o que é certo é que todos esses sujeitos-zangões estão em perpétua hostilidade contra aqueles que ficaram ricos pondo a mão em suas fortunas, sem escrúpulos de consciência; em hostilidade também para com o cidadão comum, que é bem diferente dele; o que o zangão quererá, no fim, será promover uma revolução.
– Disseste-o bem.
– E enquanto isso lá se vão os negociantes na rua, de cabeça baixa, pensando só em si mesmos e no próprio lucro; os comerciantes são outros zangões, que ferem com o aguilhão do dinheiro todos que estiverem indefesos a seu alcance; e quanto mais prevalecem os interesses mercantis no Estado, mais se vêem zangões e pobres.”
“– Que espécie de lei poderia tentar remediar o mal nesse Estado?
– Na falta de remédio melhor, uma que caberia seria aquela que forçasse o cidadão a preocupar-se com sua virtude. Vê: se os contratos voluntários se celebrassem por conta e risco exclusivos do prestamista,¹ a usura se exerceria com menos descaro e este mal da avareza não proliferaria tanto.”
¹ Platão quer dizer: o Estado nada terá que ver com esta dívida; não usará sua força de polícia, mandando prender, castigar ou executar devedores. A possibilidade do calote será inerente ao ato de empréstimo. O particular que emprestou dinheiro que resolva o problema sozinho, e quem busca fazer justiça com suas mãos deverá se preparar para a legítima defesa de seus alvos.
“os ricos, sendo assim, nenhum motivo têm para desprezar os pobres. Pelo contrário: um pobre, adelgaçado e amorenado de tanto se expor ao sol, quando cotejado com o rico, educado, pálido e gordo, em meio à guerra, no momento em que ambos defendem sua polis, parece mais ser digno de inveja do que lastimado, exibindo uma espécie de alegria secreta estimulada pelo sofrimento e pesar, ao passo que o rico ao menor esforço já se encontra exausto!”
“O governo se faz democrático quando os pobres, obtendo a vantagem sobre os ricos, degolam alguns deles, desterram outros, repartem com os que foram poupados os cargos da administração; quinhão que, aliás, nestes governos, costuma-se determinar por sorteio.”
“– Não serão, antes, homens livres num Estado repleto de liberdade e franqueza, e não terá cada um a liberdade de fazer o que lhe der na veneta?
– Se tu dizes…
– Mas onde quer que impere essa licença, é claro que cada cidadão dispõe de si mesmo e escolhe a seu bel prazer o gênero de vida que mais lhe agrada!
– É evidente.
– Portanto, será este o regime com mais diferenciações de classes.
– Como não?
– E eis que, em verdade, esta forma de governo tem a aparência de ser a mais bela de todas, e não deixa de desencadear um efeito admirável essa diversidade prodigiosa de caracteres, exatamente como as flores bordadas que fazem ressaltar a beleza de uma pintura. Bom, pelo menos será a forma mais bela de governo para aqueles que julgam as coisas como as mulheres e as crianças quando se admiram com as mais tresloucadas misturas de objetos.”
“Se quisera alguém formar um plano de Estado, como fizemos até aqui, nada mais teria de fazer senão trasladar-se a qualquer Estado democrático, pois aí se encontra um mercado em que se vendem características de todos os regimes existentes.”
“E, julgando à primeira vista, não é bastante cômodo e agradável não ser-se obrigado a desempenhar um cargo público, ainda que se possua os méritos requeridos? Não estar submetido a nenhuma autoridade, em caso de não querer; escolher se vai ou não à guerra; e estar em guerra e discórdia, ainda que os outros estejam em paz, bastando para isso desejá-lo; poder ser juiz e magistrado, por mais que a lei proíba o exercício dessas funções, caso a isso se ambicione?”
“– Ah, com que magnífica indiferença se pisoteiam todas essas máximas – sem mesmo se dar ao trabalho de examinar qual foi a educação dos que gerem a coisa pública! E que empenho, na contramão, em acolher e honrar os políticos que lisonjeiam a plebe e se declaram amigos do povo!
– Um nobre regime, sem dúvida, tsc!
– Tais são, e não só!, as características da democracia: um governo extremamente cômodo, sem mando algum”
“O desejo por toda sorte de comidas e quitutes e temperos, desejo reprimível, mediante uma boa educação desde a mocidade, desejo daninho ao corpo e à alma, à razão e à temperança, não deve ser compreendido com razão entre os desejos supérfluos?”
“Algumas vezes sucede da facção democrática ceder ante a oligárquica, e então certos desejos são em parte destruídos e em parte arrancados d’alma, em decorrência de um pudor que é despertado no jovem, que através desse acidente reentra nas sendas no saber.
E no entanto, devido à má educação que recebeu de seu pai, novos desejos, mais fortes e numerosos, sucedem aos que haviam sido exilados.”
“Eis aí quando voltam a se juntar aos comedores de lótus,(*) sem nem ao menos se envergonharem por isso!”
(*) “Ver o episódio dos <lotófagos> na Odisséia: o fruto que faz perder a memória.”
“encobre-se a fealdade com os nomes mais preciosos: a insolência vira <boa educação>; anarquia vira <liberdade>; devassidão vira <magnificência>; desfaçatez vira <valor>.”
“– Carpe diem! O primeiro desejo a aparecer é o primeiro a ser cumprido. Hoje tem desejo de se embriagar ouvindo canções báquicas? Fá-lo. E amanhã lhe ocorre de jejuar e nada beber senão água. Uma hora gasta as energias na ginástica; na outra põe-se ocioso, despreocupado de tudo. Ora é filósofo, ora <homem de Estado>, sobe à tribuna, fala e age sem saber o que fala e o que faz. Num dia inveja a condição dos guerreiros e alista-se soldado; noutro, vira comerciante, porque tinha desenvolvido inveja dos comerciantes. Em suma, sua conduta é totalmente frouxa e inconsistente; e chama a tudo isso de <vida livre e prazenteira, vida feliz>!
– Ó, Sócrates, parece que pintaste com palavras a vida de um amante da igualdade!”
“– Vejamos, meu querido, agora, como se forma o governo tirânico; tudo indica que se origina das democracias.
– Decerto.
– A passagem da democracia à tirania não se assemelha um tanto à passagem da oligarquia à democracia?
– Não entendo.
– O que na oligarquia se considera o maior bem, e o que, pode-se dizer, é a origem desta forma de governo, é a riqueza; concordas?
– Sim.
– O que causa sua ruína, porém, não é o próprio desejo de enriquecer tornado insaciável, o que causa uma indiferença letal a todas as outras coisas?
– Tens razão.
– Do mesmo modo, a causa da ruína de uma democracia é o desejo insaciável do que ela vê como seu maior bem.
– E que bem é esse?
– A liberdade. Num Estado democrático ouve-se por todos os cantos que a liberdade é o mais precioso dos bens e, por isso, o homem que nasceu livre sempre escolherá ali fixar sua residência.
– De fato, Sócrates, isso se ouve muito nas ruas.
– Mas não é justamente esse amor desenfreado à liberdade, acompanhado invariavelmente da mais extremada indiferença a tudo o mais, o que leva à decadência inelutável deste regime, despertando, por assim dizer, a tirania?
– Explica esta etapa melhor, Sócrates.
– Quando um Estado democrático, devorado por uma sede ardente de liberdade, é governado por maus escanceadores,¹ que derramam a bebida chamada liberdade pura, enchendo as taças e fazendo todos os convivas beberem copiosamente até a embriaguez. Daí em diante, o bêbado que pede mais e mais, caso não creia que o governante é liberal o suficiente com seu quinhão de liberdade, acusa e castiga qualquer <inimigo da liberdade> que não queira fazê-la jorrar; estes são considerados os maiores traidores da pátria e são tachados de reacionários, que desejam voltar aos tempos de oligarquia e restabelecer privilégios exclusivos.
– Não posso tirar nem pôr de nada do que disseste.
– E com igual desprezo tratam aqueles que ainda mostram algum respeito e submissão aos magistrados, atirando-lhes na cara que os magistrados para nada servem; que, em si, todo servidor público não passa de um escravo voluntário. Neste ponto, o homem típico exalta, seja na vida pública ou na vida privada, a igualdade suprema, quando magistrados não podem estar num patamar superior ao do cidadão comum. Num Estado tal, não deveria ser uma regra a extensão da liberdade total a todo e qualquer um?
– Ora, Sócrates, absolutamente!
– Não penetrará a anarquia no seio das famílias; não se alastrará mesmo até o reino animal?
– Não entendo o que acabaste de dizer!”
¹ Termo em desuso: quem serve vinho; mal e mal poderíamos adaptar para “garçom” ou quiçá “mordomo” nesta frase.
“os professores temem e bajulam seus alunos; estes ridicularizam seus mentores e responsáveis. (…) Os velhos, por sua vez, condescendentes com os jovens, tornam-se jocosos e piadistas, a fim de imitar suas maneiras, temendo passar por caracteres demasiado altaneiros e despóticos.
Mas sem dúvida o abuso mais intolerável que a liberdade introduz na democracia é os escravos de ambos os sexos não serem menos livres que aqueles que os compraram. Ah, quase me esquecia de descrever o grau de liberdade e igualdade que alcançam as relações entre o homem e a mulher!”
“são os animais domésticos mais livres neste governo que em nenhum outro. As cadelas, como diz o provérbio, ficam parecidas com as donas; e os cavalos e asnos, acostumados a caminhar de cabeça erguida e sem reverência, não seriam os primeiros a dar licença, num caminho estreito.”
“não se pode incorrer num excesso sem se arriscar a cair no excesso contrário.”
“– É evidente, pois, que é dessa estirpe de protetores (populistas) que nasce o tirano, dela e somente dela.
– Nada mais indiscutível.
– Mas por que o <protetor do povo> começa a se fazer tirano? Não seria porque começa a fazer parecido com o que dizem que se passava na Arcádia, no templo de Zeus Liceu?
– E o que é que dizem que ali se passava?
– Dizem¹ que quem ali comia entranhas humanas, mescladas com os restos de outros sacrifícios animais, se convertia logo em lobo. Nunca ouviste falar disso?
– Já, sim.
– De forma afim, quando o protetor do povo vê que este se encontra completamente submisso a suas vontades, empapa suas mãos no sangue dos seus próprios concidadãos. Utiliza-se de acusações caluniosas para se livrar de seus oponentes nos tribunais corrompidos, fazendo-os ser condenados sem fundamento, banhando sua língua de déspota e sua boca imunda com o sangue de seus irmãos, valendo-se da lei do exílio e das forjas e correntes. Propõe a abolição das dívidas e uma reforma agrária. Não seria uma necessidade, neste caso, para um tal caráter, perecer nas mãos dos inimigos ou, se quiser sobreviver, tornar-se tirano do Estado, convertendo-se no lobo do homem?”
¹ Não é somente uma lenda de Platão ou mera crença popular tirada do vazio, ou pelo menos são dados compartilhados por outros autores, como Pausânias, livro 7.
“O exilado de hoje é o tirano de amanhã.”
“Se nem mesmo a classe no poder inteira consegue banir ou incapacitar seu adversário, muito menos condená-lo à morte, acusando-o como <inimigo do povo>, é natural pensar que atentarão contra sua vida nas sombras.
O homem ambicioso que já houver chegado a tal extremo aproveitará a ocasião para fazer ao povo uma petição. Pedir-lhe-á uma guarda pessoal, destinada, afinal, a proteger o protetor do povo!”
“Quando as coisas já chegaram a esse ponto, todo homem que possui grandes riquezas – e que por essa razão passa por inimigo do povo – toma para si o oráculo dirigido a Creso: foge seguindo o rio Hermos, de leito pedregoso, e não teme o rótulo de covarde.(*)”
(*) “Ver Heródoto para mais detalhes.”
“o protetor do povo destrói à esquerda e à direita todos aqueles de quem desconfia, para depois se declarar tirano abertamente.”
“E não sorri graciosamente a todos que encontra, logo nos primeiros dias de sua dominação? E não diz que, nem de longe, sonha em ser tirano? Não faz as mais pomposas promessas em público e em particular, perdoando todas as dívidas, repartindo a terra entre o povo e os seus favoritos, e tratando todo mundo com benevolência e mansidão?”
“– …e tem o cuidado de conservar sempre algumas sementes de guerra para que o povo sinta a necessidade de um chefe.
– É natural.
– Principalmente para que os cidadãos – empobrecidos pelos impostos de guerra – só pensem nas suas necessidades diárias, sem tempo para conspirar contra ele.
– Obviamente.
– E também faz isso, creio eu, para ter um meio seguro de desfazer-se dos de coração demasiado altivo para que se submetam a sua vontade, expondo-os aos ataques do inimigo.”
“– O problema é que semelhante conduta só pode torná-lo mais e mais odioso ao cidadão.
– E não me estranha!
– E alguns daqueles que ajudaram em sua ascensão, os dotados de mais autoridade depois dele mesmo, não se dirigirão a ele e não falarão entre si com demasiada liberdade sobre o que se passa, tratando inclusive de censurá-lo? Isto é, penso eu que ao menos os mais atrevidos o farão.
– Imagino que sim.
– E então é preciso que o tirano se livre deles caso queira reinar tranqüilo; sem distinguir amigo de inimigo, ele faz com que desapareçam todos os homens possuidores de algum mérito.
– Isso é evidente.”
“Faz justamente o contrário dos médicos, que purgam o corpo excretando o mal para conservar o bem.”
“Vês que ele vive premido sem trégua pela necessidade de perecer ou então viver ao lado da canalha, e é inevitável que a canalha o aporrinhe bastante!”
“– Ao formar sua guarda pessoal, um expediente que sói usar é recrutar escravos, a quem assegura que serão livres assim que o ajudarem a matar seus senhores.
– E faz muito bem, já que tais escravos lhe seriam inteiramente fiéis.
– Vês como é feliz a condição do tirano, que se vê obrigado a destruir cidadãos e a estabelecer a amizade com escravos, daqui em diante seus fiéis servidores!”
“É com razão que se exalta a tragédia como uma escola de sabedoria, particularmente as de Eurípides, não achas? Porque Eurípides cunhou esta profunda máxima: os tiranos se fazem sábios mediante o trato com os sábios. Com isso ele quis dizer que os que compõem sua sociedade são muito espertos!
– Reconheço que Eurípides e os outros poetas qualificam a tirania como <divina> em muitas passagens de suas obras.
– Mas como os poetas trágicos são, eles também, sábios, não perdoarão que em nosso Estado, e em todos aqueles governados segundo os nossos princípios, recuse-se admiti-los no governo, uma vez que não passam de bajuladores!”
“– Chamas ao tirano <parricida> e <perverso inimigo da velhice>? Mas eis que essas palavras resumem a tirania! O povo, querendo evitar a servidão dos homens livres, acaba sucumbindo ao despotismo dos próprios escravos. Vê-se, então, que a subserviência mais dura e mais amarga é a conseqüência lógica e natural de uma liberdade excessiva e desordenada: a escravidão sob um bando de escravos.”
Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.
Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.
“- Pois bem, um homem que está persuadido da existência do Hades e que é horrível, poderá deixar de temer a morte? Poderá preferi-la em combate a uma derrota e à escravidão?
– Impossível.”
PREFIGURAÇÕES SINISTRAS DAS CALDEIRAS DE LIVROS? “Conjuremos a Homero e aos demais poetas a não levarem a mal que apaguemos de sua obra essas passagens. Não é porque não sejam demasiado poéticas e não satisfaçam o ouvido do público; mas, quanto mais belas são, tanto mais são perigosas para as crianças e para os homens que, destinados a viver livres, devem preferir a morte à servidão.”
“Apaguemos também estes nomes odiosos e formidáveis de Cócito, Estige, Ínferos, Manes¹ e outros semelhantes, que fazem tremer aos que os escutam.”
¹ “1. Sombras ou almas dos mortos; 2. Deuses infernais do paganismo; 3. [Figurado] Memória dos antepassados. <manes>, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/manes [consultado em 23-06-2019].”
“Com razão é que suprimimos nos homens ilustres as lamentações, e reservamo-las às mulheres, e ainda assim não às mais dignas dentre elas, nem aos homens vis”
“- Tampouco será conveniente que se sintam inclinados à hilaridade. Risos em excesso dão lugar quase sempre a uma alteração também violenta.
– Assim também o creio.”
“Somente os magistrados supremos terão o poder de mentir, a fim de enganar o inimigo ou os cidadãos pelo bem da república.”
“Não consintamos, pois então, que aqueles que são objeto de nosso cuidado e para quem é um dever chegar a ser homens de bem se comprazam, já varões, no imitar uma mulher, seja jovem ou velha, uma casada briguenta ou orgulhosa, que pretenda se igualar aos deuses, jactanciosa de sua suposta felicidade, ou que se abandone em desgraça a queixas e lamentações. Ainda menos imitarão a adoentada, a apaixonada ou a que sofre das dores do parto.(*)” “Deve-se conhecer os dementes e os homens e mulheres maus, porém não se os deve imitar nem com eles parecer-se.”
(*) “No teatro grego, todos os papéis, tanto masculinos quanto femininos, eram desempenhados por homens.”
“Em nosso Estado daremos guarida a esses 3 tipos de narrativa ou só admitiremos uma ou outra das simples ou das mistas?”
“- Me parece, meu querido amigo, que tratamos a fundo esta parte da música que corresponde aos discursos e às fábulas, posto que falamos do que há que dizer e da forma de dizê-lo.
– Concordo contigo.
– Resta-nos falar desta outra metade da música que diz respeito ao canto e à melodia, certo?
– Ó, é evidente.”
“- Quais são as harmonias lastimosas? Diga-mo, já que és músico.
– A lídia mista, a lídia tensa¹ e outras semelhantes.
– É preciso, por conseguinte, suprimi-las como más, não só para os homens, mas também para aquelas mulheres que se gabam como sábias e moderadas.
– Totalmente de acordo.”
¹ Modalidades nascidas na Lídia, Ásia.
“- Quais são as harmonias moles e usadas nos banquetes?
– Algumas variedades da jônica e da lídia, consideradas harmonias relaxantes.
– Podem ser de algum uso para os guerreiros, meu querido?
– De forma alguma, restando, assim, apenas a dórica e a frígia para utilizar.
– Eu não conheço todas as espécies de harmonia; escolhe uma destas: uma forte, que traduza o tom e as expressões de um homem de coração, seja na peleja, seja em qualquer outra ação violenta, como quando, sem que o detenham as feridas nem a morte ou estando imerso na desgraça, espera, em tais ocasiões, com firmeza e sem se abater, pelos azares da fortuna; outra mais tranqüila, própria das ações pacíficas e completamente voluntárias de alguém que tenta convencer um outro de alguma coisa, com súplicas se é um deus, com advertências, se é um homem; ou que, ao contrário, se rende a suas súplicas, escuta suas lições e seus ditames, e que pelo menos nunca experimenta o menor contratempo, e que, enfim, longe de se envaidecer de seus triunfos, conduz-se com sabedoria e moderação e está sempre contente com sua sorte.”
“- Tampouco teremos necessidade de instrumentos de numerosas cordas nem da técnica pan-harmônica em nossos cantos e em nossa melodia, correto?
– Não, sem dúvida.
– Nem sustentaremos fabricantes de triângulos, de plectros¹ e outros instrumentos de cordas numerosas e de muitas harmonias?
– Não, ao que parece.
– Mas consentirias então em receber em nossa república os construtores e tocadores de flauta? Não equivale esse instrumento justamente aos que têm o maior número de cordas? E os que reproduzem todos os tons, são algo senão imitações da flauta?
– São equivalentes da flauta, com efeito.
– Assim, não nos restam mais que a lira e a cítara para a cidade, e para os campos o pífaro,² que será utilizada pelos pastores.
– É evidente, após tudo o que dissemos.
– Além do mais, meu querido amigo, não faremos nada extraordinário se dermos preferência a Apolo sobre Marsias,³ e aos instrumentos inventados por este deus aos do sátiro.
– Não, por Zeus!”
¹ Palheta
² Ou pife ou pífano. As principais fontes citam sua origem como indígena, ou pelo menos ligada a comunidades suíças do século XIV, portanto seria um instrumento da idade moderna apenas; mas, pela descrição de “siringa” no dicionário, trata-se virtualmente do mesmo objeto: uma flauta mais simples, feita de tubos de cana, bambus ou ossos ocos, e portanto muito antigo.
³ Entidade mitológica. Devido a sua presunção em julgar-se melhor músico que Apolo, recebe uma cruel punição divina (uma morte penosa).
“todas as medidas se reduzem a três tipos, assim como todas as harmonias resultam de quatro tons principais”
“Creio tê-lo ouvido falar algo confusamente acerca de certo metro composto que se chamava enoplio,¹ de um dátilo² e um heróico,³ e que se compunha, não sei como, igualando a parte tônica com a átona4 e terminando em sílabas longas ou breves; ademais, formava outro que se chamava iambo,5 creio eu, e não sei qual outro chamado troqueu,6 que se compunha de longas e breves.”
¹ A palavra parece existir só em italiano, celeiro precoce da música clássica; “enóplio” em Português é um inseto. Por falta de conhecimento em teoria musical, deixo no original, acrescentando o itálico que não havia na versão de Azcárate. Descreve o movimento rítmico que vai da sílaba breve à longa. Lembrando que, no contexto do diálogo platônico, não se trata só de música, mas algo mais amplo: pode se referir simplesmente à métrica utilizada por um poeta; normalmente o poeta se apresentava no teatro, ou um ator apresentava o poema escrito, sendo a voz humana, aliás, um instrumento musical em si, e dos mais complexos e versáteis.
² Uma sílaba longa + 2 breves; nesta ordem.
³ Normalmente associado a composições de versos decassílabos.
4 Ou “tonal e atonal”.
5 Sílaba átona sílaba tônica
6 Sílaba tônica sílaba átona (ou ainda “coreu”).
“o ritmo e a harmonia estão feitos para as palavras, e não as palavras para o ritmo e a harmonia.”
“- Não vês que os atletas passam a vida dormindo, e que, por pouco que se separem do regime que se lhes prescreve, contraem perigosas doenças?
– Já o observei.
– Necessitamos, pois, de um regime de vida mais flexível para os atletas guerreiros, que devem estar, como os cães, sempre alertas, ver tudo, ouvir tudo, mudar sem cessar, em campanha, de alimento e de bebida, sofrer frio e calor e, em conseqüência, ter um corpo à prova de todas as fadigas.
– Penso igual.”
“Em Homero mesmo pode-se aprendê-lo. Sabes que à mesa dos heróis nunca se servira peixe embora estivessem acampados no Helesponto, nem frituras, só carne assada, alimento cômodo para gente em guerra, a quem é mais fácil fazer fogo que levar consigo utensílios de cozinha.”
“-…as novas palavras <flatulência> e <catarro>.
– Decerto que estas palavras são novas e estrambóticas.
– E desconhecidas, na minha opinião, nos tempos de Asclépio.¹”
¹ Fundador mitológico da medicina.
MODERNIDADE: MELHOR VIVER DOENTE
“Que caia doente um carpinteiro, e verás como pede ao médico que lhe dê logo um vomitório ou um purgante ou, se for necessário, recorra ao ferro ou ao fogo. Mas se lhe prescreve um tratamento muito comprido, à base de gorrinho de lã para a cabeça e outras coisinhas que são moda, dirá bem pronto que não tem tempo para ficar de cama e que prefere morrer que renunciar a seu trabalho a fim de se ocupar do seu mal. Em seguida dispensará o médico e voltará a seu método ordinário de vida, com o qual ou recobrará a saúde cedo ou tarde, dedicado à labuta diária, ou, se o corpo não pode resistir à enfermidade, advirá a morte em seu auxílio e assim se livrará de preocupações.”
“- Em compensação, o rico, segundo se diz, não tem nenhuma classe de tarefas à qual não possa renunciar.
– Isso é o que dizem, ao menos.”
“Não é certo que o primeiro efeito da música é adoçar seu valor, da mesma forma que o fogo abranda o ferro, e afrouxa essa rigidez que antes o inutilizava e o fazia de difícil trato? Mas se se continua entregando a seu feitiço sem se conter, esse mesmo valor desaparece e se derrete pouco a pouco, cortados por assim dizer os nervos da alma” “Sé a alma é fogosa, pelo contrário, sua coragem, ao se debilitar, faz-se instável; o menor motivo a irrita ou acalma, e em vez de fogosa torna-se colérica, irascível, repleta de mau humor.”
“Vós que sois todos parte do Estado, vós – dir-lhes-ei, continuando a ficção – sois irmãos; mas o deus que os formou fez entrar o ouro na composição daqueles que estão destinados a governar os demais, e assim são os mais preciosos. Mesclou prata na formação dos auxiliares, e ferro e bronze na dos lavradores e demais artesãos. Como possuís todos uma origem comum, em que pese terdes, corriqueiramente, filhos que parecem-se convosco, poderá suceder, não obstante, que uma pessoa da raça de ouro tenha um filho da raça de prata, que outra da raça de prata dê a luz a um filho da raça de ouro, e que o mesmo suceda reciprocamente nas demais raças.” “há um oráculo que diz que perecerá a república quando for governada pelo ferro ou pelo bronze.”
“Que comam sentados em mesas comuns, e que vivam juntos como devem viver os guerreiros no campo. Que se lhes faça entender que os deuses colocaram em suas almas ouro e prata divina e, por isso, eles não têm necessidade do ouro e da prata dos homens; que não lhes é permitido manchar a posse deste ouro imortal com a do ouro terrestre; que o ouro que eles têm é puro, enquanto que o ouro dos homens foi em todos os tempos a origem de muitos crimes.”
Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.
Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.
(*) “Os antigos criam que as serpentes se deixavam hipnotizar pelo canto. Vide Virgílio, Éclogas, 8:71.”
“Diz-se que é um bem em si o cometer a injustiça e um mal o padecê-la. E que resulta um maior mal em padecê-la que um bem em cometê-la. Que os homens cometeram e sofreram a injustiça alternativamente; experimentaram a ambas, e tendo todos os homens conhecido o que é sofrer já por bastante tempo, e não podendo os mais débeis dentre eles evitar os ataques dos mais fortes, nem atacá-los por sua vez, creram que era de interesse comum impedir que se fizesse e que se recebesse qualquer mal. Daqui nasceram as leis e as convenções. Passou-se a chamar justo e legítimo o que foi ordenado pela lei. (…) E chegou-se mesmo a amar a justiça, não porque seja um bem em si mesma, mas em razão da impossibilidade em que nos coloca de cometer a injustiça. Porque aquele que pode cometê-la e é verdadeiramente homem não se põe a negociar tratos para evitar que se cometam ou sofram injustiças, e seria isso uma loucura sua, caso negociasse. Eis aqui, Sócrates, a natureza da justiça.”
“Giges era pastor do rei da Lídia. Depois de uma tempestade seguida de violentos abalos sísmicos, a terra se abriu justo no local em que apascentava o seu gado; assombrado diante desta maravilha natural, desceu pela fenda aberta e, entre tudo o de mais estranho que encontrou, viu um cavalo de bronze, em cujo ventre havia, abertas, portinholas, pelas quais enfiou a cabeça para verificar o conteúdo das entranhas do simulacro de animal. O que encontrou foi um cadáver de porte aparentemente superior ao humano. Este cadáver, ademais, estava nu, e só possuía um adorno, um anel de ouro num dos dedos. Giges o tocou e o retirou da mão do cadáver. Posteriormente, havendo-se todos os pastores se reunido em assembléia da forma costumeira, ao fim do mês, a fim de prestar contas ao rei sobre o estado de seus rebanhos, Giges lá compareceu, usando o anel no dedo e sentando-se em meio aos demais pastores. Quando a pedra preciosa do anel, por acidente, girou para o lado de dentro (da palma da mão de Giges), ele se tornou invisível, e então dele falaram como se estivera ausente. Embasbacado com este novo prodígio, Giges girou a pedra de novo para o lado externo, e na mesma hora se fez visível.”
“Decidido, sabendo agora usar seu objeto, tramou para incluir-se entre os da comitiva de pastores que teriam uma conversação privada com o rei. Chegado ao palácio, corrompeu a rainha e com seu auxílio se desfez do rei e se apoderou do trono. Ora, se existissem dois anéis desta espécie, e se um fosse concedido a um homem justo e outro a um injusto, é consenso geral que provavelmente não haveria um só homem de caráter bastante firme para perseverar na justiça e abster-se de se apropriar dos bens alheios, sendo que poderia fazê-lo impunemente: furtar em praça pública, invadir as casas, abusar de quem fôra, matar alguns, libertar outros dos grilhões e, enfim, fazer tudo o que quisera de posse de um poder semelhante ao dos deuses em meio aos mortais. Em nada difeririam, portanto, as condutas de um e de outro: ambas tenderiam aos mesmos fins, e nada provaria melhor que ninguém é justo deliberadamente, mas tão-só por necessidade”
“O grande mérito da injustiça consiste em parecer justo sem sê-lo. É preciso dotar, portanto, o homem perfeitamente injusto da perfeita injustiça sem nada tirar dela, que, assim, mesmo cometendo os maiores crimes, saberia sempre conservar uma reputação de homem de bem; e quando ele desse um passo em falso, saberia sempre remediá-lo a tempo. Seria um homem tão eloqüente que convenceria de sua inocência aos próprios homens que se tornassem vítimas de suas ações e que fossem os seus acusadores; atrevido e poderoso, ora por si mesmo, ora através das amizades, operaria de modo a sempre conseguir pela força o que não poderia obter de outra forma.”
“O justo, dizem, o que é tal como eu o pintei, será açoitado, atormentado, acorrentado, queimar-se-á seus olhos, e, por fim, depois de terem-no feito sofrer toda a classe de males, será empalado, e assim farão compreender que não adianta tratar de ser justo, mas tão-somente de parecer sê-lo.” “enriquece, faz o bem aos seus íntimos, mal aos inimigos, oferece sacrifícios e presentes magníficos aos deuses, atrai a benevolência dos deuses e dos homens com mais facilidade e segurança do que o justo.”
“SÓCRATES – Os pais aconselham a justiça a seus filhos e os professores a seus alunos. E o fazem tendo em vista a justiça em si? Não, unicamente devido à reputação que vai embutida no conceito, a fim de que a reputação de homens justos propicie-lhes dignidades, uniões auspiciosas e todos os demais bens mencionados por Glauco. Mas vão ainda mais longe, e ensinam sobre os inesgotáveis favores e bênçãos derramados de mãos cheias sobre os justos pelos deuses. E citam Hesíodo e Homero (…) Museu¹ e seu filho vão ainda mais longe e prometem aos justos recompensas maiores ainda. Conduzem-nos para o além, no Hades; sentam-nos à mesa, coroados de flores, assegurando que passarão uma existência inteira em festas e banquetes, como se uma embriaguez eterna fosse a mais bela recompensa pela virtude. Segundo outros, estas recompensas não se limitam aos indivíduos. O homem são e fiel aos semelhantes revive em sua posteridade, que se perpetua de era em era.”
¹ Personagem mitológico. Teria criado os mistérios de Elêusis (esta uma das polis gregas), associados ao surgimento do orfismo (lado místico e oculto da religiosidade helena). Teria morrido de causas naturais (de velhice); talvez isso explique nossa instituição moderna do museu que preserva antiguidades artísticas e o dito popular de quem “quem vive de passado é museu”… Muito do que se sabe hoje sobre Museu foi retirado de Virgílio e Pausânias.
“Um único assunto como o dos ritos de sacrifício foi capaz de produzir uma vastidão de livros, entre cujos autores estão Museu e Orfeu, que os fazem descender, um das Musas, e o outro de Selene; e com estes discursos creia tu que não convencem apenas um ou outro, mas cidades inteiras! Estas, assim, pensam poder expiar qualquer culpa dos vivos e dos mortos através de um pequeno número de vítimas e de jogos regulares. Chamam tudo isso de purificações, estes sacrifícios instituídos para nos livrar dos males da próxima vida; e sustentam que aqueles que se isentam destas práticas estão sujeitos aos mais terríveis tormentos no amanhã.”
“Se se me diz que é árduo ao homem mau ocultar-se por muito tempo, responderei que todas as grandes empresas têm suas dificuldades, e que, suceda o que suceder, se desejo ser bem-sucedido, não tenho outro caminho a seguir que não o traçado pelos discursos que escuto. No mais, para escapar das inquirições, pode-se organizar seitas e irmandades. Mestres há que nos ensinarão a arte de seduzir o povo e os juízes com discursos artificiosos. Empregaremos a eloqüência e, na ausência desta, a força, a fim de escapar da punição de nossos crimes. Mas a força e o engodo nada podem contra os deuses. E na hipótese de que não haja deuses ou que eles não se imiscuam nas coisas deste mundo, ainda mais despreocupados ficamos de ludibria-los! Se há, sim, deuses, e eles participam, sim, dos negócios humanos, o fato é que deles só sabemos por ouvir falar, pelo povo, e pelos retratos dos poetas que descreveram sua genealogia; e precisamente estes mesmos poetas nos dizem que é possível aquietá-los e aplacar sua cólera por meio de sacrifícios, votos e oferendas.” “se alguém combate a injustiça, é que a covardia, a velhice ou qualquer outra debilidade tornam-no impotente para fazer o mal.”
“Muito me surpreendi, agradavelmente, dos discursos de Glauco e de Adimanto. Nunca admirei tanto quanto nesta ocasião seus dotes naturais”
“- (…) É quase impossível que um Estado encontre um ponto da terra em que não sejam necessárias as importações.
– É impossível, de fato.
– Também teria necessidade, nosso Estado, de que alguns se encarreguem de ir aos Estados vizinhos buscar o que falta.”
“- Mas no Estado mesmo, como se comunicarão uns cidadãos com outros sobre o fruto de seu trabalho? Porque esta é a primeira razão que tiveram para viver em sociedade e erigir tal Estado.
– É evidente que será por meio da compra e da venda.
– Logo, necessitar-se-á de um mercado e de uma moeda, signo do valor dos objetos trocados.”
“Quer dizer que nossa cidade não pode existir sem varejistas. Não é este o nome que se dá aos que, permanecendo na praça pública, nada mais fazem que comprar e vender, reservando-se o nome de atacadistas¹ aos que viajam e pululam de um Estado a outro?”
¹ Poder-se-ia usar o termo “traficantes”, mas a frase adquiriria duplo sentido. O sentido exato da sentença original não pode ser alcançado em Português, uma vez que para nós negociante, mercador ou comerciante adquiriram status de sinônimos, na prática. Então a oposição varejo-atacado não é exatamente a intenção original, mas não deixa de ser um substituto razoável – há o feirante ou microempresário sedentário e o verdadeiro ambulante, modesto ou opulento; mas fala-se aqui, efetivamente, do segundo tipo, empreendedor com capital suficiente para estabelecer papel em redes mais complexas de trocas.
“É provável que muitos não se dêem por satisfeitos com o gênero de vida simples que prescrevemos. Ainda acrescentarão camas, mesas, móveis de todas as sortes, refeições bem-condimentadas, perfumes, incensos, cortesãs e guloseimas de todas as classes e em profusão.”
“Será necessário aumentá-lo e fazer nele entrar uma multidão de gentes que o luxo, e não a necessidade, introduz nos Estados, como caçadores de todos os gêneros e aqueles cuja arte consiste na imitação por intermédio de figuras, cores e sons;¹ e ainda mais, os poetas, com todo seu cortejo, i.e., rapsodos, atores, dançarinos, empresários. E também fabricantes de artigos de todos os gêneros, principalmente aqueles que trabalham para o público feminino. Também precisaremos de novos servos: afinal, para tanta gente não farão falta aios e aias, amas e camareiras, cabeleireiros, garotos-de-recados, cozinheiros e mesmo porqueiros? No primeiro Estado não havia que pensar em todas essas coisas; mas neste, como passar sem elas? e sem toda classe de animais destinados a atender ao paladar dos gastrônomos?
– Com efeito: como não?
– Mas, com este gênero de vida, não crês que os médicos não se fazem mais necessários que antes?
– Muito mais importantes.”
¹ Pintores, escultores e músicos.
“SÓCRATES – Em decorrência, Glauco, faremos a guerra ou não? Vês alguma outra postura possível?
GLAUCO – Só esta tua.”
“SÓCRATES – Agora é preciso, querido amigo, dar guarida, em nosso Estado, a um numeroso exército que possa sair de encontro ao inimigo e defender o Estado e tudo o que possui das invasões do mesmo inimigo.
GLAUCO – Mas como?!?… Não poderão os próprios cidadãos atacar e se defender?
SÓCRATES – Não, se o princípio em que convimos ao formar o plano do Estado for autêntico. Convimos, para te lembrar, que era impossível que um mesmo homem desempenhasse vários ofícios.
GLAUCO – É, tens razão.”
“Mas estar ansioso por aprender e ser filósofo não são uma e a mesma coisa?”
“Formemos, pois, nossos homens como se tivéssemos tempo para contar estórias.”
“- Os discursos, em tua opinião, são parte integrante da música?
– Sim, assim os creio.
– E há discursos de duas classes, verdadeiros e falsos.
– Sim.
– Uns e outros entrarão igualmente em nosso plano de educação, começando pelos discursos falsos?
– Não compreendo teu pensamento.
– Não sabes que o primeiro que se faz com as crianças é contar-lhes fábulas, e que ainda quando se ache algo de verdadeiro nelas, não são, ordinariamente, mais que um tecido de falsidades?”
“Escolhamos os mitos convenientes e descartemos os demais. A seguir, comprometeremos as amas e as mães a entreter suas crianças com os mitos autorizados”
“…os de Hesíodo, Homero e demais poetas; porque os poetas, tanto os de hoje quanto os dos tempos antigos, não fazem nada senão divertir o gênero humano com falsas narrativas.”
“Acima de tudo, não é uma falsidade das maiores e das mais graves a de Hesíodo quanto aos atos de Urano, a vingança suscitada em Cronos, as façanhas deste e o péssimo tratamento que recebeu este de seu filho por sua vez? E ainda que tudo isso fôra exato, não são coisas que devam se contar na frente de crianças desprovidas de razão; é preciso condená-las ao silêncio; ou, se for preciso falar delas, só se deve fazê-lo em segredo, diante de uma audiência seleta, com a proibição expressa de revelar seu conteúdo aos de fora, e assim mesmo só depois de haver feito cada membro dessa audiência imolar, não um porco, mas uma vítima preciosa e rara a fim de limitar o número dos iniciados.” Não se deve contar o inato: o Complexo de Édipo.
“Pelo menos não se devem ouvir nunca em nosso Estado. Não quero que se diga na presença de um jovem que, cometendo os maiores crimes e até se vingando cruelmente de seu próprio pai pelas injúrias recebidas, alguém deixará de cometer qualquer coisa de extraordinário e assombroso, posto que há o precedente dos primeiros e maiores deuses, que deram o mau exemplo.”
“tampouco falaremos dos combates dos deuses, ou dos laços que havia entre uns e outros; lembre-se que nada disso é seguro. Menos ainda daremos a conhecer, seja em narrativas, seja através de pinturas e tapeçarias, as guerras dos gigantes e todas as querelas que houve entre os deuses e os heróis com seus parentes e amigos mais chegados.”
“Que jamais se ouça entre nós que Hera foi agrilhoada pelo próprio filho e Hefesto atirado do céu por seu pai, por ter desejado socorrer sua mãe quando este a mal tratava”
“ADIMANTO – Dizes coisas mui sensatas, mas se se nos perguntasse quais são as fábulas admissíveis, que responderíamos?
SÓCRATES – Adimanto, nem tu nem eu somos poetas. Nós fundamos uma república, e neste conceito nos cabe conhecer segundo que modelo devem os poetas compor suas fábulas, além de proibir que se separem fábula e autor um dia; mas não nos cabe compô-las.
ADIMANTO – Tem razão; mas o que as fábulas devem nos ensinar com respeito à divindade?
SÓCRATES – De imediato, é necessário que os poetas nos representem Deus tal qual é de todos os ângulos, seja na epopéia, seja na ode, seja na tragédia.”
“Deus, sendo essencialmente bom, não é causa de todas as coisas, como se diz por aí. E os bens e os males estão de tal maneira repartidos entre os homens que o mal domina, Deus não é causa senão de uma pequena parte do que nos acontece e não o é em tudo o mais (na natureza). A Deus só se devem atribuir os bens; quanto aos males, é preciso buscar outra causa que não seja a divindade.”
“Que não se dê confiança a Homero nem a qualquer outro poeta, insensato o bastante para disparatar sobre os deuses e para dizer, por exemplo, que:
Sobre o umbral do palácio de Zeus há dois tonéis,
um cheio de destinos felizes
e outro de destinos desgraçados,
Se Zeus toma de um e outro para um mortal,
Sua vida será uma mescla de bons e maus dias;
mas se toma só de um ou só de outro sem mescla,
uma terrível miséria o perseguirá sobre a divina terra.”
“Não consentiríamos que se dissessem estes versos de Ésquilo¹ diante de nossa juventude:
A divindade faz crescer a culpa entre os homens
quando quer arruinar uma família totalmente.”
¹ Níobe
(*) “Ínaco, drama satírico, atribuído alternadamente a Sófocles, Ésquilo e Eurípides.”
“A mentira, falando com propriedade, é a ignorância, que afeta a alma do que é enganado; porque a mentira nas palavras não é mais que uma expressão do sentimento que a alma experimenta; não é uma mentira pura, mas um fantasma filho do erro.”
“Deus é essencialmente reto e veraz em seus ditos e em suas ações, não muda de forma, nem pode enganar os demais, nem mediante fantasmas, nem mediante discursos, nem valendo-se de signos, seja durante o dia e à vigília, seja durante a noite e em sonhos.”
Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.
Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.
ESCLARECIMENTO INICIAL
O sufixo pejorativo –ismo, entenda-se, não é o aqui utilizado. Para o filósofo grego, a condição homossexual é a característica do homem superior, o único apto a chefiar a sociedade. Portanto, é nesse sentido que o “Homossexualismo” do título deverá ser compreendido: como no Aristocratismo a classe dos aristocratas é a líder, no Homossexualismo platônico os homossexuais detêm o poder soberano e prescrevem as Leis a si mesmos e aos demais. Obviamente, a conotação de “doença” ou “enfermidade” subjacente ao homônimo mais infeliz desaparece, assim, por completo – a homoafetividade masculina é, ao contrário da visão deturpada moderna, o suprassumo do são e do saudável. Tampouco o sufixo –idade seria adequado para expressar essa idéia, uma vez que a Homossexualidade como a entendemos hoje no Ocidente é apenas uma “escolha livre e individual”, nem melhor nem pior que as outras preferências de gênero possíveis no amor; ao passo que, em Platão e nos mestres do saber grego que conhecemos, não havia o que “escolher” ou alteridade(s) a respeitar ou considerar: todo o demais (a mulher, o escravo de ambos os sexos – meros objetos – e o homem hetero ou bissexual – “sujeitos”, porém degenerados) estava sempre escalões abaixo. Não havia traço da noção de isonomia compartilhada pelas democracias contemporâneas.
(*) “Fedro fala como um jovem, mas jovem cujas paixões foram purificadas pelo estudo da filosofia; Pausânias como homem maduro, a quem a idade e a filosofia ensinaram aquilo que a juventude não sabe; Erixímaco se aplica como médico; Aristófanes tem a eloqüência do poeta cômico, ocultando, por debaixo de uma forma festiva pensamentos profundos; Agaton/Agatão se expressa como poeta. Por fim, depois de todos os demais da roda, e quando a teoria já se elevara por graus, Sócrates completa-a, expressando-se numa linguagem maravilhosa, própria de um sábio ou inspirado.”
* * *
“APOLODORO¹ – (…) Sinto imenso prazer e julgo proveitoso o filosofar e o ouvir filosofar, como nada no mundo; já ouvir-vos tratar de vossos interesses, dos ricos e dos negociantes, me mata de fastio.”
¹ Na verdade, O Banquete é um diálogo entre Apolodoro e seu amigo. Ele, que apenas ouviu o relato do banquete de um dos participantes, reconta o ocorrido, revivendo os personagens daquela noite de apologia discursiva do amor. Esta testemunha ocular é Aristodemo. Não confundir este Aristodemo com o descendente de Hércules e herói mitológico. Trata-se de um filósofo pré-socrático, pouco notório. Nunca é demais lembrar que a denominação “pré-socrático”, embora quase sempre proceda cronologicamente, neste caso nos induz a erro. Pré-socráticos podem ter existido mais jovens que Sócrates e contemporâneos de Platão; poderiam ser filósofos de menor repercussão e que insistiam na interpretação cosmogônica ou cosmológica do mundo. Este Aristodemo, mais jovem ou mais velho que Sócrates (não sabemos), venera-o como a um mestre.
“O AMIGO DE APOLODORO – (…) Desconheço por que te deram o apelido de Furioso; conquanto possa ver que algo disso se capta em teus discursos. Sempre te mostras áspero contigo mesmo e com todos, exceto com Sócrates.”
–Aqui inicia o relato do banquete em si e as transcrições das falas das personagens–
“SÓCRATES – Aristodemo, vou me banquetear à casa de Agaton. Recusei-me a comparecer à festa que dava ontem para celebrar sua vitória no concurso, por desagradarem-me salões repletos.”
“SÓCRATES – Segue-me, então, e invertamos o provérbio, provando que um homem de bem pode comer à casa de outro homem de bem sem ser convidado. Com prazer acusaria Homero de haver na verdade adulterado este ditado, e ademais de ter feito dele pouco caso, quando depois de representar Agamenon como grande guerreiro e Menelau como combatente débil faz com que este esteja no festim daquele, sem ao menos ter sido convidado; ou seja, Homero retrata um homem de condição inferior que sem cerimônia se apresenta à mesa do homem superior.”
“lá, já estavam todos à mesa, esperando apenas que fossem servidos.”
“Neste momento, um criado anunciou que encontrara Sócrates de pé no umbral de uma casa vizinha, e que, havendo-o convidado ao banquete, este se recusou.”
“Começamos a comer, e Sócrates não aparecia. A cada momento Agaton instava algum escravo a ir buscá-lo. Eu o preveni de que Sócrates acabaria por cumprir sua palavra, que não tivesse pressa. Enfim, Sócrates entrou, depois de nos fazer esperar, segundo seu hábito, e nós já havíamos comido metade de nossa refeição. Agaton estava só, sobre uma cama no extremo da mesa, e o convidou a sentar-se junto de si.”
“ERIXÍMACO – (…) Uma vez que ninguém aqui deseja exceder-se na bebida, serei menos importuno, ao relatar-vos umas quantas verdades sobre a embriaguez.”
“FEDRO – Ó, Erixímaco! não é admirável que, de tantos poetas que compuseram hinos e cânticos em honra da maior parte dos deuses, nenhum fez o elogio do Amor, que, não obstante, é um deus importante? (…) Li um livro, intitulado Elogio do sal, em que o sábio autor exagerava as maravilhosas qualidades do sal e os grandes serviços que ele presta ao homem. Noutros termos, é raro encontrares coisa que não conste dum panegírico.”
“ERIXÍMACO – Cada um, pois, improvisará da melhor forma que lhe couber um discurso em honra do Amor. A ordem será da esquerda para a direita. Desta forma, Fedro falará primeiro, ainda mais porque era sua intenção desde o início, e toda a idéia deste jogo foi dele. Escutemo-lo!”
(*)“Eumelo e Acusilau, historiadores antigos, segundo refere Clemente de Alexandria, transcreveram em prosa os versos de Hesíodo, publicando-os como obra sua.”
O DISCURSO DE FEDRO
“Na Grécia temos o brilhante exemplo da amorosa Alceste, filha de Pélias: só ela quis morrer por seu esposo; até os pais dele se negaram.”
“Orfeu, filho de Eagro, foi arrojado dos ínferos sem conseguir o que lá fôra pedir. No lugar de lhe devolverem sua mulher, apresentaram-lhe um fantasma, mera sombra de Eurídice, porque apesar de músico excepcional, faltava algum valor a Orfeu. Porque, longe de imitar Alceste, morrendo por quem amava, meteu-se a descer vivo ao submundo. Os deuses, indignados diante de tamanha petulância, castigaram-lhe a covardia, fazendo-o ter uma morte vexatória nas mãos de várias mulheres. Já vês que, pelo contrário, Aquiles muito fôra honrado, este filho de Tétis, recompensado com a ida às Ilhas Bem-Aventuradas.¹ Acontece que, mesmo sua mãe prevenindo-o de que, assim que matasse Heitor seria ele também morto, e de que caso não combatesse voltaria são e salvo à casa paterna, vivendo uma vida muito longa e pacífica, Aquiles não hesitou, preferindo vingar Pátroclo, provando que dava mais valor à amizade que a sua própria vida. Escolheu morrer sobre o cadáver do amigo.”
¹ Homero retrata Aquiles apenas no Hades (Odisséia).
“Ésquilo está de troça quando afirma que o amado era Pátroclo. Aquiles era mais belo, não apenas que Pátroclo, mas que todos os demais heróis. Não tinha ainda barba e era muito mais jovem, conforme Homero mesmo.” “Quem ama possui um não sei quê de mais divino que quem é amado, porque em sua alma habita um deus”
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O DISCURSO DE PAUSÂNIAS
“se não houvesse mais que uma Vênus,¹ não haveria mais que um Amor; mas como há duas Vênus, há necessariamente dois Amores. Quem duvida que existam duas Vênus? Uma, a mais velha, filha do céu, que não tem mãe, que chamaremos simplesmente Vênus Celeste; a outra, mais jovem, filha de Zeus e Dione, que chamaremos de a Vênus popular.”
¹ Azcárate sempre traduz conforme a mitologia romana. Também Afrodite. Nas outras traduções, dei prioridade à nomenclatura grega.
“O amor da Vênus popular é popular (vulgar) também, e só inspira ações baixas”
“uma vez que a Vênus Celeste não nascera de mulher, mas tão-só de varão, o amor que a acompanha só busca aos jovens. Ligados a uma deusa de mais idade, e que, por conseguinte, não tem a sensualidade fogosa da juventude, os inspirados por este Amor só desejam o sexo masculino, naturalmente mais forte e mais inteligente.”
“Seria verdadeiramente desejável uma lei que proibisse amar os demasiado jovens, evitando-se assim gastar tempo com coisa tão incerta; porque quem sabe o que resultará um dia de tão terna juventude? que giro tomarão o corpo e o espírito, e até que ponto se dirigirão? ao vício? à virtude?”
“Não é difícil compreender as leis que regem o amor em outros países, por serem precisas e bem simples. Só mesmo os costumes de Atenas e de Esparta necessitam de explicação. Nas Élides, por exemplo, e na Beócia, onde se cultiva pouco a arte da palavra, diz-se, puerilmente, que é bom dar nossos amores a quem nos ama, e ninguém acha-o um mau conselho, jovem ou velho. É preciso crer que nesses países o amor assim é autorizado para resolver as dificuldades e para se fazer amar sem ter de recorrer aos artifícios da língua, desconhecidos para essa gente. Mas na Jônia e em todos os países submetidos à dominação dos bárbaros tem-se este comércio por infame; proíbe-se igualmente tanto a filosofia quanto a ginástica, os tiranos não suportam ver surgirem, entre os súditos, paixões e amizades nem relações vigorosas, que é o que o amor melhor sabe criar. Os tiranos de Atenas já experimentaram esse tipo de lei em tempos antanhos. A paixão de Aristogíton e a fidelidade de Harmódio transtornaram esse estado de coisas. É claro que, nesses Estados em que é vergonhoso amar a quem nos ama, toda esta severidade nasce da iniqüidade dos que a estabeleceram, da pura tirania dos governantes e da covardia dos governados; e que nos países em que simplesmente se diz que é bom corresponder a quem nos ama, esta indulgência é uma prova de grosseria. Tudo isso é bem sabido pelos atenienses. Mas, como já disse, não é fácil compreender nossos princípios nessa matéria. Por um lado, diz-se que é melhor amar às claras que às furtadelas, e que é preciso amar com preferência os mais generosos e virtuosos, por mais que estes se afigurem menos belos.”
“o mais estranho é que se quer que os amantes sejam os únicos perjuros que os deuses deixem de castigar, porque, diz-se, os juramentos não obrigam nos assuntos amorosos.”
“Há entre nós a crença de que se um homem se submete a servir a um outro com a esperança de aperfeiçoar-se por intermédio dele numa ciência ou em qualquer virtude particular, esta servidão voluntária não é vergonhosa e não se chama adulação.”
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“Aqui, tendo feito Pausânias uma pausa (e eis aqui um jogo de palavras que vossos sofistas ensinam), seria a vez de Aristófanes começar, mas este não o pôde em virtude de uma crise de soluços que lhe sobreveio, não sei se por haver comido em excesso, ou outra razão. Então se dirigiu ao médico Erixímaco que estava sentado ao seu lado e lhe disse:
– É preciso, Erixímaco, que ou me livres desse soluço (hic)… ou que fales no meu lugar até que ele tenha cessado.
– Farei um e outro – respondeu Erixímaco –, porque vou falar em teu lugar, e tu falarás no meu, quando tua incomodidade já tiver passado. Passará rápido se, enquanto eu discurso, prenderes a respiração um pouco, e, não tendo curado o soluço, terás de gargarejar com água. Se o soluço, ainda assim, persistir, por ser demasiado violento, apanha qualquer instrumento com que consiga fazer cócegas no nariz; a isto se seguirá o espirro; e se o repetires uma ou duas vezes, o soluço cessará infalivelmente, por mais grave que seja.”
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O DISCURSO DE ERIXÍMACO
“Também é belo e necessário ceder ao que há de bom e de são em cada temperamento, e nisto consiste a medicina; pelo contrário, é vergonhoso comprazer ao que há de depravado e de enfermiço, e é preciso combatê-lo, se é que se fala de um médico hábil. Porque, para dizer em poucas palavras, a medicina é a ciência do amor corporal com relação à repleção e evacuação¹”
¹ O encher e esvaziar.
“Esculápio¹, nosso patriarca, encontrou um meio de introduzir o amor e a concórdia entre os elementos contrários, e por isso é reputado o inventor da medicina, segundo os poetas e como penso eu mesmo. Me atrevo a assegurar que o Amor preside à medicina, e assim também à ginástica e à agricultura. Sem necessidade de fixar a atenção por muito tempo, descobre-se-o na música, e acho que foi o que Heráclito quis dizer, se bem que não soube colocá-lo em palavras. O que ele falou, em forma de enigma, foi: A unidade que se opõe a si mesma concorda consigo mesma (…) A harmonia é impossível se grave e agudo permanecem sem interagir; a harmonia é uma consonância; a consonância um acordo; e não pode haver um acordo entre partes opostas enquanto no fundo já não forem mais opostas (…) Analogamente, também as sílabas longas e as breves, que são opostas entre si, compõem o ritmo, assim que entram em acordo.”
¹ Lendário fundador da arte médica.
“A adivinhação é a criadora da amizade que existe entre os deuses e os homens, pois sabe tudo o que há de santo e de ímpio nas inclinações humanas.”
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“– Cabe a ti, Aristófanes, suprir o que eu houver omitido. Portanto, se tens o projeto de honrar ao deus doutra maneira, fá-lo e começa, de contínuo, agora que teu soluço já passou.
Aristófanes respondeu:
– Passou, em efeito. Só me ressinto do espirro. Me admira que para restabelecer a ordem na economia do corpo seja preciso um movimento como este, acompanhado de ruídos e agitações tão ridículas; porque realmente este método da pena foi o único eficaz o bastante comigo.
– Olha como te portas, Aristófanes! Estás a ponto de iniciar teu discurso e parece que já zombas as minhas custas. Agora saibas que não terás paz, pois estou cá atento, de vigia, para ver se não vais é passar o tempo a ridicularizar o amor com piadas.”
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O DISCURSO DE ARISTÓFANES
“Quando desejavam caminhar depressa, apoiavam-se sucessivamente sobre seus 8 membros, e avançavam com rapidez mediante um movimento circular, como o que desempenha a roda, com os pés ao vento.”
“A solução não carecia de dificuldades; não queriam os deuses aniquilar os homens, como noutros tempos aos titãs, fulminando-os com seus raios, pois aí então desapareceriam o culto e os sacrifícios que os homens lhes prestavam; no entanto, era certo que não deixariam esta insolência passar impune.” “e se depois deste castigo ainda conserveis vossa audácia monstruosa, recusando-vos ao repouso, dividi-los-ei mais uma vez, e ver-vos-ei precisados de andar sobre um só pé, como os que dançam sobre os odres de vinho na festa de Caco.¹”
¹ Caco, Cacus ouKakos, filho de Vulcano ou Hefesto, deus olímpico. Teria uma aparência monstruosa e força sobre-humana, sendo, ademais, canibal. Arquétipo do ladrão ominoso que aterroriza as populações pastoris. Na mitologia é morto por Hércules durante seus Doze Trabalhos. O próprio Hércules teria iniciado seu tributo anual, construindo um altar, para aplacar a fúria dos deuses pelo seu ato.
“Quando uma das duas metades perecia, aquela que sobrevivia buscava outra, à qual se unia novamente, fosse a metade de uma mulher inteira, o que agora se chama propriamente mulher, fosse uma metade de homem; e dessa forma ia-se extinguindo a raça. Zeus, tomado de compaixão, imaginou outro expediente: pôs à frente os órgãos da geração, que antes estavam atrás, gerando-se e derramando-se, outrora, o sêmen, não um no outro, mas no chão, como fazem as cigarras. Com esta providência de Zeus, a concepção passou a ser feita mediante a união do varão e da fêmea. Desde então, o produto da união do homem e da mulher são os filhos; se acaso o varão se unia ao varão, a saciedade os separava logo depois, restituindo-os aos trabalhos e demais cuidados da vida.”
“Da mesma forma, os homens atuais, que provêm da separação dos homens primitivos, buscam o sexo masculino. Enquanto são jovens, amam aos homens; se comprazem em dormir com eles e estar em seus braços; são os melhores dentre os adolescentes e os adultos, como que oriundos de uma constituição mais varonil. (…) com a passagem do tempo, revelam-se mais capacitados que os demais para servir ao Estado. Uma vez em idade madura, passam a amar aos jovens (…) Do que eles mais gostam é passar a vida uns com os outros em celibato.”
“Quando aquele que ama aos jovens ou outros homens em geral chega a encontrar sua metade, a simpatia, a amizade, o amor os unem de uma maneira tão maravilhosa que ambos não desejam, sob circunstância alguma, separar-se por um momento que seja. Estes mesmos homens, que passam toda a vida juntos, não podem dizer o que anelam, exatamente, um do outro, porque, se sentem tanto prazer ao viver dessa forma, claro está que a causa não são os sentidos corporais. É evidente que é a própria alma de cada qual que deseja algo além, inexprimível, mas que de certa forma pressente e atina. À hipótese de Hefesto em pessoa aparecer justo quando estivessem abraçados, com os instrumentos de sua arte de ferreiro, perguntando-lhes: Ó, meus caros! Que é aquilo que exigis reciprocamente?, e ao não obter nenhuma resposta, perplexo, continuar interpelando-os: O que quereis, afinal, não é encontrar-vos unidos de tal maneira que nem de dia nem de noite estejais segregados um do outro? Se é isso mesmo que quereis, vou fundir-vos e mesclar-vos para que sejais uma só pessoa e não mais duas, tanto na vida como na morte. Apenas dizei-me, e realizá-lo-ei!… Se, dizia eu, nessa hipótese, ouvissem a proposta de Hefesto, é absolutamente certo que os casais não a recusariam jamais”
“Originalmente, como já disse, éramos um só; mas depois nossa iniquidade foi castigada e Zeus nos separou, como o foram os arcádios pelos espartanos(*)”
(*) “Os espartanos invadiram a Arcádia, destruíram os muros da Mantinéia e deportaram os habitantes a quatro ou cinco pontos diferentes. Cf. Xenofonte, Helênicas, 5:2.”
“Que Erixímaco não critique estas minhas últimas palavras, como se fizessem alusão a Pausânias e a Agaton, porque quiçá estes dois são deste pequeno número, e pertencem ambos à natureza originalmente masculina.”
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“ainda não discursaram Agaton nem Sócrates.”
“FEDRO – Meu querido Agaton, se continuas respondendo a Sócrates, isto não acabará; ele, quando tem com quem conversar, fica contente ao máximo e não pensa em nada mais – sobretudo se seu interlocutor é formoso.”
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O DISCURSO DE AGATON
“Estando de acordo com Fedro acerca de todo o demais, não posso convir com ele quanto a que o Amor seja mais antigo que Cronos e Jápeto.¹ Sustento, pelo contrário, que é o mais jovem dos deuses, e que sempre se conserva jovem. Essas velhas querelas dos deuses, que nos remetem a Hesíodo e Parmênides, se é que têm algo de verdadeiro, tiveram lugar no império da Necessidade, e não sob o reino do Amor; porque não teria havido qualquer desentendimento entre os deuses, castrações e mutilações, correntes, violências que-tais, se o Amor presidisse desde o início. A paz e a amizade, como sucede no presente, são a ordem do dia. É certo que o Amor é jovem e extremamente delicado, mas foi necessário um poeta – como Homero – para expressar a delicadeza deste deus sublime. Homero refere que Ate é deusa e delicada. Seus pés, diz ele, são tão leves que nunca os pousa em terra, mas pisa sobre a cabeça dos homens.”
¹ Titã primordial – filho de Urano e Gaia (como o próprio Cronos) e pai dos titãs Átlas e Prometeu, entre outros.
“Só por livre e espontânea vontade se submete alguém ao Amor. Bem como a todo tipo de acordo, destes que não nascem da violência: quando a lei é justa. E o Amor não só é justo como moderado no mais alto grau, porque consiste a temperança em triunfar dos prazeres e das paixões; e há prazer superior ao Amor? Se todos os prazeres e todas as paixões estão abaixo do Amor, é que ele os domina; e se os domina, é de precisão que esteja dotado de um equilíbrio incomparável. Quanto à força, Marte não pode igualá-lo. Não é Marte que possui ao Amor, mas o Amor que possui a Marte, o Amor de Vênus, como dizem os poetas; porque aquele que possui é mais forte que o objeto possuído; e superar o que supera aos demais, não seria ser o mais forte de todos?”
“o Amor é um poeta tão entendido que converte em poeta àquele que quer; e isto sucede até aos que são estranhos às Musas, logo que se sentem inspirados pelo Amor; o que prova que o Amor é notável nisto de consumar as obras que são da competência das Musas; afinal, não se ensina aquilo que não se conhece, bem como não se dá aquilo que não se tem”
“Antes do Amor, como disse ao princípio, aconteceram entre os deuses muitas coisas deploráveis, durante o reinado da Necessidade.”
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“Sinto-me tão incapaz de dizer algo tão belo que, repleto de vergonha, de bom grado abandonaria o posto, se realmente pudera, porque a eloquência de Agaton me recordou a de Górgias, até se passar comigo o que diz Homero: temia eu que Agaton, ao arrematar, lançasse sobre meu discurso a cabeça de Górgias, este orador terrível, petrificando minha língua!”
“Permita-me ainda, Fedro, proceder a algumas perguntas a Agaton, a fim de que com seu auxílio possa falar com mais segurança.”
“desejo possuir no futuro aquilo que tenho neste instante.
(…)
E não seria isso amar o que não se tem certeza de possuir, aquilo que ainda não se possui, e desejar conservar para o dia de amanhã aquilo que se possui no momento presente?”
* * *
(*) “Por um artifício de composição que parece uma espécie de protesto implícito contra o papel tão inferior que a mulher desempenhou até este momento na conversação sobre o amor, Platão expõe suas opiniões pela boca de uma, a estrangeira de Mantinéia, que faz o prólogo¹ de Sócrates no famoso discurso.”
¹ Um prólogo tão extenso que chega a ser a metade do discurso socrático na obra!
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“SÓCRATES – Que é afinal o Amor, Diotima, se não é mortal nem tampouco imortal?
DIOTIMA – Um grande demônio,¹ Sócrates; porque todo demônio ocupa um lugar intermédio entre os deuses e os homens.”
¹ Daimon
“DIOTIMA – (…) Como a natureza divina nunca entra em comunicação direta com o homem, ela se vale de demônios para se relacionar e conversar conosco, seja enquanto estamos acordados ou sonhando. (…) Os demônios são muitos e de muitas classes, e o Amor é um deles.”
“DIOTIMA – Quando do nascimento de Vênus, houve entre os deuses um banquete, no qual se encontrava Poros,¹ filho de Métis,² em particular. Depois da refeição, Pênia³ pôs-se à porta, para mendigar migalhas e sobras. Nesta hora, Poros, embriagado pelo néctar dos deuses (ainda não haviam inventado o vinho) saiu da sala, entrando no jardim de Zeus, onde o sono não tardou a fechar suas pálpebras cada vez mais pesadas. Pênia, premida por seu estado de miséria, aproveitou para conceber um filho de Poros. Deitou-se com ele enquanto estava inconsciente, e como resultado dessa união nasceu o Amor. É por esta razão que o Amor se tornou o companheiro e serviçal número 1 de Vênus, porque foi concebido no mesmo dia de seu nascimento; sem falar que o Amor ama naturalmente a beleza, e Vênus é bela.”
¹ A Abundância.
² A Prudência.
³ A Penúria.
“Tudo o que adquire, dissipa sem cessar, de sorte que nunca é rico nem pobre. Ocupa um posto intermediário entre a sabedoria e a ignorância, porque nenhum deus filosofa, nem deseja fazer-se sábio, posto que a natureza divina já contém a sabedoria. Sabeis, pois, que o sábio não filosofa. Idem para os ignaros: nenhum deles filosofa nem deseja fazer-se sábio, porque a ignorância produz precisamente o péssimo efeito de persuadir os feios, os maus e os estúpidos de que são belos, bons e sábios. E ninguém deseja as coisas de que já se crê portador.” “A sabedoria é uma das coisas mais belas do mundo, e, como o Amor ama o que é belo, é preciso concluir que o Amor é amante da sabedoria, i.e., filósofo”
“DIOTIMA – distinguimos uma espécie particular de amor, e chamamo-la amor, usando o nome que corresponderia na verdade ao gênero inteiro; enquanto isso, para as demais espécies empregamos termos diferentes.”
“é preciso unir ao desejo do bom o desejo da imortalidade, posto que o amor consiste em aspirar a que o bom nos pertença sempre.”
“DIOTIMA – Os que são fecundos com relação ao corpo amam as mulheres, e se inclinam com preferência a elas, crendo assegurar, mediante a procriação dos filhos, a imortalidade e a perpetuidade do seu nome, e a felicidade que se imaginam no curso dos tempos. Mas aqueles que são fecundos com relação ao espírito…”
“Sólon mesmo é honrado por vós como pai das leis, assim como outros grandes homens o são também em diversos países, seja na Grécia, seja entre os bárbaros, porque produziram uma infinidade de obras admiráveis e criaram toda classe de virtudes. Estes filhos lhes valeram templos, enquanto que os filhos carnais dos homens, aqueles que saem das entranhas da mulher, jamais engrandeceram ninguém.”
“o caminho reto do amor, já se guie por si mesmo, já seja guiado por outro, é começar pelas belezas inferiores e elevar-se até a beleza suprema, passando, por assim dizer, por todos os graus da escala de um só corpo belo a dois, de dois a todos os demais, dos corpos belos às ocupações belas e às ciências belas, até que, de ciência em ciência, chegue-se à ciência por excelência, a ciência do belo mesmo, finalizando-se por conhecer esta ciência tal como ela é em si.”
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(*) “Depois do discurso de Sócrates, parece que nada resta a dizer sobre o amor, e que o Banquete deve ser concluído. Mas Platão achou conveniente ressaltar, quando menos se esperava, a elevação moral de sua teoria mediante o contraste que apresenta frente à baixeza das inclinações ordinárias dos homens. É por esta razão que, neste instante, aparecem de improviso Alcibíades¹, embriagado, com a cabeça coroada de hera e violetas, acompanhado de tocadores de flauta e de uma porção de seus companheiros de bebedeira. Que representa essa orgia em meio a estes filósofos? Não faz saltar à vista a eterna diferença, para usar o próprio jargão platônico, entre a Vênus popular e a Vênus celeste? Mas o engenhoso autor do Banquete faz derivar daí outro resultado importante. A orgia, que ameaçava tornar-se contagiosa, cessa como por encanto no momento em que Alcibíades reconhece Sócrates entre os convivas.”
¹ A eterna chacota de Platão. Como péssimo aluno de Sócrates, que se tornou um político tirânico e traidor da polis, nada mais justo que sempre figure assim nos diálogos que foram preservados para a posteridade.
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“Um instante após, ouvimos no pátio a voz de Alcibíades, meio ébrio e gritando”
“ALCIBÍADES – Rides de mim porque estou bêbado? Ride o quanto quiserdes! Sei que digo a verdade. Mas vejamos, respondeis: entrarei sob esta condição ou não entrarei? Bebereis comigo ou não?”
“ALCIBÍADES – Por Hércules! Que é isto? Sócrates, vejo-te cá à espera a fim de surpreender-me, segundo teus costumes, aparecendo de repente quando menos te esperava! Que vieste fazer aqui hoje?! Por que ocupas este lugar no banquete? Como é que, em vez de te pores ao lado de Aristófanes ou de qualquer outro mais complacente contigo, ou que ao menos se esforce em sê-lo, tu soubeste colocar-te tão bem que te encontro, afinal, junto do mais formoso da reunião?
SÓCRATES – Imploro teu socorro, Agaton. O amor deste homem não é para mim um embaraço pequeno. Desde a época em que comecei a amá-lo, eu não posso mais contemplar ou conversar com nenhum outro jovem, sem que, agitado e ciumento, ele se entregue a incríveis excessos, enchendo-me de injúrias, e por pouco é que não transforma em agressões físicas suas ameaças! Tendes cuidado, convivas, para que não vos deixeis levar por um arrebatamento do gênero nesta hora tão delicada; procura, Agaton, assegurar meu sossego, ou protege-me, enfim, se estás disposto a alguma violência; receio este seu amor e seus ciúmes furiosos!”
“ALCIBÍADES – Pois bem, amigos, que fazemos? Me pareceis excessivamente comedidos e nisso não posso consentir; é preciso beber; este é o trato que fizemos! (…) Agaton, por favor, que me tragam uma taça grande, se a tiveres; senão, ó escravo!, dá-me cá aquele cântaro! Porque aquele cântaro já leva bem uns dois litros.”
“ALCIBÍADES – Que não levem para o lado malicioso aquilo que vou fazer na seqüência, porque Sócrates poderá beber o quanto queira, e nem por isso vós o vereis embriagado!
O cântaro preenchido pelo escravo, Sócrates o bebeu. Então Erixímaco, tomando a palavra:
ERIXÍMACO – Que faremos, Alcibíades? Seguiremos bebendo, sem falar nem cantar, e nos contentaremos com o mesmo que os beberrões que só sabem matar a sede?
ALCIBÍADES – Saúde, Erixímaco, digno filho do melhor e mais sábio dos pais!
ERIXÍMACO – Também te saúdo. Mas: que faremos?
(…)
ERIXÍMACO – Então escuta! Antes de tua chegada tínhamos convindo em que cada um de nós, seguindo um turno rigoroso, faria elogios ao Amor, o melhor que pudesse, começando pela direita. Todos cumprimos com nossa obrigação, e é, pois, justo que tu, que nada disseste e que não por isso bebeste menos, cumpras por tua vez com tua parte do negócio. Quando houveres concluído, elegerás um tema a Sócrates, de tua preferência; este a teu vizinho da direita, e assim sucessivamente.
ALCIBÍADES – (…) querer que um bêbado dispute em eloquência com gente comedida e de sangue frio é desigual em demasia!”
* * *
O DISCURSO DE ALCIBÍADES
“Que outro fale, ainda que seja o orador mais hábil, e não causará impressão alguma sobre nós; mas tu, Sócrates – ou alguém que repita teus dizeres, por pouco versado que seja na arte da palavra –, fazes todos os ouvintes, homens, mulheres, crianças, se sentirem convencidos e hipnotizados.”
“Ao ouvir Péricles e tantos de nossos grandes oradores, apreendi que são eloqüentes, mas nada de semelhante me fizeram experimentar. Minha alma não se turbava nem se indignava contra si mesma devido a sua escravidão. Mas, quando escuto esse Marsias,¹ a vida que levo me parece de repente insuportável!”
¹ Sátiro mitológico, um encantador nato. Punido por Apolo por sua vaidade, acaba, na posteridade, dando seu nome a um rio da Frígia.
“vejo-me obrigado a dele fugir tapando meus ouvidos, como se se tratasse das sereias. Não fosse esse proceder, creio que permaneceria sentado a seu lado até o fim dos meus dias. Este homem desperta em mim um sentimento de que não se me creria capaz, isto é, o do pudor. É verdade, apenas Sócrates consegue me ruborizar, porque estou bem ciente de nada poder opor a seus conselhos! (…) Fujo-lhe, procuro evitá-lo; mas, quando volto a vê-lo, me envergonho, em sua presença, de haver desmentido minhas palavras com minha conduta; às vezes preferiria que ele não existisse; no entanto, se isso acontecera, estou convencido de que seria eu ainda mais desgraçado; de maneira que este homem é para mim um enigma!
Tamanha é a impressão que ele produz sobre minha pessoa, e a que a flauta deste sátiro produz sobre os outros! Mas talvez minhas palavras não dêem o termo exato do poder extraordinário que este homem exerce sobre quem o escuta; estejais convencidos de que nenhum de nós compreende a Sócrates. Já que comecei, continuo…
Sabeis do ardor que manifesta Sócrates pelos jovens formosos; com que empenho os busca, e até que ponto deles está enamorado; vedes, outrossim, o quanto a sociedade como um todo o menospreza, que ele nada sabe, ou, pelo menos, dissimula não saber. Tudo isso não é coisa de um Sileno¹?
Até mesmo na aparência ele lembra a fisionomia das estátuas de Sileno. Mas, convivas de banquete, abri-o, e que tesouros não vereis dentro dele! Sabei que a beleza de um homem é para ele o aspecto mais indiferente. É inconcebível imaginar até que ponto a desdenha, bem como a riqueza e as demais vantagens cobiçadas pelo vulgo. Sócrates as enxerga sem qualquer valor, e a nós mesmos, aliás, como se nada fôramos. Passa toda sua existência a zombar e a debochar de todo mundo! Porém, quando fala a sério e deixa ver seu interior–ignoro mesmo se outros chegaram a ver o que vi, vista tão divina, preciosa, majestosa, encantadora! Sócrates é simplesmente irresistível! Crendo ao princípio que ele se apaixonava por minha beleza, me vangloriava de minha grande sorte, e pensava em sua conquista como um meio certo a fim de receber em troca toda sua sabedoria! Sim, sempre me admirei muito ao espelho… Manifestei meus desejos a meu aio, que logo providenciou um encontro nosso, a sós. Agora é preciso que eu conte tudo, portanto atenção! E tu, Sócrates, se acaso incorro em erro, me adverte. A sós com Sócrates, esperava sempre que a conversação chegasse àqueles temas que só são desenvolvidos quando o amante não encontra testemunhas que possam atrapalhar seu discurso com o objeto amado! Nesta expectativa me auto-lisonjeava e somente dela já usufruía prazer. Mas minhas esperanças foram morrendo pouco a pouco. Sócrates passou o dia inteiro conversando comigo da sua forma usual, e depois se recolheu ao leito. Depois disso, desafiei-lhe a fazer exercícios ginásticos, esperando, por este método, ganhar algum terreno. Exercitamo-nos e lutamos muitas vezes, sem testemunhas. Que poderei atestar-lhes? Que nem assim obtive qualquer avanço! Sem poder conquistá-lo dessa forma velada, decidi-me ao ataque franco. Uma vez tendo começado, não seria lícito abandoná-lo sem ir às últimas conseqüências! Convidei-o para comer, como fazem os amantes que estendem um laço àqueles que amam; de chofre recusou, mas aos poucos foi cedendo e enfim resolveu-se por aceitar. Veio e comeu; mas quando terminou, fez menção de ir-se. Uma espécie de pudor me impediu de retê-lo. Mas logo lancei-lhe mais um laço; e depois de mais uma vez banquetearmos juntos, prolonguei desta vez a conversação até avançada a noite; e quando quis ir embora, intimei-o a dormir sob meu teto, sob o pretexto de que já era muito tarde. Deitou-se no mesmo banco em que comera; este banco estava próximo ao meu, e éramos só nós dois na casa.”
¹ Discípulo mitológico do deus Dionísio. Wikipédia: “Sileno era descrito como o mais velho, o mais sábio e o mais beberrão dos seguidores de Dioniso, e era descrito como tutor do jovem deus nos hinos órficos.”
“as crianças e os bêbados dizem a verdade”
“estou mordido e ferido pelos raciocínios da filosofia, cujos tiros são mais inclementes e afiados que o dardo duma víbora, assim que atingem uma alma jovem e bem-nascida. Fazem-na, enfim, dizer ou fazer mil coisas extravagantes; e vendo aqui neste banquete o ferro que me acutilou tantas vezes, Agaton, Erixímaco, Pausânias, Aristodemo, Aristófanes, deixando Sócrates de lado, e os demais, atacados todos como eu dessa mania e desse frenesi filosóficos, me dou por vencido e, mesmo que pouco inclinado a prosseguir minha história, diante de tantos ouvidos e olhares, fá-lo-ei, porque sabereis excusar minhas ações de então, e minhas palavras de agora. Mas quanto aos escravos e a todo profano sem cultura, ponde-os daqui para fora, e cerrem-lhes três portas para que nada ouçam!
Continuando, amigos: logo que acabou a luz do crepúsculo, e se retiraram os escravos de minha habitação, cri que não devia mais dar rodeios com Sócrates, e devia ser o mais direto possível. Toquei-o e disse-lhe:
– Sócrates, dormes tu?
– Não – respondeu.
– Pois bem, sabes o que eu penso?
– O quê?
– Que tu és o único amado digno de mim, e me parece que não te atreves a revelar teus sentimentos. E eu me julgaria sem razão se, a partir de minha descoberta, não procurasse comprazer-te em todas as ocasiões que pudesse. Faço isso porque só tenho a ganhar em nobreza, e assim também meus amigos, indiretamente. Neste momento nenhum pensamento me fustiga tanto quanto o de me aperfeiçoar o quanto puder, e ninguém vejo que pudesse ser de mais auxílio do que tu. Temeria mil vezes mais o ser criticado pelos sábios ao recusar algo a um homem como tu, que sê-lo pelo vulgo e pelos ignaros ao conceder-te tudo.
A tudo isto que eu disse, Sócrates respondeu com sua ironia habitual”
“SÓCRATES – (…) Os olhos do espírito não começam a se fazer proféticos até que os do corpo comecem a se debilitar, e tu ainda não estás neste estágio.”
“no fim, vedes que Sócrates nada me dedicou, senão desdém e desprezo a minha beleza, não fazendo mais do que insultá-la; e pensava eu que ela tinha bastante mérito, amigos! Sim, sede juízes da insolência de Sócrates; os deuses e as deusas serão testemunhas; àquela noite, saí de seu lado, no leito, como se despertasse após dormir com meu pai ou com meu irmãos mais novo!”
“Mais submisso a esse homem do que um escravo o pode estar a seu dono, andava eu errante aqui e ali, sem saber que rumo tomar. Essas foram minhas primeiras relações com Sócrates. Depois nos encontramos de novo, no exército, na expedição contra a Potidéia, e fomos companheiros de quarto. Nos combates, vi Sócrates sobressair, não só a mim, mas também a todos os demais. Ele tinha a maior paciência para suportar todas as fadigas. Se faltava comida, coisa comum em campanha, Sócrates não dava sinais de sofrer de fome e de sede. Se nos encontrávamos na abundância, sabia desfrutar dela mais que qualquer um. Sem sequer apreciar a bebida, bebia mais que os demais se lhe estendiam a taça! (…) Naquele país o inverno é muito rigoroso, e a maneira como Sócrates resistia ao frio não era menos do que prodigiosa. Em tempos de grandes geadas, quando ninguém se atrevia a sair, ou, pelo menos, ninguém saía sem ir-se bem encasacado e calçado, e com os pés envoltos em feltro e peles de cordeiro, ele ia e vinha com a mesma capa que soía levar, caminhava com os pés nus com a facilidade típica de quem usava botas, ao ponto dos soldados olharem-no com despeito, achando-se por isso humilhados. Assim se conduzia Sócrates no exército.”
“Mas o que faz de meu Sócrates digno de uma admiração particular é que não se acha outro que se lhe pareça, nem entre os antigos, nem entre nossos contemporâneos. Poder-se-ia, p.ex., comparar-se Brásidas¹ com Aquiles, Péricles com Nestor ou Antenor; e há ainda personagens que, contrastados, dão azo a semelhanças. Mas, repito, ninguém, antigo ou moderno, se aproxima, nem remotamente, a este homem, ou a seus discursos, nem a sua originalidade, a não ser que se comparassem ele e seus discursos não a um homem, como já o disse, mas aos silenos e aos sátiros; porque até esqueci de dizer, quando principiei meu discurso, que os discursos deste homem se parecem também, perfeitamente, com os dos silenos quando se expandem. Com efeito, apesar do desejo que se tem de ouvir Sócrates, o que disse parece, à primeira vista, inteiramente grotesco. As expressões com que ele veste seu pensamento são grosseiras, como a pele de um sátiro impudente. Não vos fala mais que de asnos com selas, de ferreiros, sapateiros, peliceiros, e aparenta sempre dizer uma mesma coisa nos mesmos termos; de sorte que não há ignorante ou néscio que não sinta a tentação de rir-se. Mas, como eu venho dizendo, abri seus discursos e examinai seu interior: encontrar-se-á de imediato que não há nada mais coerente e cheio de sentido; concedais só um pouco mais, e logo direis que são de natureza divina, encerrando em si as imagens mais nobres da virtude; numa só palavra, tudo quanto aquele que quer fazer-se um homem de bem deve ter em vista. (…) E não falo só por mim; outros recusados por Sócrates são Cármides, filho de Glauco; Eutidemo, filho de Díocles, e tantos mais, a quem enganou, simulando querer ser seu amante, quando não representou para com eles senão o papel da pessoa muito amada. Sendo assim, Agaton, aproveita-te destes exemplos e não te deixes enganar por este homem! Que minha triste experiência te ilumine, e não imites o insensato que, segundo o provérbio, não se faz sábio senão as suas custas.”
¹ General espartano na época da Guerra do Peloponeso.
* * *
“Havendo cessado Alcibíades seu discurso, todos começaram a rir ao testemunhar sua franqueza, e percebendo que ainda estava muito apaixonado por Sócrates.
Este, tomando a palavra, disse então:
SÓCRATES – Imagino que hoje estiveste pouco expansivo, meu caro Alcibíades; doutra forma, não poderias, artificiosamente, e com amplo vocábulo e talento verbal, haver ocultado o verdadeiro motivo do teu discurso, o que só revelaste justo ao final, fazendo parecer que não era teu único objetivo colocar Agaton e eu em maus lençóis! Tens a pretensão de que eu devo amar-te, e não amar a mais ninguém, e que Agaton deve ser amado exclusivamente por ti. Mas teu artifício não passou despercebido; logo intuímos aonde ia a fábula dos sátiros e dos silenos; assim, meu querido Agaton, desfaçamos o projeto de Alcibíades, e faz de sorte que ninguém possa nos separar um do outro.
AGATON – Ó, creio que tens razão, Sócrates; estou certo de que seu esquema de se interpor entre mim e tu foi todo pensando com vistas a nossa separação! Mas de nada serviu, porque agora mesmo irei pôr-me a teu lado!
SÓCRATES – Ótimo, senta-te a minha direita!
ALCIBÍADES – Por Zeus! Quanto não me faz sofrer este homem! Imagina-se no direito de dar-me sua lei em tudo! Permite-me, pelo menos, ó maravilho Sócrates, que Agaton se ponha entre nós dois (a sua esquerda).”
SÓCRATES – Impossível! Tu acabas de fazer minha apologia, e agora me toca fazer a do meu vizinho da direita. (…) Deixa que venha este jovem, Alcibíades, e não o invejes as lisonjas que com impaciência desejo prestar-lhe!
AGATON – Não há modo de que eu permaneça aqui, Alcibíades. Quero resolutamente mudar de sítio, para ser elogiado por Sócrates!
ALCIBÍADES – Isto é o que sempre sucede! Onde quer que esteja Sócrates, somente ele tem lugar garantido ao lado dos jovens formosos. E agora mesmo, vede que pretexto simples e plausível encontrara a fim de que Agaton sentasse a seu lado!”
(*) “Após Alcibíades arrematar sua fala, a taça começa a circular entre os convidados, até que não resta um que não sucumbe por seu turno à embriaguez. Sócrates, único impassível, pois seu pensamento, estranho às desordens, faz seu corpo imune a elas, conversa sobre diversas temáticas com os restantes, os que resistem até os primeiros albores do dia. Finalmente, quando todos ali se entregam ao sono, abandona a casa do anfitrião do banquete Agaton, para ir dedicar-se a suas ocupações rotineiras: última manifestação desta alma forte, que a filosofia tinha tornado invulnerável às paixões.”
“…que o mesmo homem deve ser poeta trágico e poeta cômico, e que, quando se sabe tratar a tragédia segundo as regras da arte, deve-se saber por igual tratar a comédia. Obrigados a convir com as afirmações de Sócrates, e estando como que embotados pela longa noite de discussões, começaram a sentir sono. Aristófanes adormeceu primeiro, depois Agaton, com o sol já bastante alto; Sócrates, vendo ambos já inconscientes, levantou-se e saiu acompanhado, como de costume, por Aristodemo; dali foi-se ao Liceu, banhou-se, e passou o restante do dia em suas ocupações habituais, de modo que não regressou a sua casa até de tarde, quando enfim foi descansar.”
Tradução de trechos de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego por Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.
Além da tradução ao Português, providenciei notas de rodapé, numeradas, onde achei que devia tentar esclarecer alguns pontos polêmicos ou obscuros demais quando se tratar de leitor não-familiarizado com a obra platônica. Quando a nota for de Azcárate, haverá um (*) antecedendo as aspas.
#títuloLivro
INSPIRAÇÃO DEMONÍACA
GLOSSÁRIO:
enjambre: enxame
(*) “Hermógenes quer dizer <filho de Mercúrio>, deus da ganância. No contexto deste diálogo, ele deveria ser rico, se fizesse sentido levar esse nome. Mercúrio representa ainda a Eloqüência, o Diálogo [metalinguagem], o mensageiro dos decretos divinos. É muito mais complexo este nome, este nomen [sentido de sobrenome ou etimologia], omen [presságio ou signo].”
“SÓCRATES – (…) E a ti, te parece que os seres são de uma natureza tal, que a essência de cada um dentre eles seja relativa a cada um de nós, segundo a proposição de Protágoras, quem afirma que o homem é a medida de todas as coisas? (…)
HERMÓGENES – Noutro tempo, Sócrates, não sabendo o que pensar, cheguei até a adotar a proposição de Protágoras; mas hoje eu não admito que as coisas se passem completamente(*) assim como ele fala.”
(*) “Para obter conhecimento das opiniões dos filósofos antigos sobre este ponto, uma boa referência é a crítica sucinta de Proclo [séc V d.C.] sobre o Crátilo, citada por Victor Cousin [Duvick, mais recente, em Inglês].” Este foi o único ensaio antigo acerca do Crátilo que sobreviveu à deterioração das obras e chegou até nós.
“SÓCRATES – (…) é completamente impossível que Protágoras tenha razão. Com efeito, um homem não poderia nunca ser mais sábio do que outro, se a verdade não fôra para cada qual mais do que a aparência.”
“SÓCRATES – O meio mais indicado para atingir este resultado, meu querido amigo, é o seguinte: dirigir-se aos homens hábeis, pagar-lhes bem, e até mais que sobre seu salário, reverenciar-lhes bastante. Os homens hábeis são os sofistas. Seu irmão Cálias, que lhes concedeu somas generosas, tem reputação de sábio. E, posto que tu não possuis nada das propriedades de tua família, seria necessário que lisonjeasses a teu irmão, e lhe suplicasses que te participasse este conhecimento dos nomes, que Protágoras ensinou de fato a Cálias.”
(*) “A doutrina de Protágoras é o exato contrário da doutrina sofística da explorada por Platão no Eutidemo, onde Eutidemo e Dionisodoro sustentam que todas as coisas são iguais. As principais teses de Protágoras estão n’A verdade, que enuncia ser a sensação a chave de todas as verdades, possuindo a verdade valor estritamente individual.”
“SÓCRATES – Pensemos assim: se eu te perguntasse: os sábios são os que dão os nomes com maior adequação, ou seriam os menos sábios?
HERMÓGENES – Evidentemente que os mais sábios, eu responderia.
SÓCRATES – Falando de maneira geral, quem te parece os mais sábios da cidade, as mulheres ou os homens?
HERMÓGENES – Os homens.
SÓCRATES – Agora atenta a isto: Homero relata que o jovem filho de Heitor era chamado Astíanax¹ pelos troianos; mas para as mulheres, este era Escamandro², porque não é possível que fosse chamado por um e por outro sexo pelo mesmo nome.
HERMÓGENES – Se tu o dizes.
SÓCRATES – Mas para Homero eram os troianos mais sábios que as troianas?
HERMÓGENES – Creio que sim!”
¹ É necessário contextualizar o leitor moderno pela análise etimológica: Heitor era o rei de Tróia; Astíanax significa “príncipe da cidade”. Um epíteto político e de sucessão, portanto. No tempo da Guerra de Tróia ele não passava de uma criança. Eurípides retrata a trágica morte do rebento ainda durante a invasão daquela cidade, atirado do alto de uma muralha por um dos aqueus. Outra versão da lenda diz que ele sobreviveria e fundaria, na idade adulta, uma outra Tróia em novo território, cumprindo o pedido do pai aos deuses antes de enfrentar Aquiles, tudo isso ao lado do filho do também troiano e guerreiro de elite derrotado no conflito, Enéias, semi-deus.
² Ou Escamândrio. Seu nome de batismo ou de berço, já que estamos falando de uma época pré-cristã. Este era também o nome de um rio que atravessava Tróia. Quer dizer que as mulheres não “se metem” em assuntos militares ou, mais amplamente, qualquer assunto da polis (política), por isso só lhes interessa pronunciar nomes que designam coincidências físicas, por exemplo, e não alusões a destinos heróicos como fundar uma cidade ou estar destinado a liderar um povo.
“ele só defendia a cidade e seus elevados muros. (Homero) Portanto os homens daquela cidade tinham muita razão ao chamá-lo Astíanax, filho do salvador, e também salvo por ele.”¹
¹ Trecho confuso e difícil. Há ainda essa nota de rodapé, que só complica as coisas: “Victor Cousin desfaz o erro de Platão quando cita Homero: para aquele, Heitor chamava o filho de Escamandro, e não o contrário; e a população feminina, de Astíanax.”
“SÓCRATES – Muito bem, meu amigo, mas não terá sido na verdade o próprio Homero a inventar este epíteto que Heitor e seus sequazes davam ao herói troiano na Ilíada? (…) Veja que Ánax e héktor significam ambos quase o mesmo, e ambos cabem bem como nomes reais.”
“é preciso que sua descendência seja a de um homem, e não a duma outra espécie, a fim de merecer o nome de nome.”
“De cada raça nasce outro ser da mesma raça; senão, tratar-se-ia de um monstro.”
“Astíanax e Heitor não têm nenhuma letra em comum, e no entanto querem dizer o mesmo. E qual relação se pode traçar, quanto às letras, entre estes dois nomes e o de Arquepolis¹ (chefe da cidade)?”
¹ A primeira metade da palavra grega, a partícula arche-, lembra sabedoria e ancianidade. Ou ainda, o princípio aristocrático da precedência do melhor no comando.
“O nome de seu pai, Zeus, me parece admiravelmente escolhido; mas seu sentido é obscuro. O nome de Zeus encerra por si só todo um discurso. Dividimo-lo em duas partes, das quais fazemos uso indistinto, dizendo tanto Zêna quanto Día; reunindo estes dois termos, encontramos a expressão da natureza do deus; como já vínhamos dizendo, tal deve ser o mérito e a vantagem do nome.” “Que Zeus seja o filho de Krónos, parecerá a princípio algo impróprio”¹
¹ A mesma palavra tem duplo sentido: tempo e ainda velho gagá!
“o que há de puro e sem mescla na inteligência, nóos.”
“Se eu me dedicasse a recordar agora a genealogia de Hesíodo, e os antepassados dos deuses que acabo de citar, não me cansaria de fazer ver que seus nomes são perfeitamente cabíveis¹”
¹ É dessa coincidência de “nome que representa um conceito, que combina com as características deste deus ou deste sujeito” que advém nossa designação de “nome próprio”. A nomenclatura apropriada daquele ente, o nome da coisa sendo a coisa, pois que sua correspondência é perfeita.
“Creio acertadamente, meu querido Hermógenes, que semelhante virtude proveio-me da boca de Eutifrão de Prospaltos¹. Desde a manhã escutava-o sem interrupção, estando sempre atento. Em seu entusiasmo, natural que não tenha se contentado somente com locupletar meus ouvidos com sua divina sabedoria, mas se encarregou ainda de possuir meu espírito.”
¹ Um simples cocheiro
“Os nomes dos heróis e dos homens poderiam nos induzir a erros. Muitos, com efeito, são apenas lembranças de seus antepassados, e não possuem relação com os novos sujeitos; outros são mera expressão de uma promessa ou expectativa de recompensa futura, p.ex., Eutiquides (abençoado, sortudo), Sósia (salvo¹), Teófilo (amado pelos deuses), e assim por diante.”
¹ Será que vem daí a expressão “meu sósia”? Pois o que seria ele a não ser um back-up meu (um arquivo salvo de mim mesmo)?
“SÓCRATES – Não seria oportuno começar pelos deuses, e indagar por que raios receberam eles exatamente o nome de theoi?
HERMÓGENES – De acordo.
SÓCRATES – Eis minha teoria. Os primeiros homens, que habitaram a Grécia, não reconheceram, a meu ver, outros deuses senão os que hoje se admite entre os povos bárbaros, que são o Sol, a Lua, a Terra, os Astros e o Céu. Como todos eram vistos em movimento contínuo, jamais fatigados nas corridas, theonta, por causa desta propriedade do correr (thein), foram então denominados theoi. Com o passar do tempo, as novas divindades que os gregos conceberam foram sendo designadas ainda sob o mesmo rótulo geral.”
“HERMÓGENES – Que tal agora analisarmos os demônios?
SÓCRATES – Bem lembrado, Hermógenes. Que é que pode significar este nome, <os demônios>? Escuta e vê se o que penso te parece razoável.
HERMÓGENES – Basta que fales.
SÓCRATES – Sabes a quem Hesíodo chama <demônios>?
HERMÓGENES – Não lembro.
SÓCRATES – Nem te lembras que ele diz que a primeira raça de homens era de ouro?
HERMÓGENES – Ah, disso sim eu lembro.
SÓCRATES – O poeta se explica assim:
Desde que a Moira extinguiu esta raça de homens,
Se os chama de demônios, habitantes sagrados da terra,
Benfeitores, tutores e guardiães dos homens mortais.
HERMÓGENES – Sócrates, não entendo nada!
SÓCRATES – Ora, não entendes? Estes versos querem dizer simplesmente que Hesíodo estava sendo alegórico quando disse que a raça de ouro era formada de ouro, pois com isso só queria dizer: era de homens excelentes; e o que prova meu argumento é que em seguida ele chamará nossa geração de raça de ferro.¹
HERMÓGENES – Ah, agora ficou claro.
SÓCRATES – Crês que se dentre os homens de hoje se encontrara um só bom homem, Hesíodo o classificaria na raça de ouro?
HERMÓGENES – Temo que sim.
SÓCRATES – E pensas que os bons são um sinônimo para <os sábios>?
HERMÓGENES – Com efeito, Sócrates, os sábios são os bons.
SÓCRATES – Isso basta, ao meu ver, para explicar o nome de demônios. Se Hesíodo os chamou de demônios, foi porque eram sábios e hábeis, daémones², palavra que pertence a nossa língua antiga.”
¹ Eu diria que “ferro” é um material muito nobre para nos descrever nos anos 2000: somos uma raça de sal!
² Em grego, a semântica é neutra: “divindade”. Nada há ainda da acepção cristão-pejorativa da palavra.
“Afirmo ainda que todo aquele que é daemon, ou seja, homem de bem, é verdadeiramente demônio durante sua vida e depois de sua morte, e que este nome lhe convém em absoluto.”
“SÓCRATES – Nada difícil de compreender. Esta palavra se modificou pouco; e fica patente que os heróis se originam do amor, éros.
HERMÓGENES – Que queres dizer com isso?
SÓCRATES – Não sabes que os heróis são semideuses¹?
HERMÓGENES – Como?
SÓCRATES – (…) Verás facilmente que o nome de amor, al qual devem os heróis seu nascimento, pouco mutou com o tempo também. Só pode derivar daqui a explicação para o termo herói, a não ser que argumentes que advém da raiz erotân, pois que seriam sábios oradores, versados em dialética, muito hábeis para interrogar. Vê que eírein é falar. Como dizíamos, na língua ática estes são os oradores e disputadores: erotetikoí. A família dos oradores e sofistas não é nada menos que a raça dos heróis! Isto é fácil de conceber. Mas o que é complicado é saber por que o homem se chama a si mesmo ánthropoi. Podes explicá-lo?”
¹ Alguns aforismos de Nietzsche fazem cada vez mais sentido!
“Muitas vezes, quando queremos nomear algo, acrescentamos letras aos nomes preexistentes, ou as retiramos, ou mudamos o lugar dos acentos.”
“SÓCRATES – (…) Formou-se um nome duma locução da qual suprimira-se uma letra, um <a>, e cuja sílaba final convertera-se em grave.
HERMÓGENES – Não te entendo, Sócrates.
SÓCRATES – É o seguinte: este nome ánthropos, significa que todos os demais animais enxergam as coisas sem examiná-las nem refletir, sem contemplação, anathrei; mas o homem, quando com algo se depara, coisa, eorake, sinônimo aliás de ópope, contempla-a e tenta racionalizá-la. O homem é o único animal que se pode chamar, propriamente, de ánthropos, i.e., contemplador do que vê, anathrônhà opôpen.
HERMÓGENES – Hmmm… E agora, queres que te pergunte sobre os nomes que tenho curiosidade de conhecer em seu significado mais profundo?
SÓCRATES – Responder-te-ei com muito prazer!
HERMÓGENES – Notei uma coisa que parece derivar do que disseste. Há no homem aquilo que batizamos alma, psyché, e corpo, sôma.
SÓCRATES – Efetivamente.”
“Alguns dizem que o corpo é a tumba, sêma, da alma, e que esta se encontra sepultada enquanto durar esta vida.”
“o que chamamos de ousía, outros chamam de esía, e outros ainda osía. Ora, se pensássemos nas mudanças que sofrem as palavras, e sobretudo no segundo tipo de mudança, poderíamos cogitar que a essência das coisas fosse perfeitamente chamada de hestía; e se por hestía designássemos tudo aquilo que possui essência, Hestía (Vesta)¹ é efetivamente o melhor nome próprio”
¹ Deusa do lar (vida doméstica) e uma das mais antigas do Panteão. Foi adquirir na Roma Antiga ainda muito mais reputação e relevância.
“Não nos espanta, diante de tamanha importância e centralidade, que a Hestía fosse invocada antes de qualquer deus nos sacrifícios. (…) Depois de Hestía convém examinar Rhea e Krónos (Réia e Cronos), se bem que já tocamos em Cronos neste diálogo.”
“SÓCRATES – Creio observar que Heráclito expressou com sagacidade idéias muito antigas que verdadeiramente se referem a Krónos e a Rhea, e que Homero inclusive já havia também exposto.
HERMÓGENES – Que estás querendo dizer, Sócrates?
SÓCRATES – Heráclito afirma que tudo passa; que nada permanece; e compara os fenômenos com o curso dum mesmo rio, no qual não se entra duas vezes.
HERMÓGENES – Estou conforme.
SÓCRATES – E achas mera coincidência que o próprio Heráclito tenha opinado que Rhea e Krónos fossem os antepassados de todos os deuses correntes? Aliás, por falar em correntes, sabes que Heráclito apodou tanto um como outro de corredores(*)? E não é Homero quem recita:
O Oceano pai dos deuses e sua mãe Tétis?
Hesíodo me parece falar no mesmo sentido. Por fim, em certa passagem Orfeu assim se exprime:(**)
O Oceano com seu fluxo e refluxo majestoso é o primeiro a se unir em himeneu a sua irmã Tétis, nascida da mesma mãe.
Repara como todas estas citações concordam e se moldam à doutrina heraclítica.”
(*) “Rhea deriva de rhéo, correr, fluir, Krónos de krounos, fonte. Platão havia explicado a etimologia de Cronos de forma diversa um pouco antes no diálogo.”
(**)Hermann (org.), Orfica
“HERMÓGENES – (…) Mas e Tétis?
SÓCRATES – (…) Não é mais que o nome <manancial>, levemente dissimulado. Porque as palavras diattómenon, o que salta, e ethoúmenon, o que corre, dão-nos a idéia dum manancial. Da combinação de ambos os termos formou-se Tethýs, Tetís.
HERMÓGENES – Ora, ora, eis uma explicação muito rara!
SÓCRATES – E por que não haveria de sê-lo? E agora, quem tomamos na seqüência? Zeus já foi.
HERMÓGENES – Exato.
SÓCRATES – Falemos então sobre os irmãos, Poseidon (Netuno) e Plutão, e ainda do segundo nome com que este é conhecido.
HERMÓGENES – De acordo.
SÓCRATES – Creio que ao inventor da palavra Poseidôn se lhe ocorreu o seguinte: enquanto caminhava pela beira da praia, o mar deteve seus passos, e não o permitiu avançar, a água agindo como corrente de ferrosobre seus pés. Chamou então o deus que preside esse poder de Poseidôn, <corrente para os pés>, se bem que originalmente posidesmos ôn. O <ei> foi acrescentado para prestar elegância. Ou, hipoteticamente, no lugar do sigma[s], havia, primitivamente, doislambdas [l], e daí derivamos outro significado do nome do deus: polla eidós, aquele que sabe tudo. Não nego que o sentido pode ter sido o de chamar por aquele que é capaz de comover (fazer vibrar, causar terremotos) a terra, hò seíon; e depois ter-se-á acrescentado um pi e um delta.
Mas quanto a Plutão, seu nome provém do fato de ele ser o concessor das riquezas, ploutos, uma vez que elas procedem do centro da terra. O outro nome desta divindade é Hades, que segundo opinião da maior parte dos homens expressa o invisível, tò aeidés,¹ e como este nome inspira terror preferem a designação Plutão.
HERMÓGENES – Mas isso é o que o povo fala; e quanto a ti, Sócrates?
SÓCRATES – Creio que os homens se enganam facilmente acerca dos poderes possuídos por Hades, e que não há fundamento para temê-lo tanto. O motivo desse temor é que, uma vez morto, o mortal desce às suas instâncias, sem esperança de regresso; neste momento, a alma abandona o corpo, e só ela segue viagem, para as cercanias deste deus. Eu creio haver uma incrível coincidência entre o poder deste deus e seu nome.”
¹ Com efeito, em Homero Hades possui um capacete que dota quem o veste da invisibilidade. Ele foi usado na Guerra de Tróia por quem foi apoiado pelo deus. Mas todos os deuses olímpicos têm o dom de se tornarem invisíveis aos meros mortais, se assim o desejarem. Talvez Plutão possa se ocultar até mesmo de todos os seus iguais, e além disso empresta este poder tãoespecial aos mortais, mesmo à distância, através de um objeto.
“SÓCRATES – (…) Sabes que nenhum dos que partiram deste mundo aspiram a voltar? Nem mesmo as sereias o queriam, pois estas encantadoras estão como que encantadas, tragicamente, forçadas a permanecer por aqui. E a causa são os magníficos discursos de Hades. Eis o maior dos sofistas, grande bem-feitor para seus aconchegados (…) Por outro lado, refratário à sociedade dos homens (vivos), que são afinal uns entorpecidos pelos sentidos da carne, e barganhando exclusivamente com aqueles cuja alma está livre de todos os males (a prisão corpórea), não te parece que, contrariando o que acabei de dizer, Plutão não seja um filósofo excepcional? Compreendeu que lhe seria fácil reter homens dessa natureza aferrando-os à sua virtude, posto que a virtude emana da alma, enquanto que seria impossível manter o domínio sobre homens que conservassem seus corpos, pois seria o mesmo que comandar loucos e estúpidos voláteis, que não deixariam de se rebelar e fazer uma revolução, por mais que o próprio Cronos emprestasse as correntes mais fortes do universo a este deus do submundo. Sim, nem o tempo vence a luxúria da carne!
(…)
E o nome Hades, meu querido Hermógenes, não é dedutível, p.ex., de aeidés, tenebroso? O poder que tem essa divindade de conhecer tudo sobre a beleza, eidenai; com certeza foi isso que inclinou o legislador a chamá-lo precisamente Hades e não outra coisa!
HERMÓGENES – Que assim seja. Mas e quanto a Deméter (Ceres), Hera (Juno), Apóllon, Athéna (Minerva), Hefaistos (Vulcano), Ares (Marte)… têm alguma explicação?!
SÓCRATES – Deméter, segundo eu creio, se chama assim porque nos dá de comer como uma mãe (didoûsa hos méter); Hera é uma divindade amável (eraté tis), afinal, como dizem os mitos, foi amada pelo próprio Zeus.Preocupado também com as coisas do Céu o legislador talvez tenha querido ocultar sob esta alcunha a do ar, aer, decompondo-a em parte e transferindo a primeira letra para o final. Percebi isso assim que pronunciei Hera várias vezes consecutivas. Pherréphatta (Perséfone, Proserpina) é um nome que, como o de Apolo¹, inspira grande terror à maioria dos homens por causa de seu histórico. Mas isso só ocorre porque os homens são ignorantes. Veja que muito antigamente só se dizia, no lugar, Phersephóne², nomenclatura que parece realmente terrível a todos, da qual Pherréphatta, como eufemismo, lentamente evoluiu. Mas, de fato, o que o nome original expressa? A sabedoria. No movimento perpétuo de todas as coisas, a sabedoria é a capacidade de tocá-las, manejá-las, acompanhá-las sempre para onde quer que fujam. Pherépapha era um vocábulo próprio para designar esta sabedoria; repito: neste contexto, trata-se da capacidade de apanhar aquilo que corre, epaphé toû pheroménou. Nota tu que Perséfone-Proserpina sempre aparece associada a Hades, outro sábio. Mas, como sabes, hoje em dia altera-se seu nome para Pherréphatta, preferindo-se o agrado ao ouvido que a dura verdade.”
¹ O mesmo em grego e em latim.
² Assim aparecia, por exemplo, em Homero. [Azcárate:] “Phéro phoné, que traz a morte violenta.”
“SÓCRATES – (…) Não há nome mais apropriado para expressar, simultaneamente, os 4 atributos deste deus; ou seja, a música, a profecia, a medicina e a arte de lançar flechas.¹
(…)
SÓCRATES – Um nome tão harmônico, como convém a um deus músico! As evacuações e purificações, medicinais ou religiosas; as fumigação do enxofre² no tratamento das doenças e nas operações rituais; as abluções e aspersões; todas estas práticas não têm outro objeto senão tornar o homem puro, de alma e de corpo. Ou discordas?
HERMÓGENES – De modo algum.
SÓCRATES – Portanto, o deus que purifica, o deus que lava, apolouon, que liberta, apolyon, dos males da alma e do corpo, seria que outro além de Apolo?”
¹ Para quem ainda não tiver desvendado: [Azcárate:] “Apóllumi, que faz perecer.”
² Desinfetante comum à época.
“Sabes que ele é quem sempre lança um tiro certeiro, aeì bal-lon?”
“o movimento celeste uniforme, tèn homoû pólesin; quero dizer, que atravessa o ar puro sem alterações, as vibrações harmônicas do som – o movimento apolar, posto que não se inclina nem para o norte nem para o sul, nem para cima nem para baixo, mas se propaga indistintamente em todas as direções.”
“O nome das musas, e em geral da música, parece provir de môsthai, designando a indagação, o filosofar; Letó (Latona)¹ expressa a doçura da deusa, sua boa vontade em ouvir súplicas, katà tò ethelémona eínai.”
¹ Mãe de Apolo.
“Artemis (Diana) para mim significa integridade, tò artemés, e decência, aludindo ao amor de Artemis pela virgindade. Ou quem deu nome à deusa¹ quis ressaltar que ela possui a ciência da virtude, aretês hístora²; ou que detesta as relações heterossexuais, ároton misesases.”
¹ Em outros trechos Platão emprega o misterioso termo “legislador”, que, embora não esteja em maiúscula na tradução em espanhol, parece se referir a algo acima de Zeus, o Rei do Olimpo, o deus dos deuses. Porque é óbvio que toda lei justa, e sobretudo a primeira, dentre os homens, foi de inspiração divina.
² Noção fundamental para entender o helenismo e, portanto, o próprio homem e a existência.
“HERMÓGENES – E sobre Diónysos (Baco)? E Aphrodite (Vênus)?
SÓCRATES – (…) Diónysos é aquele que dá o vinho (hò didoús tòn oînon), e em função de um trocadilho passou-se a chamá-lo também Didoinysos. (…) Sobre Aphrodite, não ouso contradizer Hesíodo; é preciso reconhecer que ela assim foi nomeada porque nascera da espuma do mar, to û aphroû.
HERMÓGENES – Mas Sócrates… como bom ateniense que és, seria um sacrilégio que esquecesses justo da deusa Athéna (Minerva); não passes batido também por Hephaistos (Vulcano) e Ares (Marte)…
SÓCRATES – Não, Hermógenes, não seria justo proceder assim!
(…)
SÓCRATES – O outro nome da deusa a que te referiste por último clarifica bastante sua origem.
HERMÓGENES – Qual nome?
SÓCRATES – Nós a chamamos de Palas, isto é, depois de muito tempo alguns ainda chamam.
HERMÓGENES – Sim, é verdade.
SÓCRATES – (…) A ação de qualquer um de se lançar a si mesmo, ou de lançar algum objeto, alçando-o da terra e brandido-o nas mãos, expressamo-la através dos vocábulos pal-lein y pal-lestai, orchein e orcheisthai.”
“inteligência de Deus, theou noeesin, que parece hà theonóa, atenuando-se assim o eta pelo alfa, conforme proceder dum idioma estrangeiro [dialeto dórico].”
“Ora, se queres, Ares procede de árren, varonil, e de andreîon, viril.”
“andreia, o valor”“Andreia indica que o valor toma seu nome do combate. Porque o combate, se é mesmo exato que as coisas passam e correm, não pode representar mais que duas correntes, uma contra a outra, enantian rhoen. Se retirarmos odelta da palavra andreia, teremos então an-rheia, contracorrente, que expressa o que constitui propriamente o valor.”
“HERMÓGENES – Se é que não estás já cansado, Sócrates, permita-me indagar por último ainda acerca de Hermes (Mercúrio), já que Crátilo nega que eu seja verdadeiramente Hermógenes. Examinemos então o sentido desta palavra, Hermes, para saber se Crátilo tem ou não a razão!”
“o termo eírein expressa o uso da palavra; e temos ainda que a palavra emésato, empregada muitas vezes por Homero, tem o sentido de inventar. (…) Íris parece também derivar seu nome de eírein, em razão de sua qualidade de mensageira.”
“SÓCRATES – E Pan, meu querido amigo? Provavelmente é filho de Hermes, e tem uma dupla natureza.
HERMÓGENES – Como?
SÓCRATES – Sabes que o discurso expressa tudo, pan, e que roda e circula sem cessar, poleîaei. Sabes igualmente que circula de dois modos: verdadeiro e falso.
HERMÓGENES – Perfeitamente.”
“SÓCRATES – O que enuncia tudo, pan, e que circula sem cessar, aei polon, filho de Hermes, com dupla natureza, liso e limpo na parte superior; peludo como uma cabra, na parte inferior. Por conseguinte, se Pan é filho de Hermes, é, ou o discurso, ou o irmão do discurso. (…) deixemos em paz aos deuses.”
“SÓCRATES – A palavra Hélios fica mais clara quando se a estuda à luz do dialeto dórico. Os dórios dizem Halios. Halios poderia significar que este astro, no momento que nasce, reúne os homens, alíxein, ou que gira perpetuamente, aeí eílein, ao redor da terra; ou ainda, que se investe de cores diversas, poikíl-lei, em seu movimento, todos os produtos da terra; porque poikíl-lein e aioleîn têm o mesmo sentido.
HERMÓGENES – E a lua seléne?
SÓCRATES – Essa é uma palavra que mortifica Anaxágoras!
HERMÓGENES – Ah é? E por quê?
SÓCRATES – Porque parece atestar a antiguidade da doutrina, recentemente ensinada por este filósofo, de que a lua recebe a luz do sol.
HERMÓGENES – Mas como pode ser isso?
SÓCRATES – As palavras sélas e phôs têm o mesmo sentido (luz).
HERMÓGENES – Sem dúvida!
SÓCRATES – Então! a luz que recebe a lua é sempre nova e velha, néon kaì énon aeí, se os discípulos de Anaxágoras falam a verdade; porque girando o sol ao redor da lua, envia-lhe uma luz sempre renovada; enquanto que aquela que recebera o mês passado é já velha.
(…)
SÓCRATES – E, posto que a luz é sempre nova e velha, sélas néon kaì énon aeí, nenhum nome pode convir-lhe melhor que selaenoneoáeia, que abreviadamente dizemos: selanaía.
HERMÓGENES – Eis uma palavra autenticamente ditirâmbica, Sócrates! Mas o que me dizes de meis, meses, e dos àstra (astros)?
SÓCRATES – Mein de meioûsthai, diminuir, deveria dizer-se propriamente meies. Os astros parece que tomam o nome de seu brilho, astrapé; palavra que, ao vir de tà ôpa anastrophé, ou seja, que atrai os olhares, deveria, melhor, ser pronunciada anastropé; mas para se tornar ainda mais elegante diz-se astrapé.
HERMÓGENES – E as palavras pûr, fogo e húdor, água?
SÓCRATES – A palavra pûr me deixa sem saídas; Precisamente a musa de Eutifrão me abandonou, ou então esta questão é mesmo das mais complicadas. Mas observa de que expediente peço auxílio ao indagar sobre isso, quando me vejo assim enredado!”
HERMÓGENES – Vejamo-lo.
SÓCRATES – Então lá vai: Responde-me: podias me dizer como raios se formou a palavra pûr?
HERMÓGENES – Por Zeus! Claro que não…
SÓCRATES – Examina, então, o que eu intuo. Creio que os gregos, principalmente os que vivem sob a dominação dos bárbaros, deles tomaram muitos nomes.
HERMÓGENES – E, bem, que é que decorre daí?
SÓCRATES – Que ao tentarmos interpretar estas palavras no âmbito do grego, e não dos idiomas forasteiros, é impossível não tropeçar em grandes obstáculos.
HERMÓGENES – Muito exato.
SÓCRATES – Observa, pois, se esta palavra, pûr, é de origem bárbara. É difícil fazê-la derivar da língua grega, percebe? os frígios empregam esta mesma palavra, sabes?, só que modificada. O mesmo acontece com as palavras húdor, e ainda kýon, cachorro, e tantas outras!
(…)
SÓCRATES – (…) Mas o ar, meu querido amigo Hermógenes, não se chama hoje aér porque é capaz de levantar, aírei, o que estava sobre a terra? Ou será então porque sempre se escorre, aeì rheî, ou porque o vento nasce do movimento do ar que passa? Os poetas denominam os ventos, às vezes, aétai. É como se se dissesse pneumatórroun, aetórroun. (…) A palavra éter, aithér, significa, a meu ver, que corre sempre, deslizando-se ao redor do ar, aeì theî perì tòn aéra rhéon, e seria mais preciso dizermosaeither. O sentido da palavra gé [lido gué], terra, seria muito mais claro se pronunciado gaia. Gaia, alias, significaria propriamente gennéteira, geradora, conforme expressão de Homero, que diz, na prática, gegáasi, ao escrever gegennêsthai.”
“SÓCRATES – É preciso pronunciar a palavra horai como se fazia noutros tempos, entre os atenienses, se se quer descobrir seu sentido provável. As estações chamam-se horai porque determinam, horízein, o inverno, o estio, a época dos ventos e dos frutos da terra. O que se denomina horai, bem poderia denominar-se horizousai. (…) E, como vimos dizendo, que o nome de Zeus fôra dividido em dois, alguns chamando-o Zêna, outros Dia; assim também, neste caso, alguns chamam o ano eniautós, derivado de en autô, enquanto outros o chamam etos, de etazei.”
“atribuirão esta concepção a sua disposição interior como sua causa; preferem crer que as coisas nascem sem cessar; que não há uma que seja durável e fixa; que tudo passa, e que tudo está num movimento sem fim e em geração eterna. Esta reflexão eles generalizam para toda e qualquer palavra nomeável.”
“Veja o caso de Phrónesis; significa, com efeito, a inteligência daquilo que se move e corre, phoras kai rhou noesis. Ou se referiria, antes, à vantagem que retira do mover-se, phoras onesin. (…) gnomé pode ser chamado de exame da geração, gones nomesin, pois que na verdade noman e skopein têm o mesmo sentido, que é o de examinar. Noesis, a inteligência, poderia ser o desejo de novidade, neou esis. (…) Outrora não se dizia noesis, mas neoesis. Sophrosýne, prudência, é a asseguradora do que acabamos de tratar, da sabedoria, phroneseos. Episteme, a ciência, simboliza a alma, que, de acordo com a razão, acompanha as coisas em seus movimentos, sem perdê-la de vista; não se adianta demais nem fica para trás. É preciso eliminar o épsilon [e] e chamar a ciência pistéme, fiel. Sýnesis parece formada anàlogamente a syl-logismos; embora quando se diga synienai, compreender, é como se se dissesse epistasthai, saber (…) o sentido da palavra Sophía, a sabedoria, é alcançar o movimento. (…) esýthe é se lançou. Não existiu entre os espartanos um sujeito famoso chamado Sous? Esta palavra entre os desta polis significa carreira, rápido arranque. Sophia significa, portanto, a ação de alcançar o movimento, phoras epaphen, em meio ao fluxo geral dos seres. A palavra agathon, o bem, convém ao que há de admirável, tô agastô, em toda a natureza. Os seres se movem, mas uns lenta, outros cèleremente. (…) agathon se aplica ao que é admirável justamente por sua rapidez, ton thooutô agastô.”
“Os que crêem que tudo está em movimento supõem que a maior parte do universo nada faz senão passar; mas que há, em contrapartida, um princípio que vai de uma a outra parte, nele, produzindo tudo o que passa, e em virtude do qual as coisas mudam como elas mudam; e que este princípio é de uma velocidade e de uma sutileza tremendas. Como este princípio poderia atravessar em seu movimento este universo móvel, se não fosse sutil o bastante, a ponto de nada detê-lo, e ao mesmo tempo rápido o bastante para que tudo em relação a ele parecesse estar meramente em repouso?”
“o justo é também a causa (e por causa entende-se: o que dá a algo a faculdade do ser)” “o que é o justo? com efeito minhas perguntas parecem atrevidas, e crêem que eu já estou passando dos limites, como sói-se dizer.”
“Este aqui diz que o justo é o sol. Não é o sol aquele que governa os seres, penetrando-lhes, diaiontakai kaonta? Apresso-me a revelar aos demais esta descoberta tão magnífica, e riem-se; outro me pergunta então: haverá ainda justiça entre os homens depois que o sol se põe? Pergunto eu mesmo a este debatedor o que ele pensa ser o justo, e ele me revela: é o fogo! Mas isto, confesso, não me é fácil conceber. Outro vem e diz: não é o fogo propriamente dito, mas o calor que reside no fogo. Outro ridiculariza todas estas explicações mirabolantes; pretende, no lugar, que o justo é aquilo que diz Anaxágoras: a inteligência. Ela em sua soberania é que ordenaria todas as coisas, sem fundir-se com nenhuma, mas simultaneamente penetrando-as em todos os sentidos concebíveis, dià (panton)ionta.”
“Gyné, mulher, parece-me querer dizer geração; thély, fêmea, a meu ver deriva de thelé, teta.”
“À força de intercalar letras nas palavras primitivas, elas foram alteradas a tal ponto que ninguém pode hoje apurar o que significam. P.ex., chamam esfinge sphigx no lugar de phix.”
“Tudo aquilo que interpõe um obstáculo ao movimento e à corrida, ienai poreuesthai, é um mal: a covardia, a vacilação, aporía. Avançar aos percalços significa mover-se com lentidão e constrangimento; e quando a alma está assim, nela predomina a maldade, kakía. Se este for o sentido de kakía, a palavra areté deverá ser seu oposto, significando o movimento fácil, a euporía, ou o curso desimpedido, rhoen, de uma alma boa. O que não cessa de correr ou andar, aei rheon, sem coação ou obstáculo; eis aqui a conotação de areté.” “Mas já vejo: dirás que invento o que me dá na telha outra vez. E eu respondo: se meu sentido de kakía estiver correto, é impossível não haver bem-determinado o sentido de areté.
HERMÓGENES – Mas e a palavra kakón, mal, de que te serviste em inúmeras ocasiões – donde vem?
SÓCRATES – Por Zeus!, essa é uma palavra estrangeira, é difícil descobrir isso. Vou pedir o auxílio da minha famosa tática.
HERMÓGENES – Que tática?
SÓCRATES – A de dizer que é uma palavra de origem bárbara, ora!”
“Sabemos que nossos antepassados faziam uso mais constante doiota e dodelta, como se observa ainda hoje entre as mulheres, que conservam por mais tempo a linguagem arcaica.”
“SÓCRATES – Já sabes que no lugar de zygón, jugo, os antigos diziam dyogón.
(…)
SÓCRATES – E zygón não significa nada; já dyogón expressa muito bem a união de dois animais para conduzir algo juntos, toin duoin eneka tes deseos es ten agogen.”
“Lýpe, dor, é o nome dado à dissolução, diálysis, que produz no corpo. Anía, tristeza, é o que impede caminhar, iénai. Algedón, pena, parece-me que é uma palavra estrangeira derivada de algeinón, penoso.”
“Com respeito a epithymía, paixão, não há dificuldade; pois evidentemente expressa um poder que penetra no coração, epi ton thymon iouse, e thymos, coração, valor, toma seu nome do ardor, thyseos, e da fervura da alma.”
“nomeia-se póthos o que se chamava antes hímeros, quando o objeto desejado estava presente. O amor é éros, porque é uma corrente que se insinua, esrei, vindo de fora, que não é própria daquele que a experimenta, e se introduz efetivamente pelos olhos.”
“A mesma relação que há entre boulé, vontade, e bolé, tiro ou disparo. Boulesthai, querer, significa lançar-se até, o mesmo que bouleuesthai, deliberar. Todas estas palavras, que correspondem à mesma ordem de dóxa, não são mais que expressões diversas da idéia de tiro ou arranque. A palavra negativa aboulía, imprudência, falta de vontade, parece designar a desgraça daquele a quem se lhe frustra um propósito, ou bálontos”
“HERMÓGENES – (…) Por que se chama ónoma?
SÓCRATES – Sabes o que quer dizer maíesthai?
HERMÓGENES – Sim: indagar.
SÓCRATES – A palavra ónoma me parece o resumo de uma proposição, na qual se afirma que o ser é o objeto, cujo nome é a indagação. Mas isto é mais fácil de compreender pela palavra onomastón, o que se pode nomear. (…) Alétheia, verdade, me parece também uma palavra formada de muitas outras. Parece que quiseram designar, com ela, o divino movimento do ser, e que alétheia significa uma carreira divina, ale theia. Pseûdos, mentira, expressa o contrário do movimento. Nesta palavra encontramos também a reprovação imposta a tudo aquilo que se detém, a tudo o que obriga ao repouso, e este termo representa o estado das gentes que dormem, katheúdousi. (…) Quanto a ón, ser, e ousía, essência, são um tanto análogos ao verdadeiro, se se acrescentar um iota (…) o não-ser, ouk ón ou ouk ión.
HERMÓGENES – Vejo, então, Sócrates, que resolveste com firmeza estas dificuldades! Mas se neste exato instante te interpelassem quanto a estas expressões ión, andando, rhéon, correndo, doûn, ligando, e te perguntassem qual é a propriedade…
(…)
SÓCRATES – Há uma certa tática que já nos salvou antes, e que pode servir o suficiente como resposta.
HERMÓGENES – Que tática?
SÓCRATES – Ora, esqueceste? Dizer que as palavras, cujo sentido não compreendemos, são de origem bárbara!”¹
¹ Já é a terceira vez. Parece que Hermógenes estranhamente não grava uma idéia, que é exposta como inédita mesmo ao ser enunciada repetidamente. A mesma ironia platônica se encontra nas últimas aspas do Crátilo, com o outro interlocutor principal deste discurso.
“se nós não tivéssemos nem voz nem língua, e quiséssemos, apesar disso, chamarmos uns aos outros e às coisas, não é certo que recorreríamos, como a gente muda, a sinais de mão, da cabeça e do resto do corpo?”
“Me parece que, uma vez imitando-se essas qualidades, tal imitação não teria relação alguma com a arte de nomear. Quem se aproveita disso são os músicos e pintores.”
“A própria cor e a voz, não têm, cada uma, sua essência, como todas as demais coisas que merecem o título de <seres>?”
“Posto que a imitação da essência tem lugar mediante as sílabas e as letras, não seria mais conveniente distinguir a partir de agora as letras, como fazem os que estudam o ritmo?” “não devíamos, igualmente, fazer distinção, a partir deste momento, entre as vogais, e em seguida as demais sub-espécies de letras, sejam consoantes e mudas (como dizem os gramáticos); sejam intermediárias¹? Não é verdade, ainda, que as próprias vogais possuem subdivisões?”
¹ Distinção que soa estranha ao leitor moderno não-especialista: estamos acostumados com a classificação binária vogal/consoante. Em Lingüística, porém, particularmente no nível sintático e morfológico, nos deparamos com estratificações as mais díspares e complexas. Podemos classificar, na Fonética, os sons de algumas consoantes em oclusivos (as mudas de Platão), outros em nasais, fricativos, aproximantes (o que mais se assemelharia a um híbrido vocal-consonantal), vibrantes, etc.
“É dessa forma que os pintores obtêm cores similares ou distintas, usando o púrpura puro ou matizes formados pela mescla dos tons primários, a fim de representar, por exemplo, o tom da carne ou objetos que-tais, guardando-se de representar a realidade infielmente.”
“o discurso está para a arte dos nomes, a oratória, etc., como a representação de um ser animado está para a arte do pintar. Ah, deixo-me levar por meras palavras! Todas estas combinações não passam do trabalho hoje indiscernível de várias gerações de nossos antepassados. Quanto a nós, só nos resta adotar um método, e o da divisão é um a considerar. E com isso julgar, por fim, se as palavras, ou originárias ou derivadas, foram bem ou mal-aplicadas.”
“A não ser que, pensando como os tragediógrafos, que recorrem recorrentemente a <máquinas> e fazem intervir os deuses, recorramos também, por nossa vez, a artifício análogo, afirmando que foram as divindades que instauraram os primeiros vocábulos da língua – eis a fonte!” “É, pois, evidente que aquele que se considera hábil na interpretação das derivadas deve estar em posição de dar explicações completas e claras sobre as primitivas, ou então limitar-se a nada dizer senão nescidades.”
“enganar-se a si mesmo é sem dúvida o pior que pode haver; porque quando o enganador é o mesmo que o enganado, significa que o segue onde quer que ele vá. Imaginas-te algo mais tenebroso? Convém, doravante, retornar sobre o já–concebido, sem cessar, sobre cada pequena idéia enunciada, esforçando-nos ao máximo, vendo para frente e para trás, abrangendo todas as direções em nosso olhar. Fixemo-nos no que dissemos até aqui.”
“SÓCRATES – Diga-me, não te parecem as leis umas piores, outras melhores?
CRÁTILO – Não, Sócrates. Em verdade, todas as leis valem o mesmo, e não pode haver superioridade de umas sobre outras. Isso seria negar todas as leis, pois cada uma contribui com seu naco de perfeição para a harmonia geral e é igualmente imprescindível ao todo.
SÓCRATES – Muito bem! Neste caso, dirias que os nomes são todos iguais em valor ou que há uma hierarquia entre eles?
CRÁTILO – Não há tal hierarquia, como é evidente.
SÓCRATES – Todo nome convém à coisa?
CRÁTILO – Toda coisa nomeada convém ao nome que lhe foi dado.
(…)
CRÁTILO – Creio, assim, Sócrates, que o nome Hermógenes não pertence a nosso amigo, mesmo que as aparências enganem; creio que este nome caiba mais a um indivíduo cuja natureza difira da sua!
SÓCRATES – Dizer que nosso amigo, que está presente, é Hermógenes não seria dizer, pois então, uma mentira? A menos que não se considere impossível dizer que quem não é Hermógenes possa ser chamado de Hermógenes.
CRÁTILO – Desculpa-me, Sócrates, mas me confundiste.
(…)
CRÁTILO – (…) mentir não seria o equivalente a dizer o que não é?
SÓCRATES – Isto é sutil demais para mim nesta idade, caro Crátilo. Responde-me uma coisa só: teu juízo deve ser de que é impossível <não ser veraz>, mas que seja possível <ser veraz equivocadamente>, não é certo?
CRÁTILO – Não, não, Sócrates: tampouco isso.
SÓCRATES – Nem se expressar mal? Ser infeliz ao chamar alguém? Por exemplo, se ao encontrar-te no estrangeiro alguém que nunca te vira antes, te apanhasse pela mão e assim dissesse: <Saúdo-te, estrangeiro ateniense, Hermógenes, filho de Hipônico!¹>; tu mesmo, responde: parecer-te-ia que este homem diz, designa, expressa, interpela, não a ti mesmo, mas a Hermógenes? Ou está falando, na realidade, com ninguém?
CRÁTILO – Parecer-me-ia que não estaria fazendo mais do que articular sons.
SÓCRATES – Já é o bastante para confirmar meu ponto. Articulando sons, mente ou diz a verdade? Ou ambos ao mesmo tempo? Isto só exijo de ti saber.
CRÁTILO – Não me constrange dizer que aí só há ruído e movimento vão, como se esbarrássemos num vaso de metal.
(…)
SÓCRATES – Atenta para o seguinte, Crátilo: a imagem do homem pode comunicar ao homem, a imagem da mulher à mulher e assim por diante?
CRÁTILO – É óbvio que pode.
SÓCRATES – E se raciocinássemos de forma invertida? Pode-se referir à mulher através da imagem do homem e ao homem através da imagem da mulher?
CRÁTILO – Não nego a obviedade também desta afirmação.
SÓCRATES – E estas referências, estão em seu devido lugar, ou metade sim e metade não?
CRÁTILO – Sócrates, só metade delas se refere adequadamente.”
¹ Insiro o nome, embora desconfiado, pois encontro esta informação para pesquisas em Português; já no original, Azcárate menciona um tal Esmicrión.
“SÓCRATES – Por Zeus! talvez a arte dos nomes seja como qualquer outra, e existam bons e maus legisladores; pelo menos, essa parece uma conclusão lógica depois de tudo o que acabamos de afirmar, e tu não discordas de mim.”
“É preciso que a imagem não reproduza o modelo inteiro, se quiser ser imagem do modelo. Crátilo e a imagem de Crátilo são duas coisas distintas”
“SÓCRATES (…) – Não conheces o princípio de que não é necessário que as imagens encerrem literalmente, ponto por ponto, os elementos e uma correspondência completa com as coisas que representam?
CRÁTILO – Sócrates, conheço este princípio.
SÓCRATES – Ah, Crátilo, estaríamos bem melhor se os nomes e as coisas que eles nomeiam se parecessem em absoluto! Tudo se faria duplo no devir, e não seria possível dizer: está é a coisa–em–si, e este é apenas seu nome.
CRÁTILO – Seguramente.
SÓCRATES – (…) não exijas, assim, que uma palavra tenha todas as letras necessárias para representar aquilo, cuja imagem já é por excelência; consente que haja letras inúteis nas palavras; e já que começas por permitir letras impertinentes nas palavras, começa também a ser permissivo com palavras soltas em frases; e frases num longo discurso. Por mais que esta letra, esta palavra e até esta frase não sejam afins com as coisas, nem por isso deixarão as coisas de ser bem-nomeadas e enunciadas, desde que o caráter específico da coisa esteja assinalado
(…)
SÓCRATES – (…) assim livramo-nos por exemplo da absurda multa que se aplica em Egina¹, quando se encontra algum passante nas ruas, no que os legisladores chamam, muito vagamente, de muito tarde da noite!”
¹ Ilha grega situada a 30km de Atenas.
“SÓCRATES – (…) Quando dizemos que orho¹ guarda relação com a mudança de lugar, o movimento e a rudeza, te parece que temos ou não razão?
CRÁTILO – Parece que tendes razão, Sócrates.
SÓCRATES – E quando dizemos que olambda se refere ao liso, ao doce, e a qualidades análogas, temos ou não razão?
CRÁTILO – Também tendes.”
¹ Ao mesmo tempo que é uma letra do alfabeto grego (corresponderia ao nosso “r”), vê-se certa conexão etimológica entre rho e os atuais corrida, run, Lauf, marche!
“Quanto ao uso, acredita que é algo diferente de um convênio?” “creio que só a utilização fática pode servir de critério para representar a coisa na hora de decidir se cabe ou não cabe usar tal ou qual nome”
SAUSSURE NA ANTIGUIDADE: “Onde a gente encontraria nomes que fossem semelhantes a cada número a fim de aplicá-los adequadamente, no caso de não se chegar a um acordo ou convenção? É sempre inevitável que o cidadão procure palavras que se pareçam com as coisas; mas, de fato, como dizia Hermógenes ainda há pouco, não há que deixar-se levar aos extremos, sendo violentado pelas palavras unicamente para estabelecer essa semelhança; muitas vezes a propriedade de algo só pode ser explicada pela convenção pura e simples.”
“SÓCRATES – É evidente que o primeiro que usou nomes os formou segundo a maneira como concebia as coisas. Não é isso que concluímos?
CRÁTILO – Sim.
SÓCRATES – Por conseguinte, existe a possibilidade de esse alguém ter concebido as coisas mal e atribuído os nomes de maneira errada; crês tu que conosco pode acontecer igual? Como evitar isto?”
“E se o inventor dos números houver se enganado desde o primeiro, significaria que todos os demais estariam errados, ao terem de forçosamente convir com aquele erro original. O mesmo com uma forma geométrica: se se erra desde o início, ainda que ligeira e imperceptivelmente, tende certeza que em todo o posterior as conseqüências se farão sentir!”
“SÓCRATES – me surpreenderia, aliás, se todos os nomes estivessem de acordo com as coisas e fora de conflito com os outros nomes. Consideremos novamente apenas aqueles que já estudamos hoje; dizíamos que os nomes nos representam o mundo em movimento, em mudança e em fluxo perpétuos. (…)
SÓCRATES – (…) Mas revisemos a palavra epistéme. É sem dúvida equívoca; pois creio que a alma se detém sobre as coisas, conforme histesinepi, e não que se arrasta. (…) Bébaion parece significar a imagem de uma base, báseos, ou seja, de um estado estacionário; exatamente o oposto do movimento. <História> expressa o que detém a expansão, histesin ton rhoun. Pistão (tambor, válvula) expressa manifestamente a idéia de deter, histân. Mnéme indica para todos a permanência, moné, na alma, e não o movimento. Se é o que desejas, examinaremos também as palavras hamartía, erro, e xymphorá, acidente: encontraremos nelas uma grande analogia com xynésis, epistéme, e com todas as más palavras que se referem a coisas excelentes. Amathía, ignorância, e akolasía, intemperança, são palavras do mesmo gênero. Uma parece designar a marcha de um ser que anda conforme deus, hama theôi ióntos; a outra, akolasía, a ação de seguir as coisas, akolouthía. (…) Tenho convicção de que (…) o inventor dos nomes quisera expressar, antes de as coisas se moverem e passarem, que elas ficam e permanecem.
CRÁTILO – Mas Sócrates, a maioria mesmo das palavras expressa a primeira opinião.
SÓCRATES – Mas o quê importa, querido Crátilo? Podemos ficar contando nomes como se fosse o número de objetos dum todo, como as cabeças duma assembléia, fazendo todas as propriedades dos objetos nomeados decorrerem desta espécie de cálculo?
CRÁTILO – Não, e nem seria razoável.”
“SÓCRATES – Quanto ao primeiro nomeador, cabe perguntar como e mediante que meios (que nomes!) aprendeu e encontrou as coisas, pois que não existiam ainda as primeiras palavras; como concluímos nesta conversação, é simplesmente impossível aprender ou encontrar as coisas sem antes haver aprendido ou encontrado por si mesmo alguns significados de nomes.”
“CRÁTILO – Ao que parece, Sócrates, a melhor explicação a fim de sairmos desta imensa dificuldade seria: um poder superior ao do homem concedeu-lhe acesso aos primeiros nomes das coisas; não foram obtidos a princípio por nós mesmos.
SÓCRATES – Hmm, mas Crátilo, quem institui primeiro os nomes, segundo teu parecer, se deus ou demônio, o que presentemente ignoramos, por um acaso quis negar-se a si mesmo ao estipulá-los? Isso, claro, pressupondo que tu concordes com os significados dos nomes que acabamos de destrinchar…
(…)
SÓCRATES – Portanto, Crátilo, é possível aprender as coisas sem o auxílio dos nomes.
CRÁTILO – Me convenceste.”
“Tudo aquilo que é inédito, alienígena, alheio, diverso, não pode evidenciar nada senão ineditismo, alienação, estranhamento, contraste; a coisa–em–si nunca aparece.”
“SÓCRATES – Que método dever-se-ia seguir a fim de se aprender ou descobrir a natureza dos seres? – eis uma questão, quem sabe, superior ao meu alcance, e ao de qualquer outro homem. O importante é reconhecer que não é nos nomes, e sim nas coisas propriamente ditas, que se deve buscar e estudar as coisas.
CRÁTILO – Concordo.”
“SÓCRATES – Não se trata de examinar se existe de fato um belo aspecto ou um belo isso ou um belo aquilo, já que tudo isto, ao que me parece, se encontra num perpétuo movimento. O que importa é saber se existe uma beleza fixa, eterna, em si.
CRÁTILO – Necessariamente.”
“SÓCRATES – Como poderia existir algo, se esse algo nunca aparecesse sob a mesma capa? Se se seguem dois instantes distinguíveis em que vemos um só objeto, já não é. Ou seja, o que é só é enquanto está congelado. Já, no extremo oposto, se algo subsistisse sempre sob a mesma capa, como poderia mudar de estado e de lugar, sendo sempre igual a si mesmo e a sua própria essência?”
“Mas se, pelo contrário, o que conhece existe; se o que é conhecido existe; se todos estes seres existem; não vejo que relação possam ter todos os objetos que acabamos de nomear com o fluxo e o movimento. Estes objetos são, com efeito, desta natureza [estática], ou são de outra, isto é, como querem os partidários de Heráclito e muitos outros mais? Este ponto não é fácil de decidir. Não é próprio dum homem sensato submeter sua pessoa cegamente, e também a sua alma, ao império das palavras; dar-lhes fé total e incondicional, assim como a seus autores¹; nem afirmar que estes são os únicos a possuir a ciência perfeita, e conceber para si e para as coisas este maravilhoso juízo de que não há nada estável, mas que tudo está em mutação, como a argila úmida… (…) Bem, quiçá seja assim, meu querido Crátilo, quiçá doutra maneira…”
¹ Platão, como sempre, só critica grandes pensadores como Heráclito (ou Parmênides, em outros livros) por intermédio de seus discípulos.
“CRÁTILO – Assim farei, Sócrates. É preciso, no entanto, que saibas que eu já pensei bastante sobre esta questão; e que, com tudo bem-pesado e examinado, parece-me que a verdade está do lado de Heráclito.
SÓCRATES – Querido amigo, aguardo-te na volta para que falemos disso outra vez. Agora, como vejo que te apressas ao campo, põe-te em marcha. Hermógenes te acompanhará.”
“In 1978, in a brief Appendix to the collected papers of the 1976 Louvain Colloquium on Literature and Translation, André Lefevere proposed that the name Translation Studies should be adopted for the discipline that concerns itself with <the problems raised by the production and description of translations>.”
“The art of translation is a subsidiary art and derivative. On this account it has never been granted the dignity of original work, and has suffered too much in the general judgement of letters.” Belloc
“studies purporting to discuss translation <scientifically> are often little more than idiosyncratic value judgements of randomly selected translations of the work of major writers such as Homer, Rilke, Baudelaire or Shakespeare. What is analysed in such studies is the product only, the end result of the translation process and not the process itself.”
“1791 had seen the publication of the first theoretical essay on translation in English, Alexander Tytler’s Essay on the Principles of Translation”
“Hence Dante Gabriel Rossetti could declare in 1861 that the work of the translator involved self-denial and repression of his own creative impulses” “At the opposite extreme Edward Fitzgerald, writing about Persian poetry in 1851, could state <It is an amusement to me to take what liberties I like with these Persians, who, (as I think) are not Poets enough to frighten one from such excursions, and who really do want a little Art to shape them.>” “These two positions are both quite consistent with the growth of colonial imperialism in the nineteenth century. From these positions derives the ambiguity with which translations have come to be regarded in the twentieth century.” “Hence a growing number of British or North American students read Greek and Latin authors in translation or study major nineteenth-century prose works or twentieth-century theatre texts whilst treating the translated text as if it were originally written in their own language.”
“Some scholars, such as Theodore Savory, define translation as an <art>; others, such as Eric Jacobsen, define it as a <craft>; whilst others, perhaps more sensibly, borrow from the German and describe it as a <science>. Horst Frenz even goes so far as to opt for <art> but with qualifications, claiming that <translation is neither a creative art nor an imitative art, but stands somewhere between the two.>”
“The most important advances in Translation Studies in the twentieth century derive from the ground-work done by groups in Russia in the 1920s and subsequently by the Prague Linguistic Circle and its disciples. Vološinov’s work on Marxism and philosophy, Mukařovský’s on the semiotics of art, Jakobson, Prochazka and Levý on translation have all established new criteria for the founding of a theory of translation and have showed that, far from being a dilettante pursuit accessible to anyone with a minimal knowledge of another language, translation is, as Randolph Quirk puts it, <one of the most difficult tasks that a writer can take upon himself.>” “To divorce the theory from the practice, to set the scholar against the practitioner as has happened in other disciplines, would be tragic indeed.”
“The fourth category, loosely called Translation and Poetics, includes the whole area of literary translation, in theory and practice. Studies may be general or genre-specific, including investigation of the particular problems of translating poetry, theatre texts or libretti and the affiliated problem of translation for the cinema, whether dubbing or sub-titling. Under this category also come studies of the poetics of individual, translators and comparisons between them, studies of the problems of formulating a poetics, and studies of the interrelationship between SL [Source Language] and TL [Target Language] texts and author—translator—reader.” “It is important for the student of translation to be mindful of the four general categories, even while investigating one specific area of interest, in order to avoid fragmentation.”
“All too often, in discussing their work, translators avoid analysis of their own methods and concentrate on exposing the frailties of other translators. Critics, on the other hand, frequently evaluate a translation from one or other of two limited standpoints: from the narrow view of the closeness of the translation to the SL text (an evaluation that can only be made if the critic has access to both languages) or from the treatment of the TL text as a work in their own language. And whilst this latter position clearly has some validity—it is, after all, important that a play should be playable and a poem should be readable—the arrogant way in which critics will define a translation as good or bad from a purely monolingual position again indicates the peculiar position occupied by translation vis-à-vis another type of metatext (a work derived from, or containing another existing text), literary criticism itself.
In his famous reply to Matthew Arnold’s attack on his translation of Homer, Francis Newman declared that
Scholars are the tribunal of Erudition, but of Taste the educated but unlearned public is the only rightful judge; and to it I wish to appeal. Even scholars collectively have no right, and much less have single scholars, to pronounce a final sentence on questions of taste in their court.”
A TRADUÇÃO DEFINITIVA DO CLÁSSICO DEFINITIVO DO ESCRITOR DEFINITIVO
A BÍBLIA DA LITERATURA OU A LITERATURA DA BÍBLIA?
“In his useful book Translating Poetry, Seven Strategies and a Blueprint, André Lefevere compares translations of Catullus’ Poem 64 with a view not to comparative evaluation but in order to show the difficulties and at times advantages of a particular method. For there is no universal canon according to which texts may be assessed. There are whole sets of canons that shift and change and each text is involved in a continuing dialectical relationship with those sets. There can no more be the ultimate translation than there can be the ultimate poem or the ultimate novel”
“The nineteenth-century English concern with reproducing <period flavour> by the use of archaisms in translated texts, often caused the TL text to be more inaccessible to the reader than the SL text itself. In contrast, the seventeenth-century French propensity to gallicize the Greeks even down to details of furniture and clothing was a tendency that German translators reacted to with violent opposition. Chapman’s energetic Renaissance Homer is far removed from Pope’s controlled, masterly eighteenth-century version.”
“if there are criteria to be established for the evaluation of a translation, those criteria will be established from within the discipline and not from without.”
1. LINGUAGEM E CULTURA
“The first step towards an examination of the processes of translation must be to accept that although translation has a central core of linguistic activity, it belongs most properly to semiotics, the science that studies sign systems or structures, sign processes and sign functions (Hawkes, Structuralism and Semiotics, London 1977).”
“Language, then, is the heart within the body of culture, and it is the interaction between the two that results in the continuation of life-energy. In the same way that the surgeon, operating on the heart, cannot neglect the body that surrounds it, so the translator treats the text in isolation from the culture at his peril.”
“Jakobson declares that all poetic art is therefore technically untranslatable” “Jakobson gives the example of the Russian word syr (a food made of fermented pressed curds [tecnicamente, coalhada, tofu ou queijo coalho]) which translates roughly into English as cottage cheese. In this case, Jakobson claims, the translation is only an adequate interpretation of an alien code unit and equivalence is impossible.”
“consider the question of translating yes and hello into French, German and Italian. This task would seem, at first glance, to be straightforward, since all are Indo-European languages, closely related lexically and syntactically, and terms of greeting and assent are common to all three. For yes standard dictionaries give:
French: oui, si
German: ja
Italian: si
It is immediately obvious that the existence of two terms in French involves a usage that does not exist in the other languages. Further investigation shows that whilst oui is the generally used term, si is used specifically in cases of contradiction, contention and dissent. The English translator, therefore, must be mindful of this rule when translating the English word that remains the same in all contexts.” “French, German and Italian all frequently double or <string> affirmatives in a way that is outside standard English procedures (e.g. si, si, si; ja, ja, etc). Hence the Italian or German translation of yes by a single word can, at times, appear excessively brusque, whilst the stringing together of affirmatives in English is so hyperbolic that it often creates a comic effect.”
“Whilst English does not distinguish between the word used when greeting someone face to face and that used when answering the telephone, French, German and Italian all do make that distinction. The Italian pronto can only be used as a telephonic greeting, like the German hallo. Moreover, French and German use as forms of greeting brief rhetorical questions, whereas the same question in English How are you? or How do you do? is only used in more formal situations. The Italian ciao, by far the most common form of greeting in all sections of Italian society, is used equally on arrival and departure, being a word of greeting linked to a moment of contact between individuals either coming or going and not to the specific context of arrival or initial encounter.” “Jakobson would describe this as interlingual transposition, while Ludskanov would call it a semiotic transformation”
“butter in British English carries with it a set of associations of whole-someness, purity and high status (in comparison to margarine, once perceived only as second-rate butter though now marketed also as practical because it does not set hard under refrigeration).
When translating butter into Italian there is a straight–forward word-for-word substitution: butter—burro. Both butter and burro describe the product made from milk and marketed as a creamy-coloured slab of edible grease for human consumption. And yet within their separate cultural contexts butter and burro cannot be considered as signifying the same. In Italy, burro, normally light coloured and unsalted, is used primarily for cooking, and carries no associations of high status, whilst in Britain butter, most often bright yellow and salted, is used for spreading on bread and less frequently in cooking. Because of the high status of butter, the phrase bread and butter is the accepted usage even where the product used is actually margarine.” “The butter—burro translation, whilst perfectly adequate on one level, also serves as a reminder of the validity of Sapir’s statement that each language represents a separate reality.” “Good appetite in English used outside a structured sentence is meaningless. Nor is there any English phrase in general use that fulfills the same function as the French.”
“The translator, Levý believed, had the responsibility of finding a solution to the most daunting of problems, and he declared that the functional view must be adopted with regard not only to meaning but also to style and form. The wealth of studies on Bible translation and the documentation of the way in which individual translators of the Bible attempt to solve their problems through ingenious solutions is a particularly rich source of examples of semiotic transformation.”
“Hence Albrecht Neubert’s view that Shakespeare’s Sonnet <Shall I compare thee to a summer’s day?> cannot be semantically translated into a language where summers are unpleasant is perfectly proper”
“Giovanni sta menando il can per I’aia.
becomes
John is leading his dog around the threshing floor.
The image conjured up by this sentence is somewhat startling and, unless the context referred quite specifically to such a location, the sentence would seem obscure and virtually meaningless. The English idiom that most closely corresponds to the Italian is to beat about the bush, also obscure unless used idiomatically, and hence the sentence correctly translated becomes
John is beating about the bush.”
Não é que seja tradução livre. É que estamos condenados a ir além da liberdade!
OS NÓS DA TRANSLITERAÇÃO
#TítulodeLivro
“o <elo perdido> entre os componentes de uma teoria completa das traduções parece ser a teoria das relações de equivalência que possam ser estabelecidas tanto para o modelo dinâmico quanto para o modelo estático.”
E que valência têm seus vãos louros?
“E.V.Rieu’s deliberate decision to translate Homer into English prose because the significance of the epic form in Ancient Greece could be considered equivalent to the significance of prose in modern Europe, is a case of dynamic equivalence applied to the formal properties of a text which shows that Nida’s categories can actually be in conflict with each other.”
Formules are for mules
“Hence a woman writing to a friend in 1812 would no more have signed her letters with love or in sisterhood as a contemporary Englishwoman might, any more than an Italian would conclude letters without a series of formal greetings to the recipient of the letter and his relations.”
stress that you are stressed
“It is again an indication of the low status of translation that so much time should have been spent on discussing what is lost in the transfer of a text from SL to TL whilst ignoring what can also be gained, for the translator can at times enrich or clarify the SL text as a direct result of the translation process.”
“Nida cites the case of Guaica, a language of southern Venezuela, where there is little trouble in finding satisfactory terms for the English murder, stealing, lying, etc., but where the terms for good, bad, ugly and beautiful cover a very different area of meaning. As an example, he points out that Guaica does not follow a dichotomous classification of good and bad, but a trichotomous one as follows:
(1) Good includes desirable food, killing enemies, chewing dope in moderation, putting fire to one’s wife to teach her to obey, and stealing from anyone not belonging to the same band.
(2) Bad includes rotten fruit, any object with a blemish, murdering a person of the same band, stealing from a member of the extended family and lying to anyone.
(3) Violating taboo includes incest, being too close to one’s mother-in-law, a married woman’s eating tapir before the birth of the first child, and a child’s eating rodents.”
“Nida cita o caso do Guaica, uma língua do sul da Venezuela, em que não é complicado encontrar termos satisfatórios para os vocábulos do Inglês assassinato, furto, mentir, etc., mas em que os termos bom, ruim, feio e bonito se estendem a uma zona de significados muito distinta. Por exemplo, ele assinala que o Guaica não segue uma classificação dicotômica de bom e ruim, mas uma classificação tricotômica, como segue:
(1) Bom inclui a comida desejável, matar inimigos, mastigar maconha com moderação, provocar queimaduras nas esposas como repreensão pela insubordinação ao marido, roubar alguém desde que não seja do seu clã.
(2) Ruim inclui frutas podres, qualquer objeto maculado, matar alguém do próprio clã, roubar de um membro da própria linhagem familiar e mentir sob quaisquer circunstâncias.
(3) Violar o tabu inclui incesto, ser muito íntimo da sogra, se uma mulher casada come carne de anta antes de dar a luz ao primeiro filho, uma criança comer roedores.”
“Nor is it necessary to look so far beyond Europe for examples of this kind of differentiation. The large number of terms in Finnish for variations of snow, in Arabic for aspects of camel behaviour, in English for light and water, in French for types of bread, all present the translator with, on one level, an untranslatable problem. Bible translators have documented the additional difficulties involved in, for example, the concept of the Trinity or the social significance of the parables in certain cultures [eu não sabia o tamanho de um grão de mostarda!]. In addition to the lexical problems, there are of course languages that do not have tense systems or concepts of time that in any way correspond to Indo-European systems. Whorf’s comparison (which may not be reliable, but is cited here as a theoretical example) between a <temporal language> (English) and a <timeless language> (Hopi) serves to illustrate this aspect.”
“If I’m going home is translated as Je vais chez moi, the content meaning of the SL sentence (i.e. self-assertive statement of intention to proceed to place of residence and/or origin) is only loosely reproduced. And if, for example, the phrase is spoken by an American resident temporarily in London, it could either imply a return to the immediate <home> or a return across the Atlantic, depending on the context in which it is used, a distinction that would have to be spelled out in French. Moreover the English term home, like the French foyer, has a range of associative meanings that are not translated by the more restricted phrase chez moi. Home, therefore, would appear to present exactly the same range of problems as the Finnish or Japanese bathroom.”
POLISSEMIA: A MISSÃO (IMAGINA SE INCLUÍSSEM O MUNDO ANTIGO)
“the American Democratic Party
the German Democratic Republic
the democratic wing of the British Conservative Party.”
“Against Catford, in so far as language is the primary modelling system within a culture, cultural untranslatability must be de facto implied in any process of translation.”
“A slightly more difficult example is the case of the Italian tomponamento in the sentence C’è stato un tamponamento.
There has been/there was a slight accident (involving a vehicle).
Because of the differences in tense-usage, the TL sentence may take one of two forms depending on the context of the sentence, and because of the length of the noun phrase, this can also be cut down, provided the nature of the accident can be determined outside the sentence by the receiver. But when the significance of tomponamento is considered vis-à-vis Italian society as a whole, the term cannot be fully understood without some knowledge of Italian driving habits, the frequency with which <slight accidents> occur and the weighting and relevance of such incidents when they do occur. In short, tomponamento is a sign that has a culture-bound or context meaning, which cannot be translated even by an explanatory phrase. The relation between the creative subject and its linguistic expression cannot therefore be adequately replaced in the translation. [Barbeiragem?]”
SUPERESTIMANDO A ALTURA DAS MONTANHAS: “Boguslav Lawendowski, in an article in which he attempts to sum up the state of translation studies and semiotics, feels that Catford is <divorced from reality>, while Georges Mounin feels that too much attention has been given to the problem of untranslatability at the expense of solving some of the actual problems that the translator has to deal with.”
“Mounin acknowledges the great benefits that advances in linguistics have brought to Translation Studies; the development of structural linguistics, the work of Saussure, of Hjelmslev, of the Moscow and Prague Linguistic Circles has been of great value, and the work of Chomsky and the transformational linguists has also had its impact, particularly with regard to the study of semantics. Mounin feels that it is thanks to developments in contemporary linguistics that we can (and must) accept that:
(1) Personal experience in its uniqueness is untranslatable.
(2) In theory the base units of any two languages (e.g. phonemes, monemes, etc.) are not always comparable.
(3) Communication is possible when account is taken of the respective situations of speaker and hearer, or author and translator.”
“Translation theory tends to be normative, to instruct translators on the OPTIMAL solution; actual translation work, however, is pragmatic; the translator resolves for that one of the possible solutions which promises a maximum of effect with a minimum of effort. That is to say, he intuitively resolves for the so-called MINIMAX STRATEGY.” Levý
“literary criticism does not seek to provide a set of instructions for producing the ultimate poem or novel, but rather to understand the internal and external structures operating within and around a work of art.”
“it would seem quite clear that any debate about the existence of a science of translation is out of date: there already exists, with Translation Studies, a serious discipline investigating the process of translation, attempting to clarify the question of equivalence and to examine what constitutes meaning within that process. But nowhere is there a theory that pretends to be normative, and although Lefevere’s statement about the goal of the discipline suggests that a comprehensive theory might also be used as a guideline for producing translations, this is a long way from suggesting that the purpose of translation theory is to be proscriptive.”
2. HISTÓRIA DA TEORIA DA TRADUÇÃO
“The persecution of Bible translators during the centuries when scholars were avidly translating and retranslating Classical Greek and Roman authors is an important link in the chain of the development of capitalism and the decline of feudalism. In the same way, the hermeneutic approach of the great English and German Romantic translators connects with changing concepts of the role of the individual in the social context. It cannot be emphasized too strongly that the study of translation, especially in its diachronic aspect, is a vital part of literary and cultural history.”
“George Steiner, in After Babel, divides the literature on the theory, practice and history of translation into 4 periods. The first, he claims, extends from the statements of Cicero and Horace on translation up to the publication of Alexander Fraser Tytler’s Essay on the Principles of Translation in 1791. (…) Steiner’s second period, which runs up to the publication of Larbaud’s Sous I’invocation de Saint Jérome in 1946 is characterized as a period of theory and hermeneutic enquiry with the development of a vocabulary and methodology of approaching translation. The third period begins with the publication of the first papers on machine translation in the 1940s, and is characterized by the introduction of structural linguistics and communication theory into the study of translation. Steiner’s fourth period, coexisting with the third has its origins in the early 1960s and is characterized by <a reversion to hermeneutic, almost metaphysical inquiries into translation and interpretation>” “his first period covers a span of some 1700 years while his last two periods cover a mere thirty years.” “His quadripartite division is, to say the least, highly idiosyncratic, but it does manage to avoid one great pitfall: periodization, or compartmentalization of literary history. It is virtually impossible to divide periods according to dates for, as Lotman points out, human culture is a dynamic system.”
“Classical philology and comparative literature, lexical statistics and ethnography, the sociology of class-speech, formal rhetoric, poetics, and the study of grammar are combined in an attempt to clarify the act of translation and the process of <life between languages>.” Ge.St.
“There is a large body of literature that attempts to decide whether Petrarch and Chaucer were medieval or Renaissance writers, whether Rabelais was a medieval mind post hoc, or whether Dante was a Renaissance mind two centuries too soon.”
“André Lefevere has compiled a collection of statements and documents on translation that traces the establishment of a German tradition of translation, starting with Luther and moving on via Gottsched and Goethe to the Schlegels [?] and Schleiermacher and ultimately to Rosenzweig.”
BRANCHES FOR #TCC:
“All too often, however, studies of past translators and translations have focused more on the question of influence; on the effect of the TL product in a given cultural context, rather than on the processes involved in the creation of that product and on the theory behind the creation. So, for example, in spite of a number of critical statements about the significance of translation in the development of the Roman literary canon, there has yet to be a systematic study of Roman translation theory in English. The claims summed up by Matthiesson when he declared that <a study of Elizabethan translations is a study of the means by which the Renaissance came to England> are not backed by any scientific investigation of the same.”
“Eric Jacobsen claims rather sweepingly that translation is a Roman invention, and although this may be considered as a piece of critical hyperbole, it does serve as a starting point from which to focus attention on the role and status of translation for the Romans. The views of both Cicero and Horace on translation were to have great influence on successive generations of translators, and both discuss translation within the wider context of the two main functions of the poet: the universal human duty of acquiring and disseminating wisdom and the special art of making and shaping a poem.
The significance of translation in Roman literature has often been used to accuse the Romans of being unable to create imaginative literature in their own right, at least until the first century BC. Stress has been laid on the creative imagination of the Greeks as opposed to the more practical Roman mind, and the Roman exaltation of their Greek models has been seen as evidence of their lack of originality. But the implied value judgement in such a generalization is quite wrong. The Romans perceived themselves as a continuation of their Greek models and Roman literary critics discussed Greek texts without seeing the language of those texts as being in any way an inhibiting factor. The Roman literary system sets up a hierarchy of texts and authors that overrides linguistic boundaries and that system in turn reflects the Roman ideal of the hierarchical yet caring central state based on the true law of Reason. Cicero points out that mind dominates the body as a king rules over his subjects or a father controls his children, but warns that where Reason dominates as a master ruling his slaves, <it keeps them down and crushes them>. With translation, the ideal SL text is there to be imitated and not to be crushed by the too rigid application of Reason. Cicero nicely expresses this distinction: <If I render word for word, the result will sound uncouth, and if compelled by necessity I alter anything in the order or wording, I shall seem to have departed from the function of a translator.>”
“Horace, whilst advising the would-be writer to avoid the pitfalls that beset <the slavish translator> [o imitador barato], also advised the sparing use of new words. He compared the process of the addition of new words and the decline of other words to the changing of the leaves in spring and autumn, seeing this process of enrichment through translation as both natural and desirable, provided the writer exercised moderation. The art of the translator, for Horace and Cicero, then, consisted in judicious interpretation of the SL text so as to produce a TL version based on the principle non verbum de verbo, sed sensum exprimere de sensu (of expressing not word for word, but sense for sense), and his responsibility was to the TL readers.
But there is also an additional dimension to the Roman concept of enrichment through translation, i.e. the pre-eminence of Greek as the language of culture and the ability of educated Romans to read texts in the SL. When these factors are taken into account, then the position both of translator and reader alters. The Roman reader was generally able to consider the translation as a metatext in relation to the original. The translated text was read through the source text, in contrast to the way in which a monolingual reader can only approach the SL text through the TL version.”
Ser compilador não era algo degradante per se.
“The good translator, therefore, presupposed the reader’s acquaintance with the SL text and was bound by that knowledge, for any assessment of his skill as translator would be based on the creative use he was able to make of his model.”
Bien que…: “Longinus, in his Essay On the Sublime, cites <imitation and emulation of the great historians and poets of the past> as one of the paths towards the sublime and translation is one aspect of imitation in the Roman concept of literary production.”
“Moreover, it should not be forgotten that with the extension of the Roman Empire, bilingualism and trilingualism became increasingly commonplace, and the gulf between oral and literary Latin widened. The apparent licence of Roman translators, much quoted in the seventeenth and eighteenth centuries, must therefore be seen in the context of the overall system in which that approach to translation was applied.”
“With the spread of Christianity, translation came to acquire another role, that of disseminating the word of God. A religion as text-based as Christianity presented the translator with a mission that encompassed both aesthetic and evangelistic criteria. The history of Bible translation is accordingly a history of western culture in microcosm. Translations of the New Testament were made very early, and St Jerome’s famous contentious version that was to have such influence on succeeding generations of translators was commissioned by Pope Damasus in AD 384.” “but the problem of the fine line between what constituted stylistic licence and what constituted heretical interpretation was to remain a major stumbling block for centuries. § Bible translation remained a key issue well into the seventeenth century, and the problems intensified with the growth of concepts of national cultures and with the coming of the Reformation. Translation came to be used as a weapon in both dogmatic and political conflicts as nation states began to emerge and the centralization of the church started to weaken, evidenced in linguistic terms by the decline of Latin as a universal language. § The first translation of the complete Bible into English was the Wycliffite Bible produced between 1380 and 1384, which marked the start of a great flowering of English Bible translations linked to changing attitudes to the role of the written text in the church, that formed part of the developing Reformation. John Wycliffe (c. 1330–84), the noted Oxford theologian, put forward the theory of <dominion by grace> according to which man was immediately responsible to God and God’s law (by which Wycliffe intended not canon law but the guidance of the Bible). Since Wycliffe’s theory meant that the Bible was applicable to all human life it followed that each man should be granted access to that crucial text in a language that he could understand, i.e. in the vernacular.” “his disciple John Purvey revised the first edition some time before 1408 (the first dated manuscript).”
WIKIPÉDIA NOS TEMPOS DO RONCA
“(1) a collaborative effort of collecting old Bibles and glosses and establishing an authentic Latin source text;
(2) a comparison of the versions;
(3) counselling <with old grammarians and old divines> about hard words and complex meanings; and
(4) translating as clearly as possible the <sentence> (i.e. meaning), with the translation corrected by a group of collaborators.”
“After the Wycliffite versions, the next great English translation was William Tyndale’s (1494–1536) New Testamentprinted in 1525. Tyndale’s proclaimed intention in translating was also to offer as clear a version as possible to the layman, and by the time he was burned at the stake in 1536 he had translated the New Testament from the Greek and parts of the Old Testament from the Hebrew.”
“In 1482, the Hebrew Pentateuch had been printed at Bologna and the complete Hebrew Bible appeared in 1488, whilst Erasmus, the Dutch Humanist, published the first Greek New Testament in Basle in 1516. This version was to serve as the basis for Martin Luther’s 1522 German version. Translations of the New Testament appeared in Danish in 1529 and again in 1550, in Swedish in 1526–41, and the Czech Bible appeared between 1579–93. Translations and revised versions of existing translations continued to appear in English, Dutch, German and French.”
“I would desire that all women should reade the gospell and Paules episteles and I wold to God they were translated in to the tonges of all men so that they might not only be read and knowne of the scotes and yrishmen/
But also of the Turkes and the Sarracenes…. I wold to God the plowman wold singe a texte of the scripture at his plow-beme. And that the wever at his lowme with this wold drive away the tediousnes of tyme. I wold the wayfaringeman with this pastyme wold expelle the weriness of his iorney. And to be shorte I wold that all the communication of the christen shuld be of the scripture for in a manner such are we oure selves as our daylye tales are.” Erasmus
“Coverdale’s Bible (1535) was also banned but the tide of Bible translation could not be stemmed, and each successive version drew on the work of previous translators, borrowing, amending, revising and correcting.”
“(1) To clarify errors arising from previous versions, due to inadequate SL manuscripts or to linguistic incompetence;
(2) To produce an accessible and aesthetically satisfying vernacular style;
(3) To clarify points of dogma and reduce the extent to which the scriptures were interpreted and re-presented to the lay–people as a metatext.
In his Circular Letter on Translation of 1530 Martin Luther lays such emphasis on the significance of (2) that he uses the verbs übersetzen (to translate) and verdeutschen (to Germanize) almost indiscriminately.”
“In an age when the choice of a pronoun could mean the difference between life or condemnation to death as a heretic, precision was of central importance.”
“In the Preface to the King James Bible of 1611, entitled The Translators to the Reader, the question is asked <is the kingdom of God words or syllables?>”
“With regard to English, for example, the Lindisfarne Gospels (copied out c. AD 700), had a literal rendering of the Latin original inserted between the lines in the tenth century in Northumbrian dialect. These glosses subordinated notions of stylistic excellence to the word-for-word method, but may still be fairly described as translations, since they involved a process of interlingual transfer. However, the system of glossing was only one aspect of translation in the centuries that saw the emergence of distinct European languages in a written form. In the ninth century King Alfred (reign 871–99), who had translated (or caused to be translated) a number of Latin texts, declared that the purpose of translating was to help the English people to recover from the devastation of the Danish invasions that had laid waste the old monastic centres of learning and had demoralized and divided the kingdom. In his Preface to his translation of the Cura Pastoralis (a handbook for parish priests) Alfred urges a revival of learning through greater accessibility of texts as a direct result of translations into the vernacular, and at the same time he asserts the claims of English as a literary language in its own right. Discussing the way in which the Romans translated texts for their own purposes, as did <all other Christian nations>, Alfred states that <I think it better, if you agree, that we also translate some of the books that all men should know into the language that we can all understand.> In translating the Cura Pastoralis, Alfred claims to have followed the teachings of his bishop and priests and to have rendered the text hwilum word be worde, hwilum andgiet of andgiete (sometimes word by word, sometimes sense by sense), an interesting point in that it implies that the function of the finished product was the determining factor in the translation process rather than any established canon of procedure. Translation is perceived as having a moral and didactic purpose with a clear political role to play, far removed from its purely instrumental role in the study of rhetoric that coexisted at the same time.
The concept of translation as a writing exercise and as a means of improving oratorical style was an important component in the medieval educational system based on the study of the Seven Liberal Arts. This system, as passed down from such Roman theoreticians as Quintilian (first century AD) whose Institutio Oratoria was a seminal text, established two areas of study, the Trivium (grammar, rhetoric and dialectic) and the Quadrivium (arithmetic, geometry, music and astronomy), with the Trivium as the basis for philosophical knowledge.” “Quintilian recommends translating from Greek into Latin as a variation on paraphrasing original Latin texts in order to extend and develop the student’s imaginative powers.”
“In his useful article on vulgarization and translation, Gianfranco Folena suggests that medieval translation might be described either as vertical, by which he intends translation into the vernacular from a SL that has a special prestige or value (e.g. Latin), or as horizontal, where both SL and TL have a similar value (e.g. Provençal into Italian, Norman-French into English).” “And whilst the vertical approach splits into two distinct types, the interlinear gloss, or word-for-word technique, as opposed to the Ciceronian sense-for-sense method, elaborated by Quintilian’s concept of para-phrase, the horizontal approach involves complex questions of imitatio and borrowing.”
“Within the opus of a single writer, such as Chaucer (c. 1340–1400) there is a range of texts that include acknowledged translations, free adaptations, conscious borrowings, reworkings and close correspondences.”
“One of the first writers to formulate a theory of translation was the French humanist Étienne Dolet (1509–46) who was tried and executed for heresy after <mistranslating> one of Plato’s dialogues in such a way as to imply disbelief in immortality. In 1540 Dolet published a short outline of translation principles, entitled La manière de bien traduire d’une langue en aultre (How to Translate Well from one Language into Another)”
“the frequent replacement of indirect discourse by direct discourse in North’s translation of Plutarch (1579), a device that adds immediacy and vitality to the text”
“Translation was by no means a secondary activity, but a primary one, exerting a shaping force on the intellectual life of the age, and at times the figure of the translator appears almost as a revolutionary activist rather than the servant of an original author or text.”
O DEMORADO ECO ITALIANO: “Translation of the classics increased considerably in France between 1625 and 1660, the great age of French classicism and of the flowering of French theatre based on the Aristotelian unities. French writers and theorists were in turn enthusiastically translated into English.”
“for it is not his business alone to translate Language into Language, but Poesie into Poesie; and Poesie is of so subtile a spirit, that in pouring out of one Language into another, it will all evaporate; and if a new spirit be not added in the transfusion, there will remain nothing but a Caput mortuum.”John Denham
“o prefácio de Cowley foi tomado como o manifesto dos <tradutores libertinos dos fins do século XVII>.”
PINTOR AB EXTRATO
“I have endeavoured to make Virgil speak such English as he would himself have spoken, if he had been born in England, and in this present age.” Dryden
NÓS OS JURAMENTADOS HÁ 200 ANOS ÉRAMOS MAIS DESIMPEDIDOS: “The impulse to clarify and make plain the essential spirit of a text led to large-scale rewritings of earlier texts to fit them to contemporary standards of language and taste. Hence the famous re-structuring of Shakespearian texts, and the translations/reworkings of Racine. Dr. [nem existia doutorado nessa época, fala sério] Johnson (1709–84), in his Life of Pope [que não era o Papa] (1779–80), discussing the question of additions to a text through translation, comments that if elegance is gained, surely it is desirable, provided nothing is taken away [mais é mais], and goes on to state that <the purpose of a writer is to be read> [diria que acertou em cheio, mas não é muito difícil…], claiming that Pope wrote for his own time and his own nation. The right of the individual to be addressed in his own terms, on his own ground is an important element in eighteenth-century translation and is linked to changing concepts of <originality>.”
“Pope’s Andromache [Ilíada] suffers and despairs, whilst Chapman’s Andromache comes across as a warrior in her own right. Chapman’s use of direct verbs gives a dramatic quality to the scene, whilst Pope’s Latinate structures emphasize the agony of expectation leading up to the moment when the horror is plain to see. And even that horror is quite differently presented—Pope’s <god-like Hector> contrasts with Chapman’s longer description of the hero’s degradation:
(…)
Too soon her Eyes the killing Object found,
The god-like Hector dragg’d along the ground.
A sudden Darkness shades her swimming Eyes:
She faints, she falls; her Breath, her colour flies. (Pope)
(…)
Round she cast her greedy eye, and saw her Hector slain, and bound
T’Achilles chariot, manlessly dragg’d to the Grecian fleet,
Black night strook through her, under her trance took away her feet. (Chapman)”
“Goethe (1749–1832) argued that every literature must pass through three phases of translation, although as the phases are recurrent all may be found taking place within the same language system at the same time. The first epoch <acquaints us with foreign countries on our own terms>, and Goethe cites Luther’s German Bible as an example of this tendency. The second mode is that of appropriation through substitution and reproduction, where the translator absorbs the sense of a foreign work but reproduces it in his own terms, and here Goethe cites Wieland and the French tradition of translating (a tradition much disparaged by German theorists). The third mode, which he considers the highest, is one which aims for perfect identity between the SL text and the TL text, and the achieving of this mode must be through the creation of a new <manner> which fuses the uniqueness of the original with a new form and structure. Goethe cites the work of Voss, who translated Homer, as an example of a translator who had achieved this prized third level. Goethe is arguing for both a new concept of <originality> in translation, together with a vision of universal deep structures that the translator should strive to meet. The problem with such an approach is that it is moving dangerously close to a theory of untranslatability.”
“the translator cannot use the same colours as the original, but is nevertheless required to give his picture <the same force and effect>.”
“With the affirmation of individualism came the notion of the freedom of the creative force, making the poet into a quasi-mystical creator, whose function was to produce the poetry that would create anew the universe, as Shelley argued in The Defence of Poesy (1820).”
“In England, Coleridge (1772–1834) in his Biographia Literaria (1817) outlined his theory of the distinction between Fancy and Imagination, asserting that Imagination is the supreme creative and organic power, as opposed to the lifeless mechanism of Fancy. This theory has affinities with the theory of the opposition of mechanical and organic form outlined by the German theorist and translator, August Wilhelm Schlegel (1767–1845) in his Vorlesungen über dramatische Kunst und Literatur (1809), translated into English in 1813.” “A.W. Schlegel, asserting that all acts of speaking and writing are acts of translation because the nature of communication is to decode and interpret messages received, also insisted that the form of the original should be retained (for example, he retained Dante’s terza rima in his own translations). Meanwhile, Friedrich Schlegel (1772–1829) conceived of translation as a category of thought rather than as an activity connected only with language or literature.”
“The idea of writers at all times being involved in a process of repeating what Blake called <the Divine Body in Every Man> resulted in a vast number of translations, such as the Schlegel-Tieck translations of Shakespeare (1797–1833), Schlegel’s version and Cary’s version of the Divina Commedia (1805–14) and the large intertraffic of translations of critical works and of contemporary writings across the European languages. Indeed, so many texts were translated at this time that were to have a seminal effect on the TL (e.g. German authors into English and vice versa, Scott and Byron into French and Italian, etc.) that critics have found it difficult to distinguish between influence study and translation study proper. Stress on the impact of the translation in the target culture in fact resulted in a shift of interest away from the actual processes of translation.”
“If poetry is perceived as a separate entity from language, how can it be translated unless it is assumed that the translator is able to read between the words of the original and hence reproduce the text-behind-the-text; what Mallarmé would later elaborate as the text of silence and spaces?” “with the shift of emphasis away from the formal processes of translation, the notion of untranslatability would lead on to the exaggerated emphasis on technical accuracy and resulting pedantry of later nineteenth-century translating.”
“an explanation of the function of peculiarity can be found in G.A. Simcox’s review of Morris’ translation of The Story of the Volsungs and Niblungs (1870) when he declared that the <quaint archaic English of the translation with just the right outlandish flavour> did much to <disguise the inequalities and incompletenesses of the original>”
“What emerges from the Schleiermacher—Carlyle—Pre-Raphaelite concept of translation, therefore, is an interesting paradox. On the one hand there is an immense respect, verging on adulation, for the original, but that respect is based on the individual writer’s sureness of its worth. In other words, the translator invites the intellectual, cultivated reader to share what he deems to be an enriching experience, either on moral or aesthetic grounds. Moreover, the original text is perceived as property, as an item of beauty to be added to a collection, with no concessions to the taste or expectations of contemporary life. On the other hand, by producing consciously archaic translations designed to be read by a minority, the translators implicitly reject the ideal of universal literacy. The intellectual reader represented a very small minority in the increasingly diffuse reading public that expanded throughout the century, and hence the foundations were laid for the notion of translation as a minority interest.”
“Let not the translator, then, trust to his notions of what the ancient Greeks would have thought of him; he will lose himself in the vague. Let him not trust to what the ordinary English reader thinks of him; he will be taking the blind for his guide. Let him not trust to his own judgement of his own work; he may be misled by individual caprices. Let him ask how his work affects those who both know Greek and can appreciate poetry.” Matthew Arnold [vide polêmica elencada acima]
“But although archaizing [afetação, hermetismo]has gone out of fashion, it is important to remember that there were sound theoretical principles for its adoption by translators. George Steiner raises important issues when he discusses the practice, with particular reference to Émile Littré’s theory and his L’Enfer mis en vieux longage François (1879) and to Rudolf Borchardt and his Dante Deutsch:
<The proposition ‘the foreign poet would have produced such and such a text had he been writing in my language’ is a projective fabrication. It underwrites the autonomy, more exactly, the ‘meta-autonomy’ of the translation. But it does much more: it introduces an alternate existence, a ‘might have been’ or ‘is yet to come’ into the substance and historical condition of one’s own language, literature and legacy of sensibility.>
The archaizing principle, then, in an age of social change on an unprecedented scale, can be compared to an attempt to <colonize> the past. (…) The distance between this version of translation and the vision of Cicero and Horace, also the products of an expanding state, could hardly be greater.”
IANQUES, VANGUARDA DO ATRASO: “The increased isolationism of British and American intellectual life, combined with the anti-theoretical developments in literary criticism did not help to further the scientific examination of translation in English. Indeed, it is hard to believe, when considering some of the studies in English, that they were written in the same age that saw the rise of Czech Structuralism and the New Critics, the development of communication theory, the application of linguistics to the study of translation: in short, to the establishment of the bases from which recent work in translation theory has been able to proceed.”
“The work of Ezra Pound [Literary Essays] is of immense importance in the history of translation, and Pound’s skill as a translator was matched by his perceptiveness as critic and theorist.”
“George Steiner, taking a rather idiosyncratic view of translation history, feels that although there is a profusion of pragmatic accounts by individuals the range of theoretic ideas remains small:
[OS TREZE CAVALEIROS]<List Saint Jerome, Luther, Dryden, Hölderlin, Novalis, Schleiermacher, Nietzsche, Ezra Pound, Valéry, MacKenna, Franz Rosenzweig, Walter Benjamin, Quine—and you have very nearly the sum total of those who have said anything fundamental or new about translation.>”
3. PROBLEMAS ESPECÍFICOS
“Anne Cluysenaar goes on to analyse C.Day Lewis’ translation of Valéry’s poem, Les pas and comes to the conclusion that the translation does not work because the translator <was working without an adequate theory of literary translation>.” “what is needed is a description of the dominant structure of every individual work to be translated.”
“Every literary unit from the individual sentence to the whole order of words can be seen in relation to the concept of system. In particular, we can look at individual works, literary genres, and the whole of literature as related systems, and at literature as a system within the larger system of human culture.” Robert Scholes
Entram num bar: um conteudista, um contextualista, um interesseiro (ou pragmatista) e um deviacionista (selecionador de citações). Qual deles sou eu?
devil acionista
Um concurseiro, um leitor dinâmico, um diletante, um político e um filho de escritor numa roda intelectual-boêmia. Todos falam, mas só o próprio falante se escuta.
“The translator is, after all, first a reader and then a writer and in the process of reading he or she must take a position.”
“CHOICER”: “The twentieth-century reader’s dislike of the Patient Griselda motif is an example of just such a shift in perception, whilst the disappearance of the epic poem in western European literatures has inevitably led to a change in reading such works.”
suco de palavras
(brincadeira de adultocriança)
“the reader/translator will be unable to avoid finding himself in Lotman’s fourth position[aquele que seleciona conteúdos conforme seu interesse humanista-cultural, eu no Seclusão: menos um nazista que cita Nietzsche com propósitos escusos do que alguém que busca simplesmente tirar proveito de algo que possa ainda repercutir num mar de coisas que perderam a referência e o sentido para o homem contemporâneo…] without detailed etymological research. So when Gloucester, in King Lear, Act III sc. vii, bound, tormented and about to have his eyes gouged out, attacks Regan with the phrase <Naughty lady>, it ought to be clear that there has been considerable shift in the weight of the adjective, now used to admonish children or to describe some slightly comic (often sexual) peccadillo.” Danadinha… Perniciosa, insidiosa. Erva daninha!
PIRE(PYRE) COM MODERAÇÃO(FOGO BAIXO): “Quite clearly, the idea of the reader as translator and the enormous freedom this vision bestows must be handled responsibly. The reader/translator who does not acknowledge the dialectical materialist basis of Brecht’s plays or who misses the irony in Shakespeare’s sonnets or who ignores the way in which the doctrine of the transubstantiation is used as a masking device for the production of Vittorini’s anti-Fascist statement in Conversazioni in Sicilia is upsetting the balance of power by treating the original as his own property.”
4. TRADUZINDO POESIA
“Catullus, after all, was an aristocrat, whose language, although flexible, is elegant, and Copley’s speaker is a caricature of a teenager from the Johnny [sic – Johnnie] Ray generation. Copley’s choice of register makes the reader respond in a way that downgrades the material itself. The poem is no longer a rather suave and sophisticated mingling of several elements, it is located very precisely in a specific time and context. And, of course, in the relatively short time since the translation appeared, its language and tone have become almost as remote as that of the original!” “The great difference between a text and a metatext is that the one is fixed in time and place, the other is variable. There is only one Divina Commedia but there are innumerable readings and in theory innumerable translations.”
“Both English versions appear to stress the I pronoun, because Italian sentence structure is able to dispense with pronouns in verbal phrases. Both opt for the translation make out for distinguo, which alters the English register. The final line of the poem, deliberately longer in the SL version, is rendered longer also in both English versions, but here there is substantial deviation between the two. Version B keeps closely to the original in that it retains the Latinate abandoned as opposed to the Anglo-Saxon adrift in version A. Version B retains the single word infinite, that is spelled out in more detail in version A with infinite space, a device that also adds an element of rhyme to the poem.
The apparent simplicity of the Italian poem, with its clear images and simple structure conceals a deliberate recourse to that process defined by the Russian Formalists as ostranenie, i.e. making strange, or consciously thickening language within the system of the individual work to heighten perception (see Tony Bennet, Formalism and Marxism, London 1979). Seen in this light, version A, whilst pursuing the ‘normalcy’ of Ungaretti’s linguistic structures, loses much of the power of what Ungaretti described as the ‘word-image’. Version B, on the other hand, opts for a higher tone or register, with rhetorical devices of inverted sentence structure and the long, Latinate final line in an attempt to arrive at a ‘thickened’ language by another route.”
“The most striking aspect of any comparison of these three sonnets is the range of variation between them. Petrarch’s sonnet splits into octet and sestet and follows the rhyme scheme a b b a/a b b a/c d c/c d c. Wyatt’s poem is similarly divided, but here the rhyme scheme is a b b a/a b b a/c d c/c d d which serves to set the final two lines apart. Surrey’s poem varies much more: a b a b/c d c d/e c e c/f f and consists of three four-line sections building to the final couplet. The significance of these variations in form becomes clear once each sonnet is read closely.”
“What can I do, he asks, since my Lord Amor is afeared (and I fear him), except to stay with him to the final hour? and adds, in the last line, that he who dies loving well makes a good end.” “He does not act but is acted upon, and the structure of the poem, with the first person singular verbal form only used at the end, and then only in a question that stresses his helplessness, reinforces this picture.” “But it is not enough to consider this poem in isolation, it must be seen as part of Petrarch’s Canzoniere and linked therefore through language structures, imagery and a central shaping concept, to the other poems in the collection.”
“Wyatt creates the image of ‘the hertes forrest’, and by using nouns ‘with payne and cry’, instead of verbs lessens the picture of total, abject humiliation painted by Petrarch.” “The Lover in Wyatt’s poem asks a question that does not so much stress his helplessness as his good intentions and bravery. The Italian temendo il mio signore carries with it an ambiguity (either the Lord fears or the Lover fears the Lord, or, most probably, both) whilst Wyatt has stated very plainly that ‘my master fereth’. The final line, ‘For goode is the liff, ending faithfully’ strengthens the vision of the Lover as noble. Whereas the Petrarchan lover seems to be describing the beauty of death through constant love, Wyatt’s lover stresses the virtues of a good life and a faithful end.” “Love shows his colours and is repulsed and the Lover sets up the alternative ideal of a good life. We are in the world of politics, of the individual geared towards ensuring his survival, a long way from the pre-Reformation world of Petrarch.”
“It is in Surrey’s version that the military language prevails, whilst Wyatt reduces the terminology of battle to a terminology of pageantry.” “The Lover is ‘captyve’, and he and Love have often fought. Moreover, the Lady is not in an unreachable position, angered by the display of Love. She is already won and is merely angered by what appears to be excessive ardour.”“Moreover, in the final line of the third quartet, the Lover states plainly that he is ‘fawtless’ and suffers because of ‘my lordes gylt’. The device of splitting the poem into three four-line stanzas can be seen as a way of reshaping the material content. The poem does not build to a question and a final line on the virtues of dying, loving well. It builds instead to a couplet in which the Lover states his determination not to abandon his guilty lord even in the face of death. The voice of the poem and the voice of the Lover are indistinguishable, and the stress on the I, apparent in Wyatt’s poem already, is strengthened by those points in the poem where there is a clear identification with the Lover’s position against the bad behaviour of the false lord Love.”
“But Wyatt and Surrey’s translations, like Jonson’s Catullus translation, would have been read by their contemporaries through prior knowledge of the original, and those shifts that have been condemned by subsequent generations as taking something away from Petrarch, would have had a very different function in the circles of Wyatt and Surrey’s cultured intellectual readership.” Now nobody reads Petrarch!
5. TRADUZINDO PROSA
“although analysis of narrative has had enormous influence since Shlovsky’s early theory of prose, there are obviously many readers who still adhere to the principle that a novel consists primarily of paraphrasable material content that can be translated straight-forwardly. And whereas there seems to be a common consensus that a prose paraphrase of a poem is judged to be inadequate, there is no such consensus regarding the prose text.”
Belloc points out that the French historic present must be translated into the English narrative tense, which is past, and the French system ofdefining a proposition by putting it into the form of a rhetorical question cannot be transposed into English where the same system does not apply.”
“Let us consider as an example the problem of translating proper names in Russian prose texts, a problem that has bedevilled generations of translators. Cathy Porter’s translation of Alexandra Kollontai’s Love of Worker Bees contains the following note:
Russians have a first (‘Christian’) name, a patronymic and a surname. The customary mode of address is first name plus patronymic, thus, Vasilisa Dementevna, Maria Semenovna. There are more intimate abbreviations of first names which have subtly affectionate, patronizing or friendly overtones. So for instance Vasilisa becomes Vasya, Vasyuk, and Vladimir becomes Volodya, Volodka, Volodechka, Volya.”
“So in discussing The Brothers Karamazov Uspensky shows how the naming system can indicate multiple points of view, as a character is perceived both by other characters in the novel and from within the narrative. In the translation process, therefore, it is essential for the translator to consider the function of the naming system, rather than the system itself. It is of little use for the English reader to be given multiple variants of a name if he is not made aware of the function of those variants, and since the English naming system is completely different the translator must take this into account and follow Belloc’s dictum to render ‘idiom by idiom’.”
6. TRADUZINDO PEÇAS
“Arguably, the volume of ‘complete plays’ has been produced primarily for a reading public where literalness and linguistic fidelity have been principal criteria. But in trying to formulate any theory of theatre translation, Bogatyrev’s description of linguistic expression must be taken into account, and the linguistic element must be translated bearing in mind its function in theatre discourse as a whole.” Platão seria Teatro?
“The leaden pedantry of many English versions of Racine, for example, is apt testimony to the fault of excessive literalness, but the problem of defining ‘freedom’ in a theatre translation is less easy to discern.”
* * *
7. (MAIS) APROFUNDAMENTO
André Lefevere, Translating Literature: The German Tradition. From Luther to Rosenzweig (Assen and Amsterdam: Van Gorcum, 1977)
Anton Popovič, Dictionary for the Analysis of Literary Translation (Dept. of Comparative Literature, University of Alberta, 1976)
De Beaugrande, Robert, Shunnaq, Abdulla and Heliel, Mohamed H., (eds.), Language, Discourse and Translation in the West and Middle East (Amsterdam: John Bejamins, 1994)
Benjamin Lee Whorf, Language, Thought and Reality (Selected Writings) ed. J.B.Carroll (Cambridge, Mass.: The MIT Press, 1956)
Chan, Sin-Wai, and Pollard, David, (eds), An Encyclopaedia of Translation. Chinese/English, English/Chinese (Hong Kong: Chinese University Press, 1994)
Cicero, ‘Right and Wrong’, in Latin Literature, ed. M.Grant (Harmondsworth: Penguin Books, 1978)
Dante Gabriel Rossetti, Preface to his translations of Early Italian Poets, Poems and Translations, 1850–1870 (London: Oxford University Press, 1968)
Erasmus, Novum Instrumentum (Basle: Froben, 1516). 1529, tr. W. Tindale.
Francis Newman, ‘Homeric Translation in Theory and Practice’ in Essays by Matthew Arnold (London: Oxford University Press, 1914)
Hilaire Belloc, On Translation (Oxford: The Clarendon Press, 1931)
Horace, On the Art of Poetry, in Classical Literary Criticism (Harmondsworth: Penguin Books, 1965)
Jacobsen, Eric, Translation: A Traditional Craft (Copenhagen: Nordisk Forlag, 1958) “This book contains much interesting information about the function of translation within the terms of medieval rhetorical tradition, but, as the author states in the introduction, avoids as far as possible discussion of the general theory and principles of translation.”
Joachim du Bellay – Défense et lllustration de la Langue française
Josephine Balmer, Classical Women Poets (Newcastle upon Tyne: Bloodaxe Books 1997)
Keir Elam, Semiotics of Theatre and Drama (London: Methuen, 1980)
Levý, Jiří, ‘The Translation of Verbal Art’, in L.Matejka and I.R.Titunik (eds), Semiotics of Art (Cambridge, Mass.: MIT Press, 1976)
Liu, Lydia H., Translingual Practice: Literature, National Culture and Translated Modernity in China 1900–7937 (Stanford: Stanford University Press, 1995)
Luis, William and Rodriguez-Luis, Julio, (eds), Translating Latin America. Culture as Text (Binghamton: Centre for Research in Translation: State University of New York at Binghamton, 1991)
Mukherjee, Sujit, Translation as Discovery and Other Essays on Indian Literature in English Translation (New Delhi: Allied Publishers/London: Sangam Books, 1981), 2nd ed. (New Delhi: Orient Longman, 1994)
Nirenburg, S. (ed.), Machine Translation: Theoretical and Methodological Issues (Cambridge: Cambridge University Press, 1987)
Oittinen, Riita, I am Me—I am Other: On the Dialogics of Translating for Children (Tampere: University of Tampere, 1993)
Rafael, Vicente, Contracting Colonialism: Translation and Christian Conversion in Tagalog Society under Early Spanish Rule (Ithaca: Cornell University Press, 1988)
Simon, Sherry, Gender in Translation. Cultural Identity and the Politics of Transmission (London: Routledge, 1996)
Somekh, Sasson, ‘The Emergence of two sets of Stylistic Norms in the early Literary Translation into Modern Arabic Prose’, Poetics Today, 2, 4, 1981, pp. 193–200.
Vanderauwera, Ria, Dutch Novels Translated into English: The Transformation of a ‘Minority’ Literature (Amsterdam: Rodolpi, 1985)
Wollin, Hans and Lindquist Hans, (eds), Translation Studies in Scandinavia (Lund: CWK Gleerup, 1986)
“Grilo, Eudemo [Sobre a Alma], Protréptico, Sobre las ideasy Sobre el bienson obras de juventud, al estilo de los diálogos platónicos, estilo que luego abandonará al no tener el carácter imaginativo de Platón.
Conocido como <el lector>, por su gusto por la lectura (al punto que practicaba directamente sin la ayuda del esclavo lector como era costumbre)”
De la filosofíacomo marco da independência teórica de Aristóteles.
“Al no poder adquirir terreno por ser macedonio, se instala en un pórtico largo de un gimnasio público, fuera de las murallas, junto a un santuario dedicado a Apolo Licio. Por un lado, el nombre en griego, Perípatos, y por otro, el del héroe del santuario, dieron origen a las dos denominaciones con que históricamente se conoce a la escuela de Arist. [doravante apenas A.]: el Liceo e el Perípato.”
“Tras la muerte del rey macedonio, se desató en Atenas una auténtica persecución contra todo sospechoso de haber pertenecido al bando de los que querían una Grecia unida y dominada por Macedonia.” “Se refugió en Calcis, en las posesiones heredadas de su madre, y murió al cabo de unos meses”
“De hecho, muchas partes de sus obras quedaron agrupadas, desde su 1ª compilación, en tratados unitarios, ya clásicos, sin haberse reparado en la época en que dichas partes fueron escritas, invirtiendo a veces el ordenamiento cronológico de su redacción. Un ejemplo son los capítulos 9 y 10 del libro XIII y el libro XIV de la Metafísica, redactados en una época temprana, cuando todavía A. se consideraba platónico, que figuran como parte final de la propia obra, cuyos libros VII, VIII y IX, escritos muy posteriormente, ya consignan sin rodeos una radical independencia de Platón. [De fato, nos capítulos finais A. se dedica apenas à refutação negativa de concepções que já demonstrou serem absurdas através de seus próprios conceitos e novidades, apresentados nos primeiros livros desta obra-compêndio.]
A. nunca utilizó el término metafísica, ya que se refiere a la ubicación metodológica de este trabajo dentro de la edición de la obra total de A., el cual fue producido a continuación de Física. (…) Quizá, de acuerdo con la preocupación del filósofo, una denominación más correcta hubiese sido <Filosofía>”
LIBRO PRIMERO
PREEMINÊNCIA DO OLHO: “Todos los hombres tienen, por naturaleza, el deseo de saber. El placer que nos causan las percepciones de nuestros sentidos es una prueba de esta verdad. Ellas nos agradan por si mismas, independientemente de su utilidad, sobre todo, las que corresponden a la vista.”
“Los animales reciben de la naturaleza la facultad de conocer por los sentidos. Pero este conocimiento en unos no promueve la memoria, al tiempo que en otros la produce. Así, los primeros son simplemente inteligentes, mientras que los otros son más capaces de aprender que los que no poseen la facultad de recordar. La inteligencia, sin la capacidad de recordar, es patrimonio de los que no tienen la facultad de percibir los sonidos; por ejemplo, la abeja (…) la capacidad de aprender se encuentra en todos aquéllos que unen a la memoria el sentido del oído.”
“muchos recuerdos de una misma cosa constituyen la experiencia. Pero la experiencia, al parecer se asimila casi por completo a la ciencia y al arte.” “El arte comienza cuando de un gran número de nociones suministradas por la experiencia se forma una sola concepción general” “En la práctica, la experiencia no parece diferir del arte” “Esto es así porque la experiencia es el conocimiento de las cosas particulares; y el arte, por el contrario, el de lo general. Ahora bien, todos los actos, todos los hechos se dan en lo particular.” “si alguno posee la teoría sin la experiencia, y conociendo lo general ignora lo particular contenido en él, errará muchas veces en el tratamiento de la enfermedad.” “los hombres de arte pasan por ser más sabios que los hombres de experiencia (…) El motivo de esto es que los unos conocen la causa y los otros la ignoran.” “los operarios se parecen a esos seres inanimados que obran, pero sin conciencia de su acción, como el fuego” “En los seres animados, una naturaleza particular es la que produce cada una de estas acciones; en los operarios es el hábito. La superioridad de los jefes sobre los operarios no se debe a su habilidad práctica, sino al hecho de poseer la teoría y conocer las causas. (…) el carácter principal de la ciencia consiste en poder ser trasmitida por la enseñanza. (…) según la opinión común, el arte, más que la experiencia, es ciencia; porque los hombres de arte pueden enseñar y los hombres de experiencia, no.”
“inventores (…) su ciencia no tenía la utilidad por fin. (…) posibilidad del reposo. Las matemáticas fueron inventadas en Egipto, porque en este país se dejaba en gran solaz [ócio] a la casta de los sacerdotes.”
“la ciencia que se llama Filosofía consiste, según la idea que generalmente se tiene de ella, en el estudio de las causas y de los principios.” “concebimos al filósofo, principalmente, como conocedor del conjunto de las cosas, en tanto es posible, pero sin tener la ciencia de cada una de ellas en particular.” “un conocimiento que se adquiere sin esfuerzos no tiene nada de filosófico. Por último, el que tiene las nociones más rigurosas de las causas y quien mejor enseña estas nociones es más filósofo que todos los demás en todas las ciencias.” “El filósofo no debe recibir leyes, pero sí darlas”
“la aritmética es más rigurosa que la geometría.”
“que no es una ciencia práctica lo prueba el ejemplo de los primeros que han filosofado. Lo que en un principio movió a los hombres a hacer las primeras indagaciones filosóficas fue, como lo es hoy, la admiración.” //(ARENDT)
“Ir en busca de una explicación y admirarse es reconocer que se ignora. (…) el amigo de la ciencia lo es en cierta manera de los mitos, porque el asunto de los mitos es lo maravilloso.” “Así como llamamos hombre libre al que se pertenece a sí mismo y no tiene dueño, de igual modo esta ciencia es la única entre todas que puede llevar el nombre de libre.”
“no es posible que la divinidad sea envidiosa, y los poetas, como dice el proverbio, mienten muchas veces.”
“La mayoría de los primeros que filosofaron no consideraron los principios de todas las cosas sino desde el punto de vista de la materia.” “Por lo que hace al número y al carácter propio de los elementos, estos filósofos no están de acuerdo.” “Estos elementos perduran siempre, y no se hacen o devienen” “Anaxágoras de Clazomenes, primogénito de Empédocles, no pudo presentar una teoría tan recomendable. Pretende que el nº de los principios es infinito.”
“lo más antiguo que existe también es lo que hay de más sagrado, y lo más sagrado que hay es el juramento.”
“Es inegable que toda destrucción y toda producción provienen de algún principio, ya sea único o múltiple. No obstante, ¿de dónde provienen estos efectos y cuál es la causa? Porque, en verdad, el sujeto mismo no puede ser autor de sus propios cambios.”
LAVOISIER, O RETARDATÁRIO: “Pretenden que la unidad es inmóvil y que no sólo nada nace ni muere en toda la naturaleza (opinión antigua y a la que todos se asociaron), sino que en la naturaleza es imposible todo otro cambio. (…) Ninguno de los que aceptan la unidad del todo ha llegado a la concepción de la causa que comentamos [o movimento], excepto, quizá, Parménides”
“cuando hubo un hombre que proclamó que en la naturaleza, al modo que sucedía con los animales, había una inteligencia, causa del concierto y del orden universal, pareció que este hombre era el único que estaba en el pleno uso de su razón, en compensación por las divagaciones de sus predecesores.”
“El Amor, el más antiguo de todos los dioses.” Hesíodo
“Si se dijese que Empédocles ha proclamado, y proclamado el primero, el bien y el mal como principios, no se caería en error”
“estos filósofos en verdad no saben lo que dicen.”
PAI E FILHO: “Anaxágoras se sirve de la inteligencia como de una máquina, para la creación del mundo (…) pero en todos los demás casos a otra causa más bien que a la inteligencia es a la que atribuye la producción de los fenómenos. Empédocles se sirve de las causas más que Anaxágoras,es verdad, pero de un modo también insuficiente, y al servirse de ellas no sabe ponerse de acuerdo consigo mismo.”
“según Leucippo y Demócrito, el no-ser existe lo mismo que el ser.”
“Los números son, por su naturaleza, anteriores a las cosas (…) tal combinación de números les parecía ser la justicia, tal otra el alma y la inteligencia, tal otra la oportunidad; lo mismo, aproximadamente, hacían con todo lo demás. Por último, veían en los números las combinaciones de la música y sus acordes.” “Como la década parece ser un número perfecto, que reúne todos los números, pretendieron que los cuerpos en movimiento en el cielo son 10 en número. Pero no siendo visibles más que 9, han imaginado un 10º, el Antichtho [Contra-Terra]. Todo esto lo hemos explicado detenidamente en otra obra [Física].”
“el impar es finito, el par es infinito”
“Otros pitagóricos aceptan 10 principios, que colocan de 2 en 2, en el orden siguiente:
Finito e infinito.
Par e impar.
Unidad y pluralidad.
Derecha e izquierda.
Macho y hembra.
Reposo y movimiento.
Rectilíneo y curvo.
Luz y tinieblas.
Bien y mal.
Cuadrado y cuadrilátero irregular.”
“Alcmeón de Crotona florecía cuando era anciano Pitágoras”
“según se dice, Parménides fue discípulo de Xenófanes”
O LIQUIDIFICADOR ESTAGNADO (O 1º ZERO ABSOLUTO): “en el análisis que nos ocupa, debemos, como ya hemos dicho, prescindir de estos filósofos, por lo menos, de los dos últimos (Xenófanes y Melisso) cuyas concepciones son verdaderamente bastante ordinarias. Con respecto a Parménides, parece que reflexiona con un conocimiento más profundo de las cosas. Convencido de que fuera del ser, el no-ser es nada, acepta que el ser es necesariamente uno y que no hay ninguna otra cosa más que el ser; cuestión que hemos tratado detenidamente en la Física. Pero obligado a explicar las apariencias, a aceptar la pluralidad que nos ofrecen los sentidos, al mismo tiempo que la unidad concebida por la razón, sienta otras dos causas, otros dos principios: lo caliente y lo frío”
“los pitagóricos empezaron a ocuparse de la forma propia de las cosas y a definirlas; pero en este punto su teoría es demasiado imperfecta. (…) como si, p.ej., se creyese que lo doble y el nº 2 son una misma cosa, porque lo doble se encuentra desde luego en el nº 2. (…) porque entonces un ser único sería muchos seres, y ésta es la consecuencia de la teoría pitagórica.”
História é o que já morreu. O presente é fofoca.
“Platón era partidario de la opinión de Heráclito, según la cual no hay ciencia posible de estos objetos. Más tarde conservó esta misma opinión. [*]
Por otro lado, fue discípulo de Sócrates, cuyos trabajos indudablemente no comprendieron más que la moral y de ningún modo el conjunto de la naturaleza, pero que al tratar la moral, se propuso lo general como objeto de sus investigaciones, siendo el primero que tuvo el pensamiento de dar definiciones. Platón creyó que sus definiciones debían recaer sobre otros seres que los seres sensibles, porque ¿cómo dar una definición común de los objetos sensibles que mudan continuamente? A estos seres los llamó Ideas, agregando que los objetos sensibles están fuera de las ideas y reciben de ellas su nombre (…) El único cambio que introdujo en la ciencia fue la palabra <participación>.
Los pitagóricos dicen, efectivamente, que los seres existen a imitación de los nºs (…) La diferencia es sólo de nombre. Con relación a investigar en qué consiste esta participación de las ideas, es algo de lo que no se ocuparon ni Platón ni los pitagóricos.” [*] “Platón consideró [que] las ideas son los números. (…) Platón está de acuerdo con los pitagóricos. [Recai em contradição, ou bem considera sua Dialética uma espécie de Poesia das Poesias?] (…) Pero reemplazar por una díada el infinito considerado como uno, y constituir el infinito de lo grande y de lo pequeño, esto es lo que le es propio. (…) mientras que los pitagóricos no aceptan a los seres matemáticos como intermedios. (…) sus precursores no conocían la Dialéctica.”
POESIA COM “P” DE “PARTICIPAÇÃO”, “PATAFÍSICA” E “PARA-A-MORTE”.
“de una materia única sólo puede salir una sola mesa, mientras que él, que produce la idea, la idea única, produce muchas mesas.”
“Unos dicen que es el fuego el principio de las cosas, otros el agua, otros el aire. ¿Y por qué no aceptan también, según la opinión común, la tierra como principio? Porque generalmente se dice que la tierra es todo.”
“los seres matemáticos están privados de movimiento, a excepción de aquellos que trata la Astronomía.” “¿Pero cómo tendrá lugar el movimiento si no hay otras sustancias que lo finito y lo infinio, lo par y lo impar? Los pitagóricos nada dicen de esto ni explican tampoco cómo pueden operarse, sin movimiento y sin cambio, la producción y la destrucción, o las revoluciones de los cuerpos celestes.”
“Dejemos ya a los pitagóricos y quedémonos con lo dicho en lo que respecta a ellos. [Platonismo]”
51 IDÉIAS, OU 50 TONS DE ESSÊNCIA: “Porque el nº de las ideas es casi tan grande o poco menos que el de los seres cuyas causas intentan descubrir y de los cuales han partido para llegar a las ideas. Cada cosa tiene su homónimo” “debería haber ideas de cosas en relación con las cuales no se acepta que las haya.” “de acuerdo con el argumento de la unidad en la pluralidad habrá hasta negaciones; y como se piensa en lo que ha desaparecido, habrá también ideas de los objetos que han desaparecido” “los razonamientos más rigurosos conducen ya a aceptar las ideas de lo que es relativo” “la hipótesis del tercer hombre” “Las ciencias no recaen únicamente sobre la esencia, recaen también sobre otras cosas; y pueden obtenerse otras mil consecuencias de este género.” “una cosa participante de lo doble en sí, participaría al mismo tiempo de la eternidad” “Por lo tanto, idea significa esencia en este mundo y en el mundo de las ideas” “Si no hay comunidad de género, no habrá entre ellas más de común que el nombre: y será como si se diese el nombre de hombre a Callias y a un trozo de madera, sin haber observado ninguna relación entre ellos.” “Decir que las ideas son ejemplares y que las demás cosas participan de ellas es llenarse de palabras vacías de sentido y hacer metáforas poéticas.”
EL PROBLEMA DE LA MÓNADA: “aunque Sócrates exista o no, podría nacer un hombre como Sócrates.” “la misma cosa será a la vez modelo y copia.” “Se dice en Fedón que las ideas son las causas del ser y del devenir o llegar a ser, y no obstante, aun aceptando las ideas, los seres que de ellas participan no se producen si no hay un motor.” “Es indudable que de la reunión de muchos números resulta un número; no obstante, ¿cómo muchas ideas pueden formar una sola idea?”
“Y no se diga que lo profundo es una especie de ancho, porque entonces el cuerpo sería una especie de plano.”
AVÔ DO PRINCÍPIO DE REALIDADE: “Platón negó la existencia del punto, suponiendo que es una concepción geométrica. Le daba el nombre de principio de la línea, siendo los puntos estas líneas indivisibles que trataba muchas veces.”
“participar, como antes hemos dicho, no significa nada.”
“Pero las matemáticas se han convertido hoy en filosofía, son toda la filosofía, por más que se diga que su estudio no debe hacerse sino en vista de otras cosas.”
“Esto es a lo que viene a parar lo grande y lo pequeño. A esto se reduce la opinión de los físicos de que lo raro y lo denso son las primeras diferencias del objeto. Efectivamente, no es otra cosa que lo más y lo menos.”
“Suponer na inmovilidad de las ideas es igual a eliminar todo estudio de la naturaleza. Una cosa que parece más fácil de explicar es que todo es uno; y no obstante, esta teoría no lo logra.”
“buscar los elementos de todos los seres o imaginarse que se han encontrado es una verdadera locura.”
ANTI-KANT: “Quien aprende la geometría tiene, necesariamente, conocimientos previos, pero nada sabe de antemano de los objetos de la geometría y de lo que se trata de aprender. Las otras ciencias se encuentran en el mismo caso. Por lo tanto, si como se pretende, hay una ciencia de todas las cosas, se abordará esta ciencia sin poseer ningún conocimiento previo.” “Se discutirá sobre los verdaderos elementos como se discute con motivo de ciertas sílabas [//TEETETO]. Entonces, unos dicen que la sílaba xa se compone de c, de s y de a; otros pretenden que en ella entra otro sonido distinto de todos los que se reconocen como elementos.”
“las investigaciones de todos los filósofos recaen sobre los principios que hemos enumerado en la Física, y no hay otros fuera de éstos.”
LIBRO SEGUNDO
“La ciencia que tiene por finalidad la verdad es difícil desde un punto de vista y fácil desde otro. Lo evidencia la imposibilidad que hay de alcanzar la completa verdad, y la imposibilidad de que se oculte por entero. Cada filósofo expone algún secreto de la naturaleza. Lo que cada cual agrega en particular al conocimiento de la verdad no es nada, sin duda, o es muy poca cosa, pero, la reunión de todas las ideas presenta importantes resultados.”
“¿quién no clava la flecha en una puerta?”
“es justo reconocer no sólo a aquéllos cuyas opiniones compartimos, sino también a quienes han tratado las cuestiones de una manera un poco superficial, porque también han contribuido por su parte”
“Es indudable que existe un primer principio y que no existe ni una serie infinita de causas ni una infinidad de especies de causas. Entonces, desde la perspectiva de la materia, es imposible que haya producción hasta el infinito; p.ej., que la carne provenga de la tierra, la tierra del aire, el aire del fuego, sin que esta cadena se termine nunca. Lo mismo debe entenderse del principio del movimiento (…) En igual forma, en relación con la causa final (…) Y finalmente, lo mismo puede decirse en relación con la causa esencial.”
“lo mismo que entre el ser y el no-ser hay siempre el devenir, del mismo modo, entre lo que no existía y lo que existe, está lo que deviene. Entonces el que investiga, deviene o se hace sabio, y esto es lo que se quiere expresar cuando se dice que de aprendiz que era deviene o se hace maestro.”
“Los que aceptan la producción hasta el infinito no ven que excluyen por este medio el bien. Porque ¿hay alguien que quiera emprender nada, sin proponerse llegar a un término? Esto sólo le ocurriría a un necio.”
“Aquí no ocurre lo que con la línea, cuyas divisiones no acaban; el pensamiento tiene necesidad de puntos de parada. Entonces, si se recorre esta línea que se divide hasta el infinito, no se pueden contar todas las divisiones.”
“Hay hombres que no aceptan más comprobaciones que las de las matemáticas; otros no quieren más que ejemplos; otros no encuentran mal que se apele al testimonio de los poetas. Los hay, por último, que reclaman que todo sea rigurosamente comprobado; mientras que otros encuentran insoportable este rigor, ya porque no pueden seguir la serie encadenada de los razonamientos, ya porque piensan que es perderse en insignificancias. Efectivamente, hay algo de esto en la afectación de rigurosidad en la ciencia. Así es que algunos consideran indigno que el hombre libre lo utilice, no sólo en la conversación, sino también en la discusión filosófica.”
“sería absurdo confundir y mezclar la investigación de la ciencia y la del método” “No debe requerirse rigor matemático en todo, sino tan sólo cuando se trata de objetos inmateriales. [Quão estranho era o mundo de A.!] Entonces, el método matemático no es el de los físicos, porque la materia es probablemente el fondo de toda la naturaleza.”
LIBRO TERCERO (ou: LIVRO DAS PERGUNTAS)
ANTI-DESCARTES: “Dudar en este caso es encontrarse en el estado del hombre encadenado, y, como a éste, es imposible seguir adelante.”
(1) “¿La investigación de las causas pertenece a una sola ciencia o a muchas?”
(2) “¿es posible o no afirmar y negar al mismo tiempo una sola y misma cosa?”
O ponto heideggeriano do princípio da não-contradição como limite ocidental.
“los dialécticos, los cuales sólo razonan sobre lo probable”
(3) “¿hay o no hay alguna cosa que sea causa en sí?
(4) “¿Cuáles son en este caso los seres fuera de los cuales existe?”
(5) “¿Los principios de los seres mortales y los de los seres inmortales son los mismos o diferentes, son todos inmortales o son los principios de los seres mortales también mortales?
(6) “¿la unidad y el ser constituyen la sustancia de los seres, como pretendían los pitagóricos y Platón, o acaso hay algo que le sirva de sujeto, de sustancia, como la Amistad de Empédocles, el fuego, el agua, el aire de éste o aquel filósofo?
“no hay acción sin movimiento, de modo que en las cosas inmóviles no se puede aceptar ni la existencia de este principio del movimiento ni la del bien en sí.
De esto se desprende que nada se comprueba en las ciencias matemáticas por medio de la causa del movimiento.” “Por esta razón, algunos sofistas, por ejemplo, Aristipo, rechazaban como infames las ciencias matemáticas.”
P. 49: “una cosa no puede ser y no ser al mismo tiempo” (2)
“Toda comprobación debe partir de un principio, recaer sobre un objeto y comprobar algo de ese objeto. De esto se desprende que todo lo que se comprueba podría reducirse a un sólo género. Y efectivamente, todas las ciencias comprobatorias se sirven de axiomas. Y si la ciencia de los axiomas es distinta de la ciencia de la esencia, ¿cuál de las dos será la ciencia soberana, la ciencia primera? Los axiomas son lo más general que hay, son los principios de todas las cosas” “No es probable que haya una sola ciencia de todas las esencias. En este caso habría una sola ciencia comprobatoria de todos los accidentes esenciales de los seres” “la esencia, a lo que parece, no se comprueba”
“Habrá otro cielo, otro Sol, otra Luna, además de los que podemos ver; y lo mismo en todo lo demás que aparece en el firmamento. No obstante, ¿cómo creeremos en su existencia? A este nuevo cielo no se lo puede hacer razonablemente inmóvil; y por otro lado, es por completo imposible que esté en movimiento. Lo mismo ocurre con los objetos que trata la Óptica, y con las relaciones matemáticas entre los sonidos musicales.”
“Pero tampoco es exacto que la Geodesia [então, apenas uma subdivisão da Geografia com colaboração da Matemática – a gravidade não era conhecida pelos gregos, como na Geodésia Moderna] sea una ciencia de magnitudes sensibles y finitas, porque en este caso desaparecería ella cuando desapareciesen las magnitudes. La Astronomía misma, la ciencia del cielo que cae con el dominio de nuestros sentidos, no es una ciencia de magnitudes sensibles. Ni las líneas sensibles son las líneas del geómetra, porque los sentidos no nos dan ninguna línea recta, ninguna curva, que cumpla con la definición; el círculo no encuentra la tangente en un solo punto, sino en muchos, como observaba Protágoras en su polémica con los geómetras; ni los movimientos reales ni las revoluciones del cielo concuerdan completamente con los movimientos y las revoluciones que dan los cálculos astronómicos; últimamente, las estrellas no son de la misma naturaleza que los puntos.”
“necesariamente en un mismo lugar se tendrán dos sólidos, y no serán inmóviles, ya que se darán en objetos sensibles que están en movimiento. ¿por qué aceptar seres intermedios para colocarlos en los seres sensibles? Los mismos absurdos de antes se reproducirán sin cesar. Entonces, habrá un cielo fuera del cielo que está sometido a nuestros sentidos, pero no estará separado de él, estará en el mismo lugar; lo cual es más inadmisible que el cielo separado.”
“los principios de los seres no pueden ser al mismo tiempo los géneros y los elementos constitutivos. La esencia no acepta dos definiciones” “La unidad y el ser no son géneros, y por lo tanto, no son principios, ya que son los géneros los que constituyen los principios.” “Pero si las diferencias son principios, hay en cierto modo una infinidad de principios, sobre todo, si se toma como partida el género más elevado.”
“la unidad debe aparecer más bien como individuo: el hombre, en efecto, no es el género de los hombres particulares.” “debe considerarse a los individuos como principios de los géneros. Pero por otro lado, ¿cómo concebir que los individuos sean principios?”
“Si no hay algo fuera de lo particular y si hay una infinidad de cosas particulares, ¿cómo es posible conseguir la ciencia de la infinidad de las cosas?”
“Aceptemos que realente hay algo fuera del conjunto del atributo y de la sustancia, aceptemos que hay especies. No obstante, ¿la especie es algo que exite fuera de todos los objetos o sólo está fuera de algunos sin estar fuera de otros, o no está fuera de ninguno?
¿Entonces diremos que no hay nada fuera de las cosas particulares? En este caso no habría nada de inteligible, no habría más que objetos sensibles, no habría ciencia de nada, a menos que se llamase ciencia al conocimiento sensible. Tampoco habría nada eterno ni inmóvil” “Y si no hay nada eterno, la producción es imposible. Porque es imprescindible que lo que deviene o llega a ser sea algo, así como aquello que hace llegar a ser; y que la última de las causas productoras sea de todos los tiempos, ya que la cadena de las causas tiene un límite y es imposible que cosa alguna sea producida por el no-ser. (…) porque ningún movimiento es infinito: lo que deviene existe, necesariamente, antes de devenir o llegar a ser.
Asimismo, si la sustancia existe en todo tiempo, con mucha más razón es necesario aceptar la existencia de la esencia en el momento en que la sustancia deviene. En efecto, si no hay sustancia ni esencia, no existe absolutamente nada. (…) es necesario que la forma y la esencia sean algo fuera del conjunto de la sustancia y de la forma. (…) ¿En qué casos se aceptará esta existencia separada y en qué casos no se la aceptará? Porque es indudable que no en todos los casos se la aceptará. Efectivamente, no podemos decir que hay una casa fuera de las casas particulares.”
“si los principios de los seres son reducidos a la unidad numérica, no quedará existente otra cosa que los elementos.
Numérica o individualmente son la misma cosa, ya que llamamos individual a lo que es uno por el nº”
“Hesíodo y todos los teósofos sólo han buscado lo que podía convencerlos, y no han pensado en nosotros. (…) luego agregan que los seres que no han gustado el néctar y la ambrosía están destinados a morir. Estas explicaciones tenían, sin duda, un sentido para ellos; pero nosotros ni siquiera comprendemos cómo han podido encontrar causas en esto.” “¿cómo estos seres podrán ser inmortales, ya que tendrían necesidad de alimentarse? Pero no tenemos necesidad de someter a un análisis profundo invenciones fabulosas.”
“si se destruyen los principios, ¿cómo podrá haber seres mortales? Y si los principios son inmortales, ¿por qué entre estos principios inmortales hay unos que producen seres mortales y otros seres inmortales? (…) ningún filósofo ha aceptado que los seres tengan principios diferentes”
“Platón y los pitagóricos pretenden, efectivamente, que el ser y la unidad no son otra cosa que ellos mismos y que tal es su carácter. La unidad en sí y el ser en sí; según estos filósofos, es lo que constituye la sustancia de los seres.
Los físicos son de otra idea. Empédocles explica que el ser es la Amistad. Otros pretenden que el fuego o el aire son esta unidad y este ser. Lo mismo ocurre con los que han aceptado la pluralidad de elementos”
“Si no se establece que la unidad y el ser son una sustancia, se sigue que no hay nada general, ya que estos principios son lo más general que hay en el mundo, y si la unidad en sí y el ser en sí no son algo, con más fuerte razón no habrá ser alguno fuera de lo que se denomina lo particular. Asimismo, si la unidad no fuera una sustancia, es indudable que el nº mismo no podría existir como uma naturaleza separada de los seres.”
“cómo puede haber más de un ser, ya que lo que es otra cosa que el ser no es. De lo cual, necesariamente, se sigue lo que decía Parménides: que todos los seres se reducían a uno y que la unidad es el ser.”
“si la unidad fuese indivisible, no habría absolutamente nada, y esto es lo que piensa Zenón.” “No obstante, como la conclusión de Zenón es un poco rígida, y por otro lado, puede haber en ella algo de indivisible, se responde a la objeción de que en el caso de la mónada o el punto la adición no aumenta la extensión y sí el nº. Pero entonces, ¿cómo un solo ser, y si se quiere muchos seres de esta nauraleza, formarán una magnitud?”
“Por lo tanto, si por un lado el cuerpo es la sustancia por excelencia; si por otro lado las superficies, las líneas y los puntos lo son más que el cuerpo mismo; y si, en otro concepto, ni las superficies, ni las líneas, ni los puntos son sustancias, en tal caso no sabemos ni qué es el ser ni cuál es la sustancia de los seres.” “con las superficies ocurre, aproximadamente, lo mismo que con el tiempo. Es imposible que devenga y muera; no obstante, como no es una sustancia, parece diferente sin cesar. En efecto, los puntos, las líneas y las superficies se encuentran en un caso semejante, porque se les puede aplicar los mismos razonamientos. Como el instante actual, no son ellos más que límites o divisiones.”
LIBRO CUARTO
“investigar los elementos del ser, no como accidentes, sino como seres (…) debemos investigar las causas primeras del ser como ser.”
“La unidad y el ser se subdividen en géneros, unos anteriores y otros posteriores; y habrá tantas partes de la filosofía como subdivisiones hay.” “Una sola ciencia se ocupa de los opuestos” “una sola ciencia debe tratar de la sustancia y sus diferentes modos; ésta era una de las cuestiones que nos habíamos planteado.”
“Lo prueban las investigaciones de los dialécticos y de los sofistas, que se disfrazan con el traje del filósofo, porque la sofística no es otra cosa que la apariencia de la filosofía, y los dialécticos debaten sobre todo (…) Si se ocupan de estos modos del ser, es indudablemente porque son del dominio de la filosofía, como que la dialéctica y la sofística se mueven en el mismo círculo de ideas que la filosofía. Pero la filosofía se distingue de una por los efectos que produce, y de la otra por el género de vida que impone. La dialéctica trata de conocer, la filosofía conoce; en relación con la sofística, no es más que una ciencia aparente y sin realidad.”
“casi todos los filósofos están de acuerdo en sostener que los seres y la sustancia están formados de contrarios. Todos dicen que los principios son contrarios, adoptando los unos el impar y el par, otros lo caliente y lo frío, otros lo finito y lo infinito, otros la Amistad y la Discordia.”
“Por este motivo, ninguno de los que se ocupan de las ciencias parciales, ni el geómetra ni el aritmético, intenta exponer ni la verdad ni la falsedad de los axiomas; y sólo exceptúo algunos de los físicos, por entrar esta investigación en su propósito. En efecto, los físicos son los únicos que han querido comprender, en una sola ciencia, la naturaleza toda y el ser. Pero como hay algo superior a los seres físicos, porque los seres físicos son más que un género particular del ser, al que trate de lo universal y de la sustancia primera es a quien también pertenecerá investigar este algo. Verdaderamente, la física es una especie de filosofía, pero no es la filosofía primera.”
“Principio cierto por excelencia es aquél con relación al cual todo error es imposible. El principio cierto por excelencia debe ser el más conocido de los principios (porque siempre se cae en error en relación con las cosas que no se conocen) y un principio que no tenga nada de hipotético, ya que el principio, cuya posición es necesaria para comprender las cosas, no es una suposición. Finalmente, al principio que hay necesidad de conocer para conocer lo que quiera que sea, es también necesario poseerlo obvinculatoriamente [? – palavra não-dicionarizada], para realizar toda clase de estudios. No obstante, ¿cuál es este principio? Es el siguiente: es imposible que el mismo atributo pertenezca y no pertenezca al mismo sujeto, en un tiempo mismo, y en la misma relación, etc. (no olvidemos aquí, para precavernos de las sutilezas lógicas, ninguna de las condiciones esenciales que hemos establecido en otra parte).”
“Según algunos, Heráclito es de otra idea; pero que se diga una cosa no hay que deducir necesariamente que se piensa.”
“si dos pensamientos contrarios no son otra cosa que una afirmación que se niega a sí misma, mentiría quien afirmase tener esta concepción simultánea, sería necesario que tuviese al mismo tiempo los dos pensamientos contrarios.”
“También hay filósofos que, dando una muestra de ignorancia, quieren comprobar este principio; porque es ignorancia no saber diferenciar lo que tiene necesidad de comprobación de lo que no la tiene. Es absolutamente imposible comprobarlo todo, porque seria necesario caminar hasta el infinito; de modo que no resultaría comprobación. Y si hay verdades que no deben comprobarse, dígasenos qué principio, como no sea el comprobado, se encuentra en semejante caso. § No obstante, se puede establecer, por vía de refutación, esta imposibilidad de los contrarios.” “Supuestamente, quien comprobase el principio incurriría en una petición de principio. Pero si se intenta dar otro principio como causa de éste que se trata, entonces habrá refutación, pero no comprobación.”
“un hombre falto de razón se parece a una planta.”
VOCÊ ME DÁ SUA PALAVRA? “Pero quien comprueba no es la causa de la comprobación, sino aquél a quien ésta se dirige. Empieza por destruir todo lenguaje y acepta enseguida que se puede hablar. Por último, el que acepta que las palabras tienen un sentido también acepta que hay algo de verdadero, independiente de toda comprobación. De esto se desprende la imposibilidad de los contrarios.”
“si el animal de dos pies es el hombre y el hombre es una esencia, la esencia del hombre es el ser un animal de dos pies.” “la cuestión no es saber si es posible que la misma cosa sea y no sea al mismo tiempo el hombre nominalmente, sino si puede serlo realmente.”
“Si el pensamiento no recae sobre un objeto uno, todo pensamiento es imposible. Para que el pensamiento sea posible, es necesario dar un nombre determinado al objeto del pensamiento.”
“esto es lo que distingue la esencia del accidente: la blancura, en el hombre, es un accidente; y la blancura es un accidente en el hombre, porque es blanco, pero no es la blancura.
Si se plantea que todo es accidente, ya no hay género primero, ya que siempre el accidente designa el atributo de un sujeto.”
“El accidente no es nunca un accidente de accidente, sino cuando estos dos accidentes son los accidentes del mismo sujeto.”
“Una nave, un muro y un hombre deben ser la misma cosa, si todo se puede afirmar o negar de todos los objetos, como se advierten obligados a aceptar los que adoptan la proposión de Protágoras. Si se cree que el hombre no es una nave, indudablemente, el hombre no será una nave. Y por lo tanto el hombre es una nave, ya que la afirmación contraria es verdadera. De esta manera llegamos a la proposición de Anaxágoras. Todas las cosas están confundidas. De modo que nada existe que sea verdaderamente uno.” “lo indeterminado es el ser en potencia y no en acto.” “Sería absurdo que un ser tuviese en sí su propia negación y no tuviese la negación de otro ser que no está en él. P.ej., si es indudable que el hombre no es un hombre, por cierto también es indudable que el hombre no es una nave. Si aceptamos la afirmación también debemos aceptar la negación.” “Si es indudable que el hombre también es el no-hombre, es indudable que ni el hombre ni el no-hombre podrían existir, porque es necesario aceptar al mismo tiempo las dos negaciones de estas dos afirmaciones. Si de la doble afirmación de su existencia se forma una afirmación única, compuesta de estas dos afirmaciones, es necesario aceptar la negación única que es opuesta a aquélla.”
“Sus palabras no tienen ningún sentido; porque no dicen que las cosas son así o que no son así, sino que son y no son así al mismo tiempo. Después viene la negación de estos dos términos; y dicen que no es así ni no así, sino que es así y no así. Si no fuera así, habría ya algo determinado.”
“supuestamente, todos los hombres tienen la idea de la existencia real, si no de todas las cosas, por lo menos de lo mejor y de lo peor.
Pero aun cuando el hombre no tuviera la ciencia, aun cuando sólo tuviera opiniones, sería necesario que se aplicase mucho más todavía al estudio de la verdad; al igual que el enfermo se ocupa más de la salud que el hombre que está sano. Porque el que sólo tiene opiniones, si se lo compara con el que sabe, está en estado de enfermedad en relación con la verdad.”
“según la teoría de Demócrito, aquello que parece a los sentidos es necesariamente en su opinión la verdad.” “en delirio los hombres también tienen razón, pero que ya no es la misma.” “si tales son las teorías que enseñan sobre la verdad, ¿cómo abordar sin desaliento los problemas filosóficos? Buscar la verdad ¿no sería ir en busca de sombras que desaparecen?” “la opinión que tienen es verosímil, pero no verdadera.” “De estas observaciones nacieron otras teorías que todavía van más lejos. Por ejemplo, la de los filósofos que se dicen de la escuela de Heráclito; la de Cratilo, que llegaba hasta creer que no es necesario decir nada.”
“La cosa que cesa de ser aún participa de lo que ha dejado de ser, y necesariamente ya participa de aquello que deviene o se hace. si un ser muere, todavía en él habrá ser; y si deviene, es indispensable que aquello de donde sale y aquello que lo hace devenir tengan una existencia y que esto no continúe así hasta el infinito.”
FENOMENOLOGIA PURA!
“¿por qué entonces han aplicado la teoría [do Não-Ser do Indivíduo] al mundo entero? Este espacio que nos rodea no es más que una porción nuladel universo. hubiera sido más justo absolver a este bajo mundo en favor del mundo celeste, que condenar el mundo celeste a causa del primero. (…) Para rebatir a estos filósofos no hay más que comprobarles que existe una naturaleza inmóvil”
“pretender que el ser y el no-ser existen simultáneamente es aceptar el eterno reposo (…) no hay nada en que se puedan transformar los seres, ya que todo existe en todo.”
“no todas las apariencias son verdaderas.”
“No puede negarse el testimonio de un sentido porque en distintos tiempos esté en desacuerdo consigo mismo; la imputación debe dirigirse al ser que experimenta la sensación. P.ej., el mismo vino sea porque él haya cambiado, sea porque nuestro cuerpo haya cambiado, nos parecerá indudablemente dulce en un instante y lo contrario en otro. Pero no es lo dulce lo que deja de ser lo que es, nunca se despoja de su propiedad esencial; siempre es indudable que un sabor dulce es dulce, y lo que tenga un sabor dulce tendrá necesariamente para nosotros este carácter esencial.” “las teorías niegan toda esencia” “De modo que si hay algo necesario, los contrarios no podrían existir a la vez en el mismo ser. En general, si sólo existiera lo sensible, no habría nada, porque nada puede haber sin la existencia de los seres animados que pueden percibir lo sensible; y quizás entonces sería cierto decir que no hay objetos sensibles ni sensaciones, porque todo esto es en la hipótesis una modificación del ser que siente. Pero que los objetos que causan la sensación no existan, ni aun independientemente de toda sensación, es algo imposible.” “por su naturaleza, el motor es anterior al objeto en movimiento”
“el principio de la comprobación no es una comprobación.”
“decir que todo lo que aparece es verdadero es igual a decir que todo es relativo. Los que exigen una comprobación lógica deben tener en cuenta lo siguiente: es necesario que acepten, si quieren entrar en una discusión; no que lo que aparece es verdadero, sino que lo que aparece es verdadero para aquél a quien aparece cuando y como le aparece.”
REFUTAÇÃO FINAL DE SCHOPENHAUER: “Es facil contestar a los que, por las razones que ya hemos apuntado, pretenden que la apariencia es la verdad y, por lo tanto, que todo es verdadero y falso.”
“si el hombre y lo que es pensado son la misma cosa, el hombre no es aquello que piensa, sino lo que es pensado.”
“Y ya que es imposible que dos afirmaciones contrarias sobre el mismo objeto sean verdaderas al mismo tiempo, es indudable que tampoco es posible que los contrarios se encuentren al mismo tiempo en el mismo objeto, porque uno de los contrarios no es otra cosa que la privación, la privación de la esencia.”
“También es imposible que haya un término medio entre dos proposiciones contrarias”
PREFÍSICA QUÂNTICA: “Por otro lado, todo lo que es inteligible o pensado, el pensamiento lo afirma o lo niega; y esto resulta indudablemente de acuerdo con la definición del caso en que se está en lo verdadero y de aquél en que se está en lo falso. Cuando el pensamiento pronuncia tal juicio afirmativo o negativo, está en lo verdadero. Cuando pronuncia tal otro juicio, está en lo falso.”
“Hay más todavía: con los intermedios se llegará al infinito. Se tendrá no sólo tres seres en lugar de dos, sino muchos más. Efectivamente, además de la afirmación y negación primitivas, podrá haber una negación relativa al intermedio; este intermedio será alguna cosa, tendrá una sustancia propia. Y, por otro lado, cuando alguno, interrogado sobre si un objeto es blanco, responde <no>, no hace más que decir que no es blanco; y bien, no-ser es la negación.”
“supuestamente, el pensamiento de Heráclito, cuando sostiene que todo es y no es, es que todo es verdadero; el de Anaxágoras, cuando pretende que entre los contrarios hay un intermedio, es que todo es falso. Ya que hay mezcla de los contrarios, la mezcla no es ni bien ni no-bien; nada se puede afirmar por lo tanto como verdadero.”
“la relación de la diagonal con el lado del cuadrado es inconmensurable.”
“Para polemizar es necesario empezar por una definición y establecer lo que significa lo verdadero y lo falso.”
“El que dice que todo es verdadero también afirma la verdad de la afirmación contraria a la suya, de modo que la suya no es verdadera porque el que sienta la proposición contraria pretende que no está en lo verdadero. El que dice que todo es falso también afirma la falsedad de lo que él mismo dice.”
“hay un motor eterno de todo lo que está en movimiento, y el primer motor es inmóvil.”
LIBRO QUINTO
“las premisas son los principios de las comprobaciones” “todas las causas son principios” “la naturaleza es un principio” “la causa de la octava es la relación de 2 a 1 y, en general, el número y las partes que entran en la definición de la octava.” “La causa es también el fin” “La salud es causa del paseo.”
“¿Por qué?” “Finalmente, se denominan causas todos los intermedios entre el motor y el objeto.”
“No obstante, estas causas se distinguen entre sí, en la medida que unas son los instrumentos y otras operaciones.” “causa material” X “causa de movimiento” “la presencia y la privación, son ambas causas de movimiento.”
“causa final significa, efectivamente, el bien por excelencia. Y poco importa que se diga que este fin es el bien real o que es sólo una apariencia del bien.”
“Policletes es causa de la estatua de una manera y el estatuario de otra; sólo por accidente es el estatuario Policletes. (…) Así, el hombre, o ascendiendo más aún, el animal, es la causa de la estatua (…) Aceptamos decir que la causa de la estatua es el blanco, es el músico; y no Policletes o el hombre.”
“Por último, las causas accidentales y las causas esenciales pueden encontrarse reunidas en la misma noción; p.ej., como cuando se dice no ya Policletes ni tampoco estatuario, sino Policletes estatuario.”
“los modos de las causas son 6; y estos modos son opuestos 2 a 2[:]
particular X general
combinados X simples
en acto x en potencia”
“las causas en acto, lo mismo que las causas particulares, comienzan y concluyen al mismo tiempo que los efectos que ellas producen” “No siempre ocurre así con las causas en potencia; la casa y el arquitecto no mueren al mismo tiempo.”
“Se denomina <elemento> a la materia prima que entra en la composición y que no puede ser dividida en partes heterogéneas. Así los elementos del sonido son lo que constituye el sonido, y las últimas partes en que se lo divide, partes que no se pueden dividir en otros sonidos de una especie diferente de la suya propia. Si se dividiesen, sus partes serían de la misma especie que ellas mismas: una partícula de agua, p.ej., es agua [H2O é H2O]; pero una parte de una sílaba no es una sílaba.”
“a las comprobaciones primeras, que se encuentran en el fondo de muchas comprobaciones, se las llama elementos de las comprobaciones: éstos son los silogismos primeros, compuestos de 3 términos, uno de los cuales sirve de medio.”
“los atributos más universales son elementos. Cada uno de ellos es uno y simple, y existe en gran número de seres, en todos o en la mayor parte. Por último, la unidad y el punto son, según algunos, elementos.” “algunos pretenden que los géneros son elementos más bien que la diferencia, porque el género es más universal. Efectivamente, ahí donde hay diferencia se muestra siempre el género; pero donde hay género, no siempre hay diferencia.”
ROMANTISMO ANTIGO: “(1) se denomina <naturaleza> a la generación de todo aquello que crece, p.ej., cuando se pronuncia larga la primera sílaba de la palabra griega, después la materia intrínseca de donde proviene lo que nace”
“conexión [<fusão>] (pero no bajo la relación de la cualidad)” X “adjunción (simple contacto)”
(2) “sustancia bruta, inerte y sin acción” “el bronce es la naturaleza de la estatua y de los objetos de bronce, y la madera lo es de los objetos de madera (…) se entiende tambíen por naturaleza los elementos de las cosas naturales; entonces se explican los que aceptan por elemento el fuego, la tierra, el aire, el agua o cualquier otro principio análogo, y los que aceptan muchos de estos elementos o todos ellos a la vez.”
(3) “la naturaleza es la esencia de las cosas naturales. Esta acepción la toman los que dicen que la naturaleza es la composición primitiva (Empédocles).”
“principio natural del devenir o del ser” “la reunión de la esencia y de la materia constituye la naturaleza de los seres.” “la forma y la esencia son también una naturaleza, porque son el fin de toda producción. (…) toda esencia en general toma el nombre de naturaleza, porque la naturaleza es también una especie de esencia.” “la naturaleza propiamente dicha es la esencia de los seres, que tienen en sí y por sí mismos el principio de su movimiento.”
“Se denomina <necesario> a aquello que es la causa cooperante sin la cual es imposible vivir. Así, la respiración y el alimento son necesarios al animal.” “También constituyen lo necesario la violencia y la fuerza. Porque la violencia se denomina necesidad, y por lo tanto, la necesidad es una cosa que aflige, como dice Eveno:
<Toda necesidad es una cosa aflictiva>.”
“la necesidad es a nuestros ojos aquello en cuya virtud es imposible que una cosa sea de otra manera.” “las comprobaciones de las verdades necesarias son necesarias, porque es imposible, si la comprobación es rigurosa, que la conclusión sea otra que la que es.” “la necesidad propiamente dicha, es la necesidad absoluta, porque es imposible que tenga muchos modos de existencia.” “Entonces, si hay seres eternos e inmutables, nada puede ejercer sobre ellos violencia o contrariar su naturaleza.”
“Aceptemos que hombre y hombre músico sean idénticos entre sí. Esto se comprobará, o bien porque el hombre es una sustancia una, que tiene por accidente músico, o bien porque ambos son los accidentes de un ser particular, de Coriseo, p.ej. No obstante, en este último caso, los dos accidentes no son accidentes de la misma manera; uno representa, por así decirlo, el género, y existe en la esencia; el otro no es más que un estado, una modificación de la sustancia. Todo lo que se denomina unidad accidental es unidad tan sólo en el sentido que acabamos de decir.”
“A linha, até a linha curva, sempre que seja contínua, é uma; assim como cada uma das partes do corpo, as pernas, os braços. Não obstante, podemos dizer que o que tem naturalmente a continuidade é mais uno que o que só tem uma continuidade artificial.
Observe que se denomina contínuo aquele cujo movimento é um basicamente e não pode ser outro.” “o movimento indivisível no tempo.”
DE LA HOMOGENEIDAD DEL OBJETO: “Las cosas básicamente continuas son unas, aun cuando tengan una flexión. Las que no tienen flexión lo son más: la canilla o el muslo, por ejemplo, lo son más que la pierna, la cual puede no tener un movimiento uno; y la línea recta tiene más que la curva el carácter de unidad. Decimos de la línea curva, así como de la línea angulosa, que es una y que no es una, porque es posible que no estén sus partes todas en movimiento, o que lo estén todas a la vez. Pero en la línea recta el movimiento es siempre simultáneo, y ninguna de las partes que tiene magnitud está en reposo.”
“Se dice que el vino es uno y que el agua es una, son ambos genéricamente indivisibles; y que todos los líquidos juntos, el aceite, el vino, los cuerpos fusibles, no son más que una misma cosa, porque hay identidad entre los elementos primitivos de la materia líquida, ya que lo que constituye todos los líquidos es el agua y el aire.”
“el caballo, el hombre, el perro, son una sola cosa, porque son animales.” “el triángulo isósceles y el equilátero son una sola y misma figura” “Efectivamente, toda definición puede dividirse.” “En general, la unidad de todos los seres es a unidad por excelencia”
“Para nosotros no constituirán una unidad las partes que constituyen el calzado colocadas una junto a otras de una manera cualquiera; y sólo cuando hay, no simplemente continuidad, sino partes colocadas de tal manera que constituyan un calzado y tengan una forma determinada, es cuando decimos que hay verdadera unidad. Por esta razón, la línea del círculo es la línea una por excelencia y es perfecta en todas sus partes.”
“O que é indivisível com relação à quantidade, e como quantidade, o que é absolutamente indivisível e não tem posição, se denomina mônada. O que o é em todos os sentidos mas que ocupa uma posição, é um ponto.O que não é divisível, senão num sentido, é uma linha. O que pode ser dividido em dois sentidos é uma superfície. O que pode sê-lo por todos os lados e em três sentidos, sob a relação da quantidade, é um corpo.”
“Uno en número es aquello cuya materia es una; uno en forma es aquello que tiene unidad de definición; uno, genéricamente, es lo que tiene los mismos atributos; dondequiera que hay relación, hay unidad por analogía. Entonces, el uno en número también es uno en forma; pero lo que es uno en forma, no lo es siempre en número, etc.”
“cuando se dice que una cosa es esto o aquello, significa que esto o aquello es el accidente de esta cosa; lo mismo que si se dice que el hombre es músico o el músico es hombre, o bien que el músico es blanco o el blanco es músico, porque uno y otro son accidentes del mismo ser (…) El músico no es hombre, sino porque el hombre es accidentalmente músico.” Pero el músico es ser sería pleonasmo. “El ser es designado accidental cuando el sujeto del accidente y el accidente son ambos accidentes de un mismo ser; cuando el accidente se da en un ser; o por último, cuando el ser en que se encuentra el accidente es tomado como atributo del accidente.”
“Ser significa que una cosa es verdadera (…) decimos que la relación de la diagonal con el lado del cuadrado no es conmensurable, porque es falso que lo sea.”
“La guerra de Troya es anterior a las guerras médicas, porque está más lejana del instante actual. Después entra lo que está más próximo a este mismo instante actual. El porvenir está en este caso. La celebración de los juegos Nemeos será anterior al de los juegos Pythicos, porque está más próxima al instante actual, tomando el instante actual como principio, como cosa primera.”
“El bailarín que sigue al corifeo es anterior al que figura en tercera fila; y la penúltima cuerda de la lira es anterior a la última. En el primer caso, el corifeo es el principio; en el segundo es la cuerda del medio.”
“hay dos órdenes de conocimiento, el esencial y el sensible. Para el conocimiento esencial, lo universal es lo anterior, asi como lo particular para el conocimiento sensible. En la esencia misma, el accidente es anterior al todo; lo músico es anterior al hombre músico, porque no podría haber todo sin partes. Y no obstante, la existencia del músico es imposible si no hay alguien que sea músico.” “La anterioridad por naturaleza no tiene por condición la anterioridad accidental; pero ésta no puede nunca existir sin aquélla; distinción que Platón ha establecido. Por otro lado, el ser tiene muchas acepciones: lo que es anterior en el ser es el sujeto; entonces, la sustancia tiene la prioridad.”
“Se denomina <poder> o <potencia> el principio del movimiento o del cambio, colocado en otro ser o en el mismo ser, pero como otro.”
“Lo imposible es aquello cuyo contrario es absolutamente verdadero. Entonces, es imposible que la relación de la diagonal con el lado del cuadrado sea conmensurable”
“Una magnitud continua en un solo sentido, se denomina longitud; en dos sentidos, latitud, y en tres, profundidad. Una pluralidad finita es el número; una longitud finita es la línea. Lo que tiene latitud determinada es una superficie; lo que tiene profundidad determinada, un cuerpo.”
“Lo grande y lo pequeño, lo mayor y lo menor, considerados ya en sí mismos, ya en sus relaciones, también son modos esenciales de la cantidad.”
“el tiempo no es una cantidad, sino porque el movimiento lo es.”
“<cualidad> se denomina a la diferencia que distingue la esencia”
“La esencia del número es el ser producto de un número multiplicado por la unidad: la esencia de 6 no es 2x, 3x un número, sino 1x, porque 6 = 1*6.”
“La cualidad primera es la diferencia en la esencia. La cualidad en los números forma parte de los números mismos” “en la segunda clase de cualidades se colocan los modos de los seres en movimiento (…) La virtud, el vicio, pueden considerarse como si formaran parte de estos modos, porque son la expresión de la diferenciade movimientoo de acción en los seres en movimiento que hacen o experimentan el bien y el mal. (…) El bien y el mal, sobre todo, reciben el nombre de cualidades que se dan en los seres animados, y entre éstos principalmente en los que tienen voluntad.”
“la relación del más o del menos es una relación numérica completamente indeterminada. El número inferior es indudablemente conmensurable, pero se lo compara a un número inconmensurable.”
“se denomina idéntico aquello cuya esencia es una; semejante, lo que tiene la misma cualidad; igual, lo que tiene la misma cantidad.”
“lo que es conmensurable, científico, inteligible, se denomina relativo, porque se refiere a otra cosa. Decir que una cosa es inteligible, o sea, que se puede tener inteligencia de esta cosa, porque la inteligencia no es relativa al ser a la que pertenece, sería repetir 2x la misma cosa. De la misma manera, la vista es relativa a algún objeto, no al ser a quien pertenece la vista (…) La vista es relativa o al color o a otra cosa semejante. En la otra expresión, habría 2x la misma cosa; la vista es la vista del ser al que pertenece la vista.”
“la medicina es una de las cosas relativas, porque la ciencia, de la que es ella una especie, parece una cosa relativa.”
“lo igual es relativo; lo semejante también lo es. Finalmente, hay relaciones accidentales: en este concepto el hombre es relativo, porque accidentalmente es doble, y lo doble es una cosa relativa. También lo blanco puede ser relativo de la misma manera, si el mismo ser es accidentalmente doble y blanco.”
“Se dice: un médico perfecto, un perfecto tocador de flauta, cuando no les falta ninguna de las cualidades proprias de su arte. Esta calificación se aplica metafóricamente al igual que a lo que es malo. Se dice: un perfecto mentiroso; un perfecto ladrón; y también se le suele dar el nombre de buenos: un buen ladrón, un buen mentiroso.” “De este modo, la palabra perfecta se aplica metafóricamente a la muerte: ambos son el último término.” “es indudable que la palabra término tiene tantos sentidos como principio, y más aún: el principio es un término, pero el término no es siempre un principio.”
“en qué o por qué en su primera acepción significa en primer lugar la forma; en segundo, la materia, la sustancia primera de cada cosa; en resumen, tiene todas las acepciones del término causa.”
“<en sí> y <por sí> también se entenderán necesariamente de muchas maneras. En sí significará la esencia de un ser, como Callias y la esencia propia de Callias. Expresará además todo lo que se encuentra en la noción del ser: Callias es en sí un animal; porque en la noción de Callias se encuentra el animal: Callias es un animal.” “Es verdad que el hombre tiene muchas causas, lo animal, lo bípedo; no obstante, el hombre es hombre en sí y por sí. Por último, se dice de lo que se encuentra sólo en un ser, como es solo; y en este sentido lo que está aislado se dice que existe en sí y por sí.”
“Se denomina <pasión> a las cualidades que alternativamente pueden revestir un ser; como lo blanco y lo negro, lo dulce y lo amargo, la pesantez y la ligereza, y todas las demás de este género. (…) En fin, se denomina pasión a una gran y terrible desgracia.”
“los helenos, los jonios. Estos nombres designan razas, porque son seres que tienen unos a Helen y otros a Jon [Íon, irmão de Aqueu] por autores de su existencia.”
“Es falsa la proposición de Hippias de que el mismo ser es a la vez verídico y mentiroso.”
“Se denomina <accidente> a lo que se encuentra en un ser y puede afirmarse con verdad, pero que no es, no obstante, ni necesario ni ordinario.”
LIBRO SEXTO
“estas ciencias no dicen nada de la existencia o de la no existencia del género de seres de los que tratan (…) La Física: el principio del movimiento y del reposo; no es una ciencia práctica ni una ciencia creadora. (…) La voluntad es en el agente el principio de toda práctica” “la Física será una ciencia teórica, la ciencia de una sola esencia, inseparable de un objeto material.” “la forma determinada, la noción esencial de los seres físicos”
“lo chato” X “lo romo”
Sucede que são sinônimos perfeitos, ainda mais aplicados ao exemplo do nariz!
“También la ciencia matemática es teórica (…) Si hay algo que sea realmente inmóvil, eterno, independiente, a la ciencia teórica pertenece su conocimiento.”
“Todas las causas son necesariamente eternas, y las causas inmóviles e independientes lo son por excelencia, porque son las causas de los fenómenos celestes.
Por lo tanto, hay 3 ciencias teóricas, la Matemática, la Física y la Teología. Efectivamente, si Dios existe en alguna parte, es en la naturaleza inmóvil e independiente donde es necesario reconocerlo. Por otro lado, la ciencia por excelencia debe tener por objeto el ser por excelencia. Las ciencias teóricas están a la cabeza de las demás ciencias, y ésta que comentamos, está a la cabeza de las ciencias teóricas.”
“Si entre las sustancias que tienen una materia, no hubiese alguna sustancia de otra naturaleza, entonces la Física sería la ciencia primera. Pero si hay una sustancia inmóvil, esta sustancia es anterior a las demás, y la ciencia primera es la Filosofía. Por su condición de ciencia primera, esta ciencia igualmente es la ciencia universal, y a ella pertenece investigar el ser como ser, la esencia, y las propiedades del ser como ser.”
“no hay ninguna especulación que tenga por objeto el ser accidental” “porque el número de los accidentes es infinito.” “el accidente no tiene, en cierto modo, más que una existencia nominal. (…) desde cierta perspectiva, Platón ha puesto en la clase del no-ser el objeto de la Sofística.
El accidente es el que los sofistas han tomado, prefiriéndolo a todo, si así puedo decirlo, por texto de sus discursos. Se preguntan si hay diferencia o identidad entre música y gramática, entre Coriseo músico y Coriseo; si todo lo que existe, pero que no ha existido en todo tiempo, ha devenido o llegado a ser; y por lo tanto si el que es músico se ha hecho gramático, o el que es gramático, músico; y plantean otras cuestiones análogas. Ahora bien, el accidente parece que es algo que se distingue poco del no-ser, como se advierte en semejantes cuestiones. Todos los demás seres de diferente especie se hacen o devienen y se destruyen, lo cual no ocurre con el ser accidental.”
“Aun cuando el cocinero sólo atienda a satisfacer el gusto, puede ocurrir que sus comidas sean útiles a la salud; pero este resultado no proviene del arte culinario, entonces, decimos que es un resultado accidental que el cocinero llegue a conseguir algunas veces este resultado, pero no absolutamente.”
“Una de dos: o no hay nada que exista siempre, ni ordinariamente; o esta suposición es imposible. Entonces, hay alguna otra cosa, que son los efectos del azar y los accidentes. No obstante, en los seres ¿tiene lugar sólo el <frecuentemente> y <de ninguna manera>, <el siempre> o bien hay seres eternos? Éste es un punto que más adelante discutiremos.”
“el agua con la miel es ordinariamente buena para la fiebre. Pero no se podrá establecer la excepción y decir, p.ej., que no es buen remedio en la luna nueva”
“Todo lo que ocurrirá necesariamente ocurrirá. Así, es necesario que el ser que vive, muera; porque hay ya en él la condición necesaria (…) No obstante, ¿morirá de enfermedad o de muerte violenta? La condición necesaria aún no está cumprida, y no lo estará mientras eso no ocurra.”
LIBRO SÉPTIMO
“la sustancia será el ser primero, no tal o cual modo del ser, sino el ser tomado en su sentido absoluto.”
“el eterno objeto de todas las investigaciones pasadas y presentes; la pregunta que se manifiesta eternamente. ¿qué es el ser?, viene a reducirse a ésta: ¿qué es la sustancia?”
“Platón dice que las ideas y los seres matemáticos son por lo pronto dos sustancias, y que hay una tercera, la sustancia de los cuerpos sensibles. Speusippo acepta un número mucho mayor de ellas, siendo la primera, en su opinión, la unidad; después aparece un principio particular para cada sustancia, uno para los números, otro para las magnitudes, otra para el alma, y de esta manera multiplica el número de las sustancias.” “¿Quién está en lo cierto, quién no? ¿Cuáles son las verdaderas sustancias? ¿Hay o no otras sustancias que las sensibles? Y si hay otras, ¿cuál es su modo de existencia?”
“sustancia tiene 4 sentidos principales. (…) la esencia, lo universal, el género, o el sujeto.” “El sujeto no es atributo de nada (…) [antes es] la materia, la forma, el conjunto de la materia y de la forma.” “de acuerdo con esta definición, la materia debería ser considerada como sustancia; porque si no es una sustancia, no vemos a qué otra cosa podrá aplicársela este carácter; si se quitan los atributos, no queda más que la materia.” “la cantidad no es una sustancia; sustancia es más bien el sujeto primero en el que se da la cantidad. Elimínese la longitud, la latitud y la profundidad, y no quedará nada absolutamente” “Considerada la cuestión desde esta perspectiva, la sustancia será la materia; sin embargo, por otro lado, esto es imposible. Porque la sustancia parece tener por carácter esencial el ser separable y el ser cierta cosa determinada. Entonces, la forma y el conjunto de la forma y de la materia parecen ser más bien sustancia que la materia.” “la materia cae, hasta cierto punto, bajo los sentidos. § Así, queda investigar la tercera, la forma. Esta ha dado lugar a prolongadas discusiones.” “forma esencial”“Ante todo, actuemos por vía de definición y digamos que la esencia de un ser es este ser en sí. Ser tú no es ser músico; tú no eres en tí músico y tu esencia es lo que eres tú en ti mismo.” “Para que haya definición de la esencia de una cosa es necesario que en la proposición que expresa su carácter no se encuentre el nombre de esta cosa.” “La definición es una expresión que designa un objeto primero”
“¿qué es la cualidad? La cualidad es un ser, pero no absolutamente; con la cualidad ocurre lo que con el no-ser, del cual algunos filósofos, para poder discurrir sobre él, dicen que es, no porque propiamente sea, sino que él es el no-ser.
Las investigaciones acerca de la definición de cada ser no deben trasponer las que se hagan sobre la naturaleza misma del ser.”
“no hay definición primera. (…) no se desprende que toda expresión adecuada a la noción de un objeto sea una definición. Esto sólo es indudable en relación con ciertos objetos. P.ej., lo será si el objeto es uno (…) La unidad se entiende de tantas maneras como el ser, y el ser expresa, o tal cosa determinada, o la cantidad, o también la cualidad.
“definiciones redundantes” “tampoco habrá definición que comprenda a la vez el atributo y el sujeto; p.ej., definición del número impar. Pero se dan definiciones de esta clase de objetos, sin advertir que estas son definiciones artificiales.”
“Si se acepta la existencia de las ideas, entonces el bienen sí se distingue de la forma sustancial del bien, el animal en sí de la forma del animal, el ser en sí de la forma sustancial del ser”“Si de este modo se separa el ser de la forma, ya no habrá ciencia posible del ser, y las formas, por su parte, no serán ya seres” “Digo que no hay ciencia porque la ciencia de un ser es el conocimiento de la forma sustancial de este ser.”
“En efecto, las ideas necesariamente son sustancias y no atributos, de otra manera, participarían de su sujeto.” “por un lado, hay identidad entre el ser y la forma; por otro, no. No hay identidad entre la forma sustancial de hombre y la forma sustancial de hombre blanco, pero hay identidad en el sujeto, que experimenta la modificación.
Fácilmente se notará lo absurda que es la separación del ser y de la forma sustancial, si se da un nombre a toda forma sustancial. Fuera de este nombre habrá, en el caso de la separación, otra forma sustancial, entonces habrá una forma sustancial del caballo fuera de la forma sustancial del caballo en general. Y no obstante, ¿qué impide decir que algunos seres tienen inmediatamente en sí mismos su forma sustancial, ya que la forma sustancial es la esencia?” “no es accidental que la unidad y la forma sustancial de la unidad sean una misma cosa. Si son dos cosas diferentes, se irá así hasta lo infinito. Se tendrá por un lado la forma esencial de la unidad, y por otro, la unidad; y cada uno de estos dos términos, a su vez, estará en el mismo caso.”
“En toda producción hay una causa, un sujeto, luego un ser producido”
“ser natural”: “Todos los seres que provienen de la naturaleza o del arte tienen una materia, porque todos pueden existir o no existir, y esta posibilidad depende de la materia, que se da en cada uno de ellos.”
CLONAR AINDA É FODER: “un hombre es el que produce un hombre.”
“creaciones” “azar” “producciones colaterales” “hay en la naturaleza seres que se producen lo mismo por medio de una semilla que sin semilla.”
“Las producciones del arte son aquéllas cuya forma está en el espíritu” “la salud es la idea misma que está en el alma, la noción científica; la salud viene de un pensamiento como éste: la salud es tal cosa, p.ej., si se quiere producirla, que haya otra cosa, p.ej., el equilibrio de las diferentes partes; ahora bien, para producir este equilibrio, es necesario el calor. De esta forma, sucesivamente, se llega por el pensamiento a una cosa última, que puede, de inmediato, producirse. El movimiento que realiza esta cosa se denomina operación, operación hecha con la mira de la salud. De manera que, desde una perspectiva, la salud viene de la salud” “Por esencia inmaterial entiendo la forma pura. § Entre las producciones y los movimientos hay unos que se denominan pensamientos y otros que se dicen operaciones; los que provienen de la causa productora y de la forma son los pensamientos; los que tienen por principio la última idea a que llega el espíritu, son operaciones.” “para que haya salud, es necesario que haya equilibrio; no obstante, ¿qué es el equilibrio? Es tal cosa: y esta cosa tendrá lugar, si hay calor. ¿Qué es calor? Tal cosa. El calor existe en potencia, y el médico puede realizarla. Por lo tanto, el principio productor, la causa motriz de la salud, si es fruto del arte, es la idea que está en el espíritu; si es fruto del azar, indudablemente, tendrá por principio la cosa misma, por medio de la cual la hubiera producido el que la produce por el arte. El principio de la curación, probablemente, es el calor; y se produce el calor por medio de fricciones. Ahora bien, el calor producido en el cuerpo es un elemento de la salud, o va seguido de otra cosa o de muchas que son elementos de la salud. Procediendo así, la última cosa a la que se llega es la causa eficiente”
O MACACO FAZ O HOMEM: “es imposible que se produzca cosa alguna si no hay algo que preexista: sin duda, es absolutamente necesario la preexistencia de un elemento. La materia es un elemento, es el sujeto, y sobre ella tiene lugar na producción.”
INGLÊS, LÍNGUA DE AUSTRALOPITHECUS: “El objeto producido no toma nunca el nombre del sujeto de donde proviene; sólo se dice que es de la naturaleza de este sujeto, que es de esto, pero no esto. No se dice una estatua piedra, sino una estatua de piedra.” “el hombre sano proviene del hombre y del enfermo.” “Cuando una cosa proviene de otra, hay transformación de la una en la otra, y el sujeto no persiste en su estado. Ésta es la razón de esta locución.”
“Producir un ser particular es hacer de un sujeto absolutamente indeterminado un objeto determinado. P.ej., digo que hacer el bronce redondono es producir ni la redondez ni la esfera, sino que es producir un objeto en su totalidad diferente, es producir esta forma en otra cosa.” “De lo anterior se desprende que lo que se denomina la forma, la esencia, no se produce; la única cosa que deviene o se hace, es la reunión de la forma y de la materia, porque en todo ser que ha devenido, hay materia; por un lado, la materia; por otro, la forma.” “el ser realizado, Sócrates, Callias, tomados en forma individual, están en el mismo caso que una esfera particular de bronce. El hombre y el animal son como la esfera de bronce en general. § Entonces, es indudable que las ideas consideradas como causas, siendo ésta la perspectiva de los partidarios de las ideas y suponiendo que haya seres independientes de los objetos particulares, son inútiles para la producción de las esencias y que no son las ideas las que constituyen las esencias de los seres.” “el hombre produce al hombre. No obstante, puede haber una producción contra la naturaleza; el caballo engrendra al mulo; y aun la ley de la producción es en este caso la misma, porque la producción tiene lugar de acuerdo con un tipo común al caballo y al asno, de un género que se aproxima al uno y al otro, y que no ha recibido nombre. Probablemente, el mulo es un género indermedio.”
“la materia se distingue, pero su forma es idéntica: la forma es indivisible.”
“Una cantidad de seres tienen en sí mismos un principio de movimiento, y les es imposible tal movimiento particular; p.ej., no poder bailar al compás. Por lo tanto, todas las cosas que tienen una materia de este género, las piedras, p.ej., no pueden tomar tal movimiento particular, a menos que reciban un impulso exterior. No obstante, ellas tienen un movimiento que les es propio; así ocurre con el fuego. Por este motivo ciertas cosas no existirán independientemente del artista y otras, en cambio, podrán existir.”
“En determinados casos, la definición de las partes entrará en la definición del todo, y en otros no entrará, como p.ej., cuando no haya definición del ser realizado.” “los seres inmateriales, como, p.ej., la forma considerada en sí misma, no pueden revolverse absolutamente en sus partes o se resuelven de otra manera. Ciertos seres tienen en sí mismos sus principios constitutivos, sus partes; pero la forma no tiene principios, ni partes de este género.”
“se aplica igualmente el nombre de círculo a los círculos propiamente dichos y a los círculos particulares, porque no hay nombre propio para designar los círculos particulares.”
“el alma es la esencia de los seres animados (…) hay prioridad de partes del alma, de todas o de algunas, con relación al conjunto del animal.” “un dedo no es realmente un dedo en todo estado posible, sino tan sólo cuando tiene vida; no obstante, se denomina igual al dedo muerto.” “el círculo y la esencia del círculo, el alma y la esencia del alma, son una sola y misma cosa.” “si el alma no es el animal, si se distingue de él, habrá anterioridad para las partes.”
“Es realmente difícil establecer qué partes pertenecen a la forma y qué partes pertenecen al conjunto de la forma y de materia; y no obstante, si este punto no es revisado, es imposible definir los individuos. (…) si no se nota qué partes son o no son materiales, tampoco se notará cuál deberá ser la definición del objeto.” “Aunque todos los círculos visibles fueran de bronce, no por esto el bronce sería una parte de la forma. No obstante, es difícil al pensamiento comprobar esta separación. Entonces, lo que a nuestros ojos constituye la forma es la carne, los huesos y las partes análogas. Por lo tanto, ¿serán éstas partes de la forma, las cuales entren en la definición, o es más bien la materia?”
“pretenden que la definición de la línea es la noción misma de la dualidad. § Entre los que aceptan las ideas, unos dicen que la díada es la línea en si, otros que es la idea de la línea, porque si algunas veces hay identidad entre la idea y el objeto de la idea, p.ej., entre la díada y la idea de la díada, la línea no está en este caso.” “a este punto conducía ya la teoría de los pitagóricos; y por consecuencia última, la posibilidad de constituir una sola idea en sí de todas las ideas; o sea, el anonadamiento de las demás ideas y la reducción de todas las cosas a la unidad.”
“no tenemos necesidad de reducir de este modo todas las cosas y de eliminar la materia. Lo factible es que en algunos seres hay reunión de la materia y de la forma; en otros, de la sustancia y de cualidad. Y la comparación de la que ordinariamente se servía Sócrates, el joven con relación al animal no es exacta. Ella nos hace salir de la realidad y permite pensar que el hombre puede existir independientemente del bronce. Pero no hay paridad. El animal es un ser sensible y no lo puede definir sin el movimiento, por lo tanto, sin partes organizadas de cierta y determinada manera. (…) la mano inanimadano es una parte del hombre.”
“¿por qué en los seres matemáticos las definiciones no entran como partes en las definiciones? ¿por qué no se define el círculo por los semicírculos? Se argumentará que los semicírculos no son objetos sensibles. Pero ¡que importa!, puede haber una materia hasta en seres no sensibles (…) todo lo que tiene una existencia real, tiene una materia. El círculo, que es la esencia de todos los círculos, no puede tenerla; pero los círculos particulares deben tener partes materiales”
“Por otro lado, es indudable que la sustancia primera en el animal es el alma, y que el cuerpo es la materia.”
“las sustancias sensibles, sustancias cuyo estudio pertenece más bien a la física y a la segunda filosofía.” “las partes materiales no son partes de la sustancia y sí sólo de la sustancia total. Esta tiene una definición y no la tiene, según la perspectiva.” “sustancia primera” “sustancia realizada” “en relación con las sustancias primeras, hay identidad entre la curvatura y la forma sustancial de la curvatura, con tal que la curvatura sea primera; y entiendo por primero lo que no es atributo de otro ser, que no tiene sujeto, materia.”
“¿por qué hay unidad en el ser definido, en el ser cuya noción es una definición? El hombre es un animal de dos pies. Aceptemos que ésta sea la noción del hombre.¿Por qué este ser es un solo ser, y no varios: animal y bípedo? Si se dice hombre y blanco hay pluralidad de objetos cuando el uno no existe en el otro, pero hay unidad cuando el uno es atributo del otro, cuando el sujeto, el hombre, experimenta cierta modificación. En el último caso, los dos objetos se hacen uno solo y se tiene el hombre blanco” “supuestamente, el género no participa de las diferencias; de no ser así, la misma cosa participaría a la vez de los contrarios” “Hay pluralidad en las diferencias: animal, que anda, con dos pies, sin plumas. ¿por qué en este caso hay unidad y no pluralidad?” “porque la definición es una noción, es la noción de la esencia. La definición debe ser la noción de un objeto uno, ya que, como hemos dicho, esencia significa un ser determinado.”
“género primero” “Los demás géneros no son más que el género primero y las diferencias reunidas al género primero. Entonces, el primer género es animal; el siguiente, animal de dos pies; y otro, animal de dos pies sin plumas. Lo mismo ocurre si la proposición contiene un número mayor de términos; y en general, poco importa que contenga un gran número de ellos o uno pequeño, o dos solamente.”
“(el sonido es, p.ej., género y materia, y de esta materia derivan las diferencias, las especies y los elementos) (…) la definición es la noción proporcionada por las diferencias.”
“es necesario indicar la diferencia en la diferencia.” “no se debe decir: entre los animales que tienen pies, hay unos que tienen pluma y otros que no las tienen; aunque esta proposición sea verdadera, no deberá emplearse este método, a no mediar la imposibilidad de dividir la diferencia. Se debe decir: unos tienen el pie dividido en dedos, otros no tienen el pie dividido en dedos. Éstas son las diferencias del pie: la división del pie en dedos es una manera de ser del pie. Y es necesario continuar de este modo hasta que se llegue a objetos entre los que no haya diferencias. En este concepto, habrá tantas especies de pies como diferencias (…) es indudable que la última diferencia debe ser la esencia” “Si se ha conseguido la diferencia de la diferencia, una sola, la última es la forma, la esencia del objeto.”
“es imposible que ningún universal sea una sustancia. Por lo pronto, la sustancia primera de un individuo es aquélla que le es propia, que no es la sustancia de otro.” “¿De qué será sustancia el universal? Lo es de todos los individuos, o no lo es de ninguno” “la unidad de sustancia y la unidad de esencia constituyen la unidad del ser.”
“¿el animal no puede ser la esencia del hombre y del caballo? Pero en este caso habría una definición del universal. Ahora bien, que la definición encierre o no todas las nociones que están en la sustancia, poco importa; el universal no por eso dejará de ser la sustancia de algo”
“ninguno de los atributos generales indica la existencia determinada, sino que designan el modo de la existencia. Sin esto, prescindiendo de otras muchas consecuencias, se cae en la del tercer hombre.” “Es imposible que la sustancia sea un producto de sustancias contenidas en ella en acto. Dos seres en acto nunca se harán un solo ser en acto. Pero si los dos seres sólo existen en potencia, podrá haber unidad. En potencia, p.ej., el doble se compone de dos mitades.” “O la díada no es una unidad, o la mónada no existe en acto en la díada.”
“toda sustancia debe ser simple. Por lo tanto, no podrá definirse ninguna sustancia. § No obstante, todo el mundo cree, y nosotros lo hemos dicho antes, que sólo la sustancia, o al menos ella principalmente, tiene una definición. Y ahora resulta que ni ella la tiene. ¿Será que es imposible la definición de absolutamente nada? ¿O bien lo será en un sentido y en otro no?”
“el hombre no es un accidente de lo animal.” “¿Cómo es posible que el animal, cuya sustancia es el animal en sí, exista fuera del animal en sí? § Las mismas consecuencias surgen en relación con los seres sensibles, y todavía más absurdas. (…) es indudable que no hay idea de los objetos sensibles, en el sentido en que lo entienden algunos filósofos.”
“Entiendo por conjunto la sustancia que se compone a partir de la reunión de la forma definida y de la materia (…) Todo lo que es sustancia en concepto de conjunción está sujeto a destrucción, porque hay producción de semejante sustancia. Por lo que hace a la forma definida, no está sujeta a la destrucción, porque no es producida; es el producto, no la forma sustancial de la casa, sino tal casa particular.”
“Los seres mortales no se manifiestan al conocimiento cuando están fuera del alcance de los sentidos, y por lo tanto, aunque las nociones sustanciales se conserven en el alma, no puede haber definición ni comprobación de estos seres.” “ninguna idea es susceptible de definición.” “Esta observación necesariamente se aplica a los seres eternos. Son anteriores a todo, y son parte de lo compuesto (…) el hombre en sí es independiente; porque o ningún ser lo es o el hombre y el animal lo son ambos.” “ideas componentes”
“En las articulaciones, existen principios de movimiento, principios producidos indudablemente por otro principio, pero que hacen que ciertos animales continúen viviendo aún después de ser divididos en partes. No obstante, no hay sustancia en potencia, sino cuando hay unidad y continuidad natural; cuando la unidad y la continuidad son resultado de la violencia o de una conexión arbitraria, entonces no es más que una mutilación.”
“Cuando preguntamos: ¿cuál es el principio?, lo que queremos es referir el objeto en cuestión a un término más conocido. El ser y la unidad tienen más títulos a ser sustancia de las cosas que el principio, el elemento y la causa; y no obstante no lo son.”
“los que aceptan las ideas tienen razón en un sentido al darles una existencia independiente, ya que son sustancias. Pero en otro sentido no tienen razón en hacer de la idea una unidad en la pluralidad. El motivo del error es la imposibilidad en que están de decir cuál es la naturaleza de estas sustancias sensibles.”
“…esta sustancia que existe separada de las sustancias sensibles.” “la sustancia es un principio y una causa. Preguntar el por qué es preguntar siempre porqué una cosa existe en otra.” “Investigar por qué una cosa es una cosa, es no investigar nada. Es necesario que el por qué de la cosa que se busca se manifieste realmente” “En los casos en que se pregunta por qué un ser es él mismo, por qué el hombre es hombre, o el músico es músico, no vale más que una respuesta a todas estas preguntas, no hay más que una razón que dar, es porque cada uno de estos seres es indivisible en sí mismo, o sea, porque es uno; respuesta que igualmente se aplica a todas las preguntas de este género, y que las resuelve en pocas palabras.” “¿Por qué truena?, porque se produce un ruido en las nubes. En este ejemplo lo que se busca es la existencia de una cosa en otra cosa, lo mismo que cuando se pregunta: ¿por qué estas piedras y estos ladrillos son una casa?” “lo que se busca es la esencia.” “si no se nota por qué el hombre es hombre, es porque el ser no es referido a cosa alguna” “Esto es una casa, ¿por qué?, porque se encuentra en ella tal carácter, que es la esencia de la casa. Por la misma causa, tal hombre, tal cuerpo es tal o cual cosa. Por lo tanto, lo que se busca es la causa de la materia. Y esta causa es la forma que determina el ser, es la esencia. Se nota que en relación con los seres simples no hay lugar para pregunta ni respuesta sobre este punto” “En la disolución, la carne, la sílaba, dejan de existir, mientras que las letras, el fuego y la tierra perduran. Por lo tanto, la sílaba es algo más que las letras; la vocal y la consonante es también otra cosa; y la carne, no es sólo el fuego y la tierra, lo caliente y lo frío, sino que es también otra cosa.”
“sólo son sustancias los seres que existen por sí mismos y cuya naturaleza no está constituida por otra cosa que por ellos mismos.”
LIBRO OCTAVO
“Entonces, los que definen una casa diciendo que es piedra, ladrillos, madera, tratan de la casa en potencia, porque todo esto es la materia; los que dicen que es un abrigo destinado para refugiarse los hombres y para guardar los muebles, o determinan algún otro carácter de este género, definen la casa en acto.” “la tercera sustancia, el conjunto de la materia y de la forma”
“La esencia debe ser necesariamente eterna, o bien morir en un objeto, sin morir ella por esto; o producirse en un ser, sin estar ella misma sujeta a la producción. Anteriormente hemos probado y comprobado que nadie produce la forma; que no nace, y que solamente se realiza en un objeto. Lo que nace es el conjunto de la materia y de la forma.”
“la definición es una especie de número (es divisible en partes indivisibles como el número, porque no hay una infinidad de nociones en la definición)”
“¿cuál es la causa material del hombre? La menstruación. ¿Cuál es la causa motriz? Quizá la esperma. ¿Cuál es la causa formal? La esencia pura. ¿Cuál es la causa final? La finalidad. Quizás estas dos últimas causas son iguales.”
“¿cuál es la causa, cuál es la materia del eclipse? No la hay, y sólo la Luna experimenta el eclipse. La causa motriz, la causa de la destrucción de la luz, es la tierra. En relación con la causa final, quizá no exista. La causa formal es la noción misma del objeto, pero esta noción es imprecisa, si no se le agrega la de la causa productora. Entonces, ¿qué es el eclipse? Es la falta de luz. Se agrega: esta falta es el resultado de la interposición de la tierra entre el Sol y la Luna”
“No es lo blanco lo que deviene, es la madera que deviene o se hace blanca. Y todo lo que se produce proviene de algo y se hace o deviene algo. De esto se desprende que los contrarios no pueden provenir todos unos de otros. El hombre negro se hace un hombre blanco de otra manera que lo negro se hace blanco.”
O MISTÉRIO DA TRANSUBSTANCIAÇÃO AVANT LA LETTRE: “¿Es en potencia como el agua es vinagre y vino? (…) ¿Y el ser vivo es un cadáver en potencia, o bien no lo es? (…) El vinagre y el cadáver se originan del agua y del animal, como la noche se origina del día. En todos los casos en que hay, como en éste, transformación recíproca, es necesario que en la transformación los seres vuelvan a sus elementos materiales. Para que el cadáver se haga un animal, debe por lo pronto pasar de nuevo por el estado de materia; y después, gracias a esta condición, podrá hacerse un animal. Es necesario que el vinagre varíe en agua para luego volverse vino.”
“¿Cuál es la causa de la unidad?” “¿Qué es lo que constituye la unidad del hombre y por qué es uno y no múltiple, animal y bípedo, p.ej., sobre todo si hay, como algunos pretenden, un animal en sí y un bípedo en sí? (…) En la hipótesis que tratamos, el hombre no puede absolutamente ser uno; es varios: (…) se nota que con esta forma de definir las cosas y de tratar la cuestión, es imposible mostrar la causa y zanjar el problema.” “no entran en las definiciones ni el ser ni la unidad.”
“Hay algunos que aceptan la participación para zanjar este problema de la unidad; pero no saben ni cuál es la causa de la participación, ni lo que es participar. Según otros, lo que forma la unidad es el enlace con el alma; la ciencia, dice Licofrón [Licofrão]¹, es el enlace del saber con el alma. Por último, otros sostienen que la vida es la reunión,el encadenamiento del alma con el cuerpo. Lo mismo puede decirse de todas las cosas. La salud será en esto caso el enlace, el encadenamiento, la reunión del alma con la salud; el triángulo de metal, la reunión del metal y del triángulo; lo blanco, la reunión de la superficie y de la blancura.
La investigación de la causa es la que genera la unidad de la potencia y del acto, y el análisis de su diferencia es lo que ha engendrado estas opiniones. Ya lo hemos dicho: la materia inmediata y la forma son una sola y misma cosa, sólo que una es el ser en potencia, y la otra el ser en acto. Investigar cuál es la causa de la unidad, e investigar la de la forma sustancial de la unidad, es investigar lo mismo.”
¹ Sofista. Também citado por A. na Política.
LIBRO NOVENO
“ser primero” “la potencia, al igual que el acto, se aplica a otros seres que los que son susceptibles de movimiento.” “potencia motriz”
“No tenemos que ocuparnos de las potencias que sólo son potencias en el nombre. En la geometría p.ej., algo parecido ha sido motivo de que se diera a algunos objetos el nombre de potencias; y a otras cosas se las ha supuesto potentes o impotentes a causa de una cierta manera de ser o de no ser.”
“poder primero, el del cambio (…) La potencia de ser modificado es en el ser pasivo el principio del cambio, que es capaz de experimentar gracias a la acción de otro ser como otro. La otra potencia es el estado de ser.”
“potencia de hacer bien”
“desde una perspectiva, es indudable que la potencia activa y la potencia pasiva son una sola potencia, y desde otra son dos potencias.” “Cada potencia racional puede producir por sí sola efectos contrarios; pero cada una de las potencias irracionales produce un sólo y mismo efecto.” “Entonces, lo sano no origina más que la salud, lo caliente más que el calor, lo frío mas que la frialdad, mientras que el que sabe origina los dos contrarios.”
“los objetos inanimados, lo frío, lo caliente, lo dulce; y en resumen, todos los objetos sensibles, no serán cosa alguna independientemente del ser que siente. Entonces, se llega a la teoría de Protágoras. (…) Si denominamos ciego al ser que no ve, cuando está en su naturaleza el ver y en la época en que debe por su naturaleza ver los mismos seres serán ciegos y sordos muchas veces al día.” “Semejante teoría elimina el movimiento y la producción.”
“Es irrefutable que unas cosas pueden existir en potencia y no existir en acto, y que otras pueden existir realmente y no existir en potencia. Lo mismo ocurre con todas las demás categorías. Suele ocurrir que un ser que tiene el poder de caminar no ande; que camine un ser que tiene el poder de no andar. Digo que una cosa es posible cuando su tránsito de la potencia al acto no contiene ninguna imposibilidad.”
“el movimiento parece ser el acto por excelencia. Por este motivo, no se atribuye el movimiento a lo que no existe (…) De las cosas que no existen ciertamente se dice que son inteligibles, apetecibles, pero no que están en movimiento.”
“en acto (entelequia)” Desgina a condição de possibilidade
“decir: la relación de la diagonal con el lado del cuadrado puede ser medida, pero no lo será, es no tener en cuanta lo que es la imposibilidad. Se dirá que nada se opone a que en relación con una cosa que existe o no existirá haya posibilidad de existir o de haber existido.” HOMEM: ANIMAL BÍPEDE VOADOR CASTRADO: “Pero aceptar esta proposición y suponer que no existe, pero que es posible, existe realmente o ha existido, es aceptar que no hay nada imposible. Pero hay cosas imposibles: es imposible medir la relación de la diagonal con el lado del cuadrado. No hay identidad entre lo falso y lo imposible. Es falso que ahora tú estés de pie, pero no es imposible.”
“Un ser que tiene la potencia como tiene un poder de actuar, el cual no es absoluto sino sometido a ciertas condiciones, en las que va embebida la de que no habrá obstáculos exteriores. La eliminación de estos obstáculos es la consecuencia misma de algunos de los caracteres que entran en la definición de la potencia. Por esto la potencia no puede producir al mismo tiempo, aunque se quiera o se desee, dos efectos, o los efectos contrarios.”
“el acto significa tanto el movimiento en relación con la potencia, como la esencia en relación con una cierta materia.”
“como la división se prolonga hasta el infinito, se dice que el acto de la división existe en potencia, pero nunca existe separado de la potencia.”
“actos completos” “todo movimiento es incompleto, como la demarcación [emagrecimento], la investigación, la marcha, la construcción” “No se puede dar un paso y haberlo dado al mismo tiempo, construir y haber construido, devenir y haber devenido, imprimir o recibir un movimiento y haberlo recibido [?]. El motor se distingue del ser en movimiento; pero por el contrario, el mismo ser puede al mismo tiempo ver y haber visto, pensar y haber pensado; estos últimos hechos son los que designo como actos; los otros no son más que movimientos.”
“¿la tierra es o no el hombre en potencia? Tendrá más bien esta condición cuando se haya hecho esperma, y quizá ni aun entonces será el hombre en potencia. Del mismo modo, la salud no lo recibe todo de la medicina y del azar; pero hay seres que tienen esta propiedad, y son los que se denominan sanos en potencia.”
A TERRA EM SI NÃO É FODIDA: “La esperma todavía no es el hombre en potencia; es necesario que esté en otro ser y que experimente un cambio. Cuando ya tenga esta condición, de acuerdo con la acción de producir, si nada exterior se opone a ello, entonces será el hombre en potencia; pero para esto es necesario la acción de otro principio. Así, la tierra no es todavía la estatua en potencia; es necesario que se convierta en bronce” “la materia que contiene un ser en potencia es aquélla en relación con la cual se dice: este ser es, no este otro, sino de este otro. La tierra no contendrá el ser en potencia sino de un modo secundario: entonces no se dice que el cofre es de tierra o que es tierra, sino que es de madera, porque la madera es el cofre en potencia.” “Cuando la música es una cualidad de tal sujeto, no se dice que él es música, sino músico; no se dice que el hombre es blancura, sino que es blanco; que es marcha o movimiento, sino que está en marcha o en movimiento, como se dice que el ser es de esto. Los seres que están en este caso, los seres primeros, son sustancias; los otros no son más que formas, el sujeto determinado”
“es indudable que el acto es anterior a la potencia.” “bajo la relación del tiempo, el acto es algunas veces anterior, otras veces no. Es indudable que el acto es anterior bajo la relación de la noción.” “Es necesario que la noción preceda; todo conocimiento debe apoyarse sobre un conocimiento.” “El ser que obra es anterior genéricamente, pero no con relación al número; la materia, la semilla, la facultad de ver, son anteriores bajo la relación del tiempo a este hombre que existe actualmente en acto, al trigo, al caballo, a la visión. (…) porque siempre es necesario que el acto provenga de la potencia a partir de la acción de un ser que existe en acto; entonces, el hombre viene del hombre, el músico se forma bajo la dirección del músico; siempre hay un primer motor, y el primer motor ya existe en acto.”
Escritor desde o berço… Velho e ainda “não sabe” escrever.
“tocando la flauta es como se aprende a tocarla. (…) de esto se desprende este argumento sofístico: que el que no conoce una ciencia hará las cosas que son objeto de esta ciencia. Sí, indudablemente el que investiga no posee aún la ciencia; pero así como en toda producción ya existe alguna cosa producida, y en todo movimiento ya hay un movimiento realizado (y ya lo hemos comprobado en nuestra Física), así es necesario que el que investigue ya tenga algunos elementos de la ciencia.”
“Efectivamente, los animales no ven por tener vista, sino que tienen la vista para ver; del mismo modo, se posee el arte de construir para construir y la ciencia especulativa para elevarse a la especulación (…) aun en este último caso, no hay realmente especulación, no hay más que un ejercicio; la especulación pura no tiene como fin la satisfacción de nuestras necesidades.”
“el fin de la vista es la visión, y definitivamente la vista no produce otra cosa que la visión; por el contrario, en otros casos se produce otra cosa: así del arte de construir se deriva no sólo la construcción sino también la casa. No obstante, no hay realmente fin en el primer caso, y es sobre todo en el segundo donde la potencia tiene un fin.”
“siempre que fuera del acto no hay algo producido, el acto existe en el sujeto mismo: p.ej., la visión está en el ser que ve; la teoría en el que hace la teoría, la vida en el alma, y por lo tanto, la felicidad misma es un acto del alma, porque también la felicidad es un tipo de vida.
Por lo tanto, es indudable que la esencia y la forma son actos; de lo que indudablemente se desprende que el acto, bajo la relación de la sustancia, es anterior a la potencia. (…) se asciende de acto en acto hasta que se llega al acto del motor primero y eterno.”
“nada de lo que existe en potencia es eterno. (…) toda potencia supone al mismo tiempo el contrario; lo que no tiene la potencia de existir no existirá necesariamente nunca; pero todo lo que existe en potencia puede muy bien pasar al acto: lo que tiene la potencia de ser puede ser o no ser (…) Pero puede ocurrir que lo que tiene la potencia de no ser no sea. Pero lo que puede no ser es mortal, absolutamente mortal, o muy mortal desde la perspectiva de que puede no ser con relación al lugar, a la cantidad, a la cualidad; y absolutamente mortal significa mortal en relación con la esencia. Nada de lo que es absolutamente mortal existe absolutamente en potencia; pero puede existir en potencia desde ciertas perspectivas, como en relación con la cualidad y con relación al lugar.
Todo lo que es inmortal existe en acto, y lo mismo ocurre con los principios necesarios. Porque son principios primeros, y si no lo fuesen no existiría nada. (…) Y si hay algún objeto que esté en movimiento eterno, no se mueve en potencia, a no entenderse por esto el poder pasar de un lugar a otro. Nada se opone a que este objeto, sometido a un movimiento eterno, no sea eterno. Por esta razón, el Sol, los astros, el cielo, todo existe siempre en acto, y no hay que temer que se detengan nunca como lo temen los físicos; nunca se cansan en su andar, porque su movimiento no es como el de los seres mortales, la acción de una potencia que acepta los contrarios. Lo que hace que la continuidad del movimiento sea difícil para éstos últimos es que la sustancia de los seres mortales es la materia, y que la materia existe sólo en potencia y no en acto. No obstante, ciertos seres sometidos a cambio son, bajo esta relación, una imagen de los seres inmortales; en este caso están el fuego y la tierra. Efectivamente, ellos existen siempre en acto, porque tienen el movimiento por sí mismos y en sí mismos.”
“potencias irracionales”
“No hay, en los principios, en los seres eternos, ni mal, ni pecado, ni destrucción, porque la destrucción se cuenta también en el número de los males.”
“¿Por qué la suma de los tres ángulos de un triángulo equivale a dos rectos? Porque la suma de los ángulos formados alrededor de un mismo punto, sobre una misma línea, es igual a dos ángulos rectos.” “¿Por qué él ángulo inscripto en el semicírculo es invariablemente un ángulo recto? Porque hay igualdad en estas tres líneas: las dos mitades de la base y la recta llevada del centro del círculo al vértice del ángulo opuesto a la base (…) Por lo tanto, es indudable que por medio de la reducción al acto se descubre lo que existe en la potencia; y la causa de esto es que la actualidad es la concepción misma.”
“Existe el ser según las distintas formas de las categorías; después el ser en potencia o el ser en acto de las categorías; existen los contrarios de estos seres. Pero el ser propiamente dicho es sobre todo lo verdadero; el no-ser, lo falso.” “Todo lo que se dice es verdadero o falso, porque es necesario que se reflexione lo que se dice.”
“ser es estar reunido, es ser uno; no-ser es estar separado, ser muchos.”
“Lo verdadero es percibir y decir lo que se percibe, y decir no es lo mismo que afirmar. Desconocer es no percibir, porque sólo se puede estar en lo falso accidentalmente cuando se trata de esencias. (…) no hay para el ser en sí producción ni destrucción: sin esto provendría de otro ser.”
“Desde una perspectiva, el ser considerado como lo verdadero, y el no-ser como lo falso, significan lo verdadero cuando hay reunión, lo falso cuando no hay reunión. Desde otra, el ser es la existencia determinada, y la existencia indeterminada es el no-ser. En este caso, la verdad es el pensamiento que se tiene de estos seres, y entonces no hay falsedad ni error, no hay más que ignorancia, la cual no se parece al estado del ciego, porque el estado del ciego es igual a no tener absolutamente la facultad de concebir.”
LIBRO DÉCIMO
“En en libro de las diferentes acepciones hemos establecido que la unidad se entiende de muchas maneras. Pero estos numerosos modos pueden reducirse en total a 4 principales que comprenden todo lo que es uno primitivamente y en sí y no accidentalmente.” “continuidad o el conjunto” “unidad de pensamiento”
“por movimiento primero entiendo el movimiento circular”
“El pensamiento indivisible es el pensamiento de lo que es indivisible, ya bajo la relación de la forma, ya bajo la relación del número. El ser particular es indivisible numéricamente; lo indivisible bajo la relación de la forma es lo que es indivisible bajo la relación del conocimiento y de la ciencia. Por lo tanto, la unidad primitiva es la misma que es causa de la unidad de las sustancias.”
“Son 4 los modos de la unidad: continuidad natural, conjunto, individuo, universal.” “es uno todo ser que tiene en sí uno de estos caracteres de la unidad.”
“Fuego y elemento no son idénticos entre sí en la esencia; pero el fuego es un elemento porque indudablemente es un objeto, una determinada naturaleza. Por la palabra elemento se entiende que una cosa es la materia primitiva que constituye otra cosa.”
“unidad de longitud, de latitud, de profundidad, de peso, de velocidad. Es que el peso y la velocidad se encuentran simultáneamente en los contrarios, porque ambos son dobles” “En resumen, lo que es lento tiene su velocidad; lo que es ligero tiene su pesantez.”
“se llega a considerar el pie como una línea indivisible por la necesidad de encontrar en todos los casos una medida única e indivisible” “Una cosa a la que no se pueda quitar ni agregar nada, esa es la medida exacta. La del número es por lo tanto la más exacta de las medidas: efectivamente, se define la mónada, diciendo que es indivisible en todos sentidos. Las otras medidas no son más que imitaciones de la mónada.”
“conoceremos cuál es nuestra talla [estatura] porque se ha aplicado muchas veces la medida del codo [unidade de medida antiga que, dependendo do país, podia ser de uns 38 a 64cm, sendo normalmente uma média ponderada desses valores extremos =~50cm] a nuestro cuerpo. Protágoras pretende que el hombre es la medida de todas las cosas. Por esto entiende indudablementeel hombre que sabe y el hombre que siente; o sea, el hombre que tiene la ciencia y el hombre que tiene el conocimiento sensible.” Interpretação correta.
“Nada hay más maravilloso que la opinión de Protágoras, y no obstante su proposición tiene sentido.” O melhor meio-metro da cidade.
PRETO ZERO: “Aceptemos que los seres sean colores; entonces, los seres serían un número, ¿pero qué tipo de número? Indudablemente, un número de colores y la unidad, propiamente dicha, sería una unidad particular, p.ej., lo blanco.” “La unidad sería el triángulo, si los seres fueran figuras rectilíneas.”
“se nota que la unidad es en cada género una naturaleza particular, y que la unidad no es básicamente la naturaleza de lo que se quiera; la unidad que es necesario buscar en las esencias es una esencia.” “la pluralidad cae más bien bajo los sentidos que la unidad; lo divisible más bien que lo indivisible; de manera que bajo la relación de la noción sensible la pluralidad es anterior a lo indivisible.” “los modos de la unidad son la identidad, la semejanza, la igualdad; los de la pluralidad son la heterogeneidad, la desemejanza, la desigualdad.” “tú eres idéntico a ti mismo bajo la relación de la forma y de la materia.” “las líneas rectas iguales son idénticas. Y asimismo se designan idénticos a cuadriláteros iguales y que tiene sus ángulos iguales, aunque haya pluralidad de objetos: en este caso, la unidad consiste en la igualdad.” “Los seres son semejantes cuando son idénticos en relación con la forma: un cuadrilátero más grande es semejante a un cuadrilátero más pequeño” “el estaño se parece más bien a la plata que al oro: el oro se parece al fuego por su color leonado y rojizo.” “La diferencia es opuesta a la identidad: tú te distingues de tu vecino.”
“No hay negación absoluta de la identidad; indudablemente, se emplea la expresión no-idéntico, pero nunca cuando se trata de lo que no existe” “La heterogeneidad y la diferencia no son lo mismo: lo que se distingue de alguna cosa, se distingue de ella en algún punto”
“El género es aquello en lo que son idénticas dos cosas que se distinguen en relación con la esencia. (…) la contrariedad es una especie de diferencia. (…) en todos los contrarios hay diferencia, y no sólo heterogeneidad.” “la contrariedad es la diferencia extrema” “diferencia perfecta” “La diferencia de género es la mayor de todas las diferencias.” “contrariedad primera” “la oposiciónprimera es la contradicción, y no puede haber intermedio entre la afirmación y la negación, mientras que los contrarios aceptan intermedios”
“Anaxágoras se ha equivocado al decir que todo era igualmente infinito en cantidad y en pequeñez. En lugar de y en pequeñez, debía decir y en pequeño número; y entonces hubiera visto que no había infinidad, porque lo poco no es, como algunos creen, la unidad, sino la díada.”
“Es indudable que toda ciencia es un objeto de conocimiento; pero no todo objeto de conocimiento es una ciencia” “supóngase la ciencia un número, y el objeto de la ciencia será la unidad, la medida.” “Los opuestos por contradicción no tienen intermedios. Efectivamente, la contradicción es la oposición de dos proposiciones entre las que no hay medio: uno de los dos términos necesariamente está en el objeto.”
LIBRO UNDÉCIMO
“La filosofía es una ciencia de principios. Pero podría aparecer esta duda: ¿debe considerarse la filosofía como una sola ciencia o como muchas? Si se responde que es una sola ciencia, una sola ciencia sólo comprende los contrarios, y los principios no son contrarios. Si no es una sola ciencia, ¿cuáles son las diversas ciencias que es necesario aceptar como filosóficas?” “La ciencia comprobatoria es la de los accidentes; la ciencia de los principios es la ciencia de las esencias.” “el motor primero no se encuentra en los seres inmóviles.” “En relación con las ideas, es indudable que no existen”
“A los seres matemáticos se los convierte en intermedios entre las ideas y los objetos sensibles, formando una tercera especie de seres fuera de las ideas y de los seres sometidos a nuestros sentidos. Pero no hay un tercer hombre, ni un caballo fuera del caballo en sí y de los caballos particulares. Por el contrario, si no tiene esto lugar, ¿de qué seres debe decirse que se ocupan los matemáticos? Indudablemente, no es de los seres que conocemos por los sentidos, porque ninguno de ellos tiene los caracteres de los que investigan las ciencias matemáticas.” “¿a qué ciencia pertenece investigar la materia de los seres matemáticos?” “nuestra ciencia, la filosofía, es la que se ocupa de este estudio.”
“En resumen, ¿es necesario aceptar, sí o no, que existe una esencia separada fuera de las sustancias sensibles, o bien que estas últimas son los únicos seres, y ellas el objeto de la filosofía? Indudablemente, nosotros buscamos alguna esencia distinta de los seres sensibles, y nuestro fin es ver si hay algo que exista separado en sí y que no se encuentre en ninguno de los seres sensibles, ¿fuera de qué sustancias sensibles es necesario aceptar que existe?”
“siendo el principio el mismo, ¿cómo unos seres son eternos y otros no son eternos? Esto es absurdo.”
CAPÍTULO V – FULCRO DA OBRA
O SER: “es imposible que una misma cosa sea y no sea al mismo tiempo” “No hay comprobación real de este principio y, no obstante, se puede refutar al que lo niegue. Efectivamente, no hay otro principio más cierto que éste, al cual se lo pudiera deducir por el razonamiento, y sería necesario que fuera así para que hubiera realmente comprobación. Pero si se quiere comprobar que comete un error quien pretenda que las proposiciones opuestas son igualmente verdaderas, será necesario tomar un objeto que sea idéntico a sí mismo, que puede ser y no ser el mismo en un solo y mismo momento y, no obstante, el cual, de acuerdo con la teoría, no sea idéntico. Es la única forma de refutar al que pretende que es posible que la afirmación y la negación de una misma cosa sean verdaderas al mismo tiempo.” “Con relación al que dice que tal cosa es y no es, niega lo mismo que afirma, y por lo tanto afirma que la palabra no significa lo que significa. Pero esto es imposible; es imposible, si la expresión tal cosa es tiene un sentido, que la negación de la misma cosa sea verdadera.”
“Por no haberse entendido a sí mismo, Heráclito adoptó esta opinión. Aceptemos por un momento que su teoría sea verdadera; en tal caso, su principio mismo no será verdadero: no será cierto que la misma cosa puede ser y no ser al mismo tiempo; porque así como se dice verdad, afirmando y negando separadamente cada una de estas dos cosas, el ser y el no ser; en igual manera, se dice verdad afirmando como una sola proposición, la afirmación y la negación reunidas, y negando esta proposición total, considerada como una sola afirmación. Por último, si no se puede afirmar nada con verdad, se cometerá un error al decir que ninguna afirmación es verdadera. Si puede afirmarse alguna cosa, entonces cae por su propio peso la teoría de los que refutan los principios, y que por lo mismo vienen a suprimir en absoluto toda discusión.”
* * *
Protágoras pretendía que el hombre es la medida de todas las cosas, lo cual quiere decir, simplemente, que todas las cosas son, en realidad, tales como a cada uno le parecen. Si así fuese, se desprendería que la misma cosa es y no es, es a la vez buena y mala, y que todas las demás afirmaciones opuestas son igualmente verdaderas, ya que muchas veces la misma cosa parece buena a éstos, mala a aquéllos, y que lo que a cada uno parece es la medida de las cosas.” “es necesario aceptar que unos son y otros no lo son la medida de las cosas.”
“si todo es falso, no se estará en lo verdadero al afirmar que todo es falso; en fin, porque si todo es verdadero, el que diga que todo es falso, no dirá una falsedad.”
“la existencia de lo que es al presente arrastrará necesariamente la producción de todo lo que deberá seguirse, y, por lo tanto, todo deviene necesariamente.” “El azar y el pensamiento se refieren al mismo objeto, no habiendo elección sin pensamiento. Pero las causas que producen los efectos atribuidos al azar son indeterminadas” “Aun aceptando que el cielo tiene por causa el azar o un concurso fortuito, habría todavía una causa anterior, la inteligencia y la naturaleza.”
“Llamo movimiento a la actualidad de lo posible como posible.” “el movimiento es la actualidad de lo que existe en potencia, cuando la actualidad se manifiesta, no como el ser es, sino como móvil.” “El metal es la estatua en potencia; no obstante, la actualidad del metal como metal no es el movimiento que produce la estatua. La noción del metal no implica la noción de una potencia determinada.” “no hay identidad, como lo prueba el análisis de los contrarios.” “La construcción es o la actualidad misma, o la casa. Pero cuando es una casa, la posibilidad de construir ya no existe”
“La causa de que el movimiento parezca indefinido es que no se puede reducir ni a la potencia, ni al acto de los seres, porque ni la cantidad en potencia se mueve necesariamente, ni la cantidad en acto.” “el movimiento es una actualidad y no es una actualidad; cosa difícil de comprender, pero que por lo menos es posible.” “el movimiento es la actualidad del objeto móvil producida por el motor.”
“El infinito es lo que no se puede recorrer. (…) También existe el infinito por adición o por sustracción, o por adición y sustracción a la vez. § El infinito no puede tener una existencia independiente, ser algo por sí mismo, y al mismo tiempo ser un objeto sensible.”
“¿cómo es posible que el infinito exista en sí, cuando el número y la magnitud, de los cuales no es el infinito más que un modo, no existen por sí mismos? Por lo tanto, si el infinito es accidental, no podrá ser, como infinito, el elemento de los seres, así como lo invisible no es el elemento del lenguaje, no obstante la invisibilidad del sonido.” “el infinito será o indivisible o divisible, susceptible de ser dividido en infinitos. Pero un gran número de infinitos no puede ser el mismo infinito, porque el infinito sería una parte del infinito como el aire es una parte del aire, si el infinito fuera una esencia y un principio.”
“si el todo es homogéneo, o será inmóvil o estará en perpetuo movimiento; pero la última suposición es imposible.” “si hay heterogeneidad en el todo, los lugares están entre sí en la misma relación que las partes que ellos contienen. Por lo pronto, no hay unidad en el cuerpo que constituye el todo, sino unidad por contacto. Entonces, o el número de las especies de cuerpos que lo componen es finito, o es infinito. Es imposible que este número sea finito; sin esto habría cuerpos infinitos, otros que no lo serían, siendo el todo infinito; p.ej., lo sería el fuego o el agua. Pero semejante suposición es la destrucción de los cuerpos finitos. Pero si el número de las especies de cuerpos es infinito, y si son simples, habrá una infinidad de especies de lugares, una infinidad de especies de elementos; esto es imposible” “todo cuerpo sensible está en un lugar. hay seis especies de lugares. En resumen, si es imposible que el lugar sea infinito, es imposible que lo sea el cuerpo mismo.”
“En los seres que cambian, el cambio es un tránsito, o de un sujeto a otro sujeto, o de lo que no es sujeto a lo que no es sujeto, o de un sujeto a lo que no es sujeto, o de lo que no es sujeto a un sujeto” “el cambio de lo que no es sujeto no es un verdadero cambio. El tránsito de lo que no es sujeto al estado del sujeto, en cuyo caso hay contradicción, este cambio es la producción” “El cambio de un sujeto en lo que no es sujeto es la destrucción” “es imposible que el no-ser esté en movimiento. Por lo tanto, es imposible que la producción sea un movimiento, porque lo que deviene es el no-ser. Indudablemente, sólo accidentalmente es como el no-ser deviene; no obstante, es indudable que el no-ser es el fondo de lo que deviene o llega a ser, en el sentido propio de esta expresión.” “entonces, la misma destrucción no es un movimiento. (…) el contrario de la destrucción es la producción.” “no hay más que un solo cambio verdadero, que es el del sujeto en un sujeto.”
“nunca hay movimiento de movimiento, producción de producción ni, en resumen, cambio de cambio.” “si hay cambio de cambio, producción de producción, será necesario ir hasta el infinito.” “No hay primer término en una serie infinita, no habrá primer cambio, ni tampoco cambio que se una al primero; por lo tanto, es imposible que nada devenga, o se mueva, o experimente un cambio. Y luego, el mismo ser experimentaría a la vez los dos movimientos contrarios, el reposo, la producción y la destrucción; de modo que lo que deviniese aún, porque no existe ya, ni en el instante mismo de este devenir, ni después de este devenir, y lo que muere debe existir. A su vez, es necesario que lo que deviene, así como lo que cambia, tenga una materia.”
“¿Y cuál sería el fin del movimiento? El movimiento es el tránsito de un sujeto de un estado a otro estado; por lo tanto, el fin del movimiento no debe ser un movimiento. ¿Cómo debería ser un movimiento? La enseñanza no puede tener por fin la enseñanza; no hay producción de producción.”
“El consiguiente no está en contacto; pero lo que está en contacto es consiguiente. Si hay continuidad, hay contacto; pero si no hay más que contacto, no hay continuidad todavía. Con relación a los seres que no son susceptibles de contacto, no hay conexión. De esto se desprende que el punto no es lo mismo que la mónada, porque los puntos son susceptibles de tocarse, mientras que las mónadas no lo son; no hay con relación a ellas más que la sucesión; finalmente,hay un intermedio entre los puntos; no lo hay entre las mónadas.”
LIBRO DUODÉCIMO
“los objetos que no son esenciales no son objetos propriamente dichos, sino cualidades y movimientos” “nada puede tener una existencia separada más que la esencia.”
O ATEMPORAL: “Los filósofos de hoy prefieren considerar como esencia los universales, ya que los universales son esos géneros con los que forman los principios y esencias, preocupados como están con el punto de vista lógico [olha quem fala!]. Para los antiguos, la esencia era lo particular; era el fuego, la tierra, y no el cuerpo en general.
Existen tres esencias, dos sensibles, una de ellas inmortal y la otra mortal; no hay duda en relación con ésta última: son las plantas, los animales. En relación con la esencia sensible inmortal, es necesario asegurarse si sólo tiene un elemento o si tiene muchos. La tercera esencia es inmóvil (…) Unos la dividen en dos elementos; otros reducen las ideas y los seres matemáticos a una sola naturaleza” “Las dos esencias sensibles son objeto de la física” “Pero la esencia inmóvil es objeto de una ciencia diferente, ya que no tiene ningún principio que sea común a ella y a las dos primeras.”
“Existe, necesariamente, un sujeto que experimenta el cambio del contrario al contrario, porque no son los contrarios mismos los que cambian. A su vez, este sujeto persiste después del cambio, mientras que el contrario no persiste. Por lo tanto, además de los contrarios hay un tercer término, la materia.” “no es siempre accidental el que una cosa provenga del no-ser. Todo proviene del ser; pero indudablemente del ser en potencia, o sea, del no-ser, en acto. Ésta es la unidade de Anaxágoras, porque este término expresa mejor su pensamiento que las palabras: todo estaba confundido; ésta es la mezcla de Empédocles y Anaximandro, y esto es lo que dice Demócrito: todo existía a la vez en potencia, pero no en acto. Estos filósofos tienen alguna idea de lo que es la materia.” “Podría preguntarse de qué no-ser provienen los seres, porque el no-ser tiene tres acepciones. Si hay realmente el ser en potencia, de él es de quien provienen los seres; no de todo ser en potencia, sino tal ser en acto de tal ser en potencia. No alcanza con decir que todas las cosas existían confundidas, porque se distinguen por su materia.” “La inteligencia en este sistema es única” “Por lo tanto, hay tres causas, tres principios: dos constituyen la contrariedad, por un lado, la noción sustancial y la forma, por otro, la privación; el tercer principio es la materia.”
“El arte es un principio que reside en un ser diferente del objeto producido; pero la naturaleza reside en el objeto mismo (…) las demás causas, no son más que privaciones de estas dos.”
“existen o no existen la casa imaterial y la salud, y todo lo que es producto del arte. Pero no ocurre lo mismo con las cosas naturales. Así, Platón estaba en lo cierto al sostener que no hay más ideas que las de las cosas naturales, si se acepta que puede haber otras ideas que los objetos sensibles”
“un hombre engendra un hombre; el individuo engendra el individuo. Lo mismo ocurre en las artes: la medicina es la que contiene la noción de la salud.”
“es absurdo aceptar la identidad de principios, porque entonces provendrían de los mismos elementos las relaciones y la esencia.” “Nunca podrá haber identidad entre un elemento y lo que se compone de elementos, entre B o A, p.ej., y BA. Tampoco hay un elemento inteligible, como la unidad o el ser, que pueda ser el elemento universal; éstos son caracteres que pertenecen a todo compuesto. Ni la unidad ni el ser pueden ser esencia ni relación, y no obstante, esto sería necesario.”
“Por lo tanto, desde la perspectiva de la similitud, hay 3 elementos y 4 causas o 4 principios y, desde otra perspectiva, hay elementos diferentes para los seres diferentes, y una primera causa motriz también diferente para los diferentes seres.” “ya que en relación con los hombres, productos de la naturaleza, el motor es un hombre (…) se desprende que de una manera hay 3 causas, de la otra 4; porque el arte del médico es en cierto modo la salud; el del arquitecto la forma de la casa, y es un hombre el que engendra un hombre. Finalmente, fuera de estos principios está el primero de todos los seres, el motor de todos los seres.”
“el alma o el cuerpo, o bien na inteligencia, el deseo y el cuerpo.” “el hombre tiene por causas los elementos: que son la materia; después su forma; después una causa externa, su padre; y además de estas causas, el sol y el círculo oblicuo” “la actualidad primera, o sea, la forma” “del hombre universalsólo podría salir un hombre universal; pero no hay hombre universal que exista por sí mismo: Peleo es el principio de Aquiles; tu padre es tu principio; esta B es el principio de esta sílaba, BA; las formas son los principios de las esencias.”
“es imposible que el movimiento haya comenzado o que concluya; el movimiento es eterno; lo mismo es el tiempo, porque si el tiempo no existiese, no habría antes ni después. Además, el movimiento y el tiempo tienen la misma continuidad. Efectivamente, o son idénticos el uno al otro, o el tiempo es un modo del movimiento. No hay más movimiento continuo que el movimiento en el espacio, no todo movimiento en el espacio, sino el movimiento circular.” “es necesario que haya un principio tal que su esencia sea el acto mismo.”
“Tampoco son los menstruos ni la tierra los que se fecundarían ai sí mismos; son las semillas, el germen, los que los fecundan.” “algunos filósofos aceptan una acción eterna, como Leucippo y Platón (…) Pero no explican ni el porqué ni la naturaleza, ni el cómo, ni la causa.” “¿cuál es el movimiento primitivo? Esto es una cuestión de alta importancia que ellos tampoco explican.”
A RODA IDIOTA: “No hay necesidad de decir que, durante un tiempo indefinido, el caos y la noche existían solos. El mundo de toda eternidad es lo que es (ya tenga regresos periódicos, ya tenga razón otra teoría) si el acto es anterior a la potencia.” “debe de haber un ser cuya acción subsista siendo eternamente la misma.” “Es absolutamente necesario que aquél del que tratamos siempre actúe de acuerdo con el primer principio” “¿Qué necesidad hay de buscar otros principios?” “el primer cielo debe ser eterno.” “es un ser que mueve sin ser movido” “Lo deseable y lo inteligible mueven sin ser movidos, y lo primero deseable es idéntico al primero inteligible. Porque el objeto del deseo es lo que parece bello, y el objeto primero de la voluntad es lo que es bello.”
“el cambio primero es el movimiento de traslación” “Así, el motor inmóvil es un ser necesario” “la necesidad, que es la condición del bien” “Sólo por poco tiempo podemos disfrutar de la felicidad perfecta. Él la posee eternamente, lo cual es imposible para nosotros.” “La inteligencia se piensa a sí misma (…) este carácter supuestamente divino de la inteligencia se encuentra en el más alto grado de la inteligencia divina, y la contemplación es el placer supremo y la soberana felicidad.” “la acción de la inteligencia es una vida” “Dios es un animal eterno, perfecto.”
“puede decirse que el hombre es anterior al semen, no sin duda el hombre que ha nacido del semen, sino aquél de donde la semilla proviene.”
“La teoría de las ideas no proporciona ninguna reflexión que, directamente, se aplique a este problema. Los que aceptan la existencia de aquéllas dicen que las ideas son números, y se expresan sobre los números tanto como si hubiera una infinidad de ellos, tanto como si no fuesen más que diez. ¿Por qué razón reconocen precisamente diez números? No dan ninguna comprobación concluyente para probarlo.”
“además del movimiento simples del Universo, movimiento que, como hemos dicho, imprime la esencia primera e inmóvil, observamos que existen también otros movimientos eternos, los de los planetas (porque todo cuerpo esférico es eterno e incapaz de reposo, como hemos comprobado en la Física)” “Efectivamente, la naturaleza de los astros es una esencia eterna” “cuantos tantos planetas hay, otras tantas esencias eternas de su naturaleza debe haber, inmóviles en sí y sin extensión, siendo esto una consecuencia que se desprende de lo que antes hemos dicho.” “Pero cuál es el nº de estos movimientos es lo que debemos preguntar a aquélla de las ciencias matemáticas que más se aproxima a la filosofía; quiero decir, a la astronomía; porque el objeto de la ciencia astronómica es una esencia sensible, es indudable, pero eterna; mientras que las otras ciencias matemáticas no tienen por objeto alguno ninguna esencia real, como lo manifiestan la aritmética y la geometría. § Es indudable hasta para quienes apenas están iniciados en estas materias que hay un nº de movimientos mayor que el de seres en movimiento. Efectivamente, cada uno de los planetas tiene más de un movimiento ¿pero cuál es este nº?”
COMEÇAMOS COM OS TRECHOS ASTROLÓGICOS E ASTRONÔMICOS (QUASE) ININTELIGÍVEIS DA OBRA:
“Eudoxio¹ explicaba al movimiento del sol y de la luna aceptando 3 esferas² para cada uno de estos dos astros. La primeira era la de las estrellas fijas³; la 2ª seguía el círculo que pasa por medio del Zodíaco4; y la 3ª el que está inclinado a todo ancho del Zodíaco.5 El círculo que sigue la 3ª esfera de la luna está más inclinado que el de la 3ª esfera del sol.6 Colocaba el movimiento de cada uno de los planetas en 4 esferas.7 La primeira y la segunda eran las mismas que la 1ª e la 2ª del sol y de la luna,8 porque la esfera de las estrellas fijas imprime el movimiento a todas las esferas, y la esfera que está colocada por debajo de ella, y cuyo movimiento sigue el círculo que pasa por medio del Zodíaco, y el movimiento de la 4ª9 seguía un círculo oblicuo al círculo del medio de la 3ª.10 La 3ª esfera tenía polos particulares para cada planeta; pero los de Venus y de Mercurio eran los mismos.11”
¹ Eudoxo de Cnido, discípulo do pitagórico Arquitas; contemporâneo de Platão. Astrônomo, médico e matemático.
² Órbitas ou “céus”, na nomenclatura aristotélica.
³ O céu mais remoto, o horizonte que não se mexe para o observador. De fato, trata-se de deuses, por assim dizer, pois não se mexem, ao contrário do sol e da lua, “deuses inferiores”, na concepção astronômica peripatética.
4 Faixa estrelada do firmamento que contém todas as constelações de estrelas que associamos aos signos. Ao que tudo indica, estrelas muito mais próximas e partícipes do destino humano que as do “primeiro céu”.
5 Céu que ocupa toda a extensão visível do Zodíaco, ou seja, onde as mudanças são mais perceptíveis de acordo com as estações e mudanças de calendário.
6 As órbitas do sol e da lua não são paralelas.
7 Agora o assunto são os planetas, astros esféricos, e portanto “perfeitos e eternos”, porém que possuem diferenças de órbita em relação ao sol e à lua (inclusive no número de órbitas em si).
8 Quanto às primeiras órbitas, entretanto, planetas e sol e lua (que no fim não eram considerados mais do que planetas, também, caso contrário seriam estrelas, ou seja, entes exclusivos do primeiro céu) compartilhavam exatamente o mesmo “circuito”.
9 A diferença de nobreza está em que os planetas possuem um quarto firmamento (quanto mais firmamentos, e quão maior seu número designativo, menos nobre(s)). Eis uma órbita “corrupta” (em termos de matéria e mortalidade) a que não degeneram nem o sol nem a lua, mas sim Vênus, Marte, entre outros.
10 Mesma observação da nota 6: órbitas de planetas e do sol e da lua, e mesmo de planetas entre si, não são paralelas.
11 Desconhecemos por que Mercúrio e Vênus precisam “dividir uma órbita”. Talvez tenha relação com serem os planetas mais próximos da Terra e os mais vulgarmente observáveis (o que é estranho, porque não se menciona Marte). Talvez seja a exposição da adequação supersticiosa que faziam os filósofos até Platão, ainda por demais pitagóricos, e que A. critica: eles possuem uma fixação pelo número 10. Com as estrelas fixas, o sol e lua, sobram poucas órbitas para os planetas restantes, que não poderiam ser superiores ao número mágico 10. Eu mesmo estou ofendendo os deuses, chegando a minha décima-primeira nota explicativa do parágrafo, cof, cof!
“Callippo¹ pretendía que era necesario agregar otras 2 esferas al sol y 2 a la luna, si se quería dar cuenta de estos fenómenos, y una a cada uno de los otros planetas.”
¹ Cálipo de Cízico, discípulo de Eudoxo, talvez multiplicando seus erros na tentativa de diminuí-los. Contemporâneo do próprio A. Talvez considerações cabalísticas como a soma de todos os números de órbitas (céus), podendo resultar num número “de bons augúrios”, primo ou mágico, influenciasse astrônomos da Antiguidade a “acrescentar casas” para determinados astros, arbitrariamente. Tudo isso era um nunca ter fim especulativo, como sabe o autor desta Metafísica.
PURO NONSENSE
“ya que las esferas en que se mueven los astros son por un lado 8 y por otro 25 (…) habrá entonces para los 2 primeros astros 6 esferas que giran en sentido inverso, y 16 para las 4 siguientes; y el nº total de esferas, de las de movimiento directo y las de movimiento inverso, será de 55. Pero si no se agregan los movimientos de los que hemos tratado al Sol y a la Luna, no habrá en todo más que 47 esferas.
Aceptemos que éste es el nº de las esferas. Entonces habrá un nº igual de esencias y de principios inmóviles y sensibles. Así debe suponerse racionalmente; pero que por precisión haya de aceptarse, esto dejo a otros más hábiles el cuidado de comprobarlo.¹”
¹ Como filósofo mais hábil de sua época, e cônscio de sua superioridade e corretude inigualáveis, A. lança o desafio, apenas como um fecho retórico ou, antes, como carimbo de certificação de que tudo quanto disse anteriormente não passa de especulação inútil pela qual ele perpassa e a qual ele deslinda, não como parte necessária e imprescindível de seu tratado metafísico, mas como gentil concessão aos filosofastros de seu tempo.
“es indudable queno hay más que un solo cielo. Si hubiese muchos cielos como hay muchos hombres, el principio de cada uno de ellos sería uno bajo la relación de la forma, pero múltiple con relación al nº. Todo lo que es múltiple numéricamente tiene materia, porque cuando se trata de muchos seres, no hay otra unidad ni otra identidad entre ellos que la de la noción sustancial, entonces se tiene la noción del hombre en general; pero Sócrates es realmente uno. En relación con la primera esencia, no tiene materia, porque es una entelequia.”
“Una tradición proveniente de la más remota antigüedad, y transmitida a la posteridad bajo el velo de la leyenda, nos dice que los astros son los dioses y que la divinidad comprende toda la naturaleza; todo lo demás no es más que una relación fantasiosa, imaginada para persuadir al vulgo y para el servicio de las leyes y de los intereses comunes. Así se da a los dioses la forma humana; se los representa bajo la figura de ciertos animales, y se crean mil invenciones del mismo tipo que se relacionan con estas fábulas.” “Una explicación a la que no le falta verosimilitud es que las diversas artes y la filosofía fueron descubiertas muchas veces y perdidas muchas veces, lo cual es muy probable, y que estas creencias son, por así decirlo, restos de la sabiduría antigua conservados hasta nuestro tiempo.”
“Supuestamente la inteligencia es la más divina de las cosas que conocemos. Pero para serlo efectivamente, ¿cuál debe ser su estado habitual? (…) § Si la inteligencia no pensase nada, si fuese como um hombre dormido, ¿dónde estaría su dignidad? Y si piensa, pero su pensamiento depende de otro principio, no siendo entonces su esencia el pensamiento, sino un simple poder de pensar, no puede ser la mejor esencia, porque lo que le da su valor es el pensar.” “o se piensa a sí misma, o piensa algún otro objeto. Y si piensa otro objeto, o es éste siempre el mismo, o cambia. (…) ¿no sería absurdo que tales y cuales cosas fueran objeto del pensamiento? Es indudable que piensa lo más divino y excelente que existe, y que no cambia de objeto, porque cambiar sería pasar de lo mejor a lo peor, sería un movimiento.”
“hay cosas que es necesario no ver, más bien que verlas”
I AM THE TABLE: “si pensar fuese distinto de ser pensado, ¿cuál de los dos constituiría la excelencia del pensamiento? (…) En las ciencias creadoras la esencia independiente de la materia y la forma determinada, la noción y el pensamiento en las ciencias teóricas, son el objeto mismo de la ciencia. En relación con los seres inmateriales, lo que es pensado no tiene una existencia diferente de lo que piensa; hay con ellos identidad, y el pensamiento es uno con lo que es pensado.”
“la inteligencia humana no se apodera siempre sucesivamente del bien, sino que se apodera en un instante indivisible de su bien supremo.”
“el bien de un ejército lo constituyen el orden que reina en él y su general, y sobre todo su general: no es el general obra del orden, sino que es el general causa del orden.”
“todo está ordenado en vista de una existencia única. Ocurre con el Uni[-]verso lo que con una familia.” “En la misión de cada cosa en el Universo, el principio es su naturaleza misma: quiero decir, que todos los seres necesariamente van separándose los unos de los otros, y todos, en sus diferentes funciones, concurren a la armonía del conjunto.”
“Según todos los filósofos, todas las cosas provienen de los contrarios. Todas las cosas, contrarios: o sea, dos términos que están los dos mal utilizados” “La materia prima no es el contrario de nada.” “Suponiendo que pueda ocurrir que la misma cosa exista a la vez en concepto de materia y de principio, y en concepto de causa motriz, siempre resultaría que no habría identidad en su ser. ¿Qué es lo que constituye la amistad? Otro absurdo es el haber considerado la Discordia inmortal, mientras que la Discordia es la esencia misma del mal.” “Si prestamos atención, se notará que todos los que proponen a los contrarios como principios no utilizan los contrarios. ¿Y por qué esto es mortal, aquello inmortal? Ninguno de ellos explica esto”
“Los partidarios de las ideas también deben aceptar un principio superior a las ideas, porque ¿de acuerdo con qué ha habido y hay todavía participación de las cosas en las ideas? Y mientras los demás están forzados a aceptar un contrario de la sabiduría y de la ciencia por excelencia, nosotros nos libramos de esta situación, no aceptando contrario en lo que es primero,¹ porque los contrarios tienen una materia y son idénticos en potencia. La ignorancia, por ser el contrario de la ciencia, implicaría un objeto contrario al de la ciencia.”
¹ O gênio, de fato, não tem contrário. É único. O burro é o contrário apenas do filosofastro ou sofista (que vivem no erro). O contrário do gênio é o Não-ser. Mas, desta perspectiva, o contrário do não-ser não pode ser o Ser, que é genérico, mera potência e não ato (atributo do gênio – Sócrates era o homem da pura ação).
“si no hay más seres que los sensibles, ya no puede haber principio, ni orden, ni producción, ni armonía celeste, sino sólo una serie infinita de principios, como la que pretenden los teólogos y físicos sin excepción. Pero si se acepta la existencia de las ideas o de los números, no se tendrá la causa de nada; por lo menos no se tendrá la causa del movimiento.”
“El mando de muchos no es bueno, alcanza con un solo jefe, como ya lo señaló Homero.”
LIBRO DECIMOTERCERO
“Y si por suerte encontrásemos puntos de las teorías que conviniesen con los nuestros, guardémonos de sentir por esto pena alguna. Es para nosotros un motivo de respeto el que sobre determinadas cosas tengan concepciones superiores a las nuestras, y que no sean en otros puntos inferiores a nosotros.” “casi todas las cuestiones que se refieren a este tema ya han sido refutadas en nuestros tratados exotéricos.”
“Se equivocan quienes pretenden que las ciencias matemáticas no tratan ni de lo bello ni del bien. De lo bello es de lo que principalmente tratan, y lo bello es lo que comprueban. No hay motivos pero indican sus efectos y sus relaciones. ¿El orden, la simetría y la limitación no son las formas más imponentes de lo bello?” “Acabamos de comprobar que los objetos matemáticos son seres, y cómo son seres, en qué concepto no tienen la prioridad, y en cuál son anteriores.”
“La teoría de las ideas nació en los que la establecieron como consecuencia de este principio de Heráclito, que aceptaron como verdadero: todas las cosas sensibles están en un flujo perpetuo. De esto principio, se desprende que, si hay ciencia y razón de alguna cosa, debe haber, fuera del mundo sensible, otras naturalezas, naturalezas persistentes; porque no hay ciencia de lo que pasa perpetuamente.” “Sócrates se encerró en la especulación de las virtudes morales, y fue el primero que investigó las definiciones universales de estos objetos.” “Sócrates intentaba no sin motivo establecer la esencia de las cosas. La argumentación regular era el punto al que dirigía sus esfuerzos. Ahora bien, el principio de todo silogismo es la esencia. La dialéctica todavía no tenía un poder bastante fuerte en ese [silogismo?] entonces para razonar sobre los contrarios independientemente de la esencia (…) puede atribuirse a Sócrates el descubrimiento de estos dos principios: la inducción y la definición general. Estos dos principios son el punto de partida de la ciencia. § Sócrates no aceptaba una existencia separada, ni a los universales ni a las definiciones. Los que vinieron después de él¹ las separaron, y dieron a esta clase de seres el nombre de ideas.” “Se encontraron próximamente el caso del hombre que, queriendo contar un pequeño nº de objetos, y persuadido de que no podría conseguirlo, aumentase el nº para mejor contarlos.”
¹ A referência a Platão, mestre de A. e discípulo nº 1 de Sócrates, não poderia ser mais evidente.
“Decir que las ideas son ejemplares, y que los demás seres participan de las ideas, es contentarse con palabras vacías de sentido, es formar metáforas poéticas.” Nenhum golpe poderia ferir mais o anti-homérico Platão!
“Se dice en el Fedón que las ideas son las causas del ser y del devenir. Entonces, aun cuando hubiese ideas, no habría producción, si no hay una causa motriz.”
LIBRO DECIMOCUARTO
“Efectivamente, no hay grande y pequeño, mucho y poco; en resumen, no hay relación que sea básicamente mucho y poco, grande y pequeño; solamente relación. § Una prueba basta para comprobar que la relación no es en manera alguna una sustancia y un ser determinado, y es porque no está sujeta ni al devenir, ni a la destrucción, ni al movimiento.”
“Se creyó que todos los seres se reducirían a un solo ser, al ser en sí, si no se solucionaba un problema, si no se salía al encuentro de la argumentación de Parménides: <es imposible que haya en ninguna parte no seres>.” “si se entiende el ser en varios sentidos, el no-ser tiene también varios sentidos” “Se llega hasta pretender que lo falso es esta naturaleza, este no-ser que con el ser produce multiplicidad de los seres. Esta opinión es la que ha obligado a decir que es necesario aceptar desde luego una hipótesis falsa, como los geómetras, que suponen que lo que no es un pie es un pie.” “el no-ser, desde la perspectiva de la pérdida de la existencia, se entiende en tantos sentidos como categorías hay; luego viene el no-ser que significa lo falso, y después el no-ser que es el ser en potencia; de este último es del que provienen los seres. No es del no-hombre”
“¿cómo el ser es muchos?”
“Los antiguos poetas, supuestamente, participaron de esta opinión. Efectivamente, lo que rige, lo que manda, según ellos, no son los primeros seres, no es la Noche, ni el Cielo, ni el Caos, ni el Océano, sino Júpiter. Pero a veces mudan los jefes del mundo, y dicen que la Noche, el Océano, son el principio de las cosas. Aun aquéllos que han mezclado la filosofía con la poesía, y que no encubren siempre su pensamiento bajo el velo de la fábula, p.ej., Ferecides¹, los Magos y algunos otros, dicen que el bien supremo es el principio productor de todos los seres.”
¹ Ferécides de Siro, suposto Sábio da Grécia, contemporâneo, ou quase, portanto, de Tales de Mileto, um dos outros 6 e reputado “fundador da filosofia ocidental” (se bem que há 22 citações como “um dos 7 sábios” e que a historiografia não pôde esclarecer – o que se sabe é que as referências mais confiáveis não apontam Ferécides como um dos 7 sábios consagrados, mas sim discípulo de um). Discípulo de Pítaco e potencial influenciador de Pitágoras, principalmente no que concerne à doutrina da transmigração das almas ou metempsicose. Autor do livro (perdido) de teogonia As cinco cavernas.
“el principio, ¿es la unidad o es el bien? Ahora bien, sería extraño si hay un ser primero, eterno, si ante todo se basta a sí mismo, que no sea el bien el que constituye este privilegio, esta independencia.”
ANTE&ANTI-DARWIN:“Así, un filósofo ha rehusado reunir en un solo principio la unidad y el bien, porque hubiera sido necesario decir que el principio opuesto, la pluralidad, era el mal, ya que la producción viene de los contrarios.” “Es imposible colocar a la vez el bien entre los principios, y no colocarlo. Entonces, es indudable que los principios, las primeras sustancias, no han sido convenientemente determinados. Tampoco están en lo cierto aquéllos que asimilan los principios del conjunto de las cosas a los de los animales y de las plantas, y que dicen que lo que es más perfecto viene siempre de lo que es indeterminado, imperfecto.”
“Es absurdo plantear que los seres matemáticos ocupan el mismo lugar que los sólidos. Cada uno de los seres individuales tiene su lugar particular, y por este motivo se pretende que existen separados con relación al lugar; pero los seres matemáticos no ocupan lugar; y es absurdo sostener que lo ocupan sin aclarar este lugar.”
“¿por qué el número será inmortal?” “Indudablemente, los números no son esencias ni causas de la figura.” “un nº de carne, de hueso, esto es lo que es: 3 partes de fuego, 2 de tierra.” “la esencia es la relación mutua de las cantidades que entran en la mezcla: pero esto no es un nº, es la razón misma de la mezcla de los números corporales o cualesquiera otros.”
“la discordia es, verdaderamente, la destrucción de la mezcla.”
“si todo participa necesariamente del nº, es necesario que muchos seres se hagan idénticos, y que el mismo nº sirva a la vez a muchos seres.” “El Sol tiene cierto nº de movimientos; la Luna igualmente; y como ellos los tiene la vida y desenvolvimiento de cada animal.”
“habrá identidad entre el Sol y la Luna. § ¿por qué los números son causas? Hay 7 vocales¹, 7 cuerdas tiene la lira, 7 acordes; las Pléyades son 7; en los 7 primeros años pierdon los animales, salvo las excepciones, los primeros dientes; los Jefes que mandaban delante de Tebas eran 7. ¿Es porque el nº 7 es 7 el haber sido 7 los jefes, y que la Pléyade se compone de 7 estrellas, o bien sería, en relación con los jefes, a causa del nº de las puertas de Tebas, o por otra razón? Éste es el nº de estrellas que atribuimos a la Pléyade; pero sólo contamos 12 en la Osa, mientras que algunos distinguen más. Hay quien dice que xi, psi y dzeta son sonidos dobles, y que, por lo mismo que hay 3 acordes, hay 3 letras dobles; pero aceptada esta hipótesis, habría una gran cantidad de letras dobles.” “Nosotros responderemos que no hay más que 3 disposiciones del órgano de la voz proprias para la emisión de la sigma después de la 1ª consoante de la sílaba. Este es el único motivo de que no haya más que 3 letras dobles, y no porque hay 3 acordes, porque hay más de 3, mientras que no puede haber más de 3 letras dobles.”
¹ Esta nota eu preparei para comentar trecho do Teeteto de Platão, mas reaproveitei aqui, adaptada ao contexto, bastante similar:
Este é o número de vogais na cultura ou língua grega, ou pelo menos na concepção gramatical em vigor na época de Sócrates, Platão e Aristóteles. Usualmente, dizemos, para o Português, haver 5 vogais. Porém, o mais correto seria diferenciar: “A, É, Ê”: aqui temos 3 vogais (fonemas), não somente 2 (“A e E”, como responderiam os vestibulandos ou formalistas). O acento gráfico transforma a pronúncia, pode mudar radicalmente o sentido de um (semi-)homônimo (todos os demais elementos do vocábulo mantidos). Este é um recorte de conhecimento didático aceito e transmitido por Aristóteles nesta sua compilação de “coisas que se apresentam em 7 no universo”. Mas é, como vemos, uma percepção altamente relativa, no espaço e no tempo: nós, lusófonos (ou latinos?), não consideramos a vogal “Ü”. Não significa que temos um alfabeto mais imperfeito que o grego. Já outras culturas não reconhecem o “Ô, tão óbvio para nós (mesmo nações vizinhas não o apresentam na fala nem o “~” por escrito). Noutras culturas, ainda, maioria das ocorrências de “E” se dá numa zona proximal do “I” (ex: dois “E” consecutivos no Inglês). Muitas vezes, os acentos “caem” na ortografia oficial, mas a pronúncia segue inalterada, porque se tornaram redundantes para a média populacional (cfr. inúmeros casos no próprio Português e no Francês). Os gregos ou franceses pré-modernos possuíam sinais gráficos que nós nem mesmo estudamos ou conhecemos na escola, tal qual a vogal “O” ou “I” encimada por uma barra horizontal, indicadora do tempo empregado na pronúncia da palavra (vogal breve ou longa, etc.). Em suma, trata-se de um sistema reputado como verdadeiro neste contexto (há 7 vogais na Grécia, e isso não se contesta).
“Las cuerdas intermedias son la una como 9, la otra como 8; entonces el verso heroico es de 17, nº que es la suma de los otros 2 números, apoyándose a la derecha sobre 9 y a la izquierda sobre 8 sílabas. La misma distancia hay entre el alpha y la omega, que entre el agujero [buraco, orifício] más grande de la flauta, el que da la nota más grave, y el pequeño, que da el más agudo; y el mismo nº es el que constituye la armonía completa del cielo.
Es necesario no preocuparse por semejantes pequeñeces. Éstas son relaciones que no deben buscarse ni encontrarse en los seres eternos, ya que ni siquiera es necesario buscarlas en los seres mortales.” Dedicado ao Rev. Renan
“ningún ser matemático es causa en ninguno de los sentidos que hemos establecido al tratar de los principios.
No obstante, ellos nos revelan el bien que reside en las cosas, y a la clase de lo bello pertenecen lo impar, no recto, lo igual y ciertas potencias de los números [?]. Hay paridad numérica entre las estaciones del año y tal nº determinado, pero nada más.”
“Las relaciones en cuestión se parecen mucho a coincidencias fortuitas: éstas sonaccidentes; pero estos accidentes pertenecen igualmente a 2 géneros de seres; tienen una unidad, la analogía. Porque en cada categoría hay algo análogo”
“Digamos también que los números ideales tampoco pueden ser causas de los acordes de la música: aunque iguales bajo la relación de la especie, se distinguen entre sí porque las mónadas se distinguen unas de otras. De esto se desprende queno se pueden aceptar las ideas.” “Por lo tanto, los despreciables problemas que trae el querer exponer cómo los números producen, y la absoluta imposibilidad de contestar a todas las objeciones, son una prueba concluyente de que los seres matemáticos no existen, como algunos pretenden, separados de los objetos sensibles”
ACTION (Moral). “une femme qui a été violée passe pour coupable, en partie, lorsquelle s’est exposée imprudemment à aller dans les lieux où elle pouvoit prévoir qu’elle couroit risque d’être forcée.” (X)
ACTION (Physique). “M. de Maupertuis a cherché à concilier l’explication de M. Newton avec les principes métaphysiques. Au lieu de supposer avec MM. de Fermat & Leibnitz qu’un corpuscule de lumiere va d’un point à un autre dans le plus court tems possible, il suppose qu’un corpuscule de lumiere va d’un point à un autre, de maniere que la quantité d’action soit la moindre qu’il est possible. Cette quantité d’action, dit-il, est la vraie dépense que la nature ménage. Par ce principe philosophique, il trouve que non-seulement les sinus [senos, relações dos raios com as perpendiculares das figuras geométricas] sont en raison constante, mais qu’ils sont en raison inverse des vitesses, (ce qui s’accorde avec l’explication de M. Newton) & non pas en raison directe, comme le prétendoient MM. de Fermat & Leibnitz.”
ACTION (Belles-Lettres). “L’action des nôtres, quoique plus modérée que celle des Italiens, est infiniment plus vive que celle des Anglois, dont les Sermons se réduisent à lire froidement une dissertation Théologique sur quelque point de l’Écriture, sans aucun mouvement.”
ACTION (Poësie). “Ainsi dans l’Eneïdeun Héros échappé des ruines de sa patrie, erre longtems avec les restes de ses Concitoyens qui l’ont choisi pour Roi; & malgré la colere de Junon qui le poursuit sans relâche, il arrive dans un pays que lui promettoient les destins, y défait des ennemis redoutables; & après mille traverses surmontées avec autant de sagesse que de valeur, il y jette les fondemens d’un puissant Empire. Ainsi la conquête de Jérusalem par les Croisés; celle des indes par les Portugais; la réduction de Paris par Henri le Grand, malgré les efforts de la Ligue, sont le sujet des Poëmes du Tasse, du Camoens, & de M. de Voltaire; d’où il est aisé de conclurre qu’une historiette, une intrigue amoureuse, ou telle autre aventure qui fait le fonds de nos romans, ne peut jamais devenir la matiere d’un Poëme Epique, qui veut dans le sujet de la noblesse & de la majesté.”
“Il y a deux manieres de rendre l’action épique intéressante: la premiere par la dignité & l’importance des personnages. C’est la seule dont Homere fasse usage, n’y ayant rien d’ailleurs d’important dans ses modeles, & qui ne puisse arriver à des personnages ordinaires. La seconde est l’importance de l’action en elle-même, comme l’établissement ou l’abolition d’une Religion ou d’un Etat, tel qu’est le sujet choisi par Virgile, qui en ce point l’emporte sur Homere. L’action de la Henriade réunit dans un haut degré ce double intérêt.”
“L’Iliade n’est que l’histoire de la colere d’Achille, & l’Odyssée, que celle du retour d’Ulysse à Itaque. Homere n’a voulu décrire ni toute la vie de ce dernier, ni toute la guerre de Troie. Stace au contraire dans son Achilléide, & Lucain dans sa Pharsale, ont entassé trop d’évenemens décousus pour que leurs ouvrages méritent le nom de Poëmes Epiques. On leur donne celui d’héroïques, parce qu’il s’y agit de Héros. Mais il fant prendre garde que l’unité du Héros ne fait pas l’unité de l’action. La vie de l’homme est pleine d’inégalités; il change sans cesse de dessein, ou par l’inconstance de ses passions, ou par les accidens imprévûs de la vie. Qui voudroit décrire tout l’homme, ne formeroit qu’un tableau bisarre, un contraste de passions opposées sans liaison & sans ordre. C’est pourquoi l’épopée n’est pas la loüange d’un Héros qu’on se propose pour modele, mais le récit d’une action grande & illustre qu’on donne pour exemple.”
P. le Bossu – Traité du Poëme Epique
“L’action de l’Epopée doit être merveilleuse, c’est-à-dire, pleine de fictions hardies, mais cependant vraissemblables. Telle est l’intervention des divinités du paganisme dans les Poëmes des Anciens, & dans ceux des Modernes celle des passions personnifiées. Mais quoique le Poëte puisse aller quelquefois au-delà de la nature, il ne doit jamais choquer la raison. Il y a un merveilleux sage & un merveilleux ridicule. On trouvera sous les mots Machines & Merveilleux cette matiere traitée dans une juste étendue.”
“Le P. le Bossu donne pour regle que plus les passions des principaux personnages sont violens, & moins l’action doit durer: qu’en conséquence l’action de l’Iliade, dont le courroux d’Achille est l’ame, ne dure que 47 jours; au lieu que celle de l’Odyssée, où la prudence est la qualité dominante, dure huit ans & demi; & celle de l’Eneïde, où le principal personnage est un Héros pieux & humain, près de sept ans.”
“Il est vrai qu’Ulysse chez Alcinoüs, & Enée chez Didon, racontent leurs aventures passées, mais ces récits n’entrent que comme récits dans la durée de l’action principale; & le cours des années qu’ont pour ainsi dire consumé ces évenemens, ne fait en aucune maniere partie de la durée du Poëme. Comme dans la Tragédie, les évenemens racontés dans la Protase, & qui servent à l’intelligence de l’action dramatique, n’entrent point dans sa durée; ainsi l’erreur du P. le Bossu est manifeste.”
“ACTION (Peinture & Sculpture). C’est l’attitude ou la position des parties du visage & du corps des figures représentées, qui fait juger qu’elles sont agitées de passions. On dit: cette figure exprime bien par son action les passions dont elle est agitée; cette action est bien d’un homme effrayé. L’on se sert également de ce terme pour les animaux; l’on dit: voilà un chien dont l’action exprime bien la fureur; d’un cerf aux abois [berros]: voilà un cerf qui par son action exprime sa douleur, &c.” (R)
Edição do texto grego, tradução e comentários por Fernando Santoro (UFRJ)
Projeto OUSIA
2009
PREFÁCIO
“Parm. (Pm.) inaugura a Filosofia como Ontologia. Por isso, é o filósofo que lança, em palavras e pensamentos, as bases que sempre voltarão a servir de questionamento ao longo de toda a metafísica ocidental.”
“Platão (Pt.) vai dedicar ao Poema 2 dos seus mais importantes diálogos, o Sofista e Parmênides (…) ainda vai citá-lo em outros 2, o Banquete e o Teeteto. Aristóteles (A.), por sua vez, dedica à discussão com o Eleata o 1º livro de sua Física, para ter condições de falar da Natureza como princípio de movimento; também discutirá suas palavras na demonstração de teses metafísicas como o princípio de não-contradição, entre outros.”
“Mais de 30 autores antigos citaram Pm. em mais de 40 diferentes obras. Os fragmentos mais extensos são os mais recentes, sobretudo os de Sexto Empírico, em sua obra contra o dogmatismo (Adversus Mathematicos) (…) Simplício explica que, devido à raridade da obra em seu tempo, precisaria citá-la de forma mais extensa, para que seu comentário fosse compreendido.”
“Data de 1526 a 1ª publicação do Poema Da Natureza. Supostamente, foi retraduzida a partir da versão latina de Guilherme de Moerbecke (séc. XIII). A 1ª ed. com preocupações filológicas data de 1573, empreendida por Henri Estienne, buscando recolher a obra dos primeiros filósofos: Poesis Philosophica (…) A reconstituição do Poema é continuada por Joseph J. Scaliger (…) seu texto foi encontrado por Néstor Cordero em 1980, na Biblioteca da Univ. de Leyde. (…) Somente em 1835, temos a 1ª reconstituição com os 19 fragmentos considerados autênticos, feita por S. Karsten. (…) A obra de Karsten foi o ponto de partida para as versões publicadas por Hermann Diels, desde 1897 até a última ed. dos Fragmente der Vorsokratiker, em 1951, sob Kranz (DK.) (…) Esta é a versão considerada <ortodoxa> por todos os estudiosos e editores do Poema, desde o séc. XX. (…) Coxon (1986) também teria reconstituído o texto grego a partir da consulta de diversos manuscritos, mas seu cuidado filológico é bastante contestado.” “O texto original é um objeto, para nós, tão perdido quanto o paraíso de Adão.” “Um texto como o de Pm. já não pode aspirar a uma identidade única” “Qual é o texto verdadeiro desse pensamento originário sobre a Verdade? Parece uma armadilha armada propositadamente pela História da Filosofia”
“Quem é esta Deusa? Heidegger propõe que seja a própria Verdade”
B11 (1-4):
“…como Terra e Sol e ainda Lua
e também Éter agregador e Láctea celeste e Olimpo
extremo e ainda força quente dos astros impeliram-se
para vir a ser.”
B12 (1-6):
“Umas são mais estreitas, repletas de fogo sem mistura,
outras, face àquelas, de noite; ao lado jorra um lote de flama;
no meio destas <há> uma divindade, que tudo dirige:
pois de tudo governa o terrível parto e a cópula,
enviando a fêmea para unir-se ao macho e de volta
o macho à fêmea.”
B13:
“De todos os deuses que concebeu, Amor foi o primeiro.”
B14:
“Brilho noturno de luz alheia vagando entorno à Terra.(*)
(*) Plutarco diz que Pm. designa a natureza da Lua. Dos mais belos versos gregos, Mourelatos faz uma análise de suas anfibologias. A palavra <phôs>, <luz>, tem um homônimo que significa <homem>; conforme este homônimo, existe a fórmula homérica <allótrios phós>, que significa <um estranho>.”
B18 (frag. 4-6):
“…, se as potências lutam na mistura seminal,
então não fazem uma unidade no corpo misturado e, furiosas,
“A. chamou os que 1º se espantaram com o mundo de theológoi, <os que falam de deuses>, em seguida, oriundos do mesmo espanto, o filósofo apresentou os physiológoi, <os que falam da natureza>.”
“Quem sabe não foi justamente para reforçar suas interpretações alegóricas sobre a poesia que fala dos deuses que os gramáticos alexandrinos inventaram essa distinção entre minúsculas e MAIÚSCULAS.”
“Pelo tratamento próximo, pela descrição antropomórfica, pela retratação dos crimes humanos nos deuses é que os filósofos vão querer expulsar dos concursos e das cidades, a bastonadas, estes Homeros, e também Arquílocos e outros quantos. Mas o povo, ainda por muito tempo, iria tomar as dores dos poetas, mandando ao exílio e condenado (sic) à cicuta aqueles novos porta-vozes da verdade.” “O Sócrates d’As Nuvens é a síntese cômica desses novos homens altivos e irreverentes à tradição. O prenúncio do livre-pensador laico da modernidade.” “Aristófanes percebe o declínio do Sol, a passagem de uma era em que os deuses dominavam o quotidiano dos homens e assumiam a imagem das forças constituidoras do real, para uma era em que o homem começa a erigir o discurso conceitual para falar também das forças do real como natureza autônoma.
No Poema de Pm., estamos num desses lugares textuais, em que ganha clareza a transição da teogonia mítica para a ontologia filosófica; a transição da celebração dos deuses em suas gestas para os conceitos em sua determinação.”
“terão esses nomes o estatuto de conceitos abstratos ou lhes daremos as maiúsculas iniciais, com que caracterizamos hoje a condição personificada de deuses? Optamos, na tradução, pelas maiúsculas, mesmo anacrônicas, para realçar estes nomes” “Nem sempre, porém, usamos as traduções ortodoxas, como em nossa tradução de moîra por Partida em vez de Destino, porque sempre buscamos um nome que expressasse um sentido integrado a uma interpretação total do Poema – princípio 1º da arte hermenêutica.”
“A proximidade entre ser e dever ser, na expressão da indicação do caminho da verdade, é um traço decisivo do Poema. (…) Thémis, Norma, é a expressão de uma ordem primordial, de uma lei fundada na postulação divina. Não se trata de uma lei convencionada pelos homens, mas uma prescrição transcendente do que deve ser e do que é conforme à ordem dos deuses. (…) Sem dúvida, ainda é a tragédia Antígona de Sófocles a melhor exposição da diferença entre a lei divina dos laços de sangue e a lei proclamada pela palavra do governante. (…) Se fôra abrir mão de valores estéticos para uma tradução puramente conceitual, em vez de Norma, diria Imposição. Os homens podem agir conforme ou não a esta imposição primordial, isto lhes confere boa ou má partida no desempenho da vida.”
“Providência [Oh, Robin Crusoe!] e Envio também são nomes aproximados para a Moîra.” “É preciso compreender que a Moîra não é essencialmente a determinação incontornável de um desfecho, como se todo o traçado de uma vida já estivesse predestinado em seu desígnio. Não, nenhuma Moîra é a consumação prévia do que está por vir. A Moîra é incontornável sim, e nem os deuses podem fugir aos seus limites, mas estes limites definem um campo do possível do qual não se pode escapar (…) Os limites da Moîra são os limites essenciais do ente”
DESTINO-PARTIDA:
Você já chegou, mas não partiu.
Enquanto isso, joga e se joga.
“A Moîra tem como representação a experiência concreta do lote de terra próprio, a parte que cabe a cada um neste mundo. Depois que Zeus e os deuses olímpicos vencem a guerra contra os Titãs, vem a hora da partilha.”
“O nome ‘Moîra’ significa a ‘parte’ móros, que fazemos ressoar no nome ‘Partida’. A partida é, de um lado, a parte separada de cada um, seu lote; por outro lado, é o momento da separação: o parto, a individuação – neste sentido, é também o envio à vigência e à vida, o início. (…) E, de certo modo, é o momento da despedida, em que é superada cada etapa da uma viagem (sic).”
“Depois do discurso da Deusa acerca da Verdade, as descrições tendem claramente a um discurso sobre a natureza, não há sagas nem gestas como na Teogonia de Hesíodo” “Conhecerás a natureza do Éter e também todos os sinais que há no Éter” “Nestes poucos e curtos fragmentos temos o testemunho de uma visão astronômica resplendente e flamejante do Éter, do Olimpo, do Céu, da Via Láctea, do Sol, da Lua, da Terra.”
Nietzsche – Da Retórica (tradução de T.C. Cunha) – obra misteriosa?!
VARIAÇÕES DO VERBO EIMÍ
“Talvez, uma das principais contribuições dos gregos na fundação do conhecimento como filosofia tenha sido a elaboração de um questionamento universal por meio da tematização de um único verbo em algumas modalidades específicas de conjugação. Todos sabemos que este verbo fundamental é o verbo eimí, que traduzimos usualmente pelo verbo ser em conjugações que gostaríamos que fossem mais ou menos equivalentes. Assim, temos a questão central da chamada <Filosofia Primeira> nomeada, desde o séc XVII, a partir deste verbo: é a Ontologia, ao pé da letra: o desdobramento compreensivo – a palavra – do ente, ‘ente’ que é, gramaticalmente, o particípio presente do verbo ser e, filosoficamente: a visada mais universalizante sobre a realidade. Visada determinada justamente pelo sentido que se dá a este verbo ser e ao seu particípio ente.
Acontece que o verbo grego eimí e seus sucessores nas línguas ocidentais, justamente por serem o lugar desta visada universalizante, carregam em suas costas séculos de metafísica a torná-los cada vez mais abstratos e mais vazios semanticamente, a ponto de toda sua significação vir a restringir-se a uma mera função copulativa entre sujeito e predicado. O verbo grego, contudo, tem uma gama de articulações modais, espectuais (sic) e relacionais de uma variedade e riqueza tais que não podem deixar de ser significativas, gama que ultrapassa o alcance da quase totalidade de suas traduções em línguas modernas. A ontologia grega, desenvolvida como questionamento fundamental da realidade e sua relação com o pensamento e a linguagem, soube explorar diversas dessas riquezas significativas e realçá-las de modo extraordinário (…)
Um dos mais ricos estudos sobre as variações do verbo ‘ser’ em grego (o verbo eimí) foi empreendido por Charles Kahn e publicado em 1973, The verb ‘Be’ in Ancient Greek [O verbo grego ‘ser’ e o conceito de ser], uma análise meticulosa dos vários usos do verbo eimí em Homero. Os estudos de Kahn sobre o verbo ‘ser’ incluem ainda numerosos artigos, vários deles traduzidos para o português e editados nos Cadernos de Tradução da PUC-RJ, em 1997, entre os quais ‘Ser em Parmênides e Platão’, originalmente publicado em 1988. Kahn explorou de modo sistemático a variedade das funções sintáticas do verbo eimí e elaborou uma classificação funcional dos seus usos extremamente útil para toda abordagem do problema do <ser> que se apóie em observações e considerações lingüísticas. Ainda que cheguemos a conclusões radicalmente diferentes e até mesmo opostas no que diz respeito ao sentido essencial e às interpretações genealógicas, as suas categorias aspectuais e modais nos serão indispensáveis.”
particípio ón(estado/ente)
“à força de uma língua não exprimir um problema, esse fica velado ou parece irrisório ou mesmo falso.”
Está provado que o verbo sein é mais filosófico!
“É no mínimo curioso que Pm., o filósofo da unidade do Ser, 2º todos os manuais de História da Filosofia, seja o autor de um texto exemplar para mostrar as variações no aspecto sintático da linguagem que gestam, no séc. V a.C., o padrão ocidental de conhecimento. Não obstante, encontrarmos no seu Poema, pelo menos 4 modos distintos do verbo eimí. Espantosamente, não estão esses modos dispersos no texto, mas em situações bem demarcáveis, como em etapas de uma especial transformação. Será possível encontrar uma unidade que suporte a transformação dessas diferenças? É precisamente esse problema que gostaríamos de investigar neste estudo introdutório sobre a diversidade sintática de eimí no P. de Pm..”
“O acompanhamento da passagem pelos diversos momentos dá-nos a impressão ilusória de que é o próprio verbo que está sofrendo transformações, mas o sistema verbal de eimí ‘ser’ ao tempo de Pm. já é um conjunto sincrônico em suas possibilidades. Contudo, há um sentido em que é mais apropriado pensar numa transformação diacrônica.”
“Quando Júlio César quis condensar sua rápida vitória sobre Farnaces, no Bósforo, usou 3 verbos dissilábicos no pretérito perfeito, coordenados assindeticamente apenas pela posição sucessiva e por vírgulas: <Veni, vidi, vici.> (há, também, uma sub-articulação tônica <ve-vi-vi>, da vogal fechada <e> até a mais fechada <i>, (sic) isto confere uma forma – literalmente – mais pungente à frase, mais dinâmica, como um dardo sonoro). São 3 ações sucessivas que resumem a campanha do general: vim – empreendi, vi – analisei, venci – derrotei. Não faz, sentido usar o verbo ser – não estão sendo articulados atributos de um sujeito. Se J.C. atribuísse os predicados a si e não a suas ações, a frase ficaria assim: <Imperator sui, et videns et victor>, <sou um empreendedor, um homem de visão, um vencedor>. Seria um vaidoso, não um chefe militar. Teria escrito um auto-retrato e não uma narrativa épica como o De Bello Gallico. A narrativa de ações prescinde muito facilmente do verbo ‘ser’, ao passo que explora toda a gama dos verbos transitivos e de significado dinâmico.”
“Somente a descrição do portal introduz uma imagem mais estática.”
(1) “Articulado com o advérbio de lugar aí, lá, o verbo ‘ser’ marca que em tal lugar estão situadas, estão presentes e permanecem firmes as portas dos cursos da Noite e do Dia. Kahn denomina essa classe de usos de valor <locativo-existencial>. Este sentido 1º do verbo ser, sentido de existência e presença, aparece em várias línguas ocidentais associado a um advérbio de lugar: esser-ci, da-sein, y-être. ´como se <existir> fosse originalmente percebido como <ter lugar no mundo>.”
(2) “Enquanto a narrativa tende a ser mimética, o discurso pretende ser efetivo, prático.”
“Lingüisticamente, a diferença entre narrativa e discurso aparece sobretudo nos modos verbais e nas pessoas envolvidas na ação verbal. O modo por excelência da narrativa é o indicativo, que retrata o acontecimento. A terceira pessoa – que pode ser todo o mundo fora da relação emissor-receptor – é a que mais aparece.
No Proêmio, são usados o presente e o aoristo do indicativo – os tempos por excelência da narrativa. A pessoa verbal mais usada é a terceira – isto, apesar de a personagem que mais aparece ser o próprio narrador! O narrador, em vez de aparecer como sujeito dos verbos, aparece quase sempre como objeto direto ou, no máximo, como um sujeito de um verbo na voz passiva (vs. 4).”
“No discurso, por outro lado, aparecem os demais modos verbais: optativo, subjuntivo, imperativo etc. (…) As principais pessoas usadas são a primeira (eu – nós), para desejos, pedidos, preces; e a segunda (tu – vós), para orientações, persuasões, comandos”
“A verdade, como a fala da Deusa, justamente por abrir-se de forma discursiva, revela um tom prescritivo, prático e ético. Não é à toa que os caminhos que levam até a entrega da lição verdadeira são promovidos por Thémis (Norma, Lei divina) e Díke (Justiça)”
“Este infinitivo usado para completar expressões modais é chamado por Chantraine de infinitivo <completivo>; nessas expressões, os verbos que o precedem são auxiliares modais de necessidade, possibilidade e outras modulações do real e das intenções sobre o real.”
“presença dos pronomes pessoais sujeitos, fato que, no grego, só acontece para marcar uma ênfase na presença, na diferença e na relação interpessoal:
(…)
Pois bem, agora vou eu falar, e tu, presta atenção ouvindo a palavra.”
“Poderíamos antever até mesmo os primeiros passos para chegar à estrutura discursiva dos Diálogos de Pl., onde o conhecimento é tratado na interlocução viva das personagens, se não fosse aqui somente a Deusa quem fala e o homem quem apenas escuta.”
“para o viajante iluminado, a transposição da ação primeira de narrador para a seguinte de ouvinte já insinua a atitude de <philía amorosa> do filósofo ante a verdade e o conhecimento, do filósofo como amante atento e obediante ao saber”
“São a pensar”
(3) “fórmula exortativa equivalente a <é preciso que…>” “Os caminhos não <existem> simplesmente e estão <disponíveis>, mas <devem> ser pensados!”
“Há um deslocamento do peso semântico para a força sintática, esta se torna mais concreta enquanto aquele tende a se abstrair.”
“Estamos no campo de um discurso que não tem uma sintaxe normativa a obedecer, que está a falar de coisas novas, de um modo que também acaba por ser inaudito”
“Wrublewski:
<…necessariamente não ser é.>
Bornheim:
<…o não-ser é necessário> [neSERsário]
Cavalcante de Souza:
<…e portanto…é preciso não ser.>
Mourão:
<…ser proibido>
Trindade Santos:
<…não é para não ser
…tem de não ser>”
“A tradução de Wrublewski como também a de Bornheim conferem às sentenças aquela frieza tautológica de que fala Nie. em seu comentário sobre o caráter de Pm..”
“Mourão (…) é paráfrase (…) Cavalcante de Souza introduz um sentido de inferência lógica (…) A tradução de Trindade Santos é a única que atenta para o tom exortativo da deusa.”
“onde está o verbo enunciativo? A maioria das traduções tende a acrescentar este verbo nos versos em que ele não existe”
“Estamos, de fato, diante de um momento decisivo para a instauração da ontologia, em que as formas do verbo eimí estão se mostrando em uma intensidade de possibilidades realmente ímpar.”
“pois o mesmo é pensar e ser”
“O mesmo é a pensar e portanto ser”
“denn dasselbe ist Denken und Sein”
O mesmo está-aí para ser pensado
“O infinitivo grego, por não declinar, deixa bastante aberto o campo de possibilidades”
“a sintaxe do Poema é sempre originariamenteprovedora de espanto e perplexidade”
“o que queremos observar é como o contexto discursivo vai deslocando o sentido primeiro existencial do verbo eimí ‘ser’, passando por sua forma auxiliar na construção modal, até possibilitar a estrutura da proposição categorial, como aquela que se tornará a forma do dizer verdadeiro” “toda análise frmal da sintaxe de uma fala é sempre tardia e dependente dos desempenhos efetivos da linguagem.”
“O sujeito da frase torna-se um objeto, a ação verbal desaparece numa função de cópula, o predicado torna-se simplesmente um atributo. E assim chegamos à objetividade inerte da proposição <S é P>.” “A forma semelhante entre o <é> exortativo e o <é> categorial trai uma relação íntima entre os 2 – relação, provavelmente, de parentesco em 1º grau.”
“A identidade entre ser e pensar não é um dado simples, mas o valor, o peso e até o critério do caminho verdadeiro.” “hoje estamos, cartesianamente, imersos na dúvida e preocupados em justificar o conhecimento e a verdade, enquanto para os primeiros filósofos muito mais estranho e preocupante não era o conhecimento do real e verdadeiro, mas a possibilidade indevida de dizer o não ser e o falso. Como algum dizer do ente pode dizer o não ente? Toda a tradição ático-eleata, de Pm. até seus sucessores mais <traidores>, como Górgias, Pl. e A. vão debruçar-se sobre este problema.”
“As coisas que, embora <ausentes>, estão, <no entanto, presentes firmemente em pensamento> não estão em certo aí, quando se afastam do ser; mas não estar aí simplesmente é, no entanto, revelado como um já sempre estar aí”
“Isto que nós chamamos de predicados ou categorias, a Deusa do Poema chama de <sinais>”
“O caminho da Verdade mostra o real.” < < < MENTIRA! A verdade é uma coquette…
“A. é bastante coerente ao designar as múltiplas formas de dizer o ente com o termo ‘categoria’ kategoría. O que é uma categoria no uso coloquial da língua grega no tempo de Pm.? É uma acusação. A palavra ‘categoria’ é a realização, no grego coloquial clássico do séc. V, da ação de acusar: kategoreîn, feita por um promotor acusador: ho kategorós.”
“Outro texto não por acaso igualmente exemplar é o diálogo Parmênides, entre outros de Pl.. Aliás, os diálogos de Pl. são um campo fertilíssimo para colher as mais diversas formas de linguagem tratadas com o maior refinamento. É por esta sua riqueza, ainda que para depreciá-la, que Nie. o chamou de filósofo de <caráter misto>. Dir-se-ia que Pl. quis competir, sempre à altura, com todos os demais gregos, em todas as possibilidades da palavra, em todos os seus gêneros – evidentemente, com sucesso.”
“Este uso presencial ou existencial, associado a um advérbio de lugar, não traz apenas o verbo eimí (ser), mas também o verbo ékho (ter), e seus correlatos em outras línguas. Daí expressões como <y avoir> no francês ou <i há> [!] no português arcaico. ‘Ser’ e ‘ter’, neste uso, são, de modo equivalente, verbos de estado. Cf. Benveniste, É., Problèmes de linguistique générale, 1966.”
“<der eine Weg, dass IST ist und dass Nichtsein nicht ist, […], der andere aber, dass NICHT IST ist und dass Nichtsein erforderlich ist> 28, B, 2 (DK)”
“[…] la première – comment il est et qu’il n’est pas possible qu’il ne soit pas […] La seconde, à savoir qu’il n’est pas et que le non-être est nécessaire […]” Beaufret, 1996
Hannah Arendt – revisão e apresentação de Adriano Correia, tradução de Roberto Raposo
DIC:
moulin: engenho
predicament/Verlegenheit: constrangimento
“O alemão Arbeit se aplicava originalmente apenas ao trabalho agrícola executado por servos, e não à obra do artesão, que era chamada Werk. O francês travailler substituiu o mais antigo labourer e deriva de tripalium, uma espécie de tortura. (cf. Grimm e Lucien Fèbre)” “o verbo werken é pouco utilizado, enquanto o substantivo Werk ainda é usual no vocabulário alemão corrente”
“Para a presente tradução foram consultadas com freqüência as traduções alemã (Vita activa – oder Vom tätigen Leben, Piper, 2007), francesa (Condition de l’homme moderne, trad. Georges Fradier, Calmann-Lévy, 2007) e espanhola (La condición humana, trad. Ramón Gil Novales, Paidós, 2005).”
“Nas últimas páginas da primeira edição de As origens do totalitarismo, Arendt faz uma referência peculiar ao conceito kantiano de <mal radical>, que teria surgido <em conexão com um sistema no qual todos os homens se tornaram igualmente supérfluos>.” “o mal absoluto contido na possibilidade de erradicação da pluralidade da face da Terra”
“Na última frase do livro, ela observa que <as soluções totalitárias podem bem sobreviver à queda dos regimes totalitários na forma de fortes tentações que surgirão sempre que parecer impossível aliviar a miséria política, social ou econômica de um modo digno do homem>.”
“julga que o totalitarismo é uma nova forma de dominação que representa a destruição do político”
“o desamparo organizado é consideravelmente mais perigoso que a impotência desorganizada de todos aqueles que são governados pela vontade tirânica e arbitrária de um único homem.”
“o início, antes de se tornar um evento histórico, é a suprema capacidade do homem (…) Initium ut esset homo creatus est – <para que houvesse um início o homem foi criado>, disse Agostinho (A cidade de Deus, Livro 12, cap. 20).” “Se Kant tivesse conhecido a filosofia da natalidade de Agostinho, provavelmente teria concordado que a liberdade da espontaneidade relativamente absoluta não é mais embaraçosa para a razão humana do que o fato de os homens nascerem – continuamente recém-chegados a um mundo que os precede no tempo.” “Os homens, como entes do mundo, são politicamente não seres para a morte, mas permanentes afirmadores da singularidade que o nascimento inaugura.”
“no plano teórico, ao conceber o trabalho como criador de todos os valores e glorificar a atividade tradicionalmente mais desprezada, Karl Marx teria apenas radicalizado as posições de Adam Smith, para quem o trabalho era o criador de toda riqueza, e de John Locke, para quem o trabalho era a fonte do direito de propriedade.”
“O trabalho, entretanto, é uma <atividade na qual o homem não está junto ao mundo nem convive com os outros, mas está sozinho com seu corpo ante a pura necessidade de manter-se vivo>, e justamente por isso é radicalmente antipolítica.”
“Para Arendt, <a mais séria lacuna em As origens do totalitarismo é a ausência de uma análise conceitual e histórica adequada do pano de fundo ideológico do bolchevismo. Essa omissão foi deliberada. (…) O racismo e o imperialismo, o nacionalismo tribal dos pan-movimentos e o antissemitismo não mantinham relação com as grandes tradições filosóficas e políticas do Ocidente. A aterradora originalidade do totalitarismo (…) é facilmente negligenciada se se enfatiza demasiadamente o único elemento que tem atrás de si uma tradição respeitável e cuja discussão crítica requer a crítica de alguns dos mais importantes preceitos da filosofia política ocidental: o Marxismo>, apud Jerome Kohn” “Arendt afirma em Entre o passado e o futuro, que <a tradição de nosso pensamento político teve seu início definido nos ensinamentos de Platão e Aristóteles. Creio que ela chegou a um fim não menos definido nas teorias de Karl Marx>, que manifestavam a intenção de abjurar a filosofia e buscar realizá-la na política.” “a ruptura de Marx com a tradição da filosofia, partindo da theoria ou contemplação em direção à práxis, não foi tão profunda, uma vez que não se traduziu em uma recusa da compreensão da práxis como poiesis; da ação como fabricação, nem redundou no reconhecimento da dignidade própria ao domínio político.”
“Elizabeth Young-Bruehl, na sua ainda definitiva biografia sobre Arendt” “Conferir ainda a carta a Martin Heidegger, de 8 de maio de 1954 (Hannah Arendt/Martin Heidegger – correspondência: 1925-1975, Relume-Dumará, 2001).” Curiosidade supérflua: a correspondência entre H.A. e M.H. abrange, como se pode ver, 50 anos. A correspondência entre H.A. e Karl Jaspers abrange 43 anos.
“Arendt distingue o mundo moderno, que teria começado politicamente com as explosões atômicas, da era moderna, que começou cientificamente no século XVII e terminou no limiar do século XX.”
“Enredada no ciclo de esgotamento e regeneração que preside os processos corporais, a atividade do trabalho experimenta o tempo como um contínuo devir de processos circulares. (…) Esses produtos não demoram no mundo tempo suficiente para formarem parte dele nem desfrutam da durabilidade necessária para transcender o tempo de vida de seus produtores – o trabalho jamais transcende a vida.”
“a redenção da vida, sustentada pelo trabalho, é a mundanidade, sustentada pela fabricação.”
“A despeito de conceber seus produtos no isolamento, ou na companhia de poucos ajudantes ou aprendizes, o homo faber, na medida em que também visa a exibir e trocar seus produtos, acaba por instaurar como lugar de reunião um mercado de trocas, externo ao espaço de produção e à atividade da fabricação (…), mas ainda assim uma extensão sua. (…) <ao contrário do animal laborans, cuja vida social é sem mundo e gregária, e que, portanto, é incapaz de construir ou habitar domínio público, mundano, o homo faber é perfeitamente capaz de ter um domínio público próprio, embora não possa ser um domínio político propriamente dito>. O homo faber, como fabricante de coisas e produtor do mundo, relaciona-se com os outros como homo faber apenas no mercado de trocas no qual exibe seus produtos. [Facebook, Twitter, WordPress e Recanto das Letras!] (…) Arendt assinala que já entre os antigos gregos e romanos os artífices constituíam uma comunidade a ocupar o limiar em que os produtos privados têm de ser exibidos em público e o espaço público é ocupado de um modo a-político” “O utilitarismo sistemático, que Hannah Arendt julga ser, por excelência, a filosofia do homo faber, engendra como seu inelutável efeito colateral a completa ausência de significado.”
“<vemos agora surgir, de várias maneiras, a cultura de uma sociedade em que o comércio é a alma, assim como a peleja individual para os antigos gregos, e a guerra, a vitória e o direito para os romanos.> Nietzsche, Aurora (aforismo 175)”
“No final de Sobre a revolução, ela menciona o trecho de Édipo em Colono, no qual se traduz a sabedoria de Sileno, o sátiro companheiro de Dioniso: <não ter nascido se sobrepõe a todo significado revelado em palavras; de longe, a segunda melhor coisa para a vida, uma vez que ela tenha aparecido, é retornar o mais rapidamente possível para o lugar de onde veio.>”
A vida só começa aos -273º
“se a soberania e a liberdade fossem realmente a mesma coisa, nenhum homem poderia ser livre, pois a soberania, o ideal da inflexível autossuficiência e autodomínio, contradiz a própria condição da pluralidade.”
“Essa ocorrência simultânea de liberdade com não soberania parece indicar que a existência humana é mesmo absurda e que Platão teria razão ao recomendar que não levássemos muito a sério o domínio dos assuntos humanos, pois aí operamos como marionetes de algum deus.”
“quanto temos de transformar as vidas privadas dos pobres?”
“homem – diz ela – é a-político. A política surge no entre-os-homens: portanto, totalmente fora dos homens. Por conseguinte, não existe nenhuma substância política original.”
Agamben – L’aperto: l’uomo e l’animale
Homo sacer – o poder soberano e a vida nua
“o animal laborans jamais poderia dizer, como Maquiavel o fez mais de uma vez: <amo mais Florença que minha vida ou a salvação da minha alma>”
* * *
“Esse homem futuro, que os cientistas nos dizem que produzirão em menos de um século, parece imbuído por uma rebelião contra a existência humana tal como ela tem sido dada – um dom gratuito vindo de lugar nenhum (secularmente falando) que ele deseja trocar, por assim dizer, por algo produzido por ele mesmo. Não há razão para duvidar de que sejamos capazes de realizar tal troca, assim como não há motivo para duvidar de nossa atual capacidade de destruir toda vida orgânica na Terra. A questão é apenas se desejamos usar nessa direção nosso novo conhecimento científico e técnico, e essa questão não pode ser decidida por meios científicos; é uma questão política de primeira grandeza, cuja decisão, portanto, não pode ser deixada a cientistas profissionais ou a políticos profissionais.” (1957)
“Se for comprovado o divórcio entre o conhecimento (no sentido moderno de conhecimento técnico [know-how]) e o pensamento, então passaríamos a ser, sem dúvida, escravos indefesos, não tanto de nossas máquinas quanto de nosso conhecimento técnico, criaturas desprovidas de pensamento à mercê de qualquer engenhoca tecnicamente possível, por mais mortífera que seja.”
“atualmente as ciências são forçadas a adotar uma <linguagem> de símbolos matemáticos que, embora originariamente concebida apenas como uma abreviação de afirmações enunciadas, contém agora afirmações que de modo algum podem ser retraduzidas em discurso.”
“É uma sociedade de trabalhadores a que está para ser liberada dos grilhões do trabalho, uma sociedade que já não conhece aquelas outras atividades superiores e mais significativas em vista das quais essa liberdade mereceria ser conquistada.” “Até presidentes, reis e primeiros-ministros concebem seus cargos como um emprego necessário à vida da sociedade, e, entre os intelectuais, restam somente indivíduos solitários que consideram o que fazem como uma obra, e não como meio de ganhar o próprio sustento.”
Não houve um Adão nem uma Eva no reino animal.
“A pluralidade é a condição da ação humana porque somos todos iguais, isto é, humanos, de um modo tal que ninguém jamais é igual a qualquer outro que viveu, vive ou viverá.”
PONTADA NO “MARIDO TRANSATLÂNTICO”: “Além disso, como a ação é a atividade política por excelência, a natalidade, e não a mortalidade, pode ser a categoria central do pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico.”
“Tudo o que adentra o mundo humano por si próprio, ou para ele é trazido pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. (…) por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem coisas, e estas seriam um amontoado de artigos desconectados, um não-mundo, se não fossem os condicionantes da existência humana.” “A mudança mais radical da condição humana que podemos imaginar seria uma emigração dos homens da Terra para algum outro planeta. (…) O trabalho, a obra, a ação e, na verdade, mesmo o pensamento, como o conhecemos, deixariam de ter sentido. No entanto, até esses hipotéticos viajores da Terra ainda seriam humanos; mas a única afirmativa que poderíamos fazer quanto à sua <natureza> é que são ainda seres condicionados, embora sua condição seja agora, em grande parte, produzida por eles mesmos.”
“a quaestio mihi factus sum (<a questão que me tornei para mim mesmo> de Agostinho” “Ag., geralmente considerado o primeiro a levantar a chamada questão antropológica na filosofia” “tu, quis es? [Confissões, x. 6]” “<O que sou então, meu Deus? Qual é a minha natureza?> – Quid ergo sum, Deus meus? Quae natura sum? [x. 17]. Pois no <grande mistério>, no grande profundum [iv. 14], há <algo do homem [aliquid hominis] que o espírito do homem que nele está não sabe. Mas tu, Senhor, que o fizeste [fecisti eum], tudo sabes a seu respeito [eius omnia]> [x. 5]” “A questão da natureza do homem é uma questão teológica tanto quanto a questão da natureza de Deus; ambas só podem ser resolvidas dentro da estrutura de uma resposta divinamente revelada.” “as tentativas de definir natureza humana resultam quase invariavelmente na construção de alguma deidade, isto é, no deus dos filósofos que, desde Platão, revela-se, em um exame mais acurado, como uma espécie de idéia platônica do homem. Naturalmente, desmascarar tais conceitos filosóficos do divino como conceitualizações das capacidades e qualidades humanas não é uma demonstração da não-existência de Deus, e nem mesmo constitui argumento nesse sentido”
RESUMO DA TESE DO LIVRO: “as condições da existência humana – a vida, a natalidade e a mortalidade, a mundanidade, a pluralidade e a Terra – jamais podem <explicar> o que somos ou responder à pergunta sobre quem somos, pela simples razão de que jamais nos condicionam de modo absoluto. Essa sempre foi a opinião da filosofia em contraposição às ciências (antropologia, psicologia, biologia, etc.) que também se ocupam do homem. Mas hoje podemos quase dizer que já demonstramos, mesmo cientificamente, que, embora vivamos sob condições terrenas, e provavelmente viveremos sempre, não somos meras criaturas terrenas. A moderna ciência natural deve os seus maiores triunfos ao fato de ter considerado e tratado a natureza terrena de um ponto de vista verdadeiramente universal, isto é, de um ponto de vista arquimediano escolhido, voluntária e explicitamente, fora da Terra.”
“o artesão, ao fazer um contrato de trabalho, abria mão de 2 dos 4 elementos de seu status de homem livre (a saber, liberdade de atividade econômica e direito de movimentação irrestrista), mas por vontade própria e temporariamente”
Westermann
“o modo de vida do déspota, pelo fato de ser <meramente> uma necessidade, não podia ser considerado livre e nada tinha a ver com o bios politikos.”
“Com o desaparecimento da antiga cidade-Estado, o bios theoretikos, traduzido como vita contemplativa, era agora o único modo de vida realmente livre.
Contudo, a enorme superioridade da contemplação sobre qualquer outro tipo de atividade, inclusive a ação, não é de origem cristã.” “a posterior pretensão dos cristãos de serem livres de envolvimento em assuntos mundanos, de todos os negócios deste mundo, foi precedida pela apolitia filosófica da Antiguidade tardia, e dela se originou.”
“A palavra grega skhole, como a latina ocium, significa basicamente isenção de atividade política e não simplesmente lazer, embora ambas sejam também usadas para indicar isenção do trabalho e das necessidades da vida. De qualquer modo, indicam sempre uma condição de liberação de preocupações e cuidados.”
Fustel de Coulanges – A cidade antiga
“Todo movimento, os movimentos do corpo e da alma, bem como do discurso e do raciocínio devem cessar diante da verdade. Esta, seja a antiga verdade do Ser ou a verdade cristã do Deus vivo, só pode revelar-se em meio à completa tranqüilidade humana. Tomás de Aquino ressalta a tranqüilidade da alma, e recomenda a vida activa porque ela extenua e, portanto, <aquieta as paixões interiores> e prepara para a contemplação (Suma teológica, ii. 2. 182. 3).”
“Até o início da era moderna, a expressão vita activa jamais perdeu sua conotação negativa de <in-quietude>, nec-octium, a-skholia.”
“nenhuma obra de mãos humanas pode igualar em beleza e verdade o kosmos físico, que revolve em torno de si mesmo, em imutável eternidade, sem qualquer interferência ou assistência externa” “Do ponto de vista da contemplação, não importa o que perturba a necessária quietude, mas que ela seja perturbada. § Tradicionalmente, portanto, a expressão vita activa recebe seu significado da vita contemplativa”
“der Bedürftigkeit eins lebendigen Köpers, an den die Kontemplation gebunden bleibt – à necessidade de um corpo vivo, ao qual a contemplação permanece vinculada”
“Agostinho fala do dever da caridade, que seria insuportável sem a <doçura> (suavitas) e o <deleite da verdade> obtido na contemplação (A cidade de Deus, xix. 19).”
títulos de livro: O ÔNUS DO ÓCIO
MÁSCARA DO MASCARADO
“O consagrado ressentimento do filósofo contra a condição humana de possuir um corpo não é a mesma coisa que o antigo desprezo pelas necessidades da vida; a sujeição à necessidade era apenas um dos aspectos da existência corpórea, e uma vez libertado dessa necessidade o corpo era capaz daquela aparência pura que os gregos chamavam de beleza.”
“se o uso da expressão vita activa, como aqui o proponho, está em manifesta contradição com a tradição, é que duvido não da validade da experiência subjacente à distinção, mas antes da ordem hierárquica inerente a ela desde o início.” “o enorme valor da contemplação na hierarquia tradicional embaçou as diferenças e articulações no âmbito da própria vita activa (…) a despeito das aparências, essa condição não foi essencialmente alterada pelo moderno rompimento com a tradição nem pela inversão final da sua ordem hierárquica, em Marx e Nietzsche. A estrutura conceitual permaneceu mais ou menos intacta, e isso se deve à própria natureza do ato de <virar de cabeça para baixo> os sistemas filosóficos ou os valores atualmente aceitos, isto é, à natureza da própria operação.” Agora, dá a mão a Heidegger.
“o sábio estóico deixou de ser um cidadão do seu país e passou a ser um cidadão do universo.”
“Ao discutir formas asiáticas de adoração e as crenças em um Deus invisível, Heródoto menciona explicitamente que, em comparação com esse Deus transcendente (como diríamos hoje), situado além do tempo, da vida e do universo, os deuses gregos eram antropophyeis, i.e., tinham a mesma natureza e não apenas a mesma forma do homem.” “Os homens são <os mortais>, as únicas coisas mortais que existem, porque, ao contrário dos animais, não existem apenas como membros de uma espécie cuja vida imortal é garantida pela procriação.” “Essa vida individual difere de todas as outras coisas pelo curso retilíneo do seu movimento, que, por assim dizer, trespassa o movimento circular da vida biológica.”
“Homero ainda não conhece a palavra pragmata, que em Platão (ta ton anthropon pragmata) é mais bem traduzida como <negócios humanos> e tem a conotação de inquietação e futilidade.”
“só os melhores (os aristoi), que constantemente provam serem os melhores (aristeuein, verbo que não tem equivalente em nenhuma outra língua) e que <preferem a fama imortal às coisas mortais>, são realmente humanos” “Essa era ainda a opinião de Heráclito, opinião da qual dificilmente se encontra equivalente em qualquer filósofo depois de Sócrates.” “é somente em Platão que a preocupação com o eterno e a vida do filósofo são vistas como inerentemente contraditórias e em conflito com a luta pela imortalidade, que é o modo de vida do cidadão, o bios politikos.”
“nunc stans (<aquilo que é agora>)”
“Politicamente falando, se morrer é o mesmo que <deixar de estar entre os homens>, a experiência do eterno é uma espécie de morte, e a única coisa que a separa da morte real é que ela não é definitiva, porque nenhuma criatura viva pode suportá-la durante muito tempo.”
“A queda do Império Romano demonstrou claramente que nenhuma obra de mãos mortais pode ser imortal”
“nem mesmo a ascendência do secular na era moderna e a concomitante inversão da hierarquia tradicional entre ação e contemplação foram suficientes para resgatar do oblívio a procura da imortalidade”
“nem um animal nem um deus é capaz de ação: o bardo canta feitos de deuses e homens, não histórias de deuses e histórias de homens. De modo análogo, a Teogonia de Hesíodo trata não dos feitos dos deuses, mas da gênese do mundo (116)”
“Essa reação especial entre e ação e estar junto parece justificar plenamente a antiga tradução zoon politikon de Aristóteles como animal socialis, que já encontramos em Sêneca e depois, com Tomás de Aquino, tornou-se a tradução consagrada: homo est naturaliter politicus, id est, socialis. Melhor que qualquer teoria elaborada, essa substituição inconsciente do político pelo social revela até que ponto havia sido perdida a original compreensão grega da política. É significativo, mas não decisivo, que a palavra <social> seja de origem romana e não tenha equivalente na língua ou no pensamento gregos.” “somente com o ulterior conceito de uma societas generis humani, uma <sociedade da espécie humana>, é que o termo <social> começa adquirir o sentido geral de condição humana fundamental.”
“Ou a cidade desagregava a família, com o tempo, ou não poderia perdurar” Fustel de Coulanges “Não só o abismo entre o lar e a cidade era muito mais profundo na Grécia do que em Roma, mas somente na Grécia a religião olímpica, que era a religião de Homero e da cidade-Estado, era separada da religião mais antiga da família e do lar, e superior a esta. Enquanto Vesta, a deusa da lareira, passou a ser a protetora de uma <lareira da cidade> e tornou-se parte do culto político oficial após a unificação e segunda fundação de Roma, sua equivalente grega”
“A tradução literal das últimas linhas de Antígona (1350-54) é a seguinte: <Mas as grandes palavras, neutralizando (ou revidando) os grandes golpes dos soberbos, ensinam a compreensão na velhice.> O conteúdo dessas linhas é tão enigmático para a compreensão moderna que raramente se encontra um tradutor que ouse dar a elas seu sentido estrito. Uma exceção é a tradução de Hölderlin: <Grosse Blicke aber, / Grosse Streiche der hohen Schultern / Vergeltend, / Sie haben im Alter gelehrt, zu denken.> Uma anedota contada por Plutarco ilustra, em nível muito menos elevado, a ligação entre agir e falar. Certa vez, um homem aproximou-se de Demóstenes e disse o quanto foi violentamente espancado. <Mas>, disse Demóstenes, <não sofreste nada do que estás me dizendo>. O outro levantou a voz em seguida e exclamou: <Eu não sofri nada?><Agora>, disse Demóstenes, <escuto a voz de quem foi ofendido e sofreu> (Vidas, <Demóstenes>). Um último vestígio dessa antiga conexão entre o discurso e o pensamento, ausente em nossa noção de exprimir o pensamento por meio de palavras, pode ser encontrado na popular frase de Cícero: ratio et oratio.”
“a maioria das ações políticas, na medida em que permanecem fora da esfera da violência, são realmente realizadas por meio de palavras; mais fundamentalmente, o ato de encontrar as palavras certas no momento certo, independentemente da informação ou comunicação que transmitem, constitui uma ação.” “Na pólis, a ação e o discurso separaram-se e tornaram-se atividades cada vez mais independentes. (…) Característico desse desdobramento é o fato de que todo político era chamado de <rétor> e que a retórica, a arte de falar em público, em oposição à dialética, que era a arte do discurso filosófico, era definida por Aristóteles como a arte da persuasão (cf. Retórica, 1354a12ss., 1355b26ss.). (A distinção, aliás, vem de Platão, Górgias, 448.) É nesse sentido que devemos compreender a opinião grega acerca do declínio de Tebas, atribuído ao fato de terem os tebanos abandonado a retórica em favor do exercício militar (veja-se Jacob Burckhardt, Griechische Kulturgeschichte, ed. Kroener, III, 190).”
“Ser político, viver em uma pólis, significava que tudo era decidido mediante palavras e persuasão, e não força e violência. Para os gregos, forçar pessoas mediante violência, ordenar ao invés de persuadir, eram modos pré-políticos de lidar com as pessoas típicos da vida fora da pólis, característicos do lar e da vida em família, em que o chefe da casa imperava com poderes incontestes e despóticos, ou da vida nos impérios bárbaros da Ásia, cujo despotismo era freqüentemente comparado à organização doméstica.” rePOLInização familiar
“A antiga liberdade do cidadão romano desapareceu quando os imperadores romanos adotaram o título de dominus, <ce nom qu’Auguste et que Tibère encore repoussaient comme une malédiction et une injure> (H. Wallon, Histoire de l’esclavage dans l’antiquité (1847), III, 21).”
“O pensamento político que corresponde a esse desdobramento já não é a ciência política, e sim a <economia nacional> ou a <economia social>” “Assim, é-nos difícil compreender que, segundo o pensamento dos antigos sobre esses assuntos, o próprio termo <economia política> teria sido contraditório: pois o que fosse <econômico>, relacionado com a vida do indivíduo e a sobrevivência da espécie, não era assunto político, mas doméstico por definição.”
“Não pretendemos negar com isso que o Estado-nação e sua sociedade surgiram do reino feudal e do feudalismo, em cuja estrutura a família e a casa têm importância jamais igualada na Antiguidade Clássica. A <nação> medieval era um conglomerado de famílias”
“Coulanges vê na lei ateniense que tornou dever filial sustentar os pais a prova da perda do poder paterno. Contudo, o poder paterno só era limitado quando entrava em conflito com os interesses da cidade, e nunca em benefício do membro da família como indivíduo. Assim, a prática de vender crianças e enjeitar [deserdar] filhos pequenos foi exercida durante toda a Antiguidade (cf. R.H. Barrow, Slavery in the Roman Empire (1928))”
“O que impediu a pólis de violar as vidas privadas dos seus cidadãos, e a fez ver como sagrados os limites que cercavam cada propriedade, não foi o respeito pela propriedade privada como a conhecemos, mas o fato de que, sem possuir uma casa, um homem não podia participar dos assuntos do mundo porque não tinha nele lugar algum que fosse propriamente seu. Até Platão, cujos planos políticos previam a abolição da propriedade privada e a expansão da esfera pública ao ponto de aniquilar completamente a vida privada, ainda falava com grande reverência de Zeus Herkeios, o protetor das fronteiras, e chamava de divinos os horoi, os limites entre os Estados, sem nisso ver qualquer contradição. É interessante notar que havia cidades gregas onde os cidadãos eram obrigados por lei a dividir entre si suas colheitas e consumi-las em comum, embora cada um deles tivesse propriedade absoluta e inconteste do seu pedaço de terra.”
“a violência é o ato pré-político de liberar-se da necessidade da vida para conquistar a liberdade no mundo.” “ser um escravo significava estar sujeito, também, à violência praticada pelo homem. Essa <infelicidade> dupla e redobrada da escravidão é inteiramente independente do efetivo bem-estar subjetivo do escravo. Assim, um homem livre e pobre preferia a insegurança de um mercado de trabalho que mudasse diariamente a uma ocupação regular e garantida; esta última, por lhe restringir a liberdade de fazer o que desejasse a cada dia, já era considerada servidão (douleia), e até o trabalho árduo e penoso era preferível à vida tranqüila de muitos escravos domésticos. (…) vd. Xenofonte – Memorabilia (ii.8)”
“Ser livre significava nem governar nem ser governado. Segundo Coulanges, todas as palavras gregas e latinas que exprimem algum tipo de governo de um homem sobre os outros, como rex, pater, anax, basileus, referiam-se originariamente a relações domésticas e eram nomes que os escravos davam a seus senhores.”
“A igualdade, portanto, longe de estar ligada à justiça, como nos tempos modernos, era a própria essência da liberdade” Finalmente um lugar para aplicar o lema francês.
“Em alemão, a palavra Volkswirtschaftslehre sugere que existe um sujeito coletivo da atividade econômica”
“O que continua a ser surpreendente é que tenha sido Maquiavel o único teórico político pós-clássico que, em um extraordinário esforço para restaurar a antiga dignidade da política, percebeu o abismo e compreendeu até certo ponto a coragem necessária para transpô-lo, que o descreveu na elevação <do Condottiere de uma baixa posição para um alto posto> vd. Discursos, Livro II, Cap. 13.”
“<Já no tempo de Sólon, a escravidão era considerada pior que a morte> (Robert Schlafer, <Greek theories of slavery from Homer to Aristotle>, Harvard studies in classical philology (1936), 47.)” “convém lembrar que a maioria dos escravos era de inimigos derrotados. E os escravos gregos eram geralmente da mesma nacionalidade que os seus senhores; haviam demonstrado sua natureza escrava por não terem cometido suicídio e, como a coragem era a virtude política par excellence, haviam demonstrado com isso sua indignidade <natural>. A atitude em relação aos escravos mudou no Império Romano, não só devido à influência do estoicismo, mas porque uma proporção muito maior da população escrava era escrava de nascimento.”
“Era <[vida] boa> exatamente porque, tendo dominado as necessidades do mero viver, tendo se libertado do trabalho e da obra e superado o anseio inato de sobrevivência comum a todas as criaturas vivas, deixava de ser limitada ao processo biológico da vida.” !!!
“O primeiro eloqüente explorador da intimidade e, até certo ponto, o seu teórico foi Jean-Jacques Rousseau, que, de modo bastante característico, é o único grande autor ainda citado freqüentemente pelo primeiro nome.” “A intimidade do coração, ao contrário do lar privado, não tem lugar objetivo e tangível no mundo, e a sociedade contra a qual ela protesta e se afirma não pode ser localizada com a mesma certeza que o espaço público.”
“A observação de Sêneca, que, ao discutir a utilidade de ter escravos altamente instruídos (que sabem de cor todos os clássicos) para um senhor supostamente um tanto ignorante, comenta: <O que a casa sabe, o senhor sabe> (Ep. 27:6, citado por Barrow).”
“o domínio público era reservado à individualidade; era o único lugar em que os homens podiam mostrar quem realmente eram e o quanto eram insubstituíveis.”
“É o mesmo conformismo, a suposição de que os homens se comportam ao invés de agir em relação aos demais, que está na base da moderna ciência da economia, cujo nascimento coincidiu com surgimento da sociedade e que, juntamente com seu principal instrumento técnico, a estatística, se tornou a ciência social por excelência.” “A economia clássica pressupunha que o homem, na medida em que é um ser ativo, age exclusivamente por interesse próprio e é movido por um único desejo, o desejo de aquisição. A introdução, por Adam Smith, de uma <mão invisível para promover um fim que não fazia parte da intenção (de ninguém)> demonstra que mesmo esse mínimo de ação, com a sua motivação uniforme, contém ainda demasiada iniciativa imprevisível para o estabelecimento de uma ciência. Marx desenvolveu a economia clássica mais ainda ao substituir os interesses individuais e pessoais por interesses de grupo ou de classe, e ao reduzir esses interesses de classe a duas classes principais, de capitalistas e operários, de sorte que só lhe restou um conflito em que a economia clássica enxergava uma multidão de conflitos contraditórios. O motivo pelo qual o sistema econômico de Marx é mais consistente e coerente, e, portanto, aparentemente muito mais <científico> que os de seus predecessores, reside primordialmente na construção do <homem socializado>, que é um ser ainda menos ativo que o <homem econômico> da economia liberal.”
“Aplicar à política ou à história a lei dos grandes números e dos longos períodos equivale a obliterar voluntariamente o próprio objeto dessas duas” “Politicamente, isso significa que, quanto maior é a população de qualquer corpo político, maior é a probabilidade de que o social, e não o político, constitua o domínio público. Os gregos, cuja cidade-Estado foi o corpo político mais individualista e menos conformista que conhecemos, tinham plena consciência do fato de que a pólis, com a sua ênfase na ação e no discurso, só poderia sobreviver se o número de cidadãos permanecesse restrito. Grandes números de pessoas amontoadas desenvolvem uma inclinação quase irresistível na direção do despotismo, seja o despotismo de uma pessoa ou o do governo da maioria” Imagine só 9 bilhões de Aloísios…
“Estatisticamente, isso resulta em um declínio da flutuação. (…) A uniformidade estatística não é de modo algum um ideal científico inócuo; é sim o ideal político, não mais secreto, de uma sociedade que, inteiramente submersa na rotina da vida cotidiana, aceita pacificamente a concepção científica inerente à sua própria existência.”
“Não Karl Marx, mas os próprios economistas liberais tiveram de introduzir a <ficção comunista>, i.e., supor a existência de um único interesse da sociedade como um todo, que com <uma mão invisível> guia o comportamento dos homens e produz a harmonia de seus interesses conflitantes.”
Myrdal – The political element in the development of economic theory
“O que Marx não compreendeu – e em seu tempo seria impossível compreender – é que os germes da sociedade comunista estavam presentes na realidade de um lar nacional, e o que atravancava o completo desenvolvimento dela não era qualquer interesse de classe como tal, mas somente a já obsoleta estrutura monárquica do Estado-nação.”
“O que tradicionalmente chamamos de Estado e de governo cede lugar aqui à mera administração – um estado de coisas que Marx previu corretamente como o <definhamento do Estado>, embora estivesse errado ao presumir que somente uma revolução pudesse provocá-lo, e mais errado ainda quando acreditou que essa completa vitória da sociedade significaria o eventual surgimento do <reino da liberdade>.”
“a economia, que altera padrões de comportamento somente nesse campo bastante limitado da atividade humana, foi finalmente sucedida pela pretensão oniabrangente das ciências sociais, que, como <ciências do comportamento>, visam a reduzir o homem como um todo, em todas as suas atividades, ao nível de um animal comportado e condicionado. Se a economia é a ciência da sociedade em suas primeiras fases, quando suas regras de comportamento podiam ser impostas somente a determinados setores da população e a uma parcela de suas atividades, o surgimento das <ciências do comportamento> indica claramente o estágio final desse desdobramento, quando a sociedade de massas já devorou todas as camadas da nação e o <comportamento social> converteu-se em modelo de todas as áreas da vida.”
“Todas as palavras européias para <trabalho> – o latim e o inglês labor, o grego ponos, o francês travail, o alemão Arbeit – significam dor e esforço e são usadas também para as dores do parto. Labor tem a mesma raiz etimológica que labare (<cambalear sob uma carga>); ponos e Arbeit têm as mesmas raízes etimológicas que <pobreza> (penia em grego e Armut em alemão). Mesmo Hesíodo, tido como um dos poucos defensores do trabalho na Antiguidade, via ponon alginoenta (<o trabalho penoso>) como o primeiro dos males que atormentavam os homens (Teogonia, 226). Quanto ao uso grego, conferir G. Herzog-Hauser, Ponos, em Pauly-Wissowa. As palavras alemãs Arbeit e arm derivam ambas do germânico arbma-, que significava solitário e desprezado, abandonado. Veja-se Kluge & Götze, Etymologisches Wörterbuch (1951). No alemão medieval, usam-se essas palavras para traduzir labor, tribulatio, persecutio, adversitas, malum (cf. Klara Vontobel, Das Arbeitsethos des deutschen Protestantismus (Dissertation, Berna, 1946)).”
“A tão citada observação de Homero – de que Zeus retira metade da excelência (areté) de um homem no dia em que ele sucumbe à escravidão (Odisséia, 17:320ss.) – é colocada na boca de Eumeu, ele mesmo um escravo, significando uma mera afirmação objetiva, e não uma crítica ou um julgamento moral. O escravo perde a excelência porque perde a admissão ao domínio público, onde a excelência pode se revelar.”
“Embora nos tenhamos tornado excelentes na atividade do trabalho que realizamos em público, a nossa capacidade de ação e de discurso perdeu muito de seu antigo caráter desde que a ascendência do domínio social baniu estes últimos para a esfera do íntimo e do privado. Essa curiosa discrepância não passou despercebida do público, que geralmente a atribui a uma suposta defasagem entre nossas capacidades técnicas e nosso desenvolvimento humanístico em geral, ou entre as ciências físicas, que alteram e controlam a natureza, e as ciências sociais, que ainda não sabem como alterar e controlar a sociedade.”
“Para nós, a aparência – aquilo que é visto e ouvido pelos outros e por nós mesmos – constitui a realidade. Em comparação com a realidade que decorre do ser visto e ouvido, mesmo as maiores forças da vida íntima – as paixões do coração, os pensamentos do espírito, os deleites dos sentidos – levam uma espécie de existência incerta e obscura, a não ser que, e até que, sejam transformadas, desprivatizadas e desindividualizadas, por assim dizer, de modo que assumam um aspecto adequado à aparição pública. Esse é também o motivo pelo qual é impossível <traçar o perfil de qualquer escravo que viveu […]. Até alcançarem a liberdade e a notoriedade, todos os escravos são tipos obscuros, mais que pessoas> (Barrow, Slavery in the Roman Empire, p. 156).”
“Goethe observou certa vez que envelhecer é <retirar-se gradualmente da aparência> (stufenweises Zurücktretenaus der Erscheinung); a verdade dessa observação, bem como o aspecto real desse processo de desaparecimento, tornam-se bastante tangíveis nos autorretratos dos grandes mestres quando velhos – Rembrandt, Leonardo, etc. –, nos quais a intensidade dos olhos parece iluminar e presidir uma carne que fenece.”
“Dada a sua inerente não-mundanidade (worldlessness), o amor só pode ser falsificado e pervertido quando utilizado para fins políticos, como a transformação ou a salvação do mundo.”
“O moderno encantamento com <pequenas coisas>, embora pregado pela poesia do início do século XX em quase todas as línguas européias, encontrou sua apresentação clássica no petit bonheur do povo francês. Desde o declínio de seu outrora vasto e glorioso domínio público, os franceses tornaram-se mestres na arte de serem felizes entre <pequenas coisas>, no espaço de suas quatro paredes, entre a cômoda e a cama, a mesa e a cadeira, entre o cachorro, o gato e o vaso de flores, estendendo a essas coisas um cuidado e uma ternura que, em um mundo onde a industrialização rápida extermina constantemente as coisas de ontem para produzir os objetos de hoje, podem até parecer o último recanto puramente humano do mundo.”
“Encontrar um vínculo entre as pessoas suficientemente forte para substituir o mundo foi a principal tarefa política da primeira filosofia cristã; e foi Agostinho quem propôs edificar sobre a caridade não apenas a <fraternidade> cristã, mas todas as relações humanas. Essa caridade, porém, muito embora a sua desmundanidade (worldlessness) corresponda claramente à experiência humana geral do amor, é ao mesmo tempo nitidamente diferente dele por ser algo que, como o mundo, está entre os homens”
“A não mundanidade como um fenômeno político só é possível com a premissa de que o mundo não durará; mas, com tal premissa, é quase inevitável que a não mundanidade venha, de uma forma ou de outra, a dominar a cena política. Foi o que sucedeu após a queda do Império Romano e parece estar ocorrendo novamente em nosso tempo – embora por motivos diferentes e de forma muito diversa, e talvez bem mais desalentadora.”
“Se o mundo deve conter um espaço público, não pode ser construído apenas para uma geração e planejado somente para os que estão vivos, mas tem de transcender a duração da vida de homens mortais.”
“nas condições modernas, é tão improvável que alguém aspire sinceramente à imortalidade terrena que possivelmente temos razão de ver nela apenas a vaidade.”
“o que importa não é que haja falta de admiração pública pela poesia e pela filosofia no mundo moderno, mas sim que essa admiração não constitui um espaço no qual as coisas são salvas da destruição pelo tempo.”
Verlassenheit
“embora a condição dos escravos fosse provavelmente um pouco melhor em Roma que em Atenas, é bastante característico que um escritor romano, Plínio, o Moço, tenha acreditado que, para os escravos, a casa do senhor era o mesmo que a res publica para os cidadãos.” “Essa atitude <liberal>, que podia, em certas circunstâncias, originar escravos muito prósperos e altamente educados, significou apenas que o fato de ser próspero não tinha qualquer realidade na pólis grega, e que ser filósofo não tinha muita importância na república romana.” “Os escravos romanos desempenharam um papel muito maior na cultura romana que o dos escravos gregos na Grécia, onde, por outro lado, o papel destes últimos na vida econômica foi muito mais importante (cf. Westermann, em Pauly-Wissova, p. 984).”
“Coulanges (A cidade antiga, Anchor, 1956) afirma: <O verdadeiro significado de familia é propriedade: designa o campo, a casa, dinheiro e escravos> (p. 107). Mas essa <propriedade> não é vista como vinculada à família; pelo contrário, <a família é vinculada ao lar, o lar é ligado ao solo> (p. 62). O importante é que <a fortuna é imóvel como o lar e o túmulo aos quais está vinculada. O homem é que se vai> (p. 74).”
“O peculium (as <posses privadas de um escravo>) podia representar somas consideráveis e mesmo incluir escravos próprios (vicarii). Barrow fala da <propriedade que mesmo o mais humilde de sua classe possuía> (Slavery in the Roman Empire, p. 122. Esta obra constitui a melhor descrição do papel do peculium).”
“Coulanges menciona uma observação de Aristóteles de que, nos tempos antigos, o filho não podia ser cidadão enquanto o pai estivesse vivo; quando este morria, somente o filho mais velho gozava de direitos políticos.”
“todos podiam participar dos mistérios, mas a ninguém era lícito falar deles.” Karl Kerenyi, Die Geburt der Helena (1943-45)
“a idéia de que a atividade política é fundamentalmente o ato de legislar, embora de origem romana, é essencialmente moderna e encontrou sua mais alta expressão na filosofia política de Kant”
“A palavra pólis tinha originariamente a conotação de algo como <muro-circundante> (ring-wall) e, ao que parece, o latim urbs exprimia também a noção de um <círculo> e derivava da mesma raiz de orbis. Encontramos a mesma relação na palavra inglesa <town>, que, originariamente, como o alemão Zaun, significava cerca (cf. R.B. Onians, The origins of European thought (1954), p. 444, n. 1).”
“Os <Livros dos Costumes> ingleses ainda traziam uma <nítida distinção entre o artífice e o cidadão livre, o franke homme da cidade. (…) Se um artífice se tornasse tão rico que desejasse vir a ser um homem livre, devia renegar a sua arte e desfazer-se de todos os seus instrumentos> (W.J. Ashley)”
“Caso o dono de uma propriedade preferisse ampliá-la ao invés de utilizá-la para viver uma vida política, era como se ele sacrificasse prontamente a sua liberdade e voluntariamente se tornasse aquilo que o escravo era contra sua vontade, ou seja, um servo da necessidade. Essa me parece ser a solução do <conhecido enigma com que se depara no estudo da história econômica do mundo antigo, o fato de ter a indústria se desenvolvido até certo ponto, mas tenha estancado inesperadamente de realizar o progresso que se podia esperar […], (considerando-se o fato de que) os romanos demonstravam eficiência e capacidade de organização em larga escala em outros setores, nos serviços públicos e no exército> (Barrow, op. cit., p. 109-110). Esperar a mesma capacidade de organização em questões privadas como em <serviços públicos> parece ser um preconceito devido às condições modernas. Max Weber, em seu notável ensaio (<Agrarverhältnisse im Altertum>, Gesammelte Aufsätze zur Sozial und Wirtschaftsgeschichte (1924)), já havia insistido sobre o fato de que as cidades antigas eram mais <centros de consumo que de produção>, e que o antigo proprietário de escravos era um <rentier e não um capitalista (Unternehmer)> (p. 13, 22 ss. e 144). A indiferença dos autores antigos no tocante a questões econômicas, aliada à falta de documentos a esse respeito, aumenta o peso do argumento de Weber.”
“Todas as histórias da classe operária, isto é, uma classe de pessoas completamente destituídas de propriedade e que vivem somente da obra de suas mãos, comportam o mesmo ingênuo pressuposto de que sempre existiu tal classe. Contudo, como vimos, nem mesmo os escravos eram destituídos de propriedade na Antiguidade, e geralmente se verifica que os chamados trabalhadores livres da Antiguidade não passavam de <vendeiros, negociantes e artífices livres> (Barrow, p. 126). M.E. Park (The plebs urbana in Cicero’s day (1921)) conclui, portanto, que não existiam trabalhadores livres, visto que o homem livre parecia ser sempre algum tipo de proprietário. W.J. Ashley resume a situação na Idade Média até o século XV: <Não existia ainda uma grande classe de assalariados, uma ‘classe operária’ no sentido moderno da expressão. Chamamos hoje de ‘operários’ a um grupo de homens entre os quais alguns indivíduos podem, realmente, ser promovidos a mestres, mas cuja maioria jamais pode esperar galgar uma posição mais alta. No século XIV, porém, trabalhar alguns anos como diarista era apenas um estágio pelo qual os homens mais pobres tinham que passar, enquanto a maioria provavelmente se estabelecia como mestre-artífice assim que terminava o aprendizado> (An introduction to English economic history and theory, p. 93-94).”
“Conferir o engenhoso comentário sobre a frase <a propriedade é um roubo> que ocorre na Théorie de la propriété, p. 209-210, de Proudhon, publicada postumamente, na qual ele apresenta a propriedade em sua <natureza egoísta e satânica> como o <meio mais eficaz de resistir ao despotismo sem derrubar o Estado>.”
“Logo que ingressou no domínio público, a sociedade assumiu o disfarce de uma organização de proprietários (property-owners), que, ao invés de requererem o acesso ao domínio público em virtude de sua riqueza, exigiram dele proteção para o acúmulo de mais riqueza.”
“Devo confessar que não vejo em que se baseiam os economistas liberais da sociedade atual (que hoje se chamam de conservadores) para justificar seu otimismo, quando afirmam que a apropriação privada de riqueza será bastante para proteger as liberdades individuais – ou seja, que desempenhará o mesmo papel da propriedade privada. Em uma sociedade de detentores de empregos, essas liberdades só estão seguras na medida em que são garantidas pelo Estado, e ainda hoje são constantemente ameaçadas, não pelo Estado, mas pela sociedade, que distribui os empregos e determina a parcela de apropriação individual.”
“É verdade que a riqueza pode ser acumulada a tal ponto que nenhuma vida individual será capaz de consumi-la, de sorte que a família, mais que o indivíduo, vem a ser sua proprietária. No entanto, a riqueza não deixa de ser algo destinado ao uso e ao consumo, não importa quantas vidas individuais ela possa sustentar. Somente quando a riqueza se transformou em capital, cuja função principal era gerar mais capital, é que a propriedade privada igualou ou avizinhou a permanência inerente ao mundo partilhado em comum.”
CABEÇALISMO: “Quanto à história da palavra <capital> como derivada do latim caput, que, na legislação romana, era empregada para designar o principal de uma dívida, veja-se W. J. Ashley, An introduction to English economic history and theory, p. 429 e 433, n. 183. Somente no século XVIII os autores passaram a empregar essa palavra no sentido moderno de <riqueza investida de forma a trazer proveito>.”
“A contradição óbvia desse moderno conceito de governo, em que a única coisa que as pessoas têm em comum são os seus interesses privados, já não deve nos incomodar como ainda incomodava Marx, pois sabemos que a contradição entre o privado e o público, típica dos estágios iniciais da era moderna, foi um fenômeno temporário que trouxe a completa extinção da diferença entre os domínios privado e público, a submersão de ambos na esfera do social.”
“A teoria econômica medieval ainda não concebia o dinheiro como denominador comum e como padrão, mas considerava-o como um dos consumptibiles.”
“a propriedade moderna perdeu seu caráter mundano e passou a situar-se na própria pessoa, isto é, naquilo que o indivíduo somente podia perder juntamente com a vida. Historicamente, a premissa de Locke, de que o trabalho do corpo de uma pessoa é a origem da propriedade, é mais que duvidosa: no entanto, dado o fato de que já vivemos em condições nas quais a única propriedade em que podemos confiar é o nosso talento e a nossa força de trabalho, é mais do que provável que ela venha a se tornar verdadeira.”
“A necessidade e a vida são tão intimamente aparentadas e conectadas que a própria vida é ameaçada quando se elimina totalmente a necessidade. (…) (As modernas discussões sobre a liberdade, nas quais esta última nunca é vista como um estado objetivo da existência humana, mas constitui um insolúvel problema de subjetividade, de uma vontade inteiramente indeterminada ou determinada, ou resulta da necessidade, evidenciam o fato de que já não se percebe uma diferença objetiva e tangível entre ser livre e ser forçado pela necessidade.) [Sartre]”
“a <socialização do homem> (Marx) é mais eficazmente realizada por meio da expropriação, mas esta não é a única maneira. Nesse, como em outros aspectos, as medidas revolucionárias do socialismo ou do comunismo podem muito bem ser substituídas por uma <decadência>, mais lenta, porém não menos certa, do domínio privado em geral e da propriedade privada em particular.” [!]
“Pierre Brizon, Histoire du travail et des travailleurs (4. ed., 1926), p. 184, quanto às condições de trabalho em uma fábrica do século XVII.”
“nec ulla magis res aliena quam publica”
“no instante em que uma boa obra se torna pública e conhecida, perde o seu caráter específico de bondade” “<Não dês tuas esmolas perante os homens, para seres visto por eles.> A bondade só pode existir quando não é percebida, nem mesmo por aquele que a faz; quem quer que se veja a si mesmo no ato de fazer uma boa obra deixa de ser bom (…) <Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua mão direita.>
Talvez seja essa curiosa qualidade negativa da bondade, a ausência de manifestação fenomênica exterior, o que torna o aparecimento de Jesus de Nazaré na história um evento tão profundamente paradoxal; certamente parece ser por isso que ele pensava e ensinava que nenhum homem pode ser bom: <Por que me chamais de bom? Ninguém é bom a não ser um, isto é, Deus.> A mesma convicção se expressa no relato talmúdico dos 36 homens justos, em atenção aos quais Deus salva o mundo (…) Isso nos lembra a grande percepção de Sócrates de que nenhum homem pode ser sábio, da qual nasceu o amor à sabedoria, ou filo-sofia”
“Sempre houve tentativas de dar vida ao que jamais pode sobreviver ao momento fugaz do ato, e todas elas sempre levaram ao absurdo. Os filósofos da Antiguidade tardia, que exigiam de si mesmo serem sábios, eram absurdos ao afirmar serem felizes quando queimados vivos dentro do famoso Touro de Falera. E não menos absurda é a exigência cristã de ser bom e oferecer a outra face, quando não é tomada como metáfora, mas tentada como um autêntico modo de vida.” Abraão e o milagre inaudito
“Mesmo quando o filósofo decide, com Platão, deixar a <caverna> dos assuntos humanos, não precisa esconder-se de si mesmo” “O filósofo sempre pode contar com a companhia dos pensamentos, ao passo que as boas ações não podem ser companhia para ninguém” “Além disso, os pensamentos podem ser transformados em objetos tangíveis que, como a página escrita ou o livro impresso, se tornam parte do artifício humano.”
“a bondade e o desamparo têm muito mais relevância para a política que a sabedoria e a solitude; mas somente a solitude pode constituir um autêntico modo de vida, na figura do filósofo, ao passo que a experiência muito mais geral do desamparo está em tal contradição com a condição humana da pluralidade que simplesmente não pode ser suportada durante muito tempo: requer a companhia de Deus, a única testemunha imaginável das boas obras, para que não venha a aniquilar inteiramente a existência humana.”
“as <novas ordens> que, por <salvar a religião de sua destruição por conta da licenciosidade dos prelados e dos chefes da Igreja>, ensinam as pessoas a serem boas e a não <resistir ao mal> -, em decorrência do que <os governantes perversos podem fazer todo o mal que quiserem>.” Maquiavel – Discursos, Livro III, Capítulo I.
“No capítulo seguinte, Karl Marx será criticado. Isso é lamentável em uma época em que tantos escritores que outrora ganharam a vida pela apropriação, tácita ou explícita, da grande riqueza de idéias e intuições marxianas, decidiram tornar-se antimarxistas profissionais; no decurso de tal processo, um deles até descobriu que o próprio Karl Marx era incapaz de se sustentar [to make a living], esquecendo-se por um instante das gerações de autores que ele <sustentou> [supported].”
“a declaração feita por Benjamin Constant, quando se sentiu compelido a atacar Rousseau: <J’éviterai certes de me joindre aux détracteurs d’un grand homme. Quand le hasard fait qu’en apparence je me rencontre avec eux sur un seul point, je suis en défiance de moi-même; et pour me consoler de paraître un instant de leur avis […] j’ai besoin de désavouer [repudiar] et de flétrir [conservar distantes de mim], autant qu’il est en moi, ces prétendus auxiliaires.> [Cours de politique constitutionelle]”
“Mais uma vez, encontramos aqui completa unanimidade: a palavra <trabalho> [labor], compreendida como um substantivo, jamais designa o produto final, o resultado da ação de trabalhar, mas permanece como um substantivo verbal classificado com o gerúndio, enquanto o nome do próprio produto é invariavelmente derivado da palavra para obra (…) a forma verbal da palavra <obra> se tornou um tanto antiquada. Em ambas as línguas, alemão e francês, diferentemente do uso corrente do inglês labor, as palavras travailler e arbeiten quase perderam seu significado original de dor e atribulação (…) Grimm (Wörterbuch): <Währendin älterer Sprache die Bedeutung von molestia und schwerer Arbeit vorherrschte, die von opus, opera, zurücktrat, tritt umgekehrt in der heutigen diese vor und jene erscheint seltener.> É interessante também o fato de que os substantivos work, oeuvre, Werk apresentam uma tendência crescente de serem usados em relação a obras de arte nas três línguas.”
“J-P. Vernant: <Le terme (dêmiourgoi), chez Homère et Hésiode, ne qualifie pas à l’origine l’artisan en tant que tel, comme ‘ouvrier’: il définit toutes les activités qui s’exercent en dehors du cadre de l’oikos, en faveur d’un public, dêmos: les artisans – charpentiers et forgerons – mais non moins qu’eux les devins, les héraults, les aèdes.>”
“Burckhardt menciona que não se conhece nenhum tratado sobre escultura. Em vista dos muitos ensaios sobre música e poesia, é provável que não se trate de acidente da tradição, como não é acidental o fato de conhecermos tantos relatos acerca do grande sentimento de superioridade e até da arrogância de famosos pintores, dos quais não existem correspondentes quando se trata de escultores. Essa valoração dos pintores e dos escultores sobreviveu muitos séculos. Encontramo-la ainda na Renascença, quando a escultura era classificada entre as artes servis, enquanto a pintura tinha uma posição intermediária entre as artes liberais e as servis (veja-se Otto Neurath…)”
“Aristóteles, Política 1256a30ss.: <Há grandes diferenças nos modos de vida humanos. Os mais preguiçosos são os pastores, pois conseguem alimento sem trabalho (ponos) a partir de animais domésticos, e gozam de tempo livre (skholazousin)>” “O leitor moderno em geral tem de estar ciente de que aergia (preguiça) e skholê não são a mesma coisa. A preguiça tinha as mesmas conotações que tem para nós, e uma vida de skholê não era considerada uma vida indolente. Não obstante, o equacionamento de skholê com a inatividade é característico de uma evolução ocorrida dentro da pólis. Assim, Xenofonte nos conta que Sócrates fôra acusado de haver citado um verso de Hesíodo: <A obra não é uma desgraça, mas sim a preguiça.> A acusação era que Sócrates havia instilado em seus discípulos um espírito escravo (Memorabilia 1:2:56). Historicamente, é importante ter em mente a diferença entre o desprezo com que, nas cidades-Estados gregas, eram vistas todas as ocupações não-políticas, resultante da enorme demanda de tempo e de energia dos cidadãos, e o desprezo anterior, mais original e mais geral, pelas atividades que serviam apenas para sustentar a vida – ad vitae sustentatione, como são definidas as opera servilia ainda no século XVIII. No mundo de Homero, Páris e Odisseu ajudam na construção de suas casas e a própria Nausicaa lava as roupas dos irmãos etc. Tudo isso faz parte da autossuficiência do herói homérico, de sua independência e da supremacia autônoma de sua pessoa. Nenhuma obra é sórdida quando significa maior independência; a mesma atividade pode ser sinal de servilismo se o que estiver em jogo não for a independência pessoal, e sim a mera sobrevivência, se não for uma expressão de soberania, mas de sujeição à necessidade.”
“A opinião de que o trabalho e a obra eram desdenhados na Antiguidade pelo fato de que somente escravos os exerciam é um preconceito dos historiadores modernos.”
“Não é surpreendente que a distinção entre trabalho e obra tenha sido ignorada na Antiguidade Clássica.”
“O motivo da promoção do trabalho na era moderna foi a sua <produtividade>; e a noção aparentemente blasfema de Marx de que o trabalho (e não Deus) criou o homem, ou de que o trabalho (e não a razão) distingue o homem dos outros animais, era apenas a formulação mais radical e consistente de algo com que toda a era moderna concordava.” “Parece que foi Hume, e não Marx, o primeiro a insistir em que o trabalho distingue o homem do animal (Adriano Tilgher, Homo Faber (1929); ed. inglesa: Work: what it has meant to men through the ages (1930)); Como o trabalho não desempenha qualquer papel importante na filosofia de Hume, esse fato tem interesse apenas histórico; para ele, essa característica não tornava a vida humana mais produtiva, mas somente mais árdua e mais dolorosa que a vida animal.” “Eine unmittelbare [imediata] Konsequenz davon, dass der Mensch dem Produkt seiner Arbeit, seiner Lebenstätigkeit [condição vital], seinem Gattungswesen [condição natural, neologismo especificamente marxiano] entfremdet [alienada] ist, ist die Entfremdung des Menschen vom dem Menschen” Jugendschriften, p. 89 “dass der Arbeiter zum Produkt seiner Arbeit als einem fremden Gegenstand sich verhält [se comporta como]” Jugends., p. 83
“Se o trabalho não deixa atrás de si vestígio permanente, o pensamento não deixa absolutamente coisa alguma de tangível. Por si mesmo, o pensamento jamais se materializa em objetos. Sempre que o operário [worker] intelectual deseja manifestar seus pensamentos, tem de usar as mãos e adquirir qualificação manual como qualquer outro que realiza uma obra.” Eis o nosso botar a mão na massa!
“a lembrança prepara o intangível e o fútil para sua materialização final”
Cícero – De officiis
“A classificação da agricultura entre as artes liberais é, naturalmente, especificamente romana. Não se deve a alguma <utilidade> especial da lavoura, como suporíamos, mas antes tem a ver com a idéia romana de patria, segundo a qual o ager Romanus, e não só a cidade de Roma, é o lugar ocupado pelo domínio público.”
“em toda a história antiga, os serviços <intelectuais> dos escribas, quer atendessem a necessidades do domínio público quer a do domínio privado, eram realizadas por escravos e classificados consoante a condição deles. Somente a burocratização do Império Romano e a concomitante ascensão política e social dos imperadores levaram a uma reavaliação dos serviços <intelectuais>. Antes desse enaltecimento dos serviços públicos, os escribas eram classificados na mesma categoria dos vigias de edifícios públicos ou mesmo daqueles que conduziam os gladiadores à arena” “ele se assemelha mais ao <criado doméstico> de Adam Smith que a qualquer outro, ainda que a sua função seja menos manter intacto o processo da vida e proporcionar sua regeneração que cuidar da manutenção das várias máquinas burocráticas gigantescas, cujos processos consomem os seus serviços e devoram os seus produtos tão rápida e impiedosamente quanto o processo biológico da vida. <O trabalho de algumas das mais respeitáveis categorias da sociedade não produz, como no caso dos criados domésticos, valor algum>, diz Adam Smith, incluindo entre elas <todo o exército e a marinha>, <os funcionários públicos> e as profissões liberais, tais como as dos <clérigos, advogados, médicos, homens de letras de toda espécie>. A obra dessas pessoas, <como a declamação dos atores, a arenga do orador ou a canção do músico […] perece no próprio instante de sua produção> (A riqueza das nações, Livro I, p. 295-296, Ed. Everyman). É óbvio que Smith não encontraria dificuldade alguma para classificar os nossos <funcionários de escritório>.”
“É duvidoso que qualquer pintura fosse jamais tão admirada quanto a estátua do Zeus de Fídias em Olímpia, cujo poder mágico, segundo se dizia, fazia qualquer um esquecer suas aflições e penas; quem não a tinha visto vivera em vão, etc.”
“O que os bens de consumo são para a vida humana, os objetos de uso são para o mundo humano.”
“Sem a lembrança e sem a reificação de que a lembrança necessita para sua realização – e que realmente a tornam, como afirmavam os gregos, a mãe de todas as artes –, as atividades vivas da ação, do discurso e do pensamento perderiam sua realidade ao fim de cada processo e desapareceriam como se nunca houvessem existido.”
“Sem um mundo no qual os homens nascem e do qual se vão com a morte, haveria apenas um imutável eterno retorno, a perenidade imortal da espécie humana como a de todas as outras espécies animais. Uma filosofia da vida que não chegue, como Nietzsche, à afirmação do <eterno retorno> (eiwige Wiederkehr) como o princípio supremo de todo ente simplesmente não sabe do que está falando.” “Somente quando ingressam no mundo feito pelo homem os processos da natureza podem ser descritos como crescimento e declínio”
“Trabalho é a eterna necessidade natural de efetuar o metabolismo entre o homem e a natureza.” Das Kapital, v. I, Parte 1, Cap. 1, Seção 2 / Parte 3, Cap. 5.
“A despeito de hesitações ocasionais, Marx permaneceu convencido de que <Milton produziu o Paraíso Perdido pela mesma razão pela qual o bicho-da-seda produz seda>(Theories of surplus value, Londres, 1951, p. 186).”
“Do ponto de vista da natureza, é a obra que é destrutiva, mais que o trabalho, uma vez que o processo da obra subtrai a matéria das mãos da natureza sem a devolver a esta no curso rápido do metabolismo natural do corpo vivo.”
“Hércules, entre cujos 12 <trabalhos> heróicos constava o de limpar os estábulos de Augias. (…) Mas a luta que o corpo humano trava diariamente para manter limpo o mundo e evitar-lhe o declínio tem pouca semelhança com feitos heróicos; a persistência que ela requer, para que se repare novamente a cada dia o esgotamento de ontem, não é coragem, e o que torna o esforço tão doloroso não é o perigo, mas a implacável repetição.”
“O indício duradouro do trabalho produtivo é o seu produto material – geralmente um artigo de consumo. Essa curiosa formulação ocorre em Thorstein Veblen, The Theory of the leisure class [em breve no Seclusão], 1917, p. 44.”
“reificação (Vergegenständlichung)” “mundo objetivo de coisas (gegenständlichen Welt)” “O termo vergegenständlichen não ocorre muito freqüentemente em Marx, mas, quando ocorre, é sempre em um contexto crucial. Cf. Jugends., p. 88: <Das praktische Erzeugen einer gegenständlichen Welt, die Bearbeitung der unorganischen Natur ist die Bewährung [prova] des Menschen als eines bewussten Gattungswesens (…) (Das Tier [máquina]) produziert unter der Herrschaft [linha de produção, cadeia de comando] des unmittelbaren Bedürfnisses [necessidades imediatas], während der Mensch selbst frei vom physischen Bedürfnis produziert und erst wahrhaft produziert in der Freiheit von demselben.>” (…) Das Kapital (v. I, Parte 3, Cap. 5): <(Die Arbeit) ist vergegenständlicht und der Gegenstand ist verarbeiter [processado, digerido]>. O jogo de palavras em torno de Gegenstand torna obscuro o que de fato sucede no processo: por meio da reificação, uma coisa nova é produzida, mas o <objeto> que esse processo transformou em coisa é, do ponto de vista do processo, apenas matéria-prima, e não uma coisa. (A tradução inglesa editada pela Modern Library, p. 201, deixa escapar o significado do texto alemão e, assim, esquiva-se do equívoco.)” “<Des Prozess erlischt [se extingue, termina, subsume] im Produkt> op. cit. Quando Marx insiste que <o processo de trabalho termina no produto>, esquece sua própria definição desse processoo como o <metabolismo entre o homem e a natureza>, no qual o produto é imediatamente <incorporado>, consumido e destruído pelo processo vital do corpo.” “As <boas coisas> destinadas ao consumo jamais perdem completamente seu caráter natural, e o grão de trigo jamais desaparece totalmente no pão como a árvore desapareceu na mesa.”
“L’être et le travail (1949), de Jules Vuillemin, é um bom exemplo do que acontece quando se tenta resolver as contradições e equívocos do pensamento de Marx. Isso só é possível se se abandona inteiramente a evidência fenomênica e se começa a tratar os conceitos de Marx como se constituíssem, por si mesmos, um complicado quebra-cabeça de abstrações.” “Kautsky perguntou a Marx em 1881 se ele não pretendia editar suas obras completas, ao que Marx respondeu: <Primeiro, é preciso escrever essas obras> (Kautsky, Aus der Frühzeit des Marxismus, 1935, p. 53).”
“Contradições fundamentais e flagrantes como essas raramente ocorrem em escritores de segunda categoria; no caso dos grandes autores, conduzem ao cerne de sua obra. No caso de Marx, cuja lealdade e integridade na descrição dos fenômenos, tal como estes se apresentavam aos seus olhos, são indubitáveis, as discrepâncias importantes, observadas por todos os estudiosos de sua obra, não podem ser atribuídas à diferença <entre o ponto de vista científico do historiador e o ponto de vista moral do profeta> (Edmund Wilson), nem a um movimento dialético que exigisse o negativo, ou o mal, para produzir o positivo, ou o bem. O fato é que, em todos os estágios de sua obra, ele define o homem como um animal laborans, e então o conduz para uma sociedade na qual essa força, a maior e mais humana de todas, já não é necessária. Ficamos com a alternativa muito angustiante entre a escravidão produtiva e a liberdade improdutiva.”
“A mais grosseira superstição da era moderna – de que <dinheiro produz dinheiro> – e sua mais aguda intuição política – de que poder gera poder – devem sua plausibilidade à metáfora subjacente da fertilidade natural da vida. De todas as atividades humanas somente o trabalho, e não a ação nem a obra, é interminável, prosseguindo automaticamente em consonância com a vida, fora do escopo das decisões voluntárias ou dos propósitos humanamente significativos.”
“<A bênção ou a alegria> do trabalho é o modo humano de experimentar a pura satisfação de estar vivo que temos em comum com todas as criaturas vivas; e é ainda o único modo de os homens também poderem permanecer e voltear com contento no círculo prescrito pela natureza, labutando e descansando, trabalhando e consumindo, com a mesma regularidade feliz e sem propósito com a qual o dia e a noite, a vida e a morte sucedem um ao outro. A recompensa das fadigas e penas repousa na fertilidade da natureza, na confiança serena de que aquele que, nas fadigas e penas, fez sua parte, permanece uma parte da natureza, no futuro de seus filhos e nos filhos de seus filhos. (…) Segundo Gêneses, o homem (adam) fôra criado para cuidar e zelar pelo solo (adamah), como o seu próprio nome, que é a forma masculina de <solo>, indica (Gn 2:5, 2:7, 2:15). <Nem havia ainda Adam para cultivar adamah (…) Formou, pois, o Senhor Deus a Adam do pó de adamah (…). E Ele, Deus, tomou a Adam e pô-lo no jardim do Éden, para ele o cultivar e guardar> (utilizo aqui a tradução de Martin Buber e Franz Rosenzweig, Die Schrift (Berlim, n.d.)). A palavra <cultivar>, leawod, que mais tarde se tornou a palavra para trabalhar em hebraico, tem a conotação de <servir>. A maldição (3:17-19) [maldita é a terra; devorarás a ti mesmo sem cessar] não menciona essa palavra, mas o significado é claro: o serviço para o qual o homem havia sido criado tornava-se agora servidão. O corrente mal-entendido popular da maldição se deve a uma interpretação inconsciente do Antigo Testamento à luz do pensamento grego. Esse mal-entendido é geralmente evitado pelos autores católicos. Conferir, por exemplo, Jacques Leclerc, Leçons de droit naturel, v. IV, Parte 2, <Travail, proprieté>, 1946, p. 31: <La peine du travail est le résultat du péché original […] L’homme non déchu eût travaillé dans la joie, mais il eût travaillé>; ou J. Chr. Nattermann, Die moderne Arbeit, soziologisch und theologisch betrachtet [O trabalho moderno, analisado sociológica e teologicamente], 1953, p. 9. É interessante, nesse contexto, comparar a maldição do Ant. Test. com a explicação aparentemente semelhante da aspereza do trabalho em Hesíodo. Diz o poeta que os deuses, para punir o homem, esconderam dele a vida, de sorte que ele tinha de procurá-la, ao passo que aparentemente tudo o que precisava fazer antes era colher os frutos da terra nos campos e nas árvores. Aqui, a maldição consiste não apenas na aspereza do trabalho, mas no próprio trabalho.”
“Não existe felicidade duradoura fora do ciclo prescrito de exaustão dolorosa e regeneração prazerosa; e tudo o que desequilibra esse ciclo – a pobreza e a miséria nos quais a exaustão é seguida pela penúria ao invés da regeneração, ou grande riqueza e uma vida inteiramente isenta de esforço na qual o tédio toma o lugar da exaustão e os moinhos da necessidade, do consumo e da digestão trituram até a morte, impiedosa e esterilmente, um corpo humano impotente – arruína a felicidade elementar que advém de se estar vivo.”
“Como nenhuma teoria política anterior ao socialismo e ao comunismo propusera estabelecer uma sociedade inteiramente destituída de propriedade, e como nenhum governo, antes do século XX, demonstrara séria inclinação para expropriar seus cidadãos, o conteúdo da nova teoria não podia ser inspirado pela necessidade de proteger os direitos de propriedade contra uma possível intrusão da administração governamental. O fato é que, naquela época, ao contrário de agora, quando todas as teorias da propriedade encontram-se obviamente na defensiva, os economistas não estavam absolutamente na defensiva; ao contrário, eram abertamente hostis a toda a esfera do governo que, na melhor das hipóteses, era tido como um <mal necessário>, um <reflexo da natureza humana>, e, na pior, como parasita da vida da sociedade que sem ele seria sadia.”
“O homem pobre não é senhor de si mesmo (pênes ôn kai heautou mê kratôn)(Sétima Carta, 351A). Nenhum dos autores clássicos jamais pensou no trabalho como uma possível fonte de riqueza. Segundo Cícero, a propriedade é adquirida por antiga conquista, vitória ou divisão legal (aut vetere occupatione aut victoria aut lege) (De officiis, 1:21).”
“O que Marx tinha ainda em comum com Locke era a pretensão de ver o processo de crescimento da riqueza como um processo natural, seguindo automaticamente suas leis, fora dos intuitos e decisões voluntárias. Se alguma atividade humana haveria de estar, de alguma forma, envolvida em tal processo, só podia ser uma <atividade> corporal cujo funcionamento natural não pudesse ser interrompido, mesmo se se desejasse.” Curiosa coincidência entre “liberais”.
LOCKE O MORIBUNDO: “o corpo realmente passa a ser a quintessência de toda propriedade, uma vez que é a única coisa que não se pode compartilhar, ainda que se desejasse. Nada, de fato, é menos comum e menos comunicável – e, portanto, mais seguramente protegido contra a visibilidade e a audibilidade do domínio público – que o que se passa dentro do nosso corpo, seus prazeres e suas dores, seu trabalho e seu consumo. (…) nada expele o indivíduo mais radicalmente do mundo que a concentração exclusiva na vida corporal, concentração à qual o homem é compelido pela escravidão ou pelo extremo da dor insuportável. Quem, por algum motivo, desejar tornar inteiramente <privada> a existência humana, independente do mundo e consciente apenas de seu próprio estar vivo, deve basear seus argumentos nessas experiências (…) a experiência <natural> subjacente à independência estóica e epicurista em relação ao mundo não é o trabalho nem a escravidão, mas a dor. A felicidade alcançada no isolamento do mundo e desfrutada dentro das fronteiras da existência privada do indivíduo jamais pode ser outra coisa senão a famosa <ausência de dor>, uma definição com a qual qualquer variante consistente do sensualismo tem de concordar. O hedonismo, a doutrina que afirma que somente as sensações corporais são reais, é apenas a forma mais radical de um modo de vida não-político, totalmente privado, a verdadeira realização do lathe biôsas kai mê politeuesthai de Epicuro (<viver oculto e não se importar com o mundo>).
Normalmente, a ausência de dor é a condição corporal suficiente para a experiência do mundo; somente se o corpo não está irritado, e, por meio da irritação, lançado para dentro de si mesmo, nossos sentidos corporais podem funcionar normalmente e receber o que lhes é oferecido.”
“Parece-me que certos tipos de vícios em drogas, moderados e um tanto freqüentes, geralmente atribuídos a propriedades formadoras de hábito dessas drogas, talvez se devam ao desejo de repetir o prazer alguma vez experimentado com o alívio da dor, acompanhado por sua intensa sensação de euforia. O próprio fenômeno era bem conhecido na Antiguidade, ao passo que na literatura moderna encontro o único apoio para minha suposição em Isak Dinesen [pseudônimo de Karen Blixen], <Converse at night in Copenhagen> (Last tales, 1957, p. 388ss.), em que ela considera <a cessação da dor> um dos <três tipos de felicidade perfeita>. Platão já se opunha àqueles que, <ao deixarem de sentir dor, acreditam firmemente ter atingido a meta do […] prazer> (Rep., 585A), mas admite que esses <prazeres misturados> que se seguem à dor ou à privação são mais intensos que os prazeres puros, como o de cheirar um aroma agradável ou o de contemplar figuras geométricas. Curiosamente, foram os hedonistas que tornaram o assunto confuso e não quiseram admitir que o prazer da cessação da dor fosse mais intenso que o <prazer puro>, para não falar da mera ausência da dor. Assim é que Cícero acusava Epicuro de ter confundido a mera ausência de dor com o prazer do alijamento da dor (cf. V. Brochard, Études de philosophie ancienne et de philosophie moderne, 1912, p. 252ss.).”
“Realmente, a dor causada por uma espada ou a cócega provocada por uma pluma nada me diz da qualidade ou sequer da existência mundana da espada ou da pluma. É característico de todas as teorias que argumentam contra a capacidade dos sentidos de nos fornecer o mundo que retirem a visão de sua posição como o mais alto e mais nobre dos sentidos, e substituam-na pelo tato ou o gosto que, na verdade, são os sentidos mais privados, ou seja, aqueles nos quais o corpo, ao perceber um objeto, sente primeiramente a si mesmo. Todos os pensadores que negam a realidade do mundo exterior teriam concordado com Lucrécio, que disse: <Pois o tato e nada mais que o tato (por tudo o que homens chamam sagrado) é a essência de todas as nossas sensações corporais> (The nature of the universe, p. 72). Isso, porém, não é suficiente: o tato ou o gosto em um corpo não-irritado ainda transmite demais a realidade do mundo: quando como um prato de morangos, sinto o gosto dos morangos e não o próprio gosto; ou, para usar um exemplo de Galileu, quando <passo a mão, primeiro sobre uma estátua de mármore, depois sobre um homem vivo>, percebo o mármore e o corpo vivo, e não primeiramente a minha mão a tocá-los. Assim, ao tentar demonstrar que as qualidades secundárias, como cores, gostos, cheiros, <não passam de meros nomes (que) residem unicamente no corpo sensível>, Galileu é forçado a desistir do seu próprio exemplo e a introduzir a sensação de ser titilado por uma pluma, com o que conclui: <Acredito que as várias qualidades atribuídas aos corpos naturais, tais como gostos, cheiros, cores e outras, possuem precisamente existência semelhante e não maior (Il Saggiatore, em Opere, IV, p. 333ss.; tradução citada por E.A. Burtt, Metaphysical foundations of modern science, 1932).” “Seguindo linha semelhante de raciocínio, Descartes diz: <O mero movimento de uma espada que corta parte de nossa pele causa-nos dor, mas nem por isso nos faz perceber o movimento ou a forma da espada. E é certo que essa sensação de dor não é menos diferente do movimento que a provoca […] do que são as sensações que temos de cores, sons, cheiros ou sabores (Principles, Parte 4; trad. por Haldane e Ross, Philosophical works, 1911).”
“dupla dor: o doloroso esforço envolvido na reprodução da própria vida e na vida da espécie.”
“Em uma sociedade de proprietários, em contraposição a uma sociedade de trabalhadores ou de assalariados, é ainda o mundo, e não a abundância natural nem a mera necessidade da vida, que está no centro do cuidado e da preocupação humanos.”
“Somente se a vida da sociedade como um todo, ao invés da vida limitada dos indivíduos, é considerada como sujeito gigantesco do processo de acumulação, pode esse processo seguir totalmente livre e em plena velocidade, isento dos limites impostos pela duração da vida individual e pela propriedade possuída individualmente.”
“O que todas essas teorias [filosofia do trabalho, evolução natural, desenvolvimento histórico] têm em comum, nas várias ciências – economia, história, biologia, geologia –, é o conceito de processo, virtualmente desconhecido antes da era moderna.”
“Se, na virada do século (com Nie. e Bergson), a vida, e não o trabalho, foi proclamada <criadora de todos os valores>, essa glorificação do mero dinamismo do processo vital aboliu aquele mínimo de iniciativa presente até mesmo em atividades que, como o trabalho e a procriação, são impostas ao homem pela necessidade.”
“Marx predisse corretamente, embora com injustificado júbilo, o <definhamento> do domínio público nas condições de um desenvolvimento desenfreado das <forças produtivas da sociedade>; e estava igualmente certo, isto é, consistente com a sua concepção do homem como um animal laborans, quando previu que os <homens socializados> gozariam sua liberação do trabalho naquelas atividades estritamente privadas e essencialmente sem-mundo que hoje chamamos de <passatempos> (hobbies). Na sociedade comunista ou socialista, todas as profissões se tornariam, por assim dizer, passatempos (hobbies): não haveria pintores, mas apenas pessoas que, entre outras coisas, gastariam seu tempo também com a pintura; ou seja, pessoas que <hoje fazem uma coisa, amanhã fazem outra, que caçam pela manhã, pescam à tarde, criam gado ao anoitecer, são críticos após o jantar, conforme julgarem conveniente, sem por isso jamais chegarem a ser caçadores, pescadores, pastores ou críticos> (Deutsche Ideologie, p. 22 e 373).”
“Os produtos do trabalho, produtos do metabolismo do homem com a natureza, não permanecem no mundo tempo suficiente para se tornarem parte dele, e a própria atividade do trabalho, concentrada exclusivamente na vida e em sua manutenção, esquece-se do mundo até o extremo da não-mundanidade.” Majin Boo e a eterna “coisidade”
“O fato de que a escravidão e o banimento no lar constituíam, de modo geral, a condição social de todos os trabalhadores antes da era moderna deve-se basicamente à própria condição humana; a vida, que para todas as outras espécies animais é a própria essência do seu ser, torna-se um ônus para o homem em virtude de sua inata <repugnância à futilidade>.”
“Omnis vita servitium est.” Sêneca, Da tranqüilidade da alma
“A condição humana é tal que a dor e o esforço não são meros sintomas que podem ser eliminados sem que se transforme a própria vida”
“Se alguém soubesse que o mundo acabaria quando ele morresse, ou logo depois, esse mundo perderia toda a sua realidade, como perdeu entre os primeiros cristãos, na medida em que estavam convencidos de que as suas expectativas escatológicas seriam imediatamente realizadas. A confiança na realidade da vida, ao contrário, depende quase exclusivamente da intensidade com que a vida é experimentada, do impacto com que ela se faz sentir.”
“Já se observou muitas vezes que aquilo que a vida dos ricos perde em vitalidade, em proximidade com as <boas coisas> da natureza, ganha em refinamento, em sensibilidade às coisas belas do mundo. O fato é que a capacidade humana de vida no mundo implica sempre uma capacidade de transcendere alienar-se dos processos da vida, enquanto a vitalidade e a vivacidade só podem ser conservadas na medida em que os homens se disponham a arcar com o ônus, as fadigas e as penas da vida.”
“instrumentos humanos dotados de fala (o instrumentum vocale, como eram chamados os escravos no lar, entre os antigos)”
o duplo trabalho da vida: manutenção e geração
“a vida de um escravo testemunhava diariamente o fato de que a <vida é escravidão> (…) O perigo aqui é óbvio. (…) sua liberdade é sempre conquistada mediante tentativas, nunca inteiramente bem-sucedidas, de libertar-se da necessidade. (…) é ainda provável que as enormes mudanças da revolução industrial, no passado, e as mudanças ainda maiores da revolução atômica, no futuro, permaneçam como mudanças do mundo, e não mudanças da condição básica da vida humana na Terra.
As ferramentas e instrumentos, que podem suavizar consideravelmente o esforço do trabalho, não são produtos do trabalho, mas da obra; não pertencem ao processo do consumo, mas são parte integrante do mundo de objetos de uso. (…) Nenhuma obra pode ser reproduzida sem ferramentas, e o nascimento do homo faber e o surgimento de um mundo de coisas feito pelo homem são, na verdade, contemporâneos da descoberta de ferramentas e de instrumentos.”
“os serviços de um único criado jamais podem ser inteiramente substituídos por uma centena de aparelhos na cozinha ou por meia dúzia de robôs no subsolo (…) Um testemunho curioso e inesperado desse fato é que ele pôde ser previsto milhares de anos antes de se dar o fabuloso desenvolvimento moderno de instrumentos e de máquinas. Em tom meio fantasioso e meio irônico, Aristóteles imaginou, certa vez, aquilo que se tornou realidade tempos depois, ou seja, que <cada ferramenta fosse capaz de executar sua própria obra quando se lha ordenasse […] como as estátuas de Dédalo ou as trípodes de Hefesto que, segundo diz o poeta, ‘ingressaram por conta própria na assembléia dos deuses’>. Assim, a <lançadeira teceria e o plectro tocaria a lira sem que uma mão os guiasse>. E prossegue afirmando que isso significaria realmente que o artífice já não necessitaria de assistentes humanos, mas não que os escravos domésticos pudessem ser dispensados.”
“o processo vital que exige o trabalho é uma atividade interminável, e o único <instrumento> à sua altura teria de ser um perpetuum mobile, isto é, o instrumentum vocale, tão vivo e ativo quanto o organismo a que serve.” Arednt não conheceu a “mulher do Google” ou “do Avast”
“enquanto a especialização da obra é essencialmente guiada pelo próprio produto acabado, cuja natureza é exigir diferentes habilidades que são então reunidas e organizadas em um conjunto, a divisão do trabalho, pelo contrário, pressupõe a equivalência qualitativa de todas as atividades singulares para as quais nenhuma habilidade especial é necessária.” “como se fosse um só (…) o oposto da cooperação”
“Não importa o que façamos, supostamente o faremos com vistas a <prover nosso próprio sustento>; é esse o veredicto da sociedade, e vem diminuindo rapidamente o número de pessoas capazes de desafiá-lo, especialmente nas profissões que poderiam fazê-lo. A única exceção que a sociedade está disposta a admitir é o artista, que, propriamente falando, é o único <operário> (worker) que restou em uma sociedade de trabalhadores (laboring society).”
“não resta nem mesmo a <obra> do artista: ela foi dissolvida no divertir-se (…) Compreende-se que o divertimento do artista desempenha a mesma função que o jogo de tênis no processo vital do trabalho da sociedade ou a que a manutenção de um passatempo desempenha na vida de um indivíduo.”
“em toda a Antiguidade Ocidental, a tortura, <a necessidade que nenhum homem pode suportar>, só podia ser aplicada a escravos, que, de qualquer forma, já estavam sujeitos à necessidade. <On croyait recueillir la voix même de la nature dans le cris de la douleur. Plus la douleur pénétrait avant, plus intime et plus vrai sembla être ce témoignage de la chair et du sang> Wallon. A psicologia dos antigos era muito mais cônscia do que nós do elemento de liberdade, de invenção livre, que existe na mentira. Foram as artes da violência, da guerra, da pirataria, e, finalmente, do governo absoluto, que colocaram os vencidos a serviço dos vencedores, e com isso mantiveram a necessidade em suspenso durante o mais longo período de que se tem registro na história”
“Wallon demonstra, de modo brilhante, como a posterior generalização estóica de que todos os homens são escravos baseava-se nos desdobramentos do Império Romano, no qual a antiga liberdade foi gradualmente abolida pelo governo imperial, até que finalmente ninguém era livre e todos tinham seu senhor. O momento decisivo ocorreu quando primeiro Calígula e depois Trajano consentiram em ser chamados dominus, palavra usada antes somente para designar o chefe de uma casa. A chamada moralidade escrava da Antiguidade tardia e sua premissa de que não havia diferença real entre a vida do escravo e a vida do homem livre tinham um pano de fundo muito realista.
“Talvez não seja exagero dizer que La condition ouvrière (1951), de Simone Weil, é o único livro na imensa literatura sobe a questão do trabalho que lida com o problema sem preconceitos e sem sentimentalismo.”
“O perigo da futura automação não é tanto a tão deplorada mecanização e a artificialização da vida natural, quanto o fato de que, a despeito de sua artificialidade, toda a produtividade humana seria sugada por um processo vital enormemente intensificado e seguiria automaticamente, sem dor e sem esforço, o seu ciclo natural sempre-recorrente.”
“Calcula-se que, durante a Idade Média, as pessoas raramente trabalhavam mais que a metade dos dias do ano. Havia 141 feriados oficiais (cf. Levasseur).” “superestima-se o progresso alcançado em nosso tempo, uma vez que este é medido em comparação com uma <era sombria>. É possível que a expectativa de vida na maioria dos países altamente civilizados hoje corresponda apenas à de certos séculos da Antiguidade. Não o sabemos, naturalmente, mas somos levados a essa suspeita quando refletimos sobre a idade em que morreram muitas pessoas famosas.”
“na ilusão de uma filosofia mecanicista que supõe que a força de trabalho, como qualquer outra energia, não pode ser perdida, de modo que, se não for gasta e exaurida na labuta da vida, nutrirá automaticamente outras atividades <superiores>.” “Cem anos depois de Marx conhecemos a falácia desse raciocínio: o tempo excedente do animal laborans jamais é empregado em algo que não seja o consumo, e quanto maior é o tempo de que ele dispõe, mais ávidos e ardentes são os seus apetites.”
“O resultado é aquilo que eufemisticamente é chamado de cultura de massas; e o seu arraigado problema é uma infelicidade universal” “A universal demanda de felicidade e a infelicidade extensamente disseminada em nossa sociedade são alguns dos mais persuasivos sintomas de que já começamos a viver em uma sociedade de trabalho que não tem suficiente trabalho para mantê-la contente.”
“<se opor> [staind against]: Isso está implicado no verbo latino obicere, do qual nossa palavra <objeto> é uma derivação tardia, e na palavra alemã Gegenstand, objeto. <Objeto> significa literalmente <algo lançado> ou <posto contra>.”
“os homens, a despeito de sua natureza sempre cambiante, podem recobrar sua mesmidade [sameness]”
“Somente nós, que erigimos a objetividade de um mundo nosso a partir do que a natureza nos oferece, que o construímos dentro do ambiente natural para assim nos proteger dele, podemos observar a natureza como algo <objetivo>. Sem um mundo interposto entre os homens e a natureza, há eterno movimento, mas não objetividade.”
“O uso contém, realmente, certo elemento de consumo, na medida em que o processo de desgaste [wearing-out process] ocorre por meio do contato do objeto de uso com o organismo consumidor vivo, e quanto mais estreito for o contato entre o corpo e a coisa usada, mais plausível parecerá o equacionamento dos dois.”
“o homo faber, criador do artifício humano, sempre foi um destruidor da natureza. O animal laborans, que com o próprio corpo e a ajuda de animais domésticos nutre o processo da vida, pode ser o amo e o senhor de todas as criaturas vivas, mas permanece ainda o servo da natureza e da Terra; só o homo faber se porta como amo e senhor de toda a Terra.”
“É interessante notar que Lutero, rejeitando conscientemente o compromisso escolástico com a Antiguidade grega e latina, procura eliminar da obra e do trabalho humanos todo e qualquer elemento de produção e fabricação. O trabalho humano, segundo ele, apenas <encontra> os tesouros que Deus colocou na Terra.” “Sage an, wer legt das Silber und Gold in die Berge, dass man es findet? Wer legt in die Äcker [campos] solch grosses Gut als heraus wächst…? Tut das Menschen Arbeit? Ja wohl, Arbeit findet es wohl; aber Gott muss es dahin legen, soll es die Arbeit finden… So finden wir denn, dass alle unsere Arbeit nichts ist denn Gottes Güter finden und aufheben, nichts aber möge machen und erhalten (Luther, Werke, Ed. Walch, V, 1873).”
“Le travailler travaille pour son oeuvre plutôt que pour lui-même: loi de générosité métaphysique, qui définit l’activité laborieuse”
Chenu
“Essa qualidade da permanência do modelo ou da imagem, o fato de existir antes que a fabricação comece e de permanecer depois que esta termina, sobrevivendo a todos os possíveis objetos de uso que continua ajudando fazer existir, exerceu uma forte influência na doutrina das idéias eternas de Platão. Na medida em que os seus ensinamentos foram inspirados pela palavra idea ou eidos (<aspecto> ou <forma>), que ele foi o primeiro a usar em um contexto filosófico, eles baseavam-se em experiências de poiêsis, de fabricação (fabrication), e embora Platão empregasse a sua teoria para exprimir experiências muito diferentes e talvez muito mais <filosóficas>, nunca deixou de buscar seus exemplos no campo da produção (making) quando desejava demonstrar a plausibilidade do que dizia. [Interpretações em Platão: o texto mais importante do “casal”] O testemunho de Aristóteles de que foi Pl. quem introduziu o termo idea na terminologia filosófica ocorre no 1º livro de sua Metafísica (987b8). Excelente relato do uso anterior da palavra e do ensinamento de Pl. encontra-se em Gerard F. Else, <The terminology of ideas>, Harvard studies in classical philology, v. XLVII (1936). (…) As palavras eidos e idea referem-se, sem dúvida, a formas e aspectos visíveis, especialmente de criaturas vivas; assim, é improvável que Platão concebesse a doutrina sob a influência de formas geométricas. A tese de Francis M. Cornford (Plato and Parmenides, Ed. Liberal Arts, p. 69-110), de que a doutrina é provavelmente de origem socrática, uma vez que Sócrates procurava definir a justiça em si ou a bondade em si, que não podem ser percebidas pelos sentidos, bem como pitagórica, uma vez que a doutrina da existência (chõrismos) das idéias eternas e separadas de todas as coisas perecíveis implica <a existência separada de uma alma consciente e conhecedora, à parte do corpo e dos sentidos>, parece-me muito convincente. Minha apresentação, porém, deixa em suspenso todos esses pressupostos. Ela se refere simplesmente ao Livro X da República, no qual o próprio Pl. explica sua doutrina tomando <o caso comum> de um artífice que faz camas e mesas <de acordo com a idéia <dessas camas e mesas> (…) Não é preciso dizer que nenhuma dessas explicações vai ao fundo da questão, que é a experiência especificamente filosófica subjacente ao conceito de idéia”
“O homo faber é realmente amo e senhor, não apenas porque é o senhor ou se estabeleceu como senhor de toda a natureza, mas porque é senhor de si mesmo e de seus atos.Isso não se aplica ao animal laborans, sujeito às necessidades de sua própria vida, nem ao homem de ação, que depende de seus semelhantes.”
“O trabalho, mas não a obra, requer, para obter melhores resultados, uma execução ritmicamente ordenada e, na medida em que muitos operários se aglomeram, exige uma coordenação rítmica de todos os movimentos individuais. A conhecida compilação feita por Karl Bücher, em 1897, de canções rítmicas de trabalho (Arbeit und Rhythmus (6. ed.; 1924)), foi seguida de volumosa literatura de caráter mais científico. Um dos melhores desses estudos (Joseph Schopp, Das deutsche Arbeitslied (1935)) ressalta o fato de que não existem canções da obra, mas somente canções de trabalho. As canções dos artífices são sociais e cantadas após o trabalho. O fato é, naturalmente, que não existe ritmo <natural> algum para a obra. Nota-se às vezes a surpreendente semelhança entre o ritmo <natural> inerente a toda operação de trabalho e o ritmo das máquinas, sem contar as repetidas queixas de que as máquinas impõem ao trabalhador um ritmo <artificial>. (…) Bücher, que acreditava que o <trabalho rítmico é um trabalho espiritual> (vergeistigt), já dizia: <Aufreibend werden nur solchen einförmigen Arbeiten, die sich nicht rhythmisch gestalten lassen> op. cit. p. 443. (…) Hendrik de Man: <diese von Bücher […] gepriesene Welt weniger die des […] handwerkmässig schöpferischen Gewerbes als die der einfachen schieren […] Arbeitsfron (ist)> (Der Kampf und die Arbeitsfreud, p. 244). (…) os próprios operários apresentam razão inteiramente diferente para sua preferência pelo trabalho repetitivo. Preferem-no porque é mecânico e não requer atenção, de sorte que, ao executá-lo, podem pensar em outra coisa. (Podem <geistig wegtreten>, nas palavras de operários berlinenses. Cf. der Rationalisierung (1954), p. 35ss…) Essa explicação é bastante digna de nota, uma vez que coincide com as muito antigas recomendações cristãs quanto aos méritos do trabalho manual, que, por exigir menor atenção, tende a interferir menos na contemplação que as outras ocupações e profissões (cf. Étienne Delaruelle, <Le travail dans les règles monastiques occidentales du 4e au 9e siècle>, Journal de psychologie normale et pathologique, v. XLI, n. 1 (1948)).”
“o homem <ajustou-se> a um ambiente de máquinas desde o instante em que as concebeu. Sem dúvida, as máquinas tornaram-se condição tão inalienável de nossa existência como os utensílios e ferramentas o foram em todas as eras anteriores. (…) Nunca houve dúvida de que o homem se ajustava ou precisava de ajuste especial às ferramentas que utilizava, da mesma forma como uma pessoa se ajusta às próprias mãos. (…) enquanto dura a obra nas máquinas, o processo mecânico substitui o ritmo do corpo humano. Mesmo a mais sofisticada ferramenta permanece como serva, incapaz de guiar ou de substituir a mão. Mesmo a mais primitiva máquina guia o trabalho do nosso corpo até finalmente substituí-lo por completo.”
“Uma das importantes condições da Rev. Industrial foi a extinção das florestas e a descoberta do carvão mineral como substituto de madeira. (…) Barrow (…) sustenta que o único fator que <impediu a aplicação das máquinas à indústria […] (foi) a inexistência de combustível bom e barato […]”
“é somente ao mundo da eletricidade que as categorias do homo faber, para quem todo instrumento é um meio de atingir um fim prescrito, já não se aplicam. Pois agora já não usamos o material como a natureza nos fornece, matando processos naturais, interrompendo-os ou imitando-os. Em todos esses casos, alteramos e desnaturalizamos a natureza para nossos próprios fins mundanos, de sorte que o mundo ou o artifício humano, de um lado, e a natureza, de outro, permanecem como duas entidades nitidamente separadas.”
“Diebold: a linha de montagem é o resultado <do conceito da manufatura como um processo contínuo>, e se poderia acrescentar que a automação é o resultado da maquinização (machinization) da linha de montagem.”
“Günther Anders, em um interessante ensaio sobre a bomba atômica (Die Antiquiertheit des Menschen (1956)), sustenta de modo convincente, que a palavra <experimento> já não se aplica aos experimentos nucleares envolvendo explosões das novas bombas. Pois era característico dos experimentos o fato de que o espaço no qual ocorriam era estritamente limitado e isolado do meio ambiente. Os efeitos das bombas são tão gigantescos que <seu laboratório tornou-se coextensivo com o globo> (p. 260).”
“nossa palavra <natureza>, quer a derivemos da raiz latina nasci, nascer, quer a remetamos à sua origem grega, physis, que vem de phyein, surgir de, aparecer por si mesmo.”
“Chamamos de automático todo movimento autopropulsado e, portanto, fora do alcance da interferência voluntária ou intencional. (…) As categorias do homo faber e do seu mundo não se aplicam aqui, como jamais poderiam aplicar-se à natureza e ao universo natural.”
“a questão não é tanto se somos senhores ou escravos de nossas máquinas, mas se estas ainda servem ao mundo e às coisas do mundo ou se, pelo contrário, elas e o movimento automático de seus processos passaram a dominar e mesmo a destruir o mundo e as coisas.”
“Em seu contínuo processo de operação, este mundo de máquinas está perdendo inclusive aquele caráter mundano independente que as ferramentas e utensílios e a primeira maquinaria da era moderna possuíam em tão alto grau. Os processos naturais de que se alimenta o relacionam cada vez mais com o próprio processo biológico, de sorte que os aparelhos, que outrora manejávamos livremente, começam a mostrar-se como se fossem <carapaças integrantes do corpo humano tanto quanto a carapaça é parte integrante do corpo da tartaruga>.”
“a madeira justifica matar a árvore e a mesa justifica destruir a madeira.”
“todo fim pode novamente servir como meio em algum outro contexto. Em outras palavras, em um mundo estritamente utilitário, todos os fins são constrangidos a serem de curta duração e a transformarem-se em meios para alcançar outros fins. Quanto à interminabilidade da cadeia de meios e fins (o Zweck-progressusin infinitum) e à destruição do significado que lhe é inerente, comparar com Nietzsche, Afor. 666, em Wille zur Macht.” Não entendo que edição é essa que possui mais de 583/594 aforismos! (*)
“O ideal de utilidade, como os ideais de outras sociedades, já não pode ser concebido como algo necessário a fim de se obter alguma outra coisa; esse ideal simplesmente impugna o questionamento sobre seu próprio uso. É óbvio que não há resposta à pergunta que Lessing, certa vez, dirigiu aos filósofos utilitaristas do seu tempo: <E qual o uso do uso?>A perplexidade do utilitarismo é que ele é capturado pela cadeia interminável de meios e fins sem jamais chegar a algum princípio que possa justificar a categoria de meios e fim (…) O <a fim de> torna-se o conteúdo do <em razão de>; em outras palavras, a utilidade instituída como significado gera a ausência de significado.” “Só em um mundo estritamente antropocêntrico, onde o usuário, i.e., o próprio homem, torna-se o fim último que põe termo à cadeia infindável de meios e fins, pode a utilidade como tal adquirir a dignidade da significação. A tragédia, porém, é que, no instante em que o homo faber parece ter se realizado nos termos de sua própria atividade, ele passa a degradar o mundo das coisas, que é o fim e o produto final de sua mente e de suas mãos. Se o homem como usuário é o mais alto de todos os fins, <a medida de todas as coisas>, então não somente a natureza, tratada pelo homo faber como o <material quase sem valor> sobre o qual ele opera, mas as próprias coisas <valiosas> tornam-se simples meios e, com isso, perdem o seu próprio <valor> intrínseco.
O utilitarismo antropocêntrico do homo faber encontrou sua mais alta expressão na fórmula de Kant: nenhum homem pode jamais tornar-se um meio para um fim, todo ser humano é um fim em si mesmo. Embora encontremos antes de Kant uma percepção das funestas conseqüências que um desobstruído e desorientado pensamento em termos de meios e fins invariavelmente tem para o domínio político (p.ex., na insistência de Locke em que não se deve permitir que um homem seja dono do corpo de outro ou use a força do seu corpo), é somente em Kant que a filosofia das primeiras fases da era moderna liberta-se inteiramente das trivialidades do bom senso, encontradas sempre onde o homo faber dita os padrões da sociedade. Naturalmente, o motivo disso é que Kant não pretendia formular ou conceitualizar os princípios do utilitarismo do seu tempo, mas, ao contrário, desejava antes de tudo pôr em seu devido lugar a categoria de meios-e-fim e evitar que fosse empregada no campo da ação política. Não obstante, sua fórmula não pode renegar sua origem no pensamento utilitário, como é o caso de sua outra famosa e também inerentemente paradoxal interpretação da atitude do homem em relação aos únicos objetos que não são <para o uso>, a saber, as obras de arte, com as quais ele disse que experimentamos um <prazer sem qualquer interesse>. A expressão de K. é <ein Wohlgefallen ohne alles Interesse> (Kritik der Unteilskraft, ed. Casssirer, V, 272). Pois a mesma operação que faz do homem o <fim supremo> permite-lhe <sujeitar, se puder, toda a natureza a esse fim>, isto é, degradar a natureza e o mundo a simples meios, privado-os de sua dignidade independente. Nem mesmo Kant foi capaz de resolver o dilema ou iluminar a cegueira do homo faber no tocante ao problema do significado sem voltar ao paradoxal <fim em si mesmo>, e essa perplexidade reside no fato de que, embora somente a fabricação, com sua instrumentalidade, seja capaz de construir um mundo, esse mesmo mundo torna-se tão sem valor quanto o material empregado, simples meios para outros fins, quando se permite que os padrões que presidiram o seu surgimento prevaleçam depois que ele foi estabelecido.”
(*) Tudo é uma questão de edição!
I AM AN END (THE SUPREME GOOD, A PRETEXT):
“666.
For ages we have always ascribed the value of an action, of a character, of an existence, to the intention, to the purpose for which it was done, acted, or lived: this primeval idiosyncrasy of taste ultimately takes a dangerous turn—provided the lack of intention and purpose in all phenomena comes ever more to the front in consciousness. With it a general depreciation of all values seems to be preparing: <All is without sense.> —This melancholy phrase means: <All sense lies in the intention, and if the intention is absolutely lacking, then sense must be lacking too.> In conformity with this valuation, people were forced to place the value of life in a <life after death,> or in the progressive development of ideas, or of mankind, or of the people, or of man to superman; but in this way the progressus in infinitum of purpose had been reached: it was ultimately necessary to find one’s self a place in the process of the world (perhaps with the disdaemonistic outlook [perspectiva irracional], it was a process which led to nonentity).
In regard to this point, <purpose> needs a somewhat more severe criticism: it ought to be recognised that an action is never caused by a purpose; that an object and the means thereto are interpretations, by means of which certain points in a phenomena are selected and accentuated, at the cost of other, more numerous, points; that every time something is done for a purpose, something fundamentally different, and yet other things happen; that in regard to the action done with a purpose, the case is the same as with the so-called purposefulness of the heat [Moira] which is radiated from the sun: the greater part of the total sum is squandered [desperdiçada]; a portion of it, which is scarcely worth reckoning, has a <purpose,> has <sense>; that an <end> with its <means> is an absurdly indefinite description, which indeed may be able to command as a precept, as <will,> but presupposes a system of obedient and trained instruments, which, in the place of the indefinite, puts forward a host of determined entities (i.e. we imagine a system of clever but narrow intellects who postulate end and means, in order to be able to grant our only known <end,> the rôle of the <cause of an action,>—a proceeding to which we have no right: it is tantamount to solving a problem by placing its solution in an inaccessible world which we cannot observe).
Finally, why could not an <end> be merely an accompanying feature in the series of changes among the active forces which bring about the action—a pale stenographic symbol stretched in consciousness beforehand, and which serves as a guide to what happens, even as a symbol of what happens, not as its cause?—But in this way we criticise will itself: is it not an illusion to regard that which enters consciousness as will-power, as a cause? Are not all conscious phenomena only final phenomena—the lost links in a chain, but apparently conditioning one another in their sequence within the plane of consciousness? This might be an illusion.”
“<a Terra em geral e todas as forças da natureza> perdem seu <valor porque não apresentam a reificação resultante da obra> (<Der Wasserfall, wie die Erde überhaupt, wie alle Naturkraft hat keinen Wert, weil er keine in ihm vergegenständlichte Arbeit darstellt>) (Das Kapital, III, 698). Não foi por outro motivo senão essa atitude do homo faber em relação ao mundo que os gregos, em seu período clássico, declararam que todo o campo das artes e ofícios, no qual os homens operavam com instrumentos e faziam algo não pela satisfação de fazê-lo, mas para produzir outra coisa, era banáustico, palavra talvez mais bem-traduzida como <filisteu>, conotando a vulgaridade de pensar e agir em termos de conveniência.”
“A instrumentalização de todo o mundo e de toda a Terra, essa ilimitada desvalorização de tudo o que é dado, esse processo de crescente ausência de significado no qual todo fim é transformado em um meio e que só pode ser interrompido quando se faz do próprio homem o amo e senhor de todas as coisas, não provém diretamente do processo de fabricação; pois, do ponto de vista da fabricação, o produto acabado é um fim em si mesmo, uma entidade independente e durável, dotada de existência própria, tal como o homem é um fim em si mesmo na filosofia política de Kant.” “É bastante óbvio que os gregos temiam essa desvalorização do mundo e da natureza, assim como seu inerente antropocentrismo – a opinião <absurda> de que o homem é o ente mais elevado e de que tudo o mais está sujeito às exigências da vida humana (Arist.) (…) Talvez o melhor exemplo do quanto eles estavam conscientes das conseqüências de se considerar o homo faber como a mais elevada possibilidade humana seja o famoso argumento de Platão contra Protágoras e sua declaração aparentemente auto-evidente de que <o homem é a medida de todas as coisas de uso (chrmata), da existência das que existem e da inexistência das que não existem> (Teeteto, 152 & Crátilo, 385E). (Evidentemente, Protágoras não disse que <o homem é a medida de todas as coisas>, como a tradição e as traduções consagradas o fizeram dizer. O suposto dito de Protágoras – <o homem é a medida de todas as coisas> – seria, em grego, anthrôpos metron pantôn, correspondendo, p.ex., à frase de Heráclito: polemos patêr pantón, <o conflito é o pai de todas as coisas>.) O que importa nesse assunto é que Platão percebeu imediatamente que, quando se faz do homem a medida de todas as coisas de uso, é ao homem como usuário e instrumentalizador a quem se relaciona o mundo, e não ao homem como orador, homem de ação ou pensador.” “Nessa interpretação platônica, Protágoras se afigura, realmente, como o primeiro precursor de Kant, pois se o homem é a medida de todas as coisas, então o homem é a única coisa que escapa à relação de meios-e-fim, o único fim em si mesmo, capaz de usar tudo o mais como meio.”
“Se se permitir que os critérios do homo faber governem o mundo depois de construído, como devem necessariamente presidir o nascimento desse mundo, então o homo faber finalmente se servirá de tudo e considerará tudo o que existe como simples meios à sua disposição. Julgará cada coisa como se ela pertencesse à categoria de chrêmata ou de objetos de uso, de sorte que, seguindo o ex. de Platão, o vento deixará de ser concebido como força natural, existente por si mesmo, para ser considerado exclusivamente consoante as necessidades humanas de calor e refrigério – e isso, naturalmente, significaria que o vento, como algo objetivamente dado, seria eliminado da experiência humana. Por conta de tais conseqüências, Platão, que no fim da vida lembra mais uma vez n’AsLeis (716D) o dito de Protágoras, responde com uma fórmula quase paradoxal: não o homem – que, em virtude de suas necessidades e talentos, quer usar tudo e, portanto, termina por privar todas as coisas de seu valor intrínseco –, mas <o deus é a medida até dos simples objetos de uso>.”
“Marx – em um dos muitos apartes que testificam seu eminente senso histórico – observou certa vez que a definição do homem por Benjamin Franklin como um fazedor de instrumentos é tão típica do <ianquismo>, i.e., da era moderna, quanto a definição do homem como um animal político o era da Antiguidade. (DK, p. 358, n. 3)”
“No alemão medieval, a palavra Störer [artífice] equivale exatamente à palavra grega dêmiourgos. <Der griechische dêmiourgos heisst ‘Störer’, er geht beim Volk arbeiten, er geht auf die Stör.>Stör significa dêmos (<povo>). (Cf. Jost Trier…1950).”
“os tiranos nutriam a ambição, sempre frustrada, de dissuadir os cidadãos da preocupação com os assuntos políticos” Já hoje os Boechats neocons estimulam a participação desenfreada.
“O domínio público do homo faber é o mercado de trocas, no qual ele pode exibir os produtos de sua mão e receber a estima que merece. Essa inclinação para a habilidade na exibição pública (showmanship) é intimamente conectada com a <propensão de barganhar, permutar e trocar uma coisa por outra>, que, segundo Adam Smith, distingue os homens dos animais, e possivelmente não menos arraigada que ela. E ele acrescenta, com ênfase: <Ninguém jamais viu um cão fazer uma troca eqüitativa e deliberada de um osso por outro com outro cão> (Wealth of nations, ed. Everyman’s, I, 12).”
“A privatividade exigida nos primórdios da era moderna como direito supremo de cada membro da sociedade era efetivamente a garantia de isolamento, sem a qual nenhuma obra pode ser produzida. (…) Esse isolamento em relação aos outros é a condição de vida necessária a toda maestria, que consiste em estar a sós com a <idéia>, a imagem mental da coisa que irá existir. (…) e as palavras <operário> e <mestre> – ouvrier e maître – eram originalmente empregadas como sinônimos. (Levasseur e Pierre Brizon)” “a diferença entre a qualificação do mestre e a ajuda não-qualificada é temporária, como a diferença entre adultos e crianças.”
Sewall – The theory of value before Adam Smith (1901) in: “Publications of the American Economic Association”
“O valor é aquela qualidade que nenhuma coisa pode ter na privatividade, mas que adquire automaticamente assim que aparece em público.”
“a primeira coisa sobre a qual insistem os professores medievais é que o valor não é determinado pela excelência intrínseca à própria coisa, pois, se fosse assim, uma mosca seria mais valiosa que uma pérola, uma vez que é intrinsecamente mais excelente” George O’Brien – An essay on medieval economic teaching, 1920
Weisskopf – The psychology of economics (1955)
“A palavra mais antiga para <valia> (worth), que ainda encontramos em Locke, foi suplantada pela expressão <valor de uso> (use value), aparentemente mais científica.” “a perda de toda valia intrínseca começa com a sua transformação em valores (values) ou mercadorias” “A relatividade universal, o fato de que uma coisa só existe em relação a outras, e a perda do valor intrínseco, o fato de que tudo deixa de possuir valor <objetivo>, independente da avaliação mutável da oferta e da procura, são inerentes ao próprio conceito de valor.” “preço justo”
“Mas a resposta de Platão – de que não o homem, mas um <deus é a medida de todas as coisas> – seria um gesto moralizante vazio se realmente fosse verdadeiro que, como presumia a era moderna, a instrumentalidade, disfarçada em utilidade, governa o âmbito do mundo acabado tão exclusivamente quanto governa a atividade por meio da qual o mundo e todas as coisas nele contidas passaram a existir.”
“Ainda que a origem histórica da arte tivesse caráter exclusivamente religioso ou mitológico, o fato é que a arte sobreviveu magnificamente à sua separação da religião, da magia e do mito.” Anti-Benjamin
“certo pressentimento de imortalidade – não a imortalidade da alma ou da vida, mas de algo imortal alcançado por mãos mortais” Anti-Unamuno
“O pensar relaciona-se com o sentimento e transforma seu desalento mudo e inarticulado, do mesmo modo como a troca transforma a ganância crua do desejo e o uso transforma o anseio desesperado das necessidades – até que todos se tornem adequados a adentrar o mundo e serem transformados em coisas, serem reificados. (…) uma capacidade comunicativa e aberta-ao-mundo (world-open) transcende e libera no mundo uma apaixonada intensidade que estava aprisionada no si-mesmo (self).”
Rilke (Aus Taschen-Büchern und Merk-Blättern, 1950):
“Aus unbeschreiblicher Verwandlung stammen
solche Gebilde -: Fühl! und glaub!
Wir leidens oft: zu Asche werden Flammen,
doch, in der Kunst: zur Flamme wird der Staub.
Hier ist Magie. In das Bereich des Zaubers
scheint das gemeine Wort hinaufgestuft (…)
und ist doch wirklich wie der Ruf des Taubers,
der nach der unsichtbaren Taube ruft”
“é sempre na <letra morta> que o <espírito vivo> deve sobreviver, uma morte da qual ele só pode ser resgatado quando a letra morta entra novamente em contato com uma vida disposta a ressuscitá-lo, ainda que essa ressurreição dos mortos tenha em comum com todas as coisas vivas o fato de que ela também tornará a morrer.”
“Na música e na poesia, que são as menos <materialistas> das artes porque seu <material> consiste em sons e palavras, a reificação e a manufatura (workmanship) necessárias são mínimas. O jovem poeta e a criança prodígio na música podem atingir a perfeição sem muito treino e experiência, fenômeno que dificilmente ocorre na pintura, na escultura ou na arquitetura.”
“É essa proximidade com a lembrança viva que permite que o poema perdure, retenha sua durabilidade fora da página escrita ou impressa; e, embora a <qualidade> de um poema possa estar submetida a vários padrões diferentes, sua <memorabilidade> inevitavelmente determinará sua durabilidade, i.e., a possibilidade de ficar permanentemente fixado na lembrança da humanidade.”
“<fazer um poema> (…) O mesmo se aplica ao alemão dichten, que provavelmente deriva do latim dictare: <das ausgesonnene geistig Geschaffene niederschreiben order zum Nietderschreiben vorsagen> (Grimm, Dicionário) (…) A mesma ênfase no artesanato do poeta está presente na expressão grega para a arte da poesia: tektônes hymnôn.”
“COMO ENTENDER MEU NAMORADO”
“o processo cognitivo termina. O pensamento, ao contrário, não tem outro fim ou propósito além de si mesmo, e não chega sequer a produzir resultados; não só a filosofia utilitária do homo faber, mas os homens de ação e os entusiastas por resultados nas ciências jamais se cansaram de assinalar quão inteiramente <inútil> é o pensamento – realmente, tão inútil quanto as obras de arte que inspira. E nem mesmo esses produtos inúteis o pensamento pode reivindicar para si, pois estes, como os grandes sistemas filosóficos, dificilmente podem ser propriamente chamados de resultados do pensamento puro (…) é precisamente o processo do pensar que o artista ou o filósofo que escreve têm de interromper e transformar para a reificação materializante de sua obra. A atividade de pensar é tão incessante e repetitiva quanto a própria vida; perguntar se o pensamento tem algum significado configura o mesmo enigma irrespondível que a pergunta sobre o significado da vida”
“Por outro lado, a cognição toma parte em todos os processos, não somente nos da obra intelectual ou artística, cuja finalidade pode ser posta à pova e, se não produzir resultados, terá fracassado, como fracassa a maestria do carpinteiro quando ele fabrica uma mesa de duas pernas.”
“Os processos mentais que se alimentam da força cerebral são geralmente chamados de inteligência, e essa inteligência pode realmente ser medida em testes de inteligência, da mesma forma como a força física pode ser medida por outros meios. Suas leis, as leis da lógica, podem ser descobertas como outras leis da natureza”
“Se fosse verdadeiro que o homem é um animal rationale no sentido em que a era moderna compreendeu essa expressão – ou seja, uma espécie animal que difere das outras pelo fato de ser dotada de uma força cerebral superior –, então as recém-inventadas máquinas eletrônicas, que às vezes para consternação e outras vezes para confusão dos seus inventores, são tão espetacularmente mais <inteligentes> que os seres humanos, seriam realmente homunculi. Na realidade elas são, como todas as máquinas, meras substitutas e aperfeiçoadoras artificiais da força de trabalho humana, adotando o consagrado expediente da divisão do trabalho de subdividir toda operação em seus movimentos constitutivos mais simples – substituindo, p.ex., a multiplicação pela adição iterativa. (…) graças a essa velocidade superior, a máquina pode dispensar a multiplicação, que é o expediente técnico pré-eletrônico para acelerar a adição. Tudo o que os computadores gigantes provaram é que a era moderna estava errada ao acreditar, com Hobbes, que a racionalidade, no sentido de <calcular as conseqüências>, é a mais alta e a mais humana das capacidades do homem, e que os filósofos da vida e do trabalho, Marx ou Bergson ou Nietzsche, estavam certos quando viam nesse tipo de inteligência, que confundiam com a razão, uma mera função do processo vital, ou, como dizia Hume, uma mera <escrava das paixões>.”
“os homens que agem e falam necessitam da ajuda do homo faber em sua capacidade suprema, i.e., da ajuda do artista, dos poetas e historiadores, dos construtores de monumentos ou escritores, porque sem eles o único produto da atividade dos homens, a estória que encenam e contam, de modo algum sobreviveria. (…) Não precisamos escolher aqui entre Platão e Protágoras, ou decidir se o homem ou um deus deve ser a medida de todas as coisas; o que é certo é que a medida não pode ser nem as necessidades coativas da vida biológica e do trabalho, nem o instrumentalismo utilitário da fabricação e do uso.”
“Nihil igitur agit nisi tale existens quale patiens fiere debet.”
“nada age, a menos que ao agir torne patente seu si-mesmo latente.”
Dante
INCIATIVA & SEGUNDO NASCIMENTO
O Dilema Hindu de Zaratustra: “Os homens podem perfeitamente viver sem trabalhar, obrigando outros a trabalharem para eles; e podem muito bem decidir simplesmente usar e fruir do mundo de coisas sem lhe acrescentar um só objeto útil; a vida de um explorador ou senhor de escravos e a vida de um parasita podem ser injustas, mas certamente são humanas. Por outro lado, uma vida sem discurso e sem ação – e esse é o único modo de vida em que há sincera renúncia de toda aparência e de toda vaidade, na acepção bíblica da palavra – é literalmente morta para o mundo”
Arnold Gehlen – Der Mensch: Seine Natur und seine Stellung in der Welt (1955)
“iniciar (como indica a palavra grega archein, <começar>, <conduzir> e, finalmente, <governar>), imprimir movimento a alguma coisa (que é o significado original do termo latino agere).”
“para que houvesse um início o homem foi criado, sem que antes dele ninguém o fosse” Sto. Agostinho
“Para Agostinho, havia tanta diferença entre os dois começos que ele empregava uma palavra diferente para indicar o começo que é o homem (initium), chamando de principium o início do mundo, que é a tradução consagrada do primeiro versículo da Bíblia. Como se vê em A cidade de Deus 11:32, a palavra principium portava, para Ag., um sentido muito menos radical; o início do mundo <não significa que nada houvesse sido feito antes (uma vez que os anjos o foram)>, enquanto, na frase acima citada, referente ao homem, ele acrescenta explicitamente que ninguém existia antes dele.”
“Com a criação do homem, veio ao mundo o próprio princípio do começar”
SURPREENDENTE IMPRESCIÊNCIA: “a origem da vida a partir da matéria inorgânica é uma infinita improbabilidade dos processos inorgânicos, como o é o surgimento da Terra, do ponto de vista dos processos do universo, ou a evolução da vida humana a partir da vida animal. O novo sempre acontece em oposição à esmagadora possibilidade das leis estatísticas e a sua probabilidade que, para todos os fins práticos e cotidianos, equivale à certeza: assim, o novo sempre aparece na forma de um milagre.”
“o ato primordial e especificamente humano deve conter, ao mesmo tempo, resposta à pergunta que se faz a todo recém-chegado: <Quem és?>” “A ação muda deixaria de ser ação, pois não haveria mais um ator”
“se aqui estivesse em questão apenas o uso da ação como meio para um fim, é evidente que o mesmo fim poderia ser alcançado muito mais facilmente com a violência muda, de tal modo que a ação parece uma substituta pouco eficaz da violência, da mesma forma que o discurso, do ponto de vista da mera utilidade, parece um substituto inadequado da linguagem de signos.”
“é quase certo que o <quem>, que aparece tão clara e inconfundivelmente para os outros, permanece oculto para a própria pessoa, à semelhança do daimón, na religião grega, que acompanha cada homem durante toda sua vida, sempre observando por detrás, por cima de seus ombros, de sorte que só era visível para aqueles que ele encontrava.”
“deve-se estar disposto a correr o risco de se desvelar, e esse risco não pode ser assumido nem pelo realizador de boas obras, que deve ser desprovido do si-mesmo (self) e manter-se em completo anonimato, nem pelo criminoso, que precisa esconder-se dos outros. Ambos são figuras solitárias, o primeiro é <pró> e o segundo <contra> todos os homens; ficam, portanto, fora do âmbito do intercurso humano e são figuras politicamente marginais, que, em geral, surgem no cenário histórico em épocas de corrupção, desintegração e ruína política.”
“Os monumentos ao <Soldado Desconhecido>, erigidos após a Primeira Guerra Mundial, comprovam a necessidade de glorificação, subsistente ainda na época, de encontrar um <quem>, um alguém identificável a quem quatro anos de carnificina deveriam ter revelado. A frustração desse desejo e a recusa a se resignar ao fato brutal de que o agente da guerra havia sido realmente ninguém inspiraram a construção desses monumentos ao <desconhecido>, a todos aqueles a quem a guerra fracassou em tornar conhecidos, roubando-lhes, com isso, não suas realizações, mas sua dignidade humana. O livro de William Faulkner, Uma fábula (1954), supera em discernimento e clareza quase toda a literatura sobre a I G.M. pelo fato de que o seu herói é o Soldado Desconhecido.”
“a notória impossibilidade filosófica de se chegar a uma definição do homem”
“A crermos em Xenofonte, Sócrates comparava seu daimonion aos oráculos, e insistia em que ambos deviam ser utilizados somente para os assuntos humanos, em que nada é certo, e não para as questões das artes e ofícios, em que tudo é previsível (ibid., 7-9).”
“Na teoria política, o materialismo é pelo menos tão antigo quanto a suposição platônico-aristotélica de que as comunidades políticas (poleis) – e não apenas a vida familiar ou a coexistência de várias unidades familiares (oikiai) – devem sua existência à necessidade material. (…) ambos são precursores da teoria do interesse, já plenamente desenvolvida por Bodin – tal como os reis governam os povos, o Interesse governa os reis.”
“Que toda vida individual entre o nascimento e a morte possa afinal ser narrada como uma estória com começo e fim é a condição pré-política e pré-histórica da história (history), a grande estória sem começo nem fim.”
“É digno de nota o fato de que Platão, que não tinha indício algum do moderno conceito de história, tenha sido o primeiro a inventar a metáfora do ator que, nos bastidores, por trás dos homens que atuam, puxa os cordões e é responsável pela estória. O deus platônico é apenas um símbolo do fato de que as estórias reais, ao contrário das que inventamos, não têm autor; como tal, é o verdadeiro precursor da Providência, da <mão invisível>, da Natureza, do <espírito do mundo>, do interesse de classe e de outras noções semelhantes mediante as quais os filósofos da história cristãos e modernos tentaram resolver o desconcertante problema de que embora a história deva a sua existência aos homens, obviamente não é, todavia, <feita> por eles.”
“o simples fato de que Adam Smith tenha precisado de uma <mão invisível> a guiar as transações econômicas no mercado de trocas mostra claramente que as relações de troca envolvem algo mais que a mera atividade econômica”
“embora saibamos muito menos a respeito de Sócrates, que jamais escreveu uma linha sequer nem deixou obra alguma atrás de si, que acerca de Platão ou Aristóteles, sabemos muito melhor e mais intimamente quem foi Sócrates, por conhecermos sua estória, do que sobre quem foi Aristóteles, acerca de cujas opiniões estamos muito mais bem-informados.”
USOPPISMO: “Em Homero a palavra hêrôs sem dúvida tinha uma conotação de distinção, mas uma distinção de que era capaz qualquer homem livre. Em parte alguma aparece com o significado ulterior de <semideus>, resultante talvez da deificação dos antigos heróis épicos.” “A dimensão dessa coragem original, sem a qual a ação, o discurso e, portanto, segundo os gregos, a liberdade seriam impossíveis, não é menor se o <herói> for um covarde – pode ser até maior.”
“o teatro é a arte política por excelência; somente no teatro a esfera política da vida humana é transposta para a arte. Pelo mesmo motivo, é a única arte cujo assunto é, exclusivamente, o homem em sua relação com os outros homens.”
“A crença popular em um <homem forte>, que, isolado dos outros, deve sua força ao fato de estar só, é ou mera superstição, baseada na ilusão de que podemos <produzir> algo no domínio dos assuntos humanos – <produzir> instituições ou leis, p.ex., como fazemos mesas e cadeiras, ou produzir homens <melhores> ou <piores> (Platão já recriminava Péricles por não haver <tornado melhor o cidadão>, pois, no fim de sua carreira, os atenienses eram piores que antes – Górgias, 515) –, ou é, então, a desesperança consciente de toda ação, política e não-política, aliada à esperança utópica de que seja possível tratar os homens como se tratam outros <materiais>.”
“A história está repleta de exemplos de impotência do homem forte e superior que não sabe como angariar o auxílio ou o agir conjunto (co-acting) de seus semelhantes – fracasso que é freqüentemente atribuído à fatal inferioridade do grande número e ao ressentimento que as pessoas eminentes inspiram nas medíocres.”
“Aos dois verbos gregos archein e prattein (<atravessar, <realizar>, <acabar>) correspondem os dois verbos latinos agere e gerere (cujo significado original é <conduzir>). (…) Em ambos os casos, a palavra que originalmente designava apenas a segunda parte da ação, ou seja, sua realização – prattein e gerere –, passou a ser o termo aceito para designar a ação em geral, enquanto a palavra que designava o começo da ação adquiriu um significado especial, pelo menos na linguagem poética. Archein passou a significar, principalmente, <governar> e <liderar>, quando empregada de maneira específica, e agere passou a significar <liderar>, mais do que <pôr em movimento>.”
“a força do iniciador e líder mostra-se em sua iniciativa e nos riscos que assume, não na efetiva realização. No caso do governante bem-sucedido, ele pode reivindicar para si aquilo que, na verdade, é a realização de muitos – algo que jamais teria sido permitido a Agamêmnon, que era rei, mas não governante.”
“a tentação política por excelência é realmente a hybris, e não a vontade de poder, como somos inclinados a acreditar.”
“a luz que ilumina os processos da ação e, portanto, todos os processos históricos só aparece quando eles terminam – muitas vezes quando todos os participantes já estão mortos. A ação só se revela plenamente para o contador da estória (storyteller), ou seja, para o olhar retrospectivo do historiador, que realmente sempre sabe melhor o que aconteceu do que os próprios participantes. Todo relato feito pelos próprios atores, ainda que, em raros casos, constitua versão fidedigna de suas intenções, finalidades e motivos, torna-se uma mera fonte de material útil nas mãos do historiador”
“O velho ditado de que ninguém pode ser considerado eudaimon antes de morrer talvez dê uma indicação do assunto em questão, se formos capazes de ouvir seu significado original após 2500 anos de trivializante repetição; nem mesmo a tradução latina, proverbial e corriqueira já em Roma – nemo ante mortem beatus esse dici potest –, transmite o significado original, embora talvez tenha inspirado a prática da Igreja Católica de só beatificar os santos depois de há um bom tempo seguramente mortos. Porque eudaimonia não significa felicidade nem beatitude; é intraduzível e talvez até inexplicável. Tem a conotação de bem-aventurança, mas sem qualquer implicação religiosa, e significa, literalmente, algo como o bem-estar do daimôn que acompanha cada homem durante a sua vida, que é a sua identidade distinta, mas só aparece e é visível para os outros. É contra essa distorção inevitável que o coro afirma seu próprio conhecimento: estes outros vêem, <têm> diante dos olhos, como um exemplo, o daimôn de Édipo; a miséria dos mortais é serem cegos para seu próprio daimôn.”
O AZAR DE LULA E DE PELÉ: “a essência humana só pode passar a existir depois que a vida se acaba, deixando atrás de si nada além de uma estória. Assim, quem pretender conscientemente ser <essencial>, deixar atrás de si uma estória e uma identidade que conquistará <fama imortal>, deve não só arriscar a vida, mas também optar expressamente, como o fez Aquiles, por uma vida curta e uma morte prematura. Só o homem que não sobrevive ao seu ato supremo permanece senhor inconteste de sua identidade e sua possível grandeza, porque se retira, na morte, das possíveis conseqüências e da continuação do que iniciou. (…) Aquiles permanece dependente do contador de estórias, do poeta ou historiador, sem os quais tudo o que ele fez teria sido em vão”
“O fato de que a palavra grega equivalente à expressão <cada um> (hekastos) deriva de hekas (<distante>) parece indicar o quanto esse individualismo deve ter sido profundamento arraigado.”
“[para] os gregos, o legislador era como o construtor dos muros da cidade, alguém cuja obra devia ser executada e terminada antes que a atividade política pudesse começar. Conseqüentemente, era tratado como qualquer outro artesão ou arquiteto, e podia ser trazido de fora e contratado sem que precisasse ser cidadão, ao passo que o direito de politeuesthai, de engajar-se nas muitas atividades que afinal ocorriam na pólis, era exclusivo dos cidadãos. [As Leis]” “A escola socrática voltou-se para essas atividades, que os gregos consideravam pré-políticas, por desejar combater a política e a ação.” “bastaria que os homens renunciassem a sua capacidade para a ação – que é fútil, ilimitada e incerta com relação aos resultados – para que houvesse um remédio para a fragilidade dos assuntos humanos.”
“Com aquela cândida abstenção de moralização tão típica da Antiguidade grega (mas não da romana), Aristóteles começa por dizer, como algo óbvio, que o benfeitor sempre ama aqueles a quem ajuda mais do que é amado por eles. Em seguida, passa a explicar que isso é bastante natural, visto que o benfeitor executou uma obra, uma ergon, ao passo que o beneficiado apenas aceitou sua beneficência. Segundo Aristóteles, o benfeitor ama sua <obra>, a vida do beneficiário que ele <produziu>, tanto quanto o poeta ama seus poemas; e lembra ao leitor que o amor do poeta por sua obra dificilmente é menos apaixonado que o amor da mãe pelos filhos.” “a obra, tal como a atividade do legislador na concepção grega, só pode tornar-se o conteúdo da ação no caso de qualquer ação subseqüente ser indesejável ou impossível”
“Esperava-se que a pólis multiplicasse as oportunidades de conquistar <fama imortal>, ou seja, multiplicasse para cada homem as possibilidades de distinguir-se, de revelar em ato e palavra quem era em sua distinção única. Uma das razões, senão a principal, do incrível desenvolvimento do talento e do gênio em Atenas, bem como do rápido e não menos surpreendente declínio da cidade-Estado, foi precisamente que, do começo ao fim, o principal objetivo da pólis era fazer do extraordinário uma ocorrência ordinária da vida cotidiana.”
“Onde quer que vás, serás uma pólis” lema da colonização grega
“Ser privado dele [do espaço da pólis] significa ser privado da realidade que, humana e politicamente falando, é o mesmo que a aparência.” “<o que aparece a todos, a isso chamamos Ser> Heráclito diz essencialmente o mesmo que Aristóteles no trecho citado, ao declarar que o mundo é um só e é comum a todos os que estão despertos, mas que todos os que dormem voltam-se para seu próprio mundo (Diels, Fragmente der Vorsokratiker, B89).” // Heidegger
“poder: (…) grego, dynamis, e o latino, potentia (…) Macht (que vem de mögen e möglich, e não de machen), indica seu caráter de <potencialidade>.”
“Um grupo de homens relativamente pequeno, mas bem-organizado, pode governar, por tempo quase indeterminado, vastos e populosos impérios; a história registra não poucos exemplos de países pequenos e pobres que levam a melhor sobre nações grandes e ricas. (A história de Davi e Golias só é verdadeira como metáfora; o poder de poucos pode ser superior ao de muitos, mas, na luta entre dois homens, o que decide é o vigor, não o poder, e a sagacidade, i.e., a força do cérebro, contribui materialmente para o resultado não menos que a força muscular.)”
“embora a violência seja capaz de destruir o poder, jamais pode substituí-lo.” “Só o poder pode efetivamente aniquilar o vigor”
“Montesquieu, o último pensador político seriamente preocupado com o problema das formas de governo.”
“só a tirania é incapaz de engendrar suficiente poder para permanecer no espaço da aparência, que é o domínio público; ao contrário, tão logo passa a existir, gera as sementes de sua própria destruição.”
Incompreensão dos politicólogos do XX do que significaria o termo “VdP”: “O poder corrompe, de fato, quando os fracos se unem para destruir o forte, mas não antes. A vontade de poder, como compreendeu a era moderna de Hobbes a Nietzsche, glorificando-a ou denunciando-a, longe de ser uma característica do forte, é, como a cobiça e a inveja, um dos vícios do fraco, talvez o seu mais perigoso vício.”
“O veemente desejo de violência, tão característico de alguns dos melhores artistas criativos, pensadores, estudiosos e artífices modernos, é uma reação natural daqueles de quem a sociedade tentou furtar o vigor. (…) <Denn die Ohnmacht gegen Menschen, nicht die Ohnmacht gegen die Natur, erzeugt die desperateste Verbitterung gegen das Dasein> (Wille zur Macht, n. 55)”
“A melancólica sabedoria do Eclesiastes – <Vaidade das vaidades; tudo é vaidade… Nada há de novo sob o sol…, não há recordação das coisas passadas, nem restará com os vindouros uma recordação das coisas que estão por vir> – não resulta necessariamente de uma experiência especificamente religiosa; mas: é certamente inevitável sempre e onde quer que se extinga a confiança no mundo como lugar adequado ao aparecimento humano” “Talvez nada em nossa história tenha durado tão pouco quanto a confiança no poder, e nada tenha durado mais que a desconfiança platônica e cristã em relação ao esplendor que acompanha seu espaço da aparência”
“O motivo pelo qual Aristóteles, em sua Poética, julga que a grandeza (megethos) é uma condição prévia do enredo dramático é que o drama imita a ação, e esta é julgada pelo critério da grandeza, por sua distinção do corriqueiro (1450b25). Aliás, o mesmo se aplica à beleza, que reside na grandeza e na taxis, a junção das partes (1450b34ss.).”
“a plena atualidade (energeia) nada efetua ou produz além de si mesma, e a plena realidade (entelecheia) não tem outro fim além de si mesma (veja-se Metafísica 1050a22-35).”
“a <obra do homem> não é um fim, porque os meios de realizá-la – as virtudes ou aretai – não são qualidades que podem ou não ser atualizadas, mas são, por si mesmas, <atualidades>. Em outras palavras, os meios de alcançar o fim já seriam o fim; e esse <fim>, por sua vez, não pode ser considerado como meio em outro contexto, pois nada há de mais elevado a atingir que essa própria atualidade.”
“essa importantíssima degradação da ação e do discurso está implícita quando Adam Smith classifica qualquer ocupação que se baseie essencialmente no desempenho na mesma categoria dos <serviços domésticos>”
“(O gênio criativo como expressão quintessencial da grandeza humana era inteiramente desconhecido na Antiguidade e na Idade Média.) Só no começo do século XX os grandes artistas passaram a protestar, com surpreendente unanimidade, contra o fato de serem chamados de <gênios> e a insistir no artesanato, na competência e na estreita relação entre arte e ofício manual. É verdade que esse protesto não foi, em parte, mais que uma reação contra a vulgarização e a comercialização da noção de gênio”
“O que importa em nosso contexto é que a obra do gênio, em contraposição ao produto do artesão, parece haver absorvido aqueles elementos de distinção e unicidade que encontram expressão imediata somente na ação e no discurso.”
“Por causa dessa transcendência, que efetivamente diferencia a grande obra de arte dos demais produtos das mãos humanas, o fenômeno do gênio criativo parecia constituir a mais elevada legitimação da convicção do homo faber de que os produtos de um homem podem ser mais e essencialmente maiores que ele mesmo.”
“<Que os médicos, os doceiros e os criados das grandes casas sejam julgados pelo que fizeram ou mesmo pelo que pretenderam fazer; as grandes pessoas são julgadas pelo que são.> Cito aqui um trecho do maravilhoso conto de Isak Dinensen, <The Dreamers>, em Seven gothic tales (Ed. Modern Library), especialmente p. 340ss. Só os vulgares consentirão em derivar seu orgulho do que fizeram; em virtude dessa condescendência, tornar-se-ão <escravos e prisioneiros> de suas próprias faculdades e descobrirão, caso lhes reste algo mais que mera vaidade estulta, que ser escravo e prisioneiro de si mesmo não é menos amargo e talvez seja mais vergonhoso que ser servo de outrem.”
“a atribulação do gênio é real, o que fica evidente no caso dos literati, em que de fato se consuma a inversão da ordem entre o homem e seu produto; o que há de tão ultrajante em seu caso – e o que, aliás, suscita mais ódio popular que a falsa superioridade intelectual – é que mesmo o seu pior produto lhe será provavelmente superior.”
“Das revoluções de 1848 até a revolução húngara de 1956, a classe operária européia, por ser o único setor organizado e, portanto, o setor conducente do povo, escreveu um dos mais gloriosos capítulos da história recente, e provavelmente o mais promissor.” “enquanto os sindicatos, ou seja, a classe operária na medida em que é apenas uma dentre as classes da sociedade moderna, têm prosseguido de vitória em vitória, o movimento políticos dos trabalhadores tem sido derrotado sempre que ousa apresentar suas próprias reivindicações, distintas de programas partidários e reformas econômicas. Se a tragédia da revolução húngara conseguiu apenas demonstrar ao mundo que, a despeito de todas as derrotas e aparências, esse elã político ainda não morreu, seus sacrifícios não terão sido em vão.”
“Talvez nada ilustre melhor o papel decisivo da mera aparência, do distinguir-se e ser conspícuo no domínio dos assuntos humanos, do que o fato de que os trabalhadores, quando ingressaram no cenário histórico, sentiram necessidade de adotar um traje próprio, o sans-culotte, do qual, durante a Revolução Francesa, derivavam seu nome. Com esse traje, adquiriram uma distinção própria, distinção esta dirigida contra todos os outros.”
“Essa tentativa de substituir a ação pela fabricação é visível em todos os argumentos contra a <democracia>”
“a única tentativa de abolir a escravidão na Antiguidade – embora malograda – foi feita por Periandro, tirano de Corinto.”
“É com as óbvias vantagens da tirania a curto prazo – a estabilidade, a segurança e a produtividade – que devemos tomar cuidado, quando menos porque preparam o caminho para uma inevitável perda de poder, embora o verdadeiro desastre possa ocorrer em futuro relativamente distante.”
“Do ponto de vista teórico, a versão mais sintética e fundamental da fuga da ação para o governo ocorre em O político, em que Platão instaura um abismo entre os dois modos de ação, archein e prattein (<começar> e <realizar>), que, para os gregos, eram interconectados.”
Problema indiferente: “(É erro comum interpretar Platão como se ele pretendesse abolir a família e o lar; pelo contrário, ele pretendia ampliar a vida doméstica ao ponto em que todos os cidadãos fossem assimilados a uma única família…)” “Historicamente, o conceito de governo, embora originado no domínio doméstico e familiar, desempenhou seu papel mais decisivo na organização dos assuntos públicos e, para nós, está inseparavelmente ligado à política. Isso não deve nos levar a desconsiderar o fato de que, para Platão, tratava-se de uma categoria muito mais geral.” “primeiro, perceber a imagem ou forma (eidos) do produto que se vai fabricar; em seguia, organizar os meios e dar início à execução.”
“mesmo na República o filósofo ainda é definido como amante da beleza, não da bondade. O bem é a idéia mais elevada para o rei-filósofo” “Somente quando volta à caverna escura dos assuntos humanos, para conviver novamente com os seus semelhantes, é que ele necessita das idéias que guiem como padrões e regras que lhe permitam medir e sob os quais subsumir a multiplicidade vária dos atos e palavras humanos com a mesma certeza absoluta e <objetiva> com que pode se orientar o artesão na fabricação e o leigo no julgamento de cada cama individual, pelo emprego do modelo estável e sempre presente, a <idéia> da cama em geral.”
“a glorificação da violência como tal esteve inteiramente ausente do pensamento político até a era moderna.”
“Somente a convicção da era moderna de que o homem só pode conhecer aquilo que ele mesmo faz, e de que ele é, basicamente, um homo faber e não um animal rationale, trouxe à baila as implicações muito mais antigas da violência inerentes a todas as interpretações do domínio dos assuntos humanos (…) Percebe-se isso nitidamente na série de revoluções, típicas da era moderna, todas as quais – com exceção da Revolução Americana – revelam a mesma combinação do antigo entusiasmo romano pela fundação de um novo corpo político com a glorificação da violência como único meio de <produzir> esse corpo. (…) <a violência é a parteira de toda velha sociedade grávida de uma sociedade nova> Marx”
“Compare-se a afirmação de Platão – de que o desejo do filósofo de se tornar governante dos homens advém apenas do medo de ser governado pelos piores (República 347) – com a afirmação de Agostinho, de que a função do governo é permitir que <os bons> vivam com mais tranqüilidade entre <os maus> (Epistolae, 153:6).”
“O fato é que Pl. e em menor medida Arist., para quem os artesãos sequer eram dignos da plena cidadania, foram os primeiros a propor que as questões políticas fossem tratadas, e os corpos políticos governados à maneira da fabricação.”
“O próprio fato de que as ciências naturais tenham se tornado exclusivamente ciências de processos e, em seu último estágio, ciências de <processos sem retorno>, potencialmente irreversíveis e irremediáveis, indica claramente que, seja qual for a força cerebral necessária para iniciá-los, a verdadeira capacidade humana subjacente que poderia desencadear sozinha esse desdobramento não é nenhuma capacidade <teórica>, nem a contemplação ou a razão, mas a aptidão humana para agir, para iniciar novos processos sem precedentes, cujo resultado é incerto e imprevisível”
“Os gregos avaliavam essas circunstâncias comparando-as à eterna presença ou ao eterno retorno de todas as coisas naturais, e a principal preocupação deles era estarem à altura e serem dignos da imortalidade”
“<Man weiss die Herkunft nicht, man weiss die Folgen nicht […] (der Wert der Handlung ist) ubekannt> […o valor da ação não pode ser conhecido], como disse certa vez Nietzsche (WzM, 291), mal se dando conta [será?] de que apenas ecoava a antiga suspeita dos filósofos em relação à ação.”
“Enquanto a força do processo de produção é inteiramente absorvida e exaurida pelo produto final a força do processo de ação nunca se exaure em um único ato, mas, ao contrário, pode aumentar à medida que suas conseqüências se multiplicam (…) e sua perduração é ilimitada, tão independente da perecibilidade da matéria e da mortalidade dos humanos quanto o é a perduração da própria humanidade.”
“o fardo da irreversibilidade e da imprevisibilidade”
“em nenhuma outra parte – nem no trabalho, sujeito às necessidades da vida, nem na fabricação, dependente do material dado – o homem parece ser menos livre que naquelas capacidades cuja própria essência é a liberdade”
“inação na abstenção” Adão
“Nos sistemas politeístas nem mesmo um deus, por mais poderoso que seja, pode ser soberano”
“Assim como o epicurismo repousa na ilusão de felicidade quando se é assado vivo no Touro de Falera, o estoicismo repousa na ilusão de liberdade quando se é escravo.”
“Se olharmos a liberdade com os olhos da tradição, identificando liberdade com soberania, a ocorrência simultânea da liberdade com não-soberania – o fato de ser capaz de iniciar algo novo, mas incapaz de controlar ou prever suas conseqüências – parece quase forçar-nos à conclusão de que a existência humana é absurda.”
“Onde o orgulho humano ainda está intacto, é a tragédia, mais que o absurdo, que é vista como marca característica da existência humana. O maior expoente desta opinião é Kant, para quem a espontaneidade da ação e as concomitantes faculdades da razão prática, inclusive a força do juízo, são ainda as principais qualidades do homem, muito embora sua ação recaia no determinismo das leis naturais e seu juízo não consiga penetrar o segredo da realidade absoluta (a Ding an sich). Kant teve a coragem de absolver o homem das conseqüências dos seus atos, insistindo unicamente na pureza dos motivos, o que o impediu de perder a fé no homem e em sua grandeza potencial.”
“o homo faber pôde ser redimidio do constrangimento da ausência do significado, a <desvalorização de todos os valores>, e da impossibilidade de encontrar critérios válidos em mundo determinado pela categoria de meios e fins unicamente por meio das faculdades inter-relacionadas da ação e do discurso” “Do ponto de vista do animal laborans, parece um milagre o fato de que ele seja também um ser que conhece um mundo e nele habita; do ponto de vista do homo faber, parece milagre, uma espécie de revelação divina, o fato de o significado ter um lugar neste mundo.”
“O remédio para a imprevisibilidade, para a caótica incerteza do futuro, está contido na faculdade de prometer e cumprir promessas. As duas faculdades formam um par, pois a primeira delas, a de perdoar, serve para desfazer os atos do passado, cujos <pecados> pendem como espada de Dámocles sobre cada nova geração” “Se não fôssemos perdoados, liberados das conseqüências daquilo que fizemos, nossa capacidade de agir ficaria, por assim dizer, limitada a um único ato do qual jamais nos recuperaríamos” “Sem estermos obrigados ao cumprimento de promessas, jamais seríamos capazes de conservar nossa identidade” “ninguém pode perdoar a si mesmo e ninguém pode se sentir obrigado por uma promessa feita apenas para si mesmo; o perdão e a promessa realizados na solitude e no isolamento permanecem sem realidade e não podem significar mais do que um papel que a pessoa encena para si mesma.” “O descobridor do papel do perdão no domínio dos assuntos humanos foi Jesus de Nazaré.”
“poupar os vencidos (parcere subiectis) – uma sabedoria que os gregos desconheciam totalmente”
“no Evangelho não se supõe que o homem perdoe porque Deus perdoa, e ele, portanto, tem de fazer <o mesmo>, e sim que, <se cada um no íntimo do coração, perdoar>, Deus fará <o mesmo>. [me soa mais a chantagem] (Mateus 6:14-15)”
“<se ele te ofender sete vezes no dia, e sete vezes no dia retornar a ti, dizendo ‘me arrependo’, tu o perdoarás.> O versículo, que citei da tradução padrão, poderia também ser traduzido como segue: <E se ele transgredir contra ti […] e […] procurar-te, dizendo: Mudei de idéia, deves desobrigá-lo.>” Não muda muito!
“Ao contrário da vingança, que é a reação natural e automática à transgressão e que, devido à irreversibilidade do processo da ação, pode ser esperada e até calculada, o ato de perdoar jamais pode ser previsto” “o perdão é a única reação que não re-age (re-act) apenas e de cujas conseqüências liberta, por conseguinte, tanto o que perdoa quanto o que é perdoado.” “É bastante significativo, um elemento estrutural no domínio dos assuntos humanos, que os homens não sejam capazes de perdoar aquilo que não podem punir, nem de punir o que se revelou imperdoável. Essa é a verdadeira marca distintiva daquelas ofensas que, desde Kant, chamamos de <mal radical>, cuja natureza é tão pouco conhecida, mesmo por nós que fomos expostos a uma de suas raras irrupções na cena pública.” “Em tais casos, em que o próprio ato nos despoja de todo poder, só resta realmente repetir com Jesus: <Seria melhor para ele que se lhe atasse ao pescoço uma pedra de moinho e que fosse precipitado ao mar.>”
“Dada sua paixão, o amor destrói o espaço-entre que estabelece uma relação entre nós e os outros, e deles nos separa. Enquanto dura o seu fascínio, o único espaço-entre que pode inserir-se entre duas pessoas que se amam é o filho, o produto do amor.” “É como se, por meio do filho, os amantes retornassem ao mundo do qual o amor os expulsou. (…) o resultado possível e o único final possivelmente feliz de um caso de amor é, de certa forma, o fim do amor” “o amor é não-mundano, e é por essa razão, mais que por sua raridade, que é não apenas apolítico, mas antipolítico” “se fosse verdade, como o supôs a cristandade, que só o amor pode perdoar, o perdão teria de ser inteiramente excluído de nossas considerações.” “Como a philia politiké aristotélica, o respeito é uma espécie de <amizade> sem intimidade ou proximidade” “a grande variedade de teorias do contrato confirma, desde os tempos de Roma, que o poder de fazer promessas ocupou, ao longo dos séculos, o centro do pensamento político.” “O perigo e a vantagem inerente a todos os corpos políticos assentados sobre contratos e tratados é que, ao contrário daqueles que se assentam sobre o governo e a soberania, deixam a imprevisibilidade dos assuntos humanos e a inconfiabilidade dos homens exatamente como são, usando-as meramente como o meio, por assim dizer, no qual são instauradas certas ilhas de previsibilidade e erigidos certos marcos de confiabilidade.” “A soberania reside na resultante independência limitada em relação à impossibilidade de calcular o futuro, e seus limites são os mesmos limites inerentes à própria faculdade de fazer e cumprir promessas.” “Nietzsche viu com inigualável clareza a conexão entre a soberania humana e a faculdade de fazer promessas, o que o levou ao singular discernimento da relação entre o orgulho humano e a consciência humana. Infelizmente, ambos os discernimentos permaneceram sem relação com seu principal conceito, o de <vontade de poder>, e não tiveram influência sobre ele, sendo, portanto, ignorados muitas vezes pelos próprios estudiosos de Nietzsche. Eles podem ser encontrados nos dois primeiros aforismos do segundo tratado de Zur Genealogie der Moral.” Arendt também ignora uma porrada de obviedades.
Ex: “A despeito de seu moderno preconceito de enxergar a fonte de todo poder na vontade de poder do indivíduo isolado…” – Individual: o que a VdP com certeza não é!
“Se a fatalidade fosse, de fato, a marca inalienável dos processos históricos, seria também igualmente verdadeiro que tudo o que é feito na história está arruinado. E, até certo ponto, isso é verdade.”
“os homens, embora tenham de morrer, não nascem para morrer, mas para começar.”
“a fé moverá montanhas e a fé perdoará; um fato é tão miraculoso quanto o outro, e a resposta dos apóstolos, quando Jesus demandou que perdoassem 7x ao dia, foi: <Sr., aumenta-nos a fé.>”
“fé e esperança, essas duas características essenciais da existência humana que os gregos antigos ignoraram por completo” e não vejo o que teria sido inferior em sua vivência
“Ao que parece, a expressão scienza nuova ocorre pela primeira vez na obra de Niccolò Tartaglia, matemático italiano do século XVI, que criou a nova ciência da balística que ele defende ter descoberto porque foi o primeiro a aplicar o raciocínio geométrico ao movimento dos projéteis. (Devo essa informação ao professor Alexandre Koyré.) Mais importante para o nosso contexto é o fato de que Galileu, em Sidereus Nuncius (1610), insiste na <absoluta novidade> de suas descobertas – atitude que, no entanto, fica ainda muito aquém da alegação de Hobbes: a filosofia política tem <a mesma idade que o meu livro De cive> (English works, Ed. Molesworth (1839), I, ix); ou da convicção de Descartes de que nenhum filósofo antes dele lograra êxito na filosofia (<Lettre au traducteur pouvant servir de préface>, in: Les Principes de la philosophie).”
Karl Jaspers – Descartes und die Philosophie: “sich das Wort <neu> als sachliches Wertpraedikat verbreitet” “a palavra <nova> espalha-se a si mesma como uma exigência de valor factual”
“Sem dúvida D. apresentou sua filosofia como um cientista pode apresentar uma nova descoberta científica: <Jé ne mérite point plus de gloire de les avoir trouvées, que ferait un passant d’avoir rencontré par bonheur à ses pieds quelque riche trésor, que la diligence de plusieurs aurait inutilement cherché longtemps auparavant> (La recherche de la verité)”
“a descoberta do planeta, o mapeamento de suas terras e o levantamento cartográfico de seus mares levaram muitos séculos e só agora estão chegando ao fim. Só agora o homem tomou plena posse de sua morada mortal e agrupou os horizontes infinitos, tentadora e proibitivamente abertos a todas as eras anteriores, em um globo cujos majestosos contornos e detalhada superfície ele conhece como as linhas na palma de sua mão.” “É verdade que nada poderia ter sido mais alheio ao propósito dos exploradores e circunavegadores do início da era moderna que esse processo de avizinhamento; eles se fizeram ao mar para ampliar a Terra, não para reduzi-la a uma bola (…) Somente a sabedoria da retrospecção vê o óbvio: nada que possa ser medido pode permanecer imenso” “Antes que soubéssemos como contornar a Terra, como circunscrever em dias e horas a esfera da morada humana, já havíamos trazido o globo à nossa sala de estar, para tocá-lo com as mãos e girá-lo ante nossos olhos.”
“<milagre econômico> alemão do pós-guerra (…) nas condições modernas, a expropriação de pessoas, a destruição de objetos e a devastação de cidades converteram-se em um estímulo radical para um processo não de mera recuperação, mas de acúmulo de riqueza ainda mais rápido e eficaz – bastando para isso que o país seja suficientemente moderno para responder em termos do processo de produção. Na Alemanha, a completa destruição substituiu o inexorável processo de depreciação de todas as coisas mundanas, processo esse que caracteriza a economia de desperdício na qual vivemos agora. O resultado foi quase o mesmo: um aumento súbito da prosperidade (…) nas condições modernas, a conservação, e não a destruição, significa ruína” “A razão mais freqüentemente apresentada para a surpreendente recuperação da Alemanha no pós-guerra – que ela não tinha de arcar com um orçamento militar – é inconclusiva por duas razões: em primeiro lugar, a Alemanha teve de pagar, durante anos, os custos da ocupação, que totalizavam uma quantia quase igual ao orçamento militar completo; em segundo lugar, considera-se, em outras economias, que a produção bélica é o maior fator isolado de prosperidade no pós-guerra.”
“Uma das mais persistentes tendências da filosofia moderna desde Descartes, e talvez a mais original contribuição moderna à filosofia, foi uma preocupação exclusiva com o si-mesmo, enquanto distinto da alma, da pessoa ou do homem em geral, uma tentativa de reduzir todas as experiências, tanto com o mundo como com outros seres humanos, a experiências entre o homem e ele mesmo.” “O que distingue a era moderna é a alienação em relação ao mundo, e não, como pensava Marx, a autoalienação (self-alienation).” “A influência de Aristóteles no estilo do pensamento de Marx parece-me quase tão característica e decisiva quanto a influência da filosofia de Hegel.”
“os homens não podem se tornar cidadãos do mundo do modo como são cidadãos de seus países, e homens sociais não podem ser donos coletivos do modo como os homens que têm um lar e uma família são donos de sua propriedade privada.”
Whitehead – Science and the modern world
Alexandre Koyré – From the closed world to the infinite universe (1957)
“véritable retour à Archimède”
“Antes das descobertas telescópicas de Galileu, a filosofia de Giordano Bruno atraiu pouca atenção, mesmo entre eruditos, e sem a confirmação factual que elas conferiram à revolução copernicana, não só os teólogos, mas todos <os homens sensatos> […] tê-la-iam considerado um desvairado apelo […] de uma imaginação descontrolada.”
“Em Sambursky, The Physical World of the Greeks (1956), encontra-se um relato muito instrutivo do mundo físico dos gregos do ponto de vista da ciência moderna.”
“Essa diferença de relevância entre o sistema copernicano e as descobertas de Galileu foi percebida muito claramente pela Igreja Católica, que não fizera objeções à teoria pré-galileana de um Sol imóvel e de uma Terra que se movia, enquanto os astrônomos a empregaram como uma hipótese conveniente para fins matemáticos; mas, como o Cardeal Bellarmine indicou a Galileu, <demonstrar que a hipótese […] salva as aparências não é de modo algum o mesmo que demonstrar a realidade do movimento da Terra.”
Bertrand Russell – “A free man’s worship”, in: Mysticism and Logic (1918)
“ainda hoje o conflito entre o próprio evento e suas conseqüências quase imediatas está longe de ser resolvido. (…) Pouco antes da era moderna, a humanidade européia sabia menos que Arquimedes no século III a.C., ao passo que os primeiros 50 anos de nosso século testemunharam mais descobertas importantes que todos os séculos de história registrada juntos. No entanto, com igual razão, o mesmo fenômeno foi responsabilizado pelo não menos demonstrável aumento do desespero humano, ou pelo niilismo especificamente moderno que se propagou para setores cada vez maiores da população, do qual o aspecto mais significativo talvez seja o de que já não poupa os próprios cientistas, cujo fundamentado otimismo, no séc. XIX, ainda foi capaz de enfrentar o igualmente justificável pessimismo de pensadores e poetas.”
“<Wenn man versucht, von der Situation in der modernen Naturwissenschaft ausgehend, sich zu den in Bewegung geratenen Fundamenten vorzutasten, so hat man den Eindruck […] dass zum erstenmal im Lauf der Geschichte der Mensch auf dieser Erde nur noch sich selbst gegneübersteht […], dass wir gewissermassen immer nur uns selbst begegnen> (Heisenberg, Das Naturbild der heutigen Physik [O panorama da Física atual] (1955), pp. 17-8)(*) / <Durch die Art der Beobachtung wird entschieden, welche Züge der Natur bestimmt werden und welche wir durch unsere Beobachtungen verwischen> (H., Wandlugen in den Grundlagen der Naturwissenschaft [Modificações nos Fundamentos das Ciências Naturais] (1949), p. 67)(**)
(*) Quando se tenta, a partir da situação da ciência moderna, alcançar os fundamentos em transformação, tem-se a impressão […] de que pela primeira vez na História o homem desta Terra só se confronta a si mesmo […], pressente-se que no fim só podemos encontrar a nós mesmos
(**) De acordo com o modelo de observação empregado, chega-se a conclusões diferentes acerca da natureza, inevitavelmente distorcidas e borradas por nossas próprias observações”
“o desejo arquimediano de um ponto fora da Terra a partir do qual o homem pudesse erguer o mundo” “Sem efetivamente nos posicionarmos onde Arquimedes desejava se posicionar (dos moi pou stô), presos ainda à Terra pela condição humana, descobrimos um meio de atuar sobre a Terra e dentro da natureza terrena como se pudéssemos dispor dela a partir de fora, do ponto arquimediano.”
“Se hoje os cientistas indicam que podemos presumir com igual validade que a Terra gira em torno do Sol ou que o Sol gira em torno da Terra, que ambos os pressupostos estão de acordo com fenômenos observados e a diferença está apenas na escolha do ponto de referência, isso não significa de modo algum um retorno à posição do Cardeal Bellarmine ou de Copérnico, na qual os astrônomos lidavam com meras hipóteses. Antes, significa que movemos o ponto arquimediano mais um passo para longe da Terra, para um ponto do universo onde nem a Terra nem o Sol são o centro de um sistema universal. (…) No que diz respeito às realizações práticas da ciência moderna, essa mudança do antigo sistema heliocêntrico para um sistema sem centro fixo é, sem dúvida, tão importante quanto a mudança original da visão de mundo geocêntrica para a heliocêntrica.”
“Sem essa linguagem simbólica não-espacial, Newton não teria sido capaz de reunir a astronomia e a física em uma única ciência” “a matemática (i.e., a geometria) era a introdução adequada àquele firmamento de idéias no qual nenhuma simples imagem (eidôla) ou sombra, nenhuma matéria perecível, podia mais interferir no aparecimento do ser eterno, no qual essas aparências estão salvas (sôzein ta phainomena) e seguras, enquanto purificadas tanto da sensualidade e da mortalidade humanas como da perecibilidade material.”
“Já não é o começo da filosofia, da <ciência> do Ser em sua verdadeira aparência, mas, ao invés disso, passa a ser a ciência da estrutura da mente humana.”
“toda multiplicidade, por mais desordenada, incoerente e confusa que seja, recairá em certos padrões e configurações, tão válidos e não mais significativos que a curva matemática, que, como Leibniz assinalou certa vez, sempre pode ser verificada entre pontos lançados ao acaso em uma folha de papel.” “A moderna reductio scientiae ad mathematicum invalidou o testemunho da observação da natureza, tal como testificada a curta distância pelos sentidos humanos, da mesma forma como Leibniz invalidou o conhecimento da origem aleatória e da natureza caótica da folha de papel coberta de pontos.”
“É como se já não precisássemos que a teologia nos dissesse que o homem não é nem pode ser de forma alguma deste mundo, muito embora viva aqui; e talvez algum dia possamos ser capazes de ver o antigo entusiasmo dos filósofos pelo universal como a primeira indicação, como se eles tivessem apenas tido um pressentimento, de que chegaria o tempo em que os homens teriam de viver em condições terrenas e ao mesmo tempo ser capazes de olhar a Terra e agir sobre ela a partir de um ponto situado fora dela. (O problema é somente – ou pelo menos assim nos parece agora – que, embora o homem possa fazer coisas de um ponto de vista <universal> e absoluto, algo que os filósofos jamais consideraram possível, ele perdeu sua capacidade de pensar em termos universais e absolutos, e com isso realizou e frustrou ao mesmo tempo os critérios e ideais da filosofia tradicional. Ao invés da antiga dicotomia entre o céu e a Terra, temos agora outra entre o homem e o universo, ou entre a capacidade da mente humana para a compreensão e as leis universais que os homens podem descobrir e manusear sem uma verdadeira compreensão.)”
Bronowski – Science and human values
“A fundação e a história inicial da Royal Society são bastante sugestivas. Quando ela foi fundada, seus membros se comprometiam a não participar de questões alheias ao escopo que lhe fôra prescrito pelo rei e, principalmente, não se envolver em disputas políticas ou religiosas. Somos tentados a concluir que foi então que nasceu o moderno ideal científico de <objetividade>, o que sugeriria que sua origem é política, e não científica. Além disso, é digna de nota a circunstância de que os cientistas tenham, desde o início, julgado necessário se organizar em uma sociedade, e o fato de que a obra realizada no âmbito da Royal Society veio a ser vastamente mais importante que a obra feita fora dela demonstrou o quanto estavam certos.”
“Karl Jaspers, em sua magistral interpretação da filosofia cartesiana, insiste na estranha inépcia das idéias <científicas> de Descartes, sua falta de compreensão do espírito da ciência moderna e de sua tendência de aceitar teorias acriticamente e sem provas tangíveis, o que já havia surpreendido Spinoza (Descartes und die Philosophie, esp. pp. 50ss. e 93ss.)”
“Kant foi o último filósofo a ser uma espécie de astrônomo e cientista natural”
“o thaumazein grego, a admiração diante de tudo o que é como é.”
“Se o olho humano pode trair o homem a ponto de tantas gerações se enganarem ao crer que o Sol girava em torno da Terra, então a metáfora dos olhos da mente já não podia ser conservada” “É como se a antiga predição de Demócrito, de que a vitória da mente sobre os sentidos só podia terminar com a derrota da mente, tivesse se realizado” “Pobre mente, retiras teus argumentos nos sentidos e depois queres derrotá-los? Tua vitória será tua derrota” Diels – Fragmente der Vorsokratiker (1922, B125)
“Cf. Johannes Climacus oder De omnibus dubitandum est, um dos primeiros manuscritos de Kierkegaard e talvez ainda a mais profunda interpretação da dúvida cartesiana. Narra, sob a forma de uma autobiografia espiritual, como aprendeu sobre Descartes a partir de Hegel e como lamentou então não ter começado seus estudos filosóficos com as obras cartesianas. Esse pequeno tratado, na edição dinamarquesa das Collected Works (Copenhague, 1909), v. IV, está disponível em uma tradução para o alemão (Darmstadt, 1948).”
“Que a verdade se revela por si mesma era o credo comum à Antiguidade pagã e à hebraica, à filosofia secular e à filosofia cristã. Por isso, a nova filosofia moderna voltou-se com tamanha veemência – na verdade, com uma violência que se avizinhava do ódio – contra a tradição, abolindo sumariamente a entusiasta restauração e a redescoberta da Antiguidade pela Renascença.”
“Dois pesadelos perseguem a filosofia de Descartes. (…) é possível que tudo o que tomamos pela realidade não passe de um sonho. (…) parece realmente muito mais plausível a idéia de um espírito mau, um Dieu trompeur”
“É certamente bastante surpreendente que nenhuma das principais religiões, com a exceção do zoroastrismo, jamais tenha incluído o ato de mentir, como tal, entre os pecados mortais. (…) antes da moralidade puritana, ninguém jamais considerou as mentiras como ofensas sérias.”
“<ninguém pode duvidar de sua dúvida e estar incerto quanto a se duvida ou não.> No diálogo La recherche de la vérité par la lumière naturelle, no qual D. expõe suas intuições fundamentais sem formalidade técnica, a posição central da dúvida é ainda mais evidente que em suas outras obras. Assim, Eudoxe, que representa D., explica: <Vous pouvez douter avec raison de toutes les choses dont la connaissance ne vous vient que par l’office des sens; mais pouvez-vouz (sic) douter de votre doute et rester incertain si vous doutez ou non? […] vous qui doutez vous êtes, et cela est si vrai que vous n’en pouvez douter d’avantage> (Pléiade, p. 680). O famoso cogito ergo sum (<penso, logo existo>) era uma simples generalização de um dubito ergo sum.” “A idéia principal dessa filosofia não é de modo algum que eu não seria capaz de pensar sem existir” “como observou Nietzsche, o discernimento mental expresso no cogito não prova que eu existo, mas somente que a consciência existe (Wille zu Macht, n. 484).” “Na medida em que até os sonhos são reais, uma vez que pressupõem um sonhador e um sonho, o mundo da consciência é suficientemente real. O problema é apenas que, tal como seria impossível inferir da ciência (awareness) dos processos corporais a forma real de qualquer corpo, inclusive o nosso, também é impossível apreender a partir da mera consciência das sensações, na qual a pessoa sente seus sentidos e mesmo o objeto sentido se torna parte da sensação, a realidade com todas as suas formas, coloridos, contornos e constelações. A árvore vista pode ser suficientemente real para a sensação da visão, da mesma forma que a árvore sonhada é suficientemente real para o sonhador enquanto dura o sonho, mas nem uma nem outra podem jamais vir a ser uma árvore real.”
“quando se percebeu que o homem, não fosse pelo acidente da invenção do telescópio, poderia ter sido enganado para sempre, os caminhos de Deus se tornaram de fato inteiramente inescrutáveis; quanto mais o homem aprendia acerca do universo, menos podia compreender as intenções e propósitos para os quais ele deve ter sido criado. A bondade do Deus das teodicéias é, portanto, estritamente a qualidade de um deus ex machina; a bondade inexplicável é, em última análise, a última coisa que salva a realidade na filosofia de Descartes (a coexistência da mente e da extensão, da res cogitans e da res extensa), da mesma forma que salva a harmonia preestabelecida, em Leibniz, entre o homem e o mundo.”
“O que os homens têm em comum agora não é o mundo, mas a estrutura de suas mentes, e isso eles não podem, a rigor, ter em comum (…) O fato de que, dado o problema de 2 + 2, todos chegaremos à mesma resposta, 4, passa a ser de agora em diante o modelo máximo do raciocínio do senso comum.”
“Qualquer eventual diferença é uma diferença de poder mental, e essa pode ser testada e medida como se mede a potência de um motor. Aqui, a velha definição do homem como animal rationale adquire uma terrível precisão: destituído do sentido mediante o qual os 5 sentidos animais do homem se ajustam a um mundo comum a todos os homens, os seres humanos não passam realmente de animais capazes de raciocinar, de <calcular as conseqüências>.”
“A solução cartesiana foi deslocar o ponto arquimediano para dentro do próprio homem”
Cassirer – Einstein’s theory of relativity
“se os elétrons tivessem de elucidar as qualidades sensoriais da matéria, não poderiam propriamente possuir essas qualidades sensoriais, uma vez que, nesse caso, a questão sobre a causa dessas qualidades teria sido apenas afastada mais um passo, mas não resolvida”
Heisenberg – Wandlungen in den Grundlagen der Naturwissenschaft
“Novamente podemos, por um instante, rejubilar-nos por havermos reencontrado a unidade do universo, apenas para sermos vitimados pela suspeita de que o que encontramos talvez nada tenha a ver com o macrocosmo ou com o microcosmo, que lidamos apenas com os padrões de nossa própria mente, a mente que projetou os instrumentos e submeteu a natureza às suas condições no experimento” “nesse caso, é como se realmente estivéssemos nas mãos de um espírito mau que escarnece de nós e frustra a nossa sede de conhecimento”
“Nas palavras de Erwin Schrödinger: <À medida que os olhos de nossa mente penetram distâncias cada vez menores e tempos cada vez mais curtos, vemos a natureza comportar-se de modo tão inteiramente diverso daquilo que observamos em corpos visíveis e palpáveis de nosso ambiente que nenhum modelo concebido à base de nossas experiências em larga escala pode jamais ser ‘verdadeiro’> (Science and humanism, 1952)”
Planck apud Simone Weil (Emil Novis) – Réflexions à propos de la théorie des quanta “(Devo a uma ex-aluna minha, Srta. Beverly Woodward, a referência a esse artigo pouco divulgado.)” I AM THE TABLE: “Com o desaparecimento do mundo tal como dado aos sentidos, desaparece também o mundo transcendente, e com ele a possibilidade de transcender o mundo material em conceito e pensamento. Não é surpreendente, portanto, que o novo universo seja não apenas <praticamente inacessível, mas nem ao menos pensável>, pois, <não importa como o concebamos, está errado; talvez não tão desprovido de sentido como um ‘círculo triangular’, mas muito mais que um ‘leão alado’>.”
“é necessário em primeiro lugar nos desfazer do atual preconceito que atribui o desenvolvimento da ciência moderna, por causa de sua aplicabilidade, a um desejo pragmático de melhorar as condições de vida humana na Terra.” “o relógio, um dos primeiros instrumentos modernos, não foi inventado para os propósitos da vida prática, mas exclusivamente para o propósito altamente <teórico> de realizar certos experimentos com a natureza.” “nenhuma suposta revelação divina suprarracional e nenhuma suposta verdade filosófica abstrusa jamais ofenderam a razão humana tão manifestamente quanto certos resultados da ciência moderna.”
“A escolástica medieval, ao considerar a filosofia como serva da teologia, bem poderia ter agradado a Platão e a Aristóteles; ambos, embora em um contexto muito diferente, consideraram esse processo dialógico do pensamento um modo de preparar a alma e levar a mente a uma visão da verdade para além do pensamento e do discurso – uma verdade que é arrhêton, incapaz de ser comunicada através de palavras, como disse Platão, ou uma verdade para além do discurso, como em Aristóteles.”
“Quem quer que leia a alegoria da Caverna na República de Platão à luz da história grega logo perceberá que a periagôgê, a reviravolta (turning-about) que Platão exige do filósofo, constituía, na verdade, uma inversão da ordem homérica do mundo. Não a vida após a morte, como no Hades homérico, mas a vida comum na Terra, é situada em uma <caverna>, em um submundo; a alma não é a sombra do corpo, mas é o corpo que é a sombra da alma; e o movimento fantasmal e sem sentido atribuído por Homero à existência sem vida da alma no Hades após a morte é agora atribuído aos feitos sem sentido de homens que não deixam a caverna da existência humana para observar as idéias eternas visíveis no céu. É particularmente o emprego, por Platão, das palavras eidôlon e skia na alegoria da Caverna que faz com que a narrativa seja lida como uma inversão de Homero e uma réplica a este; pois estas são as palavras-chave da descrição que Homero faz do Hades na Odisséia.” “O que importa aqui é a inversibilidade de todos esses sistemas, o fato de que podem ser virados <de cabeça para baixo> ou revirados <de cabeça para cima> a qualquer momento da história sem se precisar, para tal inversão, de eventos históricos ou alterações dos elementos estruturais envolvidos.” “Essas escolas fiosóficas já haviam tido início nas escolas filosóficas da Antiguidade tardia (…) É ainda a mesma tradição, o mesmo jogo intelectual com antíteses emparelhadas que comanda, até certo ponto, as famosas inversões modernas das hierarquias espirituais, como a de Marx, na qual ele virou de cabeça para baixo a dialética de Hegel, ou a de Nietzsche, que revalorou o sensual e o natural em comparação com o suprassensual e o supranatural.”
“a maior parte da filosofia moderna é, realmente, teoria da cognição e psicologia; e, nos poucos casos em que as potencialidades do método cartesiano de introspecção foram plenamente realizadas por homens como Pascal, Kierkegaard e Nietzsche, somos tentados a dizer que os filósofos fizeram experimentos consigo próprios não menos radicalmente e talvez mais intrepidamente que os cientistas experimentaram com a natureza.
Por mais que possamos admirar a coragem e respeitar a extraordinária engenhosidade dos filósofos no decorrer de toda a era moderna, não se pode negar que a sua influência e a sua importância diminuíram como nunca antes. Não foi no pensamento da Idade Média, mas no da era moderna, que a filosofia passou a segundo ou mesmo terceiro plano.”
“Os filósofos tornaram-se epistemólogos preocupados com uma teoria global da ciência da qual os cientistas não necessitavam, ou tornaram-se realmente aquilo que Hegel queria que fossem: os órgãos do Zeitgeist, os porta-vozes por meio dos quais o estado de espírito geral da época era expresso com clareza conceitual.”
“Enquanto, p.ex., os experimentos de Galileu com a queda de corpos pesados poderiam ter sido realizados em qualquer época da história, caso os homens estivessem inclinados a procurar a verdade mediante experimentos, o experimento de Michelson com o interferômetro [que teria “provado” a inexistência do éter; além disso, Michelson e seu colega Pease foram os primeiros a medir o diâmetro de uma estrela com exceção do Sol, a Betelgeuse] em fins do século XIX dependeu não apenas do seu <gênio experimental>, mas <necessitou do avanço geral da tecnologia> e, portanto, <não poderia ter sido realizado antes>.”
“Gebet mir Materie, ich will eine Welt daraus bauen! das ist, gebet mir Materie, ich will euch zeigen, wie eine Welt daraus entstehen soll <Dai-me a matéria e eu vos ilustrarei como um mundo foi criado a partir dela>” Kant – Allgemeine Naturgeschichte und Theorie des Himmels (História Natural Universal e Teoria dos Céus, prefácio)
“Muito antes que a era moderna desenvolvesse sua consciência histórica sem precedentes e o conceito de história se tornasse dominante na filosofia moderna, as ciências naturais haviam se transformado em disciplinas históricas, até que, no séc. XIX, acrescentaram às disciplinas mais antigas da física, da química, da zoologia e da botânica as novas ciências naturais da geologia ou história da Terra, da biologia ou história da vida, da antropologia ou história da vida humana e, de modo mais geral, a história natural.”
Estruturalismo: ou o Super-Homem Enfezado
“A imagem do relógio e do relojoeiro é tão impressionantemente apropriada precisamente porque contém tanto a noção de um caráter processual da natureza na imagem dos movimentos do relógio quanto a noção do seu caráter de objeto ainda intacto, na imagem do próprio relógio e de seu fabricante.”
Vico – De nostri temporis studiorum ratione, cap. 4: “<Podemos demonstrar a geometria porque a fazemos: para demonstrar a física, teríamos de fazê-la.> Esse pequeno tratado, escrito mais de 15 anos antes da 1ª edição da Scienza Nuova (1725), é interessante sob vários aspectos. (…) o que ele recomenda é o estudo da ciência moral e política, que julgava ser indevidamente negligenciada. (…) Esse desdobramento biográfico, embora bastante extraordinário no início do século XVIII, tornou-se a regra 100 anos depois: sempre que a era moderna tinha razão de esperar por uma filosofia política, recebia, ao invés, uma filosofia da história.” “o racionalismo moderno, tal como conhecido atualmente, armado do suposto antagonismo entre a razão e a paixão, jamais encontrou representante mais claro e inflexível [que Hobbes]. No entanto, foi precisamente no domínio dos assuntos humanos que a nova filosofia se mostrou deficiente, porque, por sua própria natureza, não podia compreender e nem mesmo acreditar na realidade.” “raciocinar nos moldes do <cálculo de conseqüências>, significa ignorar o inesperado” “A filosofia política da era moderna, cujo maior representante é ainda H., soçobra na perplexidade de que o moderno racionalismo é irreal e o realismo moderno é irracional” “O gigantesco empreendimento de Hegel – de reconciliar o espírito com a realidade (den Geist mit der Wirklichkeit zu versöhnen), reconciliação que é a mais profunda preocupação de todas as modernas teorias da história – baseou-se na intuição de que a razão moderna soçobrava nos escolhos da realidade.”
“Teeteto 155: Mala gar philosophou touto to pathos, to thaumazeis; ou gar allê archê philosophias ê hautê (<Pois admiração é o de que mais padece o filósofo, e a filosofia não tem outro início senão esse>). Arist., que no início de sua Metafísica (982b12ss.) parece repetir Platão quase textualmente – <Pois é devido a sua admiração que os homens começam a filosofar, tanto hoje como pela 1ª vez> –, emprega essa admiração de um modo completamente diferente; para ele, o verdadeiro impulso para o filosofar reside no desejo de <fugir da ignorância>. Parece-me altamente provável que essa afirmação platônica seja o resultado imediato de uma experiência, talvez a mais surpreendente, que Sócrates oferecia aos seus discípulos: vê-lo repetidamente ser dominado de súbito por seus pensamentos e lançado em seu estado de absorção a ponto de permanecer completamente imóvel durante muitas horas.” “Pl. e Arist., para os quais o thaumazein era o começo da filosofia, concordavam também que o estado contemplativo essencialmente mudo fosse o fim da filosofia. Na verdade, theôria é apenas outra palavra para thaumazein.”
“A obra torna-se perecível e deteriora a excelência do que permanecia eterno enquanto era objeto da mera contemplação. Portanto, a atitude adequada em relação aos modelos que guiam a obra e a fabricação, i.e., em relação às idéias platônicas, é deixá-las como são e aparecem ao olho interno da mente.” “Nesse particular, a contemplação é bem diferente do estado de embevecimento da admiração com a qual o homem responde ao milagre do Ser como um todo.” “Na tradição da filosofia, foi este segundo tipo de contemplação que passou a predominar.” “a característica proeminente da vita contemplativa. Não é a admiração que domina o homem e o lança na imobilidade, mas é mediante a cessação consciente da atividade, da atividade da produção, que o estado contemplativo é atingido.”
“A filosofia de Bergson poderia facilmente ser interpretada como um estudo de caso sobre como a convicção inicial da era moderna – quanto à relativa superioridade do produzir sobre a atividade de pensar – foi em seguida suplantada e aniquilada pela sua convicção mais recente da absoluta superioridade da vida sobre tudo o mais. (…) Não só as primeiras obras de Édouard Berth e Georges Sorel, mas também o Homo faber (1929) de Adriano Tilgher, devem sua terminologia principalmente a Bergson; o mesmo se aplica ainda a L’Être et le travail (1949), de Jules Vuillemin, embora este, como quase todos os autores franceses da atualidade, pensem principalmente em termos hegelianos [!].”
“Certamente, nenhuma outra atividade da vita activa tinha tanto a perder com a eliminação da contemplação do âmbito das capacidades humanas significativas quanto a fabricação.”
“O próprio Bentham manifesta sua insatisfação com uma filosofia meramente utilitária na nota acrescentada a uma edição posterior de sua obra: <A palavra utilidade não indica tão claramente as idéias de prazer e dor quanto as palavras felicidade e ventura (happiness, felicity) o fazem.>” Hedonistotal, o Idiotinha “ponto de inflexão na história do utilitarismo” “foi Bentham que transformou verdadeiramente o utilitarismo em um <egoísmo universalizado> (Halévy).”
“e Hume que, ao contrário de Ben., era ainda um filósofo, sabia muito bem que, quem quiser fazer do prazer o fim último de toda ação humana, é levado a admitir que não o prazer, mas a dor, não o desejo, mas o medo, são os seus verdadeiros guias.” ???
“A dor é o único sentido interior encontrado pela introspecção que pode rivalizar, em sua independência com relação a objetos experienciados, com a certeza autoevidente do raciocínio lógico e aritmético.”
“jamais existiram dois filósofos que pudessem chegar a formulações idênticas sem copiar um do outro.”
“O que realmente se esperava que a dor e o prazer, o medo e o desejo alcançassem em todos esses sistemas não era de forma alguma a felicidade, mas a promoção da vida individual ou a garantia da sobrevivência da humanidade.”
“radical justificação do suicídio”
“o único objeto tangível produzido pela introspecção, se é que esta deve produzir algo mais que uma autoconsciência inteiramente vazia, é realmente o processo biológico. (…) é como se a introspecção já não precisasse perder-se nos meandros de uma consciência sem reaidade”
“A cisão entre sujeito e objeto, inerente à consciência humana e irremediável na contraposição cartesiana do homem como res cogitans com um mundo circunvizinho da res extensae, desaparece [superação do debate supérfluo <o animal é sensciente/máquina?>] inteiramente no caso de um organismo vivo, cuja própria sobrevivência depende da incorporação e do consumo de matéria exterior. O naturalismo, versão do materialismo no séc. XIX, aparentemente encontrara na vida o modo de resolver os problemas da filosofia cartesiana”
“Os maiores representantes da moderna filosofia da vida são Marx, Nietzsche e Bergson, na medida em que todos os três equacionam a Vida ao Ser.” “Este último estágio da filosofia moderna talvez possa ser mais bem-descrito como a rebelião dos filósofos contra a filosofia, rebelião que, começando em Kierkegaard e terminando no existencialismo, parece à primeira vista dar ênfase à ação e não à contemplação. Mas, em uma análise mais detida, nenhum desses filósofos está realmente interessado na ação como tal. Podemos aqui deixar de lado Kierk. com sua ação não-mundana, dirigida para o íntimo do homem. Nie. e Berg. descrevem a ação em termos de fabricação – o homo faber em lugar do homo sapiens [Fabricar o S-H?]”
“A derrota do homo faber pode ser explicável em termos da transformação inicial da física em astrofísica, das ciências naturais em uma ciência <universal>. O que resta a explicar é por que essa derrota terminou com a vitória do animal laborans; por que, com a ascensão da vita activa, foi precisamente a atividade do trabalho que veio a ser promovida à mais alta posição entre as capacidades do homem”
“a moderna inversão seguiu, sem questionar, a mais significativa inversão com a qual o cristianismo irrompera no mundo antigo, uma inversão politicamente de alcance ainda maior e, pelo menos historicamente, mais duradoura que qualquer crença ou conteúdo dogmático específicos.” “esperança além de toda esperança” “Essa inversão só podia ser desastrosa para a estima e a dignidade da política.” “qualquer aspiração à imortalidade só podia ser equacionada com a vanglória; toda fama que o mundo pudesse outorgar ao homem era ilusória, uma vez que o mundo era ainda mais perecível que o homem” “as palavras de Paulo – de que <a morte é o prêmio do pecado>, uma vez que a vida se destina a durar para sempre – ecoa (sic) as palavras de Cícero, de que a morte é a recompensa dos pecados cometidos por comunidades políticas que haviam sido construídas para durar por toda a eternidade.” “Sem dúvida, a ênfase cristã na sacralidade da vida faz parte da herança hebraica, que já apresentava um notável contraste com as atitudes da Antiguidade: o desprezo pagão pelos tormentos impostos pela vida ao homem no trabalho e no parto, a figuração invejosa da <vida fácil> dos deuses, o costume de enjeitar os filhos indesejados, a convicção de que a vida sem saúde não vale a pena ser vivida (de sorte que se considerava, p.ex., que o médico desvirtuava a sua vocação ao prolongar a vida quando era impossível para ele restaurar a saúde), e de que o suicídio é o gesto nobre de desvencilhar-se de uma vida que se tornou opressiva. Contudo, basta lembrar a forma como o Decálogo menciona o homicídio, sem lhe atribuir gravidade especial em meio a um rol de outras transgressões – as quais, em nosso modo de pensar, mal se podem comparar a esse crime supremo –, para que se compreenda que nem mesmo o código legal hebraico, embora muito mais próximo do nosso que qualquer escala pagã de ofensas, fazia da preservação da vida a pedra angular do sistema legal do povo judeu.”
“o cristianismo sempre insistiu em que a vida, embora não tivesse mais um fim definitivo, tinha ainda um começo definido. A vida na Terra pode ser apenas o primeiro e mais miserável estágio da vida eterna” “somente quando a imortalidade da vida individual passou a ser o credo central da humanidade ocidental, a vida na Terra passou também a ser o bem supremo do homem.” “Já não era possível menosprezar o escravo, como Platão o fazia, por não haver cometido suicídio ao invés de submeter-se, pois permanecer vivo em quaisquer circunstâncias passara a ser um dever sagrado, e o suicídio era visto como pior que o homicídio. O enterro cristão era negado não ao assassino, mas àquele que havia posto fim à sua própria vida.”
“Paulo, que foi chamado <o apóstolo do trabalho>¹, não era nada disso, e as poucas passagens nas quais se fundamenta tal assertiva ou são dirigidas àqueles que, por preguiça, <comiam o pão do próximo>, ou recomendam o trabalho como bom meio de evitar problemas, i.e., reforçam a prescrição geral de uma vida estritamente privada e o alerta contra atividades políticas.
¹ Jacques Leclercq, de Louvain, cujo 4º livro de suas Leçons de droit naturel, intitulado Travail, proprieté (1946), é uma das obras mais valiosas e interessantes para a filosofia do trabalho, retificou essa má interpretação das fontes cristãs: <Le christianisme n’a pas changé grand’chose à l’estime du travail> [contrapor com aquele livro católico idiota cheio de bulas papais]; e, na obra de Tomás de Aquino, <la notion du travail n’apparaît que fort accidentellement>(pp. 61-2).” “T. de Aquino não hesita em seguir Arist., e não a Bíb., nesse particular, ao dizer que <só a necessidade de sobrevivência pode compelir ao trabalho manual>.”
ANTI-TRABALHO:Mateus 6:19-32 [sobre as roupas e a alimentação]; 19:21-24 [a famosa parábola do camelo]; Marcos 4:19; Lucas 6:20-34 [“…e ao que tomar o que é teu, não lho tornes a pedir.”]; 18:22-25 [reprise camelo]; Atos 4:32-35 [“E repartia-se a cada um, segundo a necessidade que cada um tinha.”]
“Não importa o quão articulados e conscientes foram os pensadores da modernidade em seus ataques contra a tradição, a prioridade da vida sobre tudo o mais assumira para eles a condição de uma <verdade autoevidente>, e como tal sobreviveu até nosso mundo atual, que já começou a deixar para trás toda a era moderna e a substituir a sociedade de trabalhadores por uma sociedade de empregados.”
“Pascal e Kierk., os dois maiores pensadores religiosos da modernidade.” “o que minou a fé cristã não foi o ateísmo do séc. XVIII nem o materialismo do XIX – cujos argumentos são freqüentemente vulgares e, na maior parte das vezes, facilmente refutáveis pela teologia tradicional –, mas antes o duvidoso interesse pela salvação em homens genuinamente religiosos, a cujos olhos o conteúdo e a promessa tradicionais do cristianismo se haviam tornado <absurdos>.”
NASA WITH BORDERS: “Antes de Galileu, todos os caminhos pareciam ainda abertos. Se pensarmos em Leonardo da Vinci, poderemos perfeitamente imaginar que, em todo caso, o desenvolvimento da humanidade teria sido inevitavelmente ultrapassado por uma revolução técnica. É bem possível que isso levasse ao vôo, à realização de um dos mais antigos e persistentes sonhos do homem, mas dificilmente teria levado ao universo” “Foi só quando perdeu o seu ponto de referência na vita contemplativa que a vita activa pôde tornar-se vida ativa no sentido pleno do termo” Prova empírica da transvaloração de todos os valores em curso?
“Ao perder a certeza de um mundo futuro, o homem moderno foi arremessado para dentro de si mesmo, e não para este mundo”
MÃO INVISÍVEL ULTIMADA: “o último vestígio de ação que havia no que os homens faziam, a motivação implicada no interesse próprio, desapareceu.”
NÃO CHEGO AOS PÉS DE UM SÍSIFO: “mesmo agora, trabalho é uma palavra muito elevada, muito ambiciosa para o que estamos fazendo ou pensamos que estamos fazendo no mundo em que passamos a viver.”
O BUDISMO OCIDENTAL
“O problema com as modernas teorias do comportamentalismo não é que estejam erradas, mas sim que possam tornar-se verdadeiras, que realmente constituam a melhor conceituação possível de certas tendências óbvias da sociedade moderna. É perfeitamente concebível que a era moderna – que teve início com um surto tão promissor e tão sem precedentes de atividade humana – venha a terminar na passividade mais mortal e estéril que a história jamais conheceu.
Mas há outros indícios mais graves do perigo de que o homem possa estar disposto a converter-se naquela espécie animal da qual ele imagina descender.”
O SUPERTABU OU REI-UBU: “a moderna motorização pareceria um processo de mutação biológica no qual os corpos humanos começam gradualmente a ser revestidos por uma carapaça de aço.”
“O motivo pelo qual os cientistas podem falar da <vida> e do átomo – no qual cada partícula tem, aparentemente, a <liberdade> de comportar-se como quiser, e onde as leis que governam esses movimentos são as mesmas leis estatísticas que, segundo os cientistas sociais, governam o comportamento humano e fazem a multidão comportar-se como tem de se comportar, por mais <livre> em suas opções que pareça cada partícula individual –, o motivo, em outras palavras, pelo qual o comportamento da partícula infinitamente pequena é não apenas semelhante, em sua forma, ao sistema planetário, tal como aparece a nós, mas se assemelha às formas de vida e de comportamento na sociedade humana, é, naturalmente, que observamos essa sociedade e vivemos nela como se estivéssemos tão longe de nossa própria existência humana como estamos do infinitamente pequeno e do imensamente grande, os quais, mesmo que pudessem ser percebidos pelos instrumentos mais refinados, estão demasiado afastados de nós para fazer parte de nossa experiência.”
“os homens persistem em produzir, fabricar e construir, embora essas faculdades se limitem cada vez mais aos talentos do artista, de sorte que as concomitantes experiências de mundanidade escapam cada vez mais ao alcance da experiência humana comum. O artista, quer seja pintor, escultor, poeta ou músico, produz objetos mundanos, e sua reificação nada tem em comum com a prática da expressão, altamente discutível e de qualquer forma inteiramente inartística. Ao contrário da arte abstrata, a arte expressionista é uma contradição nos termos [redundante].”
“também a ação passou a ser uma experiência limitada a um pequeno grupo de privilegiados, e esses poucos que ainda sabem o que significa agir talvez sejam ainda menos numerosos que os artistas, e sua experiência ainda mais rara que a experiência genuína do mundo e do amor ao mundo.”
“Nunquam se plus agere quam nihil cum ageret, numquam minus solum esse quam cum solus esset”
“Nunca se está mais ativo que quando nada se faz, nunca se está menos só que quando se está consigo mesmo.”
Catão
Pensei, de início, que leria um “tratado sobre o absurdo dos campos de concentração”!
Sófocles (trad. lusitana José Ribeiro Ferreira, 3ª ed., 1997 [ex. da BCE-UnB digitalizado].)
DIC:
roaz: dilacerante;
toninha (mamífero marinho embora dessemelhante ao golf.);
o próprio golfinho.
“Neoptólemo, filho de Aquiles, que foste criado pelo mais valente dos Helenos” ??? – explicação mais adiante nas notas, em vermelho negrito
“É preciso que iludas com as tuas palavras o espírito de Filoctetes. (…) acrescenta que (…) dos Aqueus (…) concebeste um ódio mortal (…) não consentiram em dar-te as armas de Aquiles, quando legitimamente as pedias, mas pelo contrário as entregaram a Ulisses [eu].” “Eu sei, meu filho, que não é da tua natureza falar assim, nem tecer armadilhas. Mas tem coragem, porque é agradável alcançar a vitória.”
“Estou resolvido a levar o nosso homem pela força e não pela astúcia. (…) prefiro falhar, agindo honestamente, a vencer, procedendo como um vilão.”
“entre os mortais, são as palavras e não as ações que conduzem tudo.”
“Apenas o seu arco pode conquistar Tróia.”
“Estranho em terra estranha, que devo eu ocultar ou dizer perante esse homem desconfiado?”
“Os que me repeliram tão criminosamente riem-se de mim em silêncio, enquanto a minha chaga se desenvolve e aumenta.”
“Infeliz de mim, aqui estou a morrer de fome e de sofrimento há já dez anos, alimentando esta chaga que jamais se sacia.”
“Nobre é quem matou, nobre também quem morreu.”
“Salve, deusa, que tens por assento
leões devoradores de touros!”
“a tal ponto sintonizais comigo que eu reconheço em tudo isso a obra dos Atridas e de Ulisses. Sei muito bem que esse homem seria capaz de urdir toda a espécie de calúnias e de astúcias, com aquela língua que nada de justo leva a cabo.”
“FILOCTETES:
Tinha de ser. Nenhum malvado pereceu. A esses rodeiam-nos todos os cuidados os deuses e até sentem satisfação em trazer do Hades o que há de velhaco e matreiro;(*) ao contrário, enviam para lá quanto é justo e virtuoso. Como se hão-de entender tais coisas? E como aplaudi-las, se quando quero louvar as ações divinas, descubro que os deuses são maus?
(*) Trata-se, com certeza, de uma referência velada a Sísifo que, segundo o mito, depois de morto, teria conseguido convencer Hades a permitir que regressasse ao mundo dos vivos, com a desculpa de castigar a mulher que lhe não havia prestado as honras fúnebres devidas. Obtida a permissão, na terra teria continuado até idade avançada.”
“Ai, infeliz de mim! Então esse homem, que é a maldade em pessoa, jurou convencer-me e levar-me aos Aqueus?! Seria mais fácil persuadir-me a voltar, depois de morto, do Hades à luz do dia, como fez o pai dele.”
“O vento é sempre bom, quando se foge à desgraça.”
“Ouvi contar, mas não o presenciei,
como ao que se abeirou um dia do leito de Zeus,
a uma roda sempre a girar o amarrou
o todo poderoso filho de Cronos.(*)
De nenhum outro mortal
eu sei, nem de outiva, nem por o ter visto,
de homem que tenha encontrado sorte mais adversa do que este
(*) Trata-se de uma referência ao conhecido castigo de Ixíon que, acolhido no Olimpo como suplicante de Zeus, tenta seduzir Hera. Aquele, como castigo da sua insolência e ingratidão, ata-o a uma roda em contínuo movimento.”
“Oh! triste vida
a do homem que de vinho
não provou o gosto ao longo de dez anos”
“Filho, nobre coração, vá, agarra-me e queima-me neste fogo de Lemnos que invoco, meu nobre amigo. Foi o que eu próprio um dia julguei dever fazer ao filho de Zeus, em troca dessas armas que agora guardas.”
“Em todos os enfermos, vígil
e insone é o sono: sabe perscrutar.”
“Tudo é repugnância, quando alguém, traindo a sua natureza, adota um procedimento que lhe não convém.”
“quando é preciso certa espécie de homens, eu sou um deles. E se algures houver um concurso entre varões justos e honrados, não encontrarás pessoa mais escrupulosa do que eu.”
“Nem que o tonitruante Zeus que lança o raio
me fulmine com o lampejar do trovão.
Pereça Ílion, e vós que cercais seus muros:
todos os que tiveram a ousadia de, pelo meu pé
doente, abandonar-me.”
“A morte, a morte imediata, é o que eu desejo.”
“NEOPTÓLEMO
(…) Os homens vêem-se forçados a suportar as desgraças que os deuses lhes dão. Mas quantos, como tu, persistem nos sofrimentos voluntariamente, não merecem que se sinta por eles indulgência, nem que alguém os lastime. Ora tu tornaste-te um selvagem e não aceitas conselhos. E se alguém, com boas intenções, o faz, tu ganhas-lhe ódio e nele vês um adversário e um inimigo. (…)
Fica a saber que, enquanto este mesmo Sol continuar a levantar-se de um lado e a pôr-se no outro, jamais obterás o fim desta tua cruel enfermidade, sem que primeiro, de tua livre vontade, partas para as planícies troianas, onde, junto de nós, encontrarás um dos dois Asclepíades que te curará desse mal, e onde te tornarás famoso, ao destruíres a cidadela com o teu arco e a minha ajuda.
Agora vou dizer-te como soube que as coisas se vão passar assim. Temos junto de nós um prisioneiro troiano, o famoso adivinho Heleno. Foi ele que nos profetizou claramente que tudo se há-de passar deste modo. Acrescentou ainda que, no verão que decorre, Tróia tem de ser impreterivelmente tomada. Oferece-se de livre vontade à morte, se forem mentiras o que diz. Agora que já sabes tudo, cede de bom grado.”
“Ó meu caro, aprende a não ser insolente na desgraça.”
“HÉRACLES
(…) depois, eleito pelo teu valor como o mais valoroso de todo o exército, com as minhas flechas despojarás da vida Páris, que foi o causador de todas as desgraças, e arrasarás Tróia.”
“o respeito pelos deuses não perece com os mortais.” Não é isso que guarda Prometeu…
Notas (P. 108)
“Foi mordido por uma víbora guardiã do santuário da ninfa Crise – segundo a lenda, como castigo pelo perjúrio de ter revelado o local da sepultura de Héracles –, quando, único a conhecer a sua localização, a indicava aos Atridas que aí necessitavam de sacrificar.”
“Após a morte de Aquiles, Ájax e Ulisses disputaram a honra de possuir as suas armas. O exército concedeu-as a Ulisses, o que levou Ájax, no seu descontentamento e revolta, a conceber o projeto de atacar os chefes dos Aqueus. É o tema que Sófocles aproveita para compor o Ájax.
A tradição concorda em que Ulisses, após a chegada de Neoptólemo a Tróia, lhe entregou as armas do pai. E uma taça ática de figuras vermelhas de Dúris de cerca de 490 a.C., atualmente no museu de Viena (Beazley, Attic Red-Figure Vase-Painters, Oxford, 1963, vol. I, p. 429, n. 26; E. Pfuhl, Masterpieces of Greek Drawing and Painting, Londres, 1955, figs. 61-63), mostra, na parte interior, Uli. a entregar as armas a Neop., enquanto no exterior representa a disputa delas entre Uli. e Ájax e a votação que as concede àquele.”
O SIMPLIFICADO DE ÉDIPO: “Tudo bem pai, pode comer a minha mãe.”
“Os heróis gregos pretendentes à mão de Helena, por sugestão de Ulisses que era um deles, fizeram a Tíndaro, seu pai, o juramento de prestar ajuda àquele que ela escolhesse para esposo, sempre que este a reclamasse. Ulisses refere-se a esse juramento, que o obrigou, bem contra a vontade, a fazer parte da expedição a Tróia para castigar Páris.”
Podemos dizer, com razão, que os gregos não entendiam UMA VÍRGULA de heroísmo?
“o coro está na orquestra e não na gruta” Curioso como nas peças gregas o coro é um(a alcatéia de) personagem(ns), interagindo com o elenco principal, e não apenas ao público como ser invisível, que sirva como narrador e entreato.
“De uma das filhas de Licomedes, Deidamia, e de Aquiles, nasce Neoptólemo que, deste modo, é neto de Licomedes e natural de Ciros, apesar de Aquiles ser originário da Ftia.”
“Desde a Ilíada que os habitantes do reino de Ulisses – constituído por 3 ilhas, Ítaca, Cefalênia e Zacinto – são designados pelo nome de Cefalênios.”
“Embora exista uma versão que atribui a morte de Aquiles a uma seta lançada por Páris (cf. Eurípides, Andrómaca 655, Hécuba 387-388), a mais espalhada – já nos aparece em Homero – é a que atribui a Apolo papel preponderante no fim de Aquiles, quer o deus agisse sozinho, quer juntamente com Páris (cf. Ilíada 19:408-…, 21:277-278, 22:355-…). Para outras ocorrências da lenda, vide o meu trabalho Eurípides – Andrómaca, Coimbra, 1971, pp. 179-180, nota 54. [José Ribeiro Ferreira]”
“Fênix, preceptor de Aquiles”
“Segundo a Odisséia 24:63, o funeral de Aquiles realizou-se 16 dias depois da morte do herói.” Só a carniça…
ESSAS ESPECULAÇÕES CAPITUANAS E BENTINIANAS REMONTAM À IDADE ANTIGA:“Segundo uma versão da lenda, sobretudo divulgada pelos inimigos de Ulisses, Anticléia, sua mãe, quando casou com Laertes, já estava grávida de Sísifo, rei de Corinto, conhecido pelo castigo que lhe foi infligido no Hades e em que Camus se baseou para compor o seu ensaio Le mythe de Sisyphe.”
Heleno, adivinho tão reputado quanto o mais célebre Tirésias?
DO “PRÊMIO” DADO A HÉRCULES NO PÓS-VIDA: “Como era filho de Zeus, o suicídio redunda em apoteose: os deuses recebem-no no Olimpo e concedem-lhe a imortalidade.”
“Em Lemnos havia um vulcão e o mito colocava na ilha as oficinas de Hefesto. (…) Segundo Cícero, Tusculanas, 2:10, 2:23, foi de Lemnos que Prometeu roubou o fogo para o dar aos mortais.”
“Ulisses ter-se-ia mesmo fingido de louco para se eximir ao juramento feito a Tíndaro e que ele próprio tinha sugerido. Palamedes, contudo, teve artes de provar que a loucura era fictícia, pelo que Ulisses se viu obrigado a cumprir o juramento e a integrar-se na expedição.”
A peça apresenta um conflito que poderíamos resumir como Maquiavel Contra Buda. No fim, só um FANTASMA consegue convencer um monge a ser budista (ou um budista a ser monge?). Para ser maquiavélico, basta escutar a voz da razão. Nada de extraordinário (talvez hoje?).
Pelo menos Filoctetes não pode reclamar de que os aqueus (atridas) pegam no seu pé!
“Estas palavras deviam trazer aos espectadores lembranças tristes: a destruição da frota, quando regressava de Tróia, como castigo dos deuses, por os (sic) Aqueus não terem respeitado, na altura do saque a Tróia, os vencidos que se haviam refugiado nos templos e altares – p.ex., o rapto de Cassandra no templo de Atena e a morte de Príamo junto ao altar de Zeus, às mãos de Neoptólemo, que depois recebe em Delfos o conseqüente castigo (Eurípedes aproveita esta parte do mito na sua Andrómaca). Sófocles termina a cada passo as suas peças por uma alusão – irônica por vezes – ao futuro das figuras: neste caso Nept.. Vide Winnington-Ingram, Sophocles cit., pp. 302-303.”
Blundell – The Moral Character of Odysseus in Philoctetes
Tradução de “PLATÓN. Obras Completas (trad. espanhola do grego de Patricio de Azcárate, 1875), Ed. Epicureum (digital)”.
(*) “Segundo uma tradição, que não temos a necessidade de discutir, o Fedro é uma obra de juventude de Platão. Neste diálogo, há, com efeito, todo o vigor impetuoso de um pensamento que necessita escapar, e um ar de juventude, que nos revela a primeira expansão do gênio. Platão veste com cores mágicas todas as idéias que afetam sua inteligência juvenil, todas as teorias de seus mestres, todas as concepções do cérebro prodigioso que produzirá um dia a República e as Leis. Tradições orientais, ironia socrática, intuição pitagórica, especulações de Anaxágoras, protestos enérgicos contra o ensino dos sofistas e dos reitores, que negavam a verdade imoral e despojavam ao homem a ciência do absoluto, tudo isto se mescla sem confusão nesta obra, em que o razoamento e a fantasia aparecem reconciliados, e em que encontramos em germe todos os princípios da filosofia platônica.”
(*) “Um tratado de Aristóteles apresenta uma ordem rigorosa, porque o objeto, por vasto que seja, é sempre único. Um diálogo de Platão abraça, em sua multiplicidade, a psicologia e a ontologia, a ciência do belo e a ciência do bem.” Puxa-saco.
(*) “Na segunda parte tenta assentar os verdadeiros princípios da arte da palavra, que os Tísias¹ e os Górgias haviam convertido em arte do embuste e no instrumento da cobiça e da dominação. À retórica siciliana, que ensina seus discípulos a se corromperem, a enganar as multidões, a dar à injustiça as aparências do direito, e a preferir o provável ao verdadeiro, Platão opõe a dialética, que, por meio da definição e divisão, penetra de imediato na natureza das coisas, propondo-se a tomar como objeto de seus esforços não a opinião com que se contenta o vulgo, mas a ciência absoluta, na que descansa a alma do filósofo.
¹ [Tido, ao lado de Córax, como o primeiro Sofista.]”
(*) “Esta conversação, em que Sócrates passa alternativamente das sutilezas da dialética aos transportes da ode [odelética], prolonga-se durante todo um dia de verão; os dois amigos repousam molemente estirados na espessura da grama, à sombra de uma bananeira”
“FEDRO – (…) Seguindo o preceito de Acumenos, passeio pelas vias públicas porque diz ele que proporcionam maior recreio e salubridade que as corridas no ginásio.”
(*) “É sabido que há dois sistemas de exegese religiosa: primeiro, o sistema dos racionalistas que aceita os fatos da história religiosa, reduzindo-os às proporções de uma história humana e natural (hipótese objetiva); segundo, o sistema dos mitológicos, que nega a realidade histórica de todas essas histórias (sic), e não vê nestas lendas senão mitos, produto espontâneo do espírito humano e das alegorias morais e metafísicas (hipótese subjetiva). Este capítulo de Platão nos prova a existência da exegese racionalista 400 anos antes de Cristo.”
“SÓCRATES – (…) Eu ainda não pude cumprir com o preceito de Delfos, conhecendo-me a mim mesmo; e dada esta ignorância me pareceria ridículo tentar conhecer o que me é estranho.”
(*) “Sócrates era reformador em moral e conservador em religião, coisa insustentável. A uma nova moral correspondia uma nova religião, e isto fez o cristianismo, que Sócrates preparou sem pressentir.”
“quero saber se eu sou um monstro mais complicado e mais furioso que Tifão,¹ ou um animal mais doce, mais singelo, a quem a natureza deu parte de uma fagulha de divina sabedoria.
¹ [Meio-titã, meio-deus, Tifão daria origens aos ventos fortes, às irrupções vulcânicas e aos terremotos; daí a nomenclatura portuguesa tufão (não confundir com fictícios atacantes do Flamengo…). Foi pai de inúmeras monstruosidades míticas, como Cérbero, o Leão que Hércules assassinou, a Hidra de 7 Cabeças, a homérica Cila, terror dos mares, a Esfinge de Édipo e até da própria Quimera, tão célebre que é hoje um substantivo.
Essa besta dos infernos afugentou toda a população do Olimpo, menos o Pai dos Deuses e sua filha Atena; derrotou Zeus num combate inicial, mas a seguir perdeu na revanche decisiva. Mesmo assim, no terrível enfrentamento, Zeus perdeu temporariamente seus raios e até seus músculos (!!!) – decepados pela harpe de Tifão, a mesma foice com que Cronos castrou Urano – e precisou da ajuda tanto de um humano (Cadmo, o herói fundador de Tebas) quanto de seu escudo, forjado com uma cabeça de Medusa.
Por trás da caracterização de Tifão, mais uma insinuação grega de que a mulher seja o ser destrutivo e vingativo por excelência: ele é filho de Gaia, que o concebeu somente para punir os deuses olímpicos pela derrota dos titãs na Titanomaquia, a Grande Guerra Divina que precede a era de ouro do domínio de Zeus sobre os céus e a terra. Tifão é uma criatura tão influente que também aparece na mitologia egípcia.]”
“SÓCRATES – (…) Não te parece que a brisa que corre aqui tem certa coisa de suave e perfumado? Percebe-se pelo canto das cigarras um não sei quê de vivo, que faz pressentir o verão. Mas o que mais me encanta são estas gramíneas, cuja espessura nos permite descansar com delícia, apoiados sobre um terreno suavemente inclinado. Meu querido Fedro, és um guia excelente.
FEDRO – Maravilhoso Sócrates, és um homem extraordinário. Porque ao te escutar tomar-te-íamos por um estrangeiro, a quem se faz as honras da casa, e não por um habitante da Ática. Provavelmente tu não saíste jamais de Atenas, nem traspassaste as fronteiras, nem mesmo deste um passeio fora das muralhas.
SÓCRATES – Perdão, amigo meu. Assim o é, mas é que quero me instruir. Os campos e as árvores nada me ensinam, e só na cidade posso tirar proveito do trato com os demais homens. No entanto, creio que tu encontraste recursos para me curar deste humor caseiro. Obriga-se um animal faminto a seguir-nos, quando se o mostra uma rama verde ou algum fruto”
“FEDRO – (…) Não seria justo rechaçar meus votos, porque não sou teu amante. Porque os amantes, desde o momento em que se vêem satisfeitos, se arrependem já de tudo o que fizeram pelo objeto de sua paixão. Mas os que não têm amor não têm jamais do que se arrepender, porque não é a força da paixão que os movera a fazer a seu amigo todo o bem que puderam, o caso é que obraram livremente, julgando que serviam assim a seus mais caros interesses. Os amantes consideram o dano causado por seu amor a seus negócios, alegam suas liberalidades, trazem à tona as penas que sofreram, e depois de algum tempo crêem haver dado provas positivas de seu reconhecimento ao objeto amado. (…) se sua paixão chega a mudar de objeto, não hesitará em sacrificar seus antigos amores em prol dos novos, e, se o que hoje ama o exige, chegará até a prejudicar ao que ontem amava. (…) os mesmos amantes confessam que seu espírito está doente e que carecem de bom senso. Sabem bem, dizem eles, que estão fora de si mesmos e que não podem se dominar.”
“Por outro lado, se entre teus amantes quisesses conceder a preferência ao mais digno, não poderias escolher senão entre um pequeno número; pelo contrário, se buscas dentre todos os homens aquele cuja amizade desejes, podes eleger entre milhares, e é provável que haja em toda esta multiplicidade alguém que mereça teus favores.
Se temes a opinião pública, se temes ter de te envergonhar de teus relacionamentos perante teus concidadãos, tem presente que o mais natural é que um amante que deseja que invejem sua sorte, crendo-a invejável, seja indiscreto por vaidade, e tenha por glória divulgar por todas as partes que não perdeu tempo nem trabalho. (…) Agrega-se a isso que todo mundo conhece um amante, vendo-o seguir os passos da pessoa que ama; e chegam ao ponto de não se poderem falar, sem que se suspeite que uma relação mais íntima os une já, ou logo os unirá. Agora aqueles que não estão apaixonados podem viver na maior familiaridade, sem que jamais induzam suspeitas”
“Se assim sucede, deves temer sobretudo o amante. Um nada o enoja, e crê que o que se faz é para prejudicá-lo. Desse modo, quer impedir toda relação com todos os demais ao objeto de seu amor, teme se ver postergado pelas riquezas de um, pelos talentos de outro, e sempre está em guarda contra a ascensão de todos aqueles que têm sobre ele alguma vantagem” “por outro lado, a maior parte dos amantes se apaixona pela cabeça do corpo, sem conhecer a disposição da alma e de haver experimentado o caráter, e assim não se pode assegurar se sua amizade deve sobreviver à satisfação de seus desejos.”
“O amor desgraçado se aflige, porque não excita a compaixão de ninguém; mas quando é feliz, tudo lhe parece encantador, até as coisas mais indiferentes. O amor é muito menos digno de inveja que de compaixão.”
“quando quiseres oferecer um jantar, deverás convidar não os amigos, mas os mendigos e os famintos, porque eles te amarão, te acompanharão a todas as partes, se amontoarão a tua porta experimentando a maior alegria, viverão agradecidos e farão votos por tua prosperidade. Mas tu deves, pelo contrário, favorecer não aqueles cujos desejos forem os mais violentos, e sim os que melhor te atestem seu reconhecimento; não os mais enamorados, mas os mais dignos; não os que aspiram a explorar a flor da juventude, mas os que em tua velhice te façam partícipe de todos os seus bens”
“os amantes estão expostos aos severos conselhos de seus amigos, que rechaçam paixão tão funesta. Considera tu, também, que ninguém é repreensível por não ser amante, nem se o acusa de imprudente por não sê-lo.”
“Estamos sós, o lugar é retirado, e sou o mais jovem e mais forte dos dois. Enfim, já me entendeste; não me obrigues a fazer-te violência, e fala de bom grado.” “se na presença deste bananal não falas neste instante, jamais te lerei, nem te recitarei, nenhum outro discurso de quem quer que seja.”
“Já me considero pouco distante do tom do ditirambo.”
“Vê-lo-á rebuscar um jovem delicado e sem vigor, educado à sombra e não sob a claridade do sol, estranho aos trabalhos varonis e aos exercícios ginásticos, acostumado a uma vida mole de delícias, suprindo com perfumes e artifícios a beleza que perdeu, e no fim, não tendo nada em sua pessoa e em seus costumes que não corresponda a este retrato.” “Vê-lo-ia com gosto perder seu pai, sua mãe, seus parentes, seus amigos, que enxerga como censores e como obstáculos a seu doce comércio.” “A fortuna daquele que ama o importuna, e se regozijará com sua ruína. No fim, desejará vê-lo todo o tempo possível sem mulher, sem filhos, sem vida doméstica, a fim de adiar os momentos em que terá de cessar de gozar de seus favores.”
“Em todas as coisas, diz-se, a necessidade é um jugo pesado, mas o é sobretudo na sociedade de um amante cuja idade se distancia da do amado. Se é um velho que se apaixona por um mais jovem, não o deixará dia e noite; uma paixão irresistível, uma espécie de furor, arrastá-lo-á até aquele, cuja presença lhe encanta sem cessar pelo ouvido, pela vista, pelo tato, por todos os sentidos, e encontra um grande prazer em se servir dele sem trégua nem descanso; e, em compensação ao fastio mortal que causa à pessoa amada por sua importunidade, que gozos, que prazeres não aguardam a este desgraçado?”
“O jovem exige o preço dos favores de outro tempo, recorda-lhe tudo que fizera, tudo que dissera, como se falara ao mesmo homem. Este, cheio de confusão, não quer confessar a mudança que sofrera, e não sabe como se livrar dos juramentos e promessas que prodigara sob o império de sua louca paixão.”
(*) “Nenhum dos autores antigos explica o que era o demônio de Sócrates, e isto faz pensar que este demônio não era outra coisa senão a voz de sua consciência, [um termo um tanto infeliz para inconsciente, eu diria] ou uma dessas divindades intermediárias com que a escola alexandrina povoou depois o mundo. Com isto coincide o dito de Sócrates: <No coração de um homem de bem, eu não sei que deus, mas habita um deus>.”
“Já vês que devo submeter-me a uma expiação, e para os que se enganam em teologia há uma antiga expiação que Homero sequer há imaginado, mas que Estesícoro praticou. Porque privado da vista por haver maldito Helena,¹ não ignorou, como Homero, o sacrilégio que havia cometido; mas, como homem verdadeiramente inspirado pelas musas, compreendeu a causa de sua desgraça, e publicou estes versos: Não, esta história não é verdadeira; não, jamais entrarás nas soberbas naves de Tróia, jamais entrarás em Pérgamo.
E depois de haver composto todo o seu poema, conhecido pelo nome de Palinódia, recobrou a vista durante o caminhar. Instruído por este exemplo, eu serei mais cauto do que os demais poetas, porque antes que o Amor tenha castigado meus ofensivos discursos, quero lhes apresentar minha Palinódia.² Mas desta vez falarei sem máscaras, e a vergonha não me obrigará a cobrir minha cabeça como antes.
¹ [Platão, como demonstrará em obras alheias a esta de forma ainda mais plena, sempre associa a Poesia ao discurso mentiroso e indigno, apesar de ter se educado em Homero e ser um mestre da prosa poética. Neste caso, ele faz uma alusão a <lendas urbanas> que circundam estes dois escritores da Antiguidade – mais remota que a do próprio Sócrates –, uma das quais a de que ambos eram cegos, seja de nascença seja por punição dos Céus. Moraliza o acontecimento ou deficiência, como muitos, defendendo que a cegueira lhes adveio graças à falta de escrúpulo de seus poemas para com a Verdade dos Deuses, ou devido à impureza inata de suas existências. Estesícoro, póstumo a Homero, seguia o mestre quanto ao relato da Guerra de Tróia. Segundo o que Sócrates alega no Fedro, Estesícoro, entretanto, na maturidade, arrependido de suas convicções juvenis, <reparou-se de seu erro> citando, em versos, que Helena não estava de carne e osso em Tróia, raptada por Páris, mas tão-só em espírito. Na realidade, a verdadeira Helena estaria refugiada no Egito. Ou seja, a Guerra de Tróia, evento fundador da nação helena, não passaria de uma mentira, uma fábula homérica indigna de ser considerada por nós sob qualquer crivo histórico sério. Reafirmar as fantasias da época de Homero seria, aos olhos de Platão, uma conduta pecaminosa.A guerra motivada pelo amor vil, a paixão carnal pelo sexo oposto, seria uma vergonha passível de ser eliminada o quanto antes da polis.Ao se mostrar arrependido, Estesícoro recuperou a vista de repente, como num ato de fé cristão.]
² [Sua emenda guiada pela luz da Razão.]”
“Podemos atribuir ao delírio que a profetisa de Delfos e as sacerdotisas de Dodona tenham feito numerosos e assinalados serviços às repúblicas da Grécia e aos particulares.” “Não quero falar da Sibila, nem de todos aqueles que, havendo recebido dos deuses o dom da profecia, inspiraram aos homens sábios pensamentos, anunciando-lhes o porvir, porque seria estender-me inutilmente sobre uma coisa que ninguém ignora.” “Tais são as vantagens maravilhosas que procura aos mortais o delírio inspirado pelos deuses, e poderia citar outras muitas. Guardemo-nos de temê-lo, e não nos deixemos alucinar por este tímido discurso, que pretende que se prefira um amigo frio ao amante agitado pela paixão. Para que nos déssemos por vencidos por suas razões, seria preciso que nos demonstrassem que os deuses que inspiram o amor não querem o maior bem, nem para o amante, nem para o amado. Nós provaremos, pelo contrário, que os deuses nos enviam esta espécie de delírio para nossa maior felicidade.”
“toda alma é imortal, porque tudo o que se move em movimento contínuo é imortal.” “tudo o que começa a existir deve ser necessariamente produzido por um princípio, e o princípio mesmo não ser produzido por nada (…) Se nunca começou a existir, não pode ser destruído. Porque se um princípio pudesse ser destruído, não poderia ele mesmo renascer do nada, nem nada tampouco poderia renascer dele se, como dissemos, tudo é produzido necessariamente por um princípio. Assim, o ser que se move por si mesmo é o princípio do movimento, e não pode nem nascer nem perecer, porque de outra maneira o céu inteiro e todos os seres, que receberam a existência, se prostrariam numa profunda imobilidade, e não existiria um princípio que lhes devolvesse o movimento, uma vez este destruído. (…) o poder de se mover por si mesmo é a essência da alma.”
“Para dizer o que ela é seria preciso uma ciência divina e desenvolvimentos sem fim. Para fazer compreender sua natureza por uma comparação, basta uma ciência humana e algumas palavras.”
“Mas como, entre os seres animados, uns são chamados mortais e outros imortais?”
“esta reunião de alma e corpo se chama um ser vivo, com o aditamento de ser mortal. Quanto ao nome de imortal, o raciocínio não pode defini-lo, mas nós no-lo imaginamos; e sem ter jamais visto a substância, à qual este nome convém, e sem compreendê-la suficientemente, conjeturamos que um ser imortal é aquele formado pela reunião de uma alma e de um corpo unidos por toda a eternidade. (…) para nós basta que expliquemos como as almas perdem suas asas.”
“O Senhor Onipotente, que está nos céus, Zeus, se adianta aos demais, conduzindo seu carro alado, tudo ordenando e vigiando. O exército dos deuses e dos demônios o segue, dividido em 11 tribos; porque das 12 divindades supremas só Héstia¹ permanece no palácio celeste”
¹ A deusa do lar.
“Nenhum dos poetas deste mundo celebrou jamais a região que se estende por sobre o céu; e nunca ninguém a celebrará dignamente.”
“O pensamento dos deusescontemplaa ciência, que tem por objeto o ser dos seres. E quando contemplou as essências e está completamente saciado, ascende de novo ao céu e entra em sua estância.”
“Entre as outras almas, a que segue as almas divinas com passo mais parecido e que mais as imita se vê impelida pelo movimento circular”
“É uma lei de Adrasto¹ que toda alma que pôde seguir a alma divina e contemplar com ela alguma das essências estará isenta de todos os males até uma nova viagem, e se seu vôo não se debilitar, ignorará eternamente seus sofrimentos.”
¹ Antigo monarca aqueu. Teria participado do assalto a Tebas (o famoso episódio d’Os 7 Contra Tebas), sendo um dos Sete, e o único a, a despeito da derrota de seu exército, escapar vivo.
PITÁGORAS E O CRISTIANISMO
“A alma que tenha visto, o melhor possível, as essências e a verdade, deverá constituir um homem que se consagrará à sabedoria, à beleza, às musas e ao amor; a que ocupa o segundo lugar será um rei justo ou guerreiro ou poderoso; a de terceiro lugar, um político, um financista, um negociante; a do quarto, um atleta infatigável ou um médico; a do quinto, um adivinho ou um iniciado; a do sexto, um poeta [????] ou um artista; a do sétimo, um pedreiro ou lavrador; a do oitavo, um sofista ou um demagogo; a do nono, um tirano. Em todos esses estados, todo aquele que praticou a justiça será promovido após sua morte; aquele que a violou cairá numa condição inferior. A alma não pode voltar à estância de onde partiu, senão depois de um desterro de 10 mil anos; porque não recobra suas asas antes, a menos que tenha cultivado a filosofia com um coração sincero ou que tenha amado os jovens com um amor filosófico. À terceira revolução de mil anos, se tiver escolhido três vezes seguidas este gênero de vida, recobrará suas asas e voará até os deuses no momento em que a última revolução, aos 3 mil anos, tiver se consumado. Mas as outras almas, depois de terem vivido sua primeira existência, são objeto de um juízo: e uma vez julgadas, algumas rebaixam às entranhas da terra para sofrer ali seu castigo; outras, que obtiveram uma sentença favorável, se vêem conduzidas a uma paragem no céu, onde recebem as recompensas devidas às virtudes que tiverem praticado durante sua vida terrena. Depois de mil anos, umas e outras são chamadas para um novo julgamento, e cada uma pode escolher o gênero de vida que melhor lhe apraza. Desta maneira, a alma de um homem pode animar uma besta selvagem, e a alma de uma besta animar um homem, contanto que este tenha sido homem numa existência anterior. Porque a alma que não vislumbrou nunca a verdade, não pode revestir a forma humana[quer seja: algumas almas, as já nascidas animais, seguirão para sempre sendo animais]. Com efeito, o homem deve compreender o geral; isto é, se elevar da multiplicidade das sensações à unidade racional. Esta faculdade não é outra coisa senão a lembrança do que nossa alma já viu, quando seguia a alma divina em suas evoluções (…) a lembrança das essências é aquilo a que deus mesmo deve sua divindade.”
“Indiferente aos cuidados que agitam os homens, e importando-se só com as coisas divinas, o vulgo pretende <curar> este homem mais nobre de sua <loucura> e não vê que se trata de uma existência inspirada e perfeita.” “De todos os gêneros de entusiasmo este é o mais magnífico em suas causas e efeitos para o que o recebeu em seu coração, e para aquele a quem foi comunicado; e o homem que tem este desejo e que se apaixona pela beleza adquire o nome de amante. Com efeito, como já dissemos, toda alma humana necessariamente já contemplou as essências, pois se assim não fôra não teria podido entrar num corpo de homem.”
O MAL DE ÍCARO: “Um pequeno número de almas é o único que conserva com alguma clareza esta reminiscência. Estas almas, quando se apercebem de alguma imagem das coisas do céu, mostram-se conturbadas e não se podem conter, mas não sabem direito o que experimentam, porque suas percepções não são claras o bastante.”
“Víamo-nos livres desta tumba que chamamos de nosso corpo, e que arrastamos conosco como a ostra sofre da prisão que a envolve.”
“A vista é, de fato, o mais sutil de todos os órgãos do corpo.”
“primitivamente, a alma era toda alada. Neste estado, a alma entra em efervescência e irritação; e esta alma, cujas asas começam a se desenvolver, é como a criança, cujas gengivas estão irritadas e embotadas pelos primeiros dentes.”
“mãe, irmão, amigos, tudo esquece; perde sua fortuna abandonada sem experimentar a menor sensação; deveres, atenções que antes tinha complacência em respeitar, nada lhe importam; consente em ser escravo e entorpecer-se, contanto que se veja próximo ao objeto de seus desejos”
“Os mortais o chamam Eros, o deus alado;
os imortais chamam-no Pteros, o que dá asas”
Homero
Dar asa, dá-se para o azar, nunca para a sorte.
Ninguém dá asa pra anjo, só pra cascavel.
Cuidado, Ícaro, para não ser podado.
Sua cera é um gel, mas pode ficar quente
e derreter como manteiga no fogo!
Autoescola Antiga
Vôo rasante de encontro ao Ser dos Seres
eu
hei de eu eutanasiar a eucaristia¿
euforia de um eucarionte
[m]eu f[eu]do
“Cada homem escolhe um amor segundo seu caráter, faz-lhe seu deus, ergue-lhe uma estátua em seu coração, e se compraz em engalaná-la, como para render-lhe adoração e celebrar seus mistérios.”
O eterno retorno implica a reminiscência. Nietzsche não está em nada consciente do fato.
“Como atribuem esta mudança fortuita à influência do objeto amado, amam-no ainda mais”
“Longe de conceber sentimentos de inveja e de vil malevolência contra ele, todos os seus desejos, todos os seus esforços tendem somente a fazê-lo semelhante a eles mesmos e ao deus a que rendem culto.”
“não pode estar nos decretos do destino que dois homens maus se amem, nem que dois homens de bem não possam se amar. Quando a pessoa amada acolheu ao que ama e gozou da doçura de sua conversação e de sua sociedade, se vê como que arrastada por esta paixão, e compreende que o carinho de todos os seus amigos e de todos os seus parentes nada é cotejado com o que lhe inspira seu amante.” “Se a melhor parte da alma é a mais forte e triunfa e os guia a uma vida ordenada, seguindo os preceitos da sabedoria, passam eles seus dias neste mundo felizes e unidos. Donos de si mesmos, vivem como homens honrados, porque subjugaram o que levava o vício a sua alma, e alçaram um vôo livre rumo ao que engendra virtudes.”
“a amizade de um homem sem amor, que só conta com uma sabedoria mortal, e que vive entregue por inteiro aos vãos cuidados do mundo, não pode produzir, na alma da pessoa que ama, mais que uma prudência de escravo, à qual o vulgo dá o nome de virtude, mas que fá-la-á andar errante, privada da razão da terra e trancafiada nas cavernas subterrâneas durante 9 mil anos.” A Caverna de Platão é o inferno.
Rumemos a uma Erosofia!
“FEDRO – (…) os homens mais poderosos e de melhor posição em nossas cidades se envergonham de compor discursos e de deixar escritos, temendo passar por sofistas aos olhos da posteridade.
SÓCRATES – De nada sabes, meu querido Fedro; dos vincos da vaidade, ao menos; e não vês que os mais entoados de nossos homens de Estado são os que mais anseiam por compor discursos e deixar obras escritas. Desde o momento em que tenham dado a luz a alguma coisa estarão tão desejosos de adquirir aura popular, que apressar-se-ão em inscrever em sua publicação os nomes de seus admiradores.”
“Se triunfa o escrito, o autor sai do teatro repleto de gozo; se o descartam, fica privado da honra de que contem-no entre os escritores e autores de discursos, e assim se desconsola e seus amigos se afligem com ele.”
“Mas como?, quando um orador ou um rei, revestido do poder de um Licurgo, de um Sólon, de um Dário, se imortaliza num Estado, como autor de discursos, não se enxerga a si mesmo como um semideus durante sua vida?, e a posteridade não tem dele a mesma opinião, em consideração a seus escritos?”
“Diz-se que as cigarras eram homens antes do nascimento das musas. Quando estas nasceram, e o canto com elas, houve homens que se arrebataram de tal maneira ao ouvir seus acentos, que a paixão de cantar os fez esquecer a de comer e beber, e passaram da vida à morte, sem disso se dar conta. Destes homens nasceram as cigarras, e as musas lhes concederam o privilégio de não ter necessidade de qualquer alimento, mas apenas de cantar, do nascer ao morrer; além disso, são mensageiras que anunciam às musas quais dentre os mortais lhes rendem justas homenagens. Foi assim que, tornando público à ninfa Terpsícore os nomes daqueles que a honram nos coros, favorecem todos os seus adoradores. A Eraton relatam os nomes daqueles que cultivam a poesia erótica. (…) A Calíope, que é a mais velha, e a Urânia, a caçula, dão a conhecer aos que, dedicados à filosofia, cultivam as artes que lhes estão consagradas. Estas duas musas, que presidem os movimentos dos corpos celestes e os discursos dos deuses e dos homens, são aquelas cujos cantos são melodiosos. Eis matéria para falar sem dormir nesta hora do dia.”
“tomar por cavalo a sombra de um asno”
“Não há, diz Lacômano o lacônio, verdadeira arte da palavra, fora da possessão da verdade, nem haverá jamais.”
“SÓCRATES – Tu não conheces mais que os tratados de retórica de Nestor e de Odisseu, que compuseram em momentos de ócio durante o sítio de Tróia. Nunca ouviste falar da retórica de Palamedes?¹
FEDRO – Por Zeus, não! Nem tampouco das retóricas de Nestor e Odisseu, a menos que teu Nestor seja Górgias, e teu Odisseu, Trasímaco ou Teodoro.
¹ [Personagem da versão não-homérica da Guerra de Tróia (ler Sófocles), teria sido o responsável por convencer Ulisses (Odisseu) a ir para o cerco de Ílion; controverso, foi ele mesmo assassinado por aquele no decorrer do sítio.]”
(*) “Os gregos dizem que Pan é filho de Penélope e de Hermes (Heródoto, 2:145). A filiação de Pan é duvidosa. Nalguns mitos aparece como filho de Zeus, por mais que no geral se o considere filho de Hermes ou, em terceiro lugar, de Dionísio. De sua mãe, fala-se que foi uma ninfa, Dríope ou Penélope de Mantinéia na Arcádia. Esta tradição se confundiu com a de Penélope, a esposa de Ulisses.”
“SÓCRATES – (…) a inscrição que dizem se pôs sobre a tumba de Midas, rei da Frígia.
FEDRO – Que epitáfio é esse, e que tem de particular?
SÓCRATES – Ei-lo: Sou uma virgem de bronze, colocada sobre a tumba de Midas;
Enquanto as águas correrem e as árvores reverdecerem,
De pé sobre esta tumba, regada de lágrimas,
Anunciarei aos passantes que Midas repousa neste ponto.”
“Distinguimos até agora 4 espécies de delírio divino, segundo os deuses que o inspiram, atribuindo a inspiração profética a Apolo, a dos iniciados a Dionísio, a dos poetas às Musas, e enfim, a dos amantes a Afrodite e a Eros”
“FEDRO – Não é pouco, meu querido Sócrates, o que se encontra nos livros de retórica.
SÓCRATES – Me recordas muito a contento. O primeiro é o exórdio, porque assim devemos chamar o princípio do discurso. Não é este um dos refinamentos da arte?
(…)
Depois a narração, logo os depoimentos das testemunhas, em seguida as provas, e por fim as presunções ou assunções. Creio que um entendido discursista, que vem de Bizâncio, fala também da confirmação e da sub-confirmação.”
“Deixaremos Tísias e Górgias dormir? Estes descobriram que a verossimilitude vale mais que a verdade, e sabem, por meio de sua palavra onipotente, fazer com que as coisas grandes pareçam pequenas, e pequenas as grandes; dar um ar de novidade ao que é antigo, e um ar de antiguidade ao que é novo”
(*) “Pródico de Julis, na ilha de Céos, discípulo de Protágoras, condenado a beber a cicuta algum tempo depois da morte de Sócrates.”
(*) “Protágoras de Abdera, discípulo de Demócrito (489-408 a.C.), acusado de impiedade pelos atenienses, fugiu num barquinho e pereceu nas águas. Foi legislador de Túrio, na Magna Grécia.”
“Se um músico encontrasse um homem que crê saber perfeitamente a harmonia, porque sabe tirar de uma corda o som mais agudo ou o som mais grave, não lhe diria bruscamente: – Desgraçado, tu perdeste a cabeça! Ao invés, como digno favorito das musas, dir-lhe-ia com doçura: – Ó meu querido, é preciso saber o que tu sabes para conhecer a harmonia; sem embargo, pode-se estar a tua altura sem entendê-la; tu possuis as noções preliminares da arte, mas não a arte mesma.”
“A perfeição nas lutas da palavra está submetida, ao meu ver, às mesmas condições que a perfeição nas demais classes de luta. Se a natureza te fez orador, e se cultivas estas boas disposições mediante a ciência e o estudo, chegarás a ser notável algum dia; mas se te falta alguma destas condições, jamais terás nada além de uma eloqüência imperfeita.”
“Péricles desenvolveu mediante estes estudos transcendentais seu talento natural; tropeçou, eu creio, com Anaxágoras, que se havia entregado por inteiro aos mesmos estudos e se nutriu ao seu lado com estas especulações. Anaxágoras ensinou-lhe a distinção dos seres dotados de razão e dos seres privados de inteligência, matéria que tratou muito por extenso, e Péricles transpôs daqui para a arte oratória tudo o que lhe podia ser útil.”
“Mas este talento, não o adquirirá sem um imenso trabalho, ao qual não se submeterá o sábio por consideração aos homens, nem por dirigir seus negócios, a não ser com a esperança de agradar os deuses com todas as suas palavras e com todas as suas ações na medida das forças humanas. (…) Cessa, então, de se surpreender, se o circuito é grande, porque o termo a que conduz é muito distinto do que tu imaginas.”
“Este deus se chamava Tot. Diz-se que inventou os números, o cálculo, a geometria, a astronomia, assim como os jogos de xadrez e dos dados, e, enfim, a escrita. (…) Tot se apresentou ao rei e manifestou-lhe as artes que havia inventado, e disse o quanto era conveniente estendê-las aos egípcios.” “<Ó rei!, disse-lhe Tot, esta invenção fará dos egípcios mais sábios e servirá a sua memória; descobri um remédio contra a dificuldade de aprender e reter.>” “<Engenhoso Tot, respondeu o rei, (…) Pai da escrita e entusiasmado com tua invenção, atribuis-lhe todo o contrário de seus efeitos verdadeiros. Ela não produzirá a reminiscência, mas o esquecimento nas almas dos que a conhecerem, fazendo-os desprezar a memória; (…) dás a teus discípulos a sombra da ciência e não a ciência mesma. Porque quando virem que podem aprender muitas coisas sem mestres, tomar-se-ão já por sábios, e não serão mais do que ignorantes, em sua maior parte, e falsos sábios insuportáveis no comércio da vida.>”
“FEDRO – Meu querido Sócrates, tens uma graça especial para pronunciar discursos egípcios, e o mesmo farias de todos os países do universo, se quiseras.”
“SÓCRATES – Aquele que pensa transmitir uma arte, gravando-a num livro, e aquele que crê, por sua vez, recebê-la deste, como se esses caracteres pudessem dar-lhe alguma instrução clara e sólida, me parece um grande néscio”
“Esse é, meu querido Fedro, o inconveniente tanto da escrita quanto da pintura; as produções desta última arte parecem vivas, mas interroga-lhes, e verás que guardam um grave silêncio. O mesmo sucede com os discursos escritos; ao ouvi-los ou lê-los crerás que pensam; mas pede-lhes alguma explicação sobre o objeto que contêm e responderão sempre a mesma coisa.”
“O nome de sábios, meu querido Fedro, me parece que só convém a deus; melhor lhes conviria o de amigos da sabedoria, e estaria mais em harmonia com a debilidade humana.”